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LIÇÃO 4

POSSESSÃO DEMONÍACA E A AUTORIDADE DO NOME DE JESUS

Dc. Edson Amorim

INTRODUÇÃO

O grande apologista do século XX, o professor e escritor C.S Lewis (1898 –


1963) escreveu no prefácio do seu aclamado livro “Cartas de um diabo a seu aprendiz”
a seguinte sentença:

“Há dois erros semelhantes, mas opostos


que os seres humanos podem cometer quanto aos
demônios. Um é não acreditar em sua existência.
O outro é acreditar que eles existem e sentir um
interesse excessivo e pouco saudável por eles. Os
próprios demônios ficam igualmente satisfeitos
com ambos os erros, e saúdam o materialista e o
mago com a mesma alegria.”1

Tal advertência, conforme observa Arnold, se dá por conta da era de ceticismo


em que vivemos. O autor declara;

“Muitos acadêmicos modernos consideram


a crença em demônios como uma perspectiva
primitiva, que inclui duendes, dragões e um mundo
plano. Eles argumentam que o advento da ciência
moderna, particularmente os progressos na
compreensão de química do corpo, psicologia e
neurologia, capacita um melhor entendimento dos
fenômenos que os antigos atribuíam à obra dos
demônios. O ceticismo sobre a existência de anjos
ou demônios conflita com o testemunho direto e
explicito das escrituras.”2

1
LEWIS, C.S. Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2009.p.IX
2
ARNOLD, Clinton E. Ainda Podemos crer em Demônios Hoje em Dia? In: Bíblia de Estudo Defesa da Fé:
Questões reais, respostas precisas, fé solidificada. Rio de Janeiro: CPAD,2010. p. 1552
O Novo Testamento revela não somente a existência de seres espirituais, mas,
também, sua agência. Na revelação divina podemos encontrar tanto as ações dos “anjos
bons” como ministradores enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação
(Hb 1.14), como a ação dos “anjos caídos” como opressores e agentes contrários à
humanidade em especial ao povo de Deus (Ef 6.12), como perturbadores da obra de
Deus (1 Ts 2.18), como opositores do evangelho (Mt 13.19) e tentadores dos santos (1
Ts 3.5).

Dentro desta perspectiva o Novo Testamento demonstra não somente a


possibilidade, mas a realidade da possessão maligna. Isso por si só seria um quadro
devastador se não nos fosse, também, apresentada a realidade do poderio de Cristo
tanto sobre a natureza como também sobre os demônios.

A Bíblia nos adverte a não ignorarmos os ardis de Satanás (2 Co 2.11), isto é,


as suas maquinações, os seus desígnios perversos, os seus propósitos, os seus planos
funestos. Daí a necessidade de redobrarmos a nossa vigilância, todavia devemos ter
em mente que a vitória final já conquistada por nosso Senhor.

OS ANJOS CAÍDOS SUA NATUREZA E ATUAÇÃO

Embora a origem dos demônios ou anjos caídos dentro da estrutura escriturística


seja lacônica, os dados contidos nas Sagradas Letras são suficientes para entendermos
que os anjos foram criados perfeitos e sem pecado, e, como o homem, dotados de livre
escolha. Porém, sob a direção de Satanás, muitos pecaram e foram lançados fora do
céu. (Jo 8.44; 2 Pe 2.4; Jd 6.). Gaby observa que;

“...todos eles perderam a sua santidade


original e se tornaram corruptos em natureza e
conduta (Ef 6.11,12; Ap 12.9). Parte deles foram na
ocasião lançados no inferno, onde estão
acorrentados até o dia do julgamento (2 Pe 2.4). Os
demais permanecem em liberdade e agem em
oposição à obra dos anjos bons (Ap 12.7-9; Dn
10.12,13,20,21;).” 3

3
GABY, Wagner. Angeologia. In: GILBERTO, Antônio (org.). Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 2008. p.471
Os anjos decaídos, como poderes das trevas são os governantes espirituais
deste mundo de trevas e maldade (I Jo 5.19; Ef 2.2,3; 6.12,16; I Pe 5.8,9). E a partir
deste “governo” esses anjos passaram a exercer opressão sobre os homens, nos relatos
Neotestamentários podemos ver a atuação desses entes malignos na vida de algumas
pessoas. Vejamos os relatos abaixo.

MUDEZ Mateus 9.32,33


CEGUEIRA E MUDEZ Mateus 12.22
EPILEPSIA Mateus 17.14-18
CONVUSÕES Marcos 9.20-27
PROBLEMA NA COLUNA Lucas 13.11,16
DOMÍNIO TOTAL Marcos 5.15, Lucas 8.27
INFLUENCIA SOBRE FALA Lucas 4.41
ADIVINHAÇÃO Atos 16.18

Se atentarmos bem aos textos citados podemos vislumbrar, aparentemente, dois


de possessão, a saber, uma parcial e outra total. Tal classificação foi notada e
exemplificada por Pearlman no seu clássico “Conhecendo as doutrinas da Bíblia”. O
caso é citado na Lições Bíblicas desse trimestre.

“o estudioso cita o Dr. Nevius, missionário


na China, em que ali se descreve que os casos de
pessoas possuídas na China são os mesmos
apresentados nas Escrituras. Neles, as pessoas
manifestam uma espécie de dupla consciência. O
Dr. Nevius exemplifica isso com o caso de uma
senhora chinesa que, apesar de estar sob a
influência de um demônio, cujo impulso era fugir da
presença de Cristo, sentiu-se movida por uma
influência oposta, a deixar seu lar e buscar ajuda
de Jesus. Ainda sobre esse aspecto, o Dr. Nevius
chega a seguinte conclusão: “A característica mais
surpreendente desses casos é que o processo dá
evidências de outra personalidade, e a
personalidade normal nessa hora está parcial ou
totalmente dormente.”4 (Grifo Meu)

É notório que em todos os casos citados havia alguma forma de domínio dos
demônios nas pessoas. Todavia não podemos determinar que essas doenças em outros
momentos sejam causadas somente por demônios. Devemos lembrar que com a queda
do homem os males como doenças e a própria morte foram inseridas na história
humana.

DISCERMINENTO DOS ESPÍRITOS

Segundo Menzies e Horton “Problemas têm ocorrido quando pessoas ensinam


que toda enfermidade é causada pelos demônios”5, poderíamos acrescentar a isso que
nem toda perda de consciência ou ações violentas são fruto de possessão demoníaca.
Todo cristão deve ter, em certo grau, a capacidade de “provar os espíritos” (1 Jo 4.1).
Pois, de outra forma, ele se tornará uma vítima de falsas impressões exteriores ou de
impressões destruidoras interiores.6

Em 1 Co 12.10 vemos na lista de dons feita por Paulo o dom de discernimento


dos Espíritos Paulo acreditava que existiam espíritos malignos operando nas igrejas dos
gentios e entre os cristãos gentios (1 Ts 2.2). Em algumas ocasiões, estes espíritos se
manifestavam não só através de falsas profecias, mas também da realização de
milagres (At 19.13-16).7

Porque esse dom se faz necessário para nós hoje? Especificamente por 2
motivos: 1) Para distinguir as manifestações espirituais verdadeiras, ou seja, da parte
do Senhor, das falsas e 2) para distinguir se as ações ou condições humanas são
resultados de ação maligna ou problemas de ordens psicossomáticas.

O PODER DE CRISTO SOBRE O REINO DAS TREVAS

No século 2 depois de Cristo o advento do dualismo gnóstico produziu no


imaginário geral a ideia de que existem duas forças opostas equivalentes em força e
poder, ou seja, as forças do bem e as forças do mal. É fato que existem duas forças

4
SOARES, Esequias. Lições Bíblicas - Batalha Espiritual: O Povo de Deus e a Guerra Contra as Potestades
do Mal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019. p.28
5
HORTON, Stanley. MENZIES, William. Doutrinas Bíblicas: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro:
CPAD, 1995. p.215
6
GREATHOUSE, William et al. Comentário Bíblico Beacon: Romanos a 2 Corintios. Rio de Janeiro: CPAD,
2006. p.337
7
Ibid., p.337
atuando no mundo hoje, todavia elas não são equivalentes. Deus é soberano! A
soberania de Deus é Seu poder e domínio sobre toda a criação. Tudo que existe está
debaixo do poder de Deus. Nada acontece sem a permissão de Deus e nada pode
impedir Deus de cumprir Seus planos. Logo, podemos ver com base nas Sagradas
Escrituras que o poder de Deus é infinitamente maior do que os poderes do mal.

Os evangelhos demonstram também o poder e a soberania de Cristo sobre a


NATUREZA Mt. 8.23-27; sobre as ENFERMIDADES Mt. 9.18-26 e sobre os DEMÔNIOS
Mt. 8.28-33. No relato do endemoniado gadareno podemos ver que os próprios
demônios sabem quem é Jesus (At 19.15) e conhecem a sua procedência: “Que temos
contigo, Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus” (Mc
1.24). Eles têm medo de Jesus e estremecem diante dEle (Tg 2.19). Jesus veio para
desfazer as obras do Diabo (1 Jo 3.8). Os demônios sabem que há um tempo
determinado para o juízo divino sobre as hostes infernais e temem por isso.

CONCLUSÃO

Não podemos negar a ação dos demônios e sua atuação no domínio de seres
humanos da mesma forma que não podemos negar suas influencias sobre a doenças,
todavia devemos também reconhecer o poder de Cristo sobre toda a criação, sendo que
tudo foi feito por Ele (Jo1.3). Lembremo-nos também que ao nome de Jesus todo joelho
se dobrará (Fp 2.10). Logo, as hostes infernais não têm poder diante de Cristo e todos
nós precisamos de Jesus, da comunhão com Ele, para dEle receber poder e assim
expulsar os demônios, pois Ele nos deu essa autoridade (Lc 10.19,20).

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