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“Boatos de que os orcs do norte teriam se unido aos humanos para o combate corriam todo o

continente. ‘Já vêm tarde’ muitos diziam ‘essa guerra está completando sete invernos, passou da
hora de dar aos elfos o que lhes é bem merecido por terem matado a realeza: extinção’.
Obviamente não era de conhecimento da população tamanho desrespeito por parte do rei
para com os elfos quando a rainha elfa se hospedou por uma única noite no castelo. Nem mesmo
os elfos sabiam do acontecimento completo. Apenas receberam a cabeça de sua rainha em uma
carruagem de ouro. Sem corpo. Sem pistas.
Certamente todos sabiam que os elfos eram muito corteses. Educados como somente elfos
podiam ser. Orgulhosos também. Eu diria que foi o orgulho sua ruína. Subiram mais alto do que
lhes era permitido, caíram e se afogaram na própria soberba.
O rei elfo, depois desse ultraje assassinou a família real de nosso reino em um evento
público. Eles sempre duvidaram da capacidade percepção humana. Até o mais humilde deles diria
que nosso cérebro é pouco desenvolvido e naquele dia, tiveram certeza disso. A cidade toda se
embebedou no festival e alguns nem mesmo se lembrariam dos acontecimentos
Um grupo de oito elfos caminhou entre a multidão até as proximidades de onde estava a
família real. Trajavam belíssimas capas de fios de ouro, à luz do dia pareciam pedaços do sol que
se desprenderam. Quando conseguiram a atenção desejada, quatro deles pegaram flautas de sob
as capas e outros quatro sacaram arcos longos e puseram-se a dançar ao som das flautas.
Eram duas elfas e dois elfos dançando. Num primeiro momento, a dança era composta de
gestos sutis e envolventes. Revelando tatuagens tribais roxas e pretas na altura do cotovelo.
Atraindo olhar por olhar com a beleza de sua pele perolada. Exibindo a nudez tatuada de sob as
capas. Enfeitiçando e distraindo. Criando tensão e admiração. Nada mais cobria os corpos e a
movimentação era um teatro bruto acompanhado de uma música agora violenta. Olhos humanos
quase não tinham tempo de registrar o peso da encenação. Uma das figuras começava sendo
exaltada e aos poucos era jogada de lado, humilhada e violentada. Chegado o momento de sua
morte, os oito elfos se colocaram lado a lado. A música era opressora e hostil. Os elfos músicos
tiraram flechas de dentro de suas flautas e as deram aos portadores de arcos. Em um silêncio
sufocante elas foram disparadas.
A multidão não viu para onde e talvez nem mesmo notaram o disparo. Apenas sabiam
contemplar a beleza élfica em sua mais pura forma.
Os elfos músicos, ainda vestindo suas capas e agora com os capuzes escondendo seus
rostos, guiaram uma fila com os elfos dançantes atrás e então sua presença foi apagada da festa.
Dias depois cartas foram enviadas para o rei dos goblins, dos anões e dos elfos. Para
declarar guerra aos elfos e propor alianças. Cada uma delas era acompanhada por uma flecha
élfica suja de sangue humano. Contando como os elfos mostraram enorme desrespeito aos
humanos, assassinando a família real e toda a baboseira que nós, humanos gostamos de falar.
Nenhuma palavra foi dita sobre a rainha elfa.
Anões raramente deixavam suas montanhas e quando o faziam, certamente era para
prestarem respeito aos elfos. A relação deles era muito amistosa e saudável para que fosse
substituída por um humanos que morreram. ‘Nunca vou entender os humanos, quando estamos
atingindo a fase adulta, suas vidas já acabaram há décadas e eles se queixam de nós por
arrogância quando na verdade lhes falta sabedoria.’
E os goblins… bem os goblins eram uma força numérica, mas eles não eram muito mais que
ladrõezinhos e mercenários. Tudo de valioso que os humanos poderiam lhes oferecem, os elfos
sempre teriam coisa melhor.
Humanos de toda parte do mundo vieram para essa guerra e durante sete anos eles foram
massacrados. As outras raças debochavam deles. Até o dia em que o herdeiro do trono, cansado
de toda humilhação, tomou uma decisão arriscada. Conduziu uma expedição até o norte. Entre as
montanhas de neve das quais os anões foram expulsos e para onde tinham medo de retornar.
Vocês sabem o que no norte se abriga, não é? Eles dominam aquela região até hoje. O então
rei, desesperado em sua tolice, foi buscar ajuda com os orcs. O líder deles recebeu os humanos
em suas frias moradias e, após ouvir toda a história, cuspiu na cara do rei. Os humanos foram
trancados nas masmorras orc e deixados passar fome. Quando acreditaram que havia sido
esquecidos, o líder os liberta e diz que se juntará aos humanos contra os elfos, mas que se algum
dia o solo orc fosse contaminado com presença humana novamente, horríveis sortes cairiam sobre
todo o mundo.
Não é novidade que os orcs odeiam tudo que não seja maligno, mas os elfos tinham um lugar
especial dentro do ódio deles. Toda luz a gentileza que era transmitida por eles irritava os orcs no
mais profundo âmago de seu ser. Todavia, a questão era mais profunda. Uma ferida que nunca
cicatrizou totalmente e talvez fosse a razão de os orcs serem amargos e malvados.
Quando os boatos sobre tal aliança se espalharam, os anões foram os mais sensatos e se
retiraram para suas montanhas, lugar do qual jamais saíram novamente. Elfos pensaram em fugir
para além do mar e viver com seus primos que lá habitam desde a morte do último deus.
O fato é que não havia saída. Se os boatos fossem verdade, fugir apenas retardaria o caos e
traria mais ódio aos orcs. A queda era inevitável e a melhor opção seria levar junto quem primeiro
os havia machucado.
Ataques às principais cidades humanas do nosso continente foi planejado em conjunto com
os goblins. Iriam acontecer na mesma noite com o objetivo de eliminar toda e qualquer tipo de
liderança que pudesse existir. Até os líderes religiosos, que já não eram muitos, se tornaram alvo.
Não restou sangue real ou sargento de guerra para contar história.
O que eles não sabiam era que os orcs haviam planejado seu ataque no alvorecer da mesma
noite. Chame de coincidência ou má sorte. Quando voltaram aos seus lares, encontraram apenas
ruínas, corpos ensanguentados com o sangue prateado brilhando à luz do sol nascente e sombras
malignas da legião de orcs.
Os goblins quase não sofreram danos e, mesmo que houvessem, essas criaturinhas se
reproduzem tão rápido.
Alguns poucos elfos conseguiram escapar. Uma ou outra criança e alguns adultos. No total,
não mais que quarenta. E os milhares de corpos sobre os quais os orcs festejaram banhando-se
no sangue e se alimentaram da carne macia e saborosa. Aquele lugar se transformou em pântano
e a floresta aos seus arredores morreu.
Faz mais de trezentos anos e não se viu mais elfo algum sobre a terra. O certo é que
ninguém sabe com certeza o destino dos elfos remanescentes. Eu acredito que a não ser pela
cantigas, eles foram apagados da memória do povo, aos poucos transformados em lendas para
assustar crianças. E daqui cem anos, talvez até a Guerra da Limpeza será uma lenda.” - Fazendo
uma pausa para tomar um grande gole de sua cerveja. Tom respirou fundo e olhou para a mulher
de cabelo azul escuro no fundo da platéia e voltou a falar - O pai de nossa querida anfitriã, Jody, o
velho Harp foi um grande defensor dos elfos. Essa foi apenas uma das muitas histórias que ele nos
contou antes de partir
Dito isso, Tom levantou-se de sua cadeira a foi até o balcão da taberna. A atenção que havia
atraído com a história agora se dissipava e as pessoas ali voltaram a tomar conta de seus próprios
negócios.
Ainda que não fosse noite, a luz das velas meio derretidas já iluminava a costumeira cena no
centro da taberna: mesas redondas e lotadas de homens gordos, babando qualquer coisa alcoólica
sobre as barbas e camisas sujas. Batiam as canecas de ferro sobre o tampão de madeira e
gritando como animais que disputam um território. Um ou outro viajante se encolhia em um canto
mais escuro ou no próprio balcão da taberna, mantendo-se o mais longe possível do centro da
gritaria.
Na extremidade mais oposta à porta, havia um conjunto quatro mesas onde os governantes do
feudo e os capitães do exército local se reuniam, bebendo um vinho que dizia-se vir do outro lado
do mundo. Apesar da pose mais comportada, das roupas de melhor qualidade e do vocabulário
rebuscado, eram tão grotescos quanto os que gritavam. Entre eles havia aquela falsa cortesia
acompanhada de falta de respeito, um sorriso amarelo e uma constante e silenciosa ameaça de
morte. Era ali onde acontecia o verdadeiro conflito por território.
Quatro garotas com cerca de 23 anos se esgueiravam pela taberna, recolhendo o dinheiro
deixado às mesas, carregando bandejas com frutas, pães, queijo, carne assada e canecas cheias
para substituir as que jaziam vazias. Havia uma quinta garota sobre um pequeno palco
perpendicular ao balcão, tocando alaúde e cantando baixinho uma canção sobre viagens e suas
surpresas. Mais duas, já alguns anos mais velhas, deslizavam por trás do balcão, cuidando dos
pedidos recém chegados e guiando aqueles que pagaram pelo pernoite para o corredor que levava
à hospedaria que fora construída junto a taberna. Uma portinhola atrás do balcão dava passagem
para a cozinha, era ali que as meninas mais novas trabalhavam cozinhando e organizando
bebidas.
Jody herdara o lugar do pai, e desde sempre a maioria dos empregados ali eram garotas
resgatadas de bordéis ou sequestradores e filhas de famílias muito pobres das vilas próximas.
Pouco antes de o velho Harp morrer, deixando para a única filha todas suas posses, ele a fez
prometer que jamais deixaria de resgatar as meninas, ainda que a princípio elas não tivessem
condições de retornar às suas famílias e diante de oferta alguma permitiria que O Elfo Virado se
tornasse um bordel.
As meninas eram muito bem cuidadas e a taberneira sempre garantiu tudo que lhes fosse
necessário até que tivessem condições, idade suficiente e desejo de seguir a vida fora d’O Elfo. E
desde que respeitassem suas empregadas, junto ao fato de a taberna ser situada fora dos limites
de qualquer vila ou cidade, a moça pouco se importava com os conflitos dos homens do feudo (que
matassem uns aos outros ela diria em várias ocasiões). Ela se interessava mesmo era pelas
informações sussurradas por aqueles homens entre um gole e outro.
O Elfo era localizado bem à beira da principal estrada do feudo e qualquer pessoa que
estivesse em uma jornada, fosse longa ou curta, passaria por ele. Por isso, ensinava as garotas
que ali viviam a manterem os ouvidos sempre muito bem abertos. Entretanto, desde o suposto
assassinato do rei, há mais de sete anos, nada muito interessante havia sido dito, apenas goblins
sendo pegos roubando mercearias e deixando para trás um monte de sucata. Minas de ouro, prata
e jóias que amanheciam misteriosamente bloqueadas pelos anões. E nos últimos meses até
mesmo coisas assim não seriam ditas.
O silêncio era suspeito, mas também poderia significar que as coisas estavam se ajeitando e
os homens que governavam o feudo haviam desenvolvido bom senso. Conhecendo aqueles seres
como apenas Jody conhecia, ela é quem estaria se tornando menos sensata se acreditasse que
aqueles homens poderiam ser menos egoístas.
Com um suspiro, Jody se uniu às meninas atrás do balcão e rezou a um deus não existente
que as restantes para O Elfo fechar voassem. O dia estava cheio e re-ouvir as histórias de seu pai
era sempre divertido, principalmente por um bom contador de histórias como Tom, mas quando
acabavam, sempre ela sempre sentia o vazio a invadir.
A horas escorriam e o movimento foi diminuindo. As meninas da cozinha foram as primeiras a
serem dispensadas do trabalho e ir dormir. Jody e as outras duas se despediram dos últimos
clientes, limparam o salão da taberna e puseram para fora dois homens que apagaram sobre o
balcão.
Terminado o trabalho, Jody pegou seu cachimbo, o encheu com sua erva favorita, sentou-se
sobre o balcão a acendeu um fósforo. Tragou levemente a fumaça. Expirou. Em silêncio ela fumou
o conteúdo do cachimbo e foi dormir.
Em seus sonhos, seu pai caminhava por uma floresta. Ele ainda era jovem. A grama brilhava
com o orvalho. Uma brisa gelada perdia espaço enquanto o sol ganhava o céu. Harp tinha lágrimas
nos olhos segurava firme as alças de sua mochila. Seguindo por uma trilha que talvez não
existisse. Subitamente, interrompeu a caminhada e levantou a cabeça, igual a um animal quando
escuta o barulho de um predador se esgueirando para o ataque. Praguejou algo em uma língua
que Jody desconhecia e pôs-se a andar mais rapidamente. Agora ela também ouvia o barulho de
passos e podia avistar a cabeça de seu pai correndo por entre os galhos. Por um segundo, os
passos cessaram, uma flecha zumbiu por entre as árvores, atravessou o braço de Harp e o
prendeu em um tronco meio caído.
Uma figura de pele negra, com tatuagens roxas, vestindo uma calça e colete de couro se
aproximou e com sua voz sibilante falou com Harp no mesmo idioma desconhecido. O rosto de
Harp se contorcia em um misto de dor a raiva conforme o discurso da outra pessoa se desenvolvia.
Quando ela se calou, deixando espaço para que o fugitivo respondesse, ele apenas cuspiu no
chão disse no idioma comum:
-Não quero parte em seus esquemas perversos.
-Ah, criança tola. Você sabe o que nos foi feito. Você sabe da tamanha perversão que nos
fizeram. Somos filhos da tragédia e do descaso. Olhe sua própria mãe. Tudo o que nos foi
ensinado é isso. Estamos apenas lhes mostrando que a lição foi ensinada. - Respondeu a voz num
sussurro raivoso, estendendo o braço para remover a flecha que prendia Harp ao tronco e com o
grito de dor do pai, Jody acordou.
Ouvia batidas fortes em sua porta fechada e pela fresta da cortina aberta, ela pôde ver a luz
tímida do sol nascente no horizonte ainda escuro. Enrolada na coberta com a qual dormia, ela se
levantou da cama e abriu a porta. Era Tom quem batia.
-Vista-se e desça para o escritório, um mensageiro vindo do sul acaba de chegar.
A teia de informantes construída por seu pai era sólida, discreta e, o mais importante,
funcional. Embora alguns dos contatos tenham hesitado em continuar a fazer parte do sistema
depois da morte de Harp. Este é um mundo dos homens, uma mulher dona de um estabelecimento
já era algo raro e questionado, uma mulher como Jody jamais seria permitida realizar tal trabalho.
O único motivo por qual era aceita entre taberneiros e homens de poder, era pela reputação de seu
pai. Ela tinha suas próprias conquistas, era uma das melhores arqueiras do país inteiro, a com uma
espada na mão era igualmente habilidosa. Entretanto, o reconhecimento e respeito que tinham
para com ela, era apenas a sombra do que se tinham pelo homem antecedente.
O fluxo de resgates feitos no sul havia crescido de forma estranha nos últimos anos.
Mensageiros vindo de lá já era algo quase comum. Principalmente nas cidades portuárias. Junto
com o número de resgates, crescia também o número de garotas.
A taberneira repetiu seu ritual matutino. Dobrou as corbertas. Despiu o pijama a banhou-se
rapidamente na banheira. A água estava quente e sua pele nua logo absorveu o calor. Terminado
o banho, se secou e vestiu a usual calça de couro marrom claro, uma bota de couro da mesma cor.
Com um pedaço comprido de tecido bege enfaixou os seios pequenos. Não conseguia se lembrar
de qual momento da vida ela começou a enfaixá-los, mas para Jody era algo tão comum quanto
era para as muitas mulheres usar vestidos e corpetes. Vestiu uma camisa de algodão justa e com
o cabelo acinzentado na altura dos ombros ainda úmidos, desceu as escadas para o escritório.
Assim que abriu a porta do cômodo, uma voz trémula a recebeu:
-Ahnn, bom dia, ahnn, senhora. Desculpe o incomodo tão cedo, ahnnn.. - o mensageiro
claramente nervoso e cansado não era mais que um garoto com anos. Talvez fosse a primeira vez
que ele fazia esse serviço. - Ahn, éé meu Guar é pai da hospedaria. Ele me instruiu a vir Daniel e
ahnn, meu nome é rápido.
Ela passou pela lareira, contornando as cadeiras que em geral eram ocupadas pelos clientes
ou negociantes, mas no momento era Daniel que estava sobre uma delas. Tom estava encostado
na parede oposta a porta, onde uma pequena janela de madeira se encontrava semi-aberta. Três
velas novas iluminavam o ambiente. O gabinete não era muito grande, mas com a organização
correta, seis pessoas caberiam sentadas em cadeiras confortáveis ali.
-Respire, rapaz! - Disse Jody rindo a dirigindo-se a Tom, pediu: - Tom, enquanto o menino se
acalma, traga café da manhã para nós e peça à Isabelle para se juntar a nós.
Enquanto a mulher falava com Tom, o rosto de Daniel se contraiu numa reação a qual Jody
julgou ser vergonha, o menino também encolheu os ombros finos. Talvez ele tivesse se dado conta
da confusão que fez com as palavras.
-Claro, querida - respondeu o homem já na beira da velhice enquanto seguia para cozinha.
Após cerca de dez minutos, a porta foi aberta novamente. Tom e uma moça de pele negra,
trajando um vestido decotado e comprido entraram. Cada um trazia consigo uma bandeja com
pães, queijos, presunto, leite, mel e geleia.
Comeram e quando terminaram a refeição, Jody olhou para o menino e disse:
-Suponho que seu nome seja Daniel e que venha de Guar, mas de que parte de Guar?
-Hmm, sim, eu venho de Guar… Da região próxima ao porto, meu pai é dono do Sono Eterno.
A Hospedaria… - A voz do jovem estava mais calma, porém ainda um pouco trêmula. Seus olhos
não se fixavam em um único ponto e nem olhavam para o rosto das outras pessoas no cômodo,
ele passava as mãos no cabelo arrepiado. - Meu irmão mais velho costumava trazer notícias, mas
ele, hmm, não estava, ahnn, disposto, então papai me mandou.
-Ah, O Sono Eterno… há quantos anos não vejo seu pai. Agora me lembro de você, era o
menininho que sempre queria andar a cavalo. E que a devemos sua presença aqui, Daniel? -
perguntou Jody.
-Um grupo de meninas de uns doze ou treze anos, mais quatro adultos se hospedaram ontem
antes do nascer do sol. Eram quase vinte meninas e elas pareciam assustadas, algumas tinham os
olhos vermelhos de chorar e uma delas tinha um corte no rosto. Os adultos deixaram o quarto
durante o dia, mas nenhuma das meninas foi vista novamente e a janela do quarto foi mantida
fechada todo o dia. Meu pai disse que há anos recebe grupos assim lá e já sabe quando se trata
de sequestradores. Eu parti no início da noite de ontem e não descansei ainda. Meu pai me disse
que esses assuntos são sempre prioridade e que as coisas poderiam mudar de uma hora para
outra, por isso tinha de ser rápido.
Quando terminou de falar, seu olhar repousou sobre Isabelle e Jody se perguntou o que
estaria passando pela mente do rapaz.
-Jody, devo mandar Elias para o Guar? - A voz suave de Isabelle era sempre música aos
ouvidos de todos, principalmente para Jody.
-Por favor, diga a ele que parta imediatamente, amanhã pela noite um grupo chegará à
estalagem para o resgate.
Isabelle se levantou e deixou o escritório.
-Tom, leve Daniel para um quarto e providencie qualquer coisa que ele precise para
descansar. Reúna mais quatro dos seus homens e quatro arqueiras. Partiremos ao pôr do sol.
-Partiremos? Se juntará ao grupo? - Questionou Tom, claramente surpreso.
-Sim, um grupo grande como esse precisa de todo apoio. Além disso, quero ver com meus
olhos. O sul anda agitado e você sabe como me sinto sobre lugares agitados.
-E quanto ao Elfo? Quem tomará conta?
-Você e Isabelle sempre serão meus olhos e ouvidos aqui. - disse Jody firmemente.
-Ah, a estrada sempre te chama, não é criança? - Disse Tom com a voz cheia de ternura. Era
tão pai para Jody quanto o próprio Harp. E olhando para Daniel, ele disse: - Vamos garoto,
descanse o máximo que puder durante o dia, partirá com o grupo ao anoitecer.
Todos os três deixaram o escritório. Enquanto o jovem dormia, Jody e Tom passaram o dia
providenciando o necessário para a viagem.
Quando o último raio de sol deixou o céu, duas carroças e mais quatro pessoas em cavalos
deixaram o conforto d’O Elfo Virado.