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TEMA DE REDAÇÃO – PVPe. Tiúba – Prof.

Marcelo Alves – AGO/18

TEXTO I

Dei uma vista no algodoal e encaminhei-me ao paredão do açude. Poucos trabalhadores.


Subi a colina. Tinham-se concluído os alicerces desta nossa casa, as paredes começavam a elevar-se. De repente um tiro.
Estremeci. Era na pedreira, que Mestre Caetano escavacava lentamente, com dois cavouqueiros. Outro tiro, ruim: pedra miúda
voando.
Quando se acabariam aqueles serviços moles? Desgraçadamente faltavam-me recursos para atacá-los firme. Assim
mesmo, lidando com pessoal escasso, às vezes na sexta-feira eu não sabia onde buscar dinheiro para pagar as folhas no sábado.
Fiz algumas perguntas ao pedreiro. Um pedreiro só. As paredes tinham um metro de altura. Se eu empregasse muitos
operários, as obras sairiam mais baratas. O paredão do açude não ia para a frente, acuava. E a pedreira, onde uns vultos miudinhos
se moviam, era como se em seis meses de trabalho não tivesse sido desfalcada.
Um carro de bois passou lá embaixo; outro carro de bois veio vindo, carregado de tijolos.
Onde andaria a velha Margarida? Seria bom encontrar a velha Margarida e trazê-la para São Bernardo. Devia estar
pegando um século, pobre da negra.
Demorei-me até que os serventes lavaram as colheres e guardaram as ferramentas. Fiquei só. Os homens da lavoura e
os do açude foram debandando também.
Mais tiros na pedreira, os últimos. Pensei no Mendonça. Canalha. Do lado de cá da cerca o algodão pintava, a mamona
crescia nos aceiros da roça; do lado de lá, sapé e espinho. Quantas braças de terra aquele malandro tinha furtado! Felizmente
estávamos em paz. Aparentemente. De qualquer forma era-me necessário caminhar depressa.
Desci a ladeira e fui jantar. Enquanto jantava, falei em voz baixa a Casimiro Lopes, a princípio com panos mornos, depois
delineando um projeto. Casimiro Lopes desviou-se dos panos mornos e colaborou no projeto.
Deixei o negócio entabulado, fechei as portas e escrevi algumas cartas aos bancos da capital e ao governador do Estado.
Aos bancos solicitei empréstimos, ao governador comuniquei a instalação próxima de numerosas indústrias e pedi a dispensa de
imposto sobre os maquinismos que importasse. A verdade é que os empréstimos eram improváveis e eu não imaginava a maneira
de pagar os maquinismos. Mas havia-me habituado a considerá-los meio comprados.
Em seguida consultei o Aprendizado agrícola da Satuba relativamente à possível aquisição de um bezerro limosino.
Quando ia terminando, ouvi pisadas em redor da casa. Levantei-me e olhei pela fresta. Lá estava um tipo dando estalos
com os dedos, enganando o Tubarão. Reparando, julguei reconhecer o freguês carrancudo que tinha entrado na sala do
Mendonça. Abandonei a espreita e chamei Casimiro Lopes, que me substituiu. Deitei-me pensando em Mestre Caetano e na
pedreira. Marretas, alavancas, aço para broca, pólvora, estopim.
- Gente de lá, murmurou lançando o punho da rede. - Com certeza.
No outro dia, sábado, matei o carneiro para os eleitores. Domingo à tarde, de volta da eleição, Mendonça recebeu um
tiro na costela mindinha e bateu as botas ali mesmo na estrada, perto de Bom Sucesso. No lugar há hoje uma cruz com um braço
de menos.
Na hora do crime eu estava na cidade, conversando com o vigário a respeito da igreja que pretendia levantar em São
Bernardo. Para o futuro, se os negócios corressem bem.
- Que horror! exclamou Padre Silvestre quando chegou a notícia. Ele tinha inimigos?
- Se tinha! Ora se tinha! Inimigo como carrapato. Vamos ao resto, Padre Silvestre. Quanto custa um sino?

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2010.

TEXTO II

Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades
dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedades rudimentares
manifestam-se eles, segundo sua predominância, na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores e os povos
lavradores. Para uns, o objeto final, a mira de todo esforço, o ponto de chegada, assume relevância tão capital, que chega a
dispensar, por secundários, quase supérfluos, todos os processos intermediários. Seu ideal será colher o fruto sem plantar a
árvore.

Esse tipo humano ignora as fronteiras. No mundo tudo se apresenta a ele em generosa amplitude e, onde quer que se
erija um obstáculo a seus propósitos ambiciosos, sabe transformar esse obstáculo em trampolim. Vive dos espaços ilimitados, dos
projetos vastos, dos horizontes distantes.

O trabalhador, ao contrário, é aquele que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. O esforço
lento, pouco compensador e persistente, que, no entanto, mede todas as possibilidades de esperdício e sabe tirar o máximo
proveito do insignificante, tem sentido bem nítido para ele. Seu campo visual é naturalmente restrito. A parte maior do que o
todo.
Existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor
moral positivo às ações que sente ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprios do
aventureiro - audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem - tudo, enfim, quanto se relacione com a
concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo.

Por outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; as
energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e os esforços sem perspectiva de rápido proveito material passam,
ao contrário, por viciosos e desprezíveis para eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o ideal do trabalhador.

Entre esses dois tipos não há, em verdade, tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical. Ambos
participam, em maior ou menor grau, de múltiplas combinações e é claro que, em estado puro, nem o aventureiro, nem o
trabalhador possuem existência real fora do mundo das ideias. Mas também não há dúvida que os dois conceitos nos ajudam a
situar e a melhor ordenar nosso conhecimento dos homens e dos conjuntos sociais. E é precisamente nessa extensão
superindividual que eles assumem importância inestimável para o estudo da formação e evolução das sociedades.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.44-5

TEXTO III

O texto I é um excerto do romance São Bernardo (1934), do escritor Graciliano Ramos. O narrador e protagonista Paulo Honório,
ao sair da prisão por ter assassinado o amante de sua primeira esposa, resolve, com algumas economias da agiotagem, comprar
a fazenda do interior de Alagoas e onde trabalhou por um tempo e que dá título ao romance. Numa série de esquemas ilícitos,
trapaças, manipulações, Paulo Honório consegue com que a fazenda prospere rapidamente. Na forma de narrativa retrospectiva,
o narrador relembra o passado e o quanto, a partir do seu empreendimento, desumanizou-se. O texto II faz parte do livro Raízes
do Brasil, do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda. Escrito em 1936, o autor, nesta obra, incumbe-se a pensar as características
fundamentais da personalidade dos brasileiros a partir da formação histórica e econômica do país. O texto III é um outdoor que
faz menção à frase pronunciada pelo presidente atual, Michel Temer, no seu discurso de posse.

Próximos, na linha cronológica, os dois primeiros textos fazem, à sua maneira, propostas de reflexão acerca do mundo do trabalho
em solo brasileiro. O texto III, por sua vez, faz, no século XXI, uma defesa do trabalho num contexto diferente do início do século
XX. Levando em consideração sua instrução histórica e cultural, faça um texto dissertativo-argumentativo apresentando fatos,
situações, exemplos e falas de autoridades para discutir a mediação entre comportamentos e éticas trabalhistas e expectativas
políticas e mercadológicas na área do trabalho.

Orientações:
 Escreva um texto entre 15 linhas e 30 linhas. Textos fora desse intervalo não serão avaliados.
 Use a Folha Oficial de Redação. Textos não escritos nessa folha não serão avaliados.
 Escreva sua redação usando caneta esferográfica azul ou preta. Textos escritos à lápis ou com qualquer outro tipo de
caneta não serão avaliados.
 Escreva sua redação em LETRA LEGÍVEL. Textos que possuam trechos ilegível serão penalizados na competência 01 e 03
(descritos na Folha Oficial de Redação), a depender do desenvolvimento e organização da composição.
 Identifique-se. Coloque seu nome no espaço indicado. Textos sem identificação não serão avaliados.
 Títulos não são obrigatórios. Se o aluno sentir necessidade de inserir, deve fazê-lo na linha 01 e começar o texto na linha
02.
 Atenção ao uso dos textos de apoio. Cópias explícitas no corpo do texto serão desconsideradas para fins de avaliação. Se
houver necessidade de citar outras fontes, que se indique, ao menos, o autor e o veículo da informação.
 Planeje seu texto. Organize. Use os materiais do curso. Faça um excelente texto!