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Manifesto para uma Alternativa Libertária1

. Como combater o capitalismo hoje ?

Como conceber um projeto novo, em ruptura com os socialismo autoritários,


estatistas, centralizadores, jacobinos, que conduziram o movimento dos trabalhadores e
social ao impasse, quer se trate do leninismo, do stalinismo ou da socialdemocracia? Como
este combate, que chamamos socialismo ou comunismo libertário, e cuja perspectiva é uma
ruptura revolucionária, a construção de uma sociedade comunista no sentido autêntico,
autogestionário do termo, pode tomar uma via adaptada aos dados novos, complexos, da
sociedade contemporânea?

Este documento exprime as grandes orientações, as proposições gerais de uma


corrente militante que busca respostas para estas questões. Ele não pretende trazer
respostas totalmente prontas, em uma forma acabada: ele não pretende ser uma doutrina,
sectária, rígida. Ele constitui apenas um ponto de partida teórico e prático: exprime
convergências, pontos de acordo; levanta questões que permanecem em grande parte
abertas. Ele pretende então ser uma simples ferramenta para refletir e para agir, que nós
não deixaremos de fazer evoluir ao longo dos anos.

Este texto quer participar na constituição de uma nova corrente revolucionária,


internacional. Nós tentamos operar uma síntese sobre bases libertárias, contribuições
múltiplas, originadas nas lutas, nas experiências históricas e nas numerosas correntes
revolucionárias, autogestionárias, ecologistas, feministas, sindicalistas. Nós nos
reconhecemos, assim, em uma filiação ampla, múltipla, que encontra suas raízes, desde as
origens do movimento dos trabalhadores, em correntes anti-autoritárias, sindicalistas
revolucionárias, libertárias, anarquistas, conselhistas, mas que tenta alargar as referências
bem além; e nós recusamos todo feudalismo dogmático em qualquer doutrina que seja,
passada ou presente. Nós queremos encontrar uma definição moderna da luta de classes e
do proletariado, que leve em conta as mutações profundas de nossa época sem diminuir
com isso as revoltas e as lutas d@s mais explorad@s. Afirmamos que o capitalismo não é o
último estágio, final e impenetrável, da história humana: um projeto revolucionário novo é
necessário, que não seja grupuscular, mas que se apoie, ao contrário, nas lutas das
trabalhadoras e dos trabalhadores, dos jovens, da base da sociedade, sobre sua auto-
organização, sua capacidade em impor contra-poderes. Tentamos, então, elaborar uma
orientação política, social, cultural, que articule lutas de massas, reivindicativas, sindicais,
associativas e expressões radicais, alternativas, revolucionárias; que recuse se perder nos
labirintos institucionais, na política politiqueira, privilegiando as lutas sociais e o
militantismo de terreno.

1
O presente manifesto foi adotado no 1º congresso da Alternativa Libertária, de 18 a 20 de maio de
1991 em Toulouse.
Queremos, certamente, nos organizar para sermos mais eficazes; mas nós
recusamos a forma e o conteúdo, a função do partido. Enfim, porque nós não
pretendemos deter a verdade e porque a unidade de forças é necessária para fazer peso,
buscamos as convergências na ação e o debate político com todas as forças anticapitalistas.
E nós avançamos o projeto de um grande movimento anticapitalista e autogestionário: uma
força pluralista, grande, da qual nossa corrente seria uma das componentes. Uma série de
convicções que fundam a identidade de nosso combate, e que este documento contribui
para clarificar.

. Um combate de luta de classes


Nós afirmamos que a divisão da sociedade em classes sociais antagonistas
permanece o fato maior do capitalismo moderno. O capitalismo passou por mutações
profundas, não cessou e não cessará de se transformar, através de um ciclo de crises e de
expansão. Mas ele não se sustenta menos, em primeiro lugar e sempre, sobre relações de
dominação dirigentes/dirigidos, com seu corolário: a exploração dos trabalhadores manuais
e intelectuais pelas classes dirigentes.

As classes sociais são determinadas por sua posição nas relações de poder na
produção – quer se trate da produção de bens materiais, de mercadorias, de equipamentos
ou da produção de serviços, e que esta produção se efetue no setor privado ou no setor
público.

Mas por classes sociais entendemos igualmente o conjunto daqueles que, na


população, estão ligados a estas categorias constituídas na produção: as famílias, a
juventude, os inativos, os aposentados, os sem-emprego... Por lutas de classe entendemos,
então, tanto as lutas travadas nas empresas ou sobre o trabalho, o desemprego, a
precariedade, quanto as lutas no resto da sociedade, enquanto colocam em questão
antagonismos de classe.

As classes sociais no capitalismo contemporâneo viram seus contornos se


modificarem profundamente, e não podemos nos apegar a imagens nascidas no século
passado. Por classe capitalista entendemos o conjunto das categorias que se encontram nos
postos de comando na produção e na sociedade, e que decidem a repartição do mais-valor.
À burguesia clássica caracterizada pela propriedade privada se juntam as camadas que
acompanharam o desenvolvimento dos grandes grupos e do Estado: a burocracia e a
tecnocracia. O proletariado moderno não se limita apenas às operárias e operários, mesmo
se estes continuam ocupando um lugar importante na sociedade. Por proletariado
entendemos o conjunto dos grupos sociais sem poder real de decisão sobre a produção, e
constrangidos a vencer sua força de trabalho sob a forma do trabalhado assalariado. Ele é
composto, em sua base, pelas trabalhadoras e trabalhadores manuais, operários e
empregados. Tendo a seu lado, as trabalhadoras e trabalhadores intelectuais, dominados e
explorados: técnicos, professores...
Uma parte considerável do proletariado moderno é atingida pelo desemprego e pela
precariedade, que se tornaram dados estruturais e massivos nas relações sociais
contemporâneas. Entre a classe capitalista e o proletariado, se desenvolveram novas
camadas médias assalariadas (quadros, técnicos...) que ocupam tarefas de gestão e
enquadramento. Estas camadas pesam cada vez mais, politicamente, mas também
culturalmente. A da luta de classes supõe que seja feita a distinção entre elas, entre aquelas
das quais o comando é só uma ordem técnica e profissional, e aquelas que participam do
estabelecimento e da finalidade da produção. Diversificadas ao extremo, as novas camadas
médias assalariadas tendem, para as mais confortadas entre elas, a se confundir com as
classes capitalistas das quais só diferem por um distanciamento maior dos centros de
decisão, enquanto a base destas camadas se mistura frequentemente de uma maneira
indistinguível com o proletariado.

O desenvolvimento do setor terciário, o crescimento do número de técnicas e


técnicos, a deterioração das operárias e operários da indústria nos países desenvolvidos, o
despedaçamento dos estatutos, a precariedade, o desemprego, tem como consequência o
desaparecimento de uma figura social central até ontem apenas pelos operários industriais.
A luta de classes se exerce em novas formas. A visão de uma classe unicamente operária,
minoritária, vanguarda sociológica e única força de locomoção é um anacronismo que é
preciso substituir pelo projeto de uma nova unidade, bem maior, federando, sem negar as
especificidades, todos os componentes de um proletariado moderno, intelectuais e
manuais, assalariados e precários, industriais e terciários. Este novo proletariado
multiforme mas unificável sobre a base de sua situação comum, dominada, explorada, deve
buscar convergências reivindicativas e anticapitalistas com as grandes parcelas das camadas
médias assalariadas e outras categoriais sociais dominadas pelo capitalismo. Estas
convergências se construirão através das lutas sociais, as tomadas de consciência coletivas, a
emergência de novos projetos sociais de transformação da sociedade.

Sem ser investido de nenhum “messianismo”, mas de seu lugar nas relações de
dominação e produção, o proletariado é o portador de uma luta de classes permanente, ora
latente, ora explosiva. Esta luta de classes impõe às classes dirigentes transformações e
compromissos permanentes, determinados pela relação de força, sobre o trabalho, a
partilha de riquezas, o direito, as instituições. Mas ela traz igualmente um questionamento
global do capitalismo, que se exprime regularmente ao longo de toda a história. A luta de
classes é, então, ao mesmo tempo portadora de transformações parciais, opostas à lógica e
aos interesses capitalistas, e de uma ruptura revolucionária, lançando as bases de uma nova
sociedade emancipando o conjunto da humanidade. Nossa participação nas lutas do
proletariado não fecha os nossos olhos para a complexificação, a diversificação da
sociedade, que apresenta uma formação social heterogênea, dominada pelo capitalismo e
por suas leis (especialmente as do mercado), mas aonde coexistem outras formas de
produção (ou mesmo de outras formas de exploração das trabalhadoras e dos
trabalhadores): cooperativas, associativas, pré-capitalistas (camponeses, artesanato),
individuais. Diversos grupos sociais entram assim no campo da luta de classes:
camponeses, camadas médias tradicionais, novas camadas médias assalariadas, entre outras,
o que não deixa de colocar uma série de problemas teóricos e práticos que não poderão ser
evitados ao longo do processo de uma alternativa ao capitalismo.

As trabalhadoras e os trabalhadores da terra, especialmente – dos quais a grande


maioria sofre a exploração do sistema dominante – constituem ainda uma categoria social
importante, tanto pelo fato da finalidade de seu trabalho quanto pelo de seu lugar no
ambiente natural.

. Um combate anticapitalista

A sobrevivência da própria humanidade está em jogo

Somos resolutamente anticapitalistas. Não nos opomos apenas aos abusos do


sistema que domina hoje o mundo inteiro. Somos radicalmente opostos a seus
fundamentos: a exploração do trabalho humano para o lucro de minorias dirigentes e
privilegiadas; a destruição progressiva dos recursos naturais; o desenvolvimento mundial
desigual e o imperialismo; a alienação do indivíduo; a dominação estatal da sociedade.
Anticapitalistas, recusamos a corrida aos lucros, a lógica de empresa, o modelo de
desenvolvimento produtivista, a hierarquia e as desigualdades sociais, que são os credos de
uma sociedade totalmente dominada pelo modo de produção e pelas classes capitalistas.
Somos anticapitalistas por razões sociais, por nosso engajamento nas lutas da classe d@s
explorad@s. O somos por razões éticas, por nossa ligação aos valores igualitários,
libertários, de justiça social e de respeito das especificidades de cada indivíduo. O somos
igualmente por razões vitais, porque o capitalismo repousa sobre uma super-exploração
sempre mais forte da natureza que ameaça terminalmente a sobrevivência da humanidade.

Nos opomos ao capitalismo qualquer que seja a forma histórica sob a qual ele se
apresente: capitalismo liberal ou capitalismo de Estado. Nos opomos ao capitalismo liberal,
fundado sobre uma regulação “autônoma” do mercado, que se pretende “democrático”
enquanto repousa sobre um modo de produção por essência anti-democrático e que é
inteiramente voltado para a realização do lucro das classes dirigentes. Nos opomos ao
capitalismo de Estado, mesmo quando se pretende “socialista” ou mesmo “comunista”,
enquanto se sustenta sobre um modo de exploração e dominação tirânica das trabalhadoras
e dos trabalhadores e sobre a determinação autoritária do mercado, em vantagem de uma
classe privilegiada e onipotente, a burocracia e a tecnocracia de Estado. Nós não apoiamos,
por conseguinte, nem uma estatização parcial ou total do capitalismo liberal, nem uma
privatização parcial ou total do capitalismo de Estado. Nosso anticapitalismo se inscreve
imediatamente nas lutas cotidianas, as primeiras limitadas pelo quadro imposto pelas classes
dominantes, para apoiar, por uma crítica radical e um projeto de sociedade alternativo ao
capitalismo, o projeto de um socialismo autogestionário e libertário, em um vasto
movimento da luta de classes e da subversão revolucionária.
. Um combate ecologista

Grandes mobilizações de massas são necessárias

O combate ecologista historicamente fez parte da identidade do combate libertário,


e ele constitui a nossos olhos uma das frentes maiores da luta revolucionária. O nível de
poluição, de destruição do ambiente, de desestabilização dos ecossistemas do planeta, dá
hoje ao combate ecológico uma importância primordial O capitalismo levou a uma ruptura
na relação entre a humanidade e a natureza. A dinâmica que lhe é própria se sustenta na
necessidade de um crescimento contínuo da produção e esta opera graças a uma sangria
permanente dos recursos naturais. A lógica produtivista causou destruições maciças, uma
degradação geral do quadro de vida e importantes desequilíbrios ecológicos. Destruição da
camada de ozônio, desequilíbrios térmicos da atmosfera (“efeito estufa”), destruição de
florestas no hemisfério norte (“chuvas ácidas”), poluição das águas doces pelos dejetos
industriais e agrícolas, multiplicidade das catástrofes industriais (químicas e nucleares),
destruição das florestas equatoriais, extensão dos desertos... a civilização produtivista nos
prepara para amanhã um futuro negro.

Os governos, os partidos no poder, os organismos internacionais, multiplicam as


declarações, tomam meias-medidas que preservam os interesses essenciais das multi-
nacionais poluidoras, mas que são imensamente ineficazes para lutar contra as destruições
da natureza. Diante dos problemas ecológicos, as regulações do capitalismo ou das
sociedades burocráticas se revelaram inaplicáveis, uma vez que estes sistemas econômicos
são construídos sobre uma lógica produtivista. Esta lógica destruiu o objetivo “natural” da
produção, a satisfação das necessidades dos produtores. Esta lógica conduz a humanidade a
um impasse. A atividade humana se aproxima dos limites suportáveis pelo ecossistema
“Terra”. Ameaças imensas pesam sobre o planeta. Há uma contradição entre a manutenção
de uma economia capitalista-produtivista e a sobrevivência da humanidade. O combate
ecologista também não pode se inscrever apenas nas lutas, certamente necessárias, contra
as poluições e as degradações mais flagrantes. Um ecologismo consequente só pode ser
radicalmente anticapitalista. Ele deve se agarrar nisto contra a lógica e a própria natureza do
sistema, e opor a ele um outro modelo de desenvolvimento, uma outra concepção do
trabalho e das tecnologias, uma outra forma de consumo, e muito evidentemente uma
outra relação entre a sociedade e a natureza. A luta ecologista pode inspirar um projeto de
sociedade globalmente alternativo ao capitalismo e um projeto de vida fundado sobre um
laço profundo, reencontrado e renovado, entre os homens e a natureza.

Nos entendamos bem: não se trata de cair no mito de uma natureza “pura”
destruída pela humanidade. A humanidade, suas atividades criadoras e produtivas, fazem
parte da natureza. O planeta Terra, sua flora e sua fauna, nunca constituíram um sistema
enrijecido, mas, pelo contrário, foram lugar de uma evolução constante, de um equilíbrio
dinâmico de seus componentes. Mas a evolução tecnológica do século XX criou uma nova
situação. Hoje, a humanidade é capaz, se ela não controla seu desenvolvimento, de criar
uma ruptura, um desequilíbrio brutal do planeta. O século XX viu a poluição “aceitável”
(quer dizer, suportável pelo ambiente) produzida pela atividade humana se transformar em
desequilíbrio, colocando em perigo o futuro da humanidade. As medidas setoriais não
podem nada contra o crescimento geral dos desequilíbrios. É a causa do mal que é preciso
atacar.

Ora, não é esta a ação prioritária nas instituições politiqueiras, nem apenas a
intervenção dos especialistas, que podem regular os problemas urgentes levantados pela
ecologia. Grandes mobilizações de massa são necessárias. E os temas da ecologia devem
ser retomados em conta pelo movimento das trabalhadoras e dos trabalhadores. E isto
tanto mais quanto elas e eles são os primeiros atingidos pelos desastres ecológicos, na
produção e em sua vida cotidiana. A humanidade deve controlar seu crescimento
demográfico, sua produção industrial, seu consumo de energia fóssil, e reinventar uma
agricultura que não esgote os recursos de águas e solos. O produtivismo é
fundamentalmente incompatível com tal evolução. Por um lado, porque necessita de um
crescimento explosivo da produção, do consumo e da população. Por outro, porque se
sustenta em sociedades profundamente desigualitárias, incapazes de gerir coletivamente
uma repartição harmoniosa das riquezas disponíveis. O combate ecológico, porque não
tem sentido sem afirmação da necessidade de um outro tipo de desenvolvimento, é
inseparável do combate por uma democracia direta e por uma igualdade econômica. As
mobilizações ecológicas são chamadas a tomar desenvolvimentos importantes. As vitórias
parciais que elas podem obter são importantes, mas elas só ganharão todo o seu sentido se
permitirem enfraquecer o empreendimento ideológico do produtivismo sobre as
populações, se elas se acompanharem do desenvolvimento da democracia e da
solidariedade na base da sociedade, se elas são um passo em direção a um outro modelo de
desenvolvimento.

O combate ecologista, partindo de um ângulo diferente, pode e deve se ligar às


lutas de classe, em uma contestação global do capitalismo.

. Um combate contra a opressão das mulheres

Em toda parte em que terreno foi conquistado, se exerce uma pressão contrária

A opressão das mulheres encontra um apoio decisivo no capitalismo, que impõe


nos locais de trabalho a desigualdade entre homens e mulheres, e em numerosos casos
abusos e exploração sexual. A luta pela emancipação e pela igualdade das mulheres é um
dos temas essenciais do combate libertário, para nós indissociável do anticapitalismo e do
anti-estatismo. Esta luta já impôs transformações reais nas consciências e na vida, fraças às
mobilizações de massas das mulheres nos anos 1970 e 1980. Hoje, estes avanços são mais
ou menos colocados em cheque, especialmente pelas pressões constantes contra o direito à
IVG2. Devemos defender estes avanços, dentro e fora dos locais de trabalho, e os expandir

2
“Interruption volontaire de grossesse”, interrupção voluntária da gravidez, i.e. aborto.
ainda mais. Em toda parte em que terreno foi ganho, se exerce a pressão contrária, que visa
retirar das mulheres o controle de sua vida, de seu corpo e de sua sexualidade, e que busca
deixar para elas um lugar subalterno e submisso conforme à imagem tradicional da mulher.
Uma pressão que encontra nos sistemas disponíveis, e especialmente nas Igrejas de diversas
confissões, apoios ativos. Assim, a luta contra a opressão das mulheres é um de nossos
combates maiores, dentro e fora dos locais de trabalho, ligado à luta de classes.

É por isso que recusamos a concepção tradicional do militante trabalhador e


revolucionário, do qual a disponibilidade para a causa está fundada no confinamento
doméstico de um dos cônjuges. Uma forma nova, alternativa, de militantismo está por ser
descoberta e experimentar pelos homens e mulheres, uma forma que não reproduza dentro
do movimento de emancipação as relações patriarcais e as alienações domésticas.

. Um combate anti-imperialista

Nosso apoio está garantido, mas um apoio crítico

O decolar do capitalismo nos séculos XIX e XX não pôde ser fazer sem a pilhagem
sistemática dos recursos dos países do Sul. A exploração do proletariado responde àquela
dos povos da Ásia, da África, da América. O capitalismo se sustenta no desenvolvimento
desigual em escala planetária, sobre uma ordem mundial imperialista na qual as metrópoles
se impõem seja diretamente sob a forma do colonialismo, ou pela intermediação de regimes
corrompidos, ou pela arma dos auxílios interessados e do endividamento.

As consequências humanas são desastrosas: destruição dos equilíbrios naturais, das


culturas de subsistência, das produções locais, em favor dos setores de exploração de
riquezas para as metrópoles. As economias são incompletas, dependentes, incapazes de
respondes às necessidades das populações. Corolário: o crescimento das desigualdades, a
miséria, a fome. E a dominação progressiva de uma cultura e de um modo de vida “à
ocidental” que coloca em migalhas os valores próprios a cada povo. Queremos que a
França descolonize os Dom-Tom3. Adversários resolutos de “nosso” imperialismo, só
podemos apoiar da maneira mais clara possível as lutas dos povos que são suas vítimas, e
mais particularmente daquelas que travam e travarão os povos dos Dom-Tom por sua
descolonização. Nos opomos da mesma maneira às intervenções militares e às guerras
imperialistas perpetradas por “nosso” Estado.

Apoiamos todas as lutas dos povos contra o imperialismo e por sua independência.
Este apoio de princípio é, ao mesmo tempo, lúcido, crítico. A experiência histórica
demonstrou que as lutas de independência, sempre legítimas em sua recusa da dominação,
e nisto devendo sempre ser apoiadas, gestaram regimes burocráticos militarizados, ou
implicados em diversas formas de neo-colonialismo. Nem todas as lutas se sustentam nos

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Territórios de soberania francesa fora do continente europeu, nova nomeação dos territórios coloniais
da França de além-mar.
mesmos componentes sociais e nosso apoio vai primeiramente para os campesinatos
pobres e aos proletariados. Nem todos os movimentos de liberação tem os mesmos
objetivos, com as mesmas armas, as mesmas formas. Nós apoiamos prioritariamente as
forças mais democráticas, as mais representativas, e as mais suscetíveis de questionar o
capitalismo e o estatismo.

Diante da opressão contra as aspirações nacionalizantes e identitárias, nosso apoio é


garantido, um apoio crítico, especialmente diante das concepções que tenderiam a opor os
povos ou a apagar as realidades de classe, tal como a trilogia Nação/Estado/Pátria. A estas
concepções portadoras de novas dominações, devemos opor o direito de cada povo a viver
sobre sua “terra” no sentido histórico e cultural, sem que com isso ele proíba a outros
povos, outras culturas, o direito de coexistir, de se misturar. Se trata de contribuir para a
criação de uma nova cidadania transcendendo os pertencimentos étnicos, culturais,
nacionais ou religiosos.

Nos países europeus existem, sob formas diferentes, um mesmo processo de


desenvolvimento desigual e de centralização, de opressão das culturas e dos povos, que
gerou reivindicações nacionais e em certos casos lutas pela independência e pela autonomia
(como na Irlanda, no País Basco, na Córsega...). Ali também, lutas legítimas e de nossa
parte uma participação ou um apoio crítico, enquanto estes combates são travados por
partes significativas das populações afetadas e podem abrir uma perspectiva anticapitalista e
emancipatória.

. Um combate sindicalista revolucionário

Fazer prevalecer a autogestão e a unidade das trabalhadoras e trabalhadores

A luta reivindicativa passa no mais das vezes nas empresas pela ação sindical.
Queremos a participação ativa no sindicalismo compreendida em primeiro lugar como uma
certa prática de massas e da classe das trabalhadoras e dos trabalhadores, mas sem antecipar
as formas de organização que elas e eles poderão dar a si mesmos no quadro de um
processo alternativo. A organização sindical sendo, ou devendo ser, uma ferramenta a
serviço desta prática de terreno. Estamos conscientes de que o movimento sindical é por
natureza – como todas as lutas contra o capitalismo em um período não revolucionário –
atravessado por uma contradição entre integração e ruptura. E de que a integração gera
uma tendência forte aos compromissos sociais e à burocracia. Defendemos um
sindicalismo revolucionário oposto às práticas, às orientações, às estruturas dominantes nas
organizações sindicais. Queremos a independência sindical, a democracia interna e o
federalismo, o apoio à autogestão das lutas e o respeito da unidade das trabalhadoras e dos
trabalhadores, uma prática interprofissional, a solidariedade internacional e uma finalidade
de transformação autogestionária da sociedade.
A escolha de aderir a tal ou tal sindicado pertence com toda a liberdade a cada um
de nós. Podemos ser conduzidos a inscrever nosso sindicalismo revolucionário em quadros
muito diferentes: grandes confederações de orientação reformista, estruturas sindicais
menores ou mais setoriais de luta de classes, coletivos de trabalhadoras e trabalhadores
tendo uma prática de natureza sindical. O essencial é, para nós, a possibilidade real,
oferecida por tal ou tal estrutura, de fazer um sindicalismo de massas no local de trabalho e
a existência de coletivos militantes.

Nosso sindicalismo se pensa, então, essencialmente em termos de prática de terreno


e se inscreve em primeiro lugar nas estruturas de base. É a serviço desta atividade dos
coletivos de case que camaradas podem ser mandatados a todos os postos e a todos os
níveis pelas militantes e pelos militantes. Sindicalistas revolucionários, recusamos a divisão
do trabalho social-democrata entre o partido, que se ocupa da política, quer dizer, de todas
as questões sociais, e o sindicato, restrito às reivindicações imediatas no local de trabalho.
Para nós, a organização sindical deve ser portadora de sua estratégia política de
transformação da sociedade, elaborada em total independência. Enfim, recusamos o papel
de “correia de transmissão” que o leninismo quer impor à organização sindical. Se é natural
que o fato sindical, como todos os fatos importantes da sociedade, seja discutido em toda
partem inclusive nas correntes políticas, refutamos a prática de “fração” que conduz seus
membros, qualquer que seja sua opinião, a aplicar as posições majoritárias ou as diretivas de
seu partido no sindicato.

. Uma estratégia sustentada nas lutas sociais e sua autogestão

Combatemos as tentações vanguardistas

Apenas as lutas diretas conduzidas pelas bases podem impor verdadeiras


transformações contrárias aos interesses capitalistas. Nós opomos a uma estratégia de lutas
sociais criadoras de mudanças à estratégia social-democrata de transformações operadas
desde as instituições estatais pelos partidos políticos. Os atores e as atrizes destas
transformações não são, então, os dirigentes políticos ou as minorias militantes, mas as
trabalhadoras e os trabalhadores, a juventude, a população, se inscrevendo nos movimentos
de massas que associam sem elitismo o maior número possível de atingidos. A autogestão
das lutas, o poder nas assembleias gerais, sua coordenação democrática, são as condições e
formas necessárias para que as bases tomem esse papel de decisor coletivo. Múltiplas
experiências demonstraram a validade da democracia direta.

As militantes e os militantes podem levar uma contribuição decisiva ao despertar e


à conduta das lutas de massa. Longe de negar sua importância e a necessidade de sua ação,
propomos às minorias conscientes e ativas uma concepção autogestionária do papel dos
animadores e das animadoras das lutas. Colocados frequentemente em situação ativa,
organizadores, porta-vozes, coordenadores, delegados, a intervenção das militantes e dos
militantes autogestionários é necessariamente contraditória, porque tende ao mesmo tempo
à autodireção dos movimentos pela base, à tomada de voz de todas e todos, faz um apelo à
tomada de consciência e à responsabilização coletiva. Esta dialética viva é necessária. Ela
pode permitir evitar dois fracassos: o do dirigismo e o de um espontaneísmo no qual as
minorias recusariam assumir suas responsabilidades. A autonomia operária, e mais
amplamente a de todos os movimentos sociais, é necessária para esta afirmação da base
social como sujeito controlando suas lutas. Autonomia em relação às instituições estatais e
os poderes patronais. Autonomia em relação a toda forma de direção exterior.

As lutas sociais não se limitam àquelas a que as trabalhadoras e os trabalhadores


travam em seus locais de trabalho. O questionamento global do sistema passa também por
outras mobilizações de massa autogeridas: as da juventude, das desempregadas, dos
desempregados e precários, as lutas pela moradia, pelo nível de vida, pelo ecossistema, os
direitos das mulheres, as lutas contra o racismo... Em uma tal concepção das lutas sociais,
damos a prioridade não à radicalidade ideológica, mas à possibilidade de mobilizar, de fazer
agir e debater coletivamente as franjas importantes de trabalhadoras e trabalhadores, da
população.

Uma revolução autogestionária não poderá se construir sem a afirmação de uma


vontade massiva da sociedade. O impacto de nossas lutas hoje sobre a consciência coletiva
dependerá evidentemente de nossas capacidades em desenvolver as práticas
autogestionárias e alternativas em nível de massas. Nesta ótica, combateremos as tentativas
vanguardistas das minorias se autoproclamando representações da base. Se trata, em um
primeiro momento, de construir movimentos realmente representativos, e ao mesmo
tempo de fazer avanças neles propostas visando ultrapassar seus limites próprios
(isolamento, corporativismo...) e apoiando neles as orientações autogestionárias. Isto não
significa a condenação de toda ação minoritária, mas significa que toda ação minoritária
deve se inscrever em uma perspectiva de ampliação em um nível de massas.

Afirmamos que as lutas reivindicativas – cujos objetivos não são, por definição,
revolucionários – podem levar à mobilização maciça das exploradas e dos explorados e
permitir tomadas de consciência e experimentações concretas de autogestão portadoras de
rupturas anticapitalistas. Grandes objetivos de transformação, projetos alternativos, levados
pelos movimentos de massas, podem fazer avançar a aspiração de uma mudança global da
sociedade. Do mesmo modo as realizações alternativas de cooperativas e atividades
associativas autogeridas podem ser portadoras de um questionamento global da sociedade,
se elas sabem continuar em ligação com as trabalhadoras, os trabalhadores, a população, as
lutas de classe.

Nós não nos opomos nem às reivindicações nem às reformas em si. A linha de
demarcação entre “reformismo” e “luta de classes” se situa, aos nossos olhos, entre as
reformas arrancadas por lutas autônomas e as reformas concedidas deliberadamente pelos
poderes ou negociadas a frio. Não poderíamos, todavia, denunciar o suficiente a faculdade
de recuperação do sistema capitalista e sua capacidade a recolocar em questão
posteriormente tudo o que as relações de força puderam lhe impor.
. Um combate anti-estatista

A democracia parlamentar é ilusória e mentirosa

Recusamos o mito do Estado republicano, neutro, democrático, acima dos


interesses particulares. O Estado é, ao contrário, a organização da violência política das
classes dirigentes que se impõem à base a sociedade. O Estado republicano, como todos os
Estados, é uma estrutura piramidal e centralizante, em que o poder se exerce de cima para
baixo. O Estado é por natureza centralizador, opressivo, uniformizante. Arma das classes
dirigentes, ele enquadra, forma, esquadrinha, corrige e reprime a população. O Estado
moderno é um Estado capitalista. Ele é de fato o corpo central do capitalismo, concebido
para gerar seus grandes mecanismos, traçando laços inextricáveis com o capitalismo
privado, ele mesmo uma empresa capitalista das mais poderosas, gerando uma classe
tecnoburocrática. O Estado francês se sustenta sobre a equação “Nação-Pátria-Estado”,
construída com o custo do esmagamento das especificidades culturais, regionais, locais, em
proveito de uma cultura central, dominante, empobrecida.

No quadro da integração europeia, este processo está parcialmente colocado em


questão: a desconcentração/descentralização transfere alguns poderes para as autoridades
regionais e departamentais. Mas isto não modifica nossa análise. A Europa que se constrói
reduz (e reduzirá ainda mais) os particularismos. Ela centraliza (e centralizará cada vez
mais) os poderes essenciais para a perenidade do sistema. Os níveis geográficos do Estado
se transformam para melhor responder à internacionalização do capitalismo. Afirmamos
que capitalismo e democracia são antinômicos, que esta não pode se construir como
sistema político sobre a fundação de uma produção essencialmente desigualitária. A
sociedade capitalista moderna é marcada pela contradição entre sua pretensão a levar em
conta os interesses coletivos da população e sua finalidade real, a serviço dos privilegiados.
A luta por uma democracia autêntica é uma das questões maiores da luta de classes sobre as
bases de uma transformação do modo de produção atual.

Criticamos, então, o caráter ilusório e mentiroso da “democracia parlamentar” que


mascara o poder do modo de produção capitalista sobre a sociedade. A possibilidade de
escolher as e os dirigentes do Estados e os legisladores não pode ser dissociada da estrutura
hierarquizada do Estado, nem de sua função de gestão do capitalismo. O sistema
parlamentar das da cidadania e do cidadão eleitores passivos que delegam seu poder às e
aos dirigentes que não poderão agir contra os interesses essenciais das classes capitalistas.

No entanto, não colocamos no mesmo saco ditaduras e democracias parlamentares.


Estas são os produtos de um compromisso – vantajoso para o sistema, moldado por ele –
entre as aspirações e as lutas democráticas travadas pela população e o proletariado, e os
interesses das classes dominantes, que tem necessidade de um consenso político mínimo. O
Estado moderno parlamentar também é portador de contradições importantes. Foram as
lutas travadas há dois séculos que lhe impuseram a liberdade de expressão e de organização,
o sufrágio universal, o sufrágio das mulheres. São também elas que lhe impuseram o
envolvimento de uma dimensão social e solidária, e uma concepção igualitária dos serviços
públicos. O Estado moderno é o objeto de lutas e tensões de classe contraditórias, umas
visando a extensão destes direitos, as outras os recolocando em questão. Assim, nos
opomos à privatização dos serviços públicos que questiona toda lógica de utilidade social.
Não somos, também, abstencionistas por princípio. Ao mesmo tempo em que afirmamos
que nenhuma mudança radical vantajosa ao proletariado pode ser trazida deliberadamente
pelas e pelos eleitos, não excluímos a priori a possibilidade de votar ou chamar a votar, em
certas condições, em tal ou tal candidato, relembrando sempre nossa crítica radical ao
eleitoralismo e nossa prioridade absoluta às lutas sociais.

Nosso combate é anti-estatista. Ele opõe ao Estado capitalista e parlamentar um


projeto alternativo para uma democracia autogestionária e federalista sustentada na
coletivização dos grandes meios de produção. Este anti-estatismo se exprime nas revoltas e
combates contra o exército e a militarização da sociedade, contra a ordem policial, contra a
injustiça, contra o regime carcerário e contra o sistema educativo atual. Ele participa das
lutas contra todas as ditaduras, e das lutas para estender as liberdades democráticas nos
sistemas parlamentares, afirmando que a exigência democrática está em ruptura com o
aparelho de Estado e com o sistema social que ele defende.

. Um combate revolucionário

Não esperar uma ruptura “inevitável”

Somos revolucionários, ou seja, partidários de uma transformação radical da


sociedade. A luta de classes pode conduzir a uma inversão das prioridades e dos critérios na
sociedade. Ela pode substituir as relações de produção autogestionárias às relações
capitalistas; uma democracia autogovernada e federalista ao Estado; uma nova relação
mundial igualitária à ordem imperialista.

Ser revolucionário não significa esperar passivamente uma ruptura “inevitável”: o


futuro não está escrito em lugar algum, ele será o que a humanidade fizer dele, e a cada
situação histórica o campo dos possíveis está amplamente aberto. Não há nenhuma razão
para que a história tenha atingido seu último estágio: o capitalismo não será a última forma
da sociedade humana. Mas um socialismo autogestionário não o sucederá mecanicamente,
ao fim de uma “crise final” com apenas um resultado possível.

Ser revolucionário também não significa se desligar das condições de vida e de luta
necessariamente limitadas que impõe o cenário capitalista enquanto não o invertemos.
Recusamos o “tudo ou nada” e afirmamos, ao contrário, que a via que pode preparar uma
revolução futura se encontrará através das contradições da sociedade real, e de todas as
lutas parciais que devemos travar nela.

A ruptura revolucionária, a passagem global de uma sociedade capitalista a uma


sociedade autogerida nos parece a concretização de um longo processo histórico de luta de
classes e de maturação das consciências, em que as trabalhadoras e os trabalhadores e a
população irão impor progressivamente seu contra-poder. Revolucionários, nós não somos
a priori partidários de uma solução violenta. O essencial em um processo de transformação
está na obra construtiva, que necessita de uma autodefesa da população para preservar suas
conquistas. Mas o grau de violência de uma revolução é, primeiramente, escolhido e
imposto pelas classes dirigentes derrotadas. Ela pode não ser necessária. É preciso, então,
passar pela prova da vigilância, para evitar os excessos e o perigo da militarização. Exceto
nas situações de ditadura ou de ocupação militar ou colonial, nos opomos às ações
minoritárias violentas conduzidas por grupos armados desligados da população, das
trabalhadoras e dos trabalhadores, e nos opomos especialmente aos atentados colocando
em jogo as vidas de pessoas. A ação minoritária conduzida nestas condições leva ao cara-a-
cara com o Estado; ela legitima o reforço deste e conduz a um isolamento paranoico.

Aliás, no contexto de refluxo das lutas, o sistema policial e judiciário tende a


criminalizar as numerosas formas de lutas de massa. Nós estabelecemos, também, uma
linha de demarcação clara entre as ações minoritárias isoladas e as formas duras tomadas
pela luta das trabalhadoras, dos trabalhadores e da população para a defesa de suas
conquistas e de seus combates. Do mesmo modo, nós não confundimos a ação armada
minoritária com o ilegalismo que um Estado forte negando o direito de greve ou de
manifestação impõe às organizações revolucionárias e à classe trabalhadora. Do mesmo
modo, nós não reduzimos a ação simbólica das minorias contra as imagens do poder e da
exploração a um terrorismo cego. Enfim, devemos reforçar que o que gera a ação armada
minoritária é frequentemente o terrorismo de Estado, especialmente nos países colonizados
ou do terceiro mundo.

Para concluir, digamos que o limite da ação dos revolucionários não se mantém em
termos de respeito da legalidade imposta pelo Estado, mas evolui em função da consciência
das massas no que diz respeito à legitimidade da ação.

. O contra-poder e a ruptura revolucionária

O papel de uma corrente organizada anti-autoritária é necesária

A revolução libertária não é uma simples revolução política substituindo uma


equipe dirigente a outra, ou transformando os termos da Constituição. É uma revolução
global, tocando todas as formas políticas, culturais, econômicas da sociedade. É por isso
que falamos de revolução social. As condições da revolução – o que pode conduzir um
povo e os povos à via de tal inversão – não são nem unicamente ideológicas, nem
unicamente “objetivas”. A revolução não é a frutificação mecânica de um desenvolvimento
das forças produtivas. Ela não é, também, o puro produto de um processo ideológico. Ela
só pode sobrevir ao fim de uma dinâmica que tem em seu coração as práticas sociais, as
práticas reais das massas e dos indivíduos, suas lutas, que se desenvolvem nas condições
materiais de cada época, e que permitem uma tomada de consciência coletiva e a
emergência de projetos de transformação da sociedade levados a cada vez mais longe.
A revolução é, então, preparada por um processo histórico em que a tomada de
consciência dos indivíduos e das classes sociais é o elemento central, que se apoia em uma
experimentação concreta através das lutas de classe, as lutas emancipatórias e sua auto-
organização. Chamamos este processo de contra-poder. É fazendo por si mesmos o
aprendizado da autogestão que as trabalhadoras e os trabalhadores lançarão as bases de
uma sociedade alternativa. É porque o capitalismo e o Estado se mostrarão como quadros
muito estreitos, impedindo este crescimento das aspirações e das práticas autogestionárias
da base da sociedade que esta se armará com o desejo de revolução. A liberdade não é, para
nós, um fim longínquo que autoriza o recurso a qualquer meio, mas pelo contrário, é o fim
e o meio. O que propomos é uma dinâmica de ação e conscientização que propomos, não
sob a conduta de dirigentes seguidos cegamente, mas pelo contrário pela autogestão das
lutas em que se exprimem e se realizam a base e os indivíduos.

O contra-poder é, então, uma estratégia político-social de preparação das condições


da revolução social que se inscreve desde agora nos combates cotidianos. Ela se apoia nas
lutas reivindicativas ultrapassando o quadro imposto pelo poder das classes dominantes
para desenvolver contra-poderes nas bases. É se coordenando e se federando que estes
contra-poderes tenderão a se constituir como organização alternativa ao Estado. A ruptura
revolucionária é o produto de todo este processo, que pode se estender em longos anos: é a
inversão dos poderes instituídos, patronais, estatais, pelo contra-poder, que se torno um
novo poder. Ela se apoia sobre uma dinâmica de reapropriações nas bases da vida social e
da produção, lhes oferecendo um cenário necessário para sua sistematização.

A ruptura anticapitalista é o produto de dois movimentos articulados,


indispensáveis um ao outro. Não há ruptura revolucionária se não há reapropriação dos
meios de produção pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores. Então, a luta nos locais de
trabalho e mais amplamente em torno das questões do trabalho e da produção é
fundamentalmente prioritária para a luta revolucionária. Mas não há, do mesmo modo,
ruptura sem um segundo movimento social que se desenvolve fora da produção, ganhando
grandes camadas da população e chegando a todas as engrenagens da sociedade. Logo, o
local de trabalho não pode ser a única prioridade do combate revolucionário. O
proletariado – na nossa definição ampla – é certamente a classe motriz e inspiradora da
revolução social. Mas ela não será necessariamente a única classe a fazer a revolução. Ela
tem objetivamente o interesse em se aliar a outras categorias da população a fim de realizar
uma grande frente anticapitalista. Segue daí que o novo poder não será exclusivamente o
poder do proletariado – mesmo se ele pesa aí de maneira decisiva – e ainda menos sua
ditadura, mas o poder de um grupo social novo, produto de novas relações de produção
autogestionárias se unificando no estatuto de um cidadão-trabalhador que participa da
direção socializada da produção, dos estudos e da sociedade.

Este novo poder não poderá se estender imediatamente ao conjunto da população


em que se exprimirão também os adversários da nova sociedade. Esta é, aliás, uma das
maiores contradições da revolução autogestionária em sua primeira fase: construir uma
democracia incomparável, e dever combater uma parte da população agrupada ao redor
dos vestígios da antiga ordem. Mas a dinâmica é a de um desaparecimento progressivo das
diferenças de classe. Há, então, depois da ruptura revolucionária, uma sucessão de fases de
construção, e a primeira fase ainda é marcada pelas divisões herdadas do capitalismo. Mas
desde os primeiros dias são as relações de produção coletivistas – comunistas no sentido
autêntico – que tendem já a se colocar nos grandes meios de produção e é também sobre o
modo da autogestão que se reorganizam os serviços públicos e as solidariedades até então
esboçadas e controladas pelo Estado. E este é imediatamente substituído por uma nova
forma de centralização e de descentralização dialética: o federalismo. Há, assim, a sucessão
de transições em que se aprofunda a construção do comunismo, mas ausência de uma
sociedade de transição estatizada intercalada entre o capitalismo e o comunismo e diferente
de um e de outro.

Em todo este processo revolucionário – que começa por práticas cotidianas de


contra-poder – o papel de uma corrente anti-autoritária organizada é necessário.
Recusamos o papel dirigente que o leninismo atribui ao partido revolucionário e que
conduz este a se substituir às massas e finalmente a impor um sistema gerador de
burocracia. Mas os revolucionários devem ter um papel de animadoras e animadores e
guias. Sua propaganda entra na dinâmica da tomada de consciência da população,
propondo uma crítica radical do capitalismo e uma sistematização do socialismo
espontâneo das trabalhadoras e dos trabalhadores. Sua ação concertada, convergente,
organizada, é necessária nas lutas de classes para ajudar no desenvolvimento da auto-
organização e na emergência de projetos alternativos. Esta intervenção voluntária é uma
das condições do desenvolvimento de um processo que não obedece a nenhuma lei
“inevitável” e em que a espontaneidade já mostrou na história seu extraordinário valor mas
também sua incapacidade a conduzir sozinha a inversão da sociedade e a instituição de um
socialismo livre. A presença ativa de uma corrente organizada anti-autoritária pode ser
decisiva para evitar os desvios burocráticos: uma corrente tendo os meios de se fazer
entender maciçamente pelas trabalhadoras e trabalhadores, pelos jovens, mas igualmente
fortemente implantada, formada de numerosas e numerosos militantes ativos nos
movimentos sociais, na condição de animadoras e animadores escutados e influentes.
Necessidade de organização, que não deve fazer esquecer que esta poderá cair por sua vez
no dirigismo quaisquer que sejam suas pretensões libertárias, e que uma autovigilância a
todos os instantes é indispensável, assim como uma autogestão da estrutura militante
permitindo a direção coletiva da organização por sua base imersa na sociedade.

. O socialismo espontâneo dos trabalhadores

O socialismo de Estado se opôs ao socialismo espontâneo

Nossa concepção do socialismo não é o fruto de uma elaboração exterior às lutas


do proletariado. Afirmamos, pelo contrário, que são as trabalhadoras e os trabalhadores
que descobriram e redescobriram por si mesmos e espontaneamente as bases de uma
sociedade alternativa ao capitalismo através de suas lutas e especialmente nos períodos
revolucionários. Desde a revolução francesa discernimos seus sinais. No curso da Comuna
de Paris em 1871, na Rússia e na Ucrânia de 1917 a 1921, na Espanha de 1936 a 1937 se
desenvolveram as bases de um outro socialismo possível, finalmente esmagado por uma
nova burocracia ou pela burguesia. Cada experiência revolucionária, cada momento forte
da luta de classes veio confirmar esta aspiração a uma sociedade e a uma produção
reapropriadas pela base, desde os empreendimentos coletivistas e autogeridos e as comunas
livres, com uma federação organizando a nova sociedade. Toda uma corrente anti-
autoritária do movimento operário se inspirou neste socialismo espontâneo das
trabalhadoras e dos trabalhadores e é dele que nós nos reivindicamos. É necessário
constatar que foram outras correntes que se impuseram durante as últimas décadas: os
socialismos de Estado – socialdemocracia, leninismo, stalinismo – que se opuseram às
aspirações do socialismo espontâneo. E que conduziram o movimento operário a um
impasse. O socialismo espontâneo das trabalhadoras e dos trabalhadores abriu uma
perspectiva extraordinária para a humanidade, esboçando através de suas realizações
concretas uma forma superior de democracia.

Mas as experiências históricas revelaram igualmente limites e fraquezas das quais é


preciso dar conta. É por esta razão que um projeto coerente trazido por uma organização
de militantes é hoje necessário para colocar os problemas com os quais luta e lutará o
socialismo espontâneo dos trabalhadores. Se a existência de um tal projeto não é uma
garantia infalível, ela pode ao menos ajudar o movimento autogerido das massas a superar
suas fraquezas e limites evitáveis.

.Um combate internacionalista

É preciso eliminar as fronteiras entre os povos

O capitalismo se construiu em escala mundial. Uma estratégia de luta de classes


seria então impensável se se limitasse a um só país. Os problemas são internacionais e os
movimentos sociais tem aí um atraso importante a superar. Um combate por uma
orientação internacionalista é necessário, e deverá passar sobre uma série de resistências
nacionalistas e localistas. Somos resolutamente a favor da organização de coordenações
internacionais em todos os ramos de atividades e em todas as frentes. Um combate
internacionalista passa ao mesmo tempo pela solidariedade e por ações internacionais.
Solidariedade internacional, com as lutas do mundo, com as e os militantes, entre os povos.
Ações concretas coordenadas, unidades internacionais a serem construídas para se
confrontarem a poderes desde muito tempo multinacionais.

Um combate internacionalista visa, então, à multiplicação das ligações e das lutas,


para que emerja o projeto de uma vasta solidariedade de contra-poderes operários e
populares contra as classes dirigentes do Leste e do Oeste, do Norte e do Sul.

A perspectiva é certamente a refundação de um novo movimento internacional,


anticapitalista, anti-autoritário, impondo uma paz justa e o projeto de um planeta
inteiramente desmilitarizado em que as fronteiras entre os povos terão sido aniquiladas.
Este objetivo é ainda mais indispensável com a instauração de uma nova ordem mundial
sob a dominação dos Estados Unidos e na qual as possibilidades de cada povo são cada vez
mais limitadas.

. Uma alternativa aos socialismos de Estado

As correntes social-democrata e leninista são um engodo

Afirmamos que é preciso romper com o socialismo de Estado, se apegar às raízes


espontâneas do socialismo das trabalhadoras e dos trabalhadores, buscar nele os termos de
um novo socialismo anti-autoritário sem o qual não poderia haver renascimento para a luta
revolucionária.

A SOCIALDEMOCRACIA

A socialdemocracia se sustenta na ilusão da democracia formal sob a forma


republicana, a crença em um Estado “neutro”, acima das classes e, portanto, conversível
em favor dos interesses das exploradas e dos explorados. Há um duplo engodo: a promessa
de dirigir o Estado capitalista contra os interesses capitalistas, e a perspectiva de uma
transformação progressiva da sociedade do capitalismo ao socialismo, pacífica e legal,
reformista, por leis e decretos. Segue daí uma estratégia política inscrita nas instituições do
capitalismo, respeitosa destas instituições. A socialdemocracia é antes de tudo um
socialismo estatista, sustentado na delegação do poder em favor dos políticos e das classes
dirigentes, burocráticas e tecnocráticas. O balanço da socialdemocracia é desastroso para o
proletariado. A instauração de “pazes sociais” em que as trabalhadoras e os trabalhadores
perdem suas capacidades de resistência, a submissão das organizações sindicais aos
imperativos do eleitoralismo, e aos das políticas governamentais enquanto a esquerda está
no poder. A socialdemocracia se revela pouco a pouco: uma forma de gestão do
capitalismo integrando a cada vez mais o credo liberal.

O LENINISMO E O STALINISMO

Se o leninismo não se confunde com o stalinismo, ele abriu a via aos crimes contra a democracia e
contras as trabalhadoras e os trabalhadores

Projeto de uma transformação revolucionária da sociedade sob a direção de um


partido dirigente e pela concentração de toda economia nas mãos do Estado, o leninismo
fez fiasco, do mesmo modo, desprezando e combatendo o essencial de um socialismo
espontâneo das trabalhadoras e dos trabalhadores, autogestionário e federalista. O balanço
é terrível, e ditaduras sanguinárias se pintaram com a própria palavra “comunismo”, da qual
o sentido real é, no entanto, radicalmente oposto. A história, agora, o demonstrou: a
estatização dos meios de produção não implica uma ruptura com a relação capitalista
dirigentes/dirigidos, mas a passagem de um capitalismo disperso, concorrente, a um
capitalismo de Estado, encabeçando a constituição de uma nova classe dirigente e
exploradora. O estatismo não pode ser apresentado como uma forma de transição entre o
capitalismo e o socialismo, mas como uma nova forma de opressão das trabalhadoras e dos
trabalhadores. Nenhum partido pote se autoproclamar “a vanguarda do proletariado”,
pretender representar a consciência de toda uma classe, se substituir a esta na direção do
processo revolucionário e na da sociedade, impor sua ditadura às trabalhadoras e aos
trabalhadores em nome de sua emancipação. A forma centralizada, fortemente
hierarquizada, do partido leninista, lógica com sua função de tomada do poder e direção de
um Estado controlando todas as atividades sociais, conduz à tirania no interior da
organização, ao esmagamento de todas as outras formações no exterior desta, ao corte
dirigentes/dirigidos entre o partido e os trabalhadores, entre o partido e a sociedade.

A estratégia de tomada do poder pelo partido conduz igualmente a práticas


detestáveis no cenário das lutas cotidianas: esquema da correia de transmissão submetendo
organizações de massa e sindicatos às diretrizes do partido, dirigismo e centralismo na
conduta das lutas, submissão das intervenções de massa das e dos militantes ao imperativo
superior do interesse do Partido. Certamente, não colocamos um sinal de igual entre
stalinismo e leninismo. Aquele é uma corrente revolucionária, enquanto o stalinismo é
antes de tudo uma defesa da burocracia constituída. Mas é forçoso constatar que o
leninismo permitiu a instauração desta burocracia, e que ele abriu a via aos crimes contra a
democracia e contra as trabalhadoras e os trabalhadores.

As correntes social-democrata e leninista constituem um engodo na medida em que


prometem, cada uma a sua maneira, dirigir o Estado contra os interesses capitalistas e em
favor dos trabalhadores (reforma do Estado ou constituição de um Estado “operário”). As
experiências governamentais da socialdemocracia e o balanço globalmente negativo do
lenino-stalinismo de Estado são o cemitério em que se sustentam as ilusões proletárias do
mito de um futuro radiante.

Socialdemocracia e leninismo só podem, portanto, se reduzir a plantadores de


ilusões no movimento proletário. Eles serviram o bastante, com efeito, de arma contra o
socialismo espontâneo das trabalhadoras e dos trabalhadores na medida em que sua
chegada ao poder, pacífica ou violenta, serviu para resolver em benefício do Capital os
antagonismos de classe: gestão das crises pelos social-democratas e desenvolvimento do
capitalismo de Estado pelos leninistas.

Pior, estas correntes nuca hesitaram em assumir um papel abertamente contra-


revolucionário. Alemanha em 1918, Rússia e Ucrânia em 1921, Espanha em 1937-1939,
Argélia em 1954-1962: tantos exemplos de sua participação na repressão sanguinária dos
movimentos proletários revolucionários e das revoltas dos povos colonizados.
. A necessidade de um projeto revolucionário

A utopia pode ter uma incidência decisiva

Um novo projeto revolucionário é necessário, alternativo ao socialismo de Estado e


ao liberalismo. Por projeto revolucionário entendemos o projeto de uma sociedade
socialista, e o projeto político, estratégico, que propõe uma via para preparar as condições
de uma revolução autogestionária partindo das condições atuais.

A utopia pode ter uma incidência decisiva sobre os movimentos sociais.


Estimulando a imaginação coletiva, ela alimenta as lutas intermediárias, tanto em sua forma
quanto em seus objetivos, e ela pode dar força e crédito ao anticapitalismo explorando as
possibilidades de uma sociedade alternativa. O imaginário é necessário para transformar as
realidades. Se nos parece necessário que nossa corrente tenha tal projeto, não pretendemos,
no entanto, nos substituir à elaboração coletiva dos movimentos sociais. Distinguimos,
então, nosso projeto específico, elaborado desde nossas realidades e a integralidade de
nossas aspirações, e os projetos que os movimentos de massa darão a si mesmos em certas
épocas históricas. Nosso projeto não tem a pretensão de predizer o futuro, nem de tudo
prever, nem de ser um conjunto de promessas, nem de ser um plano já pronto de um
socialismo a construir tal e qual. É, muito evidentemente, através de suas experiências que
as trabalhadoras e os trabalhadores encontrarão suas respostas às numerosas questões da
sociedade. Mas nesta elaboração nossas proposições podem ter o valor de contribuições e
de incitação, infletindo o debate de ideias e as práticas no sentido mais libertário, mais
autogestionário possível.

A elaboração de um projeto revolucionário se apoia sobre as experiências históricas


e as experiências contemporâneas das lutas. Levando em conta as dificuldades encontradas
nos processos históricos reais, ele tentará respostas realistas. Do mesmo modo, ele deve se
apoiar no desenvolvimento tecnológico e nas condições culturais de hoje. O projeto
revolucionário necessita, então, de uma reavaliação regular, integrando as experiências
novas das lutas sociais e os avanços da sociedade. A elaboração e a defesa de um projeto
libertário contemporâneo implicam a revisão e o abandono de um certo número de mitos,
erros e ideias ultrapassadas, carregadas historicamente pelo movimento revolucionário e
pelas correntes libertárias. Ele não pode avançar sem que viremos as costas aos
dogmatismos e aos arcaísmos.

. Por um comunismo libertário

A autogestão abole as relações de produção capitalistas

O projeto de sociedade que propomos se apoia nas experiências concretas das


trabalhadoras e dos trabalhadores e dos povos revolucionários: comunas livres, conselhos
operários, federações, sindicalismo revolucionário. Chamamos este projeto de comunismo
libertário, não por referência à corrente “comunista” marxista-leninista, mas na
continuidade de uma corrente mais antiga e maior, anti-autoritária, sindicalista, conselhista.

“Comunismo”: uma sociedade fundada na disposição em comum dos meios de


produção, sem a apropriação privada ou privativa, centralizada, isto é, sem classes e sem
Estado. “Libertário”: uma sociedade que tem por objetivo e por condição a emancipação
da sociedade, das trabalhadoras e dos trabalhadores e dos indivíduos, que passa pela
igualdade econômica e democracia de baixo para cima da produção e de toda sociedade. O
comunismo libertário é o projeto de uma sociedade em evolução, animada por um
processo revolucionário permanente, que estende progressivamente a sociedade nova sobre
toda a superfície terrestre, e que ganha e integra pouco a pouco toda a população.
Indicamos aqui alguns grandes eixos deste projeto, tal como podemos concebê-lo para a
primeira fase desta construção, ou seja, quando a totalidade da população não foi ganha,
quando a revolução ainda tem numerosas e numerosos inimigos no interior e no exterior, e
que é preciso fazê-la com a herança tecnológica ai mesmo tempo em que começamos
imediatamente a transformá-la.

AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO AUTOGESTIONÁRIAS

Por socialização dos meios de produção, não entendemos sua concentração nas
mãos do Estado, mas a posse coletiva pelo conjunto da sociedade, autogestão da produção
em sua globalidade, e autogestão de casa unidade por aquelas e aqueles que se empregam
nela. Por autogestão entendemos o poder de decisão coletivo das assembleias de
trabalhadoras e trabalhadores, com liberdade total de expressão e votos democráticos. A
autogestão abole as relações de produção capitalistas dirigentes/dirigidos, com a
organização hierarquizada e parcelada do trabalho que implicam. Na autogestão os
responsáveis, coordenadores e coordenadoras, delegados, são eleitos por assembleias de
base; elas e eles podem ser destituídos por elas a todo momento, elas e eles estão
submetidos à direção coletiva da base, obrigados a apoiar as escolhas, os mandatos
imperativos adotados e regularmente renovados por assembleias de base e conselhos locais.

A destruição das relações de produção se sustenta em uma transformação radical da


natureza do trabalho. As funções manuais e intelectuais, separadas pelo capitalismo, são
reunificadas; cada trabalhador, cada trabalhadora participa da concepção e da decisão, é
tomador de decisões na produção e na sociedade. Seu tempo de trabalho incorpora estas
tarefas de decisores (inclusive nas questões “políticas” sobre a região, a sociedade), as
tarefas de execução, e um tempo muito extenso de formação contínua. O tempo não é
mais submetido à divisão herdada do capitalismo entre o trabalho parcelado e o lazer. Ao
longo de sua vida, a ou o trabalhador alterna a participação na produção coletiva e na vida
social como diferentes formas de sua expansão. Esta transformação do trabalho, sua
desalienação, é o núcleo central de um profundo processo de transformação remodelando
radicalmente a malha produtiva e as tecnologias. Estas deverão se adaptar à este novo
modo de produção e aos novos critérios da sociedade, abrindo um período de inovações e
renovações.
A produção escapa aos imperativos dos lucros. São as necessidades humanas que se
tornam determinantes. Estas necessidades não são e não serão jamais “objetivas”: elas
respondem a dados culturais, a aspirações pessoais, mas também ao que a produção lhes
propõe. Há, assim, uma grande diversidade de necessidades que exigem um sistema
necessariamente complexo de determinação dos imperativos da produção. Dois
mecanismos paralelos nos parecem poder ser empregados. Um de planificação e
coordenação geral autogerida, que centraliza as necessidades recenseadas nas comunas nas
regiões, as unidades e as federações da produção. Esta planificação assegura a execução
coletiva das grandes transformações. E ela garante a tod(a/o)s a satisfação das necessidades
fundamentais de maneira livre, gratuita, solidária: moradia, saúde, formação, nutrientes
básicos... O outro mecanismo recobriria a intervenção espontânea dos indivíduos e das
comunidades de base se exprimindo em um mercado liberado dos constrangimentos da
economia mercantil mas permitindo o acesso livre de cada um aos produtos e serviços de
sua escolha.

UMA DEMOCRACIA FEDERALISTA E AUTOGESTIONÁRIA

A democracia federalista autogestionária se sustenta nas assembleias de base dos


trabalhadores e nas comunas. Ela estrutura a sociedade a partir de regiões, a fim de criar
espaços de poder coletivo diretamente controláveis pela população. Estes espaços regionais
autogeridos não reproduzirão necessariamente o recorte das atuais regiões administrativas.
Ela visa à federação internacional das regiões, vocação universal. Ela se dá como regra
comunas autogestionárias, integrando os direitos adquiridos pela apropriação coletiva dos
meios de produção. Estes direitos e estas regras se impõem à todas as regiões, garantindo a
proteção de cada indivíduo e de cada comunidade.

Além disso, a maior autonomia se exprime na base, nas comunas, nas regiões
federadas. O federalismo é uma forma de organização e de centralização/descentralização
que permite evitar o fracasso do centralismo burocrático e o da atomização da sociedade. É
o equilíbrio entre a iniciativa e a autonomia das unidades federadas, e a solidariedade entre
todas: uma interdependência sem hierarquia, em que as escolhas coletivas sobre as questões
comuns são tomadas e aplicadas por todos. O federalismo implica uma concepção aberta,
dialética, da sociedade como lugar em que podemos tender a equilibrar o campo do geral e
o do particular, mas sem nunca reduzir um ao outro.

O federalismo conduz a uma estruturação estabilizada da sociedade. A coordenação


da produção é assegurada pelas federações em ramos. Cada região federa as comunas e as
unidades de trabalho. As regiões formam uma federação internacional com uma grande
autonomia. Cada federação é coordenada por um conselho muito grande de representantes
de base, formado de eleitos diretos estreitamente controlados e ligados a seus mandatários.
Cada federação nomeia responsáveis submetidos à direção da base. Os conselhos das
federações regionais, profissionais, etc. tem então, como tarefa, centralizar o poder da base,
não o exercendo em seu nome, mas organizando o debate democrático. Assegurando
consultas regulares de toda população envolvida se exprimindo desde a base e decidindo
entre as diversas opções recortadas.
O conselho da federação é, além disso, obrigado a executar decisões democráticas.
Estas consultas se reservam às grandes questões, às grandes escolhas, enquanto uma parte
imensa da iniciativa é assegurada às unidades federadas. O mandato de base não é
entregado no momento único da eleição dos delegados ou dos responsáveis e tendo em
vista as promessas das candidatas e dos candidatos ou dos programas de suas eventuais
organizações. O mandato imperativo é dado sobre um conteúdo decidido pela base e
renovado regularmente. A democracia de baixo para cima representa uma forma
radicalmente nova de poder coletivo em ruptura com a divisão dirigentes/dirigidos,
governantes/governados, o corte entre o Estado e a sociedade de todos os sistemas de
classe. Cada “cidadão-trabalhador” sendo associado a este poder, o governo desceu à
oficina e à comuna: é o autogoverno da sociedade, que responde naturalmente à autogestão
da produção. As diferenças entre o Estado parlamentar e a federação autogestionária são
radicais. Inversão do polo do poder, as instâncias de coordenação centrais sendo colocadas
sob a direção da base. Eleição democrática de delegados e responsáveis, delegação de
tarefas para a coordenação das decisões correntes, mas recusa da delegação do poder nas
grandes decisões, e, portanto, democracia direta. Os partidos perdem seu papel de vetores
do debate e da força de direção da sociedade: as formações políticas podem se exprimir
livremente e nutrir um debate democrático, mas os delegados são mandatados pelas bases e
não pelos partidos. A democracia autogestionária implica a liberdade absoluta de expressão
e de organização, a liberdade de culto, a liberdade total da imprensa.

Enfim, a necessidade de defender a nova sociedade de seus inimigos interiores e


exteriores, assim como uma persistência da delinquência – em todo caso nesta primeira fase
– e os comportamentos ou atos racistas e sexistas, acarretam a necessidade de um direito,
de uma justiça organizada e fortes organizações de autodefesa militar. Mas se trata de
destruir de fato os organismos repressivos da antiga sociedade e de colocar de pé estruturas
estreitamente controladas pela população e os conselhos. Os riscos de militarização ou de
ordem policial são evidentes em um período revolucionário e exigem uma vigilância aguda,
tendo como finalidade uma sociedade completamente desmilitarizada e despolicializada.

. Por um grande movimento anticapitalista e autogestionário

O movimento anticapitalista por vir auxiliará os contra-poderes

Nossa organização não pretende se tornar, contando apenas com suas próprias
forças, a única alternativa ao capitalismo. Rejeitando todo o sectarismo e todo
isolacionismo, queremos ser uma força unificadora no movimento revolucionário e no
movimento operário. Queremos contribuir para um renascimento do combate
revolucionário de massas, uma refundação do socialismo no horizonte do século XXI. Para
atingir este meta, nossa estratégia política se apoia em uma dialética entre dois níveis de
expressão e de organização distintos e complementares:
- a organização e o desenvolvimento de uma nova corrente libertária de luta de
classes;

- a emergência de um vasto movimento anticapitalista e autogestionário, em que a


nova corrente se integraria sem desaparecer.

Temos, então, um grande projeto de unidade, que se concretiza em nossas práticas


cotidianas e que faz parte integrante de nossa identidade. Propomos este projeto ao
conjunto das forças políticas ao conjunto das forças políticas, sindicais, ecologistas,
associativas que combatem o capitalismo e que podem se associar a este projeto. O
movimento por vir verá se unirem militantes e correntes de origens ideológicas diferentes,
com prioridades de intervenção diversificadas. Será necessariamente pluralista, aberto,
buscando ao mesmo tempo as convergências sobre bases essenciais. O movimento
anticapitalista por vir será uma força de massas, que pesará em grande escala na sociedade,
contribuindo na multiplicação de contra-poderes e preparando as condições da ruptura
revolucionária. Ele inscreverá, então, prioritariamente suas intervenções no terreno social,
na base da sociedade, ligando lutas diversas, lutas operárias, lutas da juventude, lhes
propondo uma perspectiva autogestionária. Um movimento político-social, portanto, e não
um novo partido. Levando em conta as realidades diferentes de um país a outro, nós
inscrevemos este projeto de alternativa em um processo internacional, federando
progressivamente todas as forças alternativas ao liberalismo, à socialdemocracia e ao
stalinismo na Europa e no mundo todo.

Este grande movimento não nascerá “a frio” de uma autoproclamação ou de um


cartel. Ele será o produto de um processo histórico de convergências, de unidades, de
elaborações, de práticas de base. As lutas sociais maciças e seu desenvolvimento ofensivo
serão, assim, determinantes. Elaborações coletivas, porque uma adição heteróclita não
permitirá responder à crise de orientação e de perspectivas, à crise de identidade que mina
o movimento operário e social. Este é um novo projeto político que é necessário. Para
elaborar este projeto, ideias diferentes se confrontarão; neste debate, seremos uma força de
proposição e de convicção, para tender ruma a uma nova síntese, a mais libertária possível,
à imagem de um sindicalismo revolucionário que não terá sido mais do que o fruto de uma
dialética entre perspectivas libertárias e organizações de massa.

Práticas comuns nas bases, porque para nós uma alternativa de massas, implantada
nas cidades, nos locais de trabalho, entre a juventude, partirá dos problemas concretos
vividos pela população. Novas ações são necessárias para permitir a expressão e a
organização das revoltas da base da sociedade. Estas práticas comuns permitirão as
respostas necessárias, diante das ameaças da extrema direita e às mentiras da
socialdemocracia. São por elas que a alternativa ganhará novas forças. A emergêcia deste
grande movimento é uma das tarefas prioritárias de nossa corrente. Não se trata, para nós,
de desaparecer de corpo e alma e uma congregação futura. Queremos ser forças
iniciadoras, umas das forças unificantes. E nos tornar no amanhã uma componente maior e
escutada, em um movimento revolucionário, um movimento operário refundado e
renovado.
. Um combate contra todas as alienações

Que todas e todos possam encontrar um lugar na sociedade

Nosso combate não é apenas voltado contra uma certa forma de produção material
e sua dominação sobre o trabalho, a sociedade, o mundo e a natureza. Trazemos aspirações
libertárias que ultrapassam a luta apenas de classes. A emancipação de cada indivíduo não é,
para nós, uma perspectiva secundária, mas o objetivo maior da luta social. Longe de as
opor, afirmamos que a luta pela liberação, a liberdade individual, não pode avançar sem o
concurso das lutas coletivas. Desde milhares de anos, as opressões e as alienações entravam
a expansão de cada indivíduo e de numerosos grupos sociais: o racismo, a xenofobia, a
opressão das mulheres, a ordem moral que se exerce especialmente contra a
homossexualidade, os conformismos culturais... Estas alienações, o capitalismo não as
gerou, mas elas servem como tantos e tantos meios para cimentar sua dominação,
oprimindo as faculdades criadoras e vitais de cada, destilando os ódios e as divisões na
população. As religiões estão entre os principais vetores das alienações: pela visão do
mundo que elas propõem pelas formas hierarquizadas que construíram, por sua pretensão
em encerrar a vida de cada um em uma rede de dogmas, de tabus, de regras impostas.
Certamente, somos a favor da liberdade de culto, respeitamos as escolhas de cada um e
denunciamos as perseguições e as interdições. Mas recusamos toda empreitada das religiões
sobre a sociedade e queremos fazê-las passar por uma crítica radical.

Somos, então, partidários de uma luta global que toma partido contra todas as
formas de alienação e de opressão, que toma como finalidade o respeito absoluto da
identidade de cada uma e de cada um, que todos possam viver, amar, trabalhar, criar, se
exprimir livremente, sem barreira de raça, sexo, nacionalidade, idade ou de modo de vida,
que todas e todos possam encontrar um lugar na sociedade humana, crescer nela e dispor
de meios de existência satisfatórios. Se o capitalismo sustenta, ao mesmo tempo em que as
renova, alienações multimilenares, ele próprio carrega alienações específicas. No trabalho,
em que o indivíduo é dividido, dominado, e reduzido ao estatuto de mercadoria. Na relação
da humanidade com a natureza. Na vida cotidiana, em que o modo de consumo é
determinado pela lógica dos lucros. Então, somos a favor do apoio mútuo das lutas de
classe e das diversas lutas contra as alienações, sem reduzir estas às condições das
primeiras. A destruição da ordem capitalista, a construção de novas relações sociais
igualitárias e libertárias, trarão as bases necessárias – mesmo se elas não exclusivamente
suficientes – para uma era de emancipação.

. Alternativa libertária, uma organização autogerida

A organização está sob a direção coletiva de seus membros


Nossa organização não é um partido: ela não ter por vocação fraudar as vozes das
eleitoras e dos eleitores e se integrar ao jogo das instituições estatais. A atividade essencial
da organização é apoiar, por sua política e sua propaganda, por sua reflexão coletiva, pela
formação, com a ajuda que leva, pela ação de seus membros, ao desenvolvimento das lutas
anticapitalistas e a auto-organização, ruma a um contra-poder da base da sociedade e uma
ruptura com a ordem capitalista. A organização se sustenta, e isto até que as e os aderentes
decidam de outro modo em um espírito federalista autogestionário e segunda as
modalidades do acordo, sobre o presente Manifesto para uma alternativa libertária. Nem
programa histórico, nem declaração de princípios imutáveis, este manifesto é apenas um
momento de um processo teórico, prático e organizacional que contem em si mesmo uma
dinâmica de ultrapassamento potencial. Um acordo estatutário fixa as regras do
funcionamento da organização e liga todos os membros livremente associados. As
orientações estratégicas da organizações, suas posições, suas decisões, são submetidas a
debates, à direção coletiva, aos votos da base da organização. Esta constitui também um
terreno de experimentação para a democracia autogestionária e federalista. A organização,
então, é uma federação autogerida, colocada sob a responsabilidade coletiva do conjunto de
suas e seus militantes. Invertendo a imagem tradicional do partido hierarquizado, mas sem
negar a necessidade e a importância das atividades de coordenação e de animação da
organização, buscamos estabelecer um quadro de debate e intervenção horizontal e
descentralizada.

A organização é um lugar plural em que, sob um fundo identitário comum, uma


grande diversidade de opiniões podem se exprimir livremente. Se é natural que ela se dê
democraticamente uma orientação majoritária, ela não deixa de garantir os direitos das
minorias e dos grupos de base à expressão, no debate interno certamente, mas também na
imprensa da organização, segundo as modalidades estabelecidas pelo acordo estatutário. A
organização busca a convergência das ações de seus membros em um cuidado evidente de
eficácia. Do mesmo modo, ela defende uma orientação majoritária. Mas ela respeita a
liberdade de fala e de ação de cada uma e cada um. Ligada pelas regras estatutárias quando
se trata de falar ou agir em nome da organização, cada uma e cada um só obedece a suas
próprias escolhas quando intervém nos movimentos sociais. Corrente de luta de classes,
priorizamos a expressão junto ao proletariado e a implantação em seus locais de vida e
trabalho. Mas não negligenciamos a implantação na juventude nem uma presença no
conjunto dos movimentos sociais.

A organização se recusa a toda relação de direção ou de substituição das lutas das


trabalhadoras, dos trabalhadores e da população. Ela pode participar na organização de
iniciativas e de mobilizações. Mas a direção das lutas sociais deve pertencer às bases,
mesmo se as militantes e os militantes de nossa corrente podem estar entre as animadoras e
os animadores destas lutas. Nosso combate é internacional e a construção de nossa
corrente passa pela multiplicação das iniciativas, rumo a uma estruturação internacional.