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OBRAS COMPLETAS

JOSé MATOSO
Volume 3

IDENTIFICAÇÃO DE UM PAÍS
Composição

Cífculo4jeitores
C apa:
Fernando Rochinha Diogo
R evisão tipográfica :
Henrique Barbosa
Fotocompográfica, Lda.
Í n d ic e :
Helena Galante
C artografia :
Fernando Pardal
C om posição :
Fotocompográfica, Lda.

® Círculo de Leitores e Autor


Primeira edição para a língua portuguesa
Impresso e encadernado em Março de 2001
por Printer Portuguesa
Casais de Mem Martins, Rio de Mouro
Edição n.° 5184
Depósito legal n.° 156 265/00
ISBN 972-42-2399-X
SUMÁRIO

Parte II
COM POSIÇÃO

L Mutações ................................................................................................ 13
1.1. Demografia ..................... 13
O estado da questão ............................................................... 13
Variantes regionais da densidade populacional ................. 14
Ritmos de crescimento .......................................................... 16
Redução da natalidade ........................................................... 17
Migrações ............................................*.................................... 18
Crise de 1190-1210 ................................................................ 20
O século xiii ............................................................................ 21
Conclusões ................................................................................ 22
1.2. Tecnologia e economia ...................................................... 24
1080-1130 ................................................................................. 25
1130-1160 ................................................................................. 27
1160-1190 ................................................................................ 28
1190-1210 ................................................................................ 30
1210-1250 ................................................................................. 30
1250-1280 ................................................................................. 32
1280-1325 ................................................................ 36
Conclusões ................................................................................. 39
1.3. Mentalidade e cultura ................................................................. 39
Concepções religiosas emorais: da magia às devoções ... 40
Responsabilidade individual .................................................. 42
Reclusão e clausura ................................................................. 44
Costumes: o dinheiro ........................................................... 45
A poupança ............. 46
Cultura: o sentido damedida ................................................ 47
O sentido do espaço ........................................................... 48
A escrita .................................................................................... 48
Cultura dos leigos ................................................................... 51
Cultura popular ....................................................................... 52
O indivíduo e o grupo: oprivado e o público ................. 54
Conclusão ...................................................... 55

5
2. A monarquia .............................................. ........................................... 57
2.1. O «senhor rei» ............................................................................. 59
O poder senhorial do rei ...................................................... 59
Prestações de origem pública e de origem privada ......... 60
Reguengos e terras foreiras .................................................... 61
Defesa do património régio .................................................. 62
Os bens urbanos do domínio régio .................................... 62
Administração: recolha das rendas ...................................... 63
Administração da justiça .................................................... 65
Almoxarifes ................................................................................ 65
2.2. Regalias .......... 66
A monarquia feudal: a privatização do poder .................. 66
A fragmentação do poder público ...................................... 67
Especificidade da função régia .............................................. 68
O carisma do rei....................................................................... 68
A função régia nos documentos da chancelaria ............... 70
As fórmulas do chancelerJulião ........................................... 71
As concepções de Afonso II ................................................ 73
A plenitude dos dois poderes ............................................... 76
Afonso III e D. Dinis ........................................................... 77
As «regalias» ............................................................................. 78
Concepções de Afonso X em Portugal .............................. 80
A política de D. Dinis .......................................................... 81
Conclusão .................................................................................. 82
2.3. Governo central ........................................................................... 83
A cúria feudal .......................................................................... 84
O alferes e o mordomo .................................................... 84
Remodelações de Afonso II:oficiais inferiores ................. 86
Remodelações de Afonso III ...................... ................. ....... 87
D. Dinis .................................................................................... 87
Os clérigos da cúria ................................................................ 88
O chanceler .............................................................................. 88
O tribunal régio ....................................................................... 91
As finanças régias .................................................................... 93
A cúria régia como conselho ................................................ 94
As cortes .................................................................................... 95
O conselho régio .................................................................... 98
Conclusão .................................................................................. 98
2.4. Governo local ................................................................................ 99
Os ricos-homens e as «terras» .............................................. 100
Os julgados ..................................................................... 100
Relações entre «terras» ejulgados ......................................... 101
Reforma de Afonso III .................................................... 103
Os intermediários: almoxarifes e meirinhos ...................... 105
Os meirinhos-mores ............................................. 106
O rei e os concelhos .............................................................. 108

6
3. A centralização ..................................................................................... 111
3 .1 .0 rei e os senhores ................................................................. 111
O rei e a nobreza como classe social ................................ 112
Os cavaleiros ............................................................................ 113
Afonso III ................................................................................. 113
D. Dinis .................................................................................... 114
O rei como suserano .............................................................. 115
Dificuldades de interpretação .................... .......................... 115
Feudos de função (honores) .................................................. 116
Os alcaides. A homenagem .................................................. 117
Vassalos da casa real ............................................................... 119
Monarquia e feudalismo .......................................... 120
O rei e o regime senhorial até Afonso II ......................... 121
Afonso III ................................................................................. 122
D. Dinis ................................................ ................................... 123
Conclusão .................................................................................. 125
3.2. O trono e o altar ........................................................................ 125
De Afonso I a Sancho I ...................................................... 126
Afonso II: o poder temporal e o poder espiritual .......... 128
A crise de 1245 ....................................................................... 130
Afonso III ................................................................................. 131
D. Dinis .................................................................................... 133
O padroado régio e a nomeação dos bispos .................... 134
As ordens militares ................................................................. 135
O rei e o papado ................................................................... 137
Conclusão .................................................................................. 138
3.3. O rei e os concelhos .................................................................. 138
Antes de 1250 ......................................................................... 139
. Afonso III ................................................................................. 139
D. Dinis .................................................................................... 140
O rei, «senhor» dos concelhos ............................................. 141
Vínculo feudal e vínculo «natural» ..................................... 142
Ideologia monárquica .............................................................. 143
O rei, «protector» dos concelhos ........................................ 143
Conclusão .................................................................................. 146

4. Regnum .................................................................................................. 147


4.1. Coesão ............................................................................................ 147
Geografia histórica: estruturações regionais ........... ............ 147
As paróquias suévicas .............................................................. 148
As circunscrições islâmicas ..................................................... 150
O «repovoamento» do século ix: Portucale e Coimbra .. 150
As dioceses ............................................................................... 151
A supremacia de Portucale ...................... ............................ 152
As metrópoles eclesiásticas ....................... ............................ 153
A evolução da rede administrativa ...................................... 155
A sede da corte régia .............................................................. 156

7
Papel das cidades .................................................................... 157
Regiões e províncias ............................................................. 159
Contactos humanos ............................................................. 159
O «sistema nervoso» docorpo nacional .............................. 161
As fronteiras ............................................................................. 162
Conclusão .................................................................................. 164
4.2. Identidade ...................................................................................... 164
A chancelaria ............................................................................ 165
Sinais de validação .................................................................. 165
O escudo do rei ..................................................................... 166
Rex portugalensium ....................................... 167
Regnum ...................................................................................... 168
Historiografia ............................................................................ 169
Os clérigos ................................................................................ 170
A nobreza e as suas/Contradições ........................................ 173
Os meios populares: osconcelhos ........................................ 174

Conclusão ........................................................... 177

Siglas ............................................................................................................ 185


Fontes ..................................................................................................... 189
1. Fontes narrativas e literárias .................................................... 189
2. Colecções documentais ede textos ......................................... 190

Bibliografia ................................................................................................ 193

índice ....................................................................................... 223

Documentação Gráfica ............................................................................ 237

8
PARTE II
COMPOSIÇÃO
Recordemos coisas já ditas: a diferença entre o Norte senhorial e o
Centro e Sul concelhios, entre a montanha e a planície, o campo e a cida­
de, as tradições islâmicas e as cristãs. Mas isto não esgota a história de Por­
tugal. Apenas explica alguns fenómenos. Depois de ter acentuado a oposi­
ção, não é menos importante mostrar como os dois conjuntos iniciais se
fundiram num só. Não de uma só vez, nem por caminhos lineares e rápi­
dos, mas por um completo feixe de causas que só puderam actuar em de­
terminadas condições, através de um processo lento e cheio de vicissitudes.
Já no princípio apontava como vectores da integração as transferências
da população que trazem do Norte os excedentes populacionais e os distri­
buem pelo Centro e Sul, o desenvolvimento económico e tecnológico, que
uniformiza a civilização material e desenvolve as trocas a partir das cidades,
a formação de uma classe dominante nacional comum às diversas regiões
e a edificação de um poder estatal único personificado no rei. Dado que o
fenómeno nacional é de natureza política, bastar-me-á evocar, sem grande
demora, as transformações demográficas, económicas e tecnológicas que
criaram as condições para que a Coroa, suportada pela classe dominante,
pudesse tornar-se o motor efectivo da unificação política. A análise dos
problemas centrais desta parte deverá, portanto, ser precedida de um capí­
tulo sobre as transformações do terreno material em que a história social e
política se move, e ainda sobre a evolução mental que permite o desenvol­
vimento das forças unificadoras. A sua parte central é constituída pela his­
tória política. Nela tratarei, primeiro, da definição da monarquia feudal e
senhorial que se estabeleceu no nosso país e, depois, da maneira como se
sobrepôs às forças divergentes e as absorveu. Tentarei, finalmente, dar ideia
dos resultados a que esta política conduziu e da formação de uma cons­
ciência nacional.

11
1.

Mutações

1.1. Demografia
Por mais elementares e inseguros que sejam os dados de que se pode dis­
por acerca dos quantitativos da população portuguesa antes da era estatísti­
ca, nem por isso podemos deixar de os examinar, dada a repercussão que a
demografia tem em todos os domínios da existência humana.

O ESTA D O DA Q U ESTÃ O

Comecemos por lembrar que actualmente se considera como dado adquiri­


do o fenómeno do crescimento global da população europeia durante os
séculos xi a xni. Embora as investigações sobre as quais se baseia esta
conclusão dependam sobretudo de dados colhidos na Europa setentrio­
nal, é também considerado por alguns autores um fenómeno que englo­
bou igualmente a Europa mediterrânica e, concretamente, a Península
Ibérica. É bem de ver a importância desta questão. Se se provar que esse
aumento atinge também a Península durante o mesmo período, teremos
de incluir num contexto de «expansão» a primeira fase da história nacio­
nal. Mais ainda: se o crescimento demográfico europeu explica as cruza­
das, a ocupação da Alemanha de Leste, os desbravamentos em meio ru­
ral, a multiplicação de paróquias, o crescimento das cidades, a activação
dos novos inventos técnicos e da produtividade agrícola, e o desenvolvi­
mento do comércio, característicos dos séculos xi a x m 1, teremos tam­
bém de colocar neste contexto a própria origem da nacionalidade. Ou se­
ja, a criação de uma nova unidade política na zona de fronteira entre a
Cristandade e o Islão, e o seu crescimento e sucesso à custa de Al-Anda-
luz não se poderiam explicar independentemente de um fenómeno de­
mográfico. A superioridade numérica verificada no Norte da Península
seria a razão das vitórias militares e da deslocação do centro político para
o Sul. Uma vez conquistado todo o território, a expansão demográfica
nortenha seria ainda responsável, em primeira instância, pela absorção
política e cultural do Centro e do Sul do país por uma unidade política
nascida no Norte.
Hipótese sedutora, até pela sua própria simplicidade. Desde já declaro
adoptá-la, nas suas linhas gerais, embora com as atenuações e os limites

1 L. Genicot, 1953; J. C. Russel, 1958.

13
que indicarei a seguir e com o cuidado de a manter como proposta de ex­
plicação, uma vez que não vejo outra da mesma amplitude para a série de
fenómenos que indicarei. Admito, porém, que não é totalmente segura e
sobretudo que a sua incidência depende da respectiva amplitude. Ora, esta
é impossível de medir com rigor.
Começarei por reconhecer que não convence toda a gente. Sánchez-Al-
bornoz, por exemplo, fala constantemente na «sede de homens» durante o
movimento da Reconquista e na inutilidade dos esforços dos chefes para os
recrutarem2. Ch.-E. Dufourcq atribui menos peso ao crescimento popula-^
cional da zona pirenaica do que à política dos reis e condes que obrigaram
à emigração para terras alheias3. A sua opinião é generalizada para o con­
junto da Península por Angus Mackay4. E idêntica à que Robert Durand
adopta para o território português de entre Douro e Tejo5 e à que Reyna
Pastor formula para a Galiza nos séculos xm e xiv6. De opinião contrária
são outros autores mais recentes da historiografia espanhola que aceitam a
referida tese e baseiam sobre ela a sua interpretação7, sem todavia se atreve­
rem a definir os limites do crescimento, os ritmos e oscilações da curva de­
mográfica ou os principais itinerários dos movimentos migratórios. Ora,
estes autores não se contentaram, como aqueles, com sondagens e interpre­
tações globais de testemunhos dispersos, mas procederam a análises de sé­
ries contínuas e de base estatística8. É destes, efectivamente, que temos de
partir.

V a r ia n t e s r e g io n a is da d e n s id a d e p o p u l a c io n a l

Comecemos por fazer notar que o quantitativo global, muito vago, de


cerca de um milhão de habitantes em Portugal, transmitido pelos autores
que têm ligado importância ao problema9, é manifestamente insuficiente
para o que nos interessa. Avançando um pouco mais, comecemos por re­
ferir os dados fornecidos por A. de J. da Costa para a zona de entre Lima
e Vizela, a partir das inquirições de 1258. Tendo aí contado 21 794 ca­
sais, admitiu que aí vivesse uma população de uns 108 970 habitantes i a
cinco por casal)10. Devo considerar este quantitativo como mínimo, pois o
casal não se pode considerar uma unidade habitacional equivalente à casa
ou fogo, para o qual se utiliza normalmente o multiplicador 3,5 a 511. De
resto, a série de indicações que apontei mais acima12 levou-me a admitir

2 Cl. Sánchez-Albornoz, 1966, p. 339.


3 Ch.-E. Dufourcq, 1976, pp. 43-44.
4 Angus Mackay, 1980, pp. 48-31.
5 Robert Durand, 1982a, pp. 66-94. *
6 Reyna Pastor de Togneri, 1990, p. 176.
7 J. A. Garcia de Cortázar, 1973, pp. 179-183; id., 1983, pp. 24-25, 71-76; J. Valdeón Baru-
que, 1980, pp. 94-95.
8 Reyna Pastor, 1990, usa dados quantitativos, mas baseados fundamentalmente na evolução
do número global de prazos. Parece-me que este indicador não constitui base segura para avaliar a
evolução dos efectivos populacionais.
9 A. H. de Oliveira Marques, 1971, p. 1.
10 A. de J. da Costa, 1959, I, p. 231.
11 Ver as dúvidas que o multiplicador 4,5 suscita a V. Rau, 1965, pp. 7-20. Apesar de tudo
mantém-se como base normal de cálculo: J. J. Alves Dias, 1982, pp. 137-140.
12 Ver vol. II, p. 34-35.

14
como frequentes os aglomerados familiares alargados e múltiplos, o que
necessariamente faria subir os resultados obtidos. Tomemos, por isso, co­
mo base de cálculo, uns 120 000 habitantes para entre Douro e Lima, ex­
cluída a diocese do Porto.
Traduzindo os números em densidade por quilómetro quadrado, te­
ríamos assim, para este território, cerca de 40 h/km2. Ora, este quantita­
tivo é muito inferior ao que se encontra na íle-de-France algumas dezenas
de anos mais tarde (120 a 150 h/km2), mas comparável ao proposto para
o conjunto da França na mesma época, ou seja, 30 h/km213. Atingimos,
assim, em Entre-Douro-e-Minho, níveis próximos do país mais povoado
da Europa medieval. De facto, na Polónia havia, em 1340, 8,8 h/km214.
N o conjunto da Península Ibérica, à volta de 11 h/km215, para o fim do
século xm . De toda a maneira estamos, portanto, dentro de limites vero­
símeis.
Todavia, nada permite supor densidade semelhante no resto do país.
Tomemos agora como base objectiva de cálculo o numeramento dos tabe­
liães do fini do século xm , estudado por Oliveira Marques1314516. Consideran­
do, por aleatória que seja a base, a relação entre o número de tabeliães e a
área do território que eles servem, e, em seguida, uma proporção paralela
para as diferenças regionais da densidade populacional, chegaríamos aos se­
guintes resultados:

Regiões 1 tabelião/km2 Habitantes/km2 Total habitantes

E. Lima e Minho 100 29,4 44 100


E. Douro e Lima 73 40 120 000
Porto 136 21,5 32 250
Lamego 160 18,2 43 680
Viseu 177 16,5 64 350
Coimbra 566 5 44 500
Guarda 576 5 49 000
Trás-os-Montes 520 5,6 61 600
Estremadura 10717 27,4 164 400
Alentejo 1200 2,4 72 000

Embora estes cálculos se devam considerar de mero exercício, podem,


todavia, aproximar-nos da realidade. Os quase 700 000 habitantes aqui en­
contrados representam, decerto, um quantitativo inferior ao da população
real, mas as densidades apontadas poderão considerar-se uma ordem de

13Guy Fourquin, 1969, p. 174.


14 L. Genicot, 1968, p. 58.
15 Garcia de Cortázar, 1973, p. 38.
16 Oliveira Marques, 1980, pp. 68-69.
17 Incluindo o número de tabeliães de Lisboa, uma vez que se trata do cálculo da densidade da
população e esta devia ser numerosa nesta cidade e nos arredores.

15
grandeza verosímil, em termos comparativos. Mostra que durante a segun­
da metade do século xm se verificam grandes desníveis na densidade habi­
tacional.

R it m o s de c r e s c im e n t o

O resultado diz respeito ao período 1258-1290. Ora, como veremos


adiante, encontram-se vários indícios de que representava a consequência
de aumentos consideráveis sucessivamente acumulados desde meados do
século xi. É muito difícil determinar os ritmos de crescimento para épo­
cas em que as séries documentais fornecem tão poucos elementos apro­
veitáveis, mas nem por isso deixaremos de apontar o que a tal respeito se
pode referir.
Podemos, por isso, começar por comparar os dados baseados no nú­
mero de filhos por casal fecundo, calculados pelas médias dos registos ex­
pressos na documentação de Leão e Castela, encontrados por dois auto­
res, cujas observações se podem comparar, apesar de os resultados serem
muito diferentes, e aproximá-los também dos de Feuchère para a França.

Pastor18 Kofman19 Feuchère20

séc. X 2,6 3,0 3,8


séc. XI 2,65 (+ 1,8%) 2,65 (- 13,2%) 4 (+ 5,26%)
séc. X II 2,95 (+ 11,0%) 3,6 (+ 35,8%) 5,5 (+ 37,5%)
séc. X III 3,3 (+ 11,8%) 3,36 (- 7,1%) 5 (- 2,75%)

Desta tabela retenhamos apenas, como conclusão, que estes autores


concordam em admitir um aumento considerável do número de filhos por
casal, do século x i para o século x i i .
N o entanto, o aumento de 1 1 a 35,8 % entre os anos 1100 e 1200
pode ser um cálculo baixo. É o que se pode talvez concluir de uma análi­
se detalhada feita por M. H. da Cruz Coelho a partir do número de ca­
sais registados nas inquirições de 1220 e de 1258, em sessenta e nove fre­
guesias do julgado de Guimarães21. É verdade que a contagem pode ser
enganadora. A aceitá-la tal e qual, a população desta terra teria aumenta­
do 45 % em trinta e oito anos, o que daria uma percentagem anual de
1,053% (ou de 0 ,9 8 % segundo uma correcção admitida pela autora).
Ora este quantitativo, a ser real, atingiria um ritmo superior ao ao crescimen­
to da população portuguesa durante o período em que ela alcançou o máxi­
mo de toda a história, ou seja, de 0,88 % entre 1900 e 1950. Assim, ou este

18 R. Pastor de Togneri, 1967, pp. 102-104.


19 L. Kofman e M. Inés Carzollo, 1968, p. 165.
20 P. Feuchère, 1951, pp. 315-318. A diferença entre as médias peninsulares e a deste autor
pode resultar quer de a natalidade ser superior em França quer de ele ter registado apenas famílias
nobres, cuja fecundidade devia ser maior. Registe-se também que a partir de uma lista de 366 ser­
vos do mosteiro de Samos, na Galiza, de meados do século xi, permite calcular a cifra de 3,15 fi­
lhos por casal — superior, portanto, às cifras apontadas para esta época por R. Pastor e por
L. Kofman (R. Pastor de Togneri, 1990).
21 M. H. da Cruz Coelho, 1981, pp. 519-520.

16
resultado é superior à realidade, ou constitui um fenómeno específico da
região e distorcido em virtude da imigração. Mesmo assim, temos de ad­
mitir um extraordinário aumento demográfico durante a primeira metade
do século x i i i . Este aumento talvez tivesse ultrapassado ritmos da ordem
dos 10 a 30 % em Entre-Douro-e-Minho no período que vai de 1150 a
1250. De facto, a mesma autora, baseada num cálculo análogo sobre vinte
freguesias da terra da Nóbrega, verificou aí um crescimento populacional
de 13,9 % entre 1220 e 125822. Crescimento enorme se tivermos em con­
ta a mortalidade infantil, o retardamento da data do casamento, a frequên­
cia de celibato e o elevado índice de masculinidade, como veremos em se­
guida. Os fenómenos voluntários a seguir indicados representam, no
entanto, como veremos também, medidas tendentes justamente a conter
ritmos de crescimento excessivo.

R edução da n a t a l id a d e

A mortalidade infantil não se pode medir, apesar de se dever considerar al­


ta em virtude da falta de cuidados de higiene. Mas há tentativas para en­
contrar ordens de grandeza para a esperança de vida para os que ultrapas­
sam os dez anos de idade: 42 anos no século xi e 44 no século x i i , dentro
da nobreza castelhano-leonesa segundo R. Pastor23. Bastante bom, e vero­
símil quando se compara com o que Russel aponta para a Polónia nos sé­
culos xii-xrv (31,4 anos) e para a Inglaterra na mesma época (30,9 anos),
ou para a Hungria antes da Peste Negra (32,55 anos)24. A diferença deve-
-se certamente ao facto de estas médias englobarem o conjunto da popula­
ção, e aquelas, só a nobreza. De qualquer maneira é importante registar o
aumento da esperança de vida do século xi para o século x i i .
Quanto à idade do casamento, que R. Pastor também tentou averi­
guar a partir de dados fornecidos pela família régia, verifica-se a tendên­
cia para a antecipação do casamento feminino dos 15 anos (séc. xi) para
os 14,7 (séc. x i i ) e, depois, o retardamento para os 16,4 anos (séc. x i i i ) ,
enquanto nos homens se assiste à tendência constante para o antecipar,
dos 25 para os 20,9 e os 18 anos, nos mesmos séculos25. Assim, o au­
mento da natalidade trazido pela antecipação do casamento feminino no
século x i i corrige-se depois pelo seu retardamento. Resultado provável
não tanto, no caso da família régia, para obstar à natalidade excessiva a
que a referida alteração podia ter dado lugar, mas em virtude do aumento
do índice de feminilidade. Com efeito, as observações da mesma autora
sobre documentação de todo o género mostram a sua tendência para au­
mentar até ao fim do século x i i e depois para voltar ao nível do século
anterior26.

22 M. Helena Coelho, 1990, I, p. 175.


23 R. Pastor de Togneri, 1967, p. 106.
24 J. P. C. Russell, 1965, p. 87.
25 R, Pastor de Togneri, 1967, p. 99.
26 Ibid., p. 102.

17
Homens Mulheres

séc. x 197 100


séc. xi 158 100
séc. xii 137 100
séc. xiii 157 100

Estas proporções, embora distorcidas pelo facto de a menção de mulhe­


res na documentação ser fatalmente inferior à realidade27, mostram, em todo
o caso, uma tendência que vem confirmar tudo o que até agora foi observa­
do, isto é, o aumento da natalidade no século xii e o aparecimento de medi­
das para o conter pelo menos no século xm. A tendência para o maior equi­
líbrio entre os dois sexos constitui efectivamente uma das mais importantes
causas do aumento da natalidade. Ora o desequilíbrio verificado no século x
atenua-se pelo constante crescimento do número de mulheres nos séculos xi
e x ii . O que se passa em Leão e Castela verifica-se também em Portugal, on­
de se observa a súbita multiplicação dos mosteiros femininos em Entre-
-Douro-e-Minho durante a segunda metade do século xii 28.
Os dados apontados pela mesma autora acerca da frequência do celibato
contribuem para confirmar o fenómeno: 48 %, 56 % e 50 % dos adultos,
respectivamente nos séculos xi, xii e xm 29. De novo exagerados em relação
com a realidade, importa todavia reter deles a tendência para o aumento da
proporção entre os anos 1100 e 1200. Fenómeno que encontra a sua mani­
festação em Entre-Douro-e-Minho através do impressionante aumento do
número de fundações monásticas durante o século xi e ainda, mas em ritmo
menor, no século xii , como vimos na parte I do volume II.
Tendo verificado que os fenómenos observados por Reyna Pastor para
Leão e Castela se observam igualmente entre nós, como indicam as conse­
quências indirectas já apontadas, não podemos deixar de admitir que a po­
pulação de Entre-Douro-e-Minho tenha aumentado, o mais tardar desde
meados do século xi, ao ponto de ter de recorrer pelo menos a uma forma
de líinitação da natalidade, que consistia na abstenção do matrimónio. Veja­
mos, portanto, se se terá recorrido a outro processo paralelo, o da emigração.
Este interessa-nos vivamente, em virtude das suas consequências históricas.

M igrações
Comecemos por verificar que o número de paróquias da diocese de Braga
alcançou o limite máximo já no fim do século xi30. Aconteceu o mesmo
no Porto, pelo menos desde meados do século x i i 31.

27 R. Pastor de Togneri, 1990, verificou a partir da já referida lista de servos do mosteiro de


Samos um índice de masculinidade de 133 h/100 m2, para meados do século xi.
28 J. Mattoso, 1985, pp. 197-223.
29 R. Pastor de Togneri, 1967, p. 98.
30 A. de J. da Costa, 1959, I, pp. 218-235.
31 C. A. dos Santos, 1973, pp. 53-65; Domingos A. Moreira, 1973, pp. 103-113.

18
Depois mantém-se estacionário, e até se verifica, em relação ao século xvi,
um considerável fenómeno de anexações e de supressões de freguesias.
Deu-se, portanto, um fenómeno de saturação tal que impediu o aumento
do número de paróquias. Ora, se a população continuava a aumentar nos
mesmos lugares, mas as estruturas administrativas se mantinham, o fenó­
meno só pode significar o recurso à emigração. Este encontra uma nova
confirmação na cartografação dos mosteiros fundados durante os séculos xi
a xiii a norte do Douro32. Os do século x distribuem-se a uma certa dis­
tância uns dos outros e numa área relativamente vasta. Depois assiste-se a
uma autêntica explosão fundacional sobretudo em entre Lima e Ave. No
século xii, esta zona está de tal modo saturada que se recorre a supressões e
anexações; há ainda algumas fundações novas na diocese do Porto, mas a
maioria escolhe o norte do Lima e o leste do Tâmega, a margem sul do
Douro e a Beira Alta. Movimento reforçado neste mesmo século pelas co­
munidades eremíticas, que, não podendo viver nas regiões densamente ha­
bitadas, fazem da fiiga para o «deserto» um ideal, procurando as terras po­
bres e inóspitas.
Efectivamente a emigração procurou, antes de mais, a periferia das ter­
ras mais habitadas. Oliveira Marques, que contabilizou as vilas novas por­
tuguesas, fez notar que, das 124 registadas para todo o país, 75 se situam
a norte do Douro ou no seu vale, sem incluir Trás-os-Montes, enquanto a
sul do Mondego só aparecem 2233. O número aumentaria juntando-lhe as
vilas meãs {vilUe medianae), que se fundavam nas fronteiras de outras duas
já existentes, e que também abundam para esta zona. A primeira emigração
foi, portanto, de raio curto, como habitualmente ocorria na Idade Mé­
dia3 , mas alastrava sem cessar.
Não se pense, todavia, que o fenómeno do povoamento disperso e da
expansão de Entre-Douro-e-Minho para as terras mais próximas se limita
ao Norte do país. A ocupação desta zona não foi suficiente para conter a
pressão demográfica, porque se encontram numerosos indícios de ela ter
atingido o baixo Mondego e a Estremadura durante o século x i i i , como
demonstrou M. H. da Cruz Coelho. Esta autora definiu com rigor o pro­
cesso de expansão da gente das terras mais produtivas em direcção às mais
pobres, num aro cada vez maior em relação aos centros mais precocemente
habitados, e, para o fim do século, o recurso ao aproveitamento dos pânta­
nos, ao desbravamento de matas e à fundação de povoações no litoral35.
A pressão demográfica é, sem dúvida, responsável pelas tentativas de
aproveitamento de terras áridas e ingratas, que os anos maus depois obri­
gam a abandonar, porque aí veio a reinar a fome. Daí os fenómenos de
abandono de algumas terras, como Coja, que o bispo de Coimbra repo­
voou em 1260 (Leg. 695), ou como aquelas para as quais os senhores,
desejosos de delas tirarem rendimentos, em vão tentavam recrutar culti­

32 Ver o mapa 10.


33 A. H. de Oliveira Marques, 1982, p. 73. O fenómeno das aldeias novas, também por ele re­
ferido, é mais tardio. O termo aldeia, procedente do Sul, talvez não se use ao norte do Douro an­
tes do século x i ii .
34 Iria Gonçalves, 1978, pp. 392-397.
35 M. H. Coelho, 1983, pp. 12-17 e fig. 1.

19
vadores. Estes fenómenos foram registados por R. Durand, mas por ele
indevidamente generalizados para o conjunto da região entre Douro e
Tejo36. Pelo contrário, não faltava gente para se aglomerar na periferia das
cidades, algumas das quais cresciam incessantemente nas terras férteis da
Estremadura e do Ribatejo37. As regiões mais pobres são, obviamente,
aquelas onde a recessão demográfica do século xrv se faz sentir mais cedo.
Assim acontece no termo da Guarda antes de 133038. Na região de Coim­
bra, pelo contrário, não parece haver indícios de despovoamento antes da
década de 1340, em que se deu a Peste Negra, apesar da fome de 133339.
Da existência de gente pobre e de marginalizados à volta das cidades
da Estremadura não faltam indícios já desde o século x i i . Efectivamente, a
Vida de São Martinho de Soure atribuiu-lhe a especial virtude de socorrer
os inúmeros pobres que havia nessa localidade à beira da fronteira com os
Mouros40. Em 1179, quando Afonso Henriques deixa grandes somas de
dinheiro para obras pias, reserva algumas especialmente para os pobres
de Lisboa, Santarém, Coruche, Abrantes, Tomar, Torres Novas, Ourém,
Leiria e Pombal, sem contar o que destina aos pobres de cada diocese, en­
tre as quais Lisboa e Coimbra (D R 334). Eram estes pobres e marginais
que provavelmente engrossavam os bandos de cavaleiros e de peões quê
partiam de Santarém para tentar pilhar povoações como Alcácer do Sal
apesar de nem sequer terem armamento de ferro (ADA, p. 157), mas cujo
ímpeto lhes permitiu conquistar Évora (ADA, p. 158). Eram eles, iguàl-
mente, como os «malcalçados» de Cid, o Campeador, que sob o seu co­
mando tentavam escapar à fome e à «coita»41, os latrones recrutados por
Geraldo Sem Pavor (ADA, p. 158), que durante tantos anos constituíram
o terror dos mouros de Badajoz e de todas as povoações à sua volta42. Pe­
los relatos que dos seus ataques fizeram os autores árabes, pode admitir-se
que não constituíssem grandes exércitos. Mas o que importa é verificar a
coincidência do seu aparecimento com a época em que se registam os exce­
dentes demográficos no Norte, e a aglomeração de gente nas cidades e vilas
da Estremadura. É daí que nascem os pobres e os aventureiros que a socie­
dade de então não consegue enquadrar.

C r ise de 1190-1210
Pelos fins do século x i i , a pressão demográfica diminui ligeiramente, em
virtude da intensificação das investidas almóadas de 1181 a 119543, o que
deve ter provocado o refluxo da população da linha do Tejo, que tenta re­

36 Robert Durand, 1983a, pp. 66-94 e, sobretudo, pp. 85-93.


37 J. Mattoso, 1985, pp. 329-345; id.y 1985b. Ver fig. 23. A disparidade regional da distribui­
ção geográfica e da organização do espaço verifica-se também na Estremadura castelhana, mesmo
numa área relativamente reduzida, como a diocese de Ávila: Angel Barrios Garcia & A. Martin
Exposito, 1983, pp. 113-148.
38 Rita Costa Gomes, 1987, p. 101.
39 M. Helena Coelho, 1983, pp. 17-26.
40 Vita S. Martini Sauriensis, in SS, p. 61b; cf. J. Mattoso, 1982b, pp. 298-300.
41 Poema de Mio Cid., v. 1023, 1189-1190.
42 David Lopes, 1940, pp. 95-109.
43 À. Huici Miranda, 1954, p. 37; A. B. da Costa Veiga, 1956, pp. 329-339.

20
gressar às cidades ou voltar ao Norte, mas sobretudo por causa de uma sé­
rie de maus anos agrícolas pelos anos 1191 ou 1196 a 1199, que assolaram
particularmente a Terra de Santa Maria (Feira), Braga e a Galiza. Seguir-
-se-iam graves intempéries em Évora, Santarém e Coruche em 1216 e
1218. Sentiam-se, assim, no nosso país, fomes paralelas às que assolaram o
resto da Europa e o Norte de África entre 1193 e 1197, e a Inglaterra em
120244. A fome obrigou muita gente da zona de Gaia, Viseu e Entre-os-
-Rios a vender as suas terras45. Os cónegos de Braga tinham de empenhar
as suas propriedades para se alimentarem antes de 1206 (LF 498), e o papa
Inocêncio III responde a uma consulta do arcebispo de Braga, declarando
que não deverão fazer penitência aqueles que durante a Quaresma come­
ram carne em tempo de fome, no qual a maioria da gente morria por falta
de víveres (MHV, I, n.° 329, de 1206 = BPIn. III, n.° 109). Daí resulta­
ram agitações populares da gente faminta que desencadearam a revolta
burguesa do Porto de 1208 a 121046, as agitações de 1207 em Lisboa47, as
pilhagens dos coutos de Alcobaça pouco antes de 121048, os protestos dos
clérigos de Leiria no ano seguinte49, as questões entre o mosteiro de Ta-
rouca e os seus vizinhos50.

O SÉ C U L O X III

Mas os maus anos agrícolas parecem, depois, ter cessado quase por com­
pleto. Nem os da Europa central de 1224-1226, nem os mediterrânicos de
1226, 1232 e 1237-1238 se registam entre nós. Os de 1255-1262, que
afectaram gravemente Leão e Castela51, pelo contrário, devem ter-se feito
sentir também em Portugal. As dificuldades de abastecimento de trigo ain­
da se faziam sentir em 1268-1272 por ocasião dos anos maus da Europa
atlântica desse mesmo período52, a seguir ao qual se regista na Beira um
surto de peste, em 127353. Enfim, o ano mau de 1293 no Mediterrâneo
coincide aproximadamente com a notícia da falta de pão na Estremadura
em 129554.
Assim, se as calamidades da passagem do século x i i atenuaram mo­
mentaneamente a pressão demográfica, não evitaram as novas acumulações
de gente, não menos intensas do que as do século anterior, como se pode
deduzir da já mencionada comparação das inquirições de 1220 com as
de 1258. Ela é talvez responsável pelo recrudescimento do banditismo e da
agitação social que precedeu a guerra civil de 1245 e se prolongou pelo

44 C. 1419 (ed. Magalhães Basto), pp. 153-154; Chronicon Conimbricense, in SS, p. 3b;
C. 1419 (ed. Silva Tarouca), I, pp. 175-177; A. H. de Oliveira Marques, 1978, p. 37.
45 J. Mattoso, 1985, pp. 389-408.
46 Herculano, 1980, v. II, pp. 140-145.
47 Gérard Ptadalié, 1975, p. 29; LPA, p. 148.
48 D S 212, 213, 214, 215.
49 J. Mattoso, 1985b.
50 A. Femandes, 1976, does. de pp. 296-297, 299.
51 S. Aguadé Nieto, 1980.
52 A. H. de Oliveira Marques, 1978, p. 38.
53 M. Gonçalves da Costa, 1979, II, p. 89.
54 Oliveira Marques, 1978, pp. 38-39.

21
menos até 1250, registando-se principalmente nas áreas mais densamente
habitadas, ou seja, nas dioceses de Braga, Porto e Lamego55.
Durante a segunda metade do século xm , a intensificação das activida-
des económicas permite, segundo parece, equilibrar melhor os níveis da
população e dos recursos alimentares. Efectivamente, a criação de feiras56,
a construção de pontes e igrejas57, o surto do comércio marítimo interna­
cional58, a diminuição da pirataria muçulmana no Atlântico, a prosperida­
de das cidades parecem indicar um certo domínio da situação. De facto,
parece ter-se conseguido durante algum tempo aumentar a produtividade
por meio da secagem de pântanos ou o arroteamento de montes e de ma­
tas59, e a intensificação das actividades piscatórias60, ou mesmo a generali­
zação de melhores técnicas agrícolas, como a melhoria dos processos de as-
solamento, o desenvolvimento da criação de gado, o uso de instrumentos
de ferro, sobretudo do arado61, a utilização de plantas azotadas e a intensi­
ficação do cultivo de leguminosas62.
Estes processos, todavia, não impedem as carestias de pão registadas em
1267, 1273 e 1295, e muito menos as novas fomes que se abaterão sobre o
país a partir de 1331 e anunciam a grande depressão do século xiv. Antes
delas, é provável que já a guerra civil de 1319-1324 fosse agravada por um
mal-estar generalizado, eventualmente resultante de carestias paralelas às
que se registaram na Europa do Norte entre 1314 e 131963- Como se sabe,
uma das teorias mais em voga acerca das catastróficas consequências çla
peste é a que vê na fome generalizada a debilitação da gente incapaz de re­
sistir à doença. Mas a fome, por sua vez, resultaria da incapacidade para
absorver uma população excessiva para os recursos então disponíveis, e que
a rudimentar tecnologia produtiva não conseguia aumentar64. O nosso
país, pelos vistos, não escapou também à peste. Talvez em virtude das mes­
mas causas. A análise do caso do baixo Mondego por M. H. da Cruz Coe­
lho parece confirmar esta hipótese65.

C o n clu sõ es

Assim, apesar das lacunas e incertezas deste panorama, e da falta de dados


quantitativos que permitam definir a amplitude dos fenómenos detectados,
podemos apresentar o seguinte panorama como resposta à pergunta inicial:
a Reconquista não resulta do crescimento demográfico, mas tem muito a

55 J. Mattoso, 1985, pp. 57-75.


56 V. Rau, 1943.
57 J. Mattoso, 1985, pp. 149-169.
58 Oliveira Marques, 1982, pp. 162-169.
59 M. H. Coelho, 1983, pp. 41-69. Testemunhos noutros lugares da Estremadura: M. Heleno,
1922; C. M. Baeta Neves, 1 9 8 0 ,1, does. 22, 23, 26, 31, 36, 39, 69; J. C. de Sousa, doc. 10; arro­
teamentos no Alto Minho, entre 1258 e 1307: M. Helena Coelho, 1990, I, p. 208.
60 A. Sampaio, 1923, pp. 255 e segs.; V. Magalhães Godinho, 1983, IV, pp. 120-124.
61 Oliveira Marques, 1978, p. 97; M. H. Coelho, 1983, pp. 201-214.
62 Numerosos testemunhos de identificação do seu cultivo na periferia das cidades, como vere­
mos adiante. Cf. E. Portela, 1976, pp. 124-130, para a região de Tuy.
63 Oliveira Marques, 1978, pp. 39-40.
64 J. A. Garcia de Cortázar, 1983, pp. 41-45.
65 M. H. Coelho, 1983, pp. 5-81.

22
ver com ele. Temos pelo menos a certeza de que houve um crescimento
populacional importante que foi certamente excessivo na zona de maior
densidade, Entre-Douro-e-Minho, e que levou durante o século x i i à ex­
pansão da sua gente para as áreas menos povoadas de entre Lima e Minho,
o vale do Tâmega, as margens do Douro e o litoral a sul deste rio, até ao
Mondego. É, decerto, por uma paralela saturação de gente que os bandos
marginais se dirigem para o Sul, onde constituem os «pobres» das povoações
da Estremadura, e alimentam as expedições de conquista e pilhagem na
fronteira do Tejo, durante a segunda metade do século x i i . O refluxo da po­
pulação da fronteira que foge aos Almóadas entre 1180 e 1195 aumenta a
pressão demográfica, mas esta diminui logo a seguir em virtude das fomes
e pestes de 1190-1210. Depois cresce de novo. Durante toda a primeira
metade do século x i i , os excedentes alimentam um banditismo endémico
nas zonas mais povoadas de Entre-Douro-e-Minho e da Beira Alta, as lutas
entre bandos de nobres e a guerra civil de 1245-1248, e a agitação social
que a prolonga pelo menos até 1250. Vencida a crise trazida pelas fomes
de 1255-1262, segue-se uma expansão e, ao mesmo tempo, parece, o ra­
zoável equilíbrio entre a população e os recursos, perturbada apenas por
fomes ou pestes episódicas e talvez de âmbito regional em 1267, 1273 e
1295, ao mesmo tempo que os senhores tentam canalizar os excedentes pa­
ra as zonas ainda despovoadas. Mas os que podem, preferem acumular-se
nos espaços intercalares da Estremadura, no Ribatejo, na península de Se­
túbal e, em menor grau, nas cidades do Alentejo. As cidades crescem enor­
memente neste período (fig. 23) e os senhores, como veremos, aumentam
as rendas e exacções. No princípio do século xrv, a guerra civil faz pressen­
tir novos desequilíbrios que se vão agravando até ao desencadeamento da
grande depressão dos anos 30 e 40.
Não esqueço que a questão demográfica me interessa como elemento
para explicar a formação nacional e a superação da oposição entre o Norte
senhorial e o país concelhio. De facto, os movimentos populacionais, mes­
mo quando não chegam a provocar grandes deslocações de massa, levam a
transferências importantes, num movimento cuja tendência constante tem
o sentido norte-sul e oeste-este. É ele que sustenta a senhorialização do vale
do Douro, de Trás-os-Montes, de parte da Beira, da Estremadura e, depois,
do Alentejo. É também responsável pelo crescimento das cidades, pela fixa­
ção do rei, da corte e de muitos nobres em Coimbra, Lisboa, Santarém,
Evora e em várias povoações da Estremadura. Mesmo qué as transferências
fossem quantitativamente reduzidas, a população autóctone na Estremadu­
ra e no Alentejo, demasiado débil, não parece ter oferecido resistência so­
cial nem cultural. A assimilação das gentes do Norte, de cultura diferente,
foi facilitada pela preservação moçárabe das tradições latinas. Esta popula­
ção, sem quadros dirigentes nem uma forte classe dominante, teve de se
submeter à que tudo passou a dirigir quando ocupou as cidades da Estre­
madura e do Alentejo.
Os desníveis de densidade demográfica, que já se verificavam, sem dú­
vida, no século x, não desapareceram, porque a incapacidade tecnológica
não permitia a subsistência de muita gente nas montanhas, nem mesmo no
Alentejo. Daí, sobretudo das terras altas, a gente também fugia, acossada

23
pela fome e pela dureza do clima. As tentativas de repovoamento fracassa­
vam constantemente. A região que provavelmente mais se modificou com
os movimentos migratórios foi a Estremadura.
Em última análise, foi a expansão demográfica de Entre-Douro-e-Mi-
nho que levou os dominadores a todo o país, que misturou, nas cidades,
gentes de todas as procedências. Homens e mulheres que, passando à Lusi­
tânia, continuaram a chamar-se «Portugueses», isto é, gente de Portucale,
do território portuense e que impuseram o mesmo qualificativo a todos os
que tinham nascido dentro do reino, embora bem longe do Porto.

1.2. Tecnologia e economia


O excesso de gente, as suas deslocações à procura de subsistência, o alarga­
mento das fronteiras políticas, a concentração em regiões onde os rendi­
mentos eram maiores, as tentativas abortadas de cultivar solos que à menor
intempérie deixavam as sementes improdutivas, tais foram as realidades
que vimos até aqui e contribuíram para fazer afluir gente de todos os lados
ao litoral, à zona onde as cidades impunham à economia uma orientação
própria.
A economia, no entanto, não é só activada pelas necessidades elemen­
tares da população. Evolui também pelo seu próprio dinamismo, e, neste,
a acumulação de bens desempenha um papel fundamental. Ora, o desen­
volvimento económico, isto é, o aumento de volume de bens em circula­
ção, da velocidade e fluidez de trocas nas áreas abrangidas pelos diversos
circuitos, contribui poderosamente para o inter-relacionamento dos grupos
humanos. Põe os concelhos em contacto uns com os outros, obriga os se­
nhores a negociar com os proprietários vilãos e vice-versa, associa os mes­
teirais e os mercadores, altera as relações entre os produtores e os consumi­
dores, transfere riquezas e propriedades, condiciona a política régia, abre,
mesmo, as fronteiras terrestres e marítimas para levar os comerciantes a
terras longínquas, onde se falam outras línguas e existem outros costumes.
No domínio económico, o grande fenómeno a que se assiste entre o fim
do século xi e o princípio do século xiv, em Portugal como no resto da
Europa, embora aqui com algum desfasamento cronológico, consiste no
abandono do sistema dominado pelo autoconsumo, para o substituir pro­
gressivamente pela economia de produção e de trocas. As comunidades hu­
manas, organizadas para a defesa e a resolução unilateral das suas necessida­
des, são obrigadas a quebrar o isolamento e têm de se integrar em grandes
áreas de circulação de produtos, não já de âmbito regional, mas, agora, pe­
lo menos, nacional.
Apesar da dificuldade do seu estudo, não se podem ignorar os proble­
mas tecnológicos, que aceleram ou retardam a produção e, consequente­
mente, condicionam o volume e o dinamismo das trocas. Aqui as interro­
gações serão constantes, e a necessidade de deixar os problemas em aberto,
maior. Ver-se-á melhor, porém, a premência de os estudar logo que possí­
vel, para poder responder às dúvidas suscitadas pelo equacionamento das
questões.
Como já adverti anteriormente, o objectivo deste parágrafo não é exa­

24
minar a vida económica e tecnológica em si mesma, mas encontrar nos
factores materiais os elementos que condicionam, retardam ou aceleram o
processo da formação nacional. Como se verá também, deste ponto de vis­
ta, nem todas as questões da história económica têm a mesma importância.
A problemática que ela suscita e, sobretudo, a sua articulação com a histó­
ria cultural e política serão um convite a que os seus especialistas aprofun­
dem algumas questões às quais não se deram, até agora, respostas suficien­
temente precisas. Entre as que me parecem mais importantes, mencionarei
apenas a reconstituição das conjunturas. Seria necessária uma datação mais
precisa dos fenómenos económicos e uma definição rigorosa da sua nature­
za para o conseguir. Ora, até ao momento, os historiadores da economia
medieval não parecem ter-lhes ligado a devida importância, preferindo es­
tudar estruturas de longa duração. N a tentativa de reconstituição das di­
versas fases conjunturais, que servirá de fio condutor a esta exposição, terei,
por isso, de ser mais vago do que desejava e, até, de propor soluções para
as quais não estou suficientemente seguro. Todavia, parece-me preferível
correr esse risco do que ignorar esta questão fundamental num período de
expansão e de transformação como o dos séculos xii e xm .

1080-1130
Começarei por recordar que a criação do condado portucalense, como uni­
dade política, se deve à premência da ameaça militar, trazida pela ofensiva
almorávida. Esta seguia-se a um largo período de euforia conquistadora,
que alargara as fronteiras cristãs do Douro até ao Mondego, permitira a
emigração de bastante gente para o Sul, contribuíra indirectamente para
consolidar os poderes senhoriais dos infanções e mosteiros nortenhos, e le­
vara, até, a uma primeira fase de alastramento dos mesmos poderes, na
margem sul do Douro, em região não muito extensa a norte da Feira e do
vale do Paiva.
Ora, a intensificação dos combates na linha do Mondego, a partir de
1095, e a simultânea afluência de francos, juntamente com as divisões in­
ternas dos cristãos nos planos religioso e cultural, mas com enormes reper­
cussões em torno dos poderes políticos constituídos, desencadeia igualmente
contradições no seio da nobreza senhorial e da classe dominante em geral.
Face à aristocracia próxima da corte, que se alia aos francos, levanta-se a
resistência ou desconfiança dos cavaleiros e das comunidades rurais ou cita­
dinas. As perturbações políticas e sociais em todo o reino de Leão-Castela
trazidas pela agitação de 1108-1128 traduzem estas contradições. Permi­
tem a alguns elementos da aristocracia inferior, sobretudo cavaleiros que
enriqueceram na guerra da fronteira meridional, agora abandonada a eles,
dispor de meios suficientes para investir na terra e adquirir, peça a peça,
domínios importantes em regiões ainda não senhorializadas. Já anteriormen-
te (Vol. II, pp. 152-154) chamei a atenção para este tipo de aquisições que
se concentra na região da Maia, na Terra de Santa Maria, e nas regiões pró­
ximas do Vouga e do Paiva, durante a segunda metade do século xi e, sobre­
tudo, as primeiras décadas do seguinte. Coincidem, portanto, com a referida
agitação e com a intensificação da vida militar. Foi assim que se tornaram

25
grandes proprietários Trutesendo Guterres e o seu irmão Gonçalo66, João
Gosendes67, Soeiro Fromarigues e seu filho Nuno Soares68, e Ramiro Gon­
çalves69. Muitos dos seus domínios seriam herdados respectivamente pelo
mosteiro de Moreira da Maia, pela Sé de Coimbra, e pelos mosteiros de
Grijó e Tarouquela. As aquisições de vários cavaleiros em torno de Viseu70,
que não foram, mais tarde, transformadas em domínios eclesiásticos, con­
firmam a amplitude do movimento de transacções de terras nesta fase, e a
substituição do cultivo directo dos pequenos proprietários pelo trabalho de
dependentes, que tinham de entregar ao senhor uma parte importante dos
seus rendimentos.
Neste momento, porém, estava já em declínio a fase da constituição
dos grandes domínios monásticos em Entre-Douro-e-Minho, para os quais,
durante as décadas anteriores, desde cerca de 1080, se haviam transferido
grandes porções da fortuna imobiliária dos magnates71, sem que estes fos­
sem por isso afectados, pois a operação contribuiu para consolidar a sua
posição política e social. As dioceses, pelo menos as de Braga e Coimbra,
pelo contrário, continuavam a adquirir terras e montavam por esta época a
sua administração e organização72, investindo mais na criação de sistemas
eficazes de cobrança de rendas do que na melhoria dos rendimentos73.
Em termos económicos, portanto, o fenómeno dominante do período
1080-1130 consiste na concentração das fortunas imobiliárias de feição se­
nhorial, entre as quais se distinguem as dos mosteiros de Entre-Douro-
-e-Minho, e das dioceses de Braga e Coimbra, as mais antigas dos senhores
da alta aristocracia e, depois, as mais recentes, de alguns nobres de nível
inferior, enriquecidos pela guerra, que transformam em domínios senho­
riais terras de pequenos proprietários da zona da Maia, do baixo Douro,
do Vouga e do Paiva.
Os primeiros indícios de actividade mercantil, detèctados com o apare­
cimento de mercadores francos em Guimarães (D R 3, 55) e com o estímu­
lo dado a alguns centros, como Constantim de Panóias por D. Henrique
(D R 3) e Ponte de Lima por D. Teresa (D R 69), devem considerar-se de­
masiado ténues para caracterizar o conjunto, embora importantes em vir­
tude, justamente, do seu contraste com a orientação global da época. Estes
centros traduzem, talvez, a larga influência económica de Santiago de
Compostela, principal polo de circulação monetária e mercantil da Hispâ-
nia setentrional74. A sua influência transformadora, no entanto, é limitada.
A concentração monetária que aí se dá torna este centro alvo de grandes
lutas e cobiças. Os seus beneficiários, de resto, tendem, nesta fase, a ente­
sourar ou a canalizar para o exterior (para Roma e Cluny), em negócios ou

66 J. Mattoso, 1981, pp. 220-222.


67 Leontina Ventura, 1985.
68 R. Durand, 1971.
69 R. Durand, 1982a, pp. 293-295.
70 D R 74.
71J. Mattoso, 1968, gráficos de pp. 346, 347, 349, 350, 352, 353, 354.
72 É o que se deduz da cronologia das aquisições registadas no LF de Braga e LP de Coimbra.
As do Porto são mais tardias.
73 O exemplo típico é o Censual de Braga: A. de J. da Costa, 1959.
74 J. Gautier Dalché, 1979, pp. 67-96; id.y 1983.

26
empreendimentos de aquisição de prestígio (como a catedral), os metais
preciosos que acumulam, e pouco investem. O outro pólo de transforma­
ção económica, Coimbra, responsável pela concentração das transacções
entre a zona económica muçulmana e a área cristã também não é por si só
suficiente para alterar a fisionomia da economia portucalense. Os princi­
pais beneficiários são os senhores que entesouram os bens de luxo aí adqui­
ridos e os cavaleiros que, como vimos, investem na terra para se tornarem
eles próprios senhores de grandes domínios. Em termos globais, portanto,
em nada se altera a predominância do sistema de autoconsumo para o qual
tende a organização social. As comunidades rurais não englobadas por ela
também o adoptam como sistema dominante.

1130-1160
Logo no princípio da década de 1130, a fixação de D. Afonso Henriques
em Coimbra deve considerar-se o ponto de partida para uma mutação im­
portante. Representa a atracção que aquele centro urbano exerce sobre um
chefe político ambicioso, o qual se dá conta da sua importância económi­
ca. É, ao mesmo tempo, o acto inicial do recrudescimento da ofensiva cris­
tã, que irá polarizar uma parte importante da aristocracia durante os trinta
anos seguintes e que canalizará para a guerra ofensiva, e não apenas para as
operações de pilhagem, os esforços da camada activa da população. Os
contactos que, por esta altura, se fazem com os cruzados podem ser impor­
tantes, por abrirem horizontes ao futuro mercado internacional, mas não
dão ainda qualquer resultado significativo em termos económicos.
Efectivamente, o fenómeno dominante do trinténio 1130-1160 é o in­
vestimento na guerra ofensiva. Este esforço, dirigido, obviamente, por Afon­
so Henriques e os seus colaboradores, tem os seguintes resultados principais:
a) no Norte, a activação da senhorialização, que beneficia não apenas a
grande aristocracia tradicional, como Egas Moniz no Douro75 e os Sousas
no Tâmega superior76, mas também os cavaleiros colaboradores do rei, que
criam os seus domínios em Entre-Douro-e-Minho77 e, ainda, os mosteiros
de dimensões médias e pequenas, que oferecem ao rei cavalos e moeda pa­
ra financiar a guerra, a troco de concessões de imunidade78; b) na Beira, a
consolidação das comunidades e dos concelhos e o fortalecimento da cava­
laria vilã que investe na terra os benefícios da guerra; c) em Coimbra, a ac­
tivação do artesanato que trabalha na fabricação de armas e nos couros79, e
na Beira central a constituição de domínios senhoriais pertencentes ao bis­
po de Coimbra, aos cónegos de Santa Cruz, a outras instituições eclesiásti­
cas, e a vários cavaleiros da mesma cidade80; d) por intermédio da integra­

75 A. Fernandes, 1979, pp. 117, 144-145. Ver fig. 9.


76 A. Fernandes, 1960, mapa 2, junto à p. 120.
77 Ver as informações sobre Valadares, Cerveiras, Velhos, Azevedos, Soverosas, Pereiras, Rami-
rões, Cunhas, Grijó, Límias e Ribeiras, vol. II, pp. 114-119, 143, 148, 150-152, 182-184; e
J. Mattoso, 1982b, pp. 181-182.
78 J. Mattoso, 1981, pp. 270-275.
79 Cf. as posturas municipais de 1145: Leg. p. 743 = LP 576.
80 J. Mattoso, 1981, pp. 315-330.

27
ção dos grandes centros urbanos de Santarém e Lisboa no território cristão,
a definição de um espaço económico dotado já de um número suficiente
de centros de produção e trocas para se orientar numa direcção própria, e
com capacidade para deixar de depender da dominação senhorial; e) ainda
por intermédio da conquista de Lisboa e Santarém, mas também em virtu­
de da disponibilidade monetária dos participantes na guerra, a activação
dos circuitos monetários que começam a injectar a moeda em torno das
vias de comunicação: primeiro no litoral e, já no período seguinte, para o
interior81.
Estes fenómenos, no entanto, representam mais as virtualidades futuras
do que uma alteração das dominantes fundamentais. Estas continuam a resi­
dir na tendência para o autoconsumo, tanto por parte da organização se­
nhorial, mesmo dos senhorios recém-criados, ‘como por parte dos concelhos.
Os elementos que escapam a esta caracterização global e não decorrem di-
rectamente da guerra ou da inclusão das cidades no espaço português, não
chegam para alterar a sua predominância. Refiro-me às fundações de eremi­
térios na periferia das zonas mais habitadas ou junto às vias de comunica­
ção82, à intensificação das viagens e aos primeiros indícios da pauperização83.
Constituem simultaneamente os subprodutos do sistema senhorial e a ma­
nifestação da sua incapacidade para integrar os excedentes humanos numa
situação de crescimento demográfico. A verdade é que, em termos globais,
mesmo uma instituição fundada em plena cidade, como o mosteiro de
Santa Cruz de Coimbra, apesar da atenção dos seus membros para com os
problemas pastorais e internacionais, se organiza, em termos económicos,
como um centro senhorial possuidor de grandes domínios nas terras recém-
-adquiridas ou recém-pacificadas84. O mesmo se diga das cidades sujeitas ao
senhorio eclesiástico, como Braga (1109) e o Porto (1120). O contacto dos
centros senhoriais com a economia urbana levará, porém, a importantes al­
terações do sistema.

1160-1190
Efectivamente as mudanças registadas durante o período de 1160-1190
atingem o próprio sistema de autoconsumo. Os seus maiores protagonistas
são os mosteiros cistercienses e as ordens militares. Segundo parece, os pri­
meiros adoptam em grande escala os métodos da exploração directa e criam
rendimentos superiores à sua capacidade de consumo; os segundos dispõem
de grandes propriedades na retaguarda, muitas delas a grande distância da
fronteira, cujos benefícios aplicam na guerra, e colocam os bens produzi­
dos no mercado. Tornam-se, portanto, grandes empresas agrícolas cuja
produção surge no momento em que as cidades também aumentam de vo­
lume e se transformam em importantes centros consumidores.
Os cistercienses aparecem portanto, nesta fase, como os principais res­
ponsáveis pelas brechas abertas no sistema de autoconsumo. Além disso,

81 R. Durand, 1982a, pp. 234-256; J. Mattoso, 1968, pp. 381-382.


82 J. Mattoso, 1982b, pp. 108-114.
83 Ibid., pp. 298-311.
84 Leontina Ventura e A. S. Fatia, 1990, pp. 27-36, e o apêndice de pp. 386 e segs.

28
interessam-se pelos investimentos produtivos, como a criação de gado, e
por aperfeiçoamentos tecnológicos, como o uso dos instrumentos de ferro,
a construção de moinhos e canais ou, mesmo, a exploração de minas85.
Vendendo os excedentes, investem os ingressos monetários em lugares es­
tratégicos pela capacidade de produção ou aptos ao escoamento dos produ­
tos. Assim, já em 1173-1185 tinham organizado a comercialização do sal e
adquirido um barco para o venderem mais caro, em Lisboa86. Entram,
pois, a fundo na economia monetária e tornam-se até centros de crédito
capazes de financiar nobres e leigos87. Os aperfeiçoamentos tecnológicos
podem não se dever exclusivamente aos monges brancos, mas foram eles,
sem dúvida, quem daí tirou o melhor partido. Não havia muitos produto­
res com capacidade de investimento suficiente para o$ tornarem rendíveis e
aplicarem em grande escala88.
Conhece-se muito pior o papel desempenhado pelas ordens militares,
mas pode presumir-se, pelo menos a julgar pelo exemplo que a Ordem de
Santiago constitui para Leão e Castela89, que também entre nós fossem
organismos impulsionadores de grandes explorações e da sua integração
na economia de mercado. Em Portugal, só mais tarde se especializariam
na pecuária de grandes dimensões. Mas já os templários e os hospitalários
portugueses deviam, durante o trinténio de 1160-1190, ter colocado no
mercado os rendimentos das suas enormes propriedades no Norte90. Os
canais construídos pelos templários junto do rio Zêzere sugerem também
que tivessem utilizado uma tecnologia «moderna»91.
Não esqueçamos, todavia, que, durante o período de 1160-1190, se
atravessa ainda a fase de montagem destas «grandes empresas», cuja rendi­
bilidade só viria a exercer um peso determinante na economia do país no
princípio do século xm . Durante o fim do século anterior, os cistercienses
fundaram as suas granjas e organizaram a exploração. Tarouca concentra
nos anos 1170 a 1182 a maioria das suas compras. Em 1193 tem já dezas­
sete granjas, das quais uma junto do Porto, e duas perto de Lisboa (PUP,
n.° 137). Tinha fundado nove entre 1163 e aquele ano (PUP, n.° 61). Al-
cobaça ocupava-se quase só em criar as infra-estruturas produtivas dentro
dos seus imensos coutos (cf. PUP, n.° 66).
A disponibilidade monetária que, a nível geral, se começa a sentir nesta
época é utilizada, por um lado, na continuação do esforço militar, como
demonstra o conjunto de operações de guerra no Alentejo até 1169, e, por
outro lado, na construção de igrejas, catedrais e castelos que emprega uma

85 Para Tarouca, ver, quanto ao gado, A. Fernandes, 1976, pp. 15, 121, 123, 132, 218; e,
quanto ao ferro: id., 1970, pp. 14, 331; id.y 1976, pp. 294; para Alcobaça, ver R. Durand, 1982a,
pp. 201-231.
86 Miracula S. Vincentii (ed. Aires Nascimento, 1988, pp. 62-64).
87 Emprestam, a Gonçalo Mendes de Sousa, 864 maravedis em 1230: R. Durand, 1982a,
p. 32Í.
88 A estimativa global de R. Durand, 1981, pp. 101-117, parece-me minimizar excessivamente
a contribuição cisterciense para a economia portuguesa, por não ter em conta a sua capacidade de
inovação no conjunto em que se insere.
89 J. L. Martin, 1973.
90 Cf. M. J. Lagos Trindade, 1981, pp. 129-143.
91 C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 1.

29
enorme quantidade de mão-de-obra nas cidades e em meios rurais92. Tanto
a guerra como os investimentos construtivos permitem sustentar uma apre­
ciável quantidade de gente, atraindo a primeira um certo número de mar­
ginais que o sistema senhorial e a expansão demográfica produzem e cuja
presença se nota sobretudo, como vimos, nas regiões de fronteira.

1190-1210
Vimos igualmente que o desequilíbrio entre os recursos disponíveis e as
necessidades da população agravou a crise demográfica de 1190-1210. As
suas consequências económicas mais imediatas decorrem da necessidade
que os famintos têm de vender as suas terras, o que contribui para aumen­
tar ainda mais os grandes domínios93. Estimulados pelo exemplo das em­
presas cistercienses e outras, dispondo, sem dúvida, de meios de investi­
mento, surgem pela primeira vez, durante este período, os leigos que se
interessam pela exploração directa, como Lourenço Fernandes da Cunha94.
Mas as construções de igrejas e pontes sofrem, por esta altura, uma crise95.
Pelo contrário, a participação dos mercadores nos lucros permite-lhes agora
empreenderem viagens marítimas e irem comprar os seus panos a D u­
blin96, Inglaterra97 ou Bruges98. Compreende-se, assim, que os comercian­
tes, assediados pela pirataria sarracena do Atlântico, estivessem vivamente
interessados na conquista de Silves (1189), donde partiam muitos ataques
aos seus barcos99. As actividades comerciais com Leão e Castela poderão
parecer menos inovadoras, mas não deixa de ser significativo que se inten­
sifiquem também pelo fim do século x ii , sendo então mencionadas as im­
portações de panos em Pinhel, Penamacor e Melgaço100.

1210-1250
Os anos de 1210 a 1250 marcaram já a plenitude das explorações cistercien­
ses e das ordens militares. Um dos indícios deste facto é o quase monopólio
da indústria moageira que os monges de Alcobaça obtêm em Leiria a partir
de c. 1220 e que sustentam até ao fim do século xm, apesar da oposição do
concelho101. Os seus exemplos são agora seguidos por outros grandes domí­
nios monásticos que decerto os imitam, senão em todos os aspectos da sua
organização administrativa, pelo menos nos investimentos produtivos e na
comercialização dos produtos. Assim fazem os cónegos regrantes de Coim­
bra e de Lisboa, sendo de mencionar a tentativa destes para obterem em

92 J. Mattoso, 1985, pp. 149-169.


93 J. Mattoso, 1985, pp. 389-408. Para Tarouca, ver o aumento de compras em 1193-1204:
Almeida Fernandes, 1976, passim.
94 J. Mattoso, 1982a, pp. 115-127, 225-226.
95 Gam a Barros, X, pp. 222-224.
96 Ch. Verlinden, 1948, pp. 453-467.
97 Gam a Barros, X, pp. 222-224.
98Vanden Bussche, cit. por T. de Sousa Soares, in Gama Barros, X, p. 402.
99 A relação entre estes dois factos foi estabelecida por Ch. Verlinden, 1949, p. 176. É sugerida
pelos próprios interesses económicos revelados pela Narratio (ed. David, pp. 633-642).
100 Ana M. Ferreira, 1983, p. 19.
101 Pedro G. Barbosa, 1991, pp. 39-53.

30
Castelo Mendo um ponto estratégico economicamente importante102. De
par com o poder económico de que estas «empresas» dispõem, pode apon-
tar-se agora a tentativa realizada por Afonso II para racionalizar a adminis­
tração régia, contabilizando os rendimentos através das inquirições (1220),
organizando a chancelaria e opondo-se à senhorialização dos domínios ré­
gios. Também não deixou de se interessar pelo encorajamento do comér­
cio de cidades tão importantes como Lisboa, Coimbra e Évora103. Os seus
processos contabilísticos são adoptados por outros senhores. De facto, em
1213 os notários das infantas suas irmãs contabilizam minuciosamente os
prejuízos que tiveram com as duas guerras em que se opuseram ao rei —
14 526 morabitinos numa e 15 507 noutra — , para reclamarem uma in­
demnização junto da cúria romana104. À sua política «moderna» sucede,
porém, a incapacidade de Sancho II para impedir a senhorialização quase
desenfreada dos domínios da baixa nobreza em Entre-Douro-e-Minho,
Beira Alta e Trás-os-Montes e o aumento dos de outras categorias nobres.
O segundo grande facto desta época, com repercussões económicas de
grande amplitude, é o avanço da Reconquista até à ocupação definitiva do
Algarve. As ordens militares, sobretudo a de Santiago e, depois, a dos Hos-
pitalários, revelam, no esforço bélico então realizado, a sua enorme poten­
cialidade económica.
Regista-se então o aumento de cidades na Beira e no litoral estremenho,
o que só pode significar a activação das suas funções económicas. O desen­
volvimento do comércio manifesta-se agora por alguns particulares possuí­
rem importantes somas de moeda estrangeira, sobretudo soldos leoneses e
de Burgos, mas também soldos torneses e, até, libras105106. A intervenção dos
membros da nobreza na economia cresce lentamente como se pode ver do
exemplo de Pêro Anes da Nóvoa, o mordomo-mor de Afonso II, que se
mantém no poder durante algum tempo, mesmo depois de 1 2 2 3 . As
grandes aquisições de Rodrigo Forjaz de Leão, de Gil Martins de Riba de
Vizela, e ae Gil Vasques de Soverosa ao sul de Vizela devem datar desta
época107. Os nobres, porém, raramente se interessam pela gestão directa *
dos instrumentos de produção. Assim, por exemplo, tendo Afonso II dado
dois moinhos em Leiria a dois nobres da corte, eles entregam-nos pouco
depois ao mosteiro de Alcobaça, embora um deles receba em troca uma
renda vitalícia108.
A nível mais global regista-se, com importante significado, o aumento
do preço da terra, perto das cidades, e particularmente das vinhas109. De

102 V. Rau, 1982, doc. 1. Ver também, já em 1138, o povoamento de Cucos (Fig. da Foz) por
Santa Cruz: M. H. Coelho, 1983, doc. 1; o aumento de marinhas de sal pelas igrejas de São Jorge
e São Bartolomeu de Coimbra em 1236: ibid., doc. 9.
103 Ver Silva Marques, 1944, I, doc. 3, pp. 595-596; conf. do foral de Coimbra por Afonso II
(Leg., p. 416) e os privilégios concedidos a Évora (G. Pereira, 1885, doc. 6, mal datado).
104 Relato «Haec sunt acta negotii» in Herculano, II, p. 589.
105 R. Durand, 1982a, pp. 256-258. O arcebispo de Braga protesta em 1250 por Afonso III
pôr obstáculos à circulação de moeda leonesa (Leg., p. 186).
106 M PHI, doc. 4.
107 L. Krus e O. Bettencourt, 1982, pp. 41-44.
108 Pedro G. Barbosa, 1991, pp. 48-50.
109 R. Durand, 1982a, p. 307. A incidência da proximidade dos centros urbanos sobre o preço
da terra revela-se na disparidade dos ritmos de encarecimento na região de Coimbra e, sobretudo,
da Estremadura, comparados com a região do Vouga.

31
facto, os cultivadores interessam-se cada vez mais pela produção do vi­
nho110, que passa a ser o produto agrícola em que os mercadores mais in­
vestem. Vêm a seguir os ferragiais na periferia das cidades111. A intervenção
dos senhores na administração da terra revela-se pelo aumento dos prazos
em vidas e a diminuição dos perpétuos, a começar pelas terras da Estre­
madura112. A redução do número dos prazos perpétuos continuará ainda
nas décadas seguintes. Constitui um importante indício da lenta recupe­
ração do senhorio sobre as terras cedidas com perda da administração di-
recta.
No domínio do comércio externo, os indícios não são muito mais
abundantes do que na época anterior, excepto nos contactos com a Ingla­
terra, onde os mercadores portugueses parecem, agora, numerosos113. As
informações sobre os contactos dos portugueses com a França de 1240 são
mais vagas114. Apesar da escassez destes dados, a documentação relativa ao
comércio externo, logo no princípio do reinado de Afonso III, é de tal or­
dem que tem de se pressupor que nessa época já tinha atingido notável re­
gularidade e intensidade a importação de panos de luxo. De facto, em
1253 tabelam-se os preços de nada menos do que trinta e oito tipos dife­
rentes de tecidos, dos quais trinta e quatro fabricados na Inglaterra, na
Flandres, na Bretanha e na Normandia, além de três ou quatro vindos de
Castela115. A venda dos mesmos panos castelhanos na feira de Guimarães,
em 1258, vem confirmar esta interpretação116.

1250-1280
Apesar disso, a conjugação de todos estes indícios numa estrutura em que
domina já a economia monetária e de mercado só se dá propriamente a
partir da chegada ao poder de Afonso III. Tendo vivido longos anos em
França e sendo pessoalmente dotado de grande capacidade de gestão, dir-
-se-ia que transforma a Coroa e os domínios régios numa autêntica empre­
sa pré-capitalista, cujo financiamento se baseia numa hábil política mone­
tária. Os principais meios de que se serve são os seguintes: a) as sucessivas
desvalorizações da moeda, ou ameaça de o fazer, como pretexto para lançar
impostos extraordinários117; b) a reorganização do domínio régio, proce­
dendo a um novo cadastro (1258) e, em certos lugares, racionalizando a
cobrança das rendas, entre outros processos por meio da sua conversão em

110 Multiplicam-se nesta época os emprazamentos com obrigação de plantar vinhas. Ver R.
Durand, 1972, p. 36; M. J. Trindade, 1981, p. 186.
111 Sobre as culturas na periferia das cidades, ver M. J. Trindade, 1981, p. 186; M. A. Beiran-
te, 1988, mapas, de pp. 329, 419, 421, 423, 437, 439, 457, e pp. 648-649; Hermenegildo Fer-
nandes, 1991, p. 51.
112 Comparar os dados fornecidos por R. Durand, 1982a, p. 391, com os de M. H . Coelho,
1983, fig. 12, confirmados, para a zona de Évora, por M. A. Beirante, 1988, p. 351. Ver, no fim
deste vol., fig. 24.
113 Gama Barros, X, pp. 223-224.
114 Câmara Municipal do Porto, 1983, p. 76.
115 Leg., 193; Cf. Ana M. Ferreira, 1983, pp. 18-25.
116 V. Rau, 1943, p. 449.
117 Oliveira Marques, 1980, pp. 205-207; M. J. Pimenta Ferro, 1977.

32
dinheiro, pago em três prestações118, e o arrendamento da cobrança, que
entrega a indivíduos experimentados119; c) a aquisição e exploração de aze­
nhas, pisões, lagares, açougues, casas e tendas nas cidades, o que lhes per­
mite também aumentar os ingressos em moeda120.
Destas medidas deve ter resultado, entre outras consequências indirec-
tas, o fomento da difusão monetária em todos os níveis e locais do país,
mesmo nos meios rurais onde ela até então mal tinha chegado, embora em
si mesmas se destinassem a aumentar a capacidade financeira da Coroa,
mais do que a investir em meios de produção. Por outro lado, as medidas
de outra natureza, embora dirigidas no mesmo sentido, constituem estímu­
los directos às actividades comerciais. Quero referir-me, por exemplo, à
protecção aos pescadores das proximidades de Lisboa, o que facilita o abas­
tecimento de peixe à cidade e, ao mesmo tempo, permite melhorar a co­
brança do dízimo121. E sobretudo a sua bem conhecida acção protectora
das feiras. Esta, porém, não é a mais precoce: depois de alguns casos espo­
rádicos, situa-se sobretudo a partir de 1270. Será continuada com não me­
nos vigor por D. Dinis122. Parece ser também em virtude das suas conse­
quências financeiras que o mesmo rei promulga regulamentos do comércio
externo no sentido de equilibrar as importações com as exportações e de
impedir o escoamento de produtos pouco abundantes no país, como ce­
reais (1273?) e metais preciosos123, e ainda canalizar as transacções interna­
cionais para portos onde a cobrança da dizima se pudesse fazer eficazmen­
te. O mesmo intuito se nota na criação de um ponto de apoio da cobrança
régia em Vila Nova de Gaia, o que lhe permitia desviar para o tesouro ré­
gio uma parte dos cobiçados rendimentos arrecadados pelo bispo do Porto
(Leg., pp. 662-664).
Como se sabe, as leis de Afonso III consagraram a mudança do sistema
monetário, cujo padrão era anteriormente o maravedi de ouro, de inspira­
ção muçulmana, para o da libra, usado na Europa. R. Durand pensa, de­
certo com razão, que esta medida não tinha apenas a vantagem de permitir
uma melhor integração na economia de além-Pirenéus, cuja influência so­
bre Portugal era cada vez maior, mas também a de facilitar a articulação
entre as grandes e pequenas transacções, pois estas, realizadas em soldos e
dinheiros, constituíam, afinal, a base da economia corrente124.
Depois da política monetária (inseparável, como vimos, da fiscal e ad­
ministrativa), o reinado de Afonso III distinguiu-se por uma intensificação
do comércio externo, agora não só no Atlântico Norte, mas também no
Mediterrâneo. Como vimos, já no período anterior o primeiro se tinha
tornado regular e intenso. Depois de 1250 verifica-se a multiplicação das
referências a comerciantes portugueses na mesma zona e ainda em Bordéus

118 Herculano, 1980, III, pp. 78-81; M. J. Pimenta Ferro, 1977, p. 486. O cuidado pelo do­
mínio régio situa-se em 1253-1258. Datam deste período 39 dos 64 forais que o rei deu durante
o seu reinado. Os deste período são, na sua maioria, forais rurais e de mera administração.
119 Ver os documentos administrativos publicados por J. P. Ribeiro, 1813, v. III/2, doc. 29.
120 A. Castro, 1965, III, pp. 376-379; ver também J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 57.
121 C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 2 de 1255.
122 V. Rau, 1943.
123 Leg., 194, 253-254; Gam a Barros, IX, p. 317; O. Marques, 1980, pp. 205-206.
124 R. Durand, 1982a, pp. 253-257.

33
e La Rochelle125. Mas aparecem agora, pela primeira vez, referências a mer­
cadores italianos residentes em Portugal. Trata-se de um genovês, Dom Vi-
valdo, fixado em Lisboa pelo menos desde 1270126. Convém aqui notar a
diferença que se verifica entre o comércio do Mediterrâneo e o do Atlânti­
co: este é feito durante todo o período que estudamos por mercadores por­
tugueses; aquele normalmente por italianos e, decerto, também por cata­
lães127. Pertence provavelmente a eles a iniciativa de procurar os portos
portugueses como meio de expandir o comércio do Mediterrâneo.
O terceiro aspecto mais notável da economia portuguesa dos anos
1250-1280 reside na multiplicação dos domínios nobres orientados para o
mercado, o que quer dizer que o exemplo cisterciense continua a ter os
seus seguidores. Agora não esporadicamente, mas em grande escala, e por
fidalgos da corte, que aproveitam as suas posições políticas para criar gran­
des «empresas» de produção agrícola e comercialização. O caso mais co­
nhecido é o de D. João de Aboim128. O carácter «moderno» das suas aqui­
sições pode verificar-se no expressivo mapa publicado por A. Castro129.
É também conhecido o caso do chanceler Estêvão Anes, com as suas exten­
sas propriedades em Alvito130. É menos referido que o anterior, mas talvez
estivesse ainda mais integrado numa economia «moderna», pois explorou
minas de ferro no Alentejo, que depois ficaram para os seus herdeiros, os
trinitários de Santarém131. Os contemporâneos consideravam-no, por isso
mesmo, avaro e mesquinho132. Não são casos isolados. Pode-se-lhes asso­
ciar Pedro Ponces de Baião, que obteve do rei o privilégio de cobrar os di­
reitos das portagens da Beira e da fronteira leonesa (Trasserra), que então
se tornaram enorme fonte de rendimentos, pois a região era lugar de passa­
gem dos rebanhos transumantes, à procura de pastagens de Inverno133; a
princesa Santa Mafalda, que possuía grandes rebanhos de vacas e ovelhas
nas serras de Arouca e da Estrela e em Rasamalianes, e éguas em Antuã134;
D. João de Aboim, que tinha também rebanhos no Alto Alentejo135. Acres-
centem-se também alguns dos fidalgos de Entre-Douro-e-Minho e da Es­
tremadura que já no reinado anterior tinham começado a procurar pro­
priedades susceptíveis de lhes darem rendimentos em dinheiro e não
apenas em géneros. Todos eles são precursores da figura do «fidalgo merca­
dor», tão típica da época moderna. Um deles é, agora, Soeiro Pires de Aze­
vedo, a quem o mosteiro de Alcobaça cede, em 1248 e 1262, propriedades
em Bombarral (com uma charrua e um lagar) por uma alta renda em di­
nheiro136. Resta saber até que ponto eles intervinham na comercialização

125Yves Renouard, 1955, pp. 244-248.


126 M. J. Trindade, 1981, p. 218.
127 Ibid., pp. 218-219.
128 Ver a lista de aquisições feita por A. Braancamp Freire, 1906, pp. 106-170. Cf. Leontina
Ventura, 1986.
129 A. Castro, 1964, II, pp. 64-65.
130 Ver a documentação que sobre ele se pode reunir em J. Mattoso, in Herculano, 1980, III,
p. 211, nota crítica 87; Leontina Ventura, 1992, II, pp. 585-594.
131 R. Durand, 1982a, p. 203.
132 C E M D , 221, 222, 223.
133 M. J. Trindade, 1981, pp. 35, 60.
134 A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 31-32.
135 M. A. Beirante, 1988, p. 539.
136 Pedro G. Barbosa, 1988, cap. VI, 6.

34
dos seus produtos. De resto, na geração seguinte, estes exemplos parecem
diminuir, ao mesmo tempo que se assiste a uma recuperação da mentalida­
de nobiliárquica. Parecem suportar com dificuldade a concorrência das
empresas régias. Os grandes domínios acumulados por Estêvão Anes passa­
ram à Ordem da SS. Trindade e os de D. João de Aboim dispersaram-se,
vindo a cair em parte sob a alçada de D. Dinis.
É claro que os grandes empreendimentos cistercienses e de ordens mili­
tares continuavam a aperfeiçoar e ampliar a sua actividade económica.
Aqueles viravam-se cada vez mais para a economia de mercado como mos­
tram as aquisições estratégicas dos monges de Alcobaça, em Eivas e Beja137,
a sua iniciativa na exploração de ferro e a multiplicação das granjas138.
O seu interesse pelo Baixo Alentejo talvez fosse suscitado pela especialização
da zona na produção de cereais, de que já se encontram indícios neste pe­
ríodo; de qualquer maneira, podiam assim obter lã e couros nesta zona on­
de os rebanhos eram abundantes139. Os seus exemplos são agora cada vez
mais seguidos por outras ordens, como a dos Cónegos Regrantes que, em
Coimbra, aperfeiçoavam a administração dos seus domínios140 e os de São
Vicente de Lisboa que obtinham propriedades em Sesimbra e São Cucufa-
te (Évora)141. Pelo seu lado, a Ordem de Santiago e alguns concelhos do
Alentejo e da Beira parecem desenvolver a pesca, a criação de gado e as ac-
tividades comerciais142. Assim se explica o interesse de Afonso III pela co­
brança de direitos de montado143. A capacidade financeira e a acumulação
de espécies em dinheiro pelos Hospitalários revela-se, por exemplo, no em­
préstimo de 14 000 maravedis que eles fizeram ao bispo de Coimbra em
1251. O interesse dos Templários e das outras ordens militares nos proble­
mas monetários está bem patente no cuidado que Afonso III tem de se di­
rigir especialmente a eles no diploma de 1255 sobre a quebra da moeda
(Leg. 196-197).
De resto, este interesse era partilhado por outros bispos e abades. O ar­
cebispo de Braga já em 1250 se queixava de o rei proibir o curso da moeda
leonesa em Portugal (Leg. 186), o do Porto por o rei obrigar a «comprar»
a sua moeda (Leg. 188). Em 1255 era diante do bispo de Évora que o rei
jurava não «vender» a moeda nem exigir nada para renunciar à sua quebra
(Leg. 197). Foi também ao arcebispo de Braga e aos outros bispos do reino
que ele se dirigiu em primeiro lugar na lei de 1261 (Leg. 210-212).
A moeda torna-se, assim, o grande instrumento da economia nacional. Os

137 V. Rau, 1982, does. 5, 6, 7, 9, 10, 13.


138 R. Durand, 1981, pp. 101-117; Pedro G. Barbosa, 1991, pp. 39-38. Para Tarouca, ver
A. Fernandes, 1976. Comparar com o que se sabe sobre a produção de ferro no Norte da Penín­
sula: Rolf Sprandel, 1983.
139 Hermenegildo Fernandes, 1991, pp. 95-98.
140 M. H. Coelho, 1983, passim.
141 V. Rau, 1982, does. 2 e 4.
142 C. M. Baeta Neves, 1980, I, does. 3, 27, 29; M. J. Trindade, 1981; Silva Marques, I, doe.
34; teL, Supl. does. 6, 310, 384; M. A. Beirante, 1988, pp. 106-109. Para o contexto peninsular,
ver M .-C. Gerbert, 1989, pp. 79-105.
143 M. J. Trindade, 1981, pp. 60-61; C. M. Baeta Neves, 1980, I, doe. 5: G. Pereira, 1885,
doe. 7 (mal datado), 15.

35
interesses financeiros e fiscais do rei, tendentes a racionalizar o seu curso e
a excluir a circulação da moeda estrangeira, contribuíram para fazer coinci­
dir a área económica com as fronteiras do reino.
Ao mesmo tempo que as grandes empresas eclesiásticas e de leigos de­
senvolvem as estruturas produtivas, melhoram também os transportes e as
comunicações, como mostra o novo surto de criação de albergarias144 e de
construção de pontes145. A destruição do caminho público torna-se um dos
nove crimes mais graves previstos numa lei de 1265 (Leg. 217), e uma das
matérias da jurisdição do meirinho régio (Leg. 252). A invasão de panos
estrangeiros não impede, antes pelo contrário, a incipiente indústria de te­
celagem nacional cujo desenvolvimento nesta época é testemunhado pelo
aparecimento dos primeiros pisões nos anos 1258-1279, no Sul do país146,
e pelas referências a panos portugueses em 1253 e 1254 ou 1255147. Seria,
pois, do maior interesse registar cuidadosamente as referências a moinhos,
azenhas, instrumentos de ferro148, forjas, canais149, etc., para poder datar
com alguma precisão a generalização dos aperfeiçoamentos tecnológicos
que levam ao aumento da produtividade agrícola e artesanal.

1280-1325
D. Dinis herda, pois, uma administração régia bem organizada e com os
rendimentos assegurados. Bom seguidor da política paterna, embora, tal­
vez, sem intervir tão agressivamente nos problemas monetários, trata de
apertar por meio de uma fiscalização minuciosa e da mais estrita contabili­
dade a percepção dos réditos dominiais e fiscais. Aumenta os foros, multi­
plica os emprazamentos de reguengos, as «póvoas»150 e as sentenças sobre
reclamações de concelhos contra a implacável intervenção dos almoxarifes
e mordomos, dá a maior importância ao registo por escrito das rendas
mesmo nos concelhos, intervém no controlo do comércio externo por
meio da confirmação da bolsa dos mercadores na Flandres, na Inglaterra,
na Normandia, na Bretanha e em La Rochelle (1293)151, e da sua influên-

144 O movimento inicia-se no século x ii (LP 27, 276, 279 = 544, 371, 584; J. Mattoso, 1982,
pp. 308-309, 314), mas tem a sua segunda fase nesta época. Veja-se, por exemplo, a de Cabadou-
de, na estrada da Beira, perto da Guarda, criada antes de 1250 (A. Fernandes, 1976, p. 284); as
referidas num testamento de 1273 em favor de Alcobaça (TT, Alcobaça, m. 14, doc. 2) e noutro
sem data a favor de Santa Cruz (TT, Santa Cruz, m. 21. doc. 34).
145 São Gonçalo de Amarante, construtor de pontes, morreu, segundo a tradição, em 1256
(ML, IV, f. 213 v.), no mesmo ano que Santa Mafalda, que também se interessou pela mesma
obra de misericórdia. De um conjunto de referências encontradas em documentação de Guima­
rães parece verificar-se a concentração de dádivas com o mesmo objectivo em 1253-1269: J. Mát-
toso, 1985, pp. 143-169. Ver também M . J. Ferro Tavares, 1989, p. 128.
146 Mencionados nos forais de Estremoz, Vila Viçosa, Castro Marim, Loulé e Tavira: Leg.,
pp. 679, 734, 736, 737. A referência a uma area prensorii perto de Tarouca em 1202 deve indicar,
talvez, um lagar e não um pisão.
147 Leg., pp. 192, 253, cits. por Gam a Barros, IX, p. 216.
148 A lista de R. Durand, 1982a, pp. 231-232, mostra só por si a concentração de referências
em 1248-1293.
149 Com o o «canal do rei» explorado por Afonso III em Abrantes: lierm ínia Vilar, 1988,
p. 42.
130 M. Rosa Marreiros, 1990; id., 1992.
151 Silva Marques, I, p. 21.

36
cia diplomática ou da rainha para proteger os mercadores portugueses na
Inglaterra152 ou em Aragão153. O rei já não se limitava a tirar rendimentos
fiscais do comércio crescente, procurava agora fomentá-lo. A multiplicação
de privilégios e feiras entre 1284 e 1295, com um novo surto de cartas en­
tre 1301 e 1308154, tem significado idêntico. O mesmo se diga da protec-
ção à actividade mineira155, do apoio dado à fixação de povoações no lito­
ral, sobretudo na Estremadura156, e ainda dos investimentos em terras
inundadas para secar pauis, ou em matas para as desbravar157. Como se vê,
ao contrário de Afonso III, o seu filho investe os rendimentos em estrutu­
ras produtivas; não se contenta com medidas de carácter financeiro.
Efectivamente o período que vai de 1280 a 1325, embora não repre­
sente uma mutação qualitativa quando comparado com o anterior, mostra
a aceleração generalizada das actividades económicas. N o domínio do co­
mércio externo já não se encontram apenas empreendimentos individuais,
mas associações de mercadores, como testemunha a já citada bolsa dos
mercadores aprovada em 1293 e ainda um acordo de armadores portugue­
ses, galegos e aragoneses em La Coruna em 1297158, e a concessão colecti-
va de Filipe, o Belo, aos mercadores portugueses de Harfleur em 1310159, a
referência a um cemitério de portugueses em Rouen 160 e, até, os privilégios
de Eduardo I contidos na Carta mercatoria de 1303, apesar das restrições
anteriores161. Por isso se pode considerar mais significativo o documento
flamengo que enumera os géneros trazidos de Portugal no fim do século
x i i i , como se então se tivesse estabelecido a sua exportação regular162.
O alargamento da colónia de estrangeiros em Lisboa confirma esta im­
pressão. Agora já não há só um genovês, encontram-se também comercian­
tes de Bayonne 163 e há certamente aragoneses e catalães164. O prestígio e a
influência dos genoveses é bem patente na concessão do comando da ar­
mada régia a Manuel Pessanha (1317), com o significativo privilégio de a
usar para o comércio, tanto para a Flandres como para Génova ou qual­
quer outro lugar. Ou seja, era-lhe provavelmente confiada a comercializa­
ção dos géneros produzidos no domínio régio que podiam ser exporta­
dos165. Mas este era também o primeiro passo para entregar a estrangeiros
a orientação do comércio externo português. N o mesmo sentido se pode

152 Gam a Barros, X, pp. 224-229.


153 M. J. Trindade, 1981, p. 214. Foi certamente a captura do barco português em Aragão, em
1303, que levou à intervenção de S. Isabel junto do seu irmão Jaime II para mandar libertar os
«corsários» portugueses: S. Antunes Rodrigues, 1958, doc. 48; cf. Álvaro Santamaria, 1980, p. 99.
154 V. Rau, 1943.
155 J. P. Ribeiro, 1813, III/2, doc. 33 de 1282; A. Castro, 1966, IV, pp. 170-171.
156 Pedro G. Barbosa, 1991, pp. 77-103.
157 Ver supra, parte II, n.° 1.1., pp. 21, 22, 23.
158 Silva Marques, Supl., doc. 15; M. J. Trindade, 1981, p. 215.
159 Ch. Verlinden, 1949, pp. 178-179 e comentário de pp. 188-197; sumariado com data erra­
da em Silva Marques, Supl., doc. 301.
160 Gam a Barros, X, p. 282.
161 Ibid., pp. 228-229.
162 Vanden Bussche, cit. por T. de S. Soares in Gam a Barros, X, pp. 403-404.
163 Gam a Barros, X, p. 224.
164 M. J. Trindade, 1981, pp. 214-216.
165 M. F. Espinosa Gomes da Silva, in DHP, III, pp. 375 376; texto dos documentos em Silva
Marques, I, does. 37, 42.

37
apontar o empréstimo feito a mercadores de Lisboa por uma companhia
de Pistóia pelos anos de 1281-128 5166.
Em contraste com o progressivo desenvolvimento do potencial econó­
mico do domínio régio, tornado uma grande empresa de tipo pré-
-capitalista, e com o provável enriquecimento de alguns mercadores, parece
notar-se uma certa estagnação dos cistercienses e das ordens militares, que
antes provavelmente dominavam, com pouca concorrência, a economia na­
cional. O assunto está por estudar, mas talvez se deva tirar essa conclusão,
por exemplo, de um documento de cerca de 1320 que põe em causa a ad­
ministração dos bens da Ordem de Santiago167, da quebra sofrida pelas
aquisições de Alcobaça em 1300-1325 168 e de vários casos de abandono da
exploração directa ali e em Tarouca169. E conhecida, de resto, a interven­
ção crescente do rei nos destinos das ordens militares.
Mas ao lado desta provável estagnação das grandes empresas agrícolas,
parece agora encontrar-se indícios de maior difusão da moeda e maior in­
tervenção económica de proprietários vilãos ou de gente de escalões sociais
diferentes. Esta revela-se, por exemplo, na menção cada vez mais frequente
do cultivo de plantas hortícolas na periferia das cidades, cujos lucros inte­
ressam os senhores, ao ponto de disputarem entre si os direitos e os dízi­
mos sobre eles170; na maior intervenção dos concelhos na criação do gado e
no controlo da transumância; na multiplicação de referências à actividade
dos almocreves171. Aquela, na generalização do pagamento de rendas em
dinheiro, sobretudo as da propriedade urbana, e no aumento de gastos
sumptuários como a acumulação de objectos de luxo 172 e a construção de
igrejas. Os mendicantes e outros eclesiásticos já as tinham iniciado pouco
antes de 1270, mas agora são também edificadas por muitas outras ordens
e clérigos, sobretudo nas cidades ou perto delas173. Dir-se-ia que o esforço
da criação de estruturas produtivas por parte das maiores empresas eclesiás­
ticas durante o século xm começava então a afrouxar, mas não nos domí­
nios régios. Daí, talvez, a impressão de maior prosperidade do que no rei­
nado anterior. Todavia, os indícios de uma certa agitação ainda antes da
guerra civil de 1319 revelam já a fragilidade e os desequilíbrios das estrutu­
ras económicas.

166 M. J. Trindade, 1981, p. 218.


167 A. B. da Costa Veiga, 1940, pp. 155-166.
168 Iria Gonçalves, 1984, p. 24; cf. R. Durand, 1981, p. 117.
169 R. Durand, 1981, pp. 115-116; A. Fernandes, 1976, pp. 20, 147, 259.
170 Ver os expressivos documentos de 1307, 1317 e 1321 publicados por M. H . Coelho, 1983,
does. 17, 20, 21. Aproximar do aumento do cultivo do linho revelado em Gulfar em 1315: C. M.
Baeta Neves, 1980, I, doc. 34, p. 58 e das questões entre D. Dinis e o concelho de Santarém em
1309: ibid., doc. 28.
171 Ver o acordo de 1313 entre o concelho português de Marvao e o castelhano de Valência de
Alcântara: TT , gav. XV, m. 23, doc. 5, sumariado por C. M. Baeta Neves, 1980, doc. 32. Sobre
os almocreves, ver H. Baquero Moreno, 1986, pp. 173-174.
172 Sobre os gastos sumptuários, ver, por exemplo, a fortuna de D. Bataça: M. H. Coelho e
Leontina Ventura, 1986; id., 1987a; id., 1987b. Sobre as rendas urbanas em Évora, ver M. A. Bei-
rante, 1988, pp. 358-359.
173 J. Mattoso, 1985, pp. 149-169. Ver os legados de Afonso III para a construção de igrejas
no seu testamento de 1270: A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 55-56.

38
C o n c lu sõ es

Uma tentativa de datar com alguma precisão os testemunhos dos movi­


mentos económicos para reconstruir os diversos momentos conjunturais
parece, pois, permitir uma visão mais rigorosa do que a obtida até aqui.
O que esta tentativa tem de hipotético talvez convide a melhorar a investi­
gação. Mas o que importa para o nosso propósito é que a criação de uma
área económica nacional só se pode conceber a partir dos meados do sécu­
lo xiii. Viu-se que só neste momento o país dominou suficientemente as
estruturas produtivas. Para a sua delimitação nacional\ o facto mais impor­
tante deve ser, porém, a intervenção de Afonso III, ao impor a sua moeda
e dificultar a circulação de outras e, em seguida, ao definir as fronteiras
económicas do reino impondo, na prática, as noções de importação e ex­
portação. Estes acontecimentos são, na verdade, as primeiras verdadeiras
manifestações de utna economia nacional.

1 3 . M entalidade e cultura
Tal como nos parágrafos anteriores, o meu propósito, ao abrir aqui uma
breve exposição sobre mentalidade e cultura, não é tratar delas na sua ge­
neralidade, mas apontar alguns factos significaria mutações importan­
tes e que influem decisivamente na criação de vínculos de convivência en­
tre os Portugueses e na eclosão de uma consciência nacional. Deixarei, em
todo ó caso, para outro lugar, os problemas específicos das concepções de
nacionalidade. Efectivamente, também nos campos cultural e mental se
podem encontrar os indícios de uma progressiva destruição das barreiras
que opõem as comunidades umas às outras e da cada vez maior necessida­
de de comunicação.
Queria ainda advertir que não pretendo aqui reconstituir as caracterís-
ticas fundamentais da mentalidade mçdieval, pois só o poderia fazer com
um tratamento sistemático do tema. Aqui, de novo, interessa-me mais a
conjuntura do que a estrutura. O facto de salientar as mutações não signi­
fica que não haja muita coisa estável, como de resto seria de esperar neste
domínio em que a permanência é tão grande. Além disso, talvez neste pon­
to a especificidade nacional seja reduzida, sobretudo se se abstrair da lín­
gua. Quero com isto dizer que as estruturas mentais se deviam estudar no
âmbito de grandes áreas geográficas, das quais o nosso país seria apenas
uma parte. Teremos de nos contentar com simples alusões evocativas e re­
meter o leitor para obras que expõem os problemas com a maior compe­
tência174.
Veremos, pois, sucessivamente, as principais mutações nas concepções
religiosas e morais, nos costumes, na cultura e na vida pública.

174 Para o conjunto da Idade Média ocidental: A. J. Gurevitch, 1983; J. Le Goff, 1977. Falta
uma obra do mesmo género para a Península Ibérica.

39
C o ncepçõ es r e l ig io s a s e m o r a is : da m a g ia às devo ções

Algumas das primeiras foram já mencionadas a propósito da vida religiosa


nas áreas senhoriais e nas comunidades vilãs175. Aí, efectivamente, ao opor
a religiosidade oficial à popular, e ao mencionar a luta da Igreja hierárquica
contra a superstição e a magia, já me referia às alterações que a acção pas­
toral introduziu na religião popular, refugiada em áreas privadas ou clan­
destinas, transformada em bruxaria ou feitiçaria, obrigada por vezes a su­
portar a acusação de obra do demónio. Pouco espaço público lhe resta:
delimitam-se os momentos em que pode revelar-se, nas romarias, nas festas
populares e em certas procissões. Referi-me também ao apoio dado pela
nobreza senhorial às ordens monásticas e, por meio delas, à celebração li-
túrgica solene. E, por outro lado, em contraste com as concepções daí de­
correntes, às preocupações pastorais dos cónegos regrantes, o que já então
relacionei com a sua origem citadina e com os seus contactos com regiões
caracterizadas por maior mobilidade social, transferências de população e
contactos com culturas diferentes. A sua atitude seria, depois, retomada
e renovada pelos mendicantes sob formas mais radicais e mais directamente
adaptadas à vida citadina. Para enquadrar o que diremos a seguir convém
não esquecer que a dominante monástica se prolonga mais tempo nas áreas
senhoriais, e a pastoral dos regrantes se situa no Centro e no Sul. Também
não se devem esquecer as datas e os momentos em que se desencadeiam os
movimentos canonical (1131) e mendicante (1217), nem a evolução de ca­
da um deles.
Com este pano de fundo queria agora lembrar que a luta contra as
concepções anímicas de sentido ambivalente e contra as práticas mágicas
deixava intactos os medos e as crenças acerca da virtualidade própria de
certos objectos, tempos e acções, assumida até pela religião oficial e por ela
encorajados, como expressão de confiança, submissão e respeito pelo poder
divino. Algumas vezes as atitudes «oficiais» da Igreja são bem expressivas
da sua aceitação daquilo a que hoje chamaríamos «superstição». Assim, por
exemplo, o obituário e o martiroíógio do século xm da Sé de Lamego re­
gistam em versos latinos mnemónicos os «dias egipcíacos» do ano, isto é,
os dias aziagos ou nefastos, ao lado do calendário das festas litúrgicas176. As
maldições rituais pronunciadas por ocasião da excomunhão canónica, codi­
ficada no século x i i , têm igualmente aspectos «supersticiosos»177. Não ad­
mira, portanto, que a Igreja não se oponha à crença na união de seres hu­
manos com seres fantásticos inspirados no imaginário pagão. De uniões
deste género teriam nascido linhagens com algumas características pouco
comuns como, por exemplo, os Haros, nascidos da «Dama de pé de ca­
bra», e os Marinhos, vindos de uma sereia178. Não se estranhem, portanto,
as «devoções» que implicam uma especial confiança na eficácia dos referi­
dos objectos, tempos e acções. É o caso da devoção à Santa Cruz, ao Espí­
rito Santo, a certos santos considerados protectores contra determinadas

175 Vol. II, pp. 160-171, 325-349.


176 I. da Rosa Pereira, 1993.
177 J. Mattoso, 1993, pp. 183-190.
178 L. Krus, 1985.

40
doenças ou malefícios, a crença na acçao infalível das relíquias ou na invo­
cação do nome de Maria, na protecçao daqueles que celebravam a missa da
Virgem ou rezavam o seu ofício divino, ou que, por visitarem igrejas de
Roma ou Jerusalém e aí rezarem certas orações, recebiam as respectivas
«indulgências».
O que me parece mais interessante nestas novas crenças, que entre nós
se difundem pelo fim do século x i i e durante o século xm , é o facto de
atingirem todas as camadas da sociedade, embora, porventura, algumas de­
las se manifestassem preferentemente em certas regiões ou em certos meios
sociais. Assim, por exemplo, é bem conhecida a firmeza da devoção a São
Vicente entre os pescadores de Lisboa179. D. Dinis mostra bem a sua con­
fiança no poder da relíquia da Santa Cruz, que tinha pedido emprestada
aos hospitalários do Marmelar e manda restituir no seu testamento, expli­
cando «ca nõ filhei senon por devaçam que em ela havia, e com entençom
de a fazer tornar u ante sia»180. D. Vataça, a dama bizantina da corte de
Santa Isabel, mandou provavelmente fazer uma cabeça-relicário de prata
onde se guardava um osso de São Fabião ou o crânio encastrado de algu­
ma pessoa de virtude (um «saudador»), o que atraía numerosos devotos à
capela onde estava guardada, em São Romão de Panóias. Reencontrada re­
centemente, ainda hoje impressiona quem a vê181. Todavia, para o nosso
propósito, não interessa enumerar as diversas modalidades destas devoções,
mas apenas mostrar a sua raiz comum e salientar que elas se tornam actos
pessoais de natureza muito diferente, por exemplo, da participação colecti-
va nas celebrações litúrgicas. O carácter pessoal manifesta-se em certas pre­
ferências individuais, que levam a ter em casa determinadas relíquias, de­
pois cuidadosamente mencionadas nos testamentos. Exprime-se assim o
individualismo que se instala no sentimento religioso e faz dele um acto
eminentemente pessoal.
Por outro lado, as ameaças que a Igreja tinha dirigido contra quem ou­
sasse manipular indignamente as coisas sagradas, e particularmente as espé­
cies eucarísticas e a água benta, aliadas ao propósito de rodear a própria
propriedade eclesiástica do mesmo fulgor sagrado, para desencorajar os lei­
gos que a cobiçavam, fazem brotar e generalizar-se a noção de estatuto
imutável das coisas sagradas, agora com um sentido bem diferente do que
lhes era atribuído em virtude das crenças anímicas. Damo-nos conta disso,
por exemplo, ao ler no Fuero Real de Afonso X a lei que, depois de afirmar
a imutabilidade desse estatuto como se o sagrado se impregnasse nos pró­
prios objectos, assegura aos bens da Igreja a protecção da lei e prevê penas
graves contra a utilização profana das alfaias litúrgicas, edifícios e bens reli­
giosos (FR III, 12, pp. 117-118). Isso não impedirá o rei que tenha neces­
sidade de «algua herdade ou outra cousa temporal que seja da igreja» de
obrigar os seus respectivos detentores a cedê-la em troca de outro bem, se
ele o quiser para si. O rei atribui-se, pois, um certo poder sobre as coisas
sagradas, como se o colocá-las ao seu uso lhes não retirasse o estatuto imu­
tável antes definido.

179 Translatio et miracula S. Vicentii, n.os 16 e 17, in SS, p. 100.


180 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 100. Sobre o culto das relíquias entre os séculos x e xm , ver o
sugestivo artigo de Mário Barroca e Manuel L. Real, 1992.
181 Cláudio Torres e J. Boiça, 1993.

41
Voltando à crença na eficácia de objectos ou acções, teremos de rela­
cionar com ela a confiança em certas práticas, como, por exemplo, custear
a ida de um peregrino aos lugares santos, para aí cumprir as devoções con­
sideradas meritórias náo só por si próprio, o que era frequente182, mas
também para quem o tinha mandado.
Esta prática regista-se já no século x i i 183, mas torna-se, depois, mais
frequente. Assim, D. Dinis deixou bastante dinheiro para enviar um «cava­
leiro de boa vida» à Terra Santa e aí estar por dois anos «se a cruzada for»,
«servindo a Deos por minha alma»184. E ainda outra verba avultada para
um peregrino ir a Roma fazer por ele duas «quarentenas», «e ande cada dia
pelas estaçoens por minha alma»185.
Mas uma das mais significativas «devoções» introduzida nesta época foi
a da adoração da Eucaristia, vivamente encorajada pela hierarquia a partir
da instituição da festa do Corpus Christi. Os poderes seculares aderiram a
ela com empenho. Assim, os homens-bons de Guimarães oferecem, em
1319, mil e quinhentas libras portuguesas à colegiada para custear os fes­
tejos186.

R e s p o n s a b il id a d e in d iv id u a l

Estas questões interessam-nos também em virtude de significarem não só a


crença na eficácia mágica de relíquias e devoções, mas também maior sen­
tido da responsabilidade individual diante de Deus. Durante o século x i i
assistimos a uma multiplicação da prática das «obras de misericórdia», co­
mo a esmola, a redenção de cativos, a construção de pontes e de alberga­
rias. São já o resultado de uma certa consciência da responsabilidade de o
indivíduo contribuir com os seus bens para a comunidade. Ao'm esm o
tempo, porém, acumula méritos que lhe propiciam a salvação pessoal187.
O peregrino também alcançava direitos especiais à salvação não só para si
próprio, mas também para quem lhe pagava a viagem. Os méritos do seu
acto penitenciai eram partilhados com outros. Se bem que o sentido indi­
vidual do pecado dependa em grande parte do grau de desagregação das
forças sociais que aglutinavam firmemente os grupos de parentes e'as co­
munidades rurais, podem apontar-se factores especiais que aceleraram o
processo. Um deles foi a difusão da confissão auricular, com a consequente
necessidade de o ministro averiguar a intenção pessoal e as agravantes e
atenuantes dos actos praticados, para poder ditar a penitência. Ora a exi­
gência canónica de uma certa periodicidade na recepção de todos os sacra­
mentos, desde o concílio de Latrão de 1215, levou o clero a exercer em
grande escala o papel de mentor dos leigos, apelando para a consciência in­

182 N um inquérito de 1216 sobre as questões de primazia entre Braga e Toledo, de vinte e oito
testemunhas bracarenses, nove declaram ter feito a peregrinação a Santiago, uma das quais, duas
vezes; outra, três; uma outra tinha ido em peregrinação a Lisboa: BPIn. III, n.° 220.
183 Em documento de Santa Cruz de Coimbra: J. Mattoso, 1982, pp. 308-309.
184 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 101.
185 Ibid., p. 101. Ver casos do mesmo género em M. Martins, 1957, pp. 125-146.
186 M. da Conceição Falcão Ferreira, 1989, p. 70.
187 Cf. M. J. Ferro Tavares, 1989, pp. 124-142; J. Mattoso, 1968, pp. 361-384; ÚL, 1982,
pp. 307-323; M. S. Alves Conde, 1987, pp. 115-119.

42
dividual. Daí a enorme difusão dos manuais de confessores que os ajuda­
vam a desempenhá-lo188. Entre eles conta-se o Liber poenitentiarius do ca-
nonista português João de Deus, escrito em 1247189.
O outro elemento que contribuiu para a difusão do sentido da respon­
sabilidade individual foi a pregação popular dos franciscanos e dos domini­
canos. Já vimos o papel que nela tiveram Santo António de Lisboa e o do­
minicano Fr. Paio de Coimbra. Seria, pois, do maior interesse averiguar
como é que os leigos reagiam a estas instruções, quase sempre acompanha­
das de ameaças da punição divina. As devoções apareciam decerto como
práticas tranquilizantes, pois garantiam ao fiel a protecção perante o medo
do castigo. Outro recurso, também já mencionado, foi a reunião dos fiéis
em confrarias. Eram não só um suporte para substituir parcialmente o pa­
rentesco e obter o socorro mútuo, mas também para ajudar a praticar as
boas obras exigidas pelos pregadores. As verbas testamentais destinadas a
sufrágios e obras de misericórdia servem para dar aos moribundos uma
maior tranquilidade à hora da morte. Mas os apelos à penitência obtêm
também ecos de carácter mais moral quando provocam sentimentos de
arrependimento pela prática de acções especialmente censuradas pelos pre­
gadores, como as violências injustas. Podemos citar como exemplo dois
testamentos: o de Pêro Martins Pimentel, de 1 2 1 2 , no qual deixa verbas
para reparar as rapinas e abusos praticados sobre gente do castelo de Ver-
moim, o arcebispo de Braga, o mosteiro de Pedroso, o prior de Vila Cova
de Ul, etc.190; e o do próprio rei D. Dinis, que mandou pagar dívidas e
malfeitorias, embora considerasse ter as suas atenuantes: «como quer que o
eu fezesse para poder por i melhor defender a minha terra, assi em guerra
como em al». O rei era especialmente sensível às acusações que decerto não
deixaram de lhe fazer, de um excessivo rigor na cobrança de rendas: «assi
nos arrendamentos como em todalas outras cousas de que eu levei alguma
cousa como nom devera»191. Já num testamento anterior D. Dinis se arre­
pendia de excessos na renda das avenças e herdades e na aplicação do di­
nheiro para usura192.
As violências, a ganância e o abuso do poder deviam, pois, ser pecados
especialmente censurados pelos pregadores e confessores. Als suas instruções
alteraram também o juízo que se fazia acerca de actos públicos considera­
dos especialmente imorais, e na perseguição dos quais o soberano se sente
agora também obrigado. É, decerto, o caso da prostituição, sobre a qual
D. Dinis considera imoral cobrar impostos193, da tavolagem, um vício da
vida urbana194, e das blasfémias, cujos responsáveis merecem um castigo
terrível: «qui lhi tirem a lingua pelo pescoço e o queimem»195. Os desman­
dos sexuais, no entanto, não parecem perturbar tanto os leigos. Nos testa­

1 8 8 y er p Michaud-Quantin, 1962. A influência sobre a consciência dos leigos é sublinhada

por J. Ch. Payen, 1968.


189 A. D. de Sousa Costa, 1956; id., 1957; M. Martins, 1957b, pp. 57-110.
190 J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 55 = Ibid., II, doc. 7.
191 A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 101-103.
192 Testamento de 1299: M L, V, f. 330.
193 LLP, p. 180, lei de 1321.
194 LLP, pp. 179-180, lei de 1321.
195 LLP, p. 82, lei de 1312.

43
mentos não se encontram vestígios de arrependimento por terem tido fi­
lhos ilegítimos ou vivido em concubinato. As cantigas de escárnio não
revelam inibições nem aludem a censuras clericais. Mas Afonso III proíbe
os nobres de trazerem «soldadeiras» nos seus cortejos (LLP, p. 147), e
D. Dinis castiga severamente o abuso do poder em matéria sexual praticado
pelos oficiais de justiça sobre mulheres presas ou em demanda: se são cléri­
gos perdem os bens e o ofício; se são leigos manda castrá-los (LLP, p. 79).
Santa Isabel cria duas casas para recuperação de prostitutas e um hospital
para recolher crianças ilegítimas abandonadas196.
Bastarão estes exemplos. E obviamente impossível dar aqui conta de
todas as crenças morais e seus diversos aspectos, e muito mais fazer um es­
tudo acerca das mutações que se deram neste domínio. Existe para isso
ampla matéria quando se analisam as vidas de santos das diversas épocas,
os ensinamentos catequéticos implícitos nos livros de milagres e, sobretu­
do, num deles destinado ao grande público, as Cantigas de Santa M aria, e,
ainda, nos manuais de confessores como o de mestre João de Deus.

R ec lu sã o e c la u su r a

Não deixarei, contudo, de fazer notar que os apelos à penitência, que ou-
trora levavam os fiéis da Galécia à reclusão temporária em covas, longe dos
povoados, convidam agora os penitentes mais extremistas a praticar a re­
clusão na cidade, como as emparedadas que tanto impressionaram San-
cho II, Afonso III, Santa Isabel e D. Grácia, a mãe do conde D. Pedro de
Barcelos197, e cuja direcção espiritual era disputada por franciscanos e do­
minicanos em Santarém, em 1260198.
Pode aproximar-se da reclusão a exigência da clausura das religiosas,
agora praticada não só por devoção mas também para afastar as ocasiões de
infringir o voto de castidade, efectivamente não muito respeitado em cer­
tos conventos dos séculos xn e x m 199. A tentativa de impedir estes des­
mandos por meio da clausura feminina verifica-se entre nós ainda antes de
Bonifácio VIII a impor como lei geral, em 1298200. Efectivamente, já em
1294 D. Dinis tem o cuidado de regulamentar minuciosamente a clausura
ao dotar o mosteiro de Odivelas201. Seu filho bastardo Afonso Sanches não
se preocupou menos com o caso quando fundou o convento de Vila do
Conde: «nom hajam em este nosso moesteiro fieiras que saiam fora pera
pedir esmolas andando pela terra como as há em outros moesteiros da or­
dem de Santa Clara porque em alguns moesteiros se seguirom grandes
dannos e alguas per muitas vezes em grandes deshonras dos corpos e
dampnos das almas»202.

196 M. J. Ferro Tavares, 1989, pp. 42-43, 186.


197 Elucid, vb. «Emparedadas»; J. P. Ribeiro, 1810, doc. 31, de 1223; A. C. de Sousa, 1739, ,
pp. 56, 115-117, 119, 133; A. do Rosário, 1982, p. 85, doc. de 1260.
198 A. do Rosário, 1982, pp. 82-89.
199 Cf. LL, os passos registados no índice em «Filhos de clérigos e de freiras», p. 389; Fortuna-
to de Almeida, 1967, I, p. 233.
200 Fortunato de Almeida, ibid., p. 233.
201 A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 106-109.
202 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 124.

44
Os desmandos morais foram de sempre. Os pregadores não fizeram
mais, por isso, do que renovar orientações que o clero sempre tinha dado.
A diferença consiste em que, agora, apelam mais para a consciência indivi­
dual. O assunto não está estudado, mas é provável que as orientações cleri­
cais se distanciassem agora mais claramente dos padrões de exigências de
comportamento feitas pelos grupos e comunidades em que os fiéis estavam
inseridos. A moral sexual era talvez um dos capítulos em que os hábitos
dos grupos tradicionais não coincidiam com os ensinamentos do clero203.

C o st u m es: o d in h e ir o

Desde o fim do século x i i , porém, surge um problema novo e cada vez


mais perturbante: o dinheiro. Até ali era usado quase só por um pequeno
grupo de mercadores, com hábitos diferentes dos do comum da gente e
que podiam considerar-se à parte. Desde então, o dinheiro foi-se tornando
cada vez mais acessível a todos, e transformou-se em indispensável instru­
mento de troca. A facilidade com que se acumulava, multiplicava ou per­
dia, as exigências implacáveis dos judeus e outros financeiros que o em­
prestavam com usura a quem lhe conhecia mal o valor, o facto de se
encontrar nas mãos de gente que não dispunha do poder político nem sa­
grado, a própria perturbação que a sua manipulação causava numa socieda­
de que dominava mal os seus mecanismos, fizeram do uso do dinheiro um
grave problema moral. Levou muitos pregadores e moralistas a olhar com
desconfiança o mercador, como um homem propenso ao pecado e incapaz
de escrúpulos204. Mesmo num meio como a corte de Afonso III, que sabia
manejar tão habilmente o dinheiro, certos jograis mostravam conhecer
bem o seu público que se regozijava por eles atribuírem vícios homosse­
xuais a uma personagem que o juntava tão abundantemente, como o chan­
celer Estêvão Anes205.
Não admira, portanto, que D. Dinis sentisse particulares escrúpulos
por emprestar dinheiro com usura206, seguindo nisso, decerto, práticas ini­
ciadas por seu pai. O mesmo rei achou por bem dispensar os cruzados, que
partiam para a Terra Santa, de pagar juros de dívidas. Efectivamente, aque­
le que praticava obra tão meritória devia ser protegido contra a cobiça dos
usurários207. Mas se se censuravam os que usavam egoistamente o «esterco
do diabo» e se tentava limitar a prática da usura sem ousar condená-la208,
considerava-se só por si meritória a prática da pobreza voluntária, da qual
São Francisco de Assis tinha dado um exemplo tão eloquente. A sedução

203 Sobre o antagonismo dos modelos de comportamento sexual profano e eclesiástico, ver
G. Duby, 1981, pp. 223-239.
204 Ver Lester Little, 1980. Ver algumas das Cantigas de Santa M aria , entre outras, CSM , n.os
33 e 68.
205 Cf. L. Krus, Berta M. C. Pimenta e Leonardo Parnes, 1978.
206 Ver o testamento de 1299: M L, f. 331.
207 Lei de 1292: LLP, pp. 192-193.
208 Ver as leis de Afonso II (1211), Afonso III (1266): Leg., pp. 174, 218; e de D. Dinis
(1292): pp. 192-193. Várias leis sobre os Judeus pressupõem precauções contra as suas fraudes:
LLP, pp. 100 = 193, 164, 178, 183, 186. Ver M. J. de Almeida Costa, 1962; M. J. Pimenta Fer­
ro, 1979, pp. 106-108.

45
da renúncia, não apenas colectiva, como faziam os monges, mas também
individual, chegou então aos palácios reais, inspirando as virtudes exempla­
res de Santa Isabel, cuja posição e poder contrastavam com o seu amor pe­
los pobres209. O seu exemplo era tanto mais impressionante quanto se opu­
nha também — os hagiógrafos só ousavam dizê-lo indirectamente — às
implacáveis exigências do seu régio marido210.
As novas concepções acerca do dinheiro e dos bens materiais não im­
pedem, no entanto, que ainda em meados do século xm encontremos no
testamento de Santa Mafalda um eloquente testemunho da maneira como
uma senhora, cujas virtudes mereceram também as honras dos altares, en­
tesourava os bens materiais, parecendo considerar a sua acumulação como
sinal da bênção divina211. D. Vataça, dama da corte de Santa Isabel, tam­
bém não deixou de acumular bens de luxo212. A própria Santa juntou pe­
ças de um tesouro que ainda hoje se podem admirar no Museu Machado
de Castro, em Coimbra. A concepção da propriedade pressuposta por estas
damas exemplares parece difícil de conciliar com a de que por essa altura já
se impunha amplamente, pois se baseava no princípio de que o entesoura-
mento permitia o dom, e a generosidade no dar aproximava de Deus213.
Mas poucos anos depois, Afonso III, sobrinho de Santa Mafalda, bem
consciente do valor relativo dos bens que deixava, tinha o cuidado de reco­
mendar que, na execução dos seus legados pios, não se tocasse nas rendas
da Coroa na cidade de Lisboa:
«tunc filius meus qui post me regnaverit faciat utilitatem suam de civitate
Ulixb. et de redditibus eius, sicut de aliis suis villis regni sui, sed ante non acci-
piat inde aniquid»214.

É bem manifesto o seu receio de que a nova administração não estives­


se totalmente consciente do interesse em preservar esta excelente fonte de
rendimentos.

A PO U PA N Ç A

As novas concepções acerca do uso do dinheiro e do valor dos bens mate­


riais podem revelar-se também nas primeiras leis que pretendem reduzir o
luxo e as despesas sumptuárias. As de Afonso III, de 1258 e de 1261, que
se limitavam ao âmbito da corte, pressupõem, de facto, uma mentalidade
bem diferente da que considerava a generosidade perdulária uma virtude
própria da nobreza. Aqui, pelo contrário, condena-se o desnecessário e o
excessivo* tanto no vestir como no comer (Leg., pp. 198-200, 200-201).
O rei não teme sequer afrontar as censuras e o escândalo dos nobres do seu
tempo promulgando estas leis que não só limitam o comer e vestir do rei e
da corte, mas também proíbem os gastos excessivos com os fidalgos e ou­

209 Testamento de 1325. A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 113-114; Fr. Salvado Martins, Vida e
Milagres de D. Isabel (ed. J. J. Nunes, 1918-1919).
210 É o sentido do «milagre das rosas».
211 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 31.
212 M. H. Coelho e L. Ventura, 1987a; id., 1987b.
213 Cf. A. Gurevitch, 1972, pp. 523-547.
214 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 57.

46
tras pessoas que aí chegam, esperando, certamente, gozar da abundância do
palácio real. Mas no princípio do século xm a sobriedade e a moderação
tinham ganho terreno. Afonso Sanches, ao fundar o convento de Vila do
Conde (1318), determinava também o que as freiras podiam vestir e co­
mer215. Santa Isabel, em 1325, fazia o voto de andar com o hábito francis-
cano quando ficasse viúva216.

C ultu ra : o se n t id o da m e d id a

Verificamos, assim, que as concepções «burguesas» começavam a entrar


também no paço e, até, nos conventos. Era necessário medir, poupar, gerir.
Mas os hábitos de rigor, tão citadinos, não se impõem facilmente. Em
1216, num inquérito feito em Braga, entre pessoas idosas, encontram-se
muitas contradições quando as testemunhas declaram a sua idade e referem
os acontecimentos presenciados. Muitas não sabem a sua idade, algumas
dizem ter 100 , 120 e até 140 anos, e a uma insistente pergunta do inquiri­
dor sobre o tempo durante o qual o bispo João Peculiar esteve doente, re­
cebe respostas que variam entre os cinco e os doze anos (BPIn. III,
n.° 220 ). Os hábitos de rigor começam, evidentemente, pelos mercadores e
pelos funcionários régios. É ver como um mercador de Coimbra, encarre­
gado pelo mosteiro de Santa Cruz de receber os foros de uma propriedade
cedida por Lorvão, tem o cuidado de indicar a capacidade das medidas: o
moio aí indicado vale sessenta e quatro alqueires dos de Coimbra217. Ou,
então, como os escribas e os notários do «burguês» Afonso III, que na lei
de 1261 têm o cuidado de indicar os valores da nova moeda-padrão, a sua
conversão em diversas espécies, quem e como as cobra, quando o rei pode
mudar a moeda e em que quantidade, e a definição do seu toque (Leg.,
p. 2 1 1 ). Ou, então, a exigência de mandar datar os instrumentos de contratos
(Leg., p. 261) e das procurações (Leg., p. 276 ), em indicar as unidades dos
géneros tabelados em 1253 (Leg., pp. 192-194). É ver, também, como os
notários dionisíacos descrevem escrupulosamente o selo e os sinais externos
de certos documentos que transcrevem e cuja autenticidade têm de garan­
tir218 ou como os que têm de medir as terras trocadas pelo rei em Cami­
nha comparam a teiga usada em Friestas com a de Pena da Rainha, a de
São Paio de Jorla com a de Ponte de Lima219. Surgem agora documentos
tão surpreendentes como aquele que declara as medidas do solho gigante
pescado perto de Santarém, onde o tabelião, depois de ter longamente des­
crito e medido o fenómeno e enumerado as testemunhas, declara: «per
mha mãao medi e vi a muitos outros medir e nas balanças dos pesos poer e
pesar»220.
Os mordomos régios também aprenderam a medir. Dê-se como exem-

215 Ibid ., p. 125.


216 Ibid., pp. 113-114.
217 M. H. Coelho, 1983, doc. 12, de 1288.
218 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 67, doc. de 1291 = CUP, I, doc. 9.
219 Gama Barros, X, pp. 41-42.
220 Publ. por Alfredo Pimenta, 1937, p. 71, e por C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 37, de
1321.

47
pio a sentença sobre os foros do concelho de Gulfar, perto da Feira, onde,
não sabendo bem a medida do quintal de vinho, o substituem pelo moio,
e onde determinam o tamanho do molho de linho, o valor do «manto», as
dimensões do lenço, do bragal e das varas do mesmo tecido221. Para evitar
fraudes, gravam-se então, nas portas das igrejas e dos castelos, perto dos lo­
cais onde se faziam feiras e mercados, os padrões de medidas lineares.
E um costume que se verifica sobretudo durante a segunda metade do sé­
culo X III222.
E possível que os agentes de D. Dinis sentissem a necessidade de uni­
formizar os pesos e as medidas. Todavia, o insucesso do ensaio feito neste
sentido por Afonso X em Castela, em 1268223, impediu-o, talvez, de o imi­
tar. Só no reinado de D. Pedro se conhece uma iniciativa semelhante224.

O S E N T ID O D O ESPA ÇO

Quantificar, datar por referência a padrões neutros e uniformes, eis o que


estava totalmente fora dos hábitos da gente do campo no Norte, fossem se­
nhores ou vilãos. Situar-se no espaço também não estava nos seus hábitos,
a não ser por referência a montes, onde estavam os castelos dos senhores,
ou a rios, que serviam de fronteiras. Para os das cidades e gente do Sul,
que não esqueciam neste ponto as tradições culturais moçárabes, situar-se
no espaço significava orientar-se em relação aos pontos cardeais. Por isso,
a maioria dos documentos que, a sul de Coimbra, indicam as confronta­
ções das propriedades as distribui a oriente, a ocidente, a «avrego» e a
«aguiam»225.

A E SC R IT A

Num a civilização que começa a utilizar as referências espaciais e tempo­


rais com mais rigor do que anteriormente, era indispensável a generaliza­
ção da escrita para todos os contratos. Não se podia confiar na memória
das testemunhas, mais propensas a apreender o significado social e emotivo
das acções e acontecimentos do que a registá-los de maneira neutra e me­
cânica. E, pois, significativo que na Idade Média os clérigos redactores de
documentos solenes começassem por elogiar as vantagens da escrita contra
as falhas de memória e do tempo. Tratava-se de uma reacção clerical e mi­
noritária, isto é, daqueles que sabiam fazer uso da escrita, no meio de uma
civilização predominantemente oral, e precisavam, por isso, de a justificar.
Só alguns nobres e os reis reconheciam as mesmas vantagens, ao confiar a
clérigos e monges o trabalho da chancelaria e a guarda dos seus pergaminhos.

221 C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 34, de 1313.


222 Mário J. Barroca, 1992.
223 Cortes de Jerez de 1268, cit. por Gama Barros, X, p. 18.
224 Oliveira Marques, in DHP, III, p. 374.
225 Para além de documentos muito mais antigos procedentes de Coimbra, ver, p. ex., para Se­
simbra, 1232: Rau, 1982, doc. 2; Marachique, 1260: ibid., doc. 8; Évora, 1273 e 1285: Gabriel
Pereira, 1885, does. 18 e 21; Torres Vedras, 1239-1301: J. M. Cordeiro de Sousa, 1957, does. 1,
3, 4, 7.

48
O monopólio clerical rompe-se, no princípio do século xm 226, com a
provável decisão tomada por Afonso II de instaurar o notariado, pelo me­
nos em alguns concelhos, e fazer dele um serviço público227. A medida era
demasiado precoce e por isso só se generalizou depois de 1250. Fazia parte
de reformas mais vastas, como se deduz de com o mesmo rei se ter inicia­
do o registo dos documentos expedidos da corte, costume por essa época
ainda raro na Europa ocidental228. O seu cuidado em registar os actos por
escrito é dos mais evidentes, ao ordenar, numa célebre lei de 12 2 2 , a cada
um dos principais dignitários da corte, o mordomo-mor, o alferes e o
chanceler, que tivessem um livro «de recabedo regni», que houvesse ainda
na chancelaria um «quarto livro», e que essa mesma lei fosse copiada em
cada um deles (Leg., p. 179).
Como se sabe, o tabelionado difundiu-se rapidamente no reinado de
Afonso III, como uma necessidade imprescindível no novo esquema de re­
lações de convivência em que se generalizavam novos princípios regulado­
res da legalidade dos contratos públicos. E, talvez, o facto que maiores
consequências traz para a difusão da cultura e da escrita entre os leigos.
Apesar da rapidez com que o novo costume se espalhou, foi preciso, por
vezes, recomendá-lo expressamente. Assim, por exemplo, quando em
1270 o mesmo Afonso III avisa todo o reino de que vai «acrescentar» a
moeda nova, manda que todos os tabeliães escrevam a lei nos seus regis­
tos (Leg., p. 219). O mesmo ordenou para a lei de 1272 acerca da revelia
(Leg., p. 226). A relação entre a escrita e o espaço urbano é, nesta ordem,
instintivamente expressa, ao dizer: «cada um de vós em vossas vilas que fa-
çades escrever todas estas cousas».
Apesar da rápida difusão dos contratos escritos, ainda no mesmo reina­
do, em data desconhecida, era preciso recomendar aos juízes dos órfãos
que não se esquecessem de registar a relação dos bens que eles deviam her­
dar (Leg., p. 269). Nas instruções acerca do processo jurídico redigidas na
Guarda, pela mesma época, o seu autor tem o cuidado de recomendar que
a sentença seja dada por escrito (Leg., p. 339, tempo 9.°). Ora D. Dinis,
ainda em 1310, urgia para que esta recomendação não fosse esquecida pe­
los juízes locais (LLP, p. 139). Pouco depois exige que os tabeliães passem
um exame antes de poderem exercer a sua profissão, o que de facto já se
pratica em 1321229. Em data desconhecida, o mesmo rei recomenda tam­
bém aos alcaides e alvazis municipais que se correspondam entre si para
perseguirem os criminosos que tinham fugido para outros concelhos, e aos
tabeliães para não deixarem de anotar as acusações e sentenças, fossem con­
denados ou não do concelho (LLP, pp. 168-169, mal datado).

226 Sobre a problemática da difusão da escrita, ver: Albert d’Haenens, 1983.


227 E. A. Borges Nunes, 1981, pp. 25-30. Além dos testemunhos aqui apontados, ver também
a lei 29 de Afonso II, dirigida ao alcaide, aos alvazis, aos que «têm as causas d’el rei», ao tabelião
e ao concelho de Santarém: Leg., p. 180, e a carta do mesmo rei sobre as lezírias de Lisboa e San­
tarém, de 1222, dirigida às mesmas autoridades, mas da cidade de Lisboa, e ao seu tabelião, o qual
deveria «ter» a carta: J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 49; referência a Pedro Martins, tabelião de Leiria
em 1221: TT , Dourados de Alcobaça, III, f. 55, doc. 107 (comunicado por Saul António
Gomes).
228 R. de Azevedo, 1976b.
229 M. J. Azevedo Santos, 1993, p. 6.

49
A pouco e pouco, a escrita invade tudo. Era usada pelo fisco, desde há
muito, como se depreende da contabilidade sobre as rendas e dinheiros co­
brados ou arrecadados no tempo de Afonso III, e outros documentos do
mesmo género230. D. Dinis, preocupado com a cobrança dos dízimos sobre
os contratos dos judeus, recomenda aos tabeliães que os registem em livro
à parte, para os almoxarifes poderem consultá-los mais facilmente (LLP,
pp. 178-179, de 1319). Foi também no seu tempo, ou pouco depois, que
o redactor dos costumes acerca dos mouros forros recomendou, sob pena
de multa, que todos eles fossem, em cada ano, no primeiro de Maio, apon­
tar os «seus cabedaaes» nos livros do recebedor ou rendeiro e escrivão d el
rei (Leg., II, p. 98).
Por isso, os concelhos têm também de ter os seus escrivães. Assim, não
admira que D. Dinis, consciente de que a escrita era um instrumento in­
dispensável de governo e coordenação administrativa, promulgue em 1315
um minucioso regimento dos tabeliães, justamente um dos primeiros regu­
lamentos do género conhecidos entre nós (LLP, pp. 63-70). Por sua vez, a
instituição tabelionática aperfeiçoa-se do ponto de vista técnico e profissio­
nal, como mostra, por exemplo, a actividade de Lourenço Eanes (1301-
-1322), tabelião de Lisboa, minuciosamente estudada por Bernardo Sá No­
gueira231.
Os tabeliães, de nomeação régia, exercem o seu ofício não só nas terras
do rei, mas também nas de senhorio particular, pelo menos em algumas,
como acontecia em Amarante, da Ordem do Hospital232.
Enfim, a escrita invade também a vida dos nobres. Sabemos que as
canções trovadorescas foram desde cedo anotadas em «rolos» com recolhas
individuais. Depois, copiam-se em cancioneiros colectivos, como o da Aju­
da e, já em meados do século xiv, como o do conde D. Pedro de Barcelos,
que tem também o seu scriptorium onde redige os livros de linhagens e
as crónicas. Assim, a escrita permitia perpetuar o «espectáculo trovado-
resco»233.
Deste modo, a cultura fundada em princípios lógicos, racionais e dis­
cursivos vai tomando lentamente o seu lugar ao lado da de base mítica e
simbólica que ainda predomina na visão do mundo, quando ela se formula
teórica e conscientemente. Como, por exemplo, no prólogo da doação de
Afonso Sanches de Albuquerque às clarissas de Vila do Conde:
«Porque antre todalas criaturas boas que Deos criou fez homem e molhei
a mais nobre que todalas outras em este mundo foram criadas assignadamente,
a el soo deu alma de entendimento e de razom pera conhecer el e todalas cau­
sas e de partir o bem do mal, porém os homes de razom e d’aguisado o devem
mais a amar e honrar e louvar que todalas outras.»234

Era uma formulação simples, de pena de um clérigo que se colocava na

230 P. de Azevedo, 1913; J. P. Ribeiro, 1813, III/2, does. 29 e 31.


231 Bernardo Sá-Nogueira, 1988.
232 Rosa Marreiros, 1985, pp. 35-37.
233 A. Resende de Oliveira, 1992, pp. 356-397.
234 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 123.

50
vez do nobre, autor da doação, e que sabia exprimir conceitos compreensí­
veis pelos leigos. De facto, os leigos cultivavam outros temas.

C ultura dos l e ig o s

Conhecemo-los mal. De fundo oral, as suas manifestações anteriores ao sé­


culo x i i i são para nós quase inteiramente desconhecidas. Só chegaram até
nós indirectamente, até ao momento em que, como vimos, se registaram
por escrito as poesias trovadorescas. Não admira, por isso, que os especia­
listas tenham procurado cuidadosamente fixar o momento em que apare­
cem as primeiras composições hoje conservadas235.
Sabemos, no entanto, que a actividade poética dos leigos vem de mui­
tos séculos atrás. Pelos fins do século x i i , é resolutamente apoiada por reis
como Sancho I, que em 1189 recompensa os dois jograis Bon Amis e
Acompaniado (DS 67). Mas os cavaleiros-vilãos dos concelhos também
a apreciavam, e, tanto, que os redactores dos foros de Alfaiates têm de
proibir de dar mais de seis maravedis ao cedrero que vier cantar à vila
(n.° 442, in Leg., p. 838). O cedrero tocava uma espécie de cítara e é men­
cionado também no fuero de Madrid no século x i i , que o apresenta como
viajando a cavalo por várias cidades para cantar diante do povo. Segundo
Menéndez Pidal, recitaria sobretudo poesia narrativa, ao contrário do toca­
dor de cítola, que acompanhava frequentemente a poesia lírica236.
Dada a grande quantidade de trovas conservadas para a época de Afon­
so III, não admira que se encontrem referências aos seus autores na docu­
mentação coeva. Numa lei, o monarca, económico como sempre, reduz a
três o número habitual dê jograis de sua casa e estabelece a tabela do que
se há-de dar aos jograis e segréis que vieram a cavalo de outra terra (Leg.,
p. 199). O exemplo e o prestígio das cortes provençais levaram as cortes
senhoriais castelhanas, galegas e portuguesas a recrutá-los também ou a
acolher os que apareciam, como se depreende do preâmbulo de uma lei
não datada de D. Dinis:
«Senhor, o degredo de vosso padre manda que os ricos-homens vaam aos
moesteiros e aas eigrejas com certos cavaleiros [...] e levam i sas molheres e sol-
dadeiras e jograres muitos e comem com elas nas crastas e nas camaras dos
priores e dos abades» (LLP, p. 147).

Tendo-se tornado um hábito nos meios nobres, a poesia oral põe-se


também por escrito237. Surgem, então, as primeiras produções narrativas,
quer derivadas das tradições familiares, como as registadas nos livros de li­
nhagens238, quer os primeiros ensaios de uma historiografia não dependen­
te de esquemas clericais. É curioso verificar que esta aparece primeiro nas
cortes senhoriais do que nas régias, tal como a própria poesia trovadores-

235 Ver as discussões sobre a datação de uma composição como a de João Soares de Paiva, atri­
buída a 1196 ou 1213 (CEM D , n.° 242). Sobre a origem da poesia trovadoresca galaico-
-portuguesa, ver, entre todos, G. Tavani, 1980, pp. 15-24, e agora, sobretudo, A. Resende de Oli­
veira, 1987; id., 1989; */., 1992; á/., 1993.
236 Ramón Menéndez Pidal, 71975, p. 28.
237 G. Tavani, 1980, pp. 24-46; A. Resende de Oliveira, 1992, pp. 356-357.
238 J. Mattoso, 1983.

51
ca239. Só esse facto permite compreender a importância atribuída aos Tras-
tâmaras nas origens do reino de Portugal, segundo a tradição transmitida
pelo Livro do conde D. Pedro no princípio do título VII240. É certo, pelo
menos, que não parece haver nenhuma crónica régia portuguesa anterior à
Crónica de 1344, que é justamente obra de um senhor, embora ligado
à corte régia, o conde D. Pedro de Barcelos241. Também não deixa de ser
significativo que fosse ainda um clérigo de um nobre, Pero Anes de Portei,
quem traduziu para português a Crónica do mouro Rasis. Não é seguro que
o fizesse por ordem de D. Dinis242. O rei parecia mais interessado em cul­
tivar a poesia lírica. O ambiente de intervenção cultural dos leigos expri-
me-se bem com a importante mutação, verificada no princípio do reinado
de D. Dinis, de adoptar o romance como língua oficial nos documentos
expedidos pela chancelaria243.
De qualquer maneira, estes factos representam uma mudança muito
grande quando comparamos o ambiente cultural que daqui se depreende
com o que, por outro lado, se pressente, ao ler as narrativas conservadas
nos livros de linhagens acerca do rei e da nobreza no século x i i . Vejam-se
as que se contam de Fernão Mendes de Bragança ou de Gonçalo Mendes
de Sousa244, e a gesta de Afonso Henriques245. A predominância guerreira,
feroz e vingativa do século anterior havia sucedido agora a cultura cortesã,
que comportava um código de boas maneiras e de regras de convivência,
em que a mulher passara a ter um lugar importante. Já não se confiava aos
jovens nobres apenas o combate e a violência, mas também, sobretudo
aos bastardos, o cuidado de divertir a corte com a poesia, a música e as fa­
cécias. Com eles vinham as soldadeiras para dançar e cantar. Já não interes­
sava apenas a épica, valorizava-se também a lírica e a sátira246. Aperfeiçoa­
vam-se os géneros e distinguiam-se os bons e maus trovadores e jograis. Os
ricos-homens e os altos dignitários da corte não desdenhavam imitar o gru­
po de jovens e de bastardos a quem normalmente se confiavam os jogos
poéticos247.

C ultura popular

Que se passava, por essa altura, nos concelhos e nos meios populares?
É muito difícil imaginá-lo. Pode licitamente presumir-se que os jograis e os
segréis populares, aqueles que não andavam a cavalo e cuja recompensa
não era prevista por Afonso III, não tivessem cessado as suas actividades, e

239 A. Resende de Oliveira, 1987; id , 1993.


240 Nao se confirma, no entanto, a hipótese que propus em 1983, pp. 23-24, de ser também
redigida para os Trastâmaras a perdida Crónica galego-portuguesa de Portugal e Espanha de que
também há vestígios no Livro do Conde\ J. Mattoso, 1991.
241 Ver mais adiante a p. 170.
242 CM R, p. 3, nota.
243 J. P. Ribeiro, 1798, pp. 89-97; id., 1810, I, p. 184.
244 J. Mattoso, 1983, pp. 79-83.
245 A. J. Saraiva, 1979.
246 Sobre a sátira, ver Graça Videira Lopes, 1994.
247 J. Mattoso, 1981, pp. 333-369; id., 1985, pp. 309-328, 409-435. Sobre a segunda geração
dos trovadores e a sua actividade na corte castelhana, ver A. Resende de Oliveira, 1990; id., 1993.

52
que os cedreiros e os jograis continuassem a viajar de terra em terra para
animar as festas e romarias, tal como os bufões, os histriões e os saltimban­
cos de que se fala em alguns textos de penitenciais até ao século xiv, para
os censurar248. As Cantigas de Santa M aria, que os põem em cena, não os
colocam só em ambiente cortesão, mas também em meios populares249. Al­
gumas vezes são clérigos e parecem mais goliardos do que outra coisa.
Mas, agora, no século xm , as festas e as celebrações públicas não po­
dem dispensar os pregadores, que, desde o princípio do surto franciscano,
animam não só o interior das igrejas e das capelas, mas também as praças
públicas. Podemos imaginar como a pregação se podia tornar empolgante
espectáculo público ao ler o relato do que foi feito em Lisboa com a pre­
sença de um monge cisterciense maiorquino, liberto milagrosamente do
cativeiro entre os sarracenos e que aí contou as suas aventuras pelos anos
1238-1248, mostrando as algemas e as cadeias que trazia consigo250. Às ve­
zes a pregação simultânea de frades de diferentes ordens causa perturbações
e disputas, que é necessário depois apaziguar, demarcando os momentos e
os lugares em que cada um pode falar. Foi o que aconteceu em Santarém
em 1260, entre franciscanos e dominicanos. Depois de ásperas controvér­
sias, ficou estabelecido que quando uns, ao domingo, pregassem de manhã,
os outros pregassem de tarde, e no ano seguinte trocassem as horas; as igre­
jas e as festividades reservadas a uns e outros, e como haviam de repartir as
alocuções nos enterros e exéquias. Nesta data, porém, já se verifica uma
certa reserva quanto à pregação em lugares profanos, que tinha sido
uma das práticas mais populares dos franciscanos nos começos da sua or­
dem. Efectivamente, os juízes arbitrais da sentença então proferida decla­
ram que «não deverão pregar em lugares vis como, por exemplo, em alber­
garias ou lugares semelhantes, para que a pregação não se torne vulgar a
não ser que a tais lugares se dirija porventura alguma procissão»251.
Este documento evoca, pois, indirectamente, o ambiente em que a cul­
tura popular se torna mais viva: as festas e celebrações colectivas que as au­
toridades religiosas animam com pregações e procissões, onde aparecem os
histriões e os saltimbancos, os contadores de histórias e os cantores popula­
res. Neste ambiente urbano, o motivo da festa já não é tanto celebrar ri­
tualmente as mutações cósmicas ou os momentos fulcrais do ano agrícola.
Também não brota da componente lúdica associada aos grandes trabalhos
campestres feitos em comum. Organiza-se sobretudo em torno das festas
de santos, cujo calendário não depende dos ritmos lunares que presidem à
ordenação dos dias da semana e à determinação da data da Páscoa, pois
pode calhar em qualquer dia da semana. Pelo documento aqui menciona­
do, depreende-se efectivamente que os enterros, procissões e festas de san­
tos eram as ocasiões mais propícias à pregação, decerto em virtude de consti­
tuírem pretexto para desenvolver temas de carácter moralizante e catequético,
que eram os preferidos pelos pregadores.

248 Derek W. Lomax, 1983, pp. 229-246.


249 M. Martins, 1983, III, pp. 11-19; R. Menéndez Pidal, 71975, pp. 14-78.
250 Miracula S. Vicentii (ed. Aires Nascimento, 1988, pp. 80-81).
251 A. do Rosário, 1982, pp. 82-89 e J. Mattoso, 1993, pp. 191-202. Sobre a pregação medie­
val, ver L. Longère, 1983; para Portugal: F. G. Caeiro, 1984.

53
O IN D IV ÍD U O E O G R U P O : O PRIV A DO E O P Ú B L IC O

Voltamos aqui, portanto, a uma das mutações mais importantes da vida


medieval: a forma de integração do indivíduo na sociedade. Profundamen­
te inserido, quase sem vida autónoma, no grupo de que fazia parte, fosse,
num primeiro círculo, a parentela, fosse, num segundo, a comunidade da
vila ou aldeia, passa agora a ser considerado um ser dotado de consciên­
cia252, de capacidade de iniciativa, ao qual se garantem os direitos, o uso
dos bens e propriedades, ao qual se apela para agir responsavelmente, para
evitar o mal e praticar o bem, do qual se exigem impostos por cabeça ou
por cada transacçao.
Ao privado, opõe-se o público. Também a noção de público se altera,
se é que existiu propriamente antes da difusão de conceitos jurídicos no sé­
culo x i i i . O público como adjectivo designando o indiferenciado, o anóni­
mo, o de todos e de ninguém, onde não interessava considerar o estado
pessoal, a comunidade concreta, a categoria social, a idade, o sexo ou a fa­
mília era provavelmente inconcebível para a maioria dos homens do sé­
culo x i i . No seguinte, porém, passa a constituir noção indispensável para a
legalidade dos actos e a vigência das leis. De facto, já Afonso III manda
que certas leis mais importantes sejam lidas em todas as vilas e julgados,
diante dos prelados, alvazis, juízes, justiceiros, alcaides e concelhos, e sejam
registadas por escrito nas mesmas vilas e julgados (Leg., p. 192, de 1253).
A prática de ler as leis não apenas uma vez, mas periodicamente, até uma
vez por semana, pelos tabeliães, diante do concelho, tornou-se corrente
com D. Dinis. Este raramente se esquece de tomar precauções para que as
suas leis sejam conhecidas de todos253, para depois exigir o seu cumpri­
mento seja a quem for e para que ninguém se possa escusar de ignorância.
O hábito transmite-se aos concelhos, que declaram ter feito o pregão254 e é
adoptado pelos bispos, que mandam ler leis nas igrejas e durante os ser­
mões, nos dias festivos e ao domingo255.
Não menos significativa de um espírito novo é a preocupação, que
D. Dinis revela, de apelar para a opinião pública quando a sua autoridade
é contestada, como aconteceu nos conflitos com o infante D. Afonso. Co­
mo se sabe, mandou redigir e ler publicamente três manifestos em que se
justifica a si próprio e acusa o infante256. D. Dinis reproduzia, assim, talvez
sem o saber, uma atitude que tinha tomado também, poucos anos antes,
Filipe, o Belo, durante os seus conflitos com o papa Bonifácio VIII257.
Além de as leituras públicas terem as consequências legais que apontei, ou
se destinarem a obter o apoio popular numa ocasião em que a autoridade é
contestada, constituem também uma forma de pedagogia, quase de prega­
ção, como acontece quando o mesmo rei manda ler todos os anos as suas

252 M .-D. Chenu, 1969.


253 Ver, entre outras, as seguintes leis: LLP, pp. 51, 74, 78, 81, 82, 89, 90, 165, 169, 184,
197, 201, 204, 209.
254 Cf. Gabriel Pereira, 1885, does. 17 e 22; M. H . Coelho, 1983, doc. 16.
255 M. H. Coelho, 1983, doc. 17, de 1307.
256 F. Félix Lopes, 1967b; id., 1953; Câmara Municipal de Lisboa, 1947, pp. 135-146.
257 D. Knowles, 1968, pp. 402-404.

54
ordens e estatutos da Universidade na cidade de Coimbra «per praeconem
publicum». O rei pretendia, assim, inculcar em toda a gente o interesse pe­
la iniciativa cultural que tinha tomado ao fundar os Estudos Gerais258.

C o n clu sã o

Como se vê, estas mutações culturais com importantes implicações na


mentalidade, mesmo que partam de grupos minoritários, -mostram uma
Idade Média menos estática do que muitas vezes se pensa e diz. Para o
propósito que nos interessa, porém, convém salientar que no domínio da
cultura e da mentalidade se verifica, como nos observados anteriormente, a
desagregação das barreiras que separavam as comunidades. É evidente o
papel que nestas mudanças desempenham as cidades, a corte régia e as ins­
tituições religiosas, que consideram fundamental intervir junto das cama­
das populares. A circulação dos jograis e dos segréis não tinha fronteiras,
tanto abrangia Castela e a Galiza, como Portugal e Leão. Levava as mes­
mas histórias a toda a parte, mas cada comunidade as transmitia depois a
seu modo. Mas as missões dos agentes régios que liam as leis e proclama­
ções de D. Dinis situavam-se estritamente no âmbito do reino. Faziam-no
na mesma língua, ignorando as diferenças entre os falares e dialectos mais
influenciados pelo galego-português e os que dependiam do moçárabe oci­
dental, as quais, de resto, não eram tão grandes como entre eles e o caste­
lhano259. Os pregadores populares também tinham de falar esta língua. Os
franciscanos, mais próximos da mentalidade popular, pertenciam, note-se
bem, a uma província que englobava justamente toda a área linguística do
galego-português, a província de Santiago de Compostela. As separações
entre as comunidades concelhias e os domínios senhoriais levantavam cada
vez menos obstáculos à comunicação entre os seus habitantes. Mas as dife­
renças entre o português e o castelhano260, acentuadas pelas diferenças po­
líticas e sublinhadas pela delimitação fronteiriça das áreas económicas, essas
criavam barreiras que os reis tratavam de definir e acentuar cada vez mais.

258 CUP, doc. 25, p. 46. Sobre a fundação da Universidade ver o recente estudo de M. Nunes
Costa, 1991.
259 A. J. Saraiva, 1982, I, pp. 49-51.
260 Ibid.y pp. 60-71.

55
2.

A monarquia

A projecçao inconsciente de conceitos modernos sobre a Idade Média


tem levado a nao poucas inexactidões historiográficas. Um dos domínios
em que elas são maiores é o das concepções políticas. Determinados por
séculos de concepções de direito público e de atribuição exclusiva ao Esta­
do de funções políticas, os historiadores das instituições dos fins do século
xix e ainda até há pouco tempo tendiam a interpretar como funções públi­
cas o que se passava no domínio indiferenciado do público e do privado,
onde se move toda a autoridade desde o princípio da alta Idade Média.
Por essa razão, a preservação de certos conceitos e fórmulas do direito visi-
gótico, em grande parte expressão do direito romano vulgar, durante a Re­
conquista, levou muitos historiadores peninsulares a admitir como princí­
pio que, na Península, a influência da mentalidade feudal tinha sido
escassa. Assim, não se teria perdido a ideia de Estado. A supremacia do
monarca seria a expressão da sua função propriamente política, e não ape­
nas «feudal».
A ser assim, a Península Ibérica, tirando a Catalunha, representaria
uma notável excepção no panorama da história das instituições políticas
durante a Idade Média. Todavia, a opinião cada vez mais unânime dos his­
toriadores recentes é a de que o Estado propriamente dito resulta de um
lento processo de formação que só atinge o seu termo no século xiv, apesar
de alguns notáveis precedentes anteriores1. Não poderei, aqui, apresentar
uma demonstração completa de que em Portugal se passa o mesmo, mas
nem por isso deixarei de invocar não poucos testemunhos nesse sentido.
Para isso, é indispensável distinguir, tão claramente quanto possível, a au­
toridade pública exercida pelo rei em virtude do seu poder senhorial — no
que não se distinguia dos nobres dotados das mesmas prerrogativas — , da­
quela que exercia exclusivamente por causa da dignidade régia. Em segui­
da, mostrar a partir de quando é que a função régia se torna verdadeira­
mente estatal, isto é, quando implica um poder público unitário, com
jurisdição directa sobre todo o povo e sobre todo o território que lhe está
sujeito2. Estes requisitos não se podem, obviamente, preencher apenas com
os testemunhos acerca de uma supremacia vaga ou ideal. Exigem uma prá­

1 E. M. Kantorowicz, 1966; B. Guenée, 1971; G. LefF, 1976; A. Murray, 1978; J. R. Strayer,


1979.
2 L. G. Valdeavellano, 1970, p. 406.

57
tica concreta, explícita e habitual. Só se observam quando existem os ór­
gãos correspondentes.
Ora, dado que muitas das funções públicas, hoje consideradas estatais,
foram exercidas de facto pelos senhores dentro dos seus coutos e honras, e
eram transmitidas hereditariamente sem que o rei pudesse intervir na su­
cessão, podem levantar-se muitas dúvidas quanto à teoria e quanto à práti­
ca do poder político vigente entre nós. Por outro lado, a relativa arbitrarie­
dade com que os senhores exerciam os seus poderes não permite
atribuir-lhes uma autoridade propriamente estatal. Além disso, o exercício
da função régia como se fosse de natureza senhorial, isto é, parcialmente
arbitrária, transporta-a para os domínios do privado. É, por isso, extrema­
mente difícil ou mesmo impossível delimitar claramente o que pertence a
uma esfera ou a outra. O Estado moderno só nasce desde o momento em
que elas se começam a distinguir com alguma clareza. A superior autorida­
de do monarca acima dos senhores durante um período em que não se dis­
tingue o público do privado é, sem dúvida, um antecedente importante,
mas não se pode considerar da mesma maneira do que nos Estados moder­
nos. Ora, é justamente o processo que conduz a esta emergência o que nos
interessa averiguar.
Para isso, temos de verificar se a autoridade do rei muda de natureza
quando se exerce sobre os seus próprios territórios ou sobre aqueles que
têm algum senhor. Até que ponto ele tem o direito de intervenção nos se­
nhorios e sobre os seus detentores. Desde quando concebe o regnum como
um todo unitário, onde todos os habitantes têm para com ele relações de
natureza diferente daquelas que os tornam dependentes dos senhores. Em
que consiste a superioridade do rei em relação àqueles que no reino detêm
alguma parcela do poder público.
Ora, o rei também se concebe a si próprio como um senhor, isto é,
exerce uma autoridade simultaneamente pública e privada sobre os territó­
rios que lhe pertencem como bens patrimoniais. Relacionada com esta
questão prende-se outra, bem mais difícil de resolver, e que consiste em
averiguar qual a natureza das funções que ele desempenha nas terras que,
sem dependerem de outros senhores leigos ou eclesiásticos, não se organi­
zam como concelhos nem se incluem nos seus domínios. Este problema
está intimamente dependente de um terceiro, que consiste em averiguar
quais são exactamente as regalias que ele não pode partilhar com ninguém.
Depois de expormos estes temas, veremos como se articulam entte si o po­
der central e o poder local, durante a fase de predominância das institui­
ções senhoriais. Reservaremos para outro parágrafo o estudo do processo
centralizador, que se identifica, afinal, com o que conduziu à edificação do
Estado propriamente dito.
Como em tantas partes deste ensaio, as dúvidas e interrogações serão
muitas. As propostas de interpretação aqui apresentadas poucas vezes sur­
gem como certezas. São sobretudo um desafio a investigações futuras que,
porventura, nem sempre concordarão com as aqui seguidas. Destinam-se^
antes de mais, a apontar linhas de pesquisa e hipóteses de trabalho que me
parecem fecundas.

58
2.1. O «senhor rei»

O P O D E R SE N H O R IA L D O REI

«Senhor rei», Dominus rex, é a maneira como os inquiridores de 1258 cha­


mam normalmente a Afonso III. Esta fórmula não é apenas um epíteto de­
monstrativo de veneração e respeito, é também a expressão de que conside­
ravam o rei não só como tal, mas também como «senhor», isto é, aquele
que exerce um poder senhorial. Ele une, portanto, em si mesmo poderes
de natureza diferente. Aqueles que se pretendem contabilizar, porém, são
os senhoriais, e não, normalmente, os régios. Para os inquiridores, os se­
gundos exercem-se noutra esfera, aquela que está justamente acima dos
senhores.
De facto, no século xm , não é preciso ser rei para cobrar as rendas dos
domínios patrimoniais ou exigir serviços dos trabalhadores, nem sequer pa­
ra exigir a voz e coima, a fossadeira, a anúduva, a jugada, que são presta­
ções de origem pública, ou para apresentar os párocos de certas freguesias,
o que tanto pode derivar de um direito patrimonial como de um direito
colectivo, ou para nomear o juiz, como fazem os outros senhores dentro
das suas terras. Muito menos para cobrar prestações introduzidas pelos se­
nhores, como a pousadia ou jantar, a eirádiga ou a lagarádiga, as diversas
pedidas e almeitigas, as portagens e peagens, os foros sobre coelheiros, al­
mocreves, pescadores, viúvas, cabaneiros e mesteirais, as imposições sobre
os moinhos, fornos, lagares, azenhas, banhos, tendas e açougues. Não é só
o rei que pode ter cavaleiros armados, presidir ao tribunal, policiar uma
terra, tomar conta dos maninhos e baldios, fazer regulamentos para os ha­
bitantes do domínio ou do senhorio, criar multas ou expulsar os detentores
das terras. H á senhores que também cedem temporariamente, como ele, a
administração de um senhorio ou parte dele a um parente ou amigo, me­
diante a obrigação de fidelidade, do conselho e da ajuda.
A vastidão dos domínios régios, no entanto, constitui uma característi-
ca que basta, só por si, para não poder assimilá-lo pura e simplesmente aos
senhores. É o mais poderoso de todos. Em segundo lugar, verifica-se que,
na prática, estende direitos senhoriais sobre homens livres, que em princí­
pio não deviam estar sujeitos às mesmas prestações que os dependentes, e
não parece levantar-se contra isto qualquer obstáculo. A origem desta prá­
tica terá, creio eu, de se procurar exclusivamente na dignidade régia. Toda­
via, o seu resultado consiste, justamente, em afinal assimilar o rei aos se­
nhores, com a simples diferença de que por esse meio os seus domínios se
estendem muito mais do que os deles. Deixando para o parágrafo seguinte
a tentativa de averiguar a origem desta prática, vejamos por agora apenas as
suas consequências.
Já anteriormente aludi a elas3. As comunidades que antes elegiam o pá­
roco ou o juiz têm agora de os levar à confirmação do rei. As prestações
públicas judiciais, militares e fiscais revestem, a partir de então, um carác­
ter senhorial, isto é, deixam de ser prestações recognitivas de um estatuto

3 Ver vol. II, pp. 227-238.

59
próprio para passarem a exprimir a dependência. Se até ali não pagavam
prestações tipicamente senhoriais como a lutuosa, as osas e gaiosas, a hos­
pedagem, as contribuições pelos instrumentos de produção, o montádigo e
os pedidos, verifica-se agora uma inevitável tendência para se lhes exigirem
as mesmas que os dependentes dos senhores lhes pagavam a eles. O proces­
so de transformação dos proprietários alodiais em dependentes é bem ilus­
trado pelas inquirições. Estas são praticamente contemporâneas do mo­
mento em que os senhores de terras imunes estendem também sobre os
trabalhadores por contrato, que em princípio deviam também ser livres,
prestações do mesmo género, consignadas nas cartas de emprazamento4.
E difícil averiguar se as transformações nas relações de dependência de­
correntes deste processo se iniciam muito antes de 1220 , data a partir da
qual as inquirições de Afonso II oferecem já um seguro elemento de estu­
do para o seguir com mais rigor. Digamos, mesmo com o risco de fazer
uma afirmação um tanto prematura antes de se proceder a investigações
sistemáticas nesta fonte, que a implantação dos direitos senhoriais sobre os
alódios parece estar neste momento já em marcha, mas numa fase ainda
incipiente.

P r esta çõ es de o r ig e m p ú b l ic a e de o r ig e m p r iv a d a

N a impossibilidade de proceder a pesquisas sistemáticas, poderei, no en­


tanto, propor um método de solução do problema. Consiste em cartogra­
far cuidadosamente os diversos tipos de prestações, distinguindo os de ori­
gem pública dos de origem exclusivamente senhorial, e estudar caso a caso
as sobreposições de ambas. Esta pesquisa, apesar de morosa, é facilitada nas
inquirições de Afonso II pelo facto de se encontrarem os «foros» separados
das prestações dos reguengos. Mas esta separação é, já de si, significativa.
Quer dizer que os inquiridores distinguem ainda com clareza as terras que
pertencem ao património régio propriamente dito daquelas que o rei não
possui mas onde cobra prestações. Esta investigação poderia contribuir pa­
ra resolver problemas da maior importância, como, por exemplo, averiguar
a razão da diferença entre os foros fixos e as rendas proporcionais à produ­
ção. Como fio condutor para a resposta pode perguntar-se se as rendas fi­
xas não serão justamente de origem pública, como a jugada. De facto, já
Gama Barros observou que a maioria das prestações dos reguengos são par-
ciárias, que as dos casais foreiros são geralmente menos pesadas, e que o en­
cargo da fossadeira recaía geralmente sobre estes5. Sendo assim, as presta­
ções dos «foreiros» seriam de natureza não dominial.
N a impossibilidade de empreender esta vasta pesquisa, convém, em to­
do o caso, mostrar que ela permitiria colocar em termos novos a velha
questão da diferença entre reguengos e bens da Coroa, na qual Gama Bar­
ros gastou tantas páginas da sua possante erudição6. O que a meu ver vi­
ciou a sua tentativa foi usar como critério a distinção entre domínio direc-

4J. Mattoso, 1981, pp. 276-277.


5 Gama Barros, VII, pp. 335-336, 356-369.
6 Ibid., pp. 277-503.

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to e domínio útil, além de vários equívocos acerca da noção de «adscrição
à terra» e da natureza servil de certas prestações. De facto, a relação estabe­
lecida entre o senhor e o dependente não se baseia em nenhuma espécie de
contrato. As prestações dependem essencialmente de dois direitos de natu­
reza diferente — o direito sobre a terra e o direito sobre os homens — , e
não dos dois níveis de propriedade que o direito medieval tardio distingue,
para aplicar às situações já então estabelecidas, em virtude do cruzamento
de direitos de proprietários diferentes sobre as mesmas terras7.

R eguengo s e terras f o r e ir a s

A verdade é que, pelo menos até 1265, os funcionários da Coroa distin­


guiam com razoável clareza a diferença entre terras reguengas e foreiras
(Leg., p. 215). Os inquiridores de 1258, apesar de unirem numa só as
duas séries de prestações antes distintas, mostram, por vezes, que também
as distinguiam. Sabem, por exemplo, que existe uma verdadeira hierarquia
entre herdades reguengueiras, de jugada e de cavalaria (Inq., p. 836b), co­
mo vimos a propósito das últimas8. Ora, tudo leva a crer que as herdades
«de jugada» correspondem às «foreiras» propriamente ditas, pelo menos na
Beira. Tanto esta identificação como o próprio significado etimológico da
palavra fórum, cuja conotação com o carácter «público »9 não se deve esque­
cer, dão bem a entender que os funcionários régios da época de Afonso III,
ainda pela década de 1260, conheciam a natureza diferente dos foros e das
rendas dominiais pagas ao rei. Esta diferença, todavia, não o tornava me­
nos «senhor» de todos os que pagavam uns e outros.
Todavia, a tendência para o nivelamento dos dependentes e a simplifi­
cação introduzida pela difusão do regime senhorial levaram, durante a se­
gunda metade do século xm , a desprezar as distinções, agora cada vez me­
nos importantes. Com efeito, a lei de 1265, embora distinga os dois tipos
de prédios, passa logo em seguida a tratá-los em conjunto. Ao rei importa­
va apenas impedir que as terras mudassem de estatuto por ausência do
proprietário ou alienação em favor de privilegiados. A tendência para a
identificação parece já estar consumada, em 1311, quando D. Dinis pro­
mulga outra lei com o mesmo objectivo, mas na qual fala apenas de re­
guengos, esquecendo a situação específica dos prédios foreiros10.
Para a confusão entre bens reguengos e bens foreiros também deve ter
contribuído o facto de a generalização do regime concelhio nas terras não
senhoriais, durante a segunda metade do século xm , ter como consequên­
cia a sujeição de todas as terras do reino a um de três regimes: o senhorial,
o concelhio ou o reguengueiro. Tal como, no primeiro, a situação dos co­
lonos e dos antigos homens livres se confundiu na de dependentes, tam­
bém nos reguengos se identificaram os foreiros com os reguengueiros, vin­
do a esquecer-se a antiga e equívoca designação de «herdadores».

7 A. M. Hespanha, 1982, p. 465.


8 Ver vol. II, pp. 291-293.
9 M. P. Merêa, 1947, pp. 485-494.
10 OA, II, 13. Ver outras versões da mesma lei em LLP, pp. 87-89, 188-190, 381-382; M PHI,
doc. 32.

61
D efesa do p a t r im ó n io r é g io

Como se sabe, a luta travada pelo rei contra os senhores teve como pri­
meiro objectivo impedir que eles se apropriassem da sua terra. Com esse
fim se procedeu, em 1220, às inquirições em Entre-Douro-e-Minho; em
1258, a outras no mesmo território e também em Trás-os-Montes, na Bei­
ra, e na região do Vouga; e, depois, às do reinado de D. Dinis. As duas
primeiras séries pretendiam fazer o cadastro da propriedade régia. A tercei­
ra destinava-se geralmente a enumerar as honras e os coutos. Mas todas
procuravam impedir o alastramento abusivo da jurisdição senhorial sobre
terras do rei. Umas foram de carácter defensivo; outras, por assim dizer,
ofensivo11.
A sul do Mondego só parece ter havido inquirições particulares, prova­
velmente porque o facto de o rei continuar a exercer uma apertada vigilân­
cia sobre os concelhos que ocupavam a maioria desta região o dotava de
um poder de intervenção mais imediato. De resto, o obstáculo posto pelas
próprias autoridades municipais ao exercício da jurisdição senhorial no res-
pectivo termo contribuía também para o mesmo fim.
Mesmo assim, Afonso II teve, em 12 2 2 , de ameaçar severamente aque­
les que pretendiam laborare as lezírias situadas entre Lisboa e Santarém,
com excepção das que Sancho I tinha dado aos povoadores de Azambuja.
Incumbiu o alcaide, os alvazis e o tabelião de Lisboa de vigiarem o cum­
primento da sua ordem12. Mais tarde, encontram-se também outras inter­
venções concretas para recuperar determinadas terras sonegadas à Coroa13.
As já referidas leis de Afonso III, de 1265, e de D. Dinis, de 1311, desti-
nam-se justamente a dotar os agentes régios de instrumentos legais para
impedirem as alienações e terem instruções precisas nos casos de infracção.
Durante o reinado de D. Dinis, ou talvez já no de Afonso III, dá-se o
último passo para a constituição definitiva do património régio com a re­
serva das matas e maninhos. Efectivamente, parece que durante a segunda
metade do século xn ainda havia algumas zonas, sobretudo de matas, que
não pertenciam a nenhum concelho nem senhorio particular. A apropria­
ção efectiva pelo rei deve ter-se dado por essa altura, quando lhes deu o es­
tatuto de «coutadas» reservadas para caça, sob a vigilância dos seus mon-
teiros14.

Os B E N S U R B A N O S D O D O M ÍN IO R É G IO

O domínio régio, todavia, não é constituído só por bens fundiários. Já no


foral de Santarém-Lisboa-Coimbra de 1179 se verifica que nestas cidades
havia casas que pertenciam ao rei e ele alugava. Sancho I possuía gado,

11 Cf. L. Krus, A. Andrade e J. Mattoso, 1989, pp. 41-62.


12 J. R Ribeiro, 1810, I, doc. 49.
13 Ver, p. ex., V. Rau, 1982, doc. 11 de 1293 referente a Évora-Monte; G. Pereira, 1885, doc.
21 de 1285, referente a Évora; P. de Azevedo, 1930, para toda a Estremadura.
14 D. Dinis manda demarcar a coutada de Botão (1280): C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 7
(ver, porém, ibid., doc. 8). Outras demarcações de coutadas de 1317, 1320, 1323, 1324; ibid.,
does. 35, 36, 39, 40. Ver ainda a lei sobre arrendatários de «encoutos», 1309: LLP, pp. 208-209.
Todavia, o interesse do rei sobre os montados já vinha de Afonso III: TT , Chanc. de Afonso III,
t., III, f. llv , 19v e 20r; cf. C. M. Baeta Neves, 1965, pp. 27-28.

62
provavelmente transumante ao menos numa parte do ano, como se pode
verificar pelos seus testamentos (DS 149). Tanto seu pai como ele tinham
um tesouro monetário muito grande, que guardavam em Santa Cruz de
Coimbra, nos castelos da Ordem do Templo ou do Hospital, no castelo
deAlcobaça e noutros lugares (DS 149). Sancho II manda cumprir a
maior parte dos legados pios com o rendimento que lhe era entregue pelos
seus moedeiros e possuía tendas, casas e adegas em vários lugares15. No rei­
nado de seu irmão as informações acerca dos bens da Coroa são inúmeras.
Verifica-se nesta altura um interesse especial do rei pelos bens cujo rendi­
mento era pago em dinheiro, como vimos anteriormente16, e a tendência
para reservar, com muito mais cuidado do que antes, o monopólio de al­
guns instrumentos de produção, sobretudo fornos, moinhos e tendas. A es­
te, o rei acrescenta, desde 1266, nos forais das cidades algarvias, o mono­
pólio das salinas, da pesca da baleia, dos banhos, pisões, açougues e
azenhas17. De muitos deles tinha-se apropriado no momento da conquista
aos Mouros, como dizem os mesmos forais. Em Lisboa, o mesmo rei cons­
truiu ou comprou ferrarias e taracenas18, além de aumentar enormemente
o património régio com tendas, casas e açougues. O mesmo aconteceu em
Beja, Eivas, Évora, Santarém ou Guarda19.
O património senhorial do rei consistia, finalmente, em gente. Não
apenas aquela que vivia nos reguengos e por isso se podia considerar unida
a ele por laços especiais de dependência, mas também os mouros forros e
os judeus, que eram considerados seus súbditos a título pessoal e cuja su­
jeição era claramente marcada pelos tributos que tinham de pagar20.

A d m in is t r a ç ã o : reco lh a das rendas

Para gerir tudo isto era necessária uma complexa máquina administra­
tiva21. Em termos esquemáticos, podem distinguir-se os agentes locais, cha­
mados normalmente «mordomos» ou «vigários», ou, mais precisamente,
«mordomos das eiras», «das terras», «da vida», etc., e os recebedores que re­
colhiam as rendas nos celeiros e nos entrepostos régios, cuja designação va­
riou. A organização depreende-se sobretudo dos forais rurais de Trás-os-
-Montes da época de Sancho II e de Afonso III, nos quais se verifica que
os habitantes têm frequentemente o direito ou o dever de escolher entre si
o mordomo do lugar, ficando este encarregado de recolher os foros para os
entregar ao recebedor em data marcada. No caso de ele não aparecer ao
fim de certo prazo, não podiam ser responsabilizados. O trabalho do mor­
domo da terra era compensado com a dispensa do pagamento dos foros,
mas era considerado suficientemente ingrato para muitas vezes os habitan­
tes preferirem ser dele eximidos.

15 A. C de Sousa, 1739, I, pp. 49, 30.


16 Supra, pp. 33-35.
17 Leg., 706-708, 715-716, 736.
18 Silva Marques, I, doc. 6 de 1237; id., supl., doc. 165 de 1299; Gama Barros, V, p. 101.
19 Ver Hermenegildo Fernandes, 1991, pp. 42-43; M. A. Beirante, 1988, pp. 99-100, 365-
-384; Rita Costa Gomes, 1987, p. 61.
20 M. J. Ferro, 1979; id., 1982.
21 M. J. Trindade, 1981, pp. 123-126.

63
A arrecadação das rendas era uma operação provavelmente complexa a
partir da época em que o rei pretendeu administrá-las para delas obter lu­
cro, e não apenas para consumir nos locais onde eram depositadas, e que
visitava nas suas deslocações22. Foi justamente por isso que Afonso III con­
verteu em dinheiro algumas das rendas pagas até ali em géneros. Eram
normalmente entregues em três prestações com datas fixas2324. Este processo
facilitava a recolha ou os contratos feitos com indivíduos especializados a
quem se arrendava a cobrança mediante uma soma fixada previamente.
Conhecem-se os produtos destas operações feitas pelo almoxarife de Gui­
marães na zona de Entre-Douro-e-Minho durante os anos de 1252 a
127324 a minuciosa tese de doutoramento de M. Rosa Marreiros, defen­
dida recentemente, permite reconstituir em todos os seus pormenores o
funcionamento da administração dionisina na região de Guimarães25. Um
dos aspectos mais salientes da prática instituída por D. Dinis é o brutal au­
mento dos montantes das rendas26.
Nas cidades, a cobrança devia ser muito mais complicada. Sabe-se que
D. Dinis usou o mesmo método de arrendamento, pelo menos em alguns
casos, como consta do seu testamento de 1299 (ML, V, p. 330), mas igno­
ra-se até que ponto generalizou esta prática. É provável, todavia, que não
fosse sistemática, pois os mordomos dos concelhos, dependentes do rei, ti­
nham sob as suas ordens funcionários permanentes encarregados da admi­
nistração e cobrança, como se depreende dos foros longos de Santarém27.
Quando estavam encarregados de determinadas zonas ou cobranças in­
cluíam-se na categoria genérica dos «ovençais», que designava indiferencia­
damente várias categorias de funcionários régios28.
Até ao fim do reinado de Afonso III é difícil distinguir estratégias de
obtenção de lucros e de simples racionalização administrativa. Muitas das
medidas de D. Dinis tinham apenas estes mesmos objectivos. Outras, po­
rém, podem considerar-se ditadas por propósitos de investimento produti­
vo ou, mesmo, de fomento de carácter mais geral. Entre estas salientam-se
as fundações de «póvoas» no interior ou no litoral, o estímulo a povoações
urbanas de interesse estratégico, como Caminha e outros centros nas mar­
gens do Minho e no Norte transmontano e, ainda, a concessão de forais e
de privilégios a feiras francas29.

22 Ver I. Gonçalves, 1993.


23 Vinhais (1233), Penagarcia (1256), Melgaço (1258), Aguiar da Beira (1258), etc.: Leg. 639-
-640, 667, 684, 686, 667-689.
24 J. P. Ribeiro, 1913, III/2, doc. 29.
25 M. Rosa Marreiros, 1990. Ver, da mesma autora, um estudo panorâmico mais acessível,
1992.
26 Assim, por exemplo, em Caminha, os 140 maravedis pagos em 1258 passam a 200 em
1275 e a 1000 em 1284: M. Helena Coelho, 1990, I, pp. 202-203.
27 N .os 22, 27, 38, 59, 60, 119, 163, 180, 184, etc.: Leg., II, pp. 20, 21, 23, 28; para Lisboa,
ver Gérard Pradalié, 1975, pp. 97-99.
28 Mencionados, por exemplo, nos F. de Santarém, n.° 28, Leg., II, p. 20; no testamento de
D. Dinis de 1299: M L, V, p. 330; ver M. Caetano, 1951, pp. 47-49.
29 Ver M. Rosa Marreiros, 1992; Amélia Andrade, 1993; M. H. Coelho, 1990, I, pp. 207-
-211; P. Dordio Gomes, 1993.

64
A d m in is t r a ç ã o da ju s t iç a

Todavia, assim como nas suas imunidades os senhores não desempenha­


vam apenas papel de proprietários, também o rei é responsável pela admi­
nistração da justiça nos seus domínios. Fá-lo, pelo menos, no Norte, por
intermédio dos juízes, função que provavelmente deriva ainda da que in­
cumbia aos magistrados das comunidades livres da mesma zona, como vi­
mos anteriormente30. Mas, assim como em vários lugares, como se de­
preende das inquirições, o juiz desempenhava não só funções judiciais mas
também administrativas, também noutros casos se encarrega o mordomo
do julgamento de casos menores31.
É o que acontece também no reguengo de Riba Mar, onde o rei Afon­
so III, em data desconhecida, ordena que o «vigário», um homem do lugar,
ouça os preitos dos moradores ao domingo, para nos outros dias não dei­
xar de trabalhar como lavrador (Leg., p. 286). Noutros lugares, porém, há
mordomo e juiz32; noutros ainda, apesar de haver mordomo, confia-se a
justiça aos homens-bons33. A designação de «vigário», que aparece em al­
guns destes forais, parece justificar-se justamente por aí prevalecer a função
judicial34. Nos concelhos é provável que a actividade do mordomo fosse,
ao menos parcialmente, controlada pelo alcaide como representante do rei
e encarregado de funções policiais.^

A l m o x a r if e s

A medida que o rei começa a sistematizar a cobrança das rendas e se gene­


ralizam as prestações em dinheiro começa também a criar-se sobre esta es­
trutura de tipo senhorial outra de tipo estatal. O indício dela é o desenvol­
vimento da função dos almoxarifes que já existiam desde o século xm
como oficiais régios, mas com atribuições reduzidas e que, até agora, se co­
nhecem mal. E provável que, já no reinado de Afonso II, fossem eles a
cobrar a «colheita», pelo menos às igrejas e aos mosteiros, cuja primeira re­
ferência conhecida se encontra numa bula papal de 122035. Desde Afonso
III, porém, tornam-se os oficiais especializados do fisco36. Compreende-se
facilmente a tendência que depressa se fez sentir para sobrepor as suas fun­
ções às dos mordomos, o que corresponde a absorver a estrutura senhorial
na estatal.
Uma das questões mais obscuras é a da relação do sistema senhorial ré­
gio com o concelhio. O facto de o rei cobrar várias prestações no concelho
leva-o a colocar mordomos na maioria deles; as suas responsabilidades fis­
cais permitiam-lhes ter porteiros e saiões e, como vimos, desempenhar fun­

30 Ver vol. II, pp. 252-269.


31 F. de Sanguinhedo (1223) e Vila Fonsin (1255): Leg., pp. 598-599, 649.
32 Marmelar (1194), Taboadelo (1202), Canedo (1212), Barqueiros (1223), etc.; D S 75, 142;
Leg., pp. 561-562, 597.
33 Cidadelhe (1224), Condado (1255), Soverosa, Capeludos, Escarei, etc.: Leg., pp. 599, 653,
657, 658, 659.
34 Cf. M. Caetano, 1951, pp. 43-44.
35 MHV, II, n.° 343; Sousa Costa, nota 198.
36 Marcelo Caetano, 1951, pp. 45-47; G. Pradalié, 1975, pp. 98-99.

65
ções próximas das judiciais ou policiais. É provável que eles não se limitas­
sem a cobrar os impostos concelhios reservados ao rei, mas fossem também
encarregados da administração dos reguengos situados nos termos do res-
pectivo concelho. Só uma investigação especializada permitiria responder a
esta questão que os nossos historiadores das instituições medievais geral­
mente ignoram. De qualquer maneira, se a criação de um aparelho fiscal
distinto do senhorial tendeu a absorver este, era ainda mais natural que ab­
sorvesse igualmente, ao menos sob a forma de controlo, as funções dos
mordomos régios dos concelhos. De facto, os mordomos passam a depen­
der dos almoxarifes desde a época de Afonso III37.

2.2. Regalias
Considerado, portanto, como senhor, o maior dos senhores, o rei, nem por
isso deixa de ocupar um lugar único, que importa agora definir com algum
rigor. Antes de mais, será necessário mostrar que a bem conhecida persis­
tência das tradições romanas e do direito público na zona mediterrânica da
Europa não impediu que a função régia fosse contaminada pelos conceitos
feudais. Estes dominaram, como veremos, até ao princípio do século xm , e
só depois deram lugar a manifestações cada vez mais claras da supremacia
monárquica: primeiro, ainda em articulação com as concepções feudais;
depois, claramente independentes delas. Sendo assim, não se pode ver toda
a época de que trato como um período uniforme, como tendem a fazer au­
tores como Gama Barros, os quais projectam uma imagem muitas vezes
indiferenciada sobre todo o período que vai da época visigótica ao século
xv. Os princípios expressos por Afonso X, o Sábio, verdadeiro criador de
uma teoria política acerca da função régia, eram desconhecidos no século
xn. Não se impuseram sem dificuldade. Até lá, a contaminação do concei­
to monárquico pelas noções feudais parece-me evidente. Traduz-se em tu­
do aquilo que significa privatização da função régia e partilha do poder pú­
blico com outras pessoas e instituições ou, mesmo, com determinados
grupos sociais.

A M O N A R Q U IA FE U D A L: A PRIVATIZAÇÃO D O P O D E R

De facto, a privatização do poder manifesta-se na sucessão do trono, pois


o rei deixa o cargo a seu filho por testamento, como se fosse um bem
pessoal38; na senhorialização não só do seu património hereditário, mas
também das terras de homens livres, como já vimos mais de uma vez39; na
maneira como o rei dispõe, como se fosse um bem pessoal, das terras da
Coroa, alienando nas cartas de couto e noutras doações vários dos poderes
públicos40.

37 Para Lisboa, ver as obras cit. na nota anterior; para outros lugares, ver o F. de Santarém
n.° 79, Leg., II, p. 25; Oriola, n.° 109, ib.t p. 42; Beja, n.° 51, ib., p. 55; para Entre-Douro-
-e-Minho: J. P. Ribeiro, 1813, III/2, doc. 29.
38 D R 334; D S 30, 31, 194, 203; A. C. de Sousa. 1739, I, pp. 34-48, 50, 54, 99.
39 Ver vol. II, pp. 221-232 e o parágrafo anterior.
40 Gama Barros, I, pp. 242-283. Estes poderes são, algumas vezes, chamados regalia. A sua
concessão, como é evidente, excluía a inalienabilidade, ao contrário do que acontece no século
xm , quando se invoca o carácter de regalia para os reservar exclusivamente ao rei.

66
A sua fragmentação verifica-se não só nestas mesmas concessões, mas
também na aceitação tácita ou expressa do regime senhorial, que coloca
nas mãos dos senhores poderes militares, judiciais e fiscais, sem que o rei
se apresente a si próprio como a sua fonte e origem. De facto, o costume
de se exercerem nas honras, de posse imemorial, e a prática do «amádigo»,
que confere estatuto senhorial a uma terra apenas por aí se ter criado um
nobre, revela que o rei deixa em certo momento de controlar o seu exercí­
cio. Nada permite afirmar que a autoridade dos senhores nas suas honras e
coutos se harmonize e articule com a do rei. Matar os mordomos ou os
juízes que tentam defender os direitos régios, cortar-lhes mãos óu pés, ce­
gá-los ou arrastá-los à cauda de cavalo são violências perante as quais os se­
nhores não recuam e que vêm relatadas nas Inquirições41. Todavia, nem
sempre se trata de crueldade puramente gratuita. Os senhores consideram-
-se gravemente ofendidos nos seus direitos pessoais, na sua autoridade e na
sua honra, porque os oficiais do rei invadem as terras sobre as quais pen­
sam ter jurisdição por direito próprio.
Veremos adiante que o princípio da partilha dos poderes públicos com
os nobres e outros detentores de terras imunes não cessa com a incipiente
edificação do Estado. E expressa e repetidamente reconhecido por D. Di-
nis, apesar de este tomar medidas para um exercício efectivo da vigilância
sobre eles.

A FRA G M EN TA ÇÃ O D O P O D E R P U B L IC O

Em segundo lugar, a fragmentação feudal do poder público revela-se nas


formas de atribuição das funções administrativas de representação régia.
Como mostraram L. G. de Valdeavellano e H. Grassotti42, os governa­
dores das terras tinham para com o rei uma relação de tipo feudal, que se
depreende da própria expressão «tenência». Em várias terras de Entre-
-Douro-e-Minho sucedem-se até dentro da mesma família, como se fossem
hereditárias43. Os alcaides têm para com o rei uma relação igualmente feu­
dal, o que se verifica por lhe prestarem a homenagem e serem obrigados a
um especial compromisso de fidelidade, como mostram as cantigas de es­
cárnio acerca dos alcaides traidores44. O carácter feudal das funções de re­
presentação é também marcado pelo facto de os ricos-homens poderem
exercer o seu ofício por meio de prestameiros e, sobretudo, por o rei con­
ceder a vários concelhos o privilégio de o mordomo ou prestameiro do ri­
co-homem não entrarem nele, o que significa que, se o rei não limitasse
expressamente a competência do rico-homem nesta matéria, ele desempe­
nhava o cargo de maneira pessoal e arbitrária. Não faltam notícias de ricos-
-homens que abusam da força e se apropriam dos direitos régios, sem que
o monarca intervenha45. A manifesta impotência do rei nesta matéria só

41 Herculano, 1980, II, pp. 631-637; M. J. Trindade, 1981, p. 123. Mas há muitos mais
exemplos.
42 L. G. de Valdeavellano, 1970, p. 383; H. Grassotti, 1969, I, pp. 688-690.
43 J. Mattoso, 1982a, pp. 121-137.
44 Ver mais adiante, n.° 3.1., pp. 117-119.
45 M. J. Trindade, 1981, pp. 121-122.

67
cessa com a nomeação de meirinhos-mores ou, mesmo, com operações po­
liciais do género da que D. Dinis mandou realizar em Monforte do Rio
Livre pouco antes de 1283, para castigar os cavaleiros que tinham assassi­
nado o juiz da vila46.

E s p e c if ic id a d e da fu n ç ã o r e g ia

Onde reside, pois, a especificidade da função régia, se as suas atribuições


são de tal modo partilhadas que praticamente não pode intervir em muitos
lugares do reino? A imprecisão das noções vigentes até ao fim do século x i i
é manifesta, mas parece derivar fundamentalmente de uma especial respon­
sabilidade do rei na manutenção da paz e da justiça. Tanto uma como ou­
tra se opõem à desordem. Nesta está incluído tudo o que possa representar
a subversão do estabelecido. Exige, portanto, a luta contra abusos e violên­
cias, a repressão da revolta dos dependentes, o respeito pelos costumes vi­
gentes, a obrigação de pacificar sem inovar47. Daí deriva uma especial
competência para julgar os nobres, sobretudo nas questões que os opõem
uns aos outros48 e, também, com o maior relevo na Península Ibérica, a
sua responsabilidade de condutor da guerra externa, sobretudo contra os
Mouros. Consistindo, à partida, numa especial obrigação de coordenar a
defesa comum, veio a tornar-se em competência própria também na orien­
tação da guerra ofensiva, pelo menos desde o reinado de Fernando, o M ag­
no49. É provável que se mantivesse, como um legado da época visigótica e
tardo-romana, a noção de que o rei era o verdadeiro detentor do poder pú­
blico e isso lhe conferia o papel de chefe dos homens livres. Por intermé­
dio desta competência reconhecia-se-lhe, decerto, a capacidade para exigir
certos tributos e serviços, entre os quais alguns, como a jugada, cuja ori­
gem fiscal se pode detectar, apesar de transformados em direitos senho­
riais50. Estão nas mesmas condições as prestações do género «voz e coima»
e da «fossadeira», provável correspondente nortenha da jugada51.

O CA RISM A D O REI

Tudo isto se conjuga sob a noção de que o rei tem poderes pessoais de ti­
po carismático, próprios do chefe, sem que se elabore uma enumeração de
carácter jurídico das suas atribuições específicas. O rei é o chefe por exce­
lência. Recebe da sua linhagem, marcada pelo selo divino, virtudes espe­
ciais que tem obrigação de cultivar. A distinção entre ele e os nobres reside
sobretudo aí. A ideia do carisma pessoal, mas transmitido pelos antepassa­
dos de estirpe régia, revela-se, por exemplo, na evidente preocupação que
os notários dos documentos afonsinos têm, desde sempre, de referir a as­
cendência régia de Afonso Henriques. Aparece na primeira pessoa a invo­

46 J. P. Ribeiro, 1813, III/2, doc. 34.


47 L. Genicot, 1968, p. 140.
48 Cf. L L 36 E9, sobre Sancho II.
49 J. A. Maravall, 1954, pp. 276-287.
50 M. P. Merêa, 1937, pp. 83-100.
51 Ver vol. II, pp. 199-200.

68
car a qualidade de neto do magnus rex, do imperator, do inclitus Afonso VI.
Reivindica, pois, a vinculaçao hereditária à sua figura mítica, que se tinha
tornado, para o imaginário dos homens do século x i i , o símbolo de um
poder próximo do divino, e isso basta para afirmar a sua própria autori­
dade.
A mesma ideia se exprime nos Anais de D . Afonso, rei dos Portugueses,
redigidos por um cónego regrante de Santa Cruz de Coimbra pouco de­
pois de 1185, e que o apresentam como um «gigante que, nas suas acções
se assemelha a um leão, ou a um jovem leão que ruge na caça e do qual
ninguém consegue falar dignamente». Um «varão poderoso nas armas, sá­
bio no falar, prudente nas suas obras, de engenho luminoso, de belo corpo
e semblante agradável, profundamente ortodoxo na sua fé em Cristo, be­
névolo e devoto para com os ministros da religião, capaz de proteger todo
o Portugal com a sua espada» (ADA, p. 151). Afonso Henriques, para este
clérigo do princípio do reinado de seu filho Sancho I, tinha sido, portanto,
digno de reinar, honrava a sua ascendência régia, constituía um exemplo
para o seu sucessor. Por isso foi «semper victor», «de omnibus triumphans»
e «divina clementia semper adiutus» (ADA, p. 152). Alguns anos mais tar­
de, um clérigo de Braga fala também da strenuitas de Afonso Henriques e
dos seus méritos para a «exaltação da fé» ao conquistar muitas terras aos
sarracenos, o que lhe mereceu o reconhecimento do título de rei pela Santa
Sé52.
Conhece-se, no entanto, uma expressão doutrinal excepcionalmente
precoce acerca da autoridade régia, em que esta é apresentada como uma
função que só é feliz quando se desempenha com justiça, e só é executada
segundo os preceitos da ciência de governar os povos. O poder daqueles
que temem a Deus, procuram o reino dos Céus e se empenham em propa­
gar o culto divino não é dado para proveito próprio, mas para o dos súbdi­
tos. Esta reminiscência textual de um passo da Cidade de Deus, de Santo
Agostinho (liv. 5, cap. 24), encontra-se logo no início dos M iracula S. Vin-
centiiy redigidos pelo chantre Estêvão da Sé de Lisboa pelos anos 1173-
-1185. Deve-se provavelmente à sua cultura moçárabe, atestada também
por outros indícios. Prolongava em terras meridionais, que não tinham co­
nhecido o feudalismo, noções próprias do cristianismo tardo-romano.
O texto é bem eloquente:
«Está escrito que são felizes os reis que governam com justiça e diz-se que,
nos negócios humanos, nada há de mais gratificante do que quando, por mise­
ricórdia de Deus, o poder está nas mãos daqueles que alcançam a ciência de di­
rigir os povos. E que o poder daqueles que temem a Deus, O amam e O vene­
ram, daqueles que aspiram sobretudo pelo reino onde não receiam ter
concorrentes, daqueles que fazem que as suas decisões sirvam a majestade divi­
na para a dilatação máxima do culto de Deus, esse poder não se serve tanto a si
próprio como aos súbditos.»53

Há, portanto, em território português, ainda antes do fim do sé-

52 Nas alegações de Braga contra. Compostela em 1198-1199, in Peter Feige, 1978, pp. 393-
-394.
53 Miracula S. Vicentii (ed. e trad. Aires Nascimento), 1988, p. 29, onde se identifica o citado
passo de Santo Agostinho.

69
culo xii, quem tenha a noção da autoridade régia como uma função de ca­
rácter público e não de carácter privado. Estas ideias, todavia, não voltam a
encontrar-se antes da década de 1190, então pela pena dos notários da
chancelaria, provavelmente por influência do direito romano, como vere­
mos em breve.
Mais em conformidade com as concepções típicas do Norte, o chantre
Estêvão não deixa, também, de louvar com grande entusiasmo a strenuitas
de Afonso Henriques, como uma qualidade que ele põe ao serviço da dila­
tação da Igreja e que aparece como expressão evidente de um dom de
Deus.
O carácter guerreiro da autoridade régia está vivamente expresso nas
duas representações iconográficas que dele se conhecem, em Santarém (ho­
je no Museu do Carmo) e em Rates, ainda suas contemporâneas, e em que
ele empunha ostensivamente a espada e a coloca ao ombro. Aliava-se, as­
sim, a uma tradição peninsular que não cessou de se fortalecer até meados
do século xiii54. A tradição confirmou esta mesma ideia ao valorizar a pró­
pria espada e o escudo régio junto ao túmulo, em Santa Cruz de Coimbra
(fossem ou não autênticos), e venerados ainda por D. Sebastião, apesar de
a hipercrítica recente desprezar estes símbolos da concepção da autoridade
régia no início da monarquia portuguesa55.
O especial dever de velar pela justiça, no sentido apontado anterior-
mente, surge na Gesta de Afonso Henriques sob forma diferente, devido à
sua origem não clerical. Vem inserido na recomendação feita pelo seu pai,
o conde D. Henrique, à hora da morte, o que lhe confere também uma es­
pecial solenidade e carácter obrigatório. O conde alude, de facto, à trans­
missão de uma virtus hereditária — «filho, toma do meu coração algum
tanto, que sejas esforçado» — , mas insiste de maneira especial no dever de
garantir a justiça:
«e see companheiro a filhos cTalgo e dá-lhe siempre sas soldadas bem paradas e
aos concelhos faze-lhes honra e aguisa como hajam direitos assim os grandes
como os pequenos. E por rogo nem por cobiça nom leixes a fazer justiça. C a se
uu dia leixares de fazer justiça uu palmo, logo em outro dia se arredará de ti ua
braça. E, porém, meu filho, tem sempre justiça em teu coraçom. E haverás
Deus e as gentes. E nom consentas em nenhúa guisa que teus homens sejam
soberbos nem atrevudos em mal; nem façam pesar a nem uu, nem digam tor­
to, ca tu perderias per taes cousas o teu boo preço se o nom ovedasses» (GAH,
p. 30).

A FUNÇÃO REGIA NOS DOCUMENTOS DA CHANCELARIA


Examinemos agora as arengae dos documentos de Afonso I e de Sancho I,
redigidos geralmente na chancelaria. A primeira que menciona os deveres
do rei tem uma referência à sua obrigação de revelar uma especial generosi­

54 Bonifácio Palacios, 1976, pp. 273-296.


55 Sobre estes símbolos e o problema de coração de Afonso Henriques, e de seu sucessor San­
cho I, ver J. Mattoso, 1993a, pp. 213-232. Sobre a coroação dos reis seguintes da primeira dinas­
tia, ver id., 1991b.

70
dade nos seus dons, sem todavia fazer dela uma virtude específica da dignida­
de régia, pois aparece como um dever imposto também aos homens livres
e, a fortiori, ao rei:
«Quoniam regum est, necnon etiam cuiusque uiri ingenui talis titulo deco-
rati, de propriis possessionibus propriam explere voluntatem...» (D R 199, de
1143)

Fórmula repetida depois várias vezes (D R 201, 206, 216, 251, 273,
280, até 1162), mas que se exprime com maior desenvolvimento em 1160:
«Quoniam, ut legitur in gestis catholicorum regum reges et presides ac ma-
gistratus, nom solum adiacentia tribuere sed inmensa donaria et etiam própria
largiti sunt per uniuersa regna terrarum unde alerentur pauperes Christi qui in
mundo nihil possidebant monasteriaque religiosorum fabricaretur Deoque et
Ecdesie evus nte famuiantmm se seruorumque íWius supplementa absque ne-
cessitate tribuerunt» (D R 275)56,

para isolar melhor os deveres próprios dos reis, que aqui lhe são atribuídos
sem qualquer comparação com outras autoridades, e para acentuar a sua
especial obrigação de proteger a Igreja, principalmente os monges e os reli­
giosos mais pobres e que melhor servem a Deus. Ideia própria de clérigos,
como é evidente, mas que nem por isso contribui menos para reservar aos
reis uma posição específica. O recto cumprimento dos seus deveres pró­
prios assegura-lhes a consideração da Igreja e como que o direito de a sua
autoridade ímpar ser sancionada por um poder sagrado.

As FÓ R M U LA S D O C H A N C E L E R JU L IÃ O

É preciso esperar o início do reinado de Sancho I para ver estas ideias ex­
primirem-se, agora pela pena do célebre chanceler Julião, numa fórmula
mais fria, que afirma não só os deveres religiosos do príncipe, mas também
a obrigação, por assim dizer profana, de cultivar as virtudes demonstradas
pelos seus antecessores:
«Quoniam ad regis debitum spectat et gloriam ea manutenere et promoue-
re in melius que ab antecessoribus pie in religione facta cognouerit.» (DS 8, de
1186)

Depois, a autoridade singular exprime-se em fórmulas tão simples co­


mo esta: «Notum sit omnibus hominibus qui in regno meo sunt» (DS 10,
de 1186), ou «Annuit namque serenitate regni nostri glorie...» (DS 233, de
1187). A consciência dos deveres régios surge, mais tarde, no momento so­
lene da partida para a expedição dé Silves:
«Catholicorum regnum devotio, iccirco litteris commendatur quatinus
quod ab eis pie agitur firmi roboris teneat dignitatem et habeat exinde posteri-
tas quod studeat immitari ut tunc sentiat boni parentis heredem qui succedit
in regno, cum in moribus, fide et religione possit non dissimilis inveniri» (DS
336, de 1189),

56 Comparar com esta fórmula da chancelaria leonesa «Catholicorum regum officium esse dig-
noscitur sancta loca diligere ac venerari et ea largis dilatare muneribus atque possessionibus am-
pliare» (J. González, 1943, p. 214, de 1163). Vejam-se outras fórmulas com o mesmo sentido:
ibid., p. 218 para os anos de 1166 a 1169, pp. 223-224 para 1169-1173. As últimas mencionam
especialmente o apaziguamento dos conflitos e a defesa da paz.

71
numa fórmula onde a comparação com os antecessores se torna o tema do­
minante. A maneira exemplar como o seu pai tinha cumprido a missão ré­
gia exige que Sancho I se eleve à mesma altura por feitos não menos me­
moráveis.
N o seu glorioso regresso de Silves, o chanceler Julião menciona outro
tipo de deveres. Deixando de olhar para um passado que era necessário
preservar, volta-se para o futuro que todos os príncipes e detentores do po­
der, mas sobretudo os reis, têm obrigação de prevenir. A propósito dos
bens temporais, que Sancho I nesse momento cede ao mosteiro de Santa
Cruz e lhe servem para garantir o bom governo futuro mas, ao mesmo
tempo, obtêm a recompensa eterna para o doador, exprime a ideia de que
o rei está especialmente incumbido de uma missão de governar, o que na­
quela circunstância significava, implicitamente, que não bastava conquistar
novas terras.
«Summum atque precipuum utilitatis genus fore dignoscitur cum unus-
quisquè diligenter sibi preuidet in futurum. Si ergo bonum est et salubre uni-
cuique ut sibi preuideat in futurum, multo maxime necessarium est regibus et
consulibus, principibus et potestatibus et omnibus qui in sublimitate sunt, ut
diligenter et studiose prouideant et subministrent sibi et posteris bona tempo-
ralia, sibi bona inuisibilia et eterna.» (DS 41)

Aparece aqui, pela pena de mestre Julião, a noção de que o rei tem
uma autoridade singular e uma missão própria a cumprir, que não se tra­
duz apenas pelo culto de uma forma carismática de agir, mas também pelo
bom governo. Tal como as fórmulas do tempo de Afonso Henriques,
aproxima-se o rei de todos os outros detentores do poder, sem se lhe atri­
buírem deveres específicos. Só implicitamente se poderá supor que a supe­
rior posição do rei lhe confere responsabilidades maiores, mas não de natu­
reza diferente. Por outro lado, a autoridade usada para bem dos súbditos é,
afinal, aquilo mesmo que justifica o próprio poder. Finalmente, esta posi­
ção não é justificada por referência às litterae, ao que está escrito, mas pela
própria ordem recta das coisas57.
Em 1191, as expressões acerca da função régia completam-se com ou­
tra fórmula não menos significativa:
«Quoniam consuetudine que pro lege suscipitur et legis auctoritate dicimus
quod acta et principum scripto comendari debeant, ut comendata ab homi-
num memória non decidant et omnibus preterita presentialiter consistant...»
(DS 51).

Por estes termos muito simples, exprime-se a ideia de que os actos régios
devem ser escritos para servir de exemplo a todos e não se apagarem da
memória dos homens. Pressupõe-se ainda com mais força a concepção de
que os reis devem agir de maneira a não serem mais esquecidos, para se
tornarem como que o modelo e a referência de todos. A obrigação de «re­
comendar» as acções do rei aparece como um costume transformado em lei
e, portanto, com todo o peso da obrigatoriedade que a natureza das leis
impõe. Transparece aqui, e de maneira ainda mais clara, a pena do legista

57 A mesma fórmula reaparece em termos abreviados, em 1191 (DS 49).

72
que sabe distinguir entre lei e costume, e o imenso respeito pela palavra es­
crita como processo de ordenação da realidade. Note-se, porém, que em
nenhuma destas fórmulas se distingue a função do rei e dos príncipes ou,
mesmo, de qualquer autoridade, como se a diferença entre eles fosse ape­
nas de grau e não de natureza. O que estava em causa eram a função polí­
tica e o dever de todo aquele que exerce autoridade. Parece, por isso mes­
mo, que a autoridade do rei está apenas numa posição superlativa, mas
idêntica à de qualquer outro detentor do poder público, incluindo, segun­
do uma das fórmulas de 1189, os potestates, isto é, os senhores, ou mesmo
os simples homens livres, ingenuitatis titulo decorati, como se dizia em
1143. Ou seja, o rei é ainda um primus inter pares.
A fórmula de 1191 tornou-se corrente na cúria e passou a ser usada até
ao fim do reinado58, encontrando-se apenas uma expressão nova em docu­
mento de data incerta, entre 1186 e 1195, onde se insiste, de maneira
mais clara do que nunca, nos deveres do rei para com os súbditos:
«Regalis dignitatis auctoritate debitoque commonemur subiectos diligere atque
eorum paci et utilitate in omnibus semper prouidere.» (DS 86 e 87)

Ou seja, autoridade régia obriga a especial solicitude pelos súbditos em ge­


ral, e não apenas pelos clérigos, e exige particularmente a manutenção da
paz. Como vimos, a luta pela paz e pela justiça tinha-se tornado em todo o
Ocidente o dever maior do rei. Aqui, porém, ela não é apenas a ausência
de guerra ou de desordem, pois se alia à noção de utilidade. De facto, co­
mo vimos a propósito da intervenção dos cistercienses na economia, e até
da acção pastoral dos regrantes59, nesse momento de grande perturbação
no reino, tornava-se especial dever do rei não só preservar a paz e a ordem,
mas também colaborar no esforço comum para produzir mais, distribuir os
rendimentos e alimentar os famintos.

As CONCEPÇÕES DE AFONSO II
É possível que as perturbações de 1190-1210, cuja resolução ultrapassava a
capacidade de intervenção do rei, tivessem desencorajado a cúria de criar
novas formulações dos mesmos princípios. Em 1211, porém, logo no iní­
cio do reinado de Afonso II, surgem afirmações que revelam uma súbita
alteração nas noções então expressas, sem todavia superarem toda a ambi­
guidade acerca da missão régia, de resto natural numa época tão precoce
em relação à evolução das concepções políticas europeias. Refiro-me às leis
de Afonso II, promulgadas nas chamadas «cortes de Coimbra», e que em
vários pontos revelam tal novidade, que se tem duvidado se serão total­
mente verídicas. Não se encontram, todavia, argumentos de ordem positi­
va para contestar a sua autenticidade60. Pelo contrário, os seus pressupostos
gerais estão em perfeita consonância com a época, a começar pela referida
ambiguidade de conceitos acerca da relação entre o rei e o poder senhorial.
Repentinamente, o rei fala na primeira pessoa, com toda a autoridade.

58 D S 63, 64, 65, 71, 82, 100, 117, 118, 123, 180, de 1193 a 1209.
59 Ver vol. II, pp. 333-334.
60 Damião Peres, 1949, pp. 1-8.

73
Não manda outro falar por si, nem invoca as litteraey nem uma lei ou um
costume. Para justificar as suas ordens, apela exclusivamente para princí­
pios racionais. O modelo de «bom príncipe» por ele pressuposto ou invo­
cado expressamente61 é um modelo secular e não clerical. A autoridade in­
vocada é a «razon»62 e os princípios estritamente jurídicos63, ou a utilidade
pública64. O apelo para normas racionais e do direito natural ou para
uma sabedoria baseada na experiência65, com a total exclusão de referên­
cias a preceitos divinos ou eclesiásticos, surge como uma novidade sur­
preendente e inesperada.
É verdade que se encontra certo precedente na última fórmula de mes­
tre Julião atrás citada, mas a atitude que ali já se esboçava surge profunda­
mente assimilada e proclamada em relação a situações concretas, para justi­
ficar a criação de normas de carácter universal, tal como os princípios em
que se baseiam.
Não é menos surpreendente assistir aqui ao súbito começo da activida-
de legislativa, que embora se exerça em colaboração com a cúria régia, tal
como já vinha sendo costume na Península para os finais do século xn66,
se exprime aqui em nome pessoal do rei e sem qualquer apelo para o con­
sentimento dos barões e magnates. A única referência à cúria aparece na
notícia de ordem redactorial que precede o conjunto de leis, para indicar o
«conselho» dos prelados e dos vassalos. De facto, o poder legislativo aqui
exercido com tanta naturalidade só virá a ser proclamado como direito
próprio do rei nas Partidas de Afonso X 67.
Ao mesmo tempo, a actuação política de Afonso II, expressa também
noutros actos que mencionaremos no parágrafo seguinte, não pode deixar
de se comparar com a de certos soberanos da sua época, como Filipe Au­
gusto e Frederico II. O primeiro, sem fazer proclamações de princípio nem
inovações radicais, transformou os quadros administrativos do seu reino
com o estabelecimento de um corpo de baillis itinerantes para vigiar a acti-
vidade dos prêvots e rodeou-se de conselheiros especializados em determi­
nadas matérias. Fê-lo, porém, no âmbito dos domínios que dele depen­
diam directamente; quanto aos outros territórios do seu reino, procurou
sobretudo garantir a fidelidade e a submissão dos vassalos68. O segundo

61 «Porque de bõo principe é purgar a sa provinda de maos homêes» (Lei 27, Leg., p. 179);
«Porque a nós pertence de fazermos mercee a mezquinhos e de os defendermos dos poderosos»
(n.° 22, p. 177).
62 «Sem razon parece que aquel que é atormentado dar-lhi homem outro tormento» (n.° 3,
p. 164); «Nos parece desaguisada que aqueles que som a serviço de Deos de serem aguardados por
poderio segral» (n.° 14, p. 172).
63 «O demandador deve seguir o foro do demandado» (n.° 11, p. 170); «O homem livre possa
fazer de si o que quiser» (n.° 19, p. 174); «O s mtitrimónios devem a seer livres» (n.° 22, p. 173).
64 «O mal que logo nom tolher(em) crece, e d’uu homezio que logo nom matam no começo,
nacem muitos homezios e danos e perigos do reino e das gentes» (n.Q 13, p. 171).
65 «Havemos muitas vezes que vai a mal o que foi feito por bem» (n.° 11, p. 170); «A sanha
sooe a embargar o coraçom que nom pode veer dereitamente as cousas» (n.° 21, p. 175); «Porque
os matrimónios devem a ser livres e os que som per prema nom ham bõa cima» (n.° 22, p. 175).
Algumas das justificações aqui propostas e outras leis de 1211 procedem directamente do código
de Justiniano, como mostrou G. Barros, I, pp. 113-115. Cf. Braga da Cruz, 1975, pp. 187-188,
nota 15.
66 L. G. de Valdeavellano, 1970, pp. 442-443.
67 Id., ibid.
68 F. Lot & R. Fawtier, 1958, II, pp. 145-147.

74
transpôs para o domínio político não poucas ideias de Inocêncio III, rei­
vindicando em seu favor o princípio da autonomia do príncipe. Foi ele
que proclamou aquilo que os glosadores do Liber Augustalis ou Constitui­
ções de Amalfi (1231) chamam um «novo direito». Aí, de facto, apresenta-
-se a si próprio como uma fonte donde brota a Justiça, como o defensor
dos fracos injustamente oprimidos, o novo César que só presta contas «ao
julgamento da razão, que é a mãe do direito»69.
Sem teorizar de maneira tão poderosa e incisiva como o imperador,
mas vinte anos antes dele, o nosso rei põe ousadamente em prática um po­
der que implicitamente considera supremo, independente e universal. Só o
pode ter aprendido de uma longa convivência com os legistas da corte de
seu pai, sobretudo com mestre Julião, que ele recompensa tão generosa­
mente logo no princípio do seu reinado70, e que provavelmente tinha for­
mado ele próprio, ou enviado a Bolonha e reunido à sua volta, uma plêia­
de de legistas. São os que, à morte do Mestre, se tornam os principais
auxiliares do rei e que ele invoca expressamente nos seus diplomas71.
É, sem dúvida, este entendimento entre Afonso II e os legistas o que dá
uma coerência nova à sua obra governativa.
Apesar de tudo, não pode deixar de se notar uma constante ambigui­
dade nos decretos de 1211. Aparentemente, as leis têm um âmbito de apli­
cação universal, pelo próprio facto de invocarem princípios absolutos e de
na sua formulação nada transparecer que lhes limite o alcance dentro do
«reino»72.
Mas a sua capacidade de punir parece só se estender aos domínios ou a
pessoas sobre as quais exerce directamente a sua autoridade. Assim, por
exemplo, na lei que defende os «mezquinhos» contra os poderosos, embora
se apresente como baseada num princípio universal, só prevê uma pena pa­
ra aqueles que do rei tiverem terras (n.° 25, pp. 177-178). A que proíbe
aos poderosos «levarem» seja o que for do que venderem, começa por refe­
rir um mau costume de Coimbra, «come em todalas vilas da nossa Estre­
madura, come em todalas partes do reino», mas também só prevê castigo
para os que recebem terras ou alcaidarias do rei (n.° 2, p. 164). Esta lei, de
resto, parece dar a entender que o ponto de vista do rei se situa primeiro
em Coimbra, depois na Estremadura, ou seja, nos domínios régios e só de­
pois no resto do reino, onde de facto a sua autoridade é mais longínqua e
quase sempre exercida por meio de intermediários. O mesmo se deve en­
tender quando diz «assi da nossa terra come dos das outras» (n.° 3,
p. 164). Sendo assim, pergunta-se se, quando fala de «sa província» e a
identifica com «nosso reino» (n.° 27, p. 179), pensa só nas terras onde tem
jurisdição directa ou também nas de regime senhorial. Todavia, noutras
leis, como por exemplo na que dá aos homens livres a garantia de poderem
escolher livremente o seu senhor, parece referir-se de facto a todo o reino,

69 E. M. Kantorowicz, 1966; G. Masson, 1963.


70 M L, IV, f. 68.
71 A. D. de Sousa Costa, 1963, pp. 67-73.
72 «Em todalas partes do reino» (n.° 2, p. 164); «dos moesteiros do nosso reino» (n.° 3,
p. 164); «em grande dano nosso e do reino» (n.° 10, p. 169); «gram dano do reino e das gentes»
(n.° 13, p. 171); «qualquer homem... per todo o nosso reino» (n.° 19, p. 174); etc.

75
pois as penas aplicam-se a todos os infractores, mesmo aos nobres em geral
(n.° 19, p. 174).
Seja qual for a doutrina, a prática seguida por Afonso II parece ter
consistido principalmente em exercer uma autoridade efectiva nos seus do­
mínios, sem contestar propriamente a autoridade nobre ou clerical sobre
coutos e honras, e sem pretender intervir aí, limitando-se nesta matéria a
evitar a sua extensão abusiva em detrimento das terras da Coroa. O sistema
das confirmações parece resumir bem a sua atitude a este respeito. Signifi­
ca, afinal, uma forma de legalização dos poderes senhoriais, por esse meio
expressamente reconhecidos quando aceitam o senhorio régio73. Ou seja,
apesar de as leis de 1211 constituírem um conjunto aplicável a todo o rei­
no, deviam servir de norma também aos senhores, mas provavelmente não
bastavam só por si para os oficiais régios perseguirem e castigarem os no­
bres e os eclesiásticos que as infringiam.

A PLENITUDE DOS DOIS PODERES


Nem por isso o conjunto legislativo de 1211 deixa de ser um marco da
maior importância na história da monarquia portuguesa. A precocidade
que revela no conjunto da história europeia é realmente notável, nesta épo­
ca em que ainda predomina a privatização e a fragmentação do poder pú­
blico. Não admira, por isso mesmo, que tenha levantado as maiores oposi­
ções, como veremos no parágrafo seguinte, e que, depois da morte de
Afonso II, se seguisse um período de franco retrocesso da autoridade régia
que, com Sancho II, foi incapaz de se opor aos progressos desenfreados da
senhorialização no Norte do país. Apesar disso, os conceitos já afirmados
não desapareceram, mesmo na cúria onde os legistas, olhados com antipa­
tia por muitos nobres, não perderam completamente os seus meios de ac-
ção. Por outro lado, a sua presença em todas as cúrias diocesanas contri­
buiu para difundir uma opinião pública favorável à superior autoridade do
rei, quando a Igreja se sentiu a primeira vítima de desordem. Os clérigos e
os canonistas reconheciam-na e apelavam para ela, mesmo quando invoca­
vam a superioridade do poder espiritual.
Esta superioridade, de resto, não é entendida da mesma maneira por
todos. Junto da corte devia prevalecer a opinião de Hoguccio, segundo a
qual o imperador recebe directamente de Deus o poder sobre as coisas
temporais7 , o que pressupõe que a autoridade civil é independente na sua
esfera e só lhe está sujeita naquilo que depende do espiritual75. Esta doutri­
na viria a ser defendida também, alguns anos mais tarde, por Mestre Vi­
cente. Era pressuposta pela sua afirmação de que o rei na Hispânia é como
um verdadeiro imperador, pois não recebe o gládio do Papa, mas só de
Deus76.

73 M PH C, pp. 7-11; Gama Barros, pp. 440-442. O sistema das confirmações parece ter inspi­
rado também Afonso IX de Leão, pelo menos desde 1226: J. González, 1944, vol. II does. 474 a
490, etc.; cf. ibid., vol. I, p. 498.
74 A. D. de Sousa Costa, 1963, pp. 306 e 510; M. Pacaut, 1957, pp. 134-135.
75 A. D. de Sousa Costa, ibid., p. 506.
76 Id., IV, 17.7, cit. ibid., p. 511.

76
Ora, esta doutrina era já afirmada, creio eu, no próprio prólogo das
leis de 1211, quando aí se estabelece um paralelismo entre as leis régias e
os «decretos» de Roma, para se declarar, desde logo, que sejam nulas quais­
quer leis ou acções futuras que contrariarem umas ou outras. Não me pa­
rece, bem ao contrário, que este prólogo deva ser interpretado como uma
sujeição da lei civil à canónica, como fizeram alguns historiadores do di­
reito77.
Deve ser justamente esta doutrina a que está subjacente à reacçao de
Afonso II contra os célebres decretos laicales de Fr. Soeiro Gomes, por ele
tão violentamente condenados. Referia-se justamente à confiscação dos
bens dos hereges, acerca da qual mestre Vicente pretendia limitar a decre­
tai de Inocêncio III78, comentada em sentido contrário à opinião de Tan-
credo79. O rei devia considerar a pena de confiscação uma questão tempo­
ral, que não caía sob a alçada da lei eclesiástica. Invocava a confirmação da
autoridade de todos os reis portugueses e de si próprio por vários papas,
para condenar sob as mais severas penas o que considera uma intromissão
na esfera do poder civil80.
Assim se inicia em Portugal uma tradição de autonomia do poder civil
que, sem voltar a suscitar da parte do monarca, que eu saiba, afirmações de
princípio tão explícitas, continua a sustentar a posição régia durante os fre­
quentes conflitos que se seguiriam desde esta época até à de D. Dinis. Nes­
tes, segundo parece, o pomo da discórdia reside nas questões disputadas
ratione materiae e ratione personae, simultaneamente pela jurisdição ecle­
siástica e pela civil, como veremos adiante81.

A f o n so III e D . D in is
A partir de Afonso III, o clero invoca sobretudo o direito canónico, cuja
autoridade ninguém contestava, para fazer as suas reivindicações práticas.
Por isso, D. Dinis dirigiu os seus esforços no sentido de fixar regras que
determinassem o foro competente nos casos de conflito. A sua actuação as­
tuta e firme levou, por exemplo, o bispo Egas de Viseu a redigir uma obra
com o significativo título De libertate ecclesiae, que teve depois um certo
sucesso em Castela, mas da qual não resta nenhum manuscrito portu­
guês82. Aqui, porém, o problema da relação entre o poder espiritual e o

77 O texto, na versão provavelmente mais fiel do LLP, é o seguinte: «estabeleceo que as suas
leis sejam guardadas, e os dereitos [ler «decretos»] da Santa Egreja de Roma, convém a saber que
se [outras] forem feitas ou estabeleçudas contra eles [ler «elas»] ou contra a Santa Egreja que nom
valham». Basta, portanto, subentender «outras» para o paralelismo ser perfeito. A opinião contrá­
ria, dos autores citados por G. Braga da Cruz, 1975, p. 188, é por este também recusada, mesmo
sem propor uma leitura mais correcta do texto de 1211. Entre aqueles conta-se N . Espinosa G o­
mes da Silva, 1985, pp. 124-125, que acrescentou novos argumentos à sua interpretação na
2.a edição da mesma obra, 1991, p. 162.
78 Decretales, V, 7.10 (ed Friedberg, pp. 782-783).
79 M. Pacaut, 1957, pp. 152-155.
80 Sobre a discutida interpretação destas leis, acerca das quais não foi citada nunca, creio, a
doutrina de mestre Vicente, ver F. da Gama Caeiro, 1983, onde refere as opiniões de Herculano
e de L. G. de Azevedo.
81 Ver infra, n.° 3.2., pp. 133-134.
82 A. Garcia y Garcia, 1970, pp. 219-281.

77
temporal também não se coloca em termos teóricos ou doutrinais, mas da
forma mais pragmática e casuística, alegando, para cada eventualidade pre­
vista, a legislação canónica correspondente.
Mesmo nesta obra, onde se estende ao máximo o foro eclesiástico,
nunca se ultrapassa a ideia de que a Igreja é livre na sua esfera e, por isso,
não se pode sujeitar ao rei. Longe de invocar a doutrina da superioridade
espiritual, permanece, ao nível da teoria, dentro da ideia implícita de que o
poder civil é também soberano na sua esfera. O que se disputa é o limite
entre as duas83.

As «REGALIAS»
Através de questões como estas, e face aos poderes senhoriais, foi-se fir­
mando a noção de que pertenciam exclusivamente ao rei determinados di­
reitos que ele não podia partilhar com ninguém. A ideia aparece já com
clareza no Fuero Viejo de Castilla, provavelmente bem conhecido entre nós,
o qual, embora redigido só em meados do século xiv, retoma um texto do
século precedente, anterior, portanto, às Siete Partida,y84. Diz ele:
«Estas euatro cousas son naturales al senorio dei Rey, que non las deve dar a
ningund ome, nin las partes de si, ca pertenescen a ele por razón de senorio
natural, Justicia, Móneda, Fonsadera, e suos yantares.»85

Esta ideia, tão pouco conforme com as concepções feudais, já era cor­
rente nos meios eclesiásticos imbuídos do direito romano. Inspira as ex­
pressões de algumas bulas papais. Assim, por exemplo, uma de Inocên-
cio III de 1216, onde se fala claramente dos iura regalia e da iurisdictio
regia como de poderes e jurisdição postos em causa pelas reivindicações se­
nhoriais das irmãs do rei Afonso II, mas que os procuradores do rei consi­
deravam inalienáveis (BPIn. III, n.° 214). Mas logo a seguir, em 1217,
Honório III menciona também os costumes hispânicos que vigoram em
matéria de doações régias a nobres (M HV II, doc. 17). Aquela bula trans­
mite, sem dúvida, as alegações dos procuradores de Afonso II, e esta, as
dos procuradores das infantas. Pouco tempo depois, em 1223, nos acordos
de Sancho II com as suas tias, apesar de tão desfavoráveis ao rei, é tam­
bém, decerto, por influência de conceitos vigentes na cúria romana e na
corte afonsina que o rei confirma os forais dados por elas, como se isso
fosse necessário para terem validade, se afirma que os dependentes das in­
fantas estão sujeitos à obrigação de participar no exército do rei e se men­
cionam direitos régios inalienáveis.
Verifica-se, assim, que a ideia de haver direitos «naturais» e inalienáveis
do rei em Portugal aparece precocemente. Faz depois o seu caminho por­
que, em 1236, ao dar à Ordem de Santiago o castelo de Sesimbra, San­
cho II exclui «o direito que nos outros nossos castelos d’Alentejo aos reis

83 Ver, sobretudo, ibid.9 p. 264: «Reges et principes non debent episcopis imperare sed inclina-
bunt caput etus... nec eos sibi submittere quoniam eos manet “obsequendi necessitas non auctori-
tas imperandi” nissi forte episcopus a rege feudum teneret.»
84 T. de Sousa Soares, in Gama Barros, I, pp. 384-385.
85 Fuero Viejo, I, 1.1 cit. por L. G. de Valdeavellano, 1970, p. 445.

78
fica resguardado»86. Em 1242, fazendo doação análoga de Idanha e Salva-
terra aos Templários exclui os iura regalia de moeda, colheita, exército e
anúduva87. Deve notar-se neste último documento a mão do chanceler
mestre Vicente que, como bispo da Guarda, era senhor de Idanha.
Convém, todavia, mostrar que nenhuma daquelas «regalias» exclui as
ambiguidades a respeito do direito senhorial. Com efeito, todas elas foram
também concedidas a senhores, até a de cunhar moeda, que Afonso Henri­
ques atribuiu ao arcebispo de Braga em 1128 (D R 87), mesmo que ele
nunca a tivesse exercido de facto. Assim, a fossadeira era cobrada por se­
nhorios particulares88890, e o «jantar» ou hospedagem era um direito tipica­
mente senhorial. Quanto à justiça, uma vez que os senhores eram também
responsáveis por ela nos seus domínios, deve aqui entender-se a justiça su­
prema, ou a manutenção da paz, no sentido em que falámos anteriormen-
te. É possível também que a recomendação de o rei não alienar a «fossadei­
ra» se justifique pela ideia de que lhe pertence, de facto, este tributo de
origem pública. O diploma de 1242, acima citado, apoia esta interpre­
tação.
Em Portugal parece terem sido, efectivamente, os direitos de cunhar
moeda, de administrar a justiça suprema e também de comandar o exérci­
to, as atribuições próprias do rei, ainda antes da época de Afonso III.
E mais obscura a origem da noção de que o rei tinha uma jurisdição espe­
cial sobre as terras ermas, coisas abandonadas, minas, águas e caminhos,
que não é mencionada no Fuero ViejoS9. Penso que deriva do princípio
muito antigo, e talvez já deturpado, de que a autoridade régia se exercia de
maneira especial sobre os homens livres e se exprimia, neste caso, por pres­
tações públicas ou de origem fiscal. Seria isso, justamente, o que permitiu
aos soberanos do século xm considerarem-se os senhores de todas as terras
que os não tivessem. Mas a aplicação deste direito às matas, caminhos e
minas só se tornou sistemática na época de D. Dinis.
Através destes múltiplos caminhos se foi precisando a enumeração dos
regalia e a definição da autoridade régia como um poder específico. Assim,
em 1245, quando o conde de Bolonha jura, em Paris, aplicar a justiça para
fazer reinar a paz no reino, incluindo nesta ideia a de defender a Igreja, de
respeitar os costumes dos concelhos, dos cavaleiros e do clero, de ouvir os
conselhos daqueles prelados que ele pudesse consultar segundo as necessi­
dades do tempo e do lugar, integra-se perfeitamente na noção de missão
régia do século anterior. Cede, pois, a todas essas exigências, mas declara
expressamente que salvaguarda o iure meo et regni portugalensis9®.
Cinco anos depois, tornado rei e tendo de responder às reclamações
apresentadas pelos bispos nas cortes de Guimarães, volta a fazer a mesma
ressalva:
«ad quos, saluo iure regie m aiestatis nostre corone regrti nostri... in presencia nos-
tra et baronum nostrórum decrevimos proponendum» (Leg., p. 185).

86 Cit. por Gama Barros, I, p. 154.


87 Ibid.y p. 145.
88 F. de Centuncelas (1194); São Vicente da Beira (1195), Belmonte (1199), Benavente
(1200), Alpedrinha (1202), etc., todos os senhorios particulares: Leg., pp. 487, 494, 521; D S 119.
89 Cf. Gam a Barros, VI, pp. 93-104.
90 A. D. de Sousa Costa, 1963, pp. 444-446.

79
Em 1254 e nos seguintes, a partir do de Beja, Afonso III declara também
nos forais: «retentis in ea mihi meis regalenguis» (Leg., p. 640), sistemati­
zando aquilo que afirmara seu irmão, ou os juristas da cúria por ele, em
1236 e 1244.
Em lei de 1254 ou 1261, o mesmo rei afirma claramente o poder le­
gislativo: «ca tal quero que seja costume de meu reino» (Leg., p. 247).
Noutro diploma sobre a imunidade nos coutos, e os serviços que se têm de
prestar aos respectivos detentores e os direitos de maladia, declara que o
direito senhorial deriva do seu e está sujeito ao seu controlo e vigilância:
«ca outro juiz nom deve conhecer de tal cousa... senom aquel per que foi dado
o couto, ou aquel que em seu logar veer, e esto é em el-rei» (Lei 198, Leg.,
p. 303).

Embora não seja expresso com tanta clareza, pode citar-se também a
este respeito a justificação da lei sobre as «assuadas» resultantes da vingança
privada e dos abusos sobre os mosteiros, que eram praticados sobretudo
por nobres. Aí afirma implicitamente o direito de os julgar, pois tais vio­
lências eram:
«muito a meu dano e dos meus filhos d ’algo e dos meus moesteiros e das ordiis
e de todo meu poboo et de todolos outros do meu reino» (Leg., pp. 221-222).

Aproximando esta última justificação do juramento de Paris, verifica-se


que a via pela qual o monarca impõe como única e universal a sua autori­
dade é justamente o seu especial dever de garantir a paz e a justiça, no sen­
tido em que falámos anteriormente. Fora já esse o ponto de partida para as
teorias expressas por Frederico II91.

C o ncepçõ es de Ajo n so X em Portugal

Ora, por essa época, estava em plena actividade a escola jurídica constituí­
da por Afonso X, e muitas das ideias do imperador começavam a correr in­
sidiosamente nas cúrias régias, apesar da sua deposição por Inocêncio IV
no concílio de Lião, dias antes de ter deposto também Sancho II. Afon­
so X não defenderia com menos vigor do que o nosso Afonso II o princí­
pio da autonomia do poder civil na sua esfera, e várias vezes se insurgiria,
como Afonso III, contra aquilo que pensava ser a abusiva extensão dos po­
deres eclesiásticos92.
Como se sabe, o Fuero Real e as Siete Partidas de Afonso X foram tra­
duzidos para português e largamente utilizados entre nós93. Já desde a épo­
ca de Afonso III se encontram citações implícitas a textos do Fuero Real\
traduzido entre 1273 e 1282, o que significa que inspirava de facto os ju­
ristas da corte94. Ora, a doutrina do Fuero Real acerca do rei e da sua auto­

91 E. Kantorowicz, 1981, pp. 103-132.


92 Aspecto mal estudado até ao recente congresso por ocasião do centenário de Afonso X, onde
foi salientado por alguns participantes. Veja-se também J. M. Nieto Soria, 1983.
93 G. Braga da Cruz, 1973, pp. 195-204.
94 Ver, p. ex., a Lei 97 de Afonso III (Leg., pp. 271-272) e FR, p. 34; Lei 184, p. 311, e FR,
pp. 55-56; Lei 88, pp. 263-264, e FR, pp. 89-90; Lei 90, pp. 268-269, e FR, pp. 104-105; Lei
207 e FR, p. 28; Lei 267, e FR, p. 88; etc.

80
ridade única não deixa lugar a qualquer dúvida. Usando a clássica metáfora
do corpo humano, e apelando, ao mesmo tempo, para o paralelismo exis­
tente entre a ordem celeste e a terrestre, compara a posição de Cristo como
«cabeça, e começamento dos angios e dos archangeos» com a do rei, como
cabeça da «corte terreal», pois Deus,
«pôs el-rei em seu logo por cabeça e começamento de seu poboo todo assi co­
mo posse-si cabeça e começamento dos angios e dos archangeos e deu-lhi po­
der de guiar e de mandar seu poboo. E mandou que todo pobuu en úu e cada
uu per si obedeecessem e honrassem e presassem e que guardassem sa fama boa
e sa honra como seus coorpos mesmos».

E depois de enunciar as consequências deste princípio, volta à mesma


comparação:
«assi como nem uu nembro nom pode haver saude sem sa cabeça, assim uu
poboo nom pode haver sem seu rei que é sa cabeça e posto por Deus en
adeantar ó bem e por vedar e vingar o mal» (FR I, 2, pp. 9-10).

É evidente o interesse que a corte régia e os seus juristas tinham em di­


fundir estas ideias, sem que no entanto aparecesse, que eu saiba, uma répli­
ca portuguesa do mesmo género. Mas a política de D. Dinis inspira-se nelas.

A p o lít ic a d e D . D in is

Teve ocasião de o manifestar, por exemplo, ao afirmar, a respeito da Or­


dem Militar de Santiago, que todas as concessões feitas pelos reis anteriores
tinham como motivo e condição o serviço do rei na defesa contra os sarra­
cenos e contra outros inimigos do reino e de o servirem fielmente em to­
das as suas acções95. Mas não parece encontrar-se em D. Dinis uma pro­
pensão para teorizar.
Poderia tê-lo feito nos diversos manifestos contra seu filho, o príncipe
D. Afonso, mas exprime-se aqui em termos muito genéricos e que supõem
da parte dos interlocutores um grande respeito para com ele.
«E em qual pea caem aqueles que se param contra o corpo d ’el-rei e contra
u veem o seu pendom e que andam em taes obras contra seu stado e a sa hon­
ra e a sa justiça, tem el-rei que nom é hora pera que ende mais declarar. Ca
mal pecado sabudo e visto é de si ligeiramente o podem entender os que i pa­
rarem mentes e que houverem razom e entendimento souberem qual é o stado
dos reis e o que lhi devem de guardar os que fezerem derecto e lealdade [...]
Ca tal é el-rei e taes som os seus fidalgos e os seus concelhos e os seus naturaes
e tam leaaes, e assi é el-rei certo que téem os corações enel e que todos i ante
porriam os corpos e quanto houvessem que se passar d’outra guisa...»96

Pouco tempo antes, no manifesto de 1320, ainda é mais reservado.


Apenas a certo momento fez uma afirmação de princípio, acerca da preten­
são que o infante tinha de administrar a justiça:
«o que el-rei teve por mui estranho de lhi moverem a tal razom que nos seus

95 A. B. da Costa Veiga, 1940, p. 157; MPV, II, p. LVII.


96 F. Félix Lopes, 1952, doc. de p. 39.

81
dias posesse el en’outrim a justiça, per que el é rei, e per que há o maior estado
cThonra que é, ca pela justiça assinaladamente é o rei temudo e honrado na sa
terra»97.

Será preciso procurar a intervenção dos intelectuais para encontrar uma


formulação mais doutrinal da função régia. Aparece, efectivamente, nos es­
tatutos dados à Universidade de Coimbra de 1309, no prólogo dos quais
se encontram, no entanto, não poucas reminiscências de concepções que
vêm do século anterior.
Segundo o seu autor, incumbe especialmente ao rei zelar pela utilidade
do reino e dos súbditos e premiar os seus habitantes, para que, multiplica­
dos assim os frutos da justiça, cheguem todos à felicidade eterna. Mas o rei
não pode cultivar a justiça se não promover a reprodução das suas semen­
tes na terra. Assim, a semente dará muitos frutos, e multiplicar-se-ão no
reino as palmas da justiça. Daí brotarão os seus frutos, ou seja, os varões
instruídos na doutrina da eloquência. N a verdade, o reino não precisa só
de armas, mas também de leis de justiça e de equidade para se governar
convenientemente na guerra e na paz (CUP, I, doc. 25).
Nesta justificação surge, pois, com a maior clareza, a harmonização da
velha ideia de que o rei era responsável pela manutenção da paz e da justi­
ça, para estender cada vez mais as obrigações daí decorrentes transforman­
do-as no dever de ordenar tudo aquilo que pudesse contribuir para a utili­
dade do reino, incluindo os estudos.
Em termos práticos, e mesmo sem grandes teorias, o progresso da au­
toridade régia durante a época de D. Dinis foi enorme, como veremos
também no parágrafo seguinte. Foi justamente o que provocou a revolta
dos senhores sob a chefia do futuro Afonso IV, à semelhança dos fidalgos
castelhanos que se haviam revoltado contra um monarca não menos cons­
ciente da necessidade de edificar o Estado, Afonso X 989. Foram ambos os
verdadeiros edificadores dos dois Estados de Castela e de Portugal. Até ali
a monarquia mal saíra ainda do seu estádio feudal.

C o n clu sã o

Foi necessário, pois, um longo caminho para que a figura carismática do


rei, obrigado a honrar os seus antepassados de estirpe quase sagrada pela
imitação dos seus exemplos, sobretudo aqueles em que revelava uma excep-
cional generosidade nos seus dons ou a ousadia na guerra, se vá pouco a
pouco carregando de deveres suplementares, como seja prevenir o futuro
ou garantir a paz e a utilidade de todos os súbditos, para se transformar
depois no modelo do legislador, do defensor dos fracos contra os podero­
sos, da garantia da justiça e da ordem. Sancho II fora, por isso mesmo, um
rex i n u t i l i s não soubera manter a paz. Mas Afonso III, para cumprir este
dever, organizou uma burocracia eficaz, geriu cuidadosamente o patrimó­
nio e acumulou rendimentos, invocou o seu direito a reservar ou a apro­

97 Id., 1967, p. 33.


98 J. Mattoso, 1985, pp. 293-308; id., 1993a, pp. 73-94.
99 E. Peters, 1967, pp. 253-305; id., 1970.

82
priar-se de certos bens (os regalia), mostrou-se o senhor da moeda e das
terras sem dono, montou um tribunal régio bem organizado e que chegava
a todo o lado, apresentou-se como a origem e o responsável pelo bom de­
sempenho da justiça senhorial, afirmou e praticou largamente o poder le­
gislativo. Já não era um primus inter pares, era um verdadeiro monarca,
«imperador no seu reino»100. D. Dinis podia, pois, tirar todas as conse­
quências da prática exercida pelo seu pai, elevar o princípio da supremacia
régia às suas consequências. Em grande parte com mais sucesso do que o
seu (provável) modelo Afonso X, mas não sem revoltas e contestações, que
lhe amarguraram o fim da vida.

2 3 . Governo central
Uma das características das monarquias feudais é a assimilação da cúria ré­
gia ao conselho dos vassalos que lhe prestam homenagem e dos barões que
acompanham o chefe e constituem a sua comitiva. A privatização do poder
não permite ao senhor governar arbitrariamente. Tem de o fazer com o
acordo e a colaboração dos seus homens, daqueles a quem ele deve, em
boa parte, a sua posição. Eles, por sua vez, devem ao senhor, como obriga­
ção decorrente do contrato feudal, a participação nos seus conselhos e não
apenas o auxílio militar.
Apesar de todas as diferenças que separam o rei dos senhores, este mo­
delo de organização do governo feudal foi normalmente o adoptado nas
cúrias régias até ao fim do século xn, com a diferença de que desde cedo se
desenvolveu na comitiva régia o grupo dos clérigos, com funções simulta­
neamente religiosas e técnicas, em colaboração com o chanceler. É deste
grupo em crescimento constante que brotam os funcionários, cujo perfil
técnico e burocrático se vai acentuando e que vão invadindo outras esferas
dos órgãos do governo. Ocupam-se de funções judiciais, pela escrita con­
trolam as funções fiscais e pela competência técnico-jurídica tornam-se os
indispensáveis conselheiros do rei. A componente feudal do palácio régio,
no entanto, não desaparece facilmente. Durante algum tempo, os dignitá­
rios encarregados das funções domésticas (mordomo) e guerreiras (alferes)
colaboram nas responsabilidades governativas respectivamente no plano
administrativo e no plano militar. Mas a importância crescente dos cargos
técnicos tende a reduzir as suas atribuições, conferindo-lhes um carácter
honorífico, ao mesmo tempo que se multiplicam os cargos menores, tam­
bém de carácter doméstico, mas cujas atribuições e especialização acentua­
ram o prestígio da corte, conferindo-lhe dimensões e complexidade que
não podiam ser facilmente imitadas pelos senhores101.
Este breve panorama da evolução dos órgãos do governo central deve
aproximar-se, como têm feito, de resto, todos os nossos historiadores do
direito, da evolução das assembleias ditas representativas que são as cortes,
e que de facto vão ganhando em importância, pelo alcance político das
suas decisões, a partir de meados do século xm.

100 Sobre esta fórmula, ver a obra de F. Calasso cit. por L. Genicot, 1968, p. 144.
101 Sobre o carácter «doméstico» dos cargos da cúria régia e a sua lenta transformação em fun­
ções «públicas», ver Leontina Ventura, 1992, I, pp. 126-143.

83
Assim se processa a formação dos órgãos do governo central que cons­
tituem expressão concreta, embora ainda rudimentar, do Estado.

A CÚRIA FEUDAL
A aproximação da primitiva cúria régia portuguesa das comitivas feudais
seria chocante para a nossa historiografia tradicional, mas creio ser indis­
pensável para não atribuir ao conjunto dos órgãos políticos medievais por­
tugueses características que só se encontram no fim do século xm . De fac­
to, a dominante inicial da monarquia parece-me ser mais correctamente
caracterizada pelo modelo feudal do que insistindo em ver nela a expressão
precoce de um modelo de tipo estatal, que de facto viria a revestir, mas só
muito mais tarde, quando se observa a mesma tendência também noutros
países europeus102.

O ALFERES E O MORDOMO
O carácter feudal começa na designação de «cúria» e na singularização dos
três cargos de mordomo, signifer e chanceler, pois correspondem a igual es­
quema nos países de além-Pirenéus. De lá vêm concretamente os próprios
termos de «cúria» e de «mordomo»103. A diferença peninsular reside no
cargo do chefe militar, cuja fimção estava, na Península, como os termos
signifer ou vexilifer indicam, ligada à posição de portador das insígnias ré­
gias, e não à chefia da cavalaria, como nos países francos. A relação com o
combate a cavalo sugerida pela palavra «alferes» (cavaleiro) vem-lhe do
mundo árabe. De resto, este termo não é tão frequentemente empregue
nos documentos solenes da cúria, como a mais tradicional de signifer.
O que importa, porém, é que o mordomo-mor, mesmo sendo um car­
go de grande importância desde o princípio da monarquia, não parece ter
propriamente funções administrativas fora da cúria e dos domínios régios.
A sua competência parece, até, ligada, na época de Afonso III, à vigilância
da prestação de contas pelos almoxarifes e à superintendência da concessão
de forais rurais dos domínios régios. É nestes expressamente nomeado co­
mo se fosse ele quem preside ao trabalho dos cobradores de rendas e dos
mordomos menores nas terras da Coroa104. É possível, no entanto, mas
por circunstâncias especiais, que em várias ocasiões os mordomos-mores
desempenhassem funções de quase primeiro-ministro, como sugere até o
próprio facto de o cargo ser vitalício, salvo em casos excepcionais105. As­
sim, por exemplo, Ermígio Moniz aparece em 1132 como «sub potestate
eiusdem (infantis) totius Portugalensis provinde prefecto»106. Pêro Anes da

102 Ver uma confirmação do que aqui dizemos em Leontina Ventura, 1992, I, pp. 43-48,
55-73.
103 L. G. Valdeavellano, 1970, pp. 452-453.
104 Ver a maioria dos forais de 1255-1258 atribuídos às pequenas povoações de Trás-os-
-Montes e da Beira Alta.
105 Rui de Azevedo, 1958, pp. c xv ii -c x v iii .
106 BF 7; c£: «regis nostri eiusque dapiferi, qui omnibus sequenti gradu preerat Ermigii, cuius
anima requiescat in pace, maximi et prudentis uiri et nostri domini regis supra omnes consilia-
rii...», Vita Tellonis, in SS, p. 65a.

84
Nóvoa é considerado a sombra negra de Afonso II pelo papa Honó-
rio III107, e aquele a quem o mesmo papa se dirige especialmente, embora
mencione também outros conselheiros do rei em 1224108. Mas já nesse
mesmo reinado o mordomo-mor passa a lugar secundário. Começa a ser
citado depois do alferes-mor na lista de subscrições dos documentos solenes.
Durante o reinado de Sancho II surge temporariamente acima do alfe­
res, decerto em virtude das perturbações que então se deram. Assim, Mar-
tim Anes, que até 1229 subscrevia os diplomas régios a seguir ao mordo­
mo, passa, excepcionalmente, já num diploma desse ano, a assinar antes
dele; e depois, desde 1255, sempre em primeiro lugar, desaparecendo a fi­
gura do mordomo até ao fim do reinado109. A precedência do alferes, ape­
sar de ser um cargo não vitalício e desempenhado por pessoa da confiança
pessoal do rei como, por exemplo, os seus próprios irmãos bastardos, expli­
ca-se justamente por estar ligado à sua pessoa, como indica a própria ex­
pressão signifer regis, em contraste com a habitual de maiordomus curiae.
A regra mantém-se sem excepção no reinado de Afonso III110. Nesta altura
o mordomo não é apenas o chefe da cúria. Desempenha também, como
dissemos, o cargo de superintendente na administração das terras da Co­
roa. Está presente com o chanceler na prestação de contas dos almoxarifes
e dos ovençais da casa real111. E possível, no entanto, que a efectividade da
função pertencesse normalmente ao vice-mordomo, que entre 1249 e 1273
aparece nos documentos régios112. Esta duplicação deve corresponder ao
novo aumento de prestígio do mordomo com a nomeação de D. João de
Aboim, e ao mesmo tempo à intervenção dos almoxarifes na administração
das terras da Coroa. A tradição de o mordomo não exercer directamente
algumas das suas funções administrativas, mas por delegação num auxiliar,
era, de resto, muito antiga. Esse auxiliar para os assuntos domésticos da ca­
sa real chamava-se, desde 1133, dapifer; speculator, dispensator, subdapifer,
procurator regie domus, ou spensator cibarie regis, mas a sua designação passa
a fixar-se no primeiro destes termos desde 1172113.
Entretanto, tendo o infante D. Sancho começado em 1169 a exercer
funções régias juntamente com Afonso Henriques, passou a haver dois
mordomos, um de cada monarca. Mas em 1172 os seus cargos voltaram a
unir-se, passando a função a ser exercida na titularidade por um rico-
-homem, como o mais alto grau hierárquico da corte, e as funções práticas,
como dissemos, pelo dapifer ou vedor. Ao passo que o primeiro estava liga­
do à cúria (maiordomus curiae), o segundo estava ligado ao rei e à sua casa
{dapifer regis)114. Esta situação mantém-se durante todo o reinado de San­
cho I com as mesmas dominantes e poucas oscilações.

107 A. D. Sousa Costa, pp. 94, 97, 104.


108 Ibid., p. 133, nota 236.
109 Documentos sumariados por Herculano, 1980, II, pp. 605-616, 626-631.
110 M. Caetano, 1954, pp. 29-30; para os anos seguintes, ver: Leg., pp. 667, 672, 683, 686,
687, 689, 692, 695, 698, 716, 723, 729, 730, 731, 732, 733, 736.
111 J. P. Ribeiro, 1813, III/2, does. 29 e 31, de 1273 c de 1279.
112 Leg., pp. 667, 683, 686, 689, 693, 695; J. P. Ribeiro, 1813, II/2, doc. 29.
113 Rui de Azevedo, 1958, pp. cxix-cxx.
114 Ibid., pp. cxxiv -c x x v ii .

85
Durante o reinado de Afonso II desaparece o oficial subalterno do
mordomo. Numa lei de 1222 o rei ordena ao alferes, ao mordomo e ao
chanceler que, quando se ausentarem da corte, o informem de quem dei­
xam em seu lugar; caso contrário, ele próprio nomearia substitutos até re­
gressarem. Depreende-se daqui que não tinham subalternos permanentes.
Por outro lado, mencionando a mesma lei quatro livros «de recabedo», três
dos quais estavam a cargo dos referidos oficiais, pode deduzir-se que todos
eles tinham rendimentos e encargos de que eram responsáveis (Leg.,
p. 179)115.

R e m o d e la ç õ es de Ajo n s o II: o ficia is in fe r io r e s

Nessa altura nada têm a ver, provavelmente, com os serviços domésticos da


corte, pois, segundo uma das leis atribuídas à cúria de Coimbra de 1211,
parecem estar directamente ligados ao rei vários oficiais menores encarrega­
dos sobretudo do abastecimento da corte, como o reposteiro (repositarius),
o porteiro, o eichao ou uchão, o escanção, o saquiteiro, o cevadeiro, o es-
trabeiro e o alfaiate, que tratavam respectivamente das alfaias e vestuário (o
repositarius chamar-se-ia depois camareiro), da recepção de queixas e das
execuções judiciais, do abastecimento de víveres e alimentos, de bebidas,
de pão, das forragens para a cavalariça, e, finalmente, do cuidado dos pró­
prios animais de sela e de carga (Lei 23, Leg., p. 176). Deve notar-se que
esta lei tem uma versão nas Ordenações Afonsinas, onde, em vez de «escan­
ção», aparece o equivalente «copeiro», e em vez de «estrabeiro» surge «for-
neiro», função completamente diferente. Ora, pelo menos alguns destes
cargos não consistiam apenas em administrar os gastos, mas tinham rendi­
mentos próprios, o que implicava responsabilidades administrativas. Com
efeito, a lei prevê no caso de eles
«fazerem nossas despesas, ou guardar os nossos panos pera dezimá-los ou dar
nossas terras a renda ou alqueler, ou dar nosso pam ou nosso vinho a vender»
(Leg., p. 176).

Mas o rei pretende controlar estritamente a sua administração:


«nom empreste nosso pam nem dele faça escambho nem atenda por ele ao
nosso devedor sem nosso mandado» (ibid.).

Parece, pois, que, como em tantas outras coisas, Afonso II procedeu a


uma profunda remodelação dos oficiais da corte, mesmo que alguns desses
ofícios já existissem. Não sabemos, no entanto, se a administração das ter­
ras da Coroa era feita directamente pelos mordomos (cuja relação com o
mordomo-mor ignoramos), aos quais se referem as Leis 12, 17 e 20 (Leg.,
pp. 171, 173 e 174), ou pelos almoxarifes que recebiam as rendas {ibid.,
leis 3 e 4, p. 163). De facto, numa outra versão da Lei 20, em vez de mor­
domo ou ovençal, fala-se em tesoureiro, almoxarife ou recebedor (Leg.,
p. 174).
A importância que o rei lhes atribui revela-se por certas doações a al­

115 Aos dados aqui apresentados acrescentem-se os recolhidos por Leontina Ventura, 1992, I,
pp. 48-51, 77-88, onde se fazem algumas precisões de pormenor.

86
guns deles: o reposteiro-mor, o escanção, o barbeiro, o cevadeiro, o falcoei-
r o e o uchao116.
De qualquer maneira, com Afonso II multiplicam-se os oficiais inferio­
res. Alguns deles começam a confirmar documentos da cúria como, por
exemplo, o cevadeiro, o saquiteiro, o uchao e o escanção em 1218 (ML
IV, f. 111), o reposteiro em 1217 e 1219 (M L IV, f. 96; VM H, n.° 191),
o falcoeiro em 1219 (VMH, n.° 192).
Como era de esperar, estes cargos mantiveram-se durante o reinado de
Sancho II, apesar da provável desorganização da corte. Entre os confirman-
tes dos documentos régios aparecem o saquiteiro (Leg., pp. 610-612), o
uchão, o escanção (Leg., pp. 612, 616; Herculano II, 628), o copeiro, no­
me mais corrente do escanção (Herculano, ib id ), o reposteiro (Leg.,
p. 604)117.

R em o d ela çõ es de A fo n so III
Estes cargos sofreram uma remodelação em 1258, como se sabe pelo regi­
mento da casa real da mesma data, pelo qual o rei
«mandou temperar sa casa e toda sa companha... a D. Gil Martins moordomo
da corte e a Estev5 Eanes chanceler e a D. Joam d Avoim e a D. Egas Lourenço
e a Rui Perez subrejuiz, com outros do conselho d’el rei» (Leg., p. 198).
O seu objectivo foi, em grande parte, evitar despesas excessivas e con­
sistiu provavelmente em reduzir o número de ovençais. Os mencionados
expressamente são dois escudeiros que levavam as armas e o pendão d’el-
-rei, vários cavaleiros que eram armados por ele, oficiais para a estrebaria, a
repostaria, a cozinha, a copa, a capela, e o pessoal para a caça, composto
nesta ocasião por um monteiro e quatro falcoeiros (Leg., pp. 198-199).
Três anos depois, este último grupo recebe o reforço de mais um monteiro
e três açoreiros (Leg., pp. 199-200). Entre os serviçais mencionam-se tam­
bém lavadeiras, regueifeiras, azeméis, cavalariços, três jograis e um alfaiate.
Todo este pessoal estava sob as ordens do mordomo e ao chanceler (Leg.,
pp. 198-199). Efectivamente, ainda hoje se encontra um recibo de uma
enorme quantidade de vitualhas para a corte, entregues pelos almoxarifes e
homens do rei, como produto de serviços e de colheitas, aos dois uchãos
da corte, entre 1257 e 1270, e cuja recepção eles atestam por intermédio
do cavaleiro Vasco Afonso, perante o mordomo-mor, o chanceler, três clé­
rigos do rei e o seu notário118. Afonso III era um homem que gostava de
contas certas e que vigiava cuidadosamente os gastos, como demonstram
vários documentos do seu reinado.

D. D in is
A sobriedade imposta pelo Bolonhês deve ter dado lugar a maiores largue­
zas durante o reinado de seu filho. Num documento de 1321, encontra­
mos o uchão e escanção-mor (diferente de copeiro), o confessor e capelão-

116 TT, Alcobaça, D R 1, 12 e 14; Teresa Veloso, 1988, pp. 385-387.


117 Aos dados aqui apresentados acrescentar os que foram recolhidos de forma mais sistemática
por Leontina Ventura, 1992, I, pp. 126-137.
118 J. P. Ribeiro, 1813, III/2, doc. 29, de 1273.

87
-mor, um físico, três indivíduos cuja função não se indica, um serviçal ou
encarregado da cozinha, dois escrivães do rei, dois tabeliães gerais do reino,
quatro cavaleiros, nove escudeiros, dois açoreiros, dois falcoeiros, o arabi-
-mor e seu irmão, o copeiro, o saquiteiro, o fruteiro, o camareiro, dois al­
gozes, três cozinheiros, dois arinteiros (encarregados da baixela), dois por­
teiros e um tabelião do rei119.

O s CLÉRIGOS DA CÚRIA
A menção de alguns destes ofícios mostra que a casa real incluía no âmbito
dos oficiais domésticos os escrivães e os tabeliães, e o capelão ou confessor.
Este último é um ofício muito antigo, pois aparece já no princípio do sé­
culo xii, ainda antes de Afonso Henriques tomar o título de rei (D R 110,
139, etc.). Tornar-se-ia um cargo importante quando o confessor surge co­
mo conselheiro pessoal. Assim, por exemplo, em 1254 o capelão D. M a­
teus figura entre os mais importantes conselheiros do rei, juntamente com
outros clérigos que deviam constituir o corpo de juristas que consultava
(ML IV, escr. 31). O ofício de capelão foi muitas vezes desempenhado por
franciscanos e dominicanos desde o tempo de Afonso III. Havia também o
ofício de esmoler, que não se limitava, como seria de esperar, a distribuir
esmolas, mas se encarregava de recolher metais preciosos e mesmo ferro e
cobre, guardados no tesouro do rei, talvez para mandar fundir120.
Mas o grupo dos «clérigos» da corte era fundamentalmente constituído
por juristas ligados à chancelaria, ao tribunal régio e mesmo ao controlo
dos almoxarifes que agora temos de examinar121.

O CHANCELER
Tem-se pensado, e é provavelmente verdade, que os chanceleres da primei­
ra dinastia são como que a sua permanente éminence grise. A verosimilhan­
ça da hipótese torna-se cada vez maior à medida que se aprofunda a inves­
tigação nesta área. Deixando de lado os primeiros notários da cúria, Pedro
Roxo (1128-1140), Mendo Feijão (1112-1133), e outro Pedro (1135-
-1141), todos eles clérigos da Sé de Braga, encontramos o cargo desempe­
nhado desde 1142 por um indivíduo provavelmente formado em Direito,
mestre Alberto (1142-1169). Devia ser oriundo de Coimbra, e talvez cóne­
go regrante do mosteiro de Santa Cruz. Redigiu alguns dos mais impor­
tantes diplomas do nosso primeiro rei e participou nas decisões da cúria
que conduziram à conquista de Santarém e Lisboa, a todas as campanhas
de Afonso Henriques até ao desastre de Badajoz, e ainda nas principais
acções diplomáticas junto do rei de Leão e Castela e da Santa Sé. O seu
mandato coincide, de facto, com o período mais activo e empreendedor
do reinado afonsino. Colaborou com ele outro chanceler de segunda ca­
tegoria, Paio (1147-1153), e sucedeu-lhe Pedro Feijão (1169-1181), pro­

119 A. Pimenta, 1937, pp. 71 e segs. = C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 37.
120 P. de Azevedo, 1913b, pp. 240-241, doc. de 1261.
121 Marcelo Caetano, 1934, pp. 31-32. Sobre as funções burocráticas na corte régia, ver A. L.
Carvalho Homem, 1990, pp. 209-211.

88
vavelmente parente do já citado Mendo Feijão, o qual era cónego secular
da Sé de Braga e da colegiada de Guimarães. Devia ter sido proposto pelo
arcebispo D. João Peculiar122.
Sucedeu-lhe o célebre mestre Julião Pais (1183-1215), que permanece
na chancelaria durante o final do reinado de Afonso Henriques e todo o
reinado de Sancho I e o princípio do de Afonso II123.
Era um homem criado na corte e formou-se, talvez, em Bolonha, onde
aprendeu o direito justinianeu, como se depreende das leis de Coimbra
de 1211, cuja redacção decerto lhe pertence. Casado e com filhos, dispondo
de considerável fortuna composta, entre outros bens, por doações régias de
todos os soberanos a quem serviu, deve ter inspirado os actos mais decisi­
vos de Sancho I e, muito provavelmente, interveio na formação pessoal de
Afonso II, como sugerimos antes. De outro modo não se compreende on­
de se teria ele inspirado para a sua ousada e inovadora política, tão firme-
menté orientada para o efectivo exercício dos poderes monárquicos.
Segundo uma investigação inédita de L. Ribeiro Soares124, mestre Ju ­
lião teria sido filho de Paio Delgado, um dos cavaleiros que estiveram na
conquista de Lisboa, e que foi fundador da linhagem dos Albergarias125.
Pertenceu a uma família onde era frequente a profissão clerical e o desem­
penho de altos cargos da hierarquia eclesiástica. Assim, seu irmão Pero Pais
teria sido pai do chantre de Lisboa, Fernando Peres, que, de facto, era so­
brinho do chanceler, trabalhou com ele na cúria e se fez dominicano de­
pois de ter fundado o mosteiro cisterciense de São Paulo de Almaziva126.
Outro irmão, Martinho, foi o fundador da linhagem dos Rebolos, entre os
quais se encontram dois cónegos, de Lisboa e de Évora. O próprio Julião
Pais foi pai de um deão da Sé de Coimbra também chamado Julião, de
mestre Gil, cónego e tesoureiro da Sé de Viseu ou de Coimbra, e, ainda,
na hipótese de Ribeiro Soares, do célebre Pedro Julião, ou Pedro Hispano,
que veio a ser papa com o nome de João XXI. Este último parentesco pa­
receu, porém, pouco provável a José Antunes127.
A confirmarem-se estas ligações, explicar-se-iam alguns acontecimentos
do reinado de Afonso II, a começar pelo próprio facto de o papa Inocên-
cio III, apesar das pressões a que foi sujeito, ter acabado por lhe dar razão
na controvérsia com suas irmãs128. Para a organização da corte, teve a
maior importância o facto de mestre Julião haver reunido uma plêiade de
juristas, entre os quais se conta mestre Vicente que, depois de ser professor
em Bolonha, veio a desempenhar o cargo de chanceler. Os nomes destes
juristas aparecem em documentos régios de 1218. Eram o cardeal Gil;
mestre Paio, chantre do Porto; Silvestre Godinho, futuro arcebispo de Bra­

122 Sobre todos estes, ver Rui de Azevedo, 1958, pp. lx i -c x .


123 Ibid.y pp. cx-cxi e pp. 732-733; Oliveira Marques, in DHP, II, p. 642; J. Mattoso, in Her-
culano, 1980, II, p. 184. Além dos documentos mencionados nestas obras, ver também BPIn. III,
n.° 87, p. 178.
124 O autor teve a amabilidade de me comunicar a sua inovadora investigação. Infelizmente
morreu antes de ter podido publicá-la.
125 Paio Delgado ainda era vivo em 1186 ou 1187: D S 228. Ver sobre ele LL 68 A l.
126 M. J. de Azevedo Santos, 1982.
127 Investigação inédita de José Antunes, por ele amavelmente comunicada.
128 A. D. de Sousa Costa, 1963, pp. 86-117.

89
ga e grande canonista; Fernando Peres, o já citado sobrinho de mestre Ju-
lião; mestre Lanfranco; Miguel, mestre-escola de Braga; mestre Domingos,
também de Braga; Joáo Peres, arcediago de Toledo; mestre Mendo, chan­
tre de Lamego; mestre João Raolis, de Lisboa. O grupo de clérigos do rei
inclui também, por esta altura, vários médicos, igualmente citados nos
mesmos diplomas129. Nem todos são tão importantes. Um grupo de auxi­
liares, provavelmente sob a ordem de mestre Paio, chantre do Porto, con­
firma constantemente os documentos régios a seguir aos nobres, que evi­
dentemente apoiavam a firme política do rei.
Formou-se assim uma tradição que as contradições da época de San-
cho II não conseguiram destruir. E embora não se possa definir com tanta
precisão a figura dos chanceleres seguintes, excepto a de mestre Vicente, é
provável que fossem também personalidades de relevo. Quero-me referir
a Gonçalo Mendes (1215-1228), que sucedeu a Julião Pais, depois de o ter
auxiliado na cúria régia desde 12Õ2130, e que teve de suportar a oposição
da nobreza senhorial durante o reinado de Afonso II131 e as agitadas con­
tradições políticas do começo do de Sancho II. Apesar da influência senho­
rial, conseguiu que lhe sucedesse um homem da linha de mestre Julião, o
já citado mestre de Bolonha, Vicente (1224-1236?), que sustentou a conti­
nuidade dos serviços de chancelaria durante o difícil período que o país
atravessou por esses anos132. É mais obscura a personalidade de Durando
Froiás (1236?-1248), o fiel chanceler de Sancho II que o acompanhou no
exílio.
N o reinado de Afonso III, a orientação pessoal que o rei imprimiu à
política não impediu que também surgisse com grande relevo o seu chan­
celer Estêvão Anes (1245-1279) que ele manteve no cargo durante todo o
seu reinado e que, com as suas prováveis qualidades de bom gestor, deve
ter colaborado na política monetária do rei. Estas qualidades não agrada­
vam muito na cúria, onde tinha fama de avarento e mesquinho133. Sob
D. Dinis, os chanceleres sucedem-se mais rapidamente, constituindo o seu
cargo boa recomendação para o episcopado. Assim, Pedro Martins (1279-
-1281), Domingos Anes Jardo (1281-1287), cujo interesse pelos estudos
clericais é bem conhecido, e Estêvão Anes Brochado (1296-1318) torna-
ram-se respectivamente bispos de Coimbra, Évora e Lisboa. Outros, como
João Pires de Alprão (1288-1295) e Francisco Domingues (1318-1325),
foram figuras apagadas. De facto, o novo cargo de escrivão da câmara> de­
sempenhado durante anos por Estêvão da Guarda, diminuiu a importância
do chanceler134.

129 Ibid., pp. 67-73.


130 D S 145; LK, II, 29, etc., cits. por Teresa Veloso, 1988, p. 370.
131 Citado, com Pêro Anes da Nóvoa, como um dos maus conselheiros de Afonso II em bulas
de Honório III de 1220 e 1221: A. D. de Sousa Costa, 1963, p. 94, nota 198; p. 97, nota 199;
p. 104, nota 207; em 1224 o mesmo papa exorta-o a colaborar na satisfação dos danos feitos por
Afonso II ao clero: ibid., p. 133, nota 236.
132 A. D. de Sousa Costa, 1963.
133 C E M D , n.os 73, 74, 75, 79, 231, 232, 419. Acerca da função do chanceler, completar os
dados aqui apresentados com os reunidos de maneira mais sistemática por Leontina Ventura,
1992, I, pp. 52-53, 88-95. Sobre Estêvão Anes, ver ibid.y II, pp. 585-594.
134 Sobre o escrivão da câmara, ver A. L. Carvalho Homem, 1990, pp. 57-62.

90
O TRIBUNAL RÉGIO
Os clérigos da cúria, sobretudo os peritos em direito, colaboraram também
activamente na organização do tribunal régio. Este foi-se desenvolvendo se­
gundo duas linhas principais: a jurisdição nos pleitos relativos à nobreza ou
a questões entre nobres e eclesiásticos, e como tribunal competente para
punir os oficiais e outros delegados régios que não cumpriam devidamente
as suas funções. E provável que fosse ainda uma instância de apelo para re­
correr de sentenças dadas pelos juízes locais, nos julgados e concelhos; mas
esta competência talvez fosse mais teórica do que efectiva, excepto quando
a corte chegava a um lugar e lhe apresentavam casos controversos. Por fim,
a instituição de meirinhos, juízes de fora e corregedores permitiu generali­
zar esta última função135.
Não se conhecem senão casos raros destas actividades, até Afonso II136.
De facto, as leis de 1211 prevêem a sua intervenção em muitas infracções
cujas penas se indicam. A presença dos juristas e dos clérigos na corte permi­
te supor a sua plena actividade, provavelmente sob o controlo directo do
rei. Tornou-se, porém, mais independente no fim do reinado de Afonso II,
como se depreende de surgir então nos documentos, desde 1222, um so-
brejuiz do reino (ou do rei). Mas já antes, em 1205 e 1215, se mencionam
«sobrejuízes do rei» para julgar casos levados ao tribunal régio; são prova­
velmente nomeados ad hoc e em número variável, conforme os pleitos137.
Quando o cargo se estabiliza e torna permanente, o seu titular encarrega-se
de instruir e preparar os julgamentos submetidos ao rei e de aconselhar a
sentença138, se é que, por vezes, não a dava ele próprio por delegação do
rei. A competência da cúria régia como tribunal de apelo é expressamente
prevista nesta época, no foral de Idanha de 1229 (Leg. 615), especialmente
significativo por ter sido dado simultaneamente pelo rei e pelo bispo, que
era mestre Vicente. O cargo de sobrejuiz veio depois a desdobrar-se, pois
aparecem dois sobrejuízes desde os primeiros anos do reinado de Afonso
III (Leg. 638, de 1253). Vinte anos mais tarde, o número de casos subme­
tidos ao rei era já suficiente para se nomear um terceiro sobrejuiz (Leg.,
pp. 729, 730, 731) ou, melhor, provavelmente, como aparece especificado
num foral de 1277, um vice-sobrejuiz (Leg., p. 736).
O funcionamento do tribunal régio no tempo de Afonso III foi por ele
organizado de maneira minuciosa, pois existe uma abundante legislação so­
bre direito processual que, pelo seu teor, se vê ser emanado da cúria régia e
destinar-se a ela, mas deve ter servido de modelo para todo o reino139.
Nessa altura o tribunal é de facto autónomo, isto é, dá ele próprio as sen­
tenças, mas pode recorrer-se para a pessoa do rei. Chama-se a este apelo

135 O complicado problema do tribunal régio como instância de recurso é tratado por Marcelo
Caetano, 1981, pp. 400-410.
136 Um dos mais interessantes é o pleito entre Santa Cruz e o bispo de Coimbra, julgado por
Sancho I, em que o rei acaba por se enfurecer contra o formalismo jurídico: BPIn. III, n.° 87,
pp. 178-179.
137 Leontina Ventura, 1992, I, pp. 62-65, para esta informação e as questões seguintes.
138 Marcelo Caetano, 1954, p. 31; id., 1985, p. 309.
139 E a maioria das leis sem data publicada nas Legs., pp. 255-280, e ainda de algumas das leis
de datas duvidosas.

91
«recurso de suplicação» ou «agravo». Esta prática deve ter dado origem ao
aparecimento do cargo dos «ouvidores da suplicação», novo nome dado a
um dos sobrejuízes que, no princípio do século xiv, confirmavam as sen­
tenças dos «ouvidores da corte». Em 1282 temos notícia de os sobrejuízes
serem quatro. Mas da especialização de cada um deles só há notícia desde
Afonso IV140. Nesta altura já as complicações resultantes do formalismo
processual eram tantas e tão bem conhecidas dos que recorriam ao tribunal
régio, que foi necessário D. Dinis promulgar algumas leis tendentes a evi­
tar os abusos daí decorrentes141.
De facto, existe um documento de Pedroso em que o procurador do
mosteiro descreve os passos que teve de dar até conseguir uma sentença, na
qual os monges estavam vivamente interessados. Tendo o abade do mostei­
ro sido citado pelo juiz da Feira para o tribunal régio no prazo de vinte e
sete dias, em virtude de uma inquirição sobre algumas das suas proprieda­
des, o seu procurador compareceu perante o sobrejuiz do rei em Coimbra.
Aí esteve durante quinze dias sem conseguir sentença favorável, pois era
necessário consultar o registo dos reguengos da Feira. Adiado o pleito por
mais nove dias, a sentença não foi ainda dada nos quinze seguintes. O pro­
curador foi então citado para Gaia, para quando o rei aí passasse. Lá esteve
o pobre monge mais quinze dias sem nada conseguir até que o sobrejuiz o
convocou para Coimbra nos oito dias seguintes. De novo nesta cidade,
passaram-se outros quinze dias. Nem assim o ouviram ou absolveram, ape­
sar das suas constantes alegações. Sem nada conseguir, teve de ir procurar a
corte a Soure, onde de novo se adiou a sentença, então remetida para o tri­
bunal régio em Pombal e daí ainda para Leiria. O caso não acabou aqui,
nem sabemos como terminou, pois o documento está incompleto; mas é
possível que os monges acabassem por obter sentença favorável, pois de
contrário não guardariam o documento que relata o processo142. Por este
relato se pode imaginar que só em caso de grande necessidade se apelava
para a justiça régia, e que o recurso das sentenças locais só fosse feito por
indivíduos ou instituições poderosas, capazes de recorrer a especialistas que
não se perdessem nos meandros e formalismos da justiça. Sendo assim, os
tribunais locais deviam ter continuado a funcionar normalmente, e só por
força do controlo ou da intervenção dos meirinhos, dos juízes de fora e
dos corregedores não levariam os casos até ao fim143.
Das sentenças sobre casos respeitantes à nobreza ficaram muito menos
testemunhos, e estes geralmente bastante vagos, excepto, que eu saiba,
num caso de vindicta privada relatado pelo Livro das Linhagens e que me­
rece a pena recordar.
João Pires de Vasconcelos, o Tenreiro, tinha de vingar o assassinato de

140 Marcelo Caetano, 1981, p. 309.


141 Ver, entre outras, as seguinte leis de D. Dinis: LLP, pp. 31-37 (= 169-175), 83-84, 90-91,
136-137, 138-139, 164-165 (= 194-195), 165-167 (= 198-200), 184-185.
142 J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 89.
143 O formalismo e a morosidade dos processos no tribunal régio imitavam, de resto, os dos
tribunais eclesiásticos, de certa maneira incentivados pela cúria romana. Ver, para a época de Ino-
cêncio III, os pleitos de que se guardou memória e chegaram até à cúria. São exemplos típicos os
n.os 71 e 87 do BPIn. III.

92
seu parente Gil Martins da Ribeira por Aires Eanes de Freitas. Este último
foi realmente morto por ele com ajuda de Pêro Alvelo. Um irmão de Aires
Eanes, com outros fidalgos seus parentes, citaram então os dois assassinos
para um repto diante do rei Sancho II, mas só Pêro Alvelo compareceu.
O Tenreiro, convocado por três vezes, não se dignou responder. Então, o rei,
«havendo seu concelho com peça de bõos e de cavaleiros filhos d’algo que eram
com ele, houve a dar sentença, pesando-lhe muito, e a sentença foi esta: que aa
revelia do dito Joham Pirez de Vasconcelos, porque nom veera aos tempos que
lhe forom assiinados, como manda o dereito e custume dos reis, que o dava
por feitor, assi como o devia a seer PedfEanes Alvelo, e que a pena que o dito
Pedr’Eanes devia haver que se tornasse a el todo e que o dito Pedr Eanes Alve­
lo fosse livre e quite. E entom veo a beijar a mao a el rei PedfEanes e os ou­
tros cavaleiros que o acusavam, e disserom que o mantevesse Deus e que julga­
ra como mui boo rei e dereito» (LL 36 E9).

Como se vê, o julgamento surgia então como uma sentença de cúria


feudal. Tal devia ter sido antes dessa época, ao menos para os pleitos de fi­
dalgos, que eram frequentemente casos de vindicta. Dado que o tribunal
régio procurou, desde Afonso II, intervir neles144, é provável que também
fossem sujeitos ao formalismo dos tribunais régios, embora, decerto, em
menor grau que noutros, pois o rei devia geralmente reservar para si pró­
prio a sentença, sem delegar nos sobrejuízes, que tudo leva a crer não per­
tencerem à nobreza.

As FIN A N Ç A S RÉGIAS

Além de intervirem como peritos do direito, e consequentemente na admi­


nistração da justiça, os clérigos do rei desempenhavam também funções
burocráticas como anotadores das despesas e dos recebimentos e, por esse
intermédio, colaboravam na organização das finanças régias. Esta pode en­
trever-se nas suas linhas gerais durante o reinado de Afonso III, época para
a qual se encontram alguns importantes documentos acerca do seu funcio­
namento. Verifica-se por eles que os almoxarifes e outros recebedores en­
tregavam por vezes directamente dinheiro e géneros aos uchãos da corte145.
Fora disso, levavam-nos aos clérigos do rei para eles registarem, sob a vigi­
lância do mordomo e do chanceler, como se verifica noutro documento de
1273146. Todavia, pelos diversos recibos e pela nota de entrega de dinheiro
ao tesouro régio de Santa Cruz de Coimbra, depreende-se que os moedei-
ros e os sacadores da moeda do rei nos diversos distritos o entregavam di­
rectamente em Santa Cruz, sob o controlo do reposteiro-mor e do almoxa­
rife de Coimbra. Mas havia também entregas de dinheiro feitas pelo
porteiro-mor. Quanto aos levantamentos mandados fazer pelo rei, para
além da já mencionada entrega de metal ao esmoler, eram feitos normal­
mente pelo «clérigo guardador dos dinheiros do rei» ou pelo copeiro. Sen­

144 Leis 5, 6 e 13 de Afonso II: Leg., pp. 166, 167 e 171; Leis de Afonso III: Leg., pp. 190,
221-223, 224-226, 266, 273; Leis de D. Dinis; LLP, pp. 80-81, 190-191, 207-208. Cf. FR 4, 17,
20, pp. 156, 185-189, 196-197; cf. Marcelo Caetano, 1981, pp. 248-251, 367-371.
145 J. P. Ribeiro, 1813, doc. 31, de 1279.
146 Ibid., doc. 29.

93
do assim, verifica-se que o cargo que mais se aproxima do controlo fi­
nanceiro é o do reposteiro-mor, apesar de este na sua origem ser um
simples encarregado das alfaias e do vestuário. Parece estar normalmente
em Coimbra e vigiar entradas e saídas de dinheiro juntamente com o al­
moxarife da cidade.
Estes documentos, no entanto, dizem respeito apenas a ingressos em
dinheiro, que parecem provir sobretudo dos rendimentos da moeda e das
entregas feitas pelos moedeiros, sacadores da moeda e porteiros-mores. C o­
mo este último cargo está ligado à execução da justiça e à recepção dos ca­
sos judiciais, pode depreender-se que ele estivesse encarregado de recolher
o produto do rendimento dos tribunais régios147.
Conclui-se destas informações que os rendimentos da Coroa eram
guardados normalmente pelos almoxarifes e outros recebedores, quando
não eram entregues para os gastos, sobretudo os géneros. O que não era
consumido e os rendimentos de outra natureza, sobretudo os da justiça ré­
gia e os lucros dos moedeiros, eram recolhidos por estes e pelo porteiro e
levados ao tesouro, onde o reposteiro-mor tomava conta deles com a ajuda
do almoxarife de Coimbra. Aquele dinheiro de que o rei necessitava era le­
vantado pelo clérigo guardador dos dinheiros do rei. A intervenção do co­
peiro devia-se provavelmente à especial confiança que o rei nele depositava,
e não, decerto, à inerência do cargo.
As contas da casa de D. Dinis de 1278-1282, embora se destinem
principalmente a registar a recepção da baixela, de panos e de outros bens
preciosos, assim como despesas com tecidos, alfaias e alguns alimentos,
mostram que as entregas de pratas, armas e outros objectos de luxo eram
feitas nas mãos do reposteiro ou do escanção pelo copeiro, o reposteiro ou
escanção anteriores, o guarda do «armazém» (se eram armas), o almoxarife
de Lisboa ou o vice-mordomo. As despesas, porém, estavam a cargo dos al­
moxarifes não só de Lisboa, mas também de Guimarães, de Santarém e até
de Faro, o que quer dizer que eles guardavam a maioria das somas recebi­
das. Eram por isso encarregados de certas despesas por conta da corte. De
qualquer maneira, o reposteiro-mor aparece aqui de novo como o maior
responsável pelas finanças da casa real. Verificamos, em todo o caso, que
nem todos os meios financeiros da casa real se concentravam nas suas
mãos, uma vez que os almoxarifes das várias cidades do reino não lhe en­
tregavam tudo aquilo que recebiam148. Pode imaginar-se a dificuldade de
gerir este sistema pouco coerente.

A C Ú R IA R ÉG IA C O M O C O N SE L H O

Deixando agora as funções governativas da corte, que lentamente a aproxi­


mam dos Estados modernos, vejamos como é que a cúria, por intermédio
das suas funções de conselho do rei, dá origem às cortes, assembleia políti­
ca que prenuncia as futuras assembleias representativas.
De facto, a cúria aparece simultaneamente como conjunto dos mem­

147 Pedro de Azevedo, 1913, pp. 230-263.


148 A. Braancamp Freire, 1916, pp. 41-59.

94
bros do séquito real, como tribunal e como conselho. Embora não se en­
contrem facilmente referências ao seu funcionamento antes de 1211, pode
supor-se que as decisões solenes dos nossos dois primeiros reis tivessem si­
do tomadas em assembleias constituídas por vassalos que viviam habitual­
mente na corte, pelos ricos-homens governadores das terras, por eles con­
vocados, ou que aí estavam de passagem, e pelos prelados das dioceses e
abades dos principais mosteiros e ainda pelos mestres das ordens milita­
res149. De facto, encontra-se uma grande quantidade de diplomas de Afon­
so Henriques e de Sancho I confirmados por membros de todas estas cate­
gorias, o que se deve entender como indício de reuniões ordinárias ou
extraordinárias da cúria. As segundas distinguem-se das primeiras por se­
rem expressamente convocadas para deliberar sobre assuntos de maior im­
portância. Mesmo quando não se encontram quaisquer documentos ates­
tando a confirmação de membros da cúria como, por exemplo, no tratado
de Sancho I com Afonso IX de Leão, em 1194 (DS 74), deve supor-se que
ele não se tivesse decidido sem consultar pelo menos alguns membros da
cúria; o mesmo se deve admitir das decisões acerca das grandes expedições
organizadas tanto por este rei como por seu pai150.
No entanto, a primeira notícia que possuímos acerca de uma reunião
extraordinária e deliberativa da cúria régia encontra-se no breve prólogo à
reunião de Coimbra de 1211, onde se declara que o rei ouviu o conselho
do arcebispo eleito de Braga, de todos os bispos do reino e dos «homens
de religiom», dos seus ricos-homens e dos seus vassalos (Leg., p. 163).
O possessivo que acompanhava a menção das duas últimas categorias reve­
la as concepções feudais que nessa altura estão ainda subjacentes ao funcio­
namento da cúria. A presença dos prelados é como que um sancionamento
divino da autoridade régia e a garantia de que as deliberações se confor­
mam com os preceitos sagrados151.

As CO RTES

Apesar dos progressos da monarquia que, indubitavelmente, se deram du­


rante o reinado de Afonso III, também com ele se mantém a invocação do
consentimento dos seus ricos-homens e dos seus fidalgos, mesmo em deci­
sões porventura tomadas em assembleias ordinárias (por exemplo, Leg.,
p. 190, de 1251). Noutras ocasiões, invoca-se mais vagamente o «conselho da
cúria» (Leg. 201, de 1261) ou, então, o «outorgamento» dos prelados, dos
ricos-homens e de outros «homens bõos» (Leg. 202, de 1261). O rei pode
também declarar que a reunião foi pedida pelos prelados, varões, religiosos
e povo do seu reino (Leg. 210, de 1261), o que levou a convocar os prela­
dos, barões, religiosos e concelhos (<communitates), e a discutir com eles a
questão levantada (a quebra da moeda) até se chegar a um «comum e vo­
luntário consenso» (ibid.).

149 C. Sánchez-Albornoz, 1970, pp. 393-399.


150 Ver a descrição de uma reunião solene da cúria em Castela no Poema de Mio Cid, v. 2026-
-2110 e, sobretudo, 2983-3530.
151 Completar os dados aqui apresentados com os fornecidos por Leontina Ventura, 1992, I,
pp. 45-46, 57-62.

95
Neste momento estamos já em presença de uma assembleia verdadeira-
mente política, que ultrapassa as decisões de carácter feudal, predominan­
tes até ao fim do reinado de Sancho I. Efectivamente, segundo a opinião
de Marcelo Caetano, as reuniões que antecederam as cortes de 1254, mes­
mo as de Coimbra de 1211 e as de Guimarães de 1250, não são propria­
mente cortes, apesar de se possuírem as leis da primeira e os capítulos do
clero e uma deliberação sobre a nobreza relativos à segunda (Leg., pp. 185-
-191)152. As cortes só se iniciariam com a participação dos concelhos, que,
segundo o mesmo autor, foram convocados pela primeira vez em 1253. De
facto, numa carta régia deste ano fala-se do «conselho» dos ricos-homens
da cúria, dos conselheiros do rei, dos prelados, dos cavaleiros, dos merca­
dores e dos cidadãos e homens-bons dos concelhos do reino (Leg., p. 192).
A assembleia de Leiria de 1254, considerada normalmente a primeira em
que participaram os concelhos, seria, na verdade, uma espécie de prolonga­
mento da anterior. O tabelamento dos preços ou lei da almotaçaria resulta­
ria da primeira reunião, e a quebra da moeda da segunda153.
Esta opinião parece muito verosímil. Já não me parece o mesmo da sua
ideia de que os concelhos participavam nas cortes «em condições muito di­
ferentes dos outros membros do clero e da nobreza, por dever feudal de
aconselhar o suserano»154. Com efeito, sendo os concelhos pessoas colecti-
vas dependentes do rei, e sabendo-se que, pelo menos em Castela, chega­
ram a prestar expressa homenagem de fidelidade aos seus senhores155, tere­
mos também de englobar a sua convocação nos próprios conceitos feudais.
De facto, como veremos noutro parágrafo156, existem indícios de que tam­
bém entre nós se considerasse a dependência dos concelhos para com o rei
sob uma perspectiva feudal. Também não seria tão alheio como isso à
mentalidade feudal a convocação dos representantes dos concelhos no rei­
no de Leão por Afonso IX em 1188 e no princípio do século xm . Apesar
de iniciada nesta perspectiva, a intervenção dos vilãos alterou a fisionomia
da cúria régia, e, nesse sentido, pode efectivamente falar-se de mutação es­
sencial. De facto, mesmo que os procuradores dos concelhos fossem tam­
bém englobados nas obrigações decorrentes da fidelidade vassálica, já con­
taminada pelo conceito de «natureza», a tradicional prática de assembleias
deliberativas que traziam dos seus concelhos, cujo carácter era muito dife­
rente do das cúrias feudais, levava-os a participar nelas com outro espírito.
As decisões passaram a orientar-se para questões pragmáticas e económicas,
como as da quebra da moeda e do lançamento de contribuições extraordi­
nárias, para as quais o rei necessitava do consentimento de todos aqueles
que de alguma maneira participavam no poder.
Por outro lado, é exagerado considerar estas assembleias como represen­
tantes dos três «estados» ao reino. Não se encontrava ainda definido o di­
reito de os cidadãos intervirem no processo deliberativo e muito menos de
os indivíduos presentes representarem o conjunto do «estado» a que per­
tenciam e deliberarem em nome dele, como se esse «estado» fosse uma co-

152 Opinião diferente de T. de Sousa Soares, 1984.


153 Marcelo Caetano, 1981, p. 313.
154 Ibid., p. 313.
155 Hilda Grassotti, 1969, pp. 188-190, 200-202.
156 Infra, n.° 3.3., pp. 143-145.

96
lectividade dotada de alguma consistência ou coerência. Os procuradores
dos concelhos eram os únicos que actuavam em representação de alguma
coisa: não do conjunto do «terceiro estado», mas apenas dos seus respecti-
vos municípios. Nem o próprio facto de os vilãos se porem de acordo para
os «capítulos gerais» (que não sabemos se já existiam nesta época) permite
supor que se considerassem representantes de uma ordem ou classe social.
O que se tratava, na verdade, era de obter o consenso dos diversos senho­
res e organismos do reino para que as decisões que a todas as comunidades
diziam respeito pudessem surgir como promotoras da paz e da justiça,
principais deveres do soberano. De contrário, seriam unilaterais e, como
tal, tendentes a subverter uma sociedade que prezava fundamentalmente o
respeito pelos costumes e direitos adquiridos e se insurgia contra as inova­
ções. E certamente o propósito fundamental do respeito pelos costumes e
pela justiça, no sentido medieval, aquele que permite também aos partici­
pantes, e sobretudo aos representantes dos concelhos e do clero, reclamar
contra os abusos da administração régia. Daí nasceram os «capítulos» das
cortes, geralmente sob a forma de reclamações concretas, com a respectiva
resposta dada pelo rei ou os seus representantes157.
Seguindo a lista organizada por Marcelo Caetano podemos, então,
considerar como cortes, ainda no reinado de Afonso III, além da reunião
de Leiria de 1254, as de Abril de 1261 em Coimbra, e de Dezembro de
1273 em Santarém, uma para tratar da quebra da moeda, a outra das re­
clamações do clero e outros assuntos. Durante o de D. Dinis, há notícia
das seguintes: Abril (?) de 1282 em Évora, ainda para tratar de questões re­
lativas ao clero; Junho de 1285 em Lisboa, sobre as inquirições gerais; Ju ­
lho (?) de 1288 em Guimarães sobre o mesmo assunto; 1289, em data e
lugar desconhecidos, de novo sobre os conflitos com o clero; Março de
1291 em Coimbra, para responder a reclamações da nobreza, sendo aí pro­
mulgada uma lei sobre as heranças (LLP, p. 72); Junho de 1305 em Lis­
boa, donde pelo menos saiu a lei sobre tabeliães e selos dos concelhos
(LLP, p. 203); finalmente a de 1323 (não mencionada por aquele autor)
para tratar das questões levantadas pela guerra civil, e convocada a pedido
do infante158. Todas elas se conhecem mal. Só a partir da época de Afon­
so IV se encontram registados com alguma continuidade os capítulos das
cones, através dos quais podemos conhecer melhor o seu funcionamento.
A própria ausência de documentação expressa, no entanto, mostra a inexis­
tência de regulamento estável e de delimitação clara de competências. Estas
hesitação e variabilidade não admiram. As cortes constituíam uma impor­
tante novidade no panorama político do século xm . Só se tornariam um
recurso corrente da política régia a partir do segundo quartel do século se­
guinte159.

157 Estes capítulos surgem já em 1254, como se deduz de comparação dos agravos de Coimbra
e Montemor, de 1250 (que não devem resultar de cortes), e a resposta dada aos de Santarém em
1254; M. Caetano, 1954, does. 2 e 22. T. de S. Soares, no entanto, pensa que aqueles agravos po­
diam ter sido apresentados nas cortes de Guimarães: id., 1984. Convém situar as cortes portugue­
sas no contexto peninsular. Para isso, ver J. L. Martin, 1988.
158 C. 1419, cap. 42 (ed. Silva Tarouca, pp. 122-123).
159 Sobre a evolução das cortes portuguesas no fim do século xiv e no século xv, ver Armindo
de Sousa, 1990.

97
O C O N SE L H O R É G IO

Entretanto delineava-se, também de maneira improvisada e pouco estável,


o grupo a que se pode já chamar conselho régio, mas que náo tinha ainda
existência legal, nem viria a tê-la tão cedo. Com efeito, não coincide com a
cúria ordinária, pois desde o princípio do reinado de Afonso III é compos­
to sobretudo por homens da confiança do rei, entre os quais tomam relevo
os juristas. De facto, encontram-se vários textos dessa época em que ele
menciona o «meu conselho», outros em que cita os nomes dos consiliariis
nostris. Dele fazem parte cavaleiros ou ricos-homens como D. João de
Aboim, Egas Lourenço da Cunha e Mem Soares de Melo, e um clérigo co­
mo João Soares, arcediago de Calahorra (ML, IV, escr. 26, de 1250). N ou­
tros coincide praticamente com a cúria ordinária, pois inclui o alferes, o
mordomo, o chanceler «e outros da corte e do meu conselho» (Leg.,
p. 213, de 1264), sem que se possa observar qualquer regularidade160.
O mais importante é, de facto, verificar que a presença dos grandes ofi­
ciais da cúria nem sempre é invocada, ou não aparece em primeiro lugar. As­
sim, por exemplo, num documento de 1254 surge em primeiro lugar o gru­
po dos legistas, constituído pelo deão mestre Pedro, o chantre de Lisboa
Ricardo Guilherme, o arcediago de Santarém mestre Domingos, o arcedia­
go de Calahorra João Soares e o capelão D. Mateus (ML, IV, escr. 31). N a
época de D. Dinis, em documento de 1311, mencionam-se Fr. Estêvão,
bispo do Porto, os nobres Rui Anes Redondo, João Simão, Pêro Afonso
Ribeiro, Pêro Esteves e Rui Martins, o chantre de Évora João Martins,
mestre João das Leis, Vicente Anes César e o advogado João Lourenço
(LLP, pp. 87-88).
O carácter não institucional que se entrevê ao comparar estes textos
justifica, pois, o que Gama Barros diz do conselho régio na primeira dinas­
tia. N a sua opinião «havia conselheiros do rei» mas não «um corpo políti­
co, uma entidade governativa denominada conselho», «com o carácter de
instituição permanente e essencial»161. Ou, como diz Armando L. Carva­
lho Homem, embora as funções tenham antecedentes desde o reinado de
Afonso III, nem o cargo de conselheiro é ainda um «ofício», nem eles
constituem ainda um «órgão do governo»162.

C o n clu sã o

A conjugação de todos estes elementos permite, pois, reconstituir nas suas


grandes linhas o processo de formação dos órgãos centrais do Estado que,
durante a época de que tratamos, só em parte se libertam dos seus antece­
dentes feudais, pois dependem em grande medida da vontade do rei e de
uma concepção de paz e de justiça da qual ele é pessoalmente responsável.
A sua responsabilidade, porém, não advém tanto dos direitos adquiridos
pelos cidadãos ou de uma lei comum, mas em virtude da missão sagrada

160 Ver Leg., p. 216, de 1265; p. 218, de 1266; p. 221, de 1272.


161 Gama Barros, III, p. 252.
162 Armando L. Carvalho Homem, 1990b, pp. 228-231, 234. Ver também os dados reunidos
por Leontina Ventura, 1992, I, pp. 57-62.

98
que constitui a contrapartida do poder régio. A meu ver, a participação dos
cidadãos nos actos políticos não resulta propriamente de uma colaboração
activa na edificação da paz e da justiça, que depende sobretudo da preser­
vação das tradições e dos costumes, mas justamente da resistência dos súb­
ditos às inovações que o príncipe faz para poder manter uma posição única
e garantir a sua supremacia política acima de todos os poderes sociais e
económicos existentes no reino, o que o obriga a criar um organismo bu­
rocrático complexo e hierarquizado. As inovações que o levam a buscar o
consenso dos cidadãos convidam-nos a eles a concedê-las condicionalmente
e, assim, a participarem de facto nas deliberações políticas.

2.4. Governo local


A partilha de poderes a que nos referimos nos parágrafos anteriores e a não
uniformidade do direito, que podia ser diferente de lugar para lugar, torna
o problema do governo local extremamente complicado. Em termos gerais,
a autoridade régia aparece como uma ténue supervisão sobre todo o reino.
Este é dividido em áreas de estatuto diferente e com relações variáveis en­
tre si. De uma extrema fragmentação e incoerência passa-se, por uma evo­
lução contínua mas não isenta de vicissitudes, a uma organização cada vez
mais dependente do rei. É este o processo que queria agora descrever.
Comecemos por recordar a lógica do sistema inicial. N a base encon-
tram-se as comunidades rurais, quer as que se organizaram a partir dos se­
nhorios sob a vigilância dos seus defensores quer as que o fizeram autono­
mamente, preservando ou restaurando formas de associação primitiva. Do
lado do rei, que exerce sobre todo o reino uma certa autoridade carismática e
que tem a responsabilidade da justiça e da paz, encontram-se os seus dele­
gados, os condes. Com ele estão também os bispos e os abades de grandes
mosteiros cuja colaboração ele considera indispensável, pois conferem ao
seu poder uma dimensão sagrada. A «revolução senhorial» consistiu, como
vimos, em os nobres se apropriarem de funções públicas, sobretudo dos
poderes de julgar, de coagir e de cobrar impostos sobre áreas mais vastas
do que as suas próprias terras, quer o fizessem por extensão abusiva de po­
deres militares a eles confiados pelos condes quer sem qualquer base nem
pretexto. Como vimos também, estes poderes, muito desiguais entre si
conforme os casos, foram sancionados pelo rei de Leão por meados do sé­
culo xi, passando os seus detentores a governar territórios menores do que
os condados, simultaneamente por autoridade própria e como delegados
do rei. Por seu lado, a própria evolução do sistema senhorial leva o rei a
tornar-se «senhor» nas suas terras.
O rei está, assim, numa situação dupla: por um lado, preserva as anti­
gas prerrogativas de vigilante da paz e da justiça; fá-lo directamente nas
suas terras, e por meio dos senhores nas áreas que eles passaram a governar;
por outro lado, tende a administrar como «senhor» não só os seus domí­
nios patrimoniais mas também todos os lugares que o não tinham. Em ter­
mos gerais, acontece em Portugal o mesmo que nas monarquias de além-
-Pirenéus, isto é, o rei organiza primeiro os seus próprios domínios criando
um corpo hierarquizado de delegados que serve de intermédio entre ele e

99
os responsáveis das comunidades locais; depois tende a estender este tipo
de vigilância sobre os próprios senhorios leigos ou eclesiásticos. A principal
diferença entre o que se passa em Portugal e no resto da Europa consiste
em que a instabilidade e a modéstia das casas senhoriais e a maior depen­
dência dos governadores das terras para com o rei permitiram a este esten­
der os seus poderes sem grande dificuldade.

O s RICOS-HOMENS E AS «TERRAS»
Comecemos, pois, por ver quais são e como se prolongam os vestígios do
antigo sistema dos governadores de terras, designados, no século xii, «ri­
cos-homens» ou «tenentes». Veremos depois como se estendem a todo o
reino os instrumentos de coordenação análogos aos que o rei criou para os
domínios da Coroa.
Efectivamente, quando o conde D. Henrique recebe o Condado Por­
tucalense, já este estava dividido em «terras», cada uma das quais tinha à
sua frente um potestas, sénior; dominus terre, princeps ou imperator terre.
E muito improvável, no entanto, que esta divisão cobrisse todo o território
do condado. Efectivamente, e transmitindo apenas impressões gerais resul­
tantes de um longo contacto com os documentos, mas que necessitariam
de uma investigação sistemática e minuciosa para se tornarem mais segu­
ras, tenho a convicção de que a autoridade dos senhores das «terras» fora
dos seus domínios patrimoniais era bastante vaga; revestia formas de pro-
tecção e defesa análogas às do rei para o conjunto do reino, mas a sua ex­
tensão territorial era muito imprecisa. Chegavam até onde não havia ou­
tros poderes suficientemente fortes. Assim, os limites das «terras» variavam,
conforme viessem ou não a surgir poderes locais ou regionais. Isto podia
acontecer mais facilmente na periferia das «terras». Provavelmente, pouco
ou nada intervinham nas comunidades das montanhas ou dos burgos, e
mesmo em algumas zonas onde se mantiveram as associações de vizinhos
sob a presidência de um juiz. Também não intervinham nas terras conside­
radas domínios patrimoniais dos condes e do seu sucessor, o rei, nem nos
territórios dos bispos e dos mosteiros mais poderosos.
Assim, se em algumas «terras» o rico-homem exercia uma verdadeira
autoridade, tanto mais firme e exigente quanto maiores eram os seus do­
mínios pessoais e o número de igrejas que dele dependiam, noutras não
existia praticamente nenhum poder intermédio entre as comunidades lo­
cais e o rei163.

Os JULGADOS
Esta situação permite apresentar uma hipótese acerca da natureza e da rela­
ção que os «julgados» tinham com as «terras» governadas pelos ricos-
-homens, problema até agora considerado insolúvel pelos nossos medieva-
listas. A interpretação que proponho baseia-se na frequência da menção do
iudex nas sanctiones medievais anteriores ao ano 1100 e na variedade de de­

163 Depois de publicadas as edições anteriores desta obra, a matéria aqui esboçada foi objecto
de uma investigação sistemática, para a época de Afonso III e os seus antecedentes, por Leontina
Ventura, 1992, I, pp. 100-112, 254-301.

100
signação das circunscrições territoriais verificada ainda nas inquirições de
1220.
Efectivamente, isolando os documentos em que se prefere mencionar o
iudex como cobrador das multas, e não o «tenente», vamos encontrá-lo nos
formulários de Lorvão, Guimarães, Leça e Vacariça. A sua presença é rara
ou secundária nos de Pendorada, Arouca, Coimbra e Braga. Dir-se-ia,
pois, que a tradição do tribunal presidido pelo juiz do lugar, independente
da organização senhorial, é mais forte em áreas rurais ao sul do Douro e na
periferia de uma cidade, como o Porto, ou um burgo que é ao mesmo
tempo sede de condado, como Guimarães. Nos outros locais, os poderes
do juiz desaparecem perante os dos senhores, ou seja, nas zonas rurais de
Entre-os-Rios e de Arouca, e nas cidades episcopais de Coimbra e Braga164.
Ora a designação das circunscrições por «terras», «julgados» ou «ter­
mos» encontra-se sobretudo nas inquirições de 1220. Aqui, são julgados, e
não «terras», os de Bouro, Pedralvar, Travassos; e são «termos» os de Viei­
ra, Couto de Braga, Guimarães, Lousada, Felgueiras, Aguiar de Sousa, Fer-
reira e Refojos de Monte Córdova; todas as outras são «terras». Os «ter­
mos», como o nome sugere, seriam áreas bem definidas em torno de um
centro; os «julgados» e as «terras», aquelas em que o poder público não se
situa num local, mas se difunde numa área mais vaga. Se considerarmos
que só as «terras» estão sujeitas a ricos-homens e que nos «termos» e nos
«julgados» existem poderes próprios, embora não necessariamente indepen­
dentes do rico-homem, poderíamos deduzir daí que se encontram áreas
onde a autoridade do juiz se manteve perante a do rico-homem, ou seja,
em Guimarães, na área ao sul de Vizela (Lousada, Felgueiras, Aguiar de
Sousa, Ferreira, Monte Córdova) e nas terras altas de Bouro, Vieira e Tra­
vassos. Nos dois primeiros casos, estaríamos perto das zonas onde o iudex
aparece nos documentos mencionados, por influência da permanência do
sistema judicial, isto é, em torno de Guimarães e do Porto. As terras desig­
nadas por «termos» e «julgados» em 1220 teriam, pois, sofrido menos do
que outras a sobreposição da autoridade senhorial. Mesmo que teorica­
mente estivesse dependente de alguma «terra» governada por um rico-
-homem, a função do juiz não teria sido absorvida por ele.
Contra esta interpretação pode levantar-se a objecção de, na zona a sul
do rio Vizela, onde em 1220 apareceu um conjunto de «termos», se encon­
trar desde cedo uma forte implantação senhorial. Esta, todavia, como vi­
mos no vol. II, pp. 132-159, possui a característica especial de não ser do­
minada por nenhuma grande linhagem. Justapõem-se na mesma paróquia
ou em paróquias vizinhas casais de seis ou sete linhagens de poderes equi­
valentes. Ou seja, a presença simultânea impede a predominância de uma
delas.

R elaçõ es entre «t e r r a s» e ju l g a d o s

Em 1258, porém, toda a zona abrangida pelas inquirições de Afonso III e


situada a norte do Douro está dividida em julgados. Dir-se-ia que, para as
comissões que aqui trabalharam, tinham desaparecido as «terras». Ora isto

164 J. Mattoso, 1982b, pp. 154-176.

101
não corresponde de modo algum à realidade. Nas subscrições dos diplomas
régios aparecem frequentemente os nomes de ricos-homens ligados às ter­
ras que governam. Parece até esboçar-se a tendência para que a sua rede
cubra todo o território nacional que não depende dos concelhos. Conclui-
-se, assim, que, do ponto de vista dos inquiridores, interessava apenas ano­
tar a maneira como os reguengos e terras da Coroa se agrupavam sob uma
autoridade não senhorial. Para eles, o que importava era a relação entre os
dependentes do rei e as suas autoridades. Estas eram os juízes, e não os ri­
cos-homens. Assim, a realização das inquirições deve ter tido como uma
das suas mais importantes consequências responsabilizar os juízes na admi­
nistração não só judicial mas também económica dos domínios régios. Co­
mo o rei tinha bens praticamente em todas as freguesias, a rede dos julga­
dos parece cobrir todo o território inquirido, ao contrário do que acontecia
em 1220 .
Estas observações vão ao encontro da que fez M. H. da Cruz Coelho,
baseada na cronologia da sucessão dos mandatos dos juízes e dos ricos-
-homens na região de Axouca. Concluiu que aí se verificava a independên­
cia do juiz em relação ao rico-homem165. Podia, portanto, admitir que
aquele continuava a ser eleito pela assembleia dos vizinhos, apesar de a au­
toridade senhorial ser tão antiga nesta zona.
Assim, sendo o processo de criação dos julgados diferente do das «ter­
ras», não admira que não coincidam. De facto, podiam normalmente exis­
tir vários julgados numa só terra. Mas a restauração dos julgados na época
de Afonso III, mesmo onde eles se tinham praticamente atrofiado ou desa­
parecido, levou a que aí a sua área coincidisse com a das «terras».
Por outro lado, também as «terras» evoluem. Assim, já em 1982 apre­
sentei a hipótese de algumas delas, como a da Maia, se ter subdividido em
Maia, Refojos e Vermoim, as de Basto e Sousa se fragmentarem em Celori-
co e Cabeceiras de Basto, Aguiar de Sousa e Santa Cruz de Sousa, ao passo
que outras se associam temporariamente, como as de Penafiel de Sousa
com Benviver ou com Arouca e Lamego. A terra de Baião talvez englobas­
se primitivamente as que depois aparecem em Penaguião ou Mesão Frio e
em Gestaçô ou mesmo em Tendais166. E assim sucessivamente, conforme
as vicissitudes das partilhas hereditárias e alianças familiares ou o dinamis­
mo e as ambições dos ricos-homens, que em determinados momentos leva­
vam mais longe a sua autoridade, mesmo sobre terras que antes não esta­
vam sujeitas a nenhum «tenente».
É possível que Afonso II nao introduzisse modificações importantes
neste sistema incoerente. Mas, no reinado de Sancho II, esboça-se a ten­
dência para cobrir todo o território por uma rede de ricos-homens, alguns
dos quais com jurisdição sobre áreas bastante vastas. O que sabemos da
época não permite considerar este facto como o resultado de qualquer re­
forma administrativa de iniciativa régia, mas antes da decisão dos mais po­
derosos, para preencher o vazio do poder que o soberano não controlava.
E neste período que aparecem designações como «tenens Ripam Minii» e

165 M. H. Coelho, 1977, p. 17.


166 J. Mattoso, 1982a, pp. 131-135.

102
«tenens Beiram» (Leg., p. 610 de 1228-1229) ou, mesmo, «tenens a Dorio
usque ad Limiam» e «tenens a Limiam usque Minium» (Leg., p. 6 12 ,
de 1229). A vastidão destas últimas áreas leva a admitir uma tentativa de
substituir o poder régio em grandes zonas que os senhores como que dis­
tribuem entre si. É de supor que tal tentativa não substituísse nem supri­
misse os poderes tradicionais dos senhores sobre «terras» menores e já fixa­
das nos séculos xi ou x i i . Mas prepara a época de Afonso III, em que se
verifica a tendência para cobrir o território nacional ou grande parte dele
por uma rede de terras onde o rei se fazia representar pelo rico-homem.
Deve admitir-se, em todo o caso, que a autoridade do rico-homem sobre
a «terra» era um tanto imprecisa, excepto quando ele a aproveitava para se
apropriar de domínios outrora públicos ou pertencentes ao rei e, mesmo, a
outros senhores. Com efeito, nesses territórios havia muitos domínios imu­
nes, pertencentes a dioceses, mosteiros, ordens militares, ao rei e mesmo a
outros senhores de categoria inferior, que, como todos os nobres, estavam
também isentos de obedecer ao rico-homem nos seus domínios patrimo­
niais.
A irregularidade do poder e a fragmentação dos territórios dependentes
dos ricos-homens não os impediam, no entanto, de intervir na administra­
ção da justiça, o que eles faziam pessòalmente ou por intermédio de um
meirinho, que assistia aos julgamentos dos juízes locais e recebia nessa altu­
ra a parte das coimas que pertencia ao senhor da terra. É o que se deduz
de vários documentos dos séculos x i e x i i comentados por Gama Barros
para aproximar as funções destes meirinhos das dos funcionários de igual
nome previstos nos forais do tipo dos de Ávila e dos de Salamanca167. De
dois desses documentos verifica-se que os meirinhos do rico-homem po­
dem não ser apenas simples funcionários inferiores com encargos de tipo
policial, mas também delegados permanentes com jurisdição sobre áreas re­
lativamente vastas da terra do senhor e dotados de préstamos, o que signi­
fica que tinham para com ele, pelo menos nesta época, uma relação de ca­
rácter feudal.

R efo rm a de A fo n so III
Com a inclusão das terras de herdadores nos domínios régios, já no tempo
de Afonso II, mas sobretudo no de Afonso III, a autoridade do rico-
-homem perde cada vez mais o seu conteúdo e torna-se imprecisa ou ten-
dencialmente honorífica. Reduzia-se, decerto, a pouco mais do que a ter a
responsabilidade de convocar o exército, se o rei o ordenava. Ora, esta
eventualidade deve ter-se tornado muito rara nas zonas senhoriais de En-
tre-Douro-e-Minho, onde o poder dos senhores era tradicionalmente
maior. Manteve-se, talvez, com maior vigor nas zonas próximas das fron­
teiras galega e leonesa, para reforçar as forças militares dos concelhos limí­
trofes que o rei estabeleceu justamente como polos de defesa nacional.
Apesar disso, nos diplomas solenes da cúria do tempo de Afonso III, e
ainda em alguns da época de D. Dinis, muitos dos ricos-homens que figu­

167 Gama Barros, XI, pp. 97-120.

103
ram nas subscrições continuam a ostentar os seus títulos de «tenentes», o
que significa que o rei lhes mantém as suas honras, embora desprovidas já
de grande conteúdo. Em muitos forais prevê-se que a autoridade do rei se
exerça por meio do rico-homem ou do seu prestameiro. Mas como o rei
declara, noutros, que o exclui, e sobretudo porque, desde Afonso III, o
controlo régio se exerce por meio do alcaide, a capacidade de intervenção
do rico-homem nos concelhos deve ter-se tornado praticamente nula168.
Assim, a designação de «rico-homem», que durante o século xn e a pri­
meira metade do seguinte se atribui exclusivamente ao governador de uma
terra, como equivalente de «homem que possui e exerce o poder público»,
evolui para sinónimo de «magnate», ou de «nobre de categoria superior».
Astuciosamente, no entanto, Afonso III mantém a entrega das insígnias
bem concretas do «pendão e caldeira» quando nomeia alguém «rico-
-homem»169, o que equivalia a conferir-lhe autoridade pública. Além disso,
mantém-se, pelo menos até ao fim do seu reinado, a ideia de que o rico-
-homem está pessoalmente vinculado ao rei. De facto, quando nos textos
da cúria se fala dos ricos-homens, pressupõe-se durante todo este período e
mesmo em alguns do reinado de D. Dinis que eles são de facto detentores
de autoridade e estão ligados ao rei por uma relação pessoal, como se de­
preende de ele lhes chamar os seus ricos-homens.
Os autores que até aqui têm tratado da relação entre o rei e os ricos-
-homens partem do princípio de que eram nomeados pelo rei e podiam ser
mudados quando ele desejava. Baseiam-se, para isso, na afirmação categóri­
ca de Gama Barros. Este, no entanto, apenas examinou a sucessão de uma
quantidade considerável de nomes de governadores de terras em Leão e
Castela, para concluir das mudanças (não de afirmações expressas acerca
das condições em que elas se fizeram) que só podiam ser de nomeação ré­
gia170. Ora, baseando-me apenas em documentos portugueses que testemu­
nham a sucessão dos tenentes em Portugal, creio ter provado que é necessá­
rio distinguir as terras de Entre-Douro-e-Minho das situadas mais a sul.
Assim, enquanto nas primeiras os senhores, salvo excepção, exercem o
cargo vitaliciamente e se sucedem dentro da mesma família ao longo de vá­
rias gerações, embora não necessariamente de pais para filhos, nas outras
ficam pouco tempo no cargo e podem mudar facilmente. Estão no primei­
ro caso as tenências de Maia, Sousa e Basto, Penafiel, Benviver, Lamego,
Baião, Bragança, Lanhoso, Bouro e, provavelmente, Valadares, Nóbrega,
Cerveira, Portocarreiro, Paiva e talvez outras. Deixando de lado terras que
devem resultar da fragmentação de outras maiores, podemos, pelo contrá­
rio, considerar típicas do segundo caso- as terras de Santa Maria, Lafões,
Viseu, Trancoso, Gouveia, Guarda, Covilhã e Seia.
A lógica desta distribuição parece evidente: existe uma zona de fundas
raízes senhoriais onde a sucessão familiar se impôs por costume e onde o
rei, se intervinha, se limitaria a confirmar o novo responsável; noutras re­
giões onde a senhorização é mais tardia e onde, por outro lado, a proximi­

168 Sobre as reformas de Afonso III, ver os dados reunidos de forma sistemática por Leontina
Ventura, 1992, I, pp. 275-287.
169 LL 23 A l; cf. C E M D , n.» 26.
170 Gama Barros, I, pp. 223-240.

104
dade da fronteira é maior, o rei permanece o responsável, e por isso no­
meia para essas «terras» jovens nobres que aí se exercitam na carreira
militar. Apesar de a fronteira ter avançado rapidamente para a linha do Te­
jo a partir de 1147, parece que Afonso Henriques manteve o costume da
nomeação, mesmo em terras cujo governo já não implicava responsabilida­
des militares tão prementes171.
Esta síntese, que creio válida até ao fim do reinado de Sancho I, deve
prolongar-se ainda algumas décadas, mesmo sob o governo de Afonso II.
Mas as perturbações da época de Sancho II e as novas medidas tomadas
por Afonso III provocaram decerto algumas alterações sucessórias, que no
entanto seria difícil interpretar na sua globalidade sem um estudo minu­
cioso das listas de tenentes. Será preciso verificar se a infracção à regra su­
cessória se deve à intervenção do rei ou à falta de descendentes masculinos.
De qualquer maneira, creio não se justificar a opinião de Gama Barros
acerca da amovibilidade dos tenentes ad nutum regis. A arbitrariedade de
nomeação por parte do rei só se verifica em alguns casos.
Quanto aos alcaides, parece evidente que, na maioria dos casos, são de
nomeação régia. Isto não impede de se verificar uma certa tendência para
a sucessão familiar, como acontece em Santarém com a família dos Dades
e em Atouguia com a família do mesmo nome. Pode acontecer, porém,
que o rei intervenha também, mesmo nestes casos, devido a acidentes su­
cessórios naturais. De facto, a sucessão daquelas famílias verifica-se apenas
durante duas ou três gerações.

Os in t e r m e d iá r io s : a lm o xa rifes e m e ir in h o s

Voltemos à reforma administrativa de Afonso III, para averiguar os proces­


sos por ele utilizados para assegurar a vigilância da administração central
sobre as circunscrições regionais e locais. Como vimos, por intermédio do
exercício directo do seu poder sobre os reguengos e as terras da Coroa, e
pela restituição de uma certa autoridade aos juízes dos julgados, Afonso III
recupera, sob uma forma nova, a supremacia régia. Deve notar-se que a
criação de vínculos entre o rei e os juízes teve como primeiro objectivo res-
ponsabilizá-los mais na vigilância contra a sonegação de terras da Coroa,
na cobrança de rendas e como encarregados de aforar ou emprazar as terras
que, por alguma razão, ficavam sem cultivadores172.
A recolha das rendas começa quase desde o princípio do reinado de
Afonso III a fazer-se por meio dos almoxarifes, que decerto não agiam di-
rectamente junto dos colonos e herdadores da Coroa, mas junto dos mor­
domos de cada julgado, que, por sua vez, deviam recolher nos celeiros ré­
gios as rendas entregues pelos mordomos das terras.
Temos ainda um precioso documento de 1273, no qual se resumem as
contas prestadas pelo almoxarife de Guimarães (ou, melhor, pelos seus dois
filhos) em Lisboa, ao notário da chancelaria e escrivão do almoxarifado,

171 J. Mattoso, 1982a, pp. 131-145.


172 As responsabilidades do juiz neste caso aparecem, p. ex., nas Inq., p. 836b. Mas, em 1311,
D. Dinis ordena que eles não deixem, nesse caso, de o fazer por escrito, sob pena de nulidade do
aforamento: LLP, pp. 88-89.

105
perante o mordomo-mor da cúria, o chanceler, o vice-mordomo e três clé­
rigos do rei. Deste documento se deduz que o referido almoxarife tinha,
durante determinados períodos dos anos de 1251 a 1263 (na sua maioria
períodos curtos, de menos de um ano), recebido as rendas não só do julga­
do de Guimarães mas também das terras de Celorico de Basto, Montelon-
go, Sousa, Penafiel, Aguiar de Sousa, Benviver, Penafiel, Vermoim, Gon-
domar, Maia, Neiva, Prado, Penafiel de Bastuço, São Martinho de Riba
Lima e Panóias, e dos julgados de Felgueiras e Lousada, e ainda as dizimas
dos panos de Viana e de Valença e as colheitas de Entre-Douro-e-Minho e
dos mosteiros de Pedroso, Grijó e Oya173.
Ao mesmo tempo, o controlo das funções dos juízes e mordomos dos
julgados, por meio dos almoxarifes, era também exercido, no plano judicial
e na cobrança da parte das coimas que pertenciam ao rei, pelos cobradores
das anúduvas, os meirinhos, os porteiros e, mesmo, os sobrejuízes, como se
depreende das reclamações feitas pelo arcebispo de Braga contra o rei nas
cortes de Guimarães de 1250. Com efeito, o arcebispo acusa Afonso III de
não impedir que esses funcionários tivessem lucros abusivos das coimas e
das prestações que dividiam com os ricos-homens e que os faziam ricos em
pouco tempo174. Ora, a intervenção destes funcionários sobre as activida-
des judiciais nas terras não consistia apenas, certamente, na cobrança das
coimas, mas também na vigilância dos próprios tribunais. Estas reclama­
ções, assim como vários documentos mencionados por Gama Barros175, fa­
zem supor que logo a seguir ao fim dá guerra civil, terminada nos primei­
ros meses de 1248, Afonso III tivesse instituído um corpo de meirinhos de
«terras» ou de julgados, ou mesmo de áreas mais vastas, e que estes a partir
das terras da Coroa começassem a intervir na justiça local, em casos que
anteriormente pertenciam à jurisdição dos ricos-homens. Assim se explica
que dividissem com eles os seus rendimentos, adoptando atitudes concilia­
tórias compreensíveis, para não serem demasiado hostilizados. A censura
do arcebispo seria ilógica se eles fossem nomeados pelos ricos-homens ou
se se limitassem a áreas que não caíam sob a sua alçada.

OS MEIRINHOS-MORES
Ora, é a funcionários do mesmo nome, mas responsáveis por comarcas
mais vastas, que Afonso III incumbe também de intervirem nas questões
suscitadas por queixas de igrejas ou de mosteiros contra membros da no­
breza (Leg., pp. 221-223, 253). A Eei 57 de Afonso III, datada provavel­
mente de 1261, constitui praticamente um regimento das suas funções. Sa­
bemos por ela que o meirinho está encarregado de superintender em
questões que implicam a pena de degredo, na violação de caminho públi­
co, na vigilância do cumprimento das ordens do rei, na violência sobre
mulheres, na perseguição de «ladrão conhecido», nas agressões cometidas

173 J. P. Ribeiro, 1813, III/2, doc. 29. Certos nomes de locais deste documento, como Ruilhe,
Coronado, Paços e Vila Chã, devem corresponder a celeiros onde se recolhiam rendas dos reguen-
gos.
174 Capítulos de Braga, n.os 1, 5, 6, 9, 10,;* 11, 12, 13, in Leg., pp. 185-186.
175 Gam a Barros, XI, pp. 124-147.

106
contra porteiros e juízes ou contra prelados de igrejas que nao tinham por­
teiros e ainda em casos resultantes do apelo para o rei, por vingança priva­
da. Nestas matérias, porém, só intervinham a pedido dos queixosos. Esta­
vam encarregados de receber as fianças segundo o foro da terra e de
proteger os queixosos (Leg., pp. 252-253)176.
Era uma inovação importante. Constitui o ponto de partida para uma
intervenção decisiva na administração da justiça por parte dos ricos-
-homens e permite uma vigilância efectiva das actividades judiciais nas ter­
ras e nos julgados. Como Gama Barros observa com exactidão, esta medi­
da de Afonso III deve filiar-se nas promessas que o conde de Bolonha fez
em Paris de assegurar a paz pública177, perturbada pela anarquia generaliza­
da dos últimos anos do reinado de Sancho II. Assim, é de crer que a insti­
tuição de meirinhos independentes dos ricos-homens obtivesse na fase ini­
cial o apoio do próprio clero, interessado em que o rei protegesse os seus
bens ameaçados. Pelos vistos, a aplicação da medida não correspondeu
à expectativa dos bispos; mas, em vez de recuar perante os seus protestos,
o rei não fez mais do que aperfeiçoar o sistema.
N a opinião, bastante verosímil, do mesmo autor, os meirinhos-mores
que existiram no reinado de Afonso III foram normalmente meirinhos de
comarca, isto é, com jurisdição mais vasta do que as «terras», e eram desig­
nados para executar comissões extraordinárias sem carácter permanente178.
Parece-lhe incerta a existência de meirinhos-mores com jurisdição sobre to­
do o reino, mesmo quando certos indivíduos se intitulam «meirinho-mor
de Portugal». Seja como for, alguns, como Nuno Martins de Chacim, de­
sempenham as funções durante vários anos179. Outras vezes, parecem al­
cançar uma certa permanência em áreas menores como, por exemplo, João
Fernandes de Cambra, meirinho-mor de aquém-Douro. Sabemos que este
tinha um subordinado, também designado como meirinho, para a Terra
de Santa Maria180. Por outro lado, a intervenção efectiva dos meirinhos-
-mores está amplamente atestada por bastantes documentos em que eles
intervêm para reprimir abusos de cavaleiros e, mesmo, de ricos-homens
contra igrejas e mosteiros181. Garantem, assim, a efectiva intervenção do
poder régio mesmo em terras de regime senhorial, onde os ricos-homens se
tinham revelado incapazes de assegurar a paz e a justiça. Afonso III apro­
veitou da maneira mais eficiente as questões entre nobres e clero, para es­
tender sobre ambos a sua autoridade. Note-se, porém, que este facto não
significa de modo algum a ingerência nas questões internas das honras e
dos coutos, onde os seus senhores, leigos ou eclesiásticos, deviam conside­
rar a administração da justiça como uma prerrogativa pessoal e inalienável.
Como veremos no parágrafo seguinte, o rei não contesta nunca o princípio
nem a legitimidade do regime senhorial.

176 Sobre as origens e evolução do ofício de meirinho-mor, ver as investigações de Leontina


Ventura, 1992, I, pp. 56-100.
177 Gama Barros, XI, p. 124.
178 Ibid., p. 153.
179 Cf. Leontina Ventura, 1992, II, pp. 626-630.
180 J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 76, de 1315.
181 Ibid., does. 66, 75, 76, de 1268, 1311 e 1315; «/., 1813, III/2, doc. 28 de 1273.

107
O REI E OS CONCELHOS
Tudo isto se passa no Norte de Portugal, onde esse regime vigorava efecti-
vamente e onde se prolongaram por mais tempo vestígios da autoridade
intermediária dos ricos-homens. No resto do país, porém, onde predomi­
nava a organização concelhia sob a autoridade, quer do rei quer dos senho­
res, as condições eram diferentes. Desde as concessões dos primeiros forais,
o rei exerce a sua autoridade por meio de um funcionário permanente que
0 representa, o alcaide, ou, nos concelhos de Riba-Côa e do tipo do foral
de Salamanca, por meio de um grupo de alcaides. A primeira forma, no
entanto, generalizou-se por toda a parte, mesmo na Beira Alta, onde vigo­
rava frequentemente o foral de Salamanca. Em vários forais prevê-se a vigi­
lância da vida do concelho por meio do rico-homem ou do seu prestamei-
ro. Noutros, ela exclui-se expressamente. Mesmo naqueles casos, a sua
possibilidade de intervenção devia ser muito reduzida, pelo que diremos a
seguir acerca do alcaide.
Efectivamente, este não se limitava a representar o papel de mero vigi­
lante delegado pelo rei; intervinha efectivamente nas operações de tipo po­
licial, era ele quem prendia os acusados e os criminosos, e cobrava um cer­
to número de multas. Como vimos acerca dos funcionários concelhios,
estes queixavam-se constantemente da sua tendência para invadir atribui­
ções do concelho. Por outro lado, pelo menos nos concelhos do Sul, havia
mordomos permanentes do rei, encarregados da cobrança das rendas e das
multas que lhe pertenciam e que actuavam por meio de saiões e porteiros.
Esta rede de funcionários directamente dependentes do rei e sem qualquer
relação com o rico-homem tornava mais fácil a sua organização e a vigilân­
cia régia. Esta passou a fazer-se, pelo menos desde o tempo de Afonso III,
por meio dos almoxarifes, como vimos igualmente a propósito dos conce­
lhos182.
Como se não bastasse a intervenção e coordenação dos funcionários in­
feriores por meio dos almoxarifes e meirinhos, a administração régia ser­
viu-se ainda de outro meio que foi a criação de um corpo de escrivães do
rei, colocados nos concelhos e julgados. Conhecemos a sua existência desde
1253 como dependentes do rei e não de qualquer poder inferior, concelhio
ou senhorial: «meis scribanis de uillis» (Leg., p. 196). A importância destes
funcionários, encarregados principalmente de registar as cobranças e as
multas, tornou-se maior na época de D. Dinis, que passou a colocá-los
mesmo em terras de jurisdição senhorial, como as da Ordem de Santiago.
Com efeito, reclamando a Ordem, em 1310, por o rei pretender nomear o
tabelião de Alcácer do Sal, ele acaba por desistir, mas declara: «meterei
1 meu scrivam jurado... pera guardar os meus direitos e pera os haver de
veer, tal que faça fe nos meus direitos»183. Está na mesma ordem de ideias
a instituição, pelo mesmo rei, de um guardador de selos em cada concelho,
independente tanto dos magistrados como do próprio tabelião, segundo a
lei que já comentámos também noutro lugar184.

182 Vervol.II, pp. 357-359.


183 C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 29, p. 53.
184Ver vol.II,p. 316.
108
Nenhum destes funcionários, no entanto, se destina propriamente a
pôr em causa a autonomia dos concelhos, como os meirinhos também não
contestavam aos senhores o direito de administrar a justiça nos seus domí­
nios. Todavia, a partir de uma intervenção maior no controlo da adminis­
tração da justiça e de uma melhor organização da cobrança de rendas, im­
postos e multas que pertenciam ao rei, os funcionários régios penetram
cada vez mais no plano local. Estava criada a máquina burocrática que per­
mitia a administração, agora cada vez mais despersonalizada, dos detento­
res do poder público, o qual, mesmo sem contestar os poderes autónomos
dos senhores e dos concelhos, se apresenta com progressiva insistência co­
mo a fonte e justificação de toda a autoridade. Só agora se pode dizer que
começa a existir o Estado: quando os que o representam não agem em no­
me próprio, mas por nomeação e como representantes de uma adminis­
tração pública. Quando o poder supremo não está apenas onde está o
rei, mas constantemente presente e pronto a actuar em todas as partes do
reino.
3 .
A centralização

O rei acumula os seus poderes mas as forças sociais não deixam de


reagir. Num a visão simplista das coisas, o mais natural seria oporem-se
constantemente ao processo de fortalecimento da autoridade régia, cujos
progressos examinámos no parágrafo anterior. Esquecer-se-ia assim que
tanto os nobres como os clérigos e os concelhos necessitam do próprio
rei, ora como árbitro dos conflitos que entre eles sempre surgem, ora co­
mo fonte e dispensador de riquezas e privilégios que pelo menos alguns
deles ambicionam. O rei, por sua vez, não pode acumular poderes só
com os seus próprios meios. Tem de obter o auxílio e de recompensar
servidores fiéis. Não pode dispensar a colaboração dos clérigos que expli­
cam e garantem a sacralidade do seu poder e a missão divina que deve
cumprir. Quanto aos concelhos, obrigados à fidelidade, nem por isso dei­
xam de negociar a sua submissão, tirando partido, na época da guerra
santa, da sua posição fronteiriça e do interesse do rei em lhes garantir,
por isso, a autonomia, ou, mais tarde, fazendo valer a sua função econó­
mica, a habilidade para a manipulação do dinheiro e a gestão dos bens
materiais que os seus chefes, mercadores e homens das vilas, demons­
travam.
N o capítulo da relação entre o poder político e as forças sociais, por­
tanto, não há só tensões, há também alianças e .compromissos. Elas tam­
bém não agem sempre em uníssono: há sempre grupos com interesses di­
vergentes, contradições internas que o rei sabe ou aprende a explorar.
A história da relação entre ele e os nobres, o clero e os concelhos está,
pois, cheia de vicissitudes e de ambivalências. Tentemos, apesar de tudo,
reconstituir as suas grandes linhas. Aqui, tal como na evolução da econo­
mia, o recurso à reconstituição da conjuntura poderá servir-nos de fio
condutor para uma exposição complexa e cheia de distinções.

3.1. O rei e os senhores


Nos primeiros tempos da monarquia, o rei parece, à primeira vista, en-
tender-se bem com os senhores, pelo menos os da alta nobreza. Deixa-os
exercer à vonçaçle o poder senhorial, não interfere na sucessão das tenên-
cias familiares, mas só na designação dos governadores de terras da fron­
teira, entrega mulheres da sua parentela mais próxima para casarem com
Sousas, Braganções, Barbosas ou de Riba Douro, dá os seus filhos a criar

111
a senhoras de Riba Douro, Baião ou da Silva, e eles desempenham, apa­
rentemente em harmonia com o rei, os cargos de mordomos-mores e de
alferes1.

O REI E A NOBREZA COMO CLASSE SOCIAL


Examinando as coisas mais de perto, altera-se a simplicidade desta harmo­
nia: verifica-se um progressivo afastamento das famílias mais tradicionais e
a sua substituição por nobres de origem galega, como os Soverosas, Barbo­
sas, Pereiras, Limas, Ribeiras e Nóvoas, ou, mesmo, no tempo de Sancho
I, por nobres da categoria inferior, como os de Riba de Vizela. Por outro
lado, descobrem-se alguns indícios de animosidade das velhas famílias mais
poderosas de Entre-Douro-e-Minho para com Afonso Henriques2. Encon-
tram-se tradições familiares hostis, transmitidas por Sousas e Braganções3;
afirma-se numa narrativa recolhida pela Gesta de Afonso Henriques que ele
deveu a vitória de São Mamede a um nobre, Soeiro Mendes4; correm entre
as famílias do Norte alusões a relações incestuosas de D. Teresa com os
Travas5; fala-se em raptos de irmãs do rei sem ele os ter vingado6. Além
disso, a colaboração dos ricos-homens do Norte na Reconquista é pratica-
mente nula. Mesmo a história de Gonçalo Mendes da Maia 7 é tardia e pa­
rece querer tirar proveito, para benefício da linhagem que o tinha excluí­
do8, do relato das suas aventuras.
Todavia, se as famílias que haviam alcançado o cimo da escala social na
primeira metade do século xn se separam progressivamente do rei, este fa­
vorece os jovens de famílias galegas que mencionámos tornando-os funda­
dores de famílias poderosas, por meio de doações e da entrega de tenên-
cias, que os ricos-homens do Norte não vêem com bons olhos. Esta
divergência global entre dois ramos da alta nobreza no Norte servirá, desde
o princípio do século xn, para polarizar os agrupamentos suscitados pela
oposição ou apoio à política interna de Afonso II. Os de Riba de Vizela e
os Nóvoas apoiam o rei, enquanto os Sousas e os Silvas se aliam às infantas
e o hostilizam9. N o reinado de Sancho II, a tendência para o agrupamento
mantém-se. Apoiam-no Soverosas, atacam-no Lumiares (sucessores dos de
Riba Douro) e Sousas. A relação pessoal do rei com estas e outras famílias
pode aferir-se pela sucessão dos que foram seus amos ou nutritores10. Mas
os acidentes biológicos que interrompem a descendência de todas estas fa­
mílias desfazem a sua oposição ao rei mais eficazmente do que a luta aberta11.

1 Para toda a primeira parte deste parágrafo, ver J. Mattoso, 1982a, pp. 115-170.
2 Cf. J. Mattoso, 1992b.
3 LV 1M7; LL 22 A5; 37 B2.
4 GAH, pp. 34-36.
5 LL 13 A2.
6 LL 37 B2; LD 12A 1-4.
7 LL 21 G6.
8 LD 7 A 1 .
9 LL 26 A3.
10 J. Mattoso, 1985, pp. 77-85. Sobre a criação de membros da família real por nobres, ver
Leontina Ventura, 1992, I, pp. 241-246.
11 J. Mattoso, 1981, pp. 299-306.

112
Por outro lado, o apoio dos partidários do poder régio ao vencido permite,
primeiro, a aliança de Afonso III com as famílias tradicionais, ou o que
ainda restava delas, e depois a sua completa neutralização pelo casamento
das filhas com cortesãos fiéis.

Os CA VA LEIRO S

Entretanto havia-se formado, desde os tempos heroicos das expedições


afonsinas, uma camada de cavaleiros que o servem e apoiam como o chefe
do seu bando, e que o rei nomeia preferentemente para alcaidarias nos lu­
gares onde era indispensável ter auxiliares fiéis, ou seja, nos castelos do Sul
e nas fronteiras leonesa e galega12. A origem nortenha de muitos destes ca­
valeiros permite-lhes constituir linhagens de categoria média em Entre-
-Douro-e-Minho, o que equilibra a hegemonia da alta nobreza na mesma
região. Daí procedem também várias famílias que se instalam na Beira, on­
de aparecem desde logo as primeiras «honras». São também membros des­
tas famílias os jovens que militam no séquito de Sancho I13.
Durante o reinado de Sancho II, os cavaleiros sem fortuna do Norte, e
que então se espalham um pouco por toda a parte nos séquitos dos senho­
res ou do rei e mesmo nas cidades e em Castela, ou que vivem com difi­
culdades nos seus solares, constituem a camada mais inquieta da nobreza14.
A sua violência latente e as suas ambições põem-se ao serviço dos gupos
antagónicos como «homens de mão» dos mais empreendedores, quer de
um lado quer do outro. A eles se aliam até alguns «jovens» das famílias su­
periores, excluídos da sucessão pela estrutura linhagística15. Esta situação
cheia de contradições antecede a recomposição que se dá na época de
Afonso III.

A fo n so III
Com efeito, o triunfo do Bolonhês, ajudado pelas forças dos concelhos e
com o apoio da Igreja, permite-lhe agir com a maior independência para
com a nobreza tradicional. Por outro lado, a montagem de um aparelho de
funcionários não nobres e a activa reorganização dos rendimentos da Co­
roa oferecem-lhe recursos suficientes para favorecer directa ou indirecta-
mente as acumulações de terras dos seus mais fiéis servidores, mesmo
quando eles procedem de famílias relativamente modestas como os Aboins,
Briteiros, Pimentéis, Vasconcelos e outros. A corte aparece, assim, como a
eficaz distribuidora de riqueza e de poder, ao mesmo tempo que cria tam­
bém uma imagem de prestígio social sustentada pela adopção de hábitos
de convivência mais requintados, à imitação das cortes provençais ou da de
Castela16.

12 J. Mattoso, 1982a, pp. 181-182.


13 Ibid.y pp. 207-227.
14 J. Mattoso, 1981, pp. 353-363.
15 /</., 1985, pp. 77-85.
16 Ibid.y pp. 309-328, 409-435.

113
Esta política não absorve completamente a oposição de alguns sectores
da nobreza contra o rei, que se manifesta, agora, pela preservação de tradi­
ções que elogiam a fidelidade a Sancho II, com o apoio da corte castelhana
e de vários trovadores17, e que provavelmente se sustenta de uma inconfes-
sada antipatia para com a astúcia centralizadora e a eficácia administrativa
do Bolonhês. Mas a contestação parece manter-se agora num estádio difu­
so. O vigor intelectual e a criatividade dos jograis, que a corte também sus­
tenta e que apoiam não menos vivamente o rei, contribuem para neutrali­
zar as manifestações verbais da oposição18. De resto, não podia haver
dúvida de que Afonso III pacificara o país, cumprindo assim os seus deve­
res de defensor da justiça. Mesmo as suas intervenções no sentido de arbi­
trar divergências entre nobres e igrejas ou para temperar a vingança privada
deviam ser reconhecidas como necessárias para a classe dominante não se
destruir a si própria19.

D . D in is

As coisas tornam-se bastante diferentes com D. Dinis. A sua agressiva polí­


tica de centralização, o apertado rigor com que administra as terras da Co­
roa, o vigoroso e incansável ataque contra a extensão de novos poderes se­
nhoriais20, a capacidade de intervenção que revela por meio de meirinhos
fiéis e zelosos, fazem crescer o descontentamento. Este nasce agora de casas
senhoriais mais fortes, incluindo as que se tinham formado com a ajuda de
Afonso III, como a dos Aboins, e apoia-se nos exemplos da revolta aberta
da alta nobreza castelhana contra Afonso X e contra Fernando IV21, cujos
episódios os narradores cortesãos dessa mesma nobreza transformam em
proezas gloriosas que se contavam também em Portugal22. Assim, bastou à
nobreza senhorial pôr em acção as intrigas palacianas para colocar ao lado
dos senhores o infante D. Afonso e fazer dele o seu líder, para que a oposi-
ção se transformasse em guerra civil23. Era a reacção a uma política centra­
lizadora que não havia sabido utilizar com tanta habilidade como no reina­
do anterior os apoios de uma parte da nobreza.
Exposta em breve síntese a relação entre o rei e a nobreza, como classe
social, é necessário agora ver que formas institucionais reveste essa mesma
relação. Consideraremos aqui dois aspectos: a utilização de processos feu­
dais de vinculação para com alguns nobres e a articulação dos poderes pú­
blicos do rei com os dos senhores.

17 C E M D , n.° 61, 78; LL 44 H 6, 47 C4, 62 111, 66 G l; C. 1419, caps. 8-10 (ed. Silva Ta-
rouca, I, pp. 235-243); J. Mattoso, 1981, pp. 279-283.
18 J. Mattoso, 1985, pp. 409-435.
19 O que aqui dizemos sobre as relações de Afonso III com a nobreza deve ser revisto com aju­
da da tese de doutoramento de Leontina Ventura, I, 1992, pp. 149-176, 471-508.
20 Gama Barros, II, pp. 444-447. Para o caso particular do julgado de Braga, ver J. A. Pizarro,
1990.
21 A. Ballesteros Beretta, 1963; C. González Minguez, 1973.
22 LL 9A 1 4 , 15; 10 E l i , 12, 13; 11 C9.
23 J. Mattoso, 1985, pp. 293-300.

114
O REI COMO SUSERANO
Começando pelo primeiro, convém desde logo acentuar que a vassalidade
inclui apenas alguns nobres24. Nem podia ser de outro modo. Estabelece
vínculos de tal ordem que implicam uma obrigação pessoal e sagrada de fi­
delidade. A sua ruptura unilateral é asperamente censurada como traição.
Reveste uma gravidade muito maior do que a recusa de obediência ou su­
jeição de um súbdito que habita no reino, mas não jurou ser fiel. Em Por­
tugal pode não ser indispensável, como não era na Itália25, uma homena­
gem formal, ou seja, uma explicitação verbal ou gestual do contrato
vassálico. Ou então reduzindo-se, como em Leão e Castela, ao simples bei-
ja-mão, deixa poucos vestígios na documentação escrita26. Encontra-se ex­
pressamente referida na tenência de castelos, mas não é fácil encontrá-la
noutros casos. Pode, no entanto, considerar-se implícita quando o rei usa a
respeito de simples nobres ou de ricos-homens o possessivo «meus» que
traduz inegavelmente a relação pessoal. Dificilmente se pode admitir
que na civilização oral e gestual da alta Idade Média esta relação não fosse
expressa e selada por um ritual, mesmo muito simples, que conferia justa­
mente a esse vínculo o carácter sagrado. Ora a utilização de um possessivo
para com um nobre associa-se, nos mesmos documentos, a referências à f i-
delitas, ao servitium, ao «amor»27. Também não é difícil encontrar referên­
cias a recompensas beneficiais precárias para compensar o serviço vassálico,
que pode não ser sempre de carácter estritamente militar28. O carácter pre­
cário destas concessões acentua-se com vocábulos do género do verbo tene-
re de, ou de expressões como de manu alicuius. A sua relação com a condi­
ção de vassalo nobre torna-se especialmente clara quando o benefício é
constituído por cavalo e armas, ou por uma torre ou castelo29.

D ificuldades de interpretação
A dificuldade que se encontra na interpretação dos documentos anteriores
ao século xiv resulta de eles empregarem constantemente vocábulos e ex­
pressões que não designam apenas as relações feudo-vassálicas, mas se apli­
cam também a situações completamente diferentes. Assim, beneficium utiliza-
-se para exprimir também favores gratuitos e de simples benevolência ou
generosidade30; vassalus encontra-se desde a primeira metade do século xii
para apontar dependentes não nobres31; hominium pode significar um pac­
to jurado, com algumas formas e expressões contaminadas por noções feu­
dais, mas sem implicar dependência de nenhum dos contraentes para com

24 Cf. Leontina Ventura, 1992, I, pp. 170-176.


25 P. Toubert, 1973, pp. 1138-1148.
26 H. Grassotti, 1969, pp. 141-162, 192.
27 D C 474, 491, 581, 656; D R 4, 351; D S 97, 147, 166, 195, 199, 217; M. H. Coelho,
1977, doc. 237; etc. Cf. Leontina Ventura, 1992, I, pp. 114-116, 174-176.
28 DP III, 335; D R 247, 290; DS 23, 24, 27, 33, 35, 54, 147, 166, 199.
29 D R 247, 290.
30 R. Durand, 1982, pp. 599-600.
31 D R 71, 150, de 1125 e 1135; DS 208; A. Fernandes, 1976, pp. 132 e 309-310, de 1243 e
1242; id., 1970, p. 130; etc. H. Grassotti, 1969, pp. 68-87.

115
o outro32; prestimonium e aprestamum aplicam-se também a concessões agrá­
rias feitas a camponeses e a contratos sobre bens eclesiásticos com clérigos,
etc.33; tenere de manu, embora mais raramente, pode também aplicar-se a
concessões revocáveis de natureza não feudal e entre pessoas não nobres34.
Assim, verifica-se uma vasta difusão dos termos que designam os compro­
missos pessoais, o que só pode significar uma enorme diluição dos concei­
tos e das instituições feudais35 e torna normalmente difícil de distinguir os
compromissos resultantes da natureza (no sentido medieval), dos que de­
correm do contrato36.
Mesmo sendo difícil delimitar as questões e isolar os casos do contrato
feudal típico, podem encontrar-se em número suficiente. A existência de
esquemas feudais é também a única explicação para um certo número
de casos, afinal mais numerosos do que parecia à primeira vista. Convém
também não esquecer que o feudalismo português se caracteriza por uma
grande fluidez das relações e pela instabilidade dos vínculos vassálicos, o
que se exprime em termos técnicos pelo facto de não se chegar a dar uma
completa articulação entre os laços de natureza pessoal e os de origem realy
como já referi a propósito da nobreza37. Ora, estas características encon-
tram-se também nas relações entre o rei e os seus vassalos, embora em grau
menor do que na vassalagem senhorial, sobretudo, como veremos, no caso
dos alcaides.

Feudos de função {honores)


Dito isto, podemos distinguir a situação dos ricos-homens e dos outros
vassalos. O propósito de ligar os tenentes das terras ao rei por meio da vas­
salagem deve datar do tempo de Fernando, o Magno. Foi ele quem assim
confirmou e ligou a si o poder que os infanções dotados de autoridade se­
nhorial já exerciam sobre as suas terras38. Esta opinião baseia-se não só na
utilização do termo tenens, de origem feudal, mas também na designação
de infanções, dada na cúria de Fernando, o Magno em 1059 a senhores por­
tucalenses39 e nos documentos do rei Garcia, que chama fideles a senhores
da família de Riba Douro (D C 474, 491). Todos eles eram tenentes. Ora,
esta relação pessoal entre detentores de terras e o príncipe continua tam­
bém no fim do século xi.
Assim, o conde D. Henrique dirige-se ao mais poderoso dos seus ricos-
-homens, Soeiro Mendes da Maia, como «tibi vassalo fideli nostro» (D R 4
de 1097); D. Teresa chama a Fernão Peres de Trava, que recebeu dela o
mandato sobre os castelos da fronteira, «tibi fideli meo comiti domno Fer­

32 H. Grassotti, 1969, pp. 216-258. Caso único em D R 31, entre D. Urraca e D. Teresa. Cf.
L. Ventura, 1992, I, p. 173.
33 Um boi e arado: LF 204; um casal: LF 422; castanheiros: A. Fernandes, 1971, p. 98; o ter­
ritório diocesano: D P IV 77 = LF 528; etc.
34 «Tenuit illam... quidam homo noster villanus», D S 166.
35 C f H. Grassotti, 1969, pp. 74 e segs., 195 e segs., 216 e segs.
36 Ibid., pp. 420, 984-987, 1036-1041.
37 Ver vol. II, pp. 185-187.
38 J. Mattoso, 1982a, pp. 89-90.
39 D C 421, partindo do princípio de que a palavra «infanção» designa, nesta época, um de­
pendente a título pessoal: ver vol. II, pp. 87-106.

116
nando» (D R 62) e refere-se aos «serviços fiéis» que lhe prestou Sarracino
Viegas, senhor da terra de Benviver (D R 65). Afonso Henriques, em vários
documentos dirigidos a Monio Rodrigues de Arouca em 1129 e 1130 fala
no «amore tue dilectionis», e no «idoneo obséquio tue servitutis», no «bo-
no seruitio quod semper mihi fecistis et facturi estis» e ainda no «seruitio
bono et fidelitate que mihi fecistis et facis» (D R 97, 98, 110 ). Também es­
tes senhores eram tenentes. Não pode igualmente deixar de se referir a ex­
pressão usada nos forais do tipo de Santarém-Lisboa-Coimbra de 1179,
onde o rico-homem governador da terra se chama «meus nobilis homo»
(D R 335).
Por meados do século x ii , a chancelaria de Afonso Henriques parece
menos sensível à sua relação pessoal com determinados ricos-homens. Apa­
recem, mesmo assim, fórmulas que designam a cúria como uma assembleia
feudal: «coram meis baronibus» (D R 161, 269, de 1137 e 1158). Encontra-
-se uma referência a Egas Fafes «eiusdem regis barone» (LF 218, de 1160).
Ele dirige-se a Egas Gomes (Guedeão) chamando-lhe «alumpno et fideli
vassalo meo», para lhe agradecer o «bono et placenti seruicio quod asidue at-
que deuote mihi fecisti» (D R 351, de 1183). Mas com Sancho I as refe­
rências a vassalos especialmente fiéis e a evocação de relações pessoais tor-
na-se frequente. Chama «vassalos» a Fernão Fernandes de Bragança (DS
97), a Álvaro Martins, que tinha sido morto em Silves (DS 44), ao conde
Gonçalo Mendes de Sousa (DS 195, 217). Os usos feudais da mesma épo­
ca são claramente expressos em relação ao conde leonês Pedro Fernandes,
que suponho ser o senhor de Castro, no acordo com Afonso IX: «debeo
petere Petrum Fernandi in curia mea ante me et ante meos uassallos et an­
te uassallos regis die statuta qua possit rex Legionis mittere suos uassallos
ad meam curiam per fidem bonam et sine maio ingenio» (DS 74).
Afonso II, certamente porque pretende urgir a obrigação de vassalagem
que para com ele têm os ricos-homens, como meio de afirmar sobre eles a
sua autoridade, começa a usar a expressão «meu rico-homem»40, que depois
se torna corrente nos documentos régios até à época de D. Dinis, mas foi
sobretudo usada na de Afonso III, certamente pela mesma razão que apon­
támos acerca de seu pai. No reinado de D. Dinis a relação feudal do rei
com os ricos-homens vai-se diluindo. Em compensação, surge neste mo­
mento um contrato feudal muito conhecido e frequentemente invocado
por usar a expressão «feudo» e se integrar facilmente no tipo de contratos
deste género feitos fora da Península: é o que resulta das diversas conces­
sões ao almirante Manuel Pessanha em 1317 e 131941. Mas o exemplo não
leva a restaurar a vassalidade dos magnates.

OS ALCAIDES. A HOMENAGEM
Por outro lado, fosse por influência dos usos feudais de além-Pirenéus ou
por outra razão, torna-se costume, pelo menos no caso dos alcaides dos
castelos, exigir deles uma homenagem expressa.

40 LF 499; M. H. Coelho, 1977, doc. 231; Leg., p. 180. Este último documento é especial­
mente significativo pelo uso das expressões «amor meus» e «terram quam de me tenuerit» a respei­
to do «meu rico-homem».
41 Silva Marques, I, does. 38 a 43 e 48.

117
Não é totalmente seguro que assim fosse quando aparece a primeira
utilização do termo que conheço, no primeiro testamento de D. Sancho I,
de 1188. O rei refere-se, de facto, a um certo número de castelos que
constituíram locais de «segurança» da rainha e de suas filhas, enquanto elas
quisessem, até voltar ao «ius et hominium» do rei que lhe sucedesse
(DS 30). Esta expressão sugere já que os respectivos alcaides prestassem um
efectivo juramento de fidelidade. Poucos anos depois, no entanto, no acor­
do de 1194 com o rei de Leão, já «homenagem» tem o rigoroso significado
de compromisso feudal. Aí se indicam os castelos que são designados como
«segurança» ou penhor do cumprimento e cujos alcaides prestarão home­
nagem ao rei alheio. Para não haver lugar a dúvidas, a obrigação daí decor­
rente é a seguinte: «det ei seruitium de istis castellis sicut uassallus domino
bona fide et sine maio ingenium» (DS 74). E, embora no seu testamento
de 1210 não utilize a expressão «homenagem» senão no sentido de «pacto
jurado», pressupõe também nele a especial relação de fidelidade dos nobres
que designa para serem os garantes no seu testamento. É perante eles que o
príncipe D. Afonso jura cumpri-lo. Se não o fizer, «non dent ei castra que
tenent donec resipiscat et totum emendet» (DS 203); ou seja, são dispensa­
dos do juramento de fidelidade. Poucos anos depois, na concórdia entre
Sancho II e as infantas suas tias, em 1223, também aparece a referência ex­
pressa da homenagem que os alcaides dos seus castelos teriam de prestar ao
rei, ou de os alcaides serem vassalos dele42.
Depois destes anos, as referências a «homenagens» de cavaleiros pela
detenção de torres ou castelos, mesmo a pessoas privadas como bispos,
priores e abades, é mais frequente. Robert Durand aponta exemplos desde
123743. A obrigação de o alcaide fazer homenagem ao rei exprime-se em
alguns forais, desde 1258, em circunstâncias bem significativas.
Assim, no foral de Melgaço, Afonso III pretende justamente exigir a
homenagem directa do alcaide para que ele seja fie l ao rei e não ao rico-
-homem, como aí se diz. Os habitantes do concelho deverão «receber» o
rico-homem que «tiver» a terra, mas o alcaide deve ser posto pelo rei «et
faciet mihi menagium de ipso meo castelo» (Leg., p. 685). N o foral de
Montalegre declara-se que o concelho pode escolher um cavaleiro fidalgo
entre os seus vizinhos contanto que seja do agrado do rei e que lhe preste
homenagem pelo alcáçar (Leg., p. 729). O mesmo acontece em Monforte
do Rio Livre (Leg., p. 730).
O costume da homenagem por castelos é atestado também pelos capí­
tulos do clero contra Afonso III em 126744 reproduzidos no acordo de
D. Dinis com o clero em 1289, e no codicilo ao testamento deste rei
em 129945. Aquele documento é especialmente interessante porque men­
ciona alguns termos técnicos do contrato. Dizem, pois, os prelados, que
quando os
«ricos-homens ou outros cavaleiros recebem castelos d’el-rei pera tee-los e guar-

42 A. D. de Sousa Costa, 1963, p. 120.


43 R. Durand, 1982a, p. 392.
44Art.° 36, segundo o resumo de Herculano, 1980, III, p. 138.
45 «Toda menagem que a mi e a meu filho hão feito»: M L, V, foi. 3 3 lv.

118
dá-los por sas soldadas, fazem-lhis menagem que em toda maneira daram el
irado e pagado se os castelos erfoutra maneira ficarem ende por trahedores estes
casteleiros taaes quando vem guerra ou em tal que façam mal, fingem que vem
guerra e eles e os seus homêes filham pam e vinho e vacas e porcos e as outras
viandas das eigrejas e dos bispos e dos clérigos e dos homêes e dizem que as fi­
lham pera teer os castelos guardados» (LLP, p. 350).

As obrigações decorrentes do contrato de homenagem pela tenência


dos castelos, cujo carácter beneficiai aqui é bem expresso (por sas soldadas),
tinham sido entretanto difundidas em termos ideológicos muito vivos, em
virtude da condenação dos casos de traição de que eram justamente acusa­
dos os alcaides infiéis a Sancho II, e as «estórias» de heroica fidelidade que
narravam feitos exemplares de sentido contrário46.
Pelo contrário, o esvaziamento da autoridade dos ricos-homens, cujo
processo comentámos já47, só pode ter tido como consequência fazer esba­
ter ainda mais a relação de vassalagem dos ricos-homens para com o rei,
que era já, sem dúvida, bastante ténue, apesar das prováveis tentativas de
Afonso II e de Afonso III para a fortalecer. O costume de o rei os designar
por «seus» vai desaparecendo, embora nos documentos régios eles figurem
ainda como detentores de poder e autoridade, como é particularmente o
caso na concordata de 1289 e na lei de 1317 acerca da justiça senhorial
(LLP, pp. 187-189, 347-368).

Vassalos da casa real


Resta ainda falar dos vassalos da casa real aí «criados» e que deviam consti­
tuir o grupo dos cavaleiros do séquito e dos homens de confiança do rei.
São aqueles que o rei, em documentos da segunda metade do século xii,
começa a chamar alumpni ou clientes. Aqui, manifesta-se de novo a ambi­
guidade das palavras. Porque vassalos domésticos podem ser também não
nobres, como Pedro Ferreiro, besteiro de Sancho I e de Afonso II, ou Ro­
drigo Martins, «porteiro» de Sancho I48. Mas são-no certamente Nuno
Guterres, Egas Gomes de Baião, o chanceler Julião e Pêro Mendes, das ca­
sas de Afonso I e Sancho I. Como mostrou H. Grassotti, existia pratica-
mente uma imposição de vassalagem e fidelidade dos que recebiam a crea-
tio de um parente, de um senhor, ou do rei4950. Inversamente era em casa de
vassalos fiéis que se criavam os infantes e as princesas, como a rainha
D. Mafalda por Urraca Viegas, filha de Egas Moniz, ou o infante filho
de D. Teresa e do rei de Leão, em casa de Martim Salvadores e Sancha
Peres30.
Em 1258, ao reorganizar a casa real, Afonso III pretende certamente
estreitar os vínculos com os cavaleiros do seu séquito, determinando que

46 C E M D , n.° 61, 78, LL 44 H 6, 47 C4, 62 111, 66 G l; C. 1419, caps. 8-10 (ed. Silva Ta-
rouca, I, pp. 235-243); J. Mattoso, 1981, pp. 279-283.
47 Supra, parte II, n.° 2.4., p. 100 deste volume.
48 DS 53 e 129, de 1191 e 1200. Ver novos dados sobre o problema da vassalidade régia em
Leontina Ventura, 1992, I, p. 247.
49 H. Grassotti, 1969, pp. 110-111, 273-275.
50 DS 120, 171. Cf. A. Fernandes, 1970, pp. 161-184. Ver também Leontina Ventura, 1992,
I, pp. 241-246.

119
não se recebessem na corte senão escudeiros, e que seria o rei a dar-lhes ca­
valo e armas. Impunha-lhes assim uma especial obrigação de fidelidade
(Leg., p. 198). A relação vassálica dos cavaleiros da mesnada real é também
expressa pelo facto de à sua morte os parentes terem de dar lutuosa a el-
-rei, e lhe restituírem a loriga ou lorigão se os tiverem, assim como o escu­
do e a lança, mas não a loriga do cavalo, as brafoneiras e outras armas
(Leg., pp. 199-200). Do ambiente da casa real da época de Afonso III po­
demos ter uma imagem na narrativa sobre a juventude de Vasco Martins
Pimentel (LL 35 A I) e em dezenas de cantigas de escárnio que aludem ao
serviço de jograis e cavaleiros da corte e ao seu pagamento em dinheiro e
outros bens51.
É muito provável que os cavaleiros da casa real sejam sobretudo jovens
filhos de nobres, mesmo da alta nobreza. Temos ainda a lista dos vassalos
da casa real de D. Dinis, que Afonso III lhe atribui em 1279, e por aí po­
demos saber de quem se tratava, e as «contias» em panos e dinheiro que
recebiam para seu sustento. Aí aparecem Gil Nunes de Chacim, Durão
Martins de Parada, Pero Coelho, Vasco Lourenço Magro, Martim Fernan-
des Cogominho, Fernando Anes Brochado, Martim Pires Curvo, Estêvão
Vasques da Cunha, Martim Martins Zote, Fernão Martins da Cunha, Lo-
po Afonso Alcoforado, Fernão Furtado, Estêvão Anes de Fermoselhe, João
Anes Redondo e outros menos conhecidos52. O exame destes nomes revela
que se trata invariavelmente de filhos de vassalos nobres que frequentavam
ou residiam na corte.
A fidelidade que o rei esperava deles era evidentemente maior do que
dos outros nobres do seu reino, mesmo dos seus ricos-homens. Também
para eles se fizeram narrativas exemplares que contavam histórias de vassa­
los que levaram a sua fidelidade até à abnegação da própria vida e de toda
a sua família, como Egas Moniz, exaltado pelo dedicado e ambicioso trova­
dor da casa de Afonso III, João Soares Coelho53. Era justamente o pai de
Pêro Anes Coelho, da casa de D. Dinis, atrás citado, e o avô do fiel vassalo
que Afonso IV encarregou de matar Inês de Castro (CA, II, 367).

M o n a r q u ia e f e u d a l is m o

Creio, pois, que o rei utilizou os esquemas feudais para estabelecer laços
pessoais com alguns nobres, sobretudo com os cavaleiros da sua mesnada,
os governadores das terras e os alcaides. Tal como aconteceu com os sobe­
ranos capetíngios, a homenagem feudal ou o discurso ideológico sobre as
obrigações decorrentes da vassalidade foram postos ao serviço do fortaleci­
mento monárquico, e não da fragmentação do poder54. Não parece, no en­
tanto, que se possa encontrar qualquer vestígio de um esforço no sentido
de os vassalos do rei apertarem eles próprios os laços de suserania com vas­
salos inferiores, ou seja, de estabelecer mecanismos que em alguma coisa se

51 Sobre os cavaleiros do rei no tempo de Afonso III, ver Leontina Ventura, 1992, I, pp. 113-
-123, 170-176.
52 A. Brancamp Freire, 1916, pp. 57-59.
53 J. Mattoso, 1985, pp. 409-435.
54 E. Bournazel, 1975. Para outros países, ver L. Genicot, 1980, pp. 351-352.

120
assemelhassem aos da «pirâmide feudal». Pelo contrário, como vimos a
propósito dos forais de Melgaço e de Montalegre, o rei exigia que os alcai­
des lhe prestassem homenagem directamente a ele e não ao rico-homem, o
que, de resto, concorda perfeitamente com a política firmemente seguida
por ele de criar estruturas de controlo directo de todas as autoridades infe­
riores e de as tornar independentes dos governadores das terras.

O R EI E O R E G IM E SE N H O R IA L A T É A F O N S O I I

A utilização dos laços feudais para o rei conseguir a especial colaboração de


uma parte importante da nobreza não lhe garantia a sujeição de toda ela.
Como vimos na primeira parte deste parágrafo, muitos senhores do Norte
consideravam-se suficientemente poderosos para se poderem opor ao rei ou
desprezar a sua autoridade. Os princípios do direito senhorial permitiam-
-lhes usar os poderes públicos pelo menos nos seus domínios. Eram prati-
camente soberanos dentro deles. A última parte deste parágrafo pretende,
pois, averiguar como conseguiram os reis impor a sua soberania mesmo so­
bre estes senhores. O processo utilizado não consistiu em recorrer aos vín­
culos pessoais da vassalidade mas em levar às suas últimas consequências o
dever de implantarem a justiça em todo o reino.
Comecemos por notar que os reis do século x i i não põem nunca em
causa o exercício dos direitos senhoriais, quer aqueles que se tinham torna­
do inseparáveis das suas honras patrimoniais, quer os que resultavam da
delegação, teoricamente precária, dos poderes régios nas «terras» dadas em
tenências. Não se fala em parte alguma de o tribunal régio ser uma instân­
cia para a qual se pode apelar para rever a sentença de um senhor no tribu­
nal da sua imunidade, ou do rico-homem na assembleia judicial da «terra».
As primeiras decisões régias que tendem a pôr em causa a plena arbi­
trariedade dos senhores nas honras e coutos são as de Afonso II, e decor­
rem, desde logo, da primeira lei da cúria de 1 2 1 1 : «que o reino e todos
que en’el morassem fossem por ele (pelo rei) regudos e sempre julgados
por el». O âmbito da lei, no entanto, é pouco claro, pois exprime-se aqui o
objectivo que presidiu à criação de «juízes», que é, sem dúvida, uma má
leitura de «juízos» (judicia), no sentido de «princípios jurídicos»55. Não
passa, pois, de uma forma de exprimir o poder legislativo e não o poder
judicial em todo o reino. Mesmo com esta limitação, afirma-se claramente
nas leis seguintes a especial intervenção do rei, nos casos de homizio, quan­
do a justiça régia for requerida por uma das partes (Lei 5), como protector
da integridade da casa (Lei 6), das igrejas e dos mosteiros (Lei 9), dos ho­
mens livres (Lei 19), etc. Como vimos noutra parte, no entanto, é impossí­
vel resolver a constante ambiguidade destas leis quanto ao âmbito da sua
aplicação. Pode legitimamente duvidar-se que a justiça régia chegasse algu­
ma vez a invocá-la para tentar pôr em causa a justiça senhorial, que é im­
plicitamente confirmada quando se estabelece que o morador em herdade
alheia só poderá ter como senhor o senhor da terra (Lei 19, Leg., p. 174).
Afonso II não se contentou, porém, com uma afirmação de princípios.

55 Esta interpretação confirma-se com a versão das O A (Leg., pp. 163-164).

121
Conhecem-se bem algumas das suas acções efectivas neste domínio: as lu­
tas, com suas irmãs que pretendiam exercer direitos régios em territórios
deixados por Sancho I, a prática de exigir a confirmação de muitas cartas
de couto e de alguns forais, a iniciativa de mandar fazer inquirições gerais,
a partir de 1220 , para impedir a sonegação de direitos régios e fixar as
prestações devidas ao rei. São questões bem conhecidas. A sua política não
foi continuada por Sancho II. Durante os últimos anos do seu reinado de-
sencadeou-se uma grave crise que desembocou em guerra civil. Estes factos
são também conhecidos56.

A fo n so III
Já vimos que Afonso II e Afonso III utilizaram as inquirições para impedir
a extensão das imunidades em detrimento dos reguengos e das terras da
Coroa e, ao mesmo tempo, para garantir a sua inteira supremacia sobre to­
das as terras que não estavam directamente sujeitas a ninguém. Impediam
assim os ricos-homens e outros senhores de se apossarem de bens de herda-
dores e de outras terras. Não punham em causa o poder senhorial, mas a
sua proliferação. Todavia, a criação de um corpo de oficiais que intervi­
nham para julgar conflitos entre nobres, ou destes com igrejas e mosteiros,
permitiu-lhes, em certos casos, penetrar nos senhorios para aí perseguirem
ladrões, malfeitores ou inimigos do rei.
Desta prática se queixava já o arcebispo de Braga em 1250 (Leg.,
p. 186). Por seu lado, o bispo do Porto não se queixava só disso mas tam­
bém de os agentes régios contestarem a justiça do bispo no couto do Por­
to. A resposta que o rei dá a este protesto é especialmente interessante,
porque declara que, se o fez, foi apenas para reparar a negligência do juiz
do bispo, ou em virtude do direito de apelação que para ele se podia fazer.
Logo a seguir, o bispo queixa-se de o porteiro do rei penhorar dentro do
couto do Porto; o rei responde que o fez apenas em virtude da negligência
do juiz do bispo, pois ele não queria fazer a devida justiça às partes (Leg.,
p. 188). Ou seja, afirma-se aqui o direito de controlar a justiça senhorial
para suprir os seus defeitos ou rever as suas sentenças.
Apesar dos protestos dos referidos prelados, não parece que o rei esti­
vesse disposto a ceder neste ponto. Deve, no entanto, reconhecer-se que o
caso do Porto é provavelmente excepcional, em virtude dos especiais inte­
resses do rei nesta cidade; não se pode, só partir deste caso, presumir a ha­
bitual e maciça intervenção dos juízes régios nas terras imunes. O funda­
mento teórico do direito que assistia ao rei é por ele expresso numa lei não
datada acerca da jurisdição senhorial e das dúvidas que poderia levantar
a sua legitimidade, embora o que aí se trata não seja o direito de contestar
a justiça senhorial, mas de julgar da sua legalidade em determinado lugar,
o que já era pressuposto pelas inquirições de Afonso II:
«ca outro iuiz não deve conhecer de tal cousa nem deve esto a desembargar
nem ouvi-lo senom aquel per que foi dado o couto, ou aquel que em seu logar
véer, e esto é en’el-rei» (Leg., p. 198).

56 Sobre a crise de 1245-1248, ver a recente revisão, com dados inéditos, por Leontina Ventu­
ra, 1992, I, pp. 400-470.

122
Nem por isso o rei deixa de defender os direitos dos senhores, como se
vê da lei de 1265 sobre as anúduvas, onde determina que elas não poderão
ser exigidas pelos oficiais régios dos que estão em senhorio alheio, ou rece­
bem soldada de seus senhores, dos fidalgos, dos habitantes de coutos e
honras antigas (Leg., pp. 216-217). O mesmo se diga da lei de 1261 (?)
que proíbe o exercício da maladia nos coutos de igrejas ou dos mosteiros
(Leg., p. 209).

D . D in is
É preciso esperar o reinado de D. Dinis para ver o referido princípio ex­
presso com toda a clareza e se tirar dele, como consequência normal, a
possibilidade de intervenção do rei nas terras imunes.
Efectivamente, em 1317, censurando aqueles senhores que ameaçam os
súbditos por eles interporem para o rei o recurso das suas sentenças,
afirma:
«em todalas doações que os reis fazem a alguus, sempre fica aguardado pera os
reis as apelações e a jostiça maior, e outras cousas multas que ficam aos reis, em
sinal e em conhecimento de maior senhorio» (MPHI, doc. 34 = OA III 74, p. 2).

E em 1324 afirma que o porteiro do rei tem o direito de entrar nas honras
para «chamar» e «constranger», da mesma maneira que o juiz o pode fazer
para os habitantes do seu julgado (ibid., doc. 39). Não se deve esquecer,
no entanto, o contexto desta lei. A circunstância que permite ao juiz régio
«chamar» e «constranger» é a protecção ou o acolhimento de criminosos e
malfeitores na terra imune. Compreendem-se bem as razões de tal prescri­
ção na fase final da guerra civil ae 1319-1324. De qualquer maneira não
se afirma nela o direito de o juiz régio julgar, sem mais, os súbditos das
terras senhoriais, mas de perseguir nela os malfeitores que noutros locais
praticaram crimes e aí buscam o refúgio.
De facto, o princípio do livre exercício dos direitos senhoriais nas hon­
ras e coutos legitimamente estabelecidos é constantemente afirmado pelo
rei. Assim, por exemplo, no preâmbulo da ordem para iniciar as inquiri­
ções de 1290, afirma que foram os próprios fidalgos e os eclesiásticos que
viam as suas terras invadidas por outros nobres que pediram a sua inter­
venção (MPHI, doc. 16). Não se tratava só de impedir a proliferação se­
nhorial à custa das terras da Coroa, mas também com o prejuízo de outros
senhores incapazes de se defenderem dos poderosos. Em 1311, ao promul­
gar uma lei em que proíbe aos fidalgos adquirir terras em honras alheias, o
rei reconhece a existência dos direitos senhoriais legítimos e apresenta-se
como protector dos fidalgos de menor categoria e poder (LLP, p. 214). Por
isso, apesar de sustentar uma luta tão renhida e persistente contra a exten­
são das honras57, o rei repete muitas vezes a ideia de que deseja manter a
jurisdição senhorial em todos os lugares onde ela for legítima.
A vigilância régia podia fazer-se nos senhorios particulares por meio de
tabeliães nomeados pelo monarca, que receavam o juramento dos juízes do
lugar, como sabemos se fazia em Amarante, da Ordem do Hospital58.

57 M PHI, does. 18 a 40; Gama Barros, II, pp. 444-447.


58 Rosa Marreiros, 1985.

123
De facto, não se tratava de uma luta contra a nobreza como classe so­
cial, nem de contestar uma das bases na sua superioridade. Pode certamen­
te admitir-se a sinceridade de D. Dinis, ao apresentar-se como defensor da
baixa nobreza, porque também noutro lugar exprime claramente o seu
propósito de preservar o fundamento material da função militar da classe
nobre. Trata-se da lei de 1291, que proíbe aos mosteiros herdarem bens
dos seus professos. E extremamente significativa a justificação que o rei dá
desta medida a que hoje chamaríamos anticlerical. Diz ele que as terras dos
fidalgos
«som minguadas e mui pobres e exerdadas das possissões e das heranças de sas
avoengas», e por isso «nom podem viver em meu reino nem servir-mi tam bem
nem tam compridamente como serviram os filhos d’algo e a outras gentes que
forom ant’eles ós outros reis que forom ante mim, per razom que dizem
que quando sas filhas entram nas ordées e i morrem professas que as ordees veem
aos beens e aas heranças... e per esta razon sae das avoengas e das linhas em
descendendo e enalheam-se pera todo sempre». D aí «tanto prigoo poderia se­
guir, que o reino nom haveria i liidemos defensores quando i mester fosse com
mingua d’haver». Faz, pois, esta lei, «consiirando prol dos meus reinos e dos
meus filhos d’algo e doutras mhas gentes que hão a defender o reino e consii­
rando a ajuda per que o reino podesse seer melhor defeso e melhor emparado
se lhi pefaventuira, acaecesse guerra de mouros e d’outras gentes» (LLP, p. 73).

A mesma ideia se repete em 1309, quando o rei confirma a referida lei.


Com efeito, diz ele, os fidalgos empobrecidos «nom ir(i)am em hoste nem
fariam a mim aqueles serviços que a mim devem pera defendimento de
mha terra» (LLP, p. 73).
Todavia, D. Dinis pretende ser o juiz e vigilante absoluto do exercício
dos direitos dos nobres. Mantém as honras como estão, impede os mais
poderosos de absorverem os inferiores, defende igrejas e mosteiros contra
abusos dos senhores59, proíbe as ordens monásticas de enriquecer à custa
dos seus cavaleiros, persegue implacável e teimosamente os senhores que se
haviam apropriado de direitos régios, averiguando os casos em-sucessivas
inquirições e promulgando sentenças contra todos os abusos, erige-se em
juiz de casos de transmissão hereditária de direitos senhoriais, como na su­
cessão dos Sousas60, ameaça de pena de morte os nobres que se atrevem a
construir torres fortificadas nas suas honras sem prévia autorização61. Ao
fazer tudo isto, porém, pensa não fazer mais do que cumprir a sua obriga­
ção de manter a paz e a justiça, ou seja, a ordem estabelecida. Invoca ainda
a mesma vigilância atenta em 1305, ao promulgar a lei que proíbe aos no­
bres armar cavaleiros a vilãos dos concelhos. Assim se evitará, diz ele, que
os concelhos percam os seus direitos. Mas evita também, mesmo não o di­
zendo, que certos nobres aumentem excessivamente os seus bandos arma­
dos pondo em risco a paz pública e que, por esse meio, introduzam na no­
breza indivíduos indignos. Aqui sim, afirma claramente ser o rei a única

59 Do mosteiro de Castro de Avelãs, 1284 (MPHI, doc. 44); de Vairão, 1311 (J. P. Ribeiro,
1810, I, doc. 75); de Pedroso, 1315 (ibid., doc. 76); etc.
60 Sobre as inquirições, ver em geral e para o caso de Santa Maria: L. Krus et alii, 1989,
pp. 49-62; para o caso de Caminha: M. Helena Coelho, 1990, I, pp. 204-207; para o caso de
Braga: J. A. Pizarro, 1990. Sobre a sucessão dos Sousas, ver L. Krus, 1993 ou 1994, pp. 51-99.
61 M. Barroca, 1989, pp. 21-22.

124
autoridade com o direito de tornar cavaleiro quem não é nobre de sangue.
E ele, portanto, o senhor e juiz do acesso à classe nobre, o único que pode
suprir o defeito do nascimento:
«De direito antigo e das leis dos emperadores que entre nós forom nenhuu ho­
mem do concelho nom pode seer cavaleiro nem haver honra de cavalaria se-
nom per seu rei ou per seu filho que há-de peitar per seu mandado d’el rei»
(LLP, pp. 202-203).

C o n c lu sã o

Mesmo com as precauções tomadas pelo rei, para assim se apresentar como
o defensor da nobreza, do seu equilíbrio interno e da sua posição social co­
mo classe, os fidalgos da nobreza senhorial nem por isso deixaram de con­
siderar que as intervenções de D. Dinis ameaçavam seriamente o próprio
fundamento das prerrogativas aristocráticas. O vigor com que se armaram
e combateram os exércitos régios mostra que desencadeavam uma cólera há
muito tempo contida. Não se deixavam convencer pelos alegados bons
propósitos do rei. De facto, o crescimento do Estado não podia parar.
A reserva dos poderes públicos para o soberano, senão em todos os níveis,
pelo menos como árbitro supremo e absoluto do seu exercício, não podia
deixar de conduzir à contestação do próprio princípio da apropriação de
poderes públicos por pessoas privadas. Faltavam, todavia, alguns séculos
para que o processo de desenvolvimento do Estado atingisse este ponto.

3.2. O trono e o altar


A reivindicação do poder supremo sobre os nobres, que o exerciam nas
suas terras graças à posse de armas, levou a estratégias diferentes das que
foram necessárias para definir o poder temporal face ao poder sagrado. Em
primeiro lugar porque este se organiza e centraliza antes do monárquico; e
depois porque dispõe de meios de persuasão cujo monopólio os tornam
singularmente eficazes. A dificuldade do combate não faz, porém, recuar o
rei. Na verdade, os princípios por ele invocados para se tornar juiz dos no­
bres e o vigilante da sua força tinham também de ser invocados para ques­
tionar o exercício de todos os poderes de constranger e de julgar, qualquer
que fosse a sua origem, mesmo divina. Tanto mais que a efectiva capacida­
de para julgar e punir exigia uma base material que não se compadecia
com a concorrência de forças materiais superiores às do próprio rei. Mes­
mo continuando a afirmar o carácter sagrado do seu poder e tendo, por
isso, de pedir o seu sancionamento aos clérigos, mesmo inspirando-se na
eficaz organização burocrática da Igreja romana, e imitando-a na produção
do direito, mesmo esperando dos seus ministros a absolvição pelos pecados
e cumprindo como bom cristão os preceitos eclesiásticos, o rei não podia
tolerar que a Igreja desempenhasse no reino um poder superior ao seu. De­
pois de lutas mais sinuosas e difíceis do que no terreno dos direitos senho­
riais, com numerosas fases de avanços e recuos, a concentração dos meios
materiais e de gente experimentada acaba por permitir ao rei triunfar tam­
bém neste campo, e inaugurar uma era, se não de total domínio, pelo me­
nos de um razoável entendimento com a Igreja hierárquica.

125
Não se pode esquecer que, na origem das questões entre a Igreja e o
Estado (utilizemos este termo para simplificar, mesmo antes de ele estar
completamente formado), reside, afinal, o facto de ela ser a grande inspira-
dora da ideia da unicidade do poder, atribuindo-o todo a Deus. Surge as­
sim a noção de unicidade do poder temporal e, consequentemente, da cen­
tralização régia. De maneira ainda mais decisiva, a Igreja inspira os
monarcas do Ocidente, organizando-se ela própria num sistema centraliza­
do, que reúne a pouco e pouco os mecanismos necessários para fazer che­
gar todas as ordens do topo até à base, e vigiar atentamente a sua execu­
ção. Antes de os monarcas pensarem em reunir em si todos os poderes
e monopolizarem os mecanismos transmissores da autoridade, já os papas o
faziam em Roma, para instruírem, vigiarem, julgarem e punirem os bispos
de toda a Cristandade, já mandavam os seus legados a toda a parte, já rei­
vindicavam a qualidade de juízes supremos, como instância de recurso, já
reservavam o poder de legislar, já teorizavam acerca da natureza, da origem
e dos limites da sua autoridade, já definiam as relações entre ela e a dos
reis e imperadores, já dispunham, mais de um século antes de aparecerem
as primeiras réplicas no campo civil, de um código jurídico, ordenado, ló­
gico, complexo e baseado em princípios universais (o Decretum de Gracia-
no), já protegiam e vigiavam atentamente os estudos universitários de D i­
reito e escolhiam, preferentemente aí os seus melhores e mais eficazes chefes
e auxiliares O que Gregório VII (1073-1085) não conseguiu pela força dos
princípios, realizou-o Alexandre III (1159-1181) pela capacidade de orga­
nização, preparando o caminho para que viesse a desabrochar a incontestá­
vel autoridade de Inocêncio III (1198-1216).

D e A fo n so I a Sa n ch o I

Assim, os primeiros soberanos da Cristandade que procuram copiar o mo­


delo papal, entre os quais se conta Afonso II, tentam estabelecer um para­
lelo civil do que a Igreja fazia para com os clérigos. Os conflitos surgem
então no plano institucional. Até aí, registam-se questões isoladas e que,
em princípio, não põem o problema dos limites dos poderes. Até aí, os reis
entregam generosamente terras e jurisdições temporais a dioceses, mostei­
ros e ordens militares, numa perfeita inconsciência acerca das fronteiras en­
tre o campo civil e o espiritual. É por isso que Afonso Henriques se faz,
sem qualquer problema, vassalo do Papa (D R 202), concede alegremente
os bens eclesiásticos de Leiria a Santa Cruz de Coimbra (D R 256), e os de
Santarém, aos Templários (D R 2 2 1 ); nomeia os bispos de Lisboa, Lamego
e Viseu sem consultar a Santa Sé62; divide as paróquias de Coimbra (DR
172), sem que isso levante os protestos seja de quem for; até que Inocên­
cio III declara, em 12 0 1 , que o rei de Portugal tinha indevidamente toma­
do disposições acerca do eclesiástico de Leiria (BPIn. III, n.° 89, p. 193),
depois de, dois anos antes, transmitindo decerto informações do arcebispo

62 C. Erdmann, 1935, pp. 52-53.

126
de Compostela, acusar Sancho I e seu pai de outras intromissões no campo
canónico, nomeadamente na escolha dos bispos de Lisboa e de Évora e ao
ordenar a sua sagraçao pelo arcebispo de Braga (ibid., n.° 45).
De facto, Sancho I seguiu o mesmo caminho. Prestou obediência ao
Papa (DS 22 ), mas também confirmou os privilégios eclesiásticos de Santa
Cruz (DS 55), deu à Sé de Coimbra as igrejas construídas e a construir no
termo da Covilhã (DS 9), confirmou a redução do número de prebendas
da Sé de Coimbra pelo seu bispo (DS 34), assim como a divisão dos rendi­
mentos da colegiada de Santarém e a limitação do número dos seus cóne­
gos (DS 52), interveio na nomeação do pároco de Abiul (DS 231), impôs
aos bispos portugueses contribuições para a diocese de Silves, obrigou os
templários e os hospitalários de Silves a pagar dízimo ao bispo e impediu
de aí construírem igrejas (DS 42; BPIn. III, n.° 53), obrigou os clérigos
que saíam do reino a jurar que não iriam à cúria romana (BPIn. III,
n.° 154, p. 296), interveio nas questões entre os cónegos do Porto e o seu
bispo (BPIn. III, n.os 77, 87; CCSP, p. 500), e entre o mosteiro de Santa
Cruz e o bispo de Coimbra, chegando a mandar prender este último
(BPIn. III, n.° 87, pp. 165, 168), além de se envolver noutros problemas
internos da mesma diocese63; enfim, tentou impedir os bispos portugueses
sufragâneos de Compostela de prestar obediência ao metropolita
(BPIn. III, n.° 73).
Todavia, o que provocou as suas questões com o bispo do Porto, Mar-
tinho Rodrigues, não foi a intromissão em questões eclesiásticas, mas a ati­
tude deste acerca do casamento do infante D. Afonso com Urraca de Cas­
tela, sua parente afastada. É evidente que o bispo, por sua vez, tomava daí
pretexto para incomodar o rei e o príncipe com as censuras eclesiásticas,
em virtude de o rei favorecer os burgueses do Porto, revoltados contra a
autoridade episcopal64.
Ora esta questão e uma outra, menos conhecida, com o bispo de
Coimbra, que suscitou violências de ambas as partes, levou o papa Inocên-
cio III a intervir em 1 2 1 1 . Isto deu-lhe ocasião para censurar o rei em ter­
mos gerais, por ele escrever arrogantemente ao Papa e se intrometer em
questões da Igreja que não lhe diziam respeito. Aconselhou-o então a não
usurpar os direitos eclesiásticos, assim como o Sumo Pontífice não usurpa­
va os direitos reais, e deixar-lhe o juízo dos clérigos, assim como ele lhe
deixava o dos leigos65. De resto, o próprio Sancho I reconheceu como to­
dos estes terrenos eram escorregadios. Ao tentar promover a concórdia en­
tre os cónegos de Santa Cruz e o bispo de Coimbra acabou por perder a
paciência com os meandros da argumentação canónica. Desabafou: «Não
quero ouvir mais [...] Este negócio não é para leigos» (BPIn. III, n.° 87,
p. 168). De facto, a confusão dos poderes tinha de cessar. Impunha-se a
delimitação. Mas foram precisas muitas lutas antes de ela se poder realizar
na prática.

63 Potthast, 1487-1489 = SBP, 1810-1812, duas das quais estão publicadas por extenso em
MHV, I, n .°4 4 9 , 450. Cf. Teresa Veloso, 1988, pp. 366-367.
64 J. A. Ferreira, 1923, I, pp. 190-202; A. E. Reuter, 1928, pp. 7-11; M. de Oliveira, 1959,
pp. 43-46.
65 Potthast, n.° 4187 = SBP, n.° 1811.

127
Afonso II: o poder temporal e o poder espiritual
Quem primeiro tentou definir os campos, em termos legais, foi Afonso II,
adoptando certamente conceitos que lhe eram sugeridos pelo chanceler Ju-
lião e alguns dos quais já tinham sido objecto de concessões parciais de
privilégios por parte de Sancho I66.
Efectivamente, as leis de 12 11 isentam os clérigos dos tribunais civis
(Lei 12 ) do pagamento de certas colheitas e da prestação de serviços nos
castelos e da atalaia (Lei 14), de dar pousadia a oficiais régios e de pagar
tributos e foros ao rei (Lei 17); põem em vigor o princípio de que os cléri­
gos devem ser julgados no tribunal eclesiástico (Lei 12) e declaram que o
rei submeterá à confirmação do bispo a nomeação de clérigos por ele feita,
em virtude do direito do padroado (Lei 9). Além disso, em 1218 concede
solenemente a todas as dioceses do reino o dízimo dos rendimentos dos re-
guengos67. No sentido inverso, proíbe as ordens e os mosteiros de comprar
bens fundiários (Lei 10 ), recusa-se a aceitar os «decretos» de Fr. Soeiro Go­
mes acerca da confiscação de bens de hereges (Leg., p. 180), e reivindica
perante as infantas, mesmo protegidas por todos os poderes eclesiásticos, o
direito de reservar para si o senhorio dos bens legados por Sancho I.
A aplicação do princípio da separação mostrava-se difícil porque as infantas
recorriam ao Papa, porque os funcionários régios consideravam certos bens
eclesiásticos sujeitos às colheitas68, e porque, na questão com o arcebispo
de Braga, Estêvão Soares da Silva, o rei ou os seus partidários não resisti­
ram à tentação de empregar a força, por intermédio de gente dos conce­
lhos de Coimbra e de Guimarães69.
A dificuldade vinha de dois lados: a Igreja tendia a interpretar os privi­
légios de isenção do foro, do serviço militar e das imposições fiscais à luz
dos direitos senhoriais, ou seja, tendia a transformá-los em jurisdição pró­
pria sobre estas matérias, o que o rei não podia deixar de considerar como
usurpação. Assim, os tribunais eclesiásticos procuram alargar constante­
mente o seu âmbito: não apenas sobre os clérigos e as causas espirituais
(heresia, juramento falso, legados pios, causas matrimoniais) que se podiam
transformar facilmente em formas de pressão sobre leigos, mas também so­
bre os bens eclesiásticos, o que os tribunais civis dificilmente podiam acei­
tar, se a sentença causava prejuízo a leigos70. A isenção do serviço militar71
transforma-se em reclamação de dispensa, não só para os clérigos mas tam­
bém para os colonos das suas terras, mesmo que não se situem dentro dos

66 D S 72, de 1194, sobre o julgamento de clérigos pelo bispo de Coimbra; D S 79, sobre o jul­
gamento dos de Lisboa; D S 89, isentando os clérigos de Guimarães da «voz e coima»; D S 201,
isentando os cónegos de Coimbra e os regrantes de Santa Cruz da colheita e de outros tributos e
obrigações; D S 202, dispensando o clero de Coimbra e de todo o reino de ir ao fossado ou a ou­
tras expedições, excepto em casos de invasão de Mouros; D S 204, concedendo várias imunidades
aos cónegos de Guimarães.
67 Publicados em A. D. de Sousa Costa, 1963, pp. 67-73.
68 Bula Quod solite salutationis, de 22 de Dez. 1220, in MHV, II, n.° 343 = A. D. Sousa Cos­
ta, 1963, pp. 94-96.
69 J. A. Ferreira, 1928, I, pp. 367-407; A. E. Reuter, 1928, pp. 16-21; A. D. de Sousa Costa,
1963, pp. 91-109.
70 Gama Barros, II, 190-231.
71 Fortunato de Almeida, 1967, p. 160.

128
coutos, e, consequentemente, a recusa de prestar o serviço de anúduva para
a reparação de muralhas e castelos72. Finalmente, a isenção fiscal serve de
pretexto para recusar contribuições como a colheita, ou tributos para a
construção de pontes e caminhos73, e reforça a negativa das anúduvas.
O direito de asilo dos perseguidos pela justiça nos recintos sagrados irrita
os meirinhos e alcaides que vêem assim escapar-lhes os criminosos74.
Por outro lado, as concessões feitas pelos reis, mesmo por Afonso II,
também se transformam elas próprias em fontes de conflito: os mordomos
régios nem sempre entregam os dízimos75, e a sua falta serve de pretexto
para censuras e questões; a isenção de colheitas, anúduvas, talhas, etc., dá
lugar a dúvidas quanto à sua aplicação em casos concretos76.
O mais grave, porém, talvez não fosse a dificuldade de delimitar os
campos, que se sobrepunham em matérias tão numerosas e cujos detento­
res tentavam alargar constantemente. A criação de uma burocracia e de
uma hierarquia fortemente organizada nas dioceses, com o apoio do papa­
do, as tensões entre as diversas forças que no interior delas também exis­
tiam, levantavam graves questões internas dentro da própria Igreja, opondo
os cónegos ao bispo, os religiosos isentos à autoridade diocesana ou uns
contra os outros, as confrarias contra párocos e mosteiros, bispos que não
se entendiam quanto às fronteiras das suas dioceses ou contestavam a auto­
ridade do metropolita, e assim sucessivamente. Ora os contendores que se
opõem uns aos outros por razões de princípio ou por ambição pessoal não
resistem à tentação de procurar apoio ora na autoridade civil local ou na­
cional, ora na autoridade papal, ou mesmo na protecção dos soberanos vi­
zinhos, como o rei de Leão. E, assim, a intervenção das autoridades dos
concelhos, dos mordomos régios, dos membros da cúria, dos clérigos do
rei, para apoiar uma das partes em litígio, suscita da parte da outra o re­
curso a Roma e, para melhor atingir os seus fins, leva-a a acusar a autori­
dade régia em bloco. Assim, os conflitos envenenam-se, do lado do rei ou
dos seus homens, com violências e represálias, e do lado dos bispos, com
excomunhões, interditos, recusa da sepultura eclesiástica, recurso à maior
severidade das penas em matéria de impedimentos matrimoniais. A divisão
dos próprios clérigos, que em alguns casos não acatam as sentenças de ex­
comunhão e de interdito, e por isso dão mais força às autoridades civis,
também não contribui para encontrar soluções pacíficas e duradouras.
E assim as acusações formuladas nas bulas papais só revelam, geralmen­
te, as razões de uma das partes, ocultando as das outras. Esquecem sobre­
tudo um aspecto fundamental do problema, que é a invasão de campos
antes pertencentes pacificamente aos tribunais concelhios e régios, por um
processo de extensão constante e da jurisdição eclesiástica, análogo ao que
impulsionava os senhores a multiplicar as honras.

72 Cf. concordata de 1289, n.° 9, in LLP, p. 345; de 1309, n.° 6, LLP, p. 157.
73 Cf. LLP, pp. 129-130 de 1309; G. Pereira, 1885, does. 34 e 35 de 1309 e 1311; M. H.
Coelho, 1983, doc. 19 de 1312.
74 Gama Barros, II, pp. 239-246; L. M. Duarte, 1990.
75 Artigos de 1267 contra Afonso III, n.os 7 e 10; Herculano, 1980, III, pp. 132-133; suple­
mento à concordata de 1289, n.° 1, in LLP, p. 364.
76 Ver os documentos citados na nota 73.

129
A prova de que assim é encontra-se facilmente examinando as bulas
papais que tentam unir as forças clericais divididas: as que advertem ou,
mesmo, excomungam clérigos e dignitários eclesiásticos que colaboram
com o rei, como os conselheiros de Afonso II77, que censuram bispos e ou­
tros membros do clero por não acatarem sentenças de excomunhão e inter­
dito78, que intervêm mais concretamente nas questões entre mestre Vicente
e o bispo de Lisboa79, em torno da eleição do bispo de Lisboa depois da
morte de D. Soeiro (1234), ou da eleição do mestre João Raolis, deão de
Lisboa80, dos conflitos entre dioceses81 e entre os bispos e cónegos82, das
acusações feitas pelo bispo do Porto, Pedro Salvadores, contra Franciscanos
e Dominicanos83, e assim sucessivamente.
Daí os aspectos complicados e, mesmo, contraditórios destas questões,
a proliferação dos conflitos sustentados por interesses muitas vezes alheios
à oposição entre o rei e os prelados, as bruscas ausências de documentação
que não permitem saber como findaram os pleitos, as reconciliações apa­
rentemente inesperadas.
De facto, a controvérsia não podia cessar enquanto o poder régio não
tivesse coordenado suficientemente os mecanismos da actuação dos seus
funcionários e não lhes fornecesse instruções uniformes e constantes; e, por
outro lado, também não podia abrandar enquanto nas dioceses se não ti­
vessem definido com algum rigor as regras das promoções e os direitos das
diversas instituições e autoridades, de modo a estabelecer um certo equilí­
brio entre as diversas forças que nelas actuavam84.

A crise de 1245
Ora, a crise de 1245 levou uma parte dos bispos do reino a pedir uma in­
tervenção decisiva da Santa Sé para poderem colocar no trono português
um rei favorável à Igreja e que ao mesmo tempo a defendesse dos abusos e
das violências que sofriam constantemente por parte de muitos nobres
e outros leigos85. Como é sabido, o conde de Bolonha e irmão do rei, pro­
vavelmente com o apoio da corte francesa onde então reinava São Luís, e
por intrigas nas quais ele próprio deve ter desempenhado papel relevante86,
foi nomeado por Inocêncio IV curador e defensor do reino, por deposição
de Sancho II, alguns dias depois de se ter encerrado o concílio de Lião,

77 A. D. de Sousa Costa, 1963, notas 209, 228, 229, 232, etc.


78 Ibid, notas 202, 230, 260, 302a, 302b, 310, 311, etc.
79 Ibid., notas 157, 160, etc.
80 Ibid., notas 163, 283, etc.
81 Ibid., notas 296, 429, 444, 445, 446, etc.
82 Ibid., notas 282, 448, 597, etc.
83 Fr. Manuel da Esperança, 1656, I, pp. 397-403; Fr. Luís de Sousa, 1866, III, caps. 9-13.
84 Depois de publicado este livro, M. T. Veloso, 1988, defendeu em Coimbra uma tese de
doutoramento sobre a matéria que aqui tratamos. Ignorou, todavia, os meus pontos de vista e
adoptou uma perspectiva que faz recuar a problemática para um estádio anterior àquele em que a
deixou Herculano.
85 Sobre os aspectos nacionais e civis da crise de 1245, ver os novos dados recolhidos e apre­
sentados por Leontina Ventura, 1992, I, 399-470.
86 Herculano, 1980, II, pp. 489-506; L. G. de Azevedo, 1944, V, pp. 92-99; Solange Corbin,
1945, pp. 159-166; Patricia A. O. de Baubeta, 1988.

130
onde foi também solenemente deposto o imperador Frederico II87. A entre­
ga do poder foi precedida pelo solene juramento do conde em Paris, consi­
derado normalmente, desde Herculano, como a expressão de que os prela­
dos pretendiam com ele sujeitar o novo rei à tutela eclesiástica88. Ora, uma
leitura desprevenida deste documento mostra, peio contrário, que os com­
promissos são bastante vagos e se destinam fundamentalmente a instaurar
a paz e a justiça no reino. As exigências dos bispos consistem sobretudo em
pedir especial protecção para os bens e as pessoas eclesiásticas. As medidas
interpretadas como de tutela resumem-se à promessa de obedecer à Igreja
romana (n.° 13) e de ouvir o conselho dos bispos que o rei puder chamar,
na medida em que o tempo e o lugar o aconselharem (n.° 14). Mas o con­
de não se esquece de ressalvar os direitos do rei e do reino (n.° 16)89.

Afonso III
As circunstâncias em que o novo governo se iniciou, e sobretudo a invul­
gar capacidade administrativa de Afonso III, permitiram-lhe de facto paci­
ficar o reino, mas fê-lo, como vimos90, à custa da implantação de um siste­
ma de controlo eficaz das autoridades locais, por meio de intermediários
encarregados de as vigiarem. Ora este processo não podia ter deixado de se
revelar rapidamente como uma ameaça contra aquilo a que os clérigos cha­
mavam a «liberdade da Igreja»91.
Assim o sentiram os bispos que de tais procedimentos se queixaram
nas cortes de Guimarães de 1250 (Leg., pp. 185-189). Apesar disso, e mes­
mo não esquecendo os conflitos que depois se agravaram no Porto entre o
rei e o respectivo bispo92, parece não se encontrarem vestígios de conflitos
graves até 1266. De facto, ainda em 1262 os bispos se dirigiram ao Papa
pedindo-lhe para legitimar o segundo casamento do rei com Beatriz de
Castela, logo que morreu a sua primeira mulher, a condessa Matilde93.
O bispo de Évora cedeu parte dos dízimos da sua diocese durante dez anos
para ajudar a reedificar as muralhas de Beja94. O rei interveio frequente­
mente para acudir a protestos de igrejas e mosteiros contra os abusos dos
nobres95.
Em 1266, porém, rebenta a luta que se vinha preparando com a edifi­
cação de duas instituições fortemente organizadas. Desta vez, ao contrário
do que acontecera nas décadas anteriores, os bispos estão quase todos uni­

87 Ph. Pouzet, 1929, pp. 281-318.


88 Herculano, 1980, II, pp. 316: «o acto equivalia quase a uma abdicação da autoridade real
aos pés do episcopado».
89 Publicado em A. D. de Sousa Costa, 1963, pp. 444-446.
90 Supra, parte II, n.os 2.3. e 2.4., pp. 87, 103-103, deste volume.
91 Sobre as relações entre Afonso III e o clero, veja-se a recente tese de doutoramento de
M. Alegria F. Marques, 1990, com um tratamento atomizado e confuso da matéria, de pouca uti­
lidade do ponto de vista interpretativo, mas com uma grande quantidade de referências inéditas e
a publicação de alguns documentos importantes.
92 Herculano, 1980, III, pp. 64-69.
93 M L IV, f 2l6v; Bula In nostra: SBP, n.° 1963, publicada em RP, XIII, 376.
94 G. Pereira, 1885, doc. 11.
95 Leg., pp. 190, 205-209, 221, de 1251, 1261 e 1272. Algumas intervenções concretas: Vai-
rão, 1269, 1274: T T , Sala 21, Vairão, m. IV; Cete, 1260: TT , Cete, m. II, doc. 14.

131
dos contra o rei96 e apresentam em Roma um extenso libelo em quarenta e
três artigos, com outras tantas acusações em matéria de opressão contra as
liberdades eclesiásticas, mais cinco artigos acerca de matérias civis.
Participavam nessa acusação todos os bispos do reino, excepto o de
Lisboa, que era D. Mateus, o antigo mestre-escola da Sé. Parece que agiam
por iniciativa do arcebispo de Braga, Martinho Geraldes97.
Do teor das acusações verifica-se que uma parte diz respeito a reais
problemas de jurisdição, aparentemente agravados por juízes e meirinhos
régios passarem a sentir-se detentores de um poder seguro, e menos im­
pressionados do que nas décadas anteriores pelas penas da excomunhão
lançadas pelos bispos e seus delegados (art.os 2 2 , 25, 33, 34, 36, 38,
42)98.
Outra resulta de estar ainda em processo de implantação o pagamento
dos dízimos, mal aceites pelos fiéis e contra os quais os concelhos procura­
vam lutar, apoiados, decerto, por magistrados régios (art.os 2 , 5 , 6, 7 e 10 ).
Um terceiro grupo de questões procede da senhorialização régia realizada
desde 1258 e que não podia tolerar as extensões da propriedade e da juris­
dição eclesiástica, em detrimento das terras da Coroa (art.os 4, 20 , 23, 24,
29, 30, 34). O último engloba os problemas relacionados com o exercício
das chamadas liberdades ou privilégios eclesiásticos nas matérias indicadas
e que os oficiais régios se mostram zelosos em reduzir ao mínimo (art.os 4,
9, 12 , 20 , 22 , 26, 28, 31, 33, 35, 36, 37, 42, 43).
À nova capacidade de coligação dos bispos, que até aí faltara, não cor­
responde agora tanta prontidão em os apoiar, da parte do Papa, como na
época de Inocêncio III, Honório III, Gregório IX e Inocêncio IV. As acu­
sações não são aceites sem serem primeiro examinadas, e as ameaças de
censura pontifícia prevêem prazos, atenuações, recursos. O Papa, não con­
fiando totalmente no relatório dos prelados, espera alguns meses para en­
viar um delegado para averiguar o fundamento das acusações; suspende
temporariamente a excomunhão decretada pelo arcebispo de Braga; envia
uma bula prudente ao rei99. Esta reserva permite um prolongamento das
negociações durante um período suficientemente longo para mudarem os
seus protagonistas. Afonso III serve-se habilmente desses casos favoráveis
com a sua costumada astúcia. De facto, entre 1268 e 1279 sucederam-se
seis papas no sólio pontifício. No mesmo período, os bispos portugueses
foram quase todos substituídos: o rei, que já em 1267 era acusado de fazer
pressão sobre os cabidos para serem eleitos bispos da sua confiança (art.os 1 e
41), não deixou de aproveitar a ocasião para propor clérigos que o apoia­

96 Discute-se acerca da posição de alguns bispos e dignitários eclesiásticos para com Afonso III.
Ver uma minuciosa análise dos casos de Pedro Hispano e de Fernando Anes de Portocarreiro em
José Antunes, 1990; id,> 1993.
97 A. E. Reuter, 1928, pp. 61-70. O libelo foi resumido por Herculano, 1980, III, 131-140;
ver, a partir da documentação pontifícia, RP, XI, 669. Publicado por M. Alegria F. Marques,
1990, pp. 499-521.
98 Já èm 1250 o bispo do Porto dizia que os «meirinhos e outros homens do rei não dão nem
uma palha pela excomunhão»; e o rei responde que isso é uma temeridade a reprimir: Leg.,
p. 189.
99 Bula Qui de $alute\ SBP, n.° 1978 = Potthast, n.° 20 431, publ. nos RP, XI, p. 162.

132
vam, como Durando Pais em Évora (1267)100. Quando finalmente o con­
flito chegou ao desenlace, com a nomeação do franciscano Fr. Nicolau pa­
ra dar a última sentença, estava-se já no fim da vida de Afonso III101. Ele
conseguiu ir adiando algum tempo a sua execução, que só se tornou defi­
nitiva quase no fim do ano de 1277. Em Janeiro de 1279, já muito doen­
te, o rei fazia perante vários eclesiásticos declarações tendentes a um com­
promisso, oferecia reparações e obtinha a absolvição para poder morrer
tranquilo102.

D . D in is
Assim, D. Dinis recebia com o trono uma situação não completamente re­
solvida, mas já preparada para o apaziguamento. Foi talvez a sua ideia acer­
ca da supremacia régia, o seu propósito de edificar uma burocracia estatal
eficaz e a estratégia de preferir soluções de fundo, aquilo que retardou,
mesmo assim, uma solução rápida. De facto, teve o bom senso de buscar a
via dos acordos colectivos com os bispos, nas chamadas concordatas de
1289 e de 1309.
A primeira foi preparada por uma reunião dos prelados na Guarda em
1282103, mas a Santa Sé demorou o seu tempo a confirmá-la, até se chegar
finalmente ao texto de 1289104. Este retomava a maioria dos pontos das
queixas apresentados ao Papa em 1267. As dificuldades nem assim cessa­
ram: em 1292 surgem novos protestos dos bispos do Norte (Porto, Guar­
da, Lamego e Viseu), que o rei resolve, atendendo às novas acusações pelo
meio tornado habitual desde 1282. Renovaram-se em 1309, com o bispo
de Lisboa, o que deu lugar a um novo texto chamado habitualmente a
«concordata dos 22 artigos» que, apesar de não ter tido o acordo de todos
os bispos, parece não haver suscitado resistências generalizadas. Só o de Vi­
seu não se conformou. Redigiu um De libertate ecclesiae para exprimir a
sua oposição105.
As questões com Fr. Estêvão, bispo do Porto e, depois, de Lisboa, pa­
rece que pouco tiveram que ver com os problemas de outrora106. Entretan­
to, multiplicando-se as eleições episcopais de clérigos afectos ao rei, este
passava a ter do lado do poder sagrado alguns dos seus melhores auxiliares,
naturalmente dispostos a encontrar, eles próprios, soluções para os confli-

10? As perturbações no catálogo episcopal de Coimbra, que não chega a aceitar a transferência
de Mateus Martins, de Viseu, antigo capelão régio em 1268 (que fica na cúria romana desde esta
data até 1279, para depois regressar a Viseu), e no de Lamego, onde não se chega a confirmar D o­
mingos Pais (1217-1274), vêm certamente agravar as relações entre o rei e a cúria romana
(cf. A. E. Reuter, 1928, p. 75; M. Gonçalves da Costa, 1977, I, pp. 136-137; Fortunato de Almei­
da, 1967, I, pp. 270-273, 277; M. Alegria F. Marques, 1990, pp. 258-262). Em Lisboa continuou
D. Mateus até 1282.
101 O relatório de Fr. Nicolau, utilizado por Herculano, 1980, III, pp. 183-188, foi publicado
por M. Alegria F. Marques, 1990, pp. 525-573.
102 ML, IV, f. 259.
103 A. E. Reuter, 1928, pp. 84-85.
104 Ibid ., pp. 86-87.
105 A. Garcia y Garcia, 1976, pp. 219-281.
106 F. Félix Lopes, 1962-1963, pp. 62-71.

133
tos que continuavam, inevitavelmente, a surgir a nível local, entre clérigos
zelosos ou ambiciosos, e mordomos, alvazis ou meirinhos não menos agres­
sivos107.
Além disso, D. Dinis teve a habilidade de procurar na própria legisla­
ção canónica as regras para a delimitação das duas jurisdições. O tribunal
régio compilou essas regras, fez as necessárias distinções e manteve firme-
mente o princípio de reivindicar a jurisdição temporal. A codificação des­
ses princípios deve ter sido largamente difundida pelos tribunais locais para
que pudesse ser aplicada por toda a parte108.
Por outro lado, depois da luta desenvolvida por Afonso III para evitar
a extensão dos senhorios eclesiásticos, e devido à vigilância que a partir de
então fizeram também todos os detentores de terras imunes para delas ex­
pulsarem a concorrência jurisdicional dos privilegiados109, acabou por dis­
suadir as instituições eclesiásticas de se apropriarem de terras da Coroa.
A Igreja tinha de se contentar com a recepção dos dízimos, primícias e ou­
tras contribuições que, de facto, um rei como D. Dinis se preocupou ma­
nifestamente em pagar110. De resto, as leis contra a amortização da pro­
priedade eclesiástica, que já tinham sido iniciadas por Afonso II ao proibir
as ordens e os mosteiros de comprar bens fundiários (Leg., p. 169), aplica­
das também por Sancho II (Leg., p. 182), mas que Afonso III não parece
ter urgido, foram agravadas e completadas por D. Dinis desde a lei de
1286 (LLP, p. 162 = OA, II, 14, p. 174), sucessivamente regulamentada a
partir de 1291111. Embora ela não impedisse totalmente as aquisições do
clero, dotou o Estado de um instrumento legal adequado para poder inter­
vir. Efectivamente, a ampliação do património eclesiástico tornou-se muito
mais moderada a partir daí.

O PA D RO A D O R É G IO E A N O M EA ÇÃ O D O S B ISP O S

O rei, contudo, não se contentou com a neutralização de um poder con­


corrente em muitas áreas que considerava suas. Fez tudo para o utilizar em
seu próprio favor. Todos os reis se interessaram por isso, desde que Afon­
so II procurou regulamentar o padroado das igrejas régias112. Mas Afonso
III sistematizou a reserva deste privilégio, apropriando-se do padroado de
todas as igrejas e mosteiros que até então não tinham senhor, e muito par­
ticularmente daquelas cujo pároco era eleito, como se pode ver pelas inqui­

107 Ver, por ex.: J. P. Ribeiro, 1813, III/2, doc. 37, de 1286; G. Pereira, 1883, does. 24 e 36
de 1309 e 1311.
108 LLP, pp. 57-60 (parte delas copiadas ibid., p. 380), 130-132, 132-136.
109 São inúmeros os prazos, aforamentos e outra documentação da época que proíbem a trans­
missão da propriedade a privilegiados. Apenas um exemplo do mosteiro de Vairão de 1304:
J. Mattoso, 1985, pp. 145-148. A lei de 1261 de Afonso III dá cobertura legal a esta exclusão:
Leg., p. 209. Renovada noutros termos por D. Dinis em 1311: LLP, p. 214.
110 Does. de 1281, 1294, 1304, 1307 e 1308, respectivamente em P. de Azevedo, 1930, doc.
57; M. H. Coelho, 1983, doc. 13; ]. P. Ribeiro, 1836, V, p. 379; TT . Gav. VII 10.20 (G TT, II,
p. 485); C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 27.
111 LLP, pp. 73-74 = OA, II, 15, p. 176. Ver também LLP, p. 205 de 1305, pp. 74-75 c 209-
-210 de 1309. Gama Barros, II, pp. 270-280.
112 A. D. de Sousa Costa, 1963, nota 195; Leg., pp. 168-169. Para Sancho II, ver L. G. de
Azevedo, VI, pp. 181-187.

134
rições113; A reserva dó padroado das novas igrejas por altura da concessão
de forais tornou-se praticamente de regra desde 1258114. O rei aproveitou-
-se disso para designar párocos e abades da sua confiança, o que não dei­
xou de levantar alguns protestos em 1267 (n.° 1) e 1289 (n.° 1: LLP,
p. 342). As listas de igrejas do padroado régio contribuíram para fixar os
direitos115.
Em segundo lugar, reduziu-se a liberdade de eleição dos bispos que até
meados do século xm foi de regra. A partir de 1266, como vimos, o nú­
mero de bispos que foram eleitos por sugestão do rei tornou-se cada vez
mais numeroso. Desde 1267 surgem também bispos nomeados pela Santa
Sé para substituir os que morrem na cúria. Os primeiros destes são francis-
canos e distinguem-se mais pelo seu zelo pastoral do que pela concorrência
ao poder temporal116. Surge assim um episcopado favorável à centralização
do poder régio, e por vezes tão colaborante nas empresas do monarca co­
mo Durando Pais, de Évora; Mateus, de Lisboa; Domingos Anes Jardo,
de Lisboa; João Martins de Soalhães, em Braga e Lisboa; Martim Pires de
Oliveira, também em Braga; Estêvão Anes Brochado, em Coimbra; e assim
sucessivamente. As divergências, resultantes, em última análise, da capaci­
dade de auto-organização da Igreja desenvolvida graças ao seu quase mo­
nopólio intelectual desde a época gregoriana, acabaram por se absorver
quando os reis, utilizando também os intelectuais e os juristas, consegui­
ram copiar para seu benefício a poderosa máquina administrativa montada
pela Igreja sob a orientação da cúria romana.

A S O R D E N S M IL IT A R E S

O último capítulo da domesticação do poder sagrado por parte do rei con­


siste na tutela que ele adquire sobre as ordens militares. O enorme poder
por elas acumulado em virtude da posição que tinham desempenhado na
defesa do gaís durante as grandes lutas do século xn (no caso aos Templá­
rios e de Évora-Avis), e durante as investidas almóadas e depois na con­
quista do Alentejo (no caso dos Espatários e dos Hospitalários)117, consti­
tuía uma concorrência perigosa para o rei. Já durante a época de Sancho I
houvera alguns conflitos com Templários e Hospitalários (DS 42), mal co­
nhecidos, e que acabaram por se absorver118. Com Afonso II, não é certa­
mente alheio à questão com as infantas o facto de elas terem procurado o
apoio dos Templários e dos Espatários, o que não agradou de modo algum
ao rei119. Com Afonso III, parecem cessar os conflitos ou, pelo menos, no­

113 Esta questão foi cuidadosamente estudada, para a arquidiocese de Braga, por M. Alegria
F. Marques, 15190.
114 Leg. pp. 691, 693, 705, 712, 730, 731, etc.
115 Rol de 1270: TT, Gav. X. 3.15 (GTT, I, p. 589); cf. rol de 1320; F. de Almeida, 1971, IV,
pp. 90-144.
nó p r y asco para a Guarda, 1267; Fr. João Martins para a Guarda, 1278; Fr. Telo para Braga,
1279; Fr. Estêvão para o Porto, 1310, e Lisboa, 1313.
117 Só os domínios dos Hospitalários foram estudados por J. A. de Figueiredo, 1800. Mas exis­
te um excelente mapa dos domínios de todas elas em R. de Azevedo, 1937, aqui reproduzido no
mapa 16.
118 Em 1210 são eles que têm uma parte do tesouro régio (DS 194).
119 Leg., p. 170, n.° 11; A. D. de Sousa Costa, 1963, notas 64 e 79. Mas confia a ambos a
guarda dos bens dos príncipes até eles serem maiores: A. C. de Sousa, 1739, I, p. 35.

135
tícias claras acerca deles. Mas não pode deixar de se notar que, à sua mor­
te, o rei reserva uma parte de certos bens para indemnizar os Templários,
sem dúvida por tê-los prejudicado (ML, IV, f. 255). Em Évora havia con­
seguido que os freires de Avis lhe cedessem o alcácer novo depois de o te­
rem construído120. Captou de tal modo a simpatia de alguns freires, como
o hospitalário Afonso Peres Farinha, que ele se tornou um dos seus gran­
des auxiliares e confidentes121. Realizou acordos com os freires de Avis e
Santiago para o Alentejo e o Algarve, que favoreciam nitidamente o rei122.
Estabeleceu várias convenções com os Éspatários acerca dos direitos senho­
riais no Alentejo123. Usou, portanto, da sua habitual astúcia na resolução
dos problemas por acordos parciais e pragmáticos.
D. Dinis, porém, não se contentou com estas medidas pontuais. Como
em tudo, sistematizou e procurou institucionalizar um poder efectivo sobre
as ordens militares. O seu esforço orientou-se sobretudo no sentido de tor­
nar os Éspatários portugueses independentes do mestre castelhano. Conse­
guiu que, em 1288, fosse eleito um provincial português, mas o mestre
contestou a separação, que foi revogada pela Santa Sé em 1295. Em 1314
os Éspatários portugueses tentaram de novo a separação124 e, a partir de
1317, uma embaixada portuguesa, na qual D. Dinis pôs o maior empe­
nho, procurou em Roma obter o sancionamento da Santa Sé125, sem toda­
via conseguir senão um adiamento da questão até ao século xv. Mas a pro­
víncia portuguesa foi, desde então, um facto consumado.
Em segundo lugar, o rei procurou tornar efectiva a sua autoridade so­
bre os Templários. Parece que já em 1288 conseguiu a eleição de um pro­
vincial autónomo126. Mas a extinção da ordem pela Santa Sé em 1312 ofe­
receu-lhe a ocasião de realizar os seus propósitos da maneira mais prática.
Primeiro, parece ter tentado apoderar-se de todos os bens da ordem supri­
mida. Depois, tratou com a Santa Sé a criação de uma ordem portuguesa
para a qual passaram os bens dos Templários, o que conseguiu em 1319,
depois de laboriosas negociações127. Foi, como se sabe, a Ordem de Cristo,
que ficava assim praticamente à mercê da Coroa.
Quanto às outras duas ordens militares, a de Avis sempre tivera rela­
ções bastante superficiais com a de Calatrava128. A do Hospital parece não
ter preocupado o rei, talvez porque os priores portugueses, na linha de
Fr. Afonso Peres Farinha e do seu sucessor, sempre estiveram muito próxi­
mos da Coroa, e agiram com suficiente independência para com o grão-
-comendador da Hispânia. O auxílio que D. Dinis recebia deles eviden-
ciou-se nas suas lutas com o infante D. Afonso, durante as quais
colaboraram activamente no cerco de Portalegre e de outras fortalezas129.

120 G. Pereira, 1885, doc. 13.


121 A. Herculano, 1980, II, pp. 622-626; III, pp. 186-187.
122 Silva Marques, Supl., does. 287, 293; A. Iria, 1956, p. 155.
123 Silva Marques, Supl., doc. 6; C. M. Baeta Neves, 1980, does. 2, 3.
124 Gama Barros, II, pp. 307-311.
125 Documentação publicada nos MPV, II, pp. lvi-lxxxix .
126 Gama Barros, II, pp. 299-300.
127 Ibid ., pp. 323-333; documentação publicada nos MPV, II, pp. viii -lvi.
128 M. de Oliveira, 1956, pp. 51-64.
129 J. A. de Figueiredo, 1800, II, p. 331.

136
A supremacia do rei sobre as ordens militares foi implicitamente reco­
nhecida pela Santa Sé ao conceder, em 1320, a D. Dinis o produto de
uma parte das rendas de todas as igrejas do reino, para utilizar nas despesas
da guerra contra os Mouros, nomeadamente no combate à pirataria sarra­
cena. Esta concessão deu origem a uma célebre lista dos rendimentos das
igrejas do reino publicada por Fortunato de Almeida130.

O REI E O PAPADO

A progressiva afirmação do poder político perante o religioso, que temos


vindo a observar, corresponde às alterações da atitude que a monarquia vai
tomando face ao papado. Apesar do episódio do «bispo negro» contado na
Gesta de Afonso Henriques, que mostra simbolicamente a irritação causada
pelas intervenções dos legados pontifícios em Portugal (GAH, pp. 40-46),
não se pode esquecer que o rei se fez vassalo da Santa Sé (D R 202) e lhe
pagou fielmente o censo prometido, embora as suas contas não coincidis­
sem com as da cúria romana131.
Estas manifestações de submissão não foram, porém, suficientes para o
Papa reconhecer ao nosso primeiro rei a sua dignidade, mostrando-se assim
bem mais exigente do que o próprio imperador Afonso VII, que o fez pelo
menos desde 1143. Com efeito, a cúria romana persistiu em dar-lhe o títu­
lo de dux até à conhecida bula Manifestis probatum de 1179. Não, decerto,
para defender hipotéticos direitos leoneses, mas para sublinhar que só a ela
competia decidir nessa matéria. Coisa que talvez não preocupasse demasia­
do Afonso Henriques, que concebia o seu poder como de natureza guerrei­
ra, mais do que sagrada. Não se sabe se chegou a receber a Coroa confor­
me o cerimonial previsto no Pontifical romano132.
Quanto a Sancho I, embora ousasse dirigir ao Sumo Pontífice palavras
ásperas, que Inocêncio III não deixou de censurar133, também teve o cui­
dado de renovar a homenagem ao Papa (DS 22) e de lhe deixar avultada
soma de ouro, ao mesmo tempo que lhe pedia, como a «pai e senhor do
seu corpo e da sua alma», que mandasse cumprir o seu testamento com a
sua «santíssima autoridade» (DS 194), o que Inocêncio III fez prontamen­
te, declarando que tomava o Reino de Portugal sob uma especial protecção
(BPIn. III, n.os 137, 158, 159). Ambos os reis mostravam assim um verda­
deiro temor reverenciai para com o Vigário de Cristo na Terra.
Talvez fosse, porém, um tanto diferente o espírito com que Afonso II
lhe pedia também para receber o reino e os filhos sob a sua protecção, e
lhe mandava dar três mil maravedis134. O rei leproso e discípulo de mestre
Julião devia ser bastante consciente de que o Papa era o seu modelo e o
símbolo terrestre da plenitude do poder que ele havia ambicionado para si
dentro do reino. Por isso dizia, usando decerto uma fórmula habitual,

130 F. de Almeida, IV, pp. 90 e segs., em trad. portuguesa.


131 Ver as duas bulas publicadas em BPIn. III, n.° 3 e n.° 33. Para a época de Afonso II, ver
ibid.y n.os 179-199. Cf. M. Alegria F. Marques, 1990, pp. 235-236.
132 J. Mattoso, 1993, pp. 213-232, 312; UL, 1991b, pp. 187-200.
133 Potthast, n.° 4187 = SBP, n.° 1811.
134 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 36.

137
«beijo a terra diante dos seus pés»135. Sancho II, que também se desaviera
com os bispos portugueses e era mais pusilânime, não deixa de lhe reco­
mendar os filhos e o Reino repetindo a fórmula vassálica usada pelo pai, e
deixa-lhe mil maravedis136. Afonso III, excomungado, aparentemente indi­
ferente às iras e ameaças do Papa e de todos os seus representantes, roga-
-lhe, apesar de tudo, «tanquam dominum corporis mei et anime mee», que
confirme e faça cumprir o seu testamento, e deixa-lhe cem marcos de pra­
ta137. Mas já nao utiliza a expressão própria do vassalo. Enfim, D. Dinis,
mais seguro de si, apresenta-se como «filho obediente da Santa Igreja de
Deus» e não da pessoa do Papa, e recorda-lhe os seus deveres na execução
dos seus legados, pois «é theudo de fazer comprir as vontades dos passados
e de manter justiça em feito d5alma». Mas a sua generosidade é maior que
a de seu pai, pois envia a Roma quinhentos marcos de prata138.

C o n clu sã o

Tendo, pois, eliminado a concorrência e a contestação eclesiástica ao seu


poder, dominado os bispos no interior do país, e enfraquecido a Papa no
exterior, o soberano que havia copiado no reino a organização centralizada
da Igreja obediente a Roma, podia agora tirar pleno partido da doutrina da
unidade do poder vindo de Deus. Podia agora, sem hesitação, como Afon­
so X dizia no Fuero Realy afirmar que era o paralelo de Cristo na terra, a
«cabeça e começamento do seu poboo todo», «posto por Deus en’adeantar
o bem e por vedar e vingar o mal» (FR, I, 2, pp. 9-10). A partir de agora o
poder espiritual, domesticado, tornar-se-á, quase sempre, o seu melhor
aliado.

3.3. O rei e os concelhos


Tendo-se tornado, não apenas na teoria, mas também na prática, o juiz e
senhor dos nobres, recuperada e renovada a noção de poder régio como
poder sagrado, não apenas por carisma, mas por instituição divina, restava
ao rei, para concentrar em si todas as forças políticas, definir até que ponto
os concelhos podiam manter a autonomia que nos forais lhes concedera.
Foi certamente o ponto mais fácil e mais precoce do programa de centrali­
zação. O próprio reconhecimento inicial das autonomias municipais pelo
rei implicava uma contrapartida de sujeição e obediência. As possibilidades
de resistência dos concelhos à extensão da autoridade régia eram muito li­
mitadas. Nem por isso a aceitaram passivamente.

135 Sobre as relações de Afonso II com a Santa Sé, ver a tese de doutoramento de M. Teresa
Veloso, 1988, cuja principal utilidade consiste em publicar, na íntegra ou em extractos, a maioria
dos documentos pontifícios. Para os de Inocêncio III, porém, é preferível usar a excelente edição
integral de A. de J. da Costa (1989).
136 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 50.
137 Ibid ., p. 57. Sobre as relações de Afonso II com a Santa Sé, ver a recente tese de doutora­
mento de M. Alegria F. Marques, 1990, que, embora baseada sobre uma rica documentação, pou­
co acrescenta ao que se sabia anteriormente sobre este tema.
138 A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 103-104.

138
Antes de 1250
Não há, é claro, revoltas abertas. Os próprios concelhos mais fechados e
coesos, como os de Riba-Côa e da Beira Alta, aceitaram a representação ré­
gia pelos alcaides e pelos alcaides, a presença dos mordomos nos reguen-
gos, a cobrança fiscal pelos almoxarifes. Se puseram em prática a prescrição
dos seus foros, que proibia, em certos casos, o apelo à justiça régia139, não
ficou notícia disso. Mas também não se submeteram passivamente ao livre-
-arbítrio dos alcaides e dos mordomos régios. Seriam necessárias muitas pá­
ginas para dar notícia de todos os processos, protestos e reclamações feitas
pelos concelhos perante a autoridade régia de que temos conhecimento,
sobretudo a partir de 1250, ou seja, a partir do momento em que o rei
lança em todo o reino os seus oficiais, representantes e emissários. Não po­
demos afirmar, no entanto, que as primeiras reclamações de que há notícia
mais detalhada, e que datam justamente de 1250 segundo toda a probabi­
lidade, se devam apenas à intromissão dos funcionários que agiam por or­
dem de Afonso III, ou se, afinal, reconhecendo a sua autoridade, os povos
o julgavam capaz de pôr cobro a abusos da inteira responsabilidade de ma­
gistrados locais, que haviam aproveitado o ambiente desordeiro anterior
para praticarem impunemente os seus excessos. De facto, já em 1227 San-
cho II ordenava aos álcaides e a outros oficiais seus que não interferisseín
na actividade judicial dos alvazis de Lisboa em matérias respeitantes a ma­
rinheiros, pescadores, mouros e judeus140.

Afonso III
Assim, a reclamação contra a pretensão de o rei escolher os alvazis de
Coimbra, desprezando o direito de o concelho os eleger, a confiscação do
paul de Montemor-o-Velho e as excessivas exigências de anúduvas para
construção das muralhas de Marvão aos cavaleiros do mesmo concelho são,
de facto, indícios de maior interferência da autoridade régia141. Mas os
protestos contra os alcaides e os ricps-homens que pousam indevidamente
nas casas dos vizinhos, contra os excessos praticados pelo alcaide na prisão
de réus e nos tributos do açougue142 podem decerto justificar-se por abusos
antigos que os concelhos talvez esperassem ver agora reprimidos graças à
nova força demonstrada pelo rei.
De facto, não é provável, pelo menos até ao fim do reinado de D. Di-
nis, que se devam considerar os alcaides propriamente como agentes da
centralização régia, apesar de eles serem os representantes da sua autorida­
de junto dos concelhos. Com efeito, o rei aceita frequentemente os protes­
tos que os visam a eles, e promete reprimi-los143. Pelo contrário, as recla­

139 Alfaiates, n.° 338, in Leg., p. 828. Ver no vol. II, pp. 337-360.
140 Silva Marques, 1944, Supl., doc. 3.
141 Agravamentos dos concelhos de Coimbra e de Montemor, in Marcelo Caetano, 1934, doc.
22, n.os 1, 9 e 12.
142 Ibid., n.os 3, 5, 6 e 7.
143 Lisboa, 1204, 1227, 1254: DS 155; Silva Marques, Supl., doc. 3; M. Caetano, 1954, doc.
22 (n.os 3, 5, 6); Évora, 1286: Gabriel Pereira, doc. 22; Santarém , 1309: C. M. Baeta Neves,
1980, I, doc. 28; Torres Vedras, 1318: J. M. Cordeiro de Sousa, 1957, doc. 13; Lei geral de 1264:
Leg., pp. 213-215.

139
mações contra mordomos, porteiros e almoxarifes são muito menos bem
aceites. O rei apoia constantemente a sua implacável exigência de tributos
e o seu zelo na detecçao de manobras feitas para escapar ao fisco, incita à
minúcia com que reclamam dízimos, portagens e açougagens de produtos
novos, de pequenas coisas e de todos os géneros144, exorta ao rigor com
que arrebanham gente para as jeiras e anúduvas, para construir ou reparar
muralhas, pontes, caminhos e rossios145. A diferença entre uma prática e
outra explica-se facilmente: os alcaides recolhiam provavelmente como pro­
ventos próprios as multas que exigiam, enquanto os cobradores de rendas e
tributos tinham que dar contas aos clérigos da casa real. Os agentes da
centralização são os segundos e não os primeiros.
Mas para sujeitar os concelhos à sua autoridade, Afonso III nem sem­
pre recorreu directamente à intromissão de funcionários seus nos órgãos
municipais. No Alentejo, por exemplo, favoreceu a implantação de senho­
rios nobres, eclesiásticos e das ordens militares, em detrimento dos conce­
lhos de Évora, Beja, Montemor-o-Novo, Monsaraz e Estremoz, como se
adoptasse uma estratégia sistemática de enquadramento de comunidades
cuja independência excessiva parecia temer, por senhorios particulares que
então lhe davam maiores garantias de fidelidade, como acontecia nomeada­
mente com os cortesãos D. João de Aboim e Estêvão Anes146.

D. D inis
Por outro lado, também se nota uma diferença entre a época de Afonso III
e a de D. Dinis: acentua-se a tendência para julgar os protestos dos conce­
lhos no foro judicial. Assim, o rei entrega aos tribunais, aparentemente
mais independentes, a solução das questões controversas, ficando acima das
mesquinhas querelas fiscais147. Sinal de que, depois de uma época em que
tudo se resolvia casuisticamente, localmente, e em que se esperava o favor
ou a clemência do rei, se começa a impor a necessidade de proceder segun­
do princípios gerais e não apenas invocando a velha regra de que se devem
respeitar os costumes e o foro da vila ou os privilégios obtidos. O rei invo­
ca cada vez menos o que já se usava no local ao tempo de seu pai e de seu
avô e começa a enunciar princípios universais. Não quer dizer que os con­
celhos ganhem muito com isso, antes pelo contrário.
Os concelhos, por seu lado, também se organizam melhor. Inspirando-
-se talvez no procedimento adoptado para a representação em cortes, por
meio de procuradores, designam-nos também para tratarem as suas ques­
tões nos tribunais da corte, e por vezes a sua função torna-se permanente.
Neste caso, porém, parece que o próprio rei intervém na sua designação

144 Santarém, 1254 e 1309: Marcelo Caetano, 1954, doc. 2; Évora, 1306: G. Pereira, 1885,
does. 31 e 32; Penacova, C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 35. Ver também os foros longos de
Santarém e suas adaptações.
145 Leg., 216-217 de 1265; Coimbra, c. 1250: M. Caetano, 1954, doc. 22 (n.° 12); Évora,
1311: G. Pereira, 1885, doc. 36.
146 Hermenegildo Fernandes, 1991, pp. 37-42.
147 Ver, p. ex.: Évora, 1306: G. Pereira, 1885, does. 31 e 32; CabanÕes, 1292: C. M. Baeta N e­
ves, 1980, I, doc. 19; Porto de Mós, 1309: ibid., n.° 25; Santarém, 1309: ibid., n.° 28; Gulfar,
1315: ibid., n.° 34; Penacova, 1317: ibid., n.° 35.

140
ou, ao menos, na sua confirmação. De um documento de 1293 relativo
aos dois procuradores do concelho de Évora, parece mesmo deduzir-se que
o rei chega a nomear um dos procuradores e a proteger outro, do qual o
concelho tinha queixa148. Os foros longos de Beja prevêem o cargo de um
procurador permanente escolhido pelo alcaide, alvazis e homens-bons, que,
ao tomar posse do ofício, jura defender o concelho, guardar os seus foros,
usos e costumes, de maneira a que o rei e seus ovençais não vão contra eles
(Leg., II, p. 73). Tratava-se pois, em princípio, de uma forma de organiza­
ção contra a ofensiva centralizadora da Coroa.
De qualquer maneira, a intervenção do rei ou dos seus ovençais é cada
vez mais frequente. Os concelhos não só têm de se defender contra as exi­
gências minuciosas dos oficiais do fisco mas vêem também ameaçada a sua
capacidade de escolher os juízes, como vimos em Coimbra por volta de
1250, e sentem-se esbulhados das suas terras de sesmos, matas, terrenos co­
muns e bravios. O rei apodera-se delas directamente, como em Coimbra e
Montemor na mesma ocasião149, manda entregar terras dos sesmos a privi­
legiados sem se importar com a resistência dos concelhos150, ordena que
eles revejam a distribuição das presúrias151. N a época de Afonso III os pro­
testos contra estas ocupações de terras não são ouvidos; mas a liberdade de
eleição é geralmente reconhecida. Surge então a exigência de os novos ma­
gistrados judiciais, no início de cada mandato, jurarem sobre os Santos
Evangelhos, que darão «o seu direito a el-rei, e a todos os seus povos, o seu
e todos aqueles que a seu juízo veerem». Os almotacés, porém, e os outros
funcionários do concelho não invocam a obediência ao rei, mas a obriga­
ção de guardar e fazer guardar todos os direitos ao concelho; os jurados,
porteiros e procuradores prometem obedecer ao que os juízes e almotacés
mandarem152.

O R E I, « S E N H O R » D O S C O N C E L H O S

Assim, o rei não aparece só como um grande proprietário sobre cujas ter­
ras, colonos e instrumentos de produção ou comercialização o concelho
não tem jurisdição alguma, nem apenas como o senhor da terra que, à ma­
neira senhorial, cobra impostos e vigia a justiça. Começa também a usar da
sua autoridade para impor regras de administração interna do concelho,
tendendo a esquecer a sua autonomia. Esta inevitável consequência da in­
tegração municipal num vasto organismo político, coordenado por um go­
verno único, não resulta apenas da progressiva intromissão dos funcioná­
rios régios a partir do campo fiscal, mas também de uma tendência mais
geral para apertar mais fortemente os laços que unem os concelhos ao rei.
Esta estratégia política começa por utilizar o próprio vínculo de natureza
senhorial que os torna seus súbditos.

148 G. Pereira, 1885, doe. 24.


149 Marcelo Caetano, 1954, doc. 22, n.os 4 e 9.
150 Beja, 1255: V. Rau, 1982, does. 5, 6, e 9; Eivas, 1259: ibid., doc. 7; Marachique, 1260:
ibid., doc. 8.
151 Évora, 1273: G. Pereira, 1885, doc. 17.
152 Lei 187 de Afonso III: Leg., pp. 298-299; foros de Beja, n.° 172; in Leg., II, p. 73.

141
De facto, como indiquei atrás153, é provável que os concelhos, pelo
menos, em algumas ocasiões, sobretudo no princípio do seu reinado, pres­
tem homenagem de fidelidade ao monarca, tal como aconteceu em Caste­
la154. Também aqui temos notícia da homenagem prestada pelo concelho
de Belmonte, que pertencia ao senhorio do bispo de Coimbra, apesar de o
foral ter sido dado simultaneamente pelo bispo e pelo rei (DS 119). Em
1290 os juízes e vizinhos da vila, por meio de um procurador, fizeram ho­
menagem ao senhor do concelho «por nos e pelo dito concelho e por cada
uu do concelho desse castelo»155. Mas os municípios do rei também de­
viam prestá-lo, provavelmente com a fórmula empregada em duas cartas de
origens tão distintas como Freixo e Sintra, uma a Afonso III, em 1273,
outra a D. Dinis, em data desconhecida:
«Nós concelo e juizes de Freyxeo beijamos vossos pees e vossas mahoos e a
terra ante vos come a senor de mercee.» (Leg., p. 728)
«O alcaide e os alvaziis e o concelho de Sintra enviiam homildosamente
beijar as vossas maaos em terra d’ante os vossos pees como a senhor natural
onde atendem bem e mercee.» (C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 6)

V ÍN C U L O FE U D A L E V ÍN C U L O «N A T U R A L »

A inspiração feudo-vassálica desta fórmula nota-se na evocação do ritual do


beija-mão, que era habitualmente usado na Península156. O prostrar-se por
terra diante do senhor é também evocado nos testamentos dos reis para re­
conhecer a vassalagem ao Papa157. De facto, D. Dinis alude expressamente
à homenagem que todos os seus vassalos e naturais lhe haviam feito, refe­
rindo-se a seguir mais especificamente aos concelhos e ao seu consequente
dever de lealdade (ML, V, f. 33 lv.). Nestas práticas revela-se, pois, a tran­
sição do conceito feudal de fidelidade do concelho como uma colectivida-
de, para a ideia de que era devida por cada um dos vizinhos, agora não já
em virtude de um vínculo semelhante ao do vassalo para com o senhor,
mas em virtude do de súbdito para com o rei. Ou seja, surge a noção de
fidelidade «natural». O próprio termo «naturais» vem associado ao de «vas­
salos» no referido testamento de D. Dinis de 1299158. A relação individual
dos súbditos de todo o reino com o rei encontra-se expressa na lei do mes­
mo soberano que proíbe os nobres de armar cavaleiros a cidadãos dos con­
celhos:
«Vos bem sabedes em como cada uu cidadão e cada uu homem de qual
concelho quer som estremo [sic] dante vassalos e feitura de cada uu rei en’essa

153 Supra, p. 96 deste volume.


154 H. Grassotti, 1969, pp. 72-74, 203-213.
155 R. Durand, 1982a, p. 593.
156 H. Grassotti, 1969, pp. 141-162.
157 Ver supra, p. 137 deste volume.
158 «Rogamos e mandamos a todolos nossos vassalos e a todos nossos naturaes pela menagem
que fizeram a nós... pela lealdade e natureza per que som teúdos a nós...»: M L, V, f. 3 3 lv.

142
terra, e que outro homem nom ha sobre eles jurdiçom nem poder de os livrar
daqueles dereitos que os reis devem a fazer senom reis tam solamente.» (LLP,
p. 202 de 1305)

I d e o l o g ia m o n á r q u ic a

É neste momento que surgem indícios de proclamações expressas da ideo­


logia monárquica perante os concelhos.
Em 1305, o zeloso meirinho-mor D. João Simao foi enviado ao conce­
lho de Santarém para tomar posse, pelo rei, das lezírias de Franceira, Al-
coelha e Esteia. Mandou apregoar a reunião, e os vizinhos reuniram-se na
Igreja de São João. Temos um breve resumo do seu discurso. Começa pela
captação de benevolência:
«que o concelho de Santarém era o que el rei mais amava de todolos do seu se­
nhorio e que ele tinha mais em vontade de fazer bem e mercee, e que mais
queria veer guardado de custa e de dapno».
Depois elogia as virtudes dos reis de Portugal, como personagens irre­
preensíveis, cujas acções se devem venerar, como as dos chefes e fundado­
res que instauram a ordem justa de todas as coisas:
«dizendo que el rei dom Afonso o primeiro rei de Portugal, que filhou Santa­
rém e Lisboa a Mouros, logo em começo da povorança da terra as filhou assi­
nadamente pera si como filhou todolos outros reguengos e todalas outras cou­
sas que ha, e depois esto el rei dom Afonso o segundo, que foi mui bom rei e
mui justiçoso, as houve todas pera si, e defendeu sô gram pena que nenhuu
nom lavrasse em elas».
Mostra então o documento comprovativo da decisão de Afonso II. Os ho-
mens-bons de Santarém, impressionados, vão deliberar, e depois dão a sua
resposta que, ao menos na versão do escriba, surge adornada de expressões
de veneração para com o rei:
«Que pediam a Deos por mercee que acrescentasse em nos anos e na honra
de seu senhor el rei pela mercee que lhes enviava dizer, e que pola sua mercee
quisesse que ainda deles prendesse serviço aa sa vontade.»
E desistem da contenda. Entre eles estavam nobres da corte: Pêro Anes
Portei, o filho do poderoso João de Aboim, RodriguTanes Redondo, Lou-
renço Pires Froiaz; e ainda o almoxarife de Lisboa, vários mercadores, os
alvazis, o tabelião, o escrivão dos mordomos e o mordomo do rei, o procu­
rador do concelho159. Não admira, pois, o tom palaciano da resposta.
As relações entre o rei e os concelhos começavam, assim, a impregnar-
-se e a iustificar-se em função de razões ideológicas, que colocavam o rei
acima cie todos os interesses colectivos ou individuais. A ideologia monár­
quica penetra, pois, nas assembleias municipais para orientar os interesses
colectivos, ocultar a força, dissuadir da resistência.

O R E I, «P R O T E C T O R » D O S C O N C E L H O S

O rei bem se mostrava o protector dos concelhos. Persuadia-os, na já cita­


da lei de 1305, a não deixarem que os nobres tomassem os seus homens
para os fazerem cavaleiros, pois ficariam «por quites e por eisentos dos de-

159 J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 74.

143
reitos que convosco devem haver» (LLP, p. 202); promulgava outra lei
contra as pousadias dos ricos-homens, infanções e cavaleiros, as quais afec-
tavam sobretudo os concelhos, como se vê do seu próprio teor (LLP,
pp. 76-78, de 1311); protegia quase sempre os municípios contra as exco­
munhões dos clérigos, como se deduz dos frequentes protestos dos bis­
pos160; dava instruções para os magistrados concelhios limitarem os privilé­
gios dos clérigos de ordens menores, casados, advertindo que o faz não só
«per razom daquelq que a mim é mester de vós pera meu serviço, como
daquelo que vós havedes mester pera vosso proveito e das vossas terras»
(LLP, pp. 206-207, de 1305).
De facto D. Dinis parece ter procurado uma estreita ligação com os
concelhos. Em 1299, no seu testamento, instituiu um conselho de regência
para assistir a rainha D. Isabel enquanto o herdeiro fosse menor. Faziam
parte dele cinco eclesiásticos (três bispos, o abade de Alcobaça e o confes­
sor do rei); um único nobre, o meirinho-mor João Simão, aquele mesmo
que depois fez o zeloso discurso de Santarém; e seis homens-bons eleitos
pelos concelhos das principais cidades do reino. Estes, embora pertences­
sem às cidades indicadas pelo rei, representavam todos os concelhos de re­
giões mais vastas: um de Evora, eleito pelos da Estremadura; um de Coim­
bra e um da Guarda, pelos da Beira e de entre Douro e Mondego; e um
de Guimarães pelos de Entre-Douro-e-Minho. Estes vilãos viveriam na ca­
sa do príncipe herdeiro, teriam os ofícios que a rainha lhes confiasse e as­
sistiriam ao conselho de regência. Esta determinação mostra, pois, que não
era pura fantasia o especial apelo que se lê no mesmo testamento:
«E estremamente rogamos os nossos concelhos de que nos fiamos mui
cumpridamente pela lealdade que em eles há, que sirvam a rainha e a guardem
e lhe ajudem a cumprir todas estas cousas.» (ML, V, f. 331)

O facto de, no mesmo testamento, proibir que o infante, durante a sua


menoridade, morasse fora dos termos de Lisboa, Santarém, Coimbra ou
Leiria, como se tivesse medo que ele fosse perniciosamente influenciado
pela nobreza senhorial do Norte, ainda contribui mais para acentuar o pro­
grama político de um governo com importante participação dos cidadãos
dos concelhos.
O mesmo propósito se manifesta na proclamação de 1321 contra o in­
fante D. Afonso, feita perante o concelho de Lisboa, onde D. Dinis se re­
fere de novo à «dereiteza e lealdade que eles sempre manteverom e man-
teem ao serviço d’el rei e em guardamento de seu stado a que os el nunca
pode meter, tam leaaes e tam bõos forom eles sempre e som» (DPHCL,
p. 137).
De facto, foi com tropas dos concelhos de Lisboa e de Santarém que
D. Dinis combateu o infante revoltado em 1324. Mas a descrição que dos
acontecimentos fez o conde D. Pedro na Crónica de 1344, pouco elogiosa
para os vilãos, deixa-nos na dúvida acerca do bom entendimento procla­
mado pelo rei nos referidos textos. Segundo o cronista, as milícias munici­

160 Artigos de 1267, n.os 7, 8, 10, 12, 29, in Herculano, 1980, III, p. 133; Artigos de 1289,
n.os 6, 8, 9, 11, in LLP, pp. 344-345.

144
pais pedem para repousar em vez de combaterem, contestam o lugar que
para isso foi escoíhícfo e, chegada a hora da verdade, fogem vergonhosa­
mente para a mata de Loures161. Pode ser exagero do cronista, favorável ao
partido do infante e que desprezava os vilãos dos concelhos. Mas talvez a
lealdade elogiada por D. Dinis não fosse tanta como ele imaginava. Talvez
o je i confundisse a benevolência dos mercadores e homens-bons que gosta­
vam <le frequentar a corte e tiravam proveito disso, com o sentir comum
dos vilãos. Estes não podiam esquecer facilmente a actuação minuciosa e
implacável dos almoxarifes, a apropriação de matas e pauis, os favores a fi­
dalgos à custa dos municípios, o desprezo pela justiça dos alvazis pouco co­
nhecedores do direito romano, os atentados cada vez mais frequentes à au­
tonomia dos concelhos.
Efectivamente, D. Dinis, em vez de confiar nos documentos autentica­
dos pelo selo dos concelhos, exige que os contratos fossem selados com as
suas próprias armas e insígnias por um indivíduo por ele designado e que
não podia ser tabelião nem magistrado municipal (LLP, p. 204, lei de
1305). Obriga os concelhos a apresentar os juízes eleitos à sua confirmação
(Foros de Beja, n.° 171, in Leg., II, p. 73), quando, em 1261, Afonso III
ainda ordenava ao alcaide que não fizesse pressão sobre os vizinhos para
elegerem como alvazil ou almotacé alguém do seu favor (Leg., p. 214). Os
processos contra os municípios aumentam em número, mas deixam de se
registar os agravamentos dos concelhos nas cortes162.
Assim, mesmo quando o rei parece favorecê-los, a sua autonomia vai
desaparecendo, absorvida pela uniformização que a administração régia
lhes impõe, pelo controlo sobre as magistraturas e os tribunais, pela gene­
ralização dos tributos, pela imposição das regras processuais dos tribunais
da corte163164. Além destes indícios, que são a inevitável consequência da cen­
tralização política, pode citar-se ainda no mesmo sentido o costume de o
rei entregar o senhorio de alguns concelhos a membros da família real. Ce-
de-os «com todos seus direitos e com o senhorio deles», ou seja, os donatá­
rios passarão a receber os referidos direitos e a nomear os oficiais que os re­
presentam. A administração da justiça faz-se, porém, por meio do apelo ao
senhorio, e deste para o monarca. Assim aconteceu, por exemplo, com os
concelhos de Óbidos, Abrantes e Porto de Mós cedidos por D. Dinis a sua
mulher, D. Isabel, em 1281 (e confirmados em 1287) , assim como com
os concelhos de Évora, Vila Viçosa, Vila Real, Gaia e Vila Nova, cedidos
pelo mesmo rei em arras a D. Beatriz quando ela casou com o infante
D. Afonso em 1297165. Durante esta época, as concessões de senhorios de
concelhos e outras terras ainda se faziam em favor das rainhas, dos infantes
ou dos bastardos como o conde D. Pedro ou Afonso Sanches. Estas últi­

161 C. 1344 (ed. Magalhães Basto, pp. 312-313).


162 Nenhuma das cortes do reinado de D. Dinis, das quais, de resto, não existem capítulos, pa­
rece ter sido reunida para tratar de questões que interessassem directamente aos concelhos:
M. Caetano, 1981, pp. 317-318.
163 Herculano faz notar, na introdução de um conjunto de leis de Afonso III, que as doutrinas
e praxes adoptadas na cúria e inspiradas no direito romano começam a transcrever-se em apêndi­
ces nos cadernos dos costumes municipais: Leg., p. 183.
164 t t > Chancelaria de D. Dinis, I, foi. 4 l- 4 lv , 201, cit. por Hermínia Vilar, 1988, p. 82.
165 Gabriel Pereira, 1885, doc. 25; cf. M. A. Beirante, 1988, p. 946.

145
mas, porém, abriam o caminho para as benesses a privados da casa real co­
mo se faria cada vez mais frequentemente durante todo o século xiv.

C o n clu sã o

Nem tudo, por isso, é indício de «modernidade» no capítulo da centraliza­


ção política à custa dos concelhos. Não se pode negar, porém, que ela os
obriga a abandonar o antigo sistema de resolverem sozinhos os seus proble­
mas, com inteiro desprezo pelos dos outros. Ao integrá-los num corpo po­
lítico de dimensões nacionais e ao submetê-los às mesmas regras adminis­
trativas e jurídicas, convida-os implicitamente a coordenarem entre si a
luta pelos seus interesses, comuns em muita coisa. A centralização estatal
reforça, assim, os laços materiais que, por seu lado, o desenvolvimento da
economia de mercado estendia cada vez mais entre as cidades e daí se pro­
longava por toda a parte.
4 .
Regnum

Bastará um governo centralizado para fazer do espaço habitado uma


nação? Que caminhos segue para o realizar eficazmente, de maneira a desa­
fiar os séculos?
Até aqui vimos, de um lado, o aglomerado desconexo dos senhorios e
dos concelhos, e do outro, a administração régia, primeiro personalizada
e superficial, depois progressivamente mais firme e interveniente. Corqo se
conjugam os dois níveis? De que maneira se associa a estrutura polítiÇa
com os vectores espontâneos, criados por outros elementos? Até que ponto
se coordena num todo coerente e orgânico a grande massa da gente sujeita
ao regnum?.
Veremos primeiro como se articulam entre si as forças internas, que ul­
trapassam as rivalidades dos agrupamentos locais e os inserem em comple­
xos mais vastos, regionais, e as relações que os unem entre si, independen­
temente ou não das unidades políticas expressas na documentação escrita.
Depois, como o conjunto se comporta face ao exterior, para averiguar co­
mo surge a noção da identidade nacional. Finalmente, tentar descobrir os
primeiros indícios de ela se tornar uma ideia consciente e expressa.

4.1. Coesão
A coesão interna de um país com contrastes tão fundos como aqueles que
evocámos, e que serviram para estruturar a primeira parte deste ensaio, não
se pode pressupor como um facto adquirido. À primeira vista, deveriam,
até, ser maiores os factores de divisão que os de unidade. O clima, a geo­
grafia física e as civilizações importadas separam o país em dois. Porque
não se formaram duas nações? Deixando aos teóricos explicações mais fun­
das, limitar-me-ei a seguir uma via empírica, que consistirá em ir rastrean-
do os vestígios dos diversos níveis de associação regional, para tentar desco­
brir a sua relação com um ordenamento global do espaço e as suas
consequências no plano político-administrativo.

G e o g r a f ia h is t ó r ic a : estr u tu r a ç õ es r e g io n a is

Tenho a consciência de aqui percorrer de novo um terreno desconhecido,


sobretudo depois de utilizar para a região a sul do Tejo um excelente tra­
balho de geografia histórica que me evidencia toda a investigação que seria
necessária para aplicar um esquema interpretativo semelhante ao resto do

147
país1. Ora, no Norte e no Centro, a configuração geográfica e humana
apresenta uma enorme variedade de situações, de barreiras e de contrastes,
o que torna mais difíceis e problemáticas as sínteses e interpretações glo­
bais. Além disso, está sujeita, creio eu, a mais movimentos e reordenações
que o Sul. Como tantas outras partes deste ensaio, o presente parágrafo
não é um ponto de chegada ou a síntese de trabalhos já feitos, mas um de­
safio a investigações futuras, cuja ausência prejudica a compreensão de al­
guns fenómenos fundamentais da nossa História.
Uma coisa me parece certa: a unidade nacional não é um dado adqui­
rido nem um dom da natureza. Não existe à partida. Os diversos ordena­
mentos territoriais que se vão detectando ao longo dos séculos não têm to­
dos o mesmo sentido. Existem forças de sentido contraditório. A umas
podemos chamar centrípetas; a outras, centrífugas. Por isso nem sempre é
fácil encontrar os vectores fundamentais nem descobrir as fases por que
passam as soluções e equilíbrios encontrados pelos poderes concorrentes.
As circunscrições político-administrativas, que, em princípio, as deviam
manifestar, para além de não terem o mesmo sentido fixo e rígido que hqjé
revestem, por lhes faltarem, até ao século xiv, fronteiras espaciais bem defi­
nidas, podem considerar-se indícios de afinidades económicas e sociais,
mas nem sempre as exprimem com fidelidade. Ora, são sobretudo estas
que interessam, porque acabam por se impor, de uma maneira ou de ou­
tra, às decisões administrativas, que nem sempre as têm em conta. Tenho
de confessar que estas precauções são, infelizmente, demasiado importantes
para poder utilizar com inteira segurança os dados de que disponho.
Começarei por distinguir os níveis de estruturação possível. O senhorio
ou o concelho são a unidade ínfima. Acima deles estão, no Norte, os julga­
dos e as «terras». Mas as «terras» podem englobar vários julgados; no Cen­
tro e no Sul estão praticamente ausentes da documentação. Aqui, surgem
quase só os concelhos, por vezes com dimensões tão extensas como as das
«terras» do Norte. Num terceiro nível, podemos considerar os antigos con­
dados, anteriores ao século xi, que praticamente desaparecem como unida­
des administrativas, para depois ressurgirem sob outras formas, com as re­
modelações de Afonso III. Penso que, em termos de ordenação territorial,
se podem equiparar os antigos condados com as regiões confiadas aos mei­
rinhos-mores, a que Gama Barros chama «comarcas». Entre estas duas fases
parece-me lícito considerar as dioceses como unidades aproximadamente
do mesmo nível, apesar de tanto os condados como os meirinhados (cujo
âmbito não era claro nem fixo) tenderem a englobar mais de uma diocese.

As PA RÓ Q UIA S SU EV ICA S

Nesta perspectiva, e partindo agora do que se passa no Norte, é bastante


provável que as antigas paróquias suévicas, cuja enumeração conhecemos
pelo famoso elenco do século vi, constituíssem já uma forma de organiza­
ção superior à local. Será preferível, no entanto, não as concebermos como
centros de espaços nitidamente delimitados, mas antes como pontos de

1 João Carlos Garcia, 1986.

148
apoio para o controlo de áreas sem fronteiras estanques; pontos que, por
sua vez, eram comandados por outro centro, a sede diocesana. O sistema
evoca mais a imagem da constelação do que a da rede de territórios contí­
guos. A eficácia da organização dependia da relação orgânica de tais cen­
tros com a respectiva área de influência, e da sede diocesana com eles. N a
medida em que tal relação se mantém, a estrutura prolonga-se igualmente
ao longo dos séculos. De facto, pode provar-se a permanência de um certo
número de paróquias suévicas, transformadas, na Idade Média, em «ter­
ras», julgados ou arcediagados.
Deve notar-se, porém, que as identificações entre paróquias suévicas e
«terras» ou arcediagados medievais até agora feitas se situam predominante­
mente em regiões de fraca densidade populacional do Norte, ou seja, em
Trás-os-Montes e no Alto Minho, mas só foi possível encontrar algumas,
poucas, em regiões mais habitadas. O que quer dizer, creio, que estas sofre­
ram alterações mais profundas no ordenamento do seu território2. Além
disso, verifica-se também que a maioria dos centros suévicos estava situada
em locais que deixaram de ser sedes de freguesia, o que quer dizer que
houve uma deslocação do respectivo centro ordenador.
De facto, o próprio Parochiale representa apenas uma fase de um pro­
cesso de reordenação territorial. A sede do bispado do Porto resultou da
transferência do bispo de Magneto para aquela cidade, e Chaves havia per­
dido o seu bispo, quem sabe se por transferência para Tuy ou Orense. As
dioceses de Coimbra, Viseu, Astorga e Braga tinham-se dividido havia
pouco, dando lugar respectivamente às de Idanha, Lamego, Orense e
Tuy3.
O que me parece mais importante na comparação do Parochiale com o
elenco das dioceses da Reconquista é que, ao passo que a memória das pa­
róquias suévicas se perde frequentemente, sobretudo nas zonas onde houve
maiores remodelações, os centros diocesanos mantiveram-se nos mesmos
locais e com a mesma função territorial, apesar das perturbações resultantes
de fenómenos demográficos, hoje difíceis de reconstituir. Esta permanência
não pode fazer esquecer que o atrofiamento da vida urbana retirou às cida­
des uma boa parte da sua importância, como estruturadoras das respectivas
áreas, e que a emigração de vários bispos para o Norte durante a mesma
época ainda contribuiu mais para enfraquecer o seu poder ordenador. Ora,
este fenómeno corresponde à emergência das comunidades locais e ao en­
fraquecimento dos poderes político-administrativos civis, no Norte sujeito
aos soberanos cristãos ou entre as duas fronteiras. Pelo contrário, a zona
dominada pelos muçulmanos caracterizou-se pelo papel dos centros urba­
nos, mesmo daqueles que não eram sedes diocesanas, quer como pólos de
actividades económicas quer como sedes de autoridades políticas.

2 Ver A. de J. da Costa, 1959, I, p. 133; id., 1981, p. 91; A. de Almeida Fernandes, 1968,
pp. 120-122, a consultar com reservas. Veja-se também a esclarecedora demonstração de F. López
Alsina, 1988, pp. 154-196, para várias «paróquias» da Galiza setentrional, e ainda uma síntese do
problema para o território bracarense em Rui C. Martins, 1990.
3 Pierre David, 1947, pp. 68-70.

149
A s C IR C U N SC R IÇ Õ E S ISLÂ M ICA S

Em comparação com o que já foi averiguado pela investigação recente


acerca das paróquias suévicas e do seu significado em termos de ordena­
mento do território, quase tudo é ainda incerto e problemático pelo que
diz respeito às circunscrições territoriais religiosas ou civis do Sul de Portu­
gal. Este facto resulta, até certo ponto, da carência de documentação segu­
ra do género do Parochiale suevicum, e em segundo lugar da ausência de
uma investigação monográfica de âmbito regional ou local com base na
documentação árabe pertinente para o problema em causa.
Para equacionar a questão, pode desde já partir-se do princípio de que
as circunscrições típicas da administração califal, as kuwar (plural de kura),
eram, em geral, no caso da Lusitânia, prolongamentos das antigas dioceses
eclesiásticas. Estas, por sua vez, eram normalmente subdivisões dos antigos
conventus jurídicos em que as províncias se repartiam. Cada diocese, como
também cada kúra, incluía várias mudun (plural de madina, cidade), que
eram habitualmente prolongamento das antigas civitates tardo-romanas; ca­
da uma destas tinha o seu termo. A forte centralização administrativa e o
efectivo funcionamento do aparelho fiscal da epoca islâmica deram a esta
rede uma consistência bastante grande. Todavia, as alterações decorrentes
da instabilidade territorial das taifas e da evolução económica das cidades
levaram a alterações que nem sempre é possível reconstituir com segu­
rança4.
Pouco mais é possível dizer a este respeito no estado actual da investi­
gação, apesar de alguns estudos recentes de carácter monográfico para o
Sul de Portugal. Assim M. A. Beirante limita-se a concluir que o termo do
concelho medieval de Évora não coincide com os limites da antiga diocese
visigótica nem da kura5. O que não admira, porque a correspondência de­
veria procurar-se antes nos limites da antiga civitas. H. Fernandes, por sua
vez, encontra indícios do prolongamento das estruturas das antigas villae
romanas, que, segundo ele, deixaram vestígios no traçado dos territórios
dos concelhos e na implantação das aldeias6. Como é evidente, a questão
primordial consiste em saber como evoluíram tais estruturas no conjunto
do Sul de Portugal e o sentido das variações regionais desse mesmo pro­
cesso.

O «R E P O V O A M E N T O » D O SÉ C U L O IX : P O R T U C A L E E C O IM B R A

Voltemos ao Norte. A reestruturação político-administrativa executada na


época de Afonso III de Leão e Astúrias, depois da restauração do Porto em
8 6 8 e de Coimbra em 878, retomou um território que entretanto se tinha
reorganizado espontaneamente, concedendo maior papel às comunidades
locais, mas não perdera totalmente a memória das antigas afinidades. O ca­
rácter predominantemente militar que nesta ocasião representou o poder

4 A. H. de Oliveira Marques, 1993, pp. 183-188, 192-198.


5 M. Ângela Beirante, 1988, pp. 42-45, 53-54.
6 Hermenegildo Fernandes, 1991, pp. 85-86.

150
dos condes explica, até certo ponto, que as restaurações diocesanas nessa
altura tivessem sido efémeras7. Só a partir da restauração de Braga, em
1070, se pode falar em efectiva função das cidades episcopais na reordena­
ção territorial do Norte do país. Até lá, é provável que os principais caste­
los ou fortalezas, estabelecidos muitas vezes sobre antigos castros, e por isso
chamados frequentemente civitates na documentação anterior ao sécu­
lo x i i 8, constituíssem os pontos fundamentais de apoio da rede administra­
tiva orientada pelos condes. A implantação de fortalezas em lugares altos,
governados por chefes que preferiam vigiar de longe as vias de comunica­
ção do que situar-se imediatamente junto delas, é bem a expressão concre­
ta do novo sistema9. A escolha de Guimarães para residência dos condes de
Portucale, de preferência ao Porto ou a Braga, tem, deste ponto de vista, o
mesmo significado.
O território ocidental da Península a sul da Galiza ficou, assim, entre­
gue a dois condes, o de Portucale e o de Coimbra, que outrora haviam
pertencido a duas províncias romanas diferentes, a Lusitânia e a Galécia.
Uma vez, porém, que a oposição política entre o reino de Leão e o califado
de Córdova impedia a ligação de Coimbra com Mérida, capital da Lusitâ­
nia, era natural que a mesma cidade se associasse a Portucale, constituindo
como que o seu prolongamento para o Sul, na medida em que o permi­
tiam os hábitos de independência então em vigor. Abaixo dos condes, mas
ligados a eles por laços frágeis, as «terras» dos tenentes tinham entre si uma
relação variável, como peças de um puzzle susceptível de várias combina­
ções, em virtude das vicissitudes das linhagens e das suas alianças.

As D IO C E SE S

Permanece, todavia, a referência às sedes diocesanas da época suévica, mes­


mo destituídas de bispos durante a Reconquista. A área que elas abrangiam
sofre algumas alterações. Assim, ao observar o mapa dos territórios portu­
gueses dos séculos x e xi, traçado por A. de Amorim Girão e Paulo Merêa10,
verifica-se que, acima das «terras», há territórios mais vastos, definidos pela
relação com a respectiva sede, ou seja, Braga, Lamego, Porto, Viseu e
Coimbra. São todas as dioceses suévicas à excepção de Idanha. O mais in­
teressante, porém, é examinar a área da sua influência. De facto, não pode
deixar de se notar a tendência expansiva do Porto, que serve de referência
aos notários dos documentos redigidos, no sul desta zona, até ao Vouga, a
leste, até ao baixo Paiva, e a norte, ainda em alguns lugares para além do
rio Ave, que dividia a diocese do Porto da de Braga. Sinal de que a realida­
de política se sobrepunha à eclesiástica e que se identificava aquela com a
capacidade de influência que a cidade exercia sobre as zonas confinantes.
A polarização em torno do Porto tendia também a esbater a força aglutina-
dora de outros centros. Assim, a diocese veio a estender-se para além da
fronteira natural do rio Douro, antiga divisória de províncias e de conven­

7 Ver M. de Oliveira, 1958, pp. 95-97; A. Palomeque Torres, 1966, pp. 450-491.
8 C. A. Ferreira de Almeida, 1978b.
9 Ver vol. II, pp. 114, 122, 124.
10 A. de Amorim Girão e Paulo Merêa, 1943.

151
tos jurídicos romanos, embora nunca ultrapassasse, a norte, o rio Ave.
O facto da extensão para sul foi definitivamente reconhecido no plano
eclesiástico em 1122, mas ainda era contestado em 125311.
Todavia, fosse por motivos próprios de clérigos eruditos, conhecedores
de livros e de memórias antigas, fosse por razões objectivas, não se esquecia
facilmente a existência de dois polos, um situado no Porto e outro em
Coimbra, e a relação de um com o norte, e do outro com o sul do Douro.
Os redactores dos Annales Portucalenses Veteres, tanto o que redigiu a
secção que vai até 1080 como o da continuação até 1122 não consideram
ainda os dois antigos condados como uma unidade política. Para eles, sem­
pre que designam o conjunto, falam da província portucalense (ou regio por-
tucalensis) e da civitas Colimbria12. Os notários dos documentos, igualmen­
te. Ao falar da autoridade do conde D. Henrique, de D. Raimundo e de
D. Teresa, ou mesmo do rei de Leão, dizem que eles governam «Colimbria
et Portucale» (D C 810, de 1094), «a flumine Mineo usque in Tagum»
(D C 849, de 1097), «in Colimbria... et in Portugal» (D C 884, de 1098),
«in Colimbria» (D C 931, de 1100), etc. Encontram-se expressões deste gé­
nero até 116513. O território portucalense, como se verifica de documentos
redigidos a sul do Douro, considera-se fazer parte de um todo mais vasto,
que é frequentemente a Galletia, pelo menos até ao ano 110014. A inclusão
na Hispânia, ou sob um governo situado em Toledo, sem menção da Gali­
za, suscita fórmulas documentais desde 1086 (D C 660, 665, 743), mas
torna-se mais frequente a partir de 110315.
É também necessário notar que, pelo menos em Braga, os clérigos não
esqueciam que havia uma antiga província eclesiástica cuja fronteira era o
Douro. Um documento de 1072 diz mesmo, para distinguir o território de
Santa Maria do que com ele confinava a norte: «in ripa Durio ex parte gal-
leca»16.

A SU PR E M A C IA D E P O R T U C A L E

Estas fórmulas evidenciam a influência das repartições políticas. Como vi­


mos, a relação com a Galiza, da qual o condado portucalense se desmem­
brou, permanece como ponto de referência até 1100, mesmo em docu­
mentos do antigo condado conimbricense. Apesar disso, não se esquece
que Portucale e Coimbra tinham sido condados distintos. Mas a predomi­
nância do primeiro sobre o segundo também se revela desde cedo.
Já em 1098 se diz que o conde D. Henrique é «totius provintie Portu-

11 M. de Oliveira, 1956a, pp. 28-44.


12 APV, pp. 293, 294, 296, 297, 298, 302. Ver sobretudo a última: «fames fuit in civitate Co­
limbria et in tota Portugalensi regione a Mineo usque in Tagum».
13 D C 802; DP, III, 112, 264; DP, IV 43, 156, 158; LP 58, 80, 235, 295; D R 97; M. H.
Coelho, 1977, doc. 129, de 1165; e ainda Vita Tellonis, in SS, p. 64a.
14 D C 490, 653, 659, 773, 781, 790, 810, 834, 884, 931, respectivamente, de 1070, 1086,
1092, 1094, 1096, 1098 e 1100.
15 DP, III, 112. Antes disso, encontra-se a menção da Hispânia como área onde se situa a Ga­
liza, e, nesta, Portucale ou Coimbra: D C 773, 781, 790, 810, 884, 931.
16 D C 500. Ver também, no mesmo sentido: LF 104, 174 e 695, respectivamente, de 1078,
1079 e 1111.

152
galensis dominus» (D C 871); em 1102 chama-se-lhe simplesmente «Portu-
galense» (DP, III, 80); no mesmo ano outro escriba di-lo «obtinente... Por-
tugalensem (provinciam) atque vicinitas, quarum una est Uiseo» (DP, III,
84); enfim, em 1118, também se chama a D. Teresa «regina portugalense»
(DP, IV, 79). Estes documentos concordam com o que dissemos atrás so­
bre as menções dos diversos territórios nos documentos anteriores ao sécu­
lo xi, e que evidenciam igualmente a sobreposição progressiva de Portucale
sobre os outros.
Esta tendência triunfa completamente desde que Afonso Henriques as­
sume o poder: a partir daí a maneira mais corrente de o designar nos do­
cumentos da chancelaria é «totius Portugalensis provinda princeps» ou ou­
tra equivalente; e, depois de tomar o título de rei, «Portugalensium rex».
A diferença entre Portucale e Coimbra esquece-se completamente na chan­
celaria régia. Só nos scriptoria dos clérigos mais eruditos, habituados a con­
sultar velhos documentos e a entrar nas controvérsias sobre as metrópoles,
permanece a ideia de que o território a sul do Douro fazia, outrora, parte
de uma província chamada Lusitânia.
O cónego regrante de Coimbra que quer indicar a região onde Afonso
Henriques fazia as suas campanhas, a sul do Tejo, utiliza esse nome. Diz
também que o rei de Marrocos quis reconquistar a Lusitânia até ao D ou­
ro17. O autor da vida de São Teotónio informa que Afonso Henriques
«dux Portugalis erat... post tocius pene Lusitanie et ex parte Gallecie rex
est effectus» (SS, p. 83b). A mesma ideia aparece nos Milagres de São Vi­
cente do chantre Estêvão de Lisboa (SS, p. 96a).

As M E T R Ó P O L E S E C LE SIÁ ST IC A S

Entretanto, a questão das metrópoles eclesiásticas, que se arrastava desde o


fim do século xi e que obrigava o arcebispo de Braga a combater dois
grandes adversários, os prelados de Compostela e de Toledo, ou alternada­
mente um dos dois quando eles se opunham entre si, levava o primeiro a
empregar todos os recursos da erudição para tentar provar que as dioceses
de Coimbra, Viseu, Lamego e Idanha pertenciam à Galécia desde o tempo
dos Suevos, e por conseguinte eram suas sufragâneas. Esta ousada tese le­
vantava muitas objecções apesar de fundada em alguns antecedentes histó­
ricos e de ter por si não só o apoio político do rei de Portugal, como tam­
bém as afinidades criadas pela inclusão das mesmas dioceses num único
regnum.
Por isso, o arcebispo de Compostela pôde apresentar nos concílios de
Tuy de 1182 e de 1187 (PUP, 91 e 110) uma enorme quantidade de teste­
munhos escritos para provar a tese contrária. Estava interessado em de­
monstrar que a província eclesiástica sobre a qual Braga tinha jurisdição
terminava no Douro, porque em 1120 havia obtido do Papa a atribuição
dos direitos metropolíticos de Mérida à sua diocese, o que lhe dava jurisdi­
ção sobre todas as dioceses portuguesas a sul do Douro18. De facto, com a

17 «Coeitavit venire Collimbriam et sic denique subiueata sibi tota Lusitania usque Dorium.»
(ADA, p. 159).
18 L. Vones, 1980, pp. 271-483.

153
colaboração do bispo do Porto, e explorando as rivalidades entre os prela­
dos de Coimbra e de Braga, o arcebispo de Compostela conseguiu fre­
quentemente dividi-los.
Deixando de lado as motivações imediatas e as intrigas, verifica-se nes­
ta constante oposição entre duas teses a dificuldade de conciliar duas ten­
dências divergentes: uma que tenta prolongar um passado de divisão entre
a Galécia e a Lusitânia, e outra que pretende traduzir institucionalmente a
expansão demográfica da área nortenha.
De qualquer maneira, durante a maior parte do pontificado de D. João
Peculiar em Braga, e com o apoio interessado de Afonso Henriques, os
vínculos entre a antiga metrópole da Galécia e os bispados de Coimbra,
Viseu e Lamego foram-se fortalecendo19. A obediência dos bispos de Lis­
boa e Évora a Braga foi mais difícil de conseguir, mas, através de complica­
das vicissitudes e controvérsias, foi sendo mantida com algumas intermi­
tências até à sentença de 1199, dada pelo papa Inocêncio III, a qual
atribui a Braga as sufragâneas de Porto, Coimbra e Viseu em Portugal, e
de Tuy, Orense, Mondonedo, Lugo e Astorga na Galiza. E a Compostela,
as de Lisboa, Évora, Lamego e Guarda, em Portugal, e de Ávila, Salamanca
e Zamora, em Leão20.
Por esta solução de compromisso tornava-se evidente que os interesses
particulares das metrópoles e a sua capacidade de negociação, sustentada
por poderosos recursos financeiros, lhes permitia manter vestígios de uma
organização do espaço que já estava ultrapassada pela evolução demográfica
e política. Sinal de que o puzzle da associação de unidades regionais não
era ainda suficientemente claro para considerar a solução política como a
única possível. De facto, o agrupamento das dioceses do país em dois sec­
tores, com as da Beira (Lamego e Guarda) associadas ao reino de Leão, e
as de Lisboa e Évora, ao Sul Mediterrânico, não era totalmente absurda,
a não ser na medida em que elas se faziam dependentes de Compostela,
prolongando artificialmente a extravagante influência de um prelado pode­
roso. Deve advertir-se, por outro lado, que o problemà das metrópoles ia
revestindo cada vez menos importância real em virtude da crescente cen­
tralização romana que levava a decidir directamente em Roma a maioria
das questões importantes, retirando-se cada vez mais ao arcebispo a ocasião
de intervir nas dioceses sufragâneas.
A solução encontrada tornava-se, assim, até certo ponto, vazia de senti­
do. No futuro, deveria servir principalmente para atribuir a bispos leoneses
funções de juízes apostólicos em questões graves, que opunham os reis aos
prelados portugueses, o que contribuía para sustentar certo tipo de laços
entre as diversas unidades administrativas do nosso país com as do reino
vizinho. Por outro lado, trazia de facto uma certa divisão aos bispos portu­
gueses. Esta manifestou-se, não poucas vezes, como vimos, nas relações en­
tre o rei e a Igreja. A coesão interna no plano eclesiástico foi, por isso, um
processo laborioso e nunca completado até ao século xiv. Constituía a ex­

19 N ão sem dificuldades da parte de Coimbra. Ver o libelo de D. João Anaia contra o arcebis­
po de Braga in Erdmann, 1935, doc. 4. Sobre as questões entre ambos, vindas já do pontificado
anterior, ver A. de J. da Costa, 1984.
20 M H V I, does. 198, 199, 204 a 207.

154
pressão típica de tradições seculares ultrapassadas pela nova ordenação do
território, e que era difícil absorver completamente.

A EV O LU ÇÃ O D A R E D E A D M IN IST R A T IV A

O que vimos até aqui mostra, em termos muito gerais, a relativa coerência
e a continuidade do sistema administrativo eclesiástico, e, pelo contrário, a
incoerência e a variabilidade do sistema administrativo civil. Esta oposição
parece prolongar-se em termos semelhantes até à época moderna.
Com efeito, a hierarquia eclesiástica constituída por paróquias, arcedia-
gados, dioceses e metrópoles eclesiásticas mantém-se desde o século u até
aos dias de hoje, apesar das perturbações dos séculos vm a xi. A rede terri­
torial que a traduz tem, muitas vezes, as marcas dos seus fundamentos, de­
correntes simultaneamente da geografia humana e de algumas formações
gentílicas que os Romanos consagraram e que ainda perduravam na época
suévica.
Nada disto se verifica na rede administrativa civil. Com efeito, se algu­
mas «terras» e alguns julgados medievais de Entre-Douro-e-Minho e de
Trás-os-Montes coincidem com paróquias suévicas e com arcediagados, a
regra não é geral e não se consegue descortinar qual a relação exacta entre
terras e julgados. Em princípio estes prolongam divisões administrativas
tardo-romanas ou visigóticas, enquanto aquelas resultam da implantação
de poderes de natureza feudal, que podem ou não coincidir com velhas di­
visões «paroquiais», e que são dotados de pouca estabilidade. O sanciona-
mento, pelo rei, dos poderes dos ricos-homens administradores das «terras»
não foi suficiente para dotar este sistema de coerência e de continuidade.
N a Beira há também «terras» e julgados, mas a sua estabilidade é ainda
menor e as suas dimensões extremamente variáveis, sem que se perceba a
lógica ae tais alterações21. Por outro lado, além destas divisões existem
também os termos dos concelhos, com dimensões frequentemente compa­
ráveis às das «terras». Ora, esta rede não parece basear-se na implantação
de poderes administrativos e fiscais (como os julgados), nem de poderes
feudais (como as «terras»), mas de poderes militares decorrentes da capaci­
dade de controlo de uma povoação amuralhada sobre o respectivo territó­
rio. A autoridade dos ricos-homens governadores das terras da Beira, da
Estremadura e do Alentejo parece ser problemática, pelo menos a partir de
Afonso III, e nula desde meados do reinado de D. Dinis. Nos castelos o
alcaide aparece como efectivo representante do rei, mas não subordinado
ao rico-homem. Os poderes administrativos dos mordomos, e os judiciais
dos meirinhos e corregedores não coincidiam com os de nenhum deles.
O significado destas observações é muito vasto. Temos de reconhecer,
antes de mais, que não existe, durante o período que nos ocupa, uma tra­
dição uniforme e contínua, em termos de administração política, e que as
soluções encontradas resultam geralmente de compromissos entre o poder
central e poderes regionais e locais de natureza diferente. Não são, portan­

21 Cf. as listas de governadores de «terras» estabelecidas por Leontina Ventura, 1992, II,
pp. 1014-1030, 1033-1038.

155
to, expressão de afinidades regionais. Não conferem à rede administrativa
um carácter «natural». O poder régio sobrepõe-se a formações fortuitas e
desconexas entre si. A relação entre o poder central e as comunidades de
base é artificial. Ou seja, o país não nasce de «baixo» para «cima», mas de «ci­
ma» para «baixo». A Nação não tem uma base «nacional», mas estatal.

A SE D E DA C O R T E REG IA

Do ponto de vista político, o mais importante é salientar a transferência da


sede do condado, de Guimarães para Coimbra, e o papel directivo que esta
cidade passou a desempenhar na Reconquista desde a década de 1130.
O facto de Coimbra ser nesta altura uma ponta avançada da Cristandade e
de residirem no Norte as forças que lhe conferiam a combatividade explica
o costume de se chamar «Portugal» a um território que deixara de estar
centrado no lugar que lhe deu o nome, que era cada vez mais vasto e in­
cluía o antigo condado de Coimbra com as outras dioceses a norte e a sul
do Douro. Esta prática impôs-se na cúria de Afonso Henriques sem qual­
quer hesitação, ao ponto de acabar por eliminar a própria consciência de
aquele nome ter uma origem local. Também é curioso que aos súbditos do
príncipe se chamasse, sem hesitar, «portucalenses», incluindo os originários
de Coimbra ou de Viseu. Este facto não pode deixar de significar a predo­
minância da gente do Norte sobre os autóctones da nova sede do condado,
pelo menos nos lugares de chefia.
A centralização do condado (e, depois, do reino) em Coimbra mante­
ve-se até ao fim do século x i i . Embora Santarém e Lisboa fossem cidades
importantes, estavam demasiado próximas das zonas de combate para po­
derem tornar-se rapidamente os novos polos do espaço português. Só vie­
ram a sê-lo depois da conquista de Alcácer em 1217, que marcou o mo­
mento da estabilização definitiva da linha do Tejo. De facto, já Afonso II,
com a sua mentalidade «moderna», estacionou frequentemente em Lisboa
(Abril-Maio de 1217, Maio-Junho de 1218) e, sobretudo, em Santarém
(Dezembro de 1217 a Abril de 1218, Novembro do mesmo ano a Abril de
1220, e desde Janeiro de 1221 até ao fim da vida)22. Desde então, a per­
manência da corte em Lisboa e Santarém foi cada vez mais habitual. Afon­
so III construiu um palácio novo na segunda23 e viveu a maior parte do
tempo em ambas, embora se deslocasse com frequência a Coimbra e, algu­
mas vezes, a Guimarães24.
Só no tempo deste rei e de D. Dinis podemos usar com segurança o
indicador das deslocações régias25 para descobrir os principais polos regio­
nais e a função que eles desempenharam na ordenação do território. De
facto, vê-se que, com Afonso III, a maioria das suas viagens se fazia pela
velha via romana que ligava Lisboa, Santarém, Coimbra e Porto, e se in­

22 Rui de Azevedo, 1967b, p. 73.


23 M. A. Beirante, 1980, p. 61.
24 J. J. Alves Dias, 1980, pp. 461-462.
25 Embora publicada integralmente, a documentação de Afonso I dificilmente permite recons­
tituir o seu itinerário. A de Sancho I revela deslocações frequentes, mas concentradas na Estrema­
dura e no litoral, entre Lisboa, Santarém, Coimbra e Guimarães. Ver o mapa 19.

156
troduzia a partir dela no interior do país, para procurar centros como Gui­
marães e Braga, no Norte; Guarda, na Beira, e Évora, Eivas e Beja, no
Sul26. Em comparação com as de seu pai, D. Dinis intensifica as viagens
na Beira e no Alentejo, vai raramente a Trás-os-Montes e à Beira Baixa ou
ao Algarve, mas continua a usar de preferência a grande via próxima do li­
toral atlântico. Pelos seus itinerários vê-se, no entanto, que a estrada da
Beira, que liga Coimbra à Guarda, se torna mais frequentada, e que a Es­
tremadura pode agora ser visitada em todos os sentidos, sem recorrer cons­
tantemente à via principal, como acontecera até aí27.

Pa pel das c id a d e s

As cidades tornam-se, assim, os centros ordenadores do território. Estava


completamente ultrapassada a época da ruralidade e da predominância mi­
litar a que aludimos para caracterizar a época anterior ao século x i i . N o
fim do reinado de D. Dinis, a julgar pelos indicadores que podemos usar e
reunindo agora indícios apresentados a outro propósito28, pode admitir-se
que em Entre-Douro-e-Minho os maiores centros sejam Ponte de Lima,
Guimarães, Braga e Porto, embora se verifique uma certa tendência para a
dispersão, pois além deles surgem outros aglomerados que não são estrita­
mente subsidiários deles, como Valença, Caminha e Monção, nas margens
do Minho, fazendo a ligação com a .Galiza; Viana do Castelo, no litoral,
concorrendo com o Porto nas ligações marítimas; Marco de Canaveses e
Amarante concentrando a comunicação com Trás-os-Montes.
Nesta província, a via do vale do Corgo parece ser o eixo dominante,
assegurando as comunicações entre o vale do Douro e Chaves ou Bragan­
ça, depois de passar por Constantim de Panóias (depois Vila Real), onde
vêm também entroncar os caminhos de Entre-Douro-e-Minho vindos de
Amarante. Chaves e Bragança traduzem ao mesmo tempo as influências
galega e leonesa, servindo de entrepostos nas transacções com o país vi­
zinho.
A constelação de pequenas povoações do Alto Douro, que talvez nos
séculos x i e x i i se organizasse em função do vale do Douro, parece agora
cada vez mais atraída pelo eixo viário que corre pela margem esquerda do
Mondego, o qual, por sua vez, também se sobrepõe às antigas estradas de
origem romana que ligavam Coimbra a Viseu e Lamego, e o vale do Vou­
ga à «terra» de Anégia, para daí conduzirem a Entre-Douro-e-Minho. So-
brepõe-se também à estrada que unia Viseu a Alcântara e Mérida, por Ida-
nha, que todavia talvez volte a animar-se, mas só em alguns troços, no fim
do século x i i i e princípio do seguinte (ver a fig. 18). De facto, nota-se
também na Beira uma certa deslocação dos aglomerados para o Sul, até à
Covilhã, que canaliza as viagens à Beira Baixa. Esta vertente meridional da
província, que até ao século x i i i devia ter sido escassamente povoada, tem
agora o seu centro em Castelo Branco, cidade que até então tinha uma im­
portância reduzida.

26 J. J. Alves Dias, 1980, p. 470, e fig. 19.


27 V. Rau (dir.), 1962, e fig. 19.
28 Ver vol. II, pp. 251-261 e fig. 19.

157
Nao se deve esquecer que a região a leste da Beira foi, até ao princípio
do século x iii , fortemente condicionada pela rivalidade luso-leonesa. A zo­
na de Riba-Côa, cuja forte personalidade está tão marcada nos foros lon­
gos, de que tanto nos servimos para tipificar os concelhos mais arcaicos,
pertenceu, até 1297, ao reino de Leão. Os concelhos portugueses entre
Numão e Idanha estiveram sempre condicionados pela situação de guerra
ou de conflito latente, até ao tratado de Alcanises, o que lhes imprime um
comportamento especial, e, em termos de ordenação do território, a oscila­
ção entre as influências de um lado e do outro da fronteira. Não se pode
esquecer que o próprio nome de «Beira», estendido a toda a zona das mon­
tanhas a sul do Douro, deriva do vocábulo comum gue significa justamen­
te a terra ao longo da «fronteira»29.
No Alentejo nota-se o contraste entre a zona nordeste, onde as povoa­
ções crescem e proliferam em torno de Évora, e a zona sul, com um único
pólo em Beja, ligado à via do Guadiana, por Mértola, que Estabelece os
contactos com o Algarve. O resto da província é o grande (^escampado,
onde vagueiam os rebanhos das ordens militares. N a vertente db litoral, só
Alcácer do Sal se evidencia, como entreposto das comunicações entre as
pastagens alentejanas e Lisboa e o escoamento pela foz do Sado. Com a
ocupação portuguesa do Alentejo, esta região, que se estruturava como
uma zona de passagem em função das suas ligações com Mérida e Sevilha
de um lado, Lisboa e Santarém do outro, passa a ter como dominantes as
vias norte-sul, que ligam estas mesmas duas cidades ao Algarve, passando
pelo vale do Sado, atravessando o campo de Ourique e a serra algarvia em
direcção a Silves e a Faro, ou indo buscar a linha do Guadiana em direc-
ção a Castro Marim. A ligação com o reino vizinho, durante um certo
tempo afectada pela ruptura com o mundo muçulmano, viria depois a re­
cuperar a sua importância, assegurando a prosperidade de Évora e da cons­
telação de centros urbanos que a rodeavam30.
Mas o eixo de todo o país, desde a época de Afonso Henriques, é a via
que vai de Lisboa ao Porto, por Santarém e Coimbra. Põe em comunica­
ção as duas regiões mais povoadas do país, Entre-Douro-e-Minho e a Es­
tremadura. É a grande artéria por onde passam os homens e as mercado­
rias, o feixe onde se concentram as trocas e os contactos. Estabelece um
vínculo entre as suas regiões onde à partida predominavam duas formas di­
ferentes de organização social e económica, a concelhia e a senhorial. Não
admira, por isso, que nela se situem também os centros políticos: o rei e os
membros da administração régia sabem que aí se implantam os fulcros vi­
tais do reino, e que daí podem estender a todo ele a sua vigilância e a sua
força. Dominados tais centros e a estrada que os unia, estava dominado to­
do o país. É ele, de facto, o eixo ordenador da economia, da civilização e
da política, aquele que assegura a interacção das suas actividades de maior
amplitude.

29 Ainda tem esse significado em Leg., p. 253, de 1253. Cf. A. Fernandes, 1976, pp. 249-252.
30 João Carlos Garcia, 1986.

158
R e g iõ e s e p r o v ín c ia s

Nesta enumeração dos fulcros e eixos vitais de todo o território português


foi necessário referir-me às grandes áreas, socorrendo-me das denominações
actuais das províncias. Não existiam, é claro, como tal, até ao fim da época
em que nos situamos. Mas já as alçadas dos meirinhos levavam a conside­
rar as terras e os julgados em grandes grupos, surgindo então designações
como «Além-Douro» ou «Aquém-Douro». A primeira vez que se exprime
com certa clareza a divisão do reino em grandes regiões, sem recorrer às
denominações de origem eclesiástica é, que eu saiba, o testamento de
D. Dinis de 1299. Aqui, ao fixar a forma de representação dos concelhos na
eventual comissão de regência, o monarca agrupa os concelhos «dentre
Tejo e Odiana e de Moura e Serpa», o que corresponde ao Alentejo, mas
revela a diferença que se estabelecia entre as terras dos dois kdos do Gua­
diana; os da Estremadura, que inclui toda a região litoral oitre Tejo e
Mondego; os «dentre Douro e Mondego»; os da «Beira»; e os «d’antre
Douro e Minho», que deve incluir Trás-os-Montes (ML, V, 331). Esta di­
visão supõe uma consciência mais clara das repartições do território situado
entre o Douro e o Tejo, do que para além destes rios, pois é a única zona
dividida, em torno de quatro grandes cidades: Lisboa e Santarém para a
Estremadura; Coimbra para o resto do litoral, e Guarda para a Beira. De
facto é aquela que o rei percorre mais frequentemente. O Algarve, não
mencionado, é ainda um reino à parte, como se vê também pelo título usa­
do pelo monarca nos documentos solenes: «rei de Portugal e do Algarve».

CO N TACTO S HUMANOS

Estas regiões estão em contacto umas com as outras, antes de mais por in­
termédio do rei, que as visita, embora com uma frequência desigual. Mas
há também deslocações de mercadores e almocreves, que trazem do campo
os géneros necessários para alimentar a gente das cidades, de trabalhadores
que abandonam as regiões pobres onde os anos maus dizimam os habitan­
tes, de jovens a quem a exploração familiar não chega para sustentar, e a
abandonam para ir buscar a subsistência a outro lado, de mouros cativos
que os senhores levam para o Norte e aí se misturam com a população au­
tóctone, de membros da nobreza que estabelecem os seus senhorios na Bei­
ra, no Ribatejo ou mesmo no Alentejo, de ordens militares cujos mestres e
comendadores procedem de famílias nortenhas ou beirãs, de funcionários
régios que nascem nas cidades, mas percorrem todos os reguengos do
reino.
A julgar pelos fenómenos linguísticos, porém, não é só a camada diri­
gente, à qual pertencem alguns dos que mencionei, que intensifica as liga­
ções e contactos cuja estrutura tentei reconstituir. Houve importantes
transferências de gente de todas as classes sociais, sobretudo do Norte para
o Sul, como era de esperar, dada a diferença demográfica entre uma e ou­
tra regiões. O fenómeno, de resto, é permanente. Por isso merece a pena
recordar a maneira como Orlando Ribeiro exprime a sua resultante, a os­
mose entre as duas porções do país, cujos contrastes ele tinha acentuado
antes com tanto vigor.

159
«A acçao do homem teve larga parte no atenuar destes contrastes... Talvez
se pudesse distinguir, na mistura destes elementos, a acçao de duas correntes.
A mais antiga caminhou do sul para o norte: os Romanos levaram a gente dos
redutos castrejos a praticar uma agricultura regular com base na produção de
cereais; na alta Idade Média difundiu-se a vinha em terras de cidra e de cerveja,
e o centeio nas montanhas; modernamente, apenas a oliveira caminhou no
mesmo sentido... A outra corrente, dirigida do norte para o sul, mais moderna,
tomou também maior importância: porque, além dos produtos da terra, afec-
tou os homens que nela vivem e trabalham. A Reconquista desencadeou o mo­
vimento de gente de noroeste para o sul e o interior, que em váriâ^ épocas re­
cebeu incremento; e, ainda nos nossos dias, prossegue este fluxo de colonização
interna, importante, se não pela massa, ao menos pela continuidade com que
se tem manifestado... Nesta mistura de gente e de plantas, assim como na va­
riedade das regiões reside o segredo da unificação portuguesa. Áreas próximas e
muito diferentes, faltam-lhes todavia condições de vida próprias. Que seria do
Norte, superpovoado, se lhe houvesse estancado a emigração? Que seria do «ce­
leiro» alentejano se as regiões de população densa lhe não consumissem os pro­
dutos da terra?» (Orlando Ribeiro, 1967, pp. 159-160.)

Para acentuar estes fenómenos e medir o seu âmbito e influência na


criação do organismo nacional, estruturado e coerente, sem excluir as ten­
sões nem as contradições, evoquem-se, depois dos fenómenos da geografia
humana, os linguísticos. As trocas e os contactos permitiram esbater a dife­
rença entre o galego-português e os falares moçárabes e levaram à formação
de uma língua única. Um dos mais apaixonantes e decisivos estudos para
poder mostrar os limites e a importância das diferenças civilizacionais entre
o Norte e o Sul consistiria em rastrear sistematicamente, na documentação
anterior a 1325, o prolongamento das diferenças dialectais nas diversas re­
giões do país e reconstituir o processo da sua absorção numa língua única.
O que se pode propor desde já, a partir dos dados históricos que aqui se
seleccionaram, é que nela tivesse desempenhado papel fundamental a mis­
tura, no litoral atlântico e sobretudo no estremenho, de gentes vindas de
todos os lados. Assim o permite supor a função desempenhada pela região
que vai de Guimarães a Lisboa, onde se cruzam todas as influências e ca­
minhos.
A via marítima, que reforçou o mesmo eixo, tem, decerto, menos im­
portância do que a que lhe atribuiu Jaime Cortesão (1966, pp. 58-100),
pelo menos na época em que nos situamos. Até ao século xiv, o mar está
infestado de piratas e corsários mouriscos ou cristãos, que tornam as via­
gens perigosas e os seus resultados demasiado incertos. Para além dos pes­
cadores, que de resto também não se misturam facilmente com os campo­
neses, só os aventureiros ousavam sulcá-lo regularmente. O mar serve para
o transporte de mercadorias pesadas ou de luxo, mas os que nele intervêm
são ainda uma minoria escassa no conjunto da população portuguesa31.
Apesar de tais limites, não se pode esquecer que o mar foi também via de
comunicações. Nele se reforçaram as que se processavam pela estrada que
ligava Lisboa ao Porto.

31 Sobre o prolongamento da pirataria durante os séculos xm e xiv, e mesmo as suas incursões


nas povoações próximas da costa, ver Alberto Iria, 1956, pp. 102-146. Sobre o progressivo desen­
volvimento dos contactos marítimos na costa portuguesa, ver também J. Mattoso, 1988c.

160
O «SISTEM A NERVOSO» DO CORPO NACIONAL

Assim, a coerência do conjunto nacional é-lhe dada pela via que liga entre
si o rosário das cidades próximas do litoral. Une as duas zonas mais impor­
tantes do país. Como diz de novo Orlando Ribeiro, «as feições que deri­
vam da posição atlântica, dominante apenas no Noroeste, adquirem...
especial importância» no conjunto nacional. No Norte Atlântico «perma­
neceram os elementos de civilização mais antigos e mais típicos, aí se cons­
tituiu o Estado, desse inesgotável reservatório humano saiu a gente que
aglutinou a Nação». «A unidade de Portugal deve-se, em larga parte», con­
clui, «ao predomínio destas regiões: elas constituem no organismo nacional
uma espécie de tronco antigo e robusto» (p. 160).
Se me é permitido, preferia, no entanto, alterar a imagem, inspirando-
-me nela para comparar o «reservatório humano» do Norte à raiz donde
parte o tronco que se estende para sul, ladeando pela base a ossatura mon­
tanhosa da Península, e daí se ramifica através dos vales e das vias terres­
tres, comandando todo o território. O que faz a força e a unidade do país
não são tanto, creio, as vigorosas e imemoriais tradições da gente do Norte
ou a fecundidade da sua energia expansiva, mas a associação de todos os
elementos vitais de uma comunidade humana — as técnicas, a cultura, as
ideias novas, a capacidade organizadora — numa rede coerente capaz de
estruturar o conjunto. Ora, a conjugação da massa humana com as técni­
cas (no sentido mais amplo da palavra) dá-se num espaço próprio, que é a
área das colinas e planícies do litoral atlântico. Ideia, de resto, pouco origi­
nal, pois apenas exprime sinteticamente o que o próprio Orlando Ribeiro
(1977) pressupõe e demonstra nas suas mais variadas modalidades e ex­
pressões, ao longo da obra em que critica as teses geográficas de Oliveira
Martins, Jaime Cortesão e António Sérgio.
Do ponto de vista histórico, importa salientar que, apesar dos prece­
dentes, apesar de a via ter sido aberta e frequentada pelos Romanos, per­
corrida pelos mercadores e cavaleiros árabes e pelos exércitos leoneses e ga­
legos, não se havia tornado nunca, até à conquista de Lisboa, o eixo vital
do Ocidente peninsular. Até esse momento serviu, como tantos outros tro­
ços da rede viária romana, para ligar os grandes entrepostos como Astorga,
Mérida, Sevilha ou Tarragona, onde se recolhiam as mercadorias e as ma­
térias-primas que depois se escoavam para o Mediterrâneo. Era pouco mais
que um lugar de passagem em direcção aos referidos centros que, por sua
vez, desempenhavam o papel subsidiário de polos económicos e políticos
orientados para o exterior. Só com a progressiva fixação da fieira de cidades
que a pontuaram, e a partir do momento em que elas passaram a ter vida
própria, constituindo centros orientadores de zonas rurais à sua volta, é que
a referida estrada se transformou em eixo ordenador da concentração hu­
mana e da distribuição monetária, da produção, circulação e consumo dos
bens materiais e da administração política. Só a partir de então o seu con­
junto alcançou dimensões suficientes para se tornar realmente autónomo.
Foi necessário ultrapassar esta fase para que as terras comandadas por tais
cidades se tornassem o cadinho de uma verdadeira comunidade, com os
seus circuitos internos e a sua língua própria, capaz de preservar tradições

161
que harmonizassem os contributos até então demasiado restritos e inarticu-
lados, das diversas unidades locais e regionais. Até esse momento, estas
unidades podiam, teoricamente, ter-se organizado de outra maneira.

As FR O N T E IR A S

Para que este «sistema nervoso», chamemos-lhe assim, imprimisse uma


maior coerência ao conjunto do país, era ainda necessário definir clara­
mente os limites do espaço que ele estruturava, isto é, as fronteiras que o
separavam de outros conjuntos nacionais32. Estas, como se sabe, oscilaram,
embora dentro de áreas relativamente reduzidas, até ao tratado de Alcani-
ses, que as fixou de maneira praticamente definitiva até aos dias de hoje.
As oscilações foram efectivamente periféricas, mas atingiram quase todo o
seu perímetro. Não importa agora referir em pormenor todas as mudan­
ças33, de resto nem sempre susceptíveis de determinar com rigor, justamen­
te porque ela só em alguns pontos estava suficientemente definida34. Até
ao fim do século xm havia zonas onde só lentamente se foram reduzindo a
uma linha nítida. Acontecia o mesmo, de resto, com as dioceses e as paró­
quias, que só durante o século x i i i e ainda no princípio do século xiv se
transformaram em territórios rigorosamente delimitados35.
Efectivamente, se a fronteira entre Portugal e a Galiza era, a ocidente,
o traço nítido do rio Minho (HC, II, 42, pp. 303-304), devia ser muito
mais vaga na zona do alto Lima e na de todo o território de Trás-os-Mon-
tes. Daí as constantes quezílias com o reino de Leão e as tentativas dos reis
de ambos os países para atraírem à respectiva órbita os condes dos territó­
rios fronteiriços, como Toronho e Límia pelo rei de Portugal, e Bragança
pelo de Leão36. A terra de Baronceli, que pertencia ao arcebispado de Braga,
acabou por se tornar galega, e todo o entre Minho e Lima foi do bispado
de Tuy até ao fim do século xrv37. Os mosteiros beneditinos e os cistercien-
ses da região de Bragança e Montalegre eram dependentes, ou procuraram
sê-lo, de mosteiros leoneses38. Sabe-se também que a zona de Riba-Côa,
que Afonso Henriques chegou a dominar depois ae meados do século x i i 39,
se tornou leonesa até 1279, mas houve numerosas tentativas de ambos os
lados para captar alguns concelhos na mesma região40. Das oscilações da
fronteira na Beira Baixa sabe-se menos, talvez por não ser tão disputada.
Os limites entre Portugal e Leão a sul do Tejo deram origem à renhida
luta em torno da cidade de Badajoz por altura das conquistas de Geraldo
Sem Pavor, mas a soberania portuguesa teve de se reduzir a Eivas e Campo

32 Sobre a noção de fronteira na Idade Média, ver Rita Costa Gomes, 1987 e 1991.
33 Foi um dos principais objectivos de T. de Sousa Soares, 1962; id.> 1970.
34 Era o caso quando se tomava como limite um rio, como o Minho a norte, já no princípio
do século xn (HC, II, 42, pp. 303-304), e o Eljas a leste, em 1165 (D R 288).
35 Ver vol. II, pp. 333-334. Para a delimitação das dioceses, ver M. de Oliveira, 1965a,
pp. 28-58; A. D. de Sousa Costa, 1963, p p .*280-355; A. de J. da Costa, 1959, I, pp. 106-114;
M. Gonçalves da Costa, 1977, pp. 113-115.
36 Ver vol. II, pp. 152-154.
37 A. de J. da Costa, 1981, pp. 73-79, 132.
38 Júnias dependente de Osseira: M. D. Yanez, 1983, pp. 357-371; Castro de Avelãs tenta su-
jeitar-se a Castanheira: J. P. Ribeiro, 1813, III/2, d. 38; PUP, 151; LF, 494-495.
39 R. de Azevedo, 1962.
40 L. F. Lindley Cintra, 1959, pp. xxiii -lxxiii .

162
Maior durante o reinado de um soberano fraco, como Sancho II. Mais a
sul, as controvérsias acerca da posse do vale do Guadiana suscitaram
a guerra luso-castelhana de 1253, e só tiveram solução definitiva em 1267,
graças à persistência de Afonso III, que negociou a posse de Moura e Serpa
e o domínio sobre o Algarve41. A ocupação portuguesa do território leonês
de Riba-Côa, consagrada pelo tratado de Alcanises, foi um episódio da in­
tervenção de D. Dinis nas guerras civis castelhanas durante a menoridade
de Fernando IV42.
De facto, só era possível resolver por negociações pontuais cada um
destes casos, onde a divisão natural não se impunha automaticamente. As
soluções encontradas exigiram compromissos relativamente arbitrários. Mas
a própria fronteira contribuiu depois para estruturar melhor as áreas de in­
fluência dos conjuntos nacionais na Península43. Efectivamente, só a partir
do momento em que ela se definiu se puderam tornar mais conscientes as
noções de importação e de exportação e se relacionou com um espaço de­
terminado a oposição entre «nacional» e «estrangeiro», que passou a apli­
car-se não só a pessoas, mas também a coisas e, sobretudo, à moeda. A par­
tir desse momento, não podia mais haver terras ou indivíduos que não
pertencessem a um determinado reino, muito menos comunidades inteiras
que pudessem negociar a sua fidelidade ao rei que mais as favorecesse44.
As medidas económicas de Afonso III contribuíram, pois, enormemen­
te, para definir com rigor a noção de fronteira: era necessário saber a quem
se pagava a décima na transacção das mercadorias com os reinos estrangei­
ros e em que pontos se podia fazer o controlo das importações e das expor­
tações; os limites da soberania nacional ficaram mais claros com o fomento
das cidades de fronteira, sobretudo junto ao rio Minho45. Todavia, foi
D. Dinis quem mais contribuiu para a transformar numa linha contínua,
sujeita à vigilância de uma sequência de castelos que ele mandou construir
ou restaurar com infatigável perseverança, segundo um programa, prova­
velmente bem consciente, de estabelecimento definitivo dos limites espa­
ciais do reino46. O tratado de Alcanises foi o coroamento desta política.
Mas ela compreendeu também a confirmação da política de desenvolvi­
mento urbano nas fronteiras, a fundação do primeiro couto de homiziados
em Noudar (1308), a implacável luta contra a constituição dos senhorios
de seu irmão D. Afonso em Marvão, Portalegre e Arronches. O rigor com
que a política fronteiriça de D. Dinis foi executada valeu a Portugal a deli­
mitação praticamente definitiva do seu território47.

41 F. Pérez Embid, 1975; J. C. Garcia, 1983.


42 C. González Mínguez, 1976.
43 Ver como exemplo as dificuldades em delimitar a fronteira entre os concelhos castelhanos de
Sevilha e Aroche e os portugueses de Moura e Noudar, durante o século xiv: J. C. Garcia, 1986,
nota 268; ver também Daniel Rodríguez Blanco, 1987.
44 A ideia de uma comunidade situada na fronteira poder negociar o seu estatuto é claramente
expressa no foral de Tavares: «et non exeant de illis (foribus) pro tali actio que est illo castro inter
mauros et christianos et uolent proinde ingénuos esse et querent bonos foros prenominatos» (D R 27,
de 1112).
45 Cf. M. Helena Coelho, 1990, I, pp. 199-237; Amélia Andrade, 1993; P. Dordio Gomes,
1993.
46 J. Veríssimo Serrão, 1977, I, pp. 253-254; cf. C. 1419 (ed. Silva Tarouca, II, pp. 6-7).
47 Ver a nota 45 e ainda H. Baquero Moreno, 1986, p. 101; B. Sá-Nogueira, 1991.

163
C onclusão
O organismo formado pelo conjunto de zonas bem diferentes entre si, mas
comunicando umas com as outras por meio da rede de cidades da linha
próxima do litoral, encontra nela a sua coerência. Completou-se com o re­
corte nítido do espaço por ele ocupado. A partir desse momento, foi tam­
bém possível determinar melhor as relações do conjunto com o exterior e a
função que neles desempenhavam os pontos de escoamento e de acesso.
Surgiu assim, claramente definido e estruturado por iniciativa do poder ré­
gio (ou seja, do Estado), o corpo material da Nação.

4.2. Identidade
Como vimos mais acima, ainda em 1165 havia quem continuasse a consi­
derar Portucale uma unidade distinta do condado de Coimbra. Ao mesmo
tempo, encontrámos indícios de desde 1098 se começar a designar o con­
junto dos dois condados sob o nome único de Portucale, que depois se foi
tornando cada vez mais exclusivo. As informações que dei a esse respeito
destinavam-se a deduzir daí o processo de expansão da área de influência
do Porto, como centro ordenador de um espaço cada vez mais amplo e
que tendia sobretudo a estender-se para sul.
Interessa agora tentar descobrir como é que os homens que viviam no
reino foram descobrindo que pertenciam a uma unidade política diferente
das outras existentes na Cristandade. O fenómeno tem uma base real, ob-
jectiva, que tentámos reconstruir no parágrafo anterior. Era a condição ne­
cessária, mas não suficiente, para os seus habitantes tomarem consciência
de um conjunto autónomo e a exprimirem em termos ideológicos. Temos,
no entanto, de distinguir a consciência de obedecer a um chefe político e a
de pertencer, independentemente dele, a uma nação. Entramos aqui num
terreno cheio de ambiguidades e de imprecisões. É importante percorrê-lo
tentando não interpretar os dados à luz dos nossos conceitos actuais, que
dependem de uma vivência secular do fenómeno nacional e de uma ideo­
logia nacionalista profundamente interiorizada. Os dados recolhidos devem
ser, antes, interpretados à luz de duas noções dominantes no pensamento
político comum da época: a de fidelidade pessoal ao rei, cuja importância
salientei ao tratar das instituições feudais; e a de pertença a uma comuni­
dade humana restrita — o concelho ou o senhorio. A segunda é evidente­
mente a dominante no plano da consciência individual da maioria da
população. Os contactos, mesmo frequentes e regulares com outras comu­
nidades, não significam necessariamente a noção de pertencer, juntamente
com elas, a um organismo mais vasto, que seria a Nação; também não bas­
ta para isso a ideia de dever a fidelidade ao mesmo rei.
Para conduzir a pesquisa, é importante ter em conta o grau e o tipo de
cultura dos diversos grupos sociais, cujas expressões tentaremos interpretar
separadamente. As concepções dos clérigos são diferentes das nobiliárqui­
cas, e estas das campesinas ou dos vilãos dos concelhos. Os escribas da
chancelaria régia e os juristas da cúria não traduzem as ideias de toda a
gente, mas apenas as da minoria a que pertencem. O que eles pensam e di-

164
zem só é significativo para o seu grupo. Estas distinções não significam,
porém, que as noções difundidas por um grupo cultural nao influenciem
os outros. As concepções expressas pelos clérigos e pelos intelectuais da
corte são particularmente importantes, pois têm quase sempre uma função
ideológica, isto é, pretendem ser universais e destinam-se a ser difundidas
por meio de uma autêntica acção de propaganda.

A C H A N C ELA R IA

Comecemos, pois, por examinar os documentos da chancelaria condal e da


chancelaria régia. Basta atentar nos títulos e nas subscrições dos outorgan­
tes, para notar imediatamente uma nítida diferença entre as dos condes e
as de Afonso I: enquanto aqueles indicam geralmente o grau hierárquico
e o parentesco com o rei de Leão, sem mencionar a região que lhes foi
confiada, Afonso Henriques exprime constantemente, e desde o princípio
do seu governo, a referência a Portugal como determinativo do grau hie­
rárquico. Assim, enquanto D. Henrique e D. Teresa, em 76 diplomas (ex­
cluídos, obviamente, os falsos), mencionam Portugal apenas sete vezes na
intitulação e três na subscrição (além de uma na parte inicial do «dispositi­
vo»), o título de príncipe ou de infante de Portugal ou dos Portugueses só
por excepção não aparece nos diplomas afonsinos.

S in a is de v a l id a ç ã o

A diferença é ainda mais nítida quando se examinam os «sinais de sobera­


nia» que se desenhavam no fim dos documentos solenes. A cruz, a estrela
ou o florão utilizados pelos condes têm inscritos apenas os nomes pessoais:
Henrique ou Teresa. O sinal de Afonso Henriques, pelo contrário, até
1144 ou 1150, é apenas o nome de Portugal e não o do príncipe, associa­
do a uma cruz ou a um florão. Só em 1142 aparece com as palavras «rex
Portugal (ensis)», ainda sem o nome de Afonso. Para ver surgir este é pre­
ciso esperar por 1144. Mesmo assim, a referência ao reino continua a ser
normal quase até cerca de 1160. Neste conjunto coerente encontra-se ape­
nas uma excepção num diploma de 1132 cujo sinal tem escrito «infans Al-
fonsus» (fig. 20).
A repentina emergência do nome de Portugal nos hábitos da chancela­
ria, sob a forma de um símbolo independente do nome do seu chefe e até
da sua categoria, até ele tomar o título de rei, deve considerar-se um indí­
cio extremamente importante. Creio que só se pode interpretar como a ex­
pressão de que os notários da cúria consideravam a independência alcança­
da por Afonso Henriques em 1128 como o resultado de um esforço
comum e não da concessão pessoal a um chefe, mesmo de raça real48. Um
esforço que eles continuavam a sustentar colectivamente até o carisma pes­
soal de Afonso Henriques se tornar o fenómeno dominante. De facto, a
preferência da chancelaria pelo sinal em que não figura o nome do prínci­
pe ou do rei irá dar lugar, pelos anos 1150-1160, ao costume contrário, de

48 Indício notado também por P. Feige, 1978, pp. 199-203.

165
isolar o seu nome do do reino, deixando este desaparecer. A personalidade
de Afonso Henriques tornava-se então mais absorvente e era projectada pe­
los clérigos da chancelaria, como emblema suficientemente significativo do
poder e da autoridade. Conformavam-se assim com os hábitos das outras
chancelarias peninsulares, por influência da rota das bulas papais.
A interpretação que dou do sinal de validação usado entre 1128 e
1150 tem, pois, a maior importância como indicador de um sentimento
colectivo muito precoce por parte do grupo que apoiava Afonso I. Pode
aproximar-se de um indício diferente, e que também não lhe atribui o pa­
pel mais importante na conquista da independência, no episódio da Gesta
de Afonso Henriques que considera Soeiro Mendes o verdadeiro vencedor
da batalha de São Mamede.
Continuando a observar os documentos da chancelaria, verificamos
que no tempo de Sancho I se generalizavam os sinais de validação só com
o nome do rei e dos membros da família real (figura 20). Mas por volta da
época em que ele tomou Silves, o glorioso feito impressionou suficiente­
mente os notários para surgir outro tipo com maior carga simbólica e sig­
nificado mais largo. E o sinal que contém uma estilização cruciforme do
escudo heráldico adoptado já por Afonso Henriques, e com a legenda
«Santius rex Silvii et Algarbi», ou «Sancius rex Portugalis» (figura 20).
O escudo do rei, cujo primeiro exemplar devia datar do reinado anterior, a
julgar por um selo pendente hoje perdido49, torna-se igualmente mais usa­
do por essa altura. Creio que se deve interpretar a mutação como indício
de que a autoridade régia deixa de se identificar exclusivamente com a pes­
soa do respectivo titular, para se associar às formas do seu exercício e às
proezas em que colaboraram muitos dos seus homens.

O E SC U D O D O REI

De facto, o uso de um símbolo heráldico, mesmo que se inspire no escudo


pessoal ou no pavês do rei, ao evocar os seus feitos guerreiros lembra im­
plicitamente a participação dos que se acharam sob o mesmo estandarte e
com ele combateram e se cobriram também de glória. Tal como os selos
e as bandeiras dos concelhos, o emprego de uma insígnia régia, mesmo que
pretenda simbolizar a pessoa do rei, assume automaticamente um valor po-
lissémico. De facto, o uso das armas régias torna-se corrente a partir da dé­
cada de 1190 nos sinais de validação, nos selos e nas moedas. Há mesmo
um documento de Sancho I que o representa de pé, coroado e com o
manto solene, tendo um estandarte à sua esquerda (figura 20).
O escudo com cinco escudetes em cruz, carregados de numerosos
«besantes», que depois se estilizaram em onze e, em seguida, em cinco, e
resultante ele próprio, segundo uma hipótese verosímil50, da estilização
do pavês de Afonso Henriques guardado em Santa Cruz de Coimbra, e

49 Desenhado na História Genealógica de A. C. de Sousa e daí reproduzido por A. de J. da


Costa, 1975, pl. V. Pertencia a um documento de 1133, mas deve ter-lhe sido aposto mais tarde.
H á referência expressa e autêntica a outro selo do mesmo rei em documento de 1157, mas do
qual só restam os cordões: ibid., p. 166; ver também Marquês de Abrantes, 1984.
50 Marquês de Abrantes, 1984.

166
decorado por um número maior de escudetes, tinha um significado forte­
mente militar. E provável que, para os contemporâneos, a colocação dos
escudetes em cruz sugerisse a formação ordenada do exército e, por conse­
guinte, a participação dos chefes e dos cavaleiros, ao mesmo tempo que
apontava o motivo religioso impulsionador da luta contra os Mouros. Foi
usado mesmo por um rei tão pouco interessado em feitos militares como
Afonso II. Manteve-se para sempre como o do reino. Só foi alterado por
Afonso III, que lhe acrescentou como «diferença» a bordadura de castelos,
em número variável, entre onze e oito. Quis assim manter um indício da
sua ascendência régia castelhana, como filho de Urraca de Castela e neto
de Afonso VIII, o vencedor da batalha das Navas de Tolosa51. Embora seja
esta, indubitavelmente, a razão da alteração das armas régias, parece-me
provável que também neste ponto funcione a polissemia, e que os repre­
sentantes municipais vissem na bordadura dos castelos uma alusão aos con­
celhos portugueses sujeitos ao senhorio régio e que, como vimos52, esco­
lhiam muito frequentemente o castelo ou as muralhas para os seus selos e
estandartes. A forma adoptada desde esta época apareceria assim aos olhos
dos magistrados municipais como o símbolo correspondente e recíproco
do daqueles escudos concelhios que colocavam os escudetes do rei sobre as
ameias do castelo, como acontecia em Santarém, Marachique, Torres N o­
vas, Leiria, Chaves, Montalegre, Óbidos e Cantanhede.
Sendo assim, e independentemente da significação original dos dois
símbolos, a associação, nas armas reais, de figuras heráldicas que podiam
ser interpretadas como evocativas da autoridade sobre os guerreiros (os no­
bres) — as quinas — e os concelhos — os castelos — , corresponderia a
considerar como formando um conjunto, harmonizado pela pessoa do rei,
os dois tipos de comunidades existentes no país, aqueles mesmos que são
considerados também como as duas categorias de súbditos do rei na Gesta
de Afonso Henriques (GAH, p. 30).
Sem insistir nesta interpretação, que não sabemos até que ponto pode­
ria estar presente no espírito de alguns portugueses dos séculos xm e xiv,
convém, por outro lado, não esquecer que se trata aqui das armas do rei.
Nada prova, também, que alguns vassalos as sentissem como suas. Toda­
via, a sua difusão por toda a parte prepara o caminho para a projecção do
símbolo do rei sobre a própria Nação.

Rex P o r t u g a l e n s iu m

Para se atingir este estádio da consciência nacional teve, decerto, a maior


importância a noção espacial do regnum, isto é, a ideia de que a autoridade
correspondia a um território, e a designação comum de «Portugueses», a
todos os que nele habitavam. Estas noções surgem desde muito cedo na
documentação régia e eclesiástica. Para a primeira basta um exemplo: já
em 1165 se encontra na doação de Idanha e de Monsanto aos Templários
a expressão de uma fronteira geográfica nítida entre os reinos de Portugal e

51 F. Menéndez Pidal de Navascués, 1982, pp. 61-67.


52 Ver y o I. II, pp. 316-319.

167
de Leão: «quomodo currit aqua Elgie inter regnum meum et regnum Leo-
nis et intrat in Tagum» (D R 288). Para a segunda, pode tirar-se partido do
título Rex Portugalensium, que é a fórmula documental mais corrente de
designar o monarca, quer no tempo de Afonso Henriques quer no de San-
cho I. Ora, este costume contrasta curiosamente com os usos das outras
chancelarias peninsulares, nas quais predominava o título hierárquico asso­
ciado ao nome geográfico, a um conjunto deles ou a uma cidade como
Toledo. Este costume serviu como argumento a J. A. Maravall para afirmar
que na Hispânia o título régio não estava necessariamente ligado à terra ou
às gentes, mas era uma função de contornos vagos sobre um espaço quase
indiferente53. Pretendia com isso afirmar a unidade da Hispânia e a secun-
daridade das formações nacionais. Mesmo que o argumento fosse válido —
o que me parece discutível — , não se verifica no caso português. Deveria
então significar que o nosso uso implica desde 1128 uma habitual relação
entre o rei e os súbditos, cuja organicidade seria expressa pelo nome de um
conjunto de pessoas.

Reg n u m

No reinado de Afonso II, porém, a chancelaria alinha com as outras da Pe­


nínsula, começando a usar correntemente a fórmula rex Portugalie ou Por-
tugalensis, que antes só esporadicamente aparecia. Esta alteração parece sig­
nificar que na cúria se torna habitual considerar o reino não apenas como
o conjunto das pessoas que deviam fidelidade ao rei, mas também como um
organismo com a sua própria consistência, definido por si mesmo e nao
apenas pela pessoa do rei ao qual estava sujeito.
Esta concepção tem antecedentes precoces. Assim, por exemplo, nos
M iracula S. Vicentii, do moçárabe Estêvão, chantre da Sé de Lisboa, redigi­
dos entre 1173 e 1185, fala-se já no «reino» como de um conjunto dotado
de entidade própria, pois é ele, diz-se, que é beneficiado no seu todo pela
presença do mártir, embora a obrigação de lhe prestar culto pertença so­
bretudo à cidade de Lisboa, onde se veneram as suas relíquias5 . O reino é,
pois, independente do rei.
Mas esta doutrina é ainda excepcional na época, como vimos também
a propósito da concepção da autoridade régia55. N a época de Afonso II
torna-se mais corrente, como mostram as suas leis, onde aparece muitas ve­
zes o termo «reino», adjectivado ou não por um possessivo: «todalas partes
do reino» (n.° 2); «moesteiros do nosso reino» (n.° 9), «ordíis do nosso rei­
no»; «dano nosso e do reino (n.° 10); «dano nosso *e das gentes» (n.° 13);
«per todo nosso reino» (n.° 19) (Leg., pp. 164-179). N o seu testamento
encontra-se igualmente a oscilação entre a designação do reino como «seu»
ou sem qualquer possessivo, mas com manifesta tendência para a segunda
forma, em contextos *bastante expressivos:
«Est si in tempore mortis meae filius meus... vel quae debuerit habere reg-

53 J. A. Maravall, 1954a, pp. 369-372, 393-394.


54 «Cum igitur ad tocius regni felicitatem attineat martiris adeo [...] maxime populus ulixbo-
nensis iugo tenetur debito [...]»: Miracula S. Vicentii (ed. Aires Nascimento, 1988, p. 40).
55 Ver supra> p. 69.

168
num non habuerit roboram, sit ipse vel ipsa et regnum in potestate vassalorum
meorum.»

N o mesmo testamento o rei pede ao Papa:


«ipse recipiat in sua commenda et sub protectione sua filios meos et regnum»
(A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 34-33).
Pelo contrário, nos testamentos de Sancho II e de Afonso III predomi­
na a fórmula «meu reino»56.
N o de D. Dinis voltam a encontrar-se expressões como «regnar em
Portugal», «cativos... de Portugal», «rei de Portugal», «defendimento dos
regnos de Portugal e do Algarve», ao lado de «meos regnos» {ibid., pp. 99-
-105). Entretanto, e apesar de o possessivo estar largamente presente no
testamento de Afonso III, o uso do substantivo «reino» como dotado
da sua própria identidade, independentemente do rei, torna-se frequente
na legislação do mesmo monarca57.
Assim se passou quase insensivelmente, nas expressões dos clérigos da
cúria, de uma concepção do país como um conjunto de pessoas e terras so­
bre as quais o rei exercia autoridade, ao de comunidade com a sua própria
consistência, qualquer que fosse o rei que a governasse. Uma comunidade
que provavelmente devia, na mente dos mesmos clérigos, identificar-se pe­
las diferenças que a distinguiam de outras, análogas, na Península e fora
dela. Estas diferenças podiam exprimi-las já recorrendo a um símbolo —
as armas do próprio rei, usadas nas batalhas para distinguir os Portugueses
dos seus inimigos.
Não se encontra, porém, nos escritos da cúria, qualquer indício de
uma ideologia nacional. O que quer dizer que, apesar das expressões dos
legistas de Afonso II, Afonso III e D. Dinis, o elemento que confere uni­
dade e identidade ao reino é ainda a pessoa do rei. Para encontrar as pri­
meiras expressões de carácter ideológico é necessário procurar nos escritos
clericais.

H is t o r io g r a f ia

Antes de as analisar, convém ainda notar que as ideias transmitidas ou


pressupostas nos meios intelectuais da corte se podem também definir pela
ausência de uma historiografia própria. Com efeito, os escritos que neste
sector se podem situar surgem só em meios clericais. A eles me referirei a
seguir. N a corte, porém, não se escrevem ainda as crónicas dos reis de Por­
tugal. O primeiro texto, em romance, deste género é, como se sabe, a Cró­
nica Geral de Espanha de 1344, que, como o seu título indica, abrange o
conjunto da Hispânia58. Os escritos e as composições orais que a precede­
ram, como a Gesta de Afonso Henriques ou a de Egas Moniz, podiam ex­
plorar temas próximos, mas não constituíam uma narrativa seguida dos fei­
tos dos reis portugueses. Estes seriam relatados, segundo parece, pela

56 A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 48-50, 54-57.


57 «Malefactorum regni», «in detrimentum maximum omnium de regno» (Leg., p. 188); «mer-
cator de extra regnum» (p. 194); «pro iustitia et bona regni consuetudine conservandis... pro liber-
tate et utilitate regni» (p. 197); «homées que veerem de fora do reino e trouverem armas pera o
reino de Portugal» (p. 208); «as comunidades do reino de Portugal» (p. 210); etc.
58 L. F. Lindley Cintra, 1951.

169
primeira vez, num escrito perdido a que Diego Catalán chamou a Crónica
galego-portuguesa de Espanha e de Portugal59, que não deve ter sido uma
obra da corte régia e que- podia até não ter como objecto principal relatar
as acções dos nossos reis. E ainda mais significativo que o refundidor do
Livro de Linhagens do Conde D. Pedro atribua aos antepassados dos Trastâ­
maras um papel tão importante na fundação da casa real portuguesa60.
Podem, em todo o caso, apontar-se alguns precedentes da historiogra­
fia régia não clerical. Encontram-se os seus indícios, por exemplo, no rela­
tório sobre os bens da Ordem de Santiago de 1317-131961, onde a refe­
rência à batalha de Ourique pressupõe uma tradição literária, como
mostrou L. F. Lindley Cintra62. E também, até certo ponto, na referência
feita no discurso de João Simão perante o concelho de Santarém para justi­
ficar a recuperação das lezírias por parte da Coroa, em 13056364. A tradu­
ção portuguesa da crónica de Rasis pode igualmente indicar-se como in­
dício do mesmo sentido, apesar de não ser seguro que se deva atribuir a
D. Dinis a sua in icia tiv a.
O que mais se aproxima de uma crónica régia anterior a. meados do sé­
culo xiv é a IV Crónica Breve de Santa Cruz de Coimbra, que isola já como
tema as acções dos reis de Portugal, tendo provavelmente como base a já
referida Crónica galego-portuguesa, mas não se sabe se é um escrito de corte
ou se foi composta em Santa Cruz. Tratar-se-ia de um texto preparatório
do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro?
Seja como for, a viragem decisiva parece ter-se dado com a intervenção
do conde D. Pedro de Barcelos, que quis fazer uma réplica da Primeira
Crónica General, de Afonso X, sem com ela pretender exaltar propriamente
a monarquia portuguesa. De facto, entroncam nos seus textos, quer na
Crónica de 1344 quer no Livro de Linhagens, as composições posteriores
que fazem dos feitos dos reis portugueses o tema de uma obra autónoma.
Este facto só se pode ter dado, portanto, a partir da época de Afonso IV.

Os C L É R IG O S

Como disse mais acima, a historiografia dos reis de Portugal começa por
ser de origem clerical. O primeiro e mais célebre escrito em que as ideias
«nacionais» despontam é aquele a que Monica Blõcker Walter chamou os
Annales Domni Alfonsi Portugallensium R egis\ADA, pp. 131-161), e que
constituem a ampliação de uma das secções dos Annales Portugalenses Vete-
res, cuja recensão curta tinha sido publicada em edição crítica por Pierre
David65. É obra de um cónego regrante de Coimbra e data do rim do sé­
culo x i i 66. O texto, tornado célebre por Herculano67, é o seguinte:

59 D. Catalán Menéndez Pidal, 1962.


60 J. Mattoso, 1989a.
61 A. B. da Costa Veiga, 1940, p. 155.
62 L. F. Lindley Cintra, 1957, pp. 189-190.
63 J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 74.
64 CM R, p. 3, aparato crítico ao título. A menção de D. Dinis só aparece no ms. de Copenha­
ga, do século xvm , e pode ser uma composição tardia.
65 Pierre David, 1947,.pp. 308-310.
66 M. Blõcker Walter, 1966.
67 Herculano, 1980, I, p. 384.

170
«Alguns indignos e estranhos pretendiam apossar-se do reino de Portugal
com o consentimento de sua mãe, a rainha D. Teresa. Ela queria, por soberba,
reinar em lugar de seu marido, excluindo o filho do governo do reino.» Então,
o infante «convocou os seus amigos e os mais nobres de Portugal, que prefe­
riam de longe que ele reinasse sobre eles, do que a mãe e os indignos e de na­
ção estrangeira» (vel indignos et exteros natione) (ADA, p. 152).

A mesma obra diz que Afonso Henriques «protexit totum Portugalle


gladio suo» (p. 151), «adeptus est regnum Portugallis in manu forti»
(p. 152). Foram muitas as lutas dele com os seus inimigos, não só os pa­
gãos, mas também cristãos «qui nimium invidentes ei volebant diripere et
invadere regnum eius» (pp. 151-152). Enfim, ao descrever a invasão do
emir de Marrocos em 1184, o mesmo autor diz que não desistiria de lutar
nem que se juntassem contra ele «o rei de França, o rei de Inglaterra, o rei
de Aragão, o rei de Castela, o rei da Galiza (curiosamente não lhe chama
rei de Leão) e o rei de Portugal» (p. 159).
A ideia de que Portugal era um reino como os outros da Península e
da Cristandade, e de que os súbditos dos outros reis eram estrangeiros, pa­
rece, pois, suficientemente clara. Exprime-se, como era natural, a partir da
noção da oposição entre uns e outros. A consciência da identidade forma­
va-se a partir da de alteridade.
Por outro lado, como mostrou J. A. Maravall, o mesmo regrante não
deixou de sentir o carácter compósito da nação portuguesa, pois, ao dizer
de Afonso Henriques, «obtinuit ipse principatum et monarchiam regni
Portugallis» (p. 152), pressupunha, pelo uso da palavra «monarquia», a au­
toridade sobre uma pluralidade política, embora não do mesmo nível que
o império68. Não posso deixar de ver aqui uma alusão implícita à dualida­
de Portucale-Coimbra, embora, como vimos anteriormente, ela estivesse
cada vez mais obliterada, mesmo nos meios clericais, que a preservaram
mais tempo.
Para fortalecer a ideia de que Portugal tinha a sua própria identidade,
contribuía, nos meios clericais, a interminável polémica das metrópoles
eclesiásticas. Nas reuniões conciliares, ao esgrimir contra os outros arcebis­
pos os argumentos tirados dos livros antigos e das actas canónicas, sur­
giam, por vezes, referências aos vínculos nacionais. Não muito evidentes,
porém, e não só da parte portuguesa. De qualquer maneira, aí se fortale­
ciam como resposta às ambições, por assim dizer, «imperialistas» dos arce­
bispos de Compostela e de Toledo.
Assim, na reunião de Tuy de 1198-1199, o arcediago Paio de Com ­
postela, ao relatar como o rei Fernando II de Leão quis persuadir o bispo
de Zamora a obedecer ao compostelano e não ao bracarense, atribuía-lhe a
justificação seguinte: «quia magis sibi debebat placere suum regnum deco-
rare quam alterius»69. Pelo contrário, em 1217, o clérigo de Braga que
enumera os argumentos da sua Sé para não se sujeitar a Toledo, insiste em
que existem na Hispânia os reinos de Aragão, Navarra, Castela, Leão e
Portugal, e considera um «scandalum» a pretensão de o rei de um deles, o
de Castela, querer submeter todos os outros70.

* 8J. A. Maravall, 1954b, p. 412.


69 P. Feige, 1978, doc. 4, n.° 4.
70 Ibid., doc. 8a, n.os 9 e 57, pp. 405-406, 423.

171
Pela mesma época ou um pouco antes, um monge galego de Celanova,
que relatava os milagres de São Rosendo, atribuía a Afonso Henriques ac-
ções ímpias e tirânicas, durante a ocupação daquela zona da Galiza, que
detinha como usurpador. Por isso foi castigado por Deus juntamente com
os seus colaboradores. Embora ele não chame expressamente estrangeiro ao
rei de Portugal, e apesar de o censurar apenas pelo abuso do poder, não es­
tá longe de sentimentos nacionalistas71.
A mais clara consciência da nacionalidade por parte de clérigos não é
de admirar, sobretudo no caso dos Cónegos Regrantes de Coimbra, que
produziram várias obras de suporte ideológico ao seu protector Afonso
Henriques, e de exaltação e propaganda à guerra santa, provavelmente por
ocasião das invasões almóadas, para encorajarem os Portugueses à resistên­
cia. A função de intérpretes do destino histórico do primeiro rei de Portu­
gal devia levá-los a procurar modelos anteriores. Entre eles tinham, decer­
to, lugar privilegiado as crónicas dos povos germânicos redigidas por
Isidoro de Sevilha na Historia Gothorum, Wandalorum et Suevorumy que
foram invocadas, por exemplo, por um clérigo de Braga para justificar a
posição da sua Sé acerca dos direitos metropolíticos72. Deviam induzir
aqueles que as liam a considerar-se membros de um «povo» ou uma «na­
ção» no sentido medieval do termo73, sem se preocuparem demasiado em
definir com rigor a relação dos Portugueses com os Godos.
Os clérigos que estudavam e ensinavam nas universidades italianas ou
nas da França identificavam-se geralmente com o conjunto amplo dos His-
pani> e por isso é difícil averiguar rigorosamente a sua naturalidade.
Assim, foi motivo de polémica a identificação de Vicente Hispano,
embora esteja hoje determinada com segurança74. Mas mestre João de
Deus (tl2 6 7 ) regista com ênfase a sua origem num dos seus livros mais
difundidos, o Liber poenitentiarius: «ego quem genuit patria pia Portuga-
lensis»75. Noutra obra diz-se cónego de Lisboa «de regno Portugallie oriun-
di»76. Pedro Hispano Portucalense, canonista e decretista menos conhecido
do que o seu homónimo Pedro Julião, diz-se na sua obra Notabilia «Ma-
gistro Petro Yspano Portugalensi»77. Isto não quer dizer que os mesmos au­
tores não preferissem, por vezes, dizer-se simplesmente «Hispanos», como
acontece geralmente com Pedro Julião, com mestre Vicente e com o pró­
prio João de Deus. Este, por exemplo, diz de si próprio noutra obra: «Ego
quem genuit Yspania clara sodalis.»78 E noutra: «Ego quem genuit Yspania
silva marina.»79

71 Vita et miracula S. Rudesindi, milagre 21, in SS, pp. 41b-42a.


72 N o concílio de Tuy de 1187 (PUP, n.° 110, p. 315), onde cita também o Chronicon de Idá-
cio, a Chronica de João de Biclara e o Breviarium rerum gestarum populi Romani de Rufo Festo.
73 R. Fédou, 1971, pp. 137-142.
74 A. D. de Sousa Costa, 1963.
75 Id., 1957, p. 9.
76 Ibid., p. 10.
77 Ibid , p. 12.
78 Ibid., p. 8.
79 Ibid., p. 11.

172
A N O B R E Z A E AS SU AS C O N T R A D IÇ Õ E S

Noutros meios culturais menos influenciados pelos hábitos racionais dos


clérigos, as coisas podiam ser menos claras. Assim, por exemplo, o jogral
que criou a Gesta de Afonso Henriques (tomando à letra o texto que possuí­
mos, e que é um resumo prosificado de quase meados do século xiv) fala
de Portugal como de um espaço ou uma entidade política80 oposta a Leão
e à Galiza81. Refere-se aos Portugueses como aqueles que apoiam o seu rei
e o ajudam na luta contra o Imperador8283. Se este texto reproduzisse a sua
forma original, provavelmente do princípio do século xm , significaria da
parte do seu autor uma precoce consciência da sua nacionalidade, mesmo
que esta não se pudesse nele provavelmente distinguir da noção de fideli­
dade ao rei.
Este texto parece mostrar, como acontece, de resto, com os clericais,
que a consciência da nacionalidade surge em contextos que supõem a opo­
sição a outras nações. Voltamos, pois, a encontrar aqui o que já observára­
mos, isto é, que o choque com os outros revela a identidade própria.
No Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, onde, de resto, aparece tam­
bém a referida Gesta (LL 7, B l-10), encontram-se outros textos que se po­
dem aproximar da frase acima citada acerca da fidelidade dos Portugueses.
Vêm carregados de maior expressividade ideológica, mas, por outro lado,
são ainda mais intimamente associados aos valores vassálicos.
É sobretudo o caso da «estória» de Rodrigo Forjaz de Trastâmara, cuja
acção se atribui ao tempo do rei Garcia da Galiza e de Portugal. Apesar de
se situar numa época tão recuada e de literariamente depender de uma ges­
ta tão antiga como o Cantar do Cerco de Zamorc^y deve ser uma narrativa
do século xm profundamente alterada pelo refundidor de c. 1365 ou de
c. 1380. Sendo assim, mostraria os progressos do sentimento nacional du­
rante a segunda metade do século xiv, mas não na época que nos interes­
sa. De facto, devem ter havido mudanças importantes na clareza com
que estas expressões se revelam, graças, entre outras coisas, à produção li­
terária cortesã.
Com efeito, na corte, a propaganda em torno das virtudes vassálicas ti­
nha, no século anterior, suscitado uma narrativa tão eloquente como a da
fidelidade de Egas Moniz84. A exaltação dos feitos dos reis, de que encon­
trámos indícios na época de D. Dinis, além de assegurar o êxito da Gesta
de Afonso Henriques, inspirava, depois dos anos 1340 ou 1350, uma «estó­
ria» do mesmo herói, ampliada e carregada de episódios maravilhosos, cujo
tema central era a batalha de Ourique85. Entre uma e outra, na transição

80 «Que em todos meus dias nem seja Portugal escomungado»: GAH, p. 46; «que Portugal
nunca seja escomungado em todos meus dias»: p. 46; «houvesse todo Portugal por seu»: p. 36;
«nunca entrasse em Portugal»: p. 36; «ca sairemos nós de Portugal ou vós»: p. 34.
81 «Filharom-lha acá toda a terra de Leom... mais nem lhe filharom Galiza... e foi-se logo para
Portugl»: p. 32; «sairemos nós de Portugal... iredes vós comigo a Galiza»: p. 34; «veo o Emperador
com grande poder que adusse de Aragom e de Castela e de Leom e de Galiza»: p. 38.
82 D. Teresa pede auxílio ao imperador: «e que houvesse todo Portugal por seu. E os Portugue­
ses tiveram (leia-se, decerto, «severam») todos com Afonso Anriquiz»: pp. 36-38.
83 J. Mattoso, 1981, pp. 84-83.
84 Id.y 1985, pp. 409-435.
85 L. F. Lindley Cintra, 1957, pp. 202-215.

173
entre a época em que predominam as trovas dos jograis para diversão de
reis e senhores, e aquela em que se impõe a literatura de exaltação da mo­
narquia, não havia qualquer lugar para surgir a ideologia «nacionalista».
Esta só se podia exprimir, quando muito, por meio da noção de fidelidade
dos súbditos ao seu rei. É provável que esta noção fosse o terreno mais
propício para dele brotar, fora dos meios clericais, a noção de Pátria que, a
partir da ideia de «natureza», impunha uma incondicional devoção não
tanto à pessoa do rei, mas à própria comunidade nacional. Faltava muito,
porém, para este conceito se exprimir.
Nas cortes senhoriais do Norte do país, onde continuavam a predomi­
nar as narrativas familiares, pelo menos até ao fim do século xm , nem se­
quer se pode descortinar uma noção de fidelidade ao rei constituindo um
valor por si mesma. O que o mostra mais claramente é a indiferenciação
entre famílias portuguesas e galegas. A osmose entre ambas nota-se na lite­
ratura genealógica até à época do Livro do Conde D. Pedro. Os contactos,
as alianças matrimoniais e as transferências de pessoas eram constantes e
continuariam ainda a sê-lo no século xiv-, embora a tendência para a fixa­
ção das linhagens, sobretudo das médias, na área de influência do respecti-
vo solar, estabelecesse com suficiente solidez uma nobreza agarrada ao seu
património fundiário86. Foi certamente o enraizamento territorial destas
linhagens e, por outro lado, a. crescente supremacia da corte, que então
aparece aos seus olhos como distribuidora de riqueza e de prestígio, e ao
mesmo tempo como produtora de uma ideologia de fidelidade como con­
trapartida das recompensas, aquilo que mais contribuiu para a lenta difu­
são entre algumas famílias de um igual sentimento de fidelidade. Não se
deve esquecer, porém, que as profundas tradições de antagonismo da no­
breza de Entre-Douro-e-Minho com o rei, fixadas em narrativas de sentido
inequívoco e cuja transmissão era cultivada por várias linhagens, sustenta­
vam igualmente um clima de rivalidade para com a corte. Reciprocamente,
o tema do fidalgo rude e provinciano, explorado pelos vassalos do rei, con­
tribuía, do lado oposto, para agravar a mesma divergência.
Em resumo, pode distinguir-se na nobreza um sector fortemente sensí­
vel à ideologia vassálica, para o qual a relação com o rei se transformaria
facilmente em sentimento e consciência nacional, embora na época em que
estamos não seja ainda separável dela. Outro sector, no qual predomina a
nobreza provinciana do Norte, cultiva as tradições de rivalidade para com
o rei; apesar das suas raízes fundiárias é pouco sensível a tal corrente.

Os m e io s po pu la r es: o s co n celh o s

Resta-me examinar os meios populares. Aqui estamos obviamente reduzi­


dos a conjecturas vagas. Será necessário, em todo o caso, distinguir os con­
celhos mais frequentados pelo rei, com os quais ele estava em contacto
quase permanente. Os termos nos quais D. Dinis se dirige aos concelhos
em geral, e que mostram uma inequívoca confiança na sua fidelidade87,

86 J. Mattoso, 1985, pp. 171-196.


87 Ver su p ra , pp. 141-145.

174
podem fazer presumir que da parte dos respectivos magistrados e homens-
-bons — o que correspondia praticamente à sua camada dominante — ,
existia de facto uma certa ideia do dever de fidelidade para com o rei e que
esta se pudesse transformar facilmente em sentimento nacional. Não nos
iludamos, porém. As generalizações seriam enganadoras. As expressões de
D. Dinis permitem presumir tais noções por parte de uma elite nas princi­
pais cidades do país, aquelas nas quais ele escolheu alguns representantes à
comissão de regência prevista no testamento de 1299, mas não se deve ad­
mitir facilmente o mesmo em todos os concelhos do reino. Muitos deles
tinham para com o soberano uma relação distante e esporádica. O jura­
mento de fidelidade que desde a época de Afonso III eles provavelmente
prestavam, e a obrigação de os magistrados jurarem servir o rei, no mo­
mento em que iniciavam as suas funções, contribuíram, é claro, para levar
a toda a parte a noção dos compromissos vassálicos. Mas para muitos vi­
lãos, o rei continuava a ser um «senhor», no sentido feudal do termo. Sen­
do assim, o respeito do juramento estava condicionado à recíproca obriga­
ção de ajuda e conselho por parte dele; podia, portanto, romper-se se ele a
não cumprisse. Seria necessária a transformação do conceito de vassalidade
em compromisso de «natureza» para que a fidelidade se considerasse incon­
dicional. Ora esta mudança não era tão espontânea como se pode pensar
hoje. Sendo assim, será necessário esperar pela assimilação, por parte dos
vilãos, da noção de «natureza», que efectivamente começava a exprimir-se
nos documentos régios da época de D. Dinis, para daí poder brotar a ideia
de dever nacional.
Conclusão

Identificação de um país. Depois de o ter percorrido de lés a lés, tente­


mos agora sobrevoá-lo para abarcar o conjunto de uma só vez. Recolher as
notas de viagem e verificar se, de facto, identificámos alguma coisa. Deixar
de lado os pormenores e salientar os grandes planos, os grandes contrastes,
os dados mais significativos, para delinear a imagem final e tentar a síntese.
Recordar o método seguido, para justificar a função e o significado das ob­
servações registadas.
O processo, lembre-se aqui, foi antes de mais o da identificação das
partes. Ajudou-me o fio condutor da geografia humana, apoiada e confir­
mada por dados da etnografia, da antropologia, da linguística. A caracteri­
zação das partes fez-se por meio de uma aproximação simultaneamente
geográfica e cultural. Por isso opus montanhas e planície, litoral e interior,
cidades e campo, mas sobretudo os dois grandes conjuntos a que, por sim­
plificação, chamei «Norte» e «Sul». Porque aí pude verificar, à partida, a vi­
gência de dois sistemas diferentes de organização social e económica: o se­
nhorial e o concelhio. Ao ponto de não surgirem, de início, como partes
de um todo ainda não existente, mas como unidades diferentes entre si.
Não se pode esquecer, no entanto, que o regime senhorial se inicia pro­
priamente no Norte Atlântico e que o regime concelhio tem os seus exem­
plares mais típicos no Norte interior. Não há, pois, correspondência perfei­
ta entre «Norte» e área senhorial, de um lado, e «Sul» e área concelhia, do
outro.
O que importa, portanto, é que, antes de falar de uma identidade úni­
ca, foi preciso reconstituir as identidades menores, dotadas, elas próprias,
da sua coerência interna, tanto do ponto de vista geográfico como do pon­
to de vista da organização social e económica. Ou seja, foi preciso verificar
como funcionava cada uma das unidades e subunidades em termos institu­
cionais, culturais e políticos. Só depois disso foi possível estudar os princi­
pais fenómenos de contaminação dos diversos conjuntos uns sobre os ou­
tros, e sobretudo o fenómeno maior e mais determinante da expansão
senhorial. E depois dele, o outro, não menos importante, dos contactos de
aculturação entre o Norte cristão, rural, senhorial e «gótico», e o Sul isla-
mizado, urbano, concelhio e «romano». Sempre com a convicção de que a
resultante não é uma simples mistura de sistemas socioeconómicos diferen­
tes, mas a consequência da dialéctica que opõe os contrários entre si e por
vezes dá lugar a sínteses originais.
Num segundo tempo, e a partir de outra ordem de indícios, agora

177
mais exclusivamente de natureza política, tratámos de examinar as caracte-
rísticas da autoridade que desde o início do período estudado englobou os
dois grandes conjuntos anteriormente identificados, a sua estruturação e a
forma como ela se foi progressivamente sobrepondo aos múltiplos poderes
locais, quer aos de origem senhorial quer aos de origem concelhia, sem
contudo destruir totalmente as diversas formas do poder local. Este proces­
so de sobreposição fez-se, como vimos, com o apoio de estratégias elas pró­
prias de carácter senhorial, pela monopolização de certas prerrogativas, pela
acumulação de recursos materiais, pelo aperfeiçoamento administrativo,
pela montagem de um aparelho de controlo cada vez mais eficaz e, final-
mente, pela criação de uma ideologia justificadora do uso e do monopólio
de tais poderes. Nada disto, porém, seria eficaz, nem teria a possibilidade
de unir as comunidades locais muitas vezes ferozmente opostas entre si,
nem de articular as diversidades regionais sem qualquer expressão política,
se tal processo não se baseasse em circuitos naturais, se não contasse com
vastas e contínuas deslocações de pessoas vindas do inesgotável alfobre de
gente que sempre foi o Norte Atlântico, se não partisse do conjunto
de centros urbanos onde se concentraram desde o século xii os mais acti-
vos detentores dos poderes económicos e os mais prestigiados elementos do
corpo social, se, enfim, esse conjunto de cidades não fosse ligado por uma
rede de comunicações que primeiro lhes assegurou os contactos e depois
lhes permitiu dominar progressivamente a economia rural, em áreas cada
vez mais vastas e de maior importância.
Surpreendemos, assim, os mecanismos internos da formação da comu­
nidade nacional, a partir da base, isto é, das organizações locais. A maneira
como se foram entretecendo os laços e os nós da rede que uniu as comuni­
dades locais e as foi tornando interdependentes. E, por outro lado, o im­
portante papel que no reforço e na orientação desta rede teve o poder mo­
nárquico. Não, evidentemente, em virtude de um hipotético programa de
unificação nacional, totalmente impensável nessa época, mas em virtude da
sua própria orgânica, como poder simultaneamente político e económico e
graças aos meios que utilizou. Quero referir-me em particular aos processos
de racionalização administrativa e de uniformização judicial dentro dos ter­
ritórios directamente submetidos à jurisdição régia, que se espalhavam por
todo o território nacional.
Foi necessário, porém, interromper a observação em 1325, para não
tornar o exame demasiado vasto e já impossível de dominar. Ora, nessa da­
ta, o processo de formação da nacionalidade estava apenas no começo.
Nesse momento, era ainda difícil verificar até que ponto os factores centrí­
fugos ou de desagregação eram já incapazes de se sobrepor aos factores
centrípetos ou de unificação. De facto, estamos já no fim deste período
quando se dá a revolução senhorial de 1319-1324. A própria política de
centralização dá lugar a reacções de sentido contrário, ao aperfeiçoamento
de formas de resistência ou de adaptação, cuja força não é possível ainda
medir nesta época, e cuja função, em termos de nacionalidade, só poderia
ser averiguada num lapso de tempo mais vasto. O processo da formação
nacional, nunca é de mais lembrá-lo, está em devir contínuo. Ainda nos
nossos dias continua a sua evolução. Aquilo a que chamei a «composição»

178
é apenas o primeiro capítulo de uma longa história que vem até hoje. Uma
história, de resto, que não pode fazer, nunca, esquecer todas as «oposições»
que, sob formas novas ou muito antigas, continuam a existir também.
Parece-me correcta esta operação para determinar as características de
um povo, para saber como é, e porque é assim. O que exprimi pelo concei­
to de «identificação». É preciso agora reconhecer que não basta examinar
apenas o próprio país. Os povos, como as pessoas, pertencem a conjuntos
étnicos ou culturais que é também necessário identificar, para ver até que
ponto são diferentes ou semelhantes a outros. Neste sentido, seria necessá­
rio — e não, foi feito — proceder a comparações com outros países. Em
primeiro lugar, naturalmente, com os mais próximos, aqueles que perten­
cem à antiga Hispânia: Leão e Castela, Aragão e Navarra. Depois, com os
restantes da Europa, sobretudo os do Mediterrâneo. Só assim as diferenças
e as semelhanças se tornariam verdadeiramente significativas. De facto, até
que ponto Portugal pertence à Hispânia? A que Europa pertence Portugal?
 do Norte, à do Sul? À atlântica, à mediterrânica? Não se trata, é claro,
de fazer ressurgir a velha polémica do germanismo ou romanismo das ins­
tituições, mas de transpor o seu significado para uma problemática mais
completa e mais actual.
Estas questões, por sua vez, deveriam traduzir-se noutras mais concre­
tamente históricas como, por exemplo: o regime senhorial português é
idêntico ao castelhano-leonês? Quais são as diferenças entre o feudalismo
português e o da França pós-carolíngia? A organização dos concelhos é se­
melhante em Portugal e em Castela ou Leão? À de todas as suas regiões?
Que há de comum entre os concelhos portugueses e as comunas da França
do Sul ou da Itália? Não posso deixar de reconhecer a pertinência destas
perguntas.
A operação, no entanto, comportava várias dificuldades, que me fize­
ram recuar. A principal consiste em não dispor, sobretudo para a Península
Ibérica, de elementos suficientes. O material bibliográfico espanhol de que
actualmente se pode fazer uso, apesar de ser de tão boa qualidade científi­
ca, não resolve, muitas vezes, os problemas que me interessam. Os estudos
disponíveis partem normalmente de pressupostos jurídicos ou económicos
e só muito raramente de conceitos inspirados na antropologia política. Se­
ria demasiado trabalhoso interpretar os dados que fornecem, à luz de con­
cepções completamente diferentes. Seria, muitas vezes, necessário recorrer
directamente às fontes para responder com rigor às questões mencionadas.
Um segundo obstáculo me impediu de proceder a esta análise. De fac­
to, sabe-se que a vizinha Castela é atravessada por uma fronteira cultural
análoga à que divide o Portugal montanhoso do Portugal plano. São, afi­
nal, o prolongamento uma da outra. Neste sentido, há uma semelhança
evidente entre Portugal e o reino central da Península. Mas o facto de Cas­
tela ter quase sempre constituído uma unidade política com outros reinos
ou províncias de características diferentes, e cada um deles com uma forte
«personalidade», altera substancialmente o quadro histórico e torna as
comparações muito mais complexas. Por outro lado, encontramos também
em Castela uma diferença não menos importante, que resulta de ter englo­
bado uma região islâmica com muito maior pujança económica e cultural

179
do que o Alentejo português e, portanto, com maior peso sobre a forma­
ção nacional que daí resultou. Sendo assim, existem diferenças previsíveis
em termos institucionais e culturais, mas será ainda necessário verificar
exactamente quais são. Ou seja, a oposição entre senhorios e concelhos,
que não é menor em Leão e Castela do que em Portugal, dá certamente
lugar a relações e a processos de influência mútua mais complexos do que
em Portugal. É provavelmente um dos factores — mas não, decerto, o
único — que explica que em Castela não chegasse nunca a aparecer um
poder monárquico tão exclusivo e tão absorvente para com as restantes for­
ças económicas e sociais, como desde cedo existiu em Portugal. As tendên­
cias, a que poderíamos chamar «empresariais», para não dizer «capitalistas»,
da monarquia portuguesa, peio menos desde a época de Afonso III, e a
complementar tendência para eliminar as forças económicas concorrentes,
actuam também no mesmo sentido.
As dificuldades de comparação entre o nosso país e os restantes da Pe­
nínsula Ibérica são, portanto, demasiado grandes para poder executar facil­
mente o programa, comparativo que aqui ficou por cumprir. O trabalho de
«identificação» está, pois, incompleto. Mas a tarefa não é, de todo, impos­
sível. Espero que um dia seja realizada por alguém.
Ao confessar esta lacuna não posso deixar de a relacionar com a inevi­
tável provisoriedade de qualquer estudo como aquele que aqui tentei reali­
zar. Se o meu conhecimento do outro é sempre inadequado, incompleto e
provisório, que fará o de um país? Quem pode jamais orgulhar-se de ter
descoberto o segredo da personalidade de alguém, quanto mais de um po­
vo? Não é isso, no entanto, que põe em causa a pertinência da via histórica
para o processo da identificação. A narrativa biográfica é, afinal, a melhor
maneira de conhecer alguém. É também pela história de um povo que se
descobre melhor o seu segredo. Por isso, a memória das acções colectivas
constitui o principal fundamento da consciência nacional. Nela reside a
prova de que a Nação resiste ao tempo e às vicissitudes que tem de vencer.
Por isso não é fácil fazer-lhe perder a sua própria identidade. Ela não resul­
ta só de estruturas enraizadas na terra e na paisagem, mas da acumulação
de experiências que se prolongam no tempo e que, depois, a memória co-
lectiva regista e selecciona, para ser transmitida à posteridade.
Não deixarei, também, de observar que os dados escolhidos para con­
tar a minha história de Portugal foram sobretudo as crenças, a cultura e os
poderes. A própria economia foi vista sob uma perspectiva cultural. As
suas soluções, as suas técnicas, as suas estratégias resultam de aprendizagens
que relevam da cultura tradicional e de contactos com comunidades dife­
rentes, dotadas de outros recursos ou conhecedoras de outras técnicas. Por
isso me interessaram constantemente as diferenças regionais e locais e o
processo que provoca as suas alterações no tempo. De facto, as crenças,
a cultura e os poderes variam entre si e nos conjuntos que formam, con­
soante se implantam na cidade ou no campo, na corte ou na província, na
montanha ou na planície, no litoral ou no interior. E as influências resul­
tantes dos contactos e das transferências populacionais levam a alterações
de sentido diferente, apesar de, em cada local ou região, o clima, o solo e a
natureza se manterem constantes.

180
Uma coisa, porém, é tentar a identificação de um país num dado pe­
ríodo da sua História, outra é identificá-lo na actualidade. Uma vez feita a
História, no sentido em que procurei defini-la, uma vez prolongada, no
mesmo sentido, até à actualidade, será preciso depois compará-la com a
memória colectiva, tal como veio a constituir-se na sua eventual ingenuida­
de e sob formas míticas e, portanto, interpretativas, e ainda com as tradi­
ções, a língua, o imaginário popular, os temas preferidos da literatura e da
produção cultural, as instituições vigentes, os valores morais colectivamente
reconhecidos, tudo isso, enfim, que forma o carácter de uma nação. Sem­
pre com o cuidado de não confundir as expressões colectivas a que aqui
me refiro com eventuais discursos ideológicos produzidos por grupos mi­
noritários, com o propósito de orientarem os destinos nacionais num de­
terminado sentido. Trabalho que já não me compete a mim, mas a espe­
cialistas de outras matérias. Trabalho que só poderá levar a cabo quem se
apaixonar pelo seu objecto. O que vem a significar que a «identificação»
não é um problema de arquivo ou de registo civil, mas um acto emotivo.
Ao evocar, para terminar este livro, aquilo que há alguns anos se cha­
mava «amor da Pátria», mas que agora não podemos referir com as mes­
mas palavras sem um certo pudor ou uma enorme hesitação, afectados, co­
mo fomos, pelo abusivo uso que então se fez dele, não quero propor uma
receita, mas confessar a minha concepção existencial da História. Ou en­
tão, se se quiser, aproximá-la da poesia. O que não significa, de modo al­
gum, arbitrariedade ou desprezo pelo seu carácter científico, com toda a
imensa gama de exigências que por isso se requer do discurso histórico,
mas lembrar a pluralidade de recursos que é preciso utilizar para conhecer o
passado.
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221
ÍNDICE

312, 316, 318, 327, 331, 334,


A
335, 344, 348, 351, 353, 358,
Aarão Hebreu - II - 214. 367-369, 374, 380; III - 32, 33,
Aboim, família - III - 113, 114. 35-39, 44-47, 49-52, 54, 59,
Aboim Portei, família - II - 123, 61-66, 77, 79, 80, 82, 84, 87, 88,
i55. 90, 91, 93, 95, 97, 98, 100-108,
Abril Pires de Lumiares - II - 82, 113, 114, 118, 119, 120, 122 ,
367. 129, 131-135, 138-142, 145, 148,
Abu Jafar Aloriani - II - 270, 271. 155, 156, 163, 167, 169, 175,
Abul-I-Qasim (cadi de Sevilha) - II 180.
- 264. Afonso IV (rei de Portugal) —II —
Acompaniado (jogral) - III - 51. 104, 192, 205, 358, 367, 369; III
Afonso (infante; filho de D. Afonso - 82, 92, 97, 120, 170.
III) - III - 163. Afonso VI (rei de Castela e de Leão)
Afonso (infante; futuro D. Afonso - II - 89, 113, 117-119, 153,
Henriques) - II - 12 1 . 170, 230, 252, 263; III - 69.
Afonso (infante; futuro D. Afonso Afonso VII (rei de Castela e de
II) - II - 241; III - 118, 127. Leão) - II - 101 , 115, 127, 128,
Afonso (infante; futuro D. Afonso 149, 152, 173; III - 137.
IV) - II - 180, 235; III - 54, Afonso VIII (rei de Castela e de
81, 114, 136, 144, 145. Leão) - III - 167.
Afonso (proprietário) — 182. Afonso IX (rei de Leão) - II - 96,
Afonso I (rei de Aragão) - II - 263, 101, 268, 269, 334; III - 76, 95,
327. 96, 117.
Afonso II (rei de Portugal) - II - Afonso X, o S á b io (rei de Castela e
64, 135, 146, 155, 157, 158, 175, de Leão) - II - 103, 104, 187,
177, 185, 2 11 , 221 , 278, 367; III 192, 196, 241, 264, 324, 327,
- 31, 45, 49, 60, 62, 65, 73-78, 330, 335; III - 41, 48, 66, 74,
80, 85-87, 89-91, 93, 102, 103, 80, 82, 83, 114, 138, 170.
105, 112 , 117, 119, 121 , 122 , Afonso Ansemondes - II - 121 .
126, 128-130, 134, 135, 137, Afonso Eanes de Coton - II - 187.
138, 143, 156, 167-169. Afonso Ermiges de Baião - II -
Afonso III (rei das Astúrias e de 140.
Leão) - II - 105, 117, 252; III - Afonso Fernandes Cubei - II - 187.
150. Afonso Henriques (I rei de Portugal)
Afonso III (rei de Portugal) —II — - II - 63, 83, 97, 114-116, 119,
65, 76, 80, 123, 141, 158, 161, 12 1 , 124, 126-134, 138-141, 143,
167, 187, 197, 201 , 204, 214, 144, 146, 147, 149, 152, 153,
219, 231, 258, 261, 275-278, 156, 157, 177, 184, 264, 265,
292, 296, 298, 302, 306, 310, 276, 277, 312, 346; III - 20, 27,

223
52, 68-70, 72, 79, 85, 88, 89, 95, Ausenda Odores - II - 148.
105, 112 , 117, 119, 126, 137, Avenpase - II - 270.
143, 153, 154, 156, 158, 162, Aymard, M. - II - 302.
165, 166, 168, 171-173. Azambuja, família - II - 157.
Afonso Lopes de Baião - II - 187. Azevedo, família - II - 89, 119-121,
Afonso Nunes de Celanova (conde) 140, 156; III - 27.
- II - 126, 128, 129, 147. Azevedo, Pedro de - II - 104, 368.
Afonso Pais de Grijó - II - 141,
Í5L B
Afonso Peres Farinha, frei - II -
195; III - 136. Baião, família - II - 112, 119,
Afonso Pires (bispo do Porto) - II - 139-141, 149, 175, 177, 182; III
347. - 111.
Afonso Raimundes - II - 127. Barbero, Abílio - II - 229.
Afonso Sanches (bastardo) - III - Barbosa, família - II - 126,
44, 47, 145. 128-130, 136, 175-177; III - 1 1 1 ,
Afonso Sanches de Albuquerque - 112 .
III - 50. Barcelos, condes de - II - 110, 186.
Afonso Viegas de Baião - II - 140. Barreto, família - 1 1 - 1 1 7 , 155.
Afonso Viegas de Riba Douro, o Barrios Garcia, Angel - II - 283.
Moço - II - 135, 138-140. Barroca, Mário - II - 78, 220.
Agostinho, Santo - III - 69. Barros, H. de Gama - II - 46, 109,
Aguiar, família - II - 125. 200, 205, 210 , 218, 227, 297,
Aires Eanes de Freitas - III - 93. 323; III - 60, 66, 98, 103-107,
Alão de Bragança, D. - II - 241. 148.
Albergaria, família —II — 157; III — Bartolomeu Joanes - II - 296, 346.
89. Basto, família - II - 125.
Alberto, mestre (chanceler) - III - Beatriz de Castela (rainha de
88. Portugal) - II - 334; III - 131,
Alboazar Ramires - II - 185.
145.
Albuquerque, família - II - 155. Beirante, Maria Ângela - III - 150.
Aldara Pires Espinhei - II - 138.
Bellito (vassalo do alvasil Sisnando) -
Alexandre III (papa) - III - 126.
II - 178.
Ali ben Yusuf - II - 263, 275.
Belmir, família - II - 143.
Almançor - II - 149.
Bento (cónego regrante de S. Vicente
Almeida, C. A. Ferreira de - II -
de Lisboa) - II - 316.
78, 80, 225, 238.
Almeida, Fortunato de - III - 137. Benveniste, Emile - II - 88.
Alvarenga, família - II - 139, 367. Berengária (condessa) - II - 129.
Álvaro (bispo de Lisboa) - II - 171, Bermudo Peres de Trava - II - 138,
339. 152.
Álvaro Anes - 1 1 - 9 5 . Bermudo Soares de Riba Douro - II
Álvaro Gonçalves Pereira, frei - II - - 138.
148. Bernardo (bispo de Coimbra) - II -
Álvaro Martins - III - 117. 162, 339.
Álvaro Peres (alferes) - II - 144. Blocker Walter, Monica - III - 170.
Anaia, família - II - 156. Boa Nunes de Grijó - II - 152.
António de Lisboa, Santo - II - Boléo, Paiva - II - 40.
271, 339; III - 43. Bolonha, conde de - II - 180; III -
Antunes, José - III - 89. 79, 107, 130.
Arões, família - II - 125. Bon Amis (jogral) - III - 51.
Atouguia, família - II - 157; III - Bonifácio VIII (papa) - III - 44,
105. 54.

224
Bouro, família - II - 123. Cogominho, família - II - 157.
Boutroche, Robert - II - 72, 73. Coimbra, bispo de - II - 95.
Braga, arcebispo de - III - 21, 43, Coimbra, bispo de - III ~ 19, 127.
122. Constança Sanches, - II - 301.
Braga, Teófilo - II - 262. Correia, família - II - 135, 155.
Bragança, família - 1 1 - 1 1 2 , 151, Cortesão, Jaime - III - 160, 161 .
153, 154, 174, 194, 241; III - Costa, Avelino de Jesus da - II -
111, 112. 80, 148, 237; III - 14.
Brandão, frei António - II - 130. Costa, família - II - 157.
Braudel, Fernand - II - 43. Crescónio (bispo de Coimbra) - II —
Bravães, família - II - 114, 115, 162.
176. Cunha, família - II - 82, 118, 148,
Briteiros, família - II - 155; III - 156, 174; III - 27.
113.
Brito, Joaquim Pais de - II - 36.
Bulhões, família - II - 157. D
Dade, família - II - 155, 157; III -
c 105.
David, Pierre - II - 237; III - 170.
Cabreira, conde de - II - 152. De La Tour, Imbart - II - 237.
Caeiro, Alberto - II - 19. Dias, Jorge - II - 37.
Caetano, Marcelo - II - 291, 312; Diego Gelmirez (arcebispo de
III - 96, 97. Compostela) - II - 127, 179.
Carlos Magno (imperador) - II - Dinis (rei de Portugal) - II - 48,
194, 195. 57, 65, 80, 104, 1 1 1 , 112 , 122 ,
Carvalho, Herculano de - II - 40, 158, 159, 181, 188, 191, 192,
41. • 197, 205, 235, 236, 248, 255,
Castro, Armando - II - 46, 214, 261, 278, 292, 294, 296, 298,
283, 306; III - 34. 299, 302, 303, 312, 317, 318,
Catalán, Diego - III - 170. 334, 336, 337, 340, 342, 344,
Celanova, condes de - II - 128. 346, 348, 353, 358, 365, 367,
Cerveira, família - II - 156, 176; 369, 374, 376, 377, 379; III -
III - 27. 33, 35, 36, 38, 41-44, 45, 48-52,
Cete, família - II - 142, 145. 54, 55, 61, 62, 64, 67, 68, 77,
Chacim, família - II - 154, 155. 79, 81-83, 87, 90, 92-94, 97, 98,
Châmoa Gomes de Barbosa (ou de 103-105, 108, 114, 117, 118,
Tougues) - II - 108, 128, 133. 120, 123-125, 133, 134, 136-139,
Cid, o Campeador - II - 56, 352; 142, 144, 145, 155, 156, 157,
III - 20. 159, 163, 169, 170, 173-175.
Cid Fredalis - II - 178. Diogo Ferreiro - II - 202.
Cid Gonçalves - II - 143. Diogo Gonçalves de Cete - II -
Cintra, L. F. Lindley - II - 25, 40, 142, 143.
41, 42, 43, 267, 269, 273; III - Domingos, mestre (arcediago de
170. Santarém) - III - 98.
Clemente, Manuel - II - 300. Domingos (mestre da Sé de Braga) -
Coelho, António Borges - II - 262, III - 90.
280, 281, 283. Domingos Anes Jardo (chanceler e
Coelho, família - II - 138. bispo de Évora e de Lisboa) - II
Coelho, Maria Helena da Cruz - II - 346; III - 90, 135.
- 213, 231, 239, 301; III - 16, Domingos Pais (bispo de Lamego) -
19, 22 , 102. III - 133.

225
Dordia Afonso de Riba Douro - II Elvira Peres de Trava - II - 127.
- 135. Elvira Soares - II - 123.
Dordia (ou Doroteia) Mendes da Elvira Vasques (condessa) - II - 126.
Maia - II - 118, 119. Emisu Trastamires - II - 141.
Dordia Viegas de Penagate - II - Ermígio Moniz de Riba Douro - II
124. - 139; III - 84.
Duby, Georges - II - 102, 334. Ermígio Viegas de Baião - II - 140.
Dufourcq, Charles E. - III - 14. Espinhei, família - II - 155.
Durand, Robert - II - 95, 208, Estevainha (ou Estefânia) Soares da
228, 229, 280, 301; III - 14, 20, Silva - II - 125, 135.
33, 118. Estêvão, frei (bispo do Porto e de
Durando Forjaz (chanceler) - III - Lisboa) - III - 98, 133, 135.
90. Estêvão, mestre (chantre da Sé de
Durando Pais (bispo de Évora) - III Lisboa) - II - 265, 339; III - 69,
- 133, 135. 70, 153, 168.
Durão Martins de Parada - III - Estêvão Anes (chanceler) - II - 158,
120. 186, 198, 367; III - 45, 87, 90,
140.
Estêvão Anes Brochado (chanceler e*
E bispo de Coimbra e Lisboa) - III
Edrisi (geógrafo) - II - 254. - 90, 135.
Eduardo I - III - 37. Estêvão Anes de Fermoselhe - III -
Egas (bispo de Viseu) - III - 77. 120.
Egas Eriz la ia - II - 149. Estêvão da Guarda (escrivão da
Egas Fafes de Lanhoso - II - 124, câmara) - III. - 90.
125; III - 117. Estêvão Soares da Silva (arcebispo de
Egas Gomes Barroso (ou Guedeao) - Braga) - II - 135, 171; III -
II - 126; III - 117. 128.
Egas Gomes de Baião - III - 119. Estêvão Vasques da Cunha - III -
Egas Gomes de Sousa - II - 130. 120.
Egas Gosendes de Baião —II — 119, Estrema, família - II - 157.
140, 183. Évora, bispo de - III - 131.
Egas Lourenço da Cunha - III - 87,
98. F
Egas Mauranus - II - 215. Fabião, São - III - 41.
Egas Mendes E sp in h a - II - 141. Fafes, família - II - 124.
Egas Moniz de Ortigosa - II - 214. Fafes Godins de Lanhoso I —II —
Egas Moniz de Riba Douro - II - 124, 125.
97, 110, 125, 129, 131, 135, 137, Fafes Luz de Lanhoso - II - 124.
138-140, 144, 184, 185, 187, Farinha, A. Dias - II - 270, 272.
191, 197, 231; III - 27, 119, Fernandes, A. de Almeida —II —91,
120, 169, 173. 130, 137, 347, 379.
Egas Pais de Penagate - II - 123, Fernandes, Hermenegildo - III -
124. 150.
Elvira da Faia (condessa). Vd. Elvira Fernando (filho de Gomes Nunes de
Gonçalves de Sousa (condessa de Pombeiro) - II - 128.
Faia). Fernando I, o Magno (rei de Castela
Elvira Dias - II - 143. e de Leão) - II - 89, 113, 130,
Elvira Gonçalves de Sousa (condessa 137, 142, 161, 173, 179, 230,
de Faia) - II - 132, 134. 252, 268; III - 68, 116.
Elvira Nunes Velha - II - 116, 117. Fernando II (rei de Leão) - II -

226
144, 146, 154, 268, 269, 334, Fossier, Robert - II - 72, 73, 178.
357; III - 171. Francisco de Assis, São - III - 45.
Fernando III (rei de Castela e de Francisco Domingues (chanceler) -
Leão) - II - 190. III - 90.
Fernando IV (rei de Castela e de Frederico II (rei da Sicília e
Leão) - III - 114, 163. imperador) - III - 74, 80, 131.
Fernando Afonso (bastardo de Freitas, família - II - 155.
Afonso Henriques) - II - 133. Freund, Bodo - II - 224.
Fernando Álvares Cativo. Vd. Fernão Fruilhe, Dona - II - 147, 239.
Peres Cativo.
Fernando Anes Brochado - III - G
120.
Fernando Anes de Portocarreiro - III Garcia (rei da Galiza e de Portugal)
- 132. - II - 113, 230; III - 116, 173.
Fernando Cerveira - II - 115. Garcia de Cortázar, J. A. - II - 82,
Fernando Peres (chantre de Lisboa) - 280, 281, 283.
III - 89, 90. Garcia Fernandes (conde) - II -
Fernão Aires d’Anho Batissela - II - 100.
152. ^ Garcia Mendes de Refojos - II -
Fernão Alvares de Castro - II - 147. 122 .
Fernão Fernandes de Bragança - III Garcia Mendes de (Sousa?), alferes -
- 117. II - 132.
Fernão Furtado - III - 120. Garcia Peres de Bragança, o Ladrão
Fernão Gil - II - 192. - II - 153.
Fernão Gil de Soverosa - II - 184. Gato, família - II - 117.
Fernão Gomes Cativo. Vd. Fernão Gavino Froilaz - II - 150.
Peres Cativo. Geraldo, São (arcebispo de Braga) -
Fernão Lopes - II - 149. II - 123, 162, 177, 241, 339.
Fernão Martins da Cunha - III - Geraldo Domingues (bispo de
120. Placência, do Porto e de Évora) -
Fernão Mendes de Bragança - II — II - 347.
129, 153; III - 52. Geraldo Sem Pavor - II - 352, 353;
Fernão Mendes de Bragança II - II III - 20, 162.
- 153. Gil, mestre (cardeal) - III - 89.
Fernão Pais da Cunha - II - 148. Gil, mestre - II - 214.
Fernão Peres (deão) - II - 312. Gil de Santarém, São Frei - II -
Fernão Peres Cativo - II - 143, 271.
144, 177. Gil Martins da Ribeira - III - 93.
Fernão Peres de Trava - II - 91-93, Gil Martins de Riba de Vizela - II
126, 127, 132, 176; III - 116. - 108, 136, 222; III - 31, 87.
Fernão Peres Ponço - II - 152. Gil Nunes de Chacim - III - 120.
Fernão Pires de Guimarães - II - Gil Vasques de Soverosa - II - 144;
134. III - 31.
Fernão Pires Farinquel - II - 327. Girão, A. de Amorim - II - 81; III
Fernão Vasques Pimentel - II — 186. - 151.
Ferreira, José de Azevedo - II - Godinha Pais Velha - II - 120.
104. Godinho (bispo de Lamego) - II -
Feuchère, P. - III - 16. 171.
Filgueiras, Octávio Lixa - II - 39. Godinho, família - II - 157.
Filipe, o Belo (rei de França) - III - Godinho, Vitorino Magalhães - II -
37, 54. 70.
Filipe Augusto (rei de França) - III Godinho Fafes de Lanhoso - II -
- 74. 124, 125, 180.

227
Godinho Viegas de Azevedo - II - Gonçalo Viegas Maranco - II - 95.
89, 119, 120, 140. Gonçalves, Iria - II - 224, 231.
Gomes, P. Dordio - II - 249. Gondesendes de Paiva - 1 1 - 1 1 9 .
Gomes Echigues (ou Egicaz) de Gontemiro - II - 182-183.
Sousa - II - 89, 130. Gontinha Gonçalves da Maia. Vd.
Gomes Lourenço de Beja - II - Moninha Gonçalves da Maia.
192. Gontinha Nunes - II - 119.
Gomes Mendes Guedeão - II - 126. Gontinha Odores de Moles - II -
Gomes Nunes de Pombeiro (ou de 120.
Toronho), conde - II - 95, Gontinha Pais da Silva - II - 122 .
127-129, 131-133, 138. Gosendo Viegas de Azevedo - II -
Gomes Peres de Alvarenga - II - 140.
367. Grácia (mae do conde D. Pedro de
Gomes Viegas de Penagate - II - Barcelos) - II - 347; III - 44.
124. Graciano - II - 334; III - 126.
Gomes Viegas de Sousa - II - 131. Grassotti, Hilda - II - 87, 181,
Gonçalo de Amarante, Sao - III -
182, 185; III - 67, 119.
36. Gregório VII (papa) - III - 126.
Gonçalo Anes de Moeiro - II -
Gregório IX (papa) - III - 132.
184.
Grijó, família - II - 150, 223; III -
Gonçalo Gonçalves da Palmeira - II
27.
- 147.
Gualdim Pais (mestre) - II - 135,
Gonçalo Guterres de Moreira da
Maia - II - 142, 150, 229; III - 195.
26. Gueda, o Velho - II - 125.
Gonçalo Mendes (chanceler) —III - Gueda Mendes - II - 125-127.
90. Guedões, família - II - 125, 130.
Gonçalo Mendes da Maia - II - Guerreiro, Viegas - II - 264.
133, 146, 170, 195; III - 112. Guiçoi (ou Visoi) de Sousa (conde)
Gonçalo Mendes de Sousa (conde) - - II - 130.
III - 29, 52, 117. Gunsalvo Pelagis - II - 180.
Gonçalo Mendes de Sousa, o Sousão Guterre Trutesendes de Moreira da
- II - 110, 131, 132, 144. Maia - II - 150, 151.
Gonçalo Pais (rico-homem da
Nóbrega) - II - 122, 184. H
Gonçalo Pais de Paiva (bispo de
Coimbra) - II - 142, 162. Haro, família - III - 40.
Gonçalo Pais Sapo - II - 179, 182. Henrique (conde) - 1 1 - 1 1 7 , 121,
Gonçalo Pereira (conde) - II - 184, 123, 127, 147, 153, 179, 180,
185. 183, 285, 286; III - 26, 70, 100,
Gonçalo Pereira (mestre da Ordem 116, 152, 165.
do Hospital) - II - 148, 198. Henrique (infante de Castela) - II -
Gonçalo Pires Ribeiro - II - 180, 190.
181. Herculano, Alexandre - II - 46, 73,
Gonçalo Raupariz - II - 142. 200, 262, 279, 280, 287, 293,
Gonçalo Rodrigues da Palmeira - II 307, 324; III - 131, 170.
- 129, 135, 147. Hespanha, António Manuel - II -
Gonçalo Rodrigues de Nomães. Vd. 46.
Gonçalo Rodrigues da Palmeira. Hilton, Rodney - II - 227.
Gonçalo Trastamires da Maia - II - Hinojosa - II - 279.
145. Hoguccio - III - 76.
Gonçalo Viegas de Lanhoso - II - Homem, Armando L. Carvalho - III
124, 135. - 98.

228
Honorigo Honorigues - II - 122, João Gosendes (ou Godesendes) - II
184. - 95, 149-151, 156, 179, 181,
Honório III (papa) - II - 338; III - 229; III - 26.
78, 85, 90, 132. João Lourenço (advogado) - III -
Hugo (bispo do Porto) - II - 162. 98.
João Martins (chantre de Évora) -
III - 98.
João Martins, frei (bispo da Guarda)
Ibn Imran - II - 270. - III - 135.
Ibn Zaide - II - 270. João Martins Soalhães (arcebispo de
Idácio - III - 172. Braga e bispo de Lisboa) - III -
Ilduara Mendez (condessa de 135.
Portucale) - II - 142. João Nunes de Cerveira - II -
Inês de Castro - III - 120. 115-117.
Inocêncio III (papa) - II - 334, João Peculiar (arcebispo de Braga) -
335, 351, 356; III - 21, 75, 77, II - 162, 184; III - 47, 89, 154.
78, 89, 92, 126, 127, 132, 137, João Peres (arcediago de Toledo) -
138, 154. III - 90.
Inocêncio IV (papa) - II - 341; III João Peres de Aboim - II - 110,
- 80, 130, 132. 123, 158, 186, 327, 367; III -
Isabel, Santa (rainha de Portugal) - 34, 35, 85, 87, 98, 140, 143.
II - 296, 344, 347; III - 37, 41, João Pires (Redondo) - II - 298,
44, 46, 47, 144, 145. 380.
Isidoro de Sevilha, Santo - III - João Pires Alprão (chanceler) - III -
172. 90.
João Pires da Maia - II - 146.
j João Pires de Vasconcelos, o Tenreiro
Jaime II (rei de Aragáo) - III - 37. - III - 92, 93.
Joáo II (rei de Portugal) - II - 331. João Raolis, mestre (deão de Lisboa)
João XXI (papa) - II - 327; III - - III - 90, 130.
João Simão (meirinho-mor) - III -
89.
João Anaia (bispo de Coimbra) - II 98, 143, 144, 170.
- 97, 162, 184; III - 154. João Soares (arcediago de Calahorra)
João Anes da Cunha - II - 192. - III - 98.
João Anes Redondo - III - 120. João Soares Coelho - II - 158, 191,
João Bolo - II - 191. 192; III - 120.
João da Gaia (escudeiro) - II - 186. João Soares de Paiva, o Trovador -
João das Leis, mestre - III - 98. II - 142; III - 51.
João de Biclara - III - 172. João Viegas de Baião, Ranha - II -
João de Deus (mestre) - III - 43, 140.
44, 172. Julião (bispo de Tavira) - II - 264.
Julião (deão da Sé de Coimbra) -
João Dias de Freitas - II - 143.
III - 89.
João Fernandes de Cambra - III -
Julião Pais (chanceler-mor) - II -
107.
97, 347; III - 71, 72, 74, 75, 89,
João Fernandes de Lima Batissela -
90, 119.
II - 152.
Justa, Santa - II - 265.
João Fernandes de Riba de Vizela - Justiniano - III - 74.
II - 135, 136.
João Garcia (jogral) - II - 192.
João Garcia de Guilhade - II - 191. K
João Gordo - II - 296. Kofman, L. - III - 16.

229
Manuel Pessanha (almirante) - III -
L 37, 117.
Lanfranco, mestre — III - 90. Manuel (rei de Portugal) - II - 235.
Lanhoso, família - II - 124, 135. Maravall, José António - III - 168,
Lapa, Rodrigues - II - 190, 191. 171.
Leão, rei de - II - 286; III - 99, Maria Aires de Fornelos - II - 144.
118, 119, 165. Maria Fafes - II - 124.
Lima, família - II - 151, 152 , 176; Maria Gomes - II - 138.
III - 27, 112 . Maria Gonçalves da Palmeira - II -
Límia, família. Vd. Lima, família. 147.
Lisboa, bispo de - II - 348; III - Maria Lourenço - II - 122 .
130. Maria Pais Ribeira (a Ribeirinha) -
Loba Sarracins Espinha - II - 141. II - 152.
Lobo, família - II - 157. Maria Pires de Vides, - II - 180.
Lopo Afonso Alcoforado —III - Maria Soares - II - 119.
Marinho, família - II - 174; III -
120.
40.
Lorvao, abade de - II - 95.
Marnel, família - II - 149.
Losa, António - II - 215.
Marques, A. H. de Oliveira - II -
Lourenço Anes Redondo - II - 306,
262, 270, 272; III - 15, 19.
367. Marques, Maria Alegria F. - II -
Lourenço Eanes (tabelião de Lisboa) 238.
- III - 50. Marreiros, Maria Rosa - III - 64.
Lourenço Fernandes da Cunha - II Marrocos, emir de - II - 353.
- 123, 148; III - 30. Martim Anes de Riba de Vizela - II
Lourenço Martins (cónego de - 136.
Coimbra) - II - 347. Martim Domingues (clérigo) - II -
Lourenço Pires Froiaz - III - 143. 214,347.
Lourenço Soares de Riba Douro - II Martim Esteves de Moles - II -
- 138. 367.
Lourenço Viegas de Riba Douro, o Martim Fernandes Cogominho - III
Espadeiro - II - 138. - 120.
Lúcio Sarracins Espinha - 1 1 - 1 4 1 . Martim Fernandes de Riba de Vizela
Luís, São (rei de França) - III - - II - 125, 135, 136, 177.
130. Martim Gil de Riba de Vizela - II
Lumiares, família - II - 82, 139; III - 110 , 112 .
- 112. Martim Gil de Soverosa - II - 144.
Martim Martins Zote - III - 120.
M Martim Moniz de Arouca - II -
150, 181.
Machado, José Pedro - II - 270. Martim Pires Curvo - III - 120.
Mackay, Angus - III - 14. Martim Pires da Maia, o Jam i - II -
Madreona Viegas - II - 124. 135, 146.
Mafalda (rainha de Portugal) - II - Martim Pires de Alvim - II - 235.
97; III - 119. Martim Pires de Oliveira (arcebispo
Mafalda, Santa - III - 34, 36, 46. de Braga) - III - 135.
Maia, Clarinda - II - 42. Martim Rodrigues (bispo do Porto)
Maia, família - II - 89, 112 , 113, - II - 147.
128, 130, 132, 136, 145-147, Martim Salvadores - III - 119.
173, 174, 179, 185. Martim Sanches (bastardo de D.
Malandain, A. - II - 230. Sancho I) - II - 146.
Manços, São (bispo de Évora) - II - Martim Vasques de Soverosa - II -
265. 144.

230
Martinho de Soure, São - II - 339. Mendo Gonçalves da Maia - II -
Martinho Geraldes (arcebispo de 89.
Braga) - III - 132. Menéndez Pidal, Ramón - II - 90;
Martinho Pais Rebolo - III - 89. III - 51.
Martinho Pires de Oliveira (arcebispo Merêa, Paulo - II - 46, 81, 91,
de Braga) - II - 337. 181, 182; III - 151.
Martinho Rodrigues (bispo do Porto) Midus (alcaide de Besteiros) - II -
- III - 127. 95.
Martins, Oliveira - III - 161. Miguel (mestre-escola de Braga) - III
Mateus (bispo de Lisboa e confessor - 90.
régio) - III - 88, 98, 132, 133, Miguel Salomão (bispo de Coimbra)
135. - II - 162, 339.
Mateus Martins (bispo de Viseu) - Moninha Gonçalves da Maia - II -
III - 133. 133.
Matilde (condessa de Bolonha) - II Monio da Biscaia (conde) - II -
- 334; III - 131. 174, 176.
Maurício Burdino (bispo de Coimbra Monio Gasco - II - 174.
e arcebispo de Braga) - II - 162. Monio Osores da Ribeira - II -
Máximo, São - II - 265. 152.
Mécia Lopes de Haro - II - 334. Monio Rodrigues de Arouca - II -
Melo, família - II - 155. 141, 184; III - 117.
Mem Afonso de Refojos - 1 1 - 1 2 1 . Monio Viegas de Baião - II - 140.
Mem (ou Mendo) Anaia - II - 97, Morais, Cristóvão Alão de - II -
184. 223.
Mem Cravo - II - 180. Moreira da Maia, família - II -
Mem (ou Mendo) Fernandes de 145.
Bragança - II - 143, 153, 154. Mor Gomes - II - 126.
Mem (ou Mendo) Gonçalves de Mor Martins de Riba de Vizela - II
Sousa - II - 132, 144. - 135.
Mem (ou Mendo) Moniz de Riba Mor Pais (condessa) - II - 182.
Douro - II - 126, 139. Mor Pais de Bravães - II - 116.
Mem Pais «Bofinho»*- II - 120. Mor Pires de Bravães - II - 116.
Mem Peres (prior de Moazares) - II Mor Urraca - II - 215.
- 239. Munoz y Romero - II - 279.
Mem Rodrigues de Briteiros - II -
187, 193, 198. N
Mem Rodrigues de Tougues —II -
132, 133, 147. Nazareth, José Manuel - II - 34.
Mem Soares de Melo - III - 98. Nicolau, frei - III - 133.
Mem Soares (juiz) - II - 233. Nóbrega, família - II - 122 , 123,
Mem (ou Mendo) Viegas de Sousa - 176.
II - 130, 131. Nóvoa, família - II - 176; III -
Mendo (bispo de Lamego) - II - 112 .
171. Nuno Alvares Pereira, o Santo
Mendo (vassalo do alvasil Sisnando) Condestável - II - 148.
- II - 178. Nuno Fernandes (alferes) - II - 144.
Mendo, mestre (chantre de Lamego) Nuno Gomes (conde) - II - 140.
- III - 90. Nuno Guterres - III - 119.
Mendo Feijão (chanceler) - III - 88, Nuno Martins de Chacim - II -
89. 184; III - 107.
Mendo Fernandes de Marnel - II — Nuno Mendes (conde de Portucale)
149. - II - 86, 118, 119.

231
Nuno Pais «Vida» - II - 120. Paio Moniz da Ribeira - II - 152.
Nuno Soares de Grijó - II - 152, Paio Pais - II - 118.
229; III - 26. Paio Pais da Silva, o Caminhão - II
Nuno Soares Velho - II - 93, 117. - 97, 118, 179.
Nuno Vasques de Celanova (conde) Paio Peres (miles de D. João
- II - 126, 128. Peculiar) - II - 184.
Paio Peres Correia - II - 351.
O Paio Peres de Paiva, o Romeu - II -
141.
Odório Mendes de Moles - II - Paio Pires de Riba de Vizela - II -
120. 135.
Oliveira, António Resende de - II - Paio Soares da Maia - II - 133.
184, 196. Paio Soares de Grijó - II - 151.
Oliveira, Ernesto Veiga de - II - 37, Paio Soares de Paiva, o Romeu - II
39. - 142.
Oliveira, família - II - 157. Paio Vasques de Braváes - II - 114,
Oliveira, Miguel de - II - 237. 116.
Ónega Mendes - II - 118. Paiva, família - II - 126, 141, 142,
Ourigo, o Velho - II - 122. 149, 175.
Ourigo Ourigues. Vd. Honorigo Palmeira, família - II - 135, 145,
Honor igues. 147.
Ouroana Mendes de Riba Douro - Pastor de Togneri, Reyna - II -
II - 125. 228, 229, 233, 280, 281; III -
Oveco Garcia de Cete - II - 142. 14, 16-18.
Paterno (bispo de Coimbra) - II -
P 265.
Pedro (bispo de Braga) - II - 162.
Paio (bispo de Évora) - II - 171,
Pedro (chanceler) - III - 88.
339.
Paio (chanceler) - III - 88. Pedro (conde de Barcelos) - II -
110 , 140, 176, 187, 188, 192,
Paio, mestre (chantre do Porto) - III
198, 347; III - 44, 50, 52, 144,
- 89, 90. 170.
Paio Curvo - II - 12 1 .
Pedro (filho de Gomes Nunes de
Paio de Coimbra, frei - II - 339; Pombeiro) - II - 128.
III - 43. Pedro (rei de Portugal) - III - 48.
Paio de Compostela (arcediago) - III Pedro, mestre (deão) - III - 98.
- 171. Pedro Afonso (eremita) - II - 126.
Paio Delgado - III - 89. Pedro Aires Gravei - II - 116.
Paio Godins - II - 119. Pedro de Compostela, mestre - II —
Paio Guterres (alcaide de Leiria) - II 327.
- 118, 122 , 148. Pedro Domingues (clérigo) - II -
Paio Guterres («vigário» de Afonso 347.
VI) - II - 170. Pedro Eanes Alvelo - III - 93.
Paio Guterres da Cunha - II - 118, Pedro Feijão (chanceler) - III - 88.
180. Pedro Fernandes de Bragança - II -
Paio Guterres da Silva - II - 115, 153.
118, 119, 122 , 123, 148. Pedro Fernandes de Castro - II -
Paio Guterres de Froiao. Vd. Paio 179; III - 117.
Guterres da Silva. Pedro Ferreiro (besteiro régio) - III
Paio Honoriques - II - 184. - 119.
Paio Mendes (arcebispo de Braga) - Pedro Forjaz de Trava (conde) - II
II - 117, 132, 162. - 12 1 , 127, 152, 179.

232
Pedro Fromarigues de Riba de Vizela Pêro Pais de Albergaria - III - 89.
- II - 134. Pêro Salgado - II - 346.
Pedro Hispano - II - 271, 338; III Pêro Viegas de Baião, Pai - II -
- 89, 132, 172. 140.
Pedro Juliao - III - 89, 172 . Pestana, família - II - 157.
Pedro Martins (chanceler e bispo de Pimenta, Alfredo - II - 19.
Coimbra) - III - 90. Pimentel, família - III - 113.
Pedro Martins (tabelião de Leiria) - Pinto, Adelina A. - II - 42.
III - 49. Ponço Afonso de Baião - II - 135.
Pedro Nunes Velho - II - 117. Ponço da Cabreira (conde) - II -
Pedro Ourigues - 1 1 - 1 2 3 . 152.
Pedro Pais de Paiva, o Saído - II - Porto, bispo do - III - 33, 122 .
141, 184. Portocarreiro, família - II - 142,
Pedro Pires de Riba de Vizela - II - 155, 174.
135. Portucale, condes de - II - 145.
Pedro Pitões (bispo do Porto) - II - Pradalié, Gérard - II - 179, 263.
162. Propp, Vladimir - II - 132.
Pedro Ponces de Baião - III - 34.
Pedro Ponces de Cabreira - II -
152. R
Pedro Rabaldes (bispo do Porto) - II Rabaldes, família - II - 156.
- 162. Raimundo (conde) - II - 130; III -
Pedro Rodrigues de Pereira - II - 152.
147. Raimundo Pais de Riba de Vizela -
Pedro Roxo (chanceler) - III - 88. II - 135.
Pedro Salvadores (bispo do Porto) - Raimundo Pires de Riba de Vizela -
III - 130. II - 135.
Pedro Sénior (bispo do Porto) - II - Ramirões, família - II - 118, 145,
162. 148; III - 27.
Pedro Velho, - II - 117. Ramiro II (rei de Leão) - II - 174,
Penagate, família - II - 123. 177.
Pereira, família - II - 145, 147, Ramiro Gonçalves - III - 26.
158, 176; III - 27, 112 .
Ramiro Pais da Cunha - II - 148.
Pérez de Tudela, M. Isabel - II -
Ramón Berenguer (conde de
87, 88, 99.
Barcelona) - II - 129.
Pêro Afonso Ribeiro - III - 98.
Ramos, Rui - II - 36.
Pêro Anes Coelho - III - 120.
Pêro Anes da Nóvoa - III - 31, Randulfe, família - II - 156.
84-85, 90. Rasis (geógrafo) - II - 254, 271.
Pêro Anes de Portei - III - 52, 143. Rasis - III - 170.
Pêro d’Espanha - II - 193. Rau, Virgínia - II - 242, 379.
Pêro Esteves - III - 98. Rebolo, família - II - 157; III - 89.
Pêro Galego - II - 193. Refojos de Lima, senhores de - II -
Pêro Galinha - II - 193. 156.
Pêro Garcia - II - 193. Riba de Vizela, família - II - 125,
Pêro Martins Pimentel - III - 43. 134-136, 146, 175, 177; III -
Pêro Mendes de Azevedo - II - 112 .
12 1 . Riba Douro, família - II - 112,
Pêro Mendes - III - 119. 113, 136, 137, 141, 142, 149,
Pêro Pais da Maia (alferes) - II - 150, 161, 175, 177; III - 1 1 1 ,
146. 112 , 116.
Pêro Pais da Silva, o Escacha - II - Ribeira, família - II - 152, 176; III
120. - 27, 112 .

233
Ribeiro, família - II - 125. Sancha Pires de Belmir - II - 143.
Ribeiro, Orlando - II - 20, 31, 32, Sánchez-Albornoz, Cláudio - II -
41, 42, 43, 69, 154, 251; III - 87, 90, 233, 262, 279, 280; III -
159-161. 14.
Ricardo Guilherme (chantre de Sanchis, Pierre - II - 242, 330.
Lisboa) - III - 98. Sancho (infante; futuro D. Sancho I)
Rio Tinto, família - II - 145. - II - 132; III - 85.
Rodrigo (mordomo de D. Henrique, Sancho I (rei de Portugal) - II -
infante de Castela) - II - 190. 80, 96, 97, 115, 117, 122 , 132,
Rodrigo (ou Rui) Anes Redondo - 135, 144, 147, 148, 152 , 153,
III - 98, 143. 156, 177, 204, 220, 241, 275,
Rodrigo Fernandes - II - 152. 327, 334; III - 51, 62, 69-72, 85,
Rodrigo Forjaz de Leão - II - 108; 89, 91, 95, 96, 105, 112 , 113,
III - 31. 117, 118, 119, 122 , 127, 128,
Rodrigo Forjaz de Trava ou 135, 137, 156, 166, 168.
Trastâmara - II - 12 1 , 132-134, Sancho II*(rei de Portugal) - II -
64, 141, 142, 144, 158, 180, 187,
147; III - 173.
204, 205, 260, 298, 334, 344,
Rodrigo Gonçalves de Pereira - II -
347, 348, 358; III - 31, 44, 63,
147. 76, 78, 80, 82, 85, 87, 90, 93,
Rodrigo Martins (porteiro) - III -
102, 107, 112-114, 118, 119,
119. 122, 130, 134, 138, 139, 163,
Rodrigo Mendes de Bragança - II -
169.
184. Sancho Nunes de Barbosa (ou de
Rodrigo Peres Veloso (conde de Celanova) - II - 126-129, 153.
Toronho) - II - 152, 184. Sá Nogueira, Bernardo - III - 50.
Rodrigo Sanches - II - 152. Santo Condestável. Vd. Nuno Alvares
Rosário, frei António do - II - 239. Pereira, o Santo Condestável.
Rosendo, São - II - 241; III - 172. Santos, Cândido dos - II - 80.
Rowland, Robert - II - 34. Sarracino Viegas, o Espinha - II -
Rufo Festo - III - 172. 141; III - 117.
Rui Dias de Urro - II - 143. Sebastião (rei de Portugal) - III -
Rui Gomes de Briteiros - II - 180. 70.
Rui Martins - III - 98. Senhorinha de Basto, Santa
Rui Mendes de Bragança - II - (abadessa) - II - 130, 241.
153. Sérgio, António - III - 161.
Rui Peres (sobrejuiz) —III - 87. Serra, Pedro da Cunha - II - 272.
Russel, J. P. C. - III - 17. Sigurd (príncipe da Noruega) - II -
264.
Silva, família - II - 115-117, 12 1 ,
S 123, 148, 156, 176; III - 111.
Silvestre Godinho (arcebispo de
Sampaio, Alberto - II - 200, 237. Braga) - II - 338; III - 89.
Sancha Bermudas de Trava - II - Silvestre Pires - II - 351.
138. Simão Nunes de Curutelo - II -
Sancha Henriques - II - 128, 153.
. 117‘
Sancha Henriques de Portocarreiro - Sisenando, São - II - 265.
II - 142. Sisnando (bispo do Porto) - II -
Sancha Martins de Riba de Vizela - 136.
II - 135. Sisnando Davides (alvazil de
Sancha Pais - II - 121. Coimbra) - II - 118, 178, 179,
Sancha Peres - III - 119. 181, 263.

234
Soares, Luís Ribeiro - III - 89. Telo (fundador de Santa Cruz de
Soares, Torquato de Sousa - II - Coimbra) - II - 339.
75, 233, 237, 279, 280, 287. Teotónio, São - II - 264, 265, 339;
Soeiro (bispo de Lisboa) - II - 338; III - 153.
III - 130. Teresa (condessa de Portugal) - II -
Soeiro Aires de Valadares - II - 114, 12 1 , 123-125, 131, 140-142,
114, 116. 147, 149, 176; III - 26, 112,
Soeiro Dias de Cete - II - 143. 116, 152, 153, 171, 173.
Soeiro Fromarigues de Grijó - II - Teresa (rainha de Leão) - II - 96,
150, 151; III - 26. 334; III - 119, 165.
Soeiro Galindes - II - 120, 182. Teresa Afonso (infanta) - II - 119,
Soeiro Gomes, frei - III - 77, 128. 129.
Soeiro Gueendes (ou Gueedaz) da Teresa Afonso das Astúrias - II -
Várzea - II - 120, 182. 137.
Soeiro Guterres - II - 118, 123. Teresa Anes de Valadares - II - 116.
Soeiro Mendes da Maia I, o Bom - Teresa Martins de Riba de Vizela -
II - 108, 135, 146.
II - 118, 130, 133, 146, 179-182.
Teresa Rabaldes - II - 151.
Soeiro Mendes da Maia II —II —
Toda Viegas de Arouca - II - 140,
146.
141, 184, 229.
Soeiro Mendes da Maia - III - 116.
Tougues, família - II - 128, 132,
Soeiro Mendes de Sousa, o Grosso -
177.
II - 131, 132, 135; III - 112 ,
Trastâmara, família - II - 194; III -
166. 52, 170.
Soeiro Mendes de Tougues, o Mãos Trava, condes de - II - 174, 176.
dÁgua. Vd. Soeiro Mendes Facha. Trava, família - II - 116, 127, 176;
Soeiro Mendes Facha - II - 108, III - 112 .
133, 134. Trutesendo Galindes de Paiva - II -
Soeiro Nunes Velho II - II - 116. 119, 141.
Soeiro Pais de Paiva, o Mouro - II - Trutesendo Guterres de Moreira da
141-143. Maia - II - 150, 229; III - 26.
Soeiro Pires da Silva, o Escacha - II
- 135.
Soeiro Pires de Azevedo - III - 34. U
Soeiro Pires de Valadares - II - 184.
Uffo Belfager - II - 112.
Soeiro Viegas de Riba Douro - II -
Urgeses, família - II - 155.
138.
Urraca (rainha de Leão e Castela) -
Sousa, família - II - 89, 112 , 126, II - 124, 125, 127, 334; III -
128-130, 132, 134, 136, 144, 116.
149, 175, 185, 343; III - 27, Urraca de Castela (rainha de
1 1 1 , 112 , 124. Portugal) - II - 334; III - 127,
Soverosa, família - II - 143, 144, 167.
176, 177; III - 27, 112 . Urraca Fernandes de Lumiares - II -
108.
T Urraca Mendes de Bragança - II -
143.
Tancredo, mestre - III - 77. Urraca Mendes de Sousa - II - 125.
Tavani, Giuseppe - II - 242. Urraca Rabaldes - II - 122, 148.
Telo, frei (arcebispo de Braga) - II - Urraca Viegas de Riba Douro - II -
344; III - 135. 129; III - 119.

235
Urro, família - II - 142, 143, 145. Velasquida Rodrigues - II - 121.
Uzberto, família - II - 156. Velho, família - II - 116, 117, 120;
III - 27.
Veloso, família - II - 194.
V
Ventura, Leontina - II - 184.
Valadares, família - II - 114, 176; Veríssimo, São - II - 265.
III - 27. Vicente Anes César - III - 98.
Valdeavellano, L. G. de - III - 67. Vicente Hispano. Vd. Vicente,
Van Bath, Slicher - II - 301. Mestre.
Varela, família - II - 135. Vicente, mestre (bispo da Guarda) -
Várzea, família - II - 140. II - 338.
Vasco, frei (bispo da Guarda) - II - Vicente, mestre (chanceler e bispo da
344; III - 135. Guarda) - III - 76, 77, 79,
Vasco (conde) - II - 179. 89-91, 130, 172.
Vasco Afonso (cavaleiro) - III - 87. Vicente, São - II - 265, 327, 339.
Vasco Fernandes de Soverosa - II - Vigil, Marcelo - II - 229.
144. Vivaldo - III - 34.
Vasco Lourenço Magro - III - 120.
Vasco Martins (bispo do Porto e de X
Lisboa) - II - 347.
Vasco Martins Pimentel - III - 120. Ximena Fernandes - II - 183.
Vasconcelos, família - II - 155, 174; Xira, família - II - 157.
III - 113.
Vasconcelos, José Leite de - II - Y
264. Yaqub Almançor - II - 122, 255,
Vasco Nunes de Bravaes - 1 1 - 1 1 4 . 263, 275.
Vasco Pires de Bragança, Veirão - II
- 153.
Vasco Sanches de Barbosa - II - Z
129. Zamora, bispo de - III - 171.
Vataça - III - 38, 41, 46. Zote, família - II - 117.

236
Fig. 1
Relevo

Extraído de Orlando Ribeiro, 1967


Fig.2
Idade média do casamento feminino em 1878

Extraído de R. Rowland, 1984


Fig.3
Tipos de arados

Extraído de J. Dias, 1982


Fig.4
Tipos de barcos

Extraído de O. Lixa Figueiras, 1970


Fig.5
Fronteiras linguísticas

Extraído de L. F. Lindley Cintra, 1983


Fig.6
Terras e julgados segundo as inquirições de 1220

1. Termo de Guimarães 9. Terra de Panóias 17. Termo de Vieira 25. Termo do Couto de Braga
2. Terra de Penafiel de Bastuço 10. Terra de Agilar de Pena 18. Penafiel de Soaz 26. Termo do Castelo de Refojos
3. Terra do Prado 11. Terra de Agilar de Riba Lima 19. Termo de S. João de Rei 27. Termo de Ferreira
4. Terra do juiz de Bouro 12. Terra de Ponte (de Lima) 20. Julgado de Pedralvar 28. Termo Aguiar de Sousa
5. Terra de Penela 13. Terra de Santo Estêvão 21. Julgado de Travassos 29. Termo de Felgueiras
6. Terra de Neiva 14. Terra de Monte Longo 22. Santa Cruz de Sousa 30. Termo de Lousada
7. Terra de Faria 15. T erradeC elorico 23. Terra de Santa Maria de Gestaçô
8. Terra de Anóbrega 16. Terra (ou termo) de Lanhoso 24. Terra de Vermoim
Fig.7
Julgados a norte do Douro em 1258

1. Prado 16. Anóbrega 31. Santa Cruz 47. Mesão Frio 62. Murça
2. Neiva 17. Bouro 32. Montelongo 48. Penaguião 63. Alijó
3. Aguiar 18. Entre Homem 33. Travassos 49. Panóias 64. Abreiro
4. Geraz e Cávado 34. Vermoim 50. Miranda e Ledra 65. Lamas de Orelhão
5. S. Martinho 19. Regalados 35. Meires 51. Ansiães 66. Vinhais
e Ponte de Lima 20. Lalim 36. Amarante 52. Vilarinho 67. Rio Livre
6. Correlhã 21. Vila Chã 37. Celorico de Basto 53. Valariça 68. Montenegro
7. S. Estêvão 22. Bouças 38. Cabeceiras de Basto 54. Mós 69. Aguiar de Pena
8. Souto e Rebordões 23. Maia 39. Freitas 55. Urros 70. Faria
9. Caminha 24. Gondomar 40. Vila Boa de Guilhofrei 56. Freixo 71. Penafiel de Bastuço
10. Cerveira 25. Refojos 41. Guimarães de Espada à Cinta 72. Couto de Braga
H .F ra iã o 26. Louzada 42. Benviver 57. Mogadouro 73. Lanhoso
12. Pena da Rainha 27. Felgueiras 43. Canaveses 58. Penarroia 74. S. João de Rei
13. Valadares 28. Aguiar de Sousa 44. Soalhães 59. Ulgoso 75. Penafiel de Soaz
14. Valdevez 29. Penafiel 45. Baião e Penaguião 60. Bragança 76. Vieira
15. Penela 30. Portocarreiro 46. Barqueiros 61. Jales 77. Barroso

N.B. Os limites dos julgados de Trás-os-Montes têm um traçado aproximativo, porque se baseiam apenas na identificação de algumas freguesias. A sul
do Douro os inquiridores raramente indicam as terras ou julgados a que pertencem os lugares inquiridos. Por isso não foi possível traçar os seus limites.
Fig.8
Principais estradas, castelos, solares e mosteiros de Entre-Douro-e-Minho

C a stelos 16.V e rm o im 9. Freitas 9. M anhen te 25. S o alhães


1. Pena da R ainha 17. C a ste lo da M aia 10. B e lm ir 10. V ila r de Frades 26. Tuias
2. Froião 18. Penafiel de B a stuço 11. Urrô 11. Refojos do Lim a 27. A rouca
3. C e rveira 19. Santo Estêvão 12. So vero sa 12. R endufe 28. C á rqu ere
4. M elga ço 20. Neiva 13. Baguim 13. Bouro 29. S alzedas
5. S. M artin ho 21. Faria 14. P alm eira 14. Fonte A rcada 30. Tarouca
6. A boim 22. Feira 15. C unha 15. Refojos de Basto 31. Cete
7. Bouro Torres e solares M osteiros 16. Travanca 32. M oreira da M aia
8. Lan hoso 1. S. Julião da Silva 1. Bravães 17. P om beiro 3 3 . Leça
9. C e lo rico de B asto 2. A zevedo 2. S a nfins de Friestas 18. V ieira 34. Rio T into
10. A g u ia r de Sousa 3. Parada 3. Ganfei 19. R efojos de Riba d ‘Ave 3 5 . Landim
11. M onte C ó rdova 4. Penagate 4. B arbudo 20. S a nto Tirso 36. Tibães
12.Baião 5. Tougues 5. C a rvoe iro 2 1 .V a irã o 37. V ilela
13. C a stelo de Paiva 6. Faia 6. S. S a lvado r d a Torre 22. V ila Boa do B ispo 38. G rijó
14. B e nviver 7. Lum iares 7. S. R o m ão do Neiva 23. Paço de Sousa 39. Pedroso
15. G uim arães 8. P o rtocarre iro 8. V á rzea 24. Pendorada
Fig. 9
Domínios de Egas Moniz

1. Honra de Tarouquela 7. Honra de Figueira 13. Honra de Pendilhe 19. Honra de Moázeres
2. Honra de Santa Eulália 8. Honra de Argeriz 14. Honra de Vila Cova 20. Honra de Canelas
3. Honra de Alvarenga 9. Couto de Lumiares 15. Honra de Caria 21. Honra de Entre-os-Rios
4. Honra de Resende 10. Honra de S. João de Pendilhe 16. Honra de Fonte Arcada
5. Honra de Britiande 11. Couto de Mões 17. Couto de Tuias Segundo A. Fernandes,
6. Honra de Lalim 12. Couto de Moledo 18. Couto de Canaveses 1978, pp. 117,144-145
Fig. 10
Fundações Monásticas
Fig. 11
Apresentação de igrejas na arquidiocese de Braga

N.B.: Algumas das localizações, sobretudo em Trás-os-Montes e Alto Douro, são aproximadas.
Extraído de M. Alegria F. Marques, 1990, p. 377.
Fig. 12
Emprazamentos: Porções cobradas pelos senhorios

Extraído de R. Durand, 1982a


Fig. 13
Domínios do Mosteiro de Tarouca
Fig. 14
Localidades mencionadas na lei de 1290 sobre os tabeliães

Extraído de Oliveira Marques, 1980.


Fig. 15
Centros urbanos e aglomerados
Fig. 16A
Concelhos «urbanos»

Segundo T. de Sousa Soares, in DHP, I, p. 652


Fig. 16B
Concelhos «rurais»

Segundo T. de Sousa Soares, in DHP, I, p. 652


Fig. 17
Concelhos do Centro e Sul e domínios das Ordens Militares
Fig. 18
Rede viária romana e medieval
Fig. 19
Itinerários régios
Fluxo das ligações
Fig. 20
Sinais de validação

1. Sinais do imperador 9. Sinal de Afonso


Afonso VI, do conde Henriques em documento
D. Raimundo e da rainha de 1134 (DR 137).
D. Urraca em documento 10. Sinal de Afonso
de 1106.
Henriques em documento
2. Sinal do conde
de 1142 (DR 192).
D. Henrique em
11. Sinal de Afonso
documento de 1096.
Henriques em documento
3. Sinal do conde D.
de 1144 (DR 206).
Henrique em documento
12. Sinal de Afonso
de 1110 (DR 17).
4. Sinal de D. Teresa Henriques em documento

em documento de 1117 de 1153(DR 242).


(DR 48). 13. Sinal de Afonso
5. Sinal de D. Teresa Henriques em documento
em documento de 1126 de 1169 (DR 294).
(DR 73). 14. Sinal de Afonso
6. Sinal de D. Teresa Henriques em documento
em documento de 1128 de 1184 (DR 355).
(DR81).
15. Sinal de Sancho I
7. Sinal de Afonso
em documento de 1189
Henriques em documento
(DS41).
de 1129 (DR 101).
16. Sinal de Sancho I copiado
8. Sinal de Afonso
no livro II das Doações
Henriques em documento
de Afonso III, f. 13 v2.
de 1132 (DR 123).
Fig. 21A Fig. 21B
Estratégia matrimonial da nobreza Estratégia matrimonial da nobreza
(Século XI) (Século XII)
2 1 2 3 4 5 6 7 8 9
8
1011121314151617181920212223242526272829303132 2 1 2 3 4 5 6 7 8 9 101112131415161718192021222324 2526Z72B2930 3132
■ ^8
■ ■
2 i 2 8 ■ JB 8
3 3 1 1
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5 1 5 ■ ■ ■
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24 24 □ Q
25