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P O E S I A S PA R A

A EXPOSIÇÃO
Caros Amigos Artistas,

Segue uma boa parte das poesias de Carlos Pena Filho para que
todos possam selecionar a que mais possa lhe inspirar. Algumas
estão marcadas de vermelho pois já foram selecionadas ou
solicitadas por artístas específicos. Por exemplo, havia uma
poesia que foi escrita por Carlos para Francisco Brennand e este
irá desenvolver uma obra baseada neste poema
Aguardamos a seleção de todos para então pedir a autorização
da Sra. Tânia, viúva de Carlos Pena, e que detém os direitos
autorais. Isto será necessário para confecção do livro e para a
apresentação dos textos na exposição em si.
Os textos escolhidos devem ser encaminhados para Séphora ou
Sérgio, curadores da mostra. É importante colocar no e-mail o
nome do artista e o número/nome da poesia.
Que todos se inspirem à altura da poesia desta grande
personalidade pernambucana e que, possamos juntos trabalhar
para resgatar sua importante obra.

A curadoria
1 - OLINDA DO ALTO DO MOSTEIRO, UM FRADE A VÊ
A Gilberto Freyre

“De limpeza e claridade


é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte.

As paisagens muito claras


não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,


não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tem verdágua e não se sabe,


a não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem


no olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino


Que possa haver nas vivendas
das aves, nas áreas altas,
muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
nem há mar, nem céu, nem velas.
Quando a luz é muito intensa
é quando mais frágil é:
planície, que de tão plana
parecesse em pé.”
2 - EPISÓDIO SINISTRO DE VIR- II
GULINO FERREIRA A feira de Vila Bela
A Jorge Amado e Odorico Tavares tem chocalhos para vacas.
Na feira de Vila Bela,
I feijão e pó nas barracas.
Sobre um chão de sol manchado, Na feira de Vila Bela,
passeavas pelos campos arreios, cordas e facas.
o teu cangaço sem rumo. Na feira de Vila Bela,
Com um olho na morte e o outro chapéus de couro, alpercatas.
no fel que se elaborava Na feira de Vila Bela,
em tua vida sem prumo. um ceguinho pede esmola.
Teus olhos apenas viam Na feira de Vila Bela,
fogo, sol, lâmina, fumo o cego e sua viola:
e apetrechos de emboscada. -”Dona, siga o meu conselho,
Em vez de chapéu, possuías vá rezar uma oração,
um céu de couro à cabeça porque eu já vejo, à distância,
com três estrelas fincadas. a ira de Lampião.
Tua missão neste mundo Fiquem somente os soldados,
era governar o escuro: o sargento e o capitão.
acender uma fogueira Fico eu também que sou cego
com os mil destroços da fúria. e não sei da claridade.
Cultivar lavoura estranha: Se Lampião me matar,
semear em sepultura. mata somente a metade,
E arriscar, que é certo o risco que a outra já levou Deus
na profissão da aventura. por sua agreste vontade”
Nos sítios onde campeavas,
nordeste avaro e sinistro III
de sóis sem fim do sertão, Às cinco horas, a tarde
povoavas as campinas, aguardava a escuridão.
as vastidões desoladas Uma cabra ruminava
com tua negra solidão. e um boi dormia no chão.
A solidão que habitava Pelo silêncio voava
teu sono e tua ração o vento da solidão
e que ia mesmo até onde e o longo céu transformava
não ia um boi nem um cão, seu ourazul em carvão.
onde não chegava um homem Às seis e meia da noite,
nem sua degradação, Corisco cuspiu no chão,
onde não iam aves Volta Seca olhou em torno,
nem ia a recordação, fez sinal a Lampião.
onde só ia ela mesmo, Às sete e meia da noite,
em tua perseguição. Virgulino disse: não.
Só meia hora depois
cuspiu fogo a sua mão.
Na frente seguem as balas
e, logo após, o trovão.
Depois dele vai Lusbel
no corpo de Lampião.
Por dez minutos, o chumbo coragem e tua mão
passeou na escuridão, ficarão paralisados,
entrou no medo de alguns Virgulino Lampião.
e, de outros, no coração. De nada adiantará
Entrou também, de repente, aquela forte oração
na branca imaginação que te deu em Juazeiro
das mocinhas que dormiam Padre Cícero Romão.
com os seios presos na mão. A morte será tão grande
-”Venha o chefão”! Ele veio. que até mesmo a solidão
Foi passado no facão. que há tantos anos te habita
-”Venha agora o carcereiro será cortada a facão.
que é homem sem precisão.
Saia o vigário da igreja VI
para me dar sua benção. A feira de Vila Bela
Volta Seca, solte os presos tem chocalhos para vacas.
que o mundo já é prisão”. Na feira de Vila Bela,
feijão e pó nas barracas.
IV Na feira de Vila Bela,
Veio o sol imperecível arreios, cordas e facas,
e iluminou toda a vila, Na feira de Vila Bela,
pôs luz no ar e no medo chapéus de couro, alpercatas.
na carne, no pó, na argila. Na feira de Vila Bela,
Banhou de luz um vaqueiro um ceguinho pede esmola.
que vinha de uma fazenda, Na feira de Vila Bela,
parou na almofada de uma o cego e sua viola:
avó que fazia renda. -”A lenda tem pés ligeiros
Desceu ao chão e secou e corre mais no sertão,
sangue rubro derramado, corre mais do que lembrança,
brilhou nos botões da farda mais que soldado fujão.
do cadáver de um soldado. Corre mais que tudo, só
Na meia-manhã, a vila não corre mais que oração
preparava um pelotão e isso mesmo quando é feita a
para sair pelos campos Padre Cícero Romão.
afora, em perseguição. Hoje todo o mundo sabe
Mas norte, sul, este e oeste, quem foi ele, o capitão.
pra toda a parte é sertão Junta o sabe e o não sabe
e nele ninguém descobre e inventa outro Lampião.
Virgulino Lampião. Mas, dele mesmo, não sabem
e nem nunca saberão,
V pois ele nunca viveu,
Um dia é apenas um dia, não era sim, não era não,
pois os dias, dias são. como essas coisas que existem
Um dia será teu dia, dentro da imaginação.
Virgulino Lampião. Quem puder que invente outro
Teus olhos míopes, tua Virgulino Lampião.
3 - MEMÓRIAS DO BOI SERAPIÃO e a grande sede que mora
A Aloísio Magalhães e José Meira no abismo de cada um.

Este campo, Havia este céu de sempre


vasto e cinzento, e, além disto, pouco mais
não tem começo nem fim, que as ondas na superfície
nem de leve desconfia dos verdes canaviais.
das coisas que vão em mim.
Mas, os homens que moravam
Deve conhecer, apenas na língua do litoral
(porque são pecados nossos) falavam se desmanchando
o pó que cega meus olhos das terras gordas e grossas
e a sede que rói meus ossos. daquele canavial

No verão, quando não há e raras vezes guardavam


capim na terra suas lembranças mofinas
e milho no paiol as fumaças que sujavam
solenemente mastigo os claros céus que cobriam
areias, pedras e sol. as chaminés das usinas.

Às vezes, nas longas tardes Às vezes, entre iguarias,


do quieto mês de dezembro um comentário isolado:
vou a uma serra que eu sei a crônica triste e curta
e as coisas da infância lembro. de um engenho assassinado.

Instante azul em meus olhos Mas, logo à mesa voltavam


vazios de luz e fé que a fome bem pouco espera
contemplando a festa rude e os seus olhos descansavam
que a infância dos bichos é ... em porcelanas da China
e cristais da Baviera.
No lugar onde eu nasci
havia um rio ligeiro Naquelas terras da mata
e um campo verde e mais verde bem poucos amigos fiz,
de um janeiro a outro janeiro ou porque não me quiseram
ou então porque eu não quis.
havia um homem deitado ­
na rede azul do terraço Lembro apenas um boi triste
e as filhas dentro do rio num lençol de margaridas
diminuindo o mormaço. que era o encanto do menino
que alegre o tangia para
Não tinha as coisas daqui: as colinas coloridas.
homens secos e compridos
e estas mulheres que guardam Um dia, naquelas terras
o sol na cor dos vestidos foi encontrado um boi morto
e os outros logo disseram
nem estas crianças feitas que o seu dono era o homem torto
de farinha e jerimum
que em vez de contar as coisas só eu ficarei aqui
daqueles canaviais para morrer por completo,
vivia de mexericos para dar a carne à terra
“entre estas índias de leste e ao sol meu branco esqueleto,
e as índias Ocidentais”.
nem ao menos tentarei
.A verde flora da mata voltar ao canavial,
(que é azul por ser da infância) p’ra depois me dividir
habita os meus olhos com entre a fábrica de couro
serenidade e constância. e o terrível matadouro
municipal.
Este campo,
vasto e cinzento, E pensar que já houve um tempo
é onde às vezes me escondo em que estes homens compridos
e envolto nestas lembranças falavam de nós assim:
durmo o meu sono redondo, o meu boi morreu
que será de mim?
que o que há de bom por aqui
na terra do não chover Este campo,
é que não se espera a morte vasto e cinzento,
pois se está sempre a morrer: não tem entrar nem sair
e nem de longe imagina
em cada poço que seca as coisas que estão por vir,
em cada árvore morta e enquanto o tempo não vem
em cada sol que penetra nem chega o milho ao paiol
na frincha de cada porta solenemente mastigo
areia, pedras e sol.
em cada passo avançado
no leito de cada rio
por todo tempo em que fica
despido, seco, vazio.

Quando o sol doer nas coisas


da terra e no céu azul
e os homens forem em busca
dos verdes mares do sul,
4 - D. SEBASTIÃO, A CAMINHO DA ÁFRICA
A Ariano Suassuna

Olhai, Senhor, para estas naus e vede


a quanto obrigam reino e cristandade;
atrás de nós já se ergue esta parede
de vento e mar e tempo e soledade

e à frente nos esperam sol e sede


e mais que sede e sol, crua saudade
que pelas noites sem limites há de
frequentar nosso abismo impuro. Sede

pois tão piedoso e justo quanto deve


ser um Deus para um servo e um soldado
que a proeza tamanha enfim se atreve
só porque julga ser do vosso agrado.

Mas não deixeis que volte sem vitória:


embora perca a vida, encontre a glória.
5 - A SOLIDÃO E SUA PORTA 
(POESIA JÁ ESCOLHIDA POR BRENNAND)

A Francisco Brennand

Quando mais nada resistir que valha


a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar, 
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando, pelo desuso da navalha 
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida 
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
6 - SONETO PARA GRETA GARBO
(Em louvor da decadência bem comportada)

Entre silêncio e sombra se devora


e em longínquas lembranças se consome;
tão longe que esqueceu o próprio nome
e talvez já nem saiba por que chora.

Perdido o encanto de esperar agora 


o antigo deslumbrar que já não cabe,
transforma-se em silêncio, por que sabe
que o silêncio se oculta e se evapora.

Esquiva e só como convém a um dia


despregado do tempo, esconde a tua face
que já foi sol e agora é cinza fria.

Mas vê nascer da sombra outra alegria: 


como se o olhar magoado contemplasse
o mundo em que viveu, mas que não via.
7 - SONETO

O quanto perco em luz conquisto em sombra


e é de recusa ao sol que me sustento.
Às estrelas prefiro o que se esconde
nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra


que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce


a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo


com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.
8 - SONETO AO RECANTO

Num recanto sem data e sem ternura,


e mais, sem pretensão a ser recanto,
descobri em teu corpo o amargo canto
de quem despenca para a desventura.

Há nos recantos sempre uma segura


desvantagem de unir o desencanto
e é por isso talvez que não me espanto
de ali perder teu corpo e a ventura.

de viver entre atento e descuidado,


mirando o pardo tédio que descansa
nos subúrbios do amor desmantelado.

E só para ganhar mais espessura


eu resolvi fazer esta lembrança
de um recanto sem data e sem ternura.
9 - A PALAVRA

Navegador de bruma e de incerteza,


humilde, me convoco e visto audácia
e te procuro em mares de silêncio
onde, precisa e límpida, resides.
Frágil, sempre me perco, pois retenho
em minhas mãos desconcertados rumos
e vagos instrumentos de procura
que, de longínquos, pouco me auxiliam.

Por ver que és claridade e superfície,


desprendo-me do ouro do meu sangue
e da ferrugem simples dos meus ossos,
e te aguardo com loucos estandartes
coloridos por festas e batalhas.
Aí, reuno a argúcia dos meus dedos
e a precisão astuta de meus olhos
e fabrico estas rosas de alumínio
que, por serem metal, negam-se flores
mas, por não serem rosas, são mais belas
por conta do artifício que as inventa.

Às vezes, permaneces insolúvel


além da chuva que reveste o tempo
e que alimenta o musgo das paredes
onde, serena e lúcida, te inscreves.
Inútil procurar-te nesse instante,
pois muito mais que um peixe és arredia
em cardumes escapas pelos dedos
deixando apenas a promessa leve
de que a manhã não tarda e que na vida
vale mais o sabor de reconquista.
Então, te vejo como sempre foste,
além de peixe e mais que saltimbanco,
forma imprecisa que ninguém distingue
mas que a tudo resiste e se apresenta
tanto mais pura quanto mais esquiva.

De longe, olho teu sonho inusitado


e dividido em faces, mais te cerco
e se não te domino então contemplo
teus pés de visgo, tua vogal de espuma,
e sei que és mais que astúcia e movimento,
aérea estátua de silêncio e bruma.
10 - SONETO

Por seres bela e azul é que te oferto


a serena lembrança desta tarde:
tudo em torno de mim vestiu um ar de
quem não te tem mas te deseja perto.

O verão que fugiu para o deserto


onde, indolente e sem motivos, arde
deixou-nos este leve e vago e incerto
silêncio que se espalha pela tarde.

Por seres bela e azul e improcedente


é que sabes que a flor o céu e os dias
são estados de espírito somente,

como o leste e o oeste, o norte e o sul.


Como a razão por que não renuncias
ao privilégio de ser bela e azul.
11 - SONETO DO DESMANTELO AZUL
A Samuel Mac Dowell Filho

Então, pintei de azul os meus sapatos


por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente


e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos


que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos


e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
12 - POEMA

Senhora de muito espanto


vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer


que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,


sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar


que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.
Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo


nas cores do mapa-mundi.
13 - PRIMEIRO POEMA NO VAZIO

Buscava tudo que havia


de nunca mais encontrar
em sua face macia
em seu leve caminhar,
nas rotas claras do dia
nos verdes sulcos do mar
e de tudo quanto havia
de nunca mais encontrar
restou a forma vazia
suspensa no seu olhar
e a tênue melancolia
de quem não se soube achar
nas rotas claras do dia
nos verdes sulcos do mar.
14 - RETRATO CAMPESTRE
A Ayrson J. B. Lopes

Havia na planície um passarinho,


um pé de milho e uma mulher sentada.
E era só. Nenhum deles tinha nada
com o homem deitado no caminho.
O vento veio e pôs em desalinho
a cabeleira da mulher sentada
e despertou o homem lá na estrada
e fez canto nascer no passarinho.
O homem levantou-se e veio, olhando
a cabeleira da mulher voando
na calma da planície desolada.
Mas logo regressou ao seu caminho
deixando atrás um quieto passarinho,
um pé de milho e uma mulher sentada.
15 - SONETO RASPADO DAS
TELAS DE ALOÍSIO MAGALHÃES

Aquem do sonho e além dos movimentos


uma nesga de azul perdeu as asas.
Quem a invadir, invade os próprios ventos
que varrem mares e entram pelas casas.

Às vezes, penso: não tem dor nem mágoas


quem se ofertou a tão alegre ofício,
mas a mulher que mora atrás do início,
diz: são meus estes céus, minhas as águas

que dormem neste chão, minhas as cores


que apascentam teus olhos e que vêm
de mim e vão das nuvens ou das flores.

Mas, só pode ir além dos movimentos,


onde, serena, habito há muito, quem
pela nesga de azul entrar nos ventos.
16 - SONETO INSTANTÂNEO

Instante nos teus olhos - a vertigem


me arremessa a um losango decomposto,
e se perde nos campos de teu rosto
onde, serena, estanca a minha origem.

O instante de teus olhos dás à fonte


e da fonte recolhes gestos frios,
por isso tens nas mãos esse horizonte
limitado por búzios e navios.

Instante que se parte e se oferece


ao meu silêncio unânime e ao canto
nascido de si mesmo, quando lento

e grave, o sono mais tardio tece


dentro do olhar esse agressivo espanto
de quem se espanta e encanta a um só momento.
17 - RETRATO BREVE DO ADOLESCENTE
A Murilo Costa Rego

Aos dez anos, tinha apenas


e aquele mais do que nunca
um catecismo discreto
latino por sua têz,
e os olhos presos nas alvas
apascentou em silêncio
e nudas formas do teto.
as coisas que nunca fez.
Às vezes, em dias claros,
Depois, a moça morena
em tardes de sol concreto
que em sua rua morava,
retirava os olhos mudos
embora sendo tão pouco
das alvas formas do teto,
para quem tanto aguardava,
sonhava tempo e navios,
mostrou-lhe: o esperar é vão,
mas seu sonho predileto
E veio o beijo roubado
estava nos negros olhos
na penumbra do portão.
que habitavam seu afeto
Enfim, na noite mais forte
e que ele há tanto buscava
que houvera em todo o verão
longe das formas do teto.
ambos foram dormir juntos
 
aquém das curvas da mão.
Um dia, a chuva imprevista
Aos dezoito olhou p’ra trás:
que às vezes cai no verão
perdera-se todo o afeto.
dormiu sobre o seu telhado
Olhou para a frente e viu
molhou-lhe a imaginação,
o nada por objeto.
tempo em que foi visitado
Olhou p’ra cima e sorriu
seu humilde coração
das alvas formas do teto.
por Isa, Rosa e uma vaga
Maria da Conceição
e aquele mais do que nunca
herói do sonhar em vão
foi dormir com todas elas
nas curvas da própria mão.
Num dia de aniversário
usou (a primeira vez)
solenes calças compridas,
gravata alegre. Era o mês
em que nos campos mais frios
e em outros campos, talvez,
inauguravam-se as rosas
imitando a quem as fez,
18 - TESTAMENTO DO HOMEM SENSATO

Quando eu morrer, não faças disparates


nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada


destas palavras que te digo aqui:
foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda,


surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve


como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.
19 - SONETO DAS DEFINIÇÕES

Não falarei de coisas, mas de inventos


e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.

Multiplicar-me-ei em mil cinzentos


(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cata-ventos.

Daí, o meu desprezo a jogos claros


e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.

Daí também, a enorme divergência


entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.
20 - SONETO DAS METAMORFOSES
A Edmundo Morais

Carolina, a cansada, fez-se espera


e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era,


despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume


escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:


abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.
21 - SONETO A FOTOGRAFIA

Libertar-se ligeiro da moldura


é o desejo da face, onde, o desgosto
emigrado do poço de água impura,
vai se aninhar na hora do sol posto.

Do lugar da prisão vem a tortura,


pois vê, do seu retângulo, teu rosto
e acorrentado na parede escura,
não pode engravidar-te para agosto.

Guarda ainda no olhar instante e viagem


o instante em que foi presa pela imagem
e o roteiro que fez em mundo alheio.
E eterna inveja do seu sósia ausente
que, embora prisioneiro da corrente,
habita num subúrbio do teu seio.
22 - SONETO PRINCIPALMENTE DO CARNAVAL

Do fogo à cinza fui por três escadas


e chegando aos limites dos desertos,
entre furnas e leões marquei incertos
encontros com mulheres mascaradas.

De pirata da Espanha disfarçado


adormeci panteras e medusas.
Mas, quando me lembrei das andaluzas,
pulei do azul sentei-me no encarnado.

Respirei as ciganas inconstantes


e as profundas ausências do passado,
porém retido fui pelos infantes

que me trouxeram vidros do estrangeiro


e me deixaram só, dependurado
nos cabelos azuis de fevereiro.
23 - POEMAS DE NATAL
Carlos Pena Filho, musicado por Capiba

— Sino, claro sino,


tocas para quem?
— Para o Deus menino,
que, de longe, vem.

— Pois, se o encontrares,
traze-O ao meu amor.
— E que lhe ofereces,
velho pecador?

— Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.
24 - A MESMA ROSA AMARELA
Carlos Pena Filho

Você tem quase tudo dela,


o mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela,
só não tem o meu amor.

Mas, nestes dias de carnaval,


para mim, você vai ser ela.
O mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela.
Mas não sei o que será
quando chegar a lembrança dela
e, de você, apenas restar
a mesma rosa amarela,
a mesma rosa amarela.
25 - SONETINHO INFANTIL

Era clara a menina, longe ou perto,


mesmo entre os seus alvíssimos lençóis.
Ria, como se visse caracóis
cantando uma opereta no deserto.

Logo piscou um olho para o coelho


que dizia não era bom da bola
e mágicos tirava da cartola
pois vivia ao contrário, atrás do espelho.

Depois ficou olhando uns elefantes


que mantinham conversa acalorada
sobre a lista das dez mais elegantes.

Mas, depressa fechou seus olhos pretos


e adormeceu, para não ser trancada
com a chave de ouro de fechar sonetos
26 - SONETO OCO

Neste papel levanta-se um soneto,


de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.

De tempo e tempo e tempo alimentado,


sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.

Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,


pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.

Lembranças são lembranças, mesmo pobres,


olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.
27 - SONETO DA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

Morto. Como também já morre o dia.


Mas continua a ser noutros lugares?
Ou morto diariamente nos altares,
por ser diversa a morte que morria?

O corpo morto: azul melancolia


do mesmo azul perdido pelos ares,
vivo azul sobre os campos, sobre os mares,
sobre a clara manhã e a hora tardia.

Um corpo morto. Um corpo morto de homem,


igual a esses cadáveres da guerra
que as batalhas atraem e consomem?

Ou um que junta o mundo à sua sorte,


contempla a sombra em torno e desce à terra
e morre em solidão e vence a morte?
28 -SONETO

Por trás do musgo silencioso e espesso,


que cresce no teu ventre desolado,
nasce um mundo obscuro e inusitado
que eu não sei se mereço ou desmereço.

Sei apenas que às vezes, quando teço


canções noturnas do prazer frustrado,
sou, nem sei por que sombras, exilado
para além do meu fim e meu começo.

Esse teu mundo, concha que é morada


de anêmonas e polvos, é mais raro
que a luz de Deus na noite abandonada.

E é por isso talvez que não se entrega


e me deixa a esperar teu corpo claro
de fêmea esquiva que ao prazer se nega
29 - PARA FAZER UM SONETO

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,


e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:


se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza


das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece


dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.
30 - SONETO DAS DEFINIÇÕES

Não falarei das coisas, mas de inventos


e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.

Multiplicar-me-ei em mil cinzentos


(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.

Daí, o meu desprezo a jogos claros


e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.

Daí também, a enorme divergência


entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.
31 - SONETO PARA CERTA MOÇA ou
HISTÓRIA DA POESIA BRASILEIRA

Roubaste o verde aos impossíveis mares


e o roxo das incautas caravelas.
Por isso, és governada por aquelas
gravíssimas perturbações lunares.

Na fuga que fizeste dos altares


buscando o imponderável das janelas,
trocaste apenas quadros seculares
pelas cores de novas aquarelas.

Daí, eu te dizer que foste, outrora,


habitada por trágicas mudanças
sem nunca te encontrares, como agora.

Também, tu nada sabes de esquivanças


e assistes, frágil e indefesa embora,
dentro de ti saltarem novas Franças.
32 - “Tânia: recebe este livro
agora mesmo composto
na face azul do teu rosto,
ilha de sal e de areias
azuis como as nossas veias”.

Carlos Pena Filho


(Dedicatória do Livro Geral de seus po-
emas a Tânia, sua mulher.)
33 - GUIA PRÁTICO DA em feriados de escola
CIDADE DO RECIFE e em frias e sonolentas
Carlos Pena Filho ordens do dia, em quartéis
onde fofos capitães,
Publicado por Luiz Berto em esverdeados por fora,
A HORA DA POESIA O INÍCIO ganham a vida e as estrelas,
o dia, o mês e o ano
No ponto onde o mar se extingue à custa do amarelinho
e as areias se levantam e alegre “porque me ufano”.
cavaram seus alicerces
na surda sombra da terra MANOEL , JOÃO E JOAQUIM
e levantaram seus muros Desse tempo, é o que resta
do frio sono das pedras. para um discreto dizer,
Depois armaram seus flancos: pois quem cantou esse tempo
trinta bandeiras azuis já não é do meu saber.
plantadas no litoral. Hoje a cidade possui
Hoje, serena, flutua, os seus cantores que podem
metade roubada ao mar, ser resumidos assim:
metade à imaginação, Manoel, João e Joaquim.
pois é do sonho dos homens No jardim Treze de Maio,
que uma cidade se inventa. Manoel vai ficar plantado,
para sempre e mais um dia,
O NAVEGADOR HOLANDÊS sereno, bustificado,
Outrora o tempo era intacto pois quem da terra se ausenta
em seus braços prolongados deve assim ser castigado.
e às suas línguas de areia, Dali não poderá ver
virgens de pés e barcaças, a casa do seu avô
virgens de olhos e lunetas e nem a rua da Aurora,
(até de imaginação) nem o que o tempo acabou,
chegou, tranqüilo e exato, nem o mar nem a sereia
o argonauta do improviso, e nem boi morto na cheia
trazendo o sol na cabeça desse rio escuro e triste,
e o mar do fundo dos olhos, de lama podre no fundo
um gosto de azul na boca e baronesas na face,
sob a audácia dos bigodes que vem, modorra e preguiça,
flamengos e retorcidos. parando pelas campinas
Mas, depois de algumas bulhas e escorregando nos montes,
com o português cristão até este sítio claro,
e alguns segredos de amor onde cobriram seu leito
com as donzelas de então, de pedra, ferro e cimento
escorraçado voltou, organizados em pontes.
deixando-nos essas coisas Desde a Velha, carcomida,
que a sua presença atestam: paisagem para detentos,
algumas mulheres prenhas que é por onde sempre passa
destes Wanderleys que restam. esse povo marginal,
Esse tempo, há muito gasto, escuro e anfíbio que habita
resiste apenas, agora, o cais dito do Areal,
até à ponte mais nova saem do fundo da noite,
que tem o nome mais velho: tiram a angústia do bolso
a ponte de Duarte Coelho. e a contemplam na mão.
Mas tudo o que for do rio, Só os velhos adormecem,
água, lama, caranguejos, lembrando o tempo que foi,
os peixes e as baronesas vazios como o vazio
e qualquer embarcação, e fácil sono de um boi.
está sempre e a todo instante
lembrando o poeta João SUBÚRBIOS
que leva o rio consigo Nos subúrbios coloridos
como um cego leva um cão. em que a cidade se estende,
Mas vieram de longe as águas em seus longos arredores,
que aqui no Recife estão, onde, a cada instante nasce
já começaram areia e pedra uma rosa de papel,
lá bem perto do sertão caminham as tecelãs.
e é por isso, talvez, Restos de amor nos cabelos
que escuras e tristes são. que ocultam por ocultar,
Porém não foi só tristeza levam a noite no ventre
sua peregrinação, e a madrugada no olhar
em seu trajeto tiveram e em esqueletos da sombra,
a farta satisfação onde a luz chega filtrada,
de dar de beber a secos as tecelãs vão parar.
homens, cavalos e bois Adeus lembrança de amores,
e em seu incerto caminho adeus leve caminhar.
ainda viram depois Agora resta somente
os sítios cheios de sombra, um desencanto sereno:
onde dorme o sonho espesso o gerente e as botinas,
do poeta Joaquim que foi magoando o silencio pleno.
fazer uma estação de águas Mas, nos domingos mais claros,
nos olhos do seu amor as tecelãs se transformam
e trouxe nos seus, acesos, em puras rosas de sal
os cajueiros em flor. e oferecem os seus braços
à curva do litoral.
A PRAIA Nem se lembram mais do mangue,
Mas não é só junto ao rio podre, virgem, vegetal,
que o Recife está plantado, onde os homens são sem sonhos,
hoje a cidade se estende como qualquer mineral.
por sítios nunca pensados,
dos subúrbios coloridos A LUA
aos horizontes molhados. Mas, enquanto tudo é fome,
Horizontes onde habitam por todo o reino animal,
homens de pouco falar, existe ainda fartura
noturnos como convém na “terceira capital”,
à fúria grave do mar. pois os que forem passear
Que comem fel de crustáceos no cais da rua Aurora,
e que vivem do precário em certa noite do mês,
desequilíbrio dos peixes. poderão sair dizendo,
Nesse lugar, as mulheres todos juntos, de uma vez:
cultivam brancos silêncios Era uma lua tão grande,
e nas ausências mais longas, de tão vermelha amplidão
pousam os olhos no chão, que mesmo Ascenso Ferreira,
comendo só a metade, No andar térreo, moram os bancos
morria de indigestão. (capitais da Capital)
no primeiro, a ex-austera
IGREJAS Associação Comercial,
Não é que somente em luas, no segundo, a sempre fútil
o Recife farto seja; Câmara Municipal
é farto, também de igrejas. e, no terceiro, afinal,
Tem a de São Francisco, está a alegre pensão
na rua do Imperador, da redonda Alzira, a viga
com rezas pra Santo Antônio mestra da prostituição.
e promessas por amor; Mas como vivem tão bem,
tem a Igreja de São Pedro, em tão segura união,
no pátio do mesmo nome qualquer dia, todos juntos,
que se fosse gente, há muito vão fundar a Associação
tinha morrido de fome, dos Múltiplos Pecadores,
mas, como é, firme, resiste, com banqueiros, comerciantes,
sozinha, em seu abandono prostitutas, vereadores,
e em seu destino bem triste ingleses do British Club,
de igreja quase sem dono. homens doentes e sãos,
E como se fosse pouco pois o camelô já disse
seu exílio obrigatório, que somos todos irmãos.
ainda está condenada Esse é o bairro do Recife
a ver o bar de Gregório, que tem um cais debruçado
onde os nossos literatos, nas verdes águas do Atlântico
criados a uva e maçãs, e ainda tem o cais do Apolo,
levam os amigos de fora apodrecido e romântico,
pra comer sarapatel, beleza que ainda resiste
depois transformado em obra lá nos desvãos da memória
com tinta escura e papel. desse bairro que se escoa
Mas não é só; o Recife pela Ponte Giratória,
ainda tem muitas igrejas que é uma estranha armação
lavando os pecados seus. que agüenta em seu férreo dorso
Tem lá perto do mar, automóvel, caminhão
plantada em meio do mal, e trem de carga bem cheio,
a sua concatedral mas não resiste às barcaças
chamada Madre de Deus, que a fendem do meio a meio.
que é onde essas menininhas
de Maria Madalena SAO JOSÉ
vão à missa e à novena. É por ela que se chega
ao bairro de São José,
O BAIRRO DO RECIFE de ruas de casas juntas,
Ali é que é o Recife cariadas, mas de pé.
mais propriamente chamado, De classe média arruinada,
com seu pecado diurno mas de gravata e até
e o seu noturno pecado, missa ao domingo, pois sempre
mas tudo muito tranqüilo, é bom ter alguma fé.
sereno e equilibrado. Bairro português que outrora
foi de viver e poupar, e, coitadinhos, nem sabem,
nascer, crescer e casar que o que borbulha
naquela igreja chamada é a ameba que não puderam tratar.
São José de Ribamar.
SECOS & MOLHADOS
CHOPE Ainda existe muita coisa
Na avenida Guararapes, de bom e ruim pra contar,
o Recife vai marchando. mas como sou conhecido
O bairro de Santo Antônio, por discreto no falar,
tanto se foi transformando irei, agora, evitar.
que, agora, às cinco da tarde Mas não sem antes passar
mais se assemelha a um festim. pelos armazéns de estiva,
Nas mesas do Bar Savoy, mar dos nossos tubarões,
o refrão tem sido assim: de brasileiros sabidos
são trinta copos de chope, e portugueses sabidões
são trinta homens sentados, que na vida leram menos
trezentos desejos presos, que o olho cego de Camões,
trinta mil sonhos frustrados. mas que em patacas possuem
Ah, mas se a gente pudesse muito mais que Ali Babá
fazer o que tem vontade: e os seus quarenta ladrões.
espiar o banho de uma, É por isto que aos domingos,
a outra, amar pela metade cada qual na sua Igreja,
e daquela que é mais linda reza, assim, as orações:
quebrar a rija vaidade. Naquele mastro real,
Mas como a gente não pode vê se descobres um meio
fazer o que tem vontade, de aumentar meu capital.
o jeito é mudar a vida Vendendo carne de charque,
num diabólico festim. importando bacalhau,
Por isto no Bar Savoy, dizendo que prata é ouro
o refrão é sempre assim: e latão é bom metal,
são trinta copos de chope, é assim que vivemos desde
são trinta homens sentados, Pedro Álvares Cabral.
trezentos desejos presos, Pois o Papa já nos pôs,
trinta mil sonhos frustrados. no Trato das Tordesilhas,
além do bem e do mal.
ORADORES
Este ponto verde aqui, O FIM
feito de folhas e flores, Recife, cruel cidade,
é o Jardim Treze de Maio, águia sangrenta, leão.
onde os nossos oradores Ingrata para os da terra,
vão um ao outro contar boa para os que não são.
como foi que conseguiram Amiga dos que a maltratam,
a vida inteira passar inimiga dos que não
nas trevas da ignorância este é o teu retrato feito
sem nunca desconfiar. com tintas do teu verão
Pois, cada qual sente um gênio e desmaiadas lembranças
dentro de si borbulhar do tempo em que também eras
noiva da revolução