Você está na página 1de 756

PETER SPARKS

A VERDADE
Sobre a Verdade

Volume único trazendo três obras de


Peter Sparks:

Por que a Bíblia não é a palavra de


Deus,
Mitos, contradições e erros bíblicos
e
Jesus: a verdade por trás do mito
Copyright © 2013 – Peter Sparks
Todos os Direitos Reservados.
Esta obra não pode ser copiada,
reproduzida e/ou veiculada, no todo ou
em parte, por quaisquer meios físicos ou
eletrônicos, sem a prévia autorização
expressa do autor.

CDD-220.231.232
ASIN: B00BID3XSE

Pólus Editora
Contato: poluseditora@hotmail.com
1ª Edição - 2013
Sumário
LIVRO 1 POR QUE A BÍBLIA NÃO É A
PALAVRA DE DEUS
INTRODUÇÃO
CONFERE COM O ORIGINAL?
ALGUNS DOS MAIS ANTIGOS MANUSCRITOS
DA BÍBLIA
“TODA ESCRITURA É DIVINAMENTE
INSPIRADA”, DISSE PAULO
LUCAS CONFESSA QUE NÃO ESCREVIA POR
INSPIRAÇÃO DIVINA
EQUÍVOCOS NA BÍBLIA
DOZE ARGUMENTOS FRÁGEIS A FAVOR DA
BÍBLIA COMO PALAVRA DE DEUS
1. A própria Bíblia diz que ela é a palavra de Deus
2. A Bíblia não possui erro algum
3. A Bíblia é o livro mais antigo do mundo
4. Os erros e contradições da Bíblia não afetam a
sua mensagem divina
5. A Bíblia é o livro mais vendido (ou o mais lido) do
mundo
Sobre ser o livro mais vendido
Sobre ser o livro mais lido
6. A Bíblia possui “perfeita harmonia” e unidade
entre seus livros
Desarmonias entre um livro e outro
Paulo foi ou não foi a Jerusalém?
Algum homem já viu Deus?
Alguém já subiu ao céu?
Desarmonias dentro de um mesmo
livro
Quantos animais Noé deveria colocar
na arca?
As mulheres falam ou não falam nas
igrejas?
Não matarás!
Desarmonia entre dois livros de um
mesmo escritor
7. A Bíblia promove extraordinárias experiências de
transformação interior
8. A Bíblia é um livro de profecias. Umas já se
cumpriram; outras, estão por se cumprir
Uma “inteligência superior” não é,
necessariamente, o Deus da Bíblia
Profecias confusas e não cumpridas
Algumas profecias bíblicas que não
se cumpriram
A volta “breve” de Jesus
Profecia ao sumo sacerdote (de
autoria atribuída ao próprio Jesus)
Todo olho verá? (envolvendo,
também, profecia de autoria
atribuída a Jesus)
Profecia aos que creem (de autoria
atribuída ao próprio Jesus)
A riqueza de Salomão
Sobre a ruína de Damasco
O homem deveria viver apenas até
120 anos
As águas do Egito deveriam secar-se
O trono de Davi deveria ser eterno
9. A Bíblia possui os Dez Mandamentos, que são as
leis de Deus
Não cobiçar a mulher do próximo
A escravidão é permitida
Existência de vários deuses é
confirmada
10. Jesus confirmou as Escrituras
Não matarás
O divórcio
O juramento
Olho por olho, e dente por dente
Amai a vossos inimigos
11. O centro da Bíblia é Jesus: o homem que dividiu
a História em antes e depois dele
12. Jesus foi o único que ressuscitou. Por isso, a
Bíblia é sagrada
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
LIVRO 2 MITOS CONTRADIÇÕES E ERROS
BÍBLICOS
INTRODUÇÃO
ABRINDO A MENTE PARA ENCARAR A
REALIDADE
A INSPIRAÇÃO PLENÁRIA DA BÍBLIA
A DOUTRINA DA “INSPIRAÇÃO PLENÁRIA” E
SEUS ABSURDOS
REFUTAÇÕES AO TEXTO “A INSPIRAÇÃO
PLENÁRIA DA ESCRITURA”
QUESTÕES GERAIS DE CIÊNCIA
Na Bíblia, a Terra é redonda como
uma pizza e não como uma bola
Segundo a Bíblia, a Terra é o centro
do Universo
A Bíblia desconhece a lei da
gravidade
A Bíblia não sabe o que seja um
arco-íris
A Bíblia não sabe quantas espécies
de animais existiam na Terra
Cobras falantes e andantes?
As “muitas” águas do dilúvio
QUESTÕES DE BIOLOGIA E SAÚDE
Coelhos e lebres ruminantes!
Morcego é ave?
O pequeno “grão”(!) de mostarda
Semente morta
Humano assexuado
A genética de Jacó
A Bíblia não entende de nutrição
A força de Sansão
Dores de parto
Conceito de menstruação
QUESTÕES DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA
A tomada de Jericó
A “incrível” construção do templo de
Salomão
Moisés devia falar muito alto
MANDAMENTOS ANTIQUADOS
Mataríamos nossos próprios filhos
apedrejados, só por serem
desobedientes
Homossexuais seriam condenados à
morte
Menstruação seria pecado
Usaríamos roupas esquisitas
Praticaríamos apenas a monocultura
Teríamos excêntricos cuidados com
cabelo e barba
As mulheres poderiam “cobiçar” os
maridos das outras
O ato sexual seria, literalmente, uma
imundície
Ao tornarem-se mães, as mulheres
seriam consideradas imundas
“MÍNIMOS E MAIS INSIGNIFICANTES
DETALHES”
Êxodo ou Deuteronômio: Qual está
certo?
Quem insultou Jesus?
Detalhes “mínimos” (e
contraditórios) na ressurreição
Em que momento as mulheres
chegaram ao túmulo?
Chegando ao túmulo, com quem as
mulheres se encontraram?
Os gigantes
Um estranho coral de vozes
A Bíblia apoia a escravidão
Deus e Jesus também trabalham
Quando Pedro negou Jesus
Lucas confessa que não escrevia por
inspiração divina
O PRIMEIRO HOMEM A TRANSGREDIR OS
DEZ MANDAMENTOS
A BÍBLIA INFLUENCIADA POR MITOLOGIAS
E POLITEÍSMOS DE CULTURAS ANTIGAS
O que eram os “querubins”?
A “árvore da vida” e a “serpente”
“Gigantes” na terra
A história de Moisés
Politeísmo e trindade
Jacó lutou “com Deus” e venceu (!)
Uma refeição para Deus
A criação pela palavra
Alma, o “sopro” de Deus
O dilúvio
Olho por olho...
A circuncisão
Eva e a costela de Adão
O DEUS QUE OS HEBREUS CRIARAM
O DEUS QUE JESUS PREGOU
O MAIOR DE TODOS OS ENGANOS
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
LIVRO 3 JESUS A VERDADE POR TRÁS DO
MITO
INTRODUÇÃO
MUITO ANTES DA BÍBLIA
HÓRUS, OSÍRIS E ÍSIS
JESUS E HÓRUS
JESUS E OSÍRIS
UMA CHOCANTE CONSTATAÇÃO
PARA QUEM QUER A VERDADE
O LADRÃO FOI PARA O CÉU?
O QUE DIZ A IGREJA CATÓLICA ROMANA
UM PEQUENO DETALHE... UMA GRANDE
CONTRADIÇÃO
ONDE MORAVA A FAMÍLIA DE JESUS
JESUS NÃO FOI O ÚNICO HOMEM A
RESSUSCITAR
JESUS CONFIRMOU AS SAGRADAS
ESCRITURAS: ISSO É VERDADE OU
MENTIRA?
Não matarás
O divórcio
O juramento
Olho por olho, e dente por dente
Amai a vossos inimigos
ANTES E DEPOIS DE JESUS: UMA GRANDE
ILUSÃO
JESUS ERA DEUS?
COMO E POR QUE JESUS FOI
TRANSFORMADO EM DEUS?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
OUTRAS OBRAS DO MESMO AUTOR:
MAIS INFORMAÇÕES:
SEU COMENTÁRIO NO AMAZON:
LIVRO 1

Por que a
BÍBLIA
NÃO É
A palavra de Deus
INTRODUÇÃO

Para a grande maioria dos


cristãos, a Bíblia não é, exatamente, um
livro para ser estudado. Quando nós
estudamos determinado livro, partimos
do princípio de que só acataremos
aquilo que encontramos nele se
compreendermos bem o que lemos e se a
nossa razão e bom senso nos permitirem.
Com a Bíblia não é isso que ocorre.
Seus adeptos partem do princípio de que
as pessoas devem crer nela e acatá-la,
mesmo que não tenham entendido o que
leram, ou, ainda, mesmo que
simplesmente não a tenham lido.
Escrevo o presente livro especialmente
para aquelas pessoas que não
concordam com essa maneira de encarar
a Bíblia, embora a respeitem e se
interessem por ela.
Neste livro, caro (a) leitor (a),
vou lhe dizer coisas que nenhum padre
lhe diria; que pastor algum ousaria. Vou
lhe dizer, por exemplo, que a Bíblia não
é (não pode ser) a palavra de Deus,
pois, se fosse, ela não teria erros, como
os tem. Não alguns, não dezenas, não
centenas, mas milhares de erros. Vou
demonstrar, também, que não existem
apenas erros e contradições que possam
ser atribuídos a copistas ou tradutores, a
fim de se culpar os homens e garantir a
legitimidade de uma suposta inspiração
divina nos manuscritos originais. O
leitor verá que a questão não é assim tão
simples, e que os problemas são bem
mais sérios do que isso. Verá, na
verdade, que são problemas muito
graves.
Para ser a palavra de Deus, a
Bíblia deveria aplicar-se e ser
compreensível a todos os homens
(cultos e analfabetos, ricos e pobres,
jovens e velhos) de maneira clara e
precisa. No entanto, nenhum outro livro
escrito até hoje na história da
humanidade é mais caótico, confuso e
contraditório do que a Bíblia.
Os crentes bíblicos consideram
(e com razão) que quem não leu a Bíblia
toda, e por isso não a conhece bem, não
está apto para criticá-la. Criticar a
Bíblia sem conhecê-la é, de fato, um
problema. Mas aceitá-la como a palavra
de Deus sem conhecê-la é um problema
ainda maior. Este último caso,
entretanto, é o que mais ocorre.
Para ilustrar esse fato, lembro-
me de que, há algum tempo, um
determinado político lançou sua
campanha para prefeito. Nos discursos,
ele fazia a seguinte promessa: “Se eu
for eleito, o meu governo será de
acordo com as leis da Bíblia!”
Certamente, ele deve ter conquistado a
simpatia de um bom número de eleitores
com essa ideia. Mas ainda bem que ele
não foi eleito, pois, se tivesse sido e
cumprisse o que prometera em
campanha, algumas das ações de seu
mandato, entre outras, teriam de ser:

– Matar todos os homossexuais


da cidade.
Essa é uma lei da Bíblia. Está em
Levítico, 20:13. Veja o trecho:
Se também um homem dormir com
outro homem, como se fosse com
mulher, ambos fizeram abominação.
Certamente serão mortos.

– Matar a pedradas os filhos


que não obedecem aos pais.
Se alguém tiver um filho obstinado e
rebelde, que não obedece à voz do
pai nem da mãe (...), seu pai e sua
mãe o tomarão, e o levarão aos
anciãos da sua cidade (...) Então
todos os homens da sua cidade o
apedrejarão, até que morra.
(Deuteronômio, 21:18–21).

Essas são leis da Bíblia. O


prefeito deveria, portanto, executá-las.
Imagine uma cidade sem homossexuais,
porque todos eles teriam sido
assassinados a mando do prefeito.
Imagine que crianças da cidade sejam
vistas frequentemente sendo mortas por
apedrejamento, simplesmente por elas
serem desobedientes aos pais. Claro que
isso tudo é absurdo. Mas esse absurdo
vem da Bíblia. Essas são leis bíblicas.
Certamente, porém, não deve ser isso o
que o referido candidato pretendia dizer.
Ele deveria ter em mente apenas aquelas
leis bonitas, éticas e, diríamos,
politicamente corretas, encontradas nos
Evangelhos, que falam de amor, perdão
e justiça. É claro que um pretendente a
um cargo eletivo não iria querer assustar
o seu eleitorado. Mas a Bíblia,
principalmente no Antigo Testamento,
contém leis assustadoras, desumanas e
antiéticas. O candidato falava apenas de
alguns fragmentos dela, que estavam de
acordo com seus interesses pessoais
imediatos. Podemos até acreditar que
ele tivesse boas intenções enquanto fazia
essa sua promessa. Mas, uma certeza
nós temos: Esse homem não conhecia a
Bíblia, pelo menos não completamente.
Esse mesmo comportamento tem sido
também o de milhões (talvez bilhões) de
adeptos da Bíblia por todo o mundo.
CONFERE COM O
ORIGINAL?

Muitos cristãos protestantes


defendem que a Bíblia é de modo
absoluto (como se diz, de “capa a
capa”) a “palavra de Deus”. Essa
inspiração divina da Bíblia de modo
integral e sem qualquer ressalva de
parte alguma sua é o que os seus adeptos
denominam de “Inspiração Plenária da
Bíblia”. Isto é, creem que a Bíblia nunca
erra de modo algum, nem na escrita do
texto nem no conteúdo da mensagem,
pois em ambos os aspectos ela possuiria
a mesma perfeição de seu Autor-Deus.
Os adeptos da Inspiração
Plenária creem que em toda a extensão
das Escrituras não há qualquer espécie
de equívoco, grande ou pequeno, sem
exceção de parte alguma sua, mesmo
quando trata de qualquer outro tema não
diretamente espiritual, como história,
geografia, biologia, astronomia,
antropologia etc.
A respeito dos livros da Bíblia,
os adeptos dessa crença dizem:
(...) são exatamente o que Deus quis
que fossem. (1)
(...)
Deus mesmo supervisionou, dirigiu e
ditou a escrita dos seus livros, tendo
sob seu completo controle os
autores humanos, e de tal modo que a
redação é de Deus. (Grifos nossos.)

Sustentar uma crença desse tipo


é uma atitude bastante arriscada e, por
isso mesmo, muito corajosa.
Veja como essa crença está
documentada na “Declaração de
Chicago sobre a inerrância da Bíblia”
(2), este que é um documento oficial de
declaração de fé, redigido e assinado
por centenas de líderes protestantes
(cerca de trezentos líderes), no ano de
1978, com representações de diversas
denominações:
Artigo XII
Afirmamos que, em sua totalidade, as
Escrituras são inerrantes, estando
isentas de toda falsidade, fraude ou
engano.
Negamos que a infalibilidade e a
inerrância da Bíblia estejam
limitadas a assuntos espirituais,
religiosos ou redentores, não
alcançando informações de natureza
histórica e científica.
(...)
Artigo XIX
Afirmamos que uma confissão da
autoridade, infalibilidade e
inerrância plenas das Escrituras é
vital para uma correta compreensão
da totalidade da fé cristã.
A crença na Inspiração Plenária
da Bíblia é corajosa porque ao longo de
seus livros não é difícil encontrarmos
falhas, e só não as encontra aquele leitor
cuja mente se acha alienada à crença na
referida inspiração divina. Esses
leitores, por isso mesmo, têm medo de
duvidar da Bíblia, pois essa sua atitude
seria o mesmo que duvidar do próprio
Deus, e sendo assim, não se predispõem
psicologicamente a questionar qualquer
ponto do que leem. Além do mais, é essa
mesma Bíblia o livro que ameaça seus
leitores alienados com o fogo do inferno
eterno em caso de desobediência. Eis
porque até mesmo pessoas de
considerável condição intelectual se
permitem alienar tal como a massa
ignara. A ameaça de ir para o inferno é
tão forte e está tão arraigada na mente
dessas pessoas, que consegue, até
mesmo, bloquear o livre exercício da
sua inteligência. Por isso é que somente
pessoas não compromissadas com esse
gênero de crença estão devidamente
preparadas e prontas a aplicar o correto
discernimento na investigação das falhas
presentes nos textos bíblicos.
Há séculos, estudos sérios vêm
demonstrando que as cópias e traduções
bíblicas possuem alterações, erros e
contradições. Ainda hoje, pesquisadores
renomados, vinculados a grandes
universidades, fazem esse mesmo
trabalho, confirmando a existência de
um número muito grande de problemas
com as cópias de manuscritos bíblicos.
Os cristãos que hoje querem sustentar a
ideia da inerrância total e absoluta da
Bíblia não conseguem mais fazê-lo
senão referindo-se (exclusivamente) ao
original. É justamente isso que
encontramos na maioria dos
ensinamentos cristãos da atualidade.
Veja, por exemplo, o que os católicos
declaram:
A inerrância bíblica é artigo de fé.
Note-se, porém, que só os originais
têm inerrância absoluta. (3) (Grifo
nosso.)
Agora, vamos ver duas
declarações de origem protestante. A
Bíblia de estudo pentecostal (4) traz um
estudo intitulado “A inspiração e a
autoridade das escrituras”, no qual se
encontra a seguinte lição:
A Bíblia é infalível na sua inspiração
somente no texto original dos livros
que lhes são inerentes. (5) (Grifo
nosso.)

E, a seguir, um trecho da
Declaração de Chicago sobre a
inerrância da Bíblia, obra já referida
acima:
(...) é necessário afirmar que
somente o texto autográfico dos
documentos originais foi inspirado e
manter a necessidade da crítica
textual como meio de detectar
quaisquer desvios que possam ter se
infiltrado no texto durante o processo
de sua transmissão.
(...)
(...) as cópias que possuímos não
estão totalmente livres de erros.
Semelhantemente, tradução alguma
é perfeita. (Grifos nossos.)

Nesse último exemplo, vemos a


declaração explícita de que as cópias e
traduções possuem erros. Sendo assim,
está definido que a inspiração divina da
Bíblia só pode ser defendida a partir de
uma perfeição identificada no texto
original (só nele). Parece estar tudo
muito bem esclarecido. Há, porém, um
detal he: Não existem originais da
Bíblia. E se as religiões afirmam
oficialmente que as cópias e as
traduções possuem falhas, ao mesmo
tempo em que as próprias religiões não
possuem originais, mas apenas cópias e
traduções, então essas mesmas religiões
aceitam que o livro que elas possuem
não é a palavra de Deus. Ora, se não
existem originais e as cópias e traduções
são falhas, onde os defensores da
inerrância bíblica buscarão fundamentos
para demonstrar a tal perfeição bíblica
de que falam? Se tudo que existe são
cópias e traduções, então tudo que se
tem em mãos são fontes inconfiáveis,
por mais antigas que sejam e apesar de
estarem escritas no idioma original. Os
registros mais antigos de textos bíblicos
são velhos fragmentos de cópias que,
por sua vez, são cópias de outras cópias.
De originais, de fato, escritos pelas
mãos dos profetas e dos apóstolos, não
há sequer vestígio há muitos séculos e,
no caso do Antigo Testamento, há
milênios. Ora, se não existem originais,
e estando certo que eles seriam a única
fonte de constatação da perfeição
divina, e isso declarado publicamente,
então essa palavra de Deus, de que tanto
falam os seus defensores, na verdade
não existe! Aqueles que falam de
“originais da Bíblia” estão
simploriamente falando de uma ilusão,
de um espaço vazio, que eles imaginam
estar ocupado por um grande calhamaço
de pergaminhos e papiros sagrados.
Quando os apologistas e religiosos
falam de “originais”, na verdade estão
todos falando de cópias antigas, que, por
serem cópias, são todas defeituosas, e,
portanto, não são a palavra de Deus.
Esse é um fato que passa
despercebido aos simples fiéis que não
estudam o assunto ou porque não
querem, ou porque não conseguem, ou
porque não acham necessário, pois
acreditam cegamente em tudo o que os
seus pregadores lhes falam nos púlpitos
das suas igrejas. Isso não seria
exatamente um problema, se não fosse o
fato de que existem muitos pregadores
que afirmam coisas sem fundamento, ou
porque eles também não têm o
conhecimento necessário ou, se o têm,
mentem em nome de outros interesses
(pessoais ou institucionais) que colocam
acima da verdade.
Se não existem originais, quem,
hoje, poderá dizer o que estava escrito
neles? E, ainda, se não é possível saber
o que estava escrito neles, como alguém
pode afirmar se estava certo ou errado?
Diante do grande problema que é a
inexistência de originais, defensores
pertinazes da inspiração divina da
Bíblia chegam ao grotesco subterfúgio
de dizer que, observando a harmonia
entre as cópias, se pode supor que estas
tenham saído de um “original perfeito”.
Esse argumento é duplamente
equivocado, primeiro porque supor que
as cópias tenham saído de originais
perfeitos não muda a situação, já que
essa questão não se resolve com
suposições, mas, sim, com uma
constatação certa, o que não há.
Segundo, que, usando esse mesmo
argumento também poderíamos afirmar o
contrário, isto é, que, se todas as cópias
contêm erros e contradições,
poderíamos supor que essas cópias
tenham saído de originais igualmente
portadores dessas imperfeições. Nada
nos impediria, por outro lado, de dizer
que tais falhas seriam produtos apenas
de copistas. Mas, como eu disse, tudo
isso permanece no campo das hipóteses,
e não muda a situação da incerteza, logo,
da impossibilidade de afirmar-se, com
base nisso, que a Bíblia seja a palavra
de Deus. Ademais, a ideia de certificar-
se a legitimidade de originais a partir da
observação de cópias só poderia ser
produto da pura paixão religiosa e, não,
do bom senso, já que a lógica indica
exatamente o contrário: se todas as
cópias são imperfeitas, isso levaria a
crer, com mais verdade, que elas teriam
saído de um original igualmente
imperfeito. Querer legitimar o original
pela observação da cópia é um
desastrado processo de trás para frente.
O que se faz normalmente quando se tira
cópia de qualquer documento é
certificar-se da legitimidade da cópia
pela observação do original e, não, o
contrário, como (desesperadamente)
querem os referidos religiosos.
Só não seria assim se a Bíblia
contivesse apenas um probleminha aqui
e outro ali, como muitas pessoas
erroneamente supõem que seja. Mas a
Bíblia está coalhada de erros e
contradições. Como já foi dito antes,
muitos especialistas de renome mundial
no campo da análise de manuscritos
antigos da Bíblia já publicaram
importantes obras revelando esses erros
e contradições. Um dos destacados
exemplos foi John Will (1645–1707), do
Queens College, Universidade de
Oxford, que publicou uma edição do
Novo Testamento com uma análise
crítica, apontando nele cerca de trinta
mil pontos divergentes nos Evangelhos.
Essa obra causou grande abalo entre os
estudiosos do Novo Testamento e, de
certa forma, impulsionou os
pesquisadores a investirem mais
profundamente nos estudos sobre os
manuscritos bíblicos. Depois de Will,
muitos outros manuscritos foram
descobertos, a partir do que foram sendo
identificadas muitas outras variantes
entre os textos bíblicos. Resulta daí que,
hoje em dia, os estudiosos modernos das
cópias manuscritas falam em
quatrocentas mil variantes encontradas,
e ainda há quem diga números maiores.
Como disse Bart D. Ehrman, este que é,
na atualidade, um dos mais importantes
e mundialmente respeitados
especialistas em manuscritos antigos:
“Há mais variações entre os nossos
manuscritos que palavras no Novo
Testamento” (6). Veja que esses
números que passei se referem apenas
ao Novo Testamento, que é a menor
parte da Bíblia, e também a parte mais
próxima e compreensível a nós. E
atente-se, também, para o fato de que as
centenas de milhares de erros e
contradições referidas acima foram
encontradas em cópias manuscritas
antigas, na língua original, não em
“traduções”, pois, se fôssemos falar
disso, os problemas seriam
enormemente aumentados.
ALGUNS DOS MAIS
ANTIGOS
MANUSCRITOS DA
BÍBLIA

Os mais antigos registros da


Bíblia são cópias de cópias de cópias.
Algumas das mais antigas são:
– Os manuscritos do mar
Morto, descobertos entre 1947 e 1956,
que são cópias feitas entre o século II e I
a.C.
– Uma cópia em hebraico do
Antigo Testamento, escrita na Idade
Média, por volta do ano 930 ou 950,
encontrada em Alepo, na Síria, e que se
acha preservada em Jerusalém.
– O texto mais antigo existente
d o Novo Testamento é um pedaço do
Evangelho de João, uma cópia feita em
torno de 125 d.C.
Existem milhares de cópias.
Atualmente são mais de seis mil cópias
do Velho Testamento, em hebraico
(textos inteiros ou parte deles) e cinco
mil cópias do Novo Testamento, em
grego.
Até aqui não se falou em
tradução, que é reescrever um texto
mudando de idioma. Cópia é apenas a
reescrita de um texto, sem lhe mudar o
idioma. Sua função é somente
multiplicar o mesmo texto. A confecção
constante de cópias era uma necessidade
natural em épocas antigas,
principalmente por dois motivos:
1. Não existia a imprensa para
perpetuar a multiplicação dos textos.
2. Os materiais em que eram
escritos os textos, papiros (de origem
animal) e pergaminhos (de origem
vegetal), eram muito frágeis e
deterioravam-se muito depressa. Sem
falar em fatores que aceleravam a sua
destruição, como a umidade, a traça, as
guerras, as viagens, os incêndios, e o
próprio manuseio das pessoas.
“TODA ESCRITURA
É DIVINAMENTE
INSPIRADA”, DISSE
PAULO

É comum muitas pessoas se


entregarem à arriscada crença na
Inspiração Plenária da Bíblia,
simplesmente porque o apóstolo Paulo
teria dito ao seu amigo Timóteo que
“toda Escritura é divinamente inspirada
e proveitosa para ensinar” (2 Timóteo,
3:16). Essa fala de Paulo, porém, tem
um efeito exatamente contrário, que é o
de negar definitivamente o que diz a
crença na Inspiração Plenária. Vou
demonstrar isso a seguir.
Quando Paulo fez essa
afirmação, ele se referia ao Velho
Testamento, obviamente, uma vez que o
Novo Testamento ainda não havia sido
escrito. No tempo de Paulo, porém, os
originais do Velho Testamento já não
existiam mais! E mesmo que existissem,
não estariam em poder de Timóteo, já
que a Bíblia – conforme creem os
próprios plenaristas – foi sendo escrita
gradativamente, ao longo de muitos
séculos, parte por parte, e cada parte era
deixada em uma das diversas igrejas de
muitas localidades diferentes e distantes
umas das outras. Passaram-se séculos
até que essas partes fossem reunidas
para formar um só livro, que veio a
chamar-se Bíblia, sendo que a primeira
Bíblia que um dia existiu já era toda
formada por cópias. Nunca existiu uma
Bíblia original! Ou seja, nem Timóteo,
nem Paulo ou qualquer outra pessoa,
mesmo no passado mais longínquo,
ninguém jamais chegou a possuir o
conjunto todo dos tais originais.
Qualquer pessoa em qualquer época da
história só possuiu cópia da Bíblia.
Nesse caso, quando Paulo falou a
Timóteo que “toda Escritura é
divinamente inspirada”, esta já era
cópia de cópias de outras cópias. E, por
serem cópias, eram falhas, segundo os
crentes plenaristas de hoje. Conclusão:
se os plenaristas afirmam que a
inspiração se refere somente aos
originais, e Paulo referiu-se a cópias,
dizendo que eram inspiradas, então
Paulo errou! Se Paulo errou e ele
escreveu o seu erro na Bíblia, então a
Bíblia contém erro. Assim é que a fala
de Paulo a Timóteo nega definitivamente
a crença na Inspiração Plenária da
Bíblia.
LUCAS CONFESSA
QUE NÃO ESCREVIA
POR INSPIRAÇÃO
DIVINA (7)

Não há como crer na inspiração


plenária da Bíblia porque nela mesma
encontramos um dos evangelistas
dizendo que o conteúdo de sua escrita
vinha de outras fontes e, não, da
inspiração divina. Veja: Lucas, ao
escrever a genealogia de Jesus, iniciou
assim:
Ora, o mesmo Jesus tinha quase
trinta anos quando começou seu
ministério. Era, como se cuidava,
filho de José, filho de Heli. (Lucas,
3:23)

Para informar que José era o pai


terreno de Jesus, Lucas antecede a
afirmação com a expressão “como se
cuidava” (essa expressão significa como
se supunha, como se pensava, como se
cogitava). É de estranhar-se que quem
esteja escrevendo por inspiração direta
de Deus diga, de repente, que aquilo que
ele está dizendo tenha como base aquilo
que se supõe ou se cogita.
Lucas não viveu com Jesus, nem
foi contemporâneo deste. Por isso,
Lucas escrevia aquilo que ouvia as
pessoas comentarem sobre os fatos
antigos. Lucas não presenciou nada e
não sabia de nada por si mesmo, nem
por inspiração de Deus. É o próprio
Lucas quem nos diz isso, de maneira
bem clara e objetiva, no início da
escrita de seu livro. Veja:
(...) segundo nos transmitiram os que
desde o princípio foram deles
testemunhas oculares (...) havendo-
me já informado minuciosamente
de tudo desde o princípio. (Lucas,
1:2-3) (Grifo nosso.)

É por isso que, no versículo


anteriormente citado (3:23), Lucas usou
a expressão “como se cuidava”. Refere-
se aos dados que ele conseguiu colher
do que se falava entre as pessoas, pois
ele de si mesmo nada sabia e nem fez
menção nenhuma sobre inspiração
divina, mas, apenas, desse trabalho
jornalístico de coleta de dados. Se a
escrita da Bíblia tivesse sido
plenamente inspirada por Deus, Lucas
não precisaria ter tido essa mão de obra,
nem ele precisaria ter diminuído o grau
de certeza do que escrevia, usando a
expressão “como se cuidava”, já que
todas as informações exatas teriam
vindo de uma fonte suficientemente
segura, isto é, do próprio Deus, que é
onisciente. Assim, podemos dizer que
crer na inspiração plenária da Bíblia é,
até mesmo, uma blasfêmia contra Deus.
EQUÍVOCOS NA
BÍBLIA

Abaixo, segue a transcrição de


um questionário que fiz a um pastor
protestante da linha radical, defensor
veemente da Inspiração Plenária da
Bíblia.
Apresentei a ele alguns trechos
da Bíblia que possuem problemas de
contradições ou erros. A seguir,
apresento os meus questionamentos
seguidos das respostas do meu
interlocutor. E, por fim, a conclusão a
que chegamos.

Observações:
- Destaquei em negrito os pontos
de interesse nas questões.
- Mantive os erros de grafia e de
gramática, presentes nas respostas,
como me foram enviadas, para garantir a
originalidade do texto.
- Os textos bíblicos citados por
mim foram extraídos da Bíblia Sagrada
Antigo e Novo Testamento – tradução
de João Ferreira de Almeida, 3. ed. São
Paulo: Ed. Vida, 1996.

Meus questionamentos:
Questionamento 1: Quantos
foram os anos de fome?
– Em 2Sm. 24:13 afirma-se que
foram sete.
Assim veio Gade a Davi, e lhe disse:
Queres que sete anos de fome te
venham à tua terra? Ou que por três
meses fujas diante de teus inimigos, e
eles te persigam?
– Já em 1Cr. 21:11-12 afirma-se
que foram três.
Gade veio a Davi, e lhe disse: Assim
diz o Senhor: Faze a tua escolha: ou
três anos de fome, ou que por três
meses sejas consumido diante de teus
adversários.

Resposta do pastor:
Verifica-se que no original
ambos os registros são três anos,
caracterizando um possível erro de
tradução e, não, uma contradição.

Questionamento 2: Na
conversão de Saulo, os que estavam
com ele ouviram vozes?
– Em At. 9.7 afirma-se que sim.
Os homens que iam com ele pararam
espantados, ouvindo a voz, mas não
vendo ninguém.
– Já em At. 22.9 afirma-se que
não.
Os que estavam comigo viram, em
verdade, a luz, e se atemorizaram
muito, mas não ouviram a voz
daquele que falava comigo.

Resposta do pastor:
O original do texto onde aparece
a expressão voz (é som), portanto eles
ouviram um som mas entenderam, por
essa razão no segundo texto Paulo disse
que não ouviram, pelo fato de ouvir algo
que não foi possível distinguir se
caracteriza mesmo que não ouvir.
Somente Paulo ouviu e entendeu o que
falava com ele.

Questionamento 3: Com que


idade Zedequias iniciou seu reinado?
– Em 2Cr. 36.11 afirma-se que
foi com a idade de 25 anos.
Era Zedequias da idade de vinte e
cinco anos quando começou a reinar,
e onze anos reinou em Jerusalém.
– Em 2Rs. 24.18 afirma-se que
foi com a idade de 21 anos.
Tinha Zedequias vinte e um anos de
idade quando começou a reinar, e
onze anos reinou em Jerusalém.

Resposta do pastor:
O que ocorreu aqui foi um erro
de copistas. Nos originais todos os
registros de idade de Zedequias é de
vinte e um anos, prova disso que o
profeta Jeremias confirma a idade de
vinte e um anos, Jr. 52.1. Vale lembrar
que na versão atualizada os textos não
diferem um do outro.

Questionamento 4: Quantos
cavaleiros Davi tomou de Hadadezer?
– Em 2Sm. 8.3-4 afirma-se que
foram 1.600.
Davi também derrotou a Hadadezer
(...) Tomou-lhe Davi mil e seiscentos
cavaleiros.
– Em 1Cr. 18.4 afirma-se que
foram 7.000.
Também Davi derrotou a Hadadezer
(...) Davi capturou mil carros, sete
mil cavaleiros.

Observação:
A Bíblia Vida Nova – edição
revista e atualizada, Edições Vida Nova
& Sociedade Bíblica do Brasil, São
Paulo, 1990 – afirma que foram 1.700
cavaleiros.

Resposta do pastor:
Em virtude das letras hebraicas
que representam números serem muito
parecidas em sua grafia, proporcionou
erro dos copistas. Certo que no original
o número exato é de 7.000.
Questionamento 5: Resultado
contraditório do censo.
– Em 2Sm. 24.9 afirma-se que o
número foi de 800 mil homens.
Joabe entregou ao rei o resultado do
recenseamento do povo: Havia em
Israel oitocentos mil homens de
guerra, que puxavam da espada.
– Em 1Cr. 21.5 afirma-se que o
número foi de 1.100. 000 homens.
Deu Joabe a Davi a soma do número
dos homens de guerra: Em todo o
Israel havia um milhão e cem mil
homens que arrancavam espada.
Resposta do pastor:
A resposta é a mesma das
perguntas de n.º 1 e 4.

Questionamento 6:
Contradição sobre local da morte de
Josias.
– Em 2Rs. 23.29 afirma-se que
Josias morreu em Megido.
Nos seus dias subiu Faraó-Neco, rei
do Egito, contra o rei da Assíria, ao
rio Eufrates. O rei Josias marchou
para encontrá-lo em batalha, mas,
vendo-o, Faraó-Neco o matou em
Megido.
– Em 2Cr. 35.23-24 afirma-se
que Josias morreu em Jerusalém.
Os flecheiros atiraram contra o rei
Josias, e disse o rei a seus oficiais:
Tirai-me daqui; estou gravemente
ferido. Seus oficiais o tiraram do
carro e o colocaram no seu segundo
carro, e o trouxeram a Jerusalém,
onde ele morreu.

Resposta do pastor:
Averiguando outras traduções
como atualizada e corrigida, no segundo
texto, descobre-se que não existe a
expressão (“Onde ele morreu”; mas,
sim: após ponto e vírgula. “E morreu”)
nesse caso aqui o que temos é: com uma
intenção de facilitar a interpretação do
texto, a edição contemporânea acabou
foi dificultando a sua interpretação, mas,
dando uma olhada nas demais edições,
vemos que está plenamente correto o
que saiu do original.

Questionamento 7: Foram 5,
ou foram 7 homens?
– Em 2Rs. 25.19 afirma-se que
foram 5 homens.
Da cidade tomou a um oficial que
tinha cargo da gente de guerra, e a
cinco homens dos que viam a face do
rei e se achavam na cidade.
– Em Jr. 52.25 afirma-se que
foram 7 homens.
Da cidade levou o oficial que tinha a
seu cargo a gente de guerra, e a sete
homens dos que viam a face do rei,
que se acharam na cidade.

Resposta do pastor:
Esse é o mesmo caso como já
vimos na pergunta de número 4, os
copistas tendo muitas dificuldades para
numerar os números que são extraídos
de letras originais, gerou essas
diferenças em nossa numerologia, porém
não resta dúvidas que o original é exato.

Conclusão:
Diante dos meus sete
questionamentos, meu interlocutor não
encontrou outra saída senão admitir que,
realmente, os erros apontados existem.
E para não abrir mão da sua crença na
Inspiração Plenária da Bíblia, o pastor
não teve outra maneira de construir sua
defesa senão dizendo que nos
“originais” os textos estão corretos.
Uma vez que não existem
originais, o que disso se conclui é que
não há argumentos válidos que defendam
a pretensa inspiração divina dos textos
bíblicos. A afirmação de que Bíblia seja
a palavra de Deus, apontando para
supostos originais, não tem nenhum
fundamento e constitui uma fraude. Toda
vez que alguém se refere a “originais”,
está se referindo, na verdade, a alguma
cópia, muito antiga ou mais ou menos
antiga, mas todas igualmente
possuidoras de erros e contradições,
isso não só segundo todas as pesquisas
científicas sérias sobre o assunto, mas
também segundo a fé dos próprios
crentes bíblicos que assim o declaram.
Sendo assim, ideias como a
consideração de que a Bíblia seja a
palavra de Deus ou de que ela seja um
livro inerrante são apenas sonhos
românticos. No máximo, podem ser uma
questão de fé, folclore ou superstição e,
não, de algo que possa ser demonstrado
ou, menos ainda, comprovado.
DOZE
ARGUMENTOS
FRÁGEIS A FAVOR
DA BÍBLIA COMO
PALAVRA DE DEUS

A seguir, apresentarei doze


argumentos que são comumente usados
por religiosos para se defender que a
Bíblia seja a palavra de Deus. Cada
argumento está seguido de sua
respectiva refutação.
1
A própria Bíblia diz que
ela é a palavra de Deus

Há muitas pessoas que creem


que a Bíblia seja a palavra de Deus
simplesmente porque ela própria se diz
ser. Ora, se formos considerar que a
Bíblia seja a palavra de Deus só porque
encontramos nela própria tal afirmação,
teríamos de ter essa mesma
consideração também por outros livros
nos quais encontramos idêntica
afirmação a respeito de si próprios. O
Corão, do Islamismo, e os Vedas, do
Hinduísmo, por exemplo, também se
autoafirmam como sendo a palavra de
Deus. Sendo assim, se a Bíblia tiver de
ser considerada como a palavra de Deus
por esse motivo, o Corão e os Vedas
também devem sê-lo, já que eles têm o
mesmo argumento para apresentar.
2
A Bíblia não possui erro
algum
As pessoas que afirmam isso não
sabem o que estão dizendo, apenas
repetem um bordão que ouviram de
outros, que por sua vez ouviram de
outros e assim sucessivamente, sem
qualquer conhecimento de causa. Os
estudiosos do assunto, porém, sabem
muito bem que isso não é e nunca foi
verdade.
Apenas para efeito de
exemplificação, vou citar alguns casos
de erros que ocorrem no Novo
Testamento. A quantidade deles na
Bíblia, porém, é imensa, e muitos deles,
tanto do Novo como do Velho
Testamento, estão apresentados em
outros lugares neste livro. Vamos aos
exemplos:
Em Mateus
Há uma passagem evangélica
(Mateus 23,35) em que Jesus teria dito
que Baraquias é pai de Zacarias,
sacerdote morto no pátio da Casa do
Senhor, a pedradas, e a mandado do rei
Joás. Mas esse Zacarias tem por pai
Joiada (Crônicas 24,20). Mateus
cometeu esse equívoco baseando-se em
outra passagem bíblica (Zacarias 1,1).
No ano de 67, quando fazia 34 anos
da morte de Jesus, foi morto um
judeu chamado Zacarias, filho
também de um tal de Baraquias,
segundo consta da obra Judeus
contra os Romanos, de autoria do
historiador judeu Flávio Josefo, que
era mais ou menos contemporâneo de
Jesus. Como se vê, é possível
também que São Mateus tenha-se
confundido com esse outro Zacarias,
ao se referir àquela citação de Jesus,
já que o seu Evangelho foi escrito
pouco depois do citado episódio.
Se foi isso a causa do equívoco, ele
se torna mais grave do que o outro
apresentado, pois São Mateus estaria
apresentando um fato do passado
anterior à morte de Jesus, mas que,
na verdade, aconteceu depois da
morte de Jesus. Trata-se, pois, de
mais contradições que não podem ser
de Deus. (8)

Em Mateus
Mateus diz que é de Jeremias
uma profecia que, na verdade, é de
Zacarias. Veja:
Então se cumpriu o que predissera o
profeta Jeremias: Tomaram as trinta
moedas de prata, preço em que foi
avaliado aquele a quem certos filhos
de Israel avaliaram. E as deram pelo
campo do oleiro, conforme me
ordenou o Senhor. (Mateus, 27:9).

Em Jeremias não existe tal


profecia. Ela é de Zacarias. Veja:
Eu lhes disse: Se parece bem aos
vossos olhos, dai-me o que me é
devido: se não, deixai-o. Pesaram,
pois, o meu salário, trinta moedas de
prata. E o Senhor me disse: Arroja
isso ao oleiro, esse belo preço em
que fui avaliado por eles. Tomei as
trinta moedas de prata, e as arrojei
ao oleiro na casa do Senhor.
(Zacarias, 11:12-13).

Em Marcos
Marcos inicia o seu livro com
um escancarado erro de citação. Antes
de citar um trecho das Escrituras, ele
explica que o que ele vai dizer está
escrito no profeta Isaías. Na verdade,
porém, o que ele diz não se encontra em
parte alguma no livro de Isaías, mas,
sim, trata-se de referências a Êxodo e
Malaquias. Veja as palavras de Marcos:
Como está escrito no profeta Isaías:
Eu envio o meu anjo diante da tua
face, o qual preparará o teu caminho.
(Marcos, 1:2). (Grifo nosso.)

Agora, veja de onde essas


citações foram realmente retiradas:
Eu envio um anjo adiante de ti, para
te guardar pelo caminho, e te levar
ao lugar que te preparei. (Êxodo,
23:20).
Vede, eu envio o meu anjo
mensageiro que preparará o caminho
diante de mim. (Malaquias, 3:1).
Alguns copistas mais modernos
alteraram esse trecho (e muitos outros)
do texto dos manuscritos antigos do
Evangelho de Marcos, com o objetivo
de “salvar” a inerrância bíblica. Veja
como esse trecho aparece, hoje, em
algumas Bíblias: “Assim como está
e s c r i to nos profetas...”. O esperto
copista tirou a referência direta a Isaías,
e escreveu apenas “nos profetas”,
eliminando, assim, o problema. Observe
o leitor que não estou falando de
alterações em traduções, mas nas
próprias cópias manuscritas no idioma
original.

Em Marcos
Jesus explica aos fariseus sobre
a atitude de Davi ao comer pães
sagrados quando estava com fome, e diz
que Davi fez tal coisa “no tempo de
Abiatar, sumo sacerdote”. Mas, quando
consultamos o livro 1 Samuel, 21:1-6,
onde está narrado o fato referido por
Jesus, constatamos (com surpresa!) que
o episódio não aconteceu “no tempo de
Abiatar”, mas, sim, antes, quando
Aimeleque, o pai de Abiatar, era o sumo
sacerdote. Veja, a seguir, o trecho de
Marcos e o trecho de 1 Samuel:
Mas ele lhes disse: Nunca lestes o
que fez Davi quando estava em
necessidade e teve fome, ele e os que
com ele estavam?/ Como entrou na
casa de Deus, no tempo de Abiatar,
sumo sacerdote, e comeu os pães da
proposição. (Marcos, 2:25-26).
(Grifo nosso.)
Então veio Davi a Nobe, ao
sacerdote Aimeleque. Aimeleque,
tremendo, saiu ao encontro de Davi,
e perguntou-lhe: Por que vens só, e
ninguém contigo? / Respondeu Davi
ao sacerdote Aimeleque: O rei me
encomendou um negócio, e me disse:
Ninguém saiba deste negócio pelo
qual te enviei, e o qual te ordenei.
Quanto aos moços, apontei-lhes tal e
tal lugar. / Agora, pois, que tens à
mão? Dá-me cinco pães, ou o que se
achar. / Respondeu o sacerdote a
Davi: Não tenho pão comum à mão;
há, porém, pão sagrado, se ao menos
os moços se abstiveram das
mulheres. / (...) Então o sacerdote
lhe deu o pão sagrado, porque não
havia li outro senão os pães da
proposição. (1 Samuel, 21:1-4,6).
(Grifos nossos.)
3
A Bíblia é o livro mais
antigo do mundo
No livro A Bíblia (9), de
Antonio Gilberto da Silva, encontramos
a seguinte afirmação sobre a Bíblia:
O tempo não afeta a Bíblia. É o livro
mais antigo do mundo, e, ao mesmo
tempo, o mais moderno. (Grifo
nosso.)

A afirmação de que a Bíblia seja


o livro “mais antigo do mundo” é uma
mentira, mas que, aos olhos de muitos,
tem jeito de verdade, e reforça
consideravelmente o argumento segundo
o qual a Bíblia seria a palavra de Deus.
Eu disse que essa afirmação tem jeito de
verdade, e digo que isso ocorre por dois
motivos: primeiro, porque a grande
maioria dos crentes na Bíblia deposita
irrestrita confiança naquilo que ouvem
da boca de seus pregadores, ou naquilo
que leem nos livros que eles escrevem;
segundo, porque, já que acreditam tanto
nas informações de seus líderes, não se
dão ao trabalho de ir pesquisar se o que
eles disseram/escreveram é falso ou
verdadeiro. Muitos crentes na Bíblia
leem que ela é o livro “mais antigo do
mundo” num livro publicado por uma
editora de sua linha religiosa, e
acreditam automaticamente, sem
questioná-lo. Mas trata-se de uma
afirmação falsa, pois a Bíblia não é,
nem de longe, o livro “mais antigo do
mundo”. Uma afirmação como essa é até
mesmo prejudicial à própria divulgação
da Bíblia, pois a expõe à situação de
ridículo diante das pessoas mais cultas
que conhecem e leram diversos livros
bem mais antigos do que a Bíblia, como
alguns exemplos que mostrarei a seguir.
A afirmação de que a Bíblia seja o livro
“mais antigo mundo” é, além de uma
fraude, também um contrassenso, quando
a encontramos proferida por alguém, ou
alguma instituição, que diz divulgar a
verdade.
Cumpre-me deixar claro que não
direciono a minha crítica
particularmente ao autor supracitado,
pois a ideia de que a Bíblia seja o livro
mais antigo do mundo não é
originalmente dele. Tal conceito é
compartilhado pela imensa maioria dos
cristãos, que meramente repetem essa
afirmação como uma ladainha sem o
menor fundamento ou reflexão. O autor
acima referido apenas foi selecionado
por ser um bom representante ou porta-
voz da ideia – já que ele é editor da
Bíblia de estudo pentecostal em
português no Brasil, e consultor
doutrinário/teológico da Casa
Publicadora das Assembleias de Deus
(CPAD).
Vejamos agora alguns livros que
são mais antigos do que a Bíblia.
Primeiro, temos de esclarecer
um detalhe. Como se conta a idade de
um livro? A partir de quando ele
começou a ser escrito? Ou a partir da
conclusão da sua escrita? O leitor
poderá estar pensando que essa pergunta
é tola e desnecessária, pois nunca se
conta a idade de um livro a não ser a
partir do término de sua escrita, já
que, obviamente, um livro só passa a
existir depois de ter sido escrito. Mas,
estranhamente, aqueles que querem
defender a maior antiguidade da Bíblia
em relação a outros livros antigos, dão a
ela uma idade contada a partir do início
da sua escrita. Seria esse um “recurso”
de marketing forçado? Uma tentativa um
tanto quanto bizarra de aumentar o
envelhecimento da Bíblia?
Na Bíblia de estudo pentecostal
(10), encontramos a informação de que a
Bíblia começou a ser escrita por volta
de 1445–1045 a.C. e foi terminada por
volta de 90–96 d.C. Essas datas são
amplamente aceitas no meio protestante.
No Catolicismo, a marcação dessas
datas é só um pouco diferente, o que
mostrarei mais adiante.

- Contando a partir do início da sua


escrita, a idade da Bíblia será de
3.415–3.055 anos.
- Contando a partir do término da sua
escrita, a idade da Bíblia será de
2.100–2.106 anos.

Lembrando que esta última idade


é a única logicamente válida, caso
contrário, se eu estiver escrevendo um
livro hoje, mas que só vai ficar pronto
daqui a quatro anos, eu posso também
dizer, do mesmo modo, que neste exato
momento em que eu ainda estou
escrevendo o meu livro, ele já tem
quatro anos de existência! Essa
comparação que acabo de fazer ilustra
claramente o tresloucado absurdo que é
alguém contar a idade da Bíblia a partir
do início de sua escrita, como na
maioria das vezes é o que fazem muitos
pregadores diante de uma grande
quantidade de ouvintes/leitores que
acreditam passivamente, e sem o
questionar.
De qualquer modo, o que vou
provar a seguir é que, mesmo
considerando a idade maior da Bíblia,
ou seja, contada a partir do começo da
sua escrita, ainda assim existem livros
(e muitos!) mais antigos do que ela.
Vou fazer duas listas:
Primeira lista – livros que
começaram a ser escritos depois do
início da escrita da Bíblia, mas que
ficaram prontos bem antes dela (isto é,
antes de 90–96 d.C.).
Segunda lista – livros que já
existiam antes mesmo que a Bíblia
fosse iniciada (isto é, antes de 1445–
1405 a.C.).
A seguir, as duas listas.
Primeira lista

Nesta primeira lista estão os


livros que começaram a ser escritos
depois do início da escrita da Bíblia,
mas que ficaram prontos bem antes dela:
Livro dos mortos – Escrito no Egito,
entre os anos de 1580 a.C. e 1160
a.C. O objetivo deste livro era ajudar
o morto na sua viagem pelo mundo
subterrâneo, afastando eventuais
perigos que este poderia encontrar na
viagem para o Além.

Vedas – São escrituras sagradas do


Hinduísmo, escritas em sânscrito,
por volta do ano 900 a.C.

Ilíada – Autor: Homero; ano: entre


800 e 700 a.C.

Odisseia – idem.

Constituição de Atenas – Autor:


Aristóteles; ano: entre 384 e 322 a.C.
Poética – idem.

Ética a Nicômaco – idem.

Investigação sobre as plantas –


Autor: Theophrastus; ano: 300 a.C.
Considerado o pai da Botânica,
Theophrastus foi aluno de
Aristóteles.

Analectos – Autor: Confúcio; ano:


479 a.C., ano em que o autor faleceu.

A república – Autor: Platão; ano:


século IV a.C. Platão escreveu mais
26 livros, todos entre entre os
séculos V e IV a.C., e morreu em
348–347 a.C.

O banquete – idem.

Os Menecmos – Autor: Titus


Maccius Plautus; ano: 205 e 184 a.C.
O mesmo autor ainda escreveu outras
21 obras.

República – Autor: Zenão; ano: entre


334 e 270 a.C.
Sobre as sensações – Autor: Tímon
de Flio; ano: entre 320 e 230 a.C.

Sobre a velhice – Autor: Cícero;


ano: entre 106 e 43 a.C.

Sobre o destino – idem.

Da natureza – Autor: Lucrécio; ano:


entre 99 e 55 a.C.

Observe-se que citei apenas


livros que foram inteiramente escritos
antes de Cristo, enquanto a Bíblia só
ficou inteiramente escrita depois de
Cristo.
Existem tantos outros livros que
poderiam ser citados, que só a lista
deles daria um livro. Mas até aqui já
ficou suficientemente provado que
existem vários livros mais antigos do
que a Bíblia.
A própria Bíblia cita
livros mais antigos do
que ela

Até mesmo a própria Bíblia traz


informações sobre a existência de livros
mais antigos do que ela. Quando Paulo
de Tarso foi pregar na cidade de Éfeso,
lá ele encontrou pessoas que praticavam
magia. Essas pessoas, sentindo-se
persuadidas pela sua pregação,
trouxeram os seus livros e queimaram-
nos. Veja o que está escrito em Atos,
19:19:
Também muitos dos que tinham
praticado artes mágicas trouxeram os
seus livros, e os queimaram na
presença de todos. (Grifo nosso.)

Para quem diz acreditar


integralmente na verdade dos fatos que a
Bíblia conta, agora não há mais dúvida
de que havia livros antes de ela própria
existir, já que Paulo, um dos seus mais
importantes escritores, encontrou
pessoas que possuíam livros quando ele
ainda viajava pregando o Evangelho, e
ainda não havia escrito os seus textos
que, mais tarde, iriam fazer parte da
Bíblia.
Segunda lista

Esta é a segunda lista de alguns


livros mais antigos do que a Bíblia. Ela
é composta dos livros que já existiam
antes mesmo que a Bíblia fosse iniciada
(isto é, antes de 1445–1405 a.C.):

Epopeia de Gilgamesh –
Considerado o livro mais antigo do
mundo, foi escrito por volta de 3000
a.C. entre os sumérios, povo que
inventou a escrita. Seus originais
estão no Museu Britânico, em
Londres. A primeira tradução para o
português foi feita pelo professor
Emanuel Bouzon, da Pontifícia
Universidade Católica (PUC) do Rio
de Janeiro. A história do dilúvio,
contada na Bíblia, já estava escrita
com riqueza de detalhes nesse livro.
É a prova concreta e definitiva de
que a Bíblia não foi o primeiro livro
a falar do dilúvio.

Livros mais antigos do que Abraão


- Os centros de população mais
antigos, após o dilúvio (...) ficavam
na Babilônia (país), em Quis,
Ereque, Lagás, Acade, Ur, Babilônia
(cidade), Eridu, Nipur, Larsa e Fara.
Nas ruínas destas cidades encontram-
s e milhares de livros, escritos em
pedra ou em placas de barro, antes
da época de Abraão. (11) (Grifos
nossos.)

O prisma dinástico de Weld - O


Primeiro Esboço conhecido da
História Universal. Escrito em2170
a.C. por um escriba que se assinava
Nur-Ninsubur, (...) Acha-se hoje no
Museu Ashmoleano de Oxford. Já
existia há mais de cem anos antes
de Abraão. (12) (Grifo nosso.)

Kibalion – Foi escrito por Hermes


Trimegistos, por volta de 2700 a.C.,
e dissertava sobre leis que regem a
Natureza e suas aplicações na vida
humana. Seu conteúdo trazia
orientações para a prática da
caridade e da cura. O livro foi
considerado um guia completo para a
vida espiritual e para a moralidade.

I-Ching ou Livro das mutações –


Escrito por volta do ano 2000 a.C. na
China. Na cultura chinesa é tido
como um poderoso oráculo. É
estudado por religiosos, eruditos e
praticantes da filosofia taoísta.

Bibliotecas antigas - Em Ur e Adab


foram encontrados restos das tabletas
de duas bibliotecas ativas, em torno
dos anos 2800 a.C.–2700 a.C. Entre
2600 a.C. e 2500 a.C., houve várias
bibliotecas em Fara, Abu Salabik e
Kis, com os consabidos registros
econômicos e as listas genéricas,
mas também com textos de poesia,
magia e escritos paremiológicos (ou
de provérbios). (13) (Grifos nossos.)

Livros do templo de Eanna - A


exploração da camada IV do templo
da temida deusa Eanna, na cidade de
Uruk, desenterrou várias tabletas de
argila, algumas inteiras, mas outras
em fragmentos, pulverizadas ou
queimadas, que podem ser datadas
entre os anos 4100 a.C. ou 3300 a.C.
(14) (Grifo nosso.)

Reis antigos e seus livros - Por


volta de 2800 a.C., os reis, não sem
algum temor, delegaram aos escribas
o poder absoluto sobre a custódia
dos livros. (15) (Grifos nossos.)

A primeira escritora do mundo -


Por volta de 2200 a.C., o príncipe
Gudea criou uma biblioteca com
textos históricos e poemas da
primeira escritora conhecida do
planeta, Enkheduanna, filha do
famoso Sargão de Akkad. (16)
(Grifos nossos.)

Mais bibliotecas antigas - Nos anos


2000 a.C.–1000 a.C., havia
bibliotecas ativas em Isin, Ur e
Nippur, as duas primeiras nos
palácios reais das cidades e a última
na área onde habitavam os escribas.
(17) (Grifos nossos.)

Na concepção da Igreja
Católica, as datas de início e de fim da
escrita da Bíblia diferenciam-se da
concepção protestante, mas não muito.
Veja abaixo a visão católica sobre essas
datas:
O período histórico da formação da
Bíblia situa-se entre 1100 a. C. ou
1200 a.C. a 100 d.C. Provavelmente,
a mais antiga parte escrita da Bíblia
é o Cântico de Débora, que se
encontra no livro dos Juízes (Jz, 5).
(18) (Grifos nossos.)

Ou seja, em relação aos


protestantes, os católicos apresentam
uma idade mais jovem para a Bíblia.

Está, pois, muito claro e


concretamente provado que a Bíblia não
é o livro mais antigo do mundo. Tal
afirmação, onde quer que se a encontre,
escrita ou falada, é uma mentira
inadmissível, e só pode ser fruto ou da
ignorância ou da intenção consciente de
promover a Bíblia por meio de
propagandas enganosas.
4
Os erros e contradições
da Bíblia não afetam a
sua mensagem divina

Há os que defendem que os erros


e as contradições encontrados na Bíblia
não afetariam a essência da mensagem
que Deus deseja passar aos homens.
Neste caso, o que temos é uma
confirmação de que a Bíblia realmente
não é a palavra de Deus, mas, no
máximo, ela “contém” a palavra de
Deus, uma vez que este argumento é uma
aceitação declarada de que na Bíblia
também coexistem outras “palavras” que
não são “de Deus”, embora esta não
seja, por esse motivo, afetada.
5
A Bíblia é o livro mais
vendido (ou o mais lido)
do mundo

Sobre ser o livro mais


vendido

Não há nenhuma relação entre o


fato de muitas pessoas comprarem um
determinado livro e este ser inspirado
por Deus. O contrário é o que poderia
acontecer, segundo a própria Bíblia,
quando ela fala do “caminho estreito” e
do “caminho largo”. Muitos são os que
vão pelo caminho largo, ou seja, o
caminho que não é o de Deus.
Considerando assim, o maior número
das pessoas do mundo não se
interessaria por comprar um livro que
fosse de Deus. Um livro divino seria de
interesse de poucos, isto é, daqueles que
vão pelo caminho estreito. Com isso,
não estou advogando que a Bíblia seja
do diabo, mas, apenas, que o argumento
apoiado em altos índices de vendagem
para defender sua divindade não tem
fundamento, além de gerar uma
contradição com a própria Bíblia.
Sobre ser o livro mais lido

Se verificarmos o quanto a
Bíblia é, de fato, lida entre os seus
devotos, vamos deparar-nos com a
seguinte realidade: a grande maioria das
Bíblias existentes no mundo jamais foi
lida, ou não foi lida completamente, ou
sequer foi lida na maior parte de suas
páginas. Uma Bíblia costuma ser,
muitíssimas vezes, um objeto sagrado
que o crente, católico ou protestante, faz
questão de possuir e carregar, ou que
apenas envelhece sobre uma mesa,
aberta em algum salmo, quase sempre o
23. Nessa acepção, livros de autores
como Dostoiévski, Miguel de Cervantes,
Dante Alighieri, William Shakespeare,
Léon Tolstói, Jonathan Swift, Homero,
James Joyce, Marcel Proust, Charles
Bauledlaire, entre outros, já foram
sobejamente mais lidos do que a Bíblia,
pois, diferentemente desta, esses livros
não servem a outros fins, como a
devoção ou a ostentação. Eles existem
exclusivamente para ser lidos, e o são
por todas as pessoas, independentemente
de sua religião, ou mesmo que a pessoa
não tenha nenhuma religião. Esses livros
estão constantemente sendo lidos por
gerações e gerações de alunos nas
escolas, nas milhares de universidades
espalhadas pelo mundo, e por milhões
de leitores em geral, de todos os
continentes, enquanto a Bíblia só pode
contar com a leitura de um grupo restrito
de pessoas: os seus adeptos (e, mesmo
assim, como já dito, desse grupo nem
todos a leem).
Ainda é preciso levar em conta
que o número total de adeptos da Bíblia
no mundo não é tão grande, se
comparado ao número total de adeptos
de outras religiões que possuem outros
livros sagrados. As duas religiões que
adotam a Bíblia como o seu livro
sagrado são o Cristianismo e o
Judaísmo. Mas, como o Judaísmo só
considera como sagrados os cinco
primeiros livros do Antigo Testamento,
então, entre os judeus, obviamente, a
Bíblia nunca é toda lida. Sendo assim,
os adeptos da Bíblia, como a estamos
tratando aqui, de Gênesis a Apocalipse,
são apenas os cristãos, que mesmo
considerando todas as suas variantes
somam pouco mais de 2 bilhões de
pessoas no mundo, ou seja, menos de
um terço da população global, que é de
7 bilhões de pessoas. Os crentes
bíblicos devem, pois, colocar a sua
matemática em dia: se no mundo existem
7 bilhões de pessoas, e só 2 bilhões são
adeptas da Bíblia, há outras 5 bilhões de
pessoas lendo outros livros sagrados.
Como podem os crentes afirmar que a
Bíblia é o livro mais lido?
Como se não bastasse, ainda há
o problema de que nem sempre os
próprios adeptos da Bíblia tiveram
acesso a ela ou mesmo o direito de lê-
la, pois a Igreja Católica frequentemente
proibia ao povo a leitura das Escrituras
Sagradas, permitindo-a somente aos
doutores da Igreja. Somente a partir do
papa S. Pio X (cujo pontificado foi de
1903 a 1914) a leitura da Bíblia deixou
de ser embargada das mãos dos fiéis. Só
por conta desse fato, milhões e milhões
de cristãos nunca puderam sequer tocar
numa Bíblia.
6
A Bíblia possui “perfeita
harmonia” e unidade
entre seus livros

Um dos argumentos mais usados


pelos que proclamam ser a Bíblia a
palavra de Deus é a afirmação de que
existiria nela uma “perfeita harmonia”
entre os livros que a compõem. Esse
argumento, porém, parece ser o mais
frágil de todos, pois é facilmente
desmentido pela própria Bíblia, já que
existe nela um número exorbitante de
pontos incoerentes, não somente entre
um livro e outro, mas dentro de um
mesmo livro ou, ainda, entre livros
diferentes, cuja escrita é atribuída ao
mesmo escritor, como é o caso dos
livros de Lucas e de Atos, ambos de
escrita atribuída a Lucas. Vejamos
alguns exemplos – citarei, mesmo,
apenas alguns, para efeito de
exemplificação, pois a quantidade deles
é muito grande, e não caberia neste
livro, além do que vários outros casos já
estão abordados em outros capítulos.
Vamos aos exemplos.
Desarmonias entre um livro
e outro

Paulo foi ou não foi a


Jerusalém?

Logo após a sua conversão, o


próprio Paulo diz que ele não foi a
Jerusalém para estar com aqueles que já
eram apóstolos antes dele. Mas, no livro
de Atos, encontramos a afirmativa de
que ir a Jerusalém foi a primeira coisa
que ele fez! Veja essas duas passagens,
respectivamente:
(...) nem subi a Jerusalém para estar
com os que já antes de mim eram
apóstolos, mas parti para a Arábia, e
voltei outra vez a Damasco. (Gálatas,
1:17).
Quando Saulo [Paulo] chegou a
Jerusalém, procurava juntar-se aos
discípulos, mas todos o temiam, não
acreditando que fosse discípulo.
(Atos, 9:26).
Veja que não se trata apenas de
um pequeno mal-entendido sobre se
Paulo “foi” ou “não foi” a Jerusalém.
Em Gálatas, Paulo disse que lá ele não
foi; mas, em Atos, não há simplesmente
um equívoco de dizer que Paulo “foi” a
Jerusalém; há, mesmo, uma descrição de
fatos que teriam ocorrido por lá, isto é,
que os discípulos de Jerusalém
“temiam” Paulo, pois não acreditavam
que ele “fosse discípulo”.
Algum homem já viu Deus?

Há livros que negam


decisivamente que Deus possa algum dia
ter sido visto por qualquer homem.
Ninguém nunca viu a Deus. (João,
1:18).
Ninguém viu ao Pai, a não ser aquele
que é de Deus; só este viu ao Pai.
(João, 6:46).
Ninguém jamais viu a Deus. (1 João,
4:12).
Não poderás ver a minha face, pois
homem nenhum pode ver a minha
face, e viver. (Êxodo, 33:20).
Aquele que tem, ele só, a
imortalidade, e habita na luz
inacessível; a quem nenhum dos
homens viu nem pode ver; ao qual
seja honra e poder sempiterno.
Amém. (1Timóteo, 6:16).
Mas, contraditoriamente, há
outros livros que mostram certos homens
que viram Deus.
Subiram Moisés e Arão, Nadabe e
Abiú, e setenta dos anciãos de Israel,
e viram o Deus de Israel. Debaixo
dos seus pés havia como que uma
calçada de pedra de safira que se
parecia com o céu na sua claridade.
(...) eles viram a Deus, e comeram e
beberam. (Êxodo, 24: 9-11).

Alguns defensores da Bíblia


como a palavra de Deus costumam tentar
explicar essa contradição, dizendo que
os homens citados no versículo viram
Deus, não “em pessoa”, mas “em
glória”, ou seja, eles teriam, na verdade,
“sentido” a presença de Deus, e não
exatamente “visto” a sua presença. Tal
interpretação, segundo os mesmos
defensores, baseia-se no fato de que,
quando a Bíblia narra a suposta
aparição de Deus, são mostrados
clarões, nuvens, fumaças, fogo,
relâmpagos, elementos esses que seriam
uma representação da glória de Deus
manifestada no local, entre os homens. A
explicação é bonita e até parece séria,
mas carece de fundamentos e contraria,
de novo, a própria Bíblia. Vejamos por
quê:
Antes de Moisés subir ao monte,
o Senhor havia-lhe passado algumas
orientações, entre as quais a de que
somente ele, Moisés, poderia subir ao
monte.
Adorai de longe, e só Moisés se
chagará ao Senhor; os outros não se
chegarão. E o povo não subirá com
ele. (Êxodo, 24:1-2). (Grifo nosso.)

Estranhamente, os sacerdotes
desobedeceram a Deus (apesar de serem
sacerdotes) e subiram também; mais
estranho ainda é que Deus deixou os
transgressores impunes, e ainda
apareceu aos olhos deles do mesmo
modo que apareceu a Moisés. Voltando
ao centro da questão: as pessoas do
povo olhavam Deus de longe, porque
não desobedeceram como os sacerdotes.
(Que vergonha! Os sacerdotes é que
deveriam ser exemplo para o povo e,
não, o contrário!). Então as pessoas
comuns viam só os clarões, as fumaças,
enfim, a dita “glória do Senhor”, mas
Moisés e seus companheiros relapsos
viram algo mais do que fumaças e
clarões. Estes tiveram um privilégio em
relação a todas as outras pessoas, viram
algo a mais, que o povo estava proibido
de ver. Veja em Êxodo, 19.21:
(...) adverte ao povo que não
trespasse o termo até o Senhor para
vê-lo. (Grifo nosso.)

Essa orientação deixa claro que


o que Moisés viu foi o Senhor, mesmo, e
o povo é quem via somente a “glória do
Senhor”, sendo esse o motivo das
advertências de Deus, pois o povo
poderia querer chegar mais perto para
ver o Senhor “em pessoa”, tal como
Moisés via. Se não fosse assim, que
vantagem Moisés estaria tendo em
relação ao povo, a quem foi
recomendado que não podia “ver o
Senhor”? De resto, a advertência
encontrada em Êxodo 19.21 perderia
todo o sentido. Moisés não apenas viu a
nuvem, mas “entrou” na tal nuvem, assim
está escrito, para falar “cara a cara”
com Deus. Em Êxodo, 24:17-18, isso
está claro:
Aos olhos dos filhos de Israel a
glória do Senhor era como um fogo
consumidor no cume do monte./
Então Moisés entrou na nuvem,
depois que subiu ao monte. (Grifo
nosso.)

É isso que a Bíblia diz,


objetivamente e sem meias-palavras.
Então, segundo o livro de Êxodo,
Moisés e os sacerdotes desobedientes,
seus companheiros, são exemplos de
homens que, de fato, viram Deus.
Além do mais, diz o texto que
uma tal “calçada” foi vista “debaixo
dos pés do Senhor”. Ora, sendo assim,
o Senhor estava mesmo visível “em
pessoa”, senão essa referência a
“debaixo dos pés” seria impossível, a
menos que o Senhor não tivesse se
mostrado de corpo inteiro, deixando
visíveis apenas os seus pés, o que seria
uma situação esquisita, ou mesmo
ridícula. É claro que em cima dos pés
estava o resto do corpo do Senhor.
Concluindo, o que a narrativa
bíblica deseja mostrar é que, nos
episódios acima, Deus foi mesmo visto
pelos homens citados, por causa da
importância da missão que eles
desempenhavam, entrando, assim, em
contradição com outros trechos da
Bíblia que afirmam que homem algum
jamais viu Deus.
Uma particular desarmonia,
ainda ligada a esse fato de os homens
verem ou não verem Deus, é quando
Deus diz que “homem nenhum” que o
visse continuaria vivendo, enquanto
Jacó relata que viu Deus e, no entanto,
continuou vivendo normalmente. Veja os
dois trechos, na sequência:
O que Deus disse:
( . . . ) homem nenhum pode ver a
minha face, e viver. (Êxodo, 33:20).
(Grifo nosso.)
O que Jacó disse:
Vi a Deus face a face, e a minha vida
foi poupada. (Gênesis, 32:30).
(Grifo nosso.)
Alguém já subiu ao céu?

Ao fazermos essa pergunta à


Bíblia, obtemos duas respostas
contraditórias entre si, a saber:
No livro de João, a resposta é
“não”:
Ninguém subiu ao céu, senão o que
desceu do céu – o Filho do homem
(que está no céu). (João, 3:13).
(Grifo nosso.)
No livro 2 Reis, a resposta é
“sim”:
Indo eles andando e falando, de
repente um carro de fogo, com
cavalos de fogo, os separou um do
outro, e Elias subiu ao céu num
redemoinho. (2 Reis, 2:11). (Grifo
nosso.)
Desarmonias dentro de um
mesmo livro

Quantos animais Noé


deveria colocar na arca?

Em Gênesis, 6:20 está escrito


que Deus ordenou a Noé que fossem
colocados dois animais de cada espécie
dentro da arca:
(...) dois de cada espécie virão a ti,
para os conservares em vida.

Logo a seguir, porém, no


capítulo 7, encontramos algo bastante
diferente. Veja:
De todos os animais limpos levarás
contigo sete e sete, o macho e sua
fêmea; mas dos animais que não são
limpos, dois, o macho e sua fêmea.
(v. 2).

Veja que, além de a ordem


divina estar falando, agora, em sete e,
não mais, em “dois” animais, a ordem
do capítulo 6 falava apenas de dois
animais “de cada espécie”, e não tinha
nada a ver com o macho “e sua” fêmea,
informação esta que só apareceu no
capítulo seguinte. Ficamos a pensar: se
Deus fez mesmo isso, ou seja, se falou
uma coisa e depois falou outra, qual terá
sido a reação de Noé diante dessa
imprecisão divina? Sendo impossível
atender ao que está ordenado no capítulo
6 e no capítulo 7 ao mesmo tempo,
ficamos curiosos para saber: qual das
duas ordens Noé terá atendido?
As mulheres falam ou não
falam nas igrejas?

Citarei aqui um exemplo de


desarmonia que se encontra dentro da
epístola 1 Coríntios. É nessa epístola
que está a polêmica instrução de que as
mulheres devem ficar “caladas nas
igrejas”, conforme vemos nos versículos
a seguir:
Pois Deus não é Deus de confusão,
senão de paz. Como em todas as
igrejas dos santos, as mulheres
estejam caladas nas igrejas. Não lhes
é permitido falar, mas estejam
submissas, como também ordena a
lei. (1 Coríntios, 14:33-34).

De modo surpreendentemente
contraditório, porém, quando voltamos
um pouco, ao capítulo 11 do mesmo
livro, vemos que o mesmo autor deixa
claro que as mulheres não só podiam
falar, como falavam, nas igrejas. Esse
capítulo traz instruções a respeito de
como deveriam funcionar os cultos, nos
quais homens e mulheres participavam
igualmente, orando e profetizando.
Motivo por que se encontram aí
instruções dirigidas tanto aos homens
como às mulheres para quando eles (e
elas) fossem orar ou profetizar.
Veja um trecho que diz respeito
às mulheres:
Mas toda mulher que ora ou profetiza
com a cabeça descoberta, desonra a
sua própria cabeça. (1 Coríntios,
11:5).
Não matarás!

Em Êxodo, 20, Deus entrega os


Dez Mandamentos a Moisés, entre os
quais um deles é “não matarás”. Logo no
capítulo seguinte, porém, o mesmo Deus
que havia dito “não matarás” estabelece
leis mandando matar. Veja:
Quem ferir a um homem, de modo
que este morra, certamente será
morto. (Êxodo, 21:12).
Quem ferir a seu pai, ou a sua mãe,
certamente será morto. (Êxodo,
21:15).
O que raptar algum homem, e o
vender, ou for achado na sua mão,
certamente será morto. (Êxodo,
21:16).
Quem amaldiçoar a seu pai ou a sua
mãe, certamente será morto. (Êxodo,
21:17).
Desarmonia entre dois
livros de um mesmo escritor

Em Lucas, 24, está escrito que


Jesus “foi elevado ao céu” no mesmo
dia em que ressuscitou. Mas, no livro de
Atos, 1:1-11, que foi escrito também por
Lucas, a informação é diferente: diz-se
que Jesus foi elevado ao céu quarenta
dias depois da ressurreição.
Veja o que se diz na passagem
bíblica indicada:

1. Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo,


acerca de tudo o que Jesus começou,
não só a fazer, mas também ensinar,
2. até o dia em que foi recebido em
cima no céu, depois de ter dado
mandamentos, pelo Espírito Santo,
aos apóstolos que escolhera.
3. Aos quais também, depois de ter
padecido, se apresentou vivo, com
muitas e infalíveis provas, sendo
visto por eles por espaço de
quarenta dias, e falando do que
respeita ao reino de Deus.
4. E, certa ocasião, estando comendo
com eles, ordenou-lhes: Não vos
ausenteis de Jerusalém, mas esperai
a promessa do Pai, a qual, disse ele,
de mim ouvistes.
5. Pois João batizou com água, mas
vós sereis batizados com o Espírito
Santo, não muito depois destes dias.
6. Aqueles que se haviam reunido
perguntaram-lhe: Senhor, restaurarás
tu neste tempo o reino a Israel?
7. Ele lhes disse: Não vos pertence
saber os tempos ou as épocas que o
Pai estabeleceu pelo seu próprio
poder.
8. Mas recebereis poder, ao descer
sobre vós o Espírito Santo, e sereis
minhas testemunhas, tanto em
Jerusalém como em toda a Judeia e
Samaria, e até os confins da terra.
9. Depois que lhes disse isto,
vendo-o eles, foi levado às alturas e
uma nuvem o recebeu, ocultando-o a
seus olhos.
10. E estando eles com os olhos fitos
no céu enquanto ele subia, de repente
junto deles se puseram dois homens
vestidos de branco,
11. os quais lhes disseram: Varões
galileus, por que estais olhando para
o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi
recebido em cima no céu, há de vir,
assim como para o céu o vistes ir.
(Grifos nossos.)
7
A Bíblia promove
extraordinárias
experiências de
transformação interior

Muitas pessoas dizem ter tido


experiências “com Deus” ao ler a
Bíblia, e que essas experiências
transformaram as suas vidas. Tais
experiências podem até ter acontecido,
mas isso não quer dizer,
necessariamente, que a Bíblia seja a
palavra de Deus, uma vez que não é só
lendo a Bíblia que experiências desse
gênero acontecem.
Por exemplo, o astronauta
estadunidense James Irwin, tripulante da
nave espacial Apolo 15, passou três
dias na Lua e um total de doze dias no
espaço. Quando retornou da sua viagem,
James Irwin disse que, em consequência
dessa experiência, ele sentiu a
“presença de Deus”. E essa sua
experiência “com Deus” realmente
operou uma transformação em sua vida,
pois ele fundou uma organização
religiosa, denominada Hight Flight
(Voo Alto), e passou a testemunhar ao
mundo inteiro que teve uma experiência
“com Deus” durante a sua viagem
espacial. Ora, se afirmarmos que a
Bíblia é a palavra de Deus pelo fato de
que com ela pessoas têm experiências
“com Deus”, teremos que dizer o mesmo
a respeito de viagens espaciais, isto é,
que estas são ações inspiradas por Deus.
Outro exemplo: o escritor
paraibano Ariano Suassuna era ateu
convicto e, como tal, não procurava por
Deus em parte alguma. Suassuna, porém,
disse ter tido uma experiência com Deus
ao ler o romance Os irmãos Karamazov,
de Fiódor Dostoiévski, quando se pôs a
pensar sobre a frase: “Se Deus não
existe, tudo é permitido”. Suassuna
refletiu que na vida nem tudo é
permitido, e que todos nós temos
consciência do que é certo e do que é
errado; que todos nós temos a percepção
do que é o bem e do que é o mal, e por
esses parâmetros procuramos pautar
nossas ações. Ariano Suassuna
convenceu-se de que a vida é regida por
uma Entidade Superior, que estaria no
comando dessas leis, e que, por isso, os
seres humanos não estariam
abandonados no caos. Quando Suassuna
terminou de ler o livro, ele se declarou
um ex-ateu. Sendo assim, se a Bíblia
tiver de ser considerada como a palavra
de Deus pelo fato de que promove esse
tipo de experiência espiritual, a obra Os
irmãos Karamazov, de Fiódor
Dostoiévsk, também terá de ser
considerada a palavra de Deus, já que
ela operou o mesmo prodígio.
8
A Bíblia é um livro de
profecias. Umas já se
cumpriram; outras, estão
por se cumprir

Uma “inteligência superior”


não é, necessariamente, o
Deus da Bíblia
O verdadeiro cumprimento de
uma única profecia seria um claro sinal
de que haveria uma inteligência sobre-
humana atuando na Terra, já que o
homem não possui a habilidade de
prever eventos futuros, e nem parece que
conseguirá desenvolvê-la nas próximas
centenas de milhares de anos. Mas daí a
dizer que a tal inteligência superior
seria, necessariamente, o Deus-Javé da
Bíblia já é outra coisa. Existiriam,
então, outros deuses? Essa pergunta não
é necessária ou, pelo menos, não tem
urgência em ser feita, pois, quando se
fala em inteligência superior, se pode
estar falando apenas de uma inteligência
que é superior à inteligência do homem
terrestre e, não, de uma inteligência que
s e j a a maior de todo o Universo. A
referência a uma inteligência superior
não nos dá a inferência exata de que se
esteja falando de Deus, do Javé bíblico,
nem de qualquer outro Deus ou deuses.
Afinal, os tempos das mitologias já se
passaram e, hoje, a nossa mente não
pode mais funcionar como a do homem
daquelas épocas remotas, para quem
tudo o que não parecesse natural viria
dos deuses ou dos demônios, como, por
exemplo: boas colheitas eram dádivas
diretas dos deuses, doenças e secas
seriam maldições de demônios ou
punições dos deuses, e assim por diante.
Foram necessários alguns milênios para
superarmos esse simbolismo mágico, e,
agora, em pleno século XXI, quando nos
pomos a analisar a questão das
profecias bíblicas, não podemos flagrar-
nos com uma recaída a essas
rudimentares concepções. É para evitar
essa recaída à visão mitológica que digo
que o cumprimento de uma profecia
pode até ser vista como um sinal de uma
atuação de uma inteligência superior,
mas que esta não pode ser
automaticamente considerada como uma
intervenção direta de um Deus ou de
deuses. Sendo assim, a simples
constatação de profecias cumpridas não
dá à Bíblia o status de palavra de Deus.
Se, porventura, os crentes disserem que
atribuir o cumprimento das profecias
bíblicas a Deus é uma questão de fé, e
que, portanto, não caberia discussão,
então, esse mesmo respeito deveríamos
todos dedicar aos que creem que
fenômenos dessa ordem estariam sendo
promovidos por seres extraterrestres
extremamente mais inteligentes do que o
homem, já que esse é outro tipo de fé,
pois as provas sobre essa ideia não
foram ainda oficialmente reconhecidas,
do mesmo modo que também ninguém
provou a existência do Deus da Bíblia,
nem de qualquer outro Deus ou deuses.
Essa abordagem não é uma apologia ao
ateísmo, mas, sim, uma demonstração de
como o assunto sobre Deus não pode ser
tomado apressadamente, nem
superficialmente, menos ainda
irresponsavelmente.
Profecias confusas e não
cumpridas

A afirmação de que a Bíblia seja


a palavra de Deus por haver nela
profecias que se cumpriram traz
embutida em si uma outra firmação: a de
que a Bíblia não seria a palavra de
Deus caso ela contivesse profecias que
não se cumpriram. É exatamente isso,
pois, que vou demonstrar – que na
Bíblia existem profecias que já
deveriam ter se cumprido, mas isso não
aconteceu, e, portanto, ela não pode ser
a palavra de Deus, já que Deus não
poderia equivocar-se em nenhuma
sequer das suas previsões.
Mas, antes, precisaríamos saber
claramente, na opinião dos crentes na
Bíblia, quais são as profecias bíblicas;
entre essas, quais as que já se
cumpriram e de que forma isso se deu, e
quais ainda estão por cumprir-se. Nesse
ponto, encontramos sérias confusões que
os próprios crentes fazem, pois não há
um consenso entre os segmentos cristãos
para responder a essas questões. Seria
impossível tratar de todas as profecias
aqui, nas poucas páginas deste livro.
Vou abordar algumas, apenas para
ilustrar a ideia. Por exemplo, os
adventistas do Sétimo Dia afirmam que
a profecia encontrada em Apocalipse,
13, 1:10, sobre a besta que subiu do
mar, que tinha dez chifres, dez diademas
etc., já se cumpriu, e teria sido o papado
da Idade Média. Certamente que os
cristãos católicos não pensam assim,
pois não considerariam que a liderança
da sua própria Igreja tenha sido uma das
bestas do Apocalipse. Também os
adventistas do Sétimo Dia creem que a
profecia da “segunda besta”, ou seja, a
besta que subiu da terra, em Apocalipse,
13:11-18, já se teria cumprido com o
surgimento dos Estados Unidos da
América do Norte e o desenvolvimento
dessa nação. Certamente, os crentes
bíblicos dos EUA – país com o maior
número de protestantes em todo o mundo
– não são simpáticos com essa
interpretação. Já a Igreja Católica
Apostólica Romana diz que a mesma
profecia se cumpriu, mas que a besta em
questão foi personificada no imperador
Nero. Quanto ao dito “anticristo”,
profetizado especificamente em 1 João,
2:18 , 2:22 , 4:3 e 2 João, 1:7, a Igreja
Católica Apostólica Romana diz ter sido
personificado em Martinho Lutero e
outros reformadores, e também em
Maomé. Já esses mesmos reformadores,
por sua vez, dizem que é o contrário,
que o Anticristo da profecia bíblica é,
na verdade, o papa de Roma.
Uma profecia das mais famosas
entre os crentes na Bíblia é a que está
contida na “parábola da figueira”, em
Mateus, 24:32-34, que diz assim:
Aprendei agora esta parábola da
figueira: Quando já os seus ramos se
tornam tenros e brotam folhas, sabeis
que está próximo o verão./
Igualmente vós, quando virdes todas
estas coisas, sabeis que está
próximo, às portas./ Em verdade vos
digo que não passará esta geração
sem que todas essas coisas
aconteçam.

Há correntes protestantes que


creem que essa parábola anuncia ou o
“fim do mundo”, ou o “fim dos tempos”,
ou a “volta de Jesus”. São três eventos
bem diferentes, e isso basta para já
registrarmos a presença de confusões
dentro de uma mesma profecia. Há ainda
uma outra grande divergência entre os
crentes de variadas linhas. O influente
evangelista e escritor cristão
estadunidense Harold Lee Hal Lindsay
fez uma previsão de que essa profecia se
cumpriria até o ano de 1988. Essa sua
previsão está publicada no seu livro que
virou best-seller nos anos 70, vendendo
mais de 35 milhões de exemplares, e
publicado em 54 idiomas. Segundo
Lindsay (e todos os sionistas cristãos,
isto é, os crentes que acreditam que a
criação do Estado de Israel, em 1948,
seja um sinal da “segunda vinda” de
Jesus à Terra), a “figueira” simboliza a
nação de Israel. Assim, o brotar folhas,
de que fala a parábola, significaria o
fato de Israel ter se tornado uma nação
soberana, fato esse que ocorreu no ano
de 1948. Na parábola, Jesus diz que o
fim (“do mundo” ou “dos tempos”) ou a
sua volta, se daria ainda dentro da
geração que presenciaria esses fatos.
Considerando uma geração bíblica
sendo de quarenta anos, interpretou
Lindsay que a consumação da profecia
se daria em algum momento dentro do
período compreendido entre 1948 e
1988. Mas, como se viu, nada
aconteceu. Há outras correntes da crença
cristã que interpretam essa mesma
profecia de outras formas, esticando o
prazo para o seu cumprimento. Segundo
esses crentes, o brotar das folhas de que
fala a parábola não seria a ascenção de
Israel, ocorrida em 1948, mas, sim, a
vitória desse país contra o Egito, a
Jordânia e a Síria no conflito que ficou
conhecido como a Guerra dos Seis Dias,
que ocorreu no ano de 1967. Sendo
assim, se a figueira brotou em 1967, o
cumprimento da profecia – disseram –
aconteceria em algum momento até, no
máximo, o ano de 2007. Mas, como
também se viu, nada aconteceu até essa
data. Há, ainda, outros crentes que
sustentam o cumprimento dessa mesma
profecia mais ainda para o futuro,
dizendo que a geração de que fala
parábola seria um período, não de
quarenta, mas, de setenta a oitenta anos.
Nesse caso, o seu cumprimento dar-se-
ia em algum momento até 2028,
considerando que o “brotar” tenha sido
em 1948; ou o prazo estender-se-ia
ainda mais, até o ano de 2047, no caso
em que o “brotar” tenha sido a guerra de
1967. Nesses dois últimos casos, a
profecia ainda está por cumprir-se, mas,
se ela não se cumpriu nas vezes
anteriores para as quais estava prevista,
como os crentes de agora poderão
sustentar com razoável segurança que
ela, de fato, se cumprirá nas suas datas
futuras? Já a Igreja Católica quase não
considera que aí haja exatamente uma
profecia, mas, sim, uma “mensagem de
alerta” para os sinais dos tempos (sinais
esses sem datas marcadas ou fatos
específicos), com o objetivo de manter-
nos vigilantes e preparados para viver
esse momento. Ponto de vista bem
diferente – e ousado – vem das
Testemunhas de Jeová, que afirmam que
Jesus já voltou precisamente no ano de
1914, mas que ele veio “invisível”, e
desse mesmo modo se encontra, desde
então, e até aos dias atuais, presente
entre nós. Essa crença, porém, embora
se refira à mesma profecia da parábola
da figueira, as Testemunhas de Jeová a
inferem de outros trechos bíblicos.
Assim, há outras interpretações sobre o
“fim”, que se baseiam em outras leituras
fora da parábola da figueira, como, por
exemplo, a previsão do influente pastor
luterano do século XVIII John Albrecht
Bengel, para quem o cumprimento da
referida profecia se daria no ano de
1836.
Há, inclusive, uma vertente de
crença protestante, segundo a qual nós
não devemos alimentar nenhuma
expectativa de que haja qualquer
profecia ainda por cumprir-se, pois –
diz a referida crença – todas elas já
teriam sido cumpridas nos tempos
bíblicos. Essa linha de crença é adotada
pelos defensores da chamada
“Escatologia Realizada”, que foi
popularizada pelo inglês Charles Harold
Dodd (1884–1973), teólogo protestante,
professor de Teologia da Universidade
de Cambridge e diretor responsável por
uma moderna tradução da Bíblia para o
inglês, a New English Bible (Nova
Bíblia, em inglês).
Podemos observar, então, que a
cristandade está profundamente confusa
com as profecias do seu próprio livro
sagrado, e isso não poderia acontecer se
a Bíblia fosse, como dizem ser, a
palavra de Deus. Uma profecia divina
deveria ser algo claro igualmente para
todos os seres humanos, sem
complexidades exegéticas que exigissem
capacidades intelectuais especiais para
compreendê-lo, pois, assim sendo, a
mensagem de Deus alcança somente uma
pequena parcela mais erudita da
humanidade, daquelas pessoas que
tiveram condições de estudar muito em
suas vidas. A multidão dos indivíduos
comuns, dos pobres que, por isso, não
estudaram, assim como daqueles que,
por qualquer outro motivo, passam pela
vida analfabetos ou com baixo nível de
letramento, esses todos podem até ter
boa vontade em querer compreender
complexas questões bíblicas como são
as profecias, mas não o conseguirão por
mais que se esforcem; no máximo terão
que aceitar cegamente aquilo que seus
pregadores lhes dizem nos púlpitos das
suas igrejas, não podendo nunca se
apropriar, com autonomia, de uma noção
mais exata do que irá acontecer no
porvir, não só com o mundo, mas com
suas próprias vidas.
Não há nenhuma profecia
claramente expressa na Bíblia, que fale
aberta e concretamente de algo que vá
acontecer, muito menos há qualquer
referência minimamente segura sobre o
momento de sua consumação. O que se
convencionou chamar de “profecias
bíblicas” são verdadeiras charadas que
permitem fazer delas diversas
interpretações. Como estamos vendo, é
exatamente isso que tem acontecido ao
longo da história, como procurei
exemplificar nos parágrafos anteriores.
Não são, pois, os religiosos que não têm
inteligência insuficiente para entender as
ditas profecias bíblicas (que digo que
são charadas), mas são as próprias
profecias que constituem ideias vagas,
que podem ser atribuídas a diversos
eventos diferentes e podem ser situadas
em diversos contextos históricos
distintos. Sendo assim, poderíamos
legitimar também as profecias de
Nostradamus como palavra de Deus,
pois os argumentos de seus opositores
constumam ser precisamente esse, o de
que ele profetizou ideias vagas. Segundo
os crentes em Nostradamus, entres as
profecias dele que se cumpriram estão,
por exemplo, a ascenção de Adolf
Hitler, o assassinato do ex-presidente
estadunidense John F. Kennedy, a
destruição das torres gêmeas do World
Trade Center, em Nova Iorque (EUA),
no atentado de 11 de setembro de 2001,
entre outras dezenas de profecias
cumpridas. Nostradamus pode, sim, ter
profetizado vagamente, e isso fez com
que houvesse, hoje, pessoas que creem
nele e pessoas que não creem nele, e,
ainda, fez com que existissem, na
atualidade, vários estudiosos que
apontam eventos diferentes e em tempos
diferentes como cumprimentos de suas
profecias. Tal situação embaraçosa é
exatamente idêntica à que se passa em
relação às profecias da Bíblia.
Profecias realmente divinas
deveriam ser logo reconhecidas por sua
clareza e objetividade, e não poderiam
assemelhar-se jamais a palavras
humanas. Assim, sentiríamos como seria
diferente e inigualável a palavra de um
Deus, e, então, todos os homens se
dobrariam calados ante a sua
autoridade. Só assim, também, é que
poderíamos entender e considerar
verdadeiro o que está dito em 1
Coríntios, 14:33: Pois Deus não é Deus
de confusão, senão de paz. Como em
todas as igrejas dos santos.
Algumas profecias bíblicas
que não se cumpriram

A volta “breve” de Jesus

Até hoje, tendo-se passado já


dois longos milênios desde que Jesus
morreu, os crentes na Bíblia continuam
pregando que a volta dele será em
“breve”, o mesmo “breve” do qual
falavam os cristãos primitivos de
algumas décadas depois da morte do
Mestre. Diante da crítica dos céticos
sobre esse “breve” que nunca chega, os
crentes costumam apresentar o clássico
argumento que “um dia para Deus é
como mil anos, e mil anos como um
dia”. Esse trecho da Bíblia, porém, tem
efeito contrário do que pretendem os
defensores de suas profecias, pois, em
vez de resolver a controvérsia, acaba
por confirmá-la. Vejamos por quê.
Essa passagem está em 2 Pedro,
3:8. Pedro, aí, faz uma necessária
retificação na equivocada crença vigente
em sua época, a de que Jesus voltaria
realmente em breve, isto é, nos dias em
que as pessoas daquela geração estavam
vivendo. Isso era o que as pessoas
haviam aprendido, principalmente, do
apóstolo Paulo, décadas antes da
palavra de Pedro. Entretanto, como o
tempo se passava e a dita volta “breve”
não acontecia, Pedro fez a sua exortação
para o fato de que, na verdade, a volta
de Jesus poderia ser para um futuro
distante. Assim, desmentiu o que Paulo
havia pregado e escrito. Essas mancadas
de Paulo sobre a “volta breve” de Jesus,
porém, estão na Bíblia até hoje,
constituindo um exemplo clássico de
profecia que falhou.
Paulo escreveu:
Depois, nós que ficarmos vivos,
seremos arrebatados juntamente com
elas nas nuvens, para o encontro com
o Senhor nos ares. (1
Tessalonicenses, 4:17). (Grifo
nosso.)

Veja que, segundo a epístola de


Paulo, Jesus voltaria tão breve que
ainda encontraria alguns deles vivos.
Portanto, a expressão de Pedro, “um dia
para Deus é como mil anos, e mil anos
como um dia” não foi dita e escrita para
justificar a profecia da volta breve de
Jesus, mas, sim, para negá-la, já que o
propósito de Pedro era demonstrar que
essa profecia era (e continua sendo cada
vez mais) falsa.
Profecia ao sumo sacerdote
(de autoria atribuída ao
próprio Jesus)

O trecho que vou abordar aqui


está em Marcos, 14: 61-62. Em seu
julgamento, no Sinédrio, Jesus dialogou
brevemente com o sumo sacerdote, que
lhe dirigiu a pergunta:
És tu o Cristo, o Filho do Deus
Bendito? (v. 61).
E Jesus respondeu:
Eu sou. E vereis o Filho do homem
assentado à direita do Todo-
poderoso, e vindo sobre as nuvens
do céu. (v. 62).

Essas palavras de Jesus é uma


resposta à pergunta feita pelo homem
com quem ele conversava, o sumo
sacerdote. Jesus disse-lhe que ele, o
sumo sacerdote (não, a humanidade, o
povo ou nós hoje em dia) o veria vir
“sobre as nuvens do céu”. Ou seja, Jesus
estava dizendo ao sumo sacerdote que a
sua “volta” se daria ainda naqueles dias,
logo depois da sua crucificação. Trata-
se, portanto, de uma predição jamais
cumprida. O referido sumo sacerdote
deve ter sido um homem extremamente
incrédulo com relação ao que Jesus
dizia, mas, se não tivesse sido, ele teria
ficado impressionado com essa
profecia, mas, no fim, morreria sem
nunca ver Jesus descer nas nuvens, coisa
que não aconteceu nem no tempo em que
viveu o sumo sacerdote nem aconteceu
em época alguma da história, até o
presente momento.
Teria sido, mesmo, Jesus quem
falou tais palavras e errou? Ou seria
melhor crermos que foi o escritor do
livro de Marcos que inseriu essa parte
por sua própria conta, movido pelo afã
da “volta breve” de Jesus que, como
vimos anteriormente, era uma falsa
crença vigente na época e uma falsa
profecia ainda presente na Bíblia até
hoje? Só há duas opções: ou aceitamos
que Jesus é quem errou; ou, de outro
modo, a Bíblia é que está errada, pois
seus escritores terão registrado nela
algo que Jesus verdadeiramente nunca
disse.
Todo olho verá?
(envolvendo, também,
profecia de autoria
atribuída a Jesus)

Escrita por homens que, naquela


época, imaginavam que a Terra fosse
achatada e circular, encontramos uma
profecia que deixa um flagrante dessa
visão equivocada da realidade:
( ...) todos os povos da terra se
lamentarão e verão o Filho do
Homem, vindo sobre as nuvens do
céu. (Mateus, 24:30). (Grifos
nossos.)
Vede, ele vem com as nuvens e todo
olho o verá. (Apocalipse, 1:7).
(Grifos nossos.)

Podemos até não duvidar que


Jesus voltará, assim, de maneira física,
surgindo no céu, de repente. Mas jamais
podemos crer que “todo olho verá”,
quando isso acontecer, pois, sendo a
Terra um globo, se esse evento for visto
no Japão, quem estiver no Brasil, por
exemplo, só ficará sabendo pelos
noticiários ou pela internet. A profecia
de que “todo olho verá”, portanto,
jamais se cumprirá.
Profecia aos que creem
(de autoria atribuída ao
próprio Jesus)

O final do livro de Marcos é


particularmente belo e emocionante. Há
uma profecia feita nos seus últimos
versículos, porém, que não se cumpriu.
Veja:
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e
pregai o evangelho a toda criatura./
Quem crer e for batizado será salvo,
mas quem não crer será condenado./
E estes sinais hão de seguir os que
creem: Em meu nome expulsarão
demônios; falarão novas línguas;
pegarão em serpentes; e quando
beberem alguma coisa mortífera,
não lhes fará mal algum; imporão as
mãos sobre enfermos, e os curarão.
(Marcos, 16:15-18). (Grifo nosso.)

Veja que não é uma profecia


dirigida especialmente aos pregadores
do Evangelho, mas, aos “que creem”, ou
seja, a todos os cristãos. Peço ao leitor
que observe a parte que destaquei, em
que se fala que, quando os que creem
“beberem alguma coisa mortífera, não
lhes fará mal algum”. Se essa profecia é
verdadeira, então pergunto: qual cristão,
hoje em dia, teria a coragem de ingerir,
por exemplo, cinco miligramas de
cianureto? Ou, pelo menos, quem se
habilitaria a tomar apenas uma colher de
ácido sulfúrico? Creio que em todo o
mundo não encontraremos um candidato
sequer, por mais que confesse
fervorosamente a sua fé. Isso não é uma
demonstração de fraqueza generalizada
da fé cristã, mas, sim, um modo de
flagrar a fraude de uma profecia que
afirma tal absurdo.
A riqueza de Salomão

Em II Crônicas, 1:12, Deus diz


que nunca mais na história haveria um
rei tão rico como Salomão:
Sabedoria e conhecimento te são
dados, e te darei riquezas, bens e
honra, quais não teve nenhum rei
antes de ti, e nenhum depois de ti
terá. (Grifo nosso.)
Não foi isso, porém, que
aconteceu. Conforme informa-nos
Robert Ingersoll (19), mesmo na época
de Salomão houve reis tão ricos que
poderiam jogar fora todo o reinado dele,
sem perder muito com isso. Comparada
aos padrões atuais (Ingersoll falava isso
no século XIX), a riqueza de Salomão
revela-se pequena, e já foi
absolutamente superada por reis bem
mais ricos que viveram depois dele.
Sobre a ruína de Damasco

O profeta Isaías profetizou o fim


de Damasco; disse que a cidade se
transformaria num “montão de ruínas”.
Mas, isso nunca aconteceu.
Oráculo acerca de Damasco:
Damasco será tirada, e já não será
mais cidade, mas um montão de
ruínas. (Isaías, 17:1). (Grifos
nossos.)
Apesar da profecia de Isaías,
Damasco, capital da Síria, é uma das
cidades mais antigas do mundo
continuadamente habitada, e,
evidentemente, nunca foi destruída. Pelo
contrário, possui, hoje, cerca de
1.700.000 habitantes, mantém um
comércio intenso e um sofisticado
aeroporto internacional que a liga à
Europa e a todo o mundo árabe.
Há apologistas bíblicos que
tentam, ainda, salvar essa profecia,
dizendo que ela foi cumprida quando
Damasco foi tomada por Tiglate-Pileser,
rei da Assíria, em 732 a.C. A cidade foi,
sim, tomada, mas é certo que não foi
destruída, e é disso que trata a profecia.
A prova de que a cidade de Damasco
não foi destruída por Tiglate-Pileser
está na própria Bíblia, quando lemos em
2 Reis, 16:10, que imediatamente depois
da tomada de Damasco, o rei Acaz foi a
essa cidade encontrar-se com Tiglate-
Pileser. Se Acaz foi a Damasco é
porque Damasco existia. O texto diz que
o rei assírio “tomou” Damasco, e
“tomar” uma cidade não significa
destruí-la. Além disso, há outros
elementos que demonstram a
permanência das edificações da cidade
como, por exemplo, o fato de Acaz ter
encontrado lá um altar tão bonito que
tirou dele um modelo, e mandou
construir um outro semelhante em
Jerusalém. Vemos, inclusive, que Acaz
parece ter passado uns dias em
Damasco, pois está escrito, no versículo
11, que a construção do altar ficou
terminada antes que Acaz voltasse de
Damasco. Ou seja, o rei Acaz
permaneceu em Damasco um período,
pelo menos o suficiente para dar tempo
de construir-se o referido altar. É
evidente que o rei Acaz não teria
permanecido tempo algum se só
houvesse ruínas no local em que ele se
encontrava. Então, não há argumentos
que defendam a profecia sobre a
destruição de Damasco, fato este que
nunca aconteceu.
O homem deveria viver
apenas até 120 anos

Deus estabeleceu que o homem


só viveria até à idade de 120 anos.
Então disse o Senhor: Não
permanecerá o meu Espírito para
sempre com o homem, pois este é
mortal; os seus dias serão cento e
vinte anos. (Gênesis, 6:3).

No entanto, vemos, depois,


diversas pessoas vivendo até muito mais
do que isso, chegando, inclusive, a
idades elevadíssimas.
Foram todos os dias que Adão viveu
novecentos e trinta anos, e morreu.
(Gênesis, 5:5).
Foram todos os dias de Sete
novecentos e doze anos, e morreu.
(Gênesis, 5:8).
Foram todos os dias de Enos
novecentos e cinco anos, e morreu.
(Gênesis, 5:11).
Foram todos os dias de Cainã
novecentos e dez anos, e morreu.
(Gênesis, 5:14).
Foram todos dias de Maalaleel
oitocentos e noventa e cinco anos, e
morreu. (Gênesis, 5:17).
Foram todos os dias de Jerede
novecentos e sessenta e dois anos, e
morreu. (Gênesis, 5:20).
As águas do Egito deveriam
secar-se

Isaías profetizou que as águas do


Egito iriam secar-se.
Minguarão as águas do Nilo, e o rio
se esgotará e secará./ Os canais
exalarão mau cheiro; os rios do Egito
se esgotarão e secarão. (Isaías, 19:5-
6).
Mas isso, obviamente, nunca
aconteceu em toda a história, e sempre
que estudamos sobre o Egito (e é assim
até hoje nas escolas), ouvimos falar do
famoso rio Nilo, às margens do qual a
nação surgiu e se deselvolveu, e cujas
águas jamais se secaram.
O trono de Davi deveria ser
eterno

Deus disse que o trono de Davi


duraria “para sempre”, “de geração em
geração”. Veja:
Fiz aliança com o meu escolhido,
jurei ao meu servo Davi, /
estabelecerei a tua descendência
para sempre, e edificarei o teu trono
de geração em geração. (Salmos,
89:3-4). (Grifo nosso.)
Conservarei para sempre a sua
descendência, e o seu trono como os
dias do céu. (Salmos, 89:29). (Grifo
nosso.)
Não quebrarei a minha aliança, não
alterarei o que saiu dos meus lábios.
(Salmos, 89:34). (Grifo nosso.)
A sua descendência durará para
sempre, e o seu trono será como o
sol perante mim. / Será estabelecido
para sempre como a lua, a fiel
testemunha no céu. (Salmos, 89:36-
37). (Grifos nossos.)
Mas isso não aconteceu. No
sexto século a.C. o rei babilônico
Nabucodonosor invadiu Judá, destruiu a
cidade de Jerusalém e o seu templo. O
governo que, segundo a profecia,
deveria ser “para sempre” da
descendência de Davi, passou a ser dos
inimigos estrangeiros. O cativeiro
babilônico durou cerca de setenta anos e
o governo de Israel passou por 450 anos
sem rei da linhagem de Davi. Os
apologistas da Bíblia tentam (sem
sucesso) contornar essa constrangedora
situação, fazendo uma “forçada”
interpretação que se apoia, basicamente,
em dois argumentos:

Primeiro argumento: que a


promessa de Deus sobre um reino eterno
estava condicionada à obediência dos
homens. Davi, Salomão e outros reis
pecaram. Esse seria o motivo de a
promessa não se ter cumprido.

Segundo argumento: que o


reinado eterno de que fala a profecia se
refere a um reinado “espiritual”, o
reinado de Jesus, quando este voltar à
Terra em sua segunda vinda, pois que
Jesus é da descendência de Davi.

A seguir, apresento minhas


objeções aos dois argumentos acima.

Sobre o primeiro argumento:


Diz este argumento que Deus fez
a promessa, mas, com uma “condição”
para que ela se cumprisse. O problema é
que não há no texto bíblico qualquer
referência à “condição” feita por Deus.
O leitor poderá verificar agora mesmo
e m 2 Samuel, 7 (particularmente nos
versículos 13, 16 e 17), em que se
encontra a profecia. O argumento sobre
uma suposta “condição” para o
cumprimento da profecia é,
explicitamente, uma invenção dos
religiosos. Aliás, o que se pode
encontrar no texto é justamente o
contrário, isto é, uma confirmação de
que a promessa não estava sob condição
de obediência, pois nos versículos 14,
15 e 16 há o seguinte:
Se vier a fazer o que é errado,
castigá-lo-ei com varas de homens, e
com açoites de filhos de homens.
Mas a minha benignidade não
retirarei dele, como retirei de Saul,
a quem tirei de diante de ti. Porém, a
tua casa e o teu reino serão
firmados para sempre diante de
mim; o teu trono será estabelecido
para sempre. (Grifos nossos.)

Quando Deus faz a promessa,


Ele não só não diz nada sobre
“condição”, como também afirma que é
bem o contrário, ou seja, que a profecia
se cumpriria ainda que houvesse
desobediência, quando assegura que,
mesmo que Salomão venha a “fazer o
que é errado”, ainda assim a promessa
seria mantida. Observe que Deus garante
o cumprimento da profecia apesar de
uma possível desobediência de
Salomão, dizendo que mesmo assim “a
tua (de Davi) casa e o teu reino serão
firmados para sempre”, “o teu (de
D a v i ) trono será estabelecido para
sempre”. Portanto, a ideia dos crentes
bíblicos de que Deus teria dado uma
“condição” para o cumprimento da
profecia, além de ser uma invenção é
também uma negação daquilo que
realmente está escrito no texto bíblico.
Essa constatação revela uma posição
precipitada da parte dos crentes bíblicos
que, no intuito de defender a qualquer
custo o seu pensamento, se esquecem de
analisar os vários ângulos da questão, e,
assim, acabam por negar a própria
Bíblia, enquanto imaginavam, com isso,
defendê-la.
Por fim, Deus jamais faria
qualquer promessa sob a condição de o
homem não pecar ou errar, já que foi
Deus mesmo quem criou esses homens e
sabe melhor do que ninguém que todos
eles são pecadores, e que não existe um
justo sequer. A menos que Deus fizesse
uma promessa com essa condição, por
ser, a priori, um interesse Seu nunca vir
a cumpri-la. Mas, se queremos crer que
Deus não seja um mentiroso ou um
brincalhão, podemos ter por certo que
Deus não perderia o Seu tempo fazendo
promessas com esse tipo de condição.

Sobre o segundo argumento:


Esse argumento diz que o
reinado eterno da profecia será o de
Jesus, quando este voltar. Estaria tudo
bem, se o reinado de Davi já não tivesse
sofrido uma falha de mais de 470 anos,
antes da volta de Jesus. Jesus pode até
voltar e instituir o Seu reinado eterno,
mas isso não muda o fato de que a
promessa foi quebrada, pois, desse
modo, o reinado davidiano não foi “para
sempre” e nem “de geração em
geração”, como a profecia disse, mas
somente a partir de Jesus. Mas o que
nega definitivamente a possibilidade de
o reinado davidiano acontecer mediante
a pessoa de Jesus é o fato decisivo de
que Jesus não é descendente de Davi.
Quem nos informa isso é o próprio
Jesus, no texto a seguir:
Então Jesus lhes perguntou: Como
dizem que o Cristo é filho de Davi? /
O próprio Davi declara no livro dos
Salmos: Disse o Senhor ao meu
Senhor: Assenta-te à minha direita, /
até que eu ponha os teus inimigos por
estrado de teus pés. / Se Davi lhe
chama Senhor, como pode ser ele
seu filho? (Lucas, 20:41-44). (Grifo
nosso.)
Se o próprio Jesus recusa que a
sua descendência seja de Davi, quem
terá ânimo e coragem para argumentar o
contrário? Por tudo isso, afirmamos
enfaticamente e com plena certeza que a
profecia encontrada em 2 Samuel, 7,
sobre o reinado eterno de Davi, falhou,
e, se a Bíblia afirma uma profecia que é
falsa, ela não pode ser a palavra de
Deus, já que Deus não poderia errar nem
uma vez sequer.
9
A Bíblia possui os
Dez Mandamentos,
que são as leis de
Deus

Muitas pessoas respeitam os Dez


Mandamentos como leis que Deus
revelou “pessoalmente” a Moisés.
Advogados e juízes cristãos já
asseveraram que os Dez Mandamentos
são a base de todo o Direito, logo, estes
seriam de Deus. Os apologistas da
Bíblia apregoam que os Dez
Mandamentos são imutáveis, imparciais,
atemporais, enfim, perfeitos. Por isso,
seriam leis divinas, o que dá à Bíblia
um status de livro sagrado, pois que ela
é o livro que trouxe à humanidade tais
leis. Aquelas leis que estão escritas no
capítulo 20 do livro de Êxodo, e que
foram popularizadas como os Dez
Mandamentos, porém, já se encontravam
em outros códigos de leis formulados
antes que a própria Bíblia existisse, e
vigoravam em outros povos, como no
Egito e na Índia, por exemplo, que já
eram sociedades organizadas desde os
tempos em que os hebreus eram apenas
uma tribo de costumes semisselvagens.
Leis contra o homicídio, o furto, o falso
testemunho, o adultério etc. são tão
antigas quanto a própria humanidade. A
Bíblia não disse nenhuma novidade
quando os publicou tardiamente, nem
desfruta de algum privilégio por conter
essas leis. Se, por possuir essas leis, a
Bíblia devesse ser considerada a
palavra de Deus, os códigos egípcios e
indianos deveriam tê-lo sido primeiro,
já que sua “revelação” ocorreu antes da
“revelação” dada a Moisés, no monte
Sinai.
Além disso, há outras objeções
sérias que faço a respeito dos Dez
Mandamentos. Vejamos a seguir:
Não cobiçar a mulher do
próximo

Há um mandamento que proibe


que o homem cobice a mulher do
próximo, mas nada é legislado sobre a
mulher cobiçar o marido de outra.
Assim, a mulher estaria desincumbida
dessa obediência. Não quer dizer que a
Bíblia esteja, aí, mandando a mulher
cobiçar maridos de outras mulheres;
quer dizer, sim, que, se ela fizer isso,
não poderá ser penalizada, já que nada
há que a proíba. Se não há lei, não há
crime! Essa ideia é um dos princípios
do Direito, que está apresentado no
seguinte brocardo latino: Nullum
crimen, nulla pena, sine lege (Não
haverá crime, nem pena, sem lei
preexistente), ou seja, a pessoa que
pratica um ato que não esteja
anteriormente previsto em lei não
praticou nenhuma ilicitude e não pode
ser punida. Sendo assim, se os
advogados e juízes cristãos estiverem
certos ao dizer que os Dez Mandamentos
são “a base de nosso Direito”, e se o
Decálogo for mesmo perfeito, as
mulheres podem cobiçar quem elas
quiserem além de seus próprios
maridos, e isso não será pecado algum
perante os Dez Mandamentos.
A escravidão é permitida

Quando o escritor dos Dez


Mandamento fala da lei do sábado,
como um dia de descanso, exige que
ninguém trabalhe, “nem o teu escravo,
nem a tua escrava” (Êxodo, 20:10).
Deus proibiu algumas práticas
existentes, como o homicídio, o furto, o
adultério etc., porque eram práticas
injustas. A escravidão existia, mas Deus
parece não ter “visto” que essa prática
era tão hedionda, tão injusta, quanto as
outras. Assim, a escravidão teve a
permissão divina para continuar sendo
praticada, ficando essa hedionda
conduta humana na mesma lista dos atos
lícitos, segundo os Dez Mandamentos.
Existência de vários deuses
é confirmada

Os cristãos declaram-se
monoteístas, e muitos pensam que a
Bíblia ensina que existe apenas um
Deus. Mas não é bem isso. Se os crentes
e leitores da Bíblia prestarem bastante
atenção ao que está escrito, vão
perceber que, na verdade, a Bíblia não
diz que existe somente um Deus. O que
ela faz é implorar para que os judeus
adorem “somente” a Javé e, não, “outros
deuses”. A Bíblia não ensina que “só
exista Javé”, mas, sim, que Javé é o
maior “entre os outros deuses”. Ora, se
é preciso fazer um marketing pessoal
para Javé, para que ele não seja trocado
por outros deuses, é porque esses outros
concorrentes divinos existem! Um dos
Dez Mandamentos confirma a existência
de outros deuses:
Não terás outros deuses diante de
mim. (Êxodo, 20:3).
Se existe uma lei para coibir
determinado tipo de crime, é porque
esse crime é possível de ser cometido.
Sendo assim, se um dos mandamentos
proíbe que se tenham “outros deuses” é
porque tê-los é possível. Todo crime
que não é possível ser praticado não
necessita ser previsto em lei. Por isso é
que não existe nenhuma lei que proíba
aos homens de furtar a Lua ou botar fogo
no mar, simplesmente porque esses são
crimes impossíveis de ser praticados.
Então, quando o mandamento diz “não
terás outros deuses”, acaba
confessando-nos que eles, de fato,
existem e que é possível adotá-los ou
servi-los. Alguém poderá argumentar
que a palavra “deuses” estaria, aí, sendo
usada no sentido figurado, querendo
referir-se a coisas que adoramos na vida
material e deixamos Deus em segundo
plano, como o dinheiro, a fama etc. Mas,
de maneira nehuma, o referido
mandamento fala em sentido figurado.
Os Dez Mandamentos tratam, o tempo
todo, só de assuntos objetivos e
concretos, como matar, furtar, cobiçar
“mulher” etc. Por que só quando fala de
deuses deveria ser no sentido figurado?
Se alguém faz essa interpretação,
mudando o sentido de concreto para
figurado somente quando chega a esse
ponto, é notório que está distorcendo
intencionalmente a ideia do texto só para
ajustá-la à sua crença, pois, de outro
modo, terá de aceitar que há problemas
na Bíblia. Nesse caso, porém, o que
temos é alguém que não está interessado
na busca sincera da verdade, seja ela
qual for, mas, sim, busca proteger, a
qualquer custo, o que a tradição de sua
instituição religiosa diz.
10
Jesus confirmou as
Escrituras

É falso afirmar que Jesus


confirmou as Escrituras, e isso também
seria aceitar que Jesus nada fez de
diferente do que fizeram todos os outros
mestres judeus que ensinavam em
sinagogas no seu tempo e antes dele, já
que todos os mestres judeus só faziam
isto: confirmavam as Escrituras. Jesus,
porém, foi um mestre diferente dos
outros. Foi único que teve a coragem
de criticar as Escrituras, e até negá-
las, e isso causou impacto na
comunidade. Jesus tinha uma autoridade
que nenhum outro antes dele teve, uma
autoridade que estava acima das
Escrituras. Os outros mestres apenas
repetiam mecanicamente as leis. Jesus
criticava-as, consertava-as e, às vezes,
recusava-as. Dizer que Jesus confirmou
as Escrituras diminui o valor dele como
Cristo, pois seria igualá-lo a qualquer
outro pregador de seu tempo. Portanto,
não é verdade que Jesus confirmou as
Escrituras, e esse argumento não pode
ser evocado para dar crédito às
Escrituras como palavra de Deus. A
verdade que encontramos escrita no
Evangelho é que Jesus foi um severo
crítico das Escrituras. Veja: em Mateus,
5:17 está escrito:
Não penseis que vim destruir a lei ou
os profetas; não vim para destruí-los,
mas para cumpri-los.
Muitos apologistas bíblicos
usam essa passagem para afirmar que
Jesus confirma o Velho Testamento. Mas
essa é uma maneira muito precipitada e
equivocada de interpretar a questão.
Senão, vejamos: o que teria motivado
essa fala de Jesus? Qualquer um mestre
das Escrituras que só a confirmasse o
tempo todo nunca teria necessidade de
dar um esclarecimento como esse que
Jesus deu. Se Jesus precisou esclarecer,
num certo momento, que ele não iria
“destruir a lei” é porque ele tinha uma
posição crítica diante dela. Mas a
situação parece fechar-se num paradoxo.
Ora, sendo assim, se Jesus diz que não
veio destruir a lei, então deveríamos
concluir que ele a confirma totalmente?
Claro que não! Em Mateus, 15:12-13
Jesus explica por que ele era crítico
diante da tradição dos anciãos judeus.
Disse Jesus:
Toda planta que meu Pai celestial
não plantou, será arrancada.

Aqui, Jesus critica o fato de os


fariseus respeitarem mais a sua tradição
do que a lei de Deus, em alguns
aspectos. Então, Jesus usou essa figura
de linguagem, “toda planta que meu Pai
celestial não plantou”, para referir-se a
tudo aquilo que provinha dos homens,
isto é, o que compunha a “tradição”.
Como vamos ver a seguir, Jesus nega
vários pontos das Escrituras, além de
outros que ele critica, e nos quais faz
sérios reparos. Isso significa que nem
tudo que estava nas Escrituras havia
sido plantado pelo Pai celestial, pois, se
tivesse sido, Jesus não teria o que negar
nem o que consertar. Sendo assim, Jesus
invalida a ideia de que a Bíblia seja a
palavra de Deus, como se crê, hoje, no
Cristianismo. Veja algumas passagens
nas quais Jesus critica e nega pontos do
Velho Testamento:
Não matarás

Ouvistes o que foi dito aos antigos:


Não matarás, e quem matar estará
sujeito a julgamento./ Eu, porém, vos
digo que qualquer que, sem motivo,
se encolerizar contra seu irmão,
estará sujeito a julgamento, e
qualquer que disser a seu irmão:
Raca, estará sujeito ao Sinédrio. Mas
quem disser: Tolo! Estará sujeito ao
fogo do inferno. (Mateus, 5:21,22).
Nesse trecho, Jesus não confirma
a lei, mas, sim, faz reparos, aperfeiçoa e
complementa a parte citada das
Escrituras, que está em Êxodo, 20:13.
O divórcio

Se um homem tomar uma mulher,


casar-se com ela, e esta depois
deixar de lhe agradar por ter ele
achado nela qualquer coisa
indecente, escrever-lhe-á uma carta
de divórcio, e lha dará na mão, e a
despedirá da sua casa.
(Deuteronômio, 24:1). (Grifo nosso.)

Veja que, em Deuteronômio, o


divórcio é autorizado com muita
liberdade ao homem. Por “qualquer
coisa” que o homem achasse indecente
na sua mulher, ele poderia divorciar-se
dela. Mas Jesus nega essa lei e faz outra,
que permite o divórcio apenas em caso
de prostituição. Veja:
Eu vos digo, porém, que qualquer
que repudiar sua mulher, não sendo
por causa de prostituição, e casar
com outra, comete adultério.
(Mateus, 19:9). (Grifo nosso.)
O juramento

Agora, vejamos a questão do


juramento.
Ouvistes também o que foi dito aos
antigos: Não perjurarás, mas
cumprirás teus juramentos ao
Senhor. / Eu, porém, vos digo: De
maneira nenhuma jureis (...) / Seja,
porém, o vosso Sim, sim, e o vosso
Não, não; o que passar disso vem do
maligno. (Mateus, 5:33-34 e 37).
(Grifos nossos.)

No trecho citado por Jesus, uma


combinação de Êxodo, 20:7 com
Levítico, 19:12, o Velho Testamento
prescrevia o dever de cumprir o
juramento. Sendo assim, “jurar” era uma
prática permitida pelas Escrituras, tanto
que elas exigiam o seu cumprimento.
Jesus não confirma as Escrituras nesse
ponto, e não faz neste apenas consertos
ou complementos, mas nega-o
categoricamente, e proíbe, de uma vez
por todas, o ato de jurar, dizendo “de
maneira nenhuma jureis”.
Olho por olho, e dente por
dente

Ouvistes que foi dito: Olho por olho,


e dente por dente. Eu, porém, vos
digo: Não resistais ao homem mau.
Se alguém te bater na face direta,
oferece-lhe também a outra. (Mateus,
5:38-39).

Nesse trecho, Jesus rejeita a


prática orientada pela lei de Moisés, do
“olho por olho, e dente por dente”, que
está em Êxodo, 21:24.
Amai a vossos inimigos

Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu


próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos
inimigos e orais pelos que vos
perseguem. (Mateus, 5:43:44).
(Grifos nossos.)

Aqui, Jesus cita Levítico, 19:17-


18. Vemos que no Antigo Testamento, o
ódio era um sentimento que se permitia
ter pelo inimigo, reservando-se o amor
apenas para o amigo. Jesus,
evidentemente, nunca confirmaria essa
parte das Escrituras. A negação de Jesus
a esse ensinamento é, inclusive, um dos
pontos mais importantes da sua
mensagem.

Tendo em vista essas


constatações, entre outras mais que
poderíamos citar, é muito estranho
quando ouvimos alguém dizer que Jesus
confirmou as Escrituras.
11
O centro da Bíblia é
Jesus: o homem que
dividiu a História em
antes e depois dele

Esse argumento parece um tanto


quanto fugidio ao tema. Mas, mesmo
assim, resolvi incluí-lo aqui, pois, por
mais de uma vez, pessoas o usaram para
tentar convercer-me de que a Bíblia é a
palavra de Deus. O argumento, nesse
caso, é que o “centro” da Bíblia seria
Jesus, este que, por sua vez, foi tão
importante para o mundo, que dividiu a
História em antes e depois dele, dando
uma demonstração da sua inigualável e
decisiva superioridade em relação a
todos os outros homens que pela Terra
passaram. Pois bem, se é verdade que a
Bíblia deva ser considerada a palavra
de Deus por esse motivo, então não é só
ela que deve receber esse título, pois
existem diversos outros livros que
também falam do mesmo Jesus. Se a
Bíblia tivesse sido escrita pelo próprio
Jesus, só assim ela gozaria de alguma
primazia sobre qualquer outro livro,
mas, estando certo que a Bíblia não foi
escrita por Jesus, mas que ela é apenas
um livro que “fala sobre” Jesus, não há
como, neste particular, considerá-la
diferente dos outros milhares livros que
também falam de Jesus, embora não
tenham sido por este escrito.
Sem querer diminuir a importância
histórica de Jesus, a divisão da História
marcada na suposta data de seu
nascimento não foi uma atitude tomada
por causa da importância dele. Foi por
causa do poder de Roma. Os motivos
foram comerciais e políticos. O sistema
de marcação de datas chamado Anno
Domini (“Ano do Senhor”, em latim)
não foi planejado, mas, sim, criado
acidentalmente pelo monge Dionísio, o
Exíguo, em Roma, no ano de 527,
enquanto este monge tinha como
objetivo calcular a data da Páscoa
cristã. Foi o poder global exercido por
Roma que impôs o novo calendário, que
veio chamar-se “gregoriano” por ter
sido formulado pelo papa Gregório XIII
e por este promulgado em 24 de
fevereiro de 1582. Tanto esse novo
calendário não foi uma verdadeira
exaltação a Jesus, que os países de
maioria protestante relutaram o quanto
puderam para não adotá-lo. (Penso que,
se a referida divisão da História fosse
uma consideração real a Jesus, os
protestantes jamais se recusariam a
adotá-la). Ou seja, pelo desejo dos
protestantes, Jesus não teria “dividido a
História”, como se diz. Mas, como se
tratava de um acordo internacional de
interesses políticos de grande
abrangência e, repito, não se tratava de
nenhuma reverência a Jesus, não só os
países protestantes o adotaram (isso
depois de mais de um século de
resistência) como também países não
cristãos. Há, inclusive, uma forma
alternativa de se referir aos períodos
históricos anteriores ou posteriores a
Jesus, sem que haja uma necessária
referência ao Cristianismo, como é o
caso das inicias a.C. e d.C. Trata-se do
uso de E.C., que significa Era Comum (o
mesmo que d.C.) e A.E.C., que significa
Antes da Era Comum (o mesmo que
a.C.) Essas siglas são preferidas entre
os pesquisadores, cientistas e todas as
pessoas que desejam manter uma
neutralidade religiosa quando tratam de
datas. Neste livro, optei pelas siglas
tradicionais, a.C. e d.C., por serem
essas as mais populares entre os
cristãos, estes que constituem meu
público-alvo de leitores.
12
Jesus foi o único que
ressuscitou. Por isso, a
Bíblia é sagrada

Praticamente todos os crentes na


Bíblia pensam, equivocadamente, que só
o Jesus bíblico praticou a proeza de
ressuscitar. E isso os enche de uma
firme (porém ilusória) fé na Bíblia como
um livro divino. Alienada ao
absolutismo bíblico, sem quase nunca
dar ouvidos às outras culturas e crenças,
a esmagadora maioria dos crentes na
Bíblia não procura conhecer outras
religiões nem o que dizem os livros
sagrados destas, e, por isso mesmo,
esses cristãos carecem do conhecimento
sobre o que dizem as tradições sagradas
de outros povos e de outros livros
sagrados, especialmente daquelas
tradições e livros sagrados mais antigos
do que o Cristianismo. Um dos grandes
erros é este de passarem a vida toda
pensando que somente Jesus ressuscitou,
na historiografia das religiões. Em
outras crenças bem mais antigas do que
o Cristianismo, outros “deuses” também
ressuscitaram, assim como o Jesus
bíblico. Por exemplo, Adônis, nas
mitologias fenícia e grega; Osíris, na
mitologia egípcia; Mitra, na mitologia
persa, entre outros.
Sendo assim, se a Bíblia tiver de
ser considerada como a palavra de Deus
pelo fato de que Jesus ressuscitou,
deveremos, obrigatoriamente, acreditar
que existem outras “palavras de Deus”
em outras religiões não bíblicas, pois
que nelas há também os casos de
ressurreições, especialmente quando
observamos que esses casos ocorreram
antes mesmo que o Cristianismo
existisse.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS

Depois de exposto tudo isso,


seria um erro dizer que este livro é
contra a Bíblia. Não! Contra a Bíblia
são todos os livros que alimentam
fantasias e ilusões sobre ela. Aqui são
ditas realidades, e isso não é ser contra.
Ser favorável à Bíblia é ter a coragem
de expressar o verdadeiro respeito e
consideração que se deve ter por ela:
não menos (porque seria deslealdade),
não mais (porque seria fanatismo e
ignorância). Ser favorável à Bíblia é
compreender que nela existem
conteúdos bons e ruins, reais e
mitológicos, edificantes e destruidores;
que nela há sabedoria, mas também há
partes abomináveis que jamais poderiam
ter vindo da mente de qualquer ser
minimamente inteligente, moral, bom ou
justo. Impossível, pois, imaginar que seu
conteúdo tenha vindo da mente de um
Deus. Ser favorável à Bíblia é ser, para
com ela, realista e sincero (apesar de
que isso seja incômodo), enquanto ser
contra ela é evitar o estudo imparcial e
lúcido, e continuar, confortavelmente,
sendo um mero repetidor das fantasias e
enganos que herdamos dos nossos
ancestrais (apesar de que isso seja mais
fácil, mais cômodo, mais aceitável pela
sociedade e politicamente correto).
Este livro não é contra a Bíblia,
mas, sim, contra todos os ensinos falsos
que sempre foram difundidos sobre ela.
Diante de tudo o que aqui vimos,
o ato de continuar afirmando que a
Bíblia seja a palavra de Deus, isso sim,
é o que constitui uma blasfêmia contra
Deus.
***

“Não acreditamos mais que a


verdade continue sendo
verdade
se forem levantados seus
véus”.
(Friedrich Nietzsche)
REFERÊNCIAS
1. HALLEY, H. H.Manual
bíblico: um comentário abreviado
da Bíblia. 4. ed. São Paulo: Vida
Nova, 1994, p. 23.
2. Declaração de Chicago sobre a
inerrância da Bíblia. Disponível
em:
<http://www.monergismo.com/textos/c
Acesso em: 4 jan. 2008.
3. Dicionário prático Bíblia
sagrada. Edição Barsa, 1971.
Disponível em:
<http://www.pastoralis.com.br/pastora
entryID=466>. Acesso em: 3 jan.
2008.
4. Bíblia de estudo pentecostal.
Ed. rev. e cor. Trad. João Ferreira
de Almeida. Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembleias de
Deus (CPAD), 1995, p. 1.882.
5. Ibidem. p. 1.882.
6. EHRMAN, Bart D. Oque Jesus
disse? O que Jesus não disse? Quem
mudou a Bíblia e por quê. Rio de
Janeiro: Agir, 2005, p. 125.
7. O presente capítulo foi extraído
de outra obra do mesmo autor,
intitulada Mitos, contradições e
erros bíblicos.
8. CHAVES, José Reis.A face
oculta das religiões: uma visão
racional da Bíblia. 2. ed. Santo
André: EBM, 2006, p. 68–69.
9. SILVA, Antonio Gilberto da. A
Bíblia. 5. ed. Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembleias de
Deus (CPAD), 1997, p. 103.
10. Bíblia de estudo pentecostal.
Ed. rev. e cor. Trad. João Ferreira
de Almeida. Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembleias de
Deus (CPAD), 1995, p. 28, 1977.
11. HALLEY, H. H.Manual
bíblico: um comentário abreviado
da Bíblia. 4. ed. São Paulo: Vida
Nova, 1994, p. 46.
12. ibidem. p. 49.
13. BAEZ, Fernando.História
universal da destruição dos livros:
das tábuas sumérias à guerra do
Iraque. Trad. Léo Schlafman. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2006, Cap. 1.
14. Ibidem.
15. Ibidem.
16. Ibidem.
17. Ibidem.
18. Origem e formação da Bíblia.
Disponível em:
<http://www.bibliacatolica.com.br/his
Acesso em: 11 jan. 2008.
19. Robert G. Ingersoll (1833–
1899) foi um livre pensador
estadunidense do século XIX, orador
e líder político, notável por sua
cultura e defesa do agnosticismo.
LIVRO 2

MITOS
CONTRADIÇÕES E ERROS
BÍBLICOS
INTRODUÇÃO

Há diversas linhas de crença


relacionadas à Bíblia. A Igreja Católica
crê que a Bíblia toda seja inspirada por
Deus. Considera, porém, que no Velho
Testamento há coisas imperfeitas e
transitórias. Já os judeus acreditam
apenas nos cinco primeiros livros, o
Pentateuco, e que somente estes seriam
inspirados por Deus. Entre os
protestantes há os que acreditam que
alguns trechos bíblicos tiveram validade
apenas para a época em que foram
escritos, e outros são de validade
atemporal, isto é, são igualmente
aplicáveis em qualquer época. Há quem
diga que a Bíblia seja um livro
parcialmente inspirado por Deus, e
ainda outros que usam palavras
diferentes para emitir o mesmo conceito,
como, por exemplo, ao dizer que “a
Bíblia não é a palavra de Deus, mas
contém a palavra de Deus”.
A nossa abordagem neste livro é
uma conversa que está mais ligada à
chamada crença na Inspiração Plenária
da Bíblia. Ou seja, a crença na
totalidade da inspiração divina da
Bíblia, sem exceção de nenhuma de suas
partes, e a sua integral validade e
aplicabilidade para o homem, em todas
as épocas e lugares.
ABRINDO A MENTE
PARA ENCARAR A
REALIDADE

A Bíblia é um livro muito popular,


mas, ao mesmo tempo, muito
desconhecido. O marketing divino que
as religiões cristãs fazem a seu respeito
impressiona e arrasta multidões de
pessoas que a aceitam como livro
sagrado, mesmo sem saber exatamente o
que está escrito nela.
Antonio Gilberto da Silva, um dos
mais importantes escritores protestantes
e divulgadores da Bíblia no Brasil, em
seu livro A Bíblia (1), reconhece isso,
ao declarar que: “Muitos crentes têm sua
crença na Bíblia desde a infância,
através dos pais, mas nunca fazem um
estudo profundo para verificar a
realidade” (Grifo nosso). Veja que quem
está dizendo é um dos crentes, eu apenas
estou concordando com a ideia.
Mergulhados numa sociedade
maciçamente cristã, nós crescemos
escutando as histórias de Adão e Eva,
da Arca de Noé, de José do Egito, de
Sansão e Dalila, a miraculosa história
de Jesus, e assim por diante. Tudo isso
soa de modo sagrado aos nossos
ouvidos. Naturalmente nos acostumamos
a respeitar e reverenciar a Bíblia. Mas
isso nos ocorre de maneira irrefletida.
Agimos assim por agir. Jamais
questionamos se aquilo tudo que os
adultos nos contam são fatos reais ou
mitos. E, de fato, para que iríamos
perguntar? Afinal, os nossos pais, a
nossa família, enfim, a sociedade inteira
não adora a Bíblia? Por que iríamos
desconfiar de que todos estariam
equivocados? Somos assim desde
crianças, pensamos que a maioria
sempre está com a razão. Mais tarde,
porém, ficamos sabendo que a própria
Bíblia conta uma história em que
aparece uma maioria equivocada, que
foi aquela maioria que pediu a
crucificação de Jesus e a libertação de
Barrabás. Então nós vamos crescendo a
aprendendo que devemos ter nosso olhar
crítico, a nossa maneira própria de
discernir as coisas, pois não é verdade
que a maioria sempre tenha razão.
É por isso também que os crentes
a que se referiu Antonio Gilberto da
Silva, que “nunca fazem” estudos sobre
a Bíblia, estão agindo exatamente como
deveríamos esperar que eles o fizessem.
E não podiam mesmo ser diferentes
disso, pois eles foram educados e
treinados para se comportar assim.
Nunca foram estimulados a ver a Bíblia
como um livro a ser estudado,
analisado, menos ainda foram motivados
a olhar a Bíblia criticamente. Pelo
contrário, criticar a Bíblia é uma grande
blasfêmia! Aprenderam apenas a olhá-la
como um objeto de sagrada e passiva
devoção.
Não é por outro motivo que,
também, os referidos crentes não
enriquecem sua cultura bíblica com a
leitura de livros críticos em relação à
Bíblia. Leem invariavelmente livros que
a confirmam, que a celebram. Por isso
mesmo, tais livros pouco ou nada lhes
acrescentam em conhecimentos novos.
É por comportar-se dessa
maneira, que muitas pessoas podem até
ser admiráveis na sua inteligência
quando atuam em outros setores da vida,
como nos estudos escolares ou na
profissão, por exemplo, e até
conquistam elevados títulos acadêmicos,
mas, no que diz respeito à religião,
assemelham-se aos indivíduos rudes. A
Bíblia se transforma num símbolo do
“sagrado”. O símbolo do sagrado, uma
vez incutido em nossa mente,
principalmente no período da infância,
tende a perpetuar-se. É mais forte do
que qualquer outro símbolo ou
argumento que possam vir depois, em
outras fases da vida. A escrita deste
livro é resultado de meu próprio esforço
para superar esse paradigma, no qual eu
também fui criado. Aqui mostro um
pouco do que há de mito naquilo que
nossos ancestrais nos ensinaram sobre a
Bíblia, em relação a que fomos
constrangidos a aceitar como verdade
factual.
Quando deixamos de ser crianças,
não podemos mais continuar pensando
como crianças nem agindo como tais,
lembrando aqui as palavras atribuídas
ao apóstolo Paulo. E acrescento, ainda:
Nem tendo medos semelhantes aos
delas. É tempo, pois, de abrir a mente e
encarar a realidade. Desejo ao (à) caro
(a) leitor (a) uma boa leitura, e que este
livro não sirva para diminuir o seu
respeito às Escrituras judaico-cristãs,
pois não foi para isso que ele foi
escrito. O meu objetivo ao escrevê-lo
foi exatamente o contrário: Levar as
pessoas a terem um olhar amadurecido
em relação à Bíblia e, assim, poder
dedicar a ela o verdadeiro respeito que
devemos dedicar-lhe. Não mais e não
menos do que seja o correto, para que
não haja nisso fanatismo ou idolatria.
Precisamos, pois, discernir o que seja
fato e o que seja mito, o que seja certo e
o que seja errado, o que seja real e o
que seja lenda. Nisso, você leitor (a) e
eu não cometemos nenhuma blasfêmia,
pois, se há problemas na Bíblia, não
fomos nós quem os colocamos ali, mas,
sim, apenas os estamos enxergando.
A INSPIRAÇÃO
PLENÁRIA DA
BÍBLIA

A crença na inspiração Plenária


da Bíblia diz que ela é perfeita nos seus
mínimos detalhes e não possui qualquer
espécie de erro, até mesmo quando trata
de assuntos que não sejam
especificamente espirituais, como
ciência, história, geografia, biologia
etc., inclusive na elaboração do texto em
si, na aplicação da gramática e do
vocabulário. Para essa crença, as leis da
Bíblia jamais ficam antiquadas, mesmo
com o passar dos séculos e dos
milênios, sendo todas elas igualmente
aplicáveis aos dias atuais, tal como se
encontram escritas.
Do ponto de vista da crença na
Inspiração Plenária, a Bíblia é
absolutamente perfeita, tanto no
conteúdo com na forma, pois em ambos
os aspectos ela refletiria a mesma
perfeição do seu Autor, que é o próprio
Deus.
Para comprovar isso, veja o que
diz a Declaração de Chicago sobre a
inerrância da Bíblia (2), este que é um
documento oficial de declaração de fé,
redigido e assinado por centenas de
líderes protestantes (cerca de trezentos
líderes), no ano de 1978, com
representações de diversas
denominações:
Artigo XII
Afirmamos que, em sua totalidade, as
Escrituras são inerrantes, estando
isentas de toda falsidade, fraude ou
engano.
Negamos que a infalibilidade e a
inerrância da Bíblia estejam
limitadas a assuntos espirituais,
religiosos ou redentores, não
alcançando informações de natureza
histórica e científica.
(...)
Artigo XIX
Afirmamos que uma confissão da
autoridade, infalibilidade e
inerrância plenas das Escrituras é
vital para uma correta compreensão
da totalidade da fé cristã.
A DOUTRINA DA
“INSPIRAÇÃO
PLENÁRIA” E SEUS
ABSURDOS

Temos visto já um pouco sobre a


doutrina da Inspiração Plenária da
Bíblia. Mas para que esse conceito fique
bem esclarecido, transcrevi abaixo um
artigo que o explica com mais detalhes.
Logo após a leitura do texto que segue,
apresentarei provas concretas e
irrefutáveis de que essa crença não
possui qualquer fundamento. Vamos ao
texto:
A INSPIRAÇÃO PLENÁRIA DA
ESCRITURA (3)
Rev. Ronald Hanko
Tradução: Felipe Sabino de Araújo
Neto1
Como temos observado2, a palavra
plenária significa "plena." Falamos
de inspiração plenária, portanto,
para enfatizar o fato que a Escritura
é plenamente inspirada.
Essa é uma verdade que precisa de
muita ênfase hoje, pois há aqueles
que, embora alegando crer na
inspiração da Escritura, negam que
tudo da Escritura seja inspirado.
Talvez eles não aceitem a história
da criação de Gênesis 1-3, ou o que
Paulo diz sobre o lugar da mulher na
Igreja, ou o testemunho de Romanos
9 concernente à predestinação dupla
e soberana. Talvez eles aleguem que
a Escritura é acurada em questões
de doutrina e salvação, mas não nas
questões de geografia, biologia,
ciência e história. Eles não creem
que tudo da Escritura foi dado por
inspiração.
Contra todas essas alegações,
cremos na inspiração plenária, o
que significa várias coisas:
Primeiro, inspiração plenária
significa que todos os livros da
Escritura (e nenhum outro) são
inspirados por Deus. Não há nenhum
deles que tenha qualquer autoridade
ou necessidade menor que outro.
Segundo, significa que a Escritura é
inspirada nos diferentes tipos de
literatura que apresenta. História,
poesia, cartas, profecias: tudo foi
“dado por inspiração de Deus, e (é)
… proveitos (o)” (II Tm. 3:16).
Terceiro, inspiração plenária
significa que a Escritura é inspirada
também em todas as questões de
ciência, biologia, história e
geografia. De fato, existem alguns
exemplos notáveis disso. A
Escritura sempre ensinou, por
exemplo, que a Terra é circular,
mesmo quando os homens não
acreditavam nisso (Is. 40:22). Ela
ensinava o ciclo hidrológico antes
desse ser entendido pela ciência (Sl.
104:5-13). A crença que Deus é o
inspirador da Escritura e o grande
Criador exclui qualquer
possibilidade da Escritura ser
incorreta, mesmo nos seus mínimos
e mais insignificantes detalhes.
Quarto, significa que a Escritura é
plenamente inspirada em todas as
questões que pertencem às nossas
vidas. Não existem mandamentos ou
requerimentos da Escritura que
sejam antiquados ou culturalmente
condicionados. Embora registrada
por homens, tudo o que a Escritura
diz procede do Deus eterno e não
pode ser descartado como não tendo
aplicação para nós.
Quinto, inspiração plenária significa
que mesmo a gramática, vocabulário
e sintaxe da Bíblia são inspirados.
Faz diferença que Deus tenha dito
descendência, e não descendências
em Gênesis 17:73 (veja também Gl.
3:164). Faz toda a diferença do
mundo o fato de sermos justificados
pela fé ou mediante a fé, mas não
por causa da fé. Cada letra, palavra
e sentença são importantes e devem,
portanto, ser cuidadosamente
traduzidas. Por causa da inspiração
plenária, não aceitamos paráfrases
da Escritura, e nem mesmo versões
da Bíblia que seja uma mistura de
tradução acurada e paráfrase, tal
como a New Internacional Version
(NIV).
Nossa fé na inspiração plenária é
testada por se damos a esse ensino
um mero serviço labial, ou se
recebemos a Escritura como a
inspirada e infalível Palavra de
Deus em todas as coisas, não
duvidando, não colocando de lado
nenhuma parte, mas submetendo-nos,
obedecendo e crendo em tudo o que
Deus disse, e fazendo isso embora o
mundo todo esteja contra nós.
Fonte (original): Doctrine
According to Godliness, Ronald
Hanko, Reformed Free Publishing
Association, p. 15–16.
1
E-mail para contato:
felipe@monergismo.com. Traduzido
em abril/2008.
2
A Inspiração da Escritura.
3 “
E estabelecerei a minha aliança
entre mim e ti e a tua descendência
depois de ti em suas gerações, por
aliança perpétua, para te ser a ti por
Deus, e à tua descendência depois
de ti.”
4 “
Ora, as promessas foram feitas a
Abraão e à sua descendência. Não
diz: E às descendências, como
falando de muitas, mas como de uma
só: E à tua descendência, que é
Cristo.”
REFUTAÇÕES AO
TEXTO
“A INSPIRAÇÃO
PLENÁRIA DA
ESCRITURA”

Como se vê, a dita Inspiração


Plenária é bastante clara na afirmativa
de que a Bíblia não comete erros,
mesmo quando trata de assuntos fora de
temáticas propriamente espirituais, e tal
ideia, no texto lido, está bem enfatizada
no sexto parágrafo: “(...) a Escritura é
inspirada também em todas as
questões de ciência, biologia, história e
geografia.”
Agora, vou demonstrar que a
Bíblia é profundamente falha quando
trata dessas questões.
QUESTÕES GERAIS
DE CIÊNCIA

Na Bíblia, a Terra é redonda


como uma pizza
e não como uma bola

Segundo a Bíblia, a Terra é


redonda, mas, circular e chata, como
uma pizza e, não, esférica, como uma
bola.
Ele está assentado sobre o círculo
da terra, cujos moradores são para
ele como gafanhotos. E estende os
céus como cortina, e os desenrola
como tenda para neles habitar.
(Isaías, 40:22)

Veja que, nesta tradução, o


versículo refere-se a círculo, que é uma
figura geométrica plana, bidimensional.
Isso não é a mesma coisa que globo ou
esfera, que são figuras tridimensionais.
Algumas traduções trazem o termo globo
ou esfera. Qual será a tradução correta?
Vejamos.
Como não existem originais da
Bíblia para que possamos consultar
aquilo que, de fato, estava escrito desde
o princípio, e, estando certo que as
cópias feitas nos idiomas originais não
são confiáveis, resta-nos comparar o
trecho acima com outros encontrados na
mesma edição para que, assim, o
conjunto da leitura nos diga qual é a
tradução correta. Vamos fazer isso
agora.
Inicialmente, podemos observar
que o versículo apresentado acima se
refere ao céu como se fosse uma cortina
que se desenrola. Isso não seria
possível ocorrer sobre um globo ou uma
esfera. Uma cortina só poderia
desenrolar-se sobre um círculo, ou seja,
uma estrutura como uma pizza e, não,
como uma bola. De fato, o profeta Isaías
falava de um círculo plano. Essa ideia
fica ainda mais confirmada, quando
observamos que, em outro ponto de seu
livro, o próprio Isaías, quando quer
referir-se a algo realmente de formato
esférico, muda o seu jeito de expressar-
se:
Ele te enrolará como uma bola, e te
atirará para um país espaçoso.
(Isaías, 22:18) (Grifo nosso.)

Essa combinação de trechos do


mesmo escritor indica que quanto à
Terra ele estava, mesmo, certo de que se
tratava de um círculo plano, pois,
quando quis referir-se a algo esférico,
ele usou o termo bola, à guisa de
comparação e, não mais, a palavra
círculo, usada por ele no versículo
anteriormente citado, quando falava da
Terra. Não é de estranhar-se que seja
assim, pois a ideia vigente naquela
época, não só presente na Bíblia, mas,
também em outras culturas, era a de que
a Terra seria um círculo achatado, e o
céu seria uma abóbada, uma tampa
encurvada por cima. Na Bíblia, essa
ideia é explícita, com todas as letras:
Ele é o que edifica as suas câmaras
no céu, e funda a sua abóbada sobre
a Terra. (Amós, 9:6) (Grifo nosso.)

U ma abóbada é um hemisfério,
hemi- (que significa metade) e -sfério
(que significa esfera). Não resta dúvida:
o que a Bíblia está dizendo é que a
Terra, coberta pelo céu, forma a metade
de uma esfera. Tal como a comparação
que estou fazendo, de uma pizza com
uma tampa encurvada por cima.
Antigamente, o homem não tinha o
conhecimento real do formato da Terra.
O que ele sabia limitava-se àquilo que
os seus olhos podiam testemunhar, ou
seja, o que ele via era apenas um grande
horizonte circular à sua volta,
contornado pela cúpula celeste nos
arredores, e nada mais. Mas o homem
evoluiu, e hoje possui o real
conhecimento sobre o assunto. Somente
aqueles que creem na inspiração plena
da Bíblia acharão estranho um equívoco
como esse na Bíblia, e quererão, a todo
custo, encontrar explicação para o
inexplicável, já que, para eles, Deus (o
autor dos textos) não poderia ter errado.
Vejamos, a seguir, alguns trechos
bíblicos que reafirmam a ideia de uma
planície e, não, de uma esfericidade no
formato da Terra (os grifos são todos
nossos):
Eu estava lá quando ele preparou os
céus; quando traçou o horizonte
sobre a face do abismo.
(Provérbios, 8:27)

Quando Deus arquitetou a Terra,


diz a Bíblia que o que Ele fez foi um
horizonte. E horizonte só pode ser
plano, nunca esférico.
Quando firmou as nuvens acima.
(Provérbios, 8:28)

Em assuntos astronômicos, os
termos acima e abaixo só faziam sentido
enquanto durou o conceito de que a
Terra seria plana. Depois que a ciência
descobriu que a Terra é um corpo em
formato esferoide, flutuando num
universo infinito em todas as suas
direções, os termos acima e abaixo
perderam todo o sentido. Esses
conceitos simplesmente não existem!
Eram assim as visões da minha
cabeça, na minha cama: eu estava
olhando, e vi uma árvore no meio da
terra, cuja altura era grande.
(Daniel, 4:10)

Como Daniel imaginava uma


Terra circular e plana, acabou
enxertando na Bíblia a ideia
(impossível) de um meio da terra. Se,
naquela época, ele soubesse que a Terra
tem formato esferoide, elíptico, ele
saberia, também, que a Terra não pode
ter um meio.
A árvore que viste, que cresceu, e se
fez forte, cuja altura chegava ao céu,
e que foi vista por toda a terra.
(Daniel, 4:20)

Somente num livro que propaga o


conceito de uma Terra plana é que
vamos encontrar uma expressão como
essa grifada no versículo acima. Se a
Bíblia trouxesse verdades científicas,
saberia que, por mais que essa árvore de
Daniel fosse grande, mesmo que sua
altura fosse infinita, jamais poderia ser
vista por pessoas que se encontrassem
em pontos opostos do globo.
Vamos ver que essa ideia errônea
permanece sendo escrita na Bíblia
séculos depois, no Novo Testamento,
mesmo Aristóteles já tendo descoberto,
nessa época, a esfericidade da Terra.
Levou-o novamente o diabo a um
monte muito alto, e mostrou-lhe
todos os reinos do mundo e o seu
esplendor. (Mateus, 4:8)
O diabo, levando-o a um alto monte,
mostrou-lhe num momento todos os
reinos do mundo. (Lucas, 4:5)

Por mais alto que fosse o ponto de


observação, só seria possível ver “todos
os reinos do mundo” se a Terra fosse
plana. Tanto acreditavam que fosse
assim, que disseram um alto monte,
pois, evidentemente, se o monte fosse
baixo as vistas não alcançariam bem
toda a extensão do imaginado horizonte
circular.
(...) todos os povos da terra se
lamentarão e verão o Filho do
Homem, vindo sobre as nuvens do
céu. (Mateus, 24:30) (Grifos
nossos.)
Vede, ele vem com as nuvens e todo
olho o verá. (Apocalipse, 1:7)
(Grifos nossos.)

Nesses trechos, temos a


incompreensível noção de que todos
poderão ver, num só momento, a
chegada de Jesus quando ele voltar.
Naquela época, os escritores da Bíblia
pensavam que isso seria possível, pelo
conceito que tinham de que a Terra seria
plana. Mas, como sabemos que a Terra
tem formato esferoide, não podemos
acreditar que tal evento acontecerá. Isso
quer dizer que temos aí uma profecia
que jamais se cumprirá.
(...) nem pela terra, por ser o
estrado de seus pés. (Mateus, 5:35)

Aqui, a Terra é um estrado. O que


é um estrado? É uma armação plana,
geralmente de madeira, como um
palanque, um tablado. Novamente, a
Bíblia convence-nos de que os autores
de seus textos nem desconfiavam de que
a Terra fosse um globo.
Marca o horizonte na superfície das
águas, como um limite entre a luz e
as trevas. (Jó, 26:10)

Por consequência natural da ideia


de que a Terra seria um horizonte
circular, está essa outra de que as águas
obedecem a um limite. Afinal, se a
Terra foi construída “sobre a face do
abismo”, como está em Provérbios,
8:27, os escritores da Bíblia
imaginavam que as águas poderiam cair
nesse suposto abismo, se não houvesse
um limite para elas.
Segundo a Bíblia, a Terra é
o centro do Universo

Nasce o sol e põe-se o sol; e volta


ao lugar de onde nasceu.
(Eclesiastes, 1:5)

Considerando que o céu seria uma


abóbada, como foi visto anteriormente,
os homens imaginavam que o Sol é que
se movimentava ao longo dessa cúpula.
Um ponto-chave que explicita essa ideia
é quando o escritor diz que o Sol volta
ao seu lugar de onde nasceu, depois de
se ter posto. Segundo o escritor bíblico,
o Sol é que se move, mas não faz um
giro completo ao redor da Terra, pois
esta, para o escritor bíblico, não é uma
esfera. Sendo a Terra plana, com uma
tampa encurvada por cima (o céu), seria
mesmo difícil imaginar que girasse em
torno não só do Sol, mas, em torno de
qualquer outra coisa. Vem daí o
conceito chamado geocentrismo, que
afirma que a Terra está no centro do
Universo, conceito este adotado pela
Igreja Católica Apostólica Romana.
Assim, o geocentrismo não foi um
dogma católico, criado em concílios,
como foram tantos outros dogmas. A
ideia de que a Terra fica no centro do
Universo vem da Bíblia, e o
Catolicismo acatou-a. Tanto que a
proposta do heliocentrismo (conceito
segundo o qual a Terra é que gira em
torno do Sol) já existia desde a
antiguidade clássica. A Igreja rejeitou-a,
pois era uma ideia vinda de pensadores
não cristãos. A Bíblia é toda
geocêntrica. Verificamos em Gênesis
que a Terra foi criada primeiramente, e
só depois o Sol foi criado. Se não fosse
o Sol que girasse em torno da Terra,
esta teria de ter sido criada girando em
torno do nada, e só depois o Sol seria
colocado nesse vazio, para dar sentido
ao giro da Terra. Está evidente que a
Terra é tida como o centro do Universo
desde o Gênesis, o que equivale dizer
que a Bíblia comete esse erro científico
desde o seu início.
Em toda a Bíblia há várias alusões
ao movimento do Sol, e até ao
movimento da Lua, mas, rigorosamente,
nenhuma referência ao movimento da
Terra. Tal verificação é um flagrante de
que os escritores da Bíblia jamais
suspeitaram de que a Terra se movesse.
A Bíblia desconhece a lei da
gravidade

Uma das mais antigas e pitorescas


concepções sobre a forma da Terra e o
seu modo de estar no Universo vem dos
hindus. Eles entendiam que a Terra seria
a metade de uma esfera, sustentada por
quatro elefantes, e que a Terra mais os
elefantes seriam carregados nas costas
de uma enorme tartaruga. Tal
engenhosidade seria, segundo os hindus,
a explicação para o fato de o mundo
movimentar-se pelos céus. Corre o
boato de que, certo dia, perguntaram a
um teólogo hindu: “E a tartaruga, em que
se apoia?”. E ele teria respondido algo
como: “Ah! Bem..., vamos mudar de
assunto”.
Evidentemente, muitos que lerem
isso rirão do pobre hindu. Mas, em
muitíssimos casos, o riso será por puro
preconceito. Afinal, dos leitores deste
livro, a grande maioria será certamente
constituída de indivíduos ocidentais e
cristãos, e, nesse caso, esses meus
seletos leitores são também adeptos de
uma crença que em muito se assemelha à
exótica tradição hindu. Vejamos: a
Bíblia diz:
(Javé, ou Deus) suspende a terra
sobre o nada. (Jó, 26:7)

A figura de Deus está aí


antropomorfizada (em forma de homem).
Lembremos, para ilustrar, que o profeta
Isaías disse, certa vez, que viu Deus
assentado sobre um alto e sublime trono
(Isaías, 6:1). Pois bem, a Bíblia
transmite essa visão mitológica de um
Deus-homem, que tem um poder
miraculoso de suspender a Terra.
Exatamente como faz também a
mitologia grega. Os gregos tinham o
deus chamado Atlas (também em forma
de homem), e este deus é que carrega a
Terra. É por isso que nos livros
escolares aparece a figura de Atlas com
o planeta nas costas; e é também por
isso que uma coleção de mapas se
chama atlas.
Os hindus antigos, porque não
sabiam Física e não tinham
conhecimento científico das leis que
regem o Universo, suspeitaram de que o
apoio da Terra fosse uma grande
tartaruga. É pela falta do mesmo gênero
de conhecimento que tanto a mitologia
grega como a bíblica trazem a mesma
ideia: a necessidade de que um ser
sustente a Terra. Comparando a
tartaruga dos hindus, o Atlas dos gregos
e o Javé (Deus) da Bíblia, o que muda
são só os seres que seguram a Terra.
Mas, nos três casos, a concepção
mitológica e anticientífica é a mesma.
Todos estão preocupados com o fato de
que se não tiver alguém segurando a
Terra, ela poderá cair! A Bíblia, que,
segundo os crentes plenaristas, diz a
verdade também quando trata de ciência,
deveria saber que a Terra não precisa
de que alguém a segure, pois o que a
suspende sobre o nada é a energia
cinética, associada ao seu giro em torno
do Sol. A ideia dos hindus, a dos gregos
e a da Bíblia – as três exatamente no
mesmo nível – são meras fábulas, saídas
da cabeça de quem estava muito longe
de conhecer o assunto do ponto de vista
científico.
A Bíblia não sabe o que seja
um arco-íris

A Bíblia apresenta o surgimento


do arco-íris como um sinal de Deus, que
recorda a sua promessa, feita a Noé, de
que nunca mais destruiria a Terra por
meio de dilúvio.
Meu arco tenho posto nas nuvens, e
ele será por sinal de haver uma
aliança entre mim e a terra.
(Gênesis, 9:13)
Assim como os hebreus, os gregos
antigos também tinham uma explicação
para o arco-íris. Na mitologia grega,
acreditava-se que esse arco seria uma
estrada pela qual caminhava a deusa
Íris, mensageira da deusa Juno, motivo
por que ele se chama arco-íris. Mas, o
tempo passou. A mitologia deixou de ser
um modo de os homens explicarem os
fenômenos da natureza, e a ciência
chegou para fazer esse papel. Assim, a
ciência óptica demonstrou que o
r e fe r i d o arco é, na verdade, um
fenômeno resultante da dispersão de luz
solar em gotículas de água suspensas no
ar, e as cores que aparecem são os
espectros solares refletidos. Podemos,
inclusive, fazer o nosso próprio arco-
íris a qualquer momento que quisermos
no quintal de nossa própria casa,
bastando, para isso, esguichar água com
uma mangueira na direção dos raios de
sol.
A beleza do arco-íris, porém, era
uma visão tão fascinante aos olhos dos
homens primitivos que, não tendo eles
outros conhecimentos sobre o assunto,
tinham razão de achar que seria um sinal
divino. Portanto, a Bíblia não diz a
verdade científica, mas, sim, apresenta
uma literatura tão mitológica como
qualquer outra encontrada em povos de
tempos primitivos.
A Bíblia não sabe quantas
espécies de animais
existiam na Terra

Em Gênesis, 6:19, Deus manda


Noé colocar dentro da sua arca dois
animais de cada espécie, “de tudo o que
vive, de tudo o que é carne”. Sendo o
próprio Deus quem criou os animais,
Ele deveria saber da impossibilidade de
caberem dois animais de cada espécie,
de todos os animais existentes no
mundo, dentro de uma arca do tamanho
que Ele mandou construir: 135 m de
comprimento; 22,50 m de largura e
13,50 m de altura. Veja que, se fosse
para transportar apenas os animais de
um zoológico, por exemplo, o tamanho
da arca estaria bom, mas, para
transportar dois animais “de tudo o que
vive, de tudo o que é carne”, ela se torna
um barquinho ridículo. Hoje, existem
dezenas de milhões de espécies
animais, e os estudiosos do assunto
dizem que esse número de espécies
existentes atualmente representa apenas
cerca de 10% da quantidade que existia
nos tempos primórdios da Terra, fato
que se explica pela constante extinção
de espécies ao longo das eras, processo
esse que até hoje não cessou, pois,
anualmente, desaparecem de duas a três
espécies animais do planeta. Além
disso, quem quiser considerar a história
da arca um fato realmente acontecido,
tal como está escrito na Bíblia, terá que
explicar como os animais que só existem
em pontos muito distantes do local em
que estava situada a arca foram parar lá,
como, por exemplo, os pinguins, que só
existem no hemisfério Sul do planeta; o
bicho-preguiça, que só se encontra no
continente americano; o tamanduá, que
só vive na América Central e na
América do Sul; os ursos polares que
estão apenas no Polo Norte etc. Isso
demonstra que a Bíblia não é fruto de
uma inspiração divina, mas, de uma
estreita noção da realidade, própria da
mente do homem primitivo, que jamais
imaginava qual seria a extensão do
mundo e nem fazia sequer uma vaga
ideia de como era gigantesca a fauna
espalhada por todos os pontos do globo,
conforme seus hábitats naturais. Como
se não bastasse tamanho equívoco, ainda
há o fato de que a arca permaneceu por
mais de um ano flutuando sobre as
águas, e durante esse tempo os animais,
necessariamente, teriam se acasalado,
aumentando em muitas vezes a
quantidade de indivíduos no interior da
embarcação. Por fim, se está claro que
não caberiam os animais dentro da arca,
perguntamos: onde ficariam, então, as
toneladas e toneladas de alimentos para
sustentar toda essa bicharada por mais
de um ano?
Cobras falantes e andantes?

Deus condenou a serpente por ela


ter enganado Eva. O castigo para a
cobra foi “sobre o teu ventre andarás” e
“pó comerás todos os dias da tua vida”
(Gênesis, 3:14). Assim, ficamos a
imaginar que antes da condenação as
cobras tinham pés. Considerando que a
cobra pecou com o ato da fala, teria sido
mais coerente se Deus a tivesse
proibido de falar e, não, de andar sobre
as pernas, que nada tem a ver com o seu
crime. Mas, misteriosamente,
observamos que as cobras ficaram
mudas, mesmo que isso não lhes tenha
sido proibido na sentença. O estranho é
que as cobras nunca se alimentaram de
pó, isso, sim, o que elas deveriam fazer,
já que foi ordem divina. O que terá
havido que essa outra parte da sentença
não foi cumprida?
As “muitas” águas do
dilúvio

Em Gênesis, 7:19 está escrito que


as águas do dilúvio cobriram “todos os
altos montes que havia debaixo de
todo o céu”. Mas isso é impossível,
pois 97.61% de toda a água existente no
planeta estão no mar. Uma ideia
esdrúxula como essa não poderia vir de
Deus, mas, sim, de homens que nem
desconfiavam de que as chuvas são
evaporações das próprias águas que
estão na Terra, e que voltam em estado
líquido. Por isso, poderia ter chovido
muito mais do que “quarenta dias e
quarenta noites” (na verdade, poderia
estar chovendo até hoje) que jamais a
inundação chegaria ao nível que a Bíblia
mostra. Os homens desses tempos
acreditavam em comportas dos céus,
fontes superiores e coisas desse tipo,
totalmente inexistentes, motivo esse pelo
qual diziam coisas como essa, absurdas
e infantis.
QUESTÕES DE
BIOLOGIA E SAÚDE

Coelhos e lebres
ruminantes!

A Bíblia classifica coelhos e


lebres como ruminantes, enquanto
sabemos que esses animais são
lagomorfos:
O coelho, que rumina, mas não tem
as unhas fendidas, este vos será
imundo. A lebre, que rumina, mas
não tem as unhas fendidas, esta vos
será imunda. (Levítico, 11:5-6)
Morcego é ave?

A Bíblia diz que morcego é ave,


enquanto aprendemos na escola que
esses animais são da família dos
mamíferos:
Dentre as aves, a estas abominareis
(...): a águia, o quebrantosso, o
xofrango (...) a cegonha, a garça de
qualquer espécie, a poupa e o
morcego. (Levítico, 11:13 e 19)
(Grifo nosso.)
O pequeno “grão”(!) de
mostarda

A Bíblia diz que o grão de


mostarda “é a mais pequena de todas as
sementes”, (Mateus, 13:32), enquanto,
na verdade, existem diversas outras
sementes que são menores, como as de
orquídea, de banana e de morango, por
exemplo. Ainda há mais um erro, que é a
palavra grão. Não existe grão quando
se refere a plantas da família das
crucíferas, que é caso da mostarda.
Somente se pode falar em grão quando
diz respeito a plantas da família das
gramíneas. Tudo isso é ciência, que a
Bíblia desconhece totalmente.
Semente morta

A Bíblia diz que a semente tem


que morrer para produzir fruto, enquanto
sabemos que é exatamente o contrário:
quando plantamos sementes, temos que
ter todo o cuidado para que elas não
morram, pois, se isso acontecer, elas
jamais darão fruto.
Mas se morrer, produz muito fruto.
(João, 12:24)
(...) o que tu semeias não é
vivificado, se primeiro não morrer.
(...) não semeais o corpo que há de
nascer, mas o simples grão, como
de trigo, ou de qualquer outra
semente. (1 Coríntios, 15:36-37)
Humano assexuado

O ser humano é um ser sexuado,


isto é, reproduz-se por meio de relação
sexual. Isso é científico. Mas a Bíblia
mostra um ser humano que não nasceu
por meio de relação sexual, que foi Eva.
Ela foi tomada da costela de um
homem, Adão (cf. Gênesis, 2:22). Sem
falar em Jesus, que nasceu de uma
mulher cuja concepção não foi por meio
sexual. Mas, como Jesus não era
exatamente um ser apenas humano,
vamos considerar a observação apenas
sobre Eva. Neste caso, não há saída. O
fato de Eva ter sido “tirada” de Adão
nunca aconteceu. Trata-se de um mito.
A genética de Jacó

Em Gênesis, 30:37-43, Jacó


conseguiu fazer com que ovelhas
gerassem filhotes listrados e malhados,
apenas por ter colocado varas de
madeira verde descascada diante dos
olhos delas. Ou seja, a engenharia
genética de Jacó é algo absurdamente
anticientífico.
A Bíblia não entende de
nutrição

Em Gênesis, 9:3, Deus diz:


Tudo que se move e vive será para
vosso alimento.
Mesmo os chineses, os tailandeses
e os africanos, que costumam comer
certos bichos muito estranhos, ainda
assim nem eles se alimentam de “tudo
que se move e vive”. Urubus e
lombrigas, por exemplo, movem-se e
vivem, mas certamente ninguém os tem
por “vosso alimento”, como a Bíblia
quer que façamos. Resulta daí que, para
os crentes plenaristas, todos os seres
humanos – inclusive eles, os próprios
plenaristas – estão sendo desobedientes.
Mas, para nós outros, que não cremos na
inspiração divina da Bíblia, o que
achamos é que ela cometeu um erro
incorrigível propondo esse seu exótico e
repugnante cardápio.
A força de Sansão

Segundo ao Bíblia, um homem


chamado Sansão tinha uma força
miraculosa. O que lhe dava essa força
incomum era o fato de seus cabelos
serem longos. Isso não existe para a
ciência, e não pode ser compreendido
senão como um mito. Sobre o seu
cabelo, Sansão disse:
Se viesse a ser rapado, sairia de
mim a minha força, e me
enfraqueceria, e seria como
qualquer outro homem. (Juízes,
16:17)
Dores de parto

Eva pecou, e foi punida por Deus.


Entre as punições que Eva recebeu, uma
delas foi:
(...) em dor darás à luz filhos.
(Gênesis, 3:16)

Se a Bíblia é inspirada também


em questões de ciência e biologia, então
teremos de acreditar que a dor que as
mulheres sentem no parto, herança de
Eva, é por castigo de Deus e, não, por
qualquer outra explicação que venha dos
médicos.
Conceito de menstruação

A menstruação é um fenômeno
fisiológico natural, que ocorre no
organismo da mulher em seu período
fértil. Mas, nem sempre os homens
souberam disso, por isso interpretavam-
no erroneamente. Na Bíblia, a
menstruação vista como um tipo de
“pecado”.
Ao oitavo dia tomará duas rolas, ou
dois pombinhos, e os trará ao
sacerdote, à entrada da tenda da
congregação. / O sacerdote
oferecerá um deles como oferta pelo
pecado (...) assim fará por ela
e xpiação diante do Senhor por
causa do seu fluxo./ Esta é a lei a
respeito (...) da mulher em seu
período menstrual. (Levítico,
15:29-30 e 32-33) (Grifos nossos.)
QUESTÕES DE
HISTÓRIA E
GEOGRAFIA

A tomada de Jericó

No livro de Josué está narrada a


clássica história da tomada de Jericó
pelos hebreus. Particularmente em
púlpitos protestantes, essa passagem
bíblica é pregada com grande emoção.
O trecho abaixo mostra o momento final
da investida dos hebreus contra Jericó,
bem como o método que eles aplicaram
para conquistá-la.
Gritou o povo, e os sacerdotes
tocaram as trombetas; ouvindo o
povo o sonido da trombeta, deu um
grande brado, e o muro caiu abaixo,
e o povo subiu à cidade, cada qual
em frente de si, e a tomaram./ Tudo
o que havia na cidade destruíram
totalmente ao fio da espada, homem
e mulher, menino e velho, bois,
ovelhas e jumentos. (Josué, 6:20-
21)

Um problema presente aí – ainda


não um problema histórico, mas que é
contraditório a qualquer possibilidade
científica –, é o fato de que os hebreus
teriam derrubado um muro, literalmente,
no grito. Podemos aceitar
cientificamente que a vibração de gritos
possam quebrar taças de cristal, mas,
muros...
Abordando, agora, o aspecto
histórico propriamente dito. A Bíblia
mostra essa inusitada tomada de Jericó,
acontecendo numa época em que essa
cidade já estava desabitada fazia muitos
anos. E, além disso, Jericó era uma
cidade sem muros para que fossem
derrubados. Essas informações são
dados da Arqueologia, como podemos
verificar abaixo:

(...) as cidades de Canaã não eram


fortificadas, e não existiam
muralhas que pudessem
desmoronar. No caso de Jericó,
não havia traços de nenhum
povoamento no século XIII a.C., e
o antigo povoado, da Idade do
Bronze anterior, datando do
século XIV a.C., era pequeno e
modesto, quase insignificante, e
não fortificado. Também não
havia nenhum sinal de destruição.
(4) (Grifos nossos.)
A “incrível” construção do
templo de Salomão

Segundo 1 Reis, 6:2, as medidas


do templo de Salomão eram de
aproximadamente 27 metros de
comprimento, 9 m de largura e 13,50 m
de altura. Veja que se tratava de uma
construção bem pequena, pois o seu
comprimento era pouco mais que o de
um de nossos lotes para uma casa
comum que construímos hoje em dia, os
quais costumam medir por volta 25
metros de comprimento. Quanto à
largura do templo de Salomão, essa era
ainda mais modesta, nove metros, ou
seja, menor do que a largura de um de
nossos lotes para casas comuns, que
mede por volta de 12,50 m. Mesmo o
templo de Salomão, tendo sido assim,
tão pequeno, a Bíblia diz que foi gasto o
estapafúrdio número de 153.300
trabalhadores para construí-lo. E,
mesmo assim, essa enorme multidão de
homens demorou sete anos para fazer a
obra (cf. 1 Reis, 5:15-16 e 1 Reis,
6:38). Para o leitor ter uma noção mais
exata da enormidade do absurdo bíblico
que estou aqui citando, a quantidade de
trabalhadores do templo de Salomão é
equivalente à metade da população da
cidade de Vitória, capital do Espírito
Santo. Imagine toda essa multidão
trabalhando durante sete anos, só para
construir uma obra pouca maior do que a
casa onde você mora, caro leitor!
Evidentemente que esse fato nunca
aconteceu. Trata-se de mais um mito que
os escritores da Bíblia criaram em torno
da figura de Salomão e do seu
“majestoso” templo.
Moisés devia falar muito
alto

Em Deuteronômio, 1:1, está


escrito que Moisés fez um discurso, e
“falou a todo o Israel”. Isso não seria
possível, pois naquela época não existia
microfone nem amplificadores de som.
Para conseguir tal façanha, Moisés teria
que ter uma potência de voz capaz de
falar a uma plateia de não menos que
dois milhões de pessoas, número este
estimado de israelitas naquela época.
Hoje em dia, seria como se um orador
resolvesse falar, por exemplo, a todo o
povo de Curitiba ou a todo o povo de
Belo Horizonte, sem usar microfone.
MANDAMENTOS
ANTIQUADOS

Agora, vamos fazer algumas


considerações a respeito de um trecho
do sétimo parágrafo do texto “A
Inspiração Plenária da Escritura”.
Destaquei as partes sobre as quais
recairão as análises. O trecho é: “Não
existem mandamentos ou
requerimentos da Escritura que sejam
antiquados ou culturalmente
condicionados. Embora registrada por
homens, tudo o que a Escritura diz
procede do Deus eterno e não pode ser
descartado como não tendo aplicação
para nós”.
Suponhamos que os crentes na
Inspiração Plenária estejam certos e,
então, vamos fazer de conta que,
realmente, não há mandamentos
antiquados na Bíblia, nem que eles
deveriam ser obedecidos somente na
época histórica em que foram
instituídos, mas que, de fato, continuem
valendo nos dias atuais, ao pé da letra.
O leitor verá que teríamos um mundo de
verdadeiros absurdos e barbáries.
Mataríamos nossos próprios
filhos apedrejados, só por
serem desobedientes

Se alguém tiver um filho obstinado e


rebelde, que não obedece à voz do
pai nem da mãe (...), seu pai e sua
mãe o tomarão, e o levarão aos
anciãos da sua cidade (...) Então
todos os homens da sua cidade o
apedrejarão, até que morra.
(Deuteronômio, 21:18-21)

Homossexuais seriam
condenados à morte

Se também um homem dormir com


outro homem, como se fosse com
mulher, ambos fizeram abominação.
Certamente serão mortos. (Levítico,
20:13)
Menstruação seria pecado

Ao oitavo dia tomará duas rolas, ou


dois pombinhos, e os trará ao
sacerdote, à entrada da tenda da
congregação. / O sacerdote
oferecerá um deles como oferta pelo
pe c a do (...) assim fará por ela
expiação diante do Senhor por
causa do seu fluxo. (Levítico,
15:29-30) (Grifos nossos.)
Obs.: Se para cada mulher
menstruada tivéssemos que matar “duas
rolas” ou “dois pombinhos”, calcule o
leitor o tamanho da matança de animais
que se praticaria hoje em dia, em plena
época em que lutamos pela preservação
das espécies e do meio ambiente como
um todo!
Usaríamos roupas esquisitas

Não usarás vestes de dois tecidos


diferentes. (Levítico, 19:19)

Praticaríamos apenas a
monocultura

Não semearás no teu campo duas


espécies de sementes. (Levítico,
19:19)
Teríamos excêntricos
cuidados com cabelo e barba

Não cortareis o cabelo em redondo,


nem danificareis a ponta da barba.
(Levítico, 19:27)
As mulheres poderiam
“cobiçar” os maridos das
outras

(...) não cobiçarás a mulher do teu


próximo. (Êxodo, 20, 17)

Obs. 1: Somente os maridos estão


proibidos de cobiçar a mulher do
próximo. Não há um mandamento que
proíba as mulheres de cobiçarem
maridos de outras. Isso não quer dizer, é
claro, que a Bíblia esteja mandando que
elas cobicem maridos de outras
mulheres; quer dizer, sim, que, se elas
resolverem fazer isso, não estarão
pecando, já que não existe esse
mandamento para elas.

Obs. 2: Um outro local em que a


Bíblia trata desse assunto é em Gênesis,
3:16:
À Mulher disse: Multiplicarei
grandemente a dor da tua gestação;
em dor darás à luz filhos. O teu
desejo será para o teu marido.
(Grifo nosso.)

Veja que esse trecho de Gênesis


não apresenta mandamentos, mas, sim,
as punições que Eva estava recebendo
depois de ter pecado. Entre as punições,
uma era que o desejo dela seria só para
o próprio marido. Quer dizer, então,
que, se Eva não tivesse pecado, logo
esse castigo não existiria, e então, o
desejo dela poderia ser para maridos
de outras mulheres? Obviamente que
isso valeria, hoje em dia, para todas as
mulheres, do mesmo modo que, também,
elas não teriam dores de parto. Isso até
que não seria má ideia, pois, além
aliviar as mulheres das incômodas
dores, também obrigaria os maridos a
darem mais atenção às suas esposas e
tratá-las com mais carinho, a fim de que
o desejo delas não tivesse motivo para
voltar-se para outros homens.
O ato sexual seria,
literalmente, uma imundície

Quando um homem se deitar com


uma mulher, e houver emissão de
sêmen, ambos se banharão em água,
e serão imundos até à tarde.
(Levítico, 15:18)

Ao tornarem-se mães, as
mulheres seriam
consideradas imundas
Se uma mulher conceber e tiver um
menino, será imunda durante sete
dias. (Levítico, 12:2)
Mas, se tiver uma menina, será
imunda duas semanas. (Levítico,
12:5)

Obs.: Veja que a imundície de


uma mãe seria maior (o dobro) se
tivesse menina. É o gênero feminino
sendo sempre tratado de maneira
desigual e inferior em relação ao gênero
masculino na Bíblia (outros detalhes
sobre este assunto mais adiante, no
capítulo “A Bíblia influenciada por
mitologias e politeísmos de culturas
antigas”, no item “Eva e a costela de
Adão”).
“MÍNIMOS E MAIS
INSIGNIFICANTES
DETALHES”

Agora, vamos fazer mais algumas


considerações a respeito de uma parte
do sexto parágrafo do texto “A
Inspiração Plenária da Escritura”. O
trecho que vamos analisar, agora, diz
que a Bíblia é plenamente inspirada por
Deus, excluindo-se, por isso, qualquer
possibilidade de ser incorreta “mesmo
nos seus mínimos e mais insignificantes
detalhes.”
Vejamos, então, se a Bíblia resiste
à observação de alguns “detalhes
mínimos” e “insignificantes” que
apresentaremos a seguir:
Êxodo ou Deuteronômio:
Qual está certo?

Em Êxodo, 19:23, está escrito que


o povo não subiu ao monte Sinai porque
o Senhor advertiu para que não se
fizesse isso.
Mas em Deuteronômio 5:5 está
escrito que o motivo de o povo não ter
subido foi outro: o povo teria ficado
com “medo do fogo”.
Qual dos dois livros estará
dizendo a verdade?
Confira, agora, os dois trechos
bíblicos citados.
Então disse Moisés ao Senhor: O
povo não poderá subir ao monte
S i nai , porque tu nos advertiste,
dizendo: Marca limites ao redor do
monte e consagra-o. (Êxodo, 19:23)
(Grifo nosso.)
(nesse tempo eu estava em pé entre
o Senhor e vós, para vos notificar a
palavra do Senhor, porque temeste
o fogo e não subistes ao monte)...
(Deuteronômio, 5:5) (Grifo nosso.)
Quem insultou Jesus?

“Os Evangelhos de Mateus e


Marcos declaram que o bom e o mau
ladrão crucificados junto de Jesus
insultavam Jesus (Mateus 27,44 e
Marcos 15,32). Já para Lucas, só o mau
ladrão insultava Jesus (Lucas 23,39).
Estariam Mateus e Marcos certos ou
seria Lucas o que diz a verdade?
Ademais, São João, que deveria ter mais
coisas para falar, pois estava ao pé da
cruz, assistindo ao que acontecia lá,
nada afirma a respeito desse assunto.
Uma coisa é certa, não é obra de Deus o
que é contraditório, duvidoso e
incompleto” (5).
E o mesmo lhe lançaram também em
rosto os assaltantes que com ele
haviam sido crucificados. (Mateus,
27:44) (Grifo nosso.)
Os que com ele foram crucificados
t a mb é m o injuriaram. (Marcos,
15:32) (Grifo nosso.)
Um dos criminosos crucificados o
insultava, dizendo: (...) (Lucas,
23:39) (Grifo nosso.)
Detalhes “mínimos” (e
contraditórios) na
ressurreição

Se foi mesmo Deus quem inspirou


os evangelistas, parece que Deus estava
meio confuso quanto ao número de
mulheres que visitaram o túmulo de
Jesus.
A João a inspiração divina disse
que foi uma mulher.
Na madrugada do primeiro dia da
semana, sendo ainda escuro, Maria
Madalena foi ao sepulcro, e viu que
a pedra fora revolvida da entrada.
Correu ela e foi ter com Simão
Pedro e com os outros discípulos.
(João, 20:1)

A Mateus a inspiração divina


disse que foram duas mulheres.
Depois do Sábado, ao raiar do
primeiro dia da semana, Maria
Madalena e a outra Maria foram ver
o sepulcro. (Mateus, 28:1)
A Marcos a inspiração divina
disse que foram três mulheres.
Passado o sábado, Maria Madalena,
Maria, mãe de Tiago, e Salomé
compraram aromas para irem ungir
o corpo de Jesus. Muito cedo, no
primeiro dia da semana, logo depois
do nascer do Sol, foram ao sepulcro.
(Marcos, 16:1-2)

A Lucas a inspiração divina disse


que foram mais de três mulheres.
Eram Maria Madalena, Joana,
Maria, mãe de Tiago e as outras que
com elas estavam. (Lucas, 24:10)

Certa vez, um pastor protestante


tentava explicar-me essas incoerências,
dizendo: “É importante notar que cada
escritor, por sua vez, colheu
informações com base nos fatos
apurados”. Ou seja, na tentativa de
explicar o inexplicável, esse pastor
complicou-se ainda mais, afirmando que
cada evangelista “colheu informações
com base nos fatos”. Nesse caso, a fonte
para a escrita dos Evangelhos não foi a
inspiração divina, mas, sim, a coleta de
informações feita pelos próprios
escritores, ou seja, foi um trabalho
normal de jornalistas, como fazem ainda
hoje esses profissionais. Um mesmo fato
é narrado de um jeito por um jornalista,
e narrado de modo diferente por outro, e
escritores de jornais distintos colocam
no papel aquilo que eles conseguiram
apurar. Sendo assim, a escrita dos
Evangelhos teria sido um trabalho tão
humano como é a escrita de jornais.
E para finalizar essa análise sobre
o episódio da ressurreição, veja a seguir
o que ocorre nos quatro Evangelhos.
Em que momento as
mulheres chegaram ao
túmulo?

Marcos (16:2) diz ter sido


“depois do nascer do sol”; João (20:1),
por sua vez, diz ter sido “na madrugada
(...), sendo ainda escuro”.

Chegando ao túmulo, com


quem as mulheres se
encontraram?

Mateus (28:2) diz que foi “um


anjo”; Marcos (16:5) diz que “viram
um jovem”; já Lucas (24:4) disse que
foram “dois homens”; João (20:12), por
sua vez, disse que foram “dois anjos”.
Os gigantes

A Bíblia é bastante clara ao


afirmar que, no dilúvio:
(...) foram exterminados todos os
seres que havia sobre a face da
terra, o homem e o animal.
(Gênesis, 7:23) (Grifos nossos.)

Sobrevivendo apenas, e
unicamente, Noé...
(...) e juntamente com ele seus filhos
Sem, Cão e Jafé, como também sua
mulher e as três mulheres de seus
filhos. (Gênesis, 7:13)

Isto é, oito pessoas. Segundo a


Bíblia, depois do dilúvio só havia oito
pessoas sobre a face da terra para
reiniciar a vida. Mais que isso, só se
Noé tivesse tido netos enquanto a arca
estava sobre as águas, e a Bíblia não nos
contou. Os gigantes, narrados em
Gênesis, 6:4, existiam antes do dilúvio.
Depois do dilúvio, porém, os gigantes
aparecem de novo nas narrativas
bíblicas. Não poderiam aparecer, já que
tinham morrido no dilúvio. Veja:

Antes do dilúvio:
“Havia naqueles dias gigantes na
terra” (Gênesis, 6:4)

Depois do dilúvio:
“Também vimos ali gigantes”
(Números, 13:33)
Um estranho coral de vozes

Em João, 12:34 narra-se um fato


muito curioso:
A multidão respondeu: Nós temos
ouvido falar da lei que o Cristo
permanecerá para sempre, como
dizes tu que convém que o Filho do
homem seja levantado? Quem é
esse Filho do homem? (Grifo
nosso.)

Como seria possível uma multidão


falar? Isso só seria praticável se tivesse
havido um ensaio prévio. Como seria
possível todas as pessoas reunidas em
uma coletividade formularem em suas
mentes uma mesma resposta e a
pronunciarem, de uma só vez, usando as
mesmas palavras, na mesma sequência,
formando as mesmas frases?
Evidentemente que isso nunca
aconteceu, mas é o que está escrito. Os
crentes plenaristas pregam que a Bíblia
foi inspirada por Deus até nos seus
“mínimos e mais insignificantes
detalhes” e também “mesmo a
gramática, vocabulário e sintaxe da
Bíblia são inspirados”, mas o termo
multidão não significa outra coisa senão
uma coletividade de pessoas. Como
disse acima, a menos que tenha havido
ensaios, esse episódio jamais ocorreu.
Sendo assim, temos, mais uma vez, a
Bíblia narrando mitos, e não fatos.
A Bíblia apoia a escravidão

No livro de Levítico, Deus orienta


os israelitas quanto à compra de
escravos, dizendo que eles não
deveriam tomar como escravos os seus
próprios compatriotas, mas que
deveriam comprá-los de nações ao
redor.
Porque os israelitas são meus
servos, que tirei da terra do Egito,
não serão vendidos como se vendem
os escravos. (Levítico, 25:42)
Quanto a teu escravo ou a tua
escrava que tiveres, serão das
nações que estão ao redor de vós;
deles comprareis escravos e
escravas. (Levítico, 25:44)

Para quem acredita que a Bíblia


contém leis que valeram só para o tempo
em que foram escritas, essa da
escravidão, com certeza, é umas delas.
Para esses que assim creem, a Bíblia
apoiava a escravidão (o verbo fica no
passado). Mas, no caso dos plenaristas
que dizem: “Não existem mandamentos
ou requerimentos da Escritura que sejam
antiquados ou culturalmente
condicionados”, o verbo deve
permanecer no presente – a Bíblia apoia
a escravidão, até hoje.
Mesmo no caso de crentes não
plenaristas que considerariam a lei da
escravidão sem validade para os dias
atuais, há um problema grave. Se Deus
apoiava a escravidão no passado, e hoje
não apoia mais, isso quer dizer que
Deus mudou o seu jeito de tratar o
homem por uma questão de situação
histórica. Os crentes que acham que o
Deus bíblico agiu corretamente em
permitir e promover a escravidão só
porque isso se deu no passado, terão que
dizer que foi correta a atitude dos
portugueses quando escravizaram os
africanos, já que também fizeram isso no
passado, e hoje não o fazem mais, nem
aprovam a ideia. Ou seja, se os
plenaristas consideram que o Deus
bíblico esteve certo em escravizar seres
humanos no passado, terão que aplaudir,
igualmente, a atitude dos portugueses
por terem escravizado os africanos.
Deus e Jesus também
trabalham

Segundo a Bíblia, o trabalho


surgiu na Terra como um castigo de
Deus ao homem, após este ter pecado.
Adão pecou, por isso recebeu algumas
sentenças condenatórias, entre elas a de
ter que trabalhar, Gênesis, 3:19. Ou
seja, a Bíblia ensina-nos, com isso, que
trabalho não é boa coisa, trata-se de
algo que se inflige a quem está
condenado. De fato, a origem do
trabalho como um tipo de castigo tem a
ver com o sentido da própria palavra
que o designa: o termo trabalho vem do
latim, tripaliu, que era o nome de um
instrumento de tortura, o qual se
utilizava de três (tri) paus (paliu).
Assim, trabalhar significa, literalmente,
ser torturado. Curiosamente, em João,
5:17, encontramos Jesus dizendo:
Meu Pai trabalha até agora, e eu
trabalho também.
Ora, se a Bíblia está certa quanto
à origem do trabalho, como Deus e Jesus
poderiam fazer isso, trabalhar, sendo
que os homens só passaram a ter quer
praticar esse ato porque herdaram o
pecado de Adão? Sendo o trabalho uma
punição originada de sentença
condenatória, fica entendido que em
regiões celestiais, sem pecado, não
poderia haver trabalho para os seres
perfeitos que a estas pertençam. Ou será
que não? Será que Deus e Jesus também
foram condenados por causa do pecado
de Adão? Creio que nada disso deve ser
levado a sério. Opto pela interpretação
mais coerente e óbvia, isto é, que toda
essa história sobre a origem do trabalho,
segundo a Bíblia, não passa de mais um
mito.
Quando Pedro negou Jesus

Na famosa passagem em que


Pedro nega Jesus por três vezes, quem
foram as três pessoas que abordaram
esse discípulo, questionando-o sobre a
sua ligação com o Mestre? Cada um dos
quatro evangelistas indica pessoas
diferentes. Vejamos:

Segundo Mateus, 26:69-75, as


pessoas foram:
Na primeira vez: uma mulher.
Na segunda vez: outra mulher.
Na terceira vez: várias pessoas.

Segundo Marcos, 14:66-71, as


pessoas foram:
Na primeira vez: uma mulher.
Na segunda vez: a mesma mulher
da primeira vez.
Na terceira vez: várias pessoas.

Segundo Lucas, 22:56-60, as


pessoas foram:
Na primeira vez: uma mulher.
Na segunda vez: um homem.
Na terceira vez: outro homem.

Segundo João, 19: 17-27, as


pessoas foram:
Na primeira vez: uma mulher.
Na segunda vez: várias pessoas.
Na terceira vez: um homem.

Certa vez, um pastor protestante,


na tentativa de solucionar as
contradições acima, argumentou comigo
que
“(...) em um momento confuso em
que muitas pessoas assistiam ao
incidente da prisão do Senhor Jesus,
várias pessoas dirigiram-se a Pedro,
e perguntavam se ele era um dos
discípulos, os escritores escreveram
conforme as informações obtidas em
depoimentos de pessoas diferentes,
que viram algo que outros não
viram.”

Ora, mas se a Bíblia fosse


plenamente inspirada por Deus, o
momento poderia ser confuso ao mais
alto grau, que as informações seriam
exatas, sem nenhuma dificuldade. Mas,
como o referido pastor até já parece ter
concordado mediante suas próprias
palavras, “os escritores escreveram
conforme as informações obtidas em
depoimentos de pessoas” e, não,
inspirados por Deus.
Lucas confessa que não
escrevia por inspiração
divina

E, para finalizar, não há como crer


na inspiração plenária da Bíblia porque
nela mesma encontramos um dos
evangelistas dizendo que o conteúdo de
sua escrita vinha de outras fontes e, não,
da inspiração divina. Veja: Lucas, ao
escrever a genealogia de Jesus, iniciou
assim:
Ora, o mesmo Jesus tinha quase
trinta anos quando começou seu
ministério. Era, como se cuidava,
filho de José, filho de Heli. (Lucas,
3:23)

Para informar que José era o pai


terreno de Jesus, Lucas antecede a
afirmação com a expressão “como se
cuidava” (essa expressão significa como
se supunha, como se pensava, como se
cogitava). É de estranhar-se que quem
esteja escrevendo por inspiração direta
de Deus diga, de repente, que aquilo que
ele está dizendo tenha como base aquilo
que se supõe ou se cogita.
Lucas não viveu com Jesus, nem
foi contemporâneo deste. Por isso,
Lucas escrevia aquilo que ouvia as
pessoas comentarem sobre os fatos
antigos. Lucas não presenciou nada e
não sabia de nada por si mesmo, nem
por inspiração de Deus. É o próprio
Lucas quem nos diz isso, de maneira
bem clara e objetiva, no início da
escrita de seu livro. Veja:
(...) segundo nos transmitiram os que
desde o princípio foram deles
testemunhas oculares (...) havendo-
me já informado minuciosamente
de tudo desde o princípio. (Lucas,
1:2-3) (Grifo nosso.)

É por isso que, no versículo


anteriormente citado (3:23), Lucas usou
a expressão “como se cuidava”. Refere-
se aos dados que ele conseguiu colher
do que se falava entre as pessoas, pois
ele de si mesmo nada sabia e nem fez
menção nenhuma sobre inspiração
divina, mas, apenas, desse trabalho
jornalístico de coleta de dados. Se a
escrita da Bíblia tivesse sido
plenamente inspirada por Deus, Lucas
não precisaria ter tido essa mão de obra,
nem ele precisaria ter diminuído o grau
de certeza do que escrevia, usando a
expressão “como se cuidava”, já que
todas as informações exatas teriam
vindo de uma fonte suficientemente
segura, isto é, do próprio Deus, que é
onisciente. Assim, podemos dizer que
crer na inspiração plenária da Bíblia é,
até mesmo, uma blasfêmia contra Deus.
O PRIMEIRO HOMEM
A TRANSGREDIR OS
DEZ
MANDAMENTOS (6)

Conforme está escrito no livro de


Êxodo, os Dez Mandamentos foram
revelados por Deus a Moisés, no topo
do monte Sinai. Moisés, com seu povo,
e acompanhado de seu irmão e sumo
sacerdote, chamado Arão, chegaram ao
monte Sinai enquanto caminhavam pelo
deserto, em retirada do Egito. As cenas
narradas do momento da revelação dos
mandamentos sagrados são assustadoras.
Moisés convocou todos para que
se preparassem para ouvir a voz do
Senhor, e deu ao povo uma
extraordinária notícia:
(...) estejam prontos para o terceiro
dia, porque no terceiro dia o Senhor
descerá à vista de todo o povo
sobre o monte Sinai. (Êxodo, 19:11)
(Grifo nosso.)

Havia, porém, uma condição.


Ninguém poderia subir ao monte, como
Moisés (somente ele) podia. Até mesmo
Arão ficaria tomando conta do povo,
enquanto Moisés permanecesse no alto
do monte. Os homens todos ficariam
parados em certo limite, à borda do
monte, pois, se subissem, pereceriam;
em outras palavras, isso era uma ameaça
de morte a quem ultrapassasse o limite
permitido à beira do monte (cf. v. 12 e
21). Quanto aos sacerdotes, estes
deveriam consagrar-se para ouvir a voz
direta do Senhor, e também deveriam
manter-se no limite à borda do monte.
Eram essas as orientações do Senhor. O
momento era de grande tensão e
expectativa, afinal era Deus, em Pessoa,
quem estava prestes a descer ao topo do
monte. Então, o Senhor desceu em fogo,
sobre o topo do monte, que tremeu
grandemente; uma grande fumaça
também subiu, ouviram-se trovões,
relâmpagos e fortes sonidos de buzinas
sobrenaturais que iam aumentando
gradativamente. E nesse medonho
contato com o Senhor, o povo
estremeceu-se (cf. v. 16). Moisés, no
entanto, demonstrando coragem e
obediência, foi ao topo do monte, e de lá
trouxe duas tábuas de pedra nas quais
estavam os Dez Mandamentos,
revelados (e escritos) pelo próprio
Deus. Mas, o grande problema foi que
Moisés demorou muito a descer do topo
com as tábuas sagradas. Ele ficou nada
menos que quarenta dias e quarenta
noites (!) no alto do monte, conforme
está dito em Êxodo, 24:18, enquanto o
povo esperava com perplexa ansiedade
e medo. Por fim, os homens pareciam
não mais acreditar que seu líder
retornaria daquele cume tormentoso do
Sinai. E, convenhamos, não foi sem
razão que cansaram de esperar. O povo
era muito dependente de uma liderança
divina e, como Moisés, que o regia em
nome de Deus, parecia tê-lo deixado
órfão, então pediram a Arão que fizesse
para eles imagens de deuses para que
pudessem adorar. Arão imediatamente
pediu que os homens tirassem os
pendentes de ouro que as mulheres e as
crianças usavam, e que trouxessem a ele.
Assim, Arão derreteu todo o ouro das
joias e fez um bezerro de ouro para que
o povo adorasse. O bezerro ou boi era
uma imagem divina conhecida de todos,
pois no Egito, onde eles nasceram e
viveram toda a vida, um dos deuses
mais importantes era o Boi Ápis, ao
qual prestavam cultos em um enorme
templo. Veja que não foi sem motivo que
Arão escolheu a figura de um bezerro
para evocar a presença de um deus.
No final dos quarenta dias e
noites, Moisés desceu do monte, e
flagrou o povo adorando o deus-bezerro
feito de ouro. Moisés ficou tão furioso,
que jogou as tábuas no chão, e estas se
quebraram, tendo ele que subir, mais
tarde, novamente no topo do mesmo
monte, para trazer outra tábua com os
mesmos Dez Mandamentos. Muitas
pessoas não sabem que os Dez
Mandamentos que nós temos, hoje, é
u m a segunda edição, porque Moisés
ficou nervoso e quebrou a primeira. Por
isso, Moisés mandou matar três mil
homens dos que estavam adorando o
bezerro de ouro. Essa matança de
milhares de homens de uma só vez
causa-nos grande estranheza, pois todos
nós sabemos que Moisés trazia debaixo
do seu braço as tábuas dos Dez
Mandamentos, e que um desses
mandamentos é: “Não matarás”. Sendo
assim, descobrimos que o primeiro
homem a transgredir (e gravemente!) os
Dez Mandamentos foi o próprio homem
a quem Deus havia confiado a sua
revelação.
Agora, vem um detalhe um tanto
mais sórdido desse episódio. Moisés
ordenou a matança de três mil homens,
mas poupou a vida de Arão (o sumo
sacerdote, que era seu irmão), apesar de
ter sido deste a ideia e a fabricação do
bezerro de ouro. Fica no ar essa séria
questão: se Moisés dizia agir em nome
de Deus (e é assim mesmo que toda a
cristandade acredita até hoje), por que
poupou a Arão, que foi o maior culpado
da história? Protegeu-o por que era seu
irmão? Ora, se Moisés agia em nome de
Deus, não podemos esquecer que Deus é
justo. Deus não faz acepção de pessoas
e, segundo a sua justiça, que é perfeita,
não protege um homem nem o trata com
especiais regalias só por que possui
parentes importantes. O que se passou
nesse episódio de Moisés e Arão não
parece ser a justiça de um Senhor do
céu, mas lembra-nos mais a justiça de
certos “senhores” que temos aqui na
Terra.
A BÍBLIA
INFLUENCIADA POR
MITOLOGIAS E
POLITEÍSMOS DE
CULTURAS
ANTIGAS

O que eram os “querubins”?


Os hebreus não possuíam textos
sagrados e nem eram, ainda, uma nação,
mas, sim, uma tribo, quando foram
escravizados por nações organizadas
politicamente e que já tinham uma
tradição religiosa politeísta. Primeiro,
foram escravizados pelos egípcios, em
1 7 0 0 a.C.; depois, pelos babilônicos,
por volta de 598 a.C. O cativeiro
egípcio durou cerca de quatrocentos
anos; o babilônico, cerca de setenta
anos. Enquanto o Egito e a Babilônia já
eram impérios, os hebreus, como dito,
formavam apenas uma pequena tribo. No
decorrer desses longos 470 anos,
gerações e gerações da descendência
hebreia conviveram naturalmente com os
costumes e o modo de vida desses dois
povos, que eram politeístas,
absorvendo, assim, as suas influências.
É flagrante a influência mitológica e
politeísta na Bíblia quando lemos o
episódio em que Moisés (cf. Êxodo,
25:17-22) diz ter recebido uma
revelação divina para que fossem
colocados dois querubins feitos em ouro
batido sobre o propiciatório (lugar onde
o sacerdote fazia rituais com sacrifícios
de animais). Os querubins em questão,
porém, eram seres da mitologia
politeísta babilônica, espécies de
criaturas mistas, constituídas de uma
parte humana, outra parte de leão, ou
touro, ou outro animal, e possuíam asas,
sendo essa a sua parte de ave. Tais
entidades espirituais já existiam entre os
babilônicos muito antes que a Bíblia
começasse e ser escrita. Os ditos
querubins eram, originalmente, portanto,
figuras sagradas da mitologia politeísta
babilônica, assimiladas e herdadas
pelos hebreus, durante o longo período
em que estes se relacionaram com essa
cultura.
A “árvore da vida” e a
“serpente”

E o Senhor Deus fez brotar da terra


toda espécie de árvores agradáveis
à vista e boas para comida, bem
como a árvore da vida no meio do
j a r d i m. (Gênesis, 2:9) (Grifo
nosso.)
Ora, a serpente era o mais astuto de
todos dos animais do campo, que o
Senhor Deus tinha feito. Esta disse à
mulher: É assim que Deus disse:
Não comereis de todas as árvores
do jardim? (Gênesis, 3:1) (Grifo
nosso.)

A expressão “árvore da vida” e a


palavra “serpente” já estavam escritas
no livro Gilgamesh (conforme vimos em
capítulo anterior, esse livro é
considerado o mais antigo do mundo, já
existindo antes mesmo que a Bíblia
começasse a ser escrita). Esse livro
pertence à cultura babilônica, e os
referidos termos encontram-se nele
aplicados com o mesmo sentido que,
mais tarde, foram aplicados no livro de
Gênesis da Bíblia. Eram símbolos
mitológicos. A árvore da vida era o
símbolo da imortalidade, e a serpente
era o símbolo daquela que rouba a
imortalidade.
“Gigantes” na terra

Em Gênesis, 6:4 há uma


informação muito curiosa:
Havia naqueles dias gigantes na
terra, e também depois, quando os
filhos de Deus conheceram as filhas
dos homens, as quais lhes deram
filhos. (Grifos nossos.)

Essa inusitada referência a três


tipos distintos de seres habitando a
terra, os “gigantes”, os “filhos de Deus”
e as “filhas dos homens”, encontra
paralelo na mitologia grega, em sua
Gigantemaquia, isto é, os combates de
deuses e gigantes. A figura mitológica
d o gigante também está presente em
outras mitologias, como a hindu e a
egípcia.
Essa visão mítica dos personagens
chamados “gigantes” é o que justifica o
fato de que eles tenham sido destruídos
no dilúvio, e, estranhamente, a Bíblia
volta a narrar a presença deles entre as
pessoas muito tempo depois:
Também vimos ali gigantes.
(Números, 13:33).
Sendo esses gigantes seres não
exatamente humanos, mas, sim, figuras
mitológicas, é fácil compreender por
que a Bíblia nos obriga a aceitar um dos
dois fatos:
1) ou que esses gigantes tenham
reaparecido milagrosamente depois de
ter morrido; ou
2) que não teriam morrido no
dilúvio, quando todos os seres que eram
humanos morreram.
A história de Moisés

A história que se conta sobre a


infância de Moisés não é dele. Já estava
detalhadamente escrita numa lenda
suméria sobre o rei Sargão I,
conquistador da Mesopotâmia, por volta
de 3000 anos a.C., isto é, 1500 anos
antes de a história de Moisés ser escrita.
A seguir, veremos um trecho da
história de Sargão I:
Sargão, o rei poderoso, o rei da
Acádia, sou eu; minha mãe era
pobre, e meu pai, eu não conheci; o
irmão de meu pai vivia nas
montanhas (...) Minha mãe, que era
p o b r e , deu-me à luz,
secretamente; colocou-me num
cesto de vime, tapou-o com
betume e abandonou-me no rio que
não me tragou. O rio me carregou
para adiante e me levou até Akki, o
irrigador. Akki, o irrigador,
recebeu-me na doçura do seu
coração. Akki, o irrigador, me criou
até a meninice. Akki, o irrigador,
fez-me jardineiro. Meu serviço
como jardineiro foi agradável a Istar
e eu me tornei rei. (Grifos nossos.)

As expressões destacadas no texto


acima sinalizam os pontos em que há
semelhança entre a história de Sargão I e
o que a Bíblia conta sobre Moisés.
Moisés, um dos personagens mais
célebres da Bíblia, líder dos hebreus na
libertação do cativeiro egípcio, e
geralmente apontado pelos exegetas
como um símbolo de Jesus no Antigo
Testamento, tem uma infância
apresentada na Bíblia, que, na verdade,
não é sua, mas, sim, pertencente a um
personagem que existira há 1500 antes
dele (cf. Êxodo 2).
Cada item abaixo é uma
informação sobre a história de Moisés,
seguida de uma informação sobre a
história de Sargão I.
Moisés: Sua mãe era pobre, pois era
escrava.
Sargão I: “(...) minha mãe era
pobre”.
Moisés: Não há qualquer relação de
Moisés com seu pai nos relatos sobre
seu nascimento, infância e toda a sua
vida.
Sargão I: “(...) meu pai, eu não
conheci”.
Moisés: Nasceu em secreto, e sua
mãe escondeu-o durante três meses.
Sargão I: “Minha mãe (...) deu-me à
luz, secretamente”.
Moisés: Foi colocado à beira do rio,
dentro de num cesto de junco
betumado.
Sargão I: “(...) colocou-me num
cesto de vime, tapou-o com betume
e abandonou-me no rio”.
Moisés: A filha do Faraó encontrou-
o, e teve compaixão dele.
Sargão I: “(...) recebeu-me na
doçura do seu coração”.
Moisés: Foi educado pela filha do
Faraó.
Sargão I: “Akki, o irrigador, fez-me
jardineiro”.
Moisés: Torna o líder dos hebreus.
Sargão I: “(...) e eu me tornei rei”.
Além desses pontos em comum,
ainda outro é que nem a mãe, nem o pai
de Moisés têm nome, sendo
identificados na Bíblia apenas como “a
mulher” e “o homem”. Da mesma forma
como ocorre na história de Sargão I.
Não há os nomes de seus pais, mas, sim,
apenas as expressões “minha mãe” e
“meu pai”.
Portanto, descobrimos, assim, que
os referidos fatos sobre Moisés,
narrados pela Bíblia não são
verdadeiros. Constituem mais um
exemplo de transcrições de mitos
antigos, herdados de outros povos.
Politeísmo e trindade

A Grécia antiga é citada sempre


como um exemplo clássico do
politeísmo. Plínio afirmou, certa vez,
que Atenas, ao tempo de Nero, estava
ornamentada por mais de trinta mil
estátuas públicas, representativas de
deuses. É muito conhecido o clássico
episódio envolvendo Diógenes. Diz-se
que Diógenes saiu às ruas de Atenas, em
pleno meio-dia, sol a pino, com
lanternas acesas nas mãos, procurando
atentamente alguma coisa. Alguém,
surpreso, perguntou-lhe: “Diógenes, o
que procuras?”. E ele respondeu: “Eu
procuro um homem”. De fato, em Atenas
parecia mais fácil encontrar um deus do
que um homem. Para cada situação havia
um deus, havia um deus para o fogo e
outro para a água; um deus para o amor
e outro para a guerra. E não existiam
deuses só para coisas de grande
importância, mas, também, para coisas
banais como, por exemplo, havia um
deus para o templo, mas para a porta de
entrada desse mesmo templo havia outro
deus diferente.
No Egito antigo, politeísta, tal
como acontecia na Grécia, havia os
deuses locais e cada qual era adorado
no seu lugar de origem.
Há, porém, uma observação a
fazer-se a respeito de como funcionavam
esses politeísmos, não só na Grécia e no
Egito, mas, também, em outras nações
politeístas que depois serão citadas. Os
gregos tinham milhares de deuses, o que
é certo; mas entre os deuses estabelecia-
se uma hierarquia, e nessa hierarquia
havia aquele Deus central, que era o
Soberano, o Deus dos deuses. Os
demais eram considerados semideuses.
No panteon grego, Zeus era o Deus dos
homens, o Senhor Supremo. Para os
gregos, Zeus não era Deus apenas deles,
mas, sim, o Deus do mundo todo, do
Universo, de todos os homens do mundo.
Da mesma forma que, hoje, cada um de
nós acredita que o Deus no qual
acreditamos tenha que ser,
necessariamente, o Deus que está
regendo todos os homens sobre a Terra
e, não, apenas do nosso país, ou dos
países adeptos de nossa religião. Nessa
mesma linha de pensamento, os egípcios
consideravam Osíris (ou Osíris-Rá, ou
apenas Rá) como o Ser Soberano, não
só para o próprio povo egípcio, mas,
para toda a humanidade, como se pode
verificar num trecho do canto dos
sacerdotes:
Brilha intensamente Osíris-Rá!
Que esta luz divina emanada do seu
olho
que tudo vê, brilhe também sobre
toda a humanidade! (Grifo nosso.)
Veja que o Deus da Bíblia também
é assim. Ele é um Deus judeu, mas que
foi e é pregado pelos crentes bíblicos
como o Deus de toda a humanidade.
Na América pré-colombiana, os
incas eram politeístas, mas o Sol
recebia um culto maior do que o culto
que se prestava a todas as outras
divindades. Tão importante era o deus
Sol, que 1.500 moças eram mantidas
enclausuradas, as chamadas virgens do
Sol, as quais deviam zelar pelo culto.
Entre indígenas do Brasil, também
o sistema de crença era politeísta,
acreditavam, porém, que, entre as
divindades menores e os totens (7),
existia um Ser Supremo, a que
chamavam pelo nome de Tupã.
É bastante claro que o que se
passava com esses politeísmos era algo
similar ao que se passa com o
monoteísmo cristão que vemos ser
praticado até aos dias atuais. Para
contrapor-se o politeísmo ao
monoteísmo, cultivou-se a ideia de que
as culturas pagãs acreditavam na
existência de vários deuses, sendo todos
eles iguais em poder e significado. Pelo
menos é essa a ideia que paira na mente
das pessoas não especializadas no
assunto. Mas esse é um conceito
equivocado, pois o que ocorria, de fato,
era que sempre havia um Deus central,
este que era o Absoluto, e que recebia
um culto diferente, pois se tratava do
Deus Soberano, e esse Ser Supremo era
rodeado de outras entidades também
divinas, mas, de poder inferior. Esse
mesmo sistema de crença reflete nos
dias atuais. No Cristianismo professado
pelo Catolicismo romano, por exemplo,
cada cidade possui um santo protetor, o
que equivalia, na Grécia e no Egito, aos
semideuses locais, que não eram
exatamente “deuses”, embora fossem
assim chamados. Eram apenas seres
protetores aos quais não se rendia culto,
mas apenas a veneração, argumento esse
que é o mesmo usado no Catolicismo
romano para explicar a atitude dos fiéis
direcionada aos chamados “santos”. No
Brasil, maior país católico do mundo, há
um dia de feriado nacional, dedicado à
santa padroeira da Nação. Do mesmo
modo que em Atenas os semideuses
eram escalonados para variados e
minuciosos setores, também no
Catolicismo romano há os santos
protetores dos caminhoneiros, dos
navegantes, das causas impossíveis, das
moças casadoiras etc.
O Catolicismo também possui a
doutrina da Trindade, segundo a qual
Deus é, ao mesmo tempo, três entidades,
ou se manifesta em três aspectos. Tal
doutrina também sugere a presença,
ainda, de influência politeísta, tanto que,
por esse motivo, os islamitas, que creem
apenas em Alá, palavra árabe que
s i gni fi c a O Deus, consideram os
cristãos blasfemos, e declaram isso no
seu livro sagrado, o Corão:
São blasfemos aqueles que dizem:
Deus é um da Trindade!, portanto
não existe divindade alguma além
do Deus Único. (5.ª Sutra, Al
Maída, v. 73)

E, também, os islamitas não


aceitam ser chamados de maometanos,
pois daria a entender que seguem a
Maomé, seu profeta, como fazem os
cristãos em relação ao seu profeta, o
Cristo. Em resumo, para os islamitas
está claro que os cristãos são politeístas
pelo fato de acreditarem em Deus e
também em Jesus Cristo, e, ainda, no
Espírito Santo, mesmo com a explicação
de que cada uma dessas entidades se
classifica em uma hierarquia, na qual
Deus é o Soberano, já que isso é
precisamente o que todos os politeísmos
do passado também fizeram.
No Cristianismo professado pelo
Protestantismo não se admite veneração
a santos, mas adota-se a doutrina romana
do Deus trino, a Santa Trindade: Pai,
Filho e Espírito Santo, considerados
Pessoas individuais. Cada uma Pessoa é
considerada Deus: Deus Pai – Deus
Filho – Deus Espírito Santo. Como
também se crê no Protestantismo, existe
aí uma hierarquia: cada uma dessas
Pessoas da Trindade tem uma função
distinta e específica:
O Deus Pai é o planejador e
criador.
O Deus Filho é o executor e
redentor.
O Deus Espírito Santo é o
aplicador e regenerador.
Percebe-se, novamente, que, assim
como nos demais sistemas politeístas, na
Trindade os três Deuses não são iguais
em poder e em significado, mas um
deles é superior aos outros, tal é a
Primeira Pessoa, o Deus Pai.
A doutrina da Trindade, porém,
não é uma exclusividade do
Catolicismo, tampouco do
Protestantismo, e muito menos tem sua
origem ou base na Bíblia, como alguém
poderia pensar sem, antes, ter estudado
a fundo o assunto. A crença na Trindade
nasceu de ideias politeístas muito
antigas, em que realmente se encontram
as raízes dessa forma de culto. A seguir,
veja algumas Trindades mais antigas do
que o Cristianismo:
– Brama, Vixnu e Shiva (dos
hindus).
– Osíris, Ísis e Hórus (do Egito
antigo).
– Buda, Darma e Sanga (Budismo
do Sul).
– Ea, Istar e Tamus (dos
babilônicos).
– Tulac, Fan e Mollac (dos
druidas).
– Zeus, Demétrio e Dionísio (da
Grécia antiga).
– Odim, Freva e Thor (mitologia
escandinava).
– Ormuzd, Arimam e Mitra (dos
persas).
– Anu, Ea e Bel (dos caldeus).
– Voltan, Friga e Dinas (dos
celtas).

Em todas essas Trindades, segue o


mesmo sistema de hierarquia, em que
uma das três Pessoas é o Deus Supremo.
Diante dessas verificações, é
razoável pensar que aquilo que existia
antigamente, chamado de politeísmo, já
era, na verdade, o monoteísmo; ou o que
existe hoje, chamado de monoteísmo,
sempre foi e é, no fundo, um politeísmo.
Jacó lutou “com Deus” e
venceu (!)

Entre as mitologias indiana e


grega há uma diferença bem marcante.
Na mitologia indiana, o mundo material
é espiritualizado; na mitologia grega, o
mundo espiritual é materializado. Os
deuses gregos eram descritos
fisicamente à imagem dos homens.
Podiam ser feridos, sentiam dores e
prazeres, faziam refeições com os
homens e conversavam cara a cara com
eles. Eram praticamente idênticos aos
homens, mas, com duas vantagens que os
caracterizavam: eram muito mais belos
– com raras exceções –, e eram imortais.
Um deus grego podia lutar com a
própria humanidade, e nem sempre saía
vitorioso. Isso também aconteceu na
Bíblia, quando Jacó lutou com Deus, e
venceu:
Jacó, porém, ficou só, e lutou com
ele um homem até o romper do dia.
(Gênesis, 32:24)
Quando o homem viu que não
prevalecia contra ele, tocou-lhe a
juntura da coxa, e se deslocou a
juntura da coxa de Jacó, enquanto
lutava com ele. (Gênesis, 32:25)
Então o homem disse: Não te
chamarás mais Jacó, mas Israel,
porque lutaste com Deus e com os
homens, e prevaleceste. (Gênesis,
32:28) (Grifos nossos.)

Esse fato representa um momento


muito especial na história do povo
hebreu, que é quando surge pela
primeira vez o nome que será, depois,
transferido à sua nação, Israel, palavra
hebraica que é a junção de isra - (lutou)
+ - el (Deus), e que se traduz como
lutou com Deus. E como foi descrito,
Jacó lutou e saiu vitorioso. Trata-se,
pois, de uma cena idêntica ao que se
passa na mitologia grega, o que não é
uma coincidência, já que, como estamos
vendo, a Bíblia está repleta de outras
influências mitológicas.
Uma refeição para Deus

No item anterior foi dito que os


semideuses gregos desciam à Terra para
fazer refeições com os homens. Isso
também acontece na Bíblia. Em Gênesis,
18, o Senhor aparece para Abraão.
Abraão recebe-o, fazendo-o descansar
debaixo de uma árvore, servindo-lhe
pão, carne, coalhada e leite para
refazer-lhe as forças:
Traga-se agora um pouco d’água, e
lavai os pés e repousai debaixo
desta árvore. / Trarei um bocado de
pão, para que possais refazer as
vossas forças, e depois passareis
adiante – visto que chegastes até o
vosso servo. Responderam: Faze
como disseste. / Abraão apressou
em ir ter com Sara na tenda, e lhe
disse: Amassa depressa três
medidas de flor de farinha, e faze
bolos. / Então ele correu ao
rebanho, tomou um bezerro tenro e
bom e deu-o ao criado, que se
apressou a prepará-lo. / Tomou
também coalhada e leite, e o bezerro
que tinha preparado, e pôs tudo
diante deles, ficando ele em pé ao
lado deles debaixo da árvore; e eles
comeram. (Gênesis, 18:4-8)

É perfeitamente compreensível
que uma pessoa leia partes como essas
da Bíblia e não consiga entender como
pode o Deus do Universo “descansar”
debaixo de uma árvore, já que Ele não
poderia cansar-se; ou como Deus
poderia “comer pão” para “refazer Suas
forças”, pois, sendo Ele Deus, Suas
forças não poderiam diminuir nem
acabar, e, mesmo considerando que isso
acontecesse, não seria com uma refeição
à base de pão, carne, coalhada e leite
que Deus recuperaria as Suas forças.
Trata-se, evidentemente, de mais um
exemplo de influência de mitologias
antigas, como a dos gregos, em que
entidades divinas e seres humanos se
igualavam, praticando semelhantes atos
e tendo semelhantes necessidades
fisiológicas.
A criação pela palavra

Entre os egípcios, em Mênfis, por


volta de 3000 anos a.C., a crença era a
de que Ftás criara o mundo proferindo
uma ordem, por atos do seu coração e
da sua língua. O coração, para eles,
significava o espírito; a língua era o
próprio ato da fala. Essa ideia de um
Deus que cria o mundo a partir de uma
ordem falada é, também, o que se
encontra na Bíblia, em trechos como:
E disse Deus: Haja luz. E houve luz.
(Gênesis, 1:3)
E disse Deus: Ajuntem-se as águas
que estão debaixo dos céus num só
lugar, e apareça a porção seca. E
assim foi. (Gênesis, 1:9)

Essas ideias não são apenas dos


tempos mais remotos, representadas no
livro de Gênesis, mas aparecem,
também, no Novo Testamento, em
palavras atribuídas ao apóstolo Paulo,
em Epístola aos hebreus:
Pela fé entendemos que os mundos
foram criados pela palavra de
Deus, de maneira que o visível não
foi feito do que se vê. (Hebreus,
11:3) (Grifo nosso.)
Alma, o “sopro” de Deus

O livro de Gênesis narra o


momento em que Deus criou o homem:
Formou o Senhor Deus o homem do
pó da terra, e soprou-lhe nas narinas
o fôlego da vida. (Gênesis, 2:7)

Se na Bíblia se encontra a ideia de


alma, trazida alegoricamente na figura
de um sopro, também em muitas línguas
antigas, e que pertencem a diferentes
famílias linguísticas, as palavras alma e
s o p r o eram a mesma palavra, ou
nasceram da mesma raiz, como em
dialetos da Austrália do Oeste, em Java,
na língua sânscrita da Índia etc.
Para os egípcios, o homem
possuía, além do corpo carnal, um corpo
impalpável, invisível, o qual
denominavam o Duplo. Esse Duplo
permanecia vivo após a morte do corpo
físico. Era, portanto, para eles, a alma.
O culto em torno do mistério da morte
nunca foi tão desenvolvido no mundo
quanto se verificou na civilização
egípcia. Basta olhar as marcas que o
Antigo Império deixou naquela região –
as pirâmides, que eram túmulos reais. O
formato dessas monumentais edificações
manifestava uma linguagem religiosa. As
pirâmides são formas arquitetônicas que
apontam para o céu, e a presença de
degraus no seu exterior representa uma
maneira de facultar uma melhor subida.
O túmulo do rei, isto é, uma pirâmide,
era a maior realização de seu governo.
Na cultura antiga greco-romana,
muito antes de existirem os filósofos, as
comunidades mais rudes nunca
acreditaram que o ser humano deixasse
totalmente de existir ao tombar do corpo
físico. A sepultura, para aqueles
indivíduos, não assinalava o fim da
vida. Embora creditassem, a princípio,
que as regiões celestes fossem
reservadas exclusivamente para os
grandes homens e para os benfeitores da
humanidade, cultivavam, no entanto, a
crença de que a alma dos homens
comuns continuava a viver em regiões
subterrâneas. Depois dos ensinamentos
do deus Osíris, dizendo que a vida
eterna não é para apenas alguns homens
nobres, mas, sim, para todo aquele que o
seguisse, então todos os homens
egípcios passaram a crer que sua alma
teria direito um lugar nas regiões
celestes.
Na Índia, um dos mais importantes
berços da cultura do espírito, na história
das religiões, o Veda, palavra originada
do sânscrito, que significa
conhecimento, ou saber, é um conjunto
de textos que formam o livro sagrado do
Hinduísmo, e possui muitas semelhanças
com a Bíblia. O Veda, que data de
aproximadamente 4000 anos a.C., numa
de suas divisões, chamada
Upanischades, parte esta que trata de
temas mais metafísicos em relação às
suas outras divisões, ensina que a
essência do ser humano é o Atma, isto é,
o corpo imaterial e imortal que se
encontra no interior de cada indivíduo.
O Atma é a parte do ser humano que se
identifica com o Absoluto (Deus), com o
qual forma uma unidade. O objetivo
precípuo do Hinduísmo é levar o homem
a descobrir essa parte do Absoluto, que,
por natureza, traz dentro de si, e em
consequência dessa descoberta, adquirir
uma nova consciência e uma nova
atitude diante da vida.
Também na Índia, a doutrina do
Budismo, fundada por Siddartha
Gautama (500 a.C.), afirma a existência
da alma e tem como objetivo alcançar o
nirvana, que é o perfeito estado de paz e
plenitude, advindo da ausência total de
sofrimento.
A crença na existência da alma
sempre foi, portanto, uma mola
propulsora da religiosidade humana e
um dos alicerces de todas as religiões
em todos os quadrantes do mundo.
Sendo assim, não há razões para atribuir
à Bíblia algum valor especial, menos
ainda exclusivo, por ela tratar da
imortalidade, ainda mais quando
sabemos que esse tema já era cultivado
em livros sagrados e não sagrados,
existentes antes que a Bíblia fosse
escrita.
O dilúvio

O dilúvio é uma marca importante


nas narrativas do livro de Gênesis.
Vejamos, porém, que tal episódio
aparece escrito com riqueza de detalhes
também nas mitologias antigas de muitos
povos.
O livro Gilgamesh, como já dito
outras vezes neste livro, foi escrito antes
que a Bíblia existisse, e é considerado o
livro mais antigo do mundo. Trata-se de
uma epopeia babilônica. Epopeia é um
longo poema que expressa feitos
grandiosos e heroicos de um povo.
Nesse livro encontra-se narrado o mito
de Gilgamesh, um rei lendário
babilônico. No decorrer da narrativa,
encontra-se descrito o dilúvio, tal como
o conhecemos no livro de Gênesis da
Bíblia.
Na língua em que foi escrita a
epopeia Gilgamesh, o personagem Noé,
da Bíblia, chama-se Ut-napichti. Na
Bíblia, Deus fala diretamente com Noé,
este que tem esposa e três filhos;
anuncia-lhe o dilúvio com o qual
destruirá o homem por causa de seus
descaminhos e violências e orienta-o na
construção de uma arca. Noé coloca no
barco a sua família e todos os animais.
Depois das águas passadas, solta um
corvo e uma pomba para verificar se as
águas escoaram totalmente. Esses
detalhes todos com impressionante
semelhança são encontrados em relatos
de vários povos da Ásia, da Europa e da
América, inclusive entre índios do
Brasil. Na mitologia dos indígenas
mexicanos e da Nova Califórnia, o nome
do personagem Noé é Coxcox, e a ave
que sai da arca de Coxcox para verificar
o escoamento das águas não é uma
pomba, mas, sim, um colibri. O Noé
celta chama-se Dwyfan; a sua mulher,
Dwyfach. No dilúvio da mitologia
grega, o Noé chama-se Deucalião, que
também tinha uma esposa, de nome
Pirra, e três filhos, tal como o Noé da
Bíblia. Todos esses Noés eram justos e
conversavam diretamente com Deus.
Todos eles foram pessoalmente
avisados por Deus de que aconteceria
um dilúvio, e todos receberam a ordem
divina de construírem um grande barco
para salvar sua própria família e os
animais.
A quase totalidade dos crentes na
Bíblia de toda a cristandade pensa, até
hoje, que a informação divina sobre a
ocorrência do dilúvio foi uma revelação
do Senhor especificamente ao Noé da
Bíblia. Agora está claro que isso não é
um fato, mas, apenas, um mito. É claro,
porém, que cada povo dos citados acima
também pensava de forma idêntica sobre
si próprio. Cada povo, com sua
tradição, considerava que o verdadeiro
Deus fosse o seu e, assim como os
hebreus e os referidos cristãos, também
pensavam que seus Noés fossem os
únicos e os legítimos.
Portanto, a verificação dos
conteúdos dos textos das mitologias
antigas prova que o dilúvio não foi uma
revelação de um susposto Senhor ao
escritor do Gênesis bíblico, mas, sim,
que era uma notícia de uma grande
inundação, possivelmente ocorrida num
passado muito remoto, notícia essa que
circulava amplamente nas várias
culturas. Alguns críticos dizem logo que
o escritor do Gênesis copiou ou plagiou
narrativas antigas. Eu, porém, digo que o
que o escritor do Gênesis fez foi um
trabalho de jornalista, e nada mais. Fato
consumado é que ele nunca escreveu tais
relatos ouvindo supostas revelações de
um suposto Senhor.
Olho por olho...

Moisés disse ter recebido do


“Senhor” a revelação de um conjunto de
leis, entre outras, as que se encontram
em Êxodo 21. Nesse capítulo, Moisés
prescreve o tipo de punição que ficou
conhecido popularmente como “olho por
olho, dente por dente”.
Se alguém ferir o olho do seu
escravo, ou o olho da sua escrava, e
o danificar, o deixará forro pelo seu
olho. (Êxodo, 21:26)
Se tirar o dente do seu escravo, ou o
dente da sua escrava, o deixará ir
forro pelo seu dente. (Êxodo, 21:27)

Antes, no versículo 24, encontra-


se escrita a expressão: “olho por olho,
dente por dente”, com a qual Moisés faz
uma espécie de resumo para designar
esse seu método de fazer justiça. A
Bíblia diz que essa legislação foi uma
revelação “do Senhor” a Moisés, mas
isso não é verdade. Essas leis já
estavam escritas no Código de
Hamurábi havia mais de trezentos anos
antes de Moisés escrever o livro de
Êxodo. Hamurábi foi um dos mais
importantes e primitivos reis da
Babilônia. Abaixo, segue um trecho
desse código de leis:
Se o homem cegou o olho de um
homem livre, o seu próprio olho
será cego.
Se o homem cegou o olho de um
plebeu, ou quebrou-lhe o osso,
pagará uma mina de prata.
Se cegou o olho de um escravo, ou
quebrou-lhe um osso, pagará metade
do seu valor.
Se um homem tiver arrancado os
dentes a um homem da sua categoria,
os seus próprios dentes serão
arrancados.

O Código de Hamurábi é
considerado o primeiro conjunto de leis
escritas da história da humanidade.
Baseia-se no princípio de talião, isto é,
da equivalência da punição em relação
ao crime cometido. Os primeiros
registros da lei de talião foram
encontrados no Código de Hamurábi e,
não, na Bíblia. A palavra talião é
escrita com inicial minúscula, pois não é
nome próprio nem tem qualquer ligação
com nome prório. É originado do latim e
significa tal ou igual, daí vindo o termo
retaliação, que expressa a mesma ideia
da máxima “olho por olho, dente por
dente”.
O Código de Hamurábi era um
conjunto de leis para regulamentar o
comportamento social das pessoas, e,
também, para manter as tradições
espirituais no meio de um povo
indisciplinado e rebelde. Veja que era
exatamente o que Moisés precisava para
conseguir conduzir o seu povo, que tinha
essas mesmas características. Vemos
que no Código de Hamurábi havia uma
preocupação acerca de olhos e dentes, e
o método “olho por olho dente por
dente” já estava lá estabelecido, ao pé
da letra. A função de Moisés entre os
hebreus não só era idêntica à do rei
Hamurábi entre os babilônicos, como,
também, o que Moisés escreveu depois
para governar seu povo foi
flagrantemente semelhante ao que estava
no código babilônico, até na maneira de
se estruturar o texto. Veja que Moisés
inicia os enunciados com a conjunção
condicional se, tal como estava no
Código de Hamurábi. Assim, chegamos
a conclusões e indagações necessárias:
uma conclusão é que Moisés incorporou
à Bíblia aquilo que ele aprendeu no
Código de Hamurábi. Isso não é ilegal
nem é pecado, pois é natural que as
culturas se influenciem e que adotem
costumes umas das outras. Isso sempre
aconteceu na história das civilizações, e
foi basicamente assim que todas as
nações se desenvolveram. No entanto,
essa constatação leva-nos a uma
conclusão muito grave: a Bíblia afirma
(falsamente) que foi “o Senhor” quem
ditou essas leis para Moisés, como
está em Êxodo, 20:22.
Se, segundo a Bíblia, foi mesmo o
Senhor quem falou, como está em
Êxodo, 20:22: “Então disse o Senhor a
Moisés...” e Moisés atuou apenas como
instrumento usado por esse Senhor para
transmitir uma mensagem, que não era
s u a (de Moisés), mas, sim, de Deus,
então foi o Senhor quem “plagiou” as
ideias e também as palavras do rei
Hamurábi.
Sendo um dos documentos
históricos dos mais importantes da
cultura mundial, o Código de Hamurábi
existe até hoje e está intacto, pois foi
lavrado em rocha de diorito, e está
disponível a todos que quiserem
conhecê-lo no Museu do Louvre, em
Paris, na França, na sala n.º 3 do
Departamento de Antiguidades
Orientais.
A circuncisão

Outro exemplo de influência


estrangeira é a prática da circuncisão,
isto é, o ato de cortar e retirar a pele que
cobre a glande do pênis.
Circuncidareis a carne de vosso
prepúcio; será isso por sinal da
aliança entre mim e vós. (Gênesis,
17:11)
Segundo a Bíblia, Deus fez uma
aliança com Abraão, e requereu essa
prática para que servisse como sinal. A
partir daí, todo menino, completando
oito dias de vida, teria que ser
circuncidado, e só assim seria
considerado membro da descendência
de Abraão. Todo aquele que não fosse
circuncidado, seria extirpado do seu
povo.
A circuncisão, porém, não foi uma
prática de autoria do Deus bíblico. Já
era um rito muito antigo, anterior à Idade
do Bronze. Antes dos hebreus, os
antigos egípcios já a praticavam por
motivos de higiene. A Medicina
observou, mais tarde, que, realmente, a
remoção do prepúcio reduz a retenção
de bactérias na genitália masculina.
Eva e a costela de Adão

De acordo com as mitologias mais


antigas, no começo da existência os
semideuses não nasciam por meio da
relação sexual. O processo de
nascimento de um desses seres se dava
por meio de uma cissiparidade, ou
bipartição, de um ser anterior. Em
palavras mais rudes, um ser não nascia,
ele era tirado de um outro. Foi assim
que surgiu Eva, segundo livro de
Gênesis. Ela foi tirada da costela de
Adão. E Adão diz, logo após o
surgimento de Eva:
Esta é agora osso dos meus ossos, e
carne da minha carne; ela será
chamada mulher, pois do homem foi
tomada. (Gênesis, 2:23) (Grifo
nosso.)

Por volta do ano 5000 a.C.


florescia, na Índia primitiva, o
Hinduísmo. Nessa tradição religiosa,
que é apontada como a mais antiga do
mundo, e cujos livros sagrados existiam
antes da Bíblia, há o sistema chamado
d e casta. Segundo essa crença hindu,
todos os seres humanos nasceram de um
único Deus: Brama. E cada indivíduo
ter-se-ia originado de diferentes partes
do corpo desse Deus. Com base nessa
doutrina, a sociedade é classificada em
quatro castas (o mesmo que classes
sociais):
Os brâmanes (saíram da boca de
Brama): são os sacerdotes, os
professores, os sábios e outros.
Representam a casta mais elevada.
Os xátrias (saíram dos braços de
Brama): são os governantes e os
guerreiros.
Os vaixás (saíram das pernas de
Brama): sãos os comerciantes.
Os sudras (saíram dos pés de
Brama): são os agricultores, os
prestadores de serviços.

Há, ainda, os dalits. São aqueles


que não têm casta, pois saíram da poeira
dos pés de Brama. Esses indivíduos
fazem trabalhos considerados impuros
para as outras castas. Seus ofícios são,
por exemplo: lixeiro, coveiro, talhantes
e outros. Os dalits não só fazem
trabalhos impuros, como eles próprios
são considerados impuros. Por isso, eles
não podem relacionar-se com ninguém.
Nem mesmo beber água na mesma fonte
das outras castas. Eles são proibidos de
entrar nos templos, não podem tocar nas
outras pessoas nem mesmo com a sua
sombra.
Assim como no mundo hindu
existe uma bárbara discriminação
social, por causa dessa crença em que
os homens seriam partes do corpo de
Brama, há também um problema
ancestral de preconceito contra a mulher
nas sociedades de base judaico-cristãs,
onde predomina a crença bíblica. A
mulher está sempre em segundo plano
em relação ao homem. Essa
discriminação contra a mulher é, em
última análise, uma eterna consequência
de sua origem bíblica. Segundo a Bíblia,
a mulher não foi criada diretamente por
Deus, mas, sim, tirada de uma parte do
corpo do homem. O apóstolo Paulo
disse que o homem é “imagem e glória
de Deus, mas a mulher é glória do
homem” (1 Coríntios, 11:17). São
Tomás de Aquino, teólogo proclamado
santo pela Igreja Católica, afirmava que
a mulher é um ser “ocasional” e
“acidental”. Essas ideias absurdas,
assim como um sem-número de outras
mais, são lamentáveis heranças que a
Bíblia nos deixou, das quais
dificilmente conseguiremos livrar-nos.
Existe uma série de passagens bíblicas
explicitamente preconceituosas contra as
mulheres, tais como:
À mulher disse: Multiplicarei
grandemente a dor da tua gestação;
em dor darás à luz filhos. O teu
desejo será para o teu marido, e ele
te dominará. (Gênesis, 3:16) (Grifo
nosso.)

Podemos observar nitidamente


que até os dias de hoje essa ordem
bíblica é confortavelmente atendida
pelos homens. Uma mulher executa
trabalho idêntico ao que um homem faz,
mas ela ganha menos, só porque é
mulher. O dia 8 de março passou a ser o
Dia Internacional da Mulher, pois, nesse
dia, no ano de 1857, na cidade de Nova
Iorque, nos Estados Unidos, 159
operárias de uma indústria de tecidos
foram queimadas vivas porque faziam
uma greve, reivindicando igualdade de
salários. O Dia Internacional da Mulher
ainda hoje não pode comemorar a
liberdade das mulheres ou o respeito a
elas, mas, sim, serve para alertá-las de
que os preconceitos continuam
existindo. Em todos os segmentos da
sociedade vemos que a liderança
masculina tem primazia: a Marinha, o
Exército, a Aeronáutica, os governos
dos países, dos estados e das cidades,
tudo está majoritariamente nas mãos de
homens. A Igreja Católica Apostólica
Romana é comandada só por homens
(papas, cardeais, bispos, padres, todos
homens); a liderança do Protestantismo,
em todas as suas milhares de vertentes,
constitui-se de esmagadora maioria
masculina. Neste último caso, o das
lideranças religiosas, vemos que os
homens seguem à risca o que ensina a
Bíblia:
(...) as mulheres estejam caladas
nas igrejas. Não lhes é permitido
falar, mas estejam submissas. (1
Coríntios, 14:34) (Grifos nossos.)
Não permito que a mulher ensine,
nem que exerça autoridade sobre o
marido, mas que esteja em silêncio.
(I Timóteo, 2:12) (Grifo nosso.)

E para explicar por que as


mulheres devem ser tratadas desse
modo, como criaturas inferiores e com
menos direitos do que os homens, o
escritor bíblico cita a mitológica
passagem do livro de Gênesis:
Porque primeiro foi formado Adão,
depois Eva. (I Timóteo, 2:13)
O DEUS QUE OS
HEBREUS CRIARAM

O versículo 3 do capítulo 2 do
livro de Gênesis é muito especial, pois
marca um peculiar momento da criação:
o seu término. Fala do sétimo dia, que
foi o célebre descanso do Criador. Até
nesse ponto da narrativa bíblica, a
divindade que praticava o ato da criação
era denominada “Elohim”, na língua
original em que foi escrita a Bíblia, o
hebraico antigo. Nessa língua, as
palavras Eloah ou El significam Deus, e
Elohim é o seu plural, deuses. A
primeira frase da Bíblia, transliterada
da língua original, é:
Bereshit bará Elohim et hashamaim
veét haárets.
Nas traduções para o português,
essa frase aparece assim:
No princípio, criou Deus os céus e a
terra.
Observe que nas Bíblias que
chegaram às nossas mãos o que vem
escrito como tradução de Elohim é a
palavra Deus, obviamente uma tradução
que altera o sentido original, que é
deuses. É óbvio que qualquer tradutor
sabe disso. A modificação que fizeram
foi intencional, para tentar esconder uma
ideia de politeísmo presente logo na
primeira frase da Bíblia. Mas o fato é
que a correta tradução do que está
escrito na língua original, nos diz
objetivamente que o começo do livro de
Gênesis é politeísta.
A seguir, no versículo 4 do mesmo
Capítulo 2, o narrador passa a referir-se
à divindade usando um outro termo,
YHWH, que transliterado ao português é
a palavra JAVÉ, e que significa Senhor.
Essa expressão, Senhor, que, hoje, no
idioma português e amplamente em toda
a cultura judaico-cristã, é usada
indistintamente como sinônimo de Deus
ou de Jesus, na verdade, conforme a
língua original em que a Bíblia foi
escrita, essa palavra não é sinônimo de
Deus, nem de deuses, nem de Jesus. É,
sim, radicalmente, uma referência a
outra entidade espiritual, um outro ser,
que entra em cena.
O que muda não é apenas o nome,
mas, também, os tipos de tarefas que
esse novo ser desempenha, bem como o
seu modo de operar, como vamos ver
mais adiante. Note que uma era a
divindade que criou, Elohim, isto é, uma
coletividade de seres divinos que
atuaram no processo da criação.
Terminada a criação, essa coletividade
de seres sai da história. Aparece, então,
uma entidade diferente, não mais uma
coletividade, mas, um ser único, Javé,
cuja função não é criar (pois a criação
está pronta), mas, sim, administrar a
criação.
Há uma diferença de linguagem e
uma separação clara entre os conteúdos
relatados que vão até Gênesis 2:3 (sobre
a criação), e os conteúdos que se
seguem após esse ponto (sobre a
administração da criação). É o que
podemos considerar como duas fases
narrativas, ou algo semelhante a dois
grandes capítulos de uma mesma
história. Na primeira fase, a voz da
divindade é etérea, distante. Essa voz,
que emana de Elohim, nem sequer se
dirigia aos homens na Terra. A voz era
um diálogo, ou o resultado de um
diálogo, que acontecia no Além, entre os
próprios seres divinos da coletividade
criadora, enquanto processavam a
criação. No versículo 26 do capítulo 1,
está escrito:
Então disse Deus (Elohim, deuses,
na língua original): Façamos o
homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança. (Grifos nossos.)

O verbo está no plural: “façamos


o homem (...)”, e o pronome possessivo
também está no plural: “à nossa imagem
(...)”. E, mais à frente, depois de o
homem haver comido da “árvore do
conhecimento do bem do mal”, que era
proibida, lê-se, em Gênesis, 3:22, o que
os seres divinos da coletividade
criadora cochicharam uns com os
outros:
O homem agora se tornou como um
de nós. (Grifo nosso.)

A expressão “um de nós” não


pode significar outra coisa senão que
existiam entidades espirituais
conversando entre elas mesmas durante
os processos de criação.
A partir de Gênesis, 2:4, a voz
torna-se mais direcionada ao humano. A
relação entre o homem e a divindade
torna-se mais próxima, mais doméstica.
Começam a lidar com assuntos
corriqueiros do cotidiano. O homem,
recém-criado, não se encontra mais
solto na face da terra, mas agora tem um
endereço certo, o jardim no Éden. O
novo ser que, agora, lida diretamente
com os homens para organizar a sua
vida e tratar de assuntos administrativos
da criação em geral é, evidentemente,
um outro ser, Javé, e não mais a
coletividade criadora, Elohim, essa
excelsa legião divina que teria operado
o mistério da criação, sem trocar
qualquer palavra com a criatura humana.
Essa entidade nova que surge, Javé, é
quem vai relacionar-se com o povo
hebreu por toda a sua história.
Elohim era uma entidade
magnânima, não teve nenhum entrevero
com o homem. Esses deuses pertencem a
uma realidade mais elevada e, como
dito, não chegaram a sequer ter contato
com a criatura humana. Mas, quando é
Javé, o Senhor, esse, sim, trata
diretamente com o homem, castiga-o e
premia-o conforme a sua vontade. É
precisamente quando Javé começa a
atuar, que começam a surgir as
proibições, as regras, as exigências, por
fim, os conflitos.
Javé era tão diferente da
coletividade criadora, Elohim, que
chegou a conversar com os homens “de
homem para homem”, como em
passagens como a que segue:
Face a face o senhor falou conosco
no monte, do meio do fogo/ (nesse
tempo eu estava em pé entre o
Senhor e vós. (Deuteronômio, 5:4-
5)

Está aí explicado por que no Novo


Testamento se diz que homem algum viu
a Deus, enquanto no Velho Testamento
os homens não só viam, como também
conversavam com um suposto Deus. Na
verdade, os homens não conversavam
com Deus nem O viam, mas isso ocorria
(ou pode ter ocorrido) com essa outra
entidade chamada Javé, que não é e
nunca foi Deus; que, na verdade, nunca
existiu, pois é apenas um folclore
bíblico. Mas, se for verdade que algum
homem viu algum tipo de ser e com este
conversou, é possível que alguma
entidade espiritual tenha se
corporificado e, quem sabe, tenha se
autodenominado Javé. Nesse caso, ou
esse ser foi um enganador, fazendo-se
passar por Deus; ou, se isso não foi o
que aconteceu, pode ser o povo que
imaginou, equivocadamente, tratar-se do
próprio Deus. Os trechos bíblicos que
dizem que homem algum viu a Deus
estão certos; os outros trechos que
afirmam o contrário estão
profundamente equivocados, assim
como equivocados estão os teólogos e
crentes bíblicos em geral que apoiam tal
ideia, herdeiros que são desse engano
ancestral que é o de considerar-se Javé
e Deus o mesmo ser.
É por isso, também, que muitos
diálogos e outros acontecimentos entre o
homem e a divindade, relatados na
Bíblia, nos parecem tão absurdamente
banais que nos deixam admirados.
Situações assim já foram abordadas em
capítulos anteriores, tais como: Jacó
lutando com Deus, Abraão recebendo o
Senhor, fazendo-o descansar debaixo de
uma árvore, e dando-lhe pão, carne,
coalhada e leite para refazer-Lhe as
forças, entre outras situações, como o
fato de o Deus bíblico possuir
sentimentos próprios dos humanos,
como: ficar irado, arrepender-se, sentir
cheiro de aromas ou de fumaça de
carnes queimadas, requerer adorações o
tempo todo, vingar-se e ensinar a cultura
da vingança, aceitar como normal a
escravidão, o preconceito contra as
mulheres e os homossexuais, promover
guerras e matanças etc.
Na relação entre o homem e Javé
encontram-se situações de humor, de
constrangimentos, de rancores e
disputas, que só se justificam quando se
entende que o homem não estava
conversando com Deus nem com deuses,
mas, sim, com Javé. Vemos que pelas
páginas da Bíblia vão-se somando
embaraçosas experiências de um Senhor
que, embora seja tratado como um Deus,
comete sombrios equívocos, enfraquece-
se, arrepende-se, grita, entristece-se,
fica furioso, faz exigências e inflige ao
homem penas de uma dureza
absurdamente desproporcional ao erro
cometido como, por exemplo, o caso de
penas de morte aplicadas por qualquer
bobagem que o homem cometesse.
O verdadeiro Deus do Universo,
amoroso, democrático, pacificador,
infinito em misericórdia, Pai Celestial
de infinita bondade, sobre o qual Jesus
vai falar nos Evangelhos, não pode ser
esse mesmo Javé. Caso contrário,
teríamos de aceitar a ideia de que Deus
Se mudou com o tempo, ou que Ele
evolui com o tempo, ou que Ele muda o
Seu jeito de tratar os homens de acordo
com a época. (Mas quem precisa
adaptar modos de atuar somos nós, por
causa da nossa imperfeição e
incompetência. A pedagogia de Deus
deve ser como Suas leis, imutável,
irrevogável, irretocável etc.). Ou seja,
não é Deus quem muda o Seu jeito de
tratar os homens de acordo com a época,
mas, sim, o homem é quem muda o seu
jeito de conceituá-Lo, de compreendê-
Lo, de acordo com os graus de
ignorância e de sabedoria vigentes em
sua época. Toda vez que quisermos falar
sobre Deus numa abordagem histórica,
temos que partir desse princípio: quem
muda é sempre o homem (relativo,
adaptável), nunca o seu Deus (absoluto,
imutável).
Se Jesus tivesse vindo à Terra
como um enviado de Javé, Jesus não
teria sido o exemplo de amor e
sabedoria que foi. Ele teria sido um
general cruel, severo e injusto, e por
essas características é que teria ficado
marcado na história. Assim, vamos
percebendo que o Deus de que falam nas
antigas escrituras bíblicas não é o Deus
que criou o Universo, Pai da
humanidade. É, sim, um personagem
criado pelos próprios hebreus, de
acordo com sua mentalidade da época,
seus costumes e necessidades. Mas, para
os hebreus, Javé era o seu Deus e
também o Deus de todos os homens.
Isso, porém, não é o mais admirável. O
mais admirável é que até aos dias atuais
é assim que também pensam bilhões de
pessoas adeptas da Bíblia, cultivando
Javé, esse ente folclórico nascido do
imaginário hebraico, esse monstro
lendário, imaginando que se trata do
mesmo Deus Soberano, o Criador do
Universo.
O DEUS QUE JESUS
PREGOU

Se perguntarmos a um adepto de
qualquer segmento religioso cristão se o
seu Deus é o mesmo Deus “de Abraão”,
“de Isaque” e “de Jacó”, ele dirá
prontamente que sim, e é bem certo que
nunca terá imaginado que poderia ser
diferente, já que esse é o venerável
Deus da Bíblia! Se fizermos, porém,
uma leitura mais atenta do que Jesus
disse sobre o Deus que ele anunciava,
veremos que ele quebra a tradição do
Deus “de Abraão”, “de Isaque” e “de
Jacó”, e apresenta outro Deus.
Primeiramente, Jesus não usava as
tradicionais expressões Deus “de
Abraão”, “de Isaque”, “de Jacó”,
quando ia referir-se ao Deus que ele
desejava anunciar. Era também comum,
àquele tempo, usar-se a expressão Deus
“de nossos pais”, que, de igual modo,
não tinha nada a ver com o Deus que
Jesus apresentava, pois ele nunca se
dirigiu ao seu Deus dessa maneira. Certa
vez, Jesus usou as expressões Deus “de
Abraão”, “de Isaque” e “de Jacó”, mas
não para referir-se a Deus. Ele ensinava
a lição da imortalidade aos saduceus,
dizendo que Abraão, Isaque e Jacó não
estavam mortos (Mateus, 22:32). Jesus
trazia uma notícia extraordinária sobre a
existência de um Deus que os hebreus
jamais haviam conhecido, e, ao
conhecê-Lo, ficaram chocados. Para
introduzir didaticamente essa ideia
nova, Jesus advertiu sobre a maneira de
dirigir-se a Deus, e reprovou a
tradicional expressão Deus “de nossos
pais”, dizendo aos fariseus e escribas:
(...) a ninguém na terra chameis
vosso pai, pois um só é o vosso Pai,
aquele que está nos céus. (Mateus,
23:9)

Mas, o povo estava muito


acostumado, desde Jacó, quando todos
oravam dizendo:
Ó Deus de meu pai Abraão, e Deus
de meu pai Isaque. (Gênesis, 32:9)
Como Jesus veio falar-lhes a
respeito de um Deus de toda a espécie
humana, e não só da família hebreia,
começou por ensinar-lhes uma nova
forma de orar, dizendo-lhes:
Portanto, vós orareis assim: Pai
nosso que estás nos céus, santificado
seja o teu nome, venha o teu reino,
seja feita a tua vontade, assim na
terra como no céu. O pão nosso de
cada dia nos dá hoje. Perdoa-nos as
nossas dívidas, assim como nós
perdoamos aos nossos devedores.
Não nos deixeis cair em tentação,
mas livra-nos do mal. Porque teu é o
reino e o poder, e a glória, para
sempre. Amém. (Mateus, 6:9-13)

Nessa nova forma de orar, Jesus


apresenta uma novidade na maneira
como as pessoas deveriam dirigir-se a
Deus. O modo de evocá-Lo não é mais
“ó Deus de nossos pais”, mas, sim, “Pai
nosso que estás nos céus”. Isso quer
dizer que a responsabilidade na relação
com Deus passa a ser mais individual.
Não bastaria simplesmente pertencer à
família de Abraão para receberem-se
favores do Deus dele. E, também, não
bastaria ao homem pedir as bênçãos e
esperar confortavelmente sua concessão
gratuita, só pelo fato de ser ele um
legítimo descendente de Abraão. Agora,
Jesus propunha na oração que, ao pedir-
se o perdão das dívidas, que este fosse
concedido na medida em que aquele que
pedia fizesse por merecer, isto é,
perdoando também ao seu devedor. O
Deus de Jesus vai apresentando-Se mais
coerente, mais justo, mais universal e
nada provinciano.
Toda a pregação de Jesus
será no sentido de anunciar o Deus do
Universo, com todos os atributos que
Lhe são naturais, entre os quais o de não
ter uma nação em especial como Sua
eleita, mas, sim, o de tratar todos os
povos da Terra, dando a cada um deles
igual valor:
Mas eu vos digo que muitos virão
do Oriente e do Ocidente, e
assentar-se-ão à mesa com Abraão,
Isaque e Jacó, no reino dos céus.
(Mateus, 8:11) (Grifo nosso.)
Enquanto os israelitas se
apegavam às Escrituras, considerando-
as como a Palavra de Deus, na qual se
viam escritas sentenças cruéis e
intolerantes, como:
Todos os pecadores do meu povo
morrerão à espada. (Amós, 9:10)

Jesus, por sua vez, recebia os


pecadores em sua mesa e jantava com
eles, e fazia tais coisas em nome do
Deus que o enviara, ou seja, não podia
ser Javé, cuja ordem era matar os
pecadores e, não, fazer-lhes sala. Era
natural que atitudes como essa de Jesus
causassem espanto nas pessoas, como
narram os Evangelhos, o que era de se
esperar, já que todos estavam
acostumados na crença em Javé, com o
seu jeito brutal e intolerante de tratar os
homens. Mas, ao observar que os
fariseus não compreendiam a sua atitude
de superior fraternidade, Jesus
respondeu:
Os sãos não necessitam de médicos,
mas, sim, os doentes. Eu não vim
chamar os justos, mas, sim, os
pecadores. (Marcos, 2:17)
Enquanto o Deus que os hebreus
criaram mandava matar o pecador a
espada, o Deus de Jesus o acolhia,
dando-lhe oportunidade de recuperação.
Em nome de seu Deus, Jesus absolveu a
mulher adúltera e disse que o reino do
céu era das criancinhas. Javé, por sua
vez, ou aquele que em seu nome
profetizava, mandava matar mulheres
grávidas e inocentes, criancinhas e
velhos. A esse respeito, vai um
fragmento abaixo, que é apenas um bem
pequeno exemplo das incontáveis
atrocidades perpetradas pelo Deus
bíblico:
Cairão à espada, seus filhos serão
despedaçados, e as suas mulheres
grávidas serão abertas pelo meio.
(Oseias, 13:16)
Por fora devastará a espada, e por
dentro o pavor; tanto ao jovem como
à virgem, assim à criança de peito
como ao homem encanecido (de
cabelos brancos, idoso).
(Deuteronômio, 32:25)

Nenhuma justificava há para os


crimes cometidos pelo Deus bíblico.
Matar crianças de peito, pessoas idosas,
abrir mulheres grávidas pelo meio não
pode ter sido correto em época nenhuma
da história, por qualquer necessidade de
época que se apresente. Evidencia-se,
em trechos como esses, a verdade sobre
o que é o livro chamado Bíblia: uma
obra feita por muitas mãos de homens,
entre os quais estavam os mais bárbaros,
sanguinários e que não davam o menor
valor à vida humana, principalmente se
essa vida fosse a dos mais indefesos,
como as mulheres, as crianças e os
velhos. É lamentável, muito lamentável,
que em pleno século 21 a lucidez
humana ainda esteja tão ofuscada, a
ponto de mais de dois bilhões de
pessoas ainda adorarem esse livro na
sua íntegra, e o que é pior, dizerem que
foi Deus o Seu autor!
O Deus de Jesus, porém, era, em
tudo, um outro Deus, com um novo e
surpreendente modo de operar.
Sobre esse Deus
universal que Se apresentava, Jesus
esclarecia:
Ele faz que seu sol se levante sobre
maus e bons, e envia chuva sobre
justos e injustos. (Mateus, 5:45)

Acostumados ao Javé atroz e


vingativo, essa era uma notícia
extraordinária. O Deus que Jesus
pregava era misericordioso, dava a
todos, “maus e bons”, a mesma
oportunidade de serem felizes sobre a
face da Terra.
O Deus que Jesus pregava era
também o Deus que dava à natureza
equilíbrio e harmonia perfeita e, sendo
assim, todas as criaturas receberiam
exatamente o que lhes fosse necessário:
Olhai para as aves do céu; não
semeiam, não colhem, nem ajuntam
em celeiros, e, contudo, o vosso Pai
celestial as alimenta. (Mateus, 6:26)

Era o Deus da justiça, que não


fazia favores a quem não possuísse
merecimento, nem concedia privilégios
a uns em detrimento de outros:
Pois o Filho do homem virá na
glória de seu Pai, com os seus anjos,
e então recompensará a cada um
segundo as suas obras. (Mateus,
16:27) (Grifo nosso.)

Para o Deus de Jesus não bastava


ser da nação eleita, ou praticar
determinados rituais, para entrar no
Reino dos Céus:
Nem todo o que me diz Senhor,
Senhor! entrará no reino dos céus,
mas aquele que faz a vontade de meu
Pai que está nos céus. (Mateus,
7:21)

Ao pregar as novidades sobre um


Deus universal, Jesus escandalizava os
judeus apegados à ideia antiga do Deus
belicoso “de seus pais”. Assim, tendo
Jesus acabado de falar aos fariseus e
escribas, demonstrando-lhes que a
tradição judaica estava contra Deus,
seus discípulos lhe disseram:
Sabes que os fariseus, ouvindo essas
palavras, se escandalizaram?
(Mateus, 15:12)

E Jesus respondeu:
Toda planta que meu Pai celestial
não plantou, será arrancada.
(Mateus, 15:13)
Ora, o que os judeus faziam
faziam-no em nome de Deus, mas o que
eles ainda não haviam descoberto (e o
que muitos até hoje ainda não
descobriram) é que o Deus deles não era
o mesmo Deus que Jesus pregava.
Jesus sempre vai dizer que o Deus
de que ele fala “está nos céus”, e usa a
expressão “vosso Pai que está nos céus”
no lugar em que antes se usava “o Deus
de nossos pais”. E, ao referir-se a si
mesmo como filho desse Deus, diz “meu
Pai que está nos céus”. Essas novas
expressões também davam sinais de que
estava rompida a tradição israelita de
seu Deus particular, em lugar do qual se
anunciava o Deus da humanidade.

* * *

A missão de Jesus não era a de


continuar a primitiva e mitológica
história do Deus tribal hebreu. Por isso,
Jesus foi, e ainda é até hoje, muito mal-
entendido não só com relação ao Deus
que ele anunciou, mas, também, com
relação ao tudo mais que ele veio fazer
aqui.
A estranheza, para alguns, era que
Jesus deveria ser, sim, um continuador
dos discursos da família, já que
pensavam que ele fosse “filho de Davi”.
Mas Jesus mesmo negou essa
descendência, como está no diálogo
entre ele e os fariseus, em Lucas, 20:41-
44:
Então Jesus lhes perguntou: Como
dizem que o Cristo é filho de Davi?
/ O próprio Davi declara no livro
dos Salmos: Disse o Senhor ao meu
Senhor: Assenta-te à minha direita, /
até que eu ponha os teus inimigos
por estrado de teus pés. / Se Davi
lhe chama Senhor, como pode ser
ele seu filho? (Grifo nosso.)

Veja que Jesus nega que ele seja


descendente de Davi. Quem quererá
argumentar o contrário, se o próprio
Jesus rejeita a sua descendência de
Davi? Se Jesus fosse descendente de
Davi, então ele seria, de fato, um
continuador natural da história da
família israelita e seu temível Javé. A
despeito do que Jesus ensinou, porém,
os doutores da Igreja Católica, biblistas
e teólogos do Protestantismo,
enredaram-se pelo caminho do mal-
entendido. E o resultado foi que o
Cristianismo, que era para ter
transformado profundamente o mundo,
anunciando o Deus universal do qual
Jesus falou, veio a ser, na prática, a
religião que fez o maior e mais eficiente
marketing do Deus-Javé, folclórico e
inexistente, dos israelitas. Javé passou à
história como se fosse o Deus soberano,
o Criador de todas as coisas.
O MAIOR DE TODOS
OS ENGANOS

Mas os cristãos que confundiram


Deus com Javé não foram somente os
católicos medievais e, mais tarde, os
protestantes. Na Bíblia encontramos
cristãos ensinando esse equívoco.
Exemplos são Estêvão e Paulo. Estêvão,
considerado o primeiro mártir do
Cristianismo, ao proferir seu memorável
discurso, registrado em Atos, 7, com a
intenção de anunciar a Boa Nova do
Cristo, reproduziu, primeiro, toda a
história do Javé hebreu, desde quando
Abraão saiu de Ur, até o reinado de
Salomão, momento este que marcou o
ápice da glória de Israel. O apóstolo
Paulo, discursando entre os israelitas de
Antioquia da Psídia, em Atos, 13:13-52,
com o mesmo objetivo de Estêvão,
também achou que fosse preciso,
primeiro, contar a história do povo
hebreu e seu Deus particular, Javé, para
depois falar de Jesus, como se este fosse
um tipo de continuação necessária de
tudo o que ocorrera no passado israelita,
coisa que não é verdade, pois, como
vimos, isso foi negado pelo próprio
Jesus ao negar a sua descendência de
Davi. Esse modo como o Cristianismo
começou a ser divulgado matou a
proposta de um verdadeiro
Cristianismo, e acabou por instaurar no
mundo uma espécie de neo-judaísmo. As
pessoas que frequentam igrejas
protestantes sabem bem disso, pois
escutam constantemente os pregadores
usando histórias do povo judeu,
narradas na Bíblia, como base para
passar ensinamentos em púlpitos ditos
cristãos, mas que, na verdade, são
altares que professam a cultura, a
sabedoria e a tradição judaicas.
Quando Paulo foi pregar aos
gentios, sua proposta era não só
anunciar o Cristo, mas também o Deus
único, o verdadeiro. É dessa forma que
esse apóstolo se pronunciou, quando se
encontrava em Atenas, em seu famoso
discurso no Areópago, entre os filósofos
epicureus e estoicos. Naquela
localidade havia uma já tradicional
cultura de deuses, e Paulo havia visto
um altar em que estava escrito: “Ao
Deus Desconhecido”. Então, Paulo
resolve dizer aos atenienses que o Deus
que ele anunciava era o tal “Deus
Desconhecido”, escrito no altar, e que
esse era o “Deus que fez o mundo e tudo
que nele há, sendo ele Senhor do céu e
da terra (...)” (Atos, 17:24). Nos
discursos de Paulo, como em todos os
discursos cristãos daquela época, “o
Deus que criou o universo” e o Deus “de
Abraão”, “de Isaque” e “de Jacó”, ou
s e j a , o Javé, eram considerados o
mesmo ser. A tradição hebreia foi,
assim, impondo-se de tal maneira como
o único caminho para encontrar-se o
Deus verdadeiro, que o Deus que criou
os homens foi sendo confundido em
várias localidades com o Deus que os
homens criaram; nesse caso, que os
hebreus criaram.
Há muitas vozes na Bíblia. E no
que diz respeito à identidade do Deus
soberano, a Teologia deu as costas ao
que Jesus falou, e preferiu ouvir o que
outros homens disseram, como Estêvão
e Paulo, por exemplo. Assim, a Teologia
descartou o ensinamento de Jesus sobre
a identidade do Deus universal, que era
diferente do que Estêvão e Paulo
falaram e diferente de tudo a que os
israelitas estavam acostumados, dado
esse que é o ponto crucial daquilo que
se chama Boa Nova de Jesus. Sendo
assim, no que diz respeito à ideia que se
faz de Deus, o Cristianismo
institucionalizado não é cristão, pois não
é uma continuidade ao discurso de
Jesus, o Cristo, sobre o verdadeiro Deus
da humanidade e oportuniza que Javé
seja reverenciado, usurpando, assim, o
sagrado lugar que deveria estar ocupado
pelo verdadeiro Deus. Tal fato parece-
me ter sido o mais desastroso erro da
Teologia em todos os tempos, e o maior
de todos os seus enganos.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS

Ao (à) leitor (a) que comigo


chegou até aqui e ainda resiste em
sustentar a crença na Inspiração Plenária
da Bíblia, sugiro que experimente
lembrar-se de Jesus, e imagine-se no
lugar da mulher samaritana a quem ele
disse: “Os verdadeiros adoradores
adorarão o Pai em espírito e em
verdade” (João, 4:23). Você verá
claramente que nós não precisamos da
Bíblia (assim como também não
precisamos de religiões, nem de dogmas
ou rituais) para ligarmo-nos
verdadeiramente a Deus, porque (preste
bastante atenção!) tudo isso se inclui
entre as coisas que Jesus disse que não
eram necessárias para adorar o Pai.
Adorar o Pai “em espírito” significa
sem qualquer aparato, nem mesmo um
livro, seja a Bíblia ou qualquer outro
livro, sagrado ou não. Quem, porém,
esquece ou despreza até mesmo aquilo
que Jesus disse, e se apega
inflexivelmente à Bíblia, afirmando ser
esse o único meio para se estar com
Deus, comete um tipo específico de
idolatria: a bibliolatria.
Se a Bíblia fosse, mesmo, a
Palavra de Deus, aí, sim, a nossa
dependência dela seria realmente
essencial. Mas, como vimos, a Bíblia
não é, e nunca foi, a Palavra de Deus.
Essa ideia foi uma mera invenção
teológica, ou, melhor seria dizer, uma
farsa teológica.
Por fim, este livro não foi escrito
para dizer a Verdade, mas para levantar
os véus que estão postos sobre muitas
coisas que nos disseram que era a
Verdade. Ficarei feliz, pois, se este
livro tiver servido, pelo menos, para
encorajar o leitor à nobre atitude que
aprendemos com Friedrich Nietzsche:
“Não acreditamos mais que a verdade
continue sendo verdade se forem
levantados seus véus”.
REFERÊNCIAS

1. SILVA, Antonio Gilberto da. A


Bíblia. 5. ed. Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembleias de
Deus (CPAD), 1997.

2. DECLARAÇÃO DE CHICAGO
SOBRE A INERRÂNCIA DA
BÍBLIA. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/c
Acesso em: 4 jan. 2008.

3. A INSPIRAÇÃO PLENÁRIA
DA ESCRITURA. Disponível em:
<http://www.cprf.co.uk/languages/por
Acesso em: 9 jan. 2010.

4. FINKELSTEIN, I.
SILBERMAN, N. A.A Bíblia não
tinha razão. São Paulo: Girafa,
2003.

5. CHAVES, José Reis.A face


oculta das religiões: uma visão
racional da Bíblia. 2. ed. Santo
André: EBM, 2006.

6. Os Dez Mandamentos nunca


foram encontrados pela Arqueologia.
Portanto, não há provas concretas de
que eles realmente tenham existido.
7. Totem. Ser vivo, fenômeno
natural ou objeto em relação ao qual,
em certos povos, um grupo ou
subgrupo social tem uma relação
simbólica especial, que envolve
crenças e práticas específicas. Por
exemplo: se uma tribo crê que
determinado animal é seu ancestral
ou protetor, vai prestar-lhe culto e
ter com ele alguns vínculos de
obrigações.
LIVRO 3

JESUS
A verdade por trás do mito
Parte 1

Como os escritores da Bíblia


construíram um personagem
sobrenatural chamado Jesus Cristo
INTRODUÇÃO

No presente capítulo, pretendo


questionar a história de Jesus, conforme
está contada na Bíblia. Não vou
questionar a existência propriamente
dita de Jesus, mas, sim, a história que se
conta sobre ele na Bíblia, o que é uma
coisa diferente. Vou demonstrar que
muitos eventos narrados sobre Jesus,
nos Evangelhos, são mitos e não fatos.
MUITO ANTES DA
BÍBLIA

No ano 3000 a.C. (lembrando


que, por esse tempo, ainda faltavam
cerca de 1.500 anos para a Bíblia
começar a ser escrita), muitos atributos
dados a Jesus, assim como fatos a ele
relacionados, já existiam na mitologia
egípcia, referindo-se aos deuses Osíris e
Hórus. Nas crenças egípcias vamos
encontrar (com a maior riqueza de
detalhes) os mais importantes e
conhecidos elementos que foram usados
p a r a construir uma história
sobrenatural com o personagem Jesus
dos Evangelhos (1).
HÓRUS, OSÍRIS E
ÍSIS

Hórus: era o filho de Osíris.

Osíris: era o Deus Supremo, o


Deus dos Deuses e de todos os homens.

Ísis: era a mãe de Hórus.

Vamos comparar os elementos


da antiga crença egípcia, referentes aos
seus deuses, com aquilo que a Bíblia
falou sobre Jesus três milênios depois.
Os detalhes das semelhanças são
impressionantes!
JESUS E HÓRUS

Enumerando algumas semelhanças


entre Jesus e Hórus:

1
Está na Bíblia: Jesus nasce e é
recebido como o filho de Deus.

Estava na mitologia egípcia: Hórus


era o filho de Deus, isto é, de Osíris.
2
Está na Bíblia: a concepção de Jesus
é anunciada antecipadamente, por um
anjo, a Maria, sua mãe: “Conceberás
e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o
nome de Jesus” (Lucas 1:31).

Estava na mitologia egípcia: Ísis é


avisada por um ser espiritual que ela
teria um filho: “Terás um filho e ele
se chamará Si-Osiris” (2) – que
significa filho de Osíris, ou seja,
Hórus.
3
Está na Bíblia: alguns eventos
marcaram o nascimento de Jesus
(veja, no item a seguir, os eventos
que ocorreram no nascimento do mito
Hórus, e será muito fácil conferir
com o que a Bíblia atribui a Jesus).

Estava na mitologia egípcia:


– Hórus nasceu de uma virgem, em
25 de dezembro, no interior de uma
gruta.
– Uma estrela surgiu no Oriente,
marcando o seu nascimento (essa
estrela é, até aos dias de hoje,
chamada de estrela Sírius, que quer
dizer Osíris. É a estrela mais
brilhante do céu noturno, e pode ser
vista de qualquer ponto do planeta.)
– Ao nascer, Hórus foi visitado por
três sábios.
– Hórus encarnou na Terra em corpo
humano.

4
Está na Bíblia: Herodes quis matar
Jesus quando este ainda era um bebê.

Estava na mitologia egípcia: Seth


quis matar o bebê Hórus. Ísis, a mãe
deste, fugiu com ele.
5
Está na Bíblia: Jesus tinha apenas
doze anos de idade, quando foi
encontrado discutindo com os
doutores no templo.
Estava na mitologia egípcia: Hórus,
com apenas doze anos de idade,
ensinava no templo.

6
Está na Bíblia: Jesus foi batizado no
rio Jordão, aos trinta anos de idade,
por João Batista. João Batista foi
decapitado depois.
Estava na mitologia egípcia: Horus
foi batizado no rio Eridanus por
Anup, o Batista. Anup, o Batista,
também foi decapitado depois.

7
Está na Bíblia: A Bíblia não diz
nada a respeito de Jesus, de 12 a 30
anos de idade.

Estava na mitologia egípcia: Horus


desapareceu por 18 anos (exatamente
o período de 12 a 30 anos, quando
Jesus desapareceu na Bíblia).
8
Está na Bíblia: Jesus teve doze
discípulos.

Estava na mitologia egípcia: Hórus


tinha doze discípulos.

9
Está na Bíblia: Jesus ressuscitou um
morto chamado Lázaro.

Estava na mitologia egípcia: Hórus


ressuscitou um morto chamado El-
Azarus (Observe que os nomes dos
ressuscitados são exatamente os
mesmos).
10
Está na Bíblia: Jesus andou sobre as
águas.

Estava na mitologia egípcia: Hórus


andava sobre as águas.
11
Está na Bíblia: Jesus transfigurou-se
num monte.

Estava na mitologia egípcia: Hórus


transfigurou-se num monte.

12
Está na Bíblia: Jesus foi sepultado e
ressuscitou ao terceiro dia.

Estava na mitologia egípcia: Horus


foi enterrado em um túmulo por três
dias e ressuscitou.
13
Está na Bíblia: mulheres visitaram o
túmulo de Jesus.

Estava na mitologia egípcia: o ritual


de ressurreição de Hórus era feito
com a intervenção de mulheres.

14
Está na Bíblia: Jesus ascendeu ao
céu.

Estava na mitologia egípcia: após o


ritual de ressurreição, Hórus
ascendeu aos céus.
JESUS E OSÍRIS

Osíris era o Deus Supremo, mas


a mitologia egípcia considerava que
teria havido um tempo em que esse Deus
teria sido um homem na Terra, homem
este que morreu, ressuscitou e passou a
viver eternamente em espírito, reinando
como o Deus do Universo e dos homens.
Desse modo, as figuras de Hórus e
Osíris são bastante parecidas entre si e,
por conseguinte, muito parecidas
(melhor dizer idênticas) com o Jesus dos
Evangelhos, que, por sua vez, também
faz um intercâmbio entre o humano e
divino, ou se encontra numa relação
muito estreita com essas duas
realidades, o que se pode verificar em
passagens como João 10:30: “Eu e o Pai
somos um”.

Enumerando algumas semelhanças


entre Jesus e Osíris:

1
Está na Bíblia: “E tomou o pão, deu
graças, partiu-o e deu-lhes, dizendo: Isto
é o meu corpo, que por vós é dado; fazei
isto em memória de mim./
Semelhantemente tomou o cálice, depois
da ceia, dizendo: Este é o cálice da
Nova Aliança no meu sangue derramado
por vós” (Lucas 22:19-20).

Estava na mitologia egípcia: Osíris era


também chamado de Deus do trigo e seu
corpo era considerado pão. Por isso,
Osíris dava o seu corpo aos egípcios
para que estes se alimentassem dele. O
seu sangue também era dado a beber.
Tratava-se de um ritual para que Osíris
fosse eternamente lembrado depois de
sua morte.
2
Está na Bíblia: Jesus respondeu: “É
chegada a hora em que o Filho do
homem será glorificado./Agora o meu
coração está angustiado (...) Andai
enquanto tendes luz, para que as trevas
não vos apanhem. Quem anda nas trevas
não sabe para onde vai” (João 12: 23,
27 e 35).

Estava na mitologia egípcia: “Osíris


sabe que chegou a sua hora e que viveu
o seu tempo de vida... Osíris tem medo.
Osíris tem horror a andar nas trevas...
Aqueles que se querem desfazer de mim
fazem-me mal e são os filhos das
trevas...” (3)
3
Está na Bíblia: Jesus pregou o amor e
só fazia o bem, mas foi condenado e
morreu na cruz por nossos pecados.

Estava na mitologia egípcia: Osíris foi


um ser bondoso, mas sofreu uma morte
cruel, e pela sua morte assegurou a
felicidade e a vida eterna a todos os
seus seguidores.

4
Está na Bíblia: Jesus morreu logo após
ser traído por Judas Iscariotes, que era
um de seus discípulos.
Estava na mitologia egípcia: Osíris
morreu logo após ser traído por Set, que
era seu irmão.

5
Está na Bíblia: Jesus foi crucificado.

Estava na mitologia egípcia: Osíris foi


crucificado numa cruz feita de um tronco
de sicômoro. Sua cruz chamava-se TAT.
“Saúdo-te, ó Sicômoro, grande cruz,
Companheiro de Deus. O teu peito toca
o ombro de Osíris.” (4)
6
Está na Bíblia: Colocaram uma coroa
de espinhos na cabeça de Jesus.

Estava na mitologia egípcia: Osíris


tinha sobre a sua cabeça uma coroa que
lhe provocava dor. “Cheguei e tirei
aquela coisa ofensiva (a coroa de
URERET) que estava sobre Osíris. (...)
Aliviei a dor de Osíris...” (5)

7
Está na Bíblia: Jesus ressuscitou.
Estava na mitologia egípcia: Osíris
ressuscitou.
UMA CHOCANTE
CONSTATAÇÃO

Você, leitor cristão, acostumado


a suas antigas crenças de que seu Jesus
bíblico seria o único a possuir as
características descritas acima, deve
estar muito chocado com tudo isso que
você acabou de ler.
Você pode até mesmo, quem
sabe por um instante, imaginar que
Osíris e Hórus imitaram Jesus Cristo.
Mas, é necessário não esquecer que
Osíris e Hórus estão situados há 3000
anos antes de Jesus Cristo e, nesse caso,
é a história do Jesus bíblico quem,
necessariamente, os está plagiando ou
imitando.
PARA QUEM QUER A
VERDADE

Existe pois, um enorme


problema com a fé que se tem construído
em torno de Jesus Cristo, conforme está
escrito na Bíblia.
Mas a religião cristã não quer
enxergar isso, pois reconhecer tal fato
abalaria completamente a estabilidade
da própria religião. Nesse caso,
perguntaríamos: O que as religiões
querem? As religiões querem a sua
estabilidade ou querem a verdade? Por
que uma questão tão grave como essa
não é discutida abertamente pelos
líderes cristãos? A resposta é clara:
Esses tais religiosos não querem se
defrontar com a verdade, que é: o Jesus
bíblico é uma lenda.
Eu escrevi esse livro para
aquelas pessoas que querem a verdade,
seja ela qual for, sem interesses em
manter qualquer tradição equivocada.
Parte 2

Algumas controvérsias sobre o que


Jesus Cristo disse ou fez
O LADRÃO FOI PARA
O CÉU?

CAPÍTULO 1

Quando Jesus estava morrendo


na cruz, outros dois condenados também
agonizavam próximos dele, conforme
podemos ler em Lucas 23. Um desses
homens ironizou Jesus, revelando-se
incrédulo, e disse-lhe:

Se tu és o Cristo, salva-te a ti
mesmo e a nós. (v. 39).

O outro condenado, por sua vez,


demonstrou crer que Jesus era o
Messias, pronunciando as seguintes
palavras:

Senhor, lembra-te de mim


quando entrares no teu reino. (v. 42).

Então, Jesus disse:

Em verdade te digo que hoje


estarás comigo no paraíso. (v. 43).
Apesar de ser um diálogo
pequeno, sua interpretação causa-nos
uma estranheza muito grande. O que se
entende e se ensina sobre este trecho do
Evangelho, na maioria das igrejas
cristãs, tanto no catolicismo como no
protestantismo, pode ser resumido nas
duas explicações a seguir.
O QUE DIZ A IGREJA
CATÓLICA ROMANA

Cremos na vida eterna. Cremos que


as almas de todos aqueles que
morrem na graça de Cristo – quer
as que se devem ainda purificar no
fogo do Purgatório, quer as que são
recebidas por Jesus no Paraíso,
logo que se separam do corpo,
como sucedeu com o Bom Ladrão
–, formam o Povo de Deus para
além da morte, a qual será
definitivamente vencida no dia da
Ressurreição, em que estas almas se
reunirão a seus corpos. (6) (Grifo
nosso.)

Aquilo que os protestantes dizem


a respeito do assunto pode ser resumido
claramente no trecho seguinte:

As palavras de Jesus, aqui, mostram


com clareza que imediatamente
após a morte, os salvos passam a
estar com Jesus no céu. (7)

Ou seja, católicos e protestantes


têm o mesmo entendimento que é: o
ladrão da cruz teria sido salvo, e teria
ido para o céu imediatamente depois de
morrer na cruz, ao lado de Jesus.
Essa interpretação, apesar de ser
oficial para a quase totalidade dos
cristãos, causa-nos estranheza em
diversos aspectos. Vejamos algumas
complicações que dela surgem:
Complicação 1.

Como o ladrão pode ter ido para


o céu imediatamente, se o próprio Jesus
foi para lá apenas dois dias depois?
Jesus diz em João 20:17:

Não me toques, porque eu ainda


não subi para meu Pai, mas vai
para meus irmãos, e dize-lhes que
eu subo para meu Pai e vosso Pai,
meu Deus e vosso Deus. (Grifo
nosso.)

Quando Jesus disse essas


palavras, já se haviam passado dois dias
da morte dele e do ladrão. Só ao
terceiro dia ele (...) foi recebido no
céu, e assentou-se à destra de Deus,
conforme podemos ler em Marcos
16:19. Então, perguntamos: Onde estava
o ladrão durante esse tempo em que
Jesus permaneceu na Terra? O ladrão
teria entrado sozinho no paraíso, e antes
de Jesus? Se foi assim, Jesus não
cumpriu a sua palavra. Ou o que ele
planejou não deu certo, pois ele havia
dito ao ladrão que este estaria “com ele”
no paraíso “hoje”, isto é, no mesmo dia
da morte na cruz. Como não esperamos
violações de Jesus nas suas promessas,
nem que seus planos falhem, é que nós
somos forçados a perguntar: Como
resolver esta contradição?
Complicação 2.

O ladrão foi salvo sem ter pago


as suas dívidas às suas vítimas. Para
explicar esta salvação supostamente
injusta do ladrão, a maioria dos
protestantes dizem que o ladrão “aceitou
Jesus”, no último momento antes da
morte, e assim foi salvo pela graça e não
por mérito pessoal, porque Jesus morreu
por nossos pecados.
Quanto à interpretação dos
protestantes, que parece ser-lhes o único
modo de dar alguma resposta à
embaraçosa questão, apregoando que
Jesus “morreu pelos nossos pecados”,
há um problema: se aquilo que salva um
pecador sem merecimento é, de fato, a
morte de Jesus, o ladrão de que estamos
falando aqui não foi salvo por essa
razão, uma vez que Jesus ainda estava
vivo e conversando com o ladrão no
momento em que este foi salvo. Então,
esse ladrão não podia ter-se beneficiado
da morte de Jesus, simplesmente porque
isso ainda não havia ocorrido. Isso é
muito simples de se entender. A menos
que esse tenha sido um caso especial de
salvação. Um tipo de salvação não “pela
graça”, mas por uma espécie de
“encomenda antecipada da graça”.
A Igreja Católica tenta justificar
a salvação do ladrão, respondendo que
o ladrão teria morrido em um estado de
graça, porque ele estava na presença de
Jesus, da mesma maneira como
aconteceu com os santos da Igreja, nos
seus momentos de êxtase. Por essa
razão, o ladrão teria sido salvo.
Quanto a esta interpretação dada
pela Igreja Católica, há uma observação
a ser feita: o "estado de graça" do
ladrão pode ter sido muito bom e
vantajoso para ele mesmo, mas não
diminuiu em nada o sofrimento e
prejuízo de quem ele roubou e danificou
na Terra. Essa constatação é grave, pois
contraria a própria Bíblia, que ensina
que o ladrão deve restituir aquilo que
ele roubou. Por exemplo, essa foi a
atitude de Zaqueu, o cobrador impostos,
quando Jesus entrou em sua casa.
Zaqueu disse:

Eis aqui, Senhor, a metade dos meus


bens dou aos pobres, se nalguma
coisa defraudei alguém, o restituo
quadruplicado. (Lucas 19:8)

Além dessa passagem, que é


muito famosa, há outros trechos bíblicos
nos quais se pode verificar a questão da
restituição:

Êxodo 22:3.
O ladrão fará restituição total.
(Grifo nosso.)
Levítico 6:4-5.
4. (...) restituirá o objeto roubado,
ou extorquido (...)
5. Restituí-lo-á por inteiro, e ainda
sobre isso acrescentará a quinta
parte. (Grifos nossos.)
Deuteronômio 22:1.
(. . . ) restituirás sem falta a teu
irmão. (Grifo nosso.)
Ezequiel 33:15.
( . . . ) restituindo esse ímpio o
p e n h o r, pagando o furtado,
andando nos estatutos da vida.
(Grifos nossos.)

Diante de tudo isso, uma


pergunta permanece para aqueles que
querem refletir: Por que o ladrão da cruz
teve o privilégio de ser salvo sem
restituir o que roubou, como sempre foi
exigido de todos os outros homens da
Terra?
Complicação 3.

Neste item, vou levantar outra


questão, a da reconciliação. Se Jesus, de
fato, salvou um homem que não se havia
reconciliado com as vítimas de seus
crimes, então o Mestre negou o seu
próprio ensino que está em Mateus 5:25:

Concilia-te depressa com o teu


adversário, enquanto estás no
caminho com ele; para que não
aconteça que o adversário te
entregue ao guarda, e sejas lançado
na prisão.

Alguns argumentam, a esse


respeito, que o ladrão ficou isento dessa
reconciliação, pois Jesus o salvou “pela
autoridade da sua palavra”. A primeira
coisa que tenho a dizer sobre isso é que,
se Jesus tinha, mesmo, autoridade em
sua palavra (e acredito que tinha), tudo
o que não poderia acontecer é ele
próprio se desmentir, como parece ter
acontecido, se formos aceitar o que
ensinam as teologias cristãs.
Mas, antes de qualquer coisa,
teríamos de saber de onde os teólogos
tiraram essa surpreendente informação
sobre a tal isenção do ladrão em relação
à reconciliação. Na Bíblia não existe
essa informação sobre essa isenção.
Trata-se apenas de uma imaginação
saída da cabeça fértil dos teólogos, com
base apenas naquilo que eles acham que
seja a verdade, mas sem nenhum
fundamento.
Como disse e repito, possuindo
Jesus autoridade em sua palavra, ele não
deveria nem precisaria contradizer-se,
cometendo a falácia de ensinar certa
coisa num dia, e revogá-la no outro,
Mas é isso que estes religiosos
querem nos fazer entender. O ponto a
que estamos chegando com estas
reflexões é: ou admitimos que os
escritores do Evangelho incluíram fatos
fictícios e ideias incoerentes no texto, ou
admitimos que o ensino de Jesus é
inconsistente, e que os escritores
humanos apenas o transcreveram.
Alguns católicos e protestantes
argumentam que, sendo Jesus o próprio
Deus, ele possuía a faculdade da
onipresença e, sendo assim, mesmo
enquanto estava na Terra junto com os
homens, estava também com o ladrão no
céu. A ideia, porém, de que Jesus seja o
próprio Deus, como dizem, é um
pressuposto particular dos indivíduos
que pertencem às crenças católica e
protestante. Por esse motivo, é um
argumento que não tem validade para
integrar um debate amplo, envolvendo
outras crenças.
Além de não se poder provar
nada a respeito dessa onipresença de
Jesus, temos evidências que dizem o
contrário como, por exemplo: se Jesus
estava no céu no mesmo momento em
que ainda estava, também, na Terra, qual
o sentido e a utilidade de ele ter dito
“ainda não voltei ao Pai”, em João
20:17?
Conclusão:

Jesus disse que estava na Terra


(e explicou que ainda não havia ido ao
Pai). Os teólogos negam isso, dizendo
que Jesus estava na Terra e que também
já estava com o Pai. São duas coisas
diferentes: uma coisa foi dita por Jesus;
outra coisa diferente dita pelos teólogos.
Na dúvida entre as duas informações, é
melhor ficar com a palavra de Jesus.
CAPÍTULO 2

Vamos ver, agora, qual a origem


desse impasse e se há solução para ele.
Primeiro, vejamos por que a
interpretação deste curto diálogo entre
Jesus e o ladrão da cruz é tão
embaraçosa.
A origem do problema está na
forma como se escrevia a língua grega,
com a qual foram escritos os
Evangelhos. Os textos manuscritos em
grego não tinham pontuação, por isso a
frase dita por Jesus ao ladrão encontra-
se escrita nos manuscritos em idioma
original da seguinte forma:

Jesus respondeu-lhe Em verdade te


digo hoje estarás comigo no
paraíso
Nos manuscritos gregos também
não existiam letras iniciais maiúsculas
nem espaços entre as palavras. Então,
para visualizar-se a frase atribuída a
Jesus, traduzida para o português, sem
alteração na sua estrutura original do
grego, seria algo assim:

jesusrespondeulheemverdadetedig

Mas, vamos falar apenas da


pontuação, pois é o que importa na
questão da interpretação. Nas línguas
que têm pontuações, estes sinais foram
usados nas traduções. E esses elementos
totalmente novos adicionados ao texto
sagrado na língua original, deram
significados diferentes para a mesma
frase.
Mas, isso ainda não é o
problema. O problema é que, não
havendo pontuação alguma no grego,
cada tradutor colocou-a onde quis, de
acordo com a interpretação que ele
próprio achava que seria a certa,
conforme a sua religião. Essa é uma
questão muito grave. Desde a infância
nós aprendemos na escola que, se
pontuarmos um texto de modos
diferentes, teremos interpretações
diferentes desse mesmo texto. Isto é
precisamente o que aconteceu com a
frase bíblica com a qual estamos
lidando.
As traduções adotadas por
adventistas e testemunhas de Jeová
trazem o seguinte:

Em verdade te digo hoje:


estarás comigo no paraíso.

Os tradutores colocaram dois


pontos depois da palavra “hoje”. A
interpretação, nesse caso, é que a
palavra “hoje” se refere ao dia em que
Jesus fez a promessa ao ladrão e, não,
ao dia em que o ladrão foi para o
paraíso. Considerando essa pontuação,
não fica declarado “que dia” o ladrão
iria para o paraíso, mas, apenas, que ele
certamente iria algum dia. Esse texto foi
escrito dessa maneira para atender à
crença dos adventistas e testemunhas de
Jeová, que acreditam que todos os seres
humanos, inclusive o ladrão da cruz, só
receberão a salvação no dia da
ressurreição coletiva, isto é, na volta de
Jesus.
Em muitas traduções católicas e
protestantes o sentido apresentado é
idêntico ao do exemplo que segue:

Em verdade te digo: hoje


estarás comigo no paraíso.
Essa é a versão que indica que o
ladrão foi para o céu imediatamente
após a morte na cruz, simplesmente
porque a pontuação foi colocada antes
da palavra “hoje”.
A crença na salvação imediata
do ladrão está, portanto, embasada no
posicionamento da pontuação decidido
pelos tradutores.
Assim, concluímos que é
impossível uma solução que se possa
comprovar. Cada instituição religiosa
sempre defendeu o seu ponto de vista
particular, e parece que assim
continuará a ser.
Os manuscritos gregos, sem
ponto algum, permitem ambas as
interpretações apresentadas. Ninguém
pode garantir que uma interpretação seja
legítima e que a outra seja falsa. As
pessoas adotam esta ou aquela crença,
mas não existem bases para se confirmar
se isso é verdade. Neste caso, no
entanto, é certo que pelo menos uma das
interpretações apresentadas acima está
errada, uma vez que elas são
mutuamente excludentes uma da outra.
A língua grega não tem
pontuação. Por isso é inútil procurar um
sentido único para essa frase. Temos que
reconhecer o fato de que esta frase
bíblica em Lucas 23:43 é
irremediavelmente incompreensível.
UM PEQUENO
DETALHE...
UMA GRANDE
CONTRADIÇÃO

Até aqui, nós estamos analisando


uma questão bíblica muito conhecida,
que é: Havia dois ladrões morrendo na
cruz ao lado de Jesus, e um deles
suplicou ao Senhor que se lembrasse
dele no paraíso. E, então, Jesus deu a
este a salvação.
Mas há um grande problema com
esta questão. O referido ladrão pode
nunca ter existido. E essa possibilidade
é afirmada pela própria Bíblia.
“Os Evangelhos de Mateus e
Marcos declaram que os dois ladrões
crucificados junto de Jesus insultavam
Jesus (Mateus 27:44 e Marcos 15:32).
Já para Lucas, só um dos ladrões
insultava Jesus (Lucas 23:39).” (8).
Veja os referidos versículos bíblicos:
Mateus 27: 43-45.

43. Confiou em Deus. Livre-o agora,


se de fato o ama; pois disse: Sou
Filho de Deus.
44. E o mesmo lhe lançaram também
em rosto os assaltantes que com ele
haviam sido crucificados.
45. Desde a hora sexta até à hora
nona, houve trevas sobre toda a
terra. (Grifo nosso.)

Marcos 15:32.

31. De igual modo também os


principais sacerdotes, com os
escribas, escarnecendo-o, diziam
entre si: A outros salvou; a si
mesmo não pode salvar;
32. Desça agora da cruz este Cristo,
o rei de Israel, para que vejamos e
acreditemos. Os que com ele foram
crucificados também o injuriavam.
33. E chegada a hora sexta, houve
trevas sobre a terra, até a hora
nona. (Grifo nosso.)

Lucas 23: 38-40.

38. Por cima dele estava uma


inscrição, em letras gregas,
romanas e hebraicas: ESTE É O
REI DOS JUDEUS.
39. Um dos criminosos
crucificados o insultava, dizendo:
Se tu és o Cristo, salva-te a ti
mesmo e a nós.
40. Mas o outro o repreendeu,
dizendo: Tu nem ainda temes a
Deus, estando na mesma
condenação? (Grifos nossos.)

Há uma contradição entre aquilo


que está escrito nos Evangelhos de
Mateus e Marcos e aquilo que está
escrito no Evangelho de Lucas. Se o
Evangelho de Lucas estiver certo, a
análise sobre o ladrão que foi para o
paraíso permanece. Se, porém, os
Evangelhos de Mateus e Marcos
estiverem certos, o ladrão que foi para o
céu é um personagem que nunca existiu.
Até aqui nós podemos ter duas
certezas:

1º Os Evangelhos de Mateus e
Marcos negam o Evangelho de Lucas.
Isso é a prova de que a Bíblia possui
contradições.

2º Se acreditarmos no que está


escrito nos Evangelhos de Mateus e
Marcos, estaremos aceitando
automaticamente que existem afirmações
atribuídas a Jesus que, na verdade,
nunca foram ditas por ele, simplesmente
porque o tal diálogo com um suposto
ladrão nunca existiu.

Como você pode perceber, essas


contradições, confusões e discordâncias
não estão apenas nas mentes dos
teólogos, mas também estão no próprio
texto da Bíblia.
Parte 3

Curiosidades sobre Jesus


ONDE MORAVA A
FAMÍLIA DE JESUS

O leitor verá, abaixo, que há uma


contradição insolúvel quando a Bíblia
indica o local onde residia a família de
Jesus.
Mateus diz ter sido em Belém,
sendo que só depois se mudou para
Nazaré. Lucas, porém, diz exatamente o
contrário, que a família morava em
Nazaré, e só depois se mudou para
Belém. Isso é uma contradição incrível!
Veja você mesmo nos versículos abaixo:

Mateus 2:1.

Tendo Jesus nascido em Belém da


Judeia, em dias do rei Herodes, eis
que vieram uns magos do Oriente a
Jerusalém.

Mateus 2:23.

E foi habitar numa cidade chamada


Nazaré, para que se cumprisse o
que fora dito, por intermédio dos
profetas: Ele será chamado
Nazareno.

Lucas 1:26-27.

No sexto mês foi o anjo Gabriel


enviado da parte de Deus, para uma
cidade da Galileia, chamada
Nazaré, a uma virgem desposada
com certo homem da casa de Davi,
cujo nome era José; a virgem
chamava-se Maria.

Lucas 2:3-5.

Todos iam alistar-se, cada um à sua


própria cidade. José também subiu
da Galileia, da cidade de Nazaré,
para a Judeia, à cidade de Davi,
chamada Belém, por ser ele da casa
e família de Davi, a fim de alistar-
se com Maria, sua esposa, que
estava grávida.
JESUS NÃO FOI O
ÚNICO
HOMEM A
RESSUSCITAR

Praticamente todos os crentes na


Bíblia pensam, equivocadamente, que só
o Jesus bíblico praticou a extraordinária
façanha de ressuscitar. E isso lhes dá
uma firme (porém ilusória) fé na Bíblia
e na história de Jesus contada nos
Evangelhos. Alienada ao absolutismo
bíblico, sem quase nunca estudar outras
culturas e crenças, a grande maioria dos
crentes na Bíblia não tem conhecimento
sobre o que dizem as tradições sagradas
de outros povos e de outros livros
sagrados. Esses crentes bíblicos não
conhecem, especialmente, as tradições e
livros sagrados que são mais antigos do
que o cristianismo.
Na história das religiões, houve
outros casos de ressurreição em outras
religiões além do cristianismo. Milhões
e milhões de cristãos não sabem disso, e
por isso mesmo vivem iludidos.
Outros casos de ressurreição
são, por exemplo: Adônis, nas
mitologias fenícia e grega; Osíris, na
mitologia egípcia; Mitra, na mitologia
persa, entre outros.
JESUS CONFIRMOU
AS SAGRADAS
ESCRITURAS: ISSO É
VERDADE OU
MENTIRA?

Jesus não confirmou as


Escrituras. Afirmar tal coisa seria
aceitar que Jesus nada fez de diferente
do que fizeram todos os outros mestres
judeus que ensinavam em sinagogas, no
seu tempo e antes dele. Todos os
mestres judeus só faziam isto:
confirmavam as Escrituras. Eram
homens que seguiam cegamente o que
estava escrito. Jesus não se comportou
assim em relção às Escrituras.
Jesus foi um mestre diferente dos
outros. Ele parece ter sido o único a ter
coragem de criticar as Escrituras. Às
vezes, Jesus foi mais longe. Ele não só
criticou as Escrituras, mas ele as
recusou. Por esta razão, a comunidade
ficou indignada.
Os Evangelhos mostram Jesus
com uma ousadia que nenhum outro
homem teve antes dele. Jesus parecia ter
uma autoridade que estava acima das
Escrituras. Os outros professores do seu
tempo apenas repetiam mecanicamente
leis. Jesus criticou essas leis. Ele
corrigiu certas leis e, às vezes, como
mencionado acima, as recusou.
Ademais, se dissermos que Jesus
confirmou as Escrituras, estamos, assim,
diminuindo o valor dele como Cristo,
pois isso seria igualá-lo a qualquer
outro pregador comum de seu tempo.
A seguir, veremos trechos dos
Evangelhos que comprovam que Jesus
foi um severo crítico das Escrituras.

Mateus 5:17.

Não penseis que vim destruir a lei


ou os profetas; não vim para
destruí-los, mas para cumpri-los.

Muitos apologistas bíblicos


usam essa passagem para afirmar que
Jesus confirma o Velho Testamento. Mas
essa é uma maneira muito precipitada e
equivocada de interpretar a questão.
Vejamos isso agora.
O que teria levado Jesus a dizer
o que está escrito em Mateus 5:17, como
visto acima? Qualquer um mestre da
Escritura, que está constantemente a
confirmá-la nunca precisa fornecer uma
explicação, assim como Jesus fez em
Mateus 5:17. Se Jesus teve que
esclarecer que ele não iria "destruir a
lei" é porque ele tinha uma posição
crítica a respeito das Escrituras.
Mas essa situação parece ter-se
transformado em um paradoxo. Se Jesus
disse que não veio destruir a lei, então
deveríamos concluir que ele a confirmou
totalmente? Claro que não! Em Mateus
15:12-13, Jesus explica por que razão
ele criticava a tradição literalista dos
anciãos judeus.

12. Então, acercando-se dele os


seus discípulos, lhe disseram: Sabes
que os fariseus ouvindo essas
palavras, se escandalizaram?
13. Ele, porém, respondeu: Toda
planta que meu Pai celestial não
plantou será arrancada. (Grifo
nosso.)

Com essa declaração, Jesus


critica o fato de os fariseus respeitarem
mais a tradição deles do que a lei de
Deus, em alguns aspectos.
Para isso, Jesus usou essa figura
de linguagem, “toda planta que meu Pai
celestial não plantou”, para referir-se a
tudo aquilo que provinha dos homens,
isto é, o que compunha a tradição.
Como vamos ver a seguir, Jesus
nega vários pontos das Escrituras, além
de outros que ele critica, e nos quais faz
sérios reparos. Isso significa que nem
tudo que estava nas Escrituras havia
sido plantado pelo Pai celestial.
Se tudo que estava escrito nas
Escrituras estivesse correto e justo,
Jesus não teria nada o que corrigir nem
negar, como ele o fez.
Aqui estão algumas passagens
em que Jesus critica, corrige e nega
alguns ensinamentos do Antigo
Testamento:
Não matarás

Mateus 5:21-22.

21. Ouvistes que foi dito aos


antigos: Não matarás, e quem matar
estará sujeito a julgamento.
22. Eu, porém, vos digo que
qualquer que, sem motivo, se
encolerizar contra seu irmão, estará
sujeito a julgamento, e qualquer que
disser a seu irmão: Raca, estará
sujeito ao Sinédrio. Mas quem
disser: Tolo! Estará sujeito ao fogo
do inferno.

Nesta passagem, Jesus não


confirma as Escrituras. Jesus faz
reparos, retoca e complementa a
passagem citada, que está escrita em
Êxodo 20:13: Não matarás.
O divórcio

Agora, vamos ver um trecho que


está em Deuteronômio 24:1.

Se um homem tomar uma mulher,


casar-se com ela, e esta depois
deixar de lhe agradar por ter ele
achado nela qualquer coisa
indecente, escrever-lhe-á uma carta
de divórcio, e lha dará na mão, e a
despedirá da sua casa. (Grifo
nosso.)
Veja você que em Deuteronômio
o divórcio é autorizado com muita
liberdade ao homem. Por qualquer coisa
que o homem achasse indecente na sua
mulher, ele poderia divorciar-se dela.
Mas Jesus Cristo nega a lei, e faz outra
lei. A nova lei feita por Jesus permite o
divórcio apenas em casos de
prostituição. Veja:

Mateus 19:9.

Eu vos digo, porém, que qualquer


que repudiar sua mulher, não sendo
por causa de prostituição, e casar
com outra, comete adultério,(...)
(Grifo nosso.)
O juramento

Agora, vejamos a questão do


juramento:
Considere o que está escrito em
Mateus 5: 33-34 e 37.

33. Ouvistes também que foi dito


aos antigos: Não perjurarás, mas
cumprirás teus juramentos ao
Senhor.
34. Eu, porém, vos digo: De
maneira nenhuma jureis (...)
37. Seja, porém, o vosso “Sim”, sim,
e o vosso “Não”, não; o que passar
disso vem do maligno. (Grifos
nossos.)

A passagem citada por Jesus é


uma combinação de Êxodo 20:7 com
Levítico 19:12. Aqui encontramos o
ensinamento de que as pessoas devem
cumprir o juramento.
Neste caso, Jesus não confirmou
as Escrituras. E Jesus não apenas fez
reparos, mas ele negou totalmente o que
está escrito e proibiu as pessoas de
fazer o que as Escrituras ensinavam:
“De maneira nenhuma jureis”.
Olho por olho, e dente
por dente

Mateus 5:38-39.

38. Ouvistes que foi dito: Olho por


olho, e dente por dente.
39. Eu, porém, vos digo: Não
resistais ao homem mau. Se alguém
te bater na face direta, oferece-lhe
também a outra.
Nesse trecho, Jesus rejeitou
totalmente a prática orientada pela lei de
Moisés, do “Olho por olho, e dente por
dente”, que está em Êxodo 21:24.
Amai a vossos inimigos

Mateus 5:43-44.

Ouvistes o que foi dito: Amarás o


teu próximo, e odiarás o teu
inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai
a vossos inimigos e orais pelos que
vos perseguem. (Grifos nossos.)

Aqui, Jesus cita Levítico 19:17-


18: “odiarás o teu inimigo”. Vemos
que o ódio entre uma pessoa e outra era
um sentimento recomendado no Antigo
Testamento. Segundo as Escrituras, as
pessoas deviam odiar os inimigos e
amar apenas os amigos.
Jesus, é claro, nunca iria
confirmar esta parte das Escrituras. Essa
negação que Jesus fez é, inclusive, um
dos pontos mais importantes de sua
mensagem em todo o Evangelho.
Depois de ver tudo isso (e ainda
há mais que poderíamos citar), torna-se
muito estranho ouvirmos alguém dizer
que Jesus confirmou as Escrituras.
ANTES E DEPOIS DE
JESUS:
UMA GRANDE
ILUSÃO

As pessoas costumam dizer que


Jesus foi tão importante para o mundo,
que dividiu a história em antes e depois
dele. Com esse fato extraordinário,
Jesus teria dado uma demonstração de
sua superioridade única e decisiva
sobre todos os outros homens que
passaram pela Terra.
Sem querer minimizar a
importância histórica do Jesus bíblico,
devo dizer que a divisão da história,
marcada na suposta data de seu
nascimento, não foi uma medida tomada
por causa de sua importância. Os
motivos foram estritamente comerciais e
políticos.
O sistema de marcação de datas
c ha ma d o Anno Domini (“Ano do
Senhor”, em latim) não foi sequer
planejado, mas foi criado
acidentalmente por um monge chamado
Dionísio, o exíguo, em Roma, no ano de
527, enquanto se tencionava calcular a
data da Páscoa cristã. Não foi o poder
de Jesus que dividiu a história em antes
e depois dele, com a implementação
deste calendário. Foi, sim, o poder
político de Roma.
Roma impôs o novo calendário,
que veio a chamar-se “gregoriano”. Esse
nome é uma homenagem ao Papa
Gregório XIII, porque foi ele quem
formulou e promulgou o calendário, em
24 de fevereiro de 1582.
Roma queria impor um
calendário universal para a facilitação
do comércio e da política, e nada mais.
Só em segundo plano se pode dizer que
o calendário gregoriano representa uma
homenagem a Jesus. Uma "simples
homenagem," nada mais.
É fácil compreender que o
calendário não evoca a importância de
Jesus, quando se observa que os países
de maioria protestante estavam
relutantes e não queriam aceitar o novo
calendário. (Eu acho que se a divisão da
história tivesse sido um verdadeiro
tributo à importância de Jesus, nunca
protestantes teriam recusado o
calendário gregoriano). Só depois de um
século de resistência, os países
protestantes adotaram o calendário
gregoriano.
Países não-cristãos também o
adotaram, deixando ainda mais explícito
que isso era apenas um instrumento de
unificação política e comercial, e não
uma questão de significado religioso.
JESUS ERA DEUS?

No Concílio de Niceia (325), a


Igreja Católica estabeleceu um dogma
que diz que "Jesus é Deus". A Igreja
Católica acredita que os seus dogmas
teológicos são imutáveis e
inquestionáveis. Mas esse dogma
formulado no Concílio de Niceia parece
apoiar-se em bases muito suspeitas.
O Concílio de Niceia tem uma
particularidade. Ele foi o primeiro
Concílio ecumênico da Igreja Católica e
foi convocado pelo imperador
Constantino, e não pelo Papa. O que é
mais estranho é que esse Concílio
ocorreu sem sequer a participação do
Papa.
A ideia do dogma estabelecido
lá, que disse que Jesus é Deus, veio do
pensamento do próprio imperador
Constantino. Constantino não era um
homem religioso. Ele era um político.
Nós temos dois problemas aqui: O
primeiro problema é a ausência do Papa
em um evento religioso tão importante
como esse; o segundo problema não é
apenas o fato de o Concílio ter sido
convocado por um imperador, em vez de
tê-lo sido feito pelo Papa. O maior
problema é que esse imperador tenha
sido Constantino. Vamos ver por quê:
No ano 312, o cristianismo não
estava ainda estabelecido em Roma, mas
os cristãos constituíam a metade da
população romana. Constantino era
pagão e disputava intensamente com
seus rivais para firmar-se no trono. Na
famosa batalha da Ponte Mílvia,
Constantino decidiu que seus soldados
deveriam lutar, levando um monograma
cristão impresso em seus escudos. Por
fim, eles saíram vitoriosos da batalha.
Nesse momento, Constantino concedeu
aos cristãos e a todos os outros cidadãos
romanos, plena liberdade de praticar a
religião que quisessem. E Constantino
determinou, também, que o cristianismo
fosse a religião da Corte, daquele
momento em diante.
O estabelecimento do
cristianismo como religião oficial da
Corte de Roma foi formalizado pelo
Edito de Milão, em 13 de Junho 313.
Mais tarde, o historiador Eusébio de
Cesareia (9) explicou que os soldados
usaram o monograma cristão em seus
escudos porque, em 27 de outubro do
mesmo ano, um dia antes do confronto,
Constantino e seus soldados tiveram
uma visão sobrenatural. Eles viram no
céu, acima do Sol, a imagem de uma
cruz brilhante. Na cruz estava escrita
uma frase em latim: In hoc signo vinces,
que significa: “Por este sinal vencerás”.
Naquele tempo, a segurança das
fronteiras do Império Romano estava se
desmoronando. Como mencionado
anteriormente, os cristãos representavam
metade da população romana. Acredita-
se que Constantino ficou interessado em
usar a mão de obra dos cristãos para
lutar em suas batalhas, para a proteção
do Império. Então, Constantino teria
usado a visão sobrenatural como uma
maneira de convencer os cristãos a ir
para a luta. Além disso, a suposta visão
sobrenatural com o símbolo cristão,
avistada por Constantino e seus
soldados, dava uma boa oportunidade a
Constantino de ganhar o apoio dos
cristãos, fazendo-os seus aliados
políticos.
Há um forte indício de que essa
tese pode estar certa. Constantino
sempre exortou seus súditos a se
converterem ao cristianismo, mas ele
mesmo só concordou em se tornar um
cristão quando estava quase morrendo,
no ano de 337.
Constantino tornou-se cristão
apenas 24 anos depois de ter instituído o
cristianismo como a religião do Império
Romano. Alguém poderia perguntar: Por
que Constantino oficializou o
cristianismo no Império Romano, mas
ele nem sequer o adotou em sua vida
pessoal? A resposta pode ser, quem
sabe, quilo mesmo que está mencionado
no início deste capítulo: Constantino não
era um homem religioso, mas, sim, um
político. Ele estava interessado em
reunir as pessoas, e usou a religião
como um meio para isso. Mas o
cristianismo não era parte de sua fé.
Assim, chegamos a uma
conclusão surpreendente: o homem que
institucionalizou o cristianismo e que
criou o dogma católico, que afirma que
Jesus é Deus, não era nem mesmo um
cristão.
O estabelecimento do
cristianismo por Constantino foi uma
medida puramente política, tanto é
verdade que o imperador continuou
normalmente seguindo e praticando a
sua religião de origem, o mitraísmo.
COMO E POR QUE
JESUS
FOI
TRANSFORMADO
EM DEUS?

O criador da ideia de que Jesus


é Deus foi o imperador Constantino.
Mas por que um político iria querer
abordar essa questão teológica? Por que
Constantino iria querer liderar um
Concílio religioso e, além disso, sem a
presença do Papa? As razões estão
propositalmente escondidas do povo.
Não são ensinadas nas escolas. Muitas
autoridades religiosas as conhecem, mas
não falam sobre isso para não causar
abalos na estrutura da sua própria
religião.
Os assim chamados "Pais da
Igreja", como Inácio de Antioquia,
Julian, Tertuliano, Aria entre outros,
competiam ferozmente entre si os seus
pontos de vista diferentes sobre a ideia
da divindade de Jesus. Alguns
argumentavam que Jesus era apenas
humano, outros diziam que ele era, em
parte, humano e, em parte, Deus; outros
acreditavam que ele era uma espécie de
"deus inferior", e assim por diante.
As controvérsias desses homens
se prolongavam indefinidamente, desde
o início do segundo século. E essa falta
de acordo entre eles perturbava a ordem
pública e ameaçava dividir a Igreja.
A ameaça de divisão da Igreja
era uma ameaça real de dissolução do
Império Romano em si. Constantino
estava muito preocupado com essa
situação. Havia uma controvérsia
teológica que afetava diretamente a
estabilidade política do Império. Talvez
seja por isso que ele teve a brilhante
ideia de impor um dogma único, que
todos devessem aceitar. Assim, ele iria
acabar com as disputas entre os
religiosos e assegurar a estabilidade
política do Império.
Tenho dito que Constantino
impôs o dogma da divinização de Jesus.
O termo "impôs" é absolutamente
correto, porque havia punição para
aqueles que discordassem da ideia do
imperador. O dogma passou por uma
votação de 300 bispos. Desses bispos,
apenas três deles não concordaram com
a ideia de Constantino e, por isso
mesmo, foram condenados ao exílio
pelo próprio Constantino. Os bispos que
foram condenados são: Ário, Teonas e
Secundus.
Como foi dito, o dogma da
divinização de Jesus apoia-se sobre
bases suspeitas. Sua origem é política,
não teológica. É por isso que sempre
existiram, e ainda existem, controvérsias
insolúveis dentro da Igreja sobre esse
tema.
Quando eles conduziram o
Concílio de Calcedônia (451), os bispos
afirmaram que Jesus não era apenas de
"natureza divina" ou apenas de "natureza
humana", mas eles decidiram que Jesus
possuía as duas características.
Neste caso, o Concílio de
Calcedônia (451) negou o anterior
Concílio de Niceia (325). Você, leitor,
deve estar percebendo que há uma
grande confusão em toda esta história.
Foi mencionado acima que a Igreja
prega que seus dogmas são imutáveis.
Mas, paradoxalmente, o que estamos
vendo aqui é que a Igreja impôs um
dogma e, depois, o recusou.
Mas a confusão não termina aí.
Em um Concílio que ocorrera 20
anos antes do Concílio de Calcedônia, o
Concílio de Éfeso (431), já estava
decidido que Jesus tinha "apenas a
natureza divina". A própria Teologia cai
em contradições e constrangimentos ao
tentar tratar como se fosse algo sagrado
uma coisa que, originalmente, é profana.
Tal é o caso do dogma da divinização
de Jesus.
De qualquer modo, o resultado é
que Jesus se tornou Deus na concepção
dos católicos. Foi no Concílio de Éfeso
(431), que também se estabeleceu que
Maria, neste caso, seria chamada de
"Mãe de Deus", já que Jesus era Deus.
Desde então, essa forma de expressão
foi adicionada na oração "Ave Maria".
A seguir, a oração:
Ave Maria

Ave Maria,
cheia de graça, o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres
e bendito é o fruto do vosso ventre,
Jesus.

Santa Maria,
Mãe de Deus,
Rogai por nós, pecadores,
agora e na hora de nossa morte.
Amém.
“Mãe de Deus”. Essa expressão
permanece até hoje na boca dos fiéis aos
dogmas católicos. Este dogma é hoje
reafirmado pela Igreja Católica, como
se pode ler numa declaração extraída do
s e u Catecismo, publicado pelo Papa
João Paulo II, no ano de 1992: "...
Maria é Mãe de Deus, porque ela é a
Mãe de Jesus Cristo, que é verdadeiro
Deus."
Este dogma não pode ser
sustentado se considerarmos, por
exemplo, o que o Apóstolo Paulo
ensinou sobre Jesus: “... sendo [Jesus]
em forma de Deus, não teve por
usurpação ser igual a Deus,...”
(Filipenses 2:6)
Atualmente, existem aqueles que
tentam argumentar que Jesus é Deus,
buscando evidências disso na Bíblia.
Mas essa empreitada é impossível, pois
o próprio Constantino, que foi o autor
dessa ideia, nem conhecia a Bíblia.
Portanto, a Bíblia não tem nada a ver
com isso.
Como já foi dito, a razão para a
deificação de Jesus era outra, totalmente
fora dos interesses bíblicos. É por isso
que encontramos tantas disparidades
entre o que está escrito na Bíblia e a
ideia da divinização de Jesus. O
contrário, sim, é o que encontramos. Há
muitas passagens que negam que Jesus
seja Deus, e na maioria delas, é o
próprio Jesus quem explica que ele é um
indivíduo e que o Pai é outro. Vamos
citar alguns trechos:

João 14:28.

Ouvistes que eu vos disse: Vou, e


voltarei para vós. Se me amásseis,
alegrar-vos-íeis porque eu vou para
o Pai, pois o Pai é maior do eu.
(Grifo nosso.)

João 5:30:

Eu não posso fazer nada de mim


mesmo; como ouço, assim julgo, e o
meu juízo é justo, pois não busco a
minha vontade, mas a vontade do
Pai que me enviou. (Grifo nosso.)

Entre muitas outras passagens,


podemos citar o diálogo memorável
entre Jesus e Pedro.

Mateus 16:15-17:
15. Perguntou-lhes ele: E vós, quem
dizeis que eu sou?
16. Simão Pedro respondeu: Tu és o
Cristo, o Filho do Deus vivo.
17. Respondeu-lhe Jesus: Bem-
aventurado és tu, Simão Barjonas,
pois não foi carne e sangue que to
revelou, mas meu Pai que está nos
céus.

Nesse diálogo, há três


considerações importantes a serem
feitas:

1º. Jesus confirma que ele é


“Filho”, então não pode ser Deus, que é
o “Pai”.
2º. Jesus está na Terra,
encarnado entre os homens, e situa o
“Pai” em outro lugar, “nos céus”.

3º. Jesus aprovou a resposta de


Pedro. E Pedro disse que Jesus é o filho
de Deus, não Deus. Assim, o dogma
católico que diz que Jesus é Deus
contradiz o que Pedro disse nesse
diálogo. Note, você leitor, que o dogma
católico é contrário à palavra de Pedro,
o qual, de acordo com a Igreja Católica,
teria sido seu primeiro Papa.
Nessa confusão de ideias,
contradições e polêmicas que vão
aumentando, também é comum ouvir a
afirmação de que o problema da
divindade indescritível de Jesus é um
"mistério de Deus". Os fatos, porém,
mostram que o mistério não parece ser
de Deus, mas criado por homens.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS

Depois de exposto tudo isso,


seria um erro dizer que este livro é
contra Jesus. Em nenhum momento foi
dito aqui que ele não tenha existido, que
ele possuísse algum demérito ou que
estivesse errado em algo que disse ou
fez.
Contra Jesus são todos os livros
que alimentam falsidades, fantasias e
ilusões sobre ele. E o principal livro
que faz isso é a Bíblia.
Aqui foram ditas realidades, e
isso não é ser contra Jesus. Isso é, sim,
ser a favor dele, pois, se Jesus estivesse
encarnado entre nós, ele seria o
primeiro a querer nos livrar de todos os
enganos e idolatrias que os homens
criaram em torno da pessoa e do nome
dele.
Ser favorável a Jesus é buscá-lo
de forma realista e sincera, não se
prendendo de maneira irrefletida e
ingênua ao que os nossos ancestrais
sempre acreditaram, eles que, por sua
vez, também o fizeram da mesma
maneira irrefletida e ingênua.
Mas, para atuarmos com tal
autonomia precisamos, inicialmente, ter
uma boa dose de coragem. Pois,
primeiro, temos de nos libertar dos
grilhões do passado.
Nossa mente nunca quer perder
aquilo que ela considera sagrado.
Nossas crenças em certas "verdades
absolutas" construíram padrões
inflexíveis de pensamentos, e nos
tornamos escravos desses pensamentos.
Por fim, não tenho a pretensão de
que o leitor, após ler este livro, vá
deixar de acreditar no que sempre
acreditou a respeito do Jesus bíblico.
Mas me daria por satisfeito se, pelo
menos, o leitor se sentisse convidado, e
aceitasse o meu convite, para a seguinte
reflexão e estudo: considerando que a
história de Jesus, como está na Bíblia,
nada mais é do que uma lenda, uma
transcrição de histórias fabulosas de
deuses mitológicos que existiram em
épocas mais antigas do que a dele, e
considerando, ao mesmo tempo, que
Jesus de fato existiu, fica o nosso
questionamento: Como terá sido o
verdadeiro Jesus, sem mitos, sem
plágios, sem adulterações? Como terá
sido a verdadeira vida desse homem
extraordinário?
REFERÊNCIAS

1. Há, ainda, outros deuses mitológicos


mais antigos do que Jesus, como Mitra e
Krishna, por exemplo, que possuíam
características muito semelhantes às
atribuídas a Jesus, nos Evangelhos.
Acima apresento Osíris e Hórus, apenas
para efeito de exemplificação.

2. Texto egípcio em língua demótica,


550 a.C., em O conto de Satmi.

3. Texto da pirâmide D’Unas e do


Papyrus de Hunefer, Cap. XVII. In:
CHAMBRUN-RUSPOLI, Marthe de
L’divin Épervier. Éditions du Mont-
Blanc, Genève, Suisse, 1969.

4. Texto da pirâmide de Pépi II. Ibidem.

5 . Papyrus de Any cap. CXLVII-3.


Ibidem.

6. PAPA PAULO VI. Apostolado


Veritatis Splendor: Credo do Povo de
Deus. Disponível em:
<www.veritatis.com.br/article/1758>.
Acesso em: 5 mar. 2008.

7. Bíblia de estudo pentecostal. Ed. rev.


e cor. Trad. João Ferreira de Almeida.
Rio de Janeiro: Casa Publicadora das
Assembleias de Deus (CPAD), 1995.
8. CHAVES, José Reis.A face oculta
das religiões: uma visão racional da
Bíblia. 2. ed. Santo André: EBM, 2006,
p. 69.

9. Nascido em Cesareia da Palestina, em


265, e morreu, provavelmente, na
mesma localidade, em 339. Ele foi
nomeado bispo de Cesareia em 313.
Eusébio é reconhecido como o pai da
história da Igreja. Ele era amigo e
biógrafo do imperador Constantino.
Outras obras do mesmo autor:
Mais informações:
Para mais informações sobre
como adquirir esses e outros títulos do
mesmo autor, nas versões e-book e
impressa, contate pelo e-mail:
poluseditora@hotmail.com

Seu comentário no Amazon:


Ao ler o e-book Kindle, você
tem a possibilidade de interagir com
outros leitores de qualquer parte do
mundo que leram o mesmo livro que
você. Na página do Amazon, onde você
comprou o livro, logo abaixo da capa e
detalhes do livro, há o campo para
comentários. Deixe lá também o seu
comentário sobre este livro.