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Respirar.

Pintar a bordar – obras de Regina Brito desde 1993

Curadoria: Maria de Fátima Lambert e Maria Lobato Guimarães


MUSEU NACIONAL SOARES DOS REIS
As iluminadoras – no período medieval - ficaram célebres pela sua laboriosa dedicação em prol da divulgação da
palavra traçada em pergaminho. O tempo encarregou-se de as apagar, essas cujos nomes não pretendiam
autoridade pessoal. Todavia, hoje sabemos onde estiveram e qual a cumplicidade que as tornou tão exímias e
virtuosas artistas.
Sabe-se de pintoras que já na Grécia e em Roma se dedicaram com afã profissional à prática das artes. E também de
escultoras que viram seus nomes serem perpetuados em volumes célebres, tal como Giovanni Boccaccio, Giorgio
Vasari , depois de Plínio, o Velho.
Eis que se evocam as Penélopes – Rainha Mathilde e suas damas da corte – e seus Ulisses - Haroldo, Eduardo e
Guilherme [séc. XI] - que narraram através dos bordados as lutas, derrotas e vitórias alusiva à Batalha de Hastings,
saboreando as mágoas, a morte e as conquistas em 7 longos metros - célebre tapeçaria de Bayeux. Tapeçaria
bordada que é tão extensa quanto a duração dos dias, dos dias, dos dias sem os seus amados.
O licórnio seduziu a donzela , obrigando-a a registar os cinco sentidos: mirando-se no espelho, agarrando no ar os
sons, aspirando as fragâncias, adivinhando paladares e tateando os sentimentos alheios - A dama do Licórnio
[anónimo, entre1484 e 1538].
Aurélia de Sousa e Sofia de Sousa, à semelhança de tantas outras mulheres receberam uma aprendizagem artística
significativa que nos devolve, de forma intemporal, intensidade, lucidez e beleza em pintura, desenho e mesmo
fotografia.
Entre flores, frutos, animais reais ou imaginários, no século XX, artistas como Louise Bourgeois, Rosemarie Trockel,
Miriam Schapiro, Lourdes Castro ou, mais recentemente e entre outras, Mona Hatoum, Gada Amer, Leda Catunda e
Carla Filipe, bordaram a identidade feminina e feminista, clamando pelo privilegiar de uma arte que não deveria
menosprezar meios e técnicas de excelência. Bispo do Rosário, Leonilson,« ou Albuquerque Mendes, entre outros
homens-artistas, em tempos e continentes diferentes, glosam as perícias e as peripécias da existência moderna e
contemporânea – casos mais recentes de Max Colby, Richard Saja, Kent Henricksen ou Matthew Cox.
Regina de Brito reafirma as densidades de todos os anteriormente citados, celebrando uma ação que seduz o
pensamento impulsionado pelas forças da necessidade interior para não travar a criação – lembrando W. Kandinsky.
Eis uma das mais nítidas e genuínas explicitações do que Henri Focillon evocou: O Elogia da Mão. E afaste-se O
Elogio da Sombra, na aceção castradora que possa não dar visibilidade à obra de desenho-pintura-bordado de
Regina de Brito.

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