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Strobist

Preguiçoso
Uma introdução simples e prática ao Flash fora de Câmera


Hugo José Pinto
Modelo: Elizaveta

O que é este artigo?

Este artigo pretende ser uma explicação simples e prática para que pessoas como eu, que não
querem perder muito tempo antes de pegar na máquina e experimentar, possam produzir
fotografias em que tanto o motivo da fotografia (o/a modelo) como o fundo (uma paisagem
bonita ou um céu de cor saturada) estão perfeitamente expostos sem sobre- ou subexposição
por excesso de alcance dinâmico nem de um, nem de outro, e em que o/a Modelo está bem
destacado/a na foto – através da introdução de Flash. E, para tornar a coisa profissional,
vamos usar Flash fora da Câmera (ou seja, sem estar montado na sapada que normalmente
temos por cima da máquina) para produzir imagens em que a luz parece mais natural, vinda
de locais plausíveis e não do fotógrafo. Um exemplo deste tipo de fotos é este:


Canin 5DmkIV, 1/320s, f/2.8, ISO 100

Nesta foto, o por do sol estava a acontecer por detrás da modelo (vejam as luzes nas
arvores) mas a iluminação incide-lhe natural sobre o rosto, trazendo-a para os mesmos
níveis de luz do resto do ambiente e fornecendo uma luz principal (“key”) à foto. Depois,
por opção criativa, decidi baixar um pouco a luz de fundo para destacar um pouco mais a
modelo dar um aspecto mais cinemático à imagem.


Porque é que é difícil produzir esse tipo de imagem sem Flash?

As nossas máquinas fotográficas (mesmo aquelas muito recentes, tão boas quanto caras) têm
uma capacidade limitada de capturar informação quando há grandes disparidades de
intensidade da luz ao longo da cena. Num cenário em que temos um/a modelo à sombra, e
um céu brilhante por detrás, temos normalmente que medir a cena para ou expor
correctamente o céu, ou o/a modelo - precisamente porque a Câmera não consegue capturar
o mesmo detalhe nas partes luminosas e escuras. Acabamos ou com um/a modelo bem
exposto/a e um céu todo branco (sobre-exposto), ou – no caso que nos vai ser mais
interessante - com um céu bem exposto mas com um/a modelo completamente escuro/a
(sub-exposto) ou sem graça (sem separação visual do cenário).

O uso do Flash permite-nos iluminar corretamente o/a modelo sub-exposta, trazendo-o/a
para níveis de luminosidade parecidos com os do fundo da imagem, e criando uma fotografia
em que nenhum dos elementos parece mal de demasiado escuro ou claro – uma fotografia
impossível (não corresponde à realidade), mas que o nosso cérebro nos diz ser mais parecida
com o que vemos. Resultado: enganamos a nossa audiência e ficamos com fotos mais bonitas.
Win-Win?


De que precisamos para fazer estas fotos?

Necessitamos de um Flash, obviamente. Mas não do Flash integrado que vem com muitas das
máquinas fotográficas. Necessitamos de um Flash externo, como este:




Estes Flashes são mais poderosos que o Flash incluído na nossa máquina, e vão-nos permitir
aplicar o efeito que queremos a cenas muito mais luminosas. De facto, quanto mais potente
for o nosso Flash, mais versátil será para o efeito de compensar as discrepâncias de luz. Ao
procurar um Flash para usar neste tipo de fotos, e se puderem escolher, há duas siglas
importantes a considerar: encontrem um modelo que suporte HSS (High Speed Sync – vai ser
muito útil durante imagens de dia), e, para contentar o verdadeiro preguiçoso em vós, que
suporte TTL (medição automática da potência do disparo através da lente).

No entanto, não vamos montar o Flash Externo na sapata da máquina - o nosso objectivo é
criar iluminação que parece natural (ou pelo menos plausível) e ela raramente vem de onde
o fotógrafo está. As fotos com flash montado em cima da Câmera parecem quase sempre
artificiais, precisamente porque a luz frontal forna a presença do flash obvia. Nós vamos
separar o Flash da Câmera.

Como? Com disparadores por rádio. São pequenos aparelhos que colocamos entre a maquina
e o Flash e que nos permitem controlar o mesmo à distância, enganando os dois para que
pensem que estão fisicamente ligados, quando na verdade todos os comandos são passados
em tempo real pelo ar. Podíamos ter escolhido outra forma de o fazer (cabos físicos,
infravermelhos, etc.) mas hoje em dia a vasta maioria dos fotógrafos de Flash fora de Câmera
usa transmissores de Flash por uma boa razão: são muito versáteis, podemos colocá-los do
outro lado de uma parede, ninguém tropeça em fios e ao contrário dos infravermelhos,
funcionam sob sol brilhante. Existem muitos no mercado, mas têm basicamente o aspecto de
pequenas caixas que colocamos na Câmera e no Flash. Estes da empresa Yongnuo têm uma
relação qualidade-preço bastante apelativa, mas cada marca tem os seus pontos fortes e
fracos, e todas são aptas para o que queremos fazer:



No caso dos Yongnuo que mostro acima, podemos usar apenas os dois disparadores da
esquerda (um serve de transmissor quando o ligamos à camera e o outro de receptor no
Flash), mas a empresa tem ainda um módulo controlador dedicado para colocar na Câmera
(o da direita) que nos permite alterar a potência do Flash sem que tenhamos que nos
aproximar do mesmo.

Finalmente, e embora não seja o objectivo do nosso artigo hoje, as fotos feitas a pessoas
normalmente ficam melhores se não lhes apontarmos directamente um Flash ao rosto, como
todos sabemos por experiência com o telemóvel ou máquinas de filme instantâneo. Os
Flashes portáteis são fontes de luz pequenas (pelo menos relativamente ao corpo de uma
pessoa) e potentes, que resultam numa luz dura, com e sombras fortes e muito definidas.
Normalmente - mas nem sempre! - queremos retratos com luz suave sem sombras de nariz
projectadas no rosto, certo? Para isso, deveremos usar um modificador de luz para o nosso
flash, que transforme essa luz dura numa luz suave e mais lisonjeira. Uma sombrinha de
estúdio translúcida, ou uma softbox são as escolhas mais comuns, mas há modificadores
especializados em obter um certo look – como beauty dishes, anéis, etc. Para terem uma
ideia, nos exemplos seguintes usei uma soft box de 60x90cms.


Um bocadinho (pouco) de teoria de iluminação de Flash

Idealmente os leitores deste artigo já conhecerão bem o triangulo da Exposição: usamos o
Tempo de Exposição para controlar e congelar o movimento na nossa imagem, a Abertura da
objectiva para controlar a Profundidade de Campo, e a configuração de ISO para regular a
sensibilidade do Sensor. Todas as 3 variáveis controlam, de alguma forma, quanta luz afecta
a nossa imagem.

Com o uso de Flash, introduzimos uma quarta variável: a potência da luz de Flash, que
também podemos regular, normalmente numa escala que vai da potência máxima do Flash
(1/1), descendo em incrementos, stop a stop (1/2, 1/4, 1/8, por aqui adiante) até 1/128, ou,
nalguns casos 1/256 da potencia máxima.

Para dominar como regular essa potência, é necessário compreender antes que um disparo
de flash é RÁPIDO. Hoje em dia todos os Flashes disparam bastante mais rápido que 1/1000s,
e normalmente perto dos 1/8000s que correspondem à máxima velocidade de obturação das
maquinas modernas.

Se apontarem o Flash para o motivo da foto (o/a) Modelo, e com um momento de luz intensa
tão rápida a iluminá-lo/a, o Tempo de Exposição configurado na máquina não tem
virtualmente impacto nenhum na iluminação da pessoa – toda a luz que o/a ilumina vem
daquelas mínimas fracções de segundo em que o Flash está aceso. O restante tempo em que
o obturador está aberto serve apenas para capturar a luz do meio ambiente à volta do/da
modelo, não tendo grande influência na luz da pessoa em si.

Leiam o paragrafo anterior outra vez. E outra. A essência do truque está toda ali: quando
usamos Flash, podemos regular 1) a profundidade de campo através da Abertura; 2) a
iluminação do fundo da nossa imagem através do Tempo de Exposição; 3) a iluminação do
nosso/a modelo através da potência do Flash (na tal escala de 1/1 a 1/128) e 4) a sensibilidade
às luzes (do ambiente, e do Flash), através da regulação do ISO. (*)

[(*) - Não é exactamente assim tão simples, mas para os nossos propósitos práticos de
strobist preguiçoso serve perfeitamente; a potência aparente do Flash pode ser regulada
também pela distância do Flash ao Modelo (que dava outro artigo), e pela Abertura (que
permite entrar mais luz) no triangulo de Exposição.]

Sabendo que podemos regular separadamente a luz do fundo, do/a Modelo, e a Profundidade
de Campo, temos todas as ferramentas criativas para criar as nossas fotos.


Ok, ok – mas afinal como tiro a foto?

Então, eu prometi um processo preguiçoso, e preguiçoso será. E sabendo a teoria, podemos
usar e abusar dos automatismos das maquinas modernas para não ter muito do trabalho
envolvido na criação destas imagens, deixando os computadores dentro das mesmas fazer o
trabalho chato por nós.

Primeiro, escolhemos a nossa cena, enquadramos prospectivamente a modelo na imagem.
Podemos tirar uma foto de teste, na abertura desejada, em modo de Prioridade à Abertura
da máquina (Av em Canon, A em Nikon e em Sony), para ver que Exposição a máquina nos
sugere. Eu tirei esta foto:




Canon 5DmkIV, f/2.8, ISO 100 – a máquina sugeriu 1/200

Não está mal, mas a Modelo não se destaca do fundo, e, se o fundo fosse um céu brilhante,
estaria totalmente branco, e não veria quaisquer construções ou nuvens no fundo. Vamos
melhorar a iluminação, destacando um pouco a modelo e baixando um pouco a luz do fundo.

Como? Num primeiro passo, vamos introduzir o Flash. Vou configurar o meu Flash para activar
tanto a função HSS (que me permite disparar em velocidades acima de 1/200s) como a função
TTL (que me permite ser ainda mais preguiçoso e pedir à maquina que escolha a potencia do
Flash por mim).

Eis a primeira batota - vamos usar a informação de medição de luz que a máquina nos deu
antes: colocamos a Câmera em modo M (manual) e replicamos a exposição que o fotómetro
da máquina nos tinha dado antes: f/2.8, 1/200s, ISO 100. Sem termos medido a luz com um
fotómetro dedicado, temos uma Exposição manual correcta.

Agora a segunda batota – montamos os nossos disparadores no Flash e na Câmera, e
asseguramo-nos que estão configurados para HSS e TTL (depende de fabricante para
fabricante). Se dispararmos uma foto com a máquina em modo Manual, o TTL está preparado
para disparar um flash numa potência semelhante à necessária para corresponder à luz
ambiente. Sem termos que medir a foto novamente. Fixe? Bastante, quando funciona bem.
Quando não funciona a 100%, podemos normalmente ajustar a potência do Flash na máquina
com a compensação de Flash de -3EV a +3EV, o que também não é difícil.

Introduzindo na máquina a configuração anterior, coloco o Flash num tripé à esquerda da
Câmera, a 45º da modelo, para ficar mais ou menos alinhado com o seu nariz (evitando
sombras no rosto) e disparo uma primeira foto com Flash:


Canon 5DmkIV, 1/200s, f/2.8, ISO 100, Flash
(ignorem ali a softbox no canto, estávamos só a testar)


Como podem ver, a pele da modelo fica logo mais iluminada, e surgem nos olhos as marcas
evidentes do seu uso – os brilhos do disparo – catchlights em inglês – que tornam os olhos
mais vivos e brilhantes.

A imagem de novo não está má, mas vamos dar um look mais cinematográfico baixando a luz
do fundo, para destacar mais a modelo. Como podemos fazer isso? Lembrem-se que
podemos controlar a luz da Modelo com a potência do Flash (obrigado TTL, que trata disso
por nós) e a luz de fundo com... o Tempo de Exposição!

Assim, vamos diminuir o Tempo de Exposição em um pouco mais de um Stop. Em vez de expor
a imagem a 1/200, vamos reduzir esse tempo para 1/640, e repetir a foto. Assim:



Canon 5DmkIV, 1/640s, f/2.8, ISO 100, Flash


Aqui está a imagem que queríamos! Uma modelo destacada, iluminada com flash, “com um
brilhozinho dos olhos”, numa foto apelativa em que a modelo não parece nem um fantasma
nem um torrão de carvão, e o fundo não está completamente branco e sem sentido.

Podem explorar o mesmo principio ao por do sol, numa praia, ou numa rua de cidade. Os
passos são sempre os mesmos:

1) tirar uma foto de prova em modo Prioridade à Exposição, anotando a configuração que a
maquina sugere se gostamos dela (ou alterar a gosto);

2) configurar a máquina para modo Manual com os dados da exposição anterior;

3) introduzir Flash em modo TTL (com tempo, podem experimentar o modo manual no
próprio Flash, que dá mais controlo e coerência de luz entre disparos);

4) acertar a exposição do fundo, baixando ou subindo o Tempo de Exposição.

E é isto. Fotos Strobist sem muito trabalho, em modo preguiçoso. Uma vez acertada a técnica,
podem fazer imagens com mais confiança e criatividade:




Boas Experiências e Boas fotos!

Hugo José Pinto
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