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VERA DUARTE

Preces e Súplicas
ERAZÃO V
IMAGINANTE

A poesia de Vera Duarte não tece loas ao sucesso, ao consumo,


ícones do mercado, onde as próprias pessoas se transformam em

ou os Cânticos
mercadorias e, na maioria das vezes, simulacros de produtos origi- Cl
nais. Sua poiesis dá as costas a esse tipo de progresso, buscando
exorcizar a barbárie através de intenso exercício de captação de

da Desesperança
lembranças recônditas do outrora.
CARME LÚCIA TINDÓ SECCO
Se tivermos em mente que, ontologicamente, a comunicação tem
por fim a participação do receptor na relação existencial que o disr
curso institui, poderemos afirmar que Vera Duarte comunica com os o
seus leitores em pleno. Assim sendo, ao escrever, Vera enuncia-se e
faz, ao mesmo tempo, que o leitor se enuncie também, ecoando as
experiências vividas e ou sonhadas/imaginadas, tomando possível
entrar em holística comunhão, não só com a poetisa, mas também,
tal como enunciou na saudação à poesia, já por nós referida atrás, es
com a beleza grandiosa /Depovos, raças e credos.
o
ESTELA PINTO RIBEIRO LAMAS
«5 I
VERA DUARTE é juíza desembargadora e presidente da Comissão Nacional o
para os Direitos Humanos e a Cidadania de Cabo Verde. Vera Duarte tem-se
distinguido pela sua actividade em prol dos Direitos Humanos, tendo já sido n
galardoada em 1995 com o prémio Norte-Sul de Direitos Humanos de Lisboa,
atribuído pelo Centro Norte-Sul do Conselho d'Europa. Foi membro e vice- £3;
-presidente da Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos e é mem-
bro da Comissão Internacional de Juristas, entre outros.
No plano literário foi laureada com o prémio TCHICAYA U TAM'SI de poesia
africana 2001 pela sua obra poética e com o prémio SONANGOL de Literatura fD
SA
2003 pelo seu romance de estreia A Candidata.
Mulher de Direito e de Cultura este livro é, sem dúvida, o resultado da simbiose
entre estas duas facetas da autora, traduzindo as suas inquietudes, as suas per-
plexidades e também as suas esperanças e certezas.
g
PS 4.
isbn-972-771-795-0 INSTITUTO

PIAGET
1
OBRA POÉTICA DE ANTÓNIO OLIVEIRA CRUZ
MENSAGEM II- 1988
SYNTHESIS I - 1988
SYNTHESIS II - 1988 E RAZÃO ^
SYNTHESIS III - 1988 IMAGINANTE
GRITOS DA TERRA E DO HOMEM - 1988
CÂNTICOS DE AMORES - 1988
HAJA! - 1988
SE EM FRENTE QUISERA - 1989
POETASEREMOS-1990
POLIHOMEM - 1990
AUTOPOIÉSIS - I99I
VARIAÇÕES EM SE... - 1991
TIMOR, MÁRTIR TIMOR - 1991
TIMOR, PÁTRIA TIMOR - 1992
POEMÁTRIATIMOR - 1992 PRECES E SÚPLICAS
OU
B ARGONAUTA - 1994
EU... O OUTRO - 1995
MEDITAÇÕES POÉTICAS
VOL. I - POÉTICA DO TEMPO - 1995
VOL. 11 - POÉTICA DA VIDA - 1995
VOL. Ill - POÉTICA DO SUJEITO - 1996
CADA DIA UMA ESPERANÇA-AGENDA POÉTICA- 1996, 1997, 1998, 1999,2000,2001
OS CÂNTICOS DA DESESPERANÇA
DE-CI-FRONTE- 1997
DAR É COMO RECEBER - 1997
AFORISMOS NEOPOPULARES... E OUTROS QUASI POEMAS - 1997
POR MIM PASSA UM VENTO - 1997
TIMOR-POVO-TIMOR - 1997
TIMOR - CHANT MAJEUR - 1997 (Edição Bilíngue)
ARCANOS SÓBRIOS POEMAS - 1998
E VOLTAR À INFÂNCIA - 1999
POÉTICA VÁRIA - 1999
TIMOR CANTO MAIOR - 1999
A QUESTÃO - 2000
POETA DEUS ADÃO - 2001
HAl-CANTOS - VOL. I - MAR-AO-LEME - 2002
VOL. II - ORQUÍDEA PERFEITA - 2002
POEMAS DE BRETANHA - 2002
JOB - OU DO LIVRO DO CONHECIMENTO - 2002
DEUS SEMENTE - OU O VASTO E ABISSAL INSTINTO DE AMAR - 2003
DO PENSAR E DO DIZER - 2004

OBRAS DE OUTROS AUTORES


POEMAS DE AMOR E SEGREDO - Anna Maria Feitosa
ALGUNS POEMAS DE NATAL E... OUTROS - Manuel Sérgio
BREVES JUSTOS IMEDIATOS - João Godinho
ANDAM COISAS NO TECTO - Jaime da Costa Senra
VIAGEM, VIRAGEM, CORAGEM - Anna Maria Feitosa
POEIRA DOS DIAS - Luis Viveiros
É CORAÇÃO NA PALAVRA E ALGUNS POEMAS MAIS - Alberto Teixeira Ribeiro
VOU-ME EMBORA HCANDO - João Mosca
POEMAS DA GUERRA DE MIM E DE OUTREM - Henrique António Pedro
SEIS SENTIDOS E MK\S... - Alexandre Castanheira
IMAGINÁRIOS DE RUPTURA... - Fernando Aguiar/Jorge Maximino
TEMPO INSTANTE - Fernando Hilário
FAGULHAS - Luís Viveiros
PRECES E SÚPLICAS OU OS CÂNTICOS DA DESESPERANÇA - Vera Duarte
VERA DUARTE

PRECES E SÚPLICAS
OU
o s CÂNTICOS DA DESESPERANÇA

INSTITUTO

PIAGET
Foto: Marise Sagna

Estes são poemas molhados por lágrimas


Título: Preces e Súplicas ou Os Cânticos da Desesperança
de desespero e tristeza infinita.
Autora: Vera Duarte
Em duas ocasiões tentei entrar e percorrer
Colecção: Poética e Razão Imaginante a Casa dos Escravos, mas um choro convulsivo
Capa: Dorindo Carvalho obrigou-me a sair, impedindo-me de visitar
© INSTITUTO PIAGET as celas onde os escravos sofreram atrozmente
Av. João Paulo II, lote 544, 2.° - 726-1900 Lisboa
Tel.: 21 831 65 00 - E-mail: piaget.editora@mail.telepac.pt
antes de deixar o continente que os vira nascer
e aonde jamais regressariam.
Fotocomposição: Instituto Piaget Diz-se que ao longo de três séculos cerca
Impressão e acabamento: Tip. Tadinense, Lda. • www.iipiadinense.pt de vinte milhões de escravos passaram pela ilha
ISBN: 972-771-795-0
Depósito Legal: 229572/05 de Gorée. Muitos não resistiram ao cativeiro.
Este livrinho de poemas é uma homenagem
Nenhuma pane desta publicação pode ser reproduzida
ou transmitida por qualquer processo electrónico,
que presto a esta nossa ancestralidade.
mecânico ou fotográfico, xerocópia ou gravação, sem
autorização prévia e escrita do editor. A Autora
Agradecimentos à Universidade Jean Piaget
de Cabo Verde
Amo demasiado a humanidade
para assistir
indiferente
às várias hecatombes
que sacodem
o nosso quotidiano.

VD
Para o Nuno e o Zé Miguel,
meus eternos amores
... e para todos os que
lutam por um mundo
de maior justiça
e melhor humanidade
ADVERTÊNCIA

Poderão dizer-me que este é um livrinho no mínimo bizarro.


Direitos humanos em forma de poesia ou a insustentável e dra-
mática poesia dos direitos humanos.
Não saberei que dizer pois não foi procurado.
Aconteceu.
E de repente eu vi-me perante um grupo de poemas a pedir-me
publicação...
Talvez num momento em que o mundo precisa desesperada-
mente de socorrer milhares de milhões de pessoas que vivem
nos limiares da mais escandalosa indigência não seja de todo des-
piciendo fazer passar de mão em mão as mais variadas mensagens
de solidariedade, por modestíssimas que sejam, pois todas traz;em
esse sopro vital para a sobrevivência da humanidade que é o AMOR.
A autora

17
Há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não
MANUEL ALEGRE
Apresentação
Vera Duarte e a busca desesperada
da «palavra perdida».,.
Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco
UFRJ - Brasil

Quanta dor - buscar a palavra perdida.


Erguer essas pálpebras dolorosas
E, com a cal no sangue, juntar para as tribos
Estrangeiras a relva das noites
MANDELSTAM*

Ao refletir sobre a importância e o papel da poesia nos tempos


actuais, Claude Esteban cita os versos que usamos como epígrafe.
Para o referido teórico, todo poeta, a exemplo de Mandelstam,
deveria saber ler
esse horizonte imediato do mundo onde as coisas, mesmo
despedaçadas, lhe fazem sinal. Pois, não há dúvida
coisas esperam, a relação humana humilhada espera ser
ouvida, ser dita numa «palavra» ainda «perdida», m
possível de ser reencontrada - e, quem sabe, por esse
gesto e por essa palavra de reconhecimento, de ser salva do
esquecimento que, insidiosamente, pactua com a violência.

* MANDELSTAM. Apud: ESTEBAN, Claude, Crítica da Razão Poética. São Paulo:


Martins Fontes, 1991, p. 214.

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É ao poeta que incumbe escutar esse apelo, recolhê-lo no originais. Sua poiesis dá as costas a esse tipo de progresso,
interior de sua palavra, elevá-lo fora da noite objetiva - buscando exorcizar a barbárie através de intenso exercício de
tomá-lo, em suma, presente para todos^. captação de lembranças recônditas do outrora. O sujeito poético
de Preces e Súplicas ou Os Cânticos da Desesperança
Tal apelo é perfeitamente encontrado na palavra poética da itinerário poético sob o peso de um mundo esmagador que lhe
cabo-verdiana Vera Duarte, cujos três livros de poesia e o romance deixa esgotados e pendentes os braços, curvada e abatida a cabeça.
já publicados revelam intensa preocupação com o social e com E, entretanto, pela rememoração de fogos e ritmos do San
os direitos humanos dos cidadãos oprimidos de seu país e do Jon, que os ventos da memória e da imaginação o transportam
mundo. aos tambores da ilha de Santiago, fazendo-o relembrar tradições
No pórtico de Preces e Súplicas ou Os Cânticos da Deses- que se erigem, no poema, como estratégias de fuga e reação ao
perança, Vera dedica os poemas deste livro ao ser humano, apocalipse de uma modernidade esfaceladora de identidades e
alertando, principalmente, para a crescente e assustadora perda (his)estórias.
da humanidade nesta época neoliberal, onde a globalização da Meus braços esgotados pedentes de
pobreza e da intolerância se estende a todos os países e continentes, Ombros pendentes
mesmo àqueles que costumam ser chamados de «desenvolvidos». Minha cabeça
Modernamente, o conceito de pobreza, segundo Oscar Lewis2, (pobre cabeça)
um dos reconhecidos estudiosos do assunto, não se define, apenas, curvada abatida em abatimento tamanho...
por questões económicas de desigualdades sociais, mas também Mas o vento redemoinhou por sobre a secretária
pode ser entendido como penúria espiritual, ética, cultural, moral; Fez um passo de mágica
neste último caso, temos a «corrosão do caráter» que, de acordo Rufaram os tambores
com o historiador Richard Sennetts, vem-se apresentando como E o São João soou vibrante na noite
uma das tendências definidoras das sociedades atuais regidas por Longínqua
exacerbados valores neoliberais. Da minha terra natal
A poesia de Vera Duarte não tece loas ao sucesso, ao consumo, (p. 51)
ícones do mercado, onde as próprias pessoas se transformam em
mercadorias e, na maioria das vezes, simulacros de produtos
Invertendo a célebre história mítica de Salomé, na qual a
cabeça de São João cai abatida numa bandeja, o sujeito poético
1 ESTEBAN, Claude. Crítica da Razão Poética. São Paulo: Martins Fontes, 1991, p. 214. ressurge da decadência que o cerca e, mesmo em meio às profecias
2 LEWIS, Oscar. Antropologia de Ia pobreza. México: Fondo de Cultura Económica, de destruição do mundo e da humanidade, recebe o sopro de uma
1961. aragem recuperadora de lembranças e raízes identitárias, con-
3 SENNETT, Richard. A Corrosão do Caráter. Rio de Janeiro: Record, 1999.

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seguindo, desse modo, ouvir o soar vibrante das noites iluminadas A intertextualidade com autores, artistas, líderes comunitários
do San Jon de sua infância. e políticos é uma outra faceta do lirismo de Os Cânticos da
Em grande parte dos poemas de Preces e Súplicas ou Os Cân- Desesperança. Em meio ao desencanto da época presente,
ticos da Desesperança, o eu poético pensa acerca das desigualdades cântico de Vera Duarte nos faz lembrar o Cântico dos Cânticos
e da intolerância existentes no mundo: Salomão que, na Antiguidade judaica, se erigiu como paradigma
Quarenta milhões de pessoas de genuíno e profundo hino de amor à humanidade. Em diálogo
Gente como tu e eu com poetas de Cabo Verde, busca o «longe longe» das tradições,
a morrerem de fome mas critica o «terralongismo» que fez muitos cabo-verdianos emi-
neste continente de condenados grarem. Em consonância com o poeta Corsino Fortes, por exemplo,
observamos que o sujeito poético de Preces e Súplicas ou Os
(p. 70) Cânticos da Desesperança procura os ritmos identitários da
na própria musicalidade poética:
Alegoricamente, o sujeito lírico faz reviver os cavaleiros do E Ion longe
Apocalipse bíblico, assim como os sete selos e os antigos pecados Do marulho à viola fria
capitais, só que reatualizados, poeticamente, na modernidade afri- Reconheço o bemol
cana: fome, guerra, corrupção (dos maus governos), sida, estu- Da mão doméstica
pidez, tirania e indiferença. Que solfeja^
Uma forte impotência percorre a maioria dos poemas,
embora, em muitos deles, seja pela arte da palavra poética Mas o cântico de Vera Duarte não se restringe apenas aos
- entendida como forma de luta e resistência - que a esperança marulhos e longes de seu país; ultrapassa mares e fronteiras, indo
de mudanças se delineie, mesmo que com clara consciência de
que as utopias hoje se expressam ténues, sob a égide do efémero ao encontro de outras vozes que, polifonicamente, traz para
e do precário que caracterizam os tempos atuais. dentro de seus poemas. Adama Dieng, senegalês; Assilah, cidade
no Marrocos, onde aconteceu em 2003 o «25.° Encontro Cultural
Na essência das coisas para Discutir o Mundo após o 11 de Setembro»; Eugénio de
a sensibilidade do poeta... Andrade e seu poema «Improviso», no qual a imagem de «uma
A poesia dos excluídos rosa depois da neve» metaforiza a angústia da existência humana
É a beleza grandiosa a se debater entre o efémero e o desejo de perenidade; Sérgio
de povos, raças e credos Vieira de Melo e suas campanhas para diminuir os «excluídos da
em holística comunhão.
(p. 63) 4 FORTES, Corsino. Pão & Fonema, 2.° ed., Lisboa: Sá da Costa, 1980, p. 8.

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terra» - todos fazem parte do chamamento do eu poético que tenta Ao convocar Adama Dieng, senegalês que foi eleito para o
acender alguma esperança na humanidade por intermédio de Tribunal de Rwanda, ou Madre Teresa de Calcutá, mãe dos pobres
suas preces e súplica que visam a devolver aos homens parte dos e oprimidos do mundo, o sujeito lírico critica os desertos atuais
ideais perdidos e a crença em si próprios. de utopias, sonhos, esperanças, o aumento de corrupção em quase
Em meio à desesperança, a voz lírica enunciadora abre, con- todos os países, mas abre também espaços para um «holocausto
mdo, perspectivas para recobrar os caminhos dos sonhos: redentor»:
O som da minha voz soou longe nas longes clareiras É preciso uma fé
Dos matos cerrados da minha África mãe que mova montanhas
Dos matos cerrados de homens em armas e um holocausto redentor
Em feitos gloriosos que devolva os homens aos ideais
à procura do sonho Não quero morrer agora
[...]
Pois quero aceitar
de nós
Para quando o sonho acordado? a imagem devolvida dos espelhos
(p. 52) (p. 77)
Esta fé a que alude a voz poética enunciadora é da mesma
O sujeito poético apela, assim, para uma poesia da sen- estirpe daquela preconizada pelo estudioso da poesia Claude
sibilidade, da luta pela igualdade e pelos direitos humanos. Esteban, quando defende que é necessário procurar significações
Recupera Eugénio de Andrade como poeta de grande trabalho utópicas ainda hoje:
com a densidade da linguagem; faz dialogarem a metáfora da
rosa de Eugénio com a da rosa mirabílica da geração poética do Dar sentido é reunir o que está separado [...]. E juntar
pós-25 de Abril em Cabo Verde: tudo o que perdeu o próprio sentimento e a esperança da
relação: é, em sua acepção primeira, praticar ura ato
Em África cresce uma rosa religioso. E, não o escondo, é a um ato de fé que convido
É a rosa mirabílica o poeta de nosso tempo, mas a um ato de fé no mundo que
Flor de poesia o cerca.
uma rosa entre cadáveres
Percebemos que, seguindo tal dicção, o cântico de Vera
(p. 66) Duarte, apesar de ser um canto da desesperança, também não

28 29
perdeu a fé nos homens e no mundo. É um ato de fé, pois carrega Tempos novos
ainda a sacralidade dos sonhos acordados, a religiosidade de ideais recuperados
tentar «religar» ideais e sentimentos perdidos na contracorrente brilho no ar e transparência em tudo
dos novos tempos de consumo desenfreado. serão espelho
Para alcançar a redenção almejada, o sujeito poético organiza onde se refletirá a imagem
os poemas do livro em sete partes como se fossem «sete preces diferente e subversiva
para a recuperação do Humano». A primeira homenageia Eugénio da mulher de hoje
de Andrade; a segunda, Adama Dieng; a terceira, o Congresso a ganhar forma
Cultural de Assilah em defesa dos direitos humanos; a quarta é a a ganhar corpo
prece em intenção às vozes sem eco, aos milhares de anónimos a crescer a viver
e excluídos da Terra; a quinta é uma homenagem-oraçãq a Sérgio (p. 98)
Vieira de Melo que morreu lutando pela liberdade humana; a
sexta é um desabafo indignado do eu lírico que se emociona e se
revolta com a vida das crianças africanas e sua constante tragédia Por fim, o livro se encerra com um «Cântico Final e Redentor»,
de fome, dor, orfandade, uma vez que sempre envoltas nos sete onde o eu poético recupera um nós coletivo, expressando, na
pecados capitais do mundo de hoje, mundo que as abandona, primeira pessoa do plural, seus desejos de futuro e a recusa do
pois, como meras mercadorias, são compradas, vendidas, violadas, presente opressor:
abusadas, exploradas, maltratadas, seviciadas, SL sétima e última esconjuraremos juntos
prece refere-se à ilha de Gorée, no Senegal, que, no passado, foi as desgraças do Tempo que passa
centro ativo do tráfico de escravos, depósito de «ossos amontoados gloriosamente recusando
de gente que não viveu» (p. 86), conforme declara o sujeito lírico, a sorte, a morte e os sacrilégios.
constemado diante de lembranças de tamanha opressão.
Após as preces, o sujeito poético percebe que é urgente gestar (p. 104)
um novo mundo. Repensa as imagens negativas da história da
mulher sempre oprimida, violada, prostituída, a vender o sexo e No cântico final, a par da dispersão e do desencanto con-
a labutar para o sustento dos filhos. Conclama, então, a figura temporâneos, se mantém a crença na insurreição dos homens e
feminina a se libertar da miséria e do jugo masculino, a ganhar das palavras, pois «para lá da ilha, /só existe a poesia» (p. 101),
forma e corpo para viver as lutas contemporâneas em meio às «Sem a palavra/ A ilha não existe/ Sem a ilha/ Não existe o
desesperanças bloqueadoras das utopias e mudanças sociais. poema» (pp. 102/103).

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Ao término de nossa leitura, fica a certeza de que o Cântico de
Vera Duarte busca desesperadamente recuperar a «palavra per-
dida», aquela capaz de erguer «as pálpebras da noite», deixando
vislumbrar, além da ilha, a luz intensa que brota da poesia.

São os filhos do deserto.


Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos.
Sem luz, sem ar, sem razão...
In Navio Negreiro
CASTRO ALVES

Cármen Lúcia Tindó Ribeiro Secco - Doutora em Literatura Brasileira. Professora de


Literaturas Africanas e de Língua Portuguesa e coordenadora do Setor de Literaturas
Africanas - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - Rio de Janeiro.

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Prefácio
Preces e Súplicas
ou
Os Cânticos da Desesperanç

Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo


é logicamente levado a ver o espantoso sofri-
mento do mundo [...] Se em frente do esplendor
do mundo nos alegramos com paixão, também
em frente do sofrimento do mundo nos revol-
tamos com paixão.
SoPHiA DE MELLO BREYNER ANDRESEH
«Arte Poética III» in Antologia, pp. 233-234
Na sequência de O Arquipélago da Paixão, publicado em
2001, surge agora este novo livro de poesia, dando continuidade
à vocação poética de Vera Duarte, prolongando o trajecto sulcado
nas águas da Paixão e do Amor pela humanidade, sentimentos
continuadamente expressos pela autora, de forma sentida e con-
tagiante.
Efectivamente, ao dedicar este novo livro, não só (a)o Nuno
e (a)o Zé Miguel (p. 9), mas também a todos os que lutam por
um mundo de maior justiça e melhor humanidade (p. 10), Vera
Duarte contagia-nos e faz com que, no acto de cada (re)leitura,
também nós leitores nos sintamos enunciadores da mensagem
rica que o seu livro encerra; faz com que, partilhando a vivência
profunda e multifacetada que transparece dos versos que o com-
põem, assumamos a denúncia corajosamente. Os efeitos fonos-

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semânticos de uma estética imantizada pela verbalização dos cada uma das sete cabeças da hidra que teima em manler-se v^i^^a,
males, que afligem a humanidade e pela consequente persecução erguendo uma a uma as suas cabeças:
dos direitos humanos, levam a que possamos propor como sub- A guerra
título deste livrinho o que dele afirma a própria poetisa: Direitos A tirania
humanos em forma de poesia ou a insustentável e dramática A corrupção
poesia dos direitos humanos (p. 17). A má governação
Esta é a poesia que Vera Duarte saúda, a poesia que se faz na A sida
essência das coisas que a sensibilidade do poeta presentifica e a
quem confia a inversão do status quo em que o mundo se A estupidez
encontra - a transfiguração da miséria dos homens n'a beleza A indifere}^ (p. 7 " D
grandiosa de povos, raças e credos (p. 63).
A própria estratura do livro sublinha o desejo desta trans- Uma vez em sintonia com a poetisa, uma vezvencid-^ a
figuração, uma vez que a autora inverte a ordem anunciada no tí- indiferença, assumindo uma postura positiva, poderemos avarmç.s^
tulo - Preces e Súplicas, iniciando por uma súphca; repare-se na para as preces.
página de abertura deste poema: Primeiro a súplica... Que sentido De notar que a saudação à poesia, referida anteriomiemnt r;^'
atribuir a esta palavra «primeiro»? Apenas indicativo da ordem pela surge não a abrir o livro, mas a mediar a prece e as siíplicas. J^^o
qual aparecem os poemas anunciados no título? Intencional, optar por esta estrutura, Vera Duarte sublinha a crençanapoi^^s -^i^
apontando a urgência consubstanciada nesta súplica - a urgência de que magicamente levará povos, raças e credos a viverem hc^ líJT'.^
nos colocarmos no lugar do outro, na pele do nosso próximo? tica comunhão (p. 63).
E pela poiesis, a palavra assume a função de suscitar r ^ n c r ^ s
há homens que não têm água leitores a atenção ao mundo e aos seres, às experiências i n t ^ r s ^ '
há homens que não têm luz sãmente vividas-evocadas que se sucedem, naturalmente, u r a c i ^ ^ s
há homens que não têm casa às outras, ao longo das páginas, de uma forma encaiíatóri^, e
há homens que não têm nada (p. 52) comprovam o que a autora nos diz sobre este livrinho.na adv^e^rí"-
tência: [...] não foi procurado. Aconteceu (p. 17). Seiliinos,
Parece-nos que deveremos optar pela segunda hipótese, já facto, que os acontecimentos evocados afloram à mente e sumJO
que, para nos tornarmos co-autores das sete preces apresentadas, coração da autora, sem que ela consciamente intervenha; as rec^oixír-
há que em primeiro lugar nos abrirmos ao vento e deixar que ele dações vão irrompendo pela força das circunstâncias, pelaforça d - ^ ^
redemoinhe tal como redemoinhou por sobre a secretária e que impacto que, na altura do acontecimento terá provocado, j ^ ^ l J,a
faça um passo de mágica (p. 51). Há que nos enchermos de força, atrocidade que comportava. As recordações verbalizam-se, n®
de coragem e de ousadia, para sermos capazes de derrotar o acto da poiesis, e ecoam nas mentes e nos corações dosleitorr"^;^^;
monstro que ameaça a humanidade, para sermos capazes de cortar como os tambores que rufam, na Noite de San Jon, as rec^ ^r-rí'''

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semânticos de uma estética imantizada pela verbalização dos cada uma das sete cabeças da hidra que teima em manter-se viva,
males, que afligem a humanidade e pela consequente persecução erguendo uma a uma as suas cabeças:
dos direitos humanos, levam a que possamos propor como sub- A guerra
título deste livrinho o que dele afirma a própria poetisa: Direitos A tirania
humanos em forma de poesia ou a insustentável e dramática A corrupção
poesia dos direitos humanos (p. 17). A má governação
Esta é a poesia que Vera Duarte saúda, a poesia que se faz na A sida
essência das coisas que a sensibilidade do poeta presentifica e a
quem confia a inversão do status quo em que o mundo se A estupidez
encontra - a transfiguração da miséria dos homens n'a beleza A indiferença (p. 71)
grandiosa de povos, raças e credos (p. 63).
A própria estrutura do hvro sublinha o desejo desta trans- Uma vez em sintoma com a poetisa, uma vez vencida a
figuração, uma vez que a autora inverte a ordem anunciada no tí- indiferença, assumindo uma postura positiva, poderemos avançar
tulo - Preces e Súplicas, iniciando por uma súphca; repare-se na para as preces.
página de abertura deste poema: Primeiro a súplica... Que sentido De notar que a saudação à poesia, referida anteriormente,
atribuir a esta palavra «primeiro»? Apenas indicativo da ordem pela surge não a abrir o livro, mas a mediar a prece e as súplicas. Ao
qual aparecem os poemas anunciados no título? Intencional, optar por esta estrutura, Vera Duarte sublinha a crença na poiesis
apontando a urgência consubstanciada nesta súphca - a urgência de que magicamente levará povos, raças e credos a viver em holís-
nos colocarmos no lugar do outro, na pele do nosso próximo? tica comunhão (p. 63).
E pela poiesis, a palavra assume a função de suscitar nos
há homens que não têm água leitores a atenção ao mundo e aos seres, às experiências inten-
há homens que não têm luz samente vividas-evocadas que se sucedem, naturalmente, umas
há homens que não têm casa às outras, ao longo das páginas, de uma forma encantatória, e
há homens que não têm nada (p. 52) comprovam o que a autora nos diz sobre este livrinho, na adver-
tência: [...] não foi procurado. Aconteceu (p. 17). Sentimos, de
Parece-nos que deveremos optar pela segunda hipótese, já facto, que os acontecimentos evocados afloram à mente e ao
que, para nos tornarmos co-autores das sete preces apresentadas, coração da autora, sem que ela consciamente intervenha; as recor-
há que em primeiro lugar nos abrirmos ao vento e deixar que ele dações vão irrompendo pela força das circunstâncias, pela força do
redemoinhe tal como redemoinhou por sobre a secretária e que impacto que, na altura do acontecimento terá provocado, pela
faça um passo de mágica (p. 51). Há que nos enchermos de força, atrocidade que comportava. As recordações verbalizam-se, no
de coragem e de ousadia, para sermos capazes de derrotar o acto da poiesis, e ecoam nas mentes e nos corações dos leitores;
monstro que ameaça a humanidade, para sermos capazes de cortar como os tambores que rufam, na Noite de San Jon, as recor-

38 39
dações de Vera Duarte soam vibrantes (p. 51), nas sete súplicas Sétima e última Prece - Em Gorée eu chorei
e, em contraponto, a imagem da subversão recorta-se em palavras
agudas, n'Os Cânticos da Desesperança que compõem esteEm Gorée me inclinei [...] reinventar outro futuro
livrinho. Não há dúvida que os poemas cantam (des)esperança - a antes que seja este passado
esperança que os anima, mas nem por isso o desespero se esvai Sobre os ossos amontoados
face às imagens que passam sob os nossos olhos e permanecem [...] eu toquei
nas nossas mentes e nos nossos corações tal como permanecem
na mente e no coração da poetisa e tal como ela lhes dá voz, no sangue incrustado
numa dialéctica que atravessa o seu livrinho - realidade/sub- [...]
versão; a título de exemplo: Á violência do chicote
Imagens evocadas Imagens da subversão Como Baudelaire, como Sophia, Vera ergue-se na sua inte-
Agridade
vergonha da atroz humilhação
Prece Primeira - Rosa entre cadáveres
Amo demasiado a humanidade
Uma rosa entre cadáveres É rosa de Eugénio para assistir
[...] uma rosa Rosa mirabílica indiferente
Rosa única de dor e revolta [...] Em oferenda contra a morte às várias hecatombes
Rosa a arder [...J Em África cresce uma rosa que sacodem
Rosa na dor submersa Flor da poesia o nosso quotidiano (p. 11)
Uma rosa entre cadáveres (pp. 65-66)
Prece Segunda - O novo holocausto aceitando, também ela, partilhar com os seus semelhantes a
consciência do mal que se instaurou no mundo e que é preciso
A corrupção espalhou-se É urgente convocar banir; deixa que as hecatombes, as monstruosidades se metamor-
Sobre o continente condenado Deuses [...] foseiem em poesia.
E sobre o mundo aviltado É preciso uma fé Se tivermos em mente que, ontologicamente, a comunicação
Subverteram-se os mandamentos Que mova montanhas tem por fim a participação do receptor na relação existencial que
[,,,] E um holocausto redentor o discurso institui, poderemos afirmar que Vera Duarte comunica
Desaprendemos de amar o amor [...] com os seus leitores em pleno. Assim sendo, ao escrever, Vera
Desaprendemos a beleza da vida A imagem devolvida
dos espelhos enuncia-se e faz, ao mesmo tempo, que o leitor se enuncie também,
Desaprendemos a irredutível ecoando as experiências vividas e ou sonhadas/imaginadas, tor-
paixão [...] (pp. 76-77) nando possível entrar em holística comunhão, não só com a

40 41
poetisa, mas também, tal como enunciou na saudação à poesia, excepcional que não consegue ser indiferente ao mal que assola
já por nós referida atrás, com a beleza grandiosa/De povos, o próximo:
raças e credos. Terei morto por omissão
Já noutra ocasião dissemos, a propósito d'O Arquipélago Terei morto por indiferença
da Paixão e voltamos a dizê-lo: «[...] apoiética de Vera Duarte é Terei morto por conivência
um exemplo vivo do retomar de diálogos, do reviver de aconteci-
mentos perdidos no tempo, mas estranhamente presentes, do tecer dessa luta, emergindo, tão à maneira cristã, o sentimento de culpa:
de fios quebrados, mas entrelaçados, do reiniciar reflexões
interrompidas... é-o, na medida em que a sistematicidade se ins- Como resgatar essa culpa
taura em várias instâncias (o tempo, o espaço, o género, o sentimento Que me pesa
[...] e que estas se orquestram repetida e constantemente [...]». Como resgatar esse crime
Aqui, em Preces e Súplicas, o dialogismo instaura-se de forma Que não cometi
intensa, aproximando tempos diferentes, seres humanos dos qua-
drantes geográficos mais diversos, presentificando as maiores atro- São as reiterações constantes que acentuam esse sentir pro-
cidades de sempre... Talvez, entre as sete súplicas, possamos fundo
percorrer, melhor dizendo, sobrevoar a mais longa de todas, a Ir aos campos de batalha
Prece Segunda - Habitante do século vinte e um ou a Assilah do E arrancar [...] as espingardas
nosso futuro (pp. 61-1?)). Poema extraordinário em que o sujeito Ir aos campos de batalha
poético que o enuncia se desnuda! E arrancar [...] da morte
São as exclamações que nos dão a perceber a intensidade das Ir aos campos de batalha
emoções: E devolver
Não matei! Não matei! Não matei! As crianças [...]
[...] Ir aos campos de batalha
Oh! Como gostaria [...] E devolver o sorriso [...]
Oh! Como gostaria [...]
(Oh impotência) São as imagens fortes, grávidas de sentidos, que nos envolvem
e nos forçam a enfrentar esses sentidos de que estão prenhes:
São as contradições que revelam a luta interna, entre a Fome é guerra
vontade de voltar as costas e fechar os olhos às hecatombes, Fome é corrupção
que se vão sucedendo, e o sentir profundo de um ser humano E má governação

42 43
Fome é sida dando voz aos seres que sofrem, sejam esses seres crianças vio-
Fome é estupidez lentadas, mulheres amputadas, homens esfomeados, humilhados,...
Fome é tirania são esses seres que lançam este grito pungente:
E indiferença
Ouve-me ó mundo
Como deixámos crescer este monstro O ricos
Com as sete cabeças do nosso horror? O poderosos
Ó políticos
A anáfora que se impõe pela força da acusação a si contida: Oiçam-me corruptos
O ditadores
Vergonha ó África Ó assassinos
Vergonha sobre ti e tuas gentes [...}
Vergonha pela fome e pela guerra
Vergonha pela corrupção e estupidez Oiçam-me ó vós
Que dominais o mundo
E tal como nas demais preces, também aqui a dialéctica [...]
realidade/subversão se impõe, pela presença, nos últimos onze Oiçam a minha voz
versos, de uma luz intensa que se espalha por sugestão na e pela Oiçam a minha cólera
reiteração dos lexemas hoje (3 vezes) e esperança (4 vezes), [...]
ecoada na aliteração das sibilantes [s], [ç], [j], [ch], [z] e nos E na Prece Sexta que, com mais insistência, Vera Duarte força
verbos nasce/cresce e em nascer/renascer. Após dez páginas de a nossa atenção para o continente flagelado:
horrores evocados com paixão e sentimento, um grito de vitória
remata esta Prece Terceira: Em África
Há uma emergência
É a esperança que tem que nascer Que
É a esperança que vai renascer Silenciosamente
Tragicamente
Esta é, sem dúvida, a insustentável e dramática poesia dos Nos destrói
direitos humanos, para a qual a poetisa força, por várias ocasiões,
a atenção daqueles que podem contribuir para a subversão das Os dois primeiros versos repetem-se ao longo da prece cinco
situações evocadas, tal como acontece na Prece Quarta (pp. 79-82), vezes, prolongando-se, arrastando-se... a situação evocada é, agora.

44 45
e mais uma vez, a do horror que o já evocado monstro de sete Sentar-nos-emos todos
cabeças impõe às crianças. Elas são: Numa insurreição de palavras
Compradas Geradora e fecundante
Vendidas De um tempo novo e redimido (p. 104)
Violadas
Abusadas assim possa também o ser humano - crianças, mulheres, ho-
Exploradas mens - entrar nessa holística comunhão que Vera Duarte acredita
Maltratadas ser possível!
Seviciadas (p. 86) Puerto Antilla, 23 de Setembro de 2004
ESTELA PINTO RIBEIRO LAMAS
E esta prece sussurrada em prole das crianças africanas, retoma
a revolta de um outro poeta, de outro tempo e de outra coordenada
geográfica (Guerra Junqueiro):
Mas as crianças meu Deus!
Porque lhes dais tanta dor
Porque padecem assim? (p. 87)
Sente-se a presença do temor a Deus ao longo deste livrinho; o
recurso a uma linguagem bíblica, retirada sobretudo dos Evan-
gelhos, toma a presença de Cristo o Redentor uma constante. Aquele
que veio anunciar a salvação - um tempo novo e redimido. Não sur-
preende, portanto, o fecho da obra com um cântico final e redentor,
que reúne dois poemas que anunciam um tempo outro em que tal
como na Poesia, os poetas se encontram e entram em comunhão
holística através da palavra que é a habitação do ser:
Sentar-nos-emos todos
Na roda dos poetas
Mais o Arthur, a Sofia
O Rosa, o nosso Corsino Estela Pinto Ribeiro Lamas - Doutora em Didáctica das Língua e Literatura Maternas,
Tchicaya, Senghor e Cesaire professora catedrática e reitora da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde.

46 47
Primeiro as súplicas..
Noite de San Jon
A minha mão sobre a tábua da mesa
Meus dedos que se espreguiçam nos calos ausentes
E se soerguem cansadamente
Presos por um frenesim de vida
Meus braços esgotados pendentes de ombros pendentes
Minha cabeça
(pobre cabeça)
curvada abatida em abatimento tamanho...
Mas o vento redemoinhou por sobre a secretária
Fez um passo de mágica
Rufaram os tambores
E o São João soou vibrante na noite longínqua
Da minha terra natal
Homens mulheres crianças!
Porque me mato?
Porque quero viver
(já me desesperei de ver os homens livres na sociedade
[igual)
queria vestir a mesma roupa comer a mesma comida
dormir na mesma cama que os milhares de homens na terra
Mas o tempo passa e continuo sentada à minha secretária
Tenho casa água luz e luxo
Como boa comida em boa mesa

51
há homens que não têm água E longe longe do alcance do sonho
há homens que não têm luz O rufar dos tambores o fragor das ondas
há homens que não têm casa E o cheiro a álcool
há homens que não têm nada Na noite incendiada
De lamparinas e gongons
Minhas mãos sobre a tábua preta da mesa Bruxas e fogueiras
Meus olhos magoados cansados pisados
Da dor mal sofrida Só com altos fomos e chaminés fumarentas?
E da impotência tamanha Só com mares poluídos e homens esgotados?
Só com duras batalhas e sangue a escorrer pelas ruas da cidade?
(já me desesperei de ver os homens livres na sociedade Só assim a sociedade livre de homens iguais?
• [igual) Vislumbro
porque me mato? - impotente -
porque quero viver A esperança refugiada
Nos olhos vítreos de uma criança que
O som da minha voz soou longe nas longes clareiras desesperadamente
Dos matos cerrados da minha africa mãe Pede socorro
Dos matos cerrados de homens em armas
Em feitos gloriosos
A procura do sonho Ano de 1975
Sonho lindo de verão aberto
Luz em todos os cantos sem meias sombras
Nem pensamentos obscuros
Sonho de homens sem reservas nas mãos dadas apertadas
Sonho de vietnam e phenon phen
Sonhos da china e do chile
Para quando o sonho acordado?

52 53
Tempos de angústia

Queria ser uma mulher leve e diáfana


De gestos lânguidos
E andar etéreo
Esvoaçante sobre as linhas frágeis
Do meu corpo magro
Queria ser uma mulher esbelta
De sorriso tímido e olhar esquivo
Sob as minhas pálpebras doces
E profundas
Queria ser uma mulher sensual
De formas cheias
E peito redondo
Num riso quente
E tropical
Queria ser...
... e não sou

Queria mas meu corpo


explode em chagas purulentas
desta terrível sida
que me devasta

55
Cantaremos

Ao longo de longos séculos da história


foste o continente do ouro e do sabão
e teus filhos os filhos da fome e do chicote
Queria mas meu corpo em tempos muitos que já lá vão
se contorce em tuas terras floresceram as riquezas
irremediavelmente definhado e teus filhos
sobre esta maldita fome (então filhos do tam-tam e do sol)
que me destrói viveram a felicidade do não à exploração
Queria mas o meu peito
se exaure então vieram caravelas
na busca desesperada do leite trazendo homens de cor estranha
para a criança (e estranhos pensamentos)
que me morre nos braços que cobiçaram a força simples
dos teus filhos perfeitos
Com a minha voz
eu clamei e descendo um a um
Mas a minha dor os degraus do vício da corrupção e da traição
começaram a comprar e vender teus filhos
permaneceu intacta não mais homens
Por que te conservas longe, senhor? não mais africanos
abjectamente escravos
Por que te escondes nos tempos de angústia?

56 57
barracões
navios negreiros
porões depois
sol suor chicote morte teus filhos foram quebrando
e homens animais as amarras que os prendiam
(sub-homens) e
é tudo o que de ti narra a história um a um
nessa época de genocídio em solo africano voltaram para ti
destruindo à passagem
até que a escravatura passou os mitos que os opressores criaram
(os escravos porém ficaram) para que os pudessem
ouro diamante petróleo impunes
teu solo era rico dominar
e homens cada vez mais abjectos eis-nos agora ó África
cada vez mais queriam possuir teus bens
os povos da guiné e cabo verde
e ficou-nos dos últimos dos teus filhos cativos
(gravada a ferro e fogo)
a memória do colonialismo para nós a hora soou
abismo sem fim de miséria servidão e ultraje quando o nosso povo gerou Cabral
e viu correr o sangue de pidjiguiti
os anos rolaram sobre ti
continente exangue eis-nos aqui África
até que o vento da revolução e de joelhos sobre esta terra mártir
soprou forte sobre o mundo por ti
por nós
por ti por todos
bandung deu o sinal cantaremos hinos de súplica e esperança
anunciando grandes mudanças
para as terras martirizadas de África Ano de 1975

58 59
Agora... as sete preces
Salve poesia

Na essência das coisas


A sensibilidade do poeta
A terra fez-me sensível
E penetrei com desespero
No fundo da miséria dos homens
Agora que sei tudo
Di-lo-ei a todos
A poesia dos excluídos
É a beleza grandiosa
De povos, raças e credos
Em holística comunhão

63
I
Prece Primeira

Rosa entre cadáveres


A Eugênio de Andrade

Em África nasce uma rosa


Uma rosa entre cadáveres
E dela brota um sol de sangue
Em África cresce uma rosa
Rosa única de dor e revolta
E dela queda um sol de sangue
Não é rosa depois da neve
Nem rosa flor d'amor
Não é rosa multicolor
Nem tem perfume embriagador
É rosa d'Eugênio
Flor de doer
Rosa de arder
Metamorfose de cadáveres

65
Prece Segunda

Habitante do século vinte e um


ou
a Assilah do nosso futuro

Ao amigo Benaissa

Uma rosa para que serve


Flor única num continente imenso O sangue escorre-me por entre os dedos
Rosa na dor submersa Porém
Dela queda um sol de sangue Não matei! Não matei! Não matei!
É rosa de Eugénio
Rosa mirabílica Poderia adormecer
Em oferenda contra a morte Ao som tomado monótono
Num tempo Do meu protesto
Tanto tempo! - a minha inocência é imaculada -
De dor Mas não me convenço
Em África cresce uma rosa Terei morto por omissão
É a rosa mirabílica Terei morto por indiferença
Flor da poesia Terei morto por conivência
Uma rosa entre cadáveres
Setembro de 2000

66 67
Sinto Não pode haver um inocente
Que é preciso Quando a maior esperança
Ir aos campos das batalhas For o abrigo certo
E arrancar das mãos dos homens De uma cova partilhada
As espingardas
Mas eu gostaria
Ir aos campos das batalhas
E arrancar os homens das mãos Oh! como gostaria
da morte De me sentar à soleira da porta
Ir aos campos das batalhas A ver o sol a pôr-se
E devolver No sereno entardecer
As crianças As crianças a brincar
Aos seus brinquedos E o inverno a chegar
No calmo envelhecer dos dias
Como resgatar essa culpa
Que me pesa Mas eu gostaria
Como resgatar esse crime
Que não cometi Oh! como gostaria
De acariciar levemente
Não haverá contudo inocentes Os cabelos do meu amado
Quando a morte é opulenta E segredar-lhe ao ouvido
E a vida Coisas do amanhã dos homens
É fome
É guerra Que amanhã?
É violência Que homens?
Não pode haver um inocente Quisera profetizar
Quando a vida grita fome Com palavras mágicas e sedutoras
E pede socorro
E os homens O fim dos horrores
São cadáveres ambulantes Para resgatar essa culpa
À espera de sepultura Que me pesa

68 69
Para resgatar esse crime Não pode haver um inocente
Que não cometi Em terras africanas
Enquanto uma a uma
Contudo Misericordiosamente
(oh! Impotência) As sete cabeças não caírem
Falta-me o dom
A guerra
De tanta a morte não tem rosto A tirania
Só número A corrupção
Um número indigente e gritante A má governação
Quarenta milhões é o número da fome
Quarenta milhões o número da morte A sida
A estupidez
Quarenta milhões de pessoas A indiferença
Gente como tu e eu
A morrerem de fome Não caírem
Neste continente de condenados Uma a uma
Misericordiosamente
Ah! mas a fome tem nome Não caírem
Fome é guerra
Fome é corrupção Então
E má governação Meu Deus
Só então
Fome é sida Limpar-nos-emos
Fome é estupidez
Fome é tirania Todos
E indiferença
Deste pecado original
Como deixámos crescer este monstro Este pecado que nos suja
Com as sete cabeças do nosso horror Esta abjecção que nos contamina

70 71
Mesmo inocentes
Mesmo incorruptos
Mesmo generosamente solidários
Mesmo egoistamente solitários
Mas quando
Meu Deus
Quando?
É este o ano
O dia, o século
E o milénio
Perdidos já foram os outros
Todos os minutos e segundos
Dos outros séculos
Dos outros milénios
Tarrafal foi morte e traição
Hoje é encontro e alegria
Vergonha ó África Numa esperança que cresce
Vergonha sobre ti e tuas gentes
Vergonha pela fome e pela guerra Benguela floriu e murchou
Vergonha pela corrupção e estupidez Hoje é semente germinal
De uma paz sobre todas
Este é o ano
O dia, o século É a esperança que tem que nascer
E o milénio É a esperança que vai renascer
Assilah foi pobreza e abandono
Hoje é arte e poesia
Numa esperança que nasce Dezembro de 2001

72 73
Prece Terceira

O novo holocausto
(desconstruindo o amanhã)

A Adama Dieng

Que te direi
Dos dias que correram
Entre a beleza do sonho
E o desespero deste quotidiano
Que te direi
Da mulher leve e diáfana
Que lentamente, inexoravelmente
Se deformou
Que te direi
Do guerrilheiro generoso
Que atravessou
Todos os desertos
E se aviltou
A beira do tesouro

75
Sofrimentos antigos e multiformes
Mataram sonhos e esperanças
E destruíram as utopias
Assim mandarás sobre a terra
Madre Teresa morreu E teu será o poder dos deuses
Orfeu perdeu sua Eurídice
E ultrajaram-se os princípios Que te direi do sonho conspurcado
E da dolorosa realidade
Eu lixo-te
Tu lixas-me É urgente convocar
E quem escapa Deuses
É o melhor bandido Santos
Profetas
Desaprendemos de amar o amor Moisés e todos os apóstolos
Desaprendemos a beleza da vida
Desaprendemos a irredutível paixão É preciso uma fé
A corrupção espalhou-se Que mova montanhas
E um holocausto redentor
Sobre o continente condenado Que devolva os homens
E sobre o mundo aviltado Aos ideais
Subverteram-se os mandamentos Não quero morrer agora
Desonra teu pai e tua mãe Pois quero aceitar
Rouba, trai e mata - de nós -
A imagem devolvida dos espelhos
Dá sempre falso testemunho
E cobiça tudo do teu próximo
A beleza
A mulher
A riqueza

76 77
Prece Quarta

Vozes sem eco


Aos excluídos da terra

O meu sofrimento
É antigo e multiforme
E minha morte
Vã e inglória
Carrego comigo o meu corpo
Este corpo
Esfaimado
Amputado
Destroçado
E bato às portas das cidades
Todas as cidades
Canaãs inacessíveis e longínquas

79
Venho sozinho Venho sozinha
Carregando o meu corpo Carregando este corpo
Este corpo De mulher amputada
Derrubado Pela fúria de rebeldes genocidas
Enfraquecido
Moribundo Oiçam-me ó brancos
Ó negros
Aos milhares e milhões O amarelos
Corpos iguais e exauridos
Se arrastam às portas das cidades Oiçam a voz
Todas as cidades
Longínquas e inacessíveis Canaãs De quem não a tem
Oiçam este silêncio aterrador
Ouve-me ó mundo Que nasce das profundezas
Ó ricos Das revoltas silenciadas
Ó poderosos Do ódio da morte
Ó políticos Da fome e da humilhação
Ouçam-me ó corruptos
Ó ditadores Oiçam-me ó vós
Ó assassinos Que dominais o mundo
Venho sozinha Tenho fome
Carregando este corpo Tenho sede
De criança sero Tenho frio
Filha de pais mortos Tenho ódio
Venho sozinha Oiçam a minha voz
Carregando este corpo Oiçam a minha cólera
De menina infectada A minha titanesca revolta
Violada por todos os batalhões A minha maldição

80 81
Prece Quinta
Mas oiçam também
O imenso abandono
O sofrimento antigo e indizível Esta canção desesperada
O implacável calvário
Que a cada minuto in memoria
Século a século de Sérgio Vieira de Mello
Acto a acto
Se abate sobre mim
Faminto exangue
Doente
Dilacerado Estive nos campos de refugiados do Ruanda
Eu grito encharquei os pés na lama das ruas de Bissau
embriaguei os olhos na orgia selvagem
Mas a voz não sai dos corpos mutilados
O grito não soa das valas do Burundi
A minha voz não tem eco
Para mim não há E vi
- nunca houve - em Conacry
Nem liberdade um homem morrer
Nem terra prometida pela fé
Hoje estou aqui
entre mártires e traidores
Agosto de 2003 entre bandidos e inocentes
(de entre Fez e Marraquexe) entre hipócritas e fariseus

82 83
Prece Sexta
Trago comigo
presa na minha garganta
esta palavra de dor
Trago comigo
Silenciosa emergência
entranhado na minha carne
este destino implacável Ãs crianças africanas
Trago comigo
esculpido no corpo
o troféu desta derrota Em África
Morri em Sarajevo Há uma emergência
e no Camboja Que
Morri na Colômbia Silenciosamente
Tragicamente
e em Conacry Nos destrói
Morri no Kosovo
na Libéria
e em Sierra Leone Em África
Há uma emergência
Morri onde a morte já não era Que
de tanto ser Irremediavelmente
Inexoravelmente
Quando deixarei de cantar Nos derrota
Esta canção desesperada?

Setembro de 2003

84 85
Em África Em África
Há uma emergência Há uma emergência
Que se repete Às centenas aos milhares
Nos humilha Uma a uma
E nos anula Crianças
São crianças Vendidas
temas despojadas Compradas
São crianças Espancadas
órfãs indefesas Mutiladas
São crianças Violadas
doces ultrajadas
Compradas
Vendidas
Violadas E esta humilhação que perdura
Abusadas Esta impotência
Exploradas Esta derrota
Maltratadas
Seviciadas
Mas as crianças meu Deus!
Não brincam Porque lhes dais tanta dor
não deixam Porque padecem assim?
Não riem
não sabem
Não vivem
não podem Em África há uma emergência
De humilhação dor e revolta
Trabalham Na esperança em derrocada
e são exploradas Nos olhos tristes de uma criança
Lutam
e são violadas
Fogem Outubro de
e são espancadas

86 87
Sétima e última prece

Em Gorée eu chorei
A Nelson Mandela

Em Gorée eu chorei
A saudade de um tempo futuro
Que não veio
Em Gorée me inclinei
Sobre os ossos amontoados
De gente que não viveu
Em Gorée eu toquei
No sangue incrustado
Nas celas dos condenados
Em Gorée
Sucumbi
À dor do desamor
À violência do chicote
À vergonha da atroz humilhação

89
Quis então
Reinventar um passado Poemas do antigamente
Só para me acalmar
Só para não sofrer E de hoje... ainda!
Apenas antevi
- premonitório -
Um oblíquo futuro
Todo ele contido
Na caixinha de Pandora

Como reescrever esta história


Que sem dó nos aniquila
Como reinventar outro futuro
Antes que seja este passado

10 de Dezembro de 2003 Março de 1981

90
Meu eu mulher

...até que um dia


farta já da mediania
dos voos rasantes
que planam sem ousar
me arme de um hino revolucionário
e parta
em direcção a uma madrugada diferente

93
Dolor
bem à noitinha
ventando vento
com a maré a subir
ela nasceu
e com ela a dor a sorte e a morte
Perdida inocência
da pedra rolada rolou
passou pela cidade e morreu
morreu à beira do cais
Mulher antes da dor de jovem
- ó pureza sem princípio e sem limites - bonita e contente
tu própria princípio e limite fez-se feia
porque te foste tão cedo rosto acabado
ar tristonho
que nem te conheci?
De ti apenas me ficou apenas miséria
a profunda nostalgia varizes
feita de séculos subterrâneos filhos
do ser nascido livre
e aspirante à liberdade acabou bêbada
morta à beira do cais
Agora no meio do lodaçal
nem a tua sombra fugaz de uma vida sem glória
me arranca do atroz desespero
de me saber violada farta de miséria
de homens
para além da perdida inocência de tudo

94 95
Violência Maria Maculada
Teu nome enche as ruas miseráveis
Porquê mulher dos bairros da degradação humana
porque continuas indiferente Assobios porcos se multiplicam à tua passagem
à voz que te chama para a vida e homens beliscam
Porque continuas sendo sempre as formas perfeitas
sexo à venda em cada esquina do teu corpo objecto
prazer
seja qual for a moeda desprezo
que te pagará
Seja qual for o preço Só geraste degradação e caíste fundo nos abismos onde homens
que de ti exigirão brancos
pretos
E segues amarelos
- sendo sempre - se corromperam
objecto por outros escarnecido
Homens de todos os continentes
Sem nunca seres tu própria de todas as raças
sem nunca quereres e de todas as classes
continuamente frustrando-te por ti passaram
enquanto satisfazes os outros mas através de ti não cresceu a comunhão.

Desperta-te mulher! Mulher


prostituta
pois assim serás para sempre objecto
maltratada prazer
desrespeitada desprezo
brutalizada Larga toda essa miséria
E isso porque o deixas? e vem lutar pela verdadeira mulher.

96 97
Mulher d'hoje

Acabou-se o tempo dos abutres


sugando o sangue doce e fresco
dos cordeiros de olhos vendados
Cântico final e redentor
Os rituais e seus deuses
deram lugar
à dignidade e ao amor

Tempos novos
ideais recuperados
brilho no ar e transparência em tudo
serão espelho
onde se reflectirá
a imagem
diferente e subversiva
da mulher de hoje
a ganhar forma
a ganhar corpo
a crescer
a VIVER

98
últimos poemas

Ilha
a Edouard Maunick
«... tu avoues que VILE estfruit defendu
... seul vraie dans le poème»

Disseste-me que
Para lá da ilha
Só existe a poesia
(notre vraie patrie après Pile)
E acreditei
Disseste-me um dia
Nos acasos de um encontro
Em Tânger
Port- Louis
Ou Mindelo
Que para lá da ilha
Só existe a poesia
(notre vraie patrie après Pile)
E acreditei

101
Juntei então
Toda a areia do deserto
E construí
Grão a grão
Um palácio imenso e deslumbrante
Onde me refugiei
Juntei então
Toda a água do oceano
E cerquei o meu palácio Sem a ilha
Do mar mais profundo Não existe o poema
Que algum dia existiu
Sem o poema
Juntei então Ilha é exílio
O azul de todos os céus Poema é dor e amor
E cobri o meu palácio Poema é mágoa e alegria
Da abóbada mais celestial Poema é injustiça e traição
Que a natureza pintou Poema é entrega e abandono
Habitante do paraíso E luta dos homens pela vida
Só me restaria ser feliz
E construir a memória do esquecimento. Só assim o amanhã
Faltou-me contudo Será diferente
A PALAVRA Deste hoje de nojo
Só assim não seremos
Sem a palavra Exilados
A ilha não existe Nas nossas próprias ilhas

102 103
Poema somente POSFÁCIO

A René Depestre
Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas
En attendant inveja dos que obram a iniquidade. Porque cedo serão
Poderemos ceifados como a erva e murcharão como a verdura.
Eu, tu e todos os outros Salmo DE DAVID
Escrever poemas
Ao vento que passa
Aos amores da rua 11 Paradoxalmente o que pode parecer o sucumbir ao afro-pes-
E alléluias a une femme-jardin
simismo é sim um grito de amor a África, um grito desesperado e
Sentar-nos-emos impotente, mas que assegura que, para lá de todas as tragédias que
a sacodem, África vive e palpita no coração dos africanos e de todos
Na roda dos poetas os homens de boa vontade, e todos os sacrifícios serão consen-
Mais o Arthur, a Sofia tidos na busca desesperada e incessante da salvação colectiva.
O Rosa, o nosso Corsino
Tchicaya, Senghor e Cesaire VD
Sentar-nos-emos todos
Numa insurreição de palavras
Geradora e fecundante
De um tempo novo e redimido
E esconjuraremos juntos
As desgraças do
Tempo que passa
Gloriosamente recusando
A sorte
A morte
E todos os sacrilégios

104 105
OBRAS DA AUTORA ÍNDICE
Amanhã Amadrugada - Vega - 1993.
O Arquipélago da Paixão - Artiletra - 2001.
A Candidata-\JEk-2m. Pórtico 7
Agradecimentos ^
Dedicatória 1
Dedicatória 2
OBRAS R^RTICffADAS Advertência
Citação
ELLEN, Maria M., Across the Atlantic: AnAnthology ofCape Verdean Apresentação
Prefácio
Literature, 1988. Primeiro as súplicas 49
GARCIA, Xosé Lois, Antologia da Poesia Feminina dos PALOP, Noite de San Jon
Laiovento, 1998. Tempos de angústia
Jogos Florais de 12 de Setembro, ICL, 1976. Cantaremos
LOPES Filho, João, Vozes da Cultura Cabo-Verdiana, Ulmeiro, 1998. Agora... as sete preces •
PALAVER - Culture deirAfrica e delia Diáspora, ARGO, 1994/1995. Salve poesia
REBOCHO, Nuno, Na Liberdade -Antologia Poética 30 anos - 25 Abril, Rosa entre cadáveres
Habitante do século vinte e um 67
Garça Editores, 2004. O novo holocausto
RozÂRio, Denira, Palavra de Poeta Cabo Verde Angola, Bertrand Vozes sem eco
Brasil, 1999. Esta canção desesperada
Silenciosa emergência
SECCO, Cármen Lúcia Tindó, Antologia do Mar na Poesia Africana Em Gorée eu chorei
de Língua Portuguesa do Século xx, vol. ii: Cabo Verde, UFRJ, Poemas do antigamente
1999. Meu eu mulher
VEIGA, Manuel, Cabo Verde, Insularidade e Literatura, Karthala, Perdida inocência ^'^
Dolor 95
1998. Violência 96
Maria Maculada 97
Mulher d^hoje 98
Cântico final e redentor 99
Ilha 101
Poema somente 1^^
Posfácio 105

106 107

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