Você está na página 1de 4

Considerações sobre o trabalho de José Eduardo

Como eu te enviei tarde, tome essas leituras e sugestões principalmente para seu
mestrado a posteriori. Sua introdução poderia ser um capítulo dedicado a explicar o
surgimento da ideia de demônio no ocidente. Fora que não tem como não falar em
demonologia sem citar o paganismo! Para tanto, gostaria que procurasse por: Ronald
Hutton. "O triunfo da Lua" e "O livro de Baphomet" De Julian Wayne e Wikki Ward.

Para o futuro: Apreciar mais as tuas fontes! Veja que os fanzines demoram muito para
aparecer no seu trabalho, fora que você basicamente usa as capas, ignorando toda uma
gama de informações que poderia sair dali. Você coloca fotografias que não analisa e
praticamente não utiliza sua entrevista e seu diário de campo. Vale dizer que na banca,
quando eu pedi pra sua fonte aparecer mais, não é que você precisava viajar e gastar
grana pra coletar mais fontes. Basicamente eu queria que você utilizasse as que
conseguiu! Se não vai colocar no trabalho, não tem sentido colocar os diários de campo
ali. Aprender a lidar com fontes orais é preciso. Sua entrevista parece não estar com as
perguntas iguais as que você fez. A transcrição precisa ser o mais próximo possível do
que você produziu com o Pedro! Fica parecendo que a entrevista está manipulada para
você ter as respostas que quer com seu entrevistado. Outra coisa: pensar um método
para analisar a entrevista é preciso. O seu trabalho gira em torno de uma entrevista
temática, mas eu acho que ficaria melhor se você analisasse a trajetória de vida do
Pedro. Como ele chegou a ser um headbanger e passou a conviver com esses signos e
símbolos extremos? Eu te aconselharia a ler o Pedagogia profana do Jorge Larossa, ou
mesmo o Nietzche em Ecce Homo. Voltando a história oral leia o livro "Usos e abusos
da História Oral", um compilado de artigos organizado por Marieta ferreira e Janaina
amado. Vale a pena ler.

Cuidado com os tempos verbais. Veja que principalmente no teu resumo e na tua
introdução, ora você fala em primeira pessoa, ora em terceira. Acho legal ver o conceito
do corpo pesquisador da rolnik (cartografias sentimentais: Transformações
contemporâneas do desejo) aparecendo indiretamente. Mas se vai colocá-lo, coloque
direito. O texto teria que ser todo em primeira pessoa, pra dar certo.

Ver termos que você cita e não aprofunda no seu trabalho como por exemplo, o Poser.
Essas coisas poderiam ser exploradas em trabalhos futuros. Evite os preconceitos e
juizos de valor, pois na sua fala, você basicamente disse que o poser não interessava,
sendo que a exclusão de um determinado sujeito de um grupo implica um estudo
serissimos no ramo da sociologia chamado de sociologia do desvio. Howard Saul
beckers e gilberto velho possuem ótimos trabalhos nessa área. O livro outsiders:
Ensaios sobre a sociologia do desvio do proprio Howard, pode te ajudar a analisar esses
personagens excluídos.

Para trabalhar a imagem em torno de Baphomet, ver o conceito de caligrama no livro de


janice caiafa. Movimento Punk na cidade: A invasão dos movimentos sub. Caligrama é
uma poesia visual, que visa usar imagens cristalizadas para desmoralizar sentidos
clássicos sobre elas. Os punks do rio usavam a suástica não para promover o nazismo,
mas para escarnecer com ele, destrui-lo simbolicamente. Eu acho que os metaleiros
usam o demônio pra não só desmoralizar o cristianismo, mas também combater os
microfascismos que eles enxergam entre si e nos outros. Isso é muito político e
caracteriza a resistência desses sujeitos frente as querelas sociais. O félix guatarri tem
um conceito bacana no seu livro Revolução molecular: pulsações políticas do desejo,
onde ele vai trabalhar a noção de revolução pelo gesto, microbiana. Leia!

Ver Também, o conceito de Biopoder do Foucault Ver: O Nascimento da biopolítica:


Curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes. Mas tem
vários outros..até o vigiar e punir pode e dar referências sobre esse conceito.

Explicar o que é mainstream e underground e ver se os metaleiros utilizam significados


próprios deles pra exemplificar esses conceitos. Daí analisar os fanzines é necessário.
Para lhe ajudar na tarefa, tem o livro do Graig o Hara, Filosofia do Punk, mais do que
barulho. Esse trabalho possui um glossário de conceitos em torno da cena que poderiam
te ajudar.

Sobre fontes: Procurar a revista rock brigade. Essa revista ditou tendência sobre o que é
ser metaleiro, mostrando desde look, bandas, atitudes e posicionamentos políticos...Ver
onde o baphomet se encaixa nisso tudo seria bom. Você tem que entender que teu
trabalho não é exatamente focar no diabo, mas ver como um determinado grupo de
sujeitos subjetiva e cria reperesentações sobre o diabo partindo do que eles vivem no
cotidiano. Então a tribo, o movimento headbanger é o foco do seu trabalho. O diabo é
só o pretexto. Para ver quem são so headbangers, se tribo ou bando, temos o Deleuze no
livro "diálogos" e o Jose Pais Tribos urbanas: produção artística e identidades.

Sobre análise semiótica de imagens, ver Deleuze "Cinema - A imagem movimento" ou


mesmo os novos domínios da História. Você precisa dizer como pretende analisar
imagem. Existem várias formas de usar a semiótica. Temos ainda o paradigma
indiciário do Ginsburg, que pode te ajudar a pensara imagem. E o clássico do Umberto
Eco. Tratado Geral de Semiótica. Não vai faltar leituras nesse sentido.

Para o conceito de juventude: temos o Cannevaci e sua antropologia da juventude em


Culturas Extremas, o Edwar em Todos os dias de paupérria, onde ele vai tratar das
maravilhas tecnológicas pós anos 60 e até mesmo a Teresinha queiroz e seu trabalho de
nome "Juventude dos anos 60: Modos e modas".
Considerações sobre o trabalho de Beatriz Rodrigues
Bom, a crítica a seu trabalho é muito mais no sentido de que você precisa desconstruir
mais essa ideia de que o Torquato neto foi um sujeito a "frente de seu tempo", "linha de
fuga", o "anjo torto".Afirmar categoricamente representações sobre Torquato é matar a
vida nômade que ele sempre trilhou para si. Ele é contraditório, viveu bebericando
incertezas. Ele foi fuga, mas foi capturado também. E veja que mesmo os trabalhos
mais "românticos" em torno da figura dele, como o do professor Edwar, colocam esse
tipo de certeza em cheque. Vá atrás de ler o todos os dias paupérria em sua totalidade,
pois ele é base para os estudos de torquato e tropicália no brasil. Inclusive é dele a
noção de que a tropicália se faz dentro de movimentos (atente para o plural) diferentes
de acordo com a região. Ele rompe com a tradição de que a tropicália foi coesa,
conforme sugeria caetano e Gil. Nessa obra você ainda vai ver pelo menos 3 fases da
poesia do poeta, sendo elas: 1-A busca pelas raízes da cultura brasileira. 2-A poesia
jovial e a busca pela criatividade perdida na infância e 3-A fase de apagamento de
rastros de sua existência, já no fim de sua vida.

Ao invés de linha de fuga(ler ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações


contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina, 2006.), ficaria mais interessante o
conceito de máquina de guerra. Sobre esse conceito, vale entender que se o aparelho de
estado comporta um rol de cerimoniais, a máquina de guerra se ritualiza em transes. De
um lado, temos um poder que tenta capturar tudo e todos, como uma culinária repleta de
truques e livros de receitas. E do outro, temos a intempestiva potência da máquina de
guerra, que conhece as plantas, os chás, as drogas, as misturas, a fermentação alcóolica
e os segredos de quem sabe fazer porque sabe como fazer, de um jeito que receitas não
acompanham. Ou seja, máquina de guerra é transe. Transe é conceber que o indivíduo
pode possuir ou não vários níveis de consciência sobre as coisas. Procure conhecer a
noção de máquina de guerra aqui: <http://revistacarbono.com/artigos/06maquina-de-
guerra-paola-zordan/> Temos também a dissertação de ernani "Um formigueiro sobre
a grama". Veja também: Deleuze, Gilles & Guattari. Mil Platôs: Capitalismo e
Esquizofrenia v.5. São Paulo: Ed. 34, 1997. Ortega, Franciso. Para uma política da
Amixade: Arendt, Derrida e Foucault. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2000.

O seu trabalho é embebido na ideia de Torquato como alguém que por meio das
palavras procura fugir de capturas identitárias e cristalizações de sentido, vale entender
como o poder funciona no deslizar entre o marco e o micro. Como do infraestrutural, o
poder age também no ínfimo, nas mais banais relações cotidianas. Para tanto, você
precisa conhecer o conceito de biopoder. Minha sugestão é:
RABINOW, Paul; ROSE, Nikolas. O conceito de biopoder hoje. Revista Política &
Trabalho:Revista de Ciências Sociais, n. 24, p. 27-57, abril 2006. Disponível
em:<http://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/politicaetrabalho/article/view/6600/4156
>. Acesso em: 25 jan. 2016.
Cuidado com juízos de valor e com o tempo verbal no seu texto. Você padece do
mesmo mal do zé eduardo!!!! Você não é juiz para dizer o que é ou não importante.
Quanto ao tempo verbal, escolha se vai ficar na primeira, ou na terceira pessoa! Deve
também deixar claro que conceitos você utiliza quando fala em processo de
singularização, desfamiliarização, produção de sentidos, utopia, distopia e heterotopia.
Eu particularmente só trabalharia um ou dois desses conceitos. Sendo assim, vou lhe
sugerir um debate sobre a produção de sentidos proposto por uma psicóloga: SPINK,
Mary Jane P.; MEDRADO, Benedito. Produção de sentidos no cotidiano: uma
abordagem teórico-metodológica para análise das práticas discursivas. In: SPINK, Mary
Jane P. (Org.). Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano: aproximações
teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez, 1999. p. 41-61.

Na sua introdução de simbolismo e parnasianismo para trabalhar a semana de arte


moderna e sua relação com a tropicália. Acho que seria bom você detalhar o que eram
esses movimentos, até pra entendermos a proposta estética da semana de arte. Para
tanto, ver "Modernismo revisitado" na revista Fapesp, aos cuidados de Christina
Queiroz.

Quando você fala nos anos 60, não tem como não pensar na ideia de aldeia global, onde
o mundo está ficando cada vez mais interligado e as fronteiras territoriais e de língua já
não são empecilho para a interação de sujeitos de diferentes culturas. Para tanto, vou
sugerir a você um livro do Marshall Macluan, filósofo e teórico da comunicação
canadense. A obra A galáxia de gutemberg vai te ajudar a aprofundar esse conceito no
teu trabalho.