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DUPERRON DE CASTERA: LEITOR DE CAMÕES,

CENSOR DE VOLTAIRE

Rafael Souza Barbosa*

Regina Zilberman

RESUMO: A primeira tradução de Os Lusíadas em França, realizada por Duperron de Castera em pleno
século dezoito (1735), opôs-se diretamente, por meio de seus prefácio e notas, ao Ensaio sobre o poema
épico (1727), escrito por Voltaire, não só permitindo a difusão da épica camoniana em França, tardia em
relação aos seus países vizinhos – o próprio Voltaire a lê uma tradução inglesa (1654) –, mas também
posicionando-se em relação a leituras do poema feitas até então. São nas páginas impressas de La Lusiade
que Castera censura a postura racionalista de Voltaire, propondo uma outra interpretação da obra, à luz da
alegoria barroca, que julga mais adequada. Assim, em meio a embates hermenêuticos, constitui-se
paulatinamente uma fortuna crítica de Camões em França, cuja mediação será decisiva na sua intensa
recepção durante o século XIX.

PALAVRAS-CHAVE: leitura, Camões, recepção literária.

RESUMÉ: La première traduction de Os Lusíadas en France, entreprise par Duperron de Castera au beau
milieu du dix-huitième siècle (1735), fut opposée, par son préface et ses notes, à L’Essai sur le poème épique
(1727), écrit par Voltaire, permettant tant la diffusion de l’épique camonienne en France, en retard en face
des pays qui l’entouraient, que la mise en oeuvre des lectures qui en fut faites jusqu’alors. C’était dans les
pages de La Lusiade que Castera censura la position rationaliste de Voltaire, proposant une lecture d’après
l’allégorie baroque qu’il jugeait plus appropriée. Ce fut ainsi, parmi des disputes herméneutiques, que
Camões rentra le dix-neuvième siècle, attirant des lecteurs en France.

MOTS-CLES: lecture, Camões, réception littéraire.

1. Comentário inicial

Decorrente de um estudo mais amplo sobre a recepção do legado camoniano1 em


França na primeira metade do século XIX, parte do projeto de pesquisa Ferdinand Denis –
historiador da literatura, leitor de Camões2, coordenado pela professora Regina Zilberman
no Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IL/UFRGS), este
                                                            
*
 Graduando em letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bolsista de iniciação científica
(BIC/PROPESQ) na mesma instituição. Email: rafaelsouzabarbosa@gmail.com. 
1
Achamos mais adequado o emprego da expressão legado camoniano em detrimento de obras camonianas,
uma vez que tais recepções abarcam tanto obras atribuídas ao poeta quanto outros textos que elas suscitaram,
especialmente biografias e comentários exegéticos. Além disso, a centralidade das discussões sobre autoria e
do trabalho de fixação dos textos no campo dos estudos camonianos impossibilita qualquer referência
genérica a um cânone (v. AZEVEDO-FILHO, 1987; AGUIAR E SILVA, 1975).
2
Tal projeto divide-se em dois eixos: o primeiro trata da tradução comentada da obra Résumée de l’histoire
littéraire du Portugal (1826), escrita por Ferdinand Denis, e do resgate e da atualização dos textos em que o
autor baseou a sua pesquisa; o segundo trata da recepção de Luís de Camões nas primeiras décadas do século
XIX, em língua portuguesa, haja vista a sua centralidade naquela obra.


 
trabalho trata da relação estabelecida entre a primeira tradução para o francês de Os
Lusíadas (1735), realizada por Duperron de Castera, e o Ensaio sobre o poema épico
(1727), escrito por Voltaire, abordando as declaradas discordâncias do primeiro em relação
ao segundo. Tal divergência permitiu certa continuidade na leitura do épico camoniano,
garantindo, prospectivamente, a sua divulgação e permanência no cenário cultural Francês,
tornando-se decisiva para elaborar a recepção de Camões no século XIX.

2. Os Lusíadas, de Portugal a França

Embora Os Lusíadas tenha acumulado leituras significativas em Portugal a partir de


1572, com parecer do Frei Bartolomeu Ferreira impresso na edição princeps, foi em
Espanha que algumas leituras e menções projetaram o épico português no espaço cultural
Europeu, abundantes após a publicação das suas duas traduções em castelhano em 1580.
Embora o período de consagração de Camões como príncipe dos poetas em Portugal possa
ser estabelecido entre 1572 e 17213 (PIRES, 1982), a sua elaboração depende diretamente
do impacto decisivo exercido por leituras e apropriações castelhanas durante o período da
União Ibérica. Patrocinadas por Felipe II e impressas pelas universidades de Salamanca e
Alcalá em 1580, as duas traduções concomitantes de Os Lusíadas integraram uma
estratégia política de sedução e de intimidação, a favor do herdeiro castelhano do trono
português, que, ao divulgá-lo, acabou atribuindo ao épico camoniano o valor simbólico de
representante de uma cultura (ANASTÁCIO, 2004, p. 8). Além disso, ambas traduções não
foram submetidas à censura eclesiástica, de modo que, ao passo que circulava em Portugal
uma edição profundamente modificada4 do épico, da qual diversos versos e a cena da ilha
dos amores foram suprimidos, circulavam em Espanha duas edições minuciosas e integrais
do poema, permitindo que ele fosse lido e de algum modo incorporado ao patrimônio
cultural espanhol, graças ao seu largo efeito em poetas e escritores (HUE, 2009, p. 87),
como Miguel de Cervantes e Lope de Vega. Assim, marcado desde muito cedo pela sua
ampla divulgação em Espanha, pela sua associação simbólica a Portugal (ANASTÁCIO,

                                                            
3
Data da impressão de Nova arte dos conceitos, de Francisco Leitão Ferreira.
4
Responsável pela adaptação e redação em português das regras do Index Librorum Prohibitorum de 1581,
Frei Bartolomeu Ferreira interferiu largamente nas demais edições de Os Lusíadas publicadas durante a sua
vida, tendo sido o autor dos desastrosos comentários que acompanham a edição de 1584.


 
2010), pela intensa atividade censória que o envolvia e pela circulação de edições piratas5
(ANASTÁCIO, 2005), Os Lusíadas alcançou um contexto europeu mais amplo apenas
quando parte do patrimônio cultural espanhol também o fez, atrelando-se decisivamente a
ele ao longo, pelo menos, dos séculos XVII e XVIII.
Em França, a Espanha estava de tal modo presente nos séculos XVI e XVII que
Portugal chegava a ser tomado como o seu vago duplo (PAGUEAUX, 1984), reforçando a
consequente indistinção de seus patrimônios culturais que marca, pelo menos
materialmente, as primeiras leituras e apropriações de Os Lusíadas. Em 1674, são
publicadas duas obras6 que empreendem leituras da vida e da obra de Camões, a primeira
enquadrando-se na herança discursiva da poética clássica7 então ascendente, Réflexions sur
la Poétique d’Aristote et sur les ouvrages des poètes anciens et modernes, de René Rapin,
e a segunda valendo-se da forma já consagrada do dicionário histórico, Grand Dictionnaire
Historique ou le Mélange Curieux de l’Histoire Sacrée et Profane, Louis Moréri. Em
ambas, não só constatamos os quatro principais conceitos que seriam empregados em
leituras da épica camoniana até o começo do século XIX8, as noções de ancien e moderne
e a dicotomia sacrée e profane, mas também deparamo-nos com a presença de Espanha,
como no longo artigo sobre a vida e a obra de Camões escrito por Moréri, que se remete
diretamente à Bibliotheca Hispana (1672), de Nicolás Antonio. Inclusive, Adrien Baillet
também se remete a ela em seu Jugements de savans sur les principeaux ouvrages des
auteurs, publicado originalmente em 1685 e reeditado, com modificações de M. de La
Monnoye, em 1722, permitindo que proponhamos, se não uma genealogia, pelo menos
uma certa recorrência de fontes primárias.

3. A leitura de Voltaire e seus contrapontos em Castera

A leitura de Voltaire integra esse circuito de leitores de modo bastante particular,


pois ela foi feita em Inglaterra, a partir de outras fontes, e foi publicada originalmente em
inglês, em 1727, tendo sido traduzida para o francês apenas no ano seguinte.
                                                            
5
As leituras do épico português feitas dentro da península ibérica acabaram tendo de lidar também com esses
dados materiais. A polêmica da mistura de deus pagãos em um épico cristão, à qual vamos retornar, é um
caso exemplar de tal condicionamento material da leitura, derivado da própria censura eclesiástica.
6
Não incluímos em nossa análise obras de cunho eminentemente literário, como aquelas motivadas pelos
episódios do Adamastor e de Inês de Castro.
7
Também em 1674 é publicada a primeira edição de L’Art Poétique, de Boileau.
8
François-René de Chateaubriand, por exemplo, aborda o legado camoniano em seu Génie du Christianisme
(1802) dentro da tradição sacrée/chrétien e profane/païen.


 
Apresentando-se como um esforço de leitura de poemas épicos entre antigos e modernos9,
o Ensaio sobre o poema épico foi escrito para anteceder La Henriade, poema de Voltaire,
como um prefácio ou estudo preliminar, opondo-se diretamente a leituras profundamente
prescritivas e anacrônicas, como as de Rapin e Boileau, conforme ele escreve na
apresentação da obra:

Nous avons dans chaque Art plus de préceptes que d'exemples; car les hommes
ont plus de passion pour enseigner que de talent pour executer; ansi il y a plus de
Commentateurs que de Poëtes, & plusieurs Ecrivains incapables de faire deux
vers, nous ont accablés de Traités de Poëtique10. (VOLTAIRE, 1728, p. 1-2)

Ele, centraliza, então, a sua leitura em elementos que pudessem interessar ao leitor,
seu contemporâneo, evocando oportunamente aqueles que dificilmente interessariam. Para
estabelecê-los, ele se vale de opiniões que encontra registradas, supostamente de vários
países, definindo, de antemão e por unanimidade, que é necessário uma unidade de ação,
pois a inteligibilidade goza um prazer mais sensível quando ela lida com um objeto
simples e proporcional ao seu olhar, e que tal unidade de ação seja internamente
diversificada, pois ela deve ser grandiosa, para nos golpear com sua imponência,
interessante, para sentirmos prazer ao sermos agitados e comovidos, e inteira, para que
nada falte à satisfação do nosso espírito. Assim, ao ler, por exemplo, Homero, ele comenta
a independência entre os livros de A Ilíada, as ausências de sequência e de ligação
necessárias entre eles, e os caracteres de seus heróis, a violência excessiva de Aquiles, a
vulgaridade de Menelau e a vileza de Páris, deixando ao leitor o julgamento de se tal obra
“quelque bien écrit qu'il soit, peut nous interesser11” (VOLTAIRE, 1728, p. 30).
Os Lusíadas, nessa medida, interessam Voltaire por inúmeros aspectos, entre os
quais o autor destaca a modernidade do poema, por valer-se de um tema inaudito para a
poesia épica, e a beleza da sua elocução, decorrente da maneira encantadora com que foi
escrito. Partindo do equívoco de assumir que Camões participara da viagem de Vasco da
Gama12, Voltaire (1728, p. 61-62) discorre sobre o delicioso prazer, que ninguém antes
dele conhecera, de celebrar um amigo e as ações das quais fora testemunha, comentando

                                                            
9
Dos antigos, Lucano, Virgílio e Homero; dos modernos, Tasso, Ercilla, Trissino, Camões e Milton.
10
Temos em cada arte mais princípios do que exemplos, já que os homens possuem mais paixão para ensinar
do que talento para fazer; assim há mais comentadores do que poetas, e muitos escritores, incapazes de fazer
um par de versos, sufocaram-nos com artes poéticas. (Tradução nossa)
11
“Ainda que seja bem escrita, possa nos interessar.” (Tradução nossa)
12
Há diversos trabalhos, como o de Roger Bismut (1981), que, por utilizar edições do Ensaio do final do
século dezoito ou início do dezenove, não registram significativas gafes do filósofo, apontadas incisivamente
por Castera e posteriormente revisadas ou omitidas, das quais tal suposição é a mais evidente.


 
que um tema tão novo, elaborado por um génie superieur, não poderia deixar de produzir
um tipo de poema épico até então desconhecido, por não se ocupar de combates
sangrentos, heróis feridos, mulheres apaixonadas e cidades destruídas. Embora tal tema
seja simples, a sua simplicidade é elevada por algumas criações, como o episódio do
gigante Adamastor, do qual ele se persuade que “passera pour belle e sublime dans tous les
siècles e chez toutes les Nations13” (1728, p. 64). Entretanto, ainda que a forma
encantadora de elocução do poeta colabore com o sucesso desse episódio, ela acabaria
ocultando, de um modo geral, as falhas de outras alegorias do poema, como da ilha dos
amores14 e do maravilhoso dos deuses:

On trouve dans tout le cours du Poëme une autre forte de merveilleux, qu’il est
impossible de justifier. C’est un mélange déraisonable des Dieux du Paganisme,
avec les objects de la Religion Chrétienne. Verasco dans une tempête adresse ses
voeux à J. C. c’est cependant Venus qui vient à son secours. (...) Un merveilleux
si mal-assorti défigure tout le Poëme15. (VOLTAIRE, 1728, p. 66-67)

Mesmo tendo usado a palavra alegoria e tendo se interessado por Adamastor,


Voltaire assevera ser injustificável a mistura de deuses pagãos e de símbolos cristãos,
como se fosse um arranjo mal sucedido do elemento maravilhoso. Em um parágrafo curto,
mesmo hesitante, ele evoca, aos seus olhos, a principal falha do poema de Camões,
elaborando, na sequência, de modo mais severo, a extensão total de seu juízo:

Je me souviens qu’après que Verasco da Gama a donné ses aventures au Roi de


Melinde, il lui dit: ô Roi, juge si Enée & Ulisse ont voyagé aussi loin que moi &
ont effuié tant de perils; comme si ce Sauvage Africain avoit quelque
connoissance des Heros D’Homere & de Virgile. Je trouve en general son Poëme
plein de choses excellentes & de bévûës pitoiables, placés sans intervalle les
unes auprès des autres.16 (VOLTAIRE, 1728, p. 67-68)

Revela-se, assim, a dimensão de verossimilhança, recuperada e reformulada há


cerca de um século em França, que, direta ou indiretamente, norteia a sua leitura e,
                                                            
13
“passará por belo e sublime em todos os séculos e em todas as nações.” (Tradução nossa)
14
Segundo Voltaire, o episódio da Ilha dos Amores agradaria apenas a portugueses e a italianos, a ninguém
mais, dada a lascívia com que fora pintada.
15
Encontra-se em todo o curso do poema nada menos do que uma presença intensa do maravilhoso,
impossível de justificar. É uma mistura irracional de deuses do paganismo com objetos da religião cristã.
Vasco, durante uma tempestade, endereça seus votos à Jesus Cristo, é Vênus, entretanto, que vem ao seu
socorro. (...) O maravilhoso assim tão mal arranjado desfigura todo o poema. (Tradução nossa)
16
Lembro que, após ter contado as suas aventuras ao Rei de Melinde, Vasco da Gama lhe disse: Ó, rei, julgai
se Enéias e Ulisses chegaram tão longe quanto eu e escaparam perigos semelhantes; como se esse selvagem
africano tivesse algum conhecimento dos heróis de Homero e Virgílio. Acho o poema, de um modo geral,
cheio de coisas excelentes e de gafes lamentáveis, colocadas, sem intervalo, umas após as outras. (Tradução
nossa)


 
consequentemente, o seu juízo. Diferentemente do absurdo dos caracteres dos deuses
homéricos, as divindades de Camões não são por si só absurdas ou desinteressantes, mas
tornam-se profundamente incômodas ao figurarem em um poema moderno, lado a lado de
evocações cristãs. Dito de outra maneira, tal arranjo suscitou apenas certo entendimento de
Voltaire, despojado de qualquer dimensão estética, por estar muito aquém do seu horizonte
de expectativas (JAUSS, 1994). De modo mais aparente, a leitura da fala de Vasco
endereçada ao rei de Melinde não só corrobora a sua atenção a verossimilhanças, mas
também indica o que poderíamos chamar de racionalismo como conformador de seu
horizonte de expectativas, sugerindo como se dá, efetivamente, a sua prática de leitura.
Os efeitos seguidos à publicação do Ensaio de Voltaire em França são difíceis de
precisar, mas, contrastando datas e textos, podemos sugerir pelo menos um deles, a
motivação dada a tradutores e a editores para publicar, em francês, os poemas referidos
pelo autor que ainda não possuíam traduções. Dos modernos, à exceção17 das obras de
Trissino e de Tasso, que haviam sido traduzidas no século XVI18, as de Milton e de
Camões foram traduzidas alguns anos após a aparição do Ensaio, respectivamente em 1729
e 1735, permitindo que encaremos a primeira versão de Os Lusíadas como uma resposta
dada por Castera a Voltaire, que, ainda no século dezoito, condicionaria uma segunda
tradução do épico português.
Duperron de Castera, diplomata e conhecedor das literaturas ibéricas19
(PAGEAUX, S/D, p. 3), no prefácio da tradução, afirma estar convencido de que o parnaso
francês enriquece-se às custas de todas as nações e, por isso, dá a ele La Lusiade, “qui peut
passer pour l'un des plus beaux Poëmes, qu'on ait jamais lûs depuis Homere & Virgile20”
(CAMOENS, 1735, p. VI). Dirigindo-se, ainda indiretamente, a Voltaire, ele prossegue:

Le sujet en est grand, & tel qu'il le faut pour l'Epopée; c'est la
découverte des Indes par les Portugais. L'unité de la principale action & celle du
Héros s'y trouvent observées parfaitement; on y voit une conduite ménagée
avec art, une allegorie sublime, plusieurs épisodes bienamenés avec force &
délicatesse, des peintures vives; enfin un style varié suivant l'exigence des
matières; tantôt doux & simple, tantôt rapide & majestueux; toûjous admirable,
& jamais défiguré par ces jeux de mots (...)21. (CAMOENS, 1735, p. VII, grifos
nossos)
                                                            
17
O poema de Alonso de Ercilla, La Araucana, seria sugestivamente traduzido por Merlhiac, um profundo
admirador de Camões, apenas no século XIX (1824).
18
Respectivamente, 1559 e 1595.
19
Tradutor de Lope de Vega, Extraits de plusieurs pièces du théâtre espagnol, 1738.
20
“que pode passar por um dos mais belos poemas lidos após Homero e Virgílio”. (Tradução nossa)
21
O tema é grandioso tal como cabe a uma epopeia; é a descoberta das índias pelos portugueses. As unidades
principais de ação e dos heróis encontram-se com perfeição no poema; vê-se a sequência artisticamente


 
Asseverando que o tema é grandioso, como cabe a uma epopeia, e que a unidade
principal de ação encontra-se de modo perfeito na obra, Castera se refere aos dois
princípios do poema épico definidos de antemão por Voltaire, de algum modo
enquadrando discursivamente a eles Os Lusíadas, da melhor maneira possível. Inclusive,
ele re-elabora, de modo favorável, algumas colocações do outro autor, dizendo que se
encontram no poema sequências artisticamente compostas, alegorias sublimes, muitos
episódios bem-arranjados, com força e delicadeza, como pinturas vivas. Além disso, ele
constata a erudição de Camões, largamente presente na obra, que o teria feito, ao final de
cada canto, incluir notas explicativas, que forneceriam o que é necessário à sua suposta
compreensão, já que ele estaria repleto de elementos que fogem ao comum. De fato,
embora também forneçam informações de ordem referencial, as notas, grosso modo,
materializam um percurso de leitura, por meio do qual ele pretende mostrar a Voltaire,
agora diretamente, que a sua censura a diversas passagens de Os Lusíadas não se sustenta.
O percurso de leitura de Castera, via as notas, pretende justificar a mistura de
deuses pagãos e símbolos cristãos no poema, desconstruindo o aspecto mais negativo do
juízo de Voltaire. A alegoria do poema, como ele a chama, sustenta-se em duas
considerações: a primeira, de que, historicamente, as diferentes divindades são funções
distintas de um mesmo deus (Por exemplo, Marte é Júpiter na guerra); a segunda, de que
seria ridículo encontrar nome de deuses pagãos na poesia moderna, caso não fossem
alegorias que, desde Tasso, são a alma da epopeia. Assim, ele constata que:

Si le merveilleux tiré de la Théologie payenne n'est point ridicule dans un


ouvrage nouveau, rien ne l'empêche d'exciter l'admiration & d'interesser le
Lecteur22; (...) je finis, en priant le Lecteur de suivre attentivement l'allégorie du
Camoëns, que je tâcherai d'expliquer sans faire violence au texte23. (CAMÕES,
1735, p. 62-64, grifos nossos)

                                                                                                                                                                                    
ordenada, alegorias sublimes, muitos episódios bem arranjados, com força e delicadeza, pinturas vivas;
enfim, um estilo variado segundo a exigência dos conteúdos; às vezes doce e simples, às vezes ágil e
majestoso: sempre admirável e nunca desfigurado por jogos de palavras. (Tradução nossa) 
22
Chamamos a atenção par ao fato de que Castera aqui se remete ao objetivo central do Ensaio, a busca por
uma atualidade do poema épico, atribuindo a La Lusiade a capacidade de provocar admiração e de interessar
ao leitor, apesar do juízo de Voltaire.
23
Se o maravilhoso retirado da teologia pagã não é ridículo em uma obra moderna, nada o impede de
provocar admiração e de interessar ao leitor; (...) assim encerro, pedindo ao leitor que siga atentamente a
alegoria de Camões, que me esforçarei para explicar sem fazer violência ao texto. (Tradução nossa)


 
E, nas notas seguintes, ao longo do concílio dos deuses, Castera explica,
pormenorizadamente, que, segundo a alegoria do poema, Júpiter é Deus Pai; Baco, o
Diabo; Vênus, a Religião Cristã; Marte, Jesus Cristo; e Mercúrio, os anjos.
Independentemente do valor que se possa atribuir a essa explicação alegórica,
chama-nos a atenção o fato de que, a partir de um comentário um pouco mais severo,
desenvolvido em cerca de um parágrafo por Voltaire, Castera elabora o mote das suas
leitura e tradução, indicando algo sobre a possível relação entre o texto e o público francês.
Se tal censura pode não parecer tão ostensiva, a resposta de Castera o é, não só deslocando
elementos de uma discussão que estava sendo feita em Portugal, a famosa polêmica dos
deuses, mas também demonstrando conhecer as literaturas ibéricas, que vinham
multiplicando o uso da alegoria em suas obras. Ele se coloca, assim, no centro de um
embate hermenêutico, cujos efeitos estendem-se até o século XIX, tornando-se um
mediador de duas dinâmicas culturais, entre o racionalismo e a alegoria.

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CAMOENS. La Lusiade du Camoens: poëme héroïque sur la découverte des Indes


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CAMOENS. La Lusiade du Camoens: poëme héroïque sur la découverte des Indes
Orientales. Traduite du portugais par M. Duperron de Castera. Paris:
HUART/DAVID/BRIASSON/CLOUSIER, 1735, t. 2 Disponível em: <
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HUE, Sheila Moura. Camões entre seus contemporâneos – sobre a recepção da obra
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