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OBRAS COMPLETAS

JOSé MATOSO

Volume 3

IDENTIFICAÇÃO DE UM PAÍS

Composição

OBRAS COMPLETAS JOSé MATOSO Volume 3 IDENTIFICAÇÃO DE UM PAÍS Composição Cífculo4jeitores

Cífculo4jeitores

C apa:

Fernando Rochinha Diogo

Revisão tipográfica:

Henrique Barbosa Fotocompográfica, Lda.

Índice:

Helena Galante

C artografia:

Fernando Pardal

C omposição:

Fotocompográfica, Lda.

® Círculo de Leitores e Autor Primeira edição para a língua portuguesa Impresso e encadernado em Março de 2001 por Printer Portuguesa Casais de Mem Martins, Rio de Mouro Edição n.° 5184 Depósito legal n.° 156 265/00 ISBN 972-42-2399-X

SUMÁRIO

Parte II

COMPOSIÇÃO

L Mutações

13

1.1. Demografia

 

13

O

estado da questão

13

Variantes regionais da densidade populacional

14

Ritmos de crescimento

16

Redução da natalidade

 

17

Migrações

*

18

Crise de 1190-1210

20

O

século xiii

21

Conclusões

 

22

1.2. Tecnologia e economia

24

1080-1130

25

1130-1160

27

1160-1190

28

1190-1210

30

1210-1250

30

1250-1280

32

1280-1325

36

Conclusões

39

1.3. Mentalidade e cultura

39

Concepções religiosas

emorais: da magia às devoções

40

Responsabilidade individual

42

Reclusão e clausura

 

44

Costumes: o dinheiro

45

A

poupança

46

Cultura: o sentido damedida

47

O sentido do espaço

 

48

A escrita

48

Cultura dos leigos

51

Cultura popular

52

O

indivíduo e o grupo: oprivado e o público

54

Conclusão

 

55

2. A monarquia

57

2.1. O «senhor rei»

 

59

O

poder senhorial do rei

59

Prestações de origem pública e de origem privada

60

Reguengos e terras foreiras

61

Defesa do património régio

 

62

Os

bens urbanos do domínio régio

62

Administração: recolha das rendas

63

Administração da justiça

65

Almoxarifes

65

2.2. Regalias

 

66

A monarquia feudal: a privatização do poder

66

A fragmentação do poder público

67

Especificidade da função régia

68

O carisma do rei

 

68

A função régia nos documentos da chancelaria

70

As fórmulas do chancelerJulião

71

As concepções de Afonso

II

73

A

plenitude dos dois poderes

76

Afonso III e D. Dinis

 

77

As

«regalias»

78

Concepções de Afonso X em Portugal

80

A

política de D. Dinis

81

Conclusão

 

82

2.3. Governo central

83

A

cúria feudal

84

O

alferes e o mordomo

84

Remodelações de Afonso II:oficiais inferiores

86

Remodelações de Afonso III

87

D. Dinis

87

Os clérigos da cúria

88

O

chanceler

88

O

tribunal régio

91

As

finanças régias

93

A

cúria régia como conselho

94

As

cortes

95

O

conselho régio

98

Conclusão

 

98

2.4. Governo local

99

Os ricos-homens e as «terras»

100

Os

julgados

100

Relações entre «terras» ejulgados

101

Reforma de Afonso III

 

103

Os intermediários: almoxarifes e meirinhos

105

Os meirinhos-mores

106

O

rei e os concelhos

108

3. A centralização

111

3 .1 .0

rei e os senhores

 

111

O

rei e a nobreza como classe social

112

Os cavaleiros

 

113

Afonso III

113

D.

Dinis

114

O

rei como suserano

115

Dificuldades de interpretação

115

Feudos de função (honores)

116

Os alcaides. A homenagem

117

Vassalos da casa real

 

119

Monarquia e feudalismo

120

O

rei e o regime senhorial até Afonso II

121

Afonso III

 

122

D.

Dinis

123

Conclusão

 

125

3.2. O trono e o altar

125

De Afonso I a Sancho

I

126

 

Afonso II: o poder temporal e o poder espiritual

128

A

crise de 1245

130

Afonso III

 

131

D.

Dinis

133

O

padroado régio e a nomeação dos bispos

134

As

ordens militares

135

O

rei e o papado

137

Conclusão

 

138

3.3. O rei e os concelhos

138

Antes de 1250

139

.

Afonso III

139

D. Dinis

140

O

rei, «senhor» dos concelhos

141

Vínculo feudal e vínculo «natural»

142

Ideologia monárquica

 

143

O

rei, «protector» dos concelhos

143

Conclusão

 

146

4. Regnum

 

147

4.1. Coesão

 

147

 

Geografia histórica: estruturações regionais

147

As

paróquias suévicas

148

As

circunscrições islâmicas

150

O

«repovoamento» do século ix: Portucale e Coimbra

150

As

dioceses

151

A

supremacia de Portucale

152

As

metrópoles eclesiásticas

153

A

evolução da rede administrativa

155

A

sede da corte régia

156

Papel das cidades

157

Regiões e províncias

 

159

Contactos humanos

159

O

«sistema nervoso»

docorpo nacional

161

As

fronteiras

162

Conclusão

 

164

4.2. Identidade

164

A

chancelaria

165

Sinais de validação

 

165

O

escudo do rei

166

Rex portugalensium

 

167

Regnum

168

Historiografia

169

Os clérigos

170

A

nobreza e as suas/Contradições

173

Os meios populares: osconcelhos

174

Conclusão

177

Siglas

185

Fontes

189

1. Fontes narrativas e literárias

189

2. Colecções documentais ede textos

190

Bibliografia

193

índice

223

Documentação Gráfica

 

237

PARTE II

COMPOSIÇÃO

Recordemos coisas já ditas: a diferença entre o Norte senhorial e o Centro e Sul concelhios, entre a montanha e a planície, o campo e a cida­ de, as tradições islâmicas e as cristãs. Mas isto não esgota a história de Por­ tugal. Apenas explica alguns fenómenos. Depois de ter acentuado a oposi­ ção, não é menos importante mostrar como os dois conjuntos iniciais se fundiram num só. Não de uma só vez, nem por caminhos lineares e rápi­ dos, mas por um completo feixe de causas que só puderam actuar em de­ terminadas condições, através de um processo lento e cheio de vicissitudes. Já no princípio apontava como vectores da integração as transferências da população que trazem do Norte os excedentes populacionais e os distri­ buem pelo Centro e Sul, o desenvolvimento económico e tecnológico, que uniformiza a civilização material e desenvolve as trocas a partir das cidades,

a

formação de uma classe dominante nacional comum às diversas regiões

e

a edificação de um poder estatal único personificado no rei. Dado que o

fenómeno nacional é de natureza política, bastar-me-á evocar, sem grande demora, as transformações demográficas, económicas e tecnológicas que criaram as condições para que a Coroa, suportada pela classe dominante, pudesse tornar-se o motor efectivo da unificação política. A análise dos problemas centrais desta parte deverá, portanto, ser precedida de um capí­ tulo sobre as transformações do terreno material em que a história social e política se move, e ainda sobre a evolução mental que permite o desenvol­ vimento das forças unificadoras. A sua parte central é constituída pela his­ tória política. Nela tratarei, primeiro, da definição da monarquia feudal e senhorial que se estabeleceu no nosso país e, depois, da maneira como se sobrepôs às forças divergentes e as absorveu. Tentarei, finalmente, dar ideia dos resultados a que esta política conduziu e da formação de uma cons­

ciência nacional.

1 .

Mutações

1.1. Demografia

Por mais elementares e inseguros que sejam os dados de que se pode dis­ por acerca dos quantitativos da população portuguesa antes da era estatísti­ ca, nem por isso podemos deixar de os examinar, dada a repercussão que a demografia tem em todos os domínios da existência humana.

O

ESTADO

DA

QUESTÃO

Comecemos por lembrar que actualmente se considera como dado adquiri­ do o fenómeno do crescimento global da população europeia durante os séculos xi a xni. Embora as investigações sobre as quais se baseia esta conclusão dependam sobretudo de dados colhidos na Europa setentrio­ nal, é também considerado por alguns autores um fenómeno que englo­ bou igualmente a Europa mediterrânica e, concretamente, a Península Ibérica. É bem de ver a importância desta questão. Se se provar que esse aumento atinge também a Península durante o mesmo período, teremos de incluir num contexto de «expansão» a primeira fase da história nacio­ nal. Mais ainda: se o crescimento demográfico europeu explica as cruza­ das, a ocupação da Alemanha de Leste, os desbravamentos em meio ru­ ral, a multiplicação de paróquias, o crescimento das cidades, a activação dos novos inventos técnicos e da produtividade agrícola, e o desenvolvi­ mento do comércio, característicos dos séculos xi a x m 1, teremos tam­ bém de colocar neste contexto a própria origem da nacionalidade. Ou se­ ja, a criação de uma nova unidade política na zona de fronteira entre a Cristandade e o Islão, e o seu crescimento e sucesso à custa de Al-Anda- luz não se poderiam explicar independentemente de um fenómeno de­ mográfico. A superioridade numérica verificada no Norte da Península seria a razão das vitórias militares e da deslocação do centro político para o Sul. Uma vez conquistado todo o território, a expansão demográfica nortenha seria ainda responsável, em primeira instância, pela absorção política e cultural do Centro e do Sul do país por uma unidade política nascida no Norte. Hipótese sedutora, até pela sua própria simplicidade. Desde já declaro adoptá-la, nas suas linhas gerais, embora com as atenuações e os limites

1 L. Genicot,

1953; J. C. Russel,

1958.

que indicarei a seguir e com o cuidado de a manter como proposta de ex­ plicação, uma vez que não vejo outra da mesma amplitude para a série de fenómenos que indicarei. Admito, porém, que não é totalmente segura e

sobretudo que a sua incidência depende da respectiva amplitude. Ora, esta

é impossível de medir com rigor.

Começarei por reconhecer que não convence toda a gente. Sánchez-Al- bornoz, por exemplo, fala constantemente na «sede de homens» durante o movimento da Reconquista e na inutilidade dos esforços dos chefes para os recrutarem2. Ch.-E. Dufourcq atribui menos peso ao crescimento popula-^ cional da zona pirenaica do que à política dos reis e condes que obrigaram

à emigração para terras alheias3. A sua opinião é generalizada para o con­

junto da Península por Angus Mackay4. E idêntica à que Robert Durand adopta para o território português de entre Douro e Tejo5 e à que Reyna Pastor formula para a Galiza nos séculos xm e xiv6. De opinião contrária são outros autores mais recentes da historiografia espanhola que aceitam a referida tese e baseiam sobre ela a sua interpretação7, sem todavia se atreve­ rem a definir os limites do crescimento, os ritmos e oscilações da curva de­ mográfica ou os principais itinerários dos movimentos migratórios. Ora, estes autores não se contentaram, como aqueles, com sondagens e interpre­ tações globais de testemunhos dispersos, mas procederam a análises de sé­ ries contínuas e de base estatística8. É destes, efectivamente, que temos de partir.

V a r ia n t e s

r e g i o n a i s

d a

d e n s i d a d e

p o p u l a c i o n a l

Comecemos por fazer notar que o quantitativo global, muito vago, de cerca de um milhão de habitantes em Portugal, transmitido pelos autores que têm ligado importância ao problema9, é manifestamente insuficiente para o que nos interessa. Avançando um pouco mais, comecemos por re­

ferir os dados fornecidos por A. de J. da Costa para a zona de entre Lima

e Vizela, a partir das inquirições de 1258. Tendo aí contado 21 794 ca­

sais, admitiu que

cinco por casal)10. Devo considerar este quantitativo como mínimo, pois o casal não se pode considerar uma unidade habitacional equivalente à casa

ou fogo, para o qual se utiliza normalmente o multiplicador 3,5 a 511. De resto, a série de indicações que apontei mais acima12 levou-me a admitir

aí vivesse uma população de uns 108 970 habitantes i a

2 Cl. Sánchez-Albornoz, 1966, p. 339.

3 Ch.-E. Dufourcq, 1976, pp. 43-44.

4Angus Mackay,

5 Robert Durand, 1982a, pp. 66-94. *

6 Reyna Pastor de Togneri, 1990, p. 176.

7J. A. Garcia de Cortázar, 1973, pp. 179-183; id., 1983, pp. 24-25, 71-76; J. Valdeón Baru-

1980, pp. 48-31.

que,

8 Reyna Pastor, 1990, usa dados quantitativos, mas baseados fundamentalmente na evolução

do número global de prazos. Parece-me que este indicador não constitui base segura para avaliar a

evolução dos efectivos populacionais.

1980, pp. 94-95.

9 A. H. de Oliveira Marques, 1971, p. 1.

10A.

11 Ver as dúvidas que o multiplicador 4,5 suscita a V. Rau, 1965, pp. 7-20. Apesar de tudo

de J.

da Costa,

1959,

I,

p.

231.

mantém-se como base normal de cálculo: J. J. Alves Dias, 12 Ver vol. II, p. 34-35.

1982, pp.

137-140.

como frequentes os aglomerados familiares alargados e múltiplos, o que necessariamente faria subir os resultados obtidos. Tomemos, por isso, co­ mo base de cálculo, uns 120 000 habitantes para entre Douro e Lima, ex­ cluída a diocese do Porto. Traduzindo os números em densidade por quilómetro quadrado, te­ ríamos assim, para este território, cerca de 40 h/km2. Ora, este quantita­ tivo é muito inferior ao que se encontra na íle-de-France algumas dezenas de anos mais tarde (120 a 150 h/km2), mas comparável ao proposto para o conjunto da França na mesma época, ou seja, 30 h/km213. Atingimos, assim, em Entre-Douro-e-Minho, níveis próximos do país mais povoado da Europa medieval. De facto, na Polónia havia, em 1340, 8,8 h/km214. No conjunto da Península Ibérica, à volta de 11 h/km215, para o fim do século xm . De toda a maneira estamos, portanto, dentro de limites vero­ símeis. Todavia, nada permite supor densidade semelhante no resto do país. Tomemos agora como base objectiva de cálculo o numeramento dos tabe­ liães do fini do século xm, estudado por Oliveira Marques13141516. Consideran­ do, por aleatória que seja a base, a relação entre o número de tabeliães e a área do território que eles servem, e, em seguida, uma proporção paralela para as diferenças regionais da densidade populacional, chegaríamos aos se­ guintes resultados:

Regiões

1 tabelião/km2

Habitantes/km2 Total habitantes

E.

Lima e Minho

100

29,4

44 100

E.

Douro e Lima

73

40

120 000

Porto

136

21,5

32 250

Lamego

160

18,2

43 680

Viseu

177

16,5

64 350

Coimbra

566

5

44 500

Guarda

576

5

49 000

Trás-os-Montes

520

5,6

61 600

Estremadura

10717

27,4

164 400

Alentejo

1200

2,4

72 000

Embora estes cálculos se devam considerar de mero exercício, podem, todavia, aproximar-nos da realidade. Os quase 700 000 habitantes aqui en­ contrados representam, decerto, um quantitativo inferior ao da população real, mas as densidades apontadas poderão considerar-se uma ordem de

13Guy Fourquin, 1969, p. 174. 14 L. Genicot, 1968, p. 58. 15 Garcia de Cortázar, 1973, p. 38. 16 Oliveira Marques, 1980, pp. 68-69. 17 Incluindo o número de tabeliães de Lisboa, uma vez que se trata do cálculo da densidade da população e esta devia ser numerosa nesta cidade e nos arredores.

grandeza verosímil, em termos comparativos. Mostra que durante a segun­

da metade do século xm se verificam grandes desníveis na densidade habi­

tacional.

R i t m

o s

d e

c r e s c i m

e n t o

O resultado diz respeito ao período 1258-1290. Ora, como veremos

adiante, encontram-se vários indícios de que representava a consequência

de aumentos consideráveis sucessivamente acumulados desde meados do

século xi. É muito difícil determinar os ritmos de crescimento para épo­ cas em que as séries documentais fornecem tão poucos elementos apro­ veitáveis, mas nem por isso deixaremos de apontar o que a tal respeito se pode referir. Podemos, por isso, começar por comparar os dados baseados no nú­ mero de filhos por casal fecundo, calculados pelas médias dos registos ex­ pressos na documentação de Leão e Castela, encontrados por dois auto­ res, cujas observações se podem comparar, apesar de os resultados serem muito diferentes, e aproximá-los também dos de Feuchère para a França.

Pastor18

Kofman19

Feuchère20

séc. X

2,6

3,0

3,8

séc. XI

2,65

(+

1,8%)

2,65

(-

13,2%)

4

(+ 5,26%)

séc. XII

2,95 (+

11,0%)

3,6

(+ 35,8%)

5,5 (+ 37,5%)

séc. XIII

3,3

(+

11,8%)

3,36 (-

7,1%)

5

(-

2,75%)

Desta tabela retenhamos apenas, como conclusão, que estes autores concordam em admitir um aumento considerável do número de filhos por casal, do século x i para o século x i i .

No entanto, o aumento de 1 1 a 35,8 % entre os anos 1100 e 1200 pode ser um cálculo baixo. É o que se pode talvez concluir de uma análi­

se detalhada feita por M. H. da Cruz Coelho a partir do número de ca­

sais registados nas inquirições de 1220 e de 1258, em sessenta e nove fre­ guesias do julgado de Guimarães21. É verdade que a contagem pode ser enganadora. A aceitá-la tal e qual, a população desta terra teria aumenta­ do 45 % em trinta e oito anos, o que daria uma percentagem anual de

1,053% (ou de 0,98% segundo uma correcção admitida pela autora). Ora este quantitativo, a ser real, atingiria um ritmo superior ao ao crescimen­

to da população portuguesa durante o período em que ela alcançou o máxi­

mo de toda a história, ou seja, de 0,88 % entre 1900 e 1950. Assim, ou este

18 R. Pastor de Togneri,

1967, pp.

102-104.

19 L. Kofman e M. Inés

Carzollo,

1968, p.

165.

20 P. Feuchère, 1951, pp. 315-318. A diferença entre as médias peninsulares e a deste autor pode resultar quer de a natalidade ser superior em França quer de ele ter registado apenas famílias nobres, cuja fecundidade devia ser maior. Registe-se também que a partir de uma lista de 366 ser­ vos do mosteiro de Samos, na Galiza, de meados do século xi, permite calcular a cifra de 3,15 fi­ lhos por casal — superior, portanto, às cifras apontadas para esta época por R. Pastor e por L. Kofman (R. Pastor de Togneri, 1990).

21 M. H. da Cruz Coelho,

1981, pp. 519-520.

resultado é superior à realidade, ou constitui um fenómeno específico da região e distorcido em virtude da imigração. Mesmo assim, temos de ad­ mitir um extraordinário aumento demográfico durante a primeira metade

do século x i i i . Este aumento talvez tivesse ultrapassado ritmos da ordem dos 10 a 30 % em Entre-Douro-e-Minho no período que vai de 1150 a 1250. De facto, a mesma autora, baseada num cálculo análogo sobre vinte freguesias da terra da Nóbrega, verificou aí um crescimento populacional de 13,9 % entre 1220 e 125822. Crescimento enorme se tivermos em con­

ta a mortalidade infantil, o retardamento da data do casamento, a frequên­

cia de celibato e o elevado índice de masculinidade, como veremos em se­ guida. Os fenómenos voluntários a seguir indicados representam, no entanto, como veremos também, medidas tendentes justamente a conter ritmos de crescimento excessivo.

R e d u ç ã o

d a

n a t a l id a d e

A

mortalidade infantil não se pode medir, apesar de se dever considerar al­

ta

em virtude da falta de cuidados de higiene. Mas há tentativas para en­

contrar ordens de grandeza para a esperança de vida para os que ultrapas­ sam os dez anos de idade: 42 anos no século xi e 44 no século x i i , dentro da nobreza castelhano-leonesa segundo R. Pastor23. Bastante bom, e vero­ símil quando se compara com o que Russel aponta para a Polónia nos sé­ culos xii-xrv (31,4 anos) e para a Inglaterra na mesma época (30,9 anos), ou para a Hungria antes da Peste Negra (32,55 anos)24. A diferença deve- -se certamente ao facto de estas médias englobarem o conjunto da popula­ ção, e aquelas, só a nobreza. De qualquer maneira é importante registar o aumento da esperança de vida do século xi para o século x i i . Quanto à idade do casamento, que R. Pastor também tentou averi­ guar a partir de dados fornecidos pela família régia, verifica-se a tendên­ cia para a antecipação do casamento feminino dos 15 anos (séc. xi) para os 14,7 (séc. x i i ) e, depois, o retardamento para os 16,4 anos (séc. x i i i ), enquanto nos homens se assiste à tendência constante para o antecipar, dos 25 para os 20,9 e os 18 anos, nos mesmos séculos25. Assim, o au­ mento da natalidade trazido pela antecipação do casamento feminino no século x i i corrige-se depois pelo seu retardamento. Resultado provável não tanto, no caso da família régia, para obstar à natalidade excessiva a que a referida alteração podia ter dado lugar, mas em virtude do aumento do índice de feminilidade. Com efeito, as observações da mesma autora sobre documentação de todo o género mostram a sua tendência para au­ mentar até ao fim do século x i i e depois para voltar ao nível do século

anterior26.

22 M. Helena Coelho,

1990,

I,

p.

175.

23 R. Pastor de Togneri,

1967, p.

106.

24 J.

P.

C.

Russell,

1965, p.

87.

25 R, Pastor de Togneri,

1967,

p.

99.

26 Ibid., p.

102.

Homens

Mulheres

séc. x

197

100

séc. xi

158

100

séc. xii

137

100

séc. xiii

157

100

Estas proporções, embora distorcidas pelo facto de a menção de mulhe­ res na documentação ser fatalmente inferior à realidade27, mostram, em todo o caso, uma tendência que vem confirmar tudo o que até agora foi observa­ do, isto é, o aumento da natalidade no século xii e o aparecimento de medi­ das para o conter pelo menos no século xm. A tendência para o maior equi­ líbrio entre os dois sexos constitui efectivamente uma das mais importantes causas do aumento da natalidade. Ora o desequilíbrio verificado no século x atenua-se pelo constante crescimento do número de mulheres nos séculos xi e xii. O que se passa em Leão e Castela verifica-se também em Portugal, on­ de se observa a súbita multiplicação dos mosteiros femininos em Entre- -Douro-e-Minho durante a segunda metade do século xii28. Os dados apontados pela mesma autora acerca da frequência do celibato contribuem para confirmar o fenómeno: 48 %, 56 % e 50 % dos adultos, respectivamente nos séculos xi, xii e xm29. De novo exagerados em relação com a realidade, importa todavia reter deles a tendência para o aumento da proporção entre os anos 1100 e 1200. Fenómeno que encontra a sua mani­ festação em Entre-Douro-e-Minho através do impressionante aumento do número de fundações monásticas durante o século xi e ainda, mas em ritmo menor, no século xii, como vimos na parte I do volume II. Tendo verificado que os fenómenos observados por Reyna Pastor para Leão e Castela se observam igualmente entre nós, como indicam as conse­ quências indirectas já apontadas, não podemos deixar de admitir que a po­ pulação de Entre-Douro-e-Minho tenha aumentado, o mais tardar desde meados do século xi, ao ponto de ter de recorrer pelo menos a uma forma de líinitação da natalidade, que consistia na abstenção do matrimónio. Veja­ mos, portanto, se se terá recorrido a outro processo paralelo, o da emigração. Este interessa-nos vivamente, em virtude das suas consequências históricas.

M igrações

Comecemos por verificar que o número de paróquias da diocese de Braga alcançou o limite máximo já no fim do século xi30. Aconteceu o mesmo no Porto, pelo menos desde meados do século x i i 31.

27 R. Pastor de Togneri, 1990, verificou a partir da já referida lista de servos do mosteiro de Samos um índice de masculinidade de 133 h/100 m2, para meados do século xi. 28J. Mattoso, 1985, pp. 197-223.

29 R. Pastor de Togneri,

30 A. de J. da Costa, 1959, I, pp. 218-235. 31 C. A. dos Santos, 1973, pp. 53-65; Domingos A. Moreira, 1973, pp. 103-113.

1967, p.

98.

Depois mantém-se estacionário, e até se verifica, em relação ao século xvi, um considerável fenómeno de anexações e de supressões de freguesias. Deu-se, portanto, um fenómeno de saturação tal que impediu o aumento do número de paróquias. Ora, se a população continuava a aumentar nos mesmos lugares, mas as estruturas administrativas se mantinham, o fenó­ meno só pode significar o recurso à emigração. Este encontra uma nova confirmação na cartografação dos mosteiros fundados durante os séculos xi a xiii a norte do Douro32. Os do século x distribuem-se a uma certa dis­ tância uns dos outros e numa área relativamente vasta. Depois assiste-se a uma autêntica explosão fundacional sobretudo em entre Lima e Ave. No século xii, esta zona está de tal modo saturada que se recorre a supressões e anexações; há ainda algumas fundações novas na diocese do Porto, mas a maioria escolhe o norte do Lima e o leste do Tâmega, a margem sul do Douro e a Beira Alta. Movimento reforçado neste mesmo século pelas co­ munidades eremíticas, que, não podendo viver nas regiões densamente ha­ bitadas, fazem da fiiga para o «deserto» um ideal, procurando as terras po­ bres e inóspitas. Efectivamente a emigração procurou, antes de mais, a periferia das ter­ ras mais habitadas. Oliveira Marques, que contabilizou as vilas novas por­ tuguesas, fez notar que, das 124 registadas para todo o país, 75 se situam a norte do Douro ou no seu vale, sem incluir Trás-os-Montes, enquanto a sul do Mondego só aparecem 2233. O número aumentaria juntando-lhe as vilas meãs {vilUe medianae), que se fundavam nas fronteiras de outras duas já existentes, e que também abundam para esta zona. A primeira emigração foi, portanto, de raio curto, como habitualmente ocorria na Idade Mé­ dia3 , mas alastrava sem cessar. Não se pense, todavia, que o fenómeno do povoamento disperso e da expansão de Entre-Douro-e-Minho para as terras mais próximas se limita ao Norte do país. A ocupação desta zona não foi suficiente para conter a pressão demográfica, porque se encontram numerosos indícios de ela ter atingido o baixo Mondego e a Estremadura durante o século x i i i , como demonstrou M. H. da Cruz Coelho. Esta autora definiu com rigor o pro­ cesso de expansão da gente das terras mais produtivas em direcção às mais pobres, num aro cada vez maior em relação aos centros mais precocemente habitados, e, para o fim do século, o recurso ao aproveitamento dos pânta­ nos, ao desbravamento de matas e à fundação de povoações no litoral35. A pressão demográfica é, sem dúvida, responsável pelas tentativas de aproveitamento de terras áridas e ingratas, que os anos maus depois obri­ gam a abandonar, porque aí veio a reinar a fome. Daí os fenómenos de abandono de algumas terras, como Coja, que o bispo de Coimbra repo­ voou em 1260 (Leg. 695), ou como aquelas para as quais os senhores, desejosos de delas tirarem rendimentos, em vão tentavam recrutar culti­

32 Ver o mapa 10.

33 A. H. de Oliveira Marques, 1982, p. 73. O fenómeno das aldeias novas, também por ele re­

ferido, é mais tardio. O termo aldeia, procedente do Sul, talvez não se use ao norte do Douro an­

tes do

século x iii.

34

Iria Gonçalves, 1978, pp. 392-397.

35

M. H. Coelho, 1983, pp. 12-17 e fig. 1.

vadores. Estes fenómenos foram registados por R. Durand, mas por ele indevidamente generalizados para o conjunto da região entre Douro e Tejo36. Pelo contrário, não faltava gente para se aglomerar na periferia das cidades, algumas das quais cresciam incessantemente nas terras férteis da Estremadura e do Ribatejo37. As regiões mais pobres são, obviamente, aquelas onde a recessão demográfica do século xrv se faz sentir mais cedo. Assim acontece no termo da Guarda antes de 133038. Na região de Coim­ bra, pelo contrário, não parece haver indícios de despovoamento antes da década de 1340, em que se deu a Peste Negra, apesar da fome de 133339. Da existência de gente pobre e de marginalizados à volta das cidades

século x i i . Efectivamente, a

Vida de São Martinho de Soure atribuiu-lhe a especial virtude de socorrer os inúmeros pobres que havia nessa localidade à beira da fronteira com os Mouros40. Em 1179, quando Afonso Henriques deixa grandes somas de dinheiro para obras pias, reserva algumas especialmente para os pobres de Lisboa, Santarém, Coruche, Abrantes, Tomar, Torres Novas, Ourém, Leiria e Pombal, sem contar o que destina aos pobres de cada diocese, en­ tre as quais Lisboa e Coimbra (DR 334). Eram estes pobres e marginais que provavelmente engrossavam os bandos de cavaleiros e de peões quê partiam de Santarém para tentar pilhar povoações como Alcácer do Sal apesar de nem sequer terem armamento de ferro (ADA, p. 157), mas cujo ímpeto lhes permitiu conquistar Évora (ADA, p. 158). Eram eles, iguàl- mente, como os «malcalçados» de Cid, o Campeador, que sob o seu co­ mando tentavam escapar à fome e à «coita»41, os latrones recrutados por Geraldo Sem Pavor (ADA, p. 158), que durante tantos anos constituíram o terror dos mouros de Badajoz e de todas as povoações à sua volta42. Pe­ los relatos que dos seus ataques fizeram os autores árabes, pode admitir-se que não constituíssem grandes exércitos. Mas o que importa é verificar a coincidência do seu aparecimento com a época em que se registam os exce­ dentes demográficos no Norte, e a aglomeração de gente nas cidades e vilas da Estremadura. É daí que nascem os pobres e os aventureiros que a socie­ dade de então não consegue enquadrar.

da Estremadura não faltam indícios já desde o

C

r i s e

d e

1190-1210

Pelos fins do século x i i , a pressão demográfica diminui ligeiramente, em virtude da intensificação das investidas almóadas de 1181 a 119543, o que deve ter provocado o refluxo da população da linha do Tejo, que tenta re­

36 Robert Durand, 1983a, pp. 66-94 e, sobretudo, pp. 85-93.

37 J. Mattoso, 1985, pp. 329-345; id.y 1985b. Ver fig. 23. A disparidade regional da distribui­

ção geográfica e da organização do espaço verifica-se também na Estremadura castelhana, mesmo

numa área relativamente reduzida, como a diocese de Ávila: Angel Barrios Garcia & A. Martin

Exposito,

1983, pp.

113-148.

38 Rita Costa Gomes, 1987, p. 101.

39 M. Helena Coelho,

40 Vita S. Martini Sauriensis, in SS, p. 61b; cf. J. Mattoso,

41 Poema de Mio Cid., v. 1023, 1189-1190.

42 David Lopes, 1940, pp. 95-109.

43 À. Huici Miranda, 1954, p. 37; A. B. da Costa Veiga, 1956, pp. 329-339.

1983, pp.

17-26.

1982b, pp. 298-300.

gressar às cidades ou voltar ao Norte, mas sobretudo por causa de uma sé­ rie de maus anos agrícolas pelos anos 1191 ou 1196 a 1199, que assolaram particularmente a Terra de Santa Maria (Feira), Braga e a Galiza. Seguir- -se-iam graves intempéries em Évora, Santarém e Coruche em 1216 e 1218. Sentiam-se, assim, no nosso país, fomes paralelas às que assolaram o resto da Europa e o Norte de África entre 1193 e 1197, e a Inglaterra em 120244. A fome obrigou muita gente da zona de Gaia, Viseu e Entre-os- -Rios a vender as suas terras45. Os cónegos de Braga tinham de empenhar as suas propriedades para se alimentarem antes de 1206 (LF 498), e o papa Inocêncio III responde a uma consulta do arcebispo de Braga, declarando que não deverão fazer penitência aqueles que durante a Quaresma come­ ram carne em tempo de fome, no qual a maioria da gente morria por falta de víveres (MHV, I, n.° 329, de 1206 = BPIn. III, n.° 109). Daí resulta­ ram agitações populares da gente faminta que desencadearam a revolta burguesa do Porto de 1208 a 121046, as agitações de 1207 em Lisboa47, as pilhagens dos coutos de Alcobaça pouco antes de 121048, os protestos dos clérigos de Leiria no ano seguinte49, as questões entre o mosteiro de Ta- rouca e os seus vizinhos50.

O

SÉCULO

XIII

Mas os maus anos agrícolas parecem, depois, ter cessado quase por com­ pleto. Nem os da Europa central de 1224-1226, nem os mediterrânicos de 1226, 1232 e 1237-1238 se registam entre nós. Os de 1255-1262, que afectaram gravemente Leão e Castela51, pelo contrário, devem ter-se feito sentir também em Portugal. As dificuldades de abastecimento de trigo ain­ da se faziam sentir em 1268-1272 por ocasião dos anos maus da Europa atlântica desse mesmo período52, a seguir ao qual se regista na Beira um surto de peste, em 127353. Enfim, o ano mau de 1293 no Mediterrâneo coincide aproximadamente com a notícia da falta de pão na Estremadura

em

129554.

Assim, se as calamidades da passagem do século x i i

atenuaram mo­

mentaneamente a pressão demográfica, não evitaram as novas acumulações de gente, não menos intensas do que as do século anterior, como se pode deduzir da já mencionada comparação das inquirições de 1220 com as de 1258. Ela é talvez responsável pelo recrudescimento do banditismo e da agitação social que precedeu a guerra civil de 1245 e se prolongou pelo

44 C. 1419 (ed. Magalhães Basto), pp. 153-154; Chronicon Conimbricense, in SS, p. 3b;

C. 1419 (ed. Silva Tarouca), I, pp.

175-177; A. H. de Oliveira Marques,

45J. Mattoso,

46 Herculano, 1980, v. II, pp. 140-145.

47 Gérard Ptadalié, 1975, p. 29; LPA, p. 148.

48 DS 212, 213, 214, 215.

49J. Mattoso,

50A. Femandes,

51 S. Aguadé Nieto, 1980.

52A. H. de Oliveira Marques,

53 M. Gonçalves da Costa, 1979, II, p. 89.

54 Oliveira Marques, 1978, pp. 38-39.

1985, pp. 389-408.

1985b.

1976, does. de pp. 296-297, 299.

1978, p. 38.

1978, p. 37.

menos até 1250, registando-se principalmente nas áreas mais densamente habitadas, ou seja, nas dioceses de Braga, Porto e Lamego55.

Durante a segunda metade do século xm, a intensificação das activida- des económicas permite, segundo parece, equilibrar melhor os níveis da população e dos recursos alimentares. Efectivamente, a criação de feiras56, a construção de pontes e igrejas57, o surto do comércio marítimo interna­ cional58, a diminuição da pirataria muçulmana no Atlântico, a prosperida­ de das cidades parecem indicar um certo domínio da situação. De facto, parece ter-se conseguido durante algum tempo aumentar a produtividade por meio da secagem de pântanos ou o arroteamento de montes e de ma­ tas59, e a intensificação das actividades piscatórias60, ou mesmo a generali­ zação de melhores técnicas agrícolas, como a melhoria dos processos de as- solamento, o desenvolvimento da criação de gado, o uso de instrumentos de ferro, sobretudo do arado61, a utilização de plantas azotadas e a intensi­ ficação do cultivo de leguminosas62. Estes processos, todavia, não impedem as carestias de pão registadas em 1267, 1273 e 1295, e muito menos as novas fomes que se abaterão sobre o país a partir de 1331 e anunciam a grande depressão do século xiv. Antes delas, é provável que já a guerra civil de 1319-1324 fosse agravada por um mal-estar generalizado, eventualmente resultante de carestias paralelas às que se registaram na Europa do Norte entre 1314 e 131963- Como se sabe, uma das teorias mais em voga acerca das catastróficas consequências çla peste é a que vê na fome generalizada a debilitação da gente incapaz de re­ sistir à doença. Mas a fome, por sua vez, resultaria da incapacidade para absorver uma população excessiva para os recursos então disponíveis, e que

a rudimentar tecnologia produtiva não conseguia aumentar64. O nosso

país, pelos vistos, não escapou também à peste. Talvez em virtude das mes­ mas causas. A análise do caso do baixo Mondego por M. H. da Cruz Coe­ lho parece confirmar esta hipótese65.

C

o n c l u s õ e s

Assim, apesar das lacunas e incertezas deste panorama, e da falta de dados quantitativos que permitam definir a amplitude dos fenómenos detectados, podemos apresentar o seguinte panorama como resposta à pergunta inicial:

a Reconquista não resulta do crescimento demográfico, mas tem muito a

55J.

56 V. Rau,

57J.

58 Oliveira Marques, 1982, pp. 162-169.

59 M. H. Coelho, 1983, pp. 41-69. Testemunhos noutros lugares da Estremadura: M. Heleno,

10; arro­

Mattoso,

1985, pp. 57-75.

1943.

Mattoso,

1985, pp. 149-169.

1922; C. M. Baeta Neves, 19 8 0 ,1, does. 22, 23, 26, 31, 36, 39, 69; J. C. de Sousa, doc.

teamentos no Alto Minho, entre 1258 e 1307: M. Helena Coelho,

1923, pp. 255 e segs.; V. Magalhães Godinho,

1990,

60 A. Sampaio,

61 Oliveira Marques, 1978, p. 97; M. H. Coelho, 1983, pp. 201-214.

62 Numerosos testemunhos de identificação do seu cultivo na periferia das cidades, como vere­

I,

p.

208.

120-124.

1983, IV, pp.

mos adiante. Cf. E. Portela,

1976, pp.

124-130, para a região de Tuy.

63 Oliveira Marques, 1978, pp. 39-40.

64 J. A. Garcia de Cortázar, 1983, pp. 41-45.

65 M. H. Coelho, 1983, pp. 5-81.

ver com ele. Temos pelo menos a certeza de que houve um crescimento populacional importante que foi certamente excessivo na zona de maior densidade, Entre-Douro-e-Minho, e que levou durante o século x i i à ex­ pansão da sua gente para as áreas menos povoadas de entre Lima e Minho,

o vale do Tâmega, as margens do Douro e o litoral a sul deste rio, até ao

Mondego. É, decerto, por uma paralela saturação de gente que os bandos marginais se dirigem para o Sul, onde constituem os «pobres» das povoações da Estremadura, e alimentam as expedições de conquista e pilhagem na fronteira do Tejo, durante a segunda metade do século x i i . O refluxo da po­

pulação da fronteira que foge aos Almóadas entre 1180 e 1195 aumenta a pressão demográfica, mas esta diminui logo a seguir em virtude das fomes

e pestes de 1190-1210. Depois cresce de novo. Durante toda a primeira

metade do século x i i , os excedentes alimentam um banditismo endémico nas zonas mais povoadas de Entre-Douro-e-Minho e da Beira Alta, as lutas entre bandos de nobres e a guerra civil de 1245-1248, e a agitação social que a prolonga pelo menos até 1250. Vencida a crise trazida pelas fomes de 1255-1262, segue-se uma expansão e, ao mesmo tempo, parece, o ra­ zoável equilíbrio entre a população e os recursos, perturbada apenas por fomes ou pestes episódicas e talvez de âmbito regional em 1267, 1273 e 1295, ao mesmo tempo que os senhores tentam canalizar os excedentes pa­ ra as zonas ainda despovoadas. Mas os que podem, preferem acumular-se nos espaços intercalares da Estremadura, no Ribatejo, na península de Se­ túbal e, em menor grau, nas cidades do Alentejo. As cidades crescem enor­ memente neste período (fig. 23) e os senhores, como veremos, aumentam as rendas e exacções. No princípio do século xrv, a guerra civil faz pressen­ tir novos desequilíbrios que se vão agravando até ao desencadeamento da grande depressão dos anos 30 e 40. Não esqueço que a questão demográfica me interessa como elemento para explicar a formação nacional e a superação da oposição entre o Norte senhorial e o país concelhio. De facto, os movimentos populacionais, mes­ mo quando não chegam a provocar grandes deslocações de massa, levam a transferências importantes, num movimento cuja tendência constante tem o sentido norte-sul e oeste-este. É ele que sustenta a senhorialização do vale do Douro, de Trás-os-Montes, de parte da Beira, da Estremadura e, depois, do Alentejo. É também responsável pelo crescimento das cidades, pela fixa­ ção do rei, da corte e de muitos nobres em Coimbra, Lisboa, Santarém, Evora e em várias povoações da Estremadura. Mesmo qué as transferências fossem quantitativamente reduzidas, a população autóctone na Estremadu­ ra e no Alentejo, demasiado débil, não parece ter oferecido resistência so­ cial nem cultural. A assimilação das gentes do Norte, de cultura diferente, foi facilitada pela preservação moçárabe das tradições latinas. Esta popula­ ção, sem quadros dirigentes nem uma forte classe dominante, teve de se submeter à que tudo passou a dirigir quando ocupou as cidades da Estre­ madura e do Alentejo. Os desníveis de densidade demográfica, que já se verificavam, sem dú­ vida, no século x, não desapareceram, porque a incapacidade tecnológica não permitia a subsistência de muita gente nas montanhas, nem mesmo no Alentejo. Daí, sobretudo das terras altas, a gente também fugia, acossada

pela fome e pela dureza do clima. As tentativas de repovoamento fracassa­ vam constantemente. A região que provavelmente mais se modificou com

os movimentos migratórios foi a Estremadura.

Em última análise, foi a expansão demográfica de Entre-Douro-e-Mi- nho que levou os dominadores a todo o país, que misturou, nas cidades, gentes de todas as procedências. Homens e mulheres que, passando à Lusi­ tânia, continuaram a chamar-se «Portugueses», isto é, gente de Portucale, do território portuense e que impuseram o mesmo qualificativo a todos os que tinham nascido dentro do reino, embora bem longe do Porto.

1.2. Tecnologia e economia

O excesso de gente, as suas deslocações à procura de subsistência, o alarga­

mento das fronteiras políticas, a concentração em regiões onde os rendi­ mentos eram maiores, as tentativas abortadas de cultivar solos que à menor intempérie deixavam as sementes improdutivas, tais foram as realidades que vimos até aqui e contribuíram para fazer afluir gente de todos os lados ao litoral, à zona onde as cidades impunham à economia uma orientação própria. A economia, no entanto, não é só activada pelas necessidades elemen­ tares da população. Evolui também pelo seu próprio dinamismo, e, neste, a acumulação de bens desempenha um papel fundamental. Ora, o desen­ volvimento económico, isto é, o aumento de volume de bens em circula­ ção, da velocidade e fluidez de trocas nas áreas abrangidas pelos diversos circuitos, contribui poderosamente para o inter-relacionamento dos grupos humanos. Põe os concelhos em contacto uns com os outros, obriga os se­ nhores a negociar com os proprietários vilãos e vice-versa, associa os mes­ teirais e os mercadores, altera as relações entre os produtores e os consumi­ dores, transfere riquezas e propriedades, condiciona a política régia, abre, mesmo, as fronteiras terrestres e marítimas para levar os comerciantes a terras longínquas, onde se falam outras línguas e existem outros costumes. No domínio económico, o grande fenómeno a que se assiste entre o fim do século xi e o princípio do século xiv, em Portugal como no resto da Europa, embora aqui com algum desfasamento cronológico, consiste no abandono do sistema dominado pelo autoconsumo, para o substituir pro­ gressivamente pela economia de produção e de trocas. As comunidades hu­ manas, organizadas para a defesa e a resolução unilateral das suas necessida­ des, são obrigadas a quebrar o isolamento e têm de se integrar em grandes áreas de circulação de produtos, não já de âmbito regional, mas, agora, pe­ lo menos, nacional. Apesar da dificuldade do seu estudo, não se podem ignorar os proble­ mas tecnológicos, que aceleram ou retardam a produção e, consequente­ mente, condicionam o volume e o dinamismo das trocas. Aqui as interro­ gações serão constantes, e a necessidade de deixar os problemas em aberto, maior. Ver-se-á melhor, porém, a premência de os estudar logo que possí­ vel, para poder responder às dúvidas suscitadas pelo equacionamento das questões. Como já adverti anteriormente, o objectivo deste parágrafo não é exa­

minar a vida económica e tecnológica em si mesma, mas encontrar nos factores materiais os elementos que condicionam, retardam ou aceleram o processo da formação nacional. Como se verá também, deste ponto de vis­ ta, nem todas as questões da história económica têm a mesma importância. A problemática que ela suscita e, sobretudo, a sua articulação com a histó­ ria cultural e política serão um convite a que os seus especialistas aprofun­ dem algumas questões às quais não se deram, até agora, respostas suficien­ temente precisas. Entre as que me parecem mais importantes, mencionarei apenas a reconstituição das conjunturas. Seria necessária uma datação mais precisa dos fenómenos económicos e uma definição rigorosa da sua nature­ za para o conseguir. Ora, até ao momento, os historiadores da economia medieval não parecem ter-lhes ligado a devida importância, preferindo es­ tudar estruturas de longa duração. Na tentativa de reconstituição das di­ versas fases conjunturais, que servirá de fio condutor a esta exposição, terei, por isso, de ser mais vago do que desejava e, até, de propor soluções para as quais não estou suficientemente seguro. Todavia, parece-me preferível correr esse risco do que ignorar esta questão fundamental num período de expansão e de transformação como o dos séculos xii e xm.

1080-1130

Começarei por recordar que a criação do condado portucalense, como uni­ dade política, se deve à premência da ameaça militar, trazida pela ofensiva almorávida. Esta seguia-se a um largo período de euforia conquistadora, que alargara as fronteiras cristãs do Douro até ao Mondego, permitira a emigração de bastante gente para o Sul, contribuíra indirectamente para consolidar os poderes senhoriais dos infanções e mosteiros nortenhos, e le­ vara, até, a uma primeira fase de alastramento dos mesmos poderes, na margem sul do Douro, em região não muito extensa a norte da Feira e do vale do Paiva. Ora, a intensificação dos combates na linha do Mondego, a partir de 1095, e a simultânea afluência de francos, juntamente com as divisões in­ ternas dos cristãos nos planos religioso e cultural, mas com enormes reper­ cussões em torno dos poderes políticos constituídos, desencadeia igualmente contradições no seio da nobreza senhorial e da classe dominante em geral. Face à aristocracia próxima da corte, que se alia aos francos, levanta-se a resistência ou desconfiança dos cavaleiros e das comunidades rurais ou cita­ dinas. As perturbações políticas e sociais em todo o reino de Leão-Castela trazidas pela agitação de 1108-1128 traduzem estas contradições. Permi­ tem a alguns elementos da aristocracia inferior, sobretudo cavaleiros que enriqueceram na guerra da fronteira meridional, agora abandonada a eles, dispor de meios suficientes para investir na terra e adquirir, peça a peça, domínios importantes em regiões ainda não senhorializadas. Já anteriormen- te (Vol. II, pp. 152-154) chamei a atenção para este tipo de aquisições que se concentra na região da Maia, na Terra de Santa Maria, e nas regiões pró­ ximas do Vouga e do Paiva, durante a segunda metade do século xi e, sobre­ tudo, as primeiras décadas do seguinte. Coincidem, portanto, com a referida agitação e com a intensificação da vida militar. Foi assim que se tornaram

grandes proprietários Trutesendo Guterres e o seu irmão Gonçalo66, João Gosendes67, Soeiro Fromarigues e seu filho Nuno Soares68, e Ramiro Gon­ çalves69. Muitos dos seus domínios seriam herdados respectivamente pelo mosteiro de Moreira da Maia, pela Sé de Coimbra, e pelos mosteiros de Grijó e Tarouquela. As aquisições de vários cavaleiros em torno de Viseu70, que não foram, mais tarde, transformadas em domínios eclesiásticos, con­ firmam a amplitude do movimento de transacções de terras nesta fase, e a substituição do cultivo directo dos pequenos proprietários pelo trabalho de dependentes, que tinham de entregar ao senhor uma parte importante dos seus rendimentos. Neste momento, porém, estava já em declínio a fase da constituição dos grandes domínios monásticos em Entre-Douro-e-Minho, para os quais, durante as décadas anteriores, desde cerca de 1080, se haviam transferido grandes porções da fortuna imobiliária dos magnates71, sem que estes fos­ sem por isso afectados, pois a operação contribuiu para consolidar a sua posição política e social. As dioceses, pelo menos as de Braga e Coimbra, pelo contrário, continuavam a adquirir terras e montavam por esta época a sua administração e organização72, investindo mais na criação de sistemas eficazes de cobrança de rendas do que na melhoria dos rendimentos73. Em termos económicos, portanto, o fenómeno dominante do período 1080-1130 consiste na concentração das fortunas imobiliárias de feição se­ nhorial, entre as quais se distinguem as dos mosteiros de Entre-Douro- -e-Minho, e das dioceses de Braga e Coimbra, as mais antigas dos senhores da alta aristocracia e, depois, as mais recentes, de alguns nobres de nível inferior, enriquecidos pela guerra, que transformam em domínios senho­ riais terras de pequenos proprietários da zona da Maia, do baixo Douro, do Vouga e do Paiva. Os primeiros indícios de actividade mercantil, detèctados com o apare­ cimento de mercadores francos em Guimarães (DR 3, 55) e com o estímu­

lo dado a alguns centros, como Constantim de Panóias por D. Henrique

(DR 3) e Ponte de Lima por D. Teresa (DR 69), devem considerar-se de­ masiado ténues para caracterizar o conjunto, embora importantes em vir­ tude, justamente, do seu contraste com a orientação global da época. Estes centros traduzem, talvez, a larga influência económica de Santiago de

Compostela, principal polo de circulação monetária e mercantil da Hispâ-

nia setentrional74. A sua influência transformadora, no entanto, é limitada.

A concentração monetária que aí se dá torna este centro alvo de grandes

lutas e cobiças. Os seus beneficiários, de resto, tendem, nesta fase, a ente­ sourar ou a canalizar para o exterior (para Roma e Cluny), em negócios ou

66J. Mattoso,

67 Leontina Ventura, 1985.

68 R. Durand, 1971.

69 R. Durand, 1982a, pp. 293-295.

70 D R 74.

71J. Mattoso,

72 É o que se deduz da cronologia das aquisições registadas no LF de Braga e LP de Coimbra.

1981, pp. 220-222.

1968, gráficos de pp. 346, 347,

349, 350, 352, 353,

354.

As do Porto são mais tardias.

73 O

74 J. Gautier Dalché, 1979, pp. 67-96; id.y 1983.

exemplo típico é o Censual de Braga: A. de J. da Costa,

1959.

empreendimentos de aquisição de prestígio (como a catedral), os metais preciosos que acumulam, e pouco investem. O outro pólo de transforma­ ção económica, Coimbra, responsável pela concentração das transacções entre a zona económica muçulmana e a área cristã também não é por si só suficiente para alterar a fisionomia da economia portucalense. Os princi­ pais beneficiários são os senhores que entesouram os bens de luxo aí adqui­ ridos e os cavaleiros que, como vimos, investem na terra para se tornarem eles próprios senhores de grandes domínios. Em termos globais, portanto, em nada se altera a predominância do sistema de autoconsumo para o qual tende a organização social. As comunidades rurais não englobadas por ela também o adoptam como sistema dominante.

1130-1160

Logo no princípio da década de 1130, a fixação de D. Afonso Henriques em Coimbra deve considerar-se o ponto de partida para uma mutação im­ portante. Representa a atracção que aquele centro urbano exerce sobre um chefe político ambicioso, o qual se dá conta da sua importância económi­ ca. É, ao mesmo tempo, o acto inicial do recrudescimento da ofensiva cris­ tã, que irá polarizar uma parte importante da aristocracia durante os trinta anos seguintes e que canalizará para a guerra ofensiva, e não apenas para as operações de pilhagem, os esforços da camada activa da população. Os contactos que, por esta altura, se fazem com os cruzados podem ser impor­ tantes, por abrirem horizontes ao futuro mercado internacional, mas não dão ainda qualquer resultado significativo em termos económicos. Efectivamente, o fenómeno dominante do trinténio 1130-1160 é o in­ vestimento na guerra ofensiva. Este esforço, dirigido, obviamente, por Afon­ so Henriques e os seus colaboradores, tem os seguintes resultados principais:

a) no Norte, a activação da senhorialização, que beneficia não apenas a grande aristocracia tradicional, como Egas Moniz no Douro75 e os Sousas no Tâmega superior76, mas também os cavaleiros colaboradores do rei, que criam os seus domínios em Entre-Douro-e-Minho77 e, ainda, os mosteiros de dimensões médias e pequenas, que oferecem ao rei cavalos e moeda pa­ ra financiar a guerra, a troco de concessões de imunidade78; b) na Beira, a consolidação das comunidades e dos concelhos e o fortalecimento da cava­ laria vilã que investe na terra os benefícios da guerra; c) em Coimbra, a ac­ tivação do artesanato que trabalha na fabricação de armas e nos couros79, e na Beira central a constituição de domínios senhoriais pertencentes ao bis­ po de Coimbra, aos cónegos de Santa Cruz, a outras instituições eclesiásti­ cas, e a vários cavaleiros da mesma cidade80; d) por intermédio da integra­

75 A.

Fernandes,

1979, pp.

117,

144-145. Ver fig. 9.

76 A.

Fernandes, 1960, mapa 2, junto à p. 120.

77 Ver as informações sobre Valadares, Cerveiras, Velhos, Azevedos, Soverosas, Pereiras, Rami-

rões, Cunhas, Grijó, Límias e Ribeiras, vol. II, pp.

J. Mattoso,

1982b, pp.

181-182.

114-119,

143,

78J. Mattoso,

79 Cf. as posturas municipais de 1145: Leg. p. 743 =

80J. Mattoso,

1981, pp. 270-275.

1981, pp. 315-330.

LP 576.

148,

150-152,

182-184; e

ção dos grandes centros urbanos de Santarém e Lisboa no território cristão, a definição de um espaço económico dotado já de um número suficiente de centros de produção e trocas para se orientar numa direcção própria, e com capacidade para deixar de depender da dominação senhorial; e) ainda por intermédio da conquista de Lisboa e Santarém, mas também em virtu­ de da disponibilidade monetária dos participantes na guerra, a activação dos circuitos monetários que começam a injectar a moeda em torno das vias de comunicação: primeiro no litoral e, já no período seguinte, para o

interior81.

Estes fenómenos, no entanto, representam mais as virtualidades futuras do que uma alteração das dominantes fundamentais. Estas continuam a resi­ dir na tendência para o autoconsumo, tanto por parte da organização se­ nhorial, mesmo dos senhorios recém-criados, ‘como por parte dos concelhos. Os elementos que escapam a esta caracterização global e não decorrem di- rectamente da guerra ou da inclusão das cidades no espaço português, não chegam para alterar a sua predominância. Refiro-me às fundações de eremi­ térios na periferia das zonas mais habitadas ou junto às vias de comunica­ ção82, à intensificação das viagens e aos primeiros indícios da pauperização83. Constituem simultaneamente os subprodutos do sistema senhorial e a ma­ nifestação da sua incapacidade para integrar os excedentes humanos numa situação de crescimento demográfico. A verdade é que, em termos globais, mesmo uma instituição fundada em plena cidade, como o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, apesar da atenção dos seus membros para com os problemas pastorais e internacionais, se organiza, em termos económicos, como um centro senhorial possuidor de grandes domínios nas terras recém- -adquiridas ou recém-pacificadas84. O mesmo se diga das cidades sujeitas ao senhorio eclesiástico, como Braga (1109) e o Porto (1120). O contacto dos centros senhoriais com a economia urbana levará, porém, a importantes al­ terações do sistema.

1160-1190

Efectivamente as mudanças registadas durante o período de 1160-1190 atingem o próprio sistema de autoconsumo. Os seus maiores protagonistas são os mosteiros cistercienses e as ordens militares. Segundo parece, os pri­ meiros adoptam em grande escala os métodos da exploração directa e criam rendimentos superiores à sua capacidade de consumo; os segundos dispõem de grandes propriedades na retaguarda, muitas delas a grande distância da fronteira, cujos benefícios aplicam na guerra, e colocam os bens produzi­ dos no mercado. Tornam-se, portanto, grandes empresas agrícolas cuja produção surge no momento em que as cidades também aumentam de vo­ lume e se transformam em importantes centros consumidores. Os cistercienses aparecem portanto, nesta fase, como os principais res­ ponsáveis pelas brechas abertas no sistema de autoconsumo. Além disso,

81 R. Durand, 1982a, pp. 234-256; J. Mattoso, 1968, pp. 381-382. 82J. Mattoso, 1982b, pp. 108-114. 83 Ibid., pp. 298-311.

84 Leontina Ventura e A. S. Fatia,

1990, pp. 27-36,

e o apêndice de pp. 386 e segs.

interessam-se pelos investimentos produtivos, como a criação de gado, e por aperfeiçoamentos tecnológicos, como o uso dos instrumentos de ferro, a construção de moinhos e canais ou, mesmo, a exploração de minas85. Vendendo os excedentes, investem os ingressos monetários em lugares es­ tratégicos pela capacidade de produção ou aptos ao escoamento dos produ­ tos. Assim, já em 1173-1185 tinham organizado a comercialização do sal e adquirido um barco para o venderem mais caro, em Lisboa86. Entram, pois, a fundo na economia monetária e tornam-se até centros de crédito capazes de financiar nobres e leigos87. Os aperfeiçoamentos tecnológicos podem não se dever exclusivamente aos monges brancos, mas foram eles, sem dúvida, quem daí tirou o melhor partido. Não havia muitos produto­ res com capacidade de investimento suficiente para o$ tornarem rendíveis e aplicarem em grande escala88. Conhece-se muito pior o papel desempenhado pelas ordens militares, mas pode presumir-se, pelo menos a julgar pelo exemplo que a Ordem de Santiago constitui para Leão e Castela89, que também entre nós fossem organismos impulsionadores de grandes explorações e da sua integração na economia de mercado. Em Portugal, só mais tarde se especializariam na pecuária de grandes dimensões. Mas já os templários e os hospitalários portugueses deviam, durante o trinténio de 1160-1190, ter colocado no mercado os rendimentos das suas enormes propriedades no Norte90. Os canais construídos pelos templários junto do rio Zêzere sugerem também que tivessem utilizado uma tecnologia «moderna»91. Não esqueçamos, todavia, que, durante o período de 1160-1190, se atravessa ainda a fase de montagem destas «grandes empresas», cuja rendi­ bilidade só viria a exercer um peso determinante na economia do país no princípio do século xm. Durante o fim do século anterior, os cistercienses fundaram as suas granjas e organizaram a exploração. Tarouca concentra nos anos 1170 a 1182 a maioria das suas compras. Em 1193 tem já dezas­ sete granjas, das quais uma junto do Porto, e duas perto de Lisboa (PUP, n.° 137). Tinha fundado nove entre 1163 e aquele ano (PUP, n.° 61). Al- cobaça ocupava-se quase só em criar as infra-estruturas produtivas dentro dos seus imensos coutos (cf. PUP, n.° 66). A disponibilidade monetária que, a nível geral, se começa a sentir nesta época é utilizada, por um lado, na continuação do esforço militar, como demonstra o conjunto de operações de guerra no Alentejo até 1169, e, por outro lado, na construção de igrejas, catedrais e castelos que emprega uma

85 Para Tarouca, ver, quanto ao gado, A. Fernandes, 1976, pp. 15, 121, 123, 132, 218; e,

quanto ao ferro: id., 1970, pp. 14, 331; id.y 1976, pp. 294; para Alcobaça, ver R. Durand, 1982a,

pp. 201-231.

86 Miracula S. Vincentii (ed. Aires Nascimento, 1988, pp. 62-64).

87 Emprestam, a Gonçalo Mendes de Sousa, 864 maravedis em 1230: R. Durand, 1982a,

p. 32Í.

88 A estimativa global de R. Durand, 1981, pp. 101-117, parece-me minimizar excessivamente

a contribuição cisterciense para a economia portuguesa, por não ter em conta a sua capacidade de inovação no conjunto em que se insere.

89J.

90 Cf. M. J. Lagos Trindade, 1981, pp. 129-143.

91 C. M. Baeta Neves, 1980,

L. Martin,

1973.

I, doc.

1.

enorme quantidade de mão-de-obra nas cidades e em meios rurais92. Tanto a guerra como os investimentos construtivos permitem sustentar uma apre­ ciável quantidade de gente, atraindo a primeira um certo número de mar­ ginais que o sistema senhorial e a expansão demográfica produzem e cuja presença se nota sobretudo, como vimos, nas regiões de fronteira.

1190-1210

Vimos igualmente que o desequilíbrio entre os recursos disponíveis e as necessidades da população agravou a crise demográfica de 1190-1210. As suas consequências económicas mais imediatas decorrem da necessidade que os famintos têm de vender as suas terras, o que contribui para aumen­ tar ainda mais os grandes domínios93. Estimulados pelo exemplo das em­ presas cistercienses e outras, dispondo, sem dúvida, de meios de investi­ mento, surgem pela primeira vez, durante este período, os leigos que se interessam pela exploração directa, como Lourenço Fernandes da Cunha94. Mas as construções de igrejas e pontes sofrem, por esta altura, uma crise95. Pelo contrário, a participação dos mercadores nos lucros permite-lhes agora empreenderem viagens marítimas e irem comprar os seus panos a Du­ blin96, Inglaterra97 ou Bruges98. Compreende-se, assim, que os comercian­ tes, assediados pela pirataria sarracena do Atlântico, estivessem vivamente interessados na conquista de Silves (1189), donde partiam muitos ataques aos seus barcos99. As actividades comerciais com Leão e Castela poderão parecer menos inovadoras, mas não deixa de ser significativo que se inten­ sifiquem também pelo fim do século x ii, sendo então mencionadas as im­ portações de panos em Pinhel, Penamacor e Melgaço100.

1210-1250

Os anos de 1210 a 1250 marcaram já a plenitude das explorações cistercien­ ses e das ordens militares. Um dos indícios deste facto é o quase monopólio da indústria moageira que os monges de Alcobaça obtêm em Leiria a partir de c. 1220 e que sustentam até ao fim do século xm, apesar da oposição do concelho101. Os seus exemplos são agora seguidos por outros grandes domí­ nios monásticos que decerto os imitam, senão em todos os aspectos da sua organização administrativa, pelo menos nos investimentos produtivos e na comercialização dos produtos. Assim fazem os cónegos regrantes de Coim­ bra e de Lisboa, sendo de mencionar a tentativa destes para obterem em

92J.

93 J. Mattoso, 1985, pp. 389-408. Para Tarouca, ver o aumento de compras em 1193-1204:

Mattoso,

1985, pp.

149-169.

Almeida Fernandes,

1976, passim.

94J. Mattoso,

95 Gama Barros, X, pp. 222-224.

96 Ch. Verlinden, 1948, pp. 453-467.

97 Gama Barros, X, pp. 222-224.

98Vanden Bussche, cit. por T. de Sousa Soares, in Gama Barros, X, p. 402.

99 A relação entre estes dois factos foi estabelecida por Ch. Verlinden, 1949, p. 176. É sugerida

1982a, pp.

115-127, 225-226.

pelos próprios interesses económicos revelados pela Narratio (ed. David, pp. 633-642).

100 Ana M. Ferreira, 1983, p. 19.

101 Pedro G. Barbosa,

1991, pp. 39-53.

Castelo Mendo um ponto estratégico economicamente importante102. De par com o poder económico de que estas «empresas» dispõem, pode apon-

tar-se agora a tentativa realizada por Afonso II para racionalizar a adminis­ tração régia, contabilizando os rendimentos através das inquirições (1220), organizando a chancelaria e opondo-se à senhorialização dos domínios ré­ gios. Também não deixou de se interessar pelo encorajamento do comér­ cio de cidades tão importantes como Lisboa, Coimbra e Évora103. Os seus processos contabilísticos são adoptados por outros senhores. De facto, em 1213 os notários das infantas suas irmãs contabilizam minuciosamente os prejuízos que tiveram com as duas guerras em que se opuseram ao rei — 14 526 morabitinos numa e 15 507 noutra — , para reclamarem uma in­ demnização junto da cúria romana104. À sua política «moderna» sucede, porém, a incapacidade de Sancho II para impedir a senhorialização quase desenfreada dos domínios da baixa nobreza em Entre-Douro-e-Minho, Beira Alta e Trás-os-Montes e o aumento dos de outras categorias nobres.

O segundo grande facto desta época, com repercussões económicas de

grande amplitude, é o avanço da Reconquista até à ocupação definitiva do Algarve. As ordens militares, sobretudo a de Santiago e, depois, a dos Hos- pitalários, revelam, no esforço bélico então realizado, a sua enorme poten­ cialidade económica.

Regista-se então o aumento de cidades na Beira e no litoral estremenho, o que só pode significar a activação das suas funções económicas. O desen­ volvimento do comércio manifesta-se agora por alguns particulares possuí­

rem importantes somas de moeda estrangeira, sobretudo soldos leoneses e de Burgos, mas também soldos torneses e, até, libras105106. A intervenção dos membros da nobreza na economia cresce lentamente como se pode ver do exemplo de Pêro Anes da Nóvoa, o mordomo-mor de Afonso II, que se mantém no poder durante algum tempo, mesmo depois de 1223. As grandes aquisições de Rodrigo Forjaz de Leão, de Gil Martins de Riba de Vizela, e ae Gil Vasques de Soverosa ao sul de Vizela devem datar desta época107. Os nobres, porém, raramente se interessam pela gestão directa * dos instrumentos de produção. Assim, por exemplo, tendo Afonso II dado dois moinhos em Leiria a dois nobres da corte, eles entregam-nos pouco depois ao mosteiro de Alcobaça, embora um deles receba em troca uma renda vitalícia108.

A nível mais global regista-se, com importante significado, o aumento

do preço da terra, perto das cidades, e particularmente das vinhas109. De

102 V. Rau, 1982, doc. 1. Ver também, já em 1138, o povoamento de Cucos (Fig. da Foz) por

Santa Cruz: M. H. Coelho, 1983, doc. 1; o aumento de marinhas de sal pelas igrejas de São Jorge

e São Bartolomeu de Coimbra em

103 Ver Silva Marques, 1944, I, doc. 3, pp. 595-596; conf. do foral de Coimbra por Afonso II

1236: ibid., doc.

9.

(Leg., p. 416)

e os privilégios concedidos a Évora (G. Pereira,

1885, doc. 6, mal datado).

104 Relato «Haec sunt acta negotii» in Herculano, II, p. 589.

105 R. Durand, 1982a, pp. 256-258. O arcebispo de Braga protesta em 1250 por Afonso III

pôr obstáculos à circulação de moeda leonesa (Leg., p.

186).

106 MPHI, doc. 4.

107 L. Krus e O. Bettencourt, 1982, pp. 41-44.

108 Pedro G. Barbosa, 1991, pp. 48-50.

109 R. Durand, 1982a, p. 307. A incidência da proximidade dos centros urbanos sobre o preço

da terra revela-se na disparidade dos ritmos de encarecimento na região de Coimbra e, sobretudo,

da Estremadura, comparados com a região do Vouga.

facto, os cultivadores interessam-se cada vez mais pela produção do vi­ nho110, que passa a ser o produto agrícola em que os mercadores mais in­ vestem. Vêm a seguir os ferragiais na periferia das cidades111. A intervenção dos senhores na administração da terra revela-se pelo aumento dos prazos em vidas e a diminuição dos perpétuos, a começar pelas terras da Estre­ madura112. A redução do número dos prazos perpétuos continuará ainda nas décadas seguintes. Constitui um importante indício da lenta recupe­ ração do senhorio sobre as terras cedidas com perda da administração di- recta. No domínio do comércio externo, os indícios não são muito mais abundantes do que na época anterior, excepto nos contactos com a Ingla­ terra, onde os mercadores portugueses parecem, agora, numerosos113. As informações sobre os contactos dos portugueses com a França de 1240 são mais vagas114. Apesar da escassez destes dados, a documentação relativa ao comércio externo, logo no princípio do reinado de Afonso III, é de tal or­ dem que tem de se pressupor que nessa época já tinha atingido notável re­ gularidade e intensidade a importação de panos de luxo. De facto, em 1253 tabelam-se os preços de nada menos do que trinta e oito tipos dife­ rentes de tecidos, dos quais trinta e quatro fabricados na Inglaterra, na Flandres, na Bretanha e na Normandia, além de três ou quatro vindos de Castela115. A venda dos mesmos panos castelhanos na feira de Guimarães, em 1258, vem confirmar esta interpretação116.

1250-1280

Apesar disso, a conjugação de todos estes indícios numa estrutura em que domina já a economia monetária e de mercado só se dá propriamente a partir da chegada ao poder de Afonso III. Tendo vivido longos anos em França e sendo pessoalmente dotado de grande capacidade de gestão, dir- -se-ia que transforma a Coroa e os domínios régios numa autêntica empre­ sa pré-capitalista, cujo financiamento se baseia numa hábil política mone­ tária. Os principais meios de que se serve são os seguintes: a) as sucessivas desvalorizações da moeda, ou ameaça de o fazer, como pretexto para lançar impostos extraordinários117; b) a reorganização do domínio régio, proce­ dendo a um novo cadastro (1258) e, em certos lugares, racionalizando a cobrança das rendas, entre outros processos por meio da sua conversão em

110 Multiplicam-se nesta época os emprazamentos com obrigação de plantar vinhas. Ver R.

Durand,

111 Sobre as culturas na periferia das cidades, ver M. J. Trindade, 1981, p. 186; M. A. Beiran-

te, 1988, mapas, de pp. 329, 419, 421, 423, 437, 439, 457, e pp. 648-649; Hermenegildo Fer-

nandes,

112 Comparar os dados fornecidos por R. Durand, 1982a, p. 391, com os de M. H. Coelho,

1972, p.

1991, p. 51.

36; M. J. Trindade,

1981, p.

186.

1983, fig. 12, confirmados, para a zona de Évora, por M. A. Beirante, 1988, p. 351. Ver, no fim

deste vol., fig. 24.

113 Gama Barros, X, pp. 223-224.

114 Câmara Municipal do Porto,

115 Leg.,

116 V. Rau,

117 Oliveira Marques,

1983, p.

76.

1983, pp.

193; Cf. Ana M. Ferreira,

1943, p. 449.

1980, pp. 205-207; M. J.

18-25.

Pimenta Ferro,

1977.

dinheiro, pago em três prestações118, e o arrendamento da cobrança, que entrega a indivíduos experimentados119; c) a aquisição e exploração de aze­ nhas, pisões, lagares, açougues, casas e tendas nas cidades, o que lhes per­ mite também aumentar os ingressos em moeda120. Destas medidas deve ter resultado, entre outras consequências indirec- tas, o fomento da difusão monetária em todos os níveis e locais do país, mesmo nos meios rurais onde ela até então mal tinha chegado, embora em si mesmas se destinassem a aumentar a capacidade financeira da Coroa, mais do que a investir em meios de produção. Por outro lado, as medidas de outra natureza, embora dirigidas no mesmo sentido, constituem estímu­ los directos às actividades comerciais. Quero referir-me, por exemplo, à protecção aos pescadores das proximidades de Lisboa, o que facilita o abas­ tecimento de peixe à cidade e, ao mesmo tempo, permite melhorar a co­ brança do dízimo121. E sobretudo a sua bem conhecida acção protectora das feiras. Esta, porém, não é a mais precoce: depois de alguns casos espo­ rádicos, situa-se sobretudo a partir de 1270. Será continuada com não me­ nos vigor por D. Dinis122. Parece ser também em virtude das suas conse­ quências financeiras que o mesmo rei promulga regulamentos do comércio externo no sentido de equilibrar as importações com as exportações e de impedir o escoamento de produtos pouco abundantes no país, como ce­ reais (1273?) e metais preciosos123, e ainda canalizar as transacções interna­ cionais para portos onde a cobrança da dizima se pudesse fazer eficazmen­ te. O mesmo intuito se nota na criação de um ponto de apoio da cobrança régia em Vila Nova de Gaia, o que lhe permitia desviar para o tesouro ré­ gio uma parte dos cobiçados rendimentos arrecadados pelo bispo do Porto (Leg., pp. 662-664). Como se sabe, as leis de Afonso III consagraram a mudança do sistema monetário, cujo padrão era anteriormente o maravedi de ouro, de inspira­ ção muçulmana, para o da libra, usado na Europa. R. Durand pensa, de­ certo com razão, que esta medida não tinha apenas a vantagem de permitir uma melhor integração na economia de além-Pirenéus, cuja influência so­ bre Portugal era cada vez maior, mas também a de facilitar a articulação entre as grandes e pequenas transacções, pois estas, realizadas em soldos e dinheiros, constituíam, afinal, a base da economia corrente124. Depois da política monetária (inseparável, como vimos, da fiscal e ad­ ministrativa), o reinado de Afonso III distinguiu-se por uma intensificação do comércio externo, agora não só no Atlântico Norte, mas também no Mediterrâneo. Como vimos, já no período anterior o primeiro se tinha tornado regular e intenso. Depois de 1250 verifica-se a multiplicação das referências a comerciantes portugueses na mesma zona e ainda em Bordéus

118 Herculano, 1980, III, pp. 78-81; M. J. Pimenta Ferro, 1977, p. 486. O cuidado pelo do­

mínio régio situa-se em 1253-1258. Datam deste período 39 dos 64 forais que o rei deu durante o seu reinado. Os deste período são, na sua maioria, forais rurais e de mera administração.

119 Ver os documentos administrativos publicados por J. P. Ribeiro, 1813, v. III/2, doc. 29.

120 A. Castro,

121 C.

122 V. Rau,

123 Leg.,

124 R. Durand, 1982a, pp. 253-257.

1965, III, pp.

1980,

376-379; ver também J.

I, doc.

2 de

1255.

P. Ribeiro,

1810, I, doc.

57.

M.

Baeta Neves,

1943.

194, 253-254;

Gama Barros, IX, p. 317; O. Marques,

1980, pp. 205-206.

e La Rochelle125. Mas aparecem agora, pela primeira vez, referências a mer­ cadores italianos residentes em Portugal. Trata-se de um genovês, Dom Vi- valdo, fixado em Lisboa pelo menos desde 1270126. Convém aqui notar a diferença que se verifica entre o comércio do Mediterrâneo e o do Atlânti­ co: este é feito durante todo o período que estudamos por mercadores por­ tugueses; aquele normalmente por italianos e, decerto, também por cata­ lães127. Pertence provavelmente a eles a iniciativa de procurar os portos portugueses como meio de expandir o comércio do Mediterrâneo. O terceiro aspecto mais notável da economia portuguesa dos anos 1250-1280 reside na multiplicação dos domínios nobres orientados para o mercado, o que quer dizer que o exemplo cisterciense continua a ter os seus seguidores. Agora não esporadicamente, mas em grande escala, e por fidalgos da corte, que aproveitam as suas posições políticas para criar gran­ des «empresas» de produção agrícola e comercialização. O caso mais co­ nhecido é o de D. João de Aboim128. O carácter «moderno» das suas aqui­ sições pode verificar-se no expressivo mapa publicado por A. Castro129. É também conhecido o caso do chanceler Estêvão Anes, com as suas exten­ sas propriedades em Alvito130. É menos referido que o anterior, mas talvez estivesse ainda mais integrado numa economia «moderna», pois explorou minas de ferro no Alentejo, que depois ficaram para os seus herdeiros, os trinitários de Santarém131. Os contemporâneos consideravam-no, por isso mesmo, avaro e mesquinho132. Não são casos isolados. Pode-se-lhes asso­ ciar Pedro Ponces de Baião, que obteve do rei o privilégio de cobrar os di­ reitos das portagens da Beira e da fronteira leonesa (Trasserra), que então se tornaram enorme fonte de rendimentos, pois a região era lugar de passa­ gem dos rebanhos transumantes, à procura de pastagens de Inverno133; a princesa Santa Mafalda, que possuía grandes rebanhos de vacas e ovelhas nas serras de Arouca e da Estrela e em Rasamalianes, e éguas em Antuã134; D. João de Aboim, que tinha também rebanhos no Alto Alentejo135. Acres- centem-se também alguns dos fidalgos de Entre-Douro-e-Minho e da Es­ tremadura que já no reinado anterior tinham começado a procurar pro­ priedades susceptíveis de lhes darem rendimentos em dinheiro e não apenas em géneros. Todos eles são precursores da figura do «fidalgo merca­ dor», tão típica da época moderna. Um deles é, agora, Soeiro Pires de Aze­ vedo, a quem o mosteiro de Alcobaça cede, em 1248 e 1262, propriedades em Bombarral (com uma charrua e um lagar) por uma alta renda em di­ nheiro136. Resta saber até que ponto eles intervinham na comercialização

125Yves Renouard,

126 M. J. Trindade, 1981, p. 218.

127 Ibid., pp. 218-219.

128 Ver a lista de aquisições feita por A. Braancamp Freire, 1906, pp. 106-170. Cf. Leontina

1955, pp. 244-248.

Ventura,

1986.

129 A. Castro, 1964, II, pp. 64-65.

130 Ver a documentação que sobre ele se pode reunir em J. Mattoso, in Herculano, 1980, III,

p. 211,

nota crítica 87; Leontina Ventura,

 

1992, II, pp. 585-594.

131

R. Durand, 1982a, p. 203.

 

132

CEM D, 221, 222, 223.

133

M. J. Trindade,

1981, pp.

35, 60.

134

A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 31-32.

 

135

M. A. Beirante, 1988, p. 539.

 

136

Pedro G.

Barbosa,

1988,

cap. VI,

6.

dos seus produtos. De resto, na geração seguinte, estes exemplos parecem diminuir, ao mesmo tempo que se assiste a uma recuperação da mentalida­ de nobiliárquica. Parecem suportar com dificuldade a concorrência das empresas régias. Os grandes domínios acumulados por Estêvão Anes passa­ ram à Ordem da SS. Trindade e os de D. João de Aboim dispersaram-se, vindo a cair em parte sob a alçada de D. Dinis. É claro que os grandes empreendimentos cistercienses e de ordens mili­ tares continuavam a aperfeiçoar e ampliar a sua actividade económica. Aqueles viravam-se cada vez mais para a economia de mercado como mos­

tram as aquisições estratégicas dos monges de Alcobaça, em Eivas e Beja137,

a

sua iniciativa na exploração de ferro e a multiplicação das granjas138.

O

seu interesse pelo Baixo Alentejo talvez fosse suscitado pela especialização

da zona na produção de cereais, de que já se encontram indícios neste pe­ ríodo; de qualquer maneira, podiam assim obter lã e couros nesta zona on­ de os rebanhos eram abundantes139. Os seus exemplos são agora cada vez mais seguidos por outras ordens, como a dos Cónegos Regrantes que, em Coimbra, aperfeiçoavam a administração dos seus domínios140 e os de São Vicente de Lisboa que obtinham propriedades em Sesimbra e São Cucufa- te (Évora)141. Pelo seu lado, a Ordem de Santiago e alguns concelhos do Alentejo e da Beira parecem desenvolver a pesca, a criação de gado e as ac- tividades comerciais142. Assim se explica o interesse de Afonso III pela co­ brança de direitos de montado143. A capacidade financeira e a acumulação de espécies em dinheiro pelos Hospitalários revela-se, por exemplo, no em­ préstimo de 14 000 maravedis que eles fizeram ao bispo de Coimbra em 1251. O interesse dos Templários e das outras ordens militares nos proble­ mas monetários está bem patente no cuidado que Afonso III tem de se di­ rigir especialmente a eles no diploma de 1255 sobre a quebra da moeda

(Leg. 196-197). De resto, este interesse era partilhado por outros bispos e abades. O ar­ cebispo de Braga já em 1250 se queixava de o rei proibir o curso da moeda leonesa em Portugal (Leg. 186), o do Porto por o rei obrigar a «comprar»

a sua moeda (Leg. 188). Em 1255 era diante do bispo de Évora que o rei

jurava não «vender» a moeda nem exigir nada para renunciar à sua quebra

(Leg. 197). Foi também ao arcebispo de Braga e aos outros bispos do reino que ele se dirigiu em primeiro lugar na lei de 1261 (Leg. 210-212).

A moeda torna-se, assim, o grande instrumento da economia nacional. Os

137 V. Rau,

138 R. Durand, 1981, pp. 101-117; Pedro G. Barbosa, 1991, pp. 39-38. Para Tarouca, ver

1982, does.

5,

6,

7,

9,

10,

13.

A. Fernandes, 1976. Comparar com o que se sabe sobre a produção de ferro no Norte da Penín­

sula:

Rolf Sprandel,

1983.

139 Hermenegildo Fernandes, 1991, pp. 95-98.

140 M. H. Coelho, 1983, passim.

141 V. Rau, 1982, does. 2 e 4.

142 C. M. Baeta Neves, 1980, I, does. 3, 27, 29; M. J. Trindade, 1981; Silva Marques, I, doe.

34; teL, Supl. does. 6, 310, 384; M. A. Beirante, 1988, pp. 106-109. Para o contexto peninsular,

ver M.-C.

Gerbert,

1989, pp. 79-105.

 

143

M. J. Trindade,

1981, pp. 60-61; C. M. Baeta Neves,

1980, I, doe.

5: G. Pereira, 1885,

doe.

7

(mal datado),

15.

interesses financeiros e fiscais do rei, tendentes a racionalizar o seu curso e a excluir a circulação da moeda estrangeira, contribuíram para fazer coinci­ dir a área económica com as fronteiras do reino. Ao mesmo tempo que as grandes empresas eclesiásticas e de leigos de­ senvolvem as estruturas produtivas, melhoram também os transportes e as comunicações, como mostra o novo surto de criação de albergarias144 e de construção de pontes145. A destruição do caminho público torna-se um dos nove crimes mais graves previstos numa lei de 1265 (Leg. 217), e uma das matérias da jurisdição do meirinho régio (Leg. 252). A invasão de panos estrangeiros não impede, antes pelo contrário, a incipiente indústria de te­ celagem nacional cujo desenvolvimento nesta época é testemunhado pelo aparecimento dos primeiros pisões nos anos 1258-1279, no Sul do país146, e pelas referências a panos portugueses em 1253 e 1254 ou 1255147. Seria, pois, do maior interesse registar cuidadosamente as referências a moinhos, azenhas, instrumentos de ferro148, forjas, canais149, etc., para poder datar com alguma precisão a generalização dos aperfeiçoamentos tecnológicos que levam ao aumento da produtividade agrícola e artesanal.

1280-1325

D. Dinis herda, pois, uma administração régia bem organizada e com os rendimentos assegurados. Bom seguidor da política paterna, embora, tal­ vez, sem intervir tão agressivamente nos problemas monetários, trata de apertar por meio de uma fiscalização minuciosa e da mais estrita contabili­ dade a percepção dos réditos dominiais e fiscais. Aumenta os foros, multi­ plica os emprazamentos de reguengos, as «póvoas»150 e as sentenças sobre reclamações de concelhos contra a implacável intervenção dos almoxarifes e mordomos, dá a maior importância ao registo por escrito das rendas mesmo nos concelhos, intervém no controlo do comércio externo por meio da confirmação da bolsa dos mercadores na Flandres, na Inglaterra, na Normandia, na Bretanha e em La Rochelle (1293)151, e da sua influên-

144 O movimento inicia-se no século x ii (LP 27, 276, 279 = 544, 371, 584; J. Mattoso, 1982,

pp. 308-309, 314), mas tem a sua segunda fase nesta época. Veja-se, por exemplo, a de Cabadou- de, na estrada da Beira, perto da Guarda, criada antes de 1250 (A. Fernandes, 1976, p. 284); as referidas num testamento de 1273 em favor de Alcobaça (TT, Alcobaça, m. 14, doc. 2) e noutro

sem data a favor de Santa Cruz (TT, Santa Cruz, m. 21. doc. 34).

145 São Gonçalo de Amarante, construtor de pontes, morreu, segundo a tradição, em 1256

(ML, IV, f. 213 v.), no mesmo ano que Santa Mafalda, que também se interessou pela mesma obra de misericórdia. De um conjunto de referências encontradas em documentação de Guima­

rães parece verificar-se a concentração de dádivas com o mesmo objectivo em 1253-1269: J. Mát- toso, 1985, pp. 143-169. Ver também M. J. Ferro Tavares, 1989, p. 128.

146 Mencionados nos forais de Estremoz, Vila Viçosa, Castro Marim, Loulé e Tavira: Leg.,

pp. 679, 734, 736, 737. A referência a uma area prensorii perto de Tarouca em 1202 deve indicar, talvez, um lagar e não um pisão.

147 Leg., pp. 192, 253, cits. por Gama Barros, IX, p. 216.

148 A lista de R. Durand, 1982a, pp. 231-232, mostra só por si a concentração de referências

em

1248-1293.

 

149

Como

o «canal do

rei» explorado por Afonso

III

em Abrantes:

liermínia Vilar,

1988,

p. 42.

 
 

130

M. Rosa Marreiros,

1990; id.,

1992.

151

Silva Marques, I, p. 21.

cia diplomática ou da rainha para proteger os mercadores portugueses na Inglaterra 152 ou em Aragão153. O rei já não se limitava a tirar rendimentos fiscais do comércio crescente, procurava agora fomentá-lo. A multiplicação de privilégios e feiras entre 1284 e 1295, com um novo surto de cartas en­ tre 1301 e 1308154, tem significado idêntico. O mesmo se diga da protec- ção à actividade mineira155, do apoio dado à fixação de povoações no lito­ ral, sobretudo na Estremadura156, e ainda dos investimentos em terras inundadas para secar pauis, ou em matas para as desbravar157. Como se vê, ao contrário de Afonso III, o seu filho investe os rendimentos em estrutu­ ras produtivas; não se contenta com medidas de carácter financeiro. Efectivamente o período que vai de 1280 a 1325, embora não repre­ sente uma mutação qualitativa quando comparado com o anterior, mostra a aceleração generalizada das actividades económicas. No domínio do co­ mércio externo já não se encontram apenas empreendimentos individuais, mas associações de mercadores, como testemunha a já citada bolsa dos mercadores aprovada em 1293 e ainda um acordo de armadores portugue­ ses, galegos e aragoneses em La Coruna em 1297158, e a concessão colecti- va de Filipe, o Belo, aos mercadores portugueses de Harfleur em 1310159, a referência a um cemitério de portugueses em Rouen160 e, até, os privilégios de Eduardo I contidos na Carta mercatoria de 1303, apesar das restrições anteriores161. Por isso se pode considerar mais significativo o documento flamengo que enumera os géneros trazidos de Portugal no fim do século

x i i i , como se

O alargamento da colónia de estrangeiros em Lisboa confirma esta im­ pressão. Agora já não há só um genovês, encontram-se também comercian­ tes de Bayonne163 e há certamente aragoneses e catalães164. O prestígio e a influência dos genoveses é bem patente na concessão do comando da ar­ mada régia a Manuel Pessanha (1317), com o significativo privilégio de a

usar para o comércio, tanto para a Flandres como para Génova ou qual­ quer outro lugar. Ou seja, era-lhe provavelmente confiada a comercializa­ ção dos géneros produzidos no domínio régio que podiam ser exporta­ dos165. Mas este era também o primeiro passo para entregar a estrangeiros a orientação do comércio externo português. No mesmo sentido se pode

então se tivesse estabelecido a sua exportação regular162.

152 Gama Barros, X, pp. 224-229.

153 M. J. Trindade, 1981, p. 214. Foi certamente a captura do barco português em Aragão, em

1303, que levou à intervenção de S. Isabel junto do seu irmão Jaime II para mandar libertar os «corsários» portugueses: S. Antunes Rodrigues, 1958, doc. 48; cf. Álvaro Santamaria, 1980, p. 99.

154 V. Rau, 1943.

155 J.

156 Pedro G. Barbosa, 1991, pp. 77-103.

157 Ver supra, parte II, n.° 1.1., pp. 21, 22, 23.

158 Silva Marques, Supl., doc. 15; M. J. Trindade, 1981, p. 215.

159 Ch. Verlinden, 1949, pp. 178-179 e comentário de pp. 188-197; sumariado com data erra­

P. Ribeiro,

1813, III/2, doc. 33 de

1282; A. Castro,

1966, IV, pp.

170-171.

da em Silva Marques, Supl., doc. 301.

160 Gama Barros, X, p. 282.

161 Ibid., pp. 228-229.

162 Vanden Bussche, cit. por T. de S. Soares in Gama Barros, X, pp. 403-404.

163 Gama Barros, X, p. 224.

164 M. J. Trindade, 1981, pp. 214-216.

165 M. F. Espinosa Gomes da Silva, in DHP, III, pp. 375 376; texto dos documentos em Silva

Marques, I, does. 37, 42.

apontar o empréstimo feito a mercadores de Lisboa por uma companhia de Pistóia pelos anos de 1281-128 5166. Em contraste com o progressivo desenvolvimento do potencial econó­ mico do domínio régio, tornado uma grande empresa de tipo pré- -capitalista, e com o provável enriquecimento de alguns mercadores, parece notar-se uma certa estagnação dos cistercienses e das ordens militares, que antes provavelmente dominavam, com pouca concorrência, a economia na­ cional. O assunto está por estudar, mas talvez se deva tirar essa conclusão, por exemplo, de um documento de cerca de 1320 que põe em causa a ad­ ministração dos bens da Ordem de Santiago167, da quebra sofrida pelas aquisições de Alcobaça em 1300-1325168 e de vários casos de abandono da exploração directa ali e em Tarouca169. E conhecida, de resto, a interven­ ção crescente do rei nos destinos das ordens militares. Mas ao lado desta provável estagnação das grandes empresas agrícolas, parece agora encontrar-se indícios de maior difusão da moeda e maior in­ tervenção económica de proprietários vilãos ou de gente de escalões sociais diferentes. Esta revela-se, por exemplo, na menção cada vez mais frequente do cultivo de plantas hortícolas na periferia das cidades, cujos lucros inte­ ressam os senhores, ao ponto de disputarem entre si os direitos e os dízi­ mos sobre eles170; na maior intervenção dos concelhos na criação do gado e no controlo da transumância; na multiplicação de referências à actividade dos almocreves171. Aquela, na generalização do pagamento de rendas em dinheiro, sobretudo as da propriedade urbana, e no aumento de gastos sumptuários como a acumulação de objectos de luxo 172 e a construção de igrejas. Os mendicantes e outros eclesiásticos já as tinham iniciado pouco antes de 1270, mas agora são também edificadas por muitas outras ordens e clérigos, sobretudo nas cidades ou perto delas173. Dir-se-ia que o esforço da criação de estruturas produtivas por parte das maiores empresas eclesiás­ ticas durante o século xm começava então a afrouxar, mas não nos domí­ nios régios. Daí, talvez, a impressão de maior prosperidade do que no rei­ nado anterior. Todavia, os indícios de uma certa agitação ainda antes da guerra civil de 1319 revelam já a fragilidade e os desequilíbrios das estrutu­ ras económicas.

166 M. J. Trindade,

167 A. B. da Costa Veiga, 1940, pp. 155-166.

168 Iria Gonçalves, 1984, p. 24; cf. R. Durand, 1981, p. 117.

169 R. Durand, 1981, pp. 115-116; A. Fernandes, 1976, pp. 20, 147, 259.

170 Ver os expressivos documentos de 1307, 1317 e 1321 publicados por M. H. Coelho, 1983,

1981, p. 218.

does. 17, 20, 21. Aproximar do aumento do cultivo do linho revelado em Gulfar em 1315: C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 34, p. 58 e das questões entre D. Dinis e o concelho de Santarém em

1309:

ibid., doc. 28.

171

Ver o acordo de 1313 entre o concelho português de Marvao e o castelhano de Valência de

Alcântara: TT, gav. XV, m. 23, doc. 5, sumariado por C. M. Baeta Neves, 1980, doc. 32. Sobre

os almocreves, ver H. Baquero Moreno, 1986, pp. 173-174.

172 Sobre os gastos sumptuários, ver, por exemplo, a fortuna de D. Bataça: M. H. Coelho e

Leontina Ventura, 1986; id., 1987a; id., 1987b. Sobre as rendas urbanas em Évora, ver M. A. Bei-

rante,

173 J. Mattoso, 1985, pp. 149-169. Ver os legados de Afonso III para a construção de igrejas

1988, pp. 358-359.

no seu testamento de

1270: A.

C.

de Sousa,

1739,

I,

pp.

55-56.

C

o n c l u s õ e s

Uma tentativa de datar com alguma precisão os testemunhos dos movi­ mentos económicos para reconstruir os diversos momentos conjunturais

parece, pois, permitir uma visão mais rigorosa do que a obtida até aqui.

O que esta tentativa tem de hipotético talvez convide a melhorar a investi­

gação. Mas o que importa para o nosso propósito é que a criação de uma área económica nacional só se pode conceber a partir dos meados do sécu­

lo xiii. Viu-se que só neste momento o país dominou suficientemente as

estruturas produtivas. Para a sua delimitação nacional\ o facto mais impor­

tante deve ser, porém, a intervenção de Afonso III, ao impor a sua moeda

e dificultar a circulação de outras e, em seguida, ao definir as fronteiras económicas do reino impondo, na prática, as noções de importação e ex­ portação. Estes acontecimentos são, na verdade, as primeiras verdadeiras manifestações de utna economia nacional.

1 3 . Mentalidade e cultura

Tal como nos parágrafos anteriores, o meu propósito, ao abrir aqui uma

breve exposição sobre mentalidade e cultura, não é tratar delas na sua ge­

neralidade, mas apontar alguns factos significaria

tes e que influem decisivamente na criação de vínculos de convivência en­ tre os Portugueses e na eclosão de uma consciência nacional. Deixarei, em todo ó caso, para outro lugar, os problemas específicos das concepções de nacionalidade. Efectivamente, também nos campos cultural e mental se podem encontrar os indícios de uma progressiva destruição das barreiras que opõem as comunidades umas às outras e da cada vez maior necessida­ de de comunicação. Queria ainda advertir que não pretendo aqui reconstituir as caracterís- ticas fundamentais da mentalidade mçdieval, pois só o poderia fazer com um tratamento sistemático do tema. Aqui, de novo, interessa-me mais a conjuntura do que a estrutura. O facto de salientar as mutações não signi­ fica que não haja muita coisa estável, como de resto seria de esperar neste domínio em que a permanência é tão grande. Além disso, talvez neste pon­ to a especificidade nacional seja reduzida, sobretudo se se abstrair da lín­ gua. Quero com isto dizer que as estruturas mentais se deviam estudar no âmbito de grandes áreas geográficas, das quais o nosso país seria apenas uma parte. Teremos de nos contentar com simples alusões evocativas e re­ meter o leitor para obras que expõem os problemas com a maior compe­

mutações importan­

tência174.

Veremos, pois, sucessivamente, as principais mutações nas concepções religiosas e morais, nos costumes, na cultura e na vida pública.

174 Para o conjunto da Idade Média ocidental: A. J. Gurevitch, 1983; J. Le Goff, 1977. Falta

uma obra do mesmo género para a Península Ibérica.

C

o n c e p ç õ e s

r e l i g i o s a s

e

m

o

r a i s :

d a

m a g i a

à s

d e v o ç õ e s

Algumas das primeiras foram já mencionadas a propósito da vida religiosa nas áreas senhoriais e nas comunidades vilãs175. Aí, efectivamente, ao opor a religiosidade oficial à popular, e ao mencionar a luta da Igreja hierárquica contra a superstição e a magia, já me referia às alterações que a acção pas­ toral introduziu na religião popular, refugiada em áreas privadas ou clan­ destinas, transformada em bruxaria ou feitiçaria, obrigada por vezes a su­ portar a acusação de obra do demónio. Pouco espaço público lhe resta:

delimitam-se os momentos em que pode revelar-se, nas romarias, nas festas populares e em certas procissões. Referi-me também ao apoio dado pela nobreza senhorial às ordens monásticas e, por meio delas, à celebração li- túrgica solene. E, por outro lado, em contraste com as concepções daí de­ correntes, às preocupações pastorais dos cónegos regrantes, o que já então relacionei com a sua origem citadina e com os seus contactos com regiões caracterizadas por maior mobilidade social, transferências de população e contactos com culturas diferentes. A sua atitude seria, depois, retomada e renovada pelos mendicantes sob formas mais radicais e mais directamente adaptadas à vida citadina. Para enquadrar o que diremos a seguir convém não esquecer que a dominante monástica se prolonga mais tempo nas áreas senhoriais, e a pastoral dos regrantes se situa no Centro e no Sul. Também não se devem esquecer as datas e os momentos em que se desencadeiam os movimentos canonical (1131) e mendicante (1217), nem a evolução de ca­ da um deles. Com este pano de fundo queria agora lembrar que a luta contra as concepções anímicas de sentido ambivalente e contra as práticas mágicas deixava intactos os medos e as crenças acerca da virtualidade própria de certos objectos, tempos e acções, assumida até pela religião oficial e por ela encorajados, como expressão de confiança, submissão e respeito pelo poder divino. Algumas vezes as atitudes «oficiais» da Igreja são bem expressivas da sua aceitação daquilo a que hoje chamaríamos «superstição». Assim, por exemplo, o obituário e o martiroíógio do século xm da Sé de Lamego re­ gistam em versos latinos mnemónicos os «dias egipcíacos» do ano, isto é, os dias aziagos ou nefastos, ao lado do calendário das festas litúrgicas176. As maldições rituais pronunciadas por ocasião da excomunhão canónica, codi­ ficada no século x i i , têm igualmente aspectos «supersticiosos»177. Não ad­ mira, portanto, que a Igreja não se oponha à crença na união de seres hu­ manos com seres fantásticos inspirados no imaginário pagão. De uniões deste género teriam nascido linhagens com algumas características pouco comuns como, por exemplo, os Haros, nascidos da «Dama de pé de ca­ bra», e os Marinhos, vindos de uma sereia178. Não se estranhem, portanto, as «devoções» que implicam uma especial confiança na eficácia dos referi­ dos objectos, tempos e acções. É o caso da devoção à Santa Cruz, ao Espí­ rito Santo, a certos santos considerados protectores contra determinadas

175 Vol. II, pp.

176 I. da Rosa Pereira,

177J.

178 L.

160-171, 325-349.

1993.

1993, pp.

183-190.

Mattoso,

Krus,

1985.

doenças ou malefícios, a crença na acçao infalível das relíquias ou na invo­ cação do nome de Maria, na protecçao daqueles que celebravam a missa da Virgem ou rezavam o seu ofício divino, ou que, por visitarem igrejas de Roma ou Jerusalém e aí rezarem certas orações, recebiam as respectivas «indulgências». O que me parece mais interessante nestas novas crenças, que entre nós se difundem pelo fim do século x i i e durante o século xm, é o facto de atingirem todas as camadas da sociedade, embora, porventura, algumas de­ las se manifestassem preferentemente em certas regiões ou em certos meios sociais. Assim, por exemplo, é bem conhecida a firmeza da devoção a São Vicente entre os pescadores de Lisboa179. D. Dinis mostra bem a sua con­ fiança no poder da relíquia da Santa Cruz, que tinha pedido emprestada aos hospitalários do Marmelar e manda restituir no seu testamento, expli­ cando «ca nõ filhei senon por devaçam que em ela havia, e com entençom de a fazer tornar u ante sia»180. D. Vataça, a dama bizantina da corte de Santa Isabel, mandou provavelmente fazer uma cabeça-relicário de prata onde se guardava um osso de São Fabião ou o crânio encastrado de algu­ ma pessoa de virtude (um «saudador»), o que atraía numerosos devotos à capela onde estava guardada, em São Romão de Panóias. Reencontrada re­ centemente, ainda hoje impressiona quem a vê181. Todavia, para o nosso propósito, não interessa enumerar as diversas modalidades destas devoções, mas apenas mostrar a sua raiz comum e salientar que elas se tornam actos pessoais de natureza muito diferente, por exemplo, da participação colecti- va nas celebrações litúrgicas. O carácter pessoal manifesta-se em certas pre­ ferências individuais, que levam a ter em casa determinadas relíquias, de­ pois cuidadosamente mencionadas nos testamentos. Exprime-se assim o individualismo que se instala no sentimento religioso e faz dele um acto eminentemente pessoal. Por outro lado, as ameaças que a Igreja tinha dirigido contra quem ou­ sasse manipular indignamente as coisas sagradas, e particularmente as espé­ cies eucarísticas e a água benta, aliadas ao propósito de rodear a própria propriedade eclesiástica do mesmo fulgor sagrado, para desencorajar os lei­ gos que a cobiçavam, fazem brotar e generalizar-se a noção de estatuto imutável das coisas sagradas, agora com um sentido bem diferente do que lhes era atribuído em virtude das crenças anímicas. Damo-nos conta disso, por exemplo, ao ler no Fuero Real de Afonso X a lei que, depois de afirmar a imutabilidade desse estatuto como se o sagrado se impregnasse nos pró­ prios objectos, assegura aos bens da Igreja a protecção da lei e prevê penas graves contra a utilização profana das alfaias litúrgicas, edifícios e bens reli­ giosos (FR III, 12, pp. 117-118). Isso não impedirá o rei que tenha neces­ sidade de «algua herdade ou outra cousa temporal que seja da igreja» de obrigar os seus respectivos detentores a cedê-la em troca de outro bem, se ele o quiser para si. O rei atribui-se, pois, um certo poder sobre as coisas sagradas, como se o colocá-las ao seu uso lhes não retirasse o estatuto imu­ tável antes definido.

179 Translatio et miracula

S.

Vicentii, n.os 16 e 17,

in SS,

p.

100.

180 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 100. Sobre o culto das relíquias entre os séculos x e xm , ver o

sugestivo artigo de Mário Barroca e Manuel L. Real, 181 Cláudio Torres e J. Boiça, 1993.

1992.

Voltando à crença na eficácia de objectos ou acções, teremos de rela­ cionar com ela a confiança em certas práticas, como, por exemplo, custear a ida de um peregrino aos lugares santos, para aí cumprir as devoções con­ sideradas meritórias náo só por si próprio, o que era frequente182, mas também para quem o tinha mandado. Esta prática regista-se já no século x i i 183, mas torna-se, depois, mais frequente. Assim, D. Dinis deixou bastante dinheiro para enviar um «cava­ leiro de boa vida» à Terra Santa e aí estar por dois anos «se a cruzada for», «servindo a Deos por minha alma»184. E ainda outra verba avultada para um peregrino ir a Roma fazer por ele duas «quarentenas», «e ande cada dia pelas estaçoens por minha alma»185. Mas uma das mais significativas «devoções» introduzida nesta época foi a da adoração da Eucaristia, vivamente encorajada pela hierarquia a partir da instituição da festa do Corpus Christi. Os poderes seculares aderiram a ela com empenho. Assim, os homens-bons de Guimarães oferecem, em 1319, mil e quinhentas libras portuguesas à colegiada para custear os fes­

tejos186.

R e s p o n s a b i l i d a d e

i n d i v i d u a l

Estas questões interessam-nos também em virtude de significarem não só a crença na eficácia mágica de relíquias e devoções, mas também maior sen­ tido da responsabilidade individual diante de Deus. Durante o século x i i assistimos a uma multiplicação da prática das «obras de misericórdia», co­ mo a esmola, a redenção de cativos, a construção de pontes e de alberga­ rias. São já o resultado de uma certa consciência da responsabilidade de o indivíduo contribuir com os seus bens para a comunidade. Ao'mesmo tempo, porém, acumula méritos que lhe propiciam a salvação pessoal187. O peregrino também alcançava direitos especiais à salvação não só para si próprio, mas também para quem lhe pagava a viagem. Os méritos do seu acto penitenciai eram partilhados com outros. Se bem que o sentido indi­ vidual do pecado dependa em grande parte do grau de desagregação das forças sociais que aglutinavam firmemente os grupos de parentes e'as co­ munidades rurais, podem apontar-se factores especiais que aceleraram o processo. Um deles foi a difusão da confissão auricular, com a consequente necessidade de o ministro averiguar a intenção pessoal e as agravantes e atenuantes dos actos praticados, para poder ditar a penitência. Ora a exi­ gência canónica de uma certa periodicidade na recepção de todos os sacra­ mentos, desde o concílio de Latrão de 1215, levou o clero a exercer em grande escala o papel de mentor dos leigos, apelando para a consciência in­

182 Num inquérito de 1216 sobre as questões de primazia entre Braga e Toledo, de vinte e oito

testemunhas bracarenses, nove declaram ter feito a peregrinação a Santiago, uma das quais, duas vezes; outra, três; uma outra tinha ido em peregrinação a Lisboa: BPIn. III, n.° 220.

183 Em documento de Santa Cruz de Coimbra: J. Mattoso, 1982, pp. 308-309.

184 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 101.

185 Ibid., p. 101. Ver casos do mesmo género em M. Martins, 1957, pp. 125-146.

186 M. da Conceição Falcão Ferreira, 1989, p. 70.

187 Cf. M. J. Ferro Tavares, 1989, pp. 124-142; J. Mattoso, 1968, pp. 361-384; ÚL, 1982,

pp. 307-323; M.

S. Alves Conde,

1987, pp.

115-119.

dividual. Daí a enorme difusão dos manuais de confessores que os ajuda­ vam a desempenhá-lo188. Entre eles conta-se o Liber poenitentiarius do ca- nonista português João de Deus, escrito em 1247189.

O outro elemento que contribuiu para a difusão do sentido da respon­ sabilidade individual foi a pregação popular dos franciscanos e dos domini­ canos. Já vimos o papel que nela tiveram Santo António de Lisboa e o do­ minicano Fr. Paio de Coimbra. Seria, pois, do maior interesse averiguar como é que os leigos reagiam a estas instruções, quase sempre acompanha­ das de ameaças da punição divina. As devoções apareciam decerto como práticas tranquilizantes, pois garantiam ao fiel a protecção perante o medo do castigo. Outro recurso, também já mencionado, foi a reunião dos fiéis em confrarias. Eram não só um suporte para substituir parcialmente o pa­ rentesco e obter o socorro mútuo, mas também para ajudar a praticar as boas obras exigidas pelos pregadores. As verbas testamentais destinadas a sufrágios e obras de misericórdia servem para dar aos moribundos uma maior tranquilidade à hora da morte. Mas os apelos à penitência obtêm também ecos de carácter mais moral quando provocam sentimentos de arrependimento pela prática de acções especialmente censuradas pelos pre­ gadores, como as violências injustas. Podemos citar como exemplo dois

testamentos:

para reparar as rapinas e abusos praticados sobre gente do castelo de Ver- moim, o arcebispo de Braga, o mosteiro de Pedroso, o prior de Vila Cova de Ul, etc.190; e o do próprio rei D. Dinis, que mandou pagar dívidas e malfeitorias, embora considerasse ter as suas atenuantes: «como quer que o eu fezesse para poder por i melhor defender a minha terra, assi em guerra como em al». O rei era especialmente sensível às acusações que decerto não deixaram de lhe fazer, de um excessivo rigor na cobrança de rendas: «assi nos arrendamentos como em todalas outras cousas de que eu levei alguma cousa como nom devera»191. Já num testamento anterior D. Dinis se arre­ pendia de excessos na renda das avenças e herdades e na aplicação do di­ nheiro para usura192. As violências, a ganância e o abuso do poder deviam, pois, ser pecados especialmente censurados pelos pregadores e confessores. Als suas instruções alteraram também o juízo que se fazia acerca de actos públicos considera­ dos especialmente imorais, e na perseguição dos quais o soberano se sente agora também obrigado. É, decerto, o caso da prostituição, sobre a qual D. Dinis considera imoral cobrar impostos193, da tavolagem, um vício da vida urbana194, e das blasfémias, cujos responsáveis merecem um castigo terrível: «qui lhi tirem a lingua pelo pescoço e o queimem»195. Os desman­ dos sexuais, no entanto, não parecem perturbar tanto os leigos. Nos testa­

o de Pêro Martins Pimentel, de 12 12 , no qual deixa verbas

18 8 y er

p

Michaud-Quantin,

1962. A influência sobre a consciência dos leigos é sublinhada

por J. Ch. Payen,

1968.

189 A. D. de Sousa Costa,

190 J. P. Ribeiro,

1956; id., 1957; M. Martins,

55

=

Ibid., II, doc.

7.

1810, I, doc.

1957b, pp.

57-110.

191 A.

C.

de Sousa,

1739,

I,

pp.

101-103.

192 Testamento de

1299:

ML,

V,

f.

330.

LLP, p.

193 180,

lei de

1321.

194 179-180, lei de

LLP, pp.

1321.

 

LLP, p.

195 82,

lei de

1312.

mentos não se encontram vestígios de arrependimento por terem tido fi­ lhos ilegítimos ou vivido em concubinato. As cantigas de escárnio não revelam inibições nem aludem a censuras clericais. Mas Afonso III proíbe os nobres de trazerem «soldadeiras» nos seus cortejos (LLP, p. 147), e D. Dinis castiga severamente o abuso do poder em matéria sexual praticado pelos oficiais de justiça sobre mulheres presas ou em demanda: se são cléri­ gos perdem os bens e o ofício; se são leigos manda castrá-los (LLP, p. 79). Santa Isabel cria duas casas para recuperação de prostitutas e um hospital para recolher crianças ilegítimas abandonadas196. Bastarão estes exemplos. E obviamente impossível dar aqui conta de todas as crenças morais e seus diversos aspectos, e muito mais fazer um es­ tudo acerca das mutações que se deram neste domínio. Existe para isso ampla matéria quando se analisam as vidas de santos das diversas épocas, os ensinamentos catequéticos implícitos nos livros de milagres e, sobretu­ do, num deles destinado ao grande público, as Cantigas de Santa M aria, e, ainda, nos manuais de confessores como o de mestre João de Deus.

R

e c l u s ã o

e

c l a u s u r a

Não deixarei, contudo, de fazer notar que os apelos à penitência, que ou- trora levavam os fiéis da Galécia à reclusão temporária em covas, longe dos povoados, convidam agora os penitentes mais extremistas a praticar a re­ clusão na cidade, como as emparedadas que tanto impressionaram San- cho II, Afonso III, Santa Isabel e D. Grácia, a mãe do conde D. Pedro de Barcelos197, e cuja direcção espiritual era disputada por franciscanos e do­ minicanos em Santarém, em 1260198. Pode aproximar-se da reclusão a exigência da clausura das religiosas, agora praticada não só por devoção mas também para afastar as ocasiões de infringir o voto de castidade, efectivamente não muito respeitado em cer­ tos conventos dos séculos xn e xm 199. A tentativa de impedir estes des­ mandos por meio da clausura feminina verifica-se entre nós ainda antes de Bonifácio VIII a impor como lei geral, em 1298200. Efectivamente, já em 1294 D. Dinis tem o cuidado de regulamentar minuciosamente a clausura ao dotar o mosteiro de Odivelas201. Seu filho bastardo Afonso Sanches não se preocupou menos com o caso quando fundou o convento de Vila do Conde: «nom hajam em este nosso moesteiro fieiras que saiam fora pera pedir esmolas andando pela terra como as há em outros moesteiros da or­ dem de Santa Clara porque em alguns moesteiros se seguirom grandes dannos e alguas per muitas vezes em grandes deshonras dos corpos e dampnos das almas»202.

196 M. J. Ferro Tavares, 1989, pp. 42-43, 186.

197 Elucid, vb. «Emparedadas»; J. P. Ribeiro, 1810, doc. 31, de 1223; A. C. de Sousa, 1739, ,

pp. 56,

115-117,

119,

133; A. do Rosário,

1982, p.

85, doc.

de

1260.

198A. do Rosário,

199 Cf. LL, os passos registados no índice em «Filhos de clérigos e de freiras», p. 389; Fortuna-

1982, pp.

82-89.

to de Almeida,

1967,

I,

p.

233.

200 Fortunato de Almeida, ibid., p. 233.

201 A.

C.

de Sousa,

1739,

I,

pp.

106-109.

202 A. C.

de Sousa,

1739,

I,

p.

124.

Os desmandos morais foram de sempre. Os pregadores não fizeram mais, por isso, do que renovar orientações que o clero sempre tinha dado. A diferença consiste em que, agora, apelam mais para a consciência indivi­ dual. O assunto não está estudado, mas é provável que as orientações cleri­ cais se distanciassem agora mais claramente dos padrões de exigências de comportamento feitas pelos grupos e comunidades em que os fiéis estavam inseridos. A moral sexual era talvez um dos capítulos em que os hábitos dos grupos tradicionais não coincidiam com os ensinamentos do clero203.

C

o s t u m

e s :

o

d i n h e i r o

Desde o fim do século x i i , porém, surge um problema novo e cada vez mais perturbante: o dinheiro. Até ali era usado quase só por um pequeno grupo de mercadores, com hábitos diferentes dos do comum da gente e que podiam considerar-se à parte. Desde então, o dinheiro foi-se tornando cada vez mais acessível a todos, e transformou-se em indispensável instru­ mento de troca. A facilidade com que se acumulava, multiplicava ou per­ dia, as exigências implacáveis dos judeus e outros financeiros que o em­ prestavam com usura a quem lhe conhecia mal o valor, o facto de se encontrar nas mãos de gente que não dispunha do poder político nem sa­ grado, a própria perturbação que a sua manipulação causava numa socieda­ de que dominava mal os seus mecanismos, fizeram do uso do dinheiro um grave problema moral. Levou muitos pregadores e moralistas a olhar com desconfiança o mercador, como um homem propenso ao pecado e incapaz de escrúpulos204. Mesmo num meio como a corte de Afonso III, que sabia manejar tão habilmente o dinheiro, certos jograis mostravam conhecer bem o seu público que se regozijava por eles atribuírem vícios homosse­ xuais a uma personagem que o juntava tão abundantemente, como o chan­ celer Estêvão Anes205. Não admira, portanto, que D. Dinis sentisse particulares escrúpulos por emprestar dinheiro com usura206, seguindo nisso, decerto, práticas ini­ ciadas por seu pai. O mesmo rei achou por bem dispensar os cruzados, que partiam para a Terra Santa, de pagar juros de dívidas. Efectivamente, aque­ le que praticava obra tão meritória devia ser protegido contra a cobiça dos usurários207. Mas se se censuravam os que usavam egoistamente o «esterco do diabo» e se tentava limitar a prática da usura sem ousar condená-la208, considerava-se só por si meritória a prática da pobreza voluntária, da qual São Francisco de Assis tinha dado um exemplo tão eloquente. A sedução

203 Sobre o antagonismo dos modelos de comportamento sexual profano e eclesiástico, ver

G. Duby,

1981, pp. 223-239.

33

204 Ver Lester Little, 1980. Ver algumas das Cantigas de Santa M aria, entre outras, CSM , n.os

e 68.

205 Cf. L. Krus, Berta M. C. Pimenta e Leonardo Parnes,

206 Ver o testamento de 1299: ML, f. 331.

207 Lei de

Dinis

208 Ver as leis de Afonso II (1211), Afonso III (1266): Leg., pp.

1978.

1292: LLP, pp.

192-193.

174, 218;

e de

D.

(1292): pp.

LLP, pp. 100 =

ro,

192-193. Várias leis sobre os Judeus pressupõem precauções contra as suas fraudes:

193, 164, 178, 183, 186. Ver M. J. de Almeida Costa, 1962; M. J. Pimenta Fer­

106-108.

1979, pp.

da renúncia, não apenas colectiva, como faziam os monges, mas também

individual, chegou então aos palácios reais, inspirando as virtudes exempla­

res

de Santa Isabel, cuja posição e poder contrastavam com o seu amor pe­

los

pobres209. O seu exemplo era tanto mais impressionante quanto se opu­

nha também — os hagiógrafos só ousavam dizê-lo indirectamente — às implacáveis exigências do seu régio marido210.

As novas concepções acerca do dinheiro e dos bens materiais não im­ pedem, no entanto, que ainda em meados do século xm encontremos no testamento de Santa Mafalda um eloquente testemunho da maneira como uma senhora, cujas virtudes mereceram também as honras dos altares, en­ tesourava os bens materiais, parecendo considerar a sua acumulação como sinal da bênção divina211. D. Vataça, dama da corte de Santa Isabel, tam­ bém não deixou de acumular bens de luxo212. A própria Santa juntou pe­ ças de um tesouro que ainda hoje se podem admirar no Museu Machado

de Castro, em Coimbra. A concepção da propriedade pressuposta por estas

damas exemplares parece difícil de conciliar com a de que por essa altura já

se impunha amplamente, pois se baseava no princípio de que o entesoura-

mento permitia o dom, e a generosidade no dar aproximava de Deus213. Mas poucos anos depois, Afonso III, sobrinho de Santa Mafalda, bem consciente do valor relativo dos bens que deixava, tinha o cuidado de reco­ mendar que, na execução dos seus legados pios, não se tocasse nas rendas da Coroa na cidade de Lisboa:

«tunc filius meus qui post me regnaverit faciat utilitatem suam de civitate Ulixb. et de redditibus eius, sicut de aliis suis villis regni sui, sed ante non acci- piat inde aniquid»214.

É bem manifesto o seu receio de que a nova administração não estives­

se totalmente consciente do interesse em preservar esta excelente fonte de

rendimentos.

A POUPANÇA

As novas concepções acerca do uso do dinheiro e do valor dos bens mate­ riais podem revelar-se também nas primeiras leis que pretendem reduzir o

luxo e as despesas sumptuárias. As de Afonso III, de 1258 e de 1261, que

se limitavam ao âmbito da corte, pressupõem, de facto, uma mentalidade

bem diferente da que considerava a generosidade perdulária uma virtude própria da nobreza. Aqui, pelo contrário, condena-se o desnecessário e o

excessivo* tanto no vestir como no comer (Leg., pp. 198-200, 200-201).

O rei não teme sequer afrontar as censuras e o escândalo dos nobres do seu

tempo promulgando estas leis que não só limitam o comer e vestir do rei e da corte, mas também proíbem os gastos excessivos com os fidalgos e ou­

209 Testamento de 1325. A. C. de Sousa, 1739, I, pp. 113-114; Fr. Salvado Martins,

1918-1919).

210 É o sentido do «milagre das rosas».

Milagres de D. Isabel (ed. J. J. Nunes,

A.

211 C.

de Sousa,

1739, I,

p.

31.

212 H. Coelho e L. Ventura,

M.

1987a; id.,

1987b.

213 Cf. A. Gurevitch,

1972, pp.

523-547.

214 A.

C.

de Sousa,

1739,

I,

p.

57.

Vida e

tras pessoas que aí chegam, esperando, certamente, gozar da abundância do palácio real. Mas no princípio do século xm a sobriedade e a moderação tinham ganho terreno. Afonso Sanches, ao fundar o convento de Vila do Conde (1318), determinava também o que as freiras podiam vestir e co­ mer215. Santa Isabel, em 1325, fazia o voto de andar com o hábito francis- cano quando ficasse viúva216.

C

u l t u

r a

:

o

s e n t i d o

d a

m

e d i d a

Verificamos, assim, que as concepções «burguesas» começavam a entrar também no paço e, até, nos conventos. Era necessário medir, poupar, gerir. Mas os hábitos de rigor, tão citadinos, não se impõem facilmente. Em

1216, num inquérito feito em Braga, entre pessoas idosas, encontram-se muitas contradições quando as testemunhas declaram a sua idade e referem os acontecimentos presenciados. Muitas não sabem a sua idade, algumas dizem ter 100, 120 e até 140 anos, e a uma insistente pergunta do inquiri­ dor sobre o tempo durante o qual o bispo João Peculiar esteve doente, re­ cebe respostas que variam entre os cinco e os doze anos (BPIn. III, n.° 220). Os hábitos de rigor começam, evidentemente, pelos mercadores e pelos funcionários régios. É ver como um mercador de Coimbra, encarre­ gado pelo mosteiro de Santa Cruz de receber os foros de uma propriedade cedida por Lorvão, tem o cuidado de indicar a capacidade das medidas: o moio aí indicado vale sessenta e quatro alqueires dos de Coimbra217. Ou, então, como os escribas e os notários do «burguês» Afonso III, que na lei de 1261 têm o cuidado de indicar os valores da nova moeda-padrão, a sua conversão em diversas espécies, quem e como as cobra, quando o rei pode mudar a moeda e em que quantidade, e a definição do seu toque (Leg.,

datar os instrumentos de contratos

p. 2 1 1 ). Ou, então, a exigência de mandar

(Leg., p. 261) e das procurações (Leg., p. 276), em indicar as unidades dos géneros tabelados em 1253 (Leg., pp. 192-194). É ver, também, como os notários dionisíacos descrevem escrupulosamente o selo e os sinais externos de certos documentos que transcrevem e cuja autenticidade têm de garan­ tir 218 ou como os que têm de medir as terras trocadas pelo rei em Cami­ nha comparam a teiga usada em Friestas com a de Pena da Rainha, a de São Paio de Jorla com a de Ponte de Lima219. Surgem agora documentos tão surpreendentes como aquele que declara as medidas do solho gigante pescado perto de Santarém, onde o tabelião, depois de ter longamente des­ crito e medido o fenómeno e enumerado as testemunhas, declara: «per mha mãao medi e vi a muitos outros medir e nas balanças dos pesos poer e

pesar»220.

Os mordomos régios também aprenderam a medir. Dê-se como exem-

215 Ibid., p. 125.

216 Ibid., pp. 113-114.

217 M. H. Coelho,

1983, doc.

12,

de

1288.

218 A.

C.

de Sousa,

1739,

I,

p.

67, doc.

de

1291 =

CUP, I, doc.

9.

219 Gama Barros, X, pp. 41-42.

 

220 Publ. por Alfredo Pimenta,

1937, p.

71,

e por C.

M.

Baeta Neves,

1980, I, doc.

37, de

1321.

pio a sentença sobre os foros do concelho de Gulfar, perto da Feira, onde, não sabendo bem a medida do quintal de vinho, o substituem pelo moio,

e onde determinam o tamanho do molho de linho, o valor do «manto», as

dimensões do lenço, do bragal e das varas do mesmo tecido221. Para evitar

fraudes, gravam-se então, nas portas das igrejas e dos castelos, perto dos lo­ cais onde se faziam feiras e mercados, os padrões de medidas lineares.

E um costume que se verifica sobretudo durante a segunda metade do sé­

culo X III222.

E possível que os agentes de D. Dinis sentissem a necessidade de uni­ formizar os pesos e as medidas. Todavia, o insucesso do ensaio feito neste sentido por Afonso X em Castela, em 1268223, impediu-o, talvez, de o imi­ tar. Só no reinado de D. Pedro se conhece uma iniciativa semelhante224.

O

SEN TID O

DO

ESPAÇO

Quantificar, datar por referência a padrões neutros e uniformes, eis o que estava totalmente fora dos hábitos da gente do campo no Norte, fossem se­ nhores ou vilãos. Situar-se no espaço também não estava nos seus hábitos,

a não ser por referência a montes, onde estavam os castelos dos senhores,

ou a rios, que serviam de fronteiras. Para os das cidades e gente do Sul,

que não esqueciam neste ponto as tradições culturais moçárabes, situar-se no espaço significava orientar-se em relação aos pontos cardeais. Por isso,

a maioria dos documentos que, a sul de Coimbra, indicam as confronta­

ções das propriedades as distribui a oriente, a ocidente, a «avrego» e a

«aguiam»225.

A ESCRITA

Numa civilização que começa a utilizar as referências espaciais e tempo­ rais com mais rigor do que anteriormente, era indispensável a generaliza­ ção da escrita para todos os contratos. Não se podia confiar na memória das testemunhas, mais propensas a apreender o significado social e emotivo

das acções e acontecimentos do que a registá-los de maneira neutra e me­ cânica. E, pois, significativo que na Idade Média os clérigos redactores de documentos solenes começassem por elogiar as vantagens da escrita contra

as falhas de memória e do tempo. Tratava-se de uma reacção clerical e mi­

noritária, isto é, daqueles que sabiam fazer uso da escrita, no meio de uma civilização predominantemente oral, e precisavam, por isso, de a justificar. Só alguns nobres e os reis reconheciam as mesmas vantagens, ao confiar a clérigos e monges o trabalho da chancelaria e a guarda dos seus pergaminhos.

221 C. M. Baeta Neves, 1980, I, doc. 34, de 1313. 222 Mário J. Barroca, 1992. 223 Cortes de Jerez de 1268, cit. por Gama Barros, X, p. 18. 224 Oliveira Marques, in DHP, III, p. 374.

225 Para além de documentos muito mais antigos procedentes de Coimbra, ver, p. ex., para Se­

simbra,

Pereira, 1885, does. 18 e 21; Torres Vedras, 1239-1301: J. M. Cordeiro de Sousa, 1957, does. 1,

3,

1232: Rau, 1982, doc. 2; Marachique, 1260: ibid., doc. 8; Évora, 1273 e 1285: Gabriel

4,

7.

O monopólio clerical rompe-se, no princípio do século xm 226, com a provável decisão tomada por Afonso II de instaurar o notariado, pelo me­ nos em alguns concelhos, e fazer dele um serviço público227. A medida era demasiado precoce e por isso só se generalizou depois de 1250. Fazia parte de reformas mais vastas, como se deduz de com o mesmo rei se ter inicia­ do o registo dos documentos expedidos da corte, costume por essa época ainda raro na Europa ocidental228. O seu cuidado em registar os actos por escrito é dos mais evidentes, ao ordenar, numa célebre lei de 1222 , a cada um dos principais dignitários da corte, o mordomo-mor, o alferes e o chanceler, que tivessem um livro «de recabedo regni», que houvesse ainda na chancelaria um «quarto livro», e que essa mesma lei fosse copiada em cada um deles (Leg., p. 179). Como se sabe, o tabelionado difundiu-se rapidamente no reinado de Afonso III, como uma necessidade imprescindível no novo esquema de re­ lações de convivência em que se generalizavam novos princípios regulado­ res da legalidade dos contratos públicos. E, talvez, o facto que maiores consequências traz para a difusão da cultura e da escrita entre os leigos. Apesar da rapidez com que o novo costume se espalhou, foi preciso, por vezes, recomendá-lo expressamente. Assim, por exemplo, quando em 1270 o mesmo Afonso III avisa todo o reino de que vai «acrescentar» a moeda nova, manda que todos os tabeliães escrevam a lei nos seus regis­ tos (Leg., p. 219). O mesmo ordenou para a lei de 1272 acerca da revelia (Leg., p. 226). A relação entre a escrita e o espaço urbano é, nesta ordem, instintivamente expressa, ao dizer: «cada um de vós em vossas vilas que fa- çades escrever todas estas cousas». Apesar da rápida difusão dos contratos escritos, ainda no mesmo reina­ do, em data desconhecida, era preciso recomendar aos juízes dos órfãos que não se esquecessem de registar a relação dos bens que eles deviam her­ dar (Leg., p. 269). Nas instruções acerca do processo jurídico redigidas na Guarda, pela mesma época, o seu autor tem o cuidado de recomendar que a sentença seja dada por escrito (Leg., p. 339, tempo 9.°). Ora D. Dinis, ainda em 1310, urgia para que esta recomendação não fosse esquecida pe­ los juízes locais (LLP, p. 139). Pouco depois exige que os tabeliães passem um exame antes de poderem exercer a sua profissão, o que de facto já se pratica em 1321229. Em data desconhecida, o mesmo rei recomenda tam­ bém aos alcaides e alvazis municipais que se correspondam entre si para perseguirem os criminosos que tinham fugido para outros concelhos, e aos tabeliães para não deixarem de anotar as acusações e sentenças, fossem con­ denados ou não do concelho (LLP, pp. 168-169, mal datado).

226 Sobre a problemática da difusão da escrita, ver: Albert d’Haenens, 1983. 227 E. A. Borges Nunes, 1981, pp. 25-30. Além dos testemunhos aqui apontados, ver também a lei 29 de Afonso II, dirigida ao alcaide, aos alvazis, aos que «têm as causas d’el rei», ao tabelião e ao concelho de Santarém: Leg., p. 180, e a carta do mesmo rei sobre as lezírias de Lisboa e San­ tarém, de 1222, dirigida às mesmas autoridades, mas da cidade de Lisboa, e ao seu tabelião, o qual deveria «ter» a carta: J. P. Ribeiro, 1810, I, doc. 49; referência a Pedro Martins, tabelião de Leiria em 1221: TT, Dourados de Alcobaça, III, f. 55, doc. 107 (comunicado por Saul António Gomes). 228 R. de Azevedo, 1976b. 229 M. J. Azevedo Santos, 1993, p. 6.

A pouco e pouco, a escrita invade tudo. Era usada pelo fisco, desde há

muito, como se depreende da contabilidade sobre as rendas e dinheiros co­ brados ou arrecadados no tempo de Afonso III, e outros documentos do mesmo género230. D. Dinis, preocupado com a cobrança dos dízimos sobre os contratos dos judeus, recomenda aos tabeliães que os registem em livro

à parte, para os almoxarifes poderem consultá-los mais facilmente (LLP,

pp. 178-179, de 1319). Foi também no seu tempo, ou pouco depois, que

o redactor dos costumes acerca dos mouros forros recomendou, sob pena

de multa, que todos eles fossem, em cada ano, no primeiro de Maio, apon­ tar os «seus cabedaaes» nos livros do recebedor ou rendeiro e escrivão del rei (Leg., II, p. 98). Por isso, os concelhos têm também de ter os seus escrivães. Assim, não admira que D. Dinis, consciente de que a escrita era um instrumento in­ dispensável de governo e coordenação administrativa, promulgue em 1315 um minucioso regimento dos tabeliães, justamente um dos primeiros regu­ lamentos do género conhecidos entre nós (LLP, pp. 63-70). Por sua vez, a instituição tabelionática aperfeiçoa-se do ponto de vista técnico e profissio­ nal, como mostra, por exemplo, a actividade de Lourenço Eanes (1301- -1322), tabelião de Lisboa, minuciosamente estudada por Bernardo Sá No­

gueira231.

Os tabeliães, de nomeação régia, exercem o seu ofício não só nas terras do rei, mas também nas de senhorio particular, pelo menos em algumas, como acontecia em Amarante, da Ordem do Hospital232. Enfim, a escrita invade também a vida dos nobres. Sabemos que as canções trovadorescas foram desde cedo anotadas em «rolos» com recolhas individuais. Depois, copiam-se em cancioneiros colectivos, como o da Aju­ da e, já em meados do século xiv, como o do conde D. Pedro de Barcelos, que tem também o seu scriptorium onde redige os livros de linhagens e as crónicas. Assim, a escrita permitia perpetuar o «espectáculo trovado-

resco»233.

Deste modo, a cultura fundada em princípios lógicos, racionais e dis­ cursivos vai tomando lentamente o seu lugar ao lado da de base mítica e simbólica que ainda predomina na visão do mundo, quando ela se formula teórica e conscientemente. Como, por exemplo, no prólogo da doação de Afonso Sanches de Albuquerque às clarissas de Vila do Conde:

«Porque antre todalas criaturas boas que Deos criou fez homem e molhei a mais nobre que todalas outras em este mundo foram criadas assignadamente, a el soo deu alma de entendimento e de razom pera conhecer el e todalas cau­ sas e de partir o bem do mal, porém os homes de razom e d’aguisado o devem mais a amar e honrar e louvar que todalas outras.»234

Era uma formulação simples, de pena de um clérigo que se colocava na

230 P. de Azevedo, 1913; J. P. Ribeiro, 1813, III/2, does. 29 e 31.

231 Bernardo Sá-Nogueira, 1988.

232 Rosa Marreiros,

233 A. Resende de Oliveira,

234 A. C. de Sousa, 1739, I, p. 123.

1985, pp. 35-37.

1992, pp. 356-397.

vez do nobre, autor da doação, e que sabia exprimir conceitos compreensí­ veis pelos leigos. De facto, os leigos cultivavam outros temas.

C

u l t u r a

d o s

l e i g o s

Conhecemo-los mal. De fundo oral, as suas manifestações anteriores ao sé­ culo x i i i são para nós quase inteiramente desconhecidas. Só chegaram até nós indirectamente, até ao momento em que, como vimos, se registaram por escrito as poesias trovadorescas. Não admira, por isso, que os especia­ listas tenham procurado cuidadosamente fixar o momento em que apare­ cem as primeiras composições hoje conservadas235. Sabemos, no entanto, que a actividade poética dos leigos vem de mui­ tos séculos atrás. Pelos fins do século x i i , é resolutamente apoiada por reis como Sancho I, que em 1189 recompensa os dois jograis Bon Amis e Acompaniado (DS 67). Mas os cavaleiros-vilãos dos concelhos também a apreciavam, e, tanto, que os redactores dos foros de Alfaiates têm de proibir de dar mais de seis maravedis ao cedrero que vier cantar à vila (n.° 442, in Leg., p. 838). O cedrero tocava uma espécie de cítara e é men­

de Madrid no século x i i , que o apresenta como

viajando a cavalo por várias cidades para cantar diante do povo. Segundo Menéndez Pidal, recitaria sobretudo poesia narrativa, ao contrário do toca­ dor de cítola, que acompanhava frequentemente a poesia lírica236. Dada a grande quantidade de trovas conservadas para a época de Afon­ so III, não admira que se encontrem referências aos seus autores na docu­ mentação coeva. Numa lei, o monarca, económico como sempre, reduz a três o número habitual dê jograis de sua casa e estabelece a tabela do que se há-de dar aos jograis e segréis que vieram a cavalo de outra terra (Leg.,

p. 199). O exemplo e o prestígio das cortes provençais levaram as cortes senhoriais castelhanas, galegas e portuguesas a recrutá-los também ou a acolher os que apareciam, como se depreende do preâmbulo de uma lei não datada de D. Dinis:

«Senhor, o degredo de vosso padre manda que os ricos-homens vaam aos

cionado também no fuero

moesteiros e aas eigrejas com certos cavaleiros [

]

e levam i sas molheres e sol-

dadeiras e jograres muitos e comem com elas nas crastas e nas camaras dos priores e dos abades» (LLP, p. 147).

Tendo-se tornado um hábito nos meios nobres, a poesia oral põe-se também por escrito237. Surgem, então, as primeiras produções narrativas, quer derivadas das tradições familiares, como as registadas nos livros de li­ nhagens238, quer os primeiros ensaios de uma historiografia não dependen­ te de esquemas clericais. É curioso verificar que esta aparece primeiro nas cortes senhoriais do que nas régias, tal como a própria poesia trovadores-

235 Ver as discussões sobre a datação de uma composição como a de João Soares de Paiva, atri­ buída a 1196 ou 1213 (CEM D, n.° 242). Sobre a origem da poesia trovadoresca galaico- -portuguesa, ver, entre todos, G. Tavani, 1980, pp. 15-24, e agora, sobretudo, A. Resende de Oli­ veira, 1987; id., 1989; */., 1992; á/., 1993. 236 Ramón Menéndez Pidal, 71975, p. 28. 237 G. Tavani, 1980, pp. 24-46; A. Resende de Oliveira, 1992, pp. 356-357. 238 J. Mattoso, 1983.

ca239. Só esse facto permite compreender a importância atribuída aos Tras- tâmaras nas origens do reino de Portugal, segundo a tradição transmitida pelo Livro do conde D. Pedro no princípio do título VII240. É certo, pelo menos, que não parece haver nenhuma crónica régia portuguesa anterior à Crónica de 1344, que é justamente obra de um senhor, embora ligado à corte régia, o conde D. Pedro de Barcelos241. Também não deixa de ser significativo que fosse ainda um clérigo de um nobre, Pero Anes de Portei, quem traduziu para português a Crónica do mouro Rasis. Não é seguro que o fizesse por ordem de D. Dinis242. O rei parecia mais interessado em cul­ tivar a poesia lírica. O ambiente de intervenção cultural dos leigos expri- me-se bem com a importante mutação, verificada no princípio do reinado de D. Dinis, de adoptar o romance como língua oficial nos documentos expedidos pela chancelaria243. De qualquer maneira, estes factos representam uma mudança muito grande quando comparamos o ambiente cultural que daqui se depreende com o que, por outro lado, se pressente, ao ler as narrativas conservadas nos livros de linhagens acerca do rei e da nobreza no século x i i . Vejam-se as que se contam de Fernão Mendes de Bragança ou de Gonçalo Mendes de Sousa244, e a gesta de Afonso Henriques245. A predominância guerreira, feroz e vingativa do século anterior havia sucedido agora a cultura cortesã, que comportava um código de boas maneiras e de regras de convivência, em que a mulher passara a ter um lugar importante. Já não se confiava aos jovens nobres apenas o combate e a violência, mas também, sobretudo aos bastardos, o cuidado de divertir a corte com a poesia, a música e as fa­ cécias. Com eles vinham as soldadeiras para dançar e cantar. Já não interes­ sava apenas a épica, valorizava-se também a lírica e a sátira246. Aperfeiçoa­ vam-se os géneros e distinguiam-se os bons e maus trovadores e jograis. Os ricos-homens e os altos dignitários da corte não desdenhavam imitar o gru­ po de jovens e de bastardos a quem normalmente se confiavam os jogos

poéticos247.

C

u l t u r a

p o p u l a r

Que se passava, por essa altura, nos concelhos e nos meios populares? É muito difícil imaginá-lo. Pode licitamente presumir-se que os jograis e os segréis populares, aqueles que não andavam a cavalo e cuja recompensa não era prevista por Afonso III, não tivessem cessado as suas actividades, e

239 A. Resende de Oliveira, 1987; id, 1993.

240 Nao se confirma, no entanto, a hipótese que propus em 1983, pp. 23-24, de ser também

redigida para os Trastâmaras a perdida Crónica galego-portuguesa de Portugal e Espanha de que

também há vestígios no Livro do Conde\ J. Mattoso,

 

1991.

241 Ver mais adiante a p.

170.

 

242 CMR, p.

3, nota.

 

243 J.

P. Ribeiro,

1798, pp.

89-97; id.,

1810,

I,

p.

184.

244J.

Mattoso,

1983, pp. 79-83.

 

245 A.

J.

Saraiva,

1979.

246 Sobre a sátira, ver Graça Videira Lopes,

247 J. Mattoso, 1981, pp. 333-369; id., 1985, pp. 309-328, 409-435. Sobre a segunda geração

1994.

dos trovadores e a sua actividade na corte castelhana, ver A. Resende de Oliveira, 1990; id., 1993.

que os cedreiros e os jograis continuassem a viajar de terra em terra para animar as festas e romarias, tal como os bufões, os histriões e os saltimban­ cos de que se fala em alguns textos de penitenciais até ao século xiv, para os censurar248. As Cantigas de Santa M aria, que os põem em cena, não os colocam só em ambiente cortesão, mas também em meios populares249. Al­ gumas vezes são clérigos e parecem mais goliardos do que outra coisa. Mas, agora, no século xm, as festas e as celebrações públicas não po­ dem dispensar os pregadores, que, desde o princípio do surto franciscano, animam não só o interior das igrejas e das capelas, mas também as praças públicas. Podemos imaginar como a pregação se podia tornar empolgante espectáculo público ao ler o relato do que foi feito em Lisboa com a pre­ sença de um monge cisterciense maiorquino, liberto milagrosamente do cativeiro entre os sarracenos e que aí contou as suas aventuras pelos anos 1238-1248, mostrando as algemas e as cadeias que trazia consigo250. Às ve­ zes a pregação simultânea de frades de diferentes ordens causa perturbações e disputas, que é necessário depois apaziguar, demarcando os momentos e os lugares em que cada um pode falar. Foi o que aconteceu em Santarém em 1260, entre franciscanos e dominicanos. Depois de ásperas controvér­ sias, ficou estabelecido que quando uns, ao domingo, pregassem de manhã, os outros pregassem de tarde, e no ano seguinte trocassem as horas; as igre­ jas e as festividades reservadas a uns e outros, e como haviam de repartir as alocuções nos enterros e exéquias. Nesta data, porém, já se verifica uma certa reserva quanto à pregação em lugares profanos, que tinha sido uma das práticas mais populares dos franciscanos nos começos da sua or­ dem. Efectivamente, os juízes arbitrais da sentença então proferida decla­ ram que «não deverão pregar em lugares vis como, por exemplo, em alber­ garias ou lugares semelhantes, para que a pregação não se torne vulgar a não ser que a tais lugares se dirija porventura alguma procissão»251. Este documento evoca, pois, indirectamente, o ambiente em que a cul­ tura popular se torna mais viva: as festas e celebrações colectivas que as au­ toridades religiosas animam com pregações e procissões, onde aparecem os histriões e os saltimbancos, os contadores de histórias e os cantores popula­ res. Neste ambiente urbano, o motivo da festa já não é tanto celebrar ri­ tualmente as mutações cósmicas ou os momentos fulcrais do ano agrícola. Também não brota da componente lúdica associada aos grandes trabalhos campestres feitos em comum. Organiza-se sobretudo em torno das festas de santos, cujo calendário não depende dos ritmos lunares que presidem à ordenação dos dias da semana e à determinação da data da Páscoa, pois pode calhar em qualquer dia da semana. Pelo documento aqui menciona­ do, depreende-se efectivamente que os enterros, procissões e festas de san­ tos eram as ocasiões mais propícias à pregação, decerto em virtude de consti­ tuírem pretexto para desenvolver temas de carácter moralizante e catequético, que eram os preferidos pelos pregadores.

248 Derek W. Lomax, 1983, pp. 229-246.

249 M. Martins, 1983, III, pp. 11-19; R. Menéndez Pidal, 71975, pp. 14-78.

250 Miracula S. Vicentii (ed. Aires Nascimento, 1988, pp.

251 A. do Rosário, 1982, pp. 82-89 e J. Mattoso, 1993, pp. 191-202. Sobre a pregação medie­

80-81).

val, ver L. Longère,

1983; para Portugal: F. G. Caeiro,

1984.

O

IN DIVÍD UO

E

O

GRUPO:

O

PRIVADO

E

O

PÚBLICO

Voltamos aqui, portanto, a uma das mutações mais importantes da vida medieval: a forma de integração do indivíduo na sociedade. Profundamen­

te inserido, quase sem vida autónoma, no grupo de que fazia parte, fosse,

num primeiro círculo, a parentela, fosse, num segundo, a comunidade da

vila ou aldeia, passa agora a ser considerado um ser dotado de consciên­ cia252, de capacidade de iniciativa, ao qual se garantem os direitos, o uso dos bens e propriedades, ao qual se apela para agir responsavelmente, para evitar o mal e praticar o bem, do qual se exigem impostos por cabeça ou por cada transacçao. Ao privado, opõe-se o público. Também a noção de público se altera,

se é que existiu propriamente antes da difusão de conceitos jurídicos no sé­

culo x i i i . O público como adjectivo designando o indiferenciado, o anóni­ mo, o de todos e de ninguém, onde não interessava considerar o estado pessoal, a comunidade concreta, a categoria social, a idade, o sexo ou a fa­ mília era provavelmente inconcebível para a maioria dos homens do sé­ culo x i i . No seguinte, porém, passa a constituir noção indispensável para a legalidade dos actos e a vigência das leis. De facto, já Afonso III manda que certas leis mais importantes sejam lidas em todas as vilas e julgados,

diante dos prelados, alvazis, juízes, justiceiros, alcaides e concelhos, e sejam registadas por escrito nas mesmas vilas e julgados (Leg., p. 192, de 1253).

A prática de ler as leis não apenas uma vez, mas periodicamente, até uma

vez por semana, pelos tabeliães, diante do concelho, tornou-se corrente com D. Dinis. Este raramente se esquece de tomar precauções para que as suas leis sejam conhecidas de todos253, para depois exigir o seu cumpri­

mento seja a quem for e para que ninguém se possa escusar de ignorância.

O hábito transmite-se aos concelhos, que declaram ter feito o pregão254 e é

adoptado pelos bispos, que mandam ler leis nas igrejas e durante os ser­

mões, nos dias festivos e ao domingo255. Não menos significativa de um espírito novo é a preocupação, que D. Dinis revela, de apelar para a opinião pública quando a sua autoridade

é contestada, como aconteceu nos conflitos com o infante D. Afonso. Co­

mo se sabe, mandou redigir e ler publicamente três manifestos em que se justifica a si próprio e acusa o infante256. D. Dinis reproduzia, assim, talvez sem o saber, uma atitude que tinha tomado também, poucos anos antes, Filipe, o Belo, durante os seus conflitos com o papa Bonifácio VIII257. Além de as leituras públicas terem as consequências legais que apontei, ou

se destinarem a obter o apoio popular numa ocasião em que a autoridade é

contestada, constituem também uma forma de pedagogia, quase de prega­ ção, como acontece quando o mesmo rei manda ler todos os anos as suas

252 M.-D.

253 Ver, entre outras, as seguintes leis: LLP, pp.

Chenu,

1969.

197, 201, 204, 209.

51,

74, 78,

81, 82,

89, 90,

165,

169,

184,

254 Cf.

Gabriel Pereira,

1885, does.

17

e 22;

M.

H. Coelho,

1983, doc.

16.

255 M.

H. Coelho,

1983, doc.

17, de

1307.

256 F. Félix Lopes,

257 D. Knowles,

1967b; id., 1953; Câmara Municipal de Lisboa,

1968, pp. 402-404.

1947, pp.

135-146.

ordens e estatutos da Universidade na cidade de Coimbra «per praeconem publicum». O rei pretendia, assim, inculcar em toda a gente o interesse pe­ la iniciativa cultural que tinha tomado ao fundar os Estudos Gerais258.

C

o n c l u s ã o

Como se vê, estas mutações culturais com importantes implicações na mentalidade, mesmo que partam de grupos minoritários, -mostram uma Idade Média menos estática do que muitas vezes se pensa e diz. Para o propósito que nos interessa, porém, convém salientar que no domínio da cultura e da mentalidade se verifica, como nos observados anteriormente, a desagregação das barreiras que separavam as comunidades. É evidente o papel que nestas mudanças desempenham as cidades, a corte régia e as ins­ tituições religiosas, que consideram fundamental intervir junto das cama­ das populares. A circulação dos jograis e dos segréis não tinha fronteiras, tanto abrangia Castela e a Galiza, como Portugal e Leão. Levava as mes­ mas histórias a toda a parte, mas cada comunidade as transmitia depois a seu modo. Mas as missões dos agentes régios que liam as leis e proclama­ ções de D. Dinis situavam-se estritamente no âmbito do reino. Faziam-no na mesma língua, ignorando as diferenças entre os falares e dialectos mais influenciados pelo galego-português e os que dependiam do moçárabe oci­ dental, as quais, de resto, não eram tão grandes como entre eles e o caste­ lhano259. Os pregadores populares também tinham de falar esta língua. Os franciscanos, mais próximos da mentalidade popular, pertenciam, note-se bem, a uma província que englobava justamente toda a área linguística do galego-português, a província de Santiago de Compostela. As separações entre as comunidades concelhias e os domínios senhoriais levantavam cada vez menos obstáculos à comunicação entre os seus habitantes. Mas as dife­ renças entre o português e o castelhano260, acentuadas pelas diferenças po­ líticas e sublinhadas pela delimitação fronteiriça das áreas económicas, essas criavam barreiras que os reis tratavam de definir e acentuar cada vez mais.

258 CUP, doc. 25, p. 46. Sobre a fundação da Universidade ver o recente estudo de M. Nunes

Costa,

1991.

259 A. J.

260 Ibid.y pp. 60-71.

Saraiva,

1982, I, pp. 49-51.

2.

A monarquia

A projecçao inconsciente de conceitos modernos sobre a Idade Média

tem levado a nao poucas inexactidões historiográficas. Um dos domínios

em que elas são maiores é o das concepções políticas. Determinados por

séculos de concepções de direito público e de atribuição exclusiva ao Esta­

do de funções políticas, os historiadores das instituições dos fins do século

xix

e ainda até há pouco tempo tendiam a interpretar como funções públi­

cas

o que se passava no domínio indiferenciado do público e do privado,

onde se move toda a autoridade desde o princípio da alta Idade Média.

Por essa razão, a preservação de certos conceitos e fórmulas do direito visi-

gótico, em grande parte expressão do direito romano vulgar, durante a Re­ conquista, levou muitos historiadores peninsulares a admitir como princí­

pio que, na Península, a influência da mentalidade feudal tinha sido escassa. Assim, não se teria perdido a ideia de Estado. A supremacia do

monarca seria a expressão da sua função propriamente política, e não ape­ nas «feudal».

A ser assim, a Península Ibérica, tirando a Catalunha, representaria

uma notável excepção no panorama da história das instituições políticas durante a Idade Média. Todavia, a opinião cada vez mais unânime dos his­ toriadores recentes é a de que o Estado propriamente dito resulta de um

lento processo de formação que só atinge o seu termo no século xiv, apesar

de alguns notáveis precedentes anteriores1. Não poderei, aqui, apresentar

uma demonstração completa de que em Portugal se passa o mesmo, mas nem por isso deixarei de invocar não poucos testemunhos nesse sentido.

Para isso, é indispensável distinguir, tão claramente quanto possível, a au­ toridade pública exercida pelo rei em virtude do seu poder senhorial — no que não se distinguia dos nobres dotados das mesmas prerrogativas — , da­ quela que exercia exclusivamente por causa da dignidade régia. Em segui­

da, mostrar a partir de quando é que a função régia se torna verdadeira­

mente estatal, isto é, quando implica um poder público unitário, com jurisdição directa sobre todo o povo e sobre todo o território que lhe está sujeito2. Estes requisitos não se podem, obviamente, preencher apenas com os testemunhos acerca de uma supremacia vaga ou ideal. Exigem uma prá­

1 E. M. Kantorowicz, 1966; B. Guenée, 1971; G. LefF, 1976; A. Murray, 1978; J. R. Strayer,

1979.

2 L. G. Valdeavellano,

1970, p. 406.

tica concreta, explícita e habitual. Só se observam quando existem os ór­ gãos correspondentes. Ora, dado que muitas das funções públicas, hoje consideradas estatais, foram exercidas de facto pelos senhores dentro dos seus coutos e honras, e eram transmitidas hereditariamente sem que o rei pudesse intervir na su­ cessão, podem levantar-se muitas dúvidas quanto à teoria e quanto à práti­ ca do poder político vigente entre nós. Por outro lado, a relativa arbitrarie­ dade com que os senhores exerciam os seus poderes não permite atribuir-lhes uma autoridade propriamente estatal. Além disso, o exercício da função régia como se fosse de natureza senhorial, isto é, parcialmente arbitrária, transporta-a para os domínios do privado. É, por isso, extrema­ mente difícil ou mesmo impossível delimitar claramente o que pertence a uma esfera ou a outra. O Estado moderno só nasce desde o momento em que elas se começam a distinguir com alguma clareza. A superior autorida­ de do monarca acima dos senhores durante um período em que não se dis­ tingue o público do privado é, sem dúvida, um antecedente importante, mas não se pode considerar da mesma maneira do que nos Estados moder­ nos. Ora, é justamente o processo que conduz a esta emergência o que nos interessa averiguar. Para isso, temos de verificar se a autoridade do rei muda de natureza quando se exerce sobre os seus próprios territórios ou sobre aqueles que têm algum senhor. Até que ponto ele tem o direito de intervenção nos se­ nhorios e sobre os seus detentores. Desde quando concebe o regnum como um todo unitário, onde todos os habitantes têm para com ele relações de natureza diferente daquelas que os tornam dependentes dos senhores. Em que consiste a superioridade do rei em relação àqueles que no reino detêm alguma parcela do poder público. Ora, o rei também se concebe a si próprio como um senhor, isto é, exerce uma autoridade simultaneamente pública e privada sobre os territó­ rios que lhe pertencem como bens patrimoniais. Relacionada com esta questão prende-se outra, bem mais difícil de resolver, e que consiste em averiguar qual a natureza das funções que ele desempenha nas terras que, sem dependerem de outros senhores leigos ou eclesiásticos, não se organi­ zam como concelhos nem se incluem nos seus domínios. Este problema está intimamente dependente de um terceiro, que consiste em averiguar quais são exactamente as regalias que ele não pode partilhar com ninguém. Depois de expormos estes temas, veremos como se articulam entte si o po­ der central e o poder local, durante a fase de predominância das institui­ ções senhoriais. Reservaremos para outro parágrafo o estudo do processo centralizador, que se identifica, afinal, com o que conduziu à edificação do Estado propriamente dito. Como em tantas partes deste ensaio, as dúvidas e interrogações serão muitas. As propostas de interpretação aqui apresentadas poucas vezes sur­ gem como certezas. São sobretudo um desafio a investigações futuras que, porventura, nem sempre concordarão com as aqui seguidas. Destinam-se^ antes de mais, a apontar linhas de pesquisa e hipóteses de trabalho que me parecem fecundas.

2.1. O «senhor rei»

O

PO DER

SENHORIAL

DO

REI

«Senhor rei», Dominus rex, é a maneira como os inquiridores de 1258 cha­ mam normalmente a Afonso III. Esta fórmula não é apenas um epíteto de­ monstrativo de veneração e respeito, é também a expressão de que conside­ ravam o rei não só como tal, mas também como «senhor», isto é, aquele que exerce um poder senhorial. Ele une, portanto, em si mesmo poderes de natureza diferente. Aqueles que se pretendem contabilizar, porém, são os senhoriais, e não, normalmente, os régios. Para os inquiridores, os se­ gundos exercem-se noutra esfera, aquela que está justamente acima dos senhores. De facto, no século xm, não é preciso ser rei para cobrar as rendas dos

domínios patrimoniais ou exigir serviços dos trabalhadores, nem sequer pa­ ra exigir a voz e coima, a fossadeira, a anúduva, a jugada, que são presta­ ções de origem pública, ou para apresentar os párocos de certas freguesias,

o que tanto pode derivar de um direito patrimonial como de um direito

colectivo, ou para nomear o juiz, como fazem os outros senhores dentro das suas terras. Muito menos para cobrar prestações introduzidas pelos se­ nhores, como a pousadia ou jantar, a eirádiga ou a lagarádiga, as diversas pedidas e almeitigas, as portagens e peagens, os foros sobre coelheiros, al­ mocreves, pescadores, viúvas, cabaneiros e mesteirais, as imposições sobre

os moinhos, fornos, lagares, azenhas, banhos, tendas e açougues. Não é só

o rei que pode ter cavaleiros armados, presidir ao tribunal, policiar uma

terra, tomar conta dos maninhos e baldios, fazer regulamentos para os ha­ bitantes do domínio ou do senhorio, criar multas ou expulsar os detentores das terras. Há senhores que também cedem temporariamente, como ele, a administração de um senhorio ou parte dele a um parente ou amigo, me­ diante a obrigação de fidelidade, do conselho e da ajuda. A vastidão dos domínios régios, no entanto, constitui uma característi- ca que basta, só por si, para não poder assimilá-lo pura e simplesmente aos senhores. É o mais poderoso de todos. Em segundo lugar, verifica-se que, na prática, estende direitos senhoriais sobre homens livres, que em princí­ pio não deviam estar sujeitos às mesmas prestações que os dependentes, e não parece levantar-se contra isto qualquer obstáculo. A origem desta prá­

tica terá, creio eu, de se procurar exclusivamente na dignidade régia. Toda­ via, o seu resultado consiste, justamente, em afinal assimilar o rei aos se­ nhores, com a simples diferença de que por esse meio os seus domínios se estendem muito mais do que os deles. Deixando para o parágrafo seguinte

a tentativa de averiguar a origem desta prática, vejamos por agora apenas as

suas consequências. Já anteriormente aludi a elas3. As comunidades que antes elegiam o pá­ roco ou o juiz têm agora de os levar à confirmação do rei. As prestações públicas judiciais, militares e fiscais revestem, a partir de então, um carác­ ter senhorial, isto é, deixam de ser prestações recognitivas de um estatuto

3 Ver vol.

II, pp. 227-238.

próprio para passarem a exprimir a dependência. Se até ali não pagavam prestações tipicamente senhoriais como a lutuosa, as osas e gaiosas, a hos­ pedagem, as contribuições pelos instrumentos de produção, o montádigo e os pedidos, verifica-se agora uma inevitável tendência para se lhes exigirem as mesmas que os dependentes dos senhores lhes pagavam a eles. O proces­ so de transformação dos proprietários alodiais em dependentes é bem ilus­ trado pelas inquirições. Estas são praticamente contemporâneas do mo­ mento em que os senhores de terras imunes estendem também sobre os trabalhadores por contrato, que em princípio deviam também ser livres, prestações do mesmo género, consignadas nas cartas de emprazamento4. E difícil averiguar se as transformações nas relações de dependência de­ correntes deste processo se iniciam muito antes de 1220 , data a partir da qual as inquirições de Afonso II oferecem já um seguro elemento de estu­ do para o seguir com mais rigor. Digamos, mesmo com o risco de fazer uma afirmação um tanto prematura antes de se proceder a investigações sistemáticas nesta fonte, que a implantação dos direitos senhoriais sobre os alódios parece estar neste momento já em marcha, mas numa fase ainda incipiente.

P r e s t a ç õ e s

d e

o r i g e m

p ú b l i c a

e

d e

o r i g e m

p r iv a d a

Na impossibilidade de proceder a pesquisas sistemáticas, poderei, no en­ tanto, propor um método de solução do problema. Consiste em cartogra­ far cuidadosamente os diversos tipos de prestações, distinguindo os de ori­ gem pública dos de origem exclusivamente senhorial, e estudar caso a caso as sobreposições de ambas. Esta pesquisa, apesar de morosa, é facilitada nas inquirições de Afonso II pelo facto de se encontrarem os «foros» separados das prestações dos reguengos. Mas esta separação é, já de si, significativa. Quer dizer que os inquiridores distinguem ainda com clareza as terras que pertencem ao património régio propriamente dito daquelas que o rei não possui mas onde cobra prestações. Esta investigação poderia contribuir pa­ ra resolver problemas da maior importância, como, por exemplo, averiguar a razão da diferença entre os foros fixos e as rendas proporcionais à produ­ ção. Como fio condutor para a resposta pode perguntar-se se as rendas fi­ xas não serão justamente de origem pública, como a jugada. De facto, já Gama Barros observou que a maioria das prestações dos reguengos são par- ciárias, que as dos casais foreiros são geralmente menos pesadas, e que o en­ cargo da fossadeira recaía geralmente sobre estes5. Sendo assim, as presta­ ções dos «foreiros» seriam de natureza não dominial. Na impossibilidade de empreender esta vasta pesquisa, convém, em to­ do o caso, mostrar que ela permitiria colocar em termos novos a velha questão da diferença entre reguengos e bens da Coroa, na qual Gama Bar­ ros gastou tantas páginas da sua possante erudição6. O que a meu ver vi­ ciou a sua tentativa foi usar como critério a distinção entre domínio direc-

4J.

5 Gama Barros, VII, pp. 335-336, 356-369.

6Ibid., pp. 277-503.

Mattoso,

1981, pp. 276-277.

to e domínio útil, além de vários equívocos acerca da noção de «adscrição

à terra» e da natureza servil de certas prestações. De facto, a relação estabe­ lecida entre o senhor e o dependente não se baseia em nenhuma espécie de

contrato. As prestações dependem essencialmente de dois direitos de natu­ reza diferente — o direito sobre a terra e o direito sobre os homens — , e não dos dois níveis de propriedade que o direito medieval tardio distingue, para aplicar às situações já então estabelecidas, em virtude do cruzamento de direitos de proprietários diferentes sobre as mesmas terras7.

R e g u e n g o s

e

t e r r a s

f o r e i r a s

A verdade é que, pelo menos até 1265, os funcionários da Coroa distin­

guiam com razoável clareza a diferença entre terras reguengas e foreiras (Leg., p. 215). Os inquiridores de 1258, apesar de unirem numa só as duas séries de prestações antes distintas, mostram, por vezes, que também

as distinguiam. Sabem, por exemplo, que existe uma verdadeira hierarquia

entre herdades reguengueiras, de jugada e de cavalaria (Inq., p. 836b), co­ mo vimos a propósito das últimas8. Ora, tudo leva a crer que as herdades «de jugada» correspondem às «foreiras» propriamente ditas, pelo menos na Beira. Tanto esta identificação como o próprio significado etimológico da palavra fórum, cuja conotação com o carácter «público»9 não se deve esque­ cer, dão bem a entender que os funcionários régios da época de Afonso III, ainda pela década de 1260, conheciam a natureza diferente dos foros e das rendas dominiais pagas ao rei. Esta diferença, todavia, não o tornava me­ nos «senhor» de todos os que pagavam uns e outros. Todavia, a tendência para o nivelamento dos dependentes e a simplifi­ cação introduzida pela difusão do regime senhorial levaram, durante a se­ gunda metade do século xm, a desprezar as distinções, agora cada vez me­ nos importantes. Com efeito, a lei de 1265, embora distinga os dois tipos de prédios, passa logo em seguida a tratá-los em conjunto. Ao rei importa­ va apenas impedir que as terras mudassem de estatuto por ausência do proprietário ou alienação em favor de privilegiados. A tendência para a identificação parece já estar consumada, em 1311, quando D. Dinis pro­ mulga outra lei com o mesmo objectivo, mas na qual fala apenas de re­ guengos, esquecendo a situação específica dos prédios foreiros10. Para a confusão entre bens reguengos e bens foreiros também deve ter contribuído o facto de a generalização do regime concelhio nas terras não senhoriais, durante a segunda metade do século xm, ter como consequên­ cia a sujeição de todas as terras do reino a um de três regimes: o senhorial, o concelhio ou o reguengueiro. Tal como, no primeiro, a situação dos co­ lonos e dos antigos homens livres se confundiu na de dependentes, tam­ bém nos reguengos se identificaram os foreiros com os reguengueiros, vin­ do a esquecer-se a antiga e equívoca designação de «herdadores».

7A. M. Hespanha,

8 Ver vol. II, pp. 291-293.

9 M. P. Merêa,

1982, p. 465.

1947, pp. 485-494.