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Trabalho

Juventude e
Precariedade
Projeto Editorial Praxis
www.canal6.com.br/praxis

Trabalho e Mundialização do Capital – A Trabalho e Cinema – O Mundo do Trabalho


Nova Degradação do Trabalho na Era da Através do Cinema – Volume 1
Globalização Giovanni Alves
Giovanni Alves Dimensões da Reestruturação Produtiva
Ensaios de sociologia do trabalho
Dimensões da Globalização – O Capital e Giovanni Alves
Suas Contradições
Giovanni Alves Economia, Sociedade e Relações Internacionais
Perspectivas do Capitalismo Global
Dialética do Ciberespaço - Trabalho, Tecnologia Organizadores: Francisco Luiz Corsi, José
e Política no Capitalismo Global Marangoni Camargo, Marcos Cordeiro Pires
Giovanni Alves (org.) e Vinício Martinez e Rosângela de Lima Vieira
(org.)
Trabalho e Cinema – O Mundo do Trabalho
Limites do Sindicalismo - Marx, Engels e a Através do Cinema – Volume 2
Crítica da Economia Política Giovanni Alves
Giovanni Alves
Teoria da Dependência e Desenvolvimento do
Novos Desequilibrios Capitalistas Paradoxos do Capitalismo na América Latina
Capital e Competição Global Adrian Sotelo Valencia
Luciano Vasapollo

Tecnécrates SÉRIE RISCO RADICAL


Antonino Infranca
1. O Outro Virtual - Ensaios sobre a Internet
Desafios do Trabalho – Capital e Luta de Giovanni Alves, Vinicio Martinez, Marcos
Classes no Século XXI Alvarez, Paula Carolei
Roberto Batista (org.) e Renan Araújo (org.)
2. Democracia Virtual - O Nascimento do
Universidade e Neoliberalismo Cidadão Fractal
O Banco Mundial e a Reforma Universitária Vinicio Martinez
na Argentina (1989-1999)
Mario Luiz Neves de Azevedo e Afrânio 3. Leviatã - Ensaios de Teoria Política
Mendes Catani Marcelo Fernandes de Oliveira

Trabalho, Economia e Tecnologia - Novas 4. Trabalho e Globalização - A Crise do


Perspectivas para a Sociedade Global Sindicalismo Propositivo
Jorge Machado (org.) parceria com a Editora Ariovaldo de Oliveira Santos
Tendenz
5. Concertação Social e Luta de Classes - O
Trabalho e Educação Sindicalismo Norte-Americano
Contradições do Capitalismo Global Ariovaldo Santos
Giovanni Alves (org.), Roberto Batista (Org.)
e Jorge Gonzáles (Org.)

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Pedidos pelo e-mail vendas@canal6.com
Giovanni Alves
Elísio Estanque

Trabalho
Juventude e
Precariedade Brasil e Portugal

2ª edição 2012
Bauru, SP
Copyright do Autor, 2009
ISBN 978-85-7917-010-2

Coordenador do Projeto Editorial Praxis


Prof. Dr. Giovanni Alves

Conselho Editorial
Prof. Dr. Antonio Thomaz Júnior – UNESP
Prof. Dr. Ariovaldo de Oliveira Santos – UEL
Prof. Dr. Francisco Luis Corsi – UNESP
Prof. Dr. Jorge Luis Cammarano Gonzáles – UNISO
Prof. Dr. Jorge Machado – USP
Prof. Dr. José Meneleu Neto – UECE

A474t Trabalho, juventude e precariedade: Brasil e Portugal/ Giovanni


Alves, Elísio Estanque (orgs). – Londrina: Praxis; Bauru: Canal 6,
2012.
216 p. ; 23 cm.

ISBN 978-85-7917-202-1

1. Nonnono nonon. 2. Nonono nono. 3. Nonono nonon. I. Sobre-


nome, Autor. II. Título.

CDD: XXX

Projeto Editorial Praxis


Free Press is Underground Press
www.canal6editora.com.br

Impresso no Brasil/Printed in Brazil


2012
Sumário

5 Apresentação
Elísio Estanque e Giovanni Alves

11 Capítulo 1
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil - Elementos da
condição de proletária no século XXI
Giovanni Alves

33 Capítulo 2
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais
Elísio Estanque e Hermes Augusto Costa

65 Capítulo 3
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas:
dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro
Adalberto Cardoso

99 Capitulo 4
O futuro é mesmo incerto?
A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal
Pablo Almada

123 Capítulo 5
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação”
Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global
José Soeiro

159 Capítulo 6
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem
adulto-flexível no ABC Paulista
Renan Araújo
Capítulo 7
Futuros operários: As transformações das estratégias de reprodução
social e das modalidades de estilização do operariado em uma
comunidade industrializada portuguesa
Bruno Monteiro
Apresentação

A
s mudanças em curso no sistema produtivo e os respectivos processos de
«ajustamento», ou «reformas estruturais» que ocorrem no capitalismo
global, têm como objetivo principal a precarização geral das relações de
trabalho, seja no que respeita aos custos salariais, seja no plano contratual, ou ain-
da em um sentido mais genérico, no que toca aos direitos, à segurança e à dignida-
de do trabalhador assalariado. Com a entrada no século XXI temos vindo a assistir
à reemergência (embora com novas roupagens) do mercantilismo selvagem que foi
motivo de tantas lutas sociais e contra o qual se ergueu o movimento operário e o
sindicalismo desde o século XIX.
Vivemos um período delicado da história do capitalismo mundial, uma crise
que evidencia traços estruturais e está a dar lugar a uma sucessão de medidas de
austeridade na União Europeia, que parecem querer instalar-se por longos anos.
Trata-se de uma verdadeira ofensiva do capital sobre o mundo do trabalho orga-
nizado e os direitos sociais de trabalhadores e trabalhadoras. É bem real a ameaça
de vermos ruir todo o edifício de conquistas civilizacionais que, desde o século
XVIII, afirmaram-se na Europa e onde a atividade profissional se impôs como
principal fonte de status, de dignidade e de coesão social. O atual ataque ao mundo
laboral representa, portanto, um perigoso retrocesso.
Por exemplo, as medidas de austeridade neoliberal que têm vindo a ser adotadas
nos países capitalistas do sul da Europa Ocidental (Grécia, Itália, Espanha e Portugal)
estão a traduzir-se em uma sucessão inaudita de cortes nos salários, nos investimen-
tos e nos benefícios sociais, o que, lado a lado com o aumento de impostos, a restru-
turação do sector público, os programas de mobilidade e de reformas compulsivas
(ou falsamente voluntárias), o disparar das taxas de desemprego (em especial nas ca-
madas mais jovens, onde o mesmo já ultrapassa os 30 por cento) e a generalização
da precariedade, com a consequente facilitação geral dos despedimentos, constituem
um conjunto de aspetos que, no curto ou no médio prazo, podem precipitar-nos para
um cenário socialmente deplorável e politicamente perigoso.
A actual tendência de precarização das relações de trabalho, de dissociação
entre condições profissionais e vínculos laborais, está de facto a por em causa os
velhos critérios e formas de diálogo, os valores de solidariedade e, no fundo, o
modelo de contrato social inspirado pela filosofia iluminista e consolidado desde
APRESENTAÇÃO

o pós-guerra. Não é demais sublinhar que, nos últimos vinte anos, as transforma-
ções ocorridas no mercado de trabalho fustigaram de forma dramática os direitos
e a qualidade do emprego. O moledo produtivo do capitalismo fordista-keynesia-
no, que até aos anos oitenta do século passado pôde sustentar uma “classe média”
que parecia em expansão, sofreu, entretanto, convulsões profundas que abalaram
abruptamente as suas expectativas mais risonhas.
Na última década, nos países capitalistas centrais, com destaque para a União
Europeia, os postos de trabalho em regime de contratos permanentes diminuíram ao
mesmo ritmo em que aumentaram os contratos a termo certo. Aliás, o crescimento
das situações precárias – ou o que outrora se designava como situações “atípicas” no
campo do emprego – têm evoluído para uma profunda alteração do velho padrão de
estabilidade, obedecendo hoje a uma multiplicação de situações e de percursos profis-
sionais, bem como no plano subjectivo e das vivências, quer do emprego, quer do de-
semprego, em uma reconfiguração permanente, que justifica novos questionamentos
sobre essas novas formas de prestação de trabalho de natureza flexível.
Por exemplo, em Portugal, os valores do emprego precário (se somarmos os
contratos a termo, os recibos verdes, os trabalhadores temporários e o trabalho a
tempo parcial) aproximam-se já dos 28 a 30% do emprego. Este tipo de contrato
aumentou progressivamente e em todas as faixas etárias, sendo a referida geração
(hoje popularizada pelo nome de Geração à Rasca”)1 a que mais sofre com isso, o
que acontece, de resto, em muitos países europeus, como por exemplo a Espanha,
a Alemanha, a Suécia e a França onde, tal como em Portugal, mais de 50 por cento
dos trabalhadores desta geração já se encontram em situação precária. O desempre-
go de jovens récem-graduados (ou licenciados, em Portugal) tem vindo a agravar-se
nos últimos anos, atingido os 55 mil casos (em 2010), embora se saiba – e convém
realçá-lo – que os licenciados auferem salários mais elevados e permanecem menos
tempo em situação de desemprego ou de trabalho precário. Em todo o caso, quer o
desemprego quer os contratos não permanentes atinjam especialmente o segmento
mais jovem. E isso aconteceu de forma drástica, estando 37,6 por cento dos traba-
lhadores com idades entre 15 e 34 anos em situação laboral de contratos a prazo.
Considerando apenas o segmento etário dos 15 aos 24 anos, essa percentagem já se
aproximava em 2010 dos 50 por cento (INE, 2007, Inquérito ao Emprego).

1 Que, diga-se, passou a ser conhecida desde o passado dia 12 de março de 2011
como a “Geração à Rasca”, devido à enorme manifestação convocada por um
grupo de jovens sem situação precária, através do Facebook, e que, segundo vá-
rios analistas, terá marcado um momento de viragem nas modalidades de acção
colectiva e afirmado um novo fenómeno no cenário político nacional.

8
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil Elementos da condição proletária no século XXI

Portanto, o objetivo deste livro-coletânea é tratar destes temas candentes (Tra-


balho, Juventude e Precariedade) por meio de um conjunto de artigos de pesqui-
sadores do Brasil e Portugal. O livro procura abordar, em uma perspectiva crítica
e plural, a situação social da juventude trabalhadora nestes dois países, diante da
nova precariedade salarial que se desenvolveu com o novo capitalismo flexìvel sob
dominância financeira.
No caso da União Europeia, a ampliação da nova precariedade salarial, com a
constituição da camada social do precariato, composta em sua ampla maioria por
jovens trabalhadores desempregados ou inseridos em relações laborais precárias,
é resultado inequívoco das políticas globais de reestruturação capitalista de cariz
neoliberal.
Na verdade, as políticas neoliberais adotadas, tanto por partidos de direita,
como por partidos socialistas ou social-democratas na União Europeia, é a resposta
contingente do capital à sua crise estrutural. Entretanto, ao invés de adotar soluções
parciais e locais para seus problemas globais, o capital adota, pelo contrário, solu-
ções coordenadas pelas tecnoburocracias globais (FMI e Banco Mundial). O que
explica, portanto, a articulação global das políticas de austeridade que visam pro-
mover alterações não apenas no mundo da economia capitalista, mas mudanças es-
truturais globais na forma de ser do Estado político e da produção social do capital.
Ao mesmo tempo, ocorrem transformações no mundo da ideologia e da cultu-
ra, visando paralisar o pensamento crítico, com impactos diruptivos nos proces-
sos de subjetivação das classes sociais. É a partir deste fato histórico irremediável
que se coloca, no plano do pensamento crítico, a necessidade epistemológica do
ponto de vista da totalidade concreta e da crítica dialético-materialista da ordem
burguesa com suas múltiplas territorialidades e particularidades sociais.

Giovanni Alves
Elísio Estanque

9
CAPITULO 1

Juventude e nova precariedade


salarial no Brasil: elementos da
condição proletária no século XXI

Giovanni Alves

N
osso objetivo neste ensaio é expor os elementos da nova precariedade sa-
larial, que emerge no Brasil na década de 2000, e sua dinâmica sociome-
tabólica. Iremos apresentar as características territoriais dos novos locais
de trabalho, reestruturados e organizados a partir da lógica do trabalho flexível.
Este novo metabolismo social do trabalho, que atinge, em sua maioria, os jovens
trabalhadores, caracteriza-se não apenas pela precarização das relações de traba-
lho, mas também do homem-que-trabalha, no sentido de degradação da saúde dos
trabalhadores e trabalhadoras.
A nova precariedade salarial, que constitui a condição de proletariedade no sé-
culo XX, é compartilhada, tanto pelos proletários estáveis e com garantias, quanto
pela massa flutuante de trabalhadores instáveis, que alguns autores denominam
“precariado”, camada social da classe que cresceu nas últimas décadas por conta
das políticas de flexibilização das relações de trabalho.
O precariado é constituído, hoje, por jovens empregados e desempregados
do novo mundo do trabalho, recém-graduados e com alto nível de escolaridade,
mas que não conseguem inserir-se em relações laborais estáveis (por exemplo, eles
compõem a maioria dos trabalhadores pobres que crescem na Europa). Uma de
suas características candentes é a invisibilidade social, tendo em vista que estão
incorporados em formas atípicas e instáveis de contratação, que disfarçam as re-
lações empregatícias. Além disso, não possuem representação sindical, o que os
coloca à margem da camada estável do proletariado organizado.
É importante salientar que o precariado não constitui uma classe social, mas
sim, uma camada social do proletariado, constituida pelo contingente do prole-
tariado, isto é, a grande massa destituída de propriedade, que está desempregada
ou inserida em relações de trabalho instáveis (trabalho temporário, a termo). A
inserção laboral do precariado expõe a dissolução da relação de emprego que ca-
racterizou a cidadania salarial, construída no pós-guerra sob o Estado de Bem-
CAPÍTULO 1

-estar Social, baseada no emprego por tempo indeterminado, pelas perspectivas


de carreira profissional, com um rol de direitos e regalias sociais e aposentadoria.
A cidadania salarial fordista-keynesiana implicava um conjunto de valores
vinculados à educação (capital humano) e à organização do tempo de vida - tempo
de trabalho, consumo e lazer – isto é, um processo de subjetivação do homem mo-
derno, com seu arsenal de sonhos, anseios e expectativas. A ampliação da preca-
riedade tende a dissolver os referentes sociais da civilização burguesa constituídos
no pós-guerra, com seu acervo de valores-referência, para as perspectivas ideoló-
gicas baseadas na preservação da ordem do capital.
A nova precariedade salarial, que surge com o sistema laboral do regime de acu-
mulação flexível, atinge, não apenas o precariado, mas também os proletários estáveis
sob pressão dos novos meios de exploração da força de trabalho pelo capital.

1. A nova precariedade salarial

Na temporalidade histórica do capitalismo global, com a ofensiva das políticas


neoliberais, põe-se como traço estrutural do sistema mundial do capital a preca-
rização estrutural do trabalho (Mészáros, 2009). Nos países capitalistas centrais,
uma série de autores tem salientado a ampliação da precariedade salarial nas con-
dições do capitalismo global (Boyer, 1986; Beck, 2000; Bihr, 1998).
No Brasil, apesar do crescimento do emprego por tempo indeterminado e da
redução da taxa de informalidade a partir de 2003, a precariedade salarial se ma-
nifestou pelo aumento, em termos absolutos e relativos, da presença de “traba-
lhadores periféricos”, inseridos em relações de trabalho precárias. Entretanto, a
nova precariedade salarial no Brasil se manifesta, não apenas pelo aumento da
contratação flexível, mas pela adoção, nos locais de trabalho reestruturados, da
flexibilização da jornada de trabalho e da remuneração. Deste modo, os novos
ambientes de trabalho que emergem nas empresas reestruturadas na década de
2000, constituem-se sob a nova morfologia social do trabalho flexível.
O trabalho precário e a informalidade social caracterizaram historicamente o
mercado de trabalho no Brasil, com seu amplo contingente de trabalhadores urba-
nos e rurais sem proteção social, em contraste com operários e empregados assa-
lariados urbanos inseridos no mercado de trabalho formal, com vínculo emprega-
tício por tempo indeterminado e cobertos pela legislação trabalhista. Com a nova
precariedade salarial, principalmente a partir da década de 1990, o núcleo formal
do mercado de trabalho deparou-se com novas opções de modalidades flexíveis
de contratação laboral para as empresas. Apesar das contratações atípicas serem

12
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

pouco expressivas na época, elas aumentaram nas últimas décadas nos locais de
trabalho reestruturados das grandes empresas. Portanto, em termos relativos e ab-
solutos, cresceu a presença de trabalhadores assalariados precários “formalizados”
nos locais de trabalho reestruturados (Guimarães, Hirata e Sugita, 2010; Druck e
Franco, 2007).
Na década de 2000, os traços de precariedade laboral, no interior do núcleo
formal do mercado de trabalho no Brasil, alargaram-se em termos relativos e ab-
solutos, embora tenham reduzido, ao mesmo tempo, a informalidade laboral por
conta do crescimento do emprego com carteira assinada.
O crescimento das modalidades de contratação atípicas no Brasil na década de
2000 aponta para aquilo que Robert Castel denominou de corrosão da condição
salarial (Castel, 1995). É claro que as contratações atípicas possuem, em termos
quantitativos, pouca expressividade no conjunto do mercado de trabalho formal
no Brasil, que expandiu na década de 2000 por meio do crescimento dos con-
tratos por tempo indeterminado. Entretanto, a precariedade do emprego tende a
ser ocultada, por um lado, pelo alto índice de rotatividade da força de trabalho,
tendo em vista as demissões imotivadas; e por outro, pela invisibilidade estatística
de determinados espectros da precariedade contratual no interior do mundo do
trabalho (por exemplo, as estatísticas sociais que não conseguem expor as relações
de emprego disfarçadas, tais como a contratação como Pessoa Jurídica (PJ), por
cooperativas de contratação de trabalho, estágios, “autônomos”, trabalho em do-
micílio, teletrabalho, etc).
Entretanto, a nova precariedade salarial no Brasil implica não apenas a pre-
cariedade do emprego – com a presença de modalidades atípicas de contratação
salarial – mas também, a precariedade do trabalho no sentido da “precarização do
homem-que-trabalha” (Alves, Vizzaccaro-Amaral e Mota, 2011). Nesse caso, tra-
ta-se do desgaste mental do trabalho dominado, que atinge tanto contingentes de
trabalhadores e trabalhadoras “estáveis”, com emprego por tempo indeterminado
e, portanto, cobertos pela legislação trabalhista; quanto contingentes de trabalha-
dores e trabalhadoras assalariados “precários” no interior do mercado formal de
trabalho (Seligmann-Silva, 1994).
Na literatura sociológica europeia tem-se discutido muito a precariedade no
emprego caracterizada pelos “bad jobs” ou “poor jobs”, situação laboral que se
opõe ao contrato de trabalho tradicional que assegura um trabalho a tempo in-
tegral, com duração indeterminada e com proteção social. Trata-se, deste modo,
do trabalho precário (ou emprego precário) propriamente dito, que se caracteriza
pela insegurança no emprego, perdas de benefícios sociais, salários baixos e des-
continuidade nos tempos de trabalho. Como observa Sá, “o trabalho precário se

13
CAPÍTULO 1

caracteriza à instabilidade (impossibilidade de programar o futuro – situação dos


jovens que ficam até mais tarde em casa dos pais); à incapacidade econômica (im-
possibilidade de fazer face aos “riscos sociais” e de assegurar as despesas econômi-
cas do cotidiano – o surgimento dos “novos pobres”); e à alteração dos ritmos de
vida (alteração nos horários de trabalho e da relação entre trabalho/desemprego)”
(Sá, 2010).
Na década de 2000, verificou-se em grandes empresas no Brasil, o crescimento
da clivagem nos estatutos salariais da força de trabalho empregada. Os espaços re-
estruturados da organização capitalista tornaram-se, cada vez mais, espaços híbri-
dos no tocante à contratação salarial formal. O surgimento de novas modalidades
de contratação colocou um leque de opções de consumo de força de trabalho que
se distingue dos contratos por tempo indeterminado. Embora esta última ainda
seja maioria, cresceu relativamente, nos últimos vinte anos, contratos por tempo
determinado nas empresas (Krein, 2007). Deste modo, a flexibilização da legis-
lação trabalhista contribuiu para dar um menu de novas opções de exploração
da força de trabalho, visando incentivar novas contratações e combater a infor-
malidade e o desemprego, traço estrutural da formação social brasileira (como
observou a Carta Social do CESIT (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do
Trabalho) de 2010, as formas de contratação verificáveis na RAIS (Relação Anual
de Informações Sociais), no Brasil, ampliaram-se de uma, em 1989, para nove mo-
dalidades em 2008) (Baltar et alii, 2010).
Portanto, a nova precariedade salarial no Brasil caracteriza-se pela presença,
nos locais de trabalho reestruturados das grandes empresas, tanto de trabalha-
dores assalariados “estáveis”, quanto de trabalhadores assalariados “precários”.
Constitui-se, deste modo, o trabalhador coletivo híbrido e heteróclito no plano
contratual (por exemplo, o fenômeno da terceirização, que atinge tanto o setor
privado, quanto o setor público no Brasil, e que cresceu na década de 2000, con-
tribuindo para a clivagem salarial entre trabalhadores assalariados “precários” e
“estáveis”) (Lima, 2007; Druck e Franco, 2007).
Os trabalhadores assalariados “precários” estão mais expostos que os “está-
veis”, a acidentes de trabalho e insegurança na saúde; por outro lado, os trabalha-
dores assalariados “estáveis” estão mais expostos à pressão do trabalho dominado
e à presença do espectro do exército laboral de reserva, que a qualquer momento
pode ocupar seu lugar (como salientamos acima, a taxa de rotatividade da mão de
obra no Brasil cresceu na década de 2000). Portanto, eis as duas características da
nova precariedade salarial no Brasil: por um lado, a intermitência dos precários e,
por outro, a ameaça da redundância para os estáveis.

14
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

2. A nova morfologia social do trabalho no Brasil

A nova precariedade salarial é constituída pela morfologia social do trabalho


baseada no trabalho flexível, que caracteriza o território dos locais de trabalho
reestruturados. Portanto, ao se inserirem no mercado de trabalho, jovens traba-
lhadores e trabalhadoras encontram-se no interior de um novo sistema laboral,
que possui as seguintes caractristicas:

1. O novo arcabouço tecnológicoinformacional

Temos a presença ostensiva do complexo de máquinas informacionais nos lo-


cais de trabalho reestruturados e na vida cotidiana dos jovens operários e empre-
gados. Os novos ambientes de trabalho são compostos pelo sistema de máquinas
flexíveis, de natureza informacional, isto é, máquinas inteligentes incorporadas a
redes digitais, que exigem dos novos operadores habilidades técnico-comporta-
mentais. Por isso, mais do que nunca, torna-se visível as alterações no perfil edu-
cacional dos novos empregados, nas grandes empresas da indústria ou serviços.
O novo arcabouço tecnológico exige uma força de trabalho compatível com as
exigências operacionais do novo maquinário. O discurso da competência impli-
ca novas capacidades operativas advindas das novas rotinas do trabalho flexível.
Máquinas flexíveis exigem homens e mulheres flexíveis em sua capacidade de in-
tervenção na produção. Na verdade, os novos locais de trabalho reestruturados da
década de 2000 vivem sob o espírito do toyotismo (Alves, 2011). A capacidade de
intervenção dos operadores na produção é o princípio toyotista da “autonomiza-
ção”, isto é, operários e empregados capazes de intervir nos processos de produção,
visando resolver problemas ou dar palpites para otimizá-los.
Uma das características da “geração Y”, constituída por jovens nascidos na
“era da Internet”, contemporâneos da revolução digital e que, na década de 2000,
entraram no mercado de trabalho, é a facilidade e o uso constante de mídias in-
formacionais. Dizem alguns autores, que os jovens da “geração digital” são es-
pecialistas em lidar com tecnologias, usam mídias sociais com facilidade, sabem
trabalhar em rede e estão sempre conectados (Tapscott, 2010). Os novos operários
e empregados, que se inserem nos locais de trabalho reestruturados na década de
2000, são a primeira geração do mundo do trabalho advinda da era da Internet.
Eles tendem a não estranhar o uso das novas tecnologias microeletrônicas. Pelo
contrário, incorporam-nas com mais facilidade que as gerações passadas.

15
CAPÍTULO 1

2. A vigência do espírito do toyotismo

Ao lado da presença do novo arcabouço tecnológico de cariz informacional,


tanto nas instâncias do consumo, quanto da produção, temos a presença nos locais
de trabalho reestruturados de novos métodos de gestão e organização da produ-
ção, visando adaptar homens e mulheres às novas rotinas do trabalho. Sob o novo
capitalismo, vive-se a “era da gestão das pessoas”.
Sob o espírito do toyotismo, o discurso da organização do trabalho incorpora
um novo léxico: trabalhadores assalariados, operários ou empregados tornam-se
“colaboradores”. Os novos operários e empregados cresceram em um ambiente
ideológico, cujo universo locucional está esvaziado do discurso do conflito ou luta
de classes (o que demonstra o contraste entre novos e velhos operários e emprega-
dos). A cisão geracional é muito mais intensa (e presente) do que noutras épocas de
mudanças etárias nos ambientes de trabalho.
Nas condições do espírito do toyotismo incorporado pelos discursos da gestão
empresarial, exige-se dos jovens “colaboradores” atitudes proativas e propositivas,
capazes de torná-los membros da equipe de trabalho que visa cumprir metas. A
ideia de gestão de pessoas implica disseminar valores, sonhos, expectativas e aspi-
rações capazes de motivar os operadores do trabalho flexível.
No capitalismo flexível, não se trata apenas de administrar recursos huma-
nos, mas, sim, de manipular talentos, no sentido de cultivar o envolvimento de
cada um com os ideais (e ideias) da empresa. A nova empresa capitalista busca,
portanto, homens idealistas, no sentido mediano da palavra. Por isso, a ânsia pela
juventude que trabalha, tendo em vista que os jovens operários e empregados têm
uma plasticidade adequada às novas habilidades emocionais (e comportamentais)
do novo mundo do trabalho.

3. A renovação geracional dos coletivos de trabalho

Os locais de trabalho reestruturados na década de 2000 expõem a intensa


transfiguração do trabalhador coletivo do capital. A nova empresa exige novos
operários e empregados, não necessariamente no sentido etário. A prática do do-
wnsizing pelo capital possui um sentido de renovar capacidades anímicas da acu-
mulação de capital nos locais de trabalho. O processo de reestruturação produtiva
é, não apenas um processo de inovação tecnológico-organizacional, mas também
um processo de reestruturação geracional dos coletivos de trabalho nas empre-
sas. Tal mudança ocorre por meio de demissões ou, como se mostra menos trau-

16
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

mático, de incentivo a aposentadorias ou demissões voluntárias (os denominados


PDV’s - Programas de Demissões Voluntárias).
Deste modo, os locais de trabalho tendem a assumir feição híbrida, tanto na
dimensão geracional, quanto no aspecto contratual. Assim, um dos traços mar-
cantes dos coletivos de trabalho reestruturados na indústria e serviços é a presen-
ça ampla de jovens empregados, contratados no decorrer da década de 2000, que
convivem lado a lado com os velhos operários e empregados “sobreviventes” da
reestruturação produtiva da década passada (os PDV’s tornaram-se práticas recor-
rentes, como instrumento de renovação administrada dos coletivos de trabalho).
Por outro lado, os coletivos de trabalho não apenas se renovam, mas se diversifi-
cam internamente no tocante às formas de implicações contratuais (trabalhado-
res e trabalhadoras estáveis convivem, lado a lado, com operários ou empregados
temporários e precários).

4. As relações de trabalho flexíveis

Além do novo arcabouço técnico-organizacional do capital, com as novas má-


quinas informacionais, novos métodos de gestão de pessoas e novos locais de tra-
balho reestruturados com seu novo perfil etário-geracional, temos alterações das
relações de trabalho no Brasil, que contribuíram para mudanças substantivas no
metabolismo social do trabalho. Este é o aspecto significativo da nova morfologia
do trabalho na década de 2000 no País.
O novo habitat do trabalho flexível é uma construção sócio-institucional. Ele
diz respeito, não apenas a mutações tecnológico-organizacionais das empresas ca-
pitalistas, no cenário da Terceira Revolução Industrial e mundialização do capital,
mas, também, a alterações nas relações de trabalho operadas pelo Estado neo-
liberal. Por exemplo, no decorrer da década de 90, implementou-se políticas de
flexibilização das relações de trabalho no Brasil, que constituíram as novas condi-
ções de exploração da força de trabalho no País. Na verdade, o arcabouço legal de
regulação das relações de trabalho sedimenta as tendências de desenvolvimento
do novo capitalismo.

17
CAPÍTULO 1

Quadro 1
Morfologia social do novo (e precário) mundo do trabalho
(década de 2000)
Complexo de máquinas informacionais
A rede digital permeando trabalho, cotidiano e consumo (geração Y)
Novos métodos de gestão e organização do trabalho
(espírito do toyotismo e “captura” da subjetividade da força de trabalho)
Coletivos geracionais híbridos do trabalho reestruturado
Planos de Demissão Voluntária e downsizing
Novas relações flexíveis de trabalho
novas formas de contratação, remuneração salarial e jornada de trabalho

Podemos expor, como traços significativos das novas relações de trabalho fle-
xível, que compõem a condição salarial que se impõe sobre os novos operários e
empregados contratados na década de 2000, os seguintes elementos:
1. Remuneração flexível (PLR)
2. Jornada de trabalho flexível (banco de horas)
3. Contrato de trabalho flexível (contrato por tempo determinado/tempo
parcial, terceirização, etc).

O complexo de novas determinações da condição salarial salientado acima


alterou um dos traços candentes da cotidianidade laboral: a relação tempo de vida/
tempo de trabalho. Enfim, constitui-se uma nova estrutura da vida cotidiana de
homens e mulheres que trabalham.

Banco de horas: a flexibilização da jornada de trabalho


A flexibilização da jornada de trabalho, mediante acordo ou convenção co-
letiva, tornou-se possível com a Constituição Federal da República Federativa do
Brasil, de 1988, em seu Artigo 7º, inciso XIII, que diz que, “são direitos dos traba-
lhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição
social, duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta
e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada,
mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho”. O banco de horas é o siste-
ma pelo qual a empresa poderá flexibilizar a jornada de trabalho, diminuindo ou
aumentando a jornada durante um período de baixa ou alta na produção, median-
te a compensação dessas horas em outro período, sem redução do salário, bem

18
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

como não será devido pagamento das horas aumentadas. Segundo as empresas,
este sistema evita demissões nos períodos de baixa produção, além do pagamento
da extraordinariedade das horas excedidas em períodos de alta produção. A com-
pensação deve ocorrer no prazo do acordo, que poderá ocorrer dentro de um ano.
O banco de horas foi regulamentado pela Lei nº 9.601/98 que alterou o parágrafo
2º, acrescentou o parágrafo 3º no artigo 59. da CLT (Consolidação das Leis do Tra-
balho) e o Decreto nº 2.490/98 e Medida Provisória 2.164-41 de 24/08/2001 – DOU
(Diário Oficial da União), de 27/08/2001.
A flexibilização da jornada de trabalho por meio do banco de horas colocou o
operário ou empregado como “homem inteiro”, à disposição da dinâmica laboral
do capital. Como observam Capela, Neto e Marques, “o empregador pode sobre-
-explorar sua força de trabalho nos momentos de alta produção, sem remunerar o
trabalhador, compensando com folgas as horas trabalhadas em excesso, nos mo-
mentos de baixa produção.” (Capelas, Neto e Marques, 2010). Deste modo, o tem-
po de vida é colonizado, mais ainda, pelo tempo de trabalho.

PLR: A flexibilização da remuneração salarial


A adoção da remuneração flexível (PLR), além de contribuir para pulverizar as
negociações no âmbito da empresa, enfraquecendo o poder de barganha dos traba-
lhadores, condicionou a remuneração do trabalhador ao seu desempenho e ao da
empresa. Como observam ainda Capela, Neto e Marques, “o trabalhador passou a
confundir o interesse da firma com o seu, o que permitiu que sua força de trabalho
sofresse maior exploração” (Capelas, Neto e Marques, 2010), Na verdade, a adoção
de remuneração flexível justifica, no plano legal, a busca de cumprimento de metas,
condição necessária para a obtenção de melhor desempenho das empresas.
Torna-se um importante campo de investigação sociológica, a natureza da rever-
beração das novas implicações salariais discriminadas acima (tempo de vida subsu-
mido a tempo de trabalho e pressão para cumprimento de metas) sobre a vida coti-
diana dos novos empregados e operários. É provável que o aumento significativo dos
problemas psicossociais e de saúde dos trabalhadores e trabalhadoras assalariados na
década de 2000 tem um nexo causal com a nova precariedade do trabalho descrita.

A flexibilização do contrato de trabalho


Na década de 2000, trabalhadores e trabalhadoras do novo (e precário) mundo do
trabalho encontraram um novo arcabouço legal de contratos de trabalho flexível, que
colocam à disposição das empresas um leque de opções de modalidade de contrata-
ções atípicas. As medidas de flexibilização das relações de trabalho no Brasil na década

19
CAPÍTULO 1

de 90 levaram à criação do contrato de trabalho por tempo determinado1, contrato de


trabalho por tempo parcial2, além da lei da terceirização, colocando, deste modo, um
menu de opções flexíveis para a exploração da força de trabalho. Cresceram nos locais
de trabalho das empresas privadas ou públicas, formas instáveis do salariato, isto é, no-
vas modalidades especiais de contrato de trabalho, na CLT ou no serviço público, com
mudanças no plano dos direitos e na forma de contratação do trabalho.

Modalidades Especiais de Contrato de Trabalho – Brasil


Jornada de Trabalho em tempo parcial (até 25 horas semanais)
Contrato de trabalho por prazo determinado e banco de horas (Lei nº 9601/98)
Trabalho temporário (Lei nº 6019/74)
Trabalho por projeto ou por tarefa
Contrato por teletrabalho
Terceirização (Lei nº 6019/74)
Cooperativa de trabalho (Lei nº 5764/71)
Suspensão temporária do contrato de trabalho – bolsa qualificação (lay-off)
Fonte: Chahad e Cacciamali (2003)

Em seu interessante estudo “Tendências recentes nas relações de emprego no


Brasil (1990-2005)”, José Dari Krein acompanha a constituição da nova precarie-
dade salarial sob a “década neoliberal”, com o surgimento das novas formas atí-
picas de contratação no País. Constata-se que hoje temos uma série de alterações
na legislação trabalhista, que ofereceu às empresas várias opções para flexibilizar

1 Contrato de trabalho por prazo determinado é forma de contratação realizada mediante acor-
do ou convenção coletiva de trabalho, através da qual as partes firmam antecipadamente a
data de início e término do pacto laboral. Tem como fundamento legal a Lei nº 9.601, de 21 de
janeiro de 1998, regulamentada pelo Decreto nº 2.490, de 04 de fevereiro de 1998. O contrato
pode ser prorrogado inúmeras vezes, desde que a soma de todos os prazos não ultrapasse a dois
anos, sem que ele se torne por prazo indeterminado. A adoção do contrato de trabalho por
tempo/prazo determinado tem algumas condicionalidades, como o número de trabalhadores
assim contratados deve ser inferior a 50% da média mensal dos que foram admitidos no esta-
belecimento por tempo indeterminado, nos últimos seis meses anteriores à publicação da lei
(22.01.98). A lei deverá gerar, obrigatoriamente, aumento de postos de trabalho.
2 Contrato de trabalho em regime de tempo parcial (“part-time job contract” ou “part-time job
agreement”, como é conhecido na Europa) aquele cuja duração não exceda a vinte e cinco ho-
ras semanais. Tem como fundamento legal a Medida Provisória 2.164-41 de 24/08/2001-DOU
27/08/2001, que acrescentou o artigo 58-A na CLT. No caso dos contratos novos, basta sim-
plesmente contratar, com salário proporcional à sua jornada, em relação aos empregados que
cumprem, na mesma função, tempo integral. No caso dos contratos já existentes, para os atuais
empregados, a adoção do regime de tempo parcial será feita mediante opção manifestada pe-
rante a empresa, na forma prevista em instrumento decorrente de negociação coletiva.

20
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

a contratação da força de trabalho. Krein observa que tais formas atípicas de con-
tratação podem ser classificadas em cinco grupos:
1. As formas clássicas e históricas do caso brasileiro são aquelas modalidades
de contratações atípicas destinadas à substituição eventual ou provisória de
trabalho e as contratações de trabalho sazonais (o contrato de safra, o contra-
to temporário via agência de emprego e contrato por projeto ou por tarefa).
2. As formas introduzidas a partir de 1990, no bojo de uma concepção de
“estimular” a contratação por meio de uma redução de custos e da am-
pliação das facilidades de despedir (contrato temporário, o do primeiro
emprego e o parcial).
3. Contratos atípicos, visando facilitar a inserção de grupos com maior vulne-
rabilidade no mercado de trabalho (“contrato aprendiz”, do primeiro empre-
go para jovens e contratos de trabalho aos portadores de deficiência física).
4. Contratos de trabalho destinados a prevenir possíveis passivos trabalhis-
tas no futuro, tais como o trabalho voluntário.
5. As modalidades de contratações atípicas de servidores públicos não-efeti-
vos, demissíveis, e os contratados por tempo determinado.

Depois, como componente da contratação flexível no Brasil, salienta-se o as-


pecto da flexibilidade no rompimento do contrato de emprego e, o mais impor-
tante, as relações de emprego disfarçadas, que se disseminam, por exemplo, com
contratação como Pessoa Jurídica (PJ), as cooperativas de contratação de trabalho
(as cooperativas de mão de obra), o trabalho estágio, os “autônomos”, o trabalho
em domicílio e o teletrabalho.
Finalmente, é importante salientar que a contratação flexível no Brasil se apre-
sentou de forma mais candente, com a terceirização em suas diversas modalida-
des. Krein trata da terceirização como mecanismo de rebaixamento salarial e dos
benefícios trabalhistas, como relação de emprego triangular expressa na informa-
lidade e como expressão de serviço especializado.
O modo de ser da nova precariedade salarial nos países capitalistas mais desen-
volvidos - como os da União Europeia, por exemplo - se distingue do modo de ser
da nova precariedade salarial no Brasil. Enquanto nos países capitalistas centrais,
na década de 2000, cresceu a quantidade de trabalhadores assalariadosprecários
em situações de emprego atípicas3, no Brasil da década de 2000, por outro lado, as
modalidades de contratação atípicas são pouco expressivas. Segundo a Carta Social

3 Na União Europeia, em 2010, cerca de 14,4% dos trabalhadores assalariados possuía víncu-
los de trabalho precário. Entretanto, Espanha, Polônia e Portugal estavam acima da média

21
CAPÍTULO 1

do CESIT (2011), o que tendeu a prevalecer no mercado formal da década de 2000


no Brasil foi a contratação por tempo indeterminado, que se aproxima do contrato
padrão firmado historicamente no período após a Segunda Guerra Mundial (tra-
balho em tempo integral, com um único empregador, relativa estabilidade e remu-
neração fixa e mensal, tendo relação com o tempo de permanência no emprego e
a formação profissional, dando, em tese, uma perspectiva de carreira e segurança).
O crescimento do emprego formal e da modalidade de contratação-padrão, com a
ampliação da contratação por tempo indeterminado no Brasil, ocupam, em 2010,
95% do total dos empregados formais. Trata-se, portanto, de uma situação contrá-
ria àquela da década de 1990, quando ocorreu a “regressão do trabalho” no Brasil.
Por exemplo, na década neoliberal, o contrato por prazo indeterminado, regrediu
(-1,1%) e cresceu a contratação atípica e a informalidade.
Entretanto, é inegável que a contratação flexível no Brasil cresceu na década
de 2000. Por exemplo, segundo Dari Krein, entre 1995 e 2005, o crescimento da
contratação atípica foi de 158,6% - o emprego temporário4, por exemplo, cresceu
60% nos últimos dez anos. Entretanto, segundo analistas do CESIT, ela é pouco
expressiva no mercado de trabalho. Por exemplo, em 2008, os dados da RAIS,
acusavam 684.177 contratos temporários contra 30.547.223 contratos por prazo

europeia, com valores do índice de precariedade laboral acima de 20% (Matos, Domingos e
Kumar, 2011; Standing, 2011).
4 Contrato de trabalho temporário é uma forma de contratação que se apresenta como alterna-
tiva econômica, para as empresas que venham a necessitar de mão de obra para complemen-
tar o trabalho de seus funcionários, em situações excepcionais de serviço, a fim de atender
a uma necessidade transitória de substituição de seu pessoal regular e permanente (traba-
lhador efetivo), como, por exemplo, cobertura de férias, licença maternidade, licença saú-
de, etc. Atende também acréscimo extraordinário de serviço, como “picos de venda” ou de
“produção”, tarefas especiais não-regulares, lançamentos de produtos, campanhas promo-
cionais, etc. Este tipo de contratação possibilita redução do trabalho administrativo, rápida
adaptação às alterações do mercado e maior flexibilidade na mobilização e desmobilização
da força de trabalho necessária. O contrato de trabalho temporário (prestação de serviço
temporária) é firmado entre uma empresa de trabalho temporário e a empresa tomadora
dos serviços. Logo, a empresa tomadora dos serviços não mantém vínculo de emprego com
o trabalhador temporário, isto porque, o contrato de trabalho é celebrado entre a empresa
de trabalho temporário e o trabalhador. O fundamento legal do trabalho temporário é a Lei
6.019 de 03 de janeiro de 1974. Decreto nº 73.841. Pela lei, o trabalhador temporário não
pode ganhar menos do que o trabalhador efetivo que ele está substituindo. Não há limite de
contratações, desde que sejam atendidas as exigências descritas acima, de 13 de março de
1974.Instrução Normativa nº 3 de 22/04/2.004. A contratação de mão de obra temporária se
dá através das empresas de trabalho temporário, que deverão estar devidamente registradas
no Departamento de Mão de Obra do Ministério do Trabalho e da Previdência Social, tendo
como principal responsabilidade, remunerar e assistir seus trabalhadores temporários no
que tange aos direitos estabelecidos em lei.

22
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

indeterminado (a constatação do CESIT provém da análise da evolução dos vín-


culos de empregos no Brasil, de 1989 a 2008, utilizando a RAIS).
Por outro lado, é provável que as contratações atípicas não sejam tão inexpres-
sivas como indicam os dados da RAIS, que abrangem apenas contratos tempo-
rários. Encontra-se oculta, nesse caso, a dimensão da nova precariedade salarial,
abrangida pelas relações de emprego disfarçadas, que se disseminaram, por exem-
plo, com as contratações como Pessoa Jurídica (PJ), as cooperativas de contratação
de trabalho (cooperativas de mão de obra), o trabalho estágio, os “autônomos”, o
trabalho em domicílio e o teletrabalho.
Além disso, é importante ponderar que a alta taxa de rotatividade da força de
trabalho, que caracteriza a dinâmica do mercado de trabalho no Brasil, tendeu a
alterar o significado do crescimento dos contratos de trabalho por tempo inde-
terminado na década de 2000. Apesar da positividade do crescimento da taxa de
formalidade no período, reduzindo, deste modo, a “informalidade”, não se alterou
de modo substantivo, a flexibilidade estrutural da contratação da força de traba-
lho no Brasil. O crescimento de contratos por prazo indeterminado na década de
2000, com o aumento da taxa de formalidade no mercado de trabalho, ocorreu
no bojo, como reconhecem os próprios pesquisadores do CESIT, da “liberdade do
empregador romper o vínculo de emprego sem precisar justificar”.
Assim, na década de 2000 no Brasil, ao lado do crescimento do emprego for-
mal, cresceu, ao mesmo tempo, a rotatividade da mão de obra (segundo o DIEESE
(Departament Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), ela cresceu
cerca de 8% na década de 2000). Diz o CESIT: “Por exemplo, em 2009, no meio da
crise, o saldo foi a criação de 995 mil formais, sendo que foram desligados 15,2
milhões de trabalhadores e contratados 16,2 milhões, em um total de 33 milhões
de empregados registrados na RAIS. Portanto, o fluxo de despedidos e contratados
continuou extremamente elevado em todo o período.”
Deste modo, o contrato por tempo indeterminado, pelo menos para uma lar-
ga parcela de trabalhadores e trabalhadoras assalariadas, tende a não permitir a
construção de vínculos duradouros entre empregador e empresa, principalmente
na agropecuária, construção civil e comércio. Segundo o estudo do DIEESE, “Mo-
vimentação Contratual no Mercado de Trabalho Formal e Rotatividade no Bra-
sil”, a taxa média de rotatividade da mão de obra brasileira entre 2007 e 2009 foi
de aproximadamente 36%, considerando-se apenas os desligamentos promovidos
por iniciativa da empresa. O estudo apontou que cerca de 2/3 dos vínculos empre-
gatícios são desfeitos antes de atingirem um ano de trabalho. Os desligamentos
com menos de seis meses de duração superaram 40% do total deles em cada ano,

23
CAPÍTULO 1

sem que metade tenha atingido três meses. Quase 80% dos desligamentos tiveram
menos de dois anos duração.
Apesar do fluxo de despedidos e contratados na década de 2000 ter se alterado
para melhor nas grandes empresas reestruturadas da indústria e serviços finan-
ceiros, em pólos dinâmicos da economia brasileira, em comparação, por exemplo,
com a década de 1990, a taxa de rotatividade do trabalho no Brasil ainda é elevada.
Ao mesmo tempo, observou-se, nos locais de trabalho reestruturados das grandes
empresas, o crescimento relativo de operários e empregados vinculados a modali-
dades de contratação atípicas não visíveis na estatística da RAIS. Como observam
os pesquisadores do CESIT, “o não crescimento da contratação temporária não
eliminou a possibilidade de ampliação de outras formas de contratação que não
são captadas pela RAIS, a terceirização, a contratação como Pessoa Jurídica, o tra-
balho estágio, as cooperativas de mão de obra”.
Na década de 2000, observamos no Brasil o crescimento do setor de serviços
que, de certo modo, oculta o crescimento da nova precariedade salarial, expres-
sa, no crescimento de modalidades de trabalho precário que disfarçam o vínculo
empregatício, como a contratação como Pessoa Jurídica (PJ), e principalmente no
crescimento da terceirização, que aumentou em termos absolutos, apesar de ter
diminuído em termos relativos na década de 2000, comparando-se com a déca-
da anterior (na década de 2000, a terceirização mudou de perfil, abrangendo não
apenas a atividade-meio, mas também a atividade-fim, atingindo, deste modo, o
núcleo central da organização empresarial).
As modalidades de contratação atípicas ou os modos de trabalho precário que
disfarçam relações de emprego assalariado são invisíveis nas estatísticas sociais.
Elas representam a fragilização dos vínculos empregatícios de longa duração, um
dos traços do emprego padrão que o capitalismo global flexibilizou, no bojo da
nova precariedade salarial. Portanto, a aparente dinâmica do crescimento de con-
tratos de emprego por tempo indeterminado e a formalização do mercado do tra-
balho, na década de 2000, tendem a ocultar a intermitência e redundância salarial
no Brasil.
Deste modo, a nova precariedade salarial é caracterizada pela constituição de
um trabalhador coletivo ou complexo vivo do trabalho social mais complexifica-
do, fragmentado e heterogeneizado. Como observou Antunes: “Complexificou-
-se, fragmentou-se e heterogeneizou-se ainda mais a classe-que-vive-do-trabalho.
Pode-se constatar, portanto, de um lado, um efetivo processo de intelectualização
do trabalho manual. De outro, e em sentido radicalmente inverso, uma desquali-
ficação e mesmo subproletarização intensificadas, presentes no trabalho precário,
informal, temporário, parcial, subcontratado, etc. Se é possível dizer que a primei-

24
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

ra tendência — a intelectualização do trabalho manual — é, em tese, mais coerente


e compatível com o enorme avanço tecnológico, a segunda — a desqualificação —
mostra-se também plenamente sintonizada com o modo de produção capitalista,
em sua lógica destrutiva e com sua taxa de uso decrescente de bens e serviços.”
(Antunes, 1997)
Portanto, a nova precariedade salarial no Brasil caracteriza-se por um tipo par-
ticular de intermitência e redundância salarial, ocultadas pela formalização do con-
trato por prazo indeterminado. Ela instaura a condição salarial de cariz flexível no
Brasil, articulando, por um lado, o crescimento da formalidade no mercado de tra-
balho, caracterizado pela expansão dos contratos de trabalho padrão e vigência do
leque de opções de modalidades atípicas de contratação; e, por outro lado, a preser-
vação de características estruturais do mercado de trabalho, como, por exemplo, o
excedente estrutural de força de trabalho, persistência da informalidade e trabalho
por conta própria (que colocam no mercado uma larga oferta de força de trabalho à
disposição para ser explorada pelo capital), e flexibilização estrutural da legislação
trabalhista, que facilita o rompimento do contrato de trabalho.

3. O sociometabolismo da nova precariedade salarial

A nova precariedade salarial é constituída pela morfologia social do trabalho,


baseada no regime de acumulação flexível, e por um novo sociometabolismo labo-
ral, que compõe o que iremos caracterizar como sendo a precarização do homem
que trabalha. O sociólogo Richard Sennet, no livro “A Corrosão do Caráter - As
Consequências Pessoais do Capitalismo Flexível”, mapeou aspectos do novo me-
tabolismo social que surgiu com a natureza flexível do novo capitalismo. Ele se
detém, em um primeiro momento, nos impactos do capitalismo flexível no caráter
pessoal dos indivíduos. O trabalho flexível, segundo ele, aliena as pessoas do sen-
tido da experiência vivida por meio de narrativas pessoais lineares, como ocorria,
por exemplo, sob o capitalismo fordista - que ele identifica com o trabalho buro-
cratizado e rotinizado. (Sennet, 1999; ver também Sennet, 2006).
Para Sennet, a nova condição salarial alterou o metabolismo social, isto é, o
sentido da experiência humana para as novas gerações de trabalhadores assalaria-
dos que se tornam incapazes de construírem “uma história cumulativa baseada no
uso disciplinado do tempo com expectativas a longo prazo”, ou ainda, uma “nar-
rativa linear de vida sustentada na experiência”. Sennet salienta mudanças signi-
ficativas no plano dos laços de afinidade com outros (amigos e a própria família)
e no plano da autorreferência pessoal e a construção de uma narrativa pessoal de
vida e trabalho.

25
CAPÍTULO 1

Utilizando o recurso metodológico de histórias de vidas, Sennet salienta as


clivagens geracionais provocadas pelo capitalismo flexível. Por exemplo, Enrico,
trabalhador fordista, apesar de ter o seu trabalho burocratizado e rotinizado, con-
seguiu construir uma história cumulativa baseada no uso disciplinado do tempo
com expectativas a longo prazo. Ao contrário, para Rico, filho de Enrico, traba-
lhador flexível, as relações de trabalho e os laços de afinidade com os outros não se
processaram no longo prazo, em decorrência de uma dinâmica de incertezas e de
mudanças constantes de emprego e de moradia, que impossibilitam os indivíduos
de conhecer os vizinhos, fazer amigos e manter laços com a própria família. Dian-
te das mudanças no mundo do trabalho, Sennet nos interroga: “Como pode-se
buscar objetivos de longo prazo em uma sociedade de curto prazo? Como podem-
-se manter relações duráveis?” (Sennet, 1999:27).
Portanto, a condição salarial de cariz flexível ou a nova precariedade salarial
tende a provocar mudanças significativas no sentido da experiência humana e, des-
te modo, no metabolismo social do trabalho como totalidade social. Ocorre a alte-
ração das relações sociais humanas, que se tornam voláteis e líquidas, como diria
Zygmunt Bauman. Na verdade, a “vida líquida” decorre da operação sociometabó-
lica, provocada pela nova precariedade salarial de cariz flexível (Bauman, 2001).
Um detalhe: as reflexões de Sennet e Bauman visam a corrosão do emprego es-
tável que ocorre nos países capitalistas centrais, onde o aumento da precariedade la-
boral significou a redução dos contratos de trabalho padrão, disseminados logo após
a Segunda Guerra Mundial, no bojo da ascensão histórica do capitalismo fordista-
-keynesiano. No caso do Brasil da década de 2000, aparentemente ocorreu o contrá-
rio: ampliaram-se os contratos por tempo indeterminado no mercado de trabalho
formal, embora tenha ocorrido, ao mesmo tempo, o crescimento relativo das contra-
tações atípicas e dos trabalhos precários que disfarçam relações de vínculo empregatí-
cio. O crescimento da formalização do mercado de trabalho no Brasil e o predomínio
dos contratos de trabalho por tempo indeterminado não significaram experiências
de emprego estável e segura, tendo em vista a proliferação das demissões imotivadas.
Na verdade, o espectro da incerteza e da mudança de emprego é um traço estrutural
da dinâmica laboral no Brasil, mesmo no mercado de trabalho formal.
A corrosão do caráter que ocorre sob o capitalismo flexível não deriva apenas dos
vínculos de emprego flexíveis. Existem outros elementos que contribuem para a pre-
carização do homem-que-trabalha, que dizem respeito à nova dinâmica da jornada
de trabalho e aos novos modos de remuneração salarial. Com o capitalismo flexível,
opera-se a redução do tempo de vida ao tempo de trabalho. É o que podemos deno-
minar “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital (Alves, 2011). O tempo é o
campo do desenvolvimento do sujeito humano. Na medida em que o tempo de vida
se reduz ao tempo de trabalho estranhado, tende a operar-se o processo de desefeti-

26
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

vação humano-genérica do sujeito humano. Por exemplo, em estudo feito por pes-
quisadores britânicos, observou-se que trabalhar demais não aumenta só o cansaço,
mas também o risco de desenvolver depressão (Virtanen M, Stansfeld S.A, Fuhrer R,
Ferrie J.E, Kivimäki M, 2012). Nas últimas décadas, o trabalhar demais disseminou-
-se com o capitalismo flexível. Na medida em que os novos métodos de gestão do tra-
balho flexível provocam o envolvimento estimulado de operários e empregados em
longas jornadas de trabalho (overtime worked), em sua maioria, trabalho estranhado,
opera-se efetivamente a “captura” da subjetividade do trabalho vivo pelo capital, e
constitui-se o que denominamos de fenômeno da “vida reduzida” com implicações
sociometabólicas - crise da vida pessoal, crise da sociabilidade e crise de autoreferên-
cia (Alves, Vizzaccaro-Amaral e Mota, 2011).
Em seu livro, Richard Sennet contrasta o trabalho fordista, burocrático, rotini-
zado e com uso disciplinado do tempo, com o trabalho flexível, incerto e inconstan-
te com relação aos laços de emprego e moradia. O que ele denomina de “corrosão
do caráter” ocorreu na medida em que o trabalho capitalista incorporou a incerteza
e inconstância do trabalho flexível. Entretanto, ao invés de abolir a rotina do tra-
balho, o trabalho flexível constituiu uma nova rotinização laboral que repõe, sob o
patamar da experiência salarial desterritorializada, as clivagens sociais do trabalho
capitalista de cariz estranhado, ou seja, (1) o trabalho insatisfatório, esvaziado de
conteúdo; (2) a remuneração salarial insuficiente para responder às expectativas
de satisfação dos carecimentos sociais; e (3) o despotismo laboral de cariz autor-
reflexivo (ao invés da chefia autocrática da linha de montagem acoplada à esteira
mecânica do trabalho fordista-taylorista, temos o despotismo auto-reflexivo nos
locais de trabalho, com o trabalho toyotista instaurando equipes de trabalho, onde
trabalhadores e trabalhadoras tornam-se “patrões de si mesmo”) (Antunes, 1999).
Portanto, o trabalho flexível capitalista alterou o sentido da experiência sala-
rial, na medida em que transtornou as duas dimensões essenciais do ser genérico
do homem como sujeito humano: (1) a dimensão territorial dos vínculos trabalho-
-vida e (2) a dimensão dos laços afetivos com o outro e laços de autorreferência
(o território intangível do self). Ao mesmo tempo, a nova experiência salarial do
trabalho flexível se constituiu nas condições da sociedade burguesa, sob a domi-
nância plena do fetichismo da mercadoria (Marx, 1985).

4. O eixo heurístico do metabolismo social do trabalho

Investigar o metabolismo social do trabalho significa expor os impactos das


mutações laborais na vida cotidiana das individualidades pessoais de classe e nas
relações sociais e humanas dos trabalhadores e trabalhadoras assalariados, tratan-

27
CAPÍTULO 1

do, deste modo, das dimensões da saúde do homem-que-trabalha. A perspectiva


do metabolismo social do trabalho nos permite apreender novas dimensões da
precarização do trabalho, ocultas nas abordagens da macroeconomia e da morfo-
logia social do trabalho.
É importante salientar que a dimensão da saúde do trabalhador não se res-
tringe tão somente aos nexos epidemiológicos propriamente ditos entre situações
de trabalho e adoecimentos laborais, mas também ao metabolismo social, no in-
terior do qual estão inseridos as individualidades pessoais de classe. O que sig-
nifica deslocar a investigação da saúde do trabalhador do binômio saúde versus
adoecimentos, com nexos em situações de trabalho (um campo propriamente dito
dos profissionais da Saúde), para o binômio saúde versus desequilíbrios no modo
de controle sociometabólico, com consequências na organização da vida pessoal.
Põe-se, deste modo, com vigor, o problema sociológico da alienação/estranhamen-
to e da vida plena de sentido (o adoecimento do homem-que-trabalha decorre da
dialética entre a singularidade do homem singular e o modo desequilibrado de
controle do metabolismo social, constituído historicamente pelo capital em seu
processo de desenvolvimento contraditório).
O conceito de “precarização do homem-que-trabalha” se coloca na perspec-
tiva do metabolismo social do trabalho. A investigaão do sociometabolismo do
trabalho põe a necessidade de utilizarmos técnicas de investigação etnográficas
propriamente ditas (história oral e histórias narrativas), capazes de apreender a
dialética entre singular, particular e universal, e o território das experiências pes-
soais de classe em suas formas de consciência social em processo.
No capitalismo flexível, o caráter global das mudanças sociais do trabalho im-
plica adotarmos um enfoque metodológico capaz de ir além das metamorfoses dos
locais de trabalho, empresas e cadeias produtivas reestruturadas, visando apreen-
der não apenas o trabalhador assalariado inserido na organização laboral (a força
de trabalho como mercadoria ou, ainda, a força de trabalho como sujeito de direi-
tos), mas apreender os rastros ocultos do trabalhador assalariado, como trabalho
vivo ou homem-que-trabalha, inserido na vida cotidiana, com a organização do
binômio tempo de vida-tempo de trabalho e as múltiplas dimensões da vida social
e relações de sociabilidade.
No Brasil, a maioria dos estudos sobre precarização do trabalho tende a sa-
lientar apenas a precarização social do trabalho como degradação da condição
salarial da força de trabalho como mercadoria, e a espoliação da força de trabalho
como sujeito de direitos. Deste modo, ocultam-se dimensões da desefetivação do
homem-que-trabalha como ser humano-genérico, em virtude da reorganização
do modo estranhado de controle do sociometabolismo do capital, instaurado pelas

28
Juventude e nova precariedade salarial no Brasil: elementos da condição proletária no século XXI

novas condições de exploração/espoliação da força de trabalho como mercadoria,


propiciadas pelo modo de acumulação flexível. O enfoque crítico do metabolis-
mo social do trabalho implica tratar de dimensões da precarização do trabalho
desprezadas pelas investigações sociológicas propriamente ditas, resgatando, deste
modo, o que denominamos “precarização do homem-que-trabalha” (Alves, Vi-
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32
CAPITULO 2

Trabalho, precariedade e
movimentos sociolaborais1
Elísio Estanque e Hermes Augusto Costa

1. Introdução

A
s relações de trabalho e os movimentos sociais são hoje, porventura como
nunca, dois campos de estudos decisivos da sociologia contemporânea.
Apesar de serem temas que podem ser tratados autonomamente, em con-
texto de intensificação das medidas de austeridade, faz, porém, todo o sentido
pensar neles de modo articulado. É, de resto, difícil falar em crise global do capi-
talismo, em crise do emprego, em crise dos modelos de negociação coletiva, etc,
sem falar nas estratégias de resposta das cidadãs, dos cidadãos e da sociedade, das
“velhas” organizações sindicais ou das “novas” organizações, movimentos e redes
sociais, que estão a emergir um pouco por todo o mundo, em luta pelo direito ao
emprego e a um futuro digno, ao mesmo tempo que promovem novas agendas e
repertórios políticos mais ou menos radicais. Como se sabe, o atual panorama de
profunda crise económica, que, desde há várias décadas, tem vindo a atingir em
especial a Europa e o seu welfare state, está a ter impactos devastadores no campo
do emprego e das políticas sociais. Na sua origem está o modelo neoliberal e os
efeitos de um mercantilismo desregulado e global que, além de questionar o “mo-
delo social europeu”, empurra amplos setores da força de trabalho – com destaque
para as camadas mais jovens, qualificadas e também para o setor feminino – para
o emprego precário e para o desemprego de longa duração.
O presente texto situa-se neste campo e procura discutir algumas das princi-
pais transformações sociais que vêm ocorrendo no mundo laboral, tentando per-
ceber que tipo de respostas e desafios podem ser pensados a partir da experiência
dos movimentos sociolaborais do período mais recente. Assim, a primeira parte

1 O presente texto foi publicado em Portugal, no livro coordenado por Sara Falcão Casaca
(Org.) (2012), Mudanças Laborais e Relações de Género: novos vetores de (des)igualdade. Lis-
boa/Coimbra: Almedina, tendo igualmente sido publicado em língua inglesa em “Labour
relations and social movements in the 21st century”, in Erasga, Denis (Ed.) (2012), Sociological
Landscapes: Theories, Realities and Trends (ISBN 979-953-307-511-1). Rijeka/Croacia: IN-
TECH/ Open Acess Publishing.
CAPÍTULO 2

centra-se nos processos de mudança associados ao mercado de trabalho; e a par-


te final incidirá sobre a recente onda de protestos e movimentos sociais, fazendo
referência a experiências e formas de ação coletiva de natureza distinta. Por um
lado, procura-se refletir sobre estas temáticas à escala global; por outro, a análise
focaliza-se na sociedade portuguesa e no contexto europeu. A questão da mulher
e dos movimentos feministas surgem aqui apenas em um plano secundário, já que
as problemáticas do trabalho e da ação coletiva são tratadas em um registo mais
genérico. Todavia, está subjacente à nossa reflexão (e isso não deixa de ser men-
cionado) a relevância das teorias e debates em torno das questões de género, bem
como a atenção que nos merece a condição feminina, que, como sabemos, é em si
mesma um fator que denuncia novas formas de desigualdade e ajuda a estruturar
novas clivagens identitárias e movimentos sociais dentro das velhas desigualdades
socioeconómicas. É por essas e outras razões que o feminismo constitui um cam-
po central nos atuais debates e um elemento decisivo para compreendermos os
movimentos sociais, presentes e passados.

2. Metamorfoses do trabalho assalariado

Enquanto atividade concebida pelo ser humano, assente na produção de bens


materiais, na prestação de serviços ou no exercício de funções com vista à obten-
ção de resultados que possuam utilidade social e valor económico (Freire, 1998:
27), o trabalho acolhe, pois, diferentes tipos de significados associados a diferentes
tipos de relações: com a natureza, com a produção (de bens e mercadorias para
consumo), com os serviços (prestação de serviços entre pessoas), com a ideia de
transação (troca de bens materiais), com a noção de criação (o trabalho é inven-
ção e descoberta), com espaços/instituições (organizações), etc. Por outro lado, o
trabalho também se pode distinguir do emprego, mesmo que não exista empre-
go sem trabalho. Guy Standing (2009), por exemplo, distingue entre “labour” e
“work”. Enquanto que o labour significa “a maximização da eficiência e da compe-
titividade” e algumas das suas características são o estresse, o burnout e a perda de
controlo sobre o tempo, work coloca maior ênfase nas atividades de necessidade,
sobrevivência e reprodução, bem como de desenvolvimento pessoal. Nesse sen-
tido, “executando um trabalho, a pessoa possui uma ação, um sentido de auto-
-determinação” (Standing, 2009: 7).
As transformações do mundo do trabalho ao longo do século XX, em especial
na Europa, evidenciaram um processo de profunda mudança social que questio-
nou a centralidade do trabalho e fez surgir um novo léxico político: globalização,
descentralização, flexibilização (Costa, 2008). Na sequência da Segunda Guerra

34
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

Mundial, o modelo dominante de relações laborais assentou, em especial no norte


da Europa, em sindicatos e associações patronais fortes e centralizados, que arti-
culavam a sua capacidade de atuação com a dos próprios governos. O triunfo desse
modelo é indissociável do papel do Estado, pois ele traduziu a passagem de uma
relação de trabalho concorrencial e puramente mercantil para um modelo juridi-
camente regulado, dando lugar à ideia de que: “a garantia de emprego e a noção
de emprego – o contrato indeterminado – e a proteção social estão na origem da
chamada cidadania social na Europa ocidental do pós-guerra” (Oliveira e Carva-
lho, 2010: 27; Costa, 2008: 23-38). Nessa “idade de ouro”, o movimento sindical
adquiriu um amplo reconhecimento e tornou-se parte integrante dos processos
nacionais de promoção de bem-estar, tendo na verdade o seu estatuto evoluído
do de “movimento” para o de “parceiro” social. Além disso, definiram-se normas
de cidadania laboral no local de trabalho e os governos desenvolveram políticas
macroeconómicas favoráveis ao pleno emprego (Ross e Martin, 1999: 7). O fordis-
mo confirmava-se, então, como modelo de relação salarial dominante, assente em
três planos: por um lado, enquanto princípio geral de organização do trabalho (ou
paradigma industrial), foi um prolongamento do taylorismo pela mecanização e
pelo consumo de massas; por outro lado, enquanto estrutura macroeconómica (ou
regime de acumulação), implicou que os ganhos de produtividade resultantes dos
seus princípios organizacionais tivessem a sua contrapartida no crescimento dos
investimentos financiados pelos lucros e no crescimento do poder de compra dos
trabalhadores e das trabalhadoras assalariadas; em terceiro lugar, enquanto modo
de regulação, o fordismo implicou uma contratualização de longo prazo da relação
salarial, com limitações rígidas face aos despedimentos, assim como um progra-
ma de crescimento dos salários indexado à inflação e à produtividade (Lipietz,
1992; 1996). A estes três aspetos, Bob Jessop acrescenta um quarto, que configura
o fordismo como padrão de integração institucional e coesão social e contempla “o
consumo de mercadorias massificadas e estandardizadas nos lares de família nu-
cleares e o fornecimento de bens e serviços coletivos estandardizados pelo Estado
burocrático” (Jessop, 1994: 254).
Com a crise petrolífera dos anos setenta, teve início uma progressiva degra-
dação das condições de trabalho e um aumento do desemprego que agravava pro-
gressivamente a crise fiscal do Estado. Ao mesmo tempo que o papel do Estado e
as políticas públicas eram postos em causa, questionava-se também o papel dos
sindicatos. No Reino Unido, por exemplo, o governo de M. Thatcher adotou políti-
cas centradas na flexibilidade e na desregulamentação, que foram acompanhadas
de restrições legislativas da influência sindical: entre 1980 e 1993, a introdução de
oito leis destinadas a regulamentar a atividade sindical (Waddington, 1995: 31 ss.)
teve como efeito imediato a aposta no mercado e no indivíduo e o isolamento do/a

35
CAPÍTULO 2

trabalhador/a de qualquer ambiente social (Beynon, 1999: 274-275). Ao mesmo


tempo, o fim do fordismo traçou, desde logo, novos contornos e iniciou o que viria
a ser a mais profunda recomposição do mercado de trabalho desde o pós-guerra.
Produção descentralizada, maior especialização, inovação tecnológica, flexibiliza-
ção, equipas semiautónomas, novas qualificações, multiplicação das formas con-
tratuais, subcontratação, modelo de lean production, novas técnicas de gestão da
produção (just-in-time), total quality management, reengenharia, externalização e
outsourcing, trabalho em equipa, etc. (Hyman, 1994, 2004; Amin, 1994; Womack,
Jones e Roos, 1990; Kovács, 2006; Costa, 2008).
Tais tendências articulam-se ainda com outros impactos produzidos pelas
transformações do capitalismo global, entre os quais, a ação das multinacionais,
que converte as economias nacionais e dificulta os mecanismos sindicais de re-
gulação; o aumento do desemprego estrutural, gerador de processos de exclusão
social; a deslocalização dos processos produtivos e a predominância dos mercados
financeiros sobre os mercados produtivos; a crescente fragmentação dos mercados
de trabalho, que conserva os segmentos degradados da força de trabalho abaixo
do nível de pobreza; o desenvolvimento de uma cultura de massas dominada pela
ideologia consumista e pelo crédito ao consumo; etc. (Santos, 1995: 134-135). Ficou
claro que, ao longo da primeira década do século XXI, as novas formas de trabalho
se traduziram cada vez mais em rotas de sentido precarizante, quer em Portugal
quer na Europa: recibos verdes (ou melhor, falsos recibos verdes)2, contratos a pra-
zo, trabalho temporário, trabalho a tempo parcial, trabalho na economia infor-
mal3, são apenas alguns dos rostos das novas morfologias do trabalho (Antunes,
2006; Aubenas, 2010) no século XXI. Não causa, por isso, estranheza, ao longo da
última década, a identificação de teses opostas quanto ao lugar/centralidade do
trabalho na sociedade.4
Estas tendências estão longe de confirmar o fim do trabalho ou a fragmen-
tação da sociedade salarial em uma “não-classe de não-trabalhadores/as” (André
Gorz), muito embora se possa reconhecer a menor importância do trabalho na
definição da estruturação da identidade individual e a sua crescente dificulda-

2 Para uma análise deste fenómeno que, em Portugal, rondará as 900.000 pessoas, cf. AAVV
(2009).
3 Estima-se que em Portugal o peso da economia informal represente cerca de ¼ do PIB
português. Como assinalam Dornelas et al. (2011: 16), o peso do trabalho não declarado
apresenta sobretudo motivações mais económicas do que sociais e atinge tanto mais as di-
ferentes categorias quanto mais distantes estas se encontram do emprego típico e protegido.
Além disso, integra uma parte (16%) não remunerada do trabalho realizado no setor formal
da economia formal.
4 Para uma análise mais desenvolvida de tais teses, cf. Toni (2003).

36
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

de em fixar os laços sociais (Claus Offe; Jeremy Rifkin; Ulrich Beck; Dominique
Méda). O trabalho tornou-se um bem cada vez mais escasso, mas isso não só não
lhe retirou importância como realçou o seu papel enquanto fator de afirmação de
dignidade de direitos humanos. Mesmo considerando as virtualidades da socieda-
de informacional (Manuel Castells), a já referida fragmentação e volatilidade dos
processos e formas de trabalho e o carácter “pós-industrial” das sociedades oci-
dentais, importa sublinhar, acompanhando instituições como a OIT (Organiza-
ção Internacional do Trabalho), que “o trabalho não é uma mercadoria” e que não
há alternativa à civilização do trabalho, ainda que as suas formas se revelem cada
vez mais instáveis e multifacetadas. É indubitável que o trabalho assalariado se
tornou palco do individualismo negativo, de precariedade e vem perdendo consis-
tência, estabilidade e até dignidade. Mas como muitos académicos têm chamado
a atenção, o trabalho permanece no centro dos combates sociais e da luta política
atual. Importa por isso redescobrir e reforçar o seu papel enquanto cimento da
sociedade, isto é, como espaço decisivo na defesa da coesão social e do exercício
da cidadania, revitalizando os mecanismos de diálogo e os consensos por meio de
um novo contrato social que consolide a democracia (Castel, 1998; Santos, 1998;
Ferreira, 2009 e 2012)5.
No caso particular das mulheres, apesar de possuírem um elevado peso no
mercado de trabalho português e da sua presença ser maioritária entre a popu-
lação empregada que completou o ensino secundário e superior, continuam a ser
vítimas de segregação no campo profissional, o que se comprova pela sua menor
presença nas categorias profissionais mais qualificadas. Considerando as percenta-
gens segundo o sexo por referência ao respetivo peso entre os/as trabalhadores/as
com níveis de educação mais elevados, verifica-se que enquanto 71,6% dos homens
nessa condição pertencem àquelas categorias (quadros médios e superiores), apenas
54,6% das mulheres encontravam-se em posições idênticas em 2005 (Rosa, 2008).
Quando se cruza a variável sexo com os salários e os tempos de trabalho, cons-
tatamos que o aumento da representatividade feminina no mercado de trabalho,
por comparação com o sexo masculino, ainda é sinónimo de desigualdade em
termos de proveitos do trabalho6. Como assinalam Rosa e Chitas (2010: 70), apoia-
dos na base de dados PORDATA7, conserva-se uma diferença de ganhos médios

5 Nos termos de tal contrato: i) o trabalho deve ser democraticamente partilhado (o reforço
de labour standards é crucial a este respeito); ii) o seu polimorfismo deve ser reconhecido
(é preciso um patamar mínimo de inclusão para as formas atípicas de trabalho); iii) e o
movimento sindical deve ser reinventado (quer atuando em diferentes escalas e não apenas
na local/nacional, quer funcionando como alternativa civilizacional).
6 Para uma análise mais aprofundada, veja-se Ferreira (2010).
7 www.pordata.pt

37
CAPÍTULO 2

entre homens e mulheres, com vantagem para o sexo masculino, ainda que essa
vantagem esteja a diminuir ao longo dos anos. Em 1985, enquanto um homem ga-
nhava, em média, 186 euros, a mulher ficava pelos 136 euros (mais 37% para eles).
Atualmente, essa diferença é de 28% a menos, para elas. A diferença de ganhos
médios entre homens e mulheres – vantajosa para os homens – que trabalham por
conta de outrem é, assim, a regra, qualquer que seja o nível de qualificação e para
praticamente todos os setores de atividade (em 2008, as exceções são os setores
da “construção” e dos “transportes e armazenagem”, onde os ganhos médios das
mulheres são superiores aos dos homens).
Ao mesmo tempo, é interessante notar o ritmo de feminização em categorias
particulares da classe média (ao contrário do setor operário e dos assalariados
agrícolas), sendo isso muito evidente em diversas profissões, mas mais acentua-
do no caso dos/as empregados/as executantes, funcionários/as administrativos/as,
professores/as, enfermagem, serviço social, etc, a ilustrar como as questões de gé-
nero (ou de desigualdade sexual) são indissociáveis dos processos de estruturação
e de segmentação geral do mercado de trabalho (Grusky, 2008; Crompton, 2009).
Os/as jovens e as mulheres são, na verdade, segmentos sociais onde as diferen-
ças de oportunidades continuam a ser flagrantes, sendo portanto categorias atra-
vés das quais as novas desigualdades têm vindo a consolidar-se, o que é manifesto
em indicadores como os índices de desemprego, de precariedade, as diferenças en-
tre os níveis salariais e as oportunidades de emprego. Segundo relatórios recentes
do Observatório das Desigualdades do ISCTE/IUL, entre os/as trabalhadores/as
com o ensino básico, a discrepância salarial entre os sexos é de 13,5% (em benefício
dos homens), evoluindo para 26,5% nos que possuem o ensino secundário com-
pleto e aumentando para 27,2% na camada da força de trabalho com frequência do
ensino superior. E é também nestes setores que a diferença salarial entre homens
e mulheres mais se agrava (Carvalho, 2011; veja-se também Ferreira, 2010). Isto
evidencia bem como os processos de mudança, apesar das importantes conquistas
que trazem consigo no plano das qualificações escolares e competências sociopro-
fissionais, são, em geral, indutores de novas dinâmicas de desigualdade, que pare-
cem obedecer a uma permanente readaptação, mas ao mesmo tempo são dotadas
de grande capacidade de resiliência.

3. Indicadores do mercado de trabalho

Um olhar sobre alguns indicadores do mercado de trabalho – como os salá-


rios, os contratos a prazo ou o fenómeno do desemprego – é bem revelador da forte
convulsão (e desvalorização) por que vem passando o fator trabalho nos últimos

38
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

anos, em especial na Europa. É claro que os sistemas de relações laborais (as con-
dições de trabalho, a legislação laboral, a contratação coletiva, etc.) não são uni-
formes entre os países da UE, mas em diversos países são identificáveis tendências
de degradação que atingem com maior intensidade os segmentos mais pobres e
vulneráveis, em particular os jovens e as mulheres.
Por exemplo, no campo dos rendimentos do trabalho, os cortes entre os/as
funcionários/as públicos/as das economias mais fragilizadas (Grécia, Irlanda e
Portugal são alguns dos exemplos mais referidos no quadro da UE), associados
a todo um pacote de medidas de liberalização e “ajustamento” em benefício do
capital (e contra o trabalho) constituem um enorme recuo no campo dos direitos
sociais. No ano de 2011 (o mesmo sucedendo em 2012), no que concerne ao caso
português, importa mencionar os cortes salariais na função pública (até 10%) –
por sinal com a anuência controversa do Tribunal Constitucional (Costa, 2012)
–, a perda de metade do subsídio de Natal em 2011 e a retirada (inscrita no orça-
mento de Estado de 2012) dos 12º e 13º meses (a totalidade dos subsídios de férias
e de Natal) que haviam sido produto de conquistas de mais de 30 anos. Ora, estas
severas medidas de austeridade incidem sobre os/as trabalhadores/as do Estado e
sobre os/as pensionistas, produzindo implicações na vida de cerca de 3 milhões de
pessoas, em uma demonstração clara do retrocesso em curso na relação salarial,
sem esquecer que os impactos no setor privado constituem uma forte probabilida-
de. Parece evidente que se trata de um “ataque” direto ao campo laboral, uma des-
valorização dos custos do trabalho que se estende do próprio salário à segurança,
à dignidade profissional e à vida familiar da força de trabalho assalariada no seu
conjunto (Reis, 2009: 11).
Em contexto de crise económica, a importância do salário mínimo será, por
isso, ainda maior. É elementar ter em conta que o salário mínimo, além de uma
importante fonte de justiça social, pode também constituir-se como um apoio pe-
cuniário indispensável à sobrevivência de muitas famílias. Para as pessoas traba-
lhadoras, o risco de pobreza em Portugal é de 12% (sendo 2/3 do risco de pobreza
total), enquanto que na Europa é de 8% (sendo aqui também metade do risco de
pobreza total), o que é um indicador de que, em Portugal, os salários são baixos
para fazer face a situações de pobreza (Dornelas et al., 2011: 18; Caleiras, 2011). Tal
como os salários, os contratos a prazo apontam igualmente o caminho da precari-
zação. De novo tendo em conta a realidade laboral portuguesa, entre 1999 e 2007,
verificou-se um aumento da probabilidade de novos contratos serem celebrados a
termo e mantidos nessa situação durante mais tempo. Pela dinâmica de entrada
na vida ativa, este fenómeno afeta particularmente os/as trabalhadores/as jovens,
mas tem-se estendido a todas as idades. Além disso, no setor dos serviços a flexi-
bilização tem sido bem evidenciada através do recurso aos contratos a prazo, pos-

39
CAPÍTULO 2

sibilitando uma elevada rotação de emprego8. Ora, “esta excessiva rotação reduz
os incentivos ao investimento em educação e formação por parte das empresas e
dos/as trabalhadores/as, e acentua a polarização do mercado de trabalho, afetando
negativamente a acumulação de capital humano da economia” (Reis, 2009: 12). No
seu conjunto, em 2010, os contratos a prazo abrangem 23,2% dos/as assalariados/
as, em especial jovens com níveis de escolarização elevados.
Na última década, os postos de trabalho em regime de contratos permanentes
diminuíram ao mesmo ritmo em que aumentaram os contratos a prazo. Os valo-
res do emprego precário (se somarmos os contratos a termo, os recibos verdes, os/
as trabalhadores/as temporários/as e o trabalho a tempo parcial) já se situam nos
cerca de 40% do emprego total. Este tipo de contrato cresceu progressivamente e
em todas as faixas etárias, sendo a geração dos jovens entre os 15 e os 24 anos (hoje
popularizada pelo nome de Geração à Rasca)9 a que mais sofre com isso, o que
acontece, de resto, em muitos outros países europeus (Estanque, 2012). Segundo
fontes oficiais, em 2010 havia 37,6% dos trabalhadores e das trabalhadoras, com
idades entre os 15 e 34 anos, em situação laboral de contratos a prazo, ao passo que
se considerarmos apenas o segmento etário dos 15 aos 24 anos, essa percentagem
já se aproximava dos 50% (INE, 2010; Carmo, 2010). Mas o problema do desem-
prego é hoje mais incontornável do que nunca. Segundo a OIT (ILO, 2011: 12), em
2010 o desemprego à escala global (apesar de alguma recuperação após a crise do
subprime em 2008) permaneceu em níveis muito elevados, situando-se na casa
dos 205 milhões, havendo mais 27,5 milhões de pessoas desempregadas em 2010
do que em 2007. Segundo estimativas do EUROSTAT, só na UE-27, em agosto de
2011, 22.785 milhões de homens e mulheres estavam desempregados/as (sendo de
15.739 milhões o número de pessoas desempregadas nos países da “zona euro”).
Em Portugal, o desemprego passou de 524.674 (10,1%), em dezembro de 2009, para
546.926 (11%), em dezembro de 2010. Nesta data (dezembro de 2010), a taxa de
desemprego na zona euro era de 10% e na UE-27 era de 9,6% (EUROSTAT, 2012a).
Em agosto de 2011, a percentagem de desempregados/as em Portugal situava-se
nos 12,3%, sendo na média da zona euro de 10%, e em dezembro desse ano atin-
giu os 13,6% (EUROSTAT, 2012b). As estatísticas mais recentes revelam ainda um
agravamento da taxa de desemprego, atingindo a barreira dos 15% e sendo agora

8 Mário Centeno, em entrevista ao Jornal Público, 7/02/2011. Ver ainda Centeno e Novo (2008:
146).
9 Desde o dia 12 de março de 2011 que esta camada de precários/as se autoidentifica como a
“Geração à Rasca”, devido à enorme manifestação (que reuniu 300.000 pessoas) convoca-
da por um grupo de jovens, através do Facebook, e que, segundo vários/as analistas, terá
marcado um momento de viragem nas modalidades de ação coletiva e afirmado um novo
fenómeno no cenário político nacional.

40
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

o terceiro valor mais elevado dos países da OCDE (a seguir à Espanha e à Grécia)
(OCDE, 2012).
Mas os números do desemprego obrigam-nos a colocar a ênfase quer na sua
duração, quer nos escalões etários, sendo os jovens (e mais qualificados) particu-
larmente afetados. Na verdade, parece notória uma tendência para o aumento do
desemprego, sobretudo ao nível do desemprego de longa duração10, o que não pode
desligar-se, como referimos anteriormente, da excessiva percentagem de emprego
precário em Portugal, que se caracteriza pela insegurança e pelas baixas remune-
rações. Além disso, no seio das empresas são evidentes baixos níveis de adaptabi-
lidade do emprego e do tempo de trabalho, o que vem potenciar despedimentos,
facilitar a contratação precária e dificultar a conciliação entre vida profissional e
familiar (Dornelas, 2009: 128-129).
No final de 2010, registava-se em Portugal o maior volume de desemprego jo-
vem de sempre, registando a camada etária entre os 15 e os 24 anos cerca do dobro
da média nacional (22%). De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE),
das 609.400 pessoas desempregadas no 3º trimestre de 2010, 285.400 eram jovens
com menos de 34 anos. E aqui certamente podemos incorporar o desemprego de
licenciados/as: se em 2000 o número de desempregados/as licenciados/as era de
83.000, em 2010 ele atingia os 190.000, ou seja, o problema tem vindo a agravar-
-se nos últimos anos, atingindo os 55 mil casos nesse ano, embora se saiba que
os licenciados auferem salários mais elevados e permanecem menos tempo sem
emprego ou em situação de trabalho precário. Entretanto, no primeiro trimestre
de 2011, a taxa de desemprego dos jovens (dos 15 aos 24 anos) foi de 27,8%; em
novembro de 2011, situava-se nos 30,7%, e no primeiro trimestre de 2012 atingiu
os 35,4% (EUROSTAT, 2012b; INE, 2012).
Acresce que a pressão generalizada para a flexibilização das relações laborais
– com incidência nos planos contratual, salarial ou das condições de trabalho –
tem sido sempre acompanhada de uma intensificação das formas de segregação
segundo o sexo. Se os/as trabalhadores/as em geral encontram-se em situação cada
vez mais vulnerável, as mulheres em particular são e sempre foram discrimina-
das, do campo laboral ao espaço doméstico, passando pela esfera pública e política
em geral. Por outras palavras, as tendências de fragmentação, desvalorização e
precarização do trabalho não deixam de transportar, e muitas vezes intensificar,
poderosos “mecanismos de segregação sexual associados à crescente flexibilização
da relação laboral” (Casaca, 2010: 285).

10 Eram quase 340.000 em Portugal, no 3º trimestre de 2010, os desempregados de longa du-


ração (INE, 2010).

41
CAPÍTULO 2

4. Precariedade e ação coletiva

As tendências de restruturação produtiva, de recomposição das relações de


trabalho e o “metabolismo capitalista” (Antunes, 1999) que vêm ocorrendo nas
nossas sociedades, bem como os seus ciclos e oscilações entre crises e dumping
social, por um lado, e euforia consumista e crescimento, por outro, podem ser en-
tendidos como situações inerentes à própria estrutura do capitalismo moderno. As
lógicas de acumulação e os mecanismos de regulação do sistema económico têm,
apesar de tudo, revelado uma enorme capacidade inventiva no recurso a diver-
sos meios de mediação que, em regra geral, conseguem assegurar a sua reprodu-
ção, apesar do sofrimento que isso possa comportar para as classes desapossadas.
Como assinalou Ricardo Antunes, “houve uma diminuição da classe operária in-
dustrial tradicional. Mas, paralelamente, efetivou-se uma significativa subproleta-
rização do trabalho, decorrência das formas diversas de trabalho parcial, precário,
informal, subcontratado, etc. Verificou-se, portanto, uma significativa heteroge-
neização, complexificação e fragmentação do trabalho” (Antunes, 1999:209).
Deste modo, não só o potencial do trabalho (e da indústria) não desapareceu,
como a sua centralidade se reforçou. É esta a perspetiva que aqui assumimos. Além
de fator de produção e de desenvolvimento, o trabalho permanece um espaço deci-
sivo de construção identitária, um campo de afirmação de qualificações, uma fonte
de emanação de direitos e de cidadania. Quando os/as trabalhadores/as choram à
porta de cada fábrica encerrada, não é apenas por terem perdido a sua fonte de sub-
sistência. É porque se sentem agredidos no mais fundo da sua dignidade humana.
Ou seja, o trabalho persiste como uma dimensão fulcral de sociabilidade que liga o
indivíduo à natureza e à sociedade. Por esse motivo, devemos assumir que a retira-
da de condições de segurança e estabilidade nas relações laborais só pode ter como
consequência o esgaçar do próprio tecido social com todo o rol de riscos que isso
comporta, tanto para a atividade económica como para a vida das pessoas.
Já sabemos os resultados devastadores do capitalismo selvagem do século XIX,
cujo processo de mercantilização significou a transmutação da economia de mer-
cado para a “sociedade de mercado”, com o consequente despojamento do traba-
lho do seu carácter humano e da sua dignidade. E na Europa do século XX, esgo-
tada que foi a promissora experiência dos “trinta gloriosos anos”, o neoliberalismo
subjugou de novo a atividade económica ao poder dos mercados (Polanyi, 1980).
Tudo isso ocorreu sob um discurso ideológico que nos fazia crer que o trabalho
passou a ser algo intangível, etéreo e completamente desumanizado, que se resu-
mia a um conjunto de índices e indicadores estatísticos. Se é verdade que, em mea-
dos do século passado, o advento do Welfare state conseguiu travar os excessos do

42
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

capitalismo selvagem, sessenta anos decorridos, assistimos novamente ao desmo-


ronamento desse modelo redistributivo e, com ele, a uma degradação da condição
social da classe trabalhadora (incluindo os setores da classe média assalariada).
No tempo presente, a posição mais baixa da hierarquia parece ser ocupada
pelo precariado, por sinal o grupo que está a “puxar para baixo” o lugar estratégi-
co das classes médias nas democracias ocidentais (Estanque, 2003 e 2012). Como
refere Guy Standing (2009: 109-114), trata-se de uma crescente legião de pessoas
que circulam entre empregos inseguros e mal pagos (nos países de imigração a
população imigrante é um exemplo), que não sabem o que é segurança no traba-
lho, que não usam o título profissional para dizer o que fazem, e que preenchem o
vasto mundo da “economia informal”, onde a palavra direitos está posta de parte.
“Flexitrabalhadores” ou “geração Y” (nascida depois de 1980) são apenas alguns
dos rótulos de um novo precariado que usa uma linguagem nova – emails, SMS,
Facebook, etc. – e que por vezes faz mesmo dela um “ciberproletariado” (Huws,
2003). Se a cidadania fosse definida em termos de direitos ocupacionais, então, ao
precariado faltaria cidadania. Muito embora “possa ter tido aí um papel, não pos-
sui uma base material ou um estatuto ocupacional que lhe permita desenvolver o
lazer e intervir politicamente”. Ou seja, “o precariado não é livre, porque perdeu o
sentido de segurança” (Standing, 2009: 314).
Abaixo desta categoria precária outras que poderão situar-se ao “nível de lixo”
(para usar uma expressão vulgarizada no contexto da crise pelas agências de ra-
ting), “só” mesmo os/as desempregados/as e os/as descartados/as (“detached”). Por
um lado, os/as desempregados/as sofrem face às oportunidades que o mercado
de trabalho não lhes dá. Por outro lado, os/as descartados/as são igualmente uma
categoria crescente, afastada dos benefícios do Estado, que vive em situação de
pobreza crónica, nas estações de metro, debaixo de pontes ou em parques urbanos
e que, como refere Standing (2009: 115), além de lhe poder ser aplicado o termo
lumpenproletariado (de Marx), ninguém os quer ter como vizinhos/as.
As metamorfoses do mundo laboral, nomeadamente a crescente precarização
do trabalho assalariado, que há cerca de dez anos eram ainda consideradas “des-
vios” ou incluídas no chamado “trabalho atípico” (Paugam, 2000), evoluíram rapi-
damente nos últimos anos para um novo padrão que, apesar da grande heteroge-
neidade de situações, tem como traço comum a marca da precariedade, associada
a situações de medo e total dependência do/a trabalhador/a.
A condição precária ou de proletariedade remete para uma ideia de “classe”
(com aspas, de que fala Giovanni Alves), composta de indivíduos, vítimas do feti-
chismo e marcados pelo “estranhamento”, pela insegurança e descontrolo existen-
cial: “homens e mulheres jogados no mundo social do capital, despossuídos, su-

43
CAPÍTULO 2

balternos e imersos na contingência da vida e no acaso do mercado”(veja-se Alves,


2009: 81-89). Quem trabalha nestas condições permanece paralisado/a pelo medo
e pelos constrangimentos que se exercem a partir do trabalho e se repercutem em
todas as dimensões da vida social, da fábrica à comunidade, da empresa à família.
Também neste caso, importa realçar que a mulher continuou a ocupar um estatuto
ainda mais subalterno. Ou seja, é sempre nas experiências de trabalho mais de-
gradantes, designadamente naquelas situações – legais ou clandestinas – em que,
além da exploração e da negação de direitos, se entra em uma zona de invisibili-
dade e total obscurecimento da condição humana que a mão de obra feminina se
torna mais presente (Estanque, 2000; Ehrenreich, 2000; Aubenas, 2010).

5. Subjetividades e novos movimentos sociolaborais

Os indicadores que acabámos de referir evidenciam bem a gravidade da situa-


ção social nos países europeus. A quebra de confiança das pessoas acerca do fun-
cionamento do sistema representa uma ameaça para a coesão social e para o clima
de estabilidade que, apesar de tudo, tem caracterizado as democracias ocidentais
desde o final da Segunda Guerra Mundial. De resto, é bom lembrar que essa é uma
tendência que vem se acentuando nos países europeus a uma velocidade preocu-
pante, como diversos estudos internacionais têm revelado.
Inquéritos às atitudes dos cidadãos e das cidadãs mostram que a “classe política” é
uma das categorias que mais suscita respostas a indicar “nenhuma confiança”. No caso
de Portugal, essa tendência tem-se agravado. Em 2002, verificou-se uma percentagem
de 17,2% de respostas nesse sentido (contra 11,8% da média da UE), tendo a mesma
evoluído para 25,3% em 2004, 25,7% em 2006 e 29,4% em 2008. A falta de confian-
ça estende-se da dimensão social e interpessoal (crença no altruísmo dos outros) à di-
mensão institucional (Governo e Assembleia da República) e é ainda mais acentuada
relativamente aos “políticos” em geral. Em um estudo recente de âmbito europeu, os
países escandinavos (Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia) e a Suíça revelaram os
mais elevados níveis de confiança nesses dois planos (interpessoal e institucional), en-
quanto que Portugal, Espanha e os países de Leste da Europa (em especial a Polónia, a
Hungria e a Eslovénia) mostraram possuir os níveis mais baixos de confiança (Silva,
2011: 51-57). Ainda mais recentemente, um estudo sobre a qualidade da democracia
desenvolvido por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa
(A Qualidade da Democracia em Portugal: a perspetiva dos cidadãos)11 comprova e re-

11 Coordenado por António Costa Pinto, Pedro Magalhães, Luís de Sousa e Ekaterina Gorbu-
nova, e cujos primeiros resultados foram divulgados no jornal Público de 19/01/2012.

44
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

força essas tendências no plano das atitudes, ao revelar que apenas 56% dos portugueses
e das portuguesas consideram que “a democracia é preferível a qualquer outra forma de
governo” e que uma parte, reduzida mas significativa, de cidadãs/aos (15%) partilha a
ideia de que “nalgumas circunstâncias um governo autoritário é preferível a um sistema
democrático” (um valor que, cerca de dez anos antes, estaria nos 7%, segundo um dos
autores do estudo). Segundo a mesma investigação, a grande maioria das pessoas inqui-
ridas concorda com a afirmação de que “os políticos preocupam-se apenas com os seus
próprios interesses” (78% de concordância) e outras no mesmo sentido. Além disso, as
principais preocupações dos portugueses e das portuguesas vão, como seria de esperar,
para os problemas do desemprego (37%) e da pobreza e exclusão social (16%).
As grandes transformações que vêm ocorrendo nas últimas décadas no do-
mínio da economia têm evoluído no sentido de travar ou inverter o velho modelo
social europeu, que no passado foi considerado irreversível e exemplo a seguir em
outros continentes. Uma das razões pela qual o ponto a que chegámos é tão pre-
ocupante, prende-se com o facto de, uma vez mais, a esfera laboral e o acesso ao
emprego voltaram a estar no centro da controvérsia e do conflito social. Nos úl-
timos cinquenta anos, não só as economias e sistemas de emprego do Ocidente se
terciarizaram, como os modos padronizados e estáveis de exercício profissional se
desmantelaram ou estão em vias disso, como atrás vimos. Pode-se dizer que com
a estagnação do trabalho industrial e a consolidação do fordismo (no setor privado
e no público), o velho conflito laboral se “despolitizou” e aos poucos se tornou um
elemento “gerível” na estrita esfera produtiva. Em um certo sentido, assistiu-se a
um processo de institucionalização, em que o diálogo e a negociação substituíram
a velha luta operária e sindical, enfraquecendo a dinâmica de “movimento” dos
sindicatos. Ao longo de todo este tempo, o sindicalismo burocratizou-se em larga
medida, tornou-se mais “macio” e “dócil”, à medida que as suas bases de apoio
foram se reconvertendo do velho operariado para as novas classes médias “de ser-
viço” (Goldthorpe).
É nesse sentido que podemos afirmar que, durante décadas, a ação sindical se
“despolitizou” para dar lugar à “concertação social” e ao espírito corporativista.
Convém, entretanto, não esquecer que esse processo revelou que o sindicalismo,
além de reproduzir a burocracia e o corporativismo dos setores mais estáveis do
emprego, reproduziu do mesmo modo a prática patriarcal de segregação do acesso
das mulheres às posições de liderança das suas estruturas, apesar de alguma evo-
lução positiva verificada nos países da UE. No que diz respeito ao campo sindical,
as mulheres aumentaram a sua representação na última década, passando de 18,8%
(em 2004) para 22,7% (em 2009) a percentagem que ocupou posições nas direções
dos sindicatos, um peso, apesar de tudo, muito superior ao que se verifica no cam-
po do associativismo empresarial, onde a presença do sexo feminino evoluiu de

45
CAPÍTULO 2

uma representação de 7,7% (em 2004) para 11,7% (em 2009) nos órgãos dirigentes
das associações empresariais (EC, 2010). Por outro lado, importa ainda ter presente
a importância do trabalho doméstico, da prestação de serviços de substituição –
trabalho não pago –, cujo peso percentual no PIB (53%) é, segundo um relatório
recente da OCDE (OECD, 2011) - Society at a Glance -, o mais elevado dos países da
referida organização, ajudando a colocar o nosso país como um dos quatro países
da OCDE onde se trabalha mais horas, sendo que o trabalho não remunerado é
sobretudo realizado pela mulher. Significa isto, portanto, que quanto maior for a
ilegalidade e a informalidade, maior é, em regra geral, o volume de trabalho atribu-
ído à mão de obra feminina. Para além disso, como sabemos, as zonas de atividade
onde opera a economia paralela são essenciais para assegurar a acumulação e o
crescimento económico, bem como para conferir sustentabilidade aos segmentos
mais estáveis e protegidos onde ainda subsistem alguns direitos laborais, ou seja,
são parte integrante dos metabolismos do capital (Antunes, 1999, 2006).
O modelo social e de relações laborais português encontra-se hoje em uma
encruzilhada, em um momento em que acabámos de assistir à assinatura de um
Acordo de Concertação, fortemente condicionado pelo atual quadro de crise e
austeridade (aliás só possível ao abrigo do Memorando da Troika). Um acordo
que dividiu o país e o sindicalismo português e que, no conjunto de medidas nele
enunciadas (muitas delas genéricas e consensuais, mas outras muito concretas e
violentas), nota-se uma clara opção pelo modelo neoliberal. Basta lembrar a ênfase
na “flexibilidade” de horários, no “ajustamento” (por baixo) dos custos salariais,
na supressão de dias de férias e na facilitação geral dos despedimentos. Neste do-
mínio, não é apenas o campo sindical, mas a classe média e a sociedade, no seu
conjunto, que têm agora de gerir enormes sacrifícios e restrições por um período
à vista sem fim. Encontramo-nos em um ponto de viragem, de mudança de para-
digma no terreno económico e laboral (e mesmo na esfera política), mas ninguém
pode antever qual será o desfecho. Nem as vozes entusiastas do mercantilismo
mais liberal podem provar que “a sociedade vai absorver” – mais ou menos pa-
cificamente – essa ruptura no modelo de relações de trabalho e entrar em um
novo ciclo de retoma. Nem os críticos da agenda neoliberal estão seguros quanto à
capacidade de resposta da sociedade e dos movimentos sociais em travar a agenda
neoliberal hoje dominante em Portugal e na Europa.

6. Novos movimentos sociais

Se, como vimos, a situação sociolaboral se degrada cada vez mais, pode-se
dizer que estão reunidas as condições para que o descontentamento dê lugar à

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Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

conflitualidade. Assim, o argumento que agora pretendemos desenvolver é o de


que a intensificação e expansão da precariedade e a fragmentação dos processos
produtivos, o esvaziamento dos direitos e da dignidade associados às relações la-
borais, estão a recriar uma nova forma de luta em torno do trabalho e da recupe-
ração da sua dignidade, que se orienta no sentido de afirmar um novo estádio de
politização do capitalismo moderno. E isso parece estar a acontecer através dos
novos movimentos sociais e sociolaborais que atualmente fustigam as sociedades
à escala global. Os sinais emitidos pelos Novos Movimentos Sociais (NMS) indi-
ciam a superação do período anterior, acima assinalado, que se traduziu em uma
espécie de grau zero da capacidade de resistência do/a trabalhador/a, isto é, a fra-
gilização, a impotência e o medo paralisaram qualquer possível resposta da força
de trabalho, inclusive das suas camadas mais precárias e mais jovens, as que mais
se afastaram da organização sindical.
O debate sobre os NMS, nomeadamente os que emergiram nos anos sessenta
do século XX, trouxe novos contributos para a arena política e mostrou como a
conflitualidade social nos países ocidentais não poderia mais ser entendida sim-
plesmente à luz da velha teoria da “luta de classes”. Indo muito além da tradição
teórica marxista, diversos autores propuseram novas conceitualizações, entre as
quais ganhou realce a de Alain Touraine, sugerindo que os Movimentos Sociais
(MS) tinham em comum os seguintes princípios: 1. identidade – um sentimen-
to de pertença a um coletivo; 2. oposição – a demarcação face a um adversário
identificado; e 3. totalidade – a proposta de um caminho alternativo de socieda-
de (Touraine, 2006). Muito embora esta definição não possa aplicar-se a todos os
contextos, inclusive porque se inspira na realidade europeia e na própria histori-
cidade que o autor atribuiu à luta de classes e ao movimento operário, ela pode
auxiliar na análise dos novos (ou novíssimos) movimentos sociais do nosso tempo
e, ao mesmo tempo, permite estabelecer contrastes e continuidades entres estes e
o velho conflito operário (Touraine, 1985; Cohen e Arato, 1992; Melucci, 1998).
Os movimentos sociais são por vezes classificados entre “velhos” e “novos”
ou entre dinâmicas de base socioeconómica (o movimento operário) e dinâmicas
de base sociocultural (os movimentos estudantis, ambientalistas, pacifistas, femi-
nistas, etc). Esta distinção pode adequar-se à presente reflexão, visto que se trata
de discutir em torno das conexões entre o campo laboral e os ativismos oriundos
da sociedade mais vasta (Alvarez et al., 2000; Santos, 2005). É nesse sentido que
importa retomar a discussão sobre os NMS e reaproximá-la da reflexão sobre as
transformações no mundo do trabalho. Na verdade, embora a sociologia do tra-
balho tenha afirmado um domínio teórico próprio, a presente abordagem prefere
recuperar algumas das discussões clássicas sobre a “questão social”, que ao longo
do século XIX inspiraram os principais autores das ciências sociais. Retoma-se,

47
CAPÍTULO 2

assim, a ideia da centralidade do trabalho e procura-se interpretar o atual pro-


cesso de recomposição das relações laborais como força propulsora de uma “nova
questão social” (Estanque, 2007), ou seja, como processo que questiona não só o
sistema produtivo e os direitos dos/as trabalhadores/as enquanto tais, mas sobre-
tudo que ameaça a coesão social, a viabilidade do sistema económico e o futuro
da Europa e da própria democracia liberal (Castel, 1998; Estanque e Costa, 2011).
Apesar das profundas transformações sociais que atravessaram o Ocidente
nos últimos cinquenta anos, o legado dos anos sessenta e setenta pode ser aqui
equacionado para que possamos compreender melhor a atualidade. O património
histórico não pode ser apagado, muito embora seja necessário assumir que a sua
reconstrução obedece sempre à necessidade de entender o presente. Hoje como
ontem, é a reflexão teórica que persegue a dinâmica das sociedades e as rupturas
político-culturais que em geral lhes são impostas pelos NMS. Continuamos, por-
tanto, a buscar nas respostas sociais as fontes inspiradoras do pensamento crítico
e das alternativas emancipatórias do nosso tempo (Santos, 2005, 2011). Para além
da divisão já indicada entre os “velhos” e os “novos” movimentos, ou seja, entre
os movimentos de base socioeconómica, materialista e classista (de que o velho
movimento operário é o exemplo paradigmático) e os movimentos de base funda-
mentalmente sociocultural, pós-materialista e interclassista (de que são exemplo
os movimentos ambientalistas, feministas, pacifistas, estudantis, etc), podemos
associar cada um destes dois campos às duas lógicas apontadas por Boltanski e
Chiapello (2000): a crítica social protagonizada essencialmente pelo movimento
operário e sindical, e a crítica artística (ou estética), protagonizada pelos NMS.
Para além disso, há que realçar as conexões que uns e outros sempre mantiveram
com os distintos segmentos de classe que alimentaram a sua composição e o seu
dinamismo. Mas, não basta apontar as causas socioeconómicas ou culturais para
compreendermos em toda a sua extensão o fenómeno dos movimentos sociais
(MS), velhos ou novos. De facto, os MS sempre foram influenciados por fatores
culturais e pelos espaços de sociabilidade onde – mais do que a mítica “consciência
de classe” – se forjam as identidades coletivas propulsoras da ação coletiva. Foi
também assim com o movimento operário inglês no século XIX, onde, não só a
fábrica, mas também a vida de bairro e o convívio na taberna contribuíram para
forjar a identidade da classe trabalhadora (Thompson, 1987).
Já no caso português, apesar de, também entre nós os anos sessenta terem sido
muito relevantes no que diz respeito aos movimentos sociais, a questão terá de
considerar algumas particularidades desse período, nomeadamente o facto de vi-
vermos sob um regime ditatorial, em uma sociedade eminentemente rural e onde
a juventude escolarizada se resumia praticamente aos/as filhos/as da elite. No en-
tanto, é bom recordar que os movimentos estudantis e as lutas académicas desen-

48
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

cadeadas no campo universitário não deixaram de incorporar alguns dos valores


democráticos que (apesar da repressão e da censura) penetraram no país e conta-
minaram o ambiente universitário com os ventos do maio de 68 e as referências
culturais da década. Por outro lado, a sua marca contagiou setores significativos
das gerações dessa época, o que terá ajudado a despertar a consciência política que
haveria de derrubar o regime do Estado Novo (Estanque e Bebiano, 2007; Cardina,
2010). Em todo o caso, vale a pena referir que, apesar das condições particulares
em que o país se encontrava e do elitismo universitário, era já então muito rele-
vante a presença de mulheres na universidade (por exemplo, na Universidade de
Coimbra, as raparigas já correspondiam a 29% dos estudantes em 1951-1952, valor
que subiu para 45,5% no ano letivo de 1968-1969). A própria questão da condição
feminina e da moral sexual chegou a ser tema de um caloroso debate – suscitado
pela publicação de um texto anónimo, “Carta a uma jovem portuguesa”, no jornal
académico Via Latina, que questionava o padrão convencional da “mulher sub-
missa” imposto pelo regime – que transcendeu os meios académicos e constituiu
talvez o primeiro momento de contestação aberta da mentalidade salazarista, es-
cudada no conservadorismo católico e nos seus mecanismos sancionatórios da
liberdade da mulher (Estanque e Bebiano, 2007).
Se naquela altura os “novos” movimentos sociais apresentavam características
como as apontadas por A. Touraine (e no caso português incorporavam as “ve-
lhas” lutas pelas liberdades cívicas e políticas), hoje debatem-se com outro tipo de
dificuldades que os afastam dos princípios referidos por esse autor: primeiro, por-
que possuem identidades mais difusas, mais voláteis e em parte fictícias, visto que
são, em parte, estruturadas pelas redes sociais do ciberespaço; segundo, porque o
dverasário principal – sejam os mercados, o capital financeiro ou os 1% de muito
ricos –, sendo mais global é também mais abstrato; e, terceiro, porque enquanto
uma utopia alternativa, como por exemplo a ideia de “um mundo melhor” e mais
justo, é algo ainda bastante vago, que carece de sentido estratégico e de reinvenção
ideológica. Daí que, embora reconhecendo o imenso potencial dos NMS de hoje,
dada a enorme incerteza e a dispersão de recursos mobilizáveis, seja difícil ante-
ver os seus efetivos impactos e capacidade transformadora na sociedade (Cohen e
Arato, 1994; Tilly, 1996; Laclau, 1996; Melluci, 1998; Ribeiro, 2000; Santos 2005).
Apesar das inúmeras controvérsias que em geral suscitam na opinião pública,
os movimentos sociais (e a contestação a que alguns se referem pejorativamente
como “a rua”) foram e continuam a ser peças incontornáveis em todas as grandes
ruturas e revoluções da história dos povos. Como sabemos, a sociedade industrial
moderna – de cuja emergência a Inglaterra foi o principal palco ao longo do sé-
culo XIX – só teve os desenvolvimentos civilizacionais que teve, porque a classe
operária das primeiras gerações se mobilizou e organizou em luta pela defesa de

49
CAPÍTULO 2

direitos sociais que o capitalismo selvagem, ontem como hoje, nunca quis reco-
nhecer. Porém, se o movimento operário foi um movimento de uma classe, outras
dinâmicas e formas de ação coletiva tiveram lugar, sobretudo a partir da segunda
metade do século XX, tendo como protagonistas outros segmentos e classes so-
ciais. Enquanto o sindicalismo esteve historicamente vinculado ao operariado, os
novos movimentos sociais (NMS) dos anos sessenta podem mais facilmente ser
conotados com a classe média, embora sem esquecer que a noção de “classe média”
– além de dizer respeito a uma realidade contraditória e heterogénea – sempre foi
extremamente controversa (Estanque, 2003, 2012).
Em Portugal, o sindicalismo de serviços ganhou maior protagonismo a partir
dos anos oitenta do século passado. Foi nesse contexto que o papel da mulher na
esfera sindical em Portugal também se reforçou, uma vez que o crescimento da
classe média assalariada decorreu, em larga medida, à sombra do crescimento do
Estado social (Estanque, 2012), no qual se destacam os setores tradicionalmente
considerados “femininos”, ou seja, os setores da saúde e da educação, sobretudo,
que são aqueles onde a mulher portuguesa tem maior presença. Tal aparente “fe-
minização” só é pela quantidade, não pelo poder simbólico de cada um dos sexos
na atividade sindical. À semelhança do que acontece também em setores indus-
triais onde as mulheres têm forte presença (o têxtil, vestuário e calçado é um caso
exemplar), na maioria dos casos elas mantêm-se arredadas das direções sindicais,
dos lugares de chefia ou de direção das empresas. Aliás, é bom que se diga que,
ainda hoje, na universidade, o lugar das jovens estudantes permanece em um pla-
no subalterno, seja na participação ativa nas atividades associativas da AAC (As-
sociação Académica de Coimbra) ou dos núcleos de faculdade, seja nas posições
ocupadas em cargos secundários e em obediência aos tradicionais “clichés” que as
empurram para os pelouros das “relações públicas” ou da “pedagogia” (Estanque
e Bebiano, 2007).

7. Os movimentos do ciberativismo transcontinental

A chamada “Primavera Árabe” revelou a um Ocidente surpreendido uma su-


cessão de movimentos nascidos do seio de regimes islâmicos extremamente re-
pressivos, muitos deles dando lugar a revoluções políticas, cujo desfecho ainda se
desconhece, mas onde a ambição de liberdade e democracia são elementos ful-
crais. Mesmo que a situação social e os contornos dos protestos ocorridos nesses
países – Tunísia, Argélia, Egito, Jordânia, Síria, Iémen ou Líbia, onde pontificavam
oligarquias corruptas e um poder fortemente repressivo – tenham poucas seme-
lhanças com a situação na Europa e no mundo ocidental, não deixa de ser real o

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Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

efeito de contágio entre realidades que, embora muito distintas, estão expostas
aos mesmos auditórios globais. Além disso, a predominância de segmentos sociais
jovens, familiarizados com os novos meios informáticos de comunicação e que
florescem nos ambientes urbanos escolarizados, tendem a oferecer-se como um
terreno fértil para a estruturação de contraculturas, alimentadas por ingredientes
simbólicos e geracionais comuns a sociedades e continentes muito distintos. As
próprias concentrações nas praças sob a ameaça repressiva do poder favorecem
a consolidação de narrativas e identidades de rebeldia em rutura com a ordem
política vigente.
Os protestos recentes pareceram denunciar uma nova praxis política que de-
riva não só dos fatores estruturais e socioeconómicos mais amplos, mas também
dos ambientes das periferias urbanas onde crescem quer a exclusão e a delinquên-
cia, quer a rebeldia social e a dissidência política. É, pois, na dimensão humana e
afetiva, nas inúmeras vivências pessoais e experiências partilhadas – de conflito e
de comunhão com “o/a outro/a” – que florescem os ingredientes constitutivos de
mal-estar, mas ao mesmo tempo de sentido lúdico, tendentes a revelar a incapa-
cidade da sociedade de oferecer acolhimento e segurança aos grupos subalternos,
sendo essas necessidades resultado da incessante busca de partilha, de descoberta
e de reconhecimento enquanto atmosferas conviviais procuradas por milhares de
jovens em milhares de praças, como por exemplo na praça Tahrir no Cairo ao
longo do ano de 2011 (Coelho, 2011). Segmentos particulares, minorias étnicas,
culturas periféricas desrespeitadas, jovens que resistem a uma integração asséti-
ca, a uma ordem por vezes vazia de humanidade, constituem uma diversidade de
insatisfações que os empurra para a vivência da rua ocupada. Ainda que por pe-
ríodos curtos, tais contextos instituem-se como espacialidades de emancipação e
de encontro capazes de potenciar a mudança na sociedade. Jovens e menos jovens
vivem estas “experiências coletivas de conflito”, como se fossem constituídas por
ingredientes de uma violência difusa, com os seus intervenientes reduzidos a cír-
culos sociais de frágil implicação prática no mundo, impedidos de se autogovernar
a partir do seu interior “pela falta de uma ‘socialização’ na ‘estrutura de oportuni-
dades’ que foi criada” (Gadea, 2011: 94).
Quando no dia 19 de dezembro de 2010 o jovem tunisino Mohamed Bouazizi
se imolou pelo fogo em frente ao município da sua cidade (Sidi Bouzid), em revolta
contra a humilhação desferida pelas autoridades, que confiscaram os legumes e
produtos que decidiu comercializar na sua carreta (sem possuir licença), ninguém
imaginaria o poder de contágio dessa faísca. Ela desencadeou uma rebelião que
rapidamente se alastrou a diversos países e, em menos de um ano, já derrubou um
conjunto de governos e, em alguns casos, deu lugar a revoluções e conflitos violen-
tos. Com níveis de desigualdade social e de desemprego significativos (apesar dos

51
CAPÍTULO 2

índices de pobreza serem muito variados), aqueles países são ainda caracterizados
por uma população extremamente jovem (mais de metade abaixo dos 25 anos) e
com uma escolaridade elevada.
Contrariando um conjunto de estereótipos instalados desde o 11 de setembro
de 2001 (sobre a “guerra de civilizações” e o fundamentalismo islâmico) e pondo a
nu a chacota sobre a “rua árabe” – onde segundo muitos círculos do Ocidente ape-
nas era imaginável que se gritassem slogans fundamentalistas e antiocidentais –,
as multidões indignadas desses países conduziram, com a ajuda das comunicações
cibernéticas, ao desmoronamento de ditaduras. “No espaço de algumas semanas,
o mito da passividade dos povos árabes e da sua inaptidão para a democracia voou
em estilhaços pelos ares” (Gresh, 2011: 9). A Primavera Árabe mereceu uma enor-
me visibilidade global em blogues, jornais, televisões e redes sociais, apanhando
toda a gente de surpresa, tanto mais que os objetivos desta onda de protestos eram,
antes de mais, o derrube de tiranias e governos corruptos instalados no poder
desde há décadas. Em uma palavra, a juventude líbia, egípcia e tantos/as outros/as
lutaram por democracia e justiça social, mas quer a dimensão, quer a força polí-
tica desses acontecimentos, surpreenderam as opiniões públicas ocidentais ainda
perplexas. A aparente simpatia e vontade de assimilação dos valores políticos do
Ocidente, em um momento em que as democracias ocidentais e o projeto europeu
davam sinais de esgotamento e de perversão, não podiam deixar de parecer algo
anacrónico. Com efeito, o contágio dos valores democráticos, o desejo de liber-
dade nos países árabes ocorreu precisamente em um momento em que a Europa
mergulhava em uma terrível crise económica e financeira, colocando em causa a
solidez das democracias e ameaçando pôr fim ao welfare state que tanto poder de
atração exerceu sobre os povos do mundo.
A rapidez com que a informação se propaga e a visibilidade das imagens dos
acontecimentos em tempo real exponenciam o efeito mimético. Mas o rastilho só
pega fogo quando contém suficiente pólvora e o material inflamável está presente.
As causas sociais que subjazem às revoluções árabes não são obviamente as mes-
mas do descontentamento no mundo ocidental. No primeiro caso, a democracia
política não existia e, no segundo, a mesma deixou-se perverter e revelou-se inca-
paz de se conjugar com democracia económica. A defesa da coesão social, antes
assegurada pelo Estado social, está à beira do esgotamento. Convém todavia não
esquecer que a Europa é um puzzle de peças extremamente desiguais e que não
conseguem encaixar umas nas outras. Nas democracias mais tardias dos países
do sul da Europa (Portugal, Espanha ou Grécia), as experiências históricas de au-
toritarismo de Estado deixaram marcas profundas, pois a pulsão autoritária e o
centralismo do poder político continuaram vivos até tarde (mesmo após a queda
das respetivas ditaduras).

52
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

Desde a experiência de Chiapas, do Exército de Libertação Zapatista liderado


pelo mítico comandante Marcos, que circulam no ar novos e irreverentes apelos à
luta contra a globalização hegemónica (Santos, 2005). As manifestações de Seattle
em 1998, interpelando a cimeira da Organização Mundial do Comércio (OMC)
e protestando contra o neoliberalismo, as agressões ambientalistas e a expansão
da miséria no mundo, bem como a presença de centenas de ONGs e movimentos
sociais que se concentraram naquela cidade americana – fazendo uso, pela primei-
ra vez de forma massiva, da internet –, mostraram que a cidadania e o ativismo
transnacionais podem ter uma voz, e possuem meios de a fazer ouvir. A demo-
cracia participativa afinal não tinha morrido, antes podia ser reinventada. Foi a
abertura de um novo ciclo de protestos, que iniciou a chamada “alterglobalização”,
reunindo um vasto conjunto de organizações e recorrendo aos meios informáticos
e à internet como o principal veículo de articulação e de denúncia. O ciberativismo
entrou nos hábitos de movimentos e militantes das novas gerações. As múltiplas
iniciativas do Fórum Social Mundial, promovidas em vários continentes após o
encontro de Porto Alegre (em 2003) sob o lema de que “um outro mundo é pos-
sível”, afirmaram uma nova agenda contra-hegemónica e deram expressão a no-
vas correntes e movimentos sociais emancipatórios funcionando em rede (Santos,
2005; Ribeiro, 2000).
Os MS podem sair do palco durante largos períodos, mas as sementes das
experiências passadas funcionam muitas vezes como gérmenes que renascem de
tempos em tempos. Ou seja, a memória tende a erigir-se em património inspirador
e enriquecedor de cada novo ciclo de contestação. Os acontecimentos de dezembro
de 2008 em Atenas e em outras cidades gregas (tal como na Tunísia, igualmente
despoletados após a morte de um adolescente pelas forças policiais) revelaram as
tensões instaladas no país desde o tempo da ditadura. Ao longo da reestruturação
neoliberal, “… na erupção de dezembro de 2008 e durante as ruturas anteriores,
esta disposição do social em relação à sua abstração política (representação e esta-
do) não foi articulada em uma alternativa social coerente. Foi articulada como um
violento ‘realinhamento’ não direcional (ou melhor multidirecional) do político
com os territórios sociais das estruturas previamente desmanteladas, forçadas a
isso ‘pela rua’” (Giovanopoulos e Dalakoglou, 2011: 111). A partir daí, os protestos
na Europa não mais pararam. Com conteúdos políticos variados e diferentes doses
de violência, o radicalismo político e a delinquência facilmente se misturam. Mas
o barril de pólvora das minorias urbanas excluídas pode transferir-se de uns pa-
íses para outros. Por exemplo, os conflitos de 2005 na França não são totalmente
alheios aos de 2011 em Londres. Em 2009 e 2010, o movimento estudantil contra
o modelo de Bolonha assumiu algum radicalismo em algumas cidades espanho-
las como Valência e Barcelona, questionando a orientação mercantilista do novo

53
CAPÍTULO 2

modelo de organização dos programas universitários, o risco de esvaziamento da


universidade publica e, no fundo, a formatação deste modelo segundo uma lógica
global ditada pelos interesses do capitalismo global (Santos, 2005 e 2011).

8. Indignados e acampadas

Os cidadãos possuem, hoje, acesso mais fácil à informação e apercebem-se


que as desigualdades sociais se intensificaram e que alguns setores mais ricos não
só são poupados pelos governos, como inclusive tiram proveito da crise. E os/as
jovens, estudantes, precários/as, bolseiros/as e recém-licenciados/as assumem aqui
um protagonismo decisivo. A brutalidade da crise e a discricionariedade com que
os governos europeus descarregam os sacrifícios sobre os trabalhadores e as tra-
balhadoras, a classe média e os/as funcionários/as públicos/as, poupando escan-
dalosamente a banca, as elites económicas e os especuladores de todos os tipos, só
podem contribuir para fazer aumentar os sentimentos de revolta. As “Acampadas”
da Plaza del Sol em Madrid, e em diversas cidades de Espanha que se seguiram no
mês de maio – M15M – recuperaram alguns dos contornos do M12M português
(a “Geração à Rasca”), exigindo melhores empregos, mais justiça na distribuição
da riqueza e mais democracia. Da “Democracia Já” aos “Indignados”, passando
pelos “Occupy Wall Street”, os objetivos e as frases exibidas perante a imprensa
espelham não só a enorme heterogeneidade dos/as participantes, como a própria
indefinição dos seus objetivos. Em todo o caso, a utopia, o idealismo, o sonho, o
radicalismo e a enorme variedade de “exigências” e ambições, umas mais legítimas
do que outras, sempre acompanharam os movimentos juvenis. Nisso, a segunda
década do século XXI não parece diferir muito da dos sixties. Nas “Acampadas”
da Puerta del Sol podem ver-se diversas propostas dos indignados: politica real já!,
que no, que no, que no nos representan; Spain is different, not indifferent; ni cara a
ni cara b: queremos cambiar de disco; Ellos son el capitan, Nosotros somos el mar;
me gustas democracia, pêro estas como ausente; me sobra mucho mês al final del
sueldo; violência es cobrar 600 euros (Velasco, 2011).
“Os objetivos podem ser incoerentes, mas as suas ligações são claras. Os pro-
testos que se reuniram em mais de 900 cidades e pelo menos 80 países ao longo dos
últimos dias clamaram por poucas exigências práticas, e em alguns casos evitaram
até apresenta-las. Os participantes favoreceram o geral em detrimento do particu-
lar. Eles acreditam que a necessidade é mais importante do que a ganância. Eles
preferem as decisões por consenso, desconfiam das elites e sentem que os custos e
os ganhos são injustamente repartidos. Para além disso, o horizonte é nebuloso.”
(The Economist, 22/10/2011, p. 70). Esta passagem sintetiza bem a diversidade de

54
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

objetivos e de motivações que moveram os milhões de indivíduos, que no dia 15


de outubro de 2011, se mobilizaram em uma ação inédita de cariz global que se
espalhou por todos os continentes.
É neste ponto que poderemos situar o caracter mais inovador dos atuais MS.
Operando através das redes sociais e atingindo círculos sociais “dissidentes” que
estão muito para lá dos “núcleos duros”, que em cada contexto se assumem como
os pivots da mobilização, tratam-se de grupos bastante fluídos e voláteis, que cir-
culam como elos de uma cadeia transmissora de energia potenciadora de uma
dinâmica de contestação e de um discurso de denúncia – cuja radicalização exalta
o sentido do “conflito” e dos antagonismos, “os outros 1% contra o ‘nós’, os 99%!”
– que se assume como o seu principal ingrediente aglutinador. Mas a componente
plástica, as tonalidades e os sons, o vestuário exótico, a emulação de um mártir, o
slogan criativo, a linguagem radical, em um quadro de cores mais ou menos exu-
berantes revelam, ao mesmo tempo, o lado festivo, lúdico e catártico das manifes-
tações (onde de facto é patente a dinâmica juvenil, embora atraia outras camadas
etárias). Como dizia um membro dos indignados em Madrid, “Tenho 57 anos.
Hoje, por fim, parece que tenho 17! Adiante: isto é de todas!”. Isto mostra como,
apesar das consequências aparentemente inócuas das concentrações, a própria ex-
periência da rebeldia, mesmo que pontual, pode assumir, do ponto de vista do
indivíduo, um caráter profilático, o qual só pode fortalecer a afirmação do sujeito
e da/o cidadã/o. E é com isso, e não com resignação e medo, que a própria demo-
cracia se pode revigorar.
As causas dos MS são sempre múltiplas e a proximidade dos acontecimentos
impede-nos, por vezes, de uma análise mais sistemática e detalhada. Mas, é ne-
cessário procurar entender a vaga de contestação em curso (em muitos aspetos
pode dizer-se que 2011 foi apenas o início de uma tendência que se vai agravar)
inserindo-a no quadro histórico e socioeconómico que se vive na Europa e no
mundo. Precisamos sempre da variável histórica para entender o presente. No ci-
clo de contestação que hoje atinge o Ocidente, as razões de fundo inscrevem-se,
sobretudo, em fatores relacionados com a crise e com a profunda metamorfose que
o mundo laboral sofreu nas últimas duas ou três décadas.
Por um lado, assistimos nos últimos anos a enormes mobilizações sindicais,
animadas sobretudo por setores do funcionalismo público e do campo educativo,
com duas greves gerais no espaço de um ano, convocadas por ambas as centrais
sindicais CGTP e UGT (habitualmente rivais). Por outro lado, a multiplicação de
movimentos “precários” que animaram o debate público, contestando a ausência
de oportunidades de acesso a um emprego digno, depois de terem investido em
carreiras académicas nas universidades. Os “Precários Inflexíveis”, os “FERVE –
Fartos d’Estes Recibos Verdes”, os “Intermitentes do Espetáculo”, os “MayDay”,

55
CAPÍTULO 2

são exemplos de vozes desalinhadas, de uma dinâmica de irreverência mais vasta,


em larga medida apoiados no chamado “ciberativismo”, que hoje têm sintonizado
com outros grupos e movimentos, como as “Acampadas”, os “Indignados” e, mais
recentemente, os “Occupy Wall Street”, que se multiplicam pelo mundo, como
aconteceu no passado dia 15 de outubro, em uma admirável demonstração de vi-
talidade, de eficácia das redes sociais e do ciberespaço e de imaginação irreverente
da atual geração.
Associado a isto estão também os efeitos do Processo de Bolonha. Com o forte
aumento das pós-graduações, a população universitária tornou-se cada vez mais
heterogénea (quer na composição social, quer em termos etários), aproximando
os/as mais jovens de muita gente com experiência laboral (alguns optaram por
prosseguir os estudo como forma de adiar o problema do emprego), o que contri-
buiu para reposicionar a população estudantil do ensino superior em uma zona de
fronteira com o tecido económico, na qual se cruzam o mundo universitário e a
esfera do emprego (isto é, a terrível batalha por um emprego precário e mal pago).
Ora, se a isso somarmos o aumento da instabilidade entre os/as que já se inseriram
no mercado de trabalho (despedimentos, reconversões, carreiras interrompidas,
reformas compulsivas, falências, etc), é possível compreender as implicações re-
sultantes de um universo marcado pela crescente mobilidade (saídas, transições,
entradas, interrupções), que se organiza em redor da universidade, dando lugar a
um conjunto de experiências capazes de se reverterem em força de pressão (sobre-
tudo perante um campo profissional incapaz de dar vazão a todo esse caudal de
recursos e de expectativas). É, em boa medida, por essa razão que uma potencial
“aliança” entre movimentos juvenis e estudantis, de um lado, e movimentos labo-
rais precários, do outro, se afigura como um cenário muito provável e capaz de
engrossar a conflitualidade social (Santos, 2011).

9. Conclusão

O presente texto pretendeu, em primeiro lugar, mostrar como o processo de


recomposição do mundo laboral obedeceu a uma estratégia do poder económico
dominante e, ao mesmo tempo, a uma incapacidade das elites políticas europeias
de assegurarem o papel do Estado social, cuja eficácia e sustentabilidade se viram
ameaçados. Da estratégia de flexibilização à generalização da precariedade foi um
passo muito pequeno. Os direitos do/a trabalhador/a, a segurança no emprego,
o reconhecimento e o estatuto profissional que lhe conferiu dignidade durante
várias décadas – o sentido de progresso e de futuro que justificava o acesso a me-
lhores condições de vida e favoreceu o endividamento de milhões de famílias das

56
Trabalho, precariedade e movimentos sociolaborais

classes médias e mesmo dos/as trabalhadores/as manuais – parecem ter-se dis-


solvido no ar em um escasso período de tempo, sem que fosse possível travar o
processo ou sequer tomar consciência plena dos verdadeiros riscos que corríamos.
Se juntarmos a isso o contexto de austeridade, de depressão económica e de
ausência de perspetivas em que estamos mergulhados/as, não é de estranhar que,
como tem sido revelado por sucessivos inquéritos internacionais, quer em Portu-
gal, quer no conjunto dos países da União Europeia, os cidadãos e as cidadãs evi-
denciem uma crescente desconfiança e descontentamento perante à vida, perante
às condições de trabalho e o funcionamento das instituições democráticas. Daí
que, perante a crescente perversão dos atores políticos tradicionais, as cidadãs e os
cidadãos europeus, designadamente os seus segmentos mais esclarecidos, procu-
rem outras formas de mostrar a sua indignação, nomeadamente intervindo cada
vez mais nas redes sociais e usando os novos meios informáticos de comunicação
para canalizarem o seu descontentamento e manifestarem o seu protesto.
Muito embora, como se viu, os atuais movimentos sociais sejam marcados
pela sua enorme dispersão, é importante pôr em evidência alguns dos traços que
possuem em comum: a) o facto de se demarcarem das estruturas políticas e sin-
dicais tradicionais; b) de darem primazia às novas redes sociais virtuais e ao cibe-
rativismo da comunicação informacional; e c) de serem fortemente animados por
dinâmicas juvenis (e segmentos qualificados), apesar de envolverem uma diversi-
dade de setores e camadas etárias. Para além disso, o significado sociológico e o
potencial sociopolítico das suas ações prendem-se com a estreita interdependência
que revelam, por um lado, com a esfera laboral e as metamorfoses que a mesma
vem sendo sujeita, por outro, com as estruturas sociais mais amplas da estratifica-
ção, em especial as classes médias e as ameaças de “proletarização” que sobre elas
recaem na atualidade.
O trabalho, enquanto esfera central de coesão e integração social, é o alvo
principal da regressão social em curso neste contexto de crise e austeridade. Por
isso mesmo deverá continuar a ser esse o elemento aglutinador que pode reunir
lógicas de mobilização distintas e tradicionalmente divorciadas, tais como o mo-
vimento estudantil e os movimentos sociolaborais. A conexão entre o mundo uni-
versitário e o campo laboral pode vir a fornecer a chave para a compreensão dos
atuais e futuros movimentos juvenis. E é na luta pelo direito ao trabalho e, através
dele, na luta pelos direitos sociais que poderá fazer confluir o campo sindical com
as redes de precários/as e indignados/as que proliferam no país, na Europa e no
mundo. Mas, um tal cenário não poderá deixar de admitir que a dissidência pe-
rante o sistema democrático esconde a frustração dos setores da classe média que
perderam as ilusões nas promessas de meritocracia e na eficácia das instituições.

57
CAPÍTULO 2

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63
CAPITULO 3

Juventudes desnorteadas e gerações


perdidas: dinâmicas do mercado
de trabalho brasileiro

Adalberto Cardoso

1. Introdução

N
os últimos anos, o Brasil parece ter consolidado sua posição de crível eco-
nomia emergente no radar dos mercados mundiais, em razão da combi-
nação pouco ortodoxa de altos níveis de crescimento do Produto Inter-
no Bruto, balança comercial favorável - levando ao acúmulo de grandes reservas
internacionais -, criação de postos de trabalho ao ponto de alguns economistas
qualificarem a situação atual como de “pleno emprego”, programas eficazes de
redução da desigualdade e da pobreza, investimentos públicos em infraestrutura
e políticas sociais; tudo isso secundado pela manutenção da espinha dorsal do pa-
cote macroeconômico neoliberal: austeridade fiscal, metas de inflação, autonomia
do Banco Central, câmbio livre e, muito especialmente, mercado livre de capitais,
que tem garantido fluxo constante da poupança mundial pelo mercado financeiro
nacional, embora ao custo da transferência líquida e desregulada da riqueza aqui
produzida para as mãos de grandes investidores e conglomerados financeiros, da-
qui e d’alhures.
Impossível deixar de reconhecer que as políticas sociais redistributivas e o cres-
cimento econômico tiveram impacto profundo sobre as oportunidades de vida e
trabalho no Brasil, atuais e futuras. A redução da pobreza representa um primeiro
e necessário passo no longo processo de retirada de milhões de pessoas do “reino
da necessidade”, o que pode, ao menos idealmente, abrir caminho para sua efetiva
incorporação à cidadania. A criação de empregos regulados constrói o lastro de
uma inscrição social ainda subordinada, já que o trabalhador continuará sob as
ordens de outro, mas certamente menos instável do que o ambiente revolto dos
mercados informais de trabalho. No mundo em que vivemos, acesso estável à renda
(do trabalho ou das políticas públicas de transferência) amplia sobremaneira os ho-
rizontes de planejamento de indivíduos e famílias, para além das carências básicas
de alimentação, saúde e moradia, com reconhecidos impactos duradouros sobre as
CAPÍTULO 3

relações familiares, a segurança socioeconômica e a “segurança ontológica”, para


usar um conceito cunhado por Anthony Giddens hoje parte do senso comum.
Se isso é verdade, é preciso não levar longe demais a louvação do que já conse-
guimos. Meu objetivo neste capítulo é tomar as mudanças em curso cum grano salis
em dois aspectos essenciais de sua dinâmica. Em primeiro lugar, o estatuto do que
chamarei de “gerações perdidas” das décadas de estagnação ou baixo crescimento
do País. Pretendo mostrar que o Brasil ainda precisa se haver com considerável inér-
cia social, econômica e demográfica, resultante dos longos períodos de instabilidade
econômica, inflação alta, desorganização da estrutura produtiva, baixo crescimento
e, principalmente, baixa qualificação da força de trabalho, que afetaram gerações su-
cessivas nos últimos trinta ou quarenta anos, criando um novo tipo de dualidade no
mercado de trabalho, que não costuma ser levada em conta nas análises ou no debate
público corrente. Parte substancial dos 40 por cento da população informalmente
empregada em 2009 (ano da última Pesquisa Nacional de Emprego disponível en-
quanto escrevo) “não é empregável” no mercado formal de trabalho1. Isto é, eles não
estão demandando e não demandarão um trabalho assalariado formal na economia
em crescimento, principalmente porque são “velhos” demais, ou permaneceram tem-
po demais em posições por conta própria, ou assalariados informais, o que os “sele-
cionou” para fora da competição por novos (ou velhos) empregos formais.
O segundo aspecto a ser investigado, que em certa medida complementará
o primeiro, está relacionado com o fato de que o crescimento do mercado for-
mal não tem sido suficiente para acomodar as novas gerações de trabalhadores,
que ainda precisam passar por longos períodos de desemprego, ou em precárias
ocupações informais, antes de serem considerados “aptos” a uma posição formal.
E esta posição, uma vez conseguida, é instável para boa parte dos trabalhadores,
representando períodos de relações formais de trabalho intercalados com infor-
malidade, desemprego ou desalento.
Ademais, se as coisas estão muito melhores hoje do que costumavam ser, e para
uma parte substancial da força de trabalho, sua estabilidade e sustentabilidade, caso
se prove no futuro, não são garantia de melhor posição no mercado de trabalho nem
para as “gerações perdidas”, nem para os jovens que entram constantemente nesse
mercado. As primeiras precisaram viver a vida em ambientes econômicos muito pre-
cários no passado, com isso queimando as pontes com o mundo das relações formais
de emprego. Isso significa, por um lado, que essas gerações dependerão de forma
crescente da circulação da riqueza produzida em outras plagas, da qual retirarão seu
quinhão via os serviços que prestarem ou os produtos que transformarem como tra-
balhadores por conta própria; e, por outro lado, à medida que envelhecerem, depen-

1 A abordagem é compartilhada também por Baltar et al. (2010).

66
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

derão crescentemente das políticas públicas redistributivas e compensatórias, além


do suporte das famílias. Essa inércia demográfica e social deve ser levada em conta
em qualquer discussão sobre o futuro. No caso dos mais jovens, a baixa educação
formal média esconde desigualdades importantes de acesso ao sistema educacional,
que está pouco equipado para gerar, na proporção necessária, os profissionais hoje
demandados por segmentos inteiros do mercado de trabalho.
Para discutir essas questões, proponho uma perspectiva de longo curso sobre
as características do mercado de trabalho no Brasil. Começo com fatos estiliza-
dos da economia nos últimos 70 anos, para em seguida descer a detalhes sobre as
mudanças nas probabilidades de inserção ocupacional de homens e mulheres de
diferentes estratos etários nos últimos 30 anos. Analiso, também, a qualidade de
emprego de diferentes categorias de trabalhadores, muito especialmente os assala-
riados formais. Adiciono o escrutínio da mobilidade ocupacional para demonstrar
tanto a flexibilidade, quanto a precariedade do mercado de trabalho formal, base
de sustentação da atual “prosperidade” socioeconômica. E sustento que o Brasil
terá que se haver com as consequências de décadas seguidas de maus empregos,
enquanto tenta alocar, produtiva e socialmente, milhões de jovens a cada ano, nos
novos empregos que estão sendo gerados.

2. Precariedade

É sabido que o mercado de trabalho no Brasil ofereceu, historicamente, em-


pregos precários para a maioria de seus ocupantes, tanto em áreas urbanas, quanto
rurais2. Salários baixos, alta rotatividade, baixa qualificação das ocupações e o uso
predatório da força de trabalho não eram (e não são) características apenas dos
empregos ditos informais. Essas características resultaram do efeito combinado,
ao longo da moderna história do País (falo do último século e meio), da alta con-
centração da propriedade fundiária3, agricultura orientada para a exportação de

2 A literatura sobre isso é vasta. Trabalho pioneiro é Oliveira (1972). Avaliei o tema em
Cardoso (2010).
3 A concentração da propriedade da terra é proverbial no Brasil, e não passou despercebida de
governantes e intelectuais ao longo da história. Em 1933, por exemplo, em discurso proferido na
Bahia (que visitava pela primeira vez) Getúlio Vargas reconheceu-a como um problema social.
Pregava a necessidade de os migrantes que abarrotavam as grandes cidades retorrnarem aos
campos, por meio de políticas públicas de sua fixação como pequenos proprietários, com o
que, aos poucos, “veríamos desaparecer os tratos incultos e latifundiários, substituídos pela
pequena propriedade, de vantagens sobejamente conhecidas, como fator poderoso de fartura e
enriquecimento” (Vargas, 1938: Vol. 2, p. 118). Vargas não usou o termo “reforma agrária”, mas
é disso que ele está falando. Em 1949, em livro clássico sobre coronelismo, Victor Nunes Leal
atribuiu à concentração fundiária um dos principais problemas sociais do País. E a reforma

67
CAPÍTULO 3

alguns poucos bens, baixos níveis de industrialização, altas taxas de migração ru-
ral-urbana, baixo investimento em educação, incapacidade de a economia urbana
gerar empregos suficientes para os migrantes, pobreza relativa do Estado vis-à-vis
às carências sociais em geral, que reduziram o escopo e a abrangência das políticas
de proteção social, dentre outros. A lenta emergência de um mercado de trabalho
urbano regulado, depois de 1930, atraiu massas de migrantes rurais miseráveis e
com altos níveis de analfabetismo (80% ou mais) em busca de melhores condições
de vida, ou do que eu chamei, em outro lugar, de “promessas dos direitos sociais
e trabalhistas” (empregos formais, acesso à previdência social e a serviços de edu-
cação e saúde), que as novas áreas urbanas foram simplesmente incapazes de uni-
versalizar. Como mostro em Cardoso (2010), entre 1940 e meados dos anos 1970,
a proporção de migrantes rurais excedeu em 2,3 vezes o número de empregos for-
mais criados no mundo urbano. Isso gerou uma pressão de oferta sobre o mercado
de trabalho, cujas consequências não foram debeladas até esta data.
Por outras palavras, a combinação de grandes fluxos populacionais e condições
precárias dos mercados de trabalho gerou uma inércia populacional de longo pra-
zo, caracterizada por altos níveis de pobreza, subemprego, informalidade e privação
social e econômica. Ainda em 1981, 48 milhões de pessoas, ou 40% dos brasileiros
estavam abaixo da linha de pobreza (segundo a definição da ONU). Em 1993, a pro-
porção tinha subido para 43% (atingindo 61 milhões de pessoas), baixando um pouco
para 35% em 2001 e para 21% em 2009 (mesmo assim compreendendo 40 milhões de
pessoas)4. Ainda que importante em termos históricos, não é evidente que essa redu-
ção vá prosseguir nos anos por vir, tendo em vista a duradoura turbulência global e
alguns limites estruturais da economia e do mercado de trabalho brasileiros.

3. Economia e trabalho

É sabido que, em 1940, 65% da População Economicamente Ativa (PEA) brasileira


estava ocupada na agricultura, enquanto 10% trabalhava na indústria (incluindo as in-
dústrias de transformação, construção civil e extrativas). Em 1980 as taxas eram de 29%
e 25% respectivamente. Esse foi o pico da participação dos segmentos industriais no
emprego no País. Em 1990 eles representavam 22% da PEA (15% na indústria de trans-
formação), e 19% em 2000 (12% na indústria de transformação)5. Esta última ocupava

agrária era item central das “reformas de base” do governo João Goulart. Item, aliás, que
não ficou na história. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é de longe o mais
importante movimento social do país nos últimos vinte e cinco anos.
4 Fonte: IPEADATA (www.ipeadata.gov.br).
5 Dados dos censos demográficos em IBGE (2002).

68
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

13% da PEA em 2010. Ou seja, em termos do emprego, o Brasil nunca foi uma sociedade
industrial. É verdade que os três segmentos da indústria mencionados aqui viram sua
participação no PIB subir de 25% em 1950 para 44% em 1980. Mas essa participação
vem caindo desde então, tendo chegado a 23,5% em 2011 (Tabela 1), abaixo, portanto,
da taxa encontrada em 1950. Seja no emprego, seja na geração da riqueza nacional, a
indústria ocupou lugar subordinado na maior parte da história recente do País.

Tabela 1
PIB por setores econômicos (participação percentual) – Brasil, 1950-2011
Ano Agricultura Indústria(a) Serviços(b)
1950 25,08 24,96 49,61
1960 18,28 33,19 48,69
1970 12,35 38,30 49,78
1980 10,89 44,09 44,46
1990 8,10 38,69 52,66
2000 5,60 27,73 66,67
2010 5,77 26,82 67,41
2011 4,65 23,46 71,89
(a) Inclui ind. de transformação, construção, extrativa mineral e utilidades urbanas; (b)
Inclui intermediação financeira (de 1980 para cá), consumo das famílias e do governo,
e comércio. Fonte: IBGE – Departmento de Contas Nacionais. Para 2011, ver http://
www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2093&id_
pagina=1&titulo=Em-2011,-PIB-cresce-2,7%-e-totaliza-R$-4,143-trilhoes

Comércio e serviços são e foram os principais geradores de empregos urba-


nos, sendo que, nesses setores, houve e há grande predominância do pequeno co-
mércio e dos serviços pessoais e para as famílias. Como consequência, o mercado
de trabalho brasileiro sempre foi flexível e precário ao longo do tempo. Isso quer
dizer que esse mercado não pode ser caracterizado, sem maiores e extensas justi-
ficativas, pelos termos “precarização” ou “flexibilização” de relações de trabalho
antes universal ou mesmo majoritariamente formais ou reguladas. Esses termos
são comuns na literatura sobre os países da OCDE, que analisa as transições nos
mercados de trabalho durante a onda neoliberal dos anos 1980 e 19906, e denotam
um “processo de deterioração” de empregos antes regulados e “bons”. É verdade
que a urbanização significou condições cada vez melhores do mercado de trabalho

6 Ver, por exemplo, Castel (1998); Standing (1999); Sennet (1999); Antunes (2006), dentre
muitos outros.

69
CAPÍTULO 3

(ainda assim muito ruins) até meados dos anos 1970, quando a taxa de formaliza-
ção dos empregos atingiu 60% da PEA (Cardoso, 2003; Costa Ribeiro, 2007). Mas
essa taxa se mostrou um teto para as relações formais de trabalho, que caíram a
menos de 50% durante os anos 1980 e a perto de 42% nos anos 1990, apenas para
retornar aos mesmos 50% em anos mais recentes. Vale à pena determo-nos nesses
números, pois essa taxa média de formalização esconde diferenças importantes
segundo a idade e o sexo dos trabalhadores.
O Gráfico 1 mostra a estrutura das probabilidades de mercado para homens
de diferentes grupos etários, de acordo com o tipo de emprego ou posição na ocu-
pação disponível entre 1981 e 2009 no Brasil7. Cada estrato em cada subgráfico
mostra as probabilidades mutantes de posição na ocupação, ano a ano, de um gru-
po etário particular em uma posição na ocupação (ou fora dela) específica. De bai-
xo para cima, em cada gráfico, o primeiro estrato mostra a probabilidade de um
grupo etário estar em um emprego formal (público ou privado). O estrato logo aci-
ma mostra a probabilidade de se estar em uma ocupação assalariada informal (no
setor privado). O terceiro estrato retrata as ocupações informais por conta própria,
o seguinte, as ocupações por conta própria contribuintes para a previdência social.
O quinto estrato é o dos empregadores, seguidos dos ocupados não remunerados,
os desempregados e os que estão fora da PEA. Lendo os dados da esquerda para a
direita, em cada subgráfico, as probabilidades de um grupo etário particular ocu-
par uma dessas posições varia no tempo, e os gráficos retratam as probabilidades
agrupadas globais para todos os homens de 20 a 59 anos de idade.
As probabilidades para cada grupo etário parecem bastante estáveis no tempo,
mas alguns movimentos devem ser salientados. Em 1981, um homem de 20 a 24 anos
de idade tinha uma chance perto de 45% de estar em uma ocupação formal. Em me-
ados dos anos 1980, essa probabilidade subira para perto de 50%,, no que parecia um
processo de estruturação e melhoria do mercado de trabalho. Contudo, depois de
1986 as taxas caíram continuamente até atingir o nadir de 34% em 1999, subindo de
novo para 45% em 2009, a mesma proporção de 1981. Para todos os grupos etários
o movimento é basicamente o mesmo, mas em níveis diferentes de probabilidade:
grupos de 25 a 29 e de 30 a 34 anos começaram o período com probabilidade de em-
prego formal de 50%, que cresceu a 53%, caiu a 42% para subir a pouco mais de 50%
no final do período. O grupo mais velho retratado aqui começou com probabilidade
de 26% em 1981, subiu a 30%, caiu a 22% e voltou a 27% de probabilidade de emprego

7 A fonte é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD. Foi preciso compatibi-
lizar os bancos de dados, já que, nesses 30 anos, o IBGE mudou várias definições impor-
tantes, como as de População Economicamente Ativa, População Ocupada, Desemprego
e outras. Por questões de espaço analiso apenas as probabilidades dos homens. O quadro,
para as mulheres é bem diferente, e será analisado de passagem mais tarde.

70
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

formal. Isso quer dizer que, depois de três décadas de turbulências econômicas, rees-
truturação, crise e crescimento, qualquer homem com idade entre 20 e 59 anos, em
2009, tinha basicamente as mesmas chances de conseguir um emprego formal do que
seus pares no mesmo grupo etário em 1981. E essas chances estiveram quase sempre
abaixo de 40%, exceto para os homens de 30 a 34 anos.
Como estamos analisando gerações diferentes que entraram no mercado de
trabalho em momentos diferentes do tempo, o que vale reter aqui é que as proba-
bilidades em um determinado momento não são neutras com respeito às proba-
bilidades futuras de cada grupo etário. Sabemos, pela literatura disponível, que
um evento de desemprego tem consequências importantes para as carreiras dos
jovens; a duração do desemprego também é importante, assim como o tipo e a
qualidade dos primeiros empregos conseguidos. Más condições de mercado de
trabalho resultantes de crises econômicas criam efeitos de período que afetam to-
dos os trabalhadores em uma conjuntura histórica dada, mas com consequências
diferentes no tempo segundo as coortes de idade distintas, as diferentes qualifica-
ções, o sexo e outros fatores intervenientes nem sempre mensurados nas pesquisas.
Por exemplo, sabemos que uma proporção apreciável dos trabalhadores qua-
lificados, que perderam seus empregos no cinturão metalúrgico da Região Metro-
politana de São Paulo durante a recessão de 1981-1984, nunca mais retornou a um
emprego formal (Hirata e Humphrey, 1989). Também sabemos que a reestrutura-
ção econômica dos anos 1990 destruiu perto de 1,4 milhão de empregos formais na
indústria brasileira (Sabóia, 2000). Esses empregos não foram recuperados antes
de meados dos anos 2000, de modo que os trabalhadores industriais demitidos já
eram velhos demais para ser “empregáveis”. Na verdade, considerando-se apenas
os demitidos da indústria automobilística em 1989, menos de 50% retornaria a um
emprego formal um dia (Cardoso, 2000: p. 179). Ademais, quanto mais velho o
trabalhador, menor a chance de ele ou ela conseguir outro emprego formal (idem:
p. 184). Logo, devemos sempre considerar efeitos combinados de coorte (grupos
etários) e de período na análise das probabilidades de mercado e seus impactos nos
ciclos de vida dos trabalhadores, sobretudo no caso dos mais jovens e dos mais ve-
lhos. Esse achado deixa claro que não é possível compreender as probabilidades dos
jovens sem fazer referência aos demais grupos etários. Voltarei a isso mais tarde.
Outro movimento geral e importante das probabilidades globais dos homens é o
fato de que as posições assalariadas informais diminuem constantemente ao longo do
ciclo de vida, em favor tanto do emprego formal, quanto de ocupações por conta pró-
pria, não importa o ano. As relações assalariadas informais são importantes posições
de entrada para homens jovens, e perdem importância à medida que eles envelhecem.
As probabilidades eram de 22% ou mais para o grupo etário mais jovem, e de 12% ou
menos para o grupo mais velho retratado aqui, independente do ano no período 1981-

71
CAPÍTULO 3

2009. Por outro lado, para cada grupo etário, as probabilidades de uma ocupação assa-
lariada informal são praticamente constantes no tempo. Por outras palavras, pessoas de
30 a 34 anos em 2009 tinham a mesma probabilidade de seus congêneres de 1999, 1989
ou 1981, variando muito pouco em torno da média de 16,4% (desvio padrão de menos
de 1%). A proporção é praticamente a mesma para o grupo etário de 40 a 49 anos.

Gráfico 1
Tipo de ocupação ou condição de atividade por grupos de idade: homens
de 20 a 59 anos Brasil, 1981-2009
20 a 24 a nos 25 a 29 a nos

100% 100%
Fora da PEA
Fora da PEA
90% 90% Desempregado
Conta própria Não remunerado
Desempregado formal Empregador
80% Não remunerado 80%
Conta própria formal
70% Empregador Conta Própria
70%
Conta Própria
60% 60%

Assalariado informal
50% Assalariado informal 50%

40% 40%

30% 30%

20% 20% Assalariado formal


Assalariado formal

10% 10%

0% 0%
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
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2007
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2009

1981
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1989
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1993
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1997
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1999
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
30 a 34 a nos 35 a 39 a nos
100% 100%
Fora da PEA Fora da PEA
Não remunerado Desempregado Não remunerado Desempregado
90% 90%
Conta própria formal Empregador Empregador
Conta própria formal
80% 80%

70% Conta Própria 70%


Conta Própria

60% 60%

Assalariado informal
50% 50% Assalariado informal

40% 40%

30% 30%

Assalariado formal 20% Assalariado formal


20%

10% 10%

0% 0%
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1992
1993
1995
1996
1997
1998
1999
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1992
1993
1995
1996
1997
1998
1999
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009

40 a 49 a nos 50 a 59 a nos
100% 100%
Fora da PEA
90% Não remunerado Desempregado 90% Fora da PEA

Empregador
80% Conta própria formal 80% Desempregado
Não remunerado
Empregador
70% 70%
Conta própria formal
Conta Própria
60% 60%

50% 50% Conta Própria


Assalariado informal
40% 40%

30% 30% Assalariado informal

20% Assalariado formal 20%

Assalariado formal
10% 10%

0% 0%
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
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1981
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2009

Pes qui s a Na ci ona l por Amos tra de Domi cíl i os - PNAD, 1981-2009

72
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

A combinação dessas duas dinâmicas de probabilidade (redução com a idade


e estabilidade ao longo dos últimos 30 anos para cada grupo etário) sugere que
as relações assalariadas informais são condições transitórias para uma boa pro-
porção dos trabalhadores mais jovens, que as aceitam enquanto aguardam uma
posição melhor (eventualmente formal), e perdem importância à medida que eles
ficam mais velhos em favor de posições formais ou por conta própria. Isso parece
evidência de que essa estrutura de posições de fato oferece oportunidades para
mobilidade social e ocupacional, uma vez que as posições assalariadas informais
são tradicionalmente pior remuneradas do que as outras duas categorias. Volto a
isso em seguida.
Para todos os grupos etários, as probabilidades dos homens estarem ou de-
sempregados ou fora da PEA (os dois estratos superiores) aumentaram bastante
nos últimos 30 anos. Tomando-se os homens mais jovens (20 a 24 anos), se in-
cluirmos a chance de se estar em uma ocupação não remunerada, após um nadir
de 17% em 1990, a probabilidade agregada de se estar em uma dessas três posições
subiu para 30% em 2003, quando começou a cair novamente, mas apenas para
atingir 26% em 2009. Se isso pode ser tomado como indicador de má situação de
mercado ou de ciclo de vida, então todos os grupos etários estavam em pior situa-
ção em 2009 nesse particular, quando comparado com 1981. É claro que, no caso
do estrato mais jovem, parte dos que estavam fora da PEA estavam, na verdade,
estudando. Logo, não se trata de “precarização” de suas probabilidades, mas de
postergação do período de entrada no mercado de trabalho para fazê-lo, eventual-
mente, em melhores condições.
Os menos afetados foram os homens de 30 a 40 anos, mas mesmo para eles
a chance de estar nessas posições vulneráveis aumentou de 5% para 10% em 30
anos. Note-se também, que à medida que envelhecem (quer dizer, comparando os
grupos etários verticalmente no conjunto de gráficos), há claro intercâmbio en-
tre as probabilidades de assalariamento formal e informal, de um lado, e de estar
como conta própria, de outro. Para cada grupo etário mais velho, a proporção das
primeiras duas posições encolhe enquanto a de conta própria cresce, e isso inclui
conta própria formal e informal.
A mensagem até este ponto me parece clara: a idade “virtuosa” dos homens no
mercado de trabalho brasileiro é dos 25 aos 34 anos. Nesse ponto, temos o máxi-
mo de taxa de participação (proporção de pessoas nessa idade que estão na PEA),
o mínimo de taxa de desemprego, e a maior proporção de posições formais (se
somarmos assalariado formal, conta própria contribuinte e empregador). Grupos
etários mais jovens e mais velhos do que esse têm probabilidades relativas maiores
(às vezes muito maiores) de estar ou fora do emprego ou de estar em um emprego
informal. Em qualquer caso, os ciclos de vida são marcados por uma estrutura

73
CAPÍTULO 3

de oportunidades ocupacionais que é bastante dependente da idade e que piora


consideravelmente com o envelhecimento. Envelhecer não tem sido sinônimo de
segurança ontológica ancorada no trabalho, menos ainda no trabalho regulado
para uma vasta proporção da PEA. E, mais importante, as mudanças recentes no
mercado de trabalho não afetaram de forma importante esse desenho. Estava-se,
em 2009, na mesma situação de 1981, que por seu lado não foi um bom ponto de
partida. A contrapartida são os jovens, mas para eles também as condições, se
estão melhores do que há 10 anos, continuam bem aquém do que seria de esperar
do momento econômico do País.
Esses achados colocam importantes limites estruturais a argumentos em ce-
lebração, por exemplo, da emergência de uma nova classe média no Brasil8. Se a
economia não oferecer condições suficientes para a criação de ocupações estáveis
e protegidas, os mecanismos que produzem e reproduzem as desigualdades eco-
nômicas e sociais continuarão a operar com toda força. Além disso, a renda está
crescendo para a maior parte da população ocupada, como Neri (2010) e outros
argumentam, mas isso está ocorrendo em um mercado de trabalho cuja estrutura
é precária e muito instável para trabalhadores jovens e para homens de 35 anos ou
mais. Olhando o cenário de uma perspectiva de ciclo de vida, o problema perma-
nece sendo o de gerar condições estruturais que garantam segurança ontológica
para os diferentes grupos etários, e estamos muito longe disso.

4. Qualidade dos empregos

Um indicador crucial da qualidade das condições do mercado de trabalho é


o grau de estabilidade das posições existentes. Se empregos ruins (em termos de
renda, qualificação e direitos trabalhistas) duram longos períodos de tempo, eles
devem ser tomados como o horizonte das possibilidades de classificação de seus
ocupantes. Por exemplo, a probabilidade de um homem se manter em relações
assalariadas informais cai à medida que ele envelhece, como vimos. Contudo,
aqueles trabalhadores que se encontram nessas posições, digamos, aos 45 anos de
idade, muito provavelmente estão nelas há muito tempo, e essas posições precárias
não apenas ficarão marcadas em suas vidas passadas como uma espécie de cica-
triz, como também pesarão em seu futuro.

8 A proposição mais importante nessa direção pode ser encontrada em Neri (2010).
A “nova classe média” é agora um programa de pesquisas na Fundação Getúlio
Vargas (FGV), coordenado por Neri.

74
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

Para analisar esse ponto proponho o Gráfico 2, que mostra dois cenários com-
plementares das posições dos homens no mercado de trabalho. No subgráfico su-
perior, vemos a duração média dos empregos (em meses), de todos os homens de
15 anos ou mais ocupados no Brasil de 1992 a 20099; e no inferior, a duração do
emprego dos ocupados com 40 a 49 anos de idade, segundo posição na ocupação.
Podemos ver, primeiro, que a duração de todas as categorias ocupacionais está
aumentando com o tempo, mas a velocidades diferentes. Trabalhadores por conta
própria (formais ou informais) e empregadores permanecem muito mais tempo
em suas ocupações do que as outras três categorias, e a duração aumentou bastan-
te ao longo do período. Em 1992, a duração média das ocupações variava de 135
(conta própria formais) a 150 meses (empregadores). Em 2009, os tempos médios
de emprego tinham subido para 150 (conta própria informais) a 170 meses (conta
própria formais). Para as outras três categorias, o crescimento foi menor e a níveis
menores de duração: de 75 para 85 meses, no caso de assalariados formais e tra-
balhadores não remunerados; e abaixo de 60 meses para assalariados informais.
Isso é mais uma evidência do caráter relativamente transitório desta última posi-
ção para boa parte da força de trabalho. Quer dizer, também, que ocupações por
conta própria são um repositório de trabalho, que pode ser mobilizado durante
a expansão da demanda por trabalho resultante do crescimento econômico, mas
um repositório com claro excedente de oferta.
De fato, a segunda parte do gráfico mostra importante crescimento no tempo
médio de emprego dos trabalhadores por conta própria de 40 a 49 anos, saindo de
150 meses, em 1992, para 170 em 2009. Comparando esse achado com o Gráfico 1,
acima, no qual parte da probabilidade das ocupações por conta própria foi trans-
ferida para o emprego formal depois de 2003, o crescimento na duração dos conta
própria é o resultado da seleção de posições de maior duração nessa categoria. Em
outras palavras, os que se moveram de posições por conta própria para o assala-
riamento formal eram trabalhadores relativamente neófitos na primeira categoria,
e estavam ali à espera de uma posição formal em uma conjuntura mais favorável.
Isso se expressa, como contrapartida, na redução (ainda que pequena) da duração
média dos empregos formais depois de 2003 (de 120 para 116 meses) nessa faixa de
idade em particular, refletindo a entrada de novos ocupantes nas ocupações que
estão sendo criadas10. Na mesma direção, os trabalhadores mais velhos também

9 A pergunta sobre tempo de emprego na ocupação atual só foi introduzida na


PNAD em 1992.
10 Selecionei essa faixa de idade porque ela revela o claro intercâmbio entre posições
formais e informais depois de 2003, que se reflete na duração dos empregos.
Mas o mesmo movimento ocorreu para outros grupos etários, em especial de
trabalhadores entre 25 e 39 anos.

75
CAPÍTULO 3

permanecem mais tempo nas posições assalariadas informais. Nesse caso, tam-
bém parece ter havido um processo de seleção depois de 2003 (isto é, migração dos
ocupados a menos tempo como assalariados informais para outras posições), uma
vez que a duração média das ocupações subiu de sua taxa “histórica” de 80 para
quase 110 meses.
Tomados em conjunto, esses dados parecem estar contando a seguinte histó-
ria: os trabalhadores tendem a ficar menos tempo em empregos “bons”, ou for-
mais, especialmente os do setor privado; e ficam mais tempo nas posições por
conta própria informais. A recuperação econômica posterior a 2003 gerou 11,5
milhões de novos empregos formais até 2009 (incluindo os setores público e pri-
vado11). Essas ocupações foram distribuídas, em sua maioria, para pessoas que
já estavam no mercado de trabalho, ocupadas em posições formais ou informais
previamente existentes. Novos entrantes também conseguiram uma fração des-
sas novas posições, mas o aumento nas taxas de desemprego dos mais jovens (ver
Gráfico 2) sugere que eles teriam se beneficiado menos do que aqueles com maior
experiência no mercado de trabalho. E isso de fato ocorreu, mas apenas em parte.

11 De acordo com a PNAD, havia 29,5 milhões de posições assalariadas formais no


mercado de trabalho do País em 2002. Em 2009 o número subiu para 41 milhões.

76
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

Gráfico 2
Tempo de emprego (meses) na ocupação atual, por posição na ocupação.
Brasil: 1992-2009.

1. Homens de 15 anos ou mais

2. Homens de 40 a 49 anos

Fonte: PNAD

77
CAPÍTULO 3

De fato, a Tabela 2 mostra as taxas de crescimento do emprego formal e da


população de 15 anos ou mais (aqui considerada População em Idade Ativa, ou
PIA), segundo as faixas etárias e o sexo. Pela coluna “Total” vemos que o emprego
formal cresceu a taxas quase três vezes mais altas do que a PIA, para mulheres e
homens igualmente. Isso quer dizer que houve migração de trabalhadores de ou-
tras posições na ocupação (inclusive o desemprego, o desalento e posições fora da
PEA) para uma ocupação formal. As demais colunas da tabela expressam a “cap-
tura” desses novos empregos gerados pelas diferentes faixas etárias. Fica claro que
os jovens (pessoas de 29 anos ou menos), foram beneficiados pelos novos empre-
gos. No caso dos mais jovens (15 a 24 anos), sua participação na PIA decresceu em
sete anos, enquanto o emprego formal cresceu, por vezes, 10 vezes mais (caso dos
homens de 20 a 24 anos). A tabela não mostra, mas, de um modo geral, os jovens
de 15 a 29 anos (somando-se homens e mulheres) se apropriaram de pouco mais
de 30% (ou cerca de 3,1 milhões) dos novos empregos criados. Mas cabe notar que
os trabalhadores de 40 anos ou mais abocanharam cerca de 48% das novas vagas
(ou 4,8 milhões de empregos). Se os jovens foram beneficiados, os mais velhos
foram em maior proporção e intensidade, denotando, uma vez mais, a grande fle-
xibilidade do mercado de trabalho do País, que permitiu o movimento de pessoas
mais jovens e mais velhas para as novas ocupações.

Tabela 2
Taxas de crescimento do emprego formal e da população,
segundo sexo e faixas etárias. Brasil, 2002-2009
Sexo e ano Faixas de idade
15 a 19 60
20 a 24 25 a 29 30 a 34 35 a 39 40 a 49 50 a 59 Total
anos ou mais
Mulheres Crescimento de 2002 a 2009 (%)
Emprego
8,4 19,0 42,2 36,9 22,4 34,5 83,4 75,7 35,5
formal
PIA -5,6 -3,5 12,9 12,3 5,5 15,8 35,8 29,6 13,0
Homens Crescimento de 2002 a 2009 (%)
Emprego
0,3 21,6 40,5 27,9 18,5 35,0 72,3 44,0 32,0
formal
PIA -5,1 -2,2 16,2 10,6 5,9 17,1 30,0 30,8 12,4
Fonte: PNAD

78
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

A flexibilidade do mercado de trabalho e a intensa migração entre posições


na ocupação de jovens e “velhos”12 pode ser apreendida pelos dados da Tabela 3.
Ela foi criada a partir da Pesquisa Mensal de Emprego, que permite acompanhar
as pessoas de um mesmo domicílio em dois pontos no tempo13. Para simplificar,
agreguei as posições na ocupação e fora da PEA no momento t0 (2010) em cin-
co categorias, e investiguei o destino no momento t1 (2011), retendo, na tabela,
apenas ocupações nos setores formal e informal14. Os dados não deixam dúvidas.
No curto espaço de um ano, proporção expressiva de homens e mulheres deixou
posições ruins de mercado e conseguiu uma ocupação formal. E não é desprezível
a proporção que, tendo uma ocupação formal em 2010, estava em posições infor-
mais em 2011.
As posições formais mais instáveis são as ocupadas por jovens homens de 15 a 19
anos. Trinta e um por cento deixou seu emprego de um ano para o outro, um terço
dos quais para ocupar posições informais. As taxas para as mulheres são semelhan-
tes, mas uma proporção maior delas sai da PEA ao deixar os empregos. Os jovens
de 20 a 24 anos também migram muito para fora do setor formal (20% no caso dos
homens e 25% no caso das mulheres), sendo que a informalidade é o destino de perto
de 40% deles. Mas o mais interessante da tabela são as taxas de migração de outras
posições para ocupações formais. Entre os 20 e os 29 anos, por exemplo, mais de 36%
dos homens informalmente ocupados em 2010 detinham uma ocupação formal no
ano seguinte. A taxa das mulheres esteve perto de 30%. Do mesmo modo, dos ho-
mens nessa faixa etária que estavam desempregados, subocupados, desalentados (isto
é, estavam desencorajados de procurar emprego) ou que eram auxiliares de família
sem remuneração em 2010, 40% tinham conseguido um emprego formal em 2011,
mesma taxa dos homens de 30 anos ou mais. A proporção era menor para as mulhe-
res (ao redor de 30%), mas ainda assim bastante alta.

12 Uso o termo entre aspas porque, na tabela, agrego homens e mulheres com 30 anos ou mais.
13 A PME é uma pesquisa mensal realizada em seis regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de
Janeiro, Salvador, Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte), que trabalha com um esquema
amostral de rotação de painéis. Um mesmo domicílio é pesquisado durante quatro meses
seguidos, deixa a amostra, e retorna depois de oito meses para mais quatro meses de pesqui-
sa. Com isso, é possível acompanhar o que aconteceu com seus moradores no intervalo de
um ano, configurando uma pesquisa longitudinal para os que permaneceram nos mesmos
domicílios nesse intervalo de tempo.
14 Ocupações formais: assalariados com carteira; servidores públicos; trabalhadores
por conta própria contribuintes para a previdência social; empregadores. Ocupações
informais: assalariados sem carteira; conta própria não contribuintes; Subocupado:
pessoas que trabalham menos do que a jornada regulamentada e gostariam de mudar de
emprego; Auxil.fam.: auxiliares de família sem remuneração.

79
CAPÍTULO 3

Esses dados revelam aspecto raramente atentado pela literatura nacional: nos-
so mercado de trabalho não é rigidamente segmentado em setores formal e infor-
mal. O assalariamento formal foi e segue sendo momento efêmero nas trajetórias
de vida da imensa maioria dos brasileiros15. Homens e mulheres entram e saem
de relações assalariadas e não assalariadas de trabalho ao longo do curso de suas
vidas e, a partir de certa idade (que raramente ultrapassa os 40 anos), é cada vez
menor a chance de que consigam outro emprego formal, tendo perdido o seu16.
Isso não quer dizer que não conseguirão algum emprego ou ocupação, embora in-
formal, já que do que se trata é obter meios de vida, para o que indivíduos e famí-
lias mobilizam suas possibilidades e qualificações em confronto com os recursos
socialmente disponíveis. Como o seguro desemprego no País é recente (a regula-
mentação data de 1991) e de curta duração, os que perdem um emprego formal e
não têm outra fonte de renda ou o amparo da família precisam (já que premidos
pela necessidade) colocar-se novamente no mercado de trabalho, seja ele formal ou
informal. Com isso, a circulação entre esses “segmentos” é intensa e generalizada,
afetando jovens e “velhos” igualmente. E não se está diante de fenômeno recente,
cuja causa deva ser atribuída à geração de empregos formais. Como mostro em
Cardoso (2010: p. 361), nos anos 1990, quando o País estava destruindo milhões
de ocupações formais, as taxas de migração entre esses “segmentos” eram tão altas
quanto as de hoje.

15 Ver Cardoso (2000), Guimarães (2004 e 2007), Guimarães e Hirata (2006), Guimarães, Car-
doso, Elias e Purcell (2008).
16 Discuto o ponto longamente em Cardoso (2010: cap. 6).

80
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

Tabela 3
Migrações entre posições no mercado de trabalho. Seis regiões metropoli-
tanas, 2010-2011
Posição em 2011
Posição em 2010
Homem Mulher
Em ocupações Em ocupações Em ocupações Em ocupações
15 a 19 anos
formais informais formais informais
Pessoas em ocupações
68,7 11,6 69,8 8,7
formais
Pessoas em ocupações
30,3 41,1 24,7 35,2
informais
Desempregado
desalentado-subocupado- 30,7 18,4 28,7 11,9
auxil.fam.
Doméstico 41,7 8,3 13,3 10,8
PNEA(*) 11,4 9,9 7,7 7,7
Homem Mulher
20 a 24 anos Em ocupações Em ocupações Em ocupações Em ocupações
formais informais formais informais
Pessoas em ocupações
79,2 7,9 74,4 7,8
formais
Pessoas em ocupações
36,8 44,6 30,3 40,9
informais
Desempregado
desalentado-subocupado- 39,5 19,7 28,1 13,9
auxil.fam
Doméstico 22,2 11,1 13,2 8,6
PNEA 22,7 14,1 15,3 10,9
Homem Mulher
25 a 29 anos Em ocupações Em ocupações Em ocupações Em ocupações
formais informais formais informais
Pessoas em ocupações
83,4 8,6 81,5 5,7
formais
Pessoas em ocupações
36,4 51,8 29 48,2
informais
Desempregado
desalentado-subocupado- 40,5 20,1 31,3 15,1
auxil.fam
Doméstico 38,5 15,4 8,5 5,7
PNEA 25,9 14 13,8 9,8

81
CAPÍTULO 3

Homem Mulher
30 anos ou mais Em ocupações Em ocupações Em ocupações Em ocupações
formais informais formais informais
Pessoas em ocupações
84,8 8,5 80,5 7
formais
Pessoas em ocupações
27,5 59,2 19,3 51
informais
Desempregado
desalentado-subocupado- 40,3 24,3 23,3 14,3
auxil.fam
Doméstico 18,9 11,6 6,3 4,6
PNEA 5,9 5,8 3,5 4,6
Fonte: PME 2010-2011
(*) População Não Economicamente Ativa

Em conjunto, esses dados chamam a atenção para uma característica impor-


tante das mudanças recentes no mercado de trabalho brasileiro. Se observarmos
o movimento estrutural com base apenas na PNAD, seremos levados a concluir
que a mobilidade ocupacional entre posições formais e informais está restrita às
franjas das duas principais categorias informais (assalariados sem carteira e traba-
lhadores por conta própria). Isso porque apenas de 10 a 15% da distribuição global
das probabilidades das posições na ocupação para os homens se moveram de cate-
gorias informais para as formais nos anos recentes, com as posições formais reas-
sumindo a proporção que detinham em 1981. Isso, porém, não foi suficiente para
mudar a persistente estrutura de probabilidade de obtenção de uma ocupação, que
ainda se caracteriza por precariedade e insegurança no emprego17. Contudo, o
mesmo não pode ser dito a respeito dos jovens, sobretudo os de 29 anos ou menos.
A análise da PME introduz um elemento importantíssimo na compreensão das
mudanças recentes, pois mostra que os jovens circulam intensamente entre posi-
ções formais e informais, e estas últimas devem ser tomadas, no caso deles, como
pontos de passagem para outros empregos, em geral formais. Como esses jovens
têm menor experiência no mercado de trabalho, e também salários mais baixos

17 Por exemplo, de acordo com a mesma PNAD de 2009, quatro grupos ocupacionais
respondiam por 75% das ocupações dos homens de 40 a 59 anos que tinham um emprego
informal por conta própria: agricultura (30%), construção civil (25%), vendas (15%) e
condução de veículos (6%). Ocupados por conta própria formais dos mesmos grupos eram
63%. Vendas ocupavam 1/3 das mulheres por conta própria informais, e 30% das formais.
Mais importante do que isso, uma maior proporção dessa força de trabalho em processo de
envelhecimento fica cada vez mais tempo nessas posições piores, que por isso mesmo não
podem ser tratadas como pontos de passagem para trabalhadores à espera de um destino
melhor. Elas são o destino da grande maioria deles e delas.

82
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

do que os que permaneceram nessas posições, a consequência foi o aumento dos


salários medianos e da duração média do emprego dos que sobreviveram nas pio-
res posições, enquanto, ao mesmo tempo, a duração média dos novos empregos
formais foi reduzida pela entrada de trabalhadores mais jovens, vindos de posições
informais e de fora da PEA. O crescimento da economia, pois, aumentou a energia
do mercado de trabalho, já que cresceu de forma intensa a troca de pessoas entre
posições formais e informais. Isso quer dizer que, para uma parte importante dos
ocupados informalmente, este “segmento” é, na verdade, um elemento constituti-
vo do “segmento” formal. Na conclusão voltarei ao tema e ao significado das aspas.

5. Um cenário diferente para as mulheres?

As probabilidades de inserção produtiva das mulheres sempre foram muito distin-


tas das dos homens, mas há importantes convergências detectáveis em anos recentes.
Começo por salientar que a participação das mulheres de 15 anos ou mais na PEA subiu
de 37% para 55% no período (1981-2009), enquanto a dos homens caiu de 84% para
78%. Por razões de espaço e também pelo interesse em retratar os grupos mais jovens,
escolhi a faixa etária de 25 a 29 anos para ilustrar as mudanças profundas por que vêm
passando as posições das mulheres no mercado de trabalho. Como se pode ver pelo
Gráfico 3, a taxa de participação desse grupo de idade em particular saltou de 43% em
1981 para 72% em 200918. O gráfico mostra, também, que as probabilidades delas são
bem diversas das deles. Por exemplo, a proporção de trabalhadoras não remuneradas
é bem mais alta. Por outro lado, a probabilidade de estar em uma posição assalariada
informal está aumentando para elas, enquanto para os homens da mesma faixa etária
ficou estável em torno de 19% nos 30 anos retratados aqui (com leve queda nos últimos
6 anos). A taxa de desemprego das mulheres jovens também é bem mais alta do que a
dos homens, e aumentou no final do período. Ser uma empregadora ou uma trabalha-
dora por conta própria formal é posição inexpressiva para as mulheres jovens, embora a
proporção de empregadoras venha crescendo em anos recentes. De modo geral, as tro-
cas entre as probabilidades das posições estão ocorrendo, primeiro, entre a inatividade
e a atividade; em segundo lugar, entre conta própria informal e assalariamento formal,
de um lado, e assalariamento informal, do outro, o que indica uma deterioração relati-
va das probabilidades agregadas das mulheres nessa faixa etária. As proporções que se
moveram da inatividade para uma posição informal são sempre maiores do que as que
mudaram para o assalariamento formal. O gráfico não mostra, mas esse movimento é
muito semelhante para as mulheres de 20 a 24 e as de 30 a 34 anos.

18 A taxa de participação quer dizer a proporção de mulheres nessa faixa etária que estava
ocupada ou procurando emprego.

83
CAPÍTULO 3

Gráfico 3
Probabilidades de inserção ocupacional de mulheres com 25 a 29 anos.
Brasil, 1981-2009

Fonte: PNAD

Se a taxa de participação feminina está aumentando enquanto a dos homens


decresce, então é provável que as mulheres estejam “tomando” posições antes ocu-
padas por homens. E isso parece mesmo ter ocorrido entre 1981 até pelo menor
2003. O Gráfico 4 mostra as razões das chances de homens e mulheres estarem
em ocupações assalariadas formais19. Selecionei quatro faixas etárias mais jovens
para mostrar que o movimento é generalizado. Em 1981 os homens de 35 a 39 anos
tinham quase 2,3 vezes mais chances de estar em uma ocupação formal do que as
mulheres. Em 2003 a taxa havia caído para perto de 1,3, e variou em torno dessa
média desde então. Nas faixas de 25 a 34 anos a queda nas chances relativas tam-
bém ocorreu, embora a taxas menores. Os homens de 25 a 29 anos, por exemplo,
tinham 2 vezes mais chances do que as mulheres, em 1981, e 1,4 vezes em 2009. O
maior declínio ocorreu durante duas crises econômicas (1980-1983 e 1990-1992),

19 O gráfico mostra a razão entre a probabilidade dos homens de determinada faixa etária
ocuparem uma posição assalariada formal, e a probabilidade das mulheres na mesma faixa
ocuparem essas ocupações. As probabilidades foram computadas para ambos os sexos em
conjunto, excluindo-se as posições “Fora da PEA” e “Desempregados”.

84
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

mas nos anos 1990, enquanto a reestruturação econômica destruía empregos na


indústria, as mulheres foram muito menos afetadas, já que a maior parte de suas
ocupações não ocorria nesse setor. Como consequência, a participação relati-
va delas no emprego formal continuou crescendo, enquanto a dos homens caía
rapidamente. Na recuperação econômica em curso, as mulheres continuaram a
aumentar sua participação no mercado de trabalho formal, que é muito menos ba-
seado na indústria do que costumava ser no início dos anos 1990, mas isso já não
ocorre ao custo das probabilidades dos homens. O novo cenário de crescimento
está criando empregos formais para ambos os sexos.
Por outras palavras, empregos formais costumavam ser “coisa de homem” no
Brasil, mas esse já não é o caso. Ao menos nesse aspecto específico, a segmentação
por sexo foi reduzida de forma importante, ainda que as chances de um empre-
go assalariado formal continuem 33% maiores para os homens, se considerarmos
toda a população ocupada de 15 anos ou mais. É claro que isso não diz nada sobre
a segmentação por ocupação ou setor econômico, que permanece alta no País20.
Estou apenas mirando as posições formais existentes, e elas mostram uma me-
lhora sensível na posição feminina vis-à-vis à masculina e, mais recentemente,
melhores condições de mercado para ambos os sexos. É bom marcar, contudo,
que isso ocorre a taxas de formalização bastante baixas: em 1981, considerando a
totalidade das posições formais (assalariadas, por conta própria e empregadoras),
elas ocupavam 52% das pessoas com 15 anos ou mais. Em 2009, a taxa subira para
55% apenas (52% das mulheres ocupadas e 57% dos homens).

20 Ver Araújo et al. (2007), Lavinas (2001).

85
CAPÍTULO 3

Gráfico 4
Razões de chances de homens e mulheres ocuparem uma posição assala-
riada formal (% homens/% mulheres), segundo faixas de idade seleciona-
das. Brasil, 1981-2009

Source: PNAD

Tendo em conta essas baixas taxas de formalização, é difícil dizer se os ho-


mens estariam em melhor posição se as mulheres não tivessem entrado no mer-
cado de trabalho na velocidade em que o fizeram. É sabido que as mulheres são
discriminadas nas posições superiores e de maior prestígio: elas encontram bar-
reiras à entrada expressas no maior tempo que despendem à procura de emprego
e na maior qualificação formal exigida, em comparação com os homens; e elas
também ganham menos, ainda que a desigualdade esteja em queda nos últimos
anos, como veremos. Contudo, se as mulheres conseguirem uma posição superior
ou de prestígio, elas permanecerão mais tempo nela, com isso fechando a posição
à competição, seja por homens ou por outras mulheres21. Por outro lado, uma boa
proporção de mulheres trabalha como empregada doméstica. No grupo etário de
35 a 49 anos essa posição agregava 20% das ocupadas em 2009, e dois terços desses
empregos não eram registrados. A proporção para os homens era negligenciável.

21 Modelei esses movimentos em Cardoso (2000). Ver também Barros e Mendonça (1997) e
Schweitzer (2008).

86
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

Ademais, uma grande parcela dos empregos existentes é socialmente caracteri-


zada como generificada, isto é, segregada em favor de homens ou mulheres. Uma
vez mais em 2009, 45% das mulheres ocupadas estavam em ocupações nas quais a
proporção de mão de obra feminina era de 70% ou mais22 (figura idêntica à encon-
trada em 2002). No caso dos homens, 52% estavam em ocupações cuja proporção
de homens era de 70% ou maior, mas diferentemente das mulheres, em 2002, a
primeira proporção era de 58%. Isso sugere um processo de permeabilização de
algumas ocupações masculinas nos anos recentes, mas para boa parte do mercado
de trabalho, pelo menos a metade das ocupações de homens e mulheres são com-
plementares, não competitivas.
Se isso é verdade, a competição está sem dúvida aumentando ao longo do tem-
po, com impactos importantes sobre os diferenciais salariais e de oportunidades
relacionados ao gênero. Parte do processo pode ser apreendida observando-se o
Gráfico 5, que traz a evolução da razão entre as medianas das rendas horárias de
homens e mulheres segundo grupos etários selecionados. Ative-me a três faixas
mais jovens e uma mais velha para garantir clareza à informação, mas o movi-
mento detectado ocorre para todas as faixas etárias. Ficam claras duas grandes
transformações ocorridas em 30 anos. Primeiro, a desigualdade de gênero entre as
faixas etárias diminuiu intensamente. Em 1981 os homens de 50 a 59 anos ganha-
vam 60% a mais do que as mulheres na mesma faixa etária (tendo atingido 80% em
1984), enquanto entre os mais jovens (20 a 24 anos) a diferença era de 12%. Isto é,
havia uma diferença de 48 pontos percentuais na disparidade de renda de homens
e mulheres mais velhos em relação aos/às mais jovens em 1981. Em 2009, essa
diferença havia caído para 13 pontos percentuais apenas (os homens mais velhos
ganhavam 20% a mais do que as mulheres e, os mais jovens, 7%). A segunda gran-
de transformação foi a queda acentuada na diferença de renda entre os sexos. Em
1986, os homens chegaram a ganhar 50% a mais do que as mulheres, em termos
medianos (ver linha “Total” no Gráfico 6). Em 2009, a diferença havia caído para
12% apenas (tendo, na verdade, atingido 3,4% em 2001, e crescido um pouco desde
então). Importante salientar que a queda na desigualdade entre os sexos se deve ao
crescimento maior da renda das mulheres, em uma realidade de crescimento ge-
neralizado da renda mediana. A renda mediana pode ser lida como o teto da renda
dos 50% mais pobres (ou o piso da renda dos 50% mais ricos). Logo, o que está
sendo dito é que o pico da renda de homens e mulheres na metade mais pobre da
população ocupada foi, em 2009, muito próximo, com eles ganhando apenas 12%
a mais do que elas. E não custa chamar a atenção para o fato de que a desigualdade
é tanto menor quanto mais jovens os ocupados. Ou seja, homens e mulheres estão

22 Dados computados com os microdados da PNAD, e consideram ocupados de 15 anos ou mais.

87
CAPÍTULO 3

entrando no mercado de trabalho em condições muito semelhantes de renda. Por


fim, se tomarmos a renda média como parâmetro (não retratada no gráfico), a
queda foi de 46% em 1981 para 17% em 2009. Isso quer dizer que, mesmo quando
consideramos os maiores rendimentos23, a desigualdade entre os sexos também
caiu muito nos últimos 30 anos.

Gráfico 5
Razão entre a renda horária mediana de homens e mulheres, por grupos de
idade.
Brasil, 1981-2009

Source: PNAD

23 Em um país muito desigual como o Brasil, a renda média expressa melhor a desigualdade
decorrente do fato de que os maiores salários são muito maiores do que os salários mais bai-
xos. Por exemplo, se suprimirmos os 10% mais ricos da distribuição de renda e calcularmos
o índice de Gini, teremos um valor semelhante ao encontrado nos países europeus (em torno
de 0,35). Isso quer dizer que a desigualdade entre nós decorre, sobretudo, das distâncias entre
os muito ricos, que são poucos, e a maioria da população. A renda mediana não capta esse
problema, mas a renda média sim, e a desigualdade entre os sexos caiu também nesse caso.

88
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

6. A fluidez do mercado formal de trabalho

O mercado formal de trabalho é uma espécie de “terra de sonhos” para boa


parte dos trabalhadores24, em razão de ser (presumidamente) protegido e oferecer
uma série de benefícios que as posições informais não oferecem25. Mas vimos que
as ocupações assalariadas formais não são estáveis, durando, em média, de 75 a 77
meses (no caso dos homens) no período 1992-2009. Essa é a metade da duração de
ocupações não remuneradas, por conta própria ou de empregadores (ver a primei-
ra parte do Gráfico 2, acima). A duração média, porém, pode levar a conclusões
equivocadas em um mercado de trabalho caracterizado por persistentes desigual-
dades. De fato, 43,5% dos homens permaneceram em seus empregos formais por
menos de três anos (ou 36 meses) no período 1992-2009 (Tabela 4). A variação em
torno dessa média foi mínima (desvio padrão de menos de 1%). As proporções
para as mulheres foram apenas um pouco menores (41,4%), também com baixa
variação no tempo. Ou seja, entre 1992 e 2009 o Brasil criou e destruiu em torno de
20 milhões de empregos formais por ano, as mulheres aumentaram substancial-
mente sua participação no mercado formal, e perto de 2 milhões de novos entran-
tes disputaram as posições existentes e as que foram criadas todos os anos, mas a
estrutura da duração das ocupações permaneceu bastante estável no tempo. Isso
configura um padrão na estrutura dos empregos formais, que são posições estáveis
(durando sete anos ou mais) para apenas um terço de seus ocupantes.

24 Em Cardoso (2010) argumento longamente sobre a importância da regulação do mercado


de trabalho na consolidação da ordem capitalista no Brasil. Estudo recente sobre a renova-
ção da adesão dos trabalhadores ao universo formal é Guimarães (2011).
25 É verdade que as regulações existentes não são garantia de proteção. Como mostrado em
outro lugar, o sistema de relações de trabalho oferece vários incentivos para o não cum-
primento da legislação por parte dos empregadores, e muitos são recalcitrantes na evasão
(Cardoso e Lage, 2007). Ver também Krein e Biavaschi (2007) e Alemão e Soares (2009).
Filgueiras (2011) foi o primeiro a analisar a ação conjunta de três mecanismos de vigilância
disponíveis ao poder público para garantir o cumprimento da lei: a inspeção do trabalho, a
justiça do trabalho e o Ministério Público. Baseado em vasta pesquisa empírica, sua hipóte-
se é a de que a cultura da conciliação de queixas e infrações e os baixos custos de evasão têm
um efeito demonstração que leva ao não cumprimento, ou à flexibilização (e informaliza-
ção), na prática, dos contratos formais de trabalho.

89
CAPÍTULO 3

Tabela 4
Duração dos empregos assalariados formais de homens e mulheres, e ida-
de média em cada categoria de duração. Brasil, 1992-2009
Proporções médias (%) Idade média (anos)
Duração dos empregos
Mulheres Homens Mulheres Homens
Menos de um ano 16.4 18.5 28.5 29.5
1 ano a menos de 2 13.7 13.9 29.5 30.1
2 a menos de 3 11.3 11.1 30.9 31.3
3 a menos de 5 14.9 14.9 32.8 32.9
5 a menos de 7 9.9 9.8 35.2 35.1
7 anos ou mais 33.8 31.9 42.2 42.0
100.0 100.0
Fonte: PNAD

É verdade que a duração das ocupações formais está monotonicamente corre-


lacionada com a idade de homens e mulheres: cada ano a mais de duração da ocu-
pação corresponde, grosso modo, a um ano a mais no ciclo de vida de ambos os
sexos. Isso poderia indicar que, uma vez conseguido um emprego formal, a pessoa
envelhece nele. Mas não é isso o que ocorre. Vejamos.

7. Entrando e saindo de empregos formais

O Ministério do Trabalho e Emprego coletou e disseminou, até 2011, dados


sobre trajetórias ocupacionais de trabalhadores que tiveram um emprego formal
no País entre 1985 e 2009. Com base nesses dados, é possível rastrear todas as ocu-
pações formais obtidas por uma mesma pessoa no período, o que configura ferra-
menta poderosa para escrutinar a qualidade e a dinâmica real do mercado formal
de trabalho para os jovens no País. A base de dados se chama RAIS-MIGRA Vín-
culos26. Seu principal limite é congregar informação restrita ao mercado formal
(público e privado)27. Mas seu caráter de pesquisa de painel, que captura as mes-

26 RAIS quer dizer Relação Anual de Informações Sociais; MIGRA é um acrônimo para mi-
gração; e Vínculo se refere ao evento de emprego. A base é, infelizmente, subutilizada no
Brasil, mas já pude testar sua robustez em vários artigos e livros. Por exemplo, Cardoso
(2000) e Cardoso et al (2004), dentre outros. Agradeço a Emília Veras, Diretora de Informa-
ções do MTE, a geração dos microdados usados nesta análise.
27 Como entre 40% e 52% das ocupações no período foram informais, os dados perdem boa
parte das probabilidades reais de trajetória ocupacional em termos de setores econômicos,

90
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

mas pessoas em pontos diferentes no tempo, serve aos propósitos desta investiga-
ção. Uma vez mais por questões de espaço, para investigar a fluidez do mercado
formal, analisarei as trajetórias de homens de 20 a 23 e de 25 a 29 anos, comparan-
do-as com as de homens de 40 a 49 anos admitidos em dois períodos: 1994-1996
e 2002-2004. As trajetórias do primeiro grupo serão rastreadas de janeiro de 1994
a dezembro de 2001, e as do segundo, de janeiro de 2002 a dezembro de 2009. A
informação está no Gráfico 6, e sua apreensão requer alguns esclarecimentos.
O gráfico descreve duas probabilidades mutuamente exclusivas de três coor-
tes de idade. Em qualquer momento no tempo dos períodos selecionados, cada
coorte de 20 a 23, de 25 a 29 e 40 a 49 anos está ou em um emprego formal (área
mais escura) ou fora dele (área branca). Note-se que, com a PNAD, utilizada nas
seções anteriores, analisamos as distribuições de probabilidade das posições exis-
tentes de mercado, independente das pessoas que as ocupavam no tempo. Aqui,
tal como no caso da PME, o objeto de investigação é a probabilidade do mesmo
grupo de pessoas estar ou não em um emprego formal em momentos diferentes
no tempo. Trata-se, pois, de típico estudo de painel.
Iniciemos pela fila da esquerda do Gráfico 6, isto é, homens admitidos entre
janeiro de 1994 a dezembro de 1996. Se todos os trabalhadores tivessem de fato
envelhecido no emprego formal que obtiveram, como hipotetizado acima, deverí-
amos esperar um crescimento gradual da curva de incorporação no emprego for-
mal a partir de 1994. Além disso, em um cenário hipotético de ausência de efeitos
de período (por exemplo, uma crise econômica ou o crescimento acelerado do em-
prego em parte desses 3 anos), deveríamos esperar a incorporação de um terço do
grupo por ano, até se atingir o pico de 100% em 1996. Mas isso não ocorre. Nas três
coortes investigadas, o primeiro ano (1994) acolhe pouco mais de 27% do grupo.
Em 1995, entram de 15% a 17% e, em 1996, em torno de 20%. Em dezembro deste
ano, final do período de incorporação, apenas 60% daqueles que tiveram algum
emprego formal entre 1994 e 1996 continuavam em seus empregos, movimento,
uma vez mais indiferente à coorte de referência. A reestruturação econômica dos
anos 1990 está claramente expressa no “esvaziamento” da área mais escura a partir
de então. Entre os mais jovens, chega-se à proporção de 47% de ocupados no final
da década, seguida de pequena recuperação até 2001, mas sem jamais atingir 50%.
A história é basicamente a mesma para os jovens de 20 a 29 anos. Os mais velhos,
retratados aqui a título de comparação, “vazam” continuamente até atingir a taxa
de 39% de ocupados.

ocupações e setores. Aqui, estou interessado unicamente na probabilidade de se estar em um


emprego formal, logo, a base é perfeitamente adequada.

91
CAPÍTULO 3

No caso dos admitidos entre 2002 e 2004 (coluna direita do gráfico), há uma
importante diferença: o pico de incorporação vai a 65% no caso das duas coortes
mais jovens, e o vazamento desce a 55%, no caso dos jovens de 20 a 23 anos, e a 51%
no caso dos de 25 a 29 anos. Isso quer dizer que o período de entrada no mercado
formal de trabalho (a crise de 1990 ou a recuperação recente) teve um custo de 10
pontos percentuais negativos na probabilidade das primeiras coortes permane-
cerem formalmente empregadas. No caso dos mais velhos, os anos 1990 e 2000
não afetaram em nada as probabilidades agregadas de incorporação e expulsão do
mercado formal. Mas estes não são os achados mais importantes para a discussão
que interessa aqui.
O que realmente chama a atenção é a fluidez da experiência de mercado desses
jovens e “velhos”. Se considerarmos a hipótese de que as pessoas “envelhecem em
seus empregos”, a razão entre a probabilidade esperada de se estar empregado no
final do primeiro período de incorporação (dezembro de 1996) e a efetivamente
encontrada é de 1,65, no caso da coorte de 20 a 23 anos, e de 1,64 no caso das ou-
tras duas coortes. Isto é, trabalhadores tiveram que encarar uma taxa de desconto
perto de 35% em suas presumidas expectativas de sobreviver no emprego obtido
no período. Isso quer dizer, que muitos foram admitidos e demitidos durante os
três primeiros anos. Ou seja, enquanto outros estavam chegando, os primeiros
a entrar já estavam saindo. A consequência é que o número de ocupados nunca
atingiu 100%. E é bom marcar que a distribuição para as mulheres das mesmas
faixas de idade é muito semelhante, com a observação de que sua área cinzenta
“vaza” mais intensamente do que a dos homens, de modo que chega-se a 43% em
2001, no caso das admitidas nos anos 1990, e a 55% em 2009, para as admitidas
entre 2002 e 2004.
Ademais, uma vez demitidos, os trabalhadores jovens não permanecem fora
do mercado formal para o resto da vida, nem por muito tempo. A regra é bem o
contrário. A maioria perde seus empregos, fica fora por um tempo e retorna a uma
posição formal em algum momento. A área cinza “estável” (com seu recorrente
“esvaziamento” em janeiro, quando as empresas demitem parte dos trabalhadores
admitidos para as festas de fim de ano) esconde intensa troca entre os que estão
dentro e os que estão fora de um emprego formal. Tomando-se os admitidos entre
1994 e 1996, os jovens de 20 a 23 anos tiveram 3,6 empregos em média até 2001,
ficando 18,8 meses em média em cada ocupação, perfazendo um total de 52 meses
empregados (de um total de 96 meses possíveis nos oito anos cobertos). Os jovens
de 25 a 29 anos admitidos no mesmo período tiveram 3,6 empregos em média,
com duração de 20,5 meses por vínculo e tempo total empregado de 57 meses.
No caso dos admitidos em 2002-2004, os mais jovens (20 a 23 anos) tiveram 3,6
empregos em média, com duração de 19 meses cada e um total de 48 meses empre-

92
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

gados, enquanto os mais velhos (25 a 29 anos) tiveram 3 empregos, com duração
de 22 meses e permanência total de 51 meses. Essas diferenças refletem a entrada
maciça de jovens no mercado formal depois de 2003, que reduziu os tempos mé-
dios de permanência em cada emprego e o tempo total no setor formal, além de
aumentar o número médio de empregos obtidos.

Gráfico 6
Probabilidade de estar em um emprego formal em dois períodos de tempo.
Homens de 20 a 23 anos e de 25 a 29 anos admitidos entre 1994 e 1996 e
entre 2002 e 2004

Admitidos em 94-96 Homens de 20 a 23 anos Admitidos em 2002-04

100% 100%
90% 90%
80% 80%
Fora do sistema Fora do
70% 70% sistema

60% 60%
50% 50%
40% 40%
30% 30%
Empregado Empregado
20% 20%
10% 10%
0% 0%
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Homens de 25 a 29 anos

100% 100%

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80% Fora do 80% Fora do


sistema sistema
70% 70%

60% 60%

50% 50%

40% 40%

30% 30%
Empregado Empregado
20% 20%

10% 10%

0% 0%
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Homens de 40 a 49 anos
100% 100%

90% 90%

80% 80%
Fora do Fora do
70% sistema 70% sistema

60% 60%

50% 50%

40% 40%

30% 30%
Empregado Empregado
20% 20%

10% 10%

0% 0%
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37012
37135

Fonte: RAIS-Migra Vínculos, Ministério do Trabalho e Emprego

93
CAPÍTULO 3

Apenas para efeito de comparação, a coorte etária de 40 a 49 anos admiti-


da entre 1994 e 1996 teve 2,3 empregos em média até 2001, com duração de 25,6
meses e tempo total de emprego de 50 meses. Taxas de permanência não muito
distintas, portanto, das encontradas para os jovens de 25 a 29 anos. A diferença
é que, como a rotatividade foi bem menor para os mais velhos, em dezembro de
2001, como visto acima, apenas 39% deles continuavam em seus empregos. Para os
mais velhos, perder o emprego formal é, quase sempre, perder a chance de retornar
a outro emprego nesse setor. E vale notar que as mulheres têm taxas levemente
distintas: com exceção da coorte mais jovem (20 a 23 anos), elas rodam menos nos
empregos, ficam mais tempo em cada ocupação e também mais tempo no setor
formal do que os homens, independente do período considerado. E as diferen-
ças aumentam em favor da maior segurança delas quanto mais velhas as coortes,
chegando-se a 30% a mais de permanência em cada ocupação individual e no setor
formal como um todo no caso da coorte de 40 a 49 anos.
Em uma palavra (e como é sabido), o mercado formal é caracterizado por al-
tas taxas de rotatividade, tanto mais altas quanto mais jovens os ocupados. Mais
ainda: quanto mais empregos são gerados, maiores as taxas de rotatividade. Na
verdade, as chances de emprego de diferentes coortes de idade são uma função
combinada da criação de empregos e da rotatividade, com idade, escolaridade,
sexo, raça (não coberta pela RAIS) e outros atributos jogando um papel importan-
te, mas subsidiário. Novos postos de trabalho são ocupados por novos entrantes
e por pessoas que perderam seus empregos há não muito tempo. E ambos, muito
provavelmente, perderão seus empregos para outros, e em um prazo muito curto.
O mercado formal de trabalho pode ser uma “terra de sonhos” para boa parte dos
trabalhadores, mas não é garantia de segurança no emprego. E quanto mais passa
o tempo, mais ele se revela como uma experiência ao mesmo tempo múltipla e
fugaz nas biografias de jovens e velhos igualmente.

8, Conclusão

A informalidade das relações de emprego e trabalho continua muito alta no


Brasil. Homens e mulheres iniciam sua vida empregatícia, quase sempre, em uma
ocupação não registrada, em idade tenra, portanto antes de completar sua forma-
ção escolar. A experiência no assalariamento não registrado ou em posições por
conta própria funciona como porta de entrada e também como reservatório de
mão de obra para o mercado formal. Quando este se expande a taxas elevadas,
como nos últimos anos, a tendência é a incorporação de hostes antes lotadas nos
demais mecanismos socialmente existentes de obtenção de meios de vida. Nesse

94
Juventudes desnorteadas e gerações perdidas: dinâmicas do mercado de trabalho brasileiro

sentido, para uma parte importante dos ocupados, o mercado de trabalho se con-
figura como o conjunto desses mecanismos, que são mobilizados em momentos
diferentes das biografias individuais segundo uma lógica que combina estratégias
individuais e oferta de oportunidades, premida, mais das vezes (mas nem sempre)
pela necessidade de sobrevivência.
O problema é que, para uma proporção não desprezível da força de trabalho,
a parcela informal desse mercado não é um ponto de passagem ou espera por me-
lhores posições, mas sim o ponto de chegada de suas histórias ocupacionais. O
País, simplesmente, não criará empregos bons e protegidos para a maioria dessas
pessoas: seja porque elas não têm qualificação suficiente; ou por causa da discrimi-
nação etária em um mercado de trabalho com excesso de oferta, que permite que
as empresas optem pelos trabalhadores mais jovens, dispostos a trocar tempo de
escola por empregos cada vez melhor remunerados; seja em razão da dilapidação
dos corpos de homens e mulheres mais velhos pelas condições precárias e pesadas
de trabalho no curso de vida; seja em razão do padrão de desenvolvimento em cur-
so, hoje dependente de exportações de commodities com pequena contrapartida
nos setores de serviços e que, portanto, continuará gerando maus empregos em
grande quantidade, etc.
O País precisa, por isso, se haver com algo que pode ser denominado “custo
do passado”, denotando dinâmica econômica e demográfica que puniu gerações
de trabalhadores com baixo crescimento, empregos precários, mal remunerados
e sem proteção da legislação trabalhista e previdenciária. O desafio é encontrar
meios de aliviar a privação desses trabalhadores e, ao mesmo tempo, gerar bons
empregos para as novas gerações. O desenvolvimento econômico com inclusão
produtiva pode, no médio prazo, cumprir esta última tarefa. Vimos que os jovens
de 29 anos ou menos abocanharam mais de 30% das novas ocupações geradas
depois de 2003, e sua taxa de desemprego está entre as mais baixas do mundo.
Contudo, as taxas de informalidade entre eles continuam muito altas, superiores
às encontradas entre os mais velhos. E os restantes 70% de empregos formais ge-
rados ficaram com as pessoas de 30 anos ou mais, que já tinham experiência no
mercado de trabalho e trocaram posições informais, fora da PEA ou o desemprego
pelos novos empregos. Essa troca, porém, atingiu proporção diminuta dos ocupa-
dos, de sorte que a taxa de formalização atingiu, em 2009, o mesmo valor de 1981.
É verdade que o assalariamento regulado está em franca expansão no Brasil, mas
a dívida social de décadas de precariedade permanece alta.
Por isso, responder ao primeiro desafio dependerá, de forma crescente e por
algumas décadas ainda, da capacidade redistributiva do Estado brasileiro, que
precisará reconhecer o direito dessas “gerações perdidas” a uma vida digna, em
um ambiente hostil ao exercício desse direito. Esse ambiente ainda é composto

95
CAPÍTULO 3

por mecanismos precários e desprotegidos de obtenção de meios de vida, além de


estar emoldurado por restrições macroeconômicas importantes à capacidade de o
Estado formular políticas públicas redistributivas.

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97
CAPITULO 4

O futuro é mesmo incerto?


A precariedade e os jovens
em Brasil e Portugal

Pablo Almada1

1. Introdução

E
ste artigo parte de um questionamento bastante pertinente: O futuro para
os jovens – trabalhadores e estudantes em Brasil e Portugal – é, de fato,
incerto? A formulação dessa pergunta tem como base a observação de que,
em ambos os países, nos últimos anos, jovens e estudantes têm se manifestado
contra as crises econômicas e do sistema político, na tentativa de ruptura com as
várias situações de precariedade do trabalho e da própria precariedade que afeta a
vida cotidiana. Por isso, proponho-me aqui a discutir alguns pontos fundamentais
para a construção de um quadro pertinente para essa problemática. Observamos
que a crise do capitalismo tem vindo a afetar diretamente as perspectivas de futu-
ro, bem como tem ampliado quadros de criminalização e uso da força policial para
conter essas manifestações.
Assim, faz sentido retomar algumas das dimensões objetivas e subjetivas do
trabalho, sua relação com as classes sociais, com o Estado, com as mudanças pro-
dutivas, a contestação social e a precariedade. Para isso, como hipótese de partida,
coloco que as mudanças no trabalho em direção à precarização crescente têm vin-
do a fissionar, experienciadas cotidianamente, têm vindo a fraturar o horizonte de
expectativas dos jovens. No mais, essa consideração somente pode ser entendida se
considerarmos que há um grande processo em curso de crise estrutural do capital,
o qual coloca abaixo as perspectivas de conquistas de direitos sociais que foram
dadas anteriormente, amplia o poderio de destruição do capital (representado pe-
las atuais dimensões de sua crise), fechando as possibilidades de ascensão social e
aumentando a perspectiva que o futuro é a precariedade. Porém, ainda que o qua-

1 Sociólogo, Mestre em Sociologia e Doutorando em Democracia no Século XXI pelo Centro


de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. É bolsista da Fundação para a Ciência e a
Tecnologia de Portugal. Contatos em: pabloera@gmail.com.
CAPÍTULO 4

dro seja de incerteza, a ofensiva crítica desses movimentos tem vindo a criar pos-
sibilidades de mobilizações e manifestos que, por mais que sejam criminalizados
pelo Estado e pelo capital, são formas de se projetar, concretamente, resistências
que possam ultrapassar essa crise do capital.

2. Trabalho, Classes Sociais e Estado

Para analisar o processo dialético do desenvolvimento das sociedades capita-


listas e suas disposições históricas, permeadas de rupturas, continuidades e simi-
litudes, encontra-se como âncora o trabalho, entendido como protoforma do ser
social (passagem do homem individual ao homem social), seguido pelo desenvol-
vimento (dialético e não positivo) das forças produtivas, como Marx já ressaltou2.
O trabalho, compreendido como atividade vital humana, tem seu cerne não ape-
nas delimitado na sociedade capitalista, mas também é ontológico, justamente por
estar ancorado na natureza orgânica que permite o nascimento do ser social, sen-
do assim, um ato consciente que dispõe de um meio e um fim para se concretizar:

O que está envolvido aqui é a correlação inseparável de dois atos que são
em si mutualmente heterogêneos, mas que em sua nova ligação ontológica
compõem o complexo específico de trabalho existente e, como veremos,
formam a fundamentação ontológica da prática do ser social, ou mesmo do
ser social em geral. Estes dois atos heterogêneos que estamos nos referindo
aqui são, de um lado, a mais precisa reflexão possível da realidade em ques-
tão, e, por outro lado, a posição de subjunção de cadeias casuais que são in-
dispensáveis para a realização da posição teológica. (LUKÁCS, 1980, p. 24).

Por isso, para a realização do trabalho pelo homem é necessário não apenas
uma reflexão do homem sobre a realidade, mas também causalidades que impli-
cam nessa realização teleológica e que afirmam que o trabalho está ancorado nes-

2 Recentemente, muitas críticas têm sido feitas sobre o caráter eurocêntrico do marxismo
(BURAWOY, 2000; LANDER, 2007; ESTANQUE e ALDEIA, 2011), referentes à “metateoria”
histórica, ao determinismo e à negação dos sujeitos históricos. Essas críticas foram possíveis
devido ao fracasso do socialismo real, à incapacidade de realização da crítica marxista ao
socialismo, e ao parcial e ideológico sucesso do modelo do Estado Providência. Todavia, é
possível considerar, ainda, que as especificidades da obra teórica de Marx, que se afastam da
perspectiva epistemologizante do marxismo, são, antes de tudo, suas formulações ontológicas
– presentes desde sua juventude à sua obra de maturidade. Assim, o problema está na forma
de compreensão teórica que o marxismo teve durante todo o século XX, em que se formatou
um descompasso entre a epistemologia e a ontologia, priorizando a primeira, que entra em
profunda crise após os anos 1960. Nesse sentido, o trabalho, pedra basilar marxiana, acaba por
ser negado em sua dimensão ontológica, dando margem para as concepções eurocêntricas do
fim do trabalho, ainda que a epistemologia, muitas vezes, aponte para o outro lado.

100
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

sa natureza orgânica e, por isso, sua importância como protoforma do ser social.
Para MARX (2004), o processo de criação humana é compreendido tanto por uma
externalização positivada do ser na coisa (Entaüsserung), como por sua dimensão
negativa, ou seja, a dimensão de que o homem cria algo hostil a si mesmo (Entfre-
mdung), não sendo uma coisa útil e que não irá pertencer àquele que a criou.
Na sociedade capitalista, esse produto resultante do trabalho do trabalhador
irá ser estranhado e apropriado pela classe burguesa, sofrendo aquilo que, mais
tarde, MARX (1984) denominou como subsunção do trabalho ao capital. O traba-
lho irá ser constituinte negativo do capital, através de sua integração na venda da
força de trabalho, transformando o processo de produção em um processo capi-
talista de produção. Por isso, trata-se de uma subordinação do trabalho ao capital,
ou seja, “formas de captura da subjetividade operária pelo capital” (ANTUNES e
ALVES, 2004, p. 344). A passagem de uma subsunção formal para uma subsunção
real é evidente, na medida em que transforma subjetivamente a força de trabalho.
Por isso que, no desenvolvimento histórico do sistema capitalista, a formação de
classes se deu pela produção de valor com base no trabalho e na criação da mer-
cadoria. A diferenciação marxiana, entre valor de uso e valor de troca, ou seja, o
“duplo ponto de vista, da qualidade e o da quantidade”, evidencia a capacidade de
realização do trabalho do trabalhador em uma forma alienada, a mercadoria, cujo
valor de troca se assume como contradictio in adjecto. Portanto, por baixo do valor
de uso e do valor de troca está o produto do trabalho metamorfoseado, a “forma-
-mercadoria”, inseparável do produto do trabalho:

O caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmen-


te em que ela apresenta aos homens as características sociais do seu próprio
trabalho como se fossem características objetivas dos próprios produtos do
trabalho, como se fossem propriedades sociais inerentes a essas coisas; e,
portanto, reflete também a relação social dos produtores com o trabalho
global, como se fosse uma relação social de coisas existentes para além deles
(MARX, 2002, p. 94).

Através dessa “relação social dos produtores com o trabalho global”, formam-
-se relações e processos que enfatizam as relações objetivas com os meios de pro-
dução, estabelecendo antagonismos, conflitos e lutas que modulam a experiência
social em “formas de classe” (MEIKSINS-WOOD, 1983, p. 91). Essas formas de
classe não necessariamente se apresentam como consciência de classe ou forma-
ções visíveis de classe, mas, sim, através dos processos sociais. De acordo com
THOMPSON (2004, p. 10), a classe é um fenômeno histórico, “resultado de ex-
periências comuns”, em que os homens “articulam a identidade de seus interesses
entre si, e contra outros homens cujos interesses se diferem” e se opõem. Nesse

101
CAPÍTULO 4

sentido, a experiência de classe é determinada (dialeticamente) pelas relações de


produção, relacionando a consciência de classe como a forma cultural do trato
dessas experiências, o que as torna significativamente diferentes, sobretudo, pelo
fato de a consciência de classe nunca ser da mesma forma em “tempos e lugares di-
ferentes”. Essas disposições impossibilitam uma análise estrutural de classe, pois,
enquanto a formação de classe valoriza a efetividade e a relação histórica conse-
quente (as lutas de classe), a concepção estrutural toma as classes apenas por sua
definição, e não pela experiência da qual elas são resultado (MEIKSINS-WOOD,
1983). Portanto, afastando a definição estrutural de classes sociais, a classe social
torna-se uma relação e um processo que pode ser verificado historicamente, até
mesmo em “lutas de classe sem classe”, em que o processo de formação de classe
e a experiência desse processo são mais evidentes do que a presença concreta de
classes sociais. Por isso, as classes sociais não podem ser analisadas meramente
através de uma disposição de localização de classes, já que isso apresenta, entre
outras implicações, a anulação do processo de formação de classe, mascarada na
“ausência” da consciência de classe e que, em última instância, procuraria tratar
um processo histórico apenas como um fato objetivamente dado3. Além disso, o
processo de formação de classe está relacionado com o processo de produção que,
na sociedade capitalista, se constitui como a base de formação da classe.
Se na sociedade capitalista o processo de formação de classe tem como fun-
damento o processo produtivo, o Estado moderno, por sua vez, também se er-
gue e se complementa na base desse modelo. Por isso, o Estado deve ser pensado
radicalmente diferente da perspectiva de um todo ético organizado, em que sua
existência significaria a realização plena das liberdades, assim como em Hegel,
já que, na verdade, segundo Marx, apenas satisfaz o homem de maneira ilusória.
Para além desse idealismo, “a formação do Estado moderno é uma exigência ab-
soluta para assegurar e proteger permanentemente a produtividade do sistema”,
constituindo-se na forma de uma estrutura totalizadora de comando político do

3 Por isso, em primeiro lugar, a subjetividade de classe não poderia ser pensada como aná-
loga à consciência de classe, no sentido de uma visão da totalidade do processo histórico
(LUKÁCS, 2003), justamente porque criaria uma cisão entre falsa e verdadeira consciência,
pelo ponto de vista da totalidade, sendo praticamente impossível uma definição razoável.
Por outro lado, ao recusar essa perspectiva, a partir da análise da orientação ideológica dos
indivíduos e a partir de opiniões manifestadas pelos indivíduos inseridos numa localiza-
ção de classe, assim como sugerem as linhas neomarxistas (ESTANQUE, 2000; WRIGHT,
1989), enfatiza-se uma disposição a-historicamente construída e estrutural das classes sem
se atentar ao processo de formação e de experiência. Nesse sentido, concordando com E.P.
Thompson e Ellen Wood, entendo que o processo de formação e de experiência de classe é
fundamental para se compreender como novas disposições no âmbito da produção, como o
caso da precariedade, geram novas experiências de classe que são visíveis em conjunto com
o processo de formação de classe.

102
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

capital (MÉSZÁROS, 2002, p. 106). Por isso, o Estado está subordinado ao capital,
já que esse se torna uma estrutura de comando singular, em que as classes sociais
e a estrutura política são deslocadas ao segundo plano na estrutura hierárquica
de controle do capital. O capital é, portanto, “um modelo de controle que se so-
brepõe a tudo o mais, antes mesmo de ser controlado”, ou seja, opera como um
controle sociometabólico, o qual não se constitui apenas como um mecanismo
racionalmente controlado, mas uma forma incontrolável desse controle, de estru-
tura totalizadora (Idem, p. 98). Fundamenta-se, portanto, um processo de sujeição
do homem ao capital, do qual toda a sociedade se sujeita a esse controle estrutural
limitado, fundante dos aspectos de divisão em classes sociais e do controle insti-
tucional do poder político.
Esse modelo de sujeição e controle também se diferencia no interior do pro-
cesso produtivo capitalista, através de diferenças de exploração e apropriação de
mais-valia. A natureza desse controle permite observar o carácter de segurança e
obscuridade na produção da mais-valia, em que a essência do processo de traba-
lho no capitalismo não revelaria essa componente da produção, necessitando de
referências políticas (produção de relações sociais); ideológicas (produção de expe-
riência dessas relações) e econômicas (produção de coisas) para ser compreendida
(Burawoy, 1990). A imbricação dessas três dimensões vem ressaltar um complexo
produtivo composto por várias dimensões, das quais, o Estado assume essa di-
mensão de controle e, consequentemente, sua proteção. Portanto, esse mecanismo
revela que o Estado somente garante a reprodução de certas relações de classe.
Essa mediação do Estado assumiu-se mais claramente no período de edifi-
cação do Welfare State, um novo modelo social que se utiliza do mercado para
a tentativa de consertação da relação capital e trabalho, baseado no acordo entre
sindicatos, patrões e Estado, que elevou os níveis de bem-estar social dos trabalha-
dores e que trouxe, a princípio, garantias de estabilidade de emprego, oportunida-
des na carreira, mas que se desenvolveu através do estímulo ao individualismo e
ao consumismo, dificultando as ações coletivas dos movimentos sindicais: “Pode
dizer-se que o mercado e o Estado se conjugaram com as estruturas sindicais, na
promoção de dispositivos de regulação dos conflitos e na criação de políticas so-
ciais que ajudaram a consolidar o emprego como canal privilegiado de mobilidade
social e fator de prestígio social” (ESTANQUE, 2008, p. 184).
A associação dessa postura do Estado com o mercado crescente implicou em
limitações bastante significativas ao processo laboral. Assumiu-se a lógica da ra-
cionalidade econômica, em oposição ao humanismo da necessidade do movimen-
to operário (GORZ, 2007), sendo o primeiro construído sobre a égide do trabalho,
como fim único em si mesmo e ilimitado, favorecendo o lucro a todo custo, sepa-
rando o trabalho de sua necessidade e valorizado sua eficiência. Por conta da difi-

103
CAPÍTULO 4

culdade de enfrentamento desse modelo racional, muitos partidos outrora consi-


derados de esquerda ou resultantes da Internacional Socialista, juntamente com o
movimento operário dos países centrais, reduziram a capacidade de mobilização
dessas estruturas organizacionais. A consequência foi a larga desestruturação do
movimento operário e a imposição de sérias dificuldade de renovação e de reorga-
nização internacional. O desenho desse novo sindicalismo combina diversas for-
mas de ação, como a luta no interior da força de trabalho para o maior controle do
processo produtivo, exigência de melhores salários, condição de trabalho, inserção
de novas tecnologias, políticas educativas, luta contra a subcontratação, métodos
autoritários e tecnocráticos de controle, alianças com movimentos e comunidades
não sindicalizadas, diálogos com movimentos não classistas ou pluriclassistas, na
recusa de vanguardas e poderes soberanos (ESTANQUE, 2004).
Em suma, no tocante da questão do trabalho, aponta-se para uma relação
complexa e dialética entre as mudanças no sistema laboral e o processo de sus-
tentação do sistema capitalista em torno da captura da subjetividade, juntamente
com os efeitos sobre a contratualização, estabilidade e heterogeneidade do mundo
do trabalho. Portanto, faz-se necessário ampliar a concepção de classe trabalha-
dora no desenvolvimento capitalista atual e a compreensão de suas disposições
subjetivamente-objetivadas e objetivamente-subjetivadas4, ou seja, entender como
se dá o processo de precarização do trabalho e seus efeitos subjetivos. Ainda que o
argumento mais recorrente seja de que a precarização afeta um conjunto de direi-
tos sociais garantidos, pelo menos nas sociedades industriais, com a ascensão do
Estado de Bem Estar Social, essa questão só foi tratada pelos marcos da regulação
do Estado, sendo que, na verdade, o problema central da questão do trabalho é
outro. Não se trata simplesmente da regulação do trabalho, mas, sim, de quais
são os fundamentos vitais da atividade humana, seus fundamentos ontológicos e
do processo de como as mediações do Estado e do mercado podem fundamentar
experiências diferenciadas da classe trabalhadora.

3. As mudanças produtivas, contestação social e precarização

O modelo tayloriano/fordista da produção automobilística, baseado no tra-


balho prescrito e no rígido controle racional do processo produtivo, vigente he-
gemonicamente no século XX até os anos 1960, foi base para o estabelecimento

4 Utilizo essa expressão no sentido de enfatizar o núcleo fundante do trabalho, Entaüsserung


e Entfremdung, que representam o pôr teleológico do trabalho e a dialética entre a produção
do trabalhador e a produção de mercadorias para a sociedade capitalista, retomando os
aspectos da subjetividade do trabalho e do trabalhador.

104
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

da regulação, dos moldes de contratação, da mecanização e da parcialização do


trabalho, levando, ao limite a degradação do trabalho, sobretudo por meio da sua
“desantropomorfização” (ANTUNES, 2005). Tratou-se, portanto, dos efeitos do
ciclo do automóvel - em oposição ao ciclo têxtil, vigente no século XIX, o qual,
Marx baseou suas premissas para compreender a classe trabalhadora como exem-
plo da indústria moderna - e que, por assim dizer, trata-se de um “ciclo de produto
no qual a agitação operária é componente essencial”, cujo marco entre os anos de
1968 e 1973 designou o ressurgimento do conflito de classes na Europa Ocidental
(SILVER, 2005, p. 84).
A manutenção do núcleo central do fordismo, a produção em massa, já de-
monstrava o limite de suas contradições inerentes, através da rigidez do processo
produtivo, e foi seguido por um processo de transição, a partir de 1973, para a
acumulação flexível (HARVEY, 1989; ANTUNES, 1995). O modelo de Acumula-
ção Flexível veio, portanto, a se confrontar com a rigidez do fordismo, apoiando-
-se na flexibilidade do processo de trabalho, de novos setores produtivos, novos
mercados, beneficiando o chamado “setor de serviços” e a deslocação da produção
(HARVEY, 1989, p. 147). Em um sentido mais lato, poderia se dizer que essa pas-
sagem do modelo Fordista/Taylorista para o modelo de Acumulação Flexível, do
qual o Toyotismo vem a ser sua expressão máxima, vem a promover aquilo que
GRAMSCI (2008) entendeu como revolução passiva, ou seja, uma mudança apa-
rente, que não altera o cerne do processo produtivo. Assim, ampliaram-se ainda
mais as configurações do modelo anterior, mas com uma roupagem diferente: a
empresa flexível, a liofilização organizacional da produção, a limitação do tra-
balho vivo e ampliação do trabalho morto (ANTUNES, 2005). Paralelamente à
redução quantitativa do operariado industrial tradicional e à crescente intelectu-
alização do trabalhador manual, com o deslocamento da especialização para o
“multifuncionalismo”, dá-se uma alteração qualitativa da forma de ser do traba-
lho, que impulsiona para um duplo processo, de maior qualificação do trabalho,
através da abundante utilização da tecnologia, bem como sua desqualificação, im-
plicada em vários segmentos da força de trabalho.
Se esse período foi marcado pela ampliação do trabalho morto através da tec-
nologia – fato que levou a muitos sociólogos, como Habermas e Offe, cogitarem
o fim do trabalho e da classe trabalhadora -, dialeticamente, a qualificação dos
trabalhadores e da sociedade em geral foi ampliada através da expansão de centros
de ensino e, em especial, das universidades, as quais foram designadas pelo Estado
para o cumprimento desse importante papel (HOBSBAWN, 1995). Para isso, os
objetivos a serem alcançados estavam relacionados desde a ampliação dos qua-
dros administrativos do capitalismo, conjuntamente com os estratos medianos da
sociedade, até as imposições pela produção do conhecimento, que passam a ser

105
CAPÍTULO 4

determinadas pelo Estado e pelo mercado (ALMADA, 2009). Como consequên-


cia, muitas das posições privilegiadas da sociedade passariam a ser credenciadas
por títulos acadêmicos (ESTANQUE e BEBIANO, 2007). No entanto, nos países
centrais e em especial na Europa, as várias gerações posteriores aos anos 1960
foram confrontadas com a multiplicação de diplomados no ensino superior e dos
quadros profissionais médios e intermediários e, em decorrência disso, a estrutura
social não permitiu a aquisição de status quo através de títulos escolares e oportu-
nidades de promoção (CHAUVEL, 1998). Essa constatação aponta os limites e o
fracasso do Estado de Bem Estar Social que, através da promoção de um discurso
controverso, permitia com que os “sonhos” de ascensão social dos jovens estivesse
intrinsecamente ligados com a formação educacional, se valendo do capital social,
cultural e educacional que poderia ser acumulado para adquirir maior valorização
do mercado e das competências profissionais (BOURDIEU, 2007), favorecendo
assim, a competitividade.
Em larga medida, a ampla contestação social dos anos 1960 e o marco do
“ano dos estudantes” na Europa Ocidental serviram para impor alguns “freios”
ao modelo fordista/taylorista e criticaram esse modelo educacional de submissão
da lógica de ensino ao binômio Estado/Mercado. Por isso, observando o caso fran-
cês, BOLTANSKI e CHIAPELLO (1999) observaram o duplo caráter crítico desse
momento: a crítica artística, que denunciaria o desencantamento, a opressão à li-
berdade e à autonomia proporcionadas pelo capitalismo, sendo encadeada pelos
estudantes; e a crítica social, encadeada pelos trabalhadores, que denunciava como
o capitalismo era uma fonte de misérias e desigualdades, oportunismo e egoísmo,
resultando na destruição dos laços sociais e da comunidade solidária5. Se a crítica
artística tem um amplo fundamento na educação e na formação dos quadros su-
periores, ela também denuncia a falácia da ascensão social e das conquistas demo-
cráticas; por sua vez, a crítica social observa a incapacidade do pleno emprego em
oposição ao discurso ideológico do progresso pelo trabalho e da rearticulação dos
espaços de trabalho, através de técnicas de gestão administrativa e empresarial6.

5 Esse momento do final dos anos 1960, portanto, designa um movimento de duplo caráter:
por um lado, em termos estruturais, a necessidade de mudança do paradigma produtivo
para o aumento da produtividade; por outro lado, quanto aos trabalhadores, as contestações
sociais que permitiram ganhos e avanços do movimento operário europeu, cujo Estado Pro-
vidência parecia ser o resultado, com a garantia de direitos sociais mais amplos e a proposta
de um contrato social que mediasse, juridicamente, a conflitualidade de trabalho e capital.
6 A partir dos anos 1960, é bem patente a influência que a ideologia capitalista exerce no que
diz respeito às formas de gestão e de organização do trabalho adotadas e, “naturalmente”,
consideradas corretas. A gestão das empresas passa a ser orientada por princípios de racio-
nalidade, o que implicou o deslocamento da responsabilidade do processo de gestão dos
donos das empresas (que passam a acionistas) para quadros especializados de gestores e

106
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

No entanto, as duas críticas se referiam fundamentalmente ao aspecto falacioso


das conquistas políticas pela democracia e do controle dos conflitos entre capital
e trabalho, sendo praticamente impossível que a geração seguinte usufruísse das
conquistas democráticas de seus pais, ou das mesmas condições laborais, ainda
que a implementação e institucionalização de mecanismos de participação demo-
crática permitissem que essas conquistas fossem levadas mais longe. Se naquele
período as perspectivas pareciam ser muito maiores que as angústias, as crises
econômicas – em especial, a Crise do Petróleo, de 1973 – e suas medidas de con-
trole formuladas posteriormente – o neoliberalismo de Reagan e Tatcher, nos anos
1980, e o Consenso de Washington, em 1989 – colocaram abaixo essas expecta-
tivas, através da implementação das políticas neoliberais que viabilizaram o forte
ataque do capital sobre o trabalho.
Nos anos 1990, sob a égide do neoliberalismo, a classe trabalhadora foi dire-
tamente afetada, em especial em sua morfologia, criando algumas consequências
principais, sobretudo, em termos de aumento do trabalho precário, desregulamen-
tado, excludente e de baixa remuneração (ANTUNES e ALVES, 2004)7. Através
dessa constatação, se permite compreender que o conjunto da força de trabalho
deve ser ampliado para os mais diversos setores de assalariados, que vendem sua

de administradores. Esta transferência se daria no sentido de uma sistematização das prá-


ticas das empresas e da sua inscrição em regras gerais de comportamento, conduzindo à
profissionalização dos gestores. A legitimidade anteriormente derivada da propriedade é
agora definida em termos da posse de credenciais educativas e profissionais. O discurso
das práticas de gestão, característico desses anos, denota a existência de um conjunto de
preocupações para a necessidade de formação de gestores profissionais e com a sua motiva-
ção. A submissão a uma estrutura hierárquica congruente com o centralismo empresarial
característico da época e a ausência de autonomia eram fontes de manifesta insatisfação e,
dada a preocupação com a manutenção da presença destes gestores nas empresas, já que
representariam a maior fonte de lucro destas, as ideologias e práticas de gestão foram evo-
luindo no sentido da descentralização, da meritocracia e da gestão por objetivos; ao mesmo
tempo gera-se uma forte crítica à burocracia inerente à organização empresarial.
7 Os autores propõem nove pontos que identificam as mudanças no mundo do trabalho, sen-
do eles: (i) retração do binômio fordismo/taylorismo, redução do proletariado industrial
clássico da era fordista; (ii) a emergência de um novo proletariado fabril e de serviços, com
formas precarizadas, terceirizadas, subcontratadas e em part-time; (iii) o aumento signi-
ficativo do trabalho feminino, part-time, precarizado e desregulamentado, com níveis de
remuneração mais baixos que os dos homens; (iv) expansão dos assalariados médios do se-
tor de serviços, com crescente interrelação entre mundo produtivo e setor de serviços; (v) a
crescente exclusão dos jovens, que atingem a idade de ingresso no mercado de trabalho, mas
que acabam por conseguir apenas trabalhos precários ou ficam no desemprego; (vi) exclu-
são dos trabalhadores idosos, que não conseguem reingresso no mercado de trabalho; (vii)
expansão do terceiro setor, por parte de empresas de trabalho voluntário e de atividades
consideradas “não-lucrativas”; (viii) expansão do trabalho em domicílio; (ix) a configuração
transnacional do mundo do trabalho (Idem, 336- 341).

107
CAPÍTULO 4

força de trabalho, mas são desprovidos dos meios de produção. Isso leva a ampliar
a concepção de classe trabalhadora hoje, através de suas fragmentações, heteroge-
neidades e complexidades. Caracteristicamente, esse momento – era de neolibera-
lismo muito mais do que de globalização - teve uma forte presença da componente
ideológica do toyotismo – diferentemente daquele presente nas décadas anteriores,
caracterizou o modelo japonês de produção – atingindo profundamente a subje-
tividade do trabalhador (ALVES, 2002). Diferentemente das contrapartidas sala-
riais e institucionais que o toyotismo oferecia no passado, sua nova configuração
centrou-se nas contrapartidas do mercado e criou um novo consentimento do tra-
balhador assalariado, através de uma captura da subjetividade daquele, fomentan-
do o lado subjetivo da crescente precariedade do trabalho:

A busca do consentimento ativo da subjetividade do “trabalho vivo” passou


a constituir-se, em última instância, através da síndrome do medo, cujo
substrato objetivo é dado pela constituição de um precário mundo do tra-
balho. Essa é, portanto, a função sócio-ontológica da nova precarização he-
teróclita sob a mundialização do capital: constituir o consentimento ativo
necessário para o desenvolvimento dos nexos contingentes do toyotismo e
produzir uma subjetividade regressiva, avessa às atitudes antagônicas de
classe diante da lógica do capital (ALVES, 2002, p. 82).

Essa crescente precarização do trabalho se intensificou ainda mais nos anos


2000, quando esse fenômeno, que até então parecia estar apenas restrito ao em-
prego dentro da “nova morfologia” do trabalho, ultrapassou os limites do próprio
trabalho e afetou a esfera dos direitos laborais, sobretudo, nos países industriali-
zados centrais. Onde as evidentes conquistas de direitos da classe trabalhadora no
passado ainda pareciam funcionar, cada vez mais elas têm vindo a ser reduzidas
ao mínimo necessário. Flexibilização (flexisegurança) e precariedade passaram a
ser comuns no vocabulário referente às políticas estatais do trabalho. Além disso,
muito pouco os sindicatos tem se mostrado para efetivar uma política realmente
combativa. Por isso, há um crescente processo de fragilização social (CASTEL,
2009), que atinge inúmeros setores sociais, inclusive as camadas mais jovens.

4. A resistência dos jovens como ofensiva ao capital

O problema da precariedade laboral, como acima apresentado, tem vindo a


atingir, atualmente, as frações das classes sociais em vários contextos. Nos anos
1970, em relação à crise produtiva do sistema capitalista e seu efeito nas classes
sociais, Herbert MARCUSE (1978) observou que a juventude teria um papel im-
portante nessa questão, pois se colocaria na “primeira linha” da sociedade, por

108
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

onde começaria apontar, tanto as estratégias mais devastadoras do capitalismo,


como as estratégias de resistência. O desenvolvimento dessa questão fez com que
a ação política dos jovens fosse compreendida através de uma diferenciação de
práticas, discursos e atitudes aparentemente em relação ao restante da sociedade.
Por isso, a perspectiva sociológica retomou algumas das perspectivas da sociolo-
gia da juventude, como a categoria Mannheimiana de geração, procurando uma
“compreensão do ativismo radical de massas” e emergindo estudos sobre a “rebe-
lião jovem” ou mesmo à “cultura jovem”, como um conceito presente nos even-
tos representantes da década, sobretudo, por meio da contracultura (STEPHENS,
1998, 12). A consequência dessa perspectiva trouxe sub-repticiamente a noção de
ruptura geracional para a análise das mobilizações dos jovens, constatando que
eles assumiam características cada vez mais nítidas e autônomas, “dissociando
a juventude de uma amalgama de sujeitos em processo inacabado de integração
social, para passar a agir, pensar e sentir segundo modalidades próprias, dissemi-
nadas pelos mais variados âmbitos da política e da cultura” (CARDINA, 2008, p.
98)8.A percepção sobre a juventude como um sujeito social diferenciado, embutida
de uma carga de ruptura geracional, apenas apresenta uma explicação coerente
quando associada à política e à cultura, mas nada diz sobre as questões estruturais
do capitalismo e a crise estrutural do capital.
Segundo SANTOS (2006), o questionamento procedente desses movimentos
originaria a governação neoliberal9, como retaliação ao questionamento dos jo-
vens e estudantes naquele período. Segundo o autor, esses movimentos manifes-
taram-se exclusivamente em relação ao conteúdo democrático do contrato social

8 Por outro lado, a percepção sobre a juventude veio a se alterar ao longo dos anos. Se as
expectativas depositadas apontavam para a renovação dos sujeitos sociais, o crescimento
do consumo e a exploração crescente do trabalho imprimiram também uma capacidade de
tornar o jovem como produto, marca e tendência de consumo, alterando profundamente
o significado historicamente construído da juventude. Da ideia de rebeldia característica,
contestatária e contracultural, o que se pode entender hoje sobre juventude permeia muito
mais a aproximação com a ideia de passividade da juventude, youth cultures becomes a big
businness, ressaltando os consumos de certos estratos etários da sociedade (ROCHE et al.,
1997), produzindo formas de comportamento social e a ressiginificação de hábitos dentro
da esfera de consumo, o que pode significar, para àqueles setores que foram considerados
politicamente ativos no passado, o crescimento da indiferença, do cotidiano autocentrado,
como tem vindo a acontecer com os manifestos estudantis (ESTANQUE e NUNES, 2003;
ESTANQUE e BEBIANO, 2007; ESTANQUE, 2009).
9 Boaventura de Sousa SANTOS (2006), em A Gramática do Tempo, entende que a governa-
ção é um novo paradigma de regulação social que substitui o paradigma do conflito social
e do papel privilegiado do Estado, sendo que a base da regulação torna-se o poder de co-
mando e de coerção. Para o autor, a governação é o paradigma de matriz regulatória do
neoliberalismo (capitalismo de laissez-faire), implementando uma governabilidade e uma
política de direitos com direitos que agravam a crise de legitimidade do Estado.

109
CAPÍTULO 4

nos países centrais, às falhas da promessa democrática, juntamente com a cum-


plicidade dos partidos operários e sindicatos com formas elitistas de poder e ao
governo baseado no consenso. Entretanto, as mobilizações dos jovens e estudantes
nos anos 1960 e no início da década seguinte não se restringiram aos países capi-
talistas avançados e nem ao Ocidente. Elas também ocorreram em muitos outros
países do Oriente Médio, da África e Ásia, onde a mobilização de jovens e estu-
dantes também se deu de maneira contundente, com enfrentamentos policiais e,
em sua maioria, com questões relativas ao imperialismo e ao colonialismo, a não
democracia (dentro e fora das universidades) e aos governos ditatoriais (BOREN,
2001)10. Consequentemente, se todos esses movimentos forem reduzidos às ex-
pressões mais evidentes (França, Alemanha e Estados Unidos) como síntese desse
período, não se pode afirmar concretamente, senão através de um eurocentrismo,
que seria essa a síntese dessas mobilizações. Ainda, a mobilização daquele período
foge de uma crítica apenas ao contrato social e à sua expressão política (o Estado de
Bem Estar Social), ela teve um forte componente de crítica ao capitalismo vigente e
à sua crise estrutural que afetava as sociedades naquele momento.
Tendo em vista a importância desse momento, em termos de suas manifesta-
ções e sua complexidade política e econômica, MÉSZÁROS (2002, p. 1069-1070)
entende que se trata de uma “nova fase histórica da necessária ofensiva socialista”,
através de três confrontos sociais que evidenciam a “erupção de uma crise estru-
tural do capital” ao final da década de 1960. O primeiro é a Guerra do Vietnã, que
evidencia “as relações de exploração dos países capitalistas “metropolitanos” com
os subdesenvolvidos, nas suas determinações recíprocas”. O segundo é o Maio de
1968, com “os problemas e contradições dos “países capitalistas avançados”, to-
mados em si e na conjunção de uns com os outros”. O terceiro são as reformas na
Checoslováquia e na Polônia, em que “os vários países pós-capitalistas ou socie-
dades do “socialismo real” como relacionado e, às vezes, confrontando-se, mesmo
militarmente, uns aos outros”.

10 Mark Edelman BOREN (2001), em Students Resistence: A history of the unruly subject, de-
marca uma periodização dos movimentos estudantis e juvenis nos anos 1960, através da
resistência e da radicalização que esses movimentos adquirem durante esse período, como
efeitos de questões estruturais mais amplas da sociedade, que tanto podem ser ligadas à pró-
pria universidade, como a questões políticas mais amplas. Nesse período, Boren aponta que
a resistência estudantil se deu nos seguintes países: Coreia do Sul, Japão, China, Indonésia,
Índia, França, Alemanha, Holanda, Checoslováquia, Turquia, África do Sul, Congo, Argé-
lia, Estados Unidos, República Dominicana, Venezuela, Equador, Colômbia, Brasil. Já para
o “ano dos estudantes”, com manifestos compreendidos entre 1968 e 1969, o autor aponta
manifestações nos seguintes países: França, Irlanda, Inglaterra, Alemanha, Itália, Polônia,
Iugoslávia, Etiópia, Senegal, Rodésia, Congo, Paquistão; e, em um segundo momento, Japão,
México e Estados Unidos.

110
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

Os movimentos de jovens e estudantes dos anos 1960, que ocorreram em vá-


rias partes do mundo, estiveram relacionados com as três dimensões geopolíticas
do capitalismo expostas acima (a relação entre os países capitalistas metropolita-
nos e os subdesenvolvidos, a crise dos países capitalistas avançados e a crise do so-
cialismo “real”). Eles em muito se afastam de uma busca de uma identidade juvenil
ou mesmo da composição da juventude como um novo e único sujeito emancipa-
tório, ou ainda da crítica ao contrato social como única possibilidade crítica pos-
sível. Esses movimentos compõem um movimento de resistência à crise estrutural
do capital, que se intensifica nessas décadas, criando algumas consequências mar-
cantes e persistentes para as décadas seguintes11. Consequentemente, todos esses
fatores também apresentam significativa influência para as atitudes políticas dos
jovens nos anos posteriores, que se separam desde a composição na luta armada e
no terrorismo de vários países, na composição de guerrilhas e na clandestinidade,
ou até, no outro extremo, através de formas e estratégias de controle através do
consumo e o consequente abandono das perspectivas políticas mais engajadas. No
entanto, podemos concordar com a perspectiva de que se trata de um problema de
transição, imprimindo um problema mais geral, que não permite que se concebam
estratégias defensivas, necessitando de uma transformação social radical: “a ne-
cessidade, hoje, de uma teoria compreensiva da transição aparece na agenda histó-
rica da perspectiva de uma ofensiva socialista, baseada em sua atualidade histórica
geral, em resposta à crescente crise estrutural do capital que ameaça a verdadeira
sobrevivência da humanidade” (Idem, p. 1071).
Outro ponto a se analisar é o conceito de juventude e sua relação com a questão
das gerações. A juventude quando analisada pelo viés das culturas juvenis afirma
as gerações através das descontinuidades, da socialização contínua, das rupturas,
conflitos ou crises intergeracionais (MACHADO PAIS, 1993), desconsiderando a
relação direta das gerações e dos jovens com a estrutura do capitalismo de seu tem-
po. A emergência estudantil dos anos 1960 em muito foi interpretada como resul-
tado desse conflito de gerações, o que apenas atribuiu um caráter a-histórico das

11 Mészáros sublinha que dentro das três dimensões que evidenciam a crise estrutural do capi-
tal se desenvolveram alguns importantes eventos, nas décadas seguintes, que se mantiveram
dentro das mesmas características em relação ao capitalismo. Para a relação dos países ca-
pitalistas metropolitanos e os subdesenvolvidos: o fim do regime colonial de Moçambique e
Angola; a desintegração do governo de Somoza e a Frente Sandinista na Nicarágua; a luta de
libertação de El Salvador; a erupção das contradições estruturais nas forças industriais da
América Latina (Brasil, Argentina e México). Para a crise dos países capitalistas avançados:
a crise da dominação econômica dos EUA, a erupção nas “grandes contradições” no interior
da Comunidade Econômica Europeia; o desemprego estrutural, o fracasso do welfare state,
do neocolonialismo e do neocapitalismo. Finalmente, quanto à crise do socialismo real: o
colapso da Revolução Chinesa; o conflito armado entre China, Vietnã e Camboja; a ocupa-
ção soviética no Afeganistão, a crise econômica na Polônia.

111
CAPÍTULO 4

próprias manifestações jovens, independentemente do contexto socioeconômico


ou histórico daquele momento. Além disso, a vinculação direta entre juventude e
ação política procurava afirmar que o radicalismo jovem - nos mesmos termos que
aqueles ensaiados nos anos 1960 - deveria estar presente nas gerações posteriores
(BOREN, 2001; BARKER, 2008). Esse fator não é válido quando verificamos que
as práticas da juventude nas décadas posteriores não apresentaram aquela mesma
vitalidade e, muito pelo contrário, aceitam as garantias de melhorias e de um fu-
turo promissor. Sobre essa problemática, o posicionamento de MÉSZÁROS (2001,
p. 801-802) é bastante claro:

“Durante décadas, a literatura sociológica produziu simpáticos contos de


fadas sobre o “conflito de gerações” (...); agora ela tem realmente sobre o
que escrever. [...] O assim chamado conflito de gerações, no momento em
que foi apologeticamente circunscrito, já estava solucionado, na medida em
que toda “rebelião da juventude” evoluía, no devido tempo, para a matu-
ridade sensata dos pagamentos da hipoteca e da acumulação de uma pou-
pança para a velhice, de modo a garantir uma existência cômoda (...) pela
reprodução eterna das novas “gerações” do capital. [...] Porém, a verdade
tornou-se o exato oposto, já que o capital não apenas não soluciona como
ainda gera o conflito real de gerações em escala sempre crescente. Em todo
país capitalista importante, nega-se oportunidade do trabalho para mi-
lhões de homens, obliterando sem cerimônia a lembrança não tão antiga
das diferenças com a “cultura jovem”, ao mesmo tempo em que espreme até
a última gota de lucro das sobras de tal cultura.

Isso significa que, por traz do conceito de geração - assim como empregado
naquele momento -, havia uma necessidade de garantia de perpetuação do capi-
talismo e de sua ideologia, apontando para possibilidade de que esses conflitos
fossem contornados, principalmente por meio do Estado de Bem Estar Social e
do apaziguamento da contradição entre capital e trabalho. Aqui então se coloca o
problema das possibilidades reais e do horizonte de expectativas possíveis para a
questão dos jovens. Se por um lado a teoria sociológica não conseguiu visualizar
rupturas geracionais evidentes - podendo-as considerar apenas em torno da rela-
ção direta entre o ativismo passado e a indiferença presente -, essa relação não foi
articulada com os conflitos geracionais que foram gerados pelo próprio capital. Na
atualidade, o horizonte de expectativas também foi reduzido devido a um estrei-
tamento da “geração útil” e sua oposição à “geração indesejada”: “o grupo etário
da “geração útil” está encolhendo para uma faixa entre 25 e 50 anos, opondo-se
objetivamente às “gerações indesejadas”, condenadas pelo capital à inatividade
obrigada e à perda da sua humanidade” (p.802).
Essa relação dialética tem vindo a ganhar cada vez mais espaço, sobretudo
naqueles países regulados pelo Estado Providência, em que a ideologia da ordem

112
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

não contava com alterações estruturais tão significativas e marginalizantes em


tão curto período de tempo, além de - como no caso de Brasil e Portugal - visua-
lizarem a perspectiva de aumento da qualificação e massificação de ensino como
uma perspectiva positiva para a democracia e, consequentemente, para o desen-
volvimento econômico. Por isso, há um movimento bastante significativo para
a precarização, na medida em que a “geração intermediária é comprimida entre
“jovens” e “velhos” inúteis”, tornando-se dialeticamente supérflua para o capital e,
ao mesmo tempo, dependente dele, enquanto trabalho vivo:

Considerando que o capital só pode funcionar por meio de contradições,


ele tanto cria como destrói a família; produz a geração jovem economi-
camente independente com sua “cultura jovem” e a arruína; gera as con-
dições de uma velhice potencialmente confortável, com reservas sociais
adequadas, para sacrificá-las aos interesses de sua infernal maquinaria de
guerra. Seres humanos são, ao mesmo tempo, absolutamente necessários e
totalmente supérfluos para o capital. Se não fosse pelo fato de que o capital
necessita do trabalho vivo para sua autorreprodução ampliada (p. 802)

Por isso, há uma relação direta entre o descarte de jovens e velhos para o
trabalho e a precariedade, o que faz com que as possibilidades de planejamen-
to do futuro sejam arruinadas, se comparadas com as perspectivas das gerações
anteriores. Os movimentos que surgem nos últimos anos, em especial na Europa
Ocidental, mediante a crise estrutural do capital12, são justamente aqueles que
evidenciam essa questão mais claramente. No entanto, as várias situações de pre-
cariedade laboral, como no Brasil, também afirmam a mesma questão, ainda que
ela não se coloque como mais evidente para a mobilização social. É de se consi-
derar, portanto, que atualmente, os movimentos sociais que partem dessas cau-
sas compõem não apenas a “linha de frente” de exploração do capitalismo, mas

12 A propósito, MÉSZÁROS (2001, p. 795-796 ) define a atual crise estrutural, em oposição às


antigas crises cíclicas, como uma novidade histórica apresentada em quatro aspectos: “(1)
seu caráter é universal, em lugar de restrito a uma esfera particular (por exemplo, financeira
ou comercial, ou afetando este ou aquele ramo particular de produção, aplicando-se a este
e não àquele tipo de trabalho, com sua gama específica de habilidades e graus de produti-
vidade etc); (2) seu alcance é verdadeiramente global (no sentido mais literal e ameaçador
do termo), em lugar de limitado a um conjunto particular de países (como foram todas as
principais crises no passado); (3) sua escala de tempo é extensa, contínua, se preferir, per-
manente, em lugar de limitada e cíclica, como foram todas as crises anteriores do capital;
(4) em contraste com as erupções e os colapsos mais espetaculares e dramáticos do passado,
seu modo de se desdobrar poderia ser chamado de rastejante, desde que acrescentemos a
ressalva de que nem sequer as convulsões mais veementes ou violentas poderiam ser exclu-
ídas no que se refere ao futuro: a saber, quando a complexa maquinaria agora ativamente
empenhada na “administração da crise” e no “deslocamento” mais ou menos temporário
das crescentes contradições perder sua energia”.

113
CAPÍTULO 4

também compõem, junto com movimentos operários e sindicais e movimentos


sociais, a ofensiva socialista.
Considerando a complexidade do que Mészáros entende como ofensiva socia-
lista, pretendo-a salientar através da relação entre a crise estrutural e a educação,
sobretudo, no que se refere à educação superior, nas últimas duas décadas. Como
é sabido, a partir dos anos 1990, o modelo neoliberal de reforma universitária –
incentivado por instituições internacionais, como a OCDE - ampliou problemas
já existentes na estrutura universitária, misturando-os com a lógica cognitivoins-
trumental e encadeando inúmeras crises nas universidades (SANTOS, 1995). De-
sestruturada através de sua hegemonia, sua legitimidade e sua administração, as
universidades passaram a ser cada vez mais um espaço de prestação de serviços e
não de formação. No entanto, as várias soluções que surgem para o controle desse
problema – até mesmo como o modelo da Universidade Nova - parecem não surtir
efeito, mas ainda aplicar essa crise. Tendo isso em vista, naturalmente não caberia
perceber a crise da universidade pela própria universidade, como se só ela própria
fosse culpada por seus males, mas, sim, perceber como a crise do capitalismo atin-
ge inevitavelmente a universidade.
Por isso, a universidade torna-se, cada vez mais, produtora de mercadorias:
através do mercantilismo da ciência; da inserção de lógicas empresariais e pro-
dutivistas; da expansão do setor público com critérios duvidosos de qualidade;
pela expansão através do setor privado, com um discurso de democratização e
redistribuição que esconde os benefícios aos setores empresariais da educação; da
formação massiva com baixa qualidade e nula criticidade; do ensino pago (seja ele
público ou privado); dos critérios de produtividade e dos “relatórios” de produção
dos centros de pesquisa; da exigência de publicações em periódicos de renome ou
internacionais; da valorização dos profissionais congressistas ou dos pesquisado-
res não professores, exímios coordenadores de projetos de pesquisa, muitas vezes
com pesquisas financiadas por grandes órgãos institucionais ou por empresas,
mas cuja didática docente é deficiente; dos international meetings, onde os pes-
quisadores em um súbito ato de desespero preferem divulgar anos de sua pesquisa
em comunicações de 15 a 20 minutos sem a promoção de um debate crítico; da
pesquisa social que impõe a dedução dos corretos meios e instrumentos metodo-
lógicos sobre o objeto de estudo (que não deixa de ser positivista por se basear na
teoria mais recente), ou mesmo, da pesquisa ação, que romanticamente acredita na
oposição entre a pesquisa cujo destino final são as estantes da biblioteca e a pes-
quisa cujo destino final será a aplicabilidade social, sendo que, para essa última,
é indiferente cumprir interesses do capital ou dos explorados pelo capital, já que
a neutralidade científica – e portanto, ideológica – é valida em última instância;
da ciência da crise dos paradigmas e que impõe a necessidade constante de afiar a

114
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

“faca metodológica”13; da universidade em que não cria espaço para o diálogo com
a comunidade, ou que, quando burocratizadas em excesso, levam à “mistificação”
de sua atuação social; da universidade que vê seus estudantes como receptores de
serviço, e, seu corpo de funcionários e professores como colaboradores; da mar-
ginalização do estudante, de suas práticas políticas e culturais e de sua visão de
mundo; da universidade que prioriza a competição entre estudantes; da precariza-
ção dos vínculos de estudantes, professores, pesquisadores e funcionários, através
de contratos a prazo, baixos salários, excesso de funções, redução dos direitos, de
bolsas de estudo insuficientes e de baixa remuneração; da universidade que pre-
cariza suas estruturas conscientemente; da universidade repressora, seja por meio
de sua burocracia administrativa (que persegue os estudantes através de excessivas
cobranças de ordem formal), seja por meio da repressão por meio de perseguição
política e policial, gerando a universidade cuja única política é a polícia. Assim,
interessa dizer que o resultado social desse processo evidenciou o surgimento de
“novas profissões”, de formação universitária, operando uma segmentação ainda
maior do mercado de trabalho – juntamente à logica da própria estruturação his-
tórica do trabalho, por bem dizer, a divisão entre trabalho material e imaterial que
Marx já falara outrora.
Esse processo possui várias similitudes entre Europa e América Latina, em
especial, entre Portugal e Brasil. Para tanto, e como já foi mostrado aqui, é ne-
cessário, primeiramente, afastar o argumento de que, enquanto um país está em
uma profunda crise, o outro está vivenciando um momento propício ao desen-
volvimento econômico acelerado, pois trata-se de uma crise estrutural do capital.
Assim, podemos entender que, os aspectos que até agora foram aqui tratados -
trabalho, precariedade, democracia, contestação social, juventude, educação – se
convergem, atualmente, em exemplos de acontecimentos nos dois países que tra-
zem profundas incertezas sobre o futuro.

5. O futuro é incerto?

Recentemente, no Brasil e em Portugal, algumas manifestações de jovens e


estudantes têm fomentado importantes questionamentos acerca de aspectos da
precariedade, da democracia, da educação e da universidade, cada um de sua for-
ma. Não me deterei a uma apresentação sistemática desses manifestos – o que seria
praticamente impossível aqui e, somente útil por todo, se o interesse aqui apresen-

13 Sobre esse aspecto, MÉSZÁROS (2004) expõe seus principais pontos na Parte II, Ciência,
Ideologia e Metodologia, em O Poder da Ideologia.

115
CAPÍTULO 4

tado fosse uma reconstrução desse passado histórico recente, ainda que ele possa
estar presente em nossa memória, ou cujas informações mais elementares podem
ser encontradas nos arquivos recentes de jornais quando acessados pelos sites de
busca – mas, refiro-me diretamente aos movimentos estudantis da Universidade
de São Paulo e suas mobilizações recentes de 2007 a 2011; e dos movimentos de
Indignados e “Geração à Rasca” que também se mobilizaram nos últimos quatro
anos em Portugal e na Europa. No entanto, seria ilusório se pensar que no âmbito
dos discursos dos movimentos há características similares – fato que poderia ser
muito mais perceptível se fizéssemos uma comparação sistemática entre os mo-
vimentos estudantis de Brasil e Argentina ou Chile, ou, entre os movimentos de
indignados em Portugal e Espanha, ou Grécia.
No entanto, entendo que se essa aproximação é sim cabível e só pode ser pos-
sível se observarmos a relação entre o espaço de experiências e o horizonte de ex-
pectativas (KOSELLECK, 2006)14. Ou seja, no presente caso, quero aqui enfatizar:
(i) como as experiências vividas através de acontecimentos recentes trouxeram à
tona novos questionamentos sobre a crise estrutural do capital, sobre a precarie-
dade, sobre a universidade e a educação; e (ii) como que as expectativas presentes
trazem concretamente novas formas de resistência e de ofensiva, que oscilam em
um quadro de esperanças positivas, surpresas e desilusões. Por isso, atribuirei uma
metáfora aos dois conceitos, na tentativa de poder contemplar essa discussão: o es-
paço de experiências pode ser entendido como a mobilização do dia a dia, ou seja,
como o momento em que um movimento social distribui panfletos, confecciona
cartazes, faz suas reuniões e debate com seus membros, etc, em síntese, quando faz
a construção da luta cotidiana. O horizonte de expectativas seria, portanto, aquele
momento em que, feita a luta cotidiana, é organizada uma manifestação nas ruas,
saindo de um lugar e chegando em outro, provavelmente um prédio do poder pú-
bico, em que, no caminho, o movimento irá mostrar suas palavras de ordem, suas
críticas ao que tem vindo a acontecer e/ou os desejos de melhorias. Observemos
então isso nos movimentos acima referidos.

14 KOSELLECK (2006, 308-310) entende que “experiência e expectativa são duas categorias
adequadas para nos ocuparmos com o tempo histórico, pois elas entrelaçam passado e futu-
ro. São adequadas também para se tentar descobrir o tempo histórico, pois, enriquecidas em
seu conteúdo, elas dirigem as ações concretas no movimento social e político”. Isso quer di-
zer, que o encontro dos dois conceitos se dá, não apenas na “execução concreta da história”,
mas também, através das “determinações formais que permitem que o nosso conhecimento
histórico decifre essa execução”. Finalmente, o autor entende experiência como o “passado
atual, daquele no qual os acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados”; e,
expectativa, como algo que “se realiza no hoje, é futuro presente, voltado para o ainda-não,
para o não experimentado, para o que apenas pode ser previsto. Esperança e medo, desejo
e vontade, a inquietude, mas também a análise racional, a visão receptiva ou a curiosidade
fazem parte da expectativa e a constituem”.

116
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

‘Na Universidade de São Paulo15, os estudantes têm protagonizado sucessivas


greves e mobilizações em prol de maior democracia na instituição; no entanto, não
se faz apenas como uma crítica à instituição. Há algumas nuances nessas mobi-
lizações que são imprescindíveis. Primeiro, a crítica à mercantilização do ensino
e do conhecimento universitário, presente na própria estrutura da universidade e
no contato e tratamento com os estudantes. Concepções sobre o funcionamento
devido do espaço público, sobre as proibições e permissões, sobre o que deve e o
que não deve ser falado e pensado na universidade, entre outros aspectos, reforçam
como que está sendo projetado o futuro profissional dos jovens e estudantes (da
maior e mais importante universidade do país, o que faz com que esse “futuro pro-
fissional” seja considerado um “modelo” a seguir, o modelo que será incorporado
com maior facilidade no mercado de trabalho e que nele irá se legitimar o discurso
da ascensão social, do bom profissional, etc).
Por isso, a mobilização dos estudantes tem se radicalizado, no uso de práticas
de resistência, como a ocupação do espaço público, que é um ponto de extrema
importância para se pensar o Estado, o capitalismo e o trabalho. Além disso, a
criminalização que tem vindo a acontecer vem criando cisões de opinião entre os
estudantes e entre a opinião pública, impondo visões estereotipadas e utilizando
cada vez mais a força policial para controlar problemas que poderiam ser resol-
vidos com negociação entre reitoria e estudantes. Esse conflito quase que direto,
faz com que as expectativas sejam, então, pensadas através da insegurança – que
podem ser desde a incapacidade do estudante conseguir meios para o sustento no
futuro, ou até sofrer um processo de sindicância e ser impedido de conseguir ter-
minar o seu curso – e por isso, cria inculca naturalmente que a negação da opor-
tunidade democrática naquela instituição dita democrática será, futuramente, a
negação de seu espaço na sociedade. Portanto, se quiséssemos estender um pouco
mais dessa consideração, poderia se afirmar que a negação do espaço (do jovem)
na sociedade é uma das condições fundamentais da precariedade. Assim, não seria
exagerado falar que a mobilização que os estudantes da USP têm feito nos últimos
anos envolve, naturalmente, os aspectos da resistência diária na universidade, mas
podemos ir além disso, afirmando que em seu horizonte de expectativas está colo-
cada apenas duas opções: a precariedade (que aqui deixa de ser apenas a precarie-

15 Sobre a questão da mobilização recente da Universidade de São Paulo e das universidades


do Estado de São Paulo, ver Almada, Pablo (2009), Resistência, Ocupação e Criminalização...
onde foram exploradas, através das greves de 2007, muitas das tendências que ainda estão
presentes também nos acontecimentos das greves mais recentes, sobretudo, o aspecto de
criminalização das questões políticas do movimento e da forte repressão do aparato po-
licial, a negligência das autoridades universitárias em reconhecer os estudantes em uma
negociação, o caráter não institucionalizado do movimento.

117
CAPÍTULO 4

dade laboral para ser pensada em sinônimo mais amplo) como privação do futuro;
ou, a resistência e a construção de uma ofensiva que se inicie no dia dia e que possa
reverter esse quadro para horizontes mais positivos e otimistas.
Já em Portugal, nos últimos anos têm tido destaque as greves gerais organi-
zadas pelas centrais sindicais, as manifestações do movimento estudantil e, mais
recentemente, as manifestações com novas plataformas de movimentos, como a
dos Indignados e a 15O. Sobre elas, podemos compreender sua capacidade de re-
sistência à crise atualmente vigente e o ensaio de novas perspectivas políticas e
econômicas, sobretudo, alertando às questões da precarização e da precariedade
do trabalho, da redução dos direitos do trabalhador, da massificação do ensino e
da recusa da democracia formal vigente. Dentre várias mobilizações, a manifesta-
ção da “Geração à Rasca”, ocorrida em 12 de março de 2011 foi a mais significativa.
Não apenas porque contou com mais de 200.000 pessoas nas ruas em todo o país
naquele dia, mas porque ela é uma nítida expressão de resistência à crise social que
assola o país, e o sul da Europa de forma mais geral – reflexo também das outras
manifestações que estão a ocorrer na Europa, como na Grécia, na Espanha (como
o caso da “Democracia Real Ya” e das “Acampadas”). Trata-se de um registro úni-
co na história de um país que se silenciou após o 25 de abril e a entrada para a
União Europeia, incorporando desde o traço ideológico da ética salazarista do
“bom português”, como também os “sonhos” provenientes da concertação entre
capital e trabalho, por parte do Estado Providência. Se algo mais pode ser dito
desse momento, é que tratou-se de um movimento não apenas de jovens, mas um
movimento que encadeou a preocupação dos jovens com a da maioria dos portu-
gueses. Convocada por estudantes e utilizando as novas tecnologias do Facebook,
a “Geração à Rasca” superou as expectativas dos próprios “organizadores”. E, por
assim dizer, não foi organizada, mas, sim, auto-organizada. Trouxe para os media
e para setores conservadores, ou ditos de esquerda, uma nova possibilidade de go-
vernabilidade nacional: uma governabilidade que leve em conta os mais diversos
setores da sociedade e suas demandas. Assim, incentivou o debate político, criou
novas dimensões do espaço público e traduziu as inquietações mais subjetivas: a
dos jovens, por não conseguir emprego ou por serem precários; a dos pais desses
jovens, por um lado, por saber que a condição inquietante da manutenção da-
queles na “casa dos pais”, apenas revela que a sociedade portuguesa não deseja as
alterações que vêm a ser encaminhadas para o mundo laboral; por outro lado, por
saberem que as medidas de austeridade econômica afetarão, em muito, toda a dis-
posição da sociedade portuguesa, reduzindo salários, aumentando o desemprego.
Anunciando uma profunda crise econômica nos países do sul da Europa,
anuncia-se também uma profunda crise de expectativas para os jovens de hoje e
para as futuras gerações. Não que essa seja designada pelas ideologias de “fim do

118
O futuro é mesmo incerto? A precariedade e os jovens em Brasil e Portugal

trabalho” ou afins, mas, sim, em termos do aumento da precariedade laboral, in-


capacitando-se de haver qualquer dissociação dessa situação com a condição atual
do trabalho. A exceção torna-se a regra. E é nessa regra que vários setores etários já
estão a ser atingidos. A juventude constitui-se como um marco nesse processo – o
que não significa que seja o único setor a ser afetado – pois é nele que se desmate-
rializam os ganhos do passado, a insegurança do presente e a incerteza do futuro.
A “Geração à Rasca” compõe-se, portanto, como uma ampla metáfora da crise
que atinge Portugal: é a crise do horizonte de expectativas, das quais só podem
ser revitalizadas através da intensa mobilização e criação de novas experiências de
luta e que assim, podem gerar novos manifestos que abram, não mais capacidades
reformistas do Estado, mas, sim, novos parâmetros de ofensiva contra o capital.

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121
CAPITULO 5

“Perdi o emprego, encontrei uma


ocupação”: juventude, precariedade,
indignação e o novo ciclo
de rotesto global
José Soeiro

I. Um novo ciclo de protesto global

O
“manifestante” foi a personalidade do ano de 2011, escolhido pela revista
Time. Que uma personagem anónima, um ator coletivo, seja escolhido
como a pessoa mais influente do mundo não é certamente comum em
uma publicação deste género. A verdade é que 2011 assistiu, desde a Primavera
Árabe ao movimento dos Indignados, do Occupy Wall Street aos protestos da Ge-
ração à Rasca em Portugal ou contra a austeridade na Grécia, a fenómenos de
mobilização social significativos, que trouxeram para a rua contingentes sociais
nem sempre frequentes nas formas tradicionais de ação e mobilização políticas.
Alguns destes movimentos parecem assumir um caráter fundacional: criam
uma cultura e uma marca identitária importante na trajetória de envolvimento
dos seus protagonistas. Além disso, e muito em função da comunicação em rede
e da difusão na internet, este conjunto de resistências produziu certo sentido de
“comunidade imaginada global” entre movimentos de diversas partes do mundo,
através da qual as diferentes experiências se contaminam, inspiram e estimulam.
Sendo certo que em qualquer um destes casos estamos a falar de fenómenos
com motivações, características, protagonistas e modalidades de ação muito di-
versificadas, podemos encontrar alguns elementos comuns: uma forte compo-
nente juvenil e escolarizada, em que a juventude surge como catalisador de lutas
sociais mais amplas; formas de identificação suficientemente gerais para poderem
ser, aparentemente, quase consensuais (os “99%”, os “indignados”, as “gerações à
rasca”); um discurso centrado na denúncia do sistema económico e na captura das
instituições e agentes políticos pelo poder financeiro; a exigência de “mais” ou de
uma “verdadeira” democracia; certa recusa da delegação, remetendo à expressão
das reivindicações e à legitimidade, tendencialmente, para a escala do indivíduo;
uma abertura à experimentação militante, mais do que a formulação programá-
CAPÍTULO 5

tica ou do que uma “razão estratégica” muito definida; o contraste entre a radica-
lidade dos modos de envolvimento e a fragilidade do discurso de uma parte dos
protagonistas; a produção de novas referências plásticas e estéticas e a disputa em
torno dos símbolos hegemónicos; a ocupação transgressiva do espaço público; o
uso intensivo das redes sociais; a importância da cultura audiovisual e das novas
tecnologias de informação e comunicação, aplicando-se à mobilização colectiva a
lógica do open source e da comunicação não unidireccional.
A última grande vaga de mobilizações globais aconteceu sensivelmente há
uma década, com o boicote à reunião da Organização Mundial do Comércio, em
Seattle, em 1999, e com o movimento das contracimeiras, dos Fóruns Sociais e das
manifestações contra a guerra no Iraque, nos anos posteriores. Nessa altura, emer-
giu um “novo internacionalismo global”, que fazia da crítica ao neoliberalismo e
à globalização capitalista um “não” comum a partir do qual se juntavam vários
“sins”, isto é, ideias diferentes sobre os “outros mundos possíveis”. Esse movimento
de movimentos pôs em contacto e articulação diferentes atores sociais, culturas
de intervenção e sujeitos políticos diversos: ecologistas, sindicalistas, estudantes,
indígenas, feministas, camponeses... Dessa experiência ficaram redes, encontros
e campanhas comuns. Mas seria preciso esperar até 2011, para ver ressurgir com
força um movimento à escala internacional com capacidade de ocupar as ruas e a
agenda política.
As mobilizações de 2011 acontecem no marco da maior crise capitalista das
últimas décadas e partem, na maior parte dos casos, da indignação em relação à
injustiça social, aos efeitos sociais da “ditadura dos mercados” e à cumplicidade
de governos e instituições relativamente ao processo de empobrecimento em cur-
so. Em muitos casos, representaram o fim do monopólio dos partidos, dos sin-
dicatos e dos movimentos organizados na mobilização social. Mas se puderam
constituir-se enquanto íman de vários ativismos, isso significa que articulam, não
sem tensões, novos e velhos protagonistas, militância organizada e militância não
organizada. Seria impossível perceber estas mobilizações, nomeadamente no caso
português, sem ter em conta o papel dos movimentos de jovens trabalhadores pre-
cários e o caminho por eles aberto. Além disso, para compreendê-las, devemos
fazer referência não apenas à crise recente, mas também a um processo mais longo
de precarização e de mudança na condição juvenil. O crescimento do desemprego,
o processo galopante de informalização, descontratualização e descoletivização
das relações laborais, o crescente hiato entre expectativas e realidade, agravados
pela vertigem austeritária, geram um sentimento de ressentimento e frustração
que encontrou nestas mobilizações uma forma de expressão coletiva.
Neste ensaio, tentaremos caracterizar o pano de fundo sobre o qual se desen-
volvem estes fenómenos, procurando a sua explicação na crise financeira e nas po-

124
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

líticas de austeridade ao nível europeu, mas também em processos mais longos re-
lacionados com as transformações no capitalismo, com a desidentificação com as
formas de representação e com a desafeição pelas instituições democráticas exis-
tentes. Por outro lado, fazemos um esforço de síntese das principais tendências que
explicam a condição juvenil em Portugal, na sua relação com o trabalho e com um
cotidiano marcado pela precariedade. A partir daí, refletimos sobre o surgimento
dos movimentos de trabalhadores precários neste país e sobre as modalidades de
ação coletiva que eles têm posto em marcha. Por último, a partir de um trabalho
em curso sobre a vaga de mobilizações em 2011, e tomando como referências o
caso português, mas também o exemplo espanhol e o exemplo norteamericano,
enunciamos algumas das linhas do debate estratégico que tem tido lugar no seio
destas mobilizações, identificando, de forma parcial e provisória, tensões e pers-
pectivas em conflito sobre o seu significado e os caminhos que devem seguir.

II. O pano de fundo da nova vaga de mobilizações: um novo


regime económico e social

O pano de fundo desta vaga de protestos é o contexto da crise financeira de


2008 e, na sequência desta, da crise das dívidas soberanas e da recessão provocada
pelas medidas de austeridade. Para economistas como Krugman (2011) e Stiglitz
(2010), a conjugação de cenários de recessão econômica, combinados com cor-
tes acentuados nos gastos públicos por parte dos governos, conduz a situações de
agravamento económico e traduz-se em um ciclo vicioso de aumento do desem-
prego, quebra no consumo e dificuldade de financiamento tornando, consequen-
temente, mais improvável o relançamento da economia. Contudo, esse tem sido o
modelo aplicado na Grécia, na Irlanda, em Portugal e, crescentemente, um pouco
por toda a Europa, com efeitos devastadores do ponto de vista social e económico.
Dentro desta lógica, assistimos a um processo acelerado de transferência de ren-
dimento do fator trabalho para o fator capital, através da compressão do salário
direto e indireto para cumprir uma parte das obrigações dos Estados com os cre-
dores. Este tipo de solução constrói a sua hegemonia e a força da sua legitimidade
alicerçada no discurso da inevitabilidade. No contexto europeu, e em Portugal
especificamente, perante a impossibilidade de desvalorização da moeda, a redução
dos custos do trabalho é apresentada por vários economistas, como a solução ne-
cessária para o incremento da competitividade (cf. Leite, 2010; Bento, 2009). Esta
redução opera por muitas vias: em primeiro lugar, congelamento das pensões e do
salário mínimo e corte no salário direto dos funcionários públicos, com efeitos de
contágio no setor privado; em segundo, aumento de impostos e precarização das

125
CAPÍTULO 5

relações laborais; em terceiro lugar, fragilização dos serviços públicos e privatiza-


ção de algumas funções e setores estratégicos do Estado.
Este processo tem consequências evidentes ao nível do emprego e tem um im-
pacto forte nos segmentos sociais mais frágeis. O último relatório da Organização
Internacional do Trabalho sobre emprego e juventude refere-se a esta como uma
“geração perdida”. Com a generalização de formas precárias de emprego, com ta-
xas de desemprego jovem a rondar os 25% no norte de África e os 18% na Europa
(41,6% em Espanha, mais de 35% em Portugal), com a disseminação da pobreza
assalariada (onde os jovens surgem de forma desproporcionada: 23,5%) e com os
jovens a constituírem já a maioria dos desempregados de longa duração, a OIT sa-
lienta que os protestos que este ano tiveram lugar no norte de África, e também em
Espanha, Inglaterra ou Grécia, encontram aqui a sua raiz fundamental (OIT, 2011:
3-6). Com efeito, como enfatiza o mesmo documento, têm sido os jovens a pagar
o preço mais alto em termos de emprego ao longo da crise que se instalou desde
2008 e isso justifica que “se sintam desanimados sobre o futuro” e até “irritados”
e “violentos” (idem: 6).
A este processo somam-se ainda outras dinâmicas. Uma delas é a desafeição
face ao rotativismo do sistema democrático e um distanciamento relativamente às
suas instituições. Em Espanha, ele teve expressão na crítica ao “bipartidismo” e na
recusa de ser “marionete nas mãos de políticos e banqueiros”, uma das palavras de
ordem do 15M. Em Portugal, um recente estudo sobre a qualidade da democracia
revelava que 78% dos cidadãos inquiridos estava de acordo, ou muito de acordo,
com a ideia segundo a qual “os políticos preocupam-se apenas com os seus pró-
prios interesses” e “as decisões políticas no nosso país favorecem, sobretudo, os
grandes interesses económicos”, sendo evidente a desconfiança face aos partidos
políticos pela cartelização do Estado, aparecendo os movimentos sociais de pro-
testo acima destes enquanto capazes de dar voz às preocupações populares (Pinto
et al., 2012). Ao mesmo tempo, as expectativas em relação ao Estado e à democra-
cia enquanto sistema de redistribuição de bens são muito altas, o que reforça as
frustrações face à incapacidade das políticas públicas responderem aos principais
problemas identificados nesse mesmo inquérito, a saber, o desemprego (37%), a
pobreza e a exclusão (16%), a dívida do Estado (13%) e o crescimento económico
(11%). No contexto europeu – e aí temos os exemplos eloquentes da Grécia e da
Itália – não apenas fica a sensação de impotência ou da complacência dos pode-
res eleitos em relação às lógicas dos mercados financeiros, mas assiste-se mesmo
a uma espécie de “golpes de estado pós-moderno”, através dos quais a gestão da
crise é realizada recorrendo a uma estratégia “pós-democrática”, que opera pela
nomeação ou imposição de governos tecnocráticos não eleitos (Sevilla et al., 2012).

126
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

A somar a isto, verificamos a dificuldade das instituições, que tradicional-


mente representavam os interesses dos “debaixo”, em organizá-los. Esta questão é
relevante no que diz respeito aos partidos, mas também aos sindicatos. A crise do
trabalho é hoje, reconhecidamente, não apenas uma crise das formas tradicionais
de organização da produção, mas também uma crise do contrato social da era
fordista e uma crise das formas de representação dos trabalhadores que herdámos
do século passado. Com efeito, as transformações no trabalho e no emprego, a di-
fusão das tecnologias de informação e comunicação, os novos modelos de produ-
ção, a concorrência internacional entre empresas, a financeirização da economia
e o desmantelamento do Estado Providência colocam sérios desafios aos sistemas
de relações laborais tradicionais e, em muitos pontos do mundo, têm tido efeitos
devastadores para os sindicatos (Waterman, 2004). Algumas das reflexões em tor-
no da necessidade de renovação do sindicalismo têm vindo a propor mudanças
ao nível organizacional (práticas adaptadas à fase de um capitalismo globalizado,
conectado em rede e informatizado), um novo internacionalismo e um sindica-
lismo de movimento social, que afirmem a identidade e os interesses do trabalho,
mas que incluam na sua agenda outras lutas contra a opressão, que faça alianças
com outros movimentos, que preste particular atenção à diversidade interna da
classe trabalhadora e aos seus setores fragilizados (precários, imigrantes...), que
alargue o seu campo de ação em termos temáticos e de escala territorial, que saiba
fazer reivindicações internas e externas à fábrica e à empresa, que saiba falar de
produção e reprodução, de economia e de política (Waterman, 2004; Estanque,
2008; Dias, 2009). Em alguns casos, estas propostas comungam com a corrente
autonomista (Negri e Hardt, 2005), o entusiasmo com as formas democráticas da
comunicação em rede e com as potencialidades das estruturas pós-fordistas, entu-
siasmo segundo o qual, a resistência anticapitalista deve adotar as formas policên-
tricas da produção pós-fordista, em uma luta em rede, em que a organização não é
apenas como um meio, mas um “fim” que deve ser já embrião das relações sociais
alternativas que se querem para a sociedade.
Todas estas transformações, se bem que agudizadas com a presente crise fi-
nanceira e o impacto social que tem tido, devem ser olhadas em uma perspectiva
histórica um pouco mais longa. Desde há mais de uma década, o desemprego es-
trutural e a precariedade vêm se instalando como um regime permanente e como
a tendência dominante de evolução do capitalismo (Castel, 2009: 54). O processo
de precarização é uma das tendências mais fortes da “grande transformação” (para
retomar a expressão celebrizada por Karl Polany) que está em curso no regime ca-
pitalista, que afeta as suas formas de produção, de troca e o seu modo de regulação.
Com efeito, a etapa do capitalismo que hoje atravessamos corresponde a um
processo de reestruturação produtiva que ainda não encerrou o seu ciclo e que tem

127
CAPÍTULO 5

como base a necessidade do capital “garantir a acumulação, porém de modo cada


vez mais flexível e compatível com a nova fase” (Antunes, 2008). Ao contrário do
que historicamente caracterizou a fase anterior – o fordismo –, a dinâmica deste
novo regime do capitalismo é de remercantilização, descolectivização e reindi-
vidualização do trabalho. Ela manifesta-se no plano organizacional: individuali-
zação das tarefas, mobilidade, adaptabilidade dos trabalhadores, subcontratação,
emagrecimento das empresas em pequenas unidades, intermitência, dispensa das
convenções de trabalho. Mas exprime-se também no plano das trajetórias pro-
fissionais, que sofrem as consequências da desestabilzação do emprego e da sua
progressiva desinscrição em regulações colectivas, emergindo uma espécie de
“modelo biográfico” (Beck, 1992), em que as carreiras tornam-se mais fluidas e
descontínuas. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que se exalta como nunca o su-
jeito, assiste-se à possibilidade de desqualificação do indivíduo, pela ausência de
recursos que permitam à maioria conduzir os seus projetos e fazer as suas escolhas.
Esta nova fase do capitalismo constitui uma mudança profunda da condição
salarial, erodindo a forma hegemónica que assumiu sob o capitalismo industrial
(Castel, 2009). É um facto que os jovens são uma das principais vítimas dessa ero-
são, mas ela pretende-se extensível à generalidade dos trabalhadores. Por outro
lado, esta transformação tem significado também uma nova narrativa do capi-
talismo e dos seus dispositivos de legitimação ideológica e de justificação moral.
Estes passam a assentar em uma retórica, em que a mudança e a mobilidade são
salientadas de forma apologética, como formas de libertação do indivíduo face a
constrangimentos burocráticos. Como explicam Boltanski e Chiapello (1999), o
“novo espírito do capitalismo” soube recuperar os termos da crítica expressiva que
lhe eram dirigidos, e apresentar-se com uma retórica de libertação. Incorporou,
distorcendo-as, as ideias de liberdade e de autonomia. O reforço da “autonomia”
foi transformado em mais autocontrolo (trabalho em equipa, controlo informáti-
co...) e a menor segurança no trabalho foi apresentada como condição de “liber-
dade”. O culto da performance, a exaltação da mobilidade e a emergência de um
modelo conexionista são características maiores deste seu “novo espírito”.
Neste contexto, os movimentos de que vimos falando trouxeram para o centro
do debate público a crítica ao capitalismo financeiro, à austeridade, ao esvazia-
mento da democracia e à ausência de um futuro que escape ao desemprego e à pre-
cariedade. Trouxeram, além disso, uma nova iconografia (pensemos nas imagens
do Occupy ou na disseminação da máscara dos Anonymous), novas plataformas
de luta (entre as quais as utilizadas pelo ciberativismo), novas categorias e subjeti-
vidades políticas (os “indignados”) e novas formas de experiência militante. Regra
geral, tiveram uma forte componente juvenil e do que vem-se chamando de “classe
média empobrecida”.

128
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

Como é evidente, cada praça, cada cidade e cada país tem a sua história pró-
pria e as suas peculiaridades. Não pretendemos, neste ensaio, fazer nenhuma te-
oria geral acerca destes movimentos. Pretendemos identificar algumas das suas
causas e pensar, sem idealizações nem autocomplacências, alguns dos dilemas que
os atravessam. De acordo com Carlos Taibo (2011), que se refere à experiência do
estado espanhol, é possível distinguir “duas almas do movimento”, com visões por
vezes conflituais. A primeira seria constituída pelos “movimentos sociais alterna-
tivos”, com uma intervenção mais antiga, mas que de certo modo foi semeando
o terreno. A segunda, pelos “jovens indignados”, a massa dos quinheutoseuristas
que, sem tradição nem organização política anterior, constituíram a novidade
destas mobilizações, assumindo-se, em muitos casos, como os intérpretes de um
descontentamento geral. Mas o que caracteriza hoje a condição destes jovens que
encheram ruas e praças? Isso explica esta onda de indignação?

III. Jovens, trabalho e quotidiano em Portugal

No dia 23 de janeiro de 2011, no Coliseu do Porto, o grupo musical português


Deolinda1 apresentava, no final de um concerto que havia enchido a sala, um tema
novo que de imediato provocou uma reação emocionada e entusiástica do público:
“Parva que Sou”. Nos dias que se seguiram, o vídeo dessa música2, colocado no
Youtube por uma das pessoas que assistiu ao espetáculo, atingiu dezenas de milhar
de visualizações. Transformando-se em um fenómeno viral, a canção, partilhada
incessantemente nas redes sociais, provocou um intenso debate público sobre o
emprego dos jovens, a generalização da condição precária e os contornos da vi-
vência juvenil no nosso país. Foi esta música, “Parva que Sou”, que inspirou a con-
vocação para o dia 12 de março da manifestação “laica, apartidária e pacífica” da
Geração à Rasca, organizada a partir de um evento de Facebook, criado por quatro
jovens que pareciam representar na perfeição a situação descrita pela música. Essa
manifestação teria cerca de 300 mil pessoas em Lisboa, mais alguns milhares em
outras cidades, e seria o primeiro momento de um conjunto de mobilizações que
teve como centro a crítica à precariedade e ao desemprego, mas também ao campo
político e às suas instituições. O sucesso da música não é um mero acaso: a comu-
nicação estética tem frequentemente a capacidade de sintetizar e de exprimir com
particular eloquência a realidade e as redes de significados e representações que
circulam em uma dada sociedade. “Parva que Sou”, cujo tom oscila entre a denún-

1 Vd. www.deolinda.com.pt/site.php
2 Disponível em www.youtube.com/watch?v=f8lo82tXbWU&feature=player_embedded

129
CAPÍTULO 5

cia, o lamento e a indignação, parece ter conseguido captar elementos cruciais do


que é hoje, para um importante segmento da nossa sociedade, a condição juvenil.
Em Portugal, as contradições sociais agudizam-se pelas impressionantes
transformações de que a nossa sociedade foi alvo nas últimas décadas. Como ex-
plica Elísio Estanque (2005; 2012), este país assiste a uma transição problemática,
em que se ampliam e intensificam processos de estruturação das desigualdades
mais gritantes no contexto desta crise. Coexistem na estrutura produtiva e de
relações sociais lógicas pré-capitalistas com todo um segmento pós-fordista no
mundo da produção e com a disseminação em peso das lógicas da sociedade de
consumo. Combinam-se velhas desigualdades com a distribuição assimétrica de
novos recursos. E as políticas de austeridade vêm pôr a descoberto os processos de
pauperização e endividamento. É neste contexto que vale a pena, tentando cruzar
a nossa investigação com um conjunto de trabalhos que foram sendo produzidos
no campo da sociologia portuguesa, sintetizar as principais tendências do “mundo
tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar” invocado pelos Deolinda para
descrever a “geração sem remuneração”, que vive entre a “casinha dos pais” e o
sentimento do “já não posso mais”.

1. Mudanças na estrutura ocupacional: Portugal como sociedade


de serviços tendencialmente desqualificados

Na última década, a estrutura ocupacional sofreu transformações relevantes:


aumento das qualificações da população empregada, crescimento do trabalho
pouco qualificado nos serviços, aumento de profissionais e técnicos e diminuição
do chamado “trabalho manual”. Como explica Alves et al. (2011), nos últimos dez
anos – entre 2000 e 2010 – assistimos a uma reestruturação significativa da popu-
lação empregada. A evolução dos grupos profissionais ajuda a compreender do que
falamos. Por um lado, verificou-se um aumento muito expressivo dos trabalhado-
res dos serviços pessoais, de proteção e segurança e vendedores (de cerca de 650
mil efetivos para quase 800 mil); um aumento significativo dos especialistas das
atividades intelectuais e científicas (de cerca de 340 mil para quase 500 mil) e dos
técnicos e profissões de nível intermédio (de cerca de 380 para cerca de 480 mil).
Por outro, sofrem uma quebra forte os trabalhadores qualificados da indústria,
construção e artífices (de cerca de 1 milhão e 100 mil para cerca de 900 mil), os
operadores de instalações e máquinas e os trabalhadores não qualificados. (idem,
ibidem: 33-34).
Estas transformações têm de ser associadas com outras. Desde logo, o cres-
cimento significativo da população empregada com ensino superior (mais 83%).

130
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

Depois, o facto de um contingente significativo dos serviços criados assentarem


em trabalho desqualificado. Por último, o “efeito classe média”, através do qual a
“classe média urbana é o principal modelo para as novas gerações”, assumindo-
-se esta “classe dos serviços” como um referente simbólico na percepção subjetiva
de vastos setores da classe trabalhadora, tendo por isso um efeito de atração que
a amplia para lá dos seus limites objetivos e do seu peso demográfico (Estanque
2012: 81-84).
Além disso, como defende o estudo de Alves at al. (2011: 36), existe em Portu-
gal uma associação particularmente forte “entre qualificação académica e enqua-
dramento ocupacional”, dando origem a uma forte hierarquização credencialista.
Esta ocorre, contudo, em um contexto em que o emprego disponível não absorve
as qualificações, fazendo com que uma parte da população mais credenciada só
tenha como oportunidade funções menos qualificadas, ocupando postos de tra-
balhos intermédios, o que funciona como forma de compressão salarial e pressão
sobre os que detêm qualificações intermédias, que ocupam postos desqualifica-
dos. Esta realidade pode gerar situações diferenciadas: adequação entre formação
e ocupação, mas com vínculo precário; inadequação entre a formação e a função
desempenhada, mesmo com vínculo adequado à profissão; e adequação entre for-
mação e posto de trabalho, mas com remuneração reduzida, com as consequências
que se imagina nas restantes esferas da vida. Estas descoincidências ajudam a ex-
plicar algumas das razões da revolta e das mobilizações de 2011.

2. Modalidades precárias de emprego como elemento estruturante


da condição juvenil

Estudos realizados no início da década de 2000 (Kóvacs, 2005) assinalavam a


existência no nosso país de um processo galopante de flexibilização (por vezes à
margem da regulação legal existente), que contrariava a retórica sobre a “rigidez”
do nosso enquadramento legal. Assim, em termos das formas contratuais, a si-
tuação portuguesa caracterizava-se por uma proporção de contratos de duração
temporária superior à média europeia, com uma tendência para a longa duração
(ou seja, para substituírem tarefas desempenhadas em permanência e por traba-
lhadores com vínculo estável); pelo recurso ao trabalho independente como forma
de externalizar certos postos de trabalho e de transferir os riscos para os traba-
lhadores (proliferando os chamados “falsos recibos verdes”); pelo aumento abaixo
da média europeia do trabalho a tempo parcial, provavelmente devido aos baixos
salários praticados no nosso país e à vantagem, para os empregadores, da flexibili-
zação e da redução de custos por via de contratos a termo, trabalho independente

131
CAPÍTULO 5

e trabalho temporário; e caracterizava-se, ainda, pelo peso (diferenciado conforme


as situações) das mulheres, dos jovens e dos menos qualificados nesta “via baixa”
da flexibilização.
Na última década, este processo acentuou-se e ganhou novos contornos. Em
2010, a contratação a termo atingia cerca de 23% dos trabalhadores, e 56% dos jo-
vens entre os 15 e os 24 anos (Eurostat, 2010). O trabalho temporário foi o que mais
cresceu nesse ano, com maior expressão nos trabalhos desqualificados, no setor
dos serviços e do comércio. De acordo com os dados do IEFP (2011), ele abrangia
280 mil trabalhadores em 2010, mas é provável que chegue hoje, na realidade, a
quase meio milhão de pessoas3, com a tendência de que este enquadramento vá se
expandindo à medida que os “falsos recibos verdes” vão recuando.
Por outro lado, o peso da economia informal e subterrânea e a persistência de
traços característicos dos regimes pré-fordistas de organização do trabalho não
são, em Portugal, um mero resquício do passado, mas um fator estrutural e estru-
turante das relações económicas e sociais, justamente responsáveis por uma parte
não negligenciável das situações de subemprego e de emprego desprotegido, sem
fatores de satisfação e reconhecimento ao nível do seu conteúdo (Pinto, 2005). Esta
desregulação de facto cria verdadeiras zonas francas do direito laboral, e é uma das
“patologias da democracia laboral” em Portugal (Ferreira, 2009).
Entre os jovens, a pluriatividade e o trabalho informal ou clandestino são um
fenómeno de larga escala (Guerreiro e Abrantes, 2007; Alves et al., 2011). São os
famosos “ganchos” e “biscates” (Pais, 2001). Um dado interessante do estudo de
Alves et al. (2011) é que as contratações irregulares são menos comuns no setor
da indústria, e é, entre os executantes de escolaridade superior, que se regista uma
maior disseminação de informalidade e trabalho independente, nomeadamen-
te em pequenas empresas e organizações ligadas ao setor social. A precarização
desenvolve-se assim, muitas vezes, por via da transgressão dos enquadramentos
legais (como no caso dos estágios e dos “recibos verdes”, que podem prolongar-se
por décadas), em um quadro social em que as condições de trabalho são já tradi-
cionalmente precárias e marcadas por inseguranças e ilegalidades várias, o que
tem um efeito direto na debilidade no acesso aos direitos associados ao trabalho e
na difusão do medo de os reivindicar.

3 Os números foram apresentados por Marcelino Pena Costa, presidente da Associação Por-
tuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego (APESPE), ao jornal SOL na sua edição
de 18 de fevereiro de 2011, e indicam que em 2010 haveria 400 mil trabalhadores temporá-
rios. O aumento face a 2009 é de mais 300 mil trabalhadores, referentes a ETT’s legais

132
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

3. Geração low cost: a precariedade como estratégia de redução


de custos

Se fizermos uma visita pelos sítios eletrónicos das Empresas de Trabalho Tem-
porário a operar em Portugal, verificamos como a questão da redução de custos
(para quem contrata) com o fator trabalho é uma das vantagens claramente enun-
ciadas por estas empresas. No sítio web da Multitempo4, por exemplo, explica-se
que o trabalho temporário oferece às empresas “as seguintes vantagens”: “ganhar
tempo e reduzir custos de seleção e recrutamento”, “reduzir custos na gestão e admi-
nistração do pessoal”, “assegurar o ritmo de trabalho e a continuidade da produção
da empresa” e “reduzir o absentismo e remunerar apenas o trabalho realizado”. Pre-
sume-se que a proteção social ou os direitos laborais são uma parte dessa remu-
neração do trabalho não realizado que se pretende suprimir. Na página online da
Randstadt, explica-se que a sua metodologia Inhouse “tem provas dadas em mais
de 40 países desde 1995 e visa uma investigação contínua, para minimizar o custo
com o trabalho e todos os seus custos indirectos associados”5. A empresa Atlanco6,
apresenta como “vantagens do trabalho temporário para as empresas utilizadoras”,
entre outras, a “transformação de custos fixos em custos variáveis” e a “redução de
riscos contratuais – profissional certo, no sítio certo, durante o tempo certo”.
O exemplo do trabalho temporário, uma das formas de emprego precário em
maior expansão, é apenas um entre outros. Modalidades contratuais como o part-
-time ou o falso trabalho autónomo traduzem-se, em muitos casos, em uma com-
pressão do nível de remuneração, que o coloca abaixo do salário mínimo nacional
e em recompensas salariais inferiores à média praticada para as mesmas inserções
ocupacionais com contratação regular. A multiplicação de baixos salários, de si-
tuações de estágios não remunerados e de formas de precariedade assistida pelo
Estado, entre formação e trabalho, permitem que se fale efetivamente em uma
“geração low cost” (Chauvel, 2008). Em Portugal, ela combina salários baixos – em
2011, mais de metade dos jovens empregados auferia um salário entre os 450 e os
600 euros, e mais de 2/3 dos jovens recebia menos de 750 euros (CIES/CGTP-IN,
2011: 9) – com escassa proteção social. Quando a canção dos Deolinda refere uma
“geração sem remuneração”, é provavelmente disto que fala. De facto, em Portu-
gal, cerca de 20% dos jovens vivem em risco de pobreza.

4 Cf. em www.multitempo.pt/QuemSomos/Solucoes.aspx
5 Cf em www.randstad.pt/pt-PT/Companies/Solutions/inhouseServices.aspx
6 Cf. em www.atlanco.pt/Clientes/TrabalhoTemporario.aspx

133
CAPÍTULO 5

4. Alongamento das transições juvenis, deslinearização, complexi-


ficação e a emergência da pós-adolescência

Para uma parte significativa dos jovens, em épocas anteriores, a transição para
a vida adulta fazia-se de uma forma linear, tendo como marcadores fundamentais
o emprego e a constituição de família. Para aqueles que podiam aceder a níveis
maiores de qualificação, a educação era entendida como uma etapa anterior à in-
serção no mundo do trabalho que garantia a ocupação de posições de relativa esta-
bilidade e remuneração. Hoje verificamos o estilhaçar dessa lógica de linearidade
e a sua substituição por permanentes “voos de borboleta” e movimentos de “iô-iô”
(para recorrer às expressões de Machado Pais), em que períodos de formação e
períodos de trabalho se alternam, em que se multiplicam percursos marcados pela
pluratividade e pela acumulação e fragmentação de estatutos, em que a correspon-
dência entre a formação adquirida e o emprego obtido deixa de ser evidente. A fase
de transição não só é múltipla, como se prolonga através da extensão de uma nova
fase de vida, a pós-adolescência.
Em Portugal, a inserção laboral dos jovens é longa, penosa e complexa. Inser-
ção profissional difícil, trabalho desqualificado apesar da subida das habilitações,
falta de correspondência entre qualificações e habilitações, precariedade e baixos
salários, eis o que a define. De acordo com um estudo realizado em 2011, os jovens
têm de esperar em média 20,4 meses desde que terminam a escolaridade até terem
o primeiro trabalho, com uma duração de pelo menos três meses7. (CIES e CGTP-
-IN, 2011: 7-10). O tempo de inserção para um emprego permanente é, em média,
de 10 anos desde a saída da escola.
Apesar de ter uma correspondência com os dados, a força da canção dos De-
olinda não estará tanto, provavelmente, no facto de identificar as dificuldades do
acesso ao trabalho, mas mais no modo como exprimiu as consequências dessa
precariedade laboral em termos de existência e de projeto de vida. Isto é, a forma
como deu voz a uma “geração casinha dos pais” que “está sempre a adiar” os seus
projetos. Na verdade, a inserção subalterna no mercado laboral compromete a au-
tonomia e exige disposições marcadas pela necessidade de adaptação permanente
e por um “novo contrato psicológico”, baseado em compromissos de curto prazo
(Lewis et al., 2002), que limita fortemente a emergência de preocupações coletivas
e de planos para além de um curto horizonte temporal.

7 No caso dos jovens com menos qualificações, esse período de espera alonga-se até aos 26
meses; no caso dos jovens licenciados, ele reduz-se aos 9,6 meses (CIES/CGTP, 2011).

134
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

5. Dependência da “família-providência”, adiamento da autono-


mização e endividamento

No contexto da complexificação das transições juvenis, assistimos a uma im-


portância crescente da família no apoio aos projetos de independência dos jovens.
Ao contrário do discurso liberal, que tende a ler a realidade através de uma guerra
de gerações, onde os supostos “direitos adquiridos” dos mais velhos seriam o fator
de bloqueio das oportunidades de emprego dos mais novos (foi esse o lema do con-
gresso da juventude partidária que apoia o atual governo das direitas), a realidade
é que as relações intergeracionais de dependência, com ou sem reciprocidade, são
uma característica das trajetórias dos jovens portugueses.
Como mostra um estudo recente da Eurostat (2010), Portugal é um dos países
onde a saída da casa dos pais se faz mais tardiamente – cerca de 60% dos jovens
adultos, entre os 18 e os 34 anos, vivem na casa dos seus pais, enquanto que nos
países nórdicos (Dinamarca, Suécia e Finlândia) essa percentagem fica pelos 20%.
Entre os fatores que explicam este adiamento, encontram-se a dificuldade de aces-
so à habitação, o desemprego e a precariedade e a necessidade de apoiar as suas
famílias. Por outro lado, como demonstra Alves et al. (2011), a dependência em
relação aos ascendentes mantém-se mesmo nas situações em que já existe autono-
mia residencial. Neste caso, o apoio ao nível de bens alimentares, das despesas re-
lacionadas com os filhos ou outras são essenciais. Em qualquer uma das situações,
as estratégias de autonomia diferem de acordo com variáveis estruturais, como o
género, a ocupação profissional e respectiva remuneração, os capitais escolares ou
a classe de origem. Os jovens mais qualificados têm posições de autonomia maior
e aqueles que são oriundos de famílias com maiores recursos encontram nos pais
a possibilidade de apoiar o processo de transição para a vida adulta, através do
pagamento de despesas como casa, carro ou propinas. Também ao nível do capital
social, as origens familiares podem fazer toda a diferença.
A “família-providência” assume, pois, um papel de relevo em Portugal, sobre-
tudo porque tem ajudado a suprir as carências do Estado Social. A grande questão
é, contudo, que esta começa também a ter dificuldades em cumprir essa tarefa,
com o agravamento da crise e com a aplicação em força das medidas de austeri-
dade e das receitas da Troika (FMI, BCE, UE) (Santos, 2011: 76-77). Um elemento
que revela esta dificuldade, para alguns setores das chamadas “classes médias”,
são os processos de pauperização e de sobre-endividamento (Estanque, 2012: 73).
Este endividamento, aliás, atinge também um número crescente de jovens através
do sistema de empréstimos a estudantes para pagarem a formação superior que
frequentam. De acordo com o Ministério da Educação e da Ciência, em 2012, são

135
CAPÍTULO 5

mais de 16 mil os estudantes que já recorreram a este sistema, devendo cerca de


200 milhões de euros à banca e estando alguns sinalizados como incumpridores
na lista do Banco de Portugal, o que compromete ainda mais a sua autonomia
financeira, logo no momento inicial da sua vida ativa.

6. A marca das desigualdades: as várias juventudes

O alongamento e complexificação dos processos de transição para a vida


adulta dependem em grande medida das origens sociais, do género e dos capitais
(sociais, económicos, culturais) que são acumulados pelos jovens. Há transições
para o mercado de trabalho marcadamente divergentes. Para usar a tipologia de
Guerreiro e Abrantes (2007), há que distinguir transições profissionais, lúdicas,
experimentais, progressivas, antecipadas, precárias e desestruturantes. Entre o
pólo dos jovens altamente qualificados dos setores de ponta com maior cresci-
mento económico e os que acumulam fatores de discriminação, há um mundo de
diferenças, estando estes últimos, muitas vezes, marcados por percursos altamente
desqualificantes (nomeadamente na escola) e, por isso mesmo, condenados a um
processo de relegação estrutural e de invalidação irreversível, que os afasta do con-
tacto com o mundo do trabalho formal ou do trabalho com direitos, e os empurra
para a busca de “alternativas ao trabalho”, designadamente na economia informal
ou em expedientes ligados a atividades ilícitas (Castel, 2009).
Como enfatiza o estudo do Observatório das Desigualdades (Alves et al.,
2011), é importante contrariar a ideia de qualquer homogeneidade ao nível das
transições precárias. Sem negar que haja alguns elementos de tipicidade juvenil (e
eles existem!), a pesquisa permite perceber que, ao nível das inserções laborais, das
estratégias mobilizadas, das trajetórias familiares e de pares, dos rendimentos, dos
graus de autonomia (nomeadamente residencial e financeira) e do modo como se
projetam os futuros laborais, as diferentes categorias de jovens vivem a precarie-
dade e a transição para a vida adulta de forma muito diversa. Escolaridade cur-
ta, cursos desvalorizados e pouco capital social formam o triângulo que garante
percursos precários. A reprodução geracional do volume de qualificações é ainda
uma tendência forte em Portugal, mesmo com as dinâmicas de escolarização que
têm existido. A estacionariedade ao nível das trajetórias escolares e sociais não
desapareceu. E a rede de relações sociais é um elemento fundamental de acesso às
oportunidades de emprego.
No contexto da crise, o grupo que mais sofreu os impactos em termos de de-
semprego foi o dos jovens com menos habilitações, ainda que a taxa de desempre-
gados licenciados tenha duplicado – 7,4% em 2000, 13,5% em 2008 (CIES CGTP,

136
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

2011: 14). Uma das explicações para o desemprego dos jovens licenciados relacio-
na-se com o efeito combinado de um mercado de trabalho com poucos empregos
qualificados, do estancamento das admissões na Administração Pública (tradicio-
nalmente, o maior empregador de pessoas com ensino superior) e dificuldades as-
sociadas a algumas áreas de formação em particular (nomeadamente nas ciências
empresariais e humanidades).

7. Aumento da escolaridade, desvalorização relativa dos diplomas


e desclassificação

Se seria eventualmente expectável que, dotados de maiores qualificações, os


jovens pudessem estar menos expostos ao desemprego que os mais velhos (a per-
centagem dos jovens em idade de frequentar o ensino superior e que estavam neste
nível de ensino era de 30,6% no ano 2009/2010), a realidade revela-nos o contrário.
O desemprego entre os jovens é mais que o dobro da taxa de desemprego geral (é
de 35,4% para os menores de 25 anos em 2012) e não existe uma tendência de apro-
ximação entre as duas taxas. Os jovens são, além disso, pela sua inserção precária
no trabalho, mais vulneráveis ao ciclo económico. Na realidade, o desemprego de
longa duração está a aumentar mais entre os jovens: na faixa etária entre os 25 e
os 34 anos, mais de metade dos desempregados está sem trabalho há mais de um
ano (CIES ISCTE/CGTP, 2011). Por outro lado, estão menos protegidos quando
ficam sem trabalho – vínculos precários, situações de trabalho informal, “falsos
recibos verdes” e carreiras contributivas curtas bloqueiam o acesso ao subsídio de
desemprego.
Os jovens são hoje vítimas de uma dupla desclassificação (Chauvel, 2008).
Desclassificação do emprego, entendida como a ocupação de um emprego com
uma remuneração inferior à que seria expectável dado o seu diploma escolar. E
desclassificação salarial, entendida como a quebra da remuneração dentro de uma
mesma profissão ao longo dos anos (devido à restrição dos aumentos salariais nas
últimas décadas e à perda efetiva de poder de compra). Desclassificação objetiva
(quando os jovens ocupam posições sociais consideradas inferiores às dos seus
pais) e subjetiva (posições inferiores às expectativas decorrentes das que os seus
estudos permitiriam almejar). Ora, estas desclassificações têm gerado uma desi-
lusão dupla, face ao incumprimento das promessas quer do mundo de trabalho,
quer da escola.
Estas desilusões são enfrentadas pelos jovens com estratégias opostas: ou a
acumulação de diplomas, na esperança de que eles invertam o processo de des-
classificação (“estudar para escapar a ser escravo”, para utilizar os termos da mú-

137
CAPÍTULO 5

sica dos Deolinda) ou a descrença total, mais ou menos profunda, no sistema de


formação (“se serei escravo de qualquer forma, para quê estudar?”) (Dubet, 2008:
353). Esta desclassificação significa também um importante pano de fundo para a
emergência do protesto e para que se tornem catalisadores do descontentamento
de outros setores sociais. Como argumenta François Dubet (2008: 374), “por falta
de perspectivas de futuro, as jovens gerações têm uma visão do mundo que se
aproxima da das classes dominadas”.

8. O futuro como ameaça: ressentimento, imobilismo e ação coletiva

Através de tudo o que foi dito, pressente-se o paradoxo. A situação da juven-


tude, frequentemente considerada pelos discursos oficiais como “o futuro”, é mar-
cada afinal pela erosão da ideia de futuro enquanto direção para o progresso. Na
verdade, e apesar das qualificações, os diplomas e a escolarização não garantem
hoje o acesso à “classe média”, com que a maioria parece querer identificar-se, e à
condições de vida melhores do que tinham as classes populares no anterior regi-
me do capitalismo. Louis Chauvel (2008) descreve o fenómeno em termos de uma
“avaria prolongada do elevador social”, para reiterar que esta é a primeira geração
que viverá pior que os seus pais. Elísio Estanque (2012: 53) sugere a metáfora de
uma escada rolante que estivesse a descer à medida que as pessoas vão subindo os
degraus: ao esforço de subir corresponde afinal uma realidade estacionária ou até
de mobilidade descendente.
A questão da imprevisibilidade do futuro funciona como um peso sobre o
presente: ela pode corroer o quotidiano, conduzir ao esgotamento emocional, con-
sumir o dia a dia. É porventura em relação ao futuro que se verificam as maiores
disparidades. Ele pode ser para alguns jovens, “um horizonte fechado a partir do
qual não conseguem perspectivar um caminho ou possibilidades alternativas”, ou
pode ser, para outros, “um campo mais ou menos viável e realizável de oportu-
nidades” (Alves et al., 2011: 101). Entre o investimento na aquisição de novos re-
cursos com vista a uma melhoria da situação, que pressupõe que se concebe um
futuro diferente em função de uma ação estrategicamente orientada, e projeções
orientadas para a imobilidade e marcadas pelo sentimento de impotência, vai uma
diferença que transporta a marca das desigualdades. Género, origem de classe,
acumulação dos diferentes volumes de capitais, entre outros fatores, condicionam
indelevelmente as trajetórias e as expectativas das diferentes juventudes.
A ameaça permanente do desemprego e uma relação com o mercado de trabalho
marcada pela insegurança, pela intermitência, pela descontinuidade e pela transito-
riedade significa também, que mais dificilmente se estruturam identidades estáveis

138
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

a partir do local de trabalho e que muitas vezes se desenvolve um individualismo


de resignação mais ou menos ressentido (Estanque, 2005). A precariedade é um
dos fatores que explica o recuo das taxas de participação (nomeadamente sindical),
em particular entre os jovens, e, por isso mesmo, ela constitui um desafio efetivo
às formas de ação e organização tradicionais dos trabalhadores. A fragmentação no
mundo produtivo e a cultura do individualismo é, muitas vezes, hostil à militância,
sobretudo nos contextos em que o envolvimento ou a adesão a um coletivo marca e
“estigmatiza” um indivíduo, reduz o seu campo de possíveis, afeta a sua identidade e
nos casos em que existem desajustamentos entre a esfera militante e a esfera profis-
sional, amical e familiar (Sawicki e Siméant, 2009: 105). A ideia de que o futuro não
pode ser determinado pela nossa ação pode levar também a que os jovens invistam
tudo no presente, em uma versão mais resignada e imobilista ou mais celebratória e
hedonista. Esta permanente expansão do presente como o único tempo possível tem
também consequências fortes ao nível do que se concebe ser a ação política.

9. A explosão expressiva: internet e redes sociais

A cultura audiovisual é hoje dominante entre os jovens e o ciberespaço trouxe


mudanças importantes na difusão do acesso aos bens culturais, na subjetivida-
de, na forma lúdica e irónica de olhar os acontecimentos, na predisposição para a
auto-organização e para a partilha cooperativa.
Como defende Dagnaud (2011: 160-167), do ponto de vista da economia, a
disseminação do acesso à internet conjugou-se com o aumento da escolaridade e
com a falta de dinheiro de uma parte destes jovens, promovendo modos de con-
sumo cultural desmaterializados, low cost e, sobretudo, gratuitos, em uma lógica
peer-to-peer. Do ponto de vista dos valores e da sociabilidade, as redes sociais têm
sido um poderoso instrumento dessa cultura de partilha. A explosão expressiva
que elas proporcionam conduz ainda ao aprofundamento da construção reflexiva
de si, em uma lógica em que a identidade se vai forjando a partir de uma obsessão
do espelho virtual, dos grupos de afinidade, em que a exposição pública da vida
privada, de sentimentos e opiniões, surge como elemento central de elaboração da
imagem de si. Quando foram associadas a um contexto de ceticismo em relação à
política institucional e a certo pessimismo social, a net e as redes sociais fizeram
emergir um olhar irónico sobre o mundo e sobre os poderes – o “espírito LOL” de
que fala Dagaud – feito de apropriações subversivas ou comentários humorísticos
das imagens, dos sons e dos símbolos dominantes. Do ponto de vista das cultu-
ras de organização, os ideais da net fomentam a afirmação radical da liberdade
de expressão, a troca convivial, a reciprocidade criativa, a lógica da gratuitidade,

139
CAPÍTULO 5

ainda que saibamos que qualquer um destes suportes é, simultaneamente, para as


empresas que os criaram e gerem um gigantesco negócio.
É também neste contexto de investimento em si e no presente que deve compre-
ender-se a importância que a internet ganhou no atual contexto de mobilizações.
Ao oferecer um instrumento leve, rápido e internacionalizado de comunicação
multidirecional, o ciberespaço ganhou uma centralidade forte na cultura juvenil
e, portanto, nas suas formas de envolvimento, consumo, mobilização e ativismo.

IV. As origens da indignação e os movimentos de jovens pre-


cários que estavam no terreno

Nas mobilizações de 2011, muitos jovens, alguns dos quais nunca conheceram
se não a crise e despertaram agora para a participação e o protesto, juntaram-se
em uma mesma dinâmica de contestação com ativistas de organizações políticas,
de movimentos sociais e de coletivos que se vêm formando nos últimos anos em
torno de questões como o combate à precariedade laboral, a defesa da democracia
participativa e a luta contra as discriminações.
No que diz respeito ao 15M espanhol, Carlos Taibo (2011: 19-44) identifica vários
fatores desta mobilização. O exemplo da Primavera Árabe, com o seu poder simbóli-
co, a reabilitação da palavra democracia e a demonstração de que era possível ganhar,
mesmo em condições adversas. Os acontecimentos em Portugal e na Grécia (contra a
austeridade) ou, em outro contexto, na Islândia. A crise geral instalada, com corrup-
ção, rotativismo político, benefício para a banca e o setor financeiro, cortes sociais,
desemprego, degradação das condições de vida e empobrecimento da classe média.
A situação nas universidades e o crescente recurso ao endividamento. O trabalho de
anos de movimentos sociais alternativos, nos quais se inclui a galáxia de movimentos
anticapitalistas e libertários (feministas, ecologistas, centros sociais ocupados, sindi-
catos alternativos, etc), mas também as experiências como a da plataforma Nunca
Mais na Galiza (contra o desastre do petroleiro Prestige), os movimentos contra Bo-
lonha no ensino superior, os movimentos contra os despejos e pelo direito à habitação
ou o movimento Juventud Sin Futuro, que convocou para Madrid a primeira mani-
festação da “geração dada como perdida pelas elites políticas e económicas”, antes do
15M, a 7 de abril de 2011 (cf. AAVV, 2011).
Em Portugal, a explosão de 2011 também não pode ser analisada sem determos
a nossa atenção – ainda que brevemente – nos movimentos que desde há alguns anos
vêm intervindo em torno destas causas e que, neste ciclo de protesto, foram uma com-
ponente importante das mobilizações. Vale a pena uma breve referência à sua história.

140
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

O primeiro destes novos coletivos de jovens trabalhadores precários de que há


registo data de 2002. O seu nome era Stop Precariedade e hoje já não existe. A sua
principal ação foi a organização de uma greve no call-center da Portugal Telecom,
em Lisboa, que teve uma adesão de 90% no back-office e de 50% no front-office.
Em 2003 forma-se a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica
(ABIC), que é, dentro desta constelação, o grupo mais formalizado e que, desde en-
tão, vem intervindo sobre o estatuto do bolseiro de investigação científica, exigindo
contratos de trabalho, quer por via de reuniões com os responsáveis da tutela, quer
através de ações como manifestações de bolseiros, fotografias como forma de pro-
testo, a pedalada pela ciência (percurso pelo país em bicicleta) ou petições públicas.
Em 2006 nasce a Plataforma dos Intermitentes do Espetáculo e do Audiovisu-
al, que pretende organizar o setor dos artistas violentamente afetado pelo fenóme-
no dos “falsos recibos verdes”, que promoveu o Dia de Sensibilização para a Inter-
mitência (com leitura de um comunicado pelos artistas e outros profissionais antes
dos espetáculos), participou no processo de elaboração da lei que define o regime
de contrato de trabalho destes profissionais, tem cooperado com outros grupos
em iniciativas alargadas (seja ações de rua, seja protestos simbólicos, seja petições
públicas como a campanha “Antes da Dívida Temos Direitos”) e que recentemente
lançou o processo de formação de um novo sindicato, o CENA.
Em 2007 nasce no Porto o FERVE – Fartos d’Estes Recibos Verdes, um grupo
que se estruturou em torno de um blog, que teve um extraordinário impacto me-
diático através da divulgação de testemunhos, denúncias à comunicação social e
à Autoridade para as Condições de Trabalho e que foi um dos organizadores das
manifestações do MayDay, tendo participado desde aí em várias campanhas com
outros movimentos, tendo editado um livro com reflexões e testemunhos de pre-
cariedade, e sendo chamado ao Parlamento pela Comissão do Trabalho durante a
consulta pública relativamente ao Código Contributivo.
No mesmo ano de 2007, na sequência do primeiro MayDay, em Lisboa, apare-
cem os Precários Inflexíveis, que é hoje o maior e o mais estruturado destes grupos
e que tem se destacado pelas suas ações de rua, pelas invasões de centros comer-
ciais e call-centers que promoveu, pela continuidade da sua intervenção pública,
pela capacidade de articulação com a CGTP e outros movimentos e por iniciativas
como os Prémios da Precariedade8 ou campanhas como as Autarquias sem Precá-
rios9, para além das que surgiram na sequência do 12 de março.

8 Cf. em http://www.premiosprecariedade.net/
9 http://www.premiosprecariedade.net/autsp/

141
CAPÍTULO 5

Em 2009 nascem dois grupos de professores das Áreas de Enriquecimento


Curricular, em Lisboa e no Porto, que animaram blogs com denúncias sobre os
abusos de que são vítimas e fizeram uma petição que chegou à Assembleia da
República nesse ano. Em 2010 surge, por fim, a Maldita Arquitetura, um coletivo
que pretende intervir sobre a organização da profissão da arquitetura em Portugal,
“nomeadamente junto dos órgãos de soberania e da ordem dos arquitectos”.
Estes movimentos, na sua diversidade, têm trazido contributos muito impor-
tantes para pensar a questão da precariedade e das modalidades de ação coletiva
que em torno dela podem surgir. Como defendi em outro lugar, eles conseguiram
criar uma identificação identitária em torno da condição de precariedade e estru-
turar a partir dela comunidades militantes. Ao fazê-lo, colocaram com sucesso a
questão da precariedade na agenda mediática e política, constituindo-se em mui-
tos casos como interlocutores do “precariado” para a sociedade. A composição
social destes coletivos é a inversa da do movimento sindical (mais jovens, muito
escolarizados, maior presença de mulheres), e a lógica do polienvolvimento que
caracteriza os seus protagonistas construiu uma relação com o movimento sin-
dical que é relevante, mesmo quando é de cooperação tensa e atravessada pelas
diferenças de linguagem, de hegemonia política ou de culturas de classe.
A análise das suas modalidades de ação mostra que a comunicação, a produção
de conteúdos multimédia (alguns com efeito viral) e o recurso às novas tecnologias
são absolutamente centrais. A utilização criativa do ciberespaço permitiu ampli-
ficar a sua mensagem, criar rede, utilizar o espaço virtual como lugar de encontro
e aglutinação, em particular nos contextos em que isso é difícil no espaço físico.
Mas a rua e as instituições não são ignoradas. Na realidade, estes grupos parecem
caracterizar-se por uma espécie de radicalismo pragmático: lutas concretas, radi-
calismo discursivo, meios de ação preferencialmente transgressivos, articulação
entre a temporalidade da urgência e a das transformações estruturais, combinação
de formas mais institucionais de luta política (a petição, a manifestação de rua)
com formas mais criativas e transgressivas de ação (invasão de call-centers, inter-
rupções de reuniões das associações patronais, stencil em locais de precariedade,
etc). Por isso mesmo, as novas tecnologias têm servido para a disputa online da in-
formação e das leituras da realidade, mas a mobilização também se faz offline. Um
bom exemplo é a Iniciativa Legislativa Cidadã10 pela “Lei Contra a Precariedade”,
surgida na sequência do 12 de março, para a qual os seus promotores recolheram
presencialmente mais de 35 mil assinaturas. Iniciativa semelhante, embora me-
nos extensa, tinha já acontecido a propósito da petição “Antes da Dívida temos
Direitos”10, que gerou uma campanha muito para além da internet.

10 Cf. em www.antesdadividatemosdireitos.org

142
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

A Geração à Rasca e as mobilizações de 2011, como a que teve expressão no 15


de outubro, trouxeram, contudo, um novo elemento e criaram um novo pólo de
organização do protesto, no qual estes movimentos haveriam de integrar-se. É im-
portante perceber, a este nível, as diferenças entre a manifestação do 12 de março,
o M12M que se lhe seguiu, as acampadas, a plataforma 15 de outubro e a recente
iniciativa da Primavera Global.
O 12 de março correspondeu a uma gigantesca manifestação, onde convergi-
ram a juventude atingida pela precarização, as gerações mais velhas também pre-
cárias ou solidárias, setores organizados da esquerda anticapitalista (como o Bloco
de Esquerda), de movimentos sociais (feministas, LGBT, entre outros), alguns se-
tores da direita (como a JSD), e onde marcaram também presença, por exemplo,
o líder à época da maior central sindical portuguesa (CGTP), Carvalho da Silva, e
até alguns elementos de extrema-direita. Essa amplitude na rua não significa que a
convocatória do protesto não tivesse contornos definidos ou que os seus organiza-
dores – os quatro jovens que criaram o evento no Facebook – não tenham insistido
nessas características, a saber: uma manifestação democrática, “laica, apartidária
e pacífica”, centrada em torno da exigência de maior transparência e de respostas
contra o desemprego e a precariedade da juventude, rejeitando apropriações, com-
batendo o discurso antissindical ou a narrativa liberal da “guerra de gerações”.
As acampadas, por seu lado, não tiveram, em Portugal, uma expressão forte. A
acampada do Rossio, em Lisboa, começou no dia 20 de maio e contou, nessa noite,
com 37 pessoas que dormiram na praça. Durou apenas 12 dias e nunca atingiu
uma dimensão sequer próxima da que teve o fenómeno no estado espanhol. Em
10 de julho, elementos das acampadas promoveram uma reunião internacional em
Lisboa, que juntou 130 ativistas e cujo principal resultado prático foi a convocação
da jornada de 15 de outubro.
O 15 de outubro beneficiou não apenas da sua dimensão de convocatória in-
ternacional, mas ainda de outros dois fatores. Por um lado o anúncio, feito pelo
primeiro ministro nas vésperas da manifestação, de um novo programa de auste-
ridade que implicava o corte do subsídio de férias e de Natal (isto é, na prática, de
dois salários). Por outro, da visibilidade e do novo fôlego trazido pelo movimento
Occupy Wall Street, que tivera início em meados de setembro no coração do bairro
financeiro de Nova Iorque, um dos centros nevrálgicos do sistema capitalista glo-
bal, e que adotou essa data como sua também. Com uma convocatória mais defini-
da politicamente e com maior presença de setores politicamente organizados, não
teve em Portugal o mesmo impacto do 12 de março, mas foi ainda assim uma das
maiores mobilizações de 2011, com a particularidade de ter acontecido em várias
cidades do mundo.

143
CAPÍTULO 5

Como salienta Boaventura Sousa Santos (2011:106), estes fenómenos eviden-


ciaram que “as formas de organização de interesses nas sociedades contemporâ-
neas (partidos, sindicatos, movimentos sociais, ONGs) não captam senão uma
pequena faixa da cidadania potencialmente ativa” e inauguraram, por isso, um
novo pólo de contestação, cuja próxima data se projeta ser o 12 de maio, também
chamado de “Primavera Global”.

V. Do Occupy à Greve Geral: debates estratégicos

A propósito do impacto do Occupy, o conhecido realizador e documentarista


norteamericano Michael Moore considerava que a primeira vitória destes movi-
mentos foi o facto de terem exposto a fragilidade do sistema e dado voz às suas
vítimas. Na verdade, não será por acaso que, em qualquer um dos países de que
vimos falando (Portugal, EUA, Espanha), estudos de opinião sobre estas mobi-
lizações (Geração à Rasca, Occupy, 15M) indicam que a simpatia e o apoio dos
cidadãos às suas causas se cifra entre os 60% e os 75%11. De certo modo, eles não só
articularam os problemas de uma maioria que sofre as consequências desta crise,
como passaram a condicionar os temas do próprio debate público. A questão da
precariedade (central no caso português), da reforma do sistema político (que teve
particular relevância no exemplo espanhol) e das desigualdades e regulação do
sistema financeiro (que se destacou nos EUA) tornaram-se temas a que os agen-
tes políticos tiveram de responder, ainda que muitas vezes de forma contraditória
com aquela articulada pelos movimentos.
A hipótese da existência, em Espanha, de “duas almas” do movimento pode-
ria ser adaptada para o caso português ou para o exemplo do Occupy? De certo
modo, os “jovens indignados” tiveram o talento tático de dar forma a um descon-
tentamento geral e de aproveitar o instante propício para transformá-lo em acon-
tecimentos (praças ocupadas, marchas, assembleias com grupos de trabalho). Os
militantes dos movimentos e das organizações trouxeram a experiência política
e o saber organizativo que foi útil para a continuidade e a expressão do protesto.
Sendo necessário evitar caricaturas, e salientando que na realidade concreta es-
tas duas categorias são porosas e por vezes sobrepostas, é verdade que em Espa-
nha houve diferenças de agenda entre os “jovens indignados” e os “movimentos
sociais alternativos”. Os primeiros foram portadores do que Taibo (2011) apelida
de “agenda cidadanista”, centrada nas reivindicações relativas ao sistema político

11 Michael Moore interveio no Left Forum, decorrido entre 16 e 18 de março de 2012 em Nova
Iorque, onde apresentou este ponto de vista.

144
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

(combate à corrupção, transparência, democracia participativa, quando não de-


riva para abordagens mais judicialistas) e aos direitos ao trabalho, preocupando-
-se com as propostas concretas (como as que saíram da Porta do Sol) dirigidas a
entidades externas (o Estado, as instituições e os seus responsáveis). Os segundos
tiveram um perfil de proposta mais afirmadamente anticapitalista e totalizante,
em uma lógica de contestação geral do sistema e em que a luta de classes se articula
com as agendas ecologistas e feministas. Em Portugal, talvez uma distinção possa
ser feita entre a dinâmica mais “cidadanista” do 12 de março e o perfil mais “anti-
capitalista” do dia 15 de outubro, sendo que entre um e outro houve campanhas e
convergências como a da Iniciativa Legislativa de Cidadãos, que juntou o M12M e
grupos da Geração à Rasca com os principais movimentos de jovens trabalhadores
precários.
Se estas mobilizações foram o batismo cidadão de muitos jovens e se a eles se
juntaram também ativistas que já estavam no terreno, isso não quer dizer que não
existam, no seu seio, correntes, disputas e debates estratégicos importantes. No
momento em que este texto é produzido, os contornos dessa discussão ainda estão
em definição. Não pretendo, pois, assumir nenhuma condição particular de exte-
rioridade ou omnisciência em relação aos seus termos. Ainda assim, creio ser útil
tentar esboçar, de forma provisória e parcial, as tensões de alguns desses debates,
a partir dos três exemplos de que vimos falando.

1. O “nós” e o “eles”: contra os bancos, as empresas ou os políticos?

A identificação de um sujeito coletivo, a partir do qual se constrói uma iden-


tidade de luta, é essencial para qualquer movimento e implica um exercício re-
lacional. As fronteiras do “nós” definem também a quem nos referimos quando
dizemos “eles”, aqueles contra quem lutamos. Por isso mesmo, analisar como cada
um dos manifestos fundadores destes movimentos – no caso, Geração à Rasca,
Democracia Real Ya! e Occupy Wall Street – define o “nós” e o “eles” revela o
modo como cada um representa a realidade social, as suas clivagens e os conflitos
existentes.
No caso português, o “nós” é descrito essencialmente a partir da condição de
precariedade laboral, nas diversas modalidades que ela assume: “nós, desempre-
gados, quinhentoseuristas e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcon-
tratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores
intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães,
pais e filhos de Portugal”. A responsabilidade pela situação contra a qual se luta é
de “políticos, empregadores e nós mesmos”.

145
CAPÍTULO 5

O manifesto da Democracia Real Ya!, que convocou os protestos de maio no


Estado espanhol, define um nós amplo, cuja fronteira se faz essencialmente pela
condição de estudante ou trabalhador (com ou sem emprego), recusando explicita-
mente quaisquer contornos geracionais ou ideológicos: “pessoas normais (...) gente
que se levanta de manhã para estudar, para trabalhar ou para procurar trabalho,
gente que tem família e amigos. Gente que trabalha duro todos os dias para viver e
dar um futuro melhor aos que nos rodeiam. Uns consideramo-nos mais progressis-
tas, outros mais conservadores. Uns crentes, outros não. Uns temos ideologias bem
definidas, outros consideramo-nos apolíticos… Mas todos estamos preocupados e
indignados com o panorama político, económico e social que vemos à nossa volta”.
Este “nós” opõe-se à “corrupção dos políticos, empresários, banqueiros”.
No exemplo de Nova Iorque, o “nós” é definido simplesmente como o povo:
“as one people, united, we acknowledge the reality”. O “eles” a quem se atribui a
responsabilidade ativa desta situação não inclui, neste caso, nem o “nós mesmos”
português nem os “políticos” mencionados, quer em Portugal quer em Espanha.
É um “eles” associado a todas as entidades que produzem as desigualdades, mas
concretamente identificado com as empresas e o poder econômico, que controla
todos os aspetos da economia e da política: “we come to you at a time when corpo-
rations, which place profit over people, self-interest over justice, and oppression over
equality, run our governments”. Trata-se do 1% contra os 99%.
A definição de quem “é” o movimento e a quem se opõe é uma questão políti-
ca e estratégica muito relevante, porque dela derivam caminhos e escolhas diferen-
tes. A responsabilidade reside essencialmente nos “banqueiros” e nas “empresas”?
Nos “políticos corruptos”? Nos “políticos” em geral? Tudo isso são categorias que
possam equivaler-se em termos de responsabilidades? Dito de outra forma, a ten-
são está em saber se o alvo é a democracia representativa e as suas deficiências, o
capitalismo e a lógica de desigualdade e exclusão que necessariamente provoca, ou
se o alvo é a articulação entre um problema e outro.
Uma resposta centrada na responsabilização do sistema económico e finan-
ceiro mais facilmente dá origem a uma estratégia anticapitalista ou, eventualmen-
te, de regulação. Uma resposta centrada nos “políticos corruptos” facilmente cede
lugar a uma estratégia de ordem ética e moral: “é necessária uma Revolução Ética”,
diz o último parágrafo do manifesto espanhol. Uma resposta centrada nos “polí-
ticos” em geral facilmente escorrega para as diferentes formas de populismo, seja
de orientação mais basista e acrata, mais tecnocrata e liberal ou mais autoritária e
antidemocrática.
Na Geração à Rasca parecem ter preponderado as questões do trabalho, mas
com uma presença forte, entre os manifestantes, do discurso contra “os políticos”

146
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

e, em particular, contra o governo de então, liderado por José Sócrates. Isso pode
explicar a facilidade com que, quando perceberam que a dinâmica da manifesta-
ção era imparável, setores liberais (que incluíram o Presidente da República ou a
JSD) se tenham tentado associar ao protesto, mesmo que, do ponto de vista da eco-
nomia e do trabalho, não tivessem nenhuma identificação com os termos do ma-
nifesto. Em uma análise das folhas entregues pelos manifestantes no Parlamento
(cada pessoa foi convidada pelos organizadores a levar uma folha consigo, onde
escrevesse um problema e uma solução), verifica-se que 57% das folhas reclama-
vam contra a precariedade, as questões do emprego, do desemprego e os salários,
enquanto 28% dirigiam as suas criticas à corrupção e ao sistema político12.
Apesar do manifesto espanhol ser amplo e articular a crítica ao bipartidarismo,
com a defesa dos direitos sociais e económicos, a verdade é que, do ponto de vista
mediático, parece ter sido dado particular destaque a um manifesto, da autoria de
um dos grupos de trabalhos da Porta do Sol – o da “política de curto prazo” – cujas
exigências foram resumidas em quatro pontos: reforma do sistema eleitoral, luta
contra a corrupção, melhorias em termos da divisão e independência dos poderes e
controlo sobre os responsáveis políticos. Em termos de palavras de ordem, contudo,
o 15M teve uma presença forte de slogans não apenas contra os dois partidos do po-
der (“pésoe, pépe la misma mierda es!”), mas também contra banqueiros, empresá-
rios e até sindicatos maioritários, considerados cúmplices de algumas das reformas
laborais em curso (“donde estan, no se ven, comisiones e ugeté”).
No caso do Occupy, o alvo principal foi Wall Street, como símbolo do sistema
financeiro dominante e do modo como sequestrou o conjunto dos direitos sociais
e o governo. O facto do manifesto enumerar aquilo que “eles” fizeram permitiu
também que, na presente fase, o movimento se tenha multiplicado em iniciativas
sobre cada uma das instâncias onde essa desigualdade se produz, sejam empresas
que promovem o desemprego, bancos que despejam pessoas das suas casas, uni-
versidades que endividam estudantes, empresas que impedem genéricos ou censu-
ram conteúdos, ou o complexo industrial-militar (Butler, 2012: 11).

2. Ninguém nos representa? Porta-vozes, delegação e horizontalismo

No dia 17 de março de 2012 fez seis meses que o movimento Occupy nasceu em
Zucotti Park. Nesse fim de semana, voltou-se à praça, desocupada desde novembro.
Festejou-se, debateu-se, cantou-se. Mas as regras tinham mudado: na praça, que é
propriedade privada, foi afixada uma placa de metal a dizer que é expressamen-

12 Cf. em http://12mporto.files.wordpress.com/2011/03/temas.png.

147
CAPÍTULO 5

te proibido levar sacos-cama, tendas ou sentar-se no chão. A polícia não hesitou.


Quando os primeiros ocupantes começaram a abrir as mantas, evacuou a praça de
forma violenta e cercou-a de grades. Setenta pessoas foram presas. No dia seguinte,
fez-se uma assembleia no Left Forum, com o tradicional microfone humano. Para
confirmar que estava tudo no mesmo espírito, a rapariga que toma a palavra per-
guntou: “quem é que é o porta-voz aqui?”. Toda a gente levantou o braço.
Este pequeno episódio pode resumir uma das questões importantes do movi-
mento, que é a defesa do “horizontalismo” e a rejeição de encontrar porta-vozes ou
“líderes”. A crítica à delegação como forma de desapossamento e a defesa de que
“ninguém fala em nome de ninguém” têm subjacente uma vontade de evitar as
hierarquias e as relações de dominação, que se consideram ser características das
estruturas políticas tradicionais, nomeadamente partidos, associações e sindicatos.
A esta questão associa-se também a defesa, em acampadas e assembleias, da
decisão por consenso, que é uma polémica permanente. Taibo (2011), por exemplo,
defende que se utilize no 15M, contra o “consenso por unanimidade”, o “consen-
so por maioria”. A expressão é curiosa e contraditória, mas traduz a ideia de que
deve poder-se aprovar propostas sem que haja unanimidade, mas tendo sempre
a preocupação de desenvolver um processo de debate e de afinamento, que seja
intenso e inclusivo e que faça com que o máximo número de pessoas possível se
reconheça nas propostas que acabam por ser adotadas. Esta proposta de compro-
misso entre decisão por consenso e por maioria, ao mesmo tempo que reconhece
os problemas da pura imposição da vontade da maioria, parte da constatação de
que a exigência de unanimidade pode colocar os processos vulneráveis ao boicote
ou à má-vontade, e acabam por só permitir aprovar propostas que não suscitem o
mínimo de controvérsia, o que pode paralisar o movimento.
Qualquer uma destas questões é problemática. Por um lado, há muitas vezes
uma visão ingénua sobre o “horizontalismo”, que ignora as relações e estruturas
de poder que a informalidade estimula e os bloqueios que cria. No fundo, trata-se
daquilo que a feminista Jo Freeman definiu na década de 1970, como a “tirania da
ausência de estrutura”, analisando como um método de decisão, que tinha sido
útil em uma fase inicial do movimento feminista, havia se tornado um dogma
que bloqueava o seu desenvolvimento. Por outro lado, existe não raro uma con-
fusão entre representação e delegação, utilizando a crítica à segunda para rejeitar
a primeira, quando o próprio ato de escrita de um manifesto que identifica um
sujeito coletivo (“nós, o Povo”, “nós, cidadãos normais”, “nós, os 99%”, “nós, jovens
precários”) é, em si mesmo, uma forma de representação de um grupo, de uma
comunidade imaginada, e nenhum movimento existe sem essa operação básica de
mediação entre a existência individual e a articulação de sujeitos coletivos.

148
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

A questão passa, cremos, por saber como conceber uma intervenção no campo
político que não seja domesticada, que vá para além da celebração da comunhão e
que não caia na armadilha daquilo a que Daniel Bensaïd (2010) chamava de “ilusão
social”. Tal como a “ilusão política” – criticada por Marx – consistia em considerar
que os direitos civis bastavam para conseguir a emancipação da humanidade, essa
“ilusão social” corresponde à ideia da autossuficiência dos movimentos, fazendo o
“eclipse da razão estratégica”, dissolvendo o político no social e evitando a discus-
são sobre as diferentes escolhas estratégicas que estão em jogo.

3. “Não se apaixonem por vocês próprios”

A experiência da vida nas praças marcou muitos dos participantes. Os lugares


do Occupy, como as acampadas, foram durante semanas “mini-sociedades au-
togeridas”, “comunidades holísticas onde nos sentimos seres sociais completos”,
onde aconteceram “novas formas de estar junto” e “encontros que nunca tínhamos
imaginado, como ver um rabi e duas jovens transgender a debater sentados no
chão”, como explicavam alguns das participantes em Nova Iorque. “Juntámo-nos
como corpos em aliança, na rua e na praça, pondo em prática a expressão ‘Nós, o
povo’”, disse Judith Butler (2011).
Com efeito, uma das características destes movimentos foi precisamente a
construção de zonas de “exceção”, espaços libertados face à lógica mercantil. Esta
apropriação do espaço público e a criação de “zonas autónomas” têm, certamente,
o mérito de recusar a ideia de transformação como mero adiamento do presente.
Nos lugares ocupados, criaram-se outras sociabilidades, consciência, experimen-
tação, politização e momentos constituintes, em que se descobriram capacidades
e solidariedades que nunca se imaginara. Mas teremos razões para pensar que a
energia destas exceções se dissipa se quiser lutar por mudar as próprias regras do
jogo? Será que estas experiências dispensam uma ação estratégica para lá do pre-
sente? Dito de outra forma, será que a desobediência, a resistência, a construção de
espaços autónomos, a insurreição, esgotam o campo semântico da emancipação?
A celebração da resistência e da sua multiplicação é, como se vê, um ponto
forte de vários destes movimentos. Mas o seu potencial transformador se esgota-
rá nestes epifenómenos vivenciais, por mais intensos que sejam? As palavras do
filósofo esloveno Slavoj Zizek (2012), em Zuccotti Park, em Nova Iorque, duran-
te a ocupação, colocam claramente este problema: “Não se apaixonem por vocês
próprios. Tivemos um tempo porreiro aqui, mas o que importa é o dia seguinte,
quando tivermos de voltar às vidas normais. Teremos provocado alguma transfor-
mação? O que queremos? Que tipo de organização social pode substituir o capi-

149
CAPÍTULO 5

talismo? Que novo tipo de liderança?”. Na verdade, o debate passa pelo confronto
ou pela complementaridade entre a luta nas suas diversas formas (social, política,
sindical, institucional...) e as estratégias mais apologistas do exílio, da fuga, da
distância face ao aparelho de Estado que recusa, de facto, o seu afrontamento. E
por saber se essas estratégias de exílio, ao mesmo tempo que podem multiplicar
energias transformadoras, não conduzem também, paradoxalmente, ao isolamen-
to, à celebração da impotência e da derrota por antecipação e, até, a uma forma de
desistência.

4. Reivindicações: sim, não ou talvez?

Uma das críticas que mais se fizeram a estes movimentos foi a de “não terem
reivindicações”. Uma breve consideração dos manifestos, resoluções aprovadas e
iniciativas subsequentes bastaria para contradizer esta ideia. Mas é verdade que o
próprio movimento é atravessado por respostas diferentes a este problema.
Uma resposta possível consiste, basicamente, na assunção de que a inexistên-
cia de uma lista de reivindicações não é defeito, mas é feitio do movimento. Judith
Revel, por exemplo, considera que o problema é a ordem do discurso político mo-
derno que, ao ser formada por manifestos, contratos e programas, cataloga ime-
diatamente como “pré-político” ou “infrapolítico” aqueles que não se exprimirem
nesses termos13. Judith Butler (2012), por seu lado, considera que o movimento
Occupy nunca poderia ser compreendido através de uma “lista de reivindicações”,
uma vez que “uma lista não explica como é que essas reivindicações estão ligadas
umas às outras”, e que a grande questão que o movimento coloca é o crescimento
das desigualdades sociais e económicas que atravessam todas as reivindicações
específicas. Mais ainda, insiste que as várias lutas do movimento (contra o poderio
do sistema financeiro, o endividamento dos estudantes, o direito à habitação...)
não podem ser separadas umas das outras. Ao dirigir-se ao sistema económico
enquanto estrutura, essa opção evita assim, para Butler, que se possam cooptar
reivindicações ou fazer “pequenos ajustamentos” ao sistema que se contesta. Por
outro lado, não formular essa lista parte também do não reconhecimento da legi-
timidade por parte das autoridades a que tal lista se poderia dirigir – nomeada-
mente as que garantem que as instituições, para as quais qualquer transformação
sistémica não é negociável, têm o monopólio da política (Butler, 2012: 9-11).

13 O argumento foi apresentado em uma conferência em Lisboa sobre “a política das palavras”,
emum seminário organizado pela Unipop em janeiro de 2012.

150
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

Para Taibo (2011), o debate espanhol sobre a questão das reivindicações e das
propostas pode ser caracterizado em três linhas. A primeira, dos jovens indig-
nados, inclinaria-se para a elaboração de propostas concretas e parciais dirigidas
ao Estado e às instituições. A segunda, mais apoiada pelos movimentos alterna-
tivos e pelas correntes libertárias, defenderia essencialmente a criação de espaços
de autonomia à margem do sistema, sem se dirigir ou reconhecer as autoridades
existentes como legítimas. A terceira posição, de compromisso, seria entender a
elaboração de propostas pelo movimento como dirigidas não tanto às autoridades,
mas aos cidadãos, isto é, ao debate e à construção do próprio movimento a partir
de um programa.
Em uma complexa combinação destas várias posições, têm saído destes mo-
vimentos reivindicações e agendas. No caso espanhol, as propostas “cidadanistas”
sobre o sistema eleitoral fazem caminho, ao mesmo passo que a criação de espaços
de autonomia se descentraliza. No caso norteamericano, o movimento atraves-
sa uma fase de disseminação e multiplicação, enraizando-se mais localmente e
sendo referência para campanhas que envolvem movimento estudantil, sindical e
popular, sobre a questão do endividamento dos jovens, da habitação ou da taxação
do capital financeiro. No caso português, um conjunto de movimentos lançou a
Iniciativa Legislativa de Cidadãos – a Lei contra a Precariedade – que envolveu
milhares de assinaturas em torno de uma proposta concreta que, ao mesmo tem-
po, põe em causa a lógica profunda dos processos de precarização, que são o traço
do capitalismo e da política da austeridade no campo laboral.

5. Internet: entre a “fábrica eletrónica de lutas” e um novo para-


digma de organização

No campo do ativismo, como nas outras dimensões da vida social, a internet


introduziu transformações significativas. A possibilidade de uma comunicação
instantânea e barata, de operar a nível transnacional, de colocar grandes volumes
de informação imediatamente acessíveis a um grande número, de fazer circular
avaliações e interpretações de forma multidirecional, faz com que a internet se
tenha tornado o sistema nervoso destes movimentos ou, para utilizar uma ex-
pressão de Harry Cleaver (1999), uma “fábrica eletrónica de lutas”. O ciberespaço
não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas um espaço social real, com
materialidade própria, que altera a nossa percepção do tempo, do espaço e de nós
próprios. Isso explica que muitas das táticas comuns nos movimentos sociais an-
teriores à existência da internet tenham sido transferidas para este novo espaço e
assim transformadas: petições online, cartas de protesto via e-mail, jornais e mani-

151
CAPÍTULO 5

festos, subversão dos símbolos dos antagonistas dos movimentos, ataque às sedes
virtuais das instituições que se contestam (através do hacking dos seus sítios web),
bloqueios de determinadas vias de comunicação (no ciberespaço). O exemplo dos
Adbusters ou da rede Anonymous são eloquentes a este respeito.
Algumas correntes olham para a net como utopia neolibertária e paradigma
de uma nova forma de organização dos próprios movimentos. Ela seria uma con-
cretização do conceito de rizoma avançado por Deleuze e Guattari, em uma mo-
bilização que não anseia ter propriamente um centro ou programa, mas múltiplos
nós e experiências de organização social alternativa. Negri e Hardt utilizam a aná-
lise da lógica de rede das novas tecnologias para rejeitar as formas de organização
centralizadas e defender que as resistências da multidão pós-fordista se articulam
em rede para desagregar a autoridade em relações de colaboração (Negri e Hardt,
2005: 93). Harry Cleaver (1999) propõe, em alternativa à metáfora da rede (que
pressupõe a existência de nós, isto é, de organizações) ou do rizoma (que tem um
lugar a partir do qual vai crescendo), a metáfora da água, cuja fluidez é mais apro-
priada para descrever este tipo de luta, que está à superfície e nas profundezas,
ora corre mais depressa ora mais devagar, ora mais quente ora mais fria, que por
vezes até congela e cristaliza, mas para voltar logo depois ao estado líquido e fluir
sempre, impossível de controlar ou fixar.
É verdade que a net e as redes sociais foram o espaço e o dispositivo a partir
do qual estas mobilizações tiveram origem, seja no caso espanhol, português ou
norteamericano. É igualmente certo que a sua estrutura transformou o ambiente
e os processos de tomada de decisão, as formas de pensar (marcadas pela lógica
hipertextual) e de comunicar (o tipo de mensagem, os seus formatos e suportes),
mas não anulou distorções nem relações de poder. Não é demais lembrar, contra
alguma euforia e algum determinismo tecnológico, que a causa das revoluções
árabes ou das praças europeias da indignação não foram o Facebook e o Twitter,
mas o desemprego, o poder autoritário e a falta de futuro. A articulação tensa entre
o mundo online e offline é uma constante nestes movimentos. Onde devem as pes-
soas encontrar-se, na net ou na praça? E onde se tomam decisões? Qual o espaço
mais representativo e aberto? A combinação do tempo lento de uma assembleia
geral em uma praça e o tempo rápido da comunicação online, ou entre as dife-
rentes legitimidades de cada espaço nem sempre é fácil. Por último, a questão das
desigualdades no acesso e utilização também é problemática, nomeadamente em
países como Portugal. O debate sobre o efeito de exclusão que a internet também
induz (do ponto de vista geracional, de classe e de cultura), amplificando proces-
sos de discriminação, está longe de se considerar resolvido.

152
“Perdi o emprego, encontrei uma ocupação” Juventude, precariedade, indignação e o novo ciclo de protesto global

6. Velhos, novos e novíssimos movimentos: que convergências


possíveis?

Um dos debates estratégicos mais importantes passa por saber que tipos de con-
vergências existem ou podem desenvolver-se entre estas novas dinâmicas de mobili-
zação e as organizações e movimentos, sejam os sindicatos, seja o que se convencio-
nou designar, a partir das décadas de 1960/70, de “novos movimentos sociais”.
Algumas análises sociológicas tendem a salientar aquilo que distingue, em
termos de características e protagonistas, os “velhos”, os “novos” e os “novíssimos”
movimentos. Contudo, é interessante problematizar estas tipologias. Os “novíssi-
mos” movimentos combinam elementos de uns e de outros e têm a particularida-
de de terem trazido de novo as questões materiais, do trabalho e do emprego, para
o centro da agenda e das preocupações. No caso norteamericano, por exemplo,
apesar de os sindicatos estarem fora dos circuitos ativados pelos Anonymous e pe-
los Adbusters, foram dos primeiros a marcar presença no Occupy e até a finan-
ciar o movimento (o que levou a que alguns manifestantes classificassem o seu
contributo como “presents more than presence”). As semelhanças entre o Occupy
Wall Street e as ocupações em Wisconsin, impulsionadas por organizações sindi-
cais, ou as assembleias gerais do New York Against Budget Cuts, mostram como
entre os precursores destes novíssimos movimentos encontram-se organizações
e campanhas mais “antigas”. Entre setembro e outubro de 2011, Occupy e movi-
mento sindical convergiram através de marchas (27 de setembro, 5 de outubro)
que juntaram os ocupantes de Wall Street com a Associação de Pilotos, o sindicato
dos transportes de Nova Iorque ou o sindicato das enfermeiras, que prestou apoio
médico nas praças. Em Oakland, houve até uma greve geral de um dia contra a
agressão de um dos ativistas do Occupy (Dyer-Witheford: 2012).
Em Portugal, muitos dos principais dinamizadores da Geração à Rasca
(M12M, Precários Inflexíveis e outros) participaram em ações com a CGTP e ape-
laram à presença dos “jovens indignados” na greve geral de novembro de 2011. O
apelo por parte desses movimentos para que houvesse manifestações no dia da
greve foi, aliás, um fator de condicionamento da central sindical, que acabou por
decidir, pela primeira vez, que as greves gerais teriam de ter uma expressão de
rua para além dos piquetes. Defendendo uma convergência destes diferentes seto-
res, Alex Callinicos ou Nick Dyer-Witheford realçam a necessidade de combinar a
ocupação do espaço público com a ocupação do espaço de produção e do tempo da
acumulação, “the squares and the strikes” – sendo a greve, para utilizar a expres-
são de Paul Virilo, essa “barricada no tempo”. Em defesa da convergência, que será
sempre tensa e difícil, vale a pena lembrar também que entre “velhos”, “novos” e

153
CAPÍTULO 5

“novíssimos” movimentos sociais existe uma circulação de ativistas importantes,


facto que uma análise das trajetórias longas de militância e das dinâmicas de “po-
lienvolvimento” revela (Sawicki e Siméant, 2009: 100).
É evidente que nem todas as relações são fáceis. Ao disputar, aos “velhos mo-
vimentos” e até a alguns dos chamados “novos movimentos” e às suas organiza-
ções, o monopólio da mobilização social, estes “novíssimos” movimentos susci-
tam também reações adversas entre setores políticos e sindicais, cuja atitude oscila
entre a cooptação e a tentativa de isolamento. Por outro lado, da parte da multidão
dos indignados há também, por vezes, alguma hostilidade, desconfiança, vontade
de diferenciação ou de demarcação em relação a outras formas de organização,
sejam elas associações ou sindicatos e, acima de tudo, como é óbvio, em relação
aos partidos. Entre os que defendem uma diferenciação absoluta estão os que con-
sideram que a novidade dos “indignados” consiste nos espaços de sociabilidade
inteiramente novos que eles geraram e em que se esgotam, e que isso é diametral-
mente oposto a qualquer lógica de organizações ou representação. Estão, ainda,
alguns setores anarquistas que rejeitam o diálogo com as principais organizações
sindicais. Exemplos de convergência com tensão e conflito tivemos na greve ge-
ral portuguesa de março de 2012. Mesmo havendo uma convergência na data – a
plataforma 15 de outubro convocou uma manifestação no dia da greve para que
as duas dinâmicas coincidissem – o resultado acabou por ser uma manifestação
partida em dois e confrontos entre manifestantes – nomeadamente, entre o cordão
de segurança da central sindical e membros de outros movimentos.
Uma das características do tempo que vivemos, pelo menos no espaço euro-
peu, é a sua extraordinária aceleração. A crise capitalista tem feito surgir também
movimentos que estão a contestar a ordem dominante. Em um tempo de bifurca-
ções, parece essencial refletir sobre as transformações em curso, as consequências
sociais e humanas da austeridade, a condição juvenil, as características dos movi-
mentos, a sua história, os debates que os atravessam, as convergências possíveis.
Não sabemos qual o futuro destas mobilizações nem os caminhos que vão abrir.
Mas é precisamente a aposta nessa indeterminação da História que vale a pena.

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157
CAPITULO 6

Apontamentos sobre o trabalho e a


emergência do metalúrgico jovem
adulto-flexível no ABC Paulista

Renan Araújo1

1. A gênese do novo perfil operário

N
o Brasil, as transformações no sentido da “superação/conservação” da
anterior estrutura fabril taylorista-fordista a partir da década de 1990,
particularmente da montadora de ônibus e caminhões situada na cidade
de São Bernardo do Campo - objeto de nosso doutoramento e aqui tomada como
referência para a elaboração deste artigo - se por um lado, forjaram um operário
de novo perfil, o metalúrgico jovem-adulto flexível, por outro, mantiveram intac-
tos diferentes aspectos organizativos e produtivos relativos à anterior organização
científica do trabalho.
Visto assim, temos que a emergência desse novo segmento operário relaciona-
-se às novas estratégias de gerenciamento assentada no binômio coerção/consenti-
mento, essência dos novos cânones de gestão de pessoas introduzidas restritamen-
te pelo trabalho flexível nos anos 80, estratégia disseminada no Brasil ao longo das
duas últimas décadas.
No caso da empresa em tela, a introdução de novas tecnologias seguiu uma
dinâmica seletiva e as células de produção não romperam, mas apenas deram novo
formato (em “U”) à linha de montagem anteriormente encontrada. A semiauto-
nomia das células de produção, a exigência em relação à qualificação profissional,
a relação entre pessoal do chão de fábrica e a direção, conformaram-se enquan-
to processos sociais impregnados de manipulações da subjetividade operária. A

1 Doutor em Sociologia pela Faculdade de Ciências e Letras - Unesp/Araraquara. Professor


do Colegiado de História da Universidade Estadual do Paraná/Paranavaí. Coordenador do
Curso de Especialização em Ciências Humanas - CEICH. Membro da Comissão Executiva
da Rede  de Estudos do Trabalho - RET e Coorganizador do livro “Trabalho, Educação e
Sociabilidade”. Editora Praxis, Marília, 2010.
CAPÍTULO 6

emergência do jovem-adulto flexível - o “colaborador” - e sua dramática cotidiani-


dade são sínteses dessa “nova” e manipulatória ideologia do capital (Alves, 2011).
Justamente por tratar-se de um processo prenhe de contradições tipicamente
modernas, de suas continuidades/descontinuidades, é que não partilhamos das
teses que apreendem o complexo da reestruturação produtiva somente na pers-
pectiva de superação da forma produtiva anterior (pós-fordismo), tão pouco das
proposições que vaticinam a confluências de interesses com base na sinergia entre
capital e trabalho, das ações colaborativas previamente acordadas (Leite, 1994).
Em nosso entendimento, a compreensão da complexa dinâmica social que en-
gendrou o metalúrgico jovem-adulto flexível, parte indelével do processo de rees-
truturação produtiva, exige que a reflexão transcenda as abordagens focadas em
seus aspectos tecnológicos. Desta forma, são relevantes as informações trazidas
por Rodrigues (2005) e Tomizaki (2007) sobre o novo perfil material/cultural dos
operários jovens em relação à velha-guarda metalúrgica. Mais ainda, parece-nos
que a imagem de mundo captada pelo jovem-adulto flexível reflete a nova dinâ-
mica social, repercussão direta das metamorfoses sofridas pelo proletariado e dos
impactos na sua consciência de classe (Antunes, 1997)2.
Um processo permeado por novas expectativas/exigências (também por frus-
trações) e que determinam as escolhas, norteiam as atitudes operárias, expressão
da continuidade plena da modernidade calcada na subsunção formal e real do tra-
balho ao capital, subsunção que intensificada à época do trabalho flexível repro-
duzem no cotidiano, formas renovadas de estranhamento a partir da persistente
tentativa do capital em “territorializar/controlar” a mente e o coração do operário
(Araújo, 2009).
Se para alguns autores a juventude metalúrgica empregada nas montadoras
do ABC paulista constitui uma nova geração, fato inconteste do ponto de vista da
História, trata-se de um segmento operário que, transformado, expressa a emer-
gência de algumas das novas tendências sociais do capitalismo contemporâneo.
Da mesma forma, não podemos, apesar de incorporar, nos tornar refém dos limi-
tes rígidos determinados pela faixa etária, como o IBGE que considera jovens o
segmento da população situado na faixa etária de 18 a 24 anos de idade.

2 Sobre essa temática temos que “[...] não é uma questão do que este ou aquele proletário, ou
mesmo o proletariado todo, no momento, considere como sua meta. É uma questão do que
o proletariado é, e o que, de acordo com este ser, ele historicamente será forçado a fazer. Sua
meta e sua ação histórica são previstas irrevogável e claramente em sua própria situação de
vida, como também em toda organização da sociedade burguesa. [...] a consciência pode ser
colocada a serviço da vida alienada, da mesma forma que pode visualizar a suplantação da
alienação” (Mészáros, 1993: 75-79).

160
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

Se tomássemos “ao pé da letra” essa referência metodológica, incorreríamos


em um equívoco analítico, uma vez que prenderíamos nosso objeto em uma ca-
misa de força “etária”, justamente no momento em que a expectativa de vida do
brasileiro, em curva ascendente, insiste em questionar os padrões etários utiliza-
dos nas estatísticas. Mais ainda, considerando que o processo de reestruturação
da empresa aqui tomada como referência teve seu início em 1990, e que a partir de
1992 assumiu formas mais contundentes, nosso trabalho incorreria em grave erro
histórico-metodológico, considerando que parte dessa juventude, em 1990, nem
sequer havia nascido.
Por outro lado, o início dos anos de 1990, foi justamente o momento em que a
fábrica em questão estava “pegando fogo”, em que tudo acontecia: criação de célu-
las produtivas, introdução seletiva de novas tecnologias, demissões, contratações,
lutas de resistências para estabelecer acordos. Daí nossa denominação um pouco
mais ampliada de jovem-adulto flexível. Trata-se de um segmento operário que,
tendo em 2008, idade entre 15 e 35 anos, agrega uma parte considerável daque-
les que ingressaram/presenciaram as mudanças na fábrica propriamente ditas, ou
seja, foram “forjados” nesse processo.
Esse segmento metalúrgico, os jovens-adultos flexíveis, corresponde ao per-
fil histórico profissional-social desse novo “núcleo duro”, o operário flexível que
emergiu da fábrica reestruturada. A excelência profissional buscada pelo capital
quando comparada aos outros segmentos do proletariado brasileiro, seria a “Joia da
Coroa” segundo o ponto de vista do liberalismo difundido por José Pastore (1994).

2. O “sucesso” do jovem cidadão consumi (dor)

Com base nas reflexões desenvolvidas por Agnes Heller (1989), a cotidiani-
dade é insuprimível, é parte constituinte e insubstituível da dimensão da história
humana. Ao mesmo tempo, é no âmbito da vida cotidiana que o imediatismo con-
verte o “útil” em “verdadeiro”, os critérios adotados na definição das prioridades
em nosso dia a dia são determinados pela sua praticidade, por sua funcionalidade
capaz de mobilizar os homens premidos pelas “escolhas objetivas”, dito de outra
forma, pelas contingências inerentes à cotidianidade.
Sob o domínio das relações sociais correspondentes às formas de sociabilidade
à época do capital, não só sua atividade vital (o trabalho) vê-se convertida em fardo
conforme indicou Karl Marx (2004), mas a própria “satisfação” de suas necessida-
des calcadas em ações imediatas e fetichizadas, por fim, desnudam que a “obje-
tivação” estranhada é negadora do humano-genérico, pois suas ações cotidianas

161
CAPÍTULO 6

voltam-se, antes de tudo, às necessidades de reprodução do indivíduo enquanto


força de trabalho.
Nesse caso, o cotidiano se apresenta como o momento em que o sentido da
existência humana vê-se negado, subordinado à lógica da acumulação:

“A vida cotidiana é a vida de todo homem [...] é a vida do homem por intei-
ro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de
sua individualidade, de sua personalidade. Nela colocam-se “em funciona-
mento” todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas
habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias. O
fato de que todas suas habilidades se coloquem em funcionamento deter-
mina, naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe,
em toda sua intensidade. O homem da cotidianidade é atuante e fluidor,
ativo e receptivo, mas não tem nem tempo nem possibilidade de se absolver
inteiramente em nenhum desses aspectos; por isso, não pode aguçá-los em
toda sua intensidade (Heller, 1989:17-18).

Conforme temos procurado indicar, com base na análise de Agnes Heller


(1989), temos que a imediaticidade exerce em nosso cotidiano um papel funda-
mental, expressão da força social (do capital) capaz de nos fazer mover, ainda que
no sentido de encontrar “soluções” para problemas contingentes relacionados à
realidade objetiva.
É por isso que, refém das exigências da sua reprodução, a forma alienante da
sua existência tende a acentuar um processo de eterna irrealização expressa em
uma vida sem “vida”, vida carente de significados. O indivíduo da nossa cotidiani-
dade tem sua existência cindida, pois enquanto sujeito social vê-se impossibilitado
de reproduzir-se plenamente, exceção - conforme temos salientado - à sua repro-
dução enquanto força de trabalho (Marx, 1968).
Com isso, à época do trabalho flexível contemporâneo, processo prenhe de
particularidades contraditórias, não se rompe, mas ao contrário, intensifica-se sua
essência alienante que agora busca freneticamente o aumento da produtividade,
sob o auspício das novas técnicas de gestão de pessoal, tal qual se caracterizou a
reestruturação da fábrica pesquisada e da correlata emergência do metalúrgico
jovem-adulto flexível.
Com base nesses pressupostos teóricos, de modo a compreendermos o perfil
socioeconômico dos jovens com até 29 anos de idade, empregados nas indústrias
montadoras do ABC paulista, interessa-nos indicar os dados trazidos por Rodri-
gues (2005):

162
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

Quadro elaborado por Iram Rodrigues.

De imediato, os números são indicativos do quanto esse segmento metalúrgi-


co, incluindo os operários antigos, possui um excepcional poder de compra, uma
possibilidade ímpar de aquisição de diferentes bens de consumo, inclusive os bens
de consumo duráveis, como o automóvel (93%), ou ainda serviços como telefone
fixo (99%), computador (66%) e internet (55%).
Outro aspecto elucidativo do “sucesso” dos metalúrgicos do segmento monta-
dor, particularmente os jovens com até 29 anos de idade, do seu acesso aos bens de
consumo e serviços, relaciona-se a sua condição salarial situada acima da média
verificada no setor metalúrgico, ou em empresas montadoras localizadas em ou-
tras regiões do País3.
De acordo com o Boletim Eletrônico de 10/07/2008, da Confederação Nacio-
nal dos Metalúrgicos da CUT – CNMCUT:

“A jornada de trabalho semanal em algumas localidades chegam a ter 4h a


mais em relação a outras. [...] o salário médio dos metalúrgicos varia até 4,4
vezes e nas montadoras a diferença salarial nas diversas regiões do País che-
gam a 3,5 vezes [...] Em média, o metalúrgico que trabalha nas montadoras

3 Gilberto Franca (2007), tomando como referência o valor 100, demonstra que nas indústrias
automobilísticas temos as seguintes faixas salariais: SBC/SCS (100), S.J.C (96.8), Curitiba
(73.1), Sumaré (55.6), Caxias do Sul (53.8), Indaiatuba (53.0), Betim, (48.6), S.J. dos Pinhais
(47.7), Resende/P.Real (4.,0), Juiz de Fora (41.8), S. Carlos (41.4), Gravataí (41.1), Camaçari
(30.4), Sete lagoas (22.8), (Franca, 2007:109-110).

163
CAPÍTULO 6

de São Bernardo do Campo - SP recebe R$ 3.674,74 em uma jornada média


de 40h semanais e um salário/hora que atinge R$ 20,97. Já o trabalhador
que exerce a mesma função em Catalão-GO, recebe um salário médio de R$
1.031,92 (que representa 28,3% do salário do ABC; uma diferença salarial
acima de 70%) para uma jornada média de 44h semanais, com um salário/
hora de R$ 5,39 [...] Para os trabalhadores das duas regiões retratadas acima,
a variação do custo de uma cesta padrão de produtos e serviços são míni-
mas (11,5%). Enquanto no ABC é necessário desembolsar R$ 2.723,88 para
adquirir a cesta de produtos, em Catalão, gasta-se R$ 2.410,41. Estes valores,
na prática, refletem que enquanto o metalúrgico do ABC teria que gastar
44,05% de seu pagamento e trabalhar 129,88h para conseguir comprar a ces-
ta, o trabalhador goiano precisaria trabalhar 446,89h, gastando o equivalen-
te a 233,58% de seu salário mensal” (subseção Dieese-CNM/CUT).

Com base nas informações acima, nota-se a considerável diferença salarial do


ABC em relação a outras regiões. Entretanto, o chão da fábrica é, antes de tudo, o
local onde se materializa, onde se corporifica a essência da relação capital/trabalho.
Por isso, ainda que o metalúrgico do ABC - particularmente do setor montador -,
tenha seu salário situado em um patamar superior aos demais, isso não invalida
o fato de que a produção capitalista implica na produção de taxas de mais-valia:

“[...] esta pressupõe que a jornada de trabalho esteja dividida em trabalho


necessário e trabalho excedente. Para prolongar-se o trabalho excedente,
encurta-se o trabalho necessário com métodos que permitem produzir-se
em menos tempo o equivalente ao salário. A produção da mais-valia abso-
luta gira em torno da duração da jornada de trabalho; a produção da mais-
-valia relativa revoluciona totalmente os processos técnicos de trabalho e as
combinações sociais” (Marx, 1968:585).

Nesse caso, se os metalúrgicos do ABC expressam um segmento da classe que


conseguiu a “devolução” de parte das diferentes formas de realização de taxas de
mais-valia, seu “sucesso” enquanto cidadão consumidor esteve ancorado em um
engajamento sui-generis na produção. Na verdade, sua condição “privilegiada” re-
sulta da geração da mais-valia relativa “ampliada”, gerada pelo prolongamento da
sua jornada de trabalho além daquela estabelecida em contrato. É isso que caracte-
riza as extensas horas “trabalhadas” e não pagas, tal qual o são as horas dedicadas
nos dias úteis (após o expediente), nos fins de semana e feriados, aos estudos, à for-
mação universitária, aos cursos de línguas estrangeiras, de informática/tecnologia
ou os diferentes cursos de aperfeiçoamento oferecidos pela empresa.
Trata-se, portanto, de horas de estudos/trabalho despendidas e não remunera-
das, mais ainda, horas que comprometem parte considerável do salário. Jorge, um
jovem depoente nos informou:

164
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

“Todas as férias que eu tirei quando eu estava na faculdade, foi pra estudar
pra faculdade porque eu precisava de tempo pra estudar, eu precisava pas-
sar de qualquer jeito [...] precisava do dinheiro das férias pra cobrir minhas
dívidas, isso daí é uma coisa normal. Quem trabalha na empresa e estuda,
é difícil pagar uma faculdade de mil reais por mês... somando aos gastos
que você tem com livros, condução, alimentação... eu diria pra você que
tem muitos lá (na empresa) nessa situação e que estão endividados hoje”
(grifo nosso).

Além da reveladora espoliação do trabalho pelo capital vinculado ao setor de


serviços, temos que essa modalidade de “devolução” de parte considerável do sa-
lário ao capital, ao fim, amplia a própria margem de lucro do capital produtivo,
pois a busca pela permanente qualificação profissional, conjugada ao engajamento
operário, expressam as novas formas de emulação, processos que, combinados,
incidem diretamente no aumento da taxa de produtividade. Eis o sentido da “edu-
cação para o trabalho”, efusivamente defendida por parcelas significativas de pro-
fissionais vinculados à Pedagogia, teses analisadas criticamente por Falleiros ao
afirmar que:

“A sociabilidade capitalista que despontou no Brasil nos anos 1990 vem de-
mandando uma educação capaz de conformar o “novo homem” de acordo
com os pressupostos técnicos, psicológicos, emocionais, morais e éticos-
-políticos da flexibilização do trabalho” (Falleiros, 2005: 211).

Neste caso, a teleologia contida nas teses da educação para o trabalho, em


essência, reafirma os pressupostos analisados pela Crítica da Economia Política,
quando enceta que a maior parte do valor gerado pelo trabalho é subtraída do seu
criador conforme atestam as taxas de mais-valia absoluta e relativa (Marx, 1968).
Processos que - em relação ao metalúrgico jovem-adulto flexível - se manifestam
na ocupação da maior parte do seu tempo, dentro e fora da empresa, na busca
pela qualificação profissional “ideal” efusivamente disseminada pelos veículos de
comunicação de massas, completando o circuito da coerção social iniciado no in-
terior da fábrica, tal qual veremos mais à frente.

3. O jovem metalúrgico e a nova qualificação profissional

Para melhor entendimento do processo de reestruturação da empresa, é fun-


damental apontar que, concomitantemente à elevação do nível de escolaridade,
verificamos uma tendência ao aprimoramento da qualificação profissional:

165
CAPÍTULO 6

Qualificação, nas empresas, do grupo entre os anos 1989 - 2004


Ano de 1989 Ano de 2004
Ano de 1989 em % *Ano de 2004 (níveis)
(níveis) em %

Chefias 1.610 7,38 % do total Executivos 446 3,44% do total

Técnico administrativo
Especializados 6.740 30,90% do total 23,55% do total
3.061
Operadores
Qualificados 10.660 48,88% do total 70,60% do total
9.175
Semi qualificado
10,08% do total ___________ -------------------
2.199
2,74%
Aprendizes 599 Aprendizes 312 2,40% do total
do total
Fonte: Relatório Social da empresa, entre os anos 1989 e 2004. Quadro nosso.
*Com o processo de reestruturação das empresas do grupo, concomitantemente
ao processo de enxugamento de pessoal, ocorreram mudanças nas nomenclaturas
que definem o nível de qualificação profissional.

Com base nos dados apresentados no quadro acima, é possível apreender que os
níveis definidores do grau de qualificação profissional da empresa reestruturada guar-
dam íntima relação com a emergência da nova composição operária, identificada atra-
vés das novas nomenclaturas. Ao analisar a qualificação profissional dos seis diferentes
níveis arrolados em 1989, temos que, em 2004, esses níveis haviam sido reduzidos a
quatro somente: executivos, técnicos administrativos, operadores e aprendizes.
Na verdade, temos que para além de meras designações profissionais, as novas no-
menclaturas não só indicam uma relativa superação do velho padrão de organização
vertical taylorista/fordista, mas o movimento incessante da empresa que, no decorrer
do processo de reestruturação, perseguiu sistematicamente alguns objetivos considera-
dos estratégicos, conforme definição do seu “Projeto Fábrica 2000” 4, a saber:

1. A nova nomenclatura significou um movimento de duplo sentido, a sa-


ber: a constituição de uma nova racionalidade organizativa que se expressa
na concentração do saber-fazer operário em células de produção, anterior-
mente dispersos em diferentes tarefas e funções na linha de produção, e a
emergência de uma força de trabalho polivalente, concomitantemente à eli-
minação das fragmentadas designações profissionais do período anterior.

4 O “Projeto Fábrica 2000”, lançado em 1992, objetivava buscar “a segmentação da fábrica,


a implementação de melhorias contínuas/kaizen, a criação de células de manufaturas, a
criação de grupos de trabalho e a terceirização” (Paulino&Marcolino,1999:06).

166
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

2. Melhor visualização e acompanhamento da totalidade do processo pro-


dutivo, com vistas a eliminar estoques de linha e gargalos existentes na pro-
dução, diminuição da porosidade e maior controle do fluxo de produção.
3. Enxugamento de pessoal, por meio da demissão ou terceirização dos tra-
balhadores produtivos diretos. Redução dos cargos de chefias, gerências e
pessoal administrativo.
4. Com vista à consolidação de uma estrutura produtiva mais enxuta e ho-
rizontalizada, a empresa procurou, sempre que possível, criar condições
para que se desenvolvesse no chão de fábrica um ambiente mais propício
à disseminação da ideia de adesão a seus projetos. Daí o surgimento da
nomenclatura “colaborador”.

Vemos que, no processo de reestruturação, a extinção da antiga estrutura pro-


fissional hierarquizada veio acompanhada de novos mecanismos de mando e de
controle. De modo geral, é possível concluir que as novas nomenclaturas revela-
vam uma “nova fábrica”, onde já não há espaço para operários não qualificados,
pois qualificar-se, tornou-se condição sine-qua-nom para manter-se “empregável”.
A partir de 199,2 emergiram novos parâmetros para determinar o grau de
qualificação da força de trabalho. Além do “clássico” curso técnico, passaram a ser
considerados como requisitos do “bom perfil profissional” a escolaridade, a parti-
cipação em diferentes cursos promovidos pela empresa ou fora dela, estudo de lín-
guas estrangeiras, domínio da informática e do processo produtivo nas suas diver-
sas fases de execução, todos vistos como ingredientes necessários à interferência
propositiva do operário na execução/elaboração dos projetos quando solicitado.
Incorporando alguns aspectos do trabalho flexível inerente ao Sistema de
Produção Toyota (Toyotismo), a empresa aqui analisada, no decorrer do processo
de reestruturação, promoveu um conjunto de mudanças. Dessa forma, o enxuga-
mento das nomenclaturas quanto ao número das denominações profissionais re-
velou uma brutal redução dos postos de trabalho. Com isso, quando relacionamos
as mudanças no perfil operário com o tempo de casa, considerando as demissões
de 41.90% da força de trabalho no transcurso da reestruturação, percebemos que a
empresa não só reduziu drasticamente o número de trabalhadores, mas promoveu
uma fenomenal renovação na sua composição (Relatório Social de 1989 e 2004).
Portanto, paralelamente às políticas de redução de custos, da eliminação de
cargos de chefias e gerências considerados improdutivos, a empresa entrou em
processo de ajustamento no uso da força de trabalho, suas ações visaram inces-
santemente enxugar a fábrica. A partir de então, a presença cínica do antigo chefe
de secção foi substituída pelo fantasma do desemprego que passou a assombrar, a
tirar o sono do pessoal da fábrica mesmo em seus dias de folga.

167
CAPÍTULO 6

Da mesma forma, a empresa procurou integrar o trabalho desintegrando-o


da antiga identidade operária. Ao mesmo tempo em que a introdução da ma-
nufatura celular se transformou em nova força criadora apoiada na cooperação
(aumentando a produtividade), através do consentimento coercitivo, os operários
transmutaram-se em força pró-ativa intimada/intimidada a comprometer-se com
os objetivos da fábrica flexível.

4. Tempo de empresa e faixa etária

No esforço de demonstrar as particularidades representativas constituinte do


operário jovem-adulto flexível, outros dados empíricos coletados em nossa pes-
quisa de campo são igualmente relevantes à compreensão do teor, dos significados
e das tendências do processo de reestruturação produtiva, responsáveis pelo sur-
gimento desse novo segmento metalúrgico no ABC, a partir da década de 1990.
Seguindo nossa linha expositiva, como elementos interconectados, destaca-
mos os itens “tempo de empresa” e “faixa etária”. Estes permitem apreendermos
algumas das características profissionais do operário ingresso no decorrer do
processo de reestruturação. De acordo com os números encontrados no Relatório
Social da empresa, temos que 20.2 % dos operários haviam ingressado na fábrica
entre o período de 2002 e 2004, já entre os anos de 1999 e 2004, foram admitidos
31.06%, quase um 1/3 dos operários. Se considerarmos aqueles com seis a dez anos
de empresa, chegaremos ao expressivo número de 45.76% operários contratados
entre os anos de 1992 e 2004.
Ao cotejarmos os números apresentados no Relatório Social de 1989 e 2004,
vemos que em 1989, o grupo era composto por 21.808 operários, lotados em fábri-
cas situadas nas cidades de São Paulo, Campinas e São Bernardo do Campo. Em
2004, simultaneamente à reorganização espacial fabril, expressa na venda da uni-
dade localizada na cidade de Campinas e a inauguração, em 1998, da unidade em
Juiz de Fora, houve uma redução drástica, da ordem de 13.209, no número total de
seus “colaboradores”.
Contudo, vale chamar a atenção para o fato de que na unidade de SBC - foco
de nossa análise –, no ano de 2004, dos 12.672 operários empregados no grupo,
11.494 estavam concentrados naquela unidade produtiva, portanto, 87% do total.
Posto assim, quando relacionamos as mudanças no perfil operário com as infor-
mações relativas ao tempo de casa, evidencia-se que a unidade de SBC não só re-
duziu drasticamente o número de trabalhadores, mas promoveu uma fenomenal
renovação da sua composição, pois 45.76% do contingente operário foi contratado
a partir de 1992 (Relatório Social, 2004).

168
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

A favor de nossa argumentação de que, com sua política de reestruturação, o


capital agiu no sentido de enxugar o quadro de funcionários e compor um novo
perfil operário, o quesito “faixa etária” constitui-se enquanto dado empírico, rele-
vante à compreensão da composição do segmento jovem-adulto flexível. Demons-
tram que a empresa, ao reestruturar-se, atuou no sentido de conformar uma nova
força de trabalho diferenciada quando comparada ao perfil operário taylorista/
fordista, já que no ano de 2004, 42.3% dos operários situavam-se na faixa entre 15
e 35 anos de idade.
Ou seja, aqueles que em 2004 tinham 35 anos, em 1990 eram jovens com 21
anos de idade. Esse dado, somado aos 45,76% dos contratados após o ano de 1992
permite a consideração de que, quando comparado, visto como parte de um mes-
mo processo, os quesitos “tempo de casa” e “faixa etária” amparam nossa hipótese
de que esse segmento representa o jovem-adulto flexível incorporado à empresa no
transcurso do seu processo de reestruturação.
Portanto, se considerarmos conjuntamente os itens escolaridade, tempo de
empresa, faixa etária, cursos de qualificação/capacitação, línguas estrangeiras, in-
formática, o processo e o perfil do jovem metalúrgico da unidade de SBC pode ser
descrito sinteticamente, da seguinte maneira:

. 45.76% do total dos operários, em 2004, haviam sido contratados após o


ano de 1992.
. 75,19% do total possuía entre 11 e 15 anos de estudo no ensino formal.
Haviam completado o ensino médio, cursavam ou já tinham completado
o ensino superior.
. Em 2004, representavam 42,3% do pessoal da fábrica, com faixa etária
situada entre 15 e 35 anos de idade.
. Os jovens-adultos flexíveis, na sua ampla maioria, possuíam diferentes
cursos, tais como: cursos de línguas estrangeiras, informática, inúmeros
cursos técnicos oferecidos inicialmente na escola Senai da própria empresa
(como mecânica geral), os quais, seguindo a lógica da formação contínua
(Lei de Diretrizes e Base para a Educação – 9.394/96), eram constantemente
complementados com outros cursos profissionalizantes, realizados dentro
ou fora da fábrica. Localizamos, ainda, aqueles com formação superior em
diferentes áreas: Direito, Economia, Administração, Ciências Contábeis,
Ciência da Computação, Processamento de Dados, Ciências Sociais, Enge-
nharia Mecatrônica, Engenharia Automotiva, Design, etc.

Conforme temos afirmado, a gênese dos operários jovens-adultos flexíveis


relaciona-se à reestruturação da empresa no decorrer das duas últimas décadas,
por isso, são os legítimos “filhos do nosso tempo”. O processo de flexibilização da
fábrica apoiou-se fundamentalmente na busca de um novo layout da produção,

169
CAPÍTULO 6

cujo redesenho permitisse não só concentrar, mas diminuir o tempo necessário à


realização das tarefas nas células de produção (Paulino & Marcolino, 1999).
Com o fim do posto individualizado de trabalho e da drástica redução de
pessoal, conforme salientado anteriormente, as equipes pertencentes às células de
produção passaram a ser compostas por operários multifuncionais, capazes de
realizarem diferentes tarefas:

. a reintrodução nas funções dos operadores diretos das tarefas concer-


nentes ao diagnóstico de problemas, reparo e manutenção de máquinas e
equipamentos;
. a reintrodução de tarefas de controle de qualidade nos postos de trabalho.
. a reagregação de tarefas de programação às tarefas de fabricação.

O depoimento de Moisés é ilustrativo desse processo quando informou-nos


de que:

“Nessas mudanças [...] eu era operador de máquinas, hoje sou obrigado a


operar, preparar, controlar e fazer TPM (Manutenção Preventiva Total),
que são pequenos reparos... hoje você tem que fazer tudo”.

Resultante dessa estratégia houve uma melhor visualização da produção, do


conhecimento indispensável à prática de enxugamento de pessoal, da intensifica-
ção do ritmo de trabalho nas células produtivas e do maior controle da quantidade
de pessoal alocado nos diferentes processos, permitindo, assim, as demissões “ci-
rúrgicas” sempre que necessário.
Nesse sentido, é reveladora a afirmação do diretor do segmento de eixos;

“[...] excelência e inovação não significa necessariamente automatização,


grandes investimentos [...] excelência e inovação é você fazer renovação
constantemente dos seus procedimentos e processos [...] as técnicas que
estão sendo aplicadas dentro da fábrica, elas tiveram origem em Ohno e
Toyoda, quando voltaram dos Estados Unidos querendo copiar a Ford e
viram, só vamos batê-los se eliminarmos o desperdício e as perdas, então
isso não é novo, é o mais efetivo” (Apud: Bresciani, 2001: 162).

Logo em seguida, o mesmo diretor afirma:

“simplicidade não significa primitivismo em termos de processo, significa


fazer de forma mais fácil, então temos investido muito em tecnologia de
processos [...] significa inovar de forma a alcançar a mesma qualidade do

170
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

produto e o mesmo nível de produção, através de meios de produção flexí-


veis e de pessoas polivalentes” (apud Bresciani, 2001: 163).

Reafirmando a seletividade enquanto método para a introdução de novas máqui-


nas e equipamentos de base microeletrônica, outro diretor da empresa sustenta que:

“Não investimos em automação, em máquinas complexas, nós pura e


simplesmente adotamos alguns princípios que nos permitiram melhorar
substancialmente os processos [...] a automação deve ser utilizada como
elemento de apoio ao homem e não de substituição do homem” (Apud:
Bresciani, 2001: 165).

Sugestivo o conteúdo da fala acima, pois se verifica que na fábrica - tal qual te-
mos afirmado – a tônica do processo de mudanças procurou conjugar a formação
das células de produção à aquisição seletiva de novas máquinas e equipamentos.
Nesse caso, subordinando os aspectos tecnológicos das mudanças e compa-
tibilizando-os com o uso mais intenso da força de trabalho, a empresa fez des-
sa estratégia uma prática que possibilitou reestruturar-se, reduzindo sempre que
possível os custos da inovação, pois não priorizou investimentos em capital fixo.
É interessante observar que as mudanças propriamente ditas estiveram centradas
nos aspectos relativos à inovação organizacional, através da introdução seletiva
das células de produção, do TPM, dos 5s e dos kaizens5.

5 O Total Productive Maintenance - TPM (Manutenção Produtiva Total) é um sistema de-


senvolvido no Japão a fim de eliminar perdas, reduzir paradas, garantir a qualidade e dimi-
nuir custos por meio dos contínuos processos de mudanças. Também objetiva evitar per-
das de máquinas e equipamentos, perdas (acidentes) com a força de trabalho, absenteísmo
e perdas de métodos (a melhor maneira de produzir). Na administração da empresa, são
perdas por movimentos, organização da linha, transporte, ajustes de medidas. Perdas de
matérias-primas, materiais, rejeitos, ferramentas e moldes. Perdas de energia: eletricidade
e gás. Perdas ambientais: emissões e efluentes. Trata-se de um método para organizar o
espaço de trabalho, especialmente o espaço compartilhado (como a área de uma loja ou
um escritório) mantendo-o permanentemente organizado. Já o 5s, seu propósito central
é a busca por melhoria da eficiência no ambiente de trabalho, evitando que haja perda de
tempo procurando por objetos perdidos. Além disso, uma vez implementado, fica evidente
quando um objeto saiu de seu lugar pré-estabelecido. Do ponto de vista do capital, os be-
nefícios de sua metodologia provêm da decisão sobre o quê deve ser mantido, onde, e como
deve ser armazenado. Essa decisão faz o processo advir de um diálogo sobre padronização,
que gera um claro entendimento, entre os empregados, de que maneira deve ser feito, de
forma também a insuflar a responsabilidade do processo em cada empregado. Os 5s são:
Seiri: Senso de utilização. Seiton: Senso de organização. Seisō: Senso de limpeza. Seiketsu:
Senso de padronização. Shitsuke: Senso de autodisciplina. Kaizen (mudança para melhor),
significa melhoria contínua, gradual, na vida em geral, pessoal, familiar, social e no tra-
balho (CPV, s/d). Há uma certa “intencionalidade” do capital na introdução das mulheres
em algumas manufaturas celulares, pois elas se revelam ótimas “organizadoras”, qualidade

171
CAPÍTULO 6

Sintomático do processo de reestruturação foi a expansão do número de Gru-


pos de Trabalho, terminologia utilizada para definir a tentativa de “junção entre as
células de produção/equipes de trabalho com vistas a ampliar, dessas para o grupo,
o perfil polivalente da força de trabalho -, que em 1999 chegou a 244, envolvendo
aproximadamente 2.406 trabalhadores” (Bresciani, 2001:207).
Ou seja, a empresa atuou no sentido de enxugar, transformar e adequar os ope-
rários às suas novas necessidades. Na produção, suas ações procuraram torná-la
flexível, um processo que não foi interrompido, ainda que permeado por alguns
conflitos entre capital e a representação sindical, na medida em que as inovações
acentuaram, sobremaneira, os ritmos e as quantidades das tarefas, a rotinização e
a rotatividade nos grupos de trabalho, conforme atestou a operação “Kinder Ovo”6.

5. O sucesso tem outros “segredos”

Mostramos anteriormente que a condição salarial, o poder de consumo dos


metalúrgicos das montadoras - em especial o jovem-adulto flexível da região do
ABC paulista -, encontra-se em um patamar acima da média nacional. Ou seja, sua
reprodução enquanto força de trabalho é materialmente superior em relação aos
operários de outras indústrias montadoras localizadas em diferentes regiões do
Estado de São Paulo ou do País. Mas, como “nem tudo que reluz é ouro”, analisa-
remos a outra faceta da trajetória de “sucesso” do jovem-adulto flexível.
Com base nas visitas de campo entre novembro de 2007 e fevereiro de 2008,
nos contatos estabelecidos quando da coleta dos depoimentos, tivemos a oportuni-
dade de observar que, na verdade, esse segmento, em sua quase totalidade, elabora
um “plano de vida”, cujas prioridades são determinadas pela “pressão social” de se
construir uma trajetória profissional de sucesso.

imprescindível à aplicação dos princípios e fundamentos expressos pelos 5s, pois, cuidam
da organização das manufaturas celulares com o mesmo zelo com que cuidam de suas casas.
Além do que, sua presença contribuiu para que não se perca tempo em conversas e “deva-
neios” típicos dos lugares que contam somente com a presença masculina. Cabe notar tam-
bém que a aplicação desses princípios, no seu conjunto, na sua forma combinada, promove
uma verdadeira mobilização operária, cujo engajamento se converte em um processo que,
assentado na cooperação, resulta em maiores ganhos de produtividade, ou seja, trata-se de
um processo bastante favorável à lógica reestruturante do capital.
6 Nome dado às paralisações-relâmpagos (tentativa de sabotagem) ocorridas em 1996-97. Or-
ganizadas pela Comissão de Fábrica, essas ocorriam em setores onde a empresa planejava
e desenvolvia, sem consulta, a formação de grupos de trabalho, manufatura celular ou kai-
zens. Nessa operação, a representação sindical procurava pressionar no sentido de garantir
algum tipo de influência sobre processos já previamente definidos. A partir do segundo
semestre de 1998 a empresa aceitou negociar.

172
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

Dessa forma, premido pelas contingências - como a necessidade de ser efetiva-


do no emprego -, suas iniciativas se identificam tão somente com as necessidades
de encontrar respostas aos dilemas apresentados pelo contexto fabril, os quais,
espraiando-se, intercruzam, (re) definem as diferentes situações do seu modo de
vida “just-in-time”. Trata-se de um processo social que, atendendo às exigências
da produtividade, potencializa a adoção de práticas de adesão “voluntária”, cerne
da “guerra sã”, conforme caracteriza-se a acirrada disputa entre os operários, to-
dos coagidos a desenvolver estratégias competitivas em face das inconveniências
impostas pelo cotidiano da fábrica, da universidade e do lar.
Nesse caso, o modo de vida da força de trabalho é definido pelas exigências
dessa “guerra sem trégua”, geradora dos comportamentos, do “estilo” de vida que,
mesmo fora da fábrica, deve coadunar-se à lógica necessidade do capital, já que
“fazer a guerra não tem por objetivo unicamente defender a própria segurança e
sobreviver à tormenta [...] consiste em polir as armas de uma competitividade que
lhes permite vencer o concorrente” (Dejours: 2000,14).
Essa ideologia da “necessidade”, exaustivamente difundida, quando incorpo-
rada pelo segmento jovem-adulto flexível, mobiliza-o de tal forma que sua vida
fora do trabalho praticamente inexiste enquanto tempo “seu”, uma vez que as
determinações cotidianas conformam-se enquanto um continuum, indissociável
tempo de trabalho que lhe ocupa a cabeça, atormenta-o e domina-o integralmente.
A favor de nosso argumento, vejamos o que nos diz Jorge, depoente ingresso
na fábrica na primeira metade da década de 1990. Trata-se de um operário que
estudou idiomas, frequentou o Senai, fez curso técnico em instituição pública e
em 2006 formou-se engenheiro. Sobre a correria do dia a dia, do seu modo de vida
“just-in-time”, Jorge nos informou, em depoimento coletado em janeiro de 2008:

“Durante os períodos das aulas eu não tinha tempo pra nada, quando eu
estava na faculdade eu não tinha tempo pra nada [...] Quando eu fazia fa-
culdade não tinha tempo pra muita coisa, eu saia da empresa... jantava ali
na empresa mesmo, tomava um banho já ia direto pra faculdade. Eu che-
gava na faculdade em torno de seis e vinte... chegava uma hora antes, pre-
parava algum relatório que tinha que entregar... tinha muito relatório pra
entregar... muita lição, estudava alguma coisa. As aulas começavam às sete
e dez, ia até vinte duas e quarenta. Quando chegava em casa eu preparava
algumas coisas pro dia seguinte... a faculdade foi muito corrida. Era neste
horário de segunda a sexta. Aos sábados de manhã, da sete e vinte até meio
dia e quarenta. Sábado eu tinha aula de manhã, depois ia direto pro curso
de inglês [...] Eu gostava de fazer cursos de matemática aplicada, então era
domingo de manhã das sete e meia ate duas horas e meia, três horas da tar-
de... tinha aula de oito horas... tinha que levar marmita (risos....), [...] Isso
foi de 1998 até o ano passado (2006) [grifo nosso]”.

173
CAPÍTULO 6

A trajetória desse operário parece-nos expressar de forma nítida o que preten-


demos demonstrar. Entre 1998 e 2006, portanto durante oito anos, sua vida foi um
tremendo “vaivém”. Mas, há ainda a fase anterior, o período que remonta ao início
da sua trajetória pelo Senai, que, em tempo integral, deveria, no período noturno,
ser complementado com os estudos referentes ao ensino médio.
Ou seja, antes do sprint final de uma maratona que se deu entre os anos de
1998 e 2006, houve a fase de pré-aquecimento. Esse momento, etapa do início da
carreira profissional, cujas exigências da empresa devem ser seguidas à risca, im-
plicou que esse jovem assumisse o compromisso de frequentar, durante três anos
- dos 14 aos 17 anos de idade e de segunda à sexta-feira -, a escolinha Senai no pe-
ríodo das 8h até às 17h. Mas, isso é só uma parte das exigências, pois não podemos
esquecer que, entre 19h3 às 22h40, deparava-se com a obrigatoriedade de concluir
o ensino médio.
Dessa maneira, somadas as duas fases do seu processo de formação, que vai da
sua entrada no Senai até sua conclusão do ensino superior, esse jovem de 28 anos
de idade à época do seu depoimento, havia dedicado aproximadamente 14 anos da
sua vida adolescente-juvenil quase que exclusivamente às exigências do trabalho.
Ou seja, a vida “just-in-time”, se por um lado procura desfazer-se da figura do
“gorila domesticado” fordista, por outro, faz emergir em nossa contemporaneida-
de o “autômato flexível”, que desde a adolescência deve reservar entre dez e doze
horas do seu dia para se dedicar quase que exclusivamente aos estudos. Nesse caso,
a pesquisa de Rodrigues (2005), indicando uma maioria de jovens operários soltei-
ros, ganha maior significado quando associada ao modo de vida desse segmento,
às novas relações sociais e de exploração sob a égide do trabalho flexível.
Do que aqui foi exposto, notamos uma clara indefinição da separação entre
tempo de vida pessoal e tempo de trabalho. Em nossa interpretação, temos que o
cotidiano - para além da fábrica - praticamente constitui-se como tempo voltado
somente para o trabalho:

“Sempre dormi pouco, sempre dormi no máximo seis horas por noite. Eu
organizo o tempo pela empresa, quando saio da empresa... fico das oito da
manhã até cinco da tarde, venho pra casa [...] Durante o período das aulas
eu não tinha tempo pra nada, quando eu estava na faculdade eu não tinha
tempo pra nada” (Relato feito por Jorge).

Cotejando com as informações do nosso depoente, é interessante o relato do


médico do trabalho, obtido em fevereiro de 2008, profissional atuante na região do
ABC há quase duas décadas:

174
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

“Hoje o jovem não é um metalúrgico que só trabalha, quando ele sai do


Senai e vai para a fábrica fazer estágio ele começa ouvir a seguinte coi-
sa; que faculdade você vai fazer ou está fazendo?. É uma prática comum o
chefe chegar e dizer: “só tem uma coisa que garante você aqui, se capacitar
sempre!”. Então tem cara que pensa: “a China tá despontando como uma
potência econômica mundial, é melhor aprender chinês porque daqui a
pouco vão me pedir isso”. Outra coisa: num grande centro como SP, você
tem uma questão de tempo, então você tem pouco tempo na agenda, você
acorda normalmente 4h, 5h horas da manhã para pegar o ônibus e ir para
a fábrica começar às 6h, você sai 15h... 15h30, tem que estar em casa às 17h,
tem que estar na escola 18h30, tem engarrafamento no trânsito, então você
não janta, aí volta pra casa 23h30, 24h, chega em casa você não consegue
dormir porque está a mil, tá com a adrenalina lá em cima, você vai demorar
uma hora, uma hora e meia para dormir, então você dorme duas, três horas.
Esse é um outro fator de sofrimento psíquico brutal [...] a falta de sono, a
falta de qualidade de sono, principalmente o sono profundo, que seja repa-
rador. Além disso, chega sábado, a maioria desses trabalhadores tem tur-
no... rodízio... roda sábado, tem domingo que às vezes você é “convidado”
compulsivamente a fazer hora extra, e dependendo como tá a produção,
banco de horas, uma série de coisas que você tem que fazer, então você não
tem realmente tempo, isso acaba aumentando a sobrecarga psíquica”.

Mas o drama de Jorge não termina aqui, desse contexto é que deriva um modo
de vida muito peculiar, cujas múltiplas vivências e situações repercutem na esfera
da sua vida particular: vida em família, lazer, amizade, vida afetiva. É nosso depo-
ente quem novamente relatou:

“Depois que eu me formei eu passei a dar mais valor pra esse tempo. Então
uma coisa que eu não tinha antes e passei a ter é convívio familiar, é ficar
um pouco mais com meus pais”.

O depoimento de Jorge se coaduna com o relato feito por Tereza em janeiro de


2008. Jovem operária portadora de beleza singular, ela possui traços faciais finos,
que, simétricos, são realçados levemente pela pintura discreta em suas pálpebras,
constituindo um perfil de jovem-mulher que procura se afirmar combinando be-
leza e despojamento.
De corpo esguio, braços ornamentados com poucas pulseiras tipicamente
juvenis (bijuterias que relembram o estilo “bicho-grilo” dos anos 80), sua roupa
despojada e de marcas renomadas denunciam uma combinação típica dos trajes
adquiridos por jovens que costumam frequentar, que circulam pelas butiques lo-
calizadas em shopping centers.
Mas o mundo do capital parece querer conspirar, impor a solidão e assim
ofuscar a beleza natural/simulada de Tereza que nos disse:

175
CAPÍTULO 6

“Desde menina sempre fui criada perto dos meus pais. De repente não os
via mais [...] minha mãe também trabalha [...] não conseguia mais falar
com eles [...] às vezes na escolinha do Senai eu ficava chorando [...] sentia a
falta deles, depois isso passou [...] na fábrica a gente amadurece mais cedo”.

Dos relatos, é perceptível o quanto o modo de vida “ just-in-time”, cinde, se-


para a fórceps o jovem operário da relação jovem-família, justamente em um mo-
mento em que a Pesquisa Sobre o Perfil da Juventude Brasileira, realizada pelo
Instituto da Cidadania e Sebrae (2005), indica a falta do convívio familiar como
sendo um dos maiores dramas vividos pela juventude contemporânea.
Contudo, negando esse “direito”, o trabalho flexível parece reproduzir velhas
práticas utilizadas pelos antigos espartanos que “confiscavam” os filhos de suas
famílias e os treinavam para as guerras. Mas a “guerra sã” contemporânea aponta-
da por Dejours (2002) é diferente; é a guerra da abundância na medida em que se
produz de tudo em escala sempre ampliada, diferentemente da escassez do mundo
espartano.
Há, ainda, outras diferenças, a “guerra sã” atual não distingue os sexos: todos
são convocados, homens e mulheres devem se alistar, ingressar no exército dos
“colaboradores”. Devem formar a “grande e nova família” flexível-fabril. Com isso,
nega-se peremptoriamente o direito de pais e filhos se conhecerem mutuamente,
pois, ainda que residam debaixo do mesmo teto, pouco se comunicam: “[...] de
repente não os via mais [...] minha mãe também trabalha [...] não conseguia mais
falar com eles”, desabafou de forma desolada nossa depoente.
Se há nisso tudo um “saco de maldades” que precisa ser esvaziado, o drama
ainda não chegou ao fim. Da mesma forma, podemos verificar que o jovem-adulto
flexível constitui-se como um novo segmento metalúrgico, com certa dificuldade
em estabelecer laços afetivos satisfatórios, ainda que transitórios, porém indispen-
sáveis ao processo de amadurecimento, de mudanças que perpassam as fases da
adolescência e da juventude, culminando na vida adulta.
Vejamos agora o relato de Márcia, também coletado em janeiro de 2008. Tra-
ta-se de uma jovem metalúrgica formada pelo Senai da fábrica e que, parecendo
transbordar em angústia, lamenta não conseguir tempo para viver minimamente
sua mocidade.

“Durante o curso do Senai, à noite eu fazia o colégio... então eu estudava [...]


e depois, das sete e meia da noite até as onze horas eu estudava o colegial
(ensino médio). No final do ensino médio eu comecei a namorar um colega
de classe [...] eu não conciliei o meu tempo de estudar... de ter uma hora pra
ficar com meu namorado.... de trabalhar na fábrica... trabalhava de fim de
semana... todo domingo eu trabalhava. Então, no primeiro ano da faculda-

176
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

de era assim, durante a semana toda eu acordava às quatro e dez e dormia


a meia noite e meia. Aos sábados, eu acordava um pouco mais tarde... às
seis e meia, saía pro curso de inglês, e ficava fora de casa até cinco da tarde
porque a aula da faculdade ia até às quatro e meia... só que às quatro e dez
da manhã do domingo eu já ia acordar pra vir trabalhar de novo. Então, o
tempo pro namorado era curto e geralmente eu estava com sono[...] então
não progrediu [...] não deu certo. Ele não entendia minha rotina, dava mui-
ta discussão... aí acabou [...] ele tinha a mesma idade que eu”.

A fala acima é significativa, reveladora do que pretendemos demonstrar; a


falta de tempo necessário ao processo de amadurecimento pessoal, que tem nas
relações afetivas um importante componente social, e que, no caso aqui estudado,
vemos ser negado pelas circunstâncias da vida e de trabalho, pelo modo de vida
“ just-in-time”.
Vale destacar que a mesma depoente nos declarou que preferiu “ficar sosse-
gada”, que até tentou, mas disse ser difícil encontrar alguém que queira namorar
tendo que submeter quase que totalmente o namoro, de certa forma experimental,
às obrigações de trabalho e estudo. “Eles não entendem a gente”, declarou-me me-
lancolicamente.
Trata-se de um processo de submissão social das contingências cotidianas e
cuja aceitação assume forma, transmuta-se em mentira para si mesmo, uma es-
pécie de negação impotente que surge do pressentimento de que algo está errado,
porém não há clareza na sua definição, e, quando há, ainda que aparente, falta-lhes
força capaz de se contrapor à torrente, processo que acentuado, é causa-fonte da
dor e do sofrimento-resignado, conforme analisa Dejours (2000).
Talvez, como expressão desse comportamento defensivo, sob o peso desse
fardo-cotidiano, ainda mais quando se considera o fato de que Márcia se encontra
na aurora da vida, sua fala baixa, melancólica e tensa, repentinamente sofre um
abrupto aumento de tonalidade. Como que “engolindo a seco”, nossa depoente,
refém dessa lógica flexível, revela-se impregnada pela realidade objetiva, rendida
às exigências do cotidiano, sua vida revela-se inteiramente cindida, ao afirmar:

“Lazer eu não tive... uma vez ou outra, quase nunca ia ao cinema com as
amigas...eu não tive rotina de lazer, nos finais de semana eu estudei... vez ou
outra eu vejo alguém [...] Durante um tempo eu senti bastante falta, mas eu
fui me adaptando... eu vi que era a escolha que eu tinha feito [grifo nosso]
[...] não é que eu não tinha lazer. Eu podia fechar os meus livros e ir pro meu
lazer, mas eu tinha trabalhos pra entregar, eu tinha textos pra ler [...] eu não
conseguia largar minhas coisas pra ir jogar bola, ir à festa, ir na balada... sa-
bendo que na segunda o professor ia discutir o texto tal e eu não tinha lido,
ou que tinha que entregar um trabalho e eu não tinha feito. Então eu foquei
no meu trabalho e.... eu cheguei a um ponto de me acostumar com isso”.

177
CAPÍTULO 6

Em consonância com o depoimento de Márcia, vejamos o que nos disse Jorge.


Ele nos relatou que procura maneiras alternativas, capazes de dar vazão às novas
descobertas no campo afetivo, que seu trabalho e seus estudos, ainda que corridos,
não o impediram de namorar:

“Eu conhecia ela durante um tempão, namorei com ela [...] mas o namoro
terminou aos vinte e três anos [...] Nessa época a gente se via uma vez por
semana ou duas [...] quando tinha tempo eu ia buscar ela no trabalho dela
[...] às vezes eu saia a noite da faculdade ia buscar ela, levava ela pra casa [...]
era atribulado sim, mas a gente sempre dava um jeito de se ver [...] o meu
trabalho e meu estudo nunca foram um empecilho para o meu relacio-
namento, meu namoro com ela [grifo nosso]. Acho que quando as pessoas
querem se ver elas se veem simplesmente. Mesmo quando eu tenho que
estudar para uma prova, de repente ela aparece aqui do meu lado, eu estudo
aqui, ela tá aqui, mas não me atrapalha não. A gente dá um jeito, é isso que
eu quero dizer... a gente dá um jeito”.

É interessante notar a afirmação de Jorge; “o meu trabalho e meu estudo nunca


foram um empecilho para o meu relacionamento, meu namoro com ela”, pois, logo
em seguida, quando perguntado novamente que balanço faz dessa sua trajetória
profissional-pessoal, tal qual ocorreu com Márcia, manifestam-se plenamente
formas de objetivação que, no cotidiano, expressam a vida do homem cindido
(Heller, 1989), disse-nos o depoente: “Eu queria ter oportunidade de ter viajado
de férias”. Seu desabafo parece indicar que carrega as mágoas de um desejo conti-
do, não realizado, possivelmente uma vontade de ter viajado com sua namorada.
Como explicar que um jovem com a condição salarial já demonstrada, com carro
próprio, contrarie um comportamento tipicamente juvenil?
Como se explica o fato de que um jovem, morando a cinquenta minutos do
litoral sul paulista, possa se lamentar dizendo: “eu queria ter oportunidade de ter
viajado de férias”? Será que tem razão quando afirma “o meu trabalho e meu estu-
do nunca foram um empecilho para o meu relacionamento, meu namoro com ela”?
Ou será mais uma maneira de tergiversar, resignar-se, em face das agruras pesso-
ais que lhe são impostas pelo modo de vida “ just-in-time”?

6. O PURGATÓRIO E A PORTA DO INFERNO

Ensina-nos a Igreja Católica que todos aqueles que morrem na graça e na ami-
zade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenha garantida
a sua salvação eterna, passam, após sua morte, pela purificação a fim de obterem a
santidade necessária para entrarem na alegria do Céu. Eis aqui o sentido do pur-

178
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

gatório, ensinado em 10/12/2008, pelos missionários da Canção Nova, em matéria


publicada no site www.cancaonova.com.
De forma análoga, porém voltada para o mundo dos vivos, daqueles que la-
butam dentro da fábrica, podemos observar o quanto a “luta” individual travada
pelo jovem-adulto flexível em prol da sua “afirmação” é reflexo das suas atitudes
tomadas com vista a suplantar uma condição de inferioridade no espaço produti-
vo, condição que emerge do fato de ser novato; o inexperiente “moleque do Senai”
na visão dos operários mais antigos.
Para obter sucesso, precisa mostrar-se disposto, demonstrar resistência física
e disposição/capacidade de enfrentar a dureza da vida cotidiana na fábrica. Como
afirmou o médico do trabalho:

“É importante a gente ressaltar que os jovens são mais facilmente vítimas


[...] existe toda uma dinâmica do trabalho, as pessoas geralmente entram
no mundo do trabalho pelas portas do inferno [grifo nosso], elas entram
para fazer o pior serviço, as pessoas que já faziam aquele serviço, quando
abre uma vaga mais pra frente ele já muda, ele conhece, ele vai procuran-
do se encaixar nos lugares melhores, então quem entra sempre entra pra
fazer o que é mais difícil mesmo quando você tem um grupo de trabalho
[...] Segunda coisa [...] elas desenvolvem a experiência...isso a gente discute
muito em ergonomia..., a experiência de trabalho faz com que elas desen-
volvam estratégias mais eficientes de fazer o trabalho, então ele tem aquele
“jeitinho” de fazer a mesma atividade economizando.... vamos dizer.... um
terço a menos de energia [....] a questão da própria estratégia de vivência
psíquica, ele vai desenvolvendo estratégia para suportar ou lidar melhor
com essas sobrecargas e restabelecer o equilíbrio dele com mais facilidade”
(depoimento coletado por nós em fevereiro de 2008).

Ou seja, inexperiente e movido pela pressão, o jovem operário conhece de perto


as portas do inferno. Sua entrega ao trabalho árduo explica-se pela combinação da
sua necessidade em se efetivar no emprego com a fragilidade de alguém que se en-
contra na condição de estagiário, pois, ao terminar o curso do Senai, é preciso en-
frentar um período probatório de até 12 meses e a correspondente redução salarial.
Combinando, portanto, necessidade do emprego e inexperiência no chão de
fábrica, o jovem operário luta para livrar-se o mais rápido possível das penosas
formas de trabalho, irá de todas as maneiras dar celeridade ao processo de sua
“purificação”, encurtando - se possível - o tempo de passagem pelo purgatório.
Esse é um período que implica saber “dar e receber cotoveladas”, pois a totalidade
do contingente operário remanescente do Senai encontra-se em luta aberta pelas
vagas que podem surgir na produção. “Não interessa aonde, o importante é você se
efetivar”, informou-nos um jovem dirigente da comissão de fábrica.

179
CAPÍTULO 6

Do relato acima, podemos apreender ainda que, mesmo obtendo maior tem-
po de estudos/qualificação profissional, tal qual demonstramos anteriormente, a
competição entre os operários, potencializada pela dinâmica da fábrica reestru-
turada ao receber o jovem-adulto flexível formado na escolinha Senai, termina
por impor “dores” típicas que nos remetem a aspectos da anterior organização de
trabalho taylorista/fordista.
A esse respeito, instigantes são as observações de Dejours quando assinala que,

“[...] a individualização, mesmo se ela é antes de tudo uniformizante, porque


apaga as iniciativas espontâneas [...] porque ela anula as defesas coletivas,
a individualização conduz, paradoxalmente, a uma diferenciação do sofri-
mento de um trabalhador e de outro. Por causa do fracionamento da coleti-
vidade operária, o sofrimento que a organização do trabalho engendra exige
respostas defensivas fortemente personalizadas” (Dejours, 1992: 40).

Ou seja, a pouca ou quase nenhuma experiência anterior de trabalho no chão


de fábrica, somada à necessidade da sua permanência na empresa, implica no de-
safio de desenvolver estratégias de vivência física e psíquica, capazes de dar supor-
te à sobrecarga de trabalho. Essas estratégias seriam componentes necessários ao
restabelecimento do equilíbrio físico, ou ainda, emocional-psicológico.
Diante do que foi exposto até aqui, talvez seja salutar objetar se existe algum
limite psicofísico do jovem-adulto flexível em face de tantas cobranças que lhe são
feitas no trabalho e na escolinha Senai, mais as exigências dos pais que se preocu-
pam com o futuro profissional dos filhos, ainda que não se comuniquem.
Para Dejours (2000), passada essa fase inicial de adaptação, como tendência, o
indivíduo tende a conviver com certa dose de sofrimento, porém sem ultrapassar
a linha divisória da “normalidade”:

“A normalidade é interpretada como resultado de uma composição entre


sofrimento e a luta (individual e coletiva) contra o sofrimento no trabalho.
Portanto, a normalidade não implica ausência de sofrimento, muito pelo
contrário. Pode-se propor um conceito de “normalidade sofrente”, sendo,
pois, a normalidade não o efeito passivo de um condicionamento social, de
algum conformismo ou de uma “normalização” pejorativa e desprezível,
obtida pela “interiorização” da dominação social, e sim o resultado alcan-
çado na dura luta contra a desestabilização psíquica provocada pelas pres-
sões do trabalho” (Dejours, 2000:36).

Ou seja, no modo de vida “ just-in-time”, a correlata pressão pelas mudan-


ças em substituição ao “gorila domesticado”, finda por impor ao perfil operário
jovem-adulto flexível uma espécie de dor permanente, que, contida e sufocada,
é parte da estratégia adotada para que possa manter certo equilíbrio psíquico, de

180
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

acordo com os pressupostos definidores da “normalidade sofrente” indicada ante-


riormente por Dejours (2001).
Mas nem todos os operários reagem da mesma maneira. Por essa razão, outro
aspecto verificado em nossa pesquisa de campo merece ser abordado. Soubemos,
por exemplo, que a pressão do trabalho abre flancos para o surgimento de com-
portamentos e condutas que, revestidos de tentativas de fuga, repercutem sobre-
maneira na vida social e de trabalho do novo perfil operário.
Nesse sentido, são reveladoras as informações trazidas novamente pelo médi-
co do trabalho:

“A gente tem que frisar bem, inicialmente eu não acho que as pessoas usem
qualquer tipo de droga para poder trabalhar, para aguentar o trabalho. Elas
começam usando algum tipo de substância química pra poder relaxar...ele
precisa de alguma coisa que o desligue do trabalho...o trabalho é uma presen-
ça tão intensa na vida do cara, ele ocupa tanto espaço na vida que se você qui-
ser algum momento de sossego, de paz, de diversão, você precisa esquecer o
trabalho... qualquer coisa vale pra você esquecer o trabalho [...] não vai dar pra
você fazer nada se não esquecer todas as obrigações... porque se você estiver
lúcido pra pensar no quanto de coisas que tinha pra fazer e não fez, que vão se
acumular com as coisas que você não vai conseguir fazer também na próxima
semana, você nem dorme... ou então você vai começar a pensar: “vou voltar
pra fábrica, trabalhar sábado e domingo porque.....não dá [...] O problema é
um só, toda substância relaxante tem uma ”meia-vida” longa. Por exemplo,
o cara que sai às 23h30 da faculdade e fuma um ou dois baseados, toma uma
cerveja pra consegui dormir, a tendência dele é ele dormir até às 10h da ma-
nhã, mas ele precisa acordar às 4h... 4h30 ou 5h, então o que acontece é que
ele começa usar alguma coisa que “ligue” ele logo cedo [...] você precisa tomar
alguma coisa que seja estimulante, ai você começa com guaraná em pó, mas
guaraná em pó não dá conta, aí você começa a partir para uma coisa que seja
um pouco melhor [...] o que é natural hoje em dia; as anfetaminas, as sintéticas
principalmente [...] dá uma “turbinada” com esse produto químico. Às vezes
você toma algum estimulante normal, desses produzidos comercialmente, re-
médios que são antidepressivos, tem a capacidade de te estimular um pouco,
e, no limite você... dependendo do seu poder aquisitivo, usa cocaína... que é
o que muita gente cheira para trabalhar. Tanto isso é verdade que nós temos
fábricas hoje no ABC... claro que nós somos contra esse tipo de coisa... mas
que já tem programas de repressão ao uso de drogas, principalmente o uso
de cocaína e maconha. Elas (as empresas) fazem testes aleatórios garantindo
que pelo menos quatro vezes por ano todo mundo seja testado e se for detec-
tado qualquer sinal de uso de qualquer droga (cocaína, maconha ou mesmo
de bebida alcoólica) ele é incluído em um programa de acompanhamento e
monitoramento, chamado entre aspas de “Programa Social de Prevenção de
Dependência Química”, mas que na verdade é um tormento porque a partir
do momento em que o cara (o trabalhador) passou a perder a produção ela (a
empresa) tem toda uma justificativa; “o cara é um dependente químico invete-
rado, embora a fábrica tenha feito tudo... não consegue resolver, então tem que
ser demitido”. [...] uns dez anos... eu acho que uns dez anos... pelo que a gente
tem lido, quer dizer, quando você começa a entrar nessa, é claro que existem

181
CAPÍTULO 6

casos e casos, mas a média seria em torno de dez anos o tempo que a pessoa
leva pra começar a aprofundar a dependência, nesse período ele ganha pro-
dutividade, depois disso se estabiliza por volta de uns quatro, cinco anos....e
começa a cair, por volta de dez anos ele acaba estando com problemas sérios
de conseguir responder àquilo que a fábrica tá querendo dele, isso é o caso do
alcoolismo [...] Hoje o álcool é o mais consumido por um motivo: ele é mais
barato e é legal... já temos um significativo número de pessoas em qualquer
área e em qualquer atividade.... quer dizer, tanto horistas, peão do chão de fá-
brica como mensalista” (depoimento coletado por nós em fevereiro de 2008).

Confirmando o diagnóstico acima feito pelo médico, é de nosso interesse


transcrever o depoimento coletado de um “operário flex” que atualmente luta para
se livrar das drogas. Heitor, com 27 anos de idade, disse-nos que nos últimos anos
sempre viveu em “combustão”, usava de forma combinada diferentes tipos de dro-
gas lícitas e ilícitas.
Mas como tudo isso começou? Seu relato não deixa dúvidas; sua dependência
teve inicio a partir do momento em que:

“O trabalho me levava ao cansaço... o cansaço me levava a beber... acabou


virando uma rotina [...] Minha relação com minha noiva nessa época já es-
tava conturbada [...] Meu vínculo com a noiva foi se quebrando aos poucos
[...] Nesse meio tempo fui pra essa vida de balada de saída, de droga e bebi-
das [...] mas não chegava a afetar o raciocínio porque era um trabalho muito
repetitivo [...] Isso acontece com muitas pessoas, a pessoa está tão acostu-
mada a fazer o serviço que não afeta muito né [...] Você acaba burlando um
monte de regras, de normas do trabalho pra poder produzir mais [...] Você
acaba pegando mais peças nos braços, com a mão, levando com a força [...]
Você acaba eliminando vários processos da produção pra poder fazer mais
[...] Rapazes novos aí, da minha idade, já tendo muito problema de coluna,
de bursite, tendinite. Por isso, acaba querendo mostrar mais no trabalho e
acaba ficando doente [...] Chegou um tempo que minha resistência em re-
lação ao álcool foi baixando, eu bebia pouco e ficava mais alterado, quando
eu conheci as drogas. Conheci cocaína que quando eu bebia muito e ficava
meio aéreo, eu usava cocaína ela cortava o efeito da bebida, eu trabalhava
normalmente, ninguém percebia que eu estava alcoolizado então foi um
remédio do outro entendeu, uma coisa pra amenizar a outra. Eu bebia ... e
a droga vinha pra melhorar os efeitos que a bebida causava [...] Tem muitos
conhecidos aqui que estão indo pro mesmo caminho”. (depoimento coleta-
do por nós em fevereiro de 2008)7.

7 Na letra da música intitulada “Vida”, Chico Buarque de Holanda sugere que a vida cotidiana
traz em si um peso descomunal, que colocado sobre os ombros dos indivíduos, obriga-os
a recriar/desejar/projetar, no seu imaginário, momentos de “fuga” em face do pesado fardo
em que se transformou o cotidiano: “Vida minha vida, olha só o que eu fiz. Deixei a fatia
mais doce da vida, na mesa dos homens de vida vazia, mas sei que fui feliz [...] Luz, quero
luz sei que além das cortinas são palcos azuis, e infinitas cortinas com palcos atrás. Arranca,
vida estufa, veia e pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais. Mais, quero mais, nem que todos

182
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

Nota-se, pois, que quando analisamos o modo de vida, o teor social contido na
vida “ just-in-time”, vemos que o cotidiano do jovem-adulto flexível é marcado por
um processo de perdas e sofrimentos irreparáveis. Ao olharmos o conjunto, nota-
mos que parte dessas perdas corresponde a determinados momentos específicos
da vida de uma pessoa. As descobertas relacionadas à fase da vivência adolescente-
-juvenil é um típico exemplo: “na fábrica a gente amadurece mais cedo”, conforme
nos relatou Tereza.
Por outro lado, considerando a qualificação profissional e a escolaridade do
jovem-adulto flexível e sua maior “propensão”, “disponibilidade” de adesão às prá-
ticas que buscam o consentimento, o jovem operário tem a preferência da empresa
no instante em que é preciso decidir quem se manterá empregado. Tal processo
induz à luta “insana”, porém explicável - cortar custos -, de “todos contra todos”;
é o momento do “salve-se quem puder”. A fábrica entra em transe, o momento
da catarse se aproxima, acirram-se as disputas entre operários antigos e jovens. É
preciso decidir friamente quem fica e quem sai.
Com isso temos que, se o comportamento dos jovens-adultos flexíveis é de-
finido em função da sua postura “individualista”, suas atitudes refletem aspectos
das condições gerais do presente marcado pelas metamorfoses do proletariado
contemporâneo. Dessa forma, o próprio acirramento do processo de disputas de
“todos contra todos” revela os sentidos e as particularidades das ações dos indiví-
duos ou grupos, que agem premidos pela dimensão objetiva imposta pelo cotidia-
no alienado:

“[...] as escolhas entre alternativas, juízos, atos, têm um conteúdo axiológi-


co objetivo. Mas os homens jamais escolhem valores, assim como jamais
escolhem o bem ou a felicidade. Escolhem sempre ideias concretas, fina-
lidades concretas, alternativas concretas. Seus atos concretos de escolha
estão naturalmente relacionados com sua atitude valorativa geral, assim
como seus juízos estão ligados à sua imagem de mundo” (Heller, 1999:14).

os barcos recolham ao cais. Que os faróis da costeira me lancem sinais. Arranca, vida estufa,
vela me leva, leva longe, longe, leva mais. Vida minha vida, olha só o que eu fiz....”. Na música
“Revanche”, composta e interpretada por Lobão, lemos: “Eu sei que já faz muito tempo que a
gente volta aos princípios, Tentando acertar o passo usando mil artifícios, mas sempre alguém
tenta um salto, e a gente é que paga por isso. Fugimos pras grandes cidades, bichos do mato
em busca do mito, De uma nova sociedade, escravos de um novo rito, Mas se tudo deu er-
rado, quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por
isso? Quem é que vai pagar por isso?, Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais
revanche, Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...[...] O café, um cigarro,
um trago, tudo isso não é vício, São companheiros da solidão, mas isso só foi no início, Hoje
em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?”.

183
CAPÍTULO 6

Vemos, pois, o quanto em nossa cotidianidade, dinâmica calcada na imedia-


ticidade desse turbilhão fetichizante/alienante - processo no qual o jovem-adulto
flexível encontra-se completamente submerso - há uma forte tendência à fragiliza-
ção dos laços de solidariedade entre segmentos, grupos, parcelas ou classes.
Essa tendência expressa, assim, de forma acentuada, os novos significados das
manifestações da vida cotidiana alienada, reveladora de um novo conteúdo “axio-
lógico objetivo” que atua como força capaz de reduzir parte significativa da força
de trabalho à condição de “rejeito humano”, pois a consolidação dos paradigmas
técnico-organizacionais do trabalho flexível implica também tornar descartáveis
contingentes expressivos do proletariado, tal qual o são os bens de consumo. No
chão da fábrica são nítidos os conflitos ocorridos entre o antigo perfil operário,
participante ativo dos grandes movimentos grevistas de fins dos anos 70 e década
de 80, e o jovem-adulto flexível contemporâneo, os “filhos da reestruturação”.
Esses conflitos emergem, refletem a dissensão provocada quando da intro-
dução do conceito de empregabilidade, que exige dos operários engajamento e
cumprimento das metas de produção e das melhorias continuas, posturas incor-
poradas facilmente pelos segmentos mais novos, em especial, nos momentos em
que procuram passar o mais rápido possível pelo estágio ou fase do “purgatório”.
É por isso que, nesse contexto, nos momentos de rusgas e de acirradas dispu-
tas, é que ganha força entre os mais novos a tese da descartabilidade. Os antigos
passam a ser vistos como aqueles que devem ceder seus lugares, enquanto a em-
presa, “necessitando de sangue novo”, faz vistas grossas para esses fatos. Aliás, até
criou um curso de readaptação social para aqueles que se prontificam a deixar a
“família”, entenda-se a empresa.
Em conversa informal, alguns operários disseram que nos momentos de
maior tensão - quando se discute a possibilidade de cortes de pessoal - os antigos
tornam-se o alvo preferencial das brincadeiras do tipo; “vai pescar, véio”, “sua mu-
lher está te esperando”, “o ricardão vai passar na sua casa”, etc.
Para os antigos, essas atitudes têm o sentido de “desrespeito”, “humilhação”,
“constrangimento” vulgar e desnecessário. Mas não é só isso: a desconsideração
em relação ao passado é algo ultrajante, é “o fim do mundo”, “fim dos tempos”, tal
qual podemos constatar em nossa pesquisa de campo, somando-se aquelas trazi-
das por Kimi Tomizaki (2007).
Sobre essa questão, vejamos o relato de David, operário com “trânsito livre”.
Trata-se de uma figura ímpar na medida em que possui a capacidade de tran-
sitar com peculiar desenvoltura entre os dois segmentos. Por ser portador dessa
condição, em muitas ocasiões assume o sui-generis papel de apoiador crítico dos

184
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

operários antigos, ou por vezes de “conselheiro” dos mais novos. Esse emblemático
operário nos relatou que:

“[...] existe uma tensão, um conflito entre o pessoal da velha-guarda e o


pessoal novo. O pessoal da velha-guarda não consegue sair (se aposentar).
Dizem: “o que eu vou fazer da vida agora? Os novos falam: “aposentado tem
que sair”. Os antigos respondem: “mas eu dei meu sangue aqui”. O novo
devolve: “já era, sua fase já passou”.

Será que podemos indicar algumas razões que consigam jogar um pouco de
luz sobre esse conflituoso processo relacional entre os novos e os antigos operários
no chão de fábrica? David, nosso depoente, sugere:

“Eu acho assim... o antigo ele começa olhar para trás e vê as mudanças. Na ver-
dade, a época dele era a época do chicote, vamos dizer assim. Então ele começa
a olhar as conquistas que eles tiveram, as lutas que eles passaram, a repressão
que eles sofreram, ele fica desiludido porque as pessoas não os respeitam pelo
que eles fizeram. Então eles passam por um sofrimento interno” .

Parece-nos, portanto, que um dos aspectos da crise de sociabilidade contem-


porânea, diz respeito ao conflito entre as gerações operárias, um processo em que
“a crise geral mostra a dramaticidade que se expressa como possibilidade de re-
gressão social, de que o chamado neoliberalismo é sintomático” (Neto, 1995: 186).
Nesse sentido, talvez Paulo Leminsky tenha sido um visionário ao escrever
os poemas “Dor elegante” e “Lápide”. Seus versos parecem traduzir essa nova e
peculiar forma de alienação contemporânea. É como se o poeta (nosso oráculo)
antecipadamente nos revelasse o sentido social do sofrimento vivido pelo antigo
operário da empresa aqui pesquisada; o “descartável”.
É interessante notar que no poema “Dor elegante”, Paulo Leminsky nos reme-
te aos pressupostos caracterizadores da “normalidade sofrente” descrita por De-
jours (2000). Assim escreveu o poeta:

“Um homem com sua dor é muito mais elegante, caminha assim de lado,
como se, chegando atrasado, andasse mais adiante. Carrega o peso da dor,
como se portasse medalhas, uma coroa um milhão de dólares ou coisa que o
valha. Ópios, edens, analgésicos, não me toquem nessa dor, ela é tudo que me
sobra, sofrer vai ser a minha última obra”.

Por outro lado, o poema “Lápide” poderia ser interpretado como sendo o gesto,
a atitude pragmática imposta pelo cotidiano ao operário jovem-adulto flexível, que,
conhecedor “do purgatório”, encontra-se em luta aberta para ocupar um lugar, ou
alterar para melhor sua posição no interior da fábrica. Para ele, as coisas também

185
CAPÍTULO 6

não são tão fáceis, uma vez que é obrigado a conviver dolorosamente com o proces-
so de desligamento dos antigos. Muitos deles vivenciam essa experiência dentro da
sua própria casa, pois são netos, filhos ou sobrinhos dos antigos operários.
Mais ainda, seu ingresso no Senai se deve, antes de tudo, ao grau de paren-
tesco que o liga à velha-guarda operária. É como se, inconscientemente, de forma
sub-reptícia, seus pensamentos fossem atormentados por uma verdade inconteste,
qual seja: “sem eles (os antigos) eu nem sequer estaria aqui”. Mas não tem jeito: a
cotidianidade exige, antes de tudo, a adoção de posturas objetivas, e o operário
mais novo tem que lutar para assegurar uma vaga, um “pedacinho de céu”. Pre-
mido pelas circunstâncias, ele tem que tomar uma atitude. Suas defesas desabam,
abrem-se os flancos e o capital sorrateiramente faz valer a máxima pragmática, se-
gundo a qual é preciso “eliminar excessos” (eis aqui o revival da descartabilidade).
Sob o impacto de tais circunstâncias, o jovem operário, movido por sentimentos
confusos, porém pragmáticos, rende-se.
Em uma espécie de desabafo/desespero, é como se declamasse: “podem ficar
com a realidade, esse baixo astral, em que tudo entra pelo cano, eu quero viver de
verdade, eu fico com o cinema americano”. Portador de aptidões profissionais e
atitudes condizentes com as exigências do mercado de trabalho - particularmente
no caso da empresa flexível aqui estudada -, de modo geral, beneficia-se dessa sua
disputa em relação aos antigos, o “capital necessita de sangue novo”.
Ao mesmo tempo - conforme demonstramos -, a condição salarial/material
conquistada após sua efetivação e as reais possibilidades de mobilidade social, nos
limites da sua reprodução enquanto força de trabalho, constitui para essa parcela
da classe operária uma trajetória de “sucesso” disseminada na fábrica da seguinte
maneira, segundo Brandão, jovem operário e ativista sindical; “[...] filho, ó, você
tem que estudar [...] você tem que fazer isso...você tem futuro aqui dentro”.
Por fim, temos que a “sugestão” paterna citada acima, não só explicita o ho-
mem cindido em face do cotidiano alienante/estranhado, mas desvela os vetores
que, compondo nossa sociabilidade contemporânea, retroalimentam o sistema
baseado na exploração da força de trabalho. Talvez seja por essa mesma razão
que a canções interpretadas por Chico Buarque e Lobão, ainda que compostas há
mais duas décadas, mantenham sua vitalidade; “deixei a fatia mais doce da vida,
na mesa dos homens de vida vazia”, eis a cotidianidade estranhada poeticamente,
denunciada por Chico, brecha para que Lobão sarcasticamente indagasse; “mas
quem é que vai pagar por isso?”.

186
Apontamentos sobre o trabalho e a emergência do metalúrgico jovem adulto-flexível no ABC Paulista

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188
CAPITULO 7

Futuros operários: as transformações


das estratégias de reprodução social
e das modalidades de estilização
do operariado em uma comunidade
industrializada portuguesa

Bruno Monteiro1

E
ste artigo pretende conhecer os efeitos que o processo de recomposição do
modo de geração do operariado, realizado ao longo das três últimas décadas,
trouxe para os “novos” operários em uma comunidade industrializada do no-
roeste português. Por muito que ainda permaneçam aquém dos níveis de referência
nacionais, os trajectos escolares entretanto prologados contribuem não apenas para
retardar o acesso à fábrica, que é um lugar fundamental para a transmissão, aqui-
sição e confirmação das formas de valor dos “velhos” operários, como ainda para
denegar ao trabalho fabril o estatuto de destino plausível e aceitável, na medida em
que, ao inculcarem sistematicamente os valores culturais oficiais, disseminam aspi-
rações e expectativas que contrastam flagrantemente com as experiências prováveis
associadas ao trabalho fabril. Por seu turno, os processos de precarização social do
operariado, provocados nomeadamente pela transformação dos regimes de domi-
nação gestionária nos locais de trabalho e pela fragilização económica do quotidiano
familiar (como o desemprego ou o endividamento), multiplicam a probabilidade de
ocorrência de uma delegação frustrada da condição operária, pois tornam renitentes
os seus detentores actuais tanto quanto os seus supostos herdeiros. Nestas circunstân-
cias, o surgimento de inéditas modalidades de estilização da vida associadas ao con-
sumo conspícuo (“o dinheiro”) acaba por confirmar a intensidade da deterioração
da grandeza operária localmente enraizada, e por traduzir os sentimentos de (auto-)
aversão e (auto)negação em relação às ocupações fabris e às maneiras de ser operárias.
Realizadas em versões populares dos paradigmas da “juventude” generalizados pelas
instâncias culturais dominantes, estas modalidades de estilização da vida tendem,

1 Bruno Monteiro é sociólogo. Instituto de Sociologia – Universidade do Porto. E-mail: bjr-


monteiro@gmail.com.
CAPÍTULO 7

portanto, a ser consideradas inferiores e ilegítimas, quando não simplesmente vistas


como selvagens e perigosas, o que acontece com o tunning e a atracção pela potência
e velocidade nos veículos motorizados, com a cultura de ginásio (“puxar ferro”) e a
frequência de discotecas e lupanares.

1. Uma etnografia dos modos de geração do operariado em


tempos de crise

Em Rebordosa, a divisão entre “novos” e “velhos” é dramatizada nos discursos


operários porquanto resume todo um conjunto de oposições relativas à história
do grupo operário localmente enraizado, em especial, relativas às mutações intro-
duzidas nas trajectórias modais dos operários e famílias de operários nos últimos
anos. Os contrastes subsumidos sob esta oposição não são deriváveis de critérios
puramente etários. Desde logo, na medida em que cada grupo social está dotado
com “leis específicas de envelhecimento” (Bourdieu, 1984: 144), cada qual tendo
sequências, ritmos, intervalos e pontos-de-viragem definidos pelos condiciona-
mentos objectivos que resultam da posição ocupada na ordem local de oportu-
nidades e possibilidades, o que é contrastado são dois estados do capital corporal
operário. Esta forma de valor, que é, entre um operariado fortemente descapitali-
zado em termos económicos e culturais, o principal recurso susceptível de assegu-
rar uma rentabilização económica e simbólica tangível, apresenta-se em duas fases
distintas da trajectória que o corpo operário usualmente percorre: uma, a dos “no-
vos”, com todas as qualidades da “força” e da “genica”, pese embora marcada pela
inconstância e pela impreparação (“são uns cabeças no ar”, “maçaricos”); a outra,
a dos “velhos”, que, embora tenham por si as vantagens do treino prolongado (“ha-
bilidoso”, “desenrascado”) e da notoriedade moral e instrumental (“artistas”, “sa-
bem estar”), ou até da habituação (“calejados”), estão em declínio, apresentando os
efeitos da usura (“gastados”, “cansados”) e as contrariedades de uma cristalização
das maneiras de ser, pensar e fazer (“bloquearam”, “estão agarrados ao passado”).
Além disso, esta desagregação do colectivo operário traduz as transformações
operadas nos modos de relacionamento e nas formas de representação que os ope-
rários estabelecem para o trabalho industrial. Estamos, assim, perante diferenças
relativas aos trajectos sociais e, em especial, aos pontos de articulação biográfica
cruciais dos operários. Desde logo, o momento de contacto com o universo fabril
foi sendo protelado à medida que ia sendo lentamente prolongado o percurso esco-
lar. A dilatação deste período de moratória anterior à entrada na fábrica, ao longo
do qual foram sendo generalizadas as influências culturais provenientes do ensino,
do consumo e da urbanidade, significou uma mutação nas vivências e nas aprecia-

190
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

ções feitas da “carreira” oficinal pelos “novos”. Por causa disso, em larga medida,
passou a ser feita uma subalternização da “experiência ao banco” em relação à for-
mação profissional formal e aos empregos “limpos” disponíveis na indústria do
mobiliário (“vendedor”, “comercial”, “empregado de escritório”). Depois, estamos
perante alterações nos projectos concebíveis e acessíveis pelos operários, em que as
orientações dirigidas aos tradicionais postos de distinção local (“ser artista”, “ser
encarregado”, “ser patrão de mim próprio”) sofrem a concorrência das alternativas
(“sonhos”, “ambições”) mais vantajosas prometidas por “fugir ao pó” ou “fora do
serrim”. Realmente, para tirar sociologicamente todas as consequências do reco-
nhecimento da arbitrariedade das divisões etárias, é preciso, para além de admitir
que as separações entre “novos” e “velhos” constituem, tal como as tentativas de
impor, em cada qual, uma definição absoluta da sua unidade social e dos seus in-
teresses comuns, uma parada em disputa entre os especialistas ou instituições que
reivindicam a autoridade de classificação do mundo social, compreender que “os
conflitos de geração opõem não classes de idade separadas por propriedades de
natureza, mas hábitos produzidos segundo modos de geração diferentes, quer dizer,
por condições de existência que, impondo definições diferentes do impossível, do
possível, do provável e do certo, dão a experimentar a uns como naturais ou razoá-
veis práticas ou aspirações, que os outros sentem ser impensáveis ou escandalosas,
e inversamente” (Bourdieu, 2002: 166). Um modo de geração consiste nas condi-
ções sociais de formação das disposições que são contemporaneamente vigentes em
uma determinada localização territorialmente circunscrita (vd. Monteiro, 2011).
A eficácia da força de chamamento da herança operária depende da existência
de herdeiros aptos e propensos a reconhecerem como plausível, como pertinente
ou, inclusive, como necessário esse apelo, manifestando-o como “vontade”, “pai-
xão” ou “motivação” em trabalhar. As possibilidades de gerar a disponibilidade e
a inclinação a “aprender a arte” e acolhê-la, dessa feita, como destino digno de ser
realizado, é, tal como disse, afectada pela intermediação cultural e temporal reali-
zada pela escola: esta adia a entrada no mercado de emprego; reforma as esperan-
ças subjectivas, inocula os arbitrários culturais oficiais; suscita inéditas aspirações
pessoais; e proporciona distintas práticas conviviais e distintivas nos estilos de vida
juvenis. Ademais, ainda pela reestruturação em curso na economia local e da or-
ganização social e técnica do trabalho nas empresas locais, é o que, entre outras
consequências, desmantelou ou encerrou certas “carreiras” do ofício (“entalhado-
res”); programou os dispositivos de controlo da produção no interior das empresas
para obter uma intensificação do esforço produtivo; introduziu inéditas formas de
precariedade económica (desemprego persistente, contratos precários, etc); e levou
a uma diminuição relativa e absoluta das remunerações auferidas pelo trabalho fa-
bril. Paredes, o concelho a que pertence a comunidade industrializada onde realizei

191
CAPÍTULO 7

o meu trabalho etnográfico entre 2007 e 2008, está dotado de um sector industrial
fortemente concentrado em segmentos, com recurso intensivo a mão de obra, em
especial no sector do mobiliário, pautado por um tecido empresarial fragmentado
e perecível, e com uma forte matriz familiar e tradicional2. Da combinação entre
as transformações económicas, culturais e políticas que afectaram globalmente o
espaço social local, nomeadamente no que contribuíram para depauperar e fragi-
lizar em termos objectivos os ocupantes dos posicionamentos operários, surgiram
salientes efeitos nos processos de formação quotidiana do operariado, repercu-
tindo-se subjectivamente - conforme a localização física e social mais precisa de
cada operário - essas formas de precarização económica e subalternidade cultural
contemporâneas. A lógica de cooptação fabril é enervada pela metamorfose nas
estratégias parentais e familiares operárias, que retêm os constrangimentos econó-
micos ligados ao desemprego, à redução dos salários e à flexibilização laboral e que,
portanto, tendem a reorientar os investimentos e as esperanças – sempre prudentes
– de promoção social. Além do mais, o operariado local parece não poder contar
com a potência de outrora, com a existência de um domínio local que reservava a
eficácia de formas de valor autóctones (vd. Monteiro, 2012).
O que torna estrénua e dilemática a delegação e a aquisição da condição ope-
rária é que, actualmente, são os operários que hesitam em onerar os sucessores

2 De acordo com o estudo sobre a Indústria do Mobiliário, elaborado em 2005 pelo Gabinete de
Estudos da Associação Empresarial de Portugal, em 2001, a indústria do mobiliário representava
45,4 por cento do total de activos do sector secundário do concelho de Paredes (e 27,3 por cento
da população activa geral). O complexo industrial associado a este sector é pautado pela predomi-
nância de empresas de micro e pequena dimensão (cada unidade de produção emprega, em mé-
dia, sete trabalhadores), de cariz familiar, com forte limitações no acesso a capitais e na produtivi-
dade, e marcado pelas baixas remunerações e qualificações do pessoal empregado. Em Paredes, o
tecido empresarial encontra-se fragmentado (1166 empresas, 258 das quais em Rebordosa), com
uma média de oito trabalhadores por empresa (851 empresas têm 10 ou menos trabalhadores).
São, principalmente, empresas de reduzidas dimensões (747 têm menos de 1000m² de área cober-
ta). Tendo em atenção as características organizacionais, este parece constituir um conjunto elás-
tico e instável de empresas. Das 1166 empresas, 436 delas foram criadas entre 1995 e 2005, apesar
deste ter sido um período de mutações marcado pelo encerramento de um número considerável
de unidades de produção e por redução do pessoal empregado. Ademais, parece que a iniciativa
empresarial se confunde frequentemente com um projecto individual de promoção ao estatuto
de patrão: 745 empresas têm um único proprietário, e 893 do total de empresas tem o mesmo pro-
prietário que à data de criação. Além disto, do total de 8439 trabalhadores contabilizados em 1053
empresas (113 não forneceram dados), temos 827 trabalhadores dos serviços administrativos. A
quarta classe é o nível de escolaridade dominante em 543 empresas e a 6.ª classe em 414, enquanto
o 9º ano é-o apenas em 67. Trabalhadores com o ensino superior são apenas 127, concentrados
em 69 empresas. O salário mínimo domina as tabelas salariais em 745 empresas. Devemos notar
a existência amplamente difundida de vínculos associados a protocolos informais entre patrões e
funcionários, próprios do paternalismo tradicional, ao lado de outras formas modernas de flexi-
bilização das remunerações, como os contratos a prazo ou os recibos verdes.

192
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

com o peso fundamentalmente negativo da condição operária, até porque parecem


estar cientes da progressiva desqualificação económica e simbólica que teve curso
ao longo do tempo3, enquanto, por seu turno, os sucessores antecipam e assumem
como um fracasso e uma punição a entrada no espaço fabril (vd. Monteiro e Veloso,
2010). Esta sobreposição entre a renitência em delegar uma identidade socialmente
desvalorizada, a desestruturação das lógicas de conscrição oficinal e as alterações
nos regimes vocacionais dos sucessores operários, não são suficientes, nem assim,
para interromper a inércia estrutural que assegura a reprodução social do grupo
operário em Rebordosa. Agravada a situação de crise económica que atravessa o
sector da indústria do mobiliário nacional4, tornam-se todavia perceptíveis, mesmo
que em estado larvar, os indícios de uma crise de reprodução social do operariado

3 Ouvindo Toni, 32 anos, marceneiro a trabalhar desde os 10, que é pai de dois rapazes com 8 e 10
anos, percebemos como vem sendo interiorizada esta situação de crise dos processos de repro-
dução social entre o operariado. «Acho que há muito pouca gente a querer ir agora para a arte,
acho que está a ficar muito pouca gente a querer seguir a arte de marceneiro. À uma, por isto
virar conforme virou, a parte de móveis [refere-se à «crise»], e à outra o pessoal acho que não
está motivado para isso, hoje não temos pessoal a preparar-se para ser marceneiro. O pessoal
hoje quer ganhar dinheiro e não quer trabalhar, antes procuram ser empregado do escritório ou
motoristas ou ajudantes disto ou ajudantes daquilo. (…) Aos dezasseis anos uma pessoa que vai
aprender a arte já vai um bocadico tarde, estás a perceber? Aos dezasseis anos já vai um bocado
tarde e eu cada vez vejo menos pessoal a procurar isso, e antes mesmo os pais arrastavam por
um filho [para] que fosse aprender a arte, antes via-se muito isso e agora não se vê. Levavam os
filhos para a beira para aprender, para se quisesse seguir a arte. E agora não se vê isso, agora é
assim, o filho quer ir trabalhar vai, não quer ir trabalhar não vai. Muitas das vezes os pais já nem
querem que os filhos sigam a carreira deles, que eles estão a estudar, querem que eles estudem
para a frente que sejam, ó pá, que sejam outra coisa, não ser marceneiros ou isso, e eu acho que
hoje já não se vê tanto isso. Hoje o pessoal já não se está a interessar muito neste ramo. Já não
se está a interessar muito no ramo de marcenaria, quem diz para marceneiro, para maquinista,
trabalhar em móveis. Hoje já não se vê muita gente à procura disso, hoje o pessoal quer é ter um
emprego, não quer um trabalho, percebeste? (…) [Pergunto-lhe porque é que os pais não levam
mais os filhos para a arte] Porque querem que eles sigam outra coisa… Acho que os móveis não
tem futuro para os filhos, penso que seja esse o medo. Eu gostava de dar um futuro melhor que
o meu [aos meus filhos]. Eu já tinha falado que gostava de dar um… não digo que não gosta-se
que eles fossem para marceneiros, mas é assim se eles tiverem capacidade de ser empregado do
escritório, de seguir outra coisa qualquer que não seja apanhar pó, ó pá, por mim tudo bem,
como eu penso assim os outros pais também pensam, não é?”
4 “A saturação do mercado interno, potenciada pela quase paralisação da construção civil, o
grande motor do mobiliário, está a lançar o caos no sector. As quedas no volume de ven-
das, ao nível do mercado interno, atingem já os 50%. Números preocupantes, se se tiver em
conta que apenas 10% das empresas têm capacidade exportadora”. Diário de Notícias, Mil
empresas de mobiliário abrem falência em cada ano - Crise na construção e China consti-
tuem as principais ameaças ao sector, suplemento negócios, 23 de maio de 2005. Desde 1994,
desapareceram 30 a 40 por cento das empresas e cerca de 50 por cento da mão de obra do
sector, embora Fernando Rolim, então presidente da Associação das Indústrias de Madeira e
de Mobiliário de Portugal, considere “«ainda não se ter alcançado um grau de concentração
suficiente»”. Segundo ele, o desaparecimento das empresas menos capazes e mal posiciona-

193
CAPÍTULO 7

local, que passa a estar acompanhado de infortúnios e frustrações vividos por pais
e filhos, velhos e novos, artistas e aprendizes, conforme o ponto de vista particular
que cada qual tem de um fenómeno que só aparentemente é comum.
De acordo com a noção de modo de geração territorializado, uma etnogra-
fia da contemporaneidade procura reconstituir teoricamente o circuito de lugares
pertinentes de socialização que, geograficamente dispersos, estão socialmente in-
terligados entre eles pelo contributo unificado que realizam para a formação quo-
tidiana da classe operária local (Monteiro, 2011). Para tentar restituir a experiência
vivida da classe social entre os jovens operários, optei por uma permanência pro-
longada em uma comunidade industrializada do noroeste português, Rebordosa,
que permitisse conhecer as práticas tal como surgem situadas e incarnadas. Em
2007, através de um trabalho de observação participante em uma fábrica de mo-
biliário, onde trabalhei como operador de máquina durante 14 semanas, procurei
restituir a espessura quotidiana de um local de trabalho. No ano seguinte, para
suprir o meu plano de pesquisa sobre as sociabilidades operárias, passei o período
de seis meses, durante o qual residi em uma habitação local, a tentar compreender,
sobre o terreno, as lógicas dos lugares de condensação relacional do operariado,
por exemplo participando das idas aos cafés, aos ginásios ou aos centros de empre-
go; fazendo parte – como jogador – de uma equipa de futebol amador; ou acompa-
nhando as vivências habituais de algumas famílias operárias. Ao longo destes dois
anos, conduzi entrevistas aprofundadas a cerca de quatro dezenas de operários
locais, sobretudo homens, em uma duração entre uma e cinco horas cada.

2. As antinomias do trabalho fabril. Acesso à autonomia pesso-


al, desconforto somático e derrogação da memória oficinal

Tomados os valores para o território nacional, a região do Vale do Sousa distingue-


-se, historicamente, por uma incidência inflacionada da desafeição e defecção em re-
lação à escola (vd. Pinto e Queirós, 2008), sendo, portanto, relativamente renitente a
adoptar padrões de escolaridade mais extensos e mais elevados, ao mesmo tempo, que
mantem uma tendência acrescida para a desistência escolar5. No entanto, a natureza dos

das no mercado, embora «nem sempre pacífico» foi favorável ao sector”. Jornal de Notícias,
Madeiras: sector solicita novo estudo sobre competitividade portuguesa, 25 de junho de 2008.
5 Segundo o Recenseamento Geral da População referente ao ano de 2001, apenas 10 por cento
da população de Paredes tinha concluído o ensino secundário e 6,3 por cento o ensino su-
perior, comparados com os 16,5 e os 13,3 por cento registados para esses mesmos escalões
académicos a nível nacional. Por outro lado, nesse mesmo ano, a taxa de saída antecipada
atingiu os 51,6 por cento e a taxa de abandono esteve acima dos 6,4 por cento, enquanto no
País as cifras eram praticamente menos de metade (26,5 e 2,8 por cento, respectivamente).

194
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

efeitos da escola não fica totalmente esclarecida por esta constatação estatística. Sob o
aparente fracasso da escolarização fazem-se sentir as operações de desculturação e acul-
turação que a escola promove entre os prováveis herdeiros operários. Embora possa ser
assumida como voluntária, a resolução em “deixar a escola” não previne o surgimento
de sentimentos de “arrependimento”. Pelo confronto com a experiência do trabalho in-
dustrial actualmente realizado (“estar preso”, “trabalhar no duro”, “dar o litro”, “ver-
gar o fio”, “amoxar”, “bicho de sete cabeças”), a escola pode surgir retrospectivamente
como um tempo idílico (“andar na boa vida”, “andar na brincadeira”, “sempre a fazer
asneiras”, “passear os livros”, “quando ia para lá era para estar com os meus amigos
e fumar um cigarrito e nunca ia às aulas”, “era borga mesmo”, “andava na vadiísse”).
Apesar de serem, normalmente, a incompetência, a desafeição, o desajustamento ou a
negligência a fornecer as justificações que explicam o abandono escolar (“era burro”,
“não gostava da escola”, “não queria saber”, “não estudava nada”, “não queria apren-
der”, não me interessava pela escola”). No decurso de uma experiência escolar marcada
pela denegação e pelo fracasso, o trabalho fabril pode, no entanto, chegar a surgir como
fatalidade oportuna6. Para explicar a conveniência e a razoabilidade dessa tomada de
decisão, é relevante a conciliação entre os constrangimentos económicos familiares, que
tornam materialmente insustentável e moralmente perverso “andar sem fazer nada”, e
a vontade de aquisição de uma dignidade social, realizada, no fundamental, através da
posse e dispêndio de “dinheiro”. “Precisava de dinheiro, não me dava na escola. Não
ia andar na escola para nada, sempre é melhor andar a ganhar dinheiro. (…) Foi ter de
fazer alguma coisa da vida mesmo, não podia estar parado, não podia deixar… não es-
tudar e não trabalhar, não podia estar a viver à custa de alguém, não é?, sem fazer nada
e porque… queria ter a minha independência e ser alguém.” Estas palavras de Fábio,
maquinista de 21 anos, a trabalhar desde os 15 em uma fábrica de mobiliário local, ida-
de em que deixou a escola após duas reprovações e sem sequer ter concluído o sexto ano
de escolaridade, tornam saliente que o assalariamento precoce permanece importante
nas estratégias individuais e familiares de reprodução social do operariado do Vale do
Sousa. [Ver excerto de André, abaixo.]

“Nenhum deles quer trabalhar nisto, só querem trabalhos limpos mesmo”.


“Acho que dos meus amigos ninguém quer trabalhar nos móveis, por eles, eles
não trabalhavam lá, claro que queriam empregos melhores, mas a vida está para

6 Aqui e lá, através da autorrepressão pessoal e da oposição cultural ao universo de valores


escolares, são criados “poderosos critérios implícitos e processos constrangedores da expe-
riência, que conduzem os jovens da classe operária a fazer «voluntariamente» a escolha de
entrar na fábrica e, dessa maneira, contribuir para a reprodução tanto da estrutura de classe
do emprego, tal como ela existe, como da «cultura de oficina», elemento englobando um
conjunto geral da classe operária” (1978: 51). Esta autocondenação que, nos idos anos 70,
Paul Willis encontrava entre os jovens provenientes do operariado inglês, surge, em Rebor-
dosa, metamorfoseada consoante as especificidades do contexto histórico.

195
CAPÍTULO 7

o que está, eles têm que trabalhar naquilo que aparece para ganhar algum di-
nheiro para se sustentar [pausa]. É um trabalho que eu não desejo a ninguém,
é trabalhar em móveis, isto um dia claro que vai dar muito dinheiro, mas é um
trabalho que não aconselho a ninguém, assim a pessoas novas. Nenhum deles
quer trabalhar nisto, só querem trabalhar em escritórios, assim essas coisas, tra-
balhos limpos mesmo, não se faça quase nada. (…) Lá [na fábrica] uma pessoa
está sempre a olhar para as horas, a ver se o tempo passa rápido, o tempo não
passa… Estou sempre a olhar a ver se chega às cinco e meia para sair lá do traba-
lho, cansado de ouvir as máquinas a trabalhar sempre todo o dia, é muito cansa-
tivo. (…) Ao princípio custou, mas depois, claro, o tempo a passar… Eu fechado
lá dentro e via os meus amigos cá fora na escola andar à boa vida, ter férias assim
de um momento para o outro, eu a trabalhar e eles andavam aqui, cá fora, sem
trabalhar e eu fico lixado e arrependido de ter saído da escola. E depois o resto,
não estou a ver [pára a pensar] Enquanto eles estão a gastar dinheiro e não estão
a ganhar nenhum, eu estou a ganhar e ao mesmo tempo estou a gastar também.
Eles estão a ver se acabam o 9.º ano, outros o 12.º, a ver se arranjam empregos
[pausa] empregos já bons. Mas mesmo assim, alguns mesmo que acabe, o 9.º
ano e o 12.º não conseguem arranjar empregos e acabam depois no mesmo em-
prego que eu. Querem arranjar empregos melhores, trabalhar nos escritórios e
isso, mas depois já não metem empregados e não sei quê, é complicado e depois,
pronto, têm de arranjar emprego em algum sítio para ganhar dinheiro, e só nos
móveis mesmo.”
(André, 19 anos, maquinista wm uma fábrica de mobiliário loca, possui o
8.º ano de escolaridade.)

Sem que isso signifique uma adesão incondicional à tradicional via de aquisição
e demonstração das virtudes masculinas e oficinais (“aprender a arte”), abandonar a
escola para, em seguida, entrar na fábrica, - no que não é, muitas vezes, senão um acto
de antecipação para contornar as penalizações culturais vividas ao longo do percurso
escolar e a incerta rentabilidade futura dos títulos académicos (“sempre não ia a lado
nenhum”, “não vale a pena andar lá, eu vejo os outros e eles acabam por ir para a mi-
nha beira”)7 -, pode ser retrospectivamente reconstruído como uma escolha sensata e
vantajosa, sendo raramente assumido como compulsão ou prejuízo. Filipe, operário
com 18 anos, a trabalhar em uma fábrica de mobiliário local, pode apresentar o tra-
balho, sem nenhum propósito capcioso, em termos próprios ao idioma do sacrifício,

7 “Um canudo, mesmo o canudo superior, não serve de muito hoje em dia, é só ver na televisão”,
afirma um velho operário que teve a família esforçada durante os anos em que a filha cursou
Línguas e Literaturas Modernas, para ela, afinal, permanecer desempregada desde que termi-
nou o curso, tendo agora 30 anos. “Quando ela estudava para professora, pensei “[quando ela]
é professora, vou folgar um bocado as costas quando ela acabar o curso, só que concorre, con-
corre, concorre e vai tudo à frente dela. (…) [A estudar] Gastava muito. Porque ela em vez de
estudar, se estivesse a trabalhar em confecções trazia-me algum ao fim do mês, mas também
não quis, «há-de ter paixão» [pensou ele], foi e pronto, agora está assim”. Embora o descanse
saber que “não deve nada a ninguém”, há uma mistura de decepção e indignação, e que o leva
a suspeitar de favorecimento de “outros” em prejuízo da filha, com a manifesta inutilidade de
“tantos anos de sacrifício”.

196
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

essa união entre acto útil e obrigação ideal, entre abnegação orientada pelo dever e ex-
pectativa de retorno egoísta8. “Se a gente quer ser alguma coisa na vida e se a gente tem
de lutar por aquilo que quer, tem de trabalhar, sem isso não se vai longe na vida. (…)
Se uma pessoa quer dinheiro para as coisas e para o resto da vida, tem que trabalhar,
é um bocadinho de sacrifício mas sei que chega-se ao fim do mês e diz-se assim «olha,
este dinheiro foi ganho com o meu suor, é para mim» sei que trabalhar é importante,
se a gente quer ter dinheiro, é isto, tem que trabalhar nisto. Vou trabalhar sempre que
posso e só se me acontecer alguma coisa que me impossibilite de ir trabalhar, porque
de resto… consiga ou não consiga tirar cursos, ser bombeiro ou não ser [é este o seu
«sonho»], eu sei que tenho que ir trabalhar e quero ir trabalhar.”
O reverso desta escolha do trabalho – a que, porém, é reconhecida toda a sua
carga de dureza e moléstia – é o seu pressuposto aparentemente irrefutável de uma
animadversão pessoal em relação à escola (“não é para gente como nós”). Que
usualmente desliza, mesmo que assumindo as proporções do humor escarninha e
irónico dos operários (“somos uns burros”, “somos grosseirões”, “aqui é só serrim
dentro da cabeça”), para o contentamento com os (pequenos) sucessos (“tenho
mais liberdade”, “sou dono daquilo que é meu”, “já posso gastar”) conseguidos no
seguimento de um fracasso (“é um trabalho em que tem que se puxar, uma pessoa
sua muito”, “não gosto de me ver sujo”, “não queria apanhar pó”).
Estas aparentes resignação e subserviência perante os sucessos e insucessos es-
colares ou laborais não significam, de todo, indiferença, muito menos harmonia
relativamente à ocupação fabril. Pelo contrário, são constantes as demonstrações
de desinteresse, menosprezo ou recusa do ideal de virtuosidade laboral localmente
oferecido (“gosto pela arte”, “ser artista”). “Não vejo jeito”, respondeu-me André,
maquinista de 18 anos, quando lhe perguntei quais as ambições que tinha profis-
sionalmente. Nem em ser um artista? “Um artista como? Um marceneiro… [Parece
pensar na perspectiva de possuir uma «arte»] É assim, eu não sou… não sei montar
todo o tipo de móveis, mas sei montar alguns, nunca se sabe… Ser um artista…
[Subitamente, interrompe as suas próprias cogitações] É assim, neste momento a
minha ideia é mesmo acabar o nono ano [que está a concluir «à noite», no Progra-
ma Novas Oportunidades] e mudar de emprego. Neste momento não tenho esse
pensamento. Não faz parte dos meus planos, tenho outros planos na minha vida
por realizar, mas não sei…” Há uma idealização da transitoriedade da passagem
pela fábrica que funciona como reacção imaginativa perante o desencantamento
sentido em relação ao universo fabril, sem que, contudo, tenha depois seguimento

8 É em termos próximos a estes que, no seu Ensaio sobre a natureza e a função do sacrifício,
Henri Hubert e Marcel Mauss definem o sacrifício, acto em que “o desinteresse se mistura
aí com o interesse” (Mauss, 2002: 225).

197
CAPÍTULO 7

em um comportamento calculado e planeado relativamente ao futuro profissional.


Zé Mário, embalador em uma fábrica de mobiliário, tem presente os sentimentos
dos colegas de trabalho que, como ele com os seus 18 anos, apenas recentemente
entraram na fábrica. “Querem sair o mais depressa, logo que possam querem sair
de lá e querem ir para outros sítios, uns pela questão económica, para ganharem
mais, outros porque simplesmente não gostam daquilo que fazem.” Parecem es-
cassear aqueles que sentem o apelo para uma ascensão na escala virtuosa do ofício
– em todas as acepções da palavra – pela devoção ao trabalho. Opinião que também
transparece nas palavras de Fábio, maquinista de 21 anos, quando é levado a pensar
no futuro, ele que acabara de completar, há pouco tempo, cinco anos de trabalho
em uma fábrica de mobiliário. “Isso não sei, nunca gostei muito de pensar nisso, no
futuro profissional. Não sei… Nunca, nunca planeei o futuro, sempre deixei rolar…
nunca fiz… Mas gostava de ser, tipo, alguém respeitado, ser uma coisa mais forte,
evoluir mais um bocado, ter uma coisa melhor, não é?, que não fosse no pó… Sei lá,
ganhar o Euromilhões! [risos] Tu aqui não há nada assim que dê para mudar mui-
to… (...) Sinto-me motivado porque preciso evoluir mais, preciso de… dinheiro,
não é?, preciso sempre de trabalhar para conseguir começar a ganhar mais dinhei-
ro, sempre mais, não é, é sempre bom, para pagar contas, para ter um carro, um dia
ter casa própria, essas coisas, eu acho que toda a gente tem esses motivos”.
O realismo realista tido por estes operários-em-formação a propósito da actua-
lidade (“via as coisas à minha volta em casa”, “a vida está para o que está”, “agarrar
aquilo que aparece para se sustentar”, “ter a noção das coisas”), não tem equivalente
na altura de formular um projecto pessoal coerente, que tende, a maioria das vezes,
ou para uma fantasia governada pela sorte (“ganhar o Euromilhões”, “jogar nos
números”) ou, então, para estacar perante o obscurecimento do futuro (“não vejo
futuro”, “não gosto de pensar no futuro”, “não sei o que me espera”). “Eu nunca
sei o que o futuro vai ser, eu não vou estar a dizer que o meu futuro, «eu quero
isto e aquilo», porque eu não sei, depois vê-se quando chegar lá… Consoante vai
indo, consoante se vai vendo.” (Tiago, 16 anos, aprendiz de marceneiro, trabalha há
pouco mais de um ano, depois de ter concluído o 8.º ano de escolaridade.) Noutros
casos, relativamente ocasionais, as ambições tendem a conformar-se aos limites do
universo de oportunidades acessíveis e concebíveis na economia local, surgindo
como comedida pretensão ao posto de “vendedor”, “empregado de escritório” ou
“técnico de máquinas automáticas”. Postos que, sendo relativamente equivalentes
em termos remuneratórios e pragmáticos às ocupações operárias, estão, contudo,
superiormente qualificadas localmente, pois conferem aos seus detentores uma no-
toriedade distintiva (“não andar no pó”, “andar limpo”, “trabalhar com computa-
dores”, “estar sentado”, “não é como no banco”, “fazes o teu trabalho como quise-
res”). Em qualquer das vias de escape imaginadas (“fugir à fábrica”, “sair do pó”),

198
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

é manifesta a contrariedade com que é vivida a condição operária no presente, sem


que, como disse, estes impulsos volitivos estejam acompanhados por condições de
possibilidade que tornassem verosímil a sua efectiva concretização.

“Tanto que eu gosto muito de trabalhar mas acho que aquilo não é futuro
para ninguém”.
“É assim, uma pessoa dentro de uma fábrica está muito mais presa, não é?, está
em um ambiente muito mais preso, em um ambiente sob pressão, não tem… e
mesmo a convivência com as pessoas é muito diferente da escola, a gente ali é só
trabalho e… amizade de trabalho, fora daí se calhar já não, não há mais nada, e
na escola não, uma pessoa na escola é diferente, ganha amigos para muito mais
tempo, eu pelo menos vejo assim. É assim, os primeiros meses custou-me bas-
tante. (…) A escola [está a pensar frequentar o ensino nocturno para obter o
12.º ano] é para ver se arranjo melhor emprego porque eu não manter a mi…
não quero perder a minha… anos da minha vida fechada em uma fábrica ou…
não quero perder mais tempo fechada dentro de uma fábrica, porque parece que
não, mas é muita perda de tempo, uma pessoa entra de manhã e fica lá fechada
até à noite, uma pessoa não vê a luz do dia, estou ali a trabalhar, ali… a desgastar
muito o corpo e a cabeça, não é? Mas não nos dá nada, uma pessoa sai para fora
acabou! e eu quero algo mais, não queria só aquilo. Tanto que eu gosto muito
de trabalhar mas acho que aquilo não é futuro para ninguém, acho que não é
futuro, acho que merecia melhor, é apenas isso. Até lá vou continuar na fábrica,
porque não vou ficar em casa sem ganhar, sem receber, não é?, nem pensar, nem
pensar porque… deus me livre! (…) É assim, eu vejo… naquele sector em si, vejo
muito mau porque não acho que aquilo seja… futuro para ninguém, não acho
porque da maneira que isto está é muito complicado arranjar emprego hoje em
dia, está muito complicado, pronto, eu acho aquilo não tem futuro nenhum,
acho eu… É assim, não sei, porque é assim, trabalhar em uma fábrica é um am-
biente muito complicado, foi como eu disse, a gente fica fechada de manhã à noi-
te, não tem… não apanha sol, não apanha ar, não… Pronto, é muito complicado
lá dentro, e depois é assim uma pessoa, o ordenado, salários não somos nada
recompensados, eu acho que aquilo não dá, da maneira que isto está a avançar
se eles não aumentam, nos dão rendimentos, nós não conseguimos fazer nada
na nossa vida. (…) Muitos estão… fazem aquilo porque precisam muito de di-
nheiro, precisam de trabalhar, porque por gosto… acho que ninguém trabalha
assim, de dizer assim: «eu gosto daquilo, é aquilo que eu quero!», não! (…) Uma
pessoa chega a casa tão cansada que não tem tempo para mais nada, não tem
cabeça para mais nada, uma pessoa, às vezes, chega a casa, stressa com a família,
vem stressada daquele ambiente e quem paga é a família. Agora que eu vi que
não dava mesmo, chego a casa, estou fora dos problemas, a fábrica acabou para
mim. Chego à casa é a minha vida, a casa é a minha vida, o trabalho ficou para
trás, esqueci-me, não posso pensar no trabalho em casa, porque senão tenho
que descarregar nos outros, venho super stressada, então chego à casa acabou
o dia de trabalho. Chego à casa, tomo banho, sou outra pessoa. Eu não tomo
nada, porque é assim, sei de pessoas que, pronto, sentem-se cansadas vão logo
a correr, os médicos dão-lhe medicação para descansar, para dormir, não, eu
tento chegar à casa, tomo um banho, pôr-me… pronto, normal, a minha pessoa,
tratar da minha pele porque aquele material deixa-me a pele bastante seca e isso,
na boa, chegar à cama e tentar dormir sem pensar em nada.” (Isabel, 19 anos,

199
CAPÍTULO 7

embaladora/”costureira” em uma fábrica de estofos local, trabalha desde os 16,


depois de ter concluído os nove anos de escolaridade mínima obrigatória.)

Para os operários saídos da “geração da fábrica”, os neófitos operários saí-


dos da “geração da escola” (Béaud, 1996: 6), “não mereciam” ou “não mereciam
o castigo” (devendo levar-se a sério a existência desta dupla acentuação positiva e
negativa do trabalho fabril) de “estar na fábrica” todos os dias. Esse “sentimento
de osmose” que pode chegar a ligar operários e fábrica (Béaud e Pialoux, 1999:
73)9, pode ser experimentado na condição de ocorrer, ao longo de uma trajectória
individual colectivamente partilhada pelos operários, um processo de operari-
zação pelo qual, logo desde períodos muito recuados da história pessoal, foram
sendo paulatinamente inculcadas e absorvidas esquemas de pensamento e acção
ajustados às vicissitudes do trabalho industrial, quer dizer, compatibilizados com
as injunções e os apelos levantados pela presença quotidiana nos locais de tra-
balho. Nessas circunstâncias, porque as expectativas subjectivamente assimiladas
tendiam a corresponder às oportunidades objectivamente existentes, a transição
para o mundo fabril era vivida com naturalidade, até no registo da missão (“foi
para isto que nascemos”). Para muitos dos novos operários, a entrada na fábrica,
ocorrendo em uma fase etária mais tardia do que outrora, começa por ser a con-
sequência de um fracasso escolar (“não arranjei nada melhor”, “o meu pai sempre
me disse, «se não deres nada na escola, vais dobrar o fio»”) e é, depois, vivida no
registo da opressão espacial (“ambiente muito preso”, “ambiente sob pressão”, “o
encarregado é sempre a berrar e apertar com a gente”) ou, então, no registo da sus-
pensão temporal (“estou a perder a minha vida”, “não é futuro”, “mereço melhor”).
Daí que, em bastas ocasiões, acabe por ser vivida como “perda de tempo” e, mais
radicalmente ainda, como “perda da minha vida”. [Ver excerto de Isabel, acima.]
O desencontro entre as disposições incorporadas dos operários-filhos e as
atribuições objectivadas do espaço fabril é intimamente sentido como sofrimen-
to interiorizado, sendo expresso em uma multiplicidade de atitudes, posturas e
comportamentos de desgosto, desmotivação, desinteresse (“não se consegue pren-
dê-los”, “é uma rebaldaria lá dentro, não ouvem ninguém, não querem saber de

9 Esta cumplicidade ontológica entre o espaço físico das fábricas concretas e os esquemas de
percepção, acção e intuição incorporados pelos operários explica a familiaridade e a afecti-
vidade com que podem ser vividos os locais de trabalho. “É este espaço feito de barulhos e
de odores, fabricado pela história, progressivamente apropriado colectivamente pelos ope-
rários, que constitui o «cenário» da fábrica. Este ambiente, mesmo detestado, é contudo
constitutivo da memória colectiva do grupo. A mudança do espaço de trabalho é mais do
que uma simples remodelação, ela constitui uma forma de desenraizamento ligada à perda
dos pontos de referência familiares (visuais, corporais) que tinham permitido a apropriação
do lugar de trabalho.” (Béaud e Pialoux, 1999: 73).

200
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

nada”, “não têm responsabilidade nenhuma, são muito acachopados”). É por isso
que estes novos operários surgem frequentemente alheados, teimosos e indiscipli-
nados dentro da fábrica, dando, por isso, a “sensação de estarem mal na própria
pele, de não estarem exactamente no seu lugar”, tal como esses jovens operários
franceses descritos por Michel Pialoux (1996: 14)10.
O desconforto sentido e manifestado na vivência corrente da fábrica será, assim,
evidência de um deslocamento objectivo e subjectivo dos herdeiros operários, no sen-
tido de uma perda de domínio sobre as aptidões e as propensões – em especial, a
competência em ocupar o lugar e a vontade em ocupar o lugar - a herdarem a herança
operária11. Essa repulsão quase física que os jovens operários experimentam em es-

10 Basta ter presente as afirmações de Rodrigo, marceneiro de 36 anos a trabalhar desde os 14,
que é pai de um rapaz com 12 anos, para perceber as antinomias que atravessam as elocuções
operárias sobre a transmissão da herança. Por um lado, censura-se a aversão e renitência
dos “novos” em relação ao ambiente fabril, em parte explicada pela influência desviante da
escola. No entanto, compreendem-se empaticamente essas atitudes de desilusão e o desgosto
em relação ao mundo do trabalho, fortemente erodido em resultado das transformações no
interior e no exterior das empresas, como, por exemplo, o desemprego, a precariedade con-
tratual, o endividamento familiar crónico, a pressão produtivista, a desafiliação nos locais de
trabalho. “Estão lá a estudar, mas não vão lá estudar nada, estão lá só a arranjar problemas,
e prontos, eles lá aprendem muito coisa dessa… e é assim, a gente depois para os ter à nossa
beira, para os meter na linha, para os prender, é complicado que eles estão habituados àquelas
baldas, sempre de telemóveis na mão, e tu mandas fazer qualquer coisa e eles trocem o nariz
e ficam zangados, começam a falar sozinhos e tal [remói umas palavras como se resmun-
gasse], funciona assim, não é?, e a gente para tentar levar essas pessoas tem que levá-las na
brincadeira, falar assim umas graçolas de vez em quando e tal, e eles riem-se e tal e o tempo
passa e eles vão engatando, tem que ser com… depois eles já não ligam ao tempo, percebes?
Vêem que o tempo passa com facilidade e depois habituam-se àquilo e não tem problema
nenhum, o problema é eles conseguirem aguentar o tempo dentro da fábrica, que eles estão
habituados aquela balda, e prende lá, estão na cadeia, eles: «oi, eu estou aqui dentro a fazer o
quê? Mas eu na escola fazia isto tudo e aquilo e não se passava nada”, depois eles chegam ali
e o problema maior é prendê-los, que eles vêm… estão habituados àquela, àquela rebaldaria.
Alguns até nem aprendem, não têm vocação para aquilo, não dão. (…) Penso que os novos
não devem ter motivação para isso agora, eles veem… que é assim, o filho ouve o pai a falar:
«fulano foi despedido, sicrano fez isto ao empregado», ouve assim essas, essas situações, não
é?, e disto estar em crise, fechou a fábrica assim, assim, fechou outra fábrica, mais cem para
o desemprego, o que é que acontece? Eles não, não veem futuro nos móveis, não é? Portanto,
não veem futuro, não veem motivação para, para se agarrar a isso. E é correcto.”
11 Uma investigação acerca da maneira como ”a experiência incorporada das sensações físicas,
incluindo aquelas de bem-estar, doença, e por aí fora, é em parte informada pelo corpo ma-
terial, ele próprio contingente de variáveis evolucionárias, ambientais e individuais” (Lock,
2001: 483). “A incorporação é também constituída pela maneira como o próprio [self] e os
outros representam o corpo, recorrendo a categorias de entendimento e a experiências [que
são] locais. Se a incorporação é para ser entendida socialmente, então a história, a política,
a linguagem e o conhecimento local, incluindo o científico na medida em que está acessível,
devem estar inevitavelmente implicados. Isto significa na prática que, inevitavelmente, o
conhecimento acerca da biologia é informado pelo social e que o social, por seu turno, é

201
CAPÍTULO 7

tado implícito, visceralmente, e que nem sempre exprimem, a não ser confusamente,
em relação à fábrica, ao trabalho fabril e à cultura tradicional de oficina (composta
pela memória oficinal comum e pelo entendimento tácito partilhado do colectivo
operário, que pode, por vezes, abranger os patrões e gerentes das empresas), é factor e
sintoma de uma dupla transformação dos processos de socialização operários, mor-
mente, pela instilação sistemática de um imaginário cultural estranho à ordem local
que as instâncias culturais oficiais e dominantes realizam, e ao mesmo tempo, nas
estratégias de transmissão da identidade social operária, ultimamente desvalorizada
e estigmatizada em termos económicos e simbólicos (“assim não vamos a lado ne-
nhum”, “prende muito um gajo”, “ali não se desenvolve”, “estou ali preso”, “enquanto
não sair dali não posso pensar em nada”, “é aquilo e pouco mais”).
Ao longo do trabalho que realizei como operador de máquina emuma fábrica
de mobiliário, foi possível constatar como o descomprometimento face ao trabalho
oficinal, podia, em certas ocasiões, alcançar a aversão e desprezo pelas práticas e pe-
las personificações da cultura de oficina (“aquele pessoal é muito limitado”, “é uma
bicharada”, “querem lá saber da vida”, “é aquilo e pouco mais”, “não têm ambições”,
“é sempre as mesmas conversas”). Por outro lado, não obstante os percursos escolares
terem sido cedo interrompidos, existe uma maior proficiência e deferência dos jovens
operários em relação aos procedimentos formais introduzidos na fábrica, em especial
aqueles que estão depositados em suportes escritos (“instruções”, “fichas de produ-
ção”, “guias”), bem como em relação às exigências técnicas promovidas pela gerência
(por exemplo, o uso de equipamento de segurança, a instrumentação de máquinas, a
adaptação a novos protocolos e procedimentos produtivos). São estes jovens que aca-
bam por fazer eco, muitas vezes inadvertidamente, em relação ao discurso tecnicista,
meritocrático e individualista das novas políticas de gestão (“formação”, “prémios”,
“aprender coisas novas”, “polivalência”, “mudar para uma equipa mais jovem”), de-
monstrando uma “compreensão” e um “entendimento” das medidas administrativas
que serão depois repreendidos pelos colegas mais “batidos” e mais “sabidos”.
Esta ruptura entre dois modos de geração do operariado local é interiormente
experimentada pelos jovens operários como um divórcio entre a “identidade real”
e a “identidade virtual” (Béaud e Pialoux, 1996: 109). Divórcio que tende, normal-
mente, a torna-se visível em um alheamento em relação à condição operária, tal
como ela surge no horizonte actual e provável (“tou-me a cagar”, “quero lá saber”,

informado pela realidade do material. Por outras palavras, o biológico e o social são copro-
duzidos e dialecticamente reproduzidos, e o sítio primário [primary site] onde este envolvi-
mento toma lugar é o corpo socializado subjectivamente experimentado. O corpo material
não pode permanecer, como acontece frequentes vezes, como uma entidade que é uma caixa
negra e assumida como universal. O material e o social são ambos contingentes – ambos
locais.” (Lock, 2001: 483-484).

202
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

“conforme se vai vendo”, “não sei”), reforçado por uma adesão distanciada, irónica
ou utilitária em relação ao trabalho. Tudo conjugado tende, desde logo, a transtor-
nar a acomodação ao espaço fabril (“eles estão habituados àquelas baldas, sempre
de telemóveis na mão, e tu mandas fazer qualquer coisa e eles trocem o nariz e fi-
cam zangados”), até porque estes novos operários trazem referências extravagantes,
sobretudo nos comportamentos, consumos e adereços pessoais, que perturbam a
rotina e os hábitos dos locais de trabalho (“roupas sem jeito”, “ouvir música estram-
bólica”, “sempre agarrados ao telemóvel”, “onde já se viu beber iogurte na fábrica?”).
Depois, ao estarem em uma situação social que convida a uma relação negligente,
por vezes cínica, com a condição operária, esta é, frequentes vezes vivida e anteci-
pada como insignificante e como desacreditada (“não vê futuro, não vê motivação
para se agarrar a isso”, “sujo, pesado”, “não compensa”, “perda de tempo”).

3. Carros, roupas, noitadas. Uma gestão de si feita entre as


modalidades distintivas de estilização e as maneiras de
lidar com a invisibilidade social

Todas as ambivalências que sobressaem no relacionamento mantido com o


trabalho assalariado, tanto porque têm correspondência na estrutura de sentimen-
to assumidas destes catecúmenos operários, são potencialmente traduzidas em
tácticas adaptativas e distintivas. Não estamos diante de agentes que paralisaram
perante as circunstâncias, tornando-se apáticos ou impotentes. Para lidar com o
sofrimento e a frustração vividas, com a indignação e o aviltamento sentidos, com
os devaneios e temores pressentidos, são geradas, em consonâncias com os modos
de pensar, fazer e sentir específicos destes jovens, “práticas de integridade pessoal”
originais na sua feição e na sua orientação (Moodie, 1991: 91). Para usar dos termos
de Erving Goffman, estamos perante estratégias de gestão de si. Dentre elas, sem
pretensões de exaustividade, destacarei, primeiro, a defesa de espaços de repara-
ção e a invenção de práticas de restauração; depois, a preferência pela obnubilação
voluntária pelo recurso a soluções químicas; por último, a estilização afirmativa
da vida pelo sobreinvestimento nos consumos. Não raro, todas elas surgem com-
binadas em diferentes proporções na realidade de todos os dias.
Logo no interior das oficinas, os novos promovem usos diferenciados e dife-
renciadores dos tempos e dos espaços de trabalho (“por-se à parte”, “não ligam ne-
nhuma ao que dizemos”), além de optarem por discursos e actos que não contem-
porizam com a atmosfera oficinal (“só querem saber de computadores, telemóveis e
essas merdas”, “olha-me o gajo que veio de camisa cor de rosa”, “inda vais ser dijei”).
Ao mesmo tempo, refazendo a tradicional oposição entre o tempo ocupado e o tem-

203
CAPÍTULO 7

po libertado que, tradicionalmente, pode ser encontrada em outros contextos in-


dustriais, são ainda impostos limites entre o “dentro” e o “fora” do trabalho. Isabel,
embaladora e “costureira” em uma fábrica de sofás, torna saliente a intransigência
dessa separação entre interior e exterior, que constitui, aliás, um ponto de discórdia
e disputa constantes entre os operários, individual e colectivamente considerados,
e as entidades patronais. “Chego a casa é a minha vida, a casa é a minha vida, o
trabalho ficou para trás, esqueci-me, não posso pensar no trabalho em casa porque
senão tenho que descarregar nos outros, venho super stressada, então chego a casa e
acabou o dia de trabalho. Chego a casa, tomo banho, sou outra pessoa.” Arduamen-
te defendidos contra as tentações de intromissão patronal (“às vezes ligam para eu
ir trabalhar à noite, eu até faço de conta que não vejo ou digo que estava a tomar ba-
nho”, “eles vêm pedir para vir mais umas horas e eu digo logo, «é pena, tenho coisas
marcadas»”), estes espaços de reparação suportam e são constituídos por práticas
derrogatórias dos vestígios físicos e estatutários impostos pelo trabalho fabril sobre
a carne (“vimos todos sujos”, “um gajo tem as mãos ásperas”, “temos de andar com
aquelas roupas de palhaços lá dentro”). Actos como “por cremes”, “mudar de rou-
pa” ou “por gel” - como aqueles que realizava diariamente, logo depois de soar a si-
rene a anunciar o fim da jornada de trabalho, aquele meu colega de trabalho, jovem
maquinista, que mantinha, no armário das ferramentas da fábrica, uma muda de
roupa e “produtos de beleza” -, não são despiciendos na medida em que assinalam
a tentativa de reparar os danos físicos e psicológicos da fábrica e de realizar uma
restauração de um aspecto pessoal maculado pelo trabalho (“faz-me mal à pele”,
“venho tão cansada”, “vem stressada daquele ambiente”). Um estofador de 17 anos,
Cristiano, que trabalha há quase três na mesma pequena empresa de estofos, torna
significativo esse ritual de ablução. “Tenho sempre cuidado com a minha apresen-
tação [quanto vai trabalhar], sou muito… Tenho que ter uma aparência… eu é gel,
tenho que meter tudo, eu sou muito vaidoso, é roupa nova, roupa velha não levo
[para a fábrica]. Porque gosto de andar bem e de ser bem visto, ter uma aparência,
assim tenho… Se alguém me vir diz que eu sou… sou bonito, sou bem parecido.”
O sentimento de (mútua) incompreensão em relação a operários pautados por um
distinto modo de geração, precisamente aquele que precedeu historicamente a influên-
cia cultural generalizada, assumida pelos dispositivos tecnológicos de comunicação de
massas, especialmente a televisão, e pela instituição escolar, tende a vincar-se em uma
partição dos locais de sociabilidade informal. Fábio, um jovem maquinista de 21 anos,
classificava o café de uma associação local, frequentado por outros operários da sua em-
presa, geralmente mais velhos do que ele, como o “centro de dia” ou o “lar dos idosos”,
justificando assim, sarcasticamente, a sua recusa em “ser lá visto”. Aos fins de semana,
tornara-se habitual franquear os limites geográficos mais estreitos da comunidade para
procurar, aproveitando a mobilidade acrescida proporcionada pelo automóvel (que não

204
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

será por acaso uma aspiração capital entre estes jovens), locais de diversão nocturna
relativamente distantes (bares, discotecas, boates), situados, por exemplo, nas cidades
do Porto, Valongo, Paços de Ferreira ou Penafiel.
Estas tentativas de inversão ou, ao menos, de suspensão da dominação são es-
poletadas pela vergonha sentida em aparecer publicamente com os sinais caracte-
rísticos da condição operária (“roupa suja”, “despenteado”, “marcado nas mãos”,
“cansado”, “sem forças”, “enervado”). Tornou-se frequente encontrar operários que
afirmavam procurar, regularmente, provocar uma amnésia voluntária, que suspen-
desse, temporariamente que fosse, os sentimentos de esgotamento, inferioridade e
indisposição (“os médicos dão-lhe medicação para descansar, para dormir”, “quan-
do saio do trabalho, quero que ninguém me chateie, bebo uns canecos e mais nada”,
“era aquela altura de andar aí sempre bêbedo, eu não vou dizer que era para esque-
cer aquela merda [trabalho], mas talvez (…), e era isso, eu chegava revoltado…”).

“Quero ter um carro assim por esta história de um gajo convidar as raparigas
para as levar a algum sítio.”
“Às vezes apetecia-me chocolates e rebuçados não ia comprar tanto. Saía, mas já
não ia… Por exemplo quando recebia a meio do mês, via um jogo para a Plays-
tation e comprava e assim… Agora, meter dois ou três meses, eu poupei, aí quê?
Tinha trinta contos e deu-me para o mês todo, assim para dois meses antes eu
não fazia nada disso. Sabia que também não posso mexer porque também tenho
que juntar dinheiro para comprar um carro e tirar a carta e tenho de por o di-
nheiro à parte, quero ver se abro uma conta, aí sei que ao por o dinheiro que…
não posso ir lá sempre levantar, posso ir levantar, mas sei que não devo ir levan-
tar, enquanto se o tiver aqui em casa, digo «ó, vou pegar em 20 euros e gasto os
20€», e digo «assim tenho aqui mais 20 euros» e vou gastando assim. Se puser no
banco sei que não passa… para levantá-lo é ao calhas mesmo, vou, pego, quero
isto e para levantar dinheiro. Até nem dá muito jeito ir ás Caixas Multibanco.
Costumo poupar todos os meses. Quer dizer… não estou a dizer que vou com-
prar um carro, como um Renault5 nem um Citroën, estou a ver um carro assim
razoável. Não… Acho que não me dou bem, que não fico bem dentro daqueles
carros. Para além de ser assim… Gosto de carros que andam bem, não é daque-
les assim mal parados. E que sejam bonitos, não acho o Citroën e Renault5 um
carro assim atractivo. Como um colega meu que tinha um Renault5 e chegou a
ir lá raparigas e assim para passear e diziam assim «achas que eu quero passear
em um carro destes?» E ele ficou assim mesmo… Com uma cara… [suspiro]
Agora já tem um carro bom. Agora com este que ele tem, ó, já vai [as raparigas].
(…) [Pergunto porque não lhe ligam as raparigas] É mesmo por chegar a casa e
estar assim todo sujo, não andar assim durante o dia, pronto, com roupas novas
e assim. Vejo aí, por exemplo, os meus colegas da escola com roupas novas e eu
[pausa] e eu [suspiro] assim todo coiso! As raparigas, a maior parte delas, não…
por exemplo, passar por elas e… com elas na escola praí que no sétimo ano,
passas por elas assim todo borrado e nem te conhecem, mas se passares por elas
assim todo limpinho e todo ajeitado, elas já… já… Aquelas mais imperialistas e
de nariz mais empinado. Agora, há outras, claro, podes andar assim todo borra-
do e todo sujo que elas dizem «olá!, tudo bem!» E são capazes de cumprimentar

205
CAPÍTULO 7

uma pessoa. Aquelas mais jeitosinhas é o normal... Tenho no 5ºano as pessoas


que eu conhecia no quinto ano raras são aquelas que eu falo, que eu… falo. De
resto, não falo para mais ninguém. (…) [Pergunto-lhe porque tem poupado, so-
frendo constrangimentos no presente.] É o vício do carro. Eu acho que… Quero
ter um carro, quero ter um carro bom, apesar do meu cunhado dizer assim «ai!,
compra um carro mais ou menos, até ganhares isto, ganhares aquilo!» Mas eu
não estou. O gajo [do stand] até queria me vender, mas eu assim «não, não que-
ro!» Ainda há pouco tempo, um Ford Fiesta de 90 e eu «não, não quero! não tou
a ver.» Um Fiat… Não sei se é… um Tipo, sei que era um Fiat um coto [i.e. um
bocado] antigo e o gajo falou assim «vendo-te por 80 contos». E eu… tava a ver,
andei a ver, olhei por dentro, um coto esfarrapado, e eu olhei por fora e eu «não!,
não me estou a ver aqui dentro!» Mas no Renault, já no Renault Clio aí quê? De
90, eu olhei páquilo e eu assim «este aqui já me vejo dentro dele, apesar de não
ser assim tão moderno, mas já me vejo dentro dele!» Sabes o Hélder que joga nos
Heróis, aquela [carrinha] Renault que ele tinha, acho engraçado aquele carro.
Não quero assim aqueles carros, por exemplo, um Audi, porque se eu bater e es-
tragar o carro, em vez de ser praí 100 contos como é com um carro destes como
tem o Hélder, é praí 200. Quanto melhor for o carro mais pago. Agora se for um
carro assim razoável já pago esse dinheiro.
Quero ter um carro assim por esta história de um gajo convidar as raparigas
para as levar a algum sítio. Tas a ver, pronto… É por causa disso, oh pá…. não
chegar assim, por exemplo, passar por colegas minhas e elas «ei, este tem um
carro desses todo podre, anda aí todo a cair». Acho que é um bocado por isso. E
gosto de um carro que ande, por exemplo, na autoestrada dar os 120 e… estar
normal. [Pergunto-lhe que automóvel é que ele, afinal, pretende.] O que é que
tinha de ter [o carro]? Velocidade. È velocidade. Eu quando saio e vejo esse gajo
que me queria vender esse Fiat, eu assim “não, para mim tem que ser um carro
que eu vá dentro dele e ele faça zuum! [imita o som da rapidez do carro] Não é
andar aí… E eu assim, «assim que aparecer por aqui um carro mais ou menos,
tu dá-me um toque e eu venho cá vê-lo». Por exemplo, ele estava a vender este
carro e um Renault Clio de 2004, esses mais recentes… Tipo como tem o David
e o Nuno [outros dois jogadores dos Heróis], esse aí já, já me via dentro deles…
Na altura, já era um bocadito puxado para mim e eu, eu também… não vou
chegar a pé do meu pai e dizer «quero este carro, dá-me o dinheiro!» Vais ser…
Tenho que pagar assim aos meses. A vida não é andar aí a esbanjar dinheiro as-
sim em carros, calho de desfazê-lo todo, ainda estou a pagá-lo e quero comprar
outro, compro outro e ainda tou a pagar aquele por aquele que desfiz, ainda
tou a pagar…. Um colega meu comprou um Fiat, um Fiat Tipo, uma máquina,
desfê-lo e agora está a pagar essa e tem uma Renault, está a pagar a Renault e está
a pagar a Fiat que já não tem. Que ela foi para a sucata. E para quê?” (Filipe, 18
anos, maquinista em uma fábrica de mobiliário local, vive com os pais, abando-
nou a escola logo após concluir o 8.º ano de escolaridade.)

As formas de autoapresentação são cruciais aquando dos momentos de encontro


onde são, inarticulada e inconscientemente em grande parte, reveladas marcas incar-
nadas de valor social muito diferenciado e diferenciador. Entres elas, avultam os géneros
de entoação e sotaque nas falas; as poses e as maneiras nos gestos; a selecção e a combi-
nação na roupa; a rugosidade e o tom da pele; o estado e o alinhamento e a alvura dos

206
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

dentes. É ainda relevante uma série de pormenores que, longe de estarem reduzidos à
sua estrita relevância fisiológica, estão investidos com uma aura quase mágica, como as
unhas cuidadas ou estragadas; as sobrancelhas alinhavadas ou hirsutas; ou as expres-
sões parasitárias (“épá”, “prontos”) e os desvios fonéticos nas falas (como o assigmatis-
mo). “Neste contexto, o simples facto de aparecer ao olhar do outro já constitui em si
mesmo uma linguagem, na qual o aspecto físico e a roupa são signos e mais das vezes
formam a soma final de toda a comunicação. (…) Na ausência de um diálogo delibera-
damente instituído, o comportamento é percebido como um sistema de signos no qual
o mais pequeno detalhe – gesto, entoação, sorriso - adquire um valor simbólico, de ma-
neira que o discurso é sempre acompanhado por uma harmonia [em sentido musical]
dificilmente perceptível, a qual confere-lhe a sua tonalidade.” (Bourdieu, 2003a: 16). Os
gestos, as poses ou as palavras que parecem mais convencionais são verdadeiros sinais
de reconhecimento e pretensão (basta pensarmos em uma “vénia”, no chapéu que é re-
tirado da cabeça, ou na cedência de um lugar feitas automaticamente em certas alturas);
os olhares, os comentários e os estremeções mais instintivos, portanto mais despidos de
intenções deliberadas e programadas (embora não devamos ignorar tudo o que pode a
teatralidade da “etiqueta” e outros que tais códigos de conduta), são veredictos (“olhou-
-me com aqueles olhos”, “vi logo na cara dele”, “era como se eu não fosse ninguém que
ali estava”, “olhou-me de lado”, “torceu o nariz de nojo”, “pos uma cara de fastio”). Na
tentativa de adquirir uma imagem de si positivamente investida, há, por fim, a tendên-
cia a adoptar padrões de consumo conspícuo, realizando investimentos de eufemização
ou ostentação sobre a aparência pessoal de operários.

4. Uma ida à discoteca. Nota de campo – 30 de abril de 2008


“A atribuição espontânea de valor aos gestos, comportamentos, posturas e pa-
lavras que caracterizam o aspecto de classe do operariado é frequentemente
antecipada pelos próprios operários, que procuram deflectir essas imputações
de valor – largamente interiorizadas como sentido do próprio lugar – desde
logo através da suspensão, desactivação ou subjugação de reacções largamente
irreflectidas e interiorizadas, como quando «bebem para soltar a língua» ou
«perder a vergonha» ou «encostam-se ao balcão [do bar] a ver o ambiente» e
«ficam a olhar». É neste sentido que a procura de momentos em que é desne-
cessária a manifestação ou revelação dos aspectos de classe, especialmente nos
traços linguísticos e nas posturas corporais, parece orientar insensivelmente
os jovens operários para espaços em que é pausada ou apagada a relevância de-
finitiva dos sinais corporizados de distinção social, precisamente aqueles que
são impossíveis de adquirir fora dos contextos de aprendizagem mimética. Os
ambientes escuros e ruidosos das discotecas constituem terrenos de acção e
enunciação em que, temporariamente, estão abolidas ou ausentes as coacções
dos mecanismos verbais e comportamentais, que mais facilmente denotam
a pertença de classe e as formas de associação de classe constituídas inter-

207
CAPÍTULO 7

pessoalmente. A afectividade e sensibilidade vêm os critérios de preferência e


aversão serem parcialmente substituídos pela «atracção» ou «tesão», reacções
viscerais quase exclusivamente imputáveis ao menor denominador comum: o
corpo e os atributos corporais, ou então atraiçoados pela superfície do «corpo
do corpo», que era, afinal, como Erasmo de Roterdão chamava às roupas e
à joalharia. O exemplo desta «noite de copos», em que fui a uma discoteca
na zona industrial do Porto com alguns colegas da equipa de futebol amador
«Os Heróis» é suficientemente elucidativo. Seis homens, todos operários da
indústria do mobiliário excepto eu, que «vão para matar» - a expressão não-
-eufemizada da coqueteria – as «vacas», as «putas», as «cabras». Encostados
ao balcão, dois de nós foram «tentar engatar» um grupo de raparigas mesmo
ao nosso lado. Voltam menos de um minuto depois, lamentando-se porque,
dizem, «elas não são portuguesas». Eu reparo que, realmente, elas falam em
inglês - um inglês arrevesado, truncado. Digo isso mesmo ao meu colega – que
não sabe mais do que duas ou três palavras nessa língua. Quando ele as con-
fronta - «escusavam de se armar a fazerem de conta que falam inglês, eu bem
vos ouvi e qualquer um fala esse inglês…» -, elas acabam por desculpar-se a
sorrir: «não era essa a intenção, mas assim temos a certeza que alguns homens
não andam sempre a tentar meter connosco». São as quatro estudantes uni-
versitárias. «Há para aí muito trolha a exibir-se. Alguns até são bonitinhos,
mas abrem a boca e estragam tudo», afirma uma delas enquanto continua
a rir. «Assim, a maioria chega aqui e dá logo meia volta!» O meu colega não
desarma perante tamanha franqueza. Impassível perante o que naquelas pala-
vras poderiam visar o seu próprio modo de vida, atira de seguida, tão sedutor
quanto pode «a fazer conversa»: «Costumais vir aqui muitas vezes?».”

Pelo facto do reconhecimento social ser interpessoalmente constituído, reque-


rer formas de autoapresentação que possam reivindicar uma deferência pública, ou
caucionar, em outros momentos, as credenciais formais possuídas, as situações de
interacção são especialmente significativas para as tácticas usadas por estes jovens
para sustentar uma imagem de si positiva. “O que eu penso que está a tornar-se cla-
ro é que o rendimento domina a capacidade de alguém para aparecer. Como nós
somos capazes de aparecer é determinado pelos recursos que nós podemos investir,
em processos que afectam o nosso acesso ao interpessoal: os meios pelos quais nós
adquirimos, mimeticamente, os fundamentos para a nossa aparência: como a classe
é biologizada e nós encaramos um mundo revelado em relação ao significado públi-
co das nossas marcas: é assim como é reproduzida a posição social. Assim, o que é
determinante de um sentido da existência é a maneira na qual o domínio público é
constituído. O domínio público é constituído por aqueles com dinheiro para serem
reconhecidos, positivamente, e assim solicitarem os contactos necessários para serem
«bem-sucedidos» através dos processos de mediação pessoal e institucional que agora
constituem o acesso aos mercados de trabalho fora da classe operária.” (Charleswor-
th, 2007: 9). Expostos à invisibilização, à depreciação e à exotização das suas manei-
ras “naturais” e “espontâneas”, os operários, intuindo a sua subalternização provável
a todos os momentos em que forem confrontados ao cânone legítimo da aparência

208
Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

pessoal, tendem a buscar formas de reconhecimento social que previnam ou desviem


essas imutações de anonimização. Paulo, que, apesar dos seus 31 anos, continua a
acumular ocupações profissionais próprias de principiantes do mundo fabril, nome-
adamente desempenhando apenas tarefas desqualificadas e provisórias, mostra bem
a violência transparente lançada sobre os trabalhadores. “Há gajos que nem sequer se
dignam a olhar para os gajos [refere-se aos directores e clientes da empresa em visita
ao local de trabalho], não olham para ti, meu! Eu ali a fazer o meu trabalho [carpintei-
ro] e eles não olham para ti! Não olham para ti, percebes? Eu, às vezes, vejo e estou-me
a rir sozinho, estou-me a rir sozinho à espera que eles me perguntem porque é que me
estou a rir, no dia em que eles me perguntarem juro-te que eu vou dizer: «você é um
otário que está aqui!, você não tem respeito nem por um cão que está aqui a trabalhar,
vocês não respeitam ninguém!»”. As expressões visíveis de práticas de estilização dos
jovens operários, a que não faltará quem as considere exageradas, indecentes, falsi-
ficadas, desgraciosas ou reles, são a tentativa de inventar uma pessoa no âmbito de
uma segregação e exclusão explícita ou implícita das formas culturais socialmente
autorizadas. As palavras daquele carpinteiro acerca dos momentos em que está ex-
posto ao olhar “deles” - engenheiros, inspectores, clientes, patrões – salientam que a
imposição da presença ou a reaquisição de visibilidade é feita, frequentemente, através
de comportamentos que, ironicamente, acabam por confirmar os preconceitos que
justificam a partida que se ignore a presença operária: a agressão, o comportamento
de gozo, a desconfiança, a falta de gosto, o barulho, a provocação, a má-vontade.

A vergonha como interiorização da objectificação, ou despersonalização.


A objectificação da presença natural está relacionada com a reificação realizada
pelo “olhar dos outros”. Este transtorna a experiência pré-reflexiva e de coerên-
cia automática com o mundo envolvente que é constitutiva do campo de expres-
são do corpo vivido e, perturbando-a ou bloqueando-a, converte-a em objecto
de reflexão (Fuchs, 2003: 3). A vergonha está directamente relacionada com essa
acentuação da vigilância – real ou suposta – dos “outros” e da “consciência” pró-
pria sobre o nosso comportamento que resulta, muito especialmente, da sensa-
ção de estar colocado em uma situação vulnerável ou potencialmente arriscada.
“Esta estrutura fenomenológica da vergonha significa que o corpo vivido assu-
miu e interiorizou o seu ser-visto; a exposição como corpo corporizado peran-
te os olhos dos outros tornou-se parte dos seus sentimentos. Podemos por isso
dizer que a vergonha é a mirada [gaze] do outro incorporada” (idem: 5). Estas
experiências de despersonalização estão relacionadas com o desdobramento do
olhar: o percebido é o perceptor: é a autopercepção a partir do ponto de vista
exterior, do “público”. O fechamento simultaneamente sociabilitário e espacial,
está mutuamente implicado com a consciência da “falta de valor” resultante da
incorporação de um “olhar depreciativo” (idem: 16).
A constelação interpessoal da vergonha, do ridículo e do embaraço realiza-se
através da materialização do olhar dos outros na forma de posturas e práti-
cas de restrição, evitamento e autodenegação ou, pelo contrário, de agressão,
ostentação, imitação (mais ou menos irónica) em relação aos modelos auto-

209
CAPÍTULO 7

rizados. Thomas Scheff salienta que “os operários participam na reprodução


da classe porque eles são envergonhados, mas incapazes de ter consciência
dessa vergonha” (1991: 1). Eles interiorizam uma estima de si e um sentido do
valor pessoal que justifica a abdicação e resignação ou, em outro sentido, im-
pele a reprodução de padrões de comportamento (forma de estar, linguística,
hábitos de consumo) que justificam posteriormente as suas supostas incapa-
cidade e inabilidade de partida. A “vergonha que não é vista enquanto tal” - e
a vergonha é geralmente interaccionalmente invisível – conduz, quer à agres-
são, ou “falsa vergonha”, quer ao “distanciamento” e “silêncio” (idem: 1-2). A
vergonha pode assumir assim os contornos de uma “ofensa oculta [hidden
injury]”, nomeadamente pela multiplicação de situações que suscitariam ou
reforçariam “o fardo de sentimentos de rejeição e desadequação, quer dizer,
de baixa autoestima crónica” que podem acarretar uma “pronúncia errada, da
roupa que vestem ou da aparência física” (idem: 9, 10).

É possível seleccionar três modos de reacção e acção operários perante as miradas


estigmatizadoras, depreciadoras ou desfiguradoras. É evidente que há quem assuma
a inferioridade social como destino (”não damos para mais”, “quem nasce para tostão
nunca chega para pataco”), interiorizando as imputações de infantilização, inaptidão
e poluição que lhes são atribuídas nos contextos oficiais, em especial pelos delega-
dos da autoridade estatal em todas as “salas de espera” e “balcões de atendimento”
dos serviços públicos (como, por exemplo, nos centros de emprego, postos médicos,
câmaras municipais, ou escolas), ou transmitidas pelas elocuções expressas e pelas
miradas inefáveis de agentes socialmente dominantes (como o são, no espaço fabril,
“engenheiros” e “gerentes”). Esta naturalização contribui para tornar indubitáveis e
inquestionáveis os tratamentos interpessoais e institucionais indiferentes, desquali-
ficantes ou negligentes; as previsões e pressuposições feitas por baixo a respeito do
desempenho económico ou cultural na profissão e na escola; os sentimentos pessoal-
mente experimentados de autoirrisão e autopunição. Aqui, têm fundamento todos os
comportamentos de embaraço dos operários em situações públicas (“gagueja”, “ficou
vermelho”, “suava como um porco”, “meter-me no canto”, “não falar com ninguém”,
“envergonhadiço”, “não fala com ninguém”), que acabam por confirmar todas as ex-
pectativas de grosseria e insociabilidade que possam ter sido criados a respeito deles.
Além deste, temos aquele modo de reacção e acção que procura contornar,
evitar, desmentir ou deflectir as injúrias socialmente dirigidas ao operariado; to-
davia, esta conduta tende a consistir em repelir aqueles que estão mais próximos
física e socialmente (“não parar com a malta”, “não dou bola a estes gajos”) ou,
mesmo, em sentir aversão por si mesmo (“nunca hei-de ir a lado nenhum”, “esta-
mos em um buraco”). Por último, temos aqueles comportamentos que tendem a
assumir a penalização e, inclusive, a agravá-la pela exponenciação (“gosto de me
exibir”, “vou para lá para armar a puta”, “onde ele entra, tá a puta armada”) ou pelo
alheamento (“estou-me a cagar”). De facto, a imposição da presença própria - pela

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Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

roupa extravagante; pelo comportamento desmesurado; pela ostentação do corpo


treinado no ginásio; pela potência, ruído e pintura do automóvel – acabam por
realizar como que uma dupla negação, em que ao negarmos as negações de que
somos alvo, acabamos, por paradoxal que pareça, por confirmá-las. Todos estes
modos de reacção e acção surgem integrados nas práticas concretas dos jovens
operários, como que em um reportório que é susceptível de ser, engenhosamente,
aplicado às circunstâncias sempre mutáveis e imprevistas da vida de todos os dias.
As formas de autoapresentação insinuam e mediam a qualidade da percepção
e a capacidade de solicitar conivência e convivência interpessoais na praça pública.
“Poder aparecer” é o par de verbos que resume o sentido do investimento temporal
e monetário realizado em “roupas de marca”, em perfumes, em “telemóveis de últi-
ma geração”, em automóveis (em operações de remodelação das suas características
estílicas e técnicas - o tunning e o “quitar”), ou no corpo próprio (em especial, por
recurso à musculação - “puxar ferro” - e ao bronzeado, em “máquinas de ultravio-
letas” introduzidas nos ginásios há poucos anos). No ginásio local, que frequentei
por vários meses enquanto permaneci em Rebordosa durante o ano de 2008, um
operário com os seus quarenta anos, que só ali estava para recuperar fisicamente
“por causa de um acidente”, haveria de constatar, enquanto estávamos rodeados de
adolescentes muscularmente magnificados, sem mordacidade, mais com espanto,
essa transformação do corpo próprio. “Agora os moços novos querem todos parecer
Van Dammes ou rambos.” Não espanta, portanto, que eu pudesse constatar o fre-
quente recurso a “bombas” - ou seja, a esteróides - e a suplementos alimentares com
a intenção de acelerar o processo de engrandecimento corporal.
“Fazer uma puta”, “armar estrondo”, “meter-me com as raparigas”, “dar show”,
“partir a louça toda”: expressões que designam os múltiplos actos que, mesmo esgo-
tando-se em si mesmos, valem pela inversão momentânea da indiferença com que
são olhados os operários jovens nos espaços publicamente frequentados. Afinal, são
como que “meios desesperados de se fazerem «interessantes», de existir perante os
outros, para os outros, de aceder em uma palavra a uma forma reconhecida de exis-
tência social” (Bourdieu, 2003b: 6). Estas acções feitas para provocar uma situação
original fora da rotina habitual (“não se passa nada”), para impor uma centralidade
individual em um ambiente colectivamente partilhado (“isto está morto”, “bora ani-
mar o ambiente”, “fazer peito”), servem para assegurar e reafirmar, a nós e aos outros,
de maneira dramática e altamente ritual, que “estamos aqui”. Pedro, operário com
24 anos, investiu todas as poupanças dos últimos anos e realizou um crédito ao con-
sumo a juros usurários para comprar uma moto de alta cilindrada e todo o equipa-
mento que o habilita a ser um motard. “Tu chegas a qualquer lado de mota, há aquela
coisa, não é, olham-te para a mota e tal. Há outro impacto, «o gajo é piloto» e não sei
quê… A reacção do pessoal, a reacção… O pessoal parecia que nunca tinha visto, «ei,

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CAPÍTULO 7

é o caralho!»… Um gajo chega a um sítio qualquer e o pessoal põe-se a olhar mesmo,


sempre a olhar. Chegas a qualquer lado, cala-se tudo, «ei!, carago, espectáculo», tas a
ver?, cala-se tudo a apreciar”. O orgulho pela posse de uma honra social parece ser a
função imanente a estas acções e representações, explicando aquilo que, de outra ma-
neira, corria o risco de parecer inconsequente e irracional, tal como o são, à primeira
vista, a atracção pela velocidade e pela violência física.
Para estes operários novatos, o trabalho fabril permanece uma interposição
fundamental no acesso a padrões de aparência pessoal e a esferas de sociabilidade
pública, ambas valorizadas e tidas por valorizadoras. Ao permitir “pagar as mi-
nhas despesas”, permite transpor o limiar do reconhecimento social através do
gasto conspícuo de dinheiro, “meio e medida de autoaperfeiçoamento” (Comaroff
e Comaroff, 1992: 50). Pese a aparente contradição, ainda que a saída da escola
tenha significado a entrada em uma “prisão”, equivaleu, ainda assim, a “ter mais
liberdade”. Embora queixando-se do ordenado, André, 19 anos, operário maqui-
nista em uma fábrica de mobiliário local, mostra a pressão que fazem sentir as
expectativas recíprocas de estilização da autoapresentação e as tensões levanta-
das pelas solicitações contínuas de interacção no grupo de pares. “E depois uma
pessoa quer sair à noite, quer ir beber um café, tomar um café e… comprar roupa
e isso, e uma pessoa não tendo dinheiro, é complicado… Às vezes há alguns [da
“seita”, grupo informal de amigos] que não têm dinheiro e é sempre lixado, a gen-
te quer sair com eles, eles não querem sair com nós, eles não têm dinheiro, uma
pessoa às vezes tem de emprestar dinheiro para não parecer mal, para sair”. É
necessário evitar ou reparar constantemente o perigo que impede sobre a “face”
própria e alheia nas situações de interacção mais ordinárias, porque, para poder
continuar a reivindicar efectivamente o “valor social positivo”, “uma imagem de
si delineada segundo certos atributos sociais aprovados” (Goffman, 1974: 9), é ne-
cessário defender o amor-próprio e a consideração, adoptando uma linha de acção
conforme as expectativas e imposições colocadas nos encontros. Para conseguir
“roupas de marca”, “carros em condições”, “beber copos”, “sair à noite”, “ir até ao
shopping”, para garantir o acesso à esfera das aparências tidas por socialmente
dignas e consideradas, até para assegurar a entrada regular no mercado sexual, é
necessário a posse de dinheiro, que as famílias de origem parecem não estar em
condições de libertar sem condições e sem prazos. [Ver excerto de Filipe, acima.]
Esta premência de acesso ao dinheiro, pelo facto de ele constituir, nas palavras de
Karl Marx, “o proxeneta entre a necessidade e o objecto” (Marx, 1971: 115), é que
torna necessário o assalariamento industrial entre estes jovens, apesar de ele poder
ser vivido no registo do infortúnio, o que, precisamente por isso, reforça tudo o
que os vinha inclinando a um uso instrumental do trabalho (“é um desperdício de
vida”, “é uma prisão”, “não gosto”, “desgasta muito o corpo e a cabeça”).

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Futuros operários: as transformações das estratégias de reprodução social e das modalidades de estilização do
operariado em uma comunidade industrializada portuguesa

Para terminar: a objectividade da condição operária insinua-se no âmago da


subjectividade dos operários historicamente situados e incarnados. Ora a decep-
ção provocada pela incapacidade em corresponder às exigências colocadas por
“ambições” entretanto naturalizadas como condições de acesso condigno à exis-
tência social (“casa”, “carro”, “roupas caras”, “ir ao centro comercial”); ora as ex-
pressões somatizadas de sentimentos de mal-estar físico e psicológico, associadas
a contextos sociais marcados por crescentes disparidades nas relações de poder e a
processos de precarização social da condição operária; ora os sentimentos de infe-
rioridade e vergonha social ou a autorrepressão pessoal, produzidos pela multipli-
cação das oportunidades dos operários, transitarem por paradas institucionais de
denegação ou desvalorização simbólica das suas formas culturais; ora a adopção
de práticas indutoras de anestesia e de obnubilação da percepção e da consciência
(comportamentos ditos «de risco», automedicamentação, consumos de estupefa-
cientes); ora a sensação perversa da difusão da malícia e da inveja pela comuni-
dade; todas elas são, afinal, repercussões íntimas da experiência social de classe.
Todas estas constituem dimensões cruciais nas experiências sociais estruturadas
e estruturantes dos processos de (re)produção prática, histórica e quotidiana do
grupo operário. A plausibilidade da reprodução social do operariado encontra-se
no geometral de todas estas transformações sociais, económicas e culturais do
espaço social. O que está em jogo é todo um estilo de vida ou, melhor, todo um
sistema de crenças acerca do valor do destino operário. Nas últimas décadas, a
condição de felicidade da reprodução social do operariado foi comprometida pelas
profundas transformações nas estruturas objectivadas do mundo social e nas es-
truturas incorporadas dos operários, transformações que acresceram as probabili-
dades de ocorrência de uma desarticulação entre as aspirações e as mediações com
o futuro; de uma fragilização na grandeza e no valor associado à ocupação de um
lugar social operário e, portanto, de uma diminuição nas oportunidades para uma
vantajosa transmissão de capitais; de um desfasamento entre as exigências de uma
nova ordem social, económica e cultural e as disposições tácitas dos operários.

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Sobre o livro
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Tipologia Minion Pro (textos)
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