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COLÉGIO PEDRO II – CAMPUS REALENGO II

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
9 º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL
MATERIAL DIDÁTICO DE APOIO – SOCIOLOGIA AMBIENTAL
PROF: JOSÉ AMARAL E PAULO ROBERTO ALVES

Tópicos sobre sociedade e meio ambiente


(adaptado de material didático elaborado pela equipe do campus Niterói)

›Ideologia do progresso
A partir da Revolução industrial, a ideia de progresso se difundiu com base na
racionalização das ações em sociedade. A crença na capacidade técnica e científica do homem o fez
acreditar na possibilidade da resolução de todos os males através do progresso, do desenvolvimento.
Tal crença já podia ser observada no pensamento iluminista do século XVIII, mas se consolida com
o desenvolvimento industrial e o positivismo e evolucionismo do século XIX.
No início do século XX, sociólogos como Max Weber já apontavam as consequências
negativas da modernização (burocratização e racionalização da conduta), como o chamado
“desencantamento do mundo”, que influiria ainda mais na separação entre homem e natureza, além
da demasiada burocratização da vida cotidiana, o que nos levaria a um “engessamento” e perda de
criatividade.
Ao longo do século XX, outros pensadores realizaram críticas a cerca da razão técnico-
instrumental. Pensadores como Max Horkheimer e Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt,
apresentaram o impasse que chegamos frente à técnica, antes vista como meio de emancipação, se
mostrou opressora em vários sentidos como nas relações de trabalho e no esgotamento dos recursos
naturais. Em uma sociedade onde a técnica e a produção deixam de ser o meio para se tornarem o
fim, o ser humano em si e a natureza ficam em segundo plano, são apenas meios de se alcançar o
tão desejado progresso.
Apesar das inúmeras críticas ao desenvolvimentismo e ao ideal de progresso, tais ideias
continuam permeando o meio político e social. O processo de globalização econômica renovou o
discurso do progresso, a partir da construção de uma ideia da necessidade de integração de todos os
povos e nações pelo mercado. Todos devem estar conectados ao mercado global e nada pode ser
uma barreira para isso, afirma a ideologia neoliberal. Porém, como sabemos, o discurso hegemônico
das elites mundiais pelo progresso econômico oculta as mazelas causadas, como o aumento da
desigualdade e os danos ambientais. A questão não se trata da defesa de um retrocesso, mas como
orientar o progresso, quais sentidos dar a ele.

› Desenvolvimento sustentável
A ideia de que o progresso científico-tecnológico será capaz de prover todos os recursos
necessários para a humanidade se mostra cada vez mais irreal. É fato que se os países em
desenvolvimento atingirem os mesmos padrões de industrialização que os países ricos, a partir dos
mesmos moldes de produção, há uma grande probabilidade de esgotamento dos recursos. No
entanto, boa parte do discurso ambientalista não se coloca contra a perspectiva do desenvolvimento,
mas propõe uma outra forma de conduzir o progresso. Os debates mais recentes concentram-se na
noção de desenvolvimento sustentável.
O termo surgiu pela primeira vez no relatório encomendado pela ONU, Nosso Futuro
Comum, em 1987. Nesse documento, o desenvolvimento sustentável é definido pela utilização de
recursos renováveis para a promoção do crescimento econômico, assim como o compromisso na
preservação das espécies da fauna e da flora e a manutenção da qualidade do ar e da água. A ideia é
atender as necessidades de hoje sem comprometer as gerações futuras.
A ideia passou, então, a orientar o debate sobre o meio ambiente, principalmente após sua
ampla utilização na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento de
1992, no Rio de Janeiro – ECO-92. Durante a conferência foi reconhecida a responsabilidade dos
países ricos pela degradação ambiental, assim como as diferenças das necessidades econômicas de
cada nação. A conferência também marcou o papel das Organizações Não Governamentais – ONGs
– no debate ambiental, que passaram a ser importantes atores políticos no cenário internacional.
Além disso, na ECO-92, foi criada a Convenção das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas,
onde diferentes países se comprometeram em modificar seus parâmetros de produção, com o
objetivo de redução dos danos ambientais, o que culminou na assinatura do Protocolo de Kyoto –
comprometimento de 38 países em reduzir a emissão de gazes poluentes.

› Mercantilização da natureza
Em 1997, durante conferência realizada no Japão, quando da assinatura do Protocolo de
Kyoto – comprometimento de 38 países em reduzir a emissão de gases poluentes – foi construído o
sistema de créditos relacionados a emissão de gases poluentes, transformando a natureza em algo
vendável. Os chamados créditos de carbono funcionariam da seguinte forma, os países que poluem
menos, emitindo gás carbônico abaixo dos níveis determinados, acumulam créditos de “poluição”
que podem ser vendidos a países mais industrializados, e, portanto, mais poluidores. Tal prática
tiraria o foco da produção e da devastação ambiental, como por exemplo, o debate em torno da
redução do consumo, influindo em uma mercantilização da natureza. A natureza se transforma em
MERCADORIA, que pode ser trocada, vendida ou usada como estratégia de marketing – o que
acaba por criar uma “maquiagem verde”, apenas uma ilusão de que transformações de fato estão
ocorrendo. A mercantilização da natureza se processa na lógica liberal que confia na capacidade do
mercado em equilibrar as relações econômicas e, por consequência, as relações sociais e agora
também as ambientais. De fato, tal mercantilização de bens naturais pode contribuir apenas para
criação de novos mercados, novas formas de gerar capital a partir da especulação e apropriação dos
recursos naturais.
Embora, em tese, a proposta da chamada economia verde não parta desse princípio
abertamente – como veremos a seguir – o que se tem observado é um avanço ainda muito limitado
na construção de uma sociedade de fato sustentável.

›A economia verde
A noção de economia verde está fundamentada na ideia de desenvolvimento capitalista a
partir da chamada ecoeficiência, ou seja, o desenvolvimento de tecnologias capazes de garantir o
crescimento econômico com o menor custo possível ao meio ambiente. Até a década de 1980, a
suposição era a incompatibilidade entre natureza e desenvolvimento industrial. Após o relatório
Brundtland (“Nosso futuro comum” de 1987) e a perspectiva de desenvolvimento sustentável, essa
ideia mudou. O discurso de modernização ecológica, calcado na ecoeficiência, vem sustentando
ações que reorientam a prática da produção. A ideia de reciclagem ainda no ambiente produtivo
criou, no ambiente industrial, metas como as do resíduo zero. Assim, esse modelo prima por reunir
esforços de empresas, governos, ciência, tecnologia e grupos comunitários no estabelecimento de
metas ambientais na construção de um desenvolvimento econômico sustentável. Essa perspectiva
também evoca a noção de empregos verdes, que seriam aqueles empregos em setores de objetivam
a proteção ambiental, como por exemplo, a produção de alimentos chamados orgânicos, sem
agrotóxicos e não modificados geneticamente. Assumindo, assim, também uma vertente social.

“A economia que resulta em melhoria do bem estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo
tempo que reduz significativamente riscos ambientais e escassez ecológica.” Relatório Caminhos
para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza – PNUMA – ONU

Porém, até mesmo os maiores defensores das ideias de economia verde e modernização
ecológica são forçados a admitir que não se resolverão os problemas ambientais se não for atacada a
desigualdade social. Exigir, por exemplo, a diminuição da utilização de recursos naturais em países
pobres não leva em consideração as necessidades das populações que vivem nesses locais.
Enquanto a questão ambiental for tratada apenas pela perspectiva do mercado, ações que poderiam
conter a degradação ambiental, mas que não rendem lucro, continuarão deixadas de lado. Por outro
lado, tal perspectiva entende que o único limite para o desenvolvimento ecológico é limite
tecnológico, assim, mais uma vez, as populações mais pobres não são incluídas na tentativa de
resolver o impasse ambiental, e se reinaugura, por outros caminhos, a ideologia do progresso.

MAQUIAGEM E MARKETING AMBIENTAL – O caso do reflorestamento


“Com cerca de 6,5 milhões de hectares de Norte a Sul do país, as plantações dessas duas espécies
(pinus e eucalipto) abastecem principalmente indústrias de papel e celulose, fábricas de móveis e
de produtos de madeira, além de siderúrgicas que necessitam de carvão vegetal para alimentar seus
altos-fornos. Noves fora a parte que vira lenha e aquece a pizza nossa de cada dia. (...) estudos
científicos apontam que monocultura em larga escala e mal manejada de eucaliptos pode gerar
pesados impactos hidrológicos. Plantações muito vastas e adensadas de variedades de árvores
exóticas que crescem muito rapidamente podem sim comprometer fontes hídricas. (...) Enquanto
isso, na atual “lista suja” do trabalho escravo, cadastro do governo federal que relaciona os
empregadores flagrados usando esse tipo de exploração, há 20 produtores de pinus e eucalipto.”
Leonardo Sakamoto

› Justiça ambiental
Quando tratamos do desenvolvimento econômico temos que ter em mente que tal processo
não ocorre de maneira homogênea ao redor do mundo, o desenvolvimento se efetiva de forma
descontínua entre nações e regiões do globo terrestre. Deve-se observar que o processo de
globalização econômica, ao qual estamos de alguma forma submetidos, não proporcionou uma
uniformidade mundial em termos de distribuição de renda, mas pelo contrário, agravou ainda mais
as formas de desigualdade social.
A desigualdade em tempos de globalização, no que diz respeito à relação com o meio
ambiente, se traduz em práticas como o dumping ecológico. Em função do desenvolvimento
tecnológico e da diminuição de barreiras alfandegárias que proporcionam uma maior integração do
globo, atualmente é comum que empresas transnacionais busquem países, invariavelmente pobres e
com leis ambientais pouco rígidas, para instalarem filiais “poluidoras”. De maneira geral, em tais
países, a questão ambiental é vista com um entrave ao desenvolvimento econômico, dificultando a
consolidação de uma legislação de proteção do meio ambiente.
O abismo econômico entre as nações centrais e as periféricas produz outros efeitos como a
chamada invasão ecológica, onde determinados povos dependem dos recursos de outros territórios,
instalando suas empresas nos mesmos, na maioria das vezes com a anuência de governos corruptos
e/ou autoritários através de incentivos como a isenção fiscal. De maneira geral, os interesses do
capital vem gerando conflitos em diversas áreas do planeta, o que suscitou a organização de
movimentos sociais que clamam por justiça ambiental, também conhecido como ecologismo dos
pobres. Esses movimentos partem de princípios igualitários, para que nenhum grupo social suporte
uma parcela desproporcional de degradação ambiental. A luta é para o combate da injustiça
ambiental através de mecanismos sócio-políticos, criando formas de proteção através da
consolidação de direitos para os grupos excluídos e mais vulneráveis. Além disso, criticam a
perspectiva da ecoeficiência por esta não abordar a própria natureza da acumulação capitalista como
promotora dos impactos ambientais e dos riscos á saúde – fato observável na lógica capitalista de
produção de alimentos, por exemplo. A ideia de modernização ecológica também operaria através
de uma lógica mercantilista e utilitarista, deixando de lado os conflitos ambientais.
A questão da justiça ambiental também está relacionada a uma questão cultural, pois os
problemas gerados no meio ambiente afetam as sociedades material e culturalmente. Em função do
processo de modernização econômica em diferentes regiões, culturas tradicionais de subsistência,
que se relacionavam com a natureza promovendo um ajuste ambiental – ou seja, uma relação
equilibrada – foram interrompidas pela atividade comercial. Com o avanço da produção capitalista,
as formas tradicionais de garantir a sobrevivência tiveram que ser abandonadas – em função do
esgotamento dos recursos ou da apropriação privada dos mesmos – e as populações foram obrigadas
a se deslocar para cidades, indo viver em locais de riscos como as favelas. Atualmente, tais
populações, que abandonaram as regiões em que viviam em função de problemas ambientais,
passando a residir em áreas precárias nos centros urbanos – sem saneamento básico, em moradias
improvisadas e constantemente ameaçadas de remoção – são denominadas pela ONU de refugiados
ambientais.

“As Nações Unidas calculam que atualmente existem 250 milhões de refugiados ecológicos e mais
de um bilhão de pessoas está ameaçado de ter a mesma sorte nos próximos 10 anos (...) O regresso
às suas terras destruídas é impossível. Buscar uma vida digna fora da cidade de chapas
enferrujadas? Como? São camponeses, criadores de gado ou agricultores, não tem terras, nem
animais. Nada. Nada, salvo sua dignidade. ” Jean Ziegler, 1999.

›Racismo ambiental
Os conflitos ambientais, de maneira geral, revelam outro conflito, relacionado à questão
étnica. Verifica-se que as populações não brancas são mais afetadas pelas mudanças ambientais do
que as populações brancas. Tal constatação é percebida como racismo ambiental. No gráfico a
seguir, é possível observar como os problemas ambientais afetam de sobremaneira certas etnias,
bem com as populações tradicionais.

Populações mais atingidas por conflitos ambientais


BRASIL 2012
Outros
13%
Indigenas
Quilombolas 33%
22%

Agricultores
familiares
32%

Como podemos perceber, além da questão classista, os conflitos ambientais apresentam uma
questão étnica e racial, que está vinculada às relações coloniais e neocoloniais da história mundial.
O desenvolvimento econômico dos países centrais aconteceu à custa dos países periféricos, existem
conexões entre a prática de consumo e o nível de vida dos países ricos e o empobrecimento de
certas populações na África, na Ásia e na América do Sul. A construção da “branquidade”, da
“civilização ocidental” se dá de maneira relacional, entre países e povos, com base em práticas
imperialistas e coloniais, de opressão, exploração e “consumo” do “outro”, este “outro”, não branco,
visto como descartável pelo centro.

“A destrutividade das relações de produção e o correspondente empobrecimento de milhares e


milhares de pessoas num país não podem ser separados da capacidade de consumir do povo de
outra nação.” Michael Apple