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EMPRÉSTIMO

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Empréstimo é o contrato pelo qual uma das partes entrega à outra


coisa fungível ou infungível, com a obrigação de restituí-la.

Em muitos casos o empréstimo representa manifestação de


solidariedade humana, especialmente se gratuito.

Quem a recebe fica obrigado a restituí-la, tal como acontece na


locação. Como somente se perfaz com a tradição, é contrato de natureza
real. Antes dela só haverá uma promessa de empréstimo.

O Código Civil regula dois contratos de empréstimo, de renomada


importância: O COMODATO e O MÚTUO.

Têm eles em comum a ENTREGA DE UMA COISA.

Diferenciam-se, todavia, profundamente:

- O comodato é empréstimo para uso apenas; é gratuito; a restituição é da


própria coisa emprestada,

- O mútuo é para consumo; tem, na compreensão moderna, em regra,


caráter oneroso; a restituição será de uma coisa equivalente.

1) COMODATO

É o contrato gratuito pelo qual alguém entrega a outrem alguma


coisa infungível, para que dela se utilize e a restitua.

É um direito pessoal, que, portanto, só pode ser oponível contra o


comodante. O comodato se assemelha ao usufruto gratuito, sendo que,
todavia este se caracteriza como direito real, ou seja, é oponível contra
todos; é direito muito mais sólido que o comodato.

PARTES:
- Comodante – quem empresta
- Comodatário – quem toma emprestado

A - CARACTERÍSTICAS

- unilateral

- gratuito

- real – só se aperfeiçoa com a tradição do objeto

- intuito personae

- não solene – pode ser escrito ou verbal. É, portanto, suscetível de


prova até testemunhal.

- Pode ter prazo determinado ou indeterminado, sendo que na falta de


convenção, presume-se que o comodato deve durar o tempo necessário e
suficiente para o uso concedido.

- Somente a pessoa capaz pode celebrar contrato de empréstimo.


Além da capacidade, a pessoa tem que ter legitimidade. Apenas o
proprietário ou possuidor de uma coisa podem dar a coisa em comodato.

B – OBJETO

São objeto do comodato tanto as coisas móveis como as imóveis,


desde que infungíveis.

C - REQUISITOS

- a gratuidade – se assim não o fosse estaríamos diante de uma


locação.

- a não fungibilidade da coisa – o objeto do comodato não pode ser


uma coisa consumível ou fungível, uma vez que deve ser devolvida a
mesma coisa que foi emprestada, sendo que a coisa consumível perde sua
substância no primeiro uso e a coisa fungível é aquela que pode ser
substituída por outra do mesmo gênero, quantidade e qualidade. Por
definição estas coisas não podem ser objeto do comodato.
- e a temporariedade – só existe comodato com a condição de que a
coisa emprestada seja devolvida. O uso da coisa infungível deve ser
temporário, pois do contrário haveria doação.

D - OBRIGAÇÕES

- dever de guardar e conservar a coisa – procurando não a desgastar


ou desvalorizar, evitando qualquer procedimento que possa inferir
negligência ou desídia, sob pena de pagar indenização ao comodante pelos
danos causados, inclusive por terceiro a quem a tenha confiado.

- não utilizar a coisa emprestada para fins alheios aos estipulados no


contrato ou à sua natureza, sob pena de responder por perdas e danos;

- responder pela mora - suportando os riscos, arcando com as


conseqüências da deterioração ou perda da coisa emprestada, e pagar o
aluguel arbitrado pelo comodante pelo tempo de atraso em devolvê-la,
correspondente a perdas e danos, calculados em execução e por
arbitramento, desde a propositura da ação. (art. 582, CC)

- responsabilidade pelos riscos da coisa – art. 583, CC

- pagamento das despesas com o uso do bem – o comodatário pagará


as despesas ordinárias feitas com o uso e gozo do bem dado em comodato,
não podendo recobrá-las do comodante. Poderá cobrar, todavia, as despesas
extraordinárias e necessárias feitas em caso de urgência, podendo reter a
coisa emprestada até receber o pagamento das despesas, por ser possuidor
de boa-fé – art. 584.

- responsabilidade solidária – havendo mais de um comdatário, a


responsabilidade de cada um será solidária em face do comodante, para
melhor assegurar a devolução da coisa, qualquer deles poderá ser acionado,
tendo o acionado ação regressiva contra o que tiver culpa pelo
inadimplemento contratual.

E – EXTINÇÃO DO COMODATO
Se o comodato não tiver prazo convencional, o prazo deverá ser o
necessário para o uso concedido. Sendo que no caso do comodante desejar
a coisa de volta deverá fazê-lo mediante notificação do comodatário,
assinando prazo para a notificação.

Quando existir prazo convencionado, o comodante não poderá exigir


a restituição do bem antes do termo final, a não ser que prove necessidade
imprevista e urgente.

A ação competente para que o comodante possa reaver o bem é o


interdito possessório.

A ação de reintegração de posse é cabível no comodato verbal,


quando houver prova da notificação e da mora do comodatário.

2) MÚTUO

Este empréstimo transfere o domínio da coisa emprestada ao


mutuário, já que este não é obrigado a devolver a mesma coisa, mas outra
do mesmo gênero, quantidade e qualidade.

PARTES:

- Mutuante – quem empresta;


- Mutuário – quem toma emprestado.

A) CARACTERÍSTICAS

- unilateral – impõe obrigações a apenas uma das partes: o mutuário.

- real – a transferência da propriedade é o elemento fundamental do


mútuo e se opera com a tradição da coisa fungível.

- gratuito ou oneroso -

- por ter como objeto coisas fungíveis, há na verdade uma


transferência de domínio, logo o mutuário pode usar a coisa como bem
entender – pode consumi-la, abandona-la, aliena-la ou onera-la, sem que
seja necessária a anuência do mutuante.

B) OBJETO
O mútuo tem por objeto uma coisa fungível, isto é, a coisa que pode
ser substituída por outra do mesmo gênero, quantidade e qualidade, por isso
se diz que o mútuo é empréstimo de consumo.

D) O MÚTUO FEITO A PESSOA MENOR.

O artigo 588 trata do mútuo feito a pessoa menor, dispondo que


feito a pessoa menor, sem prévia autorização de seu responsável, não
poderá ser reavido do mutuário ou de seus fiadores.

No art. 589, que a princípio é repetição do art. 1.260 do antigo


Código Civil, surge como novidade os incisos IV e o V, sendo este último
promessa de polêmica.

O artigo 589 trata das exceções a regra do art. 588, ou seja, quando
o mútuo pode ser reavido do menor ou de seus fiadores. As exceções se
apresentam quando ausente a malícia do mutuante em valer-se da
inexperiência do menor, não fugindo o novel inciso IV desta regra ao
autorizar o mutuante a pleitear a restituição do capital mutuado se este
reverteu em benefício do menor.

E) MÚTUO FENERATÍCIO

Mútuo feneratício ou oneroso é aquele praticado em relação ao


empréstimo de dinheiro ou de outras coisas fungíveis.

Destinado a fins econômicos, os juros são devidos desde que não


ultrapassem a taxa que estiver em vigor para a mora do pagamento de
impostos devidos à Fazenda Nacional.

A capitalização (juros de juros) é autorizada anualmente.

A atualização monetária é prevista para garantir a integridade do


valor, ou seja, o poder aquisitivo da moeda.
F) A EXTINÇÃO DO CONTRATO DE MÚTUO. O
PAGAMENTO ANTECIPADO E A REDUÇÃO PROPORCIONAL
DOS JUROS.

Extingue-se o contrato de mútuo como os demais contratos, com:

a) o pagamento (arts. 304/355);


b) no prazo avençado cumprindo-se todas as obrigações pactuadas;
c) por meio de dação em pagamento (arts.356/359);
d) novação (arts.360/367);
e) compensação (arts.368/380);
f) confusão (arts.381/384); e
g) remissão (arts.385/388).

O artigo 592 e seus incisos dispõem sobre hipóteses em que as


partes contratantes não tenham convencionado o prazo do mútuo.

Questão controvertida, neste aspecto, sempre foi quanto a


possibilidade do mutuário antecipar a restituição do dinheiro emprestado e
exonerar-se dos juros a vencerem. Muitos doutrinadores opõem-se a tal
entendimento, alegando que a legítima expectativa do mutuante ao
contratar o mútuo consiste nos juros que receberá e que seria frustrada com
a antecipação da devolução do capital mutuado.

Não podemos nos esquecer, no entanto, que, tratando-se o mutuário


de consumidor, ou sendo o mutuante instituição financeira, será assegurado
ao mutuário antecipar o prazo de restituição do mútuo reduzindo-se
proporcionalmente os juros e encargos, nos termos do Código de Defesa do
Consumidor, art.52, parágrafo 2o., e Resolução BACEN n. 2878, de
26/07/2001- Código de Defesa do Cliente Bancário- artigo 7o.

Por fim, o art. 590, prevê que o mutuante possa exigir garantia da
restituição, se antes do vencimento o mutuário sofrer mudança de fortuna,
sendo aplicação do princípio do art. 477 do CC. Não apresentada a
garantia, poderá o mutuante dar ensejo a resolução do contrato.