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Da “sobrecarga de demandas” às “democracias iliberais”: a 40 anos do Relatório da

Comissão Trilateral.

Gabriel E. Vitullo (professor da UFRN)

Este trabalho, apresentado no 39º Encontro Anual da Anpocs em outubro de 2015, é fruto de uma
pesquisa mais ampla que o autor desenvolveu no seu estágio pós-doutoral na Universidad
Complutense de Madrid (UCM) - Espanha, com o apoio financeiro da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

RESUMO
Com este trabalho, busca-se realizar uma análise crítica de duas obras que expressam, de modo
emblemático, o movimento de contestação aos avanços democráticos e igualitaristas experimentados
por diversas sociedades nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Faz-se referência
ao The Crisis of Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral
Commision, redigido por Huntington, Crozier e Watanuki, publicado em 1975, e a The Future of
Freedom: Illiberal Democracy at Home and Abroad, escrito pelo intelectual índio-estadunidense
Fareed Zakaria. Ambas obras, plenamente atuais, compartilham, além da mesma perspectiva
ideológica, o fato de apontarem para uma audiência mais ampla que o público acadêmico. São obras
que desempenham uma função político-pedagógica muito concreta: a de influenciar os tomadores de
decisão e, também, a de colaborar na fabricação de um novo consenso, direcionado a neutralizar as
conquistas democráticas alcançadas pelas classes populares depois de árduas lutas e reinstaurar, no
seu lugar, um tipo de discurso e de regime sociopolítico que, de algum modo, venha a recuperar os
elementos basilares da pax liberal oitocentista.

Introdução

Obras como The Crisis of Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral
Commision, de 1975, e The Future of Freedom: Illiberal Democracy at Home and Abroad, publicada
primeiro como artigo, em 1997, depois como livro, em 2003, revestem uma grande importância.
Nem tanto pelos seus méritos acadêmicos, os quais podem ser bastante discutíveis – especialmente
no que tange ao segundo caso –, mas sim pelo crucial papel que lhes coube e ainda cabe como
geradoras, organizadoras e porta-vozes de um novo consenso que visa desarticular, despolitizar,
domesticar ou, se for permitido o jogo de palavras, desdemocratizar a democracia, em nome de um
movimento que se apresenta como defensor dos direitos e liberdades individuais e do livre mercado.

Em que pese haver quase 30 anos de distância entre a publicação do relatório redigido por Samuel
Huntington, Michel Crozier e Joji Watanuki (1975) e o livro de Fareed Zakaria (2003), os dois
compartilham uma série de pressupostos e de chaves interpretativas que os credenciam como
importantes herdeiros da tradição liberal do século dezenove; uma tradição impregnada por forte
carga elitista e uma indissimulável desconfiança face ao processo de expansão democrática. Em
ambos, para além das particularidades próprias dos diferentes momentos em que foram escritos e dos

1
tópicos específicos abordados em cada um deles, se manifesta com clareza a necessidade de
rediscutir o matrimônio político-conceitual que deu lugar à democracia liberal ou ao mal chamado
“liberalismo democrático”. Tanto no Relatório encomendado pela Comissão Trilateral (CT) quanto
no livro de Zakaria, há um explícito chamamento a repensar a relação entre os dois termos.

Também neles há um forte apelo à necessidade de depurar o regime liberal das excessivas influências
democratizantes, tidas por estes como perigosas ameaças populistas, demagógicas e proto-
autoritárias, tudo em prol de garantir a estabilidade social e a governabilidade, termo este, aliás, que
irrompeu precisamente na linguagem política com a divulgação do próprio relatório da Comissão
Trilateral.

É partindo desse marco, então, que se almeja, com este trabalho, a realização de um exame crítico
das obras citadas, que podem, sem muita controvérsia, ser consideradas como representativas de uma
orientação mais ampla, que ainda goza de grande influência não só dentro dos círculos acadêmicos,
mas também e especialmente fora deles. Uma orientação que vem se alastrando, com muita força e
altos índices de sucesso nos campos político-ideológico, econômico e social, ao longo de todos estes
anos, e que encontra grande espaço em destacadas usinas de pensamento vinculadas às maiores
corporações empresariais do planeta e eco muito favorável, também, nos grandes empórios das
comunicações.

A Comissão Trilateral e sua luta contra os “excessos da democracia”

A Comissão Trilateral (CT) é uma organização privada, criada por iniciativa de David Rockefeller,
principal acionista do Chase Manhattan Bank, em 1973, a partir da proposta que ele próprio lançara
no encontro anual do Grupo Bildelberg, realizado no ano anterior, em Knokke, Bélgica. Segue os
passos trilhados pelo Council for Foreign Relations, só que numa escala maior, pois busca
contemplar o conjunto do planeta na sua defesa e promoção do livre mercado, do direito de
propriedade e da liberdade de comércio, assim como da construção de uma responsabilidade
compartilhada na liderança mundial. A convite do próprio Rockefeller, a Comissão Trilateral teve
por muito tempo no professor Zbigniew Brzezinski (1970), da Universidade de Colúmbia, sua
principal referência. Foi justamente com seu livro Between Two Ages: America´s Role in the
Technetronic Era, publicado em 1970, que Brzezinski antecipou aqueles que seriam os eixos
estruturantes da estratégia político-institucional e das bases do discurso da Trilateral; uma entidade
que congrega representantes das altas finanças, eminentes executivos empresariais, destacados
dirigentes políticos e renomados acadêmicos de diversos países e continentes.

Num primeiro momento, a Trilateral reunia representantes da América do Norte, da Europa


Ocidental e do Japão, país onde teve lugar seu primeiro encontro anual, em 1973. Porém, e conforme
previsto já no momento da sua fundação, a CT foi ampliando o número de países contemplados, mas
sempre mantendo as suas três sedes originais em Washington, Paris e Tóquio. Além das regiões
citadas, eventualmente chegou a ter representantes de outras latitudes, incluindo um brasileiro,

2
Roberto Setúbal, do Banco Itaú, integrante da CT entre 2000 e 2013. Seu maior evento é o encontro
anual, que rota entre as três regiões mencionadas1.

Havendo citado rapidamente estes antecedentes históricos, o que interessa, de fato, particularmente
neste trabalho, é examinar o papel desempenhado por esta entidade no processo de limitação ou
domesticação dos sistemas democráticos, tanto nos países centrais quanto na periferia do mundo
capitalista. Há, nos documentos e posicionamentos públicos da Trilateral, manifestações muito claras
a respeito da questão democrática e dos alvos contra os quais a Comissão combate: a sobrecarga de
demandas e a ampliação da participação política dos setores populares. Ou, apelando para uma
expressão muita cara ao pensamento trilateralista: uma guerra sem trégua contra o que eles
consideram como o “excesso de democracia”; guerra necessária para neutralizar os fatores que, na
concepção da CT, viriam pôr em risco a sobrevivência dos componentes básicos do sistema liberal.

O documento mais completo e representativo desta orientação é, sem dúvidas, o Relatório à


Comissão Trilateral, elaborado por Samuel Huntington, Michel Crozier e Joji Watanuki. Nesse
relatório, e especialmente na parte do texto que ficou sob a responsabilidade de Huntington,
encontram-se os elementos basilares do diagnóstico da Trilateral e das soluções propostas para a
superação da crise, as quais passam pela limitação, cerceamento ou direta liquidação do potencial
emancipador inerente ao projeto democrático. A seguir, então, apresentaremos fragmentos
importantes do Relatório, que nos permitirão apreciar o tipo de relação que os trilateralistas
estabelecem com o ideário democrático.

Assim sendo, vale ressaltar inicialmente certos tópicos abordados por Brzezinski (1975) no prólogo
do relatório. Ali, o destacado estrategista estadunidense de origem polonesa assinala, por exemplo,
que em que pese os autores do relatório considerarem que a democracia está em crise, não o fazem
a partir de uma perspectiva pessimista. Dado que entendem, segundo a benevolente interpretação de
Brzezinski, que uma vez identificados corretamente os obstáculos que esta enfrenta, ela pode
perfeitamente se tornar viável. A ponto de afirmar, ainda nestas primeiras páginas de apresentação,
que o grande objetivo dos seus autores seria o de fortalecer a democracia e fazer com que esta seja
ainda mais democrática (sic), como condição básica para a edificação de um mundo mais cooperativo
e estável. Daí que o citado defenda o exame das premissas e da forma em que funcionam os regimes
democráticos, sempre visando a promoção daquele que deveria ser seu objetivo fundamental: a
combinação de liberdades individuais com estímulos ao progresso social.

No primeiro capítulo, o capítulo introdutório, seus autores advertem que hoje em dia não estão em
dúvida apenas as políticas econômica e militar, mas também a estrutura institucional através da qual
os governos governam. Daí que eles se perguntem se a democracia política seria realmente viável
para os países industrializados. O fazem a partir de um diálogo com muitos outros analistas que, na
época, anunciavam perspectivas desalentadoras para o presente e o futuro da democracia derivadas
das ameaças de desintegração da ordem civil, quebra da disciplina social, enfraquecimento da
liderança e alienação dos cidadãos. E em tal sentido, assinalam que

O objetivo principal deste relatório é o de identificar e


analisar os desafios que enfrenta a democracia no

1
Para os que queiram ter um panorama mais detalhado e boas análises sobre a Comissão Trilateral,
recomendamos consultar ASSMAN, Hugo; SANTOS, Theotônio dos; CHOMSKY, Noam, 1979;
DREYFUSS, 1986; HOEVELER, 2015 e MORO, 2015.
3
mundo de hoje, determinar as bases para o otimismo
ou pessimismo com relação ao futuro da democracia e
sugerir as inovações que forem necessárias e
apropriadas para tornar a democracia mais viável no
futuro. (CROZIER; HUNTINGTON; WATANUKI,
1975, p.3)

Dentre as ameaças que pairariam sobre o presente e o futuro da democracia, eles destacam problemas
e desafios de tipo econômico, político e social, tanto no âmbito interno quanto no campo das relações
internacionais. Para eles, “No presente, um grande desafio à democracia provém de intelectuais e
grupos com eles relacionados que expressam seu desgosto com a corrupção, o materialismo e a
ineficiência da democracia e com a subserviência do governo democrático ao ‘capitalismo
monopolista’” (CROZIER; HUNTINGTON; WATANUKI, 1975, p. 6). É a ação política desses
intelectuais e jovens radicalizados a que mais preocupa aos trilateralistas, na medida em que
encarnariam uma cultura de oposição, difundida nos mais diversos espaços da sociedade. E essa
mudança na cultura política, essa cultura de oposição, que tem lugar numa era de expansão sem
precedentes da educação, levaria a pôr em xeque toda e qualquer fonte de autoridade e de liderança,
minando a legitimidade das instituições estabelecidas. Um tipo de desafio que os trilateralistas
comparam a desafios análogos vindos no passado da aristocracia, do fascismo e dos partidos
comunistas.

Diante deste quadro, os autores do Relatório defendem, de maneira explícita, a necessidade de


controles externos, que coloquem um freio a estas forças, que poriam em risco a própria
sobrevivência do regime democrático. E o fazem invocando figuras como Tocqueville, Lippmann e
Schumpeter, os quais também foram tomados por preocupações análogas. Tal raciocínio permite
entender a afirmação realizada pelos trilateralistas quanto aos riscos que apresenta a extensão do
sistema democrático: “Quanto mais democrático for um sistema, maiores as probabilidades de que
este seja liquidado por ameaças intrínsecas” (CROZIER; HUNTINGTON; WATANUKI, 1975, p.
8). Um tipo de apreciação que bate de frente com a interpretação de Brzezinski acima reproduzida.
E que se complementa com uma outra avaliação, que perpassa todo o relatório, e que diz respeito à
suposta incapacidade do governo de atender a explosão de demandas vindas da sociedade, o que
contribuiria para exacerbar o processo de deslegitimação da autoridade e da política e para agravar
o quadro de falência dos mecanismos de controle social. Ou, nas próprias palavras dos trilateralistas,
um panorama em que “As demandas ao governo democrático crescem, enquanto a capacidade do
governo democrático fica estagnada” (CROZIER; HUNTINGTON; WATANUKI, 1975, p. 9).

Logo depois da introdução, na sequência, vêm os três capítulos monográficos que constituem o
coração do Relatório: um dedicado à Europa Ocidental, redigido por Michel Crozier (1975), outro
focado nos Estados Unidos, escrito por Samuel Huntington (1975), e um terceiro, dedicado a analisar
a crise da democracia no Japão, assinado por Joji Watanuki (1975). Destes três capítulos, o mais
importante e mais difundido é, como dito acima, o texto elaborado por Samuel Huntington, nome de
grande destaque na politologia dominante, tanto nos Estados Unidos quanto em escala internacional.
Nesse capítulo se oferece uma análise bastante detalhada da crise sócio-política que tomou conta dos
Estados Unidos nos primeiros anos da década de 1970, com uma série de reflexões que valem não
apenas para aquele país, mas que podem ser de grande valia, também, para todo aquele que queira
examinar qual era a leitura que os setores dominantes da Ciência Política norte-americana e mundial
faziam do que vinha acontecendo na mesma época em outras latitudes.

4
Concretamente, Huntington (1975) inicia o texto tecendo uma série de considerações sobre o que ele
chama de forte revigoramento do espírito democrático experimentado pelos Estados Unidos nos anos
´60 do século passado e o consequente desafio que isto implica para as autoridades estabelecidas no
campo político, econômico e social. Segundo o acadêmico estadunidense, nesses anos o país teria
assistido a uma forte onda de participação e mobilização cidadã, incentivada por um crescente
espírito de protesto e de aspiração à igualdade, uma espécie de ressurgimento do igualitarismo
democrático com características análogas àquele que tanto preocupou Aléxis de Tocqueville (1977)
no seu tempo.

A questão central, para Huntington, é que “A vitalidade da democracia nos EUA nos ´60 produziu
um substancial aumento da atividade governamental e uma substancial diminuição da autoridade
governamental” (HUNTINGTON, 1975, p. 64). Todo o qual geraria grandes dúvidas sobre a
solvência financeira e política do governo para lidar com esse aumento das demandas, num contexto
de perda de autoridade do próprio governo. Tal apreciação provoca, então, a pergunta chave em torno
da qual gira não apenas o texto de Huntington mais o conjunto do Relatório sobre a “Crise da
democracia”: “O aumento da vitalidade da democracia necessariamente deve levar a uma diminuição
da governabilidade da democracia?” (HUNTINGTON, 1975, p. 64)

Este diagnóstico se completa, páginas mais adiante, com uma frase que talvez seja a mais elucidativa
de todo o relatório. É aquilo que argui Huntington quando busca se contrapor às analises marxistas
da crise (ou as que ele chama, com evidente ironia, de neo-neo-marxistas): “Os neo-neo-marxistas
ao estilo de James O`Connor (The Fiscal Crisis of the Capitalist State, 1973) identificam a expansão
do gasto social como sendo a fonte da crise fiscal do capitalismo. Porém, o que os marxistas
equivocadamente atribuem ao capitalismo é, de fato, produto da política democrática”
(HUNTINGTON, 1975, p. 73). Nesta frase aparece, de modo muito nítido, o alvo contra o qual
Huntington e companhia se insurgem no intuito de salvarem o capitalismo: a própria democracia.

Para Huntington, a expansão do Estado de Bem-Estar Social é fruto da maior participação política e
do surto de democracia e igualitarismo dos anos ´60. Eis os elementos explicativos que levam à crise
sócio-econômica de começo dos ´70. “A essência da onda democrática dos anos ´60 foi um desafio
geral aos sistemas de autoridade existentes, públicos e privados. De uma forma ou de outra, este
desafio se manifestou na família, na universidade, nas empresas, nas associações públicas e privadas,
na política, na burocracia governamental e nas Forças Armadas” (HUNTINGTON, 1975, p. 74-75).

A autoridade derivada da experiência, da idade, do status e do talento perde força. O que se reflete,
de forma mais específica no caso do âmbito da política, num declínio na confiança nos
representantes, governantes e instituições. Ou seja: a vitalidade democrática dos anos ´60 seria a
principal responsável pelos problemas de governabilidade que viria enfrentar a democracia na década
seguinte. E mais uma vez insiste no ponto, quando sustenta que “As causas imediatas da simultânea
expansão da atividade governamental e do declínio da autoridade governamental se encontram no
surto democrático dos anos ´60” (HUNTINGTON, 1975, p. 106). Para Huntington, a onda
democrática daqueles anos teria incentivado uma cidadania politicamente mais ativa e ideologizada,
o que por sua vez teria propiciado uma crescente desconfiança nas instituições e lideranças políticas,
incluindo a própria presidência norte-americana.

Interessante resulta também observar que este processo de expansão democrática, na ótica do
responsável pelo capítulo estadunidense do Relatório, teria encontrado terreno fértil nas tendências
estruturais que apontavam para uma sociedade pós-industrial, na qual passavam a prevalecer maiores

5
níveis de afluência e de educação. Isto significaria – poderíamos perguntar – que a solução para a
“crise” da democracia, na leitura de Huntington e parceiros, passaria provavelmente por uma
reversão das conquistas sociais e educacionais alcançadas especialmente pelas classes populares?2

A resposta acabou sendo dada, na prática política concreta, pelos neoliberais, os quais, a partir dos
anos ´70, na medida em que iam assumindo o governo de um número cada vez maior de países,
encaravam de modo entusiasta um combate sem trégua contra os direitos e conquistas sociais. Em
que pese a importância de tais vínculos, estes, em geral, têm sido menosprezados e pouco abordados
na literatura. O que é de se lamentar, pois uma exploração mais atenta das relações entre os
trilateralistas e os defensores do receituário neoliberal nos permitiriam ver até que ponto os primeiros
propiciaram a gestação de um clima político e de uma justificativa ideológica que possibilitou,
poucos anos mais tarde, a irrupção dos neoliberais em postos chave de governo e a execução de
planos que precisamente almejavam uma brutal reestruturação da ordem capitalista que exigia, dentre
outras coisas e como desafio prioritário, o recorte dos direitos sociais das classes populares e a
redução (ou até eliminação, nos casos mais extremos) dos regimes liberal-democráticos.3 Mas
deixemos, por enquanto, esta questão em suspenso para passarmos às conclusões do capítulo acima
citado, as quais permitirão identificar indícios que nos aproximem ainda mais da resposta às questões
até aqui apresentadas.

É nas conclusões onde, depois do diagnóstico realizado, Huntington oferece uma série de “soluções”
que reestabeleceriam o “equilíbrio” democrático perdido. Aliás, o próprio título da seção incorpora
esta ideia: “Conclusões: rumo a um equilíbrio democrático”. A proposta fundamental, nestas páginas
finais do capítulo, consiste em recuperar o equilíbrio entre a vitalidade e a governabilidade na ordem
democrática. O que se alcançaria, segundo Huntington, com o exercício da moderação.
Estabelecendo um contraponto com o dirigente democrata Alfred Smith, o autor sob análise afirmara:

Al Smith uma vez remarcou que ´a única cura para os males da


democracia é mais democracia´. Nossa análise sugere que a
aplicação desta cura na situação atual viria agregar combustível às
chamas. No lugar disto, alguns dos problemas de governabilidade
nos EUA de hoje provém de um excesso de democracia – um
‘excesso de democracia’ no mesmo sentido em que David Donald
usou o termo para se referir às consequências da revolução
jacksoniana, a qual ajudou a precipitar a Guerra Civil. É

2
Esta preocupação nos faz lembrar de uma reflexão análoga que formulara Bernard Mandeville, em outro
contexto histórico quando, em sua “A fábula das abelhas” afirmava que “se um cavalo tivesse tanto
conhecimento quanto um homem, eu não teria o menor desejo de montar nele”, querendo dizer com isto
que os trabalhadores, se educados, poderiam se tornar perigosos para a ordem dominante, daí a defesa
que ele fazia da não escolarização das classes subalternas.
3
Eliel Ribeiro Machado é um dos poucos que chama a atenção para este assunto, num texto apresentado
no Oitavo Encontro da ABCP, em 2012. Nele, Machado assinala a forte convergência de diagnósticos e
receitas que operou entre os trilateralistas e figuras como Hayek (MACHADO, 2012). Concretamente
Machado (2012, p.4-5) assinala que “Embora Anderson sustente que o escopo teórico do neoliberalismo
se encontra, fundamentalmente, nas formulações de Hayek, em O caminho da servidão, consideramos,
por outro lado, o relatório da Comissão Trilateral a síntese político-ideológica das forças neoliberais com
capacidade político-militar de impor o novo padrão de acumulação capitalista sobre as demais classes e
frações de classe não-hegemônicas e opostas ao projeto neoliberal”.
6
necessário, em lugar disto, um maior grau de moderação na
democracia. (HUNTINGTON, 1975, p.113)

E ainda se referindo à necessidade da moderação, Huntington assinalava que esta, na prática, teria

[...] duas áreas principais de aplicação. Em primeiro lugar, a


democracia é apenas uma das formas de constituir a autoridade, e
não é necessariamente aplicável de modo universal. Em muitas
situações critérios de conhecimento, senioridade, experiência e
talentos especiais podem se sobrepor aos reclamos da democracia
como forma de constituir a autoridade. Durante o surto dos ´60,
entretanto, o princípio democrático se estendeu a muitas
instituições onde este poder, no longo prazo, unicamente frustra os
propósitos daquelas instituições. Uma universidade onde a
indicação dos professores deve ser aprovada pelos estudantes pode
ser uma universidade mais democrática, porém não por isso passa
a ser uma melhor universidade [...] As arenas onde os
procedimentos democráticos são apropriados são, em síntese,
limitadas. [...] Em segundo lugar: a operação efetiva do sistema
político democrático habitualmente exige alguma medida de
apatia e de não envolvimento por parte de alguns indivíduos e
grupos [...] Esta marginalização de alguns grupos é inerentemente
antidemocrática, mas tem sido também um dos fatores que
possibilitou que a democracia funcionasse efetivamente
(HUNTINGTON, 1975, p.113-114)

Resulta aqui mais do que oportuno comparar as prescrições de Huntington com as receitas defendidas
por outros renomados cientistas políticos, muito atuantes naqueles anos. É o caso, por exemplo, de
Almond e Verba (1963), com seu famoso The Civic Culture, cuja primeira edição data de 19634.
Naquele livro, tantas vezes citado nos EUA e alhures, a ponto de poder considerá-la como verdadeira
obra-fetiche entre os cientistas políticos que trabalham com o tema da cultura política, há várias
passagens que revelam uma forte proximidade com o diagnóstico e as propostas huntingtonianas.
Em tais passagens há reiteradas recomendações que visam o equilíbrio e a moderação, frente aos
riscos que implicaria para a estabilidade do sistema político – na opinião dos autores – uma
participação muito elevada ou “excessiva”. Mesmo considerando a importância do
comprometimento e informação da cidadania nos e sobre os assuntos públicos, tal comprometimento
e interesse, para Almond e Verba, não deveriam ser elevados demais, pois passariam a operar como
um verdadeiro obstáculo para o tranquilo desenrolar do processo democrático, dificultando às elites
o seu trabalho de governar. É por isto que, para Almond e Verba, o sistema que aponte ao bom
governo deve saber alcançar, nas doses certas, um bom balance entre responsabilidade e
governabilidade, ou entre legitimidade e eficácia.

Porém, o mais assustador não é isso, e sim a declaração realizada pelos próprios autores no sentido
de admitir que tal equilíbrio muito bem poderia ser alcançado a partir da própria divisão social,
segundo a qual corresponderiam aos melhor situados socialmente uma maior quota de participação

4
Este texto foi alvo da nossa crítica em um texto publicado no vol. 10 da revista Tomo (VITULLO,
2007a).
7
e responsabilidade na administração da coisa pública, em contraposição àqueles setores situados nos
degraus inferiores da pirâmide social, privando-os de todo estímulo à participação, chegando, em
alguns casos, a sua exclusão, na prática, até dos processos eleitorais. Isto, de fato, é o que acontece
com o sistema eleitoral dos Estados Unidos: um sistema que visa desestimular as classes populares
a participar do processo político, incluindo o próprio ato de votar5.

A tese da benevolência da apatia cidadã aparece também em outras obras da mesma época. É o que
acontece com outro texto do próprio Huntington, anterior ao que aqui vem sendo abordado: Political
Order in Changing Societies, de 1968. Ou ainda, antes destas obras, nos textos de Berelson et al.
(1954), Key (1961) e Milbrath (1965). Todos eles convergem na sua aberta defesa da apatia cidadã
como requisito básico para uma ordem democrática viável e estável.

Pode-se recordar, ainda, a obra The Political Man, de Lipset (1981). Nela o cientista político norte-
americano mostra-se preocupado com o perigo que representa a irrupção das pessoas comuns no
sistema político, pondo em xeque o próprio sistema democrático. Para Lipset, as pessoas oriundas
dos setores populares estariam fortemente dominadas pelos impulsos, a ignorância, a irracionalidade
e propensões autoritárias. Em função de tal motivo, a melhor forma de tentar assegurar a estabilidade
e permanência do regime democrático residiria em depositar a confiança na capacidade de decisão
das elites dirigentes. O que levaria a entender que figuras como Lipset não tenham problema em
afirmar que a baixa participação na vida pública não apenas seria inevitável quanto altamente
desejável para a preservação do sistema democrático.

E não podemos nos furtar a mencionar outro autor, nesta rápida e esquemática comparação que,
mesmo fazendo parte, aparentemente, de outra tradição política, acaba concordando com as teses e
receitas centrais destes autores emblemáticos da politologia estadunidense. Fazemos referência, aqui,
a Norberto Bobbio, uma figura em geral vista como mais simpática à expansão democrática e à
conquista de sociedades menos desiguais. Grande pode ser a surpresa, para alguns – especialmente
para aqueles que não contam com uma leitura muito aprofundada do mestre italiano –, ao constatar
que Bobbio afirmou coisas como “Nada ameaça mais matar a democracia que o excesso de
democracia” (BOBBIO, 2006a, p. 39), frase muito importante contida no célebre “O futuro da
democracia”. Ou, então, esta outra, que assinala que “a apatia política não é de forma alguma um
sintoma de crise de um sistema democrático, mas, como habitualmente se observa, um sinal da sua
perfeita saúde: basta interpretar a apatia política não como recusa ao sistema, mas como benévola
indiferença”. (BOBBIO, 2006a, p. 82). São frases, ambas, quase idênticas àquelas originárias da obra
dos demais autores acima citados.

Assim sendo, caberia se perguntar até que ponto seria correto situar Norberto Bobbio num espaço
alternativo ao das correntes dominantes. Poderia se afirmar, com segurança, que o intelectual italiano
seria, de fato, um autor importante no campo das escolas participacionistas da democracia? Pelo visto
nestes últimos parágrafos, a resposta só pode ser negativa.

Isto permite compreender, também, o porquê da defesa do governo misto, feita por Huntington, que
considera que o mesmo se expressa na Constituição de 1787 (HUNTINGTON, 1975, p.114), ainda
vigente. O que coincide com sua apreciação no sentido de assinalar que “Nos EUA faltam elementos
que contrabalancem os princípios democráticos” (HUNTINGTON, 1975, p.114). Ainda permite, na

5
Vale a pena, neste sentido, consultar a interessante obra de Alexander Keyssar (2000), The right to
vote, livro no qual o tema é abordado com grande maestria e exaustividade.
8
mesma linha, contextualizar melhor as seguintes frases: “A vulnerabilidade do governo democrático
nos EUA provém não principalmente de ameaças externas, [...] mas da própria dinâmica interna da
democracia numa sociedade altamente educada, mobilizada e participativa” (HUNTINGTON, 1975,
p. 115) ou esta outra: “Um valor que é normalmente bom por si próprio, não é necessariamente
otimizado quando maximizado” (HUNTINGTON, 1975, p.115) ou também “[Devemos reconhecer
que] há limites potencialmente desejáveis para a indefinida extensão da democracia política [pois] a
democracia terá uma vida mais longa se tiver uma existência mais balanceada” (p. 115)

Dos outros capítulos, vale resenhar, de forma bem mais condensada, algumas das apreciações feitas
por Michel Crozier (1975) sobre as democracias europeias, as quais, segundo ele, estariam tomadas
por um crescente sentimento de ingovernabilidade, derivada do fato das demandas e pressões
contraditórias vindas da sociedade, que colocam em xeque os governos e o sistema político como
um todo. Dito em outros termos, para Crozier, estaríamos diante de sistemas políticos com governos
fracos, ambos desbordados por demandas e excesso de participantes, em cenários cada vez mais
complexos. E aqui aparece a questão da democracia: na medida em que as democracias assumem um
caráter aberto, algo que é em tese positivo, acaba muitas vezes atrapalhando, gerando grandes quotas
de irresponsabilidade cívica, frustração política e quebra do consenso de pós-guerra.

O tema do progresso material também aparece, quando Crozier sustenta a tese de que o progresso
material, em lugar de dissipar as tensões, parece exacerbá-las, num âmbito de uma maior interação
humana e maior pressão social. Outra preocupação recorrente no capítulo redigido pelo responsável
pela seção europeia do Relatório da CT diz respeito a uma maior ideologização no seio das classes
trabalhadoras, impulsionada por partidos e grupos que se aproveitam da frustração, da alienação
política e da anomia crescente, principalmente entre os jovens, para conseguir uma maior
mobilização social. Tudo isto traria consequências disruptivas da ordem social, maior volatilidade
no processo de tomada de decisões e um controle social cada vez mais frouxo.

No mesmo capítulo, Crozier considera que a Europa estaria frente a uma crise multidimensional: de
identidade, de autoridade, de reconhecimento social, o que configuraria um quadro de grandes
incertezas, com maiores brechas e maiores quotas de frustração derivadas de maior educação e menos
oportunidades efetivas de ascensão social. O preocupa especialmente certo niilismo apocalíptico, que
tomaria conta de certos grupos, em países que estão em transição rumo a uma sociedade pós-
industrial. Grandes responsáveis disto tudo seriam o sistema educacional, o sistema midiático e a
própria democracia.

Fareed Zakaria e o perigo das “democracias iliberais”.

Nos textos até aqui analisados resta evidente que, para seus autores, a democracia traz atrelada uma
série de riscos que dizem respeito, de modo mais explícito, à governabilidade do sistema político,
mas que também se referem à vigência dos direitos e liberdades individuais. Quem aprofundará nesta
linha argumentativa, retomando e atualizando boa parte de ditas teses, será Fareed Zakaria (1997;
2003). Nos seus escritos, ele faz as mesmas recomendações apregoadas pelos teóricos da CT,
direcionadas para a diminuição do poder da “plebe”, o recorte dos espaços de participação
democrática e o controle da proliferação das demandas populares.

No seu livro “O futuro da liberdade”, Zakaria (2003) começa exaltando a expansão da democracia
no mundo, a qual, segundo seus cálculos, alcançaria (em base a dados dos anos ´90), 62% dos países

9
do globo terrestre. Para além do escopo territorial conquistado pela democracia, o autor assinala,
também, que o capitalismo estaria vivenciando um salutar processo de democratização (sic),
principalmente devido à ampliação da classe média, que passa a ganhar o status, na sua leitura, de
classe social e politicamente mais poderosa, mesmo mais poderosa que o pequeno grupo de
indivíduos situados no topo da pirâmide social mundial. Esta tendência democratizante levaria a que
o número se sobrepujasse à qualidade, ou, em palavras do próprio Zakaria, ao domínio do “quantos”
sobre o “quem”. Eis aqui um ar de família bastante evidente, que associa Zakaria ao pensamento de
Tocqueville, no século XIX, e à politologia hegemônica do século XX e da presente centúria: a
lamentação de tom aristocrático frente ao avanço de setores médios e populares, um avanço que ao
não poder ser evitado, caberia, ao menos, tentar regulamentar, custodiar ou limitar.

Reflexões como estas, e principalmente aquela que diz respeito a uma suposta “democratização do
capitalismo”, causam uma certa estranheza, dado o contraste entre o quadro pintado pelo autor e a
concretude das amarguras da vida real. Mais estranheza ainda desperta esta outra afirmação, presente
nas páginas iniciais da obra que estamos analisando: “A ascensão e o domínio dos Estados Unidos
no mundo – um país cuja política e cuja cultura são profundamente democráticas – tem feito com
que a democratização pareça inevitável” (ZAKARIA, 2003, p.13). Perplexos diante desta sentença
poderíamos nos perguntar se se trata de um otimismo ingênuo ou, ao contrário, de um cinismo
descarado, tal a gritante contradição que se estabelece entre o mundo realmente existente e a
interpretação que o autor oferece sobre a natureza e a situação da política interna e externa dos
Estados Unidos; uma interpretação que passa ao largo do perigosíssimo papel que representa o
belicismo imperial estadunidense para o conjunto da humanidade e do nosso lar, o planeta Terra.
Mas devemos deixar tal pergunta de lado, pois não se trata aqui de fazer qualquer exame de caráter
psicologizante e sim observar a função que, de fato, desempenham estes discursos na legitimação de
um processo que, por um lado visa se congratular pela expansão da democracia e, ao mesmo tempo,
por outro lado, busca esvaziá-la de todo e qualquer significado mais robusto, vinculado a uma
democracia vista como sinônimo de emancipação humana e de autogoverno popular.

Um dos tópicos centrais de “O futuro da liberdade” diz respeito ao tema das, por ele chamadas,
“democracias iliberais”. Não por acaso, estas apareciam no próprio título do artigo publicado na
Foreign Affairs que, posteriormente, se converteria no livro sob análise. Para Zakaria, diante da
encruzilhada de ter de escolher entre um regime liberal não democrático e uma democracia não
liberal, sem qualquer dúvida deve-se optar pelo primeiro. Também aqui podemos encontrar um forte
ar de família, desta vez com as teses de Hayek e Friedman, não apenas em termos teóricos, mas
também no terreno bem prático, como quando os dois ícones do neoliberalismo saiam publicamente
a defender, de maneira entusiasta, a brutal ditadura pinochetista, no Chile. Assim sendo, para Zakaria
se houver risco do surgimento de uma democracia iliberal, o antídoto a adotar passaria pelo urgente
fortalecimento da face liberal, em detrimento da outra face, da face democrática – chegando, em
situações extremas, a sua direta eliminação. Dito em outros termos: a receita se resume a “mais
liberdade (vale agregar: sempre é bom perguntar para quem) e menos participação popular no
processo político”.

Na hora de justificar suas escolhas, Zakaria (2003, p.15) considera que

[...] como qualquer outra transformação em grande escala, a


democracia tem seu lado escuro, embora poucas vezes falamos
disso. Fazer isto nos exporia à imediata acusação de não estarmos
à altura dos tempos, mas isso significa que nunca nos detivemos a

10
refletir sobre estes temas. Se nos deixarmos silenciar pelo medo a
sermos tachados de antidemocráticos, não poderemos entender os
problemas aos que pode dar lugar uma ilimitada democratização
das nossas vidas. Damos por fato que a democracia nunca será
perniciosa, fazendo com que diante de conflitos sociais, políticos
e econômicos derivemos as culpas a um e outro lado, desviando
dos problemas, evitando dar respostas e nos abstendo de falar
sobre a grande transformação situada no centro de nossas vidas
políticas, econômicas e sociais.

E mais uma vez, numa declaração de nítidas conotações tocquevilleanas, Zakaria afirma que “A
democracia floresce, ao passo que não acontece o mesmo com a liberdade” (ZAKARIA, 2003, p.16).
Isto seria indício, para o autor, de que a fusão que uniu a democracia e a liberdade de modo bem-
sucedido ao longo do meio século que sucedeu à Segunda Guerra Mundial, hoje estaria se
desmanchando. E, forçados a escolher, como dito acima, ele claramente opta pela segunda. Cabe
uma ressalva importante: o autor, com grande habilidade no uso da retórica, busca estabelecer uma
relação de sinonímia entre liberdade e liberalismo; relação, esta, a todas luzes questionável, tanto em
termos históricos quanto em termos teórico-conceituais. Se aceitássemos tal relação, isto nos levaria
a considerar que a liberdade não mais seria um valor inerente ao projeto democrático, na linha da
argumentação liberal desenvolvida por figuras como Tocqueville ou Benjamin Constant.

Porém, o desejo expropriatório face à democracia vá, nas mãos de Zakaria, ainda mais longe. Ele
chega ao ponto de sugerir que até os direitos sociais, políticos, econômicos ou religiosos não teriam
por que fazer parte de uma definição básica da democracia (ZAKARIA, 2003, p. 17). Tal dissociação
faz sentido e mostra-se muito útil, pois lhe possibilita sindicar mais comodamente o conceito
schumpeteriano como aquele que haveria de ser o mais adequado para definir o fenômeno
democrático.

Mencionamos antes a curiosa afirmação de Zakaria sobre o caráter profundamente democrático do


sistema político norte-americano. Páginas mais adiante, entretanto, o autor dirá, incorrendo em
contradição com a observação anterior, que “O que caracteriza o sistema estadunidense não é o fato
de ser muito democrático, mas de sê-lo muito pouco, devido às múltiplas restrições que impõe às
maiorias eleitorais” (ZAKARIA, 2003, p. 21). E para exemplificar cita, de modo altamente elogioso,
a Corte Suprema e o Senado, duas instituições que viriam contrabalançar a própria democracia,
seguindo a lógica do sistema misto de governo. Não casualmente, dos dois mecanismos institucionais
cristalizados pelos Federalistas no texto constitucional de 1787, destinados justamente a neutralizar
a participação política das classes trabalhadoras e populares.

E mais uma vez se fazem presentes as lamentações pelos tempos idos. Na ótica de Zakaria, hoje em
dia esses controles não mais estão funcionando, frente à perigosa tendência dos poderes públicos
estabelecidos a se ajoelhar diante da opinião pública. Preocupação análoga à dos liberais do século
XIX já citados, aos quais podemos somar também o nome de John Stuart Mill. Para Zakaria, o
Congresso estadunidense vem se tornando muito susceptível às pressões dos eleitores – valeria
refletir: será que as pressões vêm dos eleitores, mesmo, ou, na verdade, elas provêm essencialmente
das grandes corporações? A tirania das pesquisas traz, para o autor, uma enorme dose de volatilidade
e instabilidade no processo de tomada de decisões, afetando seriamente os rumos governamentais.
Uma tirania que se expressa no fato de “Os lugares comuns possuírem a força de uma revelação

11
bíblica quando são adscritos ao povo estadunidense” (ZAKARIA, 2003, p. 24). Trata-se de processos
análogos àquilo que para os trilateralistas levava o nome de “Crise de governabilidade”.

Daí que, para Fareed Zakaria, seja necessário lançar mão de mecanismos que permitam a edificação
de uma “democracia regulada e representativa”, em oposição a qualquer proposta de democracia
direta e sem entraves. Uma democracia que responda àquilo que Aristóteles chamava de “regime
misto” (ZAKARIA, 2003, p. 25). Um regime que almeja “temperar as paixões, educar os cidadãos,
guiar a democracia e, portanto, garantir a liberdade” (ZAKARIA, 2003, p. 26). E, para dissipar
qualquer dúvida, agrega ainda:

Este livro e um chamamento ao autocontrole e a um retorno ao


equilíbrio entre a democracia e a liberdade. Não contém uma
argumentação contra a democracia, mas afirma que pode existir
algo como um excesso de democracia, um excesso de algo
categoricamente bom. […] As sociedades democráticas precisam
de amortecedores e guias, desenhadas para os problemas e os
tempos atuais (ZAKARIA, 2003, p. 26).

Outra vez se faz presente, de modo meridiano, a advertência dos teóricos da Comissão Trilateral e
de figuras como Bobbio. Como, na avaliação de Huntington, o problema radicava no excesso de
participação, “a receita, portanto, era diminuir a democracia – para salvar a democracia da própria
democracia!” (HOEVELER, 2013).

Sob esta perspectiva, faz todo o sentido, também, que Zakaria se some à legião de cientistas políticos
que, nas últimas décadas, vêm alimentando o mito da via anglo-americana para a democracia liberal:
uma via supostamente sem conflitos nem grandes conturbações, onde o gradualismo impera como
garante da propriedade e da liberdade. Algo que estaria em contraste com caminho sangrento e
tortuoso rumo à democracia liberal percorrido na Europa Continental. Aquilo que nas palavras de
Tocqueville (1977) rezava: “A grande vantagem dos estadunidenses consiste em que têm chegado a
alcançar um Estado democrático sem ter tido que sofrer uma revolução democrática”. Afirmamos
que é um mito, pois o relato não resiste a uma revisão histórica minimamente séria; uma revisão que
permitiria perceber que a antítese defendida por Zakaria e muitos outros antes dele dista de ser tão
clara ou tão evidente, na medida em que omite conflitos de grande monta acontecidos na Inglaterra
e nos próprios Estados Unidos. Mas fora o debate historiográfico, o importante aqui é perceber que,
na escolha dos exemplos, o que se busca é reforçar a dimensão liberal do regime, condenando os
excessos que supostamente traria atrelada a dimensão democrática. Algo semelhante ao que fizeram
legiões de transitólogos e consolidólogos, na nossa América Latina, quando buscavam exaltar os
regimes orientados a uma transição “lenta, gradual e segura” rumo à democracia 6. E algo análogo,
também, ao que faz Bobbio (2006b) ao defender a suposta convergência “histórica” e “natural” entre
o liberalismo e a democracia.

Interessante é notar que Zakaria, entre os vários autores em que se apoia para desenvolver sua
argumentação, recorre a Jacob Talmon (1952). Aquele que cunhou a expressão “Democracia
totalitária”, no livro com esse mesmo título, e no qual se expressa uma insistente tentativa de

6
Para uma análise mais aprofundada deste tema, tomamos a liberdade de sugerir aos interessados que
consultem o livro “Teorias da democracia e democratização na Argentina contemporânea” (VITULLO,
2007b).
12
desqualificar a experiência jacobina, definindo-a como uma democracia negadora das liberdades
individuais e, portanto, totalitária. Seguindo os passos de Talmon, Zakaria dirá que a jacobina será a
primeira experiência, na história, de democracia não liberal. Um tipo de democracia onde as eleições
constituiriam uma simples coartada para o populismo e o autoritarismo. Já podemos imaginar que na
lista de países que integram o universo das democracias iliberais um dos exemplos mais recorrentes
é o da Venezuela, alvo privilegiado dos ataques proferidos pelo Império estadunidense, dos quais
costumam se fazer eco importantes correntes da politologia contemporânea dominante.

Vale destacar, no sentido do acima expressado, que a ocupação de tal espaço e a conquista desse eco
não são resultados do acaso, mas frutos de uma deliberada estratégia política adotada pelos grandes
centros do poder mundial. No caso Zakaria, cuja obra também é alvo privilegiado da presente
pesquisa, resulta oportuno mencionar que foi discípulo de Huntington e, como tal, adotou a mesma
perspectiva político-ideológica do seu mestre. Todavia, sem ter conseguido alcançar a estatura
intelectual do seu mentor, Zakaria optou por privilegiar sua inserção no espaço midiático, em
detrimento do âmbito acadêmico: ele vem atuando há vários anos como colunista da revista
Newsweek, assim como conta, também, no mundo televisivo, na rede CNN, com seu próprio
programa de política internacional.

Algumas reflexões finais

O foco da análise aqui proposta esteve orientado ao exame da interpretação que fazem da questão
democrática os autores mencionados e à investigação da relação que eles estabelecem entre esta e a
doutrina liberal. Tal exame é de grande importância, não apenas porque ajuda a clarificar questões
de índole conceitual, mas porque pode oferecer subsídios que permitam um melhor entendimento do
que significam os pouco encorajantes regimes “democráticos” da atualidade. E inclusive porque pode
fornecer instrumentos que facilitem a observação dos seus traços predominantes. Na análise, buscou-
se ressaltar os fortes vínculos que unem a todos estes autores entre si. Mas indo além, procurou-se,
também, chamar a atenção para as semelhanças que se verificam ao comparar certos nós temáticos
presentes na obra destes autores com tópicos trabalhados por renomados clássicos do pensamento
liberal do século XIX. Todo o qual nos permitiu, mesmo que de forma muito esquemática, apreciar
a linha de continuidade que existe entre os liberais de ontem e de hoje quando do que se trata é de
caracterizar e definir o tipo de democracia que estão dispostos a aceitar, ou, pelo menos, a tolerar:
uma democracia limitada, acanhada, restrita, que não coloque em risco o “sacrossanto” direito de
propriedade nem a liberdade mercantil.
Em momentos em que, de modo salutar, cresce na ciência política – ou mais especificamente na
teoria política – a preocupação por recuperar os necessários vínculos que devem unir a democracia
enquanto ideário, horizonte de realização humana e forma de organização sócio-política com o
princípio da igualdade, consideramos, portanto, oportuno observar a força com que conta o
movimento contrário: aquele que insiste em desassociar a democracia de todo e qualquer ideal
igualitário, agitando como justificativa para tal campanha o fantasma da “sobrecarga de demandas”,
nos anos ´70, e seu equivalente funcional na atualidade, o espectro das democracias “iliberais”. Esse
movimento que encontra na Trilateral uma das suas principais precursoras, sendo, como é, um dos
primeiros think tanks ou usinas de pensamento a serviço do grande capital e que conseguiu instalar,
no debate público, questões como a “crise de governabilidade” e o “excesso de participação e de
democracia”, que vem se expandindo ou ramificando, sem solução de continuidade, ao longo dos
últimos 40 anos.

13
E antes de encerrar esta apresentação, considera-se oportuno sublinhar um fato que não por evidente
deve ser considerado como menos importante. Tem a ver com a perspectiva epistemológica e
metodológica aqui adotada. Uma perspectiva que assumiu um caráter inegavelmente normativo.
Caráter que, diga-se de passagem, impregna também as obras que aqui foram objeto de análise. Eis
uma coincidência do trabalho aqui apresentado com o perfil que assumem os próprios textos que
foram alvo da crítica. Mas não é a única. Há também outra coincidência que diz respeito à busca da
desnaturalização da união dessas duas expressões ou termos acima mencionados (liberalismo e
democracia), além da problematização e do questionamento de tal associação. É bom frisar, todavia,
que os pontos de contato chegaram até aqui e não teriam como ir mais longe. Isto porque o intuito
dos autores do Relatório da Trilateral, assim como acontece também com o objetivo perseguido pelo
autor de O futuro da liberdade, é o de reafirmar tudo aquilo que de liberal têm os regimes políticos
contemporâneos e, concomitantemente, o de restringir seu conteúdo democrático (embora sem
qualquer disposição para abrir mão do uso e abuso da expressão “democracia”, principalmente pela
utilidade que os liberais nela percebem como bem-sucedida peça de marketing). Já o propósito
buscado com este trabalho, na contramão do que almejam aqueles, apontou exatamente na direção
oposta: visou denunciar o sequestro a que se vê submetida a democracia em mãos do liberalismo,
esperando poder prestar alguma contribuição na tarefa nada simples e extraordinariamente
desafiadora de reconstrução de uma democracia entendida como autogoverno popular, que venha a
ser redefinida, sem medos nem meias-palavras, como uma democracia não liberal, post-liberal ou,
melhor ainda, como uma democracia praeter-liberal; em síntese: uma democracia que, ao
transcender os estreitos limites impostos pelo liberalismo, consiga desenvolver de um modo muito
mais pleno seu potencial emancipador.

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