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A arte como redentora do intelecto humano

Introdução

O estudo sobre o papel da linguagem na compreensão da realidade é tema


recorrente na história da Filosofia. Nos diálogos platônicos/socráticos, o método de
isolar denominações como a “Verdade” afim de conhecer sua natureza, se mostrava
insuficiente em definir o poder que esse termo exerce na realidade. A função dos
conceitos estava sempre ligada ao contexto em que eram utilizados, e dessa forma,
sua elaboração no âmbito das ideias pensada a partir do mundo concreto, se mostrava
sempre indeterminada. A Filosofia crítica de Kant defini um marco na compreensão
que tínhamos da realidade. Ao distinguir o fenômeno da coisa-em-si, o autor permite
a compreensão dos motivos que fazem com que a linguagem não seja capaz de
representar a realidade exatamente como é, já que nada derivado do conhecimento
humano diz respeito ao mundo como coisa em si, mas apenas sobre como ele se
mostra a nós e se adequa a nossas faculdades: o fenômeno. Nietzsche, como herdeiro
dessa crítica, elabora sua teoria de que a linguagem aliena mesmo o mundo
fenomênico, designando o intelecto humano e seus produtos como medida de todas
as coisas. A verdade seria tudo o que o homem é capaz de denominar por seus
conhecimentos a priori , ainda que o faça de forma arbitraria e sem necessária relação
com o que o mundo é. Assim o autor disserta como o artista é capaz de deslocar-se
da ignorância e romper com a soberba da mente humana em ver suas enganações
como representações da realidade. Na arte como linguagem, o homem sabe que
produz uma metáfora antropomórfica do mundo, o que o redeem e permite a
manifestação de suas pulsões naturais ao engano, a falsidade, ao sonho e a tragédia.
Em seu texto além do bem e do mal, Nietzsche introduz um entendimento de
verdade que já considera a distinção kantiana entre fenômeno e “coisa em si” como
composição da realidade porém, diferente de seu predecessor, não julga o “conceito”
como uma representação digna de um valor maior do que a falsidade ou a mentira,
pelo contrário, a capacidade de enganar deveria ser segundo o autor, valorada por
sua relação com a vida humana e pela sua característica condicionadora da
sobrevivência do homem no âmbito da natureza, diferente da “verdade” que define
arbitrariamente as coisas do mundo se utilizando da linguagem:
O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de
metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma
soma de relações humanas, que foram enfatizadas
poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e
que, após longo uso, parecem a um povo sólidas,
canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das
quais se esqueceu que o são, metáforas que se
tomaram gastas e sem força sensível, moedas que
perderam sua efígie e agora só entram em
consideração como metal, não mais como moedas.

I
A distinção entre fenômeno e coisa em si sintetizada por Kant em sua crítica
da razão pura, foi um marco na concepção de realidade até então aceita na Europa
do séc. XIX. A elaboração de que a forma como nossas faculdades cognitivas1
absorvem e percebem o mundo, não corresponde com o que o mundo é em si,
promove uma mudança de paradigmas sem precedentes ao desconstruir o
entendimento dos princípios da razão. Entender o mundo que o humano experimenta
como fenômeno consiste em admitir que não mais o mundo natural corresponde à
visão humana, mas sim que o homem como agente que experimenta o mundo, o faz
projetando no mundo a forma que suas capacidades permitem2. Nietzsche desenvolve
sérias consequências dessa distinção de mundos, ao elaborar como se dá a criação
dos conceitos no intelecto humano. Para ele, o ser humano se caracteriza pela
capacidade de enganar e mentir, -- compensação natural por sua inferioridade física
perante os outros animais -- sendo essa habilidade que viabiliza sua sobrevivência
subjugando os outros animais que não o fazem. É o gênio ilusório que permite ao
humano caçar com armadilhas, atrair, ludibriar predadores e adestrar outros animais
(e outros humanos). Quando se transposta para a vida em comunidade, a faculdade
de fingir convenciona mentiras comuns a todos afim de permitir a vida em uma
superficial harmonia. A essas mentiras sociais é dada a denominação de "verdade" e
sob essa perspectiva, atribui-se valor erroneamente ao intelecto e seus produtos.

1 Conhecimentos ”a priori”. KANT, 1980

2 Revolução copernicana. KANT, 1980


O processo de cognição, que se dá através da percepção, atenção, associação,
memória, juízo, imaginação, pensamento e principalmente, da linguagem² é utilizado
pelo agente social para fundar conhecimentos do mundo e utiliza-los como base para
elaboração de verdades absolutas. Apesar disso, uma compreensão do mundo
distorcida por tantas variáveis é tão somente uma metáfora do mundo aparente,
condicionada pela cultura e traduzida sob forte interferência da condição humana em
comunidade. Essa imagem de mundo só é considerada verdade porque na extrema
habilidade do intelecto humano em enganar, ele frauda a própria consciência e fecha
os olhos para o fato de que o que considera representação fiel, nada mais é do que
uma figura, pintada por mãos ébrias, tendo como modelo uma foto em preto e branco.

“As diferentes línguas, colocadas lado a lado,


mostram que nas palavras nunca importa a verdade,
nunca uma expressão adequada: pois senão não
haveria tantas línguas. A "coisa em si" (tal seria
justamente a verdade pura sem consequências) é,
também para o formador da linguagem, inteiramente
incaptável e nem sequer algo que vale a pena. ”
(NIETZSCHE, 2007)

Tendo esse conhecimento metafórico como base, o intelecto humano


desenvolve o conceito: uma imagem abstrata dos objetos concretos. Para cria-la, abre
mão das diferenças que as caracterizam como coisas reais. Nenhum objeto é igual a
outro, (alias o igual somente existe no mundo do pensamento humano) mas pela
supressão de suas particularidades e sutilezas, aspectos que as definem como
conteúdo do mundo concreto, o pensamento produz imagens de instancias genéricas,
perfeitamente vazias de realidade. “Assim como é certo que nunca uma folha é
inteiramente igual a uma outra, é certo que o conceito de folha é formado por arbitrário
abandono dessas diferenças individuais, por um esquecer-se do que é distintivo. ”3. O
próximo passo que o intelecto dá rumo ao auto-engano, é o de esquecer-se de que
criou o conceito a partir da realidade e por meio da supressão das diferenças que
definem seus objetos. Após o uso irrestrito dos nomes e consequentemente dos
conceitos das coisas, o homem generaliza o não geral e iguala o não igual, produzindo
verdades ilusórias. Primeiro cria-se uma apoteose, um ápice de perfeição das coisas

3 NIETZSCHE, 2007.
excluindo suas diferenças sensíveis e concretas. Depois, a esse resultado abstrato é
dado o status de “mais valoroso” que o das coisas concretas e fenomênicas. E por
fim, o ser racional se lança em uma busca eterna e infundada rumo a um conceito de
realidade que por ser conceito, nunca poderá ser alcançado.

Todo o emaranhado de interpretações e metáforas - conceitos e verdades -


são possibilitados por uma outra característica que diz respeito a condição humana: a
linguagem. Ferramenta de percepção, comunicação e expressão do pensamento, é
por meio da linguagem que o humano estrutura e interpreta a aparência, de forma que
possa experiência-la. A constituição do pensamento se dá como reflexo da realidade
retratada por meio das significações e dos conceitos linguísticos que são construídos
socialmente. A experiência do sujeito - que se fixa por meio da linguagem - e o nível
de desenvolvimento de seus processos mentais como a memória, a atenção, o
pensamento lógico-verbal - igualmente condicionados pela linguagem - interferem no
processo de formação da imagem consciente por meio da qual o sujeito reflete o
mundo, ainda que dependam todos - em última instância - da atividade do sujeito e do
lugar que o sujeito ocupa nas relações sociais mais amplas.4
Como impulso fundamental do homem, a necessidade de formação de
metáforas por meio da linguagem não pode ser ignorada sem que o próprio humano
não seja levado em conta. Não é possível para o detentor do intelecto, não o utilizas
na elaboração e experiência do mundo, pois a potência de transfigurar o mundo em
humanidade pulsa no amago da vida humana. Para aplacar essa faculdade que
reclama por ser exercida, a arte se apresenta como meio onde as vontades de
enganar e sentir podem ser totalmente manifestadas. “Ele [o homem] procura um novo
território para sua atuação e um outro leito de rio, e o encontra no mito e, em geral, na
arte. ”5

4 RICOUR,1976
5 NIETZSCHE, 1990.
II
A redenção possibilitada pela arte, para ser plenamente entendida, levará em
conta não só a natureza do que aqui está denominado como arte, como suas origens
e ligações com a tragédia da vida humana. Os deuses gregos da arte são usados por
Nietzsche para ilustrar os impulsos do artista (a apolínea como figurador plástico, e a
Dionisíaca o da música) a fim de aproximar analogamente as pulsões artísticas tanto
do que possui forma – as pinturas e esculturas – quanto do que é intangível – as
atuações e as músicas. O apolíneo é associado ao que Nietzsche denomina como
“sonho” ou “embriaguez”. Nos sonos em que sonhamos, nada escapa de nossa
compreensão, todas as formas nos significam algo e não há nada que não saibamos.
Ainda assim, temos uma reluzente sensação de sua aparência, de sua realidade não
totalmente desvelada. Transportando esse sentimento para o mundo em vigília, o
homem de propensão filosófica assim como a pessoa suscetível ao artístico, interpreta
a vida baseado nas ocorrências do sonho e elabora sua arte sobre as fundações
móveis das metáforas humanas. Na outra extremidade das representações oníricas,
estão presentes também as imagens sombrias, tristes, escuras: as Dionisíacas. A
capacidade de aceitar e afirmar a vida até em seus momentos mais duros e sofridos,
alegrando-se no sacrifício e “ é a outra dimensão despertada pelo artista, que não
nega nada do que é do ser, como o fazem os que se enganam com as metonímias
edificadas como verdade social necessária à vida em comunidade:

“...uma fórmula da suprema afirmação, um dizer-sim


sem reserva, mesmo ao sofrimento, mesmo à culpa,
mesmo a tudo o que é problemático e estranho na
existência ... Nada do que é deve ser excluído, nada é
dispensável - os lados da existência recusados pelos
cristãos e outros niilistas são até mesmo de ordem
infinitamente superior, na hierarquia dos valores, do
que tudo o que o instinto de decadente poderia
aprovar, chamar de bom. ”6

Durante toda a experiência da vida humana moderna e contemporânea o


homem se engana e sofre por isso. Do viver no presente esperando um futuro melhor,

6 NIETZSCHE, 1990.
ou seja, vivendo no futuro. Do não se adequar a vida social e sentir-se culpado por
isso. Do distanciar-se do sofrimento, do escolher permanecer na menoridade, do
perceber o sofrimento como avesso a vida humana. Ele cria as mentiras sociais, afim
de infundir firmeza e edificar a vida. A ideia de arte como exercício da linguagem
humana sem pesar, parte da ideia Nietzschiana do intelecto humano que naturalmente
engana e necessita enganar. Assim como a característica definidora da condição
humana é a mentira, o tropo e a alegoria, a arte permite que o cérebro humano
exercite sua principal faculdade sem prejuízos. Tão somente pelo sonho ou pela
embriaguez, pela tragédia e pelo acolhimento, artista é capaz de realizar os instintos
naturais sem negar culpa de fazê-lo e o espectador, de deixar-se ludibriar exercendo
sua humanidade. A arte efetua a vontade de potência em sua mais genuína
expressão: onde antes existia uma tradução mundana antropomorfizada em conceito
de um humano em sono tranquilo, agora manifesta-se uma potência que desperta o
homem no realizar-se tanto em um apolíneo que pratica a beleza, a luxúria e o prazer,
quanto de um dionisíaco que aceita sua tragédia e a abraça, e a exerce, e o existir em
sofrimento não o assusta. Com as fronteiras do saber cada vez mais liquidas e
debates dicotômicos de ordem racional não prospectando outro desfecho se não o
eterno “certo versus errado”, essa construção legitimamente humana em sua
concepção profundamente natural pode ser uma alternativa aos ruídos que constituem
os diversos passos que intelecto precisa dar na aproximação ao comunicar-se bem.
A arte sob a perspectiva do jovem Nietzsche, parece sugerir recorrermos a nossas
potencias mais primitivas, expressões da enganação humana que tanto regozijam o
cérebro racional, para fugir da alienação linguística e encontrar a redenção do
intelecto. A música democratiza e integra as diferentes linguagens das diversas
nações existentes no mundo globalizado. A pintura coloca no mesmo patamar o idoso
letrado e o jovem exacerbador de gírias e tipos. A comunicação, sempre problemática
por diferentes pessoas fundarem sua linguagem sob a heterogeneidade inerente a
sua humanidade, é elaborada em um campo neutro, onde a mentira é honestamente
contada e escrupulosamente aceita.
REFERÊNCIAS

KANT, I. Crítica da razão pura. Trad. Valério Rohden e Udo B. Moosburger. São Paulo:
Abril Cultural, 1980. (Coleção os pensadores).

NIETZSCHE, Friedrich. A arte no “Nascimento da Tragédia”. Trad. Rubens Rodrigues


Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural,1990.

__________. O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. Trad. J.


Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

__________. Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral. São Paulo: Hedra,


2007.

__________. Vontade de potência: Parte I. São Paulo: Escala, 2000.

RICOEUR, P.. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. (A.


Morão, trad.). Lisboa, Portugal: Edições 70, 1976.