Você está na página 1de 22

ISSN 1980-5772

eISSN 2177-4307
DOI: 10.5654/actageo2014.0004.0001 ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32

GEOPOLÍTICA, CIÊNCIA POLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS1


Geopolitics, Political Science and International Relations
Geopolitica, Ciencia Politica y Relaciones Internacionales

Shiguenoli Miyamotoi
Universidade Estadual de Campinas - Brasil

RESUMO
O texto tece considerações sobre a importância da geopolítica nas relações internacionais. Menciona os fatores
geográficos como elementos que tem sido utilizados, historicamente, pelos Estados na formulação e
implementação de suas políticas públicas, basicamente nas áreas de defesa e segurança nacionais. São feitas
observações sobre autores tradicionais das escolas geopolíticas e suas possíveis influências em determinados
momentos das relações internacionais. O texto realça, também, a perda relativa do papel da geopolítica nas
décadas mais recentes, com o avanço da ciência e da tecnologia. Estas últimas, em grande parte, substituíram
variáveis como o território, as forças armadas, os recursos naturais e a população, na aferição do poder
internacional.
Palavras-chave: geopolítica; relações internacionais; política externa; poder nacional; defesa e segurança
internacional.

ABSTRACT
The text analysis the importance of geopolitics on the field of international relations. Geographical factors have
been used historically by the States on both formulating and implementing their public policies, basically on the
subjects of national defense and security. Notes about traditional authors of geopolitics schools and their
possible influence on certain moments of international relations are made. The text also emphasize the relative
loss of geopolitics role in the most recent decades, given the improvement of science and technology.
Keywords: Geopolitics; international relations; foreign policy; national power; defense and international
security

RESUMEN
El texto estudia la importancia de la geopolítica en las relaciones internacionales. Los factores geográficos se
constituyen en elementos utilizados históricamente por los Estados en la formulación y ejecución de sus
políticas públicas, en las áreas de defensa y seguridad nacional. Autores y escuelas geopolíticas tradicionales y
sus posibles reflejos en distintos momentos de las coyunturas internacionales. En el texto destacamos también
una relativa disminución de importancia de la geopolítica en las últimas décadas, con el avance de la ciencia y
la tecnologia. Factores como territorio, fuerzas armadas, recursos naturales y la población, han sido
reemplazados para mensurar el poder internacional.
Palabras clave: Geopolitica; relaciones internacionales; politica exterior; poder nacional; defensa y seguridad
internacional

INTRODUÇÃO geopolítica do desenvolvimento, geopolítica do


Sem qualquer pudor, a geopolítica tem sido voto, geopolítica das eleições, geopolítica da
utilizada de forma indiscriminada para designar habitação, geopolítica da internet, geopolítica do
situações bastante diversas. Tornou-se comum crime, geopolítica do tráfico são apenas algumas
inserir a palavra geopolítica para se referir a das centenas de exemplos que podem ser
qualquer acontecimento ou assunto. Isso se lembrados e que se converteram em termos
verifica tanto por parte do meio acadêmico, explicativos para designar o “estado da arte” ou
quanto pelos meios de comunicação de massa o estágio em que se encontra determinada área
(jornais, rádios, televisão, internet, etc.). ou tema.
Geopolítica do café, geopolítica do verde, Espera-se assim que qualquer pessoa
geopolítica do futebol, geopolítica da arte, entenda o significado de tais designações,
geopolítica da cultura, geopolítica da saúde, embora não se questione a origem ou o próprio
actageo.ufrr.br Enviado em dezembro/2013 – Aceito em maio/2014
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

significado do vocábulo. Isso tem acontecido de categorias diversas utilizam o termo doutor
não apenas com a geopolítica, mas também com acoplado ao nome, quando existem normas
dezenas de outras palavras. Estas, ao longo do específicas que concedem o referido título, nos
tempo e da história, passaram a assumir cursos de pós-graduação do país. A
significados distintos dos originais, muitas terminologia professor , a partir dos anos 80,
vezes apresentando conotações ideológicas que passou por igual experiência sendo utilizada em
podem afetar o bom entendimento que se oportunidades diversas, por exemplo, por
pretende sobre determinado tema. atletas para se referir ao técnico/treinador de
A palavra estratégia pode ser mencionada sua agremiação ou categoria.
como um dos termos que, igualmente, sofreu O objetivo deste texto é discutir a interface
mudanças bruscas, descaracterizando-se o seu entre geopolítica e relações internacionais,
significado original. Esse vocábulo está vinculo pensada da forma clássica, da mesma forma
à guerra, à forma como os exércitos antigos como foi originalmente pensada e utilizada,
iriam combater. O que se mais observa, procurando evitar usos e abusos fora de
cotidianamente, porém, é o seu uso de forma contexto. Para isso, lançaremos mãos de alguns
generalizada: estratégia de marketing, estratégia autores considerados importantes para o
do futebol, estratégia de corrida, estratégia para desenvolvimento dessa área de conhecimentos e
a realização de um texto ou livro, etc. que foram, igualmente, alterando a
O termo narcotráfico da forma como é preponderância de cada variável conforme o 12
apresentado é um dos que mais prejuízos avançar da história. Mas, ao contrário do que
acarreta para se referir à questão das drogas. muitas vezes se escreveu, a geopolítica continua
Quanto foi cunhada em 1981 na administração viva, ainda que nem sempre com o mesmo
de Ronald Reagan, a terminologia narcotráfico vigor, nem reproduzida integralmente com as
passou a abranger, propositadamente, todas as mesmas características das teorias produzidas
drogas na mesma categoria de narcóticos, sendo na virada do século XIX para o XX. Porém,
que sua eliminação (no caso sul-americano) jamais foi abandonada, tanto na elaboração das
levaria a um desenvolvimento mais harmônico políticas públicas domésticas, quanto para
de toda a região. Ao categorizar as drogas sob aquelas voltadas para o concerto das relações
esse prisma, incluíram-se desde os grandes internacionais.
cartéis que negociam cocaína até as populações
indígenas das montanhas andinas que, ESTADO, PODER E RELAÇÕES
tradicionalmente, há séculos utilizam a folha de INTERNACIONAIS
coca para minimizar os efeitos da atitude e do Fazendo parte de uma constelação global
frio da grande cordilheira sul-americana. composta por mais de duas centenas de Estados
Mesmo em atividades como as que Nacionais, cada um deles ocupa lugar com
exercemos ocorrem equívocos de interpretação maior ou menor proeminência em tal
das designações e títulos. Assim, profissionais estratificação de poder. O status usufruído nessa

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

classificação não é definitivo e oscila conforme a Por isso, os equipamentos nucleares nunca
evolução da História. E, importante, a projeção foram considerados armamentos para uso
internacional de um Estado não depende apenas cotidiano, mas sim percebidos como elementos
de sua vontade e de seu poder, mas necessita ser de dissuasão. A possibilidade de retaliação
legitimado pelos demais da comunidade das imediata vinda do lado inicialmente atacado
nações. levaria a um conflito sem vencedores,
A capacidade de um país no âmbito justamente pela inexistência de escudos
mundial varia de acordo com o poder protetores que tornassem os países
usufruído em termos comparados com os invulneráveis, como ocorrido durante a Guerra
demais. Isso quer dizer que não existe poder Fria entre Estados Unidos da América e a União
absoluto, nem segurança absoluta para nenhum das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
dos atores. Cada um dispõe de variáveis e Na tentativa de maximizar seus poderes, os
elementos mais favoráveis ou menores em governantes e Estados conferiram (e continuam
termos qualitativos e quantitativos, e que são fazendo o mesmo) importância a fatores que
constantemente aferidos pela comunidade desempenharam (ou permanecem) função
internacional. importante na aferição do poder mundial.
Possuidores de espíritos nacionais Muitos desses fatores perduram, mas outras
diferentes, cada Estado procura incrementar seu variáveis tão ou mais importantes assumiram
poder através de métodos e critérios destaque, sobretudo a partir da Segunda Guerra 13
diferenciados, desde o uso da força até Mundial, quando o controle da tecnologia
influências políticas, econômicas, tecnológicas e atômica reduziu possíveis “invulnerabilidades
sobretudo culturais. O aumento desse poder territoriais”. Tais invulnerabilidades seriam, por
(que em âmbito doméstico costuma ser exemplo, favorecidas pelos mares e pelas
designado como poder nacional) é mensurado distâncias entre os contendores, e poderiam
em termos quantitativos, comparando-o com os existir se fossem utilizados apenas recursos
demais agentes que disputam o jogo mundial tradicionais, com equipamentos convencionais
do poder. de limitado alcance.
Da mesma forma, nenhum país jamais Tradicionalmente, os Estados Unidos da
deteve ou foi portador de uma segurança América se enquadrariam nessa categoria, como
absoluta nos planos militar, econômico ou um país invulnerável, uma vez que se
cultural, e considerada inviolável, apresentam favorecidos pela geografia e pela
inexpugnável, inatacável. Se tal ocorresse, o política, cercados por dois grandes oceanos e
sistema internacional teria características com vizinhos ao Norte e ao Sul com quem não
interessantes: na hipótese de um Estado obter apresentam disputas territoriais há muitas
uma segurança absoluta, todos os demais gerações. Era nessa direção que caminhavam,
Estados estariam regidos por um modelo de por exemplo, argumentos como os de Hans
insegurança absoluta. Morgenthau (2003, p. 215) O advento do

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

primeiro satélite soviético em 1957 alteraria essa tarefa? Entre os fatores geográficos
realidade, assim como os eventos de 11 de considerados importantes pelos geopolíticos,
setembro de 2001 derrubaram de vez o mencionam e discutem as qualidades e os
raciocínio daqueles que consideravam tal país recursos do território, discorrendo sobre o papel
inatacável. do clima, a influência do relevo, da hidrografia
Nos parágrafos seguintes, vamos discorrer e até a qualidade dos solos. Conceitos que são
sobre alguns desses elementos e como foram caros aos geopolíticos como a posição do
pensados pelos diversos atores para maximizar território, contemplando o acesso ao mar, o
a grandeza dos Estados Nacionais, procurando controle das vias de passagem ou mesmo a
fazer, portanto, com que ocupassem papel posição insular desfrutada por determinados
proeminente no concerto internacional, no topo Estados são discutidos para avaliar o seu peso
da pirâmide de poder. no sistema mundial de poder.
Em obra escrita nos anos 60 Renouvin e No que se refere ao espaço do território
Duroselle (1967, p. 11-34) chamavam atenção consideram que a tendência política adotada
para a importância da geografia na análise das pelos governos daquele momento era um
relações internacionais. Inserido na primeira declínio pelo aumento físico do Estado. E
parte do livro, em item designado “As forças concluem, explicitando o que consideram ter
profundas”, os autores examinam com especial ocorrido na história levando em conta a própria
cuidado os fatores geográficos. Para eles existência dos tratados internacionais: 14

O estudo das relações internacionais, Em todas essas ocasiões, as


quer aplicado às relações entre os povos, preocupações estatais de poder, de
quer às relações entre os Estados, deve segurança ou de prestígio, e as forças
levar em linha de alta consideração essas sentimentais encontraram sua expressão,
influências do meio físico, quase sempre a despeito das condições geográficas. Por
sensíveis no comportamento dos povos, toda parte as violências exercidas pelo
nos contatos comerciais ou políticas e no meio físico diminuíram sensivelmente,
respectivo poder dos como resultado das iniciativas tomadas
Estados.(RENOUVIN & DUROSELLE, pelo homem. (RENOUVIN &
1967, p. 11). DUROSELLE, 1967, p.34)

Os autores não se mostram, entretanto,


A geografia mantém conexões bastante
adeptos da corrente teórica conhecida como
estreitas com a política em todos os momentos
determinista, uma vez que ressalvam o papel da
da História. A constituição dos reinos e Estados
ação humana, submetendo ou procurando
não deixa margens a qualquer dúvida sobre esse
reduzir a influência do meio físico na história.
fato. Por isso, autores mostram frequentemente
Quer dizer, relativizam o papel exercido pelos
os vínculos entre essas disciplinas, apontando
elementos geográficos nas políticas nacionais e
como influenciam, de formas diferenciadas,
mundiais. Mas levantam como pergunta qual
dependendo de cada período histórico, as
seria o êxito dos agrupamentos humanos em tal

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

políticas domésticas e aquelas que dizem Mesmo quando o termo geopolítica nem
respeito as relações bilaterais e multilaterais. sequer era conhecido, jamais os meios físicos
Procura-se apontar a importância dos dos territórios deixaram de ser considerados. E
fatores geográficos no processo histórico, como associados regularmente com o poder nacional.
faz Hassinger (1958, p. 13-22). Para ele “a Autores de matrizes teóricas distintas,
geografia não se restringe, frente à História, a formuladores de políticas nacionais e
um papel de servidora, desempenhando papel construtores de impérios podem ser lembrados
de fundo e de funções acessórias, mas sim que em momentos marcantes da história mundial,
intervém com caráter estruturante nos dramas que recorreram ou se esqueceram do meio
que se representam no cenário humano”. E ambiente para atuar nas relações bilaterais ou
apresenta conclusão diferente daquela exposta multilaterais, na tentativa de ampliar seus
por Renouvin & Duroselle: domínios territoriais.
Napoleão Bonaparte é um desses exemplos.
O homem não pode subtrair-se em Em carta escrita ao rei da Prússia em 1804,
absoluto à ação das condições naturais,
lembrava que o poder dos Estados está em sua
políticas e culturais de seu espaço vital.
Essas condições são dadas, fixas, ainda geografia. Conhecido por suas habilidades
que possam modificar-se
militares esqueceu-se, todavia, das mesmas em
constantemente em seus efeitos com o
quadro espacial da humanidade e mais de uma ocasião, quando invadiu, por
também com seu progressivo
exemplo, a Rússia dos czares em 24 de junho de 15
desenvolvimento cultural. Através desse
muda-se a paisagem; porém o homem 1812. Adentrando o território daquele país
muda também dentro da paisagem por
sofreu considerável revés poucos meses depois,
ele transformada. A vitória sobre a
natureza, da qual com frequência se jacta com a chegada do rigoroso inverno ao qual suas
o homem civilizado, é uma ilusão no
tropas não estavam habituadas. Provavelmente
sentido de que, se bem que seja certo que
com seus avanços técnicos supera negligenciara não apenas a afirmação por ele
resistências naturais, a realização desses
mesmo feita alguns anos antes, como também
avanços e a medida do esforço
necessário são sempre ditados pela não se lembrou do que a História já registrara
natureza. (HASSINGER, 1958, p. 19)
anteriormente nessa mesma região, quando o
Um elemento importante nessa forma de príncipe Alexandre Nevsky no século XIII, na
entendimento dos fatores geográficos é sua batalha do gelo em 1242, derrotou os cavaleiros
estreita associação com o poder do Estado. A teutônicos, que se atreveram a invadir
geopolítica deve ser entendida, portanto, sob territórios russos.
esse prisma. Trata-se de uma teoria do poder. O Em momentos mais próximos, mas em
uso dos fatores geográficos deve assim, auxiliar condições ambientais semelhantes, o III Reich
na formulação das políticas públicas, sobretudo amargou desastroso fracasso, quando as tropas
nas de defesa e segurança nacionais, visando o alemãs invadiram a União Soviética em 22 de
fortalecimento do poder de um país frente aos junho de 1941. Vale lembrar que ocorreu
seus vizinhos ou inimigos. naquele ano o rompimento do pacto de não

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

agressão mútuo firmado pelos chanceleres De tradição marxista, Gramsci (1968, p. 191),
Joachim von Ribbentrop e Vysacheslav Molotov por sua vez, não deixa dúvidas sobre os
(German-Soviet Nonaggression Pact), pouco requisitos elencados para se caracterizar uma
tempo antes, em 23 de agosto de 1939 na cidade grande potência, diferenciando aqueles que têm
de Moscou. mais poder daqueles que usufruem quantidades
Autores como Alexis de Tocqueville e menores: extensão do território, força económica
Antônio Gramsci podem servir de referência e força militar. Sobre esses elementos e o que
para a importância que conferiram aos fatores entende por essas variáveis diz o seguinte:
geográficos, vinculando-os diretamente as
políticas de poder. Para o primeiro, em obra A força militar sintetiza o valor da
extensão territorial (com população
produzida ainda no século XIX, após extensa
adequada, naturalmente) e do potencial
viagem realizada ao território norte-americano econômico. Deve-se considerar
concretamente no elemento territorial a
em 1831, o futuro reservava importante papel
posição geográfica. Deve-se distinguir na
para dois grandes países. Um deles, objeto de força económica a capacidade industrial
e agrícola (forças produtivas) da
seu particular interesse, era os Estados Unidos
capacidade financeira... Estes elementos
da América a quem, através de suas instituições, são calculados na perspectiva de uma
guerra. Dispor de todos os elementos
além das outras variáveis, estava destinado um
que, nos limites do previsível, dão
papel de primeira grandeza. O outro país segurança de vitória, significa dispor de
um potencial de pressão diplomática de
destacado era a Rússia ainda que destituída das 16
grande potência, isto é, significa obter
instituições que encontrara no continente uma parte dos resultados de uma guerra
vitoriosa sem necessidade de combater.
norteamericano. Segundo suas observações
(GRAMSCI, 1968, p. 192-193).
publicadas pela primeira vez em 1835
No que se refere ao território, a observação
feita por Gramsci, aproxima-o bastante dos
Há hoje na Terra dois grandes povos
que, partindo de pontos diferentes, tradicionais geopolíticos. Além dessas
parecem avançar rumo ao mesmo
características necessárias para que um país seja
objetivo: os russos e os anglo-
americanos. Ambos cresceram na considerado Grande Potência menciona, ainda,
obscuridade e, enquanto os olhares dos
como fator imponderável, a posição ideológica
homens estavam ocupados em outras
partes, colocaram-se de repente na linha ocupada pelo Estado no mundo em cada
de frente das nações, e o mundo tomou
momento determinado.
conhecimento quase ao mesmo tempo de
seu nascimento e de sua grandeza (…) O A literatura produzida pela Ciência Política
ponto de partida de ambos é diferente,
é pródiga ao considerar variáveis diversas que
diversos são seus caminhos; no entanto
cada um deles parece chamado, por um favoreçam o fortalecimento do poder do Estado.
desígnio secreto da Providência, a ter um
Entre essas podem ser lembrados desde o papel
dia em suas mãos o destino de metade
do mundo. TOCQUEVILLE, 2005, 476- exercido pelas instituições políticas como a
477)
divisão clássica entre os três poderes (Executivo,
Legislativo e Judiciário), a estabilidade da

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

economia, elementos não mensuráveis como a que define os rumos do mundo. Nada mais
coesão nacional, os nacionalismos, os símbolos natural que assim seja, porque entre os
nacionais, não deixando de lado, alguns fatores conceitos-chave da Ciência Política, o Estado e o
de extrema importância: uma população poder ocupam lugar de proeminência, ainda
apreciável, território tão vasto quanto possível que sob rubricas e interpretações teóricas
ocupado e integrado, aliados a uma capacidade bastante diferenciadas.
militar que possa proteger a população e as Daí pensadores como Nicolas Maquiavel,
instituições, defendendo as fronteiras e a Thomas Hobbes, Raymond Aron, Hans
soberania, mantendo assim garantida a Morgenthau, John Stoessinger, Joseph Nye Jr.
segurança nacional. ou Robert Kaplan. Sob olhares distintos,
Evidentemente os autores que mais se conferindo a cada variável um peso particular,
dedicam a interpretações dessa natureza são nem por isso, deixam de se aproximar quando
aqueles identificados com uma corrente que, se coloca o poder como fator central da política
amplamente, poderia ser designada como dos Estados.
realista, que congrega pensadores que veem no Ao avaliar a natureza do poder de um
conflito e na guerra os motores que Estado-Nação, Stoessinger (1978, p. 22-57)
movimentam a História, formatam as fronteiras elenca uma série de elementos necessários para
nacionais e internacionais e moldam os povos se caracterizar uma nação e como esses devem
segundo suas vontades e concepções de mundo. ser pensados: uma base geográfica, um território 17
Para fazer frente aos conflitos precisam os próprio; a existência de um padrão econômico;
Estados, portanto, fortalecer o poder nacional uma língua comum; o caráter nacional. O poder
que abrange quatro vertentes: poder político, dos Estados, por sua vez, deve estar amparado:
poder econômico, poder militar e elementos em sua geografia, ainda que tenha perdido
psicossociais e que, resumidamente, significaria importância sobretudo com o advento da era
a capacidade mensurável e imensurável de atômica; a posse de recursos naturais; uma
todos os recursos de um país. população considerável desde que utilizada de
Por isso, aqueles que defendem o controle forma produtiva na criação de uma base
do aparato de Estado concentrado em mãos de industrial moderna que, por sua vez, possibilite
um soberano ou de um governante (mais a criação de forças militares de primeira ordem;
identificado com os padrões a partir do século natureza do governo; a liderança de uma nação,
XVIII), colocam o poder como elemento crucial e além dos aspectos psicológicos. Sobre este
pensado sob óticas as mais variadas possíveis. último aspecto lembra que “o aspecto
No contexto interno, pregando a necessidade do psicológico do poder é importantíssimo de vez
fortalecimento do poder nacional; no plano que o poder de uma nação pode depender, em
internacional, esse aumento da capacidade seria grande parte, do que as outras pensem que ele
fator primordial para desempenhar papel de seja, ou mesmo do que ela pense que as outras
primeira grandeza no cenário do grande jogo

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

nações pensam que ela seja”. (STOESSINGER, pretendeu fazer, ao partir para a conquista de
1978, p. 32) novos territórios e tentar estabelecer o Reich de
Mas, certamente, é com aqueles que pensam 10 mil anos, não difere das políticas
com mais propriedade sobre o fatores implementadas pelo menos ao longo dos
geográficos que as políticas nacionais ganham últimos dois milênios por dezenas de povos,
vigor maior para ser medido em termos reinos, impérios e Estados, em todos os
comparados com outros países. Nessa categoria continentes. A história da humanidade está
de autores encontram-se os que defendem recheada por guerras, mais amplas ou conflitos
posturas às vezes mais belicosas para o de menor intensidade internos para a
fortalecimento do poder nacional, aqui construção de um único reino ou Estado, ou
incluindo mesmo pedaços de territórios alheios externos envolvendo dois ou mais territórios,
através das guerras de conquistas, por vitimando dezenas de milhões de pessoas.
aquisições ou negociações, como fizeram os O problema maior, verificado naquela
Estados Unidos ao ampliarem o território à oportunidade, é que a política realizada pelo III
custa do México e com as negociações para Reich de conquista de mais espaços, seria feita
obter o Alasca. simultaneamente com o extermínio em massa
São agentes, como os tomadores de decisão, de milhões de habitantes. Daí a repulsa às
militares, diplomatas e profissionais ligados aos concepções geopolíticas e seus seguidores nos
setores de planejamento para ocupação do anos posteriores. 18
território, que passaram a ser conhecidos, no A geopolítica passou, assim, a ser
último século, como geopolíticos ou adeptos da identificada com políticas expansionistas,
geopolítica e que passaram a entender essa área desrespeitando as regras de convivência
de conhecimento como uma política de poder propiciadas pelo Direito Internacional. Na
calcada nos fatores geográficos. grande guerra ocorreu, destarte, vínculos
estreitos entre o uso da força e aquelas teorias
CONCEITO, AUTORES E TEORIAS que desde o final do século XIX foram gestadas,
GEOPOLÍTICAS apregoando sobre como se deveriam comportar
A Segunda Guerra Mundial pode ser os Estados, entendendo esses, muitas vezes,
considerada um marco nas Relações como verdadeiros organismos vivos. Quer
Internacionais, quando a geopolítica foi dizer, entidades que no decorrer do trajeto de
utilizada na sua concepção mais criticada: a de sua história ampliavam ou viam reduzidos seus
ampliação do território de um Estado europeu territórios, conforme suas capacidades militares
(obviamente às expensas de outrem), e culturais em determinado momento.
rompendo fronteiras e soberanias, através das As fronteiras corresponderiam, portanto, a
conquistas, com o uso da força. uma membrana que poderia ser dilatada ou
Deve-se, todavia, fazer as devidas comprimida, como um movimento de sístole e
ponderações. O que a Alemanha hitlerista diástole. A pressão maior de um dos lados

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

empurraria ou distenderia as fronteiras em seu e na condução estratégica: ao facilitar a


previsão do futuro mediante a
favor, aumentando, consequentemente, seus
consideração da relativa permanência da
domínios territoriais. Esse crescimento do realidade geográfica lhes permite
deduzir a forma concordante com esta
Estado poderia ser tanto físico, quanto cultural,
realidade em que se podem alcançar os
expandindo o território ou sua influência objetivos e, em consequência, as medidas
de condução política ou estratégica
através de valores, da cultura do povo mais
convenientes.
forte por ventura existente em um dos lados da
fronteira. De forma mais sintética, Weigert (1942, p.
Ainda que haja entendimentos diversos 25) explica o que entende pelo assunto:
sobre o próprio conceito de geopolítica, a geopolítica é a geografia aplicada à política de
primeira característica é, portanto, sua poder nacional e a sua estratégia de fato na paz
identificação com políticas de poder. Tais e na guerra. Seguindo a tradição de Ratzel,
políticas visam ocupar, preencher, integrar e autores como Hennig & Korholz (1977, p. IX),
proteger determinado território, resguardando percebem a geopolítica como “a influência dos
assim a segurança nacional de um Estado. No fatores geográficos, na mais ampla acepção das
limite, a geopolítica serviria para auxiliar a palavra, sobre o desenvolvimento político na
elaboração de políticas públicas com um intuito, vida dos povos e Estados”.
além do fortalecimento do poder nacional: Poderiam aqui ser arroladas dezenas de
ampliar o território tanto quanto possível, autores conceituando o termo geopolítica, mas 19
apresentando tendências expansionistas e que pouco acrescentariam à idéia básica de
imperialistas. como a interpretam na política dos Estados. O
É sob esse prisma que se percebe o que se pode, contudo, perceber é que tanto os
entendimento do conceito de geopolítica por geopolíticos stricto sensu, como seus críticos ou
diversos autores e responsáveis, em grande detratores, compreendem o tema como foi
parte, pela formulação e implementação das originalmente colocado por diversos pensadores
políticas públicas, sobretudo na defesa, que, cada um a seu tempo, defenderam a
segurança e planejamento da grande política de importância dos fatores geográficos tidos como
cada país, independentemente das modalidades cruciais para a elaboração das políticas
de governo e de regime, e de latitudes. nacionais.
É de forma ampla que a conceitua, por Dando ênfase no território, nos mares e no
exemplo, Atencio (1975, p. 41): espaço aéreo, os autores que elaboraram teorias
as fizeram conforme o entendimento do
Geopolítica é a ciência que estuda a momento histórico, dos avanços tecnológicos e
influência dos fatores geográficos na
dos propósitos de cada país. Eram teorias que
vida e evolução dos Estados, a fim de
extrair conclusões de caráter político. propunham o domínio do território como fator
Guia o Estadista na condução da política
decisivo para a grandeza do Estado, o controle
interna e externa do Estado e orienta o
militar na preparação da defesa nacional dos mares como forma de ampliação do poder

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

de um Estado ou a supremacia aérea como incrementa incessantemente. (RATZEL, 2011, p.


elemento mais atual para obter a supremacia em 135-136)
um conflito. Já no texto seguinte Ratzel retoma os
Friedrich Ratzel (1844-1904) e Rudolf Kjellén apontamentos anteriores. Assim, considera que
(1864-1922) poderiam ser citados como os “todo crescimento da sociedade é, na realidade
autores que inicialmente pensaram o território um crescimento do Estado”, entendendo a
enquanto fonte de poder. Ou seja, quanto mais sociedade como “o intermediário pelo qual o
território, maior a capacidade de um povo e de Estado se une ao solo” (RATZEL, 1898-1899, p.
um governo. O primeiro já defendera princípios 7-9)
conhecidos como as leis do crescimento espacial Nascido na Suécia, Kjellen causara impacto
dos Estados em texto publicado em 1896. ao publicar estudo propugnando o Estado como
Quatro anos depois divulgou novo trabalho uma forma de vida, em 1918, justamente na
sobre o solo, a sociedade e o Estado. Esses Primeira Guerra Mundial.
pequenos estudos davam sequência à grande Foi no curto espaço de uma geração,
obra por ele lançada a público entre 1885 e 1888 portanto, que a geopolítica terrestre adquiriu
e que apresentava objetivo grandioso, explicar a proeminência e acabaria influenciando períodos
história da Humanidade. posteriores. De um lado, obras produzidas por
Os sete princípios ratzelianos que focalizam Raztel no final do século XIX, enquanto Rudolf
a evolução estatal enfatizam que: 1) O tamanho Kjellen o fazia na Primeira Guerra Mundial, 20
do Estado aumenta com seu nível de cultura; 2) poucos anos depois que Halford Mackinder
O crescimento dos Estados é consequência de discursava em 1904 explicitando o que seria o
outras manifestações do crescimento dos povos eixo geográfico do mundo. Mais tarde, em 1919,
que precedem necessariamente o crescimento esse último refinaria suas idéias com a menção à
estatal; 3) O crescimento do Estado passa pela inexpugnabilidade da Eurásia, nos seguintes
anexação de membros menores ao agregado princípios: “Quem dominar a Europa Oriental
inicial. Simultaneamente a relação entre a comandará o Coração do Mundo; quem
população e sua terra se estreita continuamente; dominar o Coração do Mundo comandará a Ilha
4) A fronteira é o órgão periférico do Estado, o Mundial; quem dominar a Ilha Mundial
portador de seu crescimento assim como sua comandará o mundo”. (MACKINDER, 1962, p.
fortaleza, e participa em todas as 150).
transformações do organismo do Estado; 5) Em Em conjunto esses três autores
seu crescimento o Estado luta para alcançar influenciaram Karl Haushoffer (1869-1946)
posições valiosas do ponto de vista político; 6) O considerado figura de primeira grandeza no
primeiro estimulo ao crescimento espacial dos governo alemão, pelo menos nos anos iniciais,
Estados origina-se do exterior; 7) A tendência na época do grande conflito. Essa admiração fica
geral para a integração e nivelamento espaciais bastante clara em seus escritos. Referindo-se a
reproduz o crescimento de Estado a Estado e o

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

Kjellen, com o qual se identificava fortemente política fazia o Estado descer do papel
para a terra firme, a geografia teria a
enfatiza que:
tarefa de fornecer a base da pesquisa
geopolítica e de qualquer outra pesquisa
no âmbito das ciências políticas. Isto
…é em seu livro "O Estado como forma
porque no começo do Estado lá já
de vida" que, durante a segunda batalha
estavam o solo sobre o qual ele se
do vale de Munster, em um abrigo dos
encontrava, o caráter sagrado e santo da
Vosges, encontrei pela primeira vez,
terra; foi sobre ele que o homem
claramente enunciados, o termo e as
começou a construir, a desenvolver a
reivindicações da Geopolítica. Pois, em
economia, fez surgir o poder e a
verdade, não tivemos, fora da terra
civilização; mesmo o nômade teve que
alemã, um amigo, mais generoso e mais
partir de um pedaço de terra organizado.
clarividente, da vontade alemã de resistir
(HAUSHOFFER, 1986, p. 97-112)
que esse notável pensador político sueco
e que era, ao mesmo tempo, um
psicólogo dos povos (conhecedor da Para Haushoffer, a história da Humanidade
alma dos povos). (HAUSHOFFER, 1986,
era regida pelo espaço. E era o espaço o
p. 97-112)
elemento mais importante, decisivo que deveria
Para ele, Kjellen tinha conhecimento das
ser considerado na política mundial, sendo que
agruras enfrentadas pela Alemanha, com a
uma discussão sobre esse deveria levar na
perda de território, sabendo que “a raça
devida conta a forma como o espaço vital
germânica tinha-se colocado em uma posição
(Lebensraum) era dividido. Suas concepções do
inicial desfavorável, do ponto de vista
poder mundial e a necessidade de repensá-lo
geopolítico, em um combate decisivo pelo 21
ficam claros nas seguinte afirmação: “as
espaço onde respirar, pela existência e pelas
potências do mundo estão divididas em dois
possibilidades de vida”.
grupos fundamentalmente distintos: de um lado
Kjellen e Ratzel apresentavam argumentos
aquelas que têm muito mais espaço do que
que iam ao encontro das expectativas
alguma vez poderiam dominar e, por outro,
germânicas, pelo fato, segundo Haushoffer, de
aquelas que contam com menos espaço que o
entenderem a situação de seu país.
que deveriam ter para alimentar de forma
adequada a sua atual população.”
Ele [Kjellen} havia chegado a esta
(HAUSHOFFER, 1976, p. 87).
reflexão em função de suas investigações
sobre as grandes potências do tempo Concordando plenamente com Kjellén,
atual, as quais foram por ele analisadas
realçava que “usamos deliberadamente
como formas de vida poderosas e
homogêneas, cujas manifestações ele só analogias biológicas, porque as fronteiras são
pode captar através de um conjunto de
organismos biológicos do Estado”
abordagens variadas. Ele tinha definido,
como primeira abordagem, aquela da (HAUSHOFFER, 1976, p. 92), e explica o que
geopolítica: o estudo dos traços
deve a Alemanha pensar em termos
fundamentais −ligados ao solo e
geopolíticos: “Para nós, os alemães, é da maior
dos fundamentos de Reich, da formação
importância que compreendamos que
do solo e do país; nisso ele se colocava ao
lado de Ratzel e tinha, junto com ele, a carecemos até mesmo do mais mínimo espaço
opinião de que quanto mais a economia

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

vital. A educação política mundial da Alemanha problema da segurança do Hemisfério


deve, portanto, fazer compreender Ocidental projetando inclusive o seu futuro e
incansavelmente que a mutilação de nosso comentando as posições de Mackinder na
território nacional é intolerável.” Eurásia. Ao mesmo tempo criticava a
(HAUSHOFFER, 1976, p. 92-93). geopolítica como entendida pela Escola
A invasão alemã à União Soviética em 1941 Germânica que via naquela uma filosofia global
teria contrariado as expectativas de Haushoffer de história (SPYKMAN, 1944a).
que preferia comportamentos diferentes da O avanço tecnológico, entretanto, trouxe
política do III Reich, concentrando inicialmente outras reflexões desde o surgimento das
esforços na Europa Ocidental. O rompimento aeronaves, convertidas agora em novas
do acordo Ribbentrop-Molotov ia contra seus máquinas de guerra. O poder aéreo passou,
princípios geopolíticos de conquistar o coração assim, a ser defendido, como vital, para se obter
do mundo, como propugnado por Mackinder, vitórias em qualquer conflito, utilizando-o de
apenas em etapa posterior. forma conjugada com as forças terrestres e
Se o território merecia primazia na análise marítimas. Autores como A. F. Seversky e J.
desses autores, bem como em seus seguidores Douhet inscrevem-se nessa categoria de
como Ellen Semple, outros defendiam o controle defensores do controle do espaço aéreo.
dos mares como fator importante para o Independentemente da modalidade de
fortalecimento do poder nacional. Era o que aplicação de esforços para ampliar ou solidificar 22
fazia, por exemplo, Alfred Thayer Mahan (1840- posições dominando áreas terrestres, os mares
1914) ao considerar a necessidade de forte poder ou o espaço aéreo, esses autores passaram a ser
marítimo para que o reino britânico pudesse identificados como deterministas. Ou seja,
consolidar-se cada vez mais. (MAHAN, 1957) autores para quem a geografia é fundamental na
Ao mesmo tempo que a produção história dos Estados e dos povos.
geopolítica mereceu destaque em território Mas uma postura diferente era, igualmente,
norte-americano nos anos da Segunda Guerra observada em oposição a essas concepções de
Mundial, Nicholas John Spykman elaborou o poder, que apresentavam reflexos diretos nas
que ficou conhecido como a teoria das fímbrias relações internacionais. Parte expressiva dessa
marítimas, em obra originalmente publicada em literatura originou-se a partir dos inícios dos
1942. Nesta, o território norteamericano deveria anos 30, justamente quando ganhavam forças as
ser protegido desde o Alasca até a costa sul- teorias expostas por Ratzel, Kjellen e Mackinder.
americana, enquanto que, pelo lado atlântico, Curiosamente, pensadores franceses foram
proteção deveria ser realizada abarcando desde os grandes responsáveis por produzir vasta
a Groenlândia até o promontório nordestino literatura desde então, contrapondo-se ao
brasileiro. (SPYKMAN, 1944). Dois anos depois, determinismo geográfico, concepção que era
prosseguiria com suas preocupações sobre a apreciada em território germânico. Conhecidos
área em novo livro. Discorria então sobre o como possibilistas consideravam a geografia

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

como fator importante na história dos povos e elementos comuns de ambos os lados na região
dos Estados. Mas não a entendiam como da Catalunha.
determinante na elaboração das políticas, que As fronteiras são elementos percebidos
deveriam, isso sim, receber atenção sob outro como fundamentais para os geopolíticos, pois a
prisma. Embora importante, a geografia, os partir delas se dá a expansão ou contração dos
fatores geográficos, poderiam e deveriam ser territórios, estendendo-se ou contraindo-se
manipulados pelos homens na elaboração e como membrana do corpo humano. E também,
implementação de políticas visando o altamente permeáveis, semelhante a um sistema
desenvolvimento nacional. de vasos comunicantes, com o país com maior
Contrapondo-se ao discurso e prática capacidade militar, política, econômica e
deterministas, percebendo essas como cultural pressionando os seus vizinhos. São
expansionistas, a produção de autores esses, inclusive, os fatores considerados por
possibilistas, entretanto, esbarrava em sério Ratzel em sua teoria de crescimento dos Estados
obstáculo. Ainda que não os defendessem, e por Kjellen, comparando o Estado a entes
pareciam ignorar o fato de que parte vivos.
significativa dos países europeus considerava
importante o domínio de grandes territórios, daí AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS E AS
as políticas colonialistas por eles praticadas em DEMANDAS GEOGRÁFICAS
outras partes do mundo como em África Ásia, A História e a política se encontram 23
Oriente Médio e nas Américas. Entre outros entrelaçadas com a geografia. Quando as regras
autores podem ser mencionados, nesta e normas do Direito Internacional
categoria, por exemplo, Vidal de La Blache, Jean (relativamente recentes) não existiam, ou sequer
Gottman, Claude Raffestin, Elisée Reclus e Yves eram pensadas, as disputas pela conquista de
Lacoste. mais espaço foram quase sempre resolvidas nos
A preocupação dos pensadores franceses campos de batalha, onde prevalecia na maior
sobre o tema tem sua razão de ser. Afinal de parte das vezes o direito do mais forte, daquele
contas a fronteira oeste, com a Prússia e, que dispusesse de mais soldados e
posteriormente, com a Alemanha, sempre equipamentos militares. Esse via, assim, seus
enfrentou dificuldades consideráveis. Por isso domínios estendidos muito além de suas
mesmo, eram interpretadas como vivas ou fronteiras, ultrapassando mesmo milhares de
dinâmicas, bastando lembrar o conflito franco- quilómetros e alcançando outros continentes.
prussiano em 1870 e a ocupação germânica Os grandes impérios da antiguidade, sejam
durante a Segunda Guerra Mundial. O contrário os europeus ou asiáticos, são exemplos visíveis
se verifica na fronteira oeste francesa, com a das políticas de conquista na tentativa de,
Espanha e Andorra, considerada morta, sem rompendo as fronteiras alheias, constituir um
qualquer tipo de conflito e, em parte, com único reino, ou o maior possível, com um único
soberano sob os designios do céu.

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

Consideravam-se com o direito de tudo poder e o Estado ocupam lugar primeiro em


conquistar e obter, dependendo, portanto, de suas reflexões. Autores realistas, sem qualquer
suas próprias vontades e capacidades. Quanto sombra de dúvida, que expunham sem deixar
mais territórios e possessões melhor, porque qualquer sombra de dúvida as políticas de
com eles aumentariam suas riquezas. Mas essa poder necessárias para que um Estado pudesse
situação só poderia ser considerada permanente suplantar as adversidades externas e internas.
enquanto fossem capazes de mantê-la, pelo uso Hobbes, inclusive, é utilizado como uma das
da força e pela capacidade superior. Perdidas principais referências tendo feito, inicialmente, a
essas, seriam relegados a plano de segunda separação entre política interna e política
categoria podendo ver esfacelados seus externa, ou seja, delimitando as propriedades
impérios, além, obviamente, das próprias dentro e fora das fronteiras de um Estado.
dissensões internas na disputa pelo controle do (FORSYTH, 1980, 67-74) Tratava-se, assim, das
poder. discussões que seriam responsáveis pela
A literatura que trata da guerra, da formatação das modernas relações
formação dos povos e dos territórios é bastante internacionais, como diz, por exemplo Heddley
vasta e antiga, apontando os vínculos entre a Bull (2002, p. 31-64).
geopolítica e as relações internacionais, ainda
que tais designações não existissem. Tucídides, A tradição hobbesiana descreve as
relações internacionais como um estado
Heródoto e Homero são alguns exemplos 24
de guerra de todos contra todos, um
clássicos que narram a epopéia dos povos cenário de luta em que cada estado se
coloca contra todos os demais. Para os
daquelas épocas. Mas também pode ser
hobbesianos as relações internacionais
observada a existência de grandes obras que consistem no conflito entre os estados,
lembrando um jogo totalmente
pregavam a necessidade de convivência pacífica
distributivo, de soma zero: os interesses
e, se possível, uma integração dos povos, como de cada estado excluem os interesses de
todos os outros. Deste ponto de vista, a
escreveu Abade de Saint Pierre (1658-1743)
atividade internacional mais típica, e que
séculos atrás. melhor define o quadro das relações
entre os estados, é a guerra. A paz
Em meados do segundo milênio da era
corresponde a um período de
cristã, pensadores do mundo ocidental recuperação da última guerra e de
preparação para a próxima. A prescrição
tornaram-se bastante conhecidos e alvo de
hobbesiana correspondente é a de que o
atenção que perdura até hoje, e que se estado tem liberdade para perseguir suas
metas com relação aos outros estados,
debruçaram sobre as virtudes ou desmandos do
sem quaisquer restrições morais ou
poder, a necessidade de centralização do legais. As idéias de lei e moralidade só
são válidas no contexto de uma
controle de mando em mãos de um soberano,
sociedade, mas a vida internacional
ou as formas de conquista e manutenção do ultrapassa os limites de qualquer
sociedade. Os objetivos morais ou legais
poder. Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes
seguidos no exercício da política
costumam ser cotidianamente lembrados para internacional só podem ser os do estado
que a pratica …Segundo a tradição
se falar no Estado moderno, onde a política, o

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

hobbesiana, as únicas regras ou reinos, a manutenção do poder e as relações


princípios que podem limitar ou
entre o que modernamente se poderia chamar
circunscrever a conduta dos estados no
seu inter-rela- cionamento são as regras de Estado e sociedade.
de prudência e conveniência. Assim, os
O continente europeu é repleto de exemplos
trata- dos só são respeitados se forem
convenientes. (BULL, 1980, p. 32-33) onde história, política e geografia se encontram
intimamente ligados, através da constituição
Outros escritores, entretanto, antes mesmo
dos reinos desde a Idade Média até as eras
desses contemporâneos, foram igualmente
moderna e contemporânea. É o que se pode
importantes e analisaram com vigor o papel
depreender, por exemplo, de textos como o de
exercido pelos governantes e pelos reinos,
Robert S. Lopez (1965) que trata justamente da
embora sejam, comparativamente com os
constituição e divisão da Europa.
pensadores europeus, pouco divulgados no
A ênfase de Lopez é sobre largo período da
mundo ocidental. Kautylia (350 aC – 277 aC) e
história européia, a Idade Média, ainda que suas
Ibn Jaldun (1332-1406) são dois desses
preocupações deixem de lado parte significativa
exemplos. O primeiro, indiano, e o segundo
dos eventos como as batalhas e personagens,
árabe.
como ele mesmo ressalva. Assim, traça em
Independentemente de sus origens e
linhas gerais o que vai realizar em seu estudo,
localizações geográficas expuseram nos séculos
justificando as escolhas:
IV aC e XIV, respectivamente, as origens e as
25
evoluções da história mundial. Enquanto
Foi na Idade Média que a civilização
Kautylia se detém mais no problema do poder
européia criou a sua própria unidade.
político, como deve o rei se comportar e manter Não bastava que se alicerçasse na
geografia física e humana do território
a soberania estatal, entre diversos outros itens
que a viu nascer. Se hoje temos por
igualmente importantes, que dizem respeito à costume distinguir no mapa-do-mundo
uma região natural que vai de Portugal
vida política, os caminhos trilhados por Jaldun
até a Rússia e do Ártico ao Mediterrâneo
são um pouco diferentes. Este divide sua obra já os Antigos viam com igual clareza
uma outra região natural cujo eixo era o
em três grandes partes onde trata da sociedade
Mediterrâneo e cujos limites eram
humana, do desenvolvimento dos reinos, traçados pelo Reno e pelo Danúbio a
norte e os grandes desertos a Sul. Em
soberanos, artes, ciências, meios de subsistência,
ambos os casos, estamos em presença de
riquezas, a história dos árabes e de seus populações diferentes que uma cultura
comum aproximou. À escolha feita, entre
diversos povos, assim como a dos berberes e os
as diversas possibilidades que a
Zanata sobretudo na região do Magreb. geografia oferece, é antes de tudo um
fato de cultura; fato que pouco deve às
Distanciados pela geografia e pelo tempo, e
condições materiais que o
localizados em países culturalmente distintos acompanharam, ou pelo menos não
resulta inteiramente delas. Contudo,
esses escritores mostram, entretanto, que as
nada mais artificial, e portanto mais
preocupações eram praticamente as mesmas falso, do que esboçar o retrato da época
desprezando as condições materiais.
para todos: a formação e solidificação dos
(LOPEZ, 1965, p. XII)

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

Mediterrâneo é o contato entre uma


enorme massa de água e um continente
O mesmo faz Fernand Braudel em seu
desértico, e, no caso, da transição para o
grande estudo sobre o mar Mediterrâneo. Ao mar Vermelho e para o oceano Indico, a
incorporação do deserto nessa massa de
analisar o mundo mediterrâneo do século XVI
água. (BRAUDEL, 1995, p.195)
Fernand Braudel tece extensas observações
sobre a geografia regional, comentando as Constituídos os modernos Estados
peculiaridades apresentadas pelas montanhas e nacionais, como atualmente os conhecemos,
planaltos, planícies, orlas marítimas e o clima. nem por isso os governantes sentiram-se na
Mostra, assim, como se desenvolveram as obrigação de obedecer princípios que se
civilizações ao longo das margens pretendiam universais, de respeito aos direitos
mediterrâneas, as dificuldades encontradas para de outros povos. Observa-se justamente o
a formação dos reinos e a própria influência do contrário. Por isso, pode-se contar às centenas
meio ambiente, como as distâncias, facilitando os conflitos entre Estados soberanos nos últimos
ou dificultando as administrações públicas e o séculos, seja na Europa, na Ásia, seja nas
comércio. Há necessidade, portanto, de se estar Américas. Conflitos esses, motivados por
atento à complexidade desses fatores como um demandas territoriais, por divergências
todo para analisar o desenvolvimento dos fronteiriças, por ampliação de espaços sempre
próprios povos. maiores para suas populações e suas empresas.
Ao assim se comportarem, pretendem não 26
Se não se tiver sempre presente a apenas ampliar seu território, mas também suas
realidade deste vasto e complexo espaço,
riquezas, preocupando-se em ter amplo
deste Grande Mediterrâneo, será muitas
vezes difícil compreender a história do domínio sobre sua própria geografia, população
mar interior; ponto de concentração de
e recursos naturais que se demonstrem
tráfico e riquezas e retransmissor dessas
mesmas riquezas (por vezes, perdendo- favoráveis para alavancar seu desenvolvimento
as irremediavelmente), o Mediterrâneo
e a elaboração de estratégias de defesa e ataque.
só pode avaliar-se globalmente pelas
suas áreas de influência. (BRAUDEL, Foi esse o comportamento adotado, por
1995, p. 194)
exemplo, pelos Estados Unidos da América. Ao
aumentar consideravelmente seu território na
Em outros termos, o Mediterrâneo poderia
guerra contra o México, e enfrentando uma
ser visto como “moldadora de civilizações”, já
guerra interna de grandes proporções, se
que situado em regiões de confluência
preocuparam rapidamente em aproximar os
geográfica distintas.
dois oceanos através das estradas de ferro. A
ação governamental não poupou esforços para
A história do Mediterrâneo orienta-se
tanto segundo um polo europeu como ocupar em curto espaço de tempo todo o novo
segundo um polo desértico. Entre o mar
espaço, ainda que as consequências recaíssem
e estas vastas regiões desoladas
estabelece-se um processo de atração sobre as populações indígenas basicamente
mútua. O paradoxo, a originalidade do
entre as décadas de 1840 a 1880.

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

Essa preocupação de ligar os principais território nacional, sob a guarida de um governo


pontos do país, visando facilitar a ocupação e considerado estranho aos seus interesses.
integração nacionais é recorrente, Reivindicações para a criação de novos
principalmente no planejamento de todos os Estados, quebrando aqueles nos quais estão
Estados possuidores de vastos territórios, como inseridas, tem sido observadas em número
nos casos da Rússia e do Brasil. A Transiberiana apreciável, por comunidades que procuram,
foi uma das formas encontradas pelo governo destarte, lugar soberano nas Relações
russo para unir o gigantesco território, da Internacionais, com territórios próprios. A
mesma forma que a China faz com as ligações região de Quebec, parte francesa do Canadá, a
ferroviárias recentes, como o trecho Pequim- Padânia na Itália, os bascos e os catalães na
Cantão com 2298 quilômetros inaugurado em 26 Espanha, as propostas de Organizações Não-
de dezembro de 2012. O Brasil também Governamentais para a criação de um Estado
procurou, ainda que de forma desordenada, indígena autônomo na Amazônia, os flamengos
trilhar os mesmos caminhos. Com na Bélgica, além dos palestinos constituem-se
comportamentos dessa natureza, esses países em vivos exemplos de demandas que indicam a
venceram as dificuldades encontradas, muitas importância de um território e a criação de um
vezes enfrentando meio ambiente hostil, para Estado próprio para defender seus interesses
beneficiar tanto as políticas domésticas, atender particulares. Mesmo no Brasil propostas foram
as necessidades de consumo energético de apresentadas para a separação do Sul do país, 27
parques industriais, quanto fortalecer suas em anos não tão distantes.
capacidades buscando fazer frente a possíveis Em circunstâncias ainda que pouco
adversidades internacionais. diferentes, países, entre os quais se situa o
Se isso se verifica de um lado, no âmbito das Brasil, reivindicam parcela do continente
políticas internas, mesmo com a existência de antártico, até agora livre de ocupações com
instâncias que estabelecem os deveres dos finalidades econômicas e estratégicas, protegido
Estados, as disputas por territórios junto ou pelo acordo que vigora até 2049. Mas as
mesmo distantes de suas fronteiras permanecem experiências realizadas em dito continente,
como elemento atual nas políticas assim como a presença permanente através de
governamentais de inúmeros países ao redor do missões de estudo e pesquisa, são argumentos
mundo. Não apenas isso, mas igualmente lembrados (e tidos como necessários) para
numerosas são as demandas para a constituição ocupar o continente gelado. No caso brasileiro,
de novas unidades nacionais, justificadas seja há propostas geopolíticas defendendo a criação
pelas características multiétnicas, linguísticas ou de critérios para divisão da Antártica por
culturais de populações (normalmente intermédio do que se convencionou chamar de
minoritárias) que se acham prejudicadas, teoria da defrontação. Nesta concepção, parte-
sufocadas e sem identificações mais profundas se do centro do continente antártico, traçando-se
com os demais grupos dentro de um mesmo duas linhas em direção aos pontos mais

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

extremos de cada país (Leste e Oeste) que Se a Alemanha tinha como uma de suas
reivindica parcela territorial, formando faixas políticas orientadoras o aumento de seu espaço
como se fossem pedaços de uma grande pizza. vital (Lebensraum), ironicamente o mesmo tipo
Discordâncias inúmeras podem também ser de raciocínio é implementado pelo Estado de
encontradas no próprio continente sul- Israel após 1967, quando teve seu território
americano, como a guerra entre o Reino Unido e substancialmente ampliado, após vitoriosa
a Argentina pelo controle das ilhas Malvinas no guerra contra seus vizinhos.
Atlântico Sul em 1982, disputas entre a Ao analisar a história em grandes traços,
Argentina e o Chile pelo canal de Beagle, as Tambs (1983, p. 73-104), mostra as influências
guerras entre Equador e Peru nos anos de 1990, sofridas pela política internacional através da
o imbróglio sobre a região do Essequibo, ou a geopolítica. Para ele, “a geografia é a constante
demanda da Bolívia por uma saída para o mar na formulação da política internacional e da
(perdida na Guerra do Pacífico em 1879). Este doutrina estratégica”. Vários exemplos que vão
último critica também, ainda hoje, a aquisição da Eurásia ao mundo ibérico, passando pelos
por parte do governo brasileiro do território do Estados Unidos do século XVIII são utilizados
Acre no início do século XX. para indicar como a geopolítica, por ele
Todos esses exemplos são divergências entendida como “os estudos que investigam o
próximas às fronteiras brasileiras, onde a elemento geográfico das relações
geografia está no cerne da questão. Da mesma internacionais” (TAMBS, 1983, p. 73), se 28
forma, o Paraguai, juntamente com a Bolívia, converteu em fator importante na conduta das
considerados países mediterrâneos, reivindicam grandes potências.
saídas diretas para o Oceano Atlântico, que lhe O elemento territorial, ainda que no contexto
são propiciadas pelo Brasil através dos portos das últimas décadas caracterizadas pela
de Paranaguá-PR e Santos-SP. Mas ambos os interdependência e globalização, resultantes dos
países convertem-se, por outro lado, em processos acelerados dos meios de comunicação
prisioneiros geopolíticos, porque dependem tão sociais e viários e a internacionalização da
somente da boa vontade do governo brasileiro. economia, ao contrário do propalado está
Pior no caso boliviano que, enclausurado no imune ao discurso sobre o final das fronteiras.
centro do continente, sofre limitações para Paradoxalmente, com o contexto globalizado
desenvolver a contento suas próprias Forças acirraram-se os movimentos nacionalistas. Não
Armadas, visto que a Força Aérea e a Força só isso, mas rejeita-se profundamente a defesa
Naval permanecem sem possibilidade de livre do final das soberanias, em nome de uma
acesso aos oceanos, uma vez que teriam que proposta única para governar e gerenciar os
solicitar autorização (no caso da Força Aérea) recursos ambientais globais.
para sobrevoar espaço alheio. Restringem-se Cada país considera-se proprietário de seu
essas, portanto, a tarefas no âmbito doméstico. território, de forma una e indivisível, não
aceitando ingerências em seus domínios,

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

lançando mão dos princípios tradicionais da pertencem a mais de um país. Só é


possível lidar com as ameaças à
geopolítica e lembrando que território é poder.
segurança ambiental através de
Cada Estado é, portanto, portador de uma administração conjunta e de processos e
mecanismos multilaterais. (CMMAD,
concepção individual e tem entendimento
1988, p. 337)A opção mais econômica
próprio de como se deve inserir no mundo e que se apresentou foi a melhoria e
expansão do sistema Utinga já existente.
disputar o jogo das relações internacionais.
Pode-se citar como vantagens de
Por isso mesmo, verifica-se, por exemplo, utilização do rio Guamá, acoplado a um
sistema de reservação (Água Preta e/ou
para os países em desenvolvimento, ressalvas
Bolonha):
fortes em relação aos argumentos apresentados
em 1987 na Comissão Mundial sobre Meio CONSIDERAÇÕES
Ambiente e Desenvolvimento da Organização Para os geopolíticos tradicionais, os
das Nações Unidas acerca do gerenciamento dos elementos geográficos são os que mais devem
recursos naturais que seriam patrimônio pesar na elaboração das políticas nacionais.
comum da Humanidade. Para países como o Portanto, seriam os mais importantes, uma vez
Brasil e os demais da Bacia Amazônica, a região que se constituem em indicadores permanentes,
norte do continente sul-americano é daqueles podendo-se prever o futuro através dessas
que dela fazem parte, rejeitando-se os conceitos variáveis. O destino de um país estaria, então,
de soberania compartilhada conforme condicionado, em grande parte por sua
apresentado nesse relatório coordenado por Gro geografia. Nesse sentido, seriam defensores da 29
Harlem Bruntdland. visão que a geopolítica determina os rumos da
Nesse estudo menciona-se que “as formas história.
tradicionais de soberania nacional geram Não resta dúvidas de que os fatores
problemas específicos quanto à administração geográficos sempre foram, são e continuarão
dos ‘bens comuns do globo’ e de seus desempenhando papel de significativa
ecossistemas – os oceanos, o espaço cósmico e a importância para todos os povos e Estados.
Antártica. Já se obteve algum progresso nas três Quanto maior o país, melhores as possibilidades
áreas, mas ainda há muito por fazer”. de se obter recursos naturais, atender sua
(CMMAD, 1988, p. 21). Mais adiante aponta população, de se elaborar políticas de defesa e
como deve ser feito o gerenciamento dos ataque, de manter a segurança nacional,
recursos comuns: portanto, assegurar a soberania nacional. Mas
grandes territórios devem estar ocupados,
...O conceito de soberania nacional foi integrados através de eficiente infraestrutura
basicamente alterado pela
interdependência nos campos como meios de comunicação viários e saídas
econômicos, ambiental e de segurança. adequadas para os mares.
Os bens comuns a todos não podem ser
geridos a partir de um centro nacional. O Raciocínios que consideram a geografia
Estado-Nação não basta quando se trata como elemento fundamental, determinante na
de lidar com ameaças a ecossistemas que

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

vida de um povo e de um Estado só podem, por humanos de alta qualidade, o domínio de


outro lado, ser pensados nos moldes patentes que possam influenciar o
tradicionais, sem levar na devida conta os comportamento do mundo em termos
avanços tecnológicos, verificados a partir da econômicos, políticos, tecnológicos e culturais
segunda metade do século passado. Os adquiriram dimensão jamais observada. Nesse
investimentos em ciência e tecnologia, em sentido, a geopolítica continua importante sob
pesquisa e desenvolvimento, passaram a muitos aspectos. Outras vertentes e variáveis
adquirir importância capital na aferição do devem, porém, ser igualmente ponderadas e
poder mundial. que fazem a diferença na aferição de poder
Se a geografia era considerada fator crucial e entre as nações.
medidor primeiro do poder nacional de um Países com menor capacidade territorial,
Estado, a mesma viu reduzida sua importância mas detentores de alta tecnologia (além de ajuda
no decorrer do tempo. Da mesma forma que as externa, obviamente), passaram a jogar papel
forças armadas, a situação e o espaço territorial cada vez maior na pirâmide mundial de poder,
passaram a assumir papéis mais discretos. em detrimento dos tradicionais fatores
Afirmações nesta direção não significam dizer geográficos e demográficos. Nessa categoria
que os Estados, quaisquer que sejam suas poderiam ser lembrados países como Israel,
dimensões e localização, abram mão de parcelas Japão, Taiwan e outros do sudeste asiático, que
de seus territórios. Isso é visível através das detendo elementos diversos e possuidores de 30
demandas para a construção de novos Estados, pouco território e recursos naturais, nem por
de defesa do meio ambiente dentro de cada isso ficam relegados no segundo plano das
território, etc. A perspectiva que um Estado relações internacionais.
adota nas Relações Internacionais é sempre Mas Estados detentores de grandes
representada por uma ótica azimutal. territórios e recursos naturais, ainda que
Mas o poder, elemento tão importante nas enfrentem dificuldades, jamais deixarão de
avaliações geopolíticas, e que serviram e exercer papel de relevância na comunidade
continuam em grande parte sendo utilizadas internacional, precisamente por causa das
para aferir a capacidade relativa de cada país no vantagens comparativas desses indicadores.
cenário internacional, igualmente alterou seu Nesse sentido, a geografia e a geopolítica
foco. Se os equipamentos militares, a continuam importantes como sempre foram.
quantidade de soldados eram os que mais
tinham peso para detectar a superioridade de NOTAS
um Estado sobre os demais, não i Professor colaborador voluntário da
necessariamente essas variáveis desempenham Universidade Estadual de Campinas. Professor
tal função nos lustros mais recentes. Titular [aposentado] e Livre-Docente em Política
No cenário atual, o controle de tecnologia Comparada e Relações Internacionais. Professor
dura e branda (como os softwares), os recursos dos cursos de Pós-Graduação em Ciência

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

Política da UNICAMP e de Pós-Graduação em HAUSHOFER, Karl - De la géopolitique. Paris,


Fayard, 1986, 268 p.
Relações Internacionais UNESP-UNICAMP-
PUC/SP. HENNIG, R. & KORHOLZ, L. – Introducción a la
geopolítica. Buenos Aires, Editorial Pleamar,
E-mail: shiguenoli@gmail.com 1977, 281 p.

JALDUN, Ibn – Introducción a la historia universal


1 Sob vários aspectos este escrito apresenta (Al-Muqaddimah). México, Fondo de Cultura
semelhanças com outros produzidos pelo autor Económica, 1997, 1168 p.

sobre o mesmo tema, desde o final dos anos KAUTYLIA - Arthashastra. Bangalore/India,
1970. A produção deste texto contou com Bangalore Government Press, 1915, 613 p.

recursos do Conselho Nacional de LOPEZ, Robert S. – O nascimento da Europa.


Lisboa, Edições Cosmos, 1965, 512 p.
Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), através de Bolsa de Produtividade em MACKINDER, Halford J. – Democratic ideals and
reality. New York, The Norton Library, 1962,
Pesquisa 1B concedida ao autor. 293 p.

MAHAN, Alfred Thayer – The influence of


REFERÊNCIAS seapower upon History. New York, Hill and
ATENCIO, Jorge E. – Qué es la geopolítica, 2ª ed. Wang, 1957, 497 p.
Buenos Aires, Editorial Pleamar, 1975, 384 p.
MORGENTHAU, Hans – A política entre as
BRAUDEL, Fernand – O Mediterrâneo e o nações. A luta pelo poder e pela paz. Brasília/São
mundo mediterrâneo, vol. I, 2ª ed. Lisboa, Paulo, Editora Universidade de Brasília,
Publicações Dom Quixote, 1995, 695 p. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e 31
Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais,
BULL, Heddley – A sociedade anárquica. Brasília, 2003, 1152 p.
Editora da Universidade de Brasília/Instituto de
Pesquisa de Relações Internacionais, 2002, 361 p. RATZEL, Friedrich – The history of mankind, 3
vol. London, Macmillan and Co., Ltd, 1896.
CMMAD – Nosso futuro comum. São Paulo,
Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1988, 430 RATZEL, Friedrich – Le sol, la société et l’État.
p. L’Année Sociologique, Paris, vol. III, p. 1-14, 1898-
1899.
FORSYTH, Murray – Thomas Hobbes e as
relações exteriores dos Estados. Relações RATZEL, Friedrich – Las leyes del crecimiento
Internacionais, Brasília, UnB/Câmara dos espacial de los Estados. Geopolítica, Madrid, vol.
Deputados, ano 3, nº 5, p. 67-74, 1980. 2, nº 1, p. 135-156, 2011.

GRAMSCI, Antônio – Maquiavel a politica e o RENOUVIN, Pierre & DUROSELLE, Jean


Estado moderno. Rio de Janeiro: Editora Baptiste - Introdução à história das relações
Civilização Brasileira, 1968, 444 p. internacionais. São Paulo, Difusão Européia do
Livro, 1967, 543p.
HASSINGER, Hugo - Fundamentos geográficos de
la Historia. Barcelona, Ediciones Omega S.A., SPYKMAN, Nicholas John – Estados Unidos
1958, 364 p. frente al mundo. México Fondo de Cultura
Económica, 1944, 482 p.
HAUSHOFER, Karl – Poder y espacio, in
RATTENBACH, Augusto B. (Comp.) – Antologia
geopolítica. Buenos Aires, Editorial Pleamar,
1975, p.83-95.

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32
Geopolítica, Ciência Política e Relações Internacionais
Shiguenoli Miyamoto

SPYKMAN, Nicholas John - The geography of the


peace. New York, Harcourt, Brace and Company,
1944a , 66 p.

STOESSINGER, John G. – O poder das nações. A


política internacional de nosso tempo. São
Paulo, Editora Cultrix, 1978, 632 p.

TAMBS, Lewis – A influência da geopolítica na


formação da política internacional e da
estratégia das grandes potências. Política e
Estratégia, São Paulo, Centro de Estudos
Estratégicos, vol. I, nº 1, p. 73-104, 1983.

TOCQUEVILLE, Alexis de – Democracia na


América, 2.ª ed. São Paulo, Livraria Martins
Fontes Editora, 2005, vol. I, 560p.

WEIGERT, Hans W. – Geopolítica – Generales y


geógrafos. México, Fondo de Cultura Económica,
1942, 277 p.

32

ACTA Geográfica, Boa Vista, Ed. Esp. Geografia Política e Geopolítica, 2014. p.11-32