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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE ARTES
DEPARTAMENTO DE MÚSICA

ANÁLISE MUSICAL I

– REPERTÓRIO –

PROF. FERNANDO LEWIS DE MATTOS


***
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE ARTES
DEPARTAMENTO DE MÚSICA

ANÁLISE MUSICAL I

[ART 03163]

– REPERTÓRIO –

PROF. FERNANDO LEWIS DE MATTOS

Porto Alegre, agosto de 2006


***
SUMÁRIO

Música Grega (Anônimo): Primeiro Hino Délfico (c. 138 a.C.): .......................................... 1
Canto Gregoriano (Anônimo): Salmo 109 ............................................................................. 1
Canto Gregoriano (Anônimo): Victmae paschali laudes ....................................................... 2
Raimbault de Vaqueiras (1155-1205): Estampie – Kalenda maya ........................................ 3
Guiraud de Borneilh (1165-1200): Canzo – Reis glorios....................................................... 3
Adam de la Halle (1237-1306): Rondeau – A Dieu commant amouretes .............................. 4
Luys de Narváez (ativ. 1530-1550): Diferencias sobre Guárdame las vacas (1538) ............ 5
Giulio Caccini (1545-1618): Madrigal – Perfidissimo volto (1602)...................................... 6
Henry Purcell (1659-1695): Dido and Aeneas (1689): Ato III, Cena 2, Ária ...................... 10
Alessandro Scarlatti (1660-1725): Griselda (1721), Ato II, Cena I, Ária............................14
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Partita N.º 3 para violino, BWV 1006 (1720) .......... 18
J. S. Bach: Suíte N.º 5 para violoncelo, BWV 1011 (c. 1720) ............................................. 27
J. S. Bach: Variações Goldberg BWV 988 (c. 1741)............................................................ 38
Sylvius Leopold Weiss (1686-1750): Suíte X , V.................................................................51
Johann Christian Bach (1735-1782): Sinfonia Op. 18, n.º 4 (c. 1782), III.......................... 54
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Sonata em Lá Maior KV 331 (1783), I. ............ 65
Fernando Sor (1778-1839): Grande Sonata Op. 22 (1808), III. ..........................................66
Franz Schubert (1768-1827): Die schöne Müllerin (1823), Op. 25, I.................................. 68
Frédéric Chopin (1810-1849): Prelúdio Op. 28 (1839), n.º 20 ............................................ 70
Arnold Schoenberg (1874-1951): Suite Op. 25 (1923), V. .................................................. 71
Heitor Villa-Lobos (1887-1959): Estudo 11 para violão (1929) ......................................... 74
H. Villa-Lobos: Prelúdio 3 para violão (1940).................................................................... 79
H. Villa-Lobos: Prelúdio 5 para violão (1940).................................................................... 81
A. C. Jobim (1927-94) & V. de Morais (1913-80): Garota de Ipanema (1962).................. 84
Paul McCartney (1942): Yesterday (1965)........................................................................... 85
Vitor Ramil (1962): De Banda (2004) ................................................................................. 86
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Música Grega (Anônimo): Primeiro Hino Délfico (c. 138 a.C.):

Texto: [A]: Escutai! Justas guerreiras, filhas do fulminante Zeus, que habitam as florestas
profundas de Hélicon! Apressai-vos para celebrar, com canções, vosso irmão Apolo, aquele
das chaves douradas, que sobrevoa as moradas rochosas do monte Parnaso, rodeado pelas
belas musas de Delfos, e se lança às águas da fonte Castália para visitar o rochedo profético.
[B]: Olhai a famosa Ática, com sua grande cidade [Atenas], que, graças às orações dedicadas
ao guerreiro Tritão, domina esta inexpugnável região. Nos altares sagrados de Hefesto se
consomem o melhor das carnes do gado; também os incensos persas se erguem até o Olimpo.
O som agudo do aulo conduz a música com ricas melodias e a cítara dourada acompanha os
hinos com doces sonoridades.

Canto Gregoriano (Anônimo): Salmo 109

2. Donec ponam inimicos tuos, scabellum pedum tuorum.


3. Virgam virtutis tuae emittet Dominus ex Sion: dominare in médio inimicorum tuorum.
4. Tecum principium in die virtutis tuae in splendoribus sanctorum: ex utero ante luciferum
genui te.
5. Juravit Dominus, et non paenitebit eum: Tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem
Melchisedech.
6. Dominus a dextris tuis, confregit in die irae suae reges.
7. Judicabit in nationibus, implebit ruinas: conquassabit capita in terra multorum.
8. De torrente in via bibet: propterea exaltabit caput.
9. Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto.
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10. Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum. Amen.

Salmo 109 (Bíblia de Jerusalém): Oráculo de Iahweh ao meu senhor: “Senta-te à minha
direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés”.
Desde Sião Iahweh estende teu cetro poderoso, e domina em meio aos teus inimigos.
A ti o principado no dia do teu nascimento, as honras sagradas desde o seio, desde a aurora da
tua juventude.
Iahweh jurou e jamais desmentirá: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de
Melquisedec”.
O Senhor está à tua direita, Ele esmaga os reis no dia da sua ira. Ele julga as nações, amontoa
cadáveres, Esmaga cabeças pela imensidão da Terra.
A caminho, ele bebe da torrente e por isso levanta a cabeça.

Canto Gregoriano (Anônimo): Victmae paschali laudes

Texto: Os cristãos oferecem cantos de louvor às vítimas da Páscoa. O cordeiro redimiu o


rebanho. Cristo, puro, reconciliou os pecadores com seu Pai. A morte e a vida engajaram-se
em terrível combate. O comandante da vida foi morto, porém, ainda vivo, Ele reina. Dizei-
nos, Maria, o que viste no caminho? “Vi o sepulcro de Cristo vivo e a glória de Sua
ressurreição; as testemunhas angelicais, a túnica e a vestimenta. Em Cristo, renasce minha
esperança. Ele aparecerá perante nós, na Galiléia”. Sozinha, Maria é mais confiável do que a
enganosa turba dos judeus. Nós sabemos que Jesus ressuscitou dos mortos. Agora, Senhor, rei
conquistador, tende piedade de nós.
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Raimbault de Vaqueiras (1155-1205): Estampie – Kalenda maya

Texto: Nem os dias de maio, nem folhas de faia, nem cantos de pássaros, nem flores de lírio.
Nada me agradará, nobre e alegre dama, até que eu receba o veloz mensageiro de teu belo
corpo que me devolverá o prazer e a alegria do amor. Eu correria para ti, verdadeira dama! E
que caia sob golpes o invejoso, antes que eu te deixe. Bela amiga, que Deus não permita ao
invejoso rir-se de minha desventura, pois ele pagaria caro por sua inveja, se tais amantes
separasse. Eu nunca mais seria alegre, pois sem ti a alegria nada significa. Tomaria tal
caminho que as pessoas não mais me veriam. Morreria, cara dama, no dia em que te perdesse.
Graciosa dama, todos louvam e proclamam teu tão belo valor. Pouco vale a vida daquele que
te esquece. Eu te adoro, distinta dama, pois te escolhi como a mais nobre, como a melhor e a
mais perfeita em virtude. Eu te adulei e servi mais do que Eric a Enide.
– .Senhor Englés, aí está finda a estampida.

Guiraud de Borneilh (1165-1200): Canzo – Reis glorios

Texto: Rei glorioso, verdadeira luz e claridade. Deus, todo poderoso, Senhor, por favor,
prestai ajuda ao meu companheiro, pois não o vi desde o cair da noite – e breve será aurora!
Belo companheiro, chamo-te cantando; não dorme mais, pois escuto o cantar do passarinho
que pelo bosque vai buscando o dia e temo que o ciumento te descubra – e breve será aurora!
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Belo e doce companheiro, desfruto de tão rico prazer, que não desejo a chegada da aurora, ou
do dia... pois tenho em meus braços o mais belo homem que jamais existiu. Por isso, pouco
me importo com o louco ciumento – ou com a aurora!

Adam de la Halle (1237-1306): Rondeau – A Dieu commant amouretes

Texto: A Deus recomendo meus amores, pois vou suspirando em terra estranha. (...)

Os rondeaux de Adam de la Halle são conhecidos por estarem entre os mais antigos
exemplos de música trovadoresca polifônica. Caracterizam-se por serem escritos a três vozes,
das quais a voz intermediária é a voz principal. Em geral, as vozes externas eram realizadas
por instrumentistas e a voz intermediária era cantada pelo menestrel. Esta forma de canção
medieval é a origem da conhecida forma Rondó cultivada no século XVIII.
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Luys de Narváez (ativ. 1530-1550): Diferencias sobre Guárdame las vacas (1538)
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Giulio Caccini (1545-1618): Madrigal – Perfidissimo volto (1602)


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Perfidissimo volto Perfidíssima face,


Ben l’usata bellezza in te si vede A beleza usual em ti se vê,
Ma non l’usata fede. Mas não a usual fidelidade.
Già mi parevi dir: Quest’amorose Já me pareceu dizeres: estes amorosos
Luci che dolcemente Olhos que docemente
Rivolgo a te, sì bell’e sì pietose Volto a ti, tão belos e tão piedosos.

Prima vedrai tu spente, Primeiro verás tua extinção,


Che sia spento il desio ch’a te le gira. Antes que seja extinto o desejo que te move.
Ahi, che spento è ‘l desio, Ai, extinto está o desejo,
Ma non è spento quel per cui sospira Mas não é extinto aquele por quem suspira
L’abbandonato core! O coração abandonado!
O volto troppo vago e troppo rio, Oh, face tão formosa e tão cruel,
Perchè se perdi amore Porque quando perdes o amor
Non perdi ancor’ vaghezza, Não perdes também a formosura,
O non hai pari alla belta fermezza? E não tens lado a lado beleza e firmeza?
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Henry Purcell (1659-1695): Dido and Aeneas (1689): Ato III, Cena 2, Ária
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Libreto de Nahum Tate, a partir de Virgílio:

Tua mão, Belinda! A escuridão me proteje da luz.


Em teu peito deixai-me repousar.
Mais eu desejaria, mas a morte me invade;
A morte é, agora, um convidado bem vindo.
Quando eu estiver repousando na terra,
Meus erros não poderão criar problemas em teu peito.
Lebra-te de mim! Lembra-te de mim!
Mas, ah! esquece meu destino.
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Alessandro Scarlatti (1660-1725): Griselda (1721), Ato II, Cena I, Ária

Mi riverdi o selva ombrosa


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Libreto de Apóstolo Zeno:

Tu me vês novamente, oh floresta sombria,


Mas não mais rainha nem esposa,
Desventurada, desprezada
Pastora.
É, porém, aquele o monte pátrio,
Esta é ainda a fonte amiga,
Aquele é o prado e este é o rio;
E somente eu não sou mais a mesma.
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Johann Sebastian Bach (1685-1750): Partita N.º 3 para violino, BWV 1006 (1720)
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J. S. Bach: Suíte N.º 5 para violoncelo, BWV 1011 (c. 1720)


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J. S. Bach: Variações Goldberg BWV 988 (c. 1741)


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Sylvius Leopold Weiss (1686-1750): Suíte X , V.

Ciaccona
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Johann Christian Bach (1735-1782): Sinfonia Op. 18, n.º 4 (c. 1782), III.
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Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Sonata em Lá Maior KV 331 (1783), I.

Tema
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Fernando Sor (1778-1839): Grande Sonata Op. 22 (1808), III.


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Legenda: 1. inciso; 2. semi-frase; 3. frase; 4. período.


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Franz Schubert (1768-1827): Die schöne Müllerin (1823), Op. 25, I.

Das Wandern
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Poesia de Wilhelm Müller:


As viagens são o prazer do moleiro, as viagens!
Este deve ser um mau moleiro
Que nunca deseja viajar. As viagens!

A água nos dá o exemplo, a água!


Que não descansa nem de dia nem de noite,
Que só pensa em viajar, a água!

As rodas dos moinhos nos dizem o mesmo, as rodas!


Que jamais repousam imóveis
E nunca param, as rodas!

Até mesmo as pedras, tão duras, as pedras!


Dançam com as ondas
E querem dançar ainda mais rápido, as pedras!

Oh! Viagens, viagens, meu prazer, Oh, viagens!


Senhor moleiro, senhora moleira,
Deixem-me partir gentilmente e viajar!
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Frédéric Chopin (1810-1849): Prelúdio Op. 28 (1839), n.º 20


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Arnold Schoenberg (1874-1951): Suite Op. 25 (1923), V.


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Heitor Villa-Lobos (1887-1959): Estudo 11 para violão (1929)


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H. Villa-Lobos: Prelúdio 3 para violão (1940)


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H. Villa-Lobos: Prelúdio 5 para violão (1940)


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A. C. Jobim (1927-94) & V. de Morais (1913-80): Garota de Ipanema (1962)

Texto:
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça é ela menina que vem e que passa num
doce balanço caminho do mar. Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema, o seu balançado é
mais que um poema, é a coisa mais linda que eu já vi passar.
Ah, porque estou tão sozinho? Ah, porque tudo é tão triste? Ah, a beleza que existe. A
beleza que não é só minha, que também passa sozinha.
Ah, se ela soubesse que quando ela passa o mundo inteirinho se enche de graça e fica
mais lindo por causa do amor.
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Paul McCartney (1942): Yesterday (1965)

Texto: Ontem todos os meus problemas pareciam distantes. Agora sinto que eles estão aqui
para ficar. Oh! Eu penso em ontem. Repentinamente eu não sou a metade do que era. Há uma
sombra suspensa sobre mim. Oh! Ontem veio de repente. Porque ela tinha que ir, eu não sei.
Ela não diria. Eu disse algo errado. Agora eu tenho saudades de ontem. Ontem o amor era um
jogo tão fácil de jogar. Agora eu preciso de um lugar para me esconder. Oh! Eu penso em
ontem.
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Vitor Ramil (1962): De Banda (2004)


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Texto:
2. Fui faroleiro engraçado, fui homem sério também. Ela contava as estrelas sem
pressa com olhos de vai-e-vém. A nosa marcha era alegre. A lua cheia chegou pra ver a gente
de banda na rua falando coisas de amor.
3. Depois, jamais desencanto, o que era doce durou. Trocamos nossos antigos lugares
por um que nos encantou. Vivemos no mesmo canto, em nenhum canto uma dor. É como a
gente de banda lá fora falando coisas de amor.