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Crise do capitalismo

global no mundo
e no Brasil
Organizadores:
Francisco Luiz Corsi
José Marangoni Camargo
Agnaldo dos Santos
Rosângela Lima Vieira

Autores:
Reinaldo A. Carcanholo
Gustavo E. Santillán
Francisco L. Corsi
Rosângela L. Vieira
Mirian C. Lourenção Simonetti
Adriane de Sousa Camargo
José M. Camargo
Agnaldo dos Santos
Noemina Ramos Vieira
Newton Ferreira da Silva
Cláudio Rodrigues da Silva
Diego Marques Pereira dos Anjos
Yuri Rodrigues da Cunha

Projeto Editorial Praxis


Crise do capitalismo
global no mundo
e no Brasil

Francisco Luiz Corsi


José Marangoni Camargo
Agnaldo dos Santos
Rosângela Lima Vieira

Projeto Editorial Praxis

1ª edição 2013
Bauru, SP
Coordenador do Projeto Editorial Praxis
Prof. Dr. Giovanni Alves

Conselho Editorial
Prof. Dr. Antonio Thomaz Júnior – UNESP
Prof. Dr. Ariovaldo de Oliveira Santos – UEL
Prof. Dr. Francisco Luis Corsi – UNESP
Prof. Dr. Jorge Luis Cammarano Gonzáles – UNISO
Prof. Dr. Jorge Machado – USP
Prof. Dr. José Meneleu Neto – UECE

S2373c Santos, Agnaldo dos


Crise do capitalismo global no mundo e no Brasil / Agnaldo dos
Santos, Francisco Luiz Corsi, José Marangoni Camargo e Rosângela
Lima Vieira. - - Bauru, SP: Canal6, 2013.
310 p. ; 21 cm. (Projeto Editorial Praxis)

ISBN 978-85-7917-247-2

1. Economia. 2. Crise Econômica Mundial. 3. Crise Financeira


Mundial. I. Santos, Agnaldo dos. II. Corsi, Francisco Luiz. III. Ca-
margo, José Marangoni. IV. Vieira, Rosângela Lima V. Título.

CDD: 338

Copyright© Canal 6, 2013


Sumário

Apresentação....................................................................... 9

Capítulo 1
Sobre a atual fase do capitalismo
— Reinaldo A. Carcanholo............................................... 19

Capítulo 2
Cuatro años de crisis, 2008-2012. Aportes para un
análisis comprensivo de la coyuntura global
— Gustavo E. Santillán..................................................... 31

Capítulo 3
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica
— Francisco Luiz Corsi........................................................51

Capítulo 4
Crise atual: observações a partir da Economia Política
dos Sistemas-Mundo — Rosângela de Lima Vieira........ 71
Capítulo 5
Desafio das Ruas às Instituições Representativas
— Jair Pinheiro.................................................................. 87

Capítulo 6
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades
da Via Campesina — Mirian Claudia Lourenção
Simonetti e Adriane de Sousa Camargo..........................119

Capítulo 7
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a
Economia Brasileira — José Marangoni Camargo........ 139

Capítulo 8
Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades
de Ciência e Tecnologia no Brasil e o Paradigma
da Colaboração no Contexto da Crise Econômica
Mundial — Agnaldo dos Santos..................................... 167

Capítulo 9
América latina, globalização e espaços de resistência:
o caso dos índios Guarani-Kaiowa no Brasil
— Noemia Ramos Vieira................................................ 187

Capítulo 10
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade
estrutural sistêmica — Newton Ferreira da Silva......... 213
Capítulo 11
Crise Econômica, Fluxos Migratórios Internacionais,
Governabilidade e Educação: Uma Análise a partir de
Documentos e Organismos Internacionais
— Cláudio Rodrigues da Silva........................................ 225

Capítulo 12
Acumulação capitalista no regime de acumulação
flexível ­— Diego Marques Pereira dos Anjos................. 247

Capítulo 13
Reestruturação dos serviços: a expansão da
terceirização — Yuri Rodrigues da Cunha.................... 273
Apresentação

O XII Fórum de Análise de Conjuntura “Crise do capi-


talismo global no mundo e no Brasil”, organizado pelo
grupo de Pesquisa Estudos da Globalização, dedicou-se,
como nas últimas versões, à discussão de um ponto canden-
te da conjuntura internacional, a crise que assola o sistema
capitalista desde 2008, a mais severa desde a depressão da
década de 1930. A crise atual, que tudo indica ser mais uma
crise estrutural do capitalismo, como nas vezes anteriores,
tenderá abrir uma fase de mudanças e reestruturação do
conjunto do sistema de longo alcance para as classes sociais,
para a luta de classes, para as economias nacionais e para a
divisão internacional do trabalho, o que impacta não só o
centro, mas também a periferia do capitalismo global. Esta
edição do Fórum de Conjuntura dedicou-se à discussão dos
desdobramentos desses processos, sobretudo para o Brasil.
A fase que se abre será decisiva para os caminhos da so-
ciedade e da economia brasileira. A crise e estagnação das
economias centrais e suas repercussões pode aprofundar a
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tendência de ascensão do leste asiático como novo centro di-


nâmico do capitalismo global. A China parece estar criando
sua própria periferia fornecedora de bens primários e ma-
nufaturados de baixo valor agregado intensivos em recur-
sos naturais. O Brasil e a maior parte do resto da América
Latina parecem ser candidatos a integrar essa periferia. A
reprimarização das exportações, o baixo dinamismo do se-
tor industrial e a quebra de cadeias produtivas são indícios
dessa tendência. Contudo, a trajetória da economia brasilei-
ra não está decidida e resultará não apenas do desfecho des-
ses processos que estão reestruturando o capitalismo global,
mas também dos resultados das lutas de classe na sociedade
brasileira, o que torna a reflexão dessas questões, alvos do
presente volume, muito oportunas.
A partir dessa perspectiva o XII Fórum de Análise de
Conjuntura dividiu-se em dois blocos. Um primeiro bloco,
composto de uma palestra e duas mesas-redondas, discutiu
as raízes históricas, a natureza e os desdobramentos da crise
atual, particularmente para a América Latina. Um segun-
do bloco dedicou-se à reflexão dos impactos econômicos e
sociais da crise no Brasil. Especial atenção foi dada aos mo-
vimentos sociais e às questões relativas à reprimarização da
pauta de exportações e do desenvolvimento tecnológico. O
Fórum também contou com contribuições feitas na forma
de comunicações, que expressaram o resultado parcial de
pesquisas em curso levadas a cabo por alunos de mestrado e
doutorado da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) acerca
dessa temática.
O livro, seguindo a organização do evento, está dividido
em três partes. A primeira contempla os capítulos que abor-
Apresentação | 11

dam questões de ordem teórica e discutem a crise a partir


de uma perspectiva do conjunto do sistema e de mais longo
prazo. A segunda parte abarca os capítulos que discutem os
impactos econômicos, sociais e políticos da crise no Brasil.
A terceira reúne as comunicações apresentadas no evento.
Prestamos nossa homenagem a Reinaldo Carcanholo,
por suas importantes contribuições na análise do capitalis-
mo global. O primeiro capítulo, de sua autoria, intitulado
“Sobre a atual etapa do capitalismo”, trata de uma discussão
teórica acerca do capitalismo contemporâneo, o qual consi-
dera caracterizado, sobretudo, pela especulação e pela exis-
tência de um capital parasitário. Essas características seriam
o que distingue a etapa atual das anteriores. Para discutir
sua tese retoma o debate sobre questões polêmicas no in-
terior do marxismo, a saber: a natureza do capital fictício,
o debate sobre a questão do trabalho produtivo X trabalho
improdutivo e o problema da lei tendencial de queda da taxa
de lucros. Busca mostrar a existência de lucros fictícios, que
decorreria de mecanismos endógenos à especulação. Ressal-
ta também os mecanismos relacionados aos gastos militares
e ao incremento da dívida pública como base importante da
expansão da especulação e do capital fictício. A causa das
crises não se encontraria no subconsumo, como acredita
parte da literatura, estaria sim vinculada a queda tendencial
dos lucros, mitigada pela valorização fictícia. O texto apon-
ta a necessidade urgente do aprofundamento da discussão
sobre esses temas, pois a discussão continuaria em aberto.
No segundo capítulo, Gustavo Santillán, no texto “Cua-
tro años de crise, 2008-2012: aportes para un análisis com-
prensivo de la conyuntura global”, desenvolve o argumento
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segundo o qual a crise financeira de 2008 é apenas superfície


de uma crise econômica mais abrangente, desenvolvida nas
últimas décadas, e que a necessidade de expansão geográfi-
ca dos mercados rumos à novas fronteiras de acumulação é
que explica a dinâmica financeira atual. As dificuldades de
projetos alternativos advêm do fato da desestruturação da
classe operária europeia e da incipiente organização dos tra-
balhadores na região asiática, exigindo esforços interpretati-
vos para localizar as novas fontes de contestação ao capital.
O capítulo “A crise do capitulo global em perspectiva
histórica”, escrito por Francisco Luiz Corsi, discute a origem
da crise aberta com a falência do banco norte-americano
Lehman Brothers, em 2008, que atingiu o conjunto da eco-
nomia mundial e abriu a crise mais profunda desde a grande
depressão da década de 1930. Esta crise só pode ser com-
preendida a partir dos desdobramentos da reestruturação do
capitalismo iniciada na década de 1970 como resposta às cri-
ses de superprodução, do sistema monetário internacional e
de hegemonia dos EUA no período. A hegemonia do capital
financeiro, a desregulamentação das economias nacionais,
a reestruturação produtiva e a reconfiguração espacial da
acumulação de capital, com a constituição do Leste Asiático
como centro dinâmico da acumulação, são as principais ca-
racterísticas da nova fase do capitalismo. Apesar das crises
serem inerentes a própria lógica da acumulação, na mundia-
lização do capital aprofundou-se a instabilidade do sistema,
que passou a conviver com crises em períodos cada vez mais
curtos. A razão principal desse comportamento estaria na
dominação do capital financeiro, cuja hegemonia parece es-
tar em questão na atual crise.
Apresentação | 13

O texto “Crise atual: observações a partir da Economia


Política dos Sistemas-Mundo”, de Rosângela de Lima Viei-
ra, tem por objetivo comparar alguns aspectos da transição
hegemônica britânica para a norte-americana com a atual
crise do capitalismo. A expansão financeira que precedeu a
crise atual é um dos elementos em comum entre os perío-
dos históricos comparados. A autora desenvolve sua análise
a partir da abordagem da Economia Política dos Sistemas-
-Mundo, utilizando sobretudo a obra de Giovanni Arrighi,
como fundamento. Observa as dificuldades de estudos so-
bre o tempo presente; em certa medida, superáveis com a
utilização do método comparativo. Tal metodologia torna-
-se mais relevante ainda quando o fenômeno histórico estu-
dado se trata de um processo histórico de longa duração e
com mudanças muito lentas.
O artigo “Desafio das ruas às instituições representati-
vas” de Jair Pinheiro apresenta um estudo dos movimentos
sociais ‘Occupy Wall Street’ e ‘Indignados’ na perspectiva de
contribuir para a análise política da conjuntura de crise eco-
nômica. Apesar das heterogeneidades e singularidades dos
movimentos, Pinheiro constata três elementos comuns en-
tre eles: reivindicam medidas conflitantes com as políticas
neoliberais; denunciam a democracia representativa como
uma fraude; e preconizam a democracia direta. Este último
remete o autor a observar a ausência de um conceito siste-
mático e alternativo de democracia direta como um limite
para esses movimentos.
O capítulo “Crises e resistências: os desafios e possibi-
lidades da via campesina”, de Mirian Lourenção Simonetti
e Adriane Camargo analisa os movimentos de resistência
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ao processo de globalização e de integração da economia


mundial. Entre as novas forças sociais que se articularam
em um plano internacional, em contraposição ao processo
de reprodução ampliada do capital, e as suas consequências,
as autoras enfatizam o papel da Via Campesina. Esta surge
como uma organização de camponeses e indígenas de di-
ferentes lugares do mundo, se tornando um dos principais
atores no questionamento da atual ordem econômica mun-
dial e de suas instituições mais representativas tais como o
FMI, o Banco Mundial, OMC. As autoras também eviden-
ciam a crítica das ações de grandes empresas transnacionais
e outros agentes econômicos e financeiros que atuam no do-
mínio das atividades agrícolas.
O capítulo de José Marangoni Camargo, “Crise econô-
mica mundial e os impactos sobre a economia brasileira”
discute os efeitos da crise econômica e financeira global,
em curso desde 2008, sobre a nossa economia. Esta crise
tem atingido especialmente o centro do sistema capitalista,
particularmente os Estados Unidos, o Japão e com mais in-
tensidade, as nações do bloco da União Européia. Por outro
lado, os países que preservaram os seus sistemas financeiros
da lógica neoliberal de desregulamentação tem tido um de-
sempenho econômico mais satisfatório, como Índia e China.
O Brasil, apesar de não ter tido um ritmo de crescimento
que acompanhasse estes dois países, teve ao longo dos anos
2000 uma expansão econômica superior ao das duas déca-
das anteriores, com reflexos sobre o mercado de trabalho e
a renda. Observou-se uma melhoria nas condições de tra-
balho, com declínio do desemprego e da informalidade, as-
sim como uma melhoria discreta da distribuição de renda
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nesse período. Por outro lado, há indicadores preocupantes,


agudizados pela crise econômica mundial. Há uma tendên-
cia de desindustrialização do país, com perda de competi-
tividade da indústria nacional, particularmente dos ramos
mais intensivos em tecnologia e com maior valor agregado.
Além disso, a dependência externa crescente dos mercados
de commodities e uma deterioração das contas externas do
país, com um crescente déficit em conta corrente, aumenta a
dependência do país dos capitais externos e traz novamente
o espectro da vulnerabilidade externa.
A contribuição de Agnaldo dos Santos, no texto “Breves
considerações sobre o perfil das atividades de ciência e tec-
nologia e o paradigma da colaboração no contexto da cri-
se econômica mundial”, vai no sentido de apontar como o
desenvolvimento das atividades de C&T no Brasil continua
subordinado à inserção do país na divisão internacional do
trabalho. Considerando que a crise de 2008 aprofunda ain-
da mais o deslocamento das atividades produtivas e do flu-
xo financeiro que se inciou no final do século XX, o texto
sugere que o país possui uma janela de oportunidade nos
projetos abertos de inovação e no paradigma da colabora-
ção, para superar os limites ainda hoje presentes na acade-
mia e na indústria nacionais.
O texto de Noemia Ramos Vieira “América Latina, glo-
balização e espaços de resistência: o caso dos índios Guara-
ni-Kaiowa no Brasil” analisa especificamente a conjuntura
da desterritorialização desses indígenas do Mato Grosso do
Sul frente à invasão da agricultura capitalista. E de forma
mais ampla a pesquisadora avalia o papel do Estado brasilei-
ro frente ao processo de ocupação das terras, já que histori-
16 | Apresentação

camente se observa o constante procedimento de ocupação


de acordo com os interesses do capital, mutilando culturas
e povos que estejam bloqueando-o. Apesar de legislação, in-
clusive a Constituição Federal, e criação de órgãos estatais
para e na defesa dos povos indígenas, o que ainda ocorre
mais uma vez é a expropriação dos ‘donos desta terra’.
O artigo de Newton Ferreira da Silva, “Da instabilidade
crônica à fragilidade estrutural sistêmica” indica, em forma
de ensaio, como a dinâmica da economia capitalista é mar-
cada pela existência de crises permanentes, valendo-se não
só da análise clássica marxista como também das contribui-
ções de F. Chesnais. As novas formas de acumulação, pau-
tadas pelo mercado financeiro, desestruturaram o formato
desenvolvido no pós-guerra e conduzem à regressão social e
permanente instabilidade.
Neste capítulo, intitulado “Crise econômica, fluxos mi-
gratórios internacionais, governabilidade e educação: uma
análise a partir de documentos de organismos internacio-
nais”, Cláudio Rodrigues da Silva discute, com base em
documentos de organismos internacionais como o Banco
Mundial e a UNESCO, as possíveis ligações entre políticas
educacionais e fluxos migratórios internacionais em um
contexto de crise econômica mundial e reestruturação pro-
dutiva. O autor critica as reformas educacionais preconiza-
das pelos organismos internacionais, voltadas fundamental-
mente para a preparação dos indivíduos para o mercado de
trabalho, em função das mudanças do sistema produtivo,
como mecanismos de crescimento econômico e redução da
pobreza. Cláudio Rodrigues questiona também a cultura da
paz promovida por estas instituições, no sentido de fornecer
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conhecimentos e capacitação profissional, inclusive para a


força de trabalho migrante, ou seja, uma mão-de-obra adap-
tável, sem uma preocupação em desenvolver uma consciên-
cia crítica dos trabalhadores.
O capítulo de Diego Pereira dos Anjos, “Acumulação
capitalista no regime de acumulação flexível”, trata da as-
censão no Capitalismo nos últimos 40 anos do Regime de
Acumulação Flexível, como mecanismo para contornar a
tendência de queda secular da taxa de lucro. Com base na
análise clássica de Marx e também da contribuição de ou-
tros analistas, sobretudo de David Harvey, o autor analisa as
novas formas de acumulação do capital, centrada nas trans-
formações técnicas e organizacionais implantadas a partir
dos anos 70, com destaque para o Toyotismo. Estes novos
métodos possibilitaram na visão do autor, intensificar a ex-
ploração do trabalho, através da combinação da extração
da mais-valia absoluta (aumento das jornadas de trabalho
e precarização das condições e das relações de trabalho) e
relativa (novas formas organizacionais e de gestão da pro-
dução), como meios para fazer frente à tendência de declínio
da taxa de lucro e possibilitar a continuidade do processo de
acumulação de capital.
O capítulo “Reestruturação dos serviços: a expansão da
terceirização”, de Yuri R. da Cunha, discute-se a expansão
da terceirização na economia partir da crise e reestrutura-
ção do capitalismo no último quarto do século XX. Segundo
o autor, diante da crise estrutural dos anos 70, o capitalis-
mo passou por um momento de reestruturação produtiva,
pautado por novos processos organizacionais, redundando,
entre outros aspectos, no aprofundamento das formas de
18 | Apresentação

contratação terceirizadas. Dessa maneira, o objetivo do tex-


to consiste em apontar a partir da reestruturação produtiva
como a contratação terceirizada se disseminou pelo sistema.
Especial atenção é dispensada as formas que esse processo
assumiu no Brasil com o avanço das políticas neoliberais. O
capítulo também indica que com o avanço da terceirização
observa-se tendência a superexploração do trabalho.
O conjunto de textos expõe vários prismas da crise glo-
bal do capitalismo. Esta vem se desenhando há décadas e
sua face mais nítida localizada, atualmente na Europa, não
imuniza o Brasil. Consideramos que há aqui, portanto, uma
contribuição para análises do tempo vivido.

Os organizadores.
Capítulo 1

Sobre a atual fase do capitalismo


Reinaldo A. Carcanholo1

T endo como perspectiva teórica uma particular interpre-


tação sobre o que chamamos de teoria dialética do va-
lor, nossa preocupação tem sido avançar no estudo da atual
etapa capitalista, caracterizada por nós como especulativa e
parasitária. Trata-se de entender as características específi-
cas e concretas dessa etapa, em contraposição às determina-
ções mais gerais do regime capitalista de produção.1
Estudos mais ou menos recentes de vários autores, mas
especialmente os de François Chesnais, constituíram o pon-
to de partida para o início de nossas reflexões sobre o tema.
Esses autores, uns mais outros menos, tiveram ou têm como
base a teoria econômica marxista. Nosso esforço tem sido o
de submeter esses estudos a uma reflexão crítica tendo por
base a teoria dialética do valor, aprofundando o estudo dos
descobrimentos teóricos de Marx sobre o capitalismo e, a
partir disso, entender o que há de específico na atualidade.

1 Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Política Social da


UFES e tutor do Programa PET-Economia - UFES - SESU.
20 | Sobre a atual fase do capitalismo

Trata-se de um esforço eminentemente teórico que leva em


consideração as determinações concretas do momento.
Nossa primeira tarefa foi o estudo da categoria de ca-
pital fictício, procurando aprofundar o desenvolvido por
Marx no livro terceiro d´O Capital. Como se sabe, os textos
que compõem esse livro constituem o resultado de estudos
preliminares e não totalmente estruturados pelo autor, ras-
cunhos de pesquisa, reunidos para efeitos de publicação de
acordo com o critério de Engels. O capital fictício aparece
ali de maneira mais ou menos dispersa e fragmentária e sem
um aprofundamento maior. Além disso, na época de Marx
essa categoria não chegou a apresentar, nem de longe, a rele-
vância que chegaria a ter nos nossos dias.
Nosso esforço nos permitiu, entre outras coisas, iden-
tificar dois tipos totalmente diferentes de capital fictício.
Aquele do tipo 2, que não possui por detrás nenhum cor-
respondente substantivo, nenhum átomo de riqueza real; e
o do tipo 1, que aparece na sociedade como uma duplicação
(triplicação ou quadruplicação etc.) de riqueza realmente
existente. Essa distinção é importante pelas diferentes im-
plicações de cada um deles e, até mesmo, pela substancial
diferença em sua origem. Ao mesmo tempo, permitiu a des-
crição resumida da dialética dessa categoria. O capital fictí-
cio é, na verdade, real do ponto de vista do ato individual e
isolado (isto é, do ponto de vista da aparência), real no dia a
dia do mercado. Por outro lado, ele é fictício e real, ao mes-
mo tempo, do ponto de vista da totalidade do sistema e de
sua reprodução. Fictício por não contribuir em nada para
a produção da mais valia (pelo menos o seu tipo 2) e por
sua magnitude global não corresponder a nenhum átomo
Sobre a atual fase do capitalismo | 21

de riqueza substantiva olhada no conjunto da sociedade. No


entanto, ao mesmo tempo, ele (mesmo do ponto de vista
global e da reprodução, que nos permite entender a essência
do sistema) é real, na medida em que lhe é reconhecida a
capacidade de exigir remuneração.
Identificamos, também, a categoria de lucro fictício
como gênese fundamental das massas adicionais de capital
fictício do tipo 2 que são gerados pelo sistema. Tal categoria
não aparece nos textos de Marx, mas uma análise mais apro-
fundada deles nos permitiu descobri-la. Na época do autor,
tal categoria obviamente não apresentava maior relevância
e, provavelmente por isso, não encontrou de sua parte sus-
peita de sua existência. Sem ferir as determinações da teoria
marxista do valor, o lucro fictício surge como algo que não
tem origem na mais valia e, além disso, apresenta-se como
importante fator contrariante da tendência decrescente da
taxa de lucro durante certo tempo.
Na etapa atual do capitalismo, iniciada nos fins dos anos
70, começos dos 80, observa-se que o grande capital diri-
giu sua acumulação preferencialmente à especulação e não
à produção, ampliando desmedidamente a massa existen-
te, no sistema, de capital fictício. Ele passa de existir, como
sempre existiu até então, de aspecto dominado a dominante
na unidade contraditória denominada capital (capital in-
dustrial / capital fictício). Essa mudança teve e tem enormes
implicações e significa, na verdade, uma alteração na sua
própria natureza e, por isso, passamos a chamá-lo capital es-
peculativo e parasitário. Como esse capital ganha dimensões
elevadas e não contribui em nada para a produção de rique-
za real, identificamos que a etapa capitalista, que adota seu
22 | Sobre a atual fase do capitalismo

nome, apresenta como contradição principal (à diferença da


contradição essencial do sistema que é a que há entre capi-
tal e trabalho) a que existe entre produção e apropriação de
mais-trabalho, de mais valia.
Um dos fatores determinantes da explosão no surgimen-
to de capital fictício está constituído pelos gastos militares
no mundo, especialmente nos países mais ricos, ao lado do
crescimento da dívida pública dos diferentes estados. Os in-
vestimentos na indústria militar, inclusive o investimento
produtivo, ao resultarem em gastos que incrementam a dívi-
da pública criam, na verdade, lucros fictícios que se transfor-
mam necessariamente em novo capital fictício de tipo 2. As-
sim, nesse caso, investimentos produtivos convertem-se em
investimentos de capital fictício. Na formação deste último
contribui também de maneira decisiva a valorização especu-
lativa de diferentes tipos de ativos, sejam reais ou fiduciários.
Esse esforço de pesquisa realizado nos obrigou a enfren-
tar ou aprofundar alguns temas teóricos indispensáveis. En-
tre eles estão a) o conceito de trabalho produtivo, b) a lei da
tendência decrescente da taxa de lucro e o papel do crédito
(especialmente do imobiliário) de maior risco na consti-
tuição dos lucros fictícios e de capital fictício. Outro tema
relevante a ser estudado e que é importante para as atuais
características do capitalismo contemporâneo é o da obso-
lescência programada dos produtos “duráveis” destinados
ao consumo, tema sobre o qual, até agora, não chegamos a
dedicar nenhum esforço.
Além de tudo, embora não seja objeto preferencial nosso,
são importantes as pesquisas sobre indicadores empíricos
para pelo menos alguns aspectos do problema: a) os gastos
Sobre a atual fase do capitalismo | 23

militares das maiores potencias do planeta, b) a evolução da


dívida pública de diferentes estados, c) a trajetória da taxa de
lucro (especialmente dos grandes conglomerados) em dife-
rentes países, diferenciando-se o que é realmente lucro ope-
racional daquele resultante de operações especulativas, d) as
transferências de riqueza financeira de pequenos aplicadores
para os grandes especuladores, e) a evolução da composição
orgânica, em particular do valor dos elementos do capital
constante, em diferentes países, f) a evolução da obsoles-
cência programada dos produtos duráveis de consumo, g)
as transferências de valor excedente do terceiro mundo para
as potencias imperialistas. É certo que estudos já publicados
de vários autores enfocam tais aspectos, mas pesquisas mais
detalhadas e aprofundadas seriam relevantes.

Sobre o trabalho produtivo /


improdutivo
O tema do trabalho produtivo/improdutivo é fundamen-
tal dentro de nossa interpretação sobre a atual etapa capita-
lista, uma vez que identificamos que a contradição principal
dela é a que existe entre produção e apropriação de riqueza
excedente, do mais-trabalho. Muitas questões são significa-
tivas dentro desse tema. A pergunta fundamental que com
ele se pretende responder é: quem produz valor e mais va-
lia? No entanto, outras também aparecem como relevantes.
Como é possível que tenha havido crescimento da massa de
mais valia produzida, e em que medida ocorreu esse cresci-
mento, se houve uma significativa migração do trabalho do
24 | Sobre a atual fase do capitalismo

setor industrial para o de serviços? Quais são as atividades


em que se pode considerar existir trabalho improdutivo? É
produtivo ou não aquele trabalho destinado à produção mi-
litar? O trabalho produtivo perde seu caráter se destinado
diretamente a atividades ou ao consumo improdutivos (por
exemplo, a publicidade)?
Obviamente, devido ao nosso ponto de partida teórico,
a idéia de que a riqueza tem origem distinta do trabalho, na
tecnologia ou na informação, por exemplo, está completa-
mente fora de discussão. Apesar disso, as razões pelas quais,
na aparência, isso surge de maneira indiscutível aos olhos
dos agentes, e também dos analistas, é sim um aspecto que
deve nos preocupar. A expansão do capital e dos lucros fic-
tícios sem dúvida aprofundou a ilusão de que o capital é
capaz por si mesmo (ou pelo domínio da tecnologia ou da
informação) de produzir sua remuneração e se fortalece a
idéia de que, por isso, ele possui uma propriedade mágica.
O pensamento neoclássico já desde o final do século XIX
deu um elegante nome a essa magia: produtividade mar-
ginal do capital. Hoje, não totalmente satisfeitos com isso,
alguns transferem o mágico do capital para a informação,
mas o resultado é similar.
A verdade é que a temática do trabalho produtivo/im-
produtivo é muito controversa. Opiniões muito dissímeis
existem, mesmo entre aqueles que explicitamente aderem ao
pensamento de Marx. Poderíamos pensar que ele mesmo,
Marx, seja o grande responsável pela existência dessas po-
sições tão diferentes, uma vez que não chegou a abordar o
assunto de maneira totalmente sistemática, por tê-lo tratado
em diferentes partes de sua obra e por não ter deixado claro o
Sobre a atual fase do capitalismo | 25

nível de abstração e outros aspectos metodológicos em cada


momento de sua reflexão sobre o assunto. Na verdade, po-
rém, a maior responsabilidade é nossa mesmo, ao não sermos
capazes de compreender adequadamente o método utilizado
por ele, método esse indispensável para entender satisfato-
riamente categorias, conceitos e leis da sociedade capitalista.
Algo avançamos no estudo dessa temática e nossa con-
clusão geral pode ser considerada de alguma ousadia, uma
vez que ampliamos, em muito, os limites para além do que
a quase totalidade dos autores consideram produtivo. Pode-
mos adiantar aqui alguns elementos de nossas conclusões.
Fica explicito em Marx, em mais de uma oportunidade,
que para ser produtivo o trabalho deve produzir mais valia.
Isso significa que ele necessariamente deve ser trabalho assa-
lariado. Em nossa opinião, essa idéia responde a um nível de
abstração muito elevado. Para análises concretas propomos a
substituição dessa compreensão pela de que para ser produti-
vo o trabalho deve produzir excedente-valor ou mais-traba-
lho apropriável pelo capital em forma de lucro. Isso significa
que ampliamos o conceito de produtivo para trabalhadores
não assalariados. O próprio Marx foi que nos induziu a essa
conclusão quando, nas Teorias da Mais Valia, ao referir-se ao
trabalho dos camponeses e artesãos afirma claramente que
ele não é nem produtivo, nem improdutivo. Sua conclusão
deriva do fato de que, ao desenvolver a categoria de trabalho
produtivo, sua análise se mantém em um nível elevado de
abstração, para o qual o capitalismo não possui relações pro-
dutivas que não sejam as rigorosamente salariais.
Além disso, outras de nossas conclusões, essas não tão
polêmicas: a) uma grande parte dos serviços devem ser con-
26 | Sobre a atual fase do capitalismo

siderados produtivos, b) não é a profissão ou a ocupação que


deve ser considerada produtiva ou improdutiva, mas, dentro
delas, cada tarefa, de maneira que o trabalho de um mesmo
individuo em parte pode ser improdutivo e em parte não; c)
não importa se o destino do produto é ou não o consumo
improdutivo (propaganda, gasto militares); d) o trabalho
doméstico, remunerado ou não, em parte deve ser consi-
derado produtivo (esta sim está entre as idéias quase nunca
aceitas pelos diferentes autores).

Sobre a lei da tendência


decrescente da taxa de lucro
Sem dúvida, a lei da tendência decrescente da taxa de lu-
cro é outro tema de muita divergência dentro do pensamen-
to marxista e de muita relevância para nossa interpretação
da atual etapa do capitalismo. Necessita-se avançar ainda
mais nessa questão. Deixando de lado aquelas críticas que,
para negar a existência da tendência, abandonam a teoria
marxista do valor, em qualquer de suas dimensões2, nosso
estudo chegou a considerar diferentes visões sobre o assun-
to. Além de todas as divergências, o fato é que os estudos
empíricos sobre o assunto são inconclusivos. Eles padecem
da dificuldade de traduzir conceitos abstratos, como o da
taxa geral de lucro, para indicadores empíricos.
Sem dúvida, os aspectos mais relevantes na discussão
marxista sobre a tendência se referem aos seus fatores con-

2 Essas críticas são pouco significativas por se tratarem de críticas externas.


Sobre a atual fase do capitalismo | 27

trariantes. Entre eles, dois se destacam: a elevação da taxa de


exploração e a redução do valor dos elementos materiais do
capital constante. Sua importância deriva do fato de que o
mesmo processo que resulta no crescimento da composição
técnica do capital é o que os determina. Já estudamos esses
dois aspectos. Nossa conclusão é de que, no primeiro caso, o
fator atenua a tendência quando situado em níveis inferiores
e que, quando cresce, passa a ter efeito cada vez menos sig-
nificativo sobre a taxa de lucro. Quanto ao segundo fator, a
desvalorização do capital constante, ao representar desvalo-
rização do capital pré-existente e isso, a depreciação do pa-
trimônio da empresa, ao significar um lançamento contábil
de dedução da magnitude do lucro empresarial, não chega a
atuar como fator atenuante, juntamente ao contrário. Claro
que essa conclusão também é muito controversa.
É necessário avançar no estudo dessa temática em vários
sentidos e não só no que se refere aos demais fatores con-
trariantes. Um aspecto importante a ser estudado é sobre
os mecanismos que impedem que a tendência tenha como
resultado um longo processo, progressivo, permanente e
inexorável de queda da taxa geral de lucro de maneira a re-
duzir necessariamente inclusive a rentabilidade dos grandes
conglomerados. Obviamente essa idéia de inexorabilidade
do processo que concluiria com a derrocada automática e
final do capitalismo há muito que foi abandonada pelo pen-
samento marxista, pelo menos é o que acreditamos.
Constituem as crises o mecanismo de impedir esse pro-
cesso progressivo e inexorável? É o único ou o principal me-
canismo? A desvalorização do capital fixo preexistente, de-
vido ao aumento da produtividade no setor 1 da economia
28 | Sobre a atual fase do capitalismo

tem papel importante na recomposição conjuntural ou es-


trutural da taxa de lucro? Que importância representa, para
a problemática, a transferência de valor e de excedente-valor
(mais-trabalho) dos pequenos para os grandes capitais?
De certa maneira, a teoria das crises está intimamente
relacionada com a discussão da tendência decrescente da
taxa geral de lucro. Apesar de ser tema amplamente discu-
tido na bibliografia marxista, na nossa opinião falta ainda
muito por avançar. Não nos satisfaz completamente as ex-
plicações disponíveis.
Em particular, sobre o tema das crises, uma perspectiva
cuja crítica deve ser aprofundada é a do subconsumo. Uma
visão superficial e fácil leva algumas vezes o observador a
pensar que a reduzida capacidade de consumo das massas
é a grande dificuldade do sistema e que o leva a crises. Essa
visão facilmente pode implicar perspectivas reformistas pe-
rigosas. Por isso, a crítica substantiva ao subconsumismo é
necessária e, além disso, textos didaticamente competentes
são indispensáveis para desmistificar a visão ingênua que
tende a existir sobre o assunto.

Referências
CARCANHOLO R.. “A categoria marxista de trabalho produtivo”. In:
XII Encontro Nacional de Economia Política, 2007, São Paulo. Anais do
SEP. http://carcanholo.com.br/temasMarx.html.
. y SABADINI, M. S. “Capital ficticio y ga-
nancias ficticias”. In: Herramienta, Buenos Aires, nº 37, pp. 59-79, 2008.
http://carcanholo.com.br/temasMarx.html.
Sobre a atual fase do capitalismo | 29

CHESNAIS, F.; DUMÉNILl, G; LÉVY, D. y WALLERSTEIN, I. Uma


nova fase do capitalismo? São Paulo e Campinas, Editora Xamã e Cen-
tro de Estudos Marxistas (Cemarx) da Unicamp, 2003.
. “La prééminence de la finance au sein du
‘capital en general’, le capital fictice y le mouvement conteporaine de
mondialization du capital”, In: Bunhoff, S. et all. La Finance Capitaliste.
Paris: Presse Universitaires de France, 2006.
. “El fin de un ciclo. Alcance y rumbo de la
crisis financiera”. In Herramienta, Buenos Aires, nº 37, 2008. www.her-
ramienta.com.ar, acceso en 25/10/2010.
Capítulo 2

Cuatro años de crisis, 2008-2012.


Aportes para un análisis comprensivo de la
coyuntura global
Gustavo E. Santillán1

E l trabajo que presentamos propone una mirada com-


prensiva de la crisis global desatada a fines de 2008, des-
tacando su continuidad hasta el presente. Como correlato
de esta perspectiva, se sostiene el carácter económico de la
crisis, por sobre sus manifestaciones en la esfera financie-
ra. Asimismo, y sin desmedro de esta posición, se intentará
destacar las particularidades distintivas del momento actual
(2012) de la crisis, y su impacto diferencial regional, pues
buena parte de los márgenes de las expresiones de resistencia
y alternativas al actual escenario dependen de estas particu-
laridades. En este sentido, el trabajo cierra con una discu-
sión acerca de las virtualidades de la resistencia al capitalis-
mo global en su actual fase de desarrollo.1

1 Professor da Universidade Nacional de Córdoba (UNC)/CIECS-CONICET.


32 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

Crisis financiera, crisis económica


El origen coyuntural de la crisis en 2008, se manifestó en
la caída de las cotizaciones de las hipotecas subprime en los
Estados Unidos, que se tradujo en la quiebra, primero, de las
entidades hipotecarias Fannie Mae y Freddie Mac y, luego,
en la bancarrota del banco de inversiones Lehman Brothers.
Este fue el capítulo final del traslado de la crisis a la eco-
nomía “real,” puesto que forzó al gobierno estadounidense
a presentar el programa de rescate de entidades financieras
más grande de su historia.
La crisis se tradujo rápidamente de la cotización de las hi-
potecas al sistema financiero en general, por una serie de dos
razones. En primer lugar, porque las instituciones ofrecieron
productos financieros con escasas garantías y altísimas tasas
a las familias para la adquisición de viviendas, que aquéllas
consumían con fruición, en un periodo de auge del mercado
inmobiliario. En segundo término, porque estos productos
eran recombinados y colocados a fondos de inversión y pen-
sión, en los cuales los consumidores también fungían como
cotizantes o tenedores, elevándose luego de manera ficticia
en el mercado la cotización de estos productos, sostenidos
por las operaciones de compra de las empresas, que a su vez
sostenían con estas operaciones sus valores bursátiles, reali-
mentando el círculo.
La raíz de estas operaciones reside en el seno de la em-
presa, ya que el sistema financiero dicta actualmente las mo-
dalidades de operación y gestión empresaria. El crecimien-
to de este sector, y el endurecimiento de la competencia en
mercados con una demanda deprimida, ha determinado que
Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 33
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

en la actualidad las empresas se evalúen en relación a indi-


cadores financieros de referencia, estipulados en el orden de
un 15% anual. Toda empresa que no se adecúe a estos están-
dares, estaría dejando de “crear valor” en la jerga gerencial
en vigencia, y estando sujeta a castigos en los mercados sobre
el valor de sus acciones. Este es el trasfondo estructural de
las operaciones riesgosas y semifraudulentas que vincularon
a unidades productivas, fondos de inversión, bancos y agen-
cias de calificación de riesgos, e hicieron crisis a mediados
de 2008. La participación de los consumidores y trabaja-
dores en estas operaciones, y en las estructuras accionarias
de las empresas en las economías centrales (Wal-Mart es el
ejemplo que se presenta usualmente como paradigma) ha
sido cada vez mayor, lo que complementa hasta cierto punto
(en periodos de auge) la depresión de los salarios, y que ha
llevado recientemente a Michel Aglietta a hablar de un nue-
vo “capitalismo accionarial.”
Por detrás de estas manifestaciones, sin embargo, se en-
cuentran dimensiones que remiten a un plazo aún más lar-
go; concretamente, a la ruptura del pacto socioeconómico
característico de los “Treinta Gloriosos” años del capitalis-
mo, 1945-1975. En este sentido, la crisis actual no deja de
inscribirse como fenómeno particular de la crisis estructural
del capitalismo, desatada entre 1968 y 1973.
Estas dimensiones remiten no sólo a la esfera productiva
de la economía, sino a las relaciones sociales, y a las formas
concretas que estas relaciones han revestido históricamen-
te. Concretamente, el rendimiento inusitadamente alto de
la economía capitalista en los países centrales se debió his-
tóricamente (amén de a las relaciones geopolíticas entre el
34 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

centro y la periferia, a las que volveremos en lo sucesivo) a


un crecimiento simultáneo de salarios, beneficios y produc-
tividad, sobre la base de una nueva norma de producción y
consumo.2 Ello implicaba un pacto social entre el capital y el
trabajo, cuyas bases fundamentales fueron socavadas duran-
te la década del ’70.
Las razones de esta ruptura han sido analizadas en tres
series de argumentos: en primer lugar, se ha insistido en el
incremento en la composición orgánica del capital como
invariante a la sucesión de regímenes de acumulación, y
expresada bajo el fordismo en la creciente socialización de
los medios de producción que entrañaban la producción se-
rializada y la expansión de los servicios colectivos (Estado).
Así, la crisis de la economía capitalista es intrínseca crisis del
Estado de Bienestar. La expansión de la demanda agregada,
bien que fundamental en la explicación del fordismo y los
Treinta Gloriosos, no ocurrió en desmedro del desenvolvi-
miento de la contradicción fundamental del capitalismo, en-
tre socialización de la producción y apropiación individual
de los medios de producción. Antes bien, la exacerbó.3 Un
correlato de esta posición, ha sido sin embargo la identifi-
cación de un nuevo régimen de acumulación emergente a
partir de los ’70, a partir del cual el consumo individual ca-
nalizado a través de la esfera financiera, “cerraría” el exceso
sistémico de oferta y, en segundo término, la mercantiliza-
ción de los servicios colectivos (a través de fondos de pen-

2 Cf. Aglietta, 1979.


3 Exponentes de esta posición son los trabajos de Ernest Mandel, recupe-
rados por el primer trabajo de Aglietta mencionado anteriormente.
Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 35
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

sión, compañías aseguradoras, etc.), resolverían en favor del


capital la expansión de su composición orgánica, contenién-
dola a partir de la expansión del sistema financiero.4
En segundo término, las explicaciones “socialdemócratas”5
de la crisis insisten en los desbordes del nivel de los salarios,
por encima de la productividad del trabajo y el beneficio,
detectados por primera vez en 1968, 6en lo que resulta una
coincidencia con las explicaciones neoclásicas. Esta fue una
constatación no solamente intelectual, puesto que se mani-
festó empíricamente en un desborde recurrente de las bases
sindicales a las direcciones del movimiento obrero en los
países centrales (Francia, Suecia, por ejemplo) y en estallidos
insurreccionales en los países periféricos, que tuvieron como
raíz explicativa, al margen de las reivindicaciones democrá-
ticas y de liberación nacional, no tanto la pauperización de
las condiciones de trabajo y su remuneración, sino muy por
el contrario, el avance progresivo de los niveles salariales en

4 Cf. Santillán, 2009.


5 Se usa este término a modo indicativo, amén de las trayectorias individu-
ales de sus exponentes (coincidentes en algún caso), por las implicancias
de estas posturas intelectuales, convergentes no obstante con la evoluci-
ón de las posturas regulacionistas mencionadas en primer término. De
todos modos, los límites político-intelectuales en este debate resultan
difusos, pues buena parte del pensamiento trotskista europeo comparte
(desde que Aglietta aceptó originariamente las tesis de Mandel) algunas
implicancias políticas de la supuesta “socialdemocracia.” Aquí no enfati-
zaremos estas coincidencias, preocupándonos en tanto por clasificar las
corrientes argumentales de explicación de la crisis. cf. Santillán, Gusta-
vo, op. cit., para una discusión de esta relación teórico-política.
6 Cf. Maddison, 2010; Hobsbawm, 1997; Paramio, 1987.
36 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

algunos sectores, y la solidificación de las bases en los lugares


de trabajo. De todos modos, tanto los ajustes salariales y la
flexibilización del trabajo que siguieron al desencadenamien-
to de la crisis, como las deslocalizaciones empresariales al
Tercer Mundo, fueron encuadradas por la socialdemocracia
como respuestas automáticas del régimen de producción a las
nuevas e insostenibles condiciones y, por ende, en algunos ca-
sos saludadas también como emergentes del nuevo régimen
de acumulación que habría de instaurar nuevas condiciones
laborales, que revertirían tanto la desvalorización secular del
trabajo, como la masificación del individuo en términos so-
ciales.7 La financiarización de la economía, en tanto, epife-
nómeno de estas formas productivas y de la “globalización”
como fenómeno sociopolítico, requiere en esta perspectiva
simplemente su adecuada regulación, que se ha planteado en
términos políticos que rozan las peticiones éticas. Política-
mente, estas posiciones significan para la izquierda encarar
estrategias de “flexibilidad ofensiva,” reclamando la democra-
tización de las relaciones laborales en el ámbito de la empresa
como contrapartida a las nuevas condiciones, y la adopción de
políticas centradas en el electorado en tanto ciudadano antes
que actor social de clase.8

7 Concretamente, Coriat, 1992.


8 Esta agenda fue sintetizada en el Programa 2000 del Partido Socialista
Obrero Español (PSOE, 1988) que concretara la agenda gubernamental
del partido electo por primera vez en la transición en 1982; la Tercera
Vía británica fue meramente la proyección de esta agenda como sombra,
mucho más gravosa para la economía de las Islas y para la izquierda
europea en general. De allí en adelante, sin embargo, sus principales
Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 37
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

Sin embargo, estas posiciones tienen el valor de despla-


zar la explicación de la crisis de la contradicción social fun-
damental (producción/apropiación) hacia la acumulación de
fuerzas por parte de la clase trabajadora organizada, que de-
mandó la ruptura del pacto social por parte de las clases do-
minantes; precisamente, esta ruptura implica la impotencia
de la economía capitalista en su centro, en mercados satura-
dos y condiciones endurecidas de competencia. La salida de
estas condiciones fue, pues, política antes que económica.
Este es el aspecto que ilustra finalmente una tercera se-
rie de argumentos, concretamente (desde posiciones polí-
ticas también diversas) los trabajos de Giovanni Arrighi y
François Chesnais,9 que señalan la centralidad de la finan-
ciarización no sólo como fenómeno económico, sino como
“golpe de Estado” financiero, en respuesta a la tenaza que
ahogaba a la burguesía de los países imperialistas, consti-
tuida por la clase trabajadora organizada por un lado, y los
movimientos de liberación nacional por el otro.10 Por otro
lado, las clases dominantes pudieron poner de rodillas a sus
trabajadores en el centro, arrojando la deslocalización em-
presaria en la mesa de negociaciones. Ambos fenómenos es-
tán relacionados, por cuanto el otro elemento necesario para

voceros no han dejado de rizar este rizo, claro que mayoritariamente en


el vacío de la oposición desde 2008.
9 Arrighi, 1994. Un análisis de las tesis de Chesnais en Santillán, Gustavo,
op. cit.
10 El paradigma de este modelo de tasas altas fue la economía política de
la Administración Clinton, entre 1992 y 2001, periodo que los liberales
confunden con la consolidación de una nueva forma de “crear valor” en
la esfera de la producción.
38 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

dar salida a la crisis por elevación de los costos laborales fue


el avance del capital sobre los mercados periféricos recién
conquistados y abiertos a la subsunción real del trabajo, con-
cretamente, el Este Asiático a partir de 1971.11 Esto implicó
el disparo del desempleo en el centro, y la represión genera-
lizada ejercida por los gendarmes neoliberales de Reagan y
Thatcher. En segundo lugar, la suba en las tasas de interés
globales fue un recurso a mano del gobierno estadounidense
para revertir la relación geopolítica de fuerzas en su favor a
partir de 1979; de allí en adelante, esta medida antes que las
innovaciones tecnológicas (a pesar de Chesnais, inclusive)
o los ajustes a los mercados flexibles, fue el condicionante
fundamental de las nuevas formas de gestión empresaria y el
“riesgo moral” de los nuevos gerentes.

2008 - 2011
El relato convencional al estallar la crisis, a finales de 2008,
pudo establecerse a partir de la irresponsabilidad de banqueros
y empresarios, tal como lo hemos establecido de manera pre-
liminar en nuestra primera sección. Así, una de las primeras
conclusiones a extraer fue la recomendación de generar me-
canismos de regulación adecuados a escala global y multila-

11 Este espacio pudo ser abierto a la expansión del capital a partir de una
decisión geopolítica, el acercamiento sinonorteamericano de 1971-1979,
que encadenó a China al espacio productivo del Este Asiático consolida-
do por los Estados Unidos en su “cinturón de seguridad” de la posguer-
ra, en plena guerra fría, abriendo por primera vez el mercado de trabajo
chino a los movimientos globales de capital.
Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 39
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

teral, que se pudieron plantear bajo la forma de a) La llamada


tasa Tobin sobre los movimientos de capital, relanzada tras la
crisis rusa de 1999 y declarada en su necesidad por la Unión
Europea en repetidas oportunidades, aunque nunca imple-
mentada de hecho, b) La necesidad de castigar judicialmente
las operaciones fraudulentas en los mercados financieros, c)
Ligada a este punto, la sanción de operaciones internas desa-
rrolladas por los gerentes sobre la base del control de informa-
ción privilegiada, y el coto a las remuneraciones gerenciales,
objetivos también declarados y no implementados.
Sin embargo, en la nacionalización de General Motors
decidida por el gobierno Obama entrante, y en la centrali-
zación y salvataje de las instituciones financieras llevada a
cabo también en los Estados Unidos, podemos encontrar los
antecedentes de la ruptura de este argumento, dado que, a
diferencia de las medidas enunciadas y no aplicadas rese-
ñadas en primer término, las disposiciones efectivamente
adoptadas implicaron en realidad la socialización de las pér-
didas en los mercados financieros. A diferencia de lo suce-
dido en la Unión Europea, el gobierno norteamericano llevó
adelante una centralización de las actividades económicas y
un papel mucho más activo en la estimulación de la deman-
da interna. Adicionalmente, la evidencia de la recuperación
china sobre la base de la aplicación de un paquete anticrisis
de perfiles claramente keynesianos, centrado en la obra pú-
blica de infraestructura y en el incentivo al consumo, co-
menzaron a plantear con más claridad la responsabilidad
gubernamental en la salida de la crisis. De este modo, la pro-
blemática y el debate político se desplazaron de la regulación
de los mercados, al papel directo de los gobiernos.
40 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

En la Unión Europea, en tanto, otra manifestación de


las novedades acaecidas en 2011 ha sido su expresión en la
crisis de la deuda griega declarada a mediados de 2010 y an-
tecedente directo del recrudecimiento de la crisis en 2011,
puso de manifiesto la funcionalidad de la reproducción de
las condiciones bajo la economía del Euro a las necesidades
de la economía alemana. Si bien este periodo, y el proceso
de ajustes y negociaciones entre Grecia y la UE, fueron pre-
sentados como producto de las preocupaciones del gobier-
no alemán ante el evitual default de los bonos griegos (de
los que Alemania es uno de sus principales tenedores), en la
práctica los sucesivos ajustes solicitados han sido la garantía
de la continuidad de una economía deprimida, en la que la
única ganadora es la industria de exportación germana, en
el contexto de una demanda interna sumamente debilitada.
En segundo lugar, la crisis española: si bien se ha presentado
como completamente identificada al estallido de su burbuja
inmobiliaria, no es menos cierto (y es cada vez más aparente
a su población) que esto ha sido el resultado de la apuesta
política a una economía de servicios financieros y turísticos
como promotora del crecimiento,12 en la “división europea”
del trabajo. Aún en su periodo de auge, esto implicó creci-
miento económico sin desarrollo industrial. La Zona del
Euro, como sostendremos, no es tal, sino una región que ha
reproducido las diferencias estructurales entre su centro en
el Norte y su periferia en el Sur, preexistentes a la apertura
democrática y la liberalización de España, Grecia y Portugal.

12 Amén de la explotación neocolonial de sus excolonias americanas.


Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 41
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

Estos rasgos diferenciales de la crisis en 2011 respec-


to a 2008 no significan una reorientación drástica de las
respuestas de política económica en los países centrales,
puesto que, en primer lugar, las respuestas ensayadas por el
gobierno de los EEUU remontan a 2008. En segundo lugar,
a diferencia de este país, las recetas europeas de austeridad
se han mantenido entre 2008 y 2011, puesto que éstas son
funcionales al control politico de una economía (Alemania)
sobre las restantes en la Zona. Sin embargo, este fenómeno
ha mostrado con mayor claridad que, en realidad, lo que se
está produciendo es una carrera proteccionista bajo la facha-
da de una moneda única en la Zona Euro, donde en realidad
coexisten dos condiciones de la moneda única: promotor de
las exportaciones alemanas, y cepo para la recuperación en
el Sur. Así, la moneda europea compite en realidad en tér-
minos más o menos exitosos con la débil divisa americana
(cuyo carácter de equivalente global sin respaldo permite su
administración), con una Libra fuerte (que ha redundado
en una inédita debilidad de la industria británica, en favor
del sostén del Reino como centro financiero global) y un
yuan también inéditamente fuerte; China parece seguir
apostando a la internacionalización de su economía,13 sin
dejar de mostrar por otro lado la irreductibilidad de su mo-
delo económico a los análisis convencionales. Por un lado,
el yuan muestra una constante e ininterrumpida valoriza-
ción desde 1978 acompañando el crecimiento del Producto,
de aproximadamente 8,48 por dólar a los 6,23 actuales. En

13 Las recientes insinuaciones del nuevo liderazgo de Xi Jinping así lo pa-


recen indicar.
42 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

segundo término, estas características se cruzan paradóji-


camente con presiones inflacionarias internas, redoblando
la apuesta del gobierno por la prudencia en la regulación
económica. China ejerció un liderazgo “responsable” en
1998 tras la Crisis Asiática, absorbiendo con su divisa la
carrera devaluatoria previa de las economías del área, y lo
sigue ejerciendo en su papel de tenedor de bonos norteame-
ricanos y en las discusiones del G2, a pesar de las (ficticias)
disputas retóricas en cada ronda de negociación, y en las
(reales y concretas) disputas en el terreno militar y geopolí-
tico con los EEUU en el Pacífico.
Hemos realizado este recorrido de los últimos dos años
para mostrar no una readecuación real del Estado o la emer-
gencia de una nueva modalidad de regulación económica (a
pesar de que, en algunos aspectos y regiones, existe un re-
planteo de estas modalidades), sino cómo a ojos de la ciuda-
danía, se establece una funcionalidad cada vez más directa
entre la crisis como fenómeno “económico” y el papel del
Estado como responsable por su resolución. En dos sentidos:
en primer lugar, en la asunción de un rol de agente de re-
distribución de recursos en favor del capital financiero y, en
segundo término, en su carácter de Estado nacional frente a
otras economías, rompiendo el mito de la conformación de
mercados globales de factores. Así, la responsabilidad por
la emergencia y resolución de la crisis no puede achacarse
ya a entidades fantasmáticas e inidentificables, a un centro
que no es tal (parafraseando las esotéricas elucubraciones
de Toni Negri a principios de siglo), sino a entidades polí-
ticas concretas. Ello ha redundado en una politización sin
precedentes de la crisis, que abre paso al necesario examen
Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 43
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

de las posibilidades de resistencia existentes en el seno de la


“sociedad civil”.14

Análisis social de las Resistencias


Debemos forzosamente analizar este apartado en tér-
minos regionales, lo cual depende de una de las exigencias
teóricas fundamentales para un examen general de la crisis:
el abordaje regional de su impacto, cuestión a la que hemos
aludido en este capítulo, y que postuláramos oportunamen-
te en otros trabajos, como premisa de una reconstrucción
crítica del materialismo histórico.15
Al respecto, se establece una primera división entre el Sur
y el Norte, en función del impacto regional diferencial no ya
de la crisis de 2008-2011, sino de las reestructuraciones radi-
cales producidas en las últimas cuatro décadas. En primer lu-
gar, la empresarial redundó en las economías centrales, como
señaláramos, no sólo en la destrucción de puestos de trabajo y
en la reducción de la dimensión relativa de la clase trabajado-
ra (todo lo cual impactó en un debilitamiento de sus formas
tradicionales de organización) sino en la conformación de

14 Precisaremos regionalmente este concepto en nuestra siguiente sección.


15 Cf. Santillán, Gustavo, op. cir.; señalábamos allí “la necesidad de arti-
culación de un materialismo histórico verdaderamente radical, crítico,
que constituye una teoría general de la sociedad, con teorías de alcance
intermedio y análisis empíricos (coyunturales y regionales) que permi-
tan enriquecer nuestra interpretación de la realidad. Evitaríamos así
tanto el armonicismo y el funcionalismo teórico, como las visiones ca-
tastrofistas y apocalípticas del capitalismo.”
44 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

un perfil del trabajo diferente, centrado en la movilidad del


empleo y en su sobrecalificación, en la polivalencia y la flexi-
bilidad de sus condiciones. Esto sólo se puede relacionar con
la permanencia de las casas matrices y centros de I+D de las
transnacionales en sus países de origen, que conformó al nú-
cleo de la clase obrera con las características reseñadas. Esto
confirmó las previsiones de Coriat para estas regiones, sólo al
precio de su coexistencia con un desempleo estructural que
se hizo más patente (en términos de su protagonismo social
y “político,” bajo la forma de episodios insurreccionales, apa-
tía, abstención y escepticismo generalizados, y escora ideoló-
gica hacia la extrema derecha) en la última década, general-
mente radicado en las periferias residenciales de las grandes
metrópolis. Allí, la clase trabajadora coexiste con una perife-
ria de trabajadores migrantes, rasgo también estructural del
capitalismo europeo16 (y también norteamericano, con otras
características). Lo significativo de esta triple división alude
a las posibilidades concretas de resistencia a la crisis actual,
dado que en general se ha responsabilizado a los trabajadores
residentes desempleados (típicamente mayores, en una media
superior a los 50 años de edad) por su discurso xenófobo, por
el desplazamiento de la responsabilidad de la situación so-
cioeconómica y política hacia un Otro construido a partir de
la inmigración, y por su manipulación por élites de extrema
derecha que harían temer la regresión general del proyecto
europeo. En realidad, lo que existe es una incomprensión del
núcleo de trabajadores más jóvenes y calificados, también
amenazados por el desempleo en la crisis coyuntural reciente

16 Cf. Meillassoux, 1987.


Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 45
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

(novedad que altera el panorama de las décadas de los ’80 y


’90) hacia esta situación, al plantear sus reivindicaciones en
términos exclusivamente ciudadanos, y eludiendo su identi-
dad como trabajadores (todo lo cual, sin embargo, remite a
características sociológicas concretas). También como hemos
señalado, esto ha sido en parte producto de la reorientación
de la agenda ideológica de las élites políticas de la izquierda
europea, en los veinte años precedentes. De allí también, y
a partir de la modificación de las características del trabajo
como relación social en los países europeos, que la falta de ar-
ticulación de las demandas de los jóvenes “indignados” o an-
tisistema en un sujeto colectivo capaz de incidir en el sistema
político, marque tanto las posibilidades como las limitacio-
nes de la resistencia a la crisis en Europa. A diferencia notable
del ejemplo griego, donde las características históricas de los
partidos populares y la larga tradición de luchas democráti-
cas, amén de la situación geopolítica de la Península duran-
te la Guerra Fría, marcan una articulación más clara entre
partidos populares y movimientos sociales. En los Estados
Unidos, en tanto, antes que la flexibilidad de las condiciones
del trabajo y la destrucción de empleo en las cuatro décadas
previas (fenómenos también registrados, con índices de des-
empleo históricamente menores sin embargo) la financiari-
zación de la economía resulta el dato más interesante por su
impacto en la cultura política, al promover la identificación
del trabajador norteamericano como consumidor antes que
como agente de producción (a través de su papel como tene-
dor de acciones y bonos, y su cotización en los sistemas pri-
vados de pensión y seguro médico), reforzando una tradición
ideológica secularmente centrada en el individualismo. Sin
46 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

embargo, el papel del complejo militar – industrial en el de-


sarrollo económico, y la vinculación del Partido Demócrata
con los sindicatos industriales, lazo nunca roto del todo a pe-
sar de la crisis, ha redundado en la regulación exitosa del pro-
ceso de contracción del crecimiento y en su morigeración por
parte de las clases dominantes y el bipartidismo tradicional.
En el Sur, en tanto, se ha asistido a lo largo de cuatro dé-
cadas al crecimiento absoluto y relativo de la clase trabajadora
en términos de su peso demográfico en la estructura social,
contracara de su reducción en el centro y función de la ex-
pansión real del capital hacia la periferia, tal como estableci-
mos en nuestra primera sección. Sin embargo, este proceso
no estuvo exento de particularidades. En primer lugar, que
ello ha implicado también una migración constante de sus
integrantes como periferia de la clase trabajadora en los paí-
ses centrales. En segundo término, que buena parte de esta
clase trabajadora está aún constituida por migrantes de pri-
mera o segunda generación desde las áreas rurales (siendo
China e India los ejemplos paradigmáticos de este fenóme-
no), integrándose típicamente como periferia de trabajadores
en las ciudades, y diferenciándose en términos sociológicos,
etarios y de identidad respecto al núcleo de trabajadores ma-
yores y estables.17 En tercer lugar, volvemos a enfatizar que la
contracara de la crisis global ha sido el desplazamiento del
capital hacia la periferia, por razones tanto económicas como
geopolíticas. En lo referente a los “nuevos territorios” incor-

17 Para China existe una abundante literatura sobre este fenómeno, y sobre
las características de la protesta obrera y la acción colectiva sobre la base
de la formación de una conciencia obrera. Entre ella, Cai, 2006; Hurst,
2009; Lee, 2007; O’ Brien, 2008.
Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 47
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

porados al capital, entonces, el resultado de la crisis ha sido


de manera contradictoria la redinamización de la economía
y de las relaciones monetarias y salariales, lo cual hace que el
crecimiento de las clases trabajadoras se desarrolle en el con-
texto de un capitalismo sumamente dinámico. De allí la am-
pliación de los margenes del sistema político en la regulación
de las contradicciones sociales. Finalmente, y en relación a
este punto, el proceso de urbanización e industrialización en
estas regiones aún está en curso, por lo cual las perspectivas
de posicionamiento de los sectores populares en relación a la
constitución de movimientos sociales y su vinculación con el
sistema político, aún se encuentran abiertas.
Una situación intermedia entre estos dos polos “típicos”
está constituida por la actualidad latinoamericana, donde
elementos “viejos” y “nuevos” se combinan, donde el impac-
to de la crisis de los últimos cuatro años en el crecimiento
económico ha sido a la vez mayor que en la periferia asiática
y menor que en el centro, y donde sus gobiernos se encuen-
tran actualmente en una encrucijada, entre el ajuste fiscal y
su fidelidad a las demandas de los sectores populares que,
sólida e históricamente constituidos como movimientos so-
ciales, los auparon hacia triunfos electorales y procesos de
reformas inéditos en la región durante la última década.

Conclusiones
Podemos sintetizar lo expuesto hasta aquí en los siguien-
tes ítems:
48 |  uatro años de crisis, 2008-2012.
C
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

1. Hemos establecido el carácter económico de la crisis,


antes que su apariencia financiera.
2. Hemos remontado este carácter a movimientos es-
tructurales de cuatro décadas.
3. Hemos señalado que el factor explicativo por ex-
celencia de estos movimientos ha sido el desplaza-
miento del capital hacia su periferia, fenómeno tanto
económico como político.
4. Hemos sostenido que la financiarización de la eco-
nomía (y su crisis) está subordinada a este desplaza-
miento. De aquí se desprende que la persistencia de
una periferia sumamente dinámica aún en el contex-
to de la crisis puede hipostasiar sus límites todavía
por un par de décadas más, hasta la finalización de
los procesos de urbanización en el Este Asiático.
5. El carácter diferencial de la crisis de 2008-2011, y la
agudización de este carácter a partir de 2011, es una
evidente politización de la crisis en el centro de la
economía mundial capitalista. Esto abre posibilida-
des ciertas de resistencia.
6. Sin embargo, los límites de esta resistencia están da-
dos por la fragmentación y reducción absoluta y re-
lativa de la clase trabajadora en los países centrales.
Sostenemos asimismo que la tradición ideológico-
política reciente de la izquierda europea ha minado
seriamente las posibilidades de construir alternati-
vas políticas viables para los sectores populares, de
por sí ya golpeados por cuatro décadas de desestruc-
turación social.
Cuatro años de crisis, 2008-2012. | 49
Aportes para un análisis comprensivo de la coyuntura global

7. De esta perspectiva se desprende que sigue siendo


necesaria una correlación positiva entre actores co-
lectivos organizados y direcciones políticas popula-
res, como prerrequisito de la construcción de pro-
yectos progresistas de transformación.
8. Estos proyectos están sin embargo ausentes en el polo
dinámico del Este Asiático, por las características aún
no maduradas de sus procesos de industrialización.
En síntesis, podemos aventurar con algún grado de sus-
tento la reproducción futura de la crisis, habiendo señalado
no obstante algunos horizontes políticos de acción, que de-
berán madurar en el mediano plazo.

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Capítulo 3

A crise do capitalismo global


em perspectiva histórica
Francisco Luiz Corsi1

Introdução1

A atual crise que assola o capitalismo global desde 2008


parece estar longe de ser superada. Seus desdobra-
mentos são muitos desiguais, o que reafirma a tendência
de desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo.
Os EUA, o Japão e, particularmente, a zona do Euro sofrem
agudamente ainda hoje com a crise. Enquanto alguns paí-
ses asiáticos, apesar de apresentar uma desaceleração, tem
conseguido manter seu ritmo de crescimento econômico em
patamares bastante razoáveis. Não é possível prever se esse
crescimento terá fôlego suficiente para sustentar e até recu-
perar a economia mundial, pois as economias da região são
bastante dependentes das exportações. Além do mais a con-
tinuidade de altas taxas de acumulação de capital na região
e a fraca demanda efetiva dos países desenvolvidos podem
agravar o processo de sobreacumulação de capital, que está

1 Professor de Economia da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP.


52 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

na raiz dos problemas de exacerbação da instabilidade sis-


têmica que o capitalismo vive desde os anos 1980, quando
se firmou a hegemonia do capital financeiro. A substantiva
elevação do consumo interno da China, que poderia repre-
sentar uma saída, não ocorrerá em curto espaço de tempo e
talvez não seja um processo nada tranquilo. A própria desa-
celeração da economia chinesa tende afetar negativamente
parte da periferia que cada vez mais passou a gravitar ao seu
redor em decorrência de sua crescente demanda por maté-
rias primas e outros insumos.
O problema central em curto prazo parece ser o excesso
de capital fictício, que está sufocando a economia mundial.
A destruição de mais de 30 trilhões de dólares em valores de
ações, títulos, bônus etc. desde o início da crise não resolveu
o problema. Segundo D. Harvey (2011), existem circulando
na economia mundial cerca de 600 trilhões de dólares na
forma de capital fictício para um PIB global de 50 trilhões.
Esse capital sustentou-se e avolumou-se a partir de suces-
sivas bolhas especulativas das últimas três décadas. A for-
mação de bolhas especulativas tem sido fundamental para
a valorização desse capital e, portanto, para sua existência.
Essas bolhas também têm profundos efeitos sobre a acumu-
lação de capital. O capitalismo global tem sido sustentado
simultaneamente pela crescente especulação financeira e
pela formação de uma nova fronteira de acumulação no Les-
te asiático, que surgiu da reconfiguração espacial do sistema
capitalista. Esses processos são intimamente articulados e
contraditórios. Resultaram da reestruturação do capitalis-
mo como resposta à crise estrutural dos anos 1970, marcada
pela sobreacumulação, pela falência do sistema monetário
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 53

internacional, pela rebeldia do trabalho e pela crise energé-


tica, que sinalizou para o crescente problema ecológico de-
corrente de um modo de produção cuja meta é a valorização
perpetua do capital. O objeto do presente capítulo, que tem
um caráter de notas, é realizar uma breve reflexão acerca
dessas questões a partir de uma perspectiva histórica.

A crise estrutural e a
reestruturação da economia
mundial: o capitalismo global
A crise década de 1970 marcou o fim dos chamados “30
anos gloriosos” do capitalismo e deu início a uma fase de
baixo, porém desigual, crescimento que se estendeu pelas
duas décadas seguintes (HOBSBAWM, 1995; CHESNAIS,
1996). A crise estrutural decorreu da sobreposição de varias
crises, quais sejam: crise de superprodução, crise do sistema
financeiro internacional estabelecido em Bretton Woods,
crise energética, crise do padrão tecnológico, crise do fordis-
mo e crise de hegemonia dos EUA. Esses processos históri-
cos estavam entrelaçados. Em um contexto de acirramento
da luta de classes, no centro e na periferia profundas trans-
formações sociais pareciam possíveis à época (MANDEL,
1990; HARVEY, 1992; BRENNER, 2003).
Entretanto, como resposta a crise estrutural e a ameaça
de revolução social, as grandes corporações, os grandes ban-
cos, os fundos de investimento e os governos dos países cen-
trais imprimiram uma estratégia visando à reestruturação
do sistema. No centro, iniciou-se um processo de desmonte
54 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

do Estado de Bem-estar Social, redirecionaram-se os gastos


públicos para sustentar a valorização do capital financeiro,
sobretudo por meio da ampliação da dívida pública. Para-
lelamente, verifica-se sob a égide de políticas neoliberais o
aprofundamento da abertura das economias nacionais. De
particular importância foi a desregulamentação financeira.
Este processo foi fundamental para o florescimento do capi-
tal financeiro, que vinha retomando espaços desde a década
de 1960, depois de enfrentar profundo retrocesso decorrente
da Grande Depressão dos anos 1930. Com a abertura das
economias nacionais este capital ganhou enorme mobilida-
de, o que contribuiu para exacerbar a instabilidade sistêmi-
ca. A redução ou a total supressão dos controles de capital
fragilizou boa parte dos Estados nacionais, que perderam
espaços para adotarem políticas voltadas para o pleno em-
prego ou políticas desenvolvimentistas como no caso da pe-
riferia. Muitas economias ficaram a mercê dos movimen-
tos especulativos, como ficou demonstrado nas sucessivas
crises a partir dos anos 1990, em especial na periferia, mas
também no centro, como nos dias de hoje (HARVEY, 1992,
2008, 2011; CHESNAIS, 1996, 2005).
Outra frente de luta do capital foi a ofensiva contra a
classe trabalhadora, que se deu por meio da reestruturação
produtiva a partir da adoção da chamada acumulação fle-
xível, que aprofundou a precarização do trabalho. Tão im-
portante quanto ela foi a recomposição do exército indus-
trial de reserva em escala mundial pela internacionalização
da produção e pela forte emigração em direção as regiões
desenvolvidas. Esses processos ao incorporarem milhões
de trabalhadores da Ásia e da Europa Oriental mal renu-
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 55

merados e relativamente qualificados à economia mundial


fragmentaram os interesses da classe trabalhadora e con-
tribuíram para discipliná-la para o capital. Sem duvida que
a reestruturação produtiva só foi possível em um contexto
de mudança da correlação de forças favoravelmente aos ca-
pitalistas, marcado pela elevação do desemprego, pela crise
dos partidos de esquerda e sindicatos, pela fragmentação da
classe trabalhadora, pelo fracasso do reformismo, pela de-
silusão com o socialismo e pelo desmoronamento da URSS
(HARVEY, 1992; HOBSBAWM 1995).
No bojo desses processos verificou-se a realocação es-
pacial da acumulação em âmbito mundial, originando uma
tendência a desindustrialização das regiões centrais do ca-
pitalismo. Vários seguimentos produtivos foram deslocados
para a periferia, em especial para o Leste asiático, onde for-
ça de trabalho barata, qualificada e disciplinada, associada
a subsídios, câmbio desvalorizado e a uma legislação no mí-
nimo permissiva no que diz respeito à proteção ambiental
propiciavam enorme rentabilidade para o capital. Este pro-
cesso foi responsável, em parte, para assegurar um ritmo
elevado de acumulação na região, enquanto o centro do sis-
tema crescia a taxas muito baixas e vastas áreas da periferia,
como América Latina e África, passaram por duas décadas
de crise e instabilidade social e econômica. Formou-se um
paulatinamente uma nova fronteira de acumulação de capi-
tal, que ganharia peso crescente na economia mundial, sen-
do hoje a principal fonte de seu dinamismo (BASUALDO e
ARCEO, 2006; CORSI, 2011).
Observa-se crescente fluxo de capitais e tecnologia para
o Leste asiático. Neste processo cabe destacar o papel do ca-
56 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

pital japonês, que em virtude da valorização do iene a partir


de 1985 deslocou parte de suas empresas para outros países
da região com o fito de garantir sua participação no merca-
do mundial diante da renovada concorrência norte-ameri-
cana. Esses fluxos não se constituem apenas de investimento
externo direto, são também formados por capitais especula-
tivos. A Ásia também se integrou a economia mundial como
espaço de valorização fictícia de capital, como ficaria evi-
dente na crise de 1997 (MEDEIROS, 2006, 2010).
Essa expansão só foi possível graças à abertura comer-
cial e financeira das economias nacionais, a diminuição dos
preços de transportes e o desenvolvimento das comunica-
ções. Essas transformações possibilitaram as matrizes das
empresas transnacionais coordenar e controlar processos
globais de produção e distribuição, cujas fases encontram-
-se espalhadas geograficamente. Essas empresas por meio
de variados contratos e subcontratos com empresas em rede
disseminaram processos produtivos pelo mundo (ARCEO
e BASUALDO, 2006). Por outro lado, o rápido crescimento
dos países asiáticos incrementa a concorrência e a supera-
cumulação de capital, apesar da enorme queima de capitais
verificada nas crises.
Entretanto, a dinâmica das economias do Leste asiático
não pode ser explicada apenas pelas transformações em curso
na divisão internacional do trabalho decorrentes das reações
a crise estrutural da década de 1970. Também é fundamental
levar em consideração os processos sociopolíticos internos
às economias asiáticas, em particular a adoção de projetos
nacionais de desenvolvimento voltados para as exportações.
Essa estratégia de desenvolvimento inspirada no modelo ja-
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 57

ponês, mas que adquiriu inúmeras peculiaridades nacionais,


possibilitou a esses países se inserirem de forma dinâmica
na economia mundial. O peso do crescimento acelerado do
Leste Asiático, sobretudo o da China, cuja revolução revelou-
-se como uma revolução fundamentalmente nacional, ficaria
evidente a partir de 2003, quando a economia mundial re-
tomaria um vigoroso crescimento. No entanto, vastas áreas
da periferia, como a América Latina, viveram momentos de
grande instabilidade e crise econômica e social, apresentan-
do uma inserção passiva na economia mundial, sobretudo a
partir da crise das dívidas externas, que foram importantes
para colocar em xeque as estratégias desenvolvimentistas
(GONÇALVES, 2002; AMSDEN, 2009; CORSI, 2011).
A reestruturação capitalista decorreu, em boa medida,
de decisões políticas voltadas para recuperar a rentabilidade,
disciplinar a classe trabalhadora e recompor a hegemonia
norte-americana. A própria abertura dos EUA em direção
a China representou uma tentativa de recuperar espaço na
Ásia depois da derrota no Vietnã e deter o aparente avanço
soviético. Isto, porém, não significa que as forças que desen-
cadearam a reestruturação capitalista detêm o controle do
processo histórico, pois os resultados, muitas vezes, foram
inesperados (FIORI, 1999).

A dinâmica do capitalismo global:


instabilidade e crise
O ritmo lento da acumulação de capital no centro do sis-
tema, em parte decorrência das dificuldades em competir
58 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

com as áreas mais dinâmicas, estimulou ainda mais o cres-


cente inchaço da esfera financeira, que já vinha crescendo de
forma acelerada desde meados da década de 1970, sobretudo
devido à inundação de liquidez após a 1º crise do petróleo.
A existência de capital supérfluo, que encontra dificuldade
de valorizar-se na produção, gera um excesso de capital na
forma dinheiro que busca valorizar-se com base na especu-
lação com títulos, moedas, ações e commodities. Parte do
exponencial crescimento da valorização fictícia de capital
também se deveu a reaplicação dos ganhos especulativos
na própria especulação. Dessa forma, existe um mecanismo
endógeno de crescimento que realimenta o processo de va-
lorização fictícia do capital (CARCANHOLO e SABADINI,
2011). Quando o capital fictício se desloca muito das condi-
ções reais de valorização mais cedo ou mais tarde esse ca-
pital tem que ser desvalorizado para recompor as próprias
condições de valorização, abrindo a possibilidade da ocor-
rência de crises. (CHESNAIS, 1996, 2005).
Apesar da recuperação das taxas de lucro a partir da dé-
cada de 1990, não se observa uma retomada vigorosa dos in-
vestimentos na maior parte do centro do sistema, o que indi-
ca dificuldade crônica de valorização do capital nesse espaço
de acumulação. A retomada dos investimentos no início dos
anos 1990 em algumas regiões, devido em especial ao incre-
mento da concorrência intercapitalista, sustentou a acumu-
lação, mas ampliou a capacidade excedente em escala global,
sendo uma das causas principais da crise asiática de 19972 .

2 Não é possível no escopo do presente capítulo aprofundar a discussão a res-


peito da crise asiática. Entre outros, ver: Krugman, (1999) e Brenner (2003).
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 59

De acordo com Chesnais (2005), o capital financeiro absorve


capitais da esfera produtiva para aplicá-los na especulação.
Isto dificulta a retomada mais intensa dos investimentos.
Estaria aí a principal razão do lento crescimento dos paí-
ses centrais. Para este autor, os lucros não acumulados das
empresas transnacionais, as rendas da terra e as derivadas
da exploração de recursos naturais, os juros provenientes do
pagamento das dívidas externas dos países em desenvolvi-
mento e as poupanças centralizadas pelos fundos de pensão
e pelos fundos mútuos alimentam continuamente a esfera
financeira, que se expande também em virtude da continua
reaplicação dos capitais valorizados na esfera financeira na
própria na especulação. O resultado é a expansão perma-
nente dos mercados financeiros e o predomínio dessa fração
do capital sobre as demais.
De acordo com Chesnais (2005), por meio do controle
acionário, crescentes setores da burguesia tendem a se tornar
rentistas, passando a impor às empresas e aos assalariados a
lógica do capital financeiro, baseada em elevada remuneração,
obtida em espaços de tempo muito curtos. Isto diminui a ca-
pacidade das empresas financiarem os investimentos a partir
de lucros retidos e inviabiliza os projetos que não asseguram
as taxas esperadas pelos acionistas. O crescimento modesto
dos investimentos e a tendência à queda dos salários, que não
acompanham os ganhos de produtividade, seriam as causas
centrais do baixo crescimento econômico mundial entre fins
da década de 1970 e 2003 (CHESNAIS, 2005, p. 50-58).
O baixo crescimento no centro do sistema associado a
abundância de capital induziu o incremento dos fluxos de
capital para a periferia, o que contribuiu para criar as condi-
60 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

ções para as crises do México, da Ásia, da Rússia, do Brasil


e da Argentina em um contexto de abertura das economias
e de adoção de políticas econômicas inspiradas no chamado
Consenso de Washington. O caso da crise asiática é emble-
mático. O crescente fluxo de capitais contribuiu para susten-
tar tanto elevadas taxas de acumulação quanto bolhas espe-
culativas na região. O inchaço do capital fictício e a intensa
acumulação na Ásia são processos entrelaçados.
Isto ficou bastante evidente na crise asiática de 1997 e no
período de ascensão da economia mundial entre 2003-2007.
A grande expansão da economia regional não se sustenta-
va apenas em altas taxas de investimento, mas também na
desenfreada especulação com títulos, imóveis e ações, ali-
mentada por caudaloso fluxo externo de capitais. A própria
recuperação da crise de 1997 não pode ser entendida senão a
partir do incremento das exportações asiáticas para os EUA,
que viviam um momento de auge baseado nos investimen-
tos relacionados à chamada nova economia, no aumento do
consumo decorrente do crescente endividamento das famí-
lias e na frenética especulação com ações das empresas de
alta tecnologia. Esta especulação com ações era responsável,
em parte, pela manutenção elevados investimentos à medida
que permitia a capitalização das empresas e pela elevação
do consumo devido ao efeito riqueza. Concomitantemente,
o ajuste imposto pelo FMI e pelos países centrais aos países
asiáticos, como já tinha ocorrido na América Latina e volta-
ria a ocorrer nas crises do Brasil e da Argentina, pautou-se
pela preservação dos interesses do capital financeiro global,
sendo que as populações asiáticas tiveram que arcar com o
ônus dos ajustes recessivos (BRENNER, 2006).
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 61

A recuperação asiática a partir sobretudo dos estímulos


advindos das crescentes exportações para os EUA indicam a
forte articulação entre as economias dessa região e a norte-
-americana. Como assinalou Belluzzo (2005), observa-se uma
simbiose entre as economias asiáticas e a dos EUA. Para este
autor, os EUA só puderam aumentar sistematicamente esses
déficits porque o resto do mundo, em especial os países asiá-
ticos, está disposto a financiá-los. Esses países fazem isso na
defesa de seus próprios interesses, à medida que eles depen-
dem das exportações para o mercado norte-americano, em-
bora essa dependência tenha caído na última década em vir-
tude da crescente importância do mercado regional asiático,
que gravita em torno da China. Esses países também adotam
essa política por falta de outra opção par manter suas reser-
vas em outra forma que não em ativos em dólar. Essa política
também contribui para manter suas moedas desvalorizadas,
o que é de grande importância em um contexto de acirrada
concorrência (BELLUZZO, 2005; BRENNER, 2006).
Esta forma de financiar os déficits dos EUA permite sus-
tentar o excesso de consumo dos norte-americanos e esta-
bilizar a economia, possibilitando a adoção por de políticas
expansionistas, que contribuem para impulsionar a econo-
mia norte-americana e, por conseguinte, a própria econo-
mia mundial, pois esta continua dependente, em parte, dos
déficits orçamentários e dos déficits comerciais norte-ame-
ricanos. As bases dessa relação são frágeis, à medida que o
setor industrial norte-americano é solapado (BELLUZZO,
2005; BRENNER, 2006).
Na fase de expansão 2003-2007, o peso da demanda e
dos déficits norte-americanos para o bom desempenho da
62 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

economia mundial foi de grande importância. A economia


dos EUA nesse período se sustentava, sobretudo, na bolha
especulativa com imóveis e no efeito riqueza decorrente
dessa bolha, que foi um dos fatores da ampliação do consu-
mo. Também se sustentava no crescente gasto militar e nos
crescentes déficits públicos. Cabe mencionar que o setor da
construção possui enorme efeito de encadeamento, estimu-
lando uma série de outros setores. É verdade que nesta fase,
também foi de grande importância o bom desempenho da
economia chinesa, que estimulou vastas áreas da periferia,
mas também ajudou a inflar a especulação com commodi-
ties. Não custa lembrar que o elevado crescimento chinês
também se vinculava as suas crescentes exportações, mas
também passou a depender cada vez mais do crescimento
de seu mercado interno. Ao mesmo tempo em que a reto-
mada geral da acumulação de capital expandia o excesso
de capacidade produtiva em escala global, crescia em ritmo
acelerado a especulação, sobretudo a vinculada à expansão
imobiliária norte-americana, que acabou enredando o con-
junto do sistema financeiro global, dada a intensa interliga-
ção dos mercados financeiros. Dessa maneira, se preparou
o terreno para nova crise.
A crise atual, que teve início em 2008 com a falência do
Banco Lehman Brothers3, mas cujos indícios datavam de no

3 O efeito da falência foi devastador, pois evidenciou a situação generali-


zada de insolvência do sistema financeiro nos EUA e na Europa. Situa-
ção que ainda não foi totalmente superada. As recentes dificuldades en-
frentadas pelos bancos espanhóis são ilustrativas. A quebra do Lehman
Brothers desencadeou uma onda de pânico.
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 63

mínimo 2006 (BRENNER, 2006; HARVEY, 2011)4 , tinha no


excesso de capital fictício, como ocorreu nas crises que var-
reram a economia mundial na década de 1990, uma de suas
principais causas. A fase expansiva foi inflada pela especu-
lação centrada nos EUA, mas que devido às profundas inter-
ligações do sistema financeiro assumiu dimensões globais.
Em 2008, o volume de empréstimos imobiliários era da
ordem de 12 trilhões de dólares. Parte desse montante era
constituída de títulos de solvência duvidosa, representa-
dos pelos títulos subprime (BORÇA JR. e TORRES FILHO,
2008). Para reduzir os riscos, os bancos e as instituições de
crédito imobiliário norte-americanas securitizaram esses tí-
tulos. Eles foram tomados como base para o lançamento de
derivativos, que foram vendidos para outros bancos e para
os fundos de investimentos pelo mundo todo. Muitas dessas
instituições utilizaram esses títulos como garantia de em-
préstimos, que serviam para alavancar aplicações em merca-
dos de ações, moedas e títulos. Dessa forma, formou-se uma

4 Segundo Harvey (2011, p. 9), problemas com financiamento imobiliá-


rio podiam ser observados desde o final dos anos 1990. Mas nada foi
feito para enfrentar a situação, que seria agravada com a elevação dos
juros para deter pressões inflacionárias em 2006. O problema ganharia
dramaticidade em 2007, quando 2 milhões de pessoas perderam suas
casas. Neste contexto, a oferta de imóveis aumentou pela retração da
demanda e pela recolocação no mercado das casas retomadas pelos ban-
cos a partir da avalanche de execuções hipotecárias. A construção civil
praticamente foi paralisada e o preço dos imóveis começou a despencar.
Um dos resultados desse processo foi a crescente deterioração das ins-
tituições financiadoras e dos títulos baseados direta ou indiretamente
nessas operações de financiamento, que acabou afetando o conjunto do
sistema financeiro.
64 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

uma cadeia de especulação com base em papéis insolventes.


Somaram-se a esse processo as bolhas imobiliárias na Espa-
nha e na Irlanda. Isto abria a possibilidade de colapso de todo
o sistema financeiro global. (Belluzzo, 2009; CHESNAIS,
2005; CORSI, 2009; Harvey, 2011).
O estouro da bolha jogou a economia em profunda reces-
são, que só não foi mais grave graças à pronta ação de socorro
do capital pelos Estados, sobretudo dos países mais desenvol-
vidos, que fizeram de tudo para estancar a crise de liquidez do
sistema. Esta postura evitou, provavelmente, uma depressão
das mesmas proporções a da ocorrida na década de 1930. Os
bancos centrais dos países desenvolvidos passaram a garantir
os depósitos até certo limite e injetaram bilhões de dólares para
combater o colapso da liquidez na economia mundial (BEL-
LUZZO, 2009; HARVEY, 2011). Os valores dos papéis des-
pencaram, o que representou uma desvalorização maciça de
capital fictício. Mas isso não esvaziou a crise, apesar da queima
de trilhões de dólares. O risco de colapso do setor financeiro
nos países era palpável nos primeiros meses da crise. A crise
de liquidez acabou gerando uma crise na economia real, com
redução da produção e do emprego em escala mundial.
A crise evidenciou mais uma vez a incapacidade dos mer-
cados regularem a economia de forma eficiente. Governos li-
berais ante a gravidade da situação, contrariando o próprio
discurso, foram obrigados a intervir na economia de maneira
abrangente, estatizaram parte do sistema financeiro, adota-
ram medidas protecionistas, salvaram empresas em estado
falimentar etc.
As instituições internacionais, como o FMI e o Banco
Mundial foram incapazes de uma ação eficaz para deter a
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 65

crise. A fraqueza desses organismos para regular a econo-


mia mundial ficou evidente. Coube aos Estados nacionais
o papel decisivo no enfretamento da crise. O grau de dete-
rioração da economia só não foi mais grave graças também
ao desempenho das economias em desenvolvimento, apesar
delas também terem sofrido com a crise.
A crise que parecia ter amainado a partir do segundo
semestre de 2009, voltou com força no início do ano seguin-
te. Já em novembro de 2009, veio à tona a delicada situação
fiscal e das contas externas da Grécia.5 A Grécia tinha graves
problemas de financiamento de sua dívida e de suas contas
externas, apresentando elevada dependência dos fluxos ex-
ternos de capital. O problema se agravou com a crescente
deterioração da situação de Portugal, Irlanda, Espanha e da
Itália. A segunda onda da crise levou ao aprofundamento da
crise na Europa, com repercussão deletéria para conjunto da
economia mundial.
Os países que compõem a zona do euro, mas sobretudo
desses países, não resistiram à pressão do capital financeiro
e adotaram rígidas políticas de estabilização na esperança
de deter a crise. Não por acaso suas economias continuam
em recessão. A crise trouxe à tona as fragilidades do euro.
A política recessiva agravou a situação das contas públicas,
que já não eram boas em virtude dos fortes desequilíbrios
estruturais. Depois de salvar o capital financeiro do colapso,
os Estados passaram a enfrentar fuga de capitais e dificulda-
des crescentes para rolar suas dívidas públicas. Ao invés de

5 A dívida pública grega equivalia à época a 115,1% do PIB e o déficit fiscal


13,6%. O déficit em conta corrente era de 11,2% do PIB (FORMENTO e
MERINO, 2011).
66 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

tomarem atitudes para reanimar e regular a economia, ado-


taram políticas mais austeras, indicando um elevado grau
de comprometimento com os interesses financeiros (FOR-
MENTO e MERINO, 2011)6.
Entretanto, a estratégia baseada na austeridade tem jo-
gado nas contas dos trabalhadores o ônus dos ajustes para
superar a crise, pois implica no incremento do desempre-
go, na redução dos salários, na precarização das condições
de trabalho, na redução dos gastos sociais e na queda das

6 O comprometimento dos bancos franceses, alemães, holandeses e in-


gleses com os países em crise era e é ainda elevado. Portanto, tornou-se
vital para esses interesses evitar o colapso e para eles isso significa ga-
rantir redução do déficit público e estabilização das contas externas dos
países em crise por meio de políticas econômicas recessivas, pois con-
sideram que só reduzindo as relações dívida/PIB e dívida/exportações
conseguiram garantir os fluxos e pagamentos.Esta política recessiva e
austera visa garantir o pagamento das dívidas por meio do aumento da
poupança interna e de ajuda financeira. Seus defensores avaliam que
garantir a capacidade de pagamento dos países em crise trará de vol-
ta a confiança do capital financeiro e, dessa forma, os juros cairiam e
os fluxos de capitais seriam retomados, melhorando as condições de
financiamento das dívidas. Com o incremento da poupança e a volta
dos fluxos de capital, estes países teriam melhores condições para reto-
mar os investimentos, aumentar a produtividade do trabalho, ampliar
a produção, elevar as exportações em um contexto de redução dos sa-
lários graças á própria crise e ao corte de direitos sociais. Dessa forma,
seria possível enfrentar os problemas de fundo da unidade monetária,
em particular os diferenciais de custo e de produtividade. Aprofundar
esse caminho exigiria maior controle das políticas econômicas nacio-
nais pela União Européia. Isto implicaria na redução da autonomia dos
países membros, sobretudo no que diz respeito à política fiscal (FOR-
MENTO e MERINO, 2011).
A crise do capitalismo global em perspectiva histórica | 67

aposentadorias. Os problemas dessa saída não são poucos. A


política recessiva reduz a arrecadação pública, o que dificul-
ta de maneira crescente o pagamento das dívidas, criando
uma situação insustentável. Também não está claro como
estes países recuperarão os investimentos necessários para
reduzir os diferenciais de produtividade em um ambiente
recessivo. Não parece plausível esperar que apenas a redução
de custos e salários pelas reformas serão suficientes para en-
frentar a questão da competitividade. Ademais, o incremen-
to da produtividade é um processo que exige largo prazo
para ocorrer (FORMENTO e MERINO, 2011).
A segunda onda da crise ainda não se esgotou. As econo-
mias periféricas, em especial as da Ásia, não tem conseguido
reanimar o conjunto da economia mundial. Do ponto de vis-
ta do capital financeiro, uma saída seria articular a formação
de novas bolhas especulativas, que sustentem a enorme mas-
sa de capitais fictícios. Contudo, a crise atual parece colo-
car em questão o padrão de valorização baseado, sobretudo,
em sucessivas bolhas especulativas. A solução também não
se encontra em uma maior regulação dos mercados, que é
necessária, mas não suficiente para superar as dificuldades.
No início da crise, veio à tona a discussão da premente ne-
cessidade do retorno da regulação dos mercados e do siste-
ma bancário, como se o problema da crise se reduzisse a essa
questão. Porém, a contundente oposição do capital financeiro
bloqueou até o momento iniciativas nesse sentido (CINTRA
e PRATES, 2011). O neoliberalismo parece enfrentar uma
severa crise, mas resiste, em parte pela debilidade das for-
ças populares. Contudo, a crise não pode ser reduzida a um
problema de falta de regulação dos mercados, mas decorre
68 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

de profundas contradições do modo de produção capitalista,


cuja expressão maior é o excesso de capital fictício.

Considerações finais
Enfim, a dominância do capital financeiro gerou uma
dinâmica econômica instável, baseada em bolhas especulati-
vas. A formação e o estouro de bolhas especulativas têm ca-
racterizado o padrão de acumulação do capitalismo globali-
zado. Os ciclos da economia mundial estão relacionados às
bolhas especulativas (Brenner, 2003 e 2006), como ficou
evidente nas crises que assolaram a periferia na década de
1990 e o centro do sistema a partir da crise na Nasdq (2001)
e finalmente da crise da bolha imobiliária 2007.
A crise faz parte da própria dinâmica da acumulação de
capital. Não existe capitalismo sem crises periódicas. As cri-
ses são as formas pelas quais o sistema resolve momentanea-
mente as suas contradições para recolocá-las mais adiante em
um patamar superior. Os conflitos de classe, na tentativa de
resolução dessas contradições, levam o sistema a reestrutura-
-se, criando as condições para uma nova fase de expansão.

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70 | A crise do capitalismo global em perspectiva histórica

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desafios”. In: Observatório da economia global, 2010. www.eco.unicamp.
com.br.
Capítulo 4

Crise atual: observações a partir da Economia


Política dos Sistemas-Mundo
Rosângela de Lima Vieira1

A presentamos1 a seguir o desenvolvimento da análise


apresentada inicialmente no XII Fórum de Conjuntura,
“Crise do capitalismo global no mundo e no Brasil”2 . A mesa
“A Crise em perspectiva Histórica”, propôs uma reflexão do
conturbado tempo presente a partir da história. Diante des-
se desafio, construímos um percurso comparativo de alguns
aspectos da transição hegemônica britânica para a norte-
-americana com a atual crise do capitalismo. Espera-se que
assim possamos encontrar algumas balizas que contribuam
para um exame mais aguçado da atual crise do capitalismo.
A exposição foi elaborada a partir da perspectiva da
abordagem da Economia Política dos Sistemas-Mundo,
constituída a partir da tríade: Fernand Braudel, Immanuel
Wallerstein e Giovanni Arrighi. E desse, sobretudo a partir

1 Doutora em História com Pós-doutorado em Economia. Docente do


DCPE – FFC/UNESP – câmpus de Marília-SP.
2 Realizado de 29 a 31 de outubro de 2012. FFC/UNESP – câmpus de
Marília-SP.
72 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

de sua obra “O longo século XX”. O percurso aqui desenvol-


vido está dividido em três sessões: o conceito de Ciclo Sistê-
mico de Acumulação, a transição do CSA Britânico para o
Norte Americano, e a fase atual.

O conceito de CSA
Os Ciclos Sistêmicos de Acumulação, segundo Arrighi,
são unidades de análise mais ‘manejáveis’ construídas a
partir da idéia braudeliana de capitalismo como um proces-
so histórico de longa duração e enquanto o terceiro andar
da economia 3.
Os ciclos sistêmicos de acumulação derivam

diretamente da idéia braudeliana do capita-


lismo como a camada superior “não especia-
lizada” da hierarquia do mundo do comércio.
Nessa camada superior é que se fazem os “lu-
cros em larga escala”. Nela, os lucros não são
grandes apenas porque a camada capitalista
“monopolize” as atividades econômicas mais
lucrativas; mais importante ainda é o fato de
que a camada capitalista tem a flexibilidade
necessária para deslocar continuamente seus

3 Para Fernand Braudel a economia se apresenta historicamente em três


níveis: o primeiro andar, a economia das trocas simples; o segundo an-
dar, a economia de mercado; e o terceiro nível, o capitalismo. Este último
caracterizado por um vasto conjunto de estratégias na busca do maior
lucro possível, o que inclui a fuga da ‘lei de mercado’ da oferta e procura.
Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo | 73

investimentos das atividades econômicas que


estejam enfrentando uma redução dos lucros
para as que não se encontrem nessa situação.
(ARRIGHI, 1996, p. 8)

Arrighi também esclarece que ao decompor esses cin-
co longos séculos em quatro CSAs: Genova, Holanda, Grã
Bretanha e Estados Unidos – refere-se “ao sistema como um
todo, e não a seus componentes”. E também explica que con-
centrar-se “nas estratégias e estruturas dos agentes governa-
mentais e empresariais genoveses, holandeses, britânicos e
norte-americanos deve-se exclusivamente à posição central
que ocupam, de forma sucessiva” (Ibid., p. XI). Ou seja, a
economia capitalista é mais ampla tanto geograficamente,
quanto no que se refere a seus agentes. E, embora a ênfase
apresente os centros hegemônicos de cada CSA, os modelos
econômicos capitaneados por cada um deles tendencialmen-
te espacializaram-se. Segundo Arrighi,

o principal objetivo do conceito de ciclos sis-


têmicos é descrever e elucidar a formação,
consolidação e desintegração dos sucessivos
regimes pelos quais a economia capitalis-
ta mundial se expandiu, desde seu embrião
subsistêmico do fim da Idade Média até sua
dimensão global da atualidade. (Ibid., p. 10).

Nessa perspectiva, outra característica do capitalismo


consiste na flexibilidade e liberdade de escolha do capital,
que o leva a um movimento de incremento na produção ou
74 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

na financeirização de acordo com as taxas de lucro. Isso ex-


plica por que quando a “expectativa é sistematicamente frus-
trada, o capital tende a retornar a formas mais flexíveis de
investimento – acima de tudo, à sua forma monetária.” O que
indica essa expansão financeira? “um sintoma da maturidade
de determinado desenvolvimento capitalista”. (Ibid., p. 5)
Essa tendência evidencia-se desde a Itália do século XV,

quando a oligarquia capitalista genovesa


passou das mercadorias para a atividade
bancária, e na segunda metade do século
XVI, quando os nobili vecchi genoveses, for-
necedores oficiais de empréstimos ao rei da
Espanha, retiraram-se gradualmente do co-
mércio. Seguindo os holandeses, essa tendên-
cia foi reproduzida pelos ingleses no fim do
século XIX e início do século XX, quando o
fim da ‘fantástica aventura industrial’ criou
um excesso de capital monetário. E depois da
igualmente fantástica aventura do chamado
fordismo-keynesianismo, o capital dos Esta-
dos Unidos tomou um rumo semelhante nas
décadas de 1970 e 1980. (Ibid., p. 5)

A observação de expansões materiais seguidas de ex-


pansões financeiras reiteradas vezes levou à concepção dos
Ciclos Sistêmicos de Acumulação. Também se deve destacar
que os ciclos sistêmicos de acumulação consecutivos super-
põem-se parcialmente. Quando o ‘antigo’ ciclo entra na fase
financeira – ou seja, as taxas de lucratividade pendem para
Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo | 75

os negócios financeiros – o que causa um deslocamento dos


investimentos de capitais para esse setor; um ‘novo’ ciclo co-
meça se desenhar a partir de uma expansão material – o que
pode ser por causa de novos produtos, por exemplo –, e que
lentamente começa a atrair investimentos. (Ibid., p. 6).
Os quatro ciclos citados são apresentados por Arrighi
em um gráfico4 , demonstrando visualmente essa sucessão
e a superposição parcial dos ciclos sistêmicos de acumula-
ção, quando ocorre a expansão financeira do ‘antigo’ CSA,
há concomitância com a expansão material do ‘novo’ CSA.
Os estudos das transições dos ciclos sistêmicos não ape-
nas revelam a histórica econômica passada, mas subsidiam
uma compreensão mais ampla presente. Especificamente, as
características da passagem do CSA britânico para o norte
americano, apresentadas por Arrighi, oferecem elementos
comparativos para a análise da atual conjuntura.

Transição do CSA Britânico para o


Norte Americano
O CSA Britânico

O Modelo britânico, chamado por John Gallagher e Ro-


nald Robinson de ‘imperialismo de livre comércio’, ou “um
sistema mundial de governo que se expandiu e suplantou
o Sistema de Vestfália.” (Ibid. p. 53). Foi uma centralização
sem precedentes do poder mundial nas mãos de um único
Estado, o Reino Unido.

4 Cf. Arrighi, p. 219.


76 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

Por outro lado, o imperialismo de livre comércio estabe-


leceu o princípio de que as leis que vigoravam dentro e entre
as nações estavam sujeitas à autoridade superior do ‘mercado
mundial’ regido por ‘leis próprias’. Esse poder foi resultante
da adoção unilateral de uma prática e uma ideologia de livre
comércio pelo Reino Unido. Ainda combinando a expansão
territorial ultramarina com o desenvolvimento de uma in-
dústria de bens de capital no país, essa política tornou-se um
poderoso instrumento de governo de toda a economia mun-
dial. Ao abrirem seu mercado interno, os governantes britâ-
nicos criaram redes mundiais que dependiam da expansão
da riqueza e poder do Reino Unido, e de fidelidade a ela.
Assim, pode-se dizer que o capitalismo mundial, sob a égide
britânica, foi ao mesmo tempo um império mundial e uma
economia mundial. Isso se perpetuou da segunda metade do
século XVIII até o fim do século XIX e início do XX, quando
forma-se a conjuntura de crise do CSA britânico.
O Reino Unido exerceu as funções de governo mundial
até o fim do século XIX. De 1870 em diante, começou a per-
der o controle e a Alemanha e os EUA iniciam sua ascensão
na economia mundial.

Os desafios alemão e norte-americano ao


poderio mundial britânico fortaleceram-se
mutuamente, comprometeram a capacidade
da Grã-Bretanha de governar o sistema inte-
restatal e acabaram levando a uma nova luta
pela supremacia mundial, com uma violência
e morbidez sem precedentes. (Ibid., p. 59).
Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo | 77

Os EUA estavam numa posição muito melhor do que


a Alemanha. Suas dimensões continentais, insularidade e
dotação extremamente favorável de recursos naturais, bem
como a política sistematicamente seguida por seu governo,
de manter as portas do mercado interno fechadas aos pro-
dutos estrangeiros, mas abertas ao capital, à mão de obra e à
iniciativa do exterior, transformaram o país no maior bene-
ficiário do imperialismo britânico de livre comércio5. Além
disso, tanto a primeira como a segunda guerra mundial ace-
leraram o processo de hegemonia dos EUA.
A partir de 1915, a demanda britânica de armamentos e
máquinas somente pode ser atendida pelos EUA, o que deu a
este direitos sobre as receitas e ativos britânicos. A expansão
material norte-americana, iniciada por volta de 1870, é con-
comitante à expansão financeira britânica e com a ‘Grande
Depressão’ (1873-1896).

Como todos os séculos anteriores, o longo sé-


culo XX compõe-se de três seguimentos dis-
tintos. O primeiro começa na década de 1870
e se estende até 1930, isto é, desde a crise a si-
nalizadora até a crise terminal do regime bri-
tânico de acumulação. O segundo vai da crise
terminal do regime britânico até a crise sina-
lizadora do regime norte-americano – uma
crise que podemos situar por volta de 1970. E
o terceiro e último segmento vai de 1970 até a

5 Cf. Arrighi, 1996, p. 61.


78 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

crise terminal do regime norte-americano.”6


(Ibid., p. 220-1).

O CSA norte americano

Com o fim da segunda guerra os EUA haviam acumu-


lado imensos créditos7, que lhe davam o “monopólio da li-
quidez mundial”. E mais, com o fim da guerra, já estavam
estabelecidos os principais contornos desse novo sistema
mundial: em Bretton Woods foram estabelecidas as bases do
novo sistema monetário internacional; em Hiroshima e Na-
gasaki, novos meios de violência; e com a Carta das Nações
Unidas as novas normas e regras de legitimação.8
O modelo norte americano é assim caracterizado:

o livre comércio ideologizado e praticado


pelo governo dos Estados Unidos, em todo o
período de seu predomínio hegemônico, tem
sido, antes, uma estratégia de negociação in-
tergovernamental – bilateral e multilateral
– sobre a liberalização do comércio, visando
basicamente abrir as portas das outras na-

6 Arrighi distingue dois tipos de crise: a sinalizadora e a terminal. A


primeira indica uma tendência dentro do ciclo, a segunda leva a uma
transformação mais profunda no sistema, o que inclui a troca do cen-
tro hegemônico.
7 Cf. Arrighi, 1996, p. 278-9.
8 Cf. Arrighi, 1996, p. 278 a 284.
Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo | 79

ções aos produtos e às empresas norte-ame-


ricanos. (Ibid., p. 71)

E “com isso, atingiu-se um grau muito mais amplo de li-


vre comércio multilateral sob a hegemonia norte-americana,
comparado ao da britânica.” (Ibid., p. 72). E o ‘livre comér-
cio’ garantiu privilégios aos EUA, uma vez que sendo mais
produtivo e competitivo conquistou todos os mercados que
lhes interessaram.
Outra característica do modelo norte americano: as em-
presas multinacionais. Enquanto as Companhias de Comér-
cio e Navegação dos séculos anteriores eram instrumentos
altamente maleáveis da expansão do Estado, “as empresas
multinacionais do século XX não o são. Longe de serem tais
instrumentos à disposição do poder estatal, estas empresas
cedo transformaram-se no limite mais fundamental desse
poder.” (Ibid., p. 317) Elas não se situam acima dos interes-
ses estatais, deslocam-se na direção da melhor lucratividade,
independentes das necessidades nacionais.

A crise atual
Segundo Arrighi, no decorrer de um Ciclo Sistêmico de
Acumulação, há crises sinalizadoras e terminais. Como se
viu em citação anterior, a cronologia do CSA norte-ameri-
cano identifica a década de 1970 como sua crise sinaliza-
dora. Ele se refere à expansão financeira dos anos 70 e 80
do século passado, que tal como vem ocorrendo desde o
século XIV, sucede
80 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

como reação característica do capital à inten-


sificação das pressões competitivas que de-
correm, invariavelmente, de todas as grandes
expansões do comércio e produção mundiais.
A escala, o âmbito e a sofisticação técnica da
atual expansão financeira são, é claro, mui-
to maiores que os das expansões anteriores.
(Ibid., p. 309).

Expansões financeiras, como se viu anteriormente coin-


cidem com a crise terminal do CSA vigente e com a expan-
são material de um novo ciclo de acumulação.
Da década de 70 em diante, houve várias crises, que têm
desestabilizado a hegemonia norte-americana. E segundo
Arrighi, a arrancada financeira da economia mundial se
constitui-se “num aspecto integrante e precoce dessa crise.”
(Ibid., p. 310), ou seja, demonstra a tendência de uma crise
terminal prematura do CSA norte-americano.
A financeirização exacerbada criou dificuldades e as al-
ternativas de solução concorreram para novos problemas.
Por exemplo, a flexibilização das taxas de câmbio, permitiu
certa expansão do capital norte americano, além de livrá-los
das restrições do balanço de pagamentos (inerente às taxas
fixas de câmbio). Todavia, para se protegerem das variações
decorrentes da flexibilização, “as empresas não tinham alter-
nativa senão recorrer à maior diversificação geopolítica de
suas operações.” Ou seja, elas se tornaram ainda mais multi-
nacionais. E, além disso, para maior proteção a curto prazo,
elas aumentaram ao mesmo tempo sua participação nas tran-
Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo | 81

sações financeiras9. Isso provocou uma cisão mais pontual,


uma dissociação mesmo, dos interesses do capital e do estado.
O primeiro desviando-se para países mais rentáveis, possível
pela “completa liberalização dos empréstimos e investimen-
tos privados norte-americanos no exterior, reforçaram as
tendências que impulsionavam o crescimento explosivo dos
mercados monetários offshore”. Contraditoriamente, o Estado
norte-americano minado tentou “incitar o capital a manter
em andamento a expansão material da economia mundial ca-
pitalista centrada nos Estados Unidos” (Ibid., p. 324)
Decorrente desse processo há nitidamente uma “redução
da defasagem no grau de industrialização entre os países de
alta renda, por um lado, e os de renda baixa e média, por
outro...” (Ibid., p. 347). O que pode ser interpretado como
uma expansão material preponderantemente, mas não ex-
clusivamente, asiático10. Em outras palavras: “um regime de
acumulação emergente. Como todos os regimes emergentes
que acabaram gerando uma nova expansão material da eco-
nomia mundial capitalista, este último também é um sub-
produto do regime anterior.” (Ibid., p. 362). Ou seja, das con-
tradições capitalistas do CSA vigente surgem iniciativas de
investimento em outros setores e/ou regiões que modelam
um novo regime de acumulação, dada a lucratividade advin-
da da expansão material impulsionada pelo ‘freio’ existente
no regime em declínio.
Pode-se destacar que “o principal aspecto estrutural do
regime emergente ainda é o abastecimento de mercados ri-

9 Cf. Arrighi, 1996, p. 321.


10 Cf. Arrighi, 1996, p. 351.
82 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

cos com produtos que incorporam a mão-de-obra barata dos


países pobres.” (Ibid., p. 363). Tal aspecto mantém o padrão
de consumo da sociedade norte-americana, porém não é re-
produzido nas regiões emergentes, mantendo, portanto, um
grau de subordinação e interdependência entre elas. Nitida-
mente, tratam-se de relações de mão dupla. O regime ‘antigo’
sustenta-se pelo sucesso do novo padrão de produção emer-
gente; este por sua vez é bem sucedido na medida em que os
EUA permanecem na condição de consumidor exemplar.
A obra o “O longo século XX” é de 1994; logo, as crises
surgidas nesse atual século11 não estão analisadas. E elas ao
se somarem podem estar indicando a passagem da fase de
crise sinalizadora para a crise terminal do atual CSA. Gio-
vanni Arrighi (falecido em 2009) deu continuidade à análise
da conjuntura até o início desse século. Em conjunto com
Beverly Silver produziu o texto intitulado “O fim do longo
século XX”, inédito até recentemente. Nele, Arrighi e Silver
refletem sobre a possível transição hegemônica.

Uma importante anomalia da presente transi-


ção é a bifurcação sem precedentes na localiza-
ção geográfica dos poderes financeiro e militar.
As corporações multinacionais estadunidenses
têm investido maciçamente na China, repetin-
do o padrão histórico observado por Marx em
que os centros em declínio transferem capital

11 A crise mais aguda, conhecida como ‘bolha imobiliária’ de 2008/09, de-


flagrada nos EUA, tem de fato desencadeado uma crise mais alargada
geográfica e economicamente. O que pode ser observado cotidianamen-
te nos jornais.
Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo | 83

excedente para os centros em ascensão. Contu-


do, em uma ruptura importante com padrões
do passado, o fluxo líquido do capital exce-
dente, desde o início da expansão financeira
liderada pelos Estados Unidos, tem sido do
centro econômico em ascensão para o centro
econômico em declínio, mais notoriamente na
forma de compras maciças de bônus do Tesou-
ro Americano realizadas pelo Leste Asiático,
primeiro pelo Japão e depois pela China. Da
mesma forma que nas transições hegemônicas
do passado, o hegemon em declínio (os Estados
Unidos) se transformou de maior nação credo-
ra em maior nação devedora. Essa transforma-
ção, no caso dos Estados Unidos, aconteceu em
escala e velocidade sem precedentes. (VIEIRA
et alli, 2012, p. 91)

O que se assemelha ao processo de transição da hegemnia


britânica e a ascensão dos EUA como vimos anteriormente.
Por outro lado há a hegemonia miltar norte-americana.

Ainda assim, os recursos militares de rele-


vância global estão concentrados esmagado-
ramente nas mãos dos Estados Unidos. Não
há sinais críveis de que os estados em ascen-
são econômica, incluindo a China, tenham a
intenção de desafiar diretamente o poder mi-
litar dos Estados Unidos. Porém, ainda sem
um desafio direto, os Estados Unidos não
84 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

mais possuem os recursos financeiros neces-


sários para dar suporte ao seu aparato mili-
tar no mundo (e agora conseguem fazer isso
somente entrando numa dívida externa cada
vez mais profunda). Além disso, como ficou
claro no fracasso do projeto da administra-
ção Bush para um Novo Século Americano, a
projeção do poder militar não tem sido par-
ticularmente efetiva em submeter o mundo à
vontade dos Estados Unidos nem no combate
à escalada de crises políticas e sociais no ní-
vel do sistema.” (Ibid., p. 91-2)

Os autores advertem,

porém, como já mencionamos, as expansões


materiais sistêmicas anteriores somente des-
lancharam quando a potência econômica em
ascensão foi capaz de se tornar hegemônica,
no sentido Gramsciano da palavra. Isto é,
conduzir o mundo à criação de arranjos ins-
titucionais globais (financeiros, geopolíticos
e sociais) capazes de providenciar a seguran-
ça necessária para uma expansão material
ampla. (Ibid., p. 94)

A transição será diferente dessa vez?


Obviamente estamos tendo uma oportunidade ímpar
na história: observar, analisar e discutir uma possível tran-
sição hegemônica para outra, no ‘calor’ dos acontecimen-
Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo | 85

tos. Talvez em nenhuma outra época as pessoas tenham


tido uma oportunidade similar, devido ao aparato teórico
e metodológico que possuímos para pensar a história eco-
nômica. No entanto, o nível de complexidade em refletir
sobre o tempo presente é muito alto. Buscar semelhanças e
diferenças em processos análogos, para daí objetivamente
contribuir para um exame da realidade vivida, constitui-se
o valor do método comparativo.
Assim a partir da análise dos Ciclos Sistêmicos de Acu-
mulação, e principalmente de elementos da transição prece-
dentes, talvez possamos contribuir com elementos para maior
clareza da contemporânea crise que tanto nos incomoda.
Dentre esses elementos merecem destaque o fato de a
crise econômica de 2008-9 estar se propagando por dife-
rentes países e perdurando até este momento, o que pode
indicar se tratar de uma crise terminal do CSA e não apenas
uma do tipo sinalizadora. De fato, o aspecto geográfico é um
elemento considerável – a crise nascida nos EUA propagou-
-se por vários países, com destaque para a zona do Euro; e
a duração dessa turbulência também chama a atenção dos
analistas – são, nesse momento, quase 5 anos.
O período que precedeu a atual crise foi de inigualável
expansão financeira e as últimas décadas foram acompa-
nhadas de uma expansão material, localizada fora do cen-
tro, com preponderância da Ásia. Primeiro o Japão, depois
os ‘Tigres Asiáticos’ e atualmente a China. Têm-se, então,
indícios de uma transição hegemônica, lembrando que na
concepção de Arrighi expansão financeira associada à uma
material delineia crise e transição hegemônica.
86 | Crise atual: observações a partir da Economia Política dos Sistemas-Mundo

Contudo, segundo ele, a constituição de um novo cen-


tro hegemônico e consequentemente de um novo Ciclo Sis-
têmico de Acumulação está condicionado à possibilidade
de outro sujeito histórico assumir plenamente a função de
hegemon. Apontar seguramente esta ascensão parece ainda
impossível, no momento em que estamos observando.
Entretanto, a percepção do processo histórico – como
testemunhas oculares que somos –, não pode olvidar a lon-
gevidade e lentidão em que foram construídas as hegemo-
nias precedentes. Assim, a lição de que os processos histó-
ricos dessa magnitude são de longa duração com mudanças
muito lentas, constituindo novas estruturas a partir daque-
las existentes, não deve ser abandonada em nossas análises
da conjuntura atual.
Além disso, nossa condição de sujeitos da história nos
impele a uma postura otimista de podermos contribuir para
o que está a ser construído seja, não apenas um novo modelo
econômico, mas que seja um modelo mais justo, equânime
e inclusivo. O que induz a uma responsabilidade inigualável
historicamente.

Referências
ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX: dinheiro, poder, e as origens
de nosso tempo. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto; São
Paulo: Editora UNESP, 1996.
VIEIRA P. A., VIEIRA, R. e FILOMENO, F. O Brasil e o Capitalismo
Histórico: passado e presente na Análise de Sistemas-Mundo. São Pau-
lo: Editora Cultura Acadêmica, 2012.
Capítulo 5

Desafio das Ruas às Instituições


Representativas
Jair Pinheiro1

Introdução

A crise econômica que eclodiu em 2008 e parece não ter


data para acabar também tem a sua versão política que,
no entanto, não é percebida como crise (ou simplesmente não
é reportada assim), talvez porque os movimentos que têm de-
safiado as instituições políticas representativas, na Europa e
nos Estados Unidos, apresentem certa diversidade de pers-
pectiva quanto ao desafio que eles mesmos representam.1
Como é comum aos movimentos, tanto no movimento
Occupy Wall Street como nos Indignados, há uma grande va-
riedade de opiniões e ideologias que disputam espaço de in-
fluência, além do fato de que a mídia seleciona tais opiniões e
ideologias para apresentar ao público, conforme sua pauta. A
diversidade interna ao movimento e a seleção da mídia, asso-

1 Doutor em Ciência Política, professor do Departamento de Ciências


Políticas e Econômicas da Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP/
campus de Marília.
88 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

ciadas contribuem para uma certa diluição do desafio às insti-


tuições representativas, uma certa redução do seu papel contes-
tador aos termos nos quais essas instituições estão alicerçadas.
Assinale-se que os rótulos Occupy Wall Street e Indig-
nados, como os primeiros manifestantes se autodenomina-
ram em suas aparições públicas iniciais – em Nova York e
Madrid, respectivamente – se tornaram abrigo para diversos
grupos espalhados pelos dois países, inclusive estimulados
pelos primeiros, que passaram a se mobilizar e reproduzir
formas de organização, bandeiras e gritos de protestos, com
variações locais. Eles serão referidos aqui nessa generalida-
de, mas, sem dúvida, um exame das especificidades poderá
identificar tendências distintas da que apresento.
Não é ocioso destacar que a sustentação de um desafio
surgido durante um ciclo de protestos, para jogar com as
palavras, desafia os atores do protesto. Este desafio aos ato-
res do protesto consiste em duas partes complementares: 1)
manter a mobilização da sua base social ou algum tipo de
organização capaz de acioná-la em momentos de necessi-
dade e 2) uma presença no debate público capaz de susten-
tar, no médio ou longo prazo, o desafio às autoridades e/ou
àqueles responsabilizados pela queixa do movimento.
Se, por um lado, a falta de organização e a ausência do
debate público representam o fim ou a desmobilização do
movimento, por outro, não é incomum que a existência de
ambas represente o desaparecimento ou a atenuação do de-
safio que o movimento representou inicialmente, na medida
em que a manutenção de uma estrutura organizativa repre-
senta algum grau de institucionalização, ou seja, um certo
comprometimento com a legalidade (que estabelece limites
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 89

para desafiar a autoridade) e a inserção no circuito econômi-


co, dominado pelo grande capital, o que limita severamente
a sobrevivência material das organizações contestadoras.
Por outro lado, uma vez satisfeita essas duas condições
(organização e presença no debate público), a continuidade
do desafio passa a depender da capacidade do movimento
de exigir respostas diferentes daquelas que as autoridades
tendem a dar aos problemas, o que implica ações diretas
e práticas discursivas desafiadoras e, estas, por sua vez, os
conectam à luta ideológica, aspecto nem sempre admitido
pelos movimentos. Este breve ensaio examinará na primeira
seção o conteúdo (exigências) do desafio representado pelos
movimentos Occupy Wall Street e Indignados, ambos surgi-
dos no contexto da crise de 2008. Na segunda seção, desen-
volvo uma análise teórica, em certa medida prospectiva, da
natureza (ideologia) deste desafio, apontando algumas pos-
sibilidades de desenvolvimento de tais movimentos.

A percepção da crise e o conteúdo


do desafio
As crises do capitalismo não são raios em céu azul, tam-
pouco efeitos da ganância e da corrupção – embora não se-
jam causas, conferem certa configuração político-ideológica
às crises –, mas resultados de causas sistêmicas. Marx (1988,
v. IV, caps. XIII, XIV e XV) descreveu a crise2 como efeito

2 Para uma análise da crise de 2008 sob vários aspectos, veja-se dossiê “A
crise atual do capitalismo” em Crítica Marxista, n.º 29, Fundação Edito-
ra Unesp, 2009.
90 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

do decréscimo proporcional do capital variável em relação


ao capital constante (fixo e circulante), resultando na lei da
queda tendencial da taxa de lucro. Todavia, essa causa sis-
têmica se manifesta de diferentes maneiras segundo as ca-
racterísticas particulares de cada caso; referindo-se à atual
crise, que teve seu epicentro no setor imobiliário fortemente
financeirizado dos EUA, Pinto assinala

(...) que a crise de uma economia financei-


rizada se manifesta, quase imediatamente,
pela redução do valor dos ativos financei-
ros não por ter “origem” no setor financei-
ro, mas por ser esta a forma de riqueza a ser
desvalorizada. (...). A contração no estoque
de riqueza necessária para restabelecer uma
taxa de lucro em níveis aceitáveis – (...) – só
pode se processar pela desvalorização desses
títulos. Uma ilustração desse fenômeno é o
contraste entre a soma dos valores das ações
cotadas nas principais bolsas em operação
no fim de 2007 (US$ 60,8 trilhões) e no fim
de 2008 (US$ 32,5 trilhões); volatilizaram-
-se pouco mais de US$ 28,3 trilhões no es-
paço de doze meses (46,5%). (2009, p. 37/8).3

3 World Federation of Exchanges. Annual Repport and Statiscs, 2009; em


HTTP://www.world-exchanges.org/files/statiscs/excel/EQUITY108.xls.
Acesso em: 23 jun. 2009. (N.A.)
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 91

Em razão do impacto da crise sobre o sistema financei-


ro devido à queda dos preços dos imóveis, tornados ativos
financeiros pelo mecanismo da hipoteca, após um breve pe-
ríodo de hesitação,

O establishment mundial se debateu entre


uma extensa nacionalização do sistema ban-
cário para tentar manter em pé a atividade
econômica semiparalisada ou seu resgate
formal mediante uma injeção monumental
de dinheiro e subsídios que evitasse um co-
lapso terminal. O montante de recursos uti-
lizados para este fim se estima na magnitude
equivalente à totalidade de produção anual
dos EUA, da ordem de 15 trilhões de dóla-
res, uma quarta parte aproximadamente do
produto bruto mundial, uma quantidade sem
precedente na história do capitalismo. (RIE-
ZNIK, 2012, p. 9/10)

Lideranças políticas, empresariais e a imprensa repercu-


tiram este fato como um problema de regulação4 e, a partir
daí, o debate sobre as medidas anticrises passou a ser retra-

4 “Líderes empresariais alertaram os governos ocidentais nesta quarta-feira


de que sanções severas sobre a indústria financeira podem dificultar a
recuperação da pior recessão desde os anos 1930. A resposta preocupada
aos planos do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de taxar e
restringir grandes bancos e à ofensiva da Grã-Bretanha sobre pagamentos
de banqueiros, se deu no encontro de cerca de 2.500 líderes empresariais
e autoridades econômicas no Fórum Econômico Mundial, em Davos.”, em
92 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

tado em termos dicotômicos: austeridade versus crescimen-


to, supondo-se (e induzindo à suposição) de que a causa ime-
diata (opções de agentes públicos e privados) da crise fosse
explicação suficiente, subtraindo-se, assim, ao debate sobre
sua causa sistêmica (necessária) (Grespan, 2009). Não me
estenderei nesta questão porque não é meu propósito tratar
dos aspectos econômicos da crise, mas das suas repercussões
políticas manifestas pelos dois movimentos aqui referidos.
Na verdade, essa dicotomia é a cobertura midiática para
o mal-estar manifesto nas ruas contra àquelas medidas, to-
madas por um governo considerado ilegítimo justamente
por causa delas. Tanto num lado como no outro do Atlân-
tico, a acusação de ilegitmidade do governo está assentada
na percepção de captura dele pelas grandes corporações (os
bancos à frente); captura apontada como causa da crise. O
Occupy Wall Street se pronuncia como um

(...) movimento que está lutando contra o


poder corrosivo das maiores corporações
multinacionais e bancárias sobre o processo
democrático e o papel de Wall Street na ge-
ração de um colapso econômico que causou
a maior recessão em gerações. O movimento
é inspirado pelas revoltas no Egito e na Tu-
nísia e visa a lutar contra os 1% mais rico do
povo que está escrevendo as regras de uma

27 de janeiro de 2010. Folha de São Paulo, disponível em: http://www1.


folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u685381.shtml. Acesso em 03/01/13.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 93

economia global injusta que está privando-


-nos de futuro.5

Com pequena variação de enfoque, a Coordinadora 25s


informa:

Rodeamos el Congreso después de más de un


año de intensas movilizaciones en todos los
sectores sociales  y  tras  comprobar  que no
puede haber democracia cuando las insti-
tuciones que dicen representarla  se mueven
por  intereses que no son los de la mayo-
ría. Porque no tenemos nada que hablar
con un poder que ha demostrado siste-
máticamente ser ciego, sordo y mudo a
justas  y concretas  demandas de igual-
dad y justicia social.  Lo rodeamos para
rescatar  a  la política  de  un régimen  econó-
mico insostenible y depredador: el sistema
capitalista.6 (Grifos no original)

Daí por que a demanda genérica e, às vezes, confusa,


por novas formas democráticas que arrancariam a política

5 Boletim eletrônico About, disponível em: http://occupywallst.org/


about/. Acesso em 12/04/12. (As citações em outro idioma foram tradu-
zidas pelo autor).
6 Boletim eletrônico La democracia está secuestrada, disponível em:
http://madrilonia.org/2012/09/la-democracia-esta-secuestrada-el-25s-
-vamos-a-rescatarla/ – Acesso em 22/10/12.
94 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

das mãos de poucos. Voltarei à questão da democracia na


próxima seção.
Por ora, importa examinar dois documentos que, por
seu conteúdo geral, denúncia e chamado à mobilização,
podem ser tomados como “programas” dos movimentos,
e confrontá-los com as causas da crise a fim de delinear a
percepção que os movimentos têm dela, o que exige duas
longas citações. Primeiro, a Declaração da Ocupação da Ci-
dade de Nova York:

Quando nos reunimos em solidariedade para


expressar um sentimento de injustiça de mas-
sa, não devemos perder de vista o que nos
uniu. Comunicamos, assim, que todas as pes-
soas injustiçadas pelas forças corporativas do
mundo possam saber que somos seus aliados.
Como um povo, unido, reconhecemos a re-
alidade: que o futuro da raça humana exige
a cooperação dos seus membros, nosso siste-
ma deve proteger nossos direitos e, contra a
corrupção deste sistema, cabe aos indivíduos
proteger seus próprios direitos e os de seus
vizinhos; que um governo democrático tira
seu poder do povo, mas as corporações não
buscam o consenso para extrair riqueza do
povo e da terra, e que nenhuma verdadeira
democracia é alcançável quando o processo
é determinado pelo poder econômico. Di-
rigimo-nos a você, neste momento, quando
as corporações que põem o lucro acima do
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 95

povo, o interesse próprio acima da justiça e a


opressão acima da igualdade, domina nossos
governos. Reunimo-nos pacificamente em
assembleia, como é nosso direito, para tornar
conhecidos estes fatos.
• Tomaram nossas casas através de um
processo ilegal, apesar de não ter uma
hipoteca original.
• Tiraram as garantias dos contribuintes
com impunidade e continuam a dar bô-
nus exorbitantes a executivos.
• Perpetuaram a desigualdade e a dis-
criminação de idade, de cor da pele, de
sexo, de identidade de gênero e de orien-
tação sexual no local de trabalho.
• Envenenaram a comida pela negligência
e arruinaram o sistema agrário através
da monopolização.
• Aproveitaram-se da tortura, do confina-
mento e tratamento cruel de muitos ani-
mais e ocultaram essas práticas.
• Continuamente buscaram despojar os
empregados do direito de negociar me-
lhores salários e condições de trabalho
mais seguras.
• Tornaram os estudantes reféns de dívidas
educacionais de dezenas de milhares de
dólares, que é um direito humano em si.
96 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

• Terceirizaram continuamente o traba-


lho e usaram isto como alavanca para
cortar salários e assistência média dos
trabalhadores.
• Influenciaram a justiça para alcançar os
mesmos direitos enquanto pessoas, sem
culpa ou responsabilidade.
• Gastaram milhões de dólares com equi-
pes legais que procuram maneiras de
liberá-los de contratos referentes a segu-
ro de saúde.
• Venderam nossa privacidade como mer-
cadoria.
• Usaram as forças policiais e militares
para impedir a liberdade de imprensa.
• Deliberadamente diminuíram o recall
de produtos defeituosos, arriscando vi-
das na busca de lucro.
• Determinam a política econômica, apesar
dos fracassos catastróficos suas políticas
produziram e continuam a produzir.
• Doaram grandes somas em direito a po-
líticos que são responsáveis pela regula-
ção deles.
• Continuam a bloquear formas alternati-
vas de energia para nos manter depen-
dentes do petróleo.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 97

• Continuam a bloquear formas genéricas


de medicina que poderiam salvar vidas
ou fornecer alívio a fim de proteger os
investimentos que já se tornaram lucro
substancial.
• Propositadamente, esconderam derra-
mamento de petróleo, acidentes, conta-
bilidades defeituosas e ingredientes iner-
tes na busca de lucro.
• Propositadamente mantêm as pessoas
mal informadas e temerosas através do
seu controle da mídia.
• Aceitaram contratos privados para as-
sassinar prisioneiros, mesmo quando
apresentados com sérias dúvidas quanto
às suas culpas.
• Perpetuaram o colonialismo interno e
externo.
• Participaram da tortura e assassinato de
civis inocentes no exterior.
• Continuam a criar armas de destruição
em massa a fim de firmar contratos go-
vernamentais.
Ao povo do mundo, nós, Assembleia Geral da
Cidade de Nova York, ocupando Wall Street
na Liberty Square, o exortamos à afirmação
do seu poder.
Exercite seu direito a reunir-se pacificamen-
te, ocupe os espaços públicos, crie um pro-
98 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

cesso de discussão dos problemas que en-


frentamos e gere soluções acessíveis a todos.
A todas as comunidades que se ponham em
ação e formem grupos no espírito da demo-
cracia direta, oferecemos apoio, documenta-
ção e todos os recursos à nossa disposição.
Junte-se a nós e torne sua voz ouvida!7

Apesar da linguagem combativa, a apresentação dos fa-


tos que o movimento visa a tornar conhecidos, através da
Declaração, coloca acento na ação dos agentes, principal-
mente as corporações, sem mencionar ou aludir às causas
sistêmicas da crise. A ausência destas causas, associada à
forma descritiva da apresentação, sugere que tudo se passa-
ria de outra maneira se as decisões fossem tomadas por ou-
tros agentes (os 99%) e sob a forma de “democracia direta”,
uma democracia não determinada pelo poder econômico.
Agora, passemos às 10 Medidas para Salir de la Estafa
Capitalista:

1. Paralización del pago de la deuda pública


hasta realizar una auditoría en la que se diri-
ma qué partidas son legítimas y qué partidas
deben ser consideradas ilegítimas por haber
sido contraídas para favorecer intereses pri-

7 Este documento foi aceito pela assembleia geral da cidade de Nova York
em 29/09/11. Disponível em: http://www.nycga.net/resources/documents/
declaration/. Acesso em 12/12/12.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 99

vados, y que por tanto no han de ser pagadas


por la población.
2. Establecimiento de un régimen contributi-
vo equitativo donde todos paguen en función
de sus beneficios.
3. Persecución del fraude fiscal y las infla-
ciones insolidarias por evasión de capitales,
así como la opacidad de las fugas hacia para-
ísos fiscales.
4. Estricto control limitativo de sueldos a polí-
ticos, asesores y directivos de empresas que se
hayan beneficiado de ayudas estatales o deban
depender del control de los contribuyentes.
5. Cumplimiento de la laicidad y aconfesio-
nalidad del Estado, respetando una separaci-
ón real entre éste y la religión, determinando
la financiación de los cultos por medio de la
contribución de sus afines y estableciendo un
régimen contributivo e impositivo igual que
al resto de colectivos.
6. Auditoría de los beneficios y negocios de
la jefatura de Estado, como a las cuentas de
la Casa Real.
7. Asegurar la independencia judicial, para un
libre juzgamiento de corruptos en igualdad de
condiciones con el resto de ciudadanos, em-
bargando los bienes de estafadores y defrau-
dadores como compensación a lo robado, im-
100 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

poniendo de forma fehaciente las penas que


deriven de dichos actos.
8. Priorizar el rescate de familias y pequeñas
empresas, respetando a rajatabla el funda-
mental e inalienable derecho a una vivienda
digna. No financiar a empresas o bancos en
quiebra salvo bajo un estricto modo de con-
trol que asegure su devolución, con una inter-
vención del Estado en sus consejos de admi-
nistración proporcional al dinero prestado.
9. Defender la soberanía política y económica
ante cualquier organismo internacional, ya
sea la Comunidad Europea o el Fondo Mo-
netario. Garantizar dicha soberanía y la par-
ticipación de igual a igual, tomando siempre
las decisiones a ejecutar en beneficio de la
población, legitimándose mediante consul-
tas populares o procesos de democratización
real como el proceso constituyente.
10. Establecer un amplio consenso para bus-
car el sistema productivo más lógico y benefi-
cioso para la mayoría, generando un reparto
de la riqueza equitativo y ético, promoviendo
los instrumentos de desarrollo tecnológico y
medioambiental que garanticen la supervi-
vencia de todos los seres vivos en general, en
igualdad y armonía.
Esperamos que éstas medidas sean apoya-
das y asumidas por cualquier corriente, co-
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 101

alición u organización política que tenga la


voluntad, firmeza y valentía de defender los
intereses de los más débiles, garantizando así
el cumplimiento de la equidad, la justicia, la
libertad y la igualdad, requisitos indispensa-
bles para construir un mundo más justo para
todos y todas8.

Outras propostas, bastante aparentadas, são apresenta-


das pela seção DRY – Democracia Real Ya: 1. Eliminación
de los privilegios de la clase política, 2. Contra el desempleo;
3. Derecho a la vivienda, 4. Servicios públicos de calidad; 5.
Control de las entidades bancarias; 6. Fiscalidad; 7. Liber-
tades ciudadanas y democracia participativa; 8. Reducción
del gasto militar.
No caso dos Indignados (Plataforma en pie!), que tam-
bém adota uma linguagem combativa, dá-se ênfase às medi-
das para escapar da fraude (estafa) capitalista e se menciona
o Estado, mas não a causa sistêmica da crise. A rigor, as dez
medidas não são incompatíveis com o capitalismo, embora
sejam com as políticas neoliberais que vêm sendo implemen-
tadas. Ou seja, também os Indignados percebem a crise como
resultante da ação dos agentes, mas enfatizando o Estado.
Esta percepção da crise é determinante para caracterizar
o desafio que os movimentos representam, na medida em
que ela orienta as ações deles, por isso passo a examinar a
dimensão política da crise.

8 Disponível em: http://plataformaenpie.wordpress.com/2012/10/29/10-me-


didas-para-salir-de-la-estafa-capitalistas/. Acesso em 30/10/12.
102 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

Crise, democracia e Estado


Se a política é feita também de palavras, cacofonia é a fi-
gura que melhor retrata o discurso entorno dos movimentos
e no interior deles, tanto por haver inúmeras visões sobre
os rumos que eles devem seguir como porque o conjunto
de exigências (demandas ou propostas) alternativas às medi-
das do governo que eles apresentam, dificilmente forma um
conjunto sistemático.
Acrescente-se que esta cacofonia também é estimulada
pela identidade que os movimentos assumem. No caso do
Occupy Wall Street, eles se apresentam como “The one thing
we all have in common is that We Are The 99% that will no
longer tolerate the greed and corruption of the 1%.9”, já os
Indignados se apresentam de modo quase anárquico: “Unos
nos consideramos más progresistas, otros más conservado-
res. Unos creyentes, otros no. Unos tenemos ideologías bien
definidas, otros nos consideramos apolíticos… Pero todos
estamos preocupados e indignados por el panorama político,
económico y social que vemos a nuestro alrededor.”
Todavia, apesar da cacofonia e da heterogeneidade identi-
tária características desses movimentos, seus boletins eletrô-
nicos apontam causas comuns para a mobilização, fazem a
mesma crítica às instituições políticas e preconizam a mesma
solução: democracia direta que, no caso dos Indignados, pas-
sou a ser chamada de democracia real e deu origem à orga-

9 “A única coisa que temos em comum é que somos os 99% que não to-
lerarão mais a ganância e a corrupção do 1%”. Disponível em: http://
occupywallst.org/. Acesso em 30/11/11.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 103

nização de diversos grupos pelo país identificados pela sigla


DRY – Democracia Real Ya – seguida do nome da localidade.
Por isso, além da apreciação que fiz dos documentos
desses dois movimentos, defenderei nesta seção a tese de
que eles contêm três tipos de desafio aos governos dos seus
países: 1) reivindicam medidas conflitantes com as políticas
neoliberais; 2) denunciam a democracia representativa como
uma fraude (captura da democracia pelo poder econômico)
e 3), por conseguinte, preconizam a democracia direta.
Quanto ao primeiro, no caso da Declaração da Ocupa-
ção da Cidade de Nova York, não há reivindicações explí-
citas, mas a forma de denúncia tem como pano de fundo
uma condição de bem-estar social que foi solapada e/ou im-
pedida pelas ações denunciadas; no documento 10 Medidas
para Salir de La Estafa Capitalista, a relação entre denúncia e
reivindicação se inverte. Ambos os documentos aludem, de
forma implícita ou explícita, ao sistema tributário e às políti-
cas redistributivas e, da mesma forma, tomam tais políticas
como bandeira de luta, o que se opõe claramente às políticas
neoliberais caracterizadas por políticas sociais focalizadas,
políticas econômicas monetaristas e desregulamentação do
mercado de trabalho.
Quanto a este último aspecto, Jessop identifica nos paí-
ses desenvolvidos uma tendência de substituição do welfare
state keynesiano de base nacional pelo que denominou re-
gime de workfare pósnacional schumpeteriano (SWPR) que

(...) considerando sua função (do Estado – JP)


distintiva em assegurar as condições para a
problemática reprodução da força de traba-
104 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

lho como mercadoria fictícia, o SWPR pode


ser descrito (sem dúvida, infelizmente e com
o risco de mal-entendido) como um regime
de workfare na medida em que subordina a
política social às demandas da política eco-
nômica. Incluída sob esta última rubrica
estão a promoção da empregabilidade e da
flexibilidade do mercado de trabalho, o de-
senvolvimento de uma nova globalização
baseada na economia do conhecimento e de
uma competitividade estrutural e/ou sistê-
mica. (2005, p. 250/1)

As medidas10 propostas pelos Indignados e/ou denun-


ciadas pelo Occupy Wall Street, à exceção de umas poucas,
têm como causa direta ou indireta esta mudança no regime
de trabalho e no padrão de políticas sociais, e, pela mes-
ma razão, elas também têm um sentido geral de defesa das
políticas de bem-estar, ainda que estas tenham adquirido
diferentes formatos nos Estados Unidos e nos países que
compõem a União Europeia. Jessop (op. cit.) define quatro
padrões de políticas de bem-estar: liberal, social-democrá-

10 Destaque-se, a este respeito: “Continuamente buscaram despojar os


empregados do direito de negociar melhores salários e condições de
trabalho mais seguras.” e “Priorizar el rescate de familias y pequeñas
empresas, respetando a rajatabla el fundamental e inalienable derecho a
una vivienda digna. No financiar a empresas o bancos en quiebra salvo
bajo un estricto modo de control que asegure su devolución, con una
intervención del Estado en sus consejos de administración proporcional
al dinero prestado.”
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 105

tico, corporativo e o modelo do sul-europeu que, apesar das


diferenças entre eles quanto ao setor econômico dominante
e aos arranjos político-institucionais correspondentes, to-
dos têm em comum políticas sociais de apoio à reprodução
social dos direitos de cidadania, cujo solapamento é o nú-
cleo das críticas dos movimentos e, cuja recuperação, nú-
cleo das reivindicações.
Com relação ao segundo desafio, em contraste com o
otimismo que reina na academia quanto às potencialidades
da democracia representativa, as denúncias de ambos os
movimentos implodem a ideia de representação como forma
democrática. Aliás, a este respeito, merece registro que tanto
a imprensa alternativa como a comercial e a literatura não
especializada, em menor escala, também a especializada,
têm divulgado dados que confirmam as denúncias desses
movimentos: a captura da representação política pelo poder
econômico11 (Freeland, 2012). Ou seja, há um certo atra-
so na academia quanto à pesquisa sobre o fenômeno, devido,
em grande parte, à suposição de que “no hay democracia que
no sea liberal” (Touraine apud Mires, 2001), o que tra-
va a pesquisa crítica na medida em que o pensamento está
impedido de conceber alternativa, ainda que apenas como
recurso heurístico.
Em ambos os movimentos, a denúncia de captura das
instituições políticas pelo poder econômico aparece estreita-
mente vinculada ao terceiro desafio: a proposição da demo-
cracia direta como alternativa à representativa. O Occupy

11 Veja-se Dowbor, Ladislau, Por que o poder econômico compra eleições,


disponível em: http://ponto.outraspalavras.net/2012/10/11/eleicoes/. Aces-
so em 11/10/12.
106 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

Wall Street adotou como divisa a expressão “Somos os 99%”,


o que é ao mesmo tempo um traço identitário e uma denún-
cia e, a isto, juntou reivindicação material e política no seu
chamado à mobilização:

Occupy Wall Street é um movimento popular


forte que começou em 17 de setembro de 2011
na Liberty Square, no distrito financeiro de
Manhattan, e se espalhou por mais de 100
cidades nos EUA, além de ações em mais de
1.500 cidades pelo globo. O movimento está
lutando contra o poder corrosivo das maiores
corporações multinacionais e bancárias so-
bre o processo democrático e o papel de Wall
Street na geração de um colapso econômico
que causou a maior recessão em gerações.12

E complementa:

É a partir destes fundamentos proclamados


que dizemos a todos os americanos e ao mun-
do: basta! Quantas crises mais? Somos os
99% e nos mobilizamos para reclamar nosso
futuro hipotecado. Através de um processo
democrático direto, nos reunimos como indi-

12 Disponível em: http://occupywallst.org/about/.Acesso em 12/04/12. O


leitor notará nesta e na citação seguinte repetição de termos, quando
não de frases inteiras, de notas anteriores, o que atende à necessidade de
clareza do texto.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 107

víduos, além de elaborado estes princípios de


solidariedade, que são pontos de unidade que
incluem, mas não se limitam a: engajamento
em democracia participativa, transparente e
direta; exercício de responsabilidade indivi-
dual e coletiva (...).13 (Grifo no original)

Com alguma variação de linguagem, mais diretamente


política, os Indignados também juntam denúncia e proposi-
ção de alternativa:

El  próximo  25 de  septiembre rodearemos


el Congreso de los Diputados para rescatarlo
de un secuestro que ha convertido a esta insti-
tución en un órgano superfluo. Un secuestro
de la soberanía  popular  llevado a cabo
por  la Troika y  los mercados  financie-
ros y ejecutado con el consentimiento y la
colaboración de la mayoría de los parti-
dos políticos. Partidos que han traicionado
sus programas electorales, a sus votantes y a
la ciudadanía en general  incumpliendo pro-
mesas  y  contribuyendo  al  empobrecimiento
progresivo de la población. (…). Porque cree-
mos que el tiempo de las decisiones tomadas
por unos pocos ha terminado; porque, fren-
te a quienes quieren dejarnos sin futu-

13 Principles of Solidarity, disponível em: http://www.nycga.net/resources/


documents/principles-of-solidarity/. Acesso em 12/12/2012.
108 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

ro,  tenemos los medios y la inteligencia


colectiva para decidir y construir la so-
ciedad que queremos;  porque no necesi-
tamos  falsos  intermediarios, sino recursos y
herramientas colectivas  que fomenten acti-
vamente la participación política de todas las
personas en los asuntos comunes.14

Entretanto, este fenômeno de captura das instituições


políticas pelo poder econômico não é novo nem contingente,
razão pela qual ele aparece com tanta frequência no debate
político, embora negligenciado no teórico. Ao analisar as es-
tratégias adotadas pelos governos do final do século XIX e
início do século XX com vistas a neutralizar a “política da de-
mocracia”, Hobsbawm observa que “Havia ainda muitas par-
tes da Europa e das Américas – especialmente Itália e Améri-
ca Latina – locais onde caciques ou patrões, pessoas poderosas
e influentes localmente, poderiam “fornecer” blocos de votos
de sua clientela a quem melhor pagasse ou a patrões ainda
mais importantes.” (2007, p. 139). Por certo o aperfeiçoamento
institucional do Estado capitalista – ministério público com
funções definidas constitucionalmente e órgãos de controle
fiscal, entre outros – levou à transformação e sofisticação do
fenômeno, mas não ao seu desaparecimento.
A corrupção, que aparece nas denúncias dos dois movi-
mentos, é apenas o elemento mais visível dessa captura da

14 La Democracia Está Secuestrada, disponível em: http://madrilonia.


org/2012/09/la-democracia-esta-secuestrada-el-25s-vamos-a-rescatar-
la/. Acesso em 22/10/12.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 109

representação política pelo poder econômico. Mais impor-


tante do que a corrupção, para a análise crítica, é que essa
captura nada mais é que efeito da relação necessária entre o
tipo de Estado (capitalista) e as relações sociais de produção
capitalistas (SAES, 1998 e PINHEIRO, 2012). Para entender
essa relação e o seu efeito de captura das instituições políticas
pelo poder econômico é preciso, antes de mais nada, afastar
da análise o conceito de Estado democrático de direito, base
de qualquer variante do Estado de bem-estar e cuja premissa
ideológica, herdada do século XVIII, é a de que o Estado é
a institucionalização da relação entre indivíduos dotados de
direitos naturais que se associam num Estado civil por um
ato de vontade. Esta ideologia15 tem alcance prático e fun-
cionalidade técnico-administrativa, mas está longe de poder
explicar a relação necessária entre tipo de Estado e relações
sociais de produção e, por conseguinte, os seus efeitos.
Marx, ao contrário, parte da premissa histórico-social
(empírica, portanto) de que uma comunidade econômica é
uma comunidade natural que produz em sociedade, confor-
me relações sociais determinadas, e se destaca da natureza,
sem dela se descolar, na medida em que desenvolve suas for-
ças produtivas. Por isso,

A forma econômica específica em que se


suga mais-trabalho não pago dos produtores
diretos determina a relação de dominação
e servidão, tal como esta surge diretamente

15 Utilizo o conceito de ideologia na tripla acepção de visão social de mun-


do, sistema de normas, crenças e valores (de que é exemplo o direito) e
processo social de interpelação.
110 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

da própria produção e, por sua vez, retroage


de forma determinante sobre ela. Mas nisso
é que se baseia toda a estrutura da entidade
comunitária autônoma, oriunda das próprias
relações de produção e, com isso, ao mesmo
tempo sua estrutura política peculiar. É sem-
pre na relação direta dos proprietários das
condições de produção com os produtores
diretos – relação da qual cada forma sempre
corresponde naturalmente a determinada
fase do desenvolvimento dos métodos de tra-
balho, e portanto a sua força produtiva social
– que encontramos o segredo mais íntimo, o
fundamento oculto de toda construção social
e, por conseguinte, da forma política das re-
lações de soberania e dependência, em suma,
de cada forma específica de Estado. (MARX,
1988, vol. V, cap. XLVII, p. 235).

Assim, o Estado é uma estrutura jurídico-política (se se


quiser, um aparato institucional) que institucionaliza essas
relações sociais de produção que, no caso do modo social de
produção capitalista, adquirem a forma de uma relação ju-
rídica igualitária entre desiguais (os proprietários dos meios
de produção e os de força de trabalho), o mesmo direito que
consagra a propriedade privada dos meios de produção e re-
gula a esfera política como uma democracia de proprietá-
rios, o que dá lugar a uma relação de heteronomia material –
dissimulada pela autonomia jurídica – entre os proprietários
dos meios de produção e os de força de trabalho.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 111

Como é de interesse geral da comunidade econômica a


produção e a reprodução dos meios de produção, bem como
a alocação do excedente, este interesse geral acaba subordi-
nado aos interesses particulares dos proprietários dos meios
de produção. As formas institucionais dessa subordinação
(suas causas imediatas, portanto) variam muito, entre as
quais, pode-se citar: a legislação sobre financiamento elei-
toral, sobre contratos públicos, a organização do aparelho
de Estado (estrutura técnico-administrativa, distribuição
de competências etc.) e as formas de intervenção do Esta-
do na economia, o que ele sempre faz, não por um ato de
vontade do governo em exercício, mas como efeito de uma
causa estrutural precisa, como assinalado acima: o Estado é
a institucionalização das relações sociais de produção. Essa
intervenção, contudo, não ocorre num terreno plano onde
todas as frações do capital teriam por referência essa causa
estrutural, mas segundo a composição do bloco no poder
e suas contradições internas; por isso, essa variação é de-
terminada segundo a história de cada país, a dominância
maior ou menor do modo de produção capitalista sobre mo-
dos pré-capitalistas numa dada formação social, a classe ou
fração hegemônica no bloco no poder, o lugar de cada fração
burguesa neste bloco, o grau de polarização entre o bloco no
poder e as classes dominadas etc.
Portanto, as formas institucionais particulares caracte-
rísticas de cada Estado constitui uma arranjo jurídico-polí-
tico que nada mais é que a expressão de uma correlação de
forças no interior do bloco no poder e, entre este, e as classes
dominadas. Assim, a captura das instituições políticas pelo
poder econômico varia de acordo com essas formas institu-
112 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

cionais (desenho institucional, na terminologia neoinstitu-


cionalista). Como agentes públicos e privados agem no in-
terior dessas formas institucionais, tendo-as por referência,
tanto a crise econômica como a política se manifestam como
efeitos das ações desses agentes.
No entanto, as denúncias dos movimentos de sequestro
da democracia aludem a causas imediatas, tais como: corrup-
ção, legislação eleitoral, interesses particulares dos políticos
etc., mas não à causa estrutural mencionada no parágrafo
anterior, o que limita o alcance do desafio que tais movimen-
tos representam. Este desafio dos movimentos às instituições
representativas é a manifestação mais visível de uma crise de
hegemonia, não me refiro à que se manifesta no interior do
bloco no poder16, que leva, “por um lado, a uma ruptura do
laço representante-representado entre as classes e frações de
classe no interior do bloco no poder, e por outro atinge os
partidos políticos, mas também alguns outros aparelhos do
Estado que os representam.” (POULANTZAS, 1977, p. 25).
Trata-se de uma crise de hegemonia com características
distintas porque relativa à capacidade do Estado de organi-
zar e fazer “(...) funcionar um certo jogo (variável) de com-
promissos provisórios entre o bloco no poder e certas classes
dominadas (...)” (id., p. 26). Primeiro, ela não se manifesta

16 A crise atual apresenta elementos de conformidade com as formulações


de Poulantzas, como, por exemplo, antagonismo entre esfera central
e local do Estado; mas também de distinções, como estabilidade dos
centros decisórios e do sistema partidário, certo compromisso senão do
conjunto das frações burguesas, pelo menos das que integram o capital
monopolista, com políticas econômicas monetaristas. O exame desta
questão merece um exame detido e escapa ao escopo do presente artigo.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 113

no interior do bloco no poder e, a partir daí se estende para


a relação deste com as classes dominadas; ao contrário, esta
relação é o lócus da sua manifestação, mas o bloco no poder
continua coeso e capaz de aprovar e executar as políticas de
Estado de interesse do capital monopolista, “ele mesmo cons-
tituído de frações, “(pois o capital monopolista não é uma
entidade integrada, mas designa um processo contraditório
e desigual de “fusão” entre diversas frações do capital), fra-
cionamentos duplicados se levamos em conta as coordena-
das atuais da internacionalização do capital” (Id., p. 21). Se-
gunda, para além da sua dimensão econômica, sem dúvida a
mais debatida pela literatura especializada e pela imprensa,
as mobilizações populares mundo afora e, em particular, os
casos referidos aqui, colocam em evidência a dimensão ideo-
lógica da presente crise; todavia, essa crise ideológica não se
caracteriza pela descrença popular na ideologia dominante
(o direito), ao contrário, nunca se acreditou tanto no direi-
to como forma de regulação dos conflitos de interesses. A
razão dessa crise ideológica está na dificuldade de produzir
consenso em torno das políticas de Estado baseadas na arti-
culação do discurso jurídico dos direitos individuais com o
discurso econômico da austeridade.
Paradoxalmente, e por não tomar como referência a
causa sistêmica da crise, os movimentos formulam reivindi-
cações cujo horizonte não ultrapassa o capitalismo, muitas
vezes citado negativamente em seus boletins, como pode ser
exemplificado pelas bandeiras:

1. En lugar de rescatar a los banqueros cons-


truyamos y apoyemos una banca ética, no
114 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

corrupta ni basada en la especulación, que


responda a las necesidades de la población.
2. Cuando se recorta en Educación y Sanidad
se ataca al bienestar de todas las personas.
Los recortes son actos criminales, absoluta-
mente evitables. La educación y la sanidad
son una inversión, no un gasto.
3. Reconocer que la riqueza se produce de
manera cooperativa y que es necesario repar-
tirla de forma justa es la clave para construir
otro modelo productivo.
4. Es necesario exigir el fin de los abusos de
la especulación inmobiliaria y que el acceso
a la vivienda constituya un derecho indepen-
dientemente de la condición económica de
las personas.
5. Articular una política de transparencia
con el uso de herramientas prácticas de par-
ticipación y cooperación en red, significa
reinventar la democracia.17

Essas bandeiras, fortemente apoiadas em noções mo-


rais como banca ética e forma justa, embora não apontem a
causa sistêmica da crise do capitalismo, ainda que manifeste
indignação contra seus efeitos, ilustra a crise ideológica refe-
rida. Para a realização dessas bandeiras, preconiza-se parti-

17 Plan de Rescate Ciudadano. Disponível em: http://www.planderescate-


ciudadano.net/. Acesso em 10/10/12.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 115

cipação, cooperação e reinvenção da democracia, concebida


como uma organização horizontal

(...) um tipo de organização social que implica


igualdade entre todos os participantes num
grupo ou sociedade. Não há hierarquia, é o
contrário de uma organização vertical na qual
algumas pessoas tomam decisões e outras
obedecem. O método utilizado para a tomada
de decisões num grupo ou sociedade horizon-
talmente organizados é através de assembleia.
O que é uma assembleia? É uma reunião lo-
calizada onde as pessoas que têm objetivos
comuns podem se encontrar em igualdade de
condições. A assembleia pode ser para: infor-
mação (...), reflexão (...), decisão (...).18

Essas definições colocam em perspectiva a necessida-


de de superação das instituições representativas, isto é, sua
substituição por outras, fundadas em princípios distintos;
mas, e é o mínimo que se pode dizer a este respeito, são va-
gas e imprecisas quando aplicadas a uma formação social.
Dessa maneira, convivem de modo tenso e contraditório na
retórica dos movimentos elementos de duas formas demo-
cráticas, assim como a prática de democracia direta interna

18 Quick guide on group dynamics in people’s assemblies, documento


aprovado como sugestão pela Assembleia Puerta Del Sol, com vistas a
orientar a organização interna do movimento. Disponível em: http://
takethesquare.net/wpcontent/uploads/2011/07/Quickguidetodynamic-
sofpeoplesassemblies_13_6_2011.pdf. Acesso em 12/04/12.
116 | Desafio das Ruas às Instituições Representativas

aos movimentos é contraditória com as instituições que de-


safiam, mas tal desafio tem alcance limitado.
Em outro lugar, quando tratei especificamente do Oc-
cupy Wall Street (PINHEIRO, 2012), argumentei que a pos-
sibilidade daquele movimento dar efetividade à sua retórica
de transformação está interditada pelo fato de adotar em sua
crítica do capitalismo as mesmas categorias de análise que se
utiliza para a gestão do capital. No caso aqui tratado, tam-
bém a possibilidade da denúncia de captura da democracia
representativa pelo poder econômico avançar para a efetiva-
ção de alguma forma de democracia direta depende da ado-
ção de uma concepção sistemática desta forma alternativa
(além de mobilização política efetiva, claro), o que implica
projetar novas relações sociais de produção, uma vez que
não se pode perder de vista a relação necessária entre tais
relações e o tipo de Estado. A ausência de um conceito sis-
temático e alternativo de democracia é também o limite do
desafio representado pelos movimentos.
Certamente há muita controvérsia sobre se é viável ou
não uma democracia19 segundo tal conceito, entretanto, o
exame da história da democracia representativa revela que
os liberais do século XIX também não apostavam na facti-
bilidade dela (Losurdo, 2004), tal como veio a se configurar,
foram as lutas populares, movimento operário à frente, que
a impulsionaram contra a descrença daqueles.

19 Para um debate que retoma a tradição da democracia conselhista do


movimento operário do começo do século XX, à luz de novas problemá-
ticas, veja-se Martorano, Luciano. Conselhos e democracia: em busca da
socialização e da participação. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
Desafio das Ruas às Instituições Representativas | 117

Referências
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GRESPAN, Jorge. “A crise de sobreacumulação”. In: Crítica Marxista,
n.º 29, p. 11-17, 2009.
HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
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MIRES, Fernando. Civilidad. Teoría política de la postmodernidad. Ma-
drid: Trotta, 2001.
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RIEZNIK, Pablo. “Sobre a crise mundial, Marx e Keynes: alguns co-
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SAES, Décio. Estado e democracia: ensaios teóricos. Campinas: UNICAMP,
Instituo de Filosofia e Ciências Humanas, 1998.
Capítulo 6

Crises e Resistências: os desafios e


possibilidades da Via Campesina
Mirian Claudia Lourenção Simonetti1
Adriane de Sousa Camargo2

O processo de globalização,1que2integrou a produção e a


economia mundial numa escala sem precedentes, não se
produziu sem resistências, sem encontrar oposição de vários
setores da sociedade. Simultaneamente ao processo de repro-
dução ampliada do capital, e as suas consequências, novas for-
ças sociais foram se constituindo e articulações cada vez mais
amplas e diversas foram se formando até se configurarem em
organizações internacionais. No plano da agricultura, a maior
organização que se constituiu foi a  Via Campesina, como

1 Professora dos cursos de graduação e pós-graduação em Ciências So-


ciais da Universidade Estadual Paulista, Campus de Marília. Doutora
em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Coordena o Cen-
tro de Pesquisa e Estudos Agrários e Ambientais (CPEA) da UNESP/
Marília. Bolsista Produtividade 2 CNPq.
2 Discente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais
pelo Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São
Paulo (USP). Pesquisadora do Centro de Pesquisas e Estudos Agrários e
Ambientais (CPEA) da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
120 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

expressão da emergência organizativa dos camponeses e in-


dígenas de diferentes lugares do mundo. Desde então, a Via
Campesina se tornou um dos principais atores no questiona-
mento da atual ordem econômica mundial e das suas insti-
tuições mais representativas tais como o FMI, o Banco Mun-
dial, OMC, bem como na crítica das ações grandes empresas
transnacionais e outros agentes econômicos e financeiros que
atuam no domínio das atividades agrícolas.
Esse processo se intensificou nas últimas três décadas
no Brasil, e em diferentes países do mundo, promovendo
mudanças significativas na agricultura camponesa e uma
ampliação das monoculturas ligadas ao agronegócio de ex-
portação. Como resultado, verifica-se uma enorme concen-
tração de terras para poucos proprietários, a destruição das
florestas nativas e a migração de camponeses para as cida-
des. As consequências ecológicas desse processo são bem co-
nhecidas: a destruição das florestas destrói a biodiversidade,
os mananciais, os rios e as comunidades camponesas.
Esse processo vincula-se ao avanço do capitalismo fi-
nanceiro e das empresas transnacionais na agricultura e
no sistema alimentar dos países. Esse avanço envolve desde
a privatização das sementes e a venda de agrotóxicos até a
compra dos produtos, bem como seu processamento, trans-
porte, distribuição e venda ao consumidor. Cada vez mais a
produção, distribuição, circulação e consumo dos produtos
agrícolas estão centralizados em um número reduzido de
empresas. A consequência disso é que os alimentos deixam
de ser um direito e tornam-se cada vez mais mercadorias.
Verifica-se também uma ofensiva do capital sobre os re-
cursos naturais. O processo de reprodução ampliada do ca-
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 121

pital lança as grandes empresas numa guerra de privatização


que as leva a expulsar camponeses, comunidades indígenas,
privatizando suas terras, territórios, florestas, biodiversida-
de, água e minérios. O cultivo de agrocombustíveis (cana-
-de-açúcar) em grandes monoculturas industriais também é
razão dessa expulsão, amparada em argumentos sobre crise
energética e climática. A realidade por trás destas últimas fa-
cetas da crise tem a ver com a atual matriz de transporte de
longa distância dos bens, e individualizado em automóveis.
Esse fenômeno vincula-se ao contexto da globalização
neoliberal que é “caracterizada por uma concentração cada
vez maior das riquezas e do poder na ordem territorial e, cer-
tamente, pelo aumento da degradação ambiental” (PENNA-
FORTE, 2001, p. 09). Tal fenômeno corresponde a um novo
regime de acumulação do capital, que aprofunda a desigual-
dade da distribuição das riquezas entre países ricos e países
pobres e a desigualdade social em seus âmbitos nacionais.
Nesse contexto, a agricultura, em diferentes países, assu-
miu novas funções diferentes daquelas que desempenhou no
período anterior, caracterizada pela substituição de impor-
tações e industrialização. Nota-se um aumento da produção
agrícola no período neoliberal, mas uma produção centrada
em alguns produtos e em algumas regiões do continente, con-
trolada principalmente por grandes estruturas econômicas e
orientada para o mercado internacional. Esse modelo de de-
senvolvimento agrícola leva a concentração de terras, o au-
mento da pobreza rural e a diminuição do emprego no campo.

À politica de globalização neoliberal é pre-


ciso opor uma política de resistência ao di-
122 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

ktat dos que repetem incessantemente que


não há alternativa. O capitalismo, o neoli-
beralismo, a globalização predadora não são
o fim da história. Nem o único caminho da
história. (NUNES, 2005, p. 92).

Nesse sentido, diante do aprofundamento do processo


da globalização neoliberal, e de suas consequências dano-
sas, o campesinato vem buscando se organizar por meio da
ação coletiva e a buscar seus direitos e suas demandas. No
que concerne às questões da agricultura, são muitos os mo-
vimentos sociais organizados, mas, para efeito desse texto,
destacamos as ações da Via Campesina, tanto pela sua arti-
culação, como pela amplitude de sua intervenção na socieda-
de contemporânea. Seus integrantes a consideram como um
movimento social internacional que coordena organizações
camponesas, pequenos e médios produtores, organizações
rurais de mulheres, comunidades indígenas, organizações de
Sem Terra, organizações da Juventude rural, trabalhadores
agrícolas migrantes, dentre outros de diferentes países e con-
tinentes (VIA CAMPESINA, 2011).
A Via Campesina surge em 1992, em Manágua (Nica-
rágua), durante o Congresso da Unión Nacional de Agricul-
tores y Granaderos (UNAG) como uma rede transnacional
de movimentos sociais rurais. Em 1993, na cidade Mons na
Bélgica, realiza a Primeira Conferência Internacional da Via
Campesina, momento em que foram decididas as metas, as
formas de atuação do movimento, bem como a sua institu-
cionalização formal. Possui uma trajetória de 20 anos com-
pletados em 2013.
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 123

Desde a sua formação, a Via Campesina age como um


articulador de interesses dos camponeses no cenário mun-
dial. Atualmente, abrange 150 organizações, que representa
aproximadamente 200 milhões de camponeses e indígenas,
localizadas em 70 países da África, Ásia, Europa, e Amé-
rica. Em seus documentos, considera-se um movimento
autônomo, plural e multicultural, sem filiação partidária.
Além disso, se propõe a defender os interesses dos seus
membros buscando atuar através da influência nos grandes
centros de poder para interferir na formulação e promoção
de políticas agrícolas que afetam, direta ou indiretamente,
seus membros. Atualmente é o principal interlocutor dos
camponeses junto a diferentes organizações internacionais,
dentre elas a Food and Agriculture Organization (FAO). (LA
VIA CAMPESINA, 2011).
Entre as atuações da Via Campesina ainda no início de
sua formação, destaca-se seu posicionamento na Assembléia
Global sobre Segurança Alimentar, que ocorreu em 1996 em
Quebéc, realizada pela FAO, momento em que a organização
assumiu uma posição significativa como ator transnacional.
Também, no mesmo ano, participou da Cúpula Mundial da
Alimentação, demonstrando seu posicionamento político.

A Via Campesina foi um ator político


ativo e visível na Cúpula Mundial da Ali-
mentação (CMA), realizada em Roma,
convocada pela FAO.  Seus membros de-
safiaram a FAO a reconhecer a sua legiti-
midade como representantes dos campo-
neses e pequenos agricultores em um dos
124 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

maiores movimentos agrícolas do mundo


e pediu para ser concedido o estatuto de
representante oficial da CMA. (DESMA-
RAIS, 2007, p. 08)3.

Porém, para que esse posicionamento fosse possível, seu


principal objetivo, durante o primeiro ano de existência da
Via Campesina, foi estreitar e fortalecer as relações entre os
movimentos sociais rurais locais. Segundo Desmarais,

claramente, a Via Campesina está preen-


chendo um vazio importante. Sua exis-
tência é a evidência de novas estruturas de
ação coletiva no campo; suas estratégias
desafiam modelos tradicionais de orga-
nização no setor rural, e da magnitude de
sua presença internacional – sua natureza
dinâmica, a diversidade cultural e a distri-
buição geográfica ampla – fala a suas po-
tencialidades transformadoras. (DESMA-
RAIS, 2007, p. 09)4.

3 The Vía Campesina was an active and visible political actor at the World
Food Summit (WFS), held in Rome and convened by FAO. Its members
challenged the FAO to recognize their legitimacy as representatives of
peasants and small farmers in the one of the largest farm movements in
the world and requested to be given official delegate status at the WFS.
(DESMARAIS, 2007, p. 08, tradução nossa).
4 Clearly, La Vía Campesina is filling important void. Its very existence
is evidence of new structures of collective action in the countryside; its
strategies defy traditional patterns of organizing in the rural sector; and
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 125

A organização não possui sede fixa e sua estrutura se


compõe de grupos e movimentos sociais, localizados em di-
ferentes países. O órgão mais importante da Via Campesina
é o Comitê Coordenador Internacional (CCI), que é com-
posto por representantes de todas as regiões5 em que ela se
apresenta, e o Secretariado Operacional Internacional (SOI),
que é responsável pela coordenação do CCI; sendo eles defi-
nidos durante suas Conferências Internacionais. Cada uma
das regiões possui dois representantes, um homem e uma
mulher, o que revela a preocupação da rede com a equidade
de gênero em sua representação.

Os dezesseis membros da Comissão de Coor-


denação Internacional – com dois represen-
tantes (um homem e uma mulher) de cada
uma das suas oito regiões – é o elo mais im-
portante entre as várias organizações campo-
nesas. Fora da Conferência Internacional, o
CCI é uma equipe chave de tomada de decisão
e de coordenação do corpo da Via Campesina.
Todas as decisões importantes são tomadas
em consulta com os seus dezesseis membros.
Sobre questões-chave do processo de consul-
ta, essa questão vai além da autoridade do
CCI, uma vez que cada coordenador regional

the sheer magnitude of its international presence – its dynamic nature,


cultural diversity, and wide geographical distribution – speaks to its
transformatory potential. (DESMARAIS, 2007, p. 09, tradução nossa).
5 São oito regiões, a saber: África, América do Norte, América do Sul, leste
e sudeste da Ásia, Sul da Ásia, América Central, Cuba e Caribe, e Europa.
126 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

deve refletir as necessidades, preocupações e


decisões das organizações dentro de sua re-
gião. É somente através de uma comunicação
ampliada e de consulta que os coordenadores
regionais ganham autoridade para apresentar
posições e resoluções para o CCI. Para as or-
ganizações da Via Campesina, as regiões são
os principais pontos de intersecção entre as
comunidades e lutas nacionais e internacio-
nais. (DESMARAIS, 2007, p. 30)6.

Cabe destacar que a transnacionalização de movimen-


tos sociais abarca as relações sociais originadas das tensões
existentes entre o local e o global, formadas entre agentes
coletivos além dos limites territoriais dos países, que em
graus variáveis de institucionalização, congregam membros
dos mais variados países, possibilitando uma atuação mais
efetiva em busca de seus interesses.

6 The sixteen-member International Co-ordinating Commission – with two


representatives (one man and one woman) from each of its eight regions – is
the most important link among the various peasant organizations. Outside
of the International Conference, the ICC is the key decision-making and
co-ordinating body of the Vía Campesina. All major decisions are made in
consultation with its sixteen members. On key issues the consultation pro-
cess goes beyond the ICC, because each regional co-ordinator must reflect
the needs, concerns, and decisions of the organizations within his or her
region. It is only through extended communication and consultation that
the regional co-ordinators gain a regional mandate to present positions
and resolutions to the ICC. For Vía Campesina organizations, the regions
are the key points of intersection between communities and national and
international struggles. (DESMARAIS, 2007, p. 30, tradução nossa).
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 127

Assim sendo, ao se tornarem movimentos transnacio-


nais, os movimentos sociais nacionais, regionais e locais
aumentam sua escala geográfica de abrangência. No caso
da Via Campesina, a organização possibilita que os grupos
sociais com atuação local encontrem espaço para atuarem
em escala global. Nesse ambiente, onde são reunidos inú-
meros movimentos sociais que possuem as mesmas reivin-
dicações, a organização torna seus membros mais fortes no
que tange ao poder de pressão que passam a exercer perante
os atores internacionais.
Essa organanização atua como um movimento coletivo
internacional que coordena organizações camponesas, pe-
quenos e médios produtores, organizações rurais de mu-
lheres, comunidades indígenas, organizações de Sem Terra,
organizações da Juventude rural e trabalhadores agrícolas
migrantes. A vinculação ao movimento internacional per-
mite a participação dos movimentos sociais a exemplo do
Movimento dos Sem Terra, no Brasil, nas ações e debates so-
bre as questões mais amplas que afetam o campesinato e co-
munidades indígenas, em diferentes lugares do mundo. Em
contrapartida, permite a Via Campesina intervenções locais,
regionais, cujas intensas variações determinam a imbricação
do local e global. O lugar se recria a partir da articulação do
movimento local ao mundial. As lutas se definem em cada
lugar segundo as formas e os ritmos próprios dos movimen-
tos sociais e das ações políticas criadas pelos sujeitos a partir
de suas realidades e demandas.
A Via Campesina é um movimento social em construção,
cujas diretrizes se estabelecem a partir dos encontros realiza-
dos nas suas conferências a cada 04 anos. Nesse sentido, ve-
128 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

rificamos nas declarações das conferências internacionais da


Via Campesina que temáticas trabalhadas pelo movimento
são diretamente ligadas à questão da soberania alimentar.
Desde a Declaração de Mons (VIA CAMPESINA, 1993),
fruto da I Conferência Internacional da Via Campesina que
ocorreu em 1993, o movimento já a apresentava como uma
de suas principais demandas a luta pela soberania alimen-
tar. Consta nesse documento que é “direito de todo país de
definir sua própria política agrícola de acordo com seus inte-
resses nacionais e em concertação com as organizações cam-
pesinas e indígenas, garantindo sua real participação” (VIA
CAMPESINA, 1993)7, indicativo do que podemos chamar de
“estado embrionário” das discussões que culminariam com a
apresentação do conceito de soberania alimentar em sua se-
gunda conferência internacional (VIA CAMPESINA, 1996).
Dentre as diversas temáticas discutidas nessa primeira
conferência, destacamos a crítica à agricultura neoliberal,
que, segundo o movimento, permite a coexistência da fome
com o superávit agrícola, paradoxo diretamente ligado às
políticas promovidas por organizações internacionais, como
a OMC e a FAO. Destacamos também a preocupação com a
questão ambiental, expressa em uma agricultura ecologica-
mente sustentável, e o reconhecimento da portabilidade do
conhecimento tradicional, ligado ao direito da permanência
das populações camponesas, indígenas, no campo e no reco-
nhecimento de sua importância social na definição e imple-

7 “The right of every country to define its own agricultural policy accor-
ding to the nation’s interest and in concertation with the peasant and
indigenous organizations, guaranteeing their real participation.” (VIA
CAMPESINA, 1993, tradução nossa).
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 129

mentação do desenvolvimento, principalmente o rural (VIA


CAMPESINA, 1993). Os demais temas que aparecem nessa
declaração são: pobreza e êxodo rural, fome, repressão, aces-
so à terra e mecanismos de compliance, este último versando
sobre a estruturação do movimento.
Na II Conferência Internacional da Via Campesina, que
ocorreu em Tlaxcala/México, em 1996, foi publicizada pelo
movimento a Declaração de Tlaxcala. Nesse documento são
reafirmados os temas trabalhados na primeira conferência,
com a inserção das questões relacionadas aos recursos fito-
genéticos e da questão de gênero. (VIA CAMPESINA, 1996).
A Via Campesina considera que a “Conferência em Tla-
xcala [...] é um enorme e importante passo em direção à jus-
tiça, à equidade e à liberdade para os que vivem e trabalham
no campo” (VIA CAMPESINA, 1996)8. Nessa declaração,
percebe-se que foram estruturados os primeiros eixos de
trabalho, eixos esses que estão presentes nas conferências
posteriores e que são responsáveis pelas diretrizes do movi-
mento e de sua atuação até o momento. Tais eixos, presentes
na Tabela 1, foram divididos em estratégias estruturais, re-
ferentes à própria estruturação da Via Campesina enquanto
movimento, visto que a organização ainda se estruturava
naquele momento, e em estratégias propositivas, que esta-
belecem os meios de sua atuação no cenário internacional,
de modo a facilitar sua distinção. Na Tabela 2, encontram-se
as estratégias delineadas na Conferência de Maputo, última
conferência internacional realizada pela Via Campesina, o

8 “[...] Conferencia em Tlaxcala [...] es um enorme e importante passo em


dirección a la justicia, la equidad y la libertad para los que viven y traba-
jan em el campo” (VIA CAMPESINA, 1996, tradução nossa).
130 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

que permite a visualização do aprofundamento e atualiza-


ção dos temas e das propostas do movimento.

Tabela 1: Estratégias apresentadas na II Conferência


Internacional da Via Campesina em Tlaxcala.
Estratégias da Via Campesina
Articular e fortalecer organizações regionais.
Construir relações de solidariedade entre as organizações
membros da Via Campesina.
Promover o trabalho organizacional através de redes en-
Estratégias tre as mulheres da Via Campesina e suas organizações.
estruturais Construir secretarias operativas à nível regional.
Fomentar mecanismos de comunicação interna e externa.
Promover o trabalho organizacional através de redes entre
os diferentes setores da produção regional e entre as regiões.
Introduzir os objetivos da Via Campesina nos debates das
organizações internacionais.
Desenvolver respostas regionais apropriados para acor-
dos comerciais bilaterais e regionais.
Promover iniciativas que contribuam para o desenvolvi-
mento do comércio justo com a concorrência direta dos
produtores e consumidores, com uma campanha inter-
nacional antidumping.
Estratégias Instigar uma “rede de solidariedade e de resposta” contra
propositivas os atos de violência contra os camponeses e agricultores,
ampliando o movimento com a participação de diversas
partes interessadas.
Luta contra a privatização do patenteamento genético,
através da criação de bancos de sementes para os agricul-
tores, propondo iniciativas legais para garantir o patrimô-
nio genético e elaborando relatórios sobre os perigos da
bioprospecção.
Fonte: VIA CAMPESINA, 1996. Elaborado pelas autoras.
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 131

Tabela 2: Temas e propostas da Via Campesina


presentes na Carta de Maputo.
Carta de Maputo
Temas Propostas
Renacionalização e retirada do capital especulativo
Soberania da produção dos alimentos.“A Soberania Alimentar
alimentar baseada na agricultura camponesa é a solução para
a crise.”
“Disseminação de um sistema alimentar local, que
Crises energéticas não se baseia na agricultura industrial nem no
e climáticas transporte a longa distância, eliminaria até 40% das
emissões de gases de efeito estufa.”
“A Reforma Agrária genuína e integral, e a defesa do
Reforma Agrária
território indígena.”
“Somente a produção camponesa agroecológica
Agricultura pode desvincular o preço dos alimentos do preço do
camponesa petróleo, recuperar os solos degradados pela agri-
sustentável cultura industrial e produzir alimentos saudáveis e
próximos para nossas comunidades.”
Violência contra a “O fim de todos os tipos de violência para com as
mulher mulheres, seja ela, física, social ou outras.”
“A semente e a água são as verdadeiras fontes da vida,
e são patrimônios dos povos. Não podemos permitir
Semente e água
sua privatização, nem o plantio de sementes transgê-
nicas ou de tecnologia terminator.”
A “Declaração dos Direitos dos Camponeses e Cam-
Criminalização ponesas na ONU, proposta pela Via Campesina, será
de movimentos um instrumento estratégico no sistema legal inter-
sociais nacional para fortalecer nossa posição e nossos di-
reitos como camponeses e camponesas.”
“É necessário abrir, cada vez mais, espaços em nos-
Juventude do sos movimentos para incorporara força e a criati-
campo vidade da juventude camponesa, com sua luta para
construir seu futuro no campo.”
“Nós produzimos e defendemos os alimentos de to-
Alimentação
dos e todas.”
Fonte: VIA CAMPESINA, 2008. Elaborado pelas autoras.
132 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

Verificamos que as estratégias propositivas presentes na


Declaração de Tlaxcala (VIA CAMPESINA, 1996) são mais
elaboradas na Carta de Maputo (VIA CAMPESINA, 2008)
e traduzidas nos temas de discussão e de articulação do mo-
vimento na atualidade. Com a inserção, discussão e elabora-
ção do conceito de soberania alimentar pela Via Campesina,
verifica-se que a consciência da interdependência das ques-
tões pelo movimento fez com que esse se tornasse um con-
ceito guarda-chuva, em que vai sendo construído e novos
elementos vão se incorporando a ele. Tal processo é resul-
tante da própria proposta do conceito, que é o de construir
um novo modelo alimentar, que rompa definitivamente com
o modelo neoliberal.
Nesse sentido, todos os eixos de atuação pela Via Cam-
pesina, já arrolados anteriormente, são consubstanciados
pelo conceito de soberania alimentar, na medida em que
esta não existe na ausência ou na deficiência de qualquer um
deles. A isso se soma a questão cultural, do respeito e reco-
nhecimento da portabilidade do conhecimento tradicional,
questões essas que dão unidade ao movimento.
Nas demais conferências internacionais, verifica-se a
retomada das questões elencadas na segunda conferência, o
que demonstra que a Via Campesina tem focado sua atua-
ção em torno dos eixos estratégicos definidos na Declara-
ção de Tlaxcala (VIA CAMPESINA, 1996). Na III, IV e V
Conferência Internacional da Via Campesina, ocorridas em
Bangalore (2000), São Paulo (2004) e Maputo (2008), respec-
tivamente, esses eixos são desenvolvidos e atualizados na
medida em que o processo de luta vai ocorrendo.
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 133

Cabe ressaltar que todos eles são compreendidos como


condições necessárias para o estabelecimento da soberania
alimentar. A pobreza e o êxodo rural aparecem como uma
situação de deterioração total do mundo rural. Essa dete-
rioração é “expressa através do aprofundamento da pobreza
em todo o planeta e o êxodo em massa do campo, o que está
elevando os níveis de desemprego globais e urbanização de
grandes populações rurais” (VIA CAMPESINA, 1993)9. Se-
gundo a Via Campesina,

O sistema econômico neoliberal prevalente


em todo o mundo tem sido a principal causa
do empobrecimento dos pequenos agriculto-
res, em geral, a população rural. Ele é respon-
sável pelo aumento da destruição da nature-
za, terra, água, plantas, animais e recursos
naturais, colocando todos esses recursos, sob
a égide de sistemas centralizados de produ-
ção, fornecimento e distribuição de produtos
agrícolas no âmbito da um sistema para um
mercado global (VIA CAMPESINA, 1996)10.

9 “[...] expressed by deepening poverty across the whole planet and the
massive exodus from the countryside, which is raising global unem-
ployment levels and urbanising huge rural populations” (VIA CAMPE-
SINA, 1993, tradução nossa).
10 “El sistema económico neoliberal prevalente a nivel mundial, ha sido
la causa principal del empobrecimiento de los agricultores pequeños y,
en general, de la gente del campo. Es responsable del incremento en la
destrucción de la naturaleza, la tierra, el agua, las plantas, los animales
y los recursos naturales, poniendo todos estos recursos bajo la égida de
134 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

Nesse sentido, a Via Campesina tem afirmado

que a permanência da agricultura campone-


sa é fundamental para a eliminação da po-
breza, da fome, do desemprego e da margi-
nalização. Nós acreditamos que a agricultura
é parte essencial da soberania alimentar e
soberania alimentar é um processo essencial
para a existência da agricultura camponesa.
(VIA CAMPESINA, 2004)11.

Através da leitura das posições da Via Campesina, expres-


sas nas declarações das conferências internacionais do movi-
mento, verifica-se que este se manteve ativo em suas demandas
e proposições frente à crise que se apresenta no plano interna-
cional e em relação a sua oposição ao modelo neoliberal.
Em que pese atuar sempre em re-ação às ações das em-
presas e instituições vinculadas aos interesses do capital, a
Via Campesina vem se projetando nos fóruns mundiais e
tem se revelado como um ator relevante que objetiva uma

sistemas centralizados de producción, abasto y distribución de produc-


tos agrícolas en el marco de un sistema orientado a un mercado global.”
(VIA CAMPESINA, 1996, tradução nossa).
11 “[...] que la permanencia de la agricultura campesina es fundamental
para la eliminación de la pobreza, el hambre, el desempleo y la margina-
ción. Estamos convencidos que la agricultura campesina es pieza fun-
damental de la soberanía alimentaria, y la soberanía alimentaria es un
proceso imprescindible para la existencia de la agricultura campesina..”
(VIA CAMPESINA, 2004, tradução nossa).
Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina | 135

ampla transformação social, visando a equidade e a justiça


social. Para tanto, vem construindo junto aos movimentos
sociais o conceito de “Soberania Alimentar”, em que a união
do conceito de biodiversidade à valorização da cultura cam-
ponesa opera como uma das principais estratégias utiliza-
das para projetarem-se na luta contra os grandes oligopólios
vinculados produção alimentícia.
Verifica-se que a Via Campesina construiu, ao longo des-
ses últimos vinte anos, uma organização influente e ativa,
que atua na defesa dos seus membros e se opõe à nova ordem
global. De fato, atua como um amplo movimento social, cujas
ações coletivas viabilizam a organização dos camponeses e
dos povos originários na demanda por seus direitos. A Via
Campesina age por meio de redes sociais locais, regionais,
nacionais e internacionais e utilizam-se das novas tecnolo-
gias de comunicação e informação. Suas ações vão desde a
formulação de propostas e de denúncia, até às ações diretas,
tais como mobilizações, grandes marchas, concentrações e
demais enfrentamentos contra os poderes contituídos a nivel
local ou global.
Essas ações indicam a importância da articulação desses
movimentos sociais na sociedade contemporânea. Com seus
fluxos e refluxos são um campo de força social e político
e suas ações impulsionam mudanças sociais diversas. Uma
das questões fundamentais desse movimento é a crítica que
ele faz a cultura do lucro, da mercantilização e privatização
da vida e as suas conseqüências para o meio ambiente e o
desrespeito aos direito humanos. Em oposição, defendem
que ela deva ser substituída pela cultura da ética, do direito
à vida, e do respeito aos direitos fundamentais.
136 | Crises e Resistências: os desafios e possibilidades da Via Campesina

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Capítulo 7

Crise Econômica Mundial e os Impactos


sobre a Economia Brasileira
José Marangoni Camargo1

Introdução1

A s crises econômicas e financeiras têm sido cada vez mais


frequentes na atual etapa do Capitalismo, sobretudo a
partir do início dos anos 70. A crise econômica mundial em
curso desde 2008 que se diferencia em relação às anteriores
é que esta surge e atinge especialmente o centro do sistema
capitalista, os chamados países centrais ou desenvolvidos,
particularmente os Estados Unidos, o Japão e com mais in-
tensidade, as nações do bloco da União Européia, naquilo que
Krugmam (2011) tem chamado de pequena depressão. Se-
gundo Harvey (2011: p. 13), o FMI estimava que mais de 50
trilhões de dólares de ativos tinham desaparecido em 2009.

1 Doutor em Ciências Econômicas pela Unicamp e Professor do Departa-


mento de Ciências Políticas e Econômicas da Faculdade de Filosofia e
Ciências da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
140 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

Desde então, assiste-se a uma lenta agonia das economias cen-


trais, com uma recessão que vêm se prolongando na órbita do
Euro, com taxas negativas de crescimento econômico ainda
em 2012, que se reflete em um brutal aumento das taxas de
desemprego e uma pálida recuperação das economias ame-
ricana e japonesa2. Por outro lado, como enfatiza o autor, os
efeitos da crise têm sido espacialmente desiguais. Os países
que preservaram os seus sistemas financeiros da lógica neo-
liberal de desregulamentação, sem permitir que se integras-
sem totalmente ao sistema financeiro internacional, tem tido
um desempenho econômico mais satisfatório, como Índia e
China. Em países como o Brasil, em que o sistema financeiro
também é mais regulado e não totalmente integrado à rede
global, e a ausência de bolhas especulativas em determinados
mercados como o imobiliário, os efeitos da crise econômica
mundial se fizeram sentir, mas em uma magnitude menor do
que nos países centrais (Gráfico 1).

2 Sobre os efeitos da crise econômica e a explosão das dívidas públicas


dos países da União Européia, ver Chesnais, F., “As Dívidas Ilegítimas”,
Temas e Debates, 2012.
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 141

Gráfico 1: Crescimento do PIB no período de 2007-2011.

Fonte: FMI e Bradesco.

Desempenho da economia
brasileira no período recente
Entre 2007 e 2011, a economia brasileira cresceu em mé-
dia 4,3% ao ano, desempenho este que foi um pouco supe-
rior ao da América Latina, enquanto os países centrais apre-
sentaram uma taxa de expansão de apenas 0,5% ao ano neste
período. Em 2009, ano em que os efeitos da crise econômica
mundial se fizeram sentir com mais força, o Brasil teve uma
queda do PIB de 0,3%, enquanto os países desenvolvidos
tiveram um desempenho bem mais negativo. A economia
americana sofreu um declínio de 2,6% neste ano, o Japão,
-6% e a União Européia, -3,5%. Em síntese, a economia bra-
sileira teve um comportamento que pode ser considerado
satisfatório em uma conjuntura internacional desfavorá-
142 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

vel. Por outro lado, a expansão do PIB do Brasil ficou mui-


to aquém ao das principais economias emergentes, como a
China e a Índia. Ainda assim, a evolução da economia bra-
sileira na última década foi bem superior ao verificado nos
dois decênios anteriores. Na primeira década deste milênio,
o crescimento do PIB foi de 3,5% ao ano em média, o dobro
do verificado na década de 80 e 50% superior ao dos anos 80.

Gráfico 2: PIB brasileiro no período de 1981-2012:


Variação anual (A) e da média decenal (B).

A B

Fonte: IBGE.

Esse desempenho da economia brasileira no período


recente possibilitou a melhoria de alguns indicadores so-
cioeconômicos, como o comportamento do mercado de
trabalho, que continuou a apresentar uma evolução mais
favorável. As taxas de desemprego das Regiões Metropoli-
tanas, medidas pelo IBGE, tiveram uma nítida tendência de
declínio a partir de 2004, que caiu de 11,49 % da PEA neste
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 143

ano para 5,97% em 2011 (Gráfico 3). Mesmo em 2009, ano


em que o PIB sofreu uma redução, os níveis de desemprego
apresentaram pouca alteração (7,91% em 2008 para 8,09%
em 2009). O grau de formalização da força de trabalho, ou
seja, o percentual das ocupações com carteira de trabalho
assinada, também se recuperou no período, mesmo em
2009, aumentando sua participação na ocupação total. Entre
2003 e 2011, foram criados mais de 15 milhões de empregos
formais, reduzindo o grau de informalidade do mercado de
trabalho, ao contrário do verificado na década de 90, quan-
do cresceu significativamente a precarização das condições
de trabalho, através do aumento das ocupações por conta
própria ou sem registro. No caso das áreas metropolitanas, o
emprego formal passa a representar 61,2% do total das ocu-
pações, contra 53,4% em 2006.

Gráfico 3: Taxa de desemprego – Áreas


metropolitanas no período 2004-2011.

Fonte: IBGE.
144 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

Além da tendência de um maior grau de formalização das


relações de trabalho, observa-se também uma recuperação dos
salários reais a partir de 2003. No entanto, é preciso olhar estes
dados sobre o mercado de trabalho com cuidado, na medida
em que a maior formalização do emprego e o crescimento dos
salários reais na realidade implicam apenas um retorno aos
patamares existentes em meados dos anos 90. Além disso, os
novos postos de trabalho com carteira são empregos com baixa
remuneração. Mais de 90% das novas vagas formais oferecidas
no período são de até dois salários mínimos e mais de 80% dos
ocupados recebem rendimentos de até três salários mínimos.
De qualquer forma, o quadro no Brasil nesta primeira
década do século, contando com um cenário externo mais
favorável até 2008 e mesmo depois da eclosão da crise eco-
nômica e financeira mundial neste ano, que nos afetou com
menos intensidade que nos países centrais, possibilitou ta-
xas de crescimento médias superiores às duas décadas an-
teriores, com efeitos positivos sobre o mercado de trabalho.
Internamente, a formulação de um conjunto de políticas so-
ciais, como a recomposição do valor real do salário mínimo
e a concessão da bolsa família possibilitaram também um
crescimento da renda dos segmentos mais baixos e uma pe-
quena desconcentração da renda, revertendo uma tendência
de aumento da desigualdade observada desde os anos 60.
No caso do salário mínimo, o poder de compra real em
2011 mais do que dobrou em relação a 1995, quando ele atin-
giu o seu patamar mais baixo historicamente, desde que foi
criado em 1940 (Gráfico 4). Essa recuperação do valor real
do salário mínimo tem um forte impacto sobre a renda, na
medida em que, segundo o DIEESE, mais de 50 milhões de
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 145

pessoas são beneficiadas pelos seus reajustes, incluindo 19


milhões de aposentados e pensionistas que ganham em tor-
no deste piso. Ainda assim, é preciso lembrar que o seu valor
ainda está distante do patamar de 1940 e apesar dos con-
tínuos aumentos reais nos últimos anos, o seu valor ainda
representa apenas a metade do verificado em fins dos anos
50, quando atingiu o seu maior patamar em termos reais. Os
programas de transferência de renda como a expansão da
bolsa família, que alcança 13,5 milhões de famílias atendi-
das em 2011, e beneficia em torno de 40 milhões de pessoas,
em que pese os baixos valores pagos, também garantiu um
acréscimo de renda para os segmentos mais pobres.

Gráfico 4: Evolução do salário mínimo real de -


1986 – 2012 (em Reais de Janeiro/2010).

Fonte: DIEESE.

Essa conjugação de fatores possibilitou uma pequena me-


lhoria no quadro distributivo, mesmo depois da crise, como
se pode verificar pela evolução do índice de Gini para o pe-
146 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

ríodo entre 1960 e 2010 (Gráfico 5). Observa-se que depois


de uma contínua elevação do indicador de distribuição de
renda, atingindo o auge da desigualdade em 1990, há uma
diminuição do índice a partir desse período, possibilitando
em 2010 voltar aos níveis do início dos anos 60. No entanto,
deve-se levar em conta que este índice capta com mais acui-
dade as diferentes modalidades de renda do trabalho, do que
as rendas provenientes da propriedade. Além disso, apesar
dos avanços na arena distributiva, o país ainda continua a ser
um dos mais desiguais do mundo, e o acesso a serviços públi-
cos de saúde, educação, saneamento básico, terra, habitação
e transporte público, que são indicadores importantes das
condições de vida, continua ainda muito precário e desigual.

Gráfico 5: Evolução do Índice de Gini – Brasil 1960-2010.

Fonte: IBGE.

Do ponto de vista macroeconômico, a redução da taxa de


juros básica, a mais baixa nos últimos trinta anos, e a expansão
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 147

do crédito, especialmente para os financiamentos imobiliários


e para a compra de bens de consumo duráveis, como automó-
veis e eletrodomésticos, possibilitaram amenizar os efeitos da
crise econômica mundial sobre a economia brasileira. A rela-
ção crédito/PIB passou de 24,6% em 2002 para 49,1% em 2011,
refletindo a expansão do consumo e do nível de endividamen-
to das famílias. A evolução da formação bruta de capital se
elevou de 16% do PIB entre 1999/2003 para 19,3 em 2011/12,
sinalizando um aumento na taxa de investimento da econo-
mia (BORGES, 2013). No entanto, o crescimento da economia
apoiada na expansão do consumo e do maior endividamento
das famílias apresenta limites e é necessário elevar o nível de
investimento para algo em torno de 22% do PIB e de produti-
vidade da economia brasileira para garantir um processo de
crescimento auto-sustentável em um período mais longo de
tempo. Para tanto, é fundamental, além de manter a taxa de
juros em um patamar que estimule os novos investimentos na
economia, também estabelecer uma taxa de câmbio mais fa-
vorável para a produção interna como um dos mecanismos es-
senciais para aumentar a competitividade frente aos produtos
importados, sobretudo no caso dos bens industriais.
O estabelecimento de políticas econômicas que visem au-
mentar a competitividade da produção doméstica, como uma
política monetária mais branda, e uma taxa de câmbio mais
desvalorizada enfrentam, no entanto, resistências de determi-
nados segmentos da sociedade, como os grandes bancos e seto-
res rentistas, com forte apoio da mídia. Estes alegam que essas
políticas são insustentáveis porque trará pressões inflacionárias
que tornará necessária aumentar novamente a taxa de juros bá-
sica da economia, como já vem ocorrendo nos últimos meses.
148 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

No entanto, apesar das taxas de inflação nos últimos


anos estarem “acima da meta” estabelecida pelo banco Cen-
tral, os problemas centrais da economia brasileira, a meu
ver, são de outra natureza. Se observarmos o comportamen-
to da inflação em uma trajetória mais de longo prazo, po-
demos constatar que os índices de inflação oficial, medidos
pelo IPCA do IBGE, apresentam uma tendência de relativa
estabilidade nos últimos anos. Além disso, no caso do Brasil,
há uma nítida queda da dívida pública em relação ao PIB
desde 2003, ao contrário do que tem se verificado nos países
centrais, especialmente depois de 2008. A dívida líquida pú-
blica, que representava 60,4% do PIB em 2003, se reduz para
36,1% do PIB em 2011, o que enfraquece os argumentos de
que o Estado gasta muito e se apropria de recursos do setor
privado e causa tensões inflacionárias adicionais (Gráfico 6).

Gráfico 6: Relação Dívida Líquida Pública/PIB – Brasil 2001-2011.

Fonte: BCB.

Por outro lado, há duas questões que são extremamente


importantes e que se agravaram a partir da crise econômica
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 149

de 2008. A primeira, que tem sido objeto de crescente debate,


polêmico e controverso, trata-se do processo de desindustriali-
zação em curso e da tendência de reprimarização da economia
brasileira, no sentido de uma especialização regressiva, não
só no Brasil, mas na América Latina como um todo. Pode-
-se observar pelos dados do gráfico 7 que o setor secundário
manteve a sua participação no PIB desde o final dos anos 90
(em torno de 27% do total), chegando mesmo a aumentar a sua
participação em 2004. Mas quando se analisa especificamente
a participação da indústria de transformação, é clara a dimi-
nuição do seu peso no PIB a partir de 2004, queda esta que se
acelera de 2008 em diante (queda de 18,7% em 1995 para 14,6%
em 2011). A indústria como um todo mantém a sua partici-
pação, principalmente em função do crescimento da indústria
extrativa mineral, graças sobretudo ao aumento da produção
interna de petróleo e a expansão do segmento da construção
civil, puxado pelo crescimento do crédito imobiliário.

Gráfico 7: Participação do Setor Secundário e da Indústria de


Transformação no PIB – 1995-2011.

Fonte: IBGE.
150 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

Na realidade, desde a abertura comercial no início dos


anos 90 e a implementação do Plano Real em 1994 discute-
-se se a economia brasileira tem apresentado ou não uma
tendência de desindustrialização precoce e uma especiali-
zação regressiva, que se reflete também em uma pauta de
exportações progressivamente centrada em commodities
agrícolas e minerais. A política macroeconômica desde 1999
tem priorizado na maior parte deste período o controle da
inflação, sendo a taxa de juros o mecanismo adotado para
alcançar esta meta, a geração de superávits fiscais e a taxa de
câmbio flutuante. A combinação destas políticas, junto com
a abertura comercial que a antecede tem ocasionado uma
entrada maciça de dólares, em grande medida de caráter es-
peculativo, e uma valorização cambial, com impactos sobre
a economia brasileira e a estrutura industrial.
Como aponta Almeida (2008), a valorização cambial
tem efeitos contraditórios sobre a economia brasileira, par-
ticularmente sobre o setor industrial. Se de um lado, as im-
portações de bens de capital e matérias-primas ficam mais
baratas, reduzindo os custos de produção e possibilitando
a modernização de vários segmentos produtivos, por outro
levam a um desadensamento de algumas cadeias produtivas.
A conjunção de uma rápida abertura econômica e a valori-
zação do Real tem afetado de forma diferenciada os vários
segmentos da indústria brasileira. Segundo Paulino (2011),
frente à concorrência externa, parte da indústria regrediu,
como o ramo eletroeletrônico, enquanto que os segmentos
que estavam relativamente inseridos em cadeias produtivas
mundiais e que se reestruturaram como as indústrias auto-
mobilística e aeronáutica conseguiram manter seu espaço,
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 151

inclusive porque passaram a utilizar crescentemente insu-


mos e componentes importados, a preços mais baixos. Ou-
tros ramos, por outro lado, como o de mineração e agroin-
dustrial, foram favorecidos por uma conjuntura externa
favorável de elevação das cotações das commodities no mer-
cado internacional a partir de 2002.
Os efeitos desse ciclo de alta dos preços das commodities
agrícolas e minerais, puxado especialmente pela demanda
chinesa e a consequente valorização cambial decorrente
desse processo sobre a estrutura produtiva do país são con-
troversos. Para alguns autores como Bresser Pereira, citado
por Paulino (2011), o grande afluxo de divisas decorrentes
do aumento das exportações de recursos naturais leva tanto
a uma valorização da moeda nacional como a uma perda
de competitividade das demais manufaturas, sobretudo dos
bens de maior conteúdo tecnológico. A continuidade dessa
tendência por um período mais prolongado poderia ocasio-
nar uma desindustrialização mais acelerada e uma depen-
dência externa crescente do país dos produtos básicos e de
menor valor agregado, como soja, minério de ferro e outras
commodities agrícolas e minerais. Posições semelhantes são
defendidas pelo IEDI (2011) e por Almeida (2008), sendo que
este alerta para o risco de uma rápida reversão desse ciclo de
alta de preços internacionais, ocasionando sérios problemas
nas contas externas do país, assim como por ter adotado uma
postura que representou a ausência de políticas coordenadas
para conter os efeitos disruptivos da valorização cambial.
Nessa mesma linha de argumentação, vários autores en-
fatizam que a indústria de transformação continua a ser o se-
tor mais dinâmico da economia, ao gerar efeitos de encadea-
152 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

mento para trás e para frente nas cadeias produtivas e ser o


setor mais importante do ponto de vista da geração e difusão
do progresso técnico, portanto, pelos ganhos mais expressi-
vos de produtividade. O peso crescente dos produtos de bai-
xo valor agregado na pauta de exportações do país e o desa-
parecimento de elos das cadeias produtivas substituídos pelas
importações seriam um indicador do processo de desindus-
trialização em curso no país (Costa e Gonçalves, 2012;
Torres e Silva, 2012). Para Morceiro, Gomes e Magacho
(2012), apesar de não poder afirmar que esteja ocorrendo um
processo de desindustrialização generalizada da economia
brasileira, há evidências de que um número expressivo de
segmentos industriais está promovendo um processo abso-
luto ou relativo de substituição da produção local por bens
importados, especialmente nos produtos de maior conteúdo
tecnológico, na medida em que uma parte expressiva do cres-
cimento da demanda interna “vazou” para o exterior.
Para De Negri e Alvarenga (2011), a primarização da
pauta de exportações brasileira resultou não apenas de um
desempenho extremamente favorável das exportações de
commodities, mas também da perda de competitividade do
país em outros produtos, especialmente os mais intensivos
em tecnologia, onde a valorização cambial teve um papel
crucial. No entanto, para os autores ainda é prematuro afir-
mar que esteja em curso um processo de desindustrialização
da economia brasileira, mas uma tendência de maior parti-
cipação dos setores tradicionais na estrutura produtiva, de-
pendendo da magnitude e da duração dos efeitos do cenário
externo sobre esta estrutura. Segundo estes, a previsão é de
que este ciclo de valorização das commodities não deve se
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 153

esgotar no curto prazo, dado um desequilíbrio na oferta e


demanda mundial de alimentos, especialmente pelo dura-
douro e elevado crescimento da economia chinesa, grande
demandante destes produtos no mercado internacional.
Posição análoga também é a de Paulino (2011), enfatizando
que a perda de competitividade de setores mais dinâmicos
da economia brasileira não significa necessariamente um
processo inexorável de desindustrialização. No entanto,
alerta que esta menor competitividade deve-se não apenas
ao câmbio defasado, como também a outros problemas es-
truturais como a deficiente infraestrutura, especialmente a
de transportes, a elevada carga tributária, a ausência de uma
política nacional de inovação, entre outros pontos de estran-
gulamento da economia brasileira.
Para Furtado (2008), também o crescimento da deman-
da chinesa deverá manter os preços relativos favoráveis aos
produtos primários por um longo tempo, o que poderia
acarretar, em função de uma renda extraordinária de cará-
ter duradouro, um processo semelhante à “doença holan-
desa”. Mas para o autor, alguns destes efeitos ocorrerão em
uma proporção muito mais limitada em economias como a
brasileira, marcada por um elevado grau de integração in-
terindustrial e cadeias industriais diversificadas. Se de um
lado, há uma tendência da economia brasileira ser menos
autossuficiente e diversificada e uma maior dependência das
exportações nas áreas primárias, a forte demanda da China
por matérias primas e produtos com forte intensidade em
recursos naturais oferece janelas de oportunidades para pro-
mover transformações qualitativas da estrutura econômica
do país. Através da formulação de políticas, programas e
154 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

instrumentos que sejam capazes de desenvolver novas tec-


nologias e soluções inovadoras, poderá reforçar a competi-
tividade das cadeias exportadoras e que possuem um forte
grau de integração e capacidade de irradiação para outros
setores internos e que possam evitar uma especialização ex-
cessiva e empobrecedora da estrutura econômica brasileira.
É o que defendem também De Negri e Alvarenga (2011), ao
afirmar que o bom desempenho dos setores tradicionais
podem fomentar setores que contenham maior grau tec-
nológico, como por exemplo, a produção de bens de capital
agrícolas, a indústria química e a de petróleo, através da for-
mulação de políticas industrial e de inovação.
Para Além et al. (2011), a forte expansão das vendas bra-
sileiras de commodities nos últimos anos, especialmente
para a Ásia, não representa necessariamente uma tendência
de reprimarização de sua pauta de exportações. Os auto-
res se baseiam em trabalho realizado por Abdon et al., que
adotando o modelo desenvolvido por Hidalgo e Hausmann,
utilizam estatísticas de exportação de 124 países para o pe-
ríodo 2001-2007 e chegam a conclusão de que nesse ranking
de países, o Brasil encontrava-se na 30ª colocação, uma po-
sição intermediária quando considerada uma medida de
complexidade de sua pauta de exportação. O grau de com-
plexidade da pauta é dado pela existência de capacitações
específicas necessárias que um determinado país possui e
que tende a se refletir em uma pauta mais diversificada de
exportação ou capacitações exclusivas, quando um número
reduzido de países participa do comércio internacional, o
que requer em geral um domínio de inovações e processos
por poucas empresas.
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 155

Mendonça de Barros (2008) entende que, apesar dos de-


safios ainda a serem enfrentados, o conjunto de reformas
implantadas a partir de 1994 na economia brasileira e as
mudanças ocorridas na economia mundial, com o desen-
volvimento de um novo polo dinâmico representado pela
China, possibilitaram um ciclo de crescimento econômico
mais sustentável no Brasil no início deste século. A incor-
poração da China à economia de mercado e a sua gigantes-
ca população provocou uma mudança nos preços relativos
mais favoráveis às commodities e que tendem a perdurar
por um longo período de tempo, fortalecendo as contas ex-
ternas brasileiras, na medida em que possibilitou a geração
de saldos comerciais elevadíssimos a partir de 2004. Para o
autor, o fortalecimento das contas externas do país, apesar
dos riscos da “doença holandesa”, criou as condições para a
estabilização monetária como também reencontrar o cami-
nho do crescimento econômico sustentado, via expansão do
consumo, do crédito e do investimento.
O crescimento mais expressivo da economia e da de-
manda interna na última década, combinado a uma va-
lorização da taxa de câmbio, por outro lado acentuou o
desequilíbrio comercial nos setores industriais de maior
valor agregado e intensidade tecnológica, segundo Almei-
da (2008). A balança comercial da indústria de transforma-
ção, depois de registrar um superávit externo desde 2002 e
atingir o maior saldo em 2005, quando o Brasil registrou
superávit de US$ 31,1 bilhões, passa a apresentar resulta-
dos menos expressivos a partir de 2006 e se torna negativa
em 2008. Este déficit alcança um patamar recorde de US$
50,6 bilhões em 2012, depois de um saldo negativo de US$
156 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

48,7 bilhões no ano anterior (IEDI, 2013). A balança comer-


cial como um todo apresentou em 2012 ainda um superávit
de US$ 19,4 bilhões, o menor desde 2003, graças ao saldo
positivo de outros produtos, como os agrícolas e minerais,
que usam intensivamente recursos naturais e em que o país
possui grandes vantagens comparativas na produção e que
registraram expressivas elevações de preços.
Os segmentos industriais de média e alta intensidade
tecnológicas apesar de apresentarem historicamente défi-
cits comerciais, registraram um saldo negativo sem pre-
cedentes em 2012, de quase de US$ 84 bilhões, enquanto
que em 2011 este resultado tinha sido negativo em US$ 82
bilhões. Entre os produtos considerados de alta intensi-
dade tecnológica, contribuíram para este déficit sobretu-
do aparelhos e componentes eletrônicos, de informática e
instrumentos médico-hospitalares e de precisão e produtos
da indústria farmacêutica, com um saldo negativo de mais
de US$ 25 bilhões em 2012. No caso dos bens de alta tec-
nologia, somente a indústria aeronáutica e espacial obte-
ve superávit, de US$ 765 milhões neste ano. Para os bens
de média-alta tecnologia, o maior déficit foi verificado em
produtos químicos, seguido pelo segmento de máquinas
e equipamentos mecânicos e de Máquinas elétricas, Sur-
preende também o elevado déficit em material de trans-
porte, superior a US$ 5 bilhões, afetado principalmente
pelo resultado negativo da indústria automobilística. Além
disso, o grupo das atividades classificadas como de média-
-baixa intensidade tecnológica passou a partir de 2010
a registrar déficits, que em 2012 foi de -US$ 7,8 bilhões,
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 157

afetado especialmente pelo comportamento negativo dos


combustíveis e produtos de petróleo (Tabela 1).

Tabela 1: Balança Comercial – Indústria de Transformação - 2010/2012.


(em US$ bilhões).

SEGMENTOS 2010 2012

Alta Intensidade
- 26,2 bilhões - 29,3 bilhões
Tecnológica
Média-Alta Intensi-
- 39,3 bilhões - 51,6 bilhões
dade Tecnológica
Média-Baixa Intensi-
- 8,2 bilhões - 7,8 bilhões
dade Tecnológica
Baixa Intensidade
38,9 bilhões 38,2 bilhões
Tecnológica

Total - 34,8 bilhões - 50,6 bilhões

Fonte: IEDI.

É no segmento de bens de baixa tecnologia que o país


apresentou resultados mais expressivos neste ano, com um
superávit de US$ 40,9 bilhões, obtido particularmente em
função do desempenho das indústrias de alimentos, bebidas
e fumo, com um saldo positivo de US$ 38,2 bilhões. As ativi-
dades da indústria madeireira, de papel e celulose e impres-
são gráfica, por sua vez, registraram um superávit de US$
6,0 bilhões em 2012. Por outro lado, dois segmentos consi-
derados de baixa tecnologia têm sofrido mais intensamente
os efeitos do câmbio apreciado e da concorrência externa,
principalmente dos produtos chineses, representados pela
158 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

indústria de brinquedos e o conjunto das indústrias têxtil,


de vestuário, couro e calçados (IEDI, 2013).
Este quadro acima aponta claramente para uma perda de
ritmo e de competitividade dos segmentos mais dinâmicos
e intensivos em tecnologia da indústria brasileira. Apesar de
o Brasil aumentar seu market share no comércio mundial de
bens, de 0,88% do total em 2000 para 1,26% em 2009, este
resultado deve-se fundamentalmente a evolução das expor-
tações de commodities, no qual o Brasil passou a representar
4,66% das exportações mundiais, contra uma participação
de 2,77% em 2000. Por outro lado, neste período, o Brasil
reduziu a sua fatia nas exportações de alta intensidade tec-
nológica, em que representava 0,52% do comércio mundial
em 2000, e que passou a 0,49% em 2009. Isso fica evidente
também quando se analisa a participação das commodities
no total das vendas externas do país. A participação destes
produtos nas exportações brasileiras, que oscilavam em tor-
no de 40% do total desde os anos 90, alcançou 51% do total
em 2010 (DE NEGRI e ALVARENGA, 2011). Segundo os au-
tores, essa tendência de primarização das exportações bra-
sileiras se acentuou com a crise, que se refletiu em um forte
recuo do comércio mundial em 2009, puxado pelo compor-
tamento negativo dos países centrais e com a continuidade
do crescimento da economia chinesa, com uma presença
cada vez maior nas importações de matérias-primas.
Desde 2009, a China se tornou a principal parceira co-
mercial do Brasil, ultrapassando os EUA como o principal
destino das exportações brasileiras. As vendas externas do
país para a China passaram de US$ 16,4 bilhões em 2008
(8,3% do total das exportações brasileiras) para US$ 30 bi-
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 159

lhões em 2010 (14,9% do total). Ademais, aumentou a par-


ticipação brasileira no total das compras externas chinesas,
de 0,5% do total em 2000 para 2% atualmente. No entanto,
80% do que o Brasil vende para a China são commodities,
especialmente soja e o minério de ferro. Em 2000, o Brasil
respondia por 2,5% das importações chinesas de commodi-
ties, alcançando mais de 8% em 2009 (DE NEGRI e ALVA-
RENGA, 2011).
De fato, a análise mais desagregada da pauta de expor-
tações do Brasil aponta uma dependência crescente dos pro-
dutos intensivos em recursos naturais e de trabalho, nota-
damente os bens das cadeias agroindustriais. São produtos
onde o país tem vantagens competitivas, que somada a uma
trajetória de elevação de preços das commodities agrícolas a
partir de 2002, possibilitaram um aumento da participação
brasileira no comércio mundial de produtos agroindustriais,
que passa a representar 6,9% do total mundial em 2006, con-
tra uma participação de apenas 3,9% em 2000.
As exportações agroindustriais em valor cresceram mais
25% em 2012 em relação a 2010 e mais do que quadruplica-
ram entre 2000 e 2012, representando 41% do total das ex-
portações do país neste último ano. O crescimento expressi-
vo das exportações brasileiras de produtos agroindustriais a
partir de 2003, e uma expansão em um ritmo muito menor
das importações, possibilitaram a geração de saldos comer-
ciais crescentes da balança dos produtos da agroindústria. O
superávit do setor passou de US$ 12 bilhões em 2000 para
mais de US$ 40 bilhões a partir de 2006, chegando em 2012
a mais de US$ 68 bilhões (apesar do expressivo crescimen-
to das importações de produtos agroindustriais nos últimos
160 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

anos), o que representou mais que o triplo do saldo comercial


total do Brasil registrado em 2012. O Brasil em 2009 já era
o segundo maior exportador mundial de produtos agroin-
dustriais e o principal fornecedor internacional de açúcar,
café, suco de laranja, álcool e carne bovina e de frango e
ocupava a segunda posição no complexo da soja, terceiro em
milho e quarto em carne suína. Além de ter uma pauta de
exportações diversificada, o país deve aumentar ainda mais
a sua participação no comércio mundial destes produtos,
dadas a existência de terras disponíveis e a elevada compe-
titividade de grande parte de suas cadeias agroindustriais.
Apesar da grande expansão das vendas externas de produtos
agroindustriais brasileiros no período 2000-2012, quando se
analisa pela ótica de agregação de valor, constata-se que há
um peso crescente dos bens de menor valor agregado. Os
produtos básicos responderam por quase 60% do valor das
exportações brasileiras de produtos agroindustriais em 2012
(58,76%), enquanto que os produtos industrializados, cons-
tituídos pelos manufaturados e semimanufaturados, repre-
sentaram 41,24% do total, o que configura uma pauta mais
centrada em bens com um nível menor de elaboração.
Uma segunda questão que tem se agravado no período
recente refere-se ao aumento da vulnerabilidade das contas
externas do país, com uma deterioração da balança de paga-
mentos, por conta de um expressivo crescimento do déficit da
balança de conta corrente, especialmente dos serviços (Tabela
2). Tradicionalmente deficitária, a balança de rendas e servi-
ços tem apresentado saldos fortemente negativos e crescentes
nos últimos anos, principalmente por conta da elevação de
remessa de lucros das filiais das multinacionais para as suas
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 161

matrizes, em um contexto de elevadas dificuldades atraves-


sadas por estas empresas a partir da crise econômica em cur-
so desde 2008. Destacam-se também os crescentes déficits na
rubrica viagens internacionais, superando US$ 15 bilhões em
2012. Em ambos os casos, a valorização cambial tem sido um
forte indutor no crescimento do déficit na conta de serviços,
assim como na redução do saldo da balança comercial no pe-
ríodo mais recente. A soma do déficit em conta corrente com
as amortizações dos empréstimos externos alcançou em 2012
um total de mais de US$ 90 bilhões, em grande parte coberto
pela entrada de capitais externos na forma de investimentos
diretos externos (IDE), mas que podem agravar a remessa de
lucros e dividendos no futuro. Adicionalmente, a valorização
do câmbio e a elevada remuneração dos títulos públicos, já
que a taxa de juros básica quase sempre esteve em um ele-
vado patamar no período analisado, também tem atraído
capitais especulativos de curto prazo. Estes contribuem para
fechar as contas da balança de pagamentos, mas por tratar-se
de capitais extremamente voláteis, tendem a regressar rapi-
damente aos seus países de origem em um contexto de maior
instabilidade econômica.

Tabela 2: Balança de Pagamentos do Brasil - 1994-2012.


(em US$ milhões)
Transações
1994 1998 2002 2004 2007 2009 2012
Correntes
A. Comercial 10.440 -6.474 13.126 33.666 40.028 25.347 19.415
Exportações 43.545 51.120 60.361 96.445 160.649 152.995 242.580
Importações 33.105 57.594 47.235 62.809 120.621 127.647 223.164
B. Serviços -14.717 -28.915 -23.273 -25.197 -42.597 -52.944 -76.492
Juros Líquidos -6.338 -11.948 -13.130 -14.300 -7.255 -9.069 -11.847
Lucros e
-2.483 -7.181 -5.162 -7.338 -22.435 -25.218 -24.112
Dividendos
162 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

Transações
1994 1998 2002 2004 2007 2009 2012
Correntes
Viagens
-1.181 -4.146 -398 351 -3.258 -5.594 -15.588
Internac.
Demais
-4.715 -5.640 -4.583 -3.910 -9.649 -13.063 -24.645
Serviços
C. Transf.
2.588 1.778 2.390 3.268 4.029 3.263 2.846
Unilaterais
Saldo
Transações -1.689 -33.611 -7.757 11.738 1.461 -24.334 -54.230
correntes
Investimentos
1972 25.893 16.566 18.166 18.166 36.033 68.093
diretos
Fonte: BCB.

O resultado deste crescente déficit em conta corrente da


balança de pagamentos brasileira (que passa a representar
quase 3% do PIB em 2012), é um aumento da necessidade
de capitais internacionais para fechar as contas externas,
aumentando a vulnerabilidade externa. Ao mesmo tempo,
a dívida externa do país, que chegou inclusive a cair entre
1999 a 2006, volta a crescer de forma acelerada nos últimos
anos, o que também implica em maiores despesas represen-
tada pelos custos de amortização do principal e dos juros
dos empréstimos contraídos externamente (Tabela 3).

Tabela 3. Dívida Externa Brasileira. (em US$ milhões)


Dívida Total
Médio Empréstimos
Dívida Curto + Emprésti-
Ano e Longo Intercom-
Total Prazo mos Inter-
Prazo panhias
companhias
1980 64.245 53.848 10.397
1990 123.439 96.546 26.893
1994 148.295 119.668 28.627
1997 199.998 163.283 36.715
Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 163

Dívida Total
Médio Empréstimos
Dívida Curto + Emprésti-
Ano e Longo Intercom-
Total Prazo mos Inter-
Prazo panhias
companhias
1999 241.200 212.600 28.600
2004 201.374 182.630 18.744 18.808 220.182
2006 172.589 152.266 20.323 26.783 199.372
2011 298.204 258.055 40.143 105.913 404.117
2012 312.898 280.316 32.583 115.502 428.400
Fonte: BCB.

A dívida externa brasileira aumentou 60% depois da crise


financeira de 2008 e quase dobrou desde 2006, principalmen-
te via endividamento das empresas. A dívida total em relação
ao PIB, em torno de 14% no final de 2012, ainda é relativa-
mente baixa comparativamente a outros países, e o nível de
reservas internacionais, de US$ 378 bilhões, em fins deste
ano, permitem afirmar que os riscos são menores do que os
enfrentados no final da década de 90. Mas em um cenário ex-
terno marcado pela instabilidade e turbulência e com o acir-
ramento da concorrência, com dificuldades crescentes para
exportar principalmente produtos industriais de maior valor
agregado e conteúdo tecnológico, aumentamos a dependência
das exportações de commodities. Estas, por sua vez, depen-
dem muito da demanda chinesa e em um contexto de con-
tinuidade da crise nos países centrais e um menor ritmo de
expansão da economia da China, o longo ciclo de aumento de
preços das commodities pode ter chegado ao fim, o que nos
torna mais vulneráveis do ponto de vista das contas externas.
Em síntese, ao longo dos últimos anos, diversos indica-
dores socioeconômicos do Brasil apresentaram uma evo-
lução favorável, como uma pequena melhora no quadro
164 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

distributivo, com redução do desemprego, recuperação dos


salários e diminuição da desigualdade de renda, favorecida
adicionalmente pelo conjunto de políticas sociais como a
bolsa família e a recomposição do salário-mínimo. Do pon-
to de vista macroeconômico, também alguns indicadores
apresentaram avanços, como a redução da dívida líquida
pública, uma razoável estabilidade dos patamares inflacio-
nários e uma taxa de crescimento econômico mais substan-
cial que nas duas décadas anteriores. No entanto, apesar dos
avanços, é preocupante a perda de competitividade de de-
terminados segmentos da economia brasileira, sobretudo os
ramos mais avançados da indústria, com riscos crescentes
de desindustrialização, regressão produtiva e uma reprima-
rização da pauta de exportações do país. Ademais, em um
cenário externo pouco promissor, aumentaram os riscos de
uma crescente vulnerabilidade externa do país.

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Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira | 165

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ção da pauta de exportações do Brasil: ainda um dilema. Brasília, Tec-
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bre o valor a vigorar a partir de 1º de janeiro de 2010. São Paulo, Nota
Técnica n. 86, 2010.
FUNDAP. Inflação mundial e preços de commodities. São Paulo, grupo
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FURTADO, João. Muito além da especialização regressiva e da doença
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HARVEY, David. O enigma do capital. São Paulo, Boitempo, 2011.
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Ainda não temos uma política de demanda efetiva. São Paulo, Carta
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KRUGMAN, Paul. A pequena depressão. São Paulo, Folha de São Paulo, 2011.
MENDONÇA DE BARROS, Luiz Carlos. Um novo futuro. São Paulo,
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MORCEIRO, Paulo, GOMES, Rogério e MAGACHO, Guilherme. Con-
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cional/estrangeiro. Porto de Galinhas, 40º Encontro Nacional de Econo-
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166 | Crise Econômica Mundial e os Impactos sobre a Economia Brasileira

PAULINO, Luís Antonio. A industrialização do Brasil e o debate atual


sobre desindustrialização. Crise do capitalismo: questões internacionais
e nacionais. Marília, Faculdade de Filosofia e Ciências/UNESP, 2011.
SECEX. Estatísticas do comércio exterior. Brasília, MDIC, 2011.
TORRES, Ricardo Lobato e SILVA, Henrique Cavalieri da. Uma crítica
aos indicadores usuais de desindustrialização no Brasil. Porto de Gali-
nhas, 40º Encontro Nacional de Economia da ANPEC, 2012.
Capítulo 8

Breves Considerações sobre o Perfil das


Atividades de Ciência e Tecnologia no Brasil e
o Paradigma da Colaboração no Contexto da
Crise Econômica Mundial
Agnaldo dos Santos1

O crescimento1econômico do Brasil no início do século


XXI e sua ascensão ao bloco dos países que estão re-
conduzindo a dinâmica econômica após a unipolaridade es-
tadunidense estimulam nos meios acadêmicos e na grande
mídia um debate cujo tema surgiu em diversos momentos
do século passado: os necessários investimentos em educa-
ção, ciência e tecnologia, como conditio sine qua non para
a sustentação do projeto de emancipação do subdesenvol-
vimento. Um tema é sempre lembrado quando se procura
explicar a ainda baixa capacidade do Brasil em promover
inovação tecnológica: a assim chamada “gestão ineficien-
te” da burocracia estatal (incluindo aí os centros públicos
universitário e de pesquisa) e aquilo que ganhou a fama de
“Custo Brasil”, em especial os custos relacionados à remune-
ração do trabalho. Antes de aceitar essa premissa, de inequí-
voco recorte liberal, manda o bom senso que se verifique o

1 Doutor em Sociologia e professor de Economia Política na Unesp de Ma-


rília (Departamento de Ciências Políticas e Econômicas).
168 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

perfil das empresas do segmento identificado como de alta


tecnologia e, a partir daí, encontrar as potencialidades e os
desafios nele presentes. Mas só isso não basta.
A quem interessa as escolhas tecnológicas engendradas
no segmento? Existem alternativas a elas? E como essas es-
colhas foram afetadas pelos (ou potencializaram os) impac-
tos da crise econômica iniciada em 2008? Esta exposição
pretende tão somente apontar algumas dessas característi-
cas entre as empresas de biotecnologia e alguns “caminhos
das pedras” para uma investigação bem mais substancial,
evidentemente fora do escopo do presente texto.

Visão panorâmica das empresas de


tecnologia no Brasil
Comparando com os países centrais de desenvolvimento
capitalista, nossa política de Ciência e Tecnologia (doravante
C&T) é bem recente, o que não significa que isso seja a ex-
plicação para os modestos investimentos feitos nas últimas
décadas, como demonstra por exemplo o caso sul-coreano2.
Ainda que experiências pioneiras tenham despontado des-
de o século XIX, foi somente a partir da segunda metade
do século passado que começou a se estruturar efetivamen-

2 Cf. o artigo “O papel da política científica e tecnológica no desenvolvi-


mento industrial da Coreia do Sul”, de Won-Young Lee (KIM e NELSON,
2005; ver também EVANS, 2004). A estruturação de uma burocracia efe-
tivamente meritocrática e o estabelecimento de metas para o desenvol-
vimento tecnológico (imitação/internalização/criação) são comuns tanto
ao caso japonês pós-guerra quanto aos casos sul-coreano e chinês.
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 169
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

te instituições articuladas por políticas públicas destinadas


ao desenvolvimento científico e tecnológico. De acordo com
Motoyama (2004), a criação de universidades e institutos
públicos, além de agências de fomento à pesquisa, entre os
anos 1950-1970, viabilizaram a constituição de uma efetiva
comunidade acadêmica no Brasil. É bem verdade que nesse
período diferentes forças políticas orientaram as políticas de
C&T, sendo nada desprezível as consequências da ditadura
militar entre essa comunidade, mas de fato foi nesse período
que importantes instituições de pesquisa e empresas públi-
cas (Petrobras, Embraer, Embratel, Unicamp etc.) passaram
a ganhar notoriedade3.
A estruturação dessa política de C&T revelou uma mar-
ca que seguiria então a área: a forte presença estatal. O gros-
so do investimento é feito pelo Estado de forma direta ou
indireta, como por exemplo concedendo vantagens fiscais à
empresas comprometidas com inovação tecnológica. Dados
do Ministério do Ciência, Tecnologia e Inovação mostram
que o conjunto dos investimentos (tanto público quanto pri-
vado) evoluiu de R$ 15 bilhões em 2000 para quase R$ 61 bi-
lhões em 2010, ainda que isso tenha significado uma evolu-
ção do percentual comparativo com o PIB de 1,3% em 2000
para 1,65% em 20104.

3 A título de comparação, enquanto o Governo Médici investiu US$ 62


milhões na área, o Governo Geisel investiu US$ 98 milhões, valores que
vão retroagir para US$ 34 milhões mais de uma década depois, no Go-
verno Collor (MOTOYAMA, 2004, pp. 337-338).
4 Disponível em <http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/9058.html>
Acessado em 28/10/2012.
170 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

Dispêndio nacional em ciências e tecnologia (C&T) em valores correntes, em relação ao total e em relação ao
produto interno bruto (PIB), Por setor institucional, 2000-2010.
Público Empresariais % em relação ao PIB
PIB em mi- Outras
Ano lhões de R$ Empresas
empresas Públi- Empre-
correntes Federais Estaduais Total privadas e
estatais e
Total Total
cos sariais
Total
estatais
federais

2000 1.179.482,0 5.795,4 2.854,3 8.649,7 5.455,6 1.183,2 6.638,8 15.288,5 0,73 0,56 1,30
2008 3.032.203,0 15.974,5 7.138,0 23.112,5 15.827,0 5.158,6 20.985,6 44.098,1 0,76 0,69 1,45
2010 3.770.084,9 22.577,0 10.201,8 32.778,7 20.407,7 7.713,0 28.120,7 60.899,5 0,87 0,75 1,62

Para formar um quadro comparativo, o percentual dos


investimentos de C&T na América Latina saiu de 0,55%
para 0, 69% no período 1999-2009, enquanto nos países da
OCDE a mudança foi de 2,16% para 2,4%; o Brasil participa
com 60% dos investimentos feitos no conjunto da América
Latina5. E parte substancial é de origem estatal.
Um bom exemplo para mensurar o quanto as empresas
estão dispostas a investir em inovação pode ser constatada
no relatório da pesquisa A Indústria de biociências no Brasil
– caminhos para o desenvolvimento6, elaborado pela empre-
sa PwC Brasil e pela BioMinas, organização das empresas
de biotecnologia e biociências de Minas Gerais, responsá-
vel entre outras atividades pelo assessoramento e a incuba-
ção de empresas desse segmento. Um aspecto importante
da pesquisa é que ela foi realizada junto aos gestores des-
sas empresas, refletindo sua visão quanto às expectativas e
quanto aos problemas identificados. Das 103 empresas que

5 Disponível em <http://www.inovacao.unicamp.br/destaques/america-
-latina-sofre-com-baixo-nivel-de-investimento-privado-em-inova-
cao-diz-relatorio>. Acessado em 05/11/2012.
6 Disponível em <http://www.biominas.org.br/download.php?idicod=1>.
Acessado em em 14/09/2011.
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 171
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

responderam ao seu questionário (de um conjunto de 143


empresas identificadas pela BioMinas), 69% apontaram que
os recursos para pesquisas são diretamente públicos ou de
fundações privadas não reembolsáveis. Como fonte comple-
mentar, 58% afirmaram usar recursos próprios, 39% usaram
fontes públicas ou privadas reembolsáveis (p.e., emprésti-
mos), 19% buscaram investidores privados e 11% parceiros
corporativos (BIOMINAS, 2011, p. 18). Estamos falando de
um ramo de atividade cujos pesquisadores são reconhecidos
internacionalmente, e cujos debates sobre a pertinência dos
organismos geneticamente modificados (OGM) apontavam
a necessidade de aproveitar as vantagens comparativas da
biomassa do território nacional. Mesmo nessa área, que tais
debates sugeriam ser uma enorme área para investimentos e
lucros, a presença estatal nos investimentos é incontestável.
A questão é: por que parte expressiva do setor empre-
sarial brasileiro não mostra seu “lado animal” schumpete-
riano e aloca recursos em seus departamentos de Pesquisa
e Desenvolvimento? Em geral, um dos “culpados” por esse
comportamento empresarial tímido é o alto risco envolvido
em tais investimentos, em particular a necessidade em uti-
lizar os mecanismos de proteção à propriedade intelectual.
Desde o início das pesquisas até a liberação comercial de
um produto (no caso em tela, farmacêutico ou alimentar),
o normal é um período estimado de 10 a 20 anos para as
empresas começarem a ter retorno econômico7. E, mesmo
que a pesquisa tenha esse “final feliz”, os custos ao longo do

7 “Um medicamento típico atualmente leva de dez a quinze anos para ser
desenvolvido e consome me média US$ 800 milhões” (TAPSCOTT e
WILLIAMS, 2007, p. 211).
172 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

período são elevadíssimos, entre outras coisas porque desde


os anos 1980 (e, em especial, após o Tratado TRIPS da OMC
de 1995, que regulou as transações envolvendo proprieda-
de intelectual) as grandes science life companies garantiram
patentes preventivas de fragmentos de material genético, o
que torna os custos de licenciamento de uma empresa para
outra estratosféricos.
Não restam dúvidas quanto à capacidade da comunida-
de científica e tecnológica brasileira8, mas o dilema que se
apresenta é: como desenvolver inovação nesse terreno hostil
aos iniciantes players? A pesquisa BioMinas demonstrou que
alguns gestores empresariais (mesmo sendo apenas 11% da
amostra) afirmaram utilizar de estratégias de colaboração
corporativa. Seria essa uma alternativa para as atividades
de Pesquisa e Desenvolvimento das instituições brasileiras?
Mas uma questão anterior se apresenta: por que empresas
investem em inovação? O que as estimula?

Inovar para que?


Pela literatura de inspiração schumpeteriana (evolucio-
nista ou neoevolucionista), as empresas inovam porque bus-
cam atingir um diferencial competitivo nos mercados em
que atuam, com produtos que possam lhes dar uma van-
tagem concorrencial. O conjunto de técnicas e descobertas
científicas dos inovadores pressionam os demais a fazer o

8 Um dos casos mais famosos e estudados na área da biotecnologia é o do


Projeto Genoma Fapesp, que adotou uma engenhosa estrutura de pes-
quisa em rede e descentralizada. Cf. SANTOS, 2011.
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 173
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

mesmo, criando uma espiral que leva a um leque de novos


produtos e possibilidades ao consumidor final de ter aces-
so a eles, com preços mais atrativos. Como fica facilmente
perceptível, essa perspectiva indica uma “destruição criati-
va”, onde firmas são fechadas e setores desaparecem, ainda
que criando outras oportunidades de negócios e de trabalho
(SCHUMPETER, 2003). É bom pontuar que, na teoria neo-
clássica, as inovações são fruto de fatores exógenos às em-
presas, são bens públicos “não-rivais” gerados na sociedade e
que as empresas tomarão de forma mais ou menos paritária;
as inovações não são fruto de decisões dos atores econômi-
cos, pois isso contraria a tese de equilibro típica dessa abor-
dagem (BEZZERRA, 2010, p. 20).
De fato, a guerra que testemunhamos hoje entre empre-
sas do porte da Apple, Google, Amazon e Microsoft é toma-
da como um exemplo preciso desse movimento de pressão
sobre as firmas, em que poucos ao final sobreviverão como
players dotados de fôlego nesse mercado altamente compe-
titivo, cuja principal arma usada contra os adversários é o
conjunto de patentes requeridas para inviabilizar os negó-
cios dos demais9. No contexto brasileiro, alguns autores su-
gerem que o padrão vigente de autarquização da economia
brasileira entre as décadas de 1940 e 1980 teria levado os em-
presários nacionais a um relativo “comodismo’ ante a elabo-
ração de produtos e processos, pois nesse período as taxas de
retorno das empresas seriam garantidas por um complexo
de fatores (a criação da CLT, a auto-construção habitacional,

9 “A épica batalha pelo reino da internet”, suplemento da Economist. Car-


ta Capital, 12 de dezembro de 2012, nº 727.
174 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

a informalidade etc, como principais elementos da conten-


ção dos custos com o trabalho10). As mudanças ocorridas
desde meados dos anos 1990 teriam forçado as empresas a
uma forte reestruturação interna e a buscar a internacionali-
zação por meio da inovação em produtos e processos, ainda
que de forma inconclusa (ARBIX, 2007, pp. 110-111)
O exemplo do Vale do Silício é sempre lembrado como
modelo a ser seguido não apenas pelo tamanho de suas em-
presas, mas também pelo seu meio ambiente institucional –
start-ups ao lado dos grandes conglomerados, cercados por
universidades de renome, que abrigam milhares de cientis-
tas e técnicos. Alguns entusiastas gostam de comparar re-
giões como Campinas, São José dos Campos ou Recife como
candidatas a novos “vales do sicílico”, mas nesse caso as
comparações tendem a botar panos frios em tais pretensões.
Tomando os dados apresentados pelo professor Renato
Dagnino na mesa “Ciência e Tecnologia na América Latina”,
realizada na USP11 em 2012, temos que o Brasil formou no
período 2006-2008 noventa mil mestres e doutores nas cha-
madas hard sciences, no entanto apenas 68 deles (ou 0,07%
do total) foram contratados pela iniciativa privada nesse
período; o índice médio de contratação desses profissionais
nos EUA é de 70%. Ainda conforme o pesquisador, 76% das
empresas consideradas no país como “inovadoras” lançam

10 Sobre essa crítica ao empresariado brasileiro, um dos livros mais signi-


ficativos continua a ser o Crítica à Razão Dualista (OLIVEIRA, 2003).
11 Seminário Internacional A Esquerda na América Latina – História, Presen-
te, Perspectivas. A cobertura dessa mesa foi feita pela Agência Carta Maior:
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_
id=20889.
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 175
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

produtos já existentes no mercado. Um dado que expressa


a opção das empresas brasileiras é que ao longo da década
passada os investimentos públicos com C&T aumentaram de
modo expressivo, ao passo que as inversões do setor priva-
do caíram 11% entre 2000 e 2005. Sua hipótese é a de que
as empresas brasileiras não querem disputar mercados com
os grandes trusts internacionais, deixando a eles o papel
de promotores da inovação, certos que estão sobre as van-
tagens comparativas dos países na divisão internacional do
trabalho. Isso seria agravado pelo comportamento da comu-
nidade científica brasileira, que paradoxalmente teria mais
influência que seus pares do Norte na elaboração e execu-
ção das políticas de C&T, mas por outro lado seriam guiados
por convicções neopositivistas e deterministas sobre o papel
da ciência na sociedade, criando um fosso entre esse campo
(no sentido bourdieuniano) e os demais setores da sociedade
(DAGNINO, 2007, p. 46).
Então, o dilema que se apresenta à realidade brasileira
é: inovar para quê? Os gestores da política de C&T – em
sua imensa maioria, cientistas e tecnólogos – aventam sem-
pre a necessidade de aproximação entre a universidade e as
empresas, mas essas não demonstram na prática (apenas no
discurso) qualquer intenção de investir em inovação e, con-
sequentemente, contratar pessoal capacitado a essa tarefa12.

12 O setor tradicionalmente receptor de recursos públicos é o da indús-


tria automobilística, que ainda mantêm postura tímida em termos de
inovação e adaptação à realidade brasileira, na qual a transferência
de tecnologia e a instalação de centros de pesquisa no território na-
cional ainda não passam de promessas. O regime automotivo adotado
em 2013 pelo governo federal encontra um terreno onde a margem de
176 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

Isso indica que, pelos mecanismos convencionais, as ativi-


dades envolvendo pesquisa e desenvolvimento em inovação
não irão florescer espontaneamente. Ainda segundo os da-
dos de Dagnino (2007, p. 48), 20% da atividade industrial
nos EUA está concentrada em segmentos baseados em alta
tecnologia, enquanto no Brasil esse índice é próximo a 0%;
dificilmente sairá das empresas aqui instaladas iniciativas
de pesquisa e desenvolvimento em inovação.
Mesmo considerando que os investimentos estrangeiros
diretos (o tipo de investimento que não está diretamente
vinculado à ciranda financeira especulativa) tenham caído
no país após a crise de 2008, de US$ 33 bi em 2007 para
US$ 30 bi em 2009, é interessante notar que desse mon-
tante o segmento relacionado à indústria farmacêutica viu
um acréscimo nesse mesmo período no Brasil, de US$ 164
mi para US$ 349 mi13. As características do país, com uma
enorme biodiversidade e pessoal capacitado formando em
centros de excelência acadêmica, tendem a colocá-lo no
centro dos interesses empresariais e da comunidade de pes-
quisadores. Mas o caminho mais promissor para os pesqui-
sadores nacionais talvez seja aquele das redes descentraliza-
das, utilizando mecanismos abertos de colaboração, como
veremos em seguida.
Mas certamente investir em modelos abertos de ino-
vação junto a essas empresas apenas reforçaria o padrão

lucro das montadoras aqui instaladas é de 10%, ante a média mundial


de 5%. Cf. “O motor do incentivo”, por Samantha Maia. Carta Capital,
16/01/2013, nº 731.
13 Segundo dados do Banco Central. http://www.bcb.gov.br/rex/ied/port/
ingressos/htms/index3.asp?idpai=INVEDIR. Acessado em 14/01/2013.
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 177
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

existente no país, onde o grosso dos empreendimentos são


tocados pelo setor público. Apenas para ilustrar, no período
2003-2007 (portanto, antes do contexto da crise internacio-
nal) o governo federal usou instrumentos financeiros de in-
centivo à inovação para apoiar empresas com perfil expor-
tador (29 mil, em um universo aferido de 2 milhões e 200
mil empresas), mas foi demandada em média por apenas
3 mil delas por ano (IPEA, 2010, p. 55). Quando olhamos
para o comportamento empresarial ante a chamada “Lei
do Bem”, formulada para dar incentivos fiscais às empresas
orientadas à inovação, vemos que no período 2006-2008 um
total de 441 delas havia procurado usá-la, mas apenas 12%
de tais empresas eram responsáveis por 93% do montante
de custeios em Pesquisa e Desenvolvimento registrados no
programa (id., p. 57).
Esses números parecem dar razão aos argumentos do
professor Dagnino: a empresa nacional não quer orientar
seus recursos em inovação, ficando à margem das políticas
de C&T. Se cabe ao setor público não só arcar com os inves-
timentos mas também com os empreendimentos relaciona-
dos à C&T, então devemos questionar quais devem ser os
interesses que guiam essa política no Brasil.

A questão da colaboração
Ainda que não seja estranho à comunidade científica
desde seu nascedouro até a poucas décadas atrás, o princípio
da colaboração entre pares vem aparecendo no meio empre-
sarial como uma alternativa engenhosa ante aos elevados
178 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

custos com pesquisa e desenvolvimento em C&T. A cres-


cente especialização das diferentes disciplinas científicas e
tecnológicas impede que um indivíduo ou mesmo um grupo
isolado de pesquisadores possa ter a primazia nas descober-
tas ou nos inventos, ainda mais quando consideramos o pro-
blema da propriedade intelectual, em especial o instrumento
da patente14. Mesmo considerando que a prática de pesquisa
e desenvolvimento em inovação exija no atual contexto essa
defesa da propriedade intelectual, ela vem cada vez mais
sendo objeto de reflexão por parte de filósofos, economistas
e sociólogos. Uma das vertentes desse tipo de reflexão é o
Movimento Anti-Utilitarista em Ciências Sociais (forman-
do em francês a sigla MAUSS – Mouvement anti-utilitariste
dans les sciences sociales), que procura resgatar o conceito
de dádiva do sociólogo francês Marcel Mauss para criticar
a premissa ideológica da troca mercantil como elemento
ontológico (LEVÉSQUE, 2009). Os indivíduos e as institui-
ções podem estabelecer relações que não são pautadas ape-
nas pelo troca monetária, mas “submergir” em complexas
relações de reciprocidade, mesmo que elas não descartem
também a troca mercantil-monetária em algum momento.
Abrir bancos de dados e torná-los públicos, estabelecendo
relações pré-competitivas, é um bom exemplo de um padrão
de comportamento dessa natureza. Uma “economia dos pre-

14 “Cerca de 20% do genoma humano já eram de propriedade privada, in-


clusive os genes da hepatite C e do diabetes. Os proprietários dessas pa-
tentes agora influenciam quem faz as pesquisas e seus custos, desempe-
nhando um papel desproporcional no que diz respeito ao volume geral
e direcionamento das pesquisas nessa área” (TAPSCOTT e WILLIANS,
2007, p. 204).
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 179
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

sentes” exige, tal qual nas culturas indígenas estudadas por


Mauss, que a dádiva não fique retida em um único lugar,
mas que ela circule, o que significa que aquilo que um in-
divíduo acessou deve ser repassado a outros (ANDERSON,
2009, p. 18915). A reputação, o aprendizado e a ampliação
do leque de contatos seriam, por si só, recompensas para os
atores dessa forma de troca.
Empresas como a farmacêutica Glaxo Welcome (agora
Glaxo-SmithKline), Volkswagen e outras estão adotando
plataformas abertas de desenvolvimento pré-competitivo,
no sentido de “manter open source” algumas descobertas
para os quais ainda não se sabe quais aplicações comerciais
poderiam representar (SANTOS, 2011). O próprio relatório
da BioMinas supracitado tece diversas considerações sobre
essa modalidade de pesquisa e desenvolvimento, além de
consórcios de desenvolvimento competitivo (onde as infor-
mações circulam livres, mas cada empresa fica livre para
tomá-las para criar seus próprios produtos16). Isso é possí-
vel porque as empresas de “ciências da vida”, incluindo as
grandes farmacêuticas, perceberam que as sequências de
genes de um organismo são dados e não produtos finais,
portanto esses dados podem ser totalmente disponibiliza-
dos em bancos públicos (ou plataformas abertas), onde di-

15 Vale notar que tanto Chris Anderson como Don Tascott & Anthony
Williams, autores utilizados ao longo desse texto, procuram apontar
para o que consideram um “novo capitalismo”, sem questionar em ne-
nhum momento se ele passa por uma crise estrutural ou se ele deve ser
superado por outras formas de sociabilidade. De todo modo, os exem-
plos que eles utilizam são úteis para ilustrar nossa argumentação.
16 Biominas, 2011, pp. 46-55.
180 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

versos pesquisadores de instituições públicas e privadas po-


dem acessá-los e descobrir suas conexões com a dinâmica
de um determinado organismo. Dessa percepção surgiram
duas importantes iniciativas, no final do século passado: a
Merck Gene Index (um banco de dados público criado pela
empresa Merck e a Universidade de Washington) e o SNP
Consortium, joint-venture de onze empresas farmacêuticas
para disponibilizar um banco de dados sobre marcadores
químicos de genes, que podem facilitar a elaboração de me-
dicamentos “individualizados” (Tapscott e Williams,
2007; Santos, 2011). Se levamos isso em conta, então pes-
quisadores de instituições públicas como Embrapa e Fiocruz
podem se valer de associações com empresas e universidades
para ampliar o escopo de suas pesquisas.
Uma política de C&T que atenda aos interesses do con-
junto da população exigirá de fato não só medidas articula-
das entre os diferentes níveis de governo como também um
modus operandi original, pautado na colaboração tanto de
atores do mainstream acadêmico quanto das experiências de
pequenas instituições públicas e privadas, incluindo os mo-
vimentos sociais. E o Brasil reúne amplas condições para ex-
plorar essa alternativa. Já tivemos uma experiência no final
dos século passado, com o Projeto Genoma Fapesp brasileiro
e o Projeto Genoma Humano, um consórcio internacional do
qual pesquisadores do Brasil também participaram (SAN-
TOS, 2011). Nos dois casos, diversos centros de pesquisa in-
terligados e trabalhando de forma colaborativa para sequen-
ciar o genoma de um fitopatógeno e o da espécie humana,
ambos bem sucedidos. Como apontei em estudo anterior
(id., ibid.), o desenvolvimento de inovações em biotecnologia
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 181
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

nas plataformas abertas é ainda modesto, mas tende a seguir


dinâmicas similares à que vemos no mundo da tecnologia
digital. Os modelos de negócios de empresas como os da
Google ou da Amazon, que estão longe de serem contra o
establishment, faturam alto tornando seus produtos abertos
para pessoas em qualquer lugar do mundo os aperfeiçoarem
(TAPSCOTT e WILLIANS, 2007; ANDERSON, 2009).
De fato, não será das empresas e instituições tradicio-
nais com sede ou presença no Brasil que se deve esperar em-
preendimentos de forma aberta, pelo motivos citados aci-
ma. As experiências do Porto Digital no Recife17, dos Pontos
de Cultura18 espalhados pelo país e das start-ups geradas em
simbiose com universidades como no caso de Campinas19
indicam caminhos alternativos ao da propriedade intelec-

17 Polo de desenvolvimento de softwares e de “economia criativa” (ga-


mes, música, multimídia) e incubadora de empresas do ramo, numa
parceria entre poder público, indústria e universidades. Cf. <www.
portodigital.org>.
18 Projetos financiados e apoiados pelo Ministério da Cultura desde 2004,
implementados por instituições públicas e ONGs, que procuram organi-
zar ações de impacto sócio-culturas nas comunidades em que estão ins-
talados. Cf.<http://www.cultura.gov.br/culturaviva/ponto-de-cultura/>.
19 Empresas constituídas após a experiência do Projeto Genoma Fapesp,
como a Allelix e a Canaviallis, possuem sede em um condomínio in-
dustrial em Campinas chamado TechnoPark, próximo à Unicamp, con-
tando ainda com empresas de nanotecnologia como a Nanocore e de
eletrônica como a chinesa Huawei. Cf. <www.technopark.com.br/>.
182 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

tual tradicional, que vimos exige imensos recursos para seu


desenvolvimento e manutenção20.

Pensando o devir
A imprensa noticiou que a Embrapa vem estreitando la-
ços de parceria com empresas multinacionais do segmento
de sementes e defensivos agrícolas, via captação de recursos
e licenciamento de produtos patenteados pelas science life
companies21. Da perspectiva daqueles que compreendem ser
o agronegócio o motor da economia brasileira, maximizan-
do essa vantagem comparativa do país frente ao mercado
mundial, parece fazer todo o sentido usar as tecnologias já
disponíveis para adaptá-las às condições do solo e do clima
nativos. A Allelyx, empresa de biotecnologia engendrada na
experiência do Projeto Genoma Fapesp e uma das mais bem-
-sucedida do setor, foi vendida à Monsanto, gigante multina-
cional, com muito debate à época se era ético usar dinheiro

20 De todo modo, há um debate entre os especialistas em direito de proprie-


dade intelectual sobre como é possível utilizar os próprios instrumentos
tradicionais – patente ou copyright – para proteger dados e plataformas
abertas. Nesse casos, eles seriam acionados quando algum ator econômi-
co tentasse revindicar a propriedade do material em circulação, de modo
a mantê-lo aberto. O maior exemplo são os creative commons no campo
da criação artística. Cf. LESSIG (2005) e BENKLER (2007).
21 “Embrapa busca parceria com o setor privado”, por Genilson Cezar. Va-
lor Econômico. 14/05/2012.
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 183
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

público para criar um ativo vendável22. Mas serão esses os


únicos caminhos possíveis para a expertise e os recursos da
biomassa de nosso país?
A necessidade de usar conhecimentos tradicionais para
as práticas de bioprospecção indicam que a natureza deter-
minista e unidirecional das tecnociências pode ser questio-
nada, e que a utilização de saberes ancestrais e populares
podem ser muito bem articulados em experiências de tecno-
logia social23. Pelo que foi brevemente exposto aqui, a crise
econômica instaurada desde 2008 não é necessariamente o
principal desafio à política de C&T, ainda que a economia
internacional não possa ser vista como um mero conjunto
de autarquias nacionais justapostas – o sistema como tal pa-
rece estar diante de contradições cada vez mais difíceis de
serem superadas. Mas, como falamos de processos sociais
que levam anos ou décadas até atingirem determinada con-
figuração, é possível que os países com as características do
Brasil – e que não são muitos no presente momento – podem
aproveitar a janela de oportunidade que se apresenta com o
rearranjo forçado após o crash de 2008. Será preciso que os
gestores atuais e futuros da política de C&T tenham a cla-

22 “Ministro critica venda de Alellyx e Canavialis para a Monsanto”, por


Herton Escobar. O Estado de São Paulo. Disponível em <http://www.es-
tadao.com.br/noticias/impresso,ministro-critica-venda-de-alellyx-e-
-canavialis-para-a-monsanto,272555,0.htm>. Acessado em 28/10/2012.
23 Experiências articuladas a partir de políticas públicas que abordem a
relação ciência-tecnologia-sociedade, buscando maior coerência com
a realidade brasileira. Os exemplos dos Pontos de Cultura e de eco-
nomia solidária são algumas dessas experiências. Cf. TECNOLOGIA
SOCIAL (2004).
184 |  reves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no
B
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

reza das transformações em curso, e que consigam romper


com a ilusão do determinismo científico e da subserviência
da ciência e da tecnologia frente à onipresença dos meca-
nismos mercantis. Se é verdade que muitos ainda tentam
ser replicantes de Steve Jobs (nem tanto por suas atribuídas
características de genialidade e mais pela fortuna que cons-
truiu) nos laboratórios científicos e centros tecnológicos,
uma parte expressiva começa a perceber que as recompen-
sas para a inovação podem ir bem além daquelas de caráter
monetário, como as clássicas reflexões maussianas acerca da
dádiva bem apontaram.

Referências
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vier, 2009.
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mons: redes virais, espectro aberto e as novas possibilidades de regulação.
São Paulo, Editora Perseu Abramo, 2007.
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caminhos para o crescimento. Belo Horizonte, 2011.
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a comunidade de pesquisa. Campinas, Editora da Unicamp, 2007.
 Breves Considerações sobre o Perfil das Atividades de Ciência e Tecnologia no | 185
Brasil e o Paradigma da Colaboração no Contexto da Crise Econômica Mundial

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mário analítico. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Brasília, 2010.
KIM, Linsu, NELSON, Richard R. Tecnologia, Aprendizado e Inovação
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cooperação e e abordagem aberta em biotecnologia. São Paulo, Blucher
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NEIRO, Ricardo (org.). Os Clássicos da Economia. São Paulo, Editora
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ração em massa pode mudar o seu negócio. Rio de Janeiro, Nova Fron-
teira, 2007.
TECNOLOGIA Social: uma estratégia para o desenvolvimento. Rio de
Janeiro, Fundação Banco do Brasil, 2004.
Capítulo 9

América latina, globalização e


espaços de resistência: o caso dos
índios Guarani-Kaiowa no Brasil
Noemia Ramos Vieira1

É vedada a remoção dos grupos indígenas


de suas terras, salvo, ad referendum do Con-
gresso Nacional, em caso de catástrofe ou
epidemia que ponha em risco sua população,
ou no interesse da soberania do País, após
deliberação do Congresso Nacional, garanti-
do, em qualquer hipótese, o retorno imediato
logo que cesse o risco.
Constituição Federal do Brasil, Art. 231 §, 5º.

N a América Latina há algumas décadas tem sido bas-


tante recorrente a emergência de tensões territoriais as
quais têm sido traduzidas em muitos movimentos de resis-
tência. Um caso bastante noticiado nos últimos meses e que
tem mobilizado diversos setores sociais é o do movimento
de resistência indígena Guarany-Kaiowa no Brasil.
Estes povos, que historicamente tem a tradição de po-
vos produtores de alimentos, hoje se encontram em estado
188 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

de extrema pobreza pelo fato de que, ao longo da história,


foram sendo expropriados de suas terras. Estas que aos pou-
cos foram se tornando reduto da monocultura da cana-de-
-açúcar e da soja na região as quais são culturas da agenda
de exportação do governo brasileiro.
Atualmente estão resistindo a uma ordem de despejo
emitida pela justiça federal que os obriga a sair da fazen-
da onde estão acampados. A ocupação da referida fazendo é
parte de um movimento reivindicatório dos Guarani/Kaio-
wa iniciado início na década de 1980. Desde então estes lu-
tam pela demarcação de suas terras as quais, desde fins do
século XIX e início do século XX, vêm sendo invadidas e
ocupadas por latifundiários e colonos a partir de projetos
oficiais de colonização do território brasileiro. Hoje o que se
presencia é o confinamento destes em reservas criadas pelo
governo sob a orientação do, hoje extinto, Serviço de Prote-
ção ao Índio – SPI.

O confinamento a eles imposto em áreas res-


tritas e que não permitem mais a possibilida-
de da prática de uma agricultura itinerante,
aliado à superpopulação, provocaram grave
comprometimento dos recursos naturais. Ge-
raram um desequilíbrio nas relações entre o
mundo dos homens e a natureza. (COLMAN
& BRAND, 2008: 164)

A partir da ordem de despejo emitida, no mês de setem-


bro do ano de 2012 pela justiça federal, os indígenas têm
ameaçado cometer suicídio coletivo se a referida ordem se
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 189
Guarani-Kaiowa no Brasil

cumprir. A Carta apresentada abaixo, em sua íntegra, dá a


dimensão real desta situação:

Nós, (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças)


comunidades Guarani-Kaiowá originárias
de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos atra-
vés desta carta apresentar a nossa situação
histórica e decisão definitiva diante de da
ordem de despacho expressado pela Justiça
Federal de Navirai-MS, conforme o processo
nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de
setembro de 2012. Recebemos a informação
de que nossa comunidade logo será atacada,
violentada e expulsa da margem do rio pela
própria Justiça Federal, de Navirai-MS.
Assim, fica evidente para nós, que a própria
ação da Justiça Federal gera e aumenta as
violências contra as nossas vidas, ignorando
os nossos direitos de sobreviver à margem do
rio Hovy e próximo de nosso território tradi-
cional Pyelito Kue/Mbarakay.
Entendemos claramente que esta decisão da
Justiça Federal de Navirai-Ms é parte da ação
de genocídio e extermínio histórico ao povo
indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso
do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Fe-
deral está violentando e exterminado e as
nossas vidas. Queremos deixar evidente ao
Governo e Justiça Federal que por fim, já per-
demos a esperança de sobreviver dignamente
190 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

e sem violência em nosso território antigo,


não acreditamos mais na Justiça brasileira.
A quem vamos denunciar as violências prati-
cadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do
Brasil? Se a própria Justiça Federal está geran-
do e alimentando violências contra nós. Nós já
avaliamos a nossa situação atual e concluímos
que vamos morrer todos mesmo em pouco
tempo, não temos e nem teremos perspectiva
de vida digna e justa tanto aqui na margem do
rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampa-
dos a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram
quatro mortes, sendo duas por meio de suicí-
dio e duas em decorrência de espancamento e
tortura de pistoleiros das fazendas.
Moramos na margem do rio Hovy há mais de
um ano e estamos sem nenhuma assistência,
isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até
hoje. Comemos comida uma vez por dia. Pas-
samos tudo  isso  para recuperar o nosso ter-
ritório antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato,
sabemos muito bem que no centro desse nos-
so território antigo estão enterrados vários os
nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão
os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e
queremos ser mortos e enterrados junto aos
nossos antepassados aqui mesmo onde es-
tamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e
Justiça Federal para não decretar a ordem de
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 191
Guarani-Kaiowa no Brasil

despejo/expulsão, mas solicitamos para de-


cretar a nossa morte coletiva e para enterrar
nós todos aqui.
Pedimos, de uma vez por todas, para decretar
a nossa dizimação e extinção total, além de
enviar vários tratores para cavar um grande
buraco para jogar e enterrar os nossos corpos.
Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já
aguardamos esta decisão da Justiça Federal.
Decretem a nossa morte coletiva Guarani e
Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-
-nos aqui. Visto que decidimos integralmente
a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em
sobreviver dignamente aqui em nosso ter-
ritório antigo, já sofremos muito e estamos
todos massacrados e morrendo em ritmo
acelerado. Sabemos que seremos expulsos
daqui da margem do rio pela Justiça, porém
não vamos sair da margem do rio. Como um
povo nativo e indígena histórico, decidimos
meramente em sermos mortos coletivamente
aqui. Não temos outra opção esta é a nossa
última decisão unânime diante do despacho
da Justiça Federal de Navirai-MS.
Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito
Kue/Mbarakay1

1 Carta publicada no site da Comissão Pastoral da Terra no dia 23


de outubro de 2012: http://www.cptnacional.org.br/index.php/
192 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

O que se presencia é uma tensão existente entre os povos


indígenas e o Estado brasileiro como representante legítimo
dos proprietários das fazendas existentes onde antes exis-
tiam as aldeias destes povos. Trata-se de tensões existentes
entre duas territorialidades bem definidas: a territorialidade
indígena e a territorialidade da agricultura capitalista mo-
nocultora em que a primeira se vê subjugada pela segunda.
Este fato fica evidente nas palavras do indigenista Egon
Heck em entrevista à Revista IHU On-Line.

De um lado, se tem um dos estados de eco-


nomia mais florescentes do País, baseado na
monocultura de milho, na criação de gado
e, agora, na monocultura da cana-de-açúcar
entrando com muita força. E, por outro lado,
muitas populações expulsas do campo, den-
tre elas principalmente as indígenas. Essas
são as mais afetadas, pelo fato de suas terras
se situarem, em geral, nas áreas mais férteis
que são as de mata Atlântica, no extremo sul
do estado, as terras Guarani-Kaiowá.2

noticias/13-geral/1293-carta-da-comunidade-guarani-kaiowa-
-de-pyelito-kue-mbarakay-iguatemi-ms-para-o-governo-e-justica-
-do-brasil acesso em 02/02/2013.
2 http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content
&view=article&id=4768&secao=408: Revista IHU On Line: acesso
em 02/02/2013.
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 193
Guarani-Kaiowa no Brasil

Segundo o indigenista a arbitrariedade da situação é ta-


manha que o gado dispõem de 3 a 5 hectares de terra por
cabeça, enquanto os índios Guarani-Kaiowá não chegam a
ocupar um hectare por índio.
Estas reflexões iniciais conduzem aos seguintes questio-
namentos: quais as determinações históricas e sociais es-
tão envolvidas nesta problemática? Como o conhecimento
geográfico pode contribuir para desvendar algumas destas
determinações?
Desta feita a partir de um olhar geográfico o presente
texto tem como proposição apresentar reflexões que contri-
buam para o desvendamento de algumas das determinantes
desta problemática sócio espacial existente no território bra-
sileiro. Para tanto serão utilizadas como referencial teórico
as reflexões impressas em obras de geógrafos como Haes-
baert (2007), Castro (2010), Santos (2001), Santos (2007) e
Santos& Rigotto (2010). Além do aporte teórico da ciência
geográfica buscou-se apoio em obras de antropólogos e in-
digenistas. Tais obras foram Colman & Brand (2008), Brant
(2004), Grubits & Freire (2011) e Ribeiro (1996).
É sabido que desde o processo de colonização america-
na os povos indígenas têm sido expropriados dos seus ter-
ritórios e, consequentemente exterminados. Isto se deve ao
processo de territorialização da sociedade capitalista em que
normas de regulação territorial vêm sendo impostas arbi-
trariamente a esses povos sem considerar os seus direitos e
sua identidade territorial. Este processo tem ocorrido tanto
a partir da violência física quanto da violência simbólica. A
problemática territorial vivida pelos Guarani-Kaiowá é mais
um destes casos.
194 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

Apesar do processo de expropriação territorial vivido


por estes povos ter iniciado com o processo de colonização
do Brasil, o seu acirramento se deu a partir do contato destes
com os povos não indígenas atraídos para a região pelo pro-
cesso de colonização oficial do território brasileiro.
O antropólogo Antônio Brand (2004) em um histórico
sobre a luta desses povos pela posse da terra dá uma ideia de
quão amplo era o território ocupado por estes povos antes
da chegada da população não indígena. Segundo este autor
os Guarani-Kaiowá

[...] ocupavam um amplo território situado


entre o rio Apa, Serra de Maracaju, os rios Bri-
lhante, Ivinhema, Paraná, Iguatemi e a fron-
teira com o Paraguai. Agrupavam-se, nesse
território, especialmente em áreas de mata,
ao longo dos córregos e rios, em pequenos
núcleos populacionais, integrados por uma,
duas ou mais famílias, que mantinham entre
si inúmeras relações de casamento, tendo à
frente os chefes de família mais velhos, deno-
minados de tekoaruvicha (chefes de aldeia)
ou iianderu (nosso pai) (...). Esses núcleos fa-
miliares eram relativamente autônomos (...).
(BRAND, 2014: 138-139)

Para Brand mesmo com a chegada das primeiras frentes


não indígenas no território a partir da década de 18803 as

3 Povos que chegaram à região após a guerra do Paraguai junto com a


instalação da Companhia Matte Larangeira para a colheita nos ervais e
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 195
Guarani-Kaiowa no Brasil

terras dos Guarani-kaiowá não se viram tão ameaçadas ten-


do em vista que estes viviam nas regiões de densa mata. Foi a
partir do ano de 1915 com o processo oficial de colonização
do território brasileiro que a situação destes povos, no que
diz respeito à posse da terra, começa a se complicar. Estes
povos passaram a ser confinados em pequenas extensões de
terra – as reservas indígenas – sem que se considerasse, na
sua implementação, os padrões indígenas de relacionamento
com o território e seus recursos naturais e, principalmente,
a sua organização social.
Entre os anos de 1915 e 1928, o Governo Federal, objeti-
vando confinar os diversos núcleos populacionais dispersos
em amplo território ao sul do atual Estado de Mato Grosso
do Sul, demarcou sob a orientação do Serviço de Proteção
aos Índios-SPI oito pequenas extensões de terra – as reservas
– para usufruto destes povos. Para Brand o mais grave deste
processo é que estas reservas

[...] constituíram importante estratégia go-


vernamental de liberação de terras para a
colonização e consequente submissão da po-
pulação indígena aos projetos de ocupação e
exploração dos recursos naturais por frentes
não-indígenas. (2004: 138)

Além de que neste processo ignoraram-se, os padrões


indígenas de relacionamento com o território e seus recur-
sos naturais e, principalmente, a sua organização social.

também os que vieram com as primeiras fazendas de gado no final do


século XIX e início do século XX.
196 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

Segundo Brand desde então o processo de ocupação


dos territórios indígenas por povos não indígenas se inten-
sificou. Em 1943, o então Presidente da República, Getúlio
Vargas, criou a Colônia Agrícola Nacional de Dourados cujo
objetivo era possibilitar o acesso a terra para milhares de
famílias de colonos, migrantes de outras regiões do país. O
que provocou de imediato, problemas diversos e graves, pois
questionou a presença indígena e impôs a sua transferência
para outros espaços. (Idem, Ibidem)
A partir da década de 1950, especialmente, acentua-se a
instalação de empreendimentos agropecuários nos demais
espaços ocupados pelos Guarani-Kaiowá, ampliando o pro-
cesso de desmatamento do território. Parte significativa das
aldeias é destruída e a partir deste período, acentuando-se
o processo de confinamento nas reservas. Grande parte
dos indígenas se viram obrigada a trabalhar como mão de
obra tendo em vista a desestruturação do seu modo de vida.
(Idem, ibidem)
A partir da década de 1970 os problemas vividos pelos
Guarani-Kaiowá se intensificaram. Com a introdução da
cultura da soja aliada à ampla mecanização da atividade
agrícola, houve a dispensa de grande parte da mão-de-obra
indígena. Além de que, a degradação do ambiente, a partir
do desmatamento e da poluição dos rios, provocou o fim
das aldeias. Neste processo grande parte dos indígenas se
refugiou nos fundos das fazendas instaladas onde, até pouco
tempo atrás, existiam suas aldeias.
Posteriormente à instalação da monocultura da soja foi
introduzida na região a monocultura da cana-de-açúcar e
com elas as Usinas de Álcool nas quais os indígenas, hoje,
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 197
Guarani-Kaiowa no Brasil

têm encontrado sua única forma de sobrevivência: a maior


parte da massa trabalhadora das Usinas de álcool é constituí-
da de indígenas do grupo Guarani-Kaiowá. (Idem, Ibidem)
Brand dá a noção das consequências desta politica de po-
voamento implantada pelo governo brasileiro desde sempre:

O comprometimento dos recursos natu-


rais, resultante da perda da terra, retirou as
condições necessárias para a sua economia,
impondo aos homens indígenas o assala-
riamento. Provocou a rápida passagem de
alternativas variadas de subsistência – agri-
cultura, caça, pesca e coleta – para uma úni-
ca alternativa, a agricultura e esta apoiada
em poucas variedades de cultivares e, mais
recentemente, o assalariamento em usinas
de Álcool. No entanto, mais do que as alter-
nativas econômicas, comprometeu de forma
crescente a autonomia interna desses povos
por reduzir suas possibilidades de decisão
sobre essas questões, deixando cada vez um
espaço mais reduzido para a negociação a
partir de suas alternativas histórico-cultu-
rais. (BRAND, 2004: 140-141)

O que pode se concluir é que deste jogo de força entre


as duas formas de gestão territorial4 o resultado foi a terri-

4 De um lado o modelo de desenvolvimento territorial que prioriza o mer-


cado a qualquer custo e, de outro, o modelo que considera não só as
198 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

torialização, a passos largos, da lavoura monocultora capi-


talista e a desterritorialização da agricultura indígena, uma
vez que, segundo Brand (2004), hoje os espaços reservados
aos indígenas se encontram sobrepostos e geograficamen-
te confinados, misturados e sem condições de manter sua
organização, assentada em unidades familiares autônomas,
com seus líderes que zelavam pela harmonia interna.

[...] o desafio maior decorrente do processo


de perda territorial refere-se às dificuldades
em adequar a sua organização social a essa
nova situação marcada pela superpopula-
ção, sobreposição de famílias extensas e pe-
las transformações de ordem econômica [...]
(BRAND, 2004: 141).

Com base nas reflexões de Haesbaert (2007) pode-se


dizer que estes povos vem vivendo historicamente um pro-
cesso de desterritorialização como precarização territorial.
Para este autor este processo ocorre não só quando um povo
se vê separado de sua terra que é vista como espaço físico,
material e como meio de produção (solos férteis, florestas,
ricas em produtos extrativos), mas também quando se vê se-
parado de seu espaço simbólico e cultural.

Mesmo exercendo o domínio sobre um deter-


minado espaço, podem faltar ao grupo indíge-

potencialidades econômicas, mas também as especificidades sociocul-


turais do território.
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 199
Guarani-Kaiowa no Brasil

na de referência territoriais de sua cultura, o


próprio “imaginário geográfico” condensado
simbolicamente em determinadas parcelas de
espaço (um rio, uma cachoeira, um trecho de
florestas – espaços de deuses ou do espirito
de seus ancestrais). (HAESBAERT, 2007: 67)

Isto porque “território para o índio, é ao mesmo tempo


um espaço de reprodução física de subsistência material, e
um espaço carregado de referências simbólicas, veículos de
manutenção de sua identidade cultural”. (idem, ibidem: 67).
Para o autor o que se presencia é uma dinâmica de precari-
zação socioespacial que conduz à formação dos “aglomera-
dos humanos de exclusão, o exemplo mais estrito de dester-
ritorialização”. (Idem, Ibidem, p. 68)
Haesbaert caracteriza o processo de precarização so-
cioespacial e a consequente formação dos aglomerados hu-
manos de exclusão como uma dinâmica dominante da so-
ciedade capitalista globalizada. Para este autor

[...] na sociedade contemporânea, com toda


sua diversificação, não resta dúvida que o
processo de exclusão, ou melhor, de precari-
zação socioespacial, promovido por um sis-
tema econômico altamente concentrador é o
principal responsável pela desterritorializa-
ção. (Idem Ibidem, p. 68).

Estas reflexões contribuem para a compreensão do ca-


ráter nocivo da politica de confinamento dos indígenas em
200 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

reservas as quais são territórios totalmente alheios as espe-


cificidades socioculturais destes povos. Refletir sobre a na-
tureza das políticas de confinamento dos Guarani-Kaiowá
talvez ajude a entender outro problema que atinge esta etnia:
o alto índice de suicídios entre jovens.
O número de suicídios entre estes povos é um é um dado
bastante preocupante. Os resultados obtidos em pesquisa mos-
tram que “ocorreram 410 suicídios nessa nação de 2000 a agos-
to de 2008. As tentativas de suicídio não consumadas, porém,
não foram registradas. A maioria dos suicidas são homens,
65% na faixa etária de 15 a 29 anos, e o método mais frequente
é o enforcamento”. (GRUBITS & FREIRE, 2011: 504)
Na busca dos fatores causais destes índices as autoras
apontam como um dos principais “o processo de confina-
mento compulsório ao qual o grupo vem sendo submetido,
com superpopulação das aldeias, imposição de crenças, va-
lores e lideranças estranhos a sua cultura”. E reforçam:

[...] a proximidade com a sociedade capita-


lista e a delimitação territorial das reservas
implicaram o abandono da vida nômade ou
impediram o deslocamento dos grupos, e,
em consequência, a poluição do meio am-
biente onde estão localizados, provocando
doenças que muitas vezes podem levá-los à
morte. Outra questão relevante é a imposi-
ção de novas religiões, que fazem-nos (sic)
perder seus referenciais, desorganizando-os
social e culturalmente até levá-los a conflitos
e desajustes – em ambas as sociedades – que
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 201
Guarani-Kaiowa no Brasil

os empurram à adoção de vícios como o do


alcoolismo e o da prostituição. Além disso, a
imposição da própria cultura não índia, com
veiculação de costumes alheios aos seus,
quer na maneira de se vestir e de se compor-
tar, quer na própria concepção de trabalho,
com o objetivo de educá-los, levam-nos ao
risco de uma desagregação. (GRUBITS &
FREIRE: 507-508)

Como se vê o desvendamento das determinações en-


volvidas na problemática sócio-espacial em questão passa
necessariamente pela análise do contexto histórico e social
em que ela se encontra, qual seja o da sociedade capitalista
globalizada. Não que as contradições deste tipo de sociedade
só existam neste período histórico de seu desenvolvimento,
mas sim que no atual momento estas contradições se fazem
mais perversas e devastadoras.
É a partir de 1980 com a intensificação do processo de
globalização e os arranjos realizados pelas politicas neoli-
berais que se ampliou o numero de conflitos ligado ao ter-
ritório. Isto porque no processo de Divisão Internacional
do Trabalho em que os espaços nacionais, que a princípio
são constituídos por uma diversidade de territorialidades,
passam a ser regulados e normatizados segundo um único
objetivo: a territorialização do dinheiro global. Este proces-
so altera o conteúdo do território nacional e o fragmenta
como um todo o que promove danos na identidade dos po-
vos. Assim os conflitos que surgem são nada mais do que
movimentos de resistência ao rolo compressor que tem sido
202 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

este processo que desconsidera as múltiplas territorialidades


existentes no território nacional.
As reflexões de Milton Santos são bastante pertinentes
para a compreensão desta realidade.

No mundo da globalização, o espaço geográ-


fico ganha novos contornos, novas caracte-
rísticas, novas definições. E também, uma
nova importância, porque a eficácia das
ações está estreitamente relacionada com
sua localização. Os atores mais poderosos se
reservam os melhores pedaços do território
e deixam o resto para os outros. (SANTOS,
2001, p. 79)

Segundo Santos (2001) nestes melhores pedaços do ter-


ritório o comando de tudo se dá a partir do dinheiro global.
Um dinheiro despótico que se tornou uma abstração, um
equivalente universal e ganhou uma existência autônoma
em relação ao resto da economia tendo em a sua fluidez, sua
invisibilidade. Em reflexões mais rcegnes sobre esta temáti-
ca Santos pontua:

Nunca na história do homem houve um tira-


no tão duro, tão implacável quando esse di-
nheiro global; é esse dinheiro global fluído,
invisível, abstrato, mas também despótico,
que tem um papel na produção da história,
impondo caminhos às nações. (SANTOS,
2007: 17)
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 203
Guarani-Kaiowa no Brasil

Para Santos a tirania do dinheiro global se materializa


na medida em que suas lógicas impõem-se àquelas da vida
socioeconômica e política dos países, forçando mimetismos,
adaptações rendições aos países. Trata-se de um processo de
autonomização do dinheiro global em que este se torna o
principal regedor do território, tanto o território nacional
como suas frações.
É a partir destas reflexões que deve ser compreendida
a questão territorial vivida pelos Guarani-Kaiowá. As ter-
ras mais férteis e com maior ocorrência dos recursos natu-
rais, que eram de propriedade do Guarani-Kaiowá, foram as
“escolhidas” pelo dinheiro global para sua territorialização
ficando para estes povos o confinamento em reservas deli-
mitadas arbitrariamente pelo Estado.
Santos aponta que a lógica do dinheiro global a qual se
transforma em imposição aos territórios ocorre segundo
duas vertentes: “uma é a do dinheiro das empresas que, res-
ponsáveis por um setor da produção, são, também, agentes
financeiros, mobilizados em função da sobrevivência e da
expansão da firma em particular” e a outra se dá a partir da
política dos “governos financeiros globais, Fundo Monetá-
rio Internacional, Banco Mundial, bancos travestidos em re-
gionais como o BID. É por intermédio deles que as finanças
se dão como inteligência geral”. (2001: 100)
Neste processo o Estado tem tido papel relevante, pois
na maioria das vezes a partir de políticas desenvolvimentis-
tas, este negligencia o seu papel social promovendo a regu-
lação e a normatização do território tendo em vista apenas
o interesse dos condutores da globalização. Segundo Santos
(2001) nesse processo o Estado se omite quanto ao interesse
204 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

das populações e se torna a cada dia mais presente ao serviço


da economia dominante. De tal forma o Estado passa a ter
menos recursos para tudo o que é social,
Um dos exemplos deste fato apontado por Milton Santos
se refere à onda de privatizações ocorrida em vários países
capitalistas. Para Santos as privatizações representam uma
das formas mais eficazes que o capital, em parceria com o
Estado, encontrou para territorializar-se. Para este autor “as
privatizações são a mostra de que o capital se tornou devo-
rante, guloso ao extremo, exigindo sempre mais, querendo
tudo”. (idem, ibidem. p. 66).
Assim na medida em que o governo da nação se solida-
riza com os desígnios do dinheiro global levantam-se proble-
mas cruciais para estados e municípios. Isto porque a instala-
ção do capital globalizado supõe que o território se adapte às
suas necessidades e a sua fluidez, o que leva o Estado investir
pesadamente para alterar a geografia das regiões escolhidas.
Sobre esta parceria entre estado e desenvolvimento capi-
talista Castro se manifesta da seguinte forma:

São as intervenções do governo que produ-


zem efeitos duradouros sobre a vantagem
competitiva das nações quando direcionadas
para melhorar a competitividade sistêmica,
na medida em que criam um ambiente mais
favorável para a operação das empresas: me-
lhoria na infra-estrutura social e econômica,
qualificação dos recursos humanos, sistemas
de financiamento e tributário, estabilidade
politica. Portanto, embora o capital esteja li-
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 205
Guarani-Kaiowa no Brasil

vre para voar, é o estado que fornece as con-


dições para o seu pouso. Revalorizando o ter-
ritório para manter antigos investimentos ou
para atrair novos. (CASTRO, 2010: 238)

Este processo, de acordo com Santos (2001) leva a uma


fragmentação generalizada do território nacional e a uma
perda de sua identidade uma vez que o movimento geral da
sociedade planetária se choca com o movimento particu-
lar de cada fração, regional ou local da sociedade nacional.
Cada fragmento do território nacional, de forma brusca e,
também, rapidamente perde uma parcela maior ou menor
de sua identidade, em favor de formas de regulação estra-
nhas ao sentido da vida.

[...] a presença das empresas globais no ter-


ritório é um fator de desorganização, de de-
sagregação, já que elas impõem cegamente
uma multidão de nexos que são do interes-
se próprio e, quanto ao resto do ambiente-e
nexos que refletem as sua necessidades in-
dividualistas, particularistas. (...) A finança
tornada internacional como norma contaria
as estruturas vigentes e impõe outras. (SAN-
TOS, 2007: 20-21)

Esta fragmentação dos territórios expropria as coletivi-


dades do comando dos seus destinos, enquanto os novos
atores também não dispõem de instrumentos de regulação
que interessam à sociedade em seu conjunto. O interesse
206 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

destes está unicamente em firmar parceria com o Estado


para que surjam normas de regulação que resultem em um
arranjo do territorial nacional favorável aos seus interes-
ses. Afinal “é Estado Nacional que, afinal regula o mundo
financeiro e constrói infra-estrutura, atribuindo, assim, a
grandes empresas escolhidas a condição de sua viabilidade”
(SANTOS, 2001: 77)
Neste processo a territorialidade do que é coletivo se vê
subjugada aos interesses do dinheiro global, uma vez que
o Estado, contraditoriamente ao seu papel, se coloca à dis-
posição e em função deste que por intermédio da ação das
empresas globais que se instalam nos lugares, imponde-lhes
comportamentos compatíveis com seus interesses.
Nesse sentido, cada empresa

[...] utiliza o território em função dos seus fins


próprios e exclusivamente em função desses
fins. As empresas apenas têm olhos para os
seus próprios objetivos e são cegas para tudo
o mais. Desse modo, quando mais racionais
forem as regras de sua ação individual tanto
menos tais regras serão respeitosas do entor-
no econômico, social, político, cultural, mo-
ral ou geográfico, funcionando, as mais das
vezes, como um elemento de perturbação
e mesmo de desordem. Neste movimento,
tudo o que existia anteriormente à instalação
dessas empresas hegemônicas é convidado
a adaptar-se às suas formas de ser e de agir,
mesmo que provoque, no entorno preexisten-
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 207
Guarani-Kaiowa no Brasil

te, grandes distorções, inclusive a quebra da


solidariedade social. (SANTOS, 2001: 85)

Estas ações, segundo o autor, produz uma verdadeira


alienação do território à qual corresponde a outras formas
de alienação na medida em que os fragmentos resultantes
do processo articulam-se externamente segundo “lógicas
duplamente estranhas: por sua sede distante, longínqua
quanto ao espaço da ação, e pela sua inconformidade com
o sentido preexistente da vida na área em que se instala”
(SANTOS, 2001: 86-87).
Para exemplificar processo de fragmentação em um ter-
ritório. Santos lança mão do exemplo da agricultura moder-
na, a qual ele dá o nome de agricultura científica globaliza-
da. Esta tem se instalado nos países avançados e nas áreas
mais desenvolvidas de países como o Brasil. Segundo ele este
tipo de agricultura é responsável por mudanças profundas
quanto à produção agrícola e quanto à vida de relações. Isto
porque a produção agrícola passa a ter uma referência pla-
netária e, por isso, ela recebe as mesmas leis que regem os
outros aspectos da produção econômica. Nas áreas onde a
agricultura científica globalizada se instala

Verifica-se uma importante demanda de


bens científicos (sementes, inseticidas, ferti-
lizantes, corretivos) e, também, de assistência
técnica. Os produtos são escolhidos segundo
uma base mercantil, o que também implica
uma estrita obediência aos mandamentos
científicos e técnicos, São essas condições que
208 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

regem os processos de plantação, colheita ar-


mazenamento, empacotamento, transportes e
comercialização, levando a introdução, apro-
fundamento e difusão de processos de ra-
cionalização que se contagiam mutuamente,
propondo a instalação de sistemismos. Que
atravessam o território e a sociedade levan-
do, com as racionalização das práticas, a uma
certa homogeneização (SANTOS, 2001: 89).

Estas ponderações de Santos são bastante pertinentes


para a análise da realidade vivida pelos Guarani-Kaoiwá no
Estado do Mato Grosso do Sul. O que se verifica é que o ter-
ritório destes povos tem sido historicamente usurpado pela
territorialização deste tipo de agricultura – popularmente
conhecida com agronegócio – em que uma agricultura de
subsistência carregada de simbolismos identitários da cultu-
ra indígena foi substituída pela agricultura comercial sinto-
nizada com a demanda global.
Quando se analisa o tipo de cultura que vem se desen-
volvendo nas áreas onde antes existiam as aldeias dos Gua-
rani-Kaiowá as quais hoje estão sendo reivindicadas por
estes, constata-se que entre estas estão duas das principais
culturas da pauta de exportação brasileira, qual seja a soja e
a cana-de-açúcar.
Isto fica claro nas palavras do Antropólogo Antônio
Brand em entrevista à Revista IHU On-Line:

[...] o assédio às terras ocupadas por povos


indígenas sempre foi enorme. Terras rema-
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 209
Guarani-Kaiowa no Brasil

nescentes e ricas foram alvo de mineradoras,


depois de fazendeiros para a expansão do
agronegócio – soja, arroz, cana-de-açúcar,
eucalipto – e da pecuária. Por fim, também
de obras de infra-estrutura – como estradas
ou hidrovias – e de produção de etanol, com
enormes impactos ambientais e sociais. Não
raro essa dinâmica exploratória contam (sic)
com recursos públicos provenientes do Plano
de Aceleração do Crescimento (PAC) 5.6

Neste contexto a instalação de uma agricultura científica


globalizada em lugares cujos valores econômicos e culturais
são específicos e tradicionais o que se tem é uma desagrega-
ção sócio econômica do lugar em todas as suas dimensões.
É o que tem ocorrido com a comunidade Guarani-Kaiowá
e com outras populações indígenas, camponesas e quilom-
bolas. Para estes povos a terra não é vista como uma merca-
doria ou um bem para negócio, mas como a origem da vida,
depositária dos ancestrais, raiz da constituição das tribos e

5 PAC – Plano de Aceleração do Crescimento: é um plano lançado pelo


governo Lula em 2007 que objetiva estimular o crescimento da economia
brasileira, através do investimento em obras de infraestrutura (portos,
rodovias, aeroportos, redes de esgoto, geração de energia, hidrovias,
ferrovias, etc). O capital utilizado no PAC é originário de recursos da
União, de capitais de investimentos de empresas estatais e investimen-
tos privados com estímulos de investimentos públicos e parcerias.
6 Disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option
=com_content&view=article&id=3249&secao=331. Acesso em
30/01/2013
210 |  mérica latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios
A
Guarani-Kaiowa no Brasil

suas tradições. Obviamente, uma visão absolutamente opos-


ta à lógica do capitalismo e da propriedade privada.
Neste sentido a reflexão sobre a problemática vivenciada
pelos Guarani-Kaiowá remete a pensar sobre o projeto de
desenvolvimento econômico que vem sendo adotado histori-
camente pelo Estado brasileiro e sobre o seu posicionamento
diante dos postulados ideológicos da finança internacional e
os interesses concretos das sociedades nacionais.
As reflexões impressas neste texto buscaram chamar a
atenção para o grave problema vivido pela comunidade Gua-
rani-Kaiowá no Brasil e também para desnudar a participa-
ção do Estado brasileiro neste caso. Este historicamente tem
se posicionado claramente como aliado do dinheiro global à
medida que tem garantido oficialmente o uso do território
nacional pela agricultura cientifica e globalizada e também
negligenciado o seu papel de defensor do bem estar social.
Que estas reflexões possam contribuir para engrossar o
debate sobre a urgência de construção de um Estado com-
prometido com um projeto nacional.

Referências
BRAND. Antônio. Os complexos caminhos da luta pela terra entre os
Kaiowá e Guarani no MS. Tellus. Ano 4, n. 6, p. 137-150, abr. 2004.
CASTRO. Iná. E. Geografia e Política: Território, escalas de ação e ins-
tituições. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.
COLMAN. Rosa Maria S.; BRAND. Antônio Considerações sobre Ter-
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dez. 2008.
 América latina, globalização e espaços de resistência: o caso dos índios | 211
Guarani-Kaiowa no Brasil

GRUBITS, Sonia; FREIRE, Heloisa Bruna Grubits and NORIEGA, José


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Capítulo 10

Capitalismo: da instabilidade crônica


à fragilidade estrutural sistêmica
Newton Ferreira da Silva1

I nstabilidade1 e imprevisibilidade são características ima-


nentes ao sistema capitalista desde o seu advento e conso-
lidação. Não obstante, tais qualidades nunca antes na his-
tória desse modo de produção se deslindaram de maneira
tão intensa e extensa concomitantemente como nos últimos
40 anos – a tal ponto de, segundo François Chesnais, estar-
mos vivendo atualmente uma situação de aguda fragilidade
sistêmica determinada, mormente, por um novo regime de
acumulação dentro do capitalismo. A acumulação capitalis-
ta, hoje guiada e comandada pelos interesses da esfera fi-
nanceira vinculados, basicamente, apenas à remuneração do
capital portador de juros no prazo mais curto possível, criou
uma conjuntura econômica onde a outrora anarquia desse
modo de produção manifesta-se com uma profundidade que
tornam cada vez mais débeis as estruturas sobre as quais se
assentam a valorização do capital em nossa sociedade.

1 Aluno do curso de doutorado em Ciências Sociais da UNESP/Marília e


bolsista CAPES.
214 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Ao partir da lógica da propriedade privada dos meios


de produção para garantir a sua reprodução social, os seres
humanos engendraram a criação de um sistema econômi-
co em que as decisões referentes a tão importante matéria
passaram a ser da alçada de alguns poucos investidores pro-
prietários de capital interessados na sua valorização. Atada
às idiossincrasias e individualidades desses diversos capita-
listas que compõem o famigerado mercado, a realidade so-
cial que se pôde engendrar daí proveniente sempre possuiu
a imprevisibilidade e a instabilidade entre seus traços mais
marcantes. A despeito das motivações e estudos racionais
que tentavam achar a melhor maneira de valorizar o capital
acumulado, era a partir da iniciativa especulativa e intimista
do ímpar empresário que se descortinava a complexa teia
das relações de produção que conformaram as distintas so-
ciedades de cada período da história burguesa.
Desse modo, o sistema capitalista é, de fato e desde o
seu advento, o sistema da variabilidade, da inconstância e da
volubilidade. A anarquia da produção, marca indelével desse
sistema, sintetiza uma organização social que busca apenas
a valorização e a acumulação de capital independentemente
das necessidades e dos anseios dos diversos membros que
fazem parte dela. A reprodução social dos indivíduos se dá
mediante uma atividade produtiva de cunho social e aliena-
do somada a uma apropriação privada dos valores criados,
que é possibilitada, justamente, pela propriedade particular
dos meios de produção que possibilitam a execução daque-
la atividade produtiva. A configuração de um sistema so-
cial e econômico alicerçado nesse primeiro, único e último
objetivo da produção (a acumulação de montantes cada vez
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 215

maiores de capital), que é propiciado pela autonomia decisó-


ria e pela liberdade do proprietário capitalista, determina a
ascensão de uma realidade em que crises de superprodução
/ subconsumo acontecem com uma frequência regular e ca-
racterística de um ciclo econômico marcado pelas fases de
prosperidade, estagnação, recessão, depressão e retomada.
O regime de acumulação acima mencionado dominava o
modo de produção capitalista até meados da década de 1980,
quando o sistema financeiro – apesar de já mundializado
e hipertrofiado – ainda não havia conseguido colocar-se à
frente da reprodução ampliada do capital. Embora oblitera-
do e sofrendo a concorrência das cada vez mais poderosas
finanças, o capital industrial, responsável, em grande me-
dida, pela valorização real e objetiva do valor, continuava
ordenando os movimentos do capital em sua incessante e
infindável busca por acumulação. Chesnais, em artigo de
1995, apontava nessa direção, mas já indicava igualmente o
advento de um novo regime mundial de acumulação – que,
num futuro próximo, consolidaria a posição de comando da
esfera financeira na economia mundial. Afirmou Chesnais
que as prioridades desse incipiente regime mundial de acu-
mulação eram determinadas pelo “capital privado altamen-
te concentrado – do capital aplicado na produção de bens e
serviços, mas também, de forma crescente, do capital finan-
ceiro centralizado, mantendo-se sob a forma de dinheiro e
obtendo rendimento como tal.” (1995, p. 1)
Em texto posterior, o economista francês reconheceria
que naqueles últimos anos do século XX o capital financei-
ro já havia alcançado o status de dinamizador e definidor
maior das diretrizes econômicas que seriam colocadas em
216 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

prática para garantir a valorização (mesmo que fictícia) do


capital. Ao dominar a movimentação do capital em sua tota-
lidade, as finanças, graças à imposição de seu novo modo de
acumulação global, transformaram a qualidade do caráter
instável e imprevisível típico do sistema capitalista ao tor-
nar interdependentes um número cada vez maior de agentes
econômicos num novo e muito mais alto patamar de mon-
tante de recursos e de sua respectiva mobilidade. A instabili-
dade crônica e imanente do capitalismo tornou-se hoje, gra-
ças à nova dimensão e complexidade do sistema financeiro,
a fragilidade que passou a ser parte estruturante do modo de
produção capitalista. A respeito desse fato, Chesnais (1999b,
p. 282) sentenciou:

Devido à densidade e à complexidade das


cadeias de dívidas e créditos, assim como ao
enredo dos ativos e passivos dos bancos e das
instituições financeiras, a falência de uma ins-
tituição financeira importante é um passo que
pode (diferente da falência de uma empresa,
mesmo importante do setor industrial), ar-
rastar consigo o edifício inteiro, destruir uma
grande parte do setor financeiro como tal.

Tamanha fragilidade se evidencia e se propaga, mutatis


mutandis, por todas as esferas de reprodução social do capi-
tal, atingindo desde o grande investidor e os operadores das
bolsas ao redor do mundo até o trabalhador informal e o de-
sempregado. Estes últimos, na maior parte das vezes, tendo
que arcar com os prejuízos eventualmente sofridos nas crises
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 217

por aqueles que veem a economia como um grande cassino


para especulação e apostas que objetivam tão-somente a va-
lorização parasitária e fictícia do capital que nominalmente
possuem. O fato de grande parte dos ativos financeiros es-
tarem representando um capital fictício (isto é, que se valo-
rizou de maneira fictícia, sem a contrapartida na chamada
economia real) leva a resolução desse tipo de crise a um outro
nível, muito mais profundo em sua complexidade.

No caso da “recessão financeira”, os fatos


ocorrem de forma muito menos fácil. Porque
é exposta subitamente a supervalorização
grosseira (que pode muitas vezes ser também
fraudulenta) de ativos financeiros que têm,
independentemente da própria sobreavalia-
ção, a característica de serem frequentemente
ativos financeiros representativos de um capi-
tal fictício. Nesse caso, o processo de financia-
mento é infinitamente mais complexo, devido
a um conjunto de razões políticas, sociais e
econômicas (CHESNAIS, 1999b, p. 281).

A hipertrofia das finanças, evidenciada pelo salto da re-


lação entre riqueza financeira e PIB de 1,2 em 1980 para
4,0 em 2007 e pela multiplicação em 14 vezes do valor dos
ativos financeiros mundiais entre 1980 e 2006 (enquanto o
PIB cresceu apenas 5 vezes no mesmo intervalo), foi a base
para o estabelecimento da nova e frágil estrutura de acumu-
lação capitalista reinante nos últimos anos. Nesse contexto,
o capitalismo passou a ser gerido e organizado a partir das
218 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

premissas e das sempre prementes necessidades do setor fi-


nanceiro. Na linha de frente da acumulação de capital, as
finanças passaram a determinar diretamente uma série de
transformações à esfera industrial da reprodução e valori-
zação capitalistas.
Às finanças, atualmente, não é mais desejado o investi-
mento “imobilizado”, que não tenha grande flexibilidade e
alta mobilidade, pois, cada vez mais, a lógica da rentabilida-
de no curtíssimo prazo enseja um panorama onde se deve
incorrer nos menores “custos de oportunidade” possíveis –
não se pode perder nenhum grande negócio, principalmen-
te se este for mais lucrativo e rentável do que os agentes do
mercado possuem em sua carteira naquele instante. A esse
respeito Chesnais asseverou:

Efetivamente, a esfera financeira representa


a ponta-de-lança do movimento de mundia-
lização da economia; é nessa esfera que as
operações do capital envolvem os montantes
mais elevados; é aí que sua mobilidade é
maior... (1999a, p. 11, itálicos meus).

Ainda:

(...) as instituições lidam com massas finan-


ceiras gigantescas, procurando se valorizar-
por meio de formas e critérios puramente
financeiros. Essas massas buscam maior ren-
tabilidade e, também, máxima mobilidade e
flexibilidade, sem ter nenhumaobrigação a
não ser crescer/valorizar-se (1995, p. 19).
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 219

A dimensão alcançada por essa complexa massa finan-


ceira e sua parcial autonomização social jamais significou
um descolamento das finanças da economia real, ou seja,
da economia onde se produz, inequivocamente, os bens e
serviços portadores de valor intrínseco. Na verdade, e em
proporções cada vez maiores, a ingerência e a influência do
capital financeiro sobre o capital que produz valor torna-
-se uma realidade inescapável. É cada vez mais óbvio o fato
de que através das punções feitas diretamente da mais-valia
criada no setor industrial, da apropriação da renda dos tra-
balhadores mediante recebimento de dividendos oriundos
de títulos da dívida pública ou então das crises que se for-
mam nas bolsas e mercados financeiros de todo o mundo
e se alastram para os setores produtivos, a hegemonia das
finanças hoje se tornou completa e irrestrita. Chesnais e
Paulani assim sentenciaram:

A esfera financeira e a esfera produtiva não


são dois mundos separados. Sua interdepen-
dência é total, quer se trate dos mecanismos
de transferência de riqueza e de recursos em
proveito da primeira, quer dos elementos
de instabilidade endêmica própria da valo-
rização de volumes gigantescos de capital...
(CHESNAIS, 1995, p. 20).
Nesse capitalismo dominado pela riqueza fi-
nanceira, é sua lógica que tange o processo
de criação de renda real. Assim muitas das
transformações pelas quais vem passando
a esfera produtiva, seja no que diz respeito
220 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

às relações entre trabalho e capital (flexibi-


lização, precarização, perda de direitos do
trabalho etc.), seja no que concerne ao pro-
cesso produtivo propriamente dito (toyotiza-
ção, costumeirização, just in time etc.), seja
ainda em termos de organização dos setores
(centralização de capitais, deslocalizações
produtivas etc.) foram respostas aos impe-
rativos ditados pela lógica financeira à qual
a produção da riqueza real deve responder
(PAULANI, 2011, p. 67).

A explosão no tamanho e das possibilidades de negócios


iniciados e descortinados na esfera financeira juntamente
à instabilidade sistêmica propiciou a criação de artifícios
(inovações financeiras) que tinham o objetivo de proteger
o patrimônio dos investidores e garantir a sua posição. No
entanto, o aumento do número de derivativos financeiros
daí resultante proporcionou, irônica e tragicamente, um
aumento ainda maior da vulnerabilidade do sistema onde
os diversos operadores financeiros realizam a valorização
(quase sempre fictícia) dos papéis que têm em mãos.
A fragilidade sistêmica agora avultada daí decorrente
reforça o poder do chamado “mercado” – que nada mais
é do que a representação simbólica e, por que não, místi-
ca – de um grupo de investidores que buscam obter rendi-
mentos que ampliem, mesmo que apenas nominalmente, o
capital que possuem (em forma de dinheiro ou de títulos
das mais variadas espécies). Isto posto, toda a economia
mundial deve se ordenar subjugada às decisões e humores
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 221

dessa instituição internacionalizada. O futuro do sistema


econômico e o respectivo desdobramento do que nele ocor-
re nas demais esferas sociais passam a ser determinados por
alguns administradores de fundos de investimento que têm
objetivos totalmente particulares e alheios às questões de
talhe coletivo e mundial – o que não impede esses agentes
de orquestrarem, mesmo que de maneira anárquica e não
linear, o funcionamento da economia em todo o globo. A
ausência de instituições supranacionais que poderiam ten-
tar regular e controlar a movimentação desses capitais aju-
da a consolidar esse domínio financeiro ao deixar a econo-
mia mundial aberta para a ação de especuladores em busca
de imediata valorização da sua carteira.

(...) esse todo “mundializado” é marcado por


uma carência de instâncias de supervisão e
controle (...) o efetivo contexto dessa integra-
ção decorre, de forma concreta, das decisões
tomadas e das operações efetuadas pelos ges-
tores das carteiras mais importantes e mais in-
ternacionalizadas. Não é irrelevante a “perso-
nificação” (antropomorfismo) dos mercados.
(...) são os operadores que delimitam os traços
da mundialização financeira e que decidem
quais os agentes econômicos, de quais países
e para quais tipos de transação, que participa-
rão desta (CHESNAIS, 1999a, p. 12-13).

Vivemos hoje uma realidade comandada pelos proprie-


tários do capital vinculado às finanças, todo-poderosos
222 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

sem responsabilidade e cujas sensações, aspirações e abs-


trações desenham a estratégia do capitalismo global. An-
corado nos seus comportamentos imprevisíveis – e muitas
vezes irracionais e ilógicos – o sistema econômico passa
a ter um funcionamento esquizofrênico e irregular (o que
explica o porquê da não adequação da teoria dos ciclos
econômicos a esse novo regime de acumulação capitalis-
ta). Dado o volume de recursos envolvidos nas negociatas,
a completa desregulamentação e liberalização financeiras
e a velocidade de movimentação do capital possibilitada
em grande medida pelo avanço tecnológico concernente às
telecomunicações, chega-se a uma situação de imperma-
nência e intermitência sociais solidificadas numa errante e
débil estrutura econômica.
Assim como quando dependia da autonomia dos pro-
prietários de capital, porém em dimensões sem precedentes,
toda a sociedade é, atualmente, refém da subjetividade de mi-
lhares de especuladores e suas abstrações. O seu nervosismo,
ansiedade e mimetismo, que refletem a sua sabida condição
de portador de capitais de valorização fictícia, espalham-se
por todo o tecido social de maneira direta e indireta. Essa
postura dos agentes explica o modo como as crises financei-
ras se disseminam rapidamente por todas as bolsas de valores
do planeta. Sobre os receios do mercado e seus mecanismos
de defesa / espraiamento das crises, Chesnais afirmou:

As quedas mais ou menos espetaculares das


cotações, que acontecem em todos os merca-
dos acionários mundiais, cada vez que Wall
Street se enfraquece ou estremece, não refle-
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 223

tem tanto uma interligação direta das praças,


e sim, mais, o mimetismo das reações dos
investidores. Esse contágio de uma praça
financeira a outra expressa a resposta extre-
mamente nervosa dos detentores de títulos,
pois são bem conhecidos, quando não o seu
caráter fictício, pelo menos os níveis total-
mente irreais de capitalização, anunciando
crashes de maior ou menor gravidade (1999a,
p. 29-30).

O advento e a consolidação dessa situação privilegiada


dos credores consubstanciou, ao nosso ver, essa dinâmica
social e econômica amplamente fragilizada em todos os
seus setores. A anarquia da produção, subsumida nas in-
tempéries sistemáticas do capital financeiro, definitiva-
mente agravou-se fazendo a vulnerabilidade do sistema
capitalista chegar a magnitudes nunca antes observadas na
história desse modo de produção.

Referências
CHESNAIS, F. A globalização e o curso do capitalismo de fim de sé-
culo. In: Economia e Sociedade. Revista do Instituto de Economia da
Unicamp. nº 5, dez 1995.
CHESNAIS, F. (org.) A Mundialização Financeira – gênese, custos e ris-
cos. São Paulo: Xamã, 1999a. Prefácio e Introdução Geral.
CHESNAIS, F. Mundialização Financeira e Vulnerabilidade sistêmica.
In: CHESNAIS, F. (org.) A Mundialização Financeira – gênese, custos e
riscos. São Paulo: Xamã, 1999b.
224 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

PAULANI, L. A Autonomização das Formas Verdadeiramente Sociais


na Teoria de Marx: Comentários sobre o Dinheiro no Capitalismo Con-
temporâneo. Revista Economia. Janeiro/Abril 2011.
Capítulo 11

Crise Econômica, Fluxos Migratórios


Internacionais, Governabilidade e Educação:
Uma Análise a partir de Documentos
e Organismos Internacionais
Cláudio Rodrigues da Silva1

Introdução1

E ste texto é resultado do recorte da parte específica sobre


possíveis implicações entre políticas internacionais de
educação com os fluxos migratórios internacionais e decor-
re de trabalho de conclusão de curso (SILVA, 2011).
O estudo teve como objetivo geral verificar o significa-
do do conceito de gestão democrática na escola, bem como
possíveis implicações para além do âmbito escolar propria-
mente dito, em especial seu vínculo com a democracia re-
presentativa e a governabilidade.
Como objetivos específicos, compreender as relações e
o desenvolvimento do conceito de gestão democrática cons-
tante nos documentos e diretrizes de agências internacionais,
em especial do Banco Mundial2, bem como ambiguidades,

1 Aluno do Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de


Filosofia e Ciências – UNESP/Marília.
2 Doravante apresentado também como BM ou Banco.
226 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

contradições e possíveis implicações, favoráveis ou contrárias


aos interesses das classes populares. Ainda entre os objetivos
específicos está a análise do modelo de organização e gestão
da escola enquanto currículo oculto3, da gestão democrática,
da democracia representativa e da educação.
Trata-se de estudo documental e bibliográfico, sendo en-
tendidos por documentos os materiais em sua íntegra e sem
interpretações e, por bibliografia, textos escritos a partir de
documentos, inclusive (SALOMON, 1999).
Foram analisados alguns documentos do Banco Mundial
(1986; 1995; 1996), o Relatório4 para a UNESCO da Comis-
são Internacional sobre Educação para o século XXI5 (CO-
MISSÃO, 1998), também conhecido como Relatório Delors
ou pelo título sob o qual foi publicado, com a chancela do
Ministério da Educação, no Brasil, qual seja, Educação um
tesouro a descobrir, e o Relatório da CIA: como será o mundo
em 2020 (CIA, 2006), com vistas a estabelecer relações en-
tre esses documentos, identificar os pontos de confluência
e tentar entender se e como a gestão democrática, enquanto
currículo oculto, na escola estatal pública, pode ou não se
adequar a essa política de participação popular e quais as
possíveis implicações com a questão da governabilidade.

3 Por currículo oculto são entendidos os elementos educativos presentes


nas relações sociais de organizações, cujos objetivos e desdobramentos
não necessariamente são objetos de reflexão intencional e consciente
pelos que as vivenciam (DAL RI; VIEITEZ, 2008).
4 Apresentado neste texto como Relatório.
5 Citada neste texto como Comissão.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 227

Pressupostos, contexto e difusão


das propostas da Comissão e do
Banco Mundial
As propostas de reformas educacionais do Banco, na
década de 1990 principalmente, ocorrem em um momen-
to de alterações no sistema produtivo, o que, por sua vez,
tem implicações com a divisão internacional da produ-
ção e, por conseguinte, com o mercado de trabalho. Essas
mudanças são imbricadas com questões relacionadas aos
sistemas de governo, portanto, com a governança e com
a governabilidade.
Segundo o BM, “Durante el decenio de 1980 se produje-
ron grandes cambios en los mercados de trabajo, comezando
por la invención de la tendencia a la disminución de las re-
compensas a la educación superior que existía en el decenio
de 1970 en las economías de mercado avanzadas.” (BANCO
MUNDIAL, 1996, p. 27), o que, para o Banco, justifica a mu-
dança do nível prioritário de educação.
As diversas reformas educacionais decorrem especial-
mente de mudanças ocorridas no sistema produtivo, que
passou a exigir outro perfil da força de trabalho, uma vez
que “La menor demanda de destreza manual, fuerza física
y capacidad técnica tradicional por parte de los empleado-
res ha provocado un aumento de la demanda de trabajado-
res con educación [...]” (BANCO MUNDIAL, 1996, p. 28),
e “Las tareas relacionadas con el trabajo se están haciendo
más abstractas y más distanciadas de los procesos físicos de
la producción, que requieren cada vez menos participación
manual.” (BANCO MUNDIAL, 1996, p. 27). Assim,
228 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

La educación es crucial para el crecimiento


económico y la reducción de la pobreza. La
evolución de las tecnologías y las reformas
económicas están provocando cambios ex-
traordinarios en la estructura de las econo-
mías, las industrias y los mercados de trabajo
de todo el mundo. [...] Esas circunstancias
han determinado dos prioridades fundamen-
tales para la educación: éste debe atender a la
creciente demanda por parte de las economí-
as de trabajadores adaptables capaces de ad-
quirir sin dificuldad nuevos conocimientos y
debe contribuir a la constante expansión del
saber. (BANCO MUNDIAL, 1996, p. 1)

A função dos sistemas educativos neste contexto, se-


gundo o BM, é a formação de força de trabalho adaptável,
o que pode ter sérios desdobramentos para a sociabilidade.
Isso acarreta alterações significativas inclusive sobre o pro-
cesso de escolarização, em todos os níveis, já que a forma-
ção pragmática, voltada exclusivamente para o mercado de
trabalho, faz com que os conhecimentos ou informações te-
nham obsolescência programada, assim como as tecnologias
e mercadorias, o que resulta, numa versão mercantilista, no
aprendizado para a vida toda.

Estos cambios tienen dos consecuencias im-


portantes para los sistemas de educación. En
primer lugar, la educación debe estar conce-
bida para satisfacer la creciente demanda de
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 229

trabajadores adaptables, capaces de adquirir


fácilmente nuevos conocimientos, en lugar de
trabajadores con un conjunto fijo de conoci-
mientos técnicos que utilizan durante toda su
vida activa. (BANCO MUNDIAL, 1996, p. 27)

Para a Comissão (1998, p. 101), “A educação ao longo de


toda a vida baseia-se em quatro pilares: aprender conhecer,
aprender fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser.”. Esses
pilares perpassam práticas e discursos de expressiva parcela
da docência e, atualmente, em decorrência de contribuições
teóricas de outros autores, já foram acrescidos de outros.
Com “aprender a conhecer”, pretende-se, entre outros,
“[…] que cada um aprenda a compreender o mundo que o
rodeia, pelo menos na medida em que isso lhe é necessário
para viver dignamente, para desenvolver as suas capacidades
profissionais, para comunicar.” (COMISSÃO, 1998, p. 91).
É fundamental questionar esse compreender proposto
pela Comissão, uma vez que a compreensão pode ser tanto
com o objetivo de intervenção e mudança da realidade so-
cial, quanto de compreensão pela compreensão em si mes-
ma, isto é, no sentido de aceitação e resignação diante dos fa-
tos, independentemente de suas causas ou consequências. Se
existe alguém que explora e alguém que é explorado, alguém
que oprime e alguém que é oprimido, deve-se compreender
e aceitar a situação? Isso parece estar subjacente à proposta
da Comissão. Entretanto, como ressalta Cardoso (2000), to-
lerância tem seus limites.
Trata-se de uma espécie de cultura da paz, muito em
voga na atualidade, nas campanhas promovidas por orga-
230 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

nizações governamentais ou não governamentais, inclusive


nas escolas, cultura essa que aponta mais para uma espécie
de pax romana, uma paz decorrente da aceitação ou resigna-
ção das condições impostas.
Quanto ao “aprender a fazer”, “Aprender a conhecer e
aprender a fazer são, em larga medida, indissociáveis. Mas a
segunda aprendizagem está mais estreitamente ligada à ques-
tão da formação profissional [...].” (COMISSÃO, 1998, p. 93).
Esse pilar talvez tenha imbricações com a predominân-
cia da prática em detrimento da teoria, bem como do des-
prezo pelo estudo dos fundamentos teóricos, em especial na
formação de professores, como se a prática por si só fosse
suficiente e se a prática, de uma ou outra forma, não impli-
casse ou então estivesse totalmente isenta de qualquer teoria.
Há que se considerar que, em última instância, pode es-
tar escamoteado nesse aprender a fazer, a apologia e a le-
gitimação da divisão social hierárquica vertical do traba-
lho, onde uma minoria concebe (pensa/manda), e a grande
maioria executa (não pensa/obedece).
O “aprender a viver juntos” ou “aprender a viver com os
outros”, decorre do fato de que “Existe uma questão em co-
mum aos países desenvolvidos e em desenvolvimento: como
aprender a comportar-se, eficazmente, numa situação de
incerteza, como participar da criação do futuro?” (COMIS-
SÃO, 1998, p. 96).
Novamente dá margem a questionamentos sobre a fina-
lidade dessa compreensão proposta pela Comissão. A fina-
lidade parece ser compreender para aprender a viver juntos,
a conviver, porém, sem questionar as relações vigentes. Ou
seja, a compreensão pela compreensão. Compreende-se, por
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 231

exemplo, que há alguém que oprime, que há alguns que são


oprimidos e se aceita essa relação, sem questionamentos?
Em outras palavras, “Aprender a viver juntos desenvol-
vendo a compreensão do outro e a percepção das interde-
pendências – realizar projetos comuns e preparar-se para
gerir conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da
compreensão mútua e da paz.” (COMISSÃO, 1998, p. 102).
Segundo a Comissão (1998, p. 96), “Sem dúvida, esta
aprendizagem representa, hoje em dia, um dos maiores de-
safios da educação.”. Por outro lado, identificar implicações
teórico-práticas subjacentes a essas propostas e estabelecer
relações entre políticas macroeconômicas e as instâncias
meso e micro talvez represente – ou seja – um dos maiores
desafios para profissionais da educação que tenham em tela
mudanças do modelo de sociabilidade.
Em relação ao “aprender a ser”, segundo a Comissão
(1998, p. 102), não se pode “[...] negligenciar na educação
nenhuma das potencialidades de cada indivíduo: memória,
raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para
comunicar-se.” Isso remete à questão do currículo oculto,
que não se restringe ao plano consciente e conceitual, mas,
principalmente ao âmbito atitudinal.

Oferta e demanda de força


de trabalho e migrações
internacionais
As reestruturações no sistema produtivo e seus desdo-
bramentos, em especial a divisão internacional da produção
e as mudanças no mercado de trabalho, que demanda um
232 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

novo perfil de força de trabalho, bem como nos regimes po-


líticos/sistemas de governos, concomitantes às significativas
alterações demográficas em curso, especialmente nos países
centrais europeus, que integram o denominado Grupo dos
Oito (G-8), requerem medidas em relação às migrações, se-
jam estas legais ou não, haja vista a tendência de crescimento
dos fluxos migratórios de pessoas de diferentes nacionalida-
des, em especial dos países periféricos para os países centrais,
seja, em tese, por iniciativa própria, isto é, em busca de con-
dições menos precárias de vida ou sobrevivência – guerras,
questões ambientais, econômicas, entre outras –, seja por
necessidade ou conveniência das corporações transnacionais
ou dos países centrais.

Las enormes transformaciones producidas


recientemente en los mercados de trabajo por
las reformas económicas, la integración de la
economía mundial, los avances tecnológicos
(especialmente en la tecnología de la infor-
mación) y las migraciones tienen importan-
tes consecuencias para la educación. (BAN-
CO MUNDIAL, 1996, p. 27)

Existe uma preocupação enfática do Banco em relação


aos fluxos migratórios. Há diversas causas para as migra-
ções, porém, na maioria das vezes, decorrência da busca de
melhores condições de vida ou mesmo de sobrevivência, ou
seja, são fluxos migratórios, a rigor, não espontâneos.
As migrações decorrentes de guerras e conflitos políti-
cos ou religiosos têm aumentado significativamente e inco-
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 233

modado governos de alguns países (BANCO MUNDIAL,


1996, p. 133), em especial os dos países centrais, já que “Cada
vez mais, os migrantes são originários de países pobres [...]”
(COMISSÃO, 1998, p. 42).
Vale ressaltar que os fluxos migratórios que vêm ocor-
rendo no mundo podem ser considerados “[...] um autêntico
êxodo dos países do Sul para o Norte, ou dos países pobres
para a Europa, considerada por alguns como a terra prome-
tida, graças às imagens que transmitem os meios de comu-
nicação social.” (PEREZ SERRANO, 2002, p. 21). Ou seja,
seria a própria propaganda ideológica surtindo efeitos, para
além e inversamente aos intencionados.
Segundo a Comissão (1998, p. 42), “Assistiu-se, então,
a um claro aumento da mobilidade da mão-de-obra, apesar
da importância assumida pelo Estado-Nação, acompanha-
da por um reforço das medidas de controle das migrações.”
Cada vez mais, os fluxos migratórios têm origem nos países
periféricos, com destino aos países centrais. Além disso, au-
menta o número de refugiados de conflitos regionais (CO-
MISSÃO, 1998, p. 42).
Se, por um lado, fluxos migratórios são necessários e,
em certa medida, convenientes para os países centrais, por
outro lado, existem riscos de tensões sociais e conflitos das
mais variadas ordens, em especial étnicos e religiosos, se-
gundo o Banco (1996) e a Comissão (1998), que podem le-
var a conflitos entre populações nacionais e as migrantes e
consequentes atitudes xenófobas de uma ou ambas as partes.
A Europa, principalmente, tem sido palco emblemático de
conflitos políticos, sociais e econômicos – com ampla reper-
cussão em diferentes veículos de comunicação – envolvendo
234 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

migrantes (do próprio continente europeu ou não) ou des-


cendentes desses.
As configurações demográficas dos países centrais, em
especial os da Europa, cujas populações estão envelhecendo
e reduzindo, aliadas ao fato de que há serviços que as popu-
lações nacionais dos países centrais não querem fazer, bem
como a necessidade ou conveniência de contratação de ser-
viços prestados por estrangeiros, fazem com que os fluxos de
migrantes – legais ou não – aumentem significativamente.
Segundo a Comissão (1998, p. 36), “Nos países indus-
trializados, ao contrário, o crescimento demográfico ou en-
fraqueceu ou estagnou totalmente, e a taxa de fecundidade
é igual ou inferior aos valores mínimos necessários para ir
substituindo as gerações.”.
Para a CIA (2006, p. 146-147),

A migração tem o potencial de ajudar a re-


solver o problema do declínio da população
economicamente ativa na Europa e, em grau
menor, na Rússia e no Japão; provavelmen-
te, os movimentos migratórios se tornarão
uma característica importante do mundo de
2020, mesmo que muitos dos migrantes não
tenham status legal. Os países que os rece-
berão enfrentarão o desafio de integrar esses
novos imigrantes de maneira a minimizar os
conflitos sociais em potencial.

Ainda conforme a CIA (2006, p. 220),


Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 235

Os imigrantes latino-americanos estão atu-


ando como força estabilizadora nos EUA.
Eles são uma importante parte da mão-de-
-obra norte-americana, e os dólares que
remetem aos seus países, bem como as per-
cepções de um governo democrático e da ini-
ciativa individual, terão um impacto positivo
na América Latina.

“A história apresenta períodos em que as migrações ser-


viram de importante válvula de segurança econômica e so-
cial, permitindo que a mão-de-obra se deslocasse para onde
fazia mais falta.” (COMISSÃO, 1998, p. 42). Entretanto, di-
ferentemente de outros momentos, a conjuntura atual não é
de todo favorável às migrações, pois, “Ao contrário dos anos
sessenta, este segundo crescimento dá-se num contexto de
aumento de desemprego, que fomenta tensões sociais e ali-
menta a xenofobia – tanto nos Estados Unidos como na Eu-
ropa.” (COMISSÃO, 1998, p. 43).
Fluxos migratórios causam transtornos diversos prin-
cipalmente aos governantes, pois, na maioria das vezes, os
migrantes são colocados em condições de vida degradante,
sem os direitos mínimos assegurados aos cidadãos natos, o
que, não raramente, resulta em tensões sociais ou, no mí-
nimo, representa sérios riscos de conflitos por melhoria,
equiparação de diferentes direitos, colocando em risco a
governabilidade.
Nos países centrais, a xenofobia pode colocar em risco
patrimônios público-estatais, as propriedades privadas, as-
sim como a vida de seus cidadãos. Nos países periféricos, a
236 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

xenofobia pode colocar em risco as propriedades de empre-


sas e de cidadãos de países centrais.

Em nossas pesquisas, muitos especialistas


estrangeiros observaram que, enquanto a
opinião pública em seus países concorda com
os benefícios materiais da globalização, ao
mesmo tempo se opõe à perceptível ‘ameri-
canização’ que os cidadãos vêem como uma
ameaça aos seus valores culturais e religio-
sos. A associação da globalização a valores
norte-americanos tem alimentado o antia-
mericanismo em algumas partes do mundo.
(CIA, 2006, p. 106)

Em qualquer desses casos, as tensões decorrentes da xe-


nofobia geram instabilidade e insegurança política e social,
afetando a economia, afugentando o capital internacional e
colocando em risco a governabilidade.
Se em outras épocas, além de a força de trabalho migran-
te ser bem-vinda em determinadas circunstâncias, existiam
dificuldades de locomoção, atualmente, além de os migran-
tes representarem, em sua maioria, ônus e riscos sociais,
existem fatores que potencializam as migrações, inclusive
porque “[...] o custo das viagens e as dificuldades de deslo-
cação constituíam, geralmente, sérios problemas, até que, já
no século XX, se ultrapassou uma etapa fundamental, com
a baixa do custo dos transportes.” (COMISSÃO, 1998, p. 42).
Considerando-se a tendência de aumento das migrações
– legais ou não –, os riscos de conflitos potencializam-se.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 237

Com o aumento da migração em diversas par-


tes do mundo – do norte da África e Orien-
te Médio para a Europa, da América Latina
e Caribe para os EUA e do Sudeste Asiático
para as regiões do norte – mais países se tor-
narão multiétnicos e multirreligiosos, tendo,
assim, de enfrentar o desafio de integrar os
imigrantes nas suas sociedades, ao mesmo
tempo em que terão de respeitar suas identi-
dades étnicas e religiosas. (CIA, 2006, p. 164)

Há ainda a agravante de que os conflitos locais podem to-


mar proporções regionais ou globais, o que implica medidas
corretivas, preventivas e preditivas (BANCO MUNDIAL,
1996; CIA, 2006) e, conforme a Comissão (1998, p. 36),

Esta expansão da humanidade, num mo-


mento histórico em que a tecnologia encur-
ta o tempo e o espaço, relaciona-se de modo
cada vez mais estreito os diferentes aspectos
da atividade mundial, o que confere, sem que
necessariamente demos por isso, uma di-
mensão planetária a certas decisões. Nunca
antes suas conseqüências, boas ou más, atin-
giram um tão grande número de indivíduos.

Em momentos de crises, em especial as econômicas, as


tendências de adesão às ideologias e prática de atos xenófo-
bos ou nacionalistas extremistas, bem como de adesão a ideo-
logias fascistas acirram-se (BRENER, 1994; CANO, 2007;
238 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

FROMM, 1970), com desdobramentos e intensidades muitas


vezes imprevisíveis, como foi, por exemplo, o caso da II Guer-
ra Mundial e outros tantos episódios que vêm ocorrendo em
diversas partes do mundo e que, de alguma forma, acabam
colocando em tela a questão da xenofobia, seja em relação a
povos de outros países, seja em relação a diferentes etnias que
convivem dentro de um mesmo país.
Há que se considerar ainda o fato de que

As populações cada vez mais velhas e o en-


colhimento da população economicamente
ativa terão um grande impacto no conti-
nente, criando um sério desafio econômico
e político que pode, porém, ser resolvido. A
taxa total de fertilidade da Europa é de 1,4
– bem inferior à renovação populacional de
2,1. Nos próximos 14 anos, as economias da
Europa Ocidental precisarão recrutar vários
milhões de profissionais para preencher as
vagas deixadas pelos trabalhadores que se
aposentarão nesse período. Ou os países
europeus adaptam sua população economi-
camente ativa, reformam sua previdência
social, sistemas de educação e de tributação
e acomodam uma crescente população imi-
grante (principalmente de países muçul-
manos), ou enfrentarão um período de en-
colhimento econômico que pode ameaçar o
enorme sucesso conquistado com o advento
da UE. (CIA, 2006, p. 145-146)
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 239

“Também hoje em dia, entre os expatriados, cresce o


número de trabalhadores altamente qualificados.” (COMIS-
SÃO, 1998, p. 42). Por isso o caráter estratégico da divisão
internacional da educação imposta pelo Banco aos paí-
ses periféricos. Ao fazer com que estes priorizem o Ensino
Fundamental, pode-se, em termos, fazer com que a força de
trabalho migrante seja qualificada conforme a divisão in-
ternacional da produção, de forma a evitar que migrantes
oriundos de países periféricos coloquem em risco a reserva
de mercado previamente delineada pelos países centrais.

Para o globalismo neoliberal tudo – coisas,


corpos e mentes – deve se submeter à lógica
e ao poder da oligarquia financeira mundia-
lizada. Esse projeto baseia-se numa transfor-
mação profunda no seio do processo de acu-
mulação do capital promovida pela chamada
revolução técnico-científica em andamento,
que amplia sobremaneira a produtividade do
trabalho empregado na produção, gerando um
setor de trabalhadores dotados de conheci-
mento científico. Na verdade, a própria produ-
ção do conhecimento científico e tecnológico
torna-se capaz de gerar essa riqueza chamada
conhecimento e de acumular capital – um
desdobramento que poderia ser chamado de
capital cognitivo. (DEL ROIO, 2002, p. 12)

Os quatro pilares têm, assim, uma função estratégica


para a tentativa de padronizar a educação de todos os paí-
240 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

ses do mundo, de tal forma que, tanto pela via do currícu-


lo formal quanto pelo currículo oculto, sejam ensinados os
mesmos valores e atitudes condizentes com o perfil de for-
ça de trabalho demandado pelo sistema produtivo e com a
concepção de democracia hegemônica, o que, teoricamen-
te, pode fazer com que todas as populações aprendam a co-
nhecer, aprendam a fazer, aprendam a viver juntas, enfim,
aprendam a ser, conforme o atual modelo de sociabilidade.
A formação de força de trabalho tem implicações que ex-
trapolam a esfera do sistema produtivo propriamente dito.
Mesmo o modelo político estando em função do modelo
econômico, aquele é apresentado às populações como se fos-
se o determinante do modelo de relações sociais.
Para que as reformas educacionais ocorram em confor-
midade com o sistema produtivo, são necessárias mudan-
ças inclusive nos sistemas de governo/regimes políticos,
pois “[...] para cosechar los beneficios de las inversiones en
educación es preciso ampliar las posibilidades de aprendi-
zaje productivo mediante innovaciones técnicas y cambios
en los regimenes políticos y de mercado.” (BANCO MUN-
DIAL, 1996, p. 28).
A análise, tanto da história geral, quanto da história da
educação (ENGUITA, 1989; LUZURIAGA, 1959; MANA-
CORDA, 1992; REIS FILHO, 1981; SOUZA, 1998; 2009),
demonstra que a educação reflete, em última instância, o
contexto sócio-político-econômico e evidencia que sempre
que ocorrem trocas de equipes de governo e, especialmente,
quando há mudanças de sistemas de governo/regimes polí-
ticos, como, por exemplo, o golpe civil-militar no Brasil, um
dos primeiros setores a serem adequados é a educação, até
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 241

porque, segundo Cury (1997), a educação é uma espécie de


caixa de ressonância da sociedade.
Portanto, se considerada a análise da história geral e tam-
bém a da educação, pode-se inferir que as reformas educacio-
nais do BM não fogem à tendência histórica, isso é, trata-se
de um processo necessário para adequar a educação, de modo
a propiciar uma formação condizente com os atuais padrões
de sociabilidade e em conformidade com a divisão interna-
cional da produção e, portanto, do trabalho, num momento
histórico em que, segundo Mészáros (2002, p. 21), “não ape-
nas o capitalismo”, mas “todas as formas do sistema do capi-
tal” vivem uma “época de crise histórica sem precedentes”.

Considerações finais
Apesar de abordada predominantemente numa perspec-
tiva específica, a questão das migrações internacionais pode
e deve ser analisada a partir de múltiplos prismas. Atribuir
toda a centralidade a aspectos econômicos ou a aspectos cul-
turais é desconsiderar outros fatores também importantes e,
principalmente, a história.
Da mesma forma, atribuir à escola a responsabilidade
pela cultura da paz é uma abordagem reducionista, recor-
rentes em certos documentos de alguns organismos inter-
nacionais, que apresentam a educação escolar como a solu-
ção para todos os problemas sociais, inclusive para o baixo
crescimento econômico, desemprego e conflitos violentos os
mais diversos. Sabe-se que a escola é apenas uma das muitas
instituições sociais, portanto, não está imune nem acima das
242 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

questões que afligem a sociedade como um todo. O próprio


Banco reconhece, porém, raríssimas vezes ressalta isso, en-
tretanto, não o faz com a mesma ênfase com que apresenta a
educação escolar como uma espécie de panaceia.
Importante questionar a viabilidade ou pertinência de se
imputar a responsabilidade pela cultura da paz unicamente
ou em grande parte à educação escolar, pois isso parece pa-
radoxal, já que esta instituição sequer consegue cumprir a
contento suas funções mais elementares e consideradas suas
especialidade e prerrogativa. Além disso, cada vez mais di-
versas formas de violências têm permeado recorrentemente
ambientes e cotidianos escolares.
Os recentes conflitos – e seus desdobramentos – envolven-
do migrantes e/ou seus descendentes na Europa demonstram
a complexidade da questão das migrações internacionais,
cujos estudos parecem exigir abordagens multi ou interdisci-
plinares para que se possa ter uma compreensão à altura, com
vistas a subsidiar posicionamentos e intervenções adequadas.
No Brasil, resguardadas as devidas especificidades, há
fluxos migratórios nos dois sentidos, ou seja, tanto de bra-
sileiros que deixam o país, quanto de pessoas de outras na-
cionalidades, que vêm em busca principalmente de melhores
condições de vida.
Em um contexto de recorrentes discursos em defesa da
convivência na diversidade, do respeito às diferenças e da
cultura da paz, porém de práticas cada vez mais intoleran-
tes6, quando o outro, o diferente, é considerado o problema,

6 Como exemplo, pode-se citar a situação de migrantes (e de seus des-


cendentes) nordestinos, principalmente, em determinadas regiões do
Estado de São Paulo.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 243

há que se conceber e adotar medidas preventivas com vistas


aos atuais e novos desafios e demandas decorrentes de fluxos
migratórios internacionais, inclusive7, que, como ressaltado,
em tempos de graves crises econômicas, em especial quando
se verificam altos índices de desemprego, podem ser móbeis
ou pretextos para atos de preconceitos e discriminações que
podem redundar inclusive em conflitos violentos ou agres-
sões contra determinadas populações ou seus segmentos.
A escola é uma instituição que demanda atenção espe-
cial, pois, além da atribuição da função educativa, em tese,
nela se encontram – ou se encontrariam – pessoas das mais
variadas culturas e originárias dos mais variados locais,
inclusive de outros países, já que, pela legislação (BRASIL,
1988; 1990; 1996), o Ensino Fundamental é obrigatório para
pessoas na faixa etária prevista, além de ser considerado di-
reito público subjetivo.
Interlocuções entre pesquisadores das questões relacio-
nadas a migrações e à Educação, entre outras áreas e subá-
reas do conhecimento, podem resultar em algum avanço no
sentido de troca de informações e conhecimentos que extra-
polam as respectivas áreas ou objetos de estudos e, por isso,
inclusive, também fogem à alçada de compreensão de de-
terminados profissionais. Ampliar os conhecimentos sobre
essas questões pode ajudar inclusive a evitar ou ao menos
reduzir incidência de atos de xenofobia e outros preconcei-
tos e discriminações. É sabida a histórica função atribuída

7 O Município de São Paulo pode ser citado como exemplo de fluxos mi-
gratórios de pessoas procedentes de outros países, em especial da Amé-
rica Latina. Recentemente, na Região Norte do país, também chamou a
atenção o caso de haitianos que migraram para o Brasil.
244 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

e desempenhada pela escola no sentido de criar identidades


nacionais e representações acerca de outros povos ou nações.
Portanto, quando se questiona as políticas de cultura da
paz de organismos internacionais, não se está fazendo apo-
logia à guerra ou à violência. Trata-se de questionar os pres-
supostos e objetivos subjacentes a essa concepção de cultura
da paz, bem como questionar o porquê e a quem interessam
as guerras e confrontos que, historicamente, são responsáveis
por grande parte inúmeras mortes e fluxos migratórios in-
voluntários de pessoas. Além disso, a rigor, guerra e paz não
decididas no âmbito da educação escolar ou da escola.

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Capítulo 12

Acumulação capitalista no regime


de acumulação flexível
Diego Marques Pereira dos Anjos1

Introdução1

C omeçamos nosso debate com uma observação que pa-


rece óbvia mas ao mesmo tempo as pessoas que a deba-
tem dão pouco importância disso: o conteúdo dos debates,
das discussões, enfim das ideias mesmas, são perpassados
por interesses, valores, objetivos e numa discussão sobre
crise no capitalismo essa característica das ideias se torna
mais clara e visível, ao invés de se ocupar com os persona-
gens da novela, com o drama da vida nos jornais, ou com os
pequenos prazeres da vida cotidiana debatem os efeitos da
desindustrialização, aumento da pobreza, financeirização
da economia, etc. E assim, observamos que por um lado de-
batem os economistas e as respectivas instituições e organis-
mos financeiros, e por outro sindicatos, movimentos sociais
e uma intelectualidade em maior ou menor grau envolvida

1 Aluno do Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de


Filosofia e Ciências – UNESP/Marília.
248 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

com a militância. E conforme os fatos parecem correspon-


der às interpretações engajadas se intensifica a discussão e
novas interpretações são produzidas. Nesse sentido, não só
as opções e alternativas escolhidas revelam claramente in-
teresses de classe como tendem a radicalizar o seu conteú-
do. Já que as classes dominantes possuem seu referencial na
ciência da economia podemos nos apropriar de autores que
demonstraram o caráter contraditório da sociedade capita-
lista, sobretudo, no que se refere à sua razão de ser, que é
acumular capitais ao infinito, mesmo contra o universo so-
cial e natural ao seu redor, apontando os limites da acumu-
lação de capital. Karl Marx é claramente quem mais contri-
buiu com esse objetivo, ao evidenciar que espontaneamente
à reprodução capitalista se desenvolvem processos sociais e
sujeitos que travam a reprodução capitalista tendendo a se
intensificar e constituir uma ruptura com a reprodução e
acumulação de capital.

Criação e destruição do valor na


sociedade capitalista
Marx nos responde no que consiste o capitalismo, sua
especificidade histórica, o motivo da sociedade sob seu po-
der ser chamada de sociedade capitalista, e não sociedade
trabalhista, por exemplo. O que define o capitalismo? Para
Marx o “processo de produção capitalista é essencialmente
ao mesmo tempo processo de acumulação”, a organização
das relações sociais de produção gira em torno da aquisição
de algo a mais de que o capitalista não dispõe, mas de que
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 249

necessita sua conversão em taxa de lucro para efetivamente


colocar em prática o movimento de produção. Isto signifi-
ca também a produção de uma diversidade de contradições
que têm fundamento no próprio processo produtivo e no
produto desse processo enquanto as mercadorias por elas
mesmas, nem por seu valor de uso nem por seu consumo
pessoal, não são o objetivo, mas o que dela se pode extrair,
um mais-valor. O que não descarta, ao contrário, gera a si-
tuação em que a produção pode ser levada ao infinito, sem
mais considerações a não ser o “lucro crescente e contínuo
que constitui a lei básica do modo de produção capitalista”2
sociedade histórica diferente dos outros modos de produção
não se apropria da produção social somente para usofruto
das classes dominantes, mas visando a própria intensifica-
ção da exploração que está na base da produção social e da
apropriação individual (LUXEMBURGO, 1988).
Marx começa sua exposição com a mercadoria: no capi-
talismo a riqueza aparece como uma imensa coleção de mer-
cadorias e sua forma mais elementar, mas logo Marx desco-
bre todas as determinações que atuam em sua constituição
(valor de uso, valor de troca, alienação, fetichismo) e define o
valor da mercadoria através do quantum de trabalho social-
mente necessário para ser produzida3; a análise do processo
produtivo da mercadoria a situa no intermédio entre a soma
de dinheiro inicial e uma soma de valor maior ao se realizar
a venda da mercadoria num mercado consumidor, tal como
antes apontamos a mercadoria não é o objetivo em si, está

2 Luxemburg, 1988, p. 104.


3 O capital, livro 1, 1996, p. 169.
250 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

excluída do ponto de partida e de chegada do processo de


acumulação capitalista. A mercadoria somente pode ser a
forma mais elementar na sociedade capitalista na medida em
que contém propriedades maiores do que aparenta ter, por
um lado, na produção capitalista gera-se uma soma de mais
valor, que por sua vez se realiza no processo de circulação
do capital4. A relação social fundamental que a mercadoria
esconde, para Marx, é a própria relação social fundamental
da sociedade capitalista, a divisão entre capitalistas e tra-
balhadores, entre o proprietário das condições de trabalho
e o trabalhador como mero possuidor de força de trabalho,
condição outra fundamental das condições de trabalho, isto
é, a posse dos meios de produção determina o único sujeito
ativo da produção capitalista, ao iniciar e findar do processo
de produção de mercadorias todas as suas partes, produtos e
produtores, são igualadas sob o domínio capitalista5.
Na sociedade capitalista, a mercadoria é o produto pal-
pável do processo de trabalho, o resultado da mediação dos
homens entre si e com a natureza. O processo de trabalho
na sociedade capitalista requer o adiantamento das condi-
ções de trabalho, que é comandada pelo capitalista em posse
de determinado capital global adiantado, reunindo meios
de produção, materiais de trabalhos, matérias primas, ins-
talações, etc. (capital constante) mais a posse por um deter-
minado tempo de uma massa de força de trabalho (capital
variável). Essas duas partes constituintes do valor da mer-
cadoria embora só atuam em relação uma com a outra são

4 Livro 3, tomo 1, p. 33.


5 Livro 3, tomo 1, p. 33.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 251

de natureza diversa e expressam potencialidades diversas,


enquanto a mera posse dos meios de produção não garante
o poder absoluto dos capitalistas, por sua vez a libertação e
socialização desses meios de produção da vida expressam a
superação do novo elemento que o capitalista se apropria na
produção da mercadoria, justamente o mais-valor. O pro-
cesso de produção é algo concreto, mas se abstraímos seus
momentos e partes constituintes chegamos ao valor da mer-
cadoria: a soma do capital constante com o capital variável
(capital social global) acrescido de uma porção de mais-va-
lor. Uma parte da mercadoria trata-se tão somente de repo-
sição de valor, dos gastos na produção, portanto, de preço
de custo; enquanto a outra parte da mercadoria constitui-se
como um novo valor, isto resulta da dupla condição da força
de trabalho, que submetida à forma mercadoria é disposta
pelos capitalistas como parte do adiantamento do capital,
contando como valor gasto, entretanto, no processo de pro-
dução em funcionamento concreto entra “a própria força de
trabalho viva, formadora de valor”6. Isto significa que por
um lado o agrupamento das diferentes partes de valor da
mercadoria que só repõe o valor de capital dispendido ex-
presse o caráter específico da produção capitalista; mas que
por outro lado, o capital despendido “nada tem a ver com a
constituição de valor da mercadoria ou com o processo de
valorização”, o capitalismo não parece, mas se apoia numa
força cujo poder lhe é centenas de vezes maior, a produção
capitalista de mercadorias produz também a falsa aparência
dos preços de custos como uma categoria da própria produ-

6 Livro 3, tomo 1, p. 25.


252 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

ção de valor, “o custo capitalista com a mercadoria mede-se


no dispêndio em capital, o verdadeiro custo da mercadoria
no dispêndio em trabalho” (Livro 3, p. 24).
Dessa forma, “O lucro capitalista provém de que ele tem
algo para vender que não pagou” 7. Duas medidas diferentes
da mesma grandeza são constituídas, uma superficialmente,
enquanto a outra parte é ocultada: de um lado, a taxa de lu-
cro medida em relação ao mais-valor sobre o capital global,
e do outro a taxa de mais-valia medida somente em relação
com a parte variável do capital adiantado.
Porque ocorre esta diferenciação? Na medida em que o
capital constante somente tem a capacidade de repassar seu
valor aos produtos, a verdadeira valorização ocorre com o
capital variável; contudo, mantendo-se a quantidade mobi-
lizada de trabalhadores devido aos métodos peculiares da
produção capitalista é processada e consumida uma massa
sempre crescente de meios de trabalho, maquinaria, ma-
térias-primas e auxiliares, portanto, um volume de capital
constante sempre crescente. Neste ponto chegamos no aves-
so do processo de acumulação, portanto de valorização do
capital, no seu verdadeiro caráter contraditório.
O valor da mercadoria é dado pela soma de capital cons-
tante, capital variável e mais-valor, abstraído o mais-valor,
os outros elementos constituintes da mercadoria são mera
reposição dos capitais adiantados. O desenvolvimento da
força produtiva social do trabalho significa que numa mes-
ma quantidade de tempo e com a mesma quantidade mobi-
lizada de força de trabalho é colocada em movimento uma

7 Capital, livro 3, tomo 1, p. 34.


Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 253

quantidade maior de maquinaria e capital fixo (matérias-


-primas e auxiliares) resultando em um número crescente
de produtos do trabalho, com menor valor, na medida em
que se utilizam de menos trabalho num determinado pe-
ríodo de tempo. Decorre que, o que seria o constante de-
senvolvimento da acumulação capitalista é também e ao
mesmo tempo um processo de limitação da acumulação
de capitais: a cada nova rodada do processo de valorização
entra uma soma menor de trabalho na produção das mer-
cadorias ao tempo em que aumenta a parte gasta em meios
de produção, matérias-primas, produzindo uma “composi-
ção orgânica crescentemente superior do capital global”8;
como decorre uma diminuição relativa da força de traba-
lho, decresce a taxa de mais-valia e em relação com o capital
global, que por sua vez expressam a taxa de lucro, produz
necessariamente a tendência progressiva, embora não abso-
luta, de queda da taxa geral de lucro. Para Marx trata-se de
uma “expressão peculiar” do desenvolvimento progressivo
da força produtiva social de trabalho no modo de produ-
ção capitalista, em que a expansão concreta da produção de
mercadorias produz a realidade crescente de afastamento
do objetivo maior da produção capitalista, a valorização e
acumulação de capitais; no cerne da acumulação capitalis-
ta, na sua forma de valorização, está a “necessidade óbvia”
que a taxa média geral de mais-valia se expresse numa taxa
geral de lucro em queda.
Para manter a taxa de lucro da circulação anterior do
capital se faz necessário o aumento do capital global em

8 Capital, livro 3, tomo1, p. 164.


254 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

igual medida que a taxa decrescente de lucro, e para au-


mentar a acumulação precisa o capitalista adiantar porção
ainda maior de capital global, e também de forma mais
rápida que a taxa decrescente de lucro; o contínuo cresci-
mento do capital constante, em relação ao decréscimo da
parte de capital variável, com o qual por sua vez aumenta
a produtividade e, por tanto, a massa de lucro, é também o
desenvolvimento da progressiva tendência da queda da taxa
de lucro, tomando as mercadorias individuais em relação
com a produção global. A contradição está em que “ao de-
créscimo relativo do capital variável e do lucro corresponde
um aumento absoluto de ambos”9, sendo contornada com o
aumento da massa de lucro10.
Finalizando nossa exposição inicial a respeito do desen-
volvimento e das barreiras imanentes à produção capitalista
sinalizamos que para Marx a tendência declinante da taxa de
lucro tende a ser contornada pela ação consciente e organiza-
da da classe capitalista que dispondo de seus meios materiais
atua fomentando “causas contrárias” que tentam reverter a
queda da taxa de lucro, e que explicam o não aprofundamen-
to da tendência de queda, mas sim o seu lento declínio. Marx
aponta que as principais causas contrariantes são:

I) elevação do grau de exploração do traba-


lho; II) compressão dos salários abaixo do

9 Capital, livro 3, tomo 1, p. 171.


10 Queda da taxa de lucro acompanhada de aumento na massa de lucro se
obtém com aumento relativo das massas de lucro contidas nas mercado-
rias e realizadas mediante a venda.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 255

seu valor; III) elementos que a comportam


diminuem de valor; IV) superpopulação re-
lativa; V) comércio exterior11

Formas histórico-concretas de
criação e destruição do valor na
sociedade capitalista
Toda essa organização das relações de produção capita-
listas só se põe em movimento enquanto relações de classe,
todos os conceitos usados (trabalho, mais-valor, capital) só
tem validade enquanto expressam a ação de sujeitos históri-
cos e concretos envolvidos na reprodução da sociedade ca-
pitalista. Tanto a lei da acumulação e valorização do capital
quanto a tendência de queda da taxa de lucro média que lhe
seguem são as expressões do auge do domínio da classe ca-
pitalista, enquanto a ação sindical, greves, manifestações de
rua, ocupações de fábricas e outros locais de produção ex-
pressam o início do desenvolvimento da ação dos trabalha-
dores e que ao mesmo tempo fortalece a tendência de queda
da taxa de lucros, obrigando aos capitalistas colocarem em
movimento novas estratégias de aumento da extração de
mais-valor. Todo esse movimento tende a sair das relações
de produção e avançar para esfera do estado onde é regula-
mentado os interesses da classe capitalista.
A “lei de duas caras” da acumulação capitalista junta-
mente com o ascenso da luta de classes criam as condições

11 Capital Vol. 3 178 em diante.


256 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

sociais necessárias para transformações que afetam o movi-


mento da sociedade capitalista, tendendo para transforma-
ções a fim de manter a reprodução da sociedade capitalista,
ou em situações radicalizadas a potencialização de emergir
um novo modo de produção. Caso não ocorra a ruptura to-
tal com as relações sociais dominantes ocorre uma reorgani-
zação de determinadas esferas das relações sociais para que
se mantenha a reprodução da ordem capitalista. A Escola
Regulacionista Francesa12 (Aglietta, Lipietz, Boyer, outros)
desenvolveu inúmeros conceitos visando a expressar os mo-
dos de desenvolvimento por quais passaram a sociedade ca-
pitalista, partiremos aqui de suas contribuições acerca dos
regimes de acumulação visando estabelecer as especificida-
des históricas da acumulação capitalista.
Nosso objetivo aqui não é o de reconstituir a história dos
regimes de acumulação, mas a partir de seus apontamen-
tos sobre as formas históricas de acumulação do capital tão-
-somente analisar a nova forma de acumulação capitalista
que emerge nos últimos 40 anos, desde meados da década
de 1970, que vamos denominar de regime de acumulação
flexível (HARVEY, 1988).
A estabilização histórica das contradições entre acumu-
lação capitalista e a tendência à queda da taxa de lucro foi
alcançada provisoriamente, e somente nos países centrais
da acumulação capitalista, com o regime de acumulação

12 Ver Regulación y crisis del capitalismo, Michel Aglietta, México: Siglo


Veintiuno Editores, 5º Edición, 1991; e A relação salarial fordista, Walter
Arno Pichler, Porto Alegre: Ensaios FEE, pgs. 97-129, 1988.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 257

fordista13. Não podemos abstrair que tais condições somen-


te foram possíveis com a transnacionalização de capitais,
que possibilitaram a inserção de uma infinidade de países
na condição de capitalismo subordinado, cuja intensifica-
ção da exploração resultou em importantes transferências
de capital para os principais países imperialistas.
Devido aos limites desse trabalho, focalizar na acumula-
ção flexível que marca a atualidade da sociedade capitalista,
não poderemos entrar nos pormenores da acumulação for-
dista, sobretudo no que se refere às transformações na esfera
do estado com a emergência do estado de bem-estar social
que se caracterizou, sobretudo, pela tentativa de integrar a
classe operária nas instituições capitalistas, subordinando os
sindicatos à regulamentação estatal14 e inserindo os indiví-
duos trabalhadores no mercado de consumo,15 juntamente
com políticas de assistência e seguridade social; nem tam-
pouco à dinâmica das relações internacionais, que se caracte-
rizou pelas transferência de capitais para os países de capita-
lismo subordinado, onde havia intensificação da exploração
do trabalho, retornando para os países de capitalismo central
sob a forma de lucros e dividendos (TRAGTEMBERG; VIA-
NA, 2009) e através da troca desigual (VIANA, 2000)16.

13 Para uma análise das crises capitalistas anteriores ao regime de acumu-


lação fordista veja Tragtemberg, Maurício. O capitalismo no século XX.
São Paulo: Editora da Unesp, 2009.
14 PICHLER, 1988, p. 125\9.
15 PICLHER, 1988; VIANA, 2008.
16 Para uma discussão sobre fordismo periférico na perspectiva da “abor-
dagem da regulação” ver Luiz Augusto Estrella Faria. Capitalismo, pe-
258 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

O que Harvey chamou de acumulação fordista teve


como fundamento o estabelecimento de reposicionamentos
e de compromissos17 dos principais atores envolvidos no de-
senvolvimento capitalista: “o trabalho organizado, o gran-
de capital corporativo e a nação-Estado” (HARVEY, 1988,
p. 125). Em linhas gerais, o desenvolvimento capitalista foi
conseguido através do que Harvey define como a “raciona-
lidade corporativa burocrática”18 que gerenciando cientifi-
camente o processo de forte centralização do capital tornou
possível um crescimento sustentável do capital fixo aumen-
tando a produtividade sob as condições que possibilitaram
a elevação do padrão de vida da população por meio do au-
mento real dos salários (HARVEY, 1998; PICHLER, 1988;
C&C, 201219). Na verdade, o aumento da produção de bens
de consumo (carros, eletrodomésticos, construção, etc.) aju-
dou na contenção da queda da taxa de lucro, o que permitiu
pela primeira vez na história do capitalismo um paralelismo
entre produção e salários20, que por sua vez reforçou a am-
pliação do mercado para escoar os bens industriais. A pa-
dronização da produção em massa (HARVEY, 1998, p. 131)

riferia e dependência: a crise do fordismo lá e cá. Ensaios FEE, Porto


Alegre, v. 18, n. 2, p. 237-263, 1997.
17 Pichler (1988) vai falar como esse compromisso foi feito através da des-
truição do modo de vida dos trabalhadores e de sua individualização,
processo intensificado pela relação salarial fordista.
18 Ibidem, p. 129.
19 Veja-se o site http://www.capitalism-and-crisis.info que expõe os re-
sultados de pesquisa do professor francês Marcel Roelandts da Univer-
sité Libre de Bruxelles (ULB).
20 C&C, 2012.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 259

reflete a incorporação dos meios de consumo pelas massas


trabalhadoras nos países de capitalismo central21.
Limitados são os que pretenderam a reprodução perpé-
tua dessa forma de acumulação e não viram nela uma his-
toricidade ainda mais curta e volátil que a do modo de pro-
dução capitalista como um todo, e ainda mais limitados os
que pretendem tal retorno a “era de ouro”. De acordo com
a produtividade da indústria capitalista cada mercadoria
deve conter menos trabalho que a produção anterior, embo-
ra possa aumentar a massa de trabalhadores mobilizados na
produção, o que por sua vez pode gerar o aumento da soma
global do capital (constante e variável) na produção, revelan-
do, novamente, a emergência da tendência à queda da taxa
de lucro. Pouco efeito parece ter a distância que separa Marx
do período da acumulação fordista, aproximadamente 70
anos, quando destacamos sua análise da essência histórica
da produção e acumulação capitalista. Para Marx:

“A taxa de lucro poderia até mesmo subir se


à elevação da taxa de mais-valia estivesse li-
gada uma diminuição significativa de valor
dos elementos do capital constante, e nomea-
damente do fixo. Mas na realidade, a taxa de
lucro, como já se viu, irá cair a longo prazo
(...) Tudo depende de quão grande é a soma
global do capital que participa de sua produ-
ção” (Livro 3, p. 175).

21 Granou in Viana Universo psíquico e reprodução do capital: ensaios freu-


do-marxistas, p. 28.
260 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

A acumulação fordista não pôde escapar da lei tenden-


cial de queda da taxa de lucro e abriu espaço histórico para
a efetivação necessária de novas formas de manter a repro-
dução capitalista através de uma ofensiva da classe capitalis-
ta sobre a forma de organização do trabalho que por tanto
tempo lhe possibilitou lucros tão poucas vezes alcançados.
Marx analisa que entre as “tendências contrariantes” à
tendência declinante da taxa de lucro, possui papel funda-
mental a “elevação do grau de exploração do trabalho”, tanto
por meio da intensificação do processo de trabalho quanto
pela extensão da jornada de trabalho. Intensificação do tra-
balho significa que num determinado período de tempo se
objetiva “transformar o máximo possível de dada massa de
trabalho em mais-valia” e em relação ao capital adiantado
empregar o “mínimo possível de trabalho”22, objetivo este
alcançado através da renovação do capital constante (no-
vas máquinas, mais instalações, energias mais produtivas)
em relação à estagnação de sua parte variável. Marx situa
os procedimentos que aumentam a extração de mais-valia
relativa como “tendências conflitantes” na medida em que,
acarretam aumento da taxa de mais-valia, mas que impli-
cam queda na massa de mais-valia, pois a massa de mais-va-
lia é medida multiplicando a taxa de mais-valia pelo número
de trabalhadores que estão ocupados (MARX, 1983, p. 178)
enquanto que a taxa de mais-valia somente se mede sobre
o capital variável (Ibidem, p. 179). Isto significa que há ele-
vação do grau de exploração do trabalho ao mesmo tempo
em que se impossibilita que com o mesmo capital se explore

22 Capital, livro 3, p. 178.


Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 261

tanto trabalho quanto antes. Contudo, Marx, destaca dois


momentos de intensificação do trabalho que são excessões
ao processo de desvalorização da mercadoria, ou de redução
do tempo de trabalho vivo, estes momentos correspondem à
“velocidade acelerada da maquinaria” que se desenvolve mas
sem alterar o preço do trabalho que ela mobiliza, e à “melho-
ria dos métodos” quando sobe a massa de produtos em rela-
ção à força de trabalho utilizada 23, apontamentos estes que
nos são fundamentais para compreender a intensificação do
processo de trabalho na acumulação flexível.
Quanto ao prolongamento da jornada de trabalho, que
Marx considera como invenção da indústria moderna, per-
mite aumentar a massa de mais-trabalho apropriada sem
que se altere a relação entre a força de trabalho empregada e
o capital constante posto em movimento, quando não dimi-
nui relativamente a quantidade de capital constante mobili-
zada (Ibidem, p. 177). Daí que aumenta o seu uso recorrente,
embora muitas vezes disfarçada sob atividades diferentes.
Trata-se então de analisarmos a nova forma de sociali-
zação da classe trabalhadora, como as grandes massas de in-
divíduos, que não têm nada mais a vender que a não ser a si
mesmo, são inseridas como trabalhadores numa sociedade
em que tudo o que existe está reificado na forma da mercado-
ria. Dejours fala em processo de dessocialização (1999), en-
quanto que Laura Soares fala em “reintegração social” (2002).
Demonstraremos agora a criação das condições sociais ne-
cessárias para a emergência do tortuoso destino das massas
trabalhadoras na forma flexível de se acumular capital.

23 Capital, livro 3 p. 177\8.


262 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

As partes que compõem o valor da mercadoria (capital


constante e capital variável), sofrem elevação de seu custo,
juntamente com o não-crescimento do mercado consumidor
no ritmo necessário para a circulação e acumulação crescen-
tes de capital. Soma-se a essa situação a ocorrência da con-
testação dos vários movimentos da classe trabalhadora e de
outros grupos oprimidos, mas conquanto a classe detentora
dos meios de produção e das instituições reguladoras da re-
produção da sociedade capitalista, sobretudo o estado, man-
tiver o domínio das condições de produção terá essa classe
o poder e a capacidade de definir a forma de organização da
sociedade. A superação da crise veio como uma ofensiva da
classe capitalista sobre a organização e sobre as condições
materiais de trabalho, que resultaram na organização flexí-
vel do trabalho.

Intensificação da exploração do
trabalho no regime de acumulação
flexível: junção de mais-valia
absoluta e mais-valia relativa.
Thomas Gounet em sintético artigo intitulado “El toyo-
tismo o el incremento de la explotación” (2013) demonstra
que com a crise de 1973 ocorreu que as empresas dos países
de capitalismo avançado situadas no Ocidente passaram a
correr atrás do novo segredo de produção da empresa Toyo-
ta, no Japão, para alcançar níveis elevadíssimos de produti-
vidade com a contenção dos custos da força de trabalho, e
mesmo com a redução do trabalho imobilizado na produção.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 263

Segundo Gounet as multinacionais ocidentais perceberam


que a empresa Toyota estava baseada em um outro sistema
de produção sob o qual conseguiam elevado “incremen-
to de la explotación de los trabajadores” (GOUNET, 2013,
p. 8) o que estava lhe conferindo posição de liderança no
mercado mundial de automóveis, isto por meio de inovações
tecnológicas e organizacionais no processo de trabalho, ou
da elevação da velocidade acelerada da maquinaria e\ou nos
métodos organizacionais como diria Marx. Listamos abaixo
as principais características da produção toytista levantadas
por Gounet e percebemos como estas vão ao encontro do
apontamento de Marx em aumentar a extração de mais-va-
lia sem aumentar a massa de trabalhadores:
a) a utomação: máquinas capacitadas a pararem a produ-
ção caso ocorra algum incidente, seu funcionamento
dispensa vigilância constante por parte do operário,
liberando-o para manipular várias máquinas simulta-
neamente, importante instrumento para elevação da
produtividade;
b) s istema just in time: se baseia na diminuição dos esto-
ques, manipulando a quantidade de matérias-primas
e auxiliares no momento exato da produção, gestão
inversa da produção fordista, primeiro se vende um
produto logo depois é produzido, tendo em conta a
quantidade exata de componentes necessários para
cada etapa da produção. Em outras palavras, com o
fim dos estoques a demanda (mercado) fixa a quan-
tidade e as características do produto, resultando em
diminuição da inversão de capital e maior racionali-
zação do processo de trabalho;
264 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

c) trabalho em grupo ou team work: permite a raciona-


lização do trabalho a partir do tempo coletivo para a
realização de determinada etapa do trabalho, expande
o tempo de produção para além da atividade indivi-
dual, diminuindo o tempo de trabalho racionalizando
o trabalho em equipe;
d) “management-by-stress”: gestão por estímulos, inte-
rioriza no trabalho em grupo as pressões da produção;
e) f leixibilidade do trabalho: operários têm que se adaptar
às variações da produção que ocorrem com as varia-
ções do mercado, podendo trabalhar mais em determi-
nadas épocas ou serem dispensados em momentos de
contração das vendas. Esse movimento resulta em ins-
tabilidade nos rendimentos do trabalhador, trabalho
e salário variável, ainda mais, variações na produção
exigem trabalhador polivalente, trabalhando em vários
postos de trabalho, inclusive em instalações diferentes;
f) p irâmide de subcontratação: empresa Toyota concen-
tra sua produção em montagem e fabricação de peças
fundamentais como o motor, o restante dos produtos
é feito por empresas subcontratadas, o que permite re-
duzir drasticamente os custos de produção, se apro-
veitando dos salários mais baixos e das maiores jor-
nadas de trabalho nas empresas subcontratadas, que
estão ordenadas segundo a escala dos produtos e ser-
viços que prestam à montadora central, direta ou in-
diretamente, quanto mais baixa a posição da empresa
subcontratada, maior precarização do trabalho;
g) gestão participativa: resulta de contenção dos sindica-
tos, da implementação do controle de qualidade que
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 265

envolve os trabalhadores na melhoria da qualidade da


produção e por fim sistema de ascenção no interior
da empresa, onde o trabalhador entra como tempo-
rário, ascende ao emprego por tempo indeterminado,
alguns são nomeados chefes de grupos e finalmente
quadros de gerência da produção, desenvolver o pa-
drão de operários como pequenos gerentes, responsá-
vel pelo bom andamento da produção e por atingir as
metas de produção. A gestão participativa procede de
um movimento de fasciscitização das relações sociais
no interior da empresa, processo de transformação da
consciência do trabalhador o torna solidário ao patrão
e insensível aos outros trabalhadores, ao seu igual;
h) incremento da exploração: para o aumento do ritmo
de trabalho, dois importantes instrumentos são o
trabalho em equipe (team work) e a subcontratação:
primeiro permite aumento do controle da direção so-
bre o processo concreto de produção efetuado pelos
trabalhadores, aumento máximo do tempo de traba-
lho; e a subcontratação que permite os empregado-
res se aproveitarem de piores condições de trabalho,
que incluem salários mais baixos, maior jornada de
trabalho, menor proteção social do trabalho, incre-
mentar a flexibilidade, ameaças de piores condições
de trabalho, segmentar a classe trabalhadora, indivi-
dualizar o operário em sua condição específica den-
tro da rede da empresa.
Antunes no esclarece que essa nova forma de produção
transforma as relações sociais de produção, possibilitando a
emergência da unificação histórica das duas formas de extra-
266 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

ção de mais-valia: por um lado intensifica-se o processo de


trabalho através da manipulação simultânea de várias máqui-
nas e do aumento da velocidade da cadeia produtiva com o
sistema de luzes (kanban), isto é, eleva-se a extração de mais-
-valia relativa; e por outro lado, a aplicação de movimentos de
extração de mais-valia absoluta como através do aumento da
jornada de trabalho semanal de 48 para 52 horas, expansão
do trabalho em meio-período, divisão sexual do trabalho que
reduz custos com força de trabalho em determinados setores
da classe trabalhadora, e o aumento da utilização da força de
trabalho imigrante (ANTUNES, 2002, p. 33-34). A mágica da
produtividade toyotista é desvendada quando se descobre que
além da extensão e intensificação do processo de trabalho o
aumento da produtividade é obtido através da diminuição do
número de trabalhadores qualificados no interior da empre-
sa com correspondente aumento da precarização (hora-extra,
terceirizados, subcontratados, trabalho temporário) fora da
empresa, na medida em que 75% da produção que se encon-
tra descentralizada, o que se traduz na pouca concentração de
funcionários dentro da empresa sede (Ibidem, p. 32).
Nesse sentido, concordamos com Antunes para quem
a expansão da produção Toyotista se tornou viável quando
esta se mostrou a única opção possível para superar a crise
de acumulação que os países de capitalismo avançado vi-
nham passando com a intensificação dos limites e contra-
dições da acumulação fordista; assim, a superação veio com
a “via japonesa de consolidação do capitalismo industrial”
através da incorporação de “um inovado e altamente inte-
grado sistema de organização da produção” (SAYER apud
ANTUNES, 2002, p. 31)
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 267

Esse movimento foi maior principalmente nos países


de capitalismo desenvolvido, onde é elevadíssima a concen-
tração de capitais como nos EUA, Alemanha, Suéca, norte
da Itália e aos poucos foi se generalizando para os países
periféricos. Seguindo as análises de Bolthanski e Chiapelo
sobre a realidade do sistema produtivo francês dispomos
de um amplo quadro de transformações na organização
do trabalho que ocorreram através das inovações da rees-
truturação produtiva posterior à década de 1970. A nova
realidade de organização da produção está fundamentada
na acumulação flexível de capital, que impõe a organização
flexível do trabalho:

Eixo da nova redistribuição FLEXIBILIDA-


DE: interna: transformação da organização
do trabalho em rede, objetivo é desenvolver
polivalência, autocontrole, e autonomia do
trabalho; externa: subcontratação, mão de
obra maleável, empregos precários, tempo-
rários, trabalho autônomo, tempo parcial,
horários variáveis (CHIAPELLO & BOL-
THANSKI, 2009, p. 240).

Para os autores o objetivo maior das inovações era o de


eliminar todas as barreiras à acumulação de capital, o que
no caso da organização do trabalho se obtém ao diminuir
custos com a força de trabalho, jogando para cima dos tra-
balhadores individualizados todo o ônus da reprodução da
força de trabalho. A flexibilização externa referida por Bol-
thanski e Chiapello referem-se às regulamentações, sobre-
268 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

tudo as estabelecidas pelo estado, sobre a força de trabalho


e sobre o mercado de trabalho; nesse sentido, juntamente à
flexibilização da organização do trabalho foi necessária à
flexibilização das normas que regulamentam a mobilização
de trabalho, que para os autores se expressa no novo con-
trato comercial entre prestadores de serviço, substituindo o
contrato de trabalho (CHIAPELO & BOLTHANSKI, 2009).
Vasapollo descobre nas alterações na legislação italiana,
no ano de 1997, e no projeto conhecido como “Pacto para a
Itália”, a intenção de criar as condições sociais para a flexi-
bilização ao introduzir novas formas de contratação como
o trabalho temporário, estágios de aprendizado, trabalho
em meio período, trabalhos socialmente úteis, formação
profissional (VASAPOLLO, 2006, p. 46\7) institucionali-
zando o que o autor chama de formas de trabalho atípico,
que são pessoas inseridas no mercado de trabalho por meio
de bolsas de estudo e aprendizado, planos de recolocação
profissional, contrato temporário de idosos, trabalhos so-
cialmente úteis, contratos atípicos na administração pú-
blica. Para Vasapollo a nova legislação é a responsável por
desestruturar a antiga organização do trabalho, na medi-
da em que seus resultados contribuem com a globalização
neoliberal e internacionalização dos processos produtivos
(Ibidem, p. 52), o que a nova legislação consegue ao institu-
cionalizar a intensificação da exploração do trabalho, não
questionar a elevação dos acidentes e trabalho e as enfer-
midades, e compactuando com aumento da pobreza de sua
própria força de trabalho.
Esta nova forma de organização do trabalho intensifica
a tendência existente na sociedade capitalista de ampliar o
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 269

tempo de sobre-trabalho, o tempo a mais sobre a jornada


de trabalho necessária para a reprodução da força de traba-
lho. Este tempo a mais, como vimos, pode ser aumentado
tanto absolutamente ao estender a jornada total de trabalho,
quanto relativamente, ao ser intensificado o tempo de tra-
balho excedente. Como diversos estudiosos vêm ressaltan-
do, a luta de classes gira em torno do tempo de trabalho, os
capitalistas tentando aumentá-la, enquanto os trabalhadores
procuram no imediato diminuir o tempo de sobre-trabalho
juntamente com aumento dos salários (MESZAROS, 2002;
ANTUNES, 2002; VIANA, 2009; MANDEL, 1990).
A organização do trabalho na acumulação flexível inten-
sifica a utilização de instrumentos tecnológicos e organiza-
cionais na tentativa de aumentar a extração de mais-traba-
lho, e ao conseguir elevar o grau de exploração empreende o
que Mandel chamou de “agressão massiva” do capital contra
o trabalho como necessária para superar a crise instaurada
em meados dos anos 70, por meio de uma “ofensiva de aus-
teridade” (MANDEL, 1990, p. 230) contra os custos da força
de trabalho.
As novas máquinas, ferramentas, instalações, enfim a
parte constante do capital, passam por outro processo de
renovação, que foi chamada de “Terceira revolução indus-
trial” (SOARES, 2002) através da generalização da informa-
cionalização da produção e da automatização auto-regulável
prescritas no modelo inglês e norte-americano (CHESNAIS,
1996); bem como da introdução da microeletrônica (ANTU-
NES, 2006); da telemática e o surgimento da empresa em rede
(ALVES, 2013). Podemos entender esses novos instrumentos
como uma revolução nas forças produtivas da sociedade ca-
270 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

pitalista, ao garantir um salto qualitativo nas estratégias de


aumento da extração de sobre-trabalho, sendo complemen-
tados com as transformações nos métodos de organização
(just-in-time, kan-ban, etc) que reconfigura as relações so-
ciais de produção intensificando a disciplina do trabalho, a
gerência, o controle e a maior subordinação dos trabalhado-
res. A organização flexível do trabalho vai configurando-se
como a maximização do grau de exploração do trabalho, in-
tensificar o trabalho o quanto o trabalhador aguentar, com a
correspondente diminuição do tempo disponível, na medida
em que tempo de trabalho necessário avança sobre as capaci-
dades produtivas úteis, essa parte da vida humana é negada
enquanto dela o capital não pode extrair lucros.

Conclusões
A característica maior do atual processo de acumulação
capitalista é a intensificação da exploração do trabalho, a
partir da junção da extração de mais-valia absoluta e relati-
va, possibilitada graças às transformações técnicas e organi-
zacionais que revolucionaram o processo de constituição do
valor na sociedade capitalista. Essa nova situação histórica
resulta de transformações sociais, na medida que as relações
(oposição) de classe reforçam a tendência de declínio da taxa
de lucro, o que foi possível mediante uma drástica ofensi-
va das classes dominantes (burguesia, burocracia e demais
classes auxiliares) sobre a classe trabalhadora.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 271

Referências
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Capítulo 13

Reestruturação dos serviços: a


expansão da terceirização1
Yuri Rodrigues da Cunha2

Introdução12

A s transformações econômicas que ocorreram no último


quarto do século XX alteraram as bases quais assenta-
vam as políticas de caráter keynesiano, marcando uma virada
para as políticas econômicas neoliberais, que pareciam relega-
das a um plano secundário3 desde a crise de 1929 e principal-

1 Comunicação apresentada no XII Fórum de Conjuntura – FFC, UNESP,


Marília (2012). Este trabalho é o desenrolar da pesquisa de Iniciação
Científica financiada pela FAPESP,
2 Graduação em História (2009) e Ciências Sociais (2012), mestrando em
Ciências Sociais - Cultura e Política do Mundo do Trabalho, Faculdade
de Filosofia e Ciências, UNESP, Marília.
3 Segundo Milton Friedman, “aqueles [...] que se mostravam profunda-
mente preocupados com a ameaça à liberdade e à prosperidade, repre-
sentada pelo crescimento da ingerência governamental e pelo triunfo
das ideias keynesianas e do Estado próspero, formavam uma pequena
mas aguerrida minoria, considerada excêntrica pela grande maioria dos
nossos colegas intelectuais” (FRIEDMAN, 1985, p. 5).
274 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

mente graças ao boom econômico da chamada “era do ouro”


do capitalismo, caracterizado pelo apogeu do fordismo.
Para compreendermos de forma bem sintética as bases
dos “trinta anos gloriosos” devemos levar em consideração
três fatores essenciais: os efeitos das guerras mundiais, as
mudanças no padrão monetário internacional e as altera-
ções da divisão internacional do trabalho (BELLUZO, 2009).
Esse período – fim da década de 40 até meados dos anos
70 – é marcado por um lado, pelo crescimento da economia
capitalista, nos países centrais, assim como em parte da pe-
riferia, mas por outro lado o ápice da expansão da economia
capitalista no período de “boom” fornece as bases para a cri-
se estrutural da década de 70.

A maioria das economias capitalistas avan-


çadas experimentou índices historicamen-
te inéditos de crescimento de investimento,
produção, produtividade e salários, junto
com um baixo índice de desemprego e ape-
nas breves e moderadas recessões. Mas du-
rante o longo declínio que se seguiu entre o
início da década de 1970 e meados dos anos
1990, o crescimento do investimento despen-
cou, acarretando um reduzidíssimo aumento
da produtividade, um crescimento mais len-
to (se não um declínio absoluto) dos salários,
um nível de desemprego de época de depres-
são e uma sucessão de recessões e crises fi-
nanceiras como não se viam desde a década
de 1930 (BRENNER, 2003, p. 45)
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 275

A expansão do capitalismo no pós-guerra nos países cen-


trais se deu com estável crescimento econômico, acompa-
nhado pela elevação dos padrões de vida4, pela tendência de
crisesmais amenas, e pela ameaça remota de guerras inter-
capitalistas (HARVEY, 2003). Na prática podemos afirmar
que, esse período de expansão do capitalismo se deu sobre as
bases de uma espécie de livre comércio5 e movimento de ca-
pital, com moedas estáveis graças à esmagadora dominação
econômica dos EUA e do padrão dólar, que funcionou como
estabilizador da economia mundial6, até a quebra do sistema
em fins da década de 1960 (HOBSBAWM, 2010).

4 “O que proporcionou a expansão econômica sem precedentes do perío-


do pós-guerra foi a capacidade das economias capitalistas avançadas de
realizarem e sustentarem altas taxas de lucro. As altas taxas de lucro
mostraram-se fundamentais acima de tudo porque possibilitaram a essas
economias gerarem superávits relativamente grandes por meio da utili-
zação de quantidades ficas de instalações e equipamentos. Os constantes
grandes superávits possibilitaram a essas economias manterem altos ín-
dices de investimento e, por conseguinte rápido crescimento da produti-
vidade, permitindo por sua vez a acomodação de um rápido crescimento
dos salários reais sem ameaçar os lucros.” (BRENNER, 2003, p. 47)
5 A preocupação dos Estados Unidos ao fim da II Guerra era que sua eco-
nomia pudesse enfrentar uma carência de mercados, sendo assim, o
projeto de reorganização da economia mundial se pautava com base no
livre comércio buscando os mercados externos. Se pensarmos ainda que
a indústria europeia estava praticamente destruída por causa da Guerra
e a indústria norte-americana estava intacta, não é difícil imaginar a
razão pela defesa do livre comércio no acordo de Bretton Woods.
6 O acordo de Bretton Woods assinado em 1944 tinha como objetivo pla-
nejar a estabilização da economia internacional e das moedas nacio-
nais prejudicadas pela Segunda Guerra Mundial. As bases do acordo
276 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

A economia mundial, portanto, crescia a uma


taxa explosiva. Na década de 1960, era claro
que jamais houvera algo assim. A produção
mundial de manufaturas quadruplicou entre
o início da década de 1950 e o início da década
de 1970, e, o que é ainda mais impressionan-
te, o comércio mundial de produtos manufa-
turados aumentou dez vezes. [...] a produção
agrícola mundial também disparou, embora
não espetacularmente. E o fez não tanto com o
cultivo de novas terras, mas elevando sua pro-
dutividade. (HOBSBAWM 2010, p. 257).

Com a total recuperação das economias europeias (so-


bretudo Alemanha) e japonesa em grande parte financiada
pela exportação de capitais norte-americanos, uma nova
configuração da divisão internacional do trabalho começou
a solapar a antiga. Isto porque, as reconstruções dos parques
industriais, tanto alemão quanto japonês, se deram sob uma
base de maior produtividade do trabalho e com novos para-
digmas organizacionais – em comparação com a indústria
norte-americana. Com o crescimento dessas duas econo-

definiram o dólar como a moeda-reserva mundial lastreada no ouro,


vinculando com firmeza o desenvolvimento econômico do mundo à po-
lítica fiscal e monetária dos Estados Unidos. Além do mais, as bases do
acordo de Bretton Woods foram firmadas com base no livre comércio e
livre circulação de capitais. Porém esse acordo encontrou alguns limites
tendo em vista que as economias locais – como, por exemplo, o Japão e
a Alemanha – mantiveram o controle de capitais, não converteram suas
moedas e mantiveram certo controle sobre o comércio em seus países.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 277

mias, assim como o aumento da produtividade do trabalho,


o fluxo de capitais se expandiu7, inclusive chegando aos paí-
ses periféricos8 da América Latina.
Como Alemanha e Japão combinavam técnicas mais
avançadas com salários mais baixos reduziam assim custos
em suas produções, aumentando a produtividade do traba-
lho. Com o custo mais baixo da produção, essa mercado-
ria se tornava mais competitiva ganhando assim cada vez
maiores fatias do mercado internacional que anteriormente
pertenciam aos Estados Unidos, resultando por um lado,
em um inchaço cada vez maior de mercadorias circulando
nos mercados consumidores, e por outro, redução do poder
de competitividade dos produtores americanos que se en-
contravam amarrados a custos inflexíveis por se acharem
atravancados por instalações e equipamentos – capital fixo
– que incorporavam métodos de produção que se tornavam
relativamente altos (BRENNER, 2003).

7 De acordo com Hobsbawm, “o mundo desenvolvido passou a exportar


um pouco mais de suas manufaturas para o resto do mundo, porém –
mais significativamente – o Terceiro Mundo passou a exportar manu-
faturas para os países industriais desenvolvidos em escala substancial”
(HOBSBAWM, 2003, p. 274). Esse processo só é possível pois a produção
nos países periféricos tem custos mais baixos, sobretudo no que diz res-
peito ao trabalho, desta forma a produtividade do trabalho era ainda
maior, o que fazia com que os produtos manufaturados desses países
pudessem ser exportados para os países industrializados do centro di-
nâmico do capitalismo global.
8 Aqui se trata de um fluxo seletivo, não são todos os países periféricos que
são alvos das exportações de capitais, principalmente alemão. Os princi-
pais países beneficiados na América Latina são Brasil, México, Argentina.
278 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

O resultado geral foi que, enquanto os fabri-


cantes das economias de desenvolvimento
mais tardio do Japão, da Alemanha e da Euro-
pa ocidental conseguiram manter as suas taxas
de lucro dados os custos e preços mais baixos
de suas produções, os fabricantes dos Estados
Unidos foram incapazes de evitar taxas de
retorno reduzidas. O resultado inexorável dói
uma taxa de lucro agregada em declínio no se-
tor manufatureiro internacional, que expressa-
va um excesso de capacidade e de produção em
todo o sistema. (BRENNER, p. 57).

Essa ascensão dos “parceiros/competidores” fez com que


os Estados Unidos começassem a sentir efeitos negativos so-
bre sua economia, como por exemplo, o saldo negativo em
sua balança de pagamentos a partir da década de 70. Esse
déficit na balança de pagamentos era coberto pelo governo
americano que emitiam cada vez mais dólares na economia.
Entretanto, essa emissão de moedas acabava gerando outro
problema, pois, desde o acordo de Bretton Woods o dólar era
lastreado em ouro, se mantendo como uma moeda padrão.

O boom da crise: os anos 70 a crise


estrutural
A partir da década de 1970, o capitalismo entrou numa
fase de relativa estagnação econômica, caracterizada por
baixas taxas de crescimento, queda dos investimentos e es-
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 279

tagnação de amplas regiões da periferia, esta crise que foi


determinada por múltiplos fatores, tem como um dos prin-
cipais os motivos aspectos econômicos (CORSI, 2003; 2009).
Com a emissão cada vez maior de dólares, a pressão sobre
essa moeda intensificou cada vez mais, fazendo com que o
governo suspendesse a conversibilidade do dólar a uma taxa
fixa com o ouro9. “Os Estados Unidos não foram capazes de
sustentar a posição do dólar como moeda padrão, na medida
em que uma oferta “excessiva” de dólares brotava do dese-
quilíbrio crescente do balanço de pagamentos” (BELLUZO,
2009, p. 53). Essa crise no sistema monetário internacional,
no qual a posição do dólar como moeda chave na economia
internacional, por estar lastreada no ouro, ao sofrer constan-
tes pressões, redundou no fim do acordo de Bretton Woods.
Além da crise do padrão dólar-ouro, outro elemento cen-
tral para a “crise estrutural” de 70 foi a constante queda da
taxa de lucro, indicado por um excesso da capacidade pro-
dutiva, somado a uma tendência mais favorável ao trabalho
na correlação Capital x Trabalho que refletia nas políticas de
“pleno-emprego”, assim como a intensificação da competiti-

9 Os Estados Unidos criaram por meio de seus déficits de balanço de paga-


mentos, que passaram a englobar também a conta corrente no início dos
anos 70, um montante de dólares em circulação no sistema internacional
que era considerado excessivo pelos seus parceiros, isto é, por emitir a
moeda reserva, os Estados Unidos tinham o privilégio do financiamento
automático dos seus déficits externos. Todavia, os demais parceiros, que
acumulavam esses dólares nas suas reservas internacionais, passaram
a questionar crescentemente o valor ou a paridade dessa moeda. (CAR-
NEIRO, 2002, p. 51).
280 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

vidade internacional, bem como nos sinais de esgotamento


do padrão de acumulação pautado pelo “fordismo”.
Segundo Mandel (1990), esta crise, é uma crise de su-
perprodução10, resultado da queda tendencial da taxa mé-
dia de lucros e crescimento regular da capacidade ociosa de
produção da indústria11, resultando na sobreacumulação e
centralização de capitais. Somado a isso, durante a década
de 70, evidenciou-se um relativo esgotamento do padrão de
acumulação taylorista/fordista de produção (ANTUNES,
2010), que se agravava com a retração do consumo, aliada a
queda dos investimentos e da taxa de lucro, gerando o início
de um desemprego estrutural.
A relativa estagnação econômica, somada ao crescente
índice de desemprego, afetou também as políticas de caráter
keynesianas do Estado do Bem Estar Social, que se agravava
a cada nova medida que os governos12 tomavam na tentativa

10 De acordo com Brenner, o capitalismo teria mergulhado em uma crise


de superprodução desde os anos de 1970, que teria se tornado crônica, a
medida que a produção industrial em escala mundial cresce, primeiro
com a alta produtividade do trabalho na Alemanha e Japão, que combi-
navam altas tecnologias com salários relativamente baixos, posterior-
mente, com nichos de produção da periferia que exportavam cada vez
mais para o mercado mundial. (BRENNER, 2003)
11 Mesmo Mandel (1990) considerando como uma crise clássica de super-
produção, isto não significa que não tenha particularidades específicas
frutos do processo histórico, tais como o processo inflacionário por um
lado, e por outro, pontos de estrangulamento coincidindo pela supera-
bundância geral de mercadorias.
12 Sobretudo o governo dos Estados Unidos, de acordo com Brenner (2003)
o governo perseguiu, sem entraves, políticas monetárias expansionistas
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 281

de estancar a crise econômica, acarretando uma maior crise


fiscal e numa ofensiva dos defensores do neoliberalismo.
Outro elemento que ganha em importância neste perío-
do, é o crescimento e hipertrofia da esfera financeira13, que
começou a ter uma autonomia relativa a partir da década de
50 nos Estados Unidos e 60 na Europa, tornando-se hege-
mônica a partir dos anos 80, quando as taxas de crescimento
dos ativos financeiros crescem a taxas mais altas do que o
PIB. (CHESNAIS, 1996; 2005)
Todos estes fatores elencados contribuíram, em maior
ou menor grau, para a derrubada das bases sob as quais se
assentavam a economia capitalista da “era de ouro”. Dado
a profundidade da crise que se delineava ao longo da déca-
da de 70, ocorrendo de maneira generalizada14 nos países
capitalistas, a necessidade da resposta por parte do capi-

e políticas keynesianas de déficits orçamentários visando, de uma só


vez, estimular o crescimento doméstico, desvalorizar o dólar para aju-
dar na competitividade do setor manufatureiro e depreciar as reservas
de dólares mantidos no exterior. Estas medidas eram adotadas na ânsia
de tentar recuperar da constante queda da taxa de lucros, e aumentar a
capacidade de consumo que decaía.
13 Um fator importante para compreender a hipertrofia financeira, foram
os chamados petrodólares, ou seja, as divisas provenientes da exporta-
ção de petróleo, que foi a origem de uma liquidez no mercado interna-
cional, bem como uma nova fase de internacionalização da economia.
14 A sincronização internacional dos movimentos conjunturais nos princi-
pais países imperialistas amplificou o movimento de retração da ativi-
dade econômica (MANDEL, 1990), mas isso não significa que esta crise
atinge todos os países de maneira uniforme, tendo nítidas diferenças
entre os países centrais e periféricos.
282 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

tal deveria ser da mesma magnitude, uma ofensiva ampla


e profunda, que poderiam ser capazes de refrear o avanço
das ondas de contestações sociais que emergiam em várias
partes do mundo15.
Porém, a partir de 1973, com o primeiro choque do pe-
tróleo, detonando todos estes fatores que desencadearam
a chamada “crise estrutural”, marcando o início da virada
“neoliberal”16, atingindo tanto os países do centro nevrálgi-
co capitalista, quanto a periferia. A partir deste momento,
inicia-se uma nova ofensiva do capital, caracterizada por
uma busca desenfreada à retomada das taxas de crescimento
do período anterior.

15 Na Europa havia um avanço das forças de esquerda, no seio dos Estados


Unidos as contestações sociais aumentavam, criando uma nova cultura
anticapitalista, dando margem para o surgimento de movimentos so-
ciais com pautas específicas, que lutavam pelos interesses das minorias,
assim como em grande parte dos países da periferia, um movimento
nacionalista ganhava cada vez mais corpo, somando-se ainda a uma
possibilidade real de uma revolução socialista, principalmente após a
consolidação da Revolução Cubana,
16 Definir o início do “neoliberalismo” pode ser uma tarefa ingrata,
dado as matizes regionais que esse processo desenvolve-se, porém,
alguns momentos são importantes para o fortalecimento político do
neoliberalismo, como a experiência chilena após o golpe militar de
Pinochet, onde os “Chicago boys” assessoraram de perto as políticas
econômicas de “reconstrução” chilena (HARVEY, 2008). Após a “ex-
periência” chilena, no ano de 1979 se consolidam as políticas neoli-
berais com as eleições de Thatcher e Reagan, na Inglaterra e Estados
unidos respectivamente.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 283

Reestruturação Produtiva e dos


Serviços
Diante da crise que se mostrava cada vez mais aguda,
não houve uma destruição do excesso de capitais, como co-
munmente ocorre no capitalismo, segundo Corsi (2003), o
que recompôs as condições de retomada do crescimento, foi
a recomposição da taxa de exploração, e assim a rentabili-
dade, desta maneira a reestruturação produtiva bem como
a desregulamentação do mercado de trabalho são, aspectos
dessa ofensiva dos capitais contra os trabalhadores.
Segundo Antunes (2010), em meio a crise capitalista,
ocorria uma interação de vários elementos constitutivos,
nos quais impossibilitavam a permanência do ciclo expan-
sionista do capital que vigorava desde o pós-guerra, isto
porque, além do esgotamento econômico do clico de acu-
mulação, as lutas de classes ocorridas ao final dos anos 60
e início dos 70 solapavam pela base o domínio do capital e
afloravam as possibilidades de uma hegemonia oriunda do
mundo do trabalho.

A confluência e as múltiplas determinações


de reciprocidade entre estes dois elementos
centrais (o estancamento econômico e a in-
tensificação das lutas de classe) tiveram, por-
tanto, papel central na crise dos fins dos anos
60 e início dos 70 (ANTUNES, 2010, p. 44).

Como resposta a sua própria crise, iniciou-se um proces-


so de reorganização do capital e de seu sistema ideológico e
284 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

político, cujos contornos mais evidentes foram o advento do


neoliberalismo, a desregulamentação (em diversas frentes,
tal como do trabalho e do setor financeiro), bem como o
movimento chamado de “mundialização de capitais” 17.
A ofensiva do capital nesse momento de reestruturação
produtiva envolve um sistema de inovações tecnológico-or-
ganizacionais no campo da produção, como por exemplo, a
robótica e a automação eletrônica; as novas modalidades de
gestão da produção, oriundos do toyotismo, além de reen-
genharias e o “downsizing”. Além disso, é um importante
componente da de reestruturação produtiva, as descentrali-
zações produtivas, como realocações industriais e terceiriza-
ção, instaurando uma busca incessante por condições cada
vez mais flexíveis18 (ALVES, 2010).

17 “A reestruturação do capitalismo nos países desenvolvidos baseou-se


no desmonte do Estado de Bem-Estar Social e na desregulamentação e
na abertura financeira e comercial das economias nacionais.” (CORSI,
2009, p. 23)
18 “A nova organização capitalista do trabalho é caracterizada cada vez
mais pela precariedade, pela flexibilização e desregulamentação, de
maneira sem precedentes para os assalariados.” (VASAPOLLO, 2006, p.
45). Ainda segundo o mesmo autor, a flexibilização deve ser entendida
como: “liberdade da empresa para despedir parte de seus empregados,
sem penalidades, quando a produção e as vendas diminuem; liberdade
da empresa para reduzir ou aumentar o horário de trabalho, repetida-
mente e sem aviso prévio, quando a produção necessite; faculdade da
empresa de pagar salários reais mais baixos do que a paridade de tra-
balho, seja para solucionar negociações salariais, seja para poder par-
ticipar de uma concorrência internacional; possibilidade de a empresa
subdividir a jornada de trabalho em dia e semana de sua conveniência,
mudando os horários e as características do trabalho por turno, por es-
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 285

A reestruturação pode ser sintetizada pela busca de uma


“acumulação flexível”, entendida como o combate a rigidez19
do padrão taylorista/fordista/keynesiano, que de acordo
com Harvey (2003), era incapaz de conter as contradições
do capitalismo.

A acumulação flexível [...] é marcada por


um confronto direto com a rigidez do fordis-
mo. Ela se apoia na flexibilidade dos proces-
sos de trabalho, dos mercados de trabalho,
dos produtos e padrões de consumo. Carac-
teriza-se pelo surgimento de setores de pro-
dução inteiramente novos, novas maneiras de
fornecimento de serviços financeiros, novos
mercados e, sobretudo, taxas altamente in-

cala, tempo parcial, horário flexível; liberdade para destinar parte de


sua atividade a empresas externas; possibilidade de contratar trabalha-
dores em regime de trabalho temporário, de fazer contratos por tempo
parcial, de um técnico assumir um trabalho por tempo determinado,
subcontratado, entre outras figuras emergentes do trabalho atípico, di-
minuindo o pessoal efetivo a índices inferiores a 20% do total da empre-
sa. (VASAPOLLO, 2006, p. 45-46).
19 Rigidez dos investimentos de capital fixo em larga escala e longo
prazo em sistema de produção em massa, impedindo a flexibilidade
de planejamento. Havia problema na rigidez nos mercados, na aloca-
ção de contratos de trabalho, e na ânsia de superar esses problemas,
aprofundaram o poder dos trabalhadores, que redundaram no apro-
fundamento das greves. Rigidez dos compromissos do Estado, se in-
tensificando à medida que se exigia novos programas de assistências.
(HARVEY, 2003).
286 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

tensificadas de inovação comercial, tecnológi-


ca e organizacional. (HARVEY, 2003, p. 140).

A busca por esse novo padrão de acumulação flexível,


gerou uma reorganização do processo de trabalho, pela in-
trodução de novas tecnologias poupadoras de mão de obra,
desregulamentação do mercado de trabalho e pela precari-
zação do emprego (CORSI, 2009).

Na busca de recuperar a lucratividade por


meio de custos menores os grandes oligopó-
lios, em um contexto de acirrada concorrência
e de abertura das economias nacionais, bus-
caram novos espaços de acumulação, onde a
classe trabalhadora fosse mais disciplinada e
os salários baixos. (CORSI, 2009, p. 24).

Uma das medidas mais eficazes de disciplinamento da


classe trabalhadora foi a introdução de novos paradigmas
organizacionais, como, por exemplo, o toyotismo, que ca-
racteriza-se por uma busca da maior produtividade do tra-
balho, pautado por uma maior flexibilidade do trabalhador.

O capital deflagrou, então, várias transfor-


mações no próprio processo produtivo, por
meio da constituição das formas de acumu-
lação flexível, do downsizing, das formas
de gestão organizacional, do avanço tecno-
lógico, dos modelos alternativos ao binômio
taylorismo/fordismo, em que se destaca prin-
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 287

cipalmente o “toyotismo” ou o modelo japo-


nês. Essas transformações, decorrentes da
própria concorrência intercapitalista, e, por
outro lado, da própria necessidade de contro-
lar as lutas sociais oriundas do trabalho, aca-
baram por suscitar a resposta do capital a sua
crise estrutural. (ANTUNES, 2010, p. 49-50)

Foi a partir dos anos 80, durante o movimento de rees-


truturação produtiva, que o toyotismo se consolida como o
momento predominante, na fase de mundialização do ca-
pital, segundo Alves (2000), a partir deste momento que o
toyotismo assume a “posição de objetivação universal da ca-
tegoria da flexibilidade, tornando-se valor universal para o
capital em processo” (ALVES, 2010, p. 29).
No que se refere ao método de gestão, o princípio da fle-
xibilidade se apoia na noção de Just-in-time, que em última
instancia significa a economia de todos os elementos de pro-
dução e a eliminação de todos os desperdícios, de todas as
sobras e de todos os tempos mortos no interior da jornada de
trabalho, significando uma busca permanente por eficiência
e redução de custos através de uma racionalização do tra-
balho. Além disso, outra técnica é o controle de qualidade
total, técnica no qual, responsabiliza o próprio trabalhador
pela qualidade do serviço realizado, retirando de cena a fi-
gura do gerente taylorista da produção.
Durante esta fase de reestruturação, há cada vez mais,
conforme aponta Chesnais (1996), uma imbricação entre as
dimensões produtivas e financeiras, tornando-se parte do
funcionamento cotidiano da nova etapa da mundialização
288 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

do capital, mas a partir dos anos 90, há um aumento na im-


portância das operações puramente financeiras. Desta ma-
neira, “a esfera financeira é um dos campos de valorização
do capital, que deve regar lucros como em qualquer outro
setor.” (CHESNAIS, 1996, p. 240-241).
Em meio a esse processo de crescimento da esfera finan-
ceira, as medidas de liberalização e de desregulamentação
tomadas em fins dos anos 70 e início dos anos 80, marcou
o nascimento do sistema de finança mundializado (CHES-
NAIS, 2005). Neste novo processo de mundialização, de-
sencadeando-se, uma nova onda de centralização de capi-
tais, apresentado “sob a forma de uma crescente dispersão
espacial das funções produtivas e terceirização das funções
acessórias ao processo produtivo acompanhadas de violenta
concentração das decisões” (BELLUZZO, 2009, p. 57).
Diante das transformações financeiras que acirram a
concorrência interempresarial, e modificam diretamente a
direção e a natureza dos investimentos, os Estados nacionais
buscam se aproveitar dessa nova fase econômica.

Os governos de todas as economias capi-


talistas avançadas buscaram facilitar o
ingresso em atividades financeiras e pavi-
mentar o caminho para retornos mais altos.
Para fazê-lo, não só iniciaram uma guerra
permanente contra a inflação como tam-
bém encetaram um processo abrangente de
desregulamentação financeira (BRENNER,
2003, p. 86-87).
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 289

Porém não foi só a desregulamentação financeira que os


Estados intentaram, buscou também uma desregulamenta-
ção das leis trabalhistas a fim de atrais maiores investimen-
tos, acatando cada vez mais os ideais neoliberais.
No sistema neoliberal, o Estado passou a ser o princi-
pal agente que desestruturou a regulação e a gestão da força
de trabalho, através de legislações e reformas trabalhistas,
promovidos com a desregulamentação e flexibilização (VA-
LENCIA, 2009), isto porque, no sistema neoliberal, a função
do Estado é de garantir o bom funcionamento do mercado.
Essas reformas liberalizantes, empreendidas pelos Es-
tados nacionais, trataram de mobilizar recursos políticos e
financeiros dos Estados para fortalecer os respectivos sis-
temas empresarias envolvidos na concorrência global, isto
significa que o “o Estado não saiu de cena, apenas mudou de
agenda” (BELLUZZO, 2009, p. 302).

Na esteira do apoio decisivo do Estado, as cor-


porações globais passaram a adotar padrões
de governança agressivamente competitivos.
Entre outros procedimentos, as empresas
subordinaram seu desempenho econômi-
co à “criação de valor” na esfera financeira,
repercutindo a ampliação dos poderes dos
acionistas. [...] os acionistas exercitaram um
individualismo agressivo e exigiram surtos
intensos e recorrentes de reengenharia admi-
nistrativa, de flexibilização das relações de
trabalho e de redução de custo. (BELLUZZO,
2009, p. 303).
290 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Aconteceu que, com a globalização neoliberal, gerou-se


uma individualização das relações trabalhistas, promovendo
a intensificação do ritmo de trabalho por um lado, ao mesmo
tempo em que novas formas financeiras contribuíram para
aumentar o poder das grandes corporações em suas relações
com os empregados e terceirizados. (BELLUZZO, 2009).
Neste contexto, a reestruturação produtiva permitiu re-
cuperar a rentabilidade do capital ao combinar fatores tec-
nológicos e organizacionais, assim como na reorganização e
reconversão de setores industriais que se caracterizam pela
realização de grandes investimentos em setores de ponta, ao
mesmo tempo em que combinam técnicas de subcontrata-
ção, criando uma rede interempresarial.
Concomitante a isso, ocorre há uma guinada da econo-
mia para o setor de serviços, e crescia mais na medida em que
os salários podiam ser mantidos baixos (BRENNER, 2003).
Desta maneira, os investimentos internacionais passam a
predominar em detrimento do comércio exterior, moldando
desta maneira, as estruturas que predominam a produção e
no intercambio de bens e serviços. (CHESNAIS, 1996).
Neste sentido, a internacionalização dos serviços tem a
ver também com grupos industriais, que na ânsia de manter
sua ascendência sobre certas atividades importantes de ser-
viços, complementando cada vez mais as operações centrais
das empresas, combinando assim as práticas de gestão em-
presarial oriunda da reestruturação produtiva. “Esse cresci-
mento foi especialmente espetacular nos serviços financei-
ros, seguros e serviços imobiliários, bem como na grande
distribuição concentrada” (CHESNAIS, 1996, p. 185).
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 291

Os investimentos internacionais nos serviços concen-


tram-se na natureza particular das prestações vendidas, bem
como no caráter intrinsecamente imperfeito dos mercados.
O papel desempenhado pelas relações de proximidade e
contato direto com os clientes, na comercialização dos servi-
ços confere aos investimentos, uma posição privilegiada na
conquista e ocupação dos mercados. Para a conquista destes
novos mercados e polos de acumulação, era necessário que o
movimento de liberalização e desregulamentação estoura-se
os limites das legislações nacionais, desta maneira conclui
Chesnais (1996).

Visto sob o ângulo das necessidades do ca-


pital concentrado, o duplo movimento de
desregulamentação e da privatização dos
serviços públicos constitui uma exigência
que as novas tecnologias vieram a atender
sob medidas. Atualmente, é no movimento
de transferência, para a esfera mercantil, de
atividades que até então eram estritamen-
te reguladas ou administradas pelo Estado,
que o movimento de mundialização do capi-
tal encontra suas maiores oportunidades de
investir. A desregulamentação dos serviços
financeiros num primeiro tempo; depois,
nos anos 80, o início da desregulamentação
e privatização dos grandes serviços públicos
representam a única “nova fronteira” aber-
ta para os Investimentos Externos Diretos.
(CHESNAIS, 1996, p. 186).
292 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Neste sentido que o serviço nas empresas é a atividade


de coerção é mais forte, neste sentido, os serviços se definem
como produto de um processo interativo entre quem ofe-
rece e quem procuram, personalizando e adaptando-se as
exigências dos clientes.
Segundo Antunes (2010), durante este período ocorre
uma expansão dos assalariados médios e de serviços, que
incorporam parte do contingente oriundos do processo de
reestruturação produtiva industrial e também da desindus-
trialização. Porém, essa incorporação vem carregada con-
sigo de uma completa subordinação ao capital, sendo um
mecanismo de reintrodução de formas mais pretéritas de
trabalho20, que o capitalismo na era da mundialização está
recuperando em larga escala, tais como a terceirização.

Definindo as Formas de
Contratação Terceirizada
Apesar de não ser um fenômeno relativamente novo,
não há um consenso sobre o surgimento e o conceito “ter-
ceirização”. De acordo com Druck (1999), as transformações
que ocorreram na busca pela flexibilização da produção,
leva a um processo crescente de descentralização das em-
presas, através da externalização das atividades, assumindo
diversas formas como, contrato domiciliar, empresas forne-
cedoras de componentes, contratos de serviços de terceiros
e contratos de empresa cuja mão de obra, realiza parte da

20 Neste sentido, o trabalho por peça no qual falava Marx em O Capital é


retomado nesta nova fase, bem como o trabalho domiciliar.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 293

atividade produtiva ou serviço, no interior da planta da con-


tratante. (DRUCK, 1999).
Assim, com estas transformações a terceirização ganha
um papel central no capitalismo flexível. Destarte, a tercei-
rização pode ser entendida como uma prática que se torna
central a partir das práticas toyotistas, pois, as empresas to-
yotistas possuem uma estrutura muito horizontalizada, sen-
do que as empresas são responsáveis por 25% da produção
somente, priorizando o que é central em sua especialidade
no processo produtivo, transferindo a terceiros grande parte
do que antes era produzido dentro do seu espaço produti-
vo. Assim a terceirização é ampliada no processo produtivo
chamado de toyotista (ANTUNES, 2008).
Conforme aponta Druck existem elementos centrais que
são presentes na conceituação sobre a terceirização, “como a
ideia de transferência ou de repasse a outro, a um terceiro,
assim como a referência à necessária flexibilidade como al-
ternativa para redução dos custos e para atender a ‘urgência
produtiva’” (DRUCK e THÉBAUD-MONY, 2007, p. 26).
Outras definições de terceirização são encontradas na
literatura brasileira destacando os seguintes elementos:
“transferência de atividades a terceiros, especialização, ativi-
dade-fim, parceria, foco na atividade principal”. (CARELLI
apud DRUCK e THÉBAUD-MONY, 2007, p. 27). É impor-
tante salientar que a palavra “terceirização” é uma criação
brasileira, publicada pela primeira vez na revista Exame na
segunda quinzena de janeiro de 1991 (JORGE, 2011). Assim,
apesar da subcontratação (aqui entendida como terceiriza-
ção) ser um fenômeno mundial ganha contornos e caracte-
rísticas nacionais.
294 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Segundo o Dieese a terceirização é “o processo pelo qual


uma empresa deixa de executar uma ou mais atividades
realizadas por trabalhadores diretamente contratados e as
transfere para outra empresa” (DIEESE, 2007, p. 5). Ainda
segundo a mesma pesquisa do Dieese, a terceirização se rea-
liza de duas maneiras não excludentes, primeiramente a em-
presa deixa de produzir bens ou serviços utilizados em sua
produção e passa a comprá-los de outra. E a segunda manei-
ra é a contratação de uma ou mais empresas para executar
tarefas dentro da empresa contratante, como, por exemplo,
o setor de limpeza (DIEESE, 2007).

A busca pela flexibilização da produção e do


trabalho tem levado a um processo crescente
de descentralização das empresas, através da
externalização de atividades. Esta externa-
lização assume várias formas: contratos de
trabalho domiciliar, contrato de empresas
fornecedoras de componentes, contratos de
serviços de terceiros (empresas ou indivídu-
os) e contratos de empresa cuja mão-de-obra
realiza a atividade produtiva ou serviço na
planta da contratante. (DRUCK, 1999, p. 126).

Para Pochmann “a terceirização difundiu-se como elemen-


to de modernização nas estratégias das empresas, especialmen-
te nas de grande porte, voltadas à maximização da produtivi-
dade e da eficiência econômica no uso dos recursos produtivos”
(POCHMANN, 2007, p. 1). Assim, o discurso hegemônico no
meio empresarial com relação a terceirização passa ser a com-
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 295

petitividade/rentabilidade, com a necessidade de inserção em


uma nova ordem econômica mundializada, e a superação das
crises econômicas. Esse discurso tem seu ponto inicial, quase
como uma palavra de ordem no início da década de 90, na era
da “qualidade total”, e da empresa enxuta e flexível.
A terceirização pode ser considerada como um fenôme-
no que se generalizou para quase todas as atividades e de
tipos de trabalho dentro das indústrias, no comércio, ser-
viços, no setor público e privado. Mas para além da própria
forma de reorganização da produção, a terceirização só é
possível pelo fato de vir juntamente com diversas formas de
(des)regulamentação da legislação trabalhista.
Desta forma:

Caracteriza-se como um fenômeno novo


porque passa a ocupar um lugar central nas
chamadas novas formas de gestão e organi-
zação do trabalho inspiradas no “modelo ja-
ponês” (toyotismo) e implementadas no bojo
da reestruturação produtiva como resposta a
crise do fordismo em âmbito mundial, desde
as duas últimas décadas do século passado.
(DRUCK e THÉBAUD-MONY, 2007, p. 28)

Segundo Jorge (2011), a terceirização, enquanto um dis-


curso hegemônico no meio empresarial tem como ponto
central a busca por rentabilidade/competitividade, passando
a se preocupar fundamentalmente em sua “atividade prin-
cipal”, passando a transferir a terceiros a responsabilidade
sobre as “atividades meio”.
296 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Portanto como apontam Druck e Franco,

Dentre as diversas definições de terceiriza-


ção – cujos principais aportes vêm das áreas
de administração, economia e sociologia [...]
há elementos comuns nos conceitos utiliza-
dos, como a ideia de um ‘repasse’, de ‘trans-
ferência’, de ‘especialização’ e de ‘flexibiliza-
ção’ (DRUCK & FRANCO, 2008, p. 84).

Existem dois tipos de terceirização comumente utiliza-


da, o primeiro tipo se refere a “atividades externas” ou “se-
cundárias” ao processo produtivo, também definido como
“terceirização-base”. Este concentra-se na dita atividade-
-meio do circuito de produção de bens e serviços. Segundo
Pochmann (2007, 2008), a empresa que oferece a atividade-
-meio, geralmente não é parceira da empresa contratante,
mantendo um contrato formal geralmente de longo prazo, já
que, atendem a atividades importantes, porém “não essen-
ciais” ao funcionamento do conjunto da cadeia de produção.
Dentre essas atividades encontram-se, tarefas de segurança,
transporte, limpeza e conservação, manutenção, etc.
Já o segundo tipo, refere-se as “atividades internas” ou
“primárias” ao processo produtivo. Chamado também por
“superterceirização da mão de obra” (POCHMANN, 2007,
2008), ou seja, na “superterceirização”, as principais ativi-
dades constituem o núcleo da cadeia produtiva, atendendo
a tarefas e funções de produção, vendas, logística, organiza-
ção, supervisão, gerência, etc.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 297

Desta maneira, pode-se apontar que a terceirização pode


atingir todos os estágios do processo produtivo, garantindo
uma rede de contratação e subcontratação, semelhante ao
regime toyotista, conforme já apontamos acima.

Essas iniciativas não deixaram de provocar


mudanças organizacionais e de gestão de tra-
balho. Entre elas, ganharam maior dimensão
os movimentos vinculados a subcontratação e
terceirização de mão de obra, à desverticaliza-
ção das empresas, à focalização da produção,
entre outros, que ficaram responsáveis pela
ampliação da externalização de partes do pro-
cesso produtivo (POCHMANN, 2008, p. 51).

Assim, em meio ao complexo de reestruturação produ-


tiva, que dentre outros, permitiu a expansão das novas téc-
nicas organizacionais, bem como a expansão do setor de
serviços e a terceirização, é possível apontar agora a maneira
como a terceirização passou a ser adotada no Brasil princi-
palmente ao longo da década de 90.

Reestruturação dos Serviços e


Avanço da Terceirização: a década
de 90 no Brasil
As transformações das relações de trabalho pelo qual
passou o Brasil nas últimas décadas, caracterizado pela
flexibilização do trabalho nas relações de emprego alterou
298 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

profundamente as relações de emprego, sobretudo a partir


da década de 90 (KREIN, 2007). Soma-se a isso um acirra-
mento de crise econômica, abertura comercial e financeira,
reestruturação e reformas do Estado, reestruturação produ-
tiva e neoliberalismo.
Nos anos 90 de acordo com Krein (2007) “inicia-se
um período de hegemonia das teses flexibilizadoras e, nos
primeiros anos do século XXI, essa hegemonia perdura.”
(Idem, p. 25). Assim, podemos ver que a principal forma de
flexibilização da contratação se dá por meio das formas ter-
ceirizadas de contratação21.
O movimento de terceirização ganha força no Brasil
durante a década de 90 em meio ao complexo movimento
de reestruturação produtiva, avançando rapidamente após
a implantação do Plano Real, encontrando elementos asso-
ciativos a semi-estagnação da economia nacional, baixos in-
vestimentos, diminuta incorporação de novas tecnologias,
abertura comercial e financeira e desregulamentação da
competição intercapitalista.
Assim, o movimento de terceirização da força de traba-
lho, impõe uma nova dinâmica no interior do mercado de
trabalho brasileiro. Desde 1990, com o abandono do pro-
jeto de industrialização nacional, o regime e as formas de
contratação de trabalho sofreram importantes modifica-
ções, que atenderam, em grande medida, ao movimento de
acirramento da competição intercapitalista. Desta maneira,
a abertura comercial e financeira impôs generalizadamente

21 É possível afirmar conforme o autor “que a terceirização se constitui na


principal forma de flexibilização da contratação, a partir dos anos 90,
no Brasil” (Idem, p. 188).
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 299

ao setor produtivo a flexibilização dos contratos de trabalho,


uma vez que as empresas adotaram novos procedimentos de
desverticalização das atividades anteriormente concentrada
na grande empresa (POCHMANN, 2008).

Frente às incertezas do ambiente macroe-


conômico prisioneiro do reduzido ritmo de
expansão da produção, ganhou importância
a terceirização no emprego da mão-de-obra
no Brasil. Associada à vigência de políticas de
desregulamentação do mercado de trabalho,
a terceirização se mostrou fortemente reduto-
ra dos custos de trabalho (diminuição sociais
e trabalhistas). (POCHMANN, 2008, p. 17).

A terceirização no Brasil se desenvolve de forma desi-


gual. A concentração maior se dá principalmente nos Esta-
dos da região Sudeste não por acaso, é a região considerada
mais dinâmica e avançada economicamente, seguida da re-
gião Sul, conforme mostra o gráfico abaixo.
Segundo Pochmann em uma pesquisa encomendada
pelo SINDEEPRES, intitulada de “Modalidade Empresarial
na Terceirização da Mão de Obra” lançada no ano de 2011,
apontou a variação das empresas terceirizadas nas cinco re-
giões brasileiras22.

22 Os próximos dados e gráficos que se seguem foram extraídos da pesqui-


sa realizada por Pochmann, a pedido do Sindicato dos empregados m
empresas de prestação de serviços a terceiros. Todas as pesquisas estão
disponíveis no site: www.sindeepres.org.br. Devido ausência de dados
300 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Gráfico 1: Evolução das Empresas de Terceirização segundo as regiões.

Fonte: POCHMANN, SINDEEPRES, 2011a.

Se for analisada somente a Região Sudeste, discriminan-


do cada Estado, é possível ver que, a variação é muito grande
de um Estado para outro, conforme mostra o gráfico abaixo:

do ano corrente, utilizamos como base para nossa discussão os dados


apresentados nas pesquisas publicadas no ano de 2011.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 301

Gráfico 2: Evolução das Empresas de Terceirização no Sudeste.

Fonte: POCHMANN, SINDEEPRES, 2011a.

Conforme sugere mostra o gráfico, mesmo a região Su-


deste sendo a principal região, em concentração de empre-
sas terceirizadas, o Estado de São Paulo lidera a estatística,
com uma grande diferença com relação aos demais Esta-
dos. O salto se dá, sobretudo, após 1995, em meio a um
processo de proliferação da reestruturação produtiva, bem
como a expansão de um “toyotismo sistêmico”, gerando
cada vez mais, um esquema de rede de empresas nas quais
se especializam em sua atividade principal. É importante
notar que esse crescente número de empresas terceirizadas,
se dá principalmente com o crescimento de serviços auxi-
liares de atividades econômicas, responsáveis por 49,5% do
total de empresas terceirizadas seguido pelo setor de servi-
ço de limpeza e conservação, com 7,1%. Os gráficos que se
seguem são de dados de empresas terceirizadas somente do
Estado de São Paulo.
302 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Gráfico 3: Evolução das Empresas de


Terceirização por setor de atividade.

Fonte: POCHAMNN, SINDEEPRES, 2011a.

Além disso, o crescimento se deu em grande parte por


conta do aumento do número de empresas sem empregados.
Segundo reportagem publicada no jornal eletrônico, Folha.
com, na seção de classificados, no dia 08/08/2011, intitulada
de “Terceirização move setor de limpeza”23, o setor de limpe-
za é o grande responsável pelo crescimento do setor, que no
ano de 2010 faturou cerca de 15,2 bilhões. Ainda segundo a
matéria publicada, os principais fatores que impulsionam o
crescimento do negócio são: expansão do setor e da terceiri-
zação; baixo investimento inicial; processo pouco burocráti-

23 Matéria disponível em: http://www.folha.com.br/ne955560. Acesso em:


17/03/2012.
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 303

co para a abertura do empreendimento; o fato da limpeza ser


um serviço cuja demanda é contínua; a abertura do negócio
pode ser feita com apenas um funcionário.
O que chama a atenção nessa reportagem é o alto va-
lor que o setor faturou, porém, será que esse faturamento
implica em melhorias nas condições dos trabalhadores ter-
ceirizados? Seja em ganho real de salário, seja no combate a
precarização dessa forma de trabalho?
Como é possível ver no gráfico que se segue, o número de
empresas terceirizadas sem empregados cresceu a partir do
ano de 1994, refletindo inclusive no baixo rendimento inicial
e na possibilidade de abrir o negócio com um funcionário.

Gráfico 4: Evolução das empresas de terceirização sem empregados.

Fonte: POCHMANN, SINDEEPRES, 2011.

Portanto, é possível identificar no caso brasileiro, que as


formas de contratação terceirizada passam a ser amplamen-
te utilizadas no contexto de reestruturação produtiva, pelo
qual o país passa ao longo da década de 90. Assim como um
desejo de disciplinar a classe trabalhadora, a terceirização é
visto como uma forma racional para redução de custo em-
presarial, em meio a um processo de aberturas comerciais e
304 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

financeiras numa economia mundializada, desta maneira, a


convergência desses movimentos resulta na ampliação das
formas de contratação terceirizadas.

Conclusão: Superexploração e
Intensificação do Trabalho
Frente ao que foi exposto até aqui, é possível notar que
a expansão da terceirização está intimamente ligada ao pro-
cesso de reestruturação produtiva, conforme se intentou
mostrar ao longo deste trabalho.
Como os resultados das crises não são determinadas de
antemão, já que, as ordens resultantes serão produtos das lu-
tas entre as classes envolvidas, é possível analisar, em uma
perspectiva histórica que, após a “crise estrutural”, a correla-
ção de forças tendeu a ser mais favorável aos capitalistas, que
conseguiram não só reestruturar a produção, como também,
fragmentar ainda mais a já fragmentada classe trabalhadora
através da consolidação das formas de contratação terceiri-
zadas. Desta maneira, a mudança na organização do capital,
acompanhada pela ofensiva sobre o trabalho, permitiu aos
capitalistas saírem da crise dos anos 70.
Sob as bases postuladas pela mundialização do capital
para a recuperação da economia capitalista, segundo Valen-
cia (2009), homogeneizou-se a tendência a superexploração
do trabalho. A correlação entre modernização tecnológica
e produtiva, por um lado, e incremente da exploração do
trabalho, por outro, explica os fenômenos da recente fase
de acumulação capitalista, que tem como características o
Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica | 305

desemprego, o subemprego, a precarização do trabalho a


exclusão social, bem como o aprofundamento das formas
de contratação terceirizadas, e a extensão da pobreza nos
países centrais e periféricos da economia capitalista. (VA-
LENCIA, 2009).
Assim, as condições dos mercados de trabalho mudaram
com a aplicação das políticas de ajustes neoliberais, aliada a
reestruturação ocorrida a partir da década de 80, tendo como
premissa uma reforma trabalhista, sobrepujando as possibili-
dades de resistência operária classista, de tal maneira que, no
capitalismo mundializado e neoliberal, há uma clara associa-
ção e colaboração dos governos e classes burguesas.

A atual fase da economia mundial no seu es-


tágio de globalização-mundialização do capi-
tal está transformando este mapa internacio-
nal das nações que correspondem à divisão
internacional do trabalho e à distribuição do
capital. Tal processo beneficia a estratégia
empresarial transnacional, global, da tríade
hegemônica, ao depositar o peso da crise his-
tórico dos impérios sobre os trabalhadores e
povos oprimidos. [...] Além disso, debilita e
desarticula os sistemas produtivos pela ação
corrosiva da crise capitalista, de desestabili-
zação política, da desindustrialização [...] ao
mesmo tempo em que reforça a dependência
comercial, científico-tecnológica e financei-
ra. (VALENCIA, 2009, p. 58).
306 | Capitalismo: da instabilidade crônica à fragilidade estrutural sistêmica

Portanto, a superexploração do trabalho converte-se na


peça chave dos novos sistemas de organização do trabalho,
se projetando na economia internacional através da homoge-
neização dos processos tecnológicos, da crise, da automatiza-
ção flexível, das inovações tecnológicas, da flexibilidade do
trabalho (terceirização) e das recorrentes crises financeiras.

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