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A INQUISIÇÃO

EM PORTUGAL E NO BRAZIL

SUBSIDIOS PARA A SUA HISTORIA

ANTONIO BAIÃO ,-.,..__


CONSERVADOR DA TORRE DO TOMBO
ENCARREGADO DOS CARTORIOS DO SANTO OFFICIO

LISBOA
OF. TlP.- CALÇADA DO CABRA, 7
1!)06

..·

LIVRO I

A InquisiQIO no Seoulo XVI

SUMIIARIO- Importanda do assumpto. Fontes: bibl:ographia; Fr. Pedro !\lonteiro, Alexandre Her·
culano e os principaes jomaes e revistas do nosso paiz; o pouco que dizern os chronistas a tal
respeito e razão d'isso; os cartorios do S.to Officio. Os Inquisidores geraes. O Conselbo geral
do S to Officio : seu primeiro regimento até agora inedito, exeg~se e confronto com o heapa-
ohol ; privilegio~ e relaçllo dos deptttados. A carreira inquisitorial : nomençlo, accesso1 venci-
mentos e aposentaçlo dos funcionarias do S.to officio. Inquisições que houve. Inquisiçlo de
Lisboa : exegése do seu primeiro regimento até agora inedito ; sua are a jurisdiccional, equivoco
de Herculano ; relaçlo dos seus inquisidores, deputados, promotores e qualificadores. Iadivi-
duos nella denunciados. As ilhas e o Brnzil. Inquisiç4o de Coimbra: sua area jurisdicciona1;
relaçlo do:S seus inquisidores, deputaclos, promotores e qualificadores ; individuas nella denun -
ciados. loqaisiçlo de Evora, idem. Os culpados : evoluçlo da forma de os processar, lactas
que por causa d'isso h{JUVt: ante3 do estabelecimento da Inquisiçlo. Meios de prova e penu; a
pena de confiscat'o dos bens, organisaçlo do fisco ; os autos da fé. Inquisiçlo da lndia; noti-
cias que d~ella temos no seculo XVI. Syntbese e conclus~cs.

Ninguem, por mediana illustração que possua, deixará de reconhecer


a excepcional 1mportancia do assumpto de que nos pretendemos oçcupar.
Antes de todas e quaesquer considerações basta que tenhamos pre-
sente que foi uma instituição tres vezes secular, que viveu sempre exer- •
ceodo a. sua influencia em todas as camadas sociaes, desde as mais ele-
vadas ás mais intimas, desde as mais illustradas ás analphabetas e que
exerceu essa influencia desde a côrte até ~ mais humilde aldeia sertaneja.
Quer dizer, na sua rede de malhas bem fina.s nada lhe escapou; ella
abrangeu todo Portugal. Em intensidade e extensão nenhuma outra a
egualou.
A sua csphcra d' acção foi principalmente religiosa e moral, mas que
importantissimos dados nos não apresentará o seu estudo para a historia
judiciaria e penal do pniz e, d'uma forma lata, para o conhecimento de
toda a actividade social portugueza comprimida pela Inquisição durante
perto de 3oo annos? ! l-lo hemos vendo bem minuciosamente no decurso
CJ'este trabalho.

6 •
..................·-·······-·-·----·--·

I
Fontes

Diversas foram as fontes de que lançárnos mão e de bern diverso va·


lor e auctoridade historicos.
Já no prin1eiro quartel do seculo XVIII se reconhecia a alta necessi-
dade scientifica de proceder ao estudo historico da Inquisição .. E por isso,
na conferencia da Academia Real da Hislot·ia Pot·tugue'{a de 5 de Ja-
neiro de 1721, em que se procedeu á distribuição de trabalhos, foi encar-
regado o P.• ~.,r. Pedro Monteiro, da Ordem dos Prégadores, Qualifica-
dor do Santo Officio, r.:xaminador Sinodal do arcebispado de Lisboa
oriental e do Priorado do Crato, de compôr, na lingua portugucza, as
c Memorias para a Historia da Inquisição•.
Vejamos successivamente o resultado dos traba1hos do douto dorni-

n1cano.
Logo na conferencia de 17 de julho de 172 1 ~., ... Pedro ~1onteiro ex-
punha o plano da sua obra que comprehendia cinco livros. No primei r o
livro trataria cdo motivo que houve para se estabelecerem na Igreja de
De os seme1hantes tribunaes aos da In':luisição, do seu primeiro instituidor,
fundador e Inquisidor Geral que foi S. Domin~os e que pontifice lhe déra
a jurisdicção•. • No segundo trataria da antiga Inquisição d'cste reino, de
que foram inquisidores geracs nos primeiros tempos os provinciaes da
ordem dos Prégadores•. «No terceiro a renovação d'estc sancto tribunal
e um catalogo de todos os Inquisidores geraes que depois houve, c tuna
breve noticia de suas vidas e tudo o mais que succcdeo digno de menlo-
ria•. cNo quarto daria noticia de todos os Deputados do Conselho Ge-
ral, e tarnbetn dos Inquisidores e Deputados das lnquisições de Lisboa,
Evora, Coi1nbra e Goa e d~ outros ministros n1ais d'este tribunaL~. «No •
quinto referiria todos os casos, de que pode tomar conhecimento a Inqui-
sição, ns Bulias e graças que lhe conceder,u11 os Summos Pontífices, c
privilegias que lhe deran1 os reis, as prerogativas c exccllcncias d'cstc
tribuna), c os elogios, ~uc lhe fizeram pessoas graves c varões insign·es».
E, referindo-se ao hvro segundo, acrescentava o dominicano que cer-
tamente tinha havido ant1ga Inquisição no nosso reino «ainda que seja
ignorada de muitos homens doutos pela falta de escriptores antigos e que
para a composição d·este livro tem dezascte bulias pontificias, que to-
ctas se passaram para os antigos Inquisidores d'estc reino e dos mais de
Hcspanha, desde o governo de D. Sancho II até D. João III,.
Tal foi o plano que Fr. Pedro 1\'lonteiro reeditou numa d'aqucllas
sessões memora \'eis da sala c Galé» do Paço da Ribeira, a de 7 de Se-
tembro de 1723, presidida por e l-rei D. João V e com a assistcncia da
sua faustosa côrte. ~tas, antes d'isso, na conferencia de 22 d'outubro de
1721, tinha elle dito que para a execução da sua obra não tinha a quern
seguir, poi~ ainda ninguc1n escrevera sobre esta materiu, pelo que lhe era
necessario mais tcn1po para a concluir•. ~:, junctando obra ás pa1avras,
foi apresentando uma lista de oitenta e nove deputados do Conselho Ge-
7
ral, lista que se encontra publicada no tomo I das Memo1·ias e Docu-
mmlos da Academia Real da Historia Portugue{a·
Como· se vê, Fr. Pedro Monteiro parecia animado das melhores in-
tenções de estudar e trabalhar, mas, em presença da difficnldade mate-
rial do assumpto, ia explicando a demora forçada da sua conclusão; to-
davia, como veremos, outras difficuldades bem mais insuperavflis se lhe
haviam de deparar.
Na conferencia de 12 de Maio de 1722 cumpria-lhe dar conta dos seus
trabalhos, porém não se achou presente. Na de 5 de novembro apresen-
tou a lista de todos os ministros da Inquisição de Lisboa e na de 4 de
Março de 1723 declarou suspender os seus trabalhos quanto á lista dos
ministros das Inquisições de Coimbra e Goa c para querer aprender na
censura dos primeiros o como se devia haver na composição d'estes ulti·
mos•. Eram os primeiros e1nbaraços que lhe surgiam; eram os primeiros
escolhos que se lhe atravcssavatn no caminho.
Na conferencia de 10 de junho de 1723 junctou ás noticias que tinha
já dado as cop.ias de duas cartas : uma do bispo de Coimbra, D. Jorge
d' Almeida em resposta á que lhe escrevera D. João III e outra d'este
monarcha para o bispo de Lamego, ambas sobre a Inquisição. na epoca
cm que ella se renovou e extrah1das da Torre do Tombo pelo seu an-
tigo escrivão Gaspar Alvares de Lousada {1 ).
Não temos noticia dos trabalhos do domillicano durante 7 annos c só
sabemos que, na conferencia de 20 de Janeiro de 17.30 (2) elle explicou
que ha tres annos lhe tinha dado un1 estupo1·, proh1bindo-lhe, por isso,
os medicas o estudo.
Quanto á Inquisição, dizia Fr. Pedro Monteiro, 9ue tinha composto
o catalogo (sic) de todos os ministros do Conselho Ceral, e o de todos
os Inquisidores, Deputados, Secretarias,· Revedores dos livros, consulto-
res c visitadores das náos ~strangeiras e acrescentava: c é materia de se-
gredo d'este tribunal o querer escrever o seu governo, por ser assim
conveniente•. E, com este fundamento, achava o dominicano que lhe não
restava senão escrever um catalogo dos lnquisidores Geraes, deixando
assim truncado o plano que, com tantas illusóes, compozera havia nove
annos!
Queixou se Fr. Pedro Monteiro dos seus annos e dos seus achaques,
fallou no privilcRio que tinha a sua ordem de ter um inquisidor perpetuo
no Conselho Geral c, sendo portanto tambem de interesse dos domi·
nicanos este estudo, contou que tinha pedido á sua ordem um ama·
nuense, que ainda lhe não fôra concedido, nem recusado; todavia o que
estamos a ver é o dominicano, já no ultimo quartel da vida, quando o
espirito está mais enft·aquecido, minado de escrupulos e com a ante-visão
do inferno, exercer a censura nas suas mesmas obras e então, diz-nos o
jesuita Manuel de Campos, que na conferencia de 26 de Maio de 1735
fez o seu eloaio funebre, ccahio o raio sobre a historia da Inquisição, em

( 1) Memori.~s da Academia Real da Historia PortugueJa, tomo III, pag. 220.


(a) 1/Jid~m, tomo X.
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que tinha estudado mais. Não sei que palavras ardentes achou naquella
obra, que começou a escandalisar se d'ella e em vez de a dar á luz, a
foi dando ao fogo. Acodiram os ami~os áquelle estrago, a que o impel-
lia um mal regulado temor de Deos; urara1n·lh'o das mãos e esconderam-
lh'o\ até que socegassem os escrupulos; socegados, reconheceo o livro e
emendou a obra e esta é a correcta que hoje existe•.
f.""r. Pedro Monteiro falleceu no dia 2 de Maio de 1735 e ainda na
conferencia de 1 de Abril de 1734 elle se queixava da dilação do ama-
nuense, que fazia com que não tivesse ainda entregue dois volumes das
suas cMemorias da lnqu1sição• (1).
Foram esses volumes que se publicaram apoz a sua morte c que tra-
tam da Inquisição desde a sua origem na christandade até D. João III,
volumes refutados por Fr. Manoel de S. Damaso na Ver,iade elucidada
e, no dizer de Innocencio, pelo P.• José Caetano d'Aimeida nas suas Me-
111orias, de que nos não occuparemos por alheios ao nosso assumpto.
Para o estudo da Inquisição propriamente dita~ isto é da Inquisição
após o reinado de D. João III, já nos referimos á sua lista de 8g deputa-
dos do Conselho Geral, e acrescentaremos que no tomo 3. 0 foi publicada
a sua Noticia geral das Santas l11quisiçoens deste Reino e suas colz-
' quistas, Ministros e officiaes de que cada huma se con1poem. Catalogo
âos l11quisidor·es, Deputados, Pronzotores e Notarias que tenJ havido íza
Inquisição de Evora desde a sua ,·enovação até ao presente.
No mesmo tomo sahio o calhalogo dos l11quisidores que tenJ havido
na S. ltzquisição d'esta côrte, desde a sua t·enovação até o p1·ese1zte com
o auno, e dia em que tonzaratn posse, assim como as listas dos Pro-
tnotores e notarios da Inquisição de Lisboa e dos Inquisidores, depu-
tados, promotores e notarios da Inquisição de Coimbra.
No tomo 4. 0 appareceu, do mesmo Fr. Pedro Monteiro, a o1·ige1n dos
,.eJ'e,-fo,·es dos liv1·os e qualificadol·es do S. to O/ficio., co11z o catalogo ,fos
que tenz lza1'ido nas Inquisiçoeus d'este Reiuo, assim com~J listas dos In-
quisidores e Deputados da Inquisição de Goa.
Ainda no tomo V (num. XXVIII) appareceu a lista dos secretarias do
Conselho Geral.
E, se é certo que quem despreoccupadamente analysar o plano do do-
minic~no lhe notará graves defeitos, principalmente derivados da sua epo-
cha, da prcoccupação de en~randecer. a sua ordem e do facto de o en-
.:arregaretn do estudo d'uma Instituição ainda então vigente e cujo lernma
era o seg,·e,io, é certo tambem que ninguem de boa fé poderá negar n1e-
recimcnto historico a estes trabalhos que bem penosos lhe haviam de ter
sido e que bons a~xiliares são ainda hoje.
Depois d'isso publicou-se anonymamente a Historia dos pri1zcipaes
actos e pl·ocedit1le11ltiS da l11quisição enz Po1·tugal, parte della atribuída
por Innocencio a Antonio Joaquitn ltloreira e em que se trata, em tom
dec:amatorio, da creação das tres inquisições, do Conselho Geral, dos ln.
quisidores Geraes, dos autos da fé, cujas listas publica, assim como a scn·

(I) DoCUtllentos e AleiiiOrias da Academia Real da Historia Portuguera, tomo xt•J .


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tença contra o Dr. Antonio Homem, e do Regimento de D. Francisco de
Castro de 1640, cuja analyse se faz. E' antes um livro de propaganda
que um. sereno estudo scientifico. -
A gloria d'esse estava reservada a Alexandre Herculano.
São bem conhecidos os seus tres volumes da Hislop·ia da origem e
estabelecimento da l11quisição e111 Portugal. O que nelles estuda o grande
mestre será elle mesmo quem no-lo dirá. cPodiamos escrever a historia da
Inquisição, diz elle a pag. XIII do Prologo, d' esse drama de ftagicios
que se protrahe por mais de dous seculos. Os archivos do terrivel tri-
bunal ahi existem quasi intactos. Perto de quarenta mil processos res-
tam ainda para darem testemunho de sccnas medonhas, de atrocidades
sem exemplo, de longas agonias.
Não quizemos. Era mais monotono e menos instructi\·o. Os vinte
annos de lucta entre D. João III e os seus subditos de raça hebrea, elle
para estabelecer definiti\'amente a Inquisição, elles para lh~ obstarem,
offerecem materia mais ampla a graves cogitações~.
São vinte annos pois ean que Herculano, {op·ceja11do pa1·a que fos-
se'" mais os docunzelllus do que elle que111 [a/lasse, nos apresenta por
um lado a dissolução da curia papal em que as consciencias per-
tenciam a quem mais dava e por outro lado a côrte fanatica, odien·
ta e quiçá 1nvejosa do rei de r·uim co11dicção e inepto, e/ramado D ..
João 111.
Que a historia d' esses vinte annos se ia a historia d'uma instituição
secular, é o que ninguem certamente poderá crer.
No trabalho, verdadeiramente magistral de Herculano ha muito,
muitissimo mesmo que adrnirar, mas nelle tambem ha ommissões, nelle
tambem ha algum tanto de paixão.
Para a sua obra o grande historiador servia-se principalmente de
documentos da Torre do rfombo, da Bibliotheca da AJuda, da collecção
~1oreira da Bibliotheca Nacional e da Synznzicta /,usitana, collecção de
copias vinda de Roma e onde se acha transcripto um extenso memo-
rial apresentado pelos christãos novos, do qual lierculano usou para nos
expôr o quadro dos abusos e excessos das diversas lnquisições de Por
tugal desde 1S4o até 1544·
Da Torre do Totnbo teve elle conhecimento da correspondencia ori-
ginal dos nossos enviados cm Roma para D. João III, parte tambem
na Bibliotheca da Ajuda, das minutas de muitas instrucções de cá para
lá e de ditferentes documentos que fazem parte do Co1po Clzro11ologico,
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Collecção de S. Vice11te, Gartas nzissi1'as, Bullario, e Gavetas, - quasi


9

tudo publicado hoje no Corpo Dip/o,nalico Po1·tugue;- e sómente d'al-


guns processos crimes dos Cat·tor·ivs do Sau/o Ojficio, corpo cssencia-
lissimo para este estudo, cujo valor historico a seu tempo se ponderará,
e que ainda não. era
,..
bem conhecido no tempo do ~lestre. D'aqui as suas
nnturaes ommassoes.
Como dissétnos, t~tmbcn1 Herculano, pelo n1otivo que acabán1os de
cxpôr, se servio de um mcanorial dos christãos-novos para o estudo d'al-
guns annos da Inquisição, memorial necessariamente suspeito c que havia
de expôr os factos com a paixão do pretendente opprimido. Essa a ori-
lO
--- . . . . . . .- •• - · · · · · 1 ··--···-

gem da violencia que se nota nalgun1as paginas da llisloria d"1 o1·ige1n


e estabelecinz~nlo da Juquisição enz Po1·1ugal.
r: não devemos passar adiante sern nos referirmos a um li\'ro, que
tca1 feito certo barulho, que mais detida1nente estudaretnos, e que refere,
d'uma forma generica, mas bastante parcial, o que se passava no Santo
Officio. E' as Noticias ,·eco,,-fitas ,-fel proce.1inzienlo de las l11quisiciones
de Espana y Po1·tugal cou sus presos, compilado por um auctor anony-
mo e que se diz impresso cm Villa Franca ern 1720 (ou 22 ?), mas que
Antonio Ribeiro d<?s Santos ( 1), Figanierc (2) e Innocencio Francisco da
Silva (3) nos Jizem te-lo sido etn Londres, aliás com pessima revisão,
atribuindo-o ao judeu portuguez, Da\'id Neto.
No dizer do cavalleiro Oliveira, citado por Antonio Ribeiro dos San·
tos, são os proprios judeus da Hollanda, onde abundavam os exemplares
d'esta obra, que a não têm em grande conta. E de facto assim deve ser,
como a seu tempo se provará. Mas basta mesmo notar a for1na arrebatada
e agressiva por que as Noticias 1·econditas estão escriptas para termos a
impressão da falta de serenidade e paixão do seu auctor.
Tambem em 1750 foi impresso um opusculo do P. 0 Antonio Vaeira
con1 o titulo de Relação exactissinza, instrucliva, curiosa, ''er,fadei,·,J e
11oticiosa do procedim~11to das lnquisiçóes de Po1·tugal, apresentado ao
papa Innocencio XI e, já no seculo XIX, a Nat·,·ativa da persep;11ição de
llypolilo José da Costa Pe1·eil·a Furtado de "'\1e11do11ça, livros que, sendo
setn duvida interessantes, são no tntretanto de somenos valor historico
pela parcialidade cotn que foram escriptos e que a seu tempo se ver'i.
No estado actual da bibliograj)hia portugueza não é possivcl dar u1na
lista completa dos trabalhos dispersos publicaJos em revistas e jornaes
sobre o assu:npto que nos interessa. Aquelles de que tivémos conheci-
mento e de que fazemos uso são os seguintes: no Institui o citaremos os
conscienciosos artigos de J. C. Ayres de Campos, intitulados: Docu,nentos
para a llisto1·ia d,J Sauto O/fi cio t.•nz Po1·tugal; Utn auto da fé; Senleuça
aa lllquisição de Lisboa C01ltl·a Fr. DioJ!O ,fa Assunrpção; Letnb,·ança do
p,.o,11otor Estevant Leitão acerca do que em Ronza se havia d~ reouerer
tucante a tres casos de j·u,·isdicção i1zquisito,·ial; J>,.;,,ilegios dos oificiaes
c fanzilia,·es, co11{or·nze os a/va1·ás de 1S62 e 1S8o, tresladados dos regis-
tos do a1·cllivo tnunicipal de Coinzbra ; Jzu·isdic:ção dos Inquisidores nas
causas dos seus offtciaes e (atllilia,.es; C'Jizji1·1naçãrJ de todos os p1·ivilegios
do Sauto Ofjici·J; Nomeação de Thot1la'{ Gollçalves para caçador e ,·e-
gtJtáo d,l lllquisiçá.J de c·oi11lh1·,t; ca,·/"1. ,fe 1101lleaçáo e privilegias que
enz 1621 a luquisição de Coinzbra. passou a Antouio João, seu co111p1·a,io1· ;
Outra da tnes11za l11quisiç,fu J.'assada a J\1auuel F1·aucisco, b,t,·queiro e
fo1·11ecc~.ior de c,l,·t•ão; J.\'onze,tçc.fo ,ic 11111 tll'dlia"for ,fe beus St,quest,·aflos
effz Coilnb1·a, feit . z e111 IÓ25; l .. icen':-·,t p . tra salzir ,io c,l,·cere e a11dap· pelo
1·ei11o, l'"1ss,1,ia pel~ luquisição de G~oi11zbr~.1 ao 1·ecoucilia,fo Joã~ Lopes;

( 1} Ale111orias da lilter. ttu,.a S(fgrada dos Judeus portugueres 110 p1·esente seculo nas
Jle1norias de Litteralura portuguc:;a, ton1o 4. 0 , pag. J27.
(2) Bihliographia Hastorica, n.o 1496.
(3) Diccionario Bibliograpllico, \·ol. 2. 0 , pag. 118.
II
...........·-··-···-··-··-.......·--··......···
Sentença da lr1quisição de lJisboa COIIII'·a Diogo He,,·iques Fl~res (1662);
Processos de Maria Soares e de seus filhos, sentenceados e111 L1sboa (1623);
Alvará de nomeação e poderes do júi1 dos bens con:fiscados na l11guisição
de Coin1bra; .P1·ivilegao do Santo Of.ficio de Coinzbra ( 1572). A1nda no
Instituto fallaremos do desenvolvido estudo de Antonio José Teixeira so-
bre um dos perseguidos pela Inquisição, o lente Antonio Homem, do ar-
tigo do sr. Antonio de Portugal Faria intitulado A inquisição ,vo,·tugueta
110 seculo XVII, que não é mais que uma lista das pessoas que foram sen·
tenceadas no auto da fé de 1682, em Lisboa.
No Pa11or.J111a referirernos os artigos intitulados: Origenz da lllquisi-
ção en1 Po1·tu~al, Cu1·iosidade ace1·ca da Inquisição e O feiticeir·o, ebro-
nica da lnquis1ção por Cunha Rivara.
Na Revista u,,,,e,·sal Lisbo11euse apontaremos o artigo de Cunha Ri·
\'ara, intitulado O p1·i,nei1·o auto de fé e1n Jlor·tugal e no J>ositivismo
os artigos do sr. Consiglieri Pedroso sobre superstições e crenças popu-
lares nos quaes faz referencia a alguns processos da Inquisição e em cs- ·
pecial ao de Luiz da Penha.
No Conimbrice11se, o jornal que Joaquim ~lartins de Carvalho tornou
tão interessante com as suas investigações historicas, encontramos os ar-
tigos seguintes: Seulença da Iuquisição que co11dc1nnou o P.e Lu i'{ d' Ato:
ra1· Lobo, natural de Montemór-o-11ovo ( a6f>9); Lista das pessnas penr-
lellciadas 110 auto de fé de Coin1b1·a enz 1781; Noticias d,l Inquisição de
Coinzbra e11r 16i4; O t1·ibunal ,ta l11quisição, referencias aos regimen-
tos de 1613 e 1640; Noticias dos processos ,fe A-Jat·ia Soat·es e filhos,
que Ayres de Campos publicou no lllstituto; Relação de cria11ças que,
'nascendo nos ca,·ce,·es da Jnquisição de G..oinzbra e1·a1n baptisadws occul-
taJtdo-se os 11onzes dos paes; G'o'!flicto ent1·e a Inquisição e as fi·eit·as de
Coimb,·a; Selllellça da Inquisição COillra o estudante Pe,ft•o Serrão; o~
regime1ztos 'da Inquisição de Portugal; "'1 lnquisiç,fo ,1,e Coilt1bra, acqut-
sição de edificia para e//,t e or·de11ados dos i11quis1,fo1·es e1n 1820; Edital
publicat1do auto de fé em 1-:41 ; Consulta du Couse/lzo Ge1·a/ do Santo
Officio acerca do Bispo de Br·aga11ça (1798); Deuuucia d'esle Bispo; A
l11quisifiío tln Po1·tugai e D. João IV; A saneia lnquisiçã'J; P1·ocessos
da l11quisição de Coimbra; ..4 Inquisição de Goa, a sua exti11ção pelo
Afarque'{ de Po111bal; fl.ypolito José da l:osta e a luquisição.
No Archi1'o Pitlo1·esco ha uma serie d'artigos sobre os }Jaços da In-
quisição, e na Re,,isla de Eaucação e E·usiuo ha um artigo documentado
de Antonio José Teixeira sobre a lnstallação da I11quisição de G"oinzbra
e na Revisla l..~itlel·a,·ia do [>orto encontra se um artigo intitulado A ver-
dadeira epocha do estabc/e,;inzen/o do Sa11to OJiicio da l11quisição e111 Por-
tugal por B. (~., cm que se combate a fabula da entrada da Inquisição c1n
Portugal atribuída a um impo~tor castelhano e se diz que é inexacto tudo
o que escreveu Llorente ácerca da Inqui5ição em Portugal, junctando
differcntes documentos, artigo attribllido por Figanierc a Fr. Francisco de
S. Luiz. Nct Correspont.iellcia t.ie Coinzbra, IRQ,, publicou Antonio José
Teixeira o processo da Inquisição contra André de Avellar e a sentença
da mesrna contra <:hrispim da Costa. .
No Occide111e apontaremos os artigos intitulados: Os pe11dões das l11qui-
12

siçócs de Lisboa e Evora; Fili11lo Elísio e a l11quisição pelo sr. Maximi-


liano d' Azevedo; Ma11oel Ferna11des Vil/a Real e o seu processo ua lllqui-
sição de I.~isboa pelo sr. J. Ramos Coelho; Unza feiticeil·a do seculo pas-
sado co11den1nada pela Inquisição por Manuel M. Rodrigues; e Vi$ila de
D. João ~7 á Inquisição de Evora, pelo sr. J. Ramos Coelho.
No Archi1•o Histo1·ico Porlugue'{ citaremos: Fraucisco Xaviet· de Oli-
veira, o cavallei1·o de Oliveira, pelo sr. Antonio Francisco Barata; O Ca-
valleil·o de Oliveira e a /11quisição pelo sr. Braamcatnp ~..rcire; Fr. Nico-
lau de Oliveira e a Iuquisição pelo sr. Brito Rebello; A Inquisição e al-
flllllS seisce11tistas pelo sr. Pedro A. d' Azevedo e Alllotrio de Gouveia
'· alcllimista do seculo XVI, do mesmo auctor.
Alem dos artigos de jornaes e revistas que apontámos e de que, a seu
tempo, faremos mais especial menção, fallaremos nas monographias es-
peciaes O conde de Villa Ft·anca e a Inquisicão pelo sr. A. Braamcamp
Freire, O Padre Fer11a11do de Oliveil·a e a sua obra Jlautica pelo sr. Hen-
rique Lopes de Mendonça ; sobre Damião de Goes e a Inquisição mere-
cem menção os trabalhos de A. P. Lopes de Mendonça, sr. Sousa Viterbo,
sr. Joaquim de Vasconcellos e.sr. Guilherme Henriques que lhe publicou
na •antegra o processo.
Fr. Manoe) de S. Damaso, assim como Fr. Lucas de Santa Catharina
citam o livro de 'f4... r. Antonio de Sousa, Aphoris1ni l1lquisito1·u111, cuja pri·
meira parte se intitula De origine luquisitzouis, tambem citado por Hcrcu·
lano e que só lográmos alcançar devido á amabilidade do sr. Sousa Viterbo.
Em 1699 imprimio·se em Coimbra un1 livro intitulado Opusculunr de Pri-
vilegiis fa,lliliarunr, ojjiciali1nnque Sa11/ac! Inquisitio11is, de que era auctor
Diogo Guerreiro Carnacl1o de Aboim, juiz do fisco do districto da Inquisição
de Coimbra. Barbosa Machado tambem cita o livro de Fr. João de Vas-
concellos, Capitu/acio11es sob1·e la l11quisiciou de l.~~astilla y Portugal.
Camillo Castello Branco faz referenci~ á·lnquisição principalmente nos
seus romances O Judeu e A caveira da nza1·ty_r, assim como no prefacio
do poema Os ralos da Inquisição de Antonio Serrão de Castro.
Para o primeiro romance a fonte de que principalmente se servio
foi do livro impresso en1 1688, Relalio11 de l'luquisiliou de Goa e da bio-
graphia do poeta Antonio José da Silva escripta por Costa e Silva, pois
- que o talentoso romancista, como expressamente no-lo declara, não vio
o processo original do Judeu. No segundo romance faz referencias a al-
guns processos inquisitoriaes; e no prefacio dos Ratos da luquisição pro-
cura fazer a biographia do Poeta em face d'este pocn1a.
Tambem Coelho da Rocha consagra um dos c~pitulos do seu valioso
E",tsaio aos Judeus c l11quisição e nelle, tnuito resumidamente, se occupa
do procedimento c forrnas do Santo Otlicio, não àistinguindo porctn re-
gimentos c fallando apenas na bulia de 23 de n1uio de r536.
Di ffc rcn tes ca pi tu los ha no .."i11111111a1·io de l'a,·ia h ist o1·iü. de Ribci r o
Guirnarães consagrados ao assun1pto qu '! nos intercssJ. Citarc1nos no
vol. 2. 0 , ns Ale11zorias da Inquisição ctn que cspccialn1cntc falia no Dr. An ..
tonio 1-lometn e Fr. Diogo da Assun1pção; no vol. 3. 0 O Marque{ de
Pombal e a l11quisição; no vol. 4. 0 A Sa11/a Iuquisição (va1·ias tzoticias)
e no vol. 5.'' trata de Manuel Fernandes Villa Real, cujas declarações
\
-.. ___
13
....................
publicaÃ. as~im como alguns excerptos do processo contra elle movido pelo .
Santo ufficro. •
Em 1821 publicou-se uma Histo1·ia a11onyma das l11quisiçóes de [/alia,
Hespanha e PoJ·tugal, trabalho simplesmente de propaganda e, em •8g3,
publicou no Porto o Dr. Carlos José de Menezes uma obra em dois vo-
lumes intitulada A l11quisição em Pot·lugal, trabalho que o proprio auctor
intitula de compilação, mas que infelizmente não é de con1pilação crite·
riosa, pois que mistura transcripções de Herculano com trstnscripções do
livro de que acabámos de fallar e de outros apenas de propaganda.
A Bibliolheca do Povo e das Escolas tambem, em 1899, publicou um
trabalho intitulado A [,Jquisição em Portugal, de J. Augusto de Oliveira
Mascarenhas, trabalho apenas de compilação.
Acrescentando algumas paginas da obra Brasões da Sala de Ci1111·a
do sr. Braamcamp Freire, em que se faz referencia a varios processos
inquisitoriaes, algumas paginas da Hislot·ia da litleralura portugtlt{a •
do sr. Theophilo Braga e outras do livro Diabt·u,·as, santidades e p1·ophe-
c1as de Teixeira de Aragão, cremos ter finalisado a referencia do que de
principal se encontra na litteratura portugueza sobre o assumpto de que
nos pretendemos occupar.
Como se vê, trabalhos que comprehendam o conjuncto da vida inqui-
sitorial, só temos as listas de Fr. Pedro Monteiro e a Historia da origem
e eslabelecimento da l11quisição enr Portugal; tudo o mais ou é profunda-
mente suspeito ou são monographias, estudos parciacs. De sorte que,
quasi dois seculos apoz Fr. Pedro Monteiro, podemos repetir com elle
que n~o temos a quem seguir, pois ai11da tJinguem escreveu sobre esta
mater1a.
Como é natural, attendendo á censura, pouco dizem os chronistas a
respeito da Inquisição.
O chronista Francisco d' Andrade chega-nos a dizer - referindo -se a
ella- que taes particularidades não pertencem á sua historia (1) c Fr. Luiz
de Sousa, nos A1111aes de D. João 111, a pag. 3og, apenas, referindo-se a
D. ~~n~ique de Menezes, n?s diz que elle trouxera de Roma as bulias da
lnquts1çao que forão de par/teu/ar gosto pe1·a ElRey.
D. Francisco Manuel de Mello, na sua Aula politica, a pag. 8, § XII
occupa·se do Conselho do Santo Officio, mas di-lo elle expressamente (2),
só segundo a fórma da corôa castelhana.
. Na quarta parte da Historia de S. Domi11gos é-se mais explicito e refe-
nndo-se Fr. Lucas de Santa Catharina á organisação vigente no tempo
em que elle escrevia (meiados do seculo XVIII) refere-se, como domini-
cano, largamente á preponderancia da sua ordem no Sa111o Officio, pu-
blicando até uma carta de 23 de setembro de 1614 em que se lhe con-
cede um tosar perpetuo no Conselho Geral.
. Até aqu1 enumerámos ~s fontes impressas da Histo1·ia da Inquisição;
veJamos agora as manuscr1ptas.

(1) Cllronica d~ D. João III, ft. 118 da 2.• parte.


(2) Aula politica, de D. Francisco Manuel de· Mello, pag. 2 do Prologo.

Estas ~ão principalmente os cartorios do Santo Officio, a que se con-


sagra um capitulo especial no livro O Archivo da Torre do 1,0111bo.
Referindo~se a elles escreve com razão Cunha Ri vara ( 1) : • Pelo que
respeita á Inquisição, mal se poderá formar juizo seguro e imparcial, em·
quanto se não fôr a essa Torre do Tombo revolver os processos da In-
quisição•. E de facto não pode haver guia mais seguro para o estudioso,
pois que os cartorios do Santo Officio, que felizmente escaparam do ter-
remoto de 1755, eram secre/os, e por isso, o que nos seus documentos
se escreveu, a expressão da verdade e nunca destinado a illudir quem quer
que fosse.
Assim o pensou D. Juan Antonio Llorente quando, no prefacio da sua
Histo1·ia cp·itica da I11quisição de Hespanha, disse que para se escrever
uma historia tão authentica como com~leta da Inquisição era preciso ser
inquisidor ou secretario do Conselho Geral do S. to Officio; assim o pen-
sou o protestante Limborch que para a sua Hzslop·ia luquisitiouis declara
não se apoiar senão nas bulias dos papas e nos escriptos e actas emana·
dos dos inquisidores; e assim se entende na Hollanda onde existe o
G"o1·pus Inquisitionis Neer/andicae, e na Allemanha onde Hansen prepara
uma collecção de documentos sobre a Inquisição alleanã (2).
O trabalho pois que vamos emprehender é fundado principalmente
nos cartorios do Santo Officio, a nosso cargo, na Torre do Tombo ; não
é um trabalho de propaganda, mas unica e ·exclusivamente um trabalho
de caracter scicntifico. Dividín1o-lo por seculos á falta, por emquanto, de
base para divisão mais scientifica. Ao fazê-lo, tivémos presente o conselho
que Henrique {~harles Lca dá a Salon1ão Reinach, traductor da sua Histo-
,·ia da Iuquisição 11a Edade-~fedia: c T,·,tduise{ comme vous l'enle,dre{,
nzais, je J'OUS e11 p1·ie, 11e ''ous dépa,·te{ pas du lon inzpa1·Jial que J·e me suis
i11zposé. Les faits doi1'e11l pap·/ep· d'~ux·nzênzt's~. Tambem por nós hão de
fallar os factos.

II

Inquisidores ieraes

No yertice da organisação inquisitorial, como auctoridade suprema,


encontra-se o Inquisidor Geral.
Apezar da creação de quatro inquisidores-móres, os bispos de Coim-
bra, Lamego e Ceuta e um l)Uarto escolhido por D. João Jll, feita na bulia
de 23 de maio de t536 CJUe instituio entre nós a Inquisição, é certo que
neiJa se falia no Gene1·ali !11quisito7·e e Herculano nos diz (3) que Paulo
III tinha o intuito de que só excrces~e o cargo Fr. Diogo da Silva, bispo
de Ceuta, individuo que não fazia temer aos conversas tantas injustiças
e violencias.

.
( 1) Revista univers,1l Lisbone11s,-, vol. 3. 0 , pag. 43.
(2) Vide Jlistoriographia da Inquisição pelo sr. Paulo Frederico no livro Historia
da Jn~uisiçJo 11a Edade-Media de Charles Lea, traduc5ão de Salomão Rcinach.
( 3) Hist. da origem e estabelecimento da lnpisiçao em Portugal, pag. 16_., nota.
J5
...........---··---····-··-··-·-···-·······-
De facto, a 5 de outubro, em Evora, o Dezembargador João ?t'lontciro,
da parte d'El.. Rei lhe apresentava a bulia de P..1ulo III, intinl:indo 1-. .r.
Diogo da Silva a acceitar o cargo de Inquisidor-mór. Este, diz o auto de
acceitação, (1) tomou-a e acceitou-a cenz suas mãos e co111 to,io devido
acatamento e rever·e11cia, a be(jou e pôs so!J1·e a sua cabf!Ç&l e a J'Ío toda
e leo e entendeo».
Não nos preo~cuparemos com a qu_esttio que no seculo XVIII tant.o
agitou os academtcos Fr. Pedro Montetro e Fr. Manoel de S. Damaso,
de saber a que ordem pertencia o primeiro inquisidor-n1ór. Seria domi-
nicano, como quer o padre mestre Fr. Pedro ~lonteiro; ou pertenceria á
milicia de S. Francisco de Assis, como quer ~. . r. Manoel de S. Damaso?
Herculano resolve-a suppondo a hypothese do bispo de Ceuta ter pas-
sado da ordem dos mini mos para a dos franciscanos. • Porventura, escreve
o Mestre, havendo professado naquella ordem fóra do reino, e voltando
ao seu paiz, onde ella não existia, teria resolvido passados alguns annos,
filiar-se na dos menores, (~).
·Seja como fôr, o certo é que foi elle que1n, dois dias depois, a i de
outubro, fez a publicação da bulia inquisitorial ao Cardeal Infante, D. Af.
fonso, arcebispo de Lisboa e perpetuo adtninistrador do bispado de Evo-
ra (3) para que lhe désse toda a ajuda e favor e para- que mandasse ajun-
tar as dignidades, conegos e cabido da sua sé de Evora, e toda a cleri-
sia para se receber e notificar em pregação publica a bulia de Paulo 111,
como com effeito succedeu (4).
Para dar maior solemnidade ao acto veio a elle assistir el-rei D.
João III a 22 de outubro; reuniu-se cabido, conegos, prelados, clerigos
e povo da cidade de Evora, e perante elles, o notario apostolico Diogo
Travassos enJ alta e illte/ligivel JIO{, diz o termo da publicação, fez a lei-
tura da bulia Cum ad niiJil n1agis e da carta monitoria de edicto e tempo
de graça por trinta dias (5), afim de todos saberem a lei em que ficavam
vivendo.

(1) Collectorio das bulias e breves apostolicos, ft. 4; encontra-se d'elle uma copia au-
thenrica a ft. 1 do codice 979 da Livr..tria da Torre do Tombo. Vide tambem o tomo II
das Provas da Hist. Genealogica, pag. 713 a 718.
(2) Hist. da origem e estabelecunento da baquisiçlio e1n Po,.tugal, pag. t63 do vol. 2.•
(3) No Collectorio a ft. 7 e no Catalogo dos Deputados do Consellzo Geral se diz
que este cardeal é o Infante D. Henrique, o que é manifesto equivoco. O Cardeal D.
Henrique foi o primeiro arcebispo de Evora e só entrou na posse do logar a 24 de se-
tembro de 1 S40, como poJe ver-se a pag. Jt\3 do Jlortug ..tl S4tcro~ de Fr. Apolinario da
Conceição, manuscripto 471 da LiJ'r.:tria da Torre Jo ·ron1ho. Lo~o em 3 de a~-;osto
de 1S4o, D. João III pedi.t ao Papa o logar vago para elle (Corpo Diplornatico Portu-
KWf, vol. 4-•, pag. 311), e ao mesmo tempo pedia ao Cardeal Santiquatro a sua protec-
ção para esta pretensão (Corpo Diplo1natico, vol. 4. 0 , pag. 325). t\ntes delle tinha sido
seu 1rmão D Affonso.
Até no proprio Corpo DiplonaL1tico Portugue;, aliás tão meti~ulosnmente feito, vol.
4.•, índice, se diz, summariando a carta de t3 de março de 1S4o, que por essa epoca es•
tava gravemente enfermo o cardeal D. Henrique, quando é certo que a carta falia em
Cani~al m~u irmão que era o bispo de F.vora, I>. Affonso, que pol1CO depois falleceu.
(4) Collectorio, H. ~, que é confi.-mado pelo treslado authentico, de t56Q, do j4 ci-
tado codice 97g, que pertenceu ao cartorio da Inquisiç_ão de Coimbra. ·
(5) Este monnorio não se encontra impresso no Collectorio. Herculano conjectura
....... ...._. ----.....-----
Este edicto é particularmente interessante porque, melhor do que a
bulia, nos dá a primitiva medida da competencia inquisitorial.
Dirigido aos visinhos e moradores da cidade de Evora e seus termos,
notifica aquelles que se sentirem c.ulpados nos crimes de heresia e apos-
tasia, por terem praticado actos dos ritos judaico, lutherano ou mahome-
tano, ou tiverem praticado feitiçarias ou sortilegios, a que venham com-
fessa·los e manifesta-los ·publicamente, pedindo penitencia d' elles, porque
Jesus Christo tem sempr~ os braços abe1·tos para perdoar.
E não só aos actos proprios se refere, como tambem aos que virem
fazer e obrar, ainda que seja a paes, ou mães ou parentes e ainda mesmo
a pessoa~ que tenham já fallecido. Estas confissões ou declarações podem
ser escr1ptas, quando a pessoa, que as faz, souber escrever, e no caso
contrario serão escriptas pelCJ escr1vão.
De tri~ta dias er~ o tempo da g1·aça, isto é, o tempo em que os ~ul­
pados sertam absolvidos das censuras e penas de excomunhão matar,
com penitencias saudaz,eis para as suas alnzas.
A esses, que neste tempo assim se viessem confessar, promettia o
edicto que não seriam presos nem encarcerados. Mas, ai dos que de tal
fórma não procedessem; porque esses eram reveis e pe1·1ina\es e contra
elles usaria o Inquisidor-mór de todos os rigores do seu officio !
O edicto tinha a data de 20 de outubro de 1536 e, ao que parece, não
se julgou sufficiente para o fim desejado. Por isso, pouco menos de um
mez depois, a 18 de novembro, novo mo11ilorio sahia do paço do primeiro
Inquisidor-mór, bem mais explicito que o anterior (1) e em que desenvol-
vidamente se apontavam os factos dclictuosos. .
Deviam assim ficar todos sabendo bem de que culpas se tinha1n de
confessar e quaes as que deviam denunciar.
Ha no emtanto na sua enumeração evidente confusão religiosa.
Em primeiro Jogar eram os ritos e ceremonias de caracter judaico,
alguns dos quaes todavia são antes superstições pagãs: guardar os sab-
bados, não trabalhando e vestindo-se de festa; fazer comida ás sextas-
feiras para o sabbado, acendendo e n1andando acender então candeei-
ros limpos com mechas novas mais cedo que os outros dias e deixan-
do-os acesos toda a noite até se apagare1n; degolar aves, atravessan-
do-lhes a garganta, tendo experimentado o cutello na unha do dedo da
mão e cobrindo o sangue com terra ; não comer toucinho, nem lebre, nem
coelho, nem aves afogadas, nem enguia, polvo, congro, arraia, pescado
que não tenha escan1a; jejuar o jejum maior que cahc em setembro, não
comendo em todo o dia até á noite ao nascer das estrellas e estando no
dia de jejum maior, descalços, comendo carne e tigeladas e pedindo per-


que fosse pela co~t~a~icção em que e~le e~tava C«?m a b~lla de 12 ~'«?.utubro e. a pro·
pria bulia da Inqutstção. Para a sua h1st~r1a s~rvao-se d uma tra4ucçao em l~tt~ que
est4 na Symmicta. Um traslado authentaco d elle encontra-se a fi. 7 v.o do Já cna~o
codice n.o 979· Vide Doe. I.
( 1) Encontra-se publicado a ft. 4 do Collectorio e a elle se refere Herculano, a paB.
167 da Hist. da orig. da lnguisição, vol. t.0
............. ···················-·---·············-···
dão uns aos outros; jejuar o jejum da rainha Esther, assim como ás se-
gundas e quintas ; solemnizar a Paschoa comendo pão asmo em bacias
e escudellas novas, rezando os Psalmos sem Gloria Pat1·i, fazendo ora-
ção contra a parede, sabbadea11do, abaixando a cabeça e levantando a e
usando então dos ataphaliis, isto é, de correias atadas nos braços ou pos-
tas sobre a cabeça ; comer, quando alguem morre, em mesas baixas e só
pescado, ovos e azeitonas; estar então detraz da porta; banhar os defun-
tos; lançar-lhe calções de lenço, amortalhando-os com camisa comprida e
pondo-lhes em cima a mortalha dobrada como se fosse capa ; enterra-los
em covas fundas e em terra virgem e pondo-lhes na bocca um grão de
aljofar ou dinheiro de ouro ou prata, dizendo que é para pagar a primeira
pousada ; cortar-lhes as unhas guardando-as ; derramar ou mandar derra-
mar a agua dos cantaras e potes, dizendo que as almas dos defuntos
se vêm ali banhar ou que o Anjo P!rcucie111e lavou a espada na agua ;
deitar, nas noites de S. João e de Natal, ferros, pão ou vinho, na agua
dos cantaros e potes, dizendo que naquellas noites a agua se torna em •
sangue; deitar benção aos filhos, pondo-lhes as n1ãos sobre a cabeça
e abaixando a mão pelo rosto abaixo sem fazer o signal da cruz ; cir-
cumcidar os filhos; depois de os baptisar rapar-lhes os oleos que lhes
pozeram.
Depois eram os de caracter mahometano : jejuar o jejum do Ramedan,
não comendo em todo o dia, banhando o corpo todo e estando descalços
fazendo orações de mouros; guardar as sextas feiras.e não comer toucinho
nem beber vinho.
D~pois eram os de caracter lutherano e heretico como : dizer que não
ha l'araiso nem inferno, que não lza mais que 1Jasce1· e morrer; não crer
no Sanctissimo Sacramento; não crer todos os A1·tigos da Fé; dizer que
a Missa não aproveita ás almas; affirmar que o S. to Padre e Prelados não
teem poder para ligar nem absolver; dizer que a confissão se não deve
fazer a sacerdotes, mas cada um se ha-de co11(essar en1 seu co1·ação; dizer
que ha a transmigração das almas; dizer que cada um se pode salvar
ainda que não seja christão ; negar a Virgindade de Nossa Senhora ; dizer
que Jesus Christo não é o Messias promettido.
Por ultimo o Inquisidor-Mór admoestava a que confessassem ou
denunciassem os casos de biçamia, bruxedo ou feitiçaria e aquel-
Jes que tivessem alguma Bibha em portuguez que devia ser exami-
nada.
Para os judeus fazia-se uma restric~ão: era preciso não os accusar de
actos anteriores a 12 de outubro de 1535 que tinham sido já perdoados, e
para todos, confessantes ou denunciantes, se comminava a pena de exco-
munhão maior, no caso de não cumprirem as disposições do monitoria,
que teve publicidade a 19 de novembro.
E para essa publicidade se poder effectivar e o monitorio se cumprir,
· logo no dia seguinte el-rei D. João m
fazia expedir uma carta dirigida a
todos os portuguezes desde os mais altos na escala hierarchica, os infan-
tes, até ao seu ultimo vassallo, ordenando que prestassem á Inquisição
todo o auxilio, prendendo ou mandando prender os que contra as suas
determinações delinquissem, fazendo citar, requerer e emprazar quacs-
A lxQuJstçlo •• PoaTUG.AL • xo B.BAZJL 3
18
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quer pessoas ou penhorar os seus bens-, recebendo, em fim, e fazendo re ·
ceber benigna e favoravelmente os officiaes do Santo Officio (1).
Não nos chega noticia alguma dos effeitos do edicto inquisitorial nos
poucos mezes que ainda restavam do anno de 36 (2). Sabemos sómente
que no anno de 37, logo no mez de janeiro, o Inquisidor João de MeJio,
o celebre João de Mello, a quem Herculano tantas referencias faz .e de
que adeante nos occuparemos, servindo de Inquisidor·•nór, no palacio do
bispo de Ceuta, ouve os depoimentos denunciadores das testemunhas.
Quaes fora1n essas testemunhas e qual a natureza e effeitos das suas de-
clara~ões a seu tempo se dirá. Por agora constataremos apenas, que em
dezembro de J537 já João de Mel1o ouvia delatores em Lisboa no paço
dos Estáos, e não se póde dizer que a sua colheita fosse avultada nos dois
nnnos em que D. Diogo da Silva servio de Inquisidor·mór, que, na phrase
de Herculano, era um Inquisidor-mór tolerante e illustrado. Diversas pro·
vas deu elle do seu animo recto e imparcial, e tantas foram que, ccomo a
bulia de 23 de maio de 1536 auctorisava el-rei para escolher um quarto
Inquisidor geral, além dos tres bispos de Ceuta, Lamego e Coi~bra, e
como só o primeiro tinha exercido esse cargo, nada mais havia do que
pôr á frente da Inquisição, em logar d'elle, um individuo de maior con-
fiança e de mais solta consciencia. Foi o que se fez. Allegando a sua pro-
vecta idade e pouca saúde, e a necessidade de administrar a pequena dio-
cese de Olivença, Fr. Diogo da Silva pedio para ser substituído por pessoa
mais habilitada do que elle para exercer o mister de Inquisidor geral• (3).
A· 10 de junho de 1 53g renunciava pois o bispo de Ceuta o cargo de
Inquisidor-mór, a 22 nomeava D. João III para elle seu irmão, o infante
D. Henrique, arcebispo de Braga, que então contava 27 annos de edade e
a 3 de julho tomava posse do seu elevado e laborioso cargo (4).
E' preciso conhecer os antecedentes d'esta nomeação. Em carta, pro-
vavelmente de abril d' este anno, de que só temos a minuta, publicada a
p~g. 23 do voJ. 4. 0 do Co'lo Diplomatico Portugue1_, e a que se refere
Herculano (5), D. João II dizia a D. Pedro Mascarenhas que pretendia
nomear Inquisidor mór o irmão pelas c suas vertudes e grande zelo que lhe

( 1) Esta carta, citada por Herculano, estai impressa no Collectorio a fl. 147 v.; um
traslado outhentico d'ella se encontra a ft. 32 v. do já citado codice 979·
(2) Referindo-se a esta epocha, escreve Herculano: «Faltam-nos provas directas da
moderação do novo tribunal nos prin1eiros tempos do sua existencia, e a indolc e fins
impelliam- no para a atrocidade : todavia, as maiores probabilidades persuadem que não
se tentou dar á bulia ~e 23 de maio uma interpretação demasiado favoravel aos conver-
sos, ou pelo menos, que o procedimento dos anquisidores não ultrapassou, como acon-
teceu depois tantas vezes, a méta da legalidade. Lendo-se ns allegaçóes feitas em diver-
sos tempos pelos agentes dos christãos novos perante a curia ron1ana, não se encontram,
relativan1ente ao período immediato â nomeação do bispo de Ceuta, senão accusações
yagas, gue mais ,·ão ferir as provisões da bulia de 23 de maio do que os seus executo-
res•. Hrst. da orig. e estabelecimento '"tia. Inquisição, vol. 2.o, pag. '70·
(3) Herculano, Hist. da Origem e estai. da Inquisição, yol. s.•, pag. 2oS.
(4) No Colleclorio se encontra a fl. o o auto de acceitação, a nomeação, assim como
a carta do bispo de Ceuta a que Hercuf:1no allude; egualmente se encontram, em tras-
lado authentico, a fl. 36 do já citado Codice 979·
(5) His 1. da orig. e estab. da lJifUisição, voJ. 2.•, pag. 207, Dota.
19
conheço nas cousas de Deus e da igreja,. Acrescentava o monarcha Pie·
doso que se o cargo fosse de principe secular, co1n muito grande gosto
nelle se empregaria, porque cnenhúa cousa ouuera que era mais de rey
que servir a Deus, que he verdadeiramente reinar•. E, fazendo realçar
as qualidades do irmão, que só pelo se1·viço de Deus acceitava de boa
vontade o Jogar, dizia el-rci 1>. João III que cse nam pode du\'idar que
use de seu officio como não deve em nenhuma parte, por 111ais largos
que se lhe concedam os poderes,. I
A côrte de Roma porem é que assim o não entendeu, c o monarcha
portuguez (1) lamentava-se depois do Papa não ter por bean que o seu
ir:mão carnal fosse o Inquisidor-mór, porque S. Santidade estava conven·
cido de que cquanto mais chegado he a mim em parentesco, mais sus·
peito fiqua a esta nação,.
A nação a que D. João III se refere é a hebraica, cujos representan-
tes em Roma intrigavam, mentiam, subornavam e de todos os meios
se ser\·iam para conseguir os seus fins, denunciando até ás vezes factos
verdadeiros ao que parece, c que os partidarios da Inquisição certamente
bem desejaria1n que ficassem no escuro. Assim, um mercador de Lisboa,
por nome Heitor Antonio, foi para Roma queixar-se de que, vindo e1n
direcção á capital do mundo catholico, perto de Rio Frio, encontrara dois
cavalleiros, um dos quaes partira a galope logo que o avistara, e pouco
depois encontrou o infante D. Henrique, acompanhado por cinco homens
a cavallo, que a elle se dirigio perguntando-lhe para onde ia. Heitor An-
tonio respondeu-lhe que para Valhadolid e como o infante lhe retrucasse
que bem sabia que ia para Roma, que era irmão do procurador dos chris·
tãos novos e que ia contra a Inquisição, Heitor negou-o, apezar do 9ue
D. Henrique o não deixou seguir viagem e o fez ir comsigo até Landetra,
onde lhe tomaram a mallst com todas as cartas que o infante leu, cento
e tantos cruzados e certos anneis. Entregaram-lhe depois a malla com as
cartas, mas tambem o entregaram preso ao correio·mór que o trouxe
para Lisboa, onde o christão novo poude fugir e pôr-se a salvo em di ..
recção a Roma.
Este facto, narrado e admittido pelo proprio D. Pedro Mascarenhas (2),
fez augmentar a má vontade existente em Roma contra o In~uisidor Geral
que por esse te1npo estava em lucta aberta com o nuncio Capo di Ferro,
lucta que liercuJano historia larga e documentalmente, pondo em relevo
a grande finura diplomatica do embaixador D. Pedro de Mascarenhas,
que, apezar d~ tudo, conseguio a revocação de Capo di Ferro. Para ahi
remettemos o leitor curioso d'csta lucta em que o Infante D. Henrique
jogou o seu importantissimo Jogar. Elia outra coisa não era senão o re-
flexo do que ia em Roma.
Entretanto o arcebispo de Braga era provido no logar do irmão falle·
cido, o cardeal D. Affonso, e para esse effeito o bispado de Evora era

(•) Em carta de 10 de dezembro de t53g, a D. Pedro de Mascarenhas, publicada a


pag. 2l1 do vol. 4-• do Corpo Dip. Port.
(3) Carta de 9 de março de 1S4o, a pag. 2Y} do vol. 4° do Corpo Dip. Port.
................. 20
-..... ...._ ____
elevado a arcebispado (1 ). D. Henrique tinha então vinte e oito annos de
edade (2) e as rendas que possuía eram urn conto e meio de reaes do
1nosteiro d' Alcobaça, outro conto e meio de reaes do arcebispado de
Braga e outras ainda, menos importantes.
Como se ve, achava-se na edade em que as paixões mais facilmente
• se exacerbam; alem de principe secular era principe da Egrcja, supremo
fiscal, como Inquisidor-mór, da pureza religiosa do paiz e por isso consi-
derado como inimigo figadal dos christãos novos que, como vimos já,
violenta e pessoalmente o combatiam em Roma. Ficar silencioso perante
os seus adversarias seria· capitular e D. Henrique, escrevendo a Pedro
Domenico accusa os christãos novos dizendo que elles não podem allegar
ser condemnados por teste1nunhos falsos ou de christãos velhos, •porque
todos até gora o sam per suas proprias confessões e testimunhos, (3).
O seu estado religioso é nella descr1pto com cores carregadas; acham-se
comprehendidos em cousas tão feias e abomina veis contra N. Senhor,
que se não acreditariam se não fossem tão claras e se tão provadas não
estivessem. Por exemplo, certo sapateiro de Setubal, christão novo, por
nome Luiz, intitula se o Messias e tem fingido milagres de tal maneira
que, até entre os seus adoradores, conta homens illustrados. Ha-os que
se fazem profetas e um tal Gabriel, tambem christão novo c physico,
anda em Lisboa, prégando aos seus correligionarios de casa em casa, a
religião moysaica. Para cumulo chegaram a converter uma christã a
quem, com grande solemnidade, cortaram as unhas e ultimamente foi
descoberta uma synagoga !
Pedro Domenico fez a leitura d'esta carta ao Pontifice e é elle mesmo
que1n nos conta ter Paulo III ficado maravilhado de ta111 feas cousas (4).
E' impossivel, nesta altura, separar a personalidade do Inquisidor
geral O. Henrique da marcha dos negocias em Roma que decididamente
atravessavam um periodo bem agudo.
Apezar d'um christão novo, rico e nobre, ao que parece natural de
Coimbra, neto de Mestre Rodrigo e sobrinho de Antonio Fernandes, dar
como suspeito um inqllisidor d'ali, querendo que a sua cau~a fosse jul-
gada pelo infante D. Henrique - evtdente prova de confiança - é certo
que ainda se não tinha desvanecido em Roma a m~\ itnpressão d'el-rei
D. João III o ter collocado como Inquisidor Geral, o que, o proprio Papa
atribui a a avarie ia e cobiçia (5 ).
Debalde Balthazar de Faria, enviado especial em Roma, allegava que
a ~nhum christão novo tinha a Inquisição tirado a sua fazenda, que os
bens dos condemnados eram confiscados para os herdeiros catholicos. e
que pelo contrario el rei D. João III dispendia por anno, na manutenção
do Santo Officio, nada menos de dez a onze mil ducados !
Pelo seu lado os christãos novos não descançavam. A. bulia não se
---------
( 1j Bulia de 24 de setembro de 1 5-to, no Corp. Dp. Port., vol. 4. 0 , pag. 344·
( 2.) Corpo Dip. Port., vol. 4. 0 , pag. 326; l1~{ornz.1f ..10 para a pro••isão do bisp . tdo.
(3) lbid., vol. 5. 0 , pag. 3-J.; carta de 10 de fcvcretro de 1542..
(4) lbid., pag. 70.
(5) Carta de 27 de julho de t5-J2 ; lbid., pag. 98.
'
I

21
..........-.............. ......... .........-
...- ._

cumpre, diziam elles; das appelações não se faz caso; se um christão


novo accusa outro, é absolvido; se o escravo accusa o amo de judaisar,
dão-lhe liberdade; a quem accusa um christão novo, dão cinco ducados; os
carcercs e prisões são secretos e nem á missa lhes permittem a ida! (1)
O exaspero chegava verdadeiramente ao seu auge.
Certa occasião Balthazar de Faria fallava com o Pontifice e aos pés
d'este se lançou um Gaspar Francisco, filho de Margarida d'Oiive1ra,
presa pela Inquisição e cujo processo o Papa a si avocou, dizendo em
altos gritos que o embaixador portuguez lhe queria queimar a mãe, ex-
cedendo-se tanto que o Papa o teve de mandar arredar pelos guardas (2).
Este lance, intensamente dramatico e commovente, havia de certo de
abalar o animo de Paulo III, tanto mais que ha muito tempo o preoccu-
pava o facto do seu antecessor, á hora da morte, fallar em revogar a In-
quisição, por descargo de consciencia (3).
Em tal disposição de espírito, não admira pois que o breve de 22 de
setembro de 1544 (4) viesse suspender a execução das sentenças do
Santo Officio.
A seu tempo se verá qual era então o movimento de culpados ; por
agora fallemos apenas na impressão causada por tal breve na côrte por-
tugucza, c que não podia ser mais c:Joloros~.
c A corte achava-se em Evora, escreve 1-Ierculano (5 ). O primeiro
acto do nuncio foi intimar ao infante inquisidor-mór as inopinadas de·
terminações do pontifice, mandando depo1s afixar copias authenticas do
breve nas portas das cathedraes d'Evora, de Lisboa e de Coimbra:..
D. João III, escrevendo a Balthazar de Faria em 2J de dezembro (6),
queixa·se bem amargamente d'este procedimento, lembrando o que, por
causa da Inquisição, tem perdido de fazenda c vassallos. Dirigindo-se di-
rectamente a Paulo III, ean t3 de janeiro de J5.j.5, apresenta -se como
fundamente aggravado e historia largamente os motivos que o leva-
ram a pedir tal Tribunal, motivos exclusivamente de caracter ·religioso;
lembra os serviços tambem da mesma ordem prestados pelos portugue-
zes com as descobertas e conquistas d'além-mar, os grandes damnos que
lhe soffre a fazenda com a fuga dos christãos novos e com a propria In-
quisição, cujos officiaes c mais despezas são todos á sua custa ; falia nas
isenções que alguns christãos novos têm alcançado e entre elles o De-
zembargador Gil Vaz Bugalho, christão velho convertido ao judaísmo; e,
por fim, antes de pedir o estabelecimento perpetuo da Inquisição, lembra
o alto serviço que está prestando o infante D. Henrique no logar de In-
quisidor Geral, po1· I h' o eu ntuito rogar e ellconznzelldat• (7).
Como se vê, na côrte portugueza havia então a perfeita consciencia do

( 1) Carta citada; Corpo Dip. Port., vol. 5.0 , pag g8.


(2) Carta de 18 de fevereiro de 1S44; lbid., vol. 5. 0 , pag. 271.
(3 J Carta citada de 18 de fevereiro de 1544·
(4) L·orpo Dip. Port., vol. 5.•, pag. 3o8.
(5) A pag. tg8 do 3. 0 vol. d·a sua Hist. da orig. e .Estab. da Inquisição.
(ó) L·o,.po Dip. Port., vol. ~.o, pag. 320.
(7) lbid., pag. 33o. ·

22

grande desastre economico, que era para o paiz o exodo dos christãos
novos e já em J53g existia essa certeza, porquanto, a 10 de Dezembro
(C,Jrpo Dipl. Por!., vol. 4. 0 , pag. 231) o mesmo monarcha, escrevendo ao
seu embaixador, não occultava que os judeus eram uma muito grande parte
dos seus vassalos, cmuyto mais proveitosos que todolos outros do povo pera
meu serviço per toda las vias de negociação, de maneyra que as m1nhas ren.
das, e todas as dos nobres dos meus reynos, e todos outros tratos pro-
veitosos crecião por suas mãos destes mais riquos que todolos outros, e
sabido he a grande soma de dinheiro que tem pasado desta terra em
Frandes•.
A tudo porém se preferia a unidade religiosa e uma mal entendida
tranquillidade de espirito fanatisado !
O anno de 1545 foi para o infante D. Henrique compensador, em be-
nesses, dos desgostos por que o faziam passar os seus temíveis e astucio-
sos adversarias.
A 22 de ~larço concedia-lhe o Papa o regresso no priorado de Cedo-
feita ( 1) ; a 8 de junho o Ioga r e proventos de commendatario de Alco-
baça (2); e a 4 de dezembro era elevado á dignidade cardinalicia.
Parece que havia o proposito de desvanecer na côrte portugueza o
pessimo effeno da suspensão do 8.'0 Officio, a qual tinha trazido comsigo
a expulsão do nuncio.
Com effeito um medianeiro se tinha interposto a procurar conciliar
os animos, que tão exaltados se achavam. Este medianeiro era Ignacio de
Loyola, o fundador e Geral dos Jesuitas.
Mas D. João III entrincheirava·se na formula positiva do do 111 des. O
Papa queria o nuncio readmittido ? Pois bem ; era preciso tambem ser
condescendente e instituir a Inquisição conforme os seus desejos (3).
No entretanto o nuncio voltou a Lisboa, mas o breve de que elle foi
portador não satisfez el-rei D. João III.
A 19 de fevereiro de t546 já o monarcha portuguez se queixava d'elle,
acoimando-o de susreito. Fôra o caso que o nuncio, cm Evora, se dirigira
ao Cardeal D. Henrique, apresentando-lhe uma queixa contra os inquisi-
dores que, nos seus actos, excediam as determinações da bulia e, apezar
do Inquisidor Geral logo alli lh'o haver contradictado e de lhe ter promet
tido resposta por escripto, o nuncio apresentou a queixa a alguns prelados
e ao proprio rei, tendo-a, para cumulo, enviado ao Papa (4).
A 6 de Maio novas gueixas juncta ás antigas: o nuncio excommungara
os nota rios do Santo Officio! (5).
A curia romana porém continuava fazendo a bocca doce á côrte por-
tugueza. A' promessa de alargamento das rendas do bispo, Cardeal Far-
nese, neto do Pontifice (ti), respondia este, como já vimos, não só com

( 1} Corpo Dipl. Porl., vol. 5. 0 , pag. 400.


(2) lbid., pag. 424.
(3) lbid., pag. 4S4.
(4) Jbid., vol. 6.•, pag. 19.
(5) lbid ., pag. 5o.
(ri) lbid., pag. 23.
a dignidade de cardesl para D. Henrique, mas tambem concedendo lhe o
poder de testar todos os seus bens ( 1), dispensando-o de ir a Roma rece-
ber o capello (2) e para o Rei, irmão e Rainha enviava uma caixa de
Agnus Dei, offerta que Balthazar de Faria, em cnrta de 23 de abril de
1 !>4~ (3), encarecia como muito valiosa.
Eram os preludios da s~ttisfacção dos desejos do Monarcha que Baltha·
zar de Faria annunciava em 3 de maio (4)·
Com etfeito, pelos fins de novembro chegava a Lisboa o cavalleiro João
Ugolino com a bulia definitiva da Inquisição e mais diplomas concernen-
tes a este objecto (5 ).
cDividiam-se, escreve Herculano, os diplomas pontificios relativos ao
negocio dos christãos novos cm duas categorias : uma dos que lhes eram,
ou antes simulavam ser, favoraveis: outra dos que se referiam ao estabe-
lecimento definitivo do tribunal da fé. Eram os primitivos, além da bulia
de perdão, um breve eximindo do confisco por dez annos os criminosos
sentenciados ; outro suspendendo por um anno a entrega ao braço secular
dos réus de crime capital; outro, emfim, dirigido n e l-rei para interpôr a
sua paternal sollicitude, afim de que a Inquisição procedesse com bran-
dura•.
Estes diplomas acham-se hoje todos impressos no Coi1JO Diplomatico
Portuquet,.
Atil se encontram (a pag. 147 do vol. 6. 0 ) o breve 1//ius qui misel·i-
cors de 11 de maio de 1547, absolvendo das penas e excomunhões in-
corridas os christãos novos e todos os mais que delinquissem contra a fé,
soltando-os, entregando-lhes os bens confiscados e restituindo-os ás suas
honras e dignidades; o breve G·unJ serenissi1n11m, a q_ue Herculano se não
refere, dirigido ao Cardeal Infante para lhe transmittar que o Papa espera
que elle use da Inquisição com brandura (6); o breve Cu1n saepius annun-
ciando a D. João III a concessão da bulia ~7); o breve Ronla,us Ponlifex,
annullando as isenções outorgadas pela Santa Sé aos christãos novos,
existentes em Portugal, exceptuando as dos procuradores dos hebreu41 e
dos seus parentes (8), e o breve Licel 11os de 15 de novembro dirigido ao
rei para recommendar brandura aos Inquisidores; e finalmente a bulia Me-
ditatio Cordis, restabelecendo os poderes inquisitoriaes em todo o seu
vigôr (g).
Como se vê, procura\ra o Pontifice adoçar com um perdão a bulia in-
quisitorial, diligenciando assim satisfazer as duas partes, que ha tanto
tempo litigavam com um phrenesi e uma energia bem dignos de causa

(1) Corpo Dipl. Port., vol. G.o, pag. Sr.


(2) lbid., pag. 78.
(3) lbid., pag. •35.
(4) lbid., pag. •3g.
15) Herc., Hist. ila Orig., pag. 3o-J do vol. 3. 0
(6) Corpo Dipl. Port., vol. 6. pag. 1S9.
0
,

(7) lbid., pag. 16o.


(8) lhid., pag. 164.
(g) lbid., pag. 166.
24
..--·············-····-······-·· ··-·--···---
mais util e proveitosa para a Humanidade. Conseguil-o-hia d'esta feita?
Hemos d·e vê-lo bem brevemente, pelo menos quanto a uma d'ellas.
Herculano extracta assim a bulia Medilatio Cordis: (1) c Depois de um
preambulo, onJe se epitomava a historia das phases por que até ahi pas-
sara a Inquisição portugueza desde a sua primeira fundação, alludia-se ao
perdão geral que se acabava de conceder aos até então culpados do crime
de heresia. Depois d'esta prova de indulgencia, o pontífice estava resolvido
a proceder severamente. Para isso, abrogando a bulia de I536, avocava
a si todos os poderes conferidos por ella ou d'ella derivados, dando os de
novo ao infante cardeal D. Henrique e aos inquisidores seus delegados.
Supprimia todas as modificações e limitações até ahi impostas á Inquisi-
ção de Portugal, e cassava sem excepção a auctoridade concedida a qual-
quer delegado apostolico para conhecer de tal ou tal delicto contra a reli-
gião. A Inquisição, assim constituida, procederia em conformidade da
JUrisprudencia que geralmente regulava aquella instituição, e os inquisido-
res usariam de toda a jurisdicção, preemtnencias e prerogativas que por
direito, uso e costume pertenciam aos individuos revestidos de semelhante
dignidade, continuando e terminando todos os processos de heresia, sem
exceptuar sequer os avocados á curia pontificia. Concluia declarando irrito
e nullo tudo quanto podesse contrariar as amplissimas disposições d'aquella
bulia,.
O l:1quisidor Geral D. Henrique estava por esse tempo em Evora e, a
2 de fevereiro de 1S48, era elle entregue dos treslados dos diplomas pon-
tificios a cujo respeito D. João III desejava ouvir o seu parecer. Não o
demorou o cardeal e logo no dia seguinte communicava a El-Rei os gran-
des inconvenientes do perdão (2). Como se ha-de dizer aos que judaizam nos
carceres? Que procedimento se ha-de ter para com elles ? Nota o cardeal
a contradicção entre o que dizia o perdão, que a abjuração fosse publica,
c o ~ue o nuncio lhe communicava, que ella fosse sómente na presença
dos Inquisidores e notarias. E, notando isto, apresenta a sua opinião de
que ella devia ser publica, bem publica, para os christãos saberem de
quem se deviam guardar, porque o contagio dos culpados era peçonhento
e perigoso. Elles podiam corromper os restantes christãos novos e, não só
esses, como até os proprios christãos velhos ! Já S. Paulo dizia que basta
o fermento para corromper toda a massa.
O Cardeal tambem não via com bons olhos a suspensão por um anno
da entrega dos culpados ao braço secular. U1n anno, tempo mais que suffi·
ciente para elles poderen1 {ate'· o que qui'{tl·enJ e se hil·e111, escreve tex-
tualmente o Inquisidor Geral.
E' para o final da sua c~trta, totalmente desconhecida e tão interessante,
quando cm especial se refere á bulia Medi/alio G"ordis, que o Cardeal
D. Henrique guarda toda a indignação da sua critica. A bulia só por si
bem estava, mas a bulia não se pode considerar cm separado dos papeis
que com ella vinhan1. Porventura não arranjarão os christãos novos per-

( 1) Hist. da orig. e estah. da l11quieição CllJ Po1·1ugal, vol 3..., pog. 3o6.
( 2) Por carta inedita que agora publicamos. (Doe. 11).
.................... ·-·····..·· ·--··-····---·--
dão sempre que lhes appeteça ? Se agora lh' o dão, com uma bulia ínquí-
sitorial Iam tllca•·ecida, não é conjecturar muito que lh'o deem, sempre
que o supliquem e peçam.
Entende o Cardeal que deve EI-Rei dar estimulo e animo aos que tra-
tam do negocio da Inquisição, porque elles o teem de lodo der·1-ibado e, se
quer Inquisição, que ordene tudo de novo. Já não está para tratar mais
d'este negocio, diz o Inquisidor Geral, e se estivesse não mandaria exe-
cutar o perdiio que he 11111ilo {o1·te cousa pera mi111. Porque o não escusa
EI-Rei, ao menos temporariamente, de exercer o lagar? O Cardeal volta-
ria quando a Inquisição se pudesse faie•· como devia. Mas para isso preci·
sava elle de dois ou tres homens, entendidos nos negocias da In~uisição,
para sempre o acompanharem ; e, além d'isso, de inquisidores sufficientes;
de rendimento para se lhes pagar e para os gastos da Inquisição; d'um en-
carregado em Roma só para negoctos d·eua e em tudo do favor e protecção
reaes. Só então o Cardeal se quereria tornar a meter 11esta fragua de Ira·
ba/hos que se nam podem sofi·e,·.
Ainda fallando da bulia IP.mbra D. Henrique que nella se não diz que
seja o Rei quem nomeie o Inquisidor Geral~ o que pode trazer graves in-
convenientes. E por ultimo, o Cardeal, sempre descontente, acha que o
breve Romanus Poutrfe."C destinado a annullar as isenções conceâidas
pela Santa Sé aos christãos novos, excepto as dos procuradores dos he-
breus e dos seus parentes, lhes vem muito favoravel, devendo, por causa
das confusões e dos sophismas, declarar com precisão quaes eram esses
procuradores.
Como seria interessante saber o que diria a isto Balthazar de Faria, o
infatigavel embaixador em Roma, se por acaso tivesse tido conhecimento
da opinião ferozmente insaciavel do Cardeal D. Henrique a respeito dos
diplomas que com tantas fadigas e canceiras tinha alcançado!
E' nos vedado sabê-lo, assJm como não sabemos a resposta que el-rei
D. João III daria á carta do irmão. O que sabemos no emtanto é, que
D. Henrique não se contentou só com escrever e que, dias depois, enviava
como emissario um tal Fr. ·Antonio, cujas instrucções felizmente chega-
ram a nossos dias ( 1 ).
Têm a data de 1o de fevereiro. Nellas lhe recommenda o Inquisidor
Geral que lembre a EI·Rei a forma como acceitou o cargo da Inquisição;
os servaços que nelle prestou ; a questão que sustentou com o Nuncio na
qual só lhe pesa não ter sido mais intolerante ; e que pondere a El-Rei
que, depois da recente bulia e documentos que a acompanham, não lhe
fica senão o nome de Inquisição, pois lhe uraram a materia em que se
havia de exercer, não só destruindo o que, com tanto trabalho, se tinha
feito já, mas tambem de futuro, com dilações e isenções dos procurado·
res.
Em seguida, desejava o Cardeal Infante que Fr. Antonio transmittisse
ao Monarcha o seu pedido de escusa tempornria, para só entrar em
exercicio, quando a Inquisição se podesse exercer a valer, comtanto que

( •) Doe. III.
A lxQmuçlo llK PoRTUGAL • 110 BBAztt, 3
d-ni ~ dr~ pessoas de UMzfimça alCe de iaqc•~ ~ diobeiro _para
~ l!q.ssicão so poc si se ~tentar: cm ui c•so., esca~na D. Hconque,
aM~ ~ ·r!~RIU~ I!JirJI~rn .1 til~ ~ ~ Frinu ua .U .,._,as par~to
., •--do!
~J3cto ao perdão. conrinuYa o carde31 cizendo que elle se oio deTi~
cumf1 it ~ demais a majs. mteodmdo-se qce so dcriam abjurar os que n-
n~m ~ r-:-ocessos ccoclu...idos~ por'fue os outros podia::-- sahir Jiyremeote
e ir tomai o Smc1i~ Sacramento i:om a alma maocbada pelas faltas
COM•«mctt-d6. _. E de bma alguma podia~ liar o Suncio com j~-
4k.cio ~ os ~ do Santo Olticio.. Er-a iodispc •rsaftl não traoSI-
p-· arstc f<X!tO e -mandar embaixadores ~c cmbaisa~ a Roma,
afim .k ~ros.eguir o que se deseian.
Per ~!iat)O o ürdeal insistia pela sc.t esaJ.Sa; o seu arcebispado da-
~~ ID'_.=to qoe iucr, era preciso lisita-lo e q~ ti• esse o cargo de
~h G!ral de-ria ~tar na -:õrtt.
Fr•.\.:1tcn.io ~a ror obrigação ~cmmunhAr isto tudo á Raiuba e ao
lufante, roja rnx~~o Jena ~.
~io sa~tt)()S 3 forma ~omo dle se &.scmpeobou de soa missão, mas
de certo nio cmnrrio tudo o que D. Hmri~ue ihe ~CJOIIDaiCian., por-
qu.mto estu instn'.;~s ~seia1" .1 o cardeal 'I~ lbe b-..~ ttStituidas e
dias fizeram, ao que ~rec~ .. rane dos ~~cmentos ~n~g-JCS por Pedro
da _.\1~-ol"a Ca.~ a Thuni~ de Goes. em 1 :ex, ~ 1 •
E. araar ,rell3s e d3 ~an.t a que tizf!mos refittncia. D. João W aio
se adlal""a J:~ro.sto a deixar Jc ~umrrir o pcrJio ~~~do aos christios
oon>s \'!'... Os des-ejos do ln'luisiJor Geral ~eram~ fOIIIO satisfei-
tos; o --1ue elle cooscguio )X'rem foi 'lae as a~iura.:-ões fosse••• publicas,
e em ~~ilafalso.. H aTia comtuJo uma JifficutJadc: ~"'IDO fazer a prégação
a~uaJ.s ao acto sem esc"ndalisar o JX-ro :
O infante opina,-. ~ue o serm.i...'l não ~na ser na nKsma occasiio e
~ fim insistia~ mas itt l:'-en1 fn~uxo~~nt~, lk.l .~~~~"'00 do Jogar de lo-
quisido: Geral.
A pu~li~a\ãO \l"este rerJiio ~~ral t~z .. se \74..'!n (ifc!to cm Lisboa., na Sé,
num Domin!lo~ dia ll' Je iunh.." J~ .~_.~ \~' ..
•~ ~o d\>Ut\1~1\.~ e~~~\"e ~~ . ~· .,_, P~J'.' rar.a i~ ~: adcccr a forma
como ~S\.ll,~u os ne~t'-~k'\$ da l~·i~'à\" \~ \: -
P(\f t~se t~'"l'' atl~t~,-~ \' t.~~~~ lnt:.~nt~ tnn1 ar2TC infamidade
que che~o~ a 5(\~~$l\h,u. ~ ,,\rt(\ ~ ('~ll ~'"' ~ ~:~~~ paa-tia a risitar ~
seu •~ebas~'\do \~\. J,, "~~nn ~""'l'flr '~ ~(us ~'-c~ ~.1ticios que a
lnquisiç!o t~ll ~c.mll''~'""'~nt~ t\~~\f\'i.t,
PAssado t~n'~"'' ~"' R"'"'.- . rin~'"' ~~ ,, l~f'A l'•t::v lU c D. João UI,
.. ··-
já de ha muit:a congraçado com o irmão, lembrava-se de conseguir que
o seu suc~essor fosse o cardeal D. Henrique.
Se o conseguisse, satisfaria o irmão, ambicioso como poucos; para a
familia real portugueza traria um grande lustre e honra, e seria tambem
a victoria completa sobre os tão odiados christios novos.
Neste sentido pois escreveu, a 19 de janeiro de •55o, a Balthazar de
Faria, dizendo-lhe para fallar junctamente a todo o collegio dos cardeaes
e a cada um ern particular, escrevendo na mesma orientação ao impera-
dor Carlos V.
Não conhecemos infelizmente a resposta de Balthazar de Faria que
nos seria particularmente interessante; sabemos todavia pela carta de 1 1
de fevereiro ( 1), que Balthazar de Faria alguma coisa fez, dirigindo-se
quer aos cardeacs, quer aos embaixadores de França e Hespanha. D.
João III dizia.Jhe tambem saber que o rei de França mostrava grande
contentamento em o cardeal 111e11 yrmão aver de ser papa, assim como
o rei de Hespanha, e recommendava-lhe que trabalhasse nesse sentido,
p1·essoposlo
.trmao
.-
que o spi1·ito samlo _he o que ha de {ater o ca1·deal nze11
papa. .
Apezar de D. João III se mostrar nesta carta muito espet·ançado, é
certo que dois dias depois expedia o Papa recem.nomeado um breve de
participação a D. Henrique.
EI-Rei perdia assim uma das suas illusóes e o cardeal via por terra
os castellos que tão phantasiosamente teria architectado, julgando-se por·
ventura revestido da thiara pontifical para poder tirar a desforra dos infa-
mes christãos novos que com tanta pertinacia e astucia se lhe atraves-
savam no caminho.
Para distracção foi o Cardeal fazer a visitação das Casas da Suppli·
cnção e do Civel {2) e um dos grandes inconvenientes, que, como vimos,
. elle tinha apontado nos documentos enviados com a bulia Meditatio
Cordis, sobre a extensão a dar á isenção dos procuradores dos christãos
novos, foi attendido, determinando-se expressamente que só se deviam
entender os procuradores que, á data do breve, exerciam em Roma taes
funções (3).
E, como não estivesse ainda contente com as honras obtidas e, por
outro lado, se não vissem com ·bons olhos, o cardeal D. Henrique c o
nuncio, foi aquelle elevado á dignidade de legado pontificio (4).
Já D. João III, em janeiro de 1553, fazia esse pedido (5), em março
d'esse mesmo anno renova-o e, quando elle foi satisfeito, galardoou o car-
deal Monte Policiano com a pensão de 4oo~ooo rs. e enviou um bom
presente ao Pontifice (6).

(r) Co~po Dipl. Port., vol. 6. 0 , pag. 346.


(2) lb1d., pa~. 367.
(3) lbid., vol. 7. 0 , pag. 8, Breve Ro111ani Pontificis, de 2.5 de março de aSSa.
(4) Pelo bre\'c Quod tua Majestas de 18 de agosto de t553, Corpo Dipl. Port., vol. 7 .•,
pag.241.
(5) lhid., pag. 202.
(6) lhid., pag. 326 c 328.
------··-··...
Na verdade, contra o eardeal D. Henrique não cessavam as intrigas·
em Roma. Os seus inimigos não descançavam e para as desfazer acon-
selhava-lhe D. João III que escrevesse ao Papa, para aclarar e explicar a
observancia que em Portugal se tinha dado aos decretos do Concilio (1).
Não se desfazendo a accusação de desobediente, como obter a tão ambi-
cionada legacia ? •••
E para todos estes negocios era sempre indispensavel o parecer do
Inquisidor Geral (2), que de resto se queixava dos seus multiplos atfaze-
res, a Inquisição, a Legacia, o arcebispado c Alcobaça, por causa dos
quaes precisava de bons auxiliares, não duvidan~o escrever a El-Rci que
teria de abandonar a Inquisição e a Le~acia se por acaso lh'os fosse
tirando, como pretendia, nomeando Fr. Gaspar dos Reis para o bispado
do Funchal (3).
Todavia a ambição de D. Henrique não se achava satisfeita e, pre-
tendente infeliz d·uma vez á cadeira de S. Pedro, quando morre o Pon-
tifice, novamente intenta suceder-lhe, empregando para isso todos os seus
esforços em Roma Lourenço Pires de Tavora (4).
Mas, ou porque não houvesse esperança de bom exito, ou porque na
côrte portugueza se movessetn intrigas juncto da rainha D. Catharina,
ou porque fosse verdadeiro o motivo apresentado, é certo que, en1 12 de
setembro de a55g, D. Catharina dizia a Lourenço Pires de Tavora que
não tratasse mais do assumpto, quer pela g1·ande necesidade que eu
te11ho da pessoa do seuhor cardeal pe,·a o que toca ao gover·11o destes
•·cyuos que he de ta111o peso, quer, porque para tal fim, se não deve
usar de meios humanos (5).
Mais uma vez pois D. Henrique vio gorados os seus audaciosos planos.
Entretanto, pelo breve Accepinzus quod de 20 de setembro de 1 ~6o (6),
foi-lhe concedida licença para visitar, corrigir e reformar as cgrcjas e
casas religiosas de ambos os .sExos e de qualquer ordem, assim como
cohibir os excessos dos prégadores. Não lhe faltava portanto onde exer-
cer a sua actividade.
Temos até aqui visto o papel do Inquisidor Geral D. Henrique, prin-
cipalmente nas luctas externas indispensa\'eis para a conservação, manu-
tenção e alargamento do Santo Officio.
A seu tempo se verá a sua obra na organisação interna do tribunal.
Basta que nos lembremos que D. Henrique, quando começou a exercer o
logar de Inquisidor Geral, se achou em frente d'uma instituição completa-
mente nova pela qual o seu antecessor pouco tinha feito e n que era pre-
ciso dar organisação pratica e viavel, para ajuizarmos da energia-. da acti-
vidade e quiçá fanatismo, de que lhe foi preciso lançar mão. Pode di-
zer-se seguramente que bem mal empregado elle foi, mas, por antypa-

{1) Doe. VI.


(2) Doe. VII.
(3) Carta de 7 de julho de aSS-4. Doe. VJJ(
(4) Cor:;~o Drpl. Port., vol. 8. 0 , pag. 21 o.
( 5) lbid., pag. 2lo.
(6) lbid, vol. 9.•, pag. 42.
thica que nos seja a figura do ultimo filho de D. Manoel, ainda mais la-
natico, como vimos, que o primeiro- el-rei D. João III- é indubitavel
que elle foi a fatidica alma da Inquisição portugueza no seculo XVI.
Por bulia do Papa Gregorio XIII de 24 de fevereiro de 1578 ( 1) foi
nomeado Inquisidor Geral o bispo de Coimbra, D. Manoel de Meneses,
que no dia J3 de junho prestou juramento no mosteiro dos Jeronymos de
Belem (t), mas que não chegou a exercitar o Jogar por ter fallecido na
batalha de Alcacer Quibir. .
Seguio-se-lhe o arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, nomeado
por bulia de 27 de dezembro de 1579 (3) ; depo1s o cardeal Alberto, no·
meado por bulia de Sixto V de ~5 de Janeiro de 1S86 (4) e que acceitou
o Jogar a t3 de março; e depois foi nomeado Inquisidor Geral o bi~ de
EIYas, D. Antonio de Mattos de Noronha por bulia de Clemente VW de
12 de julho de J5g6 (5).
Este tomou posse a 8 de agosto, acceitando nessa occasião o breve
de Sua Santidade, o qual, assim como haviam feito seus antecessores, diz
o termo de acceitaçio, bei_jou e p6s sobrt sua cabeça. Com o bispo de
Elvas se completa a lista dos Inquisidores Geraes do seculo XVI.

m
O Conselho Ger•l do Santo OHiclo

~. . .oMo assessores do Inquisidor Geral funccionavam, á (rente do Santô


Oflicio, os deputados do Conselho, tambem chamado Geral. ·
Logo na bulia instituidora da Inquisição entre nós, se falia do
Co11silium gene1·ale ;,,quisilionis.
Herculano diz-nos (6) que Fr. Diogo da Silva fez immediatamente
a sua instituição e é certo que, se nos não chegam provas do Conselho
ter existido de direito, a não ser a bulia citada, sabemos que de facto,
logo nos primeiros dias de I537, aos interroga to rios das testemunhas
assistem em Evora o Dr. João de Mello, servindo de Inquisidor-mór,
o Licenciado Gonçalo Pjnheiro e \l Dr. Ruy Lopes deputados e collse-
lheiros da Sa11ta Inquisiçã (7), assim como Antonio Rodrigues, prior de
Monsanto.
Qual a primitiva lei em que viviam, não o sabemos. Sabemos apenas

1) Publicada no Collectorio, a ft. I3.


2) Collectorio, fJ. aS v. ·
3~ Collectorio, fi. 16.
4 Colleelorio, ft. 19.
5 Collectorio, ft. 21 v. .
6} A pas. 170 do 2.• voL da Hist. da origem e ellabllecimento da l1UJIIiliçáo
7). Liwo da1 denunciaç6es de z537 a J543 que adeante extractaremoL F·r. PedrO
Monteiro, Catalogo dos Deputados do Conselho Geral, diz que elles foram nomeados
• 10 de outubro de t536 e tru os mesmos nomes que apontámos com a differença só-
meate de chamar a Ruy Lopes, Rodrigo, por engano.
4

3o
que um dos primeiros cuidados do Cardeal D. Henrique, ao ser investido
do poder de Inquisidor Geral, .foi, treze dias depois da sua posse, a 16 de
julho de 1Sl9 (1), estabelecer e ordenar Co11selho Geral, nomeando para
d'elle fazerem parte os seguintes conselheiros: Fr. João Soares, mestre
em Theologia (~), Dr. Ruy Gomes Pinheiro, dezembargador d'EIRei,
Dr. Ruy Lopes de Carvalho, conego na sé de Evora, e o Dr. João
de Mello, continuando sómente estes dois ultimos dos nomeados pelo pri-
meiro Inquisidor-mór.
Das suas atribuições sabemos que eram as que lhe commettera a bulia
Cun1 ad nihil magis (3) e, quanto aos seus deveres, temos noticia de que,
sob juramento, se obngavam a dar justiça ás partes sem favor nem aggra-
Yo, sem odio nem affeição, não recebendo d' e lias da diva alguma, tendo
segredo, -não descobrindo as resoluç6es que se tomassem e não pedindo
nada, quer ao Inctuisidor Geral, quer aos collegas do Conselho Geral, quer ·
ain~a aos Inquistdore!l particulares. Juramento, como se vê, demastado
serio para ser cumprido na integra !
COmo já dissémos (4), em 1S44, foi suspensa a execução das senten-
ças do Santo Officio. Er.a o triumpho provisorio dos chrtstãos novos !
Depois d'isso a bulia Meditalio cordis(5) de 16 de julho de 1S47- e não
de 18 como diz Monteiro-veio restabelecer em Portugal os poderes in-
quisitoriaes, revogando as modificações feitas e concedendo ao Inquisidor
Geral, seus successores e officiaes, a faculdade de usarem plenamente dos
seus cargos. Por isso, a 14 de junho de 1 ~ (6) o Inquisidor Geral
D. Henraque, invocando a bulia de Paulo III, nomeia conselheiros do
Conselho Geral do Sa111o Oflicio D. Manoel de M~nezes, Doutor nos
Sagrados Canones, Martim Gonçalves da Camara, Doutor em Theologia
e o Dr. Ambrosio Campêlo.
Quanto ás suas attribuiç6es eram principalmente as que a bulia lhes
commettia. E' de crer no emtanto que o tribunal já tivesse o caracter de
appellação, como tanto almejavam os opprimidos christãos novos.
O primeiro Regimento d elle que conhecemos, de que já fallámos (7),
mas que se conserva ainda inedito, é o de 1 de março. de 1S7o (8).
Façamos syntheticamente o seu estudo.

( 1) Monteiro diz a 16 de junho, mas é equivoco manifesto. Consta do traslado au-


thentico que publicamos (Doe. IX) que foi a 16 de julho, mas bastava que tivessemos
presente que só a 3 de julho o cardeal D. Henrique tomou posse. Uma das coisas re-
queridas pelos quatro hebreus que D. João III consultou, por 1 S46.t para aquietação da
sua raça era um conselho, como tribuiL11 -de appellação (Corpo Utplomatico, vol. 6.•,
pag. 109 e Herc., vol. 3.•, pa~s. 249 e seg.), com o que concordam os inquisidores na
sua resposta (Corpo Diplomatrco, vol. 6.•, pas. 124).
(2) A 16 de fevereiro de 154.5 pedia D. Joio III ao Papa que o provesse no bispado
de Coimbra. (Corpo Diplomalico, vol. 5.•, pag. l7g). .
3) Doe. IX. ·
4) A~~~.
5) Pü da no CoU.ctorio, ft. 10 .-,e a pas. 166 do yol. 6.• do Corpo Diploma·
fico ortllpef! _
(6) Viae Collectorio, ft. 12 vo.
(7) A PIR· 63 do livro O ArclliJIO da 2"orr1 do Tombo.
(!)DOe. X. ·
31
Comp(Se-ae de 3S capitulos (==artigos) e .Dão existe o otipl, .-.
sim uma CO,Pi•, que pela letra se conhece nlo ter aido muito poaterior c
cuja authcnucidacfc pro\•ém de fazer parte dos canorios do Santo Officio.
São-nos infelizmente desconhecidos os seus antecedentes, .aempre de
tanta importanciR para o estudo d'um monumento legislativo. Maa ~ e'fi.
~;:~d~:C~~r~t~~~j~~~:. jacto como a deusa mythologica, vestida c
Quem seria o seu auctor 1 Quaea as auaa foota 1 A que discussão te·
ria dado Jogar 1 Não o sabemos.
Por elle o Conselho Geral do Sarllo O.fficio devia ser composto de 3
deputados, 1 secretario, 1 sollicitador e 1 porteiro, com faculdade do In-
qu•sidorGeral nomear mais officiaes (artigo 2.0). Estes deputados, nome&•
dos palo Inquisidor Geral com consentimento d'EI-Rei. deviam ser sacer-
dotes illustrados, virtuosos, ~?~::Udentes e nobres, a quem se tirasse a de-
vida inquirição de geraçiio, v1da e costumes (artigo 1.-,,inquiriçio muito
~~;:::~:' r::n~fi~!e o~ev~~n~~=c,;dose.:~hS~n~~n~~~j~;:~~!~~
suardar na edadc o direito commum, e devendo ter pelo menos ordeni
sac.ras (artigo 7·').
· O Secretario do Conselho devia ser notaria apostolico e ter protizlío
~:c,~:~:33~m:~S.~~~!~i~lo·~:e~:;e~~rtd; :J~~w~!~~~~: ~~
wilegios, livros e paJ?tiS que houvesse no secreto e cumprindo-lhe obede-
cer ao que, a respeito dos notarias, deteroüna o Regimento das lnquWo
çl!eo. .
Quanto 4 especial escripturaçio do Conselho, a cargo do accretariot
~~·c~.;!~ h:';:ffi:~sli~~;ge!~~~ihou:!i~:~~.:'J.:~~e~=
aidores e officiaes do Santo Officio e do Fisco e doa aeus termos de jura.
mento; outro de registo dos accordãos, resoluções e respostas a duvidas
que se suscitarem; outro de registo das bulias, breves e priYiletpos, quer
concedidos l.'elos Papas, quer _palas Reis, cujos originaes ficarao em po-
der do Jnqutsidor Gerol; o ult1mo é para registo dos despachos e provi-
viodas dos Inquisidores dos districtos, e aggravos vindos dos juizes do
fiaco, devendo faze-lo em todos os outros casos o deputado mais moderno
(anigo 4· 0 ).
O Conselho Geral do Santo O.fficio era o substituto do Inquisidor Ge-
ral, quando o ·Jogar estivesse vago (artigo 5.0 ) e os seus tres deputados
deviam despachar junctos, devendo dar conta ao Inquisidor Geral do que
fosse mais Jmportante (artigo 6. 0 )
· Vejamos agora o que cumpria fazer a este cor~ collectivo.
Uma das suas attribuições era a de ordenar as VIsitações ás Inquisições
do reino, de tres em tres annos, pelo menos, sendo d'ellns encarregado
um dos do Conselho podendo ser, e, no caso contrario, uma pessoa ido-
nea, que viria dar contas ao Co1uel/Jo, onde apresentaria o processo respe-
ctivo e, se d'elle constasse causa sufficiente, serião os culpados privados dos
seus Jogares ou suspensos, podendo tambem sê-lo pelo Inquisidor Geral,
mesmo os do Conselho (anigo 8. 0 ), quando para isso lhes encontra~se
culpas.
Outra atribuição era a de ordenar as visitas ás livrarias publicas e par-
ticulares, fazendo roes dos livros _prohibidos e conceder hcença para se
imprimirem os novos (artigo g.•). Cumpria-lhe, sempre com a ass1stencia
do Inquisidor Geral, a censura ás bulias que sejam de graça aos christãos
novos ou que pareçam em prejuízo do Santo Officio, para ver ~ nellas
ha alguma coisa falsa de que precise dar-se conta ao Pa~a (artigo to.•).
Era tambem o Conselho quem ordenava as visitações dos Inquisidores ao
seu districto, assim como determinava o tempo da graça (artigo 11.•); nelle
se tratavam todas as cousas pertencentes aos crimes de Heresia e Aposta·
aia e ao bom governo e estado do Santo Officio. Por causa disso podiam-se
corresponder com El-Rei e até com Sua Santidade (artigo 11. 0 ).
Como tribunal de recurso, o Co11selho Geral do Sanlo Of!icio conhe-
cia das appellaç6es dos Inquisidores dos districtos (ou comarcas), inter-
postas pelas panes ou pelo Promotor ; das que viessem dos Bispos, e dos
aggravos provenientes dos juizes do fisco; tambem, como t:1l, conhecia
das suspeições postas aos dois Inquisidores de qualquer districto, porque,
sendo postas a um só, podia o outro conhecer d'ellas (artigo 13. 0 ) e das
appellações dos defuntos (artigo 24.0 ) .
Em primeira instancia conhecia o Co~rselho dos processos que o Inqui-
sidor Geral a si avocava dos bispos, no caso dos bispos os não remette-
·rem mediante cartas do Conselho (artigo 21. 0 ), não podendo os Inquisi-
dores remetter rresos de uma Inquisição para outra, sem mandado do
Inquisidor Gera e seu (artigo 14. 0 ). Como corpo consultivo, cumpria-lhe
.decidir as duvidas que houvesse entre os Inquisidores e os bispos, ou en- ·
·tre os Inquisidores um com o outro, mas só no caso de serem graves,
-porque, não o sendo, podiam-lhes pôr termo, chamando letrados ae fóra
(artigo 15.•); assim como as duvidas que houvesse por causa da interpre-
..tação do Regimento das l11quisiç6es, que, de resto, os do Conselho Geral
tinham de sempre guardar (artiBo 16.0 )
: Ao Comtlho Geral cumprta dar despacho nos finaes dos processos
-das Ioquisições, assim como naquelles que fossem duvidosos, 11raves ou
··de ·pessoas que não podessem ser presas sem consulta do Inquisidor Geral
33
(artigo 17.0) e determinar os autos da fé, ordenando quem nelles havia de
prégar (arttgos 18.0 e 19. 0 ).
Quando os culpados fossem individuas de elevada cathegoria social, ti-
tulares, pessoas religiosas ou cuja prisão causasse alvoroço, não devia ser
effectuada sem o Inquisidor Geral e o Conselho conhecerem d' essas cul-
pas ; isto eram tambem obrigados a guardar os Inqu-isidores da India,
com a differença sómente d'estes deverem consultar os governadores ou
capitães que deviam annualmente participar para o Co11selho o respectivo
estado da Inquisição (artigo 20. ~).
E' das..attribuições do Conselho conceder fiança aos presos_pelo crime
de Heresia, mas dando primeiro conta d'isso ao Inquisidor Geral e ou-
vindo o parecer dos Inquisidores a cujo districto o preso pertencer (arti-
go 22. 0 ), o que tambem é preciso para lhes commutar ou perdoar penas,
quer ellas sejam de carcere, quer de degredo, quer pecuniarias (artigo
23. 0 ), dependendo dos lnauisidores das comarcas ou d1strictos as que fo-
rem arbitrarias. •
A principal fonte de receita do Santo Officio entre nós eram os bens
confiscados, pois que, como adeante veremos, a pena de confiscação, era
a mais geralmente empregue.
A superintendencia na administração d' estes bens cumpria ao Inquisi-
dor Geral (artigo 26. 0 ), que por isso tinha de nomear os officiaes encarre-
gados d'esse serviço (artigo 27 . 0 ) , excepto os juizes e thesoureiros, por-
que as cartas d'estes deviam ser passadas em nome d'El-Rei, com visto
do Constlho Geral. Estes thesoureiros do fisco tinham de prestar contas
de dois em dois annos ao Provedor da comarca a que pertenciam, que a
EI-Rei as devia dar do que se passava, assim como nos Contos (anigo 35.0 ).
Para diversos fins servia o dinheiro das confiscações. Constituindo re-
ceita inquisitoriat 1 era destinado aos ordenados dos deputados do Conse-
lho e dos ·Inquisidores dos districtos c officiaes do fisco, a gratificações pe·
los serviços prestados1 a reparos nos carceres e palacios das Inquisições
e, o que sobeJasse, dev1a ser empregado no provimento dos logares d' Africa
(artigo 28. 0 ).
Ainda o Regimento, cuja exegése estamos fazendo, commettia ao Con-
selho Geral do Santo OJ!icio especiaes attribuições quanto aos filhos dos
condemnados, que os Inquisidores dcvigm informar se tinham necessidade
de auxilio ou de ensino de doutrina (artigo 29. 0 ), assim como o auctorisar
os Inquisidores a censurar as proposições (artigo 3o.0 ).
O Conselho exercia tambem uma especie de fiscalisação sobre o Inqui-
sidor Geral, quando este quizesse nomear para elle alguem, não cumprindo
as disposições regimentaes, o que, em tal caso, até ao Rei deveriam parti-
cipar (artigo 1 •0 ). . . . -

Tal é a synthetica exposição do Regimento do Conselho Geral do


Santo Of!icio, de 1 de março de 1S7o, feito, diz o seu alvará de confir-
mação (1), com o parecer de letrados, juristas e theologos, experimenta-
dos em coisas do Santo Officio !

(•) Doe. XI. . .


D. Sebastião confirmou-o e approvou-o poucos dias depois, a 1S de
março de 1S7o, em todas as cousas tocantes ao fisco e á corôa real.
Ficou portanto com todos os sacramentos indispensaveis á sua regu-
lar execução.
Insignificantes pontos de contacto encontramos entre este Regimento
e as l11slrucçóes, até 1561, para as inquisições hcspanholns, a que L lo·
rente a11ude (1). Estas teem principalmente disposições parallellas ás da
carta de edito do tempo da graça, que public4mos (2).
Uma das attribuções que o Regimento commettia ao Co11selho Geral
do Sa11to Of!icio era, como já vimos, a visitação das inquisições, de tres
em tres annos.
E, apezar do mesmo Regimento, para o seu provimento determinar
a feitura de livros especiaes, é certo que elles não chegaram até. nossos
dias. De sorte que não podemos fundadamente dizer a fórma como seria
cumprida esta disposição legal. Temos sómente noticia da visitação feita
á Inquisição de Coimbra, em 1S73, pelo L. do Manoel de Quadros (3), e da
feita em r577 (4), á mesma inquisição, das quaes provieram importantes
providencias para ella, que veremos a seu tempo.
Outra attribuição do Conselho Geral do Satzto Of!icio era visitar as li-
vrarias publicas e particulares.
Já antes d'esta disposição, em 2 de novembro de t54o, o inquisidor
geral D. Henrique tinha encarregado o prior de S. Domingos de Lisboa,
Fr. Aleixo, sob prior d'esse mesmo mosteiro e Fr. Christovão de Valboe-
na da cexaminação de todolos livros que ouver nas livrarias desta ci-
dade-Lisboa-e pelo tempo em diante a e/las vierem e acharrdo .11am
atrE ctJtholicos nem conformes a 11ossa samla fee catholica ou sospeilos
per qualquer manei•·a que seia manda1·em q11alquer deles que presenlt
for q11~ se nam vendáo e que seiam ent•·egues pera deles faterem o qut
llte parecer ser11iço de nosso Se11hor e assy pOde,·ão ma11áar JJotejicar a
todos emprersores que nam imprimão novamente ninhOs livros sem pri-
meit·o serena vistos examinados per elles (5).
Como se vê, de duas eseecies eram as attribuições conferidas aos
censores, um dos quaes, Fr. Christovão de Valboena, foi, cinco annos de-
pois, eleito provincial da ordem de S. Domingos (6): attribuições d'ordem
repressiva destinadas aos livros já impressos e d'ordem preventiva desti·
nadas áquelles que de futuro viessem a lume. E, como complemento d'esta
commissão, no dia· 29 de novembro do referido anno de 1S4o, eram os
impressores Luiz Rodrigues e Germano Galhardo notificados pelo nota-

( 1) A pag. 17S do I vol. da Historia critica da Inquisição de Hespanha (ed. Cranceza.)


{2 Doe. I. ·
(3 · Consta de ft. 86, v. o do j 4 cit. codiee, 979· ·
(4 Consta do cit. codice 979, ft. roo. ·
(5 Codice 977 da secçio dos Manuscriptos da Livraria, fi. 4· Este documento é um
trasla o authentico. -
(6) Corpo Dip_lomatico Portuguer, vol. 5.•, pa~ 394· D. Joio III, em carta de 4 de
março de 1 ~4S, pedio ao Pontifice a confirmação d esta eleição. · •
35
rio Jorge Coelho, de mandado do inquisidor João de Mello, de que não
deviam imprimir cousa alguma, sem primeiro mostrarem aos censores no-
meados, sob pena de execução e de dez cruzados de multa para as· des..
pezas da Inquisição (1).
Era o pleno imperio da censura previa inquisitorial. ·
Já antes d'isso porém existem vestigios da censura inquisitorial {2).
Todavia, para a consecução completa do programma do Santo Offi-
cio, não bastava que se não vendessem nem imprimissem obras que, de
qualquer fónna, maculassem a pureza religiosa dos christãos velhos; era
ainda preciso que se não lessem nem se possuissem.
Para isso o Inquisidor Geral D. Henrique fez, a 4 de julho de 155I,
ex~dir uma provisão em que aponta os livros defesos, e exyressamente
diz ·que a sua leitura ou posse importa a pena de excomunhao, assim co-
mo para aquelles que não vierem á mesa do Santo Officio denunciar os
seus leitores ou possuidores. (3) Estes livros prohibidos eram os seguin
tes:
O a11to de dom Duardos que nom tiver cês11ra como foy eme1tdado.
O aulo d~ Lusita,ia com os diabos I sem tlles poder-se-ha emprimir.
O auto d~ ~drtanes I por ca~~sa das matinas.
O a11to do Jubileu damorn.
O auto da aderencia do paço.
O a11to da viaa do paço.
O a11to dos physicos.
Gamaliel.
A rel1Jf60 de Pão Paulo.
As floJJelas de Joan bocalio.
O testamento de Christo em li11goaj·e•z.
Cop_las de la burra.
E' ainda o sr. Brito Aranha (4) quem nos falia no Rol, publicado em
1S64 e mandado fazer pelo mesmo Inquisidor Geral, que existe na colle-
cção da Bibliotheca Nacional, no qual, além dos livros defesas já apont•..
dos, se indicam os seguintes : •
Theso11ro dos autos hespanhoes.
Leite da Fee.
Consolaçam de triste, todas as par·tes.
• Tratados gu,.er imp1·essos, quer de mão de devações, ou, pera milhor
date,·, superst1çoes que promelttm a quem quer q as ji{er 011 mandar fa·
{~r q a[caiiÇarem .q'~alque1· cou!a q11e pedi1·en1, oi1 ~scaparã de todo pe-
ngoJ ou cousas sJnJJihãiJtes: nao lendo o11tra cous4, tirãdo aquclle, po-
dera correr.

•) F1. 7 do j4 citado codice 977. -


{2) Esta provisão encontra-se impressa no verso do rosto dn livro Este Ire o Rtll
4os i~o1 defe_ro! JH!r o cardt!al /Jfante l"'Juisidor_ geral •t!l_te~ Reynos de Porlugal,
que cata o sr. Bnto Aranha a pag. :fM7 do tomo decamo do D1Cc1onario Bibliograp11ico
Porlu~. Servimo-nos das suas referencias.
(l) Vadd o tomo X do Dicdonario Bi61iopaphico e Fr. Bartholomerr FtrrtirtJ
pag. ~estudo do sr. dr. Sousa Viterbo. '
(4) Loc. cit. pas- 388.
36

Vlisippo nanJ se terá sem licmça de qztenJ tive1· o carrego dos livros.
Li~~ro de sortes.
Ropica Ne11ma.
Mais tarde, temos conhecimento da resolução do Co11sellzo Geral dQ
Santo Of!icio, de 26 de abril de 1575, (1) em virtude da qual se não de-
via imprtmir, nem ler, nem ter, nem vender o livro Josuae /mperalon·s
historia illustrata alque explicata, Andrea Masio. Para esta determina-
ção se fundava o Conselho nas censuras das Universidades de Coimbra e
EYora e d'outras pessoas illustradas.
A respeito d'outro livro resolveram tambem, mas não d'uma fórma as-
sim radical. Sirvamo-nos das proprias palavras do Qriginal :
· cQuanto ao livro de Joanes a Roias de hereticis, poder se ha vender
e ler sendo primeiro riscada a proposição per que diz que nó he heresia,
mas que he error sómente, negar que Isaac he filho de Abraham, e ou-
tras ~roposições e exemplos semelhantes ao sobreditto, contheudos na
primeira parte n. 0 474· et n. 0 47S. pagina 173 et 174 e tudo se riscará
de ·maneira que se nó possa ler. I e assi parece que deve S. A. dar conta
disto ao Inquisidor geral de Castella, pera aviso e advertenciaa.
Tres dias depois, tomavam os mesmos conselheiros resolução mais ge-
nerica que a anterior, em Evora e dirigindo-se aos Inquisidores de Lis-
boa, diziam-lhes :
cE por quanto são (2) informado que algüs impressores destes regnos
imprimem livros, autos, regimentos, e outras cousas sem licença do Con-
selho geral, e com titulas falsos, dizendo serem impressos em outras par·
· tes, pera assi poderem correr mais livremente, e que os livros que húa
vez 1mprimem cõ a dita licença tornam imprimir sem ella, e que algús
imprimem cõ· licença somente do Ordinario, que nó basta, vos informa-
reis c6 muito cuidado pello menos hüa vez em cada hú anno do que
nisto passa, e achando algú culpado procedereis contra elle cõ todo o
rigor, e me avisareis do que nisso achardes, por ser cousa de grande im-
ponaocia, e em que he necessario ter se muita vigia I comprio assi como
<le vos confio.,
O' esta maneira procurava pois o Conselho Geral pôr cobro ás formas
ardilosas por que os impressores pretendiam illudir a lei.
E afim de que nem um só livro escapasse para semente de heresias,
em a5 de julho de 1S79, ordenava D. Jorge d'Aimeida, O Arcebispo /11·
~isidor ~·al, apezar da bulia da sua nomeação ser posterior (3), que
quando se fizessem os autos da fé, em Lisboa, em Coimbra, ou em Evora,
publicamente, se queimassem todos os livros incluidos no catalogo dos

( 1) A ft. 5, v. do Livro tlos acordos e determinaç6es tomadas no Conselho Geral do


Sanc!o Officio ~a. l11guisição destes Regnos e seiíorios de Portugal. Manuscripto n.• 976
da Livran·a. Orag~naf.
(2) Falia na frimeira pessoa porque, apeze~r de assignada pelos conselheiros do
Conlf:lho Geral, diripda em nome do Cardeal D. Henrique. Servimo-nos do original,
que é o doe:. 26 do c:odsce aS2S da secção O Santo Olficio. Devemos notar que este livro
é aales uma col!ec:çio do originaes; todavia, á .falta de designação mais proprta, c:ba-
mamos-Jbe c:odace. .
(3) Vidê Collectorio, ft. a6, jé c:iL ·
prohibidos (r). Nem a cinza devia restar d'esses inconscientes instrumen·
tos da culpa e do erro !
Para os fins inquisitoriaes não bastava entretanto impedir a impressão e
circulação dos livros contagiosos, era ainda preciso evitar que elles, impres-
sos no estrangeiro 1 illudissem a vigilancia do Santo Officio, e viessem a
este bom solo lusitano produzir os seus m1leficos resultados. Urgia quo
uma especie de cordão sanitario, sanitario sim porque era da salide das
almas que se tratava, impedisse a entrada dos livros por mar, visto que
da fronteira terrestre confinava o nosso paiz com Hespanha e ali, como
cá, era o fervor religioso que tudo absorvia e dominava.
Em tal sentido pois, se escreveu aos bispos cujas dioceses tinham
ponos maritimos. Vejamos primeiramente a resposta do arcebispo de
Braga, que então era D. João Affonso de Menezes (2). Em 1 de agosto
de t583, officiava elle, dizendo quaes os portos de mar existentes no seu
arcebispado, quaes as pessoas que nelles podiam exercer a visitação das
náos, e lembrava que, em Villa do Conde, seria conveniente officiar se ao
juiz da alfandega para não deixar tirar nenhum livro, até lá ir um desem-
bargador para os ver (3).

(t) cOom Jorge Arcebisro de Lisboa Inquisidor Geral nestes regnos e seftorios de
Portugal etc. fazemos sa_her que co.n!fdera~do nos o grande prejuizo que se pod~ cautar
• nossa santa fee cathohca com a hçao de hvros defesos, e querendo a ello obv1ar pella
obrigaçio de nosso cargo, aJiem das mais dilligencias que neste caso mandamos fazer
em prevençio de tão grave perigo, pera de todo se extinguir o uso dos dittos livros,
ordenamos e mandAmos que quando se fizerem os autos da fee em qualquer das cida-
des em que ha o officio da S.ta Inquisição se queimem publicamente todos os livros
prohibidos que nellas ouuer, e que pelo cathalogo fosem defesos, porque se entenda
geralmenre cem quanta razão se deve evitar e fogir a lição delles, vendo-se assi queimar
por mandado e ordem dn S.t• lnquisiçam e encomendamos aos Inquisidores que assi o
cumprão inteiramente como se nesta contem. dada em Lixboa a xv de Julho Manuel
Antunez a fez de MDLXXIX- O Arçebispo Inguisidor Geral•.- E' o original, e tem o
aumero 28 DO já citado codice 1S1S.
(2) Vidê fi. 110 do Portugal Sacro, manuscripto já citaJo, e Historia da Egreja
Catholic:t por José de Sousa Amado, tom. VII, pag. t33.
(3) cSefior: Os portos de mar q á neste arcebispado, o primeiro vindo dessa parte
' Villa de Conde, onde nã á pessoa, que me pareça conuentéte para V. S. lhe mAndar
Yer os liuros, que ay vierem por mar, -.,osto que te hú mosteiro da observancia de sam
francisco, onde estam dous padres que ,>reguii, hum delles era jrmão de dom Martinho
de Castello Branco - e cuido que o manda rã para ali por cousas de dom Antonio. O Vi-
prio da igreja da villa nã é letrado, e també em tempo do sr. Arcebispo meu anteces-
sor foi preso por differentes casos, eu sou menos sufficiente que todos, mas mais r.rom·
to ao se"i~o de V. S. e ao que me mandar do Sancto Officio desta cida\le a Valia de
Conde sã c1nce> legoas, Parece que seria mais seguro mandar V. S. ao Juiz dalfandega,
que nam deixe tirar nhüu liuro, e asi ao guarJiã do mosteiro, ou a frey Gonçalo de cas-
tello branco, que façam rol dos livros e os fechem e me mande aviso e querendo V. S.
mldarei 16 huú desembargador, que os veni, e faça jnteiraméte, conforme é ordem que
V. S. der.
A Villa desposende é menos cousa, né á outra pessoa mais que o vigario da Igreja
que se chama Antonio de barros, parecendo a V. S. o mesmo se pode ordenar que em
ViDa de Conde.
Em Viana • dous mosteiros, hum de sã francisco outro de sam domin~s onde esta
lia& padre per nome·frey francisco, que per ordem do sr. Arcebispo dom Bertolameu,
Ylsitãv• as naoa, e eu també lhe encomendei isso. é letrado PreB!Idor, á nesta ,illa Pero
da Gral comeadatario do mosteiro de Ca"oeiro, de que tenho boa emformacl, pnsa
,
38
Em resposta o Inquisidor Geral ( 1) dizia-lhe que nomeasse visitadores
para os portos de mar do seu arcebispado, cuja obrigação era cumprir o
regimento que lhes dessem, e fazer um rol dos livros, com indicação dos
Jogares onde foram impressos e do nome dos impressores. Tal relação
devia depois ser remettida ao jesuita Francisco Cardoso, revedor dos li-
vros em Braga.
Um pouco conforme os desejos do arcebispo officiou-se egualmente aos
juizes das alfandegas dos portos em questão para não entregarem os li-
vros sem licença do revedor, sendo a este enviado o Callzalogo e instruc-
ções especiaes de f ...r. Bartholomeu Ferreira.
Estavam portanto dadas as providencias indispensaveis para que, no ar-
cebispado de Braga, se exercesse completa e proficua fiscalisação, sobre
os livros que entrassem pelos seus portos do mar.
Desçamos agora para a diocese do Porto.
Nesta só era preciso exercer vigilancia sobre o porto da cidade por-
que, nem em Mathosinhos, nem em Zurara, se descarregavam mercado-
rias por causa de faltar a alfandega (2).

muitas vezes na mesma villa, porem tenho entendido que te algüa raça da naçã._- E i'
que fallei tantas vezes no sefior Arcebispo depois que responder a tudo direi algüa cousa
para V. S. ter emformaçã do que passa por mi as1 como a terá pellas partes. Em Cami-
nha outro porto de mar nã á pessoa de muita cõfiança, mas perto day está mestre An-
dré Theolo~o, na jgreja que chamam Gontinhães, de 5oyara 6o annos, e me dizem que
he homem de bé. O Vigario da mesma villa é bacharel e canones, chama-se Balthasar
danobrega, a qualquer destes se pode emcomendar cõforme ao primeiro apontamento,
para de qua ir outra pessoa./ Isto é o que por ora me parece, e ho ~ue V. S. ordenar
faremos todos. Cuia 111.•• e Rv.•• pessoa nosso S.or guarde e acrecéte seu stado como
deseia.- de Braga o primeiro d'Agosto t583- ha carta de V. S. sohreeste negocio me
foi dada por hü padre da comp.• a 4 o 5 dias. beijo as mãos a V. S. 111.••, O Arcebispo
p_rimás.•- E' o oriJtinal que constitue o doe. n.e 1 do codiee 13'17 da secção O Santo
Olficio. .
( 1) No mesmo documento está a minura da resposta· para o arcebispo de Bra~
(t) aScõor: Receby a de V. S. Ill.m• soLre o aviso dei Rey nosso Sefior acerca dos
livros de hereges. Neste bispado do Porto, nam ha mais portos onde descarre~ucm
mercadorias que nesta cidode, porque é ~latosinhos ne:n em Zurara, nam pódem
descarregar fazenda algfia, por nã aver Alfandega, em Villadeconde sy, porque ha al-
fandega, mas he do arcebispado de braga. I Aquy achey encarregado a vista de todos
os livros que vem por mar no prior e padres de S. Domingos, c eu mandey tambern
ver· alAÜas vezes. Os officiaes dalfandega nã guardam bé o regime to que tem da Jgreja,
nã se bulir cõ algüa fazenda do na \'ÍO sem primeiro se ver o rol dos livros, e eu quisera
já proceder eõtra elles. V. S. lhes ponha sentença dcscomunham se primeiro que tudo
nã chamarem o comissario da Santa lnquisiçam e vir os livros. E se V. S. quiser orde-
nar comissarias nesta cidade e que nã sejam os padres de S. Domingos, póde. ordenar
o doctor Manoel de faria arcediaso do Porto, e ao Licenciado Pac.lrc Ferreira da Silva
areediaRo de Oliveira, ou ao provasor e no Vigario geral, que sam muito doctoa e mui·
tos bõs homés. Destes escolha V. S. os que lhe parecer, ~rqqe faltãdo hü ni falte ou-
tro, e mande-lhes o regimé'to que se guardara rnuy inteiramente e como he razam e
obri~açam tam grande.
Nosso Sefior sua lllustrissima pessoa e estado conserve e au~méte a seu santo ser-
viço. 1 do Porto a 14 de Julho de 83. Orador de V. S. Ill.•• Mar. bispo do Porto•. Este
oraginal é o doe. n.o 66 do já citado codice 1327. O auctor d'esta carta era D. Fr. Mar-
coa de Lisboa, franciscano, que foi eleito em aS81, tendo fallecido em •Sgt. Vide Por-
tugal Sacro, manuscripto já citado; assim como Historia da Egr.a Catholic11 por
J~ de Sousa Amido, tomo VII, pas. 1S2.
0
pad~~ !e ~~ D:':~s.ef:d!~~= ~~rreÍfa~ ~=ri:~~~=~~q:
os empregados da affandega, como em Villa do Conde, não cumpriam o
seu dever e para elles desejava o bispo do Porto todo o rigor inquisito-
rial, começando pela pena d'excomunhão. A primazia cm ver as fazendas
desembarcadas, ponderava o prelado portuem1e, pertencia aos officiaes do
Santo Officio e era indispcnsavel que tal disposiçfio se pozesse comple-
tamente cm vigor.
Apez:ar da nlo termos provas directa!, certamente que, com c~al ri-
~'mb~a ~~~~a ~~: ~:a;':'d~~~~~~ ~=n~~ ~tia'::~ ~i~p'!~
D. Affonso de Cast~lo Branco, pedindo licença no Conselho Geral, para
imprimir as suas OmstituiçlJer do Bispado. ( 1) E será conjecturar muito
suppar que quem assim era rigoroso com respeito a um livro seu, o dni-
xasse de ser quanto aos alheios 1
ve~~s~~~~~:.trÔoa n~c:;:'~ao a~~~~~i~~~~uti:~:.::~ ';~: ~~ fad~op~~:
cunva impedir a impressão c circulaçfio 1c: obras irrcligiosa1, sah1das
dos prelos portuguczes, por outro procurava que essas obras não viessem
do cxtrangclt-o, onde desenfreadamente reinavam as heresias de Luthero
e Calvino, e para onde tinham fugido os chistfios novos, que lá publica~
mente ostentavam as suas enraizadas crenças judaicas.
Todos esses livros deviam ter, como os mais perigosos culpado!, um
destino: a fogueira !
Assim se evitava a propaganda do mal; e, se isso jA era muito, me~
lhor seria poder substitui-lo pelo bem ; as doutrinas erroneas cederem o
passo 4s verdadeiras.
Com este fim imaginaram os inquisidores um cathedsmo e a difterentes
biapos exeuseram 8 sua ideia.
E" cunosa a fôrma como o Inquisidor Geral, por tal motivo, se &riga
aos prelados das dioêeses (2).
Apoz a visitaçlo das lnquisiçlies, dizia elle, reconheceu-se que os ju-
deus uda vez ermancciam nas erroneas doutrmas mais teimosos c contu·
Vejamos o que alguns responderam. ·
Aquelle, de cuja resposta temos noticia ser mais rapida, foi o já nosso
conhecido bispo de Coimbra, O. Affonso de Castello Branco. ·
Logo em 12 do mez seguinte, dizia elle que estava prompto a colla-
borar no cathecismo, tanto mais que já tinha estudado o assumpto e so-
bre elle fizera quatro discursos ( 1).
Todavia, se era para converter os reconciliados, trabalho inutil o
achava, porquanto elles depois da sabida dos carceres, ainda vinham mais
renitentes nas suas doutrinas! E não só isso, como tambem o bispo de
Coimbra os considerava móres imiffor do estado portuguez, que os mes·
mos ingleses. Em taes circumstanctas poderiam exercer Jogares publicos,
principalmente os de justiça ?
Entendia D. Affonso de Castello Branco que não e que era por ahi, pri-
vando-os de todos os officios, honras e favores, que elles deviam ser com-
batidos, pois que não seria com brandura de cathecismos que _alguma
coisa se conseguiria. Em 24 d'agosto enviava elle o complemento da sua
resposta, dizendo que seria de maior effeito cpera o remedio da obstina-
ção desta gente da nação, tirar os filhos de poder aquelles que forem

(1) aQuento ao cathacismo pera os reconciliados ~derei eu aiudar neUe hum pe-
daço, avendo se de fazer, por ter estudado esta materia, assy polos Rabinos aalisot,
como polos sanctos, e sagrad3 sc:riptura, principalmente do testamento velho, orde-
nando tudo a este mesmo fim, que V. A. pretende; e conforme a isso tenho feito qua-
tro prelJaçoe.ns, nos quatro autos, que se fizerio nesta cidade, depois de residir nella ;
mas cu1do certo que pode V. A. escusar mandar tomar este trabalho, se nlo he pera
mais, que pera converter os reconciliados, porque falando moral, e verdadeiramente,
todos, ou os mais delles saem do cadafalso, e do carcere muito mais finos e figadaes
iudeus do que o erão antes de serem presos e condemnados por taes. Nesta verdade
haa pouco que disputar e menos, que duvidar, pois o tempo, e a etperiencia, e elles
mesmos o tem mostrado: e assi creo que o milhor, e mais proveitoso cathachismo que
se ~óde fazer pera esta gente se não desavergonhar tanto em seus erros, seré não fazer
S. M. nem V. A. aos da nação, honra, nem merce, nem favor, salvo o que a caridade
christam soffrer nem consintir que se lhe dee officio de governo na republica, princi-
~almcnte de justiça, pois sam totalmente indignos delle. E nio soomente como erra-
aos na fee, mas tambem como desleaes ao bem d'este reino e serviço de S. M. e no
tempo passado e neste os tenho por mores inimigos de S. M. que os mesmos insle-
ses; e ,ue este seja o mais efficaz remedio pera esta gente, e~taa claro, pois não trata
da sua ei, e da observancia della, senão por acquirir bens temporais nesta vida, lem-
brando se tam pouco da outra, crendo firmemente, que pola suarda da ley de Moyses
lhe daa deos bens da terra, tanto antes promettidos nella que elles cõ alma e sem eUa
buscio e grangeio: e o que he maia pera sentir he ver que atee os eclesiasticoa deste
sangue costumão fazer o mesmo : e quando elles veem que sendo tam judeus como
confessio e V. A. screve, todavia lhe metem a f1zenda nas mios, e lhes dao officios na
Republica. ficão mais obstinados na crença da lei de Moysés, a\·endo que, quantos mais
judeus forem, tanto mais terão dos bens da terra que no testamento velho se lhes pro-
mette.
Pelo que nlo vejo melhor catechismo, pera o que V. A. deseja, como nlo lhes dar
officio, honra nem favor, e o que com tanta certeza affirmo póde V. A. saber dos mes-
mos Inquisidores, pois veem e ouvem cada dia o que elles mesmos confessio : Porque
perguntando lhe polos jejuns e ceremonias, que guardavão, respondem que o fazuaõ
por lhe deos dar boas andanças, que he a sua costumada Jingoagem e pera venderem
bem suas mercadorias nas feiras e os livrar deos dos guardas e direitos, que ande pagar
e depois aj~ntão que tambem 01 fazem por serem bOns pera a salvaçlo da alma• ..• -
Carta do bispo coiult, de 12 de agosto 1 Sg:~, Doe. So do jé citado codice 1327.
41
convencidos poa: judeus, pera serem ensinados, e instruidos na doctrina
cbristam, e nssi tirar-se toda a occasião aos paes pera os não fazerem
de~is Judeus como costumão e cada dia veemos• ( 1).
Tão ferino era o coração do prelado conimbricense que ousou traçar
as palavras que se acabam de ler! Tão elastica e tão perfida era a sua
comprehensão da caridade christã ! O fanatismo levava-o a querer que
aos tnditosos judeus tirassem os filhinhos como se fossem intrataveis feras
das selvas •••
Bem mais tolerante do que· elle era o bispo do Algarve, D. Francisco
Cano.
Bondoso, a avaliar pela sua resposta (2), litterariamente mesmo tão
notavel, entendia o prelado algarvio que, para conseguir a conversão ju-
daica, era preciso proceder com elles como S. Paulo- um judeo- havia
procedido em tempos recuados, com. os gentios, quando lhes prégava a
verdade evangelica. Misericordia e mansidão, t1·a{e1Jdo-os, se 11ecessa•·io
fôr sobre os hombros com caritatiJJa bra1Jdu1·a para q_ue se não propoque
a fogir, deviam ser os lemmas d'aquelles a quem o Santo Officio encar-
reBasse de tão espinhosa missão. Tratem-se como irmãos e nunca como
immigos; porque, se dos conde1nnados, muitos ficam convertidos e hu-
milhados, a maior parte fica ainda mais endurecida.
Entendia pois o virtuoso prelado que preferivel ao cathecismo era o
matre ,;;,o. Os judeus dizia elle, contradazendo o bispo de Coimbra, não
industriavam os filhos, logo de nascença, nas praticas hebraicas ; pelo
contrario occultavam-lh'as e ensinavam-nos, fingidamcnte já se ve, nos
costumes cbristãos. Tinham receio de que, por isso, os denunciassem. Se se
publicasse o cathecismo que entenderiam elles das suas verdades 1 H e
rucasario que o lea, que1n lhe de1· lu{ e calor por ser homtm de letr·as.
Assim pensava o bispo do Algarve em 29 de agosto de 1S92 ; toda-
via, para a hypothese de se persistir em o compôr, alvitrava que os au·
tores que fizesem parte da commissão disso encarregada, dev1am estar
perto, afim de conferir o que fossem compondo.
Tambem contra o cathecismo se pronunciou, em 3o d'agosto, o bispo
de Elvas, D. Antonio Mattos de Noronha, que depois veio a ser Inquisi-
dor Geral. cTemo que ha de ser de pouco fruito para elles, escrevia o
p&:elado, por estarem obstinados e endurecidos em seus errores e tão dou-
trinados nelles por seus pais e persuadidos, de&de que nascem, que ha de
ser necessario mui particular favor de deus pera se apartarem deles .•••
E, mais abaixo, di~: c Por onde emtemdo que a pena e castigo de seus
delictos a de ser o maior remedio pera elles•.
Em identica corrente de ideias se pronunciava o douto bispo de Por-
taleg~e, D. Fr. Amador Arraes.
Na sua resposta, admiravel e eruditamente deduzida {3), pondera não
só a inutilidade do cathecismo, como até a sua inconveniencia.

(a) Cit. cod.1 aS27, doe. 5• ; original.


( 1) Doe. XIII.
(3) Doe. XIV.
Deve estar o leitor lembrado que o Inquisidor Geral queria um calhe-
cismo, principalmente fundado na auctor1dade do Antigo Testamento, e
isso, julgava-o o bispo de Ponalegre impossivel, porque, para elles, seria
sempre fundado no ar.
Não bastaria para os reconciliados o cathecismo tridentino ? .
ltlas, mesmo na hypothese de ser possivel, não faltavam razões pon-
derosas para demonstrar a sua inutilidade.
Como se sabe, os hebreus eram obstinados e teimosos e, se a sua tei-
mosia resistia ás prégações, aos milagres e ás vexações a que, de continuo
os sujeitavam, assim como aos damnos recebidos na sua honra, fazenda
e pessoas, que havia a esperar d'um cathecismo ? Só uma coisa : é que
d'elle usariam para o deturparem e combaterem.
De resto, a lição não tem o vigor da prégação e, até agora, nem a
propria Santa Sé pensou em usar de tal remedio, não só inefficaz, como
· se tem visto, mas até inconveniente, porque os rabinos combateriam as
verdades nelle expostas, e ao hebreu parecer. .lhe-hiam melhores as suas
r·a{óes appare,tes, que as nossas ~~erdadei1·as.
Tal é, resumidamente, a resposta de Fr. Amador Arraes, que certa-
mente ajudou a matar, antes de nascer, o projecto do cathecismo para os
reconciliados. ·
Para ·isso tambem concorreu o bispo de Vizeu, D. Nuno de No-
ronha (1), que não ~ueria cathecismo cporque não he bem que a inqui-
sição se _ponha em dasputa, ne componha contra ellcs; o sentencear e JUl-
gar por JUdaicas suas serimonias, sy• (2). E mais adiante cheio de amor
ae classicismo: c Se este livro ha de ser em linguagé (como parece), em
vez de se cudar que resultaraa e proveito temo dano •.• Em lin·guage hei
nfio ser deçente•. ·
E assim desappareceu a ideia do cathecismo com a qual nenhum bispo
concordou!
Outra attribuição do Corzsellzo Geral do Sa11lo Oflicio era a censura
ás- bulias ~ue se.janz de graça aos ch1·istãos "oPos (3).
Um d estes diplomas foi o breve de l i de maio de I 547 (4), pelo
qual, por espaço de dez annos, os bens dos christãos novos e seus aes-
cendentes se não podiam confiscar.
Este breve deu origem a uma duvida decidida pelo Conselho Gtral.
Ficariam ou não relapsos os que tornassem a peccar, tendo sido abrangi-
dos pelo perdão do papa Paulo III? Em 12 de maio de I556- a essa per-
gunta responderam os do Conselho Geral, que todos aquelles christãos
novos, ou d'esta casta, que ao tempo da execução do perdão tivessem no
Santo Officio abjurado seus erros e fossem reconciliados, não ficavam re-
lapsos e os que, no tempo do dicto perdão, estivessem convencidos do

( 1)Portugal Sacro, manuscripto já citado, fl. 1 S2, v•.


(2) Doe. 64 do Codice 1327, já citado.
(3l Artigo ao.• do Regimento (Doe. X).
(4} Publicada no Collectorio a fi• .S+
crime de heresia, fizessem suas abjurações e, se depois reincidissem, eram.
considerados como taes ( 1). ·
Mas, terminado esse espaço de tempo, ficariam sujeitos os bens dos
hebreus ao fisco, se não fosse ter el-rei D. Sebastião crespeito aos servi-
ços que me tem feitos, assy pera minhas armadas como pera outras ne-
cessidades de minha fazendalt -assim se expressava elle- c por isso
lhes ter concedido o alvará de 18 de março de J55g (2 ).
Por esse alvará é determinado que, pelo tempo de dez annos, conta•
dos de 7 de junho de J558, se não percatn nem confisquem, no todo, nem
em parte, os bens e fazendas dos christãos novos, nenz dos desceJJde11tes
trelles.
Como se ve o praso do perdão terminava a 7 de junho de 1568.
Entretanto, os bebreus tentavam obter cm Roma outro breve, como o
de Paulo III, de 1547· Os tempos porém não lhes corriam tão favoraveas
e o Inquisidor Geral\ D. Henri9ue, em 16 de setembro de 1S62 (3 ), pe-
dia que tal perdão se lhes não desse, por ser prejudicial ao Santo Officio.
Aind'l havia o perigo de outro alvará, egual ao de t55g, mas esse fa-
cilmente se conjurou~ dada a importancia politica de que então gozava
D. Henrique e por isso o Pontífice, por breve de 1 o de Julho de 1S68 (4),
louva el-rei por não renovar a isenção do confisco, concedida aos christãos
novos.
Ao que parece, porém, levantavam-se. duvidas e o alvará ·de t55g era
sophismado na sua validade, de tal maneira que, em 10 de abril de 1571
(5), solemnemente se reuniam, por mandado do Inquisidor Geral, os 8!YJS-
1Hm~ll- como hoje lhe chama riamos -da Inquisição, Martim Gonçalves
da Camara, Leão Henriques, Manoel de Quadros, Jorge Gonçalves Ri-
beiro, Simão de Sá Pereira, Fr. Manoel da Veiga, Paulo Alfonso e Gon·
çalo Dias de Carvalho.
Provavelmente os christãos novos argument!lvam com a validade do
alvará applicado aos descendentes d'aquelles, que viviam no decennio de
1SS8 a 1568, e assim sophisticamente, ameaçavam etemisar o perdão do
confisco!
Por isso, nessa reunião de inquisidores, fundando-se principalmente
em que a pena de confiscação dos bens era imposta pelo direito canonico;
estando portanto f'ra da alçada regia, fôram unanimemente de parecer que
o alvará era nullo e que os juizes do fisco não deviam receber embargos
nelle fundados.
Não contentes com isso, obtiveram de Roma o breve Exponi "obis (6),
de 6 de outubro de 1S78, destinado a tapar a bocca aos mais astuto~ que
ainda tentassem falia r. Por elle, era annulladQ o perdão do confisco de
bens dos christãos novos e os breves sobre clle passados, assim como se

.
(1} Codice
(2
919, j4 citado, ft. 46
Vide ft. do Codice 976, Livro dos acordos e delertninaç6es.
1
(3 Corpo Diplomatico Portuguer, vol. X, pag. 23.
(~ CorpfJ D1p~omatico Portugue;, vol. X, pag. 315.
(5 Doe. XV.
( } Corpo Diplomatico Portujuer, voL X, pag. 556. ·
mandava proceder contra os bens dos mesmos christãos novos. A fórma
como esta determinação se cumprio em Portugal consta da acta do Con-
selho Geral, de 27 de março de 158o (1). Então se resolveu que os judeus
·. presos, mas ainda não julgados, quer fossem presos antes de ser conce-
dido o perdão, ou dentro dos dois annos decorridos até á sua revogação
feita pelo pontífice, ainda que, pela disposição do Breve perdiam as suas
fazendas, todavia se lh'as não confiscassem e, depois de julgados, se lhes
dissesse que as perdiam, conforme o direito, mas que el·re1 mandava en-
tregar-lhas, ficando para elles e para os seus herdeiros.
Aqui temos uma curiosa manifestação da generosidade inquisitorial!
Bastantes foram os processos que, por appellação e aggravo, subiram
ao Consellw Geral do Santo Qfficio, cujo extracto, faremos a seu tempo.
Agora vejamos o que elles fiZeram no cumprimento da ultima das suas
attribuições: resolução de duvidas. Chega-nos, com effeito, noticia (2) de
que, em 11 de março de 1S72, cé a villa dAlmeyrim, nos paços d'EIRey nos-
so s.o', na ca~a do despacho do Conselho Geral do Santo Officio• se reuni-
ram para decidir as duvidas propostas pelos juizes do fisco. Versavam ellas
sobre, se os prazos que podem passar a herdeiro estranho, podem vir ao
fisco, ainda que sejam ecclesiasticos ; se o hereje communica ·os seus bens
com a mulher catholica e ella com elle ; se os escravos dos herejes. ficam li-
vres ; se o fisco é obrigado a pagar sisa dos bens que vende e que parte
pagará, se os bens forem communs.
Não nos diz a acta respectiva, de cujo original estamos fazendo uso,
que discussão houve para resolver as duvidas propostas. ·
O que sabemos é que â primeira responderam cque quando 01
prazos da igreja, que o hereje tem, podem passar a herdeiro estra-
nho, por ley, costume ou contracto, que nesses prazos succeda o fisco,
em lugar de herdeyro estranho, assy como succede nos prazos de
particulares cõtanto que, dentro de dous annos._ o fisco venda, ou tras-
J?asse o tal prazo em algúa pessoa que o yossa possuir conforme as con-
âições d'elle. E sendo caso que o prazo nao possa vir a herdeiro estranho,
e se aja de tornar ha igreja, é tal caso, o fisco possuirá e averá os (rue-
tos d'elle e quanto o hereje viver; e e todos os casos e ·que o prazo tor·
nar ha igreja, averá o fisco o preço das bemfeytorias e melhoramentQS,
assy como de direito o deve aver os herdeyros».
A' segunda deram a resposta seguinte: c Que comunicasse étre sy to-
dos os l>ens que tivessem ao tempo do contracto do matrimonio e tOdos
os mais que despois acquirissem conforme a ordenação do regno, a!sy
como se ambos foram catholicos, porquanto por excusar cóluios e falsi-
dades El Rey nosso Sôr deve haver por bem, deixar communicar cõ os
catholicos a parte dos herejes que he sua de direito».
Quanto á terceira duvida responderam: c Que os scravos dos herejes,
e apostatas ficavão de direito confiscados, assy como os outros mais bens
dos herejes•.

{1) Livro dos acordos e determinaç6es, codice 976, já citado, fi. 6.


( 2) Livro d01 acordo1 e determinaç&s, ft. 4-
A' quarta duvida responderam: ~Que o fisco nam era obrigado a pa·
ar sisa dos bens que Yeodia, nem a pessoa que lhos comprava e porém.
ue, vendendo-se algúa cousa commúa entre o fisco e partes, na tal venda~
6 a pane cJo. fisco era privilepda pera nam pagar sisa e das outras par-
~ se devia pagar conforme a dire~·.
Este parecer está assignado por Martim Gonçalves da Camara, Leão.
lenriques e Manoel de Quadros.
E assim temos visto de relance a forma como no seculo XVI, o Con-
tlllo Gtral do SaJJio 0./}lcio se desempenhou das suas attribuiçóes.
Como facil é de suppôr a situaçio dos membros deste tribunal era
las mais preponderantes do paiz.
A seu tempo diremos os privilegias de que gozavam os officiaes do
tanto Officio; bastará por agora em especial, fazer referencia ao privi·
~o de conselheiros do rei concedido, em 23 de maio de 1S72, por D. s~
,astião aos do Co11selho Geral do Santo O.tJicio, c vendo quão necessario e
n~ante he o conselho geral pera be da fee, cõservação della e preser·
·aÇão das eregias• (1).

Como já dissemos o Conselho Ge,·al do Santo Officio foi primitiva·


[lente instituído por Fr. Diogo da Silva (2).
Sabe-se quaes foram os primeiros deputados para elle escolhidos; e,.
pezar de Herculano (3) conjecturar que seriam logo de principio seis,
ontra a opinião de Fr. Antonio de Sousa (4) e de Fr. Pedro Monteiro (5),
tenbuma duvida temos que foram sómente quatro : João de Mello, Ruy
~pes de Carvalho, Gonçalo Pinheiro e Antonio Rodrigues, prior de Mon-
anto.
O que escrevemos funda-se no primeiro livro de denunciações, de
537 a 1543, adeante extractado, e onde sómentc nos apparecem os qua-
ro gue enunciámos a presidir ás inquirições dos delatores.
Como é que Antonio da Mona, em documento citado por Herculano,
lOS diz que, no tempo do bispo de Ceuta, pertenceu sempre ao Conse-
llo ? Não encontrámos por ora explicação do facto e talvez que elle, com
~fteito, fosse chamado ao serviço, mas só accidentalmente.
Vejamos em que qualidade de pessoas assentou a escolha do primeiro
nquisidor Geral.
Fallemos primeiramente de João de Mello, que Herculano nos diz dis-
inguir-se pelo seu espírito intolerante (6).
E' Barbosa Machado (7) quem _principalmente se occupa do illustre
nquisidor (8). Diz-nos pots que Joao de Mello nasceu em Villa Viço--

•) Liv. de Privileçios de D. Sebastião, ft. 62.

i
10,
2) He.rcul~no,_ Historaada origem e atabelecimento d'llnguisição, vol. 2..•, pag. 170.
3) Hutor•a, cnada, vol. 2.• ~·R· 171, nota.
(4) 4Jihorismi lnguisitorum, ft. 8.
(5) Catalogo dos deputados do Conselho Geral do Santo OJ!icio.
(6) Herculano, Obra citada, vol. 2.•; pag. 216.
(7) Bibliotheca Lusitana, tomo 2.•, pag. 6g8.
(8) José de Sousa Amado, a pag. 194, da sua Historia da Egreja Ca111olica etn Por-
'gal, ton1o VI, chama-lhe D. João de Mello c Castro.
5
sa, 6lho de Pedro de Castro de Azevedo e de O. Brites de Mello. Foi
alumno distincto da Universidade ele Salamanca, onde se doutorou em Di-
reito Pontificio.
Machado diz-nos que elle foi domestico do cardeal O. Affonso, bispo
de Evora, e da carta que o nomeia Dezembargador da Casa da Supplica-
çio, em 31 de maio de 1S40 (1), consta que tinha sido dezembargador
da casa do bispo de Evora.
Membro do Co11selho Geral do Sanlo Q#CJo em 10 de outubro de
J536, substituto do Inquisidor Mór, reconduztdo depois pelo Cardeal
D. Henrique no ConselhO Geral, tomou-se-lhe persoJJa grata, sendo, por
assim dizer, o seu braço direito. Não admira por isso que o Cardeal
D. Henrique, em carta dirigida a D. João III (2), se mostrasse muito con-
tente com o facto de João de Mello ser nomeado bispo do Algarve, o que
será exemplo para outros trabalharem como elle, posto qut uja dijicld-
toso de lhe cheguar.
No mesmo anno em que foi nomeado bispo de Silves, 1S4g, foi no-
meado Dezembargador da Casa do Civel (3) e em especial dos Aggravos.
Sabemos que o Dr. João de Mello, como Dezembargador da Casa da
Supplicação tinha de mantimento S~ooo reaes por anno, quantia que co-
meçou a vencer em 1 de janeiro de J54o (4), e como Dezembargador dos
Aggravos da Casa do Civel, 5o~('OO reaes (5).
Celebrou synodo em Silves, em I554; publicou constituições do bis-
pado e em 1S64 foi promovido para o arcebispado de Evora (6). Regedor
ao mesmo tempo da justiça, de que tomou posse a 17 de setembro de
I 557 (7), Regedor da Casa da Supplicação, Dezembargador do Paço
nomeado em 2 de agosto de 1~61 (8), D. João de Mello falleceu a 6 de
agosto de 1574, tendo-se elevado aos Jogares mais altos da hierarchia
judiciaria e ecclesiastica do nosso paiz.
Inimigo implacavel dos christãos novos não ha duvida 9ue o foi;
e para se ver qual o seu valor intellectual, que Herculano JUstamente
nota, basta attentar na celebre resposta minutada, segundo parece, por elle,
a quatro hebreus consultados por D. João III, da qual Herculano fez uso,
e que se encontra publicada no vol. 6.0 do Corpo Diplomatico Portugut{·
Nella se apresenta João de ltlello como jurisconsulto habil e arguto.
Outro dos primeiros conselheiros do Santo Officio foi Ruy Lopes de
Carvalho. ·
E' ainda Barbosa Machado (g) quem nos diz ser elle natural de La-
mego, filho de Martinho de Carvalho Rebello. Doutorou-se cm ambos os

( 1) Registada no Ii v. 40 da Clzancellaria de D. João III, ft. 124.


(2) Doe. XVI.
(3) Liv. 55 da Chancellaria de D. tloão 111, ft. 13t, v.
t4) Liv. 40 da Chancellaria de D. João 111, ft. 1~, v.
{5) Carta de 6 de fevereiro de 1549· Liv. 6o da Ozancellaria de D. João 111, ft.
108, v. .
(6) Portugal Sacro, de Fr. A polinario, man. já citado.
(7) Vide sr. Braamcamp Freire, Brasões da S~la de Cintra, liv. 3.o, pag. •97·
(8) Chancellaria de D. Sebastião, liv. 8.0 , ft. 222 V 0 •
(9) Bibliotheca Lusitana cit., tomo 3,o, pag. 661.
·- 47
Direitos e exercitou· por algum tempo o Jogar de a~ente dos negocios
~~ es_ta corôa na curia romana, diz Machado. Isto porem não nos pareu
Inteiramente exacto.
D'esse tempo ha uma cana d'elle (1), para O. João III, datada de 20
de julho de 1522, em que falia na necessidade que tinha o Cardeal In-
fante (O. Affonso), cde húa pessoa letrada que tevesse ha pratica d'esta
c8ne• -Roma- e que por isso couve por seu serviço de me mandar a
ella pera tomar ha pratica della e servir ao Ifamte como tevesse em que
. e a este fim, senhor, som vindo a esta cottc, etc.
D'onde claramente se infere que Ruy Lopes de Carvalho em Roma
era _principalmente um commissionado do irmão de D. João III.
Ha ainda, sobre elle, uma carta de recommendação, de 1 de abril de
r 5 2S, feita pelo cardeal Santiquatro (2 ).
· Regressando ao reino foi successivamente dezembargador do Cardeal
D. Aifonso, bispo de Evora (3); abbade da igreja de S. Pedro da Quei-
mada (4) em 28 de agosto de 1S28 ; vogal do Conselho Geral do Santo
Officio como já dissémos, sendo conego d'Evora e abbade da igreja (5)
de S. Pedro de Goiães, em 11 de agosto de t535. Em 1S4o deu começo
ao celebre colle~o de S. Pedro, em Coimbra. A este respeito escrevia
elle, em· 25 de abril de 1S48, uma carta a el-rei D. João III (6), quei-
xando-se amargamente da falta do despacho aos seus requerimentos e fal-
lando nos serv1ços que prestára por causa da fundação desse collegio, em
que se empenhára, Indispondo-se com a fatnilia, e tendo de luctar com a
animosidade de prelados e doutros altos membros do clero que escarne-
ciam da ingenuidade do Dr. Ruy Lopes de Carvalho!

(1) Corpo Chronologico, Parte t.•, M. 28, Doe. 47·


(2) Corpo Chronolegj_co. Parte t.•, M. 32 Doe. 21.
(3) Cluinc~llaria de D. João 111, liv. 11, g8, v.
li
(4) lbid~lll.
(5) Chancellaria de D. João III, liv. ao, fi. toQ.
(6) •Senhor: Eu ando acabando esta obra deste colegio como dey cõta a V. A.
e aelle teoho gastado e gasto guãto tenho e ho deixo de gastar é my e meus jrmãos
e parétea I e a elle prometto de deixar meus beneficyos, hos ~uaes nõ sométe deyxo
Joio mas ajnda pera O 6altO de anexare ao colegio me ando epenhando pollo que nÕ
somente esdo mal c6m1go 1 meus parê'tes pollo que lhe tyro e dou ao colegio mas
aJuda pessoas ecclesiasticas de vosso Reyno e prelados e outras se Ryem de my de
RUtar co colegio e fazer bo que faço e deos sabe quãtos écõtros tenho pera isto e se
V. A. per soas grandes vertudes e santa lnclinaçio que tem pera o serviço de deus me
uSo fayorece E meus Re_querimétoa que sõ todos quasy pera o dito colegio e tanto pe-
ra seniço de deos eu nõ poderey jr avite e serme·a necesaryo desemparar todo de que
a. que me tachlo como digo terlo grande gosto e aos outros nõ sera bom exép\o pera
se atreverE faaer semelbãtes obras 1- E pollo de deos e de São P.o cuja esta casa he
peço a V. A. que pois c6 boa outros coleaios usa de tanta liberalidade I e gridezas que a
este a6 desé'pare pois dele se nõ deye sperar meno• truyto I e assv no da minha temça
~ peço que se aplique ao colelio como no de meus sobrinhos que mos fylbe e no
mais me queyra fazer mercee oois a mereço a V.A.por muytea !>'as e mãde despachar
V. A. bo capelão deste cole8io que ha 4 meses que la anda se aver bú bõ ·despacho
e no das festas n5 fale porque em outra dey cõta a V. A. do que passava o nosso Se-
Dhor ho Real estado de V. A. cóse"e per longos dias pera seu serviço como sempre
lhe peço de Cojnbra a xxb deste abrJI de zS.S-Ruy Lope; de Carvalho.- Corpo
Chronologico. Parte t.•, M. So, Doe. 85.

• .I, • I I •'
·'~~J .
.A cana é deveras interessante porque nos mostra certos costumes da
"epocha; por ella se ve que até, em coisas religiosas havia rivalidades e
invejas bem pouco proprias de tão intransigentes seguidores do Evan-
gelho I
Elevado á cadeira episcopal de Miranda veio a fallecer a 22 de dezem-
bro, não se sabe em que anno (1).
Gonçalo Pinheiro, o terceiro dos nomeados pelo primeiro Inquisidor
Mór para o Conselho Geral do Sa1úo 0/}lcio, foi tambem das pessoas
mais notaveis do seu tempo.
Natural de Setubal, doutorado em canones pela Unive.rsidade de Lis-
boa (2), tendo frequentado com distincção a universidade de Salamanca,
foi successivamente conego da sé de Evora, bispo de Safim, embaixador
d'el··rei D. João III em França, enviado especial do mesmo monar~ha em
Bayona para derimir certa questão com o rei de França (3) e, em recom-
pensa d'1sso, nomeado Dezembargador do Paço, sendo, já então, bispo de
Tanger. .
Deputado do Co1zselho Geral, por nomeação de D. Diogo da Silva,
foi, em 1 553 nomeado bispo de Vizeu, em cujo logar falleceu.
Quasi nada sabemos de Antonio Rodrigues, pr1or de Monsanto, tam-
bem nomeado para o Conselho Geral. Apenas Fr. Pedro Monteiro, se-
guindo Sousa (4), lhe chama doctorem utrausq11e juris.

Nem todos estes foram reconduzidos pelo Inquisidor Geral, D. Hen-
r1que.
Entre os novamente nomeados· figura Fr. João Soares.
Referindo-se a elle, escreve Herculano: (5) c A escolha de Fr. João
Soares era a luva que desde logo o infante arremessava ao nuncio, ou,
para melhor dizer, á côrte de Roma, onde aquelle frade era assaz mal
visto. Nas instrucções dadas por ordem de Paulo III a um dos sue-
cessares de Jeronymo Ricenati, a indole, as opiniões e os costumes
do novo membro do conselho geral são de~criptos de modo não dema-
siadamente lisongeiro. •Ü confessor d'el-rei, Fr. João Soares-di%-se
ahi- é um frade de poucas letras, mas de grande audacia e em extre-
mo ambicioso. As suas opini6es são pessimas, e elle publico inimigo

(1) Barbosa Machado, loc. cit.


( 2) lbidem tomo II, p~. 400. ·
78
(3) A fls. do Livro 60 da Chtmeelltria de D. Joio III, esl4 registada a seguinte
carta : •Dom Johio etc. faço saber a quamtos esta minha carta virem que comtiamdo
eu da bomdade letras e saber do doUI& dom guomçallo pinheiro bispo de Tamjere
e ~ue em todas as cousas de que o emcarre1uar me daraa de sy aquela boa comia que
atliee aquy me tem dada e avemdo respeito aos aeniços que me fez em Framça uy
no juizo que amtre my e elrey dct Framça ae asemtou na rilla
de bayona omde seus .
vasallos e os meus.avilo de J·r requerer sua jastiça sobn 01 dannos e perdas ft"eitos ele.
huúa pane a outra no quall ulao o dito bispo foy hum dos juizes~ per minha parte co-
mo no tempo que resydio açerqaa do di-. Rey por meu embaxador e queremdo lhe
por todas estas rezoões faer inercee e acreçeotamento por esta presente carta tenho
por bem e lhe ffaço merce do o&cio de meu desembargador do paço e pitiçóes• etc. .
(4) ~phorismi lPifuiiitor•~ ft. 8.
(5) Historia da origem e estabelecinzento da lnpi1ição. vol. 2. 0 , pag. 21S.
da sé apostolica, do que não duvida gabar-se, como refinado hereje que é.
Todos o conhecem por tnl, menos o rei, por cujo temor, e porque, com
pretexto da confissão, obtem d'elle a solução de muitos negocios, todos o
acatam. E' homem perigoso e de vida dissoluta. O paço serve-lhe de con-
vento•. .
Quem compulsar a tão citada Bibliollltca Lusitana ve immediatamente
o exagero que ha nestas palavra·s, especialmente na parte em gue Fr.
João Soares, .é acoimado de homem de ~ucas letras. Barbosa Machado
cita differentes trabalhos littcrarios seus evid~ntemente comprovativos do
que affirmamos.
Doutorado em Salamanca, (t) foi um dos representantes de D. Sebas·
tião no concilio Tridentino, sendo já então bispo de Coimbra.
Ruy Gomes Pinheiro foi outro inquisidor dos novamente nomeados
por D. Henrique. Dezembar~ador do Paço exerceu o Jogar de governa·
Clor d:. Casa do Cível de L1sboa. (2) Nomeado bispo de Angra nunca
exerceu o Jogar, sendo transferido para o bispado do Pono em 1552,
mnorreu a 13 de agosto de t5]2·
Antonio de Leão, Doutôr em Canones, (3) nomeado em 16 de agosto
de 1;41. Foi nomeado Dezembargador dos aggravos da Casa da Sup-
plicação por carta (4) de 28 de julho de I533.
Manoel Falcão, licenciado cm Canones, nomeado aos 16 de novem-
bro de 1 542. Foi nomeado Dezembargador da Casa da Supplicação por
cana (5) de 20 de fevereiro de 1543.
Jorge Gonçalves, Bacharel em Canones, nomeado aos 6 de agosto de
1546.
Manoel de ~teneses, Doutôr em Cunones, deio da Cape lia real, no·
meado aos 14 de junho de I56g. ~"oi depois bisro de Coimbra, coadju-
tor e futuro successor do Cardeal Infante D. Henrique no lugar de Inqui-
sidor Geral, por bulla de Gregorio XIII. Não. chegou a exercitar o Jogar
por morrer em Africa, como já vimos. · ·
A elle se refere o sr. Braumcamp Freire a pag. 477 do 2. 0 vol. dos
Brasões da Sala de Ci11tra. Tambem foi Governador da Casa do Ci-
vel (6).
Martim Gonçalves da Camara., nomeado na mesma occasião do an-
terior, Doutôr em Theologia, Presidente da Mesa da Conscic:ncia, do
Dezembargo do Paço e do Conselho do Estado. Pertencia á historica fa-
milia C.mara, cuja importancia no reinado de D. Sebastião é bem noto-

na.
Ambrosio Campelo, Dout6r em Canones, nomeado na mesma oc:ca-

raa.
(I) Billliotll~ttl Lulilana, tomo I I 7Sg.
(2) Vide Br111&1 da Sala de t:mtra, Yol. 3.•, P•S· t 11.
(3) Vide Fr. Pedro Monteiro, Catalo8..o i' citado. E' fonte auctori•da por dos di-
zer que se ae"io dos livros de resisto aas Protizfies. Do seu trabalho nos servimos.
JNIUÍIR.
(4) Registada a fi. •5•, , .. do Liv. 19 da Cluntc~larltJ 4~ D. JoSo llL
'5) Re~stada a ft. ~.do Uv. 6 da Cha~KeiMrill ll• D. João 111.
(6) Sr. Braamcamp Freire, Joc, cit., voJ. 3.•, pas. 218.
6
5o
sião. Foi Dezembargador da Casa da Suoplicação, (1) nomeado em 2 de
outubro de J55o e provido na igreja de ·santa Mario de Miranda (2).
Manoel de Quadros, Licenciado cm Canones, nomeado aos·J4 de •••
de JS7o. Foi nomeado Deze1nbargador da \..asa da Supplicação cm 14
de novembro de 1565 (3). Foi depois Bispo da Guarda. ·
Paulo Affonso, Doutor em Canones, nomeado aos 8 de junho de
1577· Foi.Dezembargador do Paço nomeado em 21 de outubro de 1S67 {4)
e deputado da 1\lc:sa da Cons~iencia e Ordens. •
D.. Miguel de... Castro, Doutôr em Theologia, nomeado aos 3 de se-
tembro de 1577· Provido no priorado da igreja de S. Christovio de
Lisboa, (5) foi suceessivamente inquisidor de Lisboa, do Co1uelho Geral
do Sa11to Ojflcio, bispo de Vizeu e Vice-Rei de Portugal.
Antonio Telles de Menezes, nomeado aos 3 de setc(Jlbro de 1S77•
Era Doutôr em Canones e tinha sido inquisidor de Lisboa. Foi depots
bispo de Lamego.
Leão Henriques, iesuita de quem Rebello da Silva (6) ·escreveu que,
juncto do cardeal infante mais parecia um ministro e um confid~nte, do
que o sacerdote encarregado de lhe guiar a conscicncia no caminho da
perfei~ão. Não teve por escripto P.rovisiio. de Deputado, diz-nos Fr. Ped~
Mnnte1ro. (7) Era doutorado em fhcologta. ·
O Dr. Jorge Serrão, tambcm jesuitn. Foi o primeiro lente de Theo-
logia da Universidade de Evora. · ·
Antonio de Mendonça, Licenciado em Canones. Foi nomeado em
3 de agosto de 1S79· Abandonou depois o Jogar, sendo Reitor da Univer-
sidade de Coimbra e Presidente d:t Mesa da Consciencia e Ord~ns. .
Diogo de Sousa, Doutôr em Canones, nomeado em 12 de janeiro
d~ I58g. ~avia sido inq_uisidor em Coimbra e em Lisbo:r. Foi depois
b1s~o de Ai1randa c arcebaspo de Evora. · ·
Marcos Teixeira, Doutor em Canones, nomeado e1n 9 de junho de
1Sg2. Era Dezemborgador da Casa da Supplicação e Deputado da Meza
da Consciencia.
D. Antonio de Aiattos de Noronha, nomeado em 23 de novembro de
1Sg2. Foi depois bispo de Elvas e Inquisidor Geral.
Bartholomeu da Fonseca, Doutôr em Canones, nomeado em 3 de
fevereiro de a5g8. Tinha. sido inquisidor em Goa e depois em Coim-
bra.
Martinho Affooso d•. Mel lo, Doutor em Theologia, nomeado em 11

(1) Chancellaria de D. João III, Li v. 64, fl. 124, v•.


(2) Chancellaria de D. Sebastião, liv. 1, fi. 10~. Nio se encontra n'esta folha a cart•
citada.
(3)Chancellaria de D. Se/Jastião, liv. •7· fl. 140 vo.
(4)Chancel/aria de D. Sebaswo, liv. ag, fi.. 3 iê. .
(SiBibliotla~ca LMsitiiiUI, temo 3.•, ~"8· 47•·· Occupa·se d'elle desenvolv.idameate.
6 Historia de Portugal 1101 ~eeMlo1 XVII• XVJJI, tomo I, ptag. to.
~7 Este mesrr.o auctor escreve que d'este Leio Henriques se occupa o Padre An-
tonio Franco no to~o .I da l•na6e• tkJ Virwde. E' la~ porq·ue esce ·occapa-se d'um
sobrinho que adoeteu o .mesmo nome, de quem trata Barbosa ••cbado no tomo 11
da Bibliotheca Lusatana, rag. 3~ .
Sr
de fevereiro de -15gB. Tinha sido inquisidor em Evor3 e -depois foi bispo
de Lamego. _ . .
Rodrigo Pires da Vciga) Bacharel .em Canones, nomeado etn 7 de
agosto de J 578. Tinha sido inquisidor em Coir:nbra e Evora. Depois foi
B1s~o de Elvas •. (1)
Taes foram as pessoas que no seculo X\,.1 fizeram parte do mais im-
portante corpo do paiz- o Co11selllo Gt,·al do Sa11lo Ojjicio.

IV

A Carreira Inquisitorial
#

JFFERENCIADA e especialisada a funcção de combater a !Jer·elica pra-.


11idadt t aJX!Siasia, o orgã~ d'ella encarregado, fo~ pouco a pouco
adquirindo força e vig,r •
.Vimos no capitulo anterior em quem tinha incidido a escolha
dos primeircs inquisidores rr.ó.re~ para es mais altos cargos inquisitoríaes;
e •imos então como, sob o ponto de vista intellectual, tinham sido esco-
lhidos individuo! doutorados em Direito, conhecedores portanto dns re-
gras c das formulas juridicas, alguns dos. quaes tinham vindo de Hespa-
nha, ~nde estava em ·pleno exercicio a justiça do Santo. Officio.
Sob o ponto de. vasta religios.o, vemo-los todos ecclesiasticos e certa-
mente pessoas por completo adversas aos herejes, fosse qual fosse a sua

espec1e. .
Além d'essas, a nomeação mais antiga de que nos chega conhecimento,
é, em •541, para inquisidor de Evora, do licenciado Pedro Atv·ares Pa-
redes, que já era dezembargador da Casa do cardeal D. Henrique (2).
E' nessa carta que expressamente se diz 'quaes as suas attr1buiç6es :
cpera que posaes imquirir e imquiraes comtra todas e quaesquer pessoas
asy homcés como molheres, vivos e defumtos, nusemtes e presemtes, de
~ualquer estado, comdição, prcrogntiva, premincncia e dintdade, q\le se-
jam ysemtos e não ysemtos, vez1nllos e moradores que sam e ffQrã nas
cidades e lugares do dato arcebispado (Evora) e bi . pados (A.lgn"e e Guarda)
e administra_çã (O.livença)_ que se achar~ culpados ~u sospeitos ou ç. ~fa­
mados no d1to dehto e crtmes de heresta e apostasta. I Comtra todos os
fautores, defemsores e Reccjtores e pera que possaes fazer c façaes éom-
tra eles e comtra cada huú deles vosos proçesos e forma devida de di·
reito, segundo a forma da bulia da samta Inquisiçã e os sacros cano-
ncs despóe e pera que possacs tomar e receber quaesquer procesos e
causas pemdemtes sobre os ditos crimes ou qualquer deles de qualquer

(1) Fr. Pedro Monteiro, Catalogo cit., passilu.


(2) Encontra-se o traslado da carta passada em nome do cardeal D. Henrique, a
ft.-70 do codice 974 dos ~rnuscriptós.
. .

lm~isidor que toPe amte vos e no pomto e estado que esteYeré coa·
tinualos e fazer e detriminar neles o que fôr justiça e parecendo justiça
relaxar ao braço secular c fazer todalas outras cousas que ao dito oficao
de lmquisidor tocarem e pertençerem e pera todo o sobredito e cada cou-
sa e parte dela cõ todas suas imcidençias e depcmdemçias, anexidades e.
conexidades, vos damos comprido poder etc.t. A seu tempo ponderar~
mos demoradamente todos os dados que esta carta,· antenor aos Re~­
mcntos, nos a~rescnta. Bastará por ora notar~os que tão longe ia a ai·
çada inquisitorial que nem os defuntos lhe escapavam !
A nomeação do L.do Paredes tem a data de 5 de setembro e, cinco
dias depois, prestava elle juramento de bem desempenhar o logar para
que fôra nomeado.
Não se diz nella que ordenado ficaria tendo o novo inquisidor e só
sabemos que, em 27 de no,·embro de t565, lhe era arbitrado, corno tal,
aoo:ooo reses pagos aos quarteis, como usavam se-lo os ordenados d·a-
,quelles ten1pos (1J.
Quanto ao montante d'este ordenado não era sempre o mesmo. Lop
no anno seguinte, por exemplo, a ~~r. ~fanuel da Veiga foi arbitrada, como
ordenado, a quantia de 8o:ooo reaes pagos esualmente aos quarteis. (2)
Apezar de nos ficar desconhecido o criter1o que presidia a tae1 diffe-
renças, foi este o ordenado mais usual dos inquisidores até que, em
I583, (3) lhes fizeram um acrescentamento de 4o:ooo reaes, ficando por-
tanto a receber cada inquisidor. 1 2o:ooo reaes por anno.
Sob o ponto de vista cconomico dos gerentes inquisitoriaes, foi este
anno de 83, assignalado pelo acrescentamento e equip3fação dos seus
vencimentos. Não lucraram só os inquisidores propriamente ditos, lucra-
ram todos.
Para isso se attendeu á carestia dos tempos e ao facto de tambem se-
rem acrescentados os ordenados dos Dezembargadores e officiaes de jus·
tiça, como nos diz expressamente o prologo do decreto em questão.
Por tal facto os deputados do Conselho Geral- começando pelo alto -
passaram a ganhar mais cem mil reses cada um ; o secretario mais vinte
e o poneiro mais dez. Em cada uma das tres inquisições, como já disse-
mos, os inquisidores passaram a ganhar mais quarenta mil reaes, os de-
putados mais vinte, o promotor egualmente, assim como os notarios ; o
meirinho, alcaide do carcere, solhcitadores e poneiro, (4) mais dez mil
reaes.
Na inquisição de Lisboa augmentaram ao dispenseiro seis mil reacSt
a cada um dos homens do meirinho cinco mil, ao alcaide do.colle6io da
fé oito mil, e ao capellão do mesmo, metade. Na inquisição de COimbra
augmentaram ao dispenseiro quatro mil rcaes, a cada um dos guardas

(1} FL g8, v.o do i' citado c:odic:e 974-


(:a FI.100 do cod. 974·
·
(3 Doe. XX.
(4) Por ordem do Inquisidor· mór, D. Fr. Diogo da Silva, foi mandado pagar ao por-
teiro da Jnquisiçlo1 Paulo Falc:iio, 700 reaes por mez, CJUantia que •S. A. lhe manda
dar•, no anno de .,3g. (C. C. P.• :a.•, M. 227, DOe. 6.0 ), orr&inal.
53
seis mü e a cada um dos homens do meirinho, como na inquisição de
Lisboa, mais cinco mil reaes.
Na inquisição de Evora augmentaram ao dispen•ciro quatro mil reaes,
a cada um dos guardas dez mil como em Lisbo:a, e a cada um dos ho-
mens do meirinho cinco mil, como nns restantes inquisições.
Cumpriria agora saber d'onde vinha a receita para fazer face a tão
impm-tante despeza e, com effeito, lá vem na ordem do Inquisidor Ge-
ral que é Sua Mngestade quem a dá da sua fazenda.
Tanto era o interesse que a Inquisição portugueza merecia a Fillip-
~ I, como de resto já tinha merecido aos monarchas seus antecessores !
Com effeito temos conhecimento da Provisiio de 14 de fevereiro desse
annodc 83 (1) em que cavendo respeito ao Santo Officio da Inquisição nam
·ter rendas bastantes pera pagamento dos officiaes e ministros q nisso serve
e outras despesas 4 se faze e como já por esse respeito o sr. rei dó Henri·
que, meu tio que Deos tem, lhe acrecentou trcs mil cruzados de sua fazen-
da em quanto o Santo Officio nã tiuesse rendas bastantes pcra pagamento
dos dittos officiaes como vi per. hüa provisão q de isso lhe mandará pas-
sar os governadores q forão destes reinos feita em Almeirim a doze de
fevereiro de 1 58o e ao certo crecimento em que uai o preço das cousas
e trabalho 4 ellcs levão no serviço de seus cargos c sua muita continua·
ção e pouco ordenado q có elles tem, auendo eu a tudo respeito ei por
bem e me praz de acrecentar ao Santo Officio da Inquisição hú conto cen-
to e dezoito mil reaes em enda hú ano do primeiro dia do mes de janeiro q
passou deste ano pre!entc de t583 em d1ante pera pag3mento · dos acre·
centamentos dos ordenados dos officiaes c pessoas que nisso seruem c
ysto alem dos ditos 3ooo cruzados que ate ora ouucrã de minha fazenda
pera sere por todos 2 contos 3J8 mil reaes cm cada hú ano e quero e me
praz ~ os ditos 2 contos 318 mil reaes sejã pagos e entregues ao thcsourei-
ro do Santo Officio do ditto janeiro em diante no thesoureiro d' Arca dos
dinheiros do reino e meus assentamentos aos quartcis do ano aos tempos c
da maneira q se fazem os pagamentos dos ordenados do Re$edor e des·
embargadores da Casa da Suplicaçam. E isto cmquanto o Santo Officio
não tiver rendas que bastem pera pagamento dos ordenados e acrecenta-
·mentos dos ditos officiacs e ministros delle ou o thesoureiro do dinheiro
do fisco d'esta cidade de Lisboa, Evora e Coimbra nã tiver dinheiro de
que possa fazer os ditos pagamentos ou parte d'elles porque tanto que
t1ver rendas q bastem pera os dittos pagamentos _se extingutrá esta tença
ou pane d'ella de que per outra via forem providos de renda, nem me-
nos .e lhe paguará avc:ndo dinheiro do fisco de que possã ser pagos como
dito he. Pello li mãdo aos veedores de minha fazenda lhe fação assentar
no Livro d'ella estes 2 contos 3J8:ooo reaes. E constando-lhe per assinado
de D. Jorge d'Aimcida, nrcebispo de: Lisboa e Inquisidor Aloor destes rei·
nos do meu Conselho do Estado, de con1o o Santo Officio da Inquisição
nã tem rendas bastantes pera pagamento dos ordenados c acrc:ccntamento

( ~} Um traslado nuthcntico d'eJio, está no Corpo Clzronologico, parte 2.•, m. 255,


doe. 78· E' passado pelo secretario do Conselho Geral, BartholomeuFernandes.

~os officiaes e ministros della, né ha dinheiro no· fisco· de 4 possã 'ser pa-
gos passem mandados pera o thesourciro do Santo Oftlcio o q montar em
cada quartel da mr.neira em que se paga ao Regedor c desembargadores
da Casa da Supplicação.,
De que maneira porem se cumprio esta provis5o é o . que vamos
a ver e que nos é indicado pelo Doe. 124, Maç. 263, P. 0 2.• do Co•·-
po Cln·o1Jologico. Dez annos depois, em 1 ~3, requeria a Inquisição
para lhe serem pagos 1o:ooo cruzados para pagar os dois quarteis de
g3 que se deviam e um conto e 35o:ooo reaes que se deviam de le-
tras passadas aos visitadores das ilhas e Brazil, allegando que, depois da
provasão de 1583, não tinham recebido mais que 4 cont~ 636:ooo reaes,
estando-lhe portanto a dever 18 contos, S2o:ooo reacs, e c no fisco não ha
dinheiro donde se possa satisfazer né a Inquisiçam te renda bastante con-
forme a certidão q apresentão., Com effe1to, consta d'cste mesmo docu-
mento que em 3o d·agosto de 1593, foi passada uma ordem d'el-rei (o
documento parece a sua minuta VIsto não ter a assignatura regia), man·
dando ao thesoureíro da arca dos assentamentos reg1os que entregasse á
Inquisição 2000 cruzados. De dezoito contos, quinhentos e vinte mil reaes,
como se vê, só El·Rei D. Filippe I mandava dar ao Santo Officio·~ conto
e duzentos mil ! Bem exhaustas de\·iam estar as arcns .do thesouro !
Não será certamente desca bico conh~ccr agora aproximadamente a
situação economica do Santo Officio, antes d'esta provisão. Abramos para
isso um parcnthesis.
Já cm 1554 (1) el-rei D. João III escrevia para Roma dizendo ao com-
mcndador-mór que pedisse ao Papa para, em vista da Inquisição não ter .
renda propria, lhe conceder ;,, perpetu11nJ as pensões equivalentes a um
conto e meio de rcaes.
Com cfTcito, dez annos depois- tanto levou a decidir· a pretensão!-
pela bulia Exposil 11obis, de 21 de junho de 1S64 (2), foi imposta á mesa
do arcebispado de Evora a pcnsã\1 annual de 2:.oo cruzados, pagos em
duas prestações, para pro \'Cr á sustentação do Santo Officio nessa cida-
de. Ainda restavam porém as outras du3s inquisições. Por isso a bulia
Ac.-i Slllllnzi apostolal11s (3) de 7 de outubro de 1S67 c a bulia C11m ad 11il (4)
da mesma data, mandam dar annualmente~ egual quantia ás inquisiç6es
de Lisboa c Coimbra, a cada úma das respectivas mesas pontificaes.
Mais tarde, pela bulia Pasto,·a/is o_f!icii (!>) de 13 de novembro de a5;g,
foi concedida á Inquisição a pensão cfe 2oo:ooo rcaes sobre os fruct<~s da
mesa pontifical do bispado de Lamego e pela bulln Pastor·alis o.fficii de
2 de dezembro do n1esmo anno foi-lhe concedida a pensão de 4oo:ooo reacs
sobre os fructos da mesa pontifical do bispado de Mircnda (6).

( 1) Corpo Diplonratito Portugue f, vol. 7.•, pag. 334.


(2) lbidem, vol. 1o.•, pag. •64-
(3) lbide•n, pag. 26~.
(4) lbidenr, pag. 269.
(5) lbidt111, pag. Sõo.
(6) lbidem, pag. 565.
55
Já depois da provisão de 83 chega·nos ao conhecimento que o arce-
bispo de Braga contribuía com u1na pensão, cujo montante não conhece·
mos, para as dcspezas do S3nto Oflicio (1). Será bom n.otar que cllc só
a entregou :~poz sentença judicial. De egual n1ancira tinha procedido o
bispo de Coirnbra, D. Alanuel de A-lenezes, en1 1S74, por causa de um
conto de pensão (2). ·
Como se ''ê, não era de muito bom grado que os prelados consentiam
na espoliação das suas rendas. ·
Tambcn1 o bispo da Guarda, en1 aS9B, officiava dizendo que tinha dado
ordem para que dos 120:000 reaes que o Santo Officio tinha de pensão no
seu bispado não descontassem o que lhe foi lançado na contribuicão geral
do seminario (3). •
Tal é o que sabemos quanto á situação cconomica acti,•a do Santo Qf.
ficio no seculo XVI, isto é, quanto ás suas receitas.
Quanto ás suas despezas, em virtude da provisão de 83, pojemos
organisar a seguinte tabella de ordenados inquisatoriacs :
Deputados do Conselho Geral do Santo Otlicio .....•..... 2oo:ooo rs.
Inquisidores •..........••............................ 12o:ooo rs.
Deputados das Inquisições •................•....•...... 8.):ooo rs.
Promotores . . . •.. • • . • • • . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . Idem (?)
Nota rios ••.•....•...•....•....•..•................... 5o:ooo rs.
Sollicitadorcs •...............................•...•... 4o:ooo rs ..
~lc:~icl~~ ••.••...•.•....•...••.....•.••...........••. 6o:ooo rs.

t3bella esta, feita especialmente em face das cartas dos differentcs offi..
ciaes da Inquisição de Coimbra, posteriores a t583, registadas no codice
979 dos Ma1wsc,·i'ptos da Livrarza da Torre do Tombo.
Para bem se comprchenJer a importancia d'est~s ordenados é preciso
compara-los com os d'outros funccionarios da mesma cpocha. Assim te-
mos:
Dezembargador do Paço, acrescen·
ta do em 1oo:ooo reaes . . . . . . . • • 3oo:ooo rs. (4)
Dezembargador do aggravo da Casa
da Supplicação, acrescentado cm
70:ooo rs . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . 2no:ooo rs. (5).
Dezembargador extravagante da
mesma Casa, acrescentado. cm
6o:ooo rs. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . t5o:ooo rs. (6).

(1) Vide doe. 4· do já cit. codice 1J27. É uma carta original do arcebispo, datada
de 9 de abril de a5~o.
(2) Vide doe. 2S e _26 do codi~e .' 327· São as cartas originaes. .
(J) Doe. 5.5 do cod1ce 1l27, ortgtnal.
(4} Clurncellari. t de Filippe I, liv. 6, fl. 2c6; em 21 de outubro de J582.
(.S) 1/Jide,,, li v. 6. •, ft. 2041 v. em 3 de j ulho de 1S82.
(6) 1/Jide,,, lo.:. cit. ·
56
Corregedor do crime da côrte • • • . • duzentos cruzados ( 1).
Dezembargador do aggra\'O da Casa
do Civef, acrescentado em 70:000
rs • • . . • . • • • . . . • • • • • . • • . . • • • • • t6o:ooo (2).
Dezcmbargadorextrnvagante da mes-
ma • • . • . • • • . . . . • • . . . . . . • • . . . • 14o:ooo (3).
Corregedor do crime da Casa do Ci-
vel ••••...•..•...•....•••..•. 200 cruzados (4).
Mestre de grammatica de Setubal •• 8:ooo re:1es (5) pagos pela cam:ara.
Ao poeta Luiz de Camões, tença de 1 5 ;ooo reaes (6).

Que contraste ! Um conselheiro do Santo Officio ganhava por anno


dezoito vezes mais do que o auctor dos Luziadas e vinte \'ezes mais do
que um professor de instrucção secundaria d'aquelles tempos! E deve-
mos notar 9ue ainda tinham os respecti\'OS emolumentos.
Antes d isto, por volta de 1578, eram tão prccarias as condições eco-
nomicas da inquisição de Lisboa, que o Conselho Geral expressamente
prohibia que aos dcsemb argadores da Relação cujas funcçóes accumullas-
sem com as do Santo Oflicio, fosse dodo qual9uer ordenado.
Da mesma maneira, em identica ordem de 1deias, se cortavam as gra-
tificações aos deputados da inquisição de Lisboa, apezar de quaesquer
provisões que ellcs parn isso possuissem (7).
Em contraposição, ainda depois de 1 ~83, em z8 de janeiro de t588, ·
o bispo de Ccimbra, D. Affonso de Castello Branco, officiava ao Conse-
lho Geral (8) nfim de darem ordem c com que sedem as propinas aos De-
putados no tempo em que actualmente servirem e as propinas dos Douto-
res aos inquisidores, po1s são mais privilegiados que os doentes aos quaes ·
se dão e porque eu sou bon testemunh:~ do continuo e grande trab:alho
dos que nestes oflicios são defensores da fee sem nenhum gosto temporal
que os outros cargos poJa mór parte tem, parece devido serem tambem
favorecidos no mesmo temporal em tudo o ~ue puder ser•.
No mesmo sentido escreveu o bispo de Coimbra ao Inquisidor Ge-
ral (g) em 28. Tambem nos chega conhecimento d~, em Agosto de t594,
o Inquisidor Geral ter ordenado que ao Doutor Diogo de Souza, do Coll-
selho Gc,·al, se de~scm 7o:ooo rcaes, pnrn renda das casas em que mora-
va (ao).

(1) (h."JJJCellaria de FiliFpe 1.


(2) lbidtm, liv. 2, fl. 294, v.; em 26 de !etembro de 1~82.
(3) lbidem.
(4) /bide1n.
(5) Jbidena li v. 7, fl. 182; em 16 de maio de 1583.
(6) Vide Juromenha, Obra• de Luis de l:amões, tomo t. 0 , pag. 1~ 170 e •7•·
(7) Does. XXI e XXII.
(8) Doe. 3 1, origina), do codice 1J27.
(9} Doe. 33, origina), do codice 1l27.
(1 o) Doe. 3j, o•isinaJ, do codicc a5a5.
Teriam porventura melhorado. as condições economicas do Santo
Officio de forma a permittir o arbitrar gratificações ?
""
Como jã vimos, o inpresso na funcção inquisitorial, como em todas as
instituições nascentes, nao estava a principio dependente de regras fixas e
preestabelecidas.
Corria um pouco ao sabor dos dirigentes que certamente procuravam
pessoas de sua confiança absoluta e assim nomeavam indistinctamente
para deputados, inquisidores ou conselheiros do Conselho Geral.
Todavia, de certa alturà em deante, entendia·se que era preciso certo
tirocinio e pratica nas cousas do Santo Olficio e por isso as nomeações
eram ordinariamente feitas para deputados ou promotores e d'ahi ascen-
diam aos altos gráos da carreira do Sant~ Officio.
Ao deputado cumpria ·assistir ao despacho ordinario da Mesa, quando
para isso fosse chamado pelos inquisidores; processar causas, receber de-
nunciações na ausencia dos inquisidores e dar o seu voto decisivo nos ne-
gocias que na IRquisição se tratavam deante d'elle (1).
Era uma especie de noviciado, do qual por vezes resultava para o de-
putado novato a dispensação completa dos seus serviços. Foi o que acon-
•o
teceu em t583 ao L. Diogo Nunes, por causa de quem o lnquisador Ge-
ral ordenava ao inquisidor de Evora Manoel Alvares Tavares que cpor
algúas rezões e justos respeitos que ha, não mandareis mais chamar o
L.do Diogo Nunes pera cousa algúa que toque ao S.to Officio, nem se lhe
dará ordenado, (2). ,. ·
.A priori podemos conjecturar que a vida de official do Santo Officio,
bem remunerada para o tempo, vida de accesso e de promoção, poden-
do, como vimos no capitulo anterior, chegar ao principado da cgreja lu-
sitana, devia ser bem disputada e appetecida. Além d'isso, quem a exer-
cia~ dominava na sociedade d'então; do seu veredictum dependia o bom
nome religioso e moral, a fortuna e-o que mais é-a vida de todo o ci-
dadão portugucz.
No capitulo anterior vimos os privilegias especiaes de que gozavam os
do Conselho Geral; mas, além d'esses, outros havia dispensados pelos
nossos monarchas a todos os officiaes do Santo Officio.
Assim, em 9 de julho de J55o, mandava dirigir el-rei D. João III um
alvará aos almotacés de Lisboa, ·para que crfaçais dar e deis aos ofiçiaes
da samta Imquisição todolos mamtymentos que lhe forem neçesarios, que
elles pagarão pelo preço e estado da terra, quando por algú delles vos for
requerydo, sob pena de qualquer de vos que asy nã compryr pagar vymte
cruzados e a metade pera quem -vos acusar e a outra pera as despesas da
dita lmquisição, (3).
Em 8 de Maio de J56I, dirigindo-se el-rei D. Sebastião ás aucto-
J

Estas foram as attribuições commettidas, em t58S, ao (...do Rodrigo Pires da


( 1)
Veiga. (Carta de nomeação para deputado d'Evora1 cod. 974 dos Manuscriptos).
(2) Original appenso u fl. 146 do já citado cod1ce 974·
(3) Registada a fl. 279 do Liv. 4·0 de Privilegias de D. Joio III.
7
58
ridades de Evora, expressamente lhes ordenava cque tanto que peitos
compradores ou crjados do dito officio- Evora -da Santa lnquissição
vos for pedido carne ou pescado ou quaisquer outros mantimentos pera
elles lhe deise façais logo dar por seu dinheiro todo o que lhes for ne-
cessariot; fôra o caso que os inquisidores eborenses amargamente se
queixavam de que muita vez os seus criados tempo infinito esperavam
para lhes fornecerem carne, pescado e. outros mantimentos, regressando
afinal, de vez em quando, como tinharn ido, sem carne nem pescado! (1)
Bem m3is generica foi a carta de 28 de fevereiro. de 1S71, pela qual
se concedia a todas as inquisições o privilegio de lhes darem com brevi-
dade carne e pescado, lenha e carvão (2), das milhores que ouver, e pri-
meiro que se den1 a outra algunza pesoa de qualque,· caJ,rdade e prenzi-
11encia que seja airzda que tenha outra taal p1·ot'isão e p1·ivrlegio con1o este.
Alem (fesse ainda lhe concediam o de terem carniceiro que corte carne.
Na mesma ordem de ideias, em 14 de agosto de 1'S77, ordenava D. Se·
bastião que aos mesmos inquisidores de Evora dessem todo o pão de que
carecessem cpelos preços da taxa avemdo ahy e, nãonavendo hy, pello
preço que correr na terra,. (3) ·
Bem mais importantes todavia são os privilegias, genericamente con-
cedidos pelo mesmo monarcha, em 14 de dezembro de rSô2, dirigidos
não só aos officiacs, como tambem nos familiares do Santo Officio (4).
Primeiramente ficam elles isentos de pagar fintas ou quaesquer outras
contribuições que os concelhos, onde elles sejam moradores, lhes exijam;
da obrigação de acompanhar presos ou dinheiro; de exercerem a tutoria,
a curatella ou quaesquer officios do concelho; -de lhes tomarem, para apo-
sentadoria, as suas casas de morada ou caval,lariças, que até lhes devem
dar quando para isso tenham necessidade; de lhes tomarem o pão, ou
qualquer outra cousn, contra sua vontade. São, além d'isso, isentos do
serviço militar e de ter ganchos á porta, podendo usar das armas offcn-
sivas- espada, punhal ou adaga-c de todas as defensivas e podendo, as-
sim como suas mulheres e filhos, vestir-se da seda que só podiam trazer
as pessoas que usassem cavallo.
Quatro annos depois, em 20 de março de t566, junctava-se a esta
carta uma apostilla, escusando os officiaes e familiares do Snnto Officio de
pagarem no lançamento dos cem mil cruzados, feito pelas côrtes de Lis-
boa, de t562 (5).

( 1) Carta registada a ft. 3ol do Liv. 2.• de Privilegias de D. Sebastião.


(2) Vide o Instituto, voJ. 14, pag. gS. J. C. Aires de C3mpos faz a transcripção d'esta
carta cujo registo encontrou no archivo da cama ra de Coimbra.
(3) Alvará registado a ti. 99, v.• do Liv. 11 de Privilegios de D. Sebastião.
(4) Encontra· se esta carta tmpressa a pag. 220 do vol. 3.• do Systema dos Regimen•
tos Reaes; o com(lilndor servio-se d'uma certidão passada em 16o8 pelo secretario do
Conselho Geral. A fi. ~' v.o do Li v. 3. 0 de Privilegias de D. Sebastião encontra-se o seu
registo que muito ligeiramente differe da impressa. Tambem J. C. Aires de Campos tras·
ladou do tomo V dos registos do Archivo Municipal de Coimbra, fl, 297 e publicou es-
tes privilegias no Jnstiluto, vol. XII.
( S) Systema dos ReGimentos Reaes, vol. 3.•, pag. 221.
Sg
O Cardeal D. Henrique, quando subiu ao throno, facil é de suppôr,
não descuraria os interesses d'aquelles officiaes encarregados de exer-
cer uma funcção tão grata para o seu espírito. E assim, além de confir-
mar todos os privilegios de D. Sebastião, augmentou·os em 18 de ja-
neiro de J58o, Isentando-os mais do pagamento de siza ou cabeção, fal-
lando novamente em elles não serem obrigados á imposição por causa da
aposentadoria (1).
Dois dias depois, o mesmo rei determinava que nas causas crimes dos
officiaes do Santo Officio, ou sejam auctores ou réos, os Inquisidores te-
nham jurisdicção sobre eiJes e nas causas civeis sómente quando forem
réos. Para os familiares havia algumas excepções ; era quando cJies com-
metessem algam dos crimes segu1ntes: c crime de le~a 1\1agestade humana;
crime nefando co11tra "aturam; crime de alevantamento ou motim de pro-
vincia ou povo; crime de quebrantamento de minhas cartas ou seguros;
de rebellião ou desobedienciSJ a meus mandados; e em caso de aleive,
força de mulher,- ou roubo d'ella, ou de roubador publico, ou de que-
bnntamento de casa, ou de igreja, ou mosteiro, ou queima de campo,
ou casa com dolo; e em resistencia ou desacato qualificado contra minhas
justiças, e quando tiverem officios meus, ou publicas dos réus e Respubli-
cas, e delinquirem nelles e em cousas tocantes aos ditos seus officios, e
cargos; nos quaes casos conhecerão as justiças seculares contra os ditos
familiares, e nfio em outros, por graves que sejão• (2). Ainda este alvará
dispõe quanto ao julgamento dos criados dos officiaes do Santo Officio
que sendo réos em causas crimes, devem ser julgados pelos Inquisidores,
·com appelação para o Conselho Geral, onde a causa fenece. No caso de
conftito de jurisdição, disp6e por ultimo o alvará, devem ser os autos en-
viados, com informação,. ao Conselho Geral aonde dois d'esse Conselho
com dois Dczembargadores do Paço resolvem o conflicto.
Em 31 de Dezembro de 1S84 Filippe I confirmava todos este privi-
le~os (3) que davam ao Santo Officio uma tão excepcional situação que
. bem parecia um verdadeiro estado no estado.
Cumulados assim de excepções, remunerados como vimos, gozando
de notavel importancin, ~ue muito era para admirar_ que os ·lagares de ·
officiaes do Santo Officio fossem avidamente procu1·ados c ambicionados?!
Chega-nos por _exemplo noticia de que, em 16 de outubro de t5g2, e~cre-
ria o bisp<? de Coimbra D. Affonso, ao Inquisidor Geral recommendnndo- .
lhe para inquisidor o licenciado Antonio de Barros. São curiosas essas
referencias: cNo licenciado Antonio de Barros, escrevia o--douto prelado
cuja deshumanidade vimos no capitulo anterior, teera V. A. hum inquisi-
dor digno do tribunal do Santo Officio, porque alem de ter muita expe·
riencia delle, he muito douto, recolhido, e exemplar nos costumes, c em
tempo em que ha tanta falta d'homens, principalmente pera a inquisição,

(1 ~ SyJte•na
cit., t~ol. cit., pag. 222.
~ Loc. cit.,
pag. 223.
f3 Sy~tema di., pas- 324 e UY. v, fl. 48 doa Privilegios de Filippe I.
6o
he razão que se tenha muita lembrança delle pera se lhe fazer mercê por·
que tendo servido dez annos de promotor tambem, e com tanta diligen-
cia, não tem beneficio algum ; e não sei eu prelado a que elle servira, que
lhe não tivera dado renda com que pudera viver: e se as merces nos que
bem servem são tambem empregadas, com muito mais razão o serão nos
ministros do Santo Officio• ( 1).
Era, como se vê, a verdadeira carta de recommendação moderna.
E não só os particulares appeteciam estes Jogares como tambem os
collegios que desejavam ter um representante seu nas mesas do temido
tribunal.
Assim, em 22 d'outubro de 1587, (2) os dirigentes do Real collegio
de S. Paulo em Coimbra, escrevendo ao Inquisi(for Geral, lembravam-
lhe que, estando vago um Jogar de deputado do Santo Officio de Coim·
bra, devia ser provido nelle o Dr. Jeronymo de Gouveia, c nosso collegial,
o qual, alem de 16 annos de dereito, com seis do collegio, tem tais par-
tes de honra, letras, e virtude, que ninguem podera ·servir a V. A. mi·
lhor no tal officio, do qnal V. A. nos fara n1erce pois estivemos sempre
em posse de sustentar este luguar de deputado, 9ue agora nos não deve
faltar, pois nos não falta, pessoa de tantos merecimentos pera o ter e de
V. A. esperamos augmento desta communidade•. Em 3 de dezembro do
anno seguinte insistiam no mesmo pedido, (3) e novamente o faziam em
24 de !aneiro de 1Sgo (4). Certamente, tão insolita demora. alguma ori-
gem ter1a.
Com efteito, apoz a ultima renovação do pedido, tiveram os collegiaes
de S. Paulo conhecimento de que contra elles se movia grave e malaosa
intriga. ~...oi o caso que ao Dr. D. Antonio Mascarenhas, deputado da In-
quisição de Coimbra desde 1 ~87 (5) c collegial de S. Paulo, imputaram
responsabilidades no casamento d'um seu criado, forçado por impcrio111
e inadiaveis circumstancias, corn D. Philippa, filha de Lourenço de C.s·
tro. Ern têl assumpto chegou a intervir o bispo de Coimbra, que d'elle
informou El-Rei e D. Antonio de Mascarenhas levou o pleito para Braga,
querendo leva·lo até á legacia (6). _.
A est.a intriga procuraram os do collegio de S. Paulo pôr cobro, diri-
gindo-se no Inquisidor Geral, reputando o facto de calumnioso e protes-
·tando solidariamente contra elle {7).
Entretanto levantnva se um confticto entre o bispo D. Affonso de Cas-
tello Branco e o deputado D. Antonio de 1\'lascarenhas. A questão que •C:-
motivou foi principalmente theologica. O bispo affirmava que era falsa ee=-

( 1) Cod. cit. 2 n.0 1327, doe. 104, original.


(2) Doe. 79 do cit., cod. 1l27, original. Não tem data mas o documento immediatc "
que se refrre ao mesnJo assumpto, diz que no anterior lhe escreveram.
(3) Doe. 8o do cit. cod. ortginal.
(4) Doe. 81 do cit. cod. oliginal.
(5 J FI. 140, v.o do cod. 9i9 7 já citado.
(6) Doe. XXIV.
(7) Em carta de fevereiro de rSgo; Doe. 82 do cit. cod. s3:&7·
61
proposição Hoslia consecl·ala est Deus, em rigor theologal e que era ver-
dadeira quando se declarava quod coJtinetur ;, hostía esl Deus ( 1).
Não podemos acompanhar o bispo nas suas subtilezas theologicas que
os .interessado• pódem ver .na .carta ~ ~tW'fiiPos. O _que é certo é que
a disputa, depois de ter si~ apreciada pelos lentes da Universidade, su-
bio até ao Cooselho Geral, queixando~se o bispo de que D. A-ntonio fal-
seara as suas· aftiraa.1ç6es, e o Inquisidor seral lhe recommeodou f\11~1-
mente que fizesse por se esquecer d'ella. Amargamente o Bispo ,e ;uei.·
sava da ingratidão de D. Antonio, f•arn quem a-rranjara um beneficio em
Torr.es Novas e um logar de arcedaago no Algarve.
Desfeita portanto a calumnia ou cerrada espessa .corhna .sobre o fa.
eto e serenado o con8icto, foi artendido o pedido em 'fl.le \limos fat&an-
clo e o Dr. Jeronyme de ·Gouveia prestou juramento .em 28 de no·
• vembro d'esse anno de go, como deputado do Santo Ofticio ele Coisa-
IJra (s).
Jé no secalo XVII hemos de ver, a seu tempo, como o reitor • .Uni-
versidade, pedia tambem ao Inquisidor Geral, .para occupar nos ·nesocios
4o ·Sato Oficio. os leates d"aque~ instituto d'ensino. ·
.Tio dispu111dos eram._poi9 os loaares .do Santo Ofticio, que .em 1S78,
a 4 de feYereiro, (3) o Cardeal D. Henrique, attendeodo a q11a11t• -~­
ciftKÜJ se rYqun·e nos minislros deli e, ordenou que .nenhum levado ~fosse
achaiuido como. promotor, deputado, inquisidor ou conselheiro 4o Coost-
lbo Geral sem ter a sua lição de ponto e arg"'mentaçio soQre ela, leiu
pelos do Conselho Geral, como se usn com os letrados que -pretendiam
u.ercer os logarcs .judiciaes. Antes t!'isso porém era preciso terem .infor-
aação da sua li"'Pefa, vida e costumts.
· D~esta fôrma se deveria fazer uma selecção bem riRorosa ,e o ·Santo
Officio devia ficar bem provido de Inq11isidores apostolicos coHir« a lw-
rtlica pra11id.ul1 e 11postasia.
Entre eUes podia haver, como de facto houve (4), transferencias de
l.sição para inquisiçio e até,. em 1S7g, .foi concedida -a aposenta·
çiO, com .12:000 reaes p.or anoo, ao Promotor dn Inquisição .te Coim-
ka, Alvaro Annes Nogueira. Era provisor e vigario geral do bispa·
4o c1c Coimbra, Jogares de que os conegos o despediram. tE o ·pobre
--.com -70 annos de edade, nõo teve remedio senão requerer a
lpoJentaçio, por que se via •tom muitas jilh~JS 11U1lhe.res soJt1irM· ,.,
t41M• (S).
Assim fiçou vista 61e relance a forma como se fazia o .recrutamento
dos ofticiaes .do ·San1o Oftic:io, os seus ordenados, pravilesios, ~pr0Gloç6es,
transferencias e aposentações, assim como a situação econorrlica .&CAiv• .e
passiva da l~ição duronte todo o seculo ~v.J.

(•) FI. 1 S4 do cit. cod. 979·


C2) Doe. XXIII.
(3) Doe. XXV.
{4) A seu tempo se verá quando tratarmos de cada uma das inqpW:ç~es f1.e per si.
(S) FI. 1 1 2, v.• do codice 9i9, já cilado. .
7

••• I .......... IIII . . . ._ . . . . . . . _ • • _ .

v
lnqulslções que hou,,
NTES da funcção inquisitorial· se difterençar por completo, a cargo
d'um orgão especial com organisação tambem sui ge11er·is, passou
por uma transição que já Herculano assignalou.
Não se estabeleceram logo de principio tres tribunaes; mas an-
tes, como era nos bispos que até ahi resid1a principalmente tal encargo, em
grande numero de dioceses os tribunaes surgtram.
Herculano falia-nos em ·seis. Sirvamo no=i das palavras do Mestre. •Era
o principal a Inquisição de Lisboa, tendo á sua frente João de Mello, o mais
resoluto adversaria dos christãos novos e que se podia considerar como o
chefe verdadeiro dos inquisidores. A de Evora dominava pel<' Alemtejo e
pelo Algarve. A' de Coimbra deu-se jurisdicção nesta diocese e na da Guar-
da, ao pa~so que ficou pertencendo á do Porto, não só a respcc~iva diocese,
mas tambem o arcebispado de BraB~· A âuctoridade do inquisidor de La-
tnego estendeu-se a todo aquellc bispado e ao de· Vizeu. Finalmente em
Thomar, o hieronymita Fr. Antonio de Lisboa, reformador da ordtm de
Christo, assumindo de seu motu.proprio as funcções inquisitoriaes, foi con-
firmado no cargo pelo infante, estabelecendo-se assin1 no isento da ordem
um tribunal panicular., (r)
Em nota, ainda o auctor da Hislot·ia da origem da I11quisiç6o nos
diz que ella foi estabelecida pelos annos de 1S4r, celebrando-se lá o pri-
meiro auto da fé por principias de 1543; a de Lamego foi ordenad anos
fins de 1S42 e a do Porto existia já por essa cpocha. Alguma coisa podemos
hoje felizmente adiantar ao que escreveu o Mestre.
Comecemos pelo norte do paiz, pela inquisição do Porto.
Ribeiro Guimarães (2) diz- nos ter elia sido ali estabelecida em J3 de ou-
tubro de 1 54!. E con1 eftcito sabemos que, a 3o de junho de 1541, D. Joio
III com aquelle fanatismo tão nosso conhecido dava ordem ao bispo do
Porto para exercer a inquisição no seu bispado e no de Braga, co, 1aufi
lelerado de ,,uyla coJJlfança. (3) El·ltci recommendava-lhe ao mesmo
tempo que procurasse officiaes, pessoas já se. ve de confiança, mas que
exercessem os lo9ares gratuitamente, só com a mira nos privile~ios coo-
cedidos pelos pontificcs e nas recompensas cspirituaes, tanto maas que os
car~os san1 tae1 que fulgara, de os aceitarem sem ordtnado I
De tal forma ingenuamente se comprehendia a solemnidade ela missão
inquisitorial !
No em tanto o bispo do Porto prcoccupava-se principalmente com a ·in-
quisição de Braga. E entendia que, residindo no Porto, não lhe era faàl co-
nhecer os clerigos bracarenses e por isso bem melhor seria não o encarrega-
rem da inquisição cm tal arcebispado e até cheio de desgostos pedia o alliYio

(1 Herculano, obra cit .• vol. 3.0 pag. 6


(2) Sun1mario de Varia Hi&loria, tomo 4-•, pag. 7S.
(3) Doe. XXVI.
___
...................... 63
....__

dos espinhos do Jogar de prelado d'aquella diocese. ( 1) Mostrava-se D. Bal-


dlazar Li~ tO muito desanamado porquanto, mercê de intrigas, se suppunha
decabido do aJ~rado regio.
POISuimoa felizmente a minuta da resposta d'el-rei D. João W, ean que
este monarcha lhe communica ter dado ordem ao provisor de Braga, e a
Gomes Aftonso prior da ·collegiada de Guimarães, para o irem ajudar no
julgamento dos feitos da ltirisição. (~) Ao que parece, se qualquer nuvem
tinha penurbado a cordea · de de relações entre o bispo do Porto e el·rei,
essa nuvem desappareccra e D. João III, que já tinha mandado como seu
assessor o L.do JorJ~~ Rodrigues, mandou-lhe os dois em que faUámos, com
ordem para, de 18 de agosto a 18 de outubro_. dia de S. Lucas -lhe· pres·
tarem tOdo o auxilio. Sabemos que isto se passava cm •542, (3) f>O!:que, em
outubro d'esse anno, escrevendo ·o bispo do Porto 11 El-Rei. dizea·lhe já ter
recebido com a estada dos auxiliares enviados ~r elle. muila co1uolação.
Al6m d'isso era certo que /lle ti11ham descarregado muito ben1 a corucien-
eia. • • Passara-lhe o desanimo ; a nuvem desfiZera~ por completo !
Como consequencia d'e&te deipacho de processos realisou...: em 11 de
fevereiro de tS43, (4) na cidade do Porto, o unico (5) auto da fé a que as-
sistio a cidade da Virgem. O descar8o de consciencia do prelado ponuense
foi então cotnplcto. Rcalisou-se o auto num dia sereno e claro precedido de
rempestades e tormentas; até ~recia tal facco intervenção divtna, escrevia
o ~ corregedor que a tio lugubre cerimonia Yeio presidir! Dos arredores
do Pot1o e da cidade. assistiram umas 3o:ooo pessoas e, perante esses milha·
res de olhos, na Pona do Sol, 84 penitentes sesuiram processionalmente ;
os sritos de 4 foram abafados pelo crepitar das chammas, a 21 mais felizes
queimaram •
as estatuas, •5 softreram carcere perpetuo e 43 apenas carcere
temporarao. . ·
. E diz.nos ainda o fanatico cbronista de tão triste feito que o Porto, não
llabituado a esta! scenas, ficou com ellas maravilhado e sentio muito pro-
ftito e fructo assim no espiritual, como temporal !
Faz-se ponanto ideia com que unlinlento viram a extincção d'este tri-
bunal pela bulia de Paulo III de 16 de julho de 1S47!
O que acabamos ~réin de escrever ironicameoce quetn sabe se não se-
ria profundamente verdadeiro! Os sentimentos têm taanbem a sua eYolução
e a soa marcha e quem sabe se os dos burguezes da .cidade da Virgem não
saiam como oa dos vereadores, juiz e procurador ·da cidade de Lamqo, que
a todo transe queriam o Santo Offi.:io adentro dos seus ·muros?! (6)

(1) Doe. XXVII.


. (2) Doe. XX VIII.
(3) Vide S~D~U~~ario de Varia Historia, vol. 4.• pag. 78. Transcreve um d()(uolento
citMo ~ llarculano.. .
14) lbideaa, pag. 7S, carta de Francisco Toacano. ·
(SJ Fr. Pedro Monteiro, reportando-se a um livro de auentoa da Inquisição. de Coim-
bra, diZ que na cidade do Porto se celebraram autos publicas da fé DO campo do O li ..
Yal e d .porta da Sé. Vide, tomo 3.• das Memorias 4a Acadtf~WJ. Real da HistoriA Por-
~«,J>-.414-
n. mesma formao diz, não sabemos com que fundamento, o auctor da Historia do1
~~ MIOI e ,roc•di.wiiiOI da lnfuuição em Portu6al, a pag. 2o8. ··
- (6) Doe. XXIX.
Na mesma occasião .em que foi. ordenada a Inquisição rpara o Por..to foi-o
tambeAl para La111ego. Aq.ui porém o partido eloS chr.is&ãos oovos era .assaz.
numeroso. ( 1)
CapitaaeadOs ~r um pbysico da sua raça, Pedi» ~w.taclo, que AO•'•
da ~otecção do ctlaotre e _que Ii-vera a dita de cuntr a _,e d4t ·JiU.Os .do
tJrcebispo de Litboa, <~t::tanm por todas as formas impedir Q tunccio-
namento do tribunal de eso. Para isso reuoiram-se num comicio econ·
tra Gonçato Vaz, dept~tado da Inquisição em Lamego, forjaram razões ar-
dilosas, dando-o como suspeito.
Em contraposição os hõmem bous expunham a El·Rei a aecessidade que,
em tal terra, havia da Inquisição e dWam que, depois do seu estabelecimm-
to, o viver de alguns moradores era jci bem diiférente ••• Decerto que não se-
ria preciso carrega-r muito na nota porque as jdeias do monarcha são-nos
boje bem conhecidas. · .
O auctor da Historid dos actos e p_r·ocetÜMe~~los da IJ_Iql#i•
principae~
sição em Por111gal diz-nos que da Inquisição de Lameso foi iaquisidor o
bispo D. Asostinho Ribeiro, com o dr. llaooel d'Almada, coo• da sé
Ele Lisboa, e depois bispo de Angra, tendo ·por notario Dioso Rodr.ipes, e
servindo-lhe de meirinàõ wn .certo SC:bassião Redrigues, hoiDenl .de oam..da:
~honesta. (3)
Tambem em 'tbomar exiSiio .um lribunal espec_ial ela Inquisição.. Não ae
quiz deixar icar aaraz a cidade oabaotrina, cuja ~Jazia era ulllli•Aiocais.
Como ~estigio d'e~&e acto ellCGntta-se ain4a .t~oje o tomo 1.0 dos Proces·
sos u clarüttia IIOP.DS proasJtJdos e st,ltellciados nnte Rtel CftfUieMIO M
T-..ar pelo Re11. do Padre Fr~i Anto•io de Lixboa D. pt.;or ti• di.to co•·
JIJ8IJI.o co•o Inquisidot· que lu d'esta jurisdiç6o da perla{itJ da ditA Pill~•.(~
Tetn principalmcnle os processos de Jorge Manoel, christão novo, mora-
cior cm Tbomar, processado em 15 de junho de 1543 ~ o de Diogo Pires,
tambem. c.bristão novo, morador em Guimarães, começado tres.dias.depait\.
Já antes d'isto lá tinha havido o printeiro auto da ·fé, ~ujos pracesses, qaae
~vavelmente constituiana o 1.u volume d'esta colle~ão, .dctsarpar.c,G«am
infelizmente •
. Tão luctuosa cerin1oaia realisou-se no dia 6 .de -maio de .1543, (5) .o um
Domingo, .juncto do pelourinbo da, então ·villa. Armo.--se um cadafalso e
aelle ~residiram .·Fr. Aatonio de LMiboa, o dr. Pedro Alvares e os P.• Fr.
FranciSCO e Fr. Cosme, assistindo quarenta freires do convcAio 4e Ghlietlo
e o clerQ de Tbomar. Sabirana tod.as proaeuionalmente da· 'barole do CAl~.
vento, com um crucifixo na frente levado por dois .rcligiosos Y.C:\tl~OJ . de.

( 1) Doe. XXX. ·
{t) Este arcebispo deve ser D. Fernando de Vasconcellos de Meneses que, de La·
mego foi promovido para Lisboa (Fr. P.• Mont.ro, _/o~. cit.)- Souu Ama.-o ao~
VIl da Hist. da Egr~a Catholica, a pas 86-4, falia nos dessottos que :lhe causeM~ o car-
c~e•l -D. Henrique, teU immedieto successor na mitra lisbonoase. ·
(3) Ap•. M8.
-(.f) Cõtl. 26 do ·CifM»io do Convento de Christo. .
(5) Vide Manuscripto g.5g da Livraria (Torre do Tombo). No ARNO Hid..._
\101. 2.•, pag. 2..S, m....e que foi em 1S41; mas o manut~cripto de que DOI . .viflloa e
llerculano no vol.· cilaclo, referindo-se a uma ada manuscrlpaa de ~r. A~•.U·clf4~.
boa, faliam em 1Saf]. · ·
65
aiYaS, em seguida os penitentes e reconciliados de velas na mão e, quando
~ram ao tosar do cadafalso, pozeram o crucifixo e a cruz de aspa do
clero thomarense sobre o altar e entoaram o Veni creator. Depois o D. Prior,
Fr. Antonio de Lisboa, disse a oração Deus qui corda jidelium e o P.• Fr.
Luiz de Montoia, subindo a um palpito improvisado, prégou um sermão
~oado ao caso. Lidas as sentenças fizeram os penitentes a sua abjuração.
Eram eUes: Garcia Rodrigues Mourisqueira; Helena Marques, christã nova
de Thomar as~m como a anterior; Diogo Annes, lavrador, morador no
Outeiro, ~a. da Sena: João Gonçalves, o Patriarcha de alcunha,
Jaftadot;·•DJoraclor na Portella, termo das Pias; João Gonçalves Moleiro,
maraclor no Mat-melleiro, freguezia da Magdaleoa; Pedro Zuzarte, christão
~o morador em Thomar; Antonio Monteiro, christão novo e escrivão da
camara e elmotaçaria das Pias; Brites Gonçalves, christã nova de Gouveia,
moradora em Thomar.
De todos, 96 esta ultima foi entregue á curia secular, por· here~e e per·
ti~, podendo dizer-se pois que não foi muito sanguinaria a inqutsição de
Thomar.
No anno aeguinte, em 20 de junho, celebrou-se o segundo e ultimo auto
da fé d•esta ~siçio em que sahiram 14 pessoas, 3 abjurando de vehemente,
7 reconctliadas com sambenitos e 3 relaxadas em carne. Estes foran1 Ruy
de Andrade, christão novo, n1crcador de Thomar, Gaspar Zuzarte, idem e
J<qe M1noel, idem.
14o dizer do auctor da Historia dos tn:incipaes actos e p1·ocedimenlos da
Inqllisição e• Portugal, as tres Inquisições, do Porto, Lamego e Thomar,
duraram até 1S46 ou J547· Depois d'isso ficaram, no continente do reino,
cm esercicio tres inqulsições das quaes successiva e pormenorisadamente tra-
taremos nos capitulas seguintes, estudando primeiro o seu Regimento de
1 SS2, que d•ori avante .fica sendo o primeiro codigo inquisitorial conhecido.

VI
Eàelhe e atudo do Reelmento das Jnqulslções de 1552,
•t6 •eora lnedlto
UANDO no livro O Archu,o da Torre do Tombo tratámos dos Ca1··
torios do Santo OjjicitJ, a pagina 62, referimo-nos ao Re~·me11to
da Santa l11q11isiçam de 3 de agosto de t552, cujo original, devi-
~damente assignado pelo Cardeal !'ante (D. Henrique), se con-
se"a na Torre do Tombo, parecendo deduzir-se da sua formula de revo-
gação anterior, que se encontra a ft. 3r, que antes d'elle se uslvam quaes·
quer outros reg•mentos, ·provavelmente os das inquisições hespanholas•.
E acrescentámos: •Constitue o codice ~ 532 do cor~ O Santo OJ!icio e
nesse codice comprehend&-se tambem o original do Regime11to da peaoa
que te•w carpo.de collegio da doutrina da fee de J3 d'agosto de 1SS2
e as declarações e addições que abrangem 23 capitulos (=artigos), data-
dos de 7 d' Agosto de rS64. O primeiro regimento da Inquisição começou
a vipar em 16 d'Asas~o de 1SS2 e compõe· se de 141 capitulas (= arti-
IOS)•.
9
66-
CJ cujo ~·
E' esse o regimento que adeante publicamos oa integra (1)
tudo synthetico nos propomos fazer. EUa obriaava qão só a~ ~~~~·
das comarcas ou distritos, como até o Conselho Gual do SatQ Ofpcio {a).
E' claro que, nos primeiros dezaseis annos, de algum• lei dcviaJD lao ·
çar mão os tnquisidores. Não nos chega notici• de qual ou tua~ eUas
fossem ; e apenas sabemos que treze dias apoz a publicação do Reaimenao
foram revogados, eVidentemente porque se suaçitaYam duvidas, qqaetquer
regimentos de qu~ até então fizessem uso (3). . .
Podemos encarar este Regimento da lf:lquiaiçio de 3 .d~..,W» !Se J~S~
sob tres pontos de vista complet•mente diveraoa, hoje ciif.-.....~~
codigos modernos, mas então ainda misticos e confusos. Q --~-. . ;Of-
ganisação judiciaria do tribunal, O aspecto do direito penal,,suÓI~-·VOC. O
da parte penal adjectiva ou processo criminal. :
Mas antes de entrarmos propriamente no desenvolvim,n~ ~'e•'-• v•
pontos cumpre dizermos que no preambule> do RePJlento .~ ~ta
como sua origem o serJJiço de Nosso Se~tlaor e o mandado d'~-~1. So·
hrc elle foram ouvidos: o arcebispo de Braga D. Balthazar Limpo i-:9,f.,;9e
d' Angra e governador da oasa do Cível D. RodrigQ ~~ .P.iDbcace; o
bispo do Algarve D. João de Mello; o Licenceado Pedro ..Alvar• iJe P•
redes e o Dr. João Alvares da Silveira, inquisidores de Evora~ e aioda ou-
tros letrados. •
Abrangendo 141 capitulas (=artigos), acham-se agrupad~. alpa. ~m
títulos que são: Do Pronrotor, dos nolat·ios, do 111eiri1Jho, 4o ale~ do
carcere, dos sollicitadores, do po1·tei1·o da casa do despacko c'"-·~»~-
curadores. .
Vejamos agora o que elle dispõe quanto á organisa.ç~o jYd~.r.ia.
Antes porém de estudarmos especificadamente as disposaçõea.dp.~egi.
mcnto quanto ás differentes classes de funccionarios, daga.mos o. que ellc
genericamente determina para todos os officiaes do Santo Officio.
Todos devem prestar JUramento de bem e fielmente usarem dos seus
officios, guardando a cada uma das partes a sua justiça sem excepção de
pessoas, tendo muito segredo e fidelidade c ·exer~nJe os r.esppvos lo•
gares com toda a devida diligencia e cuidado (artigo 3.0 ). Não podem
os officiaes da Inquisição ser parentes entre si, nem qualquer d'elles ter
sido criado d'outro (artj8o 4· 0 ). Deve1n apresentar-se de~ntement~_-vesti­
dos, não conversando com pessoas suspeitas, nem. se ausentando . s seiiS
logares sem expressa licença do Inquisidor Geral, e, no caso.d' te nlb
estar presente, podem os inquisidores dar até oito dias d~ .licenÇa ·s-
tantes officiaes, com tanto que, por anno, lhes não deem mai$ de= ·~e dias
(artigo 4·0 ). Todos os offic.iaes da inquisição devem acompanhar.~ iffi.,.i·
si dores,- honra-los c nenhum deve- receber dadiva de qualquer ~bdadé
que seja (aniBo .J3t.0 ). Todos ~ão pagos dos seus ord~- ~ ~
certidão dos mquisidores de como os teem cxer~do (artigQ .1~,, ~ará
que chegue ao ·conhecimento de todos os officiaes ~ ~quisíçãQ •.'~l~a-
• - r •
(1) Doe. XXXL H· ~· ••

(2) Cap. 16 do Regimento do Collsell1o Geral; pag. 414 -dó hcilvo·Hisl~ Wl~ tv.
(3) Doe. XXXI. ·
de dos seus deveres determina o Regimento que a sua leitura se faça,
de•nte de todos, de quatro em quatro mezes, tres vezes no anno; a pri-
•wira ma Janeiro, a sesunda em Maio e a terceira em Setembro, de-
vendo o nota rio fazer d'Jsto um auto (artigo 140. 0 ). .

Era evidentemente a sua forma de publicidade.


Aa fimcções de judicatura competem a dois inquisidores, /eirados e
p_n~dentes, com as qualidades especificadas na Bulia instituidora da lnqui-
siçio (artigo 1.0 ), devendo despachar os processos com letrados, pelo mc-
noe.ciaoo, requerido primeiro o Ordinario (artigo46. 0 ). São elles que por-
taato estio ' frente do tribunal e por isso todos os officiaes da Inquis1ção
•clewra açompanbar e honra-los (artigo 132.0 ). Não podem ser parentes
(-.lip. 4-•), e entre elles deve ezistir à maxima harmonia. No caso de des-
accordo elevem pormenori~adamente communica-lo ao Inquisidor Geral
~ 1a0 Conselho e, se existir alguma differença particular, communic&-la-
h(o ao ~g_uisidor Geral, para a remediar, guardando d'ella muito segre-
clot;:>·
· • . ele nomeados,
.
~umpre-lhesprestar juramento de bem c fiel-
mente desempenharem os seus logarea, tendo muito segredo e fidelidade
(~ 5.•~-, o que o anigo 3s.• tambem expressamente lhes recommenda.
Não' claem COIDIIMJnicar ás partes que qualquer despacho depende do
collep (artigo 3~.•), nem tão pouco attender pedidos, receber os reque-
rentes ou seus iatermediarios na sua residencia, mas sim na casa do des-
pacho da Inquisiçlo (artigo 67. 0 ), onde aliás teem de ir todo' os dias que
Dlo forem de guarda. De a5 de Março a 1 ) de Setembro a audiencia da
maahi é das 7 ás· 10 c depois de jantar das 3 ás 6 ; de 1 5 de Setembro
até 1S de Março é pela manhã das 8 ás 11 e á tarde das 2 ás 5 (arti-
go 1•··). .
: Devemos ootar que nem sempre assim foi.
Chega-nos noti~ia de que por t54• (1), as audiencias eram ás terças e
sextas como as Ordendçóes Manoelinas mandavam ao corregedor da côrte
dos feitos crimes (t), no carcerc da Inquisição, sendo os outros dias con·
sasrados a devasuas é dcligencias.
Aos inquisidores compete a instrucção dos processos e a manutenção
da disciplina nos respectivos palacios inquisitor1aes.
No desempenho da primeira missão devem visitar a respectiva comarca
oa districto, acompanhados por um notario e pelo meirinho, precedendo
licença do Inquisidor Geral (artigo 5. 0 ). Devem então as justiças seculares
prescar-llles tOdo o auxilio (artigo 6. 0 ) e, primeiro. que tudo, mandarão
pablicar que qualquer peuoa, culpada do crime de heresia ou apostasia,
se. a~sente a confessar a sua culpa afim de ser absolvida (artigo 7.•).
Para isso concedem um praso chamado o tempo da gJ·aça ; ás pessoas
Yercladeiramente arrependidas, que nesse praso se vierem confessar, de-
Yem conceder perdão, depois de terem feito abjuração secreta dos seus
erros, peraate o inquisidor, nota rio e duas testemunha·s e, no caso da
pasoa arrependida dizer na sua confissão que houve pessoas que teste-

Doe. XXXII. .
( 1)
(3) Orda. Ala., 1.• liv., tit. V, cap. 20.
68 •

munharam as suas culpas, serio estas inquirida& (artigo.~·). Termioadas


as visitações devem os inquisidores reunir•se na aéde da·loquisiçio,
verem junctos o resultado d 1ellas e combinarem o que se· ha-de r
Z::
quanto aos culpados (artigo 18.•). -
A mesma ordem determinada para quando os inquisidores forem visi-
tar a sua comarca se tenl quando a lnquisiçio asseatar a aua sé4e nal-
gum logar (artigo 8. 0 ).. . .-

Podem tam bem ser as testemunhas que de mol11 proprio venham:' séde
do Santo Officio fazer denunciações e, para as ouvir, devem os inqoiaideres
estar de sobreaviso e sempre que seja possiYel os dois (aniso- ·~·).
Devem pronunciar-se Sobre as culpas obri~atorias de priaãe.- (arti-
go rg. 0 ) e fazer ás partes as audiencias necessariu presididas. pelo iuqui-
sidor mais moderno (artigo tg. 0 ). 'feem elles por obrigação visitar os car-
ceres de quinze em quinze dias e ouvir os presos, fazcado-ae acompa-
nhar por um nota rio (artigo 3o.•). -
Os inquisidores teem por obrigação mandar annualmente ao .Inquisi-
dor Geral uma relaçio dos processos jul8ados e dos que estio J1f1N jul-
gamento, com a indicação do estado em 9ue se encontram (artigo- 'JO·•).
No cumprimento da manutenção disCiplinar dentro dos paços ioqui-
sitoriaes, cumpre-lhes ter informaçio do que aos prelOS é enC:oncrado aa
sua entrada nos carceres (artigo 101.0 ) ; mandar pôr ferros, abrandar ou
tornar mais asperas as prisões ou castigar os presos (artigo 102.~); infor-
mar-se de tudo o que elles fazem (artigo ro3. 0 ), inclusivamente se jogam
ou blasphemam (artigo to6. 0 ); approvar os guardas .para o carcere,:depois
de lhes terem sido apresentados pelo alcaide (artigo 1o8.0 ); ter informaçio
das pes~oas que entram ou sahem pela porta do pateo dos Esdos (arti-
go 1 og. 0 ), disposiçiio especial para a inquisição de Lisboa, mas prohibindo
genericarnente que qualquer pessoa extranha entre com espada, punhal
ou adaga ou qualquer outra arma nas casas da Inquisição, e, se o fizer,
perde--los-ha para o meirinho e seus homens (artigo •34.. 0 ) ; conceder li-
cença para qualquer pessoa communicar com os presos (artigo 112.0 ) ;
não deixar que alguem, ainda que seja da sua familia, durma nos Es-
táos, no caso dos inquisi.jores ahi residireM (artigo t33. 0 ) ; não _permit-
tir mesmo que alguma mulher, ou escrava branca habite nos Estalos,
a não ser a mulher e filhas do alcaide do carcere, só lá podendo entrar
as que forem faltar coan os inquisidores e tiverem negocios no Santo
Officio (artigo 1 38.0 )
As funcç6es de M-inisterio Publico são desempenhadas ·pelo Promo-
tor (artigo 2. 0 ) a quem cu~pre examinar os livros e papei~, nio só ~a
os ter em ordem, con1o tambem para requerer a prislo dos culpados, cuja
accusação deve fazer com muita diligencia e o interrogatorio das teste·
munhas. Para· este fim póde requerer que ponham em ordem os registos
e originaes-do. secreto (artigo_ 72.•), de cuja camara elle deve ter uma das
chaves (artigos 79· 0 ,- 82~ 0 e 83.•) e sempre que elle veja os Hvros ou pa-
peis que· Jhe cumpre, estará com elle um dos notarias, que ~tra coisa
não esteja occupado (artigo 84. 0 ) . (r) Póde requerer qualquer deligenda.

(a) Este artigo, interpretado litteralmente, briga com o 79·0 em qae npre~Umeate
6g
·-·····...·······-····-----....................
por iDforma~ dos solicitadores (artigo 132.0 ). Tem por dever estar pre-
sente uas aucHencias que se fizerem ás panes, afim de requerer o que
rar indispensaYel para bem do Santo Officio (artigos 74·0 e 29.0 ) , inclusi·
vameote a prisão dos culpados (artigo 19·'). Deve ter um rol de todos os
presos para saber em que alturas estão os seus processos, tendo o cui-
dado de requerer todas as fianÇtJS que se pe~·dem pelas causas lltlas decra-
rllll• p•ra que ajam eleito (artigo 75. 0 ). Quando se retificare1n as tes-
temunhas por elle aprese.ntadas não pode estar pre~ente (artigo 77· 0 ).
Compre-lhe ap~Mar para o Inquisidor Geral ou Conselho de todos os des-
pachOs dos inquisidores em que supponha aggravado o Santo Officio (ar ..
tiso ,6.-,.;
O aalario do Promotor é o seguinte : dos sentenceados de leve sos·
peita, quatro centos reses; dos de vehemcnte sospeita, seis centos reaes e
dos dtdarados pOr herejes, nove centos reaes. Se qualquer dos culpados,
toso que o libello lhe seja notificado, antes de contestar, confessar as
soaa culpas, n4o terá o Promotor de salario senão metade (artigo 78. 0 ).
~· ftJIJcç6es de es?iv~nia er~m exercidas P_?r dois notari?s (artigo 2~ ),
0

cler.ip cte·boa·conscJencla e costumes, que hao·de pousar Juncto (tos ln·


~es e escrever, conforme a conveniencia, nos livros do secreto c
coltforme a destribuiçlo, nos processos. No caso de impedimento d'um,
seN o serviço destribuido ao outro (artigo 8o.•).
Cada um d'elles deve ter uma chave da camara do secreto (arti·
so 7~.,., onde só elles podem entrar, o Promotor na sua presença, e os
1~idorea (artigo 83.•). Para se · achar fundamento aos resguardos e
cautellas de que o Regimento rodeia esta camara do secreto, é preciso
dizermos o ~e nella se guarda. Nella deve haver tres livros: um para
nomeaçfSes e juramentos dos officiaes e registo das suas provisões ; outro
para as denunciaç&s das testemunhas e o terceiro para as reconciliações
secreNs e confiss6es de culpados, antes de presos. Estes livros devem
ser rubricados por um dos inquisidores e ter no fim um termo de enccr-
rammto assignado pelo mesmo inquisidor, declarando o numero das suas
folhas (anigos 8S.• e 86.'). Devem esses livros ter um reportorio alpha·
betado doa culpados e um reportorio geral d'onde constem os incrimina-
dos ~ autos de reconciliações (artigo 87. 0 ). Tambtm devem estar na ca-
mara do secreto os processos findos, em e~taotes, com um reportorio de
forma a facilitar a busca de qualquer processo (artigo 88. 0 ) e d'ella não
podeiD sahir, nem tirar traslados, senão por concessão, que só em ·caso
urgen1e a devem conceder (anigo B9. 0 ). Finslmeote, na camara do se-
creto deve estar numa arca o sello da loqui~ição (artigo 94. 0 ). Não admira
por isso que o Regimento expressamente ordene que as portas da camara
do secreto sejam bem firmes e fortes, com tres fechaduras, não se po·
dendo abrir senfio na presença dos dois notarios e do Promotor, oão po·
deado nenhum d'elles conceder a chave oo outro. No caso de auseneia
ou doença d'um dos notarias devem os inquisidores concordar em quem

se diz que devem estar presentes os dois notarios quando o Promotor entenda no que
cumpre ao"' seu officio. Mas entende-se o sentido : o que o Regimento quer é que haja
mutua e rigorosa fiscalisaçio.
70
---' ---
deva ter essa chave e quando algum dos inquisidores queira ter alguns
papeis nalguma arca da camara do secreto communica-lo-ha ao colfqa,
mas mais ninguem o saberá (artigo 82.0 ).
Um dos notarios tem por obrigação receber e gastar o dinheiro das cles-
pczas do Santo Officio e outro tem que escriptura-lo (artigo 2.0 ) ; aquelle
• que mais depressa se encontrar deve fazer o auto da entrega dOa prem.
que forem trazidos ao carcere (artigosgo.• e Joo.•) e a um d'elles cumpre
registar os mandados para prisões ou para quaesquer outras diligencias
e á margem se deve fazer menção do seu resultado (artigo gr.•); a for-
mula para este registo é a seguinte: A ta11los dias de tal mes pa~~ou lal
nzau,fado, ou tal dilligencia pera tal/ causa assinada pelos inquisidores·
foam e foam e foy e11trcgue a foam pera o levar ou pera dar a tlil'ida
c.~ecuçam (artigo 91· 0 ).
Vejamos finalmente os respectivos salarios notariaes. Neste particular
manda o Regimento de 1 552 se!Juir o respectivo Regimento ecclea~tico
da diocese onde fôr a inquisiçao, sendo esses salarios dcais~lo
contador e de~tribuidor dos feitos na casa do despacho da toq · · e
tendo o notario obrigação de, no caso das partes requererem qu:z:er
diligencia ou mandado, declarar no fim quanto recebeu para a o
tempo se saber (artigo 92. ). Se o notario porém precisar de aabir, Dll-
0

guma diligencia, para fóra da séde da Inquisição, terá cem reaes por dia,
tirados das despezas do Santo Officio (artigo g3. 0 ). ·
A prisão dos culpados cumpria em especial ao mtirinho e deYia .aer
feita com todo o recato e depois de mandado dos inquisidores, por clla
assignado (artigos g6. 0 c 19.0 ).
Além d'isso tinha o metrinho por obrigação acompanhar os inquisiclo-
res á casa do despacho, assim como quando forem â missa, a outros 1•-
res publicas ou quando o determinarem (artigo 9'· •). Para o auxiliar deter-
mina o Regimento que elle traga os homens que lht competem, approva-
dos pelos Inquisidores, não podendo ~r seus parentes ou cri~ nem
ter raça de judeu ou moiro (artigo f?g. 0 ) ; a elles se devia pagar depois ele
constar, por informação do mearinho, terem cumprido o seu dever, pe-
dendo ser substituidos no caso de não satisfazerem (artigo t37. 0 ) ; e, Cio-
pois de effectuadas as prisões, deve tratar bem os presos (arti-o g6.0 ) e
não cc,nsentir que alguem com elles fali-: ou lhes d~ avisos (artigo ~··)·
Devia affastar-se dos que tivessem negocios pendentes no Santo Officio
(artigo g6. 0 ). Quanto ao seu salario devia ser de duzentos reaes, a maia,
quando o meirtnho fôsse fóra da séde da inguisição e não voltasse DO
mesmo dia, dinheiro tirado das despezas do Santo Officio (artigo 97·->.·
Presos os culpados importa guarda· los e esta é a attribuiçio dO alcaide
do carcere, que os recebe da mão do meirinho, na presença d'um dCK
notarios. Antes d'este ~egimento de a55~ temos conhecimento das ins-
trucções dadas a 14 de outubro de I54o ao carcereiro Diogo Ribeiro ( 1 ).
Nellas se determina para serviço da cadeia um moço, uma moça e um
escravo; nada de communicação com os presos, seus pacs ou parentes,
nem da parte do carcereiro nem dos moços e por maioria de razão prohi-

(a) Doe. XXXII.


• ...........................__...._............. .
biçiO· de coCn~ c:omer. Ainda -~nto 'incommunicabilidade essas ins-
~ -cftilel~l~ cp1_e. •enbbM hospede1,. ainda que aeja~ irm~os ou

=···e.cWa·
pare~~es. do ·~ftetetro; Ié dnem s~r recolhtdos. QU~nto á satuaçao dos

. . ias;
expressa~ ·lhe e ordenada que seJam al8~adoa com
blo sendo IDUÍtO Yelhos OU estando enfermos. 0 JUramento
~ . . élle .ptestoo (r) ~·algum~ coisa nos acres~enta ~·r~ sa_bermos as
1
Sdl• ·espec1àes attrtbáiç6es. E assim vemos que Dtogo Rtbearo JUra ter os
~eiRJII- bem! a: eusmdia ; não consentir que elles fallem em segredo, a
Dfõ·«. cOm -~~pe5sou ~ue ~ra·isso tenham licença especial, ou· com
seus.. ~o~'&rü ; .nlo · consenti! que elles recebam cartas secretas ou
qoe·. • ·tiCteYam; 'enrresar-lbes Integralmente o que para elles lhe fôr
dàctó~ ftlo• reee~. ~itll nem dadivas directa ou indirectamenk; não levar
1.-ot c.rcenigctn• alc!m da que está estatuida. No caso do meirinho che-
lar alta noite ou de madrugada pode o alcaide receber os presos, com ..
~-~o tte manbl se- faça o auto·. da entrega (artigo 100. 0 ).

•mr·
clã
·~Edi' alcà4e'; que deYe ier homem casado e de muata confiança (ar-
teftltar os presos para um dos outarios fazer um assento
· ~.:qUe~ IJdt"far encontrado (artigo 101.0 ). Depois de encarcerados
~:"PQ!r ·àiD lido que elle os trate com toda. a ~enig~ídad~, os con-
!tie,· Oil~"lié•·que-fa~llam verdade e peça~ m&~~r1cordaa (art•go ao5.0 ),
oló~ ~· J?&t~lh~ fetros sem ordem dos anquasadores (arttgo 102. 0 ) e
por· óutro set ~sstmo quanto 4 sua incommunicabilidade. Com este
fim; alo de·ve 'jM!fôtittir que os twe•os recebam. noticias d': for~ (artigo •o.3.•),
oàa=~~t-peMoa ·lliea poc1e fallar~ ·&em hcença dos 1nqwsadores, aanda
~, Seja· Ofllelil'·c.fa =Jrit)oi&ição e· do: secreto (artigo li I .•); OS guardas não

o._·
~ com·-eftes ·tet !ommunicação atguma e nem as portas dos carccrcs
~les estiverem defem abrir, principalmente antes da accusação do
Pl-oiDotor, sem ier na presença do alcaide (anigo 104. 0 ); os notarios não
detiatll 1811ir ·eom os ~SOS e, qUando tivesseJ;D alguma coisa a commu-
nleft aos inquisidores deaate d'eltes, devi1111 faze-lo com todo o resguardo
(aldgG :81.0). Por maioria de razão não podiam os guardas beber ou jo-
gar, com ·os ·presos, e nem mesmo com os seus parentes ou procuradores.
De·mesmi' férma 1s5e era vedado ao alcaide e nenhum d'elles podia rece . .
bf:r· elos·~- ..pma dadiva (artigo 107.0). O medico que visitaf.se o
pre:;o ·.i ----devia ser sempre acompanhado pelo alcaide (artigo 11 5. 0 ) e
a Jpulher, ou qualquer outra peS808· da casa do alcaide, só em caso de
grahde urgencia po(lia· colnmunicar com os presos (artigo 1 12.0). Ainda
como preftnçio para a incommunicabilidade devia, quando viessem as
refeJ9Ses para ós ·presos, estar um dos guardas na portaria e outro rece-
be•lae· perante o ·alcaide (artigo 118. 0 ). Além d'isso cumpre ao alcaide ter
c:8bgiiJO os ·guarda! necessarios para o desempenho das suas func:çóes
(al'tiJo 99·->, que nio podiam ser seus parentes ou criados, e IÓOWlte
pessoas cOnbectdas, sem raça de judeu ou moiro (artigo 68.•) e aos quaes
se devia pagar depois de constar, ~r informaçio do alcaide, tarem cum-
prido o seu dever e podendo ser substituidos no caso de não satisfazerem
(anigo r37. 0 ) ; separar os presos pelos seus sexos de fôrma que se nã~
..
( 1) Doç. XXIIJ.
-~
vejam nem se oiçam, entendendo-se (artip 99· •); comra•Kar aos
sidores quando qualq~er preso mereça castigo (artiJO aoa.•).; ~Pbr * i·-
que os pr~sos joguem ou blasphemem e, quando IMO acooteccrJ comiD••-
nica-lo aos inquisidores (artigo to6.•); não maodar fazer obra.algwM JOS
presos ainda que seja para lhes pagar, nem rcalisar com eUes ~s
ou vendas (art1go 11o.•); esfor.çar-se para que os presos tenham a:-'!hãlho
de fóra para seu sustento (arttgo 110.0 ) ; ter um hvro on~c: ~ doa nota-
rios registe os mandados para os presos serem sol~ (artiao 1&3.->; fa~r
na quaresma uma lista de todos os presos para se confessarem, F.JUD-
tando aos inquisidores a ordem que nisso devem ter (anip ;~aõ.->; ter
uma lista de todos os presos para saber dar ra&ão do que lbe perpota-
rem e para d~stribuir as esmolas (artigo 117.•); fazer aabcraa..·~­
res que qualquer preso se esqueceu d'alpm objecto ao carccrc (artip
114··>· .
Ao alcaide competem os emolumentos segai01ea : de ~apm,
quando o réo fôr solto, segundo a tabella cWesiallica.~ " clle .fór
transferido d'uma inquisição para outra, pagar4 meia çarccra~ ao pó-
meiro alcaide onde tiver estado e a outra metade ao ae~o(ar•••+.,.
A organisação inquisitorial tambem comprehendia, lM,:IQ Re~tQ
que estamos estudando, sollicitadores, (1) que deviam .er lo•au •.
bem, fieis, de boa comciencia e te• 111spftla (artigo 119.0 ). 1iabam por
obrigação conhecer as testemunhas da Juatiça e das panes, oodc vivem,
que officios teem, e como viYem, qual a aua fama e conaci~ ; além
d'i5so fazer todas as diligencias requeridas pelo Pro~, ou ordcoadu
pelos inquisidores (artigo 119.0 ), a quem devem informar de qpalqucr coisa
que lhes pareça util para o Santo Officio (anigo J ~~. 0 ). Eãiaia-ae-lbcs o
saber ler e escrever para fazerem as cita~s que lhes mandassem (arti-
go 124. ") e deviam Yir todos. os dias 4 inquisição afim de requerer 10 Pro-
motor qualquer diligencia para bem d'ella (a~i_go 123."), aasim como a csc-
cução das penas e penitencias (anigo ~~~.0). Era-lhes expressamente pro-
hibido receber alguma coisa das partes ou de seus parentes (artiaoa 1a1
e 126.0 ), e até ter conversa e familiaridade com ell~a (artiso 121.•). Podiam
os inquisidores arbitrar-lhe um tanto de requerer e citar aa testemunhas
c de ar fóra da ~de da inquisição (anigo 116.0 ) e, se não podeaacm voltar
no mesmo dia para casa, teriam de &ratificação setenta reacs do. dinheiro
das despezas da lnqtdsiçio (artigo 120.0 ).
Vejamos agora o que dtz respeito ao porteiro da casa do dnpacllo.
Cumpria-lhe a6rir as ponas cujas chaves tinha, pela manhã c á tarde,
antes da vinda dos inquisidores ; ter a casa do despacho- como quem
dissesse a salta das audiencias- bem limpa, as suas chaves bem resguar-
dadas de maneira que ninguem possa ver as petições e papeia .que aa
mesa andarem; dar as petições despachadas ás panes c trata-las com
muita caridade de forma que nlo 6quem escandalisadas (ani&o 127.•);
dar conta dos pannos, cadeiras, mesas, bancoa e q_uaesquer outras coisas
que estejam na casa do despacho (artigo 129.0 ). Exagiam-lhe que soubesse

, (a) ~o artigo 2.• falia-se em um sollicitador, podendo porém aa inquisição de Lisboa


haver ma1s.
ler e. IIQWef e, •Wm d'iaso. o ter muito cuidado em oão dei~r entrar
pe~ alpma ••-~•- ·!MI ~,.. do de~~ho, Dão recebendo nunca
COisa .a,-. da partes~ ~tp 1 ~). -
.Dariíca .o: Be~imet• um iitulo especial aoa procuradpres das partes.
Mia.,. ~urlq...- pea~M que ~ ~ar nos auditorios inquisitoriaes.
Para isso era indtspensavel hcença do Inquisi~r .Geral, c aeviam !'er
PI ••• .da e011fl11~ lclrta, &e~tKi~t~eia e.SII!II mspeila de raça de judtu
- ttD (artigo J3o.0 ). ·Podiam euspende-los por motivo justo, mas não
pa~sr?.-Niirar-lhea •• procuraÇõea, que as partes livremente lhes entre·
~ ·•ra primeiro a ellea da~ conta (art,so I3o. 0). De~is de esco-
lllicla. -,....putcs recebem juramento de bem e jielmertle _ajudarem o se11
diaJJf8_........ t:a"M1 ~rftldo e aJlega•do l11tl0 D 911e M1~ t Jelllirtm
fll' -GIIIIprW -4: 1114 i""i~a, n6o o deixaiulq inde(e{o e qut no pro(raso da
CaJIS!I gulltldo Pir e conhece,· q11e "ão tem justiça o manifestara á parlt
~ ~--; •• i..,...,.a na •aa do Saalo Olfkio ' desistirá da ca11sa
. (.....,III.,. .
Jllii.A IBDte ciewia haver na inquisição um ~Hão que diga missa nos
diaa ~ alo feuem de guarda, aatea dos inquisidores enttarcm a despa-
cha. J)&ve aer peasoe ·lioneata, de boa vida, temente a Deus e douto ;
teM per eiJripÇio CODfeuar os presos, estar co~ elles quando tiverem
qualquer necessidade espiritual em que seja necessario consola-los e fa-
zer o mais ele -que·os inquisidores o incumbam, tendo para isso o com-
ptMate aalario (artiso alg.•). ."
~ apa aa exposição da pane penal substantiva do 'Ref-
meDID de 1 SSt e aigaiDOs nesse· ponto tanto quanto possivel a orientaçao
e ordem do aosao Cetlip Peuld.
N.da nos diz o Restmenao quanto á determinação das pessoas q_ue
JJOdi-m cabir sob a alçada iaquistt:orial e por _isso parece·nos bem abrtr-
mos aqui um parentbeais para expressamente determinarmos quaes as
~soas qae, em linpgem do Santo Oflkio,. mereciam a designação de
B~. . .
1AJB0 oa Bulia, tanta vezes citada, que instituio entre nós a Inquisição,
se falia naquellea qui ltbrdicam aecla"' unquana pro~i sunl e mais
· adiallte ae t~lii LMtliwaa111 et mau,nethe&N4111 e1 al1as damnataJ hereses
d ' ' •·or~•
Mt•i, u sorlilegitJ hwettim manifat• sapientia (1 ). Na Carla
do «liclo e ltmpo da graça, _eor nós já publicada e estudada (2), faz-se
a traducção dos di~eres pootdicios, acrescentando-se aos crimes de he·
resia e apostasia ~ pratica de actos de judaismo, lutheranismo ou ma-
hometismo, e á pratica de feitiçarias ou sortile~Jios, os casos de big!mia.
Nada d'isto foi modificado pela bulia Medital1o cordis, restauradora da
Inquisição, de a6 de julho de 1S47 (3), de sorte que, o artigo 141.0 do
Regimento de t5St, que providenceia para os casos omissos, determinan·
do que nelle se observem aa disposições de direito conforme a bulia da
Sama Inquisição, deixou perfcitamen~ de pé todas as dispoaiç6es a que

(t} Corpo Diplomatico, vol. 3. 0 , pag. 3ol.


(2) Doe. I. Are/r. Hist., vol. 4· o, pag. z 16. ·
(3) Corpo Diplomatico, vol. 6.•, pag. a66. ·
74
n!'s ~ferimos~ Ass~m sabe~ qyct:lf&alment.e • ~ra Clll~ab'!n·
gaa, quando o .Rei!mf:fttó quer .a~cM& ~- a·,pdUkou, ~~11
por actos de JUd-tamo, lutheranJ_smo & ., ~ · Iiii . . -.. e
pel~ edid~ do_tftfrpO"dra_~graça ili~oe~. tbis ;••• •Jtk!a,.
n~ s~c-~J'?·~VI, ·c~~ ·i ~-.r'.~~~-~· culpil de ;•• ,,,.....~
dos tnquasadores, 1 sbdomia. . · · · ·· ·· · .; · ! ; ·: · · · · : ,:
DeSde r550 que D. Joio RI, em c4ft* rllllahanf 41·Fa--·lhBc•tinn
um memorial, afim de ·.pedir .o·;Pbft·tiftce ·qblli·-1 l~uisição·ealhea••• •
pecado ma~o, falfJ F_ande t alloltiflldble (lic) ljJ,./)ftl, • ..,,. jfMJal•(..)•.
Em feveretro .de 1553 o me..,o mobaa~hl·tdia•a ~""""CJDCIJm~
do a licenÇa já pedida, (2)· e· 16, em W"de feverein) •-·~:'
E;xpo•ii no~i$ é o cardeal D. Henriqueeocartepclcrcle pNII. :
::·:.t..w
~u1nao
aos sodomJtas, (3) levando assim Clbze annôi a .rc16ltt:r • • 'JP••m çl1
do manarcha p~nuguez! . · · . ~-''t. ,,~ ! _
Entremos agora na emameraçio das ·penas em ~- falta ·o m-
quisitorial de J552. São ellaa de differente natureza. Em primeiro·
as t$piritrtats, começand9 pelas majs ·btiMaS; que dO ceaM Jil • • -~e•­
les culpados qu~ ·se apreSeittarem·verd•deiràmeute ~triclos·•·••we•
didos, a confeSsar as suas culpas, ainda que seja fóiW do te.,da·.-.
(artigo 1o.•) assim como aos que vierem pedir perdlo ele calpM ••lflilo
ocullas (artigo r 1.0 ). · : · •

Tambem ~nas espirituaes, come ouvir mi... aot·doadn~ e dias de


festa, .com cirto ou toch.a na forma dQ costume, elo preceituid•• aa. caa-
demnados de lelli s~eita,. devendó fazer u ••• abiãraç6ea ~liclmehte
oiJ só na· presença doS oftieiaes dO Saftto Olicio (artíp S4.•). Qs ~m.
nados por suspeita de veheme,li devem· ser penkeaciàdos abjurandO pu-
blicimente em forma e sotrrendo a ~· tk urceN ·tentfWIJrio, • em
anosteiro onde feçam peni,éncia (al1igo 53.•). Tambem os po(lem condemoar
a penas pecrmiarias para obra~'pias, com a ~rigaçlo ae ouft- sermões,
confessar-se e commungar- as ·ttes Pnchoas eom confeslora ~ os dou-
trinem (artigo 53.0 ). Ha depois a reco~ciliaçio em forma com habito ~e
carcere perpetuos que o Regimento manda appltc• aos r6os que confes-
sarem as suas culpas, 4an&J·most:tas de conversfa (artigo -;a.•).
Um réo ~e ser condemnado aindat ·9ue nio carlfelse, no cuo de
haver prova sufficiente, devend~ por~m os utquiildores ter IIIOitA cautella
. com a suffi'ciencia ·das prons (lirttgo 5o.,.
E -se ai~ bereaiarcba confes-
sar os seus erros ·de forma ,üe
pareça de~er e« recebido tlt Wrilericordia
não o farão sem informar o nquisidor Geral (artjgo 5s.•).
Quasi identica pena é determinada para os culpados que antes de
rela:cados pedirem perdio e 4erefn mostras de arrependimento Depoi•
de .muito bem examinados podem ·ser recebidos a reconciliação com ab-
juraçio publica, carcere perpetuo e habito penitencial (artigo 6o.•). Não
falia o Regimento na · pena Clltima e sómente diz a forma de proce-
der com 'os reltlxados 4 '-CIIrÍ4 see•lar, que o artigo 59·0 manda entregar

(1~ Corpo diplomatico, vol, 6.•, pag. 379·


(2 Jbiáem, vol. 7.•, pag. 210
( 3 lbidem, vol. 1 1, pag. 6oo.
Cu~rida ella ainda a ·la~içlo .aesuia o recoaciliado c4 fóra, Dão
permittirido que elle pousasse ~mente cam·outros au se COIIImuni·
cassem de nOite (artigo a.• das Ãdip/JII e dtcltraf{ks fMI R·~nto ila
Inq11isif6n) (1).
Na prisão preventiva recommenda o· anigo t7.• que as mulberea aio
fiquem sósinhas no carcere, e quando alguma ti•ér de estK .~rada· das
outras, dar-lhe-bio para COIBplnhia uma mulher de· &ou qaalíclades, a-
tatuindo ao mesmo tempe a separação dos saos de maneara que se aio
vejam, nem se oiçam de forma a entenderem-se (àr. 99-•). O carcere
deve ser illuminado por uma lampada que toda a noite se coo..rwe acces-
sa (artigo 11 S.0 ).
Pelo codiF inquisitorial de t552 é considerada como circumstancia
attenuante o facto do preso confessar as suas culpas (artige 13.0 ) e, ao
csso de se saber por meio de testemunhas que faltou "' verélade nas suas
confiss6es, devt ser mandado chamar, oovamense eaami~do. e perpa-
tado, fazendo-lhe Yêr que se sabe haverem sido as suas confissões ingi-
das; no caso de ae conformar com·o que diaem as testemuobU se usará
com elle de mitericordia, e, no cuo concrario, Yendo-te que procede ma-
liciosamente, se l'rocederá contra elle como contra impenitente e. •••14-
do cmljitente (artJBO 14.0 ). ·rambem CODBtitae de certo modo uma circulbs-
tancia attenuante a edade do·culpado••'-ssim o arti~o 16.• determina qae
se alguns filhos ou netos de herejes, menores de vtnte annoa, se vierem
confessar por culpas commettidas por ·JUo ensino, os inquisidores usarão
com elles de· toda a misericordia, dando-lhes penas menoa sraves que aoa
maiGres e, ae forem menores de idade de discrição - quatorze a•n01 DO
homem e doze na. mulher - nio serio obrigados a abjUrar publicamente.
No caso de successão e accumullação de culpas pode .Proceder-se tanto
contra os sospeitos de JltM•enti como contra os sospatos dt lelli (arti-
go S4.«»).
As penas podem ser modificadas pela sua oo111mlll.ç6o. Para isso, se
a iniciativa partir dos inquisidores, devem en·viar o seu parecer ao lnqai·
sidor Geral e ouvir o Ordinario (anigo 61. e, se f6r aiiJUm reconciliàdo
0
)

que a. peça ao Inquisidor ·Geral este só lh'a pode conceder, depois de de-
vidamente informado pe~ in9uisidores das culpas do re9uerente, ha q~
tempo cumpre a sua pemtencaa, com que humildade e sagnaes ·de contn-
ção e se a cumprio por inteiro (arti&o 62. A. pena de carcere perpetuo,
0
).

podia mesmo ser dispensada desde que o réo a cumprisse ha tres annos
(artigo 64. •) e, se algumas pessoas penitenciadas fossem pc;»bres e precisas-
sem negociar para tratar de sua vida, poderiio os inquisidores tambem
d~spensa-Ios (artigo 64. •).
Entremos agora na exegése· e estudo do Regimento de 1SS2 sob o
pt?nto de Vista (lo .processo que elJe manda applicar, seguindo, já se ve,
ab initio, as suas diiferentes phases. ·
Eatatuia o Regimento, á semelhança da jurisprudencia da e~ha, a
justiça ambulante a que j4 atraz fizemos referencia. Esta era exereida pe-
los inquisidores nas visitações das respectivas comarcas, podendo então

( 1) Doe XXXVL
77
.
prcn4er os tMipadas .e eawia-los .para a aéde 4a ibq•lkiqão. Se porém para
•• o aio balfteue . · aem cadeia segura DO &G&ar da prtsão,
p1 tliann 181 ·a carcereiros fiadOI'Cs, que se obr~m • apresen-
ta-los ao c:arcen elo San~e Offi.cio (arriJo 17.•). Ao lado d'eUa eziaúa a
justi_ça estavel exercida pelos mesmos Inquisidores na séde do tribunal.
TIMa ~nc.a'rehte por base os depoiiDCtltoa du sestemunhaa de-
QIIDCÍaatea. TodMia era e~prdaamente recommeodldo. ·aos inquisidores •

IDIIila ClllteDa Qlo fo•em os 4epoiaaeotos originarios da prisão, 4e;testo~


munhas já fallecidas, o que certamente embaraçaria e traria F•nde de-
feito na prcwa (aniso ~.·). Dewiam tambem informar se do -Mu credito
(anilo Jt ...), peclendo-u, para maior certeza, çonltontar umas cem as
outras~ ss.0 )·e DI.IDC8 podeado proceder, a não 8«acepcionakaoote,
com o ~10· aó d'uma (a~o 14-•). No interrot~atorio cUas··deda-
ravMD a ídacle, estado, nauraüdãde e se toem· raça de judeu ou moiro
(anip s3.•).
T.. são os de que o RegimeDto cercava a base da pri-
são ordeDBà -~- IUD Oficio.
Eue,·clewcc··incumbe al- inquilitfão oode o culpado raidir, devendo
das ~as-~ a.adar~ho: u denuncias que contra eHe haja (ar-
riao 3S.•). Por eccaaião da prisão effectuada 9 celll8 já Yimoa, pelo mei-
rinho, deYe este prevenir o preso que traga cama e dinheiro ~ara ·seu
mantimento e, se fôr pobre, que trasa d'isso a prova (artigo g8.•).
Pode dar-se a hypothese dos incriminados estarem ausentes ou te-
rem j4 fallecado. No primeiro caso serão citados para dizerem aa aua
juatiça, assignando-se-lbcs para isao um termo e citando-se tambem para
todos os termos e auaoa judiciaes do processo e para virem pessoalmente
pe4ir perdão das suas culpas e responder sobre certos delictos de he-
resia sob pena d'excommunbão com suas admoestações; no caso d'elle
ainda não comparecer, corre o processo á revelia e será pronunciado por
acOOMDungado, contumaz e revel e, se por um anno permanecer revel,
será declarado por hereje (artigo 36.0). Este artigo foi aclarado pcloartigo4. 0
das Adiç6tl (a) que expreasamtnte estatuio o proceder-se contra os culpa-
dos, conforme o artigo 36.•, logo que ae tenham .ausentado, mudando de
domicilio.
Agora a segunda hypothese: o accusado falleceu. Se as culpas estiverem
provadas os inquisidores mandarão ao Promotor que accuse o finado, afim
Cle ser declara® por'apostata e hereje, seu corpo e ossos desen1errados
e lançados para fóra dos cemitcrios e igrejas ; damnada a sua memoria e
fama, declarando as· suas fazendas a 9uem devem pertencer segundo a
Bulia da Inquisição. Para esta accusaçao devem ser citados os herdeiros •
e filhos do culpado, todos pessoalmente (artigo 37. 0 ). Adiante veremos a
ori&em de tão latitudinaria. e desrespeitadora disposição do Regimento.
Preso o culpado é, como já vimos, entregue ao alcaide do carcere. o
mandado da sua prisão junto ás culpas, e feito o competente auto da ~n­
tre&a• O preso vae então para onde os inquisidores lhe ordenarem (ar-
tigo 2S. 0 ). O mais breve que possam devem os inquisidores manda-lo

(•) Doe. XXXVI.


vir ~rente
si consolando.. e·. animando-o Ülll de-caLifll•• as 1011 cul-
pas. Dewtro_. qaio.e dias fazem·llle trea •di. .,_.çaa:.oanslJcMaa ~­
Yras, · ~endo · enllo pe~atado pelas· '1088. ~ulp••• pela~ ara paealojjia e
cathedsmó e aJuramentadD aa forma, âó principie da·. Rasles (arti-
on
D....,. e6l·
,a • •

A · poaiçlo
, ..
• t

cl~ste·lft'iao que
• '

manda o ~o. •••-=r~-w-iibeiro


..
• ... •

;,. sMere. e de~s ... ,_,.;#·foi interpreeada· .-acamebce pelo~ ...~ a~.
das ·Nifçlíes e 4e.,..,-,. ·•·
r~gi•ento dJta Mflliliptes (1} ~no ·•.tat~-de
se cumpn:hen4ler das culpe• ·enio dila pcaBOB-. . · .. · · . · ... '·' ·.= •.
· Se· o réo ftewar a calpa, ainda dof•ÍI .ele admoeltado, ·WN o,Promator
com·,.: soa accu1a~lo e,. om vista d'eUa, os.iqquisidoreá novameate'O ~ad­
moesrario a confeJ81lr: a •erdacle e que .mli• ·proMitolo 1h• seN e. ae per-
siana neptiva, r«eberão a a~silclo; darlo"Ja••neMOaa.•·e,depoi's
lh'a mlndarlo: iDà...r pelo.hotario. se
de cootinúar·ne~J8Rdo, lhe...,._
dario dar~ treslado da occus~ção e, .sendo_ mulher, lhe será lida . ~~IAU·
ma- vezes afim de lbc ficar ele melborra. O p--eao .notD.IM'' eotio o_. *tvo-
gado e este, lida a accusação, o exhor-111.-.j a ~: .Oonfia~a.a:ftldMe ·e,
se o r• ~-quizcr cantasar ~- ··~sidonta:~liiiaw-~·advo­
gado esteJa presente ;- ~ (·CG~ft~~~Uar aepac» ..o PrOIDOfiOr: JMNI:irá· . r ele
pro•• .e os inquisidoree.manclar.lo' pane que.apraence a ...: defeu parâ
a qual assiprio audiencia. . · ·
Nessa audiencia. o. réo nomeará as testemunhas e oella mesmo pro-
nunciario que admittem a prova. Deve-se notar todavia que o artigo 38.o
que temos extractado determina que as inquiriç6es alo cerradas e o r~
apqar de nomeiar as suas testemunhas, não as ha de requerer, nem ou..
trem em seu· nome porque sómeDte o hão de saber as pessoas do secreto.
Por isso os inquisidores darão. ord"m que as testeiDllnhas sejam exami-
nadas e recebidas e111 aua qualidade para depois se lhes dar o credito que
mereçam (artigo 38.0 ). O artigo 5.• das Adiç6ft (2) determina a este res-
peito que os i~uisidores dcem tempo conveniente para o r~o nomear as
suas testemWlhas.
Quanto é defesa dos presos ainda o Regimento manda que, ao caso
d'elles não quererem advogado, podem os inquisidores nomear lh'o e,
quando sejam indigentes, mandar-lhe pagar pelo dinheiro da Inquisiçio
(artigo 3g.•). ·
Se o réo fôr menor de vinte e cinco annos deve o inquisidor nomear-
lhe curador ad litnn in fo•.,a 11iris e depois o menor, com auctorisaçio
do seu curador, nomeará o seu procurador (artigo t3a.•). .
Vejamos as disposições com respeito á prova testemunhal, primeiro
as que dizem respeito ás de accusação; cujos depoimentos como fi~ou re-
ferido sio anteriores á prisão, e depois as de defesa.
Antes d'isso devemos frisar que o Promotor não pode requerer fun-
dado em testemunha de ouvido e só pode requerer que seja ouvida aites-
temunha referida para depois proceder (artigo 73. 0 ). •·

Quanto ás primeiras o Promotor era obrigado a fazei-as ratificar na

(1) Doe. XXXVI


(2) Doe. XXXVI
79
pre••lli•·de·*!i-·.·p~ que j~rav~ guardar.qredo e assisnava!D
o
se~
.depei••
ele-a
,_,.raeetc, com • lllqUMidoNs e testem~~no; ca~~J!
-~·:O.~:dois pr4sb~ros eram inten·opclos... ~~~qe : .
a dar â testemunha logo quo ella •hiase para ponto o~ 01 aao~ messe
oa1ir~ ~ .mdD •aa :dec#ar-.çio aaeiBDada . por clle e escripta ~o .nota rio.
- podia o.~, por· eer ·p.-te, es&ar presente •. Em sesQida se deve
faer ler8o em ·qao a.e. aodare .ee • tcstemuObe litubeou ou variou, termo
tp~j~ .,,.~do pelo,jaquiMdor preaeoce (. . .
4p.0)~-~ta di~
~foa.'n•rinPU peJo.· araip 6.0 des Addiçées (1 )-detenainapdo-sé,Q~~
qae·--••-.acl8• ~a• pe•181• encarrep4aa.de ~c!ar.e . aedito
du-~•••••IDIIaa.'C
aio ee 4ivuls••ec o ecgredO .por dive.-aos íodiyi4ups o
que era sraude inconveniente. · ~ . .. . . . ..
· Fillda•·'"*a .tp.nee •.PIOIDO~ r~râ que ~~q~e~ a•~ tes-
te. ••ia.ua e ·ré0,.,...,4a~bc co,.;d;ell~,. m~: occ•Jitan.dO: ~~
••11••
DtM te.ttus!JDM~. e pltper cir~m.~l\ por on~~•lla• s.; poisam
cMIIHr. A e~~a··PGWiéf4iO ..-o pode eatar-~nte o pr.ocurádor do réo,
dens
dir:.misariálnlia;..o· que:Jhe ....;. mt~ito util. Só
• .._. oa ~·
no.
~(). •ta:4!eha .... 14H'_.admee•do .. conf~~sar a sua culp~· a·p:·
seguinie,é que
calos. dai .blltemuahas ~ ·procurador do. ré9 ·e, se eate
e
se
I10RIIBeDte 8dlaoestaciot aada confeuar,· I~ dirio que de~e· vir com coa-
tradila que devem aer immediata.mente feitas ~ apresentadas, combi·
na~'*» o procanldar. ·tudo com a parte. Se não vier logo com contraditas
fR a pane logo ahi CO!ft o· seu procura4or a minuta, apontando. ~s cau·
... que tem de coatradith e. amJZa4e contra as testemunhas que apontar
leNtalo ata miauta o procurador junctamente com o treslado da publica-
çlo·cp se deu -.o réo e o procurador virá depois.com elle, trazendo tudo
em~ ardem ai audieocia que lhe fôr assignada, articuladas as contraditas,
trazendo tambem o treslado da publicação que se entregará ao réo, no-
.-odo este nessa audiencia as testemunhas de provas de suas con.tradi-
tas, Die eatando presente o prQCurador a tal nomeação· Examinadas. as
tatemuahds do réo, os inquisidores. mandarão tudo escrever e proceder
como fôr ·de ju11~a (artigo 42.0 ). ·

QuaDto. é ~blicação dos ditos das testemunhas aos réos veio o arti·
IJO 1·· das Adtçóes (~) consignar a desleal disposição que os inquisidores
dewtam primeiro ver se as publicações estavam bem tiradas, calando o
que se deve calar c exprimindo o que se deve exprimir. Ainda o arti-
go 8.• das Adiç6es modifica o artigo 42. 0 do RegJnltllto, alargando o praso
~ os ·réos formarem as suas contradictas at~ á primeira ou segunda
audiencia, como parecer mais conveniente. E, se neste meio tempo al-
plllla pessoa conJuncta ao réo apparecer com algum rol de testemunhas
para prova das contradictas, os inquisidores o receberão e secretamente
ae Informarão das inimizades allegadas. ·
Estas disposições foram tomadas em 1 564. .
Mais tarde, por provisão de 5 de julho de 1S72, (3) que renovo~ uma

(1) Doe. XXXVI


(2) Doe. XXXVI.
(3) Doe. XXXVU e doe. n.o 8 do codiçe aS2S da secção O St111tD Oflicio.

8o .....
.. ________
_........... _.... __
anterior de J9ô3, foi determinado que os inquisidores não fossem obrip-
dos a receber mais contradictas que aquellas que o Direito ,obrip • .rece-
ber, formula bastante vaga e elastica que logõ no anDo sepiote, por pro·
visio de tS de abnl de •573, (1) foi oclarada.
·Foi então determinado que se não recebessem para provaa de contra·
ditas testemunhas algumas parentes e familiares doa. réOi,. ou ·e~ ~
haja costume ou defettos pelOs qyaes nio devam, de·· Direito Hl' adm.Jtti·
das. Da mesma forma nio devem ser admittidos judeus nem qualq•er
preso nos carceres inquisitoriaes. Esta provislo modifica aiada o arti-
go 8.• das Miç6es, restituindo.~ vigor ao R•giMe~Jio quaot~ ao termo
e modo de receber as contraditas porque ·de llae llarm. ••• IMIJIO .e
seg'!__tm muitas dillaç6es nos p1·oçessos. ·
Pode o réo, ardilosameate para dilatar a rnolaçio do feilo, 11011aear
testemunhas ausentes na India ou noutra ~rte e por iuo deftal os in-
quisidxes pre•eni-lo de que nomeie testemUnhas presentes e, • caso de
só poder nomeiar testemunhas ausentes, mas da cOmarca ela In~liçlo~
poderio ser i~uiridas, ou deixar de o sec- confOI'IIIe parecer 80S iaquisi-
Ciores (anigo 43.•). Se o réo acenar nas testemunhas que o culpa1n; man-
darão os 1n9uisidores qtie ellas · sejam examinadas, tendo eUea p~
que as examtnam·no caso de residirem na- sua comarca; se po~ rfsidi-
rem na comarca d'outra inquisiçlo serlo examinadas fJO!: carta rtqlliailo-
ria, e se residirem fóra do reino, por carttJ pertatoritJ diri1Jida aos inqui-
sidores d'essa comarca, ou ao Ordinario no caso de os não haver ali (arti-
go 44·0 ). Se o réo nlo acertar com as testemunhas d'accusaçõo, nas. suas
contraditas, não serão admittidas e, em tal caso, devem os inquisidores
. informar-se da qualidade das testemunhas d'accusaçio, se teem altuma
inimizade com o réo e depois d'estas diligencias a causa se concluirá (ar-
tigo 4S). ·
O rol das testemunhas de defesa deve ser apresentado com essa mes·
ma defesa e deve ser assignado pelo procurador e pelo réo sabendo escre-
ver, ou, não o sabendo, por qualquer outra pessoa em vez d•ene. Nesse
rol devem ser nomeiadas as testemunh:1s ~r seus nomes, sobrenomes,
officios e se teem raça de judeu ou mouro. Para a sua inquiriçio nio po-
dem os inquisidores ir a qualquer casa e sómente a uma egreja ou mos-
teiro, quando a 1estemunha tc!nha tal qualificação que não possa ~er i~ui­
rida no tribunal e dando se qualquer legitimo impedirnento os inquisidores
providenciarão como lhes parecer (artigo 41. 0 ).
Um meio· de prova permittido e até ordenado pelo Regimento (ani&o
46. 0 ) era o tormento.
Jtl por 1S41 o in_9uisidor Jorge Rodriguez consultava o Inquisidor Ge-
ral sol>re a applicaçao da tortura (2). Não sabia elle se directamente a ha-
veria de apphcar, se devia remetter os culpados a S. A., ao que D. Hea·
rique respondeu d'uma forma bastante vaga que sentencias~e o que fosse
de· justiça e que chamasse para a ella assistir o Ordinario ou ()seu rwpre-
sentante, segundo ~ disposJção da bulia e do Direito. O tormento podia

(a) Doe. XXXVIII.


(2) Doe. XXXII
81
-----···········
ser a~plicado u~a vez sõ... se o, réo dura!lte ~lle confessasse a su~ culpa
e ratificasse a sua confissao ate ao terceiro daa depoas, sendo entao des-
pachado como confitente (artigo 46. 0 ) . No caso porem de negar a culpa
aepois de a ter confe$sado no tormento podiam-lh'o repetir (artigo 4Ô. 0 ).
Exgotados os meios de prova, depois da accusação e da restringida de-
fesa concedida aos réos, segue-se a sentença final.
São as partes citadas para a ouvir, mas não teem vista geral por causa
do segredo que é preciso guardar e sómente o procurador d'ellas pode
razoar. assim como o Promotor inquisitorial (artigo 45. 0 ). Na sentença de
ve-se começar pelos fundamentos da decisão, nssignando-a todos, ainda
que sejam de parecer contrario, vencendo a maioria (artigo 48. 0 ). No caso
de haver divet~encia entre os inquisidores· e os letrados enviarão o pro·
cesso ao Inquisidor Geral ou ao Conselho para este decidir; se a diver-
gencia fôr entre os inquisidores e o bispo procurarão resolve-la com o
auxilio dos letrados e, não o podendo, env1à-lo-hão ao Inquisidor Geral
ou ao Conselho (artigo 49. 0 ).
Se o réo fôr relaxado á curia secular deve proceder-se com eiJe da
forma ·seguinte : trcs dias antes do auto da fé deve ser d'isso notificado
por pessoa que .lhe mereça inteira confiança e admoestado a que cuide
da sua alma devendo o confessçr dar-lhe as passiveis consolações e in-
cita-lo a confessar a verdade e devendo o alcaide ter especial cuidado nelle;
se virem que eU e não dá inteiro credito ao que lhe dizem, devem ler-lhe
a sentença na vespera do auto, havendo com elle toda a vigilancia (artigo
57 .0D). d . ó d . . .d
as ects es os tnq_UJsa ores po d.aa haver recurso antes da sentença
·final para . o Inquisidor Geral ou para o Conselho (artigos 36. 0 e t3. 0 do
Resimento· do Co11selho Geral, doe. X).
Todavia para esse r(·curso, nggravo ou nppellação, não podiam os no-
tarios trasladar autos de Sllslallçia, sem mandado dos inquisidores por
elles assignado (artigo 8o. 0 ). .
Para concluirmos a exegése do Reginzeuto de I5J2 resta-nos fallnrdas
reconciliações e dos incidentes suspeições aos inquisidores e.fiança aos réos.
Para o recebimento das reconciliações e penitencias que, por causa
d'isso, derem. aos culpados,. quer no tempo da graça, antes de serem
presos] q~er ~epoi.s, deve se~ sempre requerido o bispo, ~xcepto se o de-
licto for omJllllO occulto (arugo 1'2. 0 ). Esta mesma doutrina e confirmada
pelo anigo 47·~ que vae mais além, determinando que o pronunciar das
reconciliações seJa tratado com mais pessoas, se as houvér, e, não as
havendo, será o processo levado ao Inquisidor Geral, ou ao Con-,elho,
devendo ser sempre requeridos os bispos. Se algum reconciliado no
temPo da graça dissér publicamente que faltou á verdade, contra elle se
procederá, nos ter~os de Direito (arngo I5. 0 ). E, se o confitente não fôr
recebido á reconciliação por serem más as suas confissões, lh'o farão sa-
ber, requerendo-lhe que confesse a verdade e quando elle fôr negativo
omni"o lhe dirão que está conve11cido do c1·ime da heresia e pronunciado
por hn·ege, pertina{ e 11egativo e por isso o admoestam a que desc&rre-
sue a sua consciencia .para usarem com elle de misericordia (artigo 56. 0 ).
Vejamos o que o Regimento dispunha quanto ás suspeições. Podiam
• lO
....... _......_..._______........._...._....
ns partes requere-las ou contra ambos os inq_uisidores, ou contra um só
ou contra os notarios ou qualquer official do Santo Officio. Antes de tudo
os inquisidores não as deviam admitir se fossem frivolas ; se porém o não
fossem, no primeiro caso deviam envia-las ao Inquisidor Geral ou ao Con-
selho, assignando termo ás partes para sobre ellas requererem. No se-
gundo caso o inquisidor não dado como suspeito é que tomava conhe-
cimento da suspeição e a parte seguiria com el(a no tempo que lhe fôsse
assignado, e se fosse para os notarias ou qualquer outro officaal seriam os
inquisidores juizes em tnl caso (artigo 33. 0 ). Aos condemnados por sus-
peita de 1'ehenze111i, no caso do auto da f~ se demorar, podia ser-lhes
daJa liberJade, sob jia11ca, comtanto que no dia competente se apresen-
tassenl para ouvir ler a ·sentença (artigo 53. 0 ). Aos culpados de heresia
não podia1n conceder fi3nça sem licença do Inquisidor Geral excepto nos
casos de doença grnve e reconhecida do réo e de ausencia do Inquisidor
Geral (artigo 55.0 ).
Apezar de neste Rebrime11lo de 1552 haver especiaes disposições para
a inquisição de Lisboa como as dos artigos t38. o, a que já fizémos refe-
rencaa, e tog.o que manda ser encarregado um dos guardas da inquisição
de Lisboa da porta do pateo dos Estáos, fechando·a á noite e abrindo-a
pela manhã a horas indicadas pelos inquisidores, abrindo só o postigo
quando a porta estiver fechada e só deixando entrar a cav:tllo as pessoas
que os inquisidores expressamente mandarem, a pezar d'isto diziamos,
o artigo 141.0 diz expressa e genericamente que o cumprimento do Re-
p;inzelllo pertence a todos os officiaes da lnquasiçiío. Para os casos omis-
sos o mesmo artigo estipula gue d\;vem seguir as disposições de Oireito,
evidentemente canonico, conforme a bulia da Santa Inquisição.
Tal é n exposição exegetica do primeiro codigo inquisitorial conhe-
cido.

Resta-nos agora fazer-lhe a critica.


Para isso faremos tres confrontos: primeiro o do Re!!inze11/o de I 552
com o processo da Inquisição medieval usado no sul de ~ança, o segundo
com o processo usado na Inquisição hespanhola e o terceiro com a nossa
legislação
. , criminal coeva. Teremos no fim elementos de sobra para a sua
aprectaçao.
Para o primeiro confronto servir nos-hemos do livro recente de Mgr.
Douais, bispo de Beauvais, intitulado L'Inquisition- Ses origi11es - Sa
p1·océd ,,.e.
Não obstant~ a qualidade do auctor que á primeira vista torna o tra-
balho suspeito e que na verdade mais parece, de vez em quando. um
advogado do que um juiz, é certo que o livro tem as suas pieces jusli-
fica/rJ'es. Mgr. Douais servio-!e d'umas instrucções de S. Raymundo
de Pcnhaforte, datadas de 1242 e dos manuaes Traclalus de inquisitio11e
he,.eticorunz de David d' AuP.sburgo, P1·actic:a de Bernardo Gui e princi-
palmente do Directoriunz d Eymeric. Não pode haver duvida alguma que
á escolha d' estas fon.tes e ao seu uso, na falta de diplomas reguladores
do assumpto, presidio uma sã critica histories e por isso do livro de Mgr.
83
----·--···-··------·..............--.-.---
f>ouais nos servimos, sem hesitações, na exposição do processo penal
da Inquisição da Edade Media.
Os limites da jurisdicção do inquisidor mcdie\'al eram varia veis; obe-
decendo á carta de nomeação, tanto podiam estender-se a uma diocese
ou provincia ecclesiastica, como a um reino. (1) A intervenção episcopal
etcrcia-se sempre porque o inquisidor não podia sentcnccar senão depois
do parecer do prelado da diocese c a intervenção secular só podia exer-
cer-se no sentido de lhe prestar auxilio e obediencia.
O inquisidor tinha os seus officiaes que eram o vigario ou commissa-
rios, o v1gario geral em toda a provincia, os bolli-z_,;,.;, os officiaes subal-
ternos, o guarda da prisão c o notario. Da sua alçada, segundo Eymeric
só estavam isentos o Papa c os seus ofticiaes, os bispos c os outros inqui-
sidores.
Quanto d sua compctcncia abrangia genericamente a culpa chamada
de heresia. Qual a comprehensão porém d'este ternto dava Jogar a diver..
gencias e distincçõcs be1n ~ubtis.
cNo principio da Inquisição, escreve Mgr. Douais, (2) o heretico era
aqucllc que se achava comprehendido sob as denominações do decreto
~1,{ ,tbolellc.lum de Lucio III, do an~thema do Concilio de Latrão c da bulia
recente de Gregorio IX Sicul ;, 11110 co,1'o•·c, cm que excommungava de
novo os Catharos, Patarinos, Pobres de Lyon, Passaginos, Josepinos,
Arnandistas, Spcronistas c quaesqucr outros que o Imperador, no dia da
sua coroação, tivesse apontado á vindicta publica•. S. Raymundo de
Pcnhaforte, o illustrc canonista co1npilador do Corpus Jurzs Ca11o11ici,
precisou nove casos em que se fazia mistér a intervenção inquisitorial.
Primeiramente os lzaerelici que são os persistentes nas suas theorias
subversivas; depois os credellt,·s que adherem ás doutrinas hereticas; os
suspecli que tccm com os hereges relações de tal natureza que podem ser
considerados como ligados á heresia e, conforme o gráo de suspeição, as·
sim são si111pliciter suspcctus, vehenze11/e1· suspeclus e velle111elllissi111e sus-
peclus.
Vccm depois os cclatores que, apezar de conhecerem os hereges, os
não denunciaram; os occultalor·es que se comprometteram a não denunciar
os hereges c procura.ram que elles não fossem revelados; os rcceptalo1·cs
que, pelo menos duas vezes c com perfeito conhecimento, deram asylo
ao~ hcrcg~~; os c.ie{e11sor·es que os defendem; os {t.1ulorcs que, d'uma ma-
neira posnava, prestam soccorro, favor e conselho ao~ hereges; c final-
mente os rcl . 1psi que, tendo abjurado a heresia, cahiram numa das faltas
precedentes, renovando o delicto e mostrando por isso uma pronunciada
Inclinação para a heresia.
Um seculo depois Ey1neric reduzio estes nove casos a seis: cl·e,fcllles,
,·cceptalores, de{e11So1·es, fautores haerelico,·t~m, suspecti de llae1·esi e r·c·
/apsi ;, llaeresinz. ·
Tres podiam ser as bases do processo inquisitorial : a fama publica, a

(I) /#,lnquisitioJI de Mgr. Douais, rag .... ,; c scgg.


~l) A pag. r5o.

-------
denunciação e . o dep<;>imento de testem~nhas ou dos réos e ~s~im era o
processo pet· '''quts1lro11enz, per accusattollenz e pe1· de•1u11cratro11em ~ O
tempo da graça era de um mez. · ,
Aquclle que c~nfessava as suas culpas era convidado não s_ó a fal_l_ar
de si, como tambem de todos os outros, Iam de se quam de om11r!Jus altrs.
E com esse fim, u~ dos meios aconselhados pelo inquisidor David d' Augs-
burgo era o to,·nzeiJto. (1) O papa lnnocencio IV poz-lhc um limite: citra
nzenzb1·i dinzinutionenz et n1ortis pcriculunt. Eymeric atonselhava que esse
meio de proYa se espaçasse o mais passivei e dizia que o tormento se não
devia empregar senão quando o supposto culpado variasse nos seus de-
poimentos. . '
Quanto á prova testemunhal não se podia ella admittir da parte de um
herege excepto quando denunciasse outro herege, isto é como testemunha
d' accusação. Qs dcpoin1entos rran1 cscriptos p.: lo notario e para o inter-
rogatorio das testemunhas não havia audiencia publica rwm acareação
Aos accusados dava-se uma copia dos depoimentos que o accusavam, 1nas
nunca se lhes dizia o nome das testeanunhas, afim de evitar reprcsalias e
vingancas. U1na bulia de Innocencio IV, determinava que os nomes das
testenlll,l'lhas fossem communicados a homens experimentados, jurisconsul-
tos ou outros, encarregados de pc~ar todo o valor do testemunho, conforme
as circumstan,ias de logarcs, pessoas c tempo.
O réo devia ser convidado a declarar quaes as pessoas que lhe lJUC·
riam mal designando-as pelo seu nome e provando-o.
Eymeric pronunciàva-se no sentido de só no caso do réo ser pessoa
poderos=t, podendo portanto fazer mal ao accusador, se occultar o nome
d'estc. ,
A defesa era de rigor c até se apresentava nos processos dos n1ortos
accusados de heresia. A principio eram os advogados inhibidos de intervir
na causa, 1nas depois era-lhes concedido não só um advogado, como até
utn procurador, podendo a defesa, apresentada ao bispo ou ao inquisidor,
ser por cscripto ou oral c não havendo .debates publicos.
Podia o accusado dar (J inquisidor como suspeito, c cm tal caso, este
só tinha dois catninhos a seguir: confiar o feito ao seu vigario ou del<:gado
que não podia ser recusado sem ter mosttado opinião antecipada, ou con-
ceder ao accusado o que elle lhe requeria.
Os réos podiam recorrer no decurso do processo para o Papa c po-
diant ser postos en1 liberdade, comtanto que jurassem ficar á disposição
do inquisidor, responder a qualquer chamada c ctunprir a pena que lhe
fosse imposta. Tambem o culpado podia apresentar, para tal caso, os
seus fiadores.
O dinheiro das fianças era destinado ás dcspezas cutn a justiça e u1na
da'> características da inquisição medieval era a falta de prisão preventiva,
Typica era a forma como a ;n9,uisição medieval procedia com os hc-
rcjes que já tivessem fallecído (2}. Se a sua culpa estava sufficientcmcnte

( 1) L'lnquisitiou de Mgr. llouais, pdg. 171 c scgg.


( 2) lbidenr, pag. ltl c scgg.
85
provada precisava·se de saber qual ~ sitio da sua sepultura, para se lhe
exhumar o cada ver á espera da sentença. Proferida ella, se o réo era con·
demnado • ser entregue ao braço secular., os sells restos e·ram queimados
e os seus bens confiscados á successJo e até a casa onde elle tinha mor-
rido devia ser arrazada, para nunca no mesmo sitio se reconstruir outra
e para os seus materiaes serem doados a um hospital ou a uma casa rc·
lig1osa! .
A tentativa de fuga, o juramento falso ou o falso testemunho no de •
curso d~ processo inquisitorial e o sortilegio eram impiedosamente perse·
guidos. A este ultimo era applicada a pena de prisão perpetua.
A escala penal era, na Inquisição da Edade media, bastante extensa.
Começava na imposiçio das obr·as pias, opera pietatis, continuava com as
penas pecuniarias, o sequestro, uma cruz no fatl), prisão temporaria c per-
petua, degradação, confiscação de bens, expulsão da Egreja, exclusão
dos car@os publicos e por ultimo o relaxamento á curia secular, á qual já
a inquisacão d'esse tempo pedia moderação e piedade !
A pena quando não fosse evidentemente a ultima podia depois ser per-
doada oo pelo menos commutada.
A sentença devia -ser proferida com n intervenção dos respectivos bis-
pos e de letrados.
Vejamos agora o que se passava no Ser·mo ge11eralis.
Bernardo Gui descrevcu·o minuciosamente. (a) Conforme a sua des-
cripção podemos nellc distinguir a preparação, os preliminares c o acto
propriamente dito.
A preparação remota era constituida pelo processo em cada uma das
suas phases e a proxima pela leitura aos accusados, feita um ou dois dias •
antes, d'um extracto da sua sentença condemnatoria. Não se lia o origi-
nal d'esta porque era sempre redigido em latim.
Os preliminares eram simplc~: na vespera do Sern1o ge11eralis o in .
quisidor assignava aos culpados o dia seguinte para receberem a peniten-
cia ou ouvirell'. ler a sentença, em certo c determinado sitio.
Vejamos as phascs do acto propriamente dito, que segundo o já citado
inquisidor Gui, eram sete. · ·
Traduzamos as palavras do douto bispo de Beauvais:
c •· • A i11Jt1·ucção ou exhortação que era ordinariamente curta, brePis
c a indulgencia que o inquisidor concedia á assistencia.
2.a O ;·uran1e11to.- E' o juramento que deviam prestar os otficiacs da
curia secular; promettinm obedecer ao inquisidor em tudo o que dissesse
respeito á perseguição da heresia.
3.a O tira1· âas cru;eJ.- Como havia pessoas condemnadas a trazer
nos fatos o signal de hereticos, uma cruz, abandonavam nessa occasião
taes vestidos ignominiosos. · ·
4· a A imposição das c1·u{es e pcreff':i11ações•. Os culpados, sem distinc-
ção de sexo, eram conduzidos d~ pr1são ou, se estivessem em liberdade,

(I) Citado ror Mgr. Douais, pag. 256•



-

86
---···---·----
vinham de sua casa. O inquisidor impunha-lhes cruzes ou, conforme os
casos, junctava-lhes peregrinações, menores ou maiores.
5. a A leitul·il das Clllpas de cada "'" ~-~,aquelles que devialn ,·ecebt•r
"!"a pe11ileucia ou ouvir a sua co11denzuação 011 SCJJlellça. Esta leitura fa-
ZJa·se pela ordem seguinte:
1) A'quelles a quem eram impostas as cruzes ou as peregrinações ou
que ficavam sujeitos a certo regimen de vida;
2) A'quelles que eram simplesmente condemnados á prisão;
3) Aos que tinham jurado falso e que, como taes, tinham a dupla pena
da penitencia e da prisão;
4) Aos sacerdotes submettidos á degradação e á prisão;
5) Aos mortos que, se vivessem, deviam ser condemnados á prisão ;
6) Aos mortos cujo cada ver tinha sido exhumado;
7) Os fugitivos que tinham merecido ser castigados como hereges;
. ~) Os relapsos entregues ao braço secular: primeiro os leigos c de-
pois os padres;
g) Os hcreticos consummados que obstinadamente se tinham separado
'da communidade dos outros, enervando assim a autoridade do pap~ c da
Egreja; ·
l~inaln1cntc aos que deviam ser relaxados ao braço secul Sir.
Tcr1ninadas estas leituras proseguia o Se1·nzo ge11eralis.
6.• A ,1bjuração.- A abjuração era imposta aos culpados que, depois
de arrependidos, deviam receber umn simples penitencia ou mesmo uma
pena. Corno as 1nais das vezes tinhan1 incorrido cm excommunhão era-lhes
levantada.
7.• A leitur·a da se11le11ça.- Todas as sentenças eram redigidas em
latim. Era a lingua do tribunal. Depois era reproduzida summnriamcnte
c1n lingua vulgar. As sentenças eraln ordinariamente dadas na mesma or-
dem que os d1fferentes casos tinham sido expostos, seguindo a progressão
ascendente, do caso menos grave até ao rnais severamente castigado. De
resto . a tal. respeito . nada era determinado. O inquisidor fazia o que lhe
parecta ma1s conveniente ou opportuno•.
Tal era o processo penal da Inquisição Ja Edade 1\ledia.
Muitos são os pontos de contacto que elle nos apresenta com u pro·
cesso da Inquisição portugueza pelo Regimento de r '52. A mesma inter-
vençfio episcopal, o mesmo auxtlio secular, a mesma base de processo, a
n1csma falta de respeito pelos mortos manifestado no artigo 37. 0 do Regi-
mento, os mesmos meios de prova. Quanto a estes, como vimos, já e11tão
não revelavam o nome das testemunhas de accusação c o réo devia de-
clarar os nomes das pessoas que lhe queriam mal.
A defeza que oa Inquisição portugueza só era escripta podia então
ser tambem oral.
A organisação é que, como era de prever, apresentava ilnperfeiçõcs
taes como a variabilidade de jurisdicção e o recurso para o Papa que já
nos não apparecem na Inquisição portugucza. Tambem a Inqutsição mc-
dievfil não admittia a prisão preventiva, innovação que encontramos no
Regimento de J552.
Se confrontarmos a con1pctencia do inquisidor medieval com a dos in-
....-...-··--········-··-·····--·············
quisidores portuguezes vemos ser a d'estes 1nuito mais ampla. Identica é
a escala ~nal, de sorte que podemos nffirmar ser identica a essencia das
duas instituições, separadas por mais de dois seculos, mas com o mesmo
fim e a mesma origem. E' claro que a Inquisição medieval, embryonaria
como era, não vivia devidamente regulamentada, apresenta hnperfeições
que a pratica foi polindo, mas nenhu:na. duvida temos em affirmar que
os inquisidores portuguezes quando elaboraram o Regimento de J552 ti-
veram presentes não só as bulias pontificias d'aquella epocha, como taro-
bem as disposições do Co11'11s Ju1·is Cano11ici c talvez em especial as
J)~cr·etaes de Bonifacio VIII, in tit. De hereticis in VI.
Volremo-nos agora para a In~uisição hespanhola.
Não nos é facil fazer com esta Q confronto que tanto desejavamos.
Temos á mão a Historia c1·itica da Inquisição /Jespallhola de D. Junn
Antonio Llorentc, edição franceza de t8t8. E' trabalho setn duvida al-
guma de muito merecimento, resentindo-se no emtanto da epocha em
que foi escripta cm que por um lado não existia ainda o noção da vida
or!anica das instituições sociaes, e por outro lado era preciso justificar a
recente suppressão do odiado tribunal. Por isso Llorente trata do proces-
so da inquisição hespanhola como se elle fora sempre o mesmo .e preoc-
atpa-se maic; com a critica que com a exposição dos factos. De tudo isto
vem que não conhecemos precisamente qual seja o processo usado por
essa inquisição no seculo XVI, que era o que por agora directamen~e nos
interessava. E. apenas podemos affirmar em face do capitulo IX do t. 0

tomo que na essencia as duas inquisições não divergiatn na forma de pro·


cessar. Torquemadn e D. Henrique tinha lido ambos decididamente pela
mesma cartilha.
Vejamos o direito portuguez da epocha.
Como se sabe é nas 01·dellaçúes Ma11oeli11as que elle se encontra co-
dificado. Occupemo-nos primeiramente do que ellas dispõem quanto aos
mesmos crimes da alçada inquisitorial, para depois, se possivcl nos fôr,
lançarmos uma vista d'olhos principalmente sobre a escala penal e a mar-
cha processual da epocha.
lt:' no IJivro V, titulo II, que se trata Dos l1ereg~s e aposlatas. Ahi
se diz que o conhecimento do crime de heresia pertence principalmente
aos juizes ecclesiasticos -não devemos perder de vista que quando as
Orde11ações foram promulgadas ainda a Inquisição não existia entre nós -
aos quaes não pert~nce fazer as execuções dos criminosos. Por isso devem
ser elles remettidos, com os respectivos processos, á justiça civil, soffren.
do os criminosos, além das penas corporaes, a confiscação de bens. No
caso portm de apostasia o conhecimento cuanpre á justiça civil que aos
a~tatas deve applicar as penas de Direito (?).
N~ mesmo Livro, titulo XIX, se occupam as Or,feuaçóes dos bígamos,
estatuando para elles, cxpressa1nente, a pena de morte : nloul·a por ello.
Todavia se o hometn casado cst~i publicamente com qualquer mulher por
espaço de dois annos, ou ainda que esteja um só dia, se se apregoou na
igreja e negou o segundo casnmento, não se podendo provar por teste-
munhas, deve ser posto a tormento e a sua pena de degredo por quatro
annos, ou mais, para Ceuta (§ 2. 0 ).
.._.,_... ___... __.......88_____________
No titulo XXXIII se trata dos feiticeiros, determinando no § 1.
0
qu
•qualque1· pessoa, gue em ci,·culo, ou fóra delle, 011 em ellct·utilhada, e:
pi,·ilos ditibolicos 1n11ocar, · ou algúa pessoa dee a con1er, ou bebe1· qu~J4
quo1· cousa pera querer bem, ou mal a outt·em, ou ou11·em a elle, mour
por· e/lo morte natural,. ·
No titulo seguinte se trata dos que at·re11eguan1 e blasfemam de DeOJ
A pena ·que lhes compete é a seguinte : se f'ôr vassallo, escudeiro, c~
valleiro será degradado um anno para Ceuta, pagando dois mil reses par
' quem o accusar ; se fôr fidalgo deve ser degrad-ado por um anno para
ultramar, pagando tres mil reaes para quem o accusar; se fôr peão, filh
de peão, mettam-lhe uma agulha d~albarda pela lingoa, deem-lhe vint
açoutes com baraço e pregão, tendo a agulha mettida emquanto lhe d~
rem os açoutes e devendo pagar mil reaes para quem o accusar.
O titulo XI do Livro V prescreve a pena dos sodomitas: · nada mai
nada menos que o serem queimados, confiscados os seus bens, · e decl•
rados inhabeis e i11(ames os seus filhos e descendentes. O encobridor:- d·
tal crime deve ser degradado toda a vida, confiscando-se-lhe .os ben!
Pereira e Sousa nas Prinzei1·as liniJas sobre o pt·ocesso crimina~
pagina 55, refere-se a um diploma de 9 de março de 1S71 sobre a P'·op.
e p1·ocedinzeJZto co7ltf·a os culpados 110 peccado de sodomia, que não I<J
grámos encontrar. ·
Não é facil, cm frente das Orde11acões Ma11oelinas, dizermos qw
n escala penal e qual a marcha do processo criminal. Quanto i pri
meira pode-lo-hiamos fazer por inducção mas, para o nosso proposi
to, não vale a pena o tempo que isso nos levaria. Basta repeti.r, ,
g_ue a traz vimos, isto é, que a pena de morte tinha vulgar ·ap(>licaçãc
tJ.uanto á segunda, a falta de differenciação da jurisprudencia qutnhenti!
ta, embaraça tanto o nosso desejo, que não conseguimos encontrar a
disposições que procuramos. O que podemos no entretanto constatar
o uso do tormento como meio de prova um pouco ao arbítrio do juiz-
uo al1 1idro do Jul~ruado1·-, tendo porém _presente que só pela con.fissã
então feita ninguem deve ser condemnado. E' preciso que, alguns dias de
pois do tormento, elle ratifique a sua confissãc. Taes são as disposiçõe
do titulo LXV do Livro V. ·
Tambem a defesa é mais ampla, não ha as cautellas com o occulta
os nomes das testemunhas que se encontram no Regimento inquisitoris
e não ha tambem aquella falta de respeito pelos mortos, qne tão mal va
com os nossos sentimentos humanitarios.
Syntetisando pois as nossas impressões a respeito do Regimento d
r552 podemos dizer que elle, na esteira da jurisprudencia inquisitorial d.
Edade Media, é menos liberal que o direito portuguez coevo, não fazc11
do d'este no entretanto uma difterença extraordinaria.
Resta saber até que ponto teve execução.
~. .
; !
8g ,
-------;-

VII

--Edlflclo, are• Jurlsdlcclonal e os dlrl1entes da lnqulslçio de Lisboa •



..
M dos as~ctos curiosos da historia, por assim dizer externa, d'um r

tribunal é saber com precisão onde foi a sua séde. E como temos
elementos para o saber quanto. á inquisição de Lisboa, lancemos . ,..

para ahi as nossas vistas.


O sr. Julio de Castilho escreve a tal respeito o seguinte na sua tão
interessante Lisboa antiga (1):
c·Nessa data de 1S84 fenece a epoca real do paço dos Estáos, e prin-
ci~ia a inquisitorial. Foi com effeito nesse anno, que ahi se alojou o tribu-
.mal do Santo Officio, que havia uns quarenta penetrara em Portugal. Onde
fosse a sua primitiva séde não sabe o leitor l eu lh' o digo: fo1 no mos-
teiro da Trindade, naquella massa de casas hoje furada por uma rua des-
de o largo de S. Roque até ao theatro da Trindade (2)~ e .como se transfe·
rira para Coimbra a universidade de Lisboa, desde I537, deu-se ao edi-
ficio vago das antigas Escolas geraes o destino de servir de recolhimento,
ou collegio expiatorio, ou probatico, de certos sentenciados, doutrinados e
consolados com prégaçóes.» (3) Efiectivamente em. 20 de março de 1578
j4 o cardeal D. Henrique, dirigindo-se ao Conselho Geral do Santo Officio
recommendava aos seus deputados que vissem as avaliações das Escolas
geraes (4).
H a porém que distinguir nas palavras do douto investigador.
Se percorrermos os livros de denunciações do seculo XVI-que, como
já dissemos7 adeante publicaremos em extracto - veremos a peregrinação
que successtvamente foi soffrendo a casa do despacho inquisitorial. Desde
14 de dezembro de J537 que a encontramos nos Estáos onde se fat o com-
ltllao da Samla lmquisyçam; abi recebe delações o dr. João de Mello. Ain-
da ahi as recebe a 2 de janeiro de J538, mas já a 18 de agosto de I53g
lb,as vão fazer a casa, e no dia 19 de julho de 154o começam a ser feitas
nas casas da Santa Inquisiçã que talvez fossem, como diz o sr. Castilho,
no mosteiro da Sanctissima Trindade.
No dia 20 de dezembro do mesmo anno, 1 540, ouve-as o Licenciado
Jorge Rodrigues em as casas omde ora pousa, ainda ahi as ouve no dia
10 ae janeiro de 1S41 e annos seguintes; ouve-as em 24 de março no mos-
teiro de S. Domingos, na capella de S. Pedro Martir, até que ern 11 de
.. -
maio de 1S4J as denuncias são feitas na casa do despacho da Samta lm-
IJinSIÇaO.

(1) Segunda parte, tomo IV, pag. 231 da a.• edicão.


(3) Colhi esta noticia num artigo chamado Commemoração, impresso pelo bom e
estudioso Silva Tullio, a pag. 3g3 do tomo I da Revista Universal Lisbontnse. (Nota do
sr. Julio de Castilho).
(3) Vide Lisboa antiga, P. II, Tomo IV, pag. 334; ahi se citam as fontes. (Nota do
sr. Juho de Castilho).
(4) Doe. XXXIX.
li
go
Passados porém mais de vinte annos~ em 9 de fevereiro de 1566, co-
meçam a ser feitas nos paços da Ribeira, onde se fa7;em ainda em 1567 e
1568, até que no dia 2 de julho de I57J voltam aos Estáos.
D'onde claramente se vê que ainda na epocha do paço dos ~stáos~
que .o. sr.
.1nquts1çao.
""'
Castilho chama real, ahi:' com intermittencias, se albergava a
Razão tinha pois o inquisidor Fr. Jorge de Sant'Iago para, em 3o de
junho de t543, dizer a D. João III que era vergonha não ter a inquisiçlo
uma casa certa para despacho e reuniões secretas (1). Elle tinha sido en-
carregado de saber se nos paços a1tos (os de Alcaçova) haveria espaço Eara
isso e por aqui se avaliará quanto se pensava nesta epocha em edificio
para o temido tribunal.
Devia ser tambem por esse tempo que alguem da famil·a Bragança re-
commendava a EI-Rei Antonio Pinheiro para tratar d'este negocio (2).
~tais tarde, depois de 1552, (3) continuava-se afincadamente tratando
do assumpto.
Francisco Gil, que tinha percorrido com os inquisidores e com o archi·
tecto Miguel d' Arruda differentes edificios, fazia um memorial a D. Ioão m
em que depois de varias considerações, termina com o cortezio .d~sejo,
pitorescamente expresso, de S. Alteza se cansar de o cansar ...
Francisco Gil Julga o carcere de S. Vicente de Fóra muito improprio
do serviço de Deus e do Santo Officio, não só porque representa um ~er­
dadeiro degredo sendo mui trabalhosas as denunciações, mas tambem
porque~ despovoado colno é o sítio, nada mais facil que arrancar os presos
ás justiças inquisitoriaes, ttndo por isso todos os males e nenhum bem.
E o carcere da fé de,,ia ser no melhor e mais forte Jogar e çle melhor

serventia que houvesse em Lisboa. Mas ainda a outra .condição se devia
attender: á economia, por evitar gastos grandts, como escrevia Fran-
cisco Gil. .
Nestas condições aconselhava elle como melhor sitio para inquisiçio
a alfandega da Ribeira, o11de se {a'{ a Relação, passando esta para os
Está os; ou então na carreira de .Santo Antão, juncto da porta de Sanf Anna,
onde teem perto os letrados de S. Domingos.
Não nos chega ao conhecimento a importancia ligada a Francisco Gil,
mas, o que é indubitavel, é que não foi a Relação que se fixou nos Estáos.,
mas sim o Tribunal do Santo Officio de Lisboa e no Regimento de 1552
lá vimos algumas disposições especiaes quanto a este edificio.
Um outro ponto interessante era saber até onde este tribunal podia
dictar as suas ordens, por outras palavras, qual a sua area jurisdicctonal.
A fl. 4 v. o do já citado codice 977 dos J.\lalluscriptos da Li11raria da
• Torre do Tombo, encontra-se a copia authentica da commissão passada
a Fr. Jorge de Sant'lago e ao Licenciado Jorge Rodrigues para inquisi-
(1) Doe. XL. .
(1) D!)c. XLI. Suppomos o documento de pessoa da família Bragança por causa do
sello ~ue se encontra no fecho.
(3) Conjecturamos isso, apezar de não ter Jata o Jocumento em que nos funda-
mos (doe. XLII) porque nelle se fazem referencias ao Inquisidor Paredes que .foi DO·
meado em •552.


I
-........-- ....................................
dores ne.sta cidãde de lixboa e seu arcebispado, em 10 de novembro
de J S4o.
Qual fosse porém a area exacta do arcebispado de Lisboa é o que não
é facil sabtr. Mal vae a quem pensar que de tal assumpto se occupa a
Historia ecclesiastica. da igre.ja de Lisboa de D. Rodrigo da Cunha. O
erudito prelado, seguindo a corrente da epocha, occupa-se quasi exclusi· •
vamente das vidas dos prelados deste Re_yuo, uossos pr·edecessores; o re· to
sio vidas de sanctos, fundações de conventos e nada do que immediata-
mente nos interessa.
A 22 de julho de J55o o cardeal D. Henrique, attendendo aos muitos
crimes de heresia que se commettiam na Ponta do Sol, expressamente
encarregava da sua repressão os inquisidores de Lisboa cuja jurisdicção
estendia assim a toda a ilha da Madeira. (1)
Mais de um anno depois, em 4 de. agosto de J551, a acção dos inqui-
sidores de Lisboa alargava se a todo o continente e ilhas, exceptuado só-
mente o arcebispado Cle Evora .. Fôra o caso <:~ue os inquisidores de Lisboa
estavam a braços com um christão novo da Guarda: sobre esse aconteci-
mento, temendo talvez conflito de jurisdicção, consultaram o Inquisidor
Geral, cuja resposta de 8 de maio, (2) lhes foi inteiramente favoravel e
na mesma data 1hes era expedida u·ma provisão alargando-lhes, como dis-
sémos, a jurisdicção. (3)
Em 1S79 dava o cardeal D. Henrique atribuições inquisitoriaes ao
bispo do .Salvador, no Brazil., devendo chamar para seus assessores quaes-
quer padres da Companhia de Jesus e em especial o P. 8 Luiz da Grã;
mas devendo depois re~etter os processos á inquisição de Lisboa. (4)
Um pouco pareciuo era o que acontecia com os christãos que nos nossos
domínios d'Africa se convertiam ao judaísmo ou mahomet1smo. Se elles
se apresentassem contrictos aos vigarios gera·es e pedissem a respectiva
absoltrição, para serem attendidos, necessario lhes era prometter apresen-
tarem-se na inquisição de Lisboa, onde lhes não devia ser imposto h·abito
penitencial. (5) .
Vista a area. jurisdiccional da inquisição de Lisboa sob o ponto de visJa
da quantidade de individuas a ella sujeitos, importa ve-la sob o po·nto de
vista da qualidade.
Com effeito sabemos que, em t55~, o Inquisidor geral encarregava os
inquisidores de Lisboa de conhecerem da culpa de sodomia, ainda que
fosse commettida por quaesquer pessoas privilegiadas de qualquer gráo,
ordem, estado ou qualidade. (6) .
Vej~mos agora os dirigentes da inquisição de Lisboa no seculo XVI.
D'este assumpto j§ Fr. Pedro Monteiro se occupou. Faremos apenas ao
seu trabalho uns ligeiros additamentos.

( 1} Doe. XLIII.
( ~) Doe. XLIV. '
(3) Doe. XLV e XLVI.
(4J Do.:. XLVII.
(5) Doe. XLVIII.
(6) Doe. XLIX.

-...
,

Começa por fallar em João de Mello, a quem o Inquisidor mór D. Fr.


Diogo da Sylva, antecessor do dito cardeal (D. Henrique), havia feito de
seu conselho, e depois inquisidor da Santa Inquisição de Evora. Este foy
o primeiro nomeado para inquisidor da Santa Inquisição de Lisboa aos
16 de julho de J53g. Foy depois bispo do Algarve, e ultimamente arce-
bispo de E vora ( 1)
2 - Fr. Jorge de Santiago, doutôr theologo, formado na Universi-
dade de Paris, e nella lente áa mesma faculdade, religioso da ordem dos
prégadores, foi feito inquisidor aos 10 de novembro de t54o. Havia assis-
tido no saBrado concilio tridentino por theologo do senhor rei D. João III.
Nelle fez huma celebre oração (como aflirma Mireo, De Scriptoribus Ec-
clesiasticis) que anda annexa ás actas do mesmo concilio. Foi nomeado
pelo dito rei bisp<? de Angra, e feito por Julio III aos 13 de agosto de
1552. Era varão doutissimo, ornado de grandes letras e virtudes. Delle
escreveram Sousa na I parte da Historia de S. Domingos liv. 3, cap. 36,
o bispo de Monopoli na Historia geral da sua ordem parte III, li v. I,
cap. 6o, Cordeiro na Historia lnsula11a li v. 6, cap. 1 1, pag. 276, João
M1~el na Galaria e outros. (t)
3 -Jorge Rodrigues, licenciado em canones, feito aos ao de novem-
bro de 1540.
4- Antonio de Leão, doutor em canones, aos 23 de dezembro de
1542·
5- Rodrigo da Madre de Deos, ou D. Rodrigo Pereira, foi da sa-
grada congregação de S. João Evangelista, aos 19 de agosto de 1SS~,
depois bispo <te Angra. Não foi porém deputado do Conselho geral, ou
inquisidor da Mesa grande, como na sua chronica escreveu o Padre Fran-
cisco de Santa Maria.
6 - Pedro Alvares Paredes, licenciado em canones, aos 19 de agosto
de 1552.
7 - F1·. Jeronymo Oleastro, da sagrada ordem dos prégadores, mes-
tre na sagrada theologia, aos 4 de outubro de 1555. Delle escrevemos ji
no catalogo dos inquisidores de Evora.
8 - Ambrosio Campello, doutôr em canones, aos 21 de outubro de
1555.
g-Jorge Gonçalves Ribeiro, licenciado em canones, aos 14 de agosto
de 156o.
10-- Fr. Manoel da Veiga, da sagrada ordem dos prégadores, mes-
tre na sagrada theologia. Delle escrevemos já no catalogo aos inquisido-
res de Evora, aos 9 áe junho de t562.
11 - D. Manoel dos Santos, bispo de Targa, que foi primeira cadeira
nesta inquisição, 1 3 de dezembro de 1 '64.
12 - Pedro Nunes, doutôr em canones, 7 de outubro de 1565.

( 1) D'elle jé detidamente nos occup4mos (N. do A.).


(2) De fi. 'h v.o do codice 97.7 dos Manuscriptos da livraria da Torre do Tombo,
consta com efleito a nomeação d' este inquisidor com o Licenciado Jorge Rodrigues em
10 de novembro de 1S4o. Prestaram juramento no mesmo dia •nas casas do muito u-
cellents príncipe e reyerendissimo senhor ho senhor D. Henrigue. (N. do A.)
g3
......._.._.....__._ .. ___...._........___._
r3-D. Miguel de Cast1 o, doutôr em theologia, 18 de junho de t566.
4

Depois foi deputado do Conselho geral, bispo de Vizeu, arcebispo de Lis·


boi, vizorei d'cste reino e seu governador.
14- Si111áo de Sá Pereira, doutôr em canones, 10 de março de 1S6g.
J5- Antonio Telles, doutôr c1n canones, anno de 1577· Havia sido
inquisidor em Evora, e foi depois deputado do Conselho geral.
16- Diogo de Sousa, doutôr em canones, 3o de dezembro de 1578.
Havia sido inquisidor de Coimbra. ~,oi depois deputado do Conselho ge ..
ral, bispo de Miranda, e arcebispo de Evora.
17- Matheus da Silva, licenciado em canones, deão da igreja de Lis-
boa, 4 de Maio de J583.
r8- Barlholomeu da Fonseca, doutôr cm canones, r5 de julho de
1583. Havia sido inquisidor. em Goa, depois cm Coimbra. Ultimamente
foi d(putado do Conselho geral. ·
rg- Lui{ Gouçal1'es de Ribafi·ia, doutôr cm canones, 11 de abril de
1586. Havia sido inquisidor de Coimbra.
20- Malloel Alvares Tavares, licenciado em canones, 17 de março
de t5g3. Havia sido inquisidor na cidade de Evor& e depois foi deputado
do Conselho geral.•
Vejamos os deputados da inquisição de Lisboa:
c1 -O Padre Mestre Fr. Jerouynzo de }Jadilha, da sagrada ordem
dos Prégadores, foi feito deputado a' este tribunal pelo sereníssimo cardeal
Infante J). Henriqut:~ Jnq~isiJor Geral d·este reino, no anno de 1540. Era
castelhano de nascimento, de geração nobre, insigne en1 letras c virtud, s.
Foi chamado para ellc pelo senhor rei D. João 111 pnra visitador e refor-
mador da sua ordem, com poder do Rcvcrendissimo Geral. D'clle nesta
occupação de deputc,do escreveo Caccgas na sua historia manuscripta,
f, I. 2. Foi prior do convento de S. Domingos d'esta côrte e depois pro·
Yincial. Falleceu com opinião de santidôdc aos 8 de agosto de 1544 no
convento de Aveiro. D'elle escreveu Sousa na Histo1·ia de S. Domingos,
liv. 3.0 , cap. 14, mas diminuto.
2 - Ma11oel Falcão, aos 3 de julho de 1S42.
3- Amhr·osio Can1pelo, em 7 de à'laio de 1545. ,
4- Jo,·ge Go11çalves Botellzo, en1 5 de agosto de 1 545.
5- Martim Lopes Lobo, em 26 de janeiro de I ~5o.
6- Fr. Gaspar dos Reis, da sagrada ordem dos Prégadores, doutor
em Thcologia pela Universidade de Paris c nella lente da mesma facul-·
dade. Foi o pr1mc!ro Re\·cdor dos livros que houve neste reino, por or-
dem do Summo Pontifice. Acha-se assinado Deputado cm hum concelho,
que o Cardeal Infante D. Henrique, sendo Inquisidor geral, tomou nos
Paços da Ribeira d\! Lisboa sobre negocios pertencentes á Inquisição, cm
g~e tambem assisti o_ o ~1cstre inquisidor f,r. Jcronyir.o Oleastro e outros
Mmistros, em J 2 de maio de I556. Consta que já havia sido inquisidor
em Evora em outubro de 15'4 da licença que deu para Damião de Goes
mandar imprimir na mesma cidade o tratado, que intitulou : Urbis Olisi-
ptmis descriplio, cuja licença se acha in1pressa na folha ultima. Havia sido
um dos oito theolo8os dominicanos, que d'este reino foram enviados ao
IIJrado concilio Tr1dentino em differentes occasiões. Foi bispo titular de
12
94 ,
----·------··-----·· I I I I lP

• Tripoli, coadjutor do dito cardeal Infante no arcebispado de Evora, feito


por r>aulo IV aos 17 de novcn1bro de 1:,55. ~lorreo no de 1S77· D'clle
escreveram Cacegas, Sousa, Lopes, Altan1ura, João ~1iguel e outros, to-
dos diminutos.
7 - Simão de Sá Perei1·a, cm 7 de março de I55g.
~- F1·. Mauoel da ~''eiga, da sagrada orde1n dos Prégadores, ?tlestre
na 5agrada Theologia, em 13 de junho de t55g. Foi depois inquisidor
nesta Inquisição c nas de Evora e Coimbra. Falleccu no convento da sua
ord~m da villa de Aveiro, d'ondc era natural, aos 8 de abril de 1575·
9-Fra11cisco Pi11lzeil·o, cm 1S de dezembro de 1557·
10~Lui1_ de Albuque,·que, cm 15 de dezembro de •557·
II -Dual·/ e da Cuulza, deão do Porto, cm 21 de janeiro de Is sS. Foi
porcionista de S. }:laulo.
1 2 - Ma1·tinz Piulzei1·o, em 16 de março d'! 1 56 5.
•3- D. Afio uso .• • em 2Q de março de 1 565.
14- Aut,,uio Toscano, en1 3o àe agosto de 1 ç65.
IS-- All!01lio Ma7·tius, cm I o de dezenlbro de 1 56s.
16- fii·a1lcisco a·~ Mel/o, em 28 de junl]o de 1568.
17 ~L!!!·;_ A!~'.:z·::s ,ie O/í1•eirL1, no n1es1no.
1M- Baltlzasa1· Li111po, n~· mesmo.
19- Je1·ollynzo Ped1·oso, que era do Dczembargo d'EI-Rei e1n 27 de
janeiro de 1 573.
20- Miguel de Cas11·o, doutôr cm t!1f,~!ogi~, ~n1 :8 de janeiro
de 1 573.
21 - Anlonio Peres Bullzão, provisor do arcebispado de Lisboa, em
28 de j~neiro de 1573.
2 2 - O Doutôr Ped1·o Nuues, cm 12 de julho de 1574·
2 3 - A1ltonio Dias ca,·doso, em 12 de março de I 576·
24- Rod1·igo Ay1·es Monteiro, em 19 de julho de 1576. Era collegial
de S. Paulo.
2 5- Lu i~ Gonçalves Ribafrla, em 29 de julho de I5j6,
26--r;,.. Bartholonzeu Fe1·1·eira, da sagrada ordem dos Prégadores
(pritnciro d'este nome no serviço da Santa Inquisição, em nossos dias co-
nhecemos o s_egundo, deputado na Inquisição de Evora) foi mestre na sa-
grada thcologaa, em 3 de novembro de 1 576.
27- AJa1·cos Teixeira, em 24 de julho de 1 574·
2~- D. AlollSO Colona, cm 3 de outubro de I 583.
29 - Ru)" Sobri11ho, para votar na 1tlesa em todas as causas c não se
lhe dá titulo. em 23 de novembro de 1 s83.
3o- D. Sebastião, bispo de Targa, em 22 de fevereiro de I583.
31 - Anto11io de Bar1·os, desembargador da Casa da Supplicação, em
2 de julho de 1 587.
32 -João Tezxei1·a ( ..abra/, em 28 de abril de 158g.
33 ___.Lopo Soares d' Albergat·ia, em 9 de novembro de I 58g. Foi in-
quisidor em Evora e pelos seus achaques largou c veio ser deputado
nesra inquisição de Lisboa com uma honrada provisão.
34- Ma1·cos Go11çalves F1·a'{ão em 2 5 novembro de 1Sg6.
35 -Diogo ~,.at Perei1·a em 12 de marco de 1Sg6.
----...
9S
................
·-·--·~··-·--·- ..._..

36- Heitor Fut·tado de llfendoça, deputado em Evora no primeiro •


de julho de 1Sg6 e mudado para esta de Lisboa.
37 - D. A11tonio Pereir·a de Mene~es, em 12 de setembro de 1Sg8.
38- D. Francisco de Bragauça, etn 3o de setembro de 1Sgg. Foi
porcionista de S. Paulo, deputado da l\lesa da Conscienci3, ccr:~;(O de
Evora, deputa&u dv Con~~Hiü gc:ral, \:O:tnni~~uria geral da Bulia, reforma-
dor da Uuniversidadc. Teve o logar eclesiastico do Conselho de Portu-
gal cm Madrid, conselheiro d'Estado de I-•~elippe. Estava nomeado Presi-
dente da Mesa da Consciencia, quando morrco já retirado cm Coimbra.
Sepultou-se no collegio da Companhia da n1esma cidade.
3g- Domi11gos Riscado, em 4 de fevereiro de 16t,o. •
Vejamos agora os Promotores para depcis vermos os notarios. Será
ainda nosso _guia o trabalho de Fr. Pedro Monteiro.
c 1 - O Doutô1· Filippe Heuriqucs, dcsen1bargador da Casa da Suppli-
cação, havia sido creado Promotor pelo Inquisidor geral I.>. Fr. Diogo da
Silva etn 2 de jan~iro de 1'37. Foi depois eleito pelo Serenissimo Car-
deal Infante por a esta Inquisição em l 7 de julho de 1540.
2 - O lice11ciado Francisco Coelho em 18 de agosto do mesmo anno.
3- O doulôr EstePáo Pinto ( 1) cn1 22 de novembro do mesmo anno.
4 -- O doulôr Gaspar de l ,iguei1·cdo, em 19 de julho de 1544.
4

5-O doutor Ch,·istováo Leitão, em 9 de abril de 1545.


6- O licellciado Jeronynzo de Pe,f,·osa, cm 1 de março de 1S6o.
7- O lice11ciado Marcos Tei.'\:eir,l, cm I3 de junho de t573·
~- O doutô1· Antonio Dias Ca1·doso, cm g de n1nrço de 1 :,7s.
9- O lice11ciado Ped1·o de Oliz,eira, cm 4 de junho de 1584.
10- Salvado,· de Mesquila, en1 4 de junho d~ J5go.
11 -~!arcos Gil f,,·a{áo, em 3 de fevereiro de t5,;6.
12 - O ,foutôr João Al1'es B1·andão, cm 27 de maio de t5g6.
t3- O licenciado llla1loel Pe1·eira. cm 16 de setembro de J5g8.
14- O liceuciado Pedro Gc11zes, conego d'Elvas, em 6 de junho de ,
IÚOO. :t
Vamos aos notarios para finn1i~ar a enumeração dos dirigentes da in-
quisição de Li~boa, em que, como já tivemos occasião de dizer, seguimos
passo a passo o trabalho de l~r. Pedro l\lonteiro:
c 1 -Diogo 1·,·aJ 1assos, cnpell5o da Rainha, feito pelo Inquisidor ge-
ral D. l~r. D1ogo da Silva, en1 10 de outubro de 1'36. Teve depois pro-
visão do mesmo cargo pelo Scrcnissimo Cardeal Infante D. Henrique em
17 de julho de r54o.
2 - lo1·r;e Coelho, cm 26 de sctcn1bro de 1540.
3 - Auto11io Rod1·igues, capellão do c: arde ai O. Henrique, em 26 de
setembro de 1S4o. (2)

{1) A fl. 6 do codice 977 dos Al. 11JUScriptos da Torre do Tombo, que pertenceu á
inqutsição de Lisboa, vem em vez de Pinto. J.Jreto. Tambem &hi se daz, a fi. 12, que para
servir de Promotor, no impedimento de Estevão Preto foi nomeado o Licenciado João
da Fonseca.
(2) Prestou juramento cm 24 de novembro (do citado codice 977, fi. 6).
.........,.._......_.,...... .. .... -.

4 - Gr·acia Lasso, cape lião d'El-Rei cm 5 de no\"e1nbro de 1S43.


5- Paulo da Costa, copellão do Cardeal Infante, em 3o de outubro
de •544·
6- João de s,111de, csmolér do dito cardeal, em 19 de agosto de t552.
7- -~1al.oel co,·deil·o, em 20 de agosto de 1552.
g --João Gwgo, cm ~o de ngàsto de I552.
9- Bento Leite, em 7 de outubro de t556.
1 o- Donzi11gos Sinzões, cape lião do Cardeal Infante, em 28 de junho
de 1558.
11 - Sinzão Estaço, em 21 de dezembro de 1S64.
1 2 -João Velho, em 20 de fevereiro de r565.
13- Luis Salgado, c~pelláo do Cardeal Infante, em 4 de fevereiro
de r566. ·
14-B,·as A!Jonso Cota, capellão do Cardeal Infante, em t6 de se-
tembro de J566.
1 ~- Jo1·cre de Pe11alva, cape lião d'EI-Rei, em 2 de janeiro de 1S7o.
J G- Pedro Alz,es Solto nzayor, caoellão do cardeal Infante, em 12 de
julho de I57o· • ·
17- Mauoel Allflllles, cape lião do Cardeal Infante, cm 19 de março
de I57•·
i8- Cosnzc Antonio, capeJião do Cardeal Infante, em 13 de dezem-
bro de 1S71.
19- João C,lt1lpelo, cape lião do Cardeal Infante, em 21 de outubro
de 1572.
20- _Leoua1·do Pe1·eir·a, em 2S de agosto de 1574·
21 - A11touio Pi1·es, cape lião do Cardeal Infante, em 18 de maio de 1S7S.
2 2 - Heitor Fer11a11des, em 19 de julho de 1578.
23- Ba1·1holon1ell Ferllalldes, em 19 de julho de 1578.
24-Jo1·ge llfartius. em 12 de agosto de 1581.
2 5 - !Yiauoel f.,fari11ho, em 11 de agosto de 1593.
26- F,·a,~,·isco de Bu1·ges, cm 20 de novembro de 1 599·~

VIII

Privilegios, conflictos internos e externos e visitações


da Inquisição de Lisboa

Depoi3 de termos visto, no capitulo IV d'este trabalho, os privilegias


cspcciaes de que gozavan1 os membros do Conselho geral do Santo Offi-
cio, e no capitulo V genericamente os de todos os officiaes da inquisição,
ctunpre referir os privilegias espe~iaes da inquisição de Lisboa.
1\quelle _q_uc.. conheceanos tem ilnportancia principalmente economic.J.
El-rei D. João III, attendendo ás grandes despezas da. inquisição de
Lisboa, ordenou em 20 de março de 1545, que lhe fossem entregues todos
os bens e dinheiros pertencentes á real fazenda por seguirem para fó~a
do reino, quer pelo porto de Lisboa, quer pelo de Setubal. (1) Dois annos

(a) Doe. f...



97
-..····-·-···-·-----
depois, talvez para pôr termo a quaesquer contendas, declarava·se que
essa mercê era concedida sem embargo das que tivessem sido feitas á
Redempção dos Captivos. Em 9 de dezembro de I s63 D. Sebastião con·
firmou-a e um anno depois, era aclarada dizendo comprehender os bens
d'aquelles christãos novos que, sem licença d'el-rei, se ausentavam e ein-
barcavam os seus haveres em Lisboa ou Setubal. D. Philippe I, em 21
de março de 1S86, confirmou este privilegio e referio-se em especial a
uns oito centos cruzados,
,., . .sobre
. . que pendia litígio, que definitivamente pas-
saram para as maos JnqutsJtortaes.
Não era pouco dispendiosa e exigente a justiça da Inquisição!
Talvez porque a situação do Santo Officio era ass1m cumulada de
privilegias e portanto provocante de invejas, de alguns conflictos internos
nos chegam noticias se bem que é de prever muitos ficassem sem o mi-
nimo vestigio. Depois veremos se o excessivo zelo da Inquisição de Lis..
boa provocou tambem algumas questões externas.
Em todas as inquisições os conftictos internos foram principalmente
provocados pelas rivalidades em que a creação do Santo Officto deixou
os prelados das dioceses com os respectivos inquisidores. Verdadeiras
questões de hyssope, como primazia de Jogares nos autos da fé, foram
Caúlhas que por vezes ateiaram as labaredas. De varias sabemos das in-
guisições de Evora e Coimbra, mas por ora occupemo-nos sómente de
Lisboa.
A' frente d'esta diocese estava, por 1S6o, Dom Fernando de Vascon-
cellos e ~ienezes de quen1 a historia reza não ter manti·do sempre cordeaes
relações com o poderoso Inquisidor geral D. Henrique. Com etfeito, no
dia 20 de março (1) um notario do Santo Officio, Manoel Cordeiro se
chamava elle, sobia as escadarias do paço archiepiscopal a fim de reque-
rer o arcebispo a que nomcasst! um seu representante para assistir ao
despacho final dos encarcerados na Inquisição. Trabalho baldado e inutil.
D. Fernando de Vasconcellos negou-se terminantemente e declarou que
só nomear ia alguetn, se lhe reservassem o logar que lhe pertencia que
era o segundo, isto é, á esquerda do f.residente, desde que á direita ficas-
se o representante do Inquisidor gera • E por mais que o notario inquisi-
torial insistisse, só obteve como resposta que a responsabilidade dos jul-
gamentos recahia sobre a conscienc1a dos tnquisidores porque sem assis-
tencia do seu representante era tudo nullo.
Tambem a acção da Inquisição de Lisboa provocou conflictos externos.
Os extrangeiros residentes no nosso territorio eram alvo de especial
vigilancia. ·
Por isso, em 10 de janeiro de t56I, Carlos IX, rei de França, expedia
a todos os seus subditos uma carta patente em que prohibia aos seus vas-
sallos que iam commerciar a Castella, Portugal e seus dominios, sob pena
de confisco nos corpos e bens, de ali levarem, ou mandarem por outras
pessoas, livros compostos pelos sectarios da supposta religião, ou suspei-
tos de heresia. Prohibia-lhes egualmente, debaixo das mesmas penas, du-
rante a sua estada em Portugal e Hespanha, acontecendo tratarem ou dis-

(t) Doe. U.
r.P
,,.J
-
---·...........·-······-···-····-··-......
cursarem sobre religião, o proferirem palavras escandalosas e contrarias á
religião catholica, em todo o tempo observada não só em Portugal c Hes-
panha~ como tambem em França. Deviam outrosim sbster·sc de praticar
actos contra essa religião, para não darem occasião aos officiaes dos reis
de Portugal ou Hespanha procederem rigorosamente contra elles, como
já o haviam feito en1 alguns Jogares, o que poderia causar a interrupção
no escambo das fazendas d'um e d'outro reino e a continuacão •
da mutua
confiança e da honesta liberdade com que os vassallos da sua corôa cos-
tumavam traficar e communicar com os dos seus reinos. Terminava re-
commendando em especial a publicação d·esta carta nos portos de mar
parJI se poder proceder rigorosamente contra os que delinquissem. {I)
No proximo capitulo se verão as denuncias que houve contra muitos
estrangeiros e quando tivermos extractado todos os processos veremos o
resultado d'essas denuncias. Para cJics se fez cm 1~61 um Regimento (2)
bastante draconiano, que começa por especialmente se referir ao proce-
dimento que deviam ter com os navios ancorados nos nossos portos.
Para os visitnr devia haver um interprete, huma pessoa que e111~1da
as li11guas das dive1·sas pc.1r·tes, que, acompanhado por um sollicitador do
Santo officio e por um escrivão, se devia dirigir em primeiro logar ao ca-
pitão do na vi o, ou a quem suas vezes fizesse.
Para Lisbo!l havia disposições especiacs: tres familiares dividiriam en-
tre si os navios conforme a sua nacionalidade; o~ inglezes pertenceriam
a um, os allemfies e flamengos a outro c os francezes a(J terceiro. Qual-
que.r ~'elles, logo que os n~vio_s entrassem _da t?':rc de Belem para dentro,
devta 1r prevenir o re~pecuvo Interprete e Jnqutstdores.
~las voltemos á visitacão
. do nnvio. Com toda 3 urbanidade devi3m os
representantes do Santo Officio indagar se trazia livros suspeitos e preju-
diciaes á religião chistã e fazer ver aos respectivos capitães quão vantajo-
so seria para elles entrega-los no caso affirmativo, para se niio proceder
contra !Jos culpados conz todo rigo1· de J·ustiça. l"ambc1n o capitão devia
declarar se lá vinham frades ou clcrigos para residir em Por(ugal e es-
tes tinham por obrigação, logo que pose~ sem os pés cm terra, dirigir-se á
Inquisição, ou não sendo séde de tribunal ao bispo, ou seu representante.
Ainda o mesmo capitão devia dizer t1uacs as pessoas que veem para re·
sidir no nosso paiz, cujos nomes ficartam apontados.
Este apontamento devia juntar-se á lista dos t·xtrangeiros residentes em
Portugal que se devia organisar, assim como das pessoas que os agasa-
lham, ou lhes dão de comer. Para estes hospedeiros tambem o Regimen..
to em questão consignava disposições especiaes.
Recommendava·lhes que não consentissen1 que elJcs con1essem carne
nos dias prohibidos pela Egrcja e que os catechisassem de maneira a
mostrarem os livros erohibidos que trouxessem e a irem-nos entregar á
mesa da Inquisição. Era essa a forma de se livrarem de :ncommodos,
aliás teriam as pessoas que os hospedavam obrigação de os irem denun-

( 1) Quadro ele1nentar, tolll, 3. o, pag. 38o.


(2) Doe. Lll.
c!ar. Egualmente tinham de proceder se elles dissessem ou fizessem qual-
quer coisa que lhes parecesse contraria á nossa fé.
Assim se exercia em volta dos extrangeiros uma espionagem de tal or-
dem que raro era o descrente que podia escapar e Deus sabe quantos até
seriam injustamente coodemnados! Que ella deu o de\ido resultado adc:ante
verão os nossos leitores.
Uma das suas victimas foi o cosinheiro do embaixador francez João
Nicot·(•). Queimado vivo é natural que essa morte trouxesse contra a In-
quisição a má vontade do representante francez e por effeito d·isso amar·
gamcnte se queixasse em França do Santo Officio ponuguez, que deitara
as garras a nada mais nada menos que trinta e tres dos seus compatrio-
tas, presos quando f\li da sua partida !
O caso levantou celeuma na cône de Catharina de ~ledicis que recla-
mou em favor dos seus subditos. Quando porém a reclamação chego:.~ a
Ponugal já elles estavam soltos per se terem reconciliado e os seus bens
restituídos na integra. Parecia portanto que sobre o caso se de~eria pG1
Pedra.
Não aconteceu portm as~im. As Jamentaçóes de Nicot tomaram tal
~lto que o conselho ~e apossou do assumpto e perante elle te\·e de ir o
nosso reprc:sentante, João Pereira Dantas, declarar, já que a isso o força-
~arn, que as affirmacóes do ministro fr~ncez eram tJ:ag~radas. Affirmara
tlle que tinham fie: do presos trinta e tres fran~ezes e no em tanto no
IDne> de J562 até agosto, tinham sido pres:is dczo~to pessoas, quinze das
C{U a.es ou tinham nascido em Ponugal oa eram residentes ha quinze,
ri~ te, trinta ou quarenta a :mos n!> nosso paiz. Fi~vam ponanto só t~es :
An c::lré Cadré, Luiz Francez e Pedro Babinco. Os dois primeiros eram
CO• klplctamente miserat"eis e tet"e a Inquisição de os s~;stentar quando
es~i veram presos e at' ulrimo,-q~e aJg~ma cousa possuia, foram-lhe resti-
~Ic::ios os bens per comp:eto. I>or ultimo affirmoa estarem todos já em
lif>.erdade.
E assim se encerrcu o incidente c:ue podia ter importancia de m:~ior.
Passemos ás visitações de que temos conhe.:ime:1to terem sido fei-
ta.5 s á lnguisição de Lisboa. Como já dissémos (1) era o Conselho Geral do
~mto Oflicio competente para as orden:.r. As5.im o determinava, como
1"1~os, o respecti\"o Regimento.
A primeira que se fez á inquisição de Lisboa foi a 21 de novembro
de •57•· Sendo a inquisição da cône foram os proprios membros do Coo-
~Jho Geral que a realisaram.
Por elia se ,.ê ~:) que os inquisidores eram demasiadamente brandos
na forma de tratarem os officiaes, de,·enJo informar se bem dos seus cos-
tumes, da mdneira como desempenhavam os seus Jogares~ castigando os que
0 Qlerecessem e prem~ando os cump1 idores d3s suas obr:gaçóes. Não os

(•) Doe., L lfl.


tid (2) Arei. Hist ~ Tol 1\r. rag. 39-'; q~J~:lJ? es:re~e:ntJs esse capitulo oão tínhamos
~ ainda noticia d~s ris:t2;6~s 4 inquisição de l.i,.boa.
{3) Do:. L 1\''.
100

deviam deixar estar na casa do despacho senão quando tratassem dos ne-
gocios para que foram chamados e então os tratariam com a devidà çor-
tesia mas com toda a auctoridade, retribuindo-lhe os officiaes com muita
reverencia. Sempre que o julgassem conveniente podiam os inquisidores
apartar a sua mesa, destinando-se para tal fim uma casa especial. Não
deviam tambem os inquisidores consentir que o Promotor estivesse nos
interrogatorios que se fizessem aos presos mas sómente nas audiencias ju·
diciaes.
Até então as denunciações andavam em cadernos; por isso determi-
nava a visitação que ellas passassem para livros especiaes. Tambem o
mesmo determinava quanto ás reconciliações e de tudo o que sahisse '-do
Santo Officio devia ficar competente registo feito pelos notarios e fiscali-
sado pelo Promotor. ·
Ficava expressamente prohibido aos officiaes e inquisidores o ter hos-
pedes e ao Promotor o tirar qualquer papel do secreto e o tratar os ne-
gocios do Santo Officio com o Inquisidor Geral sem o ter feito saber aos
Inquisidores.
Quanto ás relações com os christãos novos disposições _havia espe-
ciaes: todo, os officiaes deviam ser avisados de que não tivessem convc::·-
sações com christãos novos, nem d'elles tomassem nada fiado ou empres-
tado e em especial o meirinho Damião ~tendes, a quem recommendavam
que se devesse alguma coisa o pagasse.
O Promotor devia ter todo o cuidado em não appellar sem primeiro
fazer todas as diligencias necessarias para a sua apellação.
Por ultimo ainda Damião Mendes era advertido para não ser tão exal-
tado nas conversações com os officiaes.
?vlais tarde, por 1Sj8, nova visitação era realisada.
Em consequencia d ella recebia a inquisição de Lisboa instrucções es-
peciaes ( 1).
Começava o Inquisidor Geral por lhes suscitar a observancia do Re
gimento e provisões que o completavam, devendo para isso ler-se nas epo-
chas nelle determinadas, entregar um treslado d'elle a cada um dos de-
putados e le-Io na Mesa antes do despacho. lt~icavam os inquisidores obri-
gados a terem um caderno em que escrevessem os nomes dos presos, o
dia em que davam entrada nos carceres, em que os interrogavam, em que
lhes publicavam o libello, e quando tinham sido feitos os mais termos
judiciaes conforme o Regimento, afim de não haver dilação alguma por
esquecimento; depois de realisado o Auto da Fé podiam-no queimar ou
rasgar.
Quando os feitos foss~m graves ou de difficil percepção seriam lidos na
vespera do despacho afim dos deputados terem tempo de estudar os pon-
tos duvidosos. Loço que as testemunhas depozessem deviam ser ractifica-
dos os ~eus depoimentos ad ma_jo1·enz cautelam, não vendo os inquisido-
res inconveniente nisto. Os processos que se podiam avocar passavam a
ser sómente os seguintes: aquelles em que, por duvidosos, se não tivess~

(1) Doe. LV.


101
-...--······-·-················-··---······...
tomado qualquer resolução, ou que, ainda que a tivessem tomado, fosse o
càso tão grave ou duvidoso que devesse ser visto no Conselho Geral ; os
dos relaxados quando a relaxação se determinasse só por um voto de maio-
ria ; os dos heresiarchas, dogmatistas e dos que judaisam no carcere ; os
de pessoas _gue relo Regimento se não podessem prender sem consulta do
Inquisidor Gera e do Conselho. Em todos os casos que acabámos de enu-
merar os inquisidores deviam mandar a copia da sua resolução com os
votos que tivesse obtido.
Se, ao ser ordenada qualquer prisão, o meirinho ou sollicitador a não
pudesse immediatamente executar, ser-lhe-hia pedido o mandado para não
ficar fóra do secreto.
Na occasião do preso tratar da sua defesa ou das contraditas e ter de,
por causa d'isso, fallar com um procurador devia estar sempre presente
um notario para evitar qualquer inconveniente. O Promotor devia rever
com muito cuidado os repertorios, livros das denunciações e quaesquer ca-
dernos que houvesse no secreto e, se achasse nelles algumas pessoas cul-
padas ainda não fallecidas nem julgadas, devia requerer a sua pronuncia e
prisão, conforme determinava o Regimento. E' necessario prover á nomea-
ção de familiares e para isso assentar no numero dos que deviam existir
em cada povoação, tirando d'elles a devida informação da vida, costumes e
lim(!eza de sangue.
E quanto á pragmatica determinava o seguinte : nlo deviam dar ca-
deira d'espaldar na Mesa do Santo Officio senão ás Eessoas seguintes:
fidalgos conhecidos como taes, desembargadores, das Casas da Supplica-
ção ou Cível ou pessoas que tenham esse privilegio; corregedores, juizes
de fóra, vereadores de cidades ou villas notaveis; doutores ou licenciados
por universidades; conegos e dignitarios d' egreja, collegiadas ou cathe-
draes ; vigarios geraes ou desembargadores dos Prelados e Relações ec-
clesiasticas; finalmente aos priores letrados. A's mais pessoas se daria ca-
deira rasa e para isso mandariam ao porteiro que dissesse na Mesa quem
eram as pessoas que haviam de entrar para se lhes dar o assento res-

pecuvo.
O meirinho, alcaide do carcere, sollicitadores, porteiro, dispenseiro e
guardas não tinham assento algum, quando estivessem na Mesa no cum-
primento das suas obrigações e só mente· lh' o dariam quando fosse ne-
cessario testemunharem em algum caso, mas o que nunca podiam fazer
na Mesa ern cobrirem a cabeça perante os inquistdores.
DantJo-se o caso de ha\'er em Lisboa muitos estrangeiros ainda novos
como creados, era pre :iso haver muita vigilancia com os amos não fossem
suspeitos por isso que elles estavam em edade de precisarem ser bem ins-
truidQs na nossa religião ; por causa d'isso deviam es inq~isidores passar
cditos que se publicassem pelas egrejas e nas prégações e estações que fi.
zessem, determinando que nenhuma pessoa, sob grave~ penas, recolhesse
em sua casa um moço estrangeiro sem o fazer saber na Mesa da Inquisição
e, no caso de o ter já feito, devia ·vir immediatamente revela-lo.
Deviam os inquisidores mandar notificar aos officiaes da alfandega de
Lisboa, sob pena de excommunhão que não deix~ssem tirar livro afgum,
nem levar para fóra, sem serem trazidos á Inquisição e nella exa1ninados;
A IBQUisiçlo BK PoBTUGAL • •o Ba•zn.
102 .

isto quer no caso de pertencerem a alguem quer no caso de descaminho,


porque nos dois seriam restituidos, sendo isso possivel.
Por ultimo a visitação determinava qu\! o meirinho tivesse em cada dia
3oo reses e os sollicitadores duzentos como tinham nas outras.
_Esta visitação foi publicada a 1 o de novembro, tendo-se realisado a 12
de Julho. Com ella deveria ficar grandemente melhorado o complexo me-
chanismo da inquisição de Lisboa.

LIVRO I

A Inq11Ui9àó no aeoulo Xvl

IX

As denunciações da Inquisição de Llsbo•

o capitulo II d'este trabalho ( 1) vimos que logo de entrada, no mo-


mento da sua apresentação, o Santo Officio exigiu, da consciencia
de cada christãCJ cumpridor, o vir denunciar certas culpas, ainda
que fossem commettidas por paes, mães, irmãos, ou parentes do
delator.
Foi tsse o pregão lançado do alto dos pulpitos, contido quer na carta
do edito e tempo .:ia graça de 20 de outubro de 1536, quer no mo11itorio
de 18 de novembro do mesmo anno. E não se pode dizer que não fos-
sem bastos os fructos colhido~ de tal sementeira .
Tão bastos que a cxperiencia veio demonstrar aos inquisidores quão
perigoso era acreditar cegamente nos denunciantes e por isso estatuiram,
- como vimos, (2) no artigo 19 do Reginze11to de t552 que os inquisidores
deviam estar de sobreaviso, quando qualquer denuncia se fizesse, e, sem-
pre que podesse ser, s elia assistissem os dois. Infelizmente porém não
era isto possivel na maior parte das vezes.
Vimos tambem, no ultimo capitulo, (3) o interesse com que os visita-
dores da inquisição de Lisboa, em IS71, recommendavam que as denun-
ciações pa~sassem dos cadernos em que andavam para livros especiaes.
~:' o extracto de grande parte d'essas denuncias, acrescido com algu-
mas confissões e reconciliações, que vae inserido no presente capitulo.
Em geral a formula inicial dos depoimentos era a seguinte: cAos •••
de . .• de . .. em Lisboa p_e1... .• ln1quisydor por e/le {o1·ão perguntadas as
teslenunzhas segui11tc:s: F ... testemu11ha perguntada po1· o jurame11to dos
A1'a11gclhos que lhe foy dado se sabya alguúa pessoa ou pessoas que di-
___ ___ .--.....,

(I) p c1g.5. I
{2) Pag. 6g.
(3) Pag. 99· •
I03
~--..-·---········ ...--
sesem ou fitesem alguúa cousa con11·a nosa san/a Fee dise q11e n6 sabra
outra cdusa some11te, etc. • . Estes depoimentos, lavrados pelos nota rios
do Santo Offic,o e, no seu impedimento, pelo proprio inquisidor presi-
dente, eram assignados por este e pela testemunha, quando ella sabia es-
crever e, no caso de o não saber, a rogo pelo proprio notaria. Todas as
testemunhas eram interrogadas pelo costunze.
Como se verá da leitura d'esses extractos muitas denuncia5 houve que
não tiveram seguimento e d'ahi vem o seu grande interesse historico. As
primeiras foram feitas em Evora, passando pouco depois para Lisboa,
~ert_a~e!lte devido ás hesitações que ha sempre no começo de qualquer
Jnst1tu1çao.
São todas ellas curiosíssimas, porque nos apresentam em flagrante as·
pectos ineditos da sociedade portugueza quinhentista. Uma distinção con-
vem no em tanto que se faça entre os denunciantes : uns, os mais perver-
sos para o nosso criterio actult, vinham expontaneamente delatar; os ou-
tros eram chamados a de pôr.
Seguem-se as denuncias:
A 10 de Janeiro de J537, em Evora, nas pousadas do bispo de Ceuta, inquisidor-
mór, na presença do Dr. João de Mello, servindo 'de Inquisidor-mór, L.tlo Gonçalo Pi·
nbeiro, «deputado c conselheiro da Santa Jnquisição» Dr. Ruy Lopes idem, compa-
receo Francisco Farzão cavalleiro e juiz <tos orfãos em Azan1or que denunciou as ·pes-
soas seguintes; João Alvares do Avellar, vigario d'Azamor por ter dito •que era pecadu
mortall f11vorecer os pobres porque elle mostrada que eram tam soberbos que se nam
podiam sall\"ar•; D. Alvaro d'Abranches, caritão, por ter dito a propoaito do officio de
finados •que lhe avorreçia quamtas armadilhas e lladroyces faziam cleriguos nyso por
comer•; Manoel Rodrigues por guardar os sabbados como fazem os judeus. Pergunta-
do aos costumes disse que aos tres antecedentes tem odio na huüs mais q a outros».
Denunciou mais AntoniO Leite, capitão que foi de Mazagão e estava por capitão de
Azamor, que deixou sahir diversos christaõs, tornarem-se mouros e voltare~ como taes
a Azamor.
A 1 S do mesmo mez e anno, no mesmo sitio, estando a servir o mesmo Inquisidor-
mó", perante elle e perante Antonio Rodrigues. prior de Monsanto, Ruy Lopes de Car-
valho e o L.do Gonçalo Pinheiro compareceu Gaspar Aflonso Agudo, morador em Ta-
vira que denunciou : Mose Adihe, judeu que fôra christfio e que regressara ao judaismo,
uma escrava fôrra que de christã se fizera moura e a sogra de Affonso Vaz Codelha que
de christã se fizera judia.
A 16 do mesmo mez e anno, no meslt10 sitio, estando a servir o mesmo Inquisidor·
mór, perante elle e perante Antonio Rodrigues, conselheiros, deputados da Santa ln·
quisição, compareceo João Nunes Velho, cavalleiro da casa d'El-Rei, que tinha estado
em Azamor onde conhecera um judeu, Mose Adibe, que, em Tavira, era christão ; disse
mais que era verdade que a sogra do Codelha era judia, tendo s1do christã, e que ~.
mãe de João Rodrigues, sendo christã nova guardava os sabados.- No mesmo d1a foi
interrogado Domingos Nunes que denunciou Antonio Fernandes de Alvalade o grande,
termo de Lisboa, e sua mulher, christãos novos que não trabalhavam ao sabbado e tra·
balhavam ao Domingo.
A 18, em mesa, compareceu Atlonso Vaz que disse que, estando clle em Maza ..
gão, no anno da esterelidade, a53 a pouco mais ou menos, muitos mouros se tornaram
christaõs e depois voltaram para terra de mouros, quer de Mazagão quer de Azaanor e
com consentimento de Antonio Leite, capitão d'e~ta praça a quem, era voz corrente,
que elles davam dinheiro. Disse mais que sabe que, em Azamor, estão muitas pessoas
gue foram christãs e agora são judias: sua sogra, Mose Adibe, lsac Cabeça, Beajamim
Rafaia, e Jacob Dudioa.
104
·-··-···-··············-··-····---····...._...
A 22, compareceu (não se diz quem e pela assignatura do depoimento não se podo
sa~er) que de~unciou )oão Rodrigues Éstaço, morador em Azamor, que, sendo cbris·
tao, se fez mo1ro. .
No mesmo dia, Catharina, criada de servir, denunciou um christão novo, por alcu-
nha, Calc.a terra, tendeiro em casa de quem accendiam candeeiros d'azeite á 6.• feira 4
noite e assim os tinham até sabbado pela manhã; ao sabbado não se trabalhava e ves·
tiamse de festa e camisas lavadas e como ella lhes comprasse d'uma vez um vintem de
· cnme de porco a mandaram vender dizendo que era muito gorda e que por isso a nio
queriam comer. Quanto ao costume disse que unha sabido de casa d'ellc:s e lhe nio qui-
seram pagar.
A 23, compareceu Jorge de Freitas ho1nem da cam~ra da Rainha nossa senhora
que denunciou Mór Alvares, christã nova, em casa de quem elle estava aposentado,
como não indo 4 missa, não comendo carne de porco e quando elle denunctante, uma
vez a estava comendo, clla disse que «um porco comia outro•, guardava os sabbados,
vestindo camisa lavada e beatilha lavada, trabalhando ao Domingo. O marido era me-
lhor christão do que a ~ulher.
A 24, compareceu Francisco Fernandes, preto captivo, que denunciou Braz Caldeira,
filho de Pedro Caldeira, escrivão do thesouro, por ter dito que não sabia se Deus estava
na hostia consagrada.
A 2.5, compareceu Estevão Gonçalves, lu\'eiro, que denunciou Christovão Çamorano
tambem luveiro, como bígamo e como não se confessJndo nem a mulher.
A 3t, compareceu Belchior de Sousa Chicharro q_ue denunciou Jorge· Regueira de
Mello por negar o merecim.ento da confissão e seu trmão Vicente Martins de Sousa
Chicharro por ter dito que estava muito bem com a doutrina de Aristoteles que admit-
tia a causa primarta, não admittindo a trindade, não se confessando, comendo carne
aos sabbados e tambem ás sextas.
No 1. 0 de março compareceu Estevão do Couto, cavalleiro da ca~a de El-Rei mora-
dor em Angra, que denunciou André de Tavora, christão no\'01 por ter dito que se lhe não
acontecesse! uma coisa que elle suppunha justa então não cria no poder de Deus.
A 8 compareceu Isabel Soares, mulher de Domingos Nunes, que disse ser verdade
que Filippa Nunes, mulher de Antonio Fernandes, christão novo, moradora em Alvalade,
guardava os sabbados, e não ia á missa.
A t3 compareceu Simão Affonso, reposteiro d'el-rei nosso Senhor, que denunciou
João Gomes, christão novo, em casa de quem, tendo-lhe n~orrido uma filha, elle ouvio
uns canticos que não entendeo bem.
A 1 1 de Maio compareceu Manuel Luiz, criado de D. Pedro d' Almeida, que denun-
ciou a escrava moura Beatriz, escrava tambem de D. Pedro d'Almeida, por ter dito que
não se importava de jurar falso porque o Deus pelo qual se juravn não é o verdadeiro.
O Deus da terra d'ella é o verdadeiro. Igual depoimento fez Antonio de Sousa.

No mesmo dia 11 compareceu Diogo da Costa, clerigo de missa, que denunciou


Nuno Fernandes Lobo por comer carne na quaresma, por nunca ouvir missa, nunca se
confessar, dando assim máo exemplo.
A 1:! compareceu Joio Velho, clerigo de missa, que denunciou João doseiro por
estar casado ~cm se receber á porta da igreja e por se não confessar. Denunciou tam-
bem Oiogo Pires con1o higamo.

A •5, con1pareccu Simão, criado de D. Pedro d'Aimeida, que disse ser verdade que
a escrava ,:'este, Beatriz, como em casa d'elle faltassem umas coisas e sob juramento
fossen1 perguntados todos os criados, respondendo que nada sabiam, ella dissera que
-----
.......................
105

ora via que o Deus d'esta terra nio era o verdadeiro porque se o fosse aquelles que ju·
nvam falso se lhe quebraria algum braço ou perna. ·
No mesmo dia veio Francisco M&chado, tambe111 criado de D. Pedro d'Aimeida, que
confirmou o depoimento anterior.
A 21 de Junho compareceu Theresa Dias, mulher de Diogo Gomes, e denunciou Bea-
biz Origis como tendo-lhe pedido, em paga de certo favor, o dar um membro ao
demonio e que lhe tinha por Isso dado o dedo minimo.
A 22 compareceu, em Evora, (até aqui é tudo em Evora) Maria Fernandes que disse
que Domingas Dias vestia camisa lavada aos sabbados.
De fls. 49 consta que, não se diz em que dia, Aleixo de Sousa veio dizer que era
verdade 'eu irmão Vasco Martins de Sousa Chichorro comer carne ás sextas e sabba·
dos e comer pescado ao Domingo.
A 3o de Janeiro de 1537 compareceu Anna Fernandes que denur1ciou Ignez Pentea-
da, nio se diz por quê.
A 14 de Dezembro de 1537 já em Lisboa e nos Estaos •onde se faz o conselho da
Sam ta lmquisição estamdo hy ho Doutor Joham de Mello, inquisidor,, compareceu João
Antão, alfayate que disse que via guardar os sahbados a Catharina Mendez e sua irmã
que faziam o comer da 6.• para o sabbado, sendo christãs novas, assim como a um al-
fayate que morava defronte d'elle. · . •

No mesmo dia foi chamado Mestre Antonio que denunciou um individuo por alcunha
Pão Relheno por ter dito que S. Pedro er.a uma cousa postiça, que nio tinha poder e
a respeito de Nossa Senhora que só havia um Deus verdadeiro.
A 17 de dezembro compareceu Simão de Vera, criado de D. Pedro d'Aimeida, que
disse que n'um armario, em casa de Mestre Jeronymo, christão novo, encontrou um li-
vro grande, escripto em hebraico.
No mesmo dia compareceu Catharina Gonçalves, mulher de Christovão Ferreira,
que disse que Maria Fernandes, christã nova, mulher de Fernão Garcia, sapateiro, numa
certa 2.• feira e~tava vestida de festa, não come, nem o marido nem os filhinhos espe·
rando que appare cesse a estrella para o fazerem, disse que Branca Mendes, christã nova,
mulher de Manoel Lopes, tamhem christão novo, alfayate, ausente na lndia, aos Domin-
gos fazia marmelada e aos sabblidos não fazia cousa alguma ; tambem assim procediam
Catharina Fernandes e Isabel Machona.
A 19 compareceu Catharina Gonçalves, ~iuva, que disse ter umas visinhas que tra-
balhavam ao Domingo e descançavam tiO sabbado.
A 22 compareceu Pedro Anes, ferreiro, que disse ser verdade que Beatriz de Ca-
ceres e Branca Lopes, christãs novas, guardavam os sabbados, dias em que, na casa
onde moravam, se junctavam muitas christãs novas e um christão nO\'o, velho cres-
po, e depois ficavam com a porta fechada e com pannos lavados nas janellas. De
1nverno entravam antes de nascer o sol. Aos Domingos, as duas denunciadas traba-
lhavam, e quando o parocho vinha escrever os nomes das pessoas por causa da confis-
sio, ellas, estando em casa, mandavam dizer que tinham sabido.
No mesmo dia compareceu Guiomar Alvares, mulher de João Queimado, ourives
q_ue disse que a uma chrastã nova, irmã de Duarte Vaz, tabellião, ouvira dizer a propo-
sno d'uma coisa falsa que isso era tão verdade como cho outro que diz que com oito
piies e dous pexes deu de comer a tantas mil pessoas,.
-
No mesmo dia compareceu I gnez Fernandes, viu va, que disse que uma christi nova,
mie de Isabel Antunes, costumava aos sabbados pela manhã fazer certas resas, vestin-
do nesses dias, ella o a filha, camisas lavadas. •
100
--·-------
A 2 de Janeiro de 1538, em Lisboa, nos Estáos, compareceu Antooia Cardosa, viu v a,
que ouvira dizer a Isabel Nunes, christã nova, que •toda a pessoa que vivese ria ley de
Mousem que nüca lhe falleçeria nada•; disse tambem que Manoel de Brito, fidalgo, ti-
nha trazido de Tunis uma judia que tinha posto cm casa d'ella por ser casado e ahi vi-
nha faltar com elln Pedro Alvares Branco, christão novo, sem a testemunha entender
coisa alguma, assim como Isabel Nunes, que lhe levava de comer, Maria Dias Pitadira,
christã nova, que lhe levava camisa, coifa e beatilha e tambem de comer, assim como
•huú callçado velho que andaua uendendo e cõprando por esta cydade•, os quaes tal-
lavam com ella de maneira que a testemunha nada entendia.
·No dia 3 compareceu Gaspar Nunes, alfayate de Pedrogão Pequeno, que disse que
Gatharina Fernandes, mulher de Simão Lopes~ christão novo, passava os sabbados re-
zando, vestida melhor que de costume.
No dia 4 compareceu Ignez de Faria, viuva, que disse que costumava ir a casa do
L. do Gil Vaz Bugalho, do desembargo d'El- Rei, e quando ia aos sabbados tinha notado
que o guardavam, vestindo-se de festa, fingindo-se doente o dono da casa para não ir á
Relação, a filha pondo a sua cadeia d'ouro e cota de chamalote e dizendo á escrava
Maria, preta, que guardavam o sál,bado que era o seu Domingo ; os cordeiros e gallinhas
mandavam· nos matar fóra, a casa de Pedro Vaz, christão novo, d'onde vinha o pão asmo.
A dona da casa Beatriz Vaz dissera que niío comia lampreia por ter nojo e lhe parecer
cobta ; os coelhos que appareciam mandavam-nos vender, não comiam toucinho nem
arraia e como houvesse necessidade da testemunha matar uma JtaiJinha o Licenciado
deu-lhe um canivete para a matar muito depressa e fora de casa. Vira-os todos tres re-.
zando e a mãe do Licenciado lamentava-se do filho estar judeu. O Licenciado tinha
uma Biblia em lingoagem.
No dia 9 compareceu Isabel Fernandes, mulher de Pedro Fernandes, barbeiro, e
disse que Catharina Gomes, solteira, c sua mãe trabalhavam aos domingos e dias de
festa o que ella sabia por ter ouvido dizer a umas mulheres com quem ellas estavam
e guardavam os sabbados.
No dia 1o compareceu Balthasar Pires, escrivão dos orfãos, e di!se que tinha vi~ to
Catharina Gomes trabalhar no dta de Natal, aos sabbados pôr os seus vestidos bons e
meadas d'aljofar ao pescoço.
No mesmo dia compareceu Braz Affonso que confirmou o depoimento anterior
quanto a Catharina Gomes. .
No dia 14 compat·eceu Guiomar Luiz, mulher de Baltazar Pires, que confirmou o
depoimento d'ellc. dizendo que unham espreitado Catharina Gomes por uma greta do
sobrado e a tinhan~ \"isto em dia de Natal lavrando cm uma almofada, tendo uma cada-
neta t.ão grande como a almofada onde lavrava e era allumiada por uma candeia metida
num mancebo; aos domingos e dias sanctos via-a coser e sabia que eiJa pos~uitt duas
n1eadas d'élljofar, uma com extren1os d'ouro e outra sean extrernos, além d'uma pera
d'ambar e un1as manilhas d'ouro grossas nos braços e um collarinho d'ouro atochado
o que tudo prova que não era por necessidade que trabalhava. Uns sabbados guarda-
\'a-os e outros não. Quanto ao costume disse que se tinham zangado, apesar da teste·
munha não querer ~ai 4 denunciada.
No dia t S compareceu Sebastião Coelho que disse que estando a falia r com Catha-
rina Gomes ella lhe disse que jeiuav.a e que o fazia por occasião das festas dos christãos
novos.
No dia 16 compareceu Belchior Fernandes que disse que; indo comprar uns gabões
de burel e uns calções a uma fanqueira, Anna Dias, chnsta nova, ella suppozera que
eram para u1n judeu cujo elogio fez e acrescentando que os gabões tinham sido cosidos
por tres mulheres com muitas bençãos.

No dia 18 compareceu Lopo Soares, clerigo de missa, que disse que tinha recebido
, r

107
--··········-····-········--~············· ....
4 porta da egreja de Santa Justa Pedro Affonso com Filippa Vaz, assim como João Gon·
çalves, trabalhador na Casa da India, com Catharina Gomes.
No dia 19 compareceu o Bacharel André Pires, juiz do crime de Lisboa, que disse
que, indo no cumprimento das suas funcções a casa d'um christão novo em cata d'um
ladrão, á sabida, os homens que tinham i~o com ell~ e que tinham ficado .á sua espe·
ra, lhe entregaram 3 ou 4 livros, em hebra1co que unham lançado d'uma Janella para
fôra. Dias depois Gonçalo Fernandes veio pedil-os, dizendo que pertenciam a ahuú judeu
destes de synaes de Fez que aquy andam», depois disse-lhe que se os nãu queria dar a
elle que os desse a Nuno Henriques Men~s que bem lh'os pagaria. O Dr. João de MeJlo
inquisidor que presa dia sempre a estas inquirições mostrou então uns livros á. teste.mu-
nha, ~ue ella confirmou serem os mesmos. Egualn1ente nelles lhe fallou o Ltcenc1ado
Gil Vaz Bugalho.
No dia 21 compareceu Pedro Affonso bainheiro que disse que, querendo entregar
um dinheiro a Braz Affonso, christão novo, este, por duas vezes, nio consentira que o
fizesse ao sabbado.
No dia 21 compareceu Beatriz Franco que disse que Catharina Fernandes e seu
marido Gabriel Dias moravam na sua loja por debaixo d'ella ; via-os guardar os sabba·
dos, ella vestir camisa lavada. Disse mats que ouvira dizer que Maria Rodrigues era
bruxa. Espreitava-os por um buraco e quando a testemunha foi chamada á Inquisição
vio-a entao subir com a lã embrulhada num lençol.
No dia 23 compareceu João Rombo que disse que Mestre Nicoláu, francez, pedreiro,
lhe mostrara uma mandracolla gue trazia, do tamanho d'um palmo e •era figura de
macho cõ cabellos na barba e é todnllas outras partes• com o qual objecto alcançava
quanto desejava.
No mesn1o dia compareceu Manocl Borges, que esteve na quinta de Fernão de
Barros, ao chafariz de Arroyos, e accusou Pedro Fernandes e sua mulher )sabei Fer-
nandes, como judaisantes.
No dia 7 de fevereiro compareceu Andr«.~ Diniz, sai?,ateiro, e denunciou o seu coi-
lega Manoel Rodrigues, por ter dito que nunca se fez milagre maior do que a resurrei·
ção de lazaro; accusou tambem o sapateiro André Gomes, dizendo que os dois eram
christãos novos. ·
No mesmo dia compareceu Catharina Fernandes, mulher de mestre Lopo c(sollor-
giã•, que disse que é visinha ,te Maria Ana, viuva, Maria Fernandes, Gu1omar Fer·
nandes e Ana Fernandes, suas filhas, christãs novas que guardavam o sabbado e nesses
dias •depois de jantar tomavã seus mãtos e se hiã as ortas a folgar», não as via ir a
egr~ja e só a mãe o fazia, havia pouco ten1po. Quanto ao costume disse que se não
faliam porque ellas a mandaram citar por supporem que clla testemunha lhes chamava
ladras.
No dia 18 compareceu Bartholomeu Rodrigues, esc ri vão do crime, que disse Isabel
Fernandes lhe contara que celebrara a festa da Paschoa.
No mesmo dia compareceu Anna Rodrigues, mulher de um pintor, Christovão
Treque, que disse que indo á Ribeira a uma venda de carvão d'uma preta, esta lhe per-
guntou que novidades havia e se a ln~uisição vinha, e como a testemunha lhe dissesse
que era uma coisa muito santa, ella lhe respondeu, fazendo· figas, e dizendo que eram
para o rei, para os seus conselheiros e para o papa «porque por derradeiro ham de ficar
por qué som e força do dinheiro ha dacabar tudo». (1)

(1) Foi publicada pelo sr. Sousa Viterbo a pag. 153 da sua Noticia de alguns pin·
tores.
108
------···--··-·------
No dia 19 comrareceu Jeronymo Ferraz, cavalleiro fidalgo da casa d'El-Rei, que
disse que, quando no anno passado se dissera que tinha acontecido um milagre num·
christão novo, veio a Lisboa uma Joanna Rodrigues, christã nova, mulher de Pedro Lopes,
tambem christão novo, moradores em Torres Novas, e Joanna Rodrigues lhe disse que
a mulher do Licenceado Gil Vaz Bugalho era judia e o Licenceado tinha a Biblia e ou-
tros livros, assim como que um certo Diogo Pires, judeu, quando foi queimado fora
arrebatado das chammas, dando ainda ella mais provas de judaismo.
No dia 12 de Março compareceu Barnabé de Sousa, fidalgo da casa d'El- Rei, filho
de João Vaz d'Almada, que disse que Branca Nunes, christii nova, quando a neta sabia
lhe punha a mão no rosto, descendo com ella, dos olhos para baixo e dizendo: •boas
fadas que te fadem•.

No dia '8 compareceu Maria Leitoa, mulher de Alonso Maldonado, que está na
India, que disse que Henrique Vaz, christão novo, casado com Catbarina Lopes, já falle-
cida, quando esta falleceo não consentJo que a testemunha o viesse dizer, nem que
ficasse em casa a fazer companhia á familia da defunta e, estando á porta da rua, vio a
criada trazer uma panella nova e u1na tijela nova, com agua com que lavaram a defun-
ta. Quanto ao costume disse que se não fallam porque elles dizem que ella testemunha
lhes chama judeus. (Ao lado tem a nota de a suspeita• ).
No dia 21 compareceu Iria Fernandes que disse que Margarida l... opes, sua nma,
christã nova, guardava os sabbados, na sexta· feira á tarde mandava lhe accender as
candeias e ás vezes até fazidm o comer; na quaresma fazia duas paschoas, numa não
comia senão pão asmo e noutra comia em tigellas e louça nova, ás \'ezes a de pio
asmo cabia na nossa psschoa e então não comiam carne; jejuava frequentes vezes, não
ia á missa, e confessava-se e commungava. Quanto ao costume disse que não deseJava
mal á .sua _ama e roga que lhe não façan1 mal e que o que disse foi por descargo da sua
conscJencJa.

No dia 22 compareceu Gracia Alvares, viuva, que disse que, estando em Aveiro,
em casa de Miguel Gomes, christão novo, tambem lá eitava Filippa Rodrigues, sua
n1ãe, a qual ella via ás sextas· feiras accender candeia~, tel-as assim toda a noite, na
sexta-feira fazer comer para o sabbado, neste dia não fazia nada, e numa sexta-feira d'en-
doenças a vio trabalhar.
No dia t5 de maio compareceu Affonso Vaz, alfaiate,. christão novo, e disse que
estando na Ribeira, junto das carniçarias,. con\·ersando com Duarte Fernandes, gnzoleiro,
este lh~ perguntou aque no tempo que os judeus andavam no deserto quando sayrã do
Egito e nam . . . os filhos por causa do caminho, se Deus lhes havia aquillo comtado
pC'r pecado», a testemunha respondeu qne aaté aquelle tempo nom era dada a lley aos
JUdeus pore que Deus Mandara a Josué que fizesse navalhas a~uda~ e que sayrã aquelles
moços que nascera depois que sayrã do Egito até aquelle tempo• e o dito Duarte Fer-
nandes respondeu que «pois escs por esa cau~a né lhe foi comtado por pecado que fa-
remos nos outros que por medo o nam fasemos».
No dia 14 d'aHosto de 153g ~ompareceu Sebastião Fernandes, alfaiate, que disse
que Fernando Alvares jejuava aos domingos,. assim como a mulher Maria Fernandes.
Quando faziam isto á noite comiam ~allinha, carneiro ou Rallo; a Maria Fernnndes não
ia á missa senão quando se confes~ava e =ommun:.!ava; ás sextas-feiras fazia comer para
os s~bhado~, nt!ste dia divertia se e vestiam os dois cami~as lavadas; aos domingos rra-
balhava e aos sabb3dos não accendin fo~areiro, não comianl senão bolos d'azeite e as-
mos; nas sexhts feiras accendiam mais candeias d'ateite que nos outros d1as. Disse
t11mbem que em casa de Fernando Alvares estivera foRido mestre Thomaz, natural de
Elvas,. por causa da Inquisição, a quem ouvira rezdr em hebraico; ás sextas-feiras á noite
accendia candeia e assim a deixava estar accessa até que ella se apagava; ás sextas-fei-
ras se ajuntavam muitos christão novos com mestre Thomaz, ao sabbado divertia-se e
ao domingo trahalhavn. Disse mais que Manuel Dias e sua mu.her Leonor Lopes, pousa-
vam em casa de Fernando Alvares e faziam o mesmo que elle faz iR. Quanto ao costu-
me disse que tinha tido altercRção com o Alvares, e este lhe chamara ratinho. Ainda
acrescentou que no sabbado á noite comiam figado.
__ tog ....·-···-
......_._.....__
,..,._.

No dia 18 de agosto, nas casas do dr. João de Mello, compareceu Jorge Fernandes
que disse que Antonio Mendes e sua mulher Filippa da Costa, christãos novos, traba-
lhavam aos domingos, nunca a vira na egreja) parecia -lhe que Rua r davam os sabbados.
Quanto ao costume disse que O\ denunciados não gostavam d'elle por os ter aconse-
lhado a serem bons christão:.;.
...
No dia 20 de março de 1S4o nas pousadas do dr. João de Mello compareceu Isabel
e
F<'rnandes que disse que ella testemunha •morou Vallverde até que El-Rei nosso sõr
veo pc .. a os estaos• de fronte de uma Catharina Fernandes, christã nova, tendeira que
~uardavn os sabbados, fingindo-se doente para não vender, aos domingos trabalhava.
Nas sextas-feiras á -noite acendia em cada casa um candeeiro d'azeite e nos outros só
uma candeia; nos sabbados vestia camisa lavada e asaynho de chamalote• e asaya ver-
melha• e manilhas d'ouro nos bracos •
e seus anneis e cadeia d'ouro .
N.o dia 22 compareceu Lopo Fernandes, ~a pateiro, que disse que Catharina Fernan-
des, christã nova, não costumava ir á n1issa;guarda\'a os sabbados, pondo então um
panno na cabeça parJ $e fingir doente, ao domingo vendia na sua tenda.
No mesmo dia Ignez Pires, mulher de Alvaro Dias, compareceu e disse que Ca-
tharina Fernandes fingia-se doente aos sabbados para não trabalhar, aos domingos
lavava a louça á porta e outras vezes mandava albardar um burro e sahia, dizendo que
ia a Cascaes e a Belem, mas dizendo a visinhança que ella ia lavar fiado a Alcantara.
Antes de vir a Inquisição, na noite de sexta para sabbado, costumava ter accesos tres
ou quatro candeeiros d 'azeite, mas, depois d'elln vir já se acautcllava mais. Ouvindo
prégar disse que o pregador era um •padrelha castelhano•.
No mesmo dia compareceu Margarida Anes que disse que Catharina Fernandes
guardava os sabados e trabalhava aos domingos.
No dia 19 de julho •nas casas da Santa lnquisiçãou, compareceu André Fernandes
que disse que Gaspar Fernandes, dissera ter ouvido a um pregador que Christo dever
apparecer no dia de juizo não era verdade (Até aqui todos os depoimentos, com exce-
pção dos primeiros, foram feitos na presença do Inquisidor dr. João de Mello).
No dia 16 de dezembro de 1540 em Lisboa, nas casas da Santa Inquisicão, na pre-
senca do L.do .torge Rodrigues, inquisidor, compareceu Pedro Barbas, clerigo de missa
e benefidado na egreja de Santa Maria do Castello de Torres Vedras, e disse que tindo
a fallar com Pedro Annes Polveira na prisão do christão novo, Vicente Fernandes,
aquelle lhe dissera ter ouvido ao preso que quem vivia na lei de Moysés vivin mais
rico que na tei d~ Christo. Quanto ao costume disse que não tinha boa vontade a Vi-
cente Fernandes por andar em demanda com elle.
No dia 20 •em as casas onde ora pousa o L.do Jorge RoJri~uesu compareceu Diogo
Donado, enfermeiro no mosteiro de S. Domin~os, que disse que a um clerigo Dio~o
d'Orta ouvira dizer, a proposito do habito que elle trazia, que Deus não fizera tercetra
rP.gra, que nas ordens não fora nenhum santo, que S. Domingos antes de enttar para a
religião já era sancto, que os padres mais perdiam na ordem ho que ganhavam porque
eram escrupulosos na religião, que a profissão dos padres não era coisa de valor nem
de estima.
No dia 28 compnreceram Pedro Gonçalves, luveiro, e Filippe Vaz, idem, ~ue disse· ·
ran1 que ouviram a Diogo Dias que por um buraco espreitara para casa de Stmão Vaz
num sabbado á noite e vira uma panella a ferver e deitando cheiro a carne. Filippe Vaz
disse ml'is que T~omé Luiz, luveiro já defunto, lhe tinha dito que ouvira dizer a Si-
mão Vaz que Christo havia de vir num cavallo branco e que havia de dar tantas rique-
zas 9ue não haveria necessidade de trabalhar. O mesmo dh.se Francisco Martins, luveiro.
Simao Vaz, tosador, estando em conversa disse que onde é a egreja da Conceição ti-
nha sido synagoga, que seu pae fôra judeu e Jambem elle o era e que seu pae dava es-
molas e pães de trigo a outrQs judeus; assim como elle Simão Vaz disse maiz que es-
tas obras lhe aproveitavam.
110
--···-··--···---···-··········-----
No mesmo dia Pedro Gonçalves disse mais que Isabel Ramires, mulher de Pedro
Ramires, luveiro, se enfeitava aos sabbados; nos domingos trabalhava.
No mesmo dia compareceu Diogo Dias, latoeiro, que, quanto a Simio Vaz, confir-
mou o que acima se diss~, acrescentando, quanto ao costume, que não fallava com elle,
por uma altercação que tinham tido.
No mesmo dia compareceu Antonia, crinda de Diogo Dias, que confirmou o depoi-
mento anterior quanto a Simão Vaz, acrescentando que elle tinha dito que se comia
carne ao sabbado fnzia muito bem. (Noto : Ja prest;~).
No dia 29 compareceu Belchior F ernandcs, carpinteiro, que disse que lhe dissera um
homem joeireiro que ninguem queria ser parceiro de Antonio Fernandes na confraria
de Santa Luzia, porque brigava com toda a gente e que elle tinha dito 4 propria mu-
• lber, que o dissera 4 naulher d'este joeireiro, que nio ta á egreja ver Deus porque para
ver pão e vinho não era preciso sahir de casa. Disse mais que tinha fama de christão
DO\" O.

No dia 3o compareceu Martim Pires, joeireiro, que confirmou o depoimento anterior


quanto a Antonio Fernandes.
No mesmo dia compareceu Maria Miguel, mulher do anterior, cujo depoimento con-
firmou. ·

No mesmo dia compareceu Affonso Vaz Cordilha a quem o inquisidor perguntou


se comer no chio era ceremonia judaica, ao que elle respC'tndeu que sim •porque quido
se morria alguü pay ou may ou filho ou jrmaão que os judeus comyão no chão por nojo
e tambem comyoõ no chão na uespera do dia em que elles perderia Jerusalem.»
-
No mesn:o dia compareceu Antão Fernandes, sombreireiro, que se veio accusar e
pedir perdão porque~ havia 1 5 ou 20 dias, tinha encontrado de noite um homem que lhe ·
roubara lã, lhe tinha lançado a mão, mas como o alcaide o não quizesse levar preso,
elJe proferira uma jura.

No mesmo dia compareceu Thomaz Alvares, carpinteiro, que disse que tinha ou-
vido dizer a Simão d'Oliveira, estribeira, que descria de Deos, de S. Pedco e de S. Paulo
e de todos os santos.

No dia 1 de Janeiro de 1 S41 cC'mpareceu Antonio Pires, luveiro, que disse que • Gra-
uiel Vaz, lauador de couro•, sua mulher e sogra o pozeram fóra de casa por elle lhes
ensinar o Padre Nosso, a Ave Mnria e o Credo. Gabriel Vaz lhe disse que em E\·ora
dormira com certa mulher de noite e com a filha de dia.

No mesmo dia compt~receu João Fernandes, luveiro, que disse que, estando a con-
versar com Simão Vaz, este lhe dissera que as boas obras lhe aproveitavam, apezar de
ser judeu; na quaresma comia pés de cabrito. A um criado do mestre de Sant'lago ou-
vira dizer que não havia inferno e a Diogo Carneiro, luveiro e c h ri~ tão novo praticava
ceremonias judaicas, a Diogo Fernandes ouvio dizer que cDeus nõ pode. soffrer tamto•.
No mesmo dia compareceu Francisco Pires, tosador, que foi aprendiz de Simão Vaz,
que disse que este comia carne na quaresma, que fora casado 3 vezes: a 1.• mulher
morrera, a 2.• fogira para Castella e casara 3.• vez, estando vivu a 2.• mulher ; ouviu-
lhe tamhem dizer, em resposta a sua mulher que lhe disse que se não agastasse porque
Deus lhe casaria a filha, ,,que se ha nõ casar deus casalaha o diabo por~ue tanto poder
tem o diabo como deus». Ouvira-lhe tambem dizer que lera numa Bibha que clerigos,
padres e freiras deviam ser todos casados. Em dois annos que estivera em casa de Si-
mio Vaz nunca o vira ir á missa. Ouvia-lhe dizer mais que um homem podia casar
quantas vezes quizesse e ter quantas mulheres lhe aprouvesse.

No mesmo dia compareceu LourenÇo Fernandes, luveiro, que disse que ouvira di-
III
·-··· .. ············----
zer a Gabriel Vaz que sua mulher e sogra o tinham posto tóra de casa por elle lhe3
querer ensinar o Padre Nosso, a Ave Maria e o Credo; disse-lhe mais que em Evora
dormia de noite com uma mulher e de dia com a filha. Disse tambem que a mulher de
Gonçalo Pires se queixara do marido, dizendo que nio dormia com ella.
No mesmo dia compareceu Mestre Affonso, cirurgiaõ, que disse que, vivendo pare-
des meias com um Diogo Fernandes, que vende mel, christão novo castelhano, nunca
,·ira nem elle, nem a muther nem a sogra irem 4 missa. Estando a mulher com um
parto difficil nunca lhe ouvira chamnr por Deus, nem por Santa Maria nem por nenhum
santo ; ao sabbado vestem camisas la v adas e naõ trabalham, trabalhando aos Domingos.
Ao costume disse que lhes naõ falia.
No mesmo dia compareceu André Dias, hortelão numa horta á porta de Santo An-
tãQ, juncto do mosteiro novo da Annunciada, que disse que, andando a jogar a bola na
dita horta um Francisco Vaz, perdera e então arrenegnra de Deus, de Santa Maria e de
quantos santos ha; e como as pessoas que estavam lh'o extranhassem elle respondeu :
•naõ averá aquy alguú vilaõ roím que me uaa acusar a Inquysicaõ que me queymem•.
-Disse tambem que Sebastiaõ Dias lhe dissera que Leonor DÍas era casada com dois
homens, dizendo-se tatnbem que ella tivera por barregaõs dois primos. Quanto ao cos-
tume disse que naõ fatlava com Leonor Dias por uma zanga que tinha tido com um seu
. -
trmao.
No mesmo dia compareceu Joaõ de Chaves que disse que, vivendo nas varandas
da Ribeiro, nunca vira ir á missa a n1ulher de Diogo Fernandes, moleiro, e diz naõ sa-
ber se vae ou naõ.
No dia 1 de Janeiro compareceu Gaspar IJuiz, luveiro, que disse que ouvira dizer a
Gabriel Vaz que nem a mulher nem a sogra sabiam o Padre nosso, a A\'e Maria. a Salve
Rainha e o Credo nem mesmo benzer-se, o que, se fosse sabido dos Inquisidores, as man-
dariam chamar para as queimarem. Ouvio-lhe tambem dizer que naõ comiam carne de
porco e que elle, em Evora, dorn1ira com uma mulher e re~pectiva filho.
No dia 8 compareceu João Gomes, luveiro, que disse que Pedro Ramires, luveiro do
infante D. Luiz, tem por mulher Isabel Ramires (jaa pres.1) e que ambos guardam os sah-
bados. Disse mais que ouvira dizer a Gabriel Vaz que sua mulher e sogra naõ sabem o
Pater Noster. e que, em Evora, tinha dormido com uma mulher e de dia com a filha.
Quanto ao costume disse que era compadre de Pedro Ramires e por isso tinha pena de ter
de dizer o que disse.
No mesmo dia compareceu Pedro Rodrigues, marceneiro, que disse que, em Cintra
estando em casa de M~rtim Fernandes, pintor, pae do clerigo Domingos Ferreira, este
!he dissera que o papa naõ tinha poder nas almas do purgatorio senaõ sobre a terra, e
que um Pater Noster e uma Ave Maria era pouco para uma alma do purgatorio e assim
como que Deus naõ dera a lei o Moysés, mas sim um anjo. Disse tan1bem que era pu-
blica voz em Cintra que Joaõ Gomes tinha livros hebraicos cm casa e que é christaõ
novo. Disse mais que estando a con\'ersar com Ruy Gago, cavalleiro da ordem de C h ris-
to, apparecera Duarte Gonçalves, sapateiro, castelhano, que, a proposito da passAgem
dos judeus para a terra da Promissão, disse coisas contra a nosso fé. Acrescentou final·
mente que, estando em conversa com o pintor Domingos Carvalho, como elle o convi-
dasse e a te.stemunha lhe dissesse que jejuava, Christovaõ d 'Uftrech, pintor que es-
tava presente, lhe disse que Deus nunca tolhera que naõ comessem nem mandara que
jejuassem ; um seu filho lhe dissera que Manoel Cunha, criado de D. Duarte d'Aimeida,
arrenegava e descria de Deus, de Nossa Senhora e da sua virgindade.
No mesmo dia compareceu I.. uiz Mendes que disse 9ue Isabel Ramires, mulher de
Pedro Ramires, luveiro, assim como a filha Ignez Pires, nao trabalham desde a sexta feira
ás 3 horas da tarde até ao outro dia á tarde, accendendo candeias muito cedo, o que não
fazem nos outros dias. Aos domingos trabalham.

No dia 10, em C9sa do L.4o Jorge Rodrigues, inquisidor, compareceu Pedro Annes,
112

tecelaõ, e disse que, na loja do predio onde mora, está Catharina Jorge, manct6a de Anto-
nio da Fonseca, e, como ella d'uma vez lhe naõ quizesse abrir a porta elle disse que des-
cria de Deus, e do Espirita Santo.
No mesmo dia compareceu Lopo Soares, clerigo de missa e cura da egreja de San-
ta Justa e disse que, tstando na sua egreja Christovão Marques Cortesia, escrivaõ das
compras d'cl-rei, lhe chamara a attençao para um homem que, estando á missa, naõ
mechia co:n os labios e a8~ixava a cabeça quando mostravam o sacramento, chamado
Manuel das Bc:stas\. christaõ novo. Ouvira tambem dizer ao Bacharel André Bravo, pré-
gaJor da sua egreJa, que um criado d~ Alvaro Affonso lhe dissera que defronte d'elle
morava uma christã nova que vestia camisa lavada ao sabbado e ao domingo mandava
pela manhã a moça por agua.
No mesmo dia compareceu Jenebra Fernandes, que disse que Catharina Fernandes,
mulher de Valentim Gonçalves, christã nova, guardava os sabbados e que B~atriz Vaz lhe
dissera que, em vespera d'uma festa de Nossa Senhora, vira em casa d'ella, Catharina
Fernandes, assim como du~s testemunhas que chamara, duas postas de carneiro muito
bem adubado A' testemunha disse Catharina Fernandes: •dizem que elRey mãda devasar
sobre os christãos novos, mãdenos elRey deitar em huúa ilha ou em algiia tera a noso
salvo pera ver se deus se se lembra maas dos christãos novos se dos christaõs velhos•.
Quanto ao costume disse que naõ tinha boa vontaJe a Catharina Fernandes pelas cou-
sas que lhe ouvia.
No dia 12 de janeiro de 1 S.1-1 "em as casas omde ora pousa o L. do Jorge Roiz inquisidor
comisarro» compareceu Joaõ d' Aguilar, armeiro que disse que Diogo Fernandes, filho de
Fernão Lourenço, andando a passear pela egreja de Bracarena, a tesremunha lhe disse que
não fizesse tal porque era descortezia, ao que o outro respondeo que as imagens eram oleo
e •que nos relevava isso,,, acrescentando que o papa naõ tinha poder inteiro senaõ co-
mo um bispo porque o que ·Deus dissera a S. Pedro naõ se estendia aos outros succes-
sores. Via-o á hora de levantar o sacramento r1aÕ olhar para elle ; e estando os dois a jan-
tar Diogo Fernandes lhe dissera muitas coisas contra a nossa fé, respondendo· lhe no
fim do jantar, quando a testemunha o aconse1hava para bem, que fõra 4 Graça e dis-
sera a um padre : «P.e eu tenho pera my que esta f~e dos christaõs he toda burla e que
a ley dos JUdeus he a uerdadeira• ; o padre lhe mandou rezar o Credo e se affastou
d'elle. Tambem pegou nu:na cartilha e pondo o dedo no apostolo S. João, disse que
acreditava o que elle tinha escripto, mas naó o que tinham escripto S. Simaõ e Judas.
PerguntaJo se Diogo Fernandes diria estas cois:ts em seu juizo disse que sim. (Indicou
testemunhas como os antecedentes quasi todos).
No mesmo dia compareceu Isabel Fernandes que disse que, de casa da maé de Si-
maó Francisco tinham vendido um escravo que em casa d'ella estivera preso 4 ou 5
mezes por ter puxado por uma faca contra Simão Francisco e O!. irmãos. Este escravo,
depois de vendido, disse 4 testemunha que Nossa Senhora o tinha tirado d'essa casa de
judeus, que a mae de Simaõ Francisco nunca ia á igreja, nem nunca rezava, guardava
os sabbaJos, tinha sempre as candeias acesas da 6.• para o sabbado, mettia-se numa
camarinha só e quando .o cura dos Martyres vinhn escrever os confessados clle se fingia
fóra de casa. Tambem um mulato que estivera com Sima6 Francisco lhe dissera que a
mne era uma ~rande judia, tinha panella, escudella e bacias apartadas para que o filho
naõ comesse nellas porque con1ia porco, o que ella naõ poJia ver.
No mesmo dia compareceu Anna Rodrigues que disse que ouvira ao escravo, Vi-
cente, da mãe de Simão Francisco que gritava quando por elle estava preso, que eram
juJeus que os queimassem e que quando os vinham para metter no rol dos confessa-
dos fogiam. Este escravo foi vendido com a condição de não voltar para Portugal.
No mesmo dia compareceu Gonçalo Fernandes, luveiro, que disse que tinha ouvi-
do dizer no Porto a um prégador que Pedro Martins Cabeças, que estai preso, tinha dito
ao levantar do sacramenro, que •.abaixasse logo aquilo, que elle nem ninguem o avião
de adorar»; o cleri~o, pondo o Sacramento, dissera que o prendessem, mas Pedro Mar-
tins fogira. Disse mais que ouvira dizer que o mesmo Pedro Martins, atirara com uma
pedra a um padre que vinha de encommendar um morto e trazia a cruz e a calderinha.
O mesmo fora a uma ermida de Vallongo e por uma porta atirara pedras ai imagem de
Nossa Senhora e quebrara uma imagem de Santa Luzia. A testemunha ouvio tambem
dizer que elle só aos santos é que fazia mal.
No dia aS compareceu Catharina Rodrigues que disse que pousa numa casa com
aos lapidarios, onde tombem está um micer Dominsos, ourives, venezeano, ~ue blasphe-
mava muito, contra Nossa Senho1·a e São Francisco. Quanto ao costume dasse que nio
est' bem com elle.
No dia 24 compareceu Joana Dias que disse que um algibebe André Lopes, christio
novo, tinha.ido já duas vezes a caminho de Gulfo converter-se ao judaismo, levando
comsigo a mulher.
No dia 2Õ compareceu João Varella, clerigo de missa, disse que tinha ouvido diser
a João de Aguilar, armeiro, que Diogo Fernandes disia que só S. Pedro tinha poder e
que os successores não tinham nen hum, que quando os sacerdotes celebravam não es-
tava ali Christo. Disse tambem que ouvira que elle, um dia na igreja de Bracarena, vol-
tara o crucifixo para a parede e ao pé das testemunhas começou a fallar na criação do
bomem e do mundo, dando mostras de não estar em juizo perfeito.
·No dia 3• compar~ceu Iria Fernandes que disse que Catharina Fernandes, agora já
presa, vindo Susanna Carvalho de Nossa Senhora da Luz, lhe perguntara d'onde vinha
e depois da resposta lhe dissera que, para alcançar saude, antes fosse a uma mulher que
ella Catharina Fernandez lhe indicaria, afim de lhe dar um pouco de unguento. Isto affir-
mou Susanna á testemunha assim como GUe ella dissera a uma irn1ã, d'ella Susanna :
•Levae lá a natura de voso m&rydo que nó tem mais que um olho e por lhe ha dous•.
Pela porta de Catharina Fernandes moradora em Valverde, passavam as cruzes, ora do
Hospital, ora da MisericorJia, virando-lhe ella as costas e meuendo-se para dentro. A'
6.• e ao sabbado via lhe ter candeias accesas de dia ; ao sabbado não félzia nada e no do.
mingo trabalhava, nunca indo á igreja. Quanto ao costume disse que quer mal a Catha-
rina Fernandes e lhe não falia.
No mesmo dia comparec~u Anna Fernandes que disse ter ouvido dizer a Susanna
Carvalho que Catharina Fernandes etc. (o mesmo da anterior). A testemunha vio-a met-
ter-se para dentro da casa e fechar a porta quando ia a passar a cruz com a campainha;
Yio a guardar os sabbados, trabalhar aos domingos. Contra um moço christão velho lhe
ouvio ella dizer: «Vay te dahy maa casta que te nó quero ter em minha casa porque se
fizer alguúa cousa em minha casa ou coser huúa pouca de carne hyrmeas acusar e far-
meas queimar e a minha negra nem o meu negro nó me hão de hyr acusar».
No dia 1 de fevereiro compareceu o licenciado Morselho, castelhano, sacerdote, que
disse que Isabel Dias e Guiomar Correia lhe tinham affirmado que João Verde, mouri~cu,
dissera que Mafoma fora muito bom homen1. A testemunha ouvio-lhe dizer que maldito
fosse o mouro 9ue vivia entre christõos; uma mourisca que vivia com elle dissera á teste-
munha que Joao Verde guarda,·a a 6.• feira. Guiomar Correia tambem lhe dissera que o
mourisco affirm&ra que por Cascaes havia de entrar o Barba rôxa para tomar Lisboa,
ao que ella retrucou aue a misericordia de Deus era immensa e o mourisco zombando,
respondeu que «mayo·r era a cabra que dava leite e queijo e Jaã pera mãta e carne pera
comer e couro per a borzegies e çapato!u. Quanto ao costume disse que ni o quer mal a
Joio Verde, mas que este está mal com elle por lhe tirar uma mulher que tinha que nio
era sua.
No dia 3 compareceu Jorge Gonçalves, bombardeiro, morador, na Pampulha que
vindo de passeiar, e passando perto do pomar de Alonso Barreira, christio novo, vio
nelle andar um negro e disseram todos que aquillo parecia mal. Porém Alonso Barreira
veio a casa d'elle, acompanhado por um escravo e um Ratinho e, como clle não estives-
se, perguntara á sua mulher pelo ladrão do maririo, ao que esta respondeu que o seu
marJdo era tão ladrão como quem lh'o chamava e o negro puchara então da espada
para ella. Alonso Barreira tinha zanga á testemunha p~r ter ido d.izer ao cura de San-
tos o VeJho que elle mandava os negros cavar ao Domtnso.

114

No mesmo dia compareceu Maria Trezenha, mulher de João d'Aguilar, armeiro, que
disse que Diogo Fernandes, preso agora na cadeia da Inquisição, fôra j.antar com seu
marido e n 'uma conversa com elle tinha dito que a santa medre Igreja tinha muitas
coisas que emendar, como por exemplo no Credo.
No mesmo dia compareceu Alvaro Dias que disse que Catharina Fernandes, agora
presa, guardava os .labbados, trabalhava aos Domingos e que, quando pelo Valverde,
onde ella mora, passivam os cadaveres que iam do Hospital para S. R~ue elJa nlo fa-
zia reverencia á cruz e só depois de passar o acompanhamento dizia •Deus nos dê •ao-
deu e que, quando foi o auto que se fez na ribeira em que queimaram .o Montenegro ella
com isso se mostrava agastada. ·
No mesmo dia compareceu Guiomar Correia que disse que mora numas ~asas on-
de '·ivem uns mouriscos, onde está um João Verde que tem tido questões com outro
homem, dizendo os dois que uma certa Isabel é sua mulher ; por causa d'isso foram ao
vigario geral que mandou que a Isabel só pertencesse ao sobredito mancebo, nio po-
dendo João Verde fazer-lhe mal. Joio Verde, zangado por causa d'isto, disse que Mafa·
mede era muito bom homem. Tambem ouvio dizer a Cecilia Fernandes que elle tinha
affirmado que Barba rôxa havia de tomar Lisboa, entrando por Ca:scaes1 ao que Cecilia
Fernandes respondeu que grande era o poder de Deus, ao que João Vera e retrucou que
a cabra tambem era grande porque dava lã e carne.
No mesmo dia compareceu Cecilia Fernandes que confirmou o que a testemunha
anterior disse que ella tinha ouvido.
No mesmo dia compareceu I~abel Gonçalves mulher de Sebastião Fernandes que
di~se que João Verde lhe tinh·a dito que não trabalhava num dia de trabalho, não sabe
a te~temunha o motivo.
No mesmo dia compareceu Luiz Nunes, alfai-ate, que disse que Isabel Gomes, viu-
va e .christã nova, jejuava num· dia de festa dos judeus e, questionando com uma vizinha,
disse que havia de morrer como judia. Como morresse um christão novo, perto de sua
casa, lsHbel Gomes vasou quan\a agua tinha em casa, o que a testemunha não sabe
se seria alguma ceremonia judaica. Quanto ao costume disse que quer mal a Isabel
Gomes e nio falia com e lia·
No mesmo dia compareceu Catharina Fernandes, mulher de Luiz Nunes, alfaia-
te e disse ter ouvido a seu marido o que consta do seu depoimento acima, tendo-o
ella aconselhado a vir delatar á Inquisição e •que nt'ste mevo o prenderão~. Tom-
bem disse que uma sua comadre lhe declarara qu~ Cathariná Fernandes jejuava ' 6.•
feira até gue via a estrella, quando \inha a Paschoa comia azeitonas e pão sem sal por
tristeza. Quanto ao costume disse que não fallava a Catharina Femanlies e lhe queria
mal.
No dia 7 de fevereiro compareceu Simão Alvarez que disse ter ouvido a um chris-
tão novo, por alcunha, o Cagajote, quando a testemunha lhe ia entregar um escravo,
invocar o nome de Deus, jurando. (Citou testemunhas que foram João Quaresma e Dio-
go Vieira).
No mesmo dia compareceu João Quaresma que da mesma forma accusou como
blasphemo o Cagajote.
No mesmo dia compareceu Diogo Vieira, homem mourisco, que accusou da mes-
ma maneira o Cagajote. Os tres prenderam um negro, escravo d'este CaRajote, que le-
vava roupa furtada e como lhe extgissem tres tostões pelo seu,. trabalho e elle offerecesse
só tres vJntens e depois seis, elles então disseram-lhe que o levariam ao tronco, e oCa-
gajote respondeu que o podiam fazer e «que nõ creo en1 Deus se o solto». ,
No dia 8 de Fevereiro compareceu Maria Torres, solteira, que disse que ouvira a
Antooia Vaz mourisca, que seu marido, tambem mourisco, e 9ue anda a marióla ae
queria tornar mouro, partir para terra de mouros e leva .. Ja comS~go.
116
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bano, marceneiro com quem a testemunha trabalha diz frequentes vezes que arrenega
da encarnação de Deus. Citou testemunhas do facto, umY das quaes é Fernão Manhoz:.
Quanto ao costume disse que o Onofre o injuria\·a e por iiSO lhe não falia.
No mesmo dia compareceu Fernão Manhoz, marceneiro, e disse ter ouvido a um cu-
nhado de Onofre Sanches que elle era blasphemador e arrenegava e descria de Deus.
No .dia 26 foi interrogada Maria F.odrigues que disse que Isabel Gomes, christã nova,
jurava pela vida de Deus que Francisco Cabral era ~eu marido, e dissera raivala, raivala
que judia hey de morrer.
No mesmo dia compareceu Maria Fernandes que diss~ que Isabel GomeS, agora
presa, lhe tinha dito que nunca dissera raivala, raiva la, o que era lima calumnia que lhe
assacara Catharina Fernandes ; disse mais que á 6.• feira a via accender uma candeia•,
fazia o comer para o sabbado e qae, levando a enterrar uma pequenita é egreja da Masda-
lena, quando veio para casa vasou toda a a~a que tinha e comprou agua fresca. C1tou
dafferentes testemunhas.
No primeiro de Março compareceu Affonso Dias, escudeiro da casa d'El-Rei, que
disse que André Mendes, taberneiro, lhe contara que estando em sua casa a jogar as
tavolas, vieram a fallar em Nosso Senhor e um christão novo lhe chamara papudo,
motivo por que André Mendes lhe quiz bater.
No mesmo dia compareceu Braz Affonso que disse que nunca via ir á missa a Ca-
tharina Vaz, christã nova, ao Domingo trabalha\·a e ao sabbado não. Por este motivo
a testemunha lho exprobou e se poz mal com ella .
.
No dia 2 de Março compareceu Antonia Quaresma que disse ter casado com um
Bertholomeu Antunes e apezar d'isso este se foa casar com a filha d'um moleiro. Citou
testemunhas para comprovar o seu casamento e uma sentença.
No mesmo dia compareceu André Mendes, e~cudeiro do conde de Linhares, que
disse que na sua taberna um christão novo chamara a Deus capeludo ou papudo.
No mesmo dia compareceu Victoria Fernandes que disse que a Catharina Fernan-
des, christi nova, via, metter-se para dentro de casa e fechar-se quando ~ela sua perta
iam a passar uns clerigos, com a cruz e um cltdaver. Que esta Catharina Fernandes fo-
gia da cruz, que ensinava a oração ás avessas a uma negrinha que tinha, com quem d'u-
ma vez se zangara e que mandando-lhe fazer o signal da ca uz, como ella o fizesse com
um dedo, ella o mandou fazer com os dedos junctos. A's 6. •• e sabbados via-a andar
com beatilhas lavadas, não querendo nesses dias vender carvão, o que fazia ao Domin-
go. Tambem disse que o pae da testemunha vendia carne de p()rco, vacca e carneiro e
Catharina Fernandes nunca lhe comprava senão de vacca e carneiro e que quando, d'u-
ma vez entrou em casa da testemunha e vio toucinho disse que se lhe embrulhava o es-
tomago.
No dia 3 de Março compareceu João Affonso, clerigo de missa, beneficiado na
i~reja de S. Mamede, que. disse que na taberna de André Mendes ouvio dizer a um
christão novo, cujo nome não sabe, que Deus era um papudo.

No dia 5 compareceu Maria Jorge que disse que ouvira a Isabel Gomes que est'
presa que judia tinha nascido e judia havia de morrer.
. .
No mesme dia compareceu Catharina que está em casa de Maria Jorge, sua irmã,
que disse que ouvira dizer a Catharina Fernandes que Isabel Gomes, agora presa, tinha
dito: Judia nasci, judia hei de morrer».

No dia 9 compareceu Bartholomeu Almunha, vaJenceano, que disse que estando


em Fez, ouv1ra dizer que um christão de Lagos, chamado Duarte, levara um chri~tio e
o deixara empenhado a um mcuro, aconselhando·o a que se torna5se mouro, o que
"7
elle (ea. O IIIOW'O a quem o chriSllo foi venJido CMI um mouro •que ron de Portugal
dDro welb01•.
Jr(o dia 14 compareceu Pedro Dias que disse que Antonio Fernan,te.~, (erreiro, como
a testemunha era, lhe tinha duo •que Deus quando roy crucificado rnfian rolos rasa-
dos e presentes e por vyr e que nnão avya ahy majs [YUTR&toro:o e qu.: neste múdo rur-
p.nmos e que quido moriamos h~mos camtnho do paraiso•. A isto retru.:ou 11 teste-
=~:':i:!1~!::=•:rnf!~~'::r~::n:~:~:: ~~;:t~~i~~~ ~:·~~~,: :~:O.:e':~:~
jl hDeddo da officina de Antonio Fernandes que elle, que as ora etd jd preso, a mulher
e lllbos comiam carne toda a quaresma.
No mesmo dia compareceu Anna Martins que disse que vive defronte da cau d'uma
11h1 .!a Mestre Pedro, qua ensina as dumas a dançar, casada com um atansedor. do
IDr.mtei n'esta casa trabalha-se ao dominJI:O e J~:uarda-se c eabbadc. Disse mais que,
tirJdo a Lisboa uns christios noYCls de Leiria, um d•enes Christmlío Lourenço e outro
1ih1 .!e Fernlo Nuoes, e indo a testemunha a uma estalaRem onde elles esta11am na
,...ÇIda Palba1 para ver a sua mercadoria, a uma sexta-fein, encontrou um com uma
~la da caldo .!e IJ&Uinha Da mlío e O Outro ao pê, ;~lmoç:ando OS dO!f' 1 haYendo DO

6.: :~.O:.?h:rrc~~~~mm~~b~!~!iM!s~~:-~~r;r~~~~:~!:;:tb~-b3~a;fi.:: :::!:!~


ao domii'IJO.
No meamo dia compareceu Guiomar Alvares que diue que Filirpa Correia, caate-
lbqa, q11e tem fama de christS. nma, no domingo pela manhl. mandava varrer a casa.
Tambem ou.-iu dizer a te5temunbas que citou que Fillppa CorreialanYa e coo~ia oo
dominso.
No me.mo dia compareceu Clara d"As;uiar e denunciou Catberina Fernandes, que

e=•
eat' presa por assoalhar roupa e vestidos ncs dias aaDctos.
No mesmo dia com~:areceu Catharina Fernwndes que disse que Yira num dia aancto
!~~~· o::,·~~~;;: :fr~rC;-;h!rfn':';~::=!sa~~=g: ~ee c;::a:~':
crua pela poru abaixava a cabeça e nio a litava; ouviu tamhem dizer o uma negra de
~ :::r.:.:J:::~~~~i:.::~':~ fr~~nd:~::~~~~·~n:~~~Íha ~~ :~m~~~:f:~..:ni!
8 1
al.ao&da da lan-ar. Ouliu tembem a uma ama d"Antonio da Cunha que uma visinbe
d~ CatharinaPemandes a espreitara e a Yira comer carne d ses.ta-fein; OU\oiu tembem
::: :: C:,.W:.:! ~r:::d:!" :.= ~lí~o~~~~n;gm~~ :f~a:~t!.';~~~:r::d~!~
1

q.._ éorTece Catl)arioa Fernaodea por ser mA chr1stli.


118

dito, quando queimaram um hereje, que tinham morto um innocente 1 ouvlo cuzer que,
quand!J lhe metter.am na panella toucinho, ella disc;e que tinha 1' sugidade e estopa.
Que vao J'uma vez pass.. r a cruz do Ho:~pital e então Catharina Fernandes, que estava
dobando, abaixara os olhos como que não querendo olhar. A' testemunha disso um
irmão que um escravo de Catharina Fernandes lhe affirmara que comera carne naves-
pera d' Ascenção.
No mesmo dia compareceu Magda! ena d' Aguiar, captiva preta, que disse que Catb•-
rina Fernandes num domingo assoalhava roupa é janella e, quando pozeram as he-
resias 4 porta da Sé e lhe disseram que queriam ~ueimar o homem que as tinha pos-
to, Catharina Fernandes respondeu mataram um innocente.
No mesmo dia C'lmpareceu Antonio, moço de Clara d'Aguiar, a quem não foi dado
juramento por parecer menor de 14 annos, que disse que um mulato ae Catharina Fer-
nandes lhe disse que ella comera carne na vespera da Ascençlo.
No dia 16 compareceu Roque Martins e disse que na villa d'Aveiro ouriu dizer
a Catharina Fernandes, a Isabel Pimentel e a Anton1a Nunes que ouviram dizer a um
christão novo chamado Thomaz Fernandes •que justiça de Deus viesse sobre aquella
casa e que nó avya justiça é Aveiro que lhe botavão sua mulher fora d'ali porque aa
queria acoutar a Christo como ellas fazião•. Ouvio tambem dizer a Isabel Lamep e
a Isabel Pimentel que, no mosteiro de S. Domingos, á hora de missa, entrara 16 um
christão novo a perguntar _Pelo rendeiro da alfandega e sentara-se pondo a mio sobre
os olhos para não ver oSanttssimoSacramento.
No mesmo dia compareceu Tristão Felippe, criado de Antonio da Cunha, contador
dos contos7 e disse que Catharina Fernandes, que agora está presa, fôra vista por elle,
frigindo pe1xe com manteiga numa vespera de Nossa Senhora d' Agosto.

No mesn1o dia r·ompareceu João Anes que disse que ouvira a um Henrique, io-
glez, •que o emperador havia de tomar conselho com os lmgreses e ·se nõ quisesse que
elles avyão de por huú emperador a sua vontade e que o (lapa naão podia fazer o que
elle faz porque nó tinha ese poder porque sam Pedro andava descalço e que este anda
cuberto de brocado e não faz nada senão por dinheiro e que os clerigos que na sua
terra que erão casados e que sera bem que fossem casados•. Ainda esse inglez disse
mal das imagens. Quanto ao costume disse ser amigo d'este inglez, com quem ganhava
a vida porque elle era vendedor de trigo no Terreiro do Trigo. Ainda acrescentou que
lhe perguntara com quem elle se confessava e o inglcz respondeu que com certo indi-
viduo e como a testemunha lhe dissesse que esse individuo não tinha ordens de missa
o inglez retrucou que isso não fazia mal •

. No dia 19 compareceu Ana Fernandes, testemunha citada pela anterior, cujo de-
poamento confirmou.

No mesmo dia compareceu Antonio Dias, natural de Campo Maior, agora em Lisboa
de passagem para a Ind1a, e disse que na Venda do Duque, entre Arrayollos e Estre-
moz, estava Já pousada Justa Rodrigues, christã nova, e como a testemunha, por dissi-
mulação, se dissesse tambem christã nova, Justa RodriJlues dissera-lhe que ia de Lisboa
fugida porque um homem a accusava l?erante a inquisição. Continuando a convenar
perguntou ·lhe a testemunha quando virta o Messias ao que ella respondeu que nlo sa-
bia e que antes consentiri~ ser queimada do que •cuidar que Jesu Christo nem Santa Ma-
ria lhe avião de caber na boca;;.. disse mais que seu marido fora preso pela Ioquisiçlo.
Quanto ao costume só n 'aquella occasião com ella se encontrou.

No dia 23 compareceu Antonia Lopes, mulata, que disse que quando foi o auto da
Inquisição e queimaram o Montenegro, ouvi o a Maria Rodrigues, christã noYa que agora
est' presa, quando a testemunha lhe dizia que o Montenegro nio quiz morrer bom
christio ella retrucou. •E se vos a vos disesem que vos tornaseis moura tomar-vos
hyes». Ao que a testemunha disse que nio e Maria Rodrigues respondeu: •Pois assim
119
-
somos nós•. Perpntou ella mais á testemunha: a Depois que vos estaes farta se vos
derem um pam comeloyes? E como a testemunha respondesse que niio, Maria Rodri- •
l'JU retrucou:· •Asy somos aos que depois que estamos na nossa ley nó nos podemos
urar..

No mesmo dia compareceu Roque Martins e disse que Branca de Lião, christl
non de J\ Yeiro, como a testemunha, guarda os sabbados, trabalha aos don1ingos; e disso
tambem que' voz e rama que em Aveiro ha duas synagogas. Quanto ao costume disse
que estava mal com Branca de Leio e lhe nio falia.
No mesmo dia compareceu Duarte Fernandes, luveiro, e disse que indo dormir a
casa de André Lopes, tambem luveiro, vira, n'uma sexta-feira, a mulher d'elle, Beatriz
Correa, ter a sua c•ndeia limpa e com duas matulas d'estopa velha, accendendo-a na sua
camara; e c' fóra, onde trabalhavam, tinham outra tambem accesa. Disse tambem que
estaDdo em casa de Pedro Fernandes, luveiro, já fallecido, e conversando com a sua
mulher e filha, enteada d'•quelle, ellas disseram que Beatriz Correa fizera pão asmo
por occasilo d'uma fc:sta. A mulher de Pedro Fernandes é christl nova, chama -se Mar-
garid• F ctmaodes e sua filha Beatriz. Disse mais que ouvira dizer a João Gomes, luvei-
ro, que Ga,par Dias, marido de Francisco Ramires, lhe disse que 9.uando ttmortalharam
uma sua filha lhe tinham mettido dois meios vintens na bocca, dazendo que era «para
a primeira jornada•; Isabel Ramos. que agora está presa, achava-se então ahi. Quanto
a esta acrecentou que estivera 3 ou 4 anoos em casa d'ella trabalhando e d'uma vez a
olo vira comer todo o dia, trabalhava aos domingos, toucinho nunca o comia e o ma·
rido dizia que em casa d'elle era preciso duas panellas por causa d'isto.
No dia 2S compareceu Affonso Fernandes, almoxarife do duque de Bragança em
Torres Vedras, e disse que ouvira a um trabalhador de nome Antonio Pires que lhe
disseram que Jeronymo Fernandes tinha uma estampa de Santo Antonio, ai qual fizera
as suas limpezas.
No dia 26, nas pousadas do L.d• Jorge Rodrigues, inquisidor, compareceu Francisco
Barbosa, ourives, que disse que, Leonor, mourisca, fazia actos religiosos de moura.
No mesmo dia compareceu Francisco Dias e disse que, indo a casa de lzabel
Gomes, que agora está presa, num dia não a vira comer e depois soube que fa~ia isso
por ser o jejum da rainha Esther e o fez durante 4 ou S dias; ouvio dizer que ella numa
Paschoa nio comeu carne nem nas oitavas e lizera pão a~ mo; tambem ouvio dizer que
ella ia degolar gallinhas a outras christãs novas e affirmou lhe MariSJ Fernandes que
amassando d'uma vez pão lhe fizera uma cruz como é costume, o que Isabel Gomes
desmanchou e quando Maria Fernandes falia va em Nossa Senhora a outra lhe dizia
para que fallava ella nisso.
No dia 18 compareceu Martim Trigueiro, capellaõ da Rainha, e abbade de Vinhaes,
o qual disse que em Vinhaes ouvio a Christovaõ de Moraes que Joaõ de Moraes dizia não
haver excomunhoé's; tambem em Vinhaes se dizia que este Joaõ de Moraes comia carne
6s sextas feiras e aos sabbados, assiin como affirmava nio haver mais que nascer e mor·
rer. O 9ue a testemunha ouvio foi só mente a Joaõ de Moraes que quando fôra mancebo
tinha livros de adivinhar e de bem guerer.
No mesmo dia compareceú Beatriz Mendes e dis.'e que Brisida Henriques, ra•
lbaodo com a sogra, como a testemunha e a maê as fossem aqutetar, disse que naõ
havia Deus nem Santa Maria; e como lhe fallassem na Inquisiçaõ disse m. . . para a
Ioquisiçaõ. Disse mais que nunca a via ir 4 missa, apezar de ser tida por cbristã velha.
Quanto ao costume disse que lhe aborrece Brigida Henriques, por ter proferido estas
palavras.
No mesmo dia compareceu Constança Annes, moradora em Torres Vedras e sogra
da testemunha anterior, cujo depoimento confirmou.
No dia 29 compareceu Luiz Gühcm e disse que Helena Carvalho cl casada com
120

Joaõ Fernandes, agora homisiado em Castella, e quando este se homiliou lnou-a com-
sigo e ella depoas veio pedir perdaõ a El·Rei, conseguindo-o com a condiçio do m•rido
ir na armada de D. Garcia para a lndia, mas naõ lhe chegou a ser entregue e Helena
Carvalho namorou-se de um Christovaõ de Cerqueira com quem casou. A testemunha
• informou Christova6 de Cerqueira d'iste e outras pessoas, mas elle nada se importou•
A_pontou differentes pessoas que teem cartas do primeiro marido de Helena Ca"alho,
dizendo que esta tinha pedido a um individuo que lh'u trazia ~ra aflirm•r que Joio
Fernandes morrera. Quanto ao costume disse que ~ra ami!o de Heleaa <:analbo e
do seu primero marido e por isso muito lhe pesava eUa fazer tal desatino.
No mesmo dia compareceu Diogo Fernandes, morador em Campo Maior, e disse que
tinha ido na vespera de Entrudo, é Venda do Duque, entre Arrayollos e Eztremo., com
seu filho Antonio Dias, cujo depoimento confirmou, quanto • Justa Rodrigues. •
, No mesmo dia compareceu Joa6 Fernandes e quanto a Helena Carvalho cliae
saber que o seu primeiro marido está vivo em Sevilha e acrescentando que eUa lhe~­
dira, para affirmar que elle era fallecido. Quanto ao costume disse ser amiao deUa e elo
seu primeiro marido.
No mesmo dia compareceu Gaspar Luiz que disse e na feira do Rocio haYia um
algibebe chamado Luiz Silveira a quem a testemunha quia comprar um ~ ~o
quaJ lhe pedio oito vint~ns ; a testemunha offereceu-lhe um tostaó ao que LUis SilYeira
respondeu que só se gui;esse ser da sua lei pe era a de Moys~s.
No mesmo dia compareceu Antonio Gomes e, a respeito de l ..uiz Silveira, confir-
mou o depoimento anterior.
No primeiro d' Abril compareceu Sebastia6 Rodrigues, clerigo de missa e disse
que um allemaõ ou flamengo chamado Alberto Lieber lhe affirmara que Homar, lapi-
dario ou ourives, tambem allemaõ ou flamengo, estava casado com uma freira professa
com quem o casou Fr. Martinho Luthero, como fez a outras muitas.
No mesmo dia compareceu Henrique Luiz, prior da e~reja dos Martyres, e disse
que tinha recebido Helena Carvalho e Joaó Fernandes, jé Q.a mui toa annos, e en voz
corrente que ella tinha casado segunda vez estando vivo o pnmeiro marido.
No mesmo dia compareceu Pedro Dias e disse que depois de dar o seu testemu-
nho contra o ferreiro Antonio Fernandes, que estai preso, ouvira dizer que elle e sua fa-
milia iam, de vez em quando, para uma quinta do filho com varios chrtstaõs novos.
No me~mo dia compareceu Joaõ Nunes, marchante, e disse que Manoel Rodri-
gues, christaõ novo, e Branca Dias, sua mulher, castelhanos, trabalham ao domingo. Ci •
tou testemunhas que conhecem este facto e quanto ao costume disse que esté mal com
Manoel Rodrigues e com a mulher.
No dia 4 compareceu Leonor Martins e disse que o seu marido, Simlo Rodrigues,
fallava hebraico muitas vezes ; d'uma vez estivera doente, confessara-se e commuoga-
ra e, como quizesse a EEtrema Uncção, mandaram pedir que um padre lh'a trouxesse
e elle poz-se a comer carae de vacca. Tinha casado com elle ha seas mezes e emquaoto
estiveram j unctos fazia comer para elle apartado, porque naó queria na panella tempe-
ros de porco. Quanto ao costume disse estar desavinda com o seu marido, vivendo cada
um na sua casa.
• No mesmo dia compareceu Rodrigo Alonso, pae da teatemunha anterior, cujo de-
poimento confirmou.
No dia 7 compareceu Pedro Gomes e disso que, indo á Ribeira de Santarem e bos~­
dando-se na casa de Joio de Avila que era na rua do mel, chegara 14 um al&ibebe,_por al-
cunha Navarra, o qual não levara a bem que a lnquisiçlo prendesse a mulher do Cabeça
de Vacca.
121

No dia 11 compareceu Joana Lopes e disse que Maria Rodrigues, presa nos car-
ceres da Inquisição, lhe tinha dito que perdoasse Deus ao rei que tornou os judeus por
força christaos e acrescentou dirigindo· se 4 testemunha : se vos tornassem moura, se-
rieis boa moura I A testemunha respondeu-lhe que nio e ella replicou : Logo, como
seremos nós bons christãos ? Maria Ro·drigues contou á testemunha um milagre acon-
tecido numa synagoga e disse mais que não deviam dizer mal dos judeus porque Nossa
Senhora tambem era judia. '

No mesmo dia compareceu Bartholomeo Leite, moço da camara d'El-Rei, que


disse ter ouvido a uma Francisca, criada de Mestre Fernando, cirurgião do hospital,.
que este comia carne na quaresma, 4 sexta-feira e sabbado.
No mesmo dia compareceu Isabel Viciosa e disse que ouviu dizer a sua irmi
que vindo Es~eran~a Dias, mulher de Mestre Fernando, rendeiro do paço da Madeira, .
da e~reja da Conceição perdera uns alambres e por isso disse: sempre tive tenção
ápella egreja. Em casa d' este mestre Fernando comiam carne em dias de jejum.
No mesmo dia compareceu Beatriz Viciosa e confirmou o depoimento da irmã
quanto a Esperança Dias, acrescentando gue d'uma vez numa quarta-feira de endoenças,
dia de N. Snr.• de Março, chegou 4 janella da casa onde moram, uma filha de Esperança
Dias, chamada Isabel Fernandes, vindo com um dedal e disendo que estava a trabalhar,
ao que a testemunha replicou que não era dia de trabalho e Esperança Dias disse de
dentro que Deus tudo perdoava. Aos sabbados não trabalhavam como nos outros dias
e um dia fallando a testemunha com ella, Esperança Dias lhe disse : •Neste mundo mo
vejam bem passar que no outro me nio vem penar•. · ·
No mesmo dia compareceu llisena Mendes de Vasconcellos, mulher de João Alva-
res de Valasco, e disse que Esperança Dias lhe dissera: «Neste mundo me vejas bem
passar que no outro nó me ves penar». E quando perdeu os alambres: •Perdoe-me
Deus que sempre tive azar com esta egreja» (a da Conceição). Confirma o depoimento
da tia (Beatriz Viciosa).
No mesmo dia disse ainda Beatriz Viciosa que uma sua visinha castelhana co-
mia carne ao sabbado e quando ella esteve em Abrantes, onde vivia uma christi nova
Isabel Fernandes, esta se tirava da janella quando ia a passar o Santo Sacramento,
assim como comia ovos na quaresma.
No dia 19 d'Abril compareceu Antonio Alvares e disse que Francisco Fernandes
e seu genro, christãos novos, comiam pão asmo em vez de pão levedado.
No mesmo dia compareceu Guiomar Martins, e, quanto a Francisco Fernandes,·
confirmou o depoimento da testemunha anterior.
No mesmo dia compareceu Catharina Fernandes e, quanto a Francisco Fernan-
des, confirmou o depoimento das testemunhas anteriores e acrescentou que uma es-
C!ava se queixou de que a sua senhora, quando ia ~ Egreja, lhe mostrava o Cristo cru-
cificado, dizendo que era um homem enforcado.
No mesmo dia compareceu Isabel França e disse que Violante Dias, christã nova,
deitara lã a enxugar num dia santo ~ que tambem um christão novo, sapateiro, Gabriel
l ..opes, manda varrer a rua nos Domingos pela manhã.
No dia 22 de Abril compareceu Martim de Benavente, castelhano, e disse que
Antonio, mourisco, forro, seu visinho, comeu carne na sexta-feira de endoenças que
passou, o que elle viu espreitando porque a eJia lhe cheirava, e comendo com ella cosc\ts.
No dia 26 compareceu Leonor Henriques, mulher preta, e disse que Maria Ro-
drigues, christi nova que est4 presa, no dia do auto da fé na Ribeira lhe dissera muito
irada que sabia mais que Deus e, tendo -a a testemunha convidado para ir ver o auto
da fé ella lhe respondeu : cMáo ioferno de Deus a el-rei D. Manuel que nos fez christlos
122

por força•. Perguntou mais 4 testemunha se ella gostaria de se tornar branca, ao que
ella respondeu que sim e então replicou Maria Rodrigues: a Pois assy nos tornaremos
nós bons christãos como vós vos tomareis branca•.
No mesmo dia compareceu Francisco Gomes, cavalleiro da casa d'El-Rei, e disse
que estando á porta de Francisco Ribeiro, livreiro na rua Nova, appareceu Diogo Fernan-
des que vende barretes e disse deante d'elle e do livreiro que •só havia nascer o morrer•.
No mesmo dia compareceu Francisco Ribeiro, livreiro, que, a proposito de Diogo
Fernandes, disse não se lembrar de tal facto.
No dia 28 compareceu João Fernandes, luveiro, que já tinha vindo fazer o seu de-
poimento contra unt creado do Mestre de Sant'Iago, cujo 1\0me então não dissera por
o não saber e a~ora sabe que é Pedro Fernandes que •traz uma commenda d'Avaz•,
acrescentando rria1s que um sirgueiro castelhano não trabalhava aos sabbados.
No mesmo dia compareceu Isabel de Ucanha, mulher de Martim de Benavente, cujo
depoimento confirmou quanto a Antonio, mourisco.
No dia 29 compareceu Aleixo Coelho, moço da camara do infante D. Luiz e disse
ter ouvido a Catharina da Costa que Henrique Dias, cbristio novo, nio trabalhava ao
sabbado e ao domingo sim.
No mesmo dia compareceu Luiz Cota, clerigo de missa, do habito de Sant'lago,
e disse que no B~rreiro tinha pré~ado, nesta quaresma, um clerigo c.hamado Jorse
SarJinha, e no primeiro Domingo dtssera que o adiabo quando tentara a Christo o co-
nhecera ser filho de Deus~ e mais adeante disse: •maior pena padeceu Christo em ser
tentado do diabo da que levara em sua paixão•. Na terça-feira das oitavas da Paschoa
dissera elle que era muito bom letrado e que tinha uma graça particular de Deus, que
tudo o que tinha dito o disputaria ainda âeante dos Inquisidores. Quanto ao costume
disse que Jorge Sardinha lhe não fallava por saber que a testemunha não gostava do
que elle tinha dito e até a injuriara.
No mesmo dia ~om(lareceu Violante Braz e disse que Manir.o Pires, ferreiro, seu
visinho, blasphema de Deus de quem renega; d'uma vez que se zangou fez figàs á ima-
gem de Santo Antonio, dizendo que elle era um carnudo quando a mulher lhe disse p11ra
lhe pedir perdão. A filha e a mulher de Martim Pires tambem têm dito á testemunha
que elle JliSou aos pés umas estampas de Santo Estevão e Santa Monica, dizendo que
esta fõra a maior aleivosa do n1undo. Viu-o tambem a teste•nunha comer carne na
quaresma pa~sada, por duas ou tres vezes, e sabbado passado da Paschoela comera
tubaras e figado assado. Citou testemunhas d'estes factos.-Accusou tambem Antonio
Fernandes, ferreiro, que agora está preso, de ir no dia do auto da fé na Ribeira para
uma quinta que tinha na banda d'alem.
No dia 3o compareceu Fernão Rodrigues e disse que um ~eu genro, já fallecido,
lhe dissera que Antonio Fernandes, ferreiro, que agora está preso, comera came n'uma
quaresma.
No dia 4 de maio compareceu Violante Braz e disse que, depois do seu depoi-
mento anterior, no sabbado passado, Martim Pires, ferreiro, comera carne ao almoço,
ao j11ntar e á ceia. ·
No dia S compareceu Bernardo Pires 2 ferreiro, e disse que nada sabia nem contra
Martim Pires nem contra Antonio Femanaes.
No mesmo dia compareceu Rodrigo de Villas Boas e disse que estando em casa
de l.ourenço de Sousa, aposentador-mor, ouvira a Catharina Lopes que uma sua vizinha
açoutara um moço que tinha por soldada, tendo-o crucificado como a Jesus Cristo e ao
pae. do moço lhe deram dinheiro para elle se calar. Disse tambem que ouvira dizer ao
clerigo Antonio Pinto, que fôra conego no mosteiro de Grijó, que Deus nio tinha poder
absoluto.
----·-··.___ __.... ............ -
No mesmo dia compareceu Braz Annes e disse que ouvira a mestre Affonso, ci·
rargiio de Torres Vedras, que quem vive na lei hebraica nunca lhe falta de comer. A
.-
testemunha confessou-se d'isto e o seu confessor lhe disse que o vies~e contar 4 lnqui·
s1çao.
No dia 6 de maio compareceu João Rodrigues de Bulhio, morador em Benavente
onde é juiz e mordomo da confraria do Santo Sacramento, e disse que, quando estavam
a trabalhar na egreja para arranjar um altar de madeira no domingo de Paschoa, o be-
neficiado Francisco Fernandes, apezar de saber o motivo por que se estava fazendo ba-
rulho, voltou-se para a testemunha e disse-lhe que cnó fizesse aquilo q tolhia o serviço
de Deus e fazia o serviço ao diabo•. Referindo-se a esse ai tar disse á testemunha Se·
bastião Zuzarte, irmão de Francisco Fernandes : aque enfermaria é aquella que tendes
feita? sey que aves de por ali o seno r até que seja sao; milhor estivera eu ora ali, bofee,
deitado ~ue estou bem doem te•. E no dia em q_ue já estava o altar armado passou' por
diante d elle sem fazer uma reverencia nem tlrar o barrete. Quanto ao costume dtsse
que depois disto nunca mais lhes fallara. (Citou test.).
No mesmo dia compareceu Amador Gonçalves, clerigo de missa, e disse que a
mulher de Martim Pires, ferreiro, lhe afirmartt que o marido dava murros n'uma imagem
de Santo Antonio, coania carne na ~uaresma ás sextas-feiras e sabbados, tomava o pão
da mesa e o deitava pelo chão, e dilia que viessem a elle clerigos e frades que os ha-
via de absolver.
No dia 7 nas pousadas do L.do Jorge Rodrigues compareceu Anna Fernande!', mu-
lher de Martim Pires, ferreiro, e disse que o seu marido era muito desbocado, dizia
que descria de Deus e de toctos os Santos, comia carne na quaresma e ovos mexidos
com manteiga e hre$los; que um dia tomara as irnagens de Santa Monica e Santo
Antonio e as espesinhara, dizia que a testemunha era feiticeira e Santa Monica tam-
bem e Santo Antonio um feiticeiro. D'uma vez chegara elle a casa irritado por ter per-
dido um tostão e disse que a mulher lh'o tinha tirado, então ella lhe respondeu que
•por Santo Antonio lh'o não tomara» e Martim Pires começou a bater no retabulo de
Santo Antonio que tinha em casa ; dizia tambem ello por uma sua filha bastarda que
tinha em casa «que abaixo de Nossa Senhora não havia melhor mulher •·
No mesmo dia compareceu Guiomar Dias e confirmou a respeito de Martim Pires ·o
depoimento da testemunha anterior.
No mesmo dia compareceu Beatriz Fernandes e disse ter ouvido a Joio Fernan-
des que Martim Pires, ferreiro, que agora está preso, tendo pedido um pucaro d'agua
a uma sua moça e como estivesse sujo arremessou-o de encontro a uma parede onde
estavam umas imagens de santos.
,
No dia 9 de Maio por o L.do Jorge Rodrigues e o padre Fr. Jorge foram interroga·
das as testemunhas seguintes :
Maria Alvares que disse que seu pae Martim Pires, que est' preso, rasgara umas
estampas de Santo Antonio e Santa Monica, motivo por que sua mãe ficara muito agas-
tada, blasphemava de Deus; e quanto ao costume disse que lhe aborreciam os exageros
de seu pae.
No mesmo dia compareceu Isabel Alvares, tambem filha de Martim Pires, e disse
que sua mãe se lhe queixara de que elle rasgara umas estampas e Martim Pires disse
que as não tinha rasgado e que, se a t rasgara, não fôra por vontade. A testemunha
acrescentou que fôra depois de jantar, e lhe parece que estava embriagado. Quanto ao
costume disse que lhe aborrecem os exageros de seu pae.
No dia to, nas pousadas do L.clo JorRe Rodrigues, compareceu Ayrei Fernandes,
morador em Benavente, e disse ter ouvido a João Rodrigues de Bulhões o que esta
testemunha jal affirmou contra o cleri~o Francisco F emandes e contra Sebastiio Zuzarte.
Quanto ao çostume disse que alo fallava com os denunciados.
_,______ 124

No mesmo dia comparec~u Jorge Gonçalves, de Benavente, e confirmou o depoi-


mento de Joio Rodrigoes. Este era o carpinteiro que trabalhava na confecçlo do pul-
pito.
No mesmo dia compareceu Domingos Fernandes, meJtre de ensinar m~l em Be-
navente, e disse ter ouvtdo a Joio Rodrigues, Jo~e Gonçalves e Joio de Soure bene-
ficiado o que o primeiro depoz contra Francisco Fernandes e Sebastilo Zuzarte Quanto
ao costume disse estar mal com elles.
No mesmo dia compareceu Braz Affonso e disse que ouvio dizer no Barreiro a
um prégador, cujo nome não sabe, que aNosso senhor Jhesu X.• recebeu mayor paixio
em ser tentado pello diabo que na paixlo que recebera por nos salvar•.
No mesmo dia compareceu Salvador Martins, cavalleiro da casa do Mestre de
Sant'lago, que confirmou o depoimento da testemunha anterior e acrescentou que o
mesmo prégador dissera na sua ultima prégação que •todo o que tinha dito em suas
prégações avya por bem dito e que o provaria na santa lmquisiçio onde leterados
ouvese.•.
No dia 11 compareceu Manoel Serrão, clerigo de missa, morador no Barreiro, que,
quanto ao costume, disse ser amigo de ha 3 mezes do pré~ador denunciado, que se
chdmava Sardinha e que elle tinha dito o que Braz Affonso affirmou.
No dia 16 compareceu Vicente Martins, morador no Barreiro, e, quanto ao pr'-
gador Sardinha, com firmou o que Braz Affonso affirmara.
~


No me!mo dia compareceu Margarida Annes e disse que lgnez Alvares e Maria
Fernandes, sua filha, eram christãs novas e uma d'ellas viera d'uma vez á porta tocando
uma campainha dizendo : aDade qua per·a a misa de vosa avoo t0rta ; dade qua pera a
misa da mal aventurada». Citou differentes testemunhas. Quanto ao costume disse que
nlo fallava a Maria Fernandes e lhe queria mal.
No dia 17 compareceu Aleixo Mendes, the,.-oureiro na igreja de Benavente, e disse
ter ouvido a Sebastião Zuzarte, cleri~o, o que quanto a elle disse João Rodrigues no
seu depoimento. Quanto ao costume d1sse que não tem boa vontade ao denunciado.
No mesmo dia compareceu Manoel Rodrigues, morador em Benavente e confir..
mou o depoimento de João Rodrigues quanto aos dois clerigos já nomeados.
No mesmo dia compareceu Sebastião Netto, morador em Setubal, e dis~e que
João de Ferreira, pescador, lhe dissera que gostava do rei de Inglaterra porque não que-
ria lá frades nem clerigos. Quanto ao costume disse ser parente do denunciado.
• No mesmo dia compareceu Bal thasar de Moraes, morador em Setubal e disse
que, em conversa João de Ferreira lhe dissera que cDeus nõ tinha cuydado ou que se
nó lembrava de nos outros, a isto respondeu a te~temunha dizendo que o Deus~as for-
migas tinha cuydado» ao que elle respondeu: cPois os que se perdem no maar como
os cõ salva Nosso Senhor•! e acrescentou : , Deus estaa enl sua gloria não tem cuida-
do de nós». Tamben1 lhe ouvio palavras contra as pompas dos bispos.
No dia 18 compareceu Mem Gonçalves, morador em Sant'lago de Cacem, e diiSe
que João d'Affonseca, cavalleiro e morador em Sant'lago, affirma que ninguem é obri-
gado a fazer penitencia nem a jejuar porque Deus fez penitencia e jejuou por todos, e
que ninguem vae para o inferno e que nenhum pobre ba-de ir para o Paraiso. Est4 mal
com um clérigo chamado Varella e quando vae ' igreja não quer ouvir missa d'elle por-
que diz ·~ue quem vyo o diabo a dizer missa• e acre$centa : •quem vio Deus na mio
do diabo•? Citou testemunhas d'estes factos.
No mesmo dia com~areceu Pedro Annes, tecelio, morador em Setub•l, e diue
ter ouyido a Catharina Gonçalves que Estevlo do Prado, castelhano e chrisdo DOYo,
sapateiro, lhe persuntara, ao ouvir um responso da miau de Santo EsteYio, gue neçe·
sydade avya ila gloria de_par; tambem ouvio dizer a Ruy Dias, atafoneiro, que Estevio
do Prado dizia que •em Castella tinha o seu sam benito.•
No mesmo dia compareceu Jorge Annes Couceiro e dis."e que Francisco Dias, escu-
deiro e veador que foi de D. Jorge de Menezes, senhor de Cantanhede, lhe contara aadar
incommodado por ver muitas vezes um homem deante de si que fôra q"eimado em
tua deante d'elle.
••ta-
No mesmo dia compareceu Isabel Luiz e disse que ouvira dizer a pessoas que
citou q\le Catharina Fernandes, moradora em Castanheira e chri~ti nova, posera um
crucifixo na barrella e, a proposito d'este caso, Jgnez Mendes, tambem christi nova,
· diisera que o crucifixo devia ir mas era para o monturo.
No mesmo dia compareceu João de Sá, tosador, e disse que é sua visinba Isabel
de Castilho, mulher castelhana e velha, a quem nunca via ir á missa.
No mesmo dia compareceu Francisco Dias, veador que foi de D. Jor~e de Menezes
já fallecido, e disse que Antonio Semedo, estando em Sevilha, ouvira dazer que quei-
maram em esta tua a Manu.el Caldeira, cunhado da testemunha, por com outros compa·
nheiros, alguns dos quaes não poderam fogir, praticarem actos de magia.
&

No mesmo dia compareceu Anna Rodrigues e disse que Maria Femaodes lhe dis-
sera que Leonor, mourisca, com outras mouriscas, toda a quaresma comeram camo.
'
No dia 2S compareceu Francisco d'Aguiar, cavalleiro, morador em Azamor, que
em Fez vio Luiz Garcia e Francisco Lopes, mercadores de trigo, pousar na judearia,
comendo com os judeus. Disse tambem que em Fez teve uma ~lemica com um Judeu
por causa d'uma passagem da Escriptura e que, em defesa do judeu, acudio Miguel Na-
nes, christão e mercador de trigo. Tambem vio em Fez um Duarte Lopes, de Lagos,
que costuma ir para a judearia.

No mesmo compareceu Jorge Nunes, criado de Gaspar Caryalho, deão da Sé, e
disse ter ouvido a um preso do carcere que quem dizia •que S. Paulo era apostolo
.
que nó sabya o que dizia
-
porque nó andara
.
senio depois da morte- de Christo.•

No dia 28 compareceram João Moreira, Jorge C..ortcz e Joio d' Ar,ujo, bombardel·
ros, e disseram que Francisco Gonçalves, _porteiro do corregedor, f6ra para l'enboraT
Joio d' Araujo e como se travassem de razoes o porteiro disse que no seu officto faUava
tanto verdade como os Evangelistas.

No dia 3t de Maio compareceu João Fernandes, sapateiro, e disse que seu amo,
já defunto, Pedro Affonso, fôra por elle encontrado d'uma vez a rezar em hehraico e a_
mulher d'elle, Ignez Fernandes, tambem já defunta, nunca ia é missa, lbe disse d.'uma
vez que Deus dera primeiro a lei aos judeus que aos christãos. Tambem disse que ou ..
vira a lgnez Fern:~ndes, christã nova, que esté viva e é mulher de Manoel Alvare.a. a
proposito dos judeus guardarem o sabbad~: abem sabe DP-us a minha vontade e isto
abasta.•
No primeiro de junho compareceu João Fernandes e disse que a Franca, christi
aova, come carne 4 sexta feira e ao sabbado e Maria N11nes tambem é cbristã nova,
come carne nesses dias e nunca vae 4 egreja.
No mesmo dia compareceu Beatriz Fernandes e disse que muitos sabbados vio
Isabel Franca, christã nova, comer figa do assado, &ssim como Maria Nunes ; tambem lis
vio comer carne nas sextas feiras da quare~ma. Nunca as vio ir 4 egreja.
No mesmo dia compareceu João Gonçalves e disse que proumo d'eUe habitam
quatro ou cinco çasaes do cbriltios novos, viodos de Fronteira, o quo parece q•e se
116

preparam pan fogir perque tem tido conferencias com uns allemles ou flamengos e fa-
zem biscoutos.
No dia 2 de junho compareceu Lopo Goncalves e disse gue vio a moça de Guio-
mar Fernandes entrar com perdizes e gallinhas na casa da Franca e de Maria Nuoe~
christls novas, pela quaresma, acrescentando que eram acompanhadas pelo escrivão Si-
mio Rodrigues, nos seus banquetes. Quanto ao costume disse que estava mal com todas
estas pe~soas.
No meamo dia compareceu Beatriz Gonçalves que confirmou o depoimento da tes-
temunha anterior.
No mesmo dia compareceu Cecilia Saraiva e disse ter visto entrar para casa de
Maria Nun~s, esta quaresma, quartos de cabrito, perdiz e coelhos ; assim como ouvio
Guiomar Fernandes dizer para a creada: aMoça, vayme aly per huua perdiz p~ra comer
eu cõ Symio Roiz.» Quanto ao costume disse que nio falla nem a Guiomar Fernandes,
nem a Simio Rodrigues.
No me5amo dia compareceu Diogo Lopes, ferreiro, que disse ter ouvido a Antonio
Fernandes dizer: aJosoque, Josoque,• como que zombando de Jesus.
No dia 4 de Junho compareceu Leonor Viciosa, e disse que Esperanca Dias dis-
sera em conversa que a sua irmã Isabel Fernandes estava cosendo numa .S.• feira d•en-
doenças e, como uma irmi da testemunha a censurasse, Esperança Dias respondeu que
Deus tudo perdoava, disse mais a testemunha que comiam carne em dia de jejum.
No dia 9 de Junho compareceu Beatriz Feia e disse que ouvira dizer a uma su•
creada Violante Fernandes, que o tinha sido de Jorge l . . opes, mercador que vive na rua
Nova, que a mulher d'este aos sabbados vestia camisa lavada e se enfei1ava e na 6.•
feira é tarde fazia o servi~o que havia de fazer ao sabbado, fazia lavar as mios ao ma-
rido antes de se deitar na cama e que tambem, se ella estava rezando e a interrompiam,
não continuava na sua reza sem ter lavado as mãos.
No dia 14 compareceu Antonio Pacheco, castelhano, e disse que Francisca Bo-
carra, mulata, lhe dissera que dormir huúa mulher com huú homem solteiro q oõ era
pecado e que ella nunca se confessara d'isso ; disse mais que nunca a vira ir 4 egreja e
cost~mava jurar. Confirmou os depoimentos das testem unhas anteriores acerca da
F.ranca, Maria Nunes e Simão Rodrigues •

No mesmo dia compareceu Briolanja Martins que confirmou os depoimentos ante-
riores quanto á Franca, Maria Nunes e Simão Rodrigues. Acrescentou que, em Alem-
quer, uma filha d'um Diogo Rodrigues, christão novo, dissera que Nossa Senhora não
era virgem •

No dia 19 compareceu Alvaro Pinto, cavalleiro da casa d'El-Rei, e disse que es-
tando a jantar numa casa, ouvio dizer a uma mulher, cujo nome não sabe, que navia de
mandar matar um homem e depois d'isso fez um juramento e como a testamunha a
advertisse de que isso era caso da lnquisiçio e lia respondeu am ... para a lnquisiçlo.•
No mesmo dia compareceram Simão Vaz, tosador, e Gaspar Gonçalves e disse-
ram que indo com Duarte Fernandes, tosador, foram ter ã Ribeira e ahi encontraram
Lançarote Villella, com quem conversaram e este chamou a Santo .~ntonio acoroudo.•
No mesmo dia compareceu Duarte Fernandes que confirmou o depoimento aate-

raor.
No me!mo dia compareceu Manoel de Sequeira, cavalleiro da casa d'El-Rel, e
disse que estando a jantar numa casa que dé de comer viera ter ahi Leonor Soare~t so-
brinha da dona da casa, muito agastada porque lhe tinham embargado uma filzeacla e
meado que a vontade d'ella era matar quem lhe tinha feito tamanha injustiça e como
____
127
--···---·,.._._._.
Alvaro Pinto a advertisse de que nio devia dizer isto ella fez. um juramento, motiyo
por que Alvaro Pinto a ameaçou com a Jnquisiçio; Leonor Soares dasse entio: •m · • •
para a Inquisição.,
No mesmo dia compareceu Margarida Fernandes, e confirmou o depoimento da
testemunha anterior quanto a sua sabrinha Leonor Soares. Era a dona da casa, juncto
da Porta do Mar.
No dia 22 compareceu Catharina Fernandes, viuva, moradora na rua de Calca Fra-
des, e disse que Ignez Nunes era casada com Manoel Trancoso e recebida é porta da
cgreja e que ella casara segunda vez, com Matheus Fernandes, sendo vivo o seu pri-
meiro marido. Citou testemunhas.
No mesmo dia compareceu Manoel de Sousa, clerigo de missa, que foi quem reali-
sou o segundo casamento de lgnez Nunes e disse, ter ouvido dizer depois que Jsnez
Nunes tinha vivo o primeiro marido.
No mesmo dia compareceu Francisco Beliarte, serralheiro, morador na rua das Es-
teiras que disse ter ouvido dizer o que Catharina Fernandes affirmou a respeito de
Ignez Nunes.
.
No mesmo dia compareceu Sebastião Cordeiro, capelliio e beneficiado da igreja de
S. Nicohiu, que fez um depoimento egual ao anterior.
No dia 6 de julho compareceu Pedro Gaviio, pescador, morador em Alcacer do
Sal, e disse que uma filha de Sebastião Freire, alfaiate, christão novo de Alcacer do
Sal, fôra vista arrastando pelo pescoço, preso com unJa linha, um crucifixo de marfim
com um braço quebrado, com o quê se junctou muna gente e se d~u o crucifixo ao
clerigo João Gonçalves ; Sebastião Freire porém affirmava que não tinha sido um
crucifixo, mas um Santo Amaro.
No mesmo dia compareceu João de S. Paulo, da Congregação de S. Joio Evange-
lista que estai no mosteiro de S. Bento, c disse que no Porto ouvira a Antonio de Sá,
filho de Joio Rodrigues de Sá, dizer, a proposito da testemunha o aconselhar a •fazer
uma capella de misas, que as misas naão forão feitas pera defuntos-;• depois d'isso
ainda dtsse que o livro dos Machabeus era apo,rypho.
No dia 12 compareceu Pedro Annes, tecelão, morador em Setubal, e disse que Ma-
ooel Gonçalves, tecelão e christão novo affirmou que judeu quer dizer justo e apezar d•eJle
padecer muito nunca o vio chamar pelos santos nem pelas santas ; tambem ouvio di·
zer que Diogo Vaz trabalhava aos Domingos.
No dia 21 compareceu Joanna Gonçalves, viuva, moradora em S. Christovão e disse
que João Mendes, christão novo, lhe tinha dito, a proposito d'ella ir ai Senhora da Luz ;
•yes lá pera ver huü santo de pao I•
No dia 24 compareceu Isabel de Souto-Mayor e disse que a mulher de Christovão
Brandão, christão novo, Violante Lopes tambem christã nova, costuma rezar sem se
entender o que diz e affiança uma creada d'ella que falia em •deus Abram, deus Isaac e
deus Jacob ;o tambem Violante Lopes na sexta feira ai tarde mandava alimpar os can·
dieiros e os accendia ao sol posto para estarem toda a noite accesos. Nas sextas feiras,
ella e o marido, só á noite é que comiam e era então que mandava varrer as casas e
coser pão ; Violante Lopes não comia carne de por~o e, se sabia que alguma da sua
louça tinha tocado em tal, immediatamente a mandava quebrar, 6uardava os sabbados,
aunca ia é igreja. Disse mais qu~ Antonia Brandão, irmã de Chnstovão Brandão, tam-
bem nas sextas feiras ai tarde mandava alimpar os candi~iros, guardava os sabbados,
comeu d'uma vez bolos de pão asmo, fechava-se rara rezar, e na sexta feira ai tarde
dava esmolas aos christãos novos pobres. Disse ainda que Isabel Moniz, mãe de Anto-
nio Brandão, muitos dias não comia senio á noite, na sexta feira á noite comia com a
filha mais manjares que de c.ostume, comera d'uma vez pão asmo. Isabel de Souto ..


los e negros que vive na Rua Nova d'El-Rei, costumavam 's
Maior disse finalmente que Clara Dia! e Guiomar Dias, filhas de um corretor de cavai- ·
se&tas feiras accender as
candeias mais cedo, á noite mandavam buscar mais comer do que de costume, aos sab·
bados não lavravam nem faziam nada; d'uma vez que a testemunha foi dormir a casa
d'ellas levava uma oração do •Justo Juiz• e no dia seguinte pela manhã encontrou-a
rasgada.
No mesmo dia compareceu Antonia do Casal, senhora e ama da testemunha an-
terior, cujo depoimento confirmou. (Esta testemunha assistio ao depoimento da ante-
rior).
No dia 26 compareceu Maria Gonçalves e, a respeito de João Mendes, confirmou
o depoimento de Joanna Gonçalves.
No dia 24 de Agosto pelo P.e Fr. Jorge, inquisidor, foi perguntado Domingos Car-
do~o que disse ter vivido com um Simão Fragoso, christão novo e Julianna Jorge, sua
mulher, moradores na Rua Nova dos Mercadores, defronte do arco dos barretes, e que
elles ambos, ao sobbado, ou na sexta f~ira á noite, vestiam camisas lavadas e punham
lençoea lavados; nos sabbados levantavam-se mais tarde e Julianna Jorge, quando
fallava com christãos novos, jurava muita vez por •Nosso Senhor da Verdade• e dizia
que eram cousas de aNosso Senhor, o moço• e de aNosso Senhor, o velho,• e parece11
testemunha que ella se referia zombeteiramente a Deus Padre e a Deus Christo. D'uma
vez que a testemunha chamou pelo nome de Jesus,Julianna disse: •huy negro, Jhesu ve-
nha por ty;• e d'uma vez que uma christã velha lhe deu um panno, aem que estava la·
vrada de lavores d'agulha a Annunciação quando o anjo veio saudar Nossa Senhora,•
Simão Fragoso disse que era bom para cobrir o bacio. Disse ainda a testemunha que
Simio Fragoso fóra para Fez com mercadorias, e, no dia do auto da fé em que quei-
maram o homem que poz o escripto á porta da sé, J ulianna chorou e o marido não quiz
• comer nada e estava muito triste. A testemunha disse finalmente que ouvira a Tristio
d'Oliveira, dirigindo-se a christios novos, que «Nosso Senhor queria que antes se tor-
nasem christãos ou se nomeassem por christãos, antes que padecer tormentos e marty-

nos.•
No dia 4 de outubro compareceu Antonio Medeiros, natural da ilha da Madeira,
e disse que Gabriel Vaz, cbristão novo que vive ao poço da Folea, ás sextas feiras 4
noite faz1a o comer para o sabbado, guardava o sabbado assim como a sua familia, o que
a testemunha sabia porque, desconfiando-o se menera em casa d'elle ; disse mais que
elle jejuava por vezes, recebe esmolas dos christão!. novos, as reparte e paga as covas
aos defuntos. ·
No dia S de outubro pelo P.e Fr. Jor~e foi perguntada Catharina Lopes e disse
que a mulher de Pedro Dias, cortador e chr1stão novo, lhe contara que a sogra •golava•
os carneiros e como a testemunha nio soubesse o que tal queria dizer, a outra expli·
cou que era o que os judeus costumavam fazer, acrescentando que ella se chamava
Isabel Dias e viv1a na rua das Esteiras.
No mesmo dia compareceu Barbara Pires, moradora ' porta de Snnta Catharina,
e disse ter ouvido dizer o depoimento de Isabel ~e Sotto-Maior contra Violante Lo-
pes, acrescentando sómente que e lia tinha partido muita louça, que valeria ma is de
2.000 reaes, por nella comerem carne de porco, e entre ella uma bacia grande de M alega

No dia 20 de Março de r S42, na, pousadas do Dr. João de Mello, inquisidor, com-
pareceu Jorse Affonso, moço da camara do marquez de Villa Real, e disse que, es-
tando a jogar com Pedro Lopes, tambem moço da camara do marquez de Villa Real,
este blasphemara.
No dia 3t de Maio compareceu Anna, filhA de Vicente Fernandes, lavrador, mora-
dor na aldeia da Granja, termo de Cintra, que indo a Cintra vender queijos ou leite, fôra
a casa de Violante Rodrigues e a vira esfar fiando num dia sancto.
No mesmo dia compareceu Vicente Rodrigues Evangelho Moreira, cavalleiro da


-- ..........................
casa d'El-Rei, o que foi morador em Aaamor, e diue que Cathariaa Vu, christi
nova, moradora em Aaamor e agora em Lasos, quando o filho escava para -.orrer o foi
ungido, ella lhe lambia os pés de quando em quando e cospia fóra, por causa do oleo, o
que a ttstemunba vio.
No mesmo dia compareceu Luiz Martins Evangelho, cavalleiro do habito de S.n-
t•lago, e disse que Luzia Gon~alves, moradC~ra ás Escolas geraes, na rua da porta
principal, lbe confessara ser judia por a testemunha se ter fingido c:briatlo novo, e
que quando elle invocaya Nossa senhora ella lho dizia : •soe•
de DO.. cuta e falaes
nessa mulher I• Tambem Luzia Gonçalves lhe confessou que em Tavira ensinava a lei
ele Moysés.
No 1.0 de junho compareceu Alvaro da Silva, alfaiate em Cintra, que \'eio dep6r
contra Jeronymo Dias, christio novo.
No dia 5 de
-
junho compareceu Isabel Fernandes, mulher de Pedro Reinei que faz
cartas de marear ( 1 ), e disse que, indo a passar pelo terreiro do pelourinho velho, onde
veAdem as cousas d'almoeda, ouvira a um porteiro chamado Remedeo blasph,mar e
disse mais que Isabel Fernandes, christl nova, lhe tinha respondido, quando a testemo·
aba lhe pergu_!ltOu porque razio os cchr!stiios velhos folgava~ que a tern: q'!e com~ra
seu pay e mae e avós os comera a elles• e os novos prefenam •covas vtrges,• a dita
chriiti nova respondeu : aé porque se se lançauio em coúas onde j4 jouvera6 outros
defunctos que todos os pecados daqueles que aly jaSJam se lhe aptgauaõ.•
No dia 8 de Junho compareceu Maria,. moça solteira, filha de Gil Affonso de Cin-
tra, e disse q_ue indo a casa de Duarte Gonçalves. christão novo, agora preso nos car·
c~ea da Ioqutsição, vira a mulher d'elle, lgnez Alvares •sarilhando maçarocas num Do-
mmgo.•
No mesmo dia compareceu o Bacharel Simlo Nunes, morador na Covilhã, e disse
que no Fundão, em casa de Fernlo Nunes, havia uma synagoga, e ahi faziam os seus of-
ficios e ora'ióes segundo o rito judaico, Fernão Nunes ensinava aos christãos novos
psalmos e lhes dizia que o Messias esrava ainda para vir, fazendo assim as suas préga-
ções; ahi iam os se~uintes christios novos : Ruy Mendes, pessoa principal do Fundão
e jã defunto; sua mulher Isabel Mendes que ainda hoje costuma praticar jejuns dos ju-
deus; o seu filho Henrique Mendes, mercador que habita na villa de Estremoz, e que
praticava o jejum de quipur; o seu filho Duarte Mendes, a irmi d'este Beatriz Mendes
mulher de Duarte Gonçalves, mer~ador e morador no Fundão; Anna Mendes, irmã dos
sobreditos e Branca Mendes. A testemunha disse saber que Fernão Nunes tinha morrido
a caminho de Golfo para onde ia fogido e que ella durante muito tempo praticou tam ·
bem ceremonias judatcas, mas que ha annos se apartou d'elles por lhe chamarem malsim
~r elle ter descoberto o dinheiro que elles tiraram para Roma. Disse ainda a teslemu-
nha que Simão Vaz, morador no logar do Fundão, era judeq, estando á espera doMes-
sias e dizendo que Deus •nó tinha necesydade de se meter no ventre de huúa molher e
que o mesyas nó avya de ser deus.» Acrescenrou finalmente que Luiz Gonçalves anda
pelo reino pedindo dinheiro para mandar para Roma a seu sobrinho Diogo Antonio,
contra a Inquisição e já fez com que os cbristãos novos lhe dessem 70:000 reaes por
anno e o L.do Luiz Gomes Dias, phisaco, morador na Covilhi, tambem crê que o Messias
não veio ainda, guarJa os sabbados e foi elle o lançador do dinheiro que na Covilhi se
tirou contra a Inquisição e em casa d'elle agasalharam André Vaz, cbristio novo de
Lisboa, que á Covilhã foi para receber o dinlieiro. Tambem em Trancoso sabe que
a mulher de Simão Peixoso pratica actos judaicos. Quanto ao costume disse ter odio a
Luiz Gonçalves e ao L.do Gomes Dias, por lh'o ellés terem.
No dia 1~) de Julho compareceu Gaspar de Figueiredo, clerigo de missa, chegado

( 1) D'elle se occupa o sr. Sousa Viterbo nos TralJalko& Nauticos dos Portuguer1s
110.1 secados X VI e X V11.
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ha pouco do Brasil no oavio de Luiz de Goes e que depoa contra o creado cl'este, Dioso
Femaades, que zombaya de Deus e de S. Peclrõ, aio se confeumclo~

No mesmo dia compareceu Gaspar Morato, trabalhador, morador juncto de CoRa-


res, e disse que em casa de Duarte Fernandes, morador em Cintra, comiam caroe'
6.• feira.
No dia to de juabo (1) com~ceu Pite Joio, francea, natural de Ulo, peleteiro,
e di1se que em Sarasoça, Joio francez, em convena com eUe lbe diuera que aa
Allemanha derrubaram as egrejas e· tiraram as readas aos arcebispos e bi1p01, ao.J.a"!
fizeram bem ; convidou o a vir para Portugal e nessa occasiio não quiz a tatem
vir. Aqui em Lisboa tornaram a encontrar-se e o tal Joio, francez, que trabalha em casa
do peleteiro da Rainha e endo o convidou a ir para a Allemanba porque 16 ~- tra·
balllar nos dias sancto~ e como a testemunha trouxesse umas contas eUe clisle-lbe que
as mandasse para o diabo.
No dia 19 de junho compareceu Gomes Fernandes, pescador, morador -aa rua da
Cardoaa e disse que1 indo oum navio a caminho de Cabo Verde, ia com eUe WD
christáo novo chamaao Diogo cU Fonseca, mercador, que costumava pardar 01 sabba·
doa, e aos Domingos mandava trabalhar os escravos e escraYas.
No mesmo dia compareceu Sebastiio Rodrigues, marinheiro. morador oa lapa
d'Aifama, e disse que tinha estado em Ceuta a ne8QC1ar o resgate d'um filho que tem
captivo onde= conheceu um Manoel Alvares, christlo novo, o qual costumr.Ya descrer
de Deus e da virgindade de Noua Senhora.
No mesmo dia compareceu Antonio Pires, morador na ribeire de Saatarom, e
disse que na egreja de San la Iria ouvio missa a um individuo, que se dizia clerigo, cha-
mado Rodrigo Alvares, ouvio missa d'elle e cos1umava confessar e dar a comau1ablo,
mas teve de fugir por abusar da confissio e já vio uma pe&soa, que lhe pareceo eUeves-
tido de leigo, com a differeoça sómente de ter a barba mais crescida.
No dia 21 de junho compareceu o Bacharel Estevão Vaz, clerigo de missa que ac-
cusou de bigamo a Femlo Qadrado. .
No dia ~2 compareceu Gaspar Martins, sapateiro, e disse ter ouvido que a mu-
lher de Henrique Nunes, sapateiro, tinha fogido de Evora.
~ No dia 2R com~areceu Maria Fernandes e disse que Isabel Fernandes, chriati
nova, na vespera de Santo Antonio comeu came e trabalhou.
No mesmo dia compareceu Branca Vaz e disse que, em conversa com_ Isabel
Fernandes, christã nova, a proposito d'uns soldaados ~ue Iam para Mazagão, a testemu-
nha manifestara o desejo de que elles viessem victoriosos o Isabel Fernandes lhe repli-
cou que antes vencessem os mouroL
No a.o de julho compareceu Estevão Affonso, mareante, e disse que uns christios
novos chamados Dio~o da Fonseca e seu irm~o. Joio da Fonse.ca lhe fre~aram uma ca-
ravella para irem a Cabo Verde e que, quando Invocavam a trandade, Joao de Fonseca
levantava um dedo e punha os olhos no céo e que, quando diziam a Salve Rainha,
Diogo da Fonseca fugia e tambem guardava os sab6ados.
No dia S compareceu Joio Rodrigues, marinheiro, que confirmou o depoimento
anterior.
No dia 10 compareceu Cosme Dias, cavalleiro da casa d'el-Rei, morador em Alco-

( 1) Parece que a audiencia anterior foi a 9 de junho e não no dia indicado que tal·
va fosse engano do ootario.

chete. e disse que Soeiro Lopes. cbriatl~ aovo, cutelhano, andou fosfdo pelas vinhas
e pinhaes em redor da villa e que Manuel Fernandes, escrlvlo da camara, das notas e
da almotaçaria, o protegia e é voz corrente que quando os dois estio sósinbos fallam
u lei de lloysá.
No dia •3 compareceu Joio Baptista, marceneiro, morador em Sentarem\ e diae
qGet iado 4 quinta de Antonio Gentü, phisico ausente em Mando, levar um• 1mapm
de cbrilto que elle lhe encomcsndara, a mulher lhe diue que a olo queria 16 porque lhe
yaJia mais a sua 10ude e o seu dinheiro que quantos christos havia.
No dia 18 compareceu Jaques Crepelo, úaacu, merceeiro, e disse que Pedro
Gomes, que dizem que ~ chrtstlo novo, ao convidar a testemunha para ir 4 mis~
disse que ia para cumprir e gue Nicul4u Ruer francez. merceeiro, comi& carne 4s 6...
e sabbãdos e na quaresma ; e Guilherme Martins tambem a comia na quaresma.
No mesmo dia compareceu Jeronymo de Piemonte, natural do ducado de Saboya,
que confirmou o depoimento anterior quanto a Nicoléo Ruer, francez.
No dia 14 de Agosto compareceu Braz Goncalves, morador em Marvão, e disse
que Dioso da Rosa, c&ristlo novo, comia carne na quaresma.
No dia 9 de outubro compareceu Ruy Dias, cavalleiro da casa d'EI-Rei, e disse
que em Fez ouvira direr que Luiz Garcia estava na judearia praticando actos de judais-
mo. 1"ambem na jut.learia de Fez estiveram Diogo Alvares de Lagos Rafael Rodr1gues e
Tristlo Fernandes, christios novos.
No mesmo dia compareceu Pedro de Chaves e disse que em Fez, Marcos Cardoso
praticara actos de judaasmo, assim como L.uiz Garcia e Tristio Fernandes.
No dia 23 de outubro compareceu Alvaro Fernandes do Sardoal, morador na villa
de Farão do reyno do Algarue, negocianre, e disse que estando em Azamor, fôra es·
preitar á synagoga judaica e vira que para lá queriam entrar um Diogo RodriRuea, chris ·
tão novo, e André Luiz tambem christão novo, acompanhados de duas mulheres novas,
o que não conseguiram, estando a bater perto de meaa hora.
No dia 8 de novembro compareceu Pedro Rodrigues, mareante (dono de caravella),
morador em Tavira, e disse que Margarida Avondosa, christi nov_o e viuva, a quem a
testemunha diase que a~ora, que vinha a Inquisição, tinham de andar direitos, respon-
deu : m ••• pera a Inquisição e pera quem a manda e pera quem a tras.
No dia 17 com pereceu Heitor de Mariz d' Andrade, cavalleiro do habito de S. João
de Jerusalem, e disse que nunca vi o ir Branca Nunes, christi nova, 4 lgrel· a durante me·
zes em que esteve em casa d' ella, nunca a vio rezar nem dizer oração a guma, ouvio-a
diur algumas palavras em hebraico e quando, d'uma yez a vio ir-se confessar, esteve
tão pouco tempo com o padre que lhe parece que se não confessou.
No mesmo dia compareceu Alvaro da Costa, morador em Cintra, e disse ter ou-
vido a Simão Rodrigues, christlo novo e recebedor das sisas em Cintra, que os chris·
tãos velhos eram uns cães.
No dia 22 compareceu Maria Fernandes que accusou Branca Dias.
No dia 28 compareceu Pedro Correia, escudeiro fidalgo da casa d'El-Rei, morador
em Evora e disse ter ouvido dizer que Antonio de Luna, castelhano, era christão novo
e que effect~,·amente, conversando com elle, a proposito dos christã6s novos, a teste·
munha lhe d1sse que o erro d'elles era supporem que o Messias nio tinha ainda vindo,
ao que Antonio de Lu na ·replicou : •Eso es mucho, yo tambem no lo se e».
. No dia 7 de dezembro compareceu o L.cto Vasco Lobo, cura de S. Nicol,o, e
dtsse que estando para morrer uma christã nova cujo nome nio sabe, mas que morava
na rua de D. Rolim, não quizera adorar o Sanctissimo Sacramento.
132

No dia 11 compareceu Joio Diak, aeleiro da Rabaha, qae coalnDoa o depoicaeato


IDterior.
No dia 3 de Janeiro de 1 5~ compareceu o clerigo Antonio Pires, morador em
Azambuja, e disse q~e Marcos Fernaod~ cbristlo novo, trabalhava ao DomiasO e como
a testemunha 'o repreheodease eUe rep6cou : Sacerdotes de tr. • . • ·
No dia 10 de. Janeiro Delo Dr. Antonio de Lilo foi iote1T911da Violante ele Goes,
mulher de Christovlo Famo, e diue que, em Azamor, habitavam tunctos ll•ooel
Rodrigues. Filippa Rodrigue~ sua mulher e filhas, uma casada com Femlo Pinheiro,
chrittlo novo, e outra com Gabriel Pinheiro e a casa d'elles iam comer ama judia,
dona Cem~ e os judeus Jacob Adibe e Moys4s Adibe e vio ir essa CamiUa Rodiipes
a todas u festas e puchoas 1 casa da dita judia. Disse mais que, iodo-se confessar, o
confessor lhe aconselhou a que viesse dizer isto • Santa lnquislçlo. .
No dia 24 compareceu llaaoel de Moraes, natural e morador em Villa Fraaca de
Lampades, termo de Brapnça, e diue que no hospital que etd na Ribeira esd uma
christi nova que nio sabe o Padre Nosso, e declarou 4 testemunha que ha dois •anos
se não confessava e ouvi o que quando ella pedia esmola alo dizia pelo amor de Deus•

No mesmo dia compareceu Maria Rodrigues, •esturiaoa espritaleira no esprital dos
pobres desemparados que esa4 na Ribeira debaixo das var•ndu dos paços• que coo&r-
mou o depoimento anterior quanto a Catbarina Fernandes.
No dia 10 de fevereiro compareceu Antonio Rico, alcaide na villa de Vallelus,
bispado da Guarda, e disse que, estando a convtrsar com Arthur Roclrisues, merca-
dor, christio novo de Belmonte, lhe dissera que a terra do Jerusalem era muito esteril
e s6mente produzia pio, e isto por causa do peccado dos judeus que crucificaram Jesus
e o den"!ncaado respondeu que ella tornaria a ser viçosa quando elle viesse, referiDdo-te
ao Mesuas.
No dia 1 ~ compareceu Paulo Arraes, moça da camara d'El-Rei e mondor em Al-
mada, e disse que Joio Lopes, juiz das sisas d'Almada, em convena com elle lhe dis-
sera, a proposito de dizimos, que se nlo deviam pa~ar senlo a clerigos virtuosos que
não estivessem amantisados e que repartissem as rendas como eram obrigados, ao que
a testemunha respondeu como S. Paulo que diaia que quem serve o altar do altar &a-
de viver, ao que Joio Lopes replicou : os clerigos como a •lo Paulo se avylo de ~pr.
E noutra occasilo fallou contra o dinheiro deixado para responsos, quando era tiem
melhor que se désse aos pobres e contra os clerigos. - Este depoimento tem a nota
seguinte : •Este Joio Lopez d' Almada foy ouvido e despachado por mr, frei Jorge de
Santiago e o doutor Antonio de Lilo, Frater Georgius de Sancti Jacobi.
No mesmo dia compareceu Martba Rodrigues e disse ~e Antonio Feraaades,
teadeiro, e sua mulher, 4s 6.•• feiras coziam e amaJsavam, aos sabbados vestiam •beati-
lhas lavadas:. e a casa d 'elles vinham os genros, filhas e netos, vestidos de ·festa; citou
testemunhas. Ouvio tambem dizer que a mulher de Antonio Fernandes affirmara que
tres dias no anno os diabos andavam 4 solta : dia de Corpus Christi, de S. Joio e 6.•
feira de endoenças. Declarou que vinha dizer isto porque o cura de S. Nicol4u na con·
fissão lh'o mand4ra.


No mesmo dia compareceu Joio Fernandes que confirmou o depoimento ante-
r1or.
No mesmo dia compareceu Alvaro Aflonso, pic:baleiro, morador na rua da Cutela-
ria que confirmou o depoimento anterior. '
No dia 14 de fever~iro compareceu Branca Nunes, mulher ela testemunha antece·
dente que confirmou o depoimento anterior.
No mesmo dia compareceu Diogo Fernandes, que est4 em casa de Alvaro Affoaso,
cujo depoimento confirmou.

t33
-----.....-........-.

No mesmo dia compareceu Bru Affooso, criado de Alvaro Affonso, cujo depoi-
mento confirmou.
No dia ag compareceu Pedro Fernandes, cerrador, e disse que por varias vnea,
uma hora antes de amanhecer, vira uma christã nova que está presa, cujo nome nlo sa-
be, (ao lado diz-se que era Violante Rodri~ues) á espera da estrella de alva. de joelhos,
.como que a orar. (Mostraram-lhe a tal chr1stã nova e a testemunha reconheceu-a.)
No dia ~3 compareceu Joio Vicente, morador em Albufeira, que accusou Rafael
Fernandes, christio novo, de ter proferido palavras contra Jesus Chi-isto.
No dia 27 compareceu •Genebra•, preta e captiva de Ayres Tavares, escrivão da
.camara d'El-Rei, que accusou um mourisco, Christovio, de querer ir para a terra dos
Mouros.
No dia ~s compareceu, nas casas do despacho da Santa Inquisição, Martim Jorge,
e diue que um homem castelhano, confeiteiro, trabalha aos Domingos e come carne
~ando a não deve comer. ·
No mesmo dia compareceu Antonio, criado da testemunha anterior, cujo depoi-
mento confirmou.
No dia S de Março compareceu João Lourenço, sapateiro, e disse que Duarte
Fernandes !y!eiro em Cintra, \'iera de Gulfo e nio fôra cá bapusado, nem a mulher e
.que o seu filho Simio Fernandes já foi penitenciado pela Inquisição. .
No mesmo dia compareceu Antonio, trabalhador, que denunciou Catharina Fernan·
des por nio ir á missa.
No mesmo dia compareceu Catharina e disse ter ouvido a Guiomar do Couto que
seu irmão, cujo nome nio sabe, blasphe.mava frequentes vezes.
No n1esmo dia compareceu Pedro Rodrigues, carpinteiro, e disse que o bachar~l
.Gaspar Drago affirmou á testemunha que o papa não tinha poder sobre as almas do
purgatorio, porque só tinha poder sobre a terra. ·
No dia 11 compareceu Antonio Fernandes, carpinteiro na Ribeira, que confirmou o •
.depoimento da testemunha anterior.
No dia 5 compareceu Gaspar Rodrigues, tintureiro, e disse que Catharina Fernan-
des, mulher de Pedro de Vargas, comia carne aos sabbados, que guardava.
No mesmo d1a compareceu Maria Mendes que confirmou o depoimento anterior
sobre Catharina Fernandes.
No dia 6 compareceu Antonio Fernandes e confirmou o depoimento anterior sobro
Catharina Fernandes.
No mesmo dia compareceu Braz Gonçalves e confirmou o depoimento anterior
.contra Catharina Fernandes. ·
No dia 7 compareceu Antonio Fernandes e accusou Diogo de Vargas de ter al-
moçaJo antes de commungar.
No dia 16- compareceu Maria Gomes e disse que Violante Pinto e Beatriz Lopes,
moradoras abaixo da Porta do Sol, sio tidas por feiticeiras, dizendo a segunda d'ellas
que fallava com os diabos e que para isso era preciso levar-lhes alguma coisa. A pri·
meira costumava moer •pedras de cevar• para dar de beber a quem quizesse provocar
cs amores d'outrem. Disse ainda que as duas costumavam vestir uma vassoura e cha-
mar-lhe mie do diabo, dona Abisodía ( /)
A IMQUISIÇlo KM PoRTUGAL B xo BBAZIL
-----····-·-·--··-·--····-.........
No dia 21 compareceu Duarte Pacheco, moço da camara d'el·rei Nosso Senhor,.
e disse que estando a conversar com uma christii nova1 Beatriz Mendes, eUa, suppoa-
do-o tambem christiio novo, lhe disse que ia á igreja a nngir e differentes coisas a cer-
ca do valle de Josaphat.
No mesmo dia ainda Duane Pacheco confirmou um depoimento anterior acerca
de Gaspar Drago.
No dia 24 de març_o compareceu no mosteiro de S. Domingos, na cap~lla de S. Pe-
dro, martyr, Germana Gomes e confirmou o depoimento contra Beatriz Mendes acres-
centando qu~ Catharina Alvares DaleRfe guardava os sabbados, na ó.• feira á noite
accende candeias e quando isto faz costuma dizer o seguinte : aEstas si a' encomédan-
ças benditas e santas que nos encomendou o nosso deus q açendesemos candea é noyte
de sabbado com azeite d'oliva limpa.• Tambem esta Catharina Alvares fazia o jejum
da rainha Esther. Disse ainda que Vtolante d'Oliveira e seu marido eram judeus.
No dia 27 compareceu Gaspar Luiz, oleiro, e disse que mestre Fern~:tndo, •!iollor- ·
giã e phisico», fali ando com elle lhe affirmou que o abrir do mar Vermelho não fora-
tanto pelo poder de Deus como pelo vento que n'aquella ocasião se levantou.
No mesmo dia compareceu Antonio Fernandes, e disse que Diogo Fernandes,
cortador, christão novo, fez no chão uma grande cruz com um páo e lhe deu •é cyma
huú grãde couçe» e depois de apagar esta tornou a fazer outra.
No dia 3o compareceu Rodri~o Bernardes, morador em Tuseo, termo de Vinhaes,.-
e disse que na villa de Vinhaes habitava um Joio de Moraes e que, este, a proposito
da romaria do Senhor da Serra, tinha dito que a gente que lá ia melhor faria em com-
prar fazendas porque não havia senão nascer e morrer. Acrescentou a testemunha que
em Vinhaes ha, dos muros para dentro, 5o moradores e d'esses só tres é que são chris-
tios velhos; os restantes guardam os sabbados e, como um d'c:lles fosse preso, e se·
espalhass~ a noticia de que a Inquisição os queria prender a todos. esteve a villa despo-
voada durante 8 dias porque fugiram. E' voz publica que a asynoga• é em casa d'um
Francisco Lopes.
No mesmo dia compareceu Antonio do Ballcacere, morador em Vinhaes, e disse-
que nesta villa havia 5o moradores e d'esses só 4 ou S eram christãos velhos, vivendo-
a maior parte dos outros como judeus, tendo asynoga, em casa de Franciso Lopes, que
dizem que foi aaraby ;» aos sabbados costumam elles vestir-se melhor do que nos outros -
dias, nas sextas ·feiras á noite accendem candeias até ao sabbado, raramente vão á missa
e, em especial, Simão Garcia e seu irmão João Garcia e seu primo Pedro Fernandes,
quando na egreja levantam o corpo de N. S. Jesus Christo, põem os olhos no chão e nio ·
se inclinam; Francisco Lopes costuma ter um livro na mão, mas para fingir que reza
porque está sempre de bocca aberta. A testemunha disse tambem ter visto a mUlher de ·
Simão Garcia cozer pão nos domingos, vio Simão Garcia comer carne á sexta-feira o
jurar falso assim como Pedro Fernandes. Citou testemunhas e disse ter má vontade a
Simão Garcia.
No mesmo dia compareceu Antonio Martins, tambem de Vinhaes, e disse que em
Vinhaes havia 5o moradores, dos quaes só 3 ou 4 christlos velhos e os restantes tidos·
como judeus com asynoga• em casa de Francisco Lopes. Em particular referiu-se a
este que se vestia melhor aos sabbados e nlo guardava os domingos, assim como Pedro
Fernandes ; tambem disse que Bernardo Lopes d'uma vez tróuxera na sua vinha homens -
a cavar num dia sancto pelo que foram condemnados. Citou testemunhas.
A ~ d'Abril •e a casa do despacho da Santa Inguisição• compareceu Joanna Dias,
moradora no arco do •Rosyo•, e disse que Beatriz Mendes, christã nova, com duas
filhas, que 5 annos esteve em casa da testemunha, guardava os sabbados, fazendo na
sexta-feira a noite o que os christãos novos costumam fazer; nos sabbados vestia touca.
e beatilha lavada, nao comia carne de porco. D'uma vez, em conversa, á testemunha
perguntou Beatriz Mendes se •folgava q lhe tirasse as unhas quldo viese o ante~hristo•
J35
·---···-··..·····-·---
e a testemuilba respondeu •que pella fee de Deus e seu amor folgaria de sofrer yso• e
depois d'isto 8. Mendes começou dançando e batendo as palmas, e diHndo: •Já viesse,
j4 viesse•, mostrando assim grande desejo da sua vinda. Disse a testemunha vir fuer
este depoimento para nlo ser excommungada e acrescentou que Branca Fernandes fôra
cozer ao seu fomo numa sexta-feira de endoenças e nunca a viu ir a miua.

No mesmo dia compareceu Catharina Rodrigues, filha da testemunha anterior, cujo


depoimento confirmou.

No mesmo dia compareceu Jeronymo, moço de 14 ou 1 S annos, filho da testemunha


Joana Dias, cujo depoimento confirmou.

No mesmo dia compareceu lgnez de Cal que disse ter ouvido a Isabel Fernandes que
os christãos novos tinham fornalha onde coziam pio asmo.

No mesmo dia compareceu EsteYão Lourenço, clerigo de missa e cura da egreja


de S. Martinho da villa de Cintra, e disse que, estando d'uma vez a dar a commurihão,
entre outras pessoas que a tomaram, estava uma Isabel Rodrigues Atasadeira, christl
nova, e como a t~stemunha pedisse para que dissessem se alguern tinha mais necessi·
dade de agua, Isabel Rodrigues persuntou: •Que diz o padre I• E a testemunha per-
guntou-lhe ~ntão se sentia afguma co1sa na bocca e ella respondeu asperamente : •Que
hey de senttr, senty ysto que me meteste na boca•.
No dia 3 de março (ou abril) (este depoimento ou esú aqui intercalado ou entio
41eve ser abril e não março, mas é todo da letra do ln~uisidor Fr. Jorge de Sant'lago e
.está assignado pela testemunha), compareceu Bento ft orge, thesoureiro da igreja de S
Martinho que fez egual depoimento ao da testemunha anter:ior.
No dia 3 de abril compareceu, na presença de Fr. Jorge de Sant'lago e do Dr. Anto-
3lio de Leão, desembargador, Fausto Simio de Calvos, cavalleiro da Casa d'El-Rei, e
clisse que ouviu a sua mãe Francisca Delgada e a sua irmi Isabel Serrio, mulher do
Claspar do Couto, criado do infante D. Luiz, que em casa de Francisco de Lope se nio
comia carne de porco.
No dia 4 compareceu Francisca Delgada que confirmou o depoimento anterior
<ontra Francisco de Lope e sua mulher.
No mesmo dia compareceu o cura da Magdalena, Gonçalo Fernandes, e disse ter
ouvido que a mulher de Francisco de Lope, christão novo, trazia comsigo um judeu de
Safim.
No dia 6 compareceu Luiz de Sé, escudeiro fidalgo d'El-Rei, filho de Joio de Si,
thesoureiro da Casa da India, e disse que estando preso no Aljube ouvio dizer a Pedro
Alvares, sapateiro, do Algarve, que •se deus qua viesse e lhe tomasse o seu lhe daria
c6 húa panella na cabeça». Citou como testemunhas todos os presos e entre elles o co-
nego Antonio da Grã.
No dia 9 compareceu João Tavares, escudeiro do bispo q~e foi de Vizeu D. Diogo
Ortiz de Vilhegas, morador numa quinta no termo de Alhos Vedros e disse que Diogo
Lopes, neto de uma Maria Dias, christi nova, clerigo de missa e que foi frade de Nossa
Senhora da Graça, disse a proposito d'uma bulia que os freguezes da igreja de Palhaes,
onde elle era cura, tinham impetrado : •esta bulia bulrra, esta bulrra bula». Citou teste-
munhas de tal facto. D'outra vez tirou uma bulia de perdões que estava em cima do
altar com palavras irosas: citou testemunhas. Tambem o mesmo fn um casamento,
sabendo que a mulher ia casar segunda vez; citou testemunhas. Tambem ha quem se
queixe d'elle revellar confiss6es. E a testemunha notou que quando dizia a •Confisslo
Geral• nunca falava em Nossa Senhora e só o começou a fazer depois que veio a loqui-
~lo. (Este depoimento e o anterior foram escriptos pelo punho de Fr. Jorge de Sant'·
lago por o notario estar doente).
-----·····-·········----······--·-
No dia 10 compareceu Henrique Jorge, lavrador, morador no termo de Torres Ve-
dras, que accusou de proferir heresias a Alvaro Annes.
No dia 12 compareceu Catharina Annes e disse ter ouvido a Anna Lopes que
Manuel Soares que foi escrivão da camara de Beja e sua mulher, guardavam os sabba-
dos e nas sextas feiras á noite accendiam um candeeiro com muitas •matullas•, jun-
ctaodo-se em casa d'elle a familia toda, n'um quarto muito reservado onde liam por uns
livros grandes, dizendo: cVeo, nã veo, veo, nã veo•. O'uma vez q_ue a mulher de Ma-
nuel Soares surprehendeu Anna Lopes com umas contas na mio disse-lhe : •Aleivosa,
vos rezaes por cõtas e fazeis-vos da nossa casta I Se vos forés da nosa casta nã reuries
por contas.• Disse tambem a testemunha que, entrando em casa de Manuel da Costa,
christio novo, o encontrou e a sua mulher comendo gallinha cozida numa se&ta-feira

d'endoenças, dizendo que estavam doentes quando estavam bem sãos. Disse tambem ter
visto em Beja a um christio novo, Brunco, tecelão ter 2 figas de baiso da carapuça
quando erguiam o Santissimo Sacramento.
No dia J3 compareceu Andre Fernnandes, mestre dos biscoitos d'El-Rei, morador
em Palbaes, termo de Alhos Vedros, e disse que era verdade ter dito ao cura da sua fre-
guezia, Diogo Lopes, já denunciado, que uma mulher que elle queria casar já o era,
com o que elle se nio Importou. Tambem disse que duas mulheres lhe affirmaram que
elle lhes tinha promettido da pedra de ara se o conseguissem congraçar com os respe-
ctivos maridos.
No dia 14 compareceu Catharina Tavares mulher de Gil, mestre cantor de El-Rei,
e disse que Henrique Lopes, cbristão novo de Evora tinha ficado muito a,~tado
quando se publicou a Inquisição naquella cidade, que elle,_ agora residente em ·sboa,
nio comia carne de porco e fallando os dois acerca de chrastãos novos, disse-lhe a tes-
temunha que aelles sé'pre forã çegos nas cousas de deus e andavã as avesas do que lhe
deus mandava porque no tempo que deus lhe dera a lley por mouses elles nuca a com-
~riri ne gardarl como lhe deus mandava e agora que tem a fee de noso senõr Jhií
Christo noso Redemtor mas tomã a gardar a lley de mouses que pasou ja e que fora
figura da nosa fee e paixã de Christo» ; a isto respondeu Henrique Lopes ~ue Deus
nunca fizera cousa que desfizesse, com o que a testemunha muito se escandabsou~
No mesmo dia compareceu Beatriz Thomaz, irmã da testemunha anterior, cujo de-
poimento confirmou. ·
No mesmo dia compareceu Catharina Estaça que, a respeito de Henrique Lopes,
confirmou o depoimento das anteriores.
Ainda neste dia 14 compareceu Branca Rodrigues que disse ter visto uma camara
da casa de Francisco de Lope muitú allumiada, numa sexta feira, onde se encerraram
differentes pessoas; que nessa casa não se comta carne de porco e d'uma vez que uma
creada fez 1sso mandaram lançar a louça ao Tejo.
~o dia 16 comp~receu Anna Lopes que confirmou o depoimento da testemunha
anteraor contra Francisco Lope.
No dia 1t:f d'abril compareceu Micia Fernandes e disse ter ouvido a Leonor, filha
de Anna Fernandes, que esta tinha deixado ir uma filha com uns christãos novos para
Gulfo.
No dia 21 compareceu Margarida Fernandes que confirmou os.. depoimentos ante·
riores contra Franctsco de Lope e sua mulher. ·
No dia 22 compareceu Francisca Vaz e disse que vira Isabel Fernandes, Isabel Nu-
nes e Elvira Dias jejuar no dia de Quipur, que vem no tempo das uvas, e que, no dia
anterior ao dito jeJum, cearam é noite muito bem e d'ahi até ao outro dia I noite, em
que nasceu a estrella, conservaram-se sem comer nem beber e estiveram descalças, pra-
ticando tambem outros jejuns judaicos. Disse mais a testemunha que Isabel Fernandes
---- ·----
accendia uma candeiR d'azc!ite na sexta feira á tarde logo que nascia a estrella, a qual
ninguem havia de apagar e as torcidas d'esta candeia eram feitas na sexta feira pela
manhã em jejum. Elias fazi~m na sexta feira o comer para os sabbados. Citou testemu-
nhas e quanto ao costume disse que as denunciadas se davam mal com a testemunha.
No dia 27 compareceu Domingos Fernandes, beneficiado na igreja de Sacavem, e
disse que João Lopes, de Unhos, vem nos sabbados a Sacavem com camisa lavada e pe-
lote novo e que ouvio dizer que elle, a proposito da virgindade de Maria, tinha dito:
•nõ ha hy queijo sem qualho.•

No mesmo dia compareceu Vicente Viegas, sapateiro, e disse que na igreja de S. ..


Christovão tinha ouvido a um pré~ador que Nossa Senhora tinha de idade 6o anno3
quando subio ao céo e a proposito d'isso, um carpinteiro, João Nunes, tinha dito: uBem
velha era a burra.•
No mesmo dia compareceu Maria Fernandes que confirmou o depoimento anterior.
No dia 2t\ compareceu Jeronymo Gonçdlves, clerigo de missa, e depoz contra
João Lopes que vinha a Sacavem aos sabbados, de barrete e gabão que costuma trazer
aos Domingos e confirmou o depoimento de Domingos Fernandes.

No mesmo dia compareceu Francisco Lopes, escudeiro do duque de Bragança, que


confirmou o depoimento da t~stemunha anterior contra João Lopes.

No dia 31 compareceu Antão Martins, morador no termo de Vinhaes, e disse que


ouvio a umas criadas de Bartholomeu Alvares, o moço, e Pedro Fernandes que elles nas
sextas á noite as mandavam deitar e estavam toda a noite com as luzes accesas e a
testemunha reparou em que elles, quando iam â missa e levantavam n Deus, voltavam a
cara para traz.
No mesmo dia com~arcceu Anna Lopes. moradora em Alião, freguesia de Unhos, e
disse que lá habita uma Isabel Dias, mulher de Simão Rebello, que tem fama de christã
nova, que não costuma ir á missa e quando esteve de parto nuncn chamou por Nossa
Senhora. Quanto ao costume disse que estão mal.
.
No dia 9 de Maio compareceu CHtharina Lopes de Vasconcellos e disse que em
conversa con1 Luiz Antunes que foi religioso, lhe perguntara quem era Erasmo e o Luiz
Antunes respondeu que fôra um ~rande doutor e confessor do imperador e que fizera
muitos livros e que era um excellente homem ; n isso replicou a testemunha que admi-
rava ser assim porquanto d'elle diziam nluito mal e então Luiz Antunes respondeu •q
jso faziã com cmveja que ainda avia de vyr tempo en1 que os haviam de ouvir e eHi-
mar muito.» A testemunha disse tambem ter ouvido 4ue Luiz Antunes affirmara que os
sacerdotes não deviam levantar o sacran1ento mais que uma vez. Disse ainda que o pae
de Luiz Antunes era um d'aquelles christãos novos que tinham vindo fugidos de Cas-
tella.
No dia 7 contpareceu Margarida lmdon que fez o seu depoimento contra Leonor
Fernandes e Ana Lopes, christãs novas que guardavam os sabbados1 e que em casa
d'ellas um Lopo Dias, clerigo, comera carne numa quaresma. Disse ansas a testemunha
que Joanna D1as e sua madrasta Leonor Dias aos sabbados se enfeitavam e não traba-
lhavam.
No dia 9 compareceu Margaridn Gomes e disse que, Catharina Alvores, christã nova,
por a testemur.hn ter feito o signal da cruz lhe disse: chcm sarilhaves vos oje » A's
sextas feiras a noite costun1ava accender candeias, d'uma vez vio-a a testemonhn comer
pão asnlO que lhe tinha enviado sua neta Juliana Jor~e. Dis~e mais a tes~en,unha que
Beatriz Mc:ndes, que agora está presa nos carceres da Inquisição, dissera deante d'ella
que o Messias h~ via ainda de vir c de a tornar moça e começou bailando e dazendo uma
cantiga em que se ouvia a palavra: •Adonay.» A testemunha pedio finalmente que •por
A btQUJBiçlo DI PoBTUO.AL • BO Ba•zJL IÓ
t38
-.....··············-······-····--.._._---
amor de noso senõr seu nome nó fose dado nem descuberto e o padre Inquisidor lho
prometeo.»

No mesmo dia compareceu Manoel, criado d'El-Rei e morador em Aldeia Gallega,


e disse que Luiz Antunes que fôr a rt:ligioso e agora era professor, lhe contara estar
trabalhando num livro em defesa de Erasmo e a testemunha vio lhe mesmo um livro
d'esse auctor.

No mesmo dia compareceu Francisco Murzelo, criwdo de D. Rodrigo de Castro,


que denunciou como blasphemo a Christovão Rodrigues, preso na cadeia da cidade
como ladrão.

No mesmo dia compareceu Pedro Pestana, criado de D. Rodrigo de Castro, que


confirn1ou o depoimento anterior.

No dia 10 compareceu Francisca Vaz e acrescentou o depoimento q_ue anterior-


mente fez dizendo que Isabel Fernandes lhe dizia que no dia do jejum de Quipur se de·
veriam perdoar todas as culpas e que ensinou á testemunha, quando amassava o pão,
a tirar um bocado de massa e deita-la no fogareiro. Disse tambem que Isabel Feman·
des tinha aprendido todas as ceremonias judaicas com Duarte Tristão.

No dia 11 de Maio de 1S4l, na casa do despacho da Santa lmtJuisição, por o Padre


Mestre Fr. Jorge ( 1), inquisidor, foi interrogado Martim Affonso, bombardeiro, e dis-
se que João Lopes, chr1stão no,·o e alfaiate, que agora est4 preso, quando levantavam
a Deus, fazia que olhava para o Santo Sacramento e olhava para o clião e aos sabbados
vinha, de camisa lavada, a Sacavem, comprar carne e d'uma vez, mostrando um queijo,
perguntou á testemunha; pode-se farer isto setn qualho , A testemunha responJeu lhe
que não e elJe replicou : Pois asy nó pode conceber nhuüa molher sem !emente de barão.
Tambem não costuma comer toucinho.

No dia 12 compareceu Silvestre Fernandes e disse que Marcos Gil, christão novo,
querendo jurar dissera: Por nosa Cegonha I, não sabendo a testemunha a tenção com
que o fizera.

. t:lo mesmo dia compareceu Leonor Vaz, mulher da testemunha antecedente, cujo
depoimento confirmou.

No dia 16 compareceu Lucas Alvares, sapateiro, e disse que vira Antonio Bispo, al-
lemio, condestavel dos bombardeiros, ir para um canto da capeJia dos allemães, quan ·
do levantava.m o calix e que o tem por mao christão, assim como toJos os bombardei·
ros da confraria dos bombardeiros allemães e ftan1engos que ha na igreja de São Gião,
excepto Rodrigo de Hollanda que é bom christão. A testemunha disse tambem que a
viuva de André de Tavora, christã nova, não C04jtumava ir á missa e ouvio dizer que e lia
se não confessava nem commungava.

No mesmo dia compareceu Gonçalo Dias, feitor da dizima do pescado, e disse que
ha 17 annos está cm casa de André de Tavora e de sua mulher Gracea Lopes e nesta
notou o seguinte : quando o emperador ton1ou Tunis aos turcos ella se entristeceu,
quando se tomou o cabo de Gué mostrou contentamento. Ouvio dizer a Gracea Lo-
pes que estava resolvida a fogir para Gulfo ou Celoniqua e irada diz frequentemente:
mdo anno e maa pascoa tenhão os christãos novo! gue se deixão estar em Perlugal. Só

{1) As denuncias que se seguem são de differente codice das anteriores. O notario
que as escreveu é o mesmo que traçou alflumas das do primeiro livro e o inquisidor
presidente ora é Fr. Jorge de Sant'lago, ora João de Mello, ora Ruy Gome! Pinheiro, ora
Ambrosio Campello e outros.
'

--.....-·...-···---······-··········-···-·
eoatuma dar esmola aos christãos novos ; o marido chamava-lhe muita vez judia, pera
pe o avya de di;er a el--Rey pera que a fireS$e gueimar, comia carne na quaresma, fin-
gindo-se então doente; nunca a testemunna a vao comer carne de porco nem peixe de
escama; o pão nunca o mandava comprar á praça, e, além de ter louça apartada para
ella comer, tambem tem alguidar apartado para amassar o pão ; quando v1nha de casa
dJialgum defunto, antes de entrar em casa, lavava as mãos.

No dia 18 de Maio compareceu Brisida Lopes, moradora na rua de Martim Alho


e disse que virct Anna Lopes, n'uma 6.• feira á tarde, andar limpando e varrendo a
casa, e ouvira dizer que guardava os sabbados.

No 19 compareceu Brianda Lopes, visinha de Isabel Fernandes, christã nova que


agora prenderam e que 2 tendo morr1do uma filha á testemunha e estando ella presente,
quiz mandar vir umas nervas para lhe lavarem o corpo, o que outras christãs novas
que estavan1 presentes não consentiram, dizendo que não 1am para isso os tempos;
tambem disse que ella, assim como Isabel Nunes, jejuavam aquando aos judeus.

No dia 2 2 compareceu Catharina Lopes, mulher de Gonçalo Dias, cujo depoimcn ·


to confirmou.
No dia 29 compareceu Diogo Gonçalves, beneficiado da igreja de S. Joãot e dis·
se que ~onhece un1 Antonio Bispo, allemão, condestavel dos bombardeiros, matoral da
confraria dos allemães bombardeiros, a quem vio muita vez entrar na igreja sem tirar
o barrete e não se ajoelhar quando erguiam o Santissimo Sacramento. Tambem vio fa-
zer isto a um allemão chamado Tilmão. Tarr.bem vio um christão novo, chamado Pe·
dro Antunes, tomar o sacramento com grande c.lescaro e riso e ao tomar do lavatorio
disse : mais valera que fora vinho. Ouvio dizer a uma criada da viuva de André de Ta-
vora que esta lhe ralhava, quando a via rezando por contas, e o marido lhe dizia que não
era boa christã e por isso o melhor seria ir para fóra do reino.

No dia :io compareceu Pedro Pires, hollandez de Flandres, que nada entendia de
portuguezes e por asso lhe servio de interprete Joaquim Querse, e disse que sabia de
differente~ pessCJas que queriam sahir de Portugal e cujos fatos já estavam a bordo e o
accordo para essas pessoas sahirem se fez em casa de Tilmão, allemio, que lhe parece
servia de interprete; disse mais que o contracto consistia em irem metidos em pipas
sobre o porão do sal, até ao mar alto e ahi haviam de lhes dar a cgmara do mestre;
que eram tres as pessoas: pae, filho e muJher talvez d'este. Quanto ao costume disse
que era amigo d'essas pessoas, mas um cruzado, que lhe tinham dado de frete era pouco.
No dia 10 de Junho compareceu Mecia Braz e disse que João Lopes, christão novo,
a proposito d'uma candeia que tinha D. Joanna, mulher de Filírpe de Castro, vinda da
casa sancta de Jerusalem e que, por causa d'isso, nunca se apagava, duvidou de tal e
blasphemou.
No dia 20 compareceu Anna, moça solteira, e disse que Francisco de Caceres, e
sua mulher, e Guiomar de Caceres, sua filha, praticavam actos de judaismo, guardando
os sabbados, comendo ovos na quaresma, comendo ás escondidas uns bolos especiaes.
Quanto ao costume disse que fôra preciso a intervenção do corregedor, para este seu
amo lhe pagar um cruzado, e que a trouxera á Inquisição, ameaçando-a pelo caminho.
..
No dia 3o compareceu Catharina Fernandes e disse ter ouvido que Simão Lopes e sua
familia praticavam actos de judaismo.
No mesmo dia compareceu Guiomar Gonçalves que confirmou o depoimento da
testemunha anterior.
No dia 10 de julho compareceu Maria Godinho e disse que Isabel Godinho, christã
nova, praticava actos de judaismo. .
No dia 17 compareceu Maria Alvares, que foi amante de Henrique Vaz, a quem veio
denunciar~ como praticanqo actos de judaismo~ · · ·
-----··-·······--··-··········........ -.....
No dia 19 de julho compareceu Joanna da Ribeira e disse <J.Ue Isabel Gomes, que
já está presa pela Inquisição, em conversa com ella, como se fingisse da lei de Moysés,
lhe confessou praticar actos de judaismo.
No dia 20 compareceu João Affonso, bombardeiro, que veiu da lndia na náo de Vi-
cente Gil, e diziam á ida que entre elles ia fogido um christlio novo, queimado em es·
ta tua e n1ais 6o.
No mesmo dia compareceu Gaspar de Seixas, escudeiro, morador em Monforte e
dasse que em Vinhaes, onde unha estado, havia muitos christãos novos, que guardd\·am
os sab bados.
No dia 16 de agosto compareceu Gonçal~ de Moraes, alcaide de Vinhaes, que dis-
se que o procurador do numero d'essa villa, Pedro Fernandes, praticava actos de JUdeu
e lh'o confessara em conversa.
No dia 20 compareceu H.odrigo Jorge, cleri~o de n1issa, cura d'uma igreja no termo
de Cintra e disse que Duarte Fernandes, christão novo, estando d'uma vez muito doen·
te, como a teste.munha o fosse ver e dar-lhe consolações espintuaes, elle declarou que-
rer ser enterrado na ermida de S. Sebastião, onde se costumavam enterrar os judeus e
ouvio dizer que elle se tinha confessado ao cura, apezar do que lhe tinha dito e que co-
mia carne aos sabbados. ·
No dia 3o compareceu Pedro de Basilhaca, navarrez, penteeiro d'el-Rei, e disse que
c~tando Leonar[do] de la Roca, mercador de Bordeus, Oliveiras, clerigo francez e o seu
criado Valentim, a conversar com um Lourenço de Cahelevilla . penteeiro gaseio, sobre
a n1issa, este, a proposito da consagração, dissera á testemunha que se fosse \"erdade,
qne Deus estava na hostia depois de consagrada, havendo em 3 altares a consagração ahi
estavam tres deuses e como a testemunha lhe dissesse que não proferisse taes palavras,
o penteeiro gascão replicou,que não cria senão que Deus esta\'a nos céos.
No mesmo dia compareceu o criado da testemunha anterior, Valentim, cujo depoi-
mento confirmou.
No dia 3 de Agosto (deve ser septembro ; foi engano do notario) compareceu Oli-
veiras d~ Bosco, clerigo de missa, estrangeiro da Navarra, que confirmou o depoimen-
to anterior.
No dia J3 de setembro (•543) compareceu Catharina Annes, que accusou de biga-
ma Isabel Dias.
No mesmo dia compareceu Francisco da Costa, que dis~e ter chegado havia pouco
da Mina numa náo, que tinha por contra-mestre Simão Gonçalves, o qual blasphema~a,
assim como Bento Fernandes, que chamava cornudo a S. Lourenço por lhe não dar
vento.
No mesmo dia com pareceu Pedro de Santa f\1aria, christão novo que está fazendo
a sua penitencia no collegio da doutrina da íé, e denunciou a1guns christãos novos
de Tanger, cujo nome não disse.
No dia 17 compareceu Ca tharina Alvares que confirmou o depoimento de Cathari-
• na Annes contra lsahel Dias. Idem, Margarida Rodrigu,es .
No mesmo dia compareceu "-) oão Barbosa Paes que denunciou o capitão no Brazil
Pedro de Can1po ·rourinho, por se dizer lá Papa e rei e fazer trabalhar aos Doming~s.
No dia 18 compareceu o clerigo Luiz Pires Queimado que confirmou o depoimento
de Catharina Annes contra lsabel Dias. ·
No dia 3 d'outubro compareceu Ruy Lourenço, morador cm Faro, e disse que
ahi, ua.as filhas de Martha Pedro, tinham-se ido confessar e antes de commungarem co
meram passas.

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No dia 6 compareceu Pedro Fernandes, lavrador, morador em Benavente e disse
que Gonçalo Vaz, sapateiro e christão novo, quando levantaram ·a Deus, disse: Pão e
~ho vejo, e creio na lei de Moysés. Tambem affirmou que um christão novo, Grego-
rto Fernandes, lhe dissera não acreditar na virgindade de Nossa Senhora.
No did 12 d'outubro compareceu Diogo Lourenço e disse que, estando no Brazil, na
capitania de Duarte Coelho, tr~vara d'uma vez conversa com Antonio Dias, que tem
um filho preso no carcere da lnt;uisiç5o, e elle lhe dissera que a lei velha era boa e era
voz pubhca ter affirmado que antes queria ser mosca que christão.
No dia 22 compareceu Mi~uel de Castro, ourives castelhano, morador na rua da
Ourivesaria, freguezaa da Magdalena, e disse que, em Lishoa, viviam certas pessoas
queimadas em estatua em Granada como herejes e que são : João Baptista, ourives,
(hri~tão novo, Antão Peres, mercador da Rua Nova, Lourenço Peres, ourives e chris-
rão novo~ e a mulher de Martim Fernandes.
No dia 7 de novembro compareceu Maria Fern;tndes, mulher de Lançarote Mendes,
solJicitador, e disse que Mór Lopes e seu marido Francisco Mendes, sapateiro, não je-
juaram a quaresma pussada, e proferiam bl~sphemias.
No dia a3 compareceu João Alves, ferreiro, morador em Montelavar, que disse ter
vivido com Jorge Fernandes, cnristão no\'o, que tinha chegado, havia pouco, de Maza-
gão, que vestia camisa lavada aos sabbados, accendia candeias na noite de 6.• feira e
Jorge Fernandes passeava então na casa com o livro na mão.
No dia 4 de dezembro compareceu Cosme Rodrigues e disse que sua sogra Catha-
rioa Sanbrana,-quando a mulher d'ellc morreu, a amortalhou com os melhores toucados
que tinha, isto é, c lhe poserão huíía coyfa douro e huü paninho de franja douro c huü
trançado ~ue levava huúa fita encarnada c asy hvüa camisa de desfiado». Quanto ao
costume dtsse que trazia demanda con1 ella.

No dia 21 compareceu Agostinho Vaz Guedes, escrivão da descarga da alfande~a,


e disse que Henrique Pimentel, christão novo, não costumava ir á missa e vestia camasa
lavada aos sabbados que guar~ava.
No dia 28 de março de 1S44 compareceu Violante Fernandes e disse que un1a christã
Dova, por alcunha a Franca, guardava os sabbados e trabalhava aos domangos.
No dia 31 compareceu André Lopes, bombardeiro, e disse que Salvador Carvalho,
<:hristão novo, escrivão do Galeão grande, proferira blasphemias.
No dia 2 d'abril compareceu Diogo Alvares, hortelão de Setubal, e disse que
e•tando na iRreja d'Atalaia dando candeias ás romeiras, ouvio dizer á mulher do Sisei-
--~ d'Aldeia Gallega, voltando-se para um retabulo do Christo açoutado: Assim estarás.

No dia 6 d'abril compareceu Me~ia de Queiroz Cabral, viuva de Ruy Dias Freitas e
c:l isse que, estando em casa de sua irn1ã Filippa Cabral, em conversa com Belchior Fer-
~andes, feitor de Gahric!l Rodrigues, n1ercador, dissera elle que uns livros contradiziam
~~outros e sómente a Biblia a não contradizia ninguem e que, ainda que se fosse mou-
.-o, se se prceticassem boas obras, se iria pílra o céo. Quanto ao costume disse (como jé
algumas testemunhas anteriores) que vinha declarar isto por lh'o ter mandado o seu
c:onfessor.
No dia 7 d'abril compareceu Domingos, natural da l .. orre de Moncorvo, e disse ter
-,n,ido na Guarda em casa de um Fuy Lopes e de sua mulher Leonor Gomes, aonde
JliS 6.•• á noite limpavam os candeeiros, pondo-lhe novas torcidas e guardavam os sab-
l»ados; não comiam carne de porco.
No mesmo dia comp3r~ceu Francisco Vaz, cutilleiro, e disse que Anna Gomes,
christã nova, que vende agua em casa aos cantaras d'um poço que tem, conversando
COID a testemunha, a proposito d'el-rei Xarafe, que a testemunha entendia que se de-
lia fuer cbristão, disse: •sy,jar se a christão pera que lhe chameê despoês cão •.

. ·~ .
. r~:T. ·~ .Jo .
. No mesmo dia compareceu Jorge Fernandes, que confirmou o depoimento aotc-
nor.
No mesmo dia e logar compareceu Helena Fernandes, que disse ter ouvido a Anna
Gomes que a sua lei era melhor que a christã.
No mesmo dia compareceu Ma~dalena Fernandes, mulher de Sebastião Fernandes,
luveiro, e disse que Anna Gomes, duma vez que ella estava á porta e por lá ia passar o
Santissimo Sacr&mento, metteu-se para dentro; não costumava ir á missa senão d'ha
um anno para cá, em que foi reprehendida.
No mesmo dia compareceu Constança de Verguara e disse qut, quando se tomou
o cabo de Gué, Anna Gomes se mostrou contente com tal facto.
No dia 7 de abril-compareceu Catharina Lopes e disse que Leonor Lopes, a pro·
posito d'umn oração que ella rezava, dissera que quem toca a judeu toca a olho meu e
dissera que Nossa Senhora fôra viuva.
No dia 8 compareceu Filippa Cabral, viuva de Thomaz de Castro, e confirmou o
depoimento da irmã quanto a Belchior Fernandes.
No mesmo dia compareceu Beatriz Rebello, mulher de Manoel Affonso, que está
na India, e disse que Guiomar Fernandes, estando a testemunha a dizer que os chris-
tãos novos que queimaram andavam cegos e eram julgados por letrac!os, ella respon-
deu que mais cegos eram os julgadores, dizendo mais que se não confessava senão para
a não excommungarem, que não sabia o que era a alma porque a não via, e tem odio
é carne de porco.
' Dias, cavalleiro, mora-
No mesmo dia compareceu Catharina d'Esobar, filha de Lopo
dora ao Calçado Velho, rua de Dom Rolim, freguezia de S. Nicoláu, e di~se que uma tal
Isabel, a quem ella ensinava a lavrar, guardava os sabbados e praticava jejuns judaicos.
No dia 12 de abril compareceu Domingos Fernandes, calafate, e disse que ouviu a
um christão novo, que foi rendeiro da almotaçaria em Lisboa, a~onselhar a forma judaica
como se devia matar um carneiro.
No dia 21 de abril compareceu Violante Mendes, mulher de Dio~o da Gama, que vive
abaixo da Porta do Sol, indo para o Salvador, e disse que Isabel da S1lveira, quando acaba-
va de amassar, tomava um bocado de massa c a lançava no fogo, e negava a virgindade de
Nossa Senhora. Quanto ao costume disse vir dizer isto por o seu confessor a isso a acon-
selhar.
No dia 22 compareceu Isabel Alvares e disse que Cecilia Gonçalves, christã velha,
tinha uma escrava mourisca, baptisada, a quem chamava cadella e a vendeu por 10 cru-
zados para ir para terra dos mouros.
No mesmo dia con1pareceu Atfonso de Vilnres e disse que Gonçalo Fernandes e sua
mulher ~laria Lopes nunca comiam sordura, em casa d'ellcs as gallinhas eram degolla-
das, iam muito poucas vezes á igreJa, não comiam carne de porco nem peixe sem es-
cama.
No dia 26 compareceu Antonio Vaz e disse que Pedro de Hespanha, christão novo
e suas filhas, nos dias de semana lavravam nas suas almofadas e os sabbados não.
No mesmo dia compareceu Beatriz Annes e disse, que Anna Lopes fugira de casa
do pae por elle ser judeu.
No mesmo dia com~areceu Isabel Dias e disse que Maria Lopes tinha dito que mui-
tas coisas se faziam em Roma, que não eram bem feitas.

No __dia 29 _compareceu Manoel Solteiro de Setubal e denunciou um mourisco cujo


nome nao sabta.

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No mesmo dia compareceu Braz Azedo e disse que Guiomar Luiz e sua filha Branca
Luiz, christis novas, guardavam os sabbados e trabalhavam aos domingos.
No primeiro de maio compareceu Helena de 1\tacedo e disse que Anna Lopes, filha
de Gonçalo Fernandes, preso pela Inquisição, tinha aftirmado que na Inquisição conJ di-
nheiro tudo se remedearia e 9ue por isso não avya medo e que se fosse 'nester tor11aria
huit chapim e quebraria os j~cinhos a João de Mello e ao ljfante e a deus se falasse.
Além d'1sso ella e a mãe Maria Lopes accendiam cundeeiros nas noites de 6.• para sab-
bado e guardavam este.
No dia 17 compareceu Francisco Fernandes, tosador, e disse que Guiomar Alvares
mulher de Agostinho Fernandes, tosador, com quem aprendera o seu officio, guardava,
os sabbados. Quanto ao costume disse que fõra o confessor que isto lhe mandara, c que
sahira de casa do Agostinho por com elle se ter zangado.
No dia 21 compareceu Francisco Pires, cavalleiro da casa d'El-Rei, morador em
Montalvão, onde disse haver um mercador christão novo, Alvaro Paes, que guarda os sab-
bados e houve quem o visse trazer entre as sollas dos pés um crucifixo. Quanto ao cos-
tume disse estar escandalizado com elle.
No dia 31 compareceu Antonia Pachcca e disse que Catharina Lopes, mulher de
Miguel Dias, tinh~ duvidado de que o nascimento de Je~us fosse como os presepios
representam.
No mesmo dia con1pareceu Diogo Fernandes da Cruz,juiz das sisas do termo de
Maria Alva, e disse que Jórge MenJes, Frol Fernandes, Simao Fernandes, Rodrigo Nu-
nes e Gonçalo Alvar~s, christãos novos, faziam jejuns judaicos, fallavam em hebrai~o,
guardavam os sabhaJo.;; disse tambem ser christão novo e que unha andado en1 de-
manda com Jorge Mendes.
No dia 4 de junho compareceu Mecia Alfonso, mulher do Bacharel Henrique Rebello,
e disse ter visto os anteriores accusados comerem pão não levado e sem sal; ás 6. 11
feiras á noite accendiam candeeiros e que Branca Fernandes não acreditava na virgin-
dade de Maria.
No mesmo dia compareceu Aleixo da Fonseca, n1orador na villa d' Almendra e disse
que Fernão Luiz, procurador do numero, tinha affirmado ser melhor a lei de Moysés
9.ue a de Christo. Disse mais que Dio~o Pereira affirmara que l)eus não podia subir ao
Céu em corpo e alma e que Clara Nunes, quando estava de parto, não chamava por
Nossa Senhora, mas sim pela mãe.
No dia 19 de junho con1pareceu Gracea Fernandes c disse que, indo a pedir para
Nossa Senhora da Luz a Pedro Vaz, este lhe dera um ceitil de esmola e se fôra.
No dia 8 de julho compareceu Nicoláo Mendes, preto, e disse que, estando em Ma-
zagão, vieram dizer a'J capitão Luiz do Loureiro que Belchior de Pomares era casado,
ao que elle respondeu que era maior serviço de Deus um homem ser amancebado e que
Deus não mandava casar e que quando fizera E v;\· lhe não dissera que casasse com
Adão.
No mesmo dia compareceu Braz Rodrigues e disse que, tendo perguntado a Diogo
Pia·es, christão novo, por onde passara o Sanctissimo Sacramento elle respondeu : ao
touro passou por aqui».
.
No ~ia_ 10 de julho compareceu Catharina Gonçalves e disse que Gracea Rodri-
gues, chr1sta nova, estando á porta e, vendo passar duas pretas rezando contas, disse:
contas, contas, bulraria, bulraria.

No mesmo dia co!111~areceu Gaspar Dias, pesca~or de Tancos, e ~isse que Pedro
Lopes, mercador e chrlstao novo, quando d'uma vez 1a a passar a procissão em frente
da casa d'elle veiu d'um cano ourina e cahira sobre o paleo, desculpando-se Pedro Lo-
pes, dizendo que tinha sido uma ne~ru.
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No dia 14 de julho compareceu Balthazar Ribeiro, criado do infante D. Luiz, e disse
que Gil Vaz affirrc.ara que havia muitos santos no inferno.
No dia 8 de agosto compareceu 11a casa dos estáo• Joanna da Pont~, mulher do Li-
cenciado Simão de Pina, Dezembargador, e disse que Catharina Lopes, christã nova de
Beja, guardava os sabbados
No mesmo dia compareceu Francisco Fernandes, luveiro, e disse que Maria Fer-
nandes, mourisca, dissera que a Jl}aldicão cahisse sobre um mourisco que se tomara
christão. ·
No dia 13 compareceu Filippe d' Aguiar, n1oço da camara d'El-Rei, e disse que Isa-
bel Gomes, christã nova, tinha affirmado que Deus fallara com Moysés e que por isso
os que não qt1.eriam os judeus iriam para o inferno.
No dia 29 compareceu Diogo de Medina, clerigo de missa, vigario da ilha das Flores, e
disse que Francisco Rodrigues, ourives de prata, lhe affirmara ter ouvido dizer a D. Anto-
nio, sobrinho de Fernão de Pina, chronista- mór que este tinha dito : como ha homem d~
crer e111 lzuü pol4co de panz feito por un1 c/erigo. Ê a testemunha ouviu-lhe dizer: Para que
erã estolas, ornan1eutos e ceremonias , Bastava consagrar huil pouco de pam CCimo fer
Christo. Fernão de Pina comia carne nos dias defesos, e a testemunha ouviu-lhe dizer
mais o seguinte: Pois Deus redin1ira o mundo ouvera de ser sem condiçam de farerem
boas obras; Frades avyanz de deitar a perder a christandade ; que a resureyçam d~
lararo ouvtra de Christo /u:;er nJanifestanJente e não secreto co11zo o fer; que os judeus
são nzuito parvos por se não guardaretn.
No dia 4 de novembro compareceu Antonia Borges, mulher de Ruy Carvalho,
criado do thesouro da Casa da Mina, c disse que Francisca Luiz e Beatriz Vaz, christãs
novas, suas irmãs, guardavam os sabbados e cantavam orações hebraicas.
No dia 13 compareceu, na presença de D. Ruy Gomes Pinheiro, bispo d'Angra
João da Rocha e disse que Salvador Vaz, criado do nuncio, a proposito da execução
d'um testamento, tinha dito que o bem que se fazia pela alma do defunto lhe não apro-
veitava.
No dia 28 compareceu Gil Meão c disse que Salvador Vaz tinha dito que havia de
tirar as missas a uma capella, porque o fundador d'ella se havia de ir para o céo já lá
estava.
No dia 10 de dezembro con1pareceu Affonso Vaz, carpinteiro, e disse que Antonio
Annes blasphemara.
No dia 11 compareceu Elvira Soares c disse que Guiomar Dias, em vez de abençoar
uma creança, lhe pozera a mão na testa, correndo-a pelo rosto abaixo. Diz isto de man-
dado do confessor.
No dia 5 de janeiro de 1545 con1pareceu Anna Dias e disse que Marquesa Gonçal-
ves, sobrinha de Violante Voz, justiçada pela Inquisição, lhe dissera que esta morrera
innocente.
No dia 19 de fevereiro compareceu Margarida Gonçalves, e disse ter ouvido a Bea-
. triz Lopes que EIRey faria 1nal enz quei11zar os judeus; que 1nilhor hos nzandaria para
a su,, terra que os queymar. ·
No dia 3 de março compareceu Estevão Esteves, cavalleiro do habito d'Aviz e disse
que João Lopes, christão novo, e uma chrbtã nova d'alcunho, a Torta, tinham fugido
d 'Alvito.
No dia 12 compareceu Jar.ome Carvalho de Braga, tabellião em Lisboa e disse que
Affonso Vaz, n1ercador, lhe mostrara um livro de Horas de Nossa Senhora, em que vi-
nham os psal~os de David e que B~lch~or Lopes, phisico, criticara uma pregação em
que o orador dassera quaes os actos Judaicos. .
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No mesmo dia compareceu Joio Manoel, clerigo de missa e àisse que estandó enf
casa de Fernão de Pina, chronista mór, que vivia nos Paços de Cima d'Aicaçova, elle
lhe dissera que «O santo Sacramento da eucharistia se celebrava entre os christios e
que onde não houvesse farinha, clerigos, ou vinho nio haveria Deus• ; tambem Fernão
de Pinho dizia que os clerigos deviam ser casados e o Papa assim o devia mandar.
Fernão de Pina dizia egualmente que aquellas pessoas que não tiveram noticia da lei
de Christo se salvariam, posto que não tivessem recebido o baptismo; nio costuma ir 4
missa ; dizia egualmente que na lei velha só havia a confissão mental, ao passo que o
Papa ordena a confissão vocal e acrescentou Fernão de Pina que o Papa ordenara isto
para os leigos estarem mais sujeitos á egreja.
No mesmo dia compareceu Francisco Lourenço, tosador, e disse que Simio Vaz
tinha dito a um clerigo que não queria acceitar de esmola 1n rs. que os recebesse por-
que senão os iria empregar em vtnho. Acrescentou elle que Beatriz Vaz, apesar de pa-
gar essa esmola, fôra queimada e morrera martyr.
No dia 17 de março compareceu Catharina Fernandes, e disse que Guiomar Fer·
nandes, a Romana, irmã de Diogo Fernande,, que está no f:ollegio cumprindo a sua pe-
nitencia, tinha dito que não era preciso accusar mais quem estava assam cumprindo a
penitencia, ameaç3ndo ao mesmo a testemunha se o fize~se.
No dia 21 compareceu Lopo Vaz, clcrigo de missa, e disse que Estevam de Freitas,
cavolleiro, tinha affirmaJo que bem parvo era quem se cria em frades e que quem mor-
resse e fosse amortalhado com o habito de S. Francisco e acompanhado por elles cer-
tamente iria a caminho do inferno.
No mesmo dia compareceu João Pessanha, morador em Alcacer do Sal, que con-
firmou o depoimento anterior, acrescentando que E~tevão de Freitas não costuma ir 4
e~reja matriz, dizem-no casado com tres mulheres, é onzeneiro e tem-o na conta de
máo christão.
No mesmo dia compareceu Rodri~o Annes Lucas, morador em Alcacer do Sal, que
confirmou os depoimentos de Lopo Vaz e de João Pessanha.
No dia 24 compareceu Sebastião Pinheiro, natural de Braga, e disse ter ouvido que
João Vaz de Moreira, termo de Monsão, affirmara que Nossa Senhora não ficara virgem
e que assim como uma vaca não ficava virgem, assim Nossa Senhora.
No dia ~9 compareceu Joanna Dias da Certã e disse que Isabel Fernandes e suas
filhas Beatriz e Violante da Certã guardavam os sabbados, alimpavam os candeeiros nas
6 ... feiras, e tinham-nos toda a noite accesos.
No mesmo dia compareceu Affonso t\lvares e disse que Gabriel do Barco, christio
novo de SetubaJ, guarda os sabbados.
No mesmo dia compareceu Simão Fernandes e confirmou o depoimento anterior,
acrescentando que na mesma culpa cabia a mulher e filha.
No ultimo de março compareceu Joio, preto captivo de Simio da Veiga, e disse
- que tinha pertencido a Jorge Mendes, que a~ora está preso, e que nesse tempo em casa
d'elle via, de vez em quando, (pelos Ramos) co!nerem em louça nova e fazerem bolos
especiaes, e quando isto faziam o mandavam embora para elle não ver e a casa de Jorge
Mendes iam Antonia Luiz, Guiomar ele Torres e Gracta de Torres, que se encerravam,
nunca o d~ixando ver o que lá faziam. .
No dia 1 o de abril compareceu Matheos Fernandes, ferreiro, e disse que Francisco
Rodrigues lhe tinha dito que assim, se ohrigas~em os christios a ser judeus, elles não
seriam bons judeus, assin1 tambem os christãos-novos não podiam ser bons christfio~.
No dia 11 compareceu Isabel Dias e disse que Francisca Dias, christã nova, comeu
carne nun1a 6.• feira de endoenças.
A lNQUI81ÇIO BJI POBTUG.AL 11:1'0 B••ZIL 17
146
No mesmo dia compareceu Henrique Fernandes, sollicitador da Casa do Civel, e
disse que Dio~ Fernandes, confeiteiro, oio dava esmola a quem lh'a pedia pelo amor
de Deus, mu sim aos christios novos.
No dia 4 de maio compareceu Francisco Nunes, morador em Ferreirim, termo de
Tarouca, e disse ter ouvido JUncto das Escolas Geraes uma mulher, que conversava com
um christio velho, a quem ella dizia que elles o que queriam era ver queimados os
christãos novos.
-
No mesmo dia compareceu Fernão d'Azevedo, morador na cidade do Porto, que
· confirmou o depoimento anterio~
No dia 8 compareceu Gonç_alo Rodrigues, moço da camara do infante D. Luiz, e
disse que indo com Margarida d'Oiiveira, parente da mulher do Dr. Christovlo Esteves,
ella lhe dissera, referindo-se a uma cruz : que mercê pode farer deu1 ha tera com isto f
Quanto ao costume disse ter sido o confessor que lhe mandou fazer esta declaraçio.
No dia 16 compareceu Guiomar Fernandes e disse que Jorge Fernandes, seu ma-
rido, christão novo, desrespeitava as imagens que ella tinha, zombava da virgindade de
Nossa Senhora, dizia que os christãos novos que morriam, morriam por testemunhas
falsas.
No dia 19 compareceu Clara Pires e disse que, indo é capella do Collegio da dou-
trina da Fé, vira Henrique Nunes, de habito penitencial, fazer uma figa para o Sacra-
mento.
No mesmo dia compar-eceu Barbara, e disse que indo é capella do Collegio da Dou-
trina da Fé vira uma velha, chamada Aljofar, fazer figas ao Santissimo Sacramento.
No mesmo dia compareceu Fernando Annes e disse que, indo a suA casa Estevlo
do Prado e Pedro de S. Martim, que andam com sambenitos, e aconselhando-os ates-
temunha é resignação, Pedro de S. Martim dissera que n1á paschoa d~sse Deus a gwm
o firera christão.
No dia 20 compareceu Dio_Bo Fernandes, que estava a penitenciar-se no Collegio
da Doutrina da Fé e disse que Joao Martins Cabeças se não ajoelhava, quando levanta-
vam o Santissimo Sacramento.
No mesmo dia compareceu Joio Gago, encarregado dos presos que estão no Col-
legio da Fé, que confirmou o depoimento anterior e que Filippa Nunes, que tambem se
esté a penitenciar no colleJio, quando levantam o Sacramento, não se levanta, mas curva
a cabeça e bate com a mao no peito.
No mesmo dia compareceu Quiteria Alvares, que confirmou o depoimento do seu
marido, quanto a Pedro de S. Martim, natural de Santarem.
No mesmo dia compareceu André Gavilão, que esté no Collegio da doutrina da f~,
e confirmou os depoimentos anteriores quanto a João Martins Cabeças.
No dia 1S de junho compareceu Affonso Matheus, atafoneiro, e disse ter ouvido a
Joio Gonçalves, tambem atafoneiro, que se nio devia crer na resurreiçio.
No dia 16 compareceu Francisco de Salazar, biscainho e professor de grammatica
d'um filho de Manoel da Camara, e disse que entrando numa livraria, defronte da Mise-
ricordia, ahi ouviu a um mancebo livreiro que tinha livros melhores que os Evangelhos,
que eram o Rosario de Nossa Senhora e o Testamento, e que tudo o que havia agora
b~vi~-o desde ~dão, assim como que Nosso Senhor Jesus Christo, com a sua paixlo,
nao aonovara coasa alguma.
No dia 27 de julho compareceu Francisca Mendes, mulher preta, que disse ter ser-
vido em Estremoz, em casa de Gonçalo Mendes, que foi amo do Mestre de Sant'lago,
o qual no 1111110 da fome comprou duas mouras, que foram baptizadas, uma das quaes
depois voltou a ser moura.

• 147 ..............
No dia 4 de agosto compareceu Mecia Rodrigues e disse que um homem, por al-
cunha o Romano, não quizera ver a imagem de Christo morto, dizendo que era um fi-
nado.
No mesmo dia compareceu Manoel Pires, ourives de prata, e disse que, estando
com Marco Fernandes e Joio Nunes, ourives, em casa de Dioso Lopes, tambem ouri-
ves e christão novo, fallaram na morte da princeza e esse chr1stão novo disse que era
castigo por ter mandado matar os filhos aos christãos novos.
No dia 6 compareceu Maria Luiz, mulher de Marcos Fernandes, ourives de prata,
que confirmou o depoimento acima contra o Romano.
No dia 12 compareceu Pedro Alvires Arraes, de Almada, e disse ter ouvido blas ..
phemar a Gaspar de Monreroio, quando estava jogando.
No dia 20 compareceu Justa d'Almeida e disse ter ouvido a Catharina Lopes,
christã nova e castelhana, a pr9posito d'um cadafalso que estavam a armar, fJIUJ magoa
tenho de virem a queymar per huú pouco de vento.
No dia 9 de setembro compareceu Beatriz Fernandes e disse que, indo a casa d'ella
uma Anna Rodrigues, em conversa, lhe dissera que Nosso Senhor não padecera por
causa dos peccadores.
No dia 24 compareceu Catharina Thomé e denunciou, como judaisantes, Pedro Ro·
drigues, Mecia Lourenço e Catharina Martins, christios novos.
No mesmo dia compareceu Mecia Lourenço, que confirmou o depoimento anterior
quanto a Pedro Rodrigues.
No dia 26 compareceu Apolonia, moça, e disse que Joio Lopes de Unhós, preso
já, lhe respondeu quando ella disse que ia ver Deus: ides ver hua bolynho de masa que
se alevanta aly na jgreja.
No mesmo dia compartceu Sebastiio Daça, natural do condado de Flandres e te·
celão, morador em Villa Franca, e disse que tinha sabido da casa d'um Ruberte, tecelio
allemio, e na quaresma comia carne, dizendo que Deus nio o prohibia. Tambem disso
ter-lhe ouvido que para a confissio bastava pôr os joelhos no chão e confessar a Deus,
ditia que a agua benta era egual á do rio e gue não havia purgatorio. Dissen estas
coi&as ao seu confessor, o qual o não quizera aosolver emquanto as nio viesse dizer 4
Inquisição.
No mesmo dia compar.eceu Catbarina Martins, que confirmou os depoimentos an-
teriores contra Pedro Rodngues.
No mesmo dia compareceu Catbarina Thumé, que confirmou e esclareceu o seu de·
poimento contra Pedro Rodrigues.
No mesmo dia compareceu Joanna Vaz, moradora na rua dn Pato, que confirmou
o depoimento anterior contra Pedro Rodrigues.
No dia 29 de outubro compareceu Isabel Fernandes e disse que ouviu ao cleriJ~o
Pedro Alvares, cura da Magdalena, arrenegar de Deus, dizendo que Nossa Se&lbora tinha
sido uma grande ...
No dia 6 de novembro compareceu Antonio Gomes de Moraes, morador na ilha
Terceira, cidade d'Angra, que accusou Nuno Fernandes de contar feniçarias.
No dia 11 de fevereiro de 1S46 compareceu Jorge Pires e disse que Adão Vaz,
to~ador d'El-Rci, e Simão Fernandes, lhe tinham comprado um vinho e, indo-os procu-
rar, encontrou os jantando e Adão Vaz disse então: comamos e folguemos que os QO$•
sos parentes mat~ram a Nosso Senhor Jesus Christo,
.. . .... -.
148 .
---------
No dia 1 S d'este mez compareceu o serralheiro João Pires e disse que Manoel Fer-
nandes, em conversa, lhe negara que Deus estivesse na hostia consagrada.
No dia 18 d'este mez com~areceu Leonor Lobo e disse que a mulher de Fernão
d' Alvares, christã nova, guarda· os sabbados, assim como Violante d'Horta, Is a bel
d'Horta e Catharina d·Horta.
No mesmo dia compareceu lzabel Ortiz e confirmou a accusação á mulher de Fer-
não d' Alvares, assim como h a bel d'Horta, Catharina d'Horta e Violante d'Horta.
No mesmo dia compareceu Catharina Lobo, que confirmou a nccusação á mulher
de Fernão d' Alvares, a Catharina d'Horta e a Isabel d'Horta.
No mesmo dia compareceu Antonio de Brito e accusou a mulher de Fernão d'Al-
vares, christã nova.
No dia 23 de março compareceu Ambrosio Rodrigues, e accusou um homem velho
castelhano.
No a.• de junho compareceu Gonçalo Fernandes, cura na igreja da Magdalena, e
disse que Isabel Fernandes, estando enferma e indo para a confessar, disse-lhe que oão
queria tomar o sacr&~mento.
No mesmo dia compareceu Filippe Vaz, ourives de prata, que confirmou o depoi-
mento anterior.
No dia 16 compareceu Francisco Lopes e disse que Jacome Dias blasphemara.
No dia 3 de julho compareceu Pedro Fernandes, sollicitador da Inquisição, e disse
saber que para Flandres unham partido diversas embarcações, levando a bordo chris-
tios novos.
No dia 1 de setembro compareceu Balthazar Dias, clerigo, e disse que Garcia de
Figueiredo, prior de Santa Maria de Tortozendo, termo da Covilhã, tinha dito que não
havia inferno.
No dia 16 compareceu Antonio Rodrigues e disse que tinha estado como aprendiz
em casa de Roberte, tecelão flamengo, a quem ouviu dizer que b~m parvo era o homem
gue se ia confessar, que Deus nunca mandara que houvesse frades e que fossem traba-
lhar, nio pedissem esmola; Robcrte não costumava jejuar e comia carne na quaresma.
No dia 28 compareceu João Leitão, criado de D. Helena, filha do Mestre de Sant'-
Iago e disse que Manoel Gonçalves, tecelão e christão novo, tinha affirmado que Je:;us
Christo era uma certa pessoa de Setubal.
No dia 3o com_pareceu Mestre Diogo, cirur[.dão, e disse ter visto ·comer carne na
quaresma a Mestre Esprito, francez e cirurgião, nffirmando elle que Deus não mandara
-
que nao comessem carne.
No dia 1 de outubro compareceu Cntharina Rodrigues e disse que Anna Fernandes
lhe estranhou que ella fiasse ao sabhado; esta :\nna Fernandes era cunhada de Nicoláo
Vaz que foi queimado pela Inquisição.
No dia 2 compareceu Bartholomeu Fernandes, tecelão, que confirmou o depoi-
mento contra Roberte.
No dia 27 compareceu Leono.r Vaz que confirmou o mesn1o depoimento.
No mesmo dia compareceu Ignez Annes, que confirmou o mesmo depoimento.
No dia .3 de novembro compareceu Bertholomcu Fernandes e confirmou o depoi·
mento anteraor.
149
. _ . _ . . _ , _. . . . . . .• - • - • • - • li I ••........._,

No dia 4 compareceu Maria Dias que confirmou o depoimento anterior.


No dia 19 compareceu Antonio Dias, moca da camara d'El·Rei (ao lado tem a nota
testemunha falsa) e disse que Manoel Fernandes blasphemara.
No mesmo dia compareceu Beatriz da Fonseca, (tem á margem a nota de testemu-
nha falsa) que se referiu ao mesmo caso da anterior.
No dia 9 de dezemhro compareceu Diogo de Lousada, morador em Vinhaes, e
disse que lá habita um João de Moraes, escudeiro, christão velho que affirmou que
Deus não tinha poder para perdoar.
No mesmo dia compareceu Gonçalo Annes, lavrador, tambem de Vinhaes, e disse
que João de Moraes tinha affirmado que não havia senão nascer e morrer; os seus crea·
dos trabalhavam ao dia sancto.
No dia 11 ~ompareceu Joanna Fernandes (que tem á margem a nota de testemunha
falsa).
No dia 13 de dezembro compareceu Jorge Vaz, ourives de prata, e disse que Alonso
Martins, ourives de ouro, castelhano, gracejava da nossa religião.
No dia 16 de março de 1S47 compareceu João da Motta, sollicitador, e disse que
Guiomar Rodrigues, chri!tã nova, nunca ia á igreja, e não costumava rezar.
No dia 17 compareceu Catharina Fernandes, que confirmou o depoimento ante-

rtor.
No dia 26 compareceu Alvaro Pires e disse que Joio Drago, mourisco, tinha affir·
mado que Mafamede não era Deus nem sancto, mas era bo:n homem.
No dia 14 de abril compareceu Ignez Gomes, mulher preta, captiva de Jzabel Go·
mes e disse que esta accendia, de vez em quando, um candeeiro de 3 bicos, que Branca
Gomes, mãe de Izabel e Clara Dias, praticavam actos de judaismo.
No dia 22 de abril compareceu Gião da Rocha e disse que Antão Fernandes, calce-
teiro, trabalhava nos dias sanctos.
No dia 23 compareceu Vicente Viegas e disse que quando um judeu sarou e disse-
ram que fôra por milagre, Diogo Fernandes, sapateiro, affirmou á testemunha que elle
não precisou de chamar por Nossa Senhora, mas apenas pelo Senhor do mundo.
No mesmo dia compareceu Gaspar Homem, que confirmou o depoimento contra
Antão Fernandes.
No dia 16 de maio compareceu Antonio Fernandes, ourives de prata e disse que
João Ramos lhe tinha respondido, a proposito da testemunha lhe dizer que Christo es-
tivera sem comer 40 dias, que Moysés é que não comeu 40 dias e que de Christo nada
sabia. .
No dia 17 compareceu Balthazar Rodrigues, criado de D. Filippa d' Abreu e disse
que em casa de Isabel Gomes, moradora em .l\1ontemor-o-Novo, se não -comia carne de
porco.
No dia 18 compareceu Antonio de Seabra, ourives de prata, e confirmou o depoi-
mento anterior contra João Ramos.
No mesmo dia compareceu Luiz, criado Je Antonio Fernandes, ourives, cujo de-
poimento contra João Ramos confirmou.
No primeiro de junho compareceu Isabel Fernandes, de Azeitão, que denunciou
Francisco Gomes, christão novo e alfaiate de Cezimbra.
...

I 5o
-------·.......---
No dia 8 de .julho compareceu João Gonçalves, canastreiro, e disse que Manoel Pi-
res, estando em disputa com uma mulher, lhe dissera que a sua lei (de Moysés), era
melhor que a de Christo.
No dia 1.0 de agosto compareceu Guiomar Fernandes e disse que Izabel Lopes, a
proposito do roubo da corôa da cabeça de Nossa Senhora, lhe tinha dito se ella a que-
ria consolar por essa falta.
No dia 2 compareceu João Fernandes e disse que Joanna Lopes, cbristi nova, affir-
mara que Nossa Senhora não podia ser Virgem.
No diaS de setembro compareceu João Fernandes, bombardeiro, e disse que Alvaro
Gomes (preso) taberneiro, blasphtmava amiudadas vezes, e comia carne ao sabbado.
No rlia 3 de outubro compareceu Domingas Gonçalves, criada de D~ Filippa d'Abreu
e disse que Anna d'Almeida affirmara deante d'ella á sua ama que não tinha de\oção
ao Sanctissimo Sacramento.
No dia 18 de novembro compareceu o livreiro João de Borgonha, cujo depoimento
contra Fernã de Oliveira está publicado a pags. 111 da Memoria do sr. Henrique Lope1
de Mendonça.
Idem, o de Francisco F crnandes, no mesmo dia.
No dia 21 compareceu João Leite, clerigo de missa, capellão do arcebispo D. Mar-
tinho, já fallecido, e disse que o tintureiro Fernão Dias consentia que os seus creados
trabalhassem ao Domingo e elle proprio trabalhava e aos sabbados não fazia nada.
No dia 22 ~compareceu Luiz Laso, cujo depoimento contra Fernão d'Oliveira est4
publicado a p. 113 da citada Memoria.
Idem, os de Pedro Alvares e Manoel Ferreira.
No dia 3a de Janeiro de 1 S48 compareceu Francisco d' Aguiar, cavalleiro, morador em
Mazagão, que denunciou um christão de Tavira, que se fizera judeu.
No mesmo dia compareceu Lucas Alvares, que denunciou um flamengo, cujo nome
não ~abia, que ha 5 annos se não conf\!ssa\'a.
No dia 5 de maio compareceu Pedro da Costa c disse que um christão novo, que
estava em casa de Lopo de Proença, dissera que os reis Magos tinham obrado por fei-
tiçaria.
No dia 2 de junho compareceu Maior Gonçalves e disse que em Tavira, Garcia
Mendes, christão novo, diante d'um Crucifixo, quando ella o invocava, lhe chamou
parva ; fazia figas ao Crucifixo.
No mesmo dia compareceu Violante Fernandes, qne confirmou o depoimento an-
terior.
No dia 28 compareceu Lourenço de Palme, moço da camara d'El-Rei,. e disse que
em conversa com um flamengo, chamado João, este lhe affirmara que o que enrrava
pela bccca não fazia mal e o que sabia é que fazia ; tambem disse á testemunha que o
Papa não tinha poder para perdoar.
No dia B de novembro compareceu Urbano Fernandes, guarda pequeno da Torre
do Tombo, que começou por pedir P.erdão de não t~r ainda vindo dizer o que sabia do
Fernão de Pinat....mas que lhe devia muitas obrigações, o servia ha 14 annos, e era d'elle
confidente. A ~ ernão de Pina ouviu elle dizer que a na primitiva igreja nlo havia con-
fissão, nem os apostolas se confessavam e muitos segredos se descobriram pela confis-
são e se fizer(lm muitos males• ; ouviu-lhe mai~ que ccse a opinião dos lutheros acerca
da confissão chegara a estas partes que tambem achara alguüs que votaram por elles•.
A testemunha ouviu dizer a Isabel de Pina, filha do Chronista, que ouviu dizer ao pae
que nem tudo se devia confessar; a Simio da Gama, sobrinho do chronista, e a Alv&ro
Colaço, criado que foi d'elle, ouviu dizer que elle estivera na Beira 6 ou ·1 annos sem
se confessar e, quando se confessava, o fazia em muito pouco tempo ; tambem Simão da
Gama lhe disse que nunca o tinha visto rezar ; ouviu dizer a João Manoel, clerigo que
está em Tavira, e que foi capellão de Fernão de Pina 6 mezes, que este, quando estava
na sua quinta de Sacavem, d uma vez lhe dissera qut: não curasse de dizer missa, quando
elle para isso se preparava, ouviu lhe a testemunha dizer a proposito de estarem pre-
parando hostias : aQuerem-rne a mim fazer crer que ha ostea q o clerigo esta fr.egindo
ha noyte com sua mançeba q ao 'outro dia esta aly deus inteiro e verdadeiro•. Ouviu a
testemunha a Francisco Rodrigues, ourives niltural da Guarda, que dom Antonio sobri·
nho do Chronista lhe dissera que este se referira com muito pouco respeito ao Santis-
simo Sacramento. Quando o imperador foi sobre Argel e o armada se perdeo disse
elle : •Como não favorece Deus o emperador tão christianissimo com a cruz ao pes-
coço I• Citou como testemunha Fernão das Náos e '}Uanto ao costume disse que não
tem boa vontade ao Chronista, a quem aliás foi j4 muno dedicado ( 1).
No mesmo dia compareceu Bartholomeu de BiJão, escudeiro fidalgo da casa d 'El-
rei, e está em casa de D. Francisco de Noronha, e di~se que, perto de 2 annos escrevera
nos livros de registo de D. Manuel na Torre do Tombo, e ouvira a Fernão de Pina
aque o rei de Inglaterra ganhara muita honra em mandar derribar os mosteiros, que
por confissões vinha mal ao mundo.»
No dia 22 de Março de 1 S49 compareceu Rafael Perestrello, filho de Violante Nunes e
Antonio Perestrello já fallecido, morador a Cata que farás, de 21 annos, e disse que Fran-
cisco, escravo preto, lhe affirmara que os costumes dos mouros eram melhores que os
dos christãos, que Deus não estava na i_greja. Disse tambem que um negro de Bartho·
lomeu Perestrello : tamhem chamado Francisco, lhe dissera que o costume dos mou-
ros era melhor que o dos christãos.
No dia 27 de março compareceu Catharina Gomes e disse que Ano a AI vares pra ti.
cava feitiçarias.
No dia 2 de Abril compareceu Catharina Fernandes, mourisca e disse que l\1arga·
rida Fernandes, tambem mourisca, dormia com um mourisco.
No dia 4 de Abril compareceu Catharina Henriques e disse que Miguel Alvares lhe
dissera que sabiam muitos christãos novos do reino, e que por mais que fizessem não
deixaria de crer na sua lei.
No dia S de Abril compareceu Catharina I... uiz, mãe de Catharina Henriques cujo
depoimento confirmou.
No dia 11 compareceu Isabel Fernandes e disse ter ouvido ao flamengo Aos que tra-
balhava com Roberte que está preso, que Deus e o Demo eram a mesma coisa. Viera
dizer isto por o mandar o seu confessor.
No dia •7 d' Abril compar~ceu o clerigo Luis d' Almeida e disse ~ue estando em casa
de Ayres Ribeiro, em Palmella, é noite contara muitos casos da B1blia e então a mu-
lher d'elle dissera : Esse era o tempo da verdade I e no dia seguinte quizera saber se
elle era christão novo etc. (O depoimento está todo annotado por um dos Inquisido·
res dando-o como suspeito).
No ultimo de abril compareceu Este\·ão Diniz e denunciou Fernando Alvares por
ter dito que não havia inferno; denunciou outras pessoas.
No dia ro de maio compareceu Pedro ltlachado, morador no Funchal e disse que ou-
vio a um Pedro Gonçalves, criado de Antonio Gon~ah·es da Camara que o doutor João
Martins, fisico, blasphen1ara.

( 1) Publicada pelo sr. Sousa Viterbo a pag. 119 dos Estudos sobre Da1nião de Goe•,
1egunda ltrie. .
------·-----------
No dia 14 compareceu Domingos Pires, alcaide pequeno em Alemquer, cujo teste
munho por inverossmil não quizeram receber, reprehendendo o.
No dia 21 de Junho compareceu João Alvares de Velasco, fidalgo e denunciou M~s­
tre Manoel, italiano que enstna grego, por a uma buJJa lhe ter chamado bulrra, bulrra.
No mes~o dia compareceu Affonso Matheus, atafon~iro, que confirmou o depoi-
mento ·antertor.
No dia t3 de julho compareceu Maria d' Andrade e disse que Isabel Vaz lhe dissera
que em Lisboa estttva uma freira professa que Luthero tirara do convento e casara com
um Antonio Bispo ; disse tambem que não havia purgatorio •
.
No dia 1S de julho compareceu a mesma, dizendo estar lembrada mais que Isadel
Vaz lhe dissera, que Deus só esto\·a nos céos, e não na hostis.
No dia 17 compareceu Jacques de Paris, francez, marceneiro e denunciou um lapida-
rio francez, chamado Jorge, por possuir um livro lutherano e dizer bastantes heresias.
No mesmo dia compareceu João de Paris, francez, que confirmou o depoimento an-
terior contra o lapidado Jorge, e diz mais que Mestre.Thomaz, livreiro, lhe tinha dito
que a Rainha de Navarra sabia mais que todos os doutores de Paris, que Salomão se
salvara e não cria em Santo Agostinho etc.
No mesmo dia CC'mpareceu João Pereou, francez, torneiro de relogios de sol, que
confirmou o depoimento contra o lapiJario Jorge que insultava N. Senhora. (Disse o seu
testemunho em latim por não saber bem portuguez.
No dia 10 de Setembro estando ahi o bispo do Algarve, inquisidor e o Licenciado
Jorge Gonçalves Ribeiro, deputado, compareceu D. Antonio de Lima d'Azevedo, fidal-
go da casa d'El-Rei e disse que havia 2 annos tinha partido de Roma e vindo por alguns
logares de ltalia, lá encontrou muitos christãos novos vindos de Portugal e que esta-
vam judeus descobertamente e em Ancona vio passar uma náo carregada d'elles para a
Turquia. Ahi reconheceu Diogo Dias que tinha sido escrivão do capitão de Safim e que
até fez á testemunha o seu alvará quando ahi o armaram cavalleiro; um irmão de Ro-
. dri~o Anriques; em Roma vio um alfaiate casado com Valentim d'Oliveira, grande ser-
ralheiro de Braga, Bento Lopes, o Lermo, doutor Barbo!a e irmão e muitos outros cujo
nome não sabe.
No dia 18 compareceu o clcrigo Lliiz .-\)vares que confirmou um depoimento ante-
rior contra Mestre Manoel italiano que ensinava grego.
No dia 1 d'outubro compareceu Diogo Berga, serralheiro, francez, morador na rua
das Esteiras, que denunciou um francez chamado Estevão, imprcsssor de Luiz Rodri-
gues, livreiro, por ter dito que não deviamos adorar a imagens que eram de pão; a tes-
temunha disse mais que o lapidario Estevão, que está preso, comia carne na quaresma.
No mesmo dia compareceu João Blão, francez, ourives d'ouro, e denunciou Este-
vão lar.idario e Mestre Esprito cirurgião comiam carne na quar estna; e Mestre João,
cirurgtio francez, assin1 como os dois anteriores, diziam que o Papa era um homem
como os outros, que melhor era ouvir o sermão que a missa, que na hostis não estava
Deus.
No mesmo dia compareceu Guilhern1e, francez, mercador, e denunciou Guilherme
Gerdin, francez por comer carne na quaresma, assim como João_ Rocart, Jacques La-
niel, Jacques Elpage; Guilherme Gerdin dizia que o Papa e cardeaes não tinham poder,
que a missa não era de obrigação.
No mesmo dia compareceu Filippe Themer, francez, ourives d'oiro que veio pedir per-
dão por ter comido carne a convite de Estevão, lapidario que esté preso ; os dois juncta-

I 53
--,-••••-••••--w••••• sme

mente com Jacques Elpage que tambem esté preso comeram em casa do Estevio lombo
de porco num sabbado e junctamente com Jac9ues Laniel, João Rocar, e Jacques El·
rage comeram lebre numa 6.• feira. O Estevão dizia que niio havia purptorio, que o
Papa não podia perdoar, que as imagens não serviam para nada.•
No mesmo dia compareceu Pedro delsey, marceneiro francez, e denunciou Filberte,
francez e carpinteiro, por ter dito que não havia nece1sidade de imagens nas igrejas,
que o Para não únba poder, os clerigos tambem nio, não havia purgatorio etc.
No dia 2 compareceu Diogo Coroe, francez, que veio pedir perdio por ter comido
carne em dias prohibidos. Ao de~imento assistiram, alem do baspo do Alf$a"e, o dou-
tor Manoel d'Almada e os Licensiados Jorge Gonçalves Ribeiro e Ambrosao Campello,
deputados.
No mesmo dia compareceu Menan Faure, calceteiro francez, e disse que vinha pe-
dir perdia das suas culpas por comer carne em dias prohibidos e tinha dito que •nun-
ca vy tantos frades gue vivem e nio fazem nada • (A' mar~em se diz que eUe foi admo-
estado e lhe foi dada penitencia).
No mesmo dia compareceu João Baptista, lapidario francez, que disse que o lapi-
daria Estevão que esté preso o tinha convidado para comer carne na quaresma.
No dia 4 compareceu Diogo Berga, serralheiro francez, e denunciou Huget Cler, la-
pidaria francez jai fallecido, o impressor Estevio, que tinha uma Biblia em francea e
faUava contra as imagens, o lapida rio Estevão, preso, que prasuejaYa contra os frades e
Mestre Nicol6o, que assistio a ouvi los praguejar.
No mesmo dia compareceu Antonio Homem, ourives d'ouro, engastador, france-,
que denunciou Jacques El Prage, Jacques Lamiel e Joio Rocar, p_resos, por comerem
carne em diu probibidos, assim como a testemunha que d'isso pediu perdio.
No dia 17 compareceu Balthazar Martins, capellio do bispo do Porto, que denun-
.
canontsaçoes.-
ciou Manoel Pimenta, moço da camara d'El-Rei, por ter duvidado da Egreja quanto a

No mesmo dia compareceu Francisco Mendes da Galliza, que denunciou Lopo Fer-
.nudes, alfaiate, por ter dito que ao S.toSacramento nlo era preciso mais que tlnr-lhe
o cbapeo.
No dia 26 d'outubro compareceu Heitor Gomes que confirmou o depoimeato ante-
rior.
No mesmo di• compareceu Manoel Fernandes que confirmou o depoimento anterior.
No mesmo dia compareceu Antonio Gonçalves que confirmou o depoimento ante-
rior.
.
No dia 29 compareceu Lopo Fernandes que confessou a sua culpa e foi admoes-
t~. .

No dia 26 de nO\'embro compareceu Gaspar Martins e denunciou Antonio Vu,


frade d'alcuoha, p_<?r ter dito que" Deus com todo o seu poder nio farya outro ajunta-
mento como aquelle. "
~o dia 28 compareceu Antonio Alvares do Lumiar, que confirmou o depoimento
antertor.
No mesmo dia compareceu Belchior Fernandes e disse que Antonio Vaz tinha
dito: "Tanta gente nio se ajuntaré n'esta casa d'aqui até ao dia de juizo''.

No dia 7 de fevereiro de 1SSo compareceu o ~~ _Pedro Ly.aeyro, serralheiro


A IKQUI8J61o . . PoB'!U~L • •o Ba•m. a8
franca, que del!un~iou Filbene, francea, por ter dito que em qualquer parte se servia
Deus como na J8reJL ,.-

No mesn1o dia compareceu Guilherme Leelou, serralheiro francea, que denancioa


o marceneiro Filberte por ter dito que os que adoraram as imagens eram idolatras, que
nenhuma duvida tinha em comer todos os dias came etc.
No dia 23 d'abril compareceu Alonso Martins, castelhano e denunciou, como ezi.-
tente _em Lisboa, Diogo Dias, calceteiro, fugido dos carceres Ja Inquisiçlo de Cordova.
No dia ~ compareceu Joio Dias, mercador castelhano, chamado para lhe perJOD-
tarem se era verdade o antecedente.
No mesmo dia compareceu Alonso de Herrera com o mesmo fim do anterior (Fo-
nm intimados ).
No mesmo dia compareceu Nicol4o Contador, metcador de CordoYa, Idem.
No mesmo dia compareceu Gonçalo de Cordova, idem, todos para o m•IDO &m.
No dia 2S de Fevereiro de 1 SSo compareceu Aleim Rodrigues, sapateiro, que dellaa-
ciou Beatriz Cardoso e suas filhas Violante Nunes e babel, parentas do Bacb•rel Car-
doso, mestre de ~ammatica, por guardarem os sabbados, acceoderem candeias n• aoic.
de 6.• feira e nio irem ' mina ao domingo. ( 1)
No dia 26 compareceo Leonor Fernandes) mulher da testemunha anterior cujo de-
poimento confirmou. As denunciadas sio de Amego, mas vivem em Lisboa.
No dia 1 de Março, na presença dos Licenciados Ambrosio CampeU<»t Jorae Goa-
çalves Ribeiro e Martim Lopes Lobo, deputados da Inguisi~o, compareceu AIYaro Fer-
nandes, sapateiro, que tnbalbou um mez em çasa de Aleixo Rodrigues, cujo depoilaento
confirmou.
No dia 10 compareceu Antonio Fernandes, sollicitador do Santo Oflicio, mandado
a casa de Aleixo Rodrigues, para espreitar o que faziam Beatria Cardoso e filbaa, ex•
po~do circumsb:Dciadameote o que ellu fizeram oalguu dias, que c:oafirmna oe de-
poimentos anteriores.
No dia 11 compareceu Pedro Fernandes, sollicitador do Santo Officio, mandado na
mesma missio da testemunha anterior, cujo depoimento confirmou.
No dia 24 de Março compareceu Aleixo Rodrigues, sapateiro, que disse mais ~ue
as suas visinhas denunciadas vestiam camisa lavada aos sablrt~dos e na 6.• feira faziam
as camas de lavado.
No dia 29 compareceu João Gago, encarregado dos presos que estão ao colleP,o da
doutrina da fé, que foi espreitar a casa de Aleixo Ribeiro, encarregado pela Inq,utsiç~1
e que vio guardar os sabbados a Beatriz Cardoso, que i' tinha estado no Colleg10 d8 Fe
e is filhas.
No dia 10 d'Abn1 compareceu novamente Antonio Fernandes, solllcitador do Santo
Officio, que novamente fo1 enviado a casa de Aleixo Rodrigues, para ver o que as suu
visinhas faziam na noite de sexta feira de Endoenças.
Item Pedro Fernandes, tambem sollicitador do Santo Officio. (Á maraem est' a
aota seguinte : forã presas uttU breatir cartlosa e swu filhas por estas culpas e OIIITIU}.

(a) Eate deouacia e • segulates slo de diYerso codice dos anteriores.


tSS
No dia s8 de Junho compareceu Jorge Henriques, mourisco, escudeiro elo cardeal
D. Henrique, que denunciou Fernão de Castro,· chriatão novo que est' em cua de
D. Diogo de CAstro, e Joio de 56, mourisco forro, por terem dito que aos mouros que
• convertiam 01 açoutavam e cortaYam as orelhaL
No dia ao de Julho compareceu Luzia Mendes, mulher mourisc8, qae denunciou
Joio Lourenço, seu amante, que disse que a havia de levar para terra de m0lll1)s, a im·
pedia de jejuar, e a mourisca Leonor que com Joio Lourenço estivera amantisada.
No dia 11 foi chamada a mourisca Leonor que confirmou o depoimento aaterior.
(Á margem est4 esta nota: forã pre!os e11~1 mo11111eo~).
No dia a8 compareceu Ma~da Fernandes que disse t• oaftdo a um homem que
alo coobece negar o milagre de Christo de com ~ pies alimentar 5ooo pes10u. ,
No mesmo dia compareceu babel Femandes, irmã da testemunha IDterior, cujo
depoimento coafirmou.
No dia 10 de Setembro compareceu o Doutor Paio Rodrigues de Villarinho ( 1) mes-
tre em Theologia e catbedratico da Universidade de Coimbra e denunciou Fr. Sebas-
tiio Toscano, da ordem de Santo Agostinho por, num sermio, que pr~ aa Graça
deaote d'El-Rei, ter dito gue depois de Claristo nenhuma alma era tão perfeita em gra-
p~e ftft t'irhldes como a de Santo Agostinho. Tambem denunciou o padre Valeaciola ou
Valeacola, franciscano e prégador, por ter dito num sermão IJW 01 ••ilttM fiM rnor-
ret~~ 1em baptürno não pailecern, por ter dito que Nossa Serihora tinira maaor poder
lortl.,. I}Ue 01 sacn-dote1 porp~ 01 111cerdott1 cor~~agr:am o corpo de Chrã#o tle sru·
lllllda alli~a e N011a Smhora c0111agrDM-o da 11111 propria. ·
No mesmo dia compareceu Mestre Alvaro da Fonseca(') mestre em Theoloda,
que con.&rmou, com ligeara variante, o testemunho anterior. (A margem ha a nota: ~e­
conciliadas.
No dia r6 compareceu Jorge Pires, tosador, e disse ter visto prepanr am pato as-
lado, em dia de jejum, para casa d'uns inglezes.
No mesmo dia compareceu Pedro Gonçalves, alfaiate, que confirmou o depoimento
anterior.
No dia 17 compareceu Catharina Alvares, criada da casa onde estavam os inglezes
denunciados, e disse que não era um pato, mas um frangão e que era para um aoen-
te. (Foi chamado o dono da casa e admoestado; dif a nota).
Neste mesmo dia foi chamado a depôr Izabel Henriques, fomeira em cujo fomo se
assou o frango, confirmando o depoimento atru.
No dia 19 de setembro compareceu Mestre Olmedo mestre em Tbeologia, que
coofirmou os depoimentos de Pa1o Roiz contra os pr~gadores Toscano e Valencoula.
(A nota diz: Amoe!tar6-se est~s pregadores pello Card~allnfante no110 Senhor).
No dia 4 .de Setembro compareceu Pedro Luz Monteiro, filho de Alvaro Lua e ca-
valleiro fidalgo da casa d'El-Rei, morador em Setubal, que disse ter estado em França,
no collegio de Bordeus e d'ahi foi para Paris, para o de Santa Barbara por o portuguez
Francisco de Lucena, agora na Jndia, lhe ter dito mal do de Bordeus. Quando chegou

( 1) En lente de Escriptura~ como pode ver-se em Theopbilo Braga, Historia da


Uni,ersidade, tomoU, pag. 68g. Foi principal do Collegio real tla1 bte1 e HlllfUIJiitla-
4a.
(2) Idem, como o anterior, lente de Escriptura.
J56
a Paria disse-lhe Mestre Diogo de Gouveia, o velho, que folgasse de nio ficar em Ror-
deus por dizerem que 1' havia muitos lutheranos, e que muito lhe pezava terem sido de
I' chamados ~r el-rei para Coimbra. Disse que em Bordeus tinham sido seus professo-
res Mestre João da Costa, Diago de Teive e Jorae Bucaaano. Qu~ iodo d'uma vez a
Flandres para buscar dinheiro, fora seu companheiro D. Lopo d' Alme1da, irmão do Con-
tador-mór, estudante em Paris, e por eDe fazer uma reverencia 4 cruz lhe tinha dito
D. J~o IJIItl Jtáo ,..,u, •~ 11atla tirar barrete a 111n101, se rira dos seus temores do pur-
R&torio, negando-lhe a resistencia, fallando contra a confisslo, jejuns, poder do papa,
dizendo que os homens de talento seguiam a seita lutherana como eram os ()rofessores
da UniYenidade de Bordeus. Mestre Andre de Gouveia e seu irmio Antomo de Gou-
veia, que tinha casado em França, Mestre João da Costa, Mestre Diogo de Teive, e
Mestre Jorge Bucanano, e Antonio de Barros, filho de Joio de Barros, feitor da Casa
da lndia. D. Lopo d'Aimeida convivia de peno com os Mestres mencionados e eat Pa-
ris com oe sobrinhos do bispo de Tanger. A testemunha conviveu em Paris com Acbil·
les Estaço. Encontrando-se a testemunha em Bucellas com Antonio de Barros pergun-
tou-lhe se era lutbe.-ano o que o Barros negou, queixando se de D. Lopo o ter dito. A
testemunha era de 24 annos de edade. (A nota: foy preso dom Lopo e os OlllrOI ã ,._,.
aguy se falia). (a)
No dia s3 de Setembro compareceu Antonio Pinheiro, pr~gador d'EI Rei, que coa-
firmou 01 depoimentos contra os pregadores Toscano e Valeaciola (2).
No dia 3 d'Outubro compareceu João de Valladares de Souto-Mayor2 morador eaa
Castello Braaco, e disse ter ouvido a um homem desconhecido que aio havia inferno.
No dia 11 de Novembro compareceu fr. Ayemundus de Irlanda, franciscaao, que
denunciou Fr. Diogo de Demves, flamengo e franciscano, por ter dito que as almas
dos defuntos não aproveitavam com os suffragios; na náo em que viera prégara. (Diz a
nota ' margem: n~ste frade s~ r~r pouco mais de nada e ~ra cousa pera ~~*"'"'por~
fUe elle pr•ga api i $11111 giá ~ faf doctrina é SUa lingoa, COU$tl muito perjMtliCÜJl.)
No dia 12 compareceu Filippe Cabral e denunciou um homem que tinha dito que
se não deviam adorar as imagens.
No dia 20 de Novembro compareceu João Lopes, castelhano que denunciou Bartbo-
lomeu Sanches, tambem castelhano e que vende vinho, por bigamo.
No mesmo dia compareceu Joanna Vaz que confirmou o depoimento anterior.
No dia 21 de Novembro compareceu Francisco Ximenes que confirmou o depoi-
mentb anterior.
No dia 22 compareceu Affonso Jacome, barbeiro, que confirmou o depoimento an-

tenor.
No mesmo dia compareceu Rodri~o Affonso, clerigo de missa, que confirmou o de-
poimento anterior. (Nota á margem: Foy preso a penitenciado).
No dia 21 de Janeiro de 1SSa compareceu Luiz Guilhelm, cavalleiro da cása d'El-
Rei, que denunciou Catharina Rodrigues, christã nova, por guardar os sabbados e pra-
ticar actos de judaismo. -

· ( 1) Este depoimento foi apresentado depois de ordenadas as prisões dos tres cele-
bres lentes coimbrãos. Confirma o que avisadamente conjecturou o sr. Guilherme Hen-
riques a pag. ~9 do Arch Hist., vol. 4- 0 , isto é que a acção do Santo Officio contra elle$
fo1 devida às intrigas de Diogo de Gouveia. Suppomol-o desconhecido.
( 1) Publicado pelo sr. Sousa Viterbo a pag. 128 dos seus Estudos sobre Damião •~
Goes, segunda serre.
No dia ~ compareceu Gonçalo Fernandes, testemunha citada pela anterior, que
-
disse nada saber. .. ·
No mesmo dia compareceu Antonio Gonçalves que fez depoimento egual.
No mesmo dia compareceu Joio Fernandes que fez depoimento epaL (Nota: Nlo.
se fer utla).
No dia 29 compareceu Mestre Antio, prégador da Conceiçlo que disse que Femlo
Lopes, Yipno da Conceição, lhe tinha d1to que as Freiras de Tomar, pelo oatal, não
diziam mais que uma missa•.
No mesmo dia foi chamado André Francez e disse ser yerdade gue sua irmi se f6ra
confessar a um padre que lhe disse que tomasse primeiro o Santo Sa~mento.
o •

No dia as de Fevereiro compareceu Fernio d'Alvares1 barbeiro, gue_ denunciou um


christlo novo, Diogo Thomaz, e a mulher, por ter chamado a Nossa Seohofa, noutr Ce- .
gortlta ; guardam os sabbados. ·
No dia a3 compareceu Antonio Fernandes, cereeiro, que confirmou o depoimento
contra Diogo Thomaz. . .'
No mesmo dia compareceu Bel trio Rodrigues que disse ter oarido a Femlo d'AI·· ·
vares o seu depoimento, acrescentando que já tinha visto trabalhar ao sabbado a Diogo
Tbomu. . . · . .. •
~o mesmo dia compareceu João do Souto, barbeiro que confirmou o depoimeato''
antenor.
No mesmo dia c:ompareceu Lourenço Dias, barbeiro, que disse que Diogo Thoma~.o~
nio trabalhava aos sabbados. ·
No dia 14 compareceu Amador Lopes e disse que Di~o Tbomu nlo trabalhava .
aos sabbados (Na margem ha um despacho da Mesa Clizendo que se nio procedia,
que se devia VJgiar o denunciado). :o ·,
m..-
No ultimo de fevereiro compareceu Leonor Fernandes que denunciou um iDala
que defendia os berejes. .
No dia 4 de março compareceu o francez Guilherme Oudebert, mercador, e diste
estando presente Joio de Paris, que fu relogios de marfim, {interprete) o qual tem a
tenda no Arco dos Pregos que ouvira o francez, atru denunciado, dizer, eatre outrq.
cousas, que o que se alevantava não era Deus. Estava presente um francez mercador,
Jacques Niverte.
No mesmo dia compareceu Simão de Paris, (ourives) estando presente o interprete
J. de Paris, e disse que confirmava o depoimento anterior.
No mesmo dia compareceu Antonio, francez de naçlo, ourives, (interprete J. de Pa- _
ris) que confirmon o depoimento anterior. Nota: Foy preso e penztenciatlo.
No dia 10 de março compareceu Christovlo de Leiva e denunciou MaDuel Munes,
christão novo que veio ha pouco de Africa, por ter fallado contra a confisslo.
No mesmo dia foram chamadas as testemunhas citadas pelo denunciante atra, cujo o
depoimento confirmaram. (Nota: I•oi preso e solto sem penitencia; depois foi preso pelo
mau peccado.)
No dia 14 de março compareceu Jacques Nivert, lapidario francez, que confirmou
o depoimento contra o inglea, acima. .
t58
No dia 7 de abril compareceu o castelhano Pedro de Martes e clenUDciou o ~ez
Roberto por ter dito que em Inglaterra queimaram os santos, a quem nunca deviamos
rezar. (Nota: Foi pre1o por isto).
No dia 2S de maio compareceu Mestre Francisco de S'vedra, mestre em armas, e
denunciou Francisco Lopes como bigamo e Miguel de Goes do Alaadroal. (Nota; Por
e11e1 casamentos não serem pubrico1 á porta da Igreja pareçeo pe se 116 leMa curar
por ora d'iso).
No dia 16 de junho compareceu o in'luiridor e coatador de Setubal Francisco Vu
qúe denunciou o christio novo Diogo Ribetro, por ter dito que a confisslo se deYia fuer
ló a Deus.
. No dia 24 ~mpareceu Manuel Fernandes, tabellião em Setubal, que coofinDou o de-
pouneoto antenor.
No clia ao dejulbo compareceu Aotonio Fernandes, barqueiro, que deaaaciou um
IDglea chamado Filippe, por ter dito que os cbristios adoram os santos de p4o. Cicou
como testemunba Affonso d'Albuquerque.
No dia 11 compareceu Affonso d' Albuquerque, filho do que foi vice-rei da IDclia,
do conselho dei Rei, que confirmou o depoimento anterior. (Foi interrogado ao mos-
teiro de S. Domiasos por Frey Jerooymo d'Azambuja).
No dia 10 compareceu Jol~ Annes, morador no Lavradio, que confirmou o depol-
...,.
meato aaterior. Nota : Foi tr"{ido agui e examinado e foi rMiultUlo irlllruir por 6tlr

No dia 21 compareceu Maria Ribeiro que deounciou Joio Dias, ce&C?t por ter dito
que muitas almas que estavam no Purgatono baviam de ir ao Inferno. (Nota : Foi pre-
so, ctmfeuouJ
No dia 29 de julho compareceu o flamengo Roberto de La~~ corretor de pedra-
ria, e denuociou Luiz Tima, aUemio e mercador por ser voz publica que elle l'oi sa·
cerdote em Allenranba. (A nota diz que por falta Ae provas se aio fez cuo deste tes-
memuoho).
No mesmo dia compareceu Gregorio Fernandes, clerigo de missa, que denunciou
Fernio Lopez, ourives d'ouro, por ter mandado abrir uma cova na igreja da Magdalena
para um cbristão oovo, que fizera um teatamento pouco religioso.
No mesmo dia .-compareceu Diogo Lopes, tosador, que denunciou Bernardo Vu,
chriatlo DOYo, por ter dito que Deus tinha a misericordia fechada. (Nota: Foi retido no
ct~rUreJ

No dia 3o compareceu Jo~ Dias, coveiro da Magdalena, que confirmou o depoimen-


to de Gresorio Fernaades.
No mesmo dia compareceu o Dr. Monçio, prior da Magdalena, por causa do caso
anterior, que coo&rmou.
No dia 31 compareceu Belchior da Cunha, coveiro da Conceiçio, por causa do en-
terro do cbristlo novo na Magdale~.
No dia 3 de Agosto compareceu Tilmlo, allemlo, que disse ter ouvido que Luiz
Tlma f&ra sacerdote.
No dia 7 compareceu Luiz Antunes, clerigo de missa, que denunciou Francisca
Borges, por ter dito que Deus nio estava na h os tia.
No mesmo dia compareceu Anna Gomes, que confirmou o testemunho aoterior.
'

a5g
--------------------
No mesmo dia compareceu Policena Dias, que confirmou o depoimento anterior.
No mesmo dia compareceu F~isca Gomes que confirmou o depoimento ute~
rior. (Nota: Foi eluJ,.ada, admoe$1ada e reprehnditla.)
No dia 11 de setembro compareceu Antonio Gomes que denunciou Catharina Fer-
nand~ foroeira, por dizer que Deus olo d4 sat'Jde, senio os mes~ que o6s nfo tinha·
mos alma, que quando Deus viera j4 o mundo era feito, que dio ba saoctos, etc.
No mesmo dia compareceu l~ez Gomes que testemunhou contra Catbarioa Fer-
nandes, assim como Leonor Gonçalves. (Nota: Foi pre1a ata ferneira). · . ,
No dia 10 de outubro compareceu Anna de Medina, christã nova, que denuaciou
Fernão Mendes, christão novo de Vize~ Branca Mendes, sua irmã, Beauu NuDU eiM-.
bel d'Affonsea, Isabel Meodes e Isabel Gomes, BeauU de Medina, etc. (Nota: S. tlí
ter coua tll6fliJ por •• nl ter ew Ana ü Medina por latemuüa ú corr~ ~
«rlll).
No dia s6 de outubro compareceu D. babel, de Santarem, que deaunclou Marpri-
da Jorge, que oeaou a virsindaae de N. Seabora. (Nota : Por RIS .,.,. .ai~ I e~~a • ·
temiiMa ,-ulo u a6 fer caMJ). . . · · · · .·
No dia 1 de março de x55:a compareceu Estevio, de 14 aanos, qae d~unciou Diogo
das Covas, christio novo, colchoeiro; por ter dito, entre ou~~que •N ~
rom os frlula de S. Domiqos diten40 ,;,a a Fee de CluVIo, • . - - ~ aua. ....
ttlllllo e lllfl"llllllo.- (Nota: Nl $e fer coeua lll1la •ale talO).
No dia .S compareceu Femio Rodriauea. clerilo de mi~ e deão em S. T~ ~
denunciou Affonso Fernandes, chantre na sé de S. Thomé ~or ter dito que DIÓ iàvia
clu.,jda que Mafamede deYia estar DO Parailo. ( N6 ,. /•r reaila).
No dia 38 de março compareceu Pedro Alv~ clerip de eiaaa, que dMUncioa
um mourisco Domingos por ter dito que a lei de Christo Dlo valia aada.
No dia 29 compareceu Antonio Lourenço que confirmou o testemaaho aaterior.
(Nota: Foi preso por ala eulpa.
No dia 8 de abril compareceu Fernlo Lopes, sirsueiro, que denunciou Fraadaco
Rodrigues por lhe ter dito que era melhor cbAmar por N. Seahor que por Jesus.
No dia 10 compareceu Garcla·Fernaades que coafinDou o depoimeato Ulterior.
(Nota : Isto lae cow• pe-a $e lllat.- por o tleddle. ,.. lttJMI 11• ••· • dll illllo "'' •
como o denunciado e amig01).
No dia :ao de abril compareceu Pedro Dias, ourives de ouro, e denunc:loa o 1af:·
rio Fabião, francez, por ter dito que el-rei de: França podia fuer outro papa em A.!
No dia 4 de maio compareceu o licenceado Jorge de S4, medico, natural de Coim-
bra, que denunciou Mestre Fabricio, lente de grego na Universidade de Coimbra por-
q_ue quando ia ouvir mista levava os Dialogos de Luciano, apostata, segundo o d6Duo-
Clante ouvio a D. Basilio conego de Sta. Cruz e ao Dr. Antomo Correia, innlo do diuan;
ciante. Mestre Fabricio comia carne ás 6.•• feiras e mais dias defesos, assim como um
livreiro de Coimbra, Henrique de Colonia. Tambem d'uma vea impedira de rear um
criado. (Nota é margem, da mesma letra das anteriores, qae parece do Promotor : P.-
rece ta$0 pera prtwer). ( 1) . ' ·.

(1) E', settuado crea:o!, Arnaido Fabricio ou Dr. Viceute Fabricio da lista~~
blicou o sr. Theophilo Braga, a pag. 836 do voL 11 da sua Hiuoria da UniHrnditN~

--·------
No dia 5 de maio compareceu Alvaro Fernaod~ alfaiate, e denunciou Francis-
co DI~ ·derigo, por ter dito que os que estavam no inferno viam a Deus. (Nota : Nisto
•I 1e fet m~il por tU tatmuuiluu 1eri abHntes e parece ~ 1e 4etNm& ~~Wiurtlllr tU
,.;, rvfmdiU e pãdo pareceae fU ate Al11aro F1~ denu•cio11 llllll, C411ilar-s~).
No dia 6 comf.oareceu lzabel da Gama, natural d'Elvas, que veio denunciar o seu
marido Henrique pes, q_ue 4s DOites lhe prégava coisas da Biblia e dos judeus, oepn-
clo a divindade de Jesus. Em 1eu1 p_asat~01 1W llae duzma.a seúo Mlnia Jldia e IJMfl-
rill !JU! ella lhe dumuwe Ma110 Julla. Quando o sogro Manuel Lopes, soube' que ella era
cbnad velha dizia para o &lho _que estava em peccado mortal por ~l&lo CIIMIIIMio 4e
dwiltS NlluJ e-a fiÕ ü J'IWCO• (Nota : Nillo nl 1e f~ uda por IV Só ~ ~"" •
...,.,a).
No dia
de junho compareceu Sebastiio Vas, mercador de SetubaJ, que deoun-
10
çloa Francisco Meado, boticario, e o pintor Moraes a quem ouvio dizer que nlo sabe
M ' ebristiO DOV~ se ftllmj O boticano disse ter ouvido I UDI cavalleiros éfe Saat'lago
que Dlo b&Yia iafemo, disse mais qae fMtmdo Deru I~« 01 1111jo$· tio pllrailo ua ~·
ur11111 no ar e 0111ro1 daurarn a um logar cluzmado Abuo, etc.
No diacompareceu Baltazar de Moraes, pintor de SetubaJ, que denunciou Fran-
22
c,..llc~~~ MeDdet, botlc.rio. (Nota : Pf!ll11 'ftll"''llttfão e etmla«ir~~ellfo $UI • twe 4nttJ tat~
•IIJIM 1er pe11oa de c~ e pt~reur gw falia "erdade •e R6 ftf mais flino}. ·
No· dia 5 de julho com_parec:ea Beatri~ moça de 12 annos, criada de Fernlo Frade,
ehrltdo amo, e de Laia Lopes, sua mullíer, aos quaes ftio denuociar porque guardam
01·•bbMios, na d• feita d'Eiidoença• qudmaram uma im•em de Chrilto crucificado e
~sinhanm-oo. Quanto 10 ·euStãme · clisse que elles brtgaram com wa mie. {Nota :
Por ate Fwnã frade vir logo a~ e alegar callltU de contraditai a e$la ~ ~ a 611'1
.,.; I' 14-.,, 1e ítl ler mm flino. E por'EJoin tlagui p..a a bulia cl llltt UJ~Z).
I

No dia 28 de agosto, aa p-esença dos Inquisidores Pedro Alvares e RodritJo de Ma-


dre de Deus, comparec-eu Catbarina Pires, e aenunciou Beatriz Gomes, presa oa Inqui-
li;lo, ~ ter dito qae .. podaia escazar de andar o Saotiuimo Sacramento pelas ruas
e outra heresia . ·
. ·No mesmo dia compareceu Maria ADnes, christl velha, que confirmou o depoi-
meato anterior.
No dia 12 de setembro compareceu Aooa de Me =liDa, christl nova, pan dizer, al-'m
elo depoimeato qae i' fa, o seguinte : que o pae d'ella, Alvaro de Medtna e a sua irml
BeatJU, a pedido de Beatria y-ernandes, mulher de seu pae, guardaram a Paschoa do
~ MIDO; .-.1.-.1 Gomes e· -suas filhas _pnticaram actos de judaísmo, aulm como
llipel Golbea, Paulo de Medina, Goterre Gomes e Anna FemaodeL
No dia 22 de setembro compareceu o castelhano Pedro Vasques que denunciou Pe-
dro das Covas, colchoeiro e sua n1ulber, por nuuca 01 ver ir é musa, guardar ubba-
~.etc.· .
No dia 23 compareceu Henrique Fernandez que confirmou o depoimento anterior.
No dia 12 de outubro compareceu Luiz Martius, clerigo de missa, que denunciou o
êbantre de S. Thomé por ler dito que Mafamede estava no Paraíso.
No dia 3o com~eceu Cbristovlo de Sande, cavalleiro fida~o que denunciou Je-
roD!mo Affooao, escrivlo dos correpdores, por ter dito que oao ba 'bagas de Jesus
Cbristo, nem mais que nascer e morrer.
No dia 8 de novembro com pareceu Antonio Rodrigues, cavalleiro da casa do ln-
&ote D. Luiz, que denunciou um seu tio, Henrique Soares, christio novo, por jurar como
01 sentios, por ter dito que Dio dava mais pelo Santo Sacramento que por um car·
~etc. . . .
•.,. ... ,.'...,ti r_, #' I 1 • ~ 1
1
I : •
...
· "- • ....._.as.Va
....... AI
••••••1111
e· ...... ••dllle
Ga•p• dlt
e cleriaot
JMWO
Fa1 IIC8t tle llli11ta-- .._
por ec~•• CU111 0111 diM piol6.l-
cloa, etc.
No dia 15 de ~ com~receu Mecia de Qu.- Cabral, Yiava de RuJ Diu
de Freitas, caftlleiro S.Jao, gu diue que, tendo ouvido barulho, soube qae . . por- •
~ um iDpu âaba arremetido contra um sacerdote e lhe tomara a bosda, e a espe-
àabae, o qae Banca FerMAda•, chiUd DOftt sua viàaha, achara bem•

No mesmo ela compareceu Filippe ·llachado gue confirmou o depoimento ante-
•til~r..... • • ...
eac11a1r• • la. 81), •·• : ..._ . . . . . dlu elo mea de dezembro do aao
ele 552 .. ~ • ..U.. - . p~•• d'eata cidade e H &aaram ú porta dai
JtpejM por ID8Dd8clo elo •· CardeallnfaDte).
No c1i1 19 ele duembro compareceu Femlo Gomes que deauodou t..Qb Lope~, co-
ador, por ter dito, ref..tado-se aos lutbenDOI : DeiiiiiiH o IJII• lN 11om.
'

No me11110 dia ~ceu Clara d'Aplar, qu ....... Lalf P...........


por w••..._.,, • Daane FernaDdes.
No ma 20 compareceu Isabel de AYellar que dauaciou Fr. Vasco ele v._. tr_.
ciscaao pnfgador, por ter dito que u almas do purgatorio estavam fóra da jurlsdlcçlo
•rra'
...
.
No . . .o clie compareceu Amador Dias que disse que Joio Gonçalves, pe~eador,
erabipmo.
No dia 24 compancea lpa AnDes que denunciou o marido por blasphemar.
No dia sg compareceu Antonia, moça soltein, que, cootra o _pae, confirmou o de-
poimealO anterior. tNota: blo for t1Uio u ,..,"e
pareçeo pva .-(ormaçlo). ·
No mesmo dia compareceu D. Lilo, ~adre do CoUegio de Jesus, que denunciou
COIIIO henje ama p-..oa cujo nome alo sibia.

No mesmo dia compareceu Joio Pinto, preto· que denunciou Francisco, esCfayo,
ADtoaio Jalofo e Aatoaio, nepo, 01 quau foram chamados ao Saoto Oflic:io.

.....

No mesmo dia compareceu Aaaa Fenumdes, que denunciou Cathariaa La reiaa,
haceza, por ter dito que tomar o Santissimo Sacramento muitu vezes nlo en lf&Dde

No dia 3o compareceu babel Dias qúe denunciou Jorge Fernandes, sapateiro re-
IIM"dlo, pm; t~r dito que ia mandar que '!ouxeasem o Santisaimo Sac:rameato ' mulher
qM estaYa muato doeate, por 111 6enle1 Mo lerem fU (aliar.

-No mesmo dia compareceu Aotooio Rodrigues, carpinteiro, que denunciou Gui~
. . , Dias (/IreM) por se ter casado com doia maridos, estando vivo o primeiro.
No mesmo dia compareceu Beatriz Borges, mulher da tiltemunha anterior cujo d•
poimeato coDfirmoa.
No dia compareceu Isabel da Costa, mulher de Dioao de GouTeia, que de-
JDeiiDO
-H:ioa Joio Lopa P.....tnllo, por ter atlirmado que a oueaa alo en peccado.
No me1at0 dia compareceu lzabel de Sousa que denunciou Antonio Colaço como
hipmo.
- llo. dia J• . .,..1:1•.1 ~ Feraaades e diue ter ourido .que Maauel de Seq.
........ que o Papa ... dBba pod.- para perd01r peccaclos.
A .....,,. I ,..,.,..,, ~- · · - 19
.· • c11a s .-,_.- c1e 1UJ·eoer••• Mq
~wea, chrlstlo DOtO, por faur &pi ao Saad••••la:tima ID •
••·••••·4i• A•••J•
·~t•r nil•a . . . ·aoa.:
tHIMfL••
olhar para o lado.
No mesmo dia compareceu Tbom" moço moarllco, que deauaciou Nicol6o Rodri-
JDII pOr ter dito que na bostia aio estava tealo a semelllaça ele Deas.
No mesmo dia foi chamado o KDceaso (l) ~ COD8nDea o • • ae1110 .cimL
. (Nota: Pa1011 carta cl e1ta1 culpa pe-a Ewra tJOil"fMUillõra I tiiJril 4e t553).
. .
No mesmo dia com~recea Vicalte·-Niía-, potteiro ela <~~••cellaria ela Glate, ••
cleauociou o eacnvo de Pedro Fnllre, tabel- por pr1ltic. jejuM jadlllcel.
No ~esmo dia compareceu a mulher de Maaael Pires que deauncioa Sebutilo Lo-
pes por blupbemar. .

• . No dia ~ compareceu Antonio Tello, clerip, que denuacioa Joio Goaça!Yes Sar-
dlubo, chrisdo D~O, al&d8te por ter dito heresaas.
No mesmo dia compareceu Lourenço de Palme, moço da Camara d'El-Rei, que cle-
âuociou Vasco Cenein, que est' na laclia, por ter dito heresia.

No dia 1 1 compareceu Simlo Lopes de Vilarinho que denunciou Roci~J.o de·Gi-
veira, escrivão dos orfãos de Taviw:a, por ter dito que mouro1, cllrillltM ej eu erima
~ Je 1alwwam : pem !'e.YO tio outro ...undo fW llis1ea• IJUIIa tl'ata eraa
assim como outras neresJas.
,_r
No dia 12 compareceu Filippa de Brito e denunciou Joio Afl'oaso, lavrador, por
ter dito que o inferno não era para os m4os christlos mas sim o purgatorio.
No mesmo dia compareceu Jorge de M'albles, cavalleiro fidalgo da C.sa d'El-Rei,
que denunciou um castelhano,
. cujo nome nao sabe .
No mesmo dia compareceu Maria Luiza que deaunciou Isabel Diu, cbrisll DOYI,
presa, por guardar os sabbados, assim como Clara da Costa.
No dia •3 compareceu Bernardino Daza, bacharel em Artes e Leis por Vüladolicl,
que veio com a princeaa D. Joanna, que denunciou um prégador, Dr. EU&ebio, por causa
d'uma disputa que os dois tiveram sobre assumptoa theologicos. ·
No mesmo dia compareceu Fernio d' Alvares, cavalleiro, que denunciou Ruy Go-
mes, cbristlo novo, mercador, como bigamo.
No dia 14 compareceu Joio de Torres que denunciou Meique de Guiana, &aaca.
por, a proposito do ingles que queimaram, ter dito que para Deus bnia 181Ütos e»-
minbos.
No mesmo dia compareceu o Dr. Pedro Lopes de Villarinbo que disse que, q1UIIldo
foi juiz dos orfios em Tavira, ouvio blasphemar Rodrigo d'Oliveira, escrivlo dos orflol
em Tavira.
No dia 16 compareceu Beatriz Feia que denunciou o Licenciado Jo-:ge Cabral, De-
zembargador da Casa da Su~plicaçlo, por ter dito que alo bavia mais que nascer e
morrer. A testemunha contou isto a Catliarina Perestrello, filha de Gregorio Lopes.~
tor. (Nota: D'eJte Licencüulo ha outra culpa roim no a11110 de z5Sg, fol. 262 e a6 1ej~
iuldaJ
. .No mesmo dia compareceu Sebastiio Fernandes, de::&:,de missa, que deauoclor.
~ clerigo estt8Jlleiro que pRpYa em Medo Frio por que·era iclolatria adomr

.. amasens, etc. .
..
163
~:, . _ ..,.. , . . o f!jprio tle Z...e1o Jllf• -.o V...., e prfM•
.,. CIWI60 1101 zz IIMríl. 155J.
No cUa s5 eam~nceu Joio· Femaada, crildo do Dr. Joio de Barroa, ahDot8c4-
IDdr, que cleDaaciou Violante llartiu por ser casada duas vezes. .
- No dia 6 de fevereiro compareceu Luiz Cardim, escudeiro da casa d'EI-Rel, DOIIO
Seabor, que deDunciou Maria FerNadea por feidceira. ·
No dia 10 companceu o cJeriF FnDCisco Machado,_ que deaaadou o cleriao
Fraacisco Fernaadet por ter dito que Deus Nouo Seabor Dlo preceituara a caltidaclL
No dia 14 co~pareceu Beatris Viçosa que deaunciou um mourisco.
No mesmo dia coms-nceu AatODio Sim&ea que confirmou o depoimeato aaterior.
No dia- I' comparece• o I iceace1do Joio ~ correplor cp~e foi ele Vlaaaa ele
fo. de LYJM, que cleauncioa Baltbuar Jreraandel por ter Ctito ~e o ...,.. que qllli-
.,...... Dlo . . iaslu, ..ao .,. tntjo pe Dau m6tlara 4o Parllilo JH1N1 .,.,.,.,. El-
lfili.
No dia 7.. c~pareceu Tbom4 de Maplblea de Torres Novas, e cleaaadoa Joral
hdliaaa e Joio Vu, c:bristlos DOYOS, por clllenm que o iDeia qae dnbalido qaõl· .
. . . , IDOITera ..nyr.
No mesmo dia compareceu Ruy Taborda que conftrmoa o depolmeato mteriar.
No dia s.S compareceu Jorp AS"oalo, och-eiro, que cleDuacioa Pneoll• A'IPYII,.
bipmo. {No18: Foa ,.ao ,_. Ulo).
.
No meiiDO dia compareceu lpa FerDalldel que coaftrmoa o ••••DtO·-• .

No ela 14 .. IDirÇO com~ Sinalo Dila, capelJio que foi cbamado, e claaaa-
doa Femlo Viceate, sapateiro, por blpmo.
No miiiDO & compareceu Bardlolomea Preto. clerfp ele mllll. que foi cbllialdo
e coa8naoa o depoimeato mt.-ior {Mola: , . , . 'Viallle, pN10 J&)
No dia til~ c~w..da, AaiODia Fenwacles, qae • - que BUliU Ferun-
..., i' presa, tinu dito que Nouo Sallor UI«N 1101 céo& • c4 jnllllunii-Ute paao~
INIGI, • propollto. da Pateboa, etc.
Ro me11110 dia comparecea Leonor do Reso qae coa8rmou o depolmeato •ttJter.
com2M'eceu Beatriz Lopes, qoe deaUDCiou Maria a.riqllll, moarilca,
No di8 10-
por • r qUe tato k chamar por Jesus como por AUee. _

~ llaria Goaçalna, Catbariaa lleades e llanoel Roclrlpes.

No cla_14 • Abril COIDJ*ecea Mrnael ·Ro*Jpa, MI• do


cleauacioa 01llauNir a. par se • c-11• ... •••••·
••vo •
No cM. 14 ca•1••cn 8111&111 Pw111
m•DtO ...-.. ·. · ;~ ·
114-, _,.IEir.. 4111 tini•• •· • l•pai-
· · ·: · .
•64
~ No dia ~
.,.amo.
compareceu F.alo Viceate, cura, que d&aaDciou. Joa. a.ç.-,. como
No mesmo ctia com~receu Alvaro Sim&ea, cltJiaa, que coafiraaou o depoimeato
anterior contra o clerigo F~cisco Fernandes. .
· No meiii).O. 4ia compareceu. o Padre Antonio. Rodripa maDdado chamar por cauu
do Padre Fnncisco Fernandes, atru denunciado. . .
No dia 21 compareceu Aadr4 Pires, pelo IDeiiDO modYO. (Nota: v.;o ,.4irprMo).
•.

No dia 22 compareceu Henrique Luiz que denunciou como bigamo Bru Armes.
. .

Idem, Martim Fernandes, Filippa Dias, Joio de Chaves e Heleaa (Nota: Já foi prao
t~o). . . • ..
No dia 28 ele abril ~a.reçeu ....... FerziDde.. moarilca, 911 deDW'Cila GMp.r
d'Araujo, lllOfO da ·Copa· ·Rei, come bipmo. ·
No dia 1 de Maio compareceu Catharina GonCalves que cleauiiciou llipeJ ~
ço, tosador, por blasphemar.
· No.dla ··compareceu·Triltlo Seqtp, ldalao da·caa cl'El Rei, qaecleaaaciou@.l9
Barbosa, escrivlo ela moeda, por lhe ctiier mal ae &ades,· que dormii Goaa UN anila sr
alo era peccado etc. · ·
-
..,.............
No clia 6 de Maio compareceu lpea Leitlo que demmciou Pedro Ferrelia por ter
. .

No mesmo dia compareceu Justa llooteiro e coa&rmóu o 4epoimeato lliterllr:


. .

..... iAoaar........... . . . . ·. .
No ctil •a JODJRafeceu S.nholOIIIft F~ d'A......,., &d•lp. p coai·..., os
depoimentos contra lku Annea. .
· No dia 13 comp~neeu llenaellleada. ~-~ deauad.ou- Viein,
clerigo, por ter dito qae qu.- Yl a Cbrilto alo ii a laa•
No dia· 17 compareceu MaQUel Serrlo ca-. Q)Dirlao!l o dtpC)i(Dear.» Jmtsdor.
No dia 18 compareceu Lu~ Cardim~ e~cudeiro .. c.M ci'EI-Rei. o~ Gil,
flamengo por ter dito que em Portugal tinham as imagens cobenas coar prata e OàrO
·?r~cuaa era m6o costume pQr serem um ~co ct, p60, e. que o papa ••• ~'IMIUI
leftU..
. . .. No me~mo dia compareceu, ~amada, Leoaor ele Fipeiredo tp. ttlte• ..._.. qa.
tra o sobredito Gil. ·
. No di~ com~~~ chamado, Fra~ciloo.fl'ldriiN.ÍrO
·.9 ct~.-llaM41W.....••
testemunhou contra Gil, ftamenso.
No dia so compareceu Gaspar Fernandes que denUnciou um· ID&Ja~ chamado Ri-
---~ .
...-.. .... cercltla.-.s6Q••~-...-..-.•sawa~-
Dfl, que beui nlo -P,ecliava que algum aaato o _ . _ rop••~

_._:.
da, ---~-·-~·nc-.~4t~-=~J?9F~-
sombretretro, por ter ctito qqaM ..... -..lo._.,
a .-..-·&1- ~ .. ~A• :li . _
Pi_U. aatvralde Pe-
...... •"
· No dia 3 · ele Julho com~ o Psclre Fl'8acisco Vieira, saeerdote ele ~
Companhia ele Jeau, que denunciou Ruy Pereira ·ela Camara capitlo da a4o·. '
chamada Nossa Senhora da Barca, por ter dito, aa presença dos ftda~goa D. J~~ d'Abfaa-
cbea e J~e da Süva, para qae .era aclonr a cruz e p6r-se de foelhos deaate-4'~ tal
reverencia aó era devida aos Evangelhos e 4s Epistolas de S. Paulo. A testemunha lllll".
viu di1er a FraDCiaco de Mello que lhe dissera o. Padre Cbainbo que o me._, cvido
alo consentira que se fizesse uma procissão, dizendo que ella bastava no coraçlo. Ta.aa~
bem ouviu a Francisco Monteiro dizer o que o capitão affirmara que levava a ·st~• ~
Filipp_e Melanchton sobre Virgilio e ao seu companheiro~ jesuita, Antonio Alvares, que·
~ capido desdenhara da Companhia de Jesus.

·No dia 1 com~ea Gonçalo Chama, c:avalleiro da casa d'El-rei, que testemuoboa·
coatn Ruy Pereira da Camara. · . ·.

H. dia 10 compareceu Catbarioa Fernandes que denunciou Gonçalo LW., repos-


teiro d'~Rei
.
como
-
bi&amo. .

No dia compareceu, chamado, D. Joio d'Abraocbes, morador no Rocio em casa


12

.....
• 1811 inDio D. :Fraacisco d'Almada, capitlo, que viu o VirgiUo de Ruy Pereira da Ca·
m~ que lhe ouviu dizer que u obras de Melanchtoll aio eram defesu e nada

No dia 18 compareceu, chamado, Francisco Monteiro de Pelle, fidalgo da casa d'el-


rei e cavaUeiro do luJbito de Cbri_sto, qu~ disse ter ~urido a Ruy Pereira aa Camara,que
Deus e oa Saatos alo tinham poder para o offenderem na sua n,o, e que, como man-
~ ped!r por D. Aatonio a~ Noronha uma bomba para esgotar ao capitio-mór, e
1rill la'a do •n<~aqe, a testemunha acoaselhou-o a que eavia•e ~s padroe coca o
aaci&xo e o capitlo respondeu que nem a Deus pediria misericordia.
. .
Ne aldao· ele JaiM --••eoet~t aJwnad•, Leoaor F••DCI•
_a Biaota cl'ale_. '
~ denunciou um.......-... hac• FDberte, qu vela ele ..mia,. onCie foi peaitlll•
ciado pela lnquiliçlo, denunciou-o por ter dito que nlo havia dia de juizo.

No dia 8 de Agosto compareceu Diogo Soares, sapatélro, que ·deàunclou NàDo VIMI
por .blupbemo. . . . ..
..
No mesmo dia compareceu, chamada, a mulher da testemunha atru Cathariaa Vu
cujo ·depoimeato CODfirmou. . - . -

No dia 16 compareceu Jerooymo Canalho, sollicitador, .que denundou Joio Este-


ves como bigamo. · -

No primeiro de Setembro compareceu o Doatar Pedro FemiDCios Correúlt outiclor


da ordem de Cbristo, 9ue denunctoa Fr. Martinho, lrmailcaao, .por t• ctito '1'1• D aa
alo ânba taata paciencza quanta Fr. Martioho h•ria tido com .a .........

No ~esmo dia c~mpareceu SiJDio Lopes1 mor.-,r em N'~~&, que coalrmoa. o de-
poimeato anterior. -· · · ·. ··· · ~

No ela ao compareceu, chamatla, lpa ...... e t1 nr


F......-. AINWII, por praticar acto~ ele Ju..._.. .. 111·•••.n.• -.
· . . ·· ..
. No .U. u Cl,'itJ•-...u ...... ·F.•n.,... qllt.~a..A.baaapcat..ao
._.. Deus alo tinhâ poder para luer . . . . . . . . . o. AN· . ·'- ..
166
No dia 2.1 ele setembro ele •553 cotDparecea Loanato Çoança. utaNlda Torre 4e
~. •Ncilate em leta, que denunciou um p~ cujo llOIDe alo llbia~

No me11110 dia comp...ceu Chriltodo Maabós que coaflnDoa o depoilaaato • ·


.n.. -
No dia 4 de O.tabro compareceu Gin..on lleDclel, malh• de ADtoalo Barreto
plator,_qae denunciou Catbarina Lopes, chrisd aon, como jwllisaate, allim COIDO 0...
par Nunes, alfaiate.
No dia compareceu Antonio Correia, criado d'El-Rel, mourisco, que dea'IDCioa
10
Duane Fernandes, mouri.co, ~r Dlo comer toadabo e Antoaio d'Abre~ paro d'eU..
qw:. quando casaraaa 8zeraGi boda ' moda mourisca. Citou uma lilta clã peiiGG qae
Mllldram ao banquete.

. No dia 17 veiu ainda a teatemaaba atru clep6r contra Leonor Vu, que ad preiL
No dia 3o compareceu o cleriF Luia Gonçalves, estudante de Ladm aa Unltenl·
dade de Coimbra, que denunciou JOio Lopes por neaar a Virpodade de Nossa Seabora.
No dia a3 de novembro compareceu Pedro Aanes, besteiro, que deDlaaciaa ca.o
blpmo, Joio AJFouo de Vallarelbo.
.
No dia 21 compareceu Loureaço Gallego que denuncloa um fraaca
drese por blasphemar.
cba•.., a..
No dia 11 compareceu Joio cYl Campo que coa&rmou o clepoilllemto aaterior.
No dia 23 compareceu Di•o Rodripes que de111111cioa Heitor Lobo ele ~•as
por ter dito que a lei ele Moysa foi sempre boi.
No ctia 24 compareceu Jorse de Pua. m~ da camara do Carcleallafante e seu
acrivlo doa coatos, que deauncaoa o cari à S. llipe1 por ter cUto qae aeta o rei, DeiD
o catdeal, Dem o Papa, tlabam direito a tirar de aaa 0111 ama malh•.
No cUa s8 compareceu Di~ Canleiro, caalleiro ftclaJso ela caa do Cardeal, qae
coafirmoa o depolm•to aateriOr.
No primeiro de dueiDbro coml_)anteeu Gas~r da Foasec., filho de Simlo Saraiva
..,.dor em Trancoso, que deaunaou Clara Ródrigues, cbristl nova, como judaisante·
No dia 1de janeiro de t55.t, compareceu Francisco Vu que est4 fuenclo pellitlll-
cla ao Collesio ela F4 qae cleauociou o Hu irmlo Jorp Vu, como judaisaote.
No dia 9 compareceu Atrouo MartiDI que deaaaciou como hereje uaaa pessoa cujo
DOIDeDiosabia.
No dia 11 compareceu oa.o Aatunel, discipulo dos jesuitas, que disse que teodo,
pelo Natal, ido a caaa d'am calceteiro, cujo nome nlo sabe, fazer um auto e estando-se
ao quarto d'eUe . . . . . para irem para a sana, viram uma estampa aasrada coberta de
tei11 de anaba.
No cHa •3 com,..-.cea F.,.o Pus, caator da llisericordla, que con&rmou o clepoi-
meato aaterior.
. Ne dia lo
~mo
00111,.._. Maria F~ aataral ele Evo~
gue denaociQU como
Fnacisco Roclripu, picbaleiro. Citou eomo testemuaba D. Joio d'Eça, seu a.
llaO D. Beraarclo e Q. Henrique d'Eça.
1&,
No dill 6 COID~I111 F~ nciaco F...-eiN ..-. deauacioa Sebaatilo \UJ • n l
d'Abrantea, pc. p!Oierir ......._ . .
No dia 13 compareceu Jlarpricla AlfOOIOt t d...,acioa Apstiaho, mouro captiYo.
No dia ., compareceu Joio Sanches, tecelio, que vive em casa de o: Jolo.d'Athaide,
filho de D. A&ouõ d'Am,ty-. e cleauaciou Diotio Rodripes, tecelio de PoJ181eare,
como bigamo.
No dia 11 de março com~receu Antonio Gomes, do Porto, que deouacio\1 Cecilia
llarq~es, reconciliada. na Inqui~çio do Porto,_j)Or t~r dito que Christo nlo era Deus,
etc. Tambem denunaou Antonao Fernandes, Cathanna Gomes, Helena Gomes • Ma-
Doe! Marques todos do Porto, ou immediaç6ea.
· Nos dias 13 e 16 ainda compareceu a mesma testemunha que confirmou e aclditou
alpns dos depoimentos anteriores · ·
Nota : PIUOII carta a xijj de março pera o bilpo_ do porto prender uttU iiij peUtHU
11ald _tlallfldação .contádas, a gualle11ou 1111 Pedro Fernandes e forlllll praos.
I
No dia 18 ainda compareceu e denunciou mais Jorge Fernandes.
No mesmo dia compareceu Catharina Vaz de Abrantes que denunciou Nicol6o Cas-
tanho, christio novo, por cuspir numa imagem de Nossa Senhora, •uJar-Jhe o rosto, etc.
No dia 2 de abril compareceu Domingos Fernandes que denunciou como bigamo
Gaspar Correia, homem preto. .
No dia S compareceu o j4 conhecido Antonio Gomes, do Porto, que additou o seu
depoimento contra Antonio Fernandes.
No dia 18. dé asosto compareceu Simlo da Fonseca que denunciou Catharina Re-
beDo por casar duas vezes.
No dia a• d'abril do 1.SS4 co~pareceu Antonio Velho, mestre e pDoto de aavios
que denunciou Jorge Brutão, mercaaor inglez, como hereje. ( 1)
· No dia :a6 compareceu chamade, David Fanyn, irlandez, que testemunhou a favor
de ~r.se Brutlo. ·
(Nota : Mandou-se clulmar este ingres e por llo acltar Ptdro Fema,del na Ârllm·
cordia ouvindo missa dnotamente e asy por gue esta J'rimeira lestmaunlaa pareceo
lllllilo •1ocilllla por IIII contrairo do ingr41 c6 IJU• traraa demitia se n6 fer e~o mais
d'isto).
No dia 23 compareceu (nlo se conhece o primeiro nome por estar roida da traça
a folha) Gomes de l.iio natural de Santarem, que denunciou o Licenceado Antonio
- Gonçalves, por ter dito que melhor lhe parecia uma forca que o Crucificado.
No dia 2S compareceu Antonio da Fonseca, procurador d~ numero em Pinhel, que
denunciou Femio Luiz; christio novo.
No dia 2 de maio compareceu Anna Luiz, moradora em casa de Estevlo da Gama,
escrivio da Casa da lndia, que denunciou um cura por nlo lhe querer dar o Santissimo
Sacramento.
No dia 8 de maio compareceu Cosme Gonçalves, mourisco, que denunciou Joio
Barreto, mourisco (penitencaado por blasphemo). ·
No dia 9 compareceu Sebastiio de Sousa, clerigo de missa, que denanciou Francisca
Feraandes por dizer heresias. ·

( 1) Esta deauacia e as seguintes fazem j4 parte d'outro codice.


ltrtW a

e8 '!if.wtlli &•Silo GlQIIOI .. z••t111 •sta, flltlll-1181..
....., AatoDio ele Atbaide, llbo do Coade ela CaltMb.., 111 ,.are'•
ftri cUa d c_..,.• • •••• ea•- G•••••• ... ••• ••• .....,.., c1e
Sousa que foi peniteociado.
No ciW 6 de JaàbO ~-- Pa111a Lcrt• ... ••••IICiDa o --'elo P8clnt
Gooçalva por diur que alo sabia se baYia DeUs e S..ta Maria.
1'fo dia a5 compare~a Fraacisco GD, solllcitaclor elo Saato Ofllclo, qae "-aoc:ioa
o cJeriso Alvaro Jâeiatàdo por ter dito ama heresia.
· No dia t8 compareceu Pedro Rodripee, ouriYes cl'oaro, e deaaacioa Sebatis.
Rodripes ~r ter dito que bavia mulheres que iam 4 roalaria de Noua Seabora ela Lu
~ las ~estoa. ·
Mo clià 7 ccapateced Affoaso
Fernandes 'lue cleauacioa o proprlo pae, ele Saata-
nm, Ferdo VU, christlo novo, por ter profendo heresias e ser judaisaate. (Nota : ·
,.inultlo).
No dia 18 de asoato compareceu Grimanua Fernaades e denunciou Violaate
lleacles por blaspbemar.
No dia so compareceu Dioao de Canalbaes que deoUDciou o TiDreiro d'alcuaba,
cujo nome proprio aio sabe, por ter dito que o Papa nio podia perdoar e que era pec-
caaor, como qualque~ outro tiomem.
No dia 7 de setembro compareceu Manoel Gomes, cbristlo novo e denadoa
Manoel Femande~ algibebe do Porto, por blasphemo, assim como a d; do deaua-
ciante e Antooio Feraaades por ter dito que O$ romeiros Dio iam a No- Seabor. da
Lapa, mas sim a Nouá Senhora da Rapa.
No clla 8 d~ novembro ~mpareceu o cleri~ Apsdnbo F....adel qu. deDullcioa
o trabalhador Joio Gonçalves Areahu, por ter dito que era bipmo.
No dia 10 de novembro compareceu o preto Joio Pinto ~ue deaaaciou a111 preto
Dominsos, escravo de Affooso Barreira, por o querer diuuadar de ur cbriltlo e pele
mesmo motivo denunciou Dlop, preto.
No dia 14 de nov.-bro compareceu BrlolaaJa Roclripes que denacdea Pedro AI·
yares, de Coruche, por dizer que a alma não estava no corpo senio em tres festa elo
ano.
No dia 29 de dezembro compareceu Simlo Nunes, ourives d'ouro, que denunciou
Duarte Fernandes Negreiros, de Setubal, cbristio novo,r.r ter nesado que Deus esteja
na bostia consagrada. (Tem 4 margem a nota de fogiao.
No dia 19 compareceu Fillppa Botelba que denunciou Catbarina Tavares como
blasphema. -
No dia 3 de lanelro de t555 compareceu Francisco Rodrigues da Trindade que de-
Dunciou Isabel L~pea, sua madruta, da Torre do Moncono, por ter dito que Jesus
Cbristo nlo era filho de Deus, e outras heresias. (A nota ' margem diz : praa), Ga-
briel Rodrigue~1 genro d'ell~ por ter dito que tudo quanto o Papa fazia era burla {di•
a nota : preJo,J, a mulher d este Leonor Lopes, e finalmente Dioso Mendes, tabeUiio
de Minada, todos chrisdoa novos. .
No dia 17 de janeiro compareceu Pedro Fernandes, corretor de escravos e cavallos,
que deaunciou um mercador
Yia Resurreiçio.
r-trata em ••8"'''
o Goterres, por ter dito que nlo ha-
·
No clia ü eo•~NCIU Batido Diu, atafoatiro, que d••aci•• BlrllaoloiUII Gon·
çalves, tamhem atãfooeiro, como bipl80. . .
No mamo dia ·CCMapareCM Affoaso Diu cpae coa&raaou o ~te aateriaa
No dia 3• com~eceu Bru Madeira, clerigo de missa, e disse ter oarido a A.Dto- ·
aio Femanda, iii arliallo neorlil, que em sua casa todos guardavam os sabbados.
. .
No -.mo dia compareceu Fr. Aatoaio Villela que coofinuou odopoi&Dento aate- .
~- .

lfo mesmo dia compareceu Baltllazlw Gomes, ourives d'ouro, que denunciou um
. . .. . , por lllo ter draclo o barrete 6 passapm da cru.
No dia 1 de feyereiro COIWP.INCell 8~
Diu, JD020 da camva .d'~- Rei Nosso
~ 9••
delaanaou Lllil Cu~ ftd•Wo, por ter afliimado que descna da lei de
Deus. uuvam os dois presos na cadeaa.

.... No dia§ ~par_eceu Cbriatovlo Corta, beaeficiado aa ãareja da ~daleoa, que


cleaunciou Guiomar de Loronba, cbristl nova, por não querer que Hu filho se coares- .

No dia ., COIJ!P&f~cea Mestre Pedro, cinarplo, lll0r8dor em Setabal qae coafinDoa


•. ckpoicaeato de Simlo Nuaes. atru. .
No dia ss compuecea Maria da FoaMca que denunciou Clariatovlo Rodrigues por
ter cli~o que o Papa nlo _p~ alpmu cousas, por desdenhar da con&saio, e por ter
pN(erklo. oatra lleresjaa làtberaDia. .
No IHIIDo cHa compareceu Filippa do Basto que coafirmou o depoimento anterior
CODtra Cvistovlo Rodripes. _
(Nota : Fop pra l'Nrl41f).

Na . . ~3 cetali • . . . Ante mie Pnt, ... . - • T....., e Ji111 que Haurete, ca-
pli•o ele CllrittoYio Bnadlo, é chrisdo reaeptlo.
No . . 2 ele março com~ncea
Diogo IILdfts, ......._,, morador na ilha da
Palma, que denunciou um Henrique Soares, por ter fosido 4 laquiliçlo de Sevilha.
No dia 4 de março compareceu Manoel Femaaclea. que delllllicioa o mercador An~
taGio Femandes, christlo aovo, por duvidar de Cbristo Hr o Messiu.

No ·dia 6 compareceu Paulo de Loureiro, christlo novo e moço da camara d'El-Re~


que denunciou Miguel Nunes, christlo novo e mercador, por praticar actos de judaismo.
No di~ 7 compareceu Manoel Fernandes que additou o sea depoimento coatra AD·
IGIIio Peraaades.
No dia g compareceu Maria Rodrigues que deaanciou babel Roclripes por pnti-
ar actos ele judaísmo.
· No mesmo dia compareceu Laia Neto, capelllo da 84, que denUDCiou um criado
~ez, chamado Ricardo, que nio sabia portuguez, com quem _por isso fallava em la-
diDt e que lbe perguntava para que serviam as imagens, se Deus nao queria que houveue
·~lquer semelbança, dizia que o Papa canonizava 01 santos por cliliheiro, e outras be-
reuas.
No dia., com~ceu o Dr. Eusebio que confirmou -o depoimento ele llaGoel Fer-
•ndes contra Aatoaio Fernandes.
No dia s7 com~ Maria Dia qae deauacioa um GoDça1o, . . criiMio, por alo
acreditar que Deus eslivesH na boatia conaagncla.

No dia • compareceu o clerigo Luis Netto que adcHtoa o 1ft depoiateato coatn
o Ricardo, inglez.
(Nota ' marsem : Prelo.}
No dia 1 d'abril compareceu Gonçalo Femand~ criado de Tilmlo, aDem~ que
denuaciou os flamengos Quemro e Volter qae fadam nps ao Senhor Craci8caclo.: ,.
No dia a8 compareceu Domin&os Feroand~ procurador do aumero ele Boaav•te.
e denunciou o Licenciado PaulO Bernardes, filico, por ter cUto que ~ bavia ,_.,
nem gloria.
No dia 19 compareceu Antonio Vieira, capelllo de Nossa Seahora ela Coaceiçlo,
que denunciou Pedro Dias, christlo novo e mercador e outros qae alo coabec:ia, por
troçarem d'um sermlo.
No mesmo dia compareceu Aatcmlo Lopes, beneficiado na iFéJa da Coacelçlo, qae
confirmou o depoimento anterior.

No dia 23 compareceu Joio Femandes Pacheco Pereira, fidalgo da Casa d'El-Rel,
que denuociou Francisco Lopes, meio ebristio novo, bacharel em leia, ~ue, fa1l-.aclO
com a testemunha em cousas da Sagrada Escriptura, lhe dissera qae lilo oasan ...ir ·
u Proplaecias porque via que era~ contra a Fé Catbolic..

No dia g de maio compareceu Joanna Teixeira que denunciou Tbom' Carcla1a,


marinheiro, com quem ella se tinha recebido em cau e depois i porta da igreja do J:.o;
reto, como bisamo.
No mesmo dia compareceu Francisco Gonçalves que confirmou o facto ela Npmüí
de Thomé Cardoso. •
No dia rS de Maio comparecealf1M8,que denuaciou Cadaaria~ clnMIMva•
por mandado de seu confessor que lhe deu a absol\'içlo com cencliçlo ele ela Ylr '.._
quisiçlo; accusou Catharina Jorge, de quem fôra creada, por a obrigar a trabalhar aos
domingos antes de ir ver Deu~t a descàDçar .ol sab~ e a Yesdr-se de r--.

No dia 21 compareceu Ruy Fernandes, escrlvlo da almotaçaria de Porto de Mos,


que deaunciou como_ bipmo Jorge Pestana.
No dia 2S compareceu o Bacharel Ambrosio Marias, do Cadaval, que denunaoa
Joio Fialho. (Nota: Porpe esta t~1temwaha lae i migo capital e a tu_tenaUIIIul re(.W.
IJII• ,ai adiante •6 4ire Mila sen6 fer mais cao diltoJ
No dia 18 de junho compareceu D. André, bis~ Jera9olense, da Com~bia de
Jesus, que denunciou o estudante Pedro de Sousa, da Unayersidade de Coimbra, 'por.
ter recusado retratar-se como lhe ordenara o Cardeal por causa d'umas conclusões er-
roneas sustentadas por elle. Projectou ir a Roma, mas antes d'isso quiz ouvir a o_pioiio
do Padre Myron provincial dos Jes~itas e de outros da mesma ordem ~ por 1110 M
ajunctaram em S. Roque, sendo de parecer que Pedro de Sousa se devia retractar. Pe-
dro de Sousa, que a testemunha reputa como muito inteligente, nio se conformou com
tal parecer.
No dia 21 compareceu Antonio Ca"albo1 mourisco preto forro, que deauaciou um
mourisco velho que d margem se diz, estar Jd preso. ·

No dia 17 compareceu Frey Melchior que denunciou Dioso de Carvalho qae. d•


pois de ter professado, fosio do Conveoto.
__________
171
,

No dia 15 de folho compareceu Pedro fraaca, COI, ,o,. di 'ealllfJirtU, que deaunciou
Daane Nan~ alfaiate de Saotarem, christlo novo, por ter clito·qae muitos que •htlllll
~~ pela l~uisiçlo eram mal pre101 e qae mais mereciam ser qaeimaclos 01 julp·
aores que 01 julpdos. (Nota: MHntou-u).
No dia 3o de ~to compareceu Francisco de Tavora, criado de D Fraacisca de
VilheDa, mulher que foi de D. Fernando de Lima, gue denunciou uma mouris~ mulher
ele Diop Fernanda, que faltando em anbico fea ó seguinte j_uramonto: E• te juro·
,ello ·~ dosiiiiJWOI e por o . . . , . do Profeta gae o f"' te tlüse he "tr4aü. A tea·
temaaba cliue saber arabico e a nota ., margem d1a que eUa foi presa.
·IID dia sele llltiDbro comp.-eceu llilciades de llattoa qae deoaacioa Alldli d'Abreu,
. - marido. oo.o bipmo. (Nota : JtJ ,.._).
• No dia 3 compareceu o cleriso Luiz Bernaldu, que confirmou o depoimento ante-
nor.
No dia 9 coaapueceu Joio ele Paris, franca e relojoeiro, que denunciou uca iDsJa
ctJ1...do Mircoa. ·mestre ele UIDa náo que tinha cb.ado de Inglaterra, pcx: ter clito-q..
•Jo . . preciso diriair-se aos uotoa, mu bastava fuê-lo a DeuL (Nota : He pruo).
No dia 3o compareceu Bertolua Alvares, que denunciou o seu marido Manuel ele
. . . . a.•o ...... (Noca: He pre10). .
· No . .IDO • • Yieram con&nur o depoimeato mterlor, Pedro Alvares e Cbrilto-
do Pires, cura ele S. Nicoláo.

No dia 17 de outubro compareceu Gracia Doria, e denunciou Micia Vu, por*


clko que alo havia senlo nascer e morret.

No dia 18 C:OIJ!Parec:eu Luiz Leitlo, indio captivo do D~ Estevlo Leitlo, promotor


fiscal do S.co Oflicio, e disse ~ue em casa de Dom Lião se hospedou o ffilalRo Pe-
dro Alvares Cabral, filho de F ernao d'AI vares Cabral, qae veio da ln dia o a úo S. Bento,
q~ tinha um mourisco Joio de Péo o qual disse ~ara a testemunha que a fé dos chris-
tlos Dlo era maia que cuspo. (Nota : Foi p•ilencaado).
No dia 31 çompareceu, na J)!esença de Frey Jeronymo d'Aiambuja (em nota diz·se
que : IJflli acúou o Licaçetlllo Padre ~,ares • eorneçou o senhor Padre Mestre J.,.
•.rrno 4'Artnnlnlja), compareceu Guiomar Godinho, que denunciou Joio Nunes, cleriao
de Almadã, pm: ter dito qae a quem alo assistisse a certos e&ercicios lhe 11io aproveita-
• • •
na ruar DOJD JeJuar.
No mesmo dia compareceu Maria de Mores que confirmou o depoimento anterior
No dia s de dezembro compareceu Briolanja, moça solteira, que denunciou, como
mourisco, Estevão lceraandes, filho de Antonio Feroandes, alpbebe.
No mesmo dia compareceu Jeronymo Rodripes que confirmou o depoimento ante-

nor.
No dia ~3 compareceu Beatriz Vaz, Yiuva, e disse que estando em c- d'am mer-
cador allemio Joio Venysta, casado com Magdaleaa Vemee, ftameop, esta, a p~
to d'ella trazer cootas para rezar lhe disse : Vos outro1 ~IUKWfet JIIIIICa acallae1 tle
rerar po_r conta~ I Disse mais 4 testemunha que nio havia purgatorio, que aó se devia
raar a Deus. Quanto ao costume disse que Joio Venysta a tiaha maadado citar por
.,,ooo réis que lhe devia. (Nota : Já foi ~re1aJ. Neste mesmo Jogar eat4 um assento
d'onde coasta que, a 38 de abril de 1SS7, foi esta testemunha chamada, confirmando em
tud~ seu ~epoimento e clizeodo que se tinha j4 concertado 6cerca da clemaada que lhe
mona Joao Veaysta. ·
~dia· •7 ele j-.iro ele •556 compt!rocea O...ne Roclrpes. cluildo aovo, qae ele-
~ Maria LóDel. cbrisll acwa, de Sl!ltar~ por ter dito gae FNJ Aatoaio cr AI-
~ pNsador cfo CÕD•ento ele S. Fraocaaco, cliuera ~- a BibUa na mio d.. jad••
era cortiça queimada e que cortiça queimada se veja eUe e ardido. (Nota : JIJ ,_.).
No dia 11 compareceu Andr' Pires, clel_igo de mi~ de Sa~Udas, que deauacioa
ADtoaio Rodrigue~ cbristao novo, por ter dito que os sinos dobraYam ~ alma do ._
cavaDo. Tambem disse ter ouvido que Gabriel Rodriauu afirmara gue ~- Seahora fOrt .
cornapta e judia. Tambem om Sanedas uma cbristl nova, Braaca Roclnpes~ o
& .. sacramento numa beatilha que trazia, e Simlo Rodripea ofFerecea _ - .A
testemunha para ena nlo vir denunciar isto. . .
NiG dia 3r compareceu Pnacilco Dia, c:luMio DOYOt qae d -~•• a . . ,
Brmca Rodrigues, ~r praticar actos de judailmo. Quanto ao Ji111 . . . ellll·•·
atraiçoou com um tal Simio Gomes.
· No clia 11 de feyereiro co:if,areceu Aona Dias que roi creada de lles1n Peltlo'
pbisico, que o denunciou por e aio trabalhar aos sabbados.
No dia 16 compareceu o jesuíta Joio Dlcio, morador aa casa de Sato ~~ p
denunciou um lapidario ftamengo, Reinai te, - em flamengo R~yr:- ~ ter cito "
era melhor a Yida dos casados que a dos religiosos, e que ao éliã elo Jiüo alo·blo ..
dar conta de todos os seus peccadoL
. .
No dia 21 comrareceu label Lope-, cristl aon, a,.oo-, qua •ss1D1111a Plla1 1
Flamengo, remendao, porque a mulher d'este lhe tinha dito que o seu marido se rwol-
tara coatn o facto de terem queimado WD lutberano. C(1le . . quam alinllaft a tWia-
de e ainda outras heresias lutheranas. (Nota: Já prelo).
No clia 26 de marçC? c~mpareceu Acenso Fernandes para denunciar um fnacea,
Pedro de Loureto, carPinteiro de Mllt'Çaria por comer carne ú 6.• &iras. e
outros actos de heresia. (Nota: Já pre1o). Tambem denunciou GiraldoUrliaca, ca,
E:.tic8r
por ter falta de respeito pelas imagens. .
.
No dia 9 de Àbril compareceu lzabel Fogaça e denunciou Eatevlo do Prado que
foi reconciliado pela Inquis1çlo, por proferir heresias. ·
No dia to de abril compareceu, chamado, o Dr. Matheus Fernandes Saat'l.,o -
e.U preto no carcer~ q118l disse que, em conversa na prisio com Alonso NllDa, dis-
cutiam se os judeos · am feito bn1 em adorar o bezerro d'ouro e nisto •pareceu o
Dr. Castro, pliisico, que deu nzio ao christlo novo Alonso Nunes. (Nota: JiJ 4ef-t:l•J.
No dia 14 compareceu Gonçalo Femancles, chrisdo velho, que denWICioa Joio Fer- ·
Dandea e Gabriel Rodrigues, cbristios novos de Sarzedas, por comerem c.rae aa qaa-
resmL
No dia 22 compareceu Francisco Gonçalves, do termo de Vinhaes, que denunciou
Rodrigo Alvares. escrivio du sisu do Julgado do Paço, por pardar os abados, 'ftl•
tindo ne1se dia pelote e boa calça preta, boas botas, um roupão averdengado com sea
pesponto de seda e seus alamares, ao passo que nos dias santos traa um gablo de ~
dübo curto COmo q_ual~uer lavrador; nio ia 4 missa, trabalhava aos dODÜJliOSt comia
carne aos dias prob1bidos.
No dia 27_ compareceu Frer Balthazar Curado, parclilo do mosteiro de S. Fna-
c!sco em Leiria, que denuaciou Laiz Machado, tbesoureiro da Sé, por ter prégaclo here·
IIU.

No mesmo dia compareceu o Padre Frey Aodré da EstreUa, franciscano, compa-


nheiro do pardiio, cujo depoimento coofirmou. · .
No dià JS de março compareceu Gaspar Fernandes que deauocioa Joio Afroaso,
cbristlo noYo, cunidor, por ter dito que alo haYia Deus.
No mesmo clia compareceu llatbeus Diu, tonlelre, que ela,....._ a.rtitDtlo Lo-
~VNh Ga ..C.daiillclor, christlo DOYO, pura.ca'tr. -.la-,ea111il ....... fi'JJ
----eadot por suardar ossabbados. · · '. ·
. Re dia 2 de janbo compareceu Gaspar Froes, escudeiro ldaJso da c-
deauaciou Dioso Diu, cbnstlo a ovo de Evora, por proferir ller•ial. ·
crm. Rei,, que
, No dia 11 comparecw Jeronymo Cardoso, ~ra de N. SeDhora da Concelçlo, w.
4llnmclou Bru Lourenço por ter dito Q!le nlo ·cr1a em santos, que om va 4e leftr •
..._. pen o Parliso as levavam pan o lnfemo. .
No mesmo dia compareceu Francisco Fernandes, touqaeiro da a..loha, qbe cltaua-
doà Fnacisco Fernandes, ftlho de Dioao Fernandes taiDbem touquelro, pG! tet cito
• o que -, fuia pelas alm• aeate muado nada lhes aproveitava, porque elo i-r~
ilapem
.. U tlnYL

Ne dia a6 ~
junho compereceu Pedro ~ .u-.ãa~ CJH deaaDclou
"- PreitM, ·christlo novo e bOmbardeiro, por ter dltó que Nouo Sealapr Jesua
FC
·
alo . . . ainda nado.
.(Jiota: J4 ·~).
No dia 1.• de Julho compareceu o Dr. Elias de Lemos, que est4 em cua de D.llar-
dnho ~ e "-qnciou Pedro Alva~ mercador de Peaiche ou OunSm, por lbe di.
_.I ·f111aa créiJe qàe pradcan actos de Judaismo.
No dia 10 de jalbo compareceu FerDando Af'onso que '*-uacioa o Bacharel O.·
b{ie1 Lo,... cbritdo aovo, procurador em Ponte de Uma e llaaoel.de.ll~uita,escd·­
Yio; que alo acrecJilàvam que na hostia consagrada estivesse mais que pio.
No dia J3 compareceu Maraarida Jacome que confirmou o depoimento de E&as de
Lamoe coatra Pedro ~~ e 'Füippa Fernande~ de Our,m. (Nota : PraDI). Tambe111
4JAaadoa
. FDippa
.
NaDes, clarl111 nem. (Nota : Pr1111).
~o
mamo dia compareceu AnfODio Ferreira, marido da testemunha •tMor, aiJO
depoimeato confirmou c:oatra os 108f0L
No 6 14 comparece~~ Matheus FerDIIIclel, pescador, que deaaacioa o .-e..sor
GalaçaiY.. ~ ta: protM'ido blaspbemiu.
No · IDeiiDO dia comparece~ Pedro AnD• que éoa&rmou o depoimeDto •tedor~
. N9 dia ·as
compareçeu Bru Alvares que confirmou ~ depoimento aaterior caatra
Mo Ooaçalves. -
. (Nota : Prelo). . . . .

Mo dia to compareceu Alvaro Fernandes que con&rmou o depoimento. aacerior.


No dia4 de aaosto compareceu Francisco Diu que denunciou a IUI mulher,Braaca
Rodrlpes, ·como Juda•nte. ·
.No dia 369 compareceu Salvador Soares, mourisco forro, q_ue denunciou um captivo
de Autcmio d Abreu, por eUe ter S!"itado por Cid BeUamu ou BeUabes, qae 4 um JIIOWO
que eUes t&m por sancto, em va de chamar por Deus. · ·
No mamo cUa ~mpareceu Joio d'Atbaide, mourisco forro, que COD8rmoa o de-
..,._eato anterior. · ~ . · · · · ~
No dia 3 de setembro compareceu Joio de Moraes, cavalleiro da casa ci'El-Rii •
iDterropdo sobre os·flctoamterJOrea, disse alo aelembnr de taL ~
174
Ne c1ia ü ~u Aaaa Ferreira que deoaaciou Beatn. ~·-. dlrisd
- - . por raar ama ~o - qae filllava eaa A.doaai, por laYar • 811ot. -•• ele n-
ar e por pardar 01 sab6adoL
No dia ~ foi cbam.- Maria Rodripes, mulher preta forra, que confiriDiiU -
parte o depoimento eaterior.
No dia 28 compareceu Bartbolomeu Menar, ourives d'oaro, fnaca, qae --doa
lhnoel Peisoto, cbristlo novo,. ourives d•ouro, e a mie da sua ~ ~ ~aelle •
cHto que na hostia e no calix só havia pa1o e Yinbo e que •por mal q a~ fdõ • ...,..
avemos de hir adiante e ser multiplycados e por syaal ~ue os estrorrl anútu ...... •
que aaora eataYI jútos e tam populosos e mats do q erl e êlpor maas êl bos gae).....r
avyam de ter ml"o ate o cabõ pOiiJ era mylhor a sua ley e q bem aventuradOs e4 01
que podilsofrer e DI tomar atru e morrer aeUa e ~ 1~ claq~ hiam direytoa a llof·
... 11 estna DOS ceos e 11 por elle lloJi:! Yer que tinh~ firme fee De0e OS maliipl=
c.da dia mays.• Quanto ao costume . que tinha tido com o denuDdaclo ama
No dia 31 d'oatubro comp.areceu Francisco Diu que clenaacioa Bnaca Roclriaa-
aaa mulher, como jadaisante.
No dia S3 compareceu Maria Jacome e denunciou Marqa- - - por .....,.,...
em dias saactos. ,

No mesmo dia compareceu ChristoYio qae coa6rmou o depoimeato aaterlar.



No dia 26 co.çareceu Cecilia Machado, mulher de Mestre Guilberme, oarft'11 .a-
., lemlo, natural de Flandres, que denunciou um fiam~ calceteiro, cbamlldo o.a,.,
qae costuma servir de interprete dos flamensos em Seiu&.l, par comer canae • • t1i
prohibido. ..
Noaa: PN10.
No dia aS de janeiro de 1SS7 compareceu Duarte Rodriauu, lirpeiro, clufldD . .
vo, que denunciou uma irml de Gracaa Fernaades, a BacaiDoa, cauda COIII aaa ~
em Sçtare~ por nlo querer trabalhar ao aabbado.
Nota : rrera.

lOO._
No dia a6 compareceu Vicente Pinto, holpede de D. Constaatiao de Br..-.,qae
denunciou Duane "Fernandes que tinha viado a Moate-Môr arr,cadar
nome
que tencionava fugir para Ferrara e d'abi para a Turquia; um mancebo cujo
nljã f
aiO
ube e que em Damasco era judeu; Mosem Coem que quando vae a Veaea • c~aa~..
Pedro Bõtelbo e um Lerma que tem o pae em SalooiCL ·

· No dia 5 de fevereiro compareceu Maria de Rosales, mulher de Pedro SIIICMs, . -


crivlo do thesoureiro mór do -aeino, que denunciou Maria de S. Joio, acran ... ·1o1
de D. Maria de Valhasco, por ter respondido 4 testemunha que Deus esteYa ftOI ~
a proposito de a advertir por se rir deante do Santíssimo Sacramento. TambeiD deaua-
ciou Francisca Luiz por duvidar da virgindade de Nossa Senhora.
No mesmo dia compareceu Maria Nunes que confirmou o depoimeato aatlricw
quanto a Francisca Luiz. .
No mesmo dia compareceu Francisca Luiz que veio pedir perdlo e misericordill'do
que tinha dito. .
No dia 15 de fevereiro compareceu Manoel Marques, christão novo, e di••• que
est8Ddo preso na cadeia da cidade do Porto com um Christovlo Dias, christlo acwo,
filho de Clara Gomes, presa na Inquisiçio, 'he aconselhara a que praticaue o ieluaa
doi judeus p8ra ser solto ; Christovlo Dias tambem disse 4 testemunha que DioP Ro-
clripea, &lho de Sim&o Dias, tendeiro do Pono, pnticava jejUDS judaicos.
' No dia J .18 ...,ço CN~P.•eceu Fr. Joio L um. c1eJi1o do ll•bito d'AN, laoepedado
- c••• ct. D. PedN de VW. Verde, e diase • ouYiclo que am cbrisdo ~ • •
mado Manoel Rodrigues Salvador, ~ftirmara que a lei de Moy-'s era melbor qae a
chrisd; que é publica voa em Fronteira que Joio Rodrigues, sapateiro e christão novo,
dissera a propetito da
-NaPca a aaone d'..-
C. que ,.....,a .,.,. • &~reia em qgmta feira d'Eodoenças :
• ba-de eequecer I• lambeai a c.tema1nha disse t• ou-
vido que Joio llendes, alcaide pequeno e o Dr. Pedro Fernandes Correia, ouvidor do.
ll•trado d'Avi&, comiam carne nas sextas feiras e na quaresma, estando ~os.
No dia compareceu ~ Pereira, que ead em· casa de Lourenço de Brito, e
11
cleauaciou um mourisco chamado Cosme, de Caimbra, por negar a virsindade de
•••r lnJIIon, M&
No dia ss com~eceu Jacome da Mot~ morador e residente no Brazil, que denun-
lill o cepilla • i*» S. lalp - qae vltn do Bruil, Siclnch Eaqae~et fla•nr, por
ter dito que se alo devia rezar aos Sanctos que foram homeas como nós•

... dia 39 COfllll...... C.lb•iM o.•.,................ Julinana ele v- por
pradcar actos de judaismo.
(No~ : Pre1a.)
.
No dia So cOmpareceu Aaclr' de Paiva que deouaciou Duarte da Costa, botlcuio,
christlo novo, por ter dito que um mouro, desde que rosse bom, salva•a-se.
No dia as d'abril·compareceu o Dr. Gil de ViUa Lobos. corregedor que foi de Vianna
da Fos de Lima, e denunCiou Di010 de Salazar, _procurador da correiǫo, por ter dito
que era esc:us.do haver dia de jubo e a proposuo das pris6es que o corre~ daha
Jílito ~ ordem elo Santo Oflido e11e disM li teatemwaha : •Diaa·me Vossa c& : Vyo
aunca huú cbrisdo que se tOI'DUM mouro ser boa mouro l• lambem denunciou Ba~
Cbriltlo DOYOt_ mercaCior de Viaaaa, por dl.er referiodO•II ao crucifixo : •fuer oraçlo
aaquillo que lu estava E' cima, assim como Pedro Homem, filho de Gupar HollleiD e
FraDcisco Dias.
. No dia 3o compa~eceu Manoel BollJes que denunciou Antonio Goacalv• -~ ter
dito que dormir com uma mulher nlo era peccado e por se rir dos esc:rupulos da
testemunha.
No dia de maio compareceu Alnro Ferreira da Camara, moço fidalgo d'EI-Rei.
11
morador Da Mouraria, que estava para ir servir nas plés do 111rei1o e coatou que, vin-
do de Tancos num barco foram seus companheiros lzabel Bulblo, um frade e um ho-
mem, que~ fallando com ·aqueDa, coutou certa historia referente a um judeu que, para
p•dar uma sesta feira, se nlo imr.rtou de se subjeitar a ser comidO por leOas, ~ue,
quando o Yiram, lhe nlo fizeram ma a p . A testemunha vinha rezandõ por um livro
de Horas de Nossa Senhora e quando esse homem disse isto, indignado, in1errompeu-o.
O frade abeoçoou·o entlo e lzãbel Bulblo desculpou-o dizendo que eUe llio tialia dito
-.da por mal:
No dia 19 de maio compareceu RodriF de Lamisa, barbeiro de Porto de MQa
hospede do Dr. Antonio Pinheiro, que denunciou Justa Lopes, christl nova, por nepr
a Ylrsindade de Nossa Seohora ; tambem denunciou Maiprida Malba, christl nova,
como· a antecedente, de Porto de Moz, por blasphemiL ·
No dia 2~ compareceu Aleundre Diu, clerigo de Vllla Real, peuoa qae esú em
cua do secretario d'El-Rei, que denunciou Bernardo de la Fonte, clerigo hespanhol,
a
tllbaixo de cuja cabecein - poisaado doia na mesma cua- encontrou um livro ma-
IIIIICripto tendo fiauras de 11po1 1aim,.,,
meio1 1igJ101saim6e1. Estas figuras tinum
aomes desconhecicfos e, ao parecer da testemunha, eram de demoaios.

.........
. No mesmo ·dia com~eceu Pedro de la Fuente, peleteiro franca, que denunciou
J de Nelmlo, aataral da l'lolmaadia, por se alo confessar, tendo-o a tes1emuaha como
•76
. . ·Ne . . ., ~Joio ~ cràlda ele D. Corlll...., P-1 ••• •••• All-
, ...0 F•aaCtlltciarild(;aowo ele Viaa-. por blalpla•••r. (Nota: Prr•• c••· paa
,....... este a 5 de jaa•o). .
.
No dia a.• de juabo com~ Paldaoal F--*- ~ de•-a-allalldr F• . .n...
da, cbrisd nova, por pardar 01 sabiMdol. (Nota: EIM . .,, • •• w •11 i o • • -
ü ,.,.,...).
No dia 2 de agosto compareceu Isabel Fernandes ,a caatelbaaa, qae deanacioa La ..
aor de Macedo, cliristl noq, por tnblhr ... cloaailãpl.
. No ultimo dia compareceu Joaaaa FerDIDCles que coa&rmou o ••: a! 1 I& 11
tenor.
. Nodia3 deepto COIDJ**•L-~Sia ... oa l•••••lfl'
nor.

11 r.-..
n
No JDeiD) dia com,.._.Jsa• Oo•flh'•,W••· 1i1n'•• •••• . .
01 sabbados.
•a n ·Ir·
~2~~~FsoiH ele agosto ~P~~AntoaialooCaaaac~ tece11o de p1aao de • 'I; ca-
~ ppa Feraan~., 18Ce~-, por Ir • mi••·
No dia 3o comoc\ri;ceu Jorp Roclri8aa, alfilillte rem •ndlo, gae daDWK:iau - - ·
:::t._eadaarlaa a c
es, por n1o 1r am.. • por a1o 8CNCifi:a • ca:•vllçllo •

No mesmo dia compareceu Cadulrlaa RochJaaes (ale 4 a deaalld••


Roclripn) ~· deauncfou Guimaneaa Botelbo, chrisd DO~ como dbleaclo ter
·com o ~etc. (Nota: Por N ttdlllr f aM ~H~t•lld• erll • , .. . ars:Me
,_= •
fer olr• ,_. WD).
No meamo dia compareceu AlltODio Dia qae deouacioa Isabel Lopes, por _. ca-
•da duu Velei.
No dia 10 de outubro compareceu Fraacisco Diu, christlo novo, qae de•...a. a
sua mulher Bl"lllca RodJ"isua por fuer o jejum de Quipur.
No dia 10 clé novembro compareceu O.par Lopes, prelO DO cercere, que p18o -
dieacia para demmciar: que em Ferrara Yio aa ayaapp diverMs peuou e..,. • •
Bernardo LoP-es, que foi caizeiro em Lisboa. lliatre P~ chrisdo novo, c:lrandlo.
Monso Vu Albuquerque pae de Mestre Pedro, um sobrinho d'aquelle, cbamado-..:
aoel Dias, ourives d'our~i Maaoel Fernandes, mercador,~ alcuaha o caga tlf_!IM; Jale
Femandes, mercador; Manoel Rodrigues, coatciteiro; Mestre Di~o, druf11Hi
cisco Rodrisues e Jorge Rodripes, ourives d'ouro; Jorge Femandea, ~telrO; GlbrltJ
F.,...
Lopes Beacar git~etay_ro. Em Avinhio vio Luis Fernandes, alfaiate ela Coftlhl; Diat•
Femandes, caabado d'eate e sua mulher Clan DiaL Em ve....a tornados jude~~~t YIO
Fnacisco de Castro, mercador e um seu irmlo maia velho; Afiaso Vu Beirlo; ...
noel Jeron_ymo e seu pae Mestre Jeronymo, cirur~lo. Na synapp de Ancoaa Yio :
Francisco Fernandes, mercador e o seu genro Jorse Fernandes ou Rodriplea, ~
ro. Em Ferrara vio ainda Henrique Fernandes, ourives d'ouro que Yive Juncto d8 Ro-
drigo Alouso, pdomycil~ro. (Nota : Achov-~e ,,., totlol atu jtl01 a ditU).
No dia 13 de novembro compareceu novament-. o mesmo Gaspar Lopes qae _..
citou nova audieacia para denunciar: Fernlo Roc!riPa,Borracheirod'alcunhã.e.. , . .
de Verga que a testemunha vio na IJDalop de Ferrara. _
No dia 3o compareceu Jordio Vaz1 chrisdo novo, ele ViiiiiN' da Foa de r...-.
qae
deaunciou Hearique de Tovar, mercador,esuamulb•,~aeemFiaadrei,....IFF
jejuas judaicos, guardavam os sabbadcs etc. (Nota : Pruo). · ...
. ··llo41iat~p.a. 4••••••··~•aceu Maria Feraeaclea,· nawJaer 41e.Anclt4 ~,Paiva,
,. t ... a..-.. •• PaciiQ . . Dtie. -=n•o do Dr. Diolo Lo~, jW. do cinl de J..ia..
bola, por dizer que alo ácreditava na paixão de Jesus. (Nota : Preso).

:·Noclia Jt·cemr••o• P-. da llena. de Torres Ncwu. que dttaaiiCioa oBacha-


NlSillll• Rilleirot~·pla]r•i• ele Torres Novu e christlo noyo, porque, a proposito da
prisla ela mulher ·da teàtemun~ diiH ~ H ella coofeuaue qoe tanba pnticado o je-
~ ele Qui~,_. ..,.o&•tio j4jwlt f 01 juüu Jitera• por t~~~uela m.,.orya e re-
ílatão fW .O.U ~- ella Mtrf n1 01 tirt1r tlo Caplit1eiro, nio lhe aconteceria tanto
mal.
.
No dia 16 de laDeiro ~ ·1558 compareceu Pedro Lo_pes, christlo novo reconciliado,
que esd cumprindo a sua penitencia no bairro dos escorares, e dentlDciou um chrfstão
DOTO com quem tinha eaaado em Flandres, cujo nome nlo sabe.
....
. No 4la 21 Ale fet•eirO ~mpareceu Isabel da Fonseca, mulher de Pedro Fernandez,
.......cea fUirtll/4 por comer carae ú 6.• feiras e. diz : luJ pe _,."""pela lluca 110111 ,.,_
&---
JIIWI ti 111rful I.SÕ O fiM IIJ.Ya. ·
No· mesmo dia ~areceu Manuel M•rqaes, christló nttvo, do Porto, ~ue foi re-
coaciliado DO Santo Officio, e denunciou uma christão nova, de Tavira, qae ttnha fugi-
do de Saatarem quando 14 prenderam os christios novos, tendo mudado de nome; em
S.•reta ctaameYa·• Isabel •eraanctes. Tambem denunciou uma christi nova do boina
Yerde. Denuociou ainda Catharina Gomes, de Tavira, por praticar jejUDs judaicos.
No dia 16 ele aaaio compareceu Tbomu Fernand-, christio novo, preso no carce-
re da ~~o, que disse que, estando em BriatoJ, ouvio dizer .a Thomaz llipmaon,
mercador · es, que nlo acreditava no Saactisimo Sacramento etc.; assim como a Joio,
cb•celler ~ mercador; a Roberto Altoo e ainda lhes ouvio outros erroslutheranos.
'T81Dbem em Bi"lltol ouYio a um Pedro Vaz, slr~eiro portuguez, que se junctava com
Duarte Colimor, Roberto Ammelim e Rogerte Taüer, mercadores iosJe•es, comendo
car-ne em dias probibiclQS. Tambeia- deounciou Dioao Alvare~ christló nov~ morador
em Paa~ D.Jpda, a quem á teatomuaba vio. em --sristol. jeJwu- o jejum de Quipur.
(Nota: Pr~10). . . ·

~ .d~
.•7 ele maio. com~receu Gaspar Maciel, m!'rcador,. m~ador em Vianna
da Pos·de·(Jina, ~e ftJO ba 1! -1le F~ e denaoaoa um ttaliano c:Umado Cla-
ridO (fiitia: l+ao) l'O! ctlm- que tanto faia rear no qaeno como na iareja• denun-·
ciou taJ!~bem ~is dota franceses cujos nomes alo sabe e F~get T~o, c*Phio d'uma
Ido e Simlo Pr1er, mercador (Preso} por ~m de quem baaa nos pmtos. A Joio
Prier, irmlo do antecedente, ouvio a testemunha dizer que os portupezes eram idola-
trll • • .-o·umet, m111re da ao àaa e a Gaiaole Leeoate oavio ctiAr que um fran·
ca •.• • ~-Uiyns
:
Olyteiro (1"10) era lutberano. . .. ·
. . .
No dia 7da j1ilabo compareceu Laáa de Moura, mulbw de Cosme Duarte, allalate
do caede V~ qae deaaociou JubeJ Gollç.lYa por coUocar 8 mio ft.U DI c:abeea
N.- ltiat.o da tiSfemunba e, correod~ • pele rosto abaixo, cüu : . , . -.itU •
6

6ellf8o • Dcw., • liad. eutros açtos de judaiamo. · .· . ~ · .


I '\

No dia 8 compareceu Pedro Lopes, christlo novo reconciliado, que asora ea~ no
~ c:a!mpriaclo . . peaiteacia, e diase que, Olwa4o - F...... no ... IJ818Z\)a a
Cluütovao Duarte. : . _
No dia aS de junho compareceu, chamado, t&M»mu. de 1.-.r, a&JM
·~··.e~
Collegio da...F' cumprindo ~ sua penitencia, e ·deaaaciou uaa ftameoso. teceJiõ. dl1m.clo'
.o:
Joio, por nao guardar os dias aaoctos. . · .~ . .. ·.. ~ . ,
. . .
. No ·mesmo dia compareceu Diogo Farinbe, esc_.,o de Cute!W aPi.lot tt'IIÍ ~
. . '
a.uaciou Henrique Soares, christlo novo de Facall~.pqr dia• 91' •·•·••~-
n•• e morrer. · . J . • • • • · .... ~. •

A hiQUJII91o . . Po•vve.u. • lfO 8••11'1. _,


·~---.--·-·-······················-··· .
No dia 3o de janeiro de 1SSg compareceu Pedro Galvio, da üha de S. Miguel,~
pela loquisiçlo, que denunciou Joio Tavares, lavrador, por ter dito que iaso dos cüi-
mos era uma burla porque nem Deus, nem os santos, comiam.
No dia 3 de fevereiro compareceu João Gomea de Macedo, veador de D. Estetlo
da Gama que reside em Belem, e disse q_ue, estando em Flandres, 14 estava tambem
Manoel Manrique do Pono, a quem denunaou.
No dia 6 de maio compareceu Simio Duarte, pagem de Afronso de Torres, que de-
nunciou Miguel de Carvalho caiseiro do mesmo, ji denunciado.
No dia 10 compareceu Helena Dias, que denunciou Igna Fernandes ele Porto· de
Moz.
No dia 3 de junho compareceu Vasco Barbosa. (a)
No dia 12 compareceu Leonor Fernandez que denunciou ••• Moraes.
No dia 21 compareceu Salvador de Seixas, moço da camara d'El-Rei, que denun-
ciou, além d•outros, Mestre Simões, phisico. -
No dia 7 de julho compareceu João de Paris, relojoeiro francez, que denunciou um
barbeiro francez, que á margem se diz, ter sido preso.
No dia 2S d'agosto compareceu Izabel Lopes, cbristi nova, que denunciou Joio
Rodrigues, e Leonor Mendes por actos de judaismo.
No dia 18 de setembro compareceu Maria Dias que denunciou a mulher de João
F ernandés, ourives.
No dia 21. compareceu João Nunes, ferreiro.
(Nota : Este mstemrmhou fa&o).
No mesmo dia compareceu . • . Bravo, preto forro.
No dia 2S d'outubro compareceu Isabel Vu que denunciou o Licenceado Jorp
Cabral•
.
No dia a3 de aoveiDbro compareceu llanoel Pires, cleriso, que denunciou João de
Mones. - ·
No dia 20 de junho de 1SS9 compareceu Diogo Berjaa, serralheiro francez que de-
nunciou llatbeua. ~ fraDcu. (·1)
.
No dia 19 d'abril de a56o compareceu Joio da Lagoa, bofarinbeiro francez que
denunciou, como herege, uma pessoa, cujo nome alo satie. (3)
,
No dia a3 compareceu Estevlo Martins, lavrador, morador em Freixo de Namio, que
denunciou Joronimo Rodrigues, christio novo, por guardar os aabbados. (Nota: Nl at
~~-..,...,. ~-·-··)· •
No dia 8 de junho compareceu Antonio Gomes, calceteiro, christio novo, e denun-
ciou Hearique Amares, ~ cbristi9 novo, ~r ter dito que ia a casa de Rui Go-
mes, boticario, que 1M uaiaeva coiMa de judeu. (Nota: Já foa prao e p~MCÜMD).

(•) Maia uma vez dizemos que o pouco ~ue conseguimos apurar acerca d'estu de-
DIIDCIM é devido ao peuimo •tacto d'estu folhu do codice. .
(s) Nio fu referencia a este impressor o trabalho do sr. Veaaacio Dealaades,
D.c1. ,.,. 41 11*. 411JY1:0PfllltMp_.,,_..,.., ,_,la XVI e.XVU.
(3) Esta deauacã. e u aepintea do de differente codice das anteriores.

..
.......-···---·····--------·······--
Na JUesma occasiio a 1estemunba denunciou Ruy Gomes. (Nota: Já foi prelo,,..
llilenciatlo e fugiu depois para Frarules). .
No dia 17 de junho compareceu Antonio Alvares, mercador de panno de linho, que
denunciou Antonio Alvares, cbristio novo e phisico de Freixo d'EspadaA Cinta, porque
quando o Padre estava a levantar a Deus elle dizia: De Moysés creo; tambem come fi-
pdo ao sabbado.
No dia 19 compareceu Lopo Francisco testemunha citada pela anterior, que disse
bada saber quanto ao phisico denunciado. (Nota: Esta testemunha desfar no credito da
pasada pelo pe se nam faria obra neste caso.)
No dia 20 comp~receu
Fr. Henrique de Castro, provincial da ordem de S. Francisco
q~e .den~nciou um Manuel Garcia, eh ris tio novo, que se fingiu franciscano. (Nota: Já foi
pmatenaado.) -
No dia 21 compareceu Fr. Antonio do Porto, franciscano, que confirmou o depoi-
mento anterior. .
No mesmo dia compareceu Fr. Gil de Montemór que egualmente confirmou o de-
poimento anterior.
No mesmo dia ainda foi interrogado Balthazar Vieira, de Goes, sobre o mesmo
caso.
No dia 2S compareceu Filippe da Costa, sollicitador e procurador no convento de
Thomar, que disse que, tendo ido a Trancoso, arrecadar as rendas do convento de Tho·
mar, ahi vio, a um sabbado, as christis novas vestidas de festa e ouvio dizer que nas
sua$ tendas não vendiam, o que faziam ao domingo.
No dia 8 de julho compareceu Joio Luiz, borlador e denunciou um francez, cha-
mado Montalvão, debuxador, que nio levou a bem que a testemunha jejuasse num dia
de jejum, troçando do jubileu.
No mesmo dia compareceu Estevão Lopes, borlador, que confirmou o depoimento
anterior, acrescentando que elle Mont'Alvio dissera que o Papa e Prelado tinham man-
cebas. (Nota: Preso).
No dia 24 compareceu Balthazar Rodrigues, creado do secretario d'El-Rei, que de-
nunciou um individuo cujo nome não sabe, por dizer que nio devia haver imagens de
vulto senão de Christo (o homem chamava-se Henrique Nunes e tra ourives d'ouro).
No dia t3 de agosto compareceu Margarida Barroso e denunciou um homem que
dizem gue ensina mourisco e tange num alaúde por ter affirmado que todos os da lei
velha foram sanctos e por isso viva a lei velha. (Nota: Tinha a alcunha do Romano e já
foi pr~so e penitenciado).
No mesmo dia foi chamada Antonia Nunes que confirmou o depoimento anterior.
No mesmo dia foi chamada Thereza Ramires que confirmou o depoimento ante-
rior.
No dia 19 de novembro compareceu Manoel Marques, cbristlo novo do Porto e
di- que, teodo ido pusar dez daas a casa de Paios Carvalho, christão novo de Vizeu
e alfaiate, este lhe deu a fuer uma "asguinha de chamelote e lhe confessou que pratl
can actos de judaismo. (Nota: Já foi preso).
Mo dia a8.. ele jaaeiro de 1S61 compareceu o Padre Belchior Cota, jesuita, e denun-
ciaa ... cap\iYo de D. Fernando Mascarenhas, de Santarem, mourisco, que se chamava
MMia. . por alo acreditar que u almu dos mouros fossem ·para o inferno. Nota :
&te Mlltheus foi clumulllo • acho•· 1e ser mouro e claamar-se Matras.
~ 6l a8 • {lnweiro co.pereceu ~ MArques, ?::.,
aeste Saato Officio foi re-
ca aalwh, .._,., DOJO do Porto. • cleawadou suas tias el Pires, Helena Gomes •
Onda F.uades, Ulim como saa prima Helena Rodripes, malber de Gabriel Pinto;
t8s
bolicario, todos de Coimbra, em casa du quaes a testemunha esteve doente de cama 40
dias, e nesse tempo pediam-lhe para elle ler um escripto onde b1via palavras hebraicas,
fuiam jejuns judaicos afim d'elle melhorar; duas d'ellas. depois de lavarem as mios, pu·
zeram-se junto da cama sentadas no chio, a rezarem uma oraçlo de que elle s6 perce-
beu: Adonay Rey, Adonay Reynoa; depois d'essa rezaram outra oraçlo que começan:
&y alto e grãde e espantoso fJ lit~raste 1 alianya etc ; nunca lhes vio praticar actos de
ch.-istis. Declarou a testemunlla nio ter dito asto ha mais tempo, por lhe dizerem qae
esperasse que a Inquisição fosse para Coimbra. (Nota: Já foram pre1a1).
No dia 26 de fevereiro compareceu Matheus Fernandes, italiano, mendigo, que de-
nunciou Christovio Paes, francez, que foi tecelio, por ter dito que lhe parecia que a
fé dos lutheranos era a verdadeira fé. (Nota: Já foi preso).
No dia 17 de março compareceu Pantaleão de la Rocha, genovez, criado do Comen-
dador Mór, que denunciou Thomaz de Foças, genovez que esculpe figuras tle imag6,
porque, encontrando-se os dois, o denunciado perguntou para que levava clle umas Hons
de N. Senhora, acrescentando que para rezas bastava o coração, que as imagens dos
sanctos se deviam d'ellas tirar e se rio de differentes orações. (Nota: Já foi preso).
No dia 13 de maio compareceu Sebastião Alvares, lavrador de Silves, que disse que
vindo do Algarve com Antonio de Sou3a, meirinho que de lá traz os presos do Saõto
Officio, entre elles vinha a mulher de Rodrigo Pinto, christão novo de Lagos que eaú
preso, e, quando chegaram a Vai do Rei, termo d'Ourique, d•ena se aproximou um ho-
mem que lhe disse que nem por mais medos que lhefiresem nem m~tesem nom conjeltUe
e gue nom ouvese medo de nada; a testemunha adiantou- se então para a prohibir de fal-
tar com a presa e elle de longe, ainda lhe disse: Fé com Deus. Este homem era irmlo
da presa e chamava-se Manuel Pinto, natural de Evora. (Nota; Direna ser morto).
No mesmo dia chamaram o meirinho Antonio de Sousa, cavalleiro da casa d'El·
Re~ que confirmou o depoimento anterior.

No dia 2 de junho compareceu Antonio Lopes, cardador, que denunciou um ~omem


de Enxara do Bispo, cujo nome nio sabe, por proferir heresias.
No dia 6 compareceu Manuel João, christio no~·o, de Fez, que denunciou Constança
Brava, de Ceuta, por dissuadir a testemunha de se fazer christio. ·
No dia 11 de junho compareceu Manuel Fulgeiras, de Villa do Conde, que denun·
ciou Antonio Paulo, por ter dito que o mouro se salvava na sua religiio.
No dia 10 de julho compareceu chamada Leonor da Costa, que denunciou lzabel
de Brito, freira professa, por ter dito: qui crediderit et bautiratus fuerit saluus ~. as.
sim como um fidalgo mancebo, de appeJlido Mendanha, filho de uma O. Camilla, por
ter dito que tão certo tinha de hir ao parayso como estava asmtado naguella catleyra;
tambem denunciou uma escrava da commendadeird de Santos, preta, Durseana, por ter
dito, aproposito do inglez lutherano que cometteu o sacrilegio contra o S.•• Sacramen-
to, gumr sabya se agwlle acertat~a.
No dia 14 compareceu João de Paris, relojoeiro francez, morador ao Arco dos Pre~
que denunciou um marinheiro francez, chamado João, que veiu n'um navio pequeno da
Bretanha, por lhe ter dito que era muito bem feito que na sua terra, Croli, derrUbassem
as egrejas e fizessem os santos em pedaços;· que os padres e clerigos eram multo ,._,
e estavam amancebados. (Nota: Foi já pr~so e reconciliado).
. . . ·
. . .
.
No dia z4 compareceu Christovio Bartes, francez, natur.d de Toloaa, d~ de
missa, morador ai Cruz do Cataquefarás, que denunciou um lrancez;'cJ!imade·La~a. ele
Bordeus, por lhe dizer que niio rezasse, que o SS... Sacramento era iddl«t ..,~•ar ..
r3 ou 14 a~nos se nio co~fessava. A tes~~munha tambem da_~e descoafilr dei ~,.
mestre Guilherme, pasteleiro. (Nota : FoaJd preso e r«tmci6atlo).
No dia 1 de agosto compareceu Antonio LW., sapa~ro, que ..U 110
Doulriaa tia FI, cumprindo a sua penitencia· e ctenuoaod • mie cte·Jit•~·••·
a.-.c
·· · ·
â
eles, cbrildo novo, pot ~rdar os sabbados. (Nota : Fer-•e 4illgltia e •e,...··p.; ..
.-a cousa algíla pera pratler).
-------
No 4ia 6 ele ...-....~cu JeroayJDO ~ que denunciou Andr' Fer-
. 'riprio. do ..aeiro- do sat.dor do BUbo,
.,..,..MI·ra.,,. ele Espozende, por dizer diante
de c:o........,.. do· mOiteiro do S.lvadtw do Ba , Joio Fernaades Pacheco, que os
J:IO
latb.anos tinham razão a'algumas coisas e ainda outras heresias.
Mo dia s7 compareceu o padre fr. Francisco de Lisboa da ordem de S. Jeronymo,
l'tJidellle ·no mosteiro do Matto7 que denunciou fr. Paulo do Cintra, prior do mosteiro
elo llano, por ter dito, a propostto do Santissimo Sacramento: Deus nom e1ta aly ma
. , . ~ liMa ptlrle e hlgar; o p~ "ede1 aly nom he Deu1 mas sam açidentes, branJcura
• 11fWla forma. (Juntamente lia uma carta do denunciado que nos deixa entrever as
~~ conveutuaes e dá como suspeito o denunciante, assim como uma retrataçlo do
Ir. Pialo-cle Ciotn).
No dia 3 de oovembro coml'areceu Diogo d'Hollanda, christio novo, de 26 a~nos,
-m-or-•dor em Alfamat que denunaou um DJancebo frPncez. filho de Babineo, mercador,
porque, atando a falar n'um criado do embaixador francez que no ultimo auto foi quei-
-~o, elle diue que a missa nlo valia nada e que nio era verdade que Deus estava na
ao., o qu•l mancebo era tido por lutberano. (Nota: Já foi pre1o e reconciliado). (~)
No· dia lO· compM'ec:eu, chamado, Simlo Rodrigues do Ama~ ermitio de Noua
Seabon da Guia, termo de Casc.aes, que denunciou um frade de S. DomiDsol, que M
•IDida. appareceu, fugido_.
No diá t5 de de~embro compareceu Domingos Peres,. portupez, cnalleiro ..
Africa, e deouociou Belchior Vaz por ter dito que se confessava em seo coraçlo to-
dos os dias, e aioda outras heres1as. (Nota : Já foi preso, mal foi solto por ordem tla
Raà• • M C.rdet/11. Nio se percebe, por eitar traçaao o pape~ o motivo por que eUe
foi·Deftmeate pteso.
No dia 17 compareceu Pedro Fernandes, que tambem denunciou Belchior Vaz.
Na_ mama occasilo comp~receu Belchior, filho de André Pires, morador em Tao-
a•, que denunciou Belchior Vaz.
No dia 3 de janeiro de 1S62 compareceu o dominicano fr. Sebastião de Quadros,
ye denunciou uma mulher, cujo nome nio sabe, porque estando elle no coofessiona-
~ em S. Domingos, ella lhe veau fazer differentes perguntas, provenientes do escn~pu·
Jol.aeus, i.Dtereaaaates. (Nota: Não 1e pode saber tJ'esta mulher. Cmua laee uta muito
JNI'tl dlortJr).
No dia 19 compareceu Pedro Fernandes, ferreiro, que denunciou o ferreiro AfFonso
FerDandes por dizer que o Padre Santo o não podia mandar.

No dia
24 compareceu Joio Martins Cardeoboso, castelhano, e de.o~i~u FBD-
daco ~es, de Alcacer do Sal, por ter dito que nlo era obrisado a confessar· se senlo
• Deus. (Ea&á junta a sua confisslo e o seu pedido do perdio ).
No dia s6 compareceu Bonedula, francea, encarregado de varrer a rua dos ourives
do ouroJ. que denuadou um meadigo italiano, chamado Gui~, ~ b}Npbeaaar.
(Nota : ~arece-~e pe 1e achou ler tlmulo)•
.
No'·~esmo .·~· c;o~areçeu Peo~lo Mourlo, de FfC!ntein, que.dei)Uaciou UQl bo-
...., ~o aom.e alo alie, por ter dito q~e..nlo era preciso _coofessa ... se a hoOJena, bll·
laft animar-se a uma porta e ao pé d'ella pedir peralo. · ·
·; ~flt '. ··~, · .~A;~· Pe,clro d'Eatúclilbo, C.tolbUG~t 4D. ·~a_.
~tflU? ~,.,,.~. .P'r .· ·~~~~~tpaa. . . . · · ,.
No dia 11 de maio c:ampanceu llatbino, mourisco, capd.o ele de Melo,

U.1t1
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(I ~. êaUU -
1. .
ct·... é•..,..•••*
r•',..Pfli•r•••ncJe.
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ct•outrO. fnacae• foi-aia peclidai


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I • •

npUcaç&es ao miaistro
a•t.rtfesil~illum ._ Cllfitu·
.

-Jllllll.~l.-:1· ·. l! t! '.,l:••· .·. ·.i:.:·; . . i: .:.•·i aJ\:.~ • .... ; ~ !·d·· til , .. :-. ~ lt!· r•. •
---··----- •

que denuncioa um Joio, capâm do a., 0.1DH, -=rklt .._ •••• .t. T••we:; por-
que, guando a testemunha deacia do caa.tiatso, ao .ato ela M, • ckr1w . . ~ .a. e
lbe disse : tJW e1tão fa{erttlo ates ...._ OOIIIN MM• S.6arl F41f. . C tiJJftllatt jlll-
lam como o dia tle jutfo IJ"e .ao pode (tiJer ••lo Nouo s_,, .
No dia 20 de maio compareceu Gupar Femaade., ~ - . or/IJIM ,.. a111
cydade, e denunciou um Roberte Romano, estraopiro, qae fu c:caN. de Yiola, ...,.
rador juncto do postigo de S. Roque, por dizer que acloranm am pau e só deviam..,_
rar a Deus. (Nota : Já foi chamado a mera ~ 1M foi Jftla ld1a ~
1ua IJI'IIIidade IJUe era M christão e por ilo llio foi prelo).
e,...,_ • .
No mesmo dia compareceu Domingos Fernandes, pintor, morador aa
S. Nicoláo, á entrada da cutelaria, que confirmou o depoimento anterior.
fnana•* de
-
Est4 em seguida a abjuração em forma de Pedro Garcia, jli cleouadlldo.
No dia 23 compareceu João Conde, cidadlo francez, tecello de tQaDaas, que de-
nunciou um tecelio flamengo, chamado Joio Flamengo, que vivia ao Porto, por lhe
dlser: •ni H~, ni fualfuer estrangeyro IJUe ~stit~n- ~1141,-a f aja IIJIÜtlo _por . ã
u pr:ega a 1«1a ~elaca nã podera acabilr de crer ftlllr Dai MJ'O ..,.U• ,.,__ ..
A.iõda o accusou d'our,as heresias (Nota: PrelO).
No dia 8 de julho compareceu Francisca Fernandes, mulher de Cypriano Roclrlaaes.
IDOÇO da camara d'El· Rea, que deouociou Maria Femaadea, cbrisli oon de AliiHiri~
por Jbe ter ouYido : aj•IÜIIIOIII t1eyo o f luJ de w. (Nota : NMil UI}.
No dia aS ele setembro co~eceu Aotooio d'AveUar, caftlleiro acw.:, ela
d'El-Rei, morador em Athouguia, e denunciou Branca Nunes, christi nova dé Peaicbes
c•
já reconciliada no Santo Officio, por guardar os sabbados.
No dia 20 de outubro compareceu Gaspar Gonçalves, sombreireiro, morador na
rua dos Sombreireiros, e denunciou Francisco Gonçalves, tambem sombreireiro, com
quem em Inglaterra falou, mostrando ·se lutherano o aconselhando-o a JeBUir e••
doutrina. (Nota: Já foi preso e reconciliado). .
No dia 2 de dezembro compareceu a franceza Margarida Sarjam, mulher de Ro-
berto PoJem, letrado em leis, francez\ já fallecido, mora(lora na rua doi Fomos; ...
nunciou sua cunhada Joanna de Lacoeara, por tirar umas contas li testemunha e M Ir
lançar n'uma privada, por dizer que era parvoice confessarem-se e por comer carne 881
dias prohibidos. A denupciada casou -se cá em Portugal com um Guilherme. calceteiro
flamengo. Veiu dizer isto aconselhada pelo c:onfessor. (Nota: Jd é prua).
No dia 4 compareceu a testemunha anterior, que additou o aeu depoimento coatra
J01aaa de Lacoeira, dizendo que havia estado com ella em Anven. ·
No mesmo dia compareceu Ma'larida Fernandes viuva de Amador ·vernllldes, IDO·
radora no becco de Pedro Dal1neyrat~, que é na rua da Sombreiraria, e denunciou lu-
bel Luiz, mulher de J~io Dias, que concerta relogios, por di&er que se de~a adorar maia
a cruz que o Saactimmo Sacramento.
. .
No dia 14 compareceu Domillgoa Dias, tecello, morador na rua da Fipeira, ~de­
nunciou CathariDa Alvares, mulher de Joio Gonçalves. tecello, morador aa raa ...Ca·
la(ates, por ter dito que nlo havia purptorio. · .. _ · ..
No ~a a6 compareceu JQtnna ~u~ 6ameog~ o d~unciou.wn.a Jo~~·­
beni flamenga, pcJr lhe ter dito que Nossa Senhora dos .Mllaftr-. .de~-~~
tinha poder para lhe dar saude, mas sim Nossa Seo'ora do Paráiao ; taiD'betá côille'
c.,.. .eiD dia plebibidol, .· . . . . · . . •. /
No !D~mo dia compareceu Anna, velha que ~~~~mou o ~imentõ_aat,-...
No. 4ilt 11-4r.J:'ita·de 1~·-.cr- &i:eiD
caa do Cardeal te, e denunciou
aa..,..,•••,.-..lri •••
toaio Frade, COCDaaeodaClor de Oa41llf9 11
__ ...

d•er ~ ••m•ÍII cbrl8do ia~ o iafemo e qae para isso viera Nouo Seabor 10
~- (Nota : Ji foi perritacúJtlo}. .

No mesmo dia compareceu Lopo Dias, christlo novo, ourives d'ouro de D. Anto-
aio, e confirmou o depotmento anterior contra Antonio Frade.
No dia a3 oompareceu, chamado, Antonio Gomes, ourives de prata de D. ;Duane,
que confirmou o depoimento anterior contra Antonio Frade.
No mesmo dia compareceu, chamado, Heitor Mendes, amo de D. Duarte, morador
' pona de S.• Anti~ que confirmou o depoimento contra Antonio Frade, que foi moço
dO parda-roupa do Infante D. Duarte, i' fallecido
No dia •5 de abril compat eceu o dr. Gil de ViU a Lobos, desembargador d'El-Rei,
e denunciou Bru ReineL mercador, morador a Cordoaria velha, por lhe ter perguntado,
em conversa, se havia Espirito Santo e por ter dito que Christo nio era filho de Deus.
(Nota : Já foi preso).
No dia 9 de junho compareceu Diogo d'Azevedo, christio novo, que foi preso e
recoaciliado ao Santo Officio, e. denunciou Francisco Lopes Barreteiro, christio novo,
rnerca4or de caixaria, por praticar actos de judaismo.
No dia aa compareceu Paulo Sebastiio, judeu convertido, que denunciou Affonso
de Menezes, mourisco, e dois cbristlos novos de Ceuta: Balthazar Rodrigues e Joio de
la Palma. .
No dia 8 de julho compareceu Bartholomeu Lavacbo ( ?) de Evor~ onde foi muitos
8!1DOS prioste da eareja de Santo Ando, e denunciou como casada duas vezes Catha-
noa Alvares.
No dia 22 de setembro compareceu um mercador fraacez, natb.ral da Bretanha,
chamado Mathurin De mona, residente em casa de mestre Pedro, e denunciou o dr. Ma-
nuel Nunes, physico, de Lagos, por ter affirmado que quem dava esmolas e casava or-
phios entrava no ceu, ainda que pesasse a Jesus Cliristo. A testemunha suspeitava que
elle fosse christio noyo. ·
NQ dia de outubro compareceu Antonio Thomé, caminheiro da correiçio de Pi-
12
Ilhe~ morador em Marialva, que denunciou os christios novos de I' por fazerem prati-
cas JUdaicas. Reuniam-se em casa do licenciado Simio Dias, procuradOr que foi da cor-
~0, os seguintes: Ayrea Correia, mercador; Atfonso Castaaho, tendeiro, e Simio
Maouel,readâ"o. Deounciou tambem Luiz Marcos, sapateiro; Jorge Fernandes e outr01.

No dia 14 de outubro comyareceu o mesmo Antonio Thomé para saber se podia
dar testemunhas da denunci~o a traz. ·
No dia 1 de dezembro co~areceu Manoel Marques, christão novo, reconciliado DO
~~o Oflicio, gue denunciou dttferentes pessoas. (A' margem esú esta nota : •Foyju-
~4/lo Mlla cülãde JMlo s...Jar • tWido na lllf_uisição por tateiiUlnha tle ~-ou ~
ciw4ilo. QIIIIIIJID ~~~ dadiue tle muitas cUlpa pe tinlul llilo NO Sanlo Olficio• )•
.
· : No di~ 7~ de dezembro compareceu Diogo de Azevedo, christlo novo, reconc:iliado
DO ~to Oflicio, e denunciou Bento Fernandes, christlo novo .!e Evora, rendeiro das
~ por pradc1s de judalsmo.
· · :11tct dia 4 de feftreiro de 15G.f compareceu M1aoel Diu, sapateiro, e denuaciou
,._ 6 ) Gote!ftSt chrlstlo tlOYO, e rendeiro das cames em Lisboa, por ter jurado ptlll
~~~DM. . .. ~ . .
.·.&.!dia 8 de mar~ coq»~oaea Vnaeiaco Annes, mondor eaa.~ter•odeAl·
caaecle, e denunciou Anna Lo~ christl n<WI que negoceia em ueite, por.haver faUa-
do.cootra
. c"~, '. .
a. lnquisiçlo.
. • .
(Nota:
.
J4 praG)·
. ~ .
. .

· '"' ·fto •••IIIO.clil•comp...-:L·a,a·J'• lla•es,·feneifo,.ca••·d8.Petn•, qaeGOD4t


. ,.....J •• DI' I ••• R 11 kzeJ ,;-:J ,,. ', ,. • : .. ' . • a I • •
186
A ~ de ~ compareceu 14eoaor Correia Pimelltel, moradora ' ,,... da P. .-.
que denunciou Isabel Nunes. christã nova do Tavira, por diaer qae IIOUO Seahor • • •
Christo era filho d'um carpinteiro. (Nota: •Foi l'ista ~sta t:MI~ raa ...aa c6 osle,.,~
e por' todos ~~ asemou fU~ 11!0 ar.resc~do majs outra cousa não foss~ prua e ,_ swill N
farer-se sobre isso algfta diligencia-). ·
No dia 3o compareceu u111a rapariga chamada Catharina, de 16 annos, que deaun-
cion Catharina Pinheiro, christi nova, por praticas de judaismo.
No dia 9 de fevereiro de 1 S66, 1101 paços da RiHira, compareceu Gaspar Fernaacles
de Sequeira, ouvidor de Castello Rodrigo e denunciou Antonio da Costa, natural da Gaw-
da, por dizer que não acreditava senão em Deus e desdenhaYa das missas e •crHk:iol
da igreja.
No dia 23 do março 1101 paços da Ribeira na Cala tio Despaclto tia St~~~ta ~PI'!'•
compareceu Brez Antunes, eh ris tão novo, e denunciou Joio IJopes, mercador e cbrisdo
novo por proferir heresias. (Nota : Já he prero).
No dia 17 .Je abri~ 11f!l paços da R_i~eira na C~sa _tio De1pf1.clto tia Stlllla lttfuül~~
compareceu S1mio Rtbe1ro e denunctou Isabel R1be1ro, chnstl nova do Porto, que ·fai
relaxada na Inquisição de Coimbra. ·
No dia 2 de agosto compareceu Maria Rodrigues e denunciou Franciaca FeramcJes,
denuncia pela qual se nlo fez obra. ·
No dia 3 de no,·embro de 1S67 nos paços da Ribeira compareceu o licenceado lla-
noel de Quadros, inquisidor de Coimbra, e denunciou o Dr. Aot~nio Barbosa, pbisico
do Cardeal, por dizer, em discussão com o L.cl• Manoel Vaz, que estaYa firme com a lei
velha.
No diaS de fevereiro de 1S68 compareceu o P.• Fr. Domingos da Trindade q__ue de-
nunciou um pn!gador da ordem do Cf rmo por ter dito no pufpito que o anto-Cbrlsto
havia de nascer em Roma e ser cincumtidado.
No dia 4 de m~io nos paç_os da Ribeira compareceu o calceteiro Joio Serrlo, ch~e­
tlo novo, e denunciou Gonçalo Velloso, moço da camara ou da capella de D. Aatomo,
por dizer que bastava a Fé para qualquer pessoa se salvar; denunciou tambem
Rodnsuez, calceteiro, como blasfemo; o D1ogo Fernandez, ourives, egualmente.
L.
No dia 1 S de junho 1101 :~aço1 la Ribeira com~areceu Isabel Godinho, casada coqa
mestre Jacques, sirurgi8o, f'l_~ ltora foy 11e1ta ar-matla la irúlia JH!r ~ftró, e deaan-
c:iou FrancaKo d'el Campo, flamengo, mercador do trigo, por fallar contra 01 jejuns.
Aos vinte e huum dias do mes de Julho de mil E qoyahentos setenta e lnmm . .._
em lixboa nos estaos na casa do despacho da santa Jnquisyçam est•ndo bi 01 senhores
Jnqóisydores perante elles _pareçeo sendo chamado o padre frey benholameu feretra (1)
presador e Reuedor dos huros que vem de fóra a este Reino da ordem do belil e,ee-
tanido sam domyngos e lhe deram juramento dos samtos eYangelhos em qu' ~ . _
mão E prometeo di.er Yerdade e lhe fizeram pe~nta se era fembndo oat;t" falàlr a
allguma pesoa all_guma cousa que lhe pareçese mal contra a nosa Santa fee catholica
ora fosse em prat1c~ ora em deaputa estamdo elle denunciante presente e d~ue "-• be
verdade que este domin~uo passado estando ene denunciante no COI o com Jorp Sil-
lua pratjcando njtto veo ahy ter o doutor dioguo de payua e se sentou Junto com .n..
a.
~ dcn!laciante ~llou com ~Q 4it!l Jofge ~ .&B~u\ 10br.c huaaa ~çlo ~·•staa
~· blosio a qual bee gue pewo ~ ,.J,Ppodit vop.e~ • eUt~ ~DCII!Dte -~~s
dnl! preposlçi~ defef!dida com pertJnacta era heretica 1porque era jmpoliuele.paa .. . _,
ch~sto poder Jm~dlr allguma·perfeiçã.o especialmente que huum dos sraaclos e
da pa~lo •• dliri~ foy tajr··ol hoftle~ C01D Chi~~ O.ras COUSII"~!em .~
I • t I • • • • t • • .I

l
Souia Viterbo na lrttro4ueç8o 'ed~Çio-
I • t • ·""' t\l

(I) Esta denuncia foi publicada pelo sr.


JMiiidM .• ,. ._,._.,_. Bi•,.,.•·M. .Jtr e pl;~rr Nic• d .... inlil~ ··~·~
outras, atlendeodo DUmll ' qualiâde dos cleiaacaantea e I 111M â·4al • -,
~ . . ' ·.
I Cl .. .
--------------
disto elle denunciante 1e que ho dito Jorge da SiUua disse que elle denunciante dezia
muito bem e quem disesse o contrajro merecia quejmado I E oysto, alltercario muito elle
denunciante E o dito djoguo de paijua sobre elle dijoguo de paiva querer declarar a dita
proposiçio em feuor de blosio I dizendo que os doctores pios te avião de declarar e dj-
zendo que sio boaventura dezia o mesmo 1 que dezia blosio I E elle denunciante lhe Res-
pondeo CjUe são boaventura não podia dizer a tal cousa I nem nenhum doctor catholico
e Rel_)etlndo lhe elle denunciante a dita pro~iclo muitas vezas dizendo sôr dj0f1UO
de paJua esta proposiçam defendida com pertinacia hee heretica 1o dito djoguo de paJua
Respoodeo por huma vez cenfeso simpliciter loquendo E que a esta pratica estaua pre·
sente o dito Jorge da Sillua a mor parte della I e se apartou buum pouco delles e fica-
ram sos praticando no mesmo E tornando ho dito Jorge da Sillua 1perguntou a elle
denunciante esta jaa convertido o senhor djoguo de paiua e a isto respondeo o dito
djoguo de paiua dizendo gue jaa tinha Rédydo a elJe denunciante ao que elle denuo·
c1ante tornou dizendo ahsit 1 E tornou a Repetir dizendo jsta propositio I pasio christi
jmpedit vnionem est heretica defendida com pertioacia 1 E sobre jsto disputaram atee
que hos frades vieram a misa do convento e a desputa foy como dito tem 1e tio bem es-
taua presente a estas praticas dom pedro denjs e ouvia a dita pratica e não Respondia
nada segundo sua lembrança e declarou elle denunciante que lhe pareçeo que toaa esta
pratica que teue com djoguo de paiua era per modo de desputa porque nunqua teue
pera sy que podya aver homem catholiquo que pudesse defender esta proposição que a
paisão de christo jmpedit ynionem 1somente querer declarar blosio segundo elle enten-
aeo e que ho tem per docto e pio e catholiquo por ter com elle JlO! vezes praticado E
desputado e ali nam disse E do custume disse que hee seu amjguo E lhe ffoy mandado
ter segredo no caso E elle o prometeo E asjnou com elles Senhores Jnquisidores E eu
Joam velho notario appostohco o screpuy diz na antreUinha muitas vezes I poder I -
frO' bertholameu ferreira- Jorge Gonsalluer Rybeiro- Simão de saa pereira -
(6 margem) mandou Sua Altesa que se nam fezesse obra por estas denuociaç6es deste
liuro contra diogo de paiua -
folhas •47·
Aos dous dias do mes de •gosto de mil e qujahentos setenta e huum annos em
IDboa nos estaaos na casa do despacho da santa Jnquys!.çam estando hj os senbores
Joquisidores perante elles pareçeo sendo chamado o muy Jllustre senhor Jorge da Sillua
do conselho de el Rey nosso senhor etc testemunha Referjda E lhe deram Juramento
dos santos Eviogelhos em que pos &ua mio E prometeo dizer verdade E pergumtado
pelo Referimento a elle fejto dísse que este domingo pasado fea quynze âias que es-
taodo no coro do mostejro de sam domrngos praticando elle denunaante com o padre
frej bertholameu ferrejra sobre a propostçam de brosio que diz I Etiam cositatio patio-
nis chtisti est Jmpedimentum I quando anima vult comsurgere ad jllam dtuinam vaio-
nem etc E estranhando E afeando esta doctrjna chegou a este 'tempo djoguo de pajua
E começou a defender em gera li esta doctrjna - dizendo que nam lera brosio, mas ou-
tra doctrjna em são boaventura semelhante a esta 1 e sem embarguo de lhe Responder
o padre frej benholameu E elle testemunha 9ue era preposiçam heretica E que defeo-
djda com comtumaçia mereçia foguo E que sao boaventura nio dezia tal/ e se o dysese
mereçia tãobem o liuro queJmado por9ue serya dallguma Jmpresam moderna bonde os
herejes. meteriam essa proposiçam e na o os samtos o dito djoguo de paiua sem embar-
po de tudo jsto I per grande espaço quis defender a dita proposiçam com Rezõis de
filosopbia e _que a pareçer dele testemunha nam fora com ter estudado a materja antes
despn»ujda E desatentadamente 1porque as Remis eram muito fora de prepoSJto com
que_ eiJe queria SOSI8Dtlr a dita proposiçam dizendo que OS doctores pios se avi(o de•
flrnder a que Responderam elle testemuoha e o dito frei bertholameu que Dam eram
doctores. pios quem deaia heregias claras E que obrigaçam avya pera defender éathe·
rjaa de ~ova E taurelio E lodauico 1 blosio I os quaes todoS mereçiam quejmados I
• ~veado elle testemunha a porfia que hia por diante E qae·a·colora o bia entrando
1e Joj -pera o. IMI Jopr E os demou ambos a porfiar e dahl a pedilço •endo que estau•m
ja ~ :•,.oa a ·ella ·e lhes perpnitou se esaauas i• clãcordo e o dito d~o de
~ R~eo cpt ju frey hei lhOlomeu ..Uft R-dido· E do NU pareçér E o dito
~ berdio..._. ·ltespeadeo asj pitado que Dlo ettaua do seu ~r que elle de-
df' 1 • E ...... ·••- que; aca·~am sebnclita clefeadida com comtamacia en
bePedca I E.,_ outral co1118a·tlo altu a que acoctio dom pedrolleaja quaado lbe
188
ouYio diaer ao dito frej bertholameu coytado de Jesus christo qae veo morrer aa
terra por nos vnjr com ho padre Eterno e dizem agora que a sua paido he Jmpedi-
mento da diujn1 vnjlio Rindosse 1 E vendo eUe testemunha que a ~rfia trann outra
vez por diante E acodiam Jaa frades E moços /se tornou pera seu lugar E ficoa coaa
elles dom pedro denis a que se pode pergumtar o que mais passaram o dito djoguo de
pajua E o dito frej bertolameu E que jsto he o que sabe do dito Referjmento I E dise
mays que tem entendido que esta doctrjna estaa metyda em mujtos coraç6es de Yimte
annos a esta parte E em pesoas que tom muita authorjdade em vertude na terra o qual
lembra a suas merçes E lhe peáo da parte de deos que esta proposiçam de blouo a
mandem publicar por beretica E jumtamente denunciar que toda pesoa que escreuendo
, pregando profesando doctrjnando ou conversando fizer diuisio E separaçam da hu~qa­
njdade do Jesus christo 0010 senhor da sua devjndade ou esfriar o pouo christlo da
Reuerencia devaçio, amor, afejção e veneraçam da sacratissima paixio de nosso senhor
se ajaa por sospeito na fee E se denuncie delle ao 1anto officio para se fazer o que ffor
justisa porque )Sto se nam for remedio pera o passado seraa preseruar pera o p_orYjr E
disso mays que falando nesta proposiçam com frej pedro de vila viçosa prior do mos-
teiro de nosa senhora da 8r&Ça desta cidade vir bonus et prudens llie disse o dito frej
pedro que elle vira frei francisqujnho aUgumas vezes em nosa senhora da gra~ dentro
no convento onde tem huum jrmão 1 E que lhe parecia alem brado que se aevta de pre-
guntar o dito frej pedro por que elle vira outro como aqueUe em castella E disso mais
que ouvio a basilio de campos segundo sua lembrança que jsabel fernandes a teçedejra
que viue em santos hachara em nosa senhora da ~aça com huma moo de fradea a
modo de doctrjna que o deuom de perguntar sobre Jsto. E diso mais que lhe parece
que deuem de Reper~mt•r a antonia de madurejra criada delle testemunha asy sobre
anna montejra molher de Lourenço de carceres se sabe que tinha exercicio J E que
atee gora elle testemunha nam tem sentido nenhum Rasto desta doctrjna na dna anna
monteira soomente ser mujto amjga da dita antonia de madurejra E jr se confesar muj•
tas vezes a nosa senhora dn graça e nam tomar bem defender lhe elle testemunha que
se nam confesase com frej thome do que ella se desconsollou. muyto I E disse mais que
em pombalinho em casa de dona Vicencia sua sobrinha esta hum a Jsabel do Vila lobos
criada que foy de Ruy perejra jrmão dello testemunha a qual era decipula de frej
francesqujnho E nos tempos passados viera ha Jnquisjçam e estaua muito tomada de
sua doctrJna o podem persumtar por jso a dita antonia de madurejra a quem lhe pareçe
que ouvio di&er ysto mas qae elle nam sabe nada della E que no majs se Refere a et·
tes testemunhos que tem dado neste santo officio E al nam disse e do custume disse
que· he mujto grande amygo de djoguo de pajua e de todas suas cousas I E seu jrmio
aluaro perez ho compadre delle testemunha casado com huma sua prjma cojrmaam o
dos maJs que sam seus criados o de seus parentes 1 e que quanto a djoguo de paiua
eUe o tem por catboliquo E asj seu jrmão frei tbome E que nunca prat1quou com elle
nesta materja soomente aquelle dit E que lhe pareçe que desputava a dita materja
mays em defensam dos vnjtarios que da proposiçam 1 E lhe ffoj mandado ter segredo
no caso E elle prometeo sob carguo do dito juramento E asjnou com elles senhores
Jn9uisjdores dia no Riscado Respondeo e na antroljnba asy Joam uelbo notario appos-
tolico o escrepuj.
Jorge gouaUueJ. Rybeiro- Jorge tia Sylua- Simão de Ma pereira.
ft. •48 v.
Aos tres dias do mea dasosto de mil E qujohentos setenta e huum annos em ÜX·
boa aos estaos na casa do despacho da santa Jaquisiçam estando hi os senhores Jnqui-
sjdores pareçco ~ate elles seodo Requerido o Illustrissimo senbor dom pedro deDjs
testemunha Referjda e lhe deram juramento dos samtos Evangelhos em que poa aua
mio E prometeo diaer verdade E per~U!Dtado pelo Roferjmonto a elle f~ito diae qae a
segunda somaoa do Jubileu puadci em domjnt~uo estamdo eUe testemuoha no coro do
mosteiro de aam do~a delta cidade eataua abi tiobem o padre frej beribolaaaeu
ferojrra o Jorp da ayllbã g cliopo de paiua os quaos todos tres estauam des~taado e
a~meataado soba-0 que aa• ateafGQ loguo I ae DaiP qaloto lhe di• o dito ftej ber-
tholameu ferrei'"!~g•• esblaam IObre hama proposiçam de blosio que deaia que a ca•-
templaçlo da ~ ele cduilto Jmpedia a comtemplaçio d8!JIItl e que eUo frej berdlo--
lameu li. o·dito jorp da Si1ua s..-m eHe te.ae•unlaa •io E oliYio deaiam quera•to.
pdly9"m era bereuca e ·qae djopo ele payúa delia que eUe nam tinha Yisto aqHle
11J6Rr de blosio maa 9'JO ae nam l?odia condenar huum homem pyo tam dcj)l'esa e que
a leu pareçer dise djoguo de paJUa que aam boaventura deiÜI o mesmo / o que Jorse
da Sil~a lhe aeB&'t'a e que despois se trauaram em plarica todos tres ~obre a mo~a
rb~:~:~ q~·rodã~: ~~~~:~eerp:;E:~~:r:::/.ec::lli: que vy~~: :!:s~:c~r!u~E
all nam d1se e do custume que hee amyguo de todos E ~mandado ter ICBrodo
no e&IO E eUe o prometeo E aajnou com elles senhores Jnquisidores E eu Joio velho
1101ario appostol~ o screpuj dis na antrelinba a comtemplaçam-dompHro dinii-
Sim§o d• •aa
pereirtJ.
fi.. di.

AI~~:::1:~:~~:J~!,Ff:Jb:~:~:~~d~~~·d!'~~de: d!iCh'Js~~~ U:o~eJ:r.S:


elosio da religilo dos Mouros.
Aos seis dias do mes doctubro de mil e quyobentos aetente e hum ann01 em lix~

:r.do)o;!•GO:!J:~• ~:Í,~i:T~•:;:::.~q~ç::e~::~d:.tzeofr;~;o~e;;
aancto andre Rector do Colegio de sam boõaventura de cojnbra da ordem de sam fno~
cisco da observançia e lhe dau Juramento dos 11anctos evangelhos em CJUO pos aua mio
e promew:eo dilt:er verdade e d1sse que elle •inba a esta mesa denunciar certas cousas
: : : : :.~~f:r~~~ed: f,:~~~~~i::~~d~ ::a:~~!:n~:•J::~!o~~:!oqc~~rdct;;~~
J>.es:.!
çidade onde elle denuncia[lte se achou presente lbe ouuio dizer [18 pregaçlo que cbrU-
to quãodo veio ao mundo nio 1rous:era ncua ley nem nouo testameulo ae alo hum
noua espirito como cfu: Santo Agostinho para milhOr se guardarem aqueUas cousas que
:i':~:u~~ :O~:~;sn:~m:O:!ãt~s:ar:,a:n:O =:::~ 'n::O :;~n! R!~':~~~<;,' 1 ~ 1~=:-.,~~~~
1

ça/e asy disse man que cbristo quãodo viera ao mundo nio trouxera nouos misterios
b~':rq-:::s c~::::;ijs~~ ~o'Ã~efr~/~::n~!ro J::ii::o!::~t'!f~efoS::; :~':: !h~dt::u:
ciente asseotados en bum baoquo a prepçio que ouuirlo todo o sobre dito e asy este-
..
~=~: ~ ~~~~d:ü!~.t:d~:s r~:~e:::t::p::.~:~~:e= di~.'se po.i.t:s.i~ito:
como eUe denunciante as ouuijo diYe ao dito frey joio de tauora pregador que 1he
~e~l: c~:!~~ue~~:!e ~d~r:s 1be 1~j ~~~d~:~b:!:;,:ao 2: ~~~~::.~a::r ~~~::
1

d:.lu·:~~~o~~ s~o=~~~ :ffi~i: ~ =~!cJr~~=l==~u::. e:::::~~!':,'~dl:i=~~


0

Asostinbo.
/,.ft 4.Y_ogo de $tnld~ And,..:- Jorae GcmstJIIWf Ry6eiro--:-
........ ______
,
rgo _
Andte comisario da Corte I e frei Joam de Tauora I e frei Diogo de sancto Andre, todos
tres pregadores da mesma ordem I que estauio com elle Denunciante juntos, em huma
Capella da madre de deos I e o padre frei Philippe pregador da mesma ordem gue
estaua em cima no choro com outros padres que tambem poderião ouuir o sobre ditto
1e por lhe isto non parecer bem o uem dizer e denunciar a esta mesa por descargo de
sua consciencia e non por outra cousa I e foi lhe mandado sob cargo do Juramento ter
segredo no caso I e assinou aquy com o Senhor Jnquisidor- Manoel Antunes Notario
do Santo Oflicio o escreuj -
Jorge Goruallwr Ribeiro- frey Jeronymo de lizb6a-
fi. t5+ "·
Aos doze dias do mes de octubro de mil quinhentos setenta e hum annos em Iis-
boa nos estaos na casa do despacho da Santa Jnquisiçam estando ahy o Senhor Licen-
ciado Jorge Gonsalluez Ribeiro Jnquisidor perante elle pareceo o Reuerendo padre frei
Rodrigo de Sancto Andre morador em este moesteiro de sam francisco desta cidade e
pregador da mesma ordem I e foi lhe dado juramento dos sanctos euangelhos em que
pos sua mio e prometeo dizer uerdade e disse que pregando o doctor diogo de paaua
este dia de sam Francisco passado no ditto Convento lhe ouuio elle denunciante no pro-
gresso da pregaçio que christo non trouxera ao mundo lei noua senio spirito nouo l e
querendo prouar esta razio allegou entre outras cousas dizendo que deos mandaua na lei
uelha 1non mattaras I e que . dera nouo spirito a isto I e assv disse mais o ditto diogo de
paiua em a ditta pregação que christo non trouxera ao mundo nouos misterios 1e que o
mundo se non reformara com leis nouas I e ~ue isto ouuirio tambem com elle denun-
ciante, frei diogo Hieronimo de lixboa frei dio~o de Santo Andre I e frei Joam tauon
todos tres pregadores da ditta ordem de sam francisco os quais logo notaria o sobre-
ditto e se scandalizario disso I e que alguns ourros padres do ditto convento que se
achario presentes tambem se scandalisario e por lhe isto parecer mal o uem denun-
ciar pella obrigaçio que tem de seu habito I e non por outra uia I e ao costume disse
nada I e foi lhe mandado sob carguo do juramento que teuesse segredo no caso e eUe
o P.rometteo I~ assino"u aquy com ho Senhor Jnquisidor Manoel Antunez Notario apol•
tolico o escreuJ-
frei Rodrigo de Santo andre- Jorge Gonsalluer RyHiro-
ft. J55
Aos vinte e tres dias do mes de octubro de mil quynhentos setenta e hum annos
em lixboa nos estaos na casa do despacho da Santa inquisiçam estando ahy o senhor
doctor Symio de saa Jnguisidor pareçeo perante elle o padre frey João de tauora sendo
chamado testemunha referida atras I ao qual foi dado juramento dos sanctos euangelbos
em que pos sua mio e prometeo dizer uerdade I e sendo pergunrado pello referimento
nelle feito e que era o que do caso sabia disse que dia de sam francisco este que agora
passou pregiodo em o convento desta cidade o do.ctor dioguo de Paiua elle testemunha
se achou presente a pregação e he lembrado ouuir dizer ao ditto diogo de Paiua trat·
tando de como multiplicação de leis non era reformaçio da Republica I se não deseio
de a reformar I que assy christo nosso redem{'tor non uiera multiplicar leis se não dar
nouo spirito com que se podesse guardar a let que tinha dado / e citou Sancto Augus-
unho 1e disse que a l~i de Natureza era amar a deus sobre todas as cousas l e o non
·furtar e que a isto uiera christo dar spirito com que se guardasse I e o .Poder molo
guardar 1e ai non disse e perguntado se se scandafizara da dita proposiçao que assy
ouuira : disse que lhe parecera milhar diser o ditto dio~o de Paiua que a lei uelba era
acabada e non tinha uigor I como diz sam Paulo, qu1d lex uetus abrogata est e hos
preceptos do Decalogo são fundados em a lei da Natureza e per~untado se uira scan-
dalizar se mais algumas outras pesoas disto que dissera o dito dio.~o de Paiua ? disse
que alguns Religiosos da ordem de sam francisco murmurarão disso, que se ahy acha-
rio presentes 1a saber o Guardião do Collegio de sam boaucntura de Coimbra I e
ouuio drzer a frey francisco salgado que se scandalizara tam bem disso o padre frey
filipe e lho contara a maneira de scandalo I e de mais non he lembrado I e foi lhe man·
dado sob cargo do Juramento non desse conta do caso a outra pesoa alguma I e do cos-
tume disse qne non tem nenhuma conueraação com o ditto diogo de Paiua nem estaa
mal com elle 1 e assinou aquy com o Senhor Jnquisidor Manuel Antunes Notario apos-
tolico o escreuy frei joão de tauora- Simão de saa pereira-
e loguo hi pareceo perante elle aenhor jnquisidor sendo chamado o padre frey filipe
--·-·-·····...·-··-··-·-..---
Natemaaha Referyda· a quem elle senhor jnquiaidar deu juNB~eDto- dos ~ evaa·
~ em que pos sua mio E prometeu dizer verdade ·s ~- pllle tãlaft••
110
••• feyto ctile que jaa tem dito na visitaçam elo coue1110a;e1111 • ~·· ...,.. deste
AIO e • seu testemunho se Reporta E ali nam disse E assinou com elle Senhor Jaqui-
.WDr Joio Yelbo DOta rio appostolico o screpuj-frei J!iilW•~.siNo IÜ .l«a ~reira-
. 8. 156
No dia 17 de outubro compareceu Catharina .Martins d'Almei~ viu• d8 J>io&o
N.a, escudeiro da infanta D. Izabel, que denunciou Antonio Tristlo como bipmo.
No dia 24 compareceu o P.• Fr. Manoel Dornellas, franciscaao, e disse que acban-
do-M • Almada em casa de D. Helena, mulher de Francisco de Andrade (1), filho Je
FetDio Alvares, ella lhe disse que uma beata d' Almada a instigara a communpr, dizen-
do para isso ser sómente precaso a contricçlo. · ·
Aos dous dias do mes de novembro de mil E quioheotos setenta E huum annos em
IDboa nos estaos na casa do despacho da Santa Jnquisiçam estando hj os Senhores
Jaquisidorea ho padre mestre frej manoel da ve>:s• deputado perante elles pareçeo o Jl-
....... seabor Jcl'ge da Silua do conselho deli Rey noso senhor I ao qual deram jura-
•••to elos santos Evangelhos em que possua mio E prometeo dizer verdade E denun-
ciaado disse I que oje faz quinze dias que elle denunciante fo\· ao mosteiro de DOI&
Seabora da graça desta cidade onde lhe ffoi falar frej thome fi ho de femam dallvres
CS.aclnde e J!r&tlcando com elle na proposiçam de Iudovico blosio I que dia et cogita tio ~
parionjs ebristi est Impedimentum quando anjma vult consurgere Jllam diuinam vnjo-
aem etc. disse o dito frej thome que na proposiçam que se podia sosteotar e elle de-
D1Uiciante lhe disse que era Jaa tarae pera porfiarem sobre jso mas que tomaria outro
dia E tratarja esta materja de vagar 1e tomando laa esta segunda fetra pauada Je pra·
ticeodo na dita materja tornou afirmar E con colera o dito frej thome que a dtta pro-
1)6si~am era catholica e verdadeira E sancta e que a vnjam polia mente era vnjam uer-
aadetra e dizer elle denunciante que esta vniam era falsa Jso era ffalso E outras palavras
tio solhas que elle denunciante se alevantou E se ffoj fazer oraçam sem majs falar pa.;.
lavra e lhe dise o dito frej thome que deste pareçer era frej luts de granada E djoguo
ele pajua 1 ~ outros murtos theologuos I nomeando majs &ey fraocisco de bobadilha
ao que elfe denunciante aisse q_ue nam era asj porquanto o dito frej francisco de boba-
dilha lhe dissera no seu oratorto 9ue era proposiçam judaica E que asj o djsera a ma·
aoel de coadros I E disse majs o dno frej thome que deste pareçer erio santo agostinho
E •m bernardo E galtano l E por que elle denunciante tem esta proposiçam por here·
1ica E a vnjam pella mente por fallsa por quãnto meos mentis se toma commumente
f!ello Jmtemdimento e o Jmtemdimento sem lume de gloria ilam se pode vnjr a deos I
E toda esta doctrjna por mente perjudicjal a Jgreja catholica / pryncipalmente as ai-
• • devotas E simplex que nam sabem as potençias dallma nem o officio de cada eo-
temçia pelo qual pedia a elles senhores Jnquisidores que façam çensurar as proposiçoes
de ludouici blosio I e asj o liuro de francisco de sousa tavares I no qual Jnsina aos no-
viços que nam tenham nenhuma figura nem lembramça de cousa criada E se os novi-
ços se exercitarem nesta doctrjna dous annos seram platonjquos ou Judeos mas nam
seram christãos porque se não ou ver figuras dos mjstertos de nosa Redempçam de nosa
senhora I E dos sanctos nam avera memorja delles nem lembrança e nam avendo lem·
brança nem memorja nam avera amor / e disse majs que pede a elles senhores que
aundem tresladar em limsoajem o capnollo da crementina ad ....•. de hereticis E
pre~oallo pollos pulpitos pera saberem os christios a doctrjna que am de crer segujr
E jmjtar porque estaa toda a terra suspensa e partida em bandos esperando ~or esta
sentença E alf nam dise e do custume disse que hee muito seu amigo do dito frej thome
ajnda que lhe pesa desta sua doctrjna e de quem quer que a tiuer porque hee muito
enganosa E lhe encomendaram o segredo deste caso e elle o prometeo E asjnou com
elles senhores E eu João uelho notario appostolico o screpuj- E declarou que njnguem
esteue presente a estas praticas I E disse majs que protesta se suas me~ces nam pro-

(•) Cremos ser o celebre chronista de D. Joio III, e Guarda Mór da Torre do Tombo,
c d'este depoimento se deduz ser elle casado ha pouco tempo. · .
v_... ~ato d8 se queisar a sua Santidade ~ ute seu lepdo que ON Y181 a .,.
Ra; ao JOio wlbo aolerio ~tolico o açrepuj. (a) -
Jorp ,..,.,..., BjiMiio - Jor1• da Sylua- Sbnlo 4e
IMVa6 &.
""'IM'ffr•- frvi • ._,.,

No dia 5 de noyembro cempareçea um flamengo, Pedro Alberto, DltUNI cJe Amen,


impreuor, e denunciou Joio de Leão, francez, e um Comelio, im~ressor ftameogo, ~ae
trabalha em casa da vi uva de Germano Galhardo, por lhe terem affirmado que i' baYiam
sido preSOI pelalnquiaiçlo e denunciou tambem Pierre d' Altabel.
No dia z compareceu o P.• Antonio da Esperança, do convento da Graça e deoaa·
ciou Sebutiio da Costa por proferir hea=esias.
No dia g compareceu o P.• Fr. Domingos de Santa Maria e denunciou o P.~ Fr. ~
dato, prégador, por dizer que Deos era o que nio era. ___ · ·
No dia r3 comeareceu Joio Cardoso e denunciou Simio Garcia por diaer qae Saato
Antonio nlo era nmpem. Foi nctificada no dia seguin_te.
No dia 26 de janeiro de 1S7~ compareceu o estudante Custodio da Cunha, Nli.de•
te nas pousadas de D. Leio, e denunctou Affonso Dias tambem estudute (DOta~
e Affonso Fernandes (nota: preso) _por. dizerem que n5o era peccado Jr doamir ~
mulheres publicas, p•gando o seu dinheiro.
No dia 1 de março compareceu Gonçalo Rebello de Lima, natural do FuocbeJ. • .
sidente em casa de D. Fernando d'Almada, defronte de N. Senhora da Escada, e dea..
ciou Ruy d'Andrade, de Faro, por ter dito que os padres da Companhia eram ladtt~J~~
e enganavam el-rei, fazendo-lhe pôr tributos na casa da India para elles mamea e qae
nio havia ordem perfeita senão a dos casados.
No dia t3 compareceu Alvaro Santos de Cezimbra e denunciou Beatriz de~
christl nova de Cezimbra, por fechar os labios e os olhos e abaixar a cabeça quandO
levantam a bostia ou o caliz.
No dia 18 de abril compareceu o P.• Fr. Paulo de S. Thomu, dominicano, e de-
nunciou um francez, Jacques, que faz oculos, por dizer que nio devia haver maltM par
trabalhar ao domingo.
No dia t3 de maio com~areceu o dr. Antonio Pires de Bulhio, dezembargador da
Casa da Supplicaçlo e Pronsor do Arcebispado de Lisboa, e denunciou o seu .collesa
Jeronrmo Ferrão, {>Or dizer que Deus sabia se os lutheranos mortos nas guerras de re-
lipão iriam para o Inferno.
No dia 14 compareceu o dr. Christovão de Mattos, desembargador e chanceller
da côrte ecclesiastica e arcebispado de Lisboa, que confirmou o depoimento anterior.
No dia 16 compareceu o licenciado Diogo Madeira, conego da Sé de Lisboa, qae
disse nada saber do caso acima referido.
No dia 19 compareceu o notario da Inquisição de Coimbra, Miguel Barreiros, que
denunciou u~a tendeira, christi nova, por dizer que é peccado trabalhar ao sabbacto.
No dia 27 de junho compareceu João Rodrigues Mandraguio, fidalgo 1 morador Da
ilha da Made1ra, e denunciou Francisco Dias, gue estava como piloto-mor da armada
franceza que atacou a cidade do Funchal em 1 566, por defender as idéas lutheranas e
as praticar.
No dia 17 de setembro compareceu o alfaiate João Rodrigues, que denunciou um
(1) FI. 16o. Como se vê até o mystico auctor dos Trabalhos de Jesus, cuja lingoa-
gem D. Francisco Alexandre Lobo nio hesita em antepôr ás de Vieira e Fr. Luiz de
Sousa, foi accusado no Santo Officio. Neste livro figuram -coisa curiosa I -como de-
nunciados os dois irmios Diogo de Paiva e este, tio illustres. Adeante se veré Fr. Tho-
mé de Jesus, como delator.
,

-------.....--
mancebo inglez que estava em casa de Jacome debarde, por defender os seus patrícios
que seguiam a religiio de Lutbero.
No dia 2S com~areceu Antonio Fernandes, que denunciou, por proferir heresias,
um inpez chamado Thomaz. (Nota : Este foi agui chamado e examinado e acllolu&tJIW
auiohco~ ·
No dia 23 de outubro compareceu Antonio Pires, moleiro, e denunciou Gonçalo
Affonso, homi baço, cura da Landeira, e João da Rosal por comerem carne 4 sexta-feira
e dizerem que o que entrava pela bocca não fazia ma i alma.
No dia 8 de novembro compareceu Diogo Rodrigues, tratante da Covilhi, e denun•
ciou Ga~ar Fernandes, tintureiro e christão novo\ do lt undão, por dizer que os inquisi·
dores erao eles, e Antonio Lopes, condemnado pe a lnquisiçio de Coimbra, fôra" martyr.
(Nota : Nam se ~f obra- por este testemunho por reram da carta adiante. N'essa cana
diz o parocho do T eixoso que o denunciante lhe confessou ter vindo é Inquisição apresen-
tar um testemunho falso).
No dia t3 de novembro compareceu Femio Rodri11ues Caldeira, morador em Cida-
de Rodrigo, e denunciou Henrique Nunes, que veiu da Rocbella com o nome mudado,
por nio ouvir missa, não comer carne de porco e nio adorar a cruz.
No dia 3 ·de dezembro compareceu o padre fr. Francisco da Cruz, sacerdote da pro-
vincia da Arrabida, e denunciou uma mulher do termo de Torres Vedras, que fá se
chamava Joanna e aqui Maria Rodrigues, moradora és camicerias velhas numa rua além
ela que fea D. Gil Eannes, por dizer que tem muitas revelações de Deus, que as 11 :ooo
virgens lbe ap~arecem vestidas de vermelho. D'isto sabem o P.•·Varea, jesuita; D. Luiza
de Barros, mulher de Jorge da Silva ; D. lgnez de Castro, vi uva de D. Antão; D. Anna
Heriques, irmi do Arcebispo, e D. Paula, filha da condesia da Vidigueira. (Nota : O or-
tliltario tomou conltecimmto disto por asi o mandar sua A.)
No mesmo dia compareceu o padre Francisco de Varea, jesuita, que confirmou o
depoimento anterior. .
No dia .3o de dezembro compareceu Izabel Pedrosa e denunciou Pedro Fernandes
tecelio, ~ ter dito que era melhor estado o dos casados que o das freiras. (Nota : jJ
tlapadttido).
No dia 31 compareceu Manuel Nunes, que confirmou o depoimento anterior.

.......
No mesmo dia compareceu Catharioa Fernandes, que coafirmou o depoimeato an·

No dia 12 de janeiro de 15']3 comp.. receu ft·emlo Lopes, christão novo, da ilha de
S. lliguel, ~ue diSse ter vindo a Lisboa bu1car remetlio pera salt~açlo de IIUJ llllfUI por
lluJ IICOrllellfar o doctor Gaspar FructiiOIO (I) regador e Jlil_airo da Pilla da RiHira
,-~~nde, e coofessou-se C'Onlo judaisante denunaanao, como tal, sua mie Maria Lopes,
que foi presa. .
No dia 28 compareceu Diogo Nunes, boticario, morador na rua do Boaete, e de-
aaaciou o flamengo Joio Curto, mercador, por proferir hereaiaa.
No dia 17 de fevereiro compareceu Sabina Ayres, moradora na rua das Esteir~
e denunciou And~ Fernandes, serralheiro, por dizer que os frades e cleri1_0s eram ~
clr&s ; tambem accusou sua irml Beatriz Dias, cuja faltã nlo foi julpcla suflicieate para
p rido. (Nota : JtJ satefteeado)
No dia 19 compareceu Anila de Saat'I81J0, que coafirmou o depoimeato mterior. ..
Aos vinte sete diaa do mea de fevereiro de mil e quinhentos setenta e tres aanos
em lixboa nos estaos na casa do despacho da santa jn9uisiçam estando ahy os seimo-
res Jnqoisidores perante elles pareceo hll homé que diue aver nome Rapbael Peres·

(1) O celebre auctor du StnuladtJI diJ terra.


A bQcn.ato&P~• nBB•m · 21
---- 194
. ... ___ ..._...._

trello de idade de quarenta e cinquo annos ainda solteiro e morador nesta cidade doode
he natural na rua das parreiras fora da porta de Santa Catherina e filho de Antonio Pe-
restrello que foi thesoureiro d'el- rei dom Manuel que vivia na sua casa onde morreo o
bario que agora sio de hú seu jrmio que se chama bertholameu perestrello que estio
no becco que se chama o becco do barão, e o ditto seu jrmão viue no tc:rmo áe Torres
Vedras em húa quintia sua I e lhe foi dado juramento dos santos evangelhos em que
pos sua mio e prometteo dizer verdade e disse que ;or descargo de sua conscienc-ia vi-
nha denunciar ae certa cousa que lhe parecera mal a qual he que averaa tres ou qua-
tro meses q_ue passando elle denunciante junto do moinho do vento por húas casu
onde hora vtue Cide Murça que he hü mouro que veo de Africa pera esta cidade e pas-
sando por defronte da porta das dittas casas vio estar o genrro do ditto Cide Murça
que se chama Cileimio por que dantes se fallauão por elle denunciante saber a ara via en-
trou dentro na logea a saluar o dito Celeimão e falia r cõ elle e vio elle denunciante est.r
diante do dito Celeimio hüs poucos de mouros de sua companhia que vierão cõ elle de
Africa a que elle denunciante n6 sabe o nome I mas que os conhece de vista I entre os
quaes estava hú mourisco que elle denunciante então nõ conheceo né sabia cuio era 1
o qual mourisco estava fallando cõ o dito Celeimão e cõ os outros mouros 1 e isto em
aravia I fallando todos em terra de mouros e nas cousas de laa e pondo elle denun-
ciante os olhos no ditto mourisco por o ver vestido em traios da terra differente do em
que estavão vestidos os outros mouros I e vendo 'JUe fallava a aravia cõ elles persuo-
tou elle denunciante ao ditto Celeimão tambem em aravia porque como ia tem ditto a
entende a falia muito bem I cuidando que o ditto mouro era mouro I este homem estaa
ainda em sua lei, ou ia tornado, e o ditto Celeimão se calou e olhou pera o di tto mou-
risco sem dizer nada I e o ditto mourisco respondeo I eu sou mouro (tambem em an-
, via) sem dizer mais nada nem declarar mais outra cousa I e declarou que entre a coa-
gregação dos dittos mouros estava mais hú mourisco daqui da terra a que nõ sabe o
nome ne cuio heI o qual mourisco foi logo aa mão ao ditto mourisco que disse as dit-
tas palavras dizendo-lhe tambem em aravia I como dizeis uos isso se uos ia estaes cbris-
tio ao que se calou o ditto mourisco sem dizer nada e vendo elle denunciante que o
ditto mourisco que disse as dittas palavras se calava lhe disse que nó podia dizer aquillo
porque tinha pena e era cõtra a let dos christãos porque o não constrangeram ao ser e
elle se fizera por võtade I e né por isso o ditto mourisco respondeo mais cousa alB(ia
nê o ditto Celemio né os dittos mouros disseram nada I e entio se sahio elle testemu-
nha da ditta logea sem passar mais outra cousa e dahy a tres ou quatro dias por Jbe
parecer mal o que o ditto mourisco disse por topar o ditto n1ourisco na calçada de .,.1
de Navais e conhecer ser aquelle que estava em casa de Cide Murça e lhe ourir o que
tem ditto delle acima I perguntou a húa molher na ditta rua cõ qué o ditto mourisco
estava fallando quando o tornou a ver, cuio era o ditto mourisco e onde morava e como
se chamava I a ditta molher lhe disse que se chamava Antonio e que era de hú femaill
Nanez de Tangere mercador e que trana e que vive agora nesta cidade e pousa se-
guodo lhe disseram em húa travessa que he ou 'do arco de dom francisco C('utiobo 1ou
a que vaj ter eas casas de dom alvaro e o ditto mourisco he baço desbarbado, alto de
corpo e mawo I pode ser homé de quarenta annos porque he ia enverrugado e truia
hüa capa de bedem preto como alquice I e dando cõta do sobrcditto a seu cõfeuor to-
mando hú jubileu averaa dous ou tres meses lhe disse ~ue o viesse di%er a esta Santa
Mesa I e buscasse o ditto mourisco e conhecesse pera vir dar os siguais delle, e por isso
vem agora e nó veo mais cedo por nõ'ter sabido tam particularmente os siguais ao ditto
mourisco e ao costume disse nada I e sendo perguntado se conhecia o mourisco que
aa · mão a estoutro I e assj outro mourisco que diz estar ahy presente disse que os
f3
conhecia nê lhes sabia os nomes nem cuios eram I e foi lhe encarregado que ~seue
diligencia em· saber cuios eram I e em lhe saber os nomes e tudo o que disso souber o
venha dizer a esta Santa Meza ·I e foi lhe mandado ter segredo no caso sob C'!r_go do
ditto juramento e elle o prometteo e •uianoa aquy cõ os sõres jnquisidores. Manuel
Antunez notaria apostolico o escrevy.
Rrafaell pere1trello.-Jor6e Gonçalver Rybeiro.-Simão de Saa Pereira.
Fl.sto.
. No dia 5 de abril tomou a comparecer Raphael Perestrello que additou o seu cle-
poamento.
No dia 3 de abril compareceu FerD8DClo de Mede~ CMtelbaao, e diDUilcioa o
195
ansoaez Alouso de Leon, _que vende livros, por occultar dois livros, cujo titulo faltava
contra o officio divino e a Missa e tinham sido feitos em Flandres ou França. (Ha pro-
eeuo delta Clllpa. Foi clulmado e examinado t1 nio se achou ter culpa)
No dia 21 compareceu Gaspar Rodrigues, sapateiro, que denunciou Bento Fernan..
des, oflicial de bar6eiro, por proferir ~eresias. ·
No dia 23 compareceu Braz Dias, estudante de Theologia em S. Domingos, e de·
oaaciou um moço inglez ou escossez por defender os herejes.
No dia 28 compareceu Antonio Nunes, sapateiro, e denunciou um Francisco de
Barros, 1ue j4 foi judeu e mouro. (Nota: Já s~ tirou esta denunciaçam e pronwciou 18
ulla ~ruma pareceo bastant~ polia emformaçam IJUe se to1nou do credito das test~mu-
üut .
No dia 27 de maio compareceu Alvaro de Escobar, clerigo de missa do habito de
S. Pedro, castelhano, Bacharel em Artes e em Theologia, e denunciou André Franco,
mercador, da ilha da Madeira, por ter dito, a proposito dos lutheranos praticarem des-
acatos na ilha da Madeira, que não tinham mais que fazer com o crucifixo que com
ama pedra. .
No dia 4 de junho compareceu o rev. padre Affonso Telles de Menezes, prior da
ep-eja de S. Nicolau e fidalgo do casa d'el-re1, e denunciou um Pedro Correia, de Evora,
que diz ser fidalgo porque olhando para um mappa-mundi que o denunciante ti~
oude estava pintado o senhorio do Preste Joio e uma cruz, a proposito da cbristandaclé
sresa, disse que era m4o os padres não casarem, e por affirmar que a confissio era um
Jugo muito pesado; tambem disse ter composto um livro espiritual, do qual dera um
exemplar a El·Rei e outro é rainha. {Nota : Morr~o já).
No dia 1 de agosto compareceu o padre fr. Simio da Visitaçlo e denunciou uma
mulher que tinha dito ao padre da sua ordem, fr. Fernando d'Aimeida, que nio bavia
purga tora o.
No dia 26 de agosto co;npareceu Pedro Gonçalves, criado de Luiz Salgado, escrivlo
da camara do arcebispado de Lisboa, natural de Ponte de Lima, e denunciou Maria de
Goes, escrava do conego Teives, por lhe ter affirmado, quando elle ia para casa do
cbanceller mór D. Simio da Cunha, que não era peccado mortal dormir com mulher
casada.
No dia 2 de setembro compareceu Pedro Vaz, natural de Villa Real, e denunciou
FeJIDio Lopes, christão novo, caminheiro de Villa Real, por ter dito que valia mais a
solla dos seus sapatos que o relicario do denunciante.
No dia 23 compareceu Joio Serrio, calceteiro, e denunciou o padre Diogo Fernan-
des, prégador, por dizer n'um sermão que Jesus Christo não tivera alma logo que fôra
concebido. (Nota : Foi chamado ~ amoestado.)
No dia 26 de outubro compareceu Izabel Luiz e disse que tinha ido á villa da Certi
e ahi falou com Filippa Marques, christi nova, que lhe disse que o Messias ainda havia
de vir e havia de trazer as doze tribus de Israel. ·
No dia 3o compareceu uma tal Francisca, escrava de Martim Correia da Silva (1),
morador agora em Lisboa, e comprada por elle em Granada haverá um anno, e denun·
ciou uma outra escrava do mesmo, chamada Maria; fez isto a conselho do seu senhor.
No dia 9 de dezembro compareceu Henrique Neaghdayn, irlandez. e denunciou ou-
tro irlandez, Antonio Fonte, natural da villa de Galvea (Galway), por dizer que o sacri-
ficio da missa dos ingleses era assim como o dos christãos.
No dia 2 de janeiro de 1S74 compareceu Duarte Rodrigues, christão novo, natural

( 1) E' o illustre fidalgo que foi governador de Ceuta e embaixador em Castell~1 de


q_aem detidamente nos occuparemos na nossa monosraphia bistorica local - A Viita e
Co11cdlto IH Ptrreira do Zerere.
lg6
ele Bet~tt e denunciou Pedro de Montoya por
(Nota: Pruo).
No dia a8 compareceu o P.• Dioso Mena, capellio da relaçlo da Casa do CiYel,
natural de Lasos, e denunciou um flamengo, chamado Henriqu~ paRem de Luiz de Cu·
tro do Rio, que vive na rua do Barão, nas casas que foram do ur. Ruy Gago, por diser
que os lutheranos eram tio bons christãos como nós.
No dia 24 de março compareceu Anna Coelho, mulher de Amador Pinto, mora-
dor 4 Cordoaria velha, nas casas de D. lgnez de Castro, e disse que no anno pusado,
quando fizeram auto da fé na igreja da Misericordia, Isabel Pinto, christã nova, lhe dis-
• que nosso Senhor só estava aos céos e nio no Sanctissimo Sacramento.
Aos trinta e hum dias do mes de Março de mil quinhentos setenta e quatro aanoa
em lixboa nos estaos na casa do despacho da santa Jnquisiçio estando abt os Senhores
Jrlquisidores perante elles pareceo o padre frei Thomas de Mello pregador da Ordem
de sam Domingos e morador em o Moesteiro desta ditta cidade J e lbe deeram Jara-
18eato doa Santos euangelhos em que pos sua mão e prometteo dtzer verdade I e 1010
dtlse que prepado Diogo de Paiua no ditto moesteiro de sam DominBos hoie faz quinwe
dias que foi em a quarta feira em que se prega o euangelho, quare dascipuli mi manda-
cant et aon lauant manus I elle denunciante lhe ouuio no progresso da pregação di•er
que ouuera bum hereje nomeando ho por seu nome I de que elle denunciante ao pre-
seate aon he lembrado I que negara sa:n Iucas I e que ouuera tambem hereges I DO·
iDeando h os per seus nomes I que negaram o Sanctiss1 mo sacramento do altar referindo
u razões que pera isso dauio os mesmos berejes e lutheranos, de que eUe denunciante
e outros reUgtosos que se acharam presente sescandalizaram muito I e tambem disse
mais o ditto diogo de Paiua na mesma pregaçio que disputando Martim luthero com
outro leterado ~ue lhe persuadia que empregasse sua coriosidade em seruir a deus /lhe
respondera o ditto Martim luthero que nem alli aaqueJle acto viera pera o seruir nem
D!JDC~ua teuera coriosidade que non applicasse ao offender I e a este proposito nomeou
Ü8'Jns hereges antigos que com muita coriosidade sastaram a uida em ne~ar os sacra-
mentos todos da Santa madre Igreaa com apparencaa de virtude defendendo que o que
elles tinhlo era o verdadeiro e que as ceremonias da St~nta Madre Igr:oeia eram falsas I
J&stando nisto o ditto diogo de Paiua hu!n pedaço primeiro que tomasse a graça I e
asto dizia trattando a materia do euangelho porque os discípulos non lauauam as mãos
quando comilo 1 de que outro si sescandalizaram alguns padres I e disse mais que em
outras pregações que o ditto Diogo de Paiua fez no ditto moesteiro aas quartas feiras
lhe ouuio elle denunciante dizer que ouuera muitos herejes I nomeando hos por seus
nomes I que buus negauam o Santissimo sacramento do altar I e outros o concedião
com algumas lemitações I nomeando outras mu!tas heregias que ouue I e os que as te-
ueram, e em que foram conJennadas I e disse mais que pregando o ditto Diogo de
Paiua este dia de Santo Thomas passado no diuo moesreiro gabando a Santo Thomas
e a sua doctrina disse gue se trattara no Concilio tridentino sohre aquellas p1lauras de-
pois da consagração do calix que dizem, haec quoties cunque fecernis, in mel memo-
riam facietis f que se acrescentassem a estas palauras al~umas outras que declarassetn
que aquellas significauio estar consagrado o sanctissimo sacramento no pio e vinho I
e que se leuantara humar pessoa e dissera que el"a desnecessario aquillo porque Sancto
Thomas o tinha assi I e que era desnecessario accrescentarem. se mais palauras I e que
por isso se deixou de fazer I e depois disto faJlando elle denunciante com huma mol&er
deuota que se confessa no ditto mosteiro lhe disse que sescandatizara muito de uer dar
tanta lux nas pregações aos herejes por fallarem nclles 1 e que poi~ mandc~uão que se
riscassem nos liuros os nomes dos nerejes pera que era nomearem hos alli em pu-
blico I e que tambem o padre frei Manoel da costa pregador da ditta ordem de sam
domingos disse a elle denunciante que tambem outras pessoas lhe disseraro que se scan-
dalizaram de ouuir referir as dittas cousas no puJpito 1 e que a toJos os paJres do ditto
conuento que se acharam presentes ao ditto sermão do lauar das mâos dos discipulos
lhes ~areceo muito mal tudo o que ditto diogo de Paiua trattára no dito sermão acerca
dos ditos herejes I e praticando elle denunciante com o ditto padre frei manuel da
~sta, e com frei Vicente de fonseca I e com frei esteuão leitão e com outros alguns
padres lhe responderam que lhe parecera mal I e al non disse I e ao costume disse
nada I que vem denunciar isto por descargo de sua coosciencia e por assi lho maadar
--------
__............
seu confessor 1e foi lbe mandado sob cargo do juramento que lhe foi outra vez dado
em que J>C?.S sua mio que non deesse disto conta a pesoa al~Uma e teuesse segredo no
e
caso-/ elle o prometteo assi 1 e declarou do costumo que auva oito aonos que tendo
eDe denunciante a seu cargo hum Jrmão do ditto diogo de Paiua que he frade da mesma
ordem de sam Domingos teuera d~sgostos com elle sobre sua doença I e qae o tinha
em menos conta I e que nunca lhes pareceram bem as pregações do ditto diogo de
Paiua I mas que nunca esteue mal com elles 1 nem lhes quer ma~ nem ouue causa ~e~
iuo, e al nom disse e asfignou a~ui com elles Senhores Jnquisidores. (Nota: Mailo..•
• a SJMJ AltBf_a pola mandar pedar com outra mau emformaçam que se tomou disto por
Mil mandado).
Jorge gonçaluer Ryheiro- Simão de saa pereira-frei thomas de mello.
Fl. 265.
No dia 16 de abril compareceu Antonia da Cunha mulher parda, e denunciou Hen-
rique Fernandes por ter dito que um fulano, relaxado pela Inquisição é curia secular,
morrera martyr.
No dia 21 compareceu Margarida Ferreira, filha do Dr. Jorge Secco, dezembargador
da Casa da Supplicação, de 11 para 12 annos de idade e denunciou o cirurgião da mes·
m~ Casat Manoel Rodrigues, por dizer que os santos eram de barro. (Não prestou ju-
ramento.)
No mesmo dia compareceu Catharina Ferreira, irmã da testemunha anterior, filha,
como ella, de Ignez Velloso, cujo depoimento confirmou, acrescentando que Manuel Ro-
driguea era christão novo. (Nota: Não pareçeo bastante)
No dia ~9 compareceu um tal Christovão, morador. termo de Aldeia Gallega da Mer-
ceana e denunciou como bla~phemo Tristão Francisco, de Alemquer, procurador do
numero e christão novo. (Nota: Não pareçeo bastante).
No dia 4 de Maio compareceu o preto Domingos Fernandes e denunciou um pas-
teleiro castelhano que se chamava Bartholomeu Gonçalves, como blasphemo. (Nota :
Veio-se acusar e foi penitenciado.)
No dia S compareceu Antonio da Motta, fidalgo da casa do infante O. Antonio, juiz
ordinario em Aldeia Gallega, que confirmou o depoimen!o contra Tristão Francisco.
No dia 6 compareceu Armando da Silveira que denunciou uma sua creada Anna,
que se veio acusar, por estar amancebada.
No dia 20 compareceu Fernão Brandão, natural de perto do Porto, residente ao
~oço de Borratem, em casa de seu primo, Dr. Antonio Brandio, que denunciou João Ro-
drigues por .dizer numa quinta de Beatriz da Mana, viuva do dr Antonio Sanches, no
termo de Alemquer, ao seu primo Ruy Brandão, que nunca adorara o calix.
No dia 1S de junho compareceu o licenciado Alvaro Perez, procurador, que de-
nunciou Francisco Rodrigue~ de Ulme. (Nota : Foi examinado e achou-se ser iloudoJ
Aos vinte e cimquo dias domes de junho de mil quinhentos setenta e quoatro annos
en Iisboa nos estaos na casa do despacho da santa jnquisiçam estando ahj os senhores
jnquisidores perante elles pareçeo o padre frei thome de Jesu pregador morador no mos-
teiro de nossa senhora da graça o qual he dado juramc:nto dos santos evamgelhos em
que pos sua mão prometteo d1zer verdade e disse que esta coresma passada e somana
aotes dos Ramos o mandou chamar a regente do mosteiro de santa marta desta cidade
que esta no caminho de nossa senhora da lux a que nõ sabe o nome mas que ssenpre
he hüa e não se muda se nó por morte por terem conhecimento da sua Reuerencia
ella e as Religiosas da ditta casa por algüas veses aver pregado nella e jmdo elle denun-
ciante ao ditto mosteiro por estar a ditta regente doente mandou fallar cõ elle büa Re-
ligiosa que chamã maria do espirito santo que serue de rodeira na ditta casa e nõ sabe
donde he nem donde he natural a qual disse a elle denunciante que as Religiosas
~uella casa nó tinhão quem as ensinasse e que ella maria do ~piritu santo se
daüa a deus e qu~ tinha certa commuoicação espiritual cõ büa camilia de Jesu tam-
..,._ _ I
Ig8
bem religiOsa da mesma casa a qual tinha dado a ella maria do spirito uld8
e assi a outras relegiosas da mesma casa que lhe n& nomeou quem herlo e que ~
dar conta a elle denunciante do que passaua pera lhe dizer se hera jngano do demoaio
oa spiritu de deus aquellas cousas em que andaua e que pera este fim ser josioacla delle
denunciante lhe queria dar relaçõ Jellas e então lhe Clisse a ditta maria do spiritu saate
as quais sam que ella camilia de Jesu sendo filha de húa molber pobre pedia a sua maj qae
a pouese en casa de húa molher omrada vertuosa pera fogir os prigos do mundo esur
Recolhida e se poder milhor dar a deus a qual a pos en casa de sua madrinha q_ue lbe .a
nomeou semdo ao tal tempo de treze ou quatorze annos de jdade e estando c6 sua-ma-
drinha as cousas que se colhem ao diante e em fazer muita penitencia e ter al·
gúas uisois estando em casa da dita sua madrinha por tempo de sete annos donde foi le·
uada ao mosteiro de santa marta pera nelle ser religiosa como hora he e no ditto mos-
teiro lhe disse que professara e tratara todas as cousas conthiudas em bú relatorio que lo-
go ahi apresentou a etles Senhores Jnquisidores assignado por elle que tirou de certos ca-
dernos que ali mostrou as folhas de seis grandes e cimquo piqueaa
as quais cousas que tirou vam na margem dos ditos cadernos có húa estrella os quaes aam
escriptos de letra da ditta maria do spiritu santo dizendo a dita maria do spiritu santo a
elle denunciante que a autor das uisois e reuelacois contheudas nos. dittos cademos
hera camilia de Jesu e declarou qoe autora das ditas uisões e reuela,;ões que se contbem
nos dittos cadernos e re!atorio de maria do spiritu si to c que os dittos cadernos sam
escriptos por mio de marid do espiritu santo a qual escriuia o que lhe a dita camilia de
Jesu lhe dizia porque lhe daua conta de si como mestra e maj spiritual e ~sse mais
que no ditto dia lhe disse a ditta maria do spiritu santo que estando hú dia en ora~
lhe parecia que tinha o peto cheo de grandezes e bees de deus pera comunicar as cria-
turas e então digo apos isso teue hüa jnspiração que desse de mamar a camilia de Jesu
sua filha espiritual e que muitos dias nó ousando a faze" cuidando que hera jngaao
do demonyo e depois por escrupulo lhe deu de mamar a ella maria do spiritu santo a
ditta camília de Jesu por espaço de seis mezes dando a ditta maria do stnritu santo hla
teta do peito a ditta camilia de Jesu por espaço do ditto tempo de seas meses e per-
guntando elle denunciante ouvindo j~to se sentia ella maria do sptrita
santo nnquelle auto algu mouimento sensual e da carne lhe respondeo que nio mas
que sentia hüa graça enterior e que a camilia de Jesu dizia a ella maria do spiritu santo
depois de passare o ditto auto le mamar na teta que quando estaua nelle estaua como
búa menina e depois lhe dizia deus que lhe daua por aquelle peito a devindade de seu
padre e hüa sagrada humanidade .e a puresa de nossa senhora a qual lhe dizia a ditta
reuelação que hera o samge de christo e o majs q se comthem nesta materia de mamar
na teta o remette elle dennuciante o que dizem o quarto e quinto cadernos dos ~an­
des e declarou elle denunciante que outras muitas cousas lhe disse a elle denuncaante
todas as a ditta maria do spiritu santo que ao presente lhe não lembrlo
mas que elle remette dellas aos dittos cadernos onde se conthem largamente os quais
cadernos nomeados e pratica forão entreges por ella maria do spiritu santo a elle de-
nunciante pera os elle uer como leterado que hera dizendo lhe que pedia c6 muita
jnstancia a elle denunciante que os quisese uer e depois de uistos a desenganase se lbe
parecia spiritu de deus ou do demonJo as cousas que ella nos dittos cadernos dizia que
sentia en si e fazia e uia a dita can.iha de Jesu e as.;i as que ella maria do spiritu santo
passaua pera que a desenganasse e as nó deixasse errar porque ambas fariio o que lhe
elle ensinasse dissese e os uio e emtõ leuou elle denunciante os dittos cadernos e os
uio e leo todos de letra a letra tirou en soma as proposições que lhe pare-
cerão mais necessarias que estõ ora em ditto relatorio por mais exorbitantes posto que
tudo o dos dittos cadernos lhe pareceo muito mal communicou esta materia cõ diogo
de paiva seu jrmão e nssi cõ o padre frei luis de granada e todos tres examinarão o
ditto negocio pera uerem o modo que se leuaria pera dar Remedio as dittas molheres
por via deste santo officio reconhecendo todos tres ser a materia tal que nõ tinbio
duuida algúa de dar conta della aos Jnquisidores e emtõ declarou que posto que tenha
ditto que o chamar6 do ditto mosteiro a somana antes dos ramos esta passada elle de·
nunciante nio foi logo se nio depois da pascoella JlOr estar muito doente e neste tempo
passou o que ditto tem e troue consjgo logo os dittos cadernos os quais teue em seu
poder des o ditto tempo da pascoella te este sabado passado 19 dt: l. unho e os não pode
uer n1ais cedo cõ suas ocupaçõis e assi por serem conpridos e e Ie denunciante ma·
desposto tirando en soma a sustançia delles que se cõten no ditto relatorio e no dittc,
199
dia daaaoue de junho os mostrou ao ditro diogo de paiua e frei luis de granada depois
de todos tres comunicarem o ditto negocio e assentarem que hera necessario dar conta
delle ao santo officio e foi elle denunciante logo é secretaria geral que herão
Yinte e dous deste mes de junho ao ditto mosteiro de santa marta e mandou chamar a
presidente e lhe deu cõta do dito negocio relatamdo lhe tudo especificadamente e os
termos em que os tinha e lhe pedio que mandasse chamar as sobredittas religiosas por-
que queria saber dellas se estarilo tam sogeitas agora como tinhio ditto a elle ja ao
tet~~_po que falou cõ eUas e vimdo as dittas religiosas ao rralo onde elle denunciante e
• ditta presidente estauó elle denunciante lhes disse como vira os dittos cadernos e
lhes leo as proposições que delles notou cõtheudas no ditto Relatorio dizemdo lhes
como berlo eReticas e contra a fe e mandamentos abusos e enganos do demonl·o e que
hera neceasario SOReitarem SP. e remediarem-se pelo santo officio e ouvimdo e las isto
seu mais algúa reprica se remderam e cõfessaram que he vc:rdade o que elle denun·
ciaote dizia e estauõ prestes pera conhecerem seu erro e pedirem delle perdão e mjsi-
ricordia aos Jnquisidores dizendo lhe logo ali a camilia de Je•u que quando andava
nestas cousas senpre lhe parecia que hera jmganos desejando ser chamada nellas
e 'lue agora que elle denunciante lhe dizia cõfessaua ser tudo puro engano e pedia fose
res1p1da e entlo aly todos quoatro juntos como tem ditto elle e a ditta pre•idente
_pedindo a elle denunciante que quisesse entender neste negocao e viesse·
. dar conta delle aos s6res jnquisidores porque as dittas religiosas em pessoa nio podiam
Yir ao Santo officio pera serem rerr idiadas e assintarlo que elle denunciante da sua
parte viese a esta mesa dando lhe hü e~cripto feito por Maria do Espiritu Sancto e as-
sigoado por ella Camilla de Jesu pera que de sua parte dellas elle denunciante relatasse
este negocio aos jnquisidores e em tudo lhe desse credito e elle denunciante que lhe
daria parte pondose debaxo de obediencia da santa Madre Jgreja e c6 é} eles s6res jn-
quisidores ·detreminasem uisto fazer como se colhe no dito escripto que eu norario Yi
por mandado dos sõres jnquisidores escrevj esta denunciaçio e declarou elle denun-
ciante que Camilia de Jesu sera de vinte e dois pera vinte e tres annos e Maria do Es-
piritu Sancto de vinte e quatro pera vinte e cinquo annos, e q a dita Camilia de Jesu
lhe disse que podera aver dois annos pouco mais ou menos estava naquelle mosteiro e
que naquelle tempo andou nestes erros no ~ual tempo andou senpre nestes erros con-
theudos no dito caderno 7·" da maneira acima declarada segundo a ditta Maria do Es-
piritu Sancto disse a elle denunciante digo camilia de Jesu e declarou que em todo este
tem~ lhe dise a ditta Maria do Espirito Sancto q pasara senpre nestas cousas c6 a
ditta Camilia de Jesu e di'e majs q depois de terem assentido o acima ditto de elle de-
aanciante aver de vir a esta mesa dar conta deste negocio da sua parte deUas pedio
elle denunciante é ditta presidente que se fosse por_que queria ficar com ellas Maria do
Es~iritu Sancto e Camilia de Jesu pera com mais liberdade e sem pejo de sua prelada
~ saber qellas como ficauio neste negocio de o que corresse- da dita maneira e
eOas se tornarlo a ratificar en todo o que asentarlo diante da sua prelada mostrando-se
muito sojeitas a obediencia da Santa Madre Igreja e muito desejosas de as remediarem
e declarou elle denunciante ~ depois de passado o ja acima dnto e jda a ditta presi-
dente lhe disse a ditta Camiha de Jesu q naquelle mesmo dia que jsto pasara lhe dis-
sen deus dame algüa cousa e que ella lhe respondera S6r nõ tenho que lhe dar e entõ
lhe dissera deus dame hú trabalho que tens de passar e q J?Ode ser que seia por este
que hera necessario dar conta disto ao Santo officio dizendo ii a enganaua
Disto o demooio como no mais e dise mais que por este mesmo dia depois de lhe di&er
a ditta Camilia de Jesu lhe dissera tambem elle denunciante que pedira a
deus que lhe disese o maior pecado que tinha e que deus lhe dissera que o maior pe-
ado que eUa Camilia de Jesu tinha era dar disto cõta a Maria do Espintu Sancto e que
jso he o que pasou o que vindo dizer por descargo de sua cõciencia e por lhe ~ecer
que berio cousas jmportantes pera se saberem nesta mesa e q nõ ueo mais cedo dar
couta dellas porque como ja· tem dito gastou os dittos dias em ver os dittos càemos e
fazer o dito relatorio e por suas jndesposiç6es e occupaç6es de casa occupaçlea·qae
teaera c6 o prelado e n6 se pode mais cedo resoluer nestas materias pera as commu-
Dicu- c& as sobredirtas pessoas mas que tito q o fez logo jntendeo em o vir declaru
como ·tem ditto e que se nisto houue ai~ descudo da sua parte foi pelo o6 ackJeHip-
~e diso perdão e misericordia e lhe fo1 mandado ter segredo no caso sob c~ do
ditto jura~ento em q pos outra vez sua mio que a aüab6a ~·de CODia do a~rlditto
e ele asim o prometteo e assigoou aqui cõ os s&res jaquiaidores do COL
..

200

tume nada Joam Calq»eUo escrevi e os dittos cadernos e cartas e relatorio &cario DliM
Santo Officio.
Jor1e Gonçalver. - Fr. T'home d~ Jesu.- Simão de Saa Pereira.
FI. 281.
No dia J3 de agosto compareceu, sma s~r chamada, Cecilia da Costa moradora aa
tua de mata porcos, e denunciou uma cbristi nova de Lamego, Cecilia da Costa, tambem.
No mesmo dia compareceu DiORO l.. eitão e denunciou Cecilia da Costa e Manoel
Gomes (Nota : Nam par~çeo bastante por o denunciador sn- sosprito ~ pareca de ptfUf.O
illiro.)
No dia 20 compareceu Joio Bosque, francez, natural de Troie, e denunciou Joio
Borgonham, que abr~ pedras c6 boril pera far~r hrintJuos de chumbo, por comer carae
4s 6.•• feiras, por dizer que nio acreditava na missa. Servio de interpre1e, porque o de-
nunciante quasi nada sabia de portuguez, Joio de Paria5, relojoeiro franca.- (Nota :
Pr~IO.)

No dia 21 ( l) compareceu Joanna Magdalena, mulher de Joio Bosque, que confirmoa


o depoimento atru.
No dia 7 de setembro cem pareceu um tal Francisco, vedor do Dr. Simlo Go~lftl
Preto, chanceller· mór, para di%er que esta mulher Jbe tinha dito que vivia com JUdeus.
No mesmo dia compareceu Jacome, especieiro francez, morador na Sombreiraria..,
becco do Silvestre, e outro francez, chamado Jerves Moino\ que se veio accusar, a quem
o primeiro servio de interprete, por dizer que por causa de clerigos se perdeu a Fnaça.
No dia 10 comrareceu Pedro da Costa, ourives, e denunciou a sua mulher Maria de
Freitas, moradora na rua da Rosa, fóra da pona de S.ta Catherine, ror duvidar da ex&-
tencla do inferno e do purgatorio. (Nota : Pareçeo suspeita a dm1111ciaçam.)
No dia 23 compareceu Antonio Preto, natural de Alma.da, e denunciou Goaçalo
Pires por faUar contra a adoraçio das imagens. (Nota: Veio·le reconciliar ••• te.,..
çmo.)
No dia ~ compareceu o jesuita David Wolf e denunciou dois mercadores france-
ses, que commerciavam na Andaluzia Francisco Manins e Ricardo Martins por serem
berejes. (Nota Nam par~çeo gue se devia mandar a s~villa por nam eMUlar de culptli
pe pa com«e6Nfll.)
No dia 22 de outubro compareceu Sebastiio Fernandes, sapateiro e denunciou Joio
Baerra, natural de Lamego, residente no becco das tabuas, por negar que Deus esti-
vesse na hostia consagnda. (Nota : Preso.)
No mesmo dia compareceu o P.e Mestre Fr. Francisco de Bohadilha, dominicaao., e
disse que, haveré 10 meses 1 ~uco mais ou menosL...indo visitar a con1mtndadeira de San-
tos, lhe contou uma Ao toma Bories, prima d'uma u. Valeria Borjes ( 1), que mora juacto
da Graça, que D. Isabel, irmi da commendadeira, tinha affirmado que ir pela _paido
de Cbnsto era ir devagar. (Nota : Ãsentou-se que s~ aJiia de dar conta dillo tJ Sua A.)
No dia 29 compareceu Pedro Barreira, caldeireiro fraõcez, e denunciou Pedro Cai-
mam, francez preso como lutherano, e um bufarinheiro chamado Jorge, tambom &....
ca, por serem ambos lutheranos.
No dia 5 de novembro foi chamado Pedro Frasco, caldeireiro francez, cujo depoi-
. .ato foi coatra o da testemunha anterior.
No dia 12 compareceu Manoel d'Aguiar, moço da camara do Cardeal Infante, e
4ie•• que este 8DDO vieram a Setubal 70 ou 8o navios de francezes, ftam~ngos e ioglaes,
(1) E' a filb1 elo lmmortal Gil Vicente.
201
..... ............. -···-·····-------..
cujos marinheiros fallavam contra a nossa sancta fé, comiam c ame 4 6.• feira e nlo vlo 4
i_sreja ouvir missa. (Nota: Nam se Jer obra p_or esta dnaunciaçam por a pessoas serem
t11çmas Jer-se lembrança aos seliores do comelho geral gue mandassem provw de olfi-
dai$ em SetuvaiiJ'" pera esse efeito se tomouJ
No dia 16 compareceu Vicente Rodrigues Godinho, fidalgo da casa d'El .. Rei, mo-
ndor na rua da Atalaia, em casa de sua irmã Catharina de VasconceJ.los, viuva de Luiz
Brandio, e denunciou um cal\!eteiro chamado Heitor Pinto, morador no becco de Gaspar
das Náos, por ter em casa uma imagem do Salvador com quaesquer cousas esculpidas
aas coxas em vez ele chagas. (Nota : Trouxe-1e esta imagem e ftcou 110 1ecreto.)

No dia 18 compareceu Gaspar Arraes da ilha da Atadeira, residente em casa de uma


esralajadeira na bica de Duarte Bello, e denunciou um patrio Luiz de Marselha e outro
francez, tambem de Marselha, chamado Corneies, por dizerem gue um certo homem que
tinham enforcado não podia ir para o paraiso porque oinguem llavia de ir ao paraiso se-
alo depois de Deus vir julgar os vivos e os mortos. (Nota : Foram cluunados e advm-ti-
tlol do pe tWiam de ler e crer como co111ta do seu proçes1o.)
No dia ao de dezembro compareceu Luiz Franco, christlo novo de Aveiro, que tem
andado em casa de D. Duarte e que agora é criado d'El-Rei, e disse ter conhecido em Fer-
nra: Manoel Gomes das néos, filho de Femio Gomes das néos, mercadcr muito rico e co-
nhecido em Lhtboa; Henrique Nunes, filho de Nuno Henriques, confeiteiro muito rico;
Manoel David, filho de um ir mio de Nuno Henriques; Henrique Mendes; Alvaro Tris-
tlo, primo coirmão do anterior; Jorge Nunes; Vicente Lopes e sua mulher Gracia Cor-
reia; o licenciado Manoel Miguel, ~hysico; o licenciado Luiz Alvares, idem; dois filhos
de Thomaz Gomes ; o licenciado Duarte Gomes, physico ; Gonçalo Fernandes, Pedro
Gomes e Guilherme Fernandes; Christovão Manoel, filho de Manoel Pinheiro da Covi-
lhl ; Gabriel Henriques, ourives de prata ; Affonso Mendes, mercador; dois irmlos Pe-
reiras ; Diogo Lºpes ; duas irmãs de Luis Franco ; Manoel Rodri~es que vive em Sa-
looica; Mestre Thomaz ; Paulo Thomaz, mercador ; Adio Lu1z ; Joio Nunes ; Ma-
meus •.. ; Henrique Luiz c o licenciado Femio Lopes, cirurgilo. Todos, a testemunha
vio em Ferrara convertidos ao judaismo.
No dia 28 compareceu Pedro Fernandes, alfaiate, que trabalha na tenda de Joio de
Castilho, e denunciou o tosa dor Gaspar Rodragues, natural de Thomar, mondor debaixo
du casas do contador-mór, por dizer heresias.
No dia 14 de janeiro de 1 S7 5 compareceu Egydio Galope, fidal8o franca. e denun·
dou um inglez chamado Galterus Benet, que, em conversa com elle e com Henrique
Gamer, Gaieteus Benet e com um criado do conde Senhor Moller (l) disse que não
haYia purgatorio e outras coisas.
No dia 2S comrareceu Affonso Lourenço, natural do termo de Beja, e denunciou
Domingos Rodrigues por dizer cqu nao avia milhor ordem IJIIe a do boom casado porque
ata fiJera Dea e IJUe a1 outra1 firn-ã Sam Frand1co e tU outra1 outros saiiiOI•.
No dia 27 compareceu Ricardo Corbaly, sacerdote natural de Hibernia, france~ que
denunciou o seu patricia Bernardo Fique, morador a par de Santo Antio, que anda
vestido de sacerdote sem o ser.
No dia 14 de fevereiro compareceu Diogo ( ?) Machado, mercador, morador nos ferros
da Rua Nova, que denunciou André Fernandes como blasphemo. (Nota: Já pre1oe lnl-
tleellilo.)
No dia 17 de março compareceu o preto Roque Henriques, calceteiro, que vive 4 Gra-
ça, em casa de Ar:a Dias Corrêa e trabalha em casa de João de Barros, ao ~ço da Fotea, e
clenundou Helena da Victoria, mulher de Joio de Barros, calceteiro, por dizer que os que
moniió queimados morriio martyres. (Nota: Não parecerão bastant~s na me1a.)
No dia 22 compareceu Joio de Medina, calceteiro, que confirmou o depoimento

aatenor.
A I•QVJII9lo D POaTIM~ • •o B••arr. 22
201

No mamo dia compareceu Pedro Fernandes e denunciou Joio Goaça!Yes, e Joio,


biscainho por dizerem q_ue era melhor ordem a dos casado. que a dos clerigos, etc. (No.:
Nam par~eo Jastante) _
No dia 28 com~receu Domingos de Loyola, biscainho, mercador de armas e denwa-
ciou um Joio de irra, francez, que veio a l ..isboa com pescado secco e bacalbH da
terra de S. Joio da ..uz, falla lingoa vasconça e luJ-de carre1ar de 1111 ptra a 61M1 terrt~,
por dizer que tinha ido vender armas 4 Berberia.
No dia 8 de abril compareceu Marçal de Mattos, ~intor,morador a S. Christovlo, e
depoz contra Filippe de Go!!Eor dizer, entre outras c:o1sas, IJIIe o gue errtrt111a pella 6wJcQI
não fafia mal nem enap« o.
No dia 12 compareceu Luiz Gonçalves, calceteiro, que denunciou Helena da Victoria
por defender os juaeus.
No dia 18 de março ( ?) compareceu Maria Antunes, moradora aos Cobertos, de froate
da casa do Côrte-Real, que denunciou um indio, medico, por ter dito que Nosso Senbor
era filho de um carpinteiro. (Nota: Já pre1o e confessou.)
No dia 28 de maio comptreceu Catharina Rodrigues e denunciou o seu marido Di~
de Proença por se ter casado segunda vez, estando ella viva. (Nota : J4 '""'•fld••.J
No dia 16 de juoho compareceu o P.• Fernão Gil, capellio d'El-Rei, e por enpno
poaeram aqui a confiuio que elle fez, por ter, entre ourras coisa dito, que mais sacra-
mento estava na hostia grande que na pequena, etc.
No dia 9 de julho compareceu o P.• Fr. Gaspar do Espirito Sancto, da ordem de
S.• Asostinho e denunciou um cbristão novo, castelhano, chamado Luiz Ferreira por
dizer que 1e t'lpecular a ip-';ja de Sam Paulo nam rerara delle nem dos outro1 Sartt:ltM
No dia 12 de janeiro de 1 S76 compareceu Domingos Gomez, homi pardo1 e denunciou
Femlo Callado e Antonio Rodrigues por os ter visto ambos nds o primeiro com .._
cruz és costas e o segundo açoutando-o.
No dia aS comp11receu Rodrigo Alvares, advogado, e denunciou L.uia d'Almeida d'AI-
verca por duvidar que Christo esteja na hos1ia consasrada.
No dia 17 compareceu Manoel Pardo, morador na rua dos Cabides, requerente de
causas, que denunc1ou Gwomar Gomes de Moraes, por ter chamado filho da •.. a UtD
homem qualquer.
(N. B. -O termo de encerramento do livro rem a data de 6 de deaembro de
155g.)
No dia 1 S de dezembro de 1SSg corupareceu o christio novo Antonio Paes, filho de
Pedro Paes, casado em Medina, porque com seu pae, da edade de nove annos, foi para
Flandres e de 14 para Ferrara onde foa circumcidado, acreditando durante algum tempo
na lei dos judeus, tendo mudado de nome, e por isso se apresentou a confessar u suas
culpas e a pedir d'ellas perdlo. Sua mie chamava-se Branca Rodrigues (a).
No dia 1H de maio compareceu o clerigo Pedro Alvares, morador na aldfttl d'O"'alllo,
do termo da Covilhã, por ter dito publicamente que Adão e Eva jaziam no inferno. Di-
que ouvira um anno de latim em Coimbra e tres annos na Covilhã. Veio confessar-se.
Declarou estar hospedado no cabo da1 fangas da Farinha, na volta, qutmdo vão piii'W
a Taoarya, em uma torre alta em casa de hun1 Manuel RodriKu•r· (Nota: JtJ lenla·
ceatJo).
No dia 6 de novembro de 1 56 a compareceu o P.• Fr. Paulo de Cintra, prior do mos-
teiro do Matto, da ordem de S. Jeronymo, por ter dito que debaixo dOI accidentu ct.
(a) Liwo das ReconcilitJpe1 de 1S6o em diallle. Incluimos aqui o seu extracto porque
nio fazemos capitulo ai~ um especial das conjiu&1, tanto mais que os que se vinham accu·
sar denunciavam por sua vez outras pessoaL
,
hostia consagrada e1tava IHus verdadeiro masgue aquella brancura ou redondeia no1n
era Dt-u. Este padre vem-se confessar antecipando-se é denuncia de Fr. Francasco de
Lisboa, padre que o não pode ver por elle ter posto fóra uma lavadeira do mosteiro,
com quem eUe tinha estreitas relações, sendo o esc11ndalo tio grande que o degrada-
ram para o mosteiro da Pena.
No dia 18 de fevereiro de 1563 compareceu o barqueiro Alvaro Jorge, de Tancos,
que se accusou por ter dito que Nosso Senhor tambem tinha peccado. (Nota : Já sen-
lncudo).
No dia 5 de maio compareceu novamente o P.• Fr. Paulo de Cintra, residente no
mosteiro de Pera Longa, por ter dito, referindo-se a alguns retabulos, que afinal eram
idolos, palnvras que elle explicou e de que pedio perdio. Elle veio por o P.• Provincial
lhe dizer que o devia fazer. Disse estas pJlavras no mosteiro de Belem, onde veio como
hos~e; de uma vez a Fr. Jorge e d'outra a Fr. Damião que lhe mostrou pinta~a a ca-
beça de S. Joio Bil ptista numa bacia.
No dia 21 de novembro de 1S7 1 compareceu Jorge de Traves, suisso, natural de Fri-
burg, commerciante, que acabava de chegar de Granada e disse que indo a França con-
Yivera com lutheranos e lá acreditara que o Papa não tinha mais poder que os outros
homens, que as indulgencias por elle concedidas não aproveitavam, que não havia pur-
g_atorio, que nio devia haver imagens, etc. Algumas d'estas heresias communacou elle com
Godomar, bofarinheiro francez, com outro francez que vendia agulhas cordovezas e que
se chamava Antonio, el enga1rhador, e com um Matheus de Fonte, tamhem bofarinheiro,
fraucez. Conveneu·se impressionado por se ter salvo nas RUerras de Granada. (Nota: Já
untenceado).
No dia 21 de fevereiro de 1572 compareceu Antonio Nunes, captivo resgatado pelo
P.• Fr. Roque que se confessou por se ter convertido ao mabometismo (Nota: Já sen-
tacudo).
No dia 19 de abril compareceu Hildebrand lmyngo, allemão, ourives de prata, e
confessou que em França communicara com lutheranos, acreditando diversas das suas
heresias Confessou se já a um pndre flamengo, Arnaldo, visitador das velas estrangei-
ras, e declarou ter dois irmãlls: um João, ourives, assistente em Castella e outro Star-
deiro (?),pintor que ficou na Allemanba. (Nota: Já smttmctJado).
No dia 21 de abril compareceu o mestre de oculos, francez, Jaques Mocet, morador
juncto 6 Magdalena, que confessou ter dito que se admirava do arcebispo consentir que
tirassem uma toalha por uma sua escrava a estar lavando a um domingo, defen ·
dendo depois as pessoas que por necessiJade trabalhavam ao domingo. Dizia elle que,
se lha não restituissem se hav1a de vingar em algum clerigo ou frade, nos oculos que lhe
vendesse.
No dia 3 de abril de 1573 compareceu uma rapariga chamada Maria e natural de
Graaada, captiva de Ah·aro Fernandez Pinheiro, filha d'um mercador de sedas, e confes-
sou, a conselho de seu senhor, ter praticado muitos actos do mouri,ca. {Nota: Já
lmltmCMda tJmlftl processo.)
No dia 19 de maio compareceu Simão Carlos, armenio, que trouxe comsigo um seu
patrício chamado Gaspar, a quem servio de interprete. Este Gaspar confessou-se por
ter sesuido a religiio de Mafoma em Constantinopla. Veio ao Santo Officio a conselho
do cODSul dos Venezianos. (Nota: Auentou-se antes de ter dt~spacho).
No dia 17 de agosto compa roceu lzabel ~t•rancez, natural de Fronteira e confessou·
se como judeisante. Judaisou primeiro em Fronteira, e depois em PortalegreJ onde apren·
deu a faZer botões com Isabel Rodriguez. chriati nova, viuva do commerCJII•e Fernan-
do Alvares. Uma neta d'este casou com Henrique Alvares, alfaiate em Madrid das damas
IIII PrinceJa. (Nota: Já lertlenceada em lftl processo).
No dia 18 de agosto compareceu Beatriz Femaodes, irmã da antecendeate, cuios
paa moravam oa rua de Mata ·porcos, aatural de Fronteira e confeiiOU·M como juclai-
sante. (Nota: Já 1entenceada t1111 1e11 procaso).
-····-···----- ---
No dia 11 de dezembro compareceu ·Beatriz Nunes, mulher do sapateiro FranciJco
Gaspar, moradora na Faia, juncto da Guarda, onde ganhava dois vintens por dia, que se
veio confessar como juda~saote. (Nota: Já sentmceada em 1~11 pr~sso).
No dia 8 de fevereiro de 1S74 compareceu João Pat~cio, sapateiro. natural.de AI·
vito, que se confessou por se ter convertido ao mahomettsmo, por ter stdo capnvo em
Argel, d'onde o remio o P.• Fr. Roque. (Nota: Tem processo}.
No dia 18 de fevereiro compareceu Bernardino Romano, ourives d'ourot que traba-
lha na tenda de Pedro Lopes, natural de Roma e veio· se confessar por ter dtto em casa
de Joio d'Anha, ao becco do Anjo, que vende pedras preciosas, na presença de doia
caãtelhanoa, um lapidario e outro ourives, que a luxuria era peccado mortaL (Nota: T•
proce1so).
No dia 1 S de março compareceu João Correia, sombreireiro,. natural de Viaoaa,
por dizer que algumas manifestações da luxuria eram peccados ven1a~s e aio mortaes.
D'isso se confessou e pedio perdão. (Nota: Tem processo).
No dia a6 de abril cem pareceu Gaspar Gomes, natural de Chave~!Dorador ao Pe-
lourinho velho, que confessou ter dito que a luxuria não era peccado. (Nota: Tftll pro·
cesso).
No dia seguinte compareceu o mesmo Gaspar Gomes que mais cousas confessou.
No dia 7 de maio compareceu Anna, criada de Armando da Silveira que se veio
confessar por ter dito que ter relações com um homem solteiro não era peccado. (No-
ta: ~oi remettida a seu conf~ssor).
No dia 3o de setembro compareceu Gonçalo Pires, de Almada, por ter dito que
aquelles quo iam 4 egreja adorar as imagens que eram de páo e de pedra e os santos
que elles haviam de adorar estavam no parai!o. (Nota: 7'em proce11o).
No dia 2 de outubro compareceu Alvaro Affonso, morador a S. Joio da Praça, e
confessou ter quebrado dois retabulos. (Nota: Tem processo).
No dia 28 de ld>ril de 1S7S compareceu Gaspar F emendes Sanches, negociante, na
tural de Villa do Conde, e confe»sou-se por ter pensado que era impossivel que Chriato
estivesse na hostia consagrada. Elle mandava fazendas para S. Thomé e outros pontos ,
e estando em Bristol, por causa de seus negocias, com um Gaspar Gonçalves da ilha de
S. Miguel, Pedro Vaz, sargueiro de Lisboa e Antonio Brandão, physico de San tarem, chris-
tio novo, o primeiro disse certas berestas que elle não reprebendeu. Tambem em Londres.
na presença do christio novo Simão Henriques, que dizem estar em Ancona e de Simio ·
Gomes, Diogo Pires e Duarte Pires, mercadores christãos novos, chamaram a Cbristo,
cri1pinho e elle atirou com uma laranjf á imagem de Nosso Senhor. Aconselhou-o a vir-
se confessar Fr. Bartholomeu Ferreira.
No dia 8 de junho compareceu Guiomar Thomaz, moradora é Praça da Palha, que
se confessou por ter feito praticas de judaísmo. (Nota: Tem proclsso).
No dia 11 de abril de a57§ compareceu Antonia Lopes que confessou ter dito, ira-
da, que a lei d'ella era a de Deus, melhor que a lei que seguia uma pessoa com quem
altercava, e que nio sabe se era catholica, se nio.
No dia 16 compareceu Gracia Rodrigues, moradora em S. Roque, juncto du C'UIS
negras, por ter praticado actos de judaismo. (Nota: Foi antes do perdão).
No dia 9 de junho compareceu Antonio Gonçalves, natural de Torres Vedras, ele-
riso, que se veio confessar, porque, depois de ordenado, nunca usou das suas orcleu,
casou-se, mas nio tem filhos. (Nota: Tem proce110).
No dia 1 1 de abril de 1 S77 com~receu Paulo Sebastião, morador 4 porta de S.ato
Aatio, e confessou que, tendo elle sado baptisado, em .Pisa e em Parma praticou di•er-
sos actos de judaismo. (Rec6cUioue).
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No dia 11 de junho compareceu o inglez Roger Parquer, mercador, e confessou
que, sendo baptizado, praticou diversos actos de lutheranismo. (Nota: Abjurou na mela).
No dia 21 de novembro compareceu João Baptista, que· da edade de S annos foi le-
vado para Flandres, Ferrara, Veneza e Salonica, circumcidado em Ferrara, praticando
diversos ritos judaicos. Em Flandres deram-lhe para ler oraç~es judaicas lá impressas
com os titulos Li~ro1ladino1 em linpoa espanhola. (Nota: Abjurou em forma).
No dia 3o de setembro compareceu Joio de Mesquita, judeu, allemão, e como tal
se confessou. Teve por interprete Affonso de Veneza, morador em casa de D. Joio de
Menezes. (Nota: Rec6ciliado).
No dia 3 de fevereiro de t 578 compareceu o mercador inglez João Blaste, cujo in-
lerprete foi Nicoléo Vanbeli, flamengo, cantor d'el-rei, que anda com a côrte, e confessou
que praticara actos da seita lutherana. (Nota: Ti proce11o).
No dia 24 de abril compareceu Lopo de Llanos, das Asturias, que andou na Grecia
na armada de D. Joio d'Austria, e confessou que sendo preso pelos turcos professou a
sua seita por medo. (Té proce110)
No dia 19 de junho compareceu Gonçalo Dias natural de Faro, christão novo, sir-
sueiro, que se veio confessar por se ter convertido á religiio mahometana, quando foi
aprisionado em Tanger. (Reconciliado)
No dia 26 de junho compareceu um mouriscó chamado Jafar, que disse ser chris-
tão baptisado natural de Granada, onde os Mouros o fnram captivar e o fizeram seguir
a sua religiio. (Ti proces1o; ab1mtou-se anttl de 1er de1pachado)
No dia 28 de junho compareceu um extrangeiro chamado Jani, allemio, cujo inter-
prete foi Affooso de Veneza, veneziano, e confessou que, tendo sido captivo pelos turcos,
praticou a sua religião. (Tê proce11o) -
No dia 1S de julho compareceu Philippa Gonçalves que se confessou por ter dito
que nio cria na massa .... (N6 1e procedeu mais no ca1o por não parecer neceuario)
No dia 24 de setembro compareceu Jeronymo de Villalva, francez da Normandia,
que fugiu para terra de Mouros em Marrocos, onde seguio a sua religião. Depois deva·
- nas aventuras aandou com til~ (Maluro) tr~1 annos por soldado at~ gue elle veo dar ba-
lllllaa a eiRey que deu1 haja a Alcacere, donde elle confittnte fugia a cavai/o haa noite
• no ter a Arrilla assi por lt desejar de ~er em terra de cristãos, como por avirar a
elRey que não entrasse pella terra dtntro p~llo perigo que ni1so corria t lhe deu conta
tl• toda a gente que Maluco traria e ond~ estava e por e/ Rey cuidar fUe clle confitente
wa espia o manáou ao outro dia meter no carcere e despois o 1oltarão ~ se veo a Tan·
gere etc..•. (Nota: Fugio .•. antes de ser de1pachado. Tem proceuo)

No dia 16 de outubro compareceu um mourisco de O. Vasco de Athaide chamado
Manoel Fernandes que se confessou porque, sendo captivo na batalha de Alcacer-Kibir,
onde foi com seu senhor, se vestio de turco, praticando alguns actos d'essa religião.
No dia 23 de abril de 1579 compareceu um italiano, Andre, de Genova, filho de ·
Nicol4u Bondim, o ~ual, no mar de Sardenha tinha sido captivo dos Turcos que o le-
vanm para ArKel, d ali para Constantinopla onde o obrigaram a acreditar na sua reli·
giio até que elle fugi~, por occasião do cerco de Mazagão. Por este motivo se veio con-
fessar. (Nota: Tem proce1so.)
No mesmo dia al?resentou -se Francisco Lopes, christio novo, morador na rua de
S. Pedro, martir, a S. Matheus, para confessar ter dito que st osjude~a açoutaram Nol-
so s,.&- f lao comprarão por muito bo1n dinheiro, o que disse sem attentar ooque dizia.
O coa6tente era filho Je Gaspar Lopes, mercador, e de Filippa Alvares, christãos noYos.
(Nota: Tma proct1so.)
No mesmo dia apresentou-se um italiano (IJ Misuel, natural da Rasusa, que foi capei-
90, em Marrocos, d'el rei Maluco, onde 1e fer mouro e por i11o ,. Hio coofeuar. (Nota:
Tem procuso.)
No mesmo dia com~areceu um outro individuo de Ragusa, Joio, que tarubem foi
captivo dos mouros e se fez mouro e por isso se veio confessar. (Nota: Foi-1e pe-a IIUI
terra.)
No dia 24 apresentou-se Gino albanez, servindo-lhe de interprete Simlo Carlos,
armrnio, e declarou o tal albanez que, indo com carneiros a Constantinopla, foi capdYO
dos turcos que o obrigaram a andar ao remo numa galé, vindo como tal na armada qae
tomou Goleta d'onde fugio para Tunis e ahi e noutros pontos d'Africa, procedeu como
mouro, pelo que se veio confessar. (Nota: Este lambem 1e for tHra IIUJ teria.,.
lentar em Castella.)
No dia a5 de maio de •579 apresentou-se Belchior Gonçalves, marchante, para coa-
Cessar que relo natal, numa conversa, tinha dito que as crianças quando andavam ao
ventre das mães so tinham folego. (Nota: Este laomê não se procedeu mais contra ell1
P!J" partcer ao1 stliorel i11fuisidores fera ignoranti1simo e nutico: e o marularao eOR·
{elsar.)
No dia 22 de maio de 1579 apresentou-se Thomé da Rosa a confessar-se por ter
sido captivo e ter querido aproveitar a batalha d' Alcacer-Kibir para fugir para o acam-
~amento christão. Reconhecendo ·O porem, veio é presença do rei Maluco e, com medo,
Cleclarou querer continuar mouro. (Nota: Ti proctslo.)
No dia 5 de junho apresentou-se Joio Sardo, natural da Sardenha, que, tendo sido
captivo pelos mouros, seguio apparentemente a sua reliKião, dizendo at~ ha ~uco tem-
po em Tetuão a D. Alvaro de Menezes e a D. Nuno, filho tfu,,. contl~, que lá estavam
captivos, que ainda havia de vir a Lisboa. (Nota: Ti proctuo.)
No dia 11 de julho apresentou-se Pedro .Vaz Pereira, natural do Porto, para con-
fessar que livremente tinha ido para Tetuão e convertido ao mahometismo, atê que na
batalha d'Alcacer Kibir resolveu fugir para o acampamento christão, mas foi preso, e
só depois fugio para Mazagão. (Nota: Ti processo.)
No dia •3 de julho apresentou-se Matheus Velho, natural de Barcellos, por ter sido
captivo dos turcos e ter seguido a sua religião, ainda que apparentemente. (Nota: Ti
processo.)
No mesmo dia apresentou-se Gil Fernandes, cortidor, e disse ter acompanhado
D. Sebastião a Africa e ter ficado captivo nessa occasião praticando as ceremoniu
mouras até que fugio para Mazagão. (Nota: Ti processo.)
No dia 28 de agosto apresentou-se um mourisco, criado do meirinho mór, chamado
Gonçalo Fernandes, para confessar que tinha ido na jornada d'Africa com o seu amo
e, tendo ficado cartivo, depois se resgatou, mas durante o captiveiro praticou actos de
mouro.
No dia 9 de outubro apresentou-se, acompanhado pelo armenio Simio Carlos como
interpene, um Manoel, natural de Aleb, na Armenia, que tinha sido captivo dos turcos,
fugindo para Ormuz, onJe o capitão D. Diogo de Menezes o mandou prender por que·
rer casar com uma preta e ter arrenegado da nossa fé ; d'ali o trouxe para Goa d'oode
veio com D. Diogo de M~nezes, que está hospedado nas casas de D. Fernando, á Pam-
puJha. Mandaram ·DO ir fazer confissão geral a um padre armenio de S. Domingos.
No mesmo dia apresentou-se Lourenço d'Espinhosa, natural de Jaen em Castella, e
que foi criado do marquez de Belles e depois captivo, fazendo-se mouro e andando ás or-
dens d'um pirata, e tendo sido tambem almocreve encontrou um fidalgo portuguez, Fran-
cisco Ba"eto, a quem alugou as suas cavalRaduras, a quem confessou que seguia a reli
pio christã e com quem veio e agora esse Francisco Barreto está aposentado em cas•
Cie D. Francisco Mascarenhas, seu cunhado.
No dia J:& de outubro de •579 compareceu um mulato chamado Simão, captivo de
2CYJ
D. Pedro d'Aimeida, que tinha estado na batalha de Alcacer-Kibir onde foi prisioneiro,
praticando nesse tempo a religião mahometana até que foi remido por D. Francisco de
Almeida, primo do seu actual senhor. (Nota: Té proce11o.)
No dia 4 de novembro de 1S79 apresentou-se um mancebo Pedro Nunes Cola_ço,
filho d~ Isabel Nunes, o qual tinha sido criado de D. Christovão de Sousa, em Maza~o,
com quem teve questões e por isso fogio para os mouros e, por occasião da batalha
de Alca~er-Kibir, esteve ao serviço de Muley-Hamet; casanJo como mouro, fugio depois
para os christãos. Antes d'isso porem communicou as suas intenções aos seguintes capti-
vos cbrittãos : Antonio Vieira e sua mulher Anna Domingues; Pedro Peixoto; l ...uiz Cesar;
Francisco de Sousa d' Azeitão, filho de Alvaro de Sousa e seu gen1 o Fernão de Sousa.
(Nota: Tem proce1so.)
No dia 10 de novembro de 1 S79 apresentou-se um mancebo chamado Francisco
Antunes, filho de Antonio Dias já defunto e de Brites André, rara dizer que tinba ido
com D. Sebastião a Africa, onde foi captivo e feito mouro á força; pertenceram ao mesmo
amo Belchior Gonçalves e Francisco de Araujo.
No dia 6 de fevereiro de t58o apresentou-se o P.e Gaspar da Rocha, capellão da mi-
aericordia, natural da Covilhi, para dizer que estando com Fernão d'AraUJO, Pedro da
Matta e Jorge Farinha, tambem caeellães, fallaram na successio do reino, se devia ser
aubjeito a ~astella por l>. Sebastiao estar ainda vivo e que o capitulo 11.• de Daniel
parecia applicar-sc ao coso. Para demonstrar ~ue O. Sebastião estava ainda vivo appli·
carem-se 11 palavras de lsaias, cap. 14.•; o confitente foi interrogado, entre outras cousas,
por~ue é que julgava que tamas certas palavras (não ser digno de ser rei) se appJicavam
ao cardeal D; Henrique, respondeu que, por ser sacerdote e não poder casar e ter filhos.
Quanto é sua instrucção, disse ter frequentado em Alcalá um curso de Artes, com o qual
não foi por deante, mas, que sabe um pouco de latim e cantar. (Nota: Já tem proctsso.)
No dia 1 5 de março de aS8o apresentou-se Joio Gonçalves, natural do mosteiro de
Aacede, que tinha sido feito prisioneiro pelos turcos, andou 20 annos como mouro, ten-
do-se casado em Argel. (Nota: Ti proce1so.)
No dia 2 de· noyembro de t58o apresentou-se LoJ?O Luiz de Lião, christio novo,
filho de Antonio Fernandes, de Serpa, e de Filippa Lutz, christios novos, que fugiram
para ltalia, estando primeiro em Flandres, depots cm Lião de França e Ferrara. Ahi, a
pedido dos judeus portuguezes, Antonio Fernandes circumcidou-se, e lembra-se o coo-
mente d'elle ir 4 synagoga, ler eJtefalim na te1ta e no braço tlgutrdo que são hi1a1 cor-
~as de couro em gue tem escrito os preceitos da ley; de o ver vestido na synagoga com
lliúJ ,e1tidura branca gue o1 judeu1 costu1não com cadilhos por baixo a que chamão
c~did. E a1si ouvia ler oração1 (1ic) judaicas em linpoagem castelhana. De Ferrara foi
Antonio F eruandes para Turim e então ficou o contitente com a mie, e fez-se judeu, e
foi circumcidado em casa de um judeu portuguez que cé se chamava Gabriel Henriques
e em Ferrara José Serralvo, ourives. Cumpriu s lei moysaica até que o advertiram do
seu erro e por isso se apresentou ao inquisidor de Ferrara, com que os judeus se zan-
garam tanto que lhe queriam bater, tendo de fugir para Turim. (Nota: Ti proceuo.)
No dia 29 de novembro de a~8o apresentou-se um napolitano, João Antonio, para
se confessar como tendo seguido a religião mahomet~&na, emquanto esteve captivo dos
turcos. (Nota: Tem proce11o.)
No dia 2 de dezembro de 158o apresentou-se Simão Coelho, natural de Villa Franca
e disse que, indo na armada de Pedro Melendes, para as lndias, de Castella, foi captivo
dos mouros, cuja religiio seguiu. (Nota: Tem proctsso findo.)
No dia 6 de dezembro de a58o apresentou-se Antonio de Pina, natura) de Evora,
filho de Antonio Fernandes e de Guiomar Dias de Pina, o qual foi ca_ptivo entre Gibral·
tare Ceuta dos mouros, cuja religião seguiu ap(larentemente. (Nota: Tem proce1u findo.)
No dia 7 de dezembro de 1S8o apresentou-se Domingos Velho, filho de Fernio Ve-
lho de Araujo e de sua mulher Fihppa d' Anujo, moradores na cicJ.de do Prado, que
esteve captivo 16 annos, seguindo algum tempo a religião mahometana. {Nota: Ti pro-
caso).
No dia 1o de janeiro de t58r apresentou -se Martim de Rus, natural de perto ele
Cordova, que foi captivo dos mouros no estreito de Gibraltar que o entregaram a Mu-
ley-Maluco a quem serviu de mestre-salla até 4 sua morte e depois a seu irmão Muley-
Hamet. Praticou a religião mahometana..t mas só exteriormente, como confessou ao
P.e Fr. lgnacio, que resgata christãos; a uiogo Marim e Pedro VaneRas, embaixaclorea
d'el· rei Philippe : e a Diogo de Moura, fidalgo portuguez 14 captivo. Achou-se na bata-
lha d' Alcacer-Kibir, mas não pelejou, e fez todo o bem que poude aos captivos, como
prova por uma certidão de D. Duarte de Menezes. (Nota: Tem processo).
No dia 7 de março compareceu Antonio da Costa e denunciou o clerigo Dominp
da Costa, como sodomita. (Nota : Este Antonio da Costa se veo accusar por conse/110 do
P.• Jorge Sarrão ao fual tinha dado conta destt caso como em confisam, e o mesmo P.•
o tinha dito ao JU.•o Sór Inquisidor Geral t desptJis de tomada esta denuraciaçam a pr•
tiquei com o dito sór t com minha enf_ormaçam lhe pareçeo que por ora se não proçe-.
detse contra o denunciado Domingos Cotlho ate acreçer mais prova t pera constar 4ilo
fir aqui esta ltmbrança e asinei. Diogo de So11sa).
No dia 2S de abril apresentou -se João Canaca, do Languedoc, que anda nas pi&
d'El-Rei e foi captivo dos mouros. (Nota: Tem proceSIO findo).
No dia 3o de maio apresentou-se Braz Pardal, escrivão do almoxarifado do regueaso
de Oeiras, para dizer que traz demanda contra Matheus Jorge, por palavras injuriosas
que lhe diragiu, e, como o cura lhe pedisse para lhe perdoar, Braz Pardal blasphemou.
No dia a de setembro de tS81 apresentou-se um mancebo de Montemór, chamado
Antonio, filho de Christovão Affonso e Isabel Annes, que foi captivo em Alcacer-Kibir,
por ser criado de João Ribeiro, criado (sic) de Manoel Quaresma, seguindo a relisiio
mahometana. (Nota: Ttnl procesto findo).
No dia 5 de setembro apresentou-se José de Goes, morador 4 Calçada do Con/('rO,
guarda da alfande@a, e confessou que, estando em casa de Balthazar Rodrigues, disse uma
heresia, a proposno da castidade.
No dia 27 de setembro de t58r apresentou-se Christovão Pousado, christio novo,
mercador na Praça da Boa Vista, para confessar que tinha seguido os preceitos judaicos.
(Nota: Ti processo findo).
No dia 28 apresentou-se Beatriz Rodrigues, mulher do antecedente, para se confes·
sar como judaisante. (~ota: TI processo findo).
No mesmo dia apresentou-se Leonor Gomes, christã no,•a, viuva, moradora na rua
da Cutelaria, que se accusou como judaisante. (Nota: Té processo findo).
No dia 12 de outubro a~resentou-se Leonor Antunes, christã nova, mulher de Mi-
guel Vaz Soares, para se confessar como judaisante. (Nota: Tem processo findo).
No dia t6 de outubro apresentou-se Francisco Teixeira, mercador, morador aa rua
da Cutelaria, por ter praticado actos de judeu. (Nota: Tem proceso findo).
No dia 3o de outubro compareceu Nicoláu Michael, grego, que se veiu accusar por
ter seguido a religião mahometana. Estava em casa do grego Nicoláu Pedro Colha.
No dia t3 de novembro compareceu João Caracol, castelhano, que foi aprisionado
pelos turcos cuja religaão, durante algum tempo, seguiu na apparencia e por isso se veiu
confessar. (Nota: Tem proçeso findo).
No dia 14 veiu confessar-se Joio Franca, de Tolosa, por lhe ter acontecido o
mesmo que ao confeasante anterior. (Nota: Tma propto firtdo).
No dia 29 apresentou-se Pedro Guterres de Buistrom, lombardo, que foi captivo na
batalha d'Alcacer-Kibir e se~u a religião mahometana apparentemente até sei-resga-
tado pelo P.• Marim. (Nota: Tem proçeso findo). ·
No dia 11 de dezembro compareceu o mercador inglez, Rugel Perca, que foi recon-
ciUado no Santo Officio, e disse ter encontrado juncto do· mosteiro de S. Domingos a
Felippe Hali com quem veiu ' inquisição para lhe servir de interprete. Felippe Hali era
boaibardeiro e tinha seguido o protestantismo em Londres e ainda c' em Portugal.
(Nota: Tem proçe1o).
No dia 12 eompareceu Guilherme Dolo, bretio, para se confessar por ter seguido a
re ligi5o protestante desde que, com seu pae, Estevão Dolo, foi para Br1stol; agora é ma-
rinheiro e vae e vem á Terra Nova. Veio a conselho do C"ondesta\·el Mestre Miguel e de
combinaçio com Felipe Hali. (Nota: Tem proçe1o).
No-diu s3 de janeiro de 1S82 compareceu Gonçalo Antunes, sapateiro, morador na
rua das Esteiras, que se veiu confessar por ter proferido heresias.
No dia 1S de março apresentou-se Antonio Cuchero, francez, e disse que D. Nuno
Manoel, embaixador que foi em França o trouxe para Portugal e levou ' batalha d' Al-
cacer·Kibir, onde ficou prisioneiro, seguindo depois apparente~ente a religiio maho·
me tau a.
No dia 2 de abril compareceu Garcia Rodrigues, christio novo, tosador, natural de
Castello de Vide, filho de Affonso de Caceres tambem tosa dor e Violante Lopes, pre.
sos na inquisição de Evora, a quem a c cusou como judaisantes, confessando-se elle
IQesmo como tal. (Nota: Tem proçe1o).
No dia 4 de abril compareceu Manoel Rodrigues Nissa, official de barbeiro, cujos
paes eram de Torres Novas, que se veiu confessar por irreflectidamente ter dito que
era falso ser Christo mais honrado do que elle. ·
No dia S apresentou· se o christão novo Francisco Fernandes para dizer que, estando
a fallar com o P.e Fernão d' Araujo, capellão da misericordia, lhe perguntou se acompa-
nhara os individuas relaxados no auto que se tinha fei[o n.1 domin~o passado, acres-
centando que esses individuas eram condemnados por testeanunhos falsos.
No dia 28 de maio compareceu um individuo chamado Gaspar, que morava com
Nicol'o de Frias, natural de Pedras Talhadas, acima de Agueda, e que ficou captivo
~r occasiio da batalha d'Alcacer-Kibir, sendo resgastado pelos padres da Trindade e
C!urante o captiveiro cumpriu os preceitos do mahometismo.
No dia 6 de junho apresentou-se Manoel Ferreira e declarou que, estando em
Alhandra, a fallar com uma mulher lhe dissera que urnas certas eram tão virtuosas
como Nossa Senhora. (Nota: Tem proçeJo findo.)
- No dia 7 de julho com~areceu Diniz Philippe, filho de Fernio Alvares almoxarife
4a ~osiç8o dos vinhos em Lisboa para dizer que, estando a jogar em casa de D. Luiz
de C"ordova a Santo Espirito da Pedreira com elle altercara, dizendo, entre outras
cousas, que Deus tambem dissera uma cousa por outra.
No dia 6 de agosto compareceu Gonçalo Dias, alcaide das lezirias da Malveira, mo-
,.._dor em ViDa França, para se ccnfessar por ter dito que uma certa pessoa fallava
tanto verdade como os sanctos do Paraiso.
No dia 17 de septernbro compareceu o christio novo Diogo Lopes, morador 4s fan-
ps da Farinha, que se confessou, por ter duvidado da vit:Sindade de Nossa Senhora,
o que declarou a seu primo Jorge Rodrigues, biscoiteiro, filho de Lançarote Alvares e
de lsabel Gomes, confessando-se ao jesulta Antonio Vüu, por cujo conselho veio i In-
qaisiçlo.
A IBQUJIIÇlO •• POB'1'17QAL • BO B••m, 2 3
210

No dia 23 de outubro apresentou-se Gaspar Gonçalves, christlo novo,- cuja mie,


Anna Gomes, de Portalegre, foi reconciliada na io~uisição de Evora, e veio confeaar-
se por ter sido circumcidado em ltalia, seguindo durante algum tempo a religilo moy-
saica.
No dia 1 de dezembro compareceu o P.• Luiz de Raz, beneficiado em S. Cbristovlo,
que declarou que, tendo o prior de S. Christovão alcançado licença da camara para mm-
dar fazer no adro uma casa para serviço religioso, e oppondo-se os d~ Stnúle, dizendo que
esravam ali enterradas muitas pessoas que morreram de peste, Luiz de Ru declarou
que a dita casa se avia de farer muito ma fUe lhe pef e elliJUe ~f a d«Js.
No dia 9 de dezembro apresentou-se Thomaz, genovez, para declarar que os tar-
cos o captivaram, seguindo a sua religião durante o captiveiro. Foi captivo no ~
ve e vendido em Lisboa a um fidalgo, Jorge Barreto, commendador de Panoias, tendo
sido resgatado por um m'luro, por cem cruzado~, a quem depois fugio. (Nota: Te•pro-
ceso despachado).
No dia 9 de fevereiro de 1583 apresentou-se Pedro Gonçalves, natural de Guima-
rães e morador no Lavra~io, para se accusar por ter dito, irado, que má Jliagi ftlf« file•
me fer chri1tão.
No dia 21 de março compareceu Francisco d'Andrade, natural do termo de Coim-
bra, que se accusou como bigamo.
No dia 4 de abril apresentou-se Mecia Jorge, natural de Cintra, para se confessar
por ter dito: para pe será o jubilftl,
No dia 14 de abril compareceu Francisco Pires, de Espozende, que foi captivo em
Africa, quando O. Sebastiio morreu em Alcacer-Kibir, praticando então actos da reli-
gião mahometana. Foi preso pela lnquisiçio de Sevilha.
No mesmo dia apresentou-se Diogo Rodrigues, natural de perto de Beja, official ele
alfaiate, aposentado em casa de Domingos Nogueira, calceteiro, ' Pechilaria, para coo·
fessar ter dito certas palavras contra a castidade a Estevão Rodrigues, morador na rua
dos Fomos e a Domingos Leitio, morador na calçada do Carmo.
No dia 9 de maio Joanna Esquerda, castelhana, moradora no Pelourinho velbo, veio-
se accusar .ror ter jurado por uma imagem de Christo que estava pegada na parede,
dizendo: nao crerey natuelle atee que saiba a Jlerdade.
No dia 1 S de julho compareceu Francisco Dias, ferreiro de Oeiras, que se veio ac-
cusar por ter dito que nio havia purgatorio.
No dia 27 de julho apresentou-se lgnez Alvares, moradora na rua dos Calafates,
mulher de Martim da Cunha, ausente na India, para se confessar por ter dito que ella
era tio honrada como a Virgem Nossa Senhora. ·
No dia 27 de agosto compareceu Joio Rebello, alfaiate, morador na Betesga, ~
se confessar por ter dito, aproposito d'um negro que o tinha roubado e a quem elle
estava a bater: pe dana nelle1 (uns homens que o queriam impedir de bater no nepo)
e en dtol.
No dia 3o de aaosto compareceu Guillaelmo, inglez, a quem servia de interprete DID
padre da C.ta de Jesus, Roberto, sacerdote irlandez, cuja confissio nio foi por deaate
por os inquisidores -:ntenderem que precisava o padre interprete de tirar alguas apoa-
tamentos a tal respeito.
No dja 26 de septembro compareceu Pedro Fernandes, natural de Lagos, filho ele
Joio Pedf~J. torneiro1 para dizer que foi captivo dos mouros,__por occasilo do clesutre
d'Alcacer-1\.ibir, capuveiro de que o pretendeu resptar o P.• Fr. Roque, nlo cbeplldo
211
---···-··-·-··----
a combinar com elles o preço, motivo por que foi vendido a um turco de Argel, cuja
religilo seguio durante algum tempo. .
No dia 3o de septembro apresentou-se Paulo d'Aguiar, j_udeu, nascido em França
e criado em Ferrara, filho d'um christão novo natural de Tavira, chamado Salvador
Mendes, e de Florença d' Aguiar, de Lisboa, e declarou o seguinte: Fugi o quando tinha
17 annos e fez-se christão peno de Genova, mas depois, em Fez, apresentou-se como
judeu. Quando foi da derrota de D. Sebastião travou conhecimento com D. Francisco de
Ponugal, conde do Vimioso e com Fr. Vicente da Fonseca que lá estavam captivos e
que llie deram bons conselhos e por este motivo veio ter a Sevilha em cuja in~uisição
foi julgado, tendo apresentado a certidão d'isso na inquisição. Entrando em Portugal
dirigiu se a Tavira para ver a sua irmi e ahi foi interrogado por varios christãos novos
que queriam saber se em Ferrara ainda esperavam pelo Messias, entre os quaes um
Pedro Rodrigues, que agora tem um estabelecimento em Setubal. Depois esteve em
Vianna, onde uma cnristã nova chamada Felippa Vaz lhe fez identicas perguntas, assim
como depois um homem de Torres Novas.
No dia 3 do mez de outubro foi ractificada a testemunha anterior.
No dia a3 de outubro compareceu Simio Fernandes, o captivo d'alcunha, mora-
dor 4s fangas da Farinha, que se accusou por ter dito que a lei dos cbristãos novos
era melhor que a dos christãos velhos. Disse-o porque o seu sobrinho Luiz Mendes
impedira uma sua cunhada de lhe deixar cem mil reis, em casa de seu sobrinho Fran-
cisco Fernandes, mercador da rua Nova, na presença de Duarte d'Abreu, que mora juncto
de Martim de Castro.
No dia 8 de novembro compareceu Fernando de Medina, castelhano, morador a
S. Francisco, nas calas do Jecr.,ario de Sua Altera, que se accusou por ter vendido
mosquetes a mouros.
No dia 24 de janeiro de •584 compareceu Francisco Rodrigues, de Tanger, que ser·
vio com D. Francisco d' Almeida, para se confessar por se ter feito mouro. (Nota: Tem
proce110 findo). .
No dia 26 de março compareceu Simlo Gonçalves, christio novo, mercador em
C.stello Branco, filho de Helena Gonçalves, que está presa no carcere da inguisição,
que se apresentou a confessar-se por ter segwdo a rehgilo judaica. (Nota: Tem pro
eeuo finâo).
No dia 27 de março compareceu Isabel de Lucena, mulher da testemunha anterior,
pan se accusar da mesma falta. (Nota: Tem prop1o findo).
No dia 5 de abril compareceu Jorge Dias, alfaiate, morador ao Poço da Fotea, ca-
sado com Anna Lopes, filha do flamengo Ruy Lopes, porque, tendo mandado metter
um crucifixo numa caaxa de roupa, quando a sacudiam, cahiu na rua.
No dia ao de abril compareceu lgnez de Lucena, christi nova, de Castello Branco.
a quem prenderam cinco tias, de que pretendeu avisar sua mie Anna Lopes, que morava
em Alcams. Os emissarios porém foram presos. (Nota: Tem proçuo firulo).
No dia 11 de mato compareceu Balthazar Freire, natural de Loures\ que tinha ido
!adia em 1568 com D. Luiz d' Athaide, e tendo ido ter a Cochim foi capavo no Malabar
Da áo de Luiz de Mello e de~is resgatado pelos seus amigos. Foi ter a Cananor, onde
se casou, sendo já casado no reino. Por isto se veiu accusar. (Nota: Tem proCG$o).
No dia 25 de maio apresentou-se Fernio Rodrigues Castanho, filho de castelhanos
que Yieram para Evora, quando elle era aliança, para se accusar por bigamo. (Nota: TMI
.I"IP•l·
.
No dia ~ apreseatoa-se Amador Luiz, que foi capdvo por occasilo ela derrota de
212

D. Sebastilo em Africa e que seguiu nesse tempo a religião mabometaoa, de que •


veiu confessar. (Nota: Tem proceso).
No dia 1 1 de junho compareceu Joio Lopes, castelhano, soldado da companhia de-
D. Francisco de Vargas, que se veiu accusar por ter dito que a culpa da luxuna não ...
peccado.
No dia 1S de junho compareceu Francisco de Sá Cabral, natural de Fronteira, q•
' foi captivo no desastre d' Alcacer-Kibir, levado por isso a Mequinez e, como fosse COID-
prado _por um judeu, declarou-se mouro para se livrar dos m4os tratos que elle lhe ia-
fligia. D'isso se veiu confessar, tendo-se j4 confessado ao P.• Antonio Delgado do Colle-.
gio de S. Roque. .
No dia 20 de junho compareceu Francisco Fernandes para se confessar por ter dita
que Jesus era um diabo.
No dia 11 de julho compareceu João Carvalho natural de Marrocos, judeu coa-
vertido e que foi captivo por occasiio da derrota dfel-rei D. Sebasdlo, tomando-te de-
pois a fazer judeu.
No dia aS de fevereiro de a58~ apresentou-se um mancebo chamado Andr' qu,-
sendo captivo dos turcos, seguiu a sua religião. ·
No dia 26 de março compareceu lnnocencio Braz, morador a S. Crispim, {*'&
se confessar de que, na quarta feira anterior, dia 20, em que foi enterrado o arcebgpe
inquisidor geral, estando na botica de Sebastião Madeira, defronte da Sé, a fallar d'elle
com o Mestre de Grammatica da Sé e um cirurgião que encareciam a castidade do In-
quisidor elle disse que ser casto era positivo e na di,arao.
'

No dia 11 de abril compareceu Joio de Aranda de Contreiras, filho de Pedro de


Coatreiras e de D. Brites de Aranda, naturaes de Granada, e disse que, tendo-o o
marquez de Santa Cruz, D. Alvaro de Baçam, mandado, como seu pagem, na gal' real
para que ahi o assentassem, e residindo em casa de seu tio, Martim de Aranda, au-
ditor geral da gente de guerra, lhe deu uma mulher 4 reaes para guarnecer um a8111d
dei de prata, em casa de um ourives. Elle porém foi á Rale§ e perdeu-os ao jogo e pe-
diu-os emprestados a um turco que remava nas galés. Por causa d'isso começou COID-
mettendo com este o peccado de sodomia, assim como com algumas outras pes~
(Nota: Tem processo find•).
No ultimo de abril compareceu Fernão Alvares, christio velho da Arrifana, termo
de Cintra, que se veiu confessar por ter duvidado do poder do Papa para absolver certa
culpa.
No dia 6 de maio apresentou-se Manoel Freire, moço da camara d'El-Rei, um doe
quarenta esctivães das carnes em Lisboa, para se accusar por ter dito, a proposito doa
individuas embriagados que vira na romaria de Santo Adrião : Samto Adrzarn n~ po-
dia de leixar de ser algum bebado pois laa avia 1anto1 bebQd01. Isto ouviu Pedro Fer-
nandes Mascarenhas, rendeiro das carnes, Antonio Mendes Valente, almoxarife do aDDO
passado e dois frades de S. Francisco.
No dia 8 de novembro compareceu Balthasar da Costa, christio novo de ~ annos
de edade, filho de Belchior da Costa e de Guiomar Francisca, moradores oo Poço. ela
Fotea, que se veiu accusar porque, tendo 14 annos, seu pae o mandou para Anven apna •
der latim, encarregado a seu primo Vicente da Costa e ahi Diogo Rodrigues e Fraac:il-
co Rodrigues Villa Real convenceram-no a seguir a reli~ão judaica, praticando endo
os seus jejuns. As pessoas que pela sua conversão o felicitavam foram : Francisco VQ
Villa Real, irmlo de Diogo Vaz; sua mulher Beatriz Diu, prima co-irmi do coafes-
sante, filha d'um seu tio patemo; Pedro Fernandes, christlo novo do Porto; Calharia.
Dias, mulher do referido Viceate da Costa ; a mulher de Alonso Peres, irmi da dita
Beatriz Dias ; Balthazar Dias, irmlo de Catharina Dias ; Antorlio Diu, Dalaiel Diu e AD-
I

I
lf~

t.-o VMt todos ... ir.S1a; DJoao' Oom•; ~rJtoariaee.·b...... ~ POtb»flabel


!~e Pa. ~ ele -Beldlawlfia·;. Dllan• F•rmlldes, fá~, DHek!o età AD1'en,
lriDio de Manoel Fernandes de Leio. Junctavam·letodol dG·d• do Qwpar, e·a'ama
casa fechada, rezavam orações em hebraico e ahi vinham. de lta~a dois JUdeus._ rabinos.
~ t.Jiáyaêt ror~uezi e tiam pO.. um Jiyro em hebraico, cantando todos. Tembem
~.,. •r•
~ Laerecia "-'n e Gracia·Naues, ~moravam as tres em An-
~- ollde G cte;oénte•·te:-deiftélou 4 mnoS, jejuavam jejuns hebn.icos; eram inDis do
Ji!:r•ic:o Alvaro Nunes, tambem judeu. Tambem Ruy Soeiro dizia ebi Anvers ser me•;
!' a _reliplo judai~•· .Tinb• ~ra si o .coofessan~~ _que todos oa c~ris~os aovos por-
~ ~sldeates em AD•en ~m qjudaÍici)O,.e'lcepto a. famllaa Ximeoes, a fa.l-
Ha...Rodrtguei e a t.mlHa ~ de um Lula Heoriques.. ~waciou mais Henrique Nunes,
sobrinho de Simlo Soeiro, natural de Santarem, tuja mie está em Italia; Fnncisco
•~{~e ~m Apy~ .• ~-va Fruacilco ~euoa), fiüao d'am procurador; Fran-
..'Dia• de Cuopo.~r que eado estava.fu em Aaven, couas de.D•. AD-
o:·
prior que foi do Crato ; J • Tpvar ·do = e ; Goaçalo E:'IaUo, filho de Joio
..,f::•lt.,....-.,.; Joio.,.._
Piato, do AJ_fane, parece-lhe que de Villa Nova, gue tinha um officio na alfandega e
qae dizia ter lido frade ; e finalmente Joio Rodrigues.
T- • qáe • te~ denanciou c:oaheceb nos quatro annos que ellteYe em AD·
""' • 1J79. I~. : JulpMo).
· No~ 2S de janeiro 'de.J58ô.apresentou-ae Marcos Lopes, christio novo, de.66a~­
aos de edade, natunl das Lapas, concelho de Torres Novas, para se accusar ~or ter
~ III!M bllllpheaaia ao 18fJU' de Aatoalo de Britcf,_lla ribeira de Torre~ Novas.
Ne• • .U~J. .
· lfo clia 7 ·de marçq ~parecep Leoaor Gonçalves, cbriall aova, natural de Campo


llatõr, que morou em C8scaes e veiu d'ahi, quaado ~ eatraram os cútelhaaos, ~e se
accusou como judaisante, assim como o marido. Denunciou tambem sua tia ftlli~pa
fie Cam~ llllior ; u &lhas d'eaia, babel Vu, Guio111ar Dias, e Catharina

= lllllber &k Beato Rodri&u• pbysico ; e aillda oatru cbristls novas de CaalpO
(N••: ~jtll81••4•). · .
No dia 8 de março apresento~-se Guiomar Pinto, irml d·a antecedente, cujo depoi-
•mPIO c•lr--.; cenfella.-..ie COiilo jadUiaate. (Nota: Foijulpatla).
t I

~ .~iia•r.... dia·aprlltato•-se Joio Vu, cia&ural de ~ chrilth .,..., mondor 6


~ da Ribeira, marido de Leonor GG_D9alves, çajo d8poim•t•. oaoiiiiiOU, IICCafta-
Cio-se aaim como judaisante. _(Nota: JájulgwuloJ. ..
·*
• · • 1 • .• i• . • a • ...

dia • i• de ~ a'pnsêlllóu·te Iria L:l:es, ele Campo Maior, vi uva ele Fernlo
d'. ., . ~ q-. ~ oe depOimentos mt ores. (Nota : Foi /ulpado). ·
· No4il ttJt . .lbrtl- apNitntou·• o P.• FranciteG'd'Aseftdo, ct1ra do Espirito Sancto
1 Yiprio da vara na villa de Atboapia; qáe .., ~u coafenar pbt' ter proferido uma
~--- . r

r .• . . . . . . . •9 .,....tou-se llenrique de Torres, ebrisdo novo da Arruda, que se ac-


casou por ter proferido bluphemias.

;·~- 6 1g ~ .dl.~fo~ .P~~du- se··~Jolba' L·O}M~ m~lhêr _de. Gonçalo Lopes, bom·
baY6ei'tY, -~m -se--acc:usar do q'ne tl•a passado com 1$8bel Rodragues,_ do Fundlo, que
aaon est' presa e que lhe· COillOU ·uma hlstorta de. Christó ser· filho <te uma judia
que nlo era virgem. (Nota : Forão já pre~t~s, t forão ao auto tU diUII ls11Hi1 Rodripes).
.... . \... -" ,. ,. ..

.·~' ... lo 4f . -..ão.f9~chéma4o DiÕS~ Ribeiro, sapMeiro. ·morador a S. Vicente .de


F~_cp;. lf~Mk·é.JJa~W~J das ~~~iraa, ~e &e a~uso~ por ,., dito que a igreja..,
1•1e erf~"'""'~ pgr•..,tlff•, M~ IWfl_.lf f118 a. oulral CIIJtll•

.__ W8 6'_àJf .4é iúQ.o· ··t~ô~q-aé' Isabel JorP, 4lo ~ada, ça~dá com DOminsoa
~ftfifll(·~tirrtllierrd ·que és,. "di 1tidta, ·para se conteiíir p'ôr te•r dito que uma ~
pessoa era tio boa como Nosa Senhora. ··
A DQ1JIIlç10 . . POMV9AJ. B .o B••m, J4
Mo .4ia a5 ·~·~~~~··~~ Leur.... fl!llo • Si mia ~, ••, . .._.
~ iDian~a D. lüria, Cllldo elo oum• Demila 'liM, "de . - diNe .,.. 6'..,•• 11 •
v•clade como o n&n~elbo ct. S. Joio.
NoSdi·a 9 dedjulhpo •pretentoll· ~=~ Francisco
de S . a1vaaor e ereara, tenDo WIJ ~
Pe.-.., __... ,-.1511••
da
moreclor ao cblo • D. ' - : ...
,e coafeuou _po!" ter ~to que a ordem dos caudoa era IMÍI páita 4lM a ~~-
1oa, (Nota : Vaa·••>·
No di• 9 de setembro apresentou-se Joio de Araada Coatreru..
~tll?
CODIJ"a Baria Tarquo e Mamy Turqao foi racdficado. Foram pnHDUI O. P.• Pero S.
mies e ~tonio de Macedo ~ Comp8nbil de Jes01. . ·
,

No dia 17 apreseatou·• Maaoel de Goes. aatanl de Taftra, t'lbo ele O.Jf?f ..


Goa, para cOJúeuar que, estando em Ceuc. defP'IIChldo, foi apti.o ..,. .-aut61 . . e
evaram a Fez ODeie praticou IClOI da reliJilo IIITICeDL r
.'
No dia de oove~ro apr...atou-.e l..uia AJ,...., ..ar8Cior em S.l:aiMI.- n:alwll
31
do pescad~ da ribeira, para c~fe-r ter dito a umu pes•••
que, . . . . . • ~ IJr
de Sam Gaam de Setubal, bnttam no peito quando lllQJtravam a cru: Am Jle ltrflll
a 1anta madre Igreja nao nos obriga a bater n01 peito~ 1al ptlfiÕ ...., • .SJ Ft
~~w. . .
No dia 2 ~e jaaeiro de •58? apresentou-H Maria. de 14 P!l•
rua da Conceaç~C?,
•5••a..•••••••
filha de Domingos Lopes, defunto, e de Elvira O.. llt • • • • • •
port~ ~o Mar, cuJa tenda era em frente da Miseric~rdia, para coofeuar ~ 4aYid•n
da VlfgJD~de. de Nossa Senhora, o que. ~ percebido por um• PeHpp. da ~ .,_
lber do lm'eiro Joio de Ocenha, sua Yllinhl.

mulher de D. Fernando de Faro, que se veiu accusar por ter :.ledo·


Yivo o primeiro marido que fôra para as Antilhas e que ella suppunba
=
No dia 19 de janeiro apresentou·• Maria de Castro, viuva ela Aateaie ltaJ I
~ godomu-illleiro, moradora na freguaia de Saat'ADDa, ama que fDi • a.
-.•·d•..., ·
morto.
.
. -·-
No dia 12 da fevereiro apreMDtOII-18 Leonor clu caa-. ..... "E ncla•defllll'
denas, biscainho, jé defunto, livreiro, cuja viuva, Elvira aa Cidade, CAIOU C0111
livreiro, Qiop llaclaado, morador oa Rua Nowa, e weia·M •ccaa• par ter-
de N011a SeDbora eatar DO cio em corpo e alma. ( 1)
:lld••
._.,.

Em 23 de outubro de 1 544, nos Estaos, com~areceu Jaques Deyck, ftameafl't . . .


ral de Aoven, a quem aervio de iaterprete o c~nao Joio ele Fop~t~, • .-a
tet11nll11•
por ter dito, quaodo viaha de Anven. que os saotoa alo tiDbala podlr p . .
lagres, as almas dos finados não aproveitavam o bem ~ue lhes fui•m e o ,.._ alo
••·lli-
doba ~ para perdoar oa pec:caCloL Na úo oade elle veio, velo ••'~•• . . al-
ceteiro francea, João Gaac:io, que o reprehendeu. (a)
No dia 11 de dezembro compareceu o christão no\'o João Malho, aatunl ele .........
que se confessou por causa de certas palawu que - . . . , a PfopGIÜ8 ela S 1 •LI' •
Trindade. . .· .
No dia 20 de fevereiro de aS4S com~areceu Isabel Fernanda, mqlhw ct.
nandes Penalva, do Torcifal, termo de Torres Vedras, po~ue, oama clltplra Cftll'lw-
Jl.._,..
ge Thomé, cavalleiro, disse que era tio boa como Noua 5eobora. ·

t•) Termo de encerramento : Este livro ~stá numerado 1 c&atlo to4o • lftl41q'IIr. 1
•.r
,..,..cr folluzs o filai 11 c8tou • 1111111wou todo por M.~ Cordftro ,.,Y'! • - . ....
nlllllo IM~o 11Jr m~dor I liz.• 11M 1e_r1 tliM do •es 4• ü ~ I ~ ••
1 doutra lettra: E foi auiflao cr01 u, IHjtnt.ro 4e 1S,1: le S.. 4flllL

.... (2) ~iro da Reconciliaf&l de 1544 a 1SSg. O seu extracto deYJa 1• . _ _ .


cado aates do mterio~ para sepirm01 a ordem dlroDolosica. Nlo • ~ , . . .
. ...

-
-
...... ···-· ···--·------ · - ···-
Ne tlia 7 .de ~ nio-te coafeuar a chriatl DOYa Beatriz da Costa, moradora na
rua do arco do Rocio, por praticas judaicas. Accusou pelo mesmo motivo Theresa Fer-
aaades, babel Fraacisca, sua madrasta, Anna Rodrigues e Isallel Rodrigues, suas irmis,
• Duarte Roclripea, trattmte, sua mulher e filhos. Abjurou no dia nove.
Em 17 de março compareceu o sapateiro Francisco Gonçalves, do Pinheiro da Cha·
IDIISCa, para se confessar por ter acreditado que tres vezes entrava a alma no corpo :
.... quaado n•cia, o~tra quando ae casava e outra quando se morria.
No dia ao· ele abril comp•eceu Maria Femaocles, christi nova d'Arruda, que viera
ele Cutella haven vinte e cinco annos, e que se accusou por ter duvidado da paixio
ele Christo.
No clll s3 de ·1118io apn•atoa-ae Elvira Fernandes, chrisd nova, mulher de Ma-
aael Femaades, alfU.ce ele S.tubal, para diur q_ue certa mulher lhe dissera ser ella
tUM de eles. ao que respondeu viver em melhor let que a d'ella. . ·
• . _ 17 de apre11atou-se Carbarinà ~a, mulher de Fraocisco de C.bfa,
FBDaiO
•· rbaG ...., catelbau, utan1 de Burgos. •oradora a S. La1aro, a qual a prop08lto
I 111110 da f,, disse . . ,.,.,.,. . ,_. ..-.. ·
. No ~~·te~embro compareceu a india foaTa Anna Rodripes, moradora ú Fan•
... ela Fa · pan se accusar por ter dito que Christo nlo morrwa.
. Mo dia I ele outubro ~receu .Pedro le BouJsere, ourives d'ouro trances, mora-
' - • frepea.ia de S. Nicofau, para H confessar por ter acreditado que uma criadça
_. ._ 7 aaoo- . . baptisada MI 'WIIIJ • 9ir.illl IIIJICIOj por ter duvidado da
t-a•
8o
depois 110
elo ~rptorio, o que ouvio a um m~or fnmc;ea NtcoWo Remder, mora•
chio de b.lienrique; por nlo acreditar nas imagens, opinião gue tambem tiaba
Fabilo Horsio, francez que vive ao chio de D. Henrique, possuidor de livros hereticos.
Ti slt1111 Jola Yid1q~ peateeiro fraaca, IDOndor ao arco dos Pregos, lhe disse

,.. c1oa
E'!:..-:.:
. . . o 1121110 ~ rtão er11 , . . fW IUIIta •1pecifJ ~a~te~a, eo que o confessante rea-
JIA«aa m..n. da paido de Jesus; am allemlo Oãilherme, morador 1111
"-·lhe cara• de vacca aabcacla a um sabbado •· aos seus escrupa-
..., r:a1poadea ttU• o _qae eDtra\'a pela bocca alo fuia mal i aliDL Dec:laroo ftDakDell-
te ••r IDI1 co• J'llbilo Honlo.
No dia 3o de junho de 1 546 apraentou-se Pedro Fernandes, natural do CartaxOt
orplho • -•do
do cebo de Gué, o qoal HIJaio a reliJdio mahometana na apparen-
a\li, •• ... flllaio. E .W loi em romaria a SaDt'laBOt N. 'Seohon de OuadaluJM!, N. Se-
ahõra da Lua e N. Seobora de llerceaaL
No dia 27 de •~Mt• de.J541 comparrecea a vencledeira de peixe,.llabel Mena, mo-
ra•a:n • Caa.quef..-, defroate de Margarida Alvares, a Pescadeira, que se accu10u por
ter illlado meoos nepeito~a~HDte de Nosu Senhoni.
No dia 29 de agosto compareceu o doutôr Femlo Lopes da Paz, christlo novo,
••liDo, ~ue se accaou ~ iDeio Yisitar Nicol•o Rodripea, christlo novo, morador
• .... Hs 11ect.. o aclaOa D11111ta eafermo e, a sua iastaac1a, escreveu-lhe o tesmmeoto
. qae ella. determiaaYa qae queria Hr sepultado ou no mosteiro de N. SeDhora da
. o

GNçã, 110 dm•stro, juntO da s~ultura de aea filho, ou juneto da cova de Pedro AI vare~,
••• cova acwa, o que o coafeuaate eecreYeu sem peDsar que era erro. O testa meato
foi approvado pelo tabellilo Manuel Affonso, e só depois YOftou u 1Dioa dt) confeuan·
: J : e entlo attentou no que tinha escripto e tão irado ficou que o rasgou. Declarou
eate ter mais de cincoenta UlftOI de edaai e· ser casado com uma filha de Tris·
_.. Alftlft Naaias, que d'este reino 10 a~oa. o

No dia 26 de outubro compareceo Garcia Jiomem, Pf8IO da Guiú, filho do rei de


11 atlo- de J•
Beaeguiche : ( 1 ) o qual se fizera c h ris tio na ilha de Sant'fago, e vindo para Portugal num
Vu, de La801, o lançaram no reino de Fez, oade 01 mouros o captivaram

( t) RliDo da <JuiM portupaa.


-----·······----.....·---
aoa quaes fugio e D. Francisco o mandou para Liab OL Eraqaaato foi apli.o ._.-ou-
ros seguio a sua religiio. · .
No dia 5 de dezembro apreaentou-se Joio Alvares, das Asturias,que a c:apcivoem
Safim, tornando-se entio mouro. -
No dia 17 de outubro de 1S48 apresentou-se Isabel Roclripel, morado.-,a juncto elo
Tronco, que costuma ir amortalhar os cadaveres que lhe pe~m e ~iram lhe ~ ú
amortalhar um filho Ja Morena, christã nova, que foi ama de Duarte Tristlo, trabalho
em qu~ ~ajudou Catharina Reinei. E quizeram que el1a o amortalb11e oocao COICIIIDam
os cnnstaos novos.
No dia 27 de março de 1S49 apresentou-se Roque Esta~avalleiro da ca• elo
At