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Resenha de: GNERRE, Maurízio, Linguagem, Escrita e Poder. 1° reimpressão.


edição. São Paulo: Martins Fontes, 1994. 115 p.²

Noemi de Freitas¹

MaurízioGnerre élinguista italiano brasileiro. Nessa obra, Linguagem Escrita e


Poder, o autor aborda vários assuntos e analisa o quadro deficitário da educação
brasileira sobre a linguagem, seus modos de funcionamentos, suas relações com a
cultura e as implicações complexas que a linguagem mantém com a ideologia. Analisa
também os elementos de natureza política, histórica e antropológica.

Esta obra se divide em três capítulos, começando com uma introdução, em que o
autor explica que a linguagem ocupa uma posição central de comunicar ao ouvinte à
posição que o falante ocupa na sociedade em que vive. As pessoas falam para serem
“ouvidas”, às vezes para serem respeitadas, também para exercer uma influência no
ambiente em que realizam os atos linguísticos, como: discurso político, sermão na
Igreja, aula, etc. A produção linguística desse tipo, adquirem valor se realizadas no
contexto social e cultural apropriado. As regras que governam a produção apropriada
dos atos de linguagem levam em conta as relações sociais entre falante e ouvinte. “Essas
tais regras servem para todas as pessoas”, isto é, todas as pessoas têm que “saber”
quando: pode falar e quando não pode, que tipo de conteúdos referenciais lhe são
consentidos, e que tipo de variedade linguística é oportuno que seja usada.

Segundo o autor, somente uma parte dos integrantes da sociedade tem


acesso a uma variedade “culta”, considerada geralmente “a língua”, e associada
tipicamente a conteúdos de prestigio. E essa língua padrão é um sistema associado a um
patrimônio cultural, apresentado como “corpus” definido de valores fixados na tradição
escrita. O autor descreve que as línguas começaram a ser associadas à escrita dentro de
restritos ambientes de poder, e a diferenciação política é um elemento fundamental para
favorecer a diferenciação linguística, e essa variedade linguística, faz as pessoas serem
discriminadas pela maneira como falam.

No primeiro capítulo, se dividi em três partes.Na primeira parte: “Uma


perspectiva histórica”, o autor cita, que na Idade Média, a associação entre a variedade
linguística e o poder da escrita, sempre corresponderam a exigências políticas e
culturais, e expressa que a língua modelo e de poder era o latim, imposta como a “língua
culta”.

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¹Graduanda em Letras / Francês na Universidade Federal de Roraima – UFRR.

²Trabalho apresentado na disciplina de Discurso: Leitura e Produção de Textos e Hipertextos no 2°


semestre de 2014.
Colocar uma variedade oral nos moldes da língua escrita (o latim) foi
uma operação complexa no processo de adequação lexical e principalmente na
sintaxe,sendonecessária a fixação de uma norma constituída pela associação da
variedade já estabelecida como língua escrita com a tradição gramatical greco-latina. O
pensamento linguístico grego apontou o caminho da elaboração ideológica de
legitimação de uma variedade linguística de prestígio.

Somente com o início da expansão colonial ibérica, os moldes da


gramática greco-latina foram utilizados para valorizar as variedades linguísticas escritas,
já associadas com os poderes centrais e/ou com relações economicamente mais forte. A
Espanha e Portugal, no século XIV, afirmaram que a linguagem era usada em torno do
poder. Na corrida para as conquistas coloniais, começa a ser elaborada para a língua
portuguesa uma construção ideológica para elevá-la nos moldes gramaticais. Em 1536,
Fernão de Oliveira, mencionava a expansão da língua portuguesa, entre os povos das
terras, quase cinquenta anos depois, João de Barros, considerou o papel da língua
portuguesa na expansão colonial, enfatizando que a língua é para ele um instrumento de
doutrina e de costumes deixados pelos portugueses no Brasil, mesmo depois que a
dominação colonial acabasse.

O autor enfatiza que a legitimação é um processo que tem como


componente essencial à criação de mitos de origem, instituída como um instrumento de
poder de uma variedade linguística sobre as outras, desenvolvendo-se toda uma
perspectiva ideológica visando a justifica-la. O autor descreve que o valor do
instrumento da linguagem era claramente apreciado no século XVI e a construção do
aparato mítico-ideológico em torno das línguas de “cultura” foi um empenho sério dos
letrados e humanistas. Conforme Nunes Leão, a gramática continua sendo utilizada
como língua do poder político e cultural, e alerta contra as influências negativas de
proveniência plebeia.

Na segunda parte do primeiro capítulo “Uma perspectiva


linguística”, o autor esclarece que os dicionários são instrumentos centrais no processo
chamado de estandardização que constitui um dos aspectos linguísticos do processo
mais amplo de “legitimação”, esses dicionários fornecem definições “escafedera” do
conteúdo referencial de inúmeras palavras altamente relevantes na sociedade. O autor
enfatiza que gramática e dicionários são produzidos por academias nacionais de letras
ou de línguas, que podem interferir ao chamar a atenção da nação para obras literárias e
ao selecionar o léxico “aceitável” da língua e a gramática “oficial”.

Segundo Gnerre, a linguagem pode ser usada para impedir a


comunicação de informações para grandes setores da população, a linguagem constitui o
arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder e para se adquirir os
conhecimentos relevantes e produzir mensagens, está ligada, em primeiro lugar, à
competência nos códigos linguísticos.

No terceiro tópico do primeiro capitulo “Gramática normativa e


discriminação”, o autor descreve que segundo os princípios democráticos
nenhumadiscriminação dos indivíduos tem de ser com base em critérios de raça,
religião, credo político. A única brecha deixada aberta para discriminação é aquela que
se baseia nos critérios da linguagem e da educação. Segundo Gnerre, a gramática
normativa é o elemento privilegiado na linha de poder absoluto, controlada pela
sociedade politica. Sendo essa gramática um instrumento a mais para medir a
desigualdade social.

No capítulo segundo “Considerações sobre o campo de estudo da


escrita”, inicia com uma introdução e vários tópicos. O autor analisa o estudo da
escrita, suas complicações e consequências.Gnerre também ressalta que muitas
contribuições, hoje, consideradas importantes para a área de escrita, foram produzidas
no contexto intelectual de áreas tão diferentes como a filologia clássica, a antropologia,
as comunicações, a psicologia, a educação, e a sociologia.

No terceiro e ultimo capitulo “Da oralidade para a escrita”: o processo


de “redução da linguagem”, Gnerre explica o processo de passagem de uma sociedade
de tradição exclusivamente oral para uma sociedade com uma ou mais variedades
linguísticas escritas e com uma escola formal é um processo complexo que abrange a
totalidade das relações sociais e culturais.

Conclui-se que a linguagem está ligada ao poder, e a classe dominante, e essa


linguagem não respeita a variedade linguística e da escrita existente no Brasil, onde a
grande massa da população fica a mercê de códigos linguísticos feitos para excluir a
comunicação da comunidade linguística externa e reafirmar a identidade dos integrantes
do grupo reduzido que tem acesso a essa linguagem, que é chamada de linguagem
especial.

Linguagem, Escrita e Poder, de Maurício Gnerre, é uma obra acessível a


todos, e especialmente ao público acadêmico de todas as áreas do conhecimento.
Nessaobra, o autor analisou o quadro deficitário da educação brasileira sobre a
linguagem e seus modos de funcionamento, descrevendo sua ligação com as áreas de
política, histórica e antropológica. O autor faz que o leitor pense e pesquise sobre a
linguagem e sua interação com a ideologia.