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ECUMENISMO, INCULTURAÇÃO E IDENTIDADE: IMPASSES VIVIDOS

EM UM TRABALHO DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIAL

Sheila Ferreira Miranda (Mestranda em Psicologia UFMG)

Prof. Dr. Marcos Vieira Silva (LAPIP-UFSJ)

Aparecida Ferreira Alves (Estagiária LAPIP-UFSJ)

sheilaze@gmail.com;lapip@ufsj.edu.br

Resumo

O presente trabalho apresenta uma discussão acerca das articulações e contradições


possíveis entre os conceitos ecumenismo e inculturação, na trajetória da vivência religiosa
do Grupo de Inculturação Afrodescendentes Raízes da Terra - grupo de consciência negra
localizado na periferia da cidade de São João del-Rei, Minas Gerais. Estes conceitos foram
considerados relevantes, na medida em que permitem a discussão sobre os ideais almejados
e as significações dos valores religiosos na relação estabelecida entre o Grupo e seu
entorno. Tanto no que diz respeito às vivências grupais e individuais, quanto nos embates
enfrentados pelo próprio Grupo diante das manifestações de preconceito vigentes, a
possibilidade de sustentação dialética de uma religiosidade dupla, referente ao catolicismo e
às religiões afro-descendentes, suscita um processo de produção de identidades complexo e,
por vezes, conflituoso. Através de um trabalho de pesquisa e extensão, concretizado desde
1997, o LAPIP - Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial da UFSJ, realiza
assessoria e acompanhamento ao referido Grupo por meio de intervenções com bolsistas de
pesquisa, de extensão e estagiários, baseadas na metodologia da pesquisa-ação e pesquisa-
participante. Os produtos analisados para a composição deste texto, referem-se aos diários
de campo e entrevistas realizadas com as lideranças do Grupo Raízes. A possibilidade de
reflexão sobre tais conceitos surgiu da percepção dos impasses relacionados à religiosidade
do Grupo, vivenciados durante o seu processo de estabelecimento na comunidade local até
os dias atuais. Grande parte desses impasses refere-se ao estabelecimento das missas
inculturadas, eventos que significaram tanto uma estratégia de inserção e reconhecimento
na comunidade, como a expressão de busca pela reconstrução e transmissão de elementos
de culturas africanas. Têm-se utilizado a pesquisa-ação e pesquisa participante, como
metodologias suporte de trabalho. Busca-se a produção conjunta de um conhecimento
participativo e comprometido com a busca de solução para problemáticas vivenciadas pela
população investigada. Assim, saber científico somado ao saber popular agem na busca de
novas soluções e explicações para os problemas investigados, havendo uma devolução
elaborada e um aprendizado coletivo a partir de uma reflexão teórica, juntamente com os
pesquisados envolvidos. O Grupo Raízes da Terra, há doze anos, representa um referencial
de resistência das culturas afro-descendentes na própria cidade e região, desempenhando
um trabalho de reconstrução e transmissão de elementos destas culturas, através da
organização de festas temáticas e no trabalho com o Grupo de Dança das Meninas. Além
das apresentações realizadas, há reuniões abertas quinzenais, que geralmente incluem
estudos sobre a presença e participação africana no Brasil e as discussões da atualidade
relacionadas à temática afro-descendente. O Grupo apresenta um caráter heterogêneo, fator
que possibilita a presença de integrantes de várias idades e crenças religiosas diferentes,
sendo que a maioria deles possui uma forte ligação com o candomblé, umbanda e/ou com a
igreja católica. Desta maneira, as missas inculturadas realizadas pelo grupo destacam-se,
por serem eventos reconhecidos nas festividades locais e demarcarem esta multiplicidade
religiosa: dentre as principais lideranças do Grupo, temos uma yalorixá e uma representante
das Comunidades Eclesiais de Base (CEBS). As missas inculturadas exercem uma
importância fundamental no quadro referencial do Grupo Raízes da Terra, desde sua
fundação, agrupando elementos característicos tanto de rituais católicos (ofertório,
comunhão e com reflexões bíblicas feitas pelo padre) quanto das religiões afro-
descendentes (atabaques, dança durante o ofertório, roupas típicas, comidas típicas como:
rapadura, cana, canjica, pipoca, broa de fubá). Nestes eventos, as músicas religiosas
tradicionais católicas dividem espaços com músicas afro, algumas compostas por membros
do Raízes e outras tradicionais dos terreiros de candomblé e umbanda. Muitas delas
discorrem sobre a história de opressão do escravo no Brasil e a necessidade de uma
abertura ao ecumenismo. A “mistura” de elementos culturais diferentes é uma característica
essencial das missas, uma vez que se apresentam tanto rituais característicos da igreja
católica quanto das religiões afro-descendentes: a apresentação do ofertório, por exemplo, é
tanto monoteísta quanto politeísta, na medida em que se oferecem alimentos aos orixás, ao
mesmo tempo em que se trazem ao altar, em procissão, sob o ritmo de músicas afro, o pão e
o vinho que serão oferecidos pelo padre. A idéia de um evento que privilegiasse tanto a
celebração católica quanto elementos das culturas afro-descendentes, surgiu no ano de
1997, um ano após a fundação do Grupo. A proposta foi, a princípio, uma estratégia de
inserção do Grupo na comunidade do Bairro São Geraldo, prontamente apoiada pelo pároco
local. No entanto, o primeiro evento foi extremamente criticado, e alvo de vários ataques da
comunidade. Entendido como manifestação contrária às regras da igreja católica, foi
classificado como “ritual de macumba”. E neste momento, a lógica da classificação racial
torna-se evidente ao Grupo, gerando discussões e reflexões acerca da própria condição de
Grupo estigmatizado e da possibilidade de manutenção do evento enquanto manifestação
de resistência ao preconceito. Com o apoio da igreja católica, o Grupo insistiu na realização
das missas, de forma gradual. Durante as missas tradicionais, eram intercalados momentos
de rituais afro, de modo que a comunidade foi, aos poucos, assimilando a idéia. Dessa
forma, o estabelecimento deste evento como principal estratégia de inserção, configurou a
possibilidade de um maior reconhecimento diante da comunidade. As missas inculturadas
passam então a ser mensais, e não mais esporádicas, com participação maciça da
comunidade local. Esta possibilidade foi vislumbrada a partir do momento em que a palavra
“inculturação” tornou-se uma constante no vocabulário do Grupo, por influência do pároco
e das discussões realizadas em reuniões do Movimento Negro Unificado, quando se discute
a possibilidade de uma dupla vivência religiosa, inicialmente vista como um “ideal”. O
Grupo acredita que as missas inculturadas sejam realmente uma possibilidade de
inculturação, percebendo a igreja católica como um parceiro no que tange à realização de
suas demandas. No entanto, a partir de 2003, com o episódio da substituição do pároco
local, os vínculos do Grupo com a igreja católica tornaram-se cada vez mais carregados de
contradições. Isto porque o atual pároco passou a questionar a atuação do Grupo,
principalmente quanto ao seu envolvimento com as religiões afro-descendentes, situação
contraditória ao ideal ecumênico difundido pela igreja. Esta conjuntura indica resquícios
históricos que dificultam o estabelecimento de um diálogo inter-religioso, visto que o padre
impediu as reuniões do Grupo no salão comunitário. A prática grupal tornou-se um desafio
para o Raízes da Terra, gerando mecanismos de resistência que ocasionaram a busca de
parcerias com outras paróquias. Este momento vivenciado pelo Grupo Raízes irá apontar
uma mudança crucial nas relações estabelecidas com outros grupos, bem como com a
sociedade de São João del-Rei, de uma forma geral. A evidência do conflito com a igreja
provocou, inicialmente um momento de desmobilização, no tocante à realização dos
eventos e missas. No entanto, esta ilusória apatia propiciou a articulação de novos
significados e reflexões sobre estratégias de apropriação dos espaços. Isto implica numa
segunda possibilidade de reflexão crítica sobre sua condição de Grupo estigmatizado, bem
como numa busca de reafirmar seus valores através da inculturação religiosa, uma vez que
as missas, na opinião dos integrantes do Grupo, promovem a interação, uma troca de
informações que consolida um projeto ecumênico “ideal”, atuando como elementos
essenciais no quadro de produção de identidades. A análise das próprias possibilidades de
atuação gerou uma segunda atitude de resistência, que reestruturou as relações intergrupais,
de maneira que as missas inculturadas e festas promovidas pelo Grupo voltaram a ser
realizadas, com o apoio de outras paróquias de São João del-Rei e região. Dessa maneira, a
impossibilidade, proporcionou a abertura do Grupo para uma rede de vínculos mais ampla e
o conseqüente reconhecimento dos trabalhos também se amplificou, gerando novas
possibilidades e ampliando os espaços de parcerias. Essa apropriação de espaços também
reflete um processo interno do Grupo, de forma que as missas significam também espaços
de debate sobre a re-construção das próprias identidades, refletidas através da valorização
de aspectos culturais e religiosos provenientes das culturas africanas, historicamente
adjetivados como “inferiores” ou “impuros”. Entretanto, uma questão ainda se faz presente:
as missas são realmente inculturadas? Esta questão fica mais evidente quando desvelamos a
origem histórica do conceito de inculturação, carregado de contradições. Isto porque, ao
mesmo tempo em que alimenta uma possibilidade “ideal” de igualdade no tocante a uma
dupla vivência religiosa, perante a comunidade, funciona também como um poderoso
dispositivo ideológico de dominação da igreja católica, considerada um dos maiores
parceiros pelo Raízes da Terra. Apesar das missas inculturadas proporcionarem uma
possibilidade de reinterpretação crítica da dupla vivência religiosa do afro-descendente ao
Grupo, sua forma de apresentação ainda se restringe aos “moldes” de uma missa católica,
na qual são permitidas somente algumas manifestações de elementos das culturas afro-
descendentes. Estas apresentações nas missas são sempre submetidas a uma aprovação do
pároco, o que significa uma estratégia de “controle ideológico” da igreja subjacente a este
processo. E neste sentido, o Grupo Raízes da Terra continua acreditando num “ideal” de
inculturação, sem perceber que a real ampliação das possibilidades de combate ao racismo,
no que diz respeito à duplicidade das vivências religiosas e culturais continua sendo
mascarada por resquícios históricos da ideologia do embranquecimento e do ideal da
democracia racial.
Palavras-chave: Afro-descendência; Ecumenismo; Inculturação.

Eixo temático: Gênero, Sexualidade, Etnia e Geração.

Introdução

O presente trabalho apresenta uma discussão acerca das articulações e contradições


possíveis entre os conceitos ecumenismo e inculturação, na trajetória da vivência religiosa
do Grupo de Inculturação Afrodescendentes Raízes da Terra - grupo de consciência negra
estabelecido na periferia da cidade de São João del-Rei, Minas Gerais.

Estes conceitos foram considerados relevantes, na medida em que permitem a discussão


sobre os ideais almejados e as significações dos valores religiosos na relação estabelecida
entre o Grupo e seu entorno. Tanto no que diz respeito às vivências grupais e individuais,
quanto nos embates enfrentados pelo próprio Grupo diante das manifestações de
preconceito vigentes, a possibilidade de sustentação dialética de uma religiosidade dupla,
referente ao catolicismo e as religiões afro-descendentes, suscita um processo de produção
de identidades complexo e, por vezes, conflituoso.

Através de um trabalho de pesquisa e extensão, realizado desde 1997, o LAPIP-UFSJ,


assessora e acompanha o referido Grupo por meio de intervenções com bolsistas de
pesquisa, de extensão e estagiários, baseadas na metodologia da pesquisa-ação e pesquisa-
participante. Os produtos analisados para a composição deste texto, referem-se aos diários
de campo e entrevistas realizadas com as lideranças do Grupo Raízes.

A possibilidade de reflexão sobre tais conceitos surgiu da percepção dos impasses


relacionados à religiosidade do Grupo, vivenciados durante o seu processo de
estabelecimento na comunidade local até os dias atuais. Grande parte desses impasses
referem-se ao estabelecimento das missas inculturadas, eventos que significaram tanto uma
estratégia de inserção e reconhecimento na comunidade, como a expressão de busca pela
reconstrução e transmissão de elementos de culturas africanas.

Metodologia
Tem-se utilizado a pesquisa-ação e pesquisa participante, como metodologias suporte de
trabalho. Busca-se a produção conjunta de um conhecimento participativo e comprometido
com a busca de solução para problemáticas vivenciadas pela população investigada. Assim,
saber científico somado ao saber popular agem na busca de novas soluções e explicações
para os problemas investigados, havendo uma devolução elaborada e um aprendizado
coletivo a partir de uma reflexão teórica, juntamente com os pesquisados envolvidos
(Campos 1996).

Resultados/ Discussões

A maioria das cidades com forte tradição religiosa católica apresenta como conseqüência
histórica, uma herança cultural negativa para as populações pobres. Essa herança refere-se à
estratégia de classificação amplamente disseminada no séc. XVI – período das grandes
navegações e da “descoberta” do Brasil – estratégia que permitiu ao homem moderno a
possibilidade de lidar com a diferença através de um processo de legitimação da dominação
religiosa (Ferreira, 2002).

O impacto psicossocial causado pela presença do colonizador possibilitou a imposição de


suas tradições através de um ideal baseado na incorporação de seus valores religiosos e na
conseqüente submissão do negro. Este ideal evidentemente culminou num fracasso, mas a
ideologia decorrente desse processo persiste no imaginário brasileiro:

Como resultante, a intolerância passa a constituir-se como atitude


básica, decorrente das práticas desenvolvidas na modernidade –
terreno fértil para a construção de subjetividades prontas para a
deslegitimação do outro, daquele considerado divergente dos
padrões assumidos como verdadeiros e bons (...) (Ferreira, 2002,
grifos do autor).

Numa cidade como São João del-Rei, reconhecida internacionalmente por sua rica
arquitetura barroca e festas religiosas católicas, fatalmente nos deparamos com uma
herança cultural de intensa segregação racial, social e política. A marginalização e exclusão
exercidas pelo contexto social vigente podem estimular reações, e a formação de grupos de
resistência.
Os grupos de consciência negra refletem, neste contexto, uma busca pela reconstrução da
memória das culturas de origem africana e, conseqüentemente, a produção de uma
identidade afro-descendente1, atuando através da militância e/ou de um trabalho social de
conscientização acerca de suas origens. Inclui-se aí a realização de festas temáticas e
estudos sobre a afro-descendência no Brasil (Silva et al, 2005).

No entanto, esta forma de resistência pode também apresentar aspectos negativos, de


maneira que a própria comunidade se encerra em seus limites; privando-se de uma maior
inserção no contexto social e cultural de sua comunidade, impedindo a troca de
experiências, a própria inculturação religiosa.

O Grupo Raízes da Terra há doze anos, representa um referencial de resistência das culturas
afro-descendentes na própria cidade e região, desempenhando um trabalho de reconstrução
e transmissão de elementos destas culturas, através da organização de festas temáticas e no
trabalho com o Grupo de Dança das Meninas (composto por adolescestes do Grupo). Além
das apresentações realizadas, há reuniões abertas quinzenais, que geralmente incluem
estudos sobre a presença e participação africana no Brasil e as discussões da atualidade
relacionadas à temática afro-descendente.

O Grupo apresenta um caráter heterogêneo, fator que possibilita a presença de integrantes


de várias idades e crenças religiosas diferentes, sendo que a maioria deles possui uma forte
ligação com o candomblé, umbanda e/ou com a igreja católica. Desta maneira, as missas
inculturadas realizadas pelo Grupo destacam-se, por serem eventos reconhecidos nas
festividades locais e demarcarem esta multiplicidade religiosa: dentre as principais
lideranças do Grupo, temos uma yalorixá e uma representante das Comunidades Eclesiais
de Base (CEBS).

As missas inculturadas exercem uma importância fundamental no quadro referencial do


Grupo Raízes da Terra, desde sua fundação, agrupando elementos característicos tanto de
rituais católicos (ofertório, comunhão e reflexões bíblicas feitas pelo padre) quanto das
religiões afro-descendentes (atabaques, dança durante o ofertório, roupas e comidas típicas
como: rapadura, cana, pipoca, broa de fubá). Nestes eventos, as músicas religiosas
tradicionais católicas dividem espaços com músicas afro, algumas compostas por membros
do Raízes da Terra e outras tradicionais dos terreiros de candomblé e umbanda. Muitas
delas discorrem sobre a história de opressão do escravo no Brasil e a necessidade de uma
abertura ao ecumenismo. A “mistura” de elementos culturais diferentes é uma característica
essencial das missas, uma vez que se apresentam tanto rituais característicos da igreja
católica quanto das religiões afro-descendentes: a apresentação do ofertório, por exemplo, é
tanto monoteísta quanto politeísta, pois, na medida em que são oferecidos alimentos aos
orixás, são trazidos altar, em procissão, sob o ritmo de músicas afro, o pão e o vinho
oferecidos pelo padre. Uma das músicas cantadas durante o ofertório evidencia neste
evento a interação religiosa almejada pelo Grupo:

“(...) Obá, Obá, Obá”.

Recebe Olorum nossos dons,

Obá, Obá, Obá,

A oferta de todas as nações,

Obá, Obá, Obá

Recebe ó Senhor pão e vinho (...)”

Dessa forma, as missas inculturadas, teriam como objetivo uma interação religiosa por
meio da qual a emergência de uma vivência religiosa própria, tornaria-se possível.

A idéia de um evento que privilegiasse tanto a celebração católica quanto elementos das
culturas afro-descendentes, surgiu em 1997, um ano após a fundação do Grupo. A proposta
foi, inicialmente, uma estratégia de inserção do Grupo na comunidade do Bairro São
Geraldo, prontamente apoiada pelo pároco local. No entanto, o primeiro evento foi
extremamente criticado, e alvo de vários ataques da comunidade. Entendido como
manifestação contrária às regras da igreja católica, foi classificado como “ritual de
macumba”. Neste momento, a lógica da classificação racial tornou-se evidente ao Grupo,
gerando discussões e reflexões acerca da própria condição de Grupo estigmatizado e da
possibilidade de manutenção do evento enquanto manifestação de resistência ao
preconceito.
Com o apoio da igreja católica, o Grupo insistiu na realização das missas, de forma gradual.
Durante as missas tradicionais, eram intercalados momentos de rituais afro, de modo que a
comunidade foi, aos poucos, assimilando a idéia. Dessa forma, o estabelecimento deste
evento como principal estratégia de inserção, configurou a possibilidade de um maior
reconhecimento diante da comunidade. As missas inculturadas passaram a ser mensais, e
não mais esporádicas, com participação maciça da comunidade local.

Esta possibilidade foi vislumbrada a partir do momento em que a palavra “inculturação”


tornou-se uma constante no vocabulário do Grupo, por influência do pároco e das
discussões realizadas em reuniões do Movimento Negro Unificado, quando se discute a
possibilidade de uma dupla vivência religiosa, inicialmente vista como um “ideal”. O
Grupo acredita que as missas inculturadas sejam realmente uma possibilidade de
inculturação, percebendo a igreja católica como um parceiro no que tange à realização de
suas demandas.

Entretanto, a partir de 2003, com o episódio da substituição do pároco local, os vínculos do


Grupo com a igreja católica tornaram-se cada vez mais carregados de contradições. Isto
porque o atual pároco passou a questionar a atuação do Grupo, principalmente quanto ao
seu envolvimento com as religiões afro-descendentes, situação contraditória ao ideal
ecumênico difundido pela igreja. Esta conjuntura indica resquícios históricos que
dificultam o estabelecimento de um diálogo inter-religioso, visto que o padre impediu as
reuniões do Grupo no salão comunitário. A prática grupal tornou-se um desafio para o
Raízes da Terra, gerando mecanismos de resistência que ocasionaram a busca de parcerias
com outras paróquias.

Este momento vivenciado pelo Grupo Raízes irá apontar uma mudança crucial nas relações
estabelecidas com outros grupos, bem como com a sociedade de São João del-Rei. A
evidência do conflito com a igreja provocou inicialmente um momento de desmobilização,
no tocante à realização dos eventos e missas. No entanto, esta ilusória apatia propiciou a
articulação de novos significados e reflexões sobre estratégias de apropriação dos espaços.
Isto implica numa segunda possibilidade de reflexão crítica sobre sua condição de Grupo
estigmatizado, bem como numa busca de reafirmar seus valores através da inculturação
religiosa, uma vez que as missas, na opinião dos integrantes do Grupo, promovem a
interação, uma troca de informações que consolida um projeto ecumênico “ideal”, atuando
como elementos essenciais no quadro de produção de identidades.

A análise das próprias possibilidades de atuação gerou uma segunda atitude de resistência,
que reestruturou as relações intergrupais, de maneira que as missas inculturadas e festas
promovidas pelo Grupo voltaram a ser realizadas, com o apoio de outras paróquias de São
João del-Rei e região. Dessa maneira, a impossibilidade, proporcionou a abertura do Grupo
para uma rede de vínculos mais ampla e o conseqüente reconhecimento dos trabalhos
também se amplificou, gerando novas possibilidades e ampliando os espaços de parcerias.
Essa apropriação de espaços também reflete um processo interno do Grupo, de forma que
as missas significam também espaços de debate sobre a re-construção das próprias
identidades, refletidas através da valorização de aspectos culturais e religiosos provenientes
das culturas africanas, historicamente adjetivados como “inferiores” ou “impuros”.

Nesta busca de parceria com outras paróquias, o Grupo conseguiu apoio de um padre de
Lavras - cidade próxima de São João del-Rei. Assim, durante a construção das missas, este
padre procurava insistentemente esclarecer, tanto ao Grupo quanto aos outros presentes na
celebração, questões que envolvem uma missa inculturada, a fim de desmistificá-la,
comunicando que estas, não são um “culto ao diabo” (frase muito comentada pelas pessoas
opostas ao evento) e que pelo contrário, solidificam o ideal ecumênico defendido pela
igreja e pelo próprio Grupo. Desta forma, para concretizar tal objetivo, freqüentemente
convidava algumas yalorixás para ajudá-lo na celebração da missa.

Entretanto, apesar deste padre contribuir para a legitimação da prática ecumênica,


recentemente, tem se afastado aos poucos do Grupo. Isto porque tem recebido represálias
de seus superiores, devido ao fato de estar se “envolvendo demasiadamente” com outras
religiões.

Este tipo de represália tem também ocorrido com a líder do Grupo (membro da CEBS), que
é apontada por muitos padres e pela comunidade por “ter uma vida dupla”. Esta, por sua
vez declara não considerar “criminoso” participar de outros cultos religiosos, defendendo
diante de todos a sua liberdade de escolha religiosa.
Muitos outros integrantes do Raízes têm passado pelo mesmo problema. E diante desta
situação, alguns membros preferem esconder a sua relação com o candomblé e a umbanda,
para se esquivarem das críticas. Essa tentativa de “encobertar” (Goffman, 1988) sua postura
estigmatizante, pode ser analisada como um mecanismo que impede a luta e a possibilidade
de atitudes afirmativas frente ao preconceito.

Utilizar o catolicismo como “máscara”, tem se tornado um mecanismo de resistência ao


preconceito, uma solução aos membros do Grupo que não “suportam” as represálias da
comunidade. E como afirma Prandi (2004), esta ainda é uma reação bastante empregada de
maneira geral, pelos segmentos afro-brasileiros:

É muito comum, mesmo atualmente, quando a liberdade de escolha


religiosa já faz parte da vida brasileira, muitos seguidores das
religiões afro-brasileiras ainda se declararem católicos, embora
sempre haja uma boa parte que declara seguir a religião afro-
brasileira que de fato professa (...) até hoje o catolicismo é uma
máscara usada pelas religiões afro-brasileiras, máscara que,
evidentemente, as esconde também dos recenseamentos (p.4).

Entretanto, uma questão ainda se faz presente: as missas são realmente inculturadas? A
discussão fica mais evidente quando desvelamos a origem histórica do conceito de
inculturação, carregado de contradições. Isto porque, ao mesmo tempo em que alimenta
uma possibilidade “ideal” de igualdade no tocante a uma dupla vivência religiosa perante a
comunidade, funciona também como um poderoso dispositivo ideológico de dominação da
igreja católica, considerada um dos maiores parceiros pelo Raízes da Terra. Esse aspecto
pode ser percebido, diante de muitos discursos religiosos pregados por alguns padres que se
comprometem a realizar uma missa inculturada em um dia festivo, afirmando ser a missa
um ritual de “purificação religiosa”. Segundo Silva (2006), a inculturação seria um meio
pelo qual o evangelho se insere na cultura. Assim, na inculturação ocorreriam a
“Encarnação”, caracterizada pela adoção da cultura, a “Ressureição”, responsável pela
transformação da cultura e a “Redenção”, momento no qual a cultura seria “purificada”.

Percebe-se, diante de tais definições, que para a igreja, a missa inculturada possui um
caráter evangelizador e de sobreposição de uma cultura e/ou crença religiosa sobre a outra,
discurso que contradiz gravemente o propósito ecumênico.
Dessa maneira, torna-se interessante desvelar o próprio termo inculturação, tão difundido
pela igreja católica, para que possamos esclarecer as contradições presentes nesse processo.

O termo “inculturação religiosa” refere-se a um neologismo específico da linguagem


teológica, que surge a partir de desdobramentos da elaboração da igreja católica em face
aos novos desafios enfrentados no processo atual de evangelização. Significa reinterpetação
criadora, gerada a partir da interação dos elementos presentes nas ações religiosas
confrontadas. Parte-se do príncipio de uma troca de informações entre duas culturas,
possibilitando a emergência de uma vivência particular e crítica, que não nega nenhum dos
valores apreendidos anteriormente, consolidando uma releitura da religião como forma de
construção social (Pereira, 2000; Teixeira, 2007).

Mas para que esse intercâmbio se concretize, é necessário que tanto a igreja católica quanto
as religiões afro-descendentes (ou a religião com a qual se estabelece esse “diálogo”)
desprendam-se de qualquer posição etnocêntrica.

Como parte dos ideais da maioria dos grupos de consciência negra, o intercâmbio cultural
possibilitado pela inculturação faz-se necessário, na medida em que estimula o acesso e a
reinterpetação crítica de valores religiosos, de forma que nenhum dos valores vigentes se
sobreponha a outro. Essa interação permite a vivência de uma duplicidade religiosa, tão
característica dos grupos de consciência negra na atualidade.

Teixeira (2007) 2 , aponta um questionamento a respeito da possibilidade de um


compartilhamento de duas crenças em religiões diferentes. Para o autor, a avaliação da
“dupla pertença” seria uma questão delicada de se definir a priori. Entretanto, para muitos
componentes do Grupo Raízes, tal envolvimento não comprometeria e diminuiria a sua fé
em uma ou em outra religião. Segundo a líder do Grupo: “A gente tem que conhecer o
máximo possível de religiões e crenças para depois avaliar (...) a intolerância religiosa se dá
justamente do desconhecimento das religiões” (Diário de campo, 02/03/2007).

2
Faustino Teixeira é teólogo leigo e Doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma
(1985), com pós-doutorado em teologia na mesma universidade (1998).
Dessa forma, para os componentes do Grupo Raízes da Terra, a sua relação tanto com o
candomblé quanto com a igreja católica significa uma busca por conhecimento e por
“orientação espiritual” - não menos válida por sua característica “dupla” - e as missas
inculturadas, um meio pelo qual obtêm aceitação e reconhecimento.

Conclusões

Desde o seu surgimento, o Grupo Raízes da Terra tem vivenciado um clima de divergências
com a comunidade da qual se origina, processo que culminou em um conflito direto com a
igreja local. A desmobilização inicial - primeira reação diante da atitude discriminatória
sofrida - levou-os a manifestações de resistência que os impulsionaram a uma busca de
parcerias.

O Grupo descobriu nas missas inculturadas um espaço fecundo para reconstrução de suas
identidades, bem como um meio de reconhecimento de sua escolha religiosa. A igreja
católica, por sua vez, percebeu nas missas inculturadas (forma concreta da prática
ecumênica) um meio de desmistificação do seu caráter “fechado” oferecendo, ainda que de
forma limitada, uma abertura ao diálogo entre diferentes crenças religiosas.

Entretanto, apesar das missas inculturadas proporcionarem uma possibilidade de


reinterpretação crítica da dupla vivência religiosa do afro-descendente aos membros do
Grupo, sua forma de apresentação ainda se restringe aos “moldes” de uma missa católica,
na qual são permitidas somente algumas manifestações de elementos das culturas afro-
descendentes. Estas apresentações nas missas são sempre submetidas a uma aprovação do
pároco, o que significa uma estratégia de “controle ideológico” da igreja subjacente a este
processo. E neste sentido, o Grupo Raízes da Terra continua acreditando em um “ideal” de
inculturação, sem perceber que a real ampliação das possibilidades de combate ao racismo,
no que diz respeito à duplicidade das vivências religiosas e culturais, continua sendo
mascarada por resquícios históricos da ideologia do embranquecimento e do ideal da
democracia racial.

Referências Bibliográficas
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