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Parabenizamos

Amazônia Judaica
pela passagem de
seu primeiro decênio
de atividades
EDITORIAL

Editores O judaísmo amazônico é daqueles fenômenos que sempre


David Salgado surpreendem, seja por sua longevidade, por seu pioneirismo, pelo místico
Elias Salgado e exótico de sua localização ou pelo singular de suas crenças e tradições,
enfim por ser um universo surpreendente.
Arte e Diagramação
Eddy Zlotnitzki Lidar com este universo tão rico, apoiar e agir em iniciativas que o
enriqueçam e lutar por sua continuidade, é o que Amazônia Judaica vem
Projeto Gráfico fazendo há 10 anos.
Thiago Zeitune
Missão duplamente agradável, primeiro porque amamos o que
Revisão fazemos e sabemos da sua primordial importância, segundo, porque
Mariza Blanco nos encantam os desafios, mesmo que em muitos momentos difíceis
nos ocorra jogar a tolha, mas logo desistimos, pois pensamos em nossos
Colaboradores leitores e naqueles que por todos estes anos seguem apoiando nosso
Iehudá Benguigui trabalho, lástima que não sejam tantos...
Regina Igel
Tânia Cheinfeld Sananes Fato é que cá estamos com mais esta edição, desta feita duplamente
festiva, uma Edição Especial de 10 Anos lançada em Pessach. Não
Portal Amazônia Judaica e poupamos esforços para brindar nossos leitores com o nosso melhor: desde
Arquivo Amazônia Judaica o esmero no design gráfico (agora capitaneado pelo artista uruguaio-israelí
www.amazoniajudaica.org Eddy Zlotnitzki), passando por matérias primorosas como a matéria de
capa sobre a comunidade amazônica de Israel, o heroísmo do campeão
Amazônia Judaica italiano de ciclismo Gino Bartali e sua luta secreta para salvar judeus do
no Facebook Holocausto e o toque de nossas raízes em matéria de Iehuda Benguigui
sobre a vida de Rebi Chyda Hakadosh e a reedição saudosa de uma
reportagem histórica sobre a comunidade de Itacoatiara.
Amazônia Judaica
Lá se foi uma década desde aquele Pessach de 2002, quando numa
email: atitude brilhante e corajosa lançamos o Amazônia Judaica em formato
portal200anos@gmail,com de jornal impresso. O AJ cresceu em pretensão e ampliou sua missão e
contato@amazoniajudaica.org suas atividades. A despeito das dificuldades: o jornal é hoje uma belíssima
revista e temos também nosso site, o Portal Amazônia Judaica e o
Arquivo Amazônia Judaica Digital; seguimos crescendo em nossa linha
editorial, com a Hagadá de Pessach de Rito Sefaradí e a Coleção Ner
de livros de oração, que trás a público mais um lançamento, o Sidur Ner
Tamid para as rezas dos dias comuns.

Queira o Eterno nos seja concedida a força e a graça de poder seguir


nossa missão e estar com vocês por muitos e muitos anos mais.

Boa leitura

Pessach Kasher Vessameach

David e Elias Salgado

3
A IMAGEM
IMAGEN DA
DA CAPA
CAPA

UMA TERRA, UMA LEI E


UMA PROMESSA
Do exílio ao retorno um longo caminho e nele o do saber é o mesmo terreno do divino. Escolher
Pessach, a passagem do mais estreito Mitzraim à saber e seguir as Leis é escolher ser livre para es-
amplidão da liberdade, Cherut. Ligando os pon- colher.
tos e fatos, atos e promessas de Deus a seu povo. Portanto, parece claro que há uma mensagem
Para chegar, merecer e saber estar na Terra Prome- apontando para uma relação direta entre a pro-
tida, antes se faz necessário saber como ser mere- messa (da Terra) e a obrigatoriedade de uma con-
cedor e conhecer o ensinamento e seus princípios. duta moral (o cumprimento da Lei), o que nos
Conhecer as Leis é um ato de elevação, o terreno leva a concluir que Terra Prometida, além de um
lugar físico é um lugar de ele-
vação espiritual , pessoal e co-
letiva.
Tais ensinamentos, valores e
princípios, Moisés foi recebê-
-los em nome do povo de Isra-
el no Monte Sinai, é este mo-
mento de clímax da passagem
da escravidão à liberdade na
Terra da Promissão, que Cha-
gall nos retrata de forma su-
blime em seu quadro Moisés
recebendo as Tábuas da Lei,
um dos pontos altos de sua
série de quadros sobre as pas-
sagens da Torá, mantido em
acervo permanente no Museu
Nacional da Mensagem Bíbli-
ca Marc Chagall em Nice, na
França.

Detalhe do quadro Moisés rece-


bendo as Tábuas da Lei,
Marc Chagall, 1966

4 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012


AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012

MEMÓRIA | 6 RESGATE | 10 LITERATURA | 22


A Comunidade Israelita de O Segredo da Bicicleta Uma Obra Revisitada
"Pedra Pintada" de Bartali

EDITORIAL 3
A IMAGEM DA CAPA 4
CAPA 14
Em Busca Da Terra Da Promissão
CRÔNICA 24
Eu Tenho Uma Estrela
NOSSOS SÁBIOS 26
Rabeinu Hachida Hakadosh
CARTAS DOS LEITORES 29
PÁGINA VERDE 30
MEMÓRIA

A COMUNIDADE ISRAELITA DE
"PEDRA PINTADA" Por: David Salgado

Pela passagem dos 10 anos do Amazônia Judaica, estamos reeditando uma


das matérias mais queridas por nossos leitores, publicada na edição n°. 8 de
novembro de 2002. Importante frisar que a tia Esther continua firme e forte
com muita saúde e hoje com 97 anos de idade. Vamos a matéria de então.

I tacoatiara é o nome da cidade


localizada a 286 Km de
Manaus em direção oeste.
São encontradas na vazante do
Residência da família
Ezaguy e local onde
funcionou a antiga
rio Amazonas que banha essa sinagoga
cidade, várias pedras pintadas, e
nelas gravadas inscrições estranhas.
Existem várias teorias sobre quem
as pintou. Uma delas remonta
aos fenícios, povo desbravador e
navegador que poderia ter passado
por alí a procura de madeiras
especiais para a construção de
grandes monumentos e templos,
como aquele do Rei Salomão,
por exemplo! Nada porém foi
comprovado. “Ita” significa pedra e
“coatiara” pintada, daí o nome da
cidade.
Casa dos Benchaia
Curiosidades a parte, vamos a nossa
aventura.
Para obter maiores informações
sobre a comunidade que existiu
naquela cidade no princípio do
século XX, fui entrevistar, na véspera
de minha viagem a Itacoatiara, a
senhora Esther Azulay Benchimol,
com 87 anos de idade e saúde para
dar e vender, que Deus a conserve
assim por muitos e muitos anos. Tia
Esther, como sempre a chamei, eu e
quase todos que a conhecem, é uma
6 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
lenda viva. Contou-me toda a sua Isaac José Pérez, encontrar. Enquanto isso saí um
infância e adolescência na cidade de ex-prefeito de pouco afora e me chamou logo a
Itacoatiara onde nascera. Deu-me Itacoatiara atenção uma construção muito
nomes de famílias, o bairro onde antiga com arquitetura arrojada e
viviam, me falou das “dezoito” de finos traços pertencentes a uma
(referência a dezoito casas de época passada. Aproximei-me e
taipa construídas por ingleses pude constatar o abandono total
e onde os judeus moravam dessa construção. Busquei alguma
inclusive a sua família), me contou identificação e encontrei um nome
da “revolução” de Itacoatiara... Bem, meio apagado que apenas pude lê-
essa revolução só iria compreender lo com muito esforço que dizia –
do que se tratava mais tarde quando “Casa Moisés”. Voltando a galeria
estive na cidade. Enfim, deu-me a senhora Iléia me explicou que a
informações suficientes para que “Casa Moisés” fora construída por
pudesse começar a minha pesquisa. judeus. Os irmãos Marcos e Moisés
Sempre muito lúcida, risonha e Ezaguy e o cunhado Isaac José
com uma precisão incrível nos Pérez – este último foi prefeito de
fatos e datas, tia Esther seria a Itacoatiara no período de 1926 a
chave principal para o sucesso desta
reportagem e realmente o foi. Porém, para minha surpresa, o
Antes de partir, obtive com o mesmo estava coberto pelo mato,
senhor Moisés Benarrós Israel, o portão estava trancado e não
correligionário de Manaus, com pude me aproximar. O senhor
negócios em Itacoatiara, algumas Moisés Israel me dera um número
informações importantes e que de celular pertencente a um de
iriam me ajudar. seus funcionários, que guardava
Chegando a Itacoatiara, resolvi as chaves do portão do cemitério,
começar pelo cemitério israelita. mas não consegui contato com ele.
Como não era a minha primeira Contentei-me em abrir o livro do
vez na cidade (quando fui shaliach Professor Samuel Benchimol Z´L Uma “itacoatiara”
em Manaus estive duas vezes em – Eretz Amazônia - e ler o nome
Itacoatiara para visitar o cemitério), das almas que alí repousavam 1930 – construíram e inauguraram
não demorei em encontrá-lo. dizendo uma “hashkabá” (oração alí um grande estabelecimento de
para pessoas já falecidas) para exportação e importação, uma vez
todos. que o porto da cidade era um dos
Disse-me que Não desanimei. O próximo passo mais movimentados da Amazônia,
Pérez era um seria encontrar a Galeria Professora
Marina Penalber e falar com a
recebendo navios da Europa e dos
Estados Unidos. Posteriormente foi
homem de visão senhora Iléia, também indicação instalado no prédio uma agência
de viagem e representação de várias
do senhor Moisés Israel. Após
moderna, um breve apresentação começamos empresas de navegação marítima
a conversar sobre o motivo de nacional e internacional, dos sócios
empreendedor, minha visita. Perguntei-lhe sobre Ezaguy e Jacob Benchimol e que
homem criativo os judeus de Itacoatiara, se ela não
possuía alguma informação sobre
encerraram suas atividades em 1973.
Em seguida, a secretária da galeria
e inteligente como viviam, aonde residiam, me trouxe um documento. Era
quantos eram e etc. Ela pediu alguns uma cópia de um relatório bem
minutos para ir ver o que poderia extenso que dizia: “Intendência
7
MEMÓRIA
Parte do conjunto de casas conhecido
como “as dezoito”
Municipal de Itacoatiara - Pelo
Prefeito Isaac José Pérez”. Aquilo alí
já valeria a minha viagem! Tamanha
era a minha satisfação e alegria,
que pedi imediatamente para tirar
uma cópia daquele documento.
A secretária disse que não teria
nenhum problema. A senhora Iléia
disse então que iria me levar
até a secretaria de educação
do município aonde iria me
apresentar a uma pessoa que
poderia me dar mais informações
sobre os judeus que viveram na
cidade. Seu nome Frank Chaves, cemitério judeu de Manaus. Era
casado com Rachel Hilel Benchimol,
Frank me
assessor do Secretário de Educação.
Frank Chaves é pesquisador e cujos pais vieram de Gilbratar afirmou que
para Cametá em 1850, e depois se
historiador. Esclareceu-me muitos
detalhes e deu-me importantíssimas transferiu para Itacoatiara. Isaac tinha muito
informações que passarei a relatar José Pérez veio a Manaus em 1928,
ainda como Prefeito de Itacoatiara interesse sobre
agora. O professor Frank Chaves foi
mais tarde, entrevistado para o filme conseguiu com seu prestígio, junto
ao Governador Efigênio Sales, a
o assunto
Eretz Amazônia e contou o que
relatamos aqui. troca de um terreno aos fundos
Primeiramente, com o relatório do cemitério São João Batista, que “revolução” que tia Esther me
da gestão de Isaac José Pérez em havia sido comprado para ser o relatou. Notei que Frank ficara
mãos, perguntei-lhe se não teria cemitério judeu, por um terreno surpreso, mas não entendi o porque.
mais informações a respeito deste melhor situado ao lado do mesmo Então ele me contou que a senhora
prefeito. Frank me afirmou que cemitério, na esquina do Boulevard Esther referiu-se ao ano de 1932,
tinha muito interesse sobre o assunto Amazonas, hoje avenida Álvaro Maia. quando eclodiu uma verdadeira
e que pretendia inclusive, escrever Comprado o cemitério judaico e Batalha Naval às margens do rio
a biografia de Isaac José Pérez por feito o seu gradeamento, Isaac José amazonas em frente à cidade de
considerá-lo uma pessoa de grande Pérez teve o grande infortúnio Itacoatiara.
importância para sua cidade natal e desdita de ver morrer de
afirmando inclusive, que ele teria febre amarela o seu querido e Desfeito o mistério da tal “revolução”
sido o melhor prefeito da história amado filho Leon Pérez, jovem que tia Esther comentou, faltava
da cidade de Itacoatiara. Disse- engenheiro politécnico, que estava sair a campo para conhecer as tais
me que Pérez era um homem de em visita a seus pais. Por ironia do “dezoito” onde viviam os judeus.
visão moderna, um empreendedor, destino, o fundador do Cemitério Fomos com Frank Chaves então
homem criativo e inteligente da alta Judeu de Manaus o inaugurou, conhecer a cidade de Itacoatiara.
sociedade amazonense e muito bem enterrando o seu próprio filho, em Mostrou-me obras realizadas pelo
quisto por todos. 12 de setembro de 1928”. então prefeito Isaac José Pérez,
como escolas públicas, avenidas,
O Professor Samuel Benchimol Z´L Em seguida comentei com Frank pontes. Explicou-me que foi Pérez
em sua obra, Eretz Amazônia frisa o sobre a reportagem que havia feito que trouxe o primeiro médico para
seguinte: “Isaac José Pérez, o grande no dia anterior com a senhora Esther residir e prestar serviços profissionais
prefeito judeu que revolucionou, A. Benchimol. Especificamente na cidade, que implantou energia
urbanizou Itacoatiara e fundou o perguntei-lhe sobre a tal da elétrica através de geradores.
8 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
Levou-me a rua “Isaac Pérez”, a Frank contou: “eu tinha cerca de dez me levou a sua casa onde disse que
Escola Municipal “Isaac Pérez”, anos quando vi um carro estacionar queria mostrar-me umas fotos.
homenagens de prefeitos posteriores à porta da casa de minha avó. Ela Chegando lá procurou, o álbum
ao trabalho exemplar e pioneiro de estava em pé, parada, esperando de fotos que sua avó tinha, e que
Isaac José Pérez. ansiosa para abraçar sua velha amiga ele guardara depois de sua morte.
Bem, faltava ainda a visita ao bairro judia que veio visitá-la depois de Encontrou uma foto do prefeito
dos judeus, com certeza o trecho muitos e muitos anos. A senhora Isaac José Pérez, mas não encontrava
mais interessante do meu roteiro. A saiu do carro acompanhada de seu o álbum de fotografias de sua avó.
caminho, Frank me mostrou uma neto, e ao se aproximar de minha
casa aonde disse ter sido alí a Sinagoga avó, elas se abraçaram e choraram Era tarde, estava na hora de retornar
da comunidade. Era a residência durante quase uma eternidade, pelo para Manaus, não gosto de viajar a
de Dona Esther Ezaguy, viúva de menos para mim parecia assim. noite, então disse para Frank que em
Moysés Ezaguy, na rua Deodoro. Conversaram durante muito tempo, outra oportunidade veria as fotos de
Chegando ao bairro da Colônia, sua avó. Uma última caixa ele pegou
onde viviam os judeus, me mostrou e disse: “vamos tentar só mais essa
a residência da família Benchaia, vi Ela estava em caixa”. E realmente, nessa caixa
na rua Álvaro França, no mesmo Frank encontrou a foto que buscava
bairro, a Usina de Beneficiamento pé, parada, para me mostrar. Uma foto muito
antiga, onde uma mocinha
de Borracha, instalada por Isaac José
Pérez e finalmente, pude realmente esperando muito bonita aparecia em cima
comprovar a existência de várias
casas, situadas na rua Moreira César,
ansiosa para de uma pedra. Foi aí então que
Frank me disse: “esta na foto é a
que Frank as apontou-me como abraçar sua amiga judia de minha avó, aquela
sendo as tais “dezoito”. Para minha que veio visitá-la quando eu tinha
surpresa, encontrei uma delas com velha amiga dez anos e que aparece aqui com
os traços de uma casa de taipa,
podia ver na parte lateral superior
judia cerca de quatorze anos de idade.
Ela se chamava Esther Azulay".
da casa, ripas e recheios de barro. Impressionante! A tia Esther Azulay
Foi então que começou o fato mais lembro que fui brincar e quando Benchimol, era a amiga querida
importante e inesperado de minha retornei ainda estavam conversando. da avó de Frank Chaves. Aquilo
reportagem. Frank contou-me que A despedida foi incrível, percebi me emocionou muito, era muita
bem em frente as “dezoitos”, vivia novamente lágrimas nos rostos das coincidência eu ter encontrado uma
sua avó, onde hoje é uma igreja. Sua duas senhoras. Me impressionou pessoa que... Bem, como diz o velho
avó sempre dizia, que tinha muitas muito quando a visitante disse ditado: “este mundo é pequeno
amigas judias das “dezoitos” e que a minha avó, que aquela era a mesmo” e eu costumo acrescentar
uma delas veio visitá-la certa vez. última vez que se veriam, pois na que D-us é que é grande.
idade das duas
Uma última obrigação me restava:
Batalha Naval, 1932, Téo Braga não teriam outra
oportunidade levar esta foto à tia Esther. E assim
de encontro. E fiz. Foi grande a emoção, mais tia
assim foi, minha Esther suportou bem e inclusive
avó faleceu a brincou comigo dizendo que eu
cerca de dez deveria ser um detetive e não um
anos atrás”. jornalista.

A surpresa maior Obrigado à tia Esther e a toda a sua


Frank reservou família.
para o final,
9
RESGATE

O SEGREDO DA BICICLETA DE
BARTALI
Por Juan Carlos Alvarez

10 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012


G
ino Bartali morreu no ano
2000, sem que ninguém sou-
besse sua verdadeira história,
a do grande corredor que dedicou
dois anos de sua existência a salvar a
vida de oitocentos judeus. Para isso
se valeu de sua bicicleta onde escon-
dia a documentação necessária para
tirá-los da Itália. E assim, sob a apa-
rência de simples treinos, levava os
papéis de um lado ao outro.
Ninguém suspeitava naquele
momento de um dos grandes
mitos do esporte italiano, do ho-
mem que havia conseguido dar
a Mussolini o Tour da França em
1938.
Bartali escondeu um segredo duran-
te quase sessenta anos. No ano de
2000 foi enterrado com ele e só uma
descoberta casual permitiu conhe-
cer a dimensão humana que um dos
grandes ciclistas do século 20 alcan-
çou durante a 2ª Guerra Mundial.
Nascido na Toscana, no seio de uma
família humilde que se dedicava a
trabalhar no campo, ele começou a

A surpreendente história secreta


do ciclista italiano, tido por muitos, como o corredor
de Mussolini

correr graças a seu pai que lhe en- Porém, antes que o “Campeoníssi- Em 1937 uma queda frustrou sua
controu trabalho numa oficina de mo” e ele protagonizassem alguns missão. Havia começado a brilhar
conserto de bicicletas. Seu dono, dos maiores duelos da História do na montanha, porém na descida do
contente com o trabalho de Gino, ciclismo, Bartali era considerado Col de Laffrey caiu de uma ponte.
lhe presenteou com uma e o incen- como o ciclista do regime de Musso- Seus companheiros assustados com
tivou a treinar. A partir de então as lini. Il duce, em seu delírio, sonhava o acidente, olharam pelo precipício
estradas escarpadas da região foram ver um italiano derrotando os fran- e o encontraram no fundo, no ria-
seu espaço natural, o lugar onde ceses no Tour e todos os olhares se cho.
amadureceram as pernas que rivali- voltaram para Bartali, que em 1936 Em 1938 realizou o sonho de Mus-
zariam com as de Coppi no duelo já havia vencido o Giro e era uma solini com uma vantagem sobre o
que dividiu a Itália anos depois. celebridade em todo o país. segundo classificado, com mais
11
de 20 minutos. Quando a estra-
da se empinava, quando o calor e o
pó secavam a garganta, Bartali não
encontrava rival. Porém a 2ª Guerra
Mundial o deixou sem os anos nos
quais poderia ter logrado ranking es-
petacular de vitórias, quando Coppi
ainda era um jovem meritório que
corria ao seu lado.
O que ninguém imaginava é que
naqueles anos obscuros Bartali,
um dos símbolos do Partido Na-
cional Fascista, era na realidade
um dos personagens chaves de
uma organização dedicada a sal-
var a vida dos judeus italianos,
que os alemães queriam enviar aos
fornos crematórios. Gino Bartali
seguia treinando e realizava longas
sessões de treinamento pelas estradas
da Toscana ou Úmbria. Ninguém
podia supor que debaixo do selim
de sua bicicleta transportava docu-
mentos e passaportes destinados aos
judeus que se escondiam em alguns
dos mosteiros italianos.

Bartali não despertava muitas sus-


peitas a pesar de que a guerra impe-
dia qualquer competição e resultava
estranho ver alguém treinando na-
quele ambiente. Corria com roupa
na qual se podia ler seu nome o que
lhe permitia percorrer quilômetros
recebendo saudações efusivas dos
Bartali, no final do Tour da França de 1948 soldados italianos, para quem era
um verdadeiro ídolo. E quando uma
Il Duce, em seu delírio, sonhava ver patrulha alemã o detinha a resposta
um italiano derrotando os franceses era simples: “ sigo trabalhando para
as próximas corridas”. E o deixavam
no Tour e todos os olhares se voltaram seguir. Os exércitos haviam se acos-
tumado a vê-lo passar de um lado
para Bartali, que em 1936 já havia a outro em sua bicicleta, subindo
e descendo montanhas, mudando
vencido o Giro e era uma celebridade constantemente de rota. Era o cor-
em todo o país reio perfeito.
Nos conventos e mosteiros a rede
organizada por Giorgio Nissim com
12 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
Durante décadas talhava a forma como funcionou a ciclista percorrer uma estrada ita-
rede clandestina dedicada a conse- liana. A Itália descobriu um de seus
pesou sobre guir documentos que salvassem a grandes heróis. Os Nissim também
vida dos judeus. contaram o dado mais importante
ele o rótulo Aquele achado explicava minucio- que escondia o diário de seu pai:
samente as viagens que Bartali fazia, 800 judeus evitaram a viagem para
de ter sido os quilômetros que percorria, os algum campo de concentração ale-
papéis que escondia sua bicicleta e mão, graças às pernas de Gino Bar-
o corredor dos principalmente, a abnegação de sua tali
dedicação à causa. Os Nissim conta- Fonte:
fascistas ram o que seu pai escreveu e então http://www.laopinioncoruna.es/de-
começou a fazer sentido tanto treino portes
numa época que era difícil ver um
o apoio de vários arcebispos se de-
dicava a elaborar os passaportes des- Placa
tinados a salvar a vida de centenas homenageando
de judeus e que Bartali transportava as principais
arriscando a vida naquelas viagens vitórias de
pelas estradas, que conhecia como Bartali
ninguém, porém que podiam apre-
sentar-lhe uma surpresa desagra-
dável a qualquer momento. Entre
1943 e 1944 o velocista toscano, o
beato Bartali, se dedicou a essa mis-
são sem que ninguém o delatasse.
Finda a guerra e aqueles treinamen-
tos quilométricos ainda lhe valeram
em sua carreira desportiva, porque
com 32 anos pode ganhar em 1946
o Giro d´Ìtalia e em 1948, com
34, se inscreveu no Tour da Fran-
ça numa demonstração colossal na
montanha, onde se impôs em sete
etapas daquela edição.
UM JUSTO EM BUSCA DE TESTEMUNHAS
Bartali se retirou a sua terra, a
Florença e durante cinqüenta
O Museu Yad Vashem de Jerusalém , há tempo vem estudando as
anos não disse nada de seu tra-
provas com vistas à concessão à Bartali da distinção póstuma de
balho para ajudar aos judeus
“Justo entre as Nações“, concedido àqueles que colocaram suas vidas
que habitavam a Itália. Durante
em perigo para salvar judeus. A reportagem de Amazônia Judaica
décadas pesou sobre ele o rótulo de
em consulta ao museu, foi informada, de que como os sobreviventes
ter sido o corredor dos fascistas. Não
que receberam a ajuda não sabiam qual a sua origem, ou seja quem
se importou. Faleceu no ano 2000.
os havia ajudado, torna-se muito difícil, encontrar testemunhos de
O mundo só descobriu sua magni-
sobreviventes. Até o momento apenas uma testemunha se pronun-
tude em 2003 quando os filhos de
ciou e se faz necessário, no mínimo duas.
Giorgio Nissim encontraram um
velho diário de seu pai no qual de-
13
CAPA

EM BUSCA DA
TERRA DA
PROMISSÃO
Por: Tânia Cheinfeld Sananes

Como parte dos meus estudos para o mestrado, no


curso de "Imigração e Integração Social", no Instituto
Acadêmico Rupin, participei do Seminário "Problemas
na vida dos Imigrantes – Pesquisa e Antropologia",
ministrado pela Dra. Malka Shabtay.

14 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012


O
meu interesse pela comu- família, da vida em Belém e Manaus Daniel e Sharon. Depois, estive no
nidade de descendentes e da decisão de imigrar para Israel e monte de Guiló nas redondesas de
dos judeus marroquinos na como foi esse processo. Jerusalém onde encontrei-me com
Amazônia, surgiu quando li a maté- A casa da família Salgado é um foco Marcos e Angela Laredo, que imi-
ria da Dra. Malka Shabtay sobre a de atração para os membros da co- graram de Manaus, na época recém
sua viagem a Amazônia, no verão de munidade que chegam a Israel como chegados.
2010. Por outro lado, a família do visitantes ou novos imigrantes, e Os encontros foram muito agradá-
meu esposo, é de origem marroqui- portanto, muito me ajudaram no veis, os entrevistados bem extrover-
na e parte dela, como seu avô, esti- tocante a obter a informação sobre tidos, sinceros, e com boa vontade
veram em uma época específica na os demais membros da comunida- de contar suas histórias pessoais que
Amazônia brasileira e fizeram parte de que estariam dispostos a serem fazem parte do contexto geral da co-
da comunidade judaica de então, intrevistados. Assim, em Modiin munidade como um todo.
naquela região. Poucos são os deta- também estive na casa da família Be- Dos jovens ouvi principalmente so-
lhes que se sabe na família sobre esse merguy de Belém: Bonina e os filhos bre sionismo, fortalecimento da
período.
Surge, portanto, uma oportunidade
especial para aprender mais sobre o Os encontros foram muito agradáveis,
assunto. os entrevistados bem extrovertidos,
SOBRE OS ENTREVISTADOS sinceros, e com boa vontade de
A penetração no campo de pesquisa,
só foi possível graças a David e Si- contar suas histórias pessoais que
mone Salgado, que abriram a porta
de sua casa na cidade de Modiin e fazem parte do contexto geral da
me contaram cada um a sua vez, so-
bre a história da comunidade e da
comunidade como um todo

Família Salgado (da direita para a esquerda,: Ishai, Simone e David), recebe a família Benitah de
Belém em sua residência, em Modiin
15
CAPA

Da direita para a esquerda: Jacob e Helena Benzecry, Dra. Malka Shabtay, Tânia Cheinfeld Sananes,
Noemy Benitah, Débora Foinquinos, Simone, David e Sime Salgado.
religião, a dificuldade em encon- Etiópia. Não existe uma referência existência, mesmo dentro de seu
trar esposa(o) dentre os membros a grupos pequenos e especiais, que próprio país.
da comunidade, o serviço militar e estão à margem da sociedade cen-
a vontade de fazer algo em prol do tral, porém nos últimos anos, vem Essa comunidade, se fez conhecida,
país. se dispertando e pedem para renovar graças as mudanças que vem aconte-
Dos mais adultos, aprendi sobre a a ligação com o povo judeu e com cendo entre seus membros nos últi-
história familiar, como parte da his- Israel. mos anos, e principalmente devido
tória da comunidade, o significado Uma dessas comunidades, é a co- as atividades extensivas e abrangen-
da vida na comunidade judaica na munidade de judeus marroquinos tes de David Salgado que produziu
Amazônia, as mudanças ocorridas vindos da Amazônia brasileira, que um filme sobre a comunidade e jun-
durante os anos, quanto a conversão viviam no "Gan Éden" (Paraíso) na tamente com seu irmão Elias Salga-
e Aliah. Amazônia, e poucos sabiam de sua do, operam um mix de atividades,

INTRODUÇÃO
Os pesquisadores que se ocupam
Uma dessas comunidades, é a comunidade
do debate sobre a formação e per- de judeus marroquinos vindos da
sonalidade da sociedade israelense,
com ênfase na imigração, referem-se Amazônia brasileira, que viviam no "Gan
tão e somente a grupos centrais que
vem influenciando realmente esta
Éden" (Paraíso) na Amazônia, e poucos
formação nos últimos anos, gru- sabiam de sua existência, mesmo dentro
pos como os que vieram da antiga
União Soviética e os imigrantes da de seu próprio país
16 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
projetos e veículos de comunicação, ram também a chamar seus fa-
que une as comunidades na Amazô- miliares e amigos. Assim teve iní-
nia com a comunidade em Israel e cio uma nova diáspora, a diáspora
permite que outras instituições, que para a Eretz Amazônia, a nova Terra
não pertencem a comunidade, a co- da Promissão (Benchimol – Eretz
nheçam e interajam com ela. Amazônia, 2008).
Outras instituições que ajudam a di- Eles chegavam como imigrantes, se
vulgar essas comunidades pequenas misturaram e se adaptaram com a
ao público em geral em Israel, são população local, que por sua vez já
Ong's como Shavei Israel, fundada era composta de imigrantes de ou-
por Michael Freund e acompanha- tras etnias que vieram também para
da pelo Rabino Eliahu Birnbaum,
que busca essas comunidades pelo Bonina,
mundo afora, aprende a conhecê-las Sharon
e trabalha para que se tornem parte e Daniel
do judaísmo e sejam reconhecidas Bemerguy
pelo Estado de Israel.

FUNDAMENTO:
ERETZ AMAZÔNIA – O JARDIM
DO PARAÍSO – A NOVA TERRA
DA PROMISSÃO
O povo judeu, desde seu início,
esta ocupado na busca pela "Terra
Prometida". De acordo com o livro
de Gênesis, essa é a Terra de Israel.
Porém, parece, que nem sempre foi
assim. Os judeus que sofreram com
a Inquisição na Espanha, e depois
em Portugal, foram expulsos ou
abandonaram a força e grande parte a região, principalmente em busca
deles imigrou para o Marrocos, na de um melhor sustento e de uma
esperança de que lá encontrariam melhor maneira de se viver.
sossego e tranquilidade. No início,
como encontraram o que buscavam, INDÍCIOS: "É MUITO DIFÍCIL
acreditaram ter encontrado a "Terra SER, VIVER E FICAR JUDEU EM
Prometida". No entanto, durante o QUALQUER PARTE DO MUNDO
período que ali passaram, sofreram E, SOBRETUDO, NA
também com a miséria, pobreza, AMAZÔNIA"
doenças, epidemias, perseguições e a (BENCHIMOL, 2008).
difícil vida nos "melah's" (guetos do Samuel Benchimol afirma que é di-
Marrocos). No início do século XIX, fícil ser judeu – no mundo em que
começaram a chegar os comentários todo mundo tenta lhe convencer de
sobre a terra "paraíso", que seria en- mudar de religião; difícil também
tão a Eretz Amazônia. Os ligeiros e viver judeu – comer kasher, cum-
mais corajosos judeus marroqui- prir as Mitzvot, jejuns, - quando se
nos resolveram tentar sua sorte, vive num ambiente que nem sem-
e assim vinham e depois passa- pre favorece a isso; e ficar judeu
17
CAPA

– guardar o estilo de vida judaico


e evitar a assimilação em sua volta,
onde a maioria dos habitantes ao seu REUBEM TOBELEM Z´L,
SÍMBOLO DO OLÊ
redor não são judeus.
E tudo isso é mais difícil ainda e so-
bretudo na Amazônia.
Das histórias que pude escutar dos
entrevistados deste trabalho, con-
cluo que durante os anos, estes são
AMAZÔNICO
os desafios que acompanharam os
membros da comunidade na espe-
rança de preservar a chama da ge-
ração dos pioneiros, enfrentando
sempre um diálogo em torno da per-
gunta: como continuar sendo judeu
na floresta Amazônica?
A preocupação dos diferentes agen-
tes da comunidade e das instituições
em Israel, sobre o futuro dos jovens,
o afastamento do judaísmo e a assi-
milação, produziu a necessidade de
construir e desenvolver programas
especiais com o objetivo de revelar
e mostrar aos jovens o Estado de Is-
rael, o sionismo e o judaismo. Existe
uma variedade de programas, e cada
um tem a sua importância e sua sin-
gularidade. A maioria dos entrevis-
tados, escolheram participar do pro-
grama escolar Iemin Orde, onde se
estuda os três anos do segundo grau,
com toda a programação e currícu-
lo escolar exigido pelo Ministério
da Educação do Brasil, é o que po-
demos denominar de intercâmbio,
que pode durar até três anos, caso o Nasceu em 23 de janeiro de 1922, em Belém do Pará, Brasil.
aluno resolva participar desde o pri- Filho de Isaac e Mery Tobelem, de origem marroquina e co- fundadores
meiro até o terceiro ano do segun- da comunidade judaica no Pará
do grau. É uma escola com estilo de Com 29 anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Depois de seu casamento
vida religiosa e ainda possibilita que em 1955, viajou com sua esposa, Meryam Benguigui, para Iquitos, Perú,
os alunos participem, aqueles que aonde moraram durante 3 anos.
necessitam, do programa de conver- Nos anos subsequentes, viveu no Rio de Janeiro, trabalhando e sempre
são do Rabinato de Israel. ativo na sinagoga Shel Guemilut Hassadim e na comunidade judaica,
Existem programas não religiosos exercendo cargo de presidente da Bnei Brit.
como Naalê e Ayanot (que não fun- Viveu sua vida como judeu sionista e em 1980 realizou seu sonho
ciona mais), e programas de curta fazendo Aliá para Eretz Israel.
temporada como Massa e Taglit. Descansou em paz dia 25/05/2011.
O Beit Chabad também utiliza-se de
18 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
suas atividades para ensinar aos seus vida mais religiosa, até ortodoxa, e
alunos que \o lugar deles é em Israel, acabam perdendo a singular e pecu-
de modo bem firme e claro. liar vida na comunidade amazônica.
Portanto, os judeus na Amazônia De acordo com David Salgado, de-
estão expostos aos diferentes pro- vido a exigência estrita para a con-
gramas, que ligam os jovens a Israel, versão, e o receio de ser considerado
através da Agência Judaica, e viram não judeu, as pessoas chegam em
nesses programas, uma oportuni- Israel, para os diferentes programas
dade importante de construir uma de conversão, começam a cumprir
identidade judaica sionista para as mitzvot, se fortalecem na religião,
futuras gerações na Terra de Israel. e tornan-se bem ortodoxos. Cerca
de 50% dos que vêm fazer a con-
UM PROBLEMA CRUCIAL versão em Israel, ficam no país e
É possível afirmar que o problema a outra metade resolve retornar
da conversão, é um ponto primor- para a comunidade ou para os
dial para a decisão de fazer a imigra- centros maiores São Paulo e Rio
ção para Israel. Nos últimos anos, de Janeiro na busca de preservar
por motivos políticos e conflitos aquilo que aprenderam, o judaísmo
internos, várias intituições ortodo- religioso e praticante.
xas penetram na comunidade, as- "É um bagunça enorme toda essa
sim como em outras comunidades questão de conversão..." essa afir-
judaicas do mundo todo, é afastam mação de Gabriel reflete bem o que
os membros que passaram por uma sentem os membros da comunidade
conversão reformista, ou que exista sobre a conversão.
dúvida quanto ao seu judaísmo. Esta Naomi: No início foi muito difícil
situação faz ferver o clima na comu- para eu aceitar que eu teria que fa-
nidade, entre as próprias famílias, zer uma conversão... muito difícil
que as vezes acabam se dividindo. mesmo... que eu não conhecia outra

Concluo que durante os anos, estes


são os desafios que acompanharam os
membros da comunidade na esperança
de preservar a chama da geração dos
pioneiros
A geração jovem que está em fase de coisa na vida, nasci dentro do juda-
amadurecimento, e que está tam- ísmo, e hoje depois da minha con-
bém na idade em que se forma o ca- versão, eu vivo como eu vivia antes,
ráter e a identidade relevantes, eles não mudou em nada a minha vida,
são os mais influenciados por esse continuo praticando tudo como
conflito de identidade. Participam sempre fiz. Eu penso que este foi
de programas de estudos diversos, o principal motivo da minha vinda
vivem a necessidade de provar que para Israel, vim para fazer a minha
fazem parte da comunidade, e esco- conversão.
lhem fortalecer a religião e ter uma Hoje em dia pela Lei do Retorno,
19
CAPA

O Jornal zônia, numa possibilidade real.


Folha São os efeitos da globalização, que
Israelita de apresentaram a eles o judaísmo e o
Manaus, traz sionismo, e são eles que possibili-
matéria da taram manter o contato entre a co-
partida do munidade em Israel e a comunidade
primeiro olê na Amazônia. Os pais estão menos
amazônico, preocupados, permitem visitas regu-
Sr. Abraham lares, tanto dos que estão em Israel
Saragá, z”l. como eles mesmo que optaram por
ficar no Brasil virem a Israel de vez
em quando. Isso portanto torna a
comunidade diriámos, trans-nacio-
nal, que tem intercâmbio ao mesmo
tempo com os dois lugares.
Após a Aliah os novos imigrandes en-
frentam defasios diferentes: exército,
conversão, nova língua, saudade da
família que ficou na Amazônia, vida
nos assentamentos. Apesar disso,
eles contam com orgulho e alegria,
detalhes de sua vida e da mudança
que escolheram fazer, e chegar ao lu-
gar ao qual eles se sentem judeus e
pertinentes.
Em Israel, não existe uma estrutura
comunitária que serve a comunida-
de, mas sem dúvida a casa do David
anos, estudarão, constituirão famí- e da Simone, serve de centro de in-
lias, e finalmente retornarão para formação e ajuda, e é uma estação
pessoas que fizeram conversão re- Israel novamente. para todos os que chegam. Ultima-
formista recebem todos os direitos
Certamente, que os efeitos da mente também a casa de Bonina tem
de um novo imigrante.
globalização e a êxtase naciona- servido para este ponto de encontro
Os jovens chegam a Israel, provam e
lista, transformam o fenômeno e juntas Simone e Bonina realizam
se deleitam. Para parte deles esta é a
do despertar dos jovens de des- eventos como Shabatot e Chaguim
"Nova Terra da Promissão", nela po-
cendência marroquina da Ama- na cidade de Modiin para inúmeros
derão viver entre judeus como eles
mesmos, sem a necessidade de con-
fronto com o meio ambiente local e
elementos rabínicos que contestam
A geração jovem que está em fase de
sobre sua identidade e sua partici- amadurecimento, e que está também
pação na comunidade. Outros que
resolvem voltar para suas comuni- na idade em que se forma o caráter e
dades na Amazônia, levam consigo
a boa nova, fortalecem o relaciona- a identidade relevantes, ela é a mais
mento da comunidade com Israel,
e sempre voltam para visitar. Parte
influenciada
também, viverão durante alguns
20 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
jovens da comunidade inclusive al- Público presente
guns que estão de passagem ou de ao evento
férias pelo país. comemorativo
Simone sente a necessidade de cons- aos 200 Anos
truir uma comunidade que ajude e dos judeus
apoie: "nós dizemos: venham e fa- na Amazônia,
çamos uma grande comunidade de realizado em
brasileiros amazônidas em Modiin, Jerusalém, em
é um ótimo lugar". 2010
Naomy fala da importância de uma
comunidade unida e diz: "eu gosto
disso, de sermos uma grande famí- varemos a continuidade e a existên-
lia". cia do nosso povo no mundo, e não
precisaremos nos amendrontar com
CONCLUSÃO a situação demográfica dos judeus
Samuel Benchimol, dedica o seu li- tanto em Israel como na Diáspora.
vro "Eretz Amazônia" aos seus ne- É bem provável que seja necessário,
tos, e expressa a esperança de que: a uma vez mais, redefinir a lei do Re-
memória, a identidade e a herança torno, para poscimento, usufruam
judaicas continuem na Amazônia no do seu direito de imigrar para Israel.
terceiro milênio. O povo judeu desde o seu flores-
Para que isso aconteça, é neces- cer, está ocupado na busca pela
sário que ocorram algumas mu- "Terra Prometida". Não há dúvi-
danças nas atitudes das institui- da, que para a maioria de nós,
ções e organizações rabínicas e ela é Israel. Para outros, ela é
ortodoxas e também na posição talvez, uma outra terra...
política do Estado de Israel com
respeito as "outras" comunida- AGRADECIMENTOS
des judaicas que fazem parte Gostaria de agradecer de verdade a
integral da Diáspora. Temos que Dra. Malka Shabtay, que me guiou
permitir que dirijam suas próprias durante esta viagem de conhecimen-
vidas, e devemos dar a eles o reco- to dos originais descendentes judeus
nhecimento que tanto exigem e fa- na Amazônia. Um agradecimento
zem por merecer. especial também a David e Simone
O Estado de Israel precisa tornar- Salgado, que me receberam de bra-
-se o centro do judaismo mundial, e ços abertos, e abriram para mim sua
possibilitar a toda comunidade, seja casa e seus corações, e me coloca-
qual for, preservar sua natureza úni- ram em contato com outras pessoas
ca, por respeito a geração passada, maravilhosas membros da comuni-
pelas dificuldades que tiveram que dade. Obrigado à Bonina, Daniel,
passar, e apesar de tudo, preservaram Gabriel, Bat-El, Marcos e Ângela,
seu judaismo. Estar sempre em con- Naomy e Meital.
tato com elas e principalmente com Eu desejo a cada um de nós (e eu
a geração jovem. me incluo também), que tenhamos
É preciso tomar atitudes no sentido sucesso em encontrar o "Gan Éden"
de receber de braços abertos e com (Jardim do Éden – Paraíso) pessoal e
abraços todo aquele que quer fazer viver nele uma vida tranquila e sos-
parte do povo judeu. Assim preser- segada.
21
LITERATURA

Regina Igel, Universidade de Maryland, Estados Unidos Nosso saudoso chaver

UMA OBRA
Marcos Serruya z`l, um dos
raros expoentes da litera-
tura judaico amazônica,

REVISITADA
após pouco mais de um ano
de sua morte, tem a obra
resenhada pela brilhante
Professora PhD em Literatu-
ra Portuguesa, da Universi-
dade de Maryland, Estados
Unidos, Regina Igel
a pesquisar o mistério. Original do
estado do Pará, o autor teve ajuda
de jornalista-investigador para fazer
um levantamento completo da vida
e morte de quem estava sob a lou-
sa. Descobriram que se tratava de
Hana, que viveu no Brasil sob a al-
cunha Ana Júlia, também apelidada
“Cabelos de fogo”, cognome repe-
tido como título do romance semi-
biográfico.
O tópico sobre judias escravizadas
para o comércio carnal fora ante-

C
riormente divulgado em publica-
om excelente prefácio de Iva- vizadas como prostitutas. ções como O ciclo das águas (por
íze Rodrigues, este pequeno Esta é uma história real, pesquisa- Moacyr Scliar), Baile de máscaras
livro dá continuidade a ou- da na região norte do país, onde de (Beatriz Kushnir) e Jovens polacas:
tras obras literárias brasileiras sobre fato viveu uma moça judia, obri- da miséria da Europa à prostituição
o mesmo tema: o comércio e explo- gada a vender sua beleza natural e no Brasil (Esther Largman), en-
ração de moças européias judias no sua juventude (recém iniciada na tre outras obras, artigos e teses. De
começo do século 20. Eram jovens puberdade) a homens sexualmente acordo com o registro bibliográfico,
ingênuas, filhas de famílias arrai- famintos e curiosos em conhecer as os romances acima foram consulta-
gadas em vilarejos habitados por “francesas” e as “polacas” – que, na dos para a reconstituição de parte da
judeus pobres, apegados à religião maior parte, assim ficaram conheci- narrativa sobre “Cabelos de fogo”.
e alheios às maldades do mundo, das as meninas de família que foram Nesta, percebe-se que a experiência
mesmo a de seus correligionários. extraídas, por meio de fraudes, do desta jovem se assemelhou às viven-
Enganadas por rufiões que falavam seu meio-ambiente judaico religioso ciadas por outras milhares de moças
seu idioma e passavam por homens e extremamente ético. vitimadas pela rede internacional de
de bem, elas eram atraídas por pro- A história foi engendrada a partir da traficantes de escravas brancas. No
messas de casamento e uma vida descoberta de um túmulo com uma entanto, a história de sua vida se dis-
melhor longe de sua aldeia natal. data gravada: “1939”. O anonima- tingue das demais pelo fato de ela ter
Enfim eram transportadas aos ma- to da campa, localizada junto a um sido uma menina-moça de marcante
gotes a grandes centros urbanos na dos muros de um cemitério israelita beleza, emoldurada por cabelos ver-
América do Sul, onde ficavam escra- no norte do país, incitou o escritor melhos, forçada a “prestar serviços”
22 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
na floresta amazônica brasileira. História narrada em primeira pes-
Enganada uma vez por um casamen- soa, relata as experiências do autor
to fraudulento na sua terra natal, a em diversas fases de seus estudos da
Polônia, foi enganada pela segunda religião judaica. Estes o levaram a co-
vez por imigrante português, em nhecer um setor dos mais instigantes
território brasileiro. Por um longo e enigmáticos dos escritos religiosos,
tempo, foi recíproco o amor entre a Cabala, ao qual poucos têm acesso,
eles, mas nem por isto ele cumpriu mesmo entre os mais devotados ao
suas promessas de retirá-la da pros- judaísmo. Possuidor de um dom es-
tituição e de casar-se com ela, am- pecial, o de conseguir obter informa-
bas proclamadas no auge da paixão. ções sobre vidas passadas de quem o
Além da grande mágoa cravada em consultasse, o narrador procurou um
Hana pelo abandono do homem, o cabalista (especialista em Cabala), em
legado deixado pelo português foi Israel. O encontro entre eles resultou
uma filhinha, que a moça tentou num processo dirigido pelo visitante
criar sozinha, até que se viu obrigada brasileiro que, ao descobrir a vida pregressa da esposa do sábio da Caba-
a fazer uma doação da criança, um la, a curou de uma obsessão que tinha raízes em sua encarnação anterior.
fato que passou para o lendário lo- Apesar de o título referir-se ao cabalista de Israel, a narrativa, em parte
cal, dadas suas controvérsias. ficcional e em parte autobiográfica, tem como fulcro as atividades extra-
Os descendentes da filha colabora- -sensoriais do narrador. Revelando a história do seu passado, ele infor-
ram na elaboração de parte do ro- ma que foi durante sua pré-adolescência, quando teve amizade com um
mance. Os lados conflituosos sobre a menino de ascendência africana que tinha poderes paranormais, que se
entrega da criança para adoção, que percebeu possuidor dos mesmos atributos esotéricos do seu coleguinha
circulava por Amapá e Pará em duas brasileiro. Desde então, cultivou-os por todos os anos subseqüentes, o
versões, também receberam atenção que o levou a aproximar-se do cabalista de Israel, principalmente para
da investigação (publicada no livro, aprofundar-se no estudo da Cabala.
com fotos e referências). O sábio israelense, apesar de todo o seu conhecimento, sabedoria e pro-
A narrativa envolve ficção de índo- fundidade religiosa, não tinha o alcance extraterrestre que o narrador
le realista entrelaçada à realidade da possuía, judeu descendente de marroquinos, que vivia no Pará. Enquan-
miséria moral das moças aliciadas to o cabalista de Israel abriu caminhos para o aperfeiçoamento religioso
do brasileiro, este salvou o casamento daquele, ao livrar sua esposa de
pela organização Zvi Migdal. Esta
uma dívida moral que ela tinha feito em vida passada.
foi uma poderosa entidade que ge-
O teor do livro é espiritualista, equilibrado em conceitos ritualistas e
renciava bordéis, suas madames e
em fatos tanto ficcionais quanto históricos. A trajetória espiritual do
proxenetas, e prostituição de moças
autor é revivida pelas informações que ele traz às páginas da narrativa,
judias, entre a Europa e as Améri-
revelando encontros pessoais que, na aparência, eram fortuitos. O tem-
cas, tendo seus portos receptivos
po mostrará que cruzamentos casuais com certas pessoas vão fazer parte
principalmente em Buenos Aires, de uma situação que o narrador interpreta como parte de um programa
Santos, Rio de Janeiro e Nova York. que terá sido traçado por intervenção divina.
Este romance não só expõe os infor- A narrativa é singela, plena de relatos sobre acontecimentos inexplicá-
túnios de muitas gerações de jovens veis pelas leis naturais, como o quase afogamento do autor quando em
mulheres no primeiro quartel do sé- trabalho voluntário na época em que era recém formado em Medicina.
culo 20, como também sutilmente Para a perspectiva do narrador, naquela ocasião ele escapou da morte
reclama compreensão e respeito por por um milagre. Este foi um dos episódios que o levaram cada vez mais
aquelas moças ingênuas e humildes, a acreditar no poder divino, a aprofundar-se na religião judaica, a cul-
que foram jogadas na sarjeta da de- tivar seus dons naturais de captar vidas anteriores a esta e a dedicar-se
sumanidade. ao bem.
Cabelos de fogo, por Marcos Serruya.
Edição do autor. Pará: Belém, 2010. O Cabalista, por Marcos Serruya. Pará: Belém, 2008.
132 páginas. Edição do autor. 96 páginas.
23
CRÔNICA

EU TENHO UMA
ESTRELA *
Elias Salgado

T
emo que desta feita, por mais sentença. À época, eu não sabia mui- de”seu reino”: sua família, sua loja, e
que eu tente, não conseguirei to bem como lidar com ela-se deve- de nossa Bôca do Acre. Não se tor-
fazer com que vocês acredi- ria acreditar e levá-lo à sério, mas nou, em minha imaginação, um rei
tem na história que vou lhes contar. muitos anos depois, eu novamente ou super herói como os dos filmes,
Acontece que ela é verídica – e eu a ouviria saindo de sua boca, e hoje, ao contrário, muitas vezes eu o via
e centenas, quiçá milhares de pesso- não restou-me apenas a lembrança falhar. E ao ser tão duro e inflexível
as somos testemunhas. O problema auditiva da sua afirmação e a visual, em suas atitudes, punha abaixo, para
maior será, convencer os incrédulos dele batendo no peito e mostrando a mim ao menos, toda sua áurea real.
de ir até Bôca do Acre para atestá-la. sua Estrela dc David de ouro. Hoje Demorou bastante até que eu en-
Acontece que o velho ditado: “ filho eu tenho a perfeita compreensão do tendesse o que realmente significava
de peixe,...” me caiu muito bem. que aquilo, que para muitos parecia tudo aquilo, aliás só agora, que ele já
Portanto vou insistir e contá-la. pura arrogância e para outros uma não está mais aqui é que compreendi
“Mas, David, o barranco vem leviana encenação, significava para , o que talvez nem ele tenha percebi-
abaixo e vai levar tudo com ele! meu pai, aliás o meu David Hame- do bem: papai não se achava um rei,
Você quer esperar as próximas lech! ele falava de fé, de força protetora e
chuvas e pagar pra ver a loja ser Sim, porque eu tive um pai – rei de apesar de extremamente turrão, ele
levada pelas águas”? carne e osso e até hoje ouço aquela tinha suas certezas baseadas em sua
“Não! Eu não temo as chuvas, ali- voz bradando “Eu tenho uma estre- fé, representada, simbolicamente,
ás eu não temo nada, eu tenho uma la”. por aquela bela estrela.
estrela forte” E ao pronunciar sua Não era um rei como os demais: Mas voltemos ao ponto inicial, à en-
frase predileta ele batia no peito e não possuía uma coroa, um cetro chente, ao barranco por cair e à loja,
mostrava seu Maguen David cheio ou vestes reais, ele apenas, muitas o Bazar das Novidades e seu temido
de orgulho. vezes, agia como se fora o monarca destino.
Não seria aquela a primeira nem a
última vez que papai afirmaria aqui-
lo, ao contrário, inúmeras vezes eu
ainda o ouviria pronunciar aquela

24
A conversa era entre papai e “Mas David é uma fortuna...” E o “meu rei” lá de onde ele está,
“Dodó”, como chamamos, cari- “Pois é o que eu acho, também” continua a sorrir, batendo no peito
nhosamente a Vivaldo, sócio de Porém “Dodô” resolveu pelo sim: e bradando; “eu tenho uma estrela”.
papai. Eles estavam novamente “tudo bem, não vou colocar nosso
discutindo sobre se deveriam ou patrimônio em risco por sua teimo- * O Maguen David que outrora per-
não, fazer um seguro para o “Ba- sia”. E assim o seguro foi feito. tenceu a meu querido pai, o “meu
zar” - aliás, não havia o que discutir, No ano seguinte, quando chegou rei”, David Elmaleh, bar Sime z”l, de
pois, apesar das inúmeras e inúteis novamente a época das chuvas, abençoada memória, agora ornamen-
tentativas de “Dodó” a resposta era uma enchente que mais parecia ta o peito de outro David, também ele
sempre a mesma: um dilúvio, caiu sobre Bôca do “um rei” – David bar Miriam, meu
“Não e pronto! Eu não vou gastar Acre e suas redondezas. amado irmão, cuja estrela, símbolo
dinheiro à toa, a loja não vai cair, te- E todas as casas da Av. Getúlio Var- do orgulho de pertencer a ramo tão
nho certeza!” gas que ficavam do lado da beira do glorioso do povo judeu – os judeus da
Mas daquela feita, “Dodó” resolveu rio vieram a baixo e só o Bazar das Amazônia- quero homenagear pela
insistir um pouco mais, e papai re- Novidades ficou intacto... fundação, há 10 anos do Amazônia
solveu acenar com um meio termo: Acreditem ou não é a mais pura das Judaica, monumento vivo do resgate,
“ Tudo bem. já que você insiste tan- verdades. Ele está lá até hoje: o so- preservação e registro da nossa Histó-
to, vamos fazer, mas com uma con- brado de dois andares, com o de- ria.
dição: se a loja não cair você paga o pósito ao fundo e atrás dele o rio a
seguro do seu bolso, certo?” correr...
25
NOSSOS SÁBIOS

RABEINU HACHIDA HAKADOSH: trágica expulsão no ano de 1492.


De lá, a família se dirigiu a cidade

O SANTO REBI
de Fés no Marrocos. Logo de
alguns anos, a família, liderada pelo
patriarca, o santo Rebi Abraham

CHAIM YOSSEF
Azulay se trasladou a Eretz Israel,
estabelecendo-se na cidade de
Hebron.

DAVID AZULAY Z’L


Posteriormente a família se instala
em Jerusalém, e segundo consta,
Rebi Chaim nasceu prematuro a
tal ponto que estava inerte e parecia
Yehuda Benguigui* sem vida. A parteira e as demais
pessoas presentes choraram com a
mãe da criança já que davam mais
que algumas horas de vida. Não
obstante, sua avó, mãe de Rebi
Rephael zl, não se desesperou, tomou
o prematuro em seus braços o untou
com azeite de oliva, o massageou
e o agasalhou com mantas de lã,
passou a alimentá-lo com pequenas
porções e o manteve aquecido.
Assim, graças a estes cuidados, o
frágil bebê sobreviveu até chegar a
um peso ótimo e converter-se em
uma criança saudável.
Rebi Chaim escreveu na introdução
de vários de seus trabalhos que todo
o seu conhecimento de Torah foi
obtido em zechut- merecimento a
sua avó que salvou sua vida.
Desde idade muito precoce,
deslumbrou os que o cercavam
com sua mente prodigiosa. Com
a idade de 13 anos, o Chyda já
estava fazendo drashot veshiurim-
palestras, discursos e predicas e
ensinando Torah a comunidade
judaica de Jerusalém. Com a idade

O chacham- sábio Chaim


Yossef David Azulay z’l
nasceu em Jerusalém, numa
sexta-feira a noite, 11 de Sivan
Rebi Rephael Yizchak Zecharia
Azulay z’l, foi um eminente talmid-
chacham- sábio estudioso da Torah,
filho do grande Rebi Abraham
de 16 anos, ele escreveu seu primeiro
livro, onde tratou de 150 diferentes
tópicos e cujo titulo foi “”He’elem
Davar”.
de 5484/1724. Era descendente Azulay z’l, autor da obra “Chessed Durante sua vida o Rebi Chyda
da proeminente família Azulay, LeAbraham”. escreveu um total de 85 livros, sendo
famosa por suas cinco gerações de A família, procedente da Espanha, que vários deles se constituíram
importantes chachamim. Seu pai, permaneceu naquele pais até a em obras de referência entre os
26 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - ABRIL 2012
A fantástica epopéia o Rebi Chyda ao Egito, Itália, uma vez mais em uma missão para
Alemanha, Holanda, Inglaterra e arrecadar fundos para as instituições
da vida de uma das França. educativas e os “Batei Midrash”-
maiores figuras Em sua jornada seguinte, que Casas de Estudos de Eretz Yisrael.
ocorreu quinze anos depois, de Rebi Chaim viajou inicialmente
que iluminou nosso 5533/1773 a 5538/1778, ele listou a Itália e apesar de haver visitado
povo nos últimos cento e sessenta cidades visitadas várias outras cidades italianas para
em 6 países: Egito, Tunísia, Itália, recolher nedavot- doações- como
tempos, Rebi Chyda Holanda, França e Bélgica. Veneza, Torino, Florence, etc era
e o extraordinário e Tanto gentios como judeus pediam em Livorno que passava a maior
suas Brachot- bênçãos para as mais parte de seu tempo quando neste
misterioso episódio diversas ocasiões. Rebi Chaim país. Livorno albergava na época o
de seu enterro em relata que em sua primeira viagem maior parque gráfico de literatura
a Paris, no inverno de 1777-78 o em hebraico. Desta forma, pelo
Jerusalém mais de 150 Sr Abraham Vidal- eminente líder fato de encontrar grande numero
anos depois de seu da comunidade judaica parisiense- de obras de Torah publicadas, fazia
pediu que Rebi Chyda fizesse com que o mesmo desfrutasse sua
falecimento na Itália. uma oração para que a Rainha permanência na cidade.
engravidasse. Quando chegou o Há exatos 206 anos atrás faleceu o
verão, recebeu a notícia que ela grande Rabino Chyda, em Livorno,
estudiosos. Exatamente sessenta estava com quatro meses de gravidez. na Itália, onde foi enterrado.
destas 85 obras foram publicadas Outro episódio mencionado: depois Foi numa sexta-feira a noite- da
durante sua vida e quinze delas de encontrar várias preciosidades mesma forma que seu nascimento-
permaneceram em manuscritos, em livros antigos, ele foi convidado coincidindo com a Perashat Zachor-
algumas inéditas até hoje, sendo pelo Diretor de Academia de no dia 11 de Adar de 5466/1806,
que dez manuscritos originais se Ciências da França, para examinar quando com a idade e oitenta e três
perderam nestes últimos 250 anos. milhares de obras da Biblioteca de anos, Rab Chaim retornou sua pura
Duas de suas obras são consideradas Paris, quando descobriu inúmeros alma ao Criador. Ao divulgar-se a
monumentais: “Birkei Yossef ”e o manuscritos que se constituíam em noticia, uma multidão de judeus
fantástico “Shem Haguedolim”- verdadeiras raridades. Em Torino, enlutados se concentrou nas ruas de
enciclopédica obra sobre todos os Itália, ele encontrou uma das versões Livorno e sua petirah- falecimento-
conhecidos trabalhos sobre Torah mais antigas dos quatro volumes do foi sentido pelos judeus em todo o
até aquela data e seus respectivos “Shulchan Aruch”, todos escritos mundo, que lamentaram a perda
autores. com tinta de ouro. deste eminente Talmid Chacham e
Em 1753, ao buscarem um Em 1774, ele deixou Jerusalém Gadol Hador- figura proeminente
emissário com perfil ético por
todos reconhecido, Rebi Chyda foi
apontado por unanimidade pelo
conselho rabínico de Eretz Yisrael
para atuar como responsável pela
recolecção de nedavot- fundos para
caridade para as comunidades de
Eretz Israel
Em seu livro “Maagal Tov”, ele listou
Funeral do Chyda,
cento e quarenta e oito cidades por
Har Hamenuchot,
ele visitadas no período de cerca de
Jerusalém, 1960.
5 anos, de 5513/1753 ao ano de
5518/1758. Estas viagens levaram
NOSSOS SÁBIOS

daquela geração. - “O Rishon Letzion, Rabino assustaram, o Rabino Laniado e o


No ano de 1941, por indicação das Ytzchak Nissim, Rabino Chefe Rabino Abuchatzeira desmaiaram.
autoridades da cidade, o cemitério Sefaradi de Israel nos anos 60, Levantei-me e disse solenemente:
judaico no qual o Rebi Chyda me pediu para cuidar de todos os Rebi Chyda, Rebi Chyda viemos
estava enterrado em Livorno foi detalhes do enterro do Rebi Chyda para cuidar do senhor, por que nos
relocado para uma nova área. Quase em Israel. Fui ao Mikve- banho esta assustando? Continuei então,
20 anos depois, quando o governo ritual de purificação em Jerusalém e enquanto os outros se acalmavam.
local pretendia converter o novo depois fui ao aeroporto em Tel Aviv Disse-lhe novamente: Rebi Chyda,
cemitério no qual o Rebi Chyda onde já estavam os outros rabinos, esta escrito em seu livro que deve-
havia sido reenterrado em um entre estes: o Rabino Laniado e se enterrar um morto de forma
parque público e manifestou planos o Rabino Ytzchak Abuchatzeira, respeitosa. Eu não sei onde esta a
de realocar a keburah- sepultura o “Baba Chaki”. Quando o avião cabeça e onde estão os pês. Abri a
deste tzadik para nova localização, chegou procedente da Itália com os urna, coloquei as mãos em cima dos
houve resistência por parte da restos do Chyda, fomos informados ossos sem olhar o interior e pedi com
comunidade judaica italiana. Desta que durante o voo a urna funerária grande kavanah- concentração, que
maneira, foram iniciadas gestões havia caido duas vezes e foi os ossos se arrumassem. Escutamos
para transferir seus restos para que recolocada em sua posição. Lhes todos um grande ruído, maior
fosse enterrado no famoso cemitério que o anterior e senti os ossos se
movendo, se arrumaram ate formar
Rabino Mordechay Eliahu um esqueleto completo... logo, senti
"Escutamos z’l ,“Rishon Letzion”, ex-
Rabino Chefe Sefaradi de
onde estava a cabeça e onde estavam
os pês, fechei delicadamente a urna
todos um Israel e a cobri. Assim pudemos todos
grande ruído, os rabinos nos comunicar com os
outros em Jerusalém, onde uma
maior do que multidão de milhares de pessoas nos
esperava desde a entrada da cidade
o anterior e ate o cemitério de Har Hamenuchot
nos arredores de Jerusalém, onde
senti os ossos se se procedeu a cerimônia de enterro
movendo..." do Rebi Chyda. Este grande tzadik
regressou a sua morada em Jerusalém
154 anos depois de seu falecimento
em Livorno. Foi grande a emoção
de Har Hamenuchot em Jerusalém, de todos os presentes quando o
por iniciativa da Rabanut Harashit- disse então que teríamos que abrir “Rishon Letzion” Rav Nissim
Rabinato Central de Israel, através a urna para arrumar os restos do concluiu a cerimônia dizendo “Rebi
do Rabino Chefe Sefaradi naquela Chyda antes de prosseguir com Chyda: Tihie Nafshecha Tzerura
época, o “Rishon Letzion” Rav a cerimonia de enterro. Alguns Bitzror Hachaim, amen”- Esteja a
Ytzchak Nissim. rabinos questionaram, mas eu sua alma no recanto de luz e vida no
A seguir retransmitimos o episódio enfatizei que seria um chilul gan Eden, amen!”.
transcendental que foi todo o Hashem - desrespeito - enterrá-lo
processo de transferência dos restos sem que que seus restos estivessem
mortais do Rabino Chyda a Israel. arrumados adequadamente e * Médico Pneumologista e Sanitarista.
Em certa ocasião, o ex-Rabino Chefe todos concordaram. Quando Assessor Principal da Organização Pan
Sefaradi de Israel, “Rishon Letzion” tentei abrir a tampa da urna, fez- Americana de Saúde / OMS, Washington
Rav Mordechay Eliahu z’l contou a se ouvir um barulho tremendo DC, EUA
seus discípulos: de seu interior. Todos em volta se
28 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - AVRIL 2012
CONTATO

Querido Eliahu,

Me encantó conocer y poder leer


Amazônia Judaica. La choveret, el site y
todo el trabajo de ustedes és maravilloso.
Un aporte de suma importancia a la
Historia del Judaísmo.

Shalom
Claudia Caro, Santiago de Chile
Querido David,

Parabéns por mais um exemplar da


Amazônia Judaica!! A edição de Chanuká
está maravilhosa como sempre!!
Grande abraço e Chanuká Sameach Os Judeus na Amazonia:
O treiler, assim como o Documentário,
Anne Benchimol – Manaus - AM ficou muito bom! Mazal Tov!!!

Joaquin Neto, Campina Grande, PB

Oi Elias,

Parabéns pela revista. Está muito bonita, Prezados Srs.,


com conteúdo. É uma publicação bem
importante para o registro da vida judaica Ao abrir meu e-mail hoje deparei-me com
no Brasil. Obrigado pela citação. uma msg da Amazônia Judaica e gostaria
de saber como posso adquirir suas
Kol Hakavod. publicações, com desconto de livreiro, em
minha pequena livraria judaica aqui no
Maestro Mauro Perelmann,
Rio de Janeiro, RJ RJ, a Atzilut, que já fez seu Bat Mitzvá em
julho de 2011. Já conhecia uma de suas
publicações e a achei mto interessante.
Gostaria de poder estreitar nosso contato,
Retribuímos os votos de pois certamente, me será bastante
" Feliz Hanuká " enriquecedor.
e parabenizamos " Amazônia Judaica "
pelo transcurso de seu honroso decênio ! Shalom,
Um abraço.
Meyr David Israel e esposa, Luciana Meir, Rio de Janeiro, RJ
Manaus, AM

29
AMIGOS DO

INSTITUIÇÕES E CONTROLE CONSULTORIA LTDA.


NOMINATION
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CIAM – COMITÊ ISRAELITA DO AMAZONAS CASA RABELO
CIP – CENTRO ISRAELITA DO PARÁ TRANSPORTE HEBRON
CIAP – CENTRO ISRAELITA DO AMAPÁ LGB ENGENHARIA
SHEL GUEMILUT HASSADIM METROPOLITAN
ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO DE PERNAMBUCO ERETZ TUR
ARQUIVO HISTÓRICO JUDAICO BRASILEIRO TECIGRAM
AGÊNCIA JUDAICA CORTEZ CÂMBIO E TURISMO
BEMOL MUNDIAL EXP. E IMP. LTDA.
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30 AMAZÔNIA JUDAICA No 7 - AVRIL 2012
PÁGINA VERDE AMIGOS DO

MOISÉS SABBÁ ASSINANTES


SAUL BENCHIMOL
FRANK BENZECRY ESTHER DIMENSTEIN
SÉRGIO BENCHIMOL ALICE BENCHIMOL
CELSO NEVES ASSAYAG BONINA BEMERGUY
CLARA AZULAY
ANNE BENCHIMOL
ABRAHAM BENMUYAL
MEYR DAVID ISRAEL
MARIO ANTONIO SUSSMAN
ALEGRIA SALGADO BOHADANA
SIMÃO PECHER
JAIME SALGADO
ISAAC DAHAN
RAQUEL BENCHIMOL
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IRIA FERREIRA M. CHOCRON
SULTANA LEVY ROSENBLATT Z'L
RUBEM TOBELEM Z'L ANTONIO S. GADELHA
IANA BARCESSAT PINTO ISAAC BENARRÓS
CLARA NAHON MENDES ESTHER TOBELEM ZAGURY
SALOMÃO MENDES JORGE NEY BENTES
INÁCIO OBADIA ESTHER MIMON BENCHIMOL
RUTH MENDES FOINQUINOS MARLENE COHEN
WAGNER BENTES LINS MOYSÉS MELUL
ZAZÁ JUCÁ MENDEL ELIASQUIVICI
LISE BARCESSAT SERRUYA RUBEM BEMERGUY
LEON LASKAR SUSANNE BACH
RAIMUNDO SERRUYA MARCIA RUBINSTEIN
ROSA BORRAS LUIZ BENYOSEF
MARCIA CHERMAN SASSON
DENIS MINEV
LARISSA GABBAY PINTO
ALBERTO ALCOLUMBRE
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FORTUNATO CHOCRON
REGINA IGEL
RICARDO TRIGUEIRO
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elaborado pelo rabino
Moisés Elmescany e
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Salgado, o Sidur Ner
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Fadas (Zeved HaBat),
Bar e Bat Mitzvá,
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além de Festas, como
Yom Haatzmaut,
Chanucá e Purim

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