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[ I ]

POLIFILO COMEÇA SUA HYPNEROTOMACHIA DESCREVEN-


DO A HORA E ESTAÇÃO EM QUE LHE ACONTECEU ENCONTRAR-SE
EM SONHOS NUMA TRANQÜILA E SILENCIOSA REGIÃO AGRESTE,
INADVERTIDAMENTE PENETROU LOGO, COM GRANDE TEMOR,
NUMA SELVA ÍNVIA E SOMBRIA.

BATALHA DE AMOR EM SONHO DE POLIFILO

DESCRIÇÃO DA AURORA

hora em que a fronte de Matuta Leuco-


teia empalidecia,10 saindo já das ondas
do Oceano, Febo não mostrava ainda as
rodas de seu carro girando pelos ares.
Aparecendo, porém, diligente com seus
velozes cavalos, primeiro Piroo, depois
Eoo, pintando de purpúreas rosas a lumi-
nosa quadriga de sua filha, não tardava
em segui-la velocíssimo e cintilando já
sobre as cerúleas e inquietas ondinhas,
seus radiantes cabelos encrespavam-se. Com sua chegada neste ponto do céu,
Cíntia, sem chifres,11 desaparecia, fustigando os cavalos (um branco outro
negro) que lhe arrastavam o veículo, atingindo a linha extrema do horizonte
divisória dos hemisférios, e daí, fugindo, cedia o passo à estrela que precede
o sol para renovar o dia. A essa altura, os montes Rifeus estavam aprazíveis
e não soprava com demasiado rigor o álgido e gélido Euro com seu com-
panheiro, a quem não mandava sacudir os ramos tenros nem inquietar os
flexíveis rebentos, os pontiagudos juncos e as débeis canas, nem agitar
os flexíveis vimes e os lânguidos salgueiros, nem inclinar os frágeis abetos, sob os
lascivos cornos do touro, como costumava fazer no inverno, quando soprova. De igual
modo, o jactancioso Orion deixava de perseguir chorando
o ombro taurino adornado com as sete irmãs.12
Naquela mesma hora, as flores multicores não temiam ainda o calor
nocivo proveniente do filho de Hiperião; antes, os verdes prados estavam
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úmidos e regados pelas frescas lágrimas da Aurora. E as alcíones, surgindo
sobre as ondas tranquilas e uniformes da bonança e do plácido mar, vi-
nham aninhar-se nas praias arenosas. A hora, pois, em que a dolente Hero
suspirava ardentemente nas orlas escarpadas a dolorosa e infausta morte
do nadador Leandro, eu, Polifilo, jazia em meu leito, oportuno amigo do
corpo fatigado. Não havia ninguém comigo no quarto familiar a não ser
minha querida e meditativa Agripnia13 que, depois de falar-me bastante
para consolar-me, uma vez que eu lhe dera a conhecer claramente a causa
e origem de meus profundos suspiros, convidava-me ternamente a apaziguar
semelhante perturbação e, julgando que já era hora de eu repousar, pediu
licença para retirar-se. Assim, sozinho com os elevados pensamentos do
amor, consumindo insone a ampla e tediosa noite, desconsolado e gemendo
por causa de minha sorte estéril e adversa e má estrela, chorando por im-
portuno e desgraçado amor, reconsiderava sobre o que representa um amor
não correspondido e quanto se pode fazer amar quem não ama e com qual
proteção pode uma alma tão inerme — sendo sobretudo interna a sediciosa
luta, e tão frequentemente enredada em solícitos, novos e caprichosos pen-
samentos -, resistir, assediada por insólitos e frequentes assaltos e envolvida
em luta hostil. Tendo-me amargurado doidamente durante largo tempo com
esta realidade e com tão desagradável estado, e já cansados meus erráticos
pensamentos de refletir inutilmente, nutria-me de falaz e enganoso prazer
ocasionado justamente e sem dúvida por um objeto não mortal, e sim bem
divino: Polia, cuja Ideia venerável vive impressa no profundo de mim, in-
timamente gravada como minha invasora. Empalidecia já o esplendor das
trêmulas e cintilantes estrelas quando, em silêncio, meu coração ferido rogava
impaciente àquele inimigo desejado, do qual procede esta luta tão grande e
incessante, chamando-o amiúde como remédio útil e eficaz. E tal remédio
não passava de renovação cruel de meu tormento infindo, pensando eu na
condição dos desgraçados amantes cuja sorte é desejar morrer docemente
pelo prazer alheio, vivendo pessimamente e alimentando-se do lacerante
desejo e de trabalhosas fantasias e suspiros. Nisso, como alguém esgotado
pelas labutas do dia, havendo acalmado um pouco meu pranto exterior e
freado o curso das líquidas lágrimas, com as faces encavadas de amoroso
abatimento, ansiava pelo natural e oportuno repouso. Entrefechados então
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os úmidos olhos com as pálpebras avermelhadas, flutuando entre a áspera
vida e a suave morte, foi invadida e ocupada sem demora pelo doce sonho
aquela parte que não está unida com a mente nem com os pensamentos
amantes e despertos, nem participa de tão altas operações.
Ó Júpiter, que ressoas desde o alto, como qualificarei esta inusitada
visão, quando não se encontra em mim átomo que não trema e arda ao
meditar sobre ela? Feliz, admirável ou aterradora? Pareceu-me estar em
ampla planície que se mostrava mui adornada, toda verdejante e salpicada
de diversas cores por muitos tipos de flores. Acariciada por brisas suaves,
reinava nela o silêncio, sem que ruído algum nem voz chegassem a meus
atentíssimos ouvidos, enquanto a temperatura era doce sob os agradáveis
raios do sol.
Vagando por esse lugar com assustada admiração, dizia-me:
— Não surge aqui nenhum ser humano ao olhar ansioso, nem animal
selvagem, selvático, de bosque nem doméstico, nem se vê nenhuma chácara
nem casa campestre nem reduto de pastores, nem cabana nem choça.
Outrossim, não se viam naqueles relvados campos nem pastores nem
cabreiros nem boiadeiros nem guardadores de éguas, tocando suas siringes
rústicas de duas canas e suas flautas de cortiça; nem vagavam por ali re-
banhos nem manadas. Confiante, porém, face à tranquilidade da região e à
benignidade do lugar, e quase sem temor, caminhando daqui para ali, olhava
as tenras folhagens que repousavam imóveis, sem ver nenhuma outra coisa.
Assim, minha viagem a esmo, levou-me a espessa selva onde, mal
entrei, vi-me não sei como perdido. Súbito temor invadiu-me de repente o
coração suspenso e espraiou-se por meus pálidos membros, a par de acele-
rados batimentos, e minhas faces perderam a cor. Não se oferecia a meus
olhos rastro algum nem vereda, e na espinhosa selva não apareciam mais
que densos arbustos, penetrantes espinheiros, o freixo selvagem malquisto
pelas serpentes, rudes olmos favoráveis às fecundas videiras, sobreiros,
cuja cortiça as mulheres usam como adorno;14 duras azinheiras, robustos
carvalhos e azinheiras carregadas de bolotas e de ramos tão abundantes
que não permitiam aos raios agradáveis do sol alcançarem plenamente o solo
coalhado de orvalho: formando uma cúpula de folhagem impediam a
penetração da luz vivificante. Desse modo, encontrei-me em meio da fresca
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sombra, no ar úmido e no bosque escuro, o que me levou a suspeitar com
fundamento e a crer que chegara à vastíssima selva Hercínia, e que ali não
havia outra coisa além de refúgios de feras perigosas e covas de animais
selvagens e de bestas ferozes. Por isso, sentia imenso pavor ao pensar que,
indefeso e ignorante, poderia ser despedaçado por um hirsudo e dentuço
javali, como Caridemo, ou por um touro furioso e faminto, ou por sibilante
serpente, e ver minhas carnes consumidas vorazmente por lobos uivantes
que podiam atacar-me e despedaçar-me miseravelmente. Desorientado e
espavorido e alijando-me da inércia, decidi não demorar-me mais naquele
lugar, encontrar a saída e fugir dos perigos que me ameaçavam, apressando
meus indecisos e desordenados passos.

Com tropeços frequentes nas raízes expostas, ia vagando perdido de


um lado para outro, ora à esquerda, ora à direita, ora retrocedendo, sem
saber para onde dirigir-me, pois atingira local espesso, cheio do emaranhado
de ramos e espinheiros, estando completamente arranhado pelos galhos e
com o rosto ferido pelas sebes espinhosas e frutos silvestres. Minha toga,15
rasgada e presa pelos agudos cardos e outras plantas espinhentas, tolhia-me
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e retardava minha fuga. Ademais, como não via indício algum de pegadas
humanas nem vislumbre de caminho, não menos desconfiado e amedronta-
do, apressava os passos. E, fosse pela rapidez de minha caminhada, fosse
pelo calor do meio-dia ou pelo movimento de meu corpo, sentia-me assaz
sufocado, banhado de suor meu peito frio. Não sabendo o que fazer, tinha
a mente alvoroçada e presa apenas de pensamentos terríveis. A meus gritos
entrecortados de suspiros, somente Eco, êmulo singularíssimo de minha voz,
oferecia-se como derradeira resposta, perdendo-se meus ecoantes gemidos em
meio ao ciciante canto do rascante amante da aurora16 coberta de orvalho,
e o dos estridentes grilos. Por fim, neste escabroso e impraticável bosque,
eu desejava apenas o socorro da piedosa cretense Ariadne, quando entregou
o fio condutor ao falaz Teseu para que, depois de matar a seu monstruoso
irmão, saísse do intrincado labirinto. Eu desejava algo semelhante para es-
capar da selva escura.

[ I I ]
TEMENDO POLIFILO OS PERIGOS DO ESCURO BOSQUE, DI-
RIGE PRECE A JÚPITER; SAI DO BOSQUE ANSIOSO E SEDENTO
E, QUERENDO RESTAURAR-SE COM ÁGUA, OUVE SUAVE CANTO
E, PARA SEGUI-LO, ABANDONA A ÁGUA E VÊ-SE NUMA ANGÚS-
TIA MAIOR.

inha inteligência começava a ofuscar-se e


meus sentidos a obnubilar-se, a ponto de
não saber que opção escolher: se encarar a
odiosa morte ou esperar no sombrio e escu-
ro bosque uma salvação incerta; correndo
de lá para cá, envidava todos os esforços
para sair; mas, quanto mais nele penetrava ao
acaso, mais ele se escurecia. Enloqueci-
do de imenso pavor, esperava já somente
que qualquer fera crudelíssima, atacando-me de algum lado, começasse a
devorar-me. Ou então, prosseguindo às cegas e sem dar-me acordo, cair em
profundo fosso ou numa cova, ou precipitar-me em vasto precipício aberto

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na terra, e acabar de vez a fastidiosa vida, como Anfiarau e Cúrcio, engolido
num abismo pestilento da terra, despencando-me de altura maior que a do
ímpio Pireneu. Assim minha mente se desconcertava, e quase desesperava, e
eu vagava sem destino, buscando a saída por caminhos extraviados. Por isso,
mais trêmulo do que as virentes folhas no vinhoso outono, que sem verdor
e sem o suculento peso de seu sumo são agitadas pelos furiosos aquilões,
dizia-me a mim mesmo, em prece:
- Ó Diéspiter máximo, ótimo, onipotente e amparador! Se a humani-
dade merece por justos rogos a ajuda divina e ser ouvida com benevolência,
agora, sofrendo por ter cometido alguma leve ofensa, rogo-te, sumo pai e
eterno regedor dos deuses superiores, intermediários e inferiores, que praza a
tua imensa divindade livrar-me destes mortais perigos e do horror presente,
e do melhor modo dar cabo desta minha vacilante vida.
Mal terminara a devota oração, brotada sinceramente e posto nela o
coração, esgotado, chorando, pensando convictamente que os deuses socor-
rem aos homens de boa vontade, logo me encontrei inadvertidamente fora
do espesso, áspero e sombrio bosque. E como se procedente da úmida noite
houvesse chegado a novo dia, tinha os olhos nublados, pois fazia tempo que
não contemplava a amável luz, e me achava lívido, contristado e ansioso. A
desejada luz fez-me sentir como se houvesse saído de cego cárcere, liberto de
pesadas e molestas cadeias, e egresso de caliginosas trevas. Estava mui sedento,
machucado, rosto e mãos ensanguentados e cobertos de pústulas provocadas
pelas mordentes urtigas e, apesar do agradável que me era a luz recuperada,
não lhe tinha apreço. Tal era minha sede que as brisas frescas não podiam
refrescar-me e em vão procurava aliviar minhas entranhas secas engolindo
avidamente saliva, porque esta se me ressecara. Nada obstante, serenei-me
um pouco e voltou-me algum ânimo, mesmo tendo o peito abrasado por fre-
quentes suspiros e pela ansiedade da alma e fadiga do corpo; e pensei como
poderia saciar minha árida sede. Assim, andei por aquelas paragens buscando
com zelo alguma água, e depois de explorar demoradamente, em boa hora se
me ofereceu alegre fonte, jorrando com grosso veio de água fresca. Descobri
nesse lugar plantas palustres como gladíolos, tanchagem, a lisimáquia em
flor e a angélica.17 Brotava ali claríssima corrente que, desdobrando-se em
arroios de caprichoso e tortuoso leito através da selva deserta, alargava-se

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alimentada pela junção de outros muitos riachinhos que ia recebendo. Suas
fluidas e sonoras ondas saltavam pelos obstáculos das pedras e dos troncos
caídos. Ampliava-se ainda mais com as impetuosas e ondulantes torrentes
que fluíam da neve derretida de alpinos e gelados montes que não pareciam
distantes, tão brancos como se estivessem sob o frio signo de Pan.18
Na minha assustada fuga dera muitas vezes com ela e achava ali uma
pouca de luz algo escura, porque as altas árvores abriam em parte suas copas
sobre o rio lamacento e via-se o céu lacerado pelos galhos, uns frondosos,
outros secos: lugar terrível para um homem que se achava só e perdido,
enxergando a outra margem ainda mais escura e inexpugnável do que esta
Assustava-me ouvir às vezes a ruína gemente das árvores e o fragor dos
ramos e o quebrar crepitante dos troncos, que ressoavam com redobrado e
aterrador estrépito por bom tempo, em meio à espessura das árvores e do
reduzido espaço.
E querendo eu, Polifilo, apavorado e aflito, fugindo de tamanho horror,
colher as desejadas águas sobre as verdes margens, pondo-me de joelhos e
fechando os dedos fiz jeitoso recipiente para beber, que introduzi na fonte e
enchi de água para ofertá-la à secura de meu peito ardente. Aquelas gratís-
simas e frescas margens eram-me então mais agradáveis do que o Hipane e
o Ganges aos hindus, o Tigre e o Eufrates aos armênios, o Nilo aos etíopes,
e sua inundação, que embebe a terra tórrida, aos egípcios, e o Eridano aos
povos lígures. Nem foi tampouco agradável ao pai Libero a fonte que lhe
mostrou o carneiro fugitivo. Eis que, mal tive a apetitosa água encerrada
no oco de minhas mãos e à aproximava de minha boca aberta, quando
naquele exato instante ouvi um canto dórico — que não me parece possível
o tivesse inventado nem o próprio Tamiras, o trácio —, o qual, penetrando-
-me pelo cavernoso labirinto de meus ouvidos, calou-se doce e harmonioso
em meu inquieto coração. Suas vozes não eram terrestres e sua harmonia,
sua incrível sonoridade e inusitada proporção eram, ai de mim!, maiores do
quanto imaginar-se possa, porque sem dúvida superava as possibilidades
da narração. Sua doçura e o deleite que proporcionava pareciam-me mais
prazerosos do que a bebida que ia levar aos lábios: quase fora de mim, com
o raciocínio estupefato e o apetite adormecido, abri os dedos que retinham
a água e ela tombou no úmido solo.
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Então, como animal que, cego pela enganadora isca, não percebe o
engodo oculto, deixando de lado minha sede natural, caminhei incontinenti
e a toda pressa em direção daquelas notas sobrenaturais. Mas quando tudo
indicava que chegara a elas, eu as ouvia noutra parte, e quando a alcançava,
pareciam estar numa terceira. E da mesma forma que me mudava de lugar,
também, cada vez mais suave e deliciosa se transmutava a voz em harmonias
celestiais. E por essa vã fadiga e tamanha corrida e por estar assaz sedento,
senti-me tão débil que mal podia suster em pé meu corpo exausto. Minhas
forças transtornadas eram já impotentes para manter o corpo gravemente
enlanguecido, e dada a sede urgente, a ansiedade profunda e o calor, ademais
de abandonado de minhas forças naturais, não desejava nada além de dar
tranquilo repouso aos membros debilitados; estava maravilhado pelo que me
vinha ocorrendo e idiotizado pela voz melíflua, e muito mais por encontrar-
-me numa região desconhecida e selvagem, ainda que formosa.
Além disso, causava-me profunda dor ter perdido de vista a fonte tão
arduamente encontrada e que eu buscara com tanto empenho. Devido a isso
tudo, achei-me de ânimo perplexo e mui ensimesmado. Por fim, apoderando-
-se de mim grande cansaço, o corpo inteiramente estremecido de calafrios
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e abatido, sentei-me na relva úmida sob uma azinheira rude a velhíssima,
abundante em frutos farinhentos e encerrados em cápsulas, desdenhados
pela fértil Caônia, de ramos frondosos, amplos e nodosos, que davam sombra
fresca, e de tronco oco elevando-se no meio do prado espaçoso e verdejante.
Recostado sobre o braço esquerdo, aspirava debilmente com os lábios gretados
a brisa fresca, mais ansioso que o cervo fugitivo que, mordido nos flancos
pelos ferozes cães e o peito ferido de uma flecha, apoiada entre os ombros a
poderosa cabeça enramada de cornos, incapaz já de suster-se em pé, cai de
joelhos exausto e moribundo. Jazendo assim em semelhante agonia, medi-
tava profundamente sobre os fios intrincadíssimos da volúvel Fortuna e os
encantamentos da maléfica Circe, perguntando-me se não fora enfeitiçado
por suas fórmulas, ou se contra mim não fora usada a roda mágica.19 Diante
de tais e tamanhos sustos que me assaltavam, pensava como poderia achar
ali, entre ervas tão diversas, a mercurial moly20 com sua raiz negra, que me
valesse de ajuda e medicamento. E dizia-me em seguida: "Isto não é a morte,
mas o que é se não o retardamento dela, tão desejada por mim?"
Perdido, pois, nestas perniciosas agitações, eram parcas minhas forças
e julgava não encontrar salvação alguma, afora receber e aspirar frequente
e profundamente a brisa fresca, acumulá-la e acalentá-la no peito, onde
palpitava ainda um pouco de calor vital, exalando-a depois para fora com
a ávida garganta. Mantendo-me desse modo semivivo, colhia como último
refrigério as folhas que se haviam mantido úmidas do orvalho sob a azinheira;
e levando-as aos pálidos e ásperos lábios, lambia e chupava-as avidamente
para refrescar um pouco meu paladar sedento; desejava então que Hipsípila
me mostrasse a fonte Lângia, como fizera aos gregos. Pensativo, suspeitava
que, talvez, sem dar-me conta, mordera-me a serpente Dipsa21 na vasta sel-
va, tão insuportável era minha sede. Por último, renunciando à fastidiosa
vida e condenando-a, perplexo e alienado por terríveis pensamentos, quase
enlouqueci. Novamente, sob a sombra da azinheira, cuja larga opacidade dos
ramos era assaz atrativa, fui presa de grande sono, e espalhando por meus
membros doce torpor, pareceu-me que outra vez adormecia.

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[ I I I ]
POLIFILO CONTA AQUI QUE TEVE A IMPRESSÃO DE NOVA-
MENTE ADORMECER, ENCONTRANDO-SE EM SONHO NUM VALE
CUJO EXTREMO ERA ADMIRAVELMENTE BLOQUEADO POR
PORTENTOSA PIRÂMIDE DIGNA DE APREÇO, TENDO NO CIMO
ELEVADO OBELISCO. E CONTA QUE EXAMINOU TAIS COISAS SU-
TILMENTE, COM CUIDADO E PRAZER.

aído da espantosa selva e do espesso


bosque e tendo abandonado os demais
lugares a que antes me referi, com o doce
sono que se espraiara por meus fatigados
e abatidos membros, encontrei-me de
novo noutro lugar, porém mais agradável
que o anterior. Não estava rodeado de
montes ásperos e rochedos salientes, nem
interrompido por penhascos e sarças; ao
contrário, rodeava-se harmonicamente de

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colinas de moderada altura, cobertas de jovens azinheiras, robles, freixos,
bétulas, carvalhos frondosos, tênues avelaneiras, amieiros, tílias, bordos e
zambujeiros, dispostos de acordo com a altura das colinas. Na planície ha-
via agradáveis bosquezinhos de outros arbustos silvestres, floridas giestas e
diversos tipos de plantas mui verdes. Vi aqui codessos, cariços, cerintas, pa-
naceias almiscaradas, ranúnculos, ervas de cervos e arrudas, e outros vários
arbustos e flores igualmente nobres e muitos outros úteis e desconhecidos,
espalhados pelos prados. Toda essa festiva região oferecia-se abundantemente
engalanada de verde. Em seguida, pouco mais além de sua metade, encontrei
uma praia arenosa e de pedregulhos, semeada esparsamente de touceiras de
ervas. Exibiu-se aqui aos meus olhos alegre palmeiral, de folhas pontiagudas
como lanças, tão úteis aos egípcios e abundantes de dulcíssimo fruto. As pal-
meiras, carregadas de cachos, tinham diferentes tamanhos: umas pequenas,
muitas médias e outras altas e retas, símbolo escolhido para representar a
vitória pela resistência que oferecem ao peso envergador. Tampouco neste
lugar encontrei habitantes ou qualquer animal; mas perambulando solitário
entre as belíssimas palmeiras, que não se amontoavam, guardando antes
intervalo entre si, e pensando que as de Arquelaida, Faélida e Líbia não se
lhes podiam comparar, eis que me surge pela direita faminto e carnívoro
lobo de boca cheia. Sua visão fez-me eriçar os pelos de imediato, e embora
quisesse gritar, faltou-me a voz. Mas, repentinamente ele se afastou.
Em parte refeito, erguendo os olhos para o lado onde as colinas
pareciam juntar-se, vi ao longe incrível elevação em forma de torre ou de
altíssima atalaia e enorme construção que, embora ainda imperfeitamente
exposta, parecia obra e estrutura antigas. Os graciosos montículos do vale
elevavam-se cada vez mais na direção deste edifício e eu os via unidos a ele,
que fechava o espaço entre dois deles. Julgando aquilo mui merecedor de ser
visto, dirigi sem hesitar para lá meus passos e quanto mais me aproximava,
mais descobria que era obra ingente e magnífica, redobrando-se meu desejo
de admirá-la, apesar de que já me não parecia elevada atalaia, e sim talvez
altíssimo obelisco erguido sobre enorme monte de pedras.
Sua altura excedia sem comparação o pico dos montes circundantes e
de qualquer montanha célebre que tenha existido, seja o Olimpo, o Cáucaso
ou o Cileno. Ao chegar ávido a esse lugar deserto, tolhido pelo indizível prazer

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de poder contemplar livremente tão grande atrevimento da arquitetura,
a imensidade da construção e sua formidável altura, detive-me a admi-
rar e considerar todo o volume e corpulência desta fragmentada e meio
destruída estrutura de límpido mármore de Paros. Suas pedras lavradas
cúbicas e retangulares estavam unidas sem cimento, dispostas e ajustadas
em perfeita união, tão polidas e marcadas nas bordas de vermelho, que
nada de mais perfeito se poderá ter feito, porquanto entre as junções
não penetraria o objeto mais sutil e delgado. Encontrei ali colunas tão
nobres, de todas as formas, linhas e materiais como não se pode sequer
imaginar, umas derruídas, outras conservadas intatas em seu lugar, com
capiteis e arquitraves de exímia invenção e árduo trabalho de escultura;
cornijas, zoóforos ou frisos, arquitraves curvas, grandes fragmentos de
estátuas, privadas dos membros brônzeos e perfeitos; nichos, conchas
e vasos de pedra númida, de pórfiro e de diferentes mármores, grandes
tanques, aquedutos e outros quase infinitos fragmentos de nobre escultu-
ra, cujo primitivo estado era praticamente impossível reconstruir em sua
integridade, reduzidos que estavam quase a sua matéria primitiva apenas
desbastada, caídos e espalhados pelo solo aqui e ali.

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Sobre tais ruínas destroçadas e no meio delas tinham crescido mui-
tas ervas silvestres, principalmente o tremoceiro, difícil de romper, com
suas sementes em forma de feijão, e os dois tipos de lentisco, e a garra
de urso e o cinéfalo e a assa-fétida, a clematite e a rubra centáurea, e
muitas outras que costumam medrar nas ruínas; e nos muros derruídos
muitas ervas, a trepadeira cimbalária, ademais de pequenos arbustos de
sarças espinhentas. Entre elas serpeavam alguns lagartos, e muitas vezes
também sobre os muros cobertos de arbustos daqueles lugares desertos e
silenciosos, no começo assustando-me um pouco, dado meu nervosismo.
Havia em muitos pontos fragmentos de superfície encurvada de ofito e
pórfiro, da cor de coral e de muitos outros tons agradáveis, e pedaços
de figuras de feitio redondo e a meio relevo, indicando sua excelência e
apregoando, sem cometer injustiça a nossa época, que aqueles antigos
haviam alcançado a perfeição na arte. Tendo-me achegado da parte cen-
tral na frente da grande e nobre obra, vi uma porta intacta, admirável e
conspícua, proporcional ao resto do edifício situado entre um e outro dos
montes derruídos, cuja dimensão podia conjecturar-se de vista que era de
seis estádios e vinte passos.
As encostas dos montes estavam ajustadas perpendicularmente do
pico ao pé, o que me pôs mui pensativo quanto à espécie de instrumen-
tos de ferro e com quanta fadiga de braços humanos, com que vigor, foi
realizado tal e tão grande artifício, incrivelmente trabalhoso e que deveu
consumir imenso gasto de tempo. Aqui, como digo, esta admirável cons-
trução unia-se, com calculada junção, a um e outro monte, união essa que
fechava o vale, de modo que ninguém podia dele sair, tendo que retroceder
ou entrar pela porta aberta. Sobre essa ingente obra de construção, cuja
altura, de seu coroamento até a base ou estereóbata, calculei que podia
ser perfeitamente de um quinto de estádio, erguia-se uma pirâmide em
forma de ponta de diamante, que era portentosa. Em a vendo, arrazoei
que nunca se pôde conceber e levantar tão incrível artefato, a não ser
com incomensurável gasto de dinheiro e tempo e enorme quantidade de
homens. Por isso, se eu considerava impossível avaliar sua imensidão —
tamanha que, ao olhá-la a vista se extenuava e os demais sentidos se
obnubilavam —, quão mais árduo e esgotante não teria sido construí-la?

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Tratarei agora de descrevê-la o mais brevemente e da melhor maneira de
que for capaz minha inteligência.
Cada uma das faces do perímetro do plinto situado sob o arranco das
grades da admirável pirâmide colocada sobre o edifício, que antes mencionei,
media seis estádios de cumprimento que, multiplicados pelos quatro lados,
dão vinte e quatro estádios, dimensão de todo o perímetro do plinto. Quanto
à altura, traçando de cada ângulo das linhas com a mesma medida que a
linha inferior do plinto e agrupando-as convenientemente no vértice superior,
constituíam a figura piramidal perfeita: a perpendicular sobre o centro das
diagonais do plinto media cinco sextos das linhas ascendentes.
Esta imensa e formidável pirâmide alçava a ponta de diamante em
grade de admirável e insólita simetria, tendo mil quatrocentos e dez de-
graus, menos dez deles, destinados a terminar em ponta. Em lugar destes,
situava-se maravilhoso cubo sólido e estável de monstruosa magnitude, da
mesma pedra de Paros que os degraus, colocado incrivelmente a tal altura,
que era base e suporte do obelisco. Esta desmesurada pedra, maior que o
disco arremessado pelo Tídida, descia num perímetro de seis partes; dois
na baixada e um no plano da parte superior, com uma largura de quatro
passos de diâmetro. Em sua face superior erguiam-se quatro pés de harpia,
com pelos e unhas nas sapatas, fixos e firmemente aprumados nos ângulos
sobre as linhas diagonais, com altura de dois passos e largura proporcional.
Estes, entrelaçando-se belissimamente, fundidos com admiráveis folhagens,
frutos e flores de tamanho adequado, formavam um anel que unia o cubo a
enorme obelisco. Sobre eles elevava-se o obelisco, firmissimamente sobreposto.
Sua largura
era
de dois passos e a altura
de sete, adelgaçando-se para a ponta,
de acordo com as regras da arte. Era feito
de granito vermelho de Tebas e em suas faces havia
hieróglifos egípcios notavelmente esculpidos; era liso,
puro e lustroso
como
espelho.

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Em sua ponta, sobreposta com grande habilidade e arte, descansava
uma base de oricalco na qual havia ainda uma máquina giratória em forma
de cupulazinha fixada sobre um perno ou eixo que sustentava a imagem de
uma ninfa, obra elegante do metal antes mencionado, capaz de encher de
espanto a quem a olhasse atenta e demoradamente. Suas proporções eram
tão calculadas que permitiam vê-la, mirando-a por baixo, em tamanho na-
tural suspensa no ar. Além da dimensão daquela estátua, coisa que enchia
de admiração era considerar com que ousadia fora erguida e posta no ar a
tal altura. Suas vestes esvoaçantes deixavam descoberta parte da barriga
das pernas, e duas asas abertas prendiam-se entre seus ombros, simulando o
ato de voar. Seu belíssimo rosto e olhar benévolo voltavam-se para as asas.
Tinha o cabelo ajustado na fronte, em mechas que esvoaçavam livremente,
e parte do crânio e da nuca lisa e sem cabelos; sua cabeleira estendia-se no
sentido do voo. Em sua mão direita, oposta ao seu olhar, sustinha artística
cornucópia cheia de todos os bens, virada para a terra; com a outra mão
apertava os seios nus. Esta estátua girava facilmente de um lado para outro,
segundo soprava a brisa, com tal chiado da engrenagem da oca máquina
metálica como nunca se ouviu no erário romano. E onde seus pés roçavam
o pedestal em que se assentavam, produzia-se um bimbalhar superior ao do
campanário das termas de Adriano e ao daquele situado sobre as cinco pirâ-
mides. Não creio em absoluto que este altíssimo obelisco possa comparar-se
nem igualar-se a nenhum outro, sequer com o vaticano, o alexandrino ou
os babilônicos. Acumulava em si tantas maravilhas, que eu estava absorto
contemplando-o, pleno de insensato estupor; acima de tudo, maravilhava-
-me a imensidade da obra e a abundância e sutileza do fecundo e ingente
engenho e o grande cuidado e a insólita diligência do arquiteto, pois, com
que temerária invenção artística, com que valor e força humana, ordem e
gasto incrível pôde erguer no ar tamanho peso, rivalizando com o céu? Com
quais alavancas, com quais roldanas, com quais gruas e polispásios e outras
máquinas de tração e bem articuladas armações? Mantenha-se silenciosa
diante desta qualquer outra incrível e grandiosa construção.
Voltemos, pois, à vastíssima pirâmide, sob a qual jazia ingente e só-
lido plinto ou embasamento ou prisma quadrangular de catorze passos de
altura e seis estádios de cumprimento ou longitude, e sobre ele se erguia a

74
escadaria inferior da enorme pirâmide. Eu pensava que não fora trazido aqui
por indústria humana, e sim esculpido por ação desta no próprio monte,
e reduzida sua grande massa àquela figura e esquema no mesmo lugar. O
restante dos degraus estava feito habilmente com blocos de pedra.
Aquele imenso prisma não se juntava com as montanhas colaterais do
vale; mas, à minha direita, havia para cada lado do plinto espaços vazios
de dez passos. Em sua metade esculpia-se atrevida e perfeitamente a cabeça
com serpentes da espantosa Medusa, de expressão vociferante e grunhidora
como uma fúria, com os olhos aterrorizantes encavados sob as contraídas
sobrancelhas, tendo a fronte sulcada de rugas e a boca enorme e comple-
tamente aberta. Esta boca estendia-se por uma rua reta e abobadada, que
penetrava até o centro ou até a linha central perpendicular traçada desde o
vértice da vistosa pirâmide, da qual era amplíssimo ingresso e entrada. A
esta abertura da boca subia-se pelos seus emaranhados cabelos, realizados
pelo artesão com incrível sutileza de inteligência e de arte, e esbanjamento
da imaginação, com tal regularidade e perfeita adaptação, que formavam
perfeitos degraus para subir à boca aberta.
Em lugar das tranças encaracoladas como anéis, eu via admirado
que as víboras e retorcidas serpentes, em vivazes e ingentes
espirais, enrolavam-se confusamente em torno da
monstruosa cabeça, formando magníficos
caracóis. O rosto e as briguentas
serpentes escamosas
estavam
esculpidas em
trabalho tão perfeito,
que me provocaram não
pequeno horror e espanto; em
seus olhos incrustavam-se pedras
duras mui reluzentes, de sorte que, se
eu não estivesse certo de que o material
era mármore, não me teria atrevido a aproximar-me
com tanta
despreocupação.

75
A rua de que falei, esculpida na rocha, levava a tortuosa escada
em caracol, situada no centro, pela qual se subia ao altíssimo pico da
pirâmide, à superfície do cubo de onde se erguia o obelisco. Afora toda
essa notável e maravilhosa obra, julguei de máxima excelência que o
citado caracol estivesse iluminado claramente em todas as partes, uma
vez que o engenhoso e agudíssimo arquiteto fizera argutamente algumas
aberturas para a luz, com grande e insólita inventiva, em três partes
— inferior, central e superior — correspondentes à posição do sol em seu
curso: a inferior estava iluminada pelas aberturas de cima; a superior
pelas de baixo; e alguns reflexos de luz iluminavam suficientemente as
partes opostas. Tão bem calculada foi a regra da insólita disposição do
sábio matemático nas três faces — oriental, meridional e ocidental — que
a qualquer hora do dia a escada estava iluminada e clara, já que as
aberturas estavam estabelecidas e distribuídas aqui e ali, simetricamente,
em diversos lugares da enorme pirâmide.
Cheguei à parte da mencionada abertura da boca subindo por outra
sólida e reta escada, escavada na mesma rocha, no embasamento inferior
do edifício, à direita, do lado da montanha cortada, onde se achava o
intervalo dos dez passos; subi por ela certamente com mais curiosidade
do que talvez me fosse lícito. Quando finalmente atingi o ponto da es-
cada junto da boca, subindo não sem grande esforço e vertigem pelos
intermináveis degraus da altíssima escada em caracol, meus olhos não
suportavam olhar para baixo, e todas as coisas inferiores pareciam-me
imperfeitas. Por isso não me atrevia a sair do centro. E aqui, à volta
da saída superior ou final e entrada da sinuosa escada, achavam-se dis-
postos e fixos em círculo muitos balaústres de metal em forma de fuso
de meio passo de altura e de um pé de intervalo de centro a centro. Na
parte de cima eram rodeados em toda a volta por moldura ondulada22
do mesmo metal. Os fusos cercavam e fechavam a borda da abertura e
o vazio da saída superior da escada, exceto na parte pela qual se saía
para a superfície, de modo que nenhum incauto se precipitasse pelo agu-
lheiro da sinuosa caverna — coisa fácil, porquanto a desmesurada altura
produzia vertigem. Na base do obelisco estava fixada uma tabuleta de
bronze com antiga inscrição em caracteres nossos, gregos e árabes, que

76
me fez compreender que ele era dedicado ao Sol supremo. Igualmente
as medidas de toda a enorme estrutura estavam anotadas e descritas; e
no obelisco, o nome do arquiteto, em grego:

Voltemos à laje ou pedestal situado sob a pirâmide, em cuja frente vi


elegante e magnífica escultura de cruel gigantomaquia, a que faltava uni-
camente o sopro vital: relevo de admirável execução, com tal movimento e
tanta vivacidade em seus magníficos corpos, que supera a quanto se possa
contar. O imitado, êmulo da natureza, estava expresso com tanta propriedade,
que os olhos e os pés cansavam-se, correndo avidamente de um lado para o
outro. Não de modo diverso24 acontecia com os vividos cavalos: uns estavam
deitados no solo, outros caindo ao correr, outros, feridos e golpeados, pareciam
despedir-se da grata vida e, fincando penosamente os cascos sobre os corpos
caídos, estavam furiosos e de bocas escancaradas. Quanto aos Gigantes, depois
de lançar as armas de arremesso, abraçavam-se estreitamente uns com os
outros; uns eram arrastados com os pés presos nos estribos, outros tinham os
corpos pesadamente esmagados, e alguns caíam feridos dos cavalos; outros,
derrubados, boca para cima, lutavam protegendo-se com o escudo; muitos
portavam couraças e cinturões dos quais pendiam espadas (algumas delas
como as antigas usadas pelos persas) e variados instrumentos de aspecto
mortífero. Em sua maior parte eram de infantaria e batalhavam confusa-
mente com lança e escudo; alguns levavam loriga e capacete, com a cimeira
decorada de diferentes insígnias; outros vinham desnudos, gritando com
ânimo valoroso, dispostos a morrer; outros, portando couraças engalanadas
de distintos e nobilíssimos ornamentos militares. Muitos figuravam gritando
formidavelmente; outros, com ar obstinado e furioso; outros, moribundos,
num silêncio que expressava a ação da natureza; e por último, os mortos,
todos entre múltiplas e jamais vistas máquinas bélicas e mortíferas. Tinham
expostos os robustos membros e os músculos inchados e exibiam aos olhos
a ação dos ossos e os cortes onde se estiravam os rígidos tendões. Esta luta

77
parecia tão espantosa e horrível, que se diria que o cruel Marte, de poderosas
armas, estava ali presente, lutando contra Porfirião e Alcioneu, e trazia à
lembrança a fuga que empreenderam ao ouvir o zurrar do asno. Todas estas
figuras eram de tamanho e altura superiores ao normal e destacavam-se com
perfeição. O relevo da escultura era de claríssimo mármore resplandecente
e o plano do fundo de pedra escuríssima, empregado para reforçar a beleza
e graça da pedra branca e para realçar a obra esculpida. Em suma, havia
aqui infinitos corpos magníficos, esforços supremos, atos violentos, atavios
militares, diversos tipos de mortes e uma vitória incerta. Ai de mim! — o
espírito exausto, a inteligência confusa e os sentidos anuviados por tamanha
diversidade são impotentes não apenas para narrar o conjunto como para
expressar cabalmente uma única parte de tão perfeita obra escultórica.
Além disso, de onde se originou tanta audácia e tão ardente desejo
de juntar e sobrepor pedras em semelhante amontoado, acúmulo e altura?
Com qual meio de transporte, com quais carregadores, com que carros, com
quais rodas foi transportada tal quantidade de pedras? E sobre qual base
foram agrupadas e empilhadas? E com quais cimentos se erigiram o altíssimo
obelisco e a imensa pirâmide? Jamais Dinócrates se mostrou mais portentoso
nem propôs a Alexandre Magno semelhantes dimensões para sua altíssima
invenção no Monte Athos. Porque esta amplíssima estrutura ultrapassa
sem dúvida a insolência egípcia e supera os maravilhosos labirintos. Cale-se
Lemnos, emudeçam os teatros, não se lhe compare o elogiado mausoléu,
pois esta obra certamente não foi do conhecimento de quem descreveu os
sete milagres ou maravilhas do mundo, nem nunca em século nenhum se
viu nem imaginou semelhante coisa, diante da qual cabe guardar silêncio,
inclusive a respeito do admirável sepulcro de Nino.
Por último, punha-me a considerar atentamente que oposta e obstinada
resistência teriam que exercer as abóbadas inferiores para suster e suportar
tamanha carga e peso tão intolerável, ou que tipo de pilares hexagonais ou
tetragonais, ou que colunas anãs de sustentação existiriam por baixo. Assim
refletindo, achei razoável concluir que ou tudo fazia parte da própria mon-
tanha, ou que se formava de uma mistura de formigão, cascalho e pedre-
gulhos. Para averiguar onde estava a verdade, olhei através da ampla porta
e vi que havia no fundo densa penumbra e uma concavidade. No capítulo

78
seguinte descreverei brevemente a disposição nobre desta porta bem como
o admirável e soberbo edifício, coisas dignas de memória eterna.

[ I V ]
POLIFILO, DEPOIS DE TER FALADO A RESPEITO DE PAR-
TE DA IMENSA ESTRUTURA E DA VASTÍSSIMA PIRÂMIDE E AD-
MIRÁVEL OBELISCO, NESTE CAPÍTULO DESCREVE GRANDES
E MARAVILHOSAS OBRAS, PRINCIPALMENTE UM CAVALO, UM
COLOSSO DEITADO E UM ELEFANTE, MAS EM ESPECIAL UMA
ELEGANTÍSSIMA PORTA.

ícita e justissimamente se me pode per-


mitir dizer que em todo o mundo jamais
se conceberam nem viram olhos humanos
outras obras semelhantes a estas em mag-
nificência. E quase me atreveria a dizer
que tamanha ousadia na edificação e tais
artifícios não puderam ser executados,
nem sequer concebidos, pelo conhecimento
das forças humanas. Meus sentidos
estavam tão cativados e estupefatos pelo
prazer desta intensa e obstinada contemplação,
que não ocorriam à minha furtiva memória senão pensamentos prazerosos e
alegres. Olhava com empenho e curiosidade todas as partes que tão bem se
ajustavam no formoso conjunto, examinando a puríssima execução daquelas
excelentes e exímias estátuas de pedra, quando, em súbita excitação, suspirei
soluçando ardentemente.
E meus suspiros amorosos e sonoros ressoavam neste lugar solitário,
deserto e de ar rarefeito, ao recordar-me de minha divina e desmesurada-
mente desejada Polia. Coitado de mim! Pouco tempo decorrera sem que
aquela amorosa e celestial Ideia acudisse como fantasma à minha mente e
me acompanhasse em meu desconhecido caminhar. Nela se aninhava cali-
damente minha alma, sentindo-se tão segura como se protegida em reduto
ou em inviolável asilo. E tendo desse modo chegado a semelhante lugar
79
onde meus olhos estavam enlevados e ocupados na contemplação das abun-
dantes e nobres obras antigas, admirei sobretudo uma belíssima porta, tão
encantadora, de tão incrível arte e de linhas tão elegantes, que nunca se
pôde construir e acabar-se coisa igual. Não tenho conhecimentos suficientes
para poder descrevê-la perfeitamente, em especial porque em nossa época
os termos vernáculos, familiares, nativos e específicos da arquitetura estão
mortos e enterrados com os verdadeiros homens. Ó execrável e sacrílega
barbárie, como invadiste e espoliaste a parte mais nobre do precioso tesouro
e sacrário latino, e fizeste que a arte, antes julgada tão digna, esteja agora
obscurecida e ofendida por injuriosa ignorância? Esta ignorância, associada
com a murmuradora, insaciável e pérfida avareza, cegou a arte na parte que
fez de Roma a sublime e peregrina imperatriz.
Diante desta egrégia porta (penso que devo dizer isto primeiro), ha-
via uma praça quadrangular a céu aberto, de trinta passos de diâmetro,
admiravelmente pavimentada de lajes quadradas de mármore, separadas
umas das outras por cintas de outra pedra de diferente adorno, formando
diversos desenhos e arabescos de cores distintas. Este pavimento achava-se
arruinado em muitas partes e coberto de ervas daninhas. Nos extremos do
pátio, à direita e à esquerda, paralelas às montanhas, viam-se duas ordens
de colunas no mesmo nível, com intervalos justos entre cada coluna, segundo
exigência do estilo areóstilo,25 que fora insolitamente aplicado. A primeira
ordem iniciava-se em ambas as partes à beira ou extremo do pavimento,
na metopa26 ou frente da grande porta; entre uma coluna e outra havia um
espaço de quinze passos. A maior das colunas estava intata, com os capitéis
dóricos ou em forma de almofadão, com os vórtices ou volutas em forma de
caracol pendentes de ambos os lados sobressaindo dos equinos em forma de
anel e com os astrágalos aplicados em baixo, mediando esta parte um terço
do capitei, cuja largura era um semidiâmetro da coluna. Sobre os capitéis
repousava o epístilo (ou arquitrave) reto contínuo, em sua maior parte frag-
mentado e interrompido. Muitas colunas estavam despojadas de seus capitéis
e sepultadas sob as ruínas até sua parte superior e saliente do astrágalo, do
hipotraquélio e da hipótesis.27 Seguindo o curso da colunata, subsistiam ainda
antigos plátanos e louros silvestres, ciprestes e sarças espinhosas. Eu suponha
que aquilo fora um hipódromo ou um pórtico ou pista de corridas ou um

80
passeio com galeria ou ambulacro ou ampla extensão de pórticos hípetros ou quiçá o
lugar de um canal temporário como os dos circos.28
Nesta praça, a dez passos da porta, vi um cavalo alado e saltador,
de tamanho enorme, com as asas de bronze abertas. Sobre a superfície do
pedestal seu casco ocupava cinco pés em círculo, e desde o círculo inferior
do casco até debaixo do peito, nove pés, guardadas as devidas proporções.
Tinha a cabeça livre e sem freio, com duas orelhas pequenas, uma adianta-
da outra para trás, e as crinas onduladas e abundantes caíam sobre a parte
direita de seu pescoço. Muitos meninos tentavam cavalgar sobre seu lombo
e nenhum o conseguia manter-se nele devido a sua velocidade e violentas
sacudidelas: uns caíam e outros já estavam caídos, uns de bruços, outros de
costas; outros subiam agarrando-se; uns se apegavam inutilmente com as
mãos nas longas crinas; outros, caídos, tentavam levantar-se sob o corpo
daquele que os havia derrubado.

81
Na superfície do pedestal estava fixada com chumbo uma prancha do
mesmo metal, que continha os cascos do cavalo e os garotinhos caídos: toda
a composição e massa fora fundida junta com admirável arte de fundição.
Nenhum ginete conseguira ainda montar semelhante cavalgadura, pelo que
as estátuas dos meninos pareciam doloridas e cansadas. E se não se podiam
ouvir seus lamentos, era apenas por serem inertes, porque o artista não
pudera inspirar-lhes o alento vital: tão otimamente imitavam a verdade da
natureza. Diante desta, submeta-se, pois, a obra do agudo engenho do impru-
dente Perilau e a do judeu Hiram29 e a de qualquer outro grande bronzista.
Aqui o artista dava a entender que os meninos entravam de modo infeliz
pela porta escancarada.
O pegma ou pedestal era maravilhoso: de largura, altura e comprimento
adequados para sustentar a máquina que tinha por cima, era feito de um
único bloco de mármore com veios de diferentes cores e manchas esparsas,
agradáveis à vista, dispostas confusamente em infinitas misturas. Na frente
dessa pedra que dava para a porta, vi aplicada uma coroa de mármore verde,
formada de folhas do amargo aipo, mescladas com outras de funcho. Dentro
dela incrustava-se um círculo de pedra branca, tendo gravada esta inscrição
em maiúsculas latinas: DEDICADO AO DEUS AMBÍGUO. Semelhantemente, na face
oposta, havia uma coroa de folhas do mortal acônito, com esta inscrição:
CAVALO DA INFELICIDADE.

82
Do lado direito estavam cinzeladas algumas figuras de homens e jovens
dançando, cada uma com dois rostos: o da frente risonho e o posterior cho-
rando. Bailavam em círculo, um braço de cada homem passando sob o da
mulher e o outro por cima. Assim enlaçados, marchavam um após o outro,
de sorte que sempre um rosto alegre estava voltado para o triste da pessoa
precedente. Eram sete homens e sete mulheres, tão perfeitamente esculpidos,
com seus movimentos vivazes e o esvoaçar das vestes, que não acusavam
seu hábil artífice de outro defeito a não ser o de não ter dado voz a uns e
lágrimas a outros. Este egrégio círculo entalhava-se dentro de uma figura
delimitada por dois semicírculos.30

Sob esta figura oval vi escrita a seguinte palavra: TEMPUS. Vi em se-


guida que noutro lado havia muitos adolescentes que se dedicavam a colher
flores em meio a diversas ervas e arbustos, e com eles muitas lindas ninfas,
que gracejavam alegres e lhes arrebatavam carinhosamente as flores. Era obra
perfeita do mesmo artista da anterior, enquadrada na mesma figura, belissi-
mamente emoldurada, estando as molduras de ambas revestidas de insólita
folhagem. Sob ela, da forma que já mencionei, havia algumas maiúsculas

83
gravadas formando esta única palavra: AMISSIO. Eram exímias letras, cuja
largura fora obtida da nona parte e algo mais do diâmetro do quadrado.
Assaz estupefato, eu meditava e admirava curioso e sumamente satis-
feito aquele artefato gigantesco, fundido em forma de animal pelo engenho
humano, digníssima invenção em que cada membro participava perfeitamente
da egrégia harmonia e coesão do conjunto. Olhando-a, veio-me à mente o
funesto cavalo Seiano.31
Ofuscado que estava por mistério tão elaborado, apresentou-se-me em
seguida aos olhos o espetáculo não menos admirável de enorme elefante, e
senti forte desejo de dirigir-me para ele. Eis, porém, que escutei alhures um
gemido humano, como de enfermo, e detive-me de cabelos eriçados. Apres-
sando os passos em direção do gemido sem outro pensamento, subi por um
monte de ruínas e de grandes fragmentos de mármore. Achegando-me, vi
enorme e espantoso colosso de pés descalços e perfurados, tendo as pernas
esburacadas e vazias; voltando-me com horror para sua cabeça a fim de
inspecioná-la, deduzi que a brisa, introduzindo-se por suas abertas plantas
dos pés, divina invenção, provocava a emissão do gemido. O colosso jazia no

84
solo de boca para cima e estava fundido em metal com admirável habilidade.
De mediana idade, erguia-se um pouco graças à almofada em que apoiava
a cabeça. Tinha aparência de enfermo e a boca aberta dava a entender
suspiros e gemidos; sua altura era de sessenta passos. Podia-se galgar por
seus cabelos até o peito; e pelos crespos e revoltos pelos da espessa barba
chegava-se à boca aberta em lamento. Ele era inteiramente escavado e oco
e eu, estimulado pela curiosidade e sem hesitar, meti-me em sua boca, desci
os degraus de sua garganta até o estômago, chegando depois, algo espavo-
rido, através de escuros corredores, a todas as demais partes das vísceras
internas. Que espantosa invenção! Vi todas as partes internas expostas,
como num corpo humano, cada uma com sua denominação escrita em três
idiomas — caldeu, grego e latim: intestinos, nervos, ossos, veias, músculos e
carne, e a enfermidade que em cada uma delas ocorre, e sua causa, cura e
remédio. Tinha-se acesso e cômoda entrada a todas as retorcidas vísceras,
com claraboias esparsamente distribuídas por todo o corpo para iluminar os
lugares convenientes; não lhe faltava nenhuma parte das que compõem um
corpo natural. Ao dedicar-me ao coração, li como se originam os suspiros de
amor e onde se corrompe gravemente o amor. Comovidíssimo, arranquei do
mais fundo de meu coração lamuriento suspiro, invocando Polia — suspiro
que, não pouco horrorizado, ouvi ecoar por todo o engenho de bronze. Sua
arte insólita ensinava como é o homem, mesmo sem se saber anatomia. O
preclaros gênios passados, ó idade verdadeiramente áurea, quando a virtude
ajustava-se com a fortuna! Para este século deixaste como herança apenas
a ignorância e sua rival a avareza!
Dirigindo-me a outra parte, vi a fronte de uma cabeça feminina, do
tamanho que antes indiquei, algo descoberta entre as ruínas, tendo o restante
sepultado entre grandes blocos. Julgando que seria de execução semelhante
ao colosso, não me detive a olhá-la e retornei ao lugar anterior, temeroso
daquelas ruínas desfeitas e desniveladas.
Não mui distante do grande cavalo e nivelado com ele, oferecia-se à
vista enorme elefante de pedra mais negra que a obsidiana, copiosamente
pontilhada de partículas de ouro e prata como poeira resplandecente. Seu
brilho claro era prova de sua dureza, pois refletia os objetos como um espe-
lho, exceto onde o metal espalhara sua esverdeada ferrugem, já que na parte

85
superior de seu amplíssimo dorso tinha maravilhosa gualdrapa de bronze com
duas cintas que cingiam estreitamente sua monstruosa corpulência. Entre
as duas grandes cintas, preso com fivela da mesma pedra, sustentava-se um
pilar quadrangular que correspondia à largura do obelisco posto sobre o
dorso, uma vez que nenhum peso deve ter por baixo ar ou espaço vazio, se
se pretende sólido e duradouro. O pilar estava belamente subscrito em três
de suas faces com caracteres egípcios. Este monstro, cujo dorso servia de
base para o obelisco, estava esculpido e realizado maravilhosa e habilmente,
segundo as regras da arte da escultura. Sobre a gualdrapa, convenientemen-
te adornado com muitas figurazinhas, cravos, cenas e fantasias, elevava-se,
firmemente preso, esverdeado obelisco de pedra lacedemônia. Seu diâmetro
inferior era de um passo que, multiplicado por sete, dava a altura, em cujo
sentido as faces se adelgaçavam até acabar em ponta; nesta se destacava
fixa redondíssima esfera de material
transparente e lustroso. A enorme besta
situava-se nobremente sobre a super-
fície de grande pedestal de duríssimo
pórfiro cuidadosamente lavrado, com
suas duas enormes presas sobrepostas
e unidas, feitas de pedra alvíssima e
brilhante. Da gualdrapa de bronze
pendia preso egrégio peitoral do mesmo
material, ricamente decorado, em cujo
centro inscrevia-se em latim: O CÉREBRO

ESTÁ NA CABEÇA. De modo análogo, a


junção do pescoço e da cabeça estava
rodeada por magistral faixa da qual
pendia sobre a amplíssima face atrevido
adorno sumamente notável, de bronze,
composto de dois quadrados e de linhas
elegantes. Na superfície, rodeada de
molduras revestidas de folhagens, vi
algumas letras jônicas e árabes, que
diziam assim: TRABALHO E TALENTO.32

86
Sua voraz tromba não tocava a superfície do pedestal: achava-se ergui-
da, algo voltada para a frente; e as orelhas, sulcadas de rugas em forma de
rede, eram larguíssimas e estavam abaixadas, A figura era pouco menor que
o tamanho natural. No perímetro oblongo do pedestal estavam cinzelados
hieróglifos, isto é, caracteres egípcios, e exibia-se adequadamente provido
dos devidos areóbato, plinto, gola, bocel e tróquilo, com seus astrágalos ou
listeis e a cima inversa. No alto tinha gola e colarinho, tróquilos, dentículos
e astrágalos, maravilhosamente proporcionais à largura. Seu comprimento,
largura e altura eram respectivamente de doze, cinco e três passos, tendo
os extremos arredondados. Na parte posterior semicircular desse pedestal
encontrei uma escada de sete degraus que conduzia à parte superior: ávido
de novidade, subi por ela; na coluna quadrangular situada sob a gualdrapa
vi escavada pequena porta, algo assaz surpreendente em matéria tão dura;
levava a um túnel ascendente escavado com habilidade e provido de algumas
barras de metal simulando degraus, pelas quais se podia escalar comodamente
e penetrar no corpo vazio do elefante.
Não cabendo em mim de curiosidade, entrei e subi. Constatei que o
grande e prodigioso monstro estava inteiramente vazio como uma cova,
a menos da referida coluna que o sustentava por baixo e continuava por
dentro, permitindo a passagem de um homem para a cabeça e a parte
posterior. Aqui ardia uma lâmpada inextinguível, suspensa de correntes
de bronze na parte convexa do dorso, proporcionando luz semelhante à de
uma cela; graças a ela pude distinguir nesta parte posterior um sarcófago
antigo, esculpido na mesma pedra, sobre o qual havia uma imagem viril
desnuda e perfeita, de tamanho natural, coroada, de pedra negríssima,
mas com os dentes, olhos e unhas cobertos de prata reluzente. Estava em
pé sobre a tampa abobadada do sarcófago, revestida de escamas, além
de outros estranhos adornos. Apontava para a frente com um cetro de
cobre dourado, segurando na mão esquerda um escudo côncavo em forma
de caveira de cavalo, no qual estava gravada em três idiomas — hebraico,
ático e latino - em letras miúdas, esta frase:

ESTARIA NU SE NÃO ME COBRISSE O ANIMAL.


BUSCA E ENCONTRARÁS. DEIXA-ME.33

88
Este objeto inusitado fez-me ficar não
pouco estupefato e algo horrorizado. Não me
detive ali muito tempo e, voltando-me para
a saída, vi arder e iluminar no outro lado
uma lâmpada semelhante à que já descre-
vi; atravessando então o vazio da subida,
dirigi-me à cabeça do animal. Nesse lado
dei com antiquíssima sepultura do mesmo
tipo da anterior, e sobre ela outra escultura,
mas de rainha: tinha o braço direito erguido,
apontando com o índice a posição de seus
ombros, e com a outra mão segurava uma
tabuleta, apoiada sobre a tampa do sar-
cófago; nela
achava-se ins-
crito em três
línguas este
epigrama:

QUEM QUER QUE SEJAS, APANHA DESTE TE-


SOURO TANTO QUANTO POSSAS.
ACONSELHO-TE, PORÉM, QUE TOMES A CABEÇA
E DEIXES O CORPO.34

Encantado com tamanha novidade, dig-


na de menção, e tendo lido os enigmas várias
vezes, senti-me ignorante de todo e mui incerto
de sua interpretação e obscuro significado. Por
isso não me atrevia a fazer nada, quase atemo-
rizado neste lugar terrível e penumbroso, apesar
da luz das lâmpadas. Ademais, agoniava-me o
desejo de contemplar a porta triunfal, o que
constituía a razão mais legítima para que não
me detivesse ali. Assim, com o pensamento e
89
propósito de correr para a contemplação da porta e dedicar-me mais tran-
quilamente a esquadrinhar esta magnífica invenção do engenho humano,
dirigi-me rapidamente para a abertura e, descendo, saí do monstro sem
entranhas. Que invenção impensável, que excesso incalculável de trabalho
e que temerária ousadia humana! Que tipo de trépano ou de outros instru-
mentos de trabalho foram capazes de perfurar a grande dureza e resistência
desta pedra é esvaziar matéria tão rígida, fazendo concordar o vazio interno
com a forma externa?
De volta por fim à praça, vi no pedestal de pórfiro, dignissimamente
cinzelados em seu redor, estes hieróglifos: primeiro um bucrânio com dois
instrumentos agrícolas presos aos chifres; e um altar sustentado em dois pés
de cabrito, com uma chama ardente por cima e no frontispício um olho e
um abutre; após, uma bacia e uma jarra; em seguida, novelo de linha atra-
vessado por um fuso; e um vaso antigo com o bocal tapado. Uma sola com
um olho e dois ramos atravessados e belamente presos, um de oliveira e
outro de palma; uma âncora e um ganso; uma lâmpada agarrada por mão;
um timão antigo, tendo preso um ramo de oliveira; depois, dois ganchos,
um golfinho e, por último, uma arca fechada. Estes hieróglifos escriturais

90
estavam otimamente esculpidos. Refleti sobre tais antiquíssimas e sagradas
escrituras, interpretando-as assim:
SACRIFICA A DEUS GENEROSAMENTE os DONS DA NATUREZA OBTIDOS
PELO TRABALHO. ASSIM, AOS POUCOS IRÁS CONFORMANDO TEU ÂNIMO

COM O DELE. ELE PROTEGERÁ COM FIRMEZA TUA VIDA, GOVERNANDO-A

MISERICORDIOSAMENTE, E TE CONSERVARÁ INCÓLUME.35

Quando me afastei dessa excelentíssima, misteriosa e inimaginável


obra, voltei a olhar o prodigioso cavalo: tinha a cabeça ossuda e frágil, pro-
porcionalmente pequena, e parecia ótima representação da inconstância e
impaciência; quase se percebia o tremor de suas carnes e dir-se-ia que era
mais real do que imitação. Havia uma palavra grega gravada na frente: LI-
NHAGEM.36 Viam-se muitos outros grandes pedaços e fragmentos de feitios
diversos, em meio a enorme monte de ruínas desfeitas. De todas, o tempo
voraz e fugaz respeitara e deixara intactas apenas estas quatro coisas: a
porta, o cavalo, o colosso e o elefante. O pais santos, antigos artesãos! Que
tipo de crueldade invadiu vossa grande virtude, levando ao túmulo convosco
tantas riquezas, que deveriam ter sido nossa herança?
Cheguei à antiquíssima porta, obra sumamente admirável, estranha-
mente ajustada às regras da arte, adornada de notáveis esculturas e ma-
ravilhosamente construída com diversidade de linhas; sendo eu estudioso
e estando inflamado pelo desejo de entender o fecundo conceito e aguda
invenção do perspicaz arquiteto e suas dimensões e contornos, fiz o seguinte:
primeiro medi cuidadosamente um quadrado situado sob as colunas, dois
de cada lado da porta, e por esta medida compreendi facilmente toda sua
simetria, que explicarei agora brevemente. Um quadrado, dividido por três
linhas retas e três transversais equidistantes,37 dá como resultado dezesseis
quadrados. Acrescentando ao quadrado grande sua metade e dividindo de
igual maneira o acréscimo, obtêm-se vinte e quatro quadrados. Esta quadri-
culação é útil e oportuna para segmentar e transferir pequenos detalhes em
trabalhos delicados ou em pintura. Traçando na primeira figura ABCD duas
diagonais e depois duas linhas, uma reta e outra transversal, de sorte que
todas se cruzem, geram-se quatro quadrados; unindo-se os pontos médios
dos lados da figura acrescentada, constrói-se um losango.

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Traçando dessa forma as figuras mencionadas, perguntava-me que razão
têm os cegos modernos para julgarem-se hábeis na arte de construir, quando
sequer sabem o que ela é, construindo fora de toda regra seus falsos edifícios
sagrados e profanos, públicos e privados, não observando a perfeita simetria
e esquecendo a ensinada pela natureza. Pois é regra de ouro e ensinamento
celestial, como canta o poeta, que a virtude e a felicidade consistem na justa
medida; e quando isto é abandonado e negligenciado, surge necessariamente
a desordem e todas as coisas resultam falsas, porquanto é ignóbil qualquer
parte incongruente com seu conjunto: e sem ordem e normas, o que se pode
tornar cômodo, agradável e digno? Ora a causa de erro tão inconveniente
nasce da ignorância negativa, tendo sua origem na ausência de educação.
Além disso, a perfeição de uma obra de arte digna não é inimiga da exa-
tidão; ao contrário, o arquiteto hábil e cuidadoso, para dar-lhe agradável
aspecto, refina caprichosamente sua obra com aumentos ou diminuições,
conservando, porém, o sólido acima de tudo íntegro e em harmonia com
o conjunto todo. Chamo sólido ao corpo inteiro da obra produzida, que é
a principal atenção, invenção, pensamento e simetria do arquiteto. Bem
estudada e levada a cabo sem acessório algum, indica, salvo engano, a ex-
celência de seu engenho, pois adornar depois é fácil, ainda que o arquiteto
deva saber onde colocar o adorno, ajustando a coroa na cabeça e não nos
pés; de igual modo, os ovulatos e dentículos e outros ornamentos se devem
inserir em seus convenientes lugares. A ordem e a invenção principal soam
coisas de que participam poucos, enquanto que os ornamentos se prestam
ao trabalho comum, inclusive de muitas pessoas vulgares e idiotas. Mas os
artífices manuais são ajudantes do arquiteto: este não deve de forma alguma
sucumbir à maldita e pérfida avareza. E, além de ter instrução, há que ser
bom, não loquaz, benigno, benévolo, doce, paciente, amável, fértil, investi-
gador curioso, universal e lento; digo lento, porque não deve precipitar-se
no erro. E o quanto basta.
Para terminar, reduzindo as três últimas figuras obtidas a uma só,
compreendendo a dividida em dezesseis quadrados e a acrescentada, produzir-
-se-á esta figura,38 da qual se retiram o losango e as diagonais, deixando as
três perpendiculares e as três retas, exceto as partes da linha média que são
cortadas pelas perpendiculares; desse modo obtêm-se dois retângulos perfeitos,

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um superior e outro inferior, cada um contendo quatro quadrados. Traçando
uma diagonal no retângulo inferior e dirigindo-a perpendicularmente para
a linha AB, se encontrará habilmente, pelo que lhe falta para alcançá-la, a
espessura do arco e das antas. A linha AB será o lugar conveniente para a
arquitrave. O ponto médio da linha truncada EF será o de inflexão do arco,
que deve medir em seus bicos (chifres) invertidos o mesmo que o semidiâ-
metro de sua largura. Do contrário, se faltar isso, não o julgo perfeito, pois
foi insólita e cuidadosamente observado pelos ótimos e experientes antigos
em seus arcos, para dar-lhes elegância e a resistência adequada e evitar a
ocupação da projeção dos ábacos.
O pedestal ou pódio situado sob as colunas duplas, de um e outro lado
da porta, começava por um plinto de um pé de altura ao nível do pavimento,
que continuava a modo de degrau no espaço em que a porta se abria. Seus
cumes reversos, bocéis, canalículos e astrágalos subiam em degraus até o
pedestal e, com o ligamento devido e exigido, formavam os socos ou bases
das antas. De igual modo, estendia-se sobre o pódio a cornija com o cume
reto e os outros delineamentos.
Constatei que o espaço compreendido entre a linha AB e a linha MN
superior da figura toda dividia-se em quatro partes, três das quais corres-
pondiam à arquitrave, friso e cornija; esta possuía uma parte a mais que a
arquitrave e o friso, isto é, se fossem designadas cinco partes à arquitrave
e outras tantas ao friso, a cornija ocuparia seis. E ultrapassava este limi-
te até porque o sábio e hábil artífice dera à cimalha uma inclinação de
meio pé; e não fez isso por capricho, e sim para que a parte inferior das
esculturas da parte de cima não ficasse escondida pelo elevado da cornija,
ainda que tivesse podido aumentar as partes seguintes dos ornamentos,
como o friso, solucionando assim a simetria que se impusera. Sobre este
primeiro remate continuava um quadrado perfeito, construído sob esta
regra: o comprimento de seus lados correspondia à união do friso com
a vertical das colunas e era o dobro da largura da cornija superior. Este
quadrado reproduzia-se a cada lado da porta. O espaço restante sobre a
porta dividia-se em sete partes, reservada a do meio para um nicho, no
qual se achava uma estátua de ninfa; as seis restantes repartiam-se em
três de cada lado.

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A saliência da cornija superior é fácil de ser traçada: constrói-se um
quadrado com os lados do mesmo tamanho da largura da cornija, traça-se
a diagonal e esta dá a medida da saliência.
Tomando-se então em conjunto toda a figura dos vinte e quatro
quadrados, acha-se a sesquiáltera OPQT, que contém um quadrado e meio;
este meio quadrado divide-se em seis partes iguais mediante cinco linhas
horizontais. O ponto médio da quinta e última proporciona o vértice do
frontão; traçando a partir dele a linha oblíqua até o ponto em que cruza
com a que determina a cornija, surge sua devida inclinação. Suas margens
ou extremos uniam-se justamente com as cimalhas da saliência da cornija
rampante. Enfim, o frontão, harmonizando-se em insólita correspondência
com o desenho da elegante cornija, sobrepunha-se em sua parte inferior ao
plano do retângulo, e na superior, a uma parte da cornija denticulada, cujo
interior continha a superfície triangular do frontão.
A porta, cujo material era brilhante e agradável, fora construída
cuidadosamente de blocos de pedra cortados em perfeita regularidade,
combinando-se às maravilhas os detalhes dos ornamentos com as junções
das pedras e em correspondência com as esculturas sobrepostas. De ambos
os lados do vão que ela ocupava, com dois passos de intervalo, erguiam-se
orgulhosamente duas grandes e soberbas colunas, sepultadas em fragmentos
de ruínas até o soco. Removendo os detritos, pus a descoberto suas bases
de bronze, cuja matéria era a mesma em que estavam notavelmente fundi-
dos os capitéis. 0 diâmetro da espessura inferior da coluna era o dobro da
altura de uma base, e sua altura de mais de trinta e dois côvados. As duas
próximas da porta eram de finíssimo pórfiro e as outras de agradável ofito;
eram estriadas ou canaliculadas e magnificamente executadas. Afastados
destas havia outros dois pares à direita e à esquerda, com discreto êntase,
de duríssima pedra lacônica.
O raio da circunferência inferior da coluna era a altura da base, que
consistia em bocéis, escócia ou tróquilo e plinto. Dividida esta altura em três
partes, o plinto ocupava uma, e sua largura era de um diâmetro e meio.
Dividindo as outras duas partes em quatro, uma correspondia ao bocel su-
perior; divididas as três restantes em duas, uma era para o bocel inferior e
outra para o tróquilo côncavo, cujos astrágalos mediam um sétimo de sua

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altura. Observei que tais medidas tinham sido obedecidas pelos sábios artífices.
Sobre os capiteis das colunas estendia-se notável arquitrave ou epistílio, com
o fáscia inferior adornado de esferazinhas ou pérolas; o segundo, de largos
fusos partidos, e entre um e outro duas vértebras intercaladas, desfeitas em
fios; o terceiro estava belamente revestido de orelhinhas com nobre folhagem
e caulezinhos de perfeito acabamento. Sobre a arquitrave estendia-se o friso,
adornado de ligaduras sinuosas, com os talos formando grandes espirais e
folhagens de pâmpanos profundamente esculpidos, nos quais muitos pássa-
ros se aninhavam. Tinha-se depois delicada linha de mútulos, em intervalos
harmoniosos, sobre os quais iniciava-se a gradação inversa de robusta cornija.
Mais acima deste remate, o edifício achava-se em sua maior parte destroçado
e arruinado, com vestígios de grandes janelas gêmeas desguarnecidas de seus
ornamentos, que davam pálida ideia de como fora a obra quando inteira e
perfeita. Sob a arquitrave descrita elevava-se o frontão da porta intata. Entre
seu declive e a linha da arquitrave tinha-se um espaço em forma de escaleno,
isto é, de triângulo de lados desiguais. A arquitrave, no espaço entre as colu-
nas, era suportada por maravilhosos modilhões, tendo os intervalos exigidos
pelas regras de arte. Na figura do escaleno, ocupando o maior espaço possível,
esculpiam-se dois círculos em forma de prato, com as bordas molduradas de
ondinhas, pequenas golas e escócias; no meio das molduras destacava-se um
touro nobremente revestido de folhas de azinheira, compaginadamente postas
umas sobre as outras, envolvidas em cintas esculpidas, com algumas frutas
espalhadas. No interior havia duas veneráveis figuras de busto em relevo, com
manto preso no ombro esquerdo à maneira antiga. Tinham barbas hirsutas
e as frontes laureadas, e seu aspecto era digno e majestoso. No quadrado
ressaltado do friso sobre as colunas que descrevi antes, via-se este relevo:
uma águia de asas abertas pousava suas garras em espessa grinalda de folhas
e frutas, alargada no meio e cujos delgados extremos eram sustentados de
ambos os lados por cintas esvoaçantes, quase soltas.
A notável porta assentava-se sobre o solo de lajotas de mármore,
entre as colunas do muro, com suma perfeição. Dado que já explicitei os
principais componentes desta magnífica porta, parece-me oportuno descrever
no capítulo seguinte seus agradáveis e belíssimos ornamentos; pois, para
um arquiteto, é mais difícil fazer do que fazer bem. E para isso, o primeiro

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passo é organizar e conceber, conforme mencionei, o sólido de toda a obra
antes dos ornamentos, que são acessórios do principal. Para o primeiro se
requer a fecunda habilidade de um só, mas para o segundo são necessários
muitos artesãos braçais ignorantes (chamados pelos gregos de obreiros), os
quais, como se disse, são os instrumentos do arquiteto.

[ V ]
DEPOIS DE TER DADO SUFICIENTE EXPLICAÇÃO SOBRE
A GRANDE PORTA E SUA SIMETRIA, POLIFILO PROSSEGUE
O DISCURSO DESCREVENDO OTIMAMENTE SUA ACABADA E
ESMERADÍSSIMA DECORAÇÃO E QUÃO ADMIRAVELMENTE
ESTAVA FORMADA.
ogo à nobre multidão de quantos se dedi-

cam ao prazeroso amor, que se não sinta

molestada por haver-me demorado tanto

no relato anterior. Talvez não lhes tenha

agradado, desejosos que estão de que eu

trate daquilo que, embora em si mesmo

amargo, constitui o alimento de que se nu-

trem com ânimo paciente seus corações,

alegremente dedicados a isso. Não seja eu,

porém, inculpado disso, pois a culpa é da


variedade natural dos afetos humanos: o pão, agradável ao paladar sadio, é às
vezes desagradável ao doente, mas logo volta a agradar-lhe quando, tendo-o
comido, sente-se melhor. Eu o fiz para expressar a finalidade própria da arquite-
tura, que é a obtenção da harmonia da solidez do edifício. Ademais, o arquiteto
é livre de reduzi-la em divisões menores, como o músico que, tendo concebido o
tom e medido o tempo de uma máxima, depois o divide em partições cromáti-
cas menores, ajustando-o ao conjunto. De igual modo, após a invenção, a regra
principal peculiar ao arquiteto é a quadratura que, com suas pequeníssimas
divisões, permite-lhe manter a harmonia e o ritmo do edifício e distribuir nele
os ornamentos convenientes sem prejuízo do conjunto. Graças à observância
destas regras, a porta de que falo era belíssima por sua admirável composição

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