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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE – UERN
Pró-reitoria de Ensino de Graduação – PROEG
Campus Avançado Profª. Maria Elisa de Albuquerque Maia – CAMEAM
Departamento de Letras Vernáculas – DLV / Letras Lic. (Habilitação em Português)
Componente Curricular - Fonética e Fonologia Semestre/Período: 2014.2

FONÉTICA E FONOLOGIA: RELAÇÕES E DISTINÇÕES

Pau dos Ferros


2014
FONÉTICA E FONOLOGIA: RELAÇÕES E DISTINÇÕES

BRUNO FELIPE DA SILVA


MARIA MOREIRA DE ALMEIDA

1. INTRODUÇÃO

A língua, ou melhor dizendo, o exercício da língua é, podemos assim dizer, uma


dinâmica, sendo pois ela suscetível de modificações por vários motivos, intra ou
extralinguísticos, ao longo do tempo. A partir dessa ideia, confere-se destaque às variações
fonéticas oriundas da prática social da língua regionalizada. Quando, por exemplo,
pronuncia-se a palavra “porta”, não temos sua grafia alterada, no entanto, na fala não só é
possível como de fato ocorre alterações fonéticas, exatamente em razão da questão dos
costumes e/ou práticas linguísticas regionalizadas. Fiorin (2004, p. 26) vem dizer que “o
alfabeto ortográfico já é uma abstração, ninguém escreve como fala”. E é exatamente as
circunstancias e as peculiaridades de cada povo, expressada em sua cultura linguística que
molda a fala e, portanto, a pronuncia de palavras e expressões da língua.
Nosso intuito aqui será, antes de tudo, possibilitar ao leitor, de forma um tanto
consistente, assimilar o contraponto e a divergência de natureza e de campo de estudo entre a
Fonética e a Fonologia. De maneira analógica, procurou-se conferir destaque em pontos
relevantes, como o caso de variações no som conforme o exemplo acima citado e outros
fatores fundamentais que acentuou de forma simples e contextualizada com a pragmática da
língua (tendo em vista o uso peculiar que dela se faz considerando-se as diversidades
linguísticas), a diferença funcional entre ambas as ciências, como classificações e a forma
com a qual esses sons são emitidos e articulados, assim como a perspectiva de estudo e
análise de tais sons.
Em uma perspectiva fonológica, necessária se fez a introdutória retratação sobre o
elemento fonema, tendo em vista que é ele a unidade elementar de estudo da Fonologia
enquanto ciência. Mediante isso, é pertinente essa informação no sentido de que entendemos
como objeto primário de investigação por parte da Fonologia, o estudo sistemático do aspecto
sonoro, fonemático das palavras.
Outrora, por uma perspectiva fonética, procurar-se-á discorrer sobre um aspecto
articulatório, acústico e auditivo, não esquecendo-se do local do aparelho fonador, a partir de
onde são produzidos e articulados os sons, respectivamente, conferindo aos estudos um
caráter que figura-se em torno da estrutura física sonora propriamente dita.
Assim, evidenciamos que este artigo, como já anteriormente dito, objetiva de forma
simples e direta, abordar sobre a Fonética e a Fonologia, que, como ramos científicos de
estudo autônomos e ao mesmo tempo inter-relacionados um ao outro, figuram-se dois campos
científicos distintos e específicos em seus objetos de investigação.

2. A FONÉTICA

Do ponto de vista linguístico, a Fonética mostra-se como uma ciência indissolúvel ao


tempo, exatamente porque procura explicar sons estreitamente relacionados e fundidos à
dinamicidade histórica da língua, conforme mostra com propriedade a citação saussuriana
(1993): "A Fonética é uma ciência histórica; analisa acontecimentos, transformações e se
move no tempo" (p. 43). Desse modo, eis então uma das célebres características que a
diferencia da Fonologia.
A interdependência entre Fonética e língua é também enfatizada por Fiorin (2004), no
entanto, ele procura centrar as diferentes pronúncias dos sons em decorrência
primordialmente dos fatores geográficos. Fiorin coloca o alfabeto ortográfico como uma
abstração, tendo-se o conhecimento, pois, de que a grafia das palavras não muda dentro do
mesmo idioma, mas a diferença irá explicitar-se claramente no som das mesmas, ao
pronunciá-las: "O alfabeto ortográfico já é uma abstração. Ninguém escreve como fala. A
palavra porta é grafada igualmente por cariocas, piracicabanos e gaúchos; no entanto, cada um
pronuncia de forma esse ‘r' de maneira diferente" (p. 26).
Pela sua óptica científica, a Fonética aparece como uma ciência estritamente relacionada
ao estudo dos sons em seu aspecto físico, quer dizer, cabe analisar dentro desse conceito a
forma com a qual os sons são produzidos, assim também como o lugar do aparelho fonador
em que os eles são articulados.
No caso da maneira como se pronuncia determinado som, ressalva-se a importância da
entonação. Por ser um aspecto totalmente relacionado ao modo como a palavra irá ser
pronunciada, acaba por criar uma certa indefinição no que diz respeito ao conceito de sílaba
"forte". Para Fiorin (2004) "a entonação se estende por toda a sentença e não por apenas um
segmento (...). as línguas procuram ser rítmicas, alterando sílabas fortes e fracas. Mas não há
como se definir o que seja ‘forte' por oposição ao ‘fraco'" (p. 10).
A forma com a qual os sons são descritos são também fatores cruciais no estudo da
Fonética. Dentro de uma amplitude, pode-se discernir essas descrições dentro de dimensões
articulatórias, auditivas e acústicas, onde há a estreita relação entre aparelho fonador, ouvinte
e propriedades físicas e sonoras, respectivamente. Tais aspectos descritivos dos sons podem
ser observados em relações segmentais e supra-segmentais, em razão do intercalar entre as
mesmas e a frequência com a qual os sons são estendidos pelo tempo, em somatória com a
amplitude dos ditos sons. Para Fiorin (2004) "é da relação desses três componentes que se
discute os aspectos segmentais, supra-segmentais. Isto é, cada som tem sua própria frequência
fundamental e amplitude e, além do mais, se estende no tempo" (p. 12).
Para que os sons em suas propriedades físicas sejam devidamente entendidos, é
necessária uma assimilação sobre os órgãos que estão envolvidos na sua produção. Dentre
tais, despontam-se os pulmões, sendo a corrente pulmonar a principal responsável pelo ciclo
respiratório e pela fonação. Todavia, o aparelho fonador é resultado da interdependência entre
vários órgãos que trabalham de maneira conjunta na articulação e produção dos sons. Nesse
caso, é pertinente citar a traquéia, a laringe, as cordas vocais (que podem vibrar ou não no
momento da produção sonora), glote, faringe, véu palatino, epiglote, úvula, palato duro e
muitos outros.
A posteriori, percebe-se que os mecanismos de produção do ar podem ser diferentes.
Nota-se então uma relativa entrada ou saída de ar no corpo no momento da produção sonora.
Tem-se então uma ingressiva e uma egressiva, respectivamente. No caso da Língua
Portuguesa, seu uso oral contempla somente um mecanismo egressivo, sendo o ingressivo
notado em outros idiomas. Fiorin (2004) trabalha de maneira bem conceitual essa diferença e
propõe que "a direção egressiva é aquela em que o ar vai para fora do corpo, enquanto a
direção ingressiva é aquela em que o ar vai para dentro do corpo" (p. 15).
Ainda, no campo fonético, de acordo com a distinção dos sons produzidos, percebemos
a existência e a diferença entre vogal e consoante. A Fonética preocupa-se em estudar as
consoantes do ponto de vista da obstrução do ar, pelo modo como esse ar é abstruído e em que
lugar do aparelho fonador ocorre essa abstrução.
As vogais são detalhadas foneticamente pela livre passagem do ar, a altura do corpo do
trato vocal e o arredondamento dos lábios. Desse modo, entende-se que as vogais são, acima
de tudo, elementos sonoros.

3. A FONOLOGIA

Etimologicamente, Fonologia significa "Estudo dos sons", uma significação composta


pelos elementos gráficos gregos "fono" (som) e "logia" (estudo). Dessa forma, temos a
Fonologia como a ciência que se ocupa do estudo dos sons. Em termos comuns, pode-se dizer
que a Fonologia é uma vertente gramatical responsável por estudar os fonemas.
Já em termos mais complexos, a Fonologia ganha características mais diferenciadas.
Segundo Saussure (1993), a Fonologia se separa da Fonética por vários motivos. Dentre os
quais, o não envolvimento com o tempo em seu aspecto fonológico, atribuindo-se assim à
Fonologia um caráter que a configura como uma ciência temporalmente sintática: "A
Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo de articulação permanece sempre
igual a si mesmo" (p. 43).
Em outras palavras, a Fonologia preocupa-se em estudar os sons de maneira
sistematizada de acordo com cada língua. O que vale analisar não é a propriedade física
desses sons nem onde estes sons foram articulados, mas sim as propriedades sistemáticas de
sentido estabelecidas por pequenas unidades sonoras, denominadas fonemas.
Diante disso, Saussure (1993) compara o estudo fonológico ao tecer de um tapete: "Esta
constitui um sistema baseado na oposição psíquica das impressões acústicas, do mesmo modo
que um tapete é uma obra de arte produzida pela oposição visual de fios de cores diferentes;
ora, o que importa, para análise, é o jogo dessas oposições e não os processos pelos quais as
cores foram obtidas" (p. 43).
Na Língua Portuguesa, e para a Fonologia, os fonemas são classificados em vogais,
consoantes e semi-vogais, sendo essas últimas também conhecidas como Glides.
Em palavras parônimas, o simples uso diferenciado de uma consoante pode alterar o
sentido da palavra. Entre os vocábulos "bar" e "par", por exemplo, pode-se perceber uma
diferença semântica depois da troca de fonemas. Nesse caso, trocando a consoante oclusiva
surda no início da palavra por um outro fonema sonoro, ocasionou-se uma diferença no
significado. Essa alteração semântica entre pares de palavras também pode ser igualmente
percebida quando o fonema é representado por uma vogal. Repare nas palavras "descrição" e
"discrição". Enquanto a primeira está relacionada ao ato de descrever, a segunda diz respeito a
uma qualidade de quem é discreto. Essa alteração de sentido deu-se pela troca das vogais "e"
e "i". Em muitos casos, há sons que não modificam a significação de um vocábulo, como na
palavra "tia".
Em diferentes contextos geográficos nacionais e/ou regionais, a palavra citada é
pronunciada de maneira diferente, permanecendo, porém, com a mesma grafia. Nesse caso
não há alteração semântica, já que esse fenômeno é puramente fonético (diz respeito ao som
produzido de maneira física), uma vez que não houve mudança fonemática na estrutura da
palavra. Fiorin (2004) fala desse fenômeno: "Em campa, uma língua falada no Peru,
encontramos exemplos como os seguintes: a palavra ar apresenta formas [tampia] e [tambia],
e a palavra feijão apresenta as formas [ma'taki] e [ma'tagil]. Em ambas as palavras a troca de
uma oclusiva surda por uma sonora e vice-versa não provoca alteração de significado, ou seja,
essa variação não é distintiva" (p. 35).
Em Fonologia, as consoantes podem ser discernidas pela vibração de cordas vocais e
pelo sentido que esse fonema pode atribuir à palavra, por exemplo, em "pomba" e "bomba".
Têm-se então consoantes homorgânicas. As vogais desempenham funções fonológicas de
núcleos silábicos. Durante o processo de translineação, cabe a uma sílaba comportar somente
uma vogal.

5. NOTAS FINAIS

De certo o estudo da Fonética e da Fonologia é de muita relevância, desde que realce


suas especificidades de maneira clara, pois a partir do entendimento prévio e objetivo quanto
à natureza e funções dessas ciências da linguagem, poder-se-á desenvolver o estudo partindo
conhecimento das finalidades de cada qual, permitindo, assim, subtender-se suas propriedades
distintivas.
Ambas são ciências linguísticas que tem por base estudar os sons. Com isso, as duas
comportam uma relação estreita e indissociável. Daí a questão de estudá-las sempre fazendo
analogias. Todavia, comparações não as fazem inteiramente semelhantes, partindo-se da
premissa que apresentam singularidades características.
Desse modo, fica claro que o ponto responsável por diferenciar Fonética e Fonologia
está na própria perspectiva em que os sons são referidos. Então, afirma-se que, de maneira
simplificadora, a Fonética se preocupa em estudar os sons em seus aspectos físicos, levando
em consideração suas articulações, bem como o local do aparelho fonador em que este som é
produzido.
Em contrapartida, a Fonologia, por sua vez, retêm-se não aos aspectos físicos do som,
mas sim com suas micro unidades sonoras que introduzem ao significado, os chamados
fonemas.
Do ponto de vista linguístico, proposto por Saussure, a analogia continua, todavia com
caráter mais profundo e complexo. Nesse caso, ele coloca a Fonética como ciência mais
dinâmica, uma vez que acopla-se ao tempo variando assim a pronúncia com relação à
evolução histórica, e a Fonologia com caráter mais desvencilhado do tempo, sendo que esta
não muda seu instrumento de estudo, no caso o fonema, pela evolução temporal, ficando
assim a significação fonemática nas sílabas.
REFERÊNCIAS

FIORIN, José Luiz. Introdução à Lingüística II: Princípios de Análise. São Paulo: Contexto,
2004.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. Editora Cultrix. São Paulo, 1993