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34º ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS


ST 05: CORPO, SAÚDE E EMOÇÃO.

NARRATIVAS E PERFORMANCES DA MORTE: OS RITUAIS FÚNEBRES NO


INTERIOR DO PIAUÍ.

AUTOR: JAQUELINE PEREIRA DE SOUSA


CO-AUTOR: FABIANO DE SOUZA GONTIJO
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NARRATIVAS E PERFORMANCES DA MORTE: OS RITUAIS FÚNEBRES NO


INTERIOR DO PIAUÍ.

Essa comunicação é parte da dissertação que estou preparando para o


Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia – UFPI, sob a
orientação do Prof. Fabiano Gontijo, colaborador neste artigo.
Trata-se de uma pesquisa que aborda algumas questões relacionadas aos ritos
fúnebres no interior do Piauí, com o trabalho de campo realizado no município
de Cocal, no norte do estado, através das narrativas do “seu” Zé, um exortador
de corpos – sim, de corpos e não de almas – que tem como ofício realizar o
trabalho fúnebre acompanhando o moribundo até a morte, além do preparo do
corpo, como dar banho, vestir a mortalha e posicionar o falecido no caixão. A
partir de então, as visitas ao cemitério são tiradas por “seu” Zé, fazendo parte
das suas performances durante a prática desses ritos fúnebres.
Pensemos em cinema no Piauí: temos, de um lado, o filme surrealista
“Cipriano”, que conta a história de um senhor, morador do sertão piauiense, que
sente a morte chegar e deseja ser enterrado de frente para o mar, e enfrenta,
para tanto, a odisséia pelo interior do Piauí de cinco sonhos – demônios, morte,
procissão, cemitério e morada das almas.
De outro lado, temos a comédia “Ai, que vida!”, que gira em torno de uma
funerária que, de forma ilícita, vende caixões para a prefeitura; tem-se um típico
drama social nos moldes turnerianos no decorrer de um velório, em que, diante
da postura do prefeito embriagado, a mulher de um vereador resolve se
candidatar ao cargo de prefeita, modificando toda a estrutura da cidade.
Diante desses exemplos – que poderiam ser quaisquer outros, acredito - parece
que a identidade piauiense ganharia sentido na sua ligação com a morte,
fazendo parte de sua marca identitária. Temos respeito aos falecidos, as
orações ou a visita ao cemitério (local onde não se guardam apenas corpos,
mas toda uma memória nas lápides), as formas de conceber cada jazigo,
túmulo, etc. E, assim, a dor se expressa de forma condescendente com as
características de cada falecido no tempo das suas idiossincrasias.
Em Teresina, puxa-se assunto com estranhos em paradas de ônibus ou mesmo
com os amigos quando as pausas aparecem nas conversas. No interior do
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Piauí, uma conversa quase sempre começa com: “Você soube que o Luís
morreu?” sempre acompanhado da genealogia do falecido: “Luís, filho do
Antenor, casado com Raimunda”, e mesmo quando não morre alguém
recentemente, as pessoas trazem à memória algumas mortes marcantes:
“Nossa! A morte do Antônio foi tão violenta, né?”. Às vezes o assunto da morte é
sobre o comportamento dos enlutados: “Você viu a Jesus, viúva do Francisco?
Nem completou um ano e ela já tirou o luto!”. Ou mesmo sobre a temporalidade:
“nem parece que faz um ano que o Chagas morreu, né? Passou tão rápido”. E,
daí em diante, outros mortos aparecerão nas conversas, mostrando que a
memória resiste, mesmo que de forma sutil, as pessoas que morreram têm um
lugar marcado no cotidiano do seu grupo social, ainda vivo – continuidade.
“A imagem registrada pelo celular de um agricultor, mostra o momento em que
parte da parede da represa cedeu. Em menos de uma hora, quase 50 bilhões de
litros d água desapareceram do reservatório. A água passou por aqui com tanta
força, que limpou todo o vale: arrastou árvores, torres de energia elétrica e
casas...”, anunciou Fátima Bernades no Jornal Nacional de 28 de maio de 2009,
sobre o rompimento da Barragem de Algodões, no município de Cocal, e
enfatiza que: “arrasou a zona rural de dois municípios”, precisamente a mesma
zona rural onde “seu” Zé nosso exortador de corpos, desempenha seu estranho
trabalho.
Na verdade, esse trabalho não se propõe a direcionar o olhar à tragédia de
Algodões, ou mesmo à corrupção em Cocal. Trata-se de um trabalho sobre
narrativas e performances da morte, ditas pelo “seu” Zé, um habitante de Cocal.
A cidade ficou incomunicável, já que a água inundou um raio de 50 km em torno
do local da barragem e deixou cerca de 500 famílias desabrigadas, oito mortos
e, claro, muitas histórias encharcadas de emoção. Cada um ouviu o acontecido
de alguém, como aquele que narra com tanta propriedade, que parece que
estava olhando o corpo da menina que se agarrou nos galhos de uma árvore,
mas não conseguiu vencer a força das águas.
Cocal está a 282 quilômetros de Teresina, fora do eixo da Rodovia Federal que
liga a capital ao litoral piauiense. De acordo com o IBGE, em 2009 Cocal
contava com pouco mais de 27.000 habitantes. Situado na Serra da Ibiapaba,
na divisa com o Ceará, tem particularidades que diferencia seus habitantes dos
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piauienses em geral: aquele sotaque cigano, arrastado, e seus olhos verdes


marcam a primeira impressão dos moradores dessa cidade. Oficialmente, Cocal
está em uma área de litígio de territórios: Piauí e Ceará disputam essas terras
desde o início do período republicano.
Além de gostar falar de seus mortos, as pessoas também gostam de falar do
rompimento da barragem, o que as leva diretamente a um outro assunto
privilegiado pelos piauienses em geral: política e corrupção. Cocal teve o
penúltimo prefeito cassado duas vezes em três mandatos, atualmente candidato
a deputado estadual com grandes chances de ser eleito. O atual prefeito teve
seu mandato cassado, devolvido, novamente cassado e novamente devolvido.
Comenta-se na cidade que pode-se acordar sob o mandato de um prefeito,
almoçar sob o de um outro e, enfim, dormir de um outro ainda...

Tive a oportunidade de estar presente em Cocal no desfile do sete de Setembro.


A parada ia começar às 18 horas, mas resolvi ir logo, pois um antropólogo que
se preze tem que chegar nos preparativos do ritual e ainda cercar as margens
do evento. Desci para o centro às 16 horas, por onde a parada ia passar. Na
praça principal, palco montado para as autoridades políticas, um cordão de
isolamento e faixas (de cal ou giz) brancas no chão sinalizando por onde o
desfile ia passar. Ainda não tinha ninguém, parecia uma cidade abandonada dos
filmes do velho oeste. O sol muito forte, sem nenhuma sombra. Talvez por isso a
escolha pela tardinha e não pela manhã, como na maioria das cidades que
conheço.

Fui dar uma volta para encontrar o tal “movimento”. Enfim, encontrei alguns
alunos fardados fazendo “barulho” com tambores, pratos e cornetas. Eles riam,
pulavam, falavam alto enquanto eu procurava uma sombra para sentar e
observá-los. Quando eles perceberam que existia um plateia, o volume e o grau
das brincadeiras triplicaram, alguns meninos se aproximaram de mim,e
começaram a puxar assunto. Dei a entender que não queria conversa, preferiria
só observar. Não lembro de nenhuma indicação no código de ética informando
sobre um antropólogo ter que ser simpático 24 horas durante a pesquisa. Acho
que já é forçar uma interação com o campo. Sei que Radcliffe-Brown não fez
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tanto sucesso nas etnografias por causa do seu jeito sisudo. Mas,
convenhamos: ser Margareth Mead em tempo integral não era minha intenção...

O que chamava a atenção nesses meninos, numa espécie de puctium e studium


ao mesmo tempo, eram os óculos wayfarer. A febre dos óculos coloridos
também se alastra pelo interior. Não fotografei. Sinceramente, achei que puxar
uma máquina naquele momento ia ser estranho.

O tempo vai passando e as escolas chegando. Fiquei no lugar em que as


escolas se arrumavam para desfilar e não na plateia por onde o desfile ia
passar. As professoras reunindo cada grupo de criança no seu devido lugar. Era
uma miscelânea que confundia meu olhar. Me concentrei nas filas de uma única
escola. Duas meninas de aproximadamente 7 anos com uma forte e
imperceptível maquiagem, são posicionadas na frente, segurando um número
62 de isopor, representando os anos de emancipação de Cocal. Atrás delas, um
grupo de meninos de paletó, segurando nomes num quadro de isopor,
representando todos os prefeitos que Cocal tivera. As crianças tinham a
semelhança física desses prefeitos, inclusive. Um dos ex-prefeitos que é
baixinho (o que fora cassado duas vezes) estava representado pelo menor
menino do grupo e o atual estava representado por um menino loirinho,
realçando as semelhanças físicas com o prefeito. E assim por diante. Logo
atrás, a paixão de cristo, com Jesus e sua coroa de espinhos carregando a cruz,
além dos dois soldados romanos. Eles se divertiam muito e quando perceberam
que eu estava tirando fotos, começaram a fazer pose. Dispersos, mas podiam
ser identificados facilmente, a próxima fila, as profissões: a médica, a
professora, o guarda municipal, etc. Lembre do Kalela dance.

Começa a escurecer e fui assistir o desfile junto com a população, para escutar
os ruídos que Turner insiste em que prestemos atenção. As escolas passavam e
as pessoas ao meu lado comentavam sobre os filhos dos amigos ou desafetos
que marchavam, com comentários do tipo “olha como a filha da Valquíria tá
gorda” ou “meu deus! O filho da Leonora nem marchar sabe!”. Acho que não
dava para ter comentários patrióticos, pois as escolas que desfilaram não
tocaram no assunto em nenhuma das alas. Os temas foram: características da
globalização, ecologia, futuro (com meninos vestidos de astronautas usando
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capacetes de motocicleta embrulhados em papel alumínio), esportes e


educação no trânsito: aliás, quase todas as escolas tinham o tema do trânsito
representado – talvez pelo trânsito tão confuso, não existindo em Cocal
semáforos ou um único motociclista que use capacete.

O que me intrigou é que não teve nenhuma escola que comentasse a quebra da
barragem, já que esse desfile tem como função simbolizar os assuntos que
circulam em Cocal. Talvez tocasse em feridas, por isso foi relegado aos não-
ditos da cidade.

Conversando com dona Maria, uma personagem notória de Cocal, por ter 68
anos e falar o que pensa sem poupar ninguém ou mesmo palavrões, descobri
que esse penúltimo prefeito havia comprado umas terras na região da barragem
Algodões e que mandar passar o trator em cima de um cemitério, deixando as
pessoas contam que ainda acharam um casal que foi enterrado juntos,
reconhecidos pelos pés dentro das meias ainda novas. O sagrado desacatado.
O tabu remexido, e a quebra da barragem como um castigo. Aliás, nossa
aproximação começa quando ela fala em alto em bom tom que o cocalense não
dá valor para sua história, nem para o seu passado. O contexto em si de como
começou o assunto eu não sei, mas não perdi a oportunidade de me aproximar
e prestar atenção nos seus dizeres. Ela conta sobre o cemitério da sua família
que foi destruído pelas águas da barragem, a deixando sem referências, pois
toda a sua vida estava enterrada naquele cemitério.
A concepção de interior - às vezes confundido com o sertão, como sugerido por
alguns acadêmicos –, está de acordo com uma categoria emic, cuja definição é
dada pelos próprios sujeitos do tal interior, marcada pelas imagens de currais,
poços, canteiros e lamparinas que convivem em consonância com motocicletas
aparelhos de DVD, lan houses e antenas parabólicas. Considerando de onde
estou falando, Cocal pode ser considerado rural. Especificamente, interior, como
se diz no Piauí. Se estamos falando desde Teresina, logo falamos de Cocal
como interior. Se estamos em Cocal, dizemos que é uma cidade. A categoria
interior parece toma lugar no Piauí para substituir o que por outros autores seria
chamado de sertão.
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E, apesar das incessantes inserções globalizantes, percebo no Piauí um


“interior” correspondente a algo no meio, escondido, de difícil acesso, que só é
encontrado quando se remexe o exterior, a superfície e o superficial. Quando
procuramos em nós mesmos. De imediato, captamos a imagem de senhores
que tiram o chapéu ao entrar em casa e pedem a benção aos mais velhos e a
presença da morte (ou dos mortos) no interior é marcada quando visualizamos,
desde o alpendre, quadros de fotografias desenhadas dos falecidos ao lado das
imagens dos santos, pendurados nas paredes coloridas, simbolizando respeito,
religiosidade e, principalmente, dando-lhes o lugar dos mortos.
Uma das casas em que me hospedei é do dono de uma lan house, onde tive
acesso à internet, com o seu modem da TIM. É um rural que não está preso ao
imaginário agrícola, embora continue rural. Além dos computadores e conexões
banda larga, pesquisa de campo é também de enlutados. O dono falecido há
três anos ainda deixa sua presença desde a entrada, com seu retrato pintado
pendurado na parede, recepcionando quem chega, até o quarto reservado aos
seus pertences, como a motocicleta que o filho se recusa em vender. Esse
quarto também hospedava os visitantes, e foi onde dormi. Era como se fosse
uma necessidade a todo instante de demarcar o espaço – físico e social - do
falecido, expondo sua presença, dando um lugar, que acaba extrapolando
apenas os oratórios, se expandindo pela casa toda.
Na casa não existem portas além da porta de entrada e a porta que vai dar no
quintal. Os quartos são isolados com um pano. As paredes não vão até o teto, e
as conversas sussurradas durante a noite são facilmente identificadas. Assuntos
da madrugada, sussurrados não dizem respeito a essa etnografia que já
vasculha tanto a intimidade das pessoas. Antropólogos também têm coração.
Nessas horas, um fone de ouvido no volume máximo.
Os quintais são divididos por cercas de madeira, deixando o campo visual bem
ampliado. A cada roupa que eu ia estender ou recolher do varal, os olhares me
seguiam. Por causa disso, gosto de sentar na porta da cozinha para observar.
Os vizinhos se comunicam através dos gritos por entre as cercas: “Francisca,
me arruma um pouco de açúcar?”. Presenciei uma vizinha de que mandou a
filha com uma vasilha pedir um pouco de caldo de carne. O caldo foi é um
eufemismo para pedir um pedaço de carne.
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A antropologia encarrega-se de fornecer meios e subsídios para que essa


pesquisa expanda o olhar ao mesmo, apresentando-o com estranhamento, sem
que se seja preciso a frieza da tal neutralidade, pois a antropologia pode ser
acusada de muitos pecados, menos desse.
A partir da escolha do tema – ritos fúnebres – para ser desenvolvido enquanto
pesquisa durante o mestrado, era inevitável o susto dos amigos, colegas da
Universidade ou mesmo pessoas que puxam assunto nas paradas de ônibus,
independente de ser ou não das ciências sociais (talvez, esses mais do que os
outros); era impossível não notar aquela levantada de sobrancelhas. Esta
pesquisa tem como base a observação participante; acompanho um exortador
de corpos, reconstituindo suas narrativas durante suas performances nos ritos
fúnebres no interior do Piauí.
Os ritos fúnebres são acontecimentos de uma imponente mobilização popular
nessas localidades e arredores. Alguns dos velórios se caracterizavam pela
realização na casa do falecido, com o corpo estendido no meio da sala principal,
num caixão construído pelos filhos. Lembro do velório de meu avó, que fabricou
seu próprio caixão, com madeira especial. Ainda deixou as madeiras escolhidas
para o caixão de minha avó, mas não teve coragem de confeccioná-lo, ele
mesmo.
Pessoas em volta do morto, elegantes, com suas melhores roupas. Perfumes
fortes, que de tanto incomodar, marcam a lembrança dos enlutados que nem
conseguem comer ou mesmo beber água. Vestidas de preto, apenas a viúva e
as filhas, sóbrias. Sentadas ao redor do falecido, são sufocadas pelas
mensagens de conforto que, ao mesmo tempo, machucam a ferida exposta. Os
filhos precisam da “ajuda” da cachaça para suportar o momento, integrando-os
aos outros homens presentes no velório. As mulheres mais velhas, de hora em
hora rezam um terço com a função de encomendar a alma do falecido aos
cuidados das divindades (desde outros mortos até anjos, santos e Deus), em
harmonia um choro discreto e incessante, lembrando carpideiras. Muito café
para que as pessoas agüentem a vigília pela madrugada. No lado de fora da
casa, outros riem, conversam, “bebem” o morto, se socializam.
Os ritos fúnebres estabelecem comportamentos; condutas através de símbolos
tão contaminados de significados, facilmente identificados nos piauienses, como
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celebradores (celebra-dores) da morte – tal qual símbolos que estereotipam uma


identidade, como na Batalha do Jenipapo1, que em sua significância de
produção referencial de uma piauiensidade, consiste em um cemitério
representando o heroísmo desse povo, simbolizado nas referências culturais e
refletido nas particularidades de suas marcas identitárias.
Uma pesquisa sobre morte se coloca além daquilo que não se sabe, que não se
vive (já que se faz na sua oposição) e ninguém ouviu contar ou mesmo narrar
sua própria experiência. Talvez por isso seja um grande motivo para que os
trabalhos acadêmicos sobre morte estejam voltados para os seus coadjuvantes.
Começar pelo ritual é também um meio e um fim. Os ritos circulam - através de
suas performances – os acontecimentos mais decisivos em uma sociedade,
como se nos prestasse esclarecimentos de como e porque existe uma cultura
reafirmando as práticas tradicionais envoltas em algum momento a novas
construções, mesmo que sutis, mas que mostram toda a dinamicidade
ritualística.
Os enlutados em suas particularidades não se mostram num mesmo contexto
funcional: o que, de perto, os enlutados não se expressam em uma
homogeneidade, existindo diferenciações, dependendo de seu envolvimento
com o falecido, as regras de comportamento se apresentam de maneiras e
formatos diferentes Durante o luto os vivos e mortos constituem uma sociedade
especial, situada entre o mundo dos vivos, de um lado, e o mundo dos mortos,
de outro, da qual os vivos saem mais ou menos rapidamente conforme fossem
mais estreitamente aparentados ao morto (VAN GENNEP, 1977, p.127).
São os marcadores sociais da diferença que sinalizam as particularidades de um
rito fúnebre: por exemplo a viúva, que tem normas mais rígidas a obedecer
como usar o preto, não cortar ou pintar o cabelo, enquanto para os filhos os
interditos se apresentam com menos impulso, ainda existindo proibições

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A Batalha do Jenipapo ocorreu em 13 de março de 1823 (data que foi recentemente fixada na
bandeira do Piauí, embaixo da estrela). A situação de disputa se deu pelas tropas portuguesas,
sob comando do Major João José da Cunha Fidié contra piauienses, cearenses e maranhenses
que não aceitavam mais ser colônia de Portugal, assim reivindicando a independência. A batalha
ocorreu às margens do riacho Jenipapo, próximo a Campo Maior, cujo monumento à batalha
guarda o cemitério, onde estão enterrados os que lutavam com panelas, paus e pedras contra
as tropas portuguesas armadas. Tal qual palavras de Carlos Drummond de Andrade: “No
cemitério de Batalhão os mortos do Jenipapo Não sofrem chuva nem sol; o telheiro os protege.
Asa imóvel na amplidão campeira”.
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diferenciadas para filhos e filhas, extrapolando uma definição calculada de ritual


e se emaranhando com outras categorias tais como gênero – viúvos e viúvas
não vivem o mesmo luto.
Por enquanto, observemos o ritual fúnebre por cima dos choros incessantes e
da fumaça das velas, de onde se pode enxergar onde está cada participante e
em que momento as performances são executadas.
Nas cerimônias funerárias, esses períodos rituais estão bem caracterizados
quando percebemos o morto na etapa liminar, em plena passagem de status, do
profano ao sagrado, que se concretiza a partir do feitio do rito: missas, orações,
velas, indumentos, novenas, choro, enfim, sinais que são de responsabilidade
dos enlutados, a favor dos entes queridos que estão, agora, no plano “elevado”,
na esfera sacra, ou, no bom dito popular, “passou dessa para uma melhor”.
Os símbolos ligados à morte, revelados nos ritos fúnebres estão ganhando nova
configuração, dentro dos contextos culturais das sociedades modernas; e
mesmo que existam tantas formas diferentes de lidar com o morto – e não só
com a morte -, a “padronização” dessas experiências rituais impossibilita o
desencadear das exéquias. Quem em Teresina ainda vela seus mortos em
casa? Talvez a população empobrecida, fruto de uma desigualdade sócio-
econômica, e por isso impedida de participar nessas novas configurações,
restando-lhe apenas pagar um carnê que em pequenas parcelas, que cubra as
despesas do seu funeral, conhecido como plano funerário.
A “higienização” do morto entra como fato indissociável dessas transformações,
como um controle determinado acerca do contágio de doenças que causam a
morte, resultado da concepção de impureza (DOUGLAS, 1976), caracterizando
o morrer em paz, ao lado dos familiares e com o auxílio do exortador de corpo
rezando as incelências2, segurando uma vela acesa na mão do moribundo na
busca de encaminhar sua alma através da exortação do seu corpo.
Na saída do caixão, alguém precisa ficar para varrer a casa, representando a
ida de todos os males trazidos pelo rito fúnebre para dentro de casa. No retorno,
às dezoito horas, dão início aos sete terços que se rezam até a missa e a visita

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Incelências ou excelências: são cantos proferidos aos pés dos mortos, durante o cerimonial de
velório, onde cantam as repetidas estrofes das orações. À cabeça dos falecidos são cantados os
benditos (CASCUDO, 2001).
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de sétimo dia. São as repetições de tantas ave-marias que colocam os


enlutados em dormência, como se aparentemente acreditassem na
conformação de que aquele se foi, está em um bom lugar.
São as velas que acendemos aos santos e aos falecidos; são as ave-marias que
pedem pelos mortos e para os mortos, como se fossem milagrosos, sem a
devida autorização do santo papa e do Vaticano, transformando-se almas de
sujeitos comuns em entidades santificadas. Muitas vezes acompanhei as
narrativas de mortos milagrosos. As promessas são pagas com garrafas d’água,
de longe avistadas em cima dos túmulos, por entre as coroas de flores e a
parafina das velas – como se pode ver nos cemitérios de Teresina.
No caso dos ritos fúnebres, em que a religiosidade é a condutora dos seus
meios e feitios, encontramos no interior do Piauí, uma presença fortemente
marcada do catolicismo popular, o que nos direciona aos escritos etnográficos
baseados nessas marcas identitárias tramadas “a ferro e fogo” pela Igreja
Católica, pelo seu caráter tanto penitencial como de culpabilidade de todo o mal.
Nos seus ditames, o castigo está no mundo dos vivos e dos mortos. A
explicação do catolicismo, que talvez não explique, mas impunha sua verdade
sagrada e incontestável.
O sagrado nos distancia do que não se pode ser mencionado, a não ser em
momentos rituais. Pensar racionalmente nesses atributos dos encargos da Igreja
Católica é questionar sua validade, portanto, é ultrapassar as questões de
cunho religioso, chegando aos questionamentos políticos: “não chove no
interior, porque Deus quis assim.” Interrogar essa frase, é bolinar o sagrado.
Esse texto tem como meta proposital trazer à tona o pensar da relação com o
“outro” no fieldwork etnográfico, pautada nos discursos dialógicos que estão
imersos em uma pesquisa antropológica em que se enfrenta o “being here/being
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there” dos aportes acadêmicos. Priorizo, portanto, uma amostra das
contribuições metodológicas para a antropologia.
A etnografia é a chave para o “acontecer” antropológico. Não que todo
antropólogo precise fazer etnografia para realizar-se na profissão, mas as

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“Estar lá/Estar aqui” de Geertz ao falar das aflições nos interstícios do ir ao campo fazer
etnografia e o escrever a etnografia, quando se tem a missão de passar para o papel o universo
de sentimentos que fora captado durante a pesquisa (GEERTZ, 2002).
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possibilidades de uma “sacudida” hermenêutica se tornam menores. É quando,


do princípio das leituras de manuais, no início da graduação, nos deparamos
com esse pé fora do “gabinete”. Os grandes clássicos da etnografia se
destacam, e me fazem construir um projeto baseado nesses feitos.
Etnografar a morte, quer dizer, etnografar o sentido que as pessoas dão a ela,
logo, captar como significado de uma marca identitária, é observar, mesmo que
nas entrelinhas a presença da morte nas narrativas dos sujeitos pesquisados e
nas expressões de suas performances. Diante de um tema tabu, essa pesquisa
busca o lugar da morte na própria vida dos sujeitos.
Descrever o trajeto metodológico de uma pesquisa antropológica implica, por um
lado, em revelar a relação entre o objeto de estudo e o método a ser empregado
ao responder às análises constituídas, e, por outro, confronta o mundo do
pesquisador com fronteiras condizentes a alteridade, ultrapassando os muros
acadêmicos e proporcionando inquietações que impulsionam - periodicamente –
a continuidade da pesquisa.
Em face desses pressupostos a considerar as particularidades do objeto de
estudo em questão, percebe-se que os rituais funerários povoam o imaginário
popular como concessor do sofrimento pela perda. Porém, é preciso buscar não
a desmistificação da morte enquanto meio de consternação, mas diferentes
olhares.
Em Evans-Pritchard (1978), encontrei quase um “10 maneiras de se fazer
etnografia”. O autor perdura fórmulas-ações do procedimento metodológico de
extrema importância justamente por unir acontecimentos, sentidos e
sentimentos em uma pesquisa, priorizando uma preparação para se ir ao
campo, como se fosse um modo-de-fazer antropologia “para que se saiba como
e o que observar, e o que é teoricamente significativo. É essencial percebermos
que os fatos, em si, não tem significado” (Idem: p.299).
Fazer etnografia é construir algo que já fizeram, e mesmo seguindo o as
mesmas técnicas, o resultado sempre é diferente. É como se a canoa
trobriandesa pudesse ser construída em outros espaços antropológicos, sem
necessariamente, sê-la.
Diante dos segmentos elucidados, priorizo, então, a vasta cadeia de técnicas
disponibilizadas como aporte para o método de pesquisa etnográfica em
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consonância à observação-participante, o segmento estrutural de Turner (2008)


que, na disposição da dinamicidade das relações sociais, enxergou estrutura
tanto quanto via movimento, persistência tanto quanto via mudança, aliás,
persistência se mostrava como um notável aspecto da mudança.
Na percepção da interação entra as pessoas, percebeu uma forma no processo
social; uma forma estritamente dramática. Metáfora enquanto produto cultural,
uma forma estética humana, e essa forma cultural serve de modelo para um
conceito social científico. Estava diante de um drama social durante a minha
etnografia.
A etnografia enquanto drama social me envolveu mais do que imaginava.
Quando percebi, estava imersa na minha pesquisa de um jeito, que me parecia
difícil suportar. Porém a antropologia ensina que nesses momentos, é preciso
mergulhar; ir ao fundo e tocar o chão para dar um impulso para assim chegar à
superfície, e conseguir respirar.
O contexto dessa pesquisa contará com um trabalho de campo voltado para a
figura de um exortador de corpos, o “seu” Zé, que tem como função social
acompanhar os moribundos através da execução do rito funerário. “Seu” Zé é
membro do “interior”, entre as municípios de Cocal e Bom Princípio, tornando a
exatidão do lugar em si um pouco impreciso, posto que Bom Princípio é mais
próximo de sua atual morada, mas devido a Cocal ser maior e possuir Banco do
Brasil, é pra lá onde ele vai para sacar o dinheiro da aposentadoria.
“Seu” Zé não possui moradia própria e vive numa casa “emprestada”, sozinho,
pois a qualquer momento alguma família pode precisar dos seus serviços de
exortação, tendo que sair sem ter dia para retornar, embora ele saiba, apenas
olhando, quanto dias aquele moribundo vai “durar”.
Exortar, de acordo com o dicionário Houaiss, significa animar, dar estímulo. É
como se “Seu” Zé estivesse dando “vida” aos corpos mortos, quando realiza o
ritual, sendo um ofício que é temido ao mesmo tempo em que é imprescindível
no interior do Piauí.
Com a chegada do “seu” Zé, se dá início ao processo ritual, dispondo-se das
orações até que a morte se consolida, começando o trabalho de posicionar o
corpo, banhar o morto, vesti-lo com a mortalha e colocar o corpo no caixão e dar
seguimento às regras fúnebres. Após o cortejo fúnebre, ele retorna no sétimo
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dia, no décimo quarto dia e quando a morte completa um mês, assumindo a


posição de encaminhador das almas: performances que sobressaem do
cotidiano, exercendo fascínio e pavor. Embaraçando os sujeitos, e assumindo
posições dentro do rito, formalizando a sua própria cultura.
A partir de uma metodologia pautada nas narrativas do “seu” Zé, busco o
desdobrar das experiências da memória, buscando o lugar ocupado pela morte
na vida desses sujeitos-chaves para a constituição dos objetivos formulados
nesse projeto, tornando a etnografia condutora da realização desta pesquisa.
São as percepções das marcas identitárias de uma cultura que é minha, por
fazerem parte do meu percurso enquanto piauiense (e que pode ser de um
londrino, curioso pela alteridade) em enxergar no outro, diferenças e similitudes:
o que nos aproxima e o que nos distancia? O que me causa asco e o que traz
prazer? Ao entender que existe e aceitar as dessemelhanças, nos tornamos
pesquisadores mais aptos e cidadãos mais conscientes.
O envolvimento com o tema dos ritos fúnebres é quase que indispensável.
Mesmo estando na posição de pesquisador, o rito fúnebre tem o dom de colocar
os de fora como participantes. Não existe o estranho, ou quando o pesquisador
se depara com sua própria experiência, relatando a influência de suas próprias
inserções naquele contexto e dos que estão ao seu redor no momento
etnográfico. Percebe-se (mesmo que contido nos padrões de um trabalho
acadêmico) que o autor chega a acreditar, justificando os acontecidos da
pesquisa de campo

Depois de participar do rito, sendo ali o principal oficiante, senti minha


capacidade de análise racional recuar para trás do muro da eficácia
simbólica. A performance ritual era forte o bastante para me pôr a
salvo de um compromisso maior com a morte, que o discurso analítico
poderia provocar. Desta forma, ainda resisti, mas não por muito tempo,
ao que Maturana denomina passion of explaining, que é a
característica principal do cientista. (CRUZ, 1995:p.102).

Tratando de uma questão tão cara às pesquisas, em que subjetividade está em


todos os campos de um trabalho etnográfico, não estariam os ritos fúnebres
excluídos: “Mas uma coisa é observar as pessoas executando gestos estilizados
e cantando canções enigmáticas que fazem parte da prática dos rituais, e outra
15

é tentar alcançar a adequada compreensão do que os movimentos e as


palavras significam para elas (TURNER, 1974: p.20).
As sugestões de Turner, nessa pesquisa se fizeram além da compreensão do
significado para os participantes do rito fúnebre. Eu vivi durante a pesquisa o
ritual.
O antropólogo, na grande maioria das vezes, comenta o arbitrário das regras
das outras culturas, e de vez em quando a da sua própria cultura, porém, sem
abalar as suas próprias regras. Essa pesquisa remexe com os arbitrários das
normas do meu próprio grupo doméstico, o que me fez revirar meus próprios
valores e os de minha família: falar de morte, em especial da morte dos meus
próximos, talvez não se apresente apenas como uma história contada; afinal,
para que serve falar de quem já morreu?
A grande preocupação das pessoas acerca da minha pesquisa era: e se
ninguém morrer? Eu não estava interessada em estar presente em um velório,
já que meu trabalho é voltado para as narrativas de um exortador de corpos. Na
verdade, sempre tive medo de me aproximar do corpo durante os funerais.
Achava falta de respeito estar em um ambiente tão sensível com olhar de
pesquisador e não como um sensibilizado aos enlutados.
Durante o trabalho de campo, me hospedei em dois lugares estratégicos, a casa
de duas enlutadas. Na primeira casa, a de dona Jesus. Acordo com as mulheres
da casa matando uma galinha para o almoço. Da cozinha, escuto a dona de
casa: “desde que vi meu marido morrendo, não consigo matar uma galinha”. No
“interior”, a galinha é morta esganada, e o marido dela morrera nos seus braços,
com as veias do pescoço dilatadas, tal qual a galinha que a faz lembrar o ente
querido. Talvez nada ainda faça esquecer, mesmo depois dos três anos da
perda repentina do esposo.
De lá, fui até um assentamento, chamado Caretas. Ninguém sabe ao certo o
porquê do nome, mas gosto de pensar nos caretas do bumba-meu-boi. A casa é
de outra viúva. O marido foi assassinado há quatro meses, portanto, as dores
estavam gritantes, que chegava a doer em mim. O outro motivo é que soubera
que o irmão do “seu” Zé morava de frente para a casa dessa viúva, e
provavelmente passaria por lá.
16

Na tarde do dia primeiro de novembro de 2009, estávamos na sala, com as


portas e janelas fechadas, já que o sol entra diretamente pelas aberturas, não
existindo ali nenhuma árvore que dê sombra. Só areia e casas também
fechadas, como uma rua deserta. Estariam os outros preparando para a visita
dos seus mortos no outro dia?
Especificamente na casa de Graça, assistíamos a um DVD que fora gravado
com um celular no velório do seu marido. As imagens registram desde quando
encontraram o corpo estendido onde fora assassinado, até o enterro. No fundo,
escutamos o hino de São Francisco, inseridos no computador, durante a edição
do vídeo.
Foi estranho. Ainda mais porque assistia pela primeira vez na televisão ao
velório de um ente querido. Acompanhando da rede em que me balançava, a
dor dos meus. O rito fúnebre tem toda uma preparação. Aquilo parecia me jogar
dentro do ritual, sem poder respirar fundo e ir de uma vez. Simplesmente, fui
jogada. Se no trabalho de campo é preciso transformar o exótico em familiar
(DAMATTA, 1978), fui forçada a não estranhar aquele vídeo, como se existisse
mais uma etapa: familiarizar-me com o familiar, pelo menos no sentido de que é
própria do meu grupo doméstico.
As veredas de Guimarães Rosa que fui acostumada a chamar de varedas, como
os moradores do interior chamavam, são as varedas que deixam os lugares
mais próximos. São atalhos. Elas estão localizadas perto dos caminhos
habituais, mas só quem mora por lá, as conhece. Apesar de diminuírem as
distâncias, escondem as pessoas que não querem ser vistas transitando pelas
estradas óbvias, por onde qualquer um pode passar.
As varedas marcam um interior do interior. Dão sombra, fazem com que não
sejamos percebidos pelos outros que passam pela estrada. As varedas são
estreitas, dando passagem de uma pessoa por vez, fazendo-nos andar em fila
indiana, um atrás do outro. Talvez aí a sinceridade do choro de uma tia, quando
voltamos da casa do seu irmão que estava sendo velado. Ela escolheu ir pela
vareda, e lá, caminhando na minha frente, começou a chorar e a lamentar a
saudade que sentiria dele. Foi a única vez que ouvi ela chorar. As varedas de
tão estreitas, enchem nossas pernas de carrapicho e às vezes nos ferimos
quando triscamos nas folhas de cansanção.
17

Narrativas são reflexões do que apreendemos com as histórias contadas por


sujeitos que descrevem sobre uma mistura de fatos que envolvem a vida desse
sujeito, das pessoas que com ele convivem e sobre o mundo em que vive e no
que gostaria de estar.

A dificuldade de encontrar “seu” Zé faz desse trabalho uma busca pelo


exortador e um encontro com personagens, lugares e questionamentos que
enriqueceram meu olhar, extrapolando as margens do meu caderno de campo.

Na última visita ao campo em setembro de 2010 tive a oportunidade de passar


mais tempo com “seu” Zé, convivendo com suas narrativas. Umas eu já
conhecia e outras me foram surpresas. Necessariamente não juntei histórias
antigas com as novidades. Simplesmente elas uniram-se, formando uma grande
narrativa das performances do exortador e de seus exortados.

Em maio de 2010, pedi ao “seu” Zé que me mostrasse seus livros de orações e


as fotografias dos mortos que exortou. Esse material não estava com ele.
Naquele dia “seu” Zé estava numa das suas andanças pelo interior. Era mês de
Maria, e estava participando das vigílias na capela de Boa Vista, localidade
próxima a Cocal. Em setembro, o encontrei na casa da sua irmã, no
assentamento Caretas. Quando ele me viu, foi logo me entregando uma sacola
contendo dois rosários, livros de orações, e um caderno com Maria valei-me
(copiada por uma mulher que ele ajudou na exortação de um de seus
familiares), uma oração que só é cantada na hora da precisão, em mortes
complicadas, quando o corpo está dificultando a exortação e que em visitas aos
cemitérios nos dias de chuva não se pode cantar. Uma vez pedi para ele cantar,
mas ele disse que não podia. Era proibido.

Ele me mostrou um álbum de fotos onde guarda os santinhos dos mortos que
ele ajudou a exortar. No mesmo álbum, as fotos dos filhos e netos, que moram
em Luís Correia, mas antes tentaram a vida em São Paulo, trabalhando em
construção. Entre uma fotografia de um filho e de um neto, uma fotografia de um
velório em que ele exortou o corpo. Três homens em pé em volta de um caixão
no chão, em cima de um cobertor, rodeado por velas, o finado João Bela, da
baixa do brejo, interior próximo ao Cocal. A próxima foto, de outro filho que é
pescador. Logo depois, o santinho desse finado João Bela e de outros que “seu”
18

Zé acompanhou nas visitas. Nós éramos interrompidos pelo filho da dona da


casa, que comentava sobre cada morto que “seu” Zé me mostrava em seu
álbum, menos quando passamos a foto do pai dele, que fizemos questão de
também não comentar. Sobre um dos falecidos mencionados, Luizimário, um
rapaz de 15 anos, que presta atenção na nossa conversa, diz que eu nem
conheci João Bela, como se estivesse me colocando em uma categoria inferior.
“Seu” Zé ri e diz: “e nem quer conhecer mais, né?”. Risos que quebraram a
seriedade, o distanciamento e o nervosismo da conversa.

Ainda com o álbum nas mãos, as narrativas surgem a partir das imagens dos
mortos. Desde sua vinda e de seus familiares de Granga no Ceará, fugindo da
seca, em 1957 quando ele tinha 19 anos. Vieram caminhando para a ilha das
batatas, litoral piauiense. Os pais dele ficaram no Brejinho, próximo ao Cocal. Só
os filhos foram para a ilha das batatas, trabalhar nos carnaubais, cortando
palha. Os irmãos voltaram em 1960 para o Brejinho encontrar os pais e “seu” Zé
continua a morar na ilha. Em 1964 foi para Parnaíba, trabalhar em padarias,
mas não gostava do horário da madrugada estabelecido aos padeiros. Voltou
para o Brejinho, trabalhar na roça. De lá vai para Luis Correia, trabalhar nas
cocheiras, alimentando gado. O dono da fazenda o convidou para ir embora
para o Goiás, ele recusou, pois não queria ficar longe da sua família. Arranjou
um casamento, e diz que foi onde arrumou sua perdição. Ficaram casados seis
anos. Ela foi embora de casa, levando os três filhos, o mais novo com 6 meses.
Os motivos não foram mencionados nem indagados. Só sei da diferença de 20
anos entre os dois. Ele trabalhava com o pai dela, que queria dar uma pisa na
filha em nome da honra da família, mas “seu” Zé preferiu impedi-lo. Eles
trabalhavam com mandioca, fazendo farinha. “Seu” Zé não podia ir embora, pois
tinha acabado de plantar uma roça de mandioca. Precisava esperar um ano
para poder colher. Passado o tempo, “seu” Zé volta para a casa dos pais. Seu
sogro não queria deixá-lo ir embora, preferindo o ex-genro à filha. “Seu” Zé disse
que ele não podia negar o seu sangue em favor de um que não era mais da sua
família. Prometeu ao sogro que voltava depois de dois anos, mas nunca
retornou. Só reviu os filhos recentemente, passados 30 anos. Ele ainda
demonstra em suas feições e no amenizar do tom de voz um grande
19

ressentimento sobre as aventuras amorosas da ex-esposa com ladrões viciados


que a violentavam. “Seu” Zé ficou em silêncio, buscando nas palavras
monossilábicas mudar de assunto, incomodado com as lembranças.

A mãe morreu em 14 de janeiro de 1961, com 49 anos. Ela teve uma febre
muito forte, e morreu em Parnaíba, quando levada ao hospital. Ela adoeceu no
mês de novembro, mas recusava ir para Parnaíba, sendo levada ao hospital
apenas dia de ano (31 de dezembro). Quando a estavam levando para
Parnaíba, disse que sabia que não ia mais voltar. E não era para ninguém
colocar luto, pois alguns irmãos eram de folias, e não adiantava uns de luto e
outros não, mas quem quisesse ter suas reservas, sem ir festa durante um ano,
ela aceitava, e para quem quisesse levar por cima da moita, ela não se
importava. Seu Zé parou com todo movimento. O mais novo colocou uma divisa
(pedaço de tecido, lembrando as tarjas pretas das vendetas de Kadaré) no bolso
da camisa. Mas ele não esperou nenhum mês e já andava bêbado. Apenas
André e “seu” Zé foram enterrar a mãe. O pai tinha que ficar cuidando dos
outros filhos pequenos. A filha mais velha tinha 11 anos, e assumiu os trabalhos
domésticos e cuidou dos menores. Sem velório e nenhuma condição de levar o
corpo para o interior, ela foi enterrada em Parnaíba mesmo, e que ainda hoje
recebe a visita de “seu” Zé no dia dos finados.

O pai aprendeu o ofício no interior com os mais velhos, sendo acostumado a


pelejar com gente doente. “Seu Zé” e o André, que já faleceu, foram os filhos
que aprenderam o ofício de exortação de corpos. Os outros irmãos não se
garantiam. nove irmãos e cinco irmãs.

O pai (Vitalino Antônio Capitão dos Santos) morreu em 1988. Ele foi enterrado
na Baixa, próximo de Cocal. Ele foi exortado pelo seu Zé, quando tinha 88 anos.
Passou dezenove dias agonizando, mas proibiu os filhos de levarem ele ao
hospital, pois não queria ser furado por agulhas e que só tomaria remédio
caseiro, do mato. Queria morrer em paz na rede dele, pois profetizava que
“quem não vai no tempo de novo, vai no tempo de velho”, repetiu os dizeres de
seu pai, sorrindo, mas talvez seu pai nunca teria sorrido desse assunto...

O pai dele pediu para não enterrá-lo em caixão, pois se a terra deu de comer a
ele, pois trabalhava à custa do que a terra dava para ele, então ia dar de comer
20

para a terra: “não sou farinha para andar dentro de caixão”. Na hora em que seu
Zé está narrando essa história, Graça, que varria a casa no momento, começa a
contar sobre o avô que não quis ser enterrado em caixão, com a mesma
“desculpa” de não ser farinha.

O pai de “seu” Zé queria suas costas deitadas diretamente na terra. Na hora em


que a pessoa morre, seja na rede ou na cama, é preciso colocar o corpo no
chão, para a terra receber o corpo. Fizeram uma escada com mororó4, um tipo
de madeira que não quebra fácil. Forraram com uma rede vermelha que ele
tinha escolhido, colocaram o corpo em cima, e vários homens o levaram para o
cemitério, menos os filhos que não podiam ajudar a carregar o corpo, apenas
acompanhar : “faz mal”.

Sobre isso, surgem as lembranças do enterro do Chicó Cândido, que durante o


velório alguém notou seu braço mole caído, sinal de que o morto queria levar
alguém da família.

“Seu” Zé ensinou aos familiares que o remédio seria na hora do cortejo fúnebre
fossem guiados por uma vara verde até o cemitério e na hora que colocasse o
caixão na cova, dissesse que a vara seria a companhia dele, e a enterrasse
junto com o corpo. Mas a família fez o contrário: levaram uma vara seca, e não
verde. Antes de uma semana, a cunhada morreu. Antes de inteirar um mês, foi a
filha do finado. Além do mais, foram os filhos que seguraram na alça do caixão
do pai até o cemitério.

O finado André era o irmão mais velho do “seu” Zé, e foi o primeiro, depois ele.
Só esses dois estudaram. “Seu” Zé tinha 11 anos.Os outros trabalhavam de
roça. Eles estudaram por onze meses. O pai pagava 10 mil réis por mês para
uma pessoa ensiná-los. Não era em escola, mas em casa de família. A carga
horária era intensa, chegando a ser comparada com o rojão do serviço de roça.
Sem recreio, o único “brinquedo” era a palmatória. A memória da palmatória
como um brinquedo diverte as lembranças de infância, mas que se tornam

4
MORORÓ: Bauhinia forficata Link. (Bauhinia aculeata Vell.). - Arbusto alto ou árvore pequena.
Folhas subdivididas em duas partes, pecioladas, glabras em cima e algo pubescentes por baixo
com 9 nervuras salientes e dotadas de propriedades hipoglicemiantes. Flores em cachos,
branco-cremes. Vagem chata, comprida e escura, contendo muitas sementes, tomentosa
quando nova e glabra quando adulta. Madeira para estaca e lenha. Casca adstringente e
peitoral. Ramas forraginosas (HOUAISS, 2007).
21

ásperas no momento em que narra sobre a casa de palha em que moravam e


que pegou fogo, queimando os cadernos, livros e tabuadas. Só deu tempo de
tirar as redes, uma mala grande com feijão estocado. O restante, destruído.

“Seu” Zé não recorda a primeira vez em que viu o pai exortando um corpo, aliás,
ele tinha muito medo de mortos. No dia que morria uma pessoa próxima à casa
de “seu” Zé, ele não conseguia dormir sozinho. Quando tinha que ir comprar
alguma coisa na quitanda, iam em bandos de três meninos: um atrás, outro na
frente e ele no meio. Dois anos antes de ele vir para o Piauí, resolveu testar o
remédio que o ensinaram para perder o medo: na hora de cavar uma sepultura,
bebesse cachaça no crânio de um esqueleto. Aproveitou o momento em que
estavam cavando uma sepultura, e encontrou o quengo de uma mulher. Sabia
que era mulher porque próximo ao esqueleto tinha muito cabelo. A cabeça da
mulher é pequena e se parte em dois pedaços. A cabeça do homem em quatro.
Partiu o crânio, limpou o excesso da terra, colocou a cachaça (já que para se
cavar uma sepultura é preciso um litro de cachaça para dar coragem aos
homens) e bebeu dum gole só, mesmo sem ser acostumado com bebidas
alcoólicas, mas como era remédio tinha que tomar. Tinha que ser feito três
vezes e foi. A partir de então, ele enfrenta qualquer perigo que aparecer.

A primeira exortação foi uma mulher, na Boa Esperança – outro interior nas
proximidades de Cocal. Ela morreu em plena sexta-feira maior (sexta-feira da
paixão), engasgada. Ela comeu um pedaço de carne na Semana Santa, o que é
proibido, apenas peixe pode ser consumido. Ele foi chamado para ir à casa dela,
exortar o seu corpo para que sua alma não se perdesse nos caminhos. As
pessoas ficavam ao redor da mulher agonizando, mas ninguém sabia a reza
para desengasgar - nem o próprio “seu” Zé sabia. Ela estava na rede, e “seu” Zé
encostado, aparando o vômito dela com as mãos para jogar fora. O vômito era
só carne de gado, como se o corpo expulsasse as impurezas (DOUGLAS, 1976)
entranhadas também na alma, em plena sexta-feira santa. A casa estava cheia
de gente. Era noite. Remeti às descrições acerca da morte domestica: “segundo
o costume, o quarto está cheio de gente, porque se morre sempre em público”
(ARIÈS, 1988, p.131).
22

Em meio à multidão que assistia o trabalho de um exortador, “seu” Zé pediu a


imagem do Senhor (Jesus crucificado) e segurou uma vela acessa na mão dela
até ela falecer. Ela era costureira, e conversando com as amigas poucos dias
antes, menciona se quando morresse, as amigas teriam coragem de banhá-la, e
as amigas disseram que sim, mas na hora da precisão, nenhuma se garantiu.
“Seu” Zé, o marido da falecida e um amigo banharam a finada. O caixão e a
mortalha foram comprados em Parnaíba, e devido à demora, quando “seu” Zé
foi vestir a mortalha – pois novamente nenhuma mulher se garantiu na hora –
tiveram que quebrar os braços dela para poder a mortalha entrar, já que seu
corpo tinha endurecido, sendo o único modo de fazer quebrar os braços.

Outro modo de fazer de um exortador de corpos é usar querosene para


conservar o corpo sem mau cheiro e sem inchaços para poder suportar o
velório. Ele coloca uma colher na boca do falecido e espera o corpo absorver.
Amarra-se um pano na cabeça para segurar o queixo, mantendo a boca fechada
até as carnes endurecerem. A primeira vez que “seu” Zé usou essa técnica foi
no Véi Pacífico, que já estava ruim em vida, exalando um mau cheiro quando
escarrava, empesteando a casa com um fedor que ninguém aguentava. “Seu”
Zé o pastorou durante 12 noites. Durante o dia ia trabalhar na sua roça.
Preocupado com o corpo não suportar o velório das 24 horas e ser preciso
enterrá-lo no mesmo dia, “seu” Zé mandou um dos filhos comprar o querosene.
O Véi Pacífico morreu às 5 horas da manhã e foi enterrado no outro dia no
mesmo horário. O cemitério era longe, e chovia muito, mas não se pode
caminhar rápido em um cortejo fúnebre. Ele foi enterrado às 7 horas da manhã,
mas nem sua barriga ficou inchada. O querosene se instala no cérebro e no
intestino, as partes que rapidamente se estragam numa pessoa. Os que
desconhecem essa técnica ou não se sentem a vontade em usar querosene,
colocam um pires com sal em cima do corpo, durante o velório, para não inchar.
Seu “Zé” acha esse procedimento ultrapassado...

A grande preocupação de um exortador é não deixar que o moribundo morra


sem luz. “Seu” Zé conhece quando a hora da morte se aproxima. Ele a
reconhece pelos suspiros agonizantes de um moribundo. Uma vez, “seu” Zé foi
chamado para pastorar o finado Zé Abel no Boqueirão. Quando ele o viu, logo
23

soube quando ia morrer: reconheceu o amedrontador suspiro. Quando ele


chegou para pastorá-lo, o finado Zé Abel estava num roncado temeroso: era o
cirro (respiração ruidosa dos moribundos); a ânsia da morte. “Seu” Zé deu até a
meia-noite para o finado Zé Abel. Às 23 horas ele faleceu. Na hora em que “seu”
Zé percebeu a morte chegando, perguntou o nome completo dele para uma das
filhas para poder alumiar o nome de Jesus, como na hora do batismo, na
exortação é preciso chamar o seu nome: “José Cardoso da Silva se lembre do
nome de Jesus, e diga no coração Jesus é meu e eu sou de Jesus. Jesus não é
inimigo e eu vou com Jesus. Eu levo Jesus no meu coração para me valer de
todas as aflições e na última agonia, valei-me Jesus, José e Maria”. O exortador
repete três vezes segurando firme a vela na mão do moribundo até o seu último
suspiro. Antes de ele morrer a vela acesa não pode sair da mão. Às vezes a
pessoa teima com a morte, retornando ao mundo dos vivos, mas o exortador
não pode ser enganado também, devendo permanecer com a vela acesa até o
cessar do cirro. O último suspiro é quase imperceptível, mas dos olhos escorrem
lágrimas, como se a partida fosse uma dor extremamente forte.

Algumas pessoas se aventuram a descobrir a hora do falecimento, mas sem


muito êxito, causando constrangimento e intrigas. Anunciar quando alguém vai
morrer é tornar-se notado dentro de um rito fúnebre. “Seu” Zé não dá muita
importância, pois todos que tentaram, erraram o “diagnóstico”, sendo motivo de
chacota das outras pessoas.

Teve uma vez em que um senhor morador da Baixa tomou um chá de tiú5.
Sentou-se no alpendre, e não conseguiu levantar mais. Chamou os filhos para
levá-lo para sua rede. Achando que ele ia morrer, chamaram seu Gilberto, que
se dizia exortador, mas não era. Pelo menos “seu” Zé não o reconhecia com tal.
Quando lá chegou, observou os passamentos do homem e pediu uma vela para
a esposa do provável moribundo, pois a morte estava chegando para buscá-lo.
O doente se irrita e com dificuldade balbucia: “não é hora”. E até hoje ele está
vivo, relata “seu” Zé, divertindo-se. A pressa do seu Gilberto o impediu de ser

5
Tiú ou teiú: árvore (Casearia sylvestris) da família das flacourtiáceas, nativa das regiões
tropicais das Américas, encontrada em todo Brasil, de sementes oleífera (HOUAISS, 2007).
24

um exortador de corpos. “Seu” Zé é um dos únicos exortadores da região. Os


mais velhos já morreram e os mais novos não se interessam pelo ofício.

O banho do moribundo é um trabalho delicado para o exortador. Senta-se o


corpo numa cadeira, enquanto uma pessoa o segura, “seu” Zé joga água que
tem que ser fervida e misturada com água fria, como se fosse um banho de um
recém-nascido. Antigamente, banhava-se o corpo em uma tábua, mas era muito
complicado, pois com o corpo ainda mole, não se tem sustentação. É preciso
um grande balde de água grande e sabão. O corpo é banhado no quarto do
moribundo, deixando que a água escorra pelo chão do aposento. Enxuga-se o
corpo vestindo ele com a mesma roupa que faleceu, até que a mortalha chegue
com o caixão. O morto, e mesmo o moribundo precisam ter os pés virado para a
porta da casa. Ao perceber que o moribundo está perto de partir, o exortador
precisa colocar seus pés virados para a saída, senão, dará mais trabalho para
morrer. Quando o corpo sai da casa, os pés saem primeiro que a cabeça. No
cemitério, os pés precisam entrar primeiro. Portas são passagens...

Hoje já se compra o caixão na funerária, mas antes quem fazia era o Manuel
Justino, um morador da região, que fora exortado por “seu” Zé há cinco anos.
Pouco tempo antes do seu falecimento, o finado Manuel Justino deixou as
tábuas escolhidas para o seu caixão e avisou aos filhos que não queria ser
enterrado em caixão de funerária. “Seu” Zé pastorou durante nove dias o finado
Manuel Justino, que sempre lembrava aos filhos que queria que fizessem seu
caixão com as tábuas que ele deixou separado. Os filhos se recusaram, mas
com a insistência de “seu” Zé, alertando a importância do feitio desse último
pedido, os filhos aceitaram. Ele morreu numa tarde de uma sexta-feira, às 14
horas. Os filhos que estavam na roça foram avisados, e começaram a trabalhar
na feitura do caixão. Às 21 horas terminaram o feitio.

Nas contagens – nomes, genealogias e as localidades em que moravam - de


“seu” Zé, os corpos que ele exortou já ultrapassa o número de 20. Ele não cobra
nada, recebendo o que as pessoas oferecem. O trabalho de exortação começa
com a chegada de “seu” Zé para pastorar o moribundo em sua casa. Ele passa
as noites acordado acompanhando os passamentos do doente, mas
dependendo da situação, ele fica às 24 horas. Diz que não consegue dormir
25

enquanto aquele corpo não é exortado. “Seu” Zé também faz serviços de visitas
aos túmulos para rezar e cantar os benditos fúnebres. As pessoas narram que a
entonação de “seu” Zé emociona e ao mesmo tempo traz paz aos que ficam
nesse mundo e que talvez ajude às almas a alcançarem a salvação, como se as
direcionasse mais rápido.
Enfim, concluímos que as narrativas das performances de um exortador ajuízam
contextos de interações entre sujeitos pesquisantes e pesquisados, que
excedem a pesquisa de campo, criando aprendizagens e trocas: quando “seu”
Zé pensaria ser tema de um trabalho acadêmico e seu nome viajaria por
congressos e universidades em todo o Brasil? Quando eu poderia pensar que
uma etnografia iria me ensinar mais do que apreendi em grande parte de minha
vida? Experiências que transformam trajetórias. Eventos narrativos em
confluência com eventos narrados (BAUMAN, 1986) criam uma narrativa
própria, original, dentro do contexto atual, em que se cria (em vez de recriar!) as
performances de um exortador de corpos, conduzindo memórias e traduzindo
emoções, dando sentido a uma performance narrativa (Idem) interpretando ou
sendo interpretada por vozes que em momentos sussurram e em outros gritam
exortando sentidos, encaminhando significados.

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26

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