Você está na página 1de 3

AURORA ano IV número 6 – AGOSTO DE 2010________________________________________________ISSN: 1982-8004 www.marilia.unesp.

br/aurora

KOIXOMUNETI: XAMANISMO E PRÁTICA DE


CURA ENTRE OS TERENA

JEAN PAULO PEREIRA DE MENEZESi

F
ernanda Schmuziger Carvalho1 é uma das através da FUNAI. O índice populacional
intelectuais emblemáticas entre os membros apresentado pela FUNAI em 1986 estima cerca de
da segunda geração do Centro de Estudos 10.000 indivíduos aldeados. Fernanda apresenta
Indígenas Miguel Angel de Menéndez uma abordagem crítica neste capítulo inicial de seu
(CEIMAM) da UNESP de Araraquara. Nos anos trabalho, aos moldes da tradição que se constituía o
80, participara das interlocuções com os Terena na CEIMAM durante e após os anos 80. Critica-se a
região de Aquidauana, resultando em seu trabalho metodologia desenvolvida pela FUNAI sobre a
de pesquisa, vindo apenas tardiamente a ser aplicação deste trabalho demográfico, delegado aos
publicado como livro em 2008 e que nos ocupamos chefes de postos em prazo de sete dias para
aqui de apresentar aos leitores por se tratar de um apresentação do mesmo, o que, de forma a cumprir
importante trabalho, há anos, referencial para os as determinações, redundara em uma análise
pesquisadores que se ocupam do estudo sobre o quantitativa errônea, ocultando o número real da
povo Terena do MS2. população aldeada em Taunay e Ipegue.
O trabalho de Fernanda Carvalho está A contribuição de Fernanda é de ilação ao
organizado em quatro capítulos, a saber: o primeiro, órgão intermediador, uma vez que aponta de modo
no qual situa os aspectos relacionados ao modo de comparativo, o censo determinado pela política
vida Terena. O segundo, em que discorre sobre as indigenista do Estado e as estimativas de sua
representações do xamanismo que trata de situar o pesquisa de campo entre os Terena no MS. Ainda
recorte do povo Terena em que dedicou especial neste primeiro capítulo, a autora problematiza, a
atenção sobre os aspectos do modo de vida Terena questão socioeconômica de Taunay-Ipegue ao se
e as religiões cristãs; o terceiro, em que aborda as debruçar sobre as trocas e comercialização,
concepções de saúde e doença; e, precedendo a identificando a rede complexa que se fazia presente
conclusão, um quatro capítulo, dedicado ás práticas e também identificada já nos anos 80 nas visitas do
de cura e cuidados especiais durante o ciclo de vida Grupo de Estudos Indígenas Kurumim. Neste
dos indivíduos. ponto, o trabalho nos remete ao fenômeno da
Inicialmente, se ocupa com o aspecto do movimentação Terena nos espaços e tentativa de
modo de vida Terena pontualizando a questão da adaptação em suas novas territorialidades, urbanas
localização, população, a área Taunay-Ipegue, trocas ou não.
e comercialização, trabalho, migração, educação, O texto sinaliza uma atividade política
política e a construção étnica. agitada no Posto Indígena Taunay. Uma
O trabalho além de apresentar um quadro movimentação de política interna, devidamente em
demográfico da população Terena em crescimento, sintonia com a política indigenista externa; uma
também problematiza a demografia desenvolvida movimentação política em relação à religião,
apresentando notáveis mudanças nos
1 Fernanda Schmuziger Carvalho é uma das intelectuais emblemáticas
procedimentos ecumênicos, seja pela releitura do
entre os membros da segunda geração do Centro de Estudos Indígenas protestantismo e o desenvolvimento de uma nova
Miguel Angel de Menéndez (CEIMAM) da UNESP de Araraquara, que denominação, seja pela apropriação do catolicismo
participaram das interlocuções com os Terena na região de Aquidauana
durante os anos 80.
nas aldeias e sua direção “ecumênica” hegemônica;
2 O significado das interlocuções com os Terena apresentou de forma nos dois casos, com suas próprias pautas em
sistematizada parte da cosmovisão Terena sobre a saúde e o estado não debates na comunidade.
saudável do sujeito diante das práticas xamanisticas, além de nos
remeter a identificação de determinadas permanências da religiosidade
chaquenha.

115
AURORA ano IV número 6 – AGOSTO DE 2010________________________________________________ISSN: 1982-8004 www.marilia.unesp.br/aurora

Ao apresentar o segundo capítulo, a elemento deus no céu, que passa a dividir espaço com
autora explica: “O objetivo deste capítulo é analisar as Vanuno e outras serpentes aquáticas como
adaptações do sistema de representação sobre o mundo, no elementos de permanência da visão Terena. O que
contexto em que estão inseridos os Terena hoje.”. Sob o demonstra a continuidade de alguns elementos
título “As Representações do Xamanismo e as chaquenhos na religiosidade, mesmo após séculos de
Religiões Cristãs”, organiza uma contextualização contato com o mundo mítico cristão, contribuindo
histórica do Oheokoti, como importante cerimônia para que a visão de mundo Terena seja entendida
para os Terena. A autora se utiliza de depoimentos e como uma série de confluências entre elementos
fontes bibliográficas, se remetendo a cronistas, cristãos e crenças xamânicas5.
viajantes e pesquisadores consagrados. Apresenta O texto procura focar o elemento central
entre essas suas fontes e referênciais, diretamente às visões de mundo, tendo como sujeito
dialogando com a bibliografia sobre o Chaco e os fundamental a figura do koixomuneti. Para isso,
Terena.3 concentra o seu dissertar sobre a escolha e
Fernanda Carvalho nos apresenta o formação do koixomuneti, historiando sua
Oheokoti como ritual consistente na reunião de inicialização em relação ao pretérito, utilizando seu
koixomuneti das aldeias de Taunay Ipegue onde referencial, onde identifica a função de curador e
juntos realizam uma viagem xamânica, utilizando prolongador da vida pela intervenção do rezador
alguns instrumentos como o maracá acompanhado que se comunica com outros rezadores já mortos.
da bebida, a chicha, que na época era representada Fernanda nos aponta desta maneira o status e o
pela água-ardente. Ao escrever sobre o Oheokoti, a papel crucial deste indivíduo para a comunidade.
autora contribui com uma construção etnográfica Sobre os poderes do koixomuneti, o texto procura
bastante importante no que se refere a sua entender o aspecto mágico e sua função antinômica,
construção etnográfica no período das décadas de pois ao mesmo tempo em que é prestigiado por
80 e início dos anos 90. Para isso a autora cita a seus poderes de cura, é também, temido por este
contribuição de Modesto Pereira e sua filha como mesmo poder de inferência na vida dos indivíduos
mediadores para se chegar aos xamãs Terena através que formam a comunidade. Relata ainda
dos quais contribuiu para que a autora estabelecesse depoimentos deste poder mágico capaz de visões
uma interlocução direta com o Sr. Pascoal e Sr. além do lócus de sociabilidade, tendo acesso a um
Onofre, importantes xamãs Terena que outro espaço histórico e mesmo de deslocamento
possibilitaram a nossa pesquisadora um contato do koixomuneti para esses outros espaços. Uma
direto com esse ritual marcante da historicidade espécie de “parte” com os animais é relatada como
Terena. viabilizadora dessas concepções e que são
Diante da inferência violenta da política entendidas como parte fundamental da cosmovisão
indigenista e das novas realidades históricas, Terena.
entende-se o Oheokoti em sua função profilática, e, No capítulo terceiro, Fernanda Carvalho
diante do quadro histórico que envolve os Terena, procura entender as concepções de saúde e doença
busca compreender as configurações do ritual, ao se para os Terena na época de sua pesquisa, a partir de
apropriar de novas roupagens em suas observações de campo, buscando a construção de
manifestações. Afirma o ritual, como “[...] um modelo etiológico terena, com base nos estudos de
“resignificado”, uma vez que os agradecimentos Laplantine (1986) e Zempléni (1985)”6. Com
sobre a colheita, por exemplo, encontrava-se depoimentos (interlocuções) de campo, a autora
desacralizado, diante da aceleração histórica, uma procura identificar a construção narrativa sobre a
das responsáveis por sistemas de novas adaptações origem e as causas das doenças, registradas entre os
sociais que se eleva com novas configurações Terena. Contribuindo para isso, a visão de mundo
políticas e econômicas. acerca da doença, consistente em um pluralismo que
O desenvolvimento da cerimônia, diante conduz as concepções de doenças de acordo com a
desse processo, é apresentado como modificado, tradição terena, a medicina popular, e, ainda, as
diferindo-se da realização dos antigos rituais, na apropriações das ciências médicas. A síntese desta
medida em que se limita ao cerimonial dos tríade, resultante em elementos fundamentais na
koixumoneti, não mais sendo realizado uma série de composição de uma perspectiva Terena sobre da
outras danças englobadoras dos indivíduos da doença, contribui na constituição da cosmo visão
comunidade4. Terena, e, deste modo, na leitura etiológica no
Com essas inferências, o trabalho nos cotidiano da comunidade.
remete a presença de alguns novos elementos Esse capítulo do trabalho de Fernanda
Terena. Por exemplo, após o contato com o Carvalho se ocupa em entender as manifestações
cristianismo ainda no Chaco, introduz-se o terena sobre a doença, onde a autora infere no

3 CARVALHO, 2008: 149-163. 5 CARVALHO, 2008: 65.


4 CARVALHO, 2008: 63. 6 CARVALHO, 2008: 85.

116
AURORA ano IV número 6 – AGOSTO DE 2010________________________________________________ISSN: 1982-8004 www.marilia.unesp.br/aurora

sentido de que essas representações estão “associadas relações do todo com esta personagem respeitada e
à concepção de um equilíbrio rompido”7. Deste modo, temida, porém, sob a mira desse mesmo todo que o
situa o debate sobre do modo de ver as origens e as reconhece como um koixumoneti, bom ou ruim, de
causas das doenças entre os Terena de Taunay- acordo com a lógica do bem e do mal via
Ipegue, apresentando ainda um diálogo diante de cosmologia cristã.
suas referências bibliográficas sobre as concepções É muito interessante o modo que
de doenças. identifica a viagem xamânica de forma distinta da
Propõem-se dois tipos de relação entre possessão judaico-cristã, marcando o
meio e homem, sendo: os feitiços (tipo “A”) e as posicionamento Terena diante do cosmos religioso
transgressões (tipo “B”). O primeiro relacionado às cristão e sua apropriação ao desenvolver as suas
problemáticas internas de desequilíbrio provocadas leituras diante de suas práticas tradicionais em
por um intermediador (o feiticeiro), e, o segundo, constantes transformações diante do processo de
relacionado ao rompimento do equilíbrio por contato, que embora ganhe novas configurações,
intermédio direto do indivíduo com o meio, sem não delega ao xamanismo uma posição marginal na
intermediadores, que, neste caso, serão necessários historicidade Terena. Assim, reconhecendo a
para o restabelecimento do equilíbrio entre as permanência da figura do xamã nas narrativas
partes. E, sobre este aspecto, o da intermediação, históricas desse povo, tendo “na comunicação com os
Fernanda Carvalho identifica a figura do seus ‘grandes mortos’ e com os espíritos de animais o veículo
intermediador como o elemento necessário para a fundamental de reequilibrar – ainda que apenas uma vez por
restauração. Contribuindo desta maneira para ano no Oheokoti – as suas relações com o universo”8.
entendermos, ao menos, um dos aspectos da Este trabalho de Fernanda Carvalho é
importância histórica dos koixomuneti na sociedade contribuidor no entendimento crítico da política
Terena, ampliando-se ainda a parcelares dos indigenista, através da atuação de parte de um grupo
regionais. de intelectuais de Araraquara, ligados ao CEIMAM
No quarto e último capítulo, o livro de e seu papel ao se posicionar (através desses
Fernanda Carvalho propõem descrever sobre as intelectuais) nesse contexto. E, também, ao propor
práticas de cura e cuidados especiais durante o ciclo um entendimento, fornecendo elementos para uma
de vida dos indivíduos, apresentando uma proposta alternativa diante da política oficial que
abordagem acerca dos recursos assistenciais no PI ainda se praticava, não se tratando de fazer apenas
Taunay, as opções dos Terena diante dos agentes de uma denúncia, mas também, de apresentar uma
cura, o papel dos Koixumoneti como curadores. E, possibilidade alternativa de se pensar outra política
ainda, diagnosticando os problemas mais freqüentes acerca dos povos indígenas e da identidade étnica
em relação a saúde e o atendimento a gestantes e os estabelecendo um diálogo com a área da saúde
cuidados no parto e com o recém-nascidos. publica.
Finalizando, apresenta um quadro fitoterápico Esse último aspecto nos chamou atenção,
terena, relativamente extenso em que se apóiam os pois o aponta para uma contribuição a área médica.
membros da comunidade, através dos seus agentes Não foi possível identificar este sinal com maior
de cura. profundidade para compreendermos se é a
Nas suas páginas finais a autora descreve perspectiva médica que influencia o trabalho
suas considerações reconhecendo o pluralismo antropológico da autora ou se o contrário.
Terena sobre a doença e suas práticas de cura Entretanto é possível afirmar que as duas
durante o processo histórico de contato. A perspectivas contribuem na constituição de seu
dissertação de Fernanda Carvalho conclui ainda livro, reforçando a possibilidade de um diálogo
reconhecendo quatro tipos de crenças em curas de como extensivo ao pensamento na área da saúde.
doenças através das práticas dos koixumoneti,
curandeiros (esses não sendo necessariamente como o REFERÊNCIA
Koixumoneti, uma espécie de viajantes no mundo espiritual),
a medicina popular e a institucional, fazendo, os CARVALHO, Fernanda Schmuziger. Koixomuneti:
Terena, distinção dessas práticas, pluralizando-as xamanismo e prática de cura entre os terena. Editora
diante de uma concepção de doenças do espírito e terceira margem. São Paulo: 2008.
doenças do corpo. Contribui acerca de um melhor
i
conhecimento da figura do Koixumoneti como Mestre em História pela UFGD-MS.
personagem marcante da historicidade terena,
mesmo após a relativa recente história de contato
com as representações cristãs, identificando a
importância deste, diante toda a comunidade, e,
ainda, contribuindo para o entendimento das
7 CARVALHO, 2008: 100. 8 CARVALHO, 2008:147.

117