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Trabalho e

Sociabilidade
Perspectivas do capitalismo global
Projeto Editorial Praxis
www.canal6.com.br/praxis

Trabalho e Mundialização do Capital – A Nova Dimensões da Reestruturação Produtiva


Degradação do Trabalho na Era da Globalização Ensaios de sociologia do trabalho
Giovanni Alves Giovanni Alves

Dimensões da Globalização – O Capital e Economia, Sociedade e Relações Internacionais


Suas Contradições Perspectivas do Capitalismo Global
Giovanni Alves Organizadores: Francisco Luiz Corsi, José
Marangoni Camargo, Marcos Cordeiro Pires e
Dialética do Ciberespaço - Trabalho, Tecnologia e Rosângela de Lima Vieira
Política no Capitalismo Global
Giovanni Alves (org.) e Vinício Martinez (org.) Trabalho e Cinema – O Mundo do Trabalho
Através do Cinema – Volume 2
Limites do Sindicalismo - Marx, Engels e a Giovanni Alves
Crítica da Economia Política
Giovanni Alves Teoria da Dependência e Desenvolvimento do
Capitalismo na América Latina
Novos Desequilibrios Capitalistas Paradoxos do Adrian Sotelo Valencia
Capital e Competição Global
Luciano Vasapollo
SÉRIE RISCO RADICAL
Tecnécrates
Antonino Infranca 1. O Outro Virtual - Ensaios sobre a Internet
Giovanni Alves, Vinicio Martinez, Marcos Alvarez,
Desafios do Trabalho – Capital e Luta de Paula Carolei
Classes no Século XXI
Roberto Batista (org.) e Renan Araújo (org.) 2. Democracia Virtual - O Nascimento do Cidadão
Fractal
Universidade e Neoliberalismo Vinicio Martinez
O Banco Mundial e a Reforma Universitária na
Argentina (1989-1999) 3. Leviatã - Ensaios de Teoria Política
Mario Luiz Neves de Azevedo e Afrânio Mendes Marcelo Fernandes de Oliveira
Catani
4. Trabalho e Globalização - A Crise do
Trabalho, Economia e Tecnologia - Novas Sindicalismo Propositivo
Perspectivas para a Sociedade Global Ariovaldo de Oliveira Santos
Jorge Machado (org.) parceria com a Editora Tendenz
5. Concertação Social e Luta de Classes - O
Trabalho e Educação Sindicalismo Norte-Americano
Contradições do Capitalismo Global Ariovaldo Santos
Giovanni Alves (org.), Roberto Batista (Org.) e
Jorge Gonzáles (Org.)

Trabalho e Cinema – O Mundo do Trabalho


Através do Cinema – Volume 1
Giovanni Alves

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Pedidos pelo e-mail vendas@canal6.com
Giovanni Alves
Roberto Leme Batista
Arakin Monteiro

Trabalho e
Sociabilidade
Perspectivas do capitalismo global

2ª edição 2012
Bauru, SP
Copyright do Autor, 2009
ISBN 978-85-7917-010-2

Coordenador do Projeto Editorial Praxis


Prof. Dr. Giovanni Alves

Conselho Editorial
Prof. Dr. Antonio Thomaz Júnior – UNESP
Prof. Dr. Ariovaldo de Oliveira Santos – UEL
Prof. Dr. Francisco Luis Corsi – UNESP
Prof. Dr. Jorge Luis Cammarano Gonzáles – UNISO
Prof. Dr. Jorge Machado – USP
Prof. Dr. José Meneleu Neto – UECE

X1111t Trabalho e Sociabilidade: perspectivas do capitalismo global/


Giovanni Alves, Roberto Leme Batista e Arakin Monteiro (orgs). –
Londrina: Praxis; Bauru: Canal 6, 2012.
216 p. ; 23 cm.

ISBN 978-85-7917-201-4

1. Nonnono nonon. 2. Nonono nono. 3. Nonono nonon. I. Sobre-


nome, Autor. II. Título.

CDD: XXX

Projeto Editorial Praxis


Free Press is Underground Press
www.canal6editora.com.br

Impresso no Brasil/Printed in Brazil


2012
Apresentação

I
mpulsionou-se nos “trinta anos perversos” de capitalismo global (1980-2010),
sob a égide das políticas neoliberais e a financeirização da riqueza capitalista,
a reestruturação produtiva do capital. Nessa nova temporalidade histórica,
alteraram-se as relações de trabalho, e a desigualdade social e a precarização es-
trutural das relações salariais nos vários países capitalistas foram disseminadas.
Ocorreram mudanças radicais na base sóciotécnica do sistema produtor de mer-
cadorias. Tivemos a Terceira Revolução Industrial, caracterizada pela revolução
informática e informacional, com impactos candentes na produtividade do traba-
lho social. Ao mesmo tempo, nas últimas décadas difundiu-se, com o capitalismo
manipulatório, o espírito do toyotismo como a ideologia orgânica da gestão capi-
talista sob o regime de acumulação flexível. Nunca o sistema mundial do capital
sofreu, em tão pouco tempo, mudanças sóciotécnicas tão amplas e significativas
em suas bases de produção, consumo e reprodução social.
Em vista da crise em suas bases, o capital implementou contundentes res-
postas estruturais de caráter sistêmico. Em vez de soluções parciais e locais, aos
poucos foram disseminadas, no plano global, alterações não apenas no mundo da
economia capitalista, coordenado pelas tecnoburocracias globais (FMI e Banco
Mundial), mas também mudanças profundas na forma de ser do Estado político e
da produção social do capital, além de modificações no mundo da ideologia e da
cultura com impactos diruptivos nos processos de subjetivação das classes sociais.
Enfim, eis o sentido do globalismo como prática de mudanças sistêmicas nas
múltiplas determinações da vida social sob o novo capitalismo. É a partir desse
fato histórico irremediável que se coloca, no plano do pensamento crítico, a ne-
cessidade epistemológica do ponto de vista da totalidade concreta e da articulação
dialética entre o local e o global, assim como a percepção crítica das diversas terri-
torialidades pelas quais é constituída a modernidade do capital. Isso significa que
o globalismo é, também, um fato epistemológico.
Este livro coletânea é produto das reflexões feitas no VII Seminário do Traba-
lho – Trabalho, Educação e Sociabilidade, evento internacional ocorrido na Uni-
versidade Estadual Paulista (UNESP), Campus de Marília, entre os dias 24 e 28 de
maio de 2010. Os Seminários do Trabalho são organizados pela Rede de Estudos
do Trabalho (RET) e voltados para discutir as transformações do mundo do tra-
balho numa perspectiva crítica e interdisciplinar. Enquanto fato epistemológico,
o globalismo do capital exige de nós, investigadores sociais, uma postura crítica e
radical diante do novo (e precário) mundo do trabalho que emerge com o capita-
lismo global do século XXI. Essa é a tarefa política da RET.

Giovanni Alves
Roberto Leme Batista
Arakin Monteiro
Sumário

9 Capitulo 1
Maquinofatura: breve nota teórica sobre a nova forma social da
produção do capital na era do capitalismo manipulatório
Giovanni Alves

21 Capitulo 2
A ideologia do capital na crise: Trabalho, educação e cidadania
Roberto Leme Batista

35 Capitulo 3
Estrategias de control y disciplinamiento laboral: la consolidación del
orden hegemónico empresarial
Claudia Figari

49 Capitulo 4
A educação escolar face à sociabilidade capitalista
Celso João Ferreti

65 Capitulo 5
Da dominação simbólico-ideológica (direta) da classe à dominação
simbólico-ideológica (indireta) de classe
João Aguiar

105 Capitulo 6
Trabalho, classes sociais e luta política
Henrique Amorim

119 Capitulo 7
Jornada, Intensidade e Produtividade do Labor
Sadi Dal Rosso
131 Capitulo 8
Superexplotación del Trabajo y Desmedida del Valor
Adrián Sotelo Valencia

145 Capitulo 9
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no
Clásicos
Enrique de la Garza Toledo

175 Capitulo 10
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas
latinoamericanas en la década 2010
Alberto L. Bialakowsky; Cecilia Lusnich; Pilar Fiuza; Ariadna Junor
Umpierrez; Guadalupe Romero e Romina Bravo

195 Capitulo 11
Trabalho, Tecnologias da Informação e Valores-Fetiche: Notas sobre o
discurso ideológico do trabalho na Google
Arakin Monteiro
CAPITULO 1

Maquinofatura
Breve nota teórica sobre a nova
forma social da produção do capital
na era do capitalismo manipulatório
Giovanni Alves1

A
o tratar da produção da mais-valia relativa no capítulo 13 da Seção IV do
livro I de “O Capital”, Karl Marx nos apresenta as formas sociais da pro-
dução do capital: manufatura e grande indústria. Podemos considerá-las
formas sócio-históricas no interior das quais se desenvolve o modo de produção
capitalista. Entretanto, manufatura e grande indústria não são apenas categorias
críticas da economia política do capital, mas também categorias sociológicas que
implicam um determinado modo de controle sociometabólico aflorado com a ci-
vilização do capital.
Cada forma social de produção do capital exposta por Karl Marx corresponde
a um modo de subsunção da força de trabalho ao capital adequado ao modo de
produção de mais-valia propriamente dito, que, por conseguinte, diz respeito a
uma determinada dialética histórica do metabolismo social. Enquanto a subsun-
ção formal do trabalho ao capital corresponde à manufatura, a subsunção real
do trabalho ao capital equivale à grande indústria. É com a grande indústria que
emerge o modo de produção capitalista propriamente dito.
Para ir além da mera crítica da economia política, desvelando em seu interior as
verdadeiras dimensões sociológicas do movimento do capital, deve-se apreender, em
suas múltiplas determinações, o padrão sociometabólico que diz respeito a cada modo
de produção de mais-valia ou modo de subsunção da força de trabalho ao capital.
Em “O Capital”, Marx expõe uma lógica histórica dialética, mostrando que
o desenvolvimento das formas sociais no interior das quais ocorre a produção do
capital não é meramente linear e contínuo. O que Marx expõe na Seção IV dessa
mesma obra não são apenas etapas da produção do capital, nas quais, por exem-

1 Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela UNICAMP, livre-docente em sociologia e


professor da UNESP - Campus de Marília, pesquisador do CNPq. É coordenador da Rede de
Estudos do Trabalho (RET) – www.estudosdotrabalho.org. e do Projeto Tela Crítica (www.
telacritica.org). Homepage: www.giovannialves.org.
CAPÍTULO 1

plo, a grande indústria se seguiria à manufatura de forma literalmente contínua


e consecutiva. Sob a grande indústria, embora a manufatura não esteja mais pos-
ta como forma predominante da produção social do capital, ela está pressuposta,
como pressuposto negado. A rigor, no plano lógico (e ontológico), a grande indús-
tria contém a manufatura como pressuposto negado ou ainda a grande indústria
conserva a manufatura num patamar superior.
Desse modo, Marx utiliza, na Seção IV do Livro 1 de “O Capital”, um conjun-
to de pares dialéticos que explicam o desenvolvimento histórico da civilização do
capital. Por exemplo, mais-valia absoluta e mais-valia relativa; subsunção formal e
subsunção real do trabalho ao capital; manufatura e grande indústria. Enquanto
pares dialéticos, eles incorporam, em seu movimento, a lógica categorial das deter-
minações reflexivas da sintaxe dialética [posição e pressuposição (Fausto, 1989)].
Portanto, podemos apreender, no plano da essência, o movimento contraditó-
rio da produção do capital a partir das categorias de modo de produção capitalista
e formas históricas de produção social do capital, constituídas pela manufatura,
grande indústria e, como iremos sugerir, maquinofatura, com seus respectivos
modos de controle do metabolismo social. Tratar dos modos de controle do meta-
bolismo social significa investigar, por um lado, as relações sociais de produção do
homem com a Natureza, isto é, dele com seus semelhantes e dele consigo mesmo;
e, por outro lado, investigar a relação do homem com a técnica como elemento
mediador ineliminável desta relação homem-natureza.

1. Trabalho como metabolismo social

Marx diz logo no início do capítulo 13 do livro I de “O Capital”: “O revolu-


cionamento do modo de produção toma, na manufatura, como ponto de partida a
força de trabalho; na grande indústria, o meio de trabalho” (Marx, 1996).
Nessa curta e interessante passagem, Marx salienta os “pontos de partida” dos re-
volucionamentos do modo de produção capitalista. Trata-se de uma colocação ontoló-
gica da forma de ser da produção social do capital. Como Marx e Engels salientaram
no “Manifesto Comunista”, de 1848, o modo de produção capitalista é caracterizado
pelo constante revolucionamento das condições de produção social que, consequente-
mente, revoluciona a sociedade. Dizem eles: “A burguesia não pode existir sem revolu-
cionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de
produção e, com isso, todas as relações sociais” (Marx e Engels, 1998).
A ânsia de revolucionar o modo de produção do capital é um traço ontogené-
tico da burguesia como classe social. Conforme os autores observam, numa passa-

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Maquinofatura – Breve nota teórica sobre a nova forma social da produção do capital na era do capitalismo
manipulatório

gem anterior, “a própria burguesia é o produto de um longo processo de desenvol-


vimento, de uma série de transformações no modo de produção e de circulação.”.
Ou ainda: “A burguesia desempenhou na História um papel eminentemente revo-
lucionário.” (Marx e Engels, 1998).
A burguesia, como persona do capital, revoluciona o modo de produção
e de circulação, ou seja, “os instrumentos de produção, e, por conseguinte, as
relações de produção e, com isso, todas as relações sociais.”. Ao dizer “todas as
relações sociais”, Marx e Engels salientam que o revolucionamento do modo de
produção capitalista significa revolucionar a totalidade social, isto é, o modo de
controle do metabolismo social.
Com isso, as categorias de manufatura e grande indústria não implicam apenas o
revolucionamento do modo de produção de mercadorias propriamente dito, mas sim
o revolucionamento do modo de controle do metabolismo social. Isso significa que
elas têm um caráter radicalmente sociológico, pois, ao revolucionar o modo de pro-
dução propriamente dito, o capital revoluciona também as relações sociais do homem
com a Natureza – tanto natureza como natura naturans (“natureza criando”, natureza
como atividade vital dos homens mediada pelas relações sociais dele com os seus se-
melhantes e dele consigo mesmo); ou natureza como natura naturata (“natureza cria-
da”, ela como “corpo inorgânico do homem”, como diria Marx).
Em outros termos, diríamos que, ao revolucionar o modo de produção pro-
priamente dito, o capital revoluciona o processo de trabalho, o qual, como observa
Marx no capítulo 5 da Seção III do livro 1 de “O Capital”, é “um processo entre o
homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media,
regula e controla seu metabolismo com a Natureza.”. Nesse caso, Natureza é, para
Marx, matéria natural como uma força natural. A própria corporalidade, braços
e pernas, cabeça e mãos do homem, isto é, o homem em si e para si, pertence às
forças naturais que ele precisa por em movimento a fim de apropriar-se da matéria
natural em uma forma útil para sua própria vida. Nos Manuscritos de 1844, Marx
observou: “O homem vive da natureza, significa: a natureza é o seu corpo, com
o qual tem que permanecer em constante processo para não morrer. Que a vida
física e mental do homem está interligada com a natureza não tem outro sentido
senão que a natureza está interligada consigo mesma, pois o homem é uma parte
da natureza.” (Marx, 2004).
Portanto, ao salientar o trabalho como um processo entre o homem e a Na-
tureza, Marx quer nos dizer que essa atividade é um processo entre o homem e a
Natureza externa a ele como matéria natural, ou seja, o objeto e seus meios de tra-
balho; e entre o homem e a Natureza interna a ele, a natureza pela qual é constituí-
do como homem – sua vida física e mental que permite a ele exercer uma atividade

11
CAPÍTULO 1

orientada a um fim. Tendo em vista o homem como um animal social, a sua vida
física e mental implica, por conseguinte, um processo metabólico entre o homem
e si mesmo, isto é, o homem e seus semelhantes, e ele consigo mesmo (o que expõe,
desse modo, o caráter sociometabólico do trabalho como atividade vital).
Na medida em que a vida física e mental do homem-que-trabalha está interli-
gada com a Natureza externa e interna, como já foi descrito, o revolucionamento
das formas de produção social, isto é, das formas de produção de mais-valia, signi-
fica também o revolucionamento radical das instâncias de reprodução social. Em
“O Capital”, Marx diz: “Ao atuar, por meio desse movimento sobre a Natureza ex-
terna a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza [o
jovem Marx diria: ‘sua vida física e mental’-GA]. Ele desenvolve as potências nela
adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio.” (Marx, 2004)
Assim, a categoria de trabalho não diz respeito apenas à produção propria-
mente dita e ao local da exploração ou produção de mais-valia – o local de traba-
lho propriamente dito. Ela implica a própria atividade vital ou o processo entre o
homem e a Natureza – a (1) matéria natural que ele se apropria para dar-lhe uma
forma útil para sua própria vida e a (2) sua própria vida física e mental (corporali-
dade, braços e pernas, cabeça e mãos), elementos postos não apenas no interior do
território da produção (por exemplo, a fábrica, a loja ou o escritório), mas também
nas instâncias da reprodução social.
O trabalho como um processo metabólico entre o homem e a Natureza im-
plica a regulação e o controle social historicamente determinados. O modo de
produção capitalista é um modo de organização do processo de trabalho, ou seja,
de regulação e de controle social desse processo metabólico entre o homem e a
Natureza, caracterizado pelo trabalho alienado/estranhado [Entfremdung Arbeit].
Ao revolucionar o modo de produção capitalista, o capital revoluciona os ele-
mentos do processo de trabalho os quais são a atividade orientada a um fim – no
caso do modo de produção capitalista, a atividade vital estranhada, tendo em vista
que ela possui um telos estranhado; e seu objeto e seus meios técnicos (ou tecnoló-
gicos), que aparecem como capital propriamente dito ou condições objetivas do
processo de produção de mais-valia. A sociedade do capital ou sociedade moderna
é a sociedade do trabalho alienado/estranhado. A organização social das ativida-
des humanas, com seus objetos e meios, isto é, o modo de controle do metabolismo
social, incorpora o caráter do trabalho alienado.
Na medida em que a atividade vital do homem ou a produção da sua vida fí-
sica e mental, imprescindível para a produção da mais-valia relativa, corresponde
a instâncias sociais que operam, por exemplo, no território do consumo e lazer, o
revolucionamento do modo de produção implica, cada vez mais, o revoluciona-

12
Maquinofatura – Breve nota teórica sobre a nova forma social da produção do capital na era do capitalismo
manipulatório

mento do modo de vida, ou seja, de todas as relações sociais. O Marx de 1844 diria:
é o revolucionamento da “vida do gênero” [Gattungsleben] na sua forma abstrata e
alienada (diz ele: “A vida mesma aparece só como meio de vida” – eis o verdadeiro
sentido do trabalho assalariado).
Essa é uma característica ontológica da sociedade do capital como uma socie-
dade do trabalho alienado. Ao revolucionar o modo de produção, revolucionam-
-se também as condições sociais. Portanto, as categorias de manufatura e grande
indústria são categorias sociológicas que contêm, em si e para si, um modo de vida
social – o comunista Antonio Gramsci, em “Americanismo e fordismo”, explici-
tou, com vigor genial, as derivações ontometodológicas da constatação marxiana:
trabalho e vida estão interligados (Gramsci, 1984).
Portanto, o desenvolvimento do processo de produção do capital é um movi-
mento de explicitação sucessiva da interligação entre vida e produção de valor. É a
afirmação candente do processo de trabalho como um processo entre o homem e
a Natureza, que não se reduz à matéria natural, objetos e meios, mas sim em uma
Natureza capaz de incorporar a vida física e mental do homem-que-trabalha. Per-
cebe-se que o capital em processo implica, cada vez mais, a dimensão da atividade
vital no modo de produção de valor. Aprofunda-se, na ótica do Marx de 1844, a
alienação da vida do gênero. Eis, portanto, o sentido do conceito de maquinofatura
como terceira forma social da produção do capital. É o que veremos a seguir.

2. Manufatura e grande indústria

Marx diz no início do capítulo 13 do livro I de “O Capital”: “O revoluciona-


mento do modo de produção toma, na manufatura, como ponto de partida a força
de trabalho; na grande indústria, o meio de trabalho” (MARX, 1986).
O ponto de partida do revolucionamento do modo de produção capitalista
na manufatura é a força de trabalho. O ponto de partida do revolucionamento do
modo de produção capitalista na grande indústria é o meio de trabalho. Portanto,
cada forma social da produção do capital – manufatura e grande indústria – cor-
responde a um “ponto de partida” desse revolucionamento do modo de produção
capitalista, com implicações estruturais nas relações sociais de produção da vida
social salientadas acima (homem-natureza/homem-técnica).
Na manufatura, foi o revolucionamento da força de trabalho que caracterizou
o desenvolvimento daquela forma social de produção do capital. Por exemplo, o
capital em processo criou, por meio da expropriação dos camponeses, a massa de
força de trabalho à disposição das manufaturas em ascensão no século XVIII. Por

13
CAPÍTULO 1

outro lado, a manufatura incorporou a divisão do trabalho no processo produtivo,


degradando as habilidades artesanais da mão de obra e a sua relação com o instru-
mento de trabalho herdado do modo de produção anterior. Dessa forma, o capital
criou a força de trabalho como mercadoria que, nas condições da manufatura,
apareceu como trabalhador parcelar. Em vez de intervir em todas as etapas da
produção, o operário manufatureiro é obrigado a atuar apenas em uma parte do
processo de trabalho.
O trabalhador parcelar é alienado do seu ofício e, por conseguinte, do seu
espaço domiciliar de produção. Na medida em que concentrou no território da
manufatura a força de trabalho alienada de seus meios de produção, a manufatura
reordenou o espaço da produção como local de cooperação e território do controle
despótico do capital. Antes, o camponês e o artesão exerciam o trabalho cotidiano
e seu ofício no espaço da gleba e da oficina domiciliar, respectivamente. Com a
manufatura, que concentra numa mesma dimensão territorial a massa de operá-
rios, a lógica do capital subsume formalmente o homem assalariado por meio do
controle da força de trabalho como mercadoria. O trabalho vivo é reconfigurado
no novo espaço territorial da produção do capital como um trabalhador coletivo
constituído por um complexo de trabalhadores parcelares.
Essa reordenação territorial do espaço acompanha a instauração da divisão
manufatureira do trabalho, a qual aliena o operário artesanal do seu ofício. Nos
primeiros séculos do capitalismo moderno, a manufatura tornou-se o novo espa-
ço-tempo do modo de produção capitalista em ascensão. Mas o trabalhador assa-
lariado está subsumido apenas formalmente ao capital, já que preserva habilidades
manuais oriundas do oficio artesanal. Ele ainda mantém uma relação efetiva com
o meio de trabalho, embora tenha se tornado um trabalhador parcelar.
Nas condições históricas da manufatura capitalista, foi instaurada a proble-
mática moderna do adoecimento laboral. Por exemplo, foi nessa época que o mé-
dico italiano Bernardino Ramazzini (1633-1714) criou a Medicina Ocupacional.
Foi em seu livro sobre doenças ocupacionais, intitulado De Morbis Artificum Dia-
triba (Doenças do Trabalho), que relacionou os riscos à saúde ocasionados por
produtos químicos, poeira, metais e outros agentes com os quais tinham contato
operários em 52 ocupações. A obra foi um dos trabalhos pioneiros no assunto e
tornou-se base da medicina ocupacional. Portanto, a produção do capital em as-
censão histórica significou a criação de corpos-mentes doentes.
Isso significa que o revolucionamento da força de trabalho como ponto de
partida da manufatura acarretou a degradação da vida física e mental do homem-
-que-trabalha. Com a manufatura, alterou-se radicalmente o espaço-tempo da
produção de mercadorias, modificando a relação tempo de trabalho/tempo de

14
Maquinofatura – Breve nota teórica sobre a nova forma social da produção do capital na era do capitalismo
manipulatório

vida dos trabalhadores assalariados. A produção do capital sob as condições do


predomínio da mais-valia absoluta significou jornadas de trabalho extensas.
Portanto, a concentração territorial, a divisão manufatureira do trabalho e a
redução do tempo de vida a tempo de trabalho eram elementos compositivos do
revolucionamento da força de trabalho sob a manufatura, cujo objetivo era au-
mentar o controle dessa força com a finalidade de extrair a mais-valia absoluta. O
princípio da manufatura que se incorporou à lógica de desenvolvimento capita-
lista é o de controle laboral por meio do rearranjo territorial (o capital constitui o
trabalhador coletivo), reorganização das habilidades manuais (o capital constitui
um novo nexo psicofísico do trabalho) e reordenamento do tempo de vida, redu-
zindo-o a tempo de trabalho.
Contudo, o “modelo manufatureiro” não alterou radicalmente a relação ho-
mem-técnica. O homem continuava dominando a técnica e o meio de trabalho
ainda era um meio de trabalho no sentido do instrumento apreclar, de extensão
do homem. Por outro lado, a subsunção formal do trabalho ao capital significava
que a produção de mais-valia absoluta restringia-se aos locais das manufaturas, e
a relação-capital não se tornara totalidade social.
Entretanto, o princípio de cooperação e manufatura – o revolucionamento
da força de trabalho – é um elemento compositivo da ontologia da produção do
capital. Mesmo com a grande indústria, cujo princípio é o revolucionamento do
meio de trabalho, o princípio da divisão do trabalho e da manufatura repõe-se no
sentido da subsunção formal do trabalho vivo à lógica territorial do capital. Ao ser
negada pela grande indústria, a manufatura apenas elevou-se a um estágio supe-
rior de desenvolvimento.
Com a grande indústria, a produção do capital repõe o controle laboral, in-
tegrando-o ao sistema de máquinas. Nesse tipo de indústria, o ponto de partida
do revolucionamento é o meio de trabalho, ou seja, a técnica como tecnologia. É
um momento de subsunção real do trabalho vivo ao capital como trabalho morto
imposto ao homem-que-trabalha.
Ao alterar radicalmente a relação homem-técnica, instaurando a forma-tecno-
logia, a grande indústria modificou a relação homem-Natureza, na medida em que,
com o sistema de máquinas-ferramentas, aboliram-se as habilidades artesanais do
operário, transformando-o em um mero apêndice da maquinaria. Na verdade, a
grande indústria desnudou o trabalhador assalariado. Tal como a manufatura, ela
revolucionou a força de trabalho a partir do revolucionamento do meio de trabalho.
Ao revolucioná-lo, a grande indústria revolucionou a atividade vital do homem. Ao
ser revolucionado, o meio de trabalho (o instrumento) se interverteu em máquina-
-ferramenta e o homem transformou-se em mero apêndice do sistema de máquinas.

15
CAPÍTULO 1

A posição do homem como apêndice da máquina significou a vigência do


adoecimento do corpo na epidemiologia laboral. Isso porque a corporalidade viva
torna-se apêndice da maquinaria, enquanto a máquina impõe uma racionalização
da produção e do trabalho (o taylorismo é expressão suprema do princípio ideo-
lógico da grande indústria). Apesar disso, como diz Gramsci, “o operário conti-
nua ´infelizmente´ homem, e inclusive, ele, durante o trabalho, pensa demais...”
(Gramsci, 1984). A racionalização taylorista consegue absorver o corpo, mas não a
mente. O sistema de máquinas consome o homem como força natural – corpora-
lidade, braços e pernas, cabeça e mãos.
Ao contrário da manufatura, a técnica de produção da grande indústria ex-
pande-se para a totalidade social, imprimindo a sua marca na reprodução social.
A modernidade do capital transforma-se em modernidade-máquina. O sistema de
máquina coloniza a vida social, alterando a percepção espaço-tempo do homem
moderno. Nas condições históricas da grande indústria, instaura-se com plenitu-
de a disputa tempo do trabalho estranhado versus “tempo livre”.
A produção em massa impõe o consumo de massa. O “tempo livre” inter-
verte-se em tempo de consumo e lazer. Por isso, nas condições da produção da
mais-valia relativa, a luta pela redução da jornada de trabalho tornou-se um eixo
político da luta de classes, inclusive no plano da consciência de classe contingen-
te. Torna-se mais perceptível que o tempo o campo de desenvolvimento humano,
como diria Marx, e, mais ainda, o campo de disputa do capital. Tempo de vida e
tempo de trabalho transformam-se em equações fundantes do movimento do ser
social da modernidade do capital.

3. A Maquinofatura

Sob as condições da terceira modernidade do capital, constitui-se, como


desdobramento da própria grande indústria, a terceira forma de produção do
capital, que denominamos “maquinofatura”, na qual a dialética homem-técnica
e homem-natureza é revolucionada num patamar superior. O ponto de partida
da maquinofatura não é o revolucionamento da força de trabalho (como na
manufatura), nem o revolucionamento da técnica (como na grande indústria),
mas sim o revolucionamento do homem-e-da-técnica, ou o revolucionamento
da própria relação homem-técnica.
Com a maquinofatura, é a relação homem-técnica que se coloca como ponto
de partida do revolucionamento do modo de produção capitalista. Na verdade,
com a grande indústria, o homem incorporou-se à técnica como tecnologia. É o
sentido da apendicização do homem como trabalho vivo à maquinaria. O trabalho

16
Maquinofatura – Breve nota teórica sobre a nova forma social da produção do capital na era do capitalismo
manipulatório

morto subsume o trabalho vivo. Apesar disso, o operário continua “infelizmente”


homem, tornando-se a extensão problemática do sistema de máquinas. Ele, duran-
te o trabalho, pensa. Incapaz de impedir que o homem-apêndice pense, o capital-
-máquina visa constituir um novo nexo psicofísico e de metabolismo social que
permita a constituição de homens com pensamentos mais conformistas. Portanto,
com a maquinofatura, constitui-se o homo tecnologicus (eis o sentido do conceito
de ciber-hominização).
O termo “maquinofatura” utilizado aqui não diz respeito ao conceito empre-
gado, por exemplo, por Raphael Kaplinski2, que o considera meramente um mo-
delo de organização industrial. Por outro lado, outros autores se aproximaram do
sentido do conceito de maquinofatura tal como o consideramos, tais como Ruy
Fausto, com a ideia de “pós-grande indústria” (Fausto, 1989), Francisco Teixeira,
com “cooperação complexa” (Teixeira e Frederico, 2008) e Fernando Haddad, com
“supergrande indústria” (Haddad, 1997).
Na verdade, utilizamos o termo “maquinofatura” tendo em vista a junção das
palavras “máquina” e “manufatura”. Com a maquinofatura, a forma-manufatura
repõe-se no interior do sistema de máquinas, sendo que, tal como na manufatura,
o ponto de partida do revolucionamento do modo de produção capitalista é a força
de trabalho. Entretanto, não apenas como mercadoria, mas sim a força de traba-
lho-subsumida-ao-sistema-de-máquinas. Isto significa que o trabalho vivo é re-
duzido à força de trabalho nas condições históricas do capitalismo manipulatório.
Desse modo, a maquinofatura, assim como a manufatura e a grande indústria,
na ótica marxiana, não seria apenas um “modelo” de organização da produção
de mercadorias, mas, principalmente, um modo de controle estranhado do me-
tabolismo social. É uma forma de produção social no interior da qual ocorreria o
desenvolvimento da produção do capital.
A maquinofatura coloca um novo ponto de partida para o revolucionamento
do modo de produção capitalista. Ela conclui o ciclo dialético de evolução da pro-
dução do capital, composto pela manufatura, grande indústria e maquinofatura
(no plano categorial, expressaria a tese-antítese-síntese).

2 Raphael Kaplinsky, no texto “Industrial restructuring in LDCs: the role of information


technology”, apresentado no Seminário internacional “Padrões Tecnológicos e Processo
de Trabalho – Comparações Internacionais”, Convênio USP/BID, São Paulo, em maio de
1989, fala da transição de um modelo organizacional do tipo “maquinofatura” para um mo-
delo de tipo “sistemofatura”. Nessa transição, mais que uma mera transformação da base
técnica, de eletromecânica para microeletrônica, verificam-se mudanças organizacionais
internas e externas à empresa. A alteração nos padrões de organização da produção vem
associada à mudança das relações industriais e à tendência à cooperação no plano das
relações interempresariais.

17
CAPÍTULO 1

O surgimento da maquinofatura nos últimos trinta anos de desenvolvimento


do capitalismo histórico decorreu de antigos processos de luta de classes e de mu-
tações técnicas no modo de acumulação capitalista com a III Revolução Industrial
e suas revoluções tecnológicas (Alves, 2011). A maquinofatura implica tanto em
processos históricos de dessubjetivação de classe quanto em formas de desenvol-
vimento da nova base técnica informacional no capitalismo global. Na medida em
que o capitalismo tardio constitui uma nova base técnica para a grande indústria,
com o aparecimento da máquina informacional (o que denominamos como “pós-
-máquina”), põem-se os elementos de “negação” da grande indústria em seu pró-
prio interior (Alves, 2002).
Com a maquinofatura, surgiu um novo momento de produção do capital,
no qual coloca-se a necessidade candente de revolucionar o seu próprio metabo-
lismo social, resultando, assim, na alteração da relação social homem-Natureza
com o objetivo de reconstituí-la e reordená-la de acordo com a base técnica ade-
quada ao novo patamar de acumulação do capital. A maquinofatura repõe a
subsunção formal no interior da subsunção real do homem ao capital. Desse
modo, são nas condições da terceira modernidade do capital que a nova base
técnica exige um modelo diferente de metabolismo social, capaz de promover
um novo patamar de acumulação capitalista sob as condições críticas da crise
estrutural do capital.
Se a grande indústria aboliu o processo de trabalho conforme o meio de tra-
balho transformou-se em ferramenta e o homem tornou-se um mero apêndice da
máquina, com a maquinofatura repõe-se, num plano virtual, a máquina como ins-
trumento e o homem como o seu vigia. Na verdade, tendo em vista que se trata de
uma reposição meramente virtual, ou seja, uma posição de possibilidades contra-
ditórias contidas na nova base técnica, o novo homem, que surge como “homem
tecnológico”, é um feixe de contradições reais (o virtual é um modo de ser do real
efetivamente contraditório).
Com a maquinofatura, recupera-se o modelo de trabalho abolido pela gran-
de indústria. Entretanto, os termos desse processo (ato teleológico, meio e obje-
to), que eram postos na manufatura, sofreram alterações qualitativamente novas
com a maquinofatura. Por exemplo, o ato teleológico na maquinofatura con-
tinua tendo uma teleologia alienada, mas a dimensão manipulatória esvaziou-
-o do sentido estranhado (é a “consciência feliz” de Herbert Marcuse). O meio
de trabalho na maquinofatura repõe-se como instrumento e não apenas como
ferramenta que desloca o telos do homem (a máquina informacional é a “pós-
-máquina”). Entretanto, ele aparece apenas como instrumento virtual, tendo em
vista que o sistema de máquinas-ferramentas continua posto como horizonte
teleológico da atividade vital.

18
Maquinofatura – Breve nota teórica sobre a nova forma social da produção do capital na era do capitalismo
manipulatório

A vigência da terceira forma de produção do capital, a maquinofatura, explica,


por exemplo, a presença enquanto momento predominante da reestrutura produ-
tiva do capital, da “captura” da subjetividade do homem-que-trabalha e das novas
formas de estranhamento que dilaceram o núcleo humano-genérico. Nesse caso,
o capital alcança seu limite radical, isto é, atinge a sua própria raiz, o homem, ou
melhor, as relações sociais no sentido da constituição/deformação do sujeito histó-
rico como homem-que-trabalha.
O toyotismo como ideologia orgânica da produção de mercadorias surgiu no
seio da maquinofatura, pois a “captura” da subjetividade do homem-que-traba-
lha pelo capital tornou-se seu nexo essencial (Alves, 2011). O capitalismo mani-
pulatório inaugura a era da maquinofatura como derivação lógica (e ontológica)
da grande indústria.
Ao mesmo tempo, a epidemiologia laboral nas condições históricas da maqui-
nofatura caracteriza-se pelo predomínio do adoecimento da mente, na medida em
que o foco sob tensão é, assim como na manufatura, o homem integral. Porém, en-
quanto na manufatura o que está posto é o homem como força de trabalho, na ma-
quinofatura o objeto em questão é o homem como trabalho vivo. Nas condições do
capitalismo manipulatório, opera-se, de modo radical, a redução do trabalho vivo
à força de trabalho (2009).
Com isso, a redução do trabalho vivo à força de trabalho como mercadoria –
um traço do capitalismo moderno – assume dimensões qualitativamente novas.
Ao mesmo tempo, a tensão entre trabalho estranhado e lazer não se coloca mais
como na grande indústria, considerando que o próprio lazer é erodido conforme
a produção do capital torna-se uma totalidade social. O lazer transforma-se em
um mero momento da subjetivação estranhada do capital, ocorrido, antes, apenas
no tempo de trabalho. Lazer é consumo, é entretenimento. Na era do hipercon-
sumismo e dos valores-fetiche, que caracterizam o capitalismo manipulatório, o
estranhamento alarga-se para esferas de lazer e consumo.
Portanto, o que se coloca como campo de disputa do capital com a terceira
forma de produção social do capital, a maquinofatura, é a subjetividade no sentido
radical. O problema da práxis humana põe-se como problemática central do nosso
tempo, sendo capaz de fazer história ou ir além da pré-história humana, caracteri-
zada pelas sociedades de classes.
O “homem tecnológico” é o homem rendido à manipulação/“captura” da sub-
jetividade pelo capital, cuja disputa íntima o dilacera (o que explica o surto de
adoecimentos mentais no mundo do trabalho). Põem-se, nessa etapa de desenvol-
vimento da maquinofatura, os processos ideológicos de dessubjetivação de classe
e a corrosão radical do ser genérico do homem (o sociometabolismo da barbárie).

19
CAPÍTULO 1

Instaura-se, desse modo, a crise da pessoa humana em sua dimensão radical, co-
locando-se a centralidade da formação da classe e a necessidade do controle social
como questões estratégicas da emancipação humana.

Referências bibliográficas
ALVES, Giovanni (2011) Trabalho e subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo
manipulatório, São Paulo: Boitempo editorial.
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________________. (2002) “Ciberespaço e fetichismo”, In Dialética do Ciberespaço: Traba-
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________________. (2004) Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo editorial.
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich (1998) Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo editorial
TEIXEIRA, Francisco e FREDERICO, Celso (2008) Marx no Século XXI, São Paulo: Cortês.

20
CAPITULO 2

A ideologia do capital na crise:


Trabalho, educação e cidadania

Roberto Leme Batista1

N
o contexto da mundialização financeira do capital, impera uma crise sin-
tomática que estoura em bolhas especulativas e falências generalizadas
dos Estados Nacionais, cujos últimos epicentros ocorreram na Grécia,
em Portugal e em outros Estados da União Européia. Nesse processo, o mais es-
petacular é a crise na qual mergulhou o Estado que se constitui o principal ícone
capitalista: Os Estados Unidos da América.
Não deixa de ser curioso, nesse contexto de crise que se arrasta nas últimas
décadas, os ideólogos do capital comportarem-se como verdadeiros arautos na
disseminação de premissas capazes de iludir segmentos da classe trabalhadora
quanto à possibilidade de ascender socialmente por meio da educação. Esses ide-
ólogos encontram-se em postos estratégicos das instituições multilaterais (Banco
Mundial, UNESCO, OIT, CEPAL etc.) e também em funções importantes nos
Ministérios e Secretarias de Estado, quando não atuam diretamente em institui-
ções privadas do capital e suas agências de formação, voltadas para a qualificação
e capacitação profissional.
Ao confrontar diversos documentos produzidos no âmbito dessas institui-
ções, verificamos uma apropriação e adaptação de conceitos, ideias, políticas e
ideologias da época de ouro do capitalismo, ou seja, das duas décadas posteriores
à Segunda Guerra Mundial. Portanto, coisas da era de regulação keynesiana e for-
dista são revigoradas para o contexto da acumulação produtiva, cujo momento
predomina os princípios e nexos organizacionais do toyotismo associados e com-
binados ao trabalho precário, parcial, temporário e degradado da era do capitalis-
mo global, fundado na ideologia neoliberal.
Sendo assim, um dos discursos mais recorrentes no âmbito das instituições
multilaterais, do MEC e das organizações patronais baseia-se na formação de re-

1 Doutor em Ciências Sociais, professor de Teoria da História e História Contemporânea da


UNESPAR – Campus Paranavaí.
CAPÍTULO 2

cursos humanos, com enfoque na teoria do capital humano por meio da apropria-
ção e adaptação da mesma para o contexto do capitalismo global. Essa retórica
expande-se associada à ideologia da empregabilidade, do empreendedorismo e da
noção de competências, articulada aos assim chamados pilares da educação para o
século XXI: saber aprender, saber fazer, saber ser, saber viver juntos, saber sonhar.
Dessa forma, a ideologia da educação, voltada para o trabalho e a cidadania,
funda-se na premissa do individualismo possessivo, pois o indivíduo é entendi-
do como um ser dotado de capacidades extraordinárias, que possui competên-
cia profissional e sabe articular e mobilizar valores, habilidades e conhecimentos
para resolver não apenas os problemas rotineiros, mas também os inusitados. Não
bastassem tamanha competência e eficiência profissional, essa ideologia enfatiza,
ainda, o indivíduo competente como aquele capaz de agir de forma eficaz diante
de acontecimentos inesperados que fogem ao habitual, de superar a experiência
acumulada transformada em hábito, liberando-se, assim, para a criatividade e a
atuação profissional transformadora.
Nessa perspectiva, de acordo com a CEPAL, as mudanças educacionais no
contexto da globalização demandam reformas que constituem um eixo funda-
mental do conjunto de transformações políticas e econômicas, o qual, ao se ex-
pandir, viabiliza oportunidades de bem-estar aos indivíduos. Portanto, a CEPAL
enfatiza que o investimento em educação gera efeitos positivos na produtividade
dos recursos humanos, na formulação da cidadania moderna, nas capacidades da
população para articular e processar demandas e também nos comportamentos
demográficos. Sendo assim, a comissão salienta a necessidade de se refletir sobre
os objetivos que as políticas educacionais devem cumprir para melhorar a eficácia
e a eficiência, garantindo o êxito de tais objetivos estratégicos.
Na visão da CEPAL, assim como na da UNESCO, a educação voltada para a ci-
dadania constitui-se num exercício responsável por conduzir o indivíduo à cultura
participativa na sociedade, garantir-lhe plena autonomia, acesso à informação e a
capacidade de exercitar seu papel de cidadão com juízos críticos. Vemos então que
essa retórica adota os princípios neoliberais da afirmação do indivíduo possessivo2.

2 Indivíduo possessivo é o termo que Popkewitz cunhou ao analisar a ideologia da reforma


da educação nos EUA. Esse termo designa o sujeito que, de acordo com a retórica neolibe-
ral, deve possuir todos os elementos de uma educação básica de qualidade: saber aprender,
saber fazer, saber ser, saber viver juntos, saber sonhar. Nesse sentido, afirma que: “[...] o
individualismo possessivo [...] considera as relações pessoais e a subjetividade como fins em
si; o consumo é um objetivo em si mesmo. O entendimento pelos indivíduos do seu próprio
papel em um sistema de produtividade e cultura é minado e eles são deixados com um
pequeno sentido de pertença ou de compromisso para com o bem geral. A fragmentação e
a auto-obsessão, que alimentam o individualismo possessivo, então, destroem o sentido de
todo de cada pessoa e a sua relação com esse todo”. (POPKEWITZ, 1997, p. 170)

22
A ideologia do capital na crise: Trabalho, educação e cidadania

Assim, as instituições multilaterais disseminaram uma ideologia de educação


com foco no “mercado de trabalho”, nos “modelos” de qualificação e capacitação
profissionais, que, conforme salientam, seriam capazes de gerar os assim chama-
dos novos atributos exigidos pelas competências e habilidades profissionais. Esses
atributos constituem-se em passaportes para a construção, o desenvolvimento e
a consolidação da cidadania, pois são capazes de garantir a empregabilidade do
indivíduo nas mais adversas situações. De acordo com essa retórica, o indivíduo
possuidor de uma formação como essa, caso encontre-se em algum momento na
condição de desempregado, conseguirá sobreviver no mercado – setor informal
– como empreendedor, porque, além de saber atuar profissionalmente de forma
criativa e transformadora, também sabe sonhar.
No Brasil, uma das principais autoras que contribuiu para disseminar esse
tipo de retórica foi Guiomar Namo de Mello. No início dos anos de 1990, foi pu-
blicado seu livro Cidadania e competitividade: desafios educacionais do terceiro
milênio (MELLO, 1993). Nessa obra, a autora – que se constituiu, na perspectiva do
neoliberalismo, numa das principais intelectuais orgânicas a serviço da reforma
da educação, destacando-se como intelectual e conselheira do Conselho Nacional
de Educação – colaborou para difundir as recomendações das instituições multi-
laterais entre os educadores brasileiros.
No livro, Mello enfatizava ser inquestionável a necessidade da reforma sob
essa perspectiva, tomando como base o que estava ocorrendo em diversos países.
Segundo a autora, a reforma tornaria os sistemas educativos “[...] mais eficientes
e equitativos no preparo de uma nova cidadania, capaz de enfrentar a revolução
tecnológica que está ocorrendo no processo produtivo e seus desdobramentos po-
líticos, sociais e éticos.”.
Nesse sentido, considerava evidente, no contexto da globalização, que o co-
nhecimento e a capacidade dos indivíduos de selecionar e processar informações,
somados à autonomia, criatividade e iniciativa, eram matérias-primas vitais para
o desenvolvimento e a modernidade. Dessa forma, reforça sua retórica afirmando
que “[...] os países industrializados mais adiantados deslocam, assim, as priorida-
des de investimento em infra-estrutura e equipamentos, para a formação de habi-
lidades cognitivas e competências sociais da população.” Com isso, a autora justifica
sua adesão ao ideário da CEPAL ao salientar a existência de uma centralidade da
educação escolar “[...] nas pautas governamentais e na agenda dos debates que bus-
cam caminhos para uma reestruturação competitiva da economia, com equidade
social” (MELLO, 1993, p. 30, grifo nosso).
Para justificar a necessidade da reforma, a autora argumenta que, em países
como o Brasil, ocorreu um processo de desenvolvimento fundado num modelo

23
CAPÍTULO 2

educativo voltado para a formação e preparação de uma elite altamente educada e


informada. Esse modelo, segundo Mello, reservava para a grande massa da popu-
lação apenas uma educação suficiente “[...] para dar conta das tarefas elementares
de uma industrialização tardia e dependente”. Porém, as mudanças na base eco-
nômica ocorridas nas últimas décadas provocaram abalos nesse modelo ao trans-
formar radicalmente a relação fundamentada na abundância de matéria-prima e
mão de obra desqualificada e barata. Sendo assim, de acordo com a premissa da
autora, para superar o padrão desigual de desenvolvimento tornou-se necessário
preparar o “[...] conjunto da sociedade para incorporar os avanços tecnológicos, de
modo a utilizá-los para melhorar a qualidade de vida, é condição para evitar a ação
de novos elementos de seletividade e desigualdade social” (MELLO, 1993, p. 32).
Nesse sentido, a educação é desafiada a responder às exigências das trans-
formações nos processos produtivos, devendo, então, voltar-se para a formação
“[...] de um novo perfil de qualificação da mão-de-obra, onde inteligência e co-
nhecimento são fundamentais”. Para a autora, as exigências colocadas à educação
devem-se à aceleração dos processos automáticos e à disseminação de novos me-
canismos de informação e comunicação, as quais provocam mudanças capazes
de afetar o processo produtivo, alterando radicalmente suas formas organizacio-
nais, que abrangem desde a concepção de bens e serviços até as relações e formas
de gerenciar o trabalho.
Sendo assim, os novos modelos organizacionais e gerenciais do trabalho, de
acordo com Mello, superam as antigas divisões tayloristas fundadas nas tarefas e
desenvolvem a realização de atividades laborais integradas, que podem ser reali-
zadas individualmente ou por equipe. Porém, essas novas formas organizacionais
e gerenciais passam a exigir do indivíduo uma “[...] visão do conjunto, autonomia,
iniciativa, capacidade de resolver problemas, flexibilidade” (MELLO, 1993, p. 33).
Essa retórica norteou a reforma da educação no Brasil, no contexto da reforma do
Estado na década de 1990, partindo da premissa de que a reestruturação produtiva
torna cada vez mais tardia a necessidade de especialização profissional, enquanto
amplia a exigência de aquisição de habilidades básicas na educação. Daí, toda ên-
fase na obrigatoriedade do Estado em investir apenas na educação básica, confor-
me preconizam as instituições multilaterais.
As transformações organizacionais e gerenciais ocorridas nas empresas eram
o mote alegado para as novas exigências de competências para o desempenho de
funções e atividades. Salientava-se então que “[...] a intervenção humana para or-
ganizar o processo produtivo, prevenir falhas e garantir qualidade em cada etapa,
requer o desenvolvimento do raciocínio analítico, da habilidade e rapidez para
processar informação e tomar decisões” (MELLO, 1993, p. 33).

24
A ideologia do capital na crise: Trabalho, educação e cidadania

Nesse aspecto, caberia à educação atender às exigências colocadas pelas trans-


formações produtivas que estavam a requisitar um trabalhador polivalente e mul-
tifuncional. Portanto, competia à escola tornar propício um sólido domínio dos
códigos instrumentais da modernidade, fundados no ensino da linguagem, da
matemática e dos conteúdos científicos. Ao mesmo tempo, as disciplinas básicas
deveriam fornecer mais do que simplesmente informações específicas, mas tam-
bém garantir “[...] a formação de habilidades cognitivas tais como: compreensão,
pensamento analítico e abstrato, flexibilidade de raciocínio para entender situa-
ções novas e solucionar problemas” (MELLO, 1993, p. 34).
De acordo com essa retórica, caberia à educação escolar também dar conta da
“[...] formação de competências sociais, como liderança, iniciativa, capacidade de
tomar decisões, autonomia no trabalho, habilidade de comunicação, que consti-
tuem os novos desafios educacionais.” Assim, criticava-se a educação baseada em
um currículo gerador de informações superficiais e segmentadas, ao qual a educa-
ção escolar deveria se contrapor de modo eficiente, buscando garantir um ensino
de forma a “[...] dominar em profundidade as [habilidades] e as formas de acesso
à informação, desenvolvendo a capacidade de reunir e organizar aquelas que são
relevantes” (MELLO, 1993, p. 34).
Entretanto, a autora, em conformidade com a perspectiva cepalina, salien-
tava que a educação, além de responder à necessidade de gerar inteligência e co-
nhecimento voltados para a formação de um novo perfil de qualificação da mão
de obra, deveria ter também a tarefa de dar uma educação capaz de preparar o
indivíduo para o exercício da cidadania. Emerge-se, assim, a noção de cidadania
política, que estará presente no processo de reforma da educação, por meio da
atuação da autora como conselheira nacional de educação no CNE. Portanto, é
desenvolvida, dessa forma, a retórica do conhecimento voltada para a garantia do
exercício da cidadania política “[...] num mundo que deixa de ser marcado por
bipolaridades excludentes – capital x trabalho, classe dominante x classe domi-
nada” (MELLO, 1993, p. 34).
Consideramos legítimo problematizar os pressupostos de Mello ao formular
o conceito de cidadania política. Isso porque compreendemos que a cidadania po-
lítica do sujeito social trabalhador confrontada com o poder do capital deve ser
tensionada. Em nosso entendimento, ao “cidadão político” cabe tensionar os con-
flitos, as diferenças e os antagonismos provenientes da divisão social do trabalho e
das classes sociais. Assim, partimos do pressuposto de que o ser social trabalhador
ou o indivíduo, como querem os arautos do sistema capital, não deve permanecer
subsumido na fantasmagoria que oculta e obscurece as relações alienadas, estra-
nhadas do mundo do trabalho.

25
CAPÍTULO 2

Os arautos da reforma da educação, como legítimos ideólogos do sistema, ne-


gam o processo de desefetivação do sujeito no modo real de existência na socie-
dade do capitalismo manipulatório global. Afinal, num mundo onde se preconiza
o fim das ideologias, o fim da história, o fim das utopias, entre tantos outros fins,
os adeptos a essas ondas podem, de forma efetiva, pressupor que o pesadelo da
contradição e do antagonismo de classe realmente desapareceu, para o alívio do
capital. Obviamente que aqueles que padecem no mundo do desemprego, do tra-
balho precário, temporário, subcontratado, exercendo funções multitarefas, têm
razões para duvidar do canto de sereia.
Entre nós também tiveram autores que não renegaram o passado e se man-
tiveram numa empreitada crítica aos postulados neoliberais. Nesse sentido, uma
importante reflexão sobre a cidadania no contexto do capitalismo manipulatório
foi apresentada por González (1996). Para esse autor, seguindo as trilhas do jovem
Marx, a cidadania apresenta para cada indivíduo a possibilidade – aparência –
de ser reconhecido como ser social que goza de plenos direitos (educação, saúde,
habitação etc.). Contudo, nesse processo, esses direitos individuais representam a
autoalienação política, pedagógica e religiosa do “cidadão”, diante de uma reali-
dade dividida, pois se apresenta ramificada nas esferas “civil e política, pública e
privada”. Desse modo, “[...] os direitos do cidadão constituem, em suma, o limite
do projeto político das classes dominantes” (GONZÁLEZ, 1996, p. 51).
Isso porque o ser social trabalhador – que na retórica do capitalismo mani-
pulatório é um “cidadão produtivo”, apesar de sua condição de cidadão educado,
qualificado, religioso, assistido etc. – não consegue sair de sua situação concre-
ta no mundo real e continua mergulhado na condição histórica. Essa é efetivada
pelas relações fundamentais da sociedade capitalista, ou seja: “ser aparentemente
igual e, essencialmente, viver na condição de força de trabalho explorada, desqua-
lificada, alienada e, quando for historicamente possível para o capital, destruída”
(GONZÁLEZ, 1996, p. 51).
Mészáros (1996, p. 15), ao analisar o pensamento dos ideólogos de direita
nos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, estabelece uma crítica aos assim
chamados “scholars”, afirmando que “[...] alguns dos mais célebres intelectuais
do pós-guerra declararam em seus livros e estudos acadêmicos que a distinção
‘antiquada’ entre esquerda e direita políticas não fazia sentido nenhum em nossas
sociedades ‘avançadas’”. Dessa maneira, consideramos legítimo nos apropriar e
adaptar essa radicalidade aos arautos e ideólogos da reforma da educação no Bra-
sil, pois, conforme salienta Mészaros, “[...] sabe-se muito bem que essa ideia tem
sido avidamente acolhida pelos manipuladores da opinião pública e amplamente
difundida com o auxílio de nossas instituições culturais, a serviço de determina-
dos interesses e valores ideológicos”. A crítica da ideologia, tal qual procede esse

26
A ideologia do capital na crise: Trabalho, educação e cidadania

autor, “desoculta” efetivamente toda a manipulação que procede a intelligentsia


a serviço do capital, pois “[...] graças a tal comunicação entre o ‘sofisticado’ e o
‘vulgar’, tornou-se comum chamar os representantes da direita de ‘moderados’,
enquanto aqueles da esquerda eram designados de ‘extremistas’, ‘ fanáticos’, ‘dog-
máticos’ e coisas similares” (MÉSZÁROS, 1996, p. 15).
Esse autor leva-nos a compreender a forma como a ideologia dominante ad-
quire a capacidade de estipular o que pode se considerado como o legítimo critério
para avaliar conflitos, pois exerce o controle das instituições sociais responsáveis
por garantir a hegemonia política e cultural. Sendo assim, salienta que a ideologia
dominante usa e abusa do discurso e da linguagem, “[...] pois o perigo de ser publi-
camente desmascarada é irrelevante, tanto devido à relação de forças prevalecente
quanto aos dois pesos e duas medidas que se aplicam às questões debatidas pelos
defensores da ordem estabelecida” (MÉSZÁROS, 1996, p. 15).
Magdoff (1979) também tratou numa crítica radical o modo como os ideó-
logos do sistema capital abordam as categorias ligadas às lutas, às contradições
e aos conflitos políticos, salientando que os universitários eruditos preferem não
usar o termo “imperialismo”, pois o julgam como uma palavra desagradável e
anticientífica. Portanto, os ideólogos tentam abafar a contradição, por meio do
uso de termos “despolitizados”, ao retratar o mundo do capital de forma idílica e
fantasiosa. Sendo assim, termos como capitalismo, imperialismo, exploração, es-
poliação, mais-valia, classes sociais, luta de classes, consciência de classe, conflito
e contradição sempre tendem a desaparecer da linguagem dos ideólogos oficiais.
Ao acreditar que seus argumentos destruíram o entendimento no qual o mun-
do do capital é marcado pelas contradições do capital com o trabalho, decorrentes
do antagonismo entre a classe social detentora dos meios e instrumentos de pro-
dução e a daqueles que vivem do trabalho, Mello (1993) passa a se posicionar em
defesa de uma educação cuja prioridade é uma ética de convivência mais solidária.
Essa autora abandona de vez a crítica aos fundamentos da sociedade baseada na
propriedade privada e na exploração de classe e adere ao modismo de plantão,
ao salientar que os “[...] padrões de vida e de consumo sofisticados, mas também
predatórios que estão na origem da agressão ao meio ambiente e dificultam uma
distribuição de renda mais justa.”
Nesse sentido, o novo padrão de sociabilidade exige uma educação escolar
que revalorize a ética da austeridade. Portanto, parte do pressuposto de que, no
contexto da reestruturação produtiva, há uma demanda efetiva na qual a educação
escolar passe a garantir a formação de uma ética de convivência mais solidária,
capaz de se contrapor “[...] a violência, a discriminação e a própria indiferença face
a desigualdade social” (MELLO, 1993, p. 38).

27
CAPÍTULO 2

O posicionamento teórico dos ideólogos da reforma do Estado e da educação,


tal como observamos em Mello, constitui-se numa aversão a conceitos e categorias
críticas ao sistema do capital. Isso nos remete, novamente, à perspicácia da crítica
a que procede Harry Magdoff ao confrontar os ideólogos do capital, afirmando
que esses teóricos não têm problemas com termos emocionalmente carregados
– tais como, por exemplo, assassinato, estupro ou sífilis – mesmo quando os cos-
tumes vigentes em sociedades polidas reprovam o emprego dessas palavras. Para
Magdoff, é apenas uma certa classe de palavras capaz de incomodar tais arautos
do capital, “o que é muito significativo, arrepiou, ao longo dos anos, os cabelos
dos estudiosos. Destarte, não só ‘imperialismo’ e ‘exploração imperialista’, mas até
mesmo um termo tão importante no léxico sócio-econômico como ‘capitalismo’ é
tratado com a maior circunspecção pelos acadêmicos” (MAGDOFF, 1979, p. 124).
A retórica da reforma da educação apresenta os atributos a serem desenvol-
vidos pela aprendizagem escolar, para que os indivíduos vivam melhor e conti-
nuem aprendendo ao longo da vida. Sob esse aspecto, o texto de Mello não pode-
ria deixar de tratar dos assim chamados “códigos da modernidade”: “ler, escrever,
contar, expressar-se, resolver problemas”. Afinal, conforme salienta, o domínio
desses códigos é necessário, pois “são instrumentos para viver e conviver em so-
ciedades de informação, nas quais o conhecimento passa a ser fator decisivo para
a melhoria de vida, o desenvolvimento produtivo com equidade, o exercício da
cidadania” (MELLO, 1993, p. 40).
Nesse sentido, a autora salienta a prioridade no atendimento das necessida-
des primárias da aprendizagem para garantir o acesso dos indivíduos aos códi-
gos básicos da modernidade. Ainda assim, destaca que, além dos instrumentos e
conteúdos básicos da aprendizagem, outros três elementos complementares são
relevantes para as estratégias nacionais de educação. O primeiro deles, apontado
por Mello, é a capacidade do indivíduo de resolver problemas, fato que exige outras
habilidades, como a flexibilidade e a adaptabilidade a novas situações3. O segundo
elemento a ser desenvolvido pela educação é a capacidade de o indivíduo tomar
decisões fundamentadas, remetendo, necessariamente, à “habilidade de selecionar
informações relevantes, seja no trabalho, na área cultural ou no exercício da ci-
dadania política”. O terceiro elemento complementar é considerado, pela autora,
mais importante em comparação aos demais, pois se trata do desenvolvimento da
capacidade do indivíduo continuar aprendendo, visto que essa é a “única forma

3 Consideramos tratar-se de um elemento voltado diretamente para a formação da força de


trabalho, ou seja, vinculado às questões da polivalência e da competência do trabalhador,
além de incorporar um dos conceitos fundamentais do complexo de reestruturação produ-
tiva que é o de flexibilidade, ancorado na “captura” da subjetividade explicitada na noção de
adaptabilidade.

28
A ideologia do capital na crise: Trabalho, educação e cidadania

pela qual o resultado da ação educativa pode responder à contínua diversificação


e mudança nas demandas de aprendizagem da sociedade” (MELLO, 1993, p. 41).
Essa autora renega seu passado marxista, desconsidera toda a alienação e a
reificação da sociedade do capital, fundada na propriedade privada dos meios
de produção, e parte para a retórica moral acerca do consumismo exacerbado,
da devastação ambiental, como se essas coisas não fossem intrínsecas à lógica
do capitalismo manipulatório. Como pensar, na sociedade do estranhamento,
numa ética da austeridade? Como argumentar a favor de uma construção da so-
lidariedade por meio da cidadania política e, ao mesmo tempo, articulá-la com
os conceitos burgueses de produtividade e competitividade? Como pensar em
indivíduos solidários, quando se é negada toda possibilidade de transformar a
realidade para construir outra forma de sociabilidade? Isso só se explica se con-
siderarmos a ideologia do capitalismo manipulatório, porque desde o século XIX
a crítica marxiana já “desocultou” o fato de a “essência” do mercado constituir-se
no lucro. Conforme salientou Eagleton (1993, p. 27), “o sujeito como singular,
autônomo, auto-idêntico e autodeterminado continua sendo uma necessidade
política e ideológica do sistema”. Sendo assim, “discursos sobre Deus, liberdade
e família, e a essência espiritual única de cada indivíduo, guardam muito da sua
força tradicional, mas também começam a soar de maneira implausível numa
ordem social em que o valor empírico é evidentemente o lucro.”
Vemos, assim, a retórica da reforma como uma concepção instrumental e re-
ducionista de educação, que deve se ajustar às demandas do processo produtivo.
Essa premissa tem uma visão unilateral de homem, o “homo economicus”, o qual
deve ser educado, treinado e adestrado para adaptar-se funcionalmente ao mer-
cado. O horizonte teórico dessa concepção é prisioneiro da alienação, do fetiche e
da reificação do mercado. Trata-se, portanto, de uma concepção de educação an-
corada na lógica da sociologia da empresa e na pedagogia do aprender a aprender.
Em consonância com Nagel (2003), entendemos que os pressupostos nos quais
se orientaram a reforma da educação no Brasil, no contexto do neoliberalismo, e
ainda continuam a guiar as atuais políticas públicas, principalmente a educação,
constituem-se num utilitarismo que desvincula a política da compreensão da his-
tória. A retórica dos ideólogos do capital, nesse sentido, é prisioneira do presentis-
mo, pois o seu foco de atenção é o hoje e o agora, não importando a práxis passada,
muito menos a do futuro, pois não reconhece a possibilidade de transformação da
realidade a partir dos interesses da coletividade de classe.
Portanto, essa reforma fundada na pedagogia do indivíduo possessivo afirma
a centralidade da autonomia do indivíduo e da subjetividade contra outras alter-
nativas pedagógicas, principalmente as que possuem conteúdos voltados para os

29
CAPÍTULO 2

princípios da emancipação humana por meio das transformações sociais. A retó-


rica dos arautos da reforma promete a emancipação do indivíduo independente da
sociedade na qual ele vive. A premissa dessa retórica, fundada nas recomendações
das instituições multilaterais, na pedagogia do aprender a aprender, na lógica da
construção de competências para a empregabilidade e o empreendedorismo, tem
como objetivo levar o indivíduo a sonhar, desde que não sonhe em transformar
e mudar revolucionariamente a realidade social. Ele é instado a permanecer na
esfera da ilusão, da alienação e do estranhamento.
O desprezo pela história se apresenta também na tentativa de destruir a ideia
de conhecimento pela de saber. Descartam-se os conhecimentos produzidos pelos
homens das gerações anteriores e ressalta-se a importância dos indivíduos “cons-
truírem” seus próprios saberes a partir de experiências internas. Nega-se, assim,
a importância da transmissão de conhecimentos, pois toda cognoscência exterior
ao indivíduo é considerada ultrapassada, antiquada, retrógrada, autoritária. Valo-
riza-se, então, aquilo que o indivíduo aprende sozinho a partir “de uma operação
interna, individual, como competência privada e como tal inútil quando fora do
próprio sujeito” (NAGEL, 2003, p. 35).
Nagel (2003, p. 35) afirma que:

O respeito à autonomia dos indivíduos, o reconhecimento do livre arbítrio


ou da livre escolha de cada um, como condição sine qua non para aprendi-
zagens específicas, encurrala a riqueza do conhecimento social, incluindo
nisso o próprio processo de cognição, na esfera limítrofe de atos voluntá-
rios, inteligentes, criativos, pessoais.

A retórica reformista apropria-se da bandeira da igualdade, adaptando-a


para o contexto do neoliberalismo global, num revigoramento enviesado, pois
se transforma num instrumento para falsear a realidade atual, já que totalmente
descolada da economia política, expressando-se “também como comportamento
ético ou moral, reforça as recomendações educacionais vigentes que enfatizam o
dever de tratar o homem no universo de sua autonomia, nos limites de sua in-
dependência”. Essa retórica nada tem de ingênua, pois se trata da produção de
uma ideologia que articula “ética e pedagogia, unidas por pressupostos idênticos,
garantem hábitos e comportamentos correlatos à defesa da propriedade privada!”
(NAGEL, 2003, p. 35).
Como fato inquestionável tem-se, no contexto da reforma da educação, a cons-
trução de todo um conjunto de leis (decretos, pareceres e resoluções) que, a partir
das recomendações das instituições multilaterais, organizou todo o sistema estru-
tural da educação no Brasil, da educação infantil ao ensino superior, passando pela

30
A ideologia do capital na crise: Trabalho, educação e cidadania

educação profissional de nível técnico e tecnológico. Todo o sistema hoje em fun-


cionamento foi ordenado segundo as premissas disseminadas pelos ideólogos da
reforma, verdadeiros intelectuais orgânicos do capital. Portanto, após 2002, pouca
coisa se alterou nas diretrizes curriculares e também nos pressupostos avaliativos do
ENEM e do ENAD, de tal forma que ousamos considerar os pressupostos do neoli-
beralismo como responsáveis por nortear a educação no Brasil, mesmo com toda a
ladainha da inclusão social. Portanto, apesar do desencanto, continuamos a formar,
de acordo com a lógica das competências e da empregabilidade, afinal, a política da
igualdade, a ética da identidade, fundadas numa tal estética da sensibilidade, e o
respeito aos valores estéticos, políticos e éticos não foram revogados, mesmo porque
seus ideólogos continuam enclausurados no Conselho Nacional de Educação.
Enquanto isso, no mundo do trabalho acentua-se a precarização por meio da
degradação das relações de trabalho, cresce o trabalho em tempo parcial, terceiri-
zado, subcontratado, intensifica-se o uso da mão de obra de estagiários. Desenvol-
ve-se, assim, uma massa de proletários supérfluos.
Kuenzer (2007) salienta que a necessidade de elevação do grau de escolaridade
da força de trabalho para melhorar os níveis de conhecimento e a capacidade do
trabalhador exercer intelectualmente suas atividades – conforme professada pela
retórica sobre o papel da educação no contexto da acumulação flexível, sustentada
pelo discurso empresarial, encampado pelas instituições multilaterais e adotado
pelo Estado no processo de reforma – mostram seu caráter concreto:

[...] a necessidade de ter disponível para consumo, nas cadeias produtivas,


força de trabalho com qualificações desiguais e diferenciadas que, combina-
das em células, equipes, ou mesmo linhas, atendendo a diferentes formas de
contratação, subcontratação e outros acordos precários, assegurem os níveis
desejados de produtividade, por meio de processos de extração de mais-valia
que combinam as dimensões relativa e absoluta. (KUENZER, 2007, p. 1168)

As formas de consumo do trabalho sob a reestruturação produtiva aprofun-


dam a distribuição desigual dos conhecimentos científicos entre os trabalhado-
res. Isso ocorre de tal maneira que, para uma minoria, dependendo do tipo de
atividade, do local e do tempo aos quais estão integrados às cadeias produtivas,
é reservado o direito de exercer o trabalho intelectual, sendo esse, obviamen-
te, de caráter sempre provisório. Para esses trabalhadores, é necessário um nível
avançado de escolarização e de qualificação profissional para poderem integrar
o trabalho intelectual às atividades práticas. Entretanto, para a maioria daqueles
que vivem do trabalho, a “sorte” não é a mesma, pois só lhes sobra a alternativa
de desenvolver “[...] conhecimentos tácitos pouco sofisticados, em atividades la-
borais de natureza simples e desqualificada” (KUENZER, 2007, p. 1169).

31
CAPÍTULO 2

Dessa forma, a preocupação humanista que lemos nos ideólogos da reforma,


em seus pareceres no Conselho Nacional de Educação, é apenas com relação à
formação de uma massa de trabalhadores supérfluos para exercerem funções
multitarefas. Nesse sentido, à educação escolar é determinada a função de fazer a
mediação no processo de formação dos indivíduos, portadores de subjetividades
flexíveis, cognitiva e eticamente, para exercerem e se adaptarem às funções mul-
titarefas. Sendo assim, revigora-se a dualidade educacional a qual disponibiliza os
conhecimentos de forma diferenciada de acordo com as classes sociais, fazendo
com que aqueles dependentes do trabalho para sobreviver adquiram apenas os
“conhecimentos genéricos que lhes permitirão exercer e aceitar, múltiplas tare-
fas no mercado flexibilizado.” Portanto, ser um trabalhador multitarefa implica
estar disponível ao exercício de atividades simplificadas, repetitivas e fragmenta-
das, para as quais basta apenas “um rápido treinamento, de natureza psicofísica, a
partir de algum domínio de educação geral, o que não implica necessariamente o
acesso à educação básica completa” (KUENZER, 2007, p. 1169).
Portanto, a retórica que persiste na necessidade de elevar a educação e qualifi-
cação do indivíduo – visando garantir-lhe a emancipação conquistada pela inclu-
são no mercado de trabalho por meio das competências cognitivas, voltadas para a
construção da empregabilidade, garantindo, assim, a sua cidadania – é um embus-
te ideológico. Esse serve para ocultar e falsear a realidade, negando as contradições
concretas de uma sociabilidade alienada, reificada e fetichizada.
A literatura produzida pelos ideólogos e arautos da reforma constrói a ideia de
um indivíduo idílico, visto que é emancipado, autônomo e dono de seu destino. O
mesmo acontece com o conceito de cidadania, pois esse também é dissociado das
necessidades humanas, reduzido à abstração formal, esvaziando e destruindo seu
sentido. O processo de formação do cidadão, resumido à ideia de um indivíduo pos-
sessivo, o qual tudo desenvolve a partir de sua subjetividade e independe do conhe-
cimento produzido por outros, faz com que a cidadania seja construída atualmente,
desvinculada e “à margem do saber científico, filosófico, político, econômico, artís-
tico.” E, mais ainda, “a cidadania, nessa perspectiva, tem o sabor da desconstrução
da ideia de ser social, posto emular definitivamente comportamentos individuais
que ignoram o caráter público de cada pessoa humana” (NAGEL, 2003, p. 34).
Portanto, sob o capitalismo manipulatório, em sua fase globalizada, a reforma
da educação edificou uma estrutura fundada nos pressupostos do neoliberalismo,
cujas recomendações das instituições multilaterais trouxeram consigo uma ossatura
conceitual capaz de articular os elementos necessários à preservação e à conservação
da realidade social de acordo com os interesses do capital. Com isso, os ideólogos do
capital em solo nacional souberam conduzir um processo de captura de corações
e mentes dos educadores desavisados, que aderiram às ideias e aos valores respon-

32
A ideologia do capital na crise: Trabalho, educação e cidadania

sáveis por nortear a educação por meio do esvaziamento do debate consequente.


Assim, conceitos foram apropriados, distorcidos e adaptados aos interesses da lógica
manipulatória, como nos casos da igualdade, da cidadania, do trabalho, entre tantos
outros. Hoje, apesar da estrutura física e conceitual da reforma estar preservada, fica
fácil enfrentá-la criticamente. Entretanto, no contexto da reforma neoliberal, nos
anos de 1990, os críticos eram muito pouco lidos e ouvidos, pois eram imediatamen-
te associados a ideias ultrapassadas, retrógradas, enciclopedista etc.

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33
CAPITULO 3

Estrategias de control y
disciplinamiento laboral: la
consolidación del orden
hegemónico empresarial
Claudia Figari1

1. Introducción

L
as transformaciones económico-productivas y sociolaborales han significa-
do el ajuste y reorientación de las políticas empresarias para el trabajo. La
década de los años 90 marca en este sentido un escenario clave, tanto en va-
riadas formas de modernización/racionalización, certificación de normas de cali-
dad, como en cuanto a la impronta flexibilizadora definida desde la norma estatal
y en los convenios y actas de acuerdo regulados. La hegemonía neoliberal-toyotista
se expresó para la clase trabajadora en exclusión sistemática de las fábricas y pre-
carización laboral a partir del impulso que las estrategias del capital despliegan en
contextos situados.
El estallido de la crisis en 2001 en Argentina aportó un elemento sustancial
para recomponer la acción de resistencia popular hasta esa instancia disgregada.
Así, el embate neoliberal afincado a la vez en las estrategias patronales como en
las políticas gubernamentales fueron interpeladas por los trabajadores organiza-
dos colectivamente, por los movimientos de trabajadores desocupados y por la
sociedad civil organizada en asambleas populares. Esta resistencia, sin embargo,
fue eclipsándose en el transcurso de los años posteriores, aunque la reactivación
económica no se tradujo en una reversión de los contenidos flexibilizadores vía la
negociación colectiva. No obstante, la reactivación sindical en el último lustro se
expresó en un movimiento donde los trabajadores interpelaron a un sector de la

1 Dra. de la Universidad Nacional de Buenos Aires – Orientación en Ciencias de la Educa-


ción-. Investigadora del CONICET de Argentina con sede en el Ceil-Piette, Coord. Área
Educación y Trabajo en dicho Centro. Docente investigadora en la Universidad Nacional
de Luján, Departamento de Educación y en la Universidad de Buenos Aires, Facultad de
Ciencias Sociales. Email: cfigari@ceil-piette.gov.ar; cfigari@ciudad.com.ar
CAPÍTULO 3

dirigencia sindical, impulsándose así un sindicalismo de base que reconoce en la


Argentina antecedentes fundamentales (James, D., 2006).
Las estrategias patronales en grandes empresas transnacionales y en procesos
privatizadores han sofisticado las formas de control laboral, requiriendo traba-
jadores dúctiles, que aporten el consentimiento necesario para sostener las es-
trategias del capital en contextos situados. Las formas agiornadas del control se
asientan, desde la tesis que sostenemos en este capítulo, en agencias y agentes que
operan, a la vez, hacia la superestructura empresaria, definiendo una suerte de
control cultural/político, y hacia la materialidad del proceso de trabajo, conjugan-
do dicho control con aquel que opera técnicamente. La tesis fundamental reenvía
a una recomposición de los instrumentos de control de la fuerza laboral que se
hace omnipresente. Estas estrategias, sin embargo, aportan también fisuras que
expresan muchas veces quiebres en el bloque ideológico empresarial y proveen
vías fértiles para la acción de resistencia organizada.
Los procesos de racionalización y precarización laboral implementados en
las empresas dan centralidad a las gerencias de recursos humanos y a aquellas
que se ocupan de las reingenierías, con el fin de encauzar las nuevas “disposi-
ciones oficiales”. Así, el análisis crítico de la gestión por competencias, la for-
mación empresaria y las evaluaciones de desempeño aportan un escenario ana-
lítico privilegiado desde la perspectiva de la Sociología y Pedagogía del trabajo
crítica. Por su parte, las reingenierías operan en el orden de las tecnificaciones
necesarias (en el sentido artefactual y organizacional), operando directamente
en el re-diseño de los puestos y en la organización del trabajo, que encuentra en
los grupos, en tanto “células”, en el lenguaje empresarial, un anclaje estratégico
desde el cual transponer una estrategia a la vez normalizadora y diferenciadora
de la fuerza laboral. En ambos casos, ya sea vía recursos humanos o bien des-
de las reingenierías, el accionar patronal se re-configura, proveyendo sus inte-
lectuales orgánicos que asumirán un papel fundamental en la recomposición
y sostenimiento del orden empresarial. Desde este escenario, la disputa por la
conciencia obrera gana terreno, a partir de un control que requiere transponerse
en tanto disciplinamiento de la fuerza laboral. (Gramsci, 19842, 1992; Lukács,

2 El pasaje de la conciencia ingenua a la conciencia crítica, o bien del sentido común al


buen sentido, aporta una matriz analítica fundamental para problematizar en contex-
tos situados las condiciones a partir de las cuales los trabajadores resisten y se orga-
nizan colectivamente para impulsar acciones contrahegemónicas. Es en este sentido
que visibilizar la estrategia patronal orientada a cooptar trabajadores se constituye al
menos en un primer paso para la lucha obrera organizada. En este sentido, la batalla
por consolidar la hegemonía patronal sobre los trabajadores se expresa sensiblemente
en la apuesta por fortalecer el bloque ideológico-político de la patronal formando sus
intelectuales orgánicos.

36
Estrategias de control y disciplinamiento laboral: la consolidación del orden hegemónico empresarial

G., 1985). Esta conversión amerita un estudio detenido acerca de las represen-
taciones y posicionamientos de los trabajadores, en términos de que conlleve o
no el convencimiento de la fuerza laboral. Esta aproximación contribuye a la
comprensión de las formas de control social imperantes y de los sentidos que
se codifican tras operaciones complejas que requieren de un análisis detenido.
Aquí se dirime la recomposición del orden técnico-productivo y social-cultural-
político en las firmas, con consecuencias fundamentales en la valorización de
los saberes puestos en juego en el acto de trabajo por parte de los trabajadores y
respecto de las nuevas jerarquías sociales implementadas en tanto “distinciones
simbólicas” traducidas en forma relativa en las clasificaciones profesionales ne-
gociadas colectivamente. También se derivan consecuencias fundamentales en
la segmentación de los colectivos de trabajadores3.
Nuestra tesis postula que las nuevas formas de control social dinamizadas en
contextos de modernización/racionalización laboral asumen efectividad en tan-
to tengan un anclaje en el proceso de trabajo y valorización, es en ese territorio
donde se disemina estratégicamente el conocimiento oficial empresarial4 (Apple,
1996) que reenvía a la superestructura empresaria. La expresión del conflicto ma-
terial y las formas sofisticadas en que se asientan, en la fase actual del capitalismo
global, las estrategias de control y disciplina, requieren, desde nuestra perspecti-
va, asumir una visión integral de las organizaciones productivas y promover un
análisis multidimensional que se sitúe a la vez en el plano de la superestructura
empresaria como en la materialidad del proceso de trabajo. De esta forma, los sis-
temas de “mejora continua de la calidad” aportan una puerta de entrada para in-
dagar en la puesta en forma del control sobre la fuerza laboral. La “calidad total”
evoca el principio normativo imperante fronteras dentro y fuera de las fábricas.
Es decir, la “mejora continua” queda asociada a la fase actual de desarrollo de las
fuerzas productivas y del dominio expansivo del capital. En este sentido, calidad
total evoca a la vez una frontera discursiva/material capaz de ser considerada

3 Una de las líneas de investigación que hemos desarrollado desde el área Educación y Trabajo
del Ceil-Piette del Conicet en los últimos años, ha focalizado en las transformaciones de los
mercados internos de trabajo a partir de los recomposición y sostenimiento de la hegemonía
empresarial sobre el trabajo. Se constata en diversas empresas, como estrategia recurrente
en la gestión del trabajo, la tercerización de un conjunto de trabajadores que coexisten con
otros que tienen una relación efectiva con la empresa central. Se establece así la estabiliza-
ción de un conjunto de trabajadores, devenido en estratégico, y otro subalternizado, con
condiciones de empleo y de trabajo precarias. Ambos grupos se constituyen en funcionales
a la estrategia patronal.
4 Si bien M. Apple se refiere al espacio educacional, consideramos pertinente destacar los
alcances que asume la doctrina corporativa empresarial en tanto conocimiento sistematiza-
do/normalizado y legitimado. Así, nos referimos al conocimiento oficial empresario.

37
CAPÍTULO 3

como hendija analítica para aprehender la fisonomía que asume la especializa-


ción del control sobre la fuerza laboral.
Las Reingenierías (con un claro anclaje en las formas de organización: de la
empresa, de la producción y del trabajo y en las modalidades de automatización
vía la microelectrónica y la informática); y Recursos Humanos (como codifi-
cador y traductor de la nueva filosofía empresaria; interviniendo directamente
sobre las formas de uso y valorización sobre el trabajo), se constituyen en dos
espacios centrales desde los cuales se dinamiza el sistema de gestión de la ca-
lidad y se codifica el conocimiento oficial empresario. Sostenemos la siguiente
tesis: la operatoria empresaria de la calidad total (sustentada en los “sistemas
de mejora continua”) reconoce dos planos de inscripción: el superestructural y
el estructural; y asume un doble anclaje: simbólico y técnico organizacional. Es
justamente esta dinámica la que contribuye a lograr un efecto sistémico en la
estrategia racionalizadora. Esta tendencia se ha registrado como dominante en
grandes empresas y penetra ya sea activada desde el orden supra o infraestructu-
ral. Esta doble inscripción del sistema de gestión de control (en el que la “mejora
continua” expresa aspectos nodales del nuevo orden empresario) es materia de
tratamiento específico en los próximos apartados, poniendo en evidencia los es-
pacios y agentes que participan en su codificación y difusión.
El orden empresario configura territorios y agentes con claras funciones
en la codificación y transposición de los nuevos sentidos sobre el trabajo y el
sujeto que trabaja. En lenguaje empresario, el “cambio cultural” se impone,
más allá de que éste opere de la mano de las tecnificaciones ( del proceso téc-
nico de trabajo) o bien desde los planes de formación y desarrollo del personal
( gestión del trabajo). De esta forma, son las nuevas “disposiciones oficiales”
que deben ser codificadas y transpuestas. Para esto las nuevas lógicas del con-
trol se apoyan en nuevas estructuras ( y agentes) que operan tanto desde la
infraestructura técnica/organizacional, como desde las superestructuras de las
organizaciones. Es justamente esta doble vía de difusión del sistema de control
aquella que también ha permitido plantear las solidaridades que se juegan en-
tre las áreas de recursos humanos, de calidad, y las reingenierías. El “sistema
de mejora continua de la calidad” se instrumenta sobre la base de configurar
una nueva “articularidad” entre la infraestructura técnica-organizacional y el
plano superestructural en las organizaciones. Esta nueva “articularidad” cobra
un anclaje particular con más o menos fuerza desde cada espacio, pero con
una tendencia común: recomponer sistémicamente el orden empresario y crear
condiciones para el sostenimiento de la hegemonía empresaria sobre el trabajo.
La fortaleza del dispositivo radica asimismo en la posibilidad de interrelacio-
nar el plano técnico/organizacional y el sociocultural/simbólico. El problema

38
Estrategias de control y disciplinamiento laboral: la consolidación del orden hegemónico empresarial

de la “calidad total”5 no es una herramienta más, sino un dispositivo de control


que requiere ser considerado en sus conexiones con el proceso técnico y con el
sistema sociocultural. Estas “solidaridades” (entre el orden material y cultural/
simbólico) requieren ser desnaturalizadas y puestas en relación con el proyecto
pedagógico de las firmas, con potencialidad para codificar los sentidos que
sustentan los nuevos principios de organización. Desde la Pedagogía crítica el
desafío se orienta a desnaturalizar aquellos sentidos que, codificados al am-
paro de la hegemonía empresaria, matriza la posibilidad de encauzamiento de
la nueva dirección política-cultural en las firmas. Desde esta perspectiva, sos-
tenemos la multiplicación de los dispositivos de control cultural destinados a
transmitir los sentidos legitimados y evaluar su cumplimiento.
El paradigma de la “calidad total”, antes que nada prescribe/normaliza y eva-
lúa la praxis laboral a tiempo real, asimismo, la capacitación empresaria suminis-
tra herramientas clave para transponer los nuevos sentidos legitimados de “cola-
boración competencia y paz social”. En este sentido, resulta sustancial tener en
cuenta los soportes técnicos y organizacionales que posibilitan la vehiculización
de los sentidos oficiales corporativos y las nuevas sujeciones. Evaluar la fortaleza
de los dispositivos codificadores, demanda, a la vez, interrogarse sobre las agen-
cias y los agentes distribuidos a lo largo de la estructura de mando, a quienes se les
asigna una función pedagógica/comunicacional, dando forma y transponiendo la
nueva legalidad empresaria.
El artículo expone las tendencias predominantes encontradas en nuestras in-
vestigaciones llevadas a cabo en grandes empresas transnacionales (pertenecientes
al sector cervecero, textil/química, automotriz).
La experiencia investigativa en los últimos 10 años6 ha permitido recomponer
las estrategias patronales puestas en marcha, en una primera fase para recompo-

5 La normalización, regulación y evaluación se constituían en operaciones necesarias para


encauzar la única y mejor forma tayloriana. Mientras los técnicos e ingenieros asumían
un papel clave en el diseño y control del sistema, la estructura jerárquica-funcional proveía
la multiplicación de los agentes patronales con mando para monitorear a tiempo real, las
desviaciones inconvenientes. La normalización/prescripción y las formas variadas de las
evaluaciones serán operaciones fundamentales también en los sistemas de mejora continua,
en tanto principio normativo regulador. La máxima, ya sea como expresión de la rigidez
necesaria o la flexibilidad adaptativa, abreva en la misma matriz de economía de tiempo y
requerimiento expansivo del capital.
6 Las principales tendencias que se analizan en este artículo se enmarcan en las líneas de investi-
gación que venimos desarrollando en los últimos 15 años desde el Centro de Estudios e Investi-
gaciones Laborales/ Programa de Investigaciones Económicas en Tecnología, Trabajo y Empleo
-Ceil-Piette- del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas –CONICET- de
Argentina. Asimismo, las hallazgos derivados de nuestras investigaciones más recientes se ins-
criben en los siguientes proyectos: Proyecto PIP CONICET: “Prácticas hegemónicas corporati-

39
CAPÍTULO 3

ner la hegemonía empresarial sobre el sector del trabajo, y luego, en una segunda
fase, para alcanzar su sostenimiento. Estas aproximaciones también permitieron
ponderar las contradicciones y fisuras en el bloque ideológico patronal y las condi-
ciones de posibilidad que se les abren a los trabajadores organizados para impulsar
procesos de formación política-gremial y acciones contrahegemónicas.

2. Mejora continua y reingenierías: la materialidad del control.

Las reingenierías y los ingenieros asumen un papel central en las modifica-


ciones que se operan en la organización de la producción y del trabajo. Asimismo,
es desde este escenario que se dinamizan las nuevas prescripciones del sistema de
gestión sustentado en la “mejora continua” de la calidad. De esta forma, los “te-
rritorios” asignados a la calidad y a las reingenierías ( y los agentes involucrados)
intervienen mancomunadamente actuando hacia el proceso técnico/organizacio-
nal y hacia la gestión del trabajo. Las “solidaridades” también se expresan entre las
Tecnologías Informatizadas y los movimientos en la estructura de las empresas
y en la organización de la producción y del trabajo. La definición de unidades de
negocio, el fomento del trabajo grupal y la denominada “polivalencia funcional”7,
expresan una reasignación de tareas tendiente a fortalecer, desde nuestra tesis, las
conexiones entre distintos agentes y territorios en pos de la “colaboración” con
la nueva legalidad empresaria. La dimensión que cobra el trabajo indirecto y las
funciones de control y mantenimiento con los sistemas automatizados no son una
novedad. Ya con los sistemas electromecánicos esta cuestión era claramente puesta
de relieve en las investigaciones (Naville, 1958, Naville;Touraine; 1963) No obstan-
te, lo que produce un punto importante de inflexión es la incorporación de siste-

vas y disciplinamiento laboral: saberes, prácticas y posiciones de los trabajadores en contextos


de racionalización y fragmentación en el trabajo y el Proyecto Ubacyt S808: “Dispositivos de
control social en contextos de modernización empresaria. Conflictividad laboral, negociación e
imposición/lucha de sentidos”, Programación: 2006/09, Facultad de Ciencias Sociales, Universi-
dad de Buenos Aires (dirección: Claudia Figari).
7 Este término ha sido empleado en forma recurrente en la bibliografía especializada, en los
discursos empresarios y en la legislación laboral. Emparentado con las formas de organi-
zación del trabajo, estaría definiendo, un cambio de orden, sobre todo, cuantitativo de las
actividades desplegadas por los trabajadores. En esta concepción, la referencia al puesto de
trabajo y a la tarea queda desplazada por la función, que supone multiplicidad y variedad.
“Polivalencia funcional” significó, en el marco de la modernización empresarial, intensi-
ficación del trabajo y operó en Argentina, por ejemplo, como cláusula indispensable a ser
invocada en la negociación colectiva en los años 90 para establecer aumentos salariales. El
decreto 1334/91 así lo establecía: la polivalencia funcional y la productividad se constituye-
ron en materias de vigilancia estratégica por la autoridad administrativa a los efectos de
homologar actas y convenios colectivos de trabajo.

40
Estrategias de control y disciplinamiento laboral: la consolidación del orden hegemónico empresarial

mas informáticos a la logística del proceso, a la gestión de los stocks, los sistemas
administrativos, etc. La informatización de los procesos dota de continuidad, a lo
discontinuo. Este ha sido un objetivo fundamental de las intervenciones ingenieri-
les, en la búsqueda sistemática de economía de tiempo.
Si la automatización electromecánica lograba intervenciones indirectas y
fortalecía las funciones de control sobre los equipos, la informática y la mi-
croelectrónica suma a lo anterior la conexión de todos con todos, y la continui-
dad de los procesos, con una escasa existencia de intervenciones manuales, en
particular, en procesos de naturaleza continua. La deslocalización del queha-
cer humano en los funcionamientos, inducirá la descalificación y exclusión de
algunos grupos profesionales y la valorización de algunos pocos que asumen
las funciones de control de procesos. Los profesionales que intervienen en las
reingenierías son quienes definen la nueva arquitectura técnica organizacional,
pero también quienes contribuyen a codificar y transmitir el nuevo andamiaje
simbólico que requiere el nuevo “conocimiento oficial” a transponer a través
del sistema de gestión de la calidad. Su actuación, como analizamos en el próxi-
mo apartado, es solidaria con la agencia de Recursos Humanos, y, en este senti-
do, ejercen una función estratégica que articula un plano superestructural con
la materialidad del proceso de trabajo.
Tanto los sistemas de mejora continua de la calidad como las tecnologías in-
formatizadas inducen nuevos requerimientos en la naturaleza y alcance de las
intervenciones y saberes, con incidencia, a la vez, en el nivel de la estructura de
la empresa, de los sujetos y de los colectivos de trabajo. Las tecnologías informa-
tizadas (tanto como el sistema de control sustentado en la calidad), habilitan un
soporte técnico que permiten fortalecer las conexiones y promover también la re-
composición sistémica de la organización; y, en ese sentido, consolidar el orden
hegemónico empresarial. Se expresa así una combinatoria entre la extracción de
plus valor absoluto y relativo que da fisonomía al patrón de explotación laboral.
Las reingenierías operan ajustando el proceso técnico y laboral a los nuevos proce-
dimientos estandarizados, prescriptos y monitoreados desde el sistema de gestión
de la calidad total. De esta forma, sostenemos, por un lado, la íntima vinculación
entre las reingenierías y el efecto sistémico que se busca en el nivel de las organi-
zaciones, con el objeto de recomponer una nueva legalidad técnica/organizacional
empresaria. Por otra parte, las interrelaciones que se tejen entre el orden material y
simbólico como sustento de la búsqueda de legitimidad del nuevo esquema empre-
sario. Con este fin, la agencia ingenieril se constituye en una clave para transponer
el conocimiento oficial empresario.
El embate empresarial se expresa también como apuesta por recomponer el
mando, en tanto y en cuento las exigencias productivas, técnicas y políticas de-

41
CAPÍTULO 3

mandaran profesionales integrados al bloque ideológico patronal. El desafío se


sustenta así en la necesidad de aportar los intelectuales orgánicos capaces de trans-
poner las disposiciones oficiales.

Tecnologías y organización del trabajo: dos lenguajes para el control

En las empresas cervecera y textil/química estudiadas se ha podido constatar


cómo la informática en las áreas de producción directa requerirá a los operarios
( muchos de ellos técnicos) intervenciones sesgadas en su capacidad decisoria; no
obstante, también se pudo verificar la función diferenciada que ejercen otros téc-
nicos ( también en calidad de operarios) desde la sala de comando. La dirección
del proceso automatizado, a cargo de los ingenieros, aporta la “macro visibilidad”
del proceso. El comando a distancia concentra la función controladora y a la vez
la descentra hacia las áreas de fabricación, vía el manejo del quehacer registrado y
monitoreado informáticamente.
La presencia de un “observador permanente” con las tecnologías informatiza-
das, realza su impronta de dispositivo de control en la recomposición sistémica del
orden empresario.

“Esto es un proceso de flujo continuo, está totalmente automatizado. Desde


el momento que entra el polímero desde la tolva, hasta el último elemento
de la hilandería. Es un sistema de control centralizado sostenido por el ac-
cionar de varios PLC. Determinados los objetivos y los parámetros de fun-
cionamiento, el sistema automáticamente va chequeando y controlando, y
en casos de detectar desajustes procede en forma automática a realizar las
correcciones. El nivel de intervención es mínimo.(...) cada una de estas bo-
binas tiene una identidad que puede asociarse con el lugar en que fue gene-
rado, el día y la hora en que fue generado(...) todo el sistema de por sí tiene
autómatas permanentes, de esa forma van registrando los datos y podemos
seguir toda la historia del proceso, y a partir de ahí saber si el problema es
por defecto de la materia prima o alguna variante del proceso que se fue de
control, o que no fue respetada por algún operador, que fue violada direc-
tamente” (gerente de calidad, empresa textil/química)

Con las nuevas tecnificaciones, se habilita la posibilidad de conferir “identi-


dad” a lo producido, lo que permite a su vez realimentar el sistema de control. Las
autorregulaciones, en un sentido técnico, abrevan en los “autocontroles”, exigi-
dos a los trabajadores, que son reiteradamente invocados en la diversidad de testi-
monios que pudimos relevar en los casos estudiados. La multiplicación, difusión
y agregación de controles cobra expresión en las líneas informatizadas. Con los
sistemas autorregulados, los espacios liberados a la intervención calificada de los

42
Estrategias de control y disciplinamiento laboral: la consolidación del orden hegemónico empresarial

trabajadores ( muchos de ellos idóneos) queda limitada. Los controles a distancia


no son una novedad (ya podemos constatar en los sistemas electromecánicos su
existencia), si bien, la impronta que cobran, conjugados con el sistema de gestión
de la calidad, renuevan las instancias de monitoreo continuo. Los flujos continuos
supondrán un control continuo que expresa, en definitiva, la nueva economía de
tiempo en las organizaciones.
Las Tecnologías informatizadas y la gestión de la calidad total reconocerán
también una clara expresión en los movimientos en el nivel de la organización del
trabajo y de la estructura empresaria. Las reasignaciones de tareas y la prevalencia
de las funciones por sobre la “vieja rigidez” de los puestos de trabajo opera sobre la
naturaleza y alcance de las intervenciones en el nivel individual y colectivo.

La organización del trabajo: los grupos como mediadores del control

Los movimientos en las formas de organización deben reconocerse en dis-


tintos planos a la vez, perspectiva que permite considerar los correlatos entre, por
ejemplo, la operatoria por “unidades de negocio” (la organización de la empresa),
el trabajo en grupos y la polivalencia funcional (la organización del trabajo) y el
“autocontrol”, como exigencia a los sujetos, puesto de manifiesto cotidianamente
(el nivel individual).
Las intervenciones sobre la organización del trabajo actúan en múltiples sen-
tidos: a través de los acuerdos de productividad por cada sector de trabajo, que
exacerban los ritmos de trabajo para alcanzar plus salariales individuales o a ni-
vel de los grupos; a través de la polivalencia funcional, que multiplica las tareas
que antes realizaban los trabajadores; a partir de la modalidad de organización
del trabajo sustentada en el trabajo por turnos rotativos continuos8; a través de la
apelación recurrente a los atributos, especialmente promovidos, de la autonomía,
la responsabilidad y la iniciativa, en pos de la colaboración con los objetivos de las
firmas. Los flujos continuos despliegan una lógica que normaliza bajo los nuevos
parámetros de productividad, pero que, a la vez, individualiza a través de la ges-
tión de las relaciones laborales y del conjunto de “distinciones simbólicas” que pre-

8 El trabajo por turnos continuo expone una materia emblemática de la doctrina flexibilizadora.
En el sector del neumático, en Argentina, fue regulada por medio de actas de acuerdo por empre-
sa en el transcurso del segundo lustro de la década de los años 90, tras un proceso de negociación
impulsado por la empresa. La resistencia obrera a aceptar la negociación sobre esta materia sig-
nificó el despido de trabajadores y la intervención de la autoridad administrativa legitimando la
estrategia de la patronal: Figari, C., (2000), “Formas de disciplinamiento y nuevas selectividades
en la modernización empresaria: Modalidades del control técnico y social en los 90 “, III Congre-
so Latinoamericano de Sociología del Trabajo, Buenos Aires.

43
CAPÍTULO 3

miará a quienes demuestren una actuación acorde al nuevo esquema empresario.


La maleabilidad y ductilidad deben ser expresiones manifiestas en las pautas de
comportamiento laboral. Esta lógica busca la colaboración que debe traducir una
ampliada disponibilidad. Los puestos extendidos aparecen convertidos al lenguaje
de la función y la competencia, que gana terreno en las múltiples referencias al
trabajo. El “operario múltiple”, multiplica su disponibilidad que deberá fusionar
con el interés empresario.
La impronta empresaria racionalizadora gobierna en la nueva modalidad
de organización del trabajo y sobre el control de las tareas, articulando un dis-
positivo de organización y gestión que homogeneiza y diferencia a la vez. En
todos los casos, la colaboración se expresa como ampliación de la disponibili-
dad del trabajo.
En las empresas de textil/química y automotriz estudiadas, el funciona-
miento de los grupos resulta emblemático de la ecuación que conjuga certera-
mente el patrón normalizador y la exacerbación de las diferencias que son ·”dis-
tinguidas”. La “colaboración” y la “disponibilidad” (que no es otra cuestión que
riesgo empresario transferido) se investirán de un lenguaje meritocrático que
atraviesa sustancialmente el nuevo sistema de trabajo solventado por el trabajo
grupal. ( Figari, 2007).
Los grupos permiten normalizar la pauta corporativa, pero también contri-
buyen a generar un conjunto de distinciones simbólicas sobreimprimiendo una
estructura de clasificación que funciona en los hechos. Así, se especializan dife-
rentes funciones: el manager, los líderes y los facilitadores a quienes directamente
deben rendir cuentas de las propuestas (en gran medida basadas en la resolución
de problemas) los grupos de trabajo. ( Hernández, Busto, 2009).
Más allá de las especificidades constatadas en diferentes empresas, se presen-
tan tendencias similares que expresan sentidos nodales de las políticas implemen-
tadas de uso y valorización del trabajo.
El control se disemina en los turnos y entre plantas. La trama gobierna y su
visualización requiere ser deconstruida, recuperando los sentidos velados y los
dispositivos que los transponen. El efecto sistémico se ha podido constatar vía la
agregación de grupos y por la automatización de los procesos, y, en ambos casos,
los propósitos de racionalización se transmiten fortaleciendo nuevos dispositivos
de control. Las operaciones de normalización y evaluación pueden reconocerse
en los sistemas automatizados y en la nueva organización del trabajo, que debe
ajustarse en tiempo y forma a los planes prescriptos. Pero también, los procesos de
individualización de la fuerza laboral se expresan con claridad, al multiplicar las
distinciones y exacerbar las selectividades.

44
Estrategias de control y disciplinamiento laboral: la consolidación del orden hegemónico empresarial

3. Dispositivos de control social/cultural: recursos huma-


nos y cooptación obrera

La operatoria de la calidad se dinamiza desde las Reingenierías y desde las


gerencias de Recursos Humanos. Los casos presentados en esta sección exponen
las tendencias más significativas, constatándose una solvente articulación entre
esos espacios estratégicos. Ambos operan superestructuralmente y reconocen un
claro anclaje en el proceso de trabajo, y contribuyen así en la transposición de la
doctrina managerial basada en la calidad total. La gestión de la calidad tiene una
clara incidencia sobre la gestión del trabajo. La importancia asignada a las geren-
cias de Recursos Humanos (muchas de las cuales sustituyen a las viejas gerencias
de relaciones laborales o industriales o las subsumen), da cuenta de la relevancia
que asume el trabajo como variable sobre la cual intervenir de múltiples maneras.
Nuestra tesis señala la impronta que asume Recursos Humanos como estructura
que actúa en solidaridad con otras, también creadas en el marco de la estrategia
racionalizadora. De esta forma, destacamos principalmente en esta sección las
tendencias verificadas en algunos de los casos investigados, que expresan mejor la
mancomunión entre Recursos Humanos, y las estructuras de calidad.
Los análisis que venimos realizando, desde la óptica de las reingenierías,
abrevan ahora en el sistema sociocultural, lo que supone dar prioridad al pro-
ceso de codificación y transmisión diferencial de los sentidos que dan base de
sustento al nuevo orden sociolaboral y profesional. Recursos Humanos9 traduce
también la estrategia racionalizadora en la edificación de nuevas configuraciones
profesionales. De esta forma, la recomposición del patrón de dominación supon-
drá la activación de nuevos mecanismos regulatorios que operan sobre distintas
categorías de actores, afectando su situación y perspectiva socioprofesional. En
la empresa cervecera existe una estructura denominada “productos de calidad y
de gentes”, y su operatoria traduce aquello que parece velarse tras la definición
de zonas de intervención especializadas en otros de los casos estudiados. La “pa-

9 Recursos Humanos asume un papel estratégico en la implementación de los dispositivos


pedagógicos que transponen la doctrina managerial, asimismo, en el re-diseño de los mode-
los de profesionalización que expresan un vínculo orgánico con los dispositivos de control
y disciplinamiento empleados para dar sostenimiento a la hegemonía empresarial sobre el
trabajo. Así, la formación de los “intelectuales orgánicos” de la patronal será una función
estratégica encomendada a Recurso Humanos. A su vez, a partir del carácter sistémico que
asume la agregación de controles (tal como venimos analizando), la recomposición/re-pro-
fesionalización del mando supone la definición de funciones pedagógicas-comunicaciona-
les que incluye también a los sectores operarios (distinguiendo a los “líderes”). Es decir, las
lógicas de cooptación se encuentran vinculadas con el re-diseño de un mando que incluirá
desde funciones/posiciones diferenciadas a las distintas jerarquías de trabajadores.

45
CAPÍTULO 3

dronización” de procesos y funciones laborales pone de manifiesto las nuevas


normalizaciones y prescripciones. Las homologaciones entre productos de “cali-
dad y gentes” transparentan aquello que resulta opacado tras el lenguaje del “ma-
nagement participativo”. Se emparenta, desde la nominación, a la calidad y a las
personas como recursos, asociándolos en términos de “productos”. La estrategia
empresaria crea un lugar diferenciado funcionalmente que define las homolo-
gaciones en este sentido y genera acciones eficaces y eficientes en los sectores
de trabajo. De esta forma, así como la calidad total supone un tratamiento de la
misma en el día a día, (a partir de lo que se denomina gerenciamiento de rutinas),
en el marco de una lógica de procesos que opera, antes que nada, centrada en la
orientación hacia el cliente; en el caso de los “recursos humanos” también debe
instrumentarse un dispositivo que procese adecuadamente y arroje “productos
eficaces y eficientes”. La conjugación de una concepción y un tratamiento común
a la lógica comercial y laboral/profesional traduce las conversiones materiales y
humanas. La Teoría del capital humano se encuentra remozada tras la necesidad
de medir al recurso humano como un medio más de rentabilización. (Frigotto,
1988). De esta forma, “calidad total, padronización y funciones” definen las fuer-
tes correlaciones que se juegan en las relaciones sociales de producción y expresan
la producción de sentido oficial empresario. Las estructuras asociadas de calidad y
recursos humanos asumen un papel claro en la vigilancia del patrón de compor-
tamiento que debe ser compatible con el “perfil” reglamentado por la empresa.
La invocación empresaria a la “superación diaria, con esfuerzo y motivación”,
encuentra en los jóvenes un lugar sensible de anclaje10.
Los hallazgos derivados de nuestros estudios en industrias automotrices per-
miten observar la impronta de los dispositivos pedagógicos en los sistemas corpo-
rativos que se establecen. Así el FPS (Ford System Production) aporta el curricu-
lum oficial empresarial y su puesta en forma requerirá el accionar mancomunado
de una estructura de mando que deriva del propio sistema corporativo. En la plan-
ta automotriz radicada en Gral. Pacheco, Gran Buenos Aires, el discurso oficial
empresario requiere la pedagogización del espacio de trabajo. Es en el cotidiano

10 No son los viejos idóneos de quienes se espera tal perfil. En esta empresa los técnicos son
quienes, en forma generalizada, ocupan las categorías operarias y los jóvenes ingenieros las
de supervisión.
Cabe destacar que algunas investigaciones señalan el papel estratégico que han tenido los
jóvenes, quienes impulsan un proceso de lucha, resistencia y de organización colectiva. En
el caso de subterráneos de Buenos Aires (empresa privatizada) la disputa se expresa tanto
con la estrategia patronal como con las dirigencias sindicales: Montes Cató, J.; Ventricci, P.
(2009), “Construcciones democráticas y resistencia“, en Coords Lenguita, P. y Montes Cató,
J. Resistencias laborales. Experiencias de repolitización del trabajo en Argentina, Buenos Ai-
res, Insumisos.

46
Estrategias de control y disciplinamiento laboral: la consolidación del orden hegemónico empresarial

donde las inducciones (para los que ingresan) y el conocimiento oficial empresario
se difunden y re-crean. Es en los intersticios del proceso de trabajo donde radica
la impronta formadora, y esta tarea demandará de una organización compleja que
multiplique los agentes formadores. Resulta de interés señalar que aquellos que
asumen este rol son justamente a quienes se les asignan funciones diferenciadas
(de conducción) a lo largo de toda la estructura de mando.

4. Conclusiones

La consolidación del orden empresarial ha significado la proliferación de


complejos dispositivos de control y disciplinamiento laboral que asumen variadas
expresiones al ser puestos en forma desde las agencias encargadas de la gestión
directa de la fuerza de trabajo, o bien desde aquellas con jurisdicción en el control
técnico del proceso de producción. Así, las doctrinas corporativas sustentadas en
los sistemas de mejora continua de la calidad se entraman estratégicamente desde
las gerencias de recursos humanos y desde aquellas que implementan las rein-
genierías, dando sustento a un conjunto variado, heterogéneo, pero articulado,
de prácticas corporativas que contribuyen en el sostenimiento de la hegemonía
empresarial sobre el trabajo. En este sentido, el accionar conjunto de las agencias
que operan hacia el control social/cultural y hacia el control técnico-productivo
expresa una dinámica compleja, especializada y, a la vez, mancomunada. Más allá
de la especificidad de los lenguajes que asumen los dispositivos de control, los ha-
llazgos derivados de nuestras investigaciones aportan en la identificación de una
operatoria conjunta, sustentada en la unicidad de los sentidos oficiales empresa-
riales, orientada a consolidar la matriz corporativa y formar subjetividades. Al
respecto, los casos expuestos ponen de manifiesto una vinculación estrecha entre
las diferentes tecnologías sociales/materiales empleadas para recomponer el orden
empresario. Nuestra tesis postula también la existencia de un entramado complejo
que articula los principios corporativos empresariales en la experiencia cotidiana
de trabajo. Esto se logra a partir de una estrategia que conjuga un doble movimien-
to (como dos caras de una misma moneda): de centralización/descentralización
o bien de normalización/prescripción y diferenciación de la fuerza laboral. Este
accionar requiere apoyarse en un grupo de agentes que actúan de poleas de trans-
misión del nuevo orden empresario, cooptando trabajadores a lo largo de toda la
estructura de mandos. Las tecnologías sociales/simbólicas resultan insuficientes
si no se apoyan en la materialidad del proceso de trabajo. Así, el rediseño de los
puestos de trabajo, el trabajo por “células” y la circulación de las metas corpora-
tivas encuentran múltiples canales para su vehiculización a partir del accionar

47
CAPÍTULO 3

conjunto de las gerencias de recursos humanos y de aquellas que operan en el


control técnico de los procesos. El sostenimiento del orden hegemónico en las fir-
mas expresa, en definitiva, el embate empresario por re-crear, sofisticando, los
dispositivos de control y disciplinamiento. Las pautas corporativas normalizan
el sentido más emblemático de un accionar que debe ser visualizado por todos,
porque será monitoreado a tiempo real y evaluado a partir del “buen desempe-
ño”. Las operaciones de normalización y evaluación conjugadas con las múltiples
diferenciaciones producidas entre los trabajadores se expresan como mecanismos
potentes para enmascarar la conflictividad y buscar consentimientos. De esta for-
ma, la desnaturalización de estos dispositivos se constituye en una fértil vía para
recomponer una acción de resistencia colectiva y producir insumos valiosos para
la formación política-gremial.

5. Bibliografía
Apple, M. (1996): El conocimiento oficial, España, Paidós.
Figari, C (2000), “Formas de disciplinamiento y nuevas selectividades en la modernización
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de Sociología del Trabajo, Buenos Aires, ALAST
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normalizador/evaluador en el orden laboral y profesional”, V Congreso Latinoamericano de
Sociología del Trabajo, Montevideo, ALAST.
Friedmann, G.; Naville, P. -comps.- (1963), Tratado de Sociología del Trabajo, México, Fondo
de Cultura Económica.
Frigotto, G. (1988), La productividad de la escuela improductiva, Miño y Dávila, España.
Gramsci, A. (1992). Antonio Gramsci, Antología. (Textos posteriores a 1931), México, Siglo
XXI editores.
Gramsci, A. (1984): Los intelectuales y la organización de la cultura, Buenos Aires, Nueva Visión.
Hernández, M.; Busto, C. (2009), “Organización de la producción, imposición de sentidos cor-
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James. D. (2006): Resistencia e integración. El peronismo y la clase trabajadora argentina, 1946-
1976, Argentina, Siglo veintiuno editores
Lukács, G. (1985). Historia y consciencia de clase, Madrid, Sarpe.
Montes Cató, J.; Ventricci, P. (2009), “Construcciones democráticas y resistencia“, en Coords
Lenguita, P. y Montes Cató, J. Resistencias laborales. Experiencias de repolitización del trabajo
en Argentina, Buenos Aires, Insumisos.
Naville, P. (1956), Essai sur la qualification du travail, Paris, Ed. Marcel Riviere.

48
CAPITULO 4

A educação escolar face à


sociabilidade capitalista

Celso João Ferretti1

A
temática posta é importante considerando os termos que a identificam.
De um lado, o capitalismo e a sociabilidade gerada por este. De outro,
no plano cultural, a educação e as suas relações com os dois primeiros,
seja devido à decorrência direta ou indireta deles, seja por sua contribuição para
a constituição tanto do trabalho sob o capital quanto da sociabilidade capitalista.
O elemento central e primeiro a ser considerado, por ser fundante, é o tra-
balho. Aqui o encaramos sob a visão ontológica de Marx e Lukács, ou seja, como
protoforma do ser social. Dessa perspectiva, como sabemos, a constituição do ser
social decorre das relações entre homem e natureza por meio das quais aquele,
tendo em vista sua própria reprodução, toma como necessidade domar a esta.
Nesse processo, transforma-se e constitui sua humanização, ao mesmo tempo
em que transforma a natureza. Tal processo só é humanizador porque com ele
o homem desenvolve a sua capacidade de prever, de antecipar na consciência os
instrumentos e objetos que cumprem a função de suprir suas necessidades para
depois objetivá-los.
O exercício do por teleológico transforma a consciência em consciência poten-
ciada. Sua concretização nos objetos (uma necessidade vital para a reprodução) é,
portanto, o exercício do tornar-se humano, permitindo ao homem distinguir-se
do ser puramente inorgânico e puramente orgânico, mesmo conservando caracte-
rísticas destes. Em outros termos, afirma-se como ser social que é, a um só tempo,
coletivo e individual.
No entanto, tal movimento implica que, para a formulação, na consciência do
por teleológico e para a adequada consecução deste, o homem se aproprie, com a
precisão possível, da trama da objetividade social, ou seja, dos nexos causais dos

1 Celso João Ferreti é doutor em Educação: História, Política, Sociedade pela Pontifícia Uni-
versidade Católica de São Paulo (1987). É professor da UNISO – Universidade de Sorocaba
(São Paulo).
CAPÍTULO 4

objetos da natureza, dotados de automovimento e legalidade ontológicos próprios,


como seres inorgânicos e orgânicos que são. Mas lhe será necessário, além disso,
num momento posterior, apropriar-se também do automovimento e da legalidade
próprios do ser social, ou seja, daquilo pelo qual é constituído (a organização so-
cial, cultural, política, econômica). O movimento de apropriação já é, em si mes-
mo, um processo humanizador, na medida em que produz mudanças no nível da
consciência, a qual, como consciência potenciada, antecipa transformações na re-
alidade natural e social pelo por teleológico. “O reflexo da objetividade na consci-
ência humana, produzindo uma nova objetividade, deve-se à possibilidade, nesse
caso, de o homem ser e ao mesmo tempo ser na consciência por meio do processo
gnosiológico ou das determinações reflexivas” (LUKÁCS, 1981). Em outro texto,
Silva Jr e eu afirmamos, a respeito disso, que:

nesse momento em que predomina a apropriação, ainda é potência o de-


senvolvimento ulterior do conhecimento e da sociabilidade humanos, bem
como a eventual mudança da objetividade sobre a qual incidirá a objetiva-
ção decorrente da prévia ideação, o que implica afirmar, desde logo, que a
potência pode vir a ser ou pode não vir a ser. Não realizado o fim posto, a
apropriação reduz-se ao plano da consciência e não possibilita a comple-
xificação da sociabilidade humana e, menos ainda, da objetividade social,
podendo, no entanto, aumentar o conhecimento do indivíduo sobre aquele
objeto da sua prática. (SILVA JR e FERRETTI, 2004, p. 87-88)

Em outros termos, o processo de humanização e transformação social somen-


te se completa na objetivação (causalidade posta) daquilo que, num primeiro mo-
mento, é apenas potência. O movimento de objetivação implica, para Lukács, a
concretização em um objeto, instrumento ou uma prática social da subjetividade
humana, da potência da consciência presente no por teleológico.
A objetivação articula a teleologia com a materialidade da objetividade social,
mediada pelas generalidades-em-si, produções históricas resultantes da prática
social, disponíveis na natureza e na objetividade social (linguagem, costumes,
instrumentos, produções culturais de variada natureza, realizadas em tempos
históricos diversos e que se apresentam ao indivíduo de forma simultânea no mo-
mento da objetivação). Nesse sentido, as objetivações sempre se dão no âmbito
de um contexto social determinado, que define o horizonte de possibilidades da
prática, ou, em outros termos, determina o âmbito das possibilidades de ação
relativamente à objetivação de um dado por teleológico, frente às quais a consci-
ência elabora alternativas de escolha.
A constituição do humano se dá pela apropriação das objetivações humanas que
constituem a cultura e pela objetivação de sua própria subjetividade, mediada pelas

50
A educação escolar face à sociabilidade capitalista

objetivações historicamente produzidas às quais lhe fornecem, além de informa-


ções, um conjunto de valores que, assim como os nexos causais da vida natural e so-
cial, serve de orientação para as escolhas entre as alternativas postas pelo horizonte
de possibilidades. É importante ressaltar que o valor é social e objetivamente dado,
interferindo de forma decisiva, tanto quanto os nexos causais naturais e sociais, na
produção das alternativas e na realização do “dever ser” (do por teleológico). Quanto
mais esse processo – que não é linear, mas sim permeado de contradições – se dá
na prática social, mais social torna-se o sujeito e mais social torna-se a realidade na
qual vive, distanciando-o, assim, das esferas de existência humana anteriores a esta.
As considerações acima se reportam ao trabalho em geral e, especificamen-
te, ao trabalho simples como protoforma do ser social. A sociabilidade que dele
decorre funda-se na produção e no consumo de valores de uso, cujo objetivo pri-
mordial é a satisfação das necessidades humanas. No entanto, o trabalho e seu
caráter humanizador sofrem transformações no decorrer da história, bem como
passam por alterações históricas as relações entre o homem e a natureza e dos
homens entre si. Tais mudanças podem conduzir à consecução de trabalhos nos
quais a perspectiva humanizadora perde-se ou é severamente minimizada como,
por exemplo, no caso do trabalho escravo, em que o trabalhador não detém au-
tonomia sobre seu trabalho e tampouco sobre seu próprio corpo. A sociabilidade
desenvolvida nesse caso tem caráter muito diverso daquela obtida com a luta pela
reprodução individual e social, mesmo que os trabalhos realizados possam ser, em
ambas as situações, penosos.
Mais complexo é o trabalho sob o capitalismo. De um lado, está o ser social,
assim como os sujeitos sociais estão em outro patamar de desenvolvimento, no qual
tende a predominar as mediações de segunda ordem a que se refere Lukács (o por
teleológico desloca-se das relações com a natureza para as relações mais puramente
sociais, em que o objetivo é influenciar outros, tendo em vista uma teleologia).
Por outro lado, o trabalho sob o capital não foca, necessariamente, os valores
de uso, mas sim os de troca, gerando consequências para a sociabilidade humana.
Uma delas é a divisão do trabalho social, assim como a divisão técnica do traba-
lho. A primeira não é decorrência direta do capitalismo, já que, do ponto de vista
histórico, observa-se a divisão do trabalho desde as comunidades primitivas. Mas,
nesse contexto, seu objetivo continua sendo a produção de valores de uso. Sob o
capital, tanto a divisão social do trabalho quanto a técnica são, ao contrário, deter-
minadas predominantemente pelos valores de troca.
O contraditório desse processo é que ele desempenha, de forma simultânea,
um papel humanizador e desumanizador. É humanizador porque promove o au-
mento progressivo da sociabilidade humana, como aponta Lukács:

51
CAPÍTULO 4

Deste modo, esse movimento, independentemente do modo como o inter-


pretam as pessoas que dele participam, é um passo adiante na realização
as categorias sociais a partir de seu ser-em-si original até um ser-para-si
sempre mais ricamente determinado e sempre mais efetivo. Acontece que
a encarnação adequada de ser-para-si da sociabilidade efetivada, que se
realizou a si mesma é o próprio homem. Não o ídolo do homem isolado,
em geral abstrato, que nunca existiu, mas, ao contrário, o homem na sua
concreta práxis social, o homem que, com suas ações e nas suas ações, en-
carna e torna real a espécie humana. (LUKÁCS, 1981, p. 71, apud SILVA JR
e FERRETTI, 2004, p. 105)

Por outro lado, o mesmo trabalho, determinado pela produção de mercado-


rias, promove a reificação do homem e das relações sociais. Tal característica,
essencial e contraditória do capitalismo, já se fazia presente nos séculos anterio-
res ao XIX, mas inicia-se nele, com o desenvolvimento da grande indústria, o
processo de intensificação da produção de mercadorias que culminaria, ao seu
final, e no decorrer dos três primeiros terços do século XX, com o florescimento
e apogeu do taylorismo e do fordismo. Todavia, apesar de ter se espraiado por
vários países, à mercê da política imperialista das nações altamente industria-
lizadas, o capitalismo ainda enfrentava, até o final da década de 1960, as suas
próprias crises, além das disputas econômicas e políticas com a economia socia-
lista. Com isso, não foi possível alçar-se à condição de modo de produção pre-
dominante e praticamente único, que começou a configurar-se apenas a partir
da década de 1970.
A sociabilidade fundada na economia de mercado, na produção e no consumo
de massa, assim como no fetichismo da mercadoria, desenvolveu-se gradativa e
contraditoriamente no longo período de quase um século desde o surgimento da
grande indústria. Contudo, ela encontrou seus limites no ritmo de desenvolvi-
mento das forças produtivas, na estrutura dos estados nacionais e na funcional
convergência entre Estado e Capital, por meio das políticas econômicas keynesia-
nistas e da própria organização e segmentação do trabalho fabril.
Entre as razões que produziram mudanças significativas na vida social, mes-
mo não tendo conseguido alterar o modo de produção, estão o processo de mun-
dialização do capitalismo ocorrido por meio da criação de novos mercados, da
desregulamentação do trabalho, das ofensivas privatistas, da mercantilização,
inclusive de setores antes não visados pelo capital, assim como a derrocada do so-
cialismo real e do ensaio de uma economia socialista. Também é possível destacar
como fatores a falência das políticas do Estado do Bem-Estar Social, a transfor-
mação da ciência em insumo científico, a reconfiguração do trabalho com a ma-
terialização das teses pós-industrialistas, a financeirização do capital, o avanço
da ideologia neoliberal, entre outros.

52
A educação escolar face à sociabilidade capitalista

Antes, são causa e consequência das reconfigurações produzidas por ele pró-
prio para superar as crises da década de 1960 e alçar-se a um nível superior, mais
complexo e mais sofisticado. Mantêm-se, por isso mesmo, as mesmas contradições
aludidas anteriormente. Em outros termos, estende-se, em nível mundial, o proces-
so de humanização, no sentido de construção do ser social mais refinado e, tam-
bém, de modo intensificado, sutil e profundo, o processo de sua desumanização.
Várias análises vêm sendo produzidas em termos da sociabilidade detecta-
da, atualmente, nas sociedades capitalistas em nível mundial, materializando, por
diferentes formas, a contradição acima. Recorro a algumas, que certamente não
esgotam o conjunto das existentes, mas fornecem uma ideia consistente de como
tal sociabilidade vem se manifestando.
Evangelista (2006) estabelece uma clara relação entre as formas assumidas
pelo capitalismo contemporâneo no plano econômico, o pós-modernismo e o ne-
oliberalismo como sua manifestação superestrutural. Essa se dá sob a forma de
mudanças socioculturais que afetam a relação tempo-espaço, com a preponderân-
cia do segundo sobre o primeiro (tendência à superação das barreiras nacionais
por ação de redes mundiais de comunicação social, assim como de intercâmbio
financeiro). Além disso, segundo o autor:

A mundialização do capitalismo fez-se acompanhar por forças antinô-


micas de largo espectro, que se manifestam, simultaneamente, como
tendências centrífugas e centrípetas em processos de homogeneização e
heterogeneização, de padronização e segmentação, de globalismo e loca-
lismo, de desterritorialização e reterritorialização etc. (EVANGELISTA,
2006, p. 3)

Foi alterada a maneira dos sujeitos sociais representarem o mundo, a si mes-


mos e a sua inserção social pela ênfase simultânea no local e no global. Tais mu-
danças são mediadas por formas diversas e inusitadas de hibridização cultural,
incentivadas por novas tecnologias de comunicação e pelo desenvolvimento da
indústria cultural, produzindo a padronização e, ao mesmo tempo, a diversifica-
ção de gostos e de consumo de produtos culturais sob a influência tanto do poder
político quanto da dominação de classe. De acordo com Evangelista (2006, p. 4):

[instaura-se] uma sensação cada vez mais disseminada de irrealidade, de


vazio e de confusão. A razão humana é desafiada pelo avanço de proces-
sos “imateriais” e pela constituição de novas esferas de existência virtuais,
que se sobrepõem à realidade objetiva. A velocidade dos fluxos de imagens
e informações e o processo de desterritorialização que lhes acompanham
abalam os mecanismos cognitivos, axiológicos e estéticos desenvolvidos
pela modernidade no Ocidente.

53
CAPÍTULO 4

Nesse contexto, a pós-modernidade assume a condição de um novo padrão


cultural que se assenta principalmente na crítica ao pensamento e à visão de
mundo da modernidade, apoiando-se de um lado na indústria cultural e, de
outro, no desalento resultado pelas derrotas das lutas políticas em seus proje-
tos de transformação social. Para Jameson (apud, Evangelista, 2006, p. 6), ela
se torna “a lógica cultural do capitalismo avançado ou tardio”. Por esse motivo,
empenha-se em produzir a desconfiança a respeito da razão e da ciência da mo-
dernidade, das explicações metanarrativas, ressaltando, ao contrário, o relativis-
mo, o efêmero e a primazia da intuição sobre a razão. Recorrendo a Anderson
(1999), Evangelista ressalta que, por trás das críticas da pós-modernidade às me-
tanarrativas, está a recusa ao marxismo e ao socialismo, ainda que tais críticas
apoiem-se, no entender de Anderson, na metanarrativa do pensamento único e
da supremacia global do mercado.
No âmbito do capitalismo tardio, aprofundam-se os processos de simbiose
entre o mercado e a vida cultural, passando esta a constituir-se como elemento
central da vida econômica e vice-versa, pelo estímulo à aquisição de bens sem-
pre renovados por meio das também renovadas tecnologias da informação e pela
transformação da própria informação em mercadoria, configurando novos hábi-
tos e formas de relações intersubjetivas. Evangelista vale-se de Jameson (1996) para
destacar alguns traços da cultura pós-moderna:

a) uma nova superficialidade, pela conversão da realidade em imagens das


superfícies externas desta;
b) presentismo (transformação da historicidade em uma vasta coleção de
imagens aleatórias combináveis de múltiplas formas a partir do presente);
c) surgimento de uma nova experiência de espaço pela configuração de
um hiperespaço global de comunicação por meio das novas tecnologias
informáticas;
d) configuração de uma nova sensibilidade assentada sobre a intensificação
da dimensão emocional.

Recorrendo a Harvey (1992) e a Eagleton (1993), Evangelista estabelece uma


relação mais direta entre a pós-modernidade e a produção de mercadorias. De
acordo com a análise, as ambiguidades da pós-modernidade derivam da sua apro-
ximação com o movimento social da forma mercadoria, que a todos nivela e ense-
ja, no capitalismo tardio, a configuração de sociedades definidas por antinomias
(libertárias/autoritárias; hedonistas/repressoras; múltiplas/monolíticas). Tais so-
ciedades demandariam “duas formas distintas de subjetivação”: uma representada
pelo “sujeito centrado e autônomo”, que se põe como “uma necessidade ideológica

54
A educação escolar face à sociabilidade capitalista

em termos éticos, jurídicos e políticos da cultura tradicional – o ideal oficial do


sistema”; outra figurada pelo “sujeito pós-moderno, constituído como uma ‘rede
difusa de laços libidinais passageiros’, dotado de subjetividade fugidia e polissêmi-
ca”, voltada ao hedonismo e ao consumo (EVANGELISTA, 2006, p. 7). Para Evan-
gelista, o mercado é a pedra de toque, o elemento que articula o pós-modernismo
e o pensamento conservador do capitalismo tardio. Segundo ele:

O pós-modernismo mantém uma relação ontológica com o mercado, cons-


tituindo uma forma de consciência social que lhe é perfeitamente funcio-
nal. Corresponde à lógica cultural do sistema capitalista contemporâneo
cuja objetivação assumiu as feições de uma rede mundialmente descentra-
da e fragmentada que dificulta a sua adequada representação mental (...). O
pós-modernismo opera como uma interface cultural que possui uma afini-
dade estrutural com a hegemonia neoliberal na economia e na política do
capitalismo mundializado. (EVANGELISTA, 2006, p. 7-8)

Antunes trata do tema da sociabilidade no capitalismo tardio em seus textos.


Para abordá-lo, valho-me da discussão realizada nos capítulos I e II de “Os sen-
tidos do trabalho” (1999) e o pequeno texto “Algumas teses sobre o presente (e o
futuro do trabalho)”, capturado na web. O autor toma como referência principal
a crise enfrentada pelo capital no decorrer da segunda metade do século XX, bem
como as formas encontradas por ele para reproduzir-se em uma etapa superior,
promovendo alterações no âmbito do próprio trabalho, na sociabilidade humana
e na subjetividade do trabalhador. Podemos considerar como exemplo a discussão
anterior sobre a pós-modernidade, na qual Antunes interpreta, ao contrário de
muitos que saúdam tais mudanças como avanços da democracia e da vida social,
como formas de fetichização nela presentes em âmbito cada vez mais ampliado.
Ele apoia sua análise nas categorias de mediações de primeira e de segunda ordem
discutidas por Mészáros.
As mediações de primeira ordem referem-se àquelas em que os homens esta-
belecem entre si e com a natureza com o objetivo de promover sua reprodução e a
reprodução da sociedade por meio do trabalho. Valendo-se de Mészáros, Antunes
(1999, p. 20) elenca uma série de ações sociais constitutivas das mediações primá-
rias, as quais, no seu conjunto, prescindem de hierarquizações e subordinações.
Essas se caracterizam: a) por um processo relativamente espontâneo de regulações
da reprodução biológica e do trabalho de modo a produzir, em intercâmbio com
a natureza, bens materiais e simbólicos necessários à satisfação das necessidades
humanas; b) por uma estruturação de um sistema de trocas compatível com tais
necessidades, admitidamente mutáveis; c) por uma organização, coordenação e
controle das múltiplas atividades materiais e culturais visando atender à com-

55
CAPÍTULO 4

plexificação da reprodução social, pela alocação racional dos recursos existentes


de acordo com “os níveis de produtividade e limites socioeconômicos existentes”
e, ainda, pela constituição democrática de regulamentos societais válidos para o
conjunto dos seres sociais, respeitando as mediações primárias.
As mediações de segunda ordem, alienadas, são identificadas por Mészáros
como as formas destrutivas assumidas pelo capitalismo tardio que produz desem-
prego estrutural e (des)sociabilização. Tais mediações são representadas [pelos
“meios de produção e suas ‘personificações’: dinheiro, produção para troca; a diver-
sidade da formação do Estado do capital em seu contexto global; o mercado mun-
dial” (MÉSZÁROS, 1995, p. 17-18, apud ANTUNES, 1999, p. 17). Essas mediações
sobredeterminam aquelas de primeira ordem, como resultado da “subordinação
estrutural do trabalho ao capital” (ANTUNES, 199, P. 19). Em outros termos, como
afirma Antunes, o capitalismo tardio produz “uma lógica em que o valor de uso das
coisas [é] totalmente subordinado ao seu valor de troca”. (ANTUNES, 1999, p. 17).
As mediações de segunda ordem introduzem “elementos fetichizadores e alie-
nantes de controle social metabólico” (ANTUNES, 1999, p. 20). Hoje, elas tendem
realizar, em escala maior, aquilo que é histórico no capitalismo: subordinar as fun-
ções reprodutivas sociais, do nível mais específico e íntimo ao mais amplo e abs-
trato, às imposições da reprodução ampliada do capital. Reportando-se a Mészá-
ros, Antunes aponta as condições necessárias para a efetivação desse processo:

a) a separação e alienação entre o trabalhador e os meios de produção;


b) a imposição dessas condições objetivadas e alienadas sobre os trabalhado-
res, como um poder separado que exerce o mando sobre eles;
c) a personificação do capital como um valor egoísta – com sua subjetividade
e pseudopersonalidade usurpadas –, voltada para o atendimento dos im-
perativos expansionistas do capital;
d) a equivalente personificação do trabalho, isto é, a personificação dos ope-
rários como trabalho, destinado a estabelecer uma relação de dependên-
cia com o capital historicamente dominante; essa personificação reduz a
identidade do sujeito desse trabalho a suas funções produtivas fragmentá-
rias. (ANTUNES, 1999, p. 21).

O núcleo constitutivo das mediações de segunda ordem é formado por três en-
tidades interrelacionadas – capital, trabalho e Estado –, responsáveis por impedir
a emancipação do trabalho por meio do controle do metabolismo social e que não
podem ser superadas isoladamente, mas apenas em seu conjunto. De acordo com

56
A educação escolar face à sociabilidade capitalista

Mészáros (apud, ANTUNES, p. 23), sendo o sistema do capital ilimitado em sua


expansão, torna-se ontologicamente incontrolável e, ao mesmo tempo, totalizante.
A sobredeterminação das mediações de segunda ordem às de primeira ordem
conduz à reificação do trabalho e, portanto, do trabalhador, transformando-o em
simples “fator de produção” que, para ser produtivo, deve se sujeitar às imposições
do capital, o qual se vale, para isso, de suas personificações. Cabe introduzir, a
esta altura, a discussão relativa à tese de que, com as transformações ocorridas na
organização e no processo de trabalho por força da utilização de tecnologias de
base física e organizacional, o trabalhador seria menos “executor” e mais partici-
pante das decisões devido à sua contribuição intelectual para a produção, “supe-
rando-se”, assim, o estranhamento presente sob a organização taylorista. Antunes
(2004) faz outra leitura desse fato.

[...] a nova fase dos capitais globais retransfere, em alguma medida, o savoir
faire para o trabalho, mas o faz apropriando-se crescentemente da sua di-
mensão intelectual, das suas capacidades cognitivas, procurando envolver
mais forte e intensamente a subjetividade operária. Como a máquina não
pode suprimir completamente o trabalho humano, ela necessita de uma
maior interação entre a subjetividade que trabalha e a nova máquina in-
teligente. Neste processo, o envolvimento interativo aumenta ainda mais o
estranhamento e a alienação do trabalho, ampliando as formas modernas
da reificação, através das subjetividades inautênticas e heterodeterminadas.
(Ver Tertulian, 1993)

Além disso, a lógica destrutiva do capitalismo tardio manifesta-se, segundo


Mészáros, por meio da taxa de utilização decrescente do valor de uso, pela submis-
são deste ao valor de troca, como ocorre, por exemplo, na obsolescência planejada
que, ao reduzir o ciclo de vida útil das mercadorias, torna mais ágil o processo
de reprodução/acumulação do capital. O mais importante não é a satisfação das
necessidades humanas de reprodução por meio do valor de uso das mercadorias,
mas a realização do valor de troca. Antunes ressalta duas consequências marcan-
tes desse processo: a destruição da força de trabalho humana e a degradação am-
biental, ou seja, da própria natureza com a qual o homem relaciona-se por força
das mediações de primeira ordem. O expansionismo, a mundialização e a incon-
trolabilidade do capital acabam por configurar uma estrutura econômica e social
destrutiva, tendendo à produção de uma crise de caráter estrutural que, de acordo
com Mészáros, nos conduzirá, na melhor das hipóteses, à barbárie.
A perspectiva apontada por Mészáros é, portanto, sombria. No entanto, é
preciso considerar que, sendo o capital e o capitalismo produções históricas, não
os são, por isso mesmo, eternos. Em outros termos, contrariamente às teses de

57
CAPÍTULO 4

Fukuyama, não chegamos ao fim da história com o advento do capitalismo tar-


dio. É necessário levar em conta, também, que a transformação e a superação de
um dado modo de produção (no caso, o capitalismo) configuram-se, conforme as
teses marxianas, nas ações de caráter político e social, desenvolvidas a partir das
próprias contradições desse mesmo modo de produção. Parecem ir nesse sentido
as considerações de Antunes quando discute a ontologia da vida cotidiana e, pos-
teriormente, aborda o tema do futuro do trabalho.

Se o trabalho, sob o sistema de metabolismo social do capital assume uma


forma necessariamente assalariada, abstrata, fetichizada e estranhada(...),
essa dimensão histórico-concreta do trabalho assalariado não pode, entre-
tanto, ser eternizada a-historicamente. (ANTUNES, 1999, p. 167)

[há] necessidade imperiosa (...) de construção de um novo modo de pro-


dução fundado na atividade autodeterminada, baseado no tempo dispo-
nível (para produzir valores de uso socialmente necessários), na realização
do trabalho socialmente necessário e contra a produção heterodeterminada
(baseada no tempo excedente para a produção exclusiva de valores de troca
para o mercado e para a reprodução do capital). (ANTUNES, 1999, p. 179)

Obviamente mudanças de tal profundidade, face ao estágio atual do capitalis-


mo, implicam alterações revolucionárias no plano da ação política, econômica e
social, que não cabem ser desenvolvidas por um setor específico da sociedade, mas
pelo conjunto desta. Todavia, ao abordar a ontologia da vida cotidiana, recorrendo
a Lukács, Antunes abre espaço para a discussão do papel que a educação escolar
pode e deve desempenhar na perspectiva dessa transformação, mesmo este sendo
limitado pela própria condição social da instituição. Tanto a limitação quanto o
caráter contraditório da educação escolar foram abordados em duas publicações
anteriores, tomando Lukács e Heller como referências (SILVA JR e FERRETTI,
2004; FERRETTI, 2008), as quais serão tratadas mais detalhadamente em mo-
mento posterior deste texto.
Antes de enveredar por essa questão, é necessário considerar que a discus-
são travada sobre o cotidiano da escola tem assumido diferentes conotações. Não
são poucas as que tomam por referência autores ligados às teses pós-modernas,
privilegiando enfoques psicológicos sobre a subjetividade docente. Nesse caso, a
etnografia tem servido menos para aclarar e explicar e mais para descrever, mui-
tas vezes, acriticamente, os fatos ocorridos nas salas de aula. Por outro lado, são
também frequentes os estudos que se debruçam sobre o cotidiano escolar, dando
ênfase às dimensões técnicas do fazer docente.
Na perspectiva marxiana, a análise das práticas dos professores tem as con-
siderado como constitutivas de um trabalho específico – o trabalho docente.

58
A educação escolar face à sociabilidade capitalista

Sem desconsiderar as dimensões técnicas e subjetivas dos professores, antes,


problematizando-as, tais análises voltam-se para os processos de flexibilização,
precarização e proletarização do trabalho docente, o que é importante, pois
chama a atenção para aspectos mais amplos da docência, apesar das distorções
presentes, por vezes, na discussão sobre o caráter produtivo ou improdutivo
desse tipo de trabalho.
Além disso, tal enfoque tem chamado a atenção pois, mesmo que o trabalho
dos professores das redes públicas de ensino não se desenvolva sob relações especi-
ficamente capitalistas, a sociabilidade produzida por esse modo de produção afeta
a todos, como destacou Antunes. Com isso, quando os professores realizam suas
atividades docentes não estão apartados, como sujeitos sociais, das decorrências
objetivas e subjetivas de tal sociabilidade, assim como não estão os discentes, suas
famílias e, de resto, a própria instituição escolar. Nesse sentido, cabe chamar a
atenção para as ponderações feitas por Cabrera e Jaén, com base em Derber (1982),
a respeito da “proletarização ideológica”, ou seja, a perda de visão e/ou controle
sobre os fins e propósitos sociais relativos ao trabalho educativo.
Essa forma de encarar a proletarização do trabalho docente parece se confron-
tar com a indagação de se os (as) docentes tiveram sempre clareza política e teórica
e, em algum momento, o controle sobre os fins e propósitos da educação, uma vez
que estes não são definidos por eles (as), como categoria profissional, mas sim so-
cialmente, implicando embates de diversas naturezas em cada momento histórico.
Em certa medida e sob condições de relativa autonomia, é possível questionar os
fins que são socialmente propostos à educação. Isso vai além da profissionalização
no sentido técnico e requer sensibilidade política e social, domínio de conheci-
mentos capazes de ultrapassar a dimensão estritamente técnica e, na verdade, sub-
metam-na a finalidades e propósitos politicamente consequentes, tendo em vista
a educação do enorme contingente da população que busca a escola como única
alternativa de acesso ao saber.
Todavia, dependendo da forma como esse questionamento se dá, pode assu-
mir diferentes significados. Uma coisa é ser produzido por docentes particulares,
podendo significar consciência política e resistência individual ou, ao contrário,
ação movida pelo compromisso “vocacional”. Outra é o mesmo questionamen-
to ser resultado da ação coletiva da categoria profissional. Nesse caso, o sentido
político-social desse grupo é aflorado. Contudo, os dois movimentos não são ne-
cessariamente antagônicos, dado que os questionamentos individuais, conforme
seu caráter, podem atuar como fermento dos coletivos.
Daí a importância da abordagem do cotidiano escolar na perspectiva descor-
tinada por Lukács e Heller, tema que foi objeto de discussão por parte de Silva

59
CAPÍTULO 4

Jr e Ferretti (2004). Sob esse enquadramento, o trabalho docente é entendido no


âmbito da ontologia desenvolvida por Lukács (1981) e a cotidianidade, do ponto
de vista elaborado por Heller (1977). No primeiro caso, as atividades docentes são
compreendidas como objetivações resultantes de fins e objetivos postos pelo (a)
professor (a) tendo em vista a formação de seus alunos (por teleológico) a partir de
apropriações realizadas das causalidades materiais e sociais que definem seu hori-
zonte de possibilidades e permitem a formulação de alternativas e a escolha entre
elas. Obviamente, tais escolhas podem ser feitas menos ou mais criteriosamente,
conforme o grau de preparo técnico-profissional do docente e o seu nível de cons-
ciência e compromisso político com as necessidades humanas, como proposto por
Antunes, ou com o gênero humano, segundo a concepção de Heller.
De acordo com essa autora, a vida cotidiana é constituída por uma grande sé-
rie de atividades heterogêneas, nas quais os sujeitos sociais participam como “ho-
mem inteiro” 2·. Algumas são consideradas mais importantes em relação a outras,
por razões de ordem cultural, econômica, social, etc. São, por isso, hierarquizadas.
Tais atividades são realizadas pelos integrantes de uma dada sociedade tendo em
vista sua própria reprodução, as quais contribuem, também, para a reprodução so-
cial. Por meio desse processo, cada indivíduo tem, indiretamente, a possibilidade
de reproduzir a vida para todos os outros indivíduos, ao criar em sua vida cotidia-
na condições históricas para reproduzir sua vida. Sob esse aspecto, cada integrante
dessa sociedade é, simultaneamente, ser particular e genérico, isto é, vive, ao mes-
mo tempo, sua condição de ser particular, em si, e tem a possibilidade de colocar a
vida cotidiana em suspensão, ao realizar atividades referidas ao humano genérico,
ao para-si. No entanto, segundo Heller, tende a ser, em geral, muda a relação entre
particularidade e genericidade na vida cotidiana, ou seja, não consciente. A possi-
bilidade de colocar a vida cotidiana em suspensão implica a passagem da condição
de “homem inteiro” (muda relação entre particularidade e genericidade) para de
“inteiramente homem” (unidade consciente do particular e do genérico).

Esta passagem ocorre, como diz Agnes Heller, quando se rompe com a co-
tidianidade, quando um projeto, uma obra ou um ideal convoca a inteireza
de nossas forças e então suprime a heterogeneidade. Há nesse momento
uma objetivação. A homogeneização é a mediação necessária para suspen-
der a cotidianidade. (NETTO e CARVALHO, 2000, p.27)

2 Significando que o homem participa da vida cotidiana com todos os aspectos de sua indivi-
dualidade, todos os seus sentidos, capacidades intelectuais, habilidades manipulativas, seus
sentimentos, paixões, ideias, ideologias. Esse fato determina, também, naturalmente, que
nenhum deles se realize, nem de longe, em toda a sua intensidade. (Heller, 1977, p. 17)

60
A educação escolar face à sociabilidade capitalista

Nas sociedades capitalistas, em função das características desse modo de pro-


dução e da sociabilidade que produz, intensifica-se a muda relação entre a vida
particular e a totalidade social da qual ela é parte no cotidiano dos sujeitos sociais.
Isso dificulta e/ou impede a tais sujeitos a apreensão e compreensão das relações
entre essas duas instâncias, na medida em que tal sociabilidade tende a reforçar a
primeira em detrimento da segunda. Esse processo não se dá, todavia, de forma
homogênea na sociedade dividida, posto que o pertencimento a uma determina-
da classe ou condição social provoca apreensão e compreensão diferenciadas, em
extensão e qualidade, das relações antes referidas. Contudo, dadas as contradições
desse mesmo modo de produção, ele traz em si, em latência, a possibilidade de
superação da não integração entre a particularidade e a totalidade, seja ela menos
ou mais intensa, menos ou mais duradoura.
A educação escolar vive, cotidianamente, tais contradições. De um lado, como
instância social responsabilizada pela reprodução da vida social, cabe à escola
promover processos formativos que conduzam à incorporação, por parte de cada
aluno, das objetivações sociais próprias de uma forma de organização social fun-
dada, apesar dos apelos à vida democrática, em relações sociais de dominação e de
mercantilização das múltiplas esferas da vida social. Incluem-se aqui não apenas
as informações de caráter imediato, pragmático e utilitário, mas, também, e so-
bremaneira, os valores, as formas de ser e as concepções ideológicas próprios da
sociabilidade capitalista atual a qual foi referida anteriormente.
Em seu espaço e tempo históricos, legitimam-se e naturalizam-se as desigual-
dades sociais e, em contrapartida, concretizam-se, ainda que parcialmente, as pos-
sibilidades de compreender as raízes históricas dessa legitimação e naturalização
das relações fundantes da formação social capitalista. Uma dessas possibilidades
é representada por processos educativos que permitam aos alunos, contraditoria-
mente, desenvolver a compreensão mais elaborada e, ao mesmo tempo, questiona-
dora da forma histórica da vida social sob o capital.
A educação de caráter amplo e omnilateral e os processos de socialização
aos quais são submetidos os sujeitos sociais abrem-lhes a possibilidade de desen-
volver menos ou mais a integração entre o particular e o genérico humano, em
função de sua condição e lugar na vida social e de sua participação menos ou mais
compromissada com a promoção do genérico humano, ou seja, com as dimensões
amplas e profundas do gênero humano. O acesso ao conhecimento é um fator
crucial nesse processo, embora não seja o único elemento a afetar a produção da
integração mencionada.
Por essa razão, a apropriação do conhecimento historicamente acumulado
é crucial, desde que seja concebido como apreensão dos elementos constitutivos

61
CAPÍTULO 4

de totalidades sociais, entendidos como determinações múltiplas, em contínuo


movimento, e não como a mera aquisição de informações (enciclopedismo) ou o
simples desenvolvimento de habilidades específicas, ou, ainda, a articulação entre
ambas para finalidades funcionais e pragmáticas, próprias da particularidade. A
apropriação pode ser, assim, um processo superficial ou rico em qualidade.
Todavia, as relações entre particularidade e genericidade dependem tanto das
apropriações feitas pelos sujeitos sociais quanto das objetivações por eles produzi-
das a partir delas. Tais objetivações são a expressão das subjetividades de sujeitos
sociais individuais e coletivos, decorrentes das apropriações que realizam do mun-
do onde vivem, tomando a forma de práticas sociais pelas quais os homens produ-
zem e reproduzem sua vida particular, assim como a vida na sociedade. As aulas
ministradas pelos professores, as produções dos alunos, o envolvimento em ações
de caráter político e social, um filme e uma música são todas objetivações huma-
nas resultantes das relações que os homens mantêm com a natureza e entre si.
À escola, como instituição a qual se atribui socialmente a formação sistema-
tizada dos alunos, caberia contribuir para que os sujeitos sociais estabelecessem
relações mais ricas e reflexivas entre particularidade e genericidade. Porém, exa-
tamente por ser uma instituição social, tem seus objetivos, estrutura e práticas
pedagógicas definidos a partir de si e das expectativas de setores sociais que, num
dado momento e contexto, dispõem de poder e hegemonia. Tal poder e hegemonia
podem priorizar não a formação capaz de favorecer a integração acima referida,
mas outra, de caráter fragmentário e pragmático, mesmo usando argumentos que
fazem supor a primeira opção. Nesse sentido, a instituição escolar como um todo
e os professores em particular precisam escolher entre render-se ao cotidiano ou
promover a integração entre particularidade e genericidade no desempenho de
suas atividades profissionais. Isso implica, de um lado, que os agentes na escola,
em especial os docentes, tenham sido socializados e recebido uma formação a qual
lhes permita suspender o cotidiano e voltar-se para o humano genérico e, de outro
lado, possam exercer suas atividades sob condições que favoreçam tal enfoque. Na
presente situação da educação brasileira, ambas as condições deixam a desejar.

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63
CAPITULO 5

Da dominação simbólico-
ideológica (directa) da classe à
dominação simbólico-ideológica
(indirecta) de classe
João Aguiar1

Introdução

É
célebre a asserção de Marx e de Engels acerca da ligação entre ideologia e
classe dominante presente em “A Ideologia Alemã” (1846):

as ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações
materiais dominantes tomadas como e por ideias; estas são então as rela-
ções que fazem dessa a classe dominante e, por conseguinte, as ideias da
sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem,
entre outras coisas, consciência e necessariamente pensam. Assim, a partir
do momento em que eles dominam como classe e determinam a extensão
e o ritmo de uma época histórica, entre outros domínios, eles também do-
minam como pensadores, como produtores de ideias, regulando, por ine-
rência, a produção e distribuição das ideias na sua época: portanto, as suas
ideias são as ideias dominantes de uma época. (Marx e Engels, 1998, p. 67).

Contudo, dentro dessa classe dominante, os dois autores germânicos subli-


nham que “uma parte dela aparece como os pensadores da classe (os seus ideólo-
gos activos e que fazem da formação das ilusões dessa classe sobre si mesma o seu
modo de vida)” – os intelectuais orgânicos da classe, segundo Gramsci (Gramsci,
1978, p.18), enquanto a burguesia propriamente dita assume “atitudes em relação a
essas ideias e ilusões de forma mais passiva e receptiva, na medida em que eles são,
na realidade, os membros activos dessa classe e têm menos tempo de criar essas
ilusões e ideias sobre si mesmos” (Marx e Engels, 1998, p. 68).
Os mesmos autores sumarizam o seu argumento da seguinte forma: “as ideias
da classe dominante são as ideias dominantes de uma época, isto é, a classe mate-
rialmente dominante da sociedade é ao mesmo tempo a força intelectual dominan-
te” (idem, p. 67) [grifo nosso].

1 João Valente Aguiar é investigador em sociologia da Universidade do Porto – Portugal.


CAPÍTULO 5

Marx e Engels definem a burguesia como a classe economicamente dominan-


te na contemporaneidade, mas também assumem-na como classe ideologicamente
dominante, mesmo quando esta não produz directamente as representações colecti-
vas vigentes numa determinada sociedade. Marx definiu o nexo entre a burguesia,
enquanto classe proprietária dos recursos sociais de produção (meios de produção,
funções de gestão e direcção do processo produtivo, etc.), e a sua dominância (e
dominação) ao nível da esfera simbólica e ideológica.
Com efeito, não sendo o campo cultural uma estrutura coincidente em abso-
luto com o campo económico em termos das suas propriedades e características
internas, interessar-nos-á compreender como o primeiro constrói o consentimen-
to, subjectiva o consentimento em relação ao segundo junto das classes sociais
não-dominantes. Metaforicamente, não sendo gémeos verdadeiros, como ocorre
e se desenrola o facto de serem dois campos irmãos, se assim se pode chamar?
Tendo a burguesia uma cultura de classe específica, um habitus próprio – a dis-
tinção –, como esta interactua com dispositivos “ideológico-simbólicos” (Pinto,
1985) de uma outra espessura e natureza, e que se encontram presentes no campo
de produção dos bens culturais e, sejamos claros, dispositivos esses que não são
produzidos directamente pela própria burguesia?
Em suma, neste trabalho procuraremos dar conta das múltiplas e multifaceta-
das formas possíveis de dominação simbólica que, sem serem, por vezes, operacio-
nalizadas directamente pela classe dominante, acabam, em última instância, por
reverter a seu favor. Procurar-se-á responder à seguinte questão de partida: como
uma classe proprietária define a mundividência social e cultural global sem, raras
vezes, trabalhar directamente os meios de produção cultural2 (Williams, 1995)?
O texto se desdobra em duas partes: a primeira conta com duas secções, en-
quanto a segunda parte contempla três secções. Na primeira parte, abordaremos
alguns dos traços do que poderemos chamar de habitus específico da burguesia.
Quer dizer, que propriedades simbólicas e ideológicas substantivam os compor-
tamentos e acções dessa classe. Nesse sentido, recorremos ao trabalho inovador de
Bourdieu sobre a distinção (secção I.A), tomada aqui como a cultura específica da
classe burguesa no seu quotidiano. Mas, se o sociólogo francês apresenta caracte-
rísticas relevantes para se compreender boa parte dos comportamentos da classe
dominante, importa colocar a interrogação de como essa cultura específica im-
plicaria, necessariamente, um mecanismo de dominação social e ideológica a tal
ponto que permitiria manter uma dominação durável do modo de produção capi-
talista sobre a classe trabalhadora (e outras classes populares). Ora, do nosso ponto

2 Entendemos por meios de produção culturais redes de sociabilidade, espaços públicos, ob-
jectos, património e tradição oral, linguagens, códigos de apropriação cultural, etc.

66
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

de vista, muito dificilmente seria possível argumentar que a dominação societal da


burguesia se efectivaria apenas por via de um superior capital simbólico sobre as
demais classes sociais. Bem como seria igualmente limitativo, por um lado, consi-
derar as maneiras, requintes e práticas sociabilitárias burguesas como únicos ou
principais factores de reprodução das hierarquias sociais. Seria igualmente restriti-
vo para a teoria sociológica se, por outro lado, focasse apenas ou principalmente os
mecanismos da distinção, pois colocaria entraves à possibilidade de as próprias di-
nâmicas estetizantes e simbólicas, sublinhe-se legítimas e dominantes, se cingirem
ao universo burguês. Por outras palavras, e como se poderá verificar na secção se-
guinte (secção I.B), o que se afirma como um contributo relevante de Bourdieu para
se compreender a dominação nas últimas décadas – quando o autor identificou o
nexo entre a burguesia e a sua necessidade em alicerçar boa parte da sua dominação
simbólico-ideológica a partir do consumo e das práticas culturais – na verdade, é,
ao mesmo tempo, onde se encontra uma das maiores “limitações” teóricas do autor.
Como procuraremos defender na segunda parte deste texto, a relação da estéti-
ca com a classe (ou com as classes) não se circunscreve ao âmbito estrito do habitus
de cada classe social, nem tem de ser produzida directamente pela classe dominante.
De facto, a lógica cultural do pós-modernismo se alicerça num conjunto de eixos (vd.
secções II.A e II.B) que não têm de decorrer directamente da produção da burguesia
enquanto tal e que, por surgir como um espectro simbólico-ideológico plurifacetado,
complexo e, vastas vezes, recortado à superfície no que parecem ser incongruências ou
fragmentos, na prática, mais facilmente encobre os fundamentos da dominação social,
económica, política e simbólico-ideológica da burguesia. É também a partir dessa au-
tonomia relativa (a qual aos olhos das classes dominadas surge como absolutamente
autónoma) do pós-modernismo que mais se cava fundo o fetichismo da mercadoria
(secção II.C) já falado por Marx no século XIX. Aliás, a própria lógica pós-modernista
surge como um exacerbamento desse fetichismo3 que, na contemporaneidade mais re-
cente, se ligou e apropriou mais fortemente o campo da produção cultural e ideológica.

Parte I – Análise do habitus burguês: a dominação simbólico-ide-


ológica (directa) da classe

I.A – Bourdieu e o princípio da distinção


É famosa a definição de Pierre Bourdieu formulada na obra “A Distinção” acer-
ca da “primazia das formas sobre a função, das maneiras sobre a matéria” (Bour-

3 Uma instigante análise sobre os fetiches mais fortemente presentes no capitalismo das últi-
mas décadas pode ser encontrada no capítulo “Estranhamento e fetichismo social” da obra
“A condição da proletariedade” do sociólogo Giovanni Alves (Alves, 2009, p. 111-121).

67
CAPÍTULO 5

dieu, 2004, p.5) na determinação do gosto burguês. Para o sociólogo francês, a


apropriação de uma obra de arte implica o manuseio de códigos e de competências
específicas que a burguesia procura monopolizar em seu torno. Nas suas palavras,
“uma obra de arte tem sentido e interesse apenas para alguém que possui uma com-
petência cultural” (idem, p.2). Contrariamente, junto da classe trabalhadora Bour-
dieu afirma que “as pessoas pertencentes ao operariado esperam que cada imagem”
ou obra de arte “explicitamente preconize uma função, e os seus julgamentos façam
referência, frequentemente de forma explícita, das normas da moralidade ou da
agradabilidade” (idem, p.5). E o autor conclui: “independentemente da rejeição ou
do apreço a sua apreciação tem sempre uma base ética” (idem).
Desse modo, o ponto de partida para o estudo dos princípios fundamentais
da dominação simbólico-ideológica passa, em Bourdieu, pela assunção de que é a
relação da classe dominante com o campo da produção artística a responsável por
definir os referidos princípios de dominação. É a construção do gosto e dos estilos
de vida legítimos – “o” gosto – que irão permitir à classe economicamente domi-
nante afirmar-se como igualmente dominante na esfera cultural.
Assim, a construção da obra cultural e/ou artística como fonte de legitimidade,
como raiz da aceitação social relativamente pacífica e incontestada da dominân-
cia social da burguesia implica compreender que “qualquer obra legítima tende, na
verdade, a impor as normas da sua própria percepção e tacitamente define como
o único modo de percepção legítimo aquele que traz à luz uma certa disposição
e uma certa competência” (idem, p.28). Na prática, a obra de arte não vale por si
mesma, todavia ela é definida no contexto cultural de produção directa (os artistas),
mas também e, sobretudo, pelo contexto cultural de produção indirecta (a recepção
e subsequente reelaboração dos códigos estéticos canónicos pela classe dominante):

temos de observar que o ideal de uma percepção “pura” de uma obra de


arte é o produto de uma enunciação e uma sistematização dos princípios da
legitimidade especificamente estética que acompanham a constituição de
um campo artístico relativamente autónomo (idem, p. 30).

A homologia entre os dois campos reclama, então, que, de um lado, o artista


preconize a criação estética como um acto desinteressado e de estrito pendor
de construção do Belo enquanto forma – a “arte pela arte” – e, de outro lado, a
burguesia aborde a arte e a cultura como princípios essenciais de classificação
do mundo social.

Uma arte que é, por exemplo, o produto de uma intenção artística que de-
fende a primazia absoluta da forma sobre a função, do modo de representa-

68
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

ção sobre o objecto representado, categoricamente procura uma disposição


estética pura. A ambição demiúrgica do artista, capaz de aplicar a qualquer
objecto a pura intenção de um esforço artístico, clama por uma receptivi-
dade ilimitada da parte de um esteta capaz de aplicar uma intenção especifi-
camente estética a qualquer objecto, sendo este produzido ou não com uma
intenção estética (idem) [grifo nosso].

Assim, o indivíduo burguês é marcado fundamentalmente pela disposição de


estetizar a sua vivência quotidiana (na empresa, na família, no consumo, nos even-
tos sociais, etc.).

A disposição estética, compreendida como a atitude de perceber e deci-


frar características estilísticas específicas é, assim, inseparável de uma
específica competência artística. Esta última pode ser adquirida por ex-
plicitamente aprender ou simplesmente através do contacto regular com
obras de arte, especialmente aquelas reunidas em museus e galerias, onde
a diversidade das suas funções originais é neutralizada por estarem des-
locadas num espaço consagrado à arte, convidando, desta forma, ao puro
interesse na forma. Esta mestria prática capacita o seu possessor de situar
cada elemento de um universo de representações artísticas numa classe
(idem, p. 50-52) [social].

A socialização e a aquisição de competências de inteligibilidade e de constru-


ção da obra de arte são, denodadamente, símbolo da distinção burguesa. Percebe-
-se, pois a existência de uma estruturação interna da classe dominante que per-
mite aos seus jovens membros um relevante processo de aprendizagem – formal
e técnica – da obra de arte, sem o qual seria impossível a interiorização do seu
habitus específico: a distinção.
Temos vindo a enumerar frequentemente o vocábulo “distinção” ao longo do
ensaio. Ora, em que essa consiste? Em Bourdieu, a consideração da distinção como
principal mecanismo de dominação e de diferenciação de classe4 passa por uma
primeira avaliação: “nada mais rigorosamente distingue as diferentes classes do que
a disposição objectivamente procurada pelo consumo legítimo de obras legítimas, a
atitude de tomar um ponto de vista estético sobre objectos estéticos constituídos
previamente” (idem, p. 40) [grifo nosso].
De acordo com o mencionado previamente, Bourdieu sobrepõe a dominação
classista às modalidades de interacção entre a burguesia e a apropriação dos pro-
dutos provenientes do(s) campo(s) artístico/cultural. Assim, a construção do gosto
legítimo de um estilo de vida tomado como único e exemplar não vive sem a cons-

4 Bourdieu aplica a cultura de classe específica à burguesia para, a partir da distinção como ha-
bitus ou faceta do habitus, a transpor para o domínio da dominação simbólico-ideológica.

69
CAPÍTULO 5

trução de uma visão do mundo, dos agentes, dos corpos e dos objectos que divide
o universo social entre praticantes e não-praticantes do gosto legítimo. O envolver
da vida quotidiana num lençol de estetização e culturalização (mais à frente ana-
lisaremos a real substância desta tendência na burguesia) separa os “estetas” dos
“não-estetas”, diferencia os possuidores de “classe” e sofisticação – a burguesia
– dos possuidores de uma cultura instrumental-funcional e “grosseira” – a classe
trabalhadora e restantes classes populares. Os gostos surgem, então, como:

a afirmação prática de uma diferença inevitável. Não é, assim, um acidente


quando têm de ser justificados que eles sejam tomados negativamente atra-
vés da recusa dos outros gostos. Em termos de gosto, mais do que tudo, toda
a determinação é negação, e os gostos são provavelmente em primeiro lugar
desgostos, repulsão provocada pelo horror ou pela intolerância visceral dos
gostos dos outros (idem, p. 56).

Noutros termos, a incomensurabilidade dos espaços de objectivação dos habi-


tus e das práticas presentes nos vários estilos de vida cava um fosso social relevante
entre dominantes e dominados. Retroactivamente, esse fosso, esse antagonismo
exponencia a arrogância dos dominantes e, em determinados contextos, o confor-
mismo dos dominados. No respeitante à arrogância dos dominantes,

a intolerância estética pode ser terrivelmente violenta. A aversão a diferen-


tes estilos de vida é provavelmente uma das mais poderosas barreiras entre
as classes; a endogamia de classe é disso um exemplo. A coisa mais into-
lerável para aqueles que se perspectivam como os possuidores da cultura
legítima é a sacrílega reunião de gostos que o seu gosto dita como separados
(idem, p. 56-57), [como distintos e como estanques].

A suspensão da distinção – descrita nomeadamente nas novelas televisivas


que se desenrolam em ambientes paradisiacamente esterilizados de determina-
ções sociais e onde, muito frequentemente, um homem rico se apaixona e, no final,
contra os entraves da família e amigos, vive feliz para sempre com a sua amada de
origem humilde – é muito rara e menos vezes ainda ocorre sem lutas. Lutas entre
as classes pela imposição de símbolos, discursos, maneiras e actos tidos como dis-
tintivos – a burguesia – ou pela contestação ou reapropriação desse conjunto de
propriedades sociais pelas classes não-dominantes.

As lutas pela apropriação de bens económicos e culturais são, simultanea-


mente, lutas simbólicas para apropriar sinais distintivos na forma de bens
ou práticas classificadas e classificáveis, ou para conservar ou subverter os
princípios de classificação de propriedades distintivas. Consequentemente,

70
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

o espaço dos estilos de vida, isto é, o universo de propriedades onde os


seus ocupantes de diferentes posições se diferenciam entre si, com ou sem
intenção, é apenas o espaço onde, num dado momento, lutas simbólicas
ocorrem para a imposição de um estilo de vida legítimo, lutas pelo mo-
nopólio dos emblemas de “classe” – bens de luxo, bens culturais legítimos
e a forma legítima de os apropriar. (…) “Distinção”, ou melhor, “classe”, a
forma transfigurada, legítima de classe social, apenas existe através de lutas
para a apropriação exclusiva dos sinais distintivos que tornam a distinção
em algo “natural” (idem, p. 249-250).

Desse modo, a luta de classes, em Bourdieu, expressa-se no campo cultural e


no espaço social mais geral como uma luta fundamentalmente simbólica, apesar
de nunca deixar de ser material. A afirmação e a construção da legitimidade de
uma cultura de classe ou habitus – a distinção – dependem de dois factores. Como
se aventou, da relação da burguesia com o campo da produção (e recepção) de bens
culturais e do resultado contingente das lutas simbólicas entre as classes dominan-
tes e não-dominantes. Em relação ao primeiro factor – a mediação da classe com
a arte e a cultura – importa considerá-la em termos de apropriação privada, pela
propriedade e pela projecção de competências, dos meios de produção culturais.

Apropriar uma obra de arte é alguém asseverar-se como o possuidor ex-


clusivo do objecto e do gosto autêntico por tal objecto, que, por seu turno,
é convertido em negação reificada de todos aqueles que são imerecidos de
o possuir por falta de meios materiais ou simbólicos de o fazer, ou simples-
mente pela ausência de um desejo de o possuírem (idem, p. 280).

Com efeito, apropriação e distinção são duas faces da mesma moeda. Se qui-
sermos ser mais rigorosos, a apropriação consubstancia-se num instrumento de
aproximação da burguesia a um objecto cultural, em ordem a subtraí-lo a sua in-
fluência, poder e, acima de tudo, propriedade. A apropriação é, assim, uma faceta
do processo global de construção da visão e de práticas tidas como superiores,
esclarecidas e refinadas/civilizadas (Elias, 2001). Esta construção só é possível
mediante um procedimento análogo à expropriação económica que a burgue-
sia efectuou (e ainda efectua) à propriedade camponesa (enclosures, Índia, Brasil,
etc.) e a modos de produção não-capitalistas (Chossudovsky, 2003, p. 147-149;
Meillassoux, 1977, p. 169; Carchedi, 1991, p. 329) nos últimos séculos. No fundo,
a apropriação é a “pega”, a “pinça” com que a distinção captura os bens culturais
à disposição para o seu domínio.
Em suma, a enunciação da arte (e da cultura) como centrais na estruturação
do gosto legítimo burguês parece ser clara na obra de Bourdieu. Essa asserção da
centralidade da arte e da cultura na constituição da dominação advém da própria

71
CAPÍTULO 5

construção da obra “A Distinção” pelo grande sociólogo francês. A economia das


práticas culturais como o ponto de partida da obra (capítulo 1) e o encaixe das prá-
ticas e comportamentos sociais das classes sociais na espinha dorsal da percepção
e apropriação dos bens culturais na construção social evidenciam, do nosso ponto
de vista, a primazia do factor “relação arte e cultura com a burguesia” na estrutu-
ração do espaço social global na teoria de Bourdieu. Mais do que o título da obra
– embora, sem dúvida, seja significativo e nada arbitrário – a própria distinção
(enquanto processo social) como eixo de produção de uma classe dominante e a
correlativa projecção de vectores de dominação simbólico-ideológica dessa classe
alicerçam a teoria da acção de Bourdieu.
Para terminar esta secção, tomemos do seguinte trecho a constatação de como
a produção da dominância e da dominação5 simbólico-ideológica da burguesia
transmuta os objectos culturais em entidades naturais e mágicas.

O paradoxo da imposição da legitimidade é que ela torna impossível deter-


minar onde a faceta dominante aparece como distinguível ou nobre porque
é dominante – isto é, porque ela tem o privilégio de definir pela sua exis-
tência o que é nobre e distinguível como sendo exactamente o que é, um
privilégio que é expresso precisamente na sua auto-suficiência – ou se é por
ser dominante que ele aparece portador dessas qualidades e unicamente in-
titulado para as definir. Não é sem acidente que, para designar as maneiras
legítimas ou o gosto, a linguagem do senso comum as assinala como “ma-
neiras” e “gosto”, no seu “sentido absoluto” como afirmam os linguistas. As
propriedades anexadas aos dominantes – sotaques de Paris ou de Oxford,
a “distinção” e a sofisticação burguesa, etc. – têm o poder de desencorajar
a intenção de se discernir quem eles são “na realidade” e o valor distinti-
vo que eles retiram da referência inconsciente à sua distribuição de classe
(idem, p. 92) [grifo nosso].

Esse cruzamento entre o “natural” e o “dominante” revela: o potencial de


ocultação das cadeias emaranhadas de determinações sociais do poder de classe
da burguesia; a imposição do legítimo; a centralidade da distinção na dominação
simbólico-ideológica de classe e da classe na obra de Bourdieu.
Observando os itálicos da pretérita citação, entende-se que a questão da au-
tossuficiência com que a burguesia procura mostrar a sua dominação aparece-lhe
aos seus olhos como o produto da sua acção própria – empreendedora, iluminada,
esclarecida, culta, etc. – e nunca sobre outros. Os outros não são burgueses porque

5 A dominância corresponde à ocupação do lugar mais alto da hierarquia social pela burgue-
sia e a dominação representa o conjunto dos complexos processos económicos, políticos
e simbólico-ideológicos que permitem reproduzir e ampliar a posição social mais elevada
daquela classe no espaço social.

72
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

não têm “classe”, sofisticação e espírito empreendedor para tal. Quer dizer, ideoló-
gica e subjectivamente, a burguesia não (auto)identifica a sua posição (dominante,
se bem que muito esparsamente reconhecida) em termos relacionais, mas no qua-
dro de uma interiorização significacional de que a sua condição de classe e o seu
estilo de vida derivam da sua autossuficiência (o indivíduo burguês constrói a sua
fortuna patrimonial pela sua própria iniciativa) e autorreferência (o conjunto da
sociedade é padronizado à sua imagem e semelhança, portanto, a partir dos seus
princípios de recorte distintivo na edificação simbólica da visão – e divisão – do
mundo social). É a burguesia que, ao determinar o gosto legítimo, acaba por cons-
truir os termos de identificação das categorias de apreciação do mundo cultural,
mesmo os municiados por outras classes e agrupamentos sociais. Esse fenómeno
aguça ainda mais as referidas categorias de autossuficiência e autorreferência.

I.B – A dominação simbólico-ideológica e sua efectivação: um campo de in-


vestigação a pesquisar e desenvolver
Como a burguesia exerce a dominação social? Apenas por “coleccionar” mais
capitais? Mesmo que assim fosse, porque e como o consegue? A dominação da
burguesia implica princípios de dominação e de estruturação das instâncias da
vida social ou não? Em caso afirmativo, como isso se respalda no espaço social?
Mantendo o registo na questão da distinção, atente-se no seguinte excerto
de Bourdieu:

nada é mais distintivo, mais distinguível do que a capacidade de conferir


estatuto estético a objectos que são banais ou mesmo “comuns” ou do que
a capacidade de aplicar princípios de uma estética “pura” às escolhas do
dia-a-dia, como cozinhar, vestir ou decorar, revertendo completamente a
disposição popular que agrega ética com estética (Bourdieu, 2004, p. 5).

Para a burguesia, a estética não passa pela aparência, pela criação da sua vida
numa obra de arte – sobretudo contemporânea, na qual pontifica a efemeridade,
o trabalhar de objectos de consumo de massas em fetiches artísticos, o desprezo
pela forma e pelo conteúdo em proveito da enunciação de um não-sentido e do
minimalismo, etc. –, mas pela busca de afirmar cada traço da sua vida como ele-
vado, singular, marcado pela aura6. Sintomaticamente, enfeixa-se uma similitude

6 Um autor que fundou todo um vasto rol de estudos sobre a obra de arte e suas manifesta-
ções na vida cultural contemporânea foi Walter Benjamin. Ao problematizar o desafio da
obra de arte na era da “reproductibilidade técnica” (Benjamin, 1992, p.71-113), na época da
cultura de massas, Walter Benjamin reivindica como factor diferenciador por excelência do
original da sua cópia, “o aqui e agora da obra de arte – a sua existência única no lugar em que

73
CAPÍTULO 5

proposicional e subjectiva entre a concepção da arte pela arte: a primazia da forma


sobre o conteúdo. Isso significa que, para a burguesia, em termos de translação da
esfera artística para a esfera das classes sociais, retirar determinação (na aparência)
à sua constituição como classe e afirmá-la como uma forma, uma técnica elevada
só ao nível dos melhores executantes (individuais ou familiares), e afirmá-la como
uma forma acabada, bela, perfeita destinada a alguns e, finalmente, inultrapassá-
vel enquanto forma social. Ou seja, a burguesia congela a estética, particularmente
numa visão de “pureza” a-social e a-histórica.
Na burguesia, a vida não é uma arte, mas a arte confere à vida requinte, ele-
vação, autocontrolo e, acima de tudo, originalidade singular a uma pretensa cons-
trução estritamente individual e independente do estilo de vida e do gosto legí-
timo. O requinte traduz-se pelo apreço imputado à aquisição de bens luxuosos e
na associável decoração da sua residência (vestimentas nas sociabilidades, festas,
jantares, etc.). A elevação confere um estatuto de superioridade nas práticas e
gostos da burguesia.
Por conseguinte, a apropriação dos bens culturais pela burguesia é rematada
pela atribuição de um código de maneiras (Lamont, 1992) e de disposições dis-
tintivas, conquanto sejam contemplados com uma certa obviedade natural, po-
lindo-se, assim, o processo de violência simbólica de arrebatamento económico
e cultural dos meios de produção culturais e os resultantes produtos artísticos da
chamada alta cultura. Por sua vez, o autocontrolo é uma imagem de marca do
habitus burguês distinto e distintivo7. Sem ele, o burguês, no fundo, não passaria
de um indivíduo endinheirado, sem capacidade individual para se civilizar (Elias,
2001) e adquirir competências corporais notabilizadas pela (com)postura e pela
harmonia entre acção individual no espaço público e privado e racionalidade re-
flexiva. Racionalidade reflexiva que joga sempre entre três protagonistas: o cálculo
(Weber, 2004), a distinção propriamente dita e todos os mecanismos associados

se encontra” (idem, p.77). Explicitando, a aura da obra de arte, o carimbo de autenticidade


estética traduz-se pelo momento da criação da peça artística, ou pelo consumo (que pode de-
correr numa oportunidade única e irrepetível) de uma obra de arte ou de uma performance
artística. Momento considerado como mágico pelas ideologias da distinção e do dom inato
do artista. Em relação a este “estado da arte”, o pensador germânico afirmou um postulado
essencial na teoria cultural desde então, quando reitera que “o modo em que a percepção
sensorial do homem se organiza é condicionado não só naturalmente, como também histori-
camente” (idem, p.80) [grifo nosso]. De uma forma sucinta, o que o autor nos diz é que, para
além de toda a camada pictórica que recobre o quadro estrutural e relacional que emoldura a
produção artística, persiste sempre uma paleta de possibilidades definidas historicamente e
com as quais se vão recriando novas pinceladas na tela da criação artística.
7 Distinto refere-se à diferença per si, ao passo que o termo distintivo tem que ver com a
diferença provocada pela enumeração de práticas mais elevadas e sofisticadas em relação a
práticas populares tidas por “grosseiras” e “rudes”.

74
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

a ela e a busca do lucro como força motriz da sua performance no campo eco-
nómico (aspecto negligenciado por Bourdieu na construção do habitus burguês,
praticamente reduzido à distinção). Finalmente, a originalidade singular assoma
como uma plataforma conceptual, entrecruzando-se nela a ideologia do eu inato e
original, a distinção e a (apropriação da) estética. Por outras palavras, o indivíduo
pertencente à burguesia não só se considera alguém com um percurso invejável –
fruto de um saber aplicado do espírito de iniciativa – como também reporta o seu
trajecto de vida a algo qualitativamente superior em relação aos restantes agentes
sociais. A unir esses dois eixos, a estética – que também se encontra na própria for-
mulação da distinção – reconstrói, num primeiro movimento, a consagração de
uma trajectória de vida assumida como exemplar e ao alcance de uma elite social
de indivíduos portadores de um dom especial: criar riqueza, fazendo dinheiro a
partir de dinheiro e a partir de sua iniciativa individual de colocar outros agentes
sociais a executar os seus desígnios empresariais.
Num segundo movimento, a estética projecta-se para além da classe dominante
e enforma práticas, estruturas e agentes sociais de outras classes. Esse segundo mo-
vimento de difusão de modos de regulação simbólico-normativos e de dispositivos
de construção das representações sociais alicerçados na reprodução, legitimação
ou, no mínimo, omissão dos determinantes sociais da dominância estrutural da
burguesia nas sociedades contemporâneas será abordado detalhadamente na parte
II deste ensaio. Para já, registe-se a imbricação desses dois movimentos.
Voltando a Bourdieu, o autor francês evidencia um pouco do segundo movi-
mento por nós abordado na medida em que alude à diferenciação nas relações da
burguesia e dos artistas concernente à apropriação das obras de arte:

onde as fracções dominantes da classe dominante (a burguesia) exigem da


arte um alto grau de denegação do mundo social e a inclinam em relação a
uma estética hedonista de prazer e a facilidade, simbolizada pelos boulevar-
ds ou a pintura impressionista, as fracções dominadas (os intelectuais e os
artistas) têm afinidades com o aspecto ascético da estética e são inclinados
a apoiar todas as revoluções artísticas conduzidas em nome da pureza e da
purificação, da recusa da ostentação e do gosto burguês pelo ornamento; e
as disposições em relação ao mundo social que eles devem ao seu estatuto
como relações pobres dispõem-nos a receber uma representação pessimista
do mundo social (Bourdieu, 2004, p. 176).

No fundo, Bourdieu aponta perspicazmente as dissonâncias entre a burguesia


e os artistas na sua cultura de classe, no caso dos primeiros, e na sua subjecti-
vidade grupal, para os segundos. Todavia, a enunciação da “crença no valor da
cultura, interesse na cultura e o interesse da cultura” (idem, p. 250) não chega a
caracterizar o movimento de expansão da estética para o âmbito da modulação da

75
CAPÍTULO 5

dominação simbólico-ideológica à escala societal mais global: o referido segundo


movimento e que amplifica a clássica conceptualização sobre a “estetização da
política” (Benjamin, 1992, p. 113).
Na senda directa das incursões de Bourdieu sobre a distinção, Pinçon desen-
volve a anterior afirmação de Pierre Bourdieu e constata nos seus estudos sobre
a burguesia francesa que tem como “uma das características da alta sociedade é
de tudo transformar em cultural, em fazer de cada domínio da vida humana um
pretexto à colecção e à aprendizagem” (Pinçon, 2006, p. 213) de obras de artes.
Por outras palavras, “todos os aspectos da vida quotidiana são então transfigu-
rados, transformados em elementos culturais, onde a distinção entre o cultural e
o antropológico não fazem mais sentido” (idem). Ou seja, a cultura cultivada e a
cultura antropológica fundem-se no seio do habitus burguês. Mais objectivamen-
te, “sobre a base de modos colectivos de apropriação, as manifestações culturais
enraízam a arte no coração na identidade social do grupo” (idem, p. 221). Toda
essa operação de introdução da arte no seio do modo de vida burguês traduz-se
num certo classicismo, isto é, ocorre sobre a forma da apropriação de um “patri-
mónio e de uma cultura clássicas” de largo espectro, condição necessária “para
uma aprendizagem rápida e uma abertura a formas mais contemporâneas” (idem,
p.223) da arte. Por conseguinte, a formação do gosto estético da burguesia france-
sa é, em primeira instância, de pendor clássico.
Em simultâneo, Pinçon pugna pela existência de um “espaço de trocas ou,
em definitivo, os mesmos bens, mudam de proprietários, nunca saindo do meio
da grande burguesia” (idem, p. 239). Nesse seguimento, um “corpo colectivo de
comissários e de especialistas gere, acumula e redistribui os patrimónios” (idem,
p. 239-240) de obras de arte. Assim, a burguesia assume-se como uma classe com
“meios materiais e meios culturais para se apropriar material e simbolicamente
desses bens” (idem, p. 240). Nesse ponto, tocam-se novamente os elevados volumes
de capitais económico e cultural. É à luz dessa junção sofisticada de capitais que
deve ser interpretada a relação da burguesia com a obra de arte e com a estética em
geral, segundo esse autor.
Dos estudos de Bourdieu e Pinçon, sublinhem-se três tópicos:

1. a burguesia relaciona-se com os bens culturais e artísticos num sentido


de posse – física e simbólica. Ao inverso, a pequena-burguesia e as recen-
tes manifestações de estetização da vida quotidiana (Featherstone, 1996;
Lash e Urry, 1999) veiculam uma estilização individual de seu corpo e
várias actividades sociais. Ou seja, onde na alta burguesia a circulação e
apropriação de obras de arte (e de luxo) surgem como motor do compor-

76
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

tamento dos seus membros integrantes, a classe média almeja tornar o


seu corpo e a sua vivência numa obra de arte esculpida em cada instante.
2. mais do que estetizar a sua vida, a burguesia busca criar a noção de que
tem/possui cultura, apostando na austeridade e no classicismo. Melhor
dizendo, a burguesia recorre à arte como modalidade privilegiada de ex-
teriorização de poder, afirmação social, sofisticação, distinção, luxo e, não
menos importante, autocontrolo. A aplicação de princípios estéticos à sua
vivência concreta é, na burguesia, a criação de um acto desinteressado e
pleno de requinte e o resultado de um notável trabalho de alguém também
notável. Por seu turno, a estetização da vida quotidiana muito presente nas
classes não dominantes ressalta a exteriorização do corpo, a beleza, a or-
namentação, a sensualidade, o hedonismo e um certo estilo carnavalesco.
3. súmula das duas observações anteriores, a inserção da cultura erudita na
vida quotidiana burguesa parece evidenciar que essa não se orienta pela
estética, mas pelo nome, pela imposição de um estatuto social prestigian-
te e da sua excepcionalidade social e individual. Assim, a estética não
orienta e conduz, mas complementa o eu burguês que se autoapresenta
inato e excepcional.

Contudo, mais uma vez se afirma, esta prospecção analítica de grande fôlego
dos dois sociólogos franceses esbarra na excessiva focagem imputada à relação
específica da burguesia com o campo cultural, portanto, ao princípio da distinção,
não problematizando como a própria distinção pode:

a) alargar o fosso entre burguesia e classes dominadas, contribuindo para a


criação de um “nós” de indivíduos cultos e sofisticados versus um “eles”,
banais e bárbaros, que, como demonstraram tanto a luta operária ao lon-
go do século XX e em diferentes continentes quanto a existência de uma
cultura operária balizada em termos de um saber e fazer performativo de
classe, rapidamente desembocaram num “nós” operário contra os “ou-
tros” burgueses – diferentes, distantes e detentores de amplos recursos
contra os quais os dominados passaram a direccionar a sua contestação
política. Da assunção da diferenciação de estatuto, de maneiras e de pos-
turas, a distinção (pode) auxilia(r) a formação das classes trabalhadoras
em sujeitos sociais e colectivos mobilizados, identificando a burguesia
como o seu contendor político;
b) redundar na omissão da resistência e na produção cultural por parte das
classes dominadas;

77
CAPÍTULO 5

c) não contemplar a difusão de outros dispositivos de condicionamento ide-


ológico e prático da vida quotidiana das classes dominadas.

Não afirmando que a distinção desapareceu ou esteja em vias disso, consi-


deramos, contudo, que ela não é o princípio nuclear da dominação simbólico-
-ideológica da burguesia. Na nossa perspectiva, existem dispositivos de natureza
simbólico-ideológica que, não sendo provenientes directamente da classe domi-
nante e sem se sobreporem em grande escala ao princípio da distinção, acabaram
nas últimas décadas por ter um efeito bem mais impactante e influente na frag-
mentação da classe trabalhadora em comparação à distinção. Portanto, princípios
de dominação de classe e não da classe como a distinção, o elitismo ou outros.
Será esse movimento de expansão de enunciados simbólico-ideológicos não pro-
duzidos directamente pela classe dominante – sem que isso signifique ausência
de apoio ou de envolvimento por parte da grande burguesia – a qual constituirá o
objecto de estudo da parte II do nosso trabalho.

Parte II – Vectores essenciais da dominação simbólico-ideológica


de classe: do pós-modernismo ao fetichismo da mercadoria

II.A – O pós-modernismo como lógica cultural do capitalismo das últimas


décadas: David Harvey
Jameson afirmará, de um modo inequivocamente explícito, a tese do pós-
-modernismo como força cultural dominante na era da acumulação flexível/capi-
talismo tardio. Rejeitando que toda a vida cultural se esgote no pós-modernismo,
o autor sustenta a asserção de que “o pós-moderno é o campo de forças em que os
diferentes tipos de impulsos culturais fazem o seu caminho” (Jameson, 1993, p.6).
Contudo, antes de desenvolvermos detalhadamente as asserções de Jameson, da-
remos a palavra a David Harvey, nomeadamente à forma como o autor conceptu-
aliza a percepção do espaço e do tempo na actualidade, as mudanças ocorridas nas
últimas décadas em relação às estruturas de sentido e às respectivas consequências
do pós-modernismo na redefinição do universo simbólico-ideológico.
Referindo-se à actual configuração da base económica com os frenéticos
desenvolvimentos tecnológicos das últimas décadas, o geógrafo britânico David
Harvey postula que o paradigma socioeconómico o qual designa por “acumulação
flexível8 é ainda uma forma de capitalismo pelo que se pode esperar a manutenção”

8 A exposição das teses de Harvey sobre a acumulação flexível revela-se de grande importância
na medida em que, para esse autor, a mudança cultural de largo espectro protagonizada pelo

78
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

e reprodução de “propriedades básicas” (Harvey, 1990, p. 179-180) [grifo nosso]


desse modo de produção:

a) a orientação do capitalismo para a expansão dos mercados. Só a repro-


dução em escala alargada da acumulação e a busca incessante do lucro a
partir da produção de valor permitem a sustentação económica geral do
sistema económico capitalista;
b) o crescimento económico depende da exploração do trabalho em condições
de assalariamento. Apesar das transformações na relação salarial, da expo-
nenciação de novas formas de regulação dos sistemas de emprego (traba-
lho temporário, contratos a termo certo, teletrabalho, etc.) e da retracção
do emprego industrial, o nervo central da “ordem da reprodução sociome-
tabólica do capital” (Meszaros, 2002, p. 94) continua a depender do contro-
lo do trabalho vivo no interior do processo de produção em ordem a elevar
a sua produtividade. É essa relação social que continua a orientar as várias
modalidades de organização e/ou regulação do trabalho – toyotismo, de-
mocracia industrial, entre outros – que têm surgido desde a década de 70;
c) a dinâmica tecnológica e organizacional do capitalismo mantém-se. A in-
trodução, aplicação e desenvolvimento de novas tecnologias da informa-
ção nos processos de produção e a contínua reconfiguração do arranjo
organizacional da força de trabalho (da mais qualificada até a mais des-
qualificada) no espaço laboral decorrem da importância e da necessidade
que o modo de produção capitalista comporta em readequar constante-
mente a sua base sócio-técnica ao núcleo matricial da produção de merca-
dorias (materiais ou imateriais).

Por uma questão de economia de espaço, não procuraremos definir em por-


menor o modelo económico da acumulação flexível. Não é esse o propósito deste
ensaio. Em jeito de registo, sublinhe-se a seguinte definição do autor:

a acumulação flexível apoia-se na flexibilidade dos processos de trabalho,


dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteri-
za-se pelo surgimento de sectores de produção inteiramente novos, novas
maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, so-
bretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica
e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos pa-

pós-modernismo deriva boa parte da sua densidade e espessura na reconfiguração da esfera


simbólico-cultural a partir das transformações protagonizadas no campo do trabalho social e da
organização económica. Essa digressão pelas transfigurações e reconversões socioeconómicas
serve igualmente de introdução à teorização de Jameson na próxima secção.

79
CAPÍTULO 5

drões de desenvolvimento desigual, tanto entre sectores como entre regiões


geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego do
chamado “sector de serviços”, bem como conjuntos industriais completa-
mente novos em regiões até então subdesenvolvidas (Harvey, 1990, p. 140).

Desse modo, sobreleva uma maior pertinência em dar conta de algumas das
suas tendências mais destacadas com os efeitos de ordem simbólico-subjectiva que
têm instilado nas sociedades contemporâneas:

• “Economia de larga expansão / empreendedorismo / individualismo”


(Harvey, 1990, p. 340).
A actual forma de organização capitalista das relações de produção enaltece
os valores do empreendedorismo empresarial e a concorrência entre os recursos
humanos (entre o factor produtivo trabalho), acabando por instigar a profusão do
individualismo e de comportamentos egotistas por parte dos agentes sociais.

• “Deslocalização de unidades produtivas / desconcentração geográfica da activi-


dade industrial / contraurbanização e gentrificação das cidades” (idem).
A “reestruturação produtiva” (Antunes, 2006, p.18) da base material (tecnoló-
gica e organizacional) do capitalismo, bem como a elevação da produtividade na
indústria e a correlativa expansão do sector dos serviços nos Estados centrais da
economia-mundo, são factores que induziram a deslocação de inúmeras unidades
produtivas, situadas nas faixas envolventes das grandes metrópoles desse segmen-
to da economia-mundo, para países da periferia, da semiperiferia ou para regiões
de industrialização difusa. Por seu turno, registou-se uma desconcentração geo-
gráfica das unidades industriais. Por arrasto, o rearranjo interno do tecido urbano
sofreu pressões para um tendencial processo de gentrificação.

• “Poder financeiro / neoliberalização das políticas estatais / profusão da ex-


clusão social e do número de indivíduos sem-abrigo” (Harvey, 1990, p. 340).
A hegemonia económica do capital financeiro acelerou o processo de desvin-
culação do Estado relativamente a toda uma série de serviços públicos nas áreas da
saúde, educação, segurança social, entre outras. Precedentemente, o Estado-Pro-
vidência perdeu, parcial ou totalmente, o tecido empresarial de que era o principal
ou, mais raramente, o único detentor (telecomunicações, electricidade, transpor-
tes, indústria química, indústria automóvel, siderurgia, bancos, etc.). O Estado
deixou de ser visto como um regulador económico e como vasto orientador geral
de políticas públicas de combate e/ou correcção de fenómenos de pobreza e de de-

80
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

sigualdades sociais. As visões assistencialistas do Estado tornaram-se dominantes


junto da generalidade dos partidos políticos do chamado “arco governativo”. Por
conseguinte, essa nova reorientação das políticas sociais não tem conseguido com-
bater novas (e velhas) formas de pobreza e exclusão social.

• “Desindustrialização e falência da estrutura técnica fordista / tecnologias


electrónica e digital / financeirização / volatilidade dos capitais / indeter-
minação” (Harvey, 1990, p. 341).
A crise do fordismo e de toda a sua ossatura técnica baseada na estandardiza-
ção e desqualificação absoluta das tarefas produtivas que, por sua vez, assentava
na “separação entre concepção e execução” (Braverman, 1974, p. 124) abriu portas
à penetração de novas tecnologias. Novas tecnologias nas quais a digitalização da
informação assume especial relevo. Ora, o desenvolvimento e a aplicação massiva
das novas tecnologias da informação e da comunicação permitiram um apreci-
ável crescimento do volume de transacções nos mercados financeiros de todo o
mundo. Tal circulação frenética e desordenada de capitais e títulos bolsistas cria,
no cidadão comum, sentimentos de indeterminação acerca dos processos sociais e
económicos que subjazem a essa lógica de financeirização da economia.

• “Reprodução social e económica / valorização e desvalorização do capital /


consumo e moda(s) / efemeridade” (Harvey, 1990, p. 341).
Os processos de reprodução das estruturas sociais do capitalismo obdecem,
entre outros aspectos, à necessidade contínua que o sistema económico tem em
incrementar o volume de valor económico produzido e, posteriormente, realizado.
A elevação da produtividade e a aceleração da velocidade de rotação do capital –
visível na obsolescência9 crescente das várias mercadorias – reduzem o tempo de
duração dos ciclos económicos de crescimento, estagnação e recessão. A neces-
sidade de valorizar massas crescentes de capital em períodos de tempo cada vez
mais curtos torna-se cada vez mais aguda, sob pena de não se realizar um volu-
me de valor suficiente para revigorar o investimento produtivo. Para responder a
essas dificuldades, o mundo empresarial tem apostado na criação de segmentos
de mercado crescentemente especializados e individualizados como forma de ele-
var os níveis de consumo e, consequentemente, renovar o stock de mercadorias. A

9 Istvan Meszaros denominou este processo de taxa de utilização decrescente das mercado-
rias no capitalismo, enfocando o facto de, nesse modo de produção, ter verificado uma pas-
sagem de uma tendência de “maximização da vida útil das mercadorias” para “o triunfo da
produção generalizada de desperdício” (Meszaros, 2002, p. 634, 639-642).

81
CAPÍTULO 5

constante replicação dos desejos de consumo fomenta a efemeridade de modas, de


padrões de consumo, de produtos e, portanto, de estilos de vida.
Em termos do pós-modernismo propriamente dito, Harvey considera que “a
grande mudança” nas sociedades contemporâneas nas últimas duas ou três déca-
das prende-se com o surgimento de “novas formas através das quais percepciona-
mos o espaço e o tempo” (idem, p. vii).
Em primeiro lugar, o autor reivindica o conceito de compressão espaço/tempo
de forma a assinalar que o espaço sofreu “o encolher drástico de uma ‘aldeia glo-
bal’ de telecomunicações”, permeado por densas “interdependências económicas
e políticas”, e onde os “horizontes temporais reduziram-se ao ponto de o presente
ser o que está aí” (idem, p.240). Quer dizer, as sociabilidades humanas deixam de
ser dependentes do espaço físico como plataforma de promoção das interacções
face a face. Nesse sentido, e como argumenta José Machado Pais, a densidade do
ligame social reduz-se em prol do surgimento e profusão de fenómenos de solidão
associados à explosão de convívios, conversas e relações de variegado tipo no pla-
no internáutico (Pais, 2006, p. 181-222).
Esse fenómeno repercute-se na própria produção do espaço físico e na sua co-
nexão com a construção das identidades colectivas. Ou seja, as novas experiências
relacionadas com a compressão espaço-tempo (intimamente ligadas à necessidade
de elevação da velocidade do ciclo de rotação do capital, em ordem a reproduzir
– por via da sua ampliação – o circuito da acumulação) exprimem-se no facto de
despontarem novas experiências de sociabilidade humana descoladas de um espa-
ço específico. No fundo, a compressão espaço-tempo promove a divergência entre
espaço e lugar. Criam-se espaços relativamente homogéneos na esfera cultural –
bares, galerias de arte, shoppings, ruas comerciais, etc. – e desvinculados, tanto na
sua configuração quanto na sua estética, do lugar territorial específico onde se loca-
lizam. É nesse âmbito que surgem as teses dos não-lugares10 de Augé. Contudo, eles
não são lugares simplesmente desprovidos de relações. Inversamente, são lugares
marcados por uma ambiência simbólico-ideológica substantivada na remoção de
traços identitários específicos de um território histórico, buscando uma padroni-

10 “Os não-lugares são todavia a medida da época; medida quantificável e que podería-
mos tomar adicionando, ao preço de algumas conversões entre superfície, volume e dis-
tância, as vias aéreas, ferroviárias, das autoestradas e os habitáculos móveis ditos ‘meios
de transporte’ (aviões, comboios, autocarros), os aeroportos, as gares e as estações aero-
espaciais, as grandes cadeias de hotéis, os parques de recreio, e as grandes superfícies da
distribuição, a meada complexa, enfim, das redes de cabos ou sem fios que mobilizam o
espaço extra-terrestre em benefício de uma comunidade tão estranha que muitas vezes
mais não faz do que pôr o indivíduo em contacto com uma outra imagem de si próprio.
[...] O espaço do não-lugar não cria nem identidade singular, nem relação, mas solidão e
semelhança” (Auge, 2005, p. 37).

82
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

zação de fundamentos com a escala global. Nessa linha de pensamento, o não-lugar


exprime um espaço ausente de conteúdos relacionais, históricos e identitários.
Parece-nos, então, que o pós-modernismo enquanto lógica cultural dominan-
te (não exclusiva) reformula a taquigrafia da subjectividade humana ao nível de
dispositivos que convivem de muito perto com os agentes sociais, actuando di-
rectamente sobre eles. Mais do que uma espécie de consciência colectiva exterior
e pairante sobre as mentes dos indivíduos (Durkheim, 2001, p. 128), o pós-moder-
nismo releva muita da sua eficácia por estruturar de alto a baixo os espaços e as
sociabilidades dos agentes sociais.
Por conseguinte, com a compressão espaço-tempo – uma consequência mais
ou menos directa do desenvolvimento do capitalismo nos últimos 30 anos11 – re-
acendem-se transformações nas práticas temporais e espaciais que se traduzem
numa “perda de identidade com o lugar” (Harvey, 1990, p. 272). Em termos ge-
néricos, o pós-modernismo afirma-se como um corpo de dispositivos simbólico-
-ideológicos com uma camada dupla: ideativa e praxeológica. Sobre a primeira,
Harvey assinala que:

a experiência do tempo e do espaço mudou com o pós-modernismo, na medida


em que este, enquanto universo de promoção de novos significados e subjec-
tividades modificou “a confiança na associação entre julgamentos científicos”
e racionais “e julgamentos morais, a estética triunfou sobre a ética como foco
primordial de preocupação social e intelectual, a imagem dominou a narrati-
va” e a palavra, “a efemeridade e a fragmentação tomaram precedência sobre
verdades eternas e sobre linhas políticas unificadas, e as explicações mudaram
do plano do material e dos enraizamentos político-económicos para uma auto-
nomização” e guetização “das práticas políticas e culturais (idem, p.328) [como
entidades de explicação nas Ciências Sociais].

Desse universo significacional e normativo que o pós-modernismo passou a


postular desde as décadas de 70 e 80, destaca-se a formação de, como afirmamos
acima, dispositivos de reconfiguração directa das práticas dos agentes sociais. A
passagem de um plano para o outro, da primeira camada do pós-modernismo
para a segunda, consagra-se a partir da assunção de que:

11 “No reino da produção de mercadorias, o primeiro efeito foi enfatizar os valores e as virtudes
da instantaneidade (comidas rápidas e instantâneas) e do descartável (de pratos, copos, guarda-
napos, utensílios variados, etc.). Esta dinâmica do “deitar fora” significa mais do que lançar no
lixo bens produzidos (criando um problema monumental de resíduos), mas também significou
um sentimento paralelo de “deitar fora” valores, estilos de vida, relações estáveis, e as ligações
afectivas a objectos, lugares, pessoas” (Harvey, 1990, p.286) [sempre que a busca incessante de
algo novo se sobrepôs a esse património significacional de partida].

83
CAPÍTULO 5

a imagem serve para estabelecer uma identidade no mercado. A aquisição


de uma imagem (ao comprar um sistema de signos como roupas ou um
automóvel de marca) torna-se num elemento singularmente importante na
apresentação do self nos mercados de trabalho e, por extensão, torna-se in-
tegral com a busca pela identidade individual, auto-realização e significado
(idem, p. 288) [amplificados pelo pós-modernismo].

Muitas das observações do trecho pretérito já existiam e com grande expressi-


vidade na contemporaneidade. O que há de novo, segundo Harvey, prende-se com
a coexistência de novos dispositivos de padronização cultural ao lado da distinção.
Ou seja, com o advento do pós-modernismo – que tem uma estrutura significa-
cional e axiológica interna de diferente substância em relação à distinção –, ocorre
uma “profunda mudança nas estruturas de sentido” (idem, p. 39).
Sobre essas mudanças, o autor resenha as seguintes ideias e que nos parecem
as mais significativas para o nosso estudo:

a) fragmentação. “Se como os teóricos” e os valores destilados pelo substrato


simbólico-ideológico do pós-modernismo “insistem de que não podemos
aspirar a nenhuma representação unificada do mundo ou sequer procurar
compreendê-lo como uma totalidade de conexões e de diferenciações em
vez de perpetuamente transitar”, as experiências humanas “de fragmento
em fragmento, como poderemos então aspirar a agir” e pensar “coeren-
temente no e sobre o mundo?” (Harvey, 1990, p. 52). A interrogação de
Harvey procura criticar o processo de desmontagem e espartilhamento
do mundo social pelo pós-modernismo. Por conseguinte, a criação de me-
canismos de fragmentação da percepção dos agentes sociais – amálgama
noticiosa (Breton, 2001, p. 107-141), cisão entre actos da vida quotidiana
dos processos sociais complexos que os enquadram, etc. – contribui para
o lavrar de sentimentos de indeterminação acerca dos processos de cogni-
ção do mundo social.
b) fechamento da experiência. “A redução da experiência a uma série de pre-
sentes puros e desconexos entre si implica que a experiência do presente
torne (…) a imagem, a aparência, o espectáculo com uma intensidade (que
tanto pode ser de euforia ou de terror) que torna possível” uma percepção
do mundo social “em que este perde a sua densidade e profundidade” de
mecanismos de determinação, afogando-se “no imediatismo de eventos,
no sensacionalismo do espectáculo” (Harvey, 1990, p. 54). A experiência
humana enquadra-se aqui dentro de contextos hedonísticos sob a forma
de um arquipélago de práticas de uma mesma ordem simbólica.

84
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

c) o presente como (o) espaço (do) possível. Vector desdobrável do anterior,


fundamenta que “o colapso dos horizontes de tempo e a preocupação com
a instantaneidade” caminha lado a lado com a “produção de eventos, es-
pectáculos, happenings e imagens” (idem, p. 59) num tempo social e físico
que se circunscreve à criação e recriação de novos presentes estrutural-
mente idênticos (assentes na fragmentação e na efemeridade), mas ima-
geticamente distintos. O fechamento da experiência neste circuito fecha-
do de presentes resulta numa “perda de consciência do tempo histórico”
(Meszaros, 2007, p. 45)12.
d) o prazer estético criado a partir do caos. “Quando a pobreza é servida com
prazer estético, a ética é então submergida pela estética, convidando, con-
sequentemente” (Harvey, 1990, p. 337) à banalização e à aceitação de fenó-
menos considerados como social e humanamente degradantes13.

12 Esse filósofo anglo-húngaro acrescenta que, acerca das teses mais ou menos conotadas com
o pós-modernismo, em variadíssimos campos da vida social e intelectual pululam um pou-
co por todo o lado, que estas “afirmam-nos que só podemos compreender a história em
termos da imediaticidade da aparência – de modo que a questão de assumir o controlo das
determinações estruturais subjacentes pela apreensão das leis socioeconómicas vigentes não
pode sequer surgir – enquanto nos resignamos à conclusão paralisante de que, ‘se há senti-
do’, ele não pode mais ser encontrado nas relações sociais historicamente produzidas e his-
toricamente mutáveis, conformadas pelo desígnio humano, mas na natureza cósmica e, por
isso, deve sempre ‘escapar à nossa apreensão’” (Meszaros, 2007, p.46). A crítica de noções
que rejeitam uma análise dos fundamentos das sociedades contemporâneas e a assunção
de que às Ciências Sociais nada mais restaria do que indagar o presente-imediato são peças
centrais da obra desse autor.
13 Repare-se, brevemente, nas reportagens sobre as crises humanitárias e de escassez na Áfri-
ca. O horror provocado pelas imagens de desnutrição profunda e pelo sofrimento de crian-
ças famélicas, o choque emocional do visionamento de corpos moribundos e martirizados,
em poucas palavras, as reacções sentimentais decorrentes de um agregado de imagens,
criam numa primeira instância um solo cognitivo e mental atravessado pela compunção
e por um estado de estupefacção perante tal brutalidade. Afirmações simplistas sobre as
pretensas causas desse fenómeno incluem referências epistolares à corrupção individual
dos governantes africanos ou a uma qualquer concepção que vê o estado do continente
como uma questão estritamente cultural(ista). Mesmo quando simplesmente descrevem
uma situação de fome, a densa organização do sistema capitalista internacional e o siste-
ma internacional de estados (Wallerstein, 1990) nunca surgem, por muito indelevelmente
que seja, nas reportagens dos noticiários televisivos. São igualmente raras as reportagens
de investigação que abordam esta questão sob um prisma multidimensional, complexo
e holístico. O ponto em questão é que a abordagem realizada passa nomeadamente por
criar um olhar terrificado, quando não de (ulterior) banalização, assente no descartar de
uma perspectiva reflexiva sobre a complexa teia que subjaz a esses fenómenos. Resultado:
explicações lineares e com um ponto de vista fixo e rígido sobre o fenómeno tornam-se
mais facilmente aceites. Dessa maneira, o enunciar de raciocínios complexos – ou que pelo
menos induzam uma reflexão esclarecida a posteriori – é preterido em favor de comentá-
rios sucintos e monocausais e, sobretudo, dando vantagem a um encaixe visual da imagem

85
CAPÍTULO 5

No fundo, Harvey argumenta que, face à primeira camada descrita – o lençol


simbólico-ideativo que recobre boa parte do universo cultural da actualidade –, o
resultado projecta-se numa segunda camada de transformação das percepções dos
agentes sociais. Todavia, o autor britânico não identificou como opera a passagem
de um nível – das ideias e das representações – para o outro – das percepções dos
agentes sociais. Explicitando, estamos em crer que existe uma ausência do estudo
dos espaços e das práticas os quais subjazem à sua articulação. É também nesse
domínio que procuraremos aplicar a nossa investigação empírica.

II.B – O pós-modernismo como lógica cultural do capitalismo das últimas


décadas: Fredric Jameson
Entretanto, um outro cientista social, o norte-americano Fredric Jameson, de-
senvolveu um arsenal teórico sobre a mesma problemática. Dado um conjunto alar-
gado de ponte(o)s comuns entre os dois autores, retratar-se-á apenas o que distingue
um do outro, ou seja, as contribuições mais relevantes de cada um dos autores. En-
quanto Harvey fixa a sua percepção científica na ponte entre as alterações econó-
micas e a readequação das instâncias culturais, Jameson concentra esforços na es-
pecificidade cultural do pós-modernismo no seio das formações sociais capitalistas.
Rejeitando que toda a vida cultural se esgote no pós-modernismo, o autor sus-
tenta a asserção de que “o pós-moderno é o campo de forças em que os diferentes
tipos de impulsos culturais fazem o seu caminho” (Jameson, 1993, p. 6). Ao longo
de toda a sua obra, Jameson irá regressar a este item, reforçando a ideia de que a he-
gemonia cultural14 do pós-modernismo releva para a “possibilidade de recodificar

que exacerba o grotesco. Em paralelo, esse carácter de imediatez e superficialidade ajuda a


promover representações colectivas acerca da pobreza e da fome na chamada periferia do
sistema capitalista internacional como fenómenos fatalistas e impossíveis de serem erradi-
cados, quando muito, minorados. A repetição de reportagens imageticamente semelhantes
sobre o mesmo tema – e com o mesmo ângulo de perspectivação – reforça ainda mais um
sentimento de “inevitabilidade” desses fenómenos. Aqui, a banalização do visionamento
de tais reportagens pode, em termos probabilísticos, caminhar de par em par com uma
crescente insensibilidade em relação a esse tema. Correlativamente, é possível assistir-se a
uma maior fragilidade dos laços de solidariedade com as populações que vivem em situa-
ções de pobreza extrema.
14 “Descrever o pós-modernismo em termos de hegemonia cultural não passa por sugerir
uma massiva e uniforme homogeneidade cultural no campo social mas precisamente ter
a noção da sua coexistência com outras forças resistentes e heterogéneas e da sua vocação
para as dominar e incorporar” (Jameson, 1993, p.159) [grifos nossos]. Sente-se aqui uma
proximidade evidente com o conceito gramsciano de hegemonia: “a hegemonia pressupõe
que se tomem em atenção os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais se exerce
essa mesma hegemonia e que um certo equilíbrio e compromisso deve ser formado” (Gra-
msci, 1978, p.161) entre múltiplas forças em tensão recíproca. Conserve-se a lógica de que

86
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

vastas quantidades de discursos pré-existentes (noutras linguagens) num novo có-


digo” (Jameson, 1993, p. 395). Hegemonia cultural que não depende de dispositivos
de coerção física, nem de puras e inevitáveis imposições normativas, mas na qual
a “conquista da hegemonia discursiva” nas diversas linguagens do espaço social
– linguagem quotidiana, linguagem política, linguagem mediática, linguagem pu-
blicitária, linguagem académica e científica – é sistematicamente produto de “lutas
discursivas” (Jameson, 1993, p. 207) entre agentes, grupos e classes sociais. A pre-
sença de focos de conflito social no plano do discurso é evocada por Octávio Ianni:

A visão do mundo delineada na língua não é isenta de tenções, hiatos ou


contradições, já que leva consigo algo ou muito do jogo das forças sociais,
compreendendo disparidades e desigualdades. Em geral, a visão do mundo
predominante em dada língua e em dada época pouco expressa do que se
pode considerar a perspectiva de grupos sociais e classes sociais subalter-
nos. Os subalternos, para se manifestarem e revelarem as suas visões alter-
nativas ou não, precisam apropriar-se não só das formas mas também dos
segredos da linguagem dominante. (Ianni, 1999, p. 52)

Por conseguinte, o discurso, a palavra, o símbolo e a imagem são alguns dos


vértices do polígono social global em disputa pelos vários grupos sociais que se
movimentam na paisagem social. Visualiza-se aqui, mais uma vez, como a inter-
penetração do material com o simbólico perpassa a tecitura social contemporâ-
nea. Números, palavras, imagens, simbologias e representações subjectivas não
são epifenómenos ou reflexos puros da base material do real social, mas elementos
constituintes (e constituidores) do real, interagindo contraditória e complexamen-
te com o material.
O pós-modernismo será, nesse âmbito, perspectivado como uma bateria ideo-
lógico-cultural15, que não é um derivado ou uma colagem da acumulação flexível
na esfera cultural, mas é uma entidade relativamente autónoma, embora integra-
da16 na estrutura global do modo de produção capitalista. Nomeadamente, na for-

a hegemonia – cultural ou outra – não se exerce de forma unívoca e que ela é possível na
exacta medida em que se baseia num sistema de compromissos e numa rede de relações que
amarra as concepções não hegemónicas a determinados desígnios dominantes.
Por outro lado, Jameson considera que “se não atingirmos um conhecimento geral de que
se trata de uma cultura dominante, então cairemos na visão da história presente como uma
heterogeneidade aleatória” (Jameson, 1993, p. 6). Portanto, facilmente se cairia nas armadi-
lhas ideológicas da lógica cultural do pós-modernismo.
15 Não esquecer que, para Jameson, o pós-modernismo tem “uma base e um conteúdo de
classe” (idem, p. 318) [grifo nosso].
16 “Actualmente, a produção estética foi integrada na produção de mercadorias: a frenética ur-
gência económica de produzir novas vagas de produtos aparentemente cada vez mais novos
(da roupa aos aviões), em taxas de rotação cada vez maiores, e a cultura assumiu este como

87
CAPÍTULO 5

ma como esse configura-se actualmente na sua globalidade económica, política e


cultural. A assunção do pós-modernismo como a lógica cultural dominante na re-
cente fase de desenvolvimento do capitalismo é particularmente bem-trabalhada
por Fredric Jameson aquando da sua reflexão sobre a cultura do simulacro.
Esta, por seu turno, alarga a sua expressividade a partir do momento em
que na sociedade “o valor de troca se tenha generalizado a tal ponto em que a
memória do valor de uso é obliterada” (Jameson, 1993, p.18), isto é, esfuma-se
do horizonte de significados dos agentes sociais. Melhor dizendo, quando o va-
lor de uso – ou seja, as utilidades e necessidades sociais – é determinado menos
pela subjectividade simbólica dos agentes sociais e mais pela inscrição de bens
e serviços (culturais ou outros) no core da valorização do capital, a cultura do
simulacro adquire vitalidade.
A dialogia entre objecto e sujeito não é apenas revertida (vd. secção sobre
o fetichismo da mercadoria), mas também a percepção e a avaliação simbólica
(colectiva, grupal ou individual) do objecto (no capitalismo, uma qualquer mer-
cadoria) deixam de depender da instrumentalidade que este tem para aquele. O
sujeito passa a consumir o objecto em ordem a rentabilizar a propriedade comum
a todos os objectos-mercadoria: a reprodução incessante e desejavelmente cres-
cente do volume de capital. O valor de uso, mais do que apenas subsumido ao
valor de troca, é produzido por este último. A cultura do simulacro é, assim, um
desdobramento da realidade cultural do pós-modernismo e que, como se pode
constatar, compartilha pontos comuns com o fetichismo da mercadoria. Por ou-
tro lado, a cultura do simulacro típica do pós-modernismo agrava a inversão en-
tre sujeito e objecto no capitalismo, na medida em que resguarda essa inversão,
não a assumindo facticamente. A esse título, a imagem pós-modernista terá um
papel relevante, asseverando-se como potente executor (e motor) da cultura do
simulacro em toda a esfera cultural.
Em termos de características da realidade cultural do pós-modernismo, de-
brucemo-nos, em diante, sobre as mais significativas na obra de Jameson:

a) o minimalismo estético. Ponto de partida de Jameson: “a emergência de


um novo tipo de planura ou de superficialidade no seu sentido mais lite-
ral, provavelmente a característica formal suprema dos artistas pós-mo-
dernos” (idem, p. 9).

uma função e uma posição estrutural e essencial na inovação e na experimentação estéticas”


(idem, p. 4-5).

88
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

A redução da obra a um conceito17 – abertamente enunciado como tal ou


simplesmente afigurado como um enunciado aleatório e não-significante – e a
redução de malhas de sentido a um fulcro quase único, no qual temas como a
incomunicabilidade, o quotidiano caótico, a fragmentação de camadas de expres-
sividade estética ou o mero espelhar de técnicas sobrepostas num objecto artístico,
redimensionam a arte contemporânea. Assim, a busca de um conceito mínimo na
produção artística caminha lado a lado com a minimização de uma conceptuali-
zação densa da produção artística. Nem o domínio da técnica artística afigura-se
como um pilar nevrálgico, nem a concatenação (racional/coerente) de múltiplos
tabuleiros de significação surgem como vectores estruturantes da arte contem-
porânea. Essa tendência, evidentemente com excepções, para o minimalismo18
estético, repercute-se numa afecção à superficialidade e ao imediatamente visível.

b) a imagem. Ponto de partida de Jameson: “a genealogia orgânica do pro-


jecto colectivo burguês tornou-se entretanto numa vasta colecção de ima-
gens, um multiforme simulacro fotográfico” (idem, p. 18).

A presença marcante da imagem na realidade cultural contemporânea mais


recente imprime novos contornos à própria arquitectura. Pelo menos, essa é a po-

17 O escritor e poeta português Pedro Mexia avança no mesmo sentido: “Quando Walter Ben-
jamin escreve, no famoso ensaio de 1936, que ‘a reprodução mecânica emancipou a obra
de arte da sua dependência parasítica em relação ao ritual’, passa a certidão de óbito ao que
chamou a ‘aura’.
A ‘aura’ do objecto artístico enquanto objecto único. A ‘aura’ enquanto estatatuto social e
simbólico.
Mas nessa época a arte e o artista perdiam também outra ‘aura’. Com poucas excepções
(geralmente na ‘cultura de massas’), a arte deixou de ter importância social. E o artista
deixou de ter influência e vassalagem. Desde aí foi sempre em queda. A arte ainda mantém
um prestígio simbólico vago, os artistas ainda saltitam pelas migalhas do poder, mas é
fim de festa. Acabaram-se os Victor Hugos. E acabou-se, graças aos céus, isso dos ‘una-
cknowledged legislators of the world’ que Shelley atribuiu aos poetas e que tanto mal fez.
Reduzida à sua expressão mínima e às suas minorias mais ou menos tribais, a arte ganhou o
estatuto mais valioso de todos: o de gloriosa inutilidade” (Mexia, 2007) [grifo nosso].
18 Na música, atente-se no deslizar do estilo rock para este minimalismo. A banda norte-ame-
ricana White Stripes e fundamentalmente o seu hit “Seven nation army”, estruturado em
torno de uma batida rítmica monotónica e na simplicidade do agrupamento de acordes da
guitarra, são, provavelmente, o exemplo mais icónico do rock alternativo desde o fim das
grandes bandas de rock e punk-rock com o grunge no início dos anos 90 (Queen, Led Ze-
ppelin, Pink Floyd, Guns’n roses, Nirvana, etc.). Os únicos sobreviventes desse tempo – os
irlandeses U2 – não representam, hoje em dia, mais do que mero movimento de incorpo-
ração das grandes bandas de estádio num universo febril e imagético de uma construção,
também ela superficial e minimalista, das suas canções.

89
CAPÍTULO 5

sição de Fredric Jameson. Para esse pensador norte-americano, os “edifícios pós-


-modernos parecem desenhados para serem fotografados” (Jameson, 1993, p. 99),
portanto, na sua dimensão estética, são feitos mais para impressionar pela sua di-
mensão visual e imediata do que pela sua monumentalidade, pela grandiosidade
histórica, pela sobriedade das linhas ou pela riqueza (económica, mas também
estética) dos materiais. Assim, são edifícios impactantes visualmente e com uma
carga imagética vincada, capazes de fazer sobressair mais os seus contornos estéti-
cos e menos a sua função ou o seu enraizamento no complexo urbano circundante.
Nesse sentido, os edifícios construídos no quadro da realidade cultural do
pós-modernismo correspondem ao “relaxamento relativamente às construções
modernas, onde os seus elementos e componentes flutuam a uma certa distân-
cia uns dos outros quase que numa miraculosa suspensão, como as constela-
ções” (idem, p.100). Por outras palavras, a sobreposição de camadas temporais
(e correlativas dinâmicas sociais) num edifício quase que obedece ao princípio
geológico descoberto por Charles Lyell no século XIX. Por baixo de um estrato
de fósseis mais antigos suceder-se-iam camadas de fósseis de outras espécies
evolutivamente mais recentes.
O conceito de wrapping (embrulhar), tomado como empréstimo por Jameson,
da arquitectura entra aqui em palco não apenas porque surge como um suporte de
duas camadas temporais distintas e que se integram num todo fragmentário. Na
realidade, o wrapping “sugere a forma com que os organismos reagem a corpos es-
tranhos”, recorrendo, para isso, “a elementos extrínsecos ou extrassistémicos me-
ramente por pertencerem ao passado” (idem, p.101). Noutros termos, por exemplo,
a presença de uma galeria de exposições dentro de uma antiga galeria fabril denota
o “efeito paradoxal de que” o novo e o presente “envolve o anterior”, assimilando-
-o, “descodificando os seus elementos” (idem, p. 103), forjando um novo olhar do
passado a partir do presente.

c) recuo do sujeito na arte contemporânea. Ponto de partida de Jameson: o


“desvanecer da afecção” (idem, p. 15) ao sujeito.

Em termos genéricos, Jameson calibra a sua linha argumentativa defendendo


que se procedeu na arte contemporânea ao “fim do estilo no sentido do seu carác-
ter único e pessoal, o fim de uma pincelada individual distintiva (simbolizada pela
emergência primordial da reprodução mecânica)” (idem). Poder-se-á perguntar
“se vivemos em sociedades crescentemente marcadas por padrões de estilos de
vida de teor individualista como se afigura plausível remeter a arte contemporâ-
nea para tal formulação?”. Na obra de Jameson, não se encontra a assunção de que

90
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

o artista teria perdido a aura de indivíduo criador, criativo e autossuficiente na


produção das suas obras.
A questão colocada aqui é que, na sequência do explicitado acima acerca do
minimalismo estético, o artista não busca tanto a inscrição de um traço original
ou de um estilo de pintura/escrita/desenho, etc. capaz de defini-lo, mas antes seria
a sua organização específica de materiais que lhe daria uma identidade reconhe-
cida como sua. Esse afastamento do artista do traço19 enquadra-se num fenómeno
paralelo de descentramento do sujeito humano na obra de arte. Não se trata ape-
nas do quase desaparecimento da representação do seio da obra de arte contem-
porânea, mas, com maior realce, da saída de cena do sujeito humano enquanto
entidade figuracional nas artes plásticas das últimas décadas.

No que toca às expressões, sentimentos ou emoções, a libertação, na socie-


dade contemporânea, da anterior anomia (lembre-se “O Grito” de Munch)
do sujeito centrado (em si mesmo e monádico característico do modernis-
mo) significou não meramente uma libertação da ansiedade mas uma li-
bertação de qualquer tipo de sentimento, no sentido em que não existiria
um eu presente para expressar esse sentimento, um sentido. Isto não quer
dizer que os produtos culturais do pós-modernismo estejam despojados
de sentidos, mas estes estão hoje pairantes e impessoais, dominando uma
espécie de euforia (idem, p. 15-16).

Portanto, a obturação do sujeito humano do seio do horizonte significacio-


nal expressa-se, por exemplo, na Pop Art. Nem iremos às canónicas latas de sopa
Campbell (1968), nas quais a invasão de objectos quotidianos de consumo de mas-
sas espelharam-se como novos objectos (centrais) da arte contemporânea. Por
conseguinte, atente-se nos quadros de Andy Warhol sobre Marilyn Monroe e Mao
Tsé-Tung. A inclusão de uma celebridade cinematográfica e de uma figura polí-
tica de largo impacto internacional em duas telas não constitui meramente uma

19 Os estudos de Peirce sobre o traço são exemplarmente abordados pelo arquitecto brasileiro
Sérgio Ferro: “índice é vestígio, marca de um contacto efectivo, físico, um fóssil de uma
acção sobre um material. É fácil perceber a importância que tem para o estudo do trabalho,
da memória que o gesto produtivo deixa na matéria. Mas a ‘trace’ não é somente índice: no
trabalho há propósito, intenção – o que amplia enormemente o campo estreito do índice”
(Ferro, 2006). O mesmo autor fala ainda no “papel fundamental do revestimento” na histó-
ria da construção civil: “apagar as ‘traces’ do trabalho, eliminar a presença do operário na
obra que constrói: o revestimento, ao lado de outras muletas, serve à fetichização da merca-
doria, faz o construído parecer não-construído, o valor parecer atributo da coisa” (idem). Ao
mesmo tempo, “a hemorragia de revestimentos, desmaterialização e efeitos de circo encobre
o desprezo pelo fazer – mesmo o fazer sumariamente respeitável. O pós-modernismo e as-
sociados (…) representam o prazer mórbido do dominador ao poder sem exibir sem recato
a extensão absurda do seu poder, o grotesco do abuso” (idem).

91
CAPÍTULO 5

banalização de tais personagens históricas. Em conjunto, a “colagem” do rosto de


personalidades polémicas e mediatizadas à tela expressa igualmente uma explosão
do choque. O inesperado criado pelo quadro não procura tematizar esteticamente
o valor artístico de Marilyn ou a linha política de Mao, mas passa antes por ins-
crever duas figuras humanas mundialmente reconhecidas num substrato artístico
que subsume o conteúdo da obra à sua expressividade cromática particular – as di-
ferentes cores com que pinta o mesmo rosto fotocopiado de cada uma das persona-
lidades – e que aviva enormemente o impacto visual/imagético do objecto-pintura.
Atente-se também ao uso do termo “figuras” para descrever a presença de
Marilyn e de Mao na obra de Warhol. Explicitando, o elemento que sobreleva des-
ses quadros não é a pessoa humana, seja a sua vida privada ou pessoal, sejam os
princípios mais salientes que marcaram Marilyn e Mao nas suas áreas de activi-
dade. Sintomaticamente, esses quadros de Andy Warhol captam o rosto mediático
dessas personalidades, a sua fama e notoriedade no star system e na cena política
de então. Warhol capta e difunde as marcas Marilyn e Mao como se fossem de um
logótipo de uma empresa ou de um produto se tratassem. O sujeito é comprimido,
literalmente, no seu nível facial.

d) a história desestoricizada. Ponto de partida de Jameson: uma “crise na


historicidade” (idem, p. 125)

Segundo o autor,

se o sujeito perdeu a sua capacidade de activamente estender as suas pré(e)-


-tensões e re-tens(ç)ões ao longo de uma trajectória temporal20 e de organi-
zar o seu passado e futuro numa experiência coerente, torna-se difícil ver
como as produções culturais que englobem o sujeito não resultem em algo
mais do que “sucessões de fragmentos” e numa prática de heterogeneamen-
te aleatórios fragmentos (idem, p. 25) [de vida].

Na prática, “no pós-modernismo o passado desapareceu (bem como um ‘sen-


tido do passado’ ou uma historicidade ou uma memória colectiva)”. O passado
sobrevive como “simulacro. Tudo é planeado e organizado”, como se houvesse um
tempo só, como se altos-fornos ou moinhos integrados em equipamentos não fos-
sem locais de produção do passado, mas recriações do passado por meio do olhar

20 Vd. a abordagem de José Machado Pais sobre as trajectórias ió-ió no caso dos jovens traba-
lhadores alvo de níveis intensos de precariedade laboral (Pais, 2001, p. 65-83).

92
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

do presente: de um presente alavancado na cisão com a sua raiz histórica, de um


presente indutor de imagens fragmentadas e recortadas do passado.
“Não há não-simultaneidades nem não-sincronias” (idem, p. 309-310), mas o
tempo (passado e um futuro de possíveis) afogam-se no interior de um presente
que funciona – ou pretende funcionar – como um jogo infinito de espelhos. Um
jogo infinito de múltiplos e incontáveis espelhos requebrados que, nas suas re-
flexões e refracções de luz e de sombra sobre o real, criariam a noção de que fora
daquele caleidoscópio nada de mais humano existiria.
Num tom teórico relativamente aproximativo com o desenvolvido, neste
tópico podemos encontrar um interessante artigo de Paulo Peixoto sobre os
centros históricos. Abordando a temporalidade da constituição dos chamados
e autodesignados centros históricos pelas entidades autárquicas respectivas,
esses locais carregam não somente marcas do passado, mas invocam uma per-
tinente interrogação “porque se apresentam como históricas cidades que estão
claramente apostadas em se modernizarem recorrendo a elementos do seu pas-
sado?” (Peixoto, 2003, p. 216).
Com efeito, o passado é seleccionado pelos parâmetros dominantes do pre-
sente, mas ele próprio surge, consequentemente, como padronizador de percep-
ções do presente, atribuindo uma linha de continuidade às cidades. No limite, o
passado condensa-se como um sedimento do presente, por outras palavras, como
um elemento constitutivo do presente. Um presente que integra a tradição e os
monumentos como modalidades de consumo (turismo como um mercado). A li-
gação processual do passado com o presente perde-se. O passado congela-se num
presente que se quer (apresentar como) único. A relação passado-presente perde
a sua processualidade e adquire um tom de festividade do passado na voracidade
consumista do presente.
O nó de ligação no qual se enovelam identidade, passado, presente e recon-
figuração do tecido urbano passa, naturalmente, pela presença, pelo lugar e pelo
papel de mediador dos equipamentos urbanos de chamariz. De facto, a presença do
passado na constituição dos centros históricos reveste-se de importância acrescida
na medida em que esse passado surge subsumido à lógica do presente. Lógica essa
social, económica e temporal do presente. Do passado, subsistem fachadas requa-
lificadas e a reconversão de espaços. Esse passado não tem, todavia, apenas uma
vertente decorativa. Antes é “uma sequência, um traço de união entre dois momen-
tos temporais” (Fortuna, 1999, p. 33), significando que esse passado não surge na
sua inteireza, mas é filtrado pelo presente, revelando as conexões que a este último
mais colhem interesse. O passado contemplado galvaniza, de um lado, o passado
glorioso – daí o realce dado aos altos-fornos – do que alguns autores chamam das

93
CAPÍTULO 5

actuais sociedades pós-industriais (Bell, 1976; Lash e Urry, 1987; Castells, 2005). De
outro lado, o passado presente no corpo dos edifícios actualmente pertencentes à
categoria de arqueologia industrial reconvertida aponta para uma obliteração da
actividade social que ali se desenrolava preteritamente: ou seja, o trabalho.
Que as modalidades técnicas e até mesmo jurídicas do trabalho de hoje sejam
distintas das do passado, nada nos deve levar a crer que a actividade de produção e
circulação de valor económico a partir do despojamento de uma larga camada da
população dos recursos sociais de produção, isto é, o trabalho assalariado, tenha
desaparecido. Desse modo, a omissão do trabalho ou, se se preferir, o seu congela-
mento temporal como se de um fóssil arqueológico se tratasse, ajuda a criar novos
veios simbólico-ideológicos de significação colectiva e individual, os quais procu-
ram fazer crer que vivemos em sociedades unicamente ancoradas no conhecimen-
to e na informação, onde o trabalho humano e, mais concretamente, o trabalho
assalariado produtor de mercadorias seriam uma relíquia do passado.
Por conseguinte, o equipamento cultural de constituição de novas centralida-
des urbanas agrega tendências sociais e dinâmicas temporais. Essas evidenciam
que a produção ideativa de representações colectivas e de identidades – as teses
do fim da história, do trabalho e das classes sociais, ou a reificação em torno da
sociedade do conhecimento (como se este não fosse produzido pelo labor humano,
mas um recurso apriorístico e apreendido quase naturalmente) –, por um lado,
se expressam na própria edificação de equipamentos urbanos e, por outro, como
esses equipamentos redimensionam tendências sociais gerais e lhes dão uma con-
creção mais palpável e real.
Todo esse domínio de problematização parece ir ao encontro da “tendência
para uma generalizada estetização do quotidiano e a mercadorização do próprio
tempo e da própria memória” (Fortuna, 1999, p. 35). No fundo, a estetização do
passado – reduzindo-o a uma discursividade imagética de celebração e de memó-
ria descontextualizada das situações concretas de sociabilidade que ali existiam –
auxilia e complementa o processo de configuração urbana pautado pela partitura
da governança urbana regida pelo empreendedorismo (vd. Harvey, 2005).

e) a estetização da vida quotidiana. Ponto de partida de Jameson: a “esteti-


zação da realidade” (Jameson, 1993, p. x) como modalidade de “coordenar
novas formas de práticas e de hábitos sociais e mentais” (idem, p. xiv).

Para o autor norte-americano, a estetização da vida quotidiana refere-se ao pro-


cesso de tornar o corpo, os objectos, os espaços e as vivências humanas em outros
tantos elementos de fecundação de uma visão e celebração hedonística, tomada como

94
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

estilisticamente bela. Esse processo global – a ser amplamente desenvolvido na nossa


tese de doutoramento – repercute-se em nível da tendência para tornar as esferas da
vida social em elementos de cultura, ou seja, ocorre, segundo Jameson, uma paralela
dinâmica de culturalização dos diversos campos do espaço social.

(a) dissolução de uma esfera autónoma da cultura pode ser imaginada em


termos de uma explosão: uma prodigiosa expansão da cultura para dentro
do real-social, ao ponto de tudo na nossa vida social – desde o valor econó-
mico e do poder de Estado até às práticas e à própria psique – se tornaria
“cultural” num sentido original e ainda não teorizado. Esta proposição é,
todavia, substantivamente bastante consistente com os anteriores diagnós-
ticos de uma sociedade da imagem ou do simulacro e da transformação do
“real” em vários pseudo-eventos (idem, p. 48) [espartilhados].

Por conseguinte, não se trata somente da penetração dos mecanismos normais


de atribuição de sentido à acção social que definiria a culturalização/estetização21
da vida quotidiana. Cada acto social se consubstanciaria, nessa dinâmica, num ges-
to artístico de desenho harmonioso, ornamentado e sensual da vivência quotidiana.

f) o espaço. Ponto de partida de Jameson: “mesmo se tudo é espacial, esta


realidade pós-modernista é apesar de tudo mais espacial do que qualquer
outra coisa. Saber porquê é mais fácil do que saber como. A predilecção
pelo espaço entre os teóricos pós-modernistas é facilmente compreensível
como uma reacção previsível (e geracional) contra os críticos e os teóricos
do modernismo, em que vingavam teorias canonizadas sobre a tempora-
lidade” (Jameson, 1993, p. 365): ideia de Progresso, Iluminismo, Marxis-
mo, Socialismo, etc.

Se só há espaço e não há tempo, existe uma cristalização das estruturas sociais


ao longo do tempo. Ou seja, se o tempo na realidade cultural do pós-modernismo
convoca uma elisão selectiva do passado e um apagamento de horizontes possíveis
de futuro, o espaço, tendencialmente, é construído como uma estrutura fixa, física
e onde a produção das sociabilidades humanas se registam dentro desse tom.

21 De facto, esse fenómeno congrega a noção de que a relação entre subjectividade humana e
mercantilização/mercadorização expande-se de tal modo que, dos movimentos de merca-
dorização da obra de arte, conclui-se que reproductibilidade e raridade não fundamentam
dois caminhos inseparáveis e antagónicos (Santos, 1994). Inversamente, funcionam como
uma parelha diádica e complementar, evidenciando-se como duas faces da mesma moeda:
a submissão (que nada tem a ver com substituição) da configuração e da mecânica interna
do campo artístico às necessidades de valorização do capital.

95
CAPÍTULO 5

g) pós-modernismo como cultura da classe média?. Ponto de partida de Jame-


son: será o “pós-modernismo um ethos ou um estilo de vida de uma nova
pequena-burguesia, de uma classe profissional/gestora ou mais sucinta-
mente de “yuppies” (expressões carregando um pouco das representações
sociais concretas sobre o fenómeno)” (p. 405)?
Segundo a conhecida formulação de Mike Featherstone, o pós-modernismo e
as novas culturas de consumo (pastiche, kitsch, re-design, iconografia, etc.) seriam
apanágio do que o autor denomina de novos intermediários culturais22 (Feathers-
tone, 1996). Jameson não rejeita a génese estritamente cultural do pós-modernis-
mo junto daquela camada social. Todavia,

esta identificação de um conteúdo de classe na cultura pós-modernista não


implica de todo que os yuppies se tenham tornado numa nova classe domi-
nante, mas que as suas práticas culturais e seus valores, as suas ideologias
locais, articularam um paradigma cultural e ideológico dominante útil
para a actual fase do capital (Jameson, 1993, p. 405)[: o capitalismo tardio].

Assim sendo, “é igualmente comum que formas culturais prevalecentes num


período particular não sejam fornecidas pelos agentes principais da formação so-
cial em questão” (idem), como, por exemplo – e tomando as devidas distâncias – o
fascismo. Por outras palavras, o facto de sectores das chamadas classes médias
terem desenvolvido um novo ordenamento da esfera cultural, tal não obsta que a
realidade cultural do pós-modernismo desenvolva mecanismos relevantes de do-
minação simbólico-ideológica, reprodutora da esfera económica, na qual a gran-
de burguesia assume-se como classe dominante. Ou seja, as diferentes origens de

22 A emergência dos novos intermediários culturais em Mike Featherstone pode ser retratada
da seguinte forma. Estes agentes sociais (directores de instituições culturais, engenheiros
de publicidade, directores e editores dos media, animadores culturais, mecenas, comis-
sários de exposições, opinion makers, animadores de espaços culturais alternativos, etc.),
no dizer do autor, “activamente promovem e popularizam o estilo de vida dos intelectuais
e artistas numa audiência muito mais vasta” (Featherstone, 1996, p. 125). Dessa forma, a
difusão dos fenómenos de estetização do self não é apenas espontânea, mas provém de uma
articulação de um determinado grupo social no quadro de instituições culturais específi-
cas: os museus e as galerias de arte contemporânea, os novos espaços culturais alternativos
ou a televisão e os jornais. É daqui que surge a proposição do autor de que o pós-moder-
nismo “ajuda a colapsar algumas das antigas barreiras e hierarquias simbólicas baseadas
na distinção entre a alta cultura e a cultura de massas” (idem, ibidem). No fundo, a tese de
Featherstone é a de que os novos intermediários culturais, portadores de uma cultura de
consumo, no fundamental, idêntica ao pós-modernismo, projectam-na nos grandes meios
de comunicação social e nos espaços culturais mais pujantes. Ora, o espalhar da cultura
pós-moderna sob o efeito de uma mancha de óleo por toda a paisagem social, consubs-
tancia-se na tendencial formação de uma cultura liberta da distinção e de fenómenos de
superioridade cultural como o etnocentrismo ou o elitismo.

96
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

classe da distinção e do pós-modernismo não obstam a que este último se expresse


como um substrato simbólico-ideológico de classe, amplamente favorável à repro-
dução e à expansão da dominância societal global da burguesia, não necessitando
essa de o pós-modernismo derivar de uma cultura específica da classe em questão.

II.C – O fetichismo da mercadoria como mediador entre o mercado e a esfera


ideológico-simbólica
Pelo que temos vindo a expor sobre o pós-modernismo e os respectivos nós
relacionais entre cultura e economia, parece-nos oportuno repescar algumas das
mais fecundas contribuições de Karl Marx acerca do fetichismo da mercadoria.
Esse constrói um elo de ligação a não desprezar entre as instâncias económica
e cultural tanto no maior nível de abstracção – o modo de produção capitalista
– quanto num plano de elevada concreção histórica – o actual período de desen-
volvimento histórico do capitalismo que articula o regime de acumulação da acu-
mulação flexível com a realidade cultural do pós-modernismo.
Do ponto de vista de Marx, a mercadoria é “a forma económica celular” (Marx,
1990, p. 6) do metabolismo económico capitalista. Um dos factos mais “misterio-
sos” e intrincados da vida económica contemporânea reside na forma de como as
mercadorias se trocam no mercado capitalista. Ultrapassada a troca por géneros,
que fundamento social e económico justifica a troca monetária como expressão
quantitativa do intercâmbio mercantil? Segundo Marx, não são propriedades físi-
cas (o volume, o peso, a forma) ou sequer necessidades e utilidades sociais de cada
mercadoria que permitem a troca de mercadorias. Na verdade, o capital-dinheiro
medeia essa troca na exacta medida em que essas comportam um conteúdo co-
mum extrassensorial passível de ser quantificado a posteriori: a substância do va-
lor. Segundo o economista brasileiro Reinaldo Carcanholo, o valor “é resultado da
existência de certo tipo de relações sociais de produção entre os produtores, de re-
lações mercantis de produção que se expressam nas coisas, como um qualidade so-
cial destas: como valor” (Carcanholo, 2002, p.11), com a sua substância. Portanto,
esta última, nas palavras de Marx, implica que a “igualdade de trabalhos humanos
diversos só pode consistir numa abstracção da sua real desigualdade, na redução
do carácter comum que eles possuem como dispêndio de força de trabalho huma-
no, de trabalho humano em abstracto23” (Marx, 1990, p. 89) [grifo nosso]. Trabalho

23 Para Marx, o trabalho no capitalismo agrupa duas modalidades distintas, com poder de
determinação por parte de uma delas, isto é, do trabalho abstracto sobre o trabalho con-
creto. Este é definido partindo do pressuposto de que “todo o trabalho é dispêndio de força
de trabalho humana de uma forma particular e com um fim determinado, e nesta qualidade
de trabalho útil concreto produz valores de uso” (Marx, 1990, p. 58) [grifo nosso]. Portanto,
o trabalho é aqui identificado como actividade transformadora da natureza e que tem pos-

97
CAPÍTULO 5

abstracto produtor de valor que opera como nivelador das trocas mercantis, em
detrimento das propriedades específicas e subjectivas de cada mercadoria. Por-
tanto, a coagulação objectiva de trabalho humano indiferenciado24 numa merca-
doria está, assim, na base da estruturação da vida económica, cuja a passagem da
actividade-trabalho (abstracto) para o objecto mercadoria-valor coincide com o
mecanismo de apropriação do excedente económico pelos proprietários de capital.
Por conseguinte, os produtores assalariados – trabalhadores produtivos e
trabalhadores improdutivos25 – só voltarão a tomar contacto com o conjunto so-
cial total de mercadorias produzidas por si em todas as unidades produtivas no

tulado as suas propriedades particulares como um ingrediente basilar na sua constituição.


É uma modalidade de trabalho transversal a todos os modos de produção. Pelo contrário,
o trabalho abstracto é específico do capitalismo. No fundo, é uma forma particular de
trabalho que sobrepuja o tecido social e económico no modo de produção capitalista e se
assume como um balizador universal da dinâmica produtora de riqueza – no capitalismo,
sob a forma de mercadorias – por meio da redução de todo e qualquer trabalho concreto a
trabalho indiferenciado e contável pela métrica “tempo socialmente necessário”. Por essa
razão, o trabalho abstracto – produto da cisão produtores/meios de produção – é “dis-
pêndio da força de trabalho humano no sentido fisiológico, e nesta qualidade de trabalho
humano igual ou trabalho humano em abstracto ele forma o valor das mercadorias” (idem).
24 Trabalho indiferenciado no sentido em que as propriedades particulares e subjectivas da
execução de uma actividade-trabalho não têm qualquer significado nas trocas estritamente
económicas. Assim, o que comanda o modo como os homens organizam a utilização, ma-
nuseio e optimização dos recursos económicos disponíveis não é o seu repertório diversi-
ficado de necessidades humanas. Ao inverso, a redução de tudo o que é particular, criativo,
específico de um determinado tipo de trabalho concreto a uma quantificação completa de
toda a actividade produtiva é o reflexo da cisão trabalhadores/meios de produção, conse-
quentemente, da desapropriação do trabalho e dos produtos de trabalho para a posse da
burguesia, a classe que, no seu conjunto, constituiu-se como economicamente dominante
no modo de produção capitalista.
25 O trabalho improdutivo diz respeito apenas à esfera da circulação do capital (fase da venda
de mercadorias no mercado – passo necessário à realização do valor previamente criado/
produzido na esfera da produção) e é nesse espaço que “o trabalhador não produz mais-
-valia, mas apesar disso é expropriado de trabalho excedente. Na verdade, o trabalhador
improdutivo produz um determinado valor de uso (por exemplo, um serviço), ao mes-
mo tempo que vê o seu trabalho excedente ser apropriado pelo capitalista comercial. Isto
significa que aquele toma parte tanto num processo de trabalho, como num processo de
produção de trabalho excedente, onde este último domina o primeiro. Como regra geral,
todo o trabalho empregue na circulação do capital, isto é, no campo da transformação
de capital-mercadoria (M) em capital-dinheiro (D’) corresponde a trabalho improduti-
vo” (Carchedi, 1977, p. 9-10). O trabalho produtivo corresponde à actividade-trabalho que
transforma um determinado objecto numa mercadoria que comporta valor económico,
por intermédio da interacção trabalhador/meios de produção. Como afirmou Marx, “só é
produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou que serve para a au-
tovalorização do capital” (Marx, 1992, p. 578). Por conseguinte, os conceitos de produtivo
e improdutivo não têm nenhuma carga de ordem moral ou axiológica, respeitando apenas
os posicionamentos distintos nas esferas da produção e circulação do capital.

98
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

momento da troca. Tal fenómeno torna opaco o significado nuclear do trabalho


assalariado: a apropriação do valor gerado pelos trabalhadores na sua actividade-
-trabalho por parte da classe social (e suas múltiplas fracções) detentora dos meios
de produção e do poder de direcção e gestão do processo económico global. Em
termos de efeitos de cognição social colectiva, as mercadorias assomam perante os
seus produtores como “ figuras autónomas dotadas de vida própria e estando em
relação entre si próprias e com os homens” (Marx, 1990, p. 88) [grifo nosso]. Expli-
citando, a mercadoria circula no mercado, apresentando-se como que descartada
das relações sociais de produção que tornaram possível a sua essência de objecto
(material ou imaterial) portador de valor económico e, ao mesmo tempo, com um
“carácter de feitiço” (idem), com uma camada ideológica envolvente.
Desse modo, o ofuscamento das raízes sociais da mercadoria por meio do seu
fetichismo evidencia um tópico de análise a reter. As representações mentais e
as estruturas subjectivas derivadas do fetichismo da mercadoria não só demons-
tram, por um lado, que o universo cultural-ideológico-simbólico não é insepará-
vel do metabolismo económico, nem uma estr(e)ita excrescência adornadora da
mercadoria. Por outro lado, tais dimensões de codificação das percepções e com-
portamentos sociais impõem à mercadoria a sua exterioridade fenoménica, com
notáveis impactos em relação, por exemplo, à maior ou menor eficácia na indução
de padrões de consumo de uma dada mercadoria. Correlativamente, inscrevem-
-se novos sulcos na própria teia que sustenta as interacções e os relacionamentos
(macro e micro) entre os agentes sociais.
Nas palavras de Marx, o universo relacional na esfera económica entre produto-
res e apropriadores de excedente económico – e (inter)mediados pela manipulação
de instrumentos de produção – é soldado por uma carapaça ideológico-simbólica
que tem como predicados “relações coisais entre as pessoas” e “relações sociais en-
tre as coisas” (Marx, 1990, p. 89). Longe de se poder reduzir o raciocínio de Marx a
um jogo de palavras, afigura-se útil iluminar um pouco esta última fundamentação
teórica de Marx. Em termos muito simples, o sujeito (humano) transforma-se em
objecto (para a valorização do capital). Em paralelo, o objecto (capital-mercadoria)
consubstancia-se em sujeito social (vd. Supra; produção do valor de uso pelo valor
de troca), em função do qual a subjectividade humana se vai redefinindo e as estru-
turas culturais, apenas para mencionar essas, vão amarrando a sua lógica interna
de produção de sentido26 ao nomos27 do campo económico: a acumulação de capital.

26 Refira-se que tal lógica interna dos campos de produção cultural nunca desaparece mas é
subordinada e parcelarmente submetida aos intentos de valorização do capital e de eleva-
ção da produção (e posterior realização) do valor.
27 Conceito de Pierre Bourdieu, o nomos representa o “ponto de vista constitutivo de um
campo”, ou seja, é a “matriz de todas as questões pertinentes do campo, e que não pode

99
CAPÍTULO 5

Inspirados por esse conjunto de asserções de Karl Marx, chegaremos a uma defi-
nição que se situa no nível da percepção dos agentes sociais relativamente ao território
específico de produção da mercadoria. Essa definição levará como termo de classifi-
cação a expressão de transmutação imagética. Transmutação – no sentido em que o
movimento de inversão dos elementos constitutivos dos pólos da relação entre os pro-
dutores assalariados e a mercadoria – não substantiva somente uma transformação de
uma qualidade em outra, o objecto em sujeito e o sujeito em objecto. Adicionalmente,
o fetichismo da mercadoria imprime dinâmicas no plano da subjectivação humana
e social (portanto, cultural) que, por sua acção, induzem uma imbricação de uma
realidade simbólica na realidade material propriamente dita. Ou seja, às relações de
produção, portanto, à base social material da produção capitalista, acrescenta-se, de
modo constitutivamente inseparável, um véu ideológico-significacional o qual con-
verte no plano ideativo a mercadoria num sujeito social, no sujeito-matriz, se bem que
não único, de amplos comportamentos humanos na esfera cultural e do consumo.
A classificação de imagética a esse processo procura evidenciar, como o pró-
prio adjectivo aponta, o papel da imagem, do universo visual para a composição
dos significados sociais e individuais que o fetichismo da mercadoria contribui e
instila. De facto, o véu ideológico consubstanciado no e pelo fetichismo da mercado-
ria, redimensiona a perspectiva de apreensão simbólica dos agentes sociais acerca do
metabolismo económico. Uma das vias mais potentes de efectivação do fetichismo
da mercadoria passa – também – pela sua interpenetração com a dimensão visual
patente numa determinada realidade cultural. No respeitante a essa, o fetichismo da
mercadoria, em parelha com a cultura do simulacro, potencia o desenvolvimento de
uma série de tendências sociais por parte da imagem no pós-modernismo. Defen-
demos, pois, que o fetichismo da mercadoria, mais do que uma lógica das sensações
vistas no seu geral, é um mediador entre diferentes tabuleiros sociais – como as rela-
ções de produção assentes no trabalho assalariado, o contacto dos produtores com o
volume total das mercadorias produzidas no mercado e o campo simbólico-ideológi-
co-cultural –, reportando-se, nesse caso, especial e pormenorizadamente, à imagem,
ao instantâneo da imagem como modo de efectivação simbólica no tecido social.

Conclusão
Desde finais da década de 1970, a situação da generalidade das classes tra-
balhadoras ocidentais tem sido pautada por uma fragmentação orgânica e por
persistentes dificuldades de mobilização colectiva. Equaciona-se aqui não o de-

produzir as questões que sejam de molde a pô-lo em questão” (Bourdieu, 1998, p. 82), por-
tanto, é o “princípio oficial e eficiente de construção do mundo” (idem, p.165) no seio de
um dado campo, de uma dada instância social.

100
Da dominação simbólico-ideológica (directa) da classe à dominação simbólico-ideológica (indirecta) de classe

saparecimento absoluto da classe trabalhadora (Pakulski e Waters, 1993), mas o


retroceder histórico do seu protagonismo como voz identitária colectiva e como
agente mobilizador (Moody, 1997).
Concomitantemente, E.P.Thompson conceptualizou as classes como “forma-
ções culturais e sociais” (Thompson, 1991, p. 937), afirmando a cultura como
componente intrínseca à formação da classe trabalhadora. A esse propósito, pro-
curamos relacionar o actual cenário em que se encontram as classes trabalhado-
ras com a realidade cultural do pós-modernismo. Nessa perspectiva, a mudanças
económicas e políticas marcadas pela recomposição profunda do trabalho (Antu-
nes, 2000; Kovacs, 1998), pela financeirização galopante da economia (Chesnais,
2004) e pelo fenecimento do Estado-Providência face a concepções neoliberais
(Harvey, 2005), correspondem-lhe rearranjos no universo simbólico-cultural.
Rearranjos esses consubstanciados na cultura do simulacro e na estetização da
vida quotidiana, dois entre vários vectores simbólico-ideológicos tomados como
hegemónicos na (re)estruturação pós-modernista da esfera cultural.
Assim, a cultura do simulacro define-se pela pavimentação de um terreno
significacional no qual a “cultura de consumo e a televisão produziram um ex-
cesso de imagens e signos que, por sua vez, criaram um mundo de simulações”
(Featherstone, 1996, p.54). A sobreposição do simbólico com o material objecti-
varia um campo cultural desprovido de mecanismos de classificação, na medida
em que este teria se convertido numa mera circulação fluida de práticas e con-
sumos libertos de determinações sociais. Adicionalmente, a estetização da vida
quotidiana amplifica a clássica conceptualização sobre a “estetização da política”
(Benjamin, 1992, p. 113) rumo a uma “estética pura” presente em todos os com-
portamentos humanos e que teria obliterado “o poder económico diferencial dos
grupos urbanos”, desse modo substantivando-se como motor da vida social, a
busca dos sujeitos pelo “espectáculo” (Debord, 2010) e pela imagem.
Por conseguinte, procurou-se explicitar como os desdobramentos do pós-moder-
nismo operaram um processo de ocultação de traços de causalidade social no seio da
produção cultural contemporânea; e, paralelamente, uma desorganização das redes
de sociabilidade e dos “quadros de interacção” (Costa, 1999, p. 343-351) vigentes em
comunidades operárias até bem recentemente (Hobsbawm, 2005, p. 274-294; Sennett,
1992, p. 214; Aguiar, 2010). Sintetizando, defendemos como hipótese teórica nuclear
que a lógica ideológico-cultural do pós-modernismo cavalga a abertura de fissuras
nas possibilidades de autoidentificação e correlativa acção colectiva por parte da(s)
classe(s) trabalhadora(s), objectivo supremo e desejável por parte da classe dominante.
Assim, considerando as classes como um conjunto de práticas sociais objec-
tiváveis e classificáveis, parece-nos que um dos maiores desafios para as Ciências

101
CAPÍTULO 5

Sociais deste início de século passará por compreender o papel específico e hegemó-
nico do pós-modernismo na modulação dos processos que estão na base da crescente
e a tendencial aproximação das classes trabalhadoras ocidentais a um estado míni-
mo de organização e mobilização sindical, social e política.

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104
CAPITULO 6

Trabalho, classes sociais


e luta política

Henrique Amorim1

O
debate sobre a centralidade e não centralidade do trabalho, seguido pelo
debate sobre o trabalho imaterial, pertencem, conjuntamente, a uma
mesma problemática teórica. Têm como objetivo o rechaço teórico (de-
bate sobre a centralidade do trabalho) e a atualização (debate sobre o trabalho
imaterial) do marxismo. Aparentemente, são debates que se apresentam, na teoria,
de maneiras distintas. Contudo, referem-se a uma concepção comum de trabalho,
de classe social e de luta política: àquela desenvolvida e divulgada pelos partidos
comunistas na Europa sob influência do partido comunista soviético.
Nesses termos, quando indico tal concepção de trabalho, de classe trabalhado-
ra e de luta política, refiro-me ao trabalho restrito à indústria, por isso, produtivo
ao capital e que qualifica os trabalhadores ali existentes, somente eles, como po-
tencialmente revolucionários.
Esse universo produtivo e de luta política foi, durante a maior parte do século
XX, eleito como espaço central das lutas sociais anticapitalistas. Nesse sentido,
toda e qualquer mudança fora dessa natureza foi considerada reformista. Se o su-
jeito revolucionário já havia sido marcado a ferro e fogo, a única alternativa à teo-
ria social seria indicar o melhor quadro para a sua maturação política.
Em termos abrangentes, a estratégia política tinha como antessala a retomada
do controle dos processos de trabalho. Voltar a dominar o trabalho para, depois,
atingir o Estado, tomá-lo. A luta, porém, teria percalços, pois o operariado encon-
trava-se alienado tanto do processo quanto do produto do trabalho. A alternativa

1 Professor Adjunto de Sociologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Guaru-


lhos, Brasil. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Uni-
camp). Pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e na Uni-
versidade Estadual de Campinas (Unicamp). henriqueamorim@hotmail.com
CAPÍTULO 6

estaria em um processo de desalienação, em um reencontro com o trabalhador de


ofícios, aquele que conservara o seu saber-fazer.2
Portanto, a discussão sobre a centralidade do trabalho, assim como o debate
a respeito do trabalho imaterial, trazem consigo a influência dessa concepção de
trabalho, de classe social e de luta política. Na primeira discussão, o objetivo seria
o de romper com ela, pois a alternativa anticapitalista não estaria mais na fábri-
ca, a revolução não viria mais da fábrica e o capitalismo teria aprendido a viver
com suas próprias contradições sociais. Na segunda, sob insistente reprodução e
ampliação das formas de exploração e dominação na produção de mercadorias,
o trabalho e o valor são retomados como temas sociológicos. No entanto, algo
ainda deveria ser descartado. A teoria do valor-trabalho é supostamente colocada
em xeque e o trabalho imaterial surge, então, como forma tendencialmente pre-
dominante de produção. Sua existência implicaria, por consequência, na própria
superação do capital como relação social hegemônica no capitalismo.
A discussão realizada neste texto tem a intenção de mapear criticamente es-
ses debates na medida em que, ao explicitar as bases teóricas com as quais são
orientados, apresenta uma leitura distinta sobre o trabalho, as classes sociais e
a luta política. Para tanto, a discussão será fundamentada nos estudos de André
Gorz, autor representativo desse movimento de abandono das categorias de aná-
lise marxistas e, posteriormente, de sua retomada, mesmo que sob novos moldes.
Nesse sentido, a obra de Gorz apresenta-se de forma emblemática para a análise
e crítica dessa discussão.

O debate sobre a centralidade do trabalho

A conjuntura na qual surge o debate sobre a centralidade do trabalho foi


marcada pela ascensão do neoliberalismo de Margaret Thatcher, na Inglaterra,
em 1979, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, em 1981, pela desestruturação
política e econômica da União Soviética e, ainda, pela ofensiva do capital ativada
pela reestruturação produtiva.
Nesse momento, muitos autores marxistas reviram seus pressupostos analíti-
cos no que concerne às transformações dos processos de trabalho, do movimento
operário e da classe trabalhadora frente a uma virtual crise do trabalho.
A revisão chegou, então, ao chamado paradigma produtivo e às aspirações
revolucionárias do operariado ali envolvido. Desenvolveu-se, com isso, durante

2 Sobre essa questão, ver Friedmann e Naville (1964) e Friedmann (1972).

106
Trabalho, classes sociais e luta política

as décadas de 1980 e 1990, um leque de teorias que teve por objetivo (1) negar a
centralidade do trabalho, (2) invalidando a análise marxista.
Frente à redução da dimensão do operariado industrial e à diminuição das
taxas de sindicalização e do ativismo sindical, a centralidade do trabalho foi posta
em xeque. Com as metamorfoses nos processos de trabalho, a classe trabalhadora
teria se tornado fragmentada e heterogênea. Offe (1989), por exemplo, notou um
deslocamento do número de postos de trabalho da indústria para o setor de servi-
ços, o que implicaria uma nova forma de organização política, fora da indústria. A
política, antes restrita ao universo da produção, deslocar-se-ia para fora dos “laços
do trabalho”, para fora da fábrica, pois a diminuição de operários havia causado a
perda de poder do operariado industrial.
A sociedade civil passou, dessa forma, a ser considerada como o grande ce-
nário de luta política. Nela, os movimentos sociais passariam a desempenhar o
papel que outrora teve como protagonista o operariado tradicional na indústria
(Gorz, 1987; 1991). Questões vinculadas a status familiar, gênero, saúde, idade, et-
nia e processos identitários cresciam em importância no seio da sociedade civil.
Portanto, a categoria trabalho parecia ter perdido, teoricamente, sua centralidade.
Assim, a defensiva da classe trabalhadora, apresentada no debate sobre a cen-
tralidade do trabalho, seria caracterizada a partir do número de trabalhadores
ligados a um dado setor dentro da estrutura ocupacional (industrial). Dessa forma,
pressupostos de caráter quantitativo sobre o processo de organização da classe
trabalhadora limitariam a possibilidade de tratar, qualitativamente, as modalida-
des emergentes de mobilização e organização classista. Sob esses termos, a possi-
bilidade de atualização dos conflitos e dos antagonismos sociais, dentro de uma
perspectiva de classe, foi rejeitada.
“Adeus ao proletariado: para além do socialismo”, de André Gorz (1987), é um
marco da discussão sobre a centralidade e não centralidade do trabalho. Gorz par-
te da seguinte afirmação: a crise do proletariado e a crise do marxismo associam-
-se. As mutações da classe operária fundamentariam a própria crise do marxismo
(Gorz, 1987, p. 85). Ademais, a sociedade capitalista resistiria e o desenvolvimento
das forças produtivas, compatível com os modos de exploração e dominação ca-
pitalistas, seria o sinal da prevalência das formas de produção capitalistas e da
insuperável alienação no trabalho.
O autor desenvolve seu raciocínio da seguinte forma: a contradição entre um
proletariado estraçalhado pelo trabalho excessivamente racionalizado e sua dispo-
sição emancipadora o teria condicionado a uma impotência intransponível. O ca-
pitalismo havia produzido uma classe operária que, em sua maior parte, não tinha
capacidade para ser proprietária ou gestora dos meios de produção. Dessa forma,

107
CAPÍTULO 6

uma possível confrontação classista acerca do ideal de vida burguês repousaria em


camadas, as quais viessem a constituir uma “racionalidade diferente”, uma cama-
da que encamparia como finalidade básica a dissolução de todas as classes sociais.
Gorz reclama a figura do trabalhador de ofício como um tipo ideal de traba-
lhador consciente. Traçando um corte distintivo entre esse trabalhador e o “pós-
-taylorista”, o autor sugere que o primeiro tinha como objetivo estrutural a tomada
do Estado. Como uma massa homogênea de trabalhadores com tradições e orga-
nizações inclinadas a estabelecer uma cultura diametralmente oposta à burguesa,
tinha condição de atingir tal objetivo político. Já o segundo, sendo uma camada
“miserável, oprimida, ignorante, desenraizada”, estaria incapacitado de tomar o
Estado (Gorz, 1987, p. 59).
A retomada teórica do trabalhador de ofício não é gratuita. Gorz traz ao deba-
te a afirmação de que o último sujeito possível da revolução socialista, pautado na
teoria do valor, deveria ser aquele que reconquistasse, sob a insígnia da politecnia,
seu saber-fazer. Não obstante, essa possibilidade teria se desfeito com a automa-
ção. A alternativa de superação política da sociedade capitalista seria alcançada,
nesses termos, pela formação de um novo sujeito político, descolado da produção
alienada e situado para além das fábricas. Ele viria exatamente do oposto simétrico
do operariado, isto é, de um grupo desprendido das formas de dominação produ-
tivas que reproduziriam sua hegemonia de classe. O gérmen de uma nova cultura
residiria no oposto absoluto da classe trabalhadora, a saber, na “não-classe” dos
“não-trabalhadores” (Gorz, 1987, p. 17-19).
A “não-classe” seria formada a partir de uma imposição conjuntural que di-
luiria o operariado tradicional na tentativa de reproduzir as relações sociais bur-
guesas. Ou seja, caracterizou-se uma necessidade histórica natural de transforma-
ção das chamadas formas de resistência política. Valeria, então, antecipar-se a esse
movimento inevitável de dissolução da classe trabalhadora, engrossando a ideia de
que o trabalho não desempenharia mais um papel central na constituição das lutas
políticas frente à racionalidade capitalista.
Nesse sentido, apenas os indivíduos fora desse tipo de atividade alienada e
impessoal seriam capazes de criar uma “nova identidade”, “um pertencimento de
classe” que instaurasse a transformação da sociedade capitalista, condicionando-a
a seu apêndice (Gorz, 1987, p. 85-93). Surge, assim, a figura de um “não-sujeito”
como forma negativa do trabalho: “a não-classe dos não-trabalhadores”, que vi-
ria a ser a forma iminente e tendencial de uma possível liberação do trabalhador
(Gorz, 1987, p. 88).
Diferentemente daquele operário polivalente que fundamentava seu poder
político-reivindicativo em um conhecimento técnico da produção, o “proletariado

108
Trabalho, classes sociais e luta política

pós-industrial” legitimaria sua força em sua própria marginalidade. Nesse sentido,


Gorz parece indicar a formação de uma contracultura, determinada pelas relações
sociais daqueles despossuídos de qualquer vínculo com a “produção de necessida-
des”, um “modo de vida” de “não-trabalhadores anticapitalistas” (Gorz, 1987, p. 92).
O tempo liberado tornar-se-ia, com isso, o eixo teórico central para a análi-
se da luta política para além das organizações sindicais e partidárias restritas às
fábricas e à racionalidade capitalista alienante. Nesse momento, a referência aos
“Grundrisse” de Marx é explicitada. Segundo Gorz, Marx indicaria o aparecimen-
to de um tempo que seria liberado pelo desenvolvimento das forças produtivas e
poderia ser usufruído de maneira autônoma, desvinculado da economia burguesa
e da alienação por ela imposta. Entretanto, Gorz realiza uma leitura determinista
de Marx, pois o desenvolvimento das forças produtivas é apresentado como cria-
dor de um novo cenário político, no qual o tempo de não-trabalho deveria ser
preenchido pela luta política.
Contrariamente, vemos que a sociedade atual ainda está baseada no tempo de
trabalho vivo, ou seja, ainda tem como medida de valor o tempo de trabalho na pro-
dução imediata. Esse tempo de trabalho necessário, agora diminuído, não tem como
finalidade própria permitir à maioria dos homens e mulheres, liberada da produção,
dispor livremente do tempo crescente de não-trabalho (Tosel, 1995). A economia
capitalista funciona, dessa forma, com base no desperdício de recursos humanos e
na marginalização de uma parte crescente da força de trabalho (Tosel, 1994, p. 210).
Portanto, a centralidade atual do não-trabalho é negativa, já que não permite a
organização relacional entre atividades inseridas no tempo de trabalho e as incluí-
das no tempo liberado. Esse tempo livre, indicado por Gorz como uma tendência a
ser explorada, não permitiria o desenvolvimento integral das capacidades humanas,
pois ele é negativamente liberado pela forma do desemprego, vinculando, assim, a
impossibilidade material de sua fruição (Amorim, 2007; Marx, 2002; Tosel, 1995).
Já para Gorz, no “não-trabalho” estaria a possibilidade de construção de uma
sociedade emancipada do reino das necessidades. Esboçar-se-ia, assim, uma ten-
dência: a automação liberaria uma parte do operariado tradicional. Essa liberação
seria o indicador da formação de um novo sujeito histórico (Gorz, 1987, p. 17).
Contudo, qual seria o referencial de Gorz para analisar esse novo sujeito revo-
lucionário que estaria por se formar “fora do trabalho”? O autor fundamentou a
emancipação do trabalhador como um retorno às atividades do artesão, nas quais
o trabalho era identificado como uma prática ainda plena. Com base nisso, Gorz
passa a descrever a “nova era” como um inevitável abandono dessa perspectiva.
Não existiria alguma possibilidade do trabalhador identificar-se com uma ativi-
dade penosa, que impossibilitaria a construção de uma identidade de classe ou de

109
CAPÍTULO 6

um compromisso de classe. “O trabalho deixa de ser, para ele [o trabalhador], uma


atividade ou mesmo uma ocupação principal para se tornar um tempo morto à
margem da vida, onde se está ‘ocupado’ em ganhar algum dinheiro” (Gorz, 1987,
p. 89), e, por conta disso, a luta política só poderia estar no avesso do trabalho.
Com “Adeus ao proletariado”, André Gorz abriu, portanto, o debate sobre o
fim das classes sociais, rompendo com a bibliografia marxista que dava sustento
à sua análise até então. Gorz, nessa publicação, reformula sua leitura do trabalho,
das classes e da luta política, amparando-se no processo de “requalificação” pro-
fissional de um “conjunto dito heterogêneo de trabalhadores”.3
A identidade de classe não poderia mais ser alcançada frente à heterogeneiza-
ção das categorias profissionais. Contudo, o desenvolvimento dessa mesma racio-
nalidade econômica capitalista, passados alguns anos de reflexão e a permanência
do antagonismo de classe inscrito na produção de mercadorias, fez Gorz reformu-
lar sua análise para dar início ao debate sobre a imaterialidade do trabalho.4
As novas formas de exploração do trabalho deslocariam a subordinação do tra-
balhador a diferentes representações político-sociais. O capital, ao acionar um perfil
de profissional adaptado às suas demandas produtivas, acabou criando seu próprio
algoz: um tipo de trabalho imaterial. Com isso, um novo segmento nasceria nos es-
combros do modelo industrialista de produção: os trabalhadores do imaterial.
A desvinculação com as formas tradicionais de produção criaria, nesse novo
segmento profissional, uma negação em relação à produção tipicamente capita-
lista, uma vez que seu trabalho extravasaria a lógica da exploração do tempo de
trabalho, criadora de mais-valia. Os conteúdos do novo tipo de trabalho são in-
terpretados como qualificações profissionais anticapitalistas. A pergunta central
para o autor seria: como mensurar conteúdos cognitivos? A resposta, para Gorz,
é simples: seria impossível! Abrir-se-ia, assim, a perspectiva que evidencia a exis-
tência de uma centralidade dinâmica do trabalho imaterial, um tipo de trabalho
portador da transformação estrutural da sociedade, da constituição de uma nova
forma de produção, entendida, para o autor, como comunista.

O debate sobre o trabalho imaterial

As teses componentes do debate sobre o trabalho imaterial na década de 1990


e começo dos anos 2000, aparentemente, não têm continuidade problemática com

3 Sobre a ruptura de Gorz com as teses do paradigma produtivo, ver Nicolas-Le-Strat (1996) e
Artous (2003).
4 Gorz (1983; 1987; 1988; 2005), Lazzarato (1992, 1993; e 1996), Negri (1992; 1993; 1996; 2004).

110
Trabalho, classes sociais e luta política

aquelas da discussão sobre a centralidade do trabalho. Ao contrário, parecem surgir


com base em terrenos teóricos distintos. No entanto, essa é a aparência necessária
para possibilitar, por exemplo, a negação das teorias do valor-trabalho e das classes
sociais. Optou-se, com isso, por uma análise que passa a indicar a inapreensão, a
indeterminação e a imensurabilidade da produção de mercadorias no capitalismo.
Em “O imaterial: conhecimento, valor e capital” (Gorz, 2005), livro no qual é
sintetizado o debate sobre o caráter cognitivo das qualificações profissionais como
expressão do extravasamento da lógica capitalista, toda a produção de mercadorias
teria, tendencialmente, seu valor reduzido, na medida em que se propagaria. Essa
propagação baratearia a mercadoria ao ponto de fazê-la perder seu valor de troca.
“Uma autêntica economia do conhecimento corresponderia a um comunismo do
saber no qual deixam de ser necessárias as relações monetárias e as de troca” (Gorz,
2005, p. 10). As formas tradicionais de geração do valor, ou seja, aquelas provindas
do trabalho imediato, seriam superadas por aquelas de setores administrativos e de
serviço. O “tempo de trabalho” e o “tempo da vida” abrir-se-iam como campos com-
plementares, mas dissociáveis nas sociedades contemporâneas (Gorz, 2005, p. 36).5
O componente do saber, presente no trabalho industrial e de serviços, teria
crescido em importância. Esse saber não poderia ser reduzido a conhecimentos
técnicos, outrora formalizados. Assim, “o saber da experiência, o discernimento,
a capacidade de coordenação, de auto-organização e de comunicação. Em poucas
palavras, formas de um saber vivo adquirido no trânsito cotidiano, que pertencem
à cultura do cotidiano” (Gorz, 2005, p. 09) acabariam por formar uma resistência
dentro da lógica de valorização do capital.
Com isso, as contradições sociais teriam fundamentado um tipo de trabalho
cujo componente central seria o conhecimento.6 Nos “interstícios” da sociedade
capitalista, teria se formado uma força produtiva cognitiva baseada nas experiên-
cias cotidianas dos indivíduos. Essa produção imaterial levaria a teoria do valor à
excrescência, pois indicaria uma contradição intransponível entre a lógica de uni-
versalização dos produtos imateriais e a mercadoria. Com isso, a forma histórica
de valorização do capital redimensionar-se-ia. O capital, por seu turno, tentaria
restringir o acesso e patentear o conhecimento presente nos produtos comerciali-
zados, mas não poderia fazê-lo completamente, pois fugiria do seu movimento in-
trínseco de extensão ilimitada da exploração do trabalho. Os produtos imateriais

5 Na esteira dessa perspectiva, Habermas, em Teoria de la Accion Comunicativa (1987), de-


senvolve a diferenciação entre sistema e mundo da vida.
6 Lembremos, rapidamente, da tese de Gorz, desenvolvida em “Adeus ao proletariado” (1987),
segundo a qual a sociedade capitalista estaria fundada em uma dualização: sociedade hete-
rônoma versus sociedade autônoma.

111
CAPÍTULO 6

romperiam, portanto, com essa lógica expansiva. Dentro do universo da produção


imaterial, o valor de troca não faria mais sentido.
Haveria, nesses termos, um movimento de independicização do trabalho ima-
terial frente ao processo de acumulação de capital. A imensurabilidade, proprie-
dade característica dos trabalhos imateriais, seria a fonte de um novo processo de
valorização. No entanto, restringido pelo capital, o monopólio do “capital conhe-
cimento”, por exemplo, sintetizaria a contenção dos produtos imateriais. A reali-
dade ilimitada dos produtos cognitivos seria restrita pela contenção, em valor, do
processo de acumulação.
Com a diminuição do trabalho imediato, os salários e o valor das mercadorias
seriam reduzidos, produzindo uma diminuição dos valores monetários, isto é, da
riqueza e dos lucros. O capitalismo cognitivo apresentar-se-ia como um momento
de “(...) crise do capitalismo em seu sentido mais estrito” (Gorz, 2005, p. 37). Essa
leitura acaba por dar base à indicação de uma transição do capitalismo para o co-
munismo via produção imaterial (Gorz, 2005, p. 36).
Para que o “capital conhecimento” possa entrar na circulação, ele precisa se con-
verter em capital-mercadoria, deve se associar às formas tradicionais do capital, pois
“ele não é capital, no sentido usual, e não tem como destinação primária a de servir
a produção de sobrevalor, nem mesmo de valor, no sentido usual” (Gorz, 2005, p.
54). Não se adequando à norma tradicional de valorização do capital e, ao mesmo
tempo, desenvolvendo-se como força produtiva central, o “capital conhecimento”
apresentar-se-ia como momento de negação dessa lógica. Assim, o trabalho imate-
rial abriria novas formas de questionamento político entre os grupos profissionais
no período em que a capacidade de adquirir novos conhecimentos técnicos e infor-
mações tornou-se parte integrante do processo de produção (Negri, 2004, p. 44).
A economia-política marxista é, nesse sentido, utilizada na releitura de um
ciclo ampliado da produção, não apenas relacionado à produção fabril, mas tam-
bém à formação de uma rede de trabalhadores imateriais, ou seja, à constituição
de um suposto intelecto geral. A indústria tradicional, como locus de organização
da resistência política, cederia seu lugar à grande empresa, uma sociedade-fábrica,
isto é, produção/consumo/distribuição tornar-se-iam uma única e mesma coisa,
que se sintetizaria na produção imaterial.
Essa abrangência da produção imaterial seria radicalizada ao universalizar a ex-
ploração da subjetividade do trabalhador. Todavia, tanto na interpretação de Gorz
quanto na de Negri, vemos que a apropriação do conceito de trabalho imaterial
concentra-se na figura do trabalhador isolado. Em síntese, a mudança dos modos
de exploração do trabalho ocasionou a recomposição do conteúdo das qualificações
necessárias às formas de produção. Porém, esses conteúdos, que teriam gerado uma

112
Trabalho, classes sociais e luta política

subjetividade específica, acabaram por capacitar os “trabalhadores do imaterial”


a sujeitos políticos de uma luta anticapitalista. No entanto, o tempo liberado não
qualifica, do ponto de vista aqui trabalhado, o desenvolvimento do indivíduo social,
pois esse tempo é negativamente liberado na forma de desemprego, precarização,
subemprego, banco de horas, trabalho domiciliar, trabalho temporário etc.
A hipótese de Marx da supressão do trabalho vivo e do aumento do trabalho
passado nunca foi tão pertinente. No entanto, “não seria o caso de situar (também)
no mesmo espaço, a apropriação pelo capital das forças intelectuais?”. Mas, como
considerá-la sob a ótica de que a “missão histórica do capital é de depreciar o valor
da força de trabalho, aumentando, assim, a força produtiva e fazendo do desenvolvi-
mento do indivíduo social o novo alvo imanente da produção”? (Tosel, 1995, p. 212).
A dinâmica capitalista, como regulamentação da produção, passa a responder
também pelo controle das capacidades cognitivas no trabalho, no sentido em que
necessita de indivíduos aptos a agir e a tomar decisões – mesmo sendo dentro de
padrões estabelecidos. “É neste contexto que deve ser recolocado o problema da
medida do trabalho como momento da constituição do trabalho abstrato partindo
das atividades intelectuais concretas” (Vincent, 1993, p. 124), particularmente, no
que se refere à formação profissional do trabalhador.
As novas formas de recomposição do trabalho, baseadas na incorporação de
conhecimentos técnicos, passam a ser um problema para as análises sociológicas
sobre o tema. Entender os limites dessa incorporação, na medida em que ela deve
estar articulada a uma lógica de conjunto a qual tende sempre a impedir a autono-
mização da classe trabalhadora frente às imposições econômicas e políticas utili-
zadas pelo capital, é fundamental para compreender as diferenças objetivas entre
trabalhos de tipo material e imaterial.
A diferenciação, portanto, entre material e imaterial torna-se importante não
apenas para apontar os limites do capital como relação social hegemônica no ca-
pitalismo, mas sim para informar como os processos de trabalho incorporam ele-
mentos cognitivos do coletivo de trabalho com o objetivo de ampliar as taxas de
exploração e, por consequência, de mais-valia.

Trabalho, classe social e luta política

Os debates a respeito da centralidade do trabalho e do trabalho imaterial


baseiam-se em uma compreensão reduzida do trabalho, da formação política da
classe trabalhadora e das possibilidades de sua luta política. Em primeiro lugar, o
trabalhador é vinculado diretamente ao seu posto de trabalho, assim, suas quali-
ficações técnicas informam as possibilidades de sua prática e consciência políticas

113
CAPÍTULO 6

como se não existissem práticas políticas para além da indústria e do trabalho


imediato. Finalmente, a classe trabalhadora é definida como uma extensão de suas
atribuições técnicas. Há, portanto, uma correspondência indevida entre as formas
de apropriação concretas dos saberes empíricos com as potencialidades políticas
da classe trabalhadora.
Em um segundo plano, e mais especificamente dentro das teorias do trabalho
imaterial, a liberação do tempo de trabalho necessário à produção de mercadorias
é apresentada como último momento das relações sociais capitalistas. A impossi-
bilidade de mensurar os conteúdos dos trabalhos imateriais implicaria, mecanica-
mente, o fim anunciado do modo de produção capitalista.
Parece-me central destacar que o capital, nas últimas quatro décadas, apro-
fundou a lógica de exploração do trabalho. Às técnicas de produção taylor-fordista
foram somadas novas formas de persuasão, as quais, articuladas, informam a con-
cepção de que o trabalhador é um parceiro e, como tal, deveria incorporar o “espí-
rito da empresa capitalista”. A “subjetividade” do trabalhador é, assim, reclamada
pelo capital e colocada ao seu serviço.
O capital, dessa forma, aprendeu a controlar as formas de trabalho cognitivo.
Aprofundou sua dominação política e econômica na produção quando passou a,
dentro de limites preestabelecidos por ele mesmo, utilizar mais adequadamente
as capacidades intelectuais do trabalhador. Nesses termos, a perspectiva de li-
beração do tempo de trabalho como tempo livre, ou seja, aquele que poderia ser
controlado pelo coletivo de trabalhadores organizados, não pode ser desenvol-
vida em uma sociedade capitalista. Pelo contrário, apenas em uma sociedade de
transição socialista, na qual as antigas relações de produção capitalistas vão, aos
poucos, sendo substituídas por relações de produção comunistas, esse empreen-
dimento ganharia base material.
Dessa forma, a mudança de direção rumo ao comunismo só pode ser carac-
terizada depois de estabelecida uma dominação política, isto é, não seria possível
a constituição de um tempo livre sem que toda a sociedade estivesse empenhada
ativamente no exercício desse tempo. A liberação do tempo sem essa base material
torna-se negativa para a classe trabalhadora na medida em que esse tempo libera-
do se efetiva na forma de desemprego. Portanto, o indivíduo social pensado por
Marx nos “Grundrisse” apenas se revelaria coerente em uma sociedade na qual a
direção política já fosse controlada por uma direção de trabalhadores associada em
partido político. Esse indivíduo social, representante de um intelecto geral, é fruto
da revolução e superação dos meios de produção dominados pelo capital (Marx,
2002, p. 228) e, desse modo, não pode ser associado, como indicam as teses sobre o
trabalho imaterial, a práticas políticas constitutivas da e na lógica burguesa.

114
Trabalho, classes sociais e luta política

Não há, no entanto, para a bibliografia que articula o trabalho imaterial à


luta anticapitalista, a necessidade de constituição de uma força social capaz de
levar a cabo a tomada do Estado e a direção da economia para a transformação
processual das relações sociais capitalistas em relações de produção comunistas.
Essa tarefa é apontada como um campo de possibilidades aberto pela própria
produção imaterial, indicando, dessa forma, a política como índice automático
da produção de mercadorias.
Se optássemos por essa perspectiva, concordaríamos com uma análise deter-
minista que evoca as forças produtivas como elemento central de toda mudança
política estrutural. A luta política de classes seria, assim, apenas uma consequência
do desenvolvimento das forças produtivas em presença. Mas como seria possível
indicar tais forças produtivas como elementos impulsionadores de reivindicações
e práticas políticas anticapitalistas se são elas, em seu conjunto, cristalizações de
relações sociais de tipo capitalista?
Nesse sentido, não me parece, com base na leitura dos “Grundrisse” (2002) e
de “O Capital” (1998), possível apontar para uma ruptura como essa. Os modos
de exploração do trabalho continuam sendo os mesmos e não há uma nova forma
de organização da produção que altere, por conta da inserção de novas tecnologias
ou de tipos de trabalho (imateriais ou não), o processo de constante ampliação da
produtividade do trabalho. O desenvolvimento das forças produtivas apresenta-
-se como uma das características centrais dessa ampliação. Exatamente por conta
disso, não é possível descrever uma alteração estrutural das formas de obtenção
do lucro motivadas pelo desenvolvimento das forças produtivas. É bom frisar que
não há nada de neutro no desenvolvimento dessas forças. Elas têm como objetivo
final atender às demandas do processo de valorização. Nesse sentido, toda a ciên-
cia e tecnologia introduzidas no universo dos processos de trabalho cumprem o
papel não apenas “econômico” de valorização do capital, mas também político de
ampliação do controle dos coletivos de trabalho.
Nesse aspecto, as leituras que apontam para a constituição de uma sociedade
pós-industrial ou pós-materialista, ou mesmo uma sociedade de serviços, par-
tem da crítica de uma concepção de trabalho e de classe trabalhadora particular,
difundida, sobretudo, pelos partidos comunistas. Essa imagem de trabalho, de-
senvolvida até a década de 1970, tem como característica central a indicação do
trabalho imediato-industrial como o meio pelo qual toda luta política deve ser
constituída e, por conseguinte, que a classe operária teria uma “missão histórica”:
ser o sujeito da revolução socialista.
As teses que compõem a teoria dos novos movimentos sociais, das sociedades
pós-industriais ou mesmo das sociedades pós-materialistas, por exemplo, cons-

115
CAPÍTULO 6

tituem-se em resposta a essa leitura de sujeito e de luta política. Seu objetivo foi,
portanto, o de ampliar as formas de participação dos indivíduos ou grupos de
indivíduos na cena política a outras esferas da sociedade. Não obstante, creio que,
apesar de hegemônica no marxismo, essa visão restrita e dogmática de um opera-
riado como portador de uma “missão histórica” revolucionária é equivocada. Há
em outras tendências, dentro do próprio marxismo, críticas à concepção de sujeito
e de classe operária como portadora, por essência, da revolução socialista.
A bibliografia que se articula em torno do rechaço da teoria das classes e do
valor-trabalho de Marx responde, assim, à parte equivocada das análises sobre as
classes sociais e a respeito da possibilidade de construção de forças sociais dentro
e fora das indústrias. Ao ter um ponto de partida restrito, tendem a diagnosticar
as possibilidades de intervenção política em direta oposição a ele. Se tais teses, crí-
ticas às concepções de Marx, partem de um falso problema, acabam por construir,
em consequência, falsas respostas. Portanto, creio que parte da bibliografia sobre
o tema valeu-se de parâmetros físicos para compreender o que seria material ou
não-material na produção e no trabalho. Tanto o debate sobre o trabalho imaterial
quanto a discusão a respeito da centralidade do trabalho são constituídos, assim,
sob a rubrica inversa a essa compreensão. Reproduz-se, portanto, uma oposição
teoricamente ineficaz e não dialética entre material e imaterial como eixo explica-
tivo de todo o debate nos anos 1980, 1990 e 2000.

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117
CAPITULO 7

Jornada, Intensidade e
Produtividade do Labor

Sadi Dal Rosso1

Introdução

P
eríodos de crise como a vivida atualmente suscitam perguntas sobre possí-
veis câmbios na organização do trabalho. Crises podem iniciar em setores
completamente distantes do trabalho, mas repercutem quase que instanta-
neamente sobre ele com destruição de postos laborais e redução de salários. Crises
desorganizam processos de trabalho e alteram suas estruturas. Formulando de
maneira mais radical, crises visam desarranjar processos laborais existentes para,
quando melhores condições se restabelecerem, reorganizá-los em outras bases. Se-
ria plausível supor que aconteceriam retomadas do crescimento econômico sob
novas condições de trabalho. Portanto, investigar quais mudanças estão em curso
na forma de organizar e gerir o trabalho é um objetivo de primeira magnitude
para a pesquisa nos dias de hoje.
Tal oportunidade circunstancial permite também suscitar uma discussão te-
órica subjacente. Essa tem como objetivo verificar se a categoria intensidade do
trabalho tem um significado próprio e se a dimensão de intensidade é distinta da
noção de produtividade, termo preferencialmente empregado em economia e nas
ciências sociais em geral com o sentido de identificar aumento ou melhorias dos
resultados obtidos nas atividades laborais. Realizar essa separação conceitual é o
objetivo principal deste capítulo.

1 Sadi Dal Rosso é sociólogo, Ph. D. pela University of Texas at Austin, USA. Professor
do Departamento de Sociologia da UnB e pesquisador I do CNPq. Livros sobre o tema:
A Jornada de Trabalho na Sociedade, o Castigo de Prometeu (SP: LTr, 1996) . Mais Tra-
balho! A Intensificação do Labor na Sociedade Contemporânea (SP: Boitempo, 2008).
E-mail: sadi@unb.br.
CAPÍTULO 7

Intensidade do Labor

A atividade laboral pode ser concebida em extensão, intensidade e produtivida-


de. A dimensão de extensão refere-se à duração da jornada, ou seja, se maior ou me-
nor. Já a condição de intensidade não supõe ampliar a jornada para alcançar mais
resultados. Na verdade, ela mantém-se estável, assim como as condições técnicas e
o número de pessoas empregadas. Dentro de tais condições, o trabalho é concebido,
organizado e realizado de tal modo a obter mais ou melhores resultados. A intensi-
dade relaciona-se ao grau de envolvimento do trabalhador com o processo laboral,
abrangendo suas capacidades físicas, intelectuais, emocionais, além de todo um
aparato de aprendizado que o trabalho traz consigo em decorrência da socialização.
Inúmeras condições interferem no processo de trabalho, seja com a intenção
de torná-lo mais efetivo, seja em sentido oposto. Entre elas, é possível destacar as
qualificações individuais e grupais, o modo de organizar as tarefas, a forma de
combinar o trabalho dos indivíduos de acordo com as tarefas a serem executadas,
assim como as circunstâncias de meio ambiente, iluminação, qualidade de ar, er-
gonomia, riscos, níveis de remuneração e atendimento a reivindicações. Também
devem ser levadas em conta as condições subjetivas dos trabalhadores, o entrosa-
mento deles com os gerentes e muitos outros fatores.
A história do trabalho registra inúmeras maneiras de classificar as condições
de realização laboral. Uma das formas mais elementares de organizar o traba-
lho consistiu em dividi-lo por sexo e idade, cabendo certas tarefas a homens ou
a mulheres, a adultos ou a jovens. Outro modo empregado foi a separação entre
trabalho intelectual e manual e, também, a divisão por ocupações e profissões.
Algumas dessas distinções foram fundamentais na organização do processo de
trabalho, entre as quais foi marcante, historicamente, a classificação entre concep-
ção e execução, que, segundo Bravermann (1974), pautou a área de administração
e patrocinou uma generalizada degradação do labor. À divisão do trabalho, pró-
prias do taylorismo e do fordismo, sucedem-se escolas de gestão, que visam buscar
algum grau de coerência entre cérebro e braço, tal como no toyotismo.
As classificações e divisões significam, essencialmente, o controle do poder e
também operam como formas institucionais de organizar o trabalho de modo a
alcançar os objetivos de empresas e governos. Como os objetivos desses se resu-
mem aos advérbios “mais” e “melhor”, é neste sentido que devem ser buscadas as
coerências da intensificação laboral. Essa intensificação consiste em organizar os
trabalhadores da maneira mais eficaz possível para que o trabalho realizado numa
mesma jornada redunde em “mais” (ou “melhores”) resultados, ou, como se pode-
ria expressar de forma genérica, em “mais trabalho”.

120
Jornada, Intensidade e Produtividade do Labor

Tanto a organização quanto a gestão do trabalho são elementos essenciais para


o entendimento do conceito de intensidade. Os trabalhadores laboram com maior
intensidade, envolvem-se mais no fazer, no pensar e no se relacionar, tornam o
trabalho mais denso, gastam mais energias pessoais e coletivas, trabalham mais
intensamente em função da forma como está arranjado e é gerido o labor. Para
que tem dúvidas quanto à importância da organização do labor nas atividades
empresariais, uma boa indicação é a leitura do manual de divulgação sobre o sis-
tema Toyota de produção, recentemente lançado no Brasil sob o título de “O ta-
lento Toyota – O modelo Toyota aplicado ao desenvolvimento de pessoas” (Liker
e Méier, 2008). Em administração pública ou privada, a disposição do trabalho
converte-se numa variável crucial, não competindo a ela organizar-se por conta
própria. O trabalho é muito importante para ficar à mercê dos trabalhadores e
precisa ser estudado, pesquisado e organizado de maneira científica. Ele deve ser
assumido pelas empresas e administrações públicas como uma maneira de elevar
ou melhorar a produção de resultados em bens e serviços.

Produtividade

Parece ser desnecessário elaborar sobre a noção de produtividade, sendo essa


tão corriqueira no campo das ciências econômicas e sociais. Ela, sistematicamente,
compreende todo e qualquer ganho de resultado obtido no processo de trabalho,
independentemente da fonte de tal fato. A polêmica da separação conceitual entre
produtividade e intensidade habita na distinção da origem dos mais valores. A
proposição sustentada nesta comunicação é a de que, caso a origem dos valores
produzidos provenha da forma como está organizado o trabalho, deve-se atribuir
esse efeito como consequência da intensidade laboral, ou seja, do esforço humano
empregado para realizar a atividade. Se, por outro lado, a obtenção de maiores ou
melhores resultados ocorrer por meio da adoção de inovações tecnológicas para
tornar mais eficiente o trabalho ou pela elevação da qualificação dos trabalhado-
res, deve-se utilizar o termo produtividade.
Mesmo passíveis de diferenciação no âmbito conceitual, produtividade e in-
tensidade encontram-se combinadas e interligadas no mundo real. Adicionando
ao jogo um terceiro termo, a duração da jornada, obtemos como resultado muitas
possíveis associações de fontes de valoração. Aos efeitos individualizados de cada
fator, somam-se os efeitos combinados das dimensões. Os dias atuais oferecem
incontáveis exemplos dessas possíveis uniões entre os elementos. Os menores lo-
cais de trabalho encontrados nas pequenas cidades interioranas já adotaram, em
larga proporção, o uso de computadores, internet, cobranças de bens e serviços

121
CAPÍTULO 7

por cartões eletrônicos e sistemas informacionais para comunicação e divulga-


ção, que representam a adição de importantes inovações tecnológicas ao trabalho.
Contudo o mesmo não se pode dizer em relação à qualificação educacional dos
empregados. É muito provável que essas inovações técnicas e de qualificação edu-
cacional elevem a produtividade dos trabalhadores em suas atividades cotidianas.
A adoção de tais inovações pode vir acompanhada de reorganizações do trabalho,
que frequentemente resultam em demissões e adoção de formas de flexibilização
numérica, funcional ou de horários. A introdução de inovações tecnológicas, com
o objetivo de aumentar a produtividade, é seguida de formas de reorganização das
atividades que promovem a flexibilização e intensificação. Tem-se, nesse caso, o
efeito combinado da produtividade com a intensidade do trabalho.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),
instituição que acompanha o desenvolvimento internacional dos 32 países mais ri-
cos do mundo, elaborou e mantém um Manual da Produtividade cujo objetivo é pa-
dronizar as formas de mensuração da produtividade no âmbito dos Estados-Nação
e distingui-las conceitualmente de um construto chamado intensidade. Consta no
Manual que “a produtividade do trabalho reflete somente parcialmente a produti-
vidade do trabalho em termos das capacidades pessoais dos trabalhadores ou da in-
tensidade do trabalho do seu esforço” (OECD, Measuring productivity, 2002, p. 20).
O Manual menciona dois fatores: a capacidade individual dos trabalhadores
(que não importa nesta discussão) e a intensidade do esforço empregado. Com
isso, ele reconhece formalmente a existência de um fator distinto de produtivida-
de do trabalho, embora afirme ser impossível a mensuração empírica da causa.
Para o insumo trabalho, o Manual opera, preferencialmente, com a medida do
número de horas efetivamente trabalhadas, sendo esse um fato reconhecido esta-
tisticamente mundo afora. Já intensidade, esforço e carga de trabalho são fenôme-
nos que podem ser captados por estatísticas e medidas qualitativas, sobre as quais
não existe consenso internacional tampouco uma aferição por meio de medidas
produzidas em um grande número de países. A literatura internacional (Gollac
e Volkoff, 1996; Durand e Girard, 2002; Fernex, 2000; Dal Rosso, 2008) emprega
desde dados estatísticos agregados, passando por levantamentos realizados por
meio de questionários com múltiplos indicadores e análises de discursos de cará-
ter mais qualitativo para avaliar a intensidade do trabalho.
Já foi suscitada, mais de uma vez, uma objeção para a diferenciação conceitual
e empírica entre as categorias de intensidade e produtividade, consistindo na es-
peculação de uma possível consequência dessa distinção, que seria negativa para o
trabalho. Se a intensidade refere-se ao grau de envolvimento do trabalhador com
a atividade por ele realizada e se a produtividade é alcançada com a introdução de
inovações tecnológicas e maior qualificação dos agentes, a distinção conceitual

122
Jornada, Intensidade e Produtividade do Labor

seria funcional ao capital, o qual teria controle sobre as condições técnicas, atri-
buindo a obtenção da produtividade à sua virtualidade e ao seu poder. Nesse caso,
seriam alteradas as relações entre capital e trabalho.
O fundamento da objeção está na separação conceitual, pois ela enfraqueceria
o trabalho nas disputas com o capital. Na verdade, não é correto assumir, primei-
ramente, que a intensidade seria uma virtualidade sob controle do trabalhador,
enquanto a produtividade seria dirigida pelo empregador. Ambas referem-se ao
trabalho e esse é mais intenso e produtivo hoje do que ontem. A distinção entre
as dimensões de intensidade e produtividade não assume qualquer outro enten-
dimento a não ser o de que a virtualidade de ambas reside no trabalho. Por outro
lado, também a dimensão de intensidade estaria sob o controle do empregador,
pois é ele o responsável por decidir sobre ritmo, velocidade, concentração e densi-
dade laboral. De forma generalizada, pode-se dizer que, em todo o trabalho hete-
rônomo, tal como o assalariado, as dimensões de duração de jornada, intensidade
e produtividade estão, de algum modo, sob controle do empregador. Somente nas
formas de trabalho autônomo (por oposição a heterônomo) a decisão sobre as con-
dições laborais concentram-se nas mãos do indivíduo trabalhador.
Em segundo lugar, a principal razão para separar conceitualmente intensidade
de produtividade reside em enriquecer a teoria do valor trabalho. A indistinção con-
ceitual entre as duas categorias e a sua unificação em uma dimensão empobrecem
a teoria do valor e, também, reduzem a possibilidade de compreensão das formas
de resistência à exploração do trabalho. Teoricamente, a produção de mais valores
depende do alongamento da jornada, da elevação da produtividade ou ainda da
majoração do grau de intensidade dentro do qual é realizado o processo laboral. A
não separação conceitual esconde esse fator da produção de valor. Ademais, intensi-
dade e produtividade operam de formas inteiramente distintas na teoria do valor. A
intensidade é concebida como parte da produção absoluta, geral e básica de valores,
assim como a jornada. Já a produtividade exerce um papel relativo na produção de
valores, tanto relativo ao trabalho necessário quanto ao seu encurtamento.

Ondas de intensificação do trabalho

A distinção conceitual entre intensidade e produtividade e a reserva do termo


intensidade para medir o esforço empregado na realização das atividades laborais
permitem sugerir uma proposta de interpretação da evolução da dimensão de in-
tensidade por meio da história do trabalho. Vale, para isso, o uso da metáfora de
ondas, por mais que elas sejam derivadas de estudos da física, da eletrônica e de
outras áreas de conhecimento não relacionadas com as ciências sociais. O valor da

123
CAPÍTULO 7

imagem de “ondas de intensidade” está em captar inflexões e rupturas nos proces-


sos de intensificação do trabalho e na substituição de um modelo por outro que
propõe formas concretas de organizar mais eficientemente o processo de traba-
lho e, por consequência, derivar mais valor dentro das mesmas horas trabalhadas.
Além de ressaltar o caráter histórico de um padrão de intensidade, a imagem de
ondas oferece a vantagem adicional de identificar e questionar os novos princípios
de organização laboral. As grandes escolas de administração do trabalho reco-
nhecidas internacionalmente permitem acompanhar as peripécias da intensidade.
A metáfora de ondas de intensidade também pretende contribuir com a ideia de
que a aplicação de regras e princípios do trabalho é finita e depende de condições
históricas possíveis para perpetuar formas laborais que exigem mais esforço. Em
algum momento, entretanto, aquilo por trás das escolas de administração se des-
vela, trazendo à mostra a intensidade do trabalho e as suas consequências sobre a
saúde. A partir desse momento, emergem as críticas e as resistências.
Se as escolas de administração do trabalho são hegemônicas em determinadas
épocas, por que acabam por perder essa capacidade de manter a supremacia? Sob
a ótica da teoria do valor, o ocaso de uma escola de administração e de intensi-
ficação do trabalho inicia quando ergue-se a resistência dos trabalhadores. Isso
porque as escolas de administração do trabalho são pensadas como mecanismos
ou sistemas eternos, mas só são eternos enquanto lhes é permitido assim opera-
rem. Ante o desejo de eternidade dessas escolas, coloca-se a resistência explícita ou
implícita dos trabalhadores. Ao resistir a processos de intensificação e, com isso,
lutar por melhores condições laborais, os trabalhadores frustram o objetivo maior
das escolas, que é o de gerar mais valores dentro da mesma duração de jornada.
Com isso, coloca-se em risco a acumulação de capital, puxando para baixo as taxas
de crescimento econômico. As crises começam, então, a marcar os horizontes do
trabalho e da economia capitalista. Ao desorganizar as condições laborais, elas
permitem que, em algum período à frente, sejam recompostas, novamente, regras
e práticas de administração do trabalho sob outros princípios.

Manifestações da intensidade do trabalho

Um levantamento de campo realizado no Distrito Federal entre os anos de


2000 e 2002 tinha como objetivo captar manifestações sobre intensidade do tra-
balho como categoria própria, independentemente da noção de produtividade.
Dentre as várias possibilidades existentes de estudar empiricamente o fenômeno,
foi empregado um conjunto de questionários aplicados por entrevistadores junto
a trabalhadores dos mais diversos setores de atividade existentes na região. Foi

124
Jornada, Intensidade e Produtividade do Labor

alcançado o número de 825 questionários exigidos por critérios de representati-


vidade estatística. Optou-se pela estratégia de lançar perguntas diretamente aos
trabalhadores e às trabalhadoras, questionando-os sobre a percepção da intensi-
dade do trabalho naquele momento em comparação ao início da vida laboral dos
entrevistados. Direcionar perguntas a trabalhadores é uma estratégia consistente
para captar o fenômeno da intensidade do labor, pois são as pessoas diretamente
envolvidas nas atividades laborais que são capazes de proferir discursos sobre as
condições de seu trabalho.
A Tabela 1 (abaixo) mostra os resultados da avaliação geral realizada com o
conjunto de trabalhadores e trabalhadoras participantes da amostra. De acordo
com os dados, não existe uma tendência absolutamente marcante de intensificação
do trabalho, quando se leva em consideração o conjunto de respostas da amostra.
Parece frustrante para o pesquisador tal resultado indefinido, entretanto convém
observar que se trata de uma amostra do conjunto das atividades econômicas do
Distrito Federal, compreendido desde os grandes negócios, passando pelo serviço
público até as pequenas unidades de trabalho. Ora, é possível deduzir, intuitiva-
mente, que tanto o serviço público quanto as pequenas unidades de trabalho não
são instituições que primam pela administração científica do trabalho e pela exi-
gência de resultados. Portanto, seria simplesmente admirável se o levantamento
trouxesse resultado diferente. Para obter conclusões mais adequadas à hipótese
de intensificação do labor, foi necessário dividir a amostra geral por setores de
atividade, esquema que permite, de alguma maneira, captar o efeito dos grandes
negócios separado das pequenas unidades de trabalho.

TABELA 1 – AVALIAÇÃO GERAL DOS TRABALHADORES A RESPEITO DA


INTENSIDADE DO TRABALHO ATUAL
Frequência
Intensidade do trabalho
Absoluta Relativa
Mais intenso 356 43,2
Menos intenso 118 14,3
Não vê diferença 351 42,5
Total 825 100,0
Fonte: Amostra, Intensidade, Distrito Federal, 2000-2002.

A divisão da amostra por setores de atividade mostrou, em extensão, a pre-


sença de um processo de intensificação do trabalho em sua dimensão própria. Os
setores de atividade nos quais predominam empresas atuantes nos mercados na-

125
CAPÍTULO 7

cional e internacional apresentam resultados consistentes com a existência de um


processo de intensificação do trabalho. Entre eles podem ser mencionados bancos,
empresas de telefonia fixa e móvel, empresas de comunicação, indústrias, setores
de abastecimento urbano, serviços especializados, educação e saúde privadas. Por
outro lado, é possível observar que, em setores econômicos mais tradicionais e
em negócios de pequeno porte, o fenômeno da intensificação está presente em
proporções limitadas. Fazem parte dessa categoria serviços pessoais, alimentação,
bares e restaurantes, emprego doméstico, setores da administração pública local e
atividades semelhantes.

TABELA 2 – INTENSIDADE DO TRABALHO POR


RAMOS DA ATIVIDADE ECONÔMICA
Comparação entre trabalho anterior e trabalho
atual
Não vê Total
Ramo de atividade Mais intenso Menos intenso
diferença
Abs. Rel. Abs. Rel. Abs. Rel. Abs. Rel.
Supermercados 23 46,0 3 6,0 24 48,0 50 100,0
Bancos 29 72,5 6 15,0 5 12,5 40 100,0
Telefonia 33 67,3 0 0,0 16 32,7 49 100,0
Administração
58 50,0 23 19,8 35 30,2 116 100,0
pública federal
Administração
44 44,0 22 22,0 34 34,0 100 100,0
pública do DF
Alimentação 8 26,7 5 16,7 17 56,7 30 100,0
Oficinas mecânicas 24 48,0 3 6,0 23 46,0 50 100,0
Transporte 10 50,0 2 10,0 8 40,0 20 100,0
Construção civil 12 24,0 8 16,0 30 60,0 50 100,0
Emprego doméstico 28 35,9 9 11,5 41 52,6 78 100,0
Ensino público 18 27,3 10 15,2 38 57,6 66 100,0
Ensino privado 9 60,0 1 6,7 5 33,3 15 100,0
Saúde pública 12 40,0 7 23,3 11 36,7 30 100,0
Saúde privada 12 57,1 3 14,3 6 28,6 21 100,0
Limpeza e vigilância 11 37,9 3 10,3 15 51,7 29 100,0
Indústria de bebidas 6 46,2 3 23,1 4 30,8 13 100,0
Serviços pessoais 4 25,0 2 12,5 10 62,5 16 100,0
Shoppings 8 19,5 7 17,1 26 63,4 41 100,0

126
Jornada, Intensidade e Produtividade do Labor

Comparação entre trabalho anterior e trabalho


atual
Não vê Total
Ramo de atividade Mais intenso Menos intenso
diferença
Abs. Rel. Abs. Rel. Abs. Rel. Abs. Rel.
Serviços
3 60,0 1 20,0 1 20,0 5 100,0
especializados
Indústria gráfica 4 66,7 0 0,0 2 33,3 6 100,0
Total 356 43,2 118 14,3 351 42,5 825 100,0
Fonte: Amostra, Intensidade, Distrito Federal, 2000-2002.

A conclusão mais relevante do trabalho de campo talvez seja a de que executar


levantamentos sobre o tema da intensidade do trabalho não só é possível, como os
trabalhadores distinguem claramente as situações nas quais existem processos de
intensificação do trabalho daquelas em que isso não ocorre. Além disso, a catego-
ria de intensidade laboral não representa algo tão abstrato e distante das condições
reais de trabalho para fazer com que os trabalhadores não consigam perceber o
fenômeno. Ao contrário, é algo do seu dia a dia, sobre o qual se manifestam sem
dúvidas, seja afirmando-o quando existe seja negando a sua presença, quando for
o caso. Junto aos trabalhadores, a intensidade é uma condição de trabalho clara-
mente discernível de avanços de produtividade.
Pelas implicações teóricas, uma segunda conclusão merece destaque: o fenô-
meno da intensificação do trabalho segue uma trilha muito característica. São os
grandes negócios, representados pelas empresas atuantes nos mercados nacional
e internacional, os primeiros a utilizar estratégias de intensificação do trabalho.
Possivelmente, a partir desse núcleo férreo, as práticas intensificadoras sejam
adotadas por pequenos negócios e empresas. Não é só entre nações que a intensi-
dade do trabalho é diferente. Também se distingue por setores de atividade, per-
mitindo avançar a hipótese de que são os grandes negócios os responsáveis por
procurar mais freneticamente estratégias eficientes de administração do traba-
lho. Tem-se, portanto, dois diferenciais nos processos de intensificação do traba-
lho: diferenças nacionais e por setores de atividade. A combinação desses fatores
permite compreender elementos de interpretação teórica sobre o surgimento e a
difusão de práticas de intensificação do trabalho, bem como sobre o nascimento
e a morte de escolas de gestão.
Para concluir este artigo, quero relatar ainda outros resultados de pesquisa
obtidos a partir de trabalho realizado no Distrito Federal em 2009. Nesse caso,
os pesquisadores foram a campo com o objetivo de avaliar os impactos da crise

127
CAPÍTULO 7

sobre o processo laboral. A estratégia de pesquisa utilizada foi bem diferente da


anterior, consistindo em um trabalho com caráter explorador, sem a preocupação
de estabelecer um marco amostral rígido, no qual as entrevistas foram regidas
pela aleatoriedade estatística. Dessa vez, o levantamento explorador procurou
abranger o maior número possível de setores de atividade, ainda que não tenha
conseguido alcançar todos os ramos possíveis. Esse levantamento foi feito por
meio de uma iniciativa cooperativa entre pesquisadores do Grupo de Estudos
e Pesquisas sobre o Trabalho do Departamento de Sociologia da Universidade
de Brasília. Abaixo estão sintetizados alguns resultados principais que vinculam
crise e intensidade do trabalho.

“Outra conseqüência da crise muito difundida setorialmente e que opera


conjugadamente com práticas de redução dos quadros é a intensificação do
labor. Em call centers, um setor que praticou numerosas demissões por causa
da crise, observaram-se as seguintes práticas intensificadoras do trabalho:
funções que antes eram exercidas por mais trabalhadores foram acumula-
das sobre os ombros de um único indivíduo; cobranças de alcance de me-
tas e resultados avolumaram-se, apimentadas por ameaças de demissão; os
tele-atendentes passaram a atender um número maior de chamadas, sendo
obrigados a agilizar os atendimentos. No ensino a distância, observou-se
também aumento do ritmo do trabalho para dar conta do grande número
de alunos a serem atendidos por um número restrito de professores e tutores,
que em geral são remunerados por bolsas e não por salários. Semelhante pro-
cesso de intensificação foi constatado no setor bancário e financeiro, tanto
público como privado. A carga de trabalho foi majorada, sendo necessário
ao empregado ‘otimizar as horas trabalhadas’, segundo expressão corren-
te no setor bancário. Call centers, bancos e instituições do setor financeiro
transformam-se nos protótipos ideais de aceleração do processo de trabalho.
Nos correios, os empregados relataram intensificação do labor causada pela
falta de contratações. Foram verificadas também indicações de intensifica-
ção do trabalho na educação privada.
Maneiras de intensificação do labor observadas em campo (a saber: cobran-
ça de metas e resultados, o aumento da carga de trabalho, o acúmulo de
tarefas que antes eram realizadas por várias pessoas sobre um mesmo indi-
víduo, elevação do ritmo das atividades) indicam insofismavelmente impac-
tos da crise atual na organização do processo de trabalho. Ou seja, a crise
demandou ainda mais trabalho daqueles que permaneceram ocupados. Do
setor varejista no Distrito Federal apareceram também indícios de reorga-
nização dos processos de trabalho, entre os quais podem ser mencionadas
mudanças das regras das comissões. Antes atreladas ao número de produtos
vendidos, empresas passaram a estabelecer metas para o trabalhador obter
complemento salarial. O não atendimento delas é cominado por ameaças
de demissão. Os centros de tele atendimento também empregam programas
mais sofisticados desenhados com a intenção de capturar a subjetividade do
trabalhador. Procuram elevar sua participação na vida da empresa e fazer
com que o trabalhador a sinta “como se fosse sua própria família”. Este rela-
cionamento é típico das formas mais avançadas de organização dos proces-

128
Jornada, Intensidade e Produtividade do Labor

sos de trabalho, que geram servidão voluntária. Foram encontrados ainda


indícios de reorganização dos processos de trabalho nas grandes empresas de
abastecimento urbano, supermercados e hipermercados, nos quais os traba-
lhadores precisam tornar-se polivalentes, doarem-se inteiramente em favor
do trabalho. Para incentivá-los, empregam-se elementos motivacionais, trei-
namentos, promoções individualizadas, mecanismos de controle e de apoio
à terceirização. Os trabalhadores são conduzidos à rendição à lógica de do-
minação das empresas. O conjunto de indícios sintetizados aponta para uma
busca incessante de parte de empresas ou de inteiros setores de atividade por
novos processos de organização do processo de trabalho, que resultem em
maior produtividade. Tais avanços ditos de produtividade, não poucas vezes
resultam de maior intensificação do labor, recaindo inteiramente sobre os
ombros dos trabalhadores, não sendo resultado de investimentos em inova-
ções tecnológicas.
Estratégias tradicionais de intensificação do labor durante períodos de nor-
malidade, tal qual a remuneração por tarefa na construção civil e a comissão
por vendas no comércio, desdobram-se para os períodos de crise e continu-
am sendo aplicadas porquanto efetivas. A ameaça do desemprego exerce um
papel disciplinador nesta luta para obter mais trabalho. Além de reduzir o
nível dos salários, opera como uma espada de Dámocles sobre a cabeça dos
assalariados, interrompendo reivindicações, silenciando vozes e aumentan-
do o ritmo do trabalho.
Tais manifestações de impactos da crise sobre o trabalho não são suficientes
ainda, segundo nosso juízo, para caracterizar outro método, técnica, escola,
conjunto de princípios ou proposta de organização do trabalho mais efetiva
do que as já existentes. Mas revelam a insuficiência das formas empregadas
até o momento e a busca por solução outra que eleve a efetividade e permita
saídas da crise.
Os indícios de mudança na organização dos processos laborais demonstram
a ênfase na elevação da taxa de mais-valia, vetor distinto da destruição de
capitais como forma de impedir a operação da tendência de queda da taxa
de lucro. As mudanças na organização dos processos de trabalho operam por
meio de demissão da mão de obra e de práticas ainda mais intensificado-
ras do trabalho, entre as quais elevação das cargas de trabalho, acúmulo de
tarefas, aumento do ritmo e da velocidade, passando pelo recurso ao alon-
gamento da jornada, na forma das horas extras. Avanços alcançados pelos
trabalhadores durante os períodos de crescimento da economia na melhoria
das condições de trabalho, no aumento do emprego, na elevação dos salários,
são destruídos sistematicamente ou em torno deles se formam áreas de dis-
putas vigorosas entre capital e trabalho nos períodos de crise”. (Dal Rosso et
alii, 2010, p. 158-163)

O relato acima exibe que as crises de acumulação ou crises de desenvolvimen-


to não deixam em pé as formas de estruturação do trabalho em uso. São realizadas
diversas tentativas de mudança, dependendo do setor de trabalho. Algumas delas
passam pela adoção de práticas mais densas de trabalho, exigências de mais esfor-
ço, velocidade e concentração de quem labora. Ou seja, trabalho de maior intensi-
dade, que produz mais valores. Sinteticamente, mais trabalho!

129
CAPÍTULO 7

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130
CAPITULO 8

Superexplotación del Trabajo


y Desmedida del Valor

Adrián Sotelo Valencia*

Introducción

L
a teoría del valor-trabajo de Marx contiene los instrumentos teóricos, meto-
dológicos y analíticos para analizar la problemática del mundo del trabajo, a
pesar de quienes han negado su validez. Como idea central pensamos que por
más que se haya alterado la forma de trabajar y de producir, debido a los cambios
introducidos por la reestructuración productiva del trabajo y el capital ocurrida en
el trascurso de las dos últimas décadas − sobre todo debido a la influencia de la in-
formática y de la electrónica aplicados a los procesos productivos − ello no ha hecho
sino adecuar la producción de valor y de plusvalor a condiciones cambiantes que
operan en escala internacional, particularmente a raíz de la “apertura de fronteras”
que se da luego del desmoronamiento de la Unión Soviética y del consiguiente im-
pulso que asume la economía capitalista mediante la incorporación de los países y
regiones recién “liberados” a la dinámica de acumulación y reproducción del capital.
Son muchas las hipótesis y ellas han sido esbozadas por una variedad de auto-
res especialistas en el tema de la crisis.
En este artículo nos ubicamos en la perspectiva de la teoría del valor-trabajo:
cuanto mayor es el desarrollo capitalista afianzado en el aumento de la capaci-
dad productiva del trabajo debida al progreso tecnológico y al desarrollo de las
fuerzas productivas materiales de la sociedad capitalista global, tanto menor es la
reducción de la magnitud (I) de la que depende – dentro de la jornada de traba-
jo − el valor medio de la fuerza de trabajo determinado por el tiempo de trabajo
socialmente necesario para su reproducción. Ocurre, entonces, una producción
cada vez menor de valor que castiga la producción de plusvalía y, en el largo plazo,
provoca la caída de la tasa de ganancia que es el motor del sistema. Esta es la pri-
mera hipótesis que planteamos. La segunda hipótesis, se refiere al hecho de que,
derivado de la anterior, la magnitud (II) relativa a la plusvalía, o tiempo de trabajo
CAPÍTULO 8

excedente no remunerado, cada vez más presenta dificultades para aumentar: en


otras palabras su crecimiento se convierte en marginal; es decir, crece, pero lo
hace cada vez en menor proporción al grado de que podría llegar un punto en que
cesara su producción; pero, entonces, el sistema se desplomaría. Este momento
marca la irrupción de la crisis, de las rupturas y de las mutaciones en los órdenes
económico, social y político (Marx, 1980 y Sotelo, 2010).

La naturaleza de la crisis

La crisis actual del sistema capitalista en el mundo, tanto en el centro, como en


su periferia (subdesarrollada y dependiente), es esencialmente una crisis de pro-
ducción de valor y de plusvalía. Esta tesis la advirtió Karl Marx hace más de 150
años en sus Grundrisse (fundamentos), y la desarrolló posteriormente en su monu-
mental obra El capital, crítica de la economía política, en una suerte de secuencia
epistemológica, conceptual, ideológica y política entre ambos textos. Su impor-
tancia radica en que por vez primera en esas obras se originó una teoría materia-
lista del desarrollo capitalista y de su decadencia a partir de considerar que sólo
el trabajo humano, la fuerza de trabajo del obrero, crea valor, plusvalía y consigue
valorizar el capital para que su propietario obtenga crecientes tasas de ganancia.
Las máquinas, la tecnología, los instrumentos, el dinero o la tierra no crean valor.
Sólo el trabajo tiene esa propiedad. Así, Trabajo y Capital son las antípodas de la
sociedad histórica de clases sustentada en el modo de producción, cuya dinámica
influye a otras categorías sociales como las clases, la cultura, las tradiciones, la
formación de las ciudades, el lenguaje o el derecho.
La crisis capitalista se deriva de la insuficiencia de los mecanismos del sis-
tema para producir suficiente valor en el proceso de trabajo, valorizar el capital
invertido (en medios de producción, materias primas y en fuerza de trabajo o ca-
pital variable), crear plusvalía y restituir el aumento de la tasa de ganancia. Estas
limitaciones provocan la desviación a la esfera especulativa del capital financiero
y contribuyen a la formación de burbujas especulativas en otras áreas como las
inmobiliarias, energéticas y de alimentos (Vence, 2008).
Esta hipótesis hunde su raíz en tres tesis expuestas por Marx: a) el trabajo
es el fenómeno originario (Urphänomen) de la humanidad que constituye el ser
social (Lukács, 2004); b) constituye el único factor productor de valor y, por ende,
de plusvalía y c) cuando el capital no está en la esfera de la producción, sino en la
de la circulación (en el mercado), es improductivo (un coche que no se vende no le
proporciona ningún rendimiento al fabricante). De tal manera que “este proceso
de realización es a la par el proceso de des-realización del trabajo. El trabajo se

132
Superexplotación del Trabajo y Desmedida del Valor

pone objetivamente, pero pone esta objetividad como su propio no-ser o como el
ser de su no-ser: del capital” (Marx, 1980:415).
O sea, el capital se niega asimismo cuando sale fuera de la esfera de su produc-
ción (que es como su oxígeno) y entra a la del mercado, a la circulación (que es el flo-
gisto o lo contrario del oxígeno), pero necesita atravesar por esta última como con-
dición de su realización para entrar nuevamente a la producción de nuevo capital.
Como ocurre en la actualidad el capital desplaza fuerza de trabajo en todas las
industrias, servicios y actividades, países, territorios y regiones del mundo entero
preferentemente mediante despidos, y al mismo tiempo se disloca hacia las activida-
des especulativas características del capital ficticio (es decir, el capital que se desco-
necta, durante determinados períodos, de la esfera de la producción (Chesnais, 1993
y Harvey, 2004). Si bien es cierto que ambos fenómenos provocan que se dé una pro-
ducción mayor de productos (o sea: de valores de uso), sin embargo, progresivamente
en el largo plazo se crea cada vez menos valor (de cambio), debido a que lo único que
crea valor y plusvalía para el capital es el trabajo, es decir, la fuerza de trabajo huma-
na. Esta menor disposición de fuerza de trabajo termina por castigar severamente la
tasa media de ganancia del sistema. Y este fenómeno se agudiza debido a que la ten-
dencia del capital es la de “…volver superfluo (relativamente) el trabajo humano, la
de empujarlo como trabajo humano hasta límites desmesurados” (Marx, 1980:350).
Además, cuando el capital, como está ocurriendo hoy en la economía global, se
concentra en la esfera financiera, en los bancos, en las bolsas de valores, en el comer-
cio, en la circulación, de acuerdo con Marx, se reafirma el proceso de su desvaloriza-
ción, porque ese capital no crea valor ni plusvalor en esas esferas, sino solamente en
la de la producción y del proceso de trabajo, que es el espacio-tiempo donde la fuerza
de trabajo se articula con los medios de producción y con la transformación de la
naturaleza para – poder – producir medios de consumo y nuevos medios de pro-
ducción que revitalicen el proceso de reproducción del capital en una nueva escala
superior. De esta forma, “…la desvalorización constituye un elemento del proceso
de valorización, lo que ya está implícito en que el producto del proceso en su forma
directa no es valor, sino que tiene que entrar nuevamente en la circulación para
realizarse en cuanto tal. Por lo tanto, si mediante el proceso de producción se repro-
duce el capital como valor y nuevo valor, al mismo tiempo se le pone como no-valor,
como algo que no “se valoriza mientras no entra el intercambio” (Marx, 1980: 355).
Según Marx, el proceso de valorización de capital, además de esta desvalorización
implícita, también incluye tanto la conservación del valor (de los medios de produc-
ción, de las herramientas y de la fuerza de trabajo) como la creación de plusvalor.
Debemos constatar que el valor de uso de la fuerza de trabajo – que es lo que
en el mercado compra el capital –, produce la plusvalía (vital para el sistema) y se

133
CAPÍTULO 8

determina por el tiempo de trabajo socialmente necesario para su producción y re-


producción. Es decir, este tiempo de trabajo social necesario se traduce en el mon-
to del salario que el obrero recibe por su trabajo. Por esa misma razón Marx aclara
que “el tiempo vivo de trabajo que el capitalista adquiere en el intercambio no es el
valor de cambio, sino el valor de uso de la capacidad de trabajo” (Marx, 1980, L. II:
195). Disipándole al economista David Ricardo y, por extensión a los teóricos de la
economía política clásica, esta confusión entre valor de uso (que es la capacidad de
crear plusvalía) y el valor de cambio (que se expresa en la cantidad en dinero que
el obrero recibe por concepto de salario) Marx aclara que: “Lo que el capitalista
recibe en el intercambio es la capacidad de trabajo: es este el valor de cambio que
paga. El trabajo vivo es el valor de uso que tiene para él este valor de cambio, y de
este valor de uso surge el plusvalor” (Marx, 1980, L. II: 54). Se demuestra así la pro-
piedad inherente del trabajo como creador de valor y de la plusvalía que se apropia
el capitalista. De aquí que muchos ideólogos del capital busquen inútilmente el
origen del valor en las máquinas o en el comercio y no, como es en realidad, en la
explotación de la fuerza de trabajo en la esfera de la produción.
En el proceso de valorización-desvalorización del capital, lo que este castiga,
contradictoriamente en aras de obtener plusvalía y ganancias, es justamente ese tra-
bajo que supone la reproducción del obrero (o sea: su valor de uso determinado por el
tiempo de trabajo socialmente necesario para su producción y que se expresa en una
proporción monetaria bajo la forma de salario). En efecto, para obtener más plusvalía
relativa, lo que comprime el capital dentro de una jornada de trabajo (véase la Sec-
ción Cuarta de el Libro de El Capital) es el tiempo de trabajo socialmente necesario
que corresponde al valor de la fuerza de trabajo del obrero con el objetivo de aumen-
tar el tiempo de trabajo excedente no remunerado que representa la plusvalía del ca-
pitalista. Para hacer más comprensible lo anterior presentamos el siguiente esquema:

Jornada de Trabajo

a- - - -b - - - -c = 8 horas
a- - - b - - - - - c = 8 horas
a- - b - - - - - - c = 8 horas
a- b - - - - - - - c = 8 horas
Donde la línea (a-b) corresponde al valor de la fuerza de trabajo y a su reproducción y se
refleja en su salario y la línea (b-c) representa al tiempo de trabajo excedente no remunerado
que es la plusvalía que se apropia el capitalista.

En el esquema anterior obsérvese cómo se va reduciendo la parte proporcional


que le corresponde al valor de la fuerza de trabajo (la línea a-b), y aumenta la parte

134
Superexplotación del Trabajo y Desmedida del Valor

correspondiente al trabajo excedente no remunerado al obrero que se apropia el


capital (línea b-c) sin que aumente la magnitud absoluta de la jornada laboral.
Pero existe otra posibilidad que consiste en prolongar la línea (c-d), por ejem-
plo, hasta alcanzar 12, 14, 15 o 17 horas por día.

Jornada de Trabajo

a- - - -b - - - -c = 8 horas
a- - - -b - - - -c = 8 horas
a- - - -b - - - -c = 8 horas
a- - - -b - - - -c = 8 horas
a - - - -b - - - - c- - - - d = 12 horas (a+b+c).
a - - - -b - - - - c- - - - - -d = 14 horas (a+b+c).
a - - - -b - - - - c- - - - - - - -d = 16 horas
La línea c-d representa la prolongación de la jornada laboral más allá de límite legal.

Esta última alternativa es la que aprobaron los ministros en la Unión Europea


para prolongar la jornada de trabajo hasta 65 horas. Falta, sin embargo, que sea
ratificada por los parlamentarios que, por cierto, no tienen mucha fuerza frente a
las supremas decisiones ministeriales.
Pero este método de producción de plusvalía absoluta provoca graves conflic-
tos sociales tanto entre trabajadores y patrones como con la propia legislación labo-
ral que teóricamente está amparada por el Estado y plasmada en reglamentos, leyes
y cláusulas. No es que el capital deseche esta última alternativa de aumento de la
jornada, sino que la utiliza en última instancia cuando la crisis no le deja otra alter-
nativa, como por cierto está ocurriendo hoy en día en muchos países del mundo.
Un tercer mecanismo que se utiliza frecuentemente es el aumento de la inten-
sidad del trabajo (véase: DAL ROSSO, 2008), el cual mantiene las magnitudes de
la jornada invariables pero intensifica, al mismo tiempo, la producción de valor y
de plusvalor. Este último método está muy ligado a los modernos procesos orga-
nizativos tanto del proceso de trabajo como de la producción de mercancías (auto-
móviles, astilleros, muebles, fábricas de conservas, asientos) basados en el sistema
toyotista de producción flexible. Pero en la práctica todos estos mecanismos son
utilizados simultáneamente por el capital con el fin de lograr su autovalorización
que es siempre su objetivo supremo. Por eso el capital tiene que echar mano cons-
tantemente de la revolución científico-tecnológica (informática, microelectrónica,
comunicacional) para aumentar la productividad del trabajo y, al mismo tiempo,
obtener la plusvalía relativa por el método de reducir el tiempo de trabajo social-

135
CAPÍTULO 8

mente necesario que corresponde al valor de la fuerza de trabajo (trabajo vivo) y a


su reproducción (en el esquema la línea representada por a-b).
En realidad lo que ocurre es que esta última forma de obtención de plusvalía (re-
lativa), basada en la revolución industrial y en la incorporación de tecnología, cada
vez más presenta dificultades para incrementarse (Alves, 2007). Por ello, el sistema
ya no puede crear la masa suficiente de plusvalía, que es la base de la producción y
apropiación de ganancias, para reproducirse en una escala creciente dentro de una
economía de propiedad privada. Esta es la esencia de la explicación de la crisis: en la
medida en que se reduce más y más el trabajo vivo (la fuerza de trabajo) mediante
despidos, sustitución por máquinas o cualquier otro método, al mismo tiempo se
reduce el valor producido en la sociedad y la masa absoluta de plusvalía que es la que
finalmente determina el monto de la ganancia capitalista. En el mediano y largo pla-
zos ello conduce al sistema a una severa caída de la tasa media de ganancia y provoca
que el gran capital se centralice en la esfera de la especulación monetario-financiera.
Si se redujera severamente la línea a-b hasta igualarla a cero (cuestión real-
mente absurda, pero estadísticamente probable) entonces el sistema capitalista se
desplomaría como un castillo de naipes, puesto que cesaría la producción de valor,
debido a que el único factor que lo crea, así como a la plusvalía, es la fuerza de
trabajo del obrero colectivo.

Crisis del tiempo de trabajo y desmedida del valor

El tiempo de trabajo, que había sido la categoría eje alrededor de la cual se cal-
culaban todos los valores y precios de las mercancías entra, primero, en tensión y,
más tarde, en crisis. De tal manera que la proyección científica de Marx es que en
el capitalismo se agudiza la contradicción entre el tiempo de trabajo y la desmedi-
da del valor, es decir: que en cada ciclo de aumento real de la productividad social
del trabajo, debida entre otros factores, al incesante incremento e incorporación de
tecnología de punta en el proceso de trabajo, el “tiempo de trabajo” deja de ser un
factor suficiente del capital para aumentar el plusvalor y, por ende, en el largo plazo
la tasa de ganancia, la cual, por el contrario, tiende a declinar, estimulando por todo
el sistema el ciclo especulativo, la concentración y centralización del capital.
Ciertamente que ese tiempo, social y necesario, crece, pero lo hace cada vez
menos, debido entre otros factores, al desplazamiento de fuerza de trabajo por las
máquinas, la tecnología, las materias primas que, como dijimos no crean valor ni,
por ende, plusvalía, sino sólo lo transfieren al producto final. El resultado de todo
ello es que se reduce la plusvalía relativa, es decir, aquella plusvalía que el obrero
crea con ayuda de las máquinas a elevar la productividad del trabajo.

136
Superexplotación del Trabajo y Desmedida del Valor

Este planteamiento lo formula Marx en los Grundrisse en los siguientes términos:

“Cuanto mayor sea el plusvalor del capital antes del aumento de la fuerza pro-
ductiva, tanto mayor será la cantidad de plustrabajo o plusvalor presupuestos
del capital, o tanto menos desde ya la fracción de la jornada de trabajo que
constituye el equivalente del obrero, que expresa el trabajo necesario, y tanto
menor el crecimiento del plusvalor recibido por el capital gracias al aumento
de la fuerza productiva. Su plusvalor se eleva, pero en una proporción cada
vez menor respecto al desarrollo de la fuerza productiva. Por consiguiente,
cuanto más desarrollado sea ya el capital, cuanto más plustrabajo haya crea-
do, tanto más formidablemente tendrá que desarrollar la fuerza productiva
para valorizarse a sí mismo en ínfima proporción, vale decir, para agregar
plusvalía, porque su barrera es siempre la proporción entre la fracción del
día – que expresa el trabajo necesario – y la jornada entera de trabajo. Única-
mente puede moverse dentro de este límite. Cuanto menor sea ya la fracción
que corresponde al trabajo necesario, cuanto mayor sea el plustrabajo, tanto
menos puede cualquier incremento de la fuerza productiva reducir conside-
rablemente el trabajo necesario, ya que el denominador ha crecido enorme-
mente. La autovalorización del capital se vuelve más difícil en la medida en
que ya esté valorizado. El incremento de las fuerzas productivas llegaría a ser
indiferente para el capital; la misma valorización, porque sus proporciones se
habrían vuelto mínimas; y habría dejado de ser capital…Pero esto no ocurre
porque haya crecido el salario o la participación del trabajo en el producto,
sino porque aquél ha descendido ya muy profundamente, en proporción con
el producto del trabajo o con el día de trabajo vivo” (Marx, 1980: 283-284).

Reparemos en esta afirmación profética de Marx: “El incremento de las fuer-


zas productivas llegaría a ser indiferente para el capital”. Por supuesto, lo que
tenemos al frente es que por más que el capital revolucione sus medios de produc-
ción y de transporte, así como la ciencia y la tecnología que aplica en sus procesos
productivos y de trabajo, ello no consigue aumentar significativamente la pro-
ducción de valor y de plusvalor (aunque si logre destruir la naturaleza); cuestión
que coloca al sistema al borde de un peligroso camino de entrada en el estanca-
miento y en la recesión de largo plazo.
En función de lo anterior, la hipótesis que aquí sostenemos es la siguiente: por
más que siga aumentando la productividad, desarrollandose la revolución tecno-
lógica y “ahorrando fuerza de trabajo” (desempleo, ejército industrial de reserva,
destrucción de empleos productivos, etcétera), la reducción del tiempo socialmente
necesario para la producción de mercancías y de fuerza de trabajo se va volviendo
cada vez más difícil y marginal; es decir, cada vez más insignificante para producir
valor y plusvalor, aunque progresivamente esté aumentando en la sociedad el volu-
men general de la riqueza física (valores de uso)”, pero, sin embargo, con un valor
contenido cada vez menor. Entonces el sistema entra en crisis orgánica, estructural
y civilizacional como está ocurriendo en la actualidad.

137
CAPÍTULO 8

La recuperación de la crisis

El capital tiene alternativas para superar la crisis y son varias, por lo que, la
presente, no es una crisis terminal del sistema. El capital y su metabolismo social
(Mészáros, 2001), aún dispone de dispositivos muy serios que implementar para
auto-regenerarse y autovalorizarse, por supuesto, con ayuda de la represión y la
fuerza bruta. Entre otros, nosotros apuntamos dos: la guerra imperial y la genera-
lización del régimen socioeconómico de superexplotación del trabajo como “sali-
das” inmediatas de la crisis, que podrían recomponer la tasa de crecimiento eco-
nómico del sistema capitalista, aunque en una proporción infinitamente menor a
la alcanzada por el capitalismo durante los “treinta años gloriosos” (1945-1973).
En este contexto, desde la década de los ochenta del siglo pasado, cuando asu-
men la supremacía las estrategias estabilizadoras del neoliberalismo y del capital
financiero, las crisis capitalistas modernas están hoy mucho más que nunca en
el pasado, asociadas a la reestructuración del capital y del mundo del trabajo (en
materia de sueldos, jubilaciones, empleo, organización del proceso de trabajo, for-
mación sindical, calificación y adiestramiento, así como del ejército industrial de
reserva), con el fin de adecuarlos a la lógica y condiciones de funcionamiento del
mercado (Alves, 2007 y Sotelo, 1993, 1999, 2009). En este marco asumen un papel
estratégico las políticas del Estado y del capital encaminadas a estimular el creci-
miento de la tasa de ganancia, contrarrestar las tendencias a la disminución del rit-
mo de acumulación y a favorecer los procesos de reestructuración y desregulación
de la fuerza de trabajo (O’ Connor, 1987).
Hoy la acumulación y reproducción del capital privilegia la producción de
productos primarios para la exportación (agricultura, energía, minerales, energéti-
cos), así como de biocombustibles. Por estos motivos, la condición del crecimiento
económico que vienen imponiendo los organismos internacionales como el Banco
Mundial, el Fondo Monetario, la OCDE y el BID, pasa a depender del grado que al-
cance la especialización productiva en cada economía nacional – dentro del marco
de la nueva división internacional del trabajo –, de la capacidad para exportar recur-
sos naturales y productos básicos —que otrora consumía la población— como ocu-
rrió en los países del Cono Sur (en Argentina, por ejemplo), antes que de mercancías
complejas de alto valor tecnológico agregado que resultaban del proceso de indus-
trialización, como plantearon reiteradamente los autores de la CEPAL y, hoy, los
neo-estructuralistas del desarrollo y las corrientes evolucionistas de la tecnología.
Estas políticas de reconversión industrial y de ajuste de las economías a los re-
querimientos de las grandes empresas transnacionales no bastaron en la década de
los ochenta y de los noventa, como no bastan hoy, para resolver la crisis capitalista,

138
Superexplotación del Trabajo y Desmedida del Valor

sino que la postergaron y la proyectan a nuevos espacios y sectores que amenazan


la viabilidad del sistema y de la humanidad.
En el ámbito político-jurídico y social, la reestructuración se expresa en la
conversión del Estado capitalista que pasa de ser “bienestarista” y “social” a neo-
liberal, minimalista y empresarial: un Estado burgués, penal y de seguridad, que
penaliza la lucha social y la defensa de los derechos humanos; un modelo que prác-
ticamente se está extendiendo e imponiendo con mucha fuerza en todo el mundo,
para legalizar las políticas del gran capital en materia económica, social y ambien-
tal tendientes a su mercantilización, como hoy se aprecia en los países de la Unión
Europea. Y obviamente en la imposición y funcionamiento de tal tipo de Estado
se hace imprescindible el permanente uso de la fuerza, los sistemas de exclusión
social de la población de los mínimos vitales de subsistencia y de su probable parti-
cipación activa en los asuntos públicos del gobierno. O sea, un Estado permanente
de seguridad nacional y de contrainsurgencia fundado en lo que el brasileño Ruy
Mauro Marini denominó Estado del cuarto poder, que es capaz de revitalizarse
tanto en los países del capitalismo avanzado como, y con mucho mayor fuerza, en
los dependientes y subdesarrollados de su periferia.
Es así como hoy el Estado capitalista contemporáneo es sustancialmente (más)
funcional y orgánico a la reproducción del capitalismo en esta fase neoliberal y con-
servadora, y completamente incapaz para cubrir los requerimientos de la fuerza de
trabajo y las crecientes necesidades de las grandes masas de la población en materia
alimentaria, de salud, educación, vivienda y recreación. No hay que ir muy lejos
para constatar que esta situación es una alternativa frente a la crisis energética, ali-
mentaria, financiera e inmobiliaria que azota en nuestros días al sistema capitalista,
a partir de la crisis de Estados Unidos que se ha extendido a los países del sur de
Europa y que se está tratando de paliar mediante la expropiación de derechos y ga-
rantías de los trabajadores, así como de reformas tendientes a aumentar la superex-
plotación del trabajo en todo el mundo, particularmente mediante la imposición de
la precariedad del trabajo (Castillo, 2009), la disminución de los ingresos y salarios
y el aumento de la intensidad y de la prolongación de la jornada de trabajo.
De cierto ángulo, la crisis de agotamiento del viejo patrón de reproducción de
mediados de los setenta, y el advenimiento del nuevo a partir de los ochenta, se ex-
plica por una cierta asincronía entre lo que Marx llamó el ser social como determi-
nante de las categorías correspondientes a la superestructura. Equivocadamente, o
por miopía acomodaticia, los críticos y los enemigos del marxismo la tomaron al
pié de la letra sin ver su dimensión metafórica, crítica y cualitativa y, por supuesto,
su carácter metodológico para imaginar los rumbos de la investigación científica.
Que, por cierto, se desplazan desde lo abstracto a lo concreto y nuevamente a lo
abstracto, para brindar una perspectiva de múltiples relaciones e interrelaciones

139
CAPÍTULO 8

de carácter global y dinámica (Marx, s/f). Esta totalidad histórica y de perspecti-


va global posibilita calificar la crisis como propia de la totalidad capitalista y no
solamente de alguna de sus partes como, por cierto, la presentan los ideólogos del
sistema cuando la reducen a “crisis inmobiliaria o financiera”, etcétera.
Dos décadas y media de neoliberalismo mundial es la historia crítica de esa con-
tradicción entre el viejo modo de vida, de producción y trabajo capitalista que se
resiste a perecer (el antiguo Estado del bienestar: desarrollista, industrializador y
fordista nacido en Europa y en Estados Unidos y exportado a América Latina) y uno
presuntamente nuevo, neoliberal, global, agresivo, excluyente, polarizante, anti-in-
dustrializador. Un neoliberalismo que se está afianzando a toda costa, incluso con la
represión de los movimientos populares que a él se le oponen en cualquier parte del
mundo, que privatizó el sistema económico y social para adaptarlo a las necesidades
de la acumulación y reproducción del capital, pero que, más tarde, condujo a la crisis
estructural y financiera del sistema capitalista mundial, siendo su momento predo-
minante el de la crisis de México de 1994-1995 cuando este país se declaró en sus-
pensión de pagos de su deuda externa y desplomó su tasa de crecimiento económico.
En la lógica de desarrollo del capital, y de la implementación por el Estado
de políticas neoliberales basadas en el mercado, se verificó una expansión de las
poderosas empresas trasnacionales. Expansión que fue estimulada por el Estado
burgués de los países dependientes y subdesarrollados así como por los gobiernos
de Estados Unidos, la Unión Europea y Japón en función de una globalización
predominantemente financiera y del impulso a los procesos de democratización.
Procesos que se presentaron a la opinión pública como “valores universales” y de
“justicia social”, junto a proclamas más bien formales como el respeto a los dere-
chos humanos. Ello reforzó la cohesión del capital en los niveles industrial, comer-
cial, rentista, bancario, financiero, ficticio e ideológico, presentando un panorama
de verdadera globalización del poder trasnacional sin contradicciones sustanciales
aparentes, que sólo pueden ser “resueltas” dentro del propio sistema capitalista.
Parte de la clase obrera y de los sindicatos del mundo creyeron en esta “fic-
ción teórica”, que más bien resultó falsa con el andar del tiempo (Antunes, 2005).
De aquí las fórmulas ideológicas del “fin de la historia y del trabajo” formulada
por autores como Fukuyama y Daniel Bell que engendran la idea de que el sistema
del capital es “todopoderoso” ante el cual no existen fuerzas sociales y políticas
que lo puedan superar. Todo ello en un contexto en que el capital está asumiendo
una configuración global desde la década de los ochenta del siglo pasado bajo
la forma parasitaria del capital ficticio: una cierta supremacía hegemónica en el
capitalismo globalizado del siglo XXI que castiga severamente los sistemas pro-
ductivos y las tasa de crecimiento del empleo productivo de una buena porción de
la humanidad trabajadora.

140
Superexplotación del Trabajo y Desmedida del Valor

La supremacía adquirida por el capital ficticio, aunada a la contracción de las


tasas de crecimiento promedio del sistema productivo y económico, sumergió al
capitalismo en la crisis más severa que estamos padeciendo.
Para evitar la caída de la tasa de ganancia se han desplegado el capital ficti-
cio (Chesnais, 1993) y la dinámica transnacional de las empresas multinacionales,
la generalización y universalización de la superexplotación del trabajo y de la ley
del valor (globalización), el uso de nuevos métodos de producción y organización
del trabajo al amparo de la informática y del constante desarrollo tecnológico, así
como la dirección que el Estado neoliberal le imprime a sus políticas públicas en
beneficio de la rentabilidad y la expansión general del capital.
Por otro lado, el desarrollo inusitado de nuevos métodos de explotación y organi-
zación del trabajo, como el toyotismo de origen japonés que, como demuestran auto-
res y estudios especializados, tiene como eje la intensificación de la fuerza de trabajo
y la gestión por el estrés, para aumentar la plusvalía relativa. Junto a lo anterior se ha
desarrollado otro elemento que de la superexplotación del trabajo - que Marini (1973)
expone en su Dialéctica de la dependencia y constituye en un régimen específico de
explotación - y que es la disminución del fondo de consumo de los trabajadores y su
conversión en fuente de acumulación del capital. Situación esta última que presupo-
ne la disminución de los salarios por debajo del valor real promedio de la fuerza de
trabajo. Fenómeno que ya se comienza a advertir en el capitalismo central. Por lo
pronto el régimen de superexplotación del trabajo – en tanto categoría constituyente
del capitalismo dependiente que se desarrolló históricamente entre 1850 y 1982 en el
contexto de la expansión del capitalismo mundial – hoy en día también se generaliza
al seno mismo de los países desarrollados, para operar allí como un genuino meca-
nismo de contención de la crisis y de los problemas de reproducción y de rentabilidad,
como los que se están verificando en el capitalismo mundial, con centro en Estados
Unidos, donde las “crisis inmobiliaria y financiera” son sólo manifestaciones de esas
profundas mutaciones y ajustes del mundo del trabajo y de la explotación capitalista.

A modo de síntesis

La crisis capitalista no se deriva de una contradicción entre la economía real y


la economía especulativa, como la presentan formalmente los medios de comuni-
cación y la mayoría de los expertos en la materia. Por más que efectivamente, como
asentamos al principio, una de las coordenadas de la crisis derive del capital ficticio
con toda su secuela de quiebre de empresas, bancos, comercios y sistemas producti-
vos, como está sucediendo en la industria automovilística mundial. Los problemas
financieros, inmobiliarios y de insolvencia de los créditos – que son tan reales como

141
CAPÍTULO 8

reales son las caídas de las tasa de ganancia para los empresarios – son sólo mani-
festaciones de las dificultades, obstáculos y problemas que ocurren en la dimensión
productiva y en la valorización del capital. Es este el suelo de donde brotan y se re-
crean constantemente las contradicciones que ahora los gobiernos tratan de paliar
recurriendo a medidas de corte monetarista como la emisión de moneda para subsi-
diar a empresas y negocios cuyo objetivo es lisa y llanamente la especulación, como
sucede en Estados Unidos, en Europa y se está extendiendo al resto del mundo.
Otras medidas, como la tímida intervención del Estado en la economía y en
la regulación de los tipos de cambio, resultan insuficientes, ante la hecatombe que
representa la profunda crisis del emporio empresarial norteamericano y europeo,
que no encuentra la forma de solventar el capitalismo sin agudizar sus contradic-
ciones y precipitar nuevas escaladas de inflación, destrucción de activos y desem-
pleo. Por supuesto, no es el fin del sistema capitalista, como a veces se plantea. Pero
si creemos que es el preludio de un agotamiento de la fase progresiva del capitalismo
en tanto modo de producción y el comienzo de una nueva fase tendiente al estan-
camiento estructural mucho más destructiva y contradictoria para la humanidad,
porque ahora incorpora los recursos naturales, el medio ambiente y los sistemas
ecológicos del planeta a la explotación masiva para la producción de mercancías y
de servicios. Sólo así el sistema podrá solventar su destrucción y postergarla por al-
gún tiempo, cuando surja un nuevo ciclo de contradicciones y de incertidumbres.
En el pasado, el capitalismo avanzado nutrió dispositivos como el fordismo y el
taylorismo que, al amparo de la consolidación y expansión del Estado de bienestar,
le permitieron experimentar el período más exitoso de su historia. Sin embargo,
después de los Treinta Años Gloriosos, a mediados de la década de los setenta, ese
proceso entró en crisis y advino el neoliberalismo que, en la jerga popular, significa
un conjunto de políticas, normas y prácticas empresariales cimentadas en las fuer-
zas del mercado y en un individualismo exacerbado y encarnizado que sometió a la
sociedad y a los trabajadores al imperio de la competencia desenfrenada, a la des-
igualdad social y la derrota política. El dispositivo utilizado, entre otros fenómenos
como la desestructuración de ese Estado de bienestar, fue el desarrollo de la tecnolo-
gía y de la ciencia aplicado a los procesos productivos y de trabajo, que consolidaron
un nuevo tipo de organización social de tipo toyotista y la automatización flexible.
Como vimos, el elemento central de esta nueva forma de las relaciones sociales
de producción y de organización del trabajo en la fase neoliberal, ha sido la siste-
mática apropiación por el capital de la subjetividad del trabajo (conocimientos y
saberes de los trabajadores) y su intensificación como nunca antes en la historia.
Respecto a lo primero, mostramos que ante el límite marcado por el tayloris-
mo y el fordismo la apropiación del conocimiento del obrero colectivo es esencial

142
Superexplotación del Trabajo y Desmedida del Valor

para subordinarlo, codificarlo y sistematizarlo en la producción de valor y de plus-


valía. En cuanto a la intensidad se constituye en el elemento privilegiado por el ca-
pital tendiente a anular los poros de la producción y de la jornada de trabajo – que
representan, como vimos, momentos de anti-valor porque no producen plusvalía
– y afianzar, de este modo, la producción de plusvalía.
Ambos procedimientos constituyentes del sistema de producción y organiza-
ción del trabajo toyotista, se encaminan, desde la década de los setenta del siglo
pasado, a superar la crisis del tiempo de trabajo y la desmedida del valor como
elementos del moderno metabolismo social del capital. Los sistemas justo a tiem-
po, los equipos de trabajo, los programas de calidad total y el sistema Kan Ban, son
dispositivos del nuevo patrón de acumulación flexible del capital que hoy nueva-
mente están en crisis. De aquí que se requiera el despliegue de una nueva reestruc-
turación del trabajo y del capital global para profundizar los rasgos perniciosos del
sistema toyotista, al mismo tiempo que generalizar el régimen de superexplotación
del trabajo, incluso, en las economías y procesos productivos de los países centrales
como Estados Unidos, Alemania y Japón para mencionar a los más importantes.
Es este el nuevo perfil del capitalismo de siglo XXI que se pretende desarrollar
en escala planetaria. A esto ha concurrido el enorme desarrollo de la revolución
informacional y de la comunicación electrónica, junto con una serie de prácticas y
de políticas como la reforma laboral – que pretende aumentar hasta en 65 horas en
promedio el tiempo de trabajo en la Unión Europea –, la disminución de los salarios
reales, el incremento del desempleo, la destrucción del sindicalismo combativo y el
desarrollo de organizaciones sindicales de empresa de corte colaboracionista que
se ha traducido en la derrota de los trabajadores en prácticamente todo el mundo.
La crisis del tiempo de trabajo, derivada del propio desarrollo de las fuerzas pro-
ductivas de la sociedad y del incesante aumento de la productividad del trabajo, ha
hecho que el plustrabajo y la producción de plusvalía sean cada vez más insuficientes
para paliar la crisis y afianzar una escala creciente de la acumulación, de manera que
garantice para el capital primero una recuperación de la tasa media de ganancia a
nivel mundial y, después, niveles razonables de rentabilidad para los capitales indivi-
duales, por empresa, rama y sector. Es este el termómetro que mide el desarrollo y la
salud del sistema, cualquiera que sean las políticas privadas y públicas que se pongan
en práctica. Porque de esa medida dependen las demás coordenadas del sistema y la
sociedad: el empleo, las jubilaciones, los salarios, el gasto público y social, la política
industrial, crediticia y bancaria y los programas de desarrollo social.
Es este el contexto en que se desenvuelven la organización y las luchas de los
trabajadores en todo el mundo: un férreo neoliberalismo de mercado en crisis,
pero sin alternativas duraderas por parte del Estado y el capital, lo que peligrosa-

143
CAPÍTULO 8

mente expone a la humanidad a entrar en una fase altamente destructiva caracte-


rizada por la barbarie y la irracionalidad.
Sin embargo, la coyuntura de la crisis del modo capitalista de producción abre
nuevos escenarios y un abanico de posibilidades a los trabajadores y a todos los mo-
vimientos de emancipación del planeta para emprender esta tarea, no imposible. Co-
menzando para ello por su discusión y vislumbrando, por un lado, cuáles son las po-
sibilidades para que el régimen del capital social global supere su crisis histórica y, por
otro lado, para que los trabajadores y la sociedad entera impulsen un proyecto nuevo
que impida que se imponga la barbarie como ha ocurrido en experiencias anteriores.

Referencias

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lho, Editora Praxis, Londrina, Paraná.
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Vence, X. (2008) Da burbulla financiero-alimentaria ás novas burbullas especulativas da
enerxía e dos alimentos, Caderno de Formación. CIG-FESGA: Galicia, España.

144
CAPITULO 9

Trabajo no Clásico, Organización


y Acción Colectiva en
Trabajadores no Clásicos

Enrique de la Garza Toledo1

E
l objetivo de este ensayo es profundizar en el concepto ampliado de Tra-
bajo, de Relación Laboral y de Construcción Social de la Ocupación (De la
Garza, 2006), introduciendo la noción de trabajo no clásico (De la Garza,
2008) discutiendo acerca del concepto de servicios, en especial sobre su carácter
de “intangibles” y su problematización al considerar a los clientes, a otros actores
no laborales, las intersecciones de las esferas de la producción y la reproducción,
así como del Derecho y el impacto del Trabajo en este tipo de actividades en la
identidad y la acción colectiva. Notas breves son introducidas con respecto de la
relación entre valor de las mercancías y trabajo inmaterial. Los ejemplos que se
tomarán forman parte de una investigación empírica ya concluida para ocupa-
ciones no clásicas específicas realizada en la ciudad de México en vendedores am-
bulantes semifijos, fijos, que venden dentro de los vagones del metro (vagoneros),
taxistas, microbuseros, choferes de metrobús, así como empleados de Wal Mart,
MacDonals, Call Centers, Extras de televisión y empresas de diseño de software.
De tal manera que las afirmaciones empíricas están basadas en esta investigación,
en otros contextos pueden ser diferentes, es decir no agotan el complejo ámbito del
trabajo no clásico, en todo caso permite advertir de formas que no necesariamente
se presentan entre los clásicos2

1. Acerca del concepto de Trabajo


Hemos considerado como Trabajo no solo al asalariado o bien que genera
productos para el mercado, sino toda actividad human encaminada a producir

1 Profesor investigador del postgrado en estudios laborales de la UAMI, email: egt@xanum.


uam.mx. Página web: http://docencia.izt.uam.mx/egt
2 Los resultados empíricos caso por caso podrán consultarse en Enrique de la Garza Toledo
(2011) Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva, Vol. I y II. México, D,F.: Plaza
y Valdés-UAM (en proceso de edición)
CAPÍTULO 9

bienes o servicios para satisfacer necesidades humanas, transformando un objeto


de trabajo, utilizando medios de producción, puestos en operación a través del
trabajo visto como interacción de los hombres (trabajadores) con los dos primeros
y entre sí (De la Garza, 2002). El carácter de valor de uso de un producto no solo
depende de sus características físicas sino de que sea valorado como tal, histórica
y socialmente. La definición anterior está abierta a que la producción sea mate-
rial o inmaterial, es decir, genere productos objetivados, separables de quien los
produce y de quien los consumirá, o bien productos que solo existen en el mismo
momento de su producción y que son automáticamente consumidos e incorpora-
dos a la subjetividad o corporeidad del consumidor (Marx, 1974). Considerar al
trabajo y a productos materiales como el centro necesario de la producción y de la
riqueza social apunta a un materialismo primitivo que irónicamente podríamos
denominara “materialismo fisicalista”, en tanto tener implícito que lo material se
reduce a los físico y se ubica en una polémica propia del siglo XIX acerca de la
relación entre materia y conciencia, Hay también en esa posición un naturalismo
en cuanto a cuales valores de uso serían fundamentales y que estos deberían de ser
los productos físicos necesarios para la subsistencia de los seres humanos (alimen-
tos, vivienda, vestido), que pudo ser cierto para buena parte de la Historia de la
Humanidad pero que ha sufrido cambios en la medida en que la riqueza social se
incrementa y se vuelven necesarios valores de uso que en otras épocas no existían
o fueron vistos como superfluos. Sería el caso del automóvil o ciertas diversiones
como el cine o la televisión (Boltansky y Capello, 2002).
Es decir, el concepto de lo material no puede reducirse a lo físico, el concepto
debe precisarse para incluir a todo lo objetivado, sea físico o simbólico (Lukacs,
1975). Esta definición se aparta también de definiciones constructivistas extremas
que tienden a reducir toda realidad a como la concibe el sujeto, es decir a su subjeti-
vidad (Potter, 1998). Es cierto que las visiones sobre lo real de los sujetos están siem-
pre mediadas por prenociones pero eso no autoriza a pensar que de lo único que
es posible hablar es de dichas prenociones o sus imaginarios construidos subjetiva-
mente (Archer, 1997). Hay un campo en la realidad para lo no conciente, que existe
y presiona a los sujetos más allá de sus concepciones sobre el objeto (Alexander,
1995). De esta forma, el problema clásico de la relación entre materia y conciencia
se ha transformado en el siglo XX acerca de cuales son las relaciones entre estruc-
turas (concientes o no concientes), subjetividades (formas de construir significados
que incluyen pero no se reducen a la cultura) y acciones (De la Garza, 2006). De tal
manera, que la construcción de significados (actualización del antiguo problema de
la conciencia) no puede verse simplemente como epifenómeno de la materialidad,
sino que se vuelve realmente un problema en construcción (Berger y Luckmann,
1979). En esta actualización, lo objetivado tiene un papel en la constitución de la ac-

146
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

ción, pero sus relaciones con esta y con la subjetividad o proceso de construcción de
significados debe investigarse en concreto sin reduccionismos (De la Garza, 1992).
Lo objetivado puede cristalizar en estructuras y artefactos que no determinan la
acción sino que la acotan, presionan, canalizan y en todo caso la mediación de la
subjetividad es indispensable para explicar la acción (Heller, 1977).
Lo material como objetivado puede ser algo físico (un edificio que construye-
ron los hombres y que no existe solo en el momento de la práctica de sus creadores)
pero también puede ser simbólico (Schutz, 1996). La objetivación de símbolos o
códigos para construir significados es parte de una tradición muy cara a la Socio-
logía y a la Antropología. Desde Durkheim y su concepto de conciencia colectiva
que no se reduce a las individuales, pasando por Parsons y su idea de subsistema
cultural que diferencia claramente del de la personalidad el que transcurre en la
subjetividad, al de significados objetivos de Schutz (Schutz, 1996), socialmente
aceptados. En esta línea la objetivación o sanción social de los significados podría
afinarse un poco más bajo la diferenciación entre signo, sentido y significado. Re-
servando este último a los que en concreto construye el sujeto para comprender
y actuar en la situación concreta y que transcurre en la subjetividad que puede
ser social además de individual (Gurvitsch, 1979). Pero el proceso concreto de
crear significados para la situación concreta utiliza como materia prima códigos o
sentidos de la cultura que están socialmente aceptados, el sujeto a partir de estos
puede hacer reconfiguraciones o reconstrucciones según su grado de autonomía
con respecto de las formas culturales dominantes y en función de lo rutinario o
extraordinario de los eventos que requieren de ser significados (Cicourel, 1974).
Es decir, una forma de objetivación es de sentidos o códigos de la cultura que ten-
drían también una existencia transindividual aunque finalmente requieren como
todo lo social de su actualización. Los códigos objetivados de la cultura pueden ser
de diversos órdenes: morales, emotivos, cognitivos, estéticos (De la Garza, 2007).
Por otro lado, puesto que la relación con el mundo de los hombres es simbó-
lico-práctica, los objetos de trabajo, medios de producción, productos e interac-
ciones en los proceso de trabajo están también investidos de significados (De la
Garza, 1997). En esta medida en los productos del trabajo puede haber énfasis
diversos de lo físico y de lo simbólico pero finalmente todos los trabajos incluyen
las dos dimensiones en todas sus fases, así como en las operaciones de compra ven-
ta. Cuando se habla de producción material no hay que entender solamente la que
genera productos físicos objetivados, puede implicar la generación de símbolos
objetivados como el diseño de software. En esta lógica resulta superficial decir que
la producción inmaterial es la de generación de conocimiento o bien la emocional.
Porque ambas pueden ser objetivadas –símbolos cognitivos como una fórmula
matemática o emociones nacionalistas socialmente aceptadas- o bien existir solo

147
CAPÍTULO 9

en la subjetividad del consumidor como el resultado del espectáculo musical en


vivo (Bolton, 2006). Además, lo cognitivo y lo emotivo no serían sino dos de más
campos de los significados, al menos faltarían el moral y el estético. Mucho más
riguroso que Negri (Negri y Hardt, 2005) resulta Marx al hablar de trabajo inma-
terial, en tanto aquel en el que se comprimen las fases de producción, circulación
y consumo en un solo acto, en el que el producto solo existe en la subjetividad del
consumidor como en la obra de teatro (Marx, 1974).
En esta línea de razonamiento aparece el problema del valor de las mercan-
cías sean materiales o inmateriales. El valor no tiene que ver con algo físico,
aunque en ciertas mercancías fuera su forma de existir, ni tampoco con su valor
de uso, aunque el valor implica al valor de uso. En trabajos premercantiles o
no mercantiles, se pueden generar valores de uso sin valor y lo mismo puede
hablarse de valor en la producción de bienes que de servicios. Es decir el valor
no es algo físico sino resultado de un tipo de relación social de producción en-
caminada a generar mercancías, que si no se venden su valor no se concretiza.
Es decir el valor de una mercancía de acuerdo con la teoría del valor trabajo
depende de la cantidad de trabajo incorporada a la misma, pero también de que
este valor sea sancionado socialmente en un mercado. La cantidad de Trabajo
incorporada o “energía de trabajo” no puede asimilarse al concepto de ener-
gía de la física, implica desgaste físico pero también intelectual. Actualmente
este concepto de dimensión intelectual del trabajo incorporado puede ser in-
suficiente o puede profundizarse a través del concepto de subjetividad como
proceso de dar significados, de decidir, planear, monitorear entre concepción y
ejecución. Al menos desde los años ochenta del siglo anterior se sabe que para
trabajar no solo se ponen en juego cogniciones (saberes en el sentido de la cien-
cia y de la práctica) sino también emociones, sentidos morales y estéticos que
influyen en como se trabajo y en el resultado del trabajo y guían los movimien-
tos físico corporales (Castells, 1999). De tal forma que la “energía de trabajo”
es físico corporal y subjetividad vinculados a las tareas productivas, todo esto
con mayor o menor énfasis. El trabajo de cavar con pala un pozo puede poner
en juego más a la fuerza física del cuerpo que el diseño de un software, este
es más simbólico cognitivo aunque requiera de escribir o teclear físicamente.
Por tanto, la cantidad de Trabajo incorporado implica siempre las dos dimen-
siones, los factores blandos que influyen en la producción, la productividad o
la calidad, como la cultura, la identidad, la iniciativa, la capacidad de trabajar
en grupo son actualmente ampliamente reconocidos como fuerzas productivas
(David y Foray, 2002).
Reconocer los aspectos corporales físicos y subjetivos de la fuerza de trabajo
y del trabajo incorporado es considerar que la relación con los objetos de trabajo,

148
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

medios de producción, producto, así como las interacciones en el trabajo están


embebidas de significados. Esta incorporación en el producto de lo físico y los
significados conforma el trabajo incorporado que de cualquier forma necesita ser
validado en el mercado. En esta validación influye el costo de producción como
parámetro pero también la necesidad de disponer de un valor de uso por el com-
prador. Estas necesidades son también sociales y, por tanto, no dependen sola-
mente de las características físicas del producto sino de cómo se han acuñado los
patrones de consumo y son valorados socialmente (Braudillar, 1987). Es decir, el
valor de uso también tiene una dimensión física y otra simbólica, de tal forma de
que la demanda de un valor de uso no es solo por su forma física sino también
simbólica (el valor de un alimento no depende solamente de la cantidad de proteí-
nas, minerales, etc., sino también de su aprecio social que cambia histórica y cul-
turalmente e incluso puede tener significados de clase) En la producción material
ambas son objetivadas, en la inmaterial el producto se incorpora a la subjetividad
del consumidor en el mismo momento de su producción. Es decir, el peso que en
el mundo tienen los servicios en las economías no debe preocupar a los defensores
de la teoría del valor trabajo.

2. Los Servicios

El Capitalismo moderno se inició sobre todo con la producción físico material


–que no excluye a lo simbólico – de las manufacturas (textiles) o las minas y el con-
cepto moderno de Trabajo giró en torno del de la fábrica, entendida como concen-
tración de obreros asalariados – con clara relación capital/trabajo – en un mismo
espacio físico, trabajando una jornada diferente del tiempo de ocio, con máquinas
y una división del trabajo: Este tipo de producción fue el eje del desarrollo capi-
talista hasta mediados del siglo XX. Las teorías económicas, sociales y del trabajo
se construyeron teniendo en mente al obrero de fábrica, así como las propuestas
de organización, formas de lucha, demandas, derechos e instituciones mediadoras
entre empresas, sindicatos y Estado (Bouffartigue, 1997). Sin embargo, desde la
segunda parte del siglo XXI muchas economías industrializadas se han conver-
tido en otras de servicios y en países del tercer mundo los servicios precarios dan
ocupación a una parte muy importante de la mano de obra y representan también
la parte mayoritaria del PIB (Cortés, 2000). Para la Economía convencional no ha
sido un problema dar cuenta de esta transformación, porque en esta concepción
lo mismo agregan valor las actividades industriales en sentido restringido (ma-
nufactura, extractivas, electricidad-gas y construcción) que lo agropecuario y los
servicios, el comercio, las finanzas y hasta las actividades públicas.

149
CAPÍTULO 9

Desde el punto de vista del proceso de trabajo la cuestión se simplifica rela-


tivamente, porque independientemente que la teoría del valor trabajo excluya a
las últimas mencionadas de la generación de valor, en todas estas hay procesos
de trabajo y, en particular hay quien ha definido los servicios como actividades
que generan productos intangibles (Castells y Aoayama, 1994). Este concepto
no deja de ser simplista porque intangible significa que no puede tocarse, lo
que remite a uno solo de los sentidos físicos del hombre, el del tacto. Situación
diferente es si se hubiera considerado que no pueden ser observados a través
de los sentidos (vista, oído, gusto, olfato, además del tacto), porque un servicio
musical puede ser percibido por el oído, el postre en el restaurante con el gusto
o el olfato (Lucchetti, 2003). Por lo tanto intangible no es lo mismo que no físico
(el sonido puede ser muy físico), en todo caso lo tangible se trataría de lo físico
cuya forma y volumen puede ser percibida por la vista y no solo tocada, es decir
los productos industriales.
Pero esta rudimentaria distinción tiene las siguientes complicaciones:

1. Que lo objetivado no es solamente lo que genera la industria o la agri-


cultura, sino que puede haber intangibles objetivados (el programa
de software)
2. Que hay servicios en que una parte es tangible, como el alimento en el
restaurante, además de que la producción tangible involucra muchas ope-
raciones o fases intermedias intangibles como el diseño, la contabilidad,
la comunicación.
3. Muchos productos intangibles pueden ser observados a través de los sen-
tidos como la música de un concierto o se puede observar el cambio de
coordenadas de tiempo y espacio en el transporte de pasajeros.
4. La captación de tangibles siempre tiene un componente de intangible, el
bello auto.

Esto apunta a la necesidad de pasar a conceptos más finos que el de tangible


o intangible, como puede ser la distinción entre producción y trabajo material
(objetibable) e inmaterial (subjetibable), de tal forma que un aparte de lo material
sería intangible (De la Garza, 2007). Es el caso del diseño de software, el objeto a
transformar son símbolos o programas anteriores objetivados, el medio de pro-
ducción puede ser físico material como la computadora, pero también el propio
conocimiento y la fuerza de trabajo es sobre todo subjetivo cognitiva, es decir la
capacidad del programador de crear un nuevo programa, que como producto

150
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

es eminentemente un sistema de símbolos que como algoritmo permite solucio-


nar ciertos problemas. No están exentas las interacciones con miembros de un
equipo, o con líderes de proyecto e incluso a través de la red con la comunidad
de programadores que se apoyan. Aunque pareciera no ofrecer retos este tipo de
servicio con producto simbólico objetibable, su alto contenido simbólico implica
repensar que es tiempo de trabajo –puesto que el programador puede seguir pen-
sando en soluciones al problema fuera de la jornada formal de trabajo-; relación
laboral – cuando se puede comunicar a través de la red con una comunidad de
programadores que rebasa a los compañeros formales de trabajo y que puede coo-
perara en las soluciones; calificación del programador sobre todo en habilidades
cognitivas que no son el resultado lineal del conocimiento formal; división del
trabajo y si las operaciones de diseño se podrían estandarizar como pretende la
metodología de la llamada ingeniería del software; si hay una identidad de “ofi-
cio” con orgullo de capacidad cognitiva y en que consiste esta capacidad, que
decíamos no se reduce a la repetición o aplicación de conocimientos escolásticos
sino que intervienen dosis importantes de imaginación, intuición, creatividad no
sistematizables o reducibles a rutinas.

5. Los servicios que implican el trato directo con el cliente en el momento


en que el servicio se presta, que pueden ser cara a cara o virtualmente a
través de las telecomunicaciones, con la particularidad de que sin clien-
tes presentes no habría servicio, de tal forma que una parte de lo que se
vende es el trato a dicho cliente, al grado de que en algunos puede ser la
dimensión mercantil más importante. El cuidado de bebés implica tangi-
bles (alimentos, limpieza, etc.) y el trato, hay quien valora en este servicio
más lo segundo que lo primero.
6. Servicios no interactivos con el cliente: televisión, radio
7. Servicios en los que es crucial la apropiación del espacio, como en la venta
ambulante, que pueden cruzarse con los anteriores:
a) Que se prestan en espacios cerrados en los que durante la produc-
ción no hay contacto con el cliente/en espacios abiertos pero solo para
clientes (restaurante)/en espacios públicos abiertos a la ciudadanía
pero en un punto fijo (venta callejera)/en el hogar/sin un punto espe-
cífico en el espacio, móvil (venta a domicilio, taxis).

Esta problematización del concepto de servicios tiene repercusiones en el con-


tenido o la necesidad de ampliar los de control sobre el trabajo, relación de trabajo
y construcción social de la ocupación.

151
CAPÍTULO 9

3. La expansión de los conceptos de control, regulación y


mercado de trabajo

Primero, en cuanto al control sobre el proceso de trabajo3. Este concepto se


popularizó en la sociología del trabajo en los años cincuenta, sesenta y setenta y
la imagen detrás era la del trabajo taylorizado, muy controlado, frente al trabajo
del asalariado de oficio o bien del artesano autoempleado y hacia el futuro el tra-
bajador de procesos automatizados. En el concepto de control clásico influyó mu-
cho la ciencia política norteamericana de los sesenta que lo entendió a la manera
weberiana como capacidad de imponer la voluntad a otro. En esta medida, en el
proceso productivo se podrían controlar los insumos, la maquinaria y el equipo,
la distribución del espacio físico, el tiempo de trabajo, las operaciones a realizar, la
calificación, los conocimientos, las interacciones dentro del trabajo, la cultura y la
subjetividad, las relaciones laborales (entrada y salida al trabajo, ascensos, salarios
y prestaciones, capacitación, afiliación a sindicatos, a los sindicatos mismos). En
la perspectiva de Braverman se remitía a un nivel más general, en la producción
capitalista para explotar al trabajador el capital tenía que dominar al obrero dentro
del proceso de trabajo. Es decir, esta concepción remitía, antes que al control, al
problema clásico de la ciencia política del poder y la dominación pero en el proceso
productivo. Entendidos clásicamente como poder coerción y dominación como
consenso y en un caso extremo Hegemonía. En general, el ámbito del poder puede
implicar la imposición personalizada o bien abstracta a partir de reglas organiza-
cionales o técnicas. La dominación se acerca a la legitimidad del mando y en el ex-
tremo al reconocimiento por parte de los dominados de esa capacidad intelectual
y moral de ser dirigidos por la gerencia. Es decir, hunde sus raíces en el campo de
la cultura y la subjetividad, en la construcción de los sentidos del trabajo y de las
relaciones entre las clases en los procesos productivos que supone los niveles cog-
nitivo, moral, estético, sentimental y a las formas de razonamiento cotidianas, sin-
tetizadas en discursos y formas de conciencia no discursivas. La hegemonía, como
en general el poder y la dominación pueden ser todas concebidas como construc-
ciones sociales que implican estructuras de los procesos de trabajo y fuera de estos,
interacciones inmediatas y mediatas, formas de dar sentidos en la producción y en
otros espacios de interacciones y niveles de realidad (Aronowitz, 1992).

3 Se puede controlar en un trabajo el horario y la jornada, el espacio productivo, la calidad


y cantidad del producto producido, las materias primas, las herramientas y maquinaria, el
método de trabajo, la calificación, la división del trabajo, la capacitación, el ingreso a la ocu-
pación, la salida de la misma, el ascenso, el ingreso o el salario, las prestaciones. En trabajos
no clásicos puede haber control por el cliente, por ciudadanos, por agentes de la autoridad
estatal, por líderes gremiales, por la comunidad de trabajo, por partidos políticos.

152
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

Es decir, el poder y la dominación en el proceso de trabajo que puede sinte-


tizarse en constelaciones tales como clientelismo, patrimonialismo, caudillismo,
dominación burocrática, patriarcalismo, democracia, dictadura, oligarquía, etc.,
pueden operacionalizarse a través del concepto de Control Pero el control tiene
que especificarse en que tipo de relaciones de producción se concreta –de explo-
tación, de autoempleo, en la familia, de subcontratación, etc. En este camino de
lo abstracto del poder y dominación en el proceso de trabajo hacia lo concreto del
control con varias dimensiones, las tipologías del debate del proceso de trabajo
pueden ser útiles –control técnico, administrativo, autocontrol- sin olvidar que to-
das las formas de control implican ciertas interacciones igualitarias o jerárquicas,
que estas interacciones ponen en juego símbolos y sus intercambios o negociacio-
nes, que implican reglas formales e informales, en relaciones con determinadas
estructuras (Cohen, 1996).
Remitiéndonos a los grandes tipos del trabajo no clásico (De la Garza, 2008).
En el primero (I) que se realiza en espacios fijos y cerrados, con trabajo asalaria-
do o no aunque con intervención directa de los clientes (por ejemplo en el piso
de los supermercados), el problema del control empieza por el que puede ejercer
el empleador en su caso y la cooperación o resistencia que pueden hacer los tra-
bajadores. En esta dimensión caben los aspectos mencionados para el control en
el trabajo capitalista. Pero al que hay que añadir el que pude ejercer en mayor o
menor medida el cliente y la propia comunidad de trabajadores. El control del
cliente empieza como presión simbólica para la realización del trabajo en el espa-
cio y tiempo esperado y con la calidad requerida por este. En este control pueden
jugar las reglas organizacionales esgrimidas por el cliente u otras más amplias de
la legislación, incluyendo los derechos mercantiles, hasta el recurso de la apelación
a la ética combinada con las emociones. Esta presión puede traducirse en interac-
ciones, peticiones, reclamos hasta la demanda legal, según el caso, sin excluir el
uso de la fuerza física o simbólica por parte del cliente o del trabajador. En nuestra
investigación en esta categoría entrarían los trabajadores de MacDonalds y Wal
Mart, en los que encontramos niveles de medio al alto de estandarización de las
tareas, incluso en MacDonalds nos hemos atrevido a mencionar que se trata de un
proceso de trabajo taylorizado para los trabajadores e intentos de taylorizarlo para
la clientela, al igual que en Wal Mart. De hecho en el diseño organizacional de las
gerencias de estas empresas se contempla explícitamente que los clientes “trabajen”
para poder recibir los servicios. Se trata de trabajos de baja calificación (acomo-
dadores o cajeras en Wal Mart y empleados de restaurantes de MacDonalds) con
bajos salarios, escasas prestaciones y mucha discrecionalidad por parte de las ge-
rencias, hay sindicatos pero son de protección. El control sobre el trabajo está muy
formalizado a partir de manuales, supervisores, cámaras, el “cliente sospechoso”

153
CAPÍTULO 9

y los propios empleados. Las empresas tratan de infundir una ideología de perte-
nencia a una familia, pero sobre todo se trata de procesos muy controlados por
las gerencias, con miras también a desactivar rápidamente cualquier intento de
organización independiente. Las luchas en México en estas empresas se han dado
por excepción, reportamos una en Wal Mart que si prosperó, gracias a que un
sindicato corporativo lo negociación en el nivel estatal, en tanto que otra más in-
dependiente ha chocado con todo el aparato administrativo y jurídico laboral que
soporta a los sindicatos de protección. En estas empresas, la presencia del cliente es
muy importante y frente al mismo se generan sentimientos ambivalentes, por un
lado de darle un buen servicio, por el otro de ser uno de los que presionan y a veces
acusan a los trabajadores de negligencia. Cuando alguna lucha ha prosperado ha
sido gracias a la formación o negociación externa a los lugares de trabajo.
La situación se complica para los trabajadores en la venta de bienes o servicios
ambulantes, el trabajo del taxista, del microbusero, que se realiza en locales o luga-
res fijos o móviles pero en espacios abierto a las interacciones con sujetos diversos
en el territorio (trabajo no clásico de tipo II). Cuando se trata de trabajo asala-
riado, valen las consideraciones ya expresadas para esta relación obrero patronal
en el tipo I, habría que puntualizar la relación con el cliente. Pero en el caso de
autoempleados no se puede hablar de la participación de este en un “contrato” de
trabajo al cual formalmente se pueda apelar, a diferencia del derechohabiente del
Seguro Social que puede reclamar un servicio previamente pactado Sino que en el
mejor de los casos valen reglas más generales del derecho civil, del comercial, del
penal, del reglamento de policía o del de salubridad. Pero lo que hace francamente
complejo al trabajo en territorios abiertos es la emergencia no necesariamente sis-
temática de actores de dicho territorio que no implican la relación proveedor-tra-
bajador-cliente, estos actores pueden ser transeúntes, policías, inspectores, otros
trabajadores de la misma ocupación, líderes de organizaciones que no son sindi-
catos de este tipo de trabajadores o de otras actividades. Aunque las relaciones de
los sujetos mencionados con los trabajadores por su cuenta no son las del trabajo
asalariado en el sentido clásico si impactan al trabajo, impactan el uso del territo-
rio para trabajar, al tiempo de trabajo, al tipo de producto, a las ganancias, y hasta
a la existencia misma de la ocupación. Aunque fueran interacciones eventuales no
necesariamente son extraordinarias y muchas veces es posible establecer regula-
ridades en cuanto al tipo de actor que interacciona, el tipo de interacción, los con-
tenidos prácticos y simbólicos, las cooperaciones, negociaciones y conflictos. Para
nuestra investigación en esta categoría se encuentran los vagoneros, ambulantes,
tianguistas, taxistas, microbuseros y metrobuseros. Por la multiplicidad de actores
involucrados con su trabajo y la eventualidad de muchas de las intervenciones de
estos, necesitan estar en un estado permanente de alerta, aunque su referente prin-

154
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

cipal de negociación y conflicto es el gobierno que actúa como un cuasi patrón que
gestiona el uso del los espacios públicos. En estas negociaciones son cruciales las
organizaciones de los trabajadores que comúnmente con los gobiernos establecen
regulaciones de cómo trabajar – uso del espacio, registro de trabajadores, jorna-
das, etc. El aspecto central de los conflictos y del control sobre el trabajo es el uso
del espacio, sea relativamente fijo o en general la ciudad.
El tercer tipo de trabajo no clásico, tipo III, en espacios fijos y cerrados priva-
dos, empresariales, o bien confundidos con los de reproducción, como en el tra-
bajo a domicilio, con interacciones precisas con patrones, proveedores y clientes.
Lo que añade complejidad en cuanto al control son las presiones que vienen de la
familia, las interfases y a la vez contradicciones entre espacios de trabajo y los de
alimentación, aseo, cuidado de los niños, descanso o diversión. Los actores adi-
cionales a considerar son los hijos, esposos, familiares que cohabitan en el mismo
espacio de trabajo o vecinos y que exigen atención, tiempo, afecto, u otro tipo de
trabajo como el doméstico para sus necesidades vitales. Para nuestra investigación
fueron los casos de los diseñadores de software y de los extras de televisión en
sus modalidades empresariales. Son casos extremos, aunque en ambos se trata de
trabajadores con cualidades en el ámbito de los significados. Para los diseñadores
de software la capacidad cognitiva, para los extras de imagen estética de su físico.
Ambos son trabajadores poco protegidos, aunque los diseñadores pueden tener
salarios más elevados y basar su seguridad en el empleo no en la contratación sino
en sus cualidades cognitivas que se acercarían a un nuevo concepto de oficio. Los
extras son todos eventuales, sujetos al despotismo de quienes los contratan, que
pueden ser sindicatos, agencias de contratación de personal o productoras. En es-
tos trabajadores se genera un gran resentimiento, derivado de los desprecios y mal
tratos, bajos salarios, pero también de la frustración de no llegar a ser actores.
En cuanto a la regulación laboral: este tema ha estado asociado en el origen al
surgimiento del trabajo asalariado sin regulaciones ni protecciones en los trabaja-
dores en los siglos XVIII y XIX. Las luchas obreras fueron conquistando un cuer-
po de Leyes, contratos, etc. que regularían estas relaciones en cuanto al salario
y prestaciones, la entrada y salida de los trabajadores del empleo, los tiempos de
trabajo, las funciones a desempeñar, la calificación necesaria, la forma de ascen-
der entre categorías, las de cómo resolver las disputas entre capital y trabajo, las
sanciones a los trabajadores cuando incumplan las normas, la movilidad interna,
la polivalencia, los escalafones, la participación en las decisiones de los trabajado-
res o de los sindicatos en los cambios tecnológicos o de organización. Lo anterior
se extendió más allá del lugar de trabajo hacia el reconocimiento de los sindicatos,
de las instituciones de seguridad social y las de la justicia del trabajo, así como
de los vínculos más amplios entre Estado, sindicatos y organizaciones patrona-

155
CAPÍTULO 9

les. Todo esto se consideró por mucho tiempo que solo era pertinente para el
trabajo asalariado, por la razón de que en este tipo de relación laboral se podría
demandar por el incumplimiento de las normas a los trabajadores o a las empre-
sas, a diferencia del autoempleado que al no contar con un patrón se le consideró
ausente de una relación laboral. Sí bien la relación laboral en sentido restringido
puede ser la que se establece entre el capital y el trabajo, que parte del puesto de
trabajo y que se extiende hasta el Estado y las instituciones de justicia laboral y
de seguridad social. En sentido ampliado la relación laboral no sería sino la o las
relaciones que en el trabajo se establecen entre los diversos actores que participan
interesada o circunstancialmente en este y que influyen en el desempeño laboral.
Con esta definición ampliada de relación laboral (Durand, 2004) como interac-
ción social, con sus atributos de práctica e intercambio de significados dentro de
determinadas estructuras, los actores a considerar no tendrían que ser solamente
los que contratan fuerza de trabajo y quienes son contratados, dependiendo del
tipo de trabajo pueden ser actores muy diversos no necesariamente interesados
en la generación de un bien o un servicio determinado como la venta ambulante
los inspectores (Jurgens, 1995).
En el primer tipo de trabajo no clásico (asalariados en espacios fijos y cerrados
en interacción directa con los clientes) vale la pena detenerse en la parte corres-
pondiente al cliente. El buen trato al cliente es parte muchas veces de lo pactado
en la relación laboral. Para el asalariado en el piso de las tiendas Wal-Mart o del
MacDonalds, el interaccionar el trabajador con este actor con eficiencia y cortesía
puede ser parte de la regulación formal del trabajo. Frente a un incumplimiento de
esta norma el cliente puede acudir a la empresa o a otras instancias de regulación
–por ejemplo en el caso de los servicios médicos- para demandar al trabajador,
eventualmente puede también recurrir al derecho civil o al penal. Pero lo más in-
teresante podría ser la regulación informal que apela a la ética del trabajador en la
atención, a la cortesía o a las buenas costumbres. Dependiendo del, caso también
pueden influir sobre el trabajador sentimientos de compasión (discapacitados) y
la presión simbólica y hasta física de otros clientes que hicieran causa común con
los reclamos de uno. La presión del cliente puede encontrar apoyo en reglas de la
organización que emplea al trabajador -las horas de entrada, igual que las horas
de salida o los poros en la actividad del trabajador pueden ser motivos de disputa.
Es decir, las reglas burocráticas de la empresa pueden ser usadas por los usuarios y
con esto adquirir un carácter tripartito en la práctica la regulación laboral.
Otro tanto se puede decir de reglas sancionadas directamente por el Estado
–sanitarias, criminales, mercantiles – que el usuario las puede hacer suyas y esgri-
mirlas frente a un mal servicio por parte del trabajador. Cuando corresponda, las
reglas pueden provenir de las organizaciones gremiales o políticas a las que perte-

156
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

nezca el trabajador, o bien a ámbitos desligados del trabajo para actores no clientes
como reglamentos de tránsito, sanitarios, de moral pública, etc. (trabajo no clásico
tipo II) (Lindón, 2006).
Es decir, podemos encontrarnos en situaciones de imbricación de reglamen-
taciones complejas formales e informales, no exentas de contradicciones y a las
cuales los actores pueden apelar en los casos de violaciones o para ganar ventajas
en la prestación de los servicios.
Posiblemente el concepto que en caso del trabajo ampliado sintetice a los dos
conceptos anteriores y añada otros elementos importantes sea el de construcción
social de la ocupación. Otra vez, hay que buscar el origen de la discusión en el
trabajo asalariado clásico. El concepto de empleo, entendido como ocupación de
asalariados para un patrón, mucho tiempo ha sido pensado abstractamente como
resultado del encuentro entre oferta de trabajo (fuerza de trabajo diría C. Marx) y
demanda de esta, las variables centrales que supuestamente permitirían explicar
el empleo serían el salario y el número de puestos disponibles con respecto de los
solicitantes de empleo, así como el número de oferentes de trabajo (otros extende-
rán el análisis hacia la familia) (Benería y Roldán, 1987). Sin embargo, en el trabajo
asalariado el arribar a la obtención de un puesto de trabajo puede ser detallado
con mayor precisión. Por el lado de la oferta de fuerza de trabajo, esta oferta es de
hecho un tipo de acción emprendida por los que desean emplearse y como todas
las acciones sociales, se parte de situaciones que el futuro trabajador no escogió,
de puestos disponibles, de sus redes sociales y de sus propias concepciones acerca
del trabajo. Parte también de cierta estructura de la familia, en ingreso, en jerar-
quías, en lo que se considera trabajos legítimos, de redes familiares, de amistad,
de compadrazgo que permiten llegar a veces a las fuentes de empleo (Barrere y
Agnés, 1999)). Además, el oferente de mano de obra llega a solicitar empleo con
cierta educación, calificación y experiencia laboral, género, etnia, origen urbano
o rural y regional, en cierto momento de su ciclo vital. Por otro lado, se sitúa en
estructuras macro que pueden aparecer invisibles para el actor pero que influyen
en sus posibilidades de empleo, como la coyuntura del crecimiento o crisis de la
economía, las estructuras del mercado de trabajo (Bordieu, 1992). Por el lado de la
demanda de fuerza de trabajo esta tienen que ver con la microeconomía de la em-
presa, el mercado del producto, ventas, inversiones, exportaciones y la macroeco-
nomía que la impacta (inflación, tasa de cambio, déficits en cuenta corriente). Pero
también con la configuración sociotécnica del proceso de trabajo de la empresa
(tecnología, organización, relaciones laborales, perfil de la mano de obra, cultura
gerencial y laboral) y las estrategias de la gerencia de manejo de personal, de rela-
ciones laborales, etc. Cuando sea el caso, pueden influir las políticas sindicales de
contratación de personal, por ejemplo el dar preferencia a los familiares de los ya

157
CAPÍTULO 9

empleados. Sin olvidar las restricciones de las leyes laborales o de seguridad social
y los contratos colectivos de trabajo.
En el encuentro entre oferta y demanda de trabajo están involucrados sujetos
que tienen intereses uno de ser empleado con ciertas condiciones y el otro de con-
seguir al empleado adecuado, pero estos no actúan con entera libertad, está limi-
tados o impulsados por estructuras micro, mezzo y macro como las mencionadas,
pero ubicados en estas los actores conciben la relación de trabajo de acuerdo con
sus intereses, experiencia y carga cultural y el encuentro puede coincidir por los
dos lados o frustrarse.
En los trabajos no clásicos tipo I, la diferencia más substantiva con los clásicos
es la presencia del cliente en el lugar de trabajo y que el producto o el servicio se
genera en el momento del consumo (hay un producto material que se vende y con-
sume en el restaurante). Es decir, la construcción de la ocupación depende también
directamente del consumidor, que no contrata al trabajador, pero el ser contratado
el trabajador por la empresa depende de que aquel esté consumiendo en el acto
mismo del trabajo. Es decir, la repercusión del mercado del producto sobre el em-
pleo es directa. Esta preferencia del consumidor no se basa solo en el precio y en
la calidad del producto sino también en la atención personal, de tal forma que en
la producción social de la ocupación no es posible separar de manera inmediata la
demanda de trabajo de la demanda del producto o al menos no se dan en dos fases
separadas. Además la presión por parte del cliente de proporcionar un producto-
servicio de calidad y afectividad adecuados permanece durante toda la actividad
laboral y no forma parte solamente del momento de la contratación del trabajador.
Es decir, la construcción social de la actividad es permanente y puede verse coar-
tada por las malas relaciones del trabajador con el cliente, además de con la propia
gerencia. Por el lado del cliente su demanda de servicio implica precio y calidad del
mismo, pero dentro de la calidad está la calidez de la relación con el trabajador y
la organización. En unos casos el producto puede ser de compra venta –compra en
un supermercado, servicio tradicional de un banco en sucursal-, en otros el pro-
ducto se consume en el lugar de trabajo –hospitales, hoteles, restaurantes- pero en
todos estos la calidez forma parte integrante del servicio. Este factor puede alterar
la demanda del producto y con esto afectar el empleo.
La construcción social de la ocupación se complica en espacios abiertos sean
los trabajadores asalariados o no de tipo II (Lindón, 2006). La demanda del pro-
ducto influye directamente en la construcción de este tipo de ocupaciones, en lo
inmediato depende de los clientes. Es decir, un condicionante directo de estas ocu-
paciones es el mercado del producto para sintetizar en el que cuentan la inflación,
el tipo de producto, el nivel de ingreso de la población. Pero muchos otros agentes
pueden ayudar u obstaculizar la constitución de la ocupación. Primero, las posi-

158
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

bles organizaciones gremiales no sindicales que pueden permitir o impedir ocu-


parse, además de los miembros de su comunidad de ocupados o de otras competi-
doras. En segundo lugar, la influencia de actores no laborales pero que comparten
el territorio, como pueden ser agentes públicos intransigentes o condescendientes,
los transeúntes y habitantes de la zona –ciudadanos que protestan por la suciedad,
por invadir vías públicas, por delincuencia, por el ruido. No habría que olvidar a
los proveedores de insumos o de productos para la venta que pueden presionar
sobre lo que se ofrece a los clientes y sobre los precios. Sobre estas construcciones
de la ocupación pueden influir las reglamentaciones urbanas o rurales, sanitarias,
laborales para cuando se emplean asalariados, fiscales, los acuerdos corporativos
entre organizaciones gremiales y gobiernos. En esta medida no hay que dejar de
lado un concepto ampliado de configuración sociotécnica del proceso de trabajo42
que implique al cliente como una dimensión importante.
En los trabajos no clásicos tipo III, en los que se trabaja en espacios fijos y
cerrados, además de lo señalado para el trabajo asalariado y para clientes, provee-
dores y mercado del producto, habría que añadir la influencia material y subjetiva
de la familia por las posibles contradicciones entre espacio y tiempo de trabajo
con respecto del necesario para la reproducción familiar (Benería y Roldán, 1987).
En todos los casos, la perspectiva de sujetos implica que las estructuras como
las configuraciones sociotécnicas de los procesos de trabajo presionan pero no de-
terminan, que estas presiones pasan por la subjetividad de dichos actores y que
la construcción de controles, regulaciones o la propia ocupación implica generar
decisiones en interacción con otros sujetos situados también en estructuras de tra-
bajo o de afuera del trabajo y poseedores de capacidad de dar significados.
Finalmente, el problema de la estandarización, rutinización no es exclusiva
de las producciones materiales, puede haber estandarización en el trabajo simbó-
lico, por ejemplo la repetición de un show sin interacción con el público, o bien
los intentos de la ingeniería del software de estandarizar el diseño de programas,
aunque en un extremo el trabajo de creación-invención esté menos sujeto a la es-
tandarización, como el del artista o el del científico (De la Garza, 2008)

4. La identidad

A continuación abordaremos el problema de constitución de Identidades co-


lectivas en trabajadores no clásicos. El concepto de Identidad no formaba parte del

2
4 Entendemos por configuración sociotécnica de los procesos de trabajo al arreglo confor-
mado por el nivel de la tecnología, el tipo de organización del trabajo, la forma de las rela-
ciones laborales, el perfil de la mano de obra y las culturas gerencias y laborales

159
CAPÍTULO 9

arsenal clave de la sociología hasta los años setenta, conceptos cercanos como el
de Conciencia Colectiva de Durkheim, Conciencia de Clase de Marx o Ethos de
Weber no corresponden exactamente a este concepto (Dubet, 1989). En Parsons
se menciona pero es marginal, a diferencia de la psicología clínica que de tiempo
atrás le dio importancia relacionada con los trastornos psicológicos. El concepto
de Identidad se volvió importante en Sociología desde los años ochenta y su irrup-
ción tuvo que ver con las teorías de los nuevos movimientos sociales que nacieron
en los setenta (Murga, 2006) (Di Giacomo. 1984). Para estos nuevos movimientos
sociales –estudiantiles, feministas, ecologistas- la explicación no podía encontrar-
se en la adscripción de clase de los participantes y se buscó en ámbitos culturales
y subjetivos, al grado de convertirse en un concepto central relacionado ya no solo
con movimientos sociales sino con el papel del hombre en la sociedad postmo-
derna, vinculado a la pérdida de sentidos, de proyectos de idea de futuro (Castel,
2004) (De la Garza (coord.), 2005). Sin llegar al extremismo postmoderno, desde
los noventa aparecen las teorías que vinculan la discusión sobre Identidad al fun-
cionamiento flexible de los mercados de trabajo, a la fluidez en las ocupaciones, en
las trayectorias laborales y de vida que conducirían a una pérdida de identidad, en
especial de los trabajadores (Sennet, 2000) (Dubet, 1999).
En la investigación sobre trabajadores no clásicos nos hicimos la misma pre-
gunta, ¿Pueden este tipo de trabajadores que contrastarían con los antiguos obre-
ros de industria identificarse, generar acciones colectivas y organizaciones a partir
de su Trabajo? Antes tenemos que profundizar sobre el concepto de identidad, en
particular de la colectiva.
La relación entre Trabajo e Identidad muchos la han idealizado en el traba-
jo de oficio, es decir, de un gremio de trabajadores autoconsiderados y también
visto por los externos como poseedor de capacidades especiales para generar un
producto, capacidades que requerirían de un aprendizaje prolongado no escolar
sino en la práctica, en el que el producto sería motivo de orgullo para su creador
por su calidad única. Sin duda que este problema estuvo presente como fuente de
conflicto cuando a raíz de la revolución industrial los artesanos incorporados a las
fábricas, controlados por las máquinas y posteriormente taylorizados y fordizados,
perdieron socialmente sus calificaciones dando origen a la clase obrera moderna,
industrial, que no necesariamente se identifica con su oficio. Todavía, en una etapa
anterior al maquinismo capitalista, los trabajadores asalariados podían hacer valer
su saber hacer al ser el proceso de producción no una cadena de máquinas sino
de hombres y todavía depender la calidad del producto de sus habilidades. Pero
en la gran producción del siglo XX este tipo de trabajo había desaparecido y no
había una razón para que el obrero estandarizado y rutinizado, sometido a una
minuciosa división del trabajo se sintiera orgulloso de su trabajo, de tal forma que

160
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

la famosa crisis de las identidades obreras con el producto de su trabajo data pri-
mero de la revolución industrial, y luego fue un fenómeno que en la gran empresa
sucedió hace más de 100 años. Sin embargo, fueron esos obreros descalificados, no
apegados a su trabajo ni mucho menos a su producto los que protagonizaron las
más duras luchas del movimiento obrero en el siglo XX (Hayman, 1996). Su identi-
dad ya no era con su trabajo o con su producto, sino con su comunidad de obreros
y en sentido negativo, como los explotados, los exprimidos con la intensificación
del trabajo, que se reflejaba en malas condiciones de vida. Eso fue lo que los iden-
tificó y no el oficio o la profesión. En etapas posteriores la identificación también
pudo ser con sus sindicatos o partidos políticos como medios de lucha. Es decir,
para la acción colectiva de los trabajadores no importa solamente la identidad con
el trabajo, como actividad concreta y con su producto, que incluso fue en el siglo
XIX un obstáculo para la formación de identidades más amplias (el carpintero que
se consideraba muy diferente del herrero) y que llevó inicialmente a la formación
de sindicatos diferenciados por oficios (Melucci, 2001). La homogeneización del
maquinismo y de la organización científica del trabajo contribuyeron a que los
obreros se vieran como semejantes, pero esta apreciación no podía surgir como
por arte de magia de unas estructuras, sino que se vio mediada por procesos de
abstracción de las diferencias vinculados con prácticas, sobre todo de luchas, y por
ideologías que así lo proclamaban, que enraizaban sobre todo cuando los conflic-
tos de clase se presentaban (De la garza, 2002).
Es decir, la Identidad con el Trabajo como problema no puede quedar reducido
a la que puede darse con la actividad concreta y el producto generado, porque lo
que los teóricos de la crisis de las Identidades están realmente discutiendo es la
crisis del movimiento obrero actual. En esta medida la Identidad con el Trabajo
tiene que manejarse en forma ampliada, primero con la actividad productiva pro-
piamente y con su producto, a semejanza de la identidad del oficio. Pero, decíamos,
la historia del movimiento obrero no es simplemente la de las identidades de oficio
agredidas, sino principalmente las de obreros no de oficio que se levantaban por
sus condiciones de trabajo y de vida negativas, incluso se levantaban por no sentir-
se identificados con su trabajo y estar forzados a vender su fuerza de trabajo para
subsistir. De esta forma, la segunda dimensión de la identidad de los trabajadores
puede ser consigo mismos y no necesariamente por el orgullo de ser asalariados
sino también por los agravios recibidos por el no obrero vinculado a la producción.
Habría que añadir la identidad que en cierta época dieron los sindicatos, como or-
ganismos de lucha, de aglutinamiento, e incluso los partidos obreros (De la Garza,
1999). En síntesis el problema del Trabajo y la Identidad deben entenderse tanto
como Work como Labor y en este ámbito emprender la discusión actual, que no
queda saldada al pensar en la crisis de la identidad del obrero con su trabajo, la

161
CAPÍTULO 9

del obrero de oficio o del artesano ante el advenimiento del capitalismo, problema
anacrónico en el contexto actual (Muckenberger, 1996).
Dice Norbert Elias que la identidad individual no se entiende sin la colectiva y
la identidad es un proceso no una condición, de abstracción de las diferencias y de
destacar lo que asemeja, de tal manera que las fuentes de identidad pueden ser muy
muchas (nación, etnia, juventud, género, escolar, trabajo en sentido ampliado, etc.)
y no sería el caso de intentar una lista exhaustiva. Aunque la que ahora interesa
es la que se vincula con el trabajo, que como decíamos se traduce en identidad de
los trabajadores para eventualmente realizar acciones colectivas. Iniciaríamos di-
ciendo que la identidad aunque se forja finalmente en el ámbito de la subjetividad
–la identidad como configuración subjetiva para dar sentido de pertenencia a un
grupo- tampoco puede desligarse de las prácticas ni de las estructuras en que inte-
raccionan los sujetos sociales (De la Garza, 2001). A raíz de las prácticas los sujetos
pueden llegar a la identidad puesto que esta tiene también aspectos reflexivos aun-
que otros que permanecen implícitos. Las identificaciones no solo dependen de los
espacios de relaciones sociales en cuestión (escuela, trabajo, familia, ciudad, etc.)
sino también del nivel de abstracción (humanidad, nación, clase, fábrica, sección,
oficio). Decir que depende del rol es como si estos roles se pudieran absolutamente
separar, en realidad sobre la identidad en un ámbito o nivel de abstracción (por
ejemplo en el Trabajo) influyen más o menos las relaciones, estructuras y signi-
ficados de otros (sobre muchos trabajos influye la dinámica de la familia) (De la
Garza, 1997). De tal forma que la Identidad siempre es “para”, para el trabajo, para
la escuela y tiene algo de espontáneo basado en las prácticas cotidianas pero que
se puede alimentar de una voluntad frente a dichas prácticas. Como la identidad
es una forma particular de dar sentido de pertenencia a un grupo social, luego
en el proceso de su construcción influye la presión de estructuras (una caída sa-
larial real o despidos), pero especialmente códigos del la cultura que sirven para
dar significados de pertenencia en determinadas circunstancias concretas. Estos
códigos pueden ser de diversos tipos: cognitivos, emotivos, morales, estéticos y
relacionarse a partir de formas de razonamiento formal o bien cotidiano. De tal
manera que la identidad es una configuración de dichos códigos que permite dar
el sentido de pertenencia, como configuración no está exenta de heterogeneidades
y contradicciones (De la Garza, 2001).
Profundizado sobre contenidos, siempre abiertos a la creatividad de las prácti-
cas, de las dimensiones de la identidad laboral (con el Trabajo, con los Trabajadores,
con sus organizaciones), la identidad clásica o mejor preclásica con el trabajo tiene
como estereotipo al trabajador de oficio, que poseía una calificación de compo-
nentes muy individualizados (Paugaim, 1997), la calidad del producto dependía
de estas cualidades y no de las máquinas, no era un trabajo standard y el producto

162
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

era su creación, este trabajador podría sentirse orgulloso de sus habilidades y de su


creación, que compartidas con otros trabajadores semejantes y que daban la iden-
tidad y la solidaridad del oficio. Amortiguada, esta identidad pudo subsistir en el
trabajo mecanizado y taylorizado, porque la estandarización nunca significó la cero
intervención de la concepción del trabajador, sin embargo, cuando los proceso de
trabajo se recomponen en el Toyotismo y se plantea una mayor participación e in-
volucramiento del trabajador, así como la extensión de los procesos informatizados
o de creación de conocimiento, algunos llegan a pensar en el surgimiento de oficios
modernos aunque de contenidos menos físicos que en el pasado (Micheli, 2006). Es
el caso de los diseñadores de software, trabajo que se ha resistido a su estandariza-
ción y que depende de habilidades no estrictamente racionalizables o escolarizables
de este trabajador. Pero en las circunstancias de la extensión de la producción in-
material, que pone en relación directa al trabajador con el cliente, haciendo a este
indispensable para la prestación del servicio, los componentes relacionales –sobre
todo con el cliente – y subjetivos –emoción, moral estética- se vuelven centrales en
el proceso de trabajo y como parte de los que se produce. En esta medida, las cuali-
dades manuales o físicas y de manipulación de herramientas e incluso de máquinas
quedan disminuidas como cualidad de la mano de obra frente a las relacionales y
de generación de significados emocionales, morales o estéticos, como en el cuidado
de ancianos, niños, el trabajo del profesor (Reglia, 2003; Ritzer, 2002; Handy, 1986;
Holm-Detlev y Hohler, 2005). Estas dimensiones del trabajo siempre existieron y
los trabajos manuales o materiales los incluyeron, la diferencia está en el énfasis de
sus componentes blandos sobre los duros, un caso extremo sería el diseño de soft-
ware que es eminentemente simbólico en cuanto a insumos, proceso y producto. De
tal manera que la capacidad de relación y de suscitar ciertos significados se vuelve
parte del mercado del producto, apreciado social y laboralmente, que puede ser
motivo de orgullo del trabajador o de identidad.
Una dimensión del trabajo poco destacada en las formas clásicas es el del uso
del espacio. En la fábrica clásica hay un uso del espacio, por ejemplo por depar-
tamentos en la empresa, diseñado comúnmente por las gerencias y dentro de los
cuales los trabajadores deben producir. Pero el problema principal se presenta en
trabajos en los que la apropiación del espacio se vuelve un medio de producción de
un bien o un servicio. Estos espacios pueden ser privados de las empresas, aunque
compartidos con los clientes, como en las tiendas de autoservicio en las que deam-
bulan en el espacio de la tienda acomodadores y clientes, a veces interfiriéndose, a
veces apoyándose. Lo mismo se comparte un mismo espacio en el trabajo a domi-
cilio entre el trabajador y los miembros de su familia con la consiguiente interfase
entre producción y reproducción, con interferencias o cooperaciones. Pero el caso
más grave es con el espacio público, tanto en la forma de trabajadores callejeros en

163
CAPÍTULO 9

puesto semifijo, como aquellos para los que trabajar es desplazarse en el territorio,
como los taxistas, microbusero o vendedores a domicilio. Para esto trabajadores
poder disponer del espacio público es condición para trabajar y en esta medida
pueden surgir múltiples disputas con actores muy diversos por el uso de los espa-
cios públicos – taxistas vs. agentes de tránsito, automovilistas, transeúntes a pie,
con otros taxistas. De forma de poderse hablarse de una disputa por los espacios
públicos que puede aglutinar a ciertos trabajadores en estos espacios y formar par-
te de su identidad. El orgullo en este caso puede provenir de su capacidad de resis-
tencia frente a los embates de tantos actores que pueden oponerse y la solidaridad
aparecer como una necesidad también sin la cual las posibilidades de excito se re-
ducirían substancialmente – son los caso de las organizaciones de vagoneros, ven-
dedores ambulantes, tianguistas, taxistas, microbuseros. En muchos trabajos tra-
dicionales no clásicos – vendedor ambulante, tragafuego, franelero- la capacidad
de resistencia frente a eventualidades cotidianas en el trabajo puede ser motivo de
identidad y orgullo frente al peligro, la violencia o el arresto. Pero en trabajos no
clásicos tradicionales resulta frecuente que los espacios de libertad del trabajador
sean mayores que en el trabajo formalizado en cuanto al inicio y duración de la
jornada, la forma de trabajar, los días de descanso, etc. Aunque tampoco hay que
pensar que se trata de la ausencia de regulaciones, normalmente las hay prove-
nientes de gobiernos u organizaciones pero no llegan al nivel de una fábrica. Esta
libertad y posibilidad de socializar con la clientela o sus vecinos de trabajo, combi-
nando trabajo y ocio puede ser algo positivo reivindicable por estos trabajadores,
frente al trabajo de fábrica y que daría identidad y satisfacción. Aunque entre estos
trabajadores a veces el trabajo se vuelve una competencia y un juego entre ellos o
con la ciudadanía para mostrar dotes superiores, como en el taxista o el microbu-
sero que en una proyección imaginaria de aventuras o conversión en superhombre
con capacidades extraordinarias vinculadas con el manejo que son alabadas por su
comunidad, este imaginario de poder puede ser otra fuente de identidad (Vovelle,
1987) (Senise, 2001). Por otro lado, también habría que tomar en cuenta el papel
del estigma en estas construcciones (Goffman, 1981), para muchos trabajadores
de las calles habría el estigma de sucios, delincuentes, drogadictos por parte de la
ciudadanía, pero a veces el estigma como negatividad forma parte de su identidad
como despreciados, en otros casos puede convertirse en contradiscurso y contra-
cultura –los artesanos-vendedores de Coyoacán, que venden y elaboran artesanías
y que han luchado cultural y políticamente por ser aceptados.
La identidad no requiere del cara a cara, entre los diseñadores de software
puede haber identidades virtuales entre quienes nunca se verán en persona, ni
tampoco el movimiento social está siempre precedido de una intensa identidad,
esta puede generarse en el mismo movimiento (Heller, 1985) (Habermas, 1979).

164
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

En pocas palabras, el espacio de Trabajo sigue siendo un campo de sociali-


zación y de creación de significados, que puede convertirse en identidad con el
trabajo, con la comunidad o con organizaciones. Estos dos últimos niveles casi
siempre van asociados a la identificación colectiva de un peligro para el desem-
peño de su actividad, a la identificación de un enemigo – entre los trabajadores
callejeros casi siempre el gobierno- que se puede potenciar cuando ese enemigo
emprende acciones concretas en contra de su fuente de trabajo. Es casi siempre
el chispazo para desencadenar la acción colectiva, que puede depender de orga-
nizaciones pero que posee su propia dinámica entre las comunidades de trabaja-
dores, como sucede entre los vendedores ambulantes Como dijimos no siempre
hay que buscar identidad con el trabajo y sobre todo con el producto – la venta
de determinado producto sencillo en el Metro no es motivo de identidad- pero si
en las cualidades del trabajador para realizarlo, sobre todo para sobrevivir y en
otros para relacionarse con el cliente –el peluquero por ejemplo. Es decir más que
identidad con el trabajo sería para el trabajo y sobre todo con su comunidad de
trabajadores. Ni la ausencia de la relación cara a cara – diseñadores de software,
taxistas o microbuseros o vendedores que no se conocen – es causa suficiente
para anular la identidad, puesto que el proceso de abstracción aunque parta de lo
concreto puede elevarse a niveles no sensibles de observación creando imagina-
rios de identidad entre desconocidos. Pero, así ha sido siempre, los movimientos
obreros clásicos nacionales no necesitaron del cara a cara entre todos, este ni si-
quiera era posible en una gran empresa (Habermas, 1981).
Finalmente, aunque el trabajo temporal ha crecido no involucra a la mayoría
de los trabajadores, en particular entre los asalariados. De tal forma que aquellos
de trayectorias laborales sinuosas, fragmentarias, no son una mayoría. Trayectos
laborales fracturados, significa el cambio frecuente entre ocupaciones no relacio-
nadas unas con las otras, esta inseguridad en la ocupación puede afectar a la iden-
tidad pero tampoco puede ser un límite insalvable, los migrantes de México hacia
Estados Unidos también dentro de su fragmentación e inseguridad han sabido
realizar acciones colectivas (Herrera, 2006). Los trabajadores estudiantes de Mac-
Donalds en México no, sin embargo, en Call Centers ha aparecido un movimiento
obrero impredecible para aquellos que todo lo hacían depender de que se trata
de un trabador joven que no tiene planes de permanencia en esos empleos. La
desarticulación de relaciones entre taxistas, microbuseros al realizar su trabajo in-
dividualizado en el territorio abierto tampoco impiden manifestaciones de solida-
ridad o acciones colectivas. En el caso de los micro casi siempre subordinadas a los
concesionarios en la lucha por las rutas, aunque en el pasado lograron sindicaliza-
ras y dar lucha importantes. Entre los taxistas predominan los autoempleados que
se enfrentan a las regulaciones del gobierno o a la competencia con otras líneas. Es

165
CAPÍTULO 9

decir, el individualismo y la competencia en estos sectores frágiles no logran anu-


lar la identidad ni la acción colectiva (Thompson, 1983) (Zucchetti, 2003).
Para la investigación concreta emprendida, en los trabajos en espacios cerra-
dos pero abiertos a la clientela (Wal Mart y MacDonalds) la posible identidad no
se relaciona con la generación de cierto producto o servicio, en todo caso se ma-
nifiesta en los micro apoyos frente a retos del trabajo o presiones de las empresas,
que encontramos más en MacDonalds (trabajadores jóvenes estudiantes que arti-
culan identidades de varios espacios de vida, trabajo-escuela-familia-vida y gustos
juveniles). En ambos hay malas condiciones de trabajo, en MacDonalds media la
visión de futuro como trabajo de tránsito – mientras se termina de estudiar –, en
Wal Mart cuenta mucho el sofisticado panóptico que ha estableció la empresa y
que le permite detectar rápidamente las inconformidades antes de que se vuelvan
colectivas. Entre diseñadores de software y extras, hay un orgullo en los primeros
que recuerda al trabajador de oficio del siglo XIX, pero ahora por sus capacidades
lógicas, su visión de futuro es poner su propio negocio y ver el paso por la empresa
como un aprendizaje, no tienen organizaciones ni se sabe de acciones colectivas en
México, aunque llegan a conformarse comunidades virtuales de diseñadores a dis-
tancia que se apoyan técnicamente sin interés material de por medio, es decir una
solidaridad virtual basada en el orgullo en el oficio. En los extras se trata más bien
de un orgullo frustrado, comparten con los actores el glamour de estar en el me-
dio y, a la vez, de no ser reconocidos sino despreciados. Aunado a la inseguridad
en el trabajo, la arbitrariedad, que ayuda a forjar frustración y coraje que forman
parte de su identidad. Las acciones colectivas han sido muy limitadas y fácilmente
desarmadas hasta ahora.
Finalmente, los que trabajan en espacios abiertos, sujetos a múltiples presiones
y eventualidades cotidianas que ayuda a constituir en ellos una idea de seres con
gran capacidad de sobrevivencia laboral que no cualquiera poseería, esta capaci-
dad de resistir es sobre todo en la apropiación del espacio de trabajo, que incluye
el uso de la violencia física, que es el factor principal que les da identidad como
grupos de trabajadores. Habría que agregar en esta configuración que da identidad
los códigos de “trabajador libre”, no sujeto a la disciplina de la fábrica, que no es es-
trictamente cierta frente a regulaciones gubernamentales y de sus organizaciones,
más la sociabilidad en la calle que permite combinar trabajo con ocio y diversión
y las capacidades de relación con los clientes. También juega en estos códigos el
ser frecuentemente estigmatizados por otros actores como tranzas, sucios, delin-
cuentes que se traduce en cierres simbólicos en torno del grupo y en muy raras
ocasiones en intentos de crear un discurso contracultura al oficial (tianguistas de
Coyoacán). Todo esto contribuye a crear un espíritu de cuerpo, sobre todo frente
a las amenazas externas a su trabajo que se sobrepone a la competencia entre estos

166
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

trabajadores o que algunos realizan buena parte de su trabajo en solitario (taxistas,


microbuseros). En estos últimos hay que tomar en cuenta también su relación con
la máquina, su supuesta capacidad de dominio de esta y de superioridad frente
a los otros conductores, bajo un síndrome de “haz del volante”, impregnado de
cierta estética y moral.
Lo importante de la acción colectiva en estos trabajadores no esta en los mí-
tines o manifestaciones a que son acarreados por sus organizaciones o por otros
actores como los concesionarios de micros, sino las que espontáneamente se em-
prenden cotidianamente en solidaridad de sus compañeros frente a accidentes,
disputas con automovilistas o acoso de las autoridades, que rebasa a las organiza-
ciones e incluso al conocimiento cara a cara entre actores.
En cuanto a las organizaciones de los trabajadores no clásicos analizados, los
asalariados formalmente tienen sindicatos de protección (Wal Mart, Mac Donalds,
Call Centers, extras, en general) o no tienen alguna (diseñadores de software).
Pero los sectores más organizados son los llamados informales, especialmente los
que trabajan en los espacios públicos. La lucha cotidiana por la apropiación de los
espacios de trabajo presiona a la identidad, la solidaridad y la organización. En
general las organizaciones no han sido iniciativas de los trabajadores sino de los
líderes en relación con gobiernos y partidos y son altamente autocráticas. Toman
la forma, cuando se formalizan de Asociaciones Civiles y en contadas ocasiones de
sindicatos, de tal forma que los trabajadores no son trabajadores sino socios y su-
puestamente están sujetas a las disposiciones del código civil. Sin embargo, como
no existe en esta reglamentación algo semejante a la titularidad de sindicatos en la
ley laboral, proliferan una multiplicidad de organizaciones entre estos trabajado-
res, en un reparto de los espacios de trabajo sujetos a influencias políticas diferen-
ciadas de los líderes. Lo anterior implica continuas negociaciones entre esos líderes
de las organizaciones y autoridades gubernamentales sin que haya un marco jurí-
dico claro para su realización. En estas negociaciones el gobierno aparece como un
cuasi-patrón gestor del medio de producción principal de estos trabajadores que
es el espacio público. Estas negociaciones llevan muchas veces al establecimiento
de regulaciones de estos trabajadores, desde su registro ante una dependencia del
gobierno o por las mismas organizaciones, en cuanto a distribución de espacios
disponibles, horarios de trabajo, etc. En vagoneros se detectaron 7 organizaciones,
en vendedores del centro histórico, 25; en tianguistas del centro de Coyoacán, 20;
en microbuses, 11 400 concesionarios; en MacDonalds y Wal Mart y Call Centers
hay sindicatos de protección. La democracia no es una característica de estas or-
ganizaciones, son comúnmente autocracias familiares que usan su poder discre-
cionalmente, unas permanecen obscuras en su funcionamiento para los agremia-
dos, como en el Tianguis de El Salado, en otras cuando hay asambleas están muy

167
CAPÍTULO 9

controladas por los líderes y son pocas en que los trabajadores pueden expresarse
libremente, como en algunas del centro de Coyoacán. En general los trabajadores
no se identifican con sus organizaciones, aunque las consideran necesarias para su
protección y se combinan los estilos de dominio paternalistas con gangsterismo.
Lo anterior lleva a un problema más general, si estas organizaciones pudieran
considerarse corporativas. En su forma más acabada el corporativismo en México
fue sindical entre los años cuarenta y ochenta. Implicó un pacto entre organiza-
ciones de los trabajadores con el Estado para mantener la gobernabilidad, el creci-
miento económico con ciertas derramas hacia los trabajadores y privilegios polí-
ticos y económicos para los dirigentes. A raíz de este pacto, el Estado garantizaba
el monopolio de la representación por medios legales y extralegales, así como la
afiliación forzada de los trabajadores a los sindicatos, la erradicación de disidentes,
pero controlando los liderazgos y mediando permanentemente el Estado en los
conflictos laborales y sindicales. El Corporativismo también pasó por el sistema
político en la medida en que las organizaciones llevaban votantes y contingentes
en actos públicos para el partido en el poder. La gran crisis de los setenta y las rees-
tructuraciones del Estado, la Economía y las relaciones industriales a partir de los
ochenta, así como un mayor pluralismo político en el sistema político debilitaron
pero no desaparecieron al corporativismo, que en el nivel micro de la empresa y
messo de la región o rama ha sabido convivir con el neoliberalismo, así como con
el cambio de partido en el gobierno federal a partir del 2000. Pero el Corporativis-
mo no solo fue sindical sino también campesino y “popular”, e incluso hay quien lo
plantea como empresarial. En el caso del “popular”, este ambiguo término remite a
las organizaciones profesionales, pero también de informales y de colonias popu-
lares, antiguamente agrupadas por el PRI en la CNOP. En nuestro caso se trataría
de Asociaciones civiles, cuando están registradas, muy escasamente sindicatos, de
trabajadores no clásicos, como las que hemos analizado en nuestra investigación.
Estas organizaciones no están tan acotadas por la legislación tan estrictamente
como los sindicatos en cuanto a su registro y titularidad de contratos. Una asocia-
ción civil se registra ante notario con un mínimo de requisitos y puede coexistir
sin someterse a la prueba de las mayorías con otras, más aun, puede existir y ser
eficiente sin registro legal alguno. Lo que importa es como en la práctica logran
tener fuerza e influencia para negociar sobre todo con autoridades gubernamenta-
les. Negociaciones que no están sujetas a ninguna legislación, si se dan es por libre
voluntad de las partes. Es decir, el control que el Estado tiene sobre el monopolio
de la representación de las asociaciones de trabajadores no clásicos informales es
más restringido que en el caso de los sindicatos. Tal vez por estro se multiplican
estas organizaciones en cada ocupación como en vendedores ambulantes. Sin em-
bargo, el Estado puede privilegiar el trato con algunas de las organizaciones y de

168
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

esta manera favorecerlas, con esto podría marginar a dirigencias alternativas y es-
tablecer una relación privilegiada de intercambio material y política entre gobierno
y organización. Para la organización significaría acceder el uso del espacio público
y otros apoyos para el trabajo, para el gobierno cierta garantía de paz social y apo-
yos políticos frente a organizaciones o partidos antagónicos y también en procesos
electorales. Es decir, se sigue presentando para estos trabajadores el control político
por medio de organizaciones, aunque de manera más flexible, muy dependiente del
cual partido está en el poder del gobierno en turno. Al igual que en los sindicatos
corporativos, las dirigencias de las Uniones de informales –como les llama el Regla-
mento sobre el Trabajo no Asalariados del gobierno del D.F.- tienden a perpetuarse
en el poder, aunque de manera más burda al tener un control más vertical, violento
y menos regulado que en los sindicatos, de tal forma que la intervención guberna-
mental en la vida interna es mucho menor en estas organizaciones.
La presencia extendida de un corporativismo flexible y a la vez más autocrá-
tico y menos regulado en las Uniones de los informales repercute en las formas de
la acción colectiva. Cuando esta es convocada por las organizaciones puede tomar
la forma de acarreo para apoyar candidatos de determinado partido, en las que
los trabajadores son actores pasivos frente al activismo de los líderes, semejante a
como funcionan todavía algunos sindicatos. Pero en ocasiones, cuando la cons-
telación de intereses lo permite, las dirigencia pueden convocar a la defensa del
espacio de trabajo, frente a desalojos o substitución por otras organizaciones. En
este caso si pueden coincidir el interés del líder con el de los trabajadores. Sin em-
bargo, no hay que pensar que toda movilización o enfrentamiento es determinado
siempre por las organizaciones, especialmente en los trabajadores de espacios pú-
blicos abiertos, que viven en el filo de la navaja cotidiano, la acción puede iniciarse
en la base como resistencia a agresiones, desalojos o invasiones y posteriormente
propagarse a la organización. Esta última forma es la más auténticamente laboral
o de los trabajadores.
Finalmente, hemos demostrado que la posibilidad y realidad de la identidad
y la acción y organización colectiva existe en trabajadores no clásicos en torno de
su trabajo, especialmente cuando los obstáculos legales e institucionales son más
flexibles. Lo anterior no significa que los trabajadores están permanentemente en
movilización, esta se presenta solo en condiciones especiales: frente a un conflic-
to estructural con respecto del trabajo (reparto de la ganancia, apropiación del
espacio, reglamentaciones, competencias) y requieren de un punto de ignición
para que el movimiento pueda surgir por un agravio muy sentido, o considerado
insoportable de acuerdo con el sentimiento, la moral o la razón del grupo. Es el
caso de agresiones policiales de desalojo, vistas como humillación y prepotencia
frente a trabajadores humildes, la extorsión o la violencia ilegítimas por parte de

169
CAPÍTULO 9

autoridades, el favoritismo hacia otros actores, el decomiso de mercancías, el abu-


so sexual por parte de directivos de empresas, etc. En estas condiciones, el con-
flicto estructurado, sea en la forma clásica capital-trabajo o en formas no clásicas
gobierno(cuasipatrón)-trabajadores u otros actores puede desencadenar la acción
colectiva en torno del trabajo y, en el caso de triunfo, fortalecer la identidad con
mitos, epopeyas heroicas, definición más clara de enemigos y amigos, con compo-
nentes en la cognición, la emoción, la moral y hasta la estética y la consolidación
de discursos maniqueos justificatorios que pueden quedar en la memoria colectiva
(De la Garza, 1992) (Van Dijk, 1997) (Sewel, 1002).
Es decir, detrás de los conflictos, identidades y acciones de los trabajadores,
sean asalariados clásicos o no clásicos hay una situación estructural común, que
es la de ser generadores de productos materiales o servicios en forma directa y
vivir de su trabajo. Con esto estamos excluyendo, sin desconocer que es una zona
de penumbra, a los propietarios que no trabajan directamente en la generación de
valores de uso sino lo hacen a través de sus empleados. Lo que lleva a la necesidad
de un concepto ampliado de clase trabajadora, que no negaría el restringido de
proletarios, vendedores de fuerza de trabajo para el capital, con un núcleo histó-
rico, ahora rotado, en el obrero de la gran industria. Pensando que los conflictos
estructurales del trabajo en una parte importante del planeta ya no se relacionan
con la gran industria, sino con servicios, la informalidad, etc.
Pero esta situación estructural abstracta tendría que especificarse para el caso
de México, en donde el 80% de los ocupados son precarios, de tal forma que los opo-
ne en concreto a un patrón o al Estado, que en condiciones de gran control organi-
zacional sobre los sindicatos limita las acciones de los asalariados clásicos sin anular
sus potencialidades y potencia en mayor grado la de los no clásicos, especialmente
los que no trabajan en empresas formales que podrían asimilarse a la primera situa-
ción. Los controles organizacionales de la empresas (el panópico de Wal Mart) jun-
to a las estructuras corporativas sindicales de control y la intervención permanente
del Estado apoyando a la paz laboral y el monopolio de la representación por las
corporaciones, se vuelve un freno muy importante para trabajadores no educados
en las luchas, puesto que es un fenómeno histórico de larga data y que requiere de
tocar un fondo más profundo que en condiciones de libertad y democracia sindi-
cal. La experiencia histórica demuestra que en México, la clase obrera clásica tam-
bién supo movilizarse por sus intereses a finales de los cuarenta, de los cincuenta y
en la década del setenta. En cambio los trabajadores no clásicos informales se han
convertido en sectores muy conflictivos, de rápida movilización y enfrentamientos
violentos. Muchas veces se mueven muy mediatizados por los líderes o los partidos,
en otras ocasiones por actores diferenciados de los trabajadores, como los concesio-
narios con respecto de los choferes de micro. Sin embargo, el conflicto estructurado

170
Trabajo no Clásico, Organización y Acción Colectiva en Trabajadores no Clásicos

persiste porque subsisten las condiciones de precariedad ampliamente y, aunque las


persistentes movilizaciones de estos trabajadores sean fragmentarias, gremialistas,
sin formación de frentes amplios tienen detrás la existencia de un modelo econó-
mico excluyente, de gran inseguridad laboral, de fragilidad y, a la vez, un sistema
político que los oprime o los ignora. El tránsito hacia esta significación no puede
ser fácil, requeriría de eventos más abarcantes que los conflictos cotidianos para la
sobrevivencia en el trabajo, pero no sería la primera vez en la Historia en que los
trabajadores asalariados y los no clásicos pudieran formar frentes amplios, encon-
trando comunes denominadores, que objetivamente los hay, aunque en la subjetivi-
dad en el momento solo aparezca la fragmentación. En 1954 la clase obrera formal
de las minas de estaño en Bolivia supo agrupar a campesinos de la coca, informales
de las colonias populares, profesionistas, pequeños productores y hacer la única re-
volución triunfante de trabajadores en América Latina, más allá de las diferencias,
fragmentaciones. Aunque esto no sucede todos los días.

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Zucchetti, E. (2003) “Un Mercato del Lavoro Plurale”, Sociología del Lavoro, 97, p. 25.

173
CAPITULO 10

Trabajadores extinguibles y teoría


coproductiva del cambio. Perspectivas
latinoamericanas en la década 2010
Bialakowsky, Alberto L.*; Lusnich, Cecilia**; Fiuza, Pilar ***; Umpierrez Junor,
Ariadna ****; Romero, Guadalupe; Bravo, Romina *****
¡Aprovechar el tiempo!
Arrancar del alma los bocados precisos –ni más ni menos-
Para juntar con ellos los cubos ajustados
Que hacen grabados ciertos en la historia
(Y son ciertos también del lado de abajo que no se ve…)
Fernando Pessoa, fragmento de “Al margen” 1
“Hay, en la espera, un rumor a lila rompiéndose. Y hay, cuando viene el
día, una partición de sol en pequeños soles negros. Y cuando es de noche,
siempre, una tribu de palabras mutiladas busca asilo en mi garganta para
que no canten ellos, los funestos, los dueños del silencio.” 
Alejandra Pizarnik, fragmento de“Anillos de ceniza”2

Resumen

L
a interrogación sobre la transformación del mundo del trabajo exige un
análisis crítico del proceso laboral y de la modulación ejercida sobre las po-
blaciones trabajadoras. Ensayando una revisión de los patrones científicos

1 * Licenciado en Sociología y Magister en Ciencias Sociales, Pofesor Titular e Investigador, Fa-


cultad de Ciencias Sociales (FCS), Universidad de Buenos Aires (UBA), Director del Proyecto
de Investigación UBACyT S064: “Poblaciones extinguibles en nueva época. Análisis de procesos
de trabajo institucionales y sujetos colectivos en intersección con una praxis transdisciplinaria”,
Instituto de Investigaciones Gino Germani, FCS-UBA: José E. Uriburu 950, 6to. Piso, Ciudad
de Buenos Aires, Argentina, teléfono: 005411-4508 3815, e-mail: albiala@gmail.com
* * Licenciada en Sociología y Tesista Maestría en Ciencias Sociales del Trabajo FCS-UBA;
Docente e Investigadora del IIGG y Carrera de Sociología, Facultad de Ciencias Sociales
UBA, Integrante del Equipo de investigación Proyecto UBACyT S064.
*** Estudiante avanzada de la Carrera de Sociología (CS), Becaria Estímulo Proyecto
UBACyT S064, Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de Buenos Aires.
**** Licenciada en Ciencia Política y Maestranda en Investigación en Ciencias Sociales, FCS-UBA.
***** Estudiantes avanzadas de la Carrera de Sociología, Facultad de Ciencias Sociales, UBA.
Agradecemos la colaboración de Alomaí Rodríguez, estudiante avanzada CS-FCS-UBA.
Poemas, traducción Rodolfo Alonso, Fabril Editora, 1972.
2 Poesía completa, Editorial Lumen, 2001.
CAPÍTULO 10

clásicos usuales para investigar y proyectar el mundo salarial, aplicaremos, en este


capítulo, una revisión simultánea sobre la realidad latinoamericana y los modos
tradicionales de definirla, teniendo presente las sucesivas crisis salariales, la con-
tinuidad de las determinaciones neoclásicas, neoliberales, y los cambios teóricos
y epistemológicos que sobrevienen a dicha observación. Se hará énfasis en tres
conflictos básicos acerca de la apropiación de la fuerza de trabajo colectiva, los
procesos productivos y las estructuras cognoscitivas. Para ello se analizarán dimen-
siones comparativas a nivel macro como así también las contribuciones de la teoría
crítica europea y del pensamiento crítico latinoamericano al análisis de la praxis
intelectual positivista y al individualismo metodológico. Finalmente, se tomarán
en cuenta diferentes innovaciones que brindan tanto alternativas para el mundo
del trabajo como para nuevas condiciones epistémicas vinculadas a la emergencia
de una teoría de la transición o cambio social.

1. Primera Hipótesis: Sobre los contenidos

Se parte de la hipótesis que no es el trabajo el que define el capitalismo sino que


es el capitalismo el que define al trabajo: la modulación del alquiler de la fuerza de
trabajo requiere la modulación de la población disponible y, consecuentemente, la
dominación se impone sobre la clase de los trabajadores cualquiera sea su posición
formal, informal o desplazada fuera del círculo productivo.
En el sistema capitalista en nueva época, neoclásica, postkeynesiana, neoli-
beral, se agudizan las formas de acumulación primitiva, depredación, tributación
directa y descarte del trabajador y naturaleza, profundizando la lucha por la apro-
piación de los recursos planetarios.
El trabajo de un modo más amplio puede definirse como proceso creativo
que no se reduce a lo humano sino que se extiende al hacer trasformador de lo
existente. Esta lógica, sin embargo, puede ocultar o resultar coincidente con la
dominación acrítica, al otorgarle al trabajo un sentido germinal de dominación
sobre la naturaleza. Por lo tanto, con este descubrimiento el concepto de trabajo
humano o transhumano debe recibir una atención crítica que reduzca la domina-
ción que anula otros procesos creativos. De modo más ajustado, históricamente, el
concepto revela la abstración que el capitalismo logró para transformar esa fuerza
creativa en un objeto de compra-venta como fuerza de trabajo. En este proceso
histórico la fuerza de trabajo y las fuerzas productivas han sido aunadas y han
sido moduladas en la dirección de la dominación. Esta primera hipótesis remite
entonces al redescubrimiento y a la recuperación de esa unidireccionalidad. La se-
paración antropocéntrica y etnocéntrica entre humanidad y naturaleza, animada

176
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

e inanimada, “civilizada y salvaje respectivamente”, se traduce en la necesidad de


anclar la identidad en una génesis de separación y no de conexión. El trabajo como
concepción capitalista reduce los procesos creativos a la condición humana erra-
dicada, ficcionalmente, de la naturaleza.
Itsván Mészáros (1999) para comprender el sistema habla de una reproduc-
ción sistémica metabólica del capitalismo -que se reproduce más allá de sus for-
mas- a través del Estado, el trabajo vertical y el capital. Esta racionalización (de
esta irracionalidad) perpetúa la acumulación primitiva y tributaria en las formas
actuales que conservan o potencian los atributos de violencia y sustracción forzo-
sa. En la medida en que las fuerzas productivas se acercan a la fuerza de trabajo
selectiva y se alejan de la fuerza productiva de masas, ocurre un pasaje la creación
de la población trabajadora descartable, homo sacer, población extinguible que
queda incidida por vectores de negativización y segregación. Segregación integra-
da por medio de un proceso de desnormalización, que se aleja del patrón clásico
biopolítico keynesiano, y que abarca: des-empleo, des-educación, in-salubridad,
in-flexibilidad, in-seguridad, in-habitabilidad gubernamentalizados (regulados,
modulados gubernamentalmente). Las claves que se recogen de las características
del capitalismo actual y que definen la modulación de la población trabajadora se
encuentran en: a. una fuerza productiva concentrada en una ciencia y tecnología
unidireccional traccionada al proceso productivo capitalista, b. la exacción tribu-
taria a través de la financiarización de la economía internacional y el endeuda-
miento público, c. la modulación de las poblaciones trabajadoras con enclaustra-
miento territorial y criminalización de las migraciones. Una profundización de
estas claves pueden considerarse también como hipótesis de rasgos o formaciones
emergentes poscapitalistas.
Desde esta perspectiva y desde la mirada contemporánea que se despliega a
partir de los márgenes inferiores negativizados, tres son las luchas históricas que
se renuevan desde la perspectiva de una teoría del cambio: la apropiación del co-
lectivo, la apropiación del proceso productivo, la estructura colectiva cognoscitiva.

2. Teoría crítica europea y el pensamiento crítico latinoa-


mericano

De acuerdo con la Escuela de Frankfurt, los resultados de la racionalidad ins-


trumental postivista y su concepción tecnocrática de la ciencia representan una
amenaza a las nociones de subjetividad y pensamiento crítico. Al actuar en un
contexto experimental exento de compromisos éticos finales, el positivismo des-
cansa en la inmediatez de su objetivización, suspendiendo la interrogación por la

177
CAPÍTULO 10

esencia o por la diferencia, se reduce a la tarea meramente técnica de recoger y cla-


sificar, congelando, en consecuencia, tanto al contexto social como su historia. Al
no reflexionar sobre sus premisas paradigmáticas que le subyacen, el pensamiento
positivista ignora el valor de esta conciencia y recursividad. Vale decir que, la es-
tructura misma del pensamiento positivista, con su énfasis sobre la objetividad y
supuestos asociados (Horkheimer, 1972), le impide juzgar las complejas interaccio-
nes de poder, preconceptos y valores, y recursivamente re-flexionar críticamente
sobre la génesis de sus propios presupuestos ideológicos. Por otra parte, situado
entre una serie de ficciones dualistas adversariales (hechos versus valores, conoci-
miento científico versus normas y descripción versus prescripción), el positivismo
disuelve la tensión entre potencialidad y actualidad en la existencia social. Así,
bajo la apariencia de la neutralidad, el conocimiento científico y la teoría resul-
tan racionales con la condición de ser eficientes, económicos o correctos (Adorno,
1975; Adorno y Horkheimer, 1972). Siguiendo los planteos de Martin Jay (1973),
la noción de corrección técnica metodológica subsume y devalúa el complejo con-
cepto filosófico de verdad.
Sin duda, el positivismo no resulta impermeable a la historia social por igno-
rarla, por desconocer la relación entre historia y comprensión; todo el contrario,
sus nociones clave de objetividad y teoría al igual que sus modos de indagación,
resultan tanto una consecuencia de la historia como una fuerza que la configura.
Si la razón pretendía sostener su promesa de generar una sociedad más justa, ten-
dría que haber demostrado su poder de crítica y negatividad. Adorno (1975) enlaza
estos conceptos al postular que la crisis de la razón se produce cuando la sociedad
alcanza su máxima racionalización, perdiendo en tales condiciones su facultad
crítica en la búsqueda de armonía social y, como tal, se convierte en un instrumen-
to de la sociedad dominada: la razón como discernimiento a partir de esta crítica
se comprende como su opuesto, es decir, como irracionalidad.
Considerando fundamentales los aportes que la teoría crítica europea ha rea-
lizado respecto de las estructuras de dominio en la sociedad industrial, como su
crítica a la racionalidad instrumental y a los límites de la concepción positivista
de la ciencia para la generación de un cambio social, estimamos que una teoría ge-
neral de la transición no puede prescindir de los cuestionamientos elaborados por
el “pensamiento crítico latinoamericano” respecto de los componentes coloniales
existentes en los postulados de las ciencias y las ciencias sociales en particular.
De este modo, en búsqueda de puentes hacia una teoría del cambio social, den-
tro del pensamiento crítico latinoamericano ubicamos un conjunto de autores que
se concentran en la realización homóloga y propia de una crítica contextual, una
crítica que tiene como objeto la reflexión acerca del lugar que América Latina ha
ocupado en el “mundo moderno/colonial”. Así, a fines de la década del ochenta,

178
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

escritores como Anibal Quijano(1992), Walter Mignolo (2007), Edgardo Lander


(2000) y Enrique Dussel (1993) han realizado una puesta en cuestión sobre la Mo-
dernidad y los mitos que conlleva: “…la idea-imagen de la historia como una trayec-
toria que parte de un estado de naturaleza y culmina en Europa y la visión que otorga
sentido a las diferencias entre Europa y no-Europa como diferencias de naturaleza
(racial) y no de historia de poder”(Quijano, 1992: 211). Se trata de una revisión del
contenido del concepto de Modernidad desde la perspectiva de los “condenados de
la tierra”, que devela el carácter constitutivamente colonial de la misma. El período
que se abre paso con la Modernidad, lejos de ser un fenómeno exclusivo de Europa,
abarca toda la geografía que se configura a partir de la invención de América.
Quijano, por su parte, dirá que lo propio no estará en el carácter secular y
racional que adquiere la sociedad europea, sino en cambio, en la puesta en marcha
del primer sistema-mundo global. Si todos los mundos y ex mundos fueron articu-
lados bajo el nuevo patrón global de poder capitalista y colonial, la manera en que
ésto se produjo se vincula directamente con el carácter eurocentrista de la nueva
perspectiva de conocimiento de la Modernidad. Se cuestiona así una racionali-
dad hegemónica que ha colonizando las formas previas de saber, relegándolas en
su configuración como conocimientos inferiores, anecdóticos, mitológicos cuando
no salvajes. Un fuerte racismo impregnó el rasgo evolucionista del armazón teóri-
co moderno que aún se perpetúa. Nociones como las de raza y cultura operaron
como un dispositivo taxonómico de identidades polarizadas, que permitió mos-
trar al colonizado como el “Otro de la razón” y justificar de esta forma el ejercicio
del poder disciplinario por parte del Estado modernizante y civilizador. Las Cien-
cias Sociales se constituyeron, en consecuencia, un dispositivo de saber, un apara-
to ideológico que puertas adentro legitimaba la exclusión o el genocidio, al mismo
tiempo que habilitaba la división internacional del trabajo y la desigualdad en los
términos de intercambio a nivel mundial (Castro Gomez, 1993). Colonialidad del
poder y colonialidad del saber se enmarcarán así en una misma matriz epistémica.
Ahora bien, desde una segunda línea de autores, entre los que puede situarse
a Atilio Borón o también Boaventura De Sousa Santos (en interacción con el au-
ditorio latinoamericano), se advierte la existencia de una mirada enfocada hacia
el análisis de los procesos políticos locales en la era poscolonial. El aumento de
protagonismo de diferentes sectores populares que hasta el momento habían sido
silenciados o excluidos, como el movimiento zapatista en México, los sin tierra en
Brasil, los piqueteros en Argentina, o el movimiento de pueblos originarios en Bo-
livia, llevaron a los autores a señalar la existencia de elementos disruptivos respec-
to del sistema, y a preguntarse si no será “hora de hablar de un cambio sistémico,
del imprescindible advenimiento de una sociedad post-capitalista como condición
necesaria para reinventar una democracia post-liberal?...” (Borón, 2006:55). En esta

179
CAPÍTULO 10

coyuntura, se percibe a partir de la revisión que el colonialismo en Latinoamérica


no ha concluido, como comúnmente se asume, sino que: “… continuó y por eso los
países del continente pasan por un doble proceso histórico, el proceso de indepen-
dencia y el de postindependencia, y ahora están entrando en un segundo proceso: la
postcolonialidad” (De Sousa Santos, 2008:4).
Si hasta aquí, lo señalado puede pensarse como un diagnóstico acerca del pa-
pel de las ciencias sociales, las democracias y los movimientos latinoamericanos en
la historia de la región, puede considerarse que las contribuciones de esta corriente
tiene también que ver con la interrogación acerca de cómo superar esta etapa, ¿qué
es lo que debería de proponerse para generar cambios? O como lo afirma de Sou-
sa Santos ¿A partir de qué estrategias o tácticas alcanzar la emancipación social?
Principalmente, se ahonda en dos cuestiones: la interculturalidad –como clave
contextual- y, ligado a ésta, la re-invención o re-fundación de la democracia en
el territorio latinoamericano. En este sentido “…hay que inventar nuevas formas
de democracia sin rehusar los principios de la democracia liberal, hay que integrar
estos principios en una concepción más amplia que pasa por dos pilares. El primer
pilar es el uso contrahegemónico de la democracia representativa […]. El segundo
pilar es el desarrollo de las nuevas formas de democracia participativa para crear
una democracia intercultural, una democracia en que las reglas de debate y decisión
sean multiculturales.” (De Sousa Santos, 2008: 5)
Como se observa, el pensamiento latinoamericano ha intentado como teoría
crítica una ruptura epistemológica largamente adeudada respecto de la herencia
científico-colonial europea. Sus elaboraciones han implicado un avance signifi-
cativo en la generación de un pensamiento propio y desde el continente, produ-
ciendo categorías explicativas en base a las características y particularidades de
las sociedades latinoamericanas, o concepciones desde el sur, entendiendo de este
modo que la ciencia y la reflexión no pueden resultar “calco” o bien que ello im-
plica algún tipo de extrañamiento. Asimismo, su lectura acerca de las potencia-
lidades y desafíos aparece como especialmente pertinente para abordar la crítica
a la etapa neoliberal. No obstante, consideramos que es posible y necesario que
el pensamiento crítico latinoamericano avance de la crítica de los fundamentos
epistemológicos hacia una crítica del marco epistémico, esto es, hacia una crítica de
las propias condiciones materiales de producción de su conocimiento. Liberarse de
la forma tradicional de producción científica individual como así producir en en-
cuentro discursivo con los saberes del sujeto interrogado, son dos grandes desafíos
que permitirían ampliar los alcances de dicho pensamiento.
En torno a ello, se puede hablar de una tercera línea que podría estar encami-
nada en esta última dirección y que se vincula a los análisis generados con pre-
cedencia por Orlando Fals Borda o Paulo Freire y que como lo expresa Álvaro

180
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

García Linera surgen de la praxis colectiva: “Un gobierno no construye socialismo,


el socialismo es una obra de las masas, de las organizaciones, de los trabajadores.
Solamente una sociedad movilizada que expanda e irradia y que tenga la habili-
dad de irradiar y de defender y de expandir y de tener formas asociativas, formas
comunitarias, modernas y tradicionales, de toma de decisiones de producción de la
riqueza y de distribución de la riqueza, puede construir esa alternativa socialista
comunitaria….” (García Linera, 2010)
La mención de Paulo Freire resulta pertinente a estas contribuciones pues su
planteo, al dirigirse a la puesta en práctica de una nueva pedagogía, produce una
ruptura con la concepción de la educación bancaria y el conocimiento dominado.
Precisamente, según esta visión, el conocimiento aparece como una “donación” y
estudiante es considerado como una figura carente de todo saber donde el educa-
dor “deposita”. En ese sentido, el autor afirmará que: “la educación debe fundarse
sobre la superación de la contradicción educadores-educandos. Debe fundarse en la
conciliación de estos dos polos, de tal manera, que ambos se hagan, educadores y
educando” (Freire, 2002:71). Sin esta posición epistémica política: “no es posible la
relación dialógica, indispensable para la cognocibilidad de los sujetos cognoscentes en
torno del mismo objeto conocido” (Freire, 2002:91). Es esta lógica iluminista la que
se extiende a la producción de conocimiento, no alcanzando a superar la contradic-
ción entre sujeto-objeto de investigación posibilitada por el intercambio dialógico.
Por tanto, pueden establecerse varios puntos de enlace entre el pensamiento de
la escuela de Frankfurt y del pensamiento crítico latinoamericano. El primero se
encuentra en la crítica que ambas corrientes realizan respecto del papel de la razón
en la modernidad y posmodernidad. Ambos pensamientos denuncian la violencia
efectiva que esconde tras la cara del progreso y la razón, como lo señala Dussel:
“Se supera la razón emancipadora como `razón liberadora´ cuando se descubre el
eurocentrismo de la razón ilustrada, cuando se define la ` falacia desarrollista´ del
proceso de modernización hegemónico. Esto es posible, aún para la razón de la Ilus-
tración cuando éticamente se descubre la dignidad del Otro…” (Dussel, 1993:50).
Asimismo, las bases del nuevo paradigma implicarán poner el acento en el
lugar que ocupa la historia en el pensamiento social, a fin de distanciarse de la
concepción positivista ilustrada que la postula como una sucesión de hechos que
conducen linealmente al calco del desarrollo del norte y sustituirla de este modo
por un enfoque que plantee la existencia de una heterogeneidad-histórico-cultural
(Mignolo, 2007), es decir, de un conjunto de procesos históricos disímiles que inte-
ractúan entre sí sin subsumirse en uno dominante. Tanto la teoría crítica europea
como la latinoamericana se enmarcan en un contexto en el cual aparece como
necesario reavivar el espíritu de cambio que, en el caso continental, se encontraba
amesetado por el avance del pensamiento neoliberal y la regresión que ello implicó

181
CAPÍTULO 10

para la organización colectiva de la clase trabajadora. De ahí que resulte relevante


destacar sus aportes. En esta línea expresa Borón: “Uno de los elementos que más
favorece a la estabilidad de la dominación imperialista… (son) el lúgubre fatalismo
y la resignación que produce la no visualización de una ruta de escape, de que no
hay alternativas (…) El sentido de la batallas de ideas es demostrar que hay vida
después del neoliberalismo, de que otro mundo es posible…” (Borón, 2008: 131).
De esta forma, se destacan las contribuciones que ambos flujos realizan en
torno al positivismo, rescatando de la escuela de Frankfurt su radical rechazo a las
formas de la dominación y el statu quo social y del pensamiento latinoamericano
la comprensión crítica del modelo neoliberal y la descolonización intelectual. En
ambas, la acción cognoscitiva crítica se produce sobre sus objetos contextuales
respectivamente y sobre la enajenación epistemológica. Ahora bien, desde una teo-
ría crítica del cambio, proponemos dar un paso y avanzar también hacia la crítica
transversal del marco epistémico que define la praxis de producción intelectual. A
partir de esta perspectiva, resulta preciso desarrollar esta crítica en la crítica en la
dirección de la praxis intelectual positivista y de la interrogación respecto del indi-
vidualismo metodológico y sus instrumentos, los cuales reproducen un extraña-
miento entre forma y contenido, tema y método y metodología y praxis colectiva.

3. La modulación social y su métrica

La formulación conceptual sobre la modulación de la población trabajadora


encierra una comprensión particular a partir del núcleo expansivo y elástico de la
población trabajadora extinguible. Esta hipótesis se basa de tres consideraciones: la
primera tiene ver con restituir, en el análisis del sistema capitalista, el rol de la pro-
ducción de población trabajadora excedente y, dentro de esta fracción, reparar en
su núcleo más subordinado materialmente extinguible por las determinaciones e
intersecciones a las que la somete el dominio social y gubernamental. La segunda
consideración se vincula a otorgarle a este análisis un tratamiento hologramático
que alcance, en su especularidad, potencialmente a toda la población trabajadora.
Por último, la tercera conllevará a la inversión del orden de las formas ejemplares
típicas para comprender los cambios del sistema. Aunque las métricas formalizadas
no alcanzan para captar toda esta dinámica, puestas en secuencia y en conjunción a
través de indicadores seleccionados, revelan sí su volumen, continuidad y elasticidad.
En la tradición sociológica esta población ha sido considerada desde la óptica
de las fracciones integradas al mercado formal de la clase trabajadora, ya sea desde
la perspectiva de su normalidad y normalización (funcionalismo, microfísica del
poder) o desde su protagonismo político y vanguardia (materialismo dialéctico),

182
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

ópticas éstas que han privilegiado una visión desde las fracciones más integra-
das al proceso productivo. Consideramos que estos enfoques no alcanzan hoy para
comprender la producción de un “derrame social inverso”3 donde lo supuestamen-
te desalojado retorna socialmente, tanto en términos de dominación social como
en los términos de su intervención en la formación de la dinámica de modulación
global de la fuerza de trabajo.
En sintonía con lo expuesto, llevaremos a cabo el análisis de una serie de di-
mensiones que, vinculadas, permiten dar cuenta de los múltiples procesos de des-
calificación social que actúa sobre el núcleo poblacional negativizado.

Gráfico 1

Fuente: Elaboración propia en base a CEPAL, Panorama Social de América Latina 2009,
Boletín CEPAL-OIT Nº2 2009.

3 Este punto de vista supone que la gubernamentalidad que se ensaya en los sectores poten-
cialmente extinguibles se expande luego en la sociedad. Estimamos que este es el ensayo
social que lleva adelante el neoliberalismo por medio de la desregulación del modelo keyne-
siano, logrando extender la informalidad mediante nuevas regulaciones (flexibilizadoras)
hacia toda la clase trabajadora.

183
CAPÍTULO 10

Un primer paso para dilucidar esta comprensión de las fracciones extinguibles


puede realizarse a partir de una lectura del gráfico precedente. Allí se registra que,
más allá de las sucesivas fluctuaciones y el descenso ocurrido durante el último perío-
do, los niveles de desocupación, pobreza e indigencia estarían indicando la presencia
de una masa de población latinoamericana que se mantiene y perpetúa como fuerza
de trabajo vulnerada y potencialmente descartable. De esta forma, se observa que des-
de el año 1980, la línea de pobreza e indigencia no ha bajado del 33% y el 12,6% res-
pectivamente, al mismo tiempo que el promedio de desocupación para este período
no es menor a un 8,6%. El movimiento pendular propio de estas dimensiones estaría
revelando entonces una relación estrecha entre pobreza, ingresos y desempleo, a la
vez que las expansiones se corresponden por los impactos de las crisis y recesiones
ejercidas sobre esta población subordinada y dependiente del mercado de empleo. En
consecuencia, la potencialidad de esta fracción de contraerse y expandirse sucesiva-
mente puede considerarse un atributo de la modulación que ejerce el sistema.
Cabe señalar el sentido de las relaciones conceptuales que muestran estas
métricas. Por un lado se evidencia la elasticidad y permanencia estructural que
los sectores subordinados poseen en el largo plazo. Al mismo tiempo, puesto que
como se señala, por lo menos uno de cada tres integrantes de la clase trabajadora
se encuentra sin poder atender sus necesidades básicas, y por lo menos uno de
cada diez no puede atender sus necesidades vitales de sobrevivencia, toma espe-
cial relevancia el significado de los mismos en su consideración como trabajadores
extinguibles, es decir, forzados a vender su fuerza de trabajo para subsistir pero
con el impedimento estructural para lograrlo, incluso en el caso de los empleados.
En ese sentido, el tipo de prácticas gubernamentales que los gobiernos latinoa-
mericanos implementaron para enfrentar estas problemáticas a partir de los 90, se
vincula con la puesta en marcha de una serie de planes sociales, programas y polí-
ticas públicas destinadas a actuar focalizada y asistencialmente sobre la situación.
Consecuentemente, en lo que respecta a la esfera laboral, en Argentina por ejem-
plo, luego de la profunda crisis de diciembre de 2001, se extiende en 2002 el Plan
Jefes y Jefas de Hogar Desocupados. Este programa estaba dirigido hacia aquellos
trabajadores que, carentes de empleo formal y a cambio de una serie de contra
prestaciones públicas para con el Estado recibirían una suma de dinero mensual,
exageradamente exigua4. Ahora bien, la trampa detrás este tipo de mecanismos
está en la ficcionalización del tratamiento del desempleo que produce debido a
que, una vez incorporados a estos programas, las personas dejan de ser contabili-

4 El beneficio que se les otorgaba, además de solicitarles prestación laboral pública, promedia-
ba un monto nominal de 150 pesos mensuales, que a la actualidad a nivel real representarí-
an unos 77 pesos mensuales (19,74 dólares aproximadamente) según un análisis de IDESA
(Instituto para el Desarrollo Social Argentino).

184
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

zadas como parte de la población desocupada. Se trata entonces de una tecnología


de gobierno que impone unas formas de modulación y des-normalización de los
sectores más subordinados, los cuales aunque categóricamente sean considerados
como parte de la población ocupada, consiguen pasar la barrera de la sobreviven-
cia de una manera que escapa a la venta de su fuerza de trabajo, normalizando de
esta forma una situación de desempleo crónico.
En síntesis, de manera hologramática los datos revelan una existencia de un sec-
tor estratégica y potencialmente extinguible caracterizado por tres determinaciones
sociales: su permanencia estructural, su variabilidad y su modulación expansiva en
las crisis. La noción de precarización laboral se extiende entonces de este borde y
alcanza también al conjunto de la clase trabajadora (Antunes, 2010) determinando
la vulneración de sus derechos e involución histórica5. De esta forma, en este prolon-
gado proceso la lógica del capital conlleva a la reducción del trabajador a homo sacer
despojado en nuda vida (Agamben, 2003), no sólo como determinación de las frac-
ciones de la población subproletarizadas (Antunes, 2010), sino también por extensión
como significado modélico para el conjunto de los trabajadores. Como describe Oso-
rio: “En locución biopolítica, el proceso… termina de `poner remate al despotismo del
capital´, ya que tanto los trabajadores activos como los semiactivos e inactivos quedan
supeditados a su mando y sus vidas quedan instaladas en `la necesidad del sacrificio
como conditio sine qua non de la socialidad´. Todos los trabajadores, se constituyen en
atributos del capital, diferenciándose simplemente en la forma en cómo éste los con-
sumirá y agotará. A unos, por los tormentos del trabajo, a otros, por los tormentos de
la miseria. A todos, por convertir sus vidas en vida desnuda (nuda vida), aquella a la
que el capital puede dar muerte de manera impune (homo sacer)” (Osorio, 2006: 10).
Con el objetivo de complementar este análisis, pueden introducirse otras dimen-
siones que como conjunto de vectores intersectan a una misma población trabajado-
ra, considerada ficcionalmente por el sistema como recurso infinito renovable. De
esta forma, la información registrada da cuenta que en América Latina en el año 2001
un 35% de la población urbana se encontraba habitando en tugurios, alcanzando así
a 128 millones de personas (Mac Donald, 2004) 6 (Teniendo en cuenta la relación que
este fenómeno tiene con la pobreza e indigencia, la gran producción social de la se-
gregación queda indicada por la proliferación de hábitat tugurizado, agudizados por
la violencia y la deseducación. En ese sentido, los procesos sociales de guetificación
(Waquant, 1999) operan de forma convergente sobre una misma población guberna-
mentalizada estableciendo un continuum de exclusión-extinción social.

5 Este concepto de involución fue aplicado por Michael Burawoy en el análisis del postsocia-
lismo soviético.
6 Fuente: Un – Habitat, Global urban Observatory; guide to Monitoring target 11, abril 2003.

185
CAPÍTULO 10

La fragilización de los cuerpos individuales se impondrá asimismo sobre los


individuos sociales (Mészáros, 2009), vulnerando su salud e incrementando aún
más su discriminación. Así ilustra la incidencia de la mortalidad infantil7, como
también la pandemia de la enfermedad de Chagas8 o la tuberculosis, que como
no se ignora constituyen patologías de la pobreza. Esta política constituye de este
modo y en último término una forma de praxis tanatopolítica ensayada sobre es-
pacios expandidos de estados de excepción.

Grafico 2

Tasa de Mortalidad infantil y porcentaje de pobreza e indigencia total en América Latina durante el
período: 1980-2008

70

60 57.3

50 48.3

43.5 44
40.5
40 38.3
Pobreza total (rural y urbana)
33 Indigencia total (rural y urbana)
31.8
Tasa de mortalidad infantil
30
25.6
22.5 21.7
18.6 19 19.4
20

12.9

10

0
1980 1990 1997 2002 2008

Tasa de mortalidad infantil: Se calcula por 1000 nacidos vivos, mide el riesgo de muerte en los
niños desde el nacimiento hasta que han cumplido un año de edad.
Fuente: Elaboración propia en base a datos de Cepal- Celade “Estadísticas e indicadores
sociales- Salud- 2008”.

7 “La mortalidad infantil se asocia con el analfabetismo; es un atributo de los grupos más
desfavorecidos, incrementándose en aquellos casos donde la madre se encuentra con escasos
recursos en educación.” (Objetivos de desarrollo del milenio: una mirada desde América
Latina y el Caribe p: 149)
8 Las zonas de riesgo e infección chagásica tienen en común altas tasas de pobreza, escasez
o falta de agua potable, carencias habitacionales, insuficiencia de centros de salud o im-
posibilidad de acceder a ellos e inestabilidad laboral (Rozas Dennis, 2005: 37). A pesar de
producirse una disminución de la enfermedad de 1990 en adelante en América Latina, la
misma sigue siendo endémica afectando entre 10 y 15 millones de personas, cobrando más
de 10.000 vidas por año.

186
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

Este gráfico resulta representativo de lo antedicho, pues aún cuando la ten-


dencia de mortalidad infantil tiende a declinar, su persistencia resulta significativa
y alcanza en el año 2008, el 21,7 por mil nacidos vivos. Paradójicamente Cuba
tiene la tasa de mortalidad infantil más baja en América Latina, alcanzando en el
año 2008 el 4,7 por mil nacidos vivos. Haití y Bolivia en cambio, alcanzan altos
valores de mortalidad infantil (45,6 en Bolivia, 48,6 en Haití). Teniendo en cuenta
los niveles de pobreza e indigencia totales en América Latina podemos observar
la estrecha correlación que se produce con la mortalidad infantil; a medida que
disminuyen los porcentajes de pobreza e indigencia, disminuyen a su vez las tasas
de mortalidad infantil.
Un núcleo poblacional clave dentro del sector que también es preciso tomar
en consideración es la juventud trabajadora latinoamericana. En efecto, diversos
informes han advertido lo alarmante de la situación de la población juvenil en
América Latina, revelando como factor de vulneración el volumen de jóvenes que
se encuentra al mismo tiempo por fuera del mercado laboral y del sistema educa-
tivo, cuya tasa no ha bajado de los 20 puntos porcentuales desde 1980. Así el total
de jóvenes de entre 15 a 24 años que no estudia ni trabaja ascendía en el año 2008
a los 18,5 millones.
Se tiene entonces un rasgo en el sistema ocupacional al que es menester ana-
lizar (Antunes, 2010), el desempleo para esta porción de la población trabajadora
juvenil duplica en la mayoría de los casos el porcentaje que corresponde a los adul-
tos. Al mismo tiempo, un informe reciente (OIT, 2010) demuestra que la juventud
“nini” está también fuertemente determinada por el fenómeno de la pobreza9. Por
tanto, se detecta la conformación de un núcleo poblacional que ha permaneci-
do invariable frente a las fluctuaciones económicas, aún en etapas de crecimiento
económico, y que se encuentra por fuera de los canales más importantes de in-
clusión social. De ahí surgen un conjunto de interrogaciones: ¿Qué sucede con
esa fracción de la juventud luego de diez años de atravesar la deseeducación, des-
ocupación y pobreza? ¿Cómo puede caracterizarse esta fuerza de trabajo? ¿Qué
consecuencias tendrá su incorporación al mercado de trabajo?
Finalmente, en esta revisión de métricas10, en lo que respecta a los sectores no
urbanos resulta ilustrativo detenerse en la situación de los pueblos originarios.
En torno a ello, se estima en Latinoamérica que el total de la población originaria

9 El segmento de quienes no estudian ni trabajan está más intensamente concentrado en los quin-
tiles inferiores del ingreso familiar. En el quintil más pobre se registra el triple de jóvenes “nini”
que en el quintil de mayores ingresos y en el siguiente quintil de pobreza hay el doble que en el
más alto. Este fenómeno estaría más concentrado en las áreas urbanas. (OIT, 2010).
10 En otros estudios nos hemos detenido en otras dimensiones tales como criminalización o
entorno ambiental del hábitat que intersectan a estas poblaciones y que a la vez conforman

187
CAPÍTULO 10

abarca alrededor del 8% de la población latinoamericana, es decir 333.219814 de


430.747.000 que equivale al total de la región (Deruyttere, 1997:1).
En las zonas rurales los pueblos originarios constituyen un amplio sector, así
en Bolivia, Guatemala, Perú y Ecuador constituyen el 60% de la población. Ahora
bien, a pesar de su relevancia cultural y númerica, sus descendientes han sido des-
plazados a zonas más vulneradas del continente. De esta manera, aquellas pobla-
ciones que viven campesinas, sufren los embates de la segregación, mientras que
otros migran hacia las ciudades presionadas por la pobreza extema (Deruyttere,
1997:3). En las ciudades, suele desconocerse su origen comunitario, siendo coop-
tados en trabajos precarizados y en frecuentes casos como mano de obra semies-
clava en trabajos clandestinos y hábitat en tugurios11. Así, pobreza y origen étnico
contornan dos atributos sistémicos, que se muestran como extremos, pero que por
su volumen e impacto, testimonian hologramáticamente el derrame inverso de un
núcleo subordinado que tiende a establecerse como norma y normatización y una
expresión actual y renovada de la acumulación originaria.

Dimensiones en la modulación de la clase trabajadora en América Latina.


Año 2008 (Tasas porcentuales y absolutos)
Dimensión Tasa porcentual 2008 Población abarcada
Pobreza 33 182.000.000
Indigencia 13 60.000.000
Desempleo 8 18.100.000.
Juventud NINI* 20 18.400.000

Fuente: Elaboración propia en base a datos de la CEPAL y la OIT (Trabajo decente y juventud
en América Latina, febrero 2010 * Juventud que no estudia ni trabaja.

4. Segunda Hipótesis: Acerca de la ficcionalización y la ne-


cesidad de un giro epistémico

El pensamiento hegemónico con el desarrollo del capitalismo contiene y radica-


liza diversas lógicas y mecanismos tales como la ficcionalización sobre: la infinitud
de los recursos naturales y la población trabajadora; la escisión entre la humanidad

íconos u hologramas de representación cuya incidencia se produce en coincidencia en una


misma fracción social (Bialakowsky, Patrouilleau y Costa, 2009).
11 Op cit. Video Documental Realizado por Abelardo Cabrera, Sheila Casamiquela Fundación
ALAMEDA.

188
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

y la naturaleza y la división entre lo biológico y lo “inanimado”. La coseidad, como


la cosa inanimada carente de autonomía, abarca tanto al trabajador como a la na-
turaleza, la naturaleza y el hombre resultan así potencial y éticamente despojables.
Complementariamente además, en estas lógicas el saber (poder) del otro se sus-
tituye y se coloca en primer y único plano el supuesto saber para el otro (ciencia
aplicada) en reemplazo de todo saber en sí (de manera homóloga a “clase en sí”). Este
para elimina la autocomprensión y la autonomía. La recuperación del saber “con el
otro” (dialógico) extiende el concepto de conocer científico como comprensión dia-
lógica. En esta nueva hipótesis no es posible conocer, sin conocer “con” el otro, lo
cual remite a una condición ética de derechos sobre el conocimiento, que a su vez
implican un giro epistémico tributario a la emergencia de una teoría de cambio social.
En este enfoque, la reflexión en torno al marco epistémico se vuelve crucial
para generar nuevas condiciones en los procesos de producción de conocimiento.
“El marco epistémico representa una cierta concepción del mundo, y en muchas oca-
siones expresa, aunque de manera vaga e implícita, la `tabla de valores´ del propio
investigador. En este sentido, la separación tajante entre el `contenido cognosciti-
vo´ y el `contenido normativo´ de la ciencia que realizan algunos autores no puede
sostenerse. Y es precisamente a partir de un análisis epistemológico (sociogenético)
que es posible poner al descubierto las raíces ideológicas de teorías científicas que se
presentan como `conocimiento objetivo´ de la realidad.” (García, 1994:107-108). De
acuerdo a esta perspectiva epistémica, no hay observables puros, y por lo tanto el
marco epistémico se orienta en base a una normatividad extradisciplinaria de con-
tenido social, tornándose ficcional la separación entre objeto y sujeto investigador.
Para poder establecer el citado giro epistémico se torna necesario problematizar
los supuestos metodológicos y epistémicos, especialmente aquellos antecedentes
que refieren como base técnica al individualismo metodológico expandido en la base
de la ciencias sociales de la modernidad. El individualismo metodológico puede ser
pensado entonces como una regla referida al “método” de las ciencias sociales: “el
explanans de toda explicación social se limita a conceptos de primer orden, es decir,
de individuos humanos, incluyendo sus orientaciones subjetivas en la acción –sus
esperanzas, temores, creencias, deseos, y valores respectivos- como asimismo sus ex-
pectativas referidas a las acciones de otros individuos” (Naishat, 1998:61).
De acuerdo a esta concepción, los fenómenos sociales pueden ser explicados en
términos de los individuos individuales, los individuos sociales (Mészáros, 2009)
colectivos sólo podrían ser comprendidos en la interpretación fragmentaria de los
sujetos individuales. Hasta aquí la crítica del individualismo metodológico alcan-
za, desde el punto de vista holístico o de segundo orden, a delimitar las insuficien-
cias del método referido al objeto social. Aún queda en pie realizar una crítica más

189
CAPÍTULO 10

extensiva, para llevarla la praxis taylorista individualista del propio proceso de


trabajo en la producción del conocimiento social. El individualismo metodológico
se expresa en la praxis y en consecuencia también en la teoría al extenderse como
técnica aplicada recursivamente al interior del proceso que demarca dos atributos
privilegiados del paradigma vigente: el pensamiento individual y el saber ficcional
para el otro sin la participación congnoscitiva del otro. Frente a esa postura epis-
temológica de primer orden en la cual se situaría al individualismo metodológico,
Sotolongo Codina y Delgado Díaz plantean una alternativa de segundo orden, que
pone énfasis en la intersubjetividad12 generada en la génesis de la producción de
conocimiento y en los procesos de reflexividad que le siguen. De acuerdo a este en-
foque todo proceso cognitivo transcurre inmerso en una intersubjetividad. “Para
la investigación de segundo orden, el sujeto es integrado en el proceso de investiga-
ción; el sistema observador forma parte de la investigación como sujeto en proceso
y es reflexivo. (…) El posicionamiento no clásico- reflexivista complejo- supera las
disyunciones sujeto-objeto, externalidad-internalidad, entre otras, y abre un cami-
no a lo interaccional y a lo reticular, como fuentes constitutivas de la realidad.” (So-
tolongo, 2006: 63). En torno a aquello, emerge la necesidad de “contextualizar”, es
decir, “no es posible indagar la sociedad y los seres humanos que la componen desde
otro lugar que no fuese la inserción dentro de esa propia sociedad y por los propios
seres humanos concretos y reales que la componen”(Sotolongo, 2006:62).
La búsqueda común por establecer un giro epistémico está vinculada a ex-
tremar la coherencia de una metodología gregaria que gire hacia una producción
colectiva del conocimiento a través de formas dialógicas de investigación copro-
ductiva. Esta propuesta se articula así con una teoría del cambio, orientadas hacia
la apropiciación- desde abajo-del cambio social, se trata de recuperar metodológi-
camente la potencialidad del con para sustituir al solipsismo del para. La meto-
dología gregaria, desde un paradigma biopolítico, de base materialmente social13,
contribuye también a una crítica sobre el individualismo metodológico expresado
en la praxis productiva hegemónica de conocimiento.

12 “En consonancia con la mutación en el estatuto del sujeto del saber y con el redimensiona-
miento del objeto del saber, estamos transitando hacia la comprensión de que todo proceso
transcurre en realidad, inmerso en una intersubjetividad” (Sotolongo y Delgado, 2006: 56).
13 La existencia material y su proceso de trabajo determinan también los contenidos y su
metodología de descubrimiento. Pensar en términos de una estructura cognocitiva vivien-
te que produce conocimiento en movimiento significa develar y promulgar el lugar de lo
colectivo y de los cuerpos en la generación de saber. Teniendo en cuenta como presupuesto
que no hay interrogación científica que no contenga como horizonte de expectativa el di-
álogo con el otro, dicho paradigma requiere de una expansión de la base social de interro-
gación. Comprendiendo además que no se trata de volcar lo que la comunidad académica
sabe sino de construir juntos la pregunta, es decir, en este acto germinal mismo devolver al
sujeto negativizado su lugar para sí en la construcción cognoscitiva en común.

190
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

A propósito de los estudios que toman como centro el análisis del trabajo y
los trabajadores han tendido a expandirse pero conservando dos limitantes, una
referida al objeto trabajo y el trabajador diluyendo su temporalidad y espacialidad,
y otra al sostener la “neutralidad” del para y en consencuencia diluir la crítica a
los procesos de trabajo que recursivamente atañen al objeto y al sujeto académico
cognoscente. La crítica desde una teoría crítica del cambio se sitúa doblemente
sobre el objeto y sobre la construcción del conocimiento. Sí la línea explicativa se
apoyaba en la transferencia tecnológica, el giro epistémico propuesto tiende hacia
la producción social o socializada del conocimiento.
Las herramientas al momento de reflexionar sobre la perdurabilidad de pobla-
ciones trabajadoras extinguibles en América Latina se tornan insuficientes, ya que
en paralelo resultan también insuficientes los desarrollos cognoscitivos –aún los
críticos- que varíen los vectores que se conjugan en esta estratégica modulación. Las
poblaciones extinguibles son incididas e intersectadas, por formas tanatopolíticas
gubernamentales y el dominio del capital sobre el trabajo, los cuales conforman un
nuevo orden metabólico normal que abarca la desnormalización o la construcción
de una normalización desnormalizada. Las formaciones desnormales, como las del
infraproletariado extendido y elástico, se traducen en múltiples aplicaciones indi-
vidualismo metodológico que incluso se ejemplifican en las técnicas de los planes
asistenciales focalizados, cuya concepción colectiva concluye con una aplicación
micropolítica masiva y fragmentaria panóptica y no-óptica al mismo tiempo.
El método de pensar y hacer sociedad, sin duda conforma una visión sobre lo
social. Esta forma vertical usual de transferencia tecnológica como ciencia natu-
ral, revela en la praxis del statu quo como en las vanguardias la reproducción de
estructuras cognoscitivas que apuntalan la succión alienante del general intellect,
el intelecto público y coproductivo.

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193
CAPITULO 11

Trabalho, Tecnologias da
Informação e Valores-Fetiche:
Notas sobre o discurso ideológico
do trabalho na Google
Arakin Monteiro1

1. Introdução

A
tuando em rede descentralizada, a empresa de Internet Google Inc2 é, atu-
almente, a desenvolvedora e proprietária do maior mecanismo de busca
na internet do mundo. Com o slogan “Não seja mau” e a altruísta “mis-
são” de “organizar as informações do mundo e torná-las mundialmente acessíveis
e úteis”, ela construiu uma sofisticada retórica em torno de si, ganhando amplo
espaço nos discursos da mídia corporativa, nos livros de autoajuda empresarial,
nos mantras doutrinários presentes nas grades curriculares das escolas de admi-
nistração, bem como no ideário comum.
Em meio à “tempestade ideológica de valores, expectativas e utopias de merca-
do” que hoje procura formar “o novo homem produtivo do capital”, atingindo não
apenas as instâncias de produção, mas também as de reprodução social (ALVES,
2011, p.89), emergem os discursos ideológicos sobre as novas formas de assalaria-
mento e gestão da força de trabalho. Esses buscam, de modo contínuo, diluir os
antagonismos e contradições próprios da relação capital-trabalho.
O discurso ideológico sobre o trabalho na Google (tomada como modelo
exemplar na gestão de Recursos Humanos) está inserido em um contexto midiáti-
co mais amplo, que abrange um conjunto de elementos simbólicos desenvolvido
especificamente para dar credibilidade à empresa junto aos seus usuários, tendo
em vista o poder por ela exercido sobre suas informações pessoais.
Em sua página corporativa, a empresa afirma que,

1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UNESP/Marília).


2 Vide www.google.com.
CAPÍTULO 10

A Google não é uma empresa convencional, e não temos a intenção de nos


tornarmos uma. Verdade, nós compartilhamos atributos com as orga-
nizações mais bem sucedidas do mundo [...] mas, mesmo à medida que
continuamos a crescer, estamos empenhados em manter uma sensação de
pequena empresa. Na Google, nós sabemos que cada funcionário tem algo
importante a dizer, e que cada funcionário é parte integrante do nosso su-
cesso. Nós fornecemos pacotes de remuneração individualizados que podem
ser compostos por salários competitivos, bônus, e componentes de capital,
juntamente com a oportunidade de ganhar bônus financeiros adicionais e
recompensas […]. A Google tem escritórios em todo o mundo, de Banga-
lore a Zurique, mas independentemente de onde estamos, nutrimos um
revigorante ambiente positivo, contratando pessoas talentosas e locais que
compartilham nosso compromisso de criar a perfeição em buscas e querem
ter muito tempo para fazê-la. Googlers prosperam em equipes pequenas e
focada e ambientes de alta energia, acreditam na capacidade da tecnologia
para mudar o mundo, e são tão apaixonados por suas vidas como eles são
sobre o seu trabalho. GOOGLE, 2012 – grifo nosso)3.

A oferta de comida farta e “gratuita”, escritórios cheios de jogos e brinquedos,


serviços exóticos como os de massagem e lavanderia, quadras esportivas e espa-
ços de lazer, benefícios esses acima das exigências legais, são alguns exemplos dos
aspectos que têm ganhado destaque sobre a empresa, reforçando ideologicamente
sua “aura benigna” em torno de si e no imaginário comum. Mas, neste processo
midiático de “humanização” das empresas no capitalismo contemporâneo, a Goo-
gle não está isolada. Como observa Alves,

As inovações sócio-metabólicas do capital se disseminam por meio de trei-


namento em empresas, políticas governamentais, currículos escolares, apara-
tos midiáticos da indústria cultural e, inclusive igrejas, que constituem uma
pletora de “valores, expectativas e utopias de mercado” que se cristalizam em
noções, vocábulos ou conceitos que falam por nós nas instâncias de produção
e reprodução social. Eles usam uma espécie de “nova língua” ou espécie de vul-
gata do capitalismo neoliberal (…) utilizamos a expressão valores-fetiche para
caracterizar o conteúdo vocabular-locacional do imperialismo simbólico. Eles
são valores, expectativas e utopias de mercado que permeiam o sócio-metabo-
lismo do capitalismo tardio (ALVES, 2011, p.90-92).

De certo modo, o que a Google fez foi se aproveitar do grande crescimento des-
tes discursos ideológicos, dessa “nova” cultura do capital, para fazer de sua midiática
realização um elemento de marketing e legitimação de suas ações. Sua permeabilida-
de em escala global – amparada por uma força de trabalho altamente especializada e
uma ampla e avançada tecnologia (de software e hardware) – permitiu à empresa não

3 Disponível em: http://www.google.com.br/intl/en/jobs/lifeatgoogle/index.html. Acesso em


10/02/2012.

196
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

apenas prosperar em relação à concorrência, mas também conseguir difundir seus


“valores” e dispositivos gerenciais, os quais corroboram com os discursos em torno das
utopias trazidas com o advento da acumulação flexível.
No próximo item, discutiremos os fundamentos dessa construção retóri-
ca, observando sua pertinência diante do caráter oculto no tratamento das in-
formações pessoais e coletivas de que a empresa faz uso, como um dos insumos
essenciais de seu processo produtivo. Em seguida, argumentaremos como esses
elementos simbólicos articulam-se, no plano material concreto, com a necessidade
da empresa de não apenas manter o seu quadro funcional, mas de apropriar-se de
seus conhecimentos de forma lucrativa.

2. Não seja mau: a retórica ético-moral da Google

Não foi à toa que o slogan da Google – “Não seja mau” – tenha sido construído
em torno de uma questão ético-moral. Afinal, ter a confiança dos usuários com
relação à sua privacidade e às formas pela quais suas informações pessoais (em
suas mais variadas esferas) são tratadas é algo imprescindível para a manutenção
do fluxo de informações por ela gerenciado.
Para se compreender por que a Google, mais do que outras empresas, necessita
reafirmar continuamente sua presença ideológica no mundo como algo “útil, con-
fiável e benigno”, é preciso observar antes como se desenvolveu seu processo pe-
culiar de acumulação, em grande medida, pautado em infoespoliação4. Em outras
palavras, como foram feitos apropriação, manipulação, armazenamento e mercan-
tilização do substrato informacional/interativo utilizados em seus diversos produtos
e processos informacionais. O grande insumo da Google (o fluxo de informações da
web), portanto, não é algo criado por ela, mas por ela organizado, administrado,
de forma economicamente apropriada.
Em decorrência do exponencial crescimento de páginas indexáveis na web5,
tornou-se necessário o desenvolvimento de mecanismos de busca, capazes de
orientar o usuário em meio à profusão de informações ali disponibilizadas. Em
meados da década de 1990, a capacidade da web para atrair volumes significativos
de tráfego começava a chamar a atenção do capital publicitário, bem como dos
investidores de risco, que viram nas empresas emergentes da internet a possibili-
dade de ampliar seus ativos, em grande medida por meio de operações especula-

4 MONTEIRO, 2010.
5 Estima-se que em 1999 este número era de 800 milhões de páginas, subindo para 2 bilhões
em 2000 e 11,5 bilhões em 2005 (FRAGOSO, 2007).

197
CAPÍTULO 10

tivas (BRENNER, 2003). Nesse contexto, os buscadores foram considerados par-


ticularmente atrativos ao capital publicitário, inicialmente interessado em incluir
banners e pequenos anúncios em suas páginas iniciais. Logo, as empresas com
foco em buscas descobriram na intensificação do fluxo de público uma estraté-
gia economicamente viável para atrair mais anunciantes e ampliar suas receitas
(FRAGOSO, 2007).
Diferentemente do ocorrido com o advento do rádio e da televisão, nos quais
tínhamos um único emissor ativo para diversos receptores passivos, na rede, o
usuário final é obrigado a interagir ativamente com os mecanismos de comunica-
ção. A interatividade da rede não é apenas uma consequência contingente de seu
desenvolvimento tecnológico, mas um de seus fundamentos técnico-operacionais.
Em subordinação à lógica de acumulação, foi precisamente o desenvolvimento
dessa potencialidade de comunicação descentralizada em rede, um dos vetores
responsáveis por direcionar, historicamente, os processos de produção e inovação
tecnológica das empresas de internet, que estabeleceu novos usos para a tecnologia
disponível, além de novas modalidades de acumulação de capital.
A comercialização de mercadorias na rede (sejam elas tangíveis ou intangí-
veis) exigiria dos usuários-consumidores-comunicadores uma ação pró-ativa no
processo produtivo, ao buscar mercadorias, conteúdos e serviços por meio de sub-
jetivações interativas. Essa ativação individualizada do consumo, apropriada pela
lógica de acumulação de capital (em sua fase de crise estrutural), forneceu uma
ferramenta de grande potencial para o marketing, pois as empresas passaram a
obter a vantagem, nunca antes experimentada, de capturar e reter informações
sobre seus clientes, seus comportamentos, desejos e necessidades. Isso se deu de
forma relativamente simples: cada manipulação na rede deixa uma marca feita
pelo usuário, que acaba por desenhar um autorretrato em termos de centros de
interesses (culturais, ideológicos, simbólicos, de consumo etc.), cujas informações
são utilizadas para vender (ou simplesmente atrair) novos consumidores, sabendo,
entretanto, o que eles gostariam de ler, assistir, ouvir, consumir, etc.
Assim, de seus primeiros passos no final da década de 1990 até os dias atuais, a
busca foi se tornando um método de marketing mais eficiente ao capital, sobretu-
do, diante do grande crescimento das chamadas “buscas pagas” (veiculação de pe-
quenos anúncios baseados em textos ao lado das perguntas de centenas de milhões
de usuários, as quais constituem uma base de intenções de clientes potenciais). Ba-
sicamente, um mecanismo de busca conecta as palavras, com as quais um usuário
elabora uma pergunta, à base de dados criada pela empresa a partir de páginas da
web (um índice). Em seguida, é produzida uma lista de endereços virtuais (URL’s
e sumários de conteúdo) que, para ela, são mais relevantes para essa pergunta. Esse
processo é constituído por três etapas principais: o rastejo, o índice e o tempo de

198
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

execução ou processador de perguntas (que é a interface e o software associado


pelos quais se conectam as perguntas do usuário ao índice). Todas as três partes
são vitais para a qualidade e a velocidade da prática, havendo, em cada uma delas,
literalmente, centenas de fatores capazes de afetar a experiência de busca como um
todo. Esses são, a grosso modo, os elementos básicos para a grande maioria dos
mecanismos de busca atuantes nos dias de hoje na web.
Mas a Google possuía alguns diferenciais competitivos frente à concorrência.
A estratégia de classificação que recolocava uma “heurística de popularidade”
(FRAGOSO, 2007) foi aperfeiçoada no projeto inicial do algoritmo indexador do
mecanismo Google, o PageRank (antes denominado BackRub). Esse classificava os
resultados de acordo com as conexões de uma página, o texto âncora em torno de-
las e, sobretudo, com a popularidade das páginas conectadas a outras; analisando
centenas de fatores diferentes para determinar a relevância final de uma determi-
nada página para as palavras-chave solicitadas pelo usuário.
Assim, as páginas mais populares subiam para o topo da lista de anotações
enquanto as de menor popularidade caíam em direção ao final da classificação.
Esses resultados eram, a seu tempo, muito superiores àqueles fornecidos pelas fer-
ramentas de buscas tradicionais, como AltaVista e Excite, as quais, com frequên-
cia, apresentavam pesquisas irrelevantes (seus mecanismos analisavam somente
os textos, sem levar em consideração esse indicador oferecido pela popularidade).
Trabalhando com conexões, o PageRank trazia a vantagem adicional de crescer
e aperfeiçoar-se na mesma escala da web6. Essa característica viria moldar, num
futuro próximo, as decisões de milhões de webmasters que buscavam uma melhor
classificação no índice da Google (BATTELLE, 2006).
Outro diferencial da Google é que, no final de 2000, quando começou a exibir
alguns resultados pagos (serviço denominado Google AdWords, sua principal fonte
de receita), ao contrário de outras ferramentas, não os mesclou com seus “resul-
tados orgânicos” (não pagos), colocando-os na lateral direita da interface. Isso, de
certo modo, assegurava ao usuário final uma maior fidelidade na pesquisa ofere-
cida. Essas e outras peculiaridades do mecanismo consolidaram sua popularidade
junto aos usuários, obrigando seus concorrentes a estabelecerem parcerias com
o objetivo de incluir os resultados oriundos da Google em suas próprias páginas.
Com o crescimento do fluxo informacional e a injeção de capital, a empresa pas-
sou a diversificar suas atividades, desenvolvendo ou adquirindo diversos outros servi-
ços, a exemplo do Youtube, Blogger, Google Finance, Froogle, Google Checkout, Google

6 Esse fato inspirou os fundadores a chamar sua nova ferramenta de Google, devido ao termo
googol, usado para o número 1 seguido por 100 zeros.

199
CAPÍTULO 10

Calendar, Google Talk, Gmail, Google Web Accelerator, Google Earth, Picasa, Google
Desktop, Orkut, dentre outros, oferecidos gratuitamente aos usuários.
Além da qualidade e da alegada neutralidade de seu algoritmo na apresenta-
ção dos resultados em seus índices, a questão da “gratuidade” dos produtos e servi-
ços oferecidos pela empresa reforçam ideologicamente sua retórica “politicamente
correta”. Essa perspectiva em torno da gratuidade é um elemento importante para
a reificação de seus processos, na medida em que parte do pressuposto da forma-
-mercadoria como mediação necessária na relação entre a empresa e seus usuá-
rios. Assim, há um duplo processo de reificação: o primeiro, colocado pela própria
esfera fenomênica da forma-mercadoria presente na circulação (a qual encobre o
processo produtivo enquanto exploração do trabalho); e o segundo, pela inversão
aparente das posições ocupadas pelo capital, trabalho, meios de produção, além da
interatividade dos usuários no interior de seus processos.
Essa intervenção é possível porque seus usuários, em muitos sentidos, com-
preendem-se como “clientes” da empresa, mas os papéis estão aqui invertidos.
A primeira questão a ser observada sobre o modelo de acumulação da Google,
portanto, é que ela é uma empresa de mídia, cujos serviços e produtos represen-
tam apenas um instrumento com o objetivo de fazê-la atingir seu fim, a venda de
anúncios. Seus usuários (sua atenção) não são os seus clientes, mas, pelo contrário,
parte indispensável de seu produto.
Mas não é apenas no âmbito de seus processos internos que a empresa mobiliza
elementos simbólicos capazes de reforçar seu altruísmo ético. A exploração do va-
lor de uso de sua força de trabalho é ampliada ao utilizá-la como elemento de ma-
rketing, fazendo de seus empregados “garotos propaganda” de sua “visão de mun-
do”, ou melhor, mobilizando aspectos de sua sociabilidade como se fosse algo seu.
A retórica humanista da empresa faz uso de bandeiras históricas da perspec-
tiva ocidental dos Direitos Humanos, sobretudo daqueles pautados na questão do
respeito à diversidade cultural, elemento esse que se integra bem ao cariz cosmo-
polita, o qual o discurso da empresa reivindica para si. Na seção Life at Google, por
exemplo, e empresa apresenta sua política de “diversidade cultural”:

Na Google, nós não apenas aceitamos a diferença – nós prosperamos


com ela. Nós a celebramos. E nós a apoiamos para o benefício de nossos
funcionários, nossos usuários, nossa cultura e estudantes interessados
na indústria de tecnologia. […]. A Google apoia os esforços para aumen-
tar a diversidade e inclusão na indústria de tecnologia em todos lugares
do mundo em que opera. Nossas ferramentas, produtos e serviços são
utilizados em todo o mundo por milhões de usuários, e nossa aborda-
gem de apoio à diversidade reflete isso […]. A Google é um lugar onde
você pode vir para o trabalho, e ser você […]. A Google é o lar de inúme-

200
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

ras comunidades de pessoas únicas. Nós oferecemos centenas de grupos


internos e clubes […]. Muitos destes grupos estão ativamente engajados
em apoiar iniciativas de diversidade, tanto na Google como em nossas
comunidades. Em toda a empresa, estamos empenhados em impactar
positivamente o mundo que nos rodeia7.

Dentre as causas humanitárias que compõe o aparato discursivo em torno


da política de diversidade da Google, são elencados diversos grupos como Asiáti-
cos na Google, Negros na Google, Hispânicos na Google, Acessibilidade na Google,
Mulheres na Google, dentre outros. Para ilustrar, tomemos a Comunidade LGBT
na Google, voltada à defesa das bandeiras do Movimento LGBT (Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Ela é formada a partir de ações
coordenadas pelos empregados que se identificam com a causa e aderem ao gru-
po. Denominados Glayglers, o grupo global de empregados LGBT da Google alega
focar suas ações em quatro linhas de atuação: educação e conscientização interna,
sensibilização da comunidade, ajuda no modelamento da política da empresa e
construção de sua presença externa. Em sua seção na área corporativa do site da
Google, a comunidade8 afirma que:

A Google apoia seus empregado (a) s Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgê-


neros (LGBT) em muitos aspectos: apoia fortemente a nossa rede interna de
empregados, desenvolvendo relações com organizações externas e comuni-
dades parceiras, e vai além com políticas nos locais de trabalho e benefícios
para assegurar que os nossos funcionários sejam adequadamente tratados.

De acordo com as informações da página, a Google, em seus escritórios, man-


tém uma política interna universal em torno dessas questões, além de patrocinar e
participar das comemorações do “Orgulho Gay” e promover eventos de valoriza-
ção e conscientização da causa. Destaca ainda a medida tomada em junho de 2010,
quando anunciou que acrescentaria benefícios de saúde especiais para os Googlers
LGBT nos EUA, dando a mesma cobertura prevista no Family and Medical Leave
Act 9 dos EUA a parceiros do mesmo sexo. A empresa explica (e sobretudo publica)
que a decisão de expandir os benefícios para os parceiros de empregados com rela-
ções homoafetivas estáveis tratava-se de “fazer a coisa certa”, dando a eles paridade
com os demais funcionários, independentemente de sua orientação sexual. Elen-
cando todos esses aspectos de forma mais enfática, o vídeo institucional Gayglers:

7 Disponível em: http://www.google.com/diversity/ . Acesso em 10/01/2012.


8 Disponível em: http://www.google.com/diversity/workforce.html. Acesso em 10/01/2012.
9 Disponível em: http://www.dol.gov/whd/fmla/ . Acesso em 10/01/2012.

201
CAPÍTULO 10

Google’s LGBT Employee Resource Group 10 apresenta relatos de empregados LGBT


da Google sobre a forma com a qual a empresa e seus funcionários, em diversas
partes do mundo, assumem uma postura de tolerância e respeito diante da diver-
sidade de orientações sexuais. A transexual Tammy (de Mountain View, EUA),
por exemplo, relata:

Eu sou transsexual, e minha transição foi aqui na Google. Estou extrema-


mente orgulhosa por trabalhar em um lugar onde não só posso dizer: ‘Eu
sou transsexual’, mas onde a resposta mais comum é, ‘Legal, conte-nos
mais’ (…). A melhor parte sobre o trabalho na Google é a nossa cultura
aberta. Eu estou totalmente confortável com a minha equipe. Eu interajo
com centenas de pessoas no trabalho, e ninguém me trouxe um momentos
ruim por ser transexual.

Com esses e outros mecanismos no âmbito de seus processos internos e ex-


ternos, a Google mobiliza uma espécie de “democracia das identidades” a fim de
apresentar – tanto no plano da captura da subjetividade do trabalho vivo, quanto
em sua exposição midiática – a imagem de uma empresa “socialmente responsá-
vel” e “politicamente correta” frente aos conflitos e dilemas das sociedades bur-
guesas contemporâneas.
Obviamente nossa crítica não se volta a uma hierarquização de lutas e bandei-
ras históricas de grupos e movimentos sociais (como as de igualdade de gênero,
liberdade sexual e combate ao preconceito étnico), mas sim para a apropriação
midiática de tais processos, visando constituir um universo simbólico em torno
de seu comportamento ético. Esses pontos tornam-se valores-fetiche não por dei-
xarem de tratar de causas legítimas, mas por esconderem, em suas articulações in-
dividualizadas, aquelas questões capazes de torná-los precisamente iguais no que
se refere à sua posição na dinâmica de acumulação, ou seja, enquanto empregados
diretamente explorados pelos capitais, ainda que essa exploração aconteça de for-
ma mais sofisticada.
De certo modo, essa “democracia das identidades” adotada pela empresa ar-
ticula-se com as tendências contemporâneas de “incorporar” a “cidadania bur-
guesa”, ou seja, de fazer dela não apenas uma característica de seu pertencimento
a uma comunidade política (a exemplo da composição da nação no âmbito do
Estado Moderno e suas ideologias), mas, também, das qualidades ligadas aos in-
divíduos (seus corpos), em razão de sua orientação sexual, identidade cultural ou
religiosa, configurando-se, em última instância, numa redução da democracia
burguesa à sua essência de representação direta da pluralidade no corpo social.

10 Disponível em: http://youtu.be/X_O9yazDNO4. Acesso em 10/01/2012.

202
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

Não se trata, portanto, da relação do empregado com os seus congêneres (relação


política), mas de sua singularidade enquanto indivíduo. A objeção a esse processo
reside, precisamente, na paralisia do corpo político (enquanto classe) que dele re-
sulta. O espaço político cede lugar para um lugar de autorrealização do indivíduo,
enquanto a relação de classe, com seus antagonismos e contradições, é diluída em
face de um altruísmo individual engajado. Essa “retração política”, entretanto, não
decorre da reivindicação identitária em si, mas sim pelo fato de ela não ser mais
mediada pelo espaço da coletividade enquanto classe, movimento esse que limita
mutuamente tais demandas em função de um suposto plano ético mais amplo, ou
seja, de um regime generalizado da “tolerância” entre indivíduos destituídos de
seu caráter classista.

3. A subsunção e a “captura” do trabalho vivo na Google

Acompanhando os discursos que conformam o ideário sobre a Google, ganha


relevância a exposição da forma com a qual a empresa gerencia sua força de traba-
lho. Na seção Joining Google11, constata-se que:

A Google é organizada em torno da capacidade de atrair e alavancar o ta-


lento excepcional de tecnólogos e pessoas de negócio. Temos a sorte de re-
crutar muitas estrelas criativas, de princípios e que trabalham duro. (Larry
Page, Google)12

Do ponto de vista do capital, o perfil ideal dos profissionais ligados às tecno-


logias da informação está diretamente relacionado a três pilares: conhecimento
técnico, familiaridade com o empreendimento e um alto grau de engajamento na
organização. Em geral, esses profissionais possuem grande nível de perícia e pa-
drão técnico, necessidade de autonomia e forte comprometimento com a sua área
de atuação. A Google, por ser criada e desenvolvida sob a ótica de engenheiros da
computação, parece compreender e saber lucrar com essa especificidade de sua
força de trabalho, fazendo uso de dispositivos gerenciais sofisticados.
A empresa apela para a excepcionalidade de seus empregados, as “estrelas criati-
vas” que unidas levariam adiante tanto o desenvolvimento de seus produtos e serviços
quanto os valores e objetivos de sua missão altruísta de, por meio da tecnologia, fazer
deste um “mundo melhor”. Para além do discurso da empresa e daquilo apresenta-

11 Disponível em: http://www.google.com.br/intl/en/jobs/joininggoogle/index.html. Acesso


em 10/01/2012.
12 Idem.

203
CAPÍTULO 10

do ideologicamente pela mídia corporativa como novidade, é preciso salientar que,


em muitos sentidos, sua forma de gestão da força de trabalho está entrelaçada com as
ideias da “produção enxuta”, surgidas com a ideologia do toyotismo.

O toyotismo é a “ideologia orgânica” do novo complexo de reestruturação produ-


tiva do capital que encontra nas novas tecnologias da informação e comunicação
e no sociometabolismo da barbárie, a materialidade sociotécnica (e psicossocial)
adequada à nova produção de mercadorias. Existe uma intensa sinergia entre
inovações organizacionais, inovações tecnológicas e inovações sociometabólicas,
constituindo o novo empreendimento capitalista que coloca novos elementos
para a luta de classes no século XXI. Esta é a marca da cooperação complexa da
nova produção do capital (…). O pressuposto essencial do novo modelo de gestão
da produção capitalista é a “captura” da subjetividade do trabalho vivo. Mais do
que o fordismo-taylorismo, o toyotismo tem a necessidade de envolvimento dos
operários e empregados nos procedimentos técnico-organizacionais da produção
de mercadorias (ALVES, 2011, p. 43-44).

O comprometimento do trabalhador para com o sucesso da organização é re-


quisitado desde o processo seletivo. Para entrar no time de “estrelas criativas” da
Google, é necessário passar por um difícil e complexo processo, o qual também é
utilizado como instrumento midiático pela empresa. Em grande medida, sua força
de trabalho é formada por estudantes recém-formados e bem-sucedidos academi-
camente, selecionados por um processo de contratação que pretende simular os
modelos de ingresso próprios das universidades dos EUA.
No envio dos currículos, por exemplo, a empresa orienta ao candidato não
incluir dados como sexo, data de nascimento, idade, estado civil, situação militar,
cidadania ou números de identificação pessoal. Tal solicitação cumpre o papel de
reafirmar sua ênfase meritocrática na ocupação das vagas disponíveis, além de
reforçar os elementos simbólicos de “tolerância” e “diversidade cultural” presen-
tes em sua “filosofia organizacional”. Além disso, pede ao candidato que coloque
no currículo informações detalhadas sobre a sua vida universitária, incluindo
instituições, graus conferidos, bem como as médias curriculares para cada título.
Também solicita uma descrição sobre os projetos acadêmicos desenvolvidos ao
longo do curso, cujas temáticas tenham relevância específica para o cargo preten-
dido na empresa. Com relação à experiência profissional, requisita dos candida-
tos detalhes sobre trabalhos passados, destacando as habilidades desenvolvidas,
além dos resultados de suas contribuições individuais nessas ocupações. Como
informações adicionais, a empresa solicita, ainda, aos candidatos que informem
“o que os tornam únicos”, ou seja, características além de suas competências pro-
fissionais, assim como seus hobbies e interesses particulares, os quais transcen-
dam o processo imediato de trabalho.

204
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

Existe o conceito da “googlitude”. Nos perguntamos se as pessoas têm


“googlitude”, o que para nós significa que se a pessoa é interessante fora
do ambiente de trabalho; que se importa com responsabilidade social e que
adore tecnologia (Marissa Mayer, Google13)

Em outros termos, a Google pretende verificar se esse candidato possui e é


capaz de incorporar a ideologia da empresa. Após o processo de seleção dos cur-
rículos, acontece uma entrevista por telefone para uma avaliação preliminar das
habilidades técnicas e de proficiência, realizada por um empregado que desempe-
nha um cargo semelhante àquele pretendido. Passada essa fase, o candidato é con-
vidado para uma série de entrevistas na empresa, para, então, ser avaliado pelos
próprios empregados com os quais, se aprovado, irá trabalhar. Nessa etapa, há um
cuidado especial na seleção, sobretudo na contratação dos quadros técnicos:

O nosso processo de entrevista para cargos técnicos avalia o seu núcleo


habilidades de engenharia de software, incluindo: codificação, desenvol-
vimento de algoritmos, estruturas de dados, padrões de projeto, habilida-
des de pensamento analítico. Durante a entrevista, você vai se reunir com
vários engenheiros de diferentes equipes que darão uma visão transversal
de Engenharia do Google. Os entrevistadores farão perguntas relacionadas
à sua área de interesse, pedindo-lhe para resolvê-las em tempo real. Em
nosso processo de entrevista para negócios e cargos em geral, avaliam a
sua capacidade na resolução de problemas e habilidades comportamentais.
Lembre-se, não é uma questão de obter a resposta certa ou errada, mas seu
processo de resolução. A criatividade é importante14.

No vídeo institucional “Interviewing at Google15”, diversos empregados falam


das etapas no processo seletivo. Segundo um deles (não identificado), “o dia da
entrevista é como um grande exame para o ingresso na universidade, uma espécie
de vestibular, onde os candidatos devem resolver problemas efetivos em tempo
real”. Os recrutadores alegam que o objetivo de sua análise “não está em obter as
respostas certas, mas de conhecer o processo de resolução”. A empresa, por meio
desses dispositivos, consegue ampliar o valor de uso de sua força de trabalho. Ela
não requisita apenas um quantum determinado do tempo de trabalho no âmbito
de um tipo de processo. Muito além disso, ela compartilha com seus trabalhado-
res “engajados” a responsabilidade de administrar, reestruturar e desenvolver seus
processos, mercados e aplicações concretas.

13 CAYATTE, 2008.
14 Disponível em: http://www.google.com.br/intl/en/jobs/joininggoogle/hiringprocess/index.
html. Acesso em: 10/01/2012.
15 Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=w887NIa_V9w&. Acesso em: 10/01/2012.

205
CAPÍTULO 10

Ora, como dimensão essencial do espírito do toyotismo (não existente no


fordismo-taylorismo), Alves (2011) chama atenção à imprescindibilidade do “en-
gajamento” moral-intelectual dos empregados na produção de capital, na medida
em que tais processos mobilizam sua subjetividade (corpo e mente). Essa, uma vez
subordinada à lógica da produção de mercadorias, suscita o seu conhecimento e
a sua ação instintiva diante de operações complexas. É nessa busca pelo “engaja-
mento estimulado” do trabalhador (principalmente do trabalhador central, o as-
salariado estável) que se realiza a “captura” de sua subjetividade, fazendo-o conse-
guir “operar com eficácia relativa, a série de dispositivos técnico-organizacionais
que sustentam a produção fluida e difusa” (ALVES, 2011, p. 46-49).
Esses dispositivos dizem respeito não apenas ao desenvolvimento do processo
imediato de trabalho, mas à própria manutenção de sua força de trabalho altamen-
te qualificada, frente ao risco de sua perda para outras empresas concorrentes. Seu
corpo de engenheiros, por exemplo, aparece como peça-chave no contínuo desen-
volvimento e liderança tecnológica da empresa nos mercados em que atua. Esses
profissionais formam uma classe à parte na empresa, com salários mais elevados,
menor supervisão e contam com a possibilidade de utilizarem 20% de seu tempo
de trabalho, ou seja, um dia por semana, para desenvolverem alguma atividade à
sua escolha, ainda que essa iniciativa não tenha uma relação direta com as buscas.

Algo que fizemos para estimular a criatividade foi dar autonomia aos fun-
cionários, permitir que persigam seus sonhos, e a maneira mais evidente de
fazer isso foi dando a ele o que chamamos de “20% de tempo”. Ou seja, um
dia por semana eles podem trabalhar em algo que importe para eles. Pode
não ser um projeto designado, pode ser algo pelo qual tenham uma paixão,
mas, quando pegamos pessoas inteligentes com o conhecimento que têm e
lhes damos liberdade para fazer algo que amam, mesmo que não seja algo
que a empresa visualize, os resultados são aplicativos maravilhosos. (Ma-
rissa Mayer, Google16)

Subjaz a esse discurso, o fato de que esse potencial criativo, antes de atender
ao empregado, serve à empresa, pois, muitas vezes, nesse espaço de tempo supos-
tamente “livre”, são realizadas, possivelmente, grandes descobertas tecnológicas,
apropriadas e utilizadas estrategicamente pela empresa. Obviamente que a utiliza-
ção econômica dos resultados desses processos de desenvolvimentos tecnológicos é
acompanhada de gratificações individuais, fazendo do empregado uma espécie de
sócio-empreendedor, motivando outros grupos de trabalho a buscarem resultados
semelhantes. Para muitos de seus engenheiros, trata-se de criar um produto novo,
conseguindo colocá-lo de forma eficaz no mercado. Para tanto, é necessário mais do

16 CAYATTE, 2008.

206
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

que um único desenvolvedor no projeto, exigindo também do empregado a capaci-


dade de convencer sua equipe a engajar-se, cedendo seus respectivos 20% de tempo.
Nessa “liberdade assistida”, o fato das atividades permitirem, até certo limite,
uma maior flexibilidade do tempo de trabalho não significa, necessariamente, que
ela proporcione ao trabalhador maior autodeterminação. Significa, antes, que esta
força de trabalho, ou melhor, a remuneração do valor de uso dessa força de tra-
balho é baseada no resultado qualitativo do processo coletivo de trabalho, e não,
necessariamente, no tempo despendido no conjunto desse processo. A mudança
fundamental é o deslocamento do controle direto do processo de trabalho para
os resultados desse processo (MELO NETO, 2004), conforme se percebe no relato
abaixo de uma empregada.

No começo foi estranho não ter ninguém controlando o que eu fazia o tem-
po todo...era algo que me estressava. Ninguém fica de olho em você. Eu
me sinto mais à vontade porque sei que, se precisar de um tempo posso
tomar um café sem que ninguém diga “Por que não está trabalhando?” Isso
me torna mais eficiente porque planejo meu próprio tempo (Constantina,
Google17 – grifo nosso).

Esse deslocamento do controle direto sobre os processos de trabalho para os


seus resultados permite fazer um paralelo do “salário por peça” (tal como exposto
por Marx em “O Capital”) e “salário por meta”, no capitalismo contemporâneo.
No caso do salário por peça, a variação da remuneração do trabalhador é quanti-
ficada a partir do volume de produção, ou seja, do número de mercadorias elabo-
radas em um determinado período.
Para Marx, essa forma de compra e venda de força de trabalho por emprei-
tada “não altera em nada sua natureza”. Ela pode, inclusive, “ser mais favorável
do que qualquer outra para o desenvolvimento da produção capitalista”. Como a
flexibilização da produção e o trabalhador polivalente não eram realidades plau-
síveis nos tempos de Marx, os modos de remuneração da força de trabalho não
poderiam avançar para os modelos atualmente disponíveis. Por sua vez, as formas
contemporâneas de “assalariamento por meta” estão atreladas a um conjunto de
variáveis relacionadas ao volume de produção (tal qual o salário por peça marxia-
no), aos prazos de cumprimento de determinadas tarefas, à qualidade (redução de
refugos e de retrabalho, regulação de estoques, relações com os clientes), ao com-
portamento dos trabalhadores (assiduidade, redução de acidentes, organização do
local de trabalho), entre outras. O grau de complexidade dessa remuneração é bem
maior em comparação às formas anteriores, o que significa um melhor controle

17 CAYATTE, 2008.

207
CAPÍTULO 10

dos resultados obtidos pelo trabalhador. O assalariamento por meta faz o rendi-
mento do trabalhador depender, em geral, da maior intensidade (quantitativa e
qualitativamente) de sua produção. Assim, é o próprio trabalhador quem se encar-
rega de ampliar a intensidade com a qual efetua seu trabalho.
Os empregados da Google organizam-se em pequenas equipes transversais e
não hierárquicas, contribuindo, de certo modo, para diluir aparentemente o olhar
coercitivo sobre o processo imediato de trabalho. Mas essa operação é apenas apa-
rente, já que o estímulo à intensificação do trabalho é exercido pela própria equipe
– também um traço característico da ideologia toyotista. Como observa Alves:

O toyotismo considera importante estimular o comprometimento do tra-


balhador pela pressão coletivamente exercida pela equipe de trabalho sobre
todo elemento do team [...] Sob o toyotismo a eficácia do conjunto do sis-
tema não é mais garantida pela rapidez da operação do operário individu-
al em seu posto de trabalho, como no fordismo, mas pela integração, ou
“engajamento estimulado”, da equipe de trabalho como processo de pro-
dução. Deste modo, o toyotismo utiliza o “espírito de equipe” como estí-
mulo psíquico fundamental. Através do team, o toyotismo simula um ideal
de civilização proposto a todos os operários e empregados. Este ideal (ou
meta) confere um sentido global à sua ação (…) A constituição das equipes
de trabalho é a manifestação concreta do trabalhador coletivo como força
produtiva do capital. Além disso, é resultado da “captura” da subjetividade
operária pela lógica do capital, que tende a se tornar mais consensual, mais
envolvente mais participativa: em verdade, mais manipulatória” (ALVES,
2011, p. 124-125).

Em grande medida, não apenas as equipes, mas diversos dos benefícios fun-
cionam de modo a intensificar os processos de trabalho. A questão do fornecimen-
to de alimentação na própria empresa (algo que em alguns países é obrigatório,
por meio de acordos sindicais, a exemplo do auxílio-alimentação no Brasil), por
exemplo, evita a saída dos empregados da empresa em seus horários de refeição fa-
zendo com que permaneçam juntos, muitas vezes trabalhando. Já as redes wirelles
(sem fio) que permitem aos trabalhadores locomoverem-se pelos espaços internos
da empresa, assim como os brinquedos, espaços de lazer e serviços prestados em
suas dependências, reforçam a empatia dos empregados, além de servirem como
“peças de marketing”, atuando como “válvulas de escape” diante de um trabalho
que exige muitas horas frente às telas dos computadores.

Todos os meus amigos estão aqui. Não tenho tempo para sair e conhecer as
pessoas lá fora. Quando você chega está sozinho, então conhece as pessoas
daqui. Todos os que chegam a Dublin estão na mesma situação: não conhe-
cemos ninguém e precisamos fazer amigos. E podemos fazer amigos aqui.

208
Trabajadores extinguibles y teoría coproductiva del cambio. Perspectivas latinoamericanas en la década 2010

É fácil porque é tudo aberto e as pessoas chegam e se tornam amigas. É um


grande benefício. No meu antigo emprego, na hora do almoço, eu tinha que
ir a um restaurante e pensar no que almoçar. Aqui não precisamos pensar
nisso. Você desce, come e conversa com os amigos. É uma boa maneira de
socializar, de conversar com calma com as pessoas (Constantina - Google
Dublin – grifo nosso).

Há, portanto, uma reconfiguração do fator subjetivo do trabalho e de sua


subsunção ao capital, mediante as transformações ocorridas em decorrência
da adoção generalizada das tecnologias da informação nos mais variados pro-
cessos produtivos. É preciso salientar que, para além da internet, o desenvolvi-
mento da informática e da telemática contribuiu para uma significativa expan-
são de um trabalho dotado de maior dimensão intelectual, quer nas atividades
industriais mais informatizadas, quer nas esferas compreendidas pelo setor de
serviços ou comunicações.
Como observa Lojkine (1995), o sistema automático para processamento de da-
dos assemelha-se aos sistemas automáticos da maquinaria de produção – naquilo
em que reunificam os processos de trabalho, eliminando os muitos passos atribuí-
dos, anteriormente, a trabalhadores parcelados. Por outro lado, houve uma mudan-
ça na relação homem/instrumento-de-trabalho, na qual, diferentemente da relação
ocorrida com a máquina da grande indústria, o homem tende a não ser meramente
meio, mas pólo ativo de um processo de subjetivação. Com a conversão do traba-
lho vivo em trabalho morto a partir do desenvolvimento dos softwares, a máquina
informacional passa a desempenhar atividades próprias da inteligência humana.
Em oposição aos excessos advindos da literatura corrente com relação a esse
aspecto particular do processo de trabalho, devemos salientar que essa intelectua-
lização crescente do trabalho, mediante a introdução da informática e da telemá-
tica nos processos produtivos, nada tem a ver com uma superação da alienação do
trabalho. Na verdade, ela está relacionada com a mudança do sentido da alienação
e com o aprofundamento do enquadramento do trabalhador, “com o avanço da
exploração das suas energias e capacidades mentais, para além das suas energias
físicas e capacidades criativas manuais”. Em síntese, de uma subsunção intelec-
tual do trabalho. Por meio dos softwares, o sistema enquadra o trabalho mental,
padroniza-o e explora suas potencialidades. É a forma com a qual se materializa
num elemento do capital constante o conhecimento que antes era propriedade do
trabalhador intelectual isolado, de forma semelhante ao ocorrido com o traba-
lho manual a partir do surgimento da máquina-ferramenta. Há, portanto, uma
convergência das tendências de desenvolvimento da subsunção do trabalho nos
processos de produção cultural e intelectual em geral, que se estende, de forma
considerável, para amplas camadas da classe trabalhadora (BOLAÑO, 2000).

209
CAPÍTULO 10

O que observamos é o estabelecimento de um complexo processo interativo


entre trabalho e ciência, cuja retroalimentação exige uma força de trabalho ainda
mais complexa e multifuncional, a qual será explorada de maneira mais inten-
sa e sofisticada, ao menos nos ramos produtivos dotados de maior incremento
tecnológico. Como observa Antunes, não se pode desconsiderar que a dimensão
de subjetividade presente nesse processo de trabalho está tolhida e voltada para a
valorização e autorreprodução do capital, para a “qualidade”, o “atendimento ao
consumidor”, dentre outras formas de representação ideológica, valorativa e simbó-
lica que o capital introduz no interior do processo produtivo. Mesmo diante de um
trabalho dotado de maior significação intelectual, o exercício da atividade subjeti-
va está constrangido, em última instância, pela lógica da forma mercadoria e sua
realização (ANTUNES, 2002). Nesse sentido, a direção da transformação de de-
terminados dados brutos em mercadoria-informação, também portadora de uma
utilidade, não é dada pelo próprio trabalhador. Essa direção é atributo exclusivo
do capital ali aplicado para esse determinado fim.

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Sobre o livro
Formato 16 x 23 cm
Tipologia Minion Pro (texto)
Serlio LT Std (títulos)
Papel Pólen 80g/m2 (miolo)
Supremo 250g/m2 (capa)
Projeto Gráfico Canal 6 Editora
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Revisão XXXX
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