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CONSCIÊNCIA

CÓSMICA

Richard Maurice Bucke, M.D.

Antigo Médico Superintendente do


Asylum for the Insane, London, Canadá

COORDENAÇÃO E SUPERVISÃO

Charles Vega Parucker, F.R.C.


Grande Mestre

BIBLIOTECA ROSACRUZ

ORDEM ROSACRUZ, AMORC


GRANDE LOJA DA JURISDIÇÃO
DE LÍNGUA PORTUGUESA
l- Edição da AMORC em Língua Portuguesa
Novembro, 1996

ISBN - 85-317-0152-X

Todos os direitos reservados pela


ORDEM ROSACRUZ, AMORC
GRANDE LOJA DA JURISDIÇÃO
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ÍNDICE

Dedicatória..................................................................................................9
O Homem e o Livro................................................................................... 11
Nota........................................................................................................... 20
Lista de Algumas das Obras Citadas ou Mencionadas Neste Livro........21

PARTE I

Primeiras Palavras....................................................................................35

PARTE II

Evolução e Involução.

Capítulo

1 Rumo à Autoconsciência...............................................................53
2 No Plano da Autoconsciência....................................................... 57
3 Involução.......................................................................................85

PARTE III

Da Autoconsciência à Consciência Cósmica............................................91

PARTE IV

Casos de Consciência Cósmica

Capítulo

1 Gautama o Buda........................................................................... 111


2 Jesus o Cristo............................................................................... 125
3 Paulo............................................................................................ 139
4 Plotino......................................................................................... 149
5 Maomé......................................................................................... 155
6 D ante........................................................................................... 161
7 Bartolome Las Casas................................................................... 169
8 Juan Yepes (Chamado São João da C ruz).................................. 175
9 Francis B acon.............................................................................. 187
10 Jacob Behmen (Chamado O Teósofo Teutônico)....................... 215
11 William Blake.................................... ......................................... 227
12 Honoré de Balzac........................................................................ 235
13 Walt Whitman..............................................................................253
14 Edward Carpenter....................................................................... 275

PARTE V

Adicionais - Alguns Casos, Menores, Imperfeitos

Capítulo

1 O Crepúsculo...............................................................................293
2 Moisés.......................................................................................... 295
3 Gideão (Apelidado Jurubbaal).................................................... 299
4 Isaías............................................................................................ 301
5 O Caso de Lí R .............................................................................303
6 Sócrates........................................................................................ 309
7 Roger Bacon.................................................................................311
8 Blaise Pascal................................................................................315
9 Benedictus Spinoza.....................................................................319
10 Coronel James Gardiner..............................................................325
11 Swedenborg..................................................................................327
12 William Wordsworth...................................................................329
13 Charles G. Finney....................................................................... 331
14 Alexander Pushkin.......................... ........................................... 335
15 Ralph Waldo Emerson.................................................................337
16 Alfred Tennyson.......................................................................... 339
17 J. B. B........................................................................................... 343
18 Henry David Thoreau..................................................................345
19 J. B................................................................................................349
20 C. P ...............................................................................................351
21 O Caso de H. B. em suas Próprias Palavras................................357
22 R. P S........................................................................................... 363
23 E .T .............................................................................................. 367
24 Caso de Ramakríshna Paramahansa.......................................... 369
25 Caso de J. H. H.............................................................................373
26 T. S. R...........................................................................................375
27 W .H .W .......................................................................................377
28 Richard Jefferies.......................................................................... 379
29 Caso de C. M, C., nas Próprias Palavras Dela............................385
30 O Caso de M. C. L., nas Próprias Palavras D ele....................... 393
31 Caso de J. W. W., Principalmente nas Próprias Palavras D ele... 397
32 O Caso de J. William Lloyd, nas Próprias Palavras Dele...........409
33 Horace Traubel............................................................................. 413
34 O Caso de Paul Tyner, em Suas Próprias Palavras.................... 421
35 O Caso de C. Y. E., nas Próprias Palavras D ela........................ 429
36 O Caso de A. J. S......................................................................... 433

PARTE VI

Palavras Finais........................................................................................ 437

Biblioteca Rosacruz.................................................................................457
DEDICATÓRIA DA
PRIMEIRA EDIÇÃO

A Maurice Andrews Bucke


(22 de novembro de 1868 - 8 de dezembro de 1899)

8 de dezembro de 1900

Querido Maurice:

Há um ano, nesta data, no alvor da juventude, da saúde e da força, num


instante, por um acidente terrível e fatal, você foi levado para sempre deste
mundo em que sua mãe e eu ainda vivemos. De todos os jovens que conheci
você foi o mais puro, o mais nobre, o mais honrado, o de mais temo coração.
Nas situações da vida você foi industrioso, honesto, fiel, inteligente e
inteiramente digno de confiança. O quanto sentimos na ocasião a sua perda
- o quanto ainda a sentimos - eu não o escreveria, mesmo que pudesse.
Desejo falar aqui de minha convicta esperança, não de minha dor. Tenho a
dizer que através das experiências que constituem a base deste livro aprendi
que, apesar da morte e da sepultura, embora você esteja além do alcance de
nossa vista e de nossa audição, não obstante o universo dos sentidos
testemunhar sua ausência, você não está morto nem realmente ausente, mas
vivo e bem e não longe de mim neste momento. Se me foi permitido, não
entrar, mas através do estreito vão de uma porta entreaberta ter um vislumbre
fugaz daquele outro mundo divino, com certeza foi para que assim eu pudesse
sobreviver àquela notícia de Montana que caiu como um raio e que o tempo
só consegue queimar cada vez mais fundo em meu cérebro.

Apenas um pouco mais de tempo agora e estaremos novamente juntos; e


conosco todas aquelas nobres e bem-amadas almas que já se foram antes.
Estou certo de que me encontrarei com você e com elas; de que você e eu
falaremos de mil coisas, bem como daquele dia inesquecível e de todos que o
seguiram; e de que veremos claramente que todos faziam parte de um plano
infinito que era integralmente sábio e bom. Você entende e aprova estas
palavras que estou escrevendo? Pode bem ser que sim. Você lê dentro de
mim o que estou agora pensando e sentindo? Se é assim, sabe o quanto era
querido para mim enquanto vivia aquilo que aqui chamamos de vida e quanto
muito mais querido se tomou para mim desde então.

Em razão dos elos indissolúveis de nascimento e de morte forjados pela


natureza e pelo destino entre nós; em razão de meu amor e de meu pesar;
acima de tudo em razão da infinita e inextinguível confiança que sinto em
meu coração, a você dedico este livro que, cheio de imperfeições que o tomam
indigno de sua aceitação, surgiu não obstante da divina certeza que nasceu
da mais profunda percepção interior dos mais nobres membros de sua espécie.

Até breve, querido rapaz!

SEU PAI
Algumas vezes acontece que, na maré de livros que continuamente vêm
e vão, um deles não desaparece juntamente com seus contemporâneos e,
devido a algo que contém, ou algo que é, subsiste para uma outra geração -
ou mesmo além disso - respondendo de algum modo a alguma real
necessidade humana.

Consciência Cósmica é um livro assim, pois apareceu de maneira


silenciosa, sem alarde, em 1901, como trabalho de um médico canadense de
quem poucas pessoas fora do círculo íntimo dos amigos de Walt Whitman e
do limitado mundo desse alienista tinham ouvido falar.

Mesmo hoje, para os milhares de pessoas que leram e valorizam o livro,


o autor é pouco mais que um nome - apenas Richard Maurice Bucke, que
escreveu Consciência Cósmica. Entretanto, Bucke, que faleceu menos de
um ano depois da publicação do livro, foi durante sua vida uma personalidade
muito especial e muito forte.

Descendendo de ambos os lados de boas famílias inglesas, seu pai era


formado pelo Trínity College de Cambridge e era um clérigo; sua mãe, irmã
de um eminente Conselheiro da Rainha, era neta de Sir Robert Walpole,
famoso autor e estadista. Bucke era o sétimo filho do casal, nascido em
1837, um ano antes que seus pais emigrassem para o Canadá e se fixassem
na remota Creek Farm, no local que hoje é um subúrbio da cidade de London,
Ontário. Seu pai, embora assim tivesse se tornado um fazendeiro, era um
erudito brilhante; conhecia sete idiomas e levara para a fazenda uma biblioteca
de milhares de livros.

O jovem Richard Maurice Bucke praticamente não teve escolaridade


formal. Seu pai lhe ensinou latim e soltou-o no meio de todos aqueles livros
para educar a si mesmo. Quanto ao resto, era um jovem de fazenda comum
que conhecia e fazia toda a incessante e pesada rotina de trabalho duro que
uma fazenda requeria antes da época do automóvel e da eletricidade.
Quando tinha sete anos, sua mãe faleceu e seu pai logo se casou nova­
mente; mas aos dezessete anos sua madrasta também faleceu e Bucke decidiu
que chegara o momento de viajar e ver um pouco mais do mundo do que
podia observar de uma fazenda interiorana. Foi para o Sul e cruzou a fronteira
para os Estados Unidos. Por três longos anos viajou de um lugar para outro,
trabalhando em empregos temporários. Entre outras coisas, foi jardineiro
em Columbus, Ohio, ferroviário em Cincinatti, auxiliar de convés num barco
a vapor do Mississipi e finalmente empregou-se como maquinista de um
trem de 26 vagões, que deveria cruzar as planícies para o extremo ocidental
do Território Mórmon (hoje parte do Estado de Nevada). Era uma empresa
séria e perigosa, pois na época não havia nenhum povoado branco permanente
nas últimas 1.200 milhas da viagem e não se podia confiar na atitude pacífica
dos índios.

A viagem até Salt Lake durou cinco meses e lá o jovem Bucke sacou seu
pagamento acumulado de todo aquele tempo e decidiu seguir adiante com
alguns outros. Os aventureiros cruzaram as Montanhas Rochosas pelo South
Pass e logo viram que sua jornada era muito mais emocionante e perigosa,
pois os bandos errantes de índios que encontraram ressentiram-se da presença
de homens brancos e os atacaram assim que os viram. Eles tiveram de abrir
caminho lutando, de acampamento a acampamento, até ficarem reduzidos a
seus últimos cartuchos. Então, não somente sua munição havia acabado,
mas também suas provisões; assim sendo, Bucke e um companheiro viajaram
as últimas 150 milhas comendo somente farinha mexida em água quente,
até que cambalearam para um posto de comércio na montanha e desfaleceram.
Depois de descansarem ali por algum tempo, reiniciaram a viagem, cruzaram
o Grande Deserto Americano em direção ao Rio Carson e finalmente
alcançaram o Gold Canyon.

Por um ano Richard Maurice Bucke viveu como mineiro de ouro, numa
comunidade de cerca de 100 homens brancos espalhados em 1.600 milhas
quadradas de território sem leis, sem tribunais, sem igreja nem escola.
Conheceu e se tomou amigo dos irmãos Grosh e de seu sócio, chamado
Brown, que haviam descoberto as grandes jazidas de prata conhecidas mais
tarde como Comstock Lode, mas que mantinham sua descoberta em segredo
enquanto continuavam com a prospecção de mais prata. Mas um revés os
surpreendeu: Brown e um dos Grosh faleceram e o outro irmão, Allan, seguiu
com Bucke pelas montanhas, embora fosse invemo, na tentativa de alcançar
a costa. Foi uma experiência terrível; Allan Grosh morreu no caminho e
Bucke, com ambos os pés congelados, foi resgatado no último minuto por
um grupo de mineiros. O resultado foi que Bucke precisou ter um dos pés
completamente amputado e uma parte do outro e que, após um inverno inteiro
de cama, ele voltou à vida, na flor de seus 21 anos, tão gravemente mutilado
que pelos restantes 40 anos de sua vida nunca esteve livre de dores por mais
de algumas horas de cada vez.

Com a maioridade, herdou a pequena propriedade de sua falecida mãe e


usou o dinheiro para cursar a Escola de Medicina McGill. Os cinco anos de
aventuras temerárias por que passara não haviam interferido em sua
capacidade de assimilar conhecimento, pois não somente se diplomou entre
os melhores alunos mas ganhou o prêmio pela melhor tese. Seu trabalho de
pós-graduação foi feito na Europa. Os anos 1862-63 foram passados em
Londres, trabalhando com Sir Benjamin Ward Richardson e, depois, em
visitas à França e à Alemanha; mas em 1864 ele voltou ao Canadá e estabele­
ceu seu consultório em Sarnia, Ontário, casando-se e fixando-se para criar
família como qualquer outro profissional de sua idade.

Mas Richard Maurice Bucke era tudo menos um mero profissional. Num
dos lados de seu cérebro era um cientista objetivo, ao passo que no outro era
um homem de faculdade de imaginação altamente desenvolvida e dotado de
memória extraordinária, especialmente para poesia - de que sabia livros
inteiros de cor. Sua carreira profissional foi notável. Em 1876 foi nomeado
Superintendente do Provincial Asylum for the lnsane, recém-construído em
Hamilton, Ontário; em 1877, do London (Ontario) Hospital. Tomou-se um
dos mais destacados alienistas do continente, introduzindo muitas reformas
em procedimentos que, embora considerados na época perigosamente radicais,
são hoje corriqueiros. Em 1882 tomou-se Professor de Doenças Mentais e
Nervosas na Western University (London, Ontário). Em 1888 foi eleito
Presidente da Psychological Section da British Medicai Association e em
1890 Presidente da American Medico-Psychological Association.

Tudo isto como médico!

Mas havia o outro lado dele, que se demonstrou de importância mais


duradoura para mais gente do que o excelente e útil trabalho que fez em sua
profissão. Em 1867, uma pessoa que o visitou em sua casa citou para ele
alguns versos de Walt Whitman. O efeito desses versos foi extraordinário,
instantâneo e permanente. Eles abriram uma nova porta em sua mente e,
desde então até o fim de sua vida, Bucke esteve sob o fascínio de Whitman.
Na primavera de 1872 veio um dos grandes momentos de sua vida.
Naquele ano, Bucke, ao visitar a Inglaterra, teve a experiência da Iluminação.
Eis o relato dessa experiência, extraído de Proceedings and Transactions o f
the Royal Society o f Canada* e que consta à página 42 deste livro:

“Ele [Bucke] e dois amigos tinham passado a noite lendo


Wordsworth, Shelley, Keats, Browning e especialmente
Whitman. Separaram-se à meia-noite e ele partiu para um
longo percurso em fiacre. Sua mente, sob a profunda influência
das idéias, imagens e emoções suscitadas pela leitura e pela
conversa, estava calma e em paz. Ele estava num estado de
deleite tranqüilo, quase passivo.
“De repente, sem qualquer prenúncio, sentiu-se como que
envolto numa nuvem da cor de uma chama. Por um instante
pensou em fogo - algum súbito incêndio na grande cidade.
No instante seguinte percebeu que a luz estava em seu interior.
“Logo depois veio-lhe um sentimento de júbilo, de imensa
felicidade, acompanhado ou imediatamente seguido de uma
iluminação intelectual totalmente impossível de descrever.
Em sua mente jorrou um lampejo do Esplendor Bramânico,
que desde então iluminou sua vida. Em seu coração caiu uma
gota da Bem-aventurança Bramânica, deixando de então em
diante, para sempre, um gosto de Céu.”

Não é difícil imaginar o efeito dessa avassaladora experiência numa


personalidade forte e vívida como era Bucke aos 35 anos de idade. Foi ela
que lhe trouxe o conhecimento, a percepção interior revelada em Consciência
Cósmica - Parte III, pág. 91-110 - onde ele descreve as condiçOes que
envolvem essa experiência e seus efeitos na pessoa que a vivência.

Com suas energias mentais expandidas e refinadas por essa nova


consciência, ele começou a apreciar mais profundamente a relação entre a
mente do ser humano e sua natureza moral e, em 1879, escreveu seu primeiro
livro, Man ’s Moral Nature (A Natureza Moral do Homem), editado por G. P.
Putnam & Sons, New York. Trata-se de um exame da relação entre 0 sistema
nervoso simpático do corpo e a natureza moral do ser humano - um assunto
de que já havia tratado num ensaio apresentado por ele numa reuníSo da
Association o f American lnstitutionsfor the Insane e num outro ensaio Sobre
o mesmo assunto apresentado no ano seguinte perante a mesma associação.

* Série n, Vol. 12, pág. 159-196


Em 1877, conheceu Walt Whitman - e esta foi outra experiência crucial
para ele. Ele próprio a descreveu na Introdução de sua edição de Calamus,
de autoria de Whitman {Small Maynard, Boston, 1897), como “uma espécie
de embriaguez espiritual” e “o momento decisivo de minha vida”. M an’s
Moral Nature é dedicado a Whitman.

Horace Traubel nos deu uma idéia do que Whitman pensava de Bucke,
como homem e como médico (Bucke tratou de Whitman profissionalmente
e, segundo o poeta acreditava, salvou-lhe a vida). “Alguém esteve aqui outro
dia e se queixou de que o Médico era rigoroso demais. O Sol também é
rigoroso; e quanto a mim - não sou rigoroso?” E: “É bonito vê-lo em seu
trabalho - como lida com pessoas difíceis de modo tão afável”; e ainda:
“Bucke é um homem que gosta de estar ocupado... é rápido na ação, lúcido,
seguro, decidido”. E comparando Bucke com Sir William Osier: “Osier
também tem suas qualidades, grandes qualidades, mas, no final das contas,
o verdadeiro homem é o Doutor Bucke. Ele está acima de todos”.

Em 1894, a questão da Iluminação e da Consciência Cósmica ocupava


com crescente intensidade a mente de Bucke. Em maio desse ano leu um
ensaio intitulado Consciência Cósmica, perante a American M edico-
Psychological Association, na reunião anual em Philadelphia e, na sua
mensagem como presidente à British Medical Association, em Montreal,
em agosto do mesmo ano, desenvolveu a idéia dessa nova Consciência como
uma evolução mental da humanidade, a qual, à medida que se tornasse
progressivamente mais comum e mais adiante generalizada, elevaria toda a
vida humana a um plano superior.

Quatro anos mais tarde, o próprio livro Consciência Cósmica foi publicado
por Messrs. Innes o f Philadelphia, numa edição limitada de 500 exemplares.
Embora Bucke tenha vivido mais db que seu amigo e ídolo, Whitman, não
viveu o suficiente para ver o sucesso de seu próprio livro; pois, numa noite
do inverno seguinte - 19 de fevereiro de 1902, para sermos exatos - depois
de voltar para casa com sua esposa, da noite que haviam passado na casa de
um amigo, Bucke foi à varanda antes de se deitar, para dar mais uma olhada
nas estrelas - que naquela noite estavam excepcionalmente brilhantes no
claro céu de inverno; escorregou num pedaço de gelo, bateu violentamente a
cabeça contra uma coluna da varanda e caiu. Quando foi erguido já estava
sem vida.

“O Doutor”, como era carinhosamente chamado por muitos, era uma


figura que atraía os olhos das pessoas, assim como seu coração. De postura
ereta, ombros largos, com sua longa barba de pioneiro cobrindo grande parte
do peito, tinha o nariz proeminente e os olhos cavos de um homem de ação
- que brilhavam com a luz de uma inteligência vívida e perscrutadora.

Durante seus anos de formação, quando a maioria dos homens tem sua
originalidade reprimida e suas opiniões padronizadas pelas rotinas de escola
e colégio, Bucke esteve em briga com a vida real e com isto se tomou um
tanto herege. Passou a última noite de sua vida discutindo os indícios a favor
da autoria baconiana das peças e poesias de Shakespeare, questão que
firmemente mantinha do lado heterodoxo. Era um brilhante polemista quando
estava predisposto a isto, sua espantosa memória permitindo-lhe citar páginas
inteiras de autoridades para apoiar seus pontos de vista - chega-se a dizer
que ele podia repetir de cor o livro inteiro de Walt Whitman, Leaves o f
Grass - o que não é nenhum feito medíocre.

Física e mentalmente, dava impressão de força e competência, o que


fazia com que as pessoas confiassem nele, bem como gostassem dele. Inglês
por descendência e nascimento, canadense por criação e em sua vida
profissional, mas conhecendo - graças às duras experiências de seus anos de
peregrinação - muito mais dos Estados Unidos do que muitos americanos,
pode-se dizer que focalizou em sua própria pessoa o que é essencialmente
são e vigoroso nos três ramos da civilização branca que estão agora sendo
tão estreitamente aproximados pelo curso dos eventos mundiais.
Consciência Cósmica é um livro muito difícil de classificar. Não pode
ser seguramente encaixado em nenhuma das categorias normais. Isto se deve
ao fato de que a Iluminação, ou o Êxtase de que trata, é geralmente considerado
como pertencente ao campo da religião e do misticismo, ou da magia e do
ocultismo - ou mesmo, por alguns ultramaterialistas, ao domínio da
insanidade. No misticismo cristão, a Iluminação é o reconhecido terceiro
estágio do progresso do místico, depois dos dois estágios preliminares de
Despertar e Purificação * Tanto no bramanismo como no budismo, é a
recompensa de longa e rígida autodisciplina e esforço.
Mas para Bucke a Consciência Cósmica nada tinha a ver com misticismo
ou religião formal, ou com intenção ou preparação conscientes. Ele era um
estudioso da mente humana, um psicólogo, e tratava a Iluminação do ponto
de vista da Psicologia, como uma condição mental muito rara mas real e
reconhecível, da qual muitos exemplos autênticos estão registrados e
disponíveis para exame.
* Vide Mysticism, de Evelyn Underhill, E.P. Dutton & Co., New York, 1912
Ele considerava, com base na documentação histórica, que nos últimos
três mil anos da história humana houve pelo menos quatorze casos inegáveis
de completa e permanente Iluminação e que, além desses, houve muitos
outros casos de Iluminação parcial, temporária ou duvidosa, vários dos quais
ocorreram no século passado.

Notando a freqüência crescente da experiência, deduziu que muito


gradualmente - e por assim dizer esporadicamente - a espécie humana está
no processo de desenvolver um novo tipo de consciência, muito mais avançado
que a autoconsciência humana comum, o qual acabará elevando a espécie
acima e além de todos os temores e de todas as ignorâncias, das brutalidades
e bestialidades que a bloqueiam hoje em dia.

E de se admitir que seu argumento é grandemente baseado na analogia.


Primeiro ele trata dos três estágios de consciência distintos observáveis nos
seres vivos: a mente perceptiva dos animais inferiores, aberta somente a
impressões dos sentidos; a mente receptiva dos animais superiores, produ­
zindo a consciência simples, e a mente conceptual dos seres humanos, acom­
panhada de autoconsciência. Mostra que a espécie humana tem adicionado
a suas faculdades originais, mesmo nos últimos milhares de anos, diversos
novos tipos de consciência. O sentido da cor, por exemplo. Os gregos antigos,
Aristóteles e Xenófanes, conheciam apenas três cores e não há palavra para
qualquer cor na primitiva fala Indo-Européia. O azul resplandecente do céu
oriental não é mencionado em Homero ou na Bíblia, nem no Rig Veda ou no
Zend Avesta. Mas no século atual conhecemos, não somente as sete cores
primárias, mas literalmente milhares de matizes diferentes e graduações dos
mesmos. O sentido da fragrância e o sentido musical são dois outros que a
espécie, de igual modo, só recentemente adquiriu.

Bucke argumentava que esses novos sentidos devem ter começado como
esporádicos, casos isolados da nova consciência em uns poucos indivíduos;
depois devem ter se espalhado gradualmente com o passar das gerações, até
que quase todas as raças civilizadas agora os possuem - embora absolutamente
não com a mesma totalidade ou ao mesmo grau. Mesmo hoje, os bosquímanos
da África e os aborígines da Austrália são totalmente desprovidos deles.

Esse novo, quarto estágio de consciência, que habilita o ser humano a


apreender a unidade do Universo, a sentir nele e por todo ele a presença do
Criador, a sentir-se livre de todos os temores do mal, da desventura ou da
morte, a compreender que o Amor é a regra e a base do Cosmo, constitui a
Consciência Cósmica que Bucke profetizou que aparecerá cada vez mais
freqüentemente até tomar-se um atributo normal da humanidade adulta.

Bucke sabia precisamente do que estava falando quando descreveu a expe­


riência da Iluminação e a entrada temporária da pessoa na Consciência Cós­
mica. Como já foi indicado, ele próprio recebera pelo menos uma Ilumina­
ção temporária que enriquecera e expandira toda a sua vida, daquele mo­
mento em diante, em todos os seus aspectos. Assim, suas descrições das
condições da mente que preparam a Iluminação, bem como dos seus efeitos
nos sentidos e na pessoa do indivíduo, não são meras descrições científicas
secas, objetivas. Elas brilham com a luz da experiência e do calor pessoais,
com a emoção do sentimento pessoal. Por todos os cinqüenta casos de
Iluminação que ele relaciona e descreve, essa experiência pessoal do fenômeno
e de seus efeitos na pessoa eleva o que teria sido meramente um detalhe
psicológico interessante no campo de uma exposição inspirada e inspiradora.

Provavelmente, ninguém que leia Consciência Cósmica concordará com


seu autor em todos os pontos, pois seu entusiasmo e sua energia mental eram
tais que mesmo em suas heresias ele era herético. No entanto Ouspensky, o
célebre matemático e filósofo russo, que discordava completamente de Bucke
em pelo menos um detalhe importante de sua crença, valorizava o livro o
bastante para dedicar quase um capítulo inteiro de sua grande obra, Tertium
Organum, a Consciência Cósmica, reproduzindo páginas inteiras deste livro
em seu texto.

O Professor William James leu Consciência Cósmica logo depois de sua


primeira publicação e escreveu ao seu autor:

“Creio que V.Sa. trouxe esta espécie de consciência à atenção de


estudiosos da natureza humana de um modo tão claro e inevitável
que será impossível, de agora em diante, não fazer caso dela ou
ignorá-la... Mas minha reação global ao seu livro, prezado Senhor, é
de que se trata de um a contribuição da mais alta importância à
Psicologia e de que V.Sa. é um benfeitor de todos nós.”

A metade da última frase me parece ainda mais importante que o


depoimento do Professor James como filósofo e psicólogo. Explica a persis­
tência da vida e da utilidade de Consciência Cósmica, pois acredito firmemen­
te que nenhuma inteligência que tenha discernimento possa tomar conheci­
mento real deste livro sem vivenciar uma tremenda elevação e um estímulo
extraordinário. É uma obra de alento e promessa; abre uma nova porta nas
sombrias paredes do materialismo de que estamos cercados, para nos
proporcionar uma visão de estranhas e maravilhosas possibilidades e acolher
o som de belas harmonias - não tão distantes e elusivas, mas implícitas em
nós mesmos e em nossa espécie - e para nos devolver a esperança e o encan­
tamento que muitos de nós temos deixado de lado mas de que tão desespera­
damente necessitamos para os dias duvidosos que temos à frente.

George Moreby Acklom.

New York City


25 de fevereiro de 1946.
NOTA

Deve-se notar que este livro está impresso em três tamanhos de letras: no
maior, a parte escrita pelo autor, bem como certas citações curtas que são
indicadas por aspas da maneira usual; os excertos de escritores que alcançaram
a Consciência Cósmica e de outros escritores a respeito deles estão impressos
em tipo de tamanho médio e neste caso não foi considerado necessário usar
aspas, pois todo assunto impresso neste tipo é indicado e os respectivos autores
são devidamente reconhecidos, cada qual com sua parte; o tipo menor é
usado para passagens paralelas e comentários; neste caso as aspas são usadas
da maneira comum.
LISTA DE ALGUMAS DAS OBRAS CITADAS
OU MENCIONADAS NESTE LIVRO

Os números de referência entre colchetes no texto indicam obra desta


lista e a página, com exceção dos casos da Bíblia, em que indicam livro,
capítulo e versículo e dos sonetos de Shakespeare, em que indicam livro e
soneto.

1. Anderson, A.A. Twenty Five Years in a Wagon (Vinte Cinco Anos num Vagão).
Chapman & Hall, Londres, 1888.

2. Arena, The (Arena, A). Boston, Mass., fevereiro de 1893.

3. Atlantic Monthly (Mensário Atlantic), outubro de 1896.

4. Balzac, Honoré de. A Memoir o f (Balzac, Honoré de. Uma Biografia de), por K.
P. Wormley. Robert Bros., Boston, 1892.

5. Balzac, Honoré de. Louis Lambert. Robert Bros., Boston 1889.

6. Introduction to 5 (Introdução a 5). Mesmo livro, mas paginação separada. Por


George Fred. Parsons.

7. Balzac, Honoré de. Séraphita. Robert Bros., Boston 1889.

8. Introduction to 7 (Introdução a 7). Mesmo livro, mas paginação separada. Por


George Fred. Parsons.

9. Balzac, Honoré de. The Exiles (Os Exilados). No mesmo livro com 7.

10. Bíblia. Comparada com as mais antigas autoridades e revisada. University Press,
Oxford, 1887. (Na tradução: A BÍBLIA SAGRADA, traduzida em português por
João Ferreira de Almeida - Imprensa Biblica Brasileira, 1954).

11. Exodus (Êxodo), em 10.

12. Judges (Juizes), em 10.

14. Matthew (Mateus), em 10.


16. Luke (Lucas), em 10.

17. John (João), em 10.

18. Acts (Atos), em 10.

19. Romans (Romanos), em 10.

2 0 .1 Corinthians (I Corintios), em 10.

21. n Corinthians (H Corintios), em 10.

22. Galatians (Gálatas), em 10.

23. Ephesians (Efésios), em 10.

24. Philippians (Filipenses), em 10.

25. Colossians (Colossenses), em 10.

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40. The Life o f Jacob Boehme (A Vida de Jacob Boehme), paginação separada, no
Vol. I de 39.

41. Aurora, the Dayspring or Dawning o f the Day in the East (Aurora, a Alvorada
ou o Nascer do Dia no Oriente), paginação separada, no Vol. I de 39.

42. The Three Principles o f the Divine Essence (Os Três Princípios da Essência
Divina), paginação separada, no Vol. I de 39.

43. The Threefold Life o f Man (A Vida Tríplice do Homem), paginação, separada, no
Vol. H de 39.

44. Forty Questions Concerning the Soul (Quarenta Questões sobre a Alma),
paginação separada, no Vol. II de 39.

45. The Treatise o f the Incarnation (O Tratado da Encarnação), paginação separada,


no Vol. II de 39.

46. The Clavis, paginação separada, no Vol. II de 39.

47. Misterium Magnum, paginação separada, no Vol. II de 39.

48. The Four Tables (As Quatro Mesas, paginação separada, no Vol. II de 39.

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69. Dante. H ell (Inferno). Mesmos tradutor, editora e data.

70. Introdução para 69.

71. Dante. Purgatory (Purgatório). Mesmos tradutor, editora e data.

72. Dante. Paradise (Paraíso). Mesmos tradutor, editora e data.

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100. Prefácio para 97, paginação separada.

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146. Sacred Books o f the East (Livros Sagrados do Oriente). Editado por F. Max
Mueller. The Clarendon Press, Oxford, em quarenta e oito volumes, 1879-
1885.

147. Introduction to Vol. I o f 146 (Introdução ao Vol. I de 146), paginação separada.

148. Khandogya, Upanishad. Traduzido por F. Max Mueller, em Vol. I de 146.

149. Talavakara, Upanishad. Traduzido por F. Max Mueller, em Vol. I de 146.

150. Vagasaneyi, Samhita Upanishad. Traduzido por F. Max Mueller, em Vol. I de


146.

151. Part I o f Q u r’an (Parte I do Alcorão). Traduzida do árabe por E.H. Palmer,
sendo Vol. VI de 146.

152. Introduction to Q ur’an (Introdução ao AlcorSo). Por E.H. Palmer, paginação


separada, no Vol. VI de 146.

153. Part II o f Qur'an (Parte II do Alcorão). Traduzida do árabe por E.H. Palmer,
sendo Vol. IX de 146.

154. Bhagavadgita. Traduzido por K.T. Telang, no Vol. VIII de 146.

155. Anugita. Traduzido por K.T. Telang, no Vol. VIII de 146.

156. Dhammapada. Traduzido por F. Max Mueller, no Vol. X de 146.

157. Sutta-Nipata. Traduzido do pâli por V. Fausboll, no Vol. X de 146.

158. Introduction to 157 (Introdução a 157). Por V. Fausboll, no Vol. X de 146,


paginação separada.

159. Dhamma-kakka-Ppavattana-Sutta. Traduzido do pâli por T.W. Rhys Davids,


no Vol. XI de 146.
160. Introduction to 159 (Introdução a 159). Por T.W. Rhys Davids, no Vol. XI de
146.

161. Akankheyya-Sutta. Traduzido do pâli por T.W. Rhys Davids, no Vol. XI de 146.

162. Introduction to 161 (Introdução a 161). Por T.W. Rhys Davids, no Vol. XI de
146.

163. Maha Parinibbana-Sutta. Traduzido do pâli por T.W. Rhys Davids, no Vol. XI
de 146.

164. Saddaharina-Pundarika; or the Lotus o f the True Law (Saddaharina-Pundarika;


ou o Lótus da Verdadeira Lei). Traduzido por H. Kern, no Vol. XXI de 146.

165. Introduction to 164 (Introdução a 164). Por H. Kern, no Vol. XXI de 146.

166. The Texts o f Taoism (Os Textos do Taoísmo). Traduzido por James Legge. Vol.
XXXIX de 146.

167. Sharpe, William. Introduction to the Songs, Poems and Sonnets o f William
Shakespeare (Introdução aos C ânticos, Poem as e Sonetos de William
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168. Scott, Walter. Editado por Andrew Long, em quarenta e oito volumes. Estes &
Lauriat, Boston, 1894. Vol. n.de Waverley.

169. Introduction to Vol XXXVIII o f 168 (Introdução ao Vol. XXXVUI de 168).

170. Stead, William Thomas. Em Review o f Reviews, número não anotado, mas
imediatamente após o falecimento de Tennyson, que ocorreu em 6 de outubro
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171. Sutherland, Jabez Thomas. The Bible: Its Origin, Growth and Character
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173. Sharpe, William. The D ual Image (A Imagem Dual). H.A. Copley, Londres,
1896.
174. Spedding, James. Life and Times o f Francis Bacon (Vida e Época de Francis
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175. Vol. E de 174.

176. Shakespeare's Sonnets and a L over’s Complaint (Sonetos de Shakespeare e a


Queixa de um Amante). Reimpresso na ortografia e na pontuação da edição
original de 1609. John Russell Smith, Londres, 1870.

177. Spedding, James. Evenings with a Reviewer (Serões com um Revisor), em dois
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178. Vol. H de 177.

179. Symonds, J.A. The Study o f Dante (O Estudo de Dante). Adam & Charles
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180. Tyndall, John. H eat Considered as a Mode o f Motion (O Calor Considerado


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181. Tyndall, John. Fragments o f Science (Fragmentos de Ciência). D. Appleton &


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183. Tennyson, Lord Alfred. Works (Obras), em dez volumes. Henry T. Thomas,
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187. Tyner, Paul. The Living Christ (O Cristo Vivente) . Temple Publishing Co.,
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190. Ward, Lester F. Dynamic Sociology; or Applied Social Science (Sociologia
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191. Whitman, Walt. Leaves o f Grass (Folhas de Relva). Brooklin, N.Y., 1855.

192. Whitman, Walt. Leaves o f Grass (Folhas de Relva), edição do autor. Camden,
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193. Whitman, Walt. Leaves o f Grass (Folhas de Relva), David McKay, Filadélfia,
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194. Whitman, Walt. Complete Prose Works (Obras Completas em Prosa). David
McKay, Filadélfia, 1892.

195. Democratic Vistas, em 194.

196. Pieces in Early Youth (Trabalhos na Juventude), em 194.

197. Wigston, W.F.C. Francis Bacon, Poet, Prophet and Philosopher versus Phantom
Captain Shakespeare (Francis Bacon, Poeta, Profeta e Filósofo versus Capitão
Fantasma Shakespeare). Kegan Paul, Trench, Trübner & Co., Londres, 1891.

198. Wordsworth, William. Poetical Works (Obras Poéticas), sete volumes em três.
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199. White, Alexander. Jacob Behmen: An Appreciation (Jacob Behmen: Um Estudo


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199a. Walden. De Henry D. Thoreau. Houghton, Osgood & Co., Boston, 1880.

200. Ward, Lester F. Relation o f Sociology to Anthropology (Relação da Sociologia


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201. Xenofontes. The Anabasis and Memorabilia o f Socrates. Traduzido do grego


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202. Yepes, Juan, chamado S. João da Cruz. Life and Works (Vida e Obras), em dois
volumes; o primeiro de David Lewis (112 acima) e o segundo traduzido do
espanhol pelo mesmo. Thomas Baker, Londres, 1889-1891.

203. Ascent o f Mount Carmel (Ascensão do Monte Carmelo), no Vol. I de 202.

204. The D ark Night o f the Soul (A Noite Negra da Alma), no Vol. II de 202.
205. A Spiritual Canticle o f the Soul and the Bridegroom Christ (Um Cântico
Espiritual da Alma e o Cristo Noivo), no Vol. II de 202.

206. The Living Flame o f Love (A Chama Viva do Amor) , no Vol. H do 202.

207. Spiritual Maxims (Máximas Espirituais), no Vol. II do 202.

208. Poems (Poemas), no Vol. II do 202.


Parte I

PRIMEIRAS PALAVRAS

QUE É Consciência Cósmica?

Este livro é uma tentativa de responder esta pergunta; não obstante, parece
razoável que se faça uma declaração prefaciai, em linguagem tão simples
quanto possível, de modo a por assim dizer abrir a porta para a exposição
mais elaborada a ser tentada no corpo do trabalho. Consciência Cósmica,
então, é uma consciência mais elevada do que a do ser humano comum. Esta
última é chamada Autoconsciência e é a faculdade sobre a qual repousa
toda a nossa vida - tanto subjetiva como objetiva - que não é comum a nós e
aos animais superiores, exceto a pequena parte dela que é derivada das poucas
pessoas que alcançaram a consciência mais elevada acima citada. Para tomar
claro este assunto, faz-se necessário entender que há três tipos ou graus de
consciência. (1) Consciência Simples, que é própria (digamos) da metade
superior do reino animal. Por meio desta faculdade, um cão ou um cavalo é
tão consciente das coisas ao seu redor quanto um ser humano; é também
consciente de seus próprios membros e de seu corpo e sabe que estes fazem
parte dele próprio. (2) Acima dessa Consciência Simples, que é própria do
ser humano como dos animais, o primeiro tem uma outra que é chamada
Autoconsciência. Em virtude desta faculdade, ele não só é consciente de
árvores, rochas, águas, seus braços, suas pernas e seu corpo, mas toma-se
consciente dele próprio como entidade distinta, separada do resto do universo.
Está fora de dúvida que nenhum animal pode ter consciência de si mesmo
dessa forma. Além disso, por meio da autoconsciência, o ser humano (que
sabe, assim como o animal sabe) toma-se capaz de tratar seus próprios estados
mentais como objetos de consciência. O animal está por assim dizer imerso
em sua consciência; assim como um peixe no mar; não pode, nem mesmo
em imaginação, emergir dela por um momento sequer, para percebê-la. Mas
o ser humano, em virtude da autoconsciência, pode por assim dizer sair de si
mesmo e pensar assim: “Sim, aquele pensamento que tive a respeito daquele
assunto é verdadeiro; sei que é verdadeiro e sei que sei que ele é verdadeiro”.
Tem sido perguntado ao autor deste livro: “Como você sabe que os animais
não conseguem pensar da mesma maneira?” A resposta é simples e
conclusiva: não há prova de que qualquer animal possa pensar assim, porém,
se pudesse, logo o saberíamos. Entre duas criaturas vivendo juntas, tais como
cães, cavalos e seres humanos, e cada qual autoconsciente, seria a coisa mais
simples do mundo estabelecer comunicação. Mesmo sendo as coisas como
são, diversificada como é a nossa psicologia, conseguimos, observando os
atos de um cão, entrar com toda liberdade na mente dele e ver o que ali se
passa; sabemos que o cão vê e ouve, cheira e saboreia; sabemos que ele tem
inteligência - que adapta os meios aos fins - que raciocina. Se ele fosse
autoconsciente, já o teríamos constatado há muito tempo. Não o fizemos, de
modo que está fora de dúvida que nenhum cão, cavalo, elefante ou macaco
jamais foi autoconsciente. E mais uma coisa, na autoconsciência do ser
humano repousa tudo o que é distintivamente humano em nós e a nosso
respeito. A linguagem é o objetivo de que a autoconsciência é o subjetivo.
Autoconsciência e linguagem - duas em uma, pois são duas metades da
mesma coisa - sao o sine qua non da vida social humana, dos compor­
tamentos, das instituições, das atividades de todo tipo, de todas as artes úteis
e belas. Se algum animal tivesse autoconsciência, parece certo que sobre
esta faculdade mestra construiria - como o ser humano o fez - uma superes­
trutura de linguagem, costumes, atividades e artes, baseados em raciocínio.
Mas nenhum animal fez isto; portanto, inferimos que nenhum animal tem
autoconsciência.

A posse da autoconsciência e da linguagem (seu outro “eu ”), por parte


do ser humano, cria uma enorme lacuna entre ele e a mais elevada criatura
dotada meramente de consciência simples.

A Consciência Cósmica é o terceiro tipo de consciência, que está tão


acima da Autoconsciência quanto esta da Consciência Simples Naturalmente,
com essa terceira consciência, ambas, a consciência simples e a autoconsciên­
cia, persistem (assim como a consciência simples persiste quando a autocons­
ciência é adquirida), mas a elas é acrescentada a nova faculdade tantas vezes
já mencionada e a ser mencionada neste livro. A característica fundamental
da Consciência Cósmica é, como seu próprio nome indica, de uma consciência
do Cosmo, isto é, da vida e da ordem do universo. O que estas palavras
significam não pode ser considerado aqui; é finalidade deste livro lançar
alguma luz sobre elas. Há muitos elementos pertencentes ao sentido cósmico
além do fato central a que acabamos de aludir. Uns poucos dentre esses
podem ser mencionados. Juntamente com a consciência do Cosmo ocorre
uma aclaração ou iluminação intelectual, que por si só colocaria o indivíduo
num novo plano de existência -tomá-lo-ia quase um membro de uma nova
espécie. A isto se acrescenta um estado de exaltação moral, um indescritível
sentimento de elevação, elação e júbilo, um despertar do senso moral, que é
plenamente tão maravilhoso e mais importante, tanto para a pessoa quanto
para a espécie, do que o intensificado poder intelectual. Com isto vem o que
pode ser chamado de senso de imortalidade, uma consciência de vida eterna;
não uma convicção de que o indivíduo terá isto, mas a consciência de que já
o tem.

Somente uma experiência pessoal disso ou um estudo prolongado de seres


humanos que tenham passado para essa nova vida há de nos tomar capazes
de entender o que isso efetivamente é; mas ao autor pareceu que valeria a
pena passar em revista, mesmo de maneira breve e imperfeita, os casos em
que essa condição se tenha verificado. Ele espera que seu trabalho venha a
ser útil de dois modos: primeiro, ampliando nossa perspectiva geral da vida
humana, abrangendo em nossa visão mental essa importante fase dela e
tomando-nos aptos a apreender em alguma medida o verdadeiro estado de
certos homens que até o presente são, ou exaltados ao nível de deuses pelo
indivíduo autoconsciente comum, ou, adotando o outro extremo, considerados
insanos. Em segundo lugar, o autor espera proporcionar ajuda aos seus seme­
lhantes num sentido muito mais importante e prático. Sua opinião é que
nossos descendentes mais cedo ou mais tarde alcançarão, como espécie, a
condição de Consciência Cósmica, do mesmo modo que há muito tempo
nossos ancestrais passaram da consciência simples para a autoconsciência.
Ele crê que este passo na evolução está sendo dado agora mesmo, pois está
claro para ele que seres humanos com aquela faculdade estão se tomando
cada vez mais comuns e também que, como espécie, estamos nos aproximando
mais e mais do estágio da mente autoconsciente a partir do qual se realiza a
transição para a Consciência Cósmica. E compreende que, considerada a
necessária hereditariedade, qualquer pessoa que ainda não tenha ultrapassado
a idade poderá alcançar a Consciência Cósmica. Sabe que o contato inteligente
com mentes cosmicamente conscientes ajuda pessoas autoconscientes na as­
censão ao plano superior. Espera portanto, provocando ou pelo menos faci­
litando esse contato, ajudar homens e mulheres a darem esse passo quase
infinitamente importante.
II

O futuro imediato de nossa espécie - o autor assim pensa - é indes­


critivelmente auspicioso. Há no momento*, pairando sobre nós, três
revoluções; a menor delas reduziria a chamada revolução histórica comum a
uma absoluta insignificância. São elas: (1) A revolução material, econômica
e social, que dependerá e será o resultado do estabelecimento da navegação
aérea. (2) A revolução econômica e social que irá abolir a propriedade
individual e livrará a Terra, de uma só vez, de dois males imensos: a riqueza
e a pobreza. (3) A revolução psíquica, de que estamos tratando.

Qualquer uma das duas primeiras mudaria (e mudará) radicalmente as


condições da vida humana e a elevaria grandemente; mas a terceira fará
mais pela humanidade do que ambas as duas outras, mesmo se a importância
delas fosse multiplicada por cem ou até por mil.

As três, operando (e elas operarão) juntas, criarão literalmente um novo


Céu e uma nova Terra. Coisas velhas serão eliminadas e tudo se tomará
novo.

Com a navegação aérea, as fronteiras nacionais, as tarifas e talvez as


diferenças de idiomas desaparecerão. As grandes cidades não terão mais
razão de ser e se desvanecerão. Os seres humanos que hoje moram em cidades
vão viver no verão nas montanhas e nas praias, construindo muitas vezes em
lugares altos e bonitos, hoje quase ou completamente inacessíveis, que
dominarão as vistas mais amplas e magníficas. No invemo, provavelmente
morarão em comunidades de tamanho moderado. A aglomeração atual em
grandes cidades e o isolamento do agricultor serão coisas do passado. O
espaço desocupado será praticamente eliminado; não haverá ajuntamento
de multidões nem solidão forçada.

Com o socialismo, a labuta esmagadora, a cruel ansiedade, as riquezas


que insultam e desmoralizam e a pobreza com seus males se tomarão assuntos
para romances históricos.

Em contato com o fluxo de consciência cósmica, todas as religiões hoje


conhecidas e citadas se desvanecerão. A alma humana será revolucionada.
A religião dominará a espécie humana de maneira absoluta. Não dependerá
de tradição. Não será objeto de crença ou de descrença. Não será uma parte
*Cerca de 1900 d.C.
da vida, pertencendo a certos momentos, horas, ocasiões. Não estará em
livros sagrados nem na boca de sacerdotes. Não se encontrará em igrejas e
reuniões, em formalismos e dias certos. A vida religiosa não estará em orações,
hinos ou sermões. Não dependerá de revelações especiais, das palavras de
deuses que tenham descido à Terra para ensinar, nem de nenhuma bíblia, ou
de bíblias. Não terá nenhuma missão de salvar os seres humanos de seus
pecados ou de lhes assegurar a entrada no Céu. Não ensinará uma imortalidade
futura nem futuras glórias, pois a imortalidade e toda a glória existirão aqui
e agora. A prova da imortalidade viverá em todos os corações, assim como
a vista em todos os olhos. Dúvida quanto a Deus e à vida eterna será
impossível, como o é hoje a dúvida quanto à existência; a prova de ambas
será a mesma. A religião regerá todos os minutos de todos os dias de toda
vida. As igrejas, os sacerdotes, os ritos, os credos, as orações, todos os agentes,
todos os intermediários entre o ser humano individual e Deus, serão
permanentemente substituídos por uma relação direta e inequívoca. O pecado
não mais existirá nem tampouco será desejada a salvação. Os seres humanos
não se preocuparão com a morte ou com o futuro, com o reino dos céus, com
o que poderá vir com e após o cessar da vida do corpo atual. Cada alma
sentir-se-á e saber-se-á imortal; sentirá e saberá que o universo inteiro, com
todo seu bem e toda sua beleza, existe para ela e a ela pertence para sempre.
O mundo povoado de pessoas que tenham alcançado a Consciência Cósmica
será tão diferente em comparação com o mundo de hoje como este é diferente
do que era antes do advento da autoconsciência.

III

Há uma tradição, provavelmente muito antiga, no sentido de que o


primeiro ser humano era inocente e feliz até o momento em que comeu do
fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. E de que, por ter comido
desse fruto, tornou-se ele consciente de que estava nu e sentiu vergonha.
Além disso, de que então o pecado nasceu no mundo e o senso desditoso do
mesmo substituiu o sentimento anterior de inocência do ser humano. De que
daí em diante - e não até então - o homem começou a trabalhar e a cobrir
seu corpo. Mais estranho ainda - assim nos parece e a história continua - de
que, juntamente com essa mudança ou imediatamente depois dela, veio à
mente humana a notável convicção - que nunca mais a deixou mas que tem
sido mantida viva pela sua própria vitalidade inerente e pelo ensinamento
de todos os verdadeiros videntes, profetas e poetas - de que aquela coisa
amaldiçoada que picou o calcanhar do ser humano - aleijando-o, retardando
e especialmente tomando seu progresso vacilante e penoso - haveria de ser
um dia esmagada e subjugada pelo próprio ser humano, com o emergir, em
seu interior, de um Salvador - o Cristo.

O progenitor do homem era uma criatura (um animal) que caminhava


ereta mas que era dotada apenas de consciência simples. Era (como o são
hoje os animais) incapaz de pecar ou de sentir o que fosse pecar e igualmente
incapaz de sentir vergonha (pelo menos no sentido humano). Não tinha
nenhum sentimento ou conhecimento de bem e mal. Nada sabia até então
daquilo que chamamos de trabalho e nunca havia trabalhado. Desse estado
caiu (ou ascendeu) para a autoconsciência; seus olhos se abriram; tomou
consciência de que estava nu, sentiu vergonha, adquiriu o senso do pecado
(tomou-se na verdade o que se chama de pecador) e aprendeu a fazer certas
coisas para alcançar certas metas - isto é, aprendeu a trabalhar.

Esta situação perdurou por penosas eras: o senso de pecado continua


rondando seu caminho; é pelo suor de sua fronte que ainda come pão; e
ainda sente vergonha. Onde está o libertador, o Salvador? Quem é, ou que é
ele?

O Salvador do ser humano é a Consciência Cósmica - na linguagem de


Paulo, o Cristo. O sentido cósmico (seja qual for a mente em que apareça)
esmaga a cabeça da serpente - destrói o pecado, a vergonha, a consciência
de bem e mal tais como contrastados entre si, e há de eliminar o labor,
embora não elimine a atividade humana.

O fato de que veio ao ser humano - juntamente com ou imediatamente


após sua aquisição da autoconsciência - a premonição incipiente de uma
outra e mais alta consciência, que na ocasião ainda estava muitos milênios
no futuro, é seguramente m uitíssim o digno de nota, embora não
necessariamente surpreendente, Temos na Biologia muitos fatos análogos,
tais como a premonição e a preparação, por parte do indivíduo, de estados e
circunstâncias de que ele não tenha tido nenhuma experiência; e vemos a
mesma coisa no instinto maternal de uma moça ainda muito nova.

O esquema universal está tecido em uma só peça e é permeável à


consciência ou - e especialmente - à subconsciência, em toda sua extensão e
em todas as direções. O universo é uma vasta evolução - grandiosa, terrível,
multiforme e no entanto uniforme. A seção que nos diz particularmente
respeito é a que se estende do bruto ao homem, do homem ao semideus e que
constitui o impressionante drama da humanidade - seu cenário, a superfície
do planeta - seu tempo, um milhão de ános.
IV

A finalidade destas observações preliminares é lançar tanta luz quanto


possível sobre o assunto deste livro, de modo a aumentar o prazer e o proveito
de seu uso. Uma exposição pessoal da própria introdução do autor ao fato
principal aqui tratado talvez sirva a essa finalidade tanto quanto qualquer
outra coisa. Portanto, ele fará francamente um esboço muito breve de sua
vida mental em sua primeira idade, bem como um breve relato de sua leve
experiência daquilo que chama de consciência cósmica. Assim o leitor
perceberá imediatamente de onde vieram as idéias e convicções apresentadas
nas páginas seguintes.

Ele nasceu em boa família de classe média inglesa e cresceu quase sem
instrução no que era na época uma fazenda agreste do Canadá. Quando
criança, ajudava em tarefas consoantes com sua capacidade: cuidava do gado,
de cavalos, ovelhas e porcos; apanhava lenha, trabalhava no campo de feno,
tocava bois e cavalos, procurava animais desgarrados. Suas distrações eram
tão simples como suas tarefas. Uma visita ocasional a uma pequena cidade
vizinha, jogar bola, banhar-se no riacho que corria na fazenda de seu pai,
confeccionar e fazer flutuar pequenas imitações de barcos, procurar ovos de
pássaros e flores na primavera, bem como frutas silvestres no verão e no
outono, constituíam, com seus patins e seu trenó manual no inverno, as
diversões simples que ele adorava. Ainda muito jovem lia e apreciava
intensamente os romances de Marryat, os poemas e romances de Scott e
outros livros do gênero que tratavam da natureza ao ar livre e da vida humana.
Nunca, nem mesmo quando criança, aceitou as doutrinas da Igreja Cristã;
mas, tão logo atingiu idade suficiente para refletir sobre tais temas, concebeu
que Jesus fora um homem - sem dúvida grandioso e bom, mas um homem;
que ninguém jamais seria condenado a uma pena eterna; que se existia um
Deus consciente ele era o mestre supremo e queria o bem de todos no final;
mas que, chegando ao fim esta vida visível no mundo, era duvidoso, ou mais
que duvidoso, que a identidade consciente fosse preservada. O rapaz (e mesmo
a criança) meditava tais tópicos e outros do gênero bem mais do que alguém
poderia supor, mas provavelmente não mais do que muitos outros de seus
pequenos semelhantes mortais de natureza introspectiva. Ele estava sujeito,
às vezes, a uma espécie de êxtase de curiosidade e esperança. Como numa
ocasião especial, quando tinha aproximadamente dez anos de idade, em que
desejou seriamente morrer, para que os segredos do além - desde que houvesse
esse além - lhe pudessem ser revelados. Era sujeito também a agonias de
ansiedade e terror; por exemplo quando, mais ou menos na mesma idade,
leu Fausto de Reynold e, quando estava perto do final, numa tarde ensolarada,
largou o livro completamente sem condição de continuar sua leitura e correu
para o sol a fim de se recuperar do horror que se apossara dele - evento de
que se lembra mais de cinqüenta anos depois. Sua mãe faleceu quando ele
tinha apenas alguns anos de vida e, seu pai, pouco depois. As circunstâncias
exteriores de sua vida, em alguns aspectos, tomaram-se mais infelizes do
que se pode facilmente contar. Aos dezesseis anos saiu de casa para viver ou
morrer. Durante cinco anos vagueou pela América do Norte, desde os Grandes
Lagos até o Golfo do México, desde o alto Ohio até San Francisco. Trabalhou
em fazendas, estradas de ferro, barcos a vapor e nas minas do oeste de Nevada.
Várias vezes quase sucumbiu por motivos de doença, fome, frio intenso e,
certa vez, nas barrancas do Rio Humboldt, em Utah, lutou por sua vida contra
os índios Shoshones, durante meio dia. Depois de vaguear cinco anos, aos
vinte e um voltou para o lugar onde havia passado sua infância. Uma
importância razoável em dinheiro, de sua falecida mãe, permitiu-lhe passar
alguns anos estudando e sua mente, após ter ficado inativa por tanto tempo,
absorveu idéias com extraordinária facilidade. Diplomou-se com louvor quatro
anos depois de seu retomo da costa do Pacífico. Fora do curso da faculdade,
leu com avidez muitos livros especulativos, tais comovi Origem das Espécies
(de Darwin), O Calor e Ensaios (de Tyndall), História e Ensaios e Revisões
(de Buckle), e muita poesia, especialmente aquela que lhe pareceu livre e
destemida. Nesta espécie de literatura, logo preferiu Shelley e, dentre seus
poemas, Adonais e Prometheus foram seus favoritos. Sua vida, por alguns
anos, foi um apaixonado ponto de interrogação, uma sede insaciável de
esclarecimento sobre os problemas básicos. Ao sair do colégio, continuou
sua busca com o mesmo ardor. De maneira autodidata, estudou francês para
poder ler Auguste Comte, Hugo e Renan, e alemão para poder ler Goethe,
especialmente o Fausto. Aos trinta anos descobriu Leaves o f Grass (Folhas
de Relva) e percebeu de imediato que este livro continha, em maior medida
do que qualquer outro que já lera, aquilo que por tanto tempo estivera
procurando. Leu Leaves sequiosa e mesmo apaixonadamente; durante anos,
porém, pouco proveito tirou da obra. Finalmente a luz se fez e a ele se
revelaram - talvez ao ponto em que tais coisas possam ser reveladas - pelo
menos alguns de seus significados. Então ocorreu aquilo de que o que se
escreveu até agora é prefácio.

Foi no começo da primavera, no início de seu trigésimo sexto ano de


vida. Ele e dois amigos tinham passado a noite lendo Wordsworth, Shelley,
Keats, Browning e especialmente Whitman. Separaram-se à meia-noite e
ele partiu para um longo percurso em fiacre. Sua mente, sob a profunda
influência das idéias, imagens e emoções suscitadas pela leitura e pela
conversa, estava calma e em paz. Ele estava num estado de deleite tranqüilo,
quase passivo. De repente, sem qualquer prenúncio, sentiu-se como que
envolto numa nuvem da cor de uma chama. Por um instante pensou em fogo
- algum súbito incêndio na grande cidade. No instante seguinte percebeu
que a luz estava em seu interior. Logo depois veio-lhe um sentimento de
júbilo, de imensa felicidade, acompanhado ou imediatamente seguido de
uma iluminação intelectual totalmente impossível de descrever. Em sua mente
jorrou um lampejo do Esplendor Bramânico, que desde então iluminou sua
vida. Em seu coração caiu uma gota da Bem-aventurança Bramânica,
deixando de então em diante, para sempre, um gosto de Céu. Entre outras
coisas em que não chegou a acreditar, percebeu e compreendeu que o Cosmo
não é matéria morta e sim uma Presença viva; que a alma do ser humano é
imortal; que o universo é tão bem estruturado e ordenado que, sem qualquer
possibilidade de erro, todas as coisas trabalham juntas para o bem de cada
uma e de todas; que o princípio fundamental do mundo é o que chamamos
de amor e que a felicidade de cada um é a longo prazo absolutamente certa.
Ele afirma que aprendeu mais naqueles poucos segundos que durou a
iluminação do que em meses ou mesmo anos anteriores de estudo e que
aprendeu muita coisa que nenhum estudo lhe poderia ter ensinado.

A iluminação em si continuou por não mais do que uns poucos momentos,


mas seus efeitos demonstraram-se indeléveis; foi-lhe impossível jamais
esquecer o que naquele instante percebeu e compreendeu; nem tampouco
jamais duvidou (nem poderia duvidar) da verdade do que fora apresentado à
sua mente. Não houve retomo, naquela noite ou em qualquer outro momento,
daquela experiência. Mais tarde ele escreveu um livro (28a) em que procurou
incluir o ensinamento da iluminação. Alguns dos que o leram julgaram-no
de alto nível, porém (como era de esperar, por muitas razões), ele teve pequena
circulação.

O acontecimento supremo daquela noite foi sua real e única iniciação à


nova e superior ordem de idéias. Mas foi apenas uma iniciação. Ele vira a
luz mas não fazia mais idéia de onde ela viera e do seu significado do que a
primeira criatura que viu a luz do Sol. Anos depois conheceu C. P., de quem
ouvira dizer que tinha uma extraordinária percepção espiritual. Achou que
C. P. havia entrado na vida mais sublime - de que ele próprio tivera um
vislumbre - e tivera uma grande experiência de seus fenômenos. Sua conversa
com C. P. lançou muita luz sobre o verdadeiro significado do que ele próprio
tinha vivenciado.
Contemplando então o mundo do ser humano, apercebeu-se da importân­
cia da luz subjetiva no caso de Paulo e no de Maomé. O segredo da grandeza
transcendente de Whitman lhe foi revelado. Certas conversas com J.H.J. e
com J.B. o ajudaram bastante. A convivência com Edward Carpenter, T.S.R.,
C.M.C. e M.C.L. ajudou muito na ampliação e no esclarecimento de suas
pesquisas, na extensão e coordenação de seus pensamentos. Muito tempo e
trabalho, porém, foram ainda necessários antes que o conceito germinal pudes­
se ser satisfatoriamente elaborado e amadurecido, ou seja, a idéia de que
existe uma familia que se origina e vive entre os membros da humanidade
mas que dificilmente faz parte da humanidade comum, cujos integrantes
estão largamente espalhados pelas raças humanas adiantadas e pelos últimos
quarenta séculos da história do mundo.

A peculiaridade que distingue essas pessoas dos outros seres humanos é


esta: seus olhos espirituais se abriram e elas enxergaram. Os membros mais
conhecidos desse grupo - os quais, se fossem reunidos, caberiam numa só
vez numa moderna sala de estar - criaram todas as grandes religiões atuais,
começando com o taoísmo e o budismo; e, falando de maneira geral, criaram,
através da religião e da literatura, a civilização moderna. Não que tenham
contribuído com uma grande proporção numérica dos livros que já foram
escritos, mas que produziram as poucas obras que inspiraram o número maior
dos que foram escritos nos tempos atuais. Esses homens dominam os últimos
vinte e cinco e especialmente os últimos cinco séculos, como estrelas de
primeira grandeza dominam o céu da meia-noite.

Um homem é identificado como membro dessa família pelo fato de que,


em certa idade, tenha passado por um novo nascimento e ascendido a um
plano espiritual superior. A realidade desse novo nascimento é demonstrada
pela luz subjetiva e por outros fenômenos. O objetivo deste livro é ensinar a
outros o pouco que o próprio autor tenha tido a capacidade de aprender a
respeito do estado espiritual dessa nova raça.

Resta dizer algumas palavras a respeito da origem psicológica do que é


chamado de Consciência Cósmica neste livro e que não deve de modo algum
ser considerado em qualquer sentido como sobrenatural ou supranormal -
como algo mais, ou menos, do que um crescimento natural.
Embora a natureza moral tenha um papel importante no nascimento da
Consciência Cósmica, será melhor por muitas razões limitarmos nossa aten-
ção, no momento, à evolução do intelecto. Nesta evolução há quatro estágios
distintos. O primeiro deles foi alcançado quando à qualidade primária de
excitabilidade foi incorporada a sensação. Neste ponto tiveram início a
aquisição e o registro, mais ou menos perfeito, de impressões sensoriais -
isto é, dos perceptos.

Naturalmente, um percepto é uma impressão sensorial - um som é ouvido


ou um objeto é visto e a impressão produzida é um percepto. Se pudéssemos
recuar suficientemente no tempo, encontraríamos entre nossos ancestrais
uma criatura cujo intelecto seria todo composto simplesmente de tais
perceptos. Mas essa criatura (qualquer que fosse o seu nome) teria em si o
que pode ser chamado de aptidão de crescimento e o que teria acontecido
com ela teria sido algo assim: individualmente e de geração em geração,
teria acumulado esses perceptos, cuja constante repetição, requerendo mais
e mais registros, teria levado, na luta pela sobrevivência e sob a lei da seleção
natural, a um acúmulo de células nos gânglios sensoriais centrais; essa
multiplicação de células teria possibilitado mais registro; isto, por sua vez,
teria tornado necessário o crescimento dos gânglios e assim por diante.
Finalmente teria sido alcançada uma condição em que se teria tomado possível
ao nosso ancestral combinar grupos desses perceptos naquilo que hoje
denominamos recepto*. Este processo é muito semelhante ao da fotografia
composta. Perceptos semelhantes (como os de uma árvore) são registrados
um sobre o outro até que - tendo o centro nervoso se tomado competente
para essa tarefa - são por assim dizer generalizados num só percepto; mas a
percepção composta não é mais nem menos que um recepto - algo que foi
recebido.

Agora o trabalho de acumulação recomeça num plano superior: os órgãos


sensoriais mantêm-se firmemente ativos produzindo mais e mais receptos a
partir dos velhos e dos novos perceptos; as potencialidades dos gânglios
centrais são constantemente forçadas afazer o necessário registro de perceptos,
sua necessária elaboração em receptos e o necessário registro de receptos;
então, conforme os gânglios são aperfeiçoados por uso e seleção, produzem
constantemente, partindo de perceptos e dos receptos simples iniciais, receptos
cada vez mais complexos, isto é, cada vez mais superiores.

•N.T. - Recepto: Idéia ou imagem mental formada por percepções sucessivas dos
mesmos objetos ou de objetos semelhantes, acentuando suas características
comuns.
Finalmente, após muitos milhares de gerações terem vivido e morrido,
chegou um momento em que a mente do animal que estamos considerando
alcançou o mais alto ponto possível de inteligência puramente receptiva; a
acumulação de perceptos e receptos continuou até que um cabedal maior de
impressões não pôde ser acrescentado e nenhuma elaboração ulterior destas
pôde ser efetuada no plano da inteligência receptiva. Deu-se então uma nova
mudança e os receptos superiores foram substituídos por conceptos*. A
relação entre um concepto e um recepto é algo parecida com a relação entre
a álgebra e a aritmética. Um recepto é, como já foi dito, uma imagem composta
de centenas, talvez milhares de perceptos; ele próprio é uma imagem abstraída
de muitas imagens; mas um concepto é aquela mesma imagem composta -
aquele mesmo recepto - nomeada, rotulada e, por assim dizer, dispensada.
Um concepto é em verdade nem mais nem menos que um recepto nomeado
(que recebeu um nome) - o nome, isto é, o signo (como na álgebra),
representando daí em diante a própria coisa, isto é, o recepto.

Agora está claro como o dia, para qualquer pessoa que dê o mínimo de
atenção a este assunto, que a revolução pela qual os receptos são substituídos
por conceptos aumenta a eficiência do cérebro no pensamento, tanto quanto
a introdução de máquinas aumentou a capacidade da espécie humana para
o trabalho - ou tanto quanto o uso da álgebra aumenta o poder da mente para
cálculos matemáticos. Substituir um recepto grande e canhestro por um signo
simples foi quase como substituir mercadorias reais - tais como trigo, tecidos
ou ferramentas - por lançamentos num livro razão.
Mas, como foi sugerido acima, para que um recepto possa ser substituído
por um concepto precisa receber um nome ou, em outras palavras, precisa
ser marcado com um signo que o represente, assim como uma etiqueta
representa uma bagagem ou um lançamento num livro razão representa um
lote de mercadorias; em outras palavras, a espécie que tem conceptos é também
- e necessariamente - a que tem linguagem. Além disso devemos notar que,
assim como a posse de conceptos implica a posse de linguagem, assim também
a posse de conceptos e linguagem - que são na realidade dois aspectos de
uma mesma coisa - implica a posse de autoconsciência. Tudo isto significa
que há um momento na evolução da mente em que o intelecto receptivo,
capaz somente de consciência simples, toma-se quase instantaneamente ou
de fato instantaneamente um intelecto conceptual, possuidor de linguagem e
autoconsciência.
*N.T. - Concepto: A resultante de uma operação mental generalizadora; uma imagem
mental genérica abstraída de receptos.
Quando dizemos que um indivíduo - seja um adulto de muito tempo
atrás ou uma criança atual - entrou na posse de conceptos, de linguagem e
de autoconsciência num instante, queremos naturalmente dizer que ele entrou
na posse da autoconsciência e de um ou alguns conceptos, bem como de uma
ou algumas palavras verdadeiras, instantaneamente - e não que tenha entrado
na posse de toda uma linguagem naquele curto tempo. Na história do ser
humano individual, o ponto em questão é alcançado e ultrapassado
aproximadamente na idade de três anos; na história da espécie humana, foi
alcançado e ultrapassado há várias centenas de milhares de anos.

Atingimos agora, em nossa análise, o ponto em que cada um de nós se


encontra individualmente, ou seja, da mente conceptual, autoconsciente. Ao
adquirirmos este novo e mais alto tipo de consciência, em nenhum momento
se deve supor que tenhamos deixado de ter nossa inteligência receptiva ou
nossa antiga mente perceptiva; na verdade não poderíamos viver sem elas,
tanto quanto o animal que não tem outra mente além delas. Nosso intelecto
então, hoje, é constituído de uma mistura muito complexa de perceptos,
receptos e conceptos.

Consideremos agora, por um instante, o concepto. Este pode ser


considerado como um recepto grande e complexo, porém, maior e mais
complexo do que qualquer recepto. É composto de um ou mais receptos
provavelmente combinados com vários perceptos. Esse recepto, extremamente
complexo, é então marcado por um signo, ou seja, recebe um nome e, em
virtude desse nome, toma-se um concepto. Este, após ter sido nomeado ou
marcado, é (por assim dizer) deixado de lado, assim como uma bagagem
conferida é etiquetada e empilhada no depósito de bagagens.

Por meio da etiqueta, podemos enviar a bagagem a qualquer parte da


América, sem jamais vê-la ou saber exatamente onde se encontra num dado
momento. Assim, por meio de seus signos, podemos desenvolver conceptos
a cálculos complicados, poesias e sistemas de filosofia, sem saber na metade
do tempo coisa alguma a respeito daquilo que é representado pelos conceptos
individuais que estamos usando.

Agora é preciso fazer uma observação à margem do assunto principal. Já


foi notado milhares de vezes que o cérebro de um ser humano pensante não
excede em tamanho o de um silvícola não-pensante, em coisa alguma que se
pareça com a proporção em que a mente do pensador excede a do silvícola.
A razão disso é que o cérebro de um Herbert Spencer tem bem pouco mais
trabalho a fazer do que o de um nativo australiano, pois Spencer faz todo seu
trabalho mental característico por signos ou registros que representam
conceptos, ao passo que o silvícola faz todo ou quase todo o seu trabalho por
meio de canhestros receptos. O silvicola está numa situação comparável à de
um astrônomo que faça seus cálculos por aritmética, enquanto Spencer está
na situação de um outro que os faça usando álgebra. O primeiro preencherá
muitas folhas grandes de papel com números e terá um trabalho imenso; o
outro fará os mesmos cálculos num papel do tamanho de um envelope e com
um trabalho mental comparativamente pequeno.

O próximo capítulo nessa história é a acumulação de conceptos. Este é


um processo duplo. Desde a idade, digamos, de três anos, cada pessoa
acumula, ano após ano, um número de conceptos cada vez maior, enquanto,
ao mesmo tempo, os conceptos individuais vão constantemente se tomando
mais e mais complexos. Considere-se por exemplo o concepto ciência , tal
como existe na mente de um menino e na de um homem pensante de meia
idade; no primeiro ele representa algumas dúzias ou algumas centenas de
fatos; no segundo, muitos milhares.

Haverá algum limite para esse crescimento de conceptos em número e


complexidade? Quem quer que considere seriamente esta questão verá que
deve haver um limite. Nenhum processo como esse poderia prosseguir
infinitamente. Caso a natureza tentasse tal façanha, o cérebro teria de crescer
a um ponto em que não poderia mais ser alimentado e seria atingida uma
condição semelhante a um impasse, que impediria ulterior progresso.

Vimos que a expansão da mente perceptiva tinha necessariamente um


limite; que a continuidade de sua própria vida levou-a inevitavelmente à
mente receptiva. Esta, por seu próprio crescimento, foi inevitavelmente levada
e elevada à mente conceptual. Considerações a priori nos dão a certeza de
que uma saída correspondente será encontrada para a mente conceptual.

Mas não precisamos depender de raciocínio abstrato para demonstrar a


necessária existência da mente supraconceptual, pois esta existe e pode ser
estudada com dificuldade não maior do que a enfrentada quanto a outros
fenômenos naturais. O intelecto supraconceptual - cujos elementos, ao invés
de serem conceptos, são intuições - já é, embora em números pequenos, um
fato comprovado; e o tipo de consciência que pertence a esse intelecto pode
ser chamado e tem sido chamado de Consciência Cósmica.
Assim, temos quatro estágios distintos de intelecto, todos abundantemente
ilustrados nos reinos animal e humano ao nosso redor - todos igualmente
ilustrados no crescimento individual da mente cosmicamente consciente e
todos os quatro existindo juntos nessa mente, do mesmo modo que os três
primeiros existem juntos na mente humana comum. Estes quatro estágios
são: primeiro, a mente perceptiva - a mente composta de perceptos ou
impressões sensoriais; segundo, a mente composta destes e dos receptos - a
chamada mente receptiva ou, em outras palavras, a mente da consciência
simples; em terceiro lugar temos a mente composta de perceptos, receptos e
conceptos, chamada às vezes de mente conceptual, ou de mente autocons-
ciente - a mente da autoconsciência; finalmente, em quarto lugar, temos a
mente intuitiva - a mente cujo elemento superior não é um recepto nem um
concepto, mas uma intuição. Esta é a mente em que a sensação, a consciência
simples e a autoconsciência são suplementadas e coroadas com a consciência
cósmica.

Mas é necessário mostrar mais claramente ainda a natureza desses quatro


estágios e sua relação um para com o outro. O estágio perceptivo ou sensorial
do intelecto é muito fácil de se compreender, de modo que podemos passar
por ele fazendo apenas uma observação, ou seja, que numa mente inteiramente
composta de perceptos não há qualquer espécie de consciência. Quando,
entretanto, a mente receptiva vem à existência, nasce a consciência simples,
o que significa que os animais são conscientes (como sabemos que são) das
coisas que vêem ao seu redor. Mas a mente receptiva é capaz somente de
consciência simples - isto é, o animal é consciente do objeto que vê, mas não
sabe que é consciente desse objeto; nem é consciente de si mesmo como
entidade ou personalidade distinta. Em ainda outras palavras, o animal não
pode se situar fora de si mesmo e olhar para si mesmo, como pode qualquer
criatura autoconsciente. Isto, então, é consciência simples; ser consciente
das coisas ao seu redor mas não ser consciente do seu ego. Mas tendo eu
alcançado a autoconsciência, não estou apenas consciente do que vejo, mas
também sei que estou consciente disso. Estou ainda consciente de mim mesmo
como entidade e personalidade separada e posso me situar fora de mim mesmo
e contemplar a mim mesmo, assim como posso analisar e julgar as operações
de minha própria mente, como analisaria e julgaria qualquer outra coisa.
Esta autoconsciência só é possível após a formação de conceptos e o
conseqüente nascimento da linguagem. Na autoconsciência está baseada toda
a vida distintivamente humana até agora, exceto a que procedeu das poucas
mentes cosmicamente conscientes dos últimos três mil anos. Finalmente, o
feto básico na consciência cósmica está contido em seu próprio nome; esse
fato é a consciência do cosmo - isto é o que é chamado no Oriente de
“Esplendor Bramânico”, que, nas palavras de Dante, é capaz de trans-
humanizar um homem num deus. Whitman, que tem muitíssimo a nos dizer
a este respeito, usa em certo lugar a expressão “luz inefável - luz rara,
inexprimível, iluminando a própria luz - transcendendo todos os signos, as
descrições, os idiomas”. Esta consciência mostra que o cosmo consiste, não
em matéria morta regida por uma lei inconsciente, rígida, sem intenção;
mostra-o, pelo contrário, como inteiramente imaterial, inteiramente espiritual
e inteiramente vivo; mostra que a morte é um absurdo e que todo ser e toda
coisa tem vida eterna; mostra que o universo é Deus e que Deus é o universo
e que nenhum mal jamais entrou nele nem jamais entrará; grande parte
disto tudo é naturalmente absurdo do ponto de vista da autoconsciência; no
entanto isto é indubitavelmente verdadeiro. Mas tudo isto não quer dizer
que, quando um homem tem consciência cósmica, sabe tudo a respeito do
universo. Todos sabemos que, quando aos três anos de idade adquirimos
autoconsciência, não soubemos de imediato tudo a respeito de nós mesmos;
sabemos, pelo contrário, que depois de muitos milhares de anos de experiência
de si mesmo o ser humano ainda hoje sabe comparativamente pouco acerca
de si próprio, mesmo considerado como uma personalidade autoconsciente.
Assim, tampouco um homem sabe tudo a respeito do cosmo meramente
porque se toma consciente dele. Se a espécie precisou de várias centenas de
milhares de anos para ter uma pequena noção da ciência da humanidade
desde sua aquisição da autoconsciência, poderá levar milhões de anos para
ter uma pequena noção da ciência de Deus após sua aquisição da consciência
cósmica.

Assim como o mundo humano tal como o vemos, com todas as suas
realizações e maneiras de ser, está baseado na autoconsciência, na consciência
cósmica estão baseadas as religiões e as filosofias superiores e o que delas
provém; e nela estará baseado, quando ela se tomar mais generalizada, um
novo mundo de que seria ocioso tentar falar hoje em dia.

A filosofia do nascimento da consciência cósmica no indivíduo é muito


semelhante à do nascimento da autoconsciência. A mente se toma superlotada
(por assim dizer) de conceptos e estes vão constantemente se tomando
maiores, mais numerosos e cada vez mais complexos; um dia (se todas as
condições são favoráveis) ocorre a fusão - ou o que poderia ser chamado de
união química - de diversos deles e de certos elementos morais; o resultado
é uma intuição e o estabelecimento da mente intuitiva, ou seja, da consciência
cósmica.
O esquema sobre o qual a mente está construída é uniforme do início ao
fim: um recepto é composto de muitos perceptos; um concepto, de muitos ou
vários receptos e perceptos; e uma intuição é composta de muitos conceptos,
receptos e perceptos, juntamente com outros elementos pertencentes à
natureza moral e desta última atraídos. A visão cósmica ou a intuição cósmica
- de que aquilo que pode ser chamado de nova consciência toma seu nome -
assim mostra ser simplesmente o complexo e a união de todos os pensamentos
e de todas as experiências anteriores, do mesmo modo que a autoconsciência
é o complexo e a união de todos os pensamentos e de todas as experiências
que a antecederam.
entre os reinos inorgânico e orgânico e o salto com que esse hiato foi
transposto; nesse hiato ou abismo tem residido, desde então, ou a substância
ou a sombra de um deus cuja mão tem sido considerada necessária para
alçar e promover os elementos do plano inferior para o superior.

Ao longo do caminho plano da formação de sóis e planetas, da crosta da


Terra, de rochas e solo, somos levados pelos evolucionistas de maneira suave
e segura; mas quando atingimos esse perigoso fosso que se estende
interminavelmente para a direita e para a esquerda em nosso caminho,
paramos e, mesmo um piloto hábil e corajoso como Lester Ward (190. 300-
320), dificilmente pode nos induzir a tentar o salto com ele, tão amplo e
escuro se apresenta o ameaçador abismo. Sentimos que a natureza, que tudo
fez - e coisas muito maiores - foi competente para cruzar e de fato cruzou
essa aparente brecha, embora talvez não tenhamos hoje condição de colocar
um dedo em cada uma de suas pegadas. Por enquanto, porém, isto representa
a primeira e maior das chamadas barreiras para a aceitação da doutrina da
continuidade absoluta na evolução do mundo visível.

Mais tarde na história da Criação advém o começo da Consciência


Simples. Um belo dia certos indivíduos de alguma espécie mais adiantada
no lento desenvolvimento da vida neste planeta - pela primeira vez - tomam-
se conscientes; sabem que existe um mundo, alguma coisa, fora deles. Apesar
de que tem sido menos ponderado, esse passo do inconsciente para o
consciente bem poderia nos impressionar como sendo tão imenso, tão
milagroso e tão divino como o da passagem do reino inorgânico para o
orgânico.

Então, correndo paralelamente ao rio do tempo, percebemos uma longa,


uniforme e gradativa ascensão, estendendo-se do nascer da Consciência
Simples à sua mais alta excelência nos melhores tipos pré-humanos - o
cavalo, o cachorro, o elefante e o macaco. Neste ponto nos defrontamos com
uma outra brecha, comparável às que a precederam cronologicamente - a
saber, o hiato, ou o aparente hiato entre a Consciência Simples e a
Autoconsciência: o profundo abismo ou desfiladeiro, num dos lados do qual
perambula o bruto, enquanto no outro vive o ser humano. Um abismo no
qual foram jogados livros suficientes (pudessem eles ter sido convertidos em
pedras ou blocos de ferro) para represar um grande rio ou construir uma
ponte sobre ele. Um abismo que só agora pode ser cruzado com segurança,
graças ao trabalho do lamentado G. J. Romanes em seu valioso tratado sobre
a Origem da Faculdade Humana [134],
Até bem pouco tempo essa brecha na linha de ascenso (ou de descenso)
era considerada - inclusive pela maioria - como intransponível pelo cres­
cimento comum. Pode-se dizer que ela é agora tida como transponível, mas
ainda se apresenta à nossa visão como destacada e fora do caminho uniforme
do desenvolvimento Cósmico, assim como o grande abismo ou hiato entre o
bruto e o ser humano.

Por algumas centenas de milhares de anos, no plano geral da Autocons­


ciência, deu-se uma ascensão, gradual para os olhos humanos mas rápida do
ponto de vista da evolução cósmica. Em certa espécie, de cérebro desenvolvido,
caminhando ereta, gregária, brutal mas reinando sobre todos os outros brutos,
humana em aparência mas não de fato - o chamado alalus-homo - nasceu,
do nível mais alto de Consciência Simples, a faculdade humana básica de
Autoconsciência e com ela sua gêmea, a linguagem. Destas e do que delas
decorreu, através de sofrimento, labuta e guerra; através de bestialidade,
selvageria, barbárie; através de escravidão, ganância, esforço; através de
conquistas sem fim, de esmagadoras derrotas, de lutas intermináveis; através
de eras de existência semibrutal sem rumo; através da subsistência por meio
de frutas silvestres e raízes; através do uso de pedras e galhos casualmente
encontrados; através da vida em floresta densa, alimentando-se de nozes e
sementes e, nas praias, de moluscos, crustáceos e peixes; através da maior,
talvez, das vitórias humanas, a de domesticar e subjugar o fogo; através da
invenção e arte do arco e flecha; através da prática de domar os animais e
submetê-los ao trabalho; através do longo aprendizado que levou ao cultivo
do solo; através do adobe e, com ele, da construção de casas; através da
fundição de metais e do lento nascimento das artes que deles derivam; através
da lenta elaboração de alfabetos e da evolução da palavra escrita; em suma,
através de milhares de séculos de vida humana, de aspiração humana, de
crescimento humano, expandiu-se o mundo dos homens e das mulheres tal
como hoje se apresenta a nós e dentro de nós, com todas as suas realizações
e posses [124. 10-13],

Será que isso é tudo? Que é o fim? Não. Assim como a vida surgiu num
mundo sem vida; assim como a Consciência Simples veio a existir onde
antes havia mera vitalidade sem percepção; assim como a Autoconsciência,
saltando de asas abertas da Consciência Simples, esvoaçou alto sobre terra e
mar, assim também a espécie humana, que foi deste modo estabelecida,
continuando sua ascensão sem começo nem fim, dará outros passos - o
próximo está agora no ato de ser dado - e alcançará uma vida ainda mais
elevada do que qualquer outra vivenciada até aqui ou mesmo concebida.
Que fique claramente entendido que esse novo passo (para cuja explicação
este livro está sendo escrito) não é simplesmente uma expansão da autocons­
ciência, mas algo tão diferente disto quanto essa expansão é diferente da
consciência simples, ou quanto esta o é da mera vitalidade destituída de
qualquer consciência, ou ainda como esta última se diferencia do mundo de
matéria inorgânica e energia que a precedeu e do qual procedeu.
NO PLANO DA AUTOCONSCIÊNCIA

Em primeiro lugar seria conveniente fixar bem o significado da palavra


autoconsciência, sobre cuja definição um excelente escritor e pensador muito
competente faz estas observações: “A Autoconsciência é muitas vezes citada
como uma característica distintiva do homem. Muitos, entretanto, falham
em alcançar uma concepção clara do que seja esta faculdade. O Dr. Carpenter
a confunde com “o poder de refletir sobre seus próprios estados mentais”,
enquanto o Sr. Darwin a associa a abstração e outras dentre as faculdades
derivativas. Certamente ela é algo muito mais simples do que a introspecção
e tem origem mais remota do que as faculdades especulativas altamente
derivativas. Se apenas pudesse ser apreendida e claramente compreendida, a
autoconsciência indubitavelmente se revelaria o atributo humano primário e
fimdamental. Nosso idioma parece carecer da palavra adequada para expressá-
la na sua forma mais simples. A palavra pensar é a que mais se aproxima e
o ser humano é algumas vezes descrito como um ser pensante. O idioma
alemão tem uma palavra melhor, qual seja, besinnen\ e o substantivo
Besonnenheit parece tocar o cerne do problema. Schopenhauer diz: “O animal
vive sem qualquer Besonnenheit. Tem consciência, isto é, conhece a si mesmo
e suas vicissitudes, bem como os objetos que as produzem; mas seu
conhecimento é sempre subjetivo, nunca se torna objetivo; tudo que ele
abrange parece existir em si mesmo e por si mesmo e, portanto, pode nunca
se tomar um objeto de representação nem um problema para meditação.
Assim, sua consciência é totalmente imanente. A consciência do ser humano
selvagem é analogamente constituída, no fato de que suas percepções das
coisas e do mundo permanecem preponderantemente subjetivas e imanentes.
Ele percebe coisas no mundo, mas não o mundo; suas próprias ações e paixões,
mas não a si mesmo”.

Talvez a definição mais simples (e existem dezenas delas) fosse:


autoconsciência é a faculdade pela qual tomamos consciência de. Ou ainda:
sem autoconsciência, uma criatura senciente pode saber, mas sua posse é
necessária para que ela possa saber que sabe. O melhor tratado já escrito
sobre este assunto é o livro de Romanes já mencionado várias vezes [134].

Estando as raízes da árvore da vida bem enterradas no mundo orgânico,


seu tronco é constituído da seguinte maneira: Começando ao nível da terra,
temos primeiro que tudo as mais baixas formas de vida, inconscientes e não
sencientes. Estas, por seu turno, dão origem a formas dotadas de sensação e,
mais tarde, aformas dotadas de Consciência Simples. Destas últimas, quando
chega o momento certo, surge a autoconsciência e (como já foi dito), em
direta ascensão desta, a Consciência Cósmica. Apenas é necessário neste
ponto, como a limpar o terreno para o trabalho a ser feito, enfatizar que a
doutrina do desenvolvimento do ser humano, encarada do ponto de vista da
Psicologia, está rigorosamente de acordo com a teoria da evolução em geral,
tal como recebida e ensinada hoje em dia pelos mais destacados pensadores.

Essa árvore que chamamos de vida - e sua parte superior de vida humana
e de mente humana -simplesmente cresceu como cresce qualquer outra árvore
e, além de seu tronco principal, como acima indicado, lançou muitos ramos,
como no caso de outras árvores. Será bom considerar alguns destes. Veremos
que alguns deles nascem da parte mais baixa do tronco; por exemplo a
contratilidade, ramo do qual - e como uma parte dele - surge toda ação
muscular, desde o movimento simples de uma minhoca até os movimentos
maravilhosamente coordenados e feitos, no exercício de sua arte, por um
Liszt ou um Paderewski. Um outro desses grandes ramos inferiores é o instinto
de autopreservação e (como gêmeo dele) o instinto da continuação da espécie
- a preservação da espécie. Mais acima, os sentidos especiais brotam do
tronco principal e, conforme crescem e se dividem repetidamente, tomam-
se ramos maiores e vitalmente importantes da grande árvore. De todos esses
brotos principais nascem braços menores e, destes, rebentos mais delicados.

Assim, do intelecto humano cujo fato central é a Autoconsciência, uma


seção do tronco principal de nossa árvore, nascem o discernimento, a razão,
a comparação, a imaginação, a abstração, a reflexão e a generalização. Da
natureza moral ou emocional, um dos maiores e mais importantes ramos
principais, nascem o amor (ele próprio um grande ramo que se divide em
muitos ramos menores), a reverência, a fé, o medo, o espanto, a esperança, o
ódio, o humor e muitos outros. Do grande ramo chamado sentido da visão,
que no início era uma percepção da diferença entre a luz e a escuridão,
brotaram rebentos que chamamos de sentido de forma, de distância e, mais
tarde, o sentido da cor. O ramo denominado sentido da audição tem como
ramificações e rebentos a apreensão da intensidade de um som, de sua altura,
de sua distância, de sua direção e, como um rebento delicado que vem de
nascer, o sentido musical.

n
O fato importante a ser notado neste ponto é que, em consonância com a
analogia da árvore aqui adotada, as numerosas faculdades de que o ser humano
é composto (encaradas do ponto de vista da dinâmica) são todas de eras
diferentes. Cada uma delas veio a existir no seu próprio tempo, isto é, quando
o organismo psíquico (a árvore) estava pronto para produzi-la. Por exemplo,
a Consciência Simples, muitos milhões de anos atrás; a Autoconsciência,
talvez há trezentos mil anos. A visão geral é extremamente antiga, mas o
sentido da cor provavelmente só existe há cerca de mil gerações. A sensibili­
dade ao som, há muitos milhões de anos, enquanto o sentido musical está
agora aparecendo. A paixão ou o instinto sexual surgiu há muito tempo nas
eras geológicas - a natureza moral humana, de que o amor sexual humano é
um ramo jovem e vigoroso, não parece ter existido há muitas dezenas de
milhares de anos.

m
Para tomar mais pronta e completamente inteligível o que já foi dito e o
que resta a dizer, será conveniente entrar um pouco em detalhe quanto ao
momento e à maneira de algumas faculdades se transformarem e desenvol­
verem, como amostra do trabalho divino que se tem desenrolado dentro de
nós e à nossa volta desde o alvorecer da vida neste planeta. A ciência da
psicologia humana (para ilustrar o assunto deste livro) deveria explicar o
intelecto humano, a natureza moral humana e os sentidos. Deveria fazer
uma descrição destes tais como existem hoje, de sua origem e evolução, e
deveria fazer uma previsão de seu curso futuro, seja de declínio seja de ulterior
expansão. Apenas bem poucas páginas de amostra desse trabalho podem
aqui ser apresentadas, mas primeiro daremos uma rápida olhada no intelecto.

O intelecto é a parte da mente que sabe, enquanto a natureza moral é a


parte que sente. Cada ato particular do intelecto é instantâneo, ao passo que
os atos (ou melhor, os estados) da natureza moral são mais ou menos
contínuos. A linguagem corresponde ao intelecto e é portanto capaz de
expressá-lo perfeita e diretamente; por outro lado, as funções da natureza
moral (pertencendo, isto é, derivando como derivam do grande sistema
nervoso simpático - enquanto o intelecto e a fala dependem do sistema
cerebrospinal e dele derivam) não estão ligadas à linguagem e são apenas
capazes de expressão indireta e imperfeita por seu intermédio. Talvez a música
- que certamente tem raizes na natureza moral - seja, tal como existe hoje,
o início de uma linguagem que expressará a emoção, assim como as palavras
expressam idéias. [28a. 106]. Os atos intelectuais são complexos e podem ser
decompostos em muitas partes; os estados morais, ou são absolutamente
simples (como no caso de amor, medo, ódio), ou quase tão simples assim; ou
seja, são compostos de relativamente poucos elementos. Todos os atos
intelectuais são semelhantes ou quase semelhantes neste particular; estados
morais têm uma escala de graus de intensidade muito ampla.

O intelecto humano é composto principalmente de conceptos, assim como


uma floresta é composta de árvores e uma cidade de casas; esses conceptos
são imagens mentais de coisas, atos, ou relações. Ao seu registro damos o
nome de memória e, à comparação de uma com a outra, de raciocínio; para
a elaboração dessas imagens em imagens mais complexas (assim como tijolos
são convertidos numa casa), não existe em inglês uma expressão adequada;
às vezes chamamos esse ato de “imaginação” (o ato de formar um símile ou
cópia mental); os alemães têm um nome melhor para isto; eles o chamam
Vorstellung (o ato de colocar adiante), Anschauungsgabe (o dom de
contemplar) e, melhor ainda, Einbildungskraft (o poder de acumular). O
grande intelecto é aquele em que o número de conceptos está acima da média;
o intelecto fino é aquele em que esses conceptos são precisos e bem definidos;
o intelecto lesto é aquele em que eles são fácil e rapidamente acessíveis
quando desejados; e assim por diante.

O crescimento do intelecto humano é o crescimento dos conceptos, isto


é, a multiplicação dos mais simples e ao mesmo tempo a elaboração destes
em outros, mais e mais complexos.

Embora esse crescimento em número e complexidade esteja acontecendo


constantemente em toda mente ativa durante pelo menos a primeira metade
da vida, desde a infância até a meia-idade, e embora cada um de nós saiba
que tem conceptos agora que não tinha algum tempo atrás, mesmo assim,
provavelmente os mais dotados dentre nós não poderiam dizer, a partir de
observação feita sobre sua própria mente, por qual processo esses novos
conceptos vieram a existir - de onde vieram e como vieram. Mas, embora
não possamos perceber isto por observação direta, quer de nossa própria
mente quer da mente de outra pessoa, há ainda outra maneira pela qual o
processo oculto pode ser seguido e é por meio da linguagem. Como foi dito
acima, a linguagem é o equivalente exato do intelecto: para todo concepto
há uma palavra ou palavras e para toda palavra há um concepto; nenhum
dos dois pode existir sem o outro. Assim, diz Trench: “Não podemos
comunicar a um homem mais do que as palavras que ele saiba que já possua
ou que possa ser levado - compreensivelmente para ele - a possuir”. Ou,
como Max Mueller o exprime: “Sem fala não há razão; sem razão não há
fala”. A fala e o intelecto não se correspondem mutuamente desta maneira
por acidente; sua relação está inevitavelmente implicada na natureza das
duas coisas. Ou será que são duas coisas? Ou dois lados da mesma coisa?
Nenhuma palavra pode vir a existir senão como expressão de um concepto,
nem pode um concepto ser formado sem a formação (ao mesmo tempo) da
nova palavra que é sua expressão, embora essa “nova palavra” possa ser
soletrada e pronunciada do mesmo modo que alguma velha palavra. Mas
uma velha palavra, tomando um outro e novo significado, na realidade se
transforma em duas palavras, uma velha e uma nova. O intelecto e a fala se
ajustam mutuamente como a mão e a luva, porém, muito mais estreitamente;
melhor seria dizer que se ajustam como a pele ao corpo, ou a pia-máter ao
cérebro, ou como qualquer espécie no mundo orgânico é adaptada por seu
ambiente. Como ficou implícito no que foi dito, deve-se notar especialmente
que a linguagem se ajusta ao intelecto não somente no sentido de o cobrir em
todas as partes e seguindo todas as suas curvas e dobras, mas também no
sentido de não ultrapassá-lo. As palavras correspondem aos conceptos e
somente aos conceptos, de modo que não podemos expressar diretamente
com elas nem impressões sensoriais nem emoções, mas somos sempre
forçados a transmiti-las (se o conseguimos) expressando, não elas próprias,
mas a impressão que produzem em nosso intelecto, ou seja, os conceptos
formados da contemplação delas pelo intelecto - em outras palavras, sua
imagem intelectual. Assim, antes que uma impressão sensorial ou uma
emoção possa ser concretizada ou transmitida na linguagem, um concepto
tem de ser formado (na suposição de que a represente mais ou menos
verdadeiramente); concepto esse que pode, naturalmente, ser transmitido
em palavras. Mas, na realidade, noventa e nove por cento de nossas impressões
sensoriais e emoções nunca foram representadas no intelecto por conceptos
e, portanto, permanecem não expressas e inexprimíveis, a não ser de maneira
imperfeita, por sugestão ou descrição indireta. Existe nos animais inferiores
uma situação que serve bem para ilustrar esta proposição. Eles têm percepções
sensoriais agudas e fortes emoções como medo, raiva, paixão sexual e amor
materno; mas não podem expressá-las porque estas não têm nenhuma
linguagem própria e os animais em questão não têm nenhum sistema de
conceptos com sons articulados correspondentes. Mesmo asseguradas nossas
percepções sensoriais e nossa natureza moral humana, seríamos tão mudos
como os animais se não tivéssemos juntamente com elas um intelecto em
que pudessem ser refletidas e pelo qual, mediante a linguagem, elas pudessem
ser expressas.

Dado que a correspondência de palavras e conceptos não é casual ou


temporária, mas reside na natureza de ambos e continua absolutamente
constante por todo o tempo e sob todas as .circunstâncias, mudanças num
dos fatores têm de corresponder a mudanças no outro. Assim, a evolução do
intelecto (se ocorre) tem de ser acompanhada de evolução da linguagem.
Uma evolução de linguagem (se ocorre) é evidência de evolução do intelecto.
O que é então aqui proposto é estudar (por alguns momentos) o crescimento
do intelecto por meio de um exame da linguagem, isto é, estudar o nascimento,
a vida e o crescimento de conceptos - que não podem ser vistos - por meio
de palavras, que são seus correlatos e que podem ser vistas.

Sir Charles Lyell, emAntiquity ofMan (Antiguidade do Homem) [113],


ressaltou o paralelismo que existe entre origem, crescimento, declínio e morte
dos idiomas e das espécies no mundo orgânico. Para ilustrar e ao mesmo
tempo ampliar o presente argumento, estendamos o paralelo retroativamente
até a formação dos mundos e para a frente até a evolução das palavras e dos
conceptos. O quadro seguinte atenderá a este propósito, tão bem como - ou
melhor do que - uma exposição minuciosamente argumentada e servirá ao
mesmo tempo como um resumo do argumento da evolução que é desenvolvido
ao longo deste livro.

Um breve estudo do quadro apresentado na página seguinte deixará claro


como orbes, espécies, idiomas e palavras se ramificam, dividem-se e se
multiplicam; tomará inteligível a estimativa de Max Mueller segundo a qual
“todo pensamento que já passou pela mente da índia” pode ser reduzido a
cento e vinte e um conceptos raízes - isto é, a cento e vinte e uma palavras
raízes [116.401] , fará com que concordemos com ele em que, provavelmente,
esse número poderia ser ainda mais reduzido. Se considerarmos por um
momento que isto significa que os milhões de palavras indo-européias hoje
em uso - bem como muitas vezes o número destas há muito tempo mortas e
esquecidas - derivaram quase todas de aproximadamente uma centena de
raízes e que estas, por sua vez, de provavelmente uma meia dúzia, e ao
mesmo tempo lembrarmos que razão e fala são uma coisa só, faremos uma
Planeta
1* Lua
Sistema de Júpiter.. 23 Lua
Saturno 32 Lua
Urano 4* Lua
Nebulosa do Sistema Solar... Netuno
N. Marte
1. Nebulosa do Sistema astral.
N. Terra
N. Etc.
_N.

Cavalo de Corrida
Cavalo de Carroça
Cavalo Inglês de Carroção
Equus Caballus.. . -
Cavalo Inglês de Caça
Asinus
Cavalo Árabe
2. Eohippus Mesohippus A n c h ith e riu m ........... Hemionus
Pônei de Shetland
(Eoceno) ^ (início (Mioceno) Tamanho Quagga
Tamanho de I do de carneiro Zebra
Raposa J Mioceno) Miohippus . Dauw

Veneziano
Siciliano
Italiano................... -< Calabrês
Espanhol Arcolano
Português Corso
Latim ................
Grego Francês
Sânscrito Valáquio
Zende Rético
3. ? Ariano.
Armênio
Lituano
Antigo Eslavo
Gótico

Expectando
Expectativa
r Expectar................. - i
Expectado
Expectável
Espécime Expectação
Respeito, Respeitar Expectante
Espectador ,_Expectador
Retardação
Espetáculo
Desprez-ar, -ível
Respective
Despeit-o, -ado
Espectro
Especula-r, -ção
Suspeitar, Suspicaz
Especios-o, -amente, -idade
Específico, Especificação
Latim, Specio, Ver, olhar.............
Inspe-cionar, -ção, -tor
Grego, Skeptomai, Eu olho
Espéculo
Skeptikos, Um inquiridor
Espécie
" Episkopes, Um inspetor
Circunspec-to, -ção
4. Pré-raiz - Raiz ariana, Spac. Sânscrito, Pas, Ver
Especiaria, Especieiro
Spasa, Um espião
Prospect-o, -ivo
Spashta, Manifesto
Especial, -mente, -idade
Spas, Um guardião
Auspicioso, Auspício
O.H.G., Spehan, Olhar, espionar
Espicular
Speha, Um espião Respeitável
Espião, Espionar
Aspecto
Prospecto
V^Especificar
idéia do que o intelecto humano já foi em comparação com o que é hoje; do
mesmo modo se toma evidente, num relance, que não somente a evolução
das espécies, das línguas e das palavras é rigorosamente paralela, mas que o
esquema tem provavelmente uma aplicação mais ampla, talvez universal.
Com relação à presente tese, a conclusão a ser tirada dessa comparação é
que as palavras - e portanto os elementos constituintes do intelecto que elas
representam e que chamamos de conceptos - crescem por divisão e
ramificação, conforme novas espécies se ramificam a partir das mais velhas;
e parece claro que um crescimento normal é encorajado e um desenvolvimento
excessivo e inútil é refreado pelos mesmos meios, num caso como no outro -
isto é, por seleção natural e na luta pela existência.

Novos conceptos - e palavras que os expressam - que correspondem a


alguma realidade externa (seja uma coisa, um ato, um estado ou uma relação)
- e que são portanto úteis para o ser humano, uma vez que a existência deles
o coloca numa relação mais completa com o mundo exterior (relação de que
dependem sua vida e seu bem-estar) são preservados pelo processo de seleção
natural e sobrevivência dos mais ajustados. Alguns, que absolutamente não
correspondem (ou o fazem apenas imperfeitamente) a uma realidade objetiva,
são substituídos por outros que efetivamente correspondem (ou o fazem
melhor) à realidade que aqueles almejavam expressar e assim, na luta pela
existência, caem em desuso e morrem.

Pois com as palavras e com qualquer outra entidade viva acontece o


mesmo: milhares são produzidas para cada uma que sobrevive. A mente,
para qualquer objeto a que é especialmente dirigida, faz surgirem palavras,
muitas vezes em formidável profusão. Há alguns milhares de anos, quando o
sânscrito era ainda uma língua viva e o Sol e o fogo eram tidos como
verdadeiros deuses ou pelo menos como especialmente sagrados, o fogo tinha,
em lugar de bem poucos nomes como hoje, trinta e cinco nomes e, o Sol,
trinta e sete [115.437], Mas exemplos muito mais notáveis são os tirados do
árabe, tais como os oitenta nomes para mel, os duzentos para serpente, os
quinhentos para leão, os mil para espada e as cinco mil setecentas e quarenta
e quatro palavras referentes ao camelo, assuntos estes para os quais a mente
dos árabes está voltada de maneira incisiva e persistente [115. 438]. Mais
uma vez é Max Mueller quem nos diz: “Dificilmente podemos fazer idéia
dos recursos ilimitados dos dialetos. Quando as línguas vernáculas tenham
estereotipado um termo geral, seus dialetos fornecerão cinqüenta, embora
cada um com sua nuança especial de significado. Se novas combinações de
pensamentos são elaboradas no progresso da sociedade, os dialetos fornecem
prontamente os nomes requeridos, do estoque de suas palavras ditas
supérfluas. Não existem somente dialetos locais e provinciais, mas também
de classes. Há um dialeto dos pastores, dos caçadores, dos soldados, dos
fazendeiros. Suponho que poucas pessoas poderão dizer qual é o significado
exato de certas palavras referentes a cavalos: cabeleira, cernelha, pitoco,
garrão, canela, quarteia, coroa, braço, queixada e açaimo. Onde a linguagem
vernácula fala dos filhotes de todas as espécies de animais, os fazendeiros,
os pastores e os caçadores ficariam encabulados de usar um termo tão genérico.
O idioma dos nômades, como diz Grimm, contém uma profusão de variegadas
expressões para espada, armas e para os diferentes estágios da vida do gado.
Numa língua mais altamente cultivada, essas expressões tomam-se pesadas
e supérfluas. Mas, no dizer de um camponês, a prenhez, o dar cria, a decaída
e o abater de quase cada animal têm seus termos peculiares, assim como o
caçador se deleita em dar nomes diferentes à andadura e aos membros da
caça. Assim a Dame* Juliana Bemers, priora do convento de Sopwell no
século XV, renomada autora do Book o f St. Albans (Livro de Santo Albano)
diz que não devemos usar nomes coletivos indiscriminadamente, mas que
devemos dizer: uma “congregcyon”** {congregation, congregação) de
pessoas, uma “hoost” (host, hoste) de homens, um “felyshyppynge” (?) de
mulheres e um “bevy” (bevy, bando, pequeno grupo) de senhoras; que devemos
falar em “herde” (herd, horda) de “hartys” Qiarts, cervos), “swannys (swans,
cisnes), “cranys” (cranes , garças-azuis) ou “wrennys” (wrens, garriças,
corruíras); em “sege” (?) de “herons” (herons, garças) ou “bytourys” (?), em
“muster” (muster , ajuntamento) de “peacockys” (peacocks, pavões), em
“watche” (watch ouflock, bando) de “nyghtyngalys” (nightingales, rouxinóis),
numa “flyghte” (flight, revoada) de pombas, em “claterynge” (clatter,
estrépito) de “choughes” (choughs, gralhas), em “piyde” (pride, bando) de
leões, em “slewthe” (slew ou slue, grande número) de “beeiy” (?), em “gagle”
(gaggle , bando) de “geys” (?), numa “skulke” (skulk, malta) de raposas, em
“sculle” (?) de “frerys” (?), num “pontyfycalate” (pontificate, pontificado)
de prelados, numa “bomynable syght” (abominable sight, vista abominável)
de “monkes” (monkeys, macacos), em “dronkenshyp” (?) de “cobblers”
(cobblers, sapateiros), e assim por diante quanto a outros agrupamentos
humanos ou de bichos. Analogamente, ao se cortar a carne da caça para a
*Titular feminina da Ordem do Império Britânico
**Aqui são listados muitos termos em inglês arcaico - alguns talvez não vernáculos
- para ilustrar o argumento do autor. Para proveito dos estudiosos do assunto, optamos
por apresentar entre aspas os termos originais, indicando entre parênteses, primeiro,
em itálico, o provável termo em inglês atual, depois o termo em português para a
possível compreensão do argumento pelo leitor desta tradução.
mesa, os animais não eram trinchados, mas um “dere” {deer, veado) era
“broken” (broken, quebrado), um “gose” (goose, ganso) era “reryd” (reared\
fatiado), uma “chekyn” (chicken, galinha) era “frusshed” (talvezfried, frita)”
- [e assim por diante, no original, a cada animal sendo atribuídos um
substantivo e um verbo diferentes] - [115. 70],
Estes exemplos servem para mostrar como o intelecto humano se sente
frente ao mundo exterior que se lhe apresenta, tentando um abrigo em cada
fenda que encontre, por estreito e precário que seja o controle que lhe
proporcione. Pois, de era em era, a mente humana procura incessantemente
dominar os fatos do mundo exterior; seu crescimento consiste efetivamente
em rotular esses fatos, assim como a hera se espalha, se ajusta e cobre as
pedras de um muro; o broto que consegue um ponto de apoio fortalece e dá
origem a outros brotos; aquele que não o consegue, depois de algum tempo
pára de crescer e acaba morrendo.
O ponto importante a ser observado para nosso propósito atual é que,
assim como no caso da criança que está aprendendo a falar, a espécie começou
também com poucas palavras, ou, como diz Geiger [91. 29], com uma única
palavra. Isto é, o ser humano começou a pensar com bem poucos conceptos
ou com um só còncepto (naturalmente, na época e anteriormente ele tinha
um grande acervo de perceptos e receptos [134. 193], pois do contrário pouco
poderia ter feito com o seu concepto único ou com seus poucos conceptos).
Desses poucos conceptos ou daquele concepto único procederam, em enorme
quantidade, os conceptos e as palavras que vieram depois a existir; e a evolução
de todo o intelecto humano a partir de um só concepto inicial não deve
parecer incrível, ou mesmo muito maravilhosa, para aqueles que tenham em
mente que todo o complexo corpo humano, com todos os seus tecidos, seus
órgãos e suas partes, é composto de centenas de milhões de células, cada
uma das quais, por mais que seja diferente em estrutura e função daquelas
que pertençam a outros órgãos e tecidos que não os seus, não obstante descende
linearmente da única célula primordial em que cada um de nós (e há apenas
alguns anos) teve sua origem.
A medida que recuamos no passado, portanto, vemos a linguagem - e
com ela o intelecto humano - reduzindo-se a um ponto, e sabemos que,
dentro de uma distância mensurável do ponto em que estamos hoje, ambos
devem ter tido um começo. A data desse começo foi aproximadamente fixada
por muitos escritores e a partir de muitas indicações, de modo que não
podemos estar muito afastados do certo ao colocá-la (provisoriamente) em
mais ou menos trezentos mil anos antes da nossa época.
IV

Muito mais modemo do que o nascimento do intelecto foi o do sentido


da cor. Contamos com a autoridade de Max Mueller [117. 299] na afirmação
de que: “É bem sabido que a distinção da cor é de data recente; que Xenófanfes
conhecia apenas três cores do arco-íris: púrpura, vermelho e amarelo; que
mesmo Aristóteles falava do arco-íris de três cores; e que Demócrito não
conhecia mais que quatro cores - preto, branco, vermelho e amarelo”.

Geiger [91. 48] salienta que pode ser provado, por exame da linguagem,
que remotamente na vida da espécie como na época dos primitivos arianos -
talvez não mais de quinze ou vinte mil anos atrás - o ser humano só tinha
consciência, só percebia, uma cor. Isto é, não distinguia qualquer diferença
de matiz entre o azul do céu, o verde das árvores e da relva, o marrom ou o
cinza da terra e o ouro e o púrpura das nuvens no nascer e no pôr-do-sol.
Assim, Pictet [126] não encontra nomes de cores no primitivo discurso indo-
europeu. E Max Mueller [116:616] não encontra raiz sânscrita cujo
significado tenha qualquer referência a cor.

Em período posterior mas ainda antes da época das composições literárias


mais antigas hoje existentes, o sentido da cor era tão mais desenvolvido do
que essa condição primitiva que vermelho e preto eram reconhecidos como
cores distintas. Mais tarde ainda, na época em que foi composta a maior
parte do Rig Veda, o vermelho, o amarelo e o preto eram reconhecidos como
três matizes diferentes, mas os três incluíam todas as cores que o ser humano,
naquela época, era capaz de identificar. Ainda mais tarde, o branco foi
acrescentado à lista e depois o verde; mas no Rig Veda, no Zend Avesta, nos
poemas de Homero e na Bíblia, a cor do céu não é mencionada nem sequer
uma vez; aparentemente, portanto, não era reconhecida. Pois esta omissão
dificilmente poderá ser atribuída a acidente; as dez mil linhas do Rig Veda
são grandemente ocupadas com descrições do firmamento e de todos os seus
aspectos - o Sol, a Lua, as estrelas, as nuvens, o relâmpago, o nascer e o pôr-
do-sol, são mencionados centenas de vezes. Assim também o Zend Avesta,
para cujos autores a luz e o fogo, tanto terrestres como celestes, são sagrados,
dificilmente poderia ter omitido por acaso qualquer menção ao céu azul. Na
Bíblia, o firmamento e o Céu são mencionados mais de quatrocentas e trinta
vezes; mesmo assim não é feita menção alguma à cor do primeiro. Em
nenhuma parte do mundo o azul do céu é mais intenso do que na Grécia e na
Ásia Menor, onde foram compostos os poemas de Homero. Será possível
conceber que um poeta (ou os poetas) que viu o céu como o vemos agora
pudesse escrever os quarenta e oito longos livros da Ilíada e da Odisséia sem
nunca ter feito menção ou referência a isso? Mas, ainda que fosse possível
crer que todos os poetas do Rig Veda, do Zend Avesta, da Ilíada, da Odisséia
e da Bíblia pudessem ter deixado de mencionar a cor azul do céu por mero
acidente, a etimologia entraria em cena e nos asseguraria que, quatro mil
anos atrás, ou talvez três, o azul era desconhecido, pois naquela época os
nomes subseqüentes para o azul estavam todos inseridos nos nomes para
preto.

O vocábulo inglês blue e o alemão blau descendem de uma palavra que


significava preto. O chinês hi-u-an, que hoje significa azul do céu, antiga­
mente significava preto. A palavra nil, que hoje significa azul nos idiomas
persa e árabe, deriva do nome Nilo, isto é, rio negro, de que a palavra latina
niger é uma forma.

Não parece possível que, na época em que os seres humanos reconheciam


somente duas cores - que chamavam de vermelho e preto - estas aparecessem
a eles como vermelho e preto aparecem a nós - embora exatamente o que
eram as sensações que eles assim denominavam não possa naturalmente ser
agora verificado. Com o nome de vermelho, parece que eles incluíam nesta
cor o branco, o amarelo e todos os matizes intermediários; ao passo que,
com o nome de preto, parecem ter incluído todas as tonalidades de azul e
verde. Assim como as sensações de vermelho e preto vieram a existir pela
divisão de uma sensação de cor originariamente unitária, com o passar do
tempo estas se dividiram. Primeiro o vermelho se dividiu em vermelho-
amarelo; depois, este vermelho em vermelho-branco. O preto se dividiu em
preto-verde; depois o preto novamente em preto-azul e, durante os últimos
dois mil e quinhentos anos, estas seis cores (ou melhor, estas quatro -
vermelho, amarelo, verde e azul) subdividiram-se no número enorme de
tonalidades de cor que são agora reconhecidas e têm nome. O diagrama da
página seguinte mostra, num relance, a ordem em que as cores do espectro
tornaram-se visíveis para o ser humano:

Pode ser mostrado de modo totalmente independente que, se o sentido da


cor de fato veio a existir como aqui supomos, a ordem sucessiva em que se
diz que as cores foram reconhecidas pelo ser humano (seguindo antigos
documentos e etimologias) é efetivamente a ordem em que devem ter sido
assim reconhecidas e os fatos científicos que agora estão para ser aduzidos
devem ser admitidos como extraordinariamente confirmatórios das conclusões
acima, tais como extraídos de fontes inteiramente separadas e distintas.
Os raios solares ou outros raios de luz que excitam a visão são chamados
de vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta. Estes raios
diferem um do outro no comprimento e na amplitude das ondas que os
compõem e tanto o comprimento quanto a amplitude das ondas diminuem
na ordem em que os nomes vêm de ser mencionados. Mas a força ou energia
de uma onda de luz, ou seja, seu poder de excitar a visão, é proporcional ao
quadrado de sua amplitude [180. 272, e especialmente 181. 136], Segundo
esta lei, a energia - o poder de excitar a visão - dos raios vermelhos é milhares
de vezes maior que a energia dos raios violeta e há uma rápida e regular
queda de energia conforme percorremos o espectro do vermelho até o violeta.
E claro que, se houve um aperfeiçoamento crescente no sentido da visão, em
virtude do qual o olho passou gradualmente da insensibilidade para a
sensibilidade à cor, o vermelho deve necessariamente ter sido a primeira cor
percebida, depois o amarelo, o verde e assim por diante até o violeta; e isto é
exatamente o que a etimologia e a literatura antigas nos dizem que aconteceu.

A relativa modernidade do sentido da cor é ainda atestada pelo grande


número de pessoas, em todos os países, chamadas daltônicas - isto é, pessoas
que são nos dias atuais total ou parcialmente destituídas do sentido da cor.
“A asserção de Wilson de que provavelmente uma pessoa em cada vinte e
cinco é daltônica permaneceu em dúvida porque não foi provada com base
em números suficientemente grandes. Enquanto não dispúnhamos de métodos
de comparação - principalmente o de Hohngren - não foi possível obter
dados satisfatórios. Nas mãos certas, o método de Hohngren decide um caso
tão rapidamente que já foram feitos testes em milhares de pessoas. Com base
em pelo menos duzentos mil exames, foi obtido o resultado de que quatro
por cento de homens e um quarto de um por cento de mulheres têm daltonismo
em maior ou menor grau” [135. 242], Isto daria um caso de daltonismo em
cada quarenta e sete pessoas.

O grau de universalidade do sentido da cor numa raça é, naturalmente,


um fato importante para se estimar seu grau de evolução em comparação
com outras raças. A este propósito, os fatos seguintes são de interesse [122.
716]: “No Japão, de 1.200 soldados, 1,58 por cento eram daltônicos em
relação ao vermelho e 0,833 por cento em relação ao verde. De 373 meninos,
1 por cento eram daltônicos em relação ao vermelho; de 270 meninas, 0,4
por cento. De 596 homens examinados pelo Dr. Berry, de Kyoto, 5,45 por
cento mostraram sentido da cor imperfeito. Dentre os japoneses em geral, o
percentual de daltonismo é menor do que dentre os europeus ou os americanos.
Dentre 796 chineses examinados em vários lugares não foram encontrados
casos de daltonismo, mas foi freqüentemente constatada uma tendência de
misturar verde e azul. Esta peculiaridade foi apresentada com ênfase muito
maior pelo Dr. Fielde, de Swatow, China, que examinou 1.200 chineses de
ambos os sexos usando o teste da lã, de Thompson. De 600 homens, 19 eram
daltônicos e, de 600 mulheres, apenas 1. O percentual de daltonismo entre
homens chineses é então de aproximadamente 3 por cento e não varia muito
em comparação com os europeus”.

No daltonismo, a visão geral não é afetada; o indivíduo distingue luz e


sombra, forma e distância, tão bem como outras pessoas. Isto mostra também
que o sentido da cor é mais superficial, menos fundamental e provavelmente,
portanto, é adquirido mais tarde do que outras faculdades que pertencem à
função da visão. Pois uma pessoa não poderia perder um dos elementos mais
fundamentais da visão (o sentido da forma visual, por exemplo) e conservar
as outras faculdades visuais inalteradas.

O daltonismo é na verdade um exemplo do que se denomina atavismo,


ou reincidência de uma condição que era normal na ancestralidade da pessoa
mas que não pertence propriamente à espécie na época em que ela vive. A
freqüência dessa reincidência (que como vimos se estima ocorrer em uma
pessoa em cada quarenta e sete) indica que o sentido da cor é compara­
tivamente moderno; pois o atavismo é mais freqüente na proporção inversa
da duração do tempo que transcorreu desde que o órgão ou a função perdida
ou impropriamente usada (conforme o caso) tenha (num caso) existido
normalmente na raça ou (no outro) sido descartada no processo de evolução.
O fundamento lógico desta lei (a que voltaremos a nos referir) é óbvio: depende
do simples fato de que, quanto mais tempo qualquer órgão (ou função) tenha
existido numa raça, maior será a certeza de que será herdado. A existência
do daltonismo, então, numa porcentagem tão grande da população, demonstra
que o sentido da cor é uma faculdade moderna. A relativa visibilidade dos
diferentes raios coloridos de luz assegura que, se o sentido da cor foi adquirido,
deve indubitavelmente tê-lo sido na ordem em que os filólogos afirmam que
ele de fato foi adquirido e a concordância destes dois conjuntos de fatos - um
tirado da filosofia natural, o outro da etimologia - juntamente com o fato do
daltonismo, é tão notável que parece impossível alguém recusar-se a assentir
nas conclusões alcançadas.

Uma outra faculdade recentemente adquirida é o sentido da fragrância.


Ela não é mencionada nos hinos védicos e apenas uma vez no Zend Avesta.
Geiger [91. 58] nos diz que o hábito de oferecer incenso juntamente com o
sacrifício não é encontrado no Rig Veda, embora seja encontrado no mais
recente Yadshurveda. Dentre os livros bíblicos, o sentido da fragrância de
flores faz seu primeiro aparecimento no Cântico dos Cânticos. Segundo a
descrição no Gênesis, havia no Paraíso todas as espécies de árvores “que
eram agradáveis à vista e boas para alimento”, não se fazendo menção de
odores agradáveis. O livro apócrifo de Enoch (do primeiro século a. C. ou
mesmo mais tarde), existente em etíope, descreve do mesmo modo o Paraíso
mas não deixa de exaltar a deleitosa fragrância da Árvore do Conhecimento,
bem como de outras árvores, no Jardim do Éden.

Além desta evidência, diz-se que é possível provar com base na linguagem
que um sentido como o da fragrância não existia nos primeiros tempos dos
indo-europeus. Vale a pena também mencionar a este propósito que nenhum
animal (embora muitos destes nos ultrapassem tanto no reconhecimento pelo
olfato) possui, até onde sabemos ou podemos descobrir, qualquer sentido de
fragrância e que as crianças só o adquirem depois que têm vários anos de
idade - não, certamente, por vários anos depois de terem adquirido, mais ou
menos perfeitamente, o sentido da cor; correspondendo assim, em seu
desenvolvimento mental (conforme acima indicado), à evolução da mente
humana em geral, pois o sentido da cor provavelmente veio a existir na
espécie muitos milhares de anos antes do sentido da fragrância.

VI

Os instintos, que são tanto humanos quanto animais, como o sexual e o


maternal, sem dúvida chegaram ao ser humano através de longas linhas de
descendência e têm existido nele e em seus ancestrais há milhões de anos;
mas a natureza moral humana, embora tenha raízes nesses instintos e deles
tenha se desenvolvido, é de origem relativamente recente. Não apenas não é
anterior ao nascimento da autoconsciência, mas é decerto muito mais recente
do que ela.

O ser humano, isto é, a Autoconsciência, como já foi dito, deve ter vindo
a existir cerca de trezentos mil anos atrás, quando o primeiro Alalus Homo
emitiu a primeira verdadeira palavra. No indivíduo atual, o ser humano
nasce quando a criança se toma autoconsciente - na idade média de, digamos,
três anos. Entre as raças indo-européias, não mais que cerca de um indivíduo
(denominado idiota) em mil cresce até a maturidade sem atingir a Autocons­
ciência. Esta, tendo aparecido no indivíduo, só é perdida em grandes ou
raras crises - como no delírio da febre e em algumas formas de insanidade,
notavelmente na obsessão; por outro lado, a natureza moral humana não
aparece no indivíduo (em média) até, digamos, a meio caminho entre a idade
de três anos e a maturidade. Em lugar de um ou dois em mil, várias vezes o
mesmo número numa centena nascem, crescem e morrem sem uma natureza
moral. Ao invés de ser perdida em crises grandes e raras, ela é constantemente
perdida em caráter temporário. Todas estas indicações provam que a natureza
moral humana é de origem muito mais recente do que o intelecto humano e
que, se supomos que o último tenha trezentos mil anos, não podemos supor
que a primeira tenha a mesma idade.

VII

O ser humano primitivo de que descendemos ainda tem na Terra, nos


dias atuais, dois representantes, primeiro, o silvícola; segundo, a criança.
Seria verdadeiro dizer que a criança é um silvícola e este uma criança e que
não somente cada membro individual da espécie mas a própria espécie como
um todo passou pelo estado mental representado pelos dois. Pois, assim como
na sua evolução intra-uterina o indivíduo humano reproduz e resume em
poucos e breves meses a evolução da espécie humana, fisicamente considerada,
da forma unicelular inicial em que a vida individual começou, através de
todas as fases intervenientes entre essa forma e a humana, retomando a cada
dia a lenta evolução de milhões de anos, assim também o indivíduo humano,
em seu desenvolvimento mental do nascimento à maturidade, reproduz e
resume a evolução da vida psíquica da espécie; e assim como o ser humano
físico individual começa na parte mais baixa da escala como uma mônada
unicelular, o ser humano psíquico começa no degrau mais baixo da escada
mental e, em sua ascensão de umas poucas dúzias de meses, passa pelas
sucessivas fases, cada uma delas tendo utilizado milhares de anos para seu
cumprimento pela espécie. As características da mente do silvícola e da
criança nos darão, quando encontradas, as características da mente humana
primeva de que descendeu a mente moderna comum que conhecemos, bem
como as mentes excepcionais dos grandes homens da história contemporânea.

As principais diferenças entre a mente primitiva (a infantil e a silvícola)


de um lado, e a mente civilizada de outro, estão em que a primeira (chamada,
para sermos breves, de mente inferior) é deficiente em força pessoal, coragem,
ou fé; e também em compaixão, ou afeto, e é mais facilmente provocada ao
terror ou à raiva do que a segunda mente, a civilizada. Naturalmente, há
outras diferenças além destas, entre a mente inferior e a superior - diferenças
no intelecto e mesmo em percepções dos sentidos; estas, porém, embora
grandes em si mesmas, não têm a suprema significância das diferenças
básicas, fundamentais e morais que vêm de ser mencionadas. A mente inferior,
então, carece de fé, de coragem, de força pessoal, de compaixão, de afeição -
isto é (para resumir), carece de paz, contentamento e felicidade. É propensa
ao medo das coisas conhecidas e, mais ainda, a um terror indefinido das
coisas desconhecidas; é propensa à raiva, à fúria, ao ódio - ou seja (para
resumir, uma vez mais), ao desassossego, ao descontentamento e à
infelicidade. Por outro lado, a mente superior (comparada à inferior) tem fé,
coragem, força pessoal, compaixão, afeição; isto é, tem, relativamente,
felicidade; é menos propensa a temer coisas conhecidas e desconhecidas,
bem como à raiva e ao ódio - isto é, à infelicidade.

Esta afirmativa, feita assim em traços gerais, não parece à primeira vista
significar muito, mas de fato significa quase tudo; contém a chave do nosso
passado, do nosso presente e do nosso futuro, pois é a condição da natureza
moral (assim brevemente aludida) que decide por cada um de nós de momento
a momento e pela raça em geral de era em era, que espécie de lugar este
mundo em que vivemos parecerá ser - que espécie de lugar ele efetivamente
é para cada um de nós. Pois não são nossos olhos e ouvidos, nem mesmo
nossos intelectos, que julgam o mundo para nós, mas é a nossa natureza
moral que afinal estabelece o valor do que existe ao nosso redor.

Os membros da espécie humana começaram temendo muita coisa e não


gostando de muita coisa, amando ou admirando pouca coisa e confiando
menos ainda. É seguro dizer que os primeiros homens das águas e os homens
das cavernas, seus sucessores, pouca beleza viam no mundo exterior em que
viviam, embora talvez seus olhos, em quase todos os outros aspectos, fossem
tão intensamente sensíveis quanto os nossos. É certo que suas afeições de
família (como no caso dos silvícolas inferiores de hoje) eram, para dizer o
mínimo, rudimentares, e que todos os homens fora de sua família imediata
eram temidos ou antipatizados, ou ambas as coisas. Quando a espécie emergiu
do passado nebuloso para a luz daquilo que pode ser chamado de história
inferida, a visão que os seres humanos adotaram do governo do universo, do
caráter dos seres e das forças pelos quais esse governo era conduzido, da
posição em que o homem se achava perante os poderes governantes, de suas
perspectivas nesta vida e depois dela, era (como no caso das raças inferiores
de hoje) extremamente sombria. Desde aquele tempo, nem o mundo nem o
governo do mundo mudaram, mas a alteração gradual da natureza moral do
ser humano transformou o mundo, aos seus olhos, num lugar diferente. As
ermas e proibitivas montanhas, o assombroso mar, as sinistras florestas, a
escura e temível noite, todos os aspectos da natureza que naquela remota
época estavam carregados de temor, revestiram-se de uma nova e estranha
beleza. Toda a espécie humana e todos os seres vivos adquiriram (em nossos
olhos) um encanto e um caráter sagrado que nos tempos antigos estavam
longe de possuir. Os poderes governantes do universo (obedientes à mesma
influência benéfica) foram gradualmente convertidos de demônios em seres
e forças cada vez menos hostis e cada vez mais amigáveis para o ser humano;
assim, em todos os aspectos, cada era interpretou o universo por si mesma e
tem mais ou menos desacreditado as interpretações de eras anteriores.

Qual é a interpretação correta? Que mente, em toda a vasta diversidade


do passado e do presente, em toda esta longa série, visualizou para si própria
mais corretamente o mundo exterior? Vejamos. Consideremos por um
momento nossa genealogia espiritual e ponderemos mais extensamente seu
significado. Nossos ancestrais imediatos eram cristãos. O progenitor espiritual
do cristianismo foi o judaísmo. Este, tendo começado no grupo de tribos
coletivamente denominadas Terachitas ou Hebreus - Ibrim, os do outro lado
(isto é, do Eufrates) - descendeu do mítico Ab-orham ou Abraão [137-91],
sendo essas próprias tribos um rebento do grande ramo semítico da raça
caucasiana, que se originou diretamente do politeísmo caldeu. Este último,
por sua vez, foi um desenvolvimento em descendência direta da adoração ao
Sol e à Natureza, da primitiva e indivisa família caucasiana. A adoração ao
Sol e à Natureza sem dúvida teve sua raiz e deveu sua vida ao fetichismo
inicial, ou à direta adoração a objetos particulares da Terra. Nesta longa
descendência (embora apliquemos nomes diferentes a diferentes partes de
uma série contínua, como se houvesse linhas de demarcação entre essas partes
diferentes) não tem havido nenhuma ruptura e, em todos os milhares de
anos, nunca houve coisa alguma como uma nova partida. Nestes assuntos
espirituais, a máxima Natura non facit saltum* é aplicável tanto na Física
como na Geologia.

Todo o assunto é uma simples questão de crescimento estritamente análogo


ao desenvolvimento do ramo a partir do broto, ou da planta a partir de sua
semente. Comojá foi bem expresso: “La religion étant un des produits vivants
de l’humanité doit vivre, c’est-a-dire, changer avec elle”** [136:45]. Em
última análise será verificado que, sob a vasta diversidade de aparência
externa, desde o fetichismo até o cristianismo, por trás da infinita variedade
de fórmulas, credos e dogmas resumidos sob estes cinco tópicos, o elemento
essencial de que tudo o mais depende, que está por trás de tudo e é a alma de
tudo, é a atitude da natureza moral. Todas as mudanças na forma intelectual
e no aspecto exterior da religião são tão obedientes à mudança gradual que
ocorre nessa natureza como os ponteiros e as engrenagens do relógio à força
expansiva de sua mola principal. O mundo exterior permanece estável, mas
o espírito do ser humano cresce continuamente e, conforme o faz, sua própria
vasta sombra de Brocken (lançada pela natureza moral mas moldada pelo
intelecto), que ele projeta em meio ao infinito desconhecido, necessariamente
(como uma visão que se dissolve) muda e muda, seguindo as alterações na
substância (isto é, na alma do ser humano) que dá vida e realidade ao fantasma
sombrio que as pessoas simples chamam de seu credo e que metafísicos
chamam de filosofia do absoluto.
Mas assim interpretando de era em era o universo desconhecido em que
vivemos, deve ser observado que estamos (no todo) constantemente fazendo
um relatório cada vez melhor dele. Atribuímos aos nossos deuses (conforme
* A natureza não dá saltos.
** A religião, sendo um dos produtos vivos da humanidade, deve viver, isto é,
mudar com ela.
passam as eras) um caráter cada vez melhor e constantemente esperamos,
nas mãos deles, um tratamento cada vez melhor, tanto na vida atual como
após a morte. Isto quer dizer (naturalmente) que a confiança ou fé que
possuímos está firmemente aumentando e invadindo o campo oposto do medo,
que está com a mesma constância diminuindo. Igualmente pode ser dito,
quanto a caridade, solidariedade, afeição, que o constante aumento daquela
faculdade está firmemente mudando para nós o aspecto do mundo visível,
do mesmo modo que o crescimento da fé está alterando a imagem que
formamos para nós mesmos daquele mundo maior que é invisível. Nem há
qualquer indicação de que este processo duplo tenha chegado a um fim ou de
que seja provável que chegue a um fim.

vm
O período de tempo durante o qual a espécie esteve de posse de qualquer
dada faculdade pode ser mais ou menos precisamente estimado partindo-se
de várias indicações. Nos casos em que o nascimento da faculdade ocorreu
em tempos comparativamente recentes - dentro, por exemplo, dos últimos
vinte e cinco ou trinta mil anos - a filologia (como vimos) pode nos ajudar
consideravelmente a determinar a data aproximada de seu aparecimento.
Mas para faculdades comparativamente antigas, tais como o intelecto humano
ou a consciência simples, este meio necessariamente nos falha por completo.
Recorremos, então, aos seguintes testes:

1. A idade em que a faculdade aparece atualmente no indivíduo humano.

2. A maior ou menor universalidade da faculdade nos adultos da espécie


hoje em dia.

3. A rapidez, ou o inverso, com que a faculdade é perdida - como no caso de


doença.

4. A relativa freqüência com que a faculdade aparece em sonhos.

1. A propósito de cada uma de nossas faculdades mentais pode-se afirmar


que ela tem sua própria idade normal, ou média, para aparecer no indivíduo;
por exemplo, a memória e a consciência simples aparecem nos primeiros
dias após o nascimento; a curiosidade, dez semanas depois; o uso de
ferramentas e objetos, doze meses mais tarde; a vergonha, o remorso e um
senso do ridículo, todos uns quinze meses após o nascimento. Mas deve ser
notado que, em cada caso, a idade em que aparece uma faculdade na criança
corresponde ao estágio em que a mesma faculdade aparece (tanto quanto
pode ser atualmente verificado) na escala animal ascendente, do mesmo modo
que, no caso de faculdades que aparecem mais tarde, a idade de seu apare­
cimento no indivíduo corresponde ao seu período de aparecimento na espécie;
por exemplo, a memória e a consciência simples ocorrem em animais
primitivos como os equinodermos, enquanto o uso de ferramentas não é
encontrado abaixo dos macacos; e a vergonha, o remorso e o senso do ridículo
são quase se não inteiramente restritos (entre os animais) ao macaco
antropóide e ao cachorro. Assim, dentre as faculdades puramente humanas,
a autoconsciência, que aparece no indivíduo em geral na idade de três anos,
fez seu primeiro aparecimento na espécie certamente mais de mil séculos
atrás, enquanto o sentido musical, que não aparece no indivíduo antes da
adolescência ou puberdade, não pode (a julgar pelos registros) ter existido
na espécie há mais do que bem poucos milhares de anos.

2. Quanto mais tempo uma espécie tenha estado de posse de uma dada
faculdade, mais universal será essa faculdade na espécie. Esta proposição
certamente não requer prova. Toda faculdade nova tem de ocorrer primeiro
em certo indivíduo e, à medida que outros indivíduos vão alcançando o estado
de ser dele vão adquirindo-a também, até que, depois de talvez muitos
milhares de anos, tendo toda a espécie alcançado aquele mesmo estado, a
faculdade terá se tomado universal.

3. Quanto mais tempo uma espécie tenha estado de posse de uma dada
faculdade, mais firmemente estará essa faculdade fixada em cada indivíduo
da espécie que a possua. Em outras palavras: quanto mais recente é qualquer
faculdade, mais facilmente é perdida. Autoridade para esta proposição (de
que ela dificilmente carece) será citada quando ela for feita num outro
contexto. Trata-se de uma proposição quase, se não absolutamente, auto-
evidente.

4. Um estudo dos sonhos parece revelar o fato de que, no sono, o tipo de


mente que temos difere de nossa mente desperta, especialmente em ser mais
primitiva; de que seria de fato quase rigorosamente verdadeiro dizer que em
sonhos recuamos para uma vida mental pré-humana; de que as faculdades
intelectuais que temos nos sonhos são especialmente receptos, distintos dos
conceptos de nosso estado de vigília - ao passo que, no campo moral, são
igualmente faculdades como remorso, vergonha, surpresa, juntamente com
as mais antigas e mais básicas funções sensoriais que já nos pertenciam
antes de alcançarmos o plano humano - e de que as faculdades mentais mais
modernas, tais como o sentido da cor, o sentido musical, a autoconsciência e
a natureza moral humana, não existem nesse estado ou, se quaisquer delas
efetivamente ocorrem, fazem-no apenas como rara exceção.

Comparemos agora algumas das faculdades que já mencionamos, à luz


das regras estabelecidas. Isto nos dará, mais claramente do que talvez qualquer
outra coisa poderia fazer, uma noção precisa do crescimento da mente pelo
sucessivo acréscimo de novas funções. Para este fim tomemos (como alguns
exemplos que possam representar todos os casos) a consciência simples, a
vergonha, a autoconsciência, o sentido da cor, a natureza moral humana, o
sentido musical e a consciência cósmica.

A consciência simples aparece na criança poucos dias após seu nasci­


mento; é absolutamente universal na espécie humana, data de bem antes dos
primeiros mamíferos e é perdida somente no sono profundo e no estado de
coma; está presente em todos os sonhos.

Segundo consta, a vergonha, o remorso e o senso do ridículo nascem na


criança mais ou menos aos quinze meses; todas são faculdades pré-humanas
que se encontram no cachorro e nos macacos e sem dúvida existiam em
nossos ancestrais pré-humanos; são quase universais na espécie, sendo
ausentes somente nos idiotas muito profundos; as três são comuns nos so­
nhos.

A autoconsciência aparece na criança á idade média de três anos e não


está presente em nenhuma outra espécie além do ser humano; é na verdade
a faculdade cuja posse por um indivíduo o constitui como um ser humano.
Não é universal em nossa espécie, sendo ausente em todos os verdadeiros
idiotas, ou seja, permanentemente ausente em mais ou menos um em cada
mil seres humanos na Europa e na América.*

* No que tange à ausência da autoconsciência nos idiotas, o exame dos internados de um grande
asilo de idiotas revelou o fato de que a faculdade estava ausente em noventa por cento. Os pacientes
examinados tinham, quase todos, acima de dez anos de idade. Naturalmente, alguns deles poderiam
alcançar a autoconsciência mais tarde. Dicionários e trabalhos sobre idiotia [101] definem um idiota
como “um ser humano destituído dos poderes mentais comuns”; mas parece que uma definição
melhor e mais precisa seria: “um ser humano no qual, tendo passado a idade usual, por conseqüência
de atavismo, a autoconsciência não foi desenvolvida” . Ao passo que a definição de imbecil seria:
“Um ser humano que, embora autoconsciente, é, por conseqüência de atavismo, em alto grau
destituído dos poderes mentais comuns”.
Deve no entanto haver muitos membros de espécies inferiores, tais como os
bosquímanos sul-africanos* e os nativos da Austrália, que nunca alcançaram essa
faculdade. Em nossa anoestralidade, a autoconsciência remonta ao primeiro homem
verdadeiro. Milhares de anos devem ter passado entre seu primeiro aparecimento
e sua universalidade, do mesmo modo que milhares de anos estão agora passando
entre os primeiros casos de consciência cósmica e sua universalidade.

Essa espécie, assim somos informados, despida, caminhando ereta**, gregária,


sem uma verdadeira linguagem, comuso limitado de ferramentas, sem casamento,
governo ou qualquer instituição; animal mas rainha dos animais, dada sua natureza
moral relativamente alta (tornando-a gregária) e sua inteligência receptiva altamente
evoluída, desenvolveu autoconsciência e com isto se tomou humana.
* Quanto ao nlvel mental dos bosquímanos, consulte-se Anderson [1-9,216,217,218,227, 228,232,
291 ], que nos dá os fatos com base em real observação, sem especulação ou teoria; ele é um observador
minucioso e evidentemente um relator fiel. Vejam-se também algumas páginas notáveis de Olive
Schreiner [90-2, 4] em que ela descreve esses mesmos bosquímanos (como o faz Anderson), por
observação pessoal. Juntamente com muitas outras coisas ela afirma por exemplo que: “Esse pequeno
povo não tinha nenhuma organização social fixa; vagando em bandos ou como indivíduos solitários,
sem nenhuma habitação definitiva, dormiam à noite sob as rochas ou em tocas de cães selvagens, ou
eles mesmos faziam um curioso anteparo pequeno de arbustos soltos, levantado do lado de onde o
vento soprava e estranhamente parecido com um covil de animal - e o abandonavam quando rompia
a manhã. Não tinham rebanhos ou manadas e viviam de caça selvagem ou, quando esta faltava,
comiam cobras, escorpiões, insetos ou restos, ou visitavam os rebanhos dos hotentotes. Não usavam
nenhuma espécie de roupa e suas armas eram arcos e flechas; as cordas dos arcos eram feitas com
tendões de animais selvagens, enquanto as flechas tinham ponta de osso ou pedra lascada aguçados,
envenenada com o suco de uma planta bulbosa ou introduzida no corpo de uma lagarta venenosa;
estas coisas constituíam suas únicas propriedades. Não tinham cerimônia de casamento nem relação
sexual permanente, pois cada homem e cada mulher coabitava apenas durante o prazer, o sentimento
maternal estava em seu nível mais baixo, pois as mães abandonavam seus filhos ou desfaziam-se deles
por qualquer ninharia; o sentimento paternal não existia. Dizem aqueles que estudaram sua língua
acuradamente que ela era tão imperfeita que a expressão clara mesmo das idéias mais simples era
difícil. Eles não tinham palavra para esposa, para casamento, para nação e sua mente parecia estar no
mesmo estado simples de sua língua. Aparentemente, não tinham nenhuma capacidade de executar as
operações mentais complexas necessárias à manutenção da vida em condições civilizadas; a nenhum
membro da raça, em qualquer caso conhecido, foi ensinado a ler ou a escrever, nem a compreender
concepções religiosas claramente, embora grandes esforços tenham sido feitos para instruí-los”. Parece
impossível crer que, como raça, essas criaturas sejam autoconscientes.
** Caminhando ereta. Se a visão aqui assumida da evolução mental humana fosse aceita, lançaria
alguma luz sobre nosso passado remoto. Um de seus corolários seria que nossos ancestrais caminharam
eretos centenas de milhares de anos antes de se tomarem autoconscientes - isto é, antes de se tomarem
humanos e começarem a falar. A idade em que as crianças começam a andar é (mentalmente) a idade do
cachorro e do macaco. Dos quinze ou dezoito meses até os três anos de idade, a criança passa pelos
estágios mentais situados entre esses animais e a autoconsciência Durante esse período, a inteligência
receptiva da criança se toma mais e mais perfeita, pois os próprios receptos se tomam mais e mais complexos,
cada vez mais próximos de conceptos, até que estes são efetivamente formados e a autoconsciência é
estabelecida. Dir-se-ia que cerca de meio milhão de anos de evolução deve ter transcorrido entre o estado
do mais alto macaco antropóide e o do ser humano. Talvez isto possa ser uma reflexão confortável para
aqueles que não gostam da idéia de serem descendentes de alguma foima simiesca
É impossível dizer há quanto tempo esse fato ocorreu, mas não poderá
ter sido há menos de várias centenas de milhares de anos. Essa faculdade é
perdida muito mais facilmente do que a consciência simples. Nós a perdemos
em coma e também, muitas vezes, em delírio de febre; em certas formas de
insanidade, como nas obsessões, é muitas vezes perdida por períodos de
semanas e meses; finalmente, ela nunca está presente em sonhos.

O sentido da cor já foi considerado. Resta dizer algumas palavras do


ponto de vista atual. Esse sentido surge gradualmente no indivíduo - aos
três ou quatro anos já pode haver um sinal dele. JefFries [135-242] verificou
que ele ainda estava ausente numa alta porcentagem de crianças aos oito
anos de idade. Consta que vinte a trinta por cento de meninos em idade
escolar são daltônicos, ao passo que apenas quatro por cento de adultos
masculinos o são. O Dr. Favre, de Lyon [135-243], relatou em 1874, no
Congresso Francês para o Avanço da Ciência, emLille, “algumas observações
que lhe pareciam provar que o daltonismo congênito era curável” [135-242],
porém, não parece ter ocorrido a ele que, sendo o sentido da cor invaria­
velmente ausente em crianças muito jovens e aparecendo ele em idade variável
conforme a criança avança para a maturidade, o daltonismo pareceria ne­
cessariamente estar sendo “curado”, ao professor, atento ao desenvolvimen­
to da criança no exercício de seu sentido da visão sobre as cores. Já vimos
que o sentido da cor na espécie não pode ter muitas dezenas de milhares de
anos.

O sentido da cor é ausente num ser humano em cada quarenta e sete.


Raramente está presente em sonhos e, quando isto ocorre, ou seja, quando
qualquer cor é vista num sonho, geralmente é a cor que por bons motivos foi
percebida pela primeira vez pelo ser humano, isto é, o vermelho.

As ocorrências seguintes ilustram (de modo enfático) a ausência usual


do sentido da cor durante a consciência parcial que ocorre no sono. Um
homem que tinha cabelo branco sonhou que estava se olhando num espelho
e via claramente que seu cabelo, não somente estava muito mais espesso do
que ele sabia que de fato era, como, ao invés de ser branco, como ele também
sabia, era preto. Ora, ele se lembrou muito bem, em seu sonho, de que seu
cabelo nunca fora preto; fora, na verdade, castanho claro. Ele se surpreendeu
(convém mencionar aqui que o espanto ou a surpresa é uma faculdade pré-
humana e que é comum em sonhos) de que em seu sonho seu cabelo fosse
preto, lembrando-se claramente de que nunca fora assim. O ponto importante
a ser notado a respeito do sonho em questão é que, embora fosse claro para a
mente do sonhador que seu cabelo nunca fora preto, assim mesmo ele não se
lembrou de que tivesse sido castanho. Por alguma razão havia dificuldade
para trazer à consciência qualquer cor. O mesmo homem sonhou que havia
ferido com uma faca a um inimigo que o havia atacado; a sangradura era
profusa mas o sangue era branco; ele sabia em seu sonho que não deveria ser
branco, mas nenhuma imagem de sua verdadeira cor ou de qualquer outra se
apresentou.

A natureza moral humana inclui muitas faculdades, tais como a cons­


ciência; o senso abstrato do certo e do errado; o amor sexual - diferenciado
do desejo ou instinto sexual; o amor parental e filial - diferenciado dos
instintos correspondentes (o ser humano tem ambos estes instintos em comum
com os animais irracionais, além de sentimentos mais elevados); o amor por
nossos semelhantes como tais; o amor ao belo; o temor respeitoso; a
reverência; o senso do dever ou da responsabilidade; solidariedade, compaixão
e fé. A natureza humana não é completa sem estas e outras faculdades;
portanto, trata-se de uma função muito complexa; mas, para o propósito
deste argumento, ela deve ser tratada como se fosse um sentido simples.
Ora, em que idade aparece essa natureza moral humana no indivíduo? Ela
nunca está presente em crianças muito jovens. Com freqüência está ausente
na puberdade e mesmo na adolescência. É uma faculdade recentemente
adquirida. Provavelmente não estaria muito errado dizer que a idade média
para seu aparecimento estivesse por volta dos quinze anos. Parece claro,
com base num estudo da história, que nossa natureza moral não pode ter
mais de dez ou doze mil anos. Pois uma meticulosa consideração dos registros
que chegaram a nós dos antigos romanos, gregos, hebreus, egípcios, assírios
e babilônios indicaria inequivocamente que, à medida que recuamos ao
passado, esta faculdade vai se afunilando para um ponto de desaparecimento
e, se continua a se afunilar assim conforme recuamos nas eras, tudo o que
chamamos distintamente de nossa natureza moral teria certamente desapa­
recido quando tivéssemos recuado o número de séculos já mencionado - dez
ou doze mil anos.

Em que proporção de homens e mulheres de países civilizados a natureza


moral humana não está presente? Há tantos homens e mulheres que têm
natureza moral parcial e tantos que, tendo pouco ou nada dessa natureza,
fazem parecer que a têm, e o julgamento de homens e mulheres neste
particular é tão difícil - o problema é tão velado e tão complicado - que é
impossível dar mais do que apenas uma opinião. Mas que o curioso leia
alguns livros como os de Despine [66] e de Ellis [76] - e depois observe os
homens e as mulheres com quem convive - e será forçado a chegar à conclusão
de que a proporção de adultos que têm pouca ou nenhuma natureza moral,
ou ainda uma natureza moral não desenvolvida, é muito maior do que a
daqueles que têm pouco ou nenhum sentido de cor, ou ainda um sentido de
cor não desenvolvido. Provavelmente não estaríamos muito errados se
disséssemos que pelo menos quarenta homens e mulheres, em cada mil, na
América e na Europa, estão nesta situação.

Então, quantas raças humanas estão ainda vivendo na Terra, nas quais
nenhum ou poucos membros têm o que poderia ser chamado de natureza
moral humana do ponto de vista de nossa civilização? E, enquanto a
autoconsciência é perdida - não sempre, naturalmente, mas com freqüência
- na insanidade e na febre, a natureza moral está - temos de admitir - sujeita
a ausências e lapsos muito mais freqüentes e por causa bem menor.

Como vimos, a autoconsciência apareceu na espécie há cerca de trezentos


mil anos. As considerações acima indicariam uma data muito posterior para
o surgimento da natureza moral. E não apóiam esta inferência todos os
registros e indícios históricos, até o ponto que alcançam?

Finalmente, o sentido musical (faculdade que está agora em processo de


nascer) não aparece no indivíduo antes da adolescência. Não existe em mais
que a metade dos membros de nossa espécie. Tem existido por menos (talvez
consideravelmente menos) de cinco mil anos. Nunca ou quase nunca está
presente em sonhos, mesmo no caso de músicos profissionais. Enquanto,
como já foi dito, a autoconsciência é fortuitamente perdida na insanidade,
pode-se dizer que o sentido musical, nessa condição, é invariavelmente
perdido - pelo menos, após uma experiência de vinte e cinco anos com cerca
de cinco mil casos de demência, o autor não se lembra de um só caso em que
o sentido musical tenha sido conservado sendo a pessoa insana.

O sumário que se segue, em forma de tabela, dos principais fatos re­


lativos à evolução das faculdades mencionadas e de algumas outras, há
de tomar - acredita-se - todo este assunto mais inteligível do que o faria
qualquer exposição extensa do mesmo. Os dados numéricos na tabela e no
texto não são apresentados como exatos mas para o fim de transmitir uma
idéia clara que se acredita seja suficientemente correta para o presente
propósito.
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Em suma: como a ontogênese nada mais é que a fllogênese in petto - isto
é, como a evolução do indivíduo é necessariamente a evolução da espécie
muna forma abreviada, simplesmente porque não pode por natureza ser dife­
rente (não pode seguir quaisquer outras linhas, porque não há outras linhas
a seguir) - é claro que órgãos e faculdades (ampla e genericamente falando)
têm de aparecer no indivíduo na mesma ordem em que apareceram na espécie
e, conhecida uma ordem, a outra pode ser confiavelmente presumida.

Quando uma faculdade nova aparece numa espécie, há de ser encontrada


bem no começo num indivíduo dessa espécie; mais tarde será encontrada em
alguns indivíduos; passado mais algum tempo, numa porcentagem maior
dos membros da espécie; mais adiante ainda, na metade destes; e assim por
diante, até que, após milhares de gerações, um indivíduo que não apresente
essa faculdade será visto como uma monstruosidade. Note-se também que -
e isto é importante - quando a nova faculdade aparece, especialmente se o
faz na linha direta da ascensão da espécie, como no caso de Consciência
Simples, Autoconsciência, ou de Consciência Cósmica, tem de aparecer pri­
meiro em um membro, depois em membros da espécie que tenham alcançado
plena maturidade. Pois um indivíduo imaturo (outros aspectos permanecendo
iguais) não pode exceder ou ultrapassar um indivíduo maduro da mesma
espécie.

Assim, com o passar das eras, o grande tronco da árvore da vida se tornou
mais alto e, de tempos a tempos, lançou brotos que cresceram a galhos e
estes a ramos nobres que por sua vez lançaram brotos e galhos, muitos dos
quais de grande tamanho e em números imensos. Sabemos que essa árvore
não cessou de crescer; que mesmo agora, como sempre, está lançando novos
brotos e que os velhos brotos, galhos e ramos, estão em maioria aumentando
em tamanho e força. Cessará hoje esse crescimento? Não parece que sim.
Parece mais provável que outros membros e ramos, com que nem sonhamos
hoje, venham a nascer da árvore e que o tronco principal, que da mera vida
cresceu para vida sensitiva, para a consciência simples e para a autocons­
ciência, há de passar para formas de vida e consciência mais altas ainda.
INVOLUÇÃO

Assim como no desenvolvimento de uma árvore individual alguns ramos


florescem enquanto outros malogram; como numa floresta algumas árvores
crescem alto e estendem ramos grandes enquanto outras se atrofiam e morrem;
como no progresso para a frente e para o alto de qualquer espécie alguns
indivíduos estão mais adiante do corpo principal enquanto outros vêm mais
atrás, assim também, na marcha para a frente da mente humana coletiva,
através dos séculos, algumas mentes individuais estão na vanguarda do grande
exército, enquanto na retaguarda da coluna vacilam e caem números imensos
de espécimes defeituosos.

Em qualquer espécie, a estabilidade de qualquer faculdade é proporcional


à idade da faculdade na espécie. Isto é, uma faculdade comparativamente
nova está mais sujeita a falha, ausência, aberração, àquilo que chamamos de
doença e está mais sujeita a ser perdida do que uma faculdade mais velha.
Para muitos esta proposição parecerá um truísmo. Se um órgão ou uma facul­
dade foram herdados numa espécie por, digamos, um milhão de gerações,
parece a priori certo que é mais provável que sejam herdados por determinado
indivíduo daquela espécie do que um órgão ou uma faculdade que tenham
tido origem, digamos, três gerações atrás. Este é o caso do que é chamado de
gênio. O gênio consiste na posse de uma nova faculdade ou de novas faculda­
des, ou no desenvolvimento incrementado de uma velha faculdade ou de
velhas faculdades. Assim sendo, parece necessário a Galton [92] escrever
um livro de bom tamanho para provar que a genialidade é hereditária. Tão
longe estava isto de ser um fato óbvio que até hoje a hereditariedade da
genialidade está longe de ser universalmente aceita. Mas ninguém jamais
escreveu um livro para provar que a visão, a audição e a autoconsciência
fossem hereditárias, pois qualquer pessoa (mesmo a mais ignorante) sabe,
sem discussão, que elas o são. No ponto em questão, diz Darwin, falando de
cavalos: “A falta de uniformidade nas partes que no momento estejam pas­
sando por seleção depende principalmente da força do princípio da reversão”
[67: 288]. Isto significa que partes ou órgãos que estão passando por mudança
através de seleção estão sujeitos a perder o que foi ganho, pela reversão à
condição inicial. Diz ele ainda: “É crença generalizada entre criadores que
características de todos os tipos se tomam fixas por herança prolongada”
[67: 289], Em outro lugar, fala da “variabilidade flutuante e, tanto quanto
podemos julgar, infindável, de nossas produções domésticas, a plasticidade
de toda a sua organização” [67: 485], e atribui essa instabilidade às recentes
mudanças que essas produções têm sofrido sob a influência da seleção artificial
a que têm sido submetidas. Ainda em outro lugar, Darwin fala da “extrema
variabilidade de nossos animais domésticos e de nossas plantas cultivadas”.

Mas é quase desnecessário levar adiante esta discussão. Qualquer pessoa


que queira pensar um pouco no assunto admitirá que, quanto menor for o
tempo que um órgão ou uma faculdade tenham sido possuídos por uma
espécie, tanto mais instáveis serão na espécie e, conseqüentemente, no indiví­
duo; tanto mais sujeitos estarão a serem abandonados; tanto mais sujeitos a
serem defectivos; tanto mais sujeitos avariarem; tanto mais sujeitos a serem
ou se tomarem imperfeitos - como dizemos, doentios. Pelo contrário, quanto
mais tempo um órgão ou uma faculdade tenham existido em qualquer espécie,
mais seguramente serão herdados e mais seguramente assumirão um caráter
definitivo, típico - isto é, com mais certeza serão normais, mais certamente
concordarão com a norma ou o tipo desse órgão ou dessa faculdade. Em
outras palavras, menos provável será que sejam imperfeitos - o que chamamos
de defectivo ou doentio. Admitido isto, será prontamente anuído: primeiro,
que a espécie cuja evolução for a mais rápida (outras coisas sendo iguais)
terá mais colapsos; segundo, que, em qualquer dada espécie, as funções cuja
evolução for a mais rápida serão as mais sujeitas a colapsos.

Se estes princípios forem aplicados aos animais domésticos - a maioria


dos quais, dentro das últimas poucas centenas de gerações, tem sido muito
diferenciada por seleção artificial - explicarão o que algumas vezes tem sido
considerado como anômalo - isto é, a propensão muito maior a doença e a
morte prematura destes em comparação com seus protótipos selvagens. Pois
o fato de que os animais domésticos são mais propensos a doença e a morte
prematura do que os selvagens é admitido em toda parte. Este mesmo princípio
explicará também como é que, quanto mais pura for a raça de um animal -
isto é, quanto mais amplamente tiver ele sido diferenciado de um tipo anterior
nas últimas gerações - mais sujeito estará a doença e a morte prematura.

Trazendo agora estas regras gerais para nós mesmos - para a espécie
humana - vemos que elas indicam que os órgãos e as funções que foram os
mais recentemente adquiridos serão com maior probabilidade defectivos,
ausentes, anormais, doentios. Mas é notório que no ser humano civilizado,
especialmente na raça ariana, as funções que passaram pela maior mudança
nos últimos milênios são aquelas que chamamos de mentais - esse grande
grupo de funções (sensoriais, intelectuais, morais) que dependem dos dois
grandes sistemas nervosos - o cerebrospinal e o grande simpático - e deles
advêm. Esse grande grupo de funções cresceu, expandiu-se, lançou novos
brotos e galhos e está ainda no processo de produzir novas faculdades, numa
taxa extraordinariamente maior do que qualquer outra parte do organismo
humano. Se isto é assim, então, dentro dessa grande congérie de faculdades
é inevitável que encontremos constantes falhas, omissões, defeitos e colapsos.

Observações clínicas nos ensinam, todos os dias, que o raciocínio acima


está solidamente fundamentado. Ele mostra falhas de todos os graus e de
variedades ilimitadas; falhas em funções sensoriais, como o daltonismo e a
surdez musical; falhas na natureza moral, do todo ou de uma parte; no
intelecto, de uma ou de várias faculdades; ou falhas mais ou menos completas
de todo o intelecto, como na imbecilidade e na idiotia. Mas acima dessas
falhas e como um necessário acompanhamento delas, temos o colapso
funcional, inevitável uma vez estabelecido no indivíduo, que chamamos de
insanidade e que se diferencia dos vários graus e formas de idiotia. Pois é
fácil verificar que, se uma função ou faculdade pertencente a qualquer espécie
dada está sujeita por qualquer causa geral a ser perdida em certa proporção
dos indivíduos dessa espécie, deve também estar sujeita a tomar-se doentia
- isto é, a entrar em colapso - nos casos em que não venha a ser perdida.
Pois se a faculdade em questão absolutamente não é sempre desenvolvida no
indivíduo - se com bastante freqüência deixa de aparecer - isto tem de
significar que, em muitos outros casos em que ela de fato apareça, não estará
plena e solidamente formada. Não podemos imaginar um salto de um total
não aparecimento de uma função em certos membros de uma espécie para a
absoluta perfeição e solidez da mesma função nos demais membros. Sabemos
que as espécies não crescem desta maneira. Sabemos que, numa raça em que
tenhamos alguns homens com mais de dois metros e outros com apenas um
metro e vinte, encontraremos, se procurarmos, homens de todas as estaturas
entre estes extremos. Sabemos que em todos os casos os extremos apresentados
pela raça são ligados por conjuntos completos de espécimes intermediários.
Um homem pode levantar quatrocentos quilos e outro apenas quarenta; mas
entre estes há aqueles cujos limites de força preenchem todo o intervalo
entre os quarenta e os quatrocentos quilos. Um homem morre de idade aos
quarenta anos e outro aos cento e trinta; mas em cada número de anos e
meses entre quarenta anos e cento e trinta anos está o limite de vida possível
de algum homem. A mesma lei que vale para o limite de faculdades vale
também para sua solidez e permanência. Sabemos que em alguns homens as
funções intelectuais são tão instáveis que, tão logo são estabelecidas,
desmoronam - esmagadas, por assim dizer, pelo seu próprio peso - assim
como uma casa mal construída cujas paredes não são suficientemente fortes
para sustentar o teto. Trata-se de casos extremos da chamada insanidade
progressiva - casos em que a mente se arruina assim que começa a existir ou
mesmo antes que esteja totalmente formada; casos de insanidade da puberdade
e da adolescência, em que a natureza mal consegue formar uma mente normal,
por inteiro ou pela metade, e é totalmente incapaz de sustentá-la, decaindo
então, imediatamente, para o caos. A desesperança nesta classe de casos (no
tocante a recuperação) é bem compreendida por todos os alienistas e não é
difícil perceber por que essas insanidades devem e têm de ser praticamente
incuráveis, pois sua própria existência denota a ausência dos elementos
necessários para formar e manter uma mente humana normal nos pacientes
em questão.

No campo da insanidade propriamente dita - isto é, excluindo-se as


idiotias - esses casos ocupam a posição extrema no fim da escala, ao passo
que as pessoas que só se tomam maníacas ou melancólicas sob as mais
poderosas causas excitantes, tais como parto e velhice, ocupam o outro
extremo. Ou seja, temos uma classe em que a mente, sem ser tocada,
desmorona em ruínas tão logo é formada, ou mesmo antes que esteja
completamente formada. Temos então uma outra classe, em que o equilíbrio
das faculdades mentais só é subvertido pelos choques mais violentos e apenas
temporariamente, uma vez que os casos a que me refiro podem ser curados
em poucas semanas ou poucos meses, se colocados sob condições favoráveis.
Mas, entre estes extremos, todo o amplo espaço intermediário é preenchido
por uma variedade infinita de fases de insanidade, mostrando toda condição
possível de estabilidade e instabilidade mental entre os dois extremos. Mas
por toda a gama de alienações mentais prevalece a seguinte lei: a função
mental mais recentemente evoluída, seja ela intelectual ou moral, sofre
primeiro e sofre mais, enquanto a função mental e moral desenvolvida em
primeiro lugar sofre por último e sofre menos (se é que sofre).

Se a mente humana é comparada a uma árvore em crescimento, então


pode-se dizer que os ataques mais leves de insanidade secam suas folhas -
paralisam total ou parcialmente suas funções por algum tempo, representando
as folhas as emoções e os conceptos mais frágeis formados por último e
especialmente as últimas combinações destes; que os ataques mais profundos
matam as folhas e danificam os galhos mais finos; que distúrbios ainda mais
profundos matam os galhos mais finos e afetam os mais grossos; e assim por
diante, até que, nas insanidades mais profundas e arraigadas, como nas
demências avançadas, o que resta da árvore é apenas um tronco nu, meio
morto, sem folhas ou rebentos e quase sem galhos.

Em todo esse processo de destruição, as faculdades formadas há mais


tempo, tais como a percepção e a memória, o desejo de alimento e de bebida,
o contrair-se quando ferido e as mais básicas funções sensoriais, perduram
por mais tempo; já, como foi dito, as funções desenvolvidas mais recentemente
são as primeiras que desmoronam, depois as seguintes menos recentes e
assim por diante.

Um fato que ilustra bem a asserção de que a insanidade consiste


essencialmente no colapso das faculdades mentais que são instáveis
principalmente por serem as mais recentes e de que ela portanto assenta
sobre uma evolução nova e ainda em progresso, é a relativa ausência de
insanidade entre os negros.

Tem sido dito que o grande percentual de insanidade na América e na


Europa depende diretamente da rápida evolução, nos últimos milênios, da
mente da raça ariana. Poucos afirmariam que a mente do negro estivesse
avançando numa velocidade parecida. Como conseqüência dessas diferentes
velocidades de progresso, temos nos membros da raça ariana na América
um percentual de insanidade muito mais alto do que o que é encontrado na
raça negra.

Quando se fez o recenseamento de 1880 nos Estados Unidos, verificou-se


que em quarenta e três milhões de pessoas de raça branca havia oitenta e seis
mil insanas - exatamente uma em cada quinhentas - ao passo que em seis
milhões e setecentos e cinqüenta mil negros só um pouco mais de seis mil
eram insanos, o que dá uma proporção de apenas um em cada mil e cem.
Indubitavelmente, se tivéssemos estatísticas de outros povos atrasados e esta­
cionários, um estado de coisa semelhante seria encontrado, o que nos leva a
concluir que entre os selvagens e semi-selvagens existem, comparativamente,
bem poucos casos de insanidade.

Concluindo, os resultados a que se chega neste capítulo podem ser resu­


midos da seguinte maneira:
1. A estabilidade de uma faculdade no indivíduo depende da idade dessa
faculdade na raça. Quanto mais antiga for a faculdade, mais estável será;
quanto mais recente, menos estável.

2. A raça cuja evolução for a mais rápida será a mais sujeita a colapso.

3. Em qualquer raça, as funções cuja evolução for a mais rápida serão as


mais sujeitas a colapso.

4. Nas famílias mais progressivas da raça ariana, as faculdades mentais


têm se desenvolvido com grande rapidez por alguns milênios passados.

5. Nessa raça, o grande número de colapsos mentais, comumente


chamados de insanidade, deve-se à rápida e recente evolução das faculdades
presentes na raça.
DA AUTOCONSCIÊNCIA
À CONSCIÊNCIA CÓSMICA

Assim como as faculdades discutidas na parte precedente deste livro e


muitas outras passaram a existir na espécie, cada qual em sua época - quando
a espécie estava pronta para ela - temos de admitir que o crescimento, a
evolução, o desenvolvimento, ou como quer que prefiramos designar isto,
sempre (como foi exemplificado) esteve prosseguindo, está prosseguindo
agora e (até onde podemos dizer) sempre estará prosseguindo. Se estivermos
certos em nossa assunção, novas faculdades irão de tempos em tempos surgir
na mente, assim como no passado novas faculdades surgiram. Admitido
isto, assumamos que aquilo que neste livro chamamos de Consciência
Cósmica seja uma dessas faculdades assim nascentes, werdende*. E agora
vejamos o que sabemos a respeito deste novo sentido, estado, desta nova
faculdade, ou como quer que isto possa ser designado. Primeiramente, pode-se
notar que o novo sentido não aparece ao acaso nessa ou naquela pessoa. É
necessário, para seu aparecimento, que uma personalidade humana elevada
exista e preencha os requisitos para sua manifestação. Especialmente nos
grandes casos há um desenvolvimento excepcional de algumas ou de todas
as faculdades humanas comuns. Cabe ressaltar, particularmente, uma vez
que esse caso é inequivocamente conhecido por nós, a singular perfeição das
faculdades intelectuais e morais e dos sentidos especiais de Walt Whitman
[103:57-71]. É provável que uma aproximação dessa excelência evolucionai
seja necessária em todos os casos. Então, certamente em alguns casos,
provavelmente em todos, a pessoa tem excepcional compleição - excepcio­
nal beleza de estrutura e postura, feições excepcionalmente bonitas, saú­
de excepcional, excepcional doçura de temperamento, excepcional magne­
tismo.
* werdende’, em formação.
A faculdade em si tem muitos nomes, mas estes não têm sido
compreendidos ou reconhecidos. Convém darmos aqui alguns deles, que
serão mais bem compreendidos à medida que prosseguirmos. Talvez o pró­
prio Gautama ou algum de seus primeiros discípulos a tenha chamado de
Nirvâna* devido à “extinção” de certas faculdades mentais inferiores (tais
como o senso do pecado, o medo da morte, o desejo de riqueza, etc.), a qual
incide diretamente sobre o nascimento da nova faculdade. Essa subjuga­
ção da velha personalidade ao ocorrer o nascimento da nova é, na verda­
de, quase equivalente à aniquilação do velho ego* e à criação de um novo
ego. A palavra Nirvâna é definida como “o estado a que deve aspirar o
santo budista, como a mais elevada meta e o maior bem”. Jesus chamava
esse novo estado de o Reino de Deus ou o Reino dos Céus, devido à paz e à
felicidade inerentes a ele e que são talvez seus aspectos mais caracte­
rísticos. Paulo denominava esse estado Cristo - ele fala de si próprio como
“um homem em Cristo” e de “aqueles que estão em Cristo”. Chamava-o
também de “o Espírito” e “o Espírito de Deus”. Depois que alcançou a
Consciência Cósmica, ficou sabendo que Jesus possuíra o sentido cósmico e
que ele próprio estava vivendo (por assim dizer) a vida de Jesus - que uma
outra individualidade, um outro ego, vivia nele. Chamou este segundo ego
de Cristo (o libertador, divinamente enviado), identificando-o não tanto
com o homem Jesus mas com o libertador que deveria ser enviado e que fora
enviado em sua pessoa, que era ao mesmo tempo Jesus (o homem
autoconsciente comum) e o Messias (o arauto e o exemplo da nova e mais
elevada raça ). A dupla personalidade dos homens possuidores de cons­
ciência cósmica aparecerá muitas vezes à medida que prosseguirmos e
veremos que é um fenômeno constante e conspícuo. Maomé chamou o sentido
cósmico de Gabriel e parece tê-lo encarado como uma pessoa distintamente
separada, que vivia nele e falava com ele. Dante o chamou de Beatrice (“Que
Faz Feliz” ou “Que Beatífica”), um nome quase ou perfeitamente equivalente
a “Reino dos Céus”. Balzac chamou o novo homem de “especialista” e o
novo estado de Especialismo. Whitman chamava a consciência cósmica de
Minha Alma, mas falava dela como de uma outra pessoa; por exemplo, nestes
versos:
N. T. - * Nirvana, em português.
** self, no original; em todos os casos aqui traduzido por ego, devido à
referência a personalidade e a individualidade.
O’ alma irreprimível, eu contigo e tu comigo...
Navegamos os dois, ó alma...
Com risos e muitos beijos...
O’ alma, tu me deleitas e eu a ti.**

Bacon, nos Sonetos, tratou o sentido cósmico tão enfaticamente como


uma pessoa separada, que o mundo por trezentos anos o interpretou
literalmente e concluiu que a “pessoa” em questão (qualquer que fosse seu
nome) era um jovem amigo do poeta!

Para ilustrar a objetivação deste fenômeno puramente subjetivo (embora


deva ser lembrado que, para a pessoa possuidora de consciência cósmica, os
termos objetivo e subjetivo perdem seu velho significado - de modo que
“objetos grosso modo” e “alma invisível” tomam-se “uma só coisa”), não
será impróprio citar uma passagem [173 : 5] de um poeta que, embora seja
um caso de consciência cósmica, não está incluído neste livro pelo fato de
que o autor não conseguiu obter os detalhes necessários.

Assim meditou um viajante no plano terrenal,


Em si mesmo de toda a humanidade um modelo sendo.
Pois pálidas aspirações apenas, a princípio o acometiam,
Vagamente em seus sonhos surdindo,
Até que, maduro, suas meditações mudaram
Para a inspiração e a luz da alma.
Então a visão veio e na luz ele viu
O que havia esperado, agora abertamente revelado;
E muito mais ainda - das coisas a mais profunda alma,
E beleza qual da própria vida a coroa,
Inefável, transcendente mortal forma;
Pois em luz trajado, não mais em fantasia,
Ante seu olhar o vero ideal se via,
Esplendidamente belo, inconcebível,
Em beleza e na mais divina simetria vestido.
Mas aflito não estava ele, qual aquele de Latmo, quando
Em onírico êxtase, sobre as colinas,
Sob a Lua, seu amor desvelado viu;
Pois bem sabia que de sua vida o coroamento
** A tradução de versos e poemas é livre, tentando-se aproximação suficiente do
original. Isto vale para todo o livro. Como é sabido, a melhor apreciação de
versos e poemas requer leitura direta do original.
Naquela visão estava e cumprido seria.
Não, cumprido fora, pois de então em diante a seu lado
Um radiante ser estava, sua luz-guia
E estrela polar, que qual imã seguro o mantinha
Na atração de imperecedouro amor!
Mas como descrever tal ser, doravante seu?
Que palavras podem dizer aquilo que palavras transcende, senão
Que ela era bela além de todo humano pensamento?
Pois quem poderia pintar aqueles traços e aquela forma
Tão primorosamente moldados que nenhuma arte
Poderia apreendê-los, ou de algum modo transmitir
O sorriso daqueles róseos lábios, ou captar
E passar a plena expressão daqueles olhos,
Tão maravilhosos, meio velados sob a linha
De macios e curvos cílios, que realçavam
Indescritivelmente o efeito que fluía
Das líquidas profundezas daquelas amplas órbitas,
Fontes de amor, tão cheios de lento fogo
E paixão e todavia tão temos e tão castos?
Todo movimento dela, também, tão perfeito,
A natureza parecia, exaltada por inconsciente arte,
E toda a sua copiosa candura;
Pois não aquela majestade que intimida -
Aquela superior e imperiosa consciência de valor
Que faz o humilde se encolher embaraçado - tinha ela,
Mas em seu lugar estava toda a cativante graça
E doçura que o imortal Amor adotar poderia,
Para seu santuário embelezar e dele fazer
Para si próprio adequada morada;
Pois curvando-se para a frente com aquele maravilhoso olhar,
Tão inexprimível, parecia ela dizer:
“Tu és meu, meu igual e meu esposo,
Meu complemento, sem o qual eu nada seria;
Então mais belo tu és em meus olhos que eu,
Pois minha vida só em ti se realiza”.
Acrescentou então, em harmoniosa voz, em alto tom:
“Por longo tempo no mistério da vida tens pensado,
Seus vastos, eternamente recorrentes ciclos
De repouso e renascimento e atividade,
E nele procurado a passagem da alma
Da luz para as trevas, das trevas de novo para a luz.
Vem então comigo e veremos em parte
Essa última em sua fase humana desvelada”.
Assim dizendo, com sua presença ela o dotou
De novos sentidos, faculdades e poderes,
Que muito ultrapassavam dos antigos os limites.

Já foi mencionado de passagem que numa espécie que está entrando na


posse de uma nova faculdade, especialmente se esta se encontra na linha da
ascensão direta dessa espécie, como é certamente o caso da consciência
cósmica, a nova faculdade será necessariamente adquirida a princípio, não
somente pelos seus melhores espécimes, mas também quando estes estiverem
no seu auge - isto é, na plena maturidade e antes que se inicie o declínio
próprio da idade avançada. Quais são então os fatos a este respeito, quanto
ao advento do sentido cósmico ?

Eles podem ser resumidos em poucas palavras como segue: de trinta e


quatro casos em que a iluminação foi instantânea e o período em que ocorreu
foi com algum grau de certeza conhecido, a idade com que a pessoa entrou
em consciência cósmica foi, em um caso, vinte e quatro anos; em três, trinta
anos; em dois, trinta e um anos; em dois, trinta e um anos e meio; em três,
trinta e dois anos; em um, trinta e três anos; em dois, trinta e quatro anos;
em oito, trinta e cinco anos; em dois, trinta e seis anos; em dois, trinta e sete
anos; em dois, trinta e oito anos; em três, trinta e nove anos; em um, quarenta
anos; em um, quarenta e nove anos e, em um, cinqüenta e quatro anos.

Conforme os casos forem sendo tratados individualmente, serão


apresentadas comprovações e a idade de cada pessoa no momento da
iluminação será apresentada numa tabela mais adiante, juntamente com outros
fatos.

IV

A Consciência Cósmica, então, aparece principalmente em pessoas do


sexo masculino, sob outros aspectos altamente desenvolvidas - homens de
bom nível intelectual, de altas qualidades morais, de compleição superior.
Aparece no período da vida em que o organismo se acha no auge de sua
eficiência, entre trinta e quarenta anos. O precursor imediato da Consciência
Cósmica - a Autoconsciência - deve também ter aparecido a princípio na
meia-idade, aqui e ali, em casos isolados, nos espécimes mais desenvolvidos,
tornando-se cada vez mais quase universal (à medida que a espécie foi
amadurecendo para ela), manifestando-se em idade cada vez mais baixa, até
que (como vemos) hoje se manifesta em todo indivíduo razoavelmente bem
constituído por volta dos três anos de idade.

Por analogia, então, somos levados a crer que o passo progressivo que é
o assunto deste livro também está reservado a toda a espécie - que virá um
momento em que não possuir a faculdade em questão será uma marca de
inferioridade paralela à ausência da natureza moral na atualidade. A conjetura
parece ser de que o novo sentido venha a ser cada vez mais comum e apareça
mais cedo na vida, até que, após muitas gerações, venha a aparecer em cada
indivíduo normal na puberdade ou mesmo antes; prossiga então tomando-se
ainda mais universal e aparecendo numa idade ainda mais baixa, até que,
depois de muitos milhares de gerações, manifeste-se imediatamente após a
infância em praticamente todo membro da espécie.

Devemos compreender claramente que todos os casos de Consciência


Cósmica não estão no mesmo plano. Ou, se falamos de Consciência Simples,
Autoconsciência e Consciência Cósmica, cada qual ocupando um plano,
então, assim como a escala da Autoconsciência em seu plano (onde um
homem pode ser um Aristóteles, um César, um Newton, ou um Comte, en­
quanto seu vizinho na próxima rua pode ser intelectual e moralmente pequeno,
pouco ou nada acima de um animal em seu estábulo) é bem maior do que a
escala da Consciência Simples em qualquer dada espécie em seu plano,
assim devemos supor que a escala da Consciência Cósmica (considerando-se
milhões de casos, como nos demais planos) é maior do que a da Autocons­
ciência e provavelmente é de fato muito maior, tanto em tipo como em grau;
com isto se quer dizer que, considerando-se um mundo povoado por pessoas
possuidoras de Consciência Cósmica, estas apresentariam uma variedade de
maior ou menor habilidade intelectual, de maior ou menor elevação moral e
espiritual e ainda de caráter, mais do que apresentariam os habitantes de um
planeta no plano da Autoconsciência. Dentro do plano da Consciência
Cósmica, um homem será um deus enquanto um outro, a uma observação
superficial, não estará situado muito acima da humanidade comum, por mais
que sua vida interior possa estar exaltada, fortalecida e purificada pelo novo
sentido. Mas, assim como o homem Autoconsciente (por mais degenerado
que seja) está quase infinitamente acima do animal dotado apenas de
consciência simples, assim qualquer homem permanentemente dotado de
Consciência Cósmica será quase infinitamente superior e mais nobre do que
qualquer homem que seja meramente Autoconsciente. E não somente isto,
mas o homem que vivenciou o Sentido Cósmico, mesmo que por alguns
momentos apenas, provavelmente nunca mais descerá ao nível espiritual do
homem meramente autoconsciente e, vinte, trinta ou quarenta anos depois,
ainda sentirá intimamente o efeito purificador, fortalecedor e nobilitante
daquela iluminação divina, de modo que muitas pessoas com quem se
relacione reconhecerão que sua estatura espiritual estará acima da média
dos homens.

VI

A hipótese adotada pelo autor deste livro requer que casos de consciência
cósmica se tornem mais numerosos de era em era e não somente isto, mas
que se tornem mais perfeitos e mais evidentes. Quais são os fatos a este
respeito? Deixando de lado casos menores, como os que devem ter aparecido
e devem ter sido esquecidos às centenas nos últimos milênios, dentre aqueles
que já mencionamos pelo menos treze são tão grandes que jam ais
desaparecerão da memória humana - a saber: Gautama, Jesus, Paulo, Plotino,
Maomé, Dante, Las Casas, Juan Yepes, Francis Bacon, Jacob Behmen,
William Blake, Balzac, Walt Whitman.

De Gautama a Dante contam-se mil e oitocentos anos, período em que


temos cinco casos. Desde Dante até hoje contamos seiscentos anos, em que
temos oito casos. Isto quer dizer que, enquanto no primeiro período houve
um caso cada trezentos e sessenta anos, no segundo tivemos um caso cada
setenta e cinco anos. Em outras palavras, a consciência cósmica foi 4,8 vezes
mais freqüente durante o segundo período do que durante o primeiro. E
antes da época de Gautama? Provavelmente não houve nenhum caso, ou
poucos e imperfeitamente desenvolvidos.

Sabemos que há atualmente muitos casos ditos secundários, mas o número


deles não pode ser comparado com o de casos semelhantes do passado, pois
estes se perderam. Deve também ser lembrado que os treze “grandes casos”
acima citados são talvez uma pequena fração dos casos igualmente grandes
que ocorreram desde a época de Gautama, pois é provável que apenas uma
pequena proporção dos “grandes casos” tenha assumido e realizado alguma
obra que lhe tenha assegurado recordação. Com que facilidade poderia até
mesmo a lembrança de Jesus ter sido obliterada da mente de seus con­
temporâneos e seguidores quase antes que se firmasse... Muitas pessoas
pensam hoje que, admitido tudo o mais, se ele não tivesse sido imediatamente
seguido de Paulo sua obra e seu nome teriam desaparecido quase com a
geração que o ouviu falar.

Isto é tão verdadeiro que um homem competente como Auguste Comte


considera São Paulo “le vrai fondateur du Catholicisme” [o verdadeiro
fundador do catolicismo] - que neste particular é sinônimo de cristianismo
[65:356] - a ele associa o oitavo mês do “Calendrier Positiviste” [Calendário
Positivista] [65: 332] e não concede sequer um dia a Jesus, tão pequeno teria
sido, para ele, o papel deste último na evolução da religião e da espécie.

Mesmo a obra e a memória daqueles que escrevem devem ter sido muitas
vezes esquecidas e devem ter morrido. Quanto a um dos maiores dentre estes
pode-se dizer que, se o grande incêndio* tivesse acontecido poucos anos
antes, talvez tivesse destruído todas as cópias do fólio de 1623 e assim para
sempre privado o mundo das peças de “Shakespeare”. A obra desses homens,
falada ou escrita, por natureza só pode ser apreciada por poucas e seletas
pessoas contemporâneas e é em quase todos os casos suscetível de ser
esquecida. Que isto é verdadeiro hoje como nos dias de Gautama, não pode
duvidar quem tenha seguido de perto a carreira de Walt Whitman. Mesmo
no caso dele, a palavra escrita teria sido quase certamente perdida se ele
tivesse falecido (como facilmente poderia ter ocorrido) de acidente ou doença
durante a guerra, embora naquela época três edições de Leaves já tivessem
sido impressas. Ele próprio não considerava sua mensagem salva de extinção
até quase o momento de seu falecimento, embora tivesse trabalhado
infatigavelmente por trinta e cinco anos para a semear.

Então, quanto à relativa grandeza de casos antigos e modernos, o


julgamento do mundo em geral deve ser necessariamente contra os últimos,
porque o tempo requerido para se chegar a uma apreciação dos mesmos não
transcorreu. E, afinal, de que valem a razão e o chamado senso comum
numa questão como esta?

Como diz Victor Hugo a propósito de Les Génies [Os Gênios]: “Choisir
entre ces hommes, preferer l’un a l’autre, indiquer du doigt le premier parmi

* N . T. - Trata-se do incêndio em Londres, em 1666.


ces premiers, cela ne se peut”* [96: 72-3], Qual a pessoa viva, em verdade,
que pode dizer, tendo seguramente já passado tempo suficiente, quem foi
maior, Gautama ou Jesus? E se não podemos decidir entre os dois, menos
ainda entre um deles e, por exemplo, Whitman.

Muitos crêem hoje que Walt Whitman foi a maior força espiritual já
produzida pela espécie - o que significaria que ele é o maior caso de
consciência cósmica até hoje. Mas o balanço de opiniões seria, naturalmente,
de milhares contra um, contrários a tal asserção.

VII

Embora sua verdadeira natureza (necessariamente) tenha passado


inteiramente despercebida, o fato da consciência cósmica tem sido há muito
tempo reconhecido, tanto no Oriente como no Ocidente e a grande maioria
de homens e mulheres civilizados em todos os países, hoje, curva-se ante
instrutores que possuíam o sentido cósmico e não somente por que possuíam
o sentido cósmico. E não apenas o mundo em geral considera esses homens
com reverência, mas talvez não fosse mais que a simples verdade dizer que
todos os instrutores não inspirados derivam as lições que transmitem direta
ou indiretamente daqueles poucos que foram iluminados.

VIII

Parece que em todo ou quase todo homem que entra em consciência


cósmica a apreensão é de início conturbada, de modo que a pessoa se pergunta
se o novo sentido não pode ser um sintoma ou um tipo de insanidade. Maomé
sentiu-se muito alarmado. Acho que é claro que Paulo e outros que serão
mencionados mais adiante foram afetados de maneira parecida.

A primeira coisa que cada pessoa pergunta a si própria ao vivenciar o


novo sentido é: o que vejo e o que sinto representam uma realidade, ou
estarei sofrendo um delírio? O fato de que a nova experiência parece até
mais real do que as velhas lições da consciência simples e da autoconsciência
a princípio não lhe dá plena confiança, porque ela provavelmente sabe que
as alucinações, quando se fazem presentes, dominam a mente com a mesma
firmeza com que o fazem os fatos reais.

* Fazer uma escolha entre esses homens, preferir um ao outro, apontar o primeiro
entre esses primeiros, isto é impossível.
Verdade ou não, cada pessoa que tem a experiência em questão acaba
crendo forçosamente em seus ensinamentos, aceitando-os tão absolutamente
como quaisquer outros ensinamentos. Isto, entretanto, não provaria que eles
fossem verdadeiros, pois o mesmo poderia ser dito das alucinações de um
demente.

Como então saberemos que esse é um novo sentido, um fato revelador e


não uma forma de insanidade, lançando a pessoa em alucinação? Em primeiro
lugar, as tendências do estado em questão são totalmente diferentes e mesmo
opostas às da alienação mental, sendo estas últimas distintamente amorais
ou mesmo imorais, ao passo que as primeiras são morais em grau muito
elevado. Em segundo lugar, enquanto em todas as formas de insanidade o
autocontrole - a inibição - é grandemente reduzido, às vezes mesmo elimi­
nado, na consciência cósmica é enormemente aumentado. A prova absoluta
desta última afirmação pode ser encontrada na vida dos homens aqui men­
cionados como exemplos. Em terceiro lugar (não importando o que os zom­
badores da religião possam dizer), é certo que a civilização moderna (ampla­
mente falando) se apóia (como já foi dito) grandemente nos ensinamentos
do novo sentido. Os mestres aprendem com esse novo sentido e o resto do
mundo com eles através de seus livros, seguidores e discípulos, de modo
que, se o que aqui é chamado de consciência cósmica é uma forma de insa­
nidade, defrontamo-nos com o fato terrível (se não fosse um absurdo) de que
nossa civilização, inclusive todas as nossas mais elevadas religiões, assentam
em alucinação. Mas (em quarto lugar), longe de admitirmos ou mesmo por
um momento considerarmos tão medonha alternativa, pode ser sustentado
que temos a mesma prova da realidade objetiva que corresponde a essa
faculdade que da realidade que corresponde a qualquer outro sentido ou
faculdade. A visão, por exemplo: sabemos que a árvore que está ali, do outro
lado do campo, a meia milha de distância, é real e não uma alucinação,
porquanto todas as outras pessoas dotadas do sentido da visão com quem
tenhamos falado também a terão visto, ao passo que, se ela fosse uma
alucinação, seria visível apenas para nós mesmos. Pelo mesmo método de
raciocinar confirmamos a realidade do universo objetivo correspondente à
consciência cósmica. Cada pessoa que tem essa faculdade é por ela cons­
cientizada, essencialmente, do mesmo fato ou dos mesmos fatos. Se três
homens olhassem para a árvore e meia hora depois lhes fosse pedido que a
desenhassem ou descrevessem, os três desenhos ou descrições não iriam
coincidir em detalhes mas corresponderiam no esboço geral. Do mesmo modo
os relatos daqueles que vivenciaram a consciência cósmica correspondem-se
em todos os pontos essenciais, embora sejam mais ou menos divergentes em
detalhes (mas essas divergências estão cabalmente tanto em nossa má inter­
pretação dos relatos quanto nos próprios relatos). Assim, não há nenhum
exemplo de que uma pessoa que tenha sido iluminada tenha negado ou
contrariado os ensinamentos de uma outra que tenha passado pela mesma
experiência. Paulo, por menos que estivesse predisposto por suas idéias
anteriores a aceitar os ensinamentos de Jesus, tão logo alcançou o sentido
cósmico percebeu que aqueles ensinamentos eram verdadeiros. Maomé acei­
tou Jesus, não somente como o maior dos profetas, mas como alguém situado
num plano distintamente acima daquele em que se encontravam Adão, Noé,
Moisés e os demais. Diz ele: “E enviamos Noé e Abraão e na semente deles
colocamos profecia e o livro; e alguns deles são guiados, embora muitos
sejam artífices de abominações! Seguimos então seus passos com nossos
apóstolos; e os seguimos com Jesus, o filho de Maria; e a ele demos o evan­
gelho; e colocamos bondade e compaixão no coração daqueles que o seguiram
” [153: 269], EPalmer testifica: “Maomé vê o nosso Senhor com veneração
especial e chega ao ponto de chamá-lo o “Espírito”, o “Verbo” de Deus, o
“Messias”[152: 51], Walt Whitman aceita os ensinamentos de Buda, Jesus,
Paulo, Maomé; especialmente os de Jesus, de quem mais sabia. Como diz
ele: “Aceitando os evangelhos, aceitando aquele que foi crucificado, sabendo
com certeza que ele é divino” [193: 69], E se, como Whitman certa vez
desejou, “os grandes mestres voltassem e me estudassem” [193: 20], nada é
mais certo do que todos eles (e cada um) me aceitarem como “um irmão do
radiante ápice”. Assim, todos os homens que o autor sabe que foram ilumi­
nados (em maior ou menor grau) concordam entre si em todos os pontos
essenciais, bem como com os mestres do passado que também o foram. Parece
também que todos os homens livres de preconceito que sabem alguma coisa
de mais de uma religião reconhecem, como é o caso de Sir Edwin Amold,
que as grandes crenças são “irmãs”, ou, como diz Arthur Lillie, que “Buda e
Cristo ensinaram praticamente a mesma doutrina” [110: 8],

IX

Como já foi dito ou sugerido, para que um homem possa entrar em


Consciência Cósmica terá de pertencer (por assim dizer) ao nível mais alto
do mundo da Autoconsciência. Não que ele precise ter um intelecto extraor­
dinário (essa faculdade é usualmente estimada muito acima de seu real valor
e não parece ser assim tão importante, deste ponto de vista, quanto outras),
embora tampouco possa ser deficiente neste particular. Deve ter boa com­
pleição, boa saúde, mas acima de tudo natureza moral elevada, forte solida­
riedade, coração cálido, coragem, forte e fervoroso sentimento religioso. Tudo
isto alcançado e tendo o homem chegado à idade necessária para levá-lo ao
ápice do nível mental autoconsciente, um dia ele entra em Consciência
Cósmica. Qual é então sua experiência? Os detalhes têm de ser dados com
desconfiança, pois são conhecidos deste autor apenas em poucos casos e,
sem dúvida, os fenômenos são variados e diversos. O que é dito aqui,
entretanto, merece confiança até onde alcança. É verdadeiro em certos casos
e certamente chega perto da plena verdade em certos outros casos, de modo
que pode ser considerado provisoriamente correto.

a. De repente, sem qualquer aviso, a pessoa tem a sensação de ser imersa


numa chama ou numa nuvem cor-de-rosa, ou talvez uma sensação de que
a mente mesma seja inundada dessa nuvem ou névoa.

b. No mesmo instante ela é por assim dizer banhada numa emoção de júbilo,
convicção, triunfo, “salvação”. A última palavra não é rigorosamente corre­
ta se tomada em seu sentido comum, pois o sentimento, quando plenamente
desenvolvido, não é de que um ato particular de salvação seja efetuado,
mas de que nenhuma “salvação” especial é necessária, já que o esquema
sobre o qual o mundo está construído é por si só suficiente. É desse êxtase,
muito superior a qualquer outro que pertença à vida meramente autocons­
ciente, que os poetas, como tais, ocupam-se especialmente; como Gautama
em seus discursos, preservados nos Suttas; Jesus, nas Parábolas; Paulo,
nas Epístolas; Dante, no final do Purgatorio e no começo do Paradiso;
“Shakespeare”, nos Sonetos; Balzac, em Seraphita; Whitman, em Leaves;
Edward Carpenter, em Rumo à Democracia, deixando aos cantores os
prazeres e as penas, os amores e os ódios, as alegrias e as tristezas, a paz
e a guerra, a vida e a morte do homem autoconsciente; embora os poetas
possam tratar também destas coisas, mas do novo ponto de vista, conforme
está expresso em Leaves: “Jamais voltarei a mencionar o amor ou a morte
dentro de uma casa” [193: 75] - isto é, do velho ponto de vista, com as
velhas conotações.

c. Simultaneamente, ou seguindo-se instantaneamente às experiências sen-


soriais e emocionais acima referidas, vem à pessoa uma iluminação inte­
lectual totalmente impossível de ser descrita. Como um lampejo, é apresen­
tada à sua consciência uma concepção clara (uma visão), em esboço, do
significado e do curso do universo. Ela não é levada a meramente crer,
mas percebe e sabe que o Cosmo, que para a mente autoconsciente parece
feito de matéria morta, é na realidade muito diferente - é em verdade uma
presença viva. Percebe que, ao invés de os homens serem, por assim dizer,
manchas de vida dispersas num infinito mar de substância não-víva, são
na realidade partículas de relativa morte num infinito oceano de vida.
Percebe que a vida que se manifesta no ser humano é eterna, assim como
toda vida é eterna; que a alma do ser humano é tão imortal como Deus o
é; que o universo está construído e ordenado de tal modo que, sem possibi­
lidade de erro, todas as coisas trabalham juntas para o bem de cada uma e
de todas; que o princípio fundamental do mundo é o que chamamos de
amor e que a felicidade de todo e qualquer indivíduo é, afinal de contas,
absolutamente certa. A pessoa que passe por essa experiência aprenderá
nos poucos minutos, ou mesmo instantes de sua duração, mais do que em
meses ou anos de estudo e aprenderá muita coisa que estudo nenhum já
ensinou ou pode ensinar. Em especial obterá tal concepção DO TODO,
ou pelo menos de um imenso TODO, que reduzirá a quase nada toda
concepção, imaginação ou especulação que brote da mente autoconsciente
comum e a ela pertença; uma concepção tal que fará com que as velhas
tentativas de compreender intelectualmente o universo e seu significado
se tomem insignificantes e mesmo ridículas.

Esse despertar do intelecto foi bem descrito por um escritor, a respeito de


Jacob Behmen, nestas palavras: “Os mistérios sobre os quais discorria
não lhe eram relatados; ele os VIA. Discerniu a raiz de todos os mistérios,
o UNGRUND ou URGRUND de que brotam todos os contrastes e princí­
pios discordantes, a dureza e a maciez, a severidade e a brandura, o doce
e o amargo, o amor e o pesar, o céu e o inferno. Todas estas coisas VIU em
sua origem; tentou descrevê-las em sua nascente e reconciliá-las em seus
eternos resultados. Viu no íntimo do ser de Deus, de onde procede o
nascimento ou a emanação da divina manifestação. A Natureza desvelou-
se a ele - ele estava à vontade no coração das coisas. Seu próprio livro,
que ele mesmo era (tal como Whitman: Isto não é um livro; quem o toca,
toca um homem.) [193: 382], o microcosmo do homem, com sua vida
trina, era patente à sua visão” [79: 852],

d. Juntamente com a elevação moral e a iluminação intelectual vem o que


pode ser chamado, por falta de melhor termo, um senso de imortalidade.
Não se trata de uma convicção intelectual, como a que vem com a solução
de um problema, nem de uma experiência como a de aprender algo antes
desconhecido. É bem mais simples e elementar e poderia ser comparado
melhor à certeza da individualidade distinta, possuída por cada um, que
vem com a autoconsciência e a esta pertence.
e. Com a iluminação, o medo da morte, que persegue tantos homens e
mulheres, às vezes por toda a sua vida, cai como um manto velho - mas
não como um resultado de raciocínio - simplesmente se desvanece.

f. Podemos dizer o mesmo da consciência do pecado. Não que a pessoa


escape do pecado, mas que ela não mais percebe que haja qualquer pecado
de que deva escapar.

g. A instantaneidade da iluminação é uma de suas mais notáveis caracterís­


ticas. A nada pode ser tão bem comparada como a um deslumbrante clarão
de relâmpago numa noite escura, trazendo o panorama que estivera
escondido a uma clara visão.

h. O caráter anterior do homem que entra na nova vida é um importante


elemento no caso.

i. Também é importante a idade em que a iluminação ocorre. Se ouvirmos


falar em um caso de consciência cósmica que tenha ocorrido aos vinte
anos, por exemplo, deveremos primeiro duvidar da veracidade do relato
e, se forçados a crer, deveremos esperar que o homem (caso viva) prove
que seja um verdadeiro gigante espiritual.

j. O encanto acrescentado à personalidade da pessoa que alcança a cons­


ciência cósmica é sempre - acredita-se - uma característica deste caso.

k. Parece ao autor deste livro haver suficiente evidência de que, com a cons­
ciência cósmica, - enquanto ela está efetivamente presente e perdurando
(gradualmente passando) por breve tempo - ocorre uma mudança na apa­
rência da pessoa que recebe a iluminação. Essa mudança é semelhante à
que é causada na aparência de alguém por uma grande alegria, mas às
vezes (isto é, nos casos pronunciados) parece ser muito mais acentuada
do que isto. Nesses grandes casos em que a iluminação é intensa, a mudança
em questão é também intensa e pode chegar a ser uma verdadeira “transfi­
guração”. Dante diz que foi “transhumanizado num Deus”. Parece haver
uma grande probabilidade de que, pudesse ele ter sido visto naquele
momento, teria apresentado o que só poderia ser chamado de “transfi­
guração”. Em capítulos subseqüentes deste livro serão apresentados vários
casos em que ocorreu a mudança em questão, mais ou menos fortemente
marcada.
X

A passagem da autoconsciência para a consciência cósmica, considerada


do ponto de vista do intelecto, parece ser um fenômeno rigorosamente paralelo
ao da passagem da consciência simples para a autoconsciência.

Assim como na última, também na primeira há dois elementos principais:

a. Nova consciência.

b. Nova faculdade.

a. Quando um organismo que só tem consciência simples alcança a autocons­


ciência, apercebe-se pela primeira vez de que é uma criatura separada, ou
um ego existindo num mundo que está à parte dele. Isto é, o advento da
nova faculdade o instrui, sem qualquer nova experiência ou processo de
aprendizagem.

b. Ao mesmo tempo ele adquire poderes enormemente aumentados para


acumular conhecimento e para iniciar ações.

Assim, quando uma pessoa que era apenas autoconsciente entra em


consciência cósmica:

a. Sabe sem aprender (graças ao mero fato da iluminação) certas coisas,


como por exemplo: (1) que o universo não é uma máquina morta e sim
uma presença viva; (2) que, em sua essência e tendência, ele é infinitamente
bom; (3) que a existência individual é contínua para além do que chamamos
de morte. Ao mesmo tempo:

b. Adquire uma capacidade extraordinariamente maior, tanto para o aprendi­


zado quanto para a iniciativa.

XI

O paralelo é também válido do ponto de vista da natureza moral. Pois o


animal, que tem meramente consciência simples, não tem possibilidade de
saber coisa alguma do pino deleite de simplesmente viver que sente (pelo
menos parte do tempo) todo homem ou toda mulher, jovem ou de meia-
idade, de boa constituição e que goze de boa saúde. “Não tem possibilidade
de”, pois este sentimento depende da autoconsciência e sem esta não pode
existir. O cavalo ou o cachorro desfrutam a vida enquanto têm uma sensação
agradável ou quando estimulados por uma atividade agradável (na realidade
a mesma coisa), mas não podem ter consciência da tranqüilidade diária no
gozo da vida que independe dos sentidos e das coisas externas e que pertence
à natureza moral (que é na realidade o fato básico do lado positivo desta),
começando, como pode em verdade ser dito, da fonte central da vida do
organismo (o senso de bien-être - de “bem-estar”), que pertence ao ser huma­
no como tal e é na verdade uma de suas heranças mais valiosas. Isto constitui
uma planície (ou um platô) na região da natureza moral, à qual a criatura
sensível ascende quando passa ou enquanto passa da consciência simples
para a autoconsciência.

Correspondendo a essa ascensão moral e a esses passos, acima referidos,


que são dados pelo intelecto da consciência simples para a autoconsciência e
desta para a consciência cósmica, há a ascensão moral que pertence à passa­
gem da autoconsciência para a consciência cósmica. Isto só pode ser com­
preendido - e portanto descrito - por aqueles que passaram pela experiência.
Que dizem eles a este respeito? Bem, leiamos o que Gautama e os illuminati
dos budistas nos dizem sobre o Nirvâna, ou seja, que se trata da “mais alta
felicidade” [156: 9], Diz o autor desconhecido mas inquestionavelmente
iluminado, no Mahabbharata: “O devoto cuja felicidade está dentro de si
mesmo e cuja luz [de conhecimento] também está dentro de si, tomando-se
uno com Brahma, obtém a Beatitude Bramânica” [154: 66]. Consideremos
os dizeres de Jesus quanto ao valor do Reino dos Céus, para cuja aquisição
um homem vende tudo que tem; lembremo-nos do valor que Paulo atribui a
Cristo e de como ele foi elevado ao terceiro céu; reflitamos sobre a “transhuma-
nização” de Dante, de homem “num Deus”, e sobre o nome que ele dá ao
sentido cósmico: Beatrice - “Que Toma Feliz” ou “Que Beatífica”. Eis aqui,
também, sua clara afirmação da alegria que pertence a esse estado: “O que
eu estava vendo pareceu-me um sorriso do universo, pois meu enlevo entrava
pela audição e pela visão. Ó alegria! Ó inefável contentamento! Ó vida repleta
de amor e de paz! Ó riqueza segura, sem ansiedade!” [72: 173], Vejamos
agora o que Behmen diz sobre o mesmo assunto: “A linguagem terrena é
inteiramente insuficiente para descrever o que há de alegria, felicidade e
beleza nas íntimas maravilhas de Deus. Ainda que a Virgem etema os mostre
à nossa mente, a constituição do ser humano é fria e escura demais para ser
capaz de expressar mesmo uma centelha disso em sua linguagem” [97: 85],
Consideremos a exclamação, freqüentemente repetida, de Elukhanam: “San-
dosiam, Sandosiam Eppotham” - “Alegria, sempre alegria”. E ainda Edward
Carpenter: “Toda a tristeza acabada”, “o profundo, profundo oceano de alegria
interior ”, “estar pleno de alegria”, “cantando alegria infindável”. Acima de
tudo, tenhamos em mente o testemunho de Walt Whitman - testemunho que
não varia, embora dado em linguagem que sempre varia e em quase todas as
páginas de Leaves, cobrindo quarenta anos de vida: “Estou satisfeito - vejo,
danço, rio, canto”. “Vagueando, maravilhado de minha própria leveza e de
meu regozijo”. “Ó, a alegria de meu espírito - está livre - dispara qual
relâmpago”. “Este canto flutuar faço com alegria, com alegria por ti, ó morte”.
E a previsão do futuro tirada do seu próprio coração - do futuro “em que
através desses estados caminhem cem milhões de esplêndidas pessoas”- isto
é, pessoas possuidoras do sentido cósmico. E finalmente: “O oceano cheio
de alegria - a atmosfera, toda alegria! Alegria, alegria, em liberdade, adora­
ção, amor! Alegria no êxtase da vida: Bastante é, meramente ser! Bastante
é, respirar! Alegria, alegria! Alegria em toda parte!” [193: 358]

xn
“Bem”, dirá alguém, “se essas pessoas vêem, sabem e sentem tanto, por
que não vêm até nós e o expressam em linguagem clara, dando ao mundo o
benefício disso?” Eis o que a “fala” disse a Whitman: “Walt, você tem um
grande conteúdo; por que não deixá-lo vir à luz?” [193: 50], Mas ele nos
diz:

“Quando o melhor tento dizer, vejo que não o consigo,


Minha língua ineficiente se toma em seus movimentos,
Meu fôlego a seus órgãos não obedece,
Emudecido me tomo.” [ 193: 179]

Assim Paulo, quando foi “arrebatado para o paraíso”, ouviu “palavras


impronunciáveis”. E Dante não foi capaz de contar as coisas que viu no céu.
“Minha visão”, diz ele, “foi maior do que nossa fala, que sucumbe a tal
visão” [72: 212], E assim com todos os demais. A verdade disso tudo não é
difícil de entender; trata-se de que a fala (como acima plenamente explicado)
é o equivalente do intelecto autoconsciente; pode expressar a ele e nada além
dele; não equivale ao Sentido Cósmico e não pode expressá-lo - ou, se em
absoluto pode fazê-lo, é somente ao ponto em que isto possa ser traduzido
em termos do intelecto autoconsciente.
Será conveniente relacionar aqui (parcialmente em recapitulação), para
o benefício do leitor das duas próximas partes, de maneira breve e explícita,
os sinais do Sentido Cósmico. São eles:

a. A luz subjetiva.
b. A elevação moral.
c. A iluminação intelectual.
d. O senso de imortalidade.
e. A perda do medo da morte.
f. A perda do senso de pecado.
g. A subitaneidade e instantaneidade do despertar.
h. O caráter anterior do homem - intelectual, moral e físico.
i. A idade da iluminação.
j. O encanto acrescentado à personalidade, de modo que homens e mulheres
são sempre (?) fortemente atraídos para a pessoa,
k. A transfiguração do indivíduo que é objeto da mudança, tal como vista
por outrem quando o sentido cósmico está efetivamente presente.

XIV

Não se deve supor que um homem, somente porque tenha consciência


cósmica, seja onisciente ou infalível. Os maiores dentre esses homens estão
de certo modo na situação - embora num plano mais elevado - de crianças
que vêm de se tomar autoconscientes. Eles vêm de alcançar uma nova fase
de consciência - ainda não tiveram tempo e oportunidade de estudá-la ou
dominá-la. É verdade que alcançaram um nível mental mais alto; mas nesse
nível pode haver e certamente haverá relativa sabedoria e relativa insensatez,
assim como no nível de consciência simples ou de autoconsciência. Do mesmo
modo que um homem com autoconsciência pode decair na moral e na
inteligência abaixo de um animal superior dotado somente de consciência
simples, assim também podemos supor que um homem possuidor de
consciência cósmica possa (em certas circunstâncias) estar pouco mais acima
- se em absoluto estiver - do que um outro que passe a vida no plano de
autoconsciência. Deve ser ainda mais evidente que, por mais divina que a
faculdade possa ser, aqueles que primeiramente a adquirem, vivendo em
diferentes épocas e países, passando os anos de sua vida autoconsciente em
ambientes diferentes, tendo sido educados para encarar a vida e os interesses
da vida de pontos de vista totalmente diversos, têm necessariamente de
interpretar de maneira um tanto diferente as coisas que vêem no novo mundo
em que vêm de entrar. O admirável é que todos eles vejam tão claramente o
novo mundo pelo que ele é. O ponto principal é que esses homens e essa
nova consciência não devem ser condenados, porquanto nem eles nem a
nova consciência são absolutos. Isto não seria possível. Pois mesmo que o
ser humano (elevando-se de plano a plano) alcançasse uma posição intelectual
e moral tão acima da posição de nossos melhores homens atuais como aqueles
homens estão acima de um simples molusco, estaria tão longe da infalibilidade
e da virtude absoluta ou do conhecimento absoluto como está na atualidade.
Teria a mesma aspiração que tem hoje de conquistar uma posição mental
mais elevada e haveria tanto espaço para crescimento e melhoria acima de
sua cabeça quanto sempre houve.

XV

A título de sumário e antecipação introdutória dos casos que serão


apresentados a seguir, mostraremos um quadro dos que são considerados
como provavelmente genuínos. Algumas palavras sobre isto podem ser de
interesse. Numa rápida leitura geral, a primeira coisa que vai chamar a atenção
do leitor é a imensa preponderância de homens sobre mulheres dentre aqueles
que tenham alcançado a nova faculdade. A segunda é o fato, à primeira vista
curioso (de que se falará mais adiante), de que em quase todos os casos em
que é conhecida a época do ano a iluminação ocorreu entre o começo da
primavera e o fim do verão, tendo a metade de todos os casos ocorrido em
maio e junho ou por volta destes meses. A terceira (e este fato é interessante
do ponto de vista fisiológico) é que parece haver uma correspondência geral
entre a idade na iluminação e a duração da vida do indivíduo. Assim, a
idade média na iluminação de Sócrates, Maomé, Las Casas e J. B. foi de 39
anos e a idade média no falecimento foi de 74 anos e meio (embora um deles
tenha sido executado enquanto era ainda vigoroso e forte). Nos casos de
Bacon, Pascal, Blake e Gardiner, a idade média na iluminação foi de 31
anos e no falecimento de apenas 55 anos e um quarto, sendo assim (em
média) 8 anos a menos na iluminação e 9 anos e um quarto a menos no
falecimento. Já Gautama, Paulo, Dante, Behmen, Yepes e Whitman, que
entraram em consciência cósmica na idade média de 34 a 36, tiveram uma
duração média de vida de 62 anos, sendo que um deles, Paulo, foi executado
aos 67. Poderíamos esperar esta correspondência, pois, como a iluminação
acontece na plena maturidade, isto naturalmente corresponderia (de modo
geral) ao limite de vida da pessoa.
Data de Idade na Época do ano na Idade na
N°. Nome Sexo
Nasc. Iluminação Iluminação Morte
1 Moisés 1650? M Idoso
2 Gideão 1350? M
3 Isaías 770? M
4 Li R 604? M Idoso
5 Gautama 560? 35 M 80
6 Sócrates 469? 39? M Verão 71?
7 Jesus 4 35 M Janeiro? 38?
8 Paulo 0 35 ‘ M 67?
9 Plotino 204 M 66?
10 Maomé 570 39 M Maio? 62
11 Roger Bacon 1214 M 80?
12 Dante 1265 35 M Primavera 56
13 Las Casas 1474 40 M Junho 92
14 Juan Yepes 1542 36 M Começo do Verão 49
15 Francis Bacon 1561 30? M 66
16 Behmen 1575 35 M 49
17 Pascal 1623 311/2 M Novembro 39
18 Spinoza 1632 M 45
19 Mde. Guyon 1648 33 F Julho 69
20 Swedenborg 1688 54 M 84
21 Gardiner 1688 32 M Julho 58
22 Blake 1759 31 M 68
23 Balzac 1799 32 M 51
24 J. B. B. 1817 38 M
25 Whitman 1819 34 M Junho 73
26 J. B. 1821 38 M 73
27 C. P. 1822 37 M
28 H. B. 1823 M
29 R. R. 1830 30 M Começo do Verão 69
30 E. T. 1830 30 M
31 R. P. 1835 M
32 J. H. J. 1837 34 M Fim da Primavera
33 R. M. B. 1837 35 M Primavera
34 T. S. R. 1840 32 M
35 W. H. W. 1842 35 M
36 Carpenter 1844 36 M Primavera
37 C. M. C. 1844 49 F Setembro
38 M. C. L. 1853 37 M Fevereiro
39 J. W. W. 1853 31 M Janeiro
40 J. William Lloyd 1857 39 M Janeiro
41 P. T. 1860 35 M Maio
42 C. Y. E. 1864 31 1/2 F Setembro
43 A. J. S. 1871 24 F
CASOS DE CONSCIÊNCIA CÓSMICA

Capítulo 1

GAUTAMA, O BUDA

Naturalmente, não há intenção de escrever aqui as biografias dos homens


considerados neste livro como casos de Consciência Cósmica, nem tampouco,
é claro, pode ser feita a mais leve alusão a seus ensinamentos. Os fatos
tirados de suas vidas e as passagens tomadas de suas palavras têm apenas a
intenção de demonstrar e ilustrar o fato de que esses homens eram iluminados
no sentido em que esta palavra é usada neste livro.

Siddhartha Gautama nasceu de pais abastados (seu pai tendo sido mais
um grande proprietário de terras do que um rei, como se diz que tenha sido),
entre 562 e 552 a.C. Parece suficientemente certo que ele foi um caso de
Consciência Cósmica, embora, dado o caráter remoto de suá época, detalhes
de prova possam até certo ponto faltar. Casou-se muito jovem. Dez anos
após nasceu seu único filho, Rahula. Pouco depois do nascimento de Rahula,
Gautama, então com a idade de vinte e nove anos, repentinamente abandonou
seu lar para se devotar inteiramente ao estudo de religião e filosofia. Ele
parece ter sido um homem de mentalidade muito séria, que, sentindo
profundamente as aflições da espécie humana, desejou acima de tudo fazer
algo para eliminá-las ou pelo menos diminuí-las. A maneira ortodoxa de
alcançar a santidade, na época e na terra de Gautama, era pelo jejum e pela
penitência, de modo que por seis anos ele praticou extrema automortificação.
Ganhou fama extraordinária, pela qual não se interessava nem um pouco,
mas não conquistou a paz mental nem o segredo da felicidade humana por
que tanto se esforçara. Vendo que aquele caminho era vão e a nada levava,
abandonou o ascetismo e logo depois, na idade de trinta e cinco, alcançou a
iluminação sob a famosa árvore Bo.
n
Para nosso presente propósito, é importante fixarmos a idade do advento
do Sentido Cósmico - neste como em outros casos - tão precisamente quanto
possível. Uma autoridade muito recente e provavelmente boa [60] estabelece-a
como trinta e seis anos. Emest De Bunsen, em sua obra The Angel Messiah
[O Messias Anjo], diz que Buda, como Cristo, “começou a pregar aos trinta
anos. Com certeza deve ter pregado em Vaisali, pois lá cinco rapazes toma­
ram-se seus discípulos e o exortaram a que continuasse com seus ensina­
mentos. Ele estava com vinte e nove anos quando deixou aquele lugar;
portanto, pode muito bem ter pregado aos trinta. Ele não girou a roda da lei
(não se tomou iluminado) senão após uma meditação de seis anos sob a
árvore do conhecimento” [109: 44],

III

Agora, vejamos quais tenham sido os resultados de sua iluminação. Que


disse ele a respeito dela? E que mudança efetuou ela no homem? O Dhamma-
Kakka-Ppavattana-Sutta [159] é aceito por todos os budistas como um
sumário das palavras com que o grande pensador e reformador indiano
promulgou pela primeira vez suas novas idéias com sucesso [ 160: 140]. Nele
Gautama declara repetidamente que as “nobres verdades” ali ensinadas “não
se achavam entre as doutrinas transmitidas”, mas que “nascera em seu interior
o olho para percebê-las, o conhecimento de sua natureza, a compreensão de
sua causa, a sabedoria que ilumina a verdadeira senda, a luz que dissipa as
trevas”. Ele não poderia ter declarado mais positivamente que não havia
derivado sua autoridade para ensinar meramente com base na mente
autoconsciente e sim na mente cosmicamente consciente - ou seja, na
iluminação ou inspiração. Comparemos com isto o que diz Behmen de si
próprio quanto à mesma situação: “Não estou colhendo meu conhecimento
de cartas ou livros mas o tenho dentro do meu próprio ser, porquanto o céu e
a terra com todos seus habitantes e, além disso, o próprio Deus, estão dentro
do ser humano” [97: 39],

IV

No Maha Vagga [162: 208] está dito que “durante a primeira vigília da
noite seguinte à vitória de Gautama sobre o maléfico (a noite seguinte àquela
em que alcançou a Consciência Cósmica), ele fixou sua mente na cadeia de
causação', durante a segunda vigília, fez o mesmo e, durante a terceira,
também fez o mesmo”. Esta tradição existe entre os budistas do Norte e do
Sul e vem desde o tempo anterior à separação destas igrejas; portanto, é
provavelmente genuína e provém do próprio Gautama. Mas expressa em
linguagem clara e concisa um dos fenômenos mais fundamentais relativos
ao advento do Sentido Cósmico; muito provavelmente, “a revelação de
extraordinária grandeza” de que fala Paulo; a visão das “rodas eternas”, de
Dante; “o conhecimento que ultrapassa todos os argumentos da terra”, de
Whitman; a “iluminação interior pela qual podemos finalmente ver todas as
coisas como elas são, contemplando toda a criação - os animais, os anjos, as
plantas, as imagens de nossos amigos e todos os níveis e raças da espécie
humana - em sua verdadeira constituição e ordem”, de Edwárd Carpenter.
V
No Akankheyya-Sutta [161:210-18] são apresentadas as características
espirituais daqueles que têm o Sentido Cósmico. Ninguém que não o tivesse
poderia ter escrito a descrição que indubitavelmente procede, como se
pretende, diretamente de Gautama. Nem poderia qualquer possuidor posterior
dessa faculdade expressar mais claramente, no mesmo número de palavras,
os sinais característicos que a ela pertencem. Por exemplo, ali é dito que a
conquista do estado de Arahat (visão interior, sobrenatural - Nirvâna -
iluminação - Consciência Cósmica) “fará um homem se transformar” :
Palavras d e Gautama Passagens paralelas

A m ado, popular, respeitado entre (*1) “Estavam os homens desejosos de matá-


seus companheiros, vitorioso sobre o des­ los ou com ciúme de vocês, meu irmão,
contentamento (*1) e a luxúria; sobre o minha irmã? Sinto muito por vocês, pois eles
não desejam me matar nem têm ciúme de mim;
perigo espiritual e o desânimo; a ele será
todos têm sido gentis comigo; nada tenho a
outorgado o êxtase da contemplação (*2); lamentar - que poderia fazer com lamentações?”
será ele capaz de atingir com seu corpo [193: 71] “O sagrado sopro mata a luxúria, a
os estágios de libertação que são incorpó­ paixão e o ódio”. [M.C.L. infra]
reos e transcendem os fenômenos e neles
(*2) “No entanto, ó minha alma suprema!!
perm anecer (*3); fará com que se tom e
Conheces tu as alegrias do pensamento
um herdeiro dos mais altos céus (*4); fará melancólico? As alegrias do coração livre e
com que, sendo um , ele se torne múltiplo solitário, temo e tristonho?” [193: 147]
e, sendo múltiplo, tome-se um (*5); será
(*3) “Folhas de tumbas, folhas de corpos, cres­
ele dotado de ouvido claro e celeste que
cendo sobre mim, sobre a morte” [193:96],
ultrapassará o dos homens; será capaci­
tado a compreender pelo seu próprio co­ (*4) “Herdeiros de Deus e herdeiros-adjuntos
ração o de outros seres e de outros ho­ com Cristo” [19: 8-17],
mens, a compreender todas as mentes - (*5) “O outro eu-sou” [193: 32], “Tu me
a apaixonada, a calma, a sábia, a concen- ensinas como fazer de um dois” [176:39],
trada, a sublime, a vil, a firme, a irreso- (*6) Não é esta uma perfeita descrição de uma
luta, a livre e a escravizada (*6); a ele grande e importante parte do que o Sentido
dará o poder de se lembrar de seus vários Cósm ico fez, por exem plo, por D ante,
estados temporários em épocas passadas, “ Shakespeare”, Balzac, Whitman?
tais como um nascimento, dois nascimen­
tos, três, quatro, cinco, dez, vinte, trinta,
quarenta, cinqüenta, cem, mil, ou cem mil
nascim entos; de seus nascim entos em (*7) “Passo pela morte com o moribundo e pelo
muitas eras de renovação; em muitas eras nascimento com o bebê novo e lavado”.
de destruição e renovação; de se lembrar “Sem dúvida morri dez mil vezes antes” [193:
de seus estados tem porários em épocas 34-37],
passadas, em todos os seus modos e todos
os seus detalhes (*7); o poder de ver, com
pura e celestial visão (*8) que transcende­
rá a dos homens, seres passando de um
estado de existência para tomarem forma (*8) Compare-se Faces [193: 353], onde essa
em outros; seres abjetos ou nobres, de “visão celestial” pode ser vista em ação.
boa aparência ou desfavorecidos, felizes
ou infelizes; (*9) o poder de conhecer e
alcançar a emancipação do coração e a
emancipação da mente. (*9) O teste final e supremo.

VI

Algumas outras passagens alusivas ao sentido cósmico e que têm paralelos


mais ou menos próximos nos escritos dos illuminati mais modernos podem
ser apresentadas para maior ilustração, mas é quase desnecessário dizer que
quem quiser luz neste assunto deverá ler por si próprio - não apenas uma
vez, mas muitas e muitas vezes - as palavras que nos foram deixadas por
aqueles senhores do pensamento. Aqui está uma passagem de O Livro do
Grande Óbito. Gautama está ensinando a seus discípulos e diz o seguinte:

Desde que os irmãos não se dediquem a negócios, ou não se afeiçoem a eles, ou


a eles não estejam ligados - desde que os irmãos não tenham o hábito de conversas
frívolas, ou não se afeiçoem a elas, ou nelas não participem - desde que os irmãos
não se apeguem à preguiça, ou não se afeiçoem a ela, ou a ela não se entreguem -
desde que os irmãos não freqüentem a sociedade, ou não se afeiçoem a ela, ou nela
não se comprazam - desde que os irmãos não tenham desejos pecam inosos, nem
caiam sob sua influência - desde que os irmãos não se tom em amigos, companheiros
ou íntimos de pecadores - desde que os irmãos não se detenham no caminho (para
Nirvânà), porque tenham conseguido qualquer coisa m enor (tais com o riqueza e
poder) - então poderão os irmãos esperar não declinarem mas prosperarem [ 163: 7
et seq. ].
É desnecessário citar passagens paralelas de Jesus, pois são tão numerosas
e ocorrerão a todo mundo. Mas vale a pena observar que Paulo usa quase a
mesma maneira de falar ao se referir à mesma figura que está na mente do
escritor budista, quando diz (comparando Nirvana, o Sentido Cósmico e as
coisas pertencentes a ele, com o prêmio de uma corrida): “Uma coisa faço,
esquecendo as coisas que estão para trás (as coisas menores do texto budista)
e avançando para as coisas que estão à frente, arremeto-me em direção à
meta, para o prêmio” [24:3:13 ]. Compare-se também The Song o f the Open
Road (A Canção da Estrada Livre), em que o mesmo pensamento é trabalhado
de forma bastante elaborada [193: 120], Então, quanto à admoestação contra
“negócios” e as “coisas menores”, como riqueza, considerem-se as vidas de
Gautama, Jesus, Paulo, Whitman e E.C., que em maioria, ou eram ou pode­
riam facilmente ter ficado ricos, mas que viraram as costas para sua riqueza
(como Gautama ou E.C.) ou simplesmente não quiseram ser ricos (como
Jesus e Whitman). Como comentário sobre este fato, leiam-se as seguintes
palavras de Whitman:

Para além da segurança de uma pequena soma de dinheiro economizada para o


funeral, de algumas ripas de madeira em tomo de si e acima da cabeça num pedaço
de solo americano próprio, de alguns dólares para as despesas anuais com roupas e
refeições modestas, a melancólica prudência do desamparo de um grande ser como
um homem é para os altos e baixos de anos de luta para ganhar dinheiro, com todos
os dias causticantes e as geladas noites... é a grande fraude da civilização moderna
[191: 10],

vn
As linhas seguintes são citadas como alusão clara ao Sentido Cósmico -
o Upanishad deveria ser lido por inteiro:

Viveu certa vez Svetaketu Aruneya “ Que, vendo, eles podem ver e não
(o neto de A runa). D isse-lhe seu pai apreender e, ouvindo, podem ouvir e não
(Uddâlaka, filho de Aruna): “Svetaketu, compreender” [15:4.12] “Não duvido que
vá à escola, pois não há ninguém que interiores tenham seus interiores e exteriores
tenham seus exteriores e que a vista tenha outra
pertença à nossa raça, querido, que, não
vista e que a audição outra audição e a voz outra
ten d o estudado (os V edas), seja, por voz” [193: 342].
assim dizer, um Brâm ane som ente pelo
nascim ento” .

Tendo iniciado seu aprendizado com um mestre quando tinha doze anos de idade,
Svetaketu voltou a seu pai aos vinte e quatro, depois de ter estudado todos os Vedas,
pretensioso, considerando-se um homem culto e austero.
Seu pai lhe disse: “Svetaketu, como você é tão presunçoso, considerando-se tão
culto e tão austero; meu caro, você já pediu a instrução pela qual ouvimos aquilo que
não pode ser ouvido, pela qual percebemos aquilo que não pode ser percebido, pela
qual conhecemos aquilo que não pode ser conhecido?” [148: 92]

VIII

A este mesmo propósito, leia-se este versículo:


O mestre responde: E o ouvido do ouvido, a mente da mente, a fala da fala, o
alento do alento e o olho do olho. [149: 147]

Apenas mais uma passagem:


Esse (o E u interior*), embora nunca se agite, é mais rápido que o pensamento.
Os sentidos nunca o alcançaram, pois ele caminhava à sua frente. Em bora permaneça
parado, ultrapassa os outros que estão correndo. O espírito movente lhe outorga
poderes. Ele se agita e não se agita. Está
longe e ao m esm o tem po perto . E s t á , . “° sentido é um senso de que a Pessoa é 08
c , , . objetos, as coisas e as pessoas que percebe, bem
dentro de tudo isso e esta fora de tudo . . , . ....
como o universo inteiro . [62]
isso.

E aquele que contempla todos os seres no E u interior* e o Eu interior* em todos


os seres, nunca o abandona. Quando, para um homem que compreende, o E u interior*
tiver se tom ado todas as coisas, que pesar, que problema poderá haver para ele que
um a vez contemplou essa unidade? [150: 311]

IX

As razões específicas para crer que Gautama tenha sido um caso de


Consciência Cósmica são:

a. O caráter inicial de sua mente, que parece ter sido ardoroso, sério e elevado;
com efeito, o tipo de caráter que geralmente (sempre?) precede o advento
do Sentido Cósmico.

b. O caráter peremptório e súbito da mudança no homem, de incessante


aspiração e empenho para consecução e paz. “Uma vida religiosa é bem
ensinada por mim” (diz Gautama). “Uma vida instantânea, imediata”
[157:104], E consta ainda que Gautama ensinava “o instantâneo, o imedia­
to, a destruição do desejo, a libertação da angústia, como não há semelhan­
tes em parte alguma”. [157: 211]
* self, no original
c. A idade em que consta que é alcançada a iluminação - a idade típica para
o advento do Sentido Cósmico - trinta e cinco anos.

d. O ensinamento geral dos Suttas, que se diz ter vindo de Gautama,


ensinamento esse que sem dúvida procede de uma mente possuidora de
Consciência Cósmica.

e. A iluminação intelectual - a “visão interior sobrenatural” [157: 78] -


atribuída, e atribuída com justiça a Gautama e comprovada pelo
ensinamento acima citado - se este procede dele.

f. A elevação moral alcançada por Gautama, que nada senão a posse da


Consciência Cósmica pode explicar.

g. Gautama parece ter tido o senso da vida eterna próprio da Consciência


Cósmica. Supõe-se que o Mahavagga apresente com exatidão considerável
seu verdadeiro ensinamento a este respeito. [158: 11] [162: 208] Nele
encontramos estas palavras: “Aquele que não tem desejo algum, que está
conscientemente livre de dúvida e que alcançou a profundeza da
imortalidade, a esse chamo de Brâmane”. [157:114] É importante notar
que o teste não é uma crença ou certeza (por mais forte) quanto a uma
vida eterna futura. Para se tomar um Brâmane (para ter alcançado o
Nirvâna - a Consciência Cósmica), o homem deverá já ter adquirido a
vida etema.

h. O magnetismo pessoal exercido diretamente por ele sobre seus


contemporâneos e através de suas palavras sobre seus discípulos de todas
as épocas desde então.

i. Há uma tradição da mudança característica na aparência, conhecida como


“transfiguração”. Quando ele desceu “da montanha Mienmo, uma escada
de resplendentes diamantes, vista por todos, ajudou seu descida. Sua
aparência era ofuscante” [109: 63]. Descontando o exagero oriental, um
germe de verdade pode estar contido nessa tradição.

Ora, se Gautama tinha Consciência Cósmica e se, como parece quase


certo, ela se manifestou entre seus seguidores, geração após geração, desde
seu tempo até hoje, então ela deve ter um nome na copiosa literatura dos
budistas. Há de fato uma palavra usada por essa gente, de cuja significação
exata os estudiosos ocidentais têm sempre estado mais ou menos em dúvida;
mas se a ela atribuímos este significado, toda dificuldade parece terminar e
se percebe que as passagens em que essa palavra aparece ganham um sentido
claro e simples. A palavra a que nos referimos é Nirvâna.

Kinza M. Hirai diz [2: 263]: “O Nirvâna é interpretado pelas nações


ocidentais como a efetiva aniquilação da paixão humana ou do desejo humano;
mas isto é um erro. Nirvâna nada mais é que razão universal”.

Pode haver dúvida quanto a se o Sr. Hirai, por “razão universal”, entende
“Consciência Cósmica”, mas sua intenção ao usar a expressão é a mesma.
Se ele compreende ou se vier a compreender o que é Consciência Cósmica, é
certo que dirá que Nirvâna é um nome para ela.

XI

Para maior ilustração deste ponto, leia-se (como segue) parte de um


capítulo sobre Nirvâna, de autoria de uma excelente autoridade [73: 110],
que é Rhys Davids:

Podem-se encher páginas com o abismado e extático louvor, profusamente usado


nos escritos budistas, dessa condição mental, o Fruto da Quarta Senda, o estado de
um Arahat, de um homem que se tom ou perfeito segundo a fé budista. M as tudo o
que poderia ser dito pode ser incluído em uma frase fecunda - isso é Nirvâna.

Não há sofrimento para aquele que tenha terminado sua jornada e abandonado o
pesar, que se tenha libertado por todos os lados e lançado fora todos os grilhões.
Até os deuses invejam aquele cujos sentidos, como cavalos controlados por seu
condutor, foram dominados, aquele que está livre do orgulho e livre dos apetites.
A quele que cum pre com seu dever é (#1) «Aquele que ^ seu eSpírito, em qualquer
tolerante como a terra (*1), como o raio emergência, não acelera nem evita a
de In d ra; é com o um lago sem lam a; morte” [193: 291],
novos nascimentos não estão reservados
para ele. Seu pensam ento é sereno e “A terra, nem se retarda nem se apressa; não
serenas são sua palavra e sua ação quando retém, é bastante generosa; as verdades da terra
tenha obtido a liberdade por meio do esperam continuamente, não estão ocultas
verdadeiro conhecimento [131: 271. tampouco; são calmas, sutis, intransmissíveis
pela escrita”[193: 176],
A queles que por firmeza mental tenham se tornado isentos de m au desejo e
[sejam] bem treinados nos ensinamentos de Gautama; esses, tendo obtido o Fruto da
Quarta Senda e tendo imergido a si próprios naquela Ambrosia, receberam [prêmio?]
inestimável e estão no gozo de Nirvana. (*2) K arm a - ação ou atos da pessoa
Seu velho Karma (* 2 ) está exaurido, considerados como determinantes de seu
nenhum novo Karma está sendo produ­ destino após a morte e numa vida seguinte.
zido; seu coração está livre do anseio por
um a vida futura (*3); destruída a causa (*3) O homem que adquiriu o Sentido Cósmico
de sua existência e nenhum anelo nascen­ não deseja a vida eterna - ele a tem.
do em seu interior, esses, os sábios, são
ex tin to s com o esta lâm p ad a (R atan a (*4) Nir, “apagar”, vana, “soprando”, da raiz
Sutta). Conduz bem a si mesmo o mendi­ va, “soprar”, com o sufixo ana. Que
cante que conquistou [o pecado] por meio Nirvâna não pode significar extinção no sentido
da santidade, de cujos olhos o véu do erro de morte, está claro pela seguinte passagem: “E
logo ele atingiu a meta suprema do Nirvâna - a
foi removido, que é bem treinado na reli­
vida superior - em prol da qual os homens se
gião; e que, livre de anelo e qualificado
afastam de todo e qualquer proveito e conforto
no co n h ecim en to , te n h a alcançado o domésticos a fim de se tomarem peregrinos sem
Nirvâna (Sammaparibbajaniya Sutta). lar; sim, essa meta suprema ele passou a conhecer
Que é então Nirvâna, que significa sim­ por si próprio e continua a apreender e ver face
plesmente apagar soprando - extinção a face enquanto ainda neste mundo visível.
(*4) - sendo bem claro, pelo que já foi ”[163: 110].
dito, que não se pode tratar da extinção
da alma? Trata-se da extinção da pecaminosa, cobiçosa condição da mente e do
coração, que - se não è extinta —é a causa de renovada existência individual segundo
o grande mistério do Karma .

Essa extinção deve ser acarretada pelo crescimento da condição oposta de coração
e m ente e corre paralelamente a ele; está completa quando essa condição oposta é
alcançada. Nirvâna é portanto a mesma coisa que um estado sem pecado e calmo da
m ente e, se traduzida, talvez seja melhor interpretada como “ santidade”- isto é,
santidade, no sentido budista - paz perfeita, virtude e sabedoria.

Tentar traduções de termos tão fecundos é no entanto sempre perigoso, pois a


nova palavra - parte de um novo idioma que é produto de um espírito diferente de
pensam ento - embora possa denotar a mesma ou quase a m esm a idéia, em geral
evoca também outras, muito diferentes. E este o caso aqui; nossa palavra santidade
sugeriria muitas vezes a idéia de amor a um criador pessoal, de temor respeitoso na
sentida presença de tal criador - idéias estas inconsistentes com a santidade budista.
Por outro lado, Nirvâna indica as idéias
de energia intelectual (*5) e da cessação (*5) Necessariamente, se significa Consciência
da existência individual (*6), das quais Cósmica.
a primeira não é essencial à nossa idéia
(*6) Não tanto cessação quanto absorção da
de santidade e, a segunda, não guarda
existência individual na universal.
relação alguma com esta idéia.

Santidade e Nirvâna , em outras palavras, podem representar estados mentais


não muito diferentes; mas estes se devem a causas diferentes e terminam em resultados
diferentes; e, ao usar essas palavras, é impossível restringir o pensam ento à coisa
expressa de modo a não pensar também em sua origem e em seu efeito.
É melhor, portanto, manter a palavra Nirvâna como o nome do summum bonum
budista, que é um estado santo e bem -aventurado, um a condição m oral, um a
m odificação do caráter pessoal (*7); e
d ev em o s p e rm itir que a p alav ra nos (*7) Uma modificação da personalidade do
lem bre, com o o fez com os prim eiros homem.
b u d ista s, ta n to da S en d a q u e leva à
(*8) A perda do senso de pecado é uma das mais
ex tin ç ã o do pecad o (* 8 ), q u a n to da notáveis características do estado de
cessação da transferência do Karma que Consciência Cósmica.
a extinção do pecado trará. Que isto deva
ser o efeito do Nirvâna é evidente, pois o estado da m ente que em Nirvâna está
extinto (upadana klesa, trishna) é exatamente aquele que, segundo o grande mistério
do budismo, levará na morte à formação de um novo indivíduo, para o qual o Karma
do indivíduo dissolvido ou morto será transferido. Esse novo indivíduo consistiria
em certas qualidades ou tendências corporais e m entais enum eradas, conform e já
explicadas nos cinco Skandhas ou agregados. Um nome abrangente de todos os cinco
é upadi, uma palavra derivada (em alusão ao nome de sua causa, upadana ) de upada,
apreender, tanto com a mão, como com a
m ente (*9). Agora, quando um budista (*9) Em outras palavras, o desejo (não
importa do que) - desejo no abstrato - é
se tom ou um Arahat, quando ele alcançou
a base do pecado, do Karma e é aquilo de que o
o Nirvâna, o F ruto da Q uarta Senda, indivíduo deve se livrar. Mas desejo é inseparável
extinguiu upadana e klesa (*10), mas do estado autoconsciente e cessa somente com o
ainda está vivo; o upadi, o skandhas, seu advento do Sentido Cósmico.
corpo com todos os seus poderes - vale
(*10) Isto é, desejo e pecado.
dizer, o fruto de seu pecado anterior -
permanecem. E stes, entretanto, são im- (*11) Temos aqui o mesmo ponto de vista
permanentes; logo passarão (*11); nada adotado por Paulo - o demérito, o caráter
então restará para fazer nascer um novo essencialmente pecaminoso da carne. Para o
budista, Nirvâna (o Sentido Cósmico) é tudo;
conjunto de skandhas de um novo indi­
para Paulo, Cristo (o Sentido Cósmico) é tudo.
víduo; e o A rahat não mais estará vivo O corpo é nada ou menos que nada. Foi contra
ou existirá em qualquer sentido; ele terá esta visão muito natural (pois a glória do Sentido
alcançado Parinibbana, completa extin­ Cósmico destina-se a jogar em trevas profundas
ção, ou Nir-upana-sesa-Nibbana dhatu, todo o resto da vida) que Whitman se colocou
extinção tão com pleta que o upadi, os do começo ao fim. Ele viu, com olhos de um
verdadeiro vidente - com olhos de absoluta
cinco skandhas não mais sobreviverão -
sensatez e bom senso - que a vida autoconsciente
isto é, num a palavra, morte. era tão grandiosa, a seu modo, quanto a do novo
sentido - por divina que esta fosse; viu que nada
A vida do hom em , para usar um a fora ou poderia ser mais grandioso que o simples
alegoria ou parábola budista constante­ ver, ouvir, sentir ao tato, ao paladar, conhecer -
mente repetida, é como a chama de uma e com base nisto assumiu sua posição. “O outro
lâm pada indiana, um pires de metal ou Eu-sou” (o velho ego), diz ele ,“não tem de ser
de cerâmica no qual um a mecha de algo­ rebaixado ante você” (o novo sentido) “e você
dão é embebida em óleo. U m a vida é deri­ não tem de ser rebaixado ante o outro”.
vada de um a outra, assim como um a cha­ Whitman tem e sempre terá a eterna glória
ma é acesa num a outra; não é a mesma de ser o primeiro homem que foi tão grande que
cham a, m as sem a outra não existiria. mesmo o.Sentido Cósmico não pôde dominá-lo.
Assim como a chama não pode existir sem óleo, assim a vida, a existência individual,
depende da adesão à lei e às coisas terrenas, o pecado do coração. Se não houver óleo
na lâmpada, ela se apagará, embora não antes que o óleo que a mecha tenha absorvido
tenha acabado; então, nenhuma nova chama poderá ali ser acesa. E assim as partes e
os poderes do homem sem pecado serão dissolvidos e nenhum novo ser nascerá para
o sofrimento. O s sábios passarão, apagar-se-ão como a cham a da lâmpada e seu
Karma não mais será individualizado.

As estrelas extintas há longo tempo podem ser ainda visíveis a nós pela luz que
emitiram antes de cessarem de brilhar; mas o efeito em rápida dissipação de uma
causa não mais ativa logo deixará de ferir nossos sentidos; e onde estava a luz haverá
trevas. Assim o corpo vivente e movente do homem perfeito é ainda visível, embora
sua causa tenha deixado de atuar; mas logo decairá, morrerá e passará e, como nenhum
corpo novo será formado, onde havia vida nada existirá.

M o rte , m o rte to ta l, com n e n h u m a (*12) O homem que alcançou o Nirvâna (o


n o v a vida a seguir, é então o resultado Sentido Cósmico) tem vida eterna -
de (m as não é) Nirvâna. O céu budista qualquer morte que pode então acontecer é a
não é a m orte e não está n a m orte, m as morte de alg0 nao ma's desej ado-
sim n u m a vida v irtuosa aqui e agora, a „ . ,
„ , .... Pois as palavras Vida virtuosa devem ser
que os Pitakas pro d .g ah zam os term o s ent(mdidas oomo- vidaoomo Sentido Cósmico”,
de d e sc riç ão e x tá tic a q u e a trib u em ao
Nirvâna, como o Fruto da Quarta Senda do estado de Arahat (*12).

Assim, o Prof. Max Mueller, que foi o primeiro a apontar o fato, diz (“As Parábolas
de Buddhaghosha”): “Se olhamos no Dhamma-pada, em todos os trechos em que o
Nirvâna é mencionado não há um só que requeira que seu significado seja aniquilação,
ao passo que a maioria, se não todos, seriam totalmente ininteligíveis se atribuíssemos
esse significado à palavra Nirvâna. A mesma coisa pode ser dita de outras partes dos
Pitakas acessíveis a nós nos textos publicados. Assim o comentarista do Jataka cita
alguns versos do Buddhavansa, ou história dos Budas, que é um dos livros do segundo
Pitaka. Nesses versos temos (entre outras coisas) um argumento baseado na assunção
lógica de que, se existe um positivo, seu negativo tem de existir também; se existe
calor, tem de existir frio, e assim por diante. N um destes pares encontramos existência
em oposição, não a Nirvâna, mas à não-existência; enquanto num outro os três fogos
(o da luxúria, o do ódio e o do erro) opSem-se a Nirvâna (textos Jataka de Fausboll).
Segue-se, creio, que para a m ente do
a u to r do Buddhavansa Nirvâna signifl- (*13) E esta, a vida de alegria e inteligência
cava, não a extinção, a negação do ser, exaltada, livre do desejo, é a vida em
m as a extinção, a ausência dos três fogos Consciência Cósmica,
da paixão” (*13).

Tão pouco é sabido dos livros do Cânon Budista do Norte, que é difícil descobrir
sua doutrina em qualquer ponto controvertido; mas, tanto quanto é possível julgar,
eles co n firm a m esse uso da p alav ra (*14) Gautamadiz: “Fui a Benares, onde preguei
Nirvâna que encontramos nos Pitakas N o a 308 ci1100Solitários. Desde aquele momento
Lalita Vistara, a palavra ocorre em aigu- a roda da minha lei tem estado em movimento e
, , , , o nome de Nirvana fez seu aparecimento no
mas passagens e em nenhum a delas e o mundo„ [164. J6]_ Isto se refere à data da
sentido de aniquilação necessário, em to- iluminação de Gautama e parece mostrar
das considero que Nirvâna significa o claramente que “Nirvâna” é um nome de
mesmo que Nibbana em pâli (*14). Consciência Cósmica. Em oulro lugar no mesmo
livro, ficam os sabendo de “hom ens que
caminham no conhecimento da lei apôs terem atingido o Nirvâna" [164: 125]. E ainda: “Nirvâna
é uma conseqüência da compreensão de que todas as coisas são iguais” [164:129], Uma vez mais:
“Não há nenhum verdadeiro Nirvâna sem o tudo-saber (Consciência Cósmica); procurem conseguir
isto” [164: 140]. Além disso, Gautama fala de si próprio como aquele que explicou neste mundo a
perfeita lei, que conduziu ao Nirvâna inúmeras pessoas [30: 179]. Se ele explicou a perfeita lei e
conduziu pessoas ao Nirvâna enquanto ainda vivia, certamente deve ter alcançado ele próprio o
Nirvâna durante sua vida. Gautama se dirige também a homens que alcançaram o Nirvâna. Como
poderia fazê-lo seNirvâna fosse aniquilação? As palavras da tradução de Bumouf são: “Je m ’adresse
à tous ces Çravakas, aux hommes qui sont parvenues à l’état de Pratyêkabuddha, à ceux qui ont été
établis par moi dans le N irvana, à ceux qui sont entièrement délivrés de la succession incessante des
douleurs” [30: 22] (*). Assim, também, Sariputra, agradecendo e louvando a Gautama, diz: “Hoje
atingi o Nirvâna"— “Aujour d’hui ô Bhagavat, j ’ai acquis le Nirvâna”. “Nirvâna, portanto, é
certamente algo que o homem pode adquirir e continuar vivendo”.

A interpretação tibetana da palavra é um a frase longa que significa, segundo


B urnouf (*15), “o estado daquele que está livre do sofrimento”, ou “o estado em que
a pessoa encontra seu E u interior, em que ela assim está livre” . Isto é confirmado no
trabalho completo e valioso do Sr. Beal sobre o budismo chinês, onde a versão chinesa
do Parinirvâna Sutra sânscrito contém o seguinte: “Nirvâna é apenas isso. Em meio
ao sofrimento não há nenhum Nirvâna e no Nirvâna não há sofrimento”.

(*15) As palavras de Bumouf são: “L’idée d’affranchissement est la seule que les interprètes tibétains
aient vue dans le mot de Nirvana car c’est la seule qu’ils ont traduite. Dans les versions
qu ’ils donnent des textes sanscrits du Népal, le terme Nirvana est rendu par les mots mya-ngan-las-
hdah-ba, qui signifient litteralment / ’état de celui qui est affranchi de la douleur, ou l ’état dans
lequel on se trouve quand on est ainsi affranchi"[29:\7] (* * ).

Os antigos textos em sânscrito dos budistas do Norte, assim como os textos em


pâli dos Pitakas, parecem todos considerar o N irvâna como um estado moral a ser
alcançado aqui, no mundo e nesta vida.

* D irijo-m e a todos os Ç rav ak as, aos h o m en s que ch eg aram ao estado de


Pratyêkabuddha, àqueles que foram estabelecidos por mim no Nirvâna, àqueles
que estão inteiramente livres da sucessão incessante das dores” .
** “A idéia de libertação é a única que os intérpretes tibetanos viram n a palavra
Nirvâna , pois é a única que eles traduziram. N as versões que dão dos textos
sânscritos do Nepal, o termo Nirvâna é substituído pelas palavras mya-ngan-
las-hdah-ba, que significam literalmente o estado daquele que é liberto da dor,
ou o estado em que a pessoa se encontra quando está assim liberta
XII

Finalmente, para mostrar que, tal como a palavra é usada por aqueles
que conhecem melhor seu significado, dificilmente pode corresponder a morte
e bem pode significar o que aqui é chamado de consciência cósmica, leiamos
as seguintes passagens escolhidas do Dhamma-pada, uma das mais antigas
e mais sagradas escrituras budistas. Todos os trechos deste livro em que
ocorre a palavra Nirvâna são aqui indicados e, juntamente com eles, trechos
paralelos de outros escritos análogos:

Diligência é a senda da imortalidade Tem sido muitas vezes apontado neste livro
{Nirvâna), negligência é o cam inho da que a diligência da mente é condição sine qua
morte. O s que são diligentes não morrem, non para se alcançar a consciência cósmica. As
m as os n eg lig en tes são com o se já citações aqui feitas mostram este ponto de
maneira bastante incisiva.
estivessem mortos [156: 9]. Estas sábias
pessoas, m editativas, firm es, sem pre possuidoras de fortes poderes, atingem o
Nirvâna, a mais alta felicidade [156: 9].

Um Bhikshu (mendicante) que se compraz em reflexão, que encara com temor a


negligência, não pode cair (de seu estado perfeito) - ele está muito perto do Nirvâna
[156: 11], “U m a é a estrada que leva à riqueza; outra, a que leva ao Nirvâna ”; se o
Bhikshu, o discípulo de B uda, tiver aprendido isto, não almejará honrarias, lutará
pela sua separação do mundo [156: 22],

H om ens que não possuam bens, que Depois que Confucio viu Lí R, disse a
vivam de alimentos que lhes sejam dados, seus discípulos: “Sei que os pássaros podem
que tenham percebido a liberdade total e voar, os peixes nadar e os animais correr, mas
o corredor pode ser apanhado por um laço, o
incondicional (Nirvâna), têm um a senda
nadador por um anzol e o pássaro por uma
difícil de ser compreendida, como a dos pás­
flecha. Mas há o dragão; não posso dizer como
saros no céu [156: 27], Aquele cujos apetites ele monta no vento através das nuvens e sobe
tenham sido mitigados, que não esteja imer­ ao céu. Hoje vi Laotsze e só posso compará-
so no prazer, que tenha percebido a liber­ lo ao dragão”. Poderíamos dizer o mesmo, à
dade total e incondicional (Nirvâna), tem nossa maneira, de quase todas as pessoas
um a senda difícil de ser compreendida, co­ mencionadas neste livro como possuidoras do
mo a dos pássaros no céu [156: 28], sentido cósmico.

Algumas pessoas nascem novamente; malfeitores vão para o inferno; pessoas


virtuosas vão para o céu; aqueles que estão livres de todos os desejos terrenos atingem
o Nirvâna [156: 35]. Se, como um prato metálico (gongo) quebrado, tu não soas,
então alcançaste Nirvâna; não conheces conflito [156: 37]. O s Despertos consideram
a paciência a mais alta pena e a resignação o mais alto Nirvâna', pois não é um
eremita, (pravragita) aquele que bate nos outros; não é um asceta (stramana), aquele
que insulta os outros [156: 50].
A fome é a pior das doenças, o corpo O verdadeiro lugar do corpo e dos apetites
a pior das penas; se a pessoa sabe isto na vida só pode ser percebido por quem tenha a
verdadeiramente, isto é Nirvâna, a mais consciência cósmica,
alta felicidade [156: 54],

A saúde é o maior dom; o contentamento, a maior riqueza; a confiança é o melhor


relacionamento; Nirvâna, a mais alta felicidade [156: 55]. Aquele em quem o desejo
do Inefável (Nirvâna ) tenha nascido, que está satisfeito em sua m ente e cujos
pensam entos nâo são desnorteados pelo amor, é chamado ürdhvamsrotas (levado
para cim a pela corrente) [156: 57]. O s sábios, que não ofendem ninguém e que
sempre controlam seu corpo, irão para o lugar imutável (Nirvâna), onde, se para lá
forem , nâo m ais sofrerão [156: 58]. A queles que estiverem sem pre alerta, que
estudarem dia e noite e que se esforçarem pelo Nirvâna, verão suas paixões chegarem
a um fim [156: 58]. Corta o amor ao ego, como um lótus de outono, com tua mão!
A m a a estrada da paz. O Nirvâna foi mostrado por Sugata (Buda) [156: 69], Um
homem sábio e bom que conhece o significado disto deveria rapidamente desobstruir
o caminho que leva ao Nirvâna [156: 69]. Pois com esses animais nenhum homem
chega ao país inexplorado (Nirvâna), onde um homem domesticado vai sobre um
animal domesticado - isto é, sobre seu próprio ego domesticado [156: 77], Aquele
que, tendo se libertado da floresta (da luxúria) - isto é, tendo alcançado o Nirvâna -
entregue-se à vida da floresta (da luxúria) e que, retirado da floresta (i.e., da luxúria),
corra para a floresta (i.e., para a luxúria) - vejam só esse homem! em bora livre,
corre para o cativeiro [156: 81]. O Bhikshu que age com bondade, que é sereno na
doutrina de Buda, alcançará o lugar tranqüilo (Nirvâna), a cessação de desejos naturais
e felicidade [156: 86]. Ó Bhikshu, esvazia este barco! vazio, ele irá rapidamente;
tendo cortado a paixão e o ódio, tu irás para Nirvâna [156: 86]. Sem conhecimento
não há meditação; sem meditação não há conhecimento; aquele que tem conhecimento
e meditação está próximo ao Nirvâna [156: 87]. Tão logo tenha ele considerado a
origem e a destruição dos elementos (khandha) do corpo, encontrará a felicidade e a
alegria que pertencem àqueles que conhecem o imortal (Nirvâna) [156: 87]. O Bhikshu
cheio de deleite, que é sereno na doutrina de B uda, alcançará o lugar tranqüilo
(Nirvâna), a cessação de desejos naturais e felicidade [156: 88].

XIII

Gautama, então, foi um caso de Consciência Cósmica, e a doutrina central


de seu sistema, Nirvâna, era a doutrina do Sentido Cósmico. Todo o budismo
é simplesmente isto: Há um estado mental tão feliz, tão glorioso, que todo o
restante na vida não tem valor algum em comparação com ele; uma pérola
de grande preço, para cuja compra o sábio de bom grado vende tudo o que
tem; esse estado pode ser alcançado. O objetivo de toda a literatura budista é
transmitir uma idéia desse estado e guiar os aspirantes a este glorioso pais,
que é, literalmente, o Reino de Deus.
JESUS, O CRISTO

Balzac diz [5: 143] que Jesus era um Especialista - isto é, que tinha
Consciência Cósmica. Como o próprio Balzac era indubitavelmente ilumina­
do, deveria ser uma alta (senão absoluta) autoridade neste particular. Paulo,
tão logo seus próprios olhos foram abertos, reconheceu Jesus como pertencente
a uma ordem espiritual superior - isto é, como possuidor do Sentido Cósmico.
Mas não aceitemos a palavra de ninguém e sim tentemos ver por nós mesmos
que razões existem para se incluir este homem na lista dos possuidores de
Consciência Cósmica.

Jesus nasceu em 4 a.C. [80] e teria, conforme essa autoridade, trinta e


quatro ou trinta e cinco anos quando começou a ensinar; assim, teria pelo
menos trinta e três no período da iluminação - supondo que ele seja um
caso.

Segundo outros escritores, seria mais velho. Sutherland [171: 140] diz:
“A morte de Jesus ocorreu no ano 35”. Isto lhe daria trinta e nove por ocasião
de seu falecimento, trinta e seis ou trinta e oito quando começou a ensinar (a
primeira idade, se ele ensinou três anos, como diz João; a segunda, se ensinou
apenas um ano, conforme os sinópticos nos contam) e, digamos, trinta e
cinco ou trinta e seis na iluminação*.

* A Review o f Reviews, de Janeiro de 1897, assim resume o indício relativo a este


assunto:

“U m a das m ais em inentes autoridades vivas sobre a vida de C risto, o Dr.


Cunningham Geikie, escreve em Homilectic Review sobre as várias tentativas para
fixar a data exata do nascimento do Messias.

“Está claro que a cronologia recebida do Abade Dyonisius, o Anão, que data da
primeira metade do sexto século, deve ter começado com vários anos de atraso ao
Tudo tende a mostrar que, aproximadamente na idade especificada, ocor­
reu nele uma notável mudança; conquanto até certa idade ele fosse muito
semelhante aos outros, de repente ascendeu a um nível espiritual bem acima
dos homens comuns. Aqueles que o haviam conhecido em seu lar, como

fixar o nascimento de Cristo como tendo ocorrido no ano 754 de Roma, um a vez que
se sabe que H erodes faleceu em 750 e Jesus deve ter nascido enquanto Herodes
ainda reinava. O Dr. Geikie indica outros erros de base nos cálculos do Abade
Dyonisius.

“Dyonisius baseou seus cálculos na menção de São Lucas de que João Batista,
que era um pouco mais velho do que Jesus, começou sua obra pública no décimo
quinto ano de Tibério e de que Jesus tinha cerca de trinta anos quando começou a
ensinar (Lucas 3:1-23). Esse décimo quinto ano de Tibério seria provavelmente 782
ou 783; ora, subtraindo trinta, teríamos 752 ou 753, tendo Dyonisius adicionado um
ano a este último, na suposição de que as palavras de Lucas cerca de trinta anos
requeriam que ele acrescentasse um ano. Mas a expressão vaga cerca de era um a
indicação precária em que se basear e, além disto, o reinado de Tibério pode ser
calculado em função de sua associação a Augusto no governo e, portanto, a partir de
765, ao invés de 767. Os textos de São Lucas que citei não podem então ser usados
para o dia nem para o mês do nascimento, ou mesmo para o ano. Isto se vê, na
verdade, nas variadas opiniões sobre todos estes pontos na igreja primitiva e no fato
de o dia 25 de dezembro ter sido aceito como o dia do nascimento somente desde o
quarto século, quando foi divulgado de Rom a como o dia que deveria ser assim
honrado”.

A CONCLUSÃO MAIS RAZOÁVEL

“A m elhor tentativ a de um a conclusão lógica é n a verdade fornecida pela


afirmação de que Herodes estava vivo algum tempo depois que Cristo nasceu. O
menino Redentor devia ter seis semanas de idade quando foi apresentado no templo
e a visita dos Magos ocorreu não sabemos quanto tempo depois. D e que o massacre
de todas as crianças de Belém de dois anos para baixo pressupõe que os M agos
deviam ter chegado a Jerusalém muito tempo após o nascimento do esperado Rei,
pois nâo teria havido sentido em matar crianças de dois anos se Cristo tivesse nascido
somente poucas semanas ou mesmo meses antes. Que houve um massacre, conforme
é relatado nos Evangelhos, está confirmado por uma referência a ele num a Sátira de
Macrobius (Sat.ii,4), de modo que o crime é historicamente verdadeiro e a crítica
mais acerba que o tratou como uma fábula é incorreta. M as se Cristo nasceu dois
anos antes da morte de Herodes - e ele poderá ter nascido até antes - isto faria com
que o grande evento caísse no ano 748, ou seja, seis anos antes de nossa era” .

Se aceitamos as conclusões deste escritor, Jesus tinha por volta de trinta e cinco
anos quando de sua iluminação.
menino e como rapaz, não puderam compreender sua superioridade. “Não é
este o filho do carpinteiro?” [14:13:55] -perguntavam. Ou, conforme relatado
em outro lugar: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria?... E escandalizavam-
se nele”. [15:6:3] Essa acentuada ascensão espiritual, ocorrendo subitamente
nessa idade, é em si mesma quase sintomática do advento do sentido cósmico.

O mais antigo e provavelmente mais autêntico relato sobre a iluminação


de Jesus é o seguinte: “E, logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se, e o
Espírito descendo como pomba sobre ele. Então foi ouvida uma voz dos
céus: ®u t i o meu filiio amabo, tm ti mr comprajo. E logo o Espírito o impeliu
para o deserto” [15:1:10-12], Há uma tradição segundo a qual a iluminação
de Jesus teve lugar no dia 6 ou no dia 10 de janeiro [133a: 63].

O fato de Jesus ter ido a João para ser batizado mostra que sua mente
estava direcionada para a religião e toma provável que ele tivesse (antes da
iluminação) o temperamento devoto do qual brota, quando acontece, o Sentido
Cósmico. Não é necessário supor que a iluminação tenha ocorrido
imediatamente quando do batismo, ou que houvesse qualquer relação especial
entre estas duas coisas. O impulso que levou Jesus à solidão após a iluminação
é usual, se não universal. Paulo o sentiu e o obedeceu; e Whitman fez o
mesmo.

A expressão “Ele viu os céus rasgarem-se” descreve muito bem o advento


do Sentido Cósmico, que é (como já foi dito) instantâneo, repentino e bem
como se um véu, num gesto brusco, fosse rasgado e retirado dos olhos da
mente, permitindo à vista traspassá-lo.

Assim, descrevendo esse mesmo advento da Consciência Cósmica, Juan


Yepes (ele vinha se perguntando se, nessa ocorrência aparentemente
miraculosa, era Deus ou a alma humana que agia) diz concluindo: “É a alma
que é movida e despertada; é como se Deus puxasse para trás alguns dos
muitos véus e anteparos que estão diante dela, de modo que ela pudesse ver
o que ele é” [206: 502],

Assim, também, o significado das palavras "®u t i o meu ííljo amabo"


concorda perfeitamente com a mensagem transmitida em todos os casos. As
palavras de Whitman, “Sei que o espírito de Deus é irmão do meu próprio
espírito” e as de Dante, “O’ amor, que governas os céus, que com tua luz me
levantaste”, são paralelos perfeitos. A voz (aparentemente) objetiva também
é um fenômeno comum; foi ouvida por Paulo, bem como por Maomé.
Outro importante elemento no caso é a chamada “Tentação”. A teoria
aqui aceita é que Jesus, na idade de trinta e três, ou mesmo de trinta e cinco,
era simplesmente um artesão inteligente, de mentalidade muito ardorosa, de
excelente hereditariedade e de compleição excepcional. Que ele não era de
modo algum distinguível, de modo algum diferente, exceto em sua qualifi­
cação para a expansão espiritual, que estava oculta (até de si mesmo) nas
profundezas de sua natureza e que pode igualmente existir em outros dentre
centenas de jovens artesãos em toda cidade ou vila da cristandade de hoje.
De repente, instantaneamente, a mudança ocorreu e aquele jovem sentiu e
conheceu dentro de si mesmo a força espiritual aparentemente ilimitada pelo
uso da qual quase qualquer coisa pode ser conseguida. Como deveria ela ser
usada? Com que objetivo? Poder? Riqueza? Fama? Ou o quê? [14:4:1-10]

Jesus decidiu rapidamente, como todos esses homens decidem, que o


poder tinha de ser usado em benefício da espécie humana. Por que decidiria
ele assim? Por que decidiriam assim todos eles?

A razão disso está em que a elevação moral que faz parte da Consciência
Cósmica não permite qualquer outra decisão. Se não fosse assim, se a
iluminação intelectual não fosse acompanhada de elevação moral, esses
homens sem dúvida seriam na verdade uns tantos demônios que acabariam
destruindo o mundo. Essa tentação é necessariamente comum a todos os
casos, embora nem todos falem nela. Sua essência é o apelo do velho ego
autoconsciente ao novo poder, no sentido de que este último o ajude a realizar
seus velhos desejos. O demônio, portanto, é o ego autoconsciente. O demônio
(Mâra ) apareceu a Gautama como a Jesus [157: 69] e o incitou a não
empreender uma nova senda mas ater-se às antigas práticas religiosas, a
viver tranqüila e confortavelmente. “Que queres tu com esforço?” - perguntou-
lhe. Mâra não procurou seduzir Gautama com ofertas de riqueza e poder,
pois ele já as possuíra e até o Gautama autoconsciente sabia de sua futilidade.
Como já foi sugerido, todo homem que entra em Consciência Cósmica passa
necessariamente pela mesma tentação. Como todos os demais, Bacon foi
tentado e, como sem dúvida muitos outros caíram, ele em certo sentido caiu.
Sentiu em si mesmo uma capacidade tão enorme que imaginou que podia
absorver a riqueza tanto do Sentido Cósmico quanto da Autoconsciência -
do céu e da terra. Mais tarde se arrependeu amargamente de sua ganância.
Reconheceu o dom (recebido de Deus) da divina faculdade - “the gracious
talent” - que ele diz que “nem entesourou sem usar nem empregou para o
melhor proveito, como devia ter feito, mas desperdiçou em coisas para as
quais (ele) menos estava talhado.” [175: 469]
A superioridade de Jesus em relação a homens comuns consistia (entre
outras coisas) em:

Acuidade intelectual;
Elevação moral;
Um otimismo que a tudo abrangia;
Um senso (ou o senso) da imortalidade.

A superioridade mental assim caracterizada é, outrossim, quase com


certeza restrita àqueles que entraram em Consciência Cósmica e, portanto,
se admitida, decide a questão.

Os relatos da transfiguração de Jesus nos evangelhos sinópticos só podem


ser explicados (se aceitos) supondo-se que ele tenha sido visto em estado de
Consciência Cósmica, tendo sido a mudança de aparência (em si mesma
bastante impressionante) provavelmente exagerada na narrativa (como quase
certamente o seria). Aqui estão os relatos, tais como foram feitos: “E foi
transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol e as suas
vestes tomaram-se brancas como a luz” [14:17:2] “Foi transfigurado diante
deles. As suas vestes tomaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como
nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar” [15: 9: 2-3], É curioso que
este observador tenha limitado seus comentários às vestes de Jesus. E ainda:
“E aconteceu que, enquanto ele orava, a aparência do seu rosto se transfigurou
e suas vestes resplandeceram de brancura” [16: 9: 29], Acredita-se que não
há nenhum estado humano conhecido, exceto o de Consciência Cósmica,
que justificaria as palavras acima. A referida mudança nas “vestes” de Jesus
deve ser entendida como um reflexo de seu rosto e de sua pessoa.

No Evangelho segundo os hebreus ocorre a seguinte passagem: “Agora


há pouco, minha mãe, o Espírito Santo, pegou-me por um de meus cabelos e
me levou à grande montanha de Tabor” [109:63], Baur e Hilgenfield, assim
parece, acham que este é o original da narrativa da transfiguração; mas se é
não enfraquece necessariamente os testemunhos de Marcos e Lucas.

Há pessoas vivas hoje (e o autor conhece uma delas) que viram o que está
descrito (e bem descrito) nas palavras dos evangelhos acima citadas.

Aqui estão várias fortes razões para se crer que Jesus tinha o Sentido
Cósmico. Uma outra razão (se outra é necessária) é que Jesus está espiri­
tualmente no ápice ou perto do ápice da espécie humana e, se há uma faculdade
como a Consciência Cósmica, conforme é descrita neste livro, ele deve tê-la
possuído, pois, do contrário, não poderia ocupar essa posição.

É bastante lamentável que o mundo não conheça palavras que possamos


estar seguros de que esse homem extraordinário tenha pronunciado. Como
seria precioso se tivéssemos um livro, por pequeno que fosse, efetivamente
escrito por ele! Temos, entretanto, tantos dizeres que são atribuídos a ele e
aparentemente de tão boa autoridade, que podemos estar praticamente certos
de que muitos deles transmitem com suficiente exatidão o sentido do que ele
de fato disse.

Se, então, Jesus tinha Consciência Cósmica, deve ter se referido repetida­
mente a ela em seus ensinamentos, tal como todos os outros homens como
ele fizeram. Se assim fez, deverá ser fácil para qualquer pessoa que saiba
algo a respeito do Sentido Cósmico detectar essas referências, enquanto
aqueles que nada saibam a este respeito deverão necessariamente interpretá-
las de outras maneiras.

Não se trata necessariamente de interpretação errônea, pois as palavras


de Jesus (como as de Dante, “Shakespeare” e Whitman) teriam - e sem
dúvida teriam sido ditas com a intenção de ter - mais de um significado.

Ao mesmo tempo, Jesus não escreveu e, como suas palavras foram


transmitidas por tradição (pelo menos por um curto período) e como essas
palavras (conforme a suposição atual) foram compreendidas imperfeitamente
por aqueles que as passaram adiante, elas devem ter sido inevitavelmente
alteradas. Em algumas passagens certamente o foram e, em muitas outras,
provavelmente o foram. Frases cujo significado é apenas parcialmente
apreendido não podem ser verbalmente transmitidas intactas, a menos que
já se tenham tomado sagradas, como foi o caso dos Vedas. O significado
incompleto a elas atribuído inevitavelmente sugere e leva a mudanças mais
ou menos importantes para lhes dar coerência.

Então, se Jesus tinha o Sentido Cósmico e a ele se referiu mais ou menos


freqüentemente em seus ensinamentos, algumas se não todas as passagens
em que fez essa referência devem estar mais ou menos alteradas. Mas há
uma longa série de passagens que aparentemente provêm direto dele e que
aparecem especialmente ao longo dos evangelhos sinópticos, que, mesmo
em sua forma atual, parecem referir-se inequivocamente à faculdade em
questão. E se algumas não o fazem tão claramente como outras, talvez esta
divergência possa ser razoavelmente explicada como foi feito acima. As
passagens em questão são as que tratam do que Jesus algumas vezes chamou
de “o Reino dos Céus” e, outras vezes, de “o Reino de Deus”.

m
As citações seguintes abrangem todas as passagens mais importantes e
significativas em que uma das expressões é usada nos evangelhos quando as
palavras em questão são dadas como vindo dos lábios de Jesus:

B em -av en tu rad o s os h um ildes de (*1) D ificilm ente um hom em orgulhoso


espírito, porque deles é o reino dos céus adquirirá o Sentido Cósmico.
[14:5:3], (*1)
(*2) Perseguição dificilmente conduziria à
B e m -a v e n tu ra d o s os que sofrem Consciência Cósmica, mas esta última
perseguição por causa da justiça, porque quase inevitavelmente leva à primeira.
deles é o reino dos céus [14:5:10], (*2)
(*3) Um homem que levasse uma vida má e
Qualquer, pois, que violar um destes
encorajasse outros a fazer o mesmo seria
m ais pequenos m andam entos, e assim
chamado “o menor”, enquanto um homem bom,
ensinar aos homens, será chamado o me­
consciencioso, seria chamado “grande” do ponto
nor no reino dos céus; aquele, porém, que de vista do Sentido Cójmico. Mas ninguém
os cumprir e ensinar será chamado grande poderia jamais entrar em Consciência Cósmica
no reino dos céus. Porque vos digo que, simplesmente por ter obedecido quaisquer
se a vossa justiça não exceder a dos escri­ mandamentos, por mais rigorosamente que o
bas e fariseus, de modo nenhum entrareis fizesse. A menos que a vida espiritual da pes­
no reino dos céus [14:5:19-20], (*3) soa ultrapasse as ortodoxias e as convenções, ela
de m odo algum entrará em C onsciência
M as buscai primeiro o reino de Deus Cósmica.
e a sua justiça, e todas estas coisas vos
serão acrescentadas [14:6:33], (*4)
(*4) Um homem que tenha a Consciência
Cósmica não estará inclinado a se preo­
N em todo o que m e diz: S enhor,
cupar com coisas mundanas. Provavelmente terá
Senhor! entrará no reino dos céus, mas
tudo que queira, embora suas posses possam ser
aquele que faz a vontade de meu Pai que
muito pequenas.
está nos céus [14:7:21], (*5)

M as eu vos digo que muitos virão do (*5) Ninguém alcançará o Sentido Cósmico
Oriente e do Ocidente e assentar-se-ão à pela oração, mas sim, se o fizer, por
mesa com Abraão, Isaque e Jacó, no reino hereditariedade e por uma vida elevada e pura.
dos céus. E os filhos do reino serão lança­
dos nas trevas exteriores; ali haverá pran­ (*6) Isto não vale exclusivamente para os
to e ranger de dentes [14:8:11-12], (*6) judeus, mas igualmente para os gentios.
E m verdade vos digo que, entre os que (*7) Entre os m eramente autoconscientes
de mulher têm nascido, não apareceu al­ (entre “aqueles que de m ulher têm
guém m aior do que João B atista; m as nascido”- fazendo-se distinção entre aqueles
aquele que é o menor no reino dos céus é que não “nasceram de novo” e aqueles que
maior do que ele. E, desde os dias de João “nasceram de novo”) nenhum é maior do que
Batista até agora, se faz violência ao reino João. Mas o menor daqueles que têm o Sentido
dos céus, e pela força se apoderam dele Cósmico é maior do que ele. Desde os dias de
[14:11:11-12], (*7) João, o reino dos céus tem sofrido violência
(interpretação errônea, etc.) na pessoa de Jesus.
M as, se eu expulso os demônios pelo
Espírito de D eus, é conseguintemente che­
gado a vós o reino de D eus [14:12:28], (*8) Sua ascendência espiritual era prova de
(*8) que ele entrara em Consciência Cósmica
(o reino dos céus).
Porque a vós é dado conhecer os mis­
térios do reino dos céus, mas a eles não
lhes é dado [14:13:11). (*9) (*9) Graças à sua intimidade pessoal com
Jesus, eles perceberam e apreenderam a
O reino dos céus é semelhante ao ho­ sublimidade sobre-humana da mente dele. Nele
mem que semeia boa semente no seu cam­ viram o reino dos céus - a vida excelsa.
po; mas, dormindo os homens, veio o seu
inimigo, e semeou joio no meio do trigo,
e retirou-se [14:13:24-25], O reino dos (*10) O antagonismo entre o Sentido Cósmico
céus é sem elhante ao grão de mostarda e a mente meramente autoconsciente e
que o homem, pegando dele, semeou no afinal e inevitável sujeição da última ao primei­
seu campo; o qual é realmente a mais pe­ ro, Uma imagem perfeita da aparente insigni­
quena de todas as sem entes; mas, cres­ ficância inicial do Sentido Cósmico, tal como
cendo, é a maior das plantas, e faz-se uma se manifesta em um ou em alguns indivíduos
árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e obscuros, bem como de sua suprema e esma­
se aninham nos seus ramos [14:13:31-2], gadora preponderância em vista da influência
(* 10) universal do ensinamento deles (digamos,
Gautama, Jesus, Paulo e Maomé) e mais espe­
O reino dos céus é semelhante ao fer­ cificamente em vista da inevitável univer­
mento, que um a mulher tom a e introduz salidade do Sentido Cósmico no fiituro.
em três medidas de farinha, até que tudo
esteja levedado [14:13:33], (*11)
(*11) Se possível, um a comparação ainda
O reino dos céus é semelhante a um mais exata - o Sentido Cósmico leveda
tesouro escondido num campo que um ho­ a pessoa e está hoje levedando o mundo.
mem achou e escondeu; e, pelo gozo dele,
vai, vende tudo quanto tem, e com pra
aquele campo [14:13:44], (*12) (*12) Os hom ens que têm C onsciência
Cósmica renunciam a tudo por ela -
O reino dos céus é sem elhante ao todo este livro é uma prova disto.
ho m em , n e g o cia n te , que b u sc a boas
pérolas; e, encontrando um a pérola de
grande valor, foi, v en d eu tudo quanto (*13) A mesma afirmação, em outras pa­
tinha, e a comprou [14:13:45-6], (*13) lavras.
O reino dos céus é semelhante a uma (*14) Corresponde à metáfora do trigo e do
rede lançada ao mar, e que apanha toda a joio.
qualidade de peixes; e, estando cheia, a
puxam para a praia; e, assentando-se,
(*15) O Sentido Cósmico é o árbitro final do
apanham para os cestos os bons; os ruins,
bem e do mal. Jesus parece ter antecipado
porém, lançam fora [14:13:47-8], (*14) o estabelecimento de uma escola ou seita cujos
afiliados possuiriam o Sentido Cósmico.
E eu te darei as chaves do reino dos
céus; e tudo o que ligares na terra será
ligado nos céus; e tudo o que desligares (*16) “Estaface,” dizWhitman“deummenino
na te rra , será desligad o n o s céus sadio e honesto, é o programa de todo o
bem” [193: 355],
[14:16:19], (*15)

N aquela mesm a hora chegaram os discípulos ao pé de Jesus, perguntando: Quem


é o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles. E
disse: E m verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como
meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus [14:18:1-3]. (*16)

Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas
com os seus servos; e, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe
devia dez mil talentos. E , não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele,
e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida
se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor,
sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então o senhor daquele servo, movido de
íntima compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo,
encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem denários e, lançando mão dele,
sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves. Então o seu companheiro, prostrando-se
a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Ele,
porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Vendo pois
os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu
senhor tudo o que se passara. Então o seu
sen h o r, cham an d o -o à sua p resen ça, (*17) O Sentido Cósmico é como um rei, muito
disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda acima da mente autoconsciente comum.
Tem absoluta caridade para com esta, que
aquela dívida, porque me suplicaste. Não
constantemente guerreia consigo mesma, mas
devias tu igualm ente ter compaixão do
por fim a mente cosmicamente consciente fará a
teu companheiro, como eu também tive mente meramente autoconsciente desaparecer
misericórdia de ti? E, indignado, o seu completamente da terra e a substituirá. Enquanto
senhor o entregou aos atormentadores, até isso, as pessoas do plano autoconsciente carecem
que pagasse tudo o que devia [14:18:23- muito de paciência e misericórdia.
34] (*17)
(*18) O autor não encontrou nenhum caso de
um homem concentrado em ganhar
E mais fácil passar um camelo pelo dinheiro que tivesse entrado em Consciência
fundo de uma agulha do que entrar um Cósmica. Todo o espírito do primeiro é anta­
rico no reino de D eus [14:19:24] (*18) gônico à segunda.
O reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada
a assalariar trabalhadores para a sua vinha. E , ajustando com os trabalhadores a um
denário por dia, mandou-os para a sua vinha. E, saindo perto da hora terceira, viu
outros que estavam ociosos na praça. E disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e
dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Saindo outra vez, perto da hora sexta e da
nona, fez 0 mesmo. E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros que estavam
ociosos, e perguntou-lhes: Por que estais ociosos todo o dia? Disseram-lhe eles: Porque
ninguém nos assalariou. Diz-lhes ele: Ide vós tam bém para a vinha, e recebereis o
que for justo. E , aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo:
C ham a os trabalhadores, e paga-lhes o jornal, começando pelos derradeiros até aos
primeiros. E, chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um
denário cada um. Vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais;
mas do mesmo modo receberam um denário cada um. E, recebendo-o, murmuraram
contra o pai de família, dizendo: Estes derradeiros trabalharam só um a hora, e tu os
igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia. M as ele, respondendo,
disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste tu comigo um denário?
Toma o que é teu e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti. Ou não
me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?
Assim os derradeiros serão primeiros, e
os prim eiros derradeiros [14:20:1-16] (*19) O Sentido Cósmico não é dado pelo
(*19) trabalho feito ou de acordo com o mérito,
conform e este seja avaliado pela m ente
Um homem tinha dois filhos, e, diri­ autoconsciente. Por que seriam Jesus, Yepes e
Behmen escolhidos, e Goethe, Newton e
gindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai tra­
Aristóteles deixados de lado?
balhar hoje na minha vinha. Ele, porém,
respondendo, disse: N ão quero. M as de­ (*20) Por sua resposta, os sacerdotes e os
pois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo- anciãos condenaram a si próprios, pois
se ao segundo, falou-lhe de igual modo; disseram: “Eu vou, senhor” e não foram, ao
e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; passo que os publicanos e as meretrizes nada
e não foi. Qual dos dois fez a vontade do prometeram, porém, como é mostrado em outro
pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Dis­ ponto no evangelho, algumas vezes tiveram
excelente coração. Estes podem facilmente estar
se-lhes Jesus: Em verdade vos digo que
mais perto da Consciência Cósmica do que a
os publicanos e as m eretrizes entram
classe hipócrita mais alta. Com efeito, onde está
a d ia n te de vós no rein o d e D eu s o caso de um homem hipócrita que se tenha
[14:21:28-31] (*20) tomado iluminado?

O reino de D eus vos será tirado, e (*21) O Sentido Cósmico vem especialmente
às pessoas que têm a natureza moral mais
será dado a um a nação que dê os seus
elevada.
frutos [14:21:43]. (*21)

Então Jesus, tom ando a palavra, tornou a falar-lhes em parabolas, dizendo: O


reino dos céus é semelhante a um certo rei que celebrou as bodas de seu filho. E
enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas; e estes não quiseram
vir. Depois enviou outros servos, dizendo: Dizei aos convidados: Eis que tenho o
meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos, e tudo já pronto; vinde às
bodas. Porém eles, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu
tráfico; e os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram . E o rei,
tendo n otícia disto, en co le rizo u -se e,
en v ian d o os seus ex érc ito s, d estru iu
(*22) O rei é Deus, a festa das bodas é a
aqueles hom icidas, e incendiou a sua
Consciência Cósmica; os convidados são
cidade. E ntão diz aos seus servos: As os que receberam as melhores oportunidades
bodas, na verdade, estão preparadas, mas para adiantamento espiritual —fartura, lazer, etc.
os convidados não eram dignos. Ide pois - mas que, ao invés de usarem essas oportu­
às saídas dos caminhos, e convidai para nidades para a finalidade designada (crescimento
as bodas a todos os que encontrardes. E espiritual), concentraram-se somente em si
mesmos. Então Deus enviou seus profetas para
os serv o s, saindo p elo s cam in h o s,
persuadi-los de que estavam cometendo um erro,
ajuntaram todos quantos encontraram , mas eles não quiseram escutar e até abusaram
tanto maus como bons; e a festa nupcial dos profetas. Assim, como os abastados, os cultos
foi cheia de convidados. E o rei, entrando, e os religiosos não quiseram comparecer, o
para ver os convidados, viu ali um homem convite foi estendido a todos. Todavia, rico ou
que não estava trajado com vestido de pobre, erudito ou ignorante, religioso ou
n ú p cias. E disse-lhe: A m ig o , com o descrente, quem quer que venha tem de estar
trajado com roupa de casamento - a mente tem
entraste aqui, não tendo veste nupcial? E
de estar revestida de humildade, sinceridade,
ele em udeceu . D isse en tão o rei aos reverência, bondade e destemor. Se um homem
servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai- pudesse conseguir o acesso à festa sem estas
o, e lançai-o nas trevas exteriores; ali qualidades, é facilmente imaginável que ele seria
haverá pranto e ranger de dentes. Porque expulso dela.
m u ito s são ch am a d o s, m as poucos
escolhidos [14:22:1-14] (*22) (*23) A religião formal, sem alma, dos escribas
e dos fariseus (e o mesmo é verdadeiro
quanto a grande parte da cristandade de hoje)
Ai de vós, escribas e fariseus, hipó­
era antagônica ao crescimento do espírito da
critas! pois que fechais aos hom ens o
Consciência Cósmica. Nem permitiam eles (na
reino dos céus; e nem vós entrais nem medida em que podiam evitar) qualquer vida e
deixais entrar aos que estão entrando crescimento espirituais fora dos estreitos limites
[14:23:13] (*23) estabelecidos por sua “lei”.

E ntão o reino dos céus será sem elhante a dez viigens que, tom ando as suas
lâm padas, saíram ao encontro do esposo. E cinco delas eram prudentes e cinco
insensatas. As insensatas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo;
mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas. E , tardando
o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram. Mas à meia noite ouviu-se um clamor:
Aí vem o esposo! saí-lhe ao encontro. Então todas aquelas virgens se levantaram, e
prepararam as suas lâmpadas. E as insensatas disseram às prudentes: D ai-nos do
vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam. M as as prudentes responderam,
dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e
comprai-o para vós. E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam
preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta. E depois chegaram
tam bém as outras virgens, dizendo: Se­ (*24) O Sentido Cósmico não vem aos dis­
nhor, Senhor, abre-nos! E ele, respon­ plicentes, mas aos diligentes que zelo­
samente usam todos os meios de adiantamento
dendo,disse: Em verdade vos digo que vos
espiritual. Todas as virgens pegaram no sono;
não conheço. Vigiai pois, porque não nenhuma delas sabia que o “noivo” estava che­
sabeis o dia nem a h o ra [14:25:1-12] gando, mas algumas haviam tomado as neces­
(*24) sárias providências - as outras, não.

Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou
os seus servos, e entregou-lhes os seus bens. E a um deu cinco talentos, e a outro
dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade; e ausentou-se logo para
longe. E , tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou
outros cinco talentos. D a mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros
dois; m as o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu
senhor. E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles.
Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos,
dizendo: Senhor, entregaste-m e cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que
granjeei com eles. E o seu senhor lhe disse: B em está, servo bom e fiel. Sobre o
pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. E, chegando
também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos;
eis que com eles granjeei outros dois talentos. Disse-lhe o seu senhor: B em está,
bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei; entra no gozo
do teu senhor. M as, chegando tam bém o que recebera um talento, disse: Senhor,
eu conhecia-te, que és um homem duro,
(*25) O ser humano está dotado de Autocons­
que ceifas onde não semeaste e ajuntas
ciência e tem de fazer o máximo possível
onde não espalhaste. E, atemorizado, es­ desta circunstância antes que possa se elevar
condi na terra o teu talento; aqui tens o acima dela. Ou, em outras palavras (e para con­
que é teu. R espondendo, porém, o seu verter a proposição num truísmo), ele deve alcan­
senhor, disse-lhe: M au e negligente servo; çar o ápice do nível mental denominado Auto­
sabes que ceifo onde não semeei e ajunto consciência, antes que possa passar para o nível
superior denominado Consciência Cósmica. Na
onde não espalhei. Devias então ter dado
parábola, Jesus diz: Deus deu a cada ser humano
o meu dinheiro aos banqueiros, e, quando as faculdades autoconscientes em várias medi­
eu viesse, receberia o meu com os juros. das; quanto a ele (qualquer dado indivíduo) pas­
Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que sar além da Autoconsciência para o reino dos
tem os dez talentos. Porque a qualquer céus (a Consciência Cósmica), depende não tanto
que tiver será dado, e terá em abundância; da medida dessas faculdades mas do uso que
delas seja feito. Com certeza há muita verdade
mas ao que não tiver até o que tem ser-
nesta proposição. Se, por outro lado, o cultivo
lhe-á tirado. Lançai pois o servo inútil dessas faculdades é negligenciado, o ser humano
nas trevas exteriores; ali haverá pranto e permanece irrem ediavelm ente no nível da
ranger de dentes. [14:25:14-30] (*25) autoconsciência; nele houve, há e sempre haverá
pranto e ranger de dentes.
E dizia: O reino de D eus é assim
(*26) A semente (uma vida de aspiração) tem
como se um homem lançasse semente à
de ser semeada. Não sabemos o que irá
terra. E dormisse, e se levantasse de noite crescer dela - dias e noites passam e em algum
ou de dia, e a semente brotasse e cresces­ momento - na cama, caminhando, viajando, “o
se, não sabendo ele como [15:4:26-27] convidado que há muito espera” aparece. Ver
(*26) acima a mesma parábola, em Mateus.
Dizia-lhes também: Em verdade vos (*27) Há alguns aqui presentes que entrarão
digo que, dos que aqui estão, alguns há em Consciência Cósmica. Para uma
que não provarão a morte sem que vejam pessoa dotada de Consciência Cósmica, parece
chegado o rein o de D eu s com poder simples e certo que outras entrarão também.
[15:9:1], (*27) “Asseguro a qualquer homem ou mulher” (diz
Whitman) “a conquista de todas as dádivas do
universo” [193: 216]
E , se o teu olho te escandalizar, lança-
o fora; melhor é para ti entrares no reino
(*28) Não devemos permitir que nada bloqueie
de D eus com um só olho, do que, tendo
o caminho do adiantamento espiritual.
dois olhos, seres lançado no fogo do
Qualquer coisa é melhor do que continuar no
inferno. Onde o seu germe não morre, e estado meramente autoconsciente, que é cheio
o fogo nunca se apaga. Porque cada um de infortúnios.
será salgado com fogo [15:9:47]. (*28)
(*29) Tentativas de entrar no reino de maneira
A lei e os profetas duraram até João; violenta ou desastrada. Tentativas de
desde então é anunciado o reino de Deus, entrar enquanto ainda autoconsciente apenas .
e todo o hom em em prega fo rça para Como isto é verdadeiro hoje!
entrar nele [16:16:16], (*29)

E , interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respon­
deu-lhes, e disse: o reino de Deus não vem com aparência exterior. N em dirão: Ei-lo
aqui, ou, ei-lo ali; porque eis que o reino
de Deus está dentro em vós [16:17:20-1] (*30) O reino não está fora, mas dentro. É uma
parte (uma faculdade) da mente mesma.
(*30)

E ele lhes disse: Na verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa,
ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de Deus. E não haja de receber
m uito m ais n este m u n d o , e na idade
(*31) Homens dotados de Consciência Cós­
vindoura a vida eterna [16:18:29-30], mica têm geralmente sido desta opinião;
(*31) têm se afastado de seus parentes e, ou não se
têm casado ou têm rompido o laço conjugal -
Jesu s resp o n d eu , e disse-lhe: N a cf. Buda, Jesus, Paulo, Balzac (até o fim de sua
verdade, na verdade te digo que aquele vida), Whitman, Carpenter.
que não nascer de novo, não pode ver o
reino de D eus. D isse-lhe N icodem us: (*32) Esta passagem não parece necessitar de
Com o pode um hom em nascer, sendo comentário. Tal como se apresenta, é tão
clara quanto as palavras podem ser. O advento
velho? porventura pode tornar a entrar
do Sentido Cósmico é um novo nâscimento numa
no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus
nova vida.
respondeu: N a verdade, n a verdade te
digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de
D eus [17:3:3-5]. (*32)

Vistos do presente ponto de vista, os objetivos dos ensinamentos de Jesus


- como os de Gautama - foram dois: (a) Dizer aos seres humanos o que ele
havia aprendido por ter entrado em Consciência Cósmica, coisas que ele
percebeu que era da maior importância que eles conhecessem e (b) guiá-los
para a Consciência Cósmica, ou pelo menos em direção a ela, ou, em suas
próprias palavras, para o reino de Deus.

SUMÁRIO

Neste caso, temos:

a. Algum indício da subitaneidade que é própria do advento do novo sentido.

b. Não há registro definido da luz subjetiva, embora seja impossível dizer o


que realmente significam as palavras “os Céus se rasgaram”, “o Espírito
descendo como uma pomba” e “Uma voz dos céus” . Como a experiência
foi subjetiva, Jesus deve tê-la contado a alguém e talvez ela tenha passado
por diversas mentes antes que as palavras que temos tenham sido escritas,
ninguém (nem mesmo Jesus) tendo qualquer idéia quanto ao significado
da experiência.

c. Presumivelmente, temos a iluminação intelectual.

d. Acentuada elevação moral, embora, lamentavelmente, nada saibamos com


certeza da personalidade de Jesus antes de sua iluminação, quando, como
foi dito acima, ele tinha trinta e três ou trinta e cinco anos de idade.

e. Temos o senso de imortalidade e a extinção do senso do pecado e do medo


da morte.

f. Finalmente, a mudança característica de aparência que acompanha a


presença do Sentido Cósmico, conforme é relatada pelos evangelistas como
a “transfiguração” de Jesus.
PAULO

Que o grande apóstolo tinha o Sentido Cósmico parece tão claro e certo
como César foi um grande general.

Ele foi efetivamente “grande” e um “apóstolo”, porquanto tinha o Sentido


Cósmico - e não por qualquer outra razão.

Em seu caso estão reunidos todos os elementos, tanto de probabilidade


como de prova. Como demonstra seu entusiasmo pela religião em que foi
criado, ele tinha o temperamento devoto que parece sempre formar a matriz
em que a nova vida é preparada para seu nascimento. Na época de sua (supos­
ta) iluminação, ele tinha provavelmente a idade em que o Sentido Cósmico
usualmente se manifesta. Sutherland [171:137] tem o ponto de vista seguinte
a este respeito. Ele diz que Paulo:

N ão poderia ter sido muito mais jovem que Jesus. Era de natureza arrebatada e
im petuosa e, não muito tem po depois da crucificação (talvez dentro de u n s dois
anos), começou a ser notado como um perseguidor dos pequenos grupos de crentes
em Cristo que se reuniam, não somente em Jerusalém, mas em muitos outros lugares.
O mesmo zelo que o tom ou mais tarde um eficiente missionário do cristianismo fez
com que levasse suas perseguições da odiada seita dos “Nazarenos” para além de
Jerusalém, para as cidades e vilas da Judéia e, finalmente, além mesmo das fronteiras
da Palestina. Foi quando estava a caminho da cidade de Damasco, num a pequena
estrada ao nordeste da Palestina, em penhado em ali extirpar a nova heresia, que
ocorreu o extraordinário evento que mudou toda a sua vida.

Ora, se Paulo era - digamos - quatro ou cinco anos mais moço que Jesus,
sua iluminação ocorreu na mesma idade da iluminação de seu grande
predecessor.
Mais uma palavra sobre este último ponto. E um tanto esquisito que
nem o próprio apóstolo nem seu historiador, Lucas - que estava profun-
damente interessado em tudo que se relacionava com sua personalidade -
tenham deixado uma simples referência de que a data do nascimento de
Paulo possa ser deduzida de maneira positiva e definitiva. Falando de sua
vida antes de sua iluminação, entretanto, Paulo diz [18:22:4] : “Persegui
este caminho até à morte, prendendo e metendo em prisões tanto varões
como mulheres”. Um homem tão jovem, a não ser que tivesse nascido em
alguma posição de autoridade, dificilmente teria assumido a postura assim
descrita. Os líderes da principal divisão dos judeus com bem pouca probabi­
lidade iriam empregar um homem jovem como ele. A “conversão” de Paulo
possivelmente aconteceu no ano 33 [144: 45-6], Supondo que ele tenha
nascido pouco antes do ano 1, então, quando A os Filipenses foi escrita - isto
é, A.D. 61 [144: 357-8] - ele teria entre sessenta e sessenta e cinco anos de
idade, o que concordaria muito bem com certas expressões nessa epístola
que dificilmente teriam sido usadas por um homem muito mais jovem. Por
exemplo: “Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e
de estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais
necessário, por amor de vós, ficar na carne”[24:1:23-4], Ao escrever ele
estas palavras, não parece que estava doente, nem em qualquer perigo
decorrente de seu julgamento, que estava então em andamento [144: 357-8],
A perspectiva de morte próxima deve ter sido devida a sua idade naquela
ocasião. Mas se ele tinha, digamos, sessenta e cinco anos em A.D. 61, então
teria trinta e sete na época de sua iluminação. Poderia não ter ainda esta
idade, mas dificilmente poderia ser muito mais moço.

A cronologia da igreja primitiva é muito obscura. Renan [142:163] dá,


como data de nascimento de Paulo, o ano 10 ou o ano 12 A.D.; do apedre­
jamento de Estêvão, 37 e, da “conversão” de Paulo, 38. Assim, Paulo teria
entre vinte e seis e vinte e oito anos quando da ocorrência daquele evento; e
não estaria além de quarenta e nove a cinqüenta e um quando a passagem
acima, em Aos Filipenses, foi escrita. Mas isto, pelas razões apresentadas,
parece extremamente improvável. Pesando todas as probabilidades (pois nada
mais temos), parece provável que Paulo tenha sido cerca de quatro anos
mais jovem que Jesus e que sua iluminação tenha ocorrido mais ou menos
com esta diferença de tempo após a de seu grande predecessor.

n
Temos três relatos distintos do advento de sua nova vida, dois deles
aparente e provavelmente em suas próprias palavras e todos contendo os
elementos essenciais do fato da iluminação, tal como incontestavelmente
conhecido em outros casos. E, em outro lugar [21:12:1-7], temos uma
descrição certamente feita por ele próprio, de certas experiências subjetivas
que por si mesmas seriam uma forte se não convincente evidência do fato da
iluminação; pois é seguro dizer que as palavras ali contidas dificilmente
poderiam ter sido escritas a menos que seu autor tivesse efetivamente
vivenciado a passagem da autoconsciência para a Consciência Cósmica. E
acima de todas essas evidências há um conjunto de escritos deste homem
que repetidamente demonstra a existência nele da faculdade em questão.
Seu comportamento imediatamente após a iluminação é também caracte­
rístico. Tomando o rumo usual, ele se retira por algum tempo numa solidão
mais ou menos completa; se para Hauran, como supõe Renan, ou para a
península do Sinai, como julga Holsten, não importa [84:417], No que se
refere à sua iluminação propriamente - sua “conversão”, o advento da
Consciência Cósmica em seu caso - somos informados [18:9:3-9] de que:

E , indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o


cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu um a voz que lhe dizia:
Ãaulo, &aulo, por que mt persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor:
Cu sou JesuS, a quem tu persegues. [...] Iebanta-te, e entra na cfbabe, e lá te será btto o que te
tonblm lajer. E os varões, que iam com ele, pararam espantados, ouvindo a voz, mas
não vendo ninguém . E Saulo levantou-se da terra e, abrindo os olhos, não via a
ninguém. E, guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco. E esteve três dias sem
ver, e não comeu nem bebeu.

O segundo relato é o seguinte [18:22:6-11]:

O ra aconteceu que, indo eu já de caminho e chegando perto de Damasco, quase


ao meio dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu. E caí por terra e ouvi uma
voz que me dizia: daulo, daulo, por que me persegues? E eu respondi: Quem és, Senhor?
E disse-me: Cu «ou Jeíusí najareno, a quem tu persegues. E os que estavam comigo viram,
em verdade, a luz, [...] mas não ouviram a voz daquele que falava comigo. Então
disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor disse-me: Zebanta-te e baí a fiam asco, e ali St te
blrá tubo o que te i orbenabo la?er. E , como eu não via, por causa do esplendor daquela
luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo e cheguei a Damasco.

E o terceiro relato [18:26:12-18] é como segue:

Sobre o que, indo então a Damasco, com poder e comissão dos principais dos
sacerdotes, ao meio dia, ó rei, vi no caminho um a luz no céu, que excedia o esplendor
do sol, cuja claridade m e envolveu a mim e aos que iam comigo. E, caindo nós todos
por terra, ouvi uma voz que me falava, e em língua hebraica dizia: Ãaulo, ftaulo, por
que me persegues? JBura tofsa te í recalcitrar contra os agullpec. E disse eu: Quem és,
Senhor? E ele respondeu: Cu sou Jeíus, a quem tu persegues. fflai lebanta-te e põe-te Sobre
teus pis, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunfia tonto ba* coisas que
tens bisto tomo baqueias pelas quais te aparecerei afnba. libranbo-te beste pobo e bos gentios,
a quem agora te enbfo, $ara Ifjes abrires os olt)os, e bos trebas os conberteres à luj, e bo pober
be âatanás a Seus.

Estas três narrativas, que concordam suficientemente entre si, cujas leves
discrepâncias têm pouca ou nenhuma importância, dão-nos os fenômenos
sensoriais usuais que quase sempre acompanham o advento do novo sentido.

Segue-se um relato de importância, se possível, ainda maior [21:12:1-7],


Ele traz, em poucas palavras, uma descrição da elevação moral e da ilumi­
nação intelectual de Paulo, durante e logo após sua “conversão”. Diz ele:

E m verdade que nâo convém gloriar- (*1) “Cristo” é o nome que Paulo dá à
me; mas passarei às visões e revelações Consciência Cósmica,
do Senhor. Conheço um homem em Cris­
to (*1) que há catorze anos (se no corpo
nâo sei, se fora do corpo não sei, Deus o sabe) foi arrebatado até ao terceiro céu. E
sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado
ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis
(*2), de que ao hom em não é lícito falar. (»2) Palavras mefáve, ^ tol como whitman:
D e um assim m e gloriarei eu, m as de m im “Quando tenciono dizer o melhor, vejo que
m e s m o n ã o m e g lo ria r e i, s e n ã o n a s não o consigo; minha língua se toma ineficiente,
m in h a s fra q u e z a s . P o r q u e , se q u is e r meu fôlego não obedece o comando de seus
gloriar-m e, não serei néscio, porque direi órgãos;tomo-meumhomemmudo” [193:179].
a v e r d a d e ; m a s d e ix o is to , p a ra q u e
ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve. E, para que me não
exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a
saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de me nâo exaltar.

III

Para completar o caso, resta somente transcrever certos pronunciamentos


de Paulo do ponto de vista do Sentido Cósmico; tais pronunciamentos, fossem
eles os únicos, provariam que o homem de quem procedem era possuidor do
Sentido Cósmico, pois, sem este último, os pronunciamentos não poderiam
ter sido feitos.

Dizemo-vos pois, isto pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos
para a vinda do Senhor, nâo precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor
descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os
que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos,
seremos arrebatados juntam ente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares,
e assim estaremos sempre com o Senhor.
(*1) As usuais assertivas de imortalidade,
Portanto, consolai-vos uns aos outros com
próprias da Consciência Cósmica.
estas p alav ras [2 6 :4 :1 5 -1 8 ]. (* 1 )
(*2) No que se refere a seu “Evangelho”, Paulo
M as faço-vos saber, irm ãos, que o
foi instruído apenas pelo Sentido Cósmico.
evangelho (*2) que por mim foi anun­
ciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum,
mas pela revelação de Jesus Cristo [22:1:11-12].

M as, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e
me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os
gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem tomei a Jerusalém, a ter com os
que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a
Damasco [22:1:15-17]. (*3)

Cristo nos resgatou da maldição da (*3) Ele sabia, entretanto, o bastante sobre Jesus
lei, fazendo-se maldição por nós; porque e seus ensinamentos, para poder reconhecer
está escrito: Maldito todo aquele que for (quando isto lhe veio) que os ensinamentos do
Sentido Cósmico eram praticamente idênticos
pendurado no madeiro [22:3:13]. M as,
aos ensinamentos de Jesus.
antes que a fé viesse, estávamos guarda­
dos debaixo da lei, e encerrados para (*4) Cristo é o Sentido Cósmico concebido
aquela fé que se havia de manifestar. De como uma entidade ou individualidade
maneira que a lei nos serviu de aio, para distinta. E aquela que de fato redime a todo aque­
le a quem chega da “maldição da lei” - isto é, da
nos conduzir a Cristo, para que pela fé
vergonha, do medo e do ódio que são próprios
fôssem os justificados. M as, depois que da vida autoconsciente. Paulo parece supor um
a fé veio, já não estamos debaixo de aio. batismo para a Consciência Cósmica (Cristo).
Porque todos sois filhos de Deus pela fé Indubitavelmente existe esse batismo; mas onde
em Cristo Jesus. Porque todos quantos estão os sacerdotes capazes de ministrá-lo?
fostes batizados em Cristo, já vos reves­
(*5) A “ liberdade” do Sentido Cósmico é
tistes de Cristo[22:3:23-27], (*4) suprema. Absolve o ser humano de seu ego
anterior e torna impossível uma futura escra­
E stai pois firm es na liberdade com
vidão.
que Cristo nos libertou [...] [22:5:1]. (*5)
(*6) Paulo ama e valoriza a liberdade tão
Porque vós, irmãos, fostes chamados intensamente como o moderno americano
à liberdade [22:5:13]. (*6) W alt W hitm an. Ambos sabiam (o que,
lamentavelmente, poucos sabem) o que é a
M as o fruto do espírito é: caridade*, verdadeira liberdade.
gozo, paz, longanimidade, benignidade,
b o n d ad e, fé, m an sid ão , tem p eran ça. (*7) Onde se lê “Espírito” e “Cristo”, deve-se
Contra estas coisas não há lei. E os que entender C onsciência Cósm ica. C.f.
M.C.L., infra, “O santo sopro mata a luxúria,
são de Cristo crucificaram a carne com
etc.” e o Bhagavadgita: “Mesmo o gosto por
as suas p aixões e c o n c u p isc ên c ia s objetos dos sentidos desaparece daquele que viu
[22:5:22-24], (*7) o supremo”.
* N.T. - Amor, no original.
Porque em Cristo Jesus nem a cireun- (*8) No dizer de Balzac: “A segunda exis-
cisão nem a incircuncisão tem virtude tência”. [5:100]
alguma, mas sim o ser uma nova criatura [22:6:15], (*8)

Todavia falam os sabedoria entre os perfeitos; não, porém , a sabedoria deste


mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam; mas falamos a sabedoria
de D eus, oculta em mistério, a qual Deus
ordenou antes dos séculos para nossa (*9) Ele fala do ponto de vista do Sentido Cós-
glória; a qual nenhum dos príncipes deste mico, que estava paia vir quando omomen-
mundo conheceu [...] [20:2 :6-8]. (*9) to estivesse maduro e que veio então para ele.

[...] porque o espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de D eus.


Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão 0 espírito do homem, que
nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.
[...] para que pudéssemos conhecer o que
(*10) Paulo é informado, não pela mente
nos é dado gratuitamente por Deus (*10). humana (a autoconsciente) mas pelo
As quais também falamos, não com pala­ espírito de Deus (Consciência Cósmica); ne­
vras de sabedoria hum ana, mas com as nhum homem meramente autoconsciente pode
que o Espírito Santo ensina, comparando julgá-lo, tanto quanto um animal (dotado apenas
as coisas espirituais com as espirituais. de consciência simples) não pode julgar um
homem (autoconsciente).
O ra, o hom em natural não compreende
as coisas do espírito de Deus, porque lhe (*11) O homem meramente autoconsciente não
pode ser levado a compreender as coisas
parecem loucura; e não pode entendê-las,
vistas pelo Sentido Cósmico. Estas coisas, se
porque elas se discernem espiritualmen­ apresentadas, parecem tolas a ele. Mas aquele
te. M as o que é espiritual discerne bem que tem o Sentido Cósmico (sendo, naturalmen­
tudo, e ele de ninguém é discernido. Por­ te, também autoconsciente) é capaz de julgar
que, quem conheceu a mente do Senhor, “todas as coisas” - isto é, as coisas de ambas as
para que possa instruí-lo? M as nós temos regiões. Paulo não poderia portanto falar aos
Coríntios como gostaria de ter feito, pois eles
a mente de Cristo. E eu, irmãos, não vos não tinham Consciência Cósmica.
pude falar como a espirituais, mas como
a carnais, com o a m eninos em Cristo. (*12) Paulo diz que a sabedoria da autoconsciên­
cia não é sabedoria para aqueles que têm
Com leite vos criei, e não com manjar; o Sentido Cósmico; e a sabedoria destes últimos
porque ainda não podíeis nem tão pouco é loucura para os meramente autoconscientes.
ainda agora podeis. P orque ainda sois
(*13) Compare-se o poema de Whitman To
carnais [...] [20:2:10-16 e 3:1-3], (*11) Rich Givers (A Dadores Ricos) [193:
216]. “O que me dás aceito alegremente, um pe­
N inguém se engane a si mesmo; se queno sustento, uma cabana e um jardim, um
alguém dentre vós se tem por sábio neste pouco de dinheiro enquanto me encontro com
m undo, faça-se louco p ara ser sábio. meus poemas, a hospedagem a um viajante e um
Porque a sabedoria deste mundo é loucura desjejum, enquanto através dos estados viajo. Por
que deveria eu me envergonhar de tais dádivas
diante de Deus [...] [20:3:18-19]. (*12)
possuir? Por que deveria eu anunciá-las? Pois
eu próprio não sou alguém que não dá nada a
Se nós vos semeamos as coisas espi­
homem e a mulher, porquanto dou a qualquer
rituais, será muito que de vós recolhamos homem ou mulher o acesso a todas as dádivas
as carnais? [20:9:11]. (*13) do universo.”
Porque, se anuncio o evangelho, não (*14) Esta parece ser a experiência de todas
tenho de que m e gloriar, pois me é impos- 38 Pessoas 9ue tiveram o Sentido Cós-
ta essa obrigação [...]. [20:9:16] (*14) mico, tanto em grau maior como menor. Assim,
diz Blake: “Escrevi este poema (Jerusalém) sem
premeditação e mesmo contra minha vontade. Assim também Behmen “se impressionou com a
necessidade de escrever o que viu”, embora escrever não lhe fosse nada fácil.

A inda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e nâo tivesse caridade*,
seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de
profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a
fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria. E
ainda que distribuísse toda a m inha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que
entregasse o m eu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me
aproveitaria. A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade
não trata com leviandade, não se envaidece. Não se porta com indecência, não busca
os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas
folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade
nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, desaparecerá. Porque, em parte, conhecemos, e em parte profeti­
zamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como
m enino , m as, logo que cheguei a ser
homem, acabei com as coisas de menino. (*15) Uma esplêndida exposição da moralidade
P o rq u e agora vem os por espelho em própria da Consciência Cósmica. O
enigma, mas então veremos face a face; mesm0 esPírito pode ser constatado em todos os
. x 4.- casos -m as vejamos especialmente [193:2731:
agora conheço em parte, mas entao co- , J . , , -
, ’ , , , ., Concede-me o pagamento pelo qual servi,
nhecerei como tam bem sou conhecido. concede_me cantar a cançâo da &anáe idéia.
Agora, pois, perm anecem a fé, a espe- toma tudo o mais; amei aterra, o sol, os animais,
rança e a caridade, estas três, mas a maior desprezei as riquezas, dei esmola a todos que
destas é a caridade [20:13:1-13], (*15) pediram, defendi os tolos e os loucos, devotei
minha renda e meu trabalho aos outros”.
P orque, assim com o todos morrem
em A dão, assim tam bém todos serão (*16) Uma comparação entre os estados auto-
vivificados em Cristo. M as cada um por consciente e Cosmicamente consciente.
, ^ , , . , A Autoconsciência - diz ele o estado Adâmico
sua ordem: Cristo, as primícias; depois , ~ .. „
r . - e uma condição de morte. Com Cnsto come-
os que sao de Cristo, na sua vinda. Depois ça a verdadeira vida, que irá se espalhar e se tor-
virá o fim, quando tiver entregado o reino nar universal; este é o fim da velha ordem. Depois
a Deus, ao Pai, e quando houver aniqui- disso não haverá mais “regra”, “autoridade” ou
lado todo o império, e toda a potestade e “poder”; todos serão livres e iguais. “O anjo, le-
força [20:15:22-24], (*16) vadono vento, nâo disse ‘Vós, mortos, levantai-
vos’; disse ‘Levantai-vos, vós viventes’ ” [5:145]
Eis aqui vos digo um mistério: N a verdade, nem todos dormiremos, m as todos
seremos transformados. N um mom ento, num abrir e fechar de olhos, ante a última
trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós
serem os transform ados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da

*N.T. - Em todo o contexto, amor, no original.


incorruptibilidade, e que isto que é mortal (*17) Expressa o senso da imortalidade que é
se revista da imortalidade. E, quando isto próprio da Consciência Cósmica. Com­
que é corruptível se revestir da incorrupti­ paremos [193 :77]: “Há aquilo em mim - não
bilidade e isto que é mortal se revestir sei o que possa ser - mas sei que está em mim.
da imortalidade, então cumprir-se-á a pa­ Desgraçado e suado - calmo e frio então meu
corpo se tom a. Durmo. Durmo longamente. Não
lavra que está escrita: Tragada foi a morte
o conheço - ele não tem nome - é uma palavra
na vitória. [20:15:51-54] (*17)
que não foi dita - não está em qualquer dicio­
nário, elocução ou símbolo. AJgo em que roda mais do que a terra em que eu rodo, disso a criação
é o amigo cujo abraçar me acorda. Talvez eu possa dizer mais. Esboços! Rogo pelos meus irmãos e
irmãs. Vedes vós, ó irmãos e irmãs? Não é o caos ou a morte; é forma, união, plano - é vida eterna
- é felicidade”.

Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa,
o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e m om entânea
tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente. N ão atentando
nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são
temporais e as que se não vêem são eternas. Porque sabemos que, se a nossa casa
terrestre deste tabernáculo se desfizer, tem os de D eus um edifício, um a casa não
feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também gememos, desejando ser revestidos
da nossa habitação, que é do céu; se, todavia, estando vestidos, não formos achados
nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados;
não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido
pela vida [21:4:16-18 e 21:5:1-4], (*18)
(*18) Paulo contrasta o ego com a vida Cos-
Assim que, se alguém está em Cristo, micamente Consciente. Sua consciência
nova criatura é: as coisas velhas já passa­ da vida etema é claramente colocada.
ram; eis que tudo se fez novo [21:5:17], (*19) Nenhuma expressão poderia ser mais
(*19) adequada, mais perfeita. O ser humano
que entra em Consciência Cósmica é realmente
Portanto agora nenhuma condenação
uma nova criatura e todo o seu ambiente “se tor­
há para os que estão em Cristo Jesus [...]. na novo” - adquire nova aparência e novo signi­
Porque a lei do espírito de vida, em Cristo ficado. A pessoa dá a volta para o outro lado das
Jesus, m e livrou da lei do pecado e da coisas, por assim dizer; elas são as mesmas, mas
morte. Porquanto o que era impossível à também inteiramente diferentes. “As coisas não
lei, visto como estava enferma pela carne, são deslocadas dos lugares que antes ocupavam.
Deus, enviando o seu Filho em semelhan­ A terra é tão positiva e direta como era antes.
Mas a alma também é real; também ela é positiva
ça da carne do pecado, pelo pecado con­
e direta; nenhum raciocínio, nenhuma prova esta­
denou o pecado na carne. Para que a ju s­ beleceu isto; foi o inegável crescimento que o
tiça da lei se cumprisse em nós, que não estabeleceu [193:180].
andamos segundo a carne, mas segundo
o espírito. Porque os que são segundo a (*20) Na Consciência Cósmica não há absolu­
carne inclinam-se para as coisas da carne; tamente nenhum senso de pecado nem
mas os que são segundo o espírito para de morte; a pessoa sente que esta última é apenas
um incidente na continuidade da vida. O ser
as coisas do espírito. Porque a inclinação
humano meramente autoconsciente não pode,
da carne é m orte; m as a inclinação do pelo cumprimento da “lei” ou de qualquer outro
espírito é vida e paz. Porquanto a incli­ modo, destruir quer o pecado, quer o senso do
nação da carne é inimizade contra Deus pecado, mas “Cristo” - isto é, o Sentido Cósmico
[...]. [19:8:1-7] (*20) - pode destruir e destrói a ambos.
O mesmo Espírito testifica com o (*21) Todos os seres humanos que têm Cons­
nosso espírito que somos filhos de Deus. ciência Cósmica estão no mesmo nível
E, se nós somos filhos, somos logo espiritual, no mesmo sentido em que todos que
herdeiros também, herdeiros de Deus e são autoconscientes são seres humanos - per­
tencem à mesma espécie.
co-herdeiros de Cristo: se é certo que com
ele padecemos, para que também com ele
sejamos glorificados [19:8:16-17]. (*21) (*22) Paulo fala da glória e da alegria da vida
Cosmicamente Consciente que ora nasce
no horizonte do mundo, em comparação com o
Porque para mim tenho por certo que
estado autoconsciente já anteriormente universal.
as aflições deste tempo presente não são
“Vistas de glória”, diz Whitman, “incessantes e
para comparar com a glória que em nós ramificando”. “Alegria, sempre alegria”, diz
há de ser revelada . Porque a ardente ex­ Elukhanam. “Alegria, começando mas sem fim”,
pectação da criatura espera a m ani­ diz E.C. “Quando tiveres uma vez sentido ”, diz
festação dos filhos de Deus. Porque a Seraphita (isto é, Balzac), “o deleite da embria­
criação ficou sujeita à vaidade, não por guez divina (iluminação), então tudo será
sua vontade, mas por causa do que a teu”[7:182]. Comparemos também os extratos
sujeitou. Na esperança de que também a seguintes, de Behmen, nos quais ele, da mesma
mesma criatura será libertada da servidão maneira que Paulo, contrasta o Ego com a vida
Cosmicamente Consciente: “O mundo exterior
da corrupção, para a liberdade da glória
ou a vida exterior não é um vale de sofrimento
dos filhos de Deus. Porque sabemos que
para aqueles que a desfrutam, mas somente para
toda a criação geme e está juntamente aqueles que sabem de uma vida superior. O
com dores de parto até agora. E não só animal desfruta a vida animal; o intelecto, o reino
ela, mas nós mesmos, que temos as intelectual; mas aquele que entrou em rege­
primícias do Espírito, também gememos neração reconhece sua existência terrena como
em nós mesmos, esperando a adoção, a um peso e uma prisão. Com este reconhecimento,
saber, a redenção do nosso corpo ele toma sobre si mesmo a cruz de Cristo
[19:8:18-23] (*22) [97:325].

E sabemos que todas as coisas con­ “O homem santo e celestial, escondido no


tribuem juntamente para o bem daqueles homem monstruoso (o exterior), está no céu
que amam a Deus, daqueles que são tanto quanto Deus; e o céu está nele; e o cora­
ção ou a luz de Deus é gerada nele e nasce
chamados por seu decreto [19:8:28]. Por­
nele. Assim é Deus nele e ele em Deus. Deus
que estou certo de que, nem a morte, nem
está mais perto dele do que seu corpo animalesco
a vida, nem os anjos, nem os principados, [97:326]
nem as potestades, nem o presente, nem
o porvir, nem poderes, nem a altura, nem
a profundidade, nem alguma outra cria­ (*23) Uma expressão do otjpiismo próprio da
Consciência Cósmica. Comparemos
tura nos poderá separar do amor de Deus
Whitman: “Omnes! Omnes! Que os outros igno­
[19:8:38-39]. Eu sei, e estou certo no Se­
rem o que queiram, faço o poema do mal
nhor Jesus, que nenhuma coisa é de si também, comemoro essa parte também. Sou, eu
mesma imunda a não ser para aquele que mesmo, tanto o mal quanto o bem; como também
a tem por imunda: para esse é imunda minha nação é, e eu digo que não há de fato
[19:14:14]. (*23) nenhum mal” [193:22].
Em suma, temos neste caso:

a. A característica subitaneidade própria do advento do Novo Sentido. O


novo nascimento tem lugar num dado lugar e momento.

b. Temos a luz subjetiva manifesta de maneira clara e muito fortemente.

c. Temos a iluminação intelectual de caráter muito pronunciado.

d. Temos uma exaltação moral marcada muito fortemente.

e. Temos a convicção, o senso da imortalidade, a extinção do sentido do


pecado e a extinção do medo da morte.
PLOTINO

PLOTINO nasceu em 204 A.D. e faleceu em 274.

Plotino dizia que, para se aperfeiçoar (*1) “Quando, para um homem que com­
o conhecimento, o sujeito e o objeto têm preende, o Eu se tomou todas as coisas”
de estar unidos - que o agente inteligente [150:312]
e a coisa entendida... não podem estar
separados [55:716], (*1) (*2) “Objetos grosseiros e alma invisível são
uma só coisa”[193:173]. “A percepção
Ele sustentava que, para se aperfei­ parece ser tal que nela todos os sentidos se unem
çoar o conhecimento, o sujeito e o objeto num só sentido. Tal que nela vós vos tornais o
têm de estar unidos [85:716]. (*2) objeto” [63].

Segue aqui uma carta:

De Plotino a Flaccus [188:78-81]

Aplaudo tua dedicação à filosofia: Alegro-me em saber que tua alma se tenha
posto a viajar, como Ulisses em regresso, à sua terra natal - àquele glorioso país,
àquele único país real - o mundo da verdade não vista. Para seguir a filosofia, o
senador Rogatianus, um dos mais nobres dentre meus discípulos, desfez-se outro dia
de todo o seu patrimônio, libertou seus escravos e dispensou todas as honras de sua
posição.

Notícias têm chegado a nós de que Valeriano foi derrotado e está agora nas mãos
de Sapor. As ameaças de Francos e Alemães, de Godos e Persas, são igualmente
terríveis, sucessivamente, para nossa degenerada Roma. Em diás como estes, repletos
de incessantes calamidades, os motivos para uma vida de contemplação são mais do
que nunca fortes. Mesmo minha tranqüila existência parece agora tornar-se algo
sensível ao avanço dos anos. Só a idade não consigo excluir do meu retiro. Já estou
cansado desta morada-prisão, o corpo, e ^*3^ ^ noção da continuidade da vida. “E
calmamente aguardo o dia em que a natu- quanto a ti, morte, e a ti, amargo pulmão
reza divina dentro de mim seja libertada da mortalidade, é inútil tentarem me alarmar”
da matéria. (*3) [193:77]
Os sacerdotes egípcios costumavam dizer que um simples toque com a asa de
seu pássaro sagrado podia encantar o crocodilo num torpor; não será assim tão
velozmente, meu prezado amigo, que as penas de tua alma terão poder para aquietar
o corpo indómito. A criatura só cederá à vigilante e extenuante constância do hábito.
Purifica tua alma de toda esperança e todo medo indevidos acerca de coisas terrenas,
m ortifica o corpo, nega teu ego - as afeições, bem com o os apetites - e o olho
interior começará a exercer sua visão clara e solene.

Pedes que te digamos como sabemos e qual é o nosso critério de certeza. Escrever
é sempre maçante para mim. M as às contínuas solicitações de Porfirio eu não devia
ter deixado um a linha que me sobrevivesse. Para teu próprio bem e o do teu pai,
m inha relutância será superada.

Objetos externos nos apresentam apenas aparências. A respeito deles, portanto,


pode-se dizer que temos opinião, ao invés de conhecimento. As distinções no mundo
real de aparência são importantes somente para os homens comuns e práticos. Nosso
problema está na realidade ideal que existe por trás da aparência. Como percebe a
m ente essas idéias? Estão elas fora de nós, e está a razão, tal com o a sensação,
ocupada com objetos externos a ela mesma? Que certeza teríamos nós então, que
segurança haveria de que nossa percepção fosse infalível? O objeto percebido seria
um algo diferente da mente que o percebesse. Deveríamos então ter um a imagem ao
invés de realidade. Seria monstruoso crer, por um momento sequer, que a mente não
fosse capaz de perceber a verdade ideal exatamente como ela é, e que nâo tivéssemos
certeza e real conhecimento a respeito do mundo da inteligência. Segue-se, portanto,
que essa região da verdade nâo deverá ser investigada como um a coisa externa a nós
e, assim, só imperfeitamente conhecida. Ela está dentro de nós. Aqui os objetos que
contem plam os e aquilo que contem pla são idênticos - ambos são pensam ento. O
sujeito não pode seguramente conhecer um objeto diferente de si mesmo. O mundo
das idéias repo u sa dentro de nossa inteligência. A verdade, portanto, não é a
concordância de nossa apreensão de um objeto externo com o próprio objeto. E a
concordância da mente consigo mesma. Logo, a consciência é a única base de certeza.
A mente é sua própria testemunha. A razão vê em si mesma aquilo que está acima
dela própria como sua fonte; e, por outro
lado, aquilo que esta abaixo dela própria, (*4) “O mundo das idéias divide-se em três esfè-
m ais um a vez com o ainda ela m esm a. ras - a do instinto; a das abstrações; a do
especialismo” [5:141] Compare-se Bacon: “A
O c o n h e c im e n to te m trê s g ra u s - primeira criatura de Deus no trabalho dos dias
opinião, ciência, ilum inação. (* 4 ) O m eio foi a luz do sentido’ a ültima>a '_uz da razâ0’ e
Seu trabalho de Sábado, desde então, é a Ilumina-
ou instrum ento do primeiro é o sentido;
, ,, . . ção de Seu Espírito”[35:821. Plotino, Bacon e
do segundo, a dialética; da terceira, a in- Ba,za£ ens|nam^ todos eles (e qualquer pessoa
tuição. Â últim a subordino a razão. Trata- qUe tenha tido a experiência concordará com
se de conhecim ento absoluto fundado n a eles) que existe um intervalo tão grande entre
identidade da m ente que conhece com os Consciência Cósmica e Autoconsciência como
objetos conhecidos. entre a última e a Consciência Simples.
H á um irradiar de todas as ordens de existência, um a emanação externa do Um
inefável. M as há um impulso de retomo, atraindo tudo para cima e para dentro, em
direção ao centro de onde tudo proveio. O amor, como diz lindamente Platão no
Banquete, é filho da pobreza e da abundância. N a busca amorosa da alma pelo bem
repousa o doloroso senso de queda e de perda.

M as esse am or é benção, é salvação, é nosso gênio guardião; sem ele, a lei


centrífuga seria mais poderosa que nós e levaria nossas almas para bem longe de sua
fonte, em direção às frias extremidades do material e da multiplicidade. O homem
sábio reconhece a idéia do bem dentro dele. Isto ele desenvolve por recolhimento ao
lugar santo de sua própria alma. Aquele que nâo compreende como a alma contém o
belo dentro si mesma, procura apreender a beleza fora, por laboriosa produção. Seu
propósito deveria ser de preferência concentrar-se e simplificar e assim expandir o
seu ser; ao invés de sair para a multiplicidade, abandoná-la pelo U m , e assim flutuar
para o alto em direção à fonte divina do ser cuja corrente flui dentro dele.

Perguntas: como podemos conhecer o Infinito? Eu respondo: nâo pela razão. É


função da razão distinguir e definir. O Infinito, portanto, não pode ser classificado
entre seus objetos. Só podes apreender o Infinito por uma faculdade superior à razão,
entrando num estado em que não mais és o teu ego finito - em que a essência divina
é comunicada a ti. Isto é êxtase [Consciência Cósmica], É a libertação de tua mente
de sua consciência finita. O semelhante só pode apreender o sem elhante; quando
assim cessas de ser finito, tomas-te uno com o Infinito. N a redução de tua alma a seu
mais simples E u , a sua essência divina, tom as consciência dessa união - dessa
identidade.

M as esta sublime condição não tem (*5) Plotino (conforme ele nos diz) teve três
duração permanente. Somente (*5) de vez períodos de iluminação na época em que
em quando podemos desfrutar essa ele­ escreveu esta carta a Flaccus - isto é, quando
tinha cinqüenta e seis anos de idade. Somos
vação (misericordiosamente possibilitada
informados por Porfírio de que entre a idade de
a nós) acima dos limites do corpo e do
cinqüenta e nove e de sessenta e quatro (isto é,
mundo. E u mesmo só tomei consciência durante os seis anos das relações entre eles) ele
dela por três vezes até agora, enquanto teve quatro períodos, totalizando pelo menos
Porfírio, até o mom ento, nenhum a vez. sete. Deve-se notar que aquilo que Plotino diz
Tudo o que tenda a purificar e elevar a quanto ao que ajuda na passagem para a
mente há de te assistir nesta consecução Consciência Cósmica é exatamente o que é
ensinado por todos aqueles que a alcançaram -
e facilitar a aproximação e a recorrência
por Gautama, Jesus, Paulo e os demais.
desses felizes intervalos. Há, então, dife­
rentes cam inhos pelos quais essa meta pode ser alcançada. O am or à beleza que
exalta o poeta; a devoção ao Absoluto e a ascensão da ciência que fazem a ambição
do filósofo, e o amor e as orações pelos quais alguma devota e ardente alm a tende
para a perfeição em sua pureza moral. Estas são as grandes estradas que conduzem à
altura acima do real e do particular, na qual nos encontramos na presença imediata
do Infinito, que brilha como das profundezas da alma.
A passagem seguinte [83:336] pode ser tomada como um resumo razoável
da filosofia de Plotino tal como entendida pelos neoplatônicos:

As alm as hum anas que desceram para a corporalidade são aquelas que se
permitiram seduzir pela sensualidade e dominar pela luxúria. Elas agora procuram
se apartar de seu verdadeiro ser; e, lutando por independência, assumem um a falsa
existência. Precisam voltar atrás nisso e, como não perderam sua liberdade, um a
conversão ainda é possível.

Aqui, então, entramos na filosofia prática. Pela mesma estrada por onde desceu
deve a alma refazer seus passos de volta ao supremo Bem. Primeiro que tudo deve
retom ar a si própria. Isto é conseguido pela prática da virtude, que tem por m eta a
semelhança com D eus e que leva a Deus. N a ética de Plotino, todos os esquemas de
virtude mais antigos são tomados e arranjados numa série graduada. O estágio mais
baixo é o das virtudes civis; seguem-se as purificadoras e, em último lugar, as virtudes
divinas. As virtudes civis apenas adornam a vida, sem elevar a alma. Isto é a função
das virtudes purificadoras, pela qual a alma é libertada da sensualidade e levada de
volta a si mesma e daí para nous. Por meio de práticas ascéticas, o homem se torna
um a vez mais um ser espiritual e duradouro, livre de todo pecado. M as há ainda uma
consecução superior; não basta ser sem pecado; é necessário tomar-se “D eus”. Isto é
alcançado mediante contemplação do Ser Primevo, o Absoluto; ou, em outras palavras,
através de um a aproximação extática. O pensam ento não pode alcançar isto, pois
chega somente até nous e é ele próprio um a espécie de movimento. O pensamento é
um mero preliminar para a comunhão com Deus. E somente num estado de perfeita
passividade e repouso que a alma pode reconhecer e tocar o Ser primevo. Logo, para
essa consecução superior, a alm a tem de passar por um curriculum espiritual.
C om eçando com a contem plação das coisas corpóreas em sua m ultiplicidade e
harm onia, retira-se para dentro de si própria e se recolhe às profundezas de seu
próprio ser, ascendendo daí para nous, o mundo das idéias. Mesmo lá, porém, não
encontra o Mais Alto, o Absoluto; ainda ouve uma voz, dizendo, “Nâo fizemos a nós
mesmos”. O último estágio é alcançado quando, na mais alta tensão e concentração,
contemplando em silêncio e extremo esquecimento de todas as coisas, é ela capaz,
por assim dizer, de perder a si mesma. Então poderá ver D eus, a fonte da vida, a
fonte do ser, a origem de todo bem, a raiz da alma. N esse momento ela desfruta a
mais alta e indescritível bem-aventurança, em que é como que engolfada de divindade,
banhada na luz da eternidade.

SUMÁRIO

O autor deste livro só conseguiu aprender um pouco da vida de Plotino.


Faltam-nos também detalhes de sua iluminação além do que ele nos diz na
carta acima citada. Mas sua própria menção dos três “felizes intervalos”, o
que ele diz da “sublime condição” e o caráter de sua filosofia demonstram
com segurança que ele foi um caso genuíno de Consciência Cósmica. Lamen­
tavelmente, sua idade no momento de sua primeira iluminação não é co­
nhecida. Plotino, entretanto, tendo nascido em 204, tendo começado o estudo
de filosofia no ano 232, com a idade de vinte e oito, e tendo escrito a carta
acima em 260, aos cinqüenta e seis anos (foi nesse ano que Valeriano foi
feito prisioneiro por Sapor), provavelmente devia estar entre trinta e quarenta
anos no momento de sua primeira iluminação.
MAOMÉ

Nasceu em 570. Faleceu em 632.


Este caso, tanto no detalhe como no conjunto, é maravilhosamente
completo. O desprezo nutrido para com este homem pelos cristãos é tão
meritório para eles quanto o correspondente desprezo nutrido para com Jesus
pelos muçulmanos é meritório para estes. Maomé nasceu na tribo deKoreish,
em agosto, no ano 570. Sua herança foi de cinco camelos e uma escrava. Seu
pai faleceu antes de seu nascimento e sua mãe quando ele tinha seis anos de
idade. Como menino e como jovem, ganhava seu sustento tomando conta de
ovelhas e cabras.
Mais tarde se tornou condutor de camelos. Na idade de vinte e cinco,
casou-se com Cadijah, que tinha quarenta anos. Essa união foi altamente
feliz. Ele era um homem honesto e correto, inatacável em seus relacionamen­
tos domésticos e universalmente estimado por seus concidadãos, que lhe
outorgaram o cognome de ElAmin - “o confiável”. “Maomé era um homem
de estatura média, mas de presença imponente; bastante magro mas com
ombros largos e peito amplo; cabeça grande, rosto franco e ovalado, de pele
clara, olhos negros inquietos, longas e espessas pestanas, nariz proeminente
e aquilino, dentes brancos e barba cheia e espessa.... Era um homem de
constituição altamente nervosa, pensativo, inquieto, tendente à melancolia e
de extrema sensibilidade, sendo incapaz de suportar o mais leve odor desagra­
dável ou a menor dor física. .. .Era simples em seus hábitos, bondoso e cortês
em suas maneiras e de conversa agradável”. [152:19-20]
Parece que Maomé fora, como jovem e homem de meia-idade, antes de
sua experiência no Monte Hara, sério, devoto e profundamente religioso.
Parece também (como já foi dito) que esta constituição mental é um pré-
requisito essencial para se alcançar a Consciência Cósmica. Ele percebeu
claramente que a religião de seus conterrâneos estava longe de estar numa
condição satisfatória e lhe pareceu que o momento para uma reforma ou
para um novo começo havia chegado.
Somos informados de que ele se afastou gradualmente da sociedade e procurou a
solidão de um a caverna no M onte H ara (cerca de três léguas ao norte de M eca),
onde, emulando os eremitas cristãos do deserto, passava dias e noites empenhado
em orações e meditação... Tornou-se sujeito a visões, êxtases e transes... Por fim ,
segundo se diz, aquilo que estivera até então oculto em sonhos se tornou manifesto e
claro por um a aparição angélica e um a anunciação divina.

Foi no quadragésimo ano de sua vida que ocorreu essa famosa revelação. Escritores
muçulmanos nos dão relatos a seu respeito, como se a tivessem recebido dos próprios
lábios de M aom é e há alusões a ela em certas passagens do Alcorão. Como era de
seu costum e, ele estava passando o m ês de R am adã na caverna do M onte H ara,
tentando, por m eio de jeju m , de oração e de m editação solitária, elevar seus
pensamentos à contemplação da verdade divina.

Foi na noite que os árabes chamam de A l Kader, ou O Decreto Divino; uma noite
em que, segundo o Alcorão, anjos descem à Terra e Gabriel traz os decretos de Deus.
Durante essa noite há paz na Terra e um a quietude santa reina sobre toda a natureza
até o amanhecer.

Quando M aom é, na silenciosa vigília da noite, estava deitado, envolto em seu


manto, ouviu um a voz que o chamava. Quando descobriu a cabeça, uma onda de luz
irrompeu sobre ele num esplendor tão insuportável que ele desmaiou. Ao recuperar
os sentidos, viu um anjo numa forma humana que, aproximando-se a certa distância,
mostrou um tecido de seda coberto de caracteres escritos. “leia!" disse o anjo. “Não
sei ler!”- respondeu Maomé. "leíal" - repetiu o anjo - “em nome bo Ãettfjor que criou
tobaí as toftas; que criou o bomem be um coágulo bt «angue. leia, em nome bo SltíMfoio, que
eníínou ao bomem o uío ba pena, que bertama em <ua alma o raio bo conhecimento e Uji ensina
aquilo que ele anteí não tafcía”.

Com isso Maomé sentiu instantaneamente seu discernimento iluminado com luz
celestial e leu o que estava escrito no pano, que continha o decreto de Deus, conforme
foi posteriormente promulgado no Alcorão. Quando terminou, o mensageiro celestial
anunciou: “0 , íHaomí. em berbabe ís o profeta be fietuít < eu (ou deu lãnjo gataieir

Diz-se então que M aomé voltou tremendo e agitado para Cadijah, pela manhã,
sem saber se o que ouvira e vira fora efetivamente verdadeiro e se ele era um profeta
decretado para levar a efeito a reforma que por tanto tempo havia sido o objeto de
suas meditações, ou se não poderia ser um a mera visão, um engano dos sentidos ou,
pior ainda, a apariçãó de um espírito mau [102:32-3].

No caso de Maomé, a Iluminação aconteceu no mês de abril, ou por volta


deste mês. Ocorreu no mês árabe de Ramadã (82a:553). Ora, no primeiro
ano após a Hégira, este mês caía em nosso mês de dezembro. Mas o ano
maometano tem dez dias a menos do que o tempo realmente gasto pela rotação
da Terra em sua órbita. Está claro, portanto, que qualquer data maometana
deva cair dez dias mais cedo, ano após ano. A Hégira ocorreu doze anos após
a iluminação de Maomé. Então, se o mês de Ramadã correspondeu a dezembro
logo depois da Hégira, deve ter correspondido a abril na época da iluminação
do profeta. Essa iluminação, portanto, deve ter acontecido em abril.

Se Maomé foi um caso de Consciência Cósmica, este fato deve transparecer


claramente nos escritos que ele deixou para o mundo. Será que transparece?
Na verdade, esses escritos não são facilmente compreendidos numa tradução
para inglês e do ponto de vista ocidental moderno. Notem-se, por exemplo,
as observações de um leitor que pode ser considerado competente para apreciar
uma obra como o Alcorão. Diz Carlyle a respeito dela [59:295]: “É a leitura
mais trabalhosa que já fiz. Uma mixórdia enfadonha e confusa, com
infindáveis e desordenadas repetições, grande prolixidade, complicada; em
suma, uma insuportável tolice” e assim por diante.

Mas apesar disso tudo, mesmo multiplicado milhares de vezes, devemos


considerar que a grandeza, o poder, a espiritualidade do livro, são comprova­
dos pelos resultados que ele produziu no mundo. Nenhum efeito pode ser
maior do que sua causa e neste caso tem de ser admitido que o efeito (a
elevação espiritual de muitos milhões de pessoas por muitas gerações) foi
enorme. Além disso, parece ao autor deste livro que, apesar da indubitável
dificuldade acima referida, quase qualquer leitor imparcial pode perceber
por si próprio, numa leitura atenta do Alcorão, que este tem grandes quali­
dades, muito embora esse leitor possa não ser capaz de apreendê-las total­
mente.

Mas há uma outra razão para não encontrarmos no Alcorão exatamente


aquilo que queremos para nosso propósito atual. Ele está escrito inteiramente
do ponto de vista do Sentido Cósmico; como diria seu autor, é todo ditado
por Gabriel. Não há passagens em que o Maomé autoconsciente nos fale do
Maomé cosmicamente consciente - como as que ocorrem com grande
freqüência nos escritos de Yepes, Whitman e outros - passagens escritas do
ponto de vista dos Sonetos de “Shakespeare”. Não obstante, aqui e ali há
frases no Alcorão que quase certamente se referem à experiência em questão,
como, por exemplo, as seguintes:

N a verdade, na criação do céu e da terra, e na alternância da noite e do dia, e no


navio que singra o mar com aquilo que dá lucro ao homem, e na água que Deus faz
desccr do céu e que reanima a terra após (*1) Maomé está procurando indicar a certeza
sua morte e largamente nela espalha todas (para ele) de um Deus infinitamente bom
as espécies de gado, e no mudar dos ven­ e de vida eterna Ele usa aqui a mesma linguagem
que Whitman emprega a este mesmo respeito:
tos, e nas nuvens que são compelidas ao
“Eu vos ouço murmurando ali, Ó estrelas do céu,
serviço entre céu e terra, estão sinais para
O sóis, O relva de sepulturas, Ó perpétuas
as pessoas que podem com preender transferências e promoções, se nada dizeis, como
[151:22]. (*1) posso eu dizer alguma coisa?” [193:77]

E quando dissemos a ti “Em verdade (*2) “A visão”- evidentemente, a visão cós­


teu Senhor abraça os homens!” e fizemos mica.
com que a visão que a ti mostramos fosse
a causa única de sedição entre os homens, e a árvore amaldiçoada também; pois nós
os assustaremos, mas isto só os aumentará em grande rebelião. [153:7] (*2)

Eles perguntarão a ti do espírito. Dize: “O espírito vem por ordem de meu Senhor
e vós recebeis apenas um pequeno conhecimento dele”. Se assim tivéssemos desejado,
teríamos retirado aquilo com que a ti ins­
piramos: então tu não terias encontrado (*3) Ele fala do “espírito” que o visita -
“Gabriel”, o Sentido Cósmico - e usa
nenhum guardião contra nós, a não ser
quase as mesmas palavras de Jesus: “O vento
por misericórdia de teu Senhor; verda­ assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não
deiramente, sua graça para contigo é sabes donde vem, nem para onde vai; assim é
grande [153:10]. (*3) todo aquele que é nascido do Espírito” [17:3:8]

Não descemos senão por ordem do (*4) “Não descemos”. A observação de Palmer
teu Senhor: Dele é o que está diante de quanto a estas palavras é: “Entre várias
nós, e o que está atrás de nós e o que está conjeturas, a mais usualmente aceita pelos
entre os dois; pois teu Senhor não é nunca comentaristas maometanos é que estas são as
palavras do anjo Gabriel em resposta à queixa
desatento - o Senhor dos céus e da terra
de Maomé quanto aos longos intervalos que
e do que está entre os dois; então serve-O
transcorriam entre os períodos de revelação.
e persevera em Seu serviço [153:31-2]. Compare-se, no capítulo dedicado a Bacon, o
(*4) Soneto xxxiii e o respectivo comentário.

N a verdade a hora está chegando, (*5) As palavras “quase a faço aparecer”


quase a faço aparecer, em que todas as parecem referir-se ao sentimento quase
almas possam ser recompensadas por universal ou de fato universal, daqueles que têm
consciência cósmica, de que a dotação universal
seus esforços [153:35]. (*5)
com essa faculdade está próxima, é iminente, e
de que um indivíduo que tenha essa faculdade poderá outorgá-la quase à vontade. “Outorgo”, diz
Whitman, “a qualquer homem ou mulher a obtenção de todas as dádivas do universo”. Naturalmente,
há um sentido em que estas duas proposições são verdadeiras: (1) A nova faculdade está se tomando
universal e (2) esses homens que têm a faculdade de fato a outorgam àqueles que sejam elegíveis
dentre os que entrem em contato com eles.

Esta vida do mundo nada mais é que um esporte ou um jogo; mas, na verdade, a
morada do próximo mundo - isto é, a
vida. Se eles apenas soubessem disso! (*6) A distinção entre a vida autoconsciente e a
1153:124]. (*6) vida cosmicamente consciente.
Àquele que deseja a colheita do pró­ (*7) Um homem rico, pelo mero fato de o ser
ximo mundo, aumentaremos a colheita não está apto a entrar em consciência
para ele; e àquele que deseja a colheita cósmica. Se o faz, provavelmente abandona sua
deste mundo, desta daremos a ele, mas riqueza, como o fizeram Gautama e E.C. Se,
no próximo não terá a menor porção entretanto, um homem (não a tendo) deseja
ardentemente a riqueza, ou (tendo-a) concentra
[153:207]. (*7)
seu coração nela, com certeza “não terá a menor
porção” na Consciência Cósmica.
A vida deste mundo é apenas um jogo
e um esporte; mas se creres em Deus e o
(*8) A insignificância da vida autoconsciente,
temeres, ele te dará teu salário [153:232],
em comparação com a vida cosmi-
(*8) camente consciente.

E toda alma virá - e com ela um guia


e uma testemunha! Estavas indiferente a (*9) “Retiramos teu véu” - referência à
isto e nós retiramos teu véu de ti; hoje, iluminação de Maomé. Ele “viu os céus
tua visão está aguçada! [153:243] (*9) rasgarem-se” [15:1:10].

E o paraíso será trazido para perto (*10) “...o reino de Deus está próximo”
dos piedosos - não longe deles [153:243]. [16:21:31] “...o reino de Deus está dentro
(* 10) em vós” [16:17:21]

Isto é que está prometido a vós, a (*11) A Iluminação - o Sentido Cósmico - a


todos que se voltam freqüentemente (para Bem-aventurança Bramânica - o Reino
Deus) e que guardam Seus mandamentos, de Deus - é corretamente chamado aqui de “o
que temem os misericordiosos em segre­ dia da eternidade”, uma vez que a admissão nele
do e trazem um coração contrito. Entrai é a admissão na imortalidade - a eternidade.
nele em paz; este é o dia da eternidade!
[153:244] (*11)
(*12) O caráter súbito e inesperado do advento
da Consciência Cósmica é encontrado
E escutai o dia em que aquele que nos escritos de praticamente todos os que
clama clamará de um lugar próximo - o vivenciaram a iluminação. “Aquele dia - o dia
dia em que eles ouvirão na verdade o da libertação - virá a vós, mas não sabeis o lugar;
clamor - isto é, o dia da manifestação virá, mas não sabeis a hora. No púlpito, enquanto
[153:244] (*12) estiverdes pregando o sermão, de repente todas
as amarras e faixas cairão; na prisão, um virá e
Sabei que a vida deste mundo nada saireis livre para sempre. No campo, com o
mais é que um esporte e um jogo, um arado; ao lado de vosso cavalo, no estábulo; em
adorno e algo de que vos vangloriardes meio a vossa vida de costume e recebendo *
entre vós mesmos; e a multiplicação de chamados matutinos; em vossa sala de visitas -
mesmo aí, quem sabe? Oportunamente, na hora
filhos é como o crescimento proporciona­
certa, virá ” [61:231].
do pela chuva; sua vegetação agrada aos
incrédulos; então eles murcham e podeis
vê-los se tornarem amarelos; depois se (*13) A insignificância da vida meramente
tornam apenas pó [1 5 3 :2 6 8 ]. (* 1 3 ) autoconsciente.
N a verdade o estabelecemos na Noite (*14) “O estabelecemos”, o Alcorão, “ANoite
do Poder!. E quê te fará saber o que seja do Poder” (a noite da iluminação de
a N oite do Poder? A N oite do Poder é Maomé) “é melhor que mil meses!” Assim,
Boehme, referindo-se à sua iluminação, diz
m e lh o r que m il m eses! N e ssa n o ite
[40:15]: “O portal me foi aberto e em um quarto
d escem os an jo s e os esp írito s, pela
de hora vi e conheci mais do que se tivesse
permissão de seu Senhor, com todas as passado muitos anos na universidade.”
ordens [153:337], (*14)

Neste caso temos autenticamente relatados (ao que parece) todos os


elementos fundamentais necessários para constituir um caso de Consciência
Cósmica:

a. A luz subjetiva.
b. A elevação moral.
c. A iluminação intelectual.
d. O senso de imortalidade.
e. O caráter decisivo, súbito e inesperado do advento do novo estado.
f. O caráter mental e físico anterior da pessoa.
g. A idade da iluminação, aos 40 anos, mais tarde do que em média, mas
enquanto ainda estava em seu apogeu.
h. O encanto acrescentado à sua personalidade, de modo que ele pôde
conquistar e manter seguidores devotados.
DANTE

Nasceu em 1265. Faleceu em 1321.

Balzac [9:241 e 263] dá a entender claramente sua convicção de que


Dante era um “Especialista”; este é o nome que ele usava para a pessoa que
tem Consciência Cósmica. Provavelmente conhecia Dante muito bem e não
podia estar equivocado neste particular, já que ele próprio era um “Especia­
lista”; pois, assim como um músico sabe se um outro homem é ou não um
músico, como um poeta sabe se um outro homem é ou não um poeta, como
um pintor sabe se um outro homem é ou não um pintor, como um homem
com o sentido da visão, que viva num país habitado por homens quase todos
cegos, deve saber quais dos seus conhecidos enxergam e quais não enxergam,
assim, hoje e todos os dias um homem que tenha o Sentido Cósmico saberá
de qualquer homem que conheça, pessoalmente ou por suas obras, se este
também o tem ou não. Portanto, poderíamos confiantemente aceitar a palavra
de Balzac de que Dante era dotado do Sentido Cósmico; mas não o façamos
ainda - procuremos verificar isto por nós mesmos.
I

A vida pessoal e a personalidade de Dante estão praticamente perdidas


para nós do século XIX. Parece claro, no entanto - e a natureza de seus
escritos indicaria a mesma coisa - que, como diz Boccaccio [81:809], Dante,
ainda jovem, foi:
Tomado da doçura de saber a verdade das coisas ocultas no céu e, não considerando
nenhum outro prazer mais caro a ele na vida, deixou para trás todos os outros cuidados
mundanos e se entregou somente a isso, e, para que nenhuma parte da filosofia
permanecesse desconhecida dele, mergulhou com inteligência perspicaz nos mais
profundos recessos da teologia e a tal ponto foi bem sucedido em seus desígnios que,
pouco se preocupando com o frio ou o calor, com as horas de vigília ou de jejum, ou
com qualquer outro desconforto físico, estudando assiduamente, veio a conhecer da
divina essência e das outras distintas inteligências tudo o que o intelecto humano
pode compreender.
E dele diz Leonardo Bruni que:

Pelo estudo de filosofia, teologia, astrologia, aritmética e geometria, pela leitura


de história e revirando muitos livros curiosos, esforçando-se muito em seus estudos,
adquiriu a ciência que iria adornar e explicar em seus versos.

Tudo isso indica que Dante tinha natureza reflexiva, estudiosa, diligente,
e podemos interpretar este fato como significando, ou que em seu caso esse
tipo de vida levou a um elevado gênio poético, dentro dos limites da
autoconsciência, ou que levou (como aqui se pretende) à Consciência
Cósmica. Em todo caso, a juventude de Dante parece ter sido tal como a que
encontramos em homens que atingem a iluminação.

II

Bem, quanto ao homem exterior, diz Boccaccio [111:200]:

Nosso poeta era de estatura mediana e, quando atingiu idade mais avançada,
tornou-se um tanto encurvado; seu andar era solene e tranqüilo; sempre trajado
adequadamente, sua roupa era apropriada para sua idade; seu rosto era longo, seu
nariz aquilino, seus olhos mais para grandes do que para pequenos, seu maxilar forte
e seu lábio inferior proeminente; sua pele era amorenada e seu cabelo e sua barba
espessos, negros e crespos; seu semblante era sempre triste e pensativo... Suas
maneiras, em público ou no lar, eram maravilhosamente serenas e controladas e em
todo o seu modo de ser ele era mais cortês e civilizado do que qualquer outra pessoa.

Charles E. Norton [111:204] diz de uma máscara mortuária do poeta


indubitavelmente autêntica:

O rosto é um dos mais patéticos que olhos humanos possam ter visto, pois mostra
em suà expressão o conflito entre a natureza forte do homem e as duras marcas do
destino - entre a idéia de sua vida e a experiência prática da mesma. Força é o
atributo mais notável do semblante, mostrada igualmente na larga fronte, no nariz
masculino, nos lábios firmes, no maxilar forte e no queixo largo; e essa força,
decorrente dos traços principais de seu rosto, é enfatizada pela força das linhas de
expressão. O olhar é grave e duro quase ao ponto de ferocidade; há nas sobrancelhas
algo de desdenhoso e na fronte uma contração como que causada por pensamentos
penosos; porém, obscurecidas sob esse olhar mas não perdidas, vêem-se as marcas
da ternura, do refinamento e do autodomínio, que, em combinação com características
mais óbvias, dão ao semblante do poeta falecido uma dignidade e uma melancolia
inefáveis . Não há sinais de fraqueza ou de fracasso. E a imagem de uma fortaleza,
de um a alma forte, “apoiada em consciência e num a vontade inexpugnável”,
contundida pelos golpes de inimigos de fora e de dentro, com as paredes marcadas
por muitos sítios, mas permanecendo firme e inabalável contra todos os ataques, até
o fim do conflito.

ra

Quanto à qualidade da mente de Dante e de sua obra, convém citar aqui,


brevemente, a autoridade que é talvez a mais alta dos últimos tempos. Diz
ela:

O relato dantesco do Inferno, do Pur- (*1) Naturalmente, isto é necessariamente


gatório e do Paraíso não é um sonho arbi- verdadeiro de todo livro que emana do
trário ou fantástico, mas a personificação Sentido Cósmico e é por ele ditado,
vívida e verossímil de uma profunda filosofia (*1) [179:104],

Enquanto isso, deixando aos antiquários a elucidação da linhagem das idéias de


Dante, podemos observar que desde sua primeira infância ele tinha sonhos e visões
e ele próprio sugere, no final de Vita Nuova, que a visão da Comédia lhe veio como
uma revelação enquanto ponderava sobre (*2) Esse escritor, embora nada saiba a respeito
a idéia da morte e sobre a memória de de Consciência Cósmica, adota, por assim
Beatrice (*2) [179:109], dizer forçosamente, a mesma teoria de Dante e
sua obra aqui proposta.
O objetivo de toda a obra (escreve
(*3) O principal objetivo da vida no caso de todo
ele a Can Grande) é fazer aqueles que
(?) homem que tenha Consciência Cósmica
vivem nesta vida deixarem seu estado de é outorgá-la à espécie humana e cada um deles
infortúnio e guiá-los a um estado de sente em si mesmo algum poder para assim
felicidade (*3) [179:110]. outorgá-la.

IV

Na Divina Comédia (livro rigorosamente paralelo a Comédie Humaine


ou a Leaves o f Grass, no sentido de que é um quadro do mundo do ponto de
vista do autor), Dante fala primeiro, no Inferno, da vida humana tal como
vista entre malfeitores, os “pecadores”, os “perversos”. Depois, no Purgatório
- “aquele segundo reino onde o espírito humano é purificado e se torna
digno de ascender ao céu” [71:1] - ele fala da vida humana tal como vista
naqueles que estão lutando para alcançar a luz - que estão tentando levar
uma vida boa mas que estão ainda sobrecarregados por defeitos hereditários,
faltas cometidas, maus hábitos formados, ambientes infelizes e outras
circunstâncias adversas. Estas são as melhores criaturas - apenas sem
iluminação. Mas, no Paraíso, Dante trata do novo mundo do Sentido Cósmico
- do reino de Deus - do Nirvâna.
Beatrice - “Que Beatífica”, “Que Faz Feliz” - é o Sentido Cósmico (que,
de fato, é o único que beatífica, que faz feliz). O nome pode ter sido sugerido
por uma bela jovem (que tivesse esse nome). Se foi assim, a coincidência é
curiosa.

Que o significado é este, parece claro a julgar por centenas de passagens.


Tomemos uma. Virgílio diz a Dante: “O quanto a razão aqui vê, posso te
dizer; o que ultrapassa isso [o que ultrapassa a razão, a mente autoconsciente]
espera ainda por Beatrice” [71:114], Que é que está além da razão - da
mente autoconsciente - senão a Consciência Cósmica?

Dante vagueia pelo mundo autoconsciente (“Inferno” e “Purgatório”),


guiado por Virgílio (escolhido como esplêndido exemplo e tipo da mente
autoconsciente e, também, provavelmente porque fora realmente um dos
principais guias de Dante antes de sua iluminação). Mas Virgílio não foi um
caso de Consciência Cósmica e, naturalmente, não pode entrar no Paraíso.
Beatrice (o Sentido Cósmico) é quem guia Dante para este reino e neste
reino.

A Vita Nuova de Dante, escrita no fim do século XIII, foi publicada pela
primeira vez em 1309, quando ele tinha quarenta e quatro anos de idade.
Bem no final dessa obra, Dante parece falar do advento da Consciência Cós­
mica.

A Divina Comédia foi concluída em 1321, enquanto o período de sua


elaboração está estritamente limitado ao fim de março e ao começo de abril
de 1300 [81:815], período em que Dante tinha trinta e cinco anos de idade.
Parece quase certo que essa tenha sido a data de sua iluminação. Teria então
sido a idade típica e na estação do ano típica e nada parece contradizer esta
suposição. É uma suposição plausível que o livro anterior, Vita Nuova, estava
sendo escrito no começo da primavera de 1300 e que, quando a iluminação
ocorreu, esse livro foi encerrado, para dar lugar a uma obra maior a ser
então começada; e que esta nova obra, a Divina Comédia, foi de fato iniciada
nessa data.
V

Vita Nuova [68] termina da seguinte maneira:

Após este soneto, uma visão maravilhosa me apareceu, na qual vi coisas que me
fizeram resolver não mais falar dessa abençoada (Beatrice) antes que pudesse tratá-
la mais dignámente. E, para conseguir isto, estudo ao máximo de minhas forças,
como ela bem o sabe. Assim, se for do agrado Daquele graças ao qual todas as coisas
vivem, que minha vida seja prolongada por alguns anos, espero dizer dela aquilo que
jamais foi dito de mulher alguma.

VI

Agora acompanharemos a experiência de Dante, tanto quanto possível


em suas próprias palavras, usando sempre, como fizemos acima, a tradução
de Charles Elliott Norton. Primeiro consideraremos passagens do Purgatório
que descrevem a aproximação de Dante da terra divina. Quando ele está
para entrar em Consciência Cósmica, Virgílio diz a seu respeito:

N ã o m ais esperes nem palavra nem (*1) Há dois pontos aqui que merecem ser
sinal de m im . L ivre, íntegro e equilibrado observados: (1) Quando o Sentido Cósmi-
em teu próprio livre arbítrio, e seria erra- co advém, as regras e os padrões próprios
do não agires em conform idade com ele; ^ autoconsciência são suspensos. “Con-
por isso em ti acim a do teu eu a coroa ou frontados, repelidos e postos de lado”
m itra coloco. [71:176] (*1) [193:153] é a expressão de Whitman.
Nenhum homem com o Sentido Cósmico
aceitará orientação (nos assuntos da alma) de outro homem ou de qualquer suposto Deus. Em seu
próprio coração ele tem á sua disposição o mais alto padrão acessível e a este aderirá e terá de aderir;
somente a este poderá obedecer. ( 2 ) 0 outro ponto é a duplicação do indivíduo: “em ti acima do teu
eu”. Comparem-se estas palavras com as de Whitman, “O outro Eu-sou”; com as de “Shakespeare”
[176:62], “E a ti (meu Eu) que para mim mesmo eu louvo”; comas de Paulo, “Se qualquer homem
está em Cristo, ele é uma nova criatura”; com as de Jesus, “A menos que um homem nasça
novamente”. Um novo indivíduo deve nascer dentro do antigo e, assim nascendo, viverá sua própria
e distinta vida.

Virgílio se retira. A mente autoconsciente abdica de sua soberania na


presença da autoridade maior. Dante entra em relação imediata com Beatrice
- a Consciência Cósmica.

Uma senhora me apareceu, trajada (*2) O Sentido Cósm ico vestido da luz
com a cor da chama viva. Voltei-me para subjetiva. No umbral do novo sentido,
a esquerda, na confiança com que a crian­ Virgílio (caracterizando aqui a faculdade
ça pequena corre para sua mãe quando humana sem o Sentido Cósmico) deixa Dante.
está am edrontada ou quando está em Não que a consciência simples e a autocons­
dificuldade, para dizer a Virgílio: “Menos ciência nos abandonem quando entramos em
do que uma dracma de sangue resta em Consciência Cósmica, mas de fato deixam de nos
guiar - “a visão tem uma outra visão, a audição
mim que não esteja tremendo, eu reco­
uma outra audição, e a voz uma outra voz”.
nheço os sinais da antiga chama”; mas
[193:342]
Virgílio nos tinha deixado privados dele
próprio [71:191]. (*2)
Conforme meu rosto inelinou-se para cima, meus olhos viram Beatrice. Por trás
de seu véu e além do riacho, ela me pareceu mais superar seu antigo ego do que
superara os outros aqui quando estava
aqui [71:198], (*3) (*3) O novo mundo está ainda velado e distante,
mas mesmo assim sua glória transcende em
Q uando eu estava perto daquela muito todas as coisas do velho mundo da mera
abençoada praia, a bela senhora [a nature­ autoconsciência.
za?] abriu seus braços, pegou minha
cabeça e me submergiu até o ponto em (*4) Nota de Norton: “O beber das águas do
Letes que obliteram a memória do pecado”.
que tive de engolir água [71:199], (*4)
Não há sentido de pecado na Consciência
Cósmica.
Oh, esplendor de luz viva, eterna!
quem se tornou tão pálido sob a sombra (*5) O poeta m ais preparado (ao nível de
do Parnasso, ou bebeu tanto em sua autoconsciência), por estudo e prática, não
cisterna que não pareceria ter sua mente poderia representar o novo mundo quando este
embaraçada, tentando representar a ti tal livremente (no ar livre) mostra a si mesmo.
como lá apareceste, onde em harmonia o “Nenhuma escola ou sala fechada pode comun­
céu te encobriu quando no ar livre te gar comigo”, diz o Sentido Cósmico pela língua
revelaste? [71:201] (*5) de Whitman [193:75],

Beatrice (o Sentido Cósmico) diz Dante:

Tu estarás comigo, para sempre um (*6) Dante entra em igualdade com Jesus.
cidadão da Roma de que Cristo é um Compare-se Whitman: “A ele que foi
romano. [71:206] (*6) crucificado” [193:298],

E Beatrice diz ainda a ele:

Do m edo e da vergonha desejo que (*7) Compare-se o que diz Balzac, “Jesus era
tu doravante te despojes. [71:211] (*7) um Especialista” e o que diz Paulo,
“Herdeiros de Deus e co-herdeiros em Cristo” .
Nem medo e nem vergonha podem existir juntamente com o Sentido Cósmico.

VII

Isto é suficiente quanto à aproximação do advento do Sentido Cósmico.


Vejamos agora o que Dante diz a seu respeito após ter entrado nele.

A glória Daquele que move todas as coisas penetra o universo todo e brilha mais
numa parte e menos numa outra. No céu que recebe a maior parte da sua luz eu
estive e vi coisas que aquele que de lá do pg) ^ pau,o ouyiu ,.palavras inefiveis” e
alto desce não sabe como contar nem pode Whitman, quando ''tentou dizer o melhor”
fazê-lo. [72:1] (*8) daquilo que tinha visto, ficou mudo.
De repente dia pareceu ser acrescen- (*9) “Como num desmaio, num instante, um
tado ao dia, como se aquele que pode outro sol, inefável, plenamente me
fazê-lo tivesse adornado o céu com um deslumbra [1 9 2 :207],
outro sol. [72:4] (*9)

Trata-se, naturalmente, da luz subjetiva vista por Maomé, Paulo e outros,


no momento em que entraram no Sentido Cósmico.

Beatrice estava de pé, com seus olhos concentrados nas rodas eternas e nela fixei
meus olhos, do alto desviados. Olhando para ela, tornei-me interiormente como
Glaucus (*1) se tornou ao provar da erva
(*1) Glaucus - timoneiro da nave Argo - que
que o fez companheiro no mar dos outros foi transformado num deus.
deuses . A transhumanização não pode
ser expressa em palavras; portanto, que (*2) De Glaucus.
o exemplo (*2) seja suficiente para
aquele a quem a graça reserva a (*3) Se eu continuasse a ser um mero ser
humano.
experiência. Se apenas eu fosse o que de
mim tu criaste por derradeiro (*3), Ó (*4) O desejo de Deus leva um homem da
amor que governas os céus, tu sabes, tu autoconsciência para a Consciência Cós­
que com tua luz me soergueste. mica e essa revolução, quando efetiva, é eterna.

Quando a revolução que tu, sendo Q uando D ante despertou no Sentido


desejado, tornas eterna (*4), fez-me aten­ Cósmico, no novo Cosmo, a primeira coisa que
tar para ela mesma com a harmonia que o impressionou (como é e tem de ser a primeira
tu harmonizas e modulas, tanto do céu coisa a impressionar qualquer pessoa que assim
então me pareceu inflamado pela chama desperte) foi a visão das “Rodas Eternas”- a
do sol, que chuva ou rio jamais fizeram “Corrente da Causação” —a ordem universal —
tão grande lago. [72:4] uma visão que transcende infinitamente qualquer
expressão por palavras humanas. Seu novo Eu
- Beatrice - tinha seus olhos concentrados nisso, no desabrochar Cósmico. Concentrando-se ele
mesmo nisso, a visão Cósmica e o êxtase Cósmico o transhumanizaram num deus. É a visão da
ordem universal que vem instantaneamente, iluminando o mundo assim como o relâmpago ilumina
o panorama, porém, ao contrário do relâmpago, persistindo, o que levou o autor deste livro a adotar
o termo Consciência Cósmica - uma Consciência do Cosmo. Compare-se a experiência de Dante
com a de Gautama, conforme é apresentada no Maha Vegga [163:208] : “Durante a primeira vigília
da noite, ele fixou sua mente na corrente da causação; durante a segunda vigília, fez o mesmo;
durante a terceira, fez o mesmo”. E, como já foi mostrado, este é um dos relatos mais antigos e mais
confiáveis da iluminação de Buda.

Dante escreveu a Divina Comédia após sua iluminação. Nela (como um


todo) deve ser procurada a expressão que ele pôde dar à visão Cósmica.
Trata-se, portanto, de uma declaração paralela à do Alcorão, dos Upanishads,
dos Suttas, das epístolas de Paulo, das palavras de Jesus, da Comédie
Humaine, de Leaves o f Grass, das peças e dos sonetos de “Shakespeare”,
das obras de Behmen e de Rumo à Democracia.
Em suma, temos neste caso:

a. A subitaneidade característica do advento do Sentido Cósmico.

b. A iluminação ocorre na idade e na época do ano típicas.

c. A luz subjetiva é um aspecto fortemente destacado.

d. A iluminação intelectual.

e. A elevação moral.

f. O senso de imortalidade.

g. A extinção do senso de pecado e de vergonha, bem como do medo da


morte.
BARTOLOMÉ LAS CASAS

Nasceu em 1474; faleceu em 1566.

“Um dos homens mais notáveis do século XVI” [128:206], “Las Casas
foi a estrela mais brilhante dessa pequena constelação [os primeiros hispano-
americanos]. Com olhos de vidente viu e em palavras de profeta predisse o
julgamento que recairia sobre a Espanha pelos horrores perpetrados contra
os aborígines”[119:706].

“Bartolomé Las Casas nasceu em Sevilha, em 1474. Sua família, uma


das mais nobres da Espanha, era de origem francesa, descendente dos Viscon­
des de Limoges. Eles já estavam na Espanha antes do século XIII e desempe­
nharam papel de destaque na conquista de Sevilha, resgatada dos mouros
por Ferdinando III de Castilla, em 1252. Dessa data em diante, membros da
família ocuparam cargos de confiança e entre seus traços de caráter destaca­
vam-se uma coragem indómita e uma integridade imaculada. De nascimento
e educação, Bartolomé era um aristocrata dos pés à cabeça.”[89:437]

Las Casas foi para Hispaniola e se estabeleceu numa propriedade nesta


ilha em 1502.

Pouco se sabe de sua primeira ocupação nessa ilha, com exceção do fato de que
ele parece ter estado mais ou menos preocupado em ganhar dinheiro, como todos os
outros colonos. Por volta de 1510, foi ordenado sacerdote. Realizou três ou quatro
vocações, tendo sido um sequioso homem de negócios, um historiador dedicado e
preciso, um grande reformador, um grande filantropo e um vigoroso eclesiástico.
[98:2]
Era eloqüente, perspicaz, confiável, corajoso, desprendido e piedoso [98:3],
Sua vida foi dessas que transcendem a biografia e requerem que uma história
seja escrita para ilustrá-las. Sua carreira proporciona talvez um exemplo singular de
um homem que, não sendo nem um conquistador, nem um descobridor, nem um
inventor, tornou-se, pela simples força de sua benevolência, uma figura tão notável
que grandes trechos da história não podem ser escritos, ou pelo menos não podem
ser compreendidos, sem se fazer da narrativa de seus feitos e esforços um dos fios
principais com que a história seja tecida. No período inicial da história americana,
Las Casas é indubitavelmente a figura principal. Ele foi justificadamente chamado
de “o Grande Apóstolo das índias”[98:289],
Era uma pessoa de tão imensa habilidade e força de caráter que, em qualquer
época do mundo que tivesse vivido, sem dúvida teria sido um de seus homens mais
proeminentes. Como homem de negócios, tinha raro poder executivo. Era um grande
diplomata e um pregador eloqüente, um homem de energia titânica, ardoroso mas
controlado, de invencível tenacidade, caloroso de coração e temo, calmo em seus
julgamentos, de humor perspicaz, absolutamente destemido e absolutamente autêntico.
Fez muitos e implacáveis inimigos, alguns dos quais eram por demais inescrupulosos;
mas creio que ninguém jamais o tenha acusado de qualquer pecado pior do que
extremo fervor de temperamento. Sua ira subia a um ponto de incandescência e de
fato houve bastante ensejo para isto. Era também propenso a dizer o que pensava e
proclamar verdades desagradáveis com pungente ênfase. [89:439]
Por volta de 1510, a escravatura dos índios, sob os nomes de repartimentos e
encomiendas, tinha se tomado deploravelmente cruel. A vida de um índio não tinha
o menor valor. Era mais barato fazer um índio trabalhar até a morte e depois apanhar
um outro, do que cuidar dele e, por isto, os escravos eram forçados a trabalhar até a
morte, sem misericórdia. De tempos a tempos eles se rebelavam e então eram
“massacrados às centenas, queimados vivos, empalados em estacas aguçadas, feitos
em pedaços por cães de caça.” [89:443]
Las Casas, por dom natural, era um homem muito versátil, que encarava os
assuntos humanos de vários pontos de vista. Em outras circunstâncias ele não teria
precisado se transformar num filantropo, embora qualquer carreira para a qual pudesse
ter sido atraído não pudesse ter deixado de ser honrada e nobre. A princípio ele
parece ter sido o que se poderia chamar de um homem de mentalidade mundana.
Mas o fato mais interessante que podemos encontrar a seu respeito é seu firme
desenvolvimento intelectual e espiritual; de ano para ano ele se alçava a planos de
pensamento e sentimento cada vez mais altos. Como outros, foi de início um senhor
de escravos e nisto nada via de mal. Mas desde o começo sua natureza bondosa e
compassiva se fez presente e seu tratamento dos escravos era tal que eles o amavam.
Era um homem de aspecto impressionante e facilmente distinguível, e os índios em
geral, que fugiam à vista de um homem branco, logo passaram a reconhecê-lo como
um amigo em quem sempre podiam confiar. [89:448]

Entre 1512 e 1513, Velasquez conquistou Cuba, reduzindo os nativos à


escravidão. Las Casas logo o seguiu à ilha e dele recebeu uma participação
numa grande aldeia de índios. Tomou posse como era de esperar e estabele­
ceu-se na ilha.
Chegamos agora ao fato específico que, se podemos confiar que aconteceu
tal como é contado, prova (juntamente com os fatos de sua vida) que Las
Casas foi um caso de Consciência Cósmica. E não apenas isto, mas parece -
a julgar por seu supremo vigor físico e mental, prolongado até uma idade
avançada, por sua esplêndida natureza moral, por seu intelecto, que se diz
que seus escritos provam que era de primeira classe, por seu magnetismo
pessoal e por seus elevados dons espirituais - que este homem se conta entre
os exemplos supremos daqueles que têm sido dotados dessa esplêndida
faculdade.
Era dever de Las Casas rezar a missa e vez por outra fazer um sermão e, pensando
no sermão de Pentecostes, em 1514, ele abriu a Bíblia e seus olhos pousaram nos
seguintes versículos do capítulo 34 de Ecclesiasticus*:

“O Altíssimo não aprova as oferendas do iníquo; nem é ele apaziguado quanto


ao pecado pela multidão de sacrifícios.”
“O pão dos necessitados é sua vida; aquele que dele os defrauda é homem de
sangue.”
“Aquele que tira o sustento de seu próximo o mata; e aquele que defrauda o
trabalhador de seu salário é um derramador de sangue.”

Quando Las Casas leu estas palavras, uma luz do céu pareceu brilhar sobre ele.
Aquilo que lhe bloqueava a visão caiu de seus olhos. Ele percebeu que o sistema de
escravatura estava errado em princípio. [89:450]

Las Casas tinha então quarenta anos de idade. Fiske conta ainda como,
por mais cinqüenta e dois anos, ele levou uma das vidas mais ativas, belas e
beneficentes, vindo a falecer “em Madrid, após uma enfermidade de alguns
dias, com noventa e dois anos. Em toda sua longa e árdua vida - com exceção
talvez de apenas um momento, quando da chocante notícia da destruição de
sua colônia na Pearí Coast (Costa da Pérola) - não encontramos nenhum
registro de trabalho interrompido por doença e, até o fim, sua vista não ficou
fraca nem sua força natural abatida”. [89:481]
Fiske conclui:
Ao se considerar uma vida como a de Las Casas, todas as palavras de louvor
parecem fracas e frívolas. O historiador pode apenas se curvar em reverente respeito,
ante uma figura que, em alguns aspectos, é a mais bela e sublime nos anais do
cristianismo desde a época dos apóstolos. Quando, uma vez ou outra no decurso dos
séculos, a Providência Divina traz ao mundo uma vida como essa, sua memória tem
de ser prezada pela humanidade como uma de suas posses mais preciosas e sagradas.
Para os pensamentos, as palavras, os atos de um homem como este, não há morte. A
esfera de sua influência continua para sempre a se ampliar. Eles brotam, desabrocham,
florescem, dão frutos, de era para era. [89:482]
* N.T. - Versículos traduzidos diretamente do original, dado que não constam na
Bíblia em português [10] usada nesta edição de Consciência Cósmica.
Como escreveu Las Casas, uma evidência mais ou menos decisiva sobre
o ponto aqui levantado deveria ser encontrada sob sua própria mão. Mas
seus trabalhos eram em maioria curtos e tratavam de tópicos especiais e do
momento; o trabalho em que ele pode ter tocado (se é que tocou) no suposto
evento em sua história pessoal é sua “Historia General de las índias” e este,
lamentavelmente, nunca foi impresso.

Quando faleceu, deixou-o ao convento de San Gregorio, em Valladolid, com


instruções de que não deveria ser impresso por quarenta anos, nem visto durante
este tempo por qualquer leigo ou membro da fraternidade.... A Real Academia de
História revisou o primeiro volume há alguns anos, com vistas à publicação da obra
completa; mas o estilo indiscreto e imaginativo do trabalho, segundo Navarrete, e a
consideração de que seus fatos mais importantes já eram conhecidos através de outros
canais, induziram aquela entidade a abandonar o projeto. Com o devido respeito a
seu julgamento, isto me parece um erro. Las Casas, com toda dedução, é um dos
grandes escritores do país - grande pelas importantes verdades que discerniu, quando
ninguém mais conseguia percebê-las, e pela coragem com que as proclamou ao mundo.
Elas estão dispersas em sua História, bem como em seus outros escritos. Não são,
porém, as passagens transcritas por Herrara [128:212].

É uma inferência razoável, com base nas observações acima, que os escri­
tos de Las Casas têm as qualidades usualmente encontradas naqueles que
procedem da Consciência Cósmica, tais como arrojo, originalidade, não-
convencionalismo, discernimento aguçado, compaixão e coragem. E acima
de todos estes pontos é bem possível que, fossem seus escritos examinados,
seria constatado que contêm a prova, por declaração direta, de que seu autor
possuía o Sentido Cósmico.

Em suma, Las Casas era presumivelmente possuidor de Consciência


Cósmica, devido:
a. A sua força e à sua saúde fora do comum - e esta grande qualidade ocorre
comumente em excepcionais organismos físicos.
b. A seu “aspecto impressionante” e ao afeto que por ele sentiam os índios
e outros.
c. A seu crescimento mental após a idade em que a estatura intelectual e
moral está usualmente completa.
d. A súbita e imensa mudança que nele ocorreu aos quarenta anos, quando
tinha passado o período da evolução moral dentro do compasso do homem
autoconsciente comum.
e. À estatura intelectual, mas especialmente à estatura moral por ele alcançada
- mais elevada (pode-se dizer com segurança) do que a que pode ser
alcançada dentro dos limites da mera autoconsciência.

f. E devido (se podemos confiar nisto - e parece tão provável que é fácil
acreditar que ocorreu) à luz subjetiva que se diz ter sido por ele vivenciada
por ocasião de Pentecostes, em 1514. Se fosse possível demonstrar que
essa luz tivesse tido a mesma natureza da luz que brilhou em Paulo, Maomé
e outros, então teríamos certeza de que Las Casas teria possuído o Sentido
Cósmico. Mesmo no estado atual do caso, há pouca dúvida quanto a isto.
Não pode ser esquecido que a (suposta) luz subjetiva foi o presságio
imediato do novo nascimento espiritual de Las Casas, nem que esse novo
nascimento ocorreu na época do ano característica - enquanto ele estava
pensando em seu sermão para Pentecostes - portanto, perto do fim de
maio ou do começo de junho.
JUAN YEPES
(Chamado São João da Cruz)

Nasceu em 1542. Faleceu em 1591.

Juan Yepes nasceu em Fontibere, perto de Ávila, na velha Castela, em 24


de junho de 1542. Seu pai faleceu quando ele era ainda criança e sua mãe
ficou em estado de pobreza. Estudou no Colégio de Jesuítas. Aos vinte e um
anos tomou hábito religioso entre os Frades Carmelitas, em Medina. Seu
zelo religioso aumentava continuamente. Quando chegou a Salamanca, para
começar seus estudos superiores, as austeridades que praticou foram
excessivas. Aos vinte e cinco foi promovido ao sacerdócio. Mais ou menos
aos trinta, ou talvez entre trinta e trinta e três, passou por um período de
“distúrbio mental interior, escrúpulos e aversão por exercícios espirituais;...
os demônios o assaltavam com violentas tentações;... a mais terrível dessas
penas foi a de escrupulosidade e desolação interior, na qual pareceu-lhe ver
o inferno aberto, pronto para tragá-lo”. [31:552]

Depois de algum tempo, certos raios de luz, conforto e divina doçura dispersaram
essas névoas e levaram a alma do servo de Deus a um paraíso de deleites interiores
e de doçura celestial [31:552].

Ele teve um outro período de depressão, seguido de felicidade e iluminação


ainda mais perfeitas.

Certo brilho projetava-se de seu semblante em muitas ocasiões - especialmente


quando vinha do altar ou das orações. Consta que uma luz celestial, em certos
momentos, resplandecia de seu semblante [31:554].

Ele se deleitava com a felicidade característica do estado de Consciência


Cósmica. Butler cita-o dizendo: “A alma daquele que serve a Deus está sempre
nadando em alegria, vive sempre um dia festivo, está sempre em seu palácio
de júbilo, sempre cantando com renovado ardor e prazer uma nova canção
de alegria e amor” [31:557],
Duas horas antes de falecer, repetiu em voz alta o salmo Miserere com seus
irmãos; depois pediu que um deles lesse um trecho do livro dos Cânticos, parecendo
gozar êxtases de alegria. Finalmente, clamou em voz alta: “Deus seja glorificado//”;
apertou o crucifixo sobre seu peito e, depois de algum tempo, disse: “Senhor, a tuas
mãos confio minha alma” e, com estas palavras, faleceu calmamente, no dia 14 de
dezembro de 1591, na idade de quarenta e nove anos. [31:558]

Por ter criado ou por ter aderido a algumas formas monásticas, ele foi
preso durante alguns meses, em 1578, e foi durante esse período, aos trinta
e seis anos, que entrou em Consciência Cósmica.
Em 15 de agosto de 1578 ele tinha passado oito meses na prisão. No dia
vinte e quatro de junho do mesmo ano, completou trinta e seis anos de idade.
A iluminação ocorreu quando ele estava na prisão e aparentemente (mas
o registro não é claro neste particular) poucos meses antes de 15 de agosto.
Consideradas todas as indicações disponíveis, parece quase certo que a
iluminação tenha ocorrido na primavera ou no começo do verão e que na
ocasião Yepes estava a um mês ou dois (antes ou depois) de seu trigésimo
sexto aniversário. [112:108]
Foi no mesmo ano, após a iluminação [112:141], que ele começou a
escrever.
O fenômeno da luz subjetiva parece ter se manifestado com intensidade
fora do comum neste caso.
Consta que outros a viram. Diz-se também que ela o iluminava por toda
a volta do mosteiro. Estas últimas declarações sem dúvida assentam em
exagero ou confusão, assim como se verifica na descrição do mesmo fenômeno
no caso de Paulo. É curioso também que, no caso de Juan Yepes, seguiu-se
uma cegueira parcial que durou alguns dias e esteve de algum modo eviden­
temente ligada à luz subjetiva.
No caso de Paulo, a cegueira foi mais acentuada e teve maior duração.
Parece que o distúrbio central que tem de coexistir com a luz subjetiva pode
ser tão grande que faça com que o centro óptico seja por algum tempo incapaz
de reagir a seu estímulo normal. Parece claro que, tanto no caso de Paulo
como no de Yepes, a mudança que provocou a cegueira era centralizada. Um
dos biógrafos de Yepes descreve o fenômeno da luz em si mesma e de seus
efeitos sobre seus olhos nas seguintes palavras:
Sua cela tornou-se inundada de uma luz visível ao olho físico. Certa noite, o
frade que cuidava dele foi como de costume ver se seu prisioneiro estava seguro e
viu a luz celestial de que a cela estava inundada. Ele não parou para pensar e correu
para o prior, achando que alguém na casa tinha as chaves para abrir as portas da
prisão. O prior, com dois religiosos, foi imediatamente para a prisão, mas ao entrar
na sala pela qual se chegava à prisão, a luz se desvaneceu. Não obstante, o prior
entrou na cela e, encontrando-a escura, acendeu a lanterna de que se munira e pergun­
tou ao prisioneiro quem lhe dera luz. São João lhe respondeu dizendo que ninguém
na casa o fizera, que ninguém poderia tê-lo feito e que não havia vela nem lâmpada
na cela. O prior nada disse e saiu, julgando que o guardião havia se equivocado.
Algum tempo depois, São João da Cruz disse a um de seus irmãos que a luz
celestial que Deus tão misericordiosamente lhe enviara durara a noite toda e enchera
sua alma de alegria, fazendo a noite passar como se fosse apenas um instante. Quando
sua prisão estava chegando ao fim, ele ouviu nosso Senhor lhe dizer como que da luz
que estava em volta dele: “João. eta-me aqui; não tema*; eu te libertarei" [112:108],
Poucos momentos depois, enquanto escapava da prisão do mosteiro, consta que
ele teve uma repetição da experiência, como segue:
Viu uma luz maravilhosa, da qual veio uma voz que disse: “deaue-me”. Ele seguiu
e a luz moveu-se adiante dele em direção à parede que estava na encosta, e então,
sem que ele soubesse como, encontrou-se em seu topo, sem nenhum esforço ou
fadiga. Desceu à rua e então a luz se desvaneceu. Tão brilhante era ela que por dois
ou três dias - assim confessou ele mais tarde - seus olhos estiveram fracos, como se
ele tivesse estado olhando o Sol com toda sua força [112:116].

Após a iluminação e por solicitação de pessoas a ele chegadas, que viram


que ele tivera, como diz Emerson, “uma nova experiência”, escreveu vários
livros com o objetivo de levar a outrem um conhecimento da nova vida que
havia chegado a ele e, se possível, transmitir algo dessa própria vida nova.
Os extratos seguintes foram escolhidos porque mostram com alguma clareza
a atitude e o estado mentais do homem Juan Yepes após a iluminação e
assim contribuem para compor melhor o quadro da Consciência Cósmica.
E claram ente necessário à alm a, vi- (*1) Esta é a doutrina da supressão e obliteração
sando sua própria transform ação sobrena- do pensamento e da sujeição do desejo
tural, estar em trevas e bem afastada de ensinada pelos iluminados hindus desde o tempo
tudo que diga respeito à sua condição na- Buda ató hoje - uma doutrina indubita-
, , , . . . velmente baseada na experiência real [154:68 e
tural, a suas partes sensuais e racionais. ^ r
O sobrenatural é aquilo que transcende a 6S '
natureza e, portanto, aquilo que é natural
fica abaixo. Visto que essa união e essa “ ° autor c*° Bhagavadgita não é
. c __ k - • i apontado neste livro como um caso de
transiormaçao não sao cognosciveis pelos „ ..................................
“ ,, , , Consciência Cósmica, pelo motivo de que nada
sentidos ou por qualquer faculdade huma- , .. . ....
' 1 ^ se sabe a respeito de sua personalidade. Mas o
na, a alma precisa estar total e voluntana- próprio Divjno Poema traz em sua face a prova
m e n te v a z ia d e tu d o q u e p o ss a e n tra r de que ele era um caso - n o poema, Krishnaé o
nela, de toda afeição e inclinação, no que Sentido Cósmico e as falas de Krishna são as
concerne a si própria. [203:71] (* 1) declarações da Consciência Cósmica.
N essa estrada, portanto, abandonar o (*2) Método para alcançar a Consciência Cós-
eam inho pessoal é en trar n o verdadeiro m'ca e descrição geral dele.
cam inho, ou, para falar m ais corretam en­
te, é ir ad ia n te em direção à m eta (*2); e re n u n ciar ao cam in h o pessoal é e n tra r
naquilo que não tem nenhum , isto é, D eus. Pois a alm a que alcança esse estado não
tem cam inhos ou m étodos próprios, nem se apóia nem pode se apoiar sobre qualquer
coisa d esta espécie. Q u ero dizer m eios de e ntender, perceber, ou sentir, em b o ra
possua todos os meios ao mesmo tempo,
(*3) como alguém que, nada possuindo, (*3) Todos os m eios ao m esm o tem p o :
Carpenter tenta expressar sua experiência,
não obstante tudo possui. Pois a alma co­
da seguinte maneira: “Qual é a natureza exata
rajosamente decidida a ultrapassar, inte­
desse estado de se r- desse iluminante esplendor?
rior e exteriormente, os limites de sua Tudo que posso dizer é que parece existir uma
própria natureza, entra ilimitadamente no visão possível aos homens, como de algum ponto
sobrenatural, que não tem medida, mas de vista mais universal, livre da obscuridade e
contém toda medida iminentemente em do localismo que especialmente os ligam às
si mesmo. Chegar lá é partir daqui, ir em­ nuvens passageiras do desejo, do medo e de toda
bora, para fora de si mesmo, tão longe emoção e todo pensamento comum - neste
sentido uma outra faculdade, separada; e como
quanto possível deste desprezível estado,
visão sempre significa um sentido de luz, aqui
para aquele que é o mais elevado de to­ há um sentido de luz interior, naturalmente sem
dos. Portanto, ascendendo acima de tudo estar ligado ao olho mortal mas trazendo ao olho
que possa ser conhecido e compreendido, da mente a impressão de que vê e através de um
temporal e espiritualmente, a alma tem meio que por assim dizer lava as superficies inte­
de desejar intensamente alcançar aquilo riores de todos os objetos, todas as coisas e todas
que não pode ser conhecido nesta vida e as pessoas—como posso me expressar? - e, ape­
sar de tudo, esse sentido é muito deficiente, pois
que o coração não pode conceber; e, dei­
é um senso de que a pessoa é os objetos, as coisas
xando para trás todo real e possível gosto e as pessoas que percebe (e todo o universo) -
e sentimento do sentido e do espírito, tem um sentido em que a visão, o tato e a audição
de desejar intensamente chegar àquilo estão todos fundidos em identidade [62].
que transcende todo sentido e sentimento.
Para que a alma possa estar livre e desembaraçada para este fim, não deve de ma­
neira alguma se ligar - como explicarei presentemente, quando tratar deste ponto -
a qualquer coisa que possa receber no sentido e no espírito, e sim avaliar isto como
coisa de muito menor importância. Pois quanto mais importância a alma atribui
àquilo que compreende, sente e imagina, e quanto mais preza isto, seja espiritual ou
não, mais deprecia o supremo bem e maior será seu atraso em alcançá-lo. Por outro
lado, quanto menos preza tudo que possa ter em comparação com o supremo bem,
mais engrandece e preza o supremo bem e, conseqüentemente, maior é seu progresso
em direção a ele. Desta maneira a alma se aproxima cada vez mais da união divina
nas trevas, pelo caminho da fé, que, embora possa ser também obscuro, mesmo
assim irradia uma luz maravilhosa. Certamente, se a alma quer ver (se ela persiste
no desejo e no esforço de ver), toma-se com isto instantaneamente mais cega quanto
a Deus do que aquele que tentasse olhar o Sol quando este estivesse resplandecendo
em toda sua força. Nessa estrada, portanto, o termos nossas faculdades nas trevas é
vermos a luz [203:74-5].
Q uanto m ais a alm a se esforçar para (*4) Assim, diz Balzac que a autoconsciência,
se to rn ar cega e an u lad a (* 4 ) q u an to a embora gloriosa por aquilo que tenha feito,
to d a s a s c o isas in te rio res e e x te rio re s, ® ao raesmo tempo perniciosa, porque impede
mais se encherá de fé, amor e esperança. que ° ser h” entre navida Cosmicamente
, . , _ , Consciente que leva ao infinito - que e a umca
Mas esse amor, as vezes, nao e compreen- . .. „ rc ,
’ r que pode explicar Deus [5:142].
dido nem sentido, porque não se mani­
festa nos sentidos com ternura, mas na alma com fortitude, com mais coragem e
resolução do que antes, embora às vezes transborde para os sentidos e se mostre
temo e gentil. Para atingir então esse amor, essa alegria e esse deleite que as visões
suscitam, é necessário que a alma tenha fortitude e esteja fortalecida, de modo a
subsistir voluntariamente no vazio e nas trevas e para estabelecer o alicerce de seu
amor e deleite naquilo que nem vê nem sente, naquilo que não pode ver nem sentir
- isto é, em Deus, incompreensível e supremo. Nosso caminho para Ele está portanto,
necessariamente, na autonegação [203:202].

Embora, como eu já disse, seja verdade que Deus esteja sempre em toda alma,
concedendo-lhe dádivas e preservando para ela seu ser natural pela Sua presença,
com tudo isto Ele nem sempre comunica a vida sobrenatural. Pois esta só é dada por
amor e graça, que nem todas as almas alcançam, e aquelas que alcançam não o
conseguem ao mesmo grau, pois algumas ascendem a graus mais altos de amor do
que outras. Portanto, tem maior comunhão com Deus a alma que é mais adiantada no
amor - isto é, aquela cuja vontade é mais harmonizada com a vontade de Deus. E a
alma que alcançou perfeita conformidade e semelhança está perfeitamente unida a
Deus e sobrenaturalmente transformada em Deus. Por causa disso, portanto, como já
expliquei, quanto mais a alma se apega às coisas criadas, confiando em sua própria
força, por hábito e tendência, menos está propensa a essa união, porque não se entrega
completamente nas mãos de Deus, de modo que Ele possa transformá-la sobrena­
turalmente [203:78], (*5)
(*5) A distinção entre a vida autoconsciente,
, __.__ ____, .................. u,;... i mesmo em seu melhor nível, e a vida em
E m o u tras ocasioes, tam b em , a luz
,, , , , Consciência Cósmica,
divina atinge a alm a com tanta força que
as trevas não são sentidas e a luz não é (*6) “Louis teve um típico ataque de catalepsia.
percebida; a alm a parece inconsciente de Ficou de Pé Por cinqüenta e nove horas,
tudo que conhece e, portanto, por assim sem se mover>seus olhos flxos’ sem falar ou
,. , . . . comer, etc.” [5:1271. Esta experiência de
dizer perdida no esquecimento, sem saber (ist0 . de Bal’zac) pertence ao período
onde está nem o que lhe aconteceu, in- jiuminação, como no caso de Yepes.
consciente da passagem do tem po. (*6)
(*7) E provável que uma experiência seme-
Pode acontecer e de fato acontece que lhante, na mesma circunstância, seja
m uitas horas se passem enquanto a alm a comum’ embora nâo seia umversal-
se encontre nesse estado de esquecim ento; tudo parece apenas um m om ento quando
ela novam ente retorna a si. [203:127] (*7)

O p ensam en to de Yepes é que D eus sem pre existe n a a lm a h u m an a, m as


(em g eral) nu m estado passivo ou de adorm ecido, ou pelo m enos fo ra d a
consciência. A alma que sabe que Deus está nela mesma é abençoada, mas a
alma na qual Deus despeita é supremamente abençoada. Esse despertar de
Deus na alma é o que neste livro chamamos de Consciência Cósmica.

O h , co m o é a b e n ç o a d a a alm a q u e (* i) Diz Yepes: Deus está sempre no ser


está sem pre consciente de que D eus está humano, e muito comumente a alma está
p re sen te e rep o u sa em seu âm ago... Aí consciente de Sua presença (passiva). É como
está E le, por assim dizer adorm ecido no se dormisse na alma. Se Ele desperta apenas
ab raço d a alm a e a alm a e stá em geral uma vez na vida de um homem’ a exPeriência
. . . o i desse instante afeta toda sua vida. Se a
c o n sc ie n te de S u a p resen ça e em geral .„ . . . . . , ,
r . , expenencia desse instante tosse prolongada
se d e le ita e x tre m a m e n te nisso. Se E le indeflnidamente) que alma poderia suportá-la?
e stiv e sse se m p re d e sp e rto n a a lm a , as
comunicações de conhecimento e amor seriam incessantes e isto seria um estado de
glória. Se Ele, despertando apenas uma vez, meramente abrindo seus olhos, afeta
tão profundamente a alma, que aconteceria a ela se Ele estivesse continuamente
desperto dentro dela? [206:506](*1) (*1)

Uma das características do Sentido Cósmico muitas vezes mencionada e


a ser mencionada, é a identificação da pessoa com o universo e tudo no
universo/Quando Gautama ouPlotino expressam este fato, ele é denominado
“misticismo”. Quando Whitman lhe dá voz, ele é Yankee Bluster (“vendaval
ianque”). Que nome devemos lhe dar quando um monge espanhol do século
XVI, simples, de mente humilde, dele fala numa linguagem simples como a
que segue?

Os céus são meus, a terra é minha e as nações são minhas! meus são os justos e
os pecadores são meus; meus são os anjos e a Mãe de Deus; todas as coisas são
minhas, o próprio Deus é meu e para
mim, porque Cristo é meu e todo para (*2) Whitman nos diz: “Como se alguém,
mim. Que então pedes, que buscas, ó talhado Para Possf coisas’ nâo Pudesse
i • i n * i ,j , « ' entrar a vontade em todas e incorpora-las a si
alma minha? lu d o e teu - tudo e para
v ti. mesmo [193:214]. E „ mais:
M *.1Que
ai t?supoe
_ • voce
«rx.
N ã o p eg u es m enos nem fiq u es com as que eu ,he sugeriria numa centena de maneiras
m igalhas que caiam da m esa de teu pai. senão que o ser humano, homem ou mulher, é
Vai e e x u lta em tu a gló ria, e sc o n d e-te tão bom quanto Deus? E que não há nenhum
nela e alegra-te, e obterás todos os desejos D eus m ais divino do que você m esm o”?
de teu coração. [206:607] (*2) [193:299].
Visões de substâncias incorpóreas, como de anjos e de almas, não são freqüentes
nem naturais nesta vida terrena, e menos ainda o é a visão da essência divina que é
peculiar aos bem-aventurados, a menos que seja comunicada transientemente por
dispensação de Deus, ou por conservação de nossa condição e vida natural e pela
abstração do espírito, como foi talvez o caso de São Paulo quando ouviu os
impronunciáveis segredos no terceiro céu. “Se no corpo”, disse ele, “não o sei, ou
fora do corpo, não o sei; Deus o sabe”. Está claro nas palavras do apóstolo que ele foi
transportado para fora de si mesmo, pelo (*3) A visão Cósmica comparada, em poucas
ato de Deus, como para sua existência palavras comuns, com “ visões" mais
natural [203 198-9] (*3) comuns de, por exemplo, anjos e espíritos, nas
_ , , , , quais Yepes parece ter pouca fé.
O c o n h e c im e n to d a v e rd a d e p u ra
requer, para um a explicação adeq u ad a, (M) « transcendem todas as palavras” Esta é
que D eus pegue a m ão e conduza a pena a experiência universal,
do escritor. T enha em m ente, m eu preza­
do leitor, que estes assuntos transcendem (*5) Uma tentativa de indicar a diferença radical
todas as palavras. (* 4 ) M as com o m eu entre o conhecimento próprio da mente
propósito não é discuti-los e sim ensinar autoconsciente e a consciência da verdade
„ j- ■ ■ . j- • característica da m ente Cosm icam ente
e d irig ir a a lin a p a ra a u m a o d iv in a „ . x _ . .. . , ......
, . « . . , Consciente. De indicar tambem o jubilo da
através deles, sera suticiente que eu f a e „
M Consciência Cósmica e a impossibilidade de
deles concisam ente dentro de certos limi- expressar na única linguagem que temos (a
tes, até o ponto em que meu assunto o linguagem da autoconsciência), o que é visto,
requeira. (*5) Esta espécie de visão não ou o que é sentido no estado Cosmicamente
é a m esm a coisa que as visões intelectuais Consciente. “Quando tenciono dizer o melhor”,
de co isas corpóreas. C on siste em com - ^iz Whitman, “vejo que não o consigo; minha
p re en d e r ou ver com p reen siv am en te as línSua se torna ineficiente. meu fôlego não
verdades de D eus, ou das coisas ou a res- ° bef , “ ™ ° rgâos’ tom °-me um homem
. mudo”. 193:179
peito das coisas q u e existem , existiram ,
ou existirão. E mais como o espírito da profecia, como eu talvez explique mais
adiante. Esta espécie de conhecimento tem uma dupla natureza: uma se refere ao
Criador; a outra, a criaturas. E embora ambas sejam bem cheias de doçura, o deleite
produzido pela que se refere a Deus não pode ser comparado com qualquer outra
coisa; não há palavras nem linguagem que possa descrevê-lo, pois trata-se do
conhecimento do próprio Deus e de seus deleites. [203:205]
Na medida em que isso se torna pura contemplação, a alma percebe claramente
que não pode descrevê-lo de outro modo senão em termos gerais que a exuberância
de deleite e felicidade lhe impõe. E embora às vezes, quando esse conhecimento é
outorgado à alma, sejam proferidas palavras, a alma sabe muito bem, no entanto,
que de modo algum expressou o que sentiu, porque está consciente de que não há
palavras de significação adequada. [203:206]
Esse conhecimento divino atinente a Deus nunca se refere a coisas particulares,
pois está intimamente ligado ao Mais Alto e, portanto, não pode ser explicado, a não
ser quando se refere a alguma verdade menor do que Deus, suscetível de ser descrita;
esse conhecimento geral, porém, é inefável. Só uma alma em união com Deus é
capaz desse profundo e amoroso conhecimento, pois ele próprio é essa união. Esse
conhecimento consiste em certo contato da alma com a Divindade e é o Próprio Deus
que é então sentido e vivenciado, embora não de maneira manifesta e clara, como o
será em glória. Mas esse toque de conhecimento e doçura é tão forte e profundo que
penetra a substância mais íntima da alma e o diabo não pode interferir nisto nem
produzir qualquer coisa semelhante - porque não há nada mais que lhe seja comparável
- nem infundir qualquer doçura ou deleite que de algum modo possa
a isso se assemelhar. Esse conhecimento, em alguma medida, tem o toque da essên-
cia divina e da vida sempiterna e o diabo (*6) Compare-se Behmen: “O conhecimento
não tem nenhum poder para simular qual- espiritual não pode ser comunicado de um
quer coisa que seja tão grande. [203:207] intelect0 a outro>mas de ser Procurado no
espírito de Deus”[97:56].

Tal é a d o ç u ra do p ro fu n d o deleite £ Qdizer de whitman: „A sabedoria . ^ alma;


desses toques de D eu s, que um só deles não pode ser passada de uma pessoa que a tenha
e m ais que um a recom pensa por todos os para outra que não a tenha”. [193:123]
so frim e n to s d e sta vida, p o r m aio r que
seja seu número [203:208]. (*7) (*7) “Pois creio que os sofrimentos do momento
Essas imagens, assim impressas na atual não são merecedores de comparação
alma, produzem, sempre que são cons- com a glória que a nós será revelada. [19:8:18]
cientizadas, os efeitos divinos de amor, _ , . . . „
(*8} Sempre que são conscientizadas. Compare-
doçura e luz, as vezes mais as vezes me- se Bacon.
nos, pois este é o objetivo para o qual “Assim como o rico sou eu, cuja abençoada
são impressas. Aquele com quem Deus chave
assim lida recebe uma grande dádiva, A seu doce tesouro trancado pode levar,
pois tem uma mina de bênçãos dentro de Que ele não há de a cada hora inspecionar,
si mesmo. As imagens que produzem tais P°'s *st° ° gozo embotaria, de esporádico
efeitos estão vividamente fixadas na Prazer- [176:52]
memória espiritual. [203:275] (*8)
O caminho dos proficientes, que é também chamado de caminho iluminativo, ou
de caminho de inspirada contemplação, onde o próprio Deus ensina e refrigera a
alma, sem meditação ou quaisquer esforços ativos que ela mesma possa deliberada­
mente fazer [203:55-6], Eu saí de mim mesmo, de minhas inferiores concepções e de
meu tíbio amor, de meu limitado e pobre sentimento de Deus, sem ser impedido pela
carne ou pelo diabo. Saí de minhas limitadas obras e maneiras pessoais, para as de
Deus; em outras palavras, minha compreensão saiu de si mesma e, de humana, passou
a divina. Minha vontade saiu de si mesma, tomando-se divina; pois agora unida ao
amor divino, não mais ama com seus limi- , , , ,
, . . ... (*9) Ele fala da passagem da autoconsciência
tados poderes e su a restrita capacidade, ,
r r para a Consciência Cósmica e de como e
m as com a energia e a pureza do espírito estar nesta ú]tima condiçâa
divino. [203:67] (*9)
Ora, isto nada mais é senão a luz sobrenatural iluminando o discernimento, de
modo que o discernimento humano se tome divino, unificado com o divino. Do mesmo
modo o amor divino inflama a vontade, de maneira que esta se toma nada menos que
divina, amando de maneira divina, unificada com a vontade divina e com o amor
divino. A memória é afetada de modo semelhante; todos os desejos e afetos são
também divinamente modificados, de acordo com Deus. Assim a alma será do céu,
celestial, divina, ao invés de humana. (*io) Como diz Dante, isto é ser “trans-
[204:111] (*10) humanizado num Deus”. [72:4]
Foi uma situação feliz para a alma quando Deus nessa noite pôs a casa inteira a
dormir - isto é, todos os poderes, as paixões, as afeições e os desejos da alma sensual
e espiritual, de modo que ela pudesse alcançar a união espiritual do amor perfeito de
Deus, “inobservado”- ou seja, não impedido por eles, por estarem todos adormecidos
e mortificados nessa noite. Oh, como a alma deve estar então feliz, ao poder escapar
da casa de sua sensualidade! Ninguém pode compreender isto, creio eu, exceto a
alma que o tenha vivenciado [204:113]
(*11). E stá portanto claro que n enhum (*U ) ° utras ah“ * “ . à necessJá ria subjLJgaçâo
. . . . . . . . , , , , ou mesmo obliteração da antiga mente
obieto
J
distinto que agrade a vontade pode
v
, ■__
autoconsciente, antes que a mente cosmicamente
ser Deus; e, por esta razão, para que ela conSciente possa emergir,
se unifique com Ele, deve se esvaziar,
lançar fora qualquer paixão desordenada do desejo, qualquer satisfação que possa
ter distintamente, grande ou pequena, temporal ou espiritual, de modo que, purificada
e limpa de todas as satisfações, alegrias e desejos indevidos, possa estar comple­
tamente ocupada, com todas as suas afeições, em amar a Deus. [204:534]
Esse abismo de sabedoria, então, a tal ponto exalta e eleva a alma - dispondo-a
ordenadamente para a ciência do amor - que a faz não somente compreender como
são más todas as coisas criadas em relação à sabedoria suprema e ao conhecimento
divino, mas tam bém como são baixas, defeituosas e em certo sentido impróprias
todas as palavras e frases pelas quais, nesta vida, discutimos as coisas divinas, e
como é totalm ente im possível, por qualquer meio natural, por mais profunda e
eruditamente que possamos falar, compreendê-las e percebê-las como são, exceto à
luz da teologia mística. Assim a alma, à luz disto, discernindo esta verdade, isto é,
que não pode alcançá-la e menos ainda explicá-la pelos termos do discurso comum,
acertadamente a chama de secreta. [204:126]
O espírito é agora tão forte e a tal ponto subjugou a carne e a ela atribui tão pouca
importância, que é tão indiferente a ela quanto uma árvore a uma de suas folhas. Não
procura consolação ou doçura em Deus ou em qualquer outra parte, nem ora para
receber dádivas de Deus por qualquer motivo de interesse pessoal ou de auto-satis-
fação. Pois tudo o que lhe interessa agora (. 12) Yepes a,sseme|ha.se a Buda e Paulo ao
e como agradar a Deus e servi-Lo em al- desprezar e condenar a vida autocons-
guma medida, como retribuição por Sua ciente anterior. Jesus e Whitman alcançaram um
bondade e pelas graças recebidas - e isto nível mais alto - viram que toda vida é boa, é
a todo e qualquer custo. [204:134] (*12) divina.
Mas se falamos dessa luz de glória que nesse abraço da alma Deus às vezes nela
produz, e que é um a certa comunhão espiritual em que Ele a faz contemplar e ao
mesmo tempo desfrutar o abismo de deleite e riqueza que Ele dispôs em seu interior,
não há palavras para expressar qualquer grau disto. Assim como o sol, quando brilha
sobre o mar, ilumina suas grandes profundezas e revela as pérolas, o ouro e as pedras
preciosas que ali estão, assim o divino sol do noivo, voltando-se para a noiva, revela
de certo modo as riquezas de sua alma, de maneira que mesmo os anjos a contemplam
com espanto. [205:292]
Eu disse que Deus se compraz com nada mais que o amor. Ele de nada necessita
e, assim, se está satisfeito com alguma coisa, é com o crescimento da alma; e como
não há nenhum modo pelo qual a alma possa crescer senão tornando-se de certo
modo igual a Ele, som ente por esta razão está Ele satisfeito com nosso amor. É
próprio do amor colocar aquele que ama a nível de igualdade com o objeto de seu
amor. Assim, a alma, pelo seu perfeito (*13) “Que supõe você que eu lhe sugeriria
amor, é chamada de noiva do Filho de numa centena de maneiras senão que o
Deus, o que implica igualdade com Ele. ser humano, homem ou mulher, é tão bom quanto
Deus? E que não há nenhum Deus mais divino
[205:333] (*13)
do que você mesmo”? [193:299].
Antes que a alma tenha tido sucesso
em conseguir esta dádiva e uma renúncia (*14) Estado autoconsciente anterior. Com-
de si mesma e de todas as coisas que a pare-se Whitman: “Viajantes e pessoas
ela pertencem, em favor do Amado, esta­ inquiridoras me rodeiam, pessoas encontro, efei­
va enredada em muitas ocupações não to em mim de minha vida em fase anterior, ou o
proveitosas, pelas quais procurava agra­ bairro e a cidade em que vivo, ou a nação, as
dar a si mesma e a outros, e pode-se dizer datas mais recentes, as descobertas, as invenções,
as sociedades, autores velhos e novos, meu jantar,
que suas ocupações nesse tempo eram tão
a roupa, os associados, os olhares, os cumprimen­
numerosas quanto seus hábitos de imper­
tos, as dívidas, a real ou imaginada indiferença
feição. [205:236] (*14) de algum homem ou mulher que amo, a doença
Não é sem alguma relutância que en­ de um de meus companheiros ou de mim mesmo,
tro, a pedido de outros, na explicação das ou o mal feito, ou a perda ou a falta de dinheiro,
quatro stanzas, porque elas se referem a ou as depressões ou as exaltações, as batalhas,
assuntos tão íntimos e espirituais que os horrores da guerra fratricida, a febre de notí­
frustram os poderes da linguagem cias duvidosas, os eventos caprichosos; tudo isto
vem a mim dias e noites e se vai de mim nova­
[206:407] (* 15). Tudo que digo fica muito
mente, mas estas coisas não são o meu Eu
aquém daquilo que se passa nessa união mesmo. [193:31-2]
íntima da alma com Deus - desse amor
ainda mais perfeito e completo no mesmo (*15) Expressões com que ele tenta sugerir
estado de transformação. [206:408] estados m entais que não podem ser
Entrei, mas não sabia onde e ali fi­ representados por palavras.
quei, nada sabendo, toda ciência trans­
cendendo. (*16) Neste curto poema, Juan Yepes tentou
expressar os fatos essenciais da entrada
Não sabia onde havia entrado, pois
no estado de Consciência Cósmica. Ele diz que
quando me coloquei dentro, não sabendo
entrou, mas (tendo assim feito) não sabia onde
onde estava, grandes coisas ouvi. O que estava. Ouviu grandes coisas, mas não dirá o quê
ouvi não direi; eu estava lá como alguém (ou não poderá dizer?). Encontrou (naquele
que não sabia, toda ciência transcenden- estado) perfeita paz e perfeito conhecimento.
do. (*16)
Da paz e da devoção o conhecimento foi perfeito, em profunda solitude; o caminho
certo era claro, mas tão secreto era ele que eu fiquei balbuciando, toda ciência
transcendendo.
Permaneci arrebatado em êxtase, fora de mim mesmo, e de todos os meus sentidos
nenhum sentido restou. Meu espírito foi dotado de discernimento, nada entendendo,
toda ciência transcendendo.
(*17) “Rapidamente surgiram e se dispersaram
Quanto mais alto me elevava, menos
ao meu redor p az e conhecimento que
entendia. E a nuvem escura iluminando ultrapassam todos os argumentos da
a noite. Portanto, aquele que compreende Terra” [193:32],
nada sabe, sempre toda ciência transcen­ O caminho certo (o curso certo de ação), também
dendo. (*17) era claro (Whitman diz que o novo sentido
Aquele que realmente ascende tão “segurou seus pés”). [193:32] Yepes, assim
alto anula a si mesmo e todo o seu conhe­ como Whitman e todos os demais, sentiu-se cheio
cimento anterior parece cada vez menor; de alegria. E ele prossegue descrevendo o
ele sabe cada vez mais que nada sabe, Nirvana, a ponto de usar a palavra “anulação”.
Finalmente ele pronuncia a palavra que todos
toda ciência transcendendo. os iluminados proferem, cada qual a seu modo.
Esse saber que nada sabe é tão pode­ Ele diz que essa profunda sabedoria consiste num
roso que os sábios jamais poderão derro­ sentimento da essência de Deus. E o Sentido
tá-lo com seu raciocínio; pois sua sabedo­ Cósmico - um sentido, uma intuição, ou uma
ria nunca chega à compreensão que nada consciência do Cosmo. O nascimento da única
compreende, toda ciência transcendendo. faculdade que pode compreender Deus. É o
Essa soberana sabedoria é de tão alta renascimento através do qual, unicamente, pode
excelência que nenhuma faculdade nem um homem ver o reino de Deus.
ciência pode jamais alcançá-la. Aquele que superar a si mesmo pelo conhecimento
que nada sabe, sempre se elevará, toda a ciência transcendendo.
E se escutardes, essa soberana sabedoria consiste de fato num profundo senso da
essência de Deus: é um ato de Sua compaixão, para nos deixar, nada compreendendo,
toda ciência transcendendo. [208:624-5]

SUMÁRIO

a. No caso de Juan Yepes, a luz subjetiva parece ter estado presente e ter
sido mesmo extraordinariamente intensa, embora possa haver alguma
confusão no relato da mesma.

b. A elevação moral foi fortemente acentuada.

c. A iluminação intelectual esteve bem, mas não talvez de maneira tão forte
como em alguns outros casos.

d. Seu senso de imortalidade é tão perfeito que não lhe ocorre discuti-la
como uma questão à parte ou tão-somente como uma questão. Ele
simplesmente se tomou Deus, um Deus, ou uma parte de Deus, e não
pensaria em discutir sua imortalidade mais do que pensaria em discutir a
de Deus.

e. Naturalmente, ele perdeu (se é que jamais teve) todo medo da morte. A
morte é simplesmente nada para ele. É um assunto que absolutamente
não lhe diz respeito.

f. A instantaneidade da mudança da autoconsciência para a Consèiência


Cósmica, na prisão em que estava na primavera ou no começo do verão
de 1578, quando tinha trinta e seis anos de idade, parece clara na narrativa
de Lewis.

g. A mudança na aparência da pessoa iluminada - chamada de “transfigu­


ração” nos evangelhos - parece ter sido bem acentuada.
Capítulo 9

FRANCIS BACON

Nasceu em 1561; faleceu em 1626.

Nada que se aproxime de um estudo exaustivo deste caso pode ser tentado
ui. As meras bordas do assunto já preencheram uma biblioteca de tamanho
oável, enquanto o âmago da questão mal foi tocado.

Sem mais delongas ou circunlóquios, é melhor que seja francamente


declarado, de imediato, que o ponto de vista deste autor é o seguinte:

a. Que Francis Bacon escreveu as peças e poesias atribuídas a “Shakespeare”.

b. Que ele entrou em Consciência Cósmica com a idade aproximada de trinta


anos, ou talvez um ano antes, dado que seu desenvolvimento intelectual e
moral foi muito precoce.

c. Que ele começou a escrever os Sonetos imediatamente após sua iluminação.


Os Sonetos aqui considerados são os primeiros cento e vinte e seis, que
constituem distintamente um poema, em si mesmos e por si mesmos, e
tratam do assunto aqui estudado.

d. Que os primeiros desses cento e vinte e seis Sonetos são dirigidos ao


Sentido Cósmico e, os últimos, a ele e a seus “produtos”, as peças.

e. Que, nos Sonetos, as seguintes entidades podem ser reconhecidas: (a) o


Sentido Cósmico; (b) o Bacon do Sentido Cósmico e das peças e dos
Sonetos-, ( c ) o “produto” especial do Sentido Cósmico - as peças; (d) o
Bacon notório, da corte, da política, dos escritos em prosa, dos negócios,
etc., e possivelmente de outras coisas.
n
Não se nega, em absoluto, que os primeiros cento e vinte e seis Sonetos
possam ser lidos como se dirigidos a um jovem amigo (embora no caso de
vários isto possa ser verdade, parece a este autor que é contestado com
sucesso), mas é claro que, assim lidos, faltam-lhes significado e dignidade -
que, na verdade, encarados deste ponto de vista, eles são totalmente indignos
do homem (seja quem for) que escreveu Lear e Macbeth . E pode ser afirmado
que uma característica quase constante (ou de fato constante) dos escritos da
categoria de homens abordada neste livro é exatamente esse duplo sentido
que corresponde à dupla personalidade do autor. Desse significado duplo,
talvez triplo, as obras de Dante e de Whitman fornecem talvez os melhores
exemplos.

T. S.Baynes [86:764] diz que estas especulações “não podem ser considera­
das como bem sucedidas”; mas supondo para fins de argumentação que houve
realmente esse jovem, ou essa mulher secreta [Mary Fitton, 167:30 et seq.
ou uma outra], isto não provaria absolutamente nada. Essas pessoas podem
ter tido existência real e a elas e delas pode ter sido falado como o significado
superficial dos Sonetos, assim como se fala ao oceano e do oceano no signifi­
cado superficial de With Husky Haughty Lips* [193:392]. Ou consideremos
como outro exemplo o da Prece de Colombo [193:323]. Colombo pode ter
feito exatamente essa prece e não há razão para que Whitman não devesse
ter posto essa oração na boca de Colombo; mas nada é mais certo que as
palavras em questão serem dirigidas ao Todo-poderoso pelo próprio Whitman.
Mas por que selecionar exemplos? Não há em Leaves talvez um só verso que
tenha somente um significado. E quem hoje em dia não compreende que, na
Divina Comédia, Dante usou os termos teológicos correntes em seu tempo
para velar e expressar pensamentos muito mais profundos e mais elevados
do que aqueles que até então haviam sido atribuídos a eles? Atribua-se o
significado corrente aos termos usados e seus versos terão um sentido, mas
atribua-se a esses termos a intenção de Dante e eles terão um outro sentido,
imensamente mais amplo e profundo. Assim, seu último e melhor tradutor,
que sem dúvida o conheceu profundamente, diz que “uma fonte mais profunda
e mais dominante de compreensão imperfeita do poema do que qualquer
dificuldade verbal reside no significado duplo ou triplo que perpassa por
ele” [70:16], Ou seria Seraphita uma espécie de conto de fadas, tendo por
figura central uma idealizada e ninfômana jovem norueguesa?

* N. T. - Aproximadamente, “Com Robustos e Arrogantes Lábios”.


III

Que um homem que tem Consciência Cósmica é de fato pelo menos uma
pessoa dual, é algo fartamente mostrado e ilustrado neste livro e
“Shakespeare”, o autor das peças e dos Sonetos, é realmente um outro (embora
sendo o mesmo) eu do Bacon que escreveu as obras em prosa, falou no Parla­
mento, viveu perante o mundo como jurista, homem da corte e cidadão. Do
mesmo modo que “Seraphita” (Seraphitus), sendo Balzac, é totalmente distin­
to doBalzac notório, que era visto nos salões de recepção parisienses. Assim
como o Whitman do Leaves é completamente distinto (e no entanto o mesmo)
do Whitman que viajava em ônibus e trem e que “viveu a mesma vida com
os outros” e veio a falecer em Camden, em 26 de março de 1892. Ainda
como “Gabriel”, sendo Maomé, é ao mesmo tempo uma outra e distinta
personalidade.

Essa identidade e disparidade (ao mesmo tempo) é a verdadeira solução


(assim se acredita) da controvérsia Bacon-Shakespeare.

IV

É talvez impossível ao homem meramente autoconsciente formar qualquer


conceito do que esse advento da Consciência Cósmica deva ser para aqueles
que a vivenciem. A pessoa é alçada de seu velho ego e vive mais no céu do
que na velha terra - mais corretamente, a velha terra se transforma em céu.
Uma das necessidades fundamentais desse período é a solidão. Por que?
Provavelmente porque a pessoa está tão ocupada com o seu novo mundo
(seu novo Eu), tão extasiada com ele, que simplesmente não pode suportar
ser chamada para o velho mundo (o velho ego). Assim, Balzac (nesse período
de sua vida) trancava-se - escondia-se - por semanas e meses de uma só vez.
Assim também Paulo não se relacionava com a carne e o sangue, “nem subia
a Jerusalém”[22:1-17], mas “partia para as regiões da Arábia” e parece ter
vivido muito a sós por um bom tempo. Nas mesmas circunstâncias, a solidão
se tornou uma necessidade para Whitman (embora ele naturalmente fosse
sociável em alto grau) e, nos primeiros tempos de sua vida Cosmicamente
Consciente, ele costumava passar dias, semanas e até meses por vez em
bairros escassamente povoados ou habitados de Long Island - especialmente
na praia.

Imediatamente após a iluminação de Jesus (se podemos confiar no relato


feito por Mateus e Marcos), ele foi “levado pelo espírito ao deserto” e perma­
neceu em solidão por certo tempo. E é provável que suficiente pesquisa reve­
lasse que este tipo de ação fosse universal em casos inequívocos. Seja como
for, Spedding [174:49] diz que: “De abril de 1590 até o final de 1591 (quase
dois anos), não encontro nenhum escrito de Bacon (a não ser uma carta de
cinco páginas!), nem qualquer notícia importante a respeito dele”. Enquanto
Bacon diz (referindo-se ao mesmo período de sua vida), escrevendo aBurghley
no final de 1591 ou no começo de 1592, quando tinha trinta e um anos e, de
acordo com esta hipótese, um ou dois anos após sua iluminação: “Não temo
que a ação a prejudique [a saúde dele], pois considero que meu ritmo normal
de estudo e meditação seja mais penoso [mais trabalhoso] que muitos tipos
de ação”. [174:56]
Parece que, especialmente durante esses dois anos, 1590 e 1591, Bacon
freqüentemente - para usar suas próprias palavras - “refugiou-se na sombra”
em Twickenham e “desfrutou as bênçãos da contemplação naquela doce
solitude que reanima a mente assim como fechar os olhos reanima a vista”
[129:71], Assim, “há períodos observados pelo Sr. Spedding em que Bacon
escreveu a portas fechadas e em que o assunto de seus estudos é duvidoso; e
há um longo recesso sobre o qual o mesmo cuidadoso biógrafo comenta que
não pode dizer que trabalho o incansável estudioso produziu durante aqueles
meses, pois não sabe de nenhum cuja data corresponda a esse período”
[129:71-2]. E sem dúvida a Sra. Pott está certa quando sugere que foi durante
tais períodos e provavelmente ao longo de 1590-91 que muitas de suas
primeiras peças foram escritas [129:71],

V
Assim temos a moldura em que montar o quadro: a mente de Bacon é
excepcionalmente precoce e ele entra em Consciência Cósmica, suponhamos,
no começo de 1590, aos vinte e nove anos de idade ou pouco depois; ele
tinha provavelmente escrito várias peças antes disto, algumas das quais podem
ter sido consideradas dignas de inclusão no fólio de 1623. Na primavera de
1590 (aos trinta anos) ele adquire o Sentido Cósmico. Nos dois anos seguintes
(1590-91), isola-se e produz várias peças, ao mesmo tempo que, numa espécie
de comentário paralelo a respeito de suas experiências mentais e de seu
trabalho, escreve os primeiros “Sonetos”, ao passo que os demais foram
escritos, um ou dois por vez, conforme as circunstâncias os requeriam, entre
este período e a data de sua publicação, 1609.
Seria apropriado, neste ponto, darmos alguma informação sobre a
personalidade de Bacon, se este assunto não fosse demasiado extenso para
os limites deste livro. A questão que nos interessa aqui é, naturalmente, a
seguinte: Eram seu intelecto e sua natureza moral (especialmente a segunda)
tais como os que são próprios das pessoas que têm Consciência Cósmica?
Quanto às respostas à segunda metade desta pergunta, surgiu uma dúvida
(fomentada principalmente por Pope e Macaulay). Este ponto não pode ser
discutido aqui. Tudo que pode ser dito é que este autor crê que Bacon era tão
grandioso moralmente quanto o era intelectualmente; e ele acredita que,
seja quem for que se dê ao trabalho de considerar seriamente os trabalhos
clássicos sobre o assunto, escritos por homens competentes e imparciais (tais
como Personal History, de Dixon [75], Life and Times, de Spedding [174],
Evenings With a Reviewer, de Spedding [177] e especialmente Life, deRawley,
que conhecia Bacon muito bem), chegará inevitavelmente à mesma conclusão.
Sobre ele, diz Rawley: “Ele não tinha malícia; não se vingava de injúrias;
não difamava a ninguém; ao contrário, procurava dizer o melhor que podia
ser dito de qualquer pessoa, mesmo tratando-se de um inimigo” [141:52], E,
depois de muitos anos de estudo, Spedding sintetiza o assunto como segue:
A evidência a partir da qual todos tiveram de julgar levou-me a supor que ele era
uma pessoa muito diferente de como era comumente considerado. Essa idéia me
induziu a procurar novas evidências e todas que descobri confirmaram minha
impressão. Não critico as pessoas por não saberem que conselho Bacon deu ao rei
quanto à convocação de um parlamento e a negociar com ele; mas digo que o teor do
conselho, tal como hoje apresentado, mostra que os integrantes do parlamento não
eram bons para fazer previsões; que a conclusão a que chegaram quanto ao caráter
de Bacon, partindo dos fartos indícios de que dispunham foi estranhamente inexata;
tão longe da verdade como se alguém considerasse Flavius como um exemplo de
mau administrador porque a economia a que servia estava indo mal. Tomo estes
elementos recentemente descobertos como testes. Se eu estivesse errado, teria sido
condenado; se Macaulay estivesse com a razão, eles o teriam confirmado. [178:189]

No final de seu livro, após todos os fatos da vida de Bacon que chegaram
até nós terem sido revistos e considerados, ele prossegue:
Para mim pelo menos, por mais que se possa lamentar uma queda como essa, de
um homem como ele, e um fecho tão lastimável de uma vida como a dele, sempre
senti que, não tivesse ele caído, ou tivesse ele caído numa situação menos desoladora
em suas condições exteriores, eu nunca teria sabido o quanto ele era um homem bom
e grandioso - dificilmente, talvez, o quanto a bondade intrínseca é uma coisa grandiosa
e invencível. Passando do mundo exterior para o mundo que estava em seu interior,
não conheço nada mais inspirador, mais comovente, mais sublime, do que a indómita
energia, a confiança, a clarividência, a paciência e a compostura com que seu espírito
sustentou-se naquele destino tão deprimente. Nem o coração do próprio Jó foi tão
dolorosamente provado, nem passou ele melhor por suas provas. Nos muitos livros
que Bacon escreveu durante esses últimos cinco anos, não encontro lamentações
ociosas, queixas vãs contra terceiros, nenhuma justificativa medíocre de si mesmo;
nenhum traço de uma mente desgostosa, vacilante ou desesperada. [178:407]

Compare-se com esta avaliação da atitude mental de Bacon sob as circuns­


tâncias deprimentes de seus últimos anos o imperecível e inexaurível ânimo
de Walt Whitman, Jacob Behmen e William Blake, em situações semelhantes.
VI
Aqui (enquanto falamos dos traços pessoais deste homem), temos uma
boa oportunidade para citar algumas passagens que parecem vislumbrar certa
qualidade da mente de Bacon semelhante à faculdade superior que está em
discussão neste livro. Por exemplo, Rawley [141:47], como resultado de
observação pessoal, diz dele: “Tenho sido induzido a pensar que se houve
um raio de conhecimento oriundo de Deus em qualquer homem nestes tempos
modernos, foi nele. Pois, embora ele fosse um grande ledor de livros, seu
conhecimento não provinha de livros e sim de fundamentos e noções oriundos
de seu interior, os quais, não obstante, ele externava com grande cautela e
circunspecção”. Em outras palavras, Rawley acha que Bacon era inspirado e
diz que ele era extremamente cuidadoso em publicar as verdades ou as idéias
extraídas dessa fonte. E isto é exatamente o que afirma o autor deste livro
como uma razão para a autoria oculta das peças e dos sonetos.
Notem-se também estas palavras de Bacon, extraídas de seu ensaio, Da
Verdade [35:82]: “A primeira criatura de Deus, na criação dos dias, foi a luz
do sentido; a última foi a luz da razão; e seu trabalho no Sábado, desde
então, é a iluminação do seu espírito”. Em outras palavras: Na evolução da
mente humana, foi primeiramente produzida a consciência simples; depois
a autoconsciência; e, por último, está sendo produzida hoje a Consciência
Cósmica. Bacon prossegue: “Primeiro ele insuflou luz sobre a face da matéria
do caos [e produziu vida, consciência simples]; depois insuflou luz na face
do ser humano [e produziu autoconsciência]; e em seguida insuflou e inspirou
luz na face de seus escolhidos” [dotando-os de Consciência Cósmica]. Compa­
re-se: “Tem-se dito que grandes são os sentidos, maior do que os sentidos é
a mente [a consciência simples], maior do que a mente é o discernimento [a
autoconsciência]. O que é maior do que o discernimento é isto [a Consciência
Cósmica]. Assim, conhecendo aquilo que é mais elevado que o discernimento
e restringindo-te por ti mesmo [note-se a inevitável reduplicação do indiví­
duo], destrói o ingovernável inimigo na forma do desejo”[154:57], E ainda:
“Não será pelo raciocínio que a lei será encontrada; ela está além do âmbito
do raciocínio” [154:3 9],
É de se notar que Bacon parece ter reconhecido um intervalo tão grande
entre a luz da razão e a iluminação do espírito quanto o intervalo entre a luz
do sentido e a da razão. Isto é, que ele reconheceu um intervalo tão grande
entre a Consciência Cósmica e a Autoconsciência quanto o que existe entre
esta última e a consciência simples - exatamente como sustenta o autor
deste livro. Mas, no campo da autoconsciência, onde poderia ele encontrar
um intervalo assim entre a razão e qualquer coisa acima da razão?

Além disso, em sua grande prece [175:469], diz Bacon:

A Ti sou devedor pelo generoso ta­ O talento em questão é o Sentido Cósmico.


lento de Teus dons e Tuas graças, que Bacon não o deixou ficar improdutivo, mas não
nem ocultei nem entreguei (como deveria fez dele tanto uso quanto poderia e deveria ter
feito. Devia ter vivido sua vida para ele (como o
ter feito) a cambistas, com os quais po­
fizeram Gautama, Jesus e Paulo), mas tentou
deria ter dado mais lucro; mas o gastei viver (e viveu) duas vidas e malgastou uma gran­
mal em coisas para as quais eu menos de parte de sua vida “em coisas para as quais
estava preparado; assim , posso ver­ menos estava preparado” - leis, política, etc.; as­
dadeiramente dizer que minha alma tem sim, pode-se verdadeiramente dizer que sua alma
sido um estranho no decurso de minha (o Bacon do Sentido Cósmico) era um estranho
na vida do Bacon notório (o autoconsciente).
peregrinação.

O Sentido Cósmico produziu as peças. Se Bacon tivesse vivido abertamen­


te toda a sua vida para o Sentido Cósmico, que outras, talvez maiores obras
não poderia ter produzido? E ao invés de sua quase oculta e mal interpretada
vida poderíamos ter tido mais uma daquelas vidas abertas, nobres, cada uma
das quais é uma fonte de infindável inspiração para a espécie humana que
está lentamente lutando, a partir daquilo que vemos ao nosso redor, para
aquela meta divina.

Para encerrar esta parte do assunto, vamos dar uma olhada em dois outros
breves excertos. O primeiro é do Plano da Obra e, o segundo, do Novum
Organum. Diz Bacon:

Se trabalharmos em tuas obras com Esta passagem parece aludir claramente a


o suor do nosso rosto, tu nos farás partici- »ma vida espiritual superior que pode ser
pantes em tua visão e no teu Sábado. Hu- avançada nesta vida e de que se pode supor que
mildemente rogamos que este desígnio ° escritor tenhatido exPenência'
esteja firme em nós e que, através destas nossas mãos e das mãos de outros a quem
dês o mesmo espírito, tu te dignes dotar a família humana de novas graças. [34:54]

E há ainda o seguinte:
Posso então dizer de mim mesmo Se o “licor extraído de inúmeras uvas” não
aquilo que alguém disse como pilhéria ®0 Sentido Cósmico, não parece muito claro o
(dado que tão verdadeiramente evidencia l “6 Possa ser-
a diferença): “Não é possível que tenhamos de pensar do mesmo modo, visto que um
bebe água e outro bebe vinho”. Ora, outros homens, tanto em tempos antigos como
nos modernos, em matéria de ciência têm bebido como água um licor cru, fluindo
espontaneamente do discernimento ou inferido por lógica, como de um poço por
roldanas. Ao passo que eu brindo à humanidade com um licor extraído de inúmeras
uvas, de uvas perfeitamente m aduras, colhidas em cachos, ajuntadas e então
esmagadas na prensa e finalmente purificadas e clarificadas na cuba. Portanto, não é
de admirar que eles e eu não pensemos do mesmo modo. [34:155]

vn
Este não é, naturalmente, o lugar para uma discussão da autoria das
peças, mas como é aqui tido como certo que elas devam ser creditadas a
Bacon, será correto indicarmos algumas das principais razões para adotarmos
esta posição. O depoimento do autor deste livro sobre o assunto será apre­
sentado quando alguns dos Sonetos estiverem sendo considerados. À parte
dessas passagens nos Sonetos, as “razões” em questão podem ser assim resu­
midas:

a. O grande número de palavras novas nas peças, estimadas em quinhentas,


em maioria do latim, e o número muito maior de palavras velhas usadas
com novo significado, estimadas em cinco mil, deixam claro que elas
foram escritas, não apenas por um gênio, mas também por um homem
erudito - um homem que lia latim tão fluentemente que quase chegava a
pensar neste idioma. Depois, a semelhança do estilo de Bacon com o das
peças e, acima de tudo, a espantosa identidade de vocabulário nos trabalhos
em prosa e nas peças, tão maravilhosa que 98,5% das palavras de “Shakes-
peare” são também de Bacon [37:133], bem como o uso das mesmas metá­
foras e dos mesmos símiles, das mesmas antíteses, etc. [37:136], tomam
praticamente certo (especialmente quando se considera que esse vocabu­
lário, essas metáforas, esses símiles e essas antíteses são em alta escala
novos) que a mesma mente produziu os dois conjuntos de livros - o
“shakespeariano” e o baconiano.

b. Não somente há grande número de novas palavras e palavras antigas com


novos significados, metáforas, símiles, etc., comuns às peças de
“Shakespeare” e à prosa de Bacon, mas o grande número de frases e de
expressões modificadas que aparecem também em ambas, não pode ser
atribuído a mero acidente. Vejam-se as centenas de exemplos dados por
Donnelly [74], por Wigston [197], por Holmes [99] e outros.

C. Bacon e “Shakespeare” leram os mesmos livros, e não somente isto, mas


os livros favoritos de um eram os favoritos do outro.

d. Ambos escreveram sobre os mesmos assuntos. AfúosofmáQ De Augmentis,


do Novum Organum e de outras obras em prosa é constantemente repro­
duzida nas peças; e os ensaios de Bacon e as peças tratam o tempo todo
dos mesmos assuntos (a vida humana e as paixões humanas) e sempre do
mesmo ponto de vista. [197:25 et seq]

e. Em todas as espécies de assuntos, grandes e pequenos, o ponto de vista de


ambos é o mesmo - eles nunca expressam opiniões irreconciliáveis.
f. Eles foram os dois (se é que foram dois) maiores homens que viveram no
mundo em sua época. Durante trinta anos viveram naquilo que hoje
consideraríamos uma pequena cidade de cento e sessenta mil habitantes
[82:820] e não parece que alguma vez tenham se encontrado, assim como
não há evidência de que nenhum dos doisjamais tenha sabido da existência
do outro. O menor entre os (supostos) dois homens - Bacon - deixou
atrás de si abundante evidência da atividade literária de sua vida em forma
de manuscritos, cartas a amigos e recebidas de amigos, etc. O maior,
“Shakespeare”, nada deixou; nem um manuscrito, nem uma carta.
g. Sabe-se que Bacon conhecia todos os locais das peças, por residência, por
visita, ou por ter lido a seu respeito - principalmente pelos dois primeiros
motivos. O escritor freqüentemente revela íntima familiaridade com esses
locais. Justamente o local especial, que deve ter sido conhecido nos
mínimos detalhes por William Shakespeare - Stratford e suas vizinhanças
- não está incluído.
h. Há um claro paralelismo entre as sucessivas peças (seus incidentes, suas
cenas, etc.) e as ocorrências da vida de Bacon (seu cargo, circunstâncias,
residências, etc.), enquanto parece não haver nenhum entre elas e a vida
de “Shakespeare”, até onde é do nosso conhecimento. [130]

i. A relação que existe, por um lado, entre Ricardo III e Henrique VIII, de
“Shakespeare” e, por outro lado, a história em prosa de Henrique VIII, de
Bacon, faz com que seja quase certo que o mesmo homem tenha escrito as
três obras [197:1-24],
j. Afirma-se às vezes que Bacon era cientista, filósofo, homem da corte,
advogado, homem de negócios, mas não um homem de grande perspicácia
ou um grande poeta, que pudesse ter escrito as peças. Mas, em primeiro
lugar e deixando de lado as peças, Bacon era ambas as coisas: era perspicaz
e era poeta. Macaulay não exagera quando escreve que, como é demonstra­
do em suas obras em prosa: “A faculdade poética era poderosa na mente
de Bacon, mas não, como sua perspicácia, poderosa a ponto de ocasional­
mente usurpar o lugar de sua razão e tiranizar totalmente o homem”.
“Nenhuma imaginação”, acrescenta ele, “jamais foi ao mesmo tempo tão
forte e tão completamente dominada” [120:487],

k. Só o argumento de Promus já pareceria, a uma mente imparcial, bastante


conclusivo quanto à autoria baconiana das peças. Se essa coletânea [129]
não foi feita para ajudar na produção das peças, poderia alguém ter a
bondade de nos dizer com que finalidade Bacon empreendeu e persistiu
na árdua tarefa de compilá-la? Aqueles que ainda tenham dúvidas sobre
este assunto fariam bem em ler os escritos de Bacon abertamente reconhe­
cidos. Então, em segundo lugar, tem-se dito aqui que Bacon era na reali­
dade dois homens (o Bacon autoconsciente e o Bacon Cosmicamente
Consciente); que o homem visto pelos contemporâneos de Bacon e nas
obras em prosa era o primeiro, enquanto o homem oculto que produziu as
peças e os Sonetos era o segundo. O Bacon Cosmicamente Consciente
fazia (naturalmente) uso de todo o conhecimento e de todas as faculdades
do Bacon autoconsciente e, ao lado disto, do imenso discernimento
espiritual e dos poderes que estão presentes quando se tem Consciência
Cósmica.

1. Por volta de 18 de abril de 1621, após sua queda, Bacon compôs uma
prece que Addison citou como parecendo as devoções de um anjo e não de
um homem [175:467], Nenhuma poesia mais verdadeira nem mais elevada
é encontrada nas peças ou nos Sonetos do que nessa prece. Nenhum homem
com a alma no corpo pode lê-la e duvidar de sua absoluta candura e
sinceridade. Nela, diz ele: “Suscitei (embora numa roupagem modesta) o
bem de todos os homens”. Ninguém jamais explicou o que pudesse ser
esse “bem de todos os homens” que Bacon suscitou e que andava em
roupagem modesta. Poderia ser alguma outra coisa além das peças? “O
bem de todos os homens” é uma frase tão grandiosa que o propósito a que
se refere tem de ser necessariamente imenso. Que outro propósito do gênero
poderia ter existido na mente de Bacon naquela época? Bem, suas obras
filosóficas - o De Augmentis, o Novum Organum e as demais? Sim, sem
dúvida isto seria verdadeiro a respeito delas. Mas o propósito de que se
falou estava numa roupagem modesta. Estavam estas últimas assim? Bem
ao contrário. Elas trajavam genuína vestimenta de alta classe, filosófica,
tanto na forma como no estilo - além disto, no melhor latim que, por
amor ou por dinheiro, poderia ser obtido para elas.

m.Bormann [28] e Ruggles [145], em dois livros fascinantes e de pontos de


vista algo diferentes, competentemente salientaram (como aliás fora feito
diversas vezes antes mas não tão sistematicamente) com que persistência
o pensamento de Bacon e o de “Shakespeare” correm no mesmo canal;
como a ciência e a filosofia do primeiro são constantemente introduzidas
na poesia do segundo, tornando-se seu próprio sangue vital e sua alma, e
como um nunca perde vista o método delineado e seguido pelo outro.
Com efeito, se nada tivesse jamais sido escrito sobre o assunto exceto
esses dois livros (e eles não tocam nos argumentos principais, básicos),
eles estariam em forte concordância, numa demonstração da proposição
de que o homem que escreveu Tempest, Lear eMerchantofVenice escreveu
também De Augmentis e Silva Silvarium.

n. Finalmente, considere-se o anagrama descoberto pelo Dr. Platt, na época


de New Jersey, em Love ’s Labor ’s Lost [51:376]: “Começando no início
do quinto ato, encontramos, uma coisa após outra, as seguintes expressões:
Satis quod sufficit (aquilo que satisfaz é bastante). Novi hominen tanquam
te (conheço o homem tanto quanto vos conheço). Ne intelligis domine
(vós me compreendeis, senhor)? Laus Deo, bene, intelligo (Deus seja
louvado, compreendo bem). Videsne quis venit (vedes vós quem vem)?
Video et gaudeo (vejo e me regozijo). Quare (por que)? Depois, algumas
linhas mais adiante, a palavra Honorificabilitudinitatibus é (por assim
dizer) jogada no texto. Imediatamente depois alguém diz: Are you not
lettered (não sois vós letrado)? A resposta é: Yes, he teaches boys the
hornbook (sim, ele ensina aos meninos a cartilha). What is a b spelt
backward, with the hom on his head (que é a b soletrado às avessas, com
o chifre em sua cabeça)? A resposta a isto, naturalmente, é Ba, with a
hom added (Ba, acrescentado de um chifre). Ora, Ba com um chifre adicio­
nado é Bacomu, que não é mas sugere e provavelmente se pretendeu que
sugerisse Bacon. Mas de onde se deriva o “a b” que deverá ser soletrado
às avessas? No meio da palavra longa encontramos estas letras nesta ordem:
a b. Comecemos agora no b e soletremos às avessas como nos foi dito.
Teremos então bacifironoh. Destas letras não é difícil selecionaria Bacon.
Agora, tomemos a outra metade da palavra, soletrada para a frente -
ilitudinitatibus. Não é difícil dela selecionar ludi (as peças), tuiti (protegi­
das ou guardadas), nati (produzidas). Estas palavras, com as que tínhamos
antes, dão: Ludi tuiti Fr. Bacono nati. As letras restantes são hiiibs, que
são facilmente lidas como hi sibi. Agora, colocando as palavras juntas em
ordem gramatical, teremos: Hi ludi, tuiti sibi, Fr. Bacono nati (estas peças,
confiadas a si próprias, procederam de Fr. Bacon). É um anagrama perfeito.
Cada letra é usada uma vez e somente uma vez. A forma da palavra longa
é latina e ela é lida em latim. O sentido das palavras envolvidas corresponde
ao sentido da palavra envolvente, desde que ela tenha algum sentido
(compare-se honorificare, honorifico; veja-se o Dicionário Century). O
latim envolvido é gramatical. A intenção é totalmente declarada e clara.
Não há falhas.

“Mas de onde vem a palavra longa, e será que pode ser descoberta uma
relação entre ela e o homem real, Francis Bacon? Para responder a isto,
voltemos ao manuscrito de Northumberland House, MS„ mencionado acima.
Esse MS. pertencia a Bacon e nunca poderia ter sido visto pelo ator, Shakes-
peare. Na folha externa está escrita a palavra: Honorificabilitudino. Esta é
também um anagrama. Ela envolve as palavras: Initio hi ludi Fr. Bacono
(no início estas peças de* Fr. Bacon). Parece ter sido uma primeira idéia. As
palavras latinas não formam uma oração completa; sugerem um significado
mas não o contêm de fato. O anagrama nesta forma não era considerado
satisfatório e foi depois melhorado na forma encontrada em Love ’s Labor ’s
Lost.

“Assim temos diante de nós a feitura da palavra por Bacon. O sentido da


palavra e sua história correspondem. O caso parece estar completo.”

o. Mas argumentos como os acima apresentados, embora convincentes e


realmente suficientes por si mesmos se francamente considerados, não
são mais necessários para comprovar - embora se possa permitir que
sugiram - a autoria baconiana das peças e das poesias, uma vez que este
autor, nos últimos dois anos, descobriu que estas estão todas ou praticamen­
te todas assinadas por Francis Bacon, por meio de uma cifra inventada
por ele próprio e que ele manteve em segredo por quarenta anos. O indício
em que assenta esta afirmação, se ainda não publicado quando este livro
for lançado, será dado ao mundo logo depois.

* N. T. - O “de” indica um ablativo e não um genitivo; assinala origem e não posse


ou autoria.
VIII

Mas este livro nada tem a ver com a questão Bacon-Shakespeare, exceto
incidentalmente e por força de circunstâncias. Alguém escreveu as peças e
os “Sonetos” e acredita-se que essa pessoa, seja quem for, tinha Cons­
ciência Cósmica. E assim como são encontrados em quase todos esses ca­
sos dois tipos de escritos - a saber, um que flui do Sentido Cósmico e outro
que, brotando na mente autoconsciente, trata diretamente do Sentido Cós­
mico como uma realidade que para ela é objetiva - assim estes dois tipos
de escritos são encontrados neste caso: (1) As peças, que tratam do mun­
do dos homens e fluem diretamente do Sentido Cósmico e (2) os Sone­
tos, que tratam (do ponto de vista do homem autoconsciente) do próprio
Sentido Cósmico, de maneira sutil e oculta, como é usual e na verdade
inevitável.

Resta (e é tudo o que pode ser feito aqui) apresentar tantos “Sonetos”
quantos caibam no espaço disponível, acompanhados das necessárias
observações explanatórias.

IX

Os primeiros dezessete “Sonetos” instam o Sentido Cósmico a dar fru­


tos. A teoria é de que eles foram escritos em primeiro lugar tais como
se apresentam e foram os primeiros escritos de seu autor após a ilumina­
ção. Se parecer estranho que um homem tenha escrito assim, que se compare
isto com um indubitável caso de precisamente a mesma coisa aqui suposta.
A edição de 1855 de Leaves o f Grass foi escrita por Whitman imediata­
mente após a iluminação. Na terceira página (o prefácio foi escrito poste­
riormente) aparecem estas palavras, dirigidas ao Sentido Cósmico: “Solte o
freio de sua garganta - não palavras, não música nem rima eu quero; não
costume nem preleção, nem mesmo o melhor; só do acalento gosto, do
cantarolar de tua valvulada voz”. No caso de Whitman, como nos casos de
Buda e de Jesus, a indução especial do Sentido Cósmico era para uma vida
nobre. No caso de Bacon, como no de Balzac, era especialmente para a
expressão literária. Em conformidade com esta distinção, Whitman escreve,
numa vida longa, dois pequenos livros; Bacon, numa vida mais curta, dez
ou vinte vezes mais. A invocação de Whitman ocupa três versos; a de Bacon,
duzentos.
(*1) Único - í.e., incomparável
arauto da ostentosa primavera.
Em quarenta e três casos de Cons­
De mais belas criaturas aumento desejamos,
ciência Cósmica, a época do ano da
Que assim de beleza nunca feneça o roseiral, primeira iluminação é conhecida
Mas como as mais maduras no tempo a com maior ou menor certeza em
fenecer virão, vinte, e em quinze destes aconteceu
Seu tenro herdeiro sua memória há de portar: na primeira metade do ano - de
Mas tu, para teus próprios luzidos olhos jan eiro a junho. Teria talvez a
iluminação de Bacon ocorrido na
contraída,
primavera? Seria este o significado
De tua luz a flama alimentas com do verso?
auto-substancial combustível, A mais bela das criaturas é o que
Fome causando onde abundância existe, Plotino denomina “esta sublime
Tu mesma teu inimigo, para teu doce Eu tão condição” e da qual disse Dante: “Ó
cruel. esplendor da eterna luz vivente! Que
se tomou tão pálido sob a sombra do
Tu, que ora do mundo o novo ornamento és,
Pamasso, ou que tanto bebeu em sua
E da ostentosa primavera o único (*1) arauto, cisterna que ele não pareceria ter sua
Em teu próprio botão tua essência sepultas, m ente estorvada, tentando a ti
E, tenro sovina, a mesquinhar desperdiças. representar tal como apareceste ali
Do mundo te apieda, ou então o glutão sê, onde em harm onia o céu a ti
A devorar o que ao mundo é devido, pela obscurece quando no ar livre em
cova e por ti. verdade te revelaste”. [71:201]

SONETO n

Quando quarenta invernos tua fronte (*2) Quando o Sentido Cósmico


assediarem, (*2) tivesse quarenta anos de idade,
E profundas valas no campo de tua beleza cavarem Bacon teria setenta.
De tua juventude a orgulhosa veste, tão admirada
hoje,
Andrajosa erva será, de pouco valor considerada:
Ao te perguntarem então onde toda tua beleza
esteja,
Onde todo o tesouro de teus vigorosos dias, -
Dentro de teus próprios olhos tão cavos dizeres,
Uma devoradora vergonha e um vão louvor haveria.
Quanto mais louvor o uso de tua beleza mereceria,
Se pudesses responder - “Este belo filho meu
Minha conta fechará e minha velha desculpa será”-
Provando sua beleza por sucessão tua!
Isto recém-feito deveria ser quando velho
fosses,
E teu sangue quente visses, quando frio
o sentisses.
Olha em teu espelho e dize a face que vês, (*3) A lgum a mãe desabençoas:
Hora já é de essa face outra formar; destitui alguma arte da prole
Cujo recente trato se não renovas, que poderia (deveria) ter tido, da
influência geradora do “menino
Deveras o mundo logras, alguma mãe
encantador” - o Sentido Cósmico.
desabençoas. (*3)
Pois onde está ela, tão linda (*4), cujo imérito (*4) Onde está ela, tão linda? -
ventre, Qual arte existe, tão linda, etc.
De teu cultivo a colheita desdenha?
Ou quem tão afeiçoado é ao túmulo (*5) Es o espelho de tua mãe - isto
De seu narcisimo, que a posteridade faça parar? é, o espelho da natureza.
“Segura o espelho voltado para a
És o espelho de tua mãe (*5), e ela em ti
natureza” (Hamlet). No Sentido
De volta chama o encantador abril de seu apogeu: Cósm ico, toda a n atureza está
Assim, através de janelas da tua idade verás, refletida, inclusive o coração
Despeito as rugas, este teu dourado tempo, humano. A este propósito, consi­
Mas se lembrado de não ser viveres, dere-se (além das peças de
Solteiro morre, e tua imagem contigo morre. “ Shakespeare”) a C om édie
H um aine, de B alzac; a D ivina
Comédia, de Dante e Leaves o f
Grass, de Whitman.
SONETO XV

Quando considero que tudo que cresce (*6) Todas as coisas, após um
Só por um breve momento em perfeição se período m om entâneo de
mantém, maturidade, murcham e decaem. O
próprio Sentido Cósmico está sujeito
Que este imenso palco além de espetáculos nada
à mesma lei universal. Para que ele
apresenta, absolutamente não morra com a
Onde as estrelas em secreta influência observam, morte de seu possuidor, ele (o Bacon
Quando percebo que homens qual plantas autoconsciente) o im planta
aumentam, novamente nos Sonetos.
Pelo mesmíssimo céu animados e refreados,
Em sua juvenil tolice gabando-se de que o alto
decrescem,
E da memória seu esplêndido estado apagando;
Então a presunção desta inconstante estada
A meus olhos em juventude mais rico vos torna,
Onde perdulário Tempo com Decadência disputa,
Para em maculada noite vosso dia de juventude
mudar;
E, tudo em guerra com o Tempo, por amor a
vós,
Conforme ele de vós toma eu em vós novo
implanto. (*6)
Mas por que vós, de maneira mais poderosa, (*7) Ele (O Bacon autoconsciente)
Não fazeis guerra contra o Tempo, esse sanguinário irá (diz ele) implantar o Senti­
tirano? do Cósmico nos Sonetos. Mas, (diz
E em vosso declínio não vos fortaleceis ele ao Sentido Cósmico), por que
Com mais abençoados meios que minha estéril rima? razão vós (vós mesmo) não adotais
Agora, no ápice de felizes horas estais; um modo mais poderoso de assegu­
rar vossa im ortalidade terrena?
E muitos intocados jardins, não arranjados ainda,
Estais agora no apogeu de vossa
Com virtuoso desejo vossas vivas flores à luz trariam,
juventude e muitos intocados jardins
Muito mais parecidas do que vossas pintadas (arte, poesia, drama, etc.) sentir-se-
imitações: iam felizes em trazer à luz vossos
Assim deveriam ser da vida os versos que a vida filhos - vossas vivas flores. E estas
restauram, se pareceriam muito mais convosco
Que este, o pincel do Tempo, ou minha pupila pena, do que uma descrição de vós feita
Nem num mérito interior nem na beleza exterior, de fora (como no caso dos Sonetos).
Podem vos fazer aos olhos dos homens viver. Sim, porque os Sonetos são uma
O de vós mesmo desfazer-vos, imóvel vos descrição do Sentido Cósmico do
mantém; ponto de vista da autoconsciência,
E por vossa própria doce arte conduzido ao passo que a coisa realmente
desejável seria que o próprio Sentido
deveis viver. (*7)
Cósmico falasse. “Só do acalento
gosto”, diz Whitman, “do cantarolar
SONETO XVII
de tua valvulada voz”. Se vos
Quem meu verso acreditaria em tempos por vir, apagásseis, diz Bacon ao Sentido
Se preenchido fosse com vossos altíssimos Cósmico, haveríeis de vos tom ar
desertos? imortal. Haveríeis de “vos manter
imóvel”.
Embora seja ele ainda, o sabem os Céus, apenas
qual tumba
(*8) Deixai-me dizer o que eu quei­
Que vossa vida esconde e nem metade mostra de ra (como nos Sonetos) a vosso
vossas partes. respeito; ninguém poderia saber, de
Se eu pudesse escrever de vossos olhos a beleza, minhas palavras, o que realmente
E em novos números todas as vossas graças enumerár, sois. Deixai-me dizer como pareceis
Diria a era por vir, “este poeta mente; a mim e se dirá que exagerei, que
Toques assim celestiais, faces terrenas jamais menti. Mas produzi - deixai atrás de
tocaram”. vós filhos como vós —dignos de vós
Assim, por sua idade amarelecidos, deveriam meus mesmo - como devem ser - então
papéis não sereis negado. Inequivocamente
Ser escarnecidos, como homens velhos de menor vivereis duas vezes: (1) Em vossa
verdade que a língua; própria prole, cuja divindade nin­
guém poderá questionar e (2) em mi­
E de fúria de poeta deveriam vossos justos direitos
nha descrição de vós, nos Sonetos,
ser chamados,
a qual será vista, por comparação
E de exagerada métrica de canção antiga: com a vossa própria prole, como
Mas se algum filho vosso vivo fosse naquele verdadeira.
tempo,
Duas vezes viver deveríeis - nele e em minha
rima. (*8)
A um dia de verão devo comparar-te? (*9) A primeira parte do soneto é um
Es mais encantador e mais temperado: louvor ao Sentido Cósmico,
mico. Pareceria que, na ocasião em que
Fortes ventos sacodem sim os graciosos botões
este soneto foi composto, Bacon havia
de maio,
estabelecido em sua própria mente como
E do verão o prazo demasiado curto é: o Sentido Cósmico iria se expressar, e
Vezes quente demais, do céu o olho brilha, parte do trabalho parece ter sido feita -
Vezes em sua dourada pele esmaecido é; isto é, algumas das peças terem sido
E tudo que belo é, do belo vezes declina, escritas. Ele fala do Sentido Cósmico
Pelo acaso ou pelo curso mutante da natureza como tendo subsistido ao tempo em
desadomado; versos eternos.
Mas não murchará teu eterno verão,
Nem a posse perderá daquele belo que deves; (*10) O Soneto XXXIII se refere ao
Nem a Morte se gabará de que em sua sombra caráter intermitente da ilumina­
ção, que é verdadeiro em todos os casos
vagueias,
de Consciência Cósmica, nos quais há
Quando em eternos versos ao tempo subsistes: mais de um lampejo da divina radiância.
Enquanto respirar possam homens, ou ver Trata do desânimo e da aridez dos
possam olhos, intervalos, em comparação com os
Tanto vive isto e a ti dá vida. (*9) períodos em que o Sentido Cósmico está
efetivamente presente. Assim, Behmen,
referindo-se ao caráter intermitente de
SONETO XXXIII sua iluminação, diz [40:16]: “O sol
brilhou sobre mim por um bom tempo
Inumeráveis gloriosas manhãs tenho visto mas não constantemente, pois escondeu-
Os cumes das montanhas com soberano olho se e então eu não sabianem compreendia
bem m eu próprio trabalho” [seus
exaltarem,
próprios escritos]. Note-se o uso das
Com face dourada os verdes prados beijando, mesmas imagens por ambos os autores.
Pálidos córregos com celeste alquimia Também Yepes nos diz: “Quando essas
embelezando; visões ocorrem, é como se uma porta
Quando em vez, nas nuvens mais baixas permitir fosse aberta para uma luz maravilhosa,
andar pela qual a alma vê, assim como os
Com feia angústia em sua celestial face, homens vêem quando o raio lampeja
numa noite escura. O relâmpago toma
E do mundo infeliz seu rosto esconder,
visíveis por um instante os objetos do
Para o poente com esta vergonha escapando: ambiente e depois os deixa no escuro,
Embora meu filho certa manhã cedo deveras tenha embora suas formas permaneçam na
brilhado imaginação. Mas no caso da alma a
Com todo o triunfante esplendor em minha fronte; visão é muito mais perfeita, pois as
Mas, ai! que só por uma hora meu ele foi. coisas que ela viu em espírito naquela
Uma nuvem do campo de mim o escondeu agora. luz ficam tão impressas nela que, sempre
que Deus a ilumina novamente, ela os
Mas a ele, por meu amor, nem um pouquinho
vê claro como o fez na primeira vez,
desdenha; exatamente como num espelho, no qual
Macularem-se podem os sóis do mundo, vemos objetos refletidos toda vez que
quando o sol do céu se macula. (*10) nele olhamos. Uma vez concedidas à
alma, essas visões nunca mais a deixam totalmente; pois as formas permanecem, embora se tomem um
tanto indistintas no decurso do tempo. Os efeitos dessas visões na alma são quietude, iluminação,
glória como que jubilosa, doçura, pureza, amor, humildade, propensão ou elevação da mente a Deus,
às vezes mais, às vezes menos, às vezes mais de um, às vezes mais de outro, conforme a disposição da
alma e a vontade de Deus” [203:200-1], Comparem-se as últimas palavras de Yepes com Paulo: “O
fruto do espírito [Cristo, o Sentido Cósmico] é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade,
fé, mansidão, temperança” [22:5:22],

SONETO XXXVI (*11) É razoável supor que este so­


neto represente uma ocasião
Deixa-me confessar que dois temos de ser, posterior às citadas acima. É portanto
Ainda que nossos indivisos amores um sejam: lícito imaginar que, quando ele foi
escrito, uma boa quantidade das
Assim as nódoas que comigo permanecem,
peças já existia. Por alguns anos
Sem tua ajuda, só por mim conduzidas sejam. Bacon vinha levando um a vida
Em nossos dois amores um afeto somente existe, dupla; de um lado, a vida de um
Embora em nossas vidas um separado rancor, advogado, um homem da corte, um
Que, bem que não altere do amor o efeito único, político - sua vida autoconsciente;
Em verdade doces horas roube ao deleite do amor. de outro lado, a vida do vidente, do
Talvez eu nunca mais a ti reconheça, poeta - a vida iluminada por aquela
Para que minha lamentada culpa a ti não “luz rara, indizível, iluminando a
própria luz”- a “luz que nunca
envergonhe;
existiu na terra ou no mar”- numa
Nem tu com pública bondade me honres, palavra, a vida em Consciência
A menos que de teu nome essa honra tomes: Cósmica. Ele mantivera estas duas
Não o faças, porém; de tal modo te amo vidas inteiramente separadas. Nin­
Que, sendo tu meu, minha é tua boa reputação. guém sabia, ou poucos sabiam
(*11) (Anthony talvez, e Mathews) que ele
estava vivendo qualquer outra vida
que não a primeira. Tomara-se para ele uma política decidida, por muitas razões fortes e por
sentimentos mais fortes do que as razões, que as duas vidas seriam mantidas em separado. Apatente
dualidade disto e de algum outro dos Sonetos será quase ou totalmente incompreensível para muitos,
quando aplicada a duas partes da mesma pessoa ou duas personalidades no mesmo indivíduo. Mas
sabemos que (supondo que a interpretação aqui adotada seja correta) a linguagem dos Sonetos não
é mais extrema, neste particular, do que a linguagem em outro destes casos em que não pode haver
dúvida quanto ao seu significado. Assim, Whitman escreve: “Com risos e muitos beijos, O alma, tu
me aprazes e eu a ti” [193:321], E ainda: “Eu, voltando-me, a ti chamo , Ó alma, tu, verdadeiro
eu”[ib.].
O autor do soneto diz ou parece dizer que, se ele reconhecesse seu outro Eu - o Sentido Cósmico
- e sua prole - as peças - qualquer bem que fosse feito a ele (à pessoa autoconsciente) seria tomado
a seu Eu superior, e que ele não consentirá nisto.

SONETO XXXIX

Oh, como teu valor com formas posso eu cantar?


Quando de mim toda a melhor parte és ?
Que pode meu próprio louvor ao meu próprio Eu trazer?
E que é senão meu mesmo quando a ti louvo?
Apesar disto, divididos vivamos, (*12) O significado deste soneto
E nosso querido amor o nome de um só perca, parece inequívoco. Dificil-
Q ue por esta separação eu possa dar mente carece de comentário. O autor
diz que o Sentido Cósmico é a melhor
Aquilo que te é devido e que só tu mereces.
parte dele (o que, naturalmente, era)
O ausência, que tormento provarias ser,
e, sendo uma parte dele mesmo, não
Não tivesse teu amargo vagar doce despedida feito, é nada polido da parte dele louvá-lo.
Para com pensamentos de amor o tempo Mas (diz ele) por esta razão mesmo,
entreter, - vivamos como dois. Seu período de
Tempo e pensamentos que tão docemente privação do Sentido Cósmico, natu­
enganam - ralmente, é o tempo em que está
E que tu ensinas como fazer um ser dois, ocupado com a lei, a política, os ne­
gócios, os afazeres mundanos - todo
Este aqui louvando, que doravante aqui fica!
o tempo, com efeito, entre os perío­
(* 12)
dos de iluminação, quando seu tem-
po e sua mente não estavam ocupados com as coisas do Sentido Cósmico. Essa ausência se torna
feliz pelo conhecimento de que a qualquer hora ele pode se voltar para pensamentos do Sentido
Cósmico e das coisas que são próprias dele. A mais forte expressão neste soneto é: “Tu [o Sentido
Cósmico] ensinas como fazer um ser dois”. Isto é, como tem sido muitas vezes enfatizado neste
livro, uma característica fundamental dos casos em questão. “A consecução da condição de Arahat”
(da Consciência Cósmica), diz Gautama, fará com que um homem “sendo um, multiforme se
tome”[161:214], “Já não sou eu”, diz Paulo, “quem vive, mas Cristo [ Sentido Cósmico] vive em
mim” [22:2:20]. E ainda, “Se alguém está em Cristo [se qualquer homem vive a vida do Sentido
Cósmico], é nova criatura” [21:5:17]; e Paulo diz que o homem Jesus “de ambos [isto é, (1) o
Sentido Cósmico - Cristo - e (2) o homem autoconsciente - Jesus] fez um”, “... para que dos dois
criasse em si mesmo novohomem” [23:2:14-15], e em muitos outros lugares ele dá testemunho de
sua própria personalidade dual. Maomé chamava o Sentido Cósmico de “Gabriel o Alcorão foi
ditado por ele *; o Maomé conhecido era uma segunda individualidade. Balzac, falando de Louis
Lambert (isto é, de si mesmo), depois de ter entregue sua vida ao período de iluminação, diz: “Os
eventos que ainda tenho a relatar formam a segunda existência desta criatura, destinada a ser
excepcional em todas as coisas”[5:100]. E prossegue descrevendo o advento do estado de Consciência
Cósmica e, nos aforismos, a própria Consciência Cósmica. Whitman se refere constantemente ao
Sentido Cósmico como sua alma e chama o Walt Whitman visível do dia a dia de “O outro Eu-
Sou”[193:32], e assim por diante.

SONETO LII
Assim como o rico sou eu, cuja abençoada chave
A seu doce tesouro trancado pode levar,
Q ue ele não há de a cada hora inspecionar,
Pois isto o gozo embotaria, de esporádico prazer.
Por isso tão solenes e raras são as festas,
Pois, raramente vindo, no longo ano estabelecidas,
Como preciosas pedras esparsamente são colocadas,
* N.T. - N o original em inglês há aqui um interessante, talvez importante jogo de
palavras: a “ditado por ele” (dictated by him), o autor acrescenta: (or it). A
sugestão para reflexão está em que “him ” refere-se a pessoa, ao passo que “ it”
refere-se a coisa ou fenômeno - na sua tese, o Sentido Cósmico.
Ou como jóias maiores no colar. (*13) Compare-se Plotino: “Esta
Assim é o tempo que vos guarda, sublime condição não é de
qual cofre meu, duração permanente. É apenas de vez
Ou como o armário que o manto esconde, em quando que podemos desfrutar a
elevação (misericordiosamente a nós
Para algum especial instante especialmente
possibilitada) acima dos limites do
abençoado tomar,
corpo e do mundo. Eu mesmo a
Por um novo desabrochar de seu aprisionado apreendi somente três vezes até
orgulho. agora” [188:81], Os períodos de
Abençoados sois vós cujo merecimento iluminação de Bacon foram prova­
escopo dá, velm ente m ais longos e m ais
Provido sendo para o triunfo, falto sendo para freqüentes do que os de Plotino.
a esperança. (*13) Aparentemente, nenhum dos dois
podia controlar os períodos de
iluminação. Parece provável que
Jesus esteja se referindo a esse arbitrário ir e vir (aparentemente sem causa) da luz divina, quando
diz [17:3’.8y “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde
vai; assim é todo o que é nascido do Espírito.”

SONETO Lffl

Qual é vossa substância, da qual sois feita, (*14) Uma descrição, de um ponto
Que milhões de estranhas sombras a vós de vista, da Consciência Cósmica.
propendem Que se compare a ela uma descrição
Pois cada um, cada qual uma sombra tem, de Gautama, do mesmo ponto de
vista. Diz ele: “O estado de Arahat
E vós, exceto uma, toda sombra podeis dar.
[Consciência Cósmica] torna um
Descrevei Adónis, e a simulação
homem apto a compreender pelo seu
Do que sois, pobre imitação é; próprio coração os corações de
Na face de Helena toda a arte da beleza outros seres e dos outros homens, a
aplicada, entender todas as mentes, as impe­
E vós, em gregos atavios, nova tuosas, as calmas, as iradas, as pacífi­
pintada sois: cas, as iludidas, as sábias, as concen­
Da primavera falai, e da fartura do ano; tradas, as sempre variantes, as eleva­
Uma, de vossa beleza sombra mostra, das, as estreitas, as sublimes, as per­
versas, as resolutas, as vacilantes, as
A outra, como vossa plenitude se mostra;
livres e as escravizadas” [161:215].
E vós, em toda abençoada forma
Isto é, revela todo caráter, como étão
conhecemos.
bem exem plificado no dram a
Em toda externa graça alguma parte tendes, “shakespeariano” . Compare-se a
Mas vós como ninguém, ninguém como vós, visão mundialmente ampla de Dante;
quanto a um coração leal. (*14) a penetração de Balzac na estrutura
e na operação do infinito coração
humano; as palavras de Whitman, “Sou do velho e do jovem, tanto do tolo quanto do sábio, desatento
dos outros, sempre atento aos outros, maternal bem como paternal, criança bem como homem”, etc.
[193:42] e o conhecimento quase universal do homem e de seu ambiente, que seus escritos indicam,
especialmente Leaves.
Não o mármore nem os dourados monumentos (*15) Com “esta poderosa rima”,
De príncipes a esta poderosa rima sobreviverão; na qual o Sentido Cósmico
M as nestes conteúdos mais forte brilhareis perdurará e brilh ará no futuro
Do que não varrida pedra, com desleixado tempo distante, provavelmente não se quer
dizer os Sonetos, mas as peças ou
lambuzada.
alguma peça em particular, como
Quando devastadora guerra estátuas derrubar,
Romeu e Julieta (escrita em 1596 e
E motins o trabalho de alvenaria arrancarem, impressa em 1597 e 1599). Até o
N em a espada de Marte nem da guerra o fogo julgamento que a elevação do gosto
intenso queimarão humano, promovida pelas próprias
De vossa memória o registro vivo. peças, fará nascer, vós (a Consciência
Contra a morte e toda esquecida inimizade Cósm ica) vivereis nesta peça e
Caminhareis; vosso louvor lugar encontrará ainda, deleitareis os olhos e o coração dos
N os olhos mesmo de toda a posteridade que amam.
Q ue este mundo até a terminante sina consome.
Assim, até o juízo em que ressurgireis,
Aqui vivereis e nos olhos dos amantes
morareis. (*15)

SONETO LEX

Se nada novo existe, mas aquilo que é (*16) O escritor pergunta: “É esta
Antes já era , como enganado é nosso cérebro, ilum inação de que estou
Q ue, em inventar empenhando-se, erroneamente consciente um fenômeno novo, ou
existia no velho mundo? Gostaria”
gera
- diz ele - “de poder encontrá-la, ou
O segundo fardo de um antigo filho! então uma descrição dela, em litera­
O h, esse registro poderia, com um retroativo olhar, tura. Se ela já existiu, tem de ser en­
Mesmo de quinhentos cursos do sol, contrada nos registros da mente hu­
Vossa imagem nalgum antigo livro me mostrar, mana, e se eu pudesse encontrar esses
Pois a mente a princípio em aparência foi feita! registros, poderia avaliar se a mente
Que eu pudesse ver o que o velho mundo poderia humana estaria progredindo, recuan­
dizer do ou permanecendo parada". Ele
parece chegar à conclusão de que
A esta harmoniosa maravilha de vossa estrutura;
poucos ou nenhum dos grandes escri­
Q uer aprimorados estejamos nós, quer antes tores do passado teve essa experiên­
estejam eles, cia. Bacon estava altamente familia­
O u quer o mesmo seja o ciclo, rizado com a Bíblia e, portanto, com
O h, seguro estou, de velhos dias a perspicácia os evangelhos e as epístolas de Paulo,
A piores assuntos, de admiração louvor mas sua reverência para com estes
prestou. (*16) escritos provavelmente o impediria
de comparar suas experiências com
a dos escritores sagrados. Não parece que ele conhecia muito de Dante; e a literatura budista, em
que o assunto é exaustivamente tratado, era livro absolutamente selado para os ingleses de seu
tempo. Jamais ocorreria a ele examinar o Alcorão e a vida de Maomé, se é que eram acessíveis a ele.
Assim, é provável que Bacon estivesse totalmente impossibilitado de ter qualquer conhecimento de
outros casos além do seu próprio.
O pecado do narcisismo todo o meu olho possui, (*17) Neste soneto, a dualidade da
E toda a minha alma e todas as minhas partes; pessoa que o escreve vem à
E para este pecado remédio não há, tona com muita força - sem dúvida
Tão enraizado está ele no âmago do meu coração. propositadamente. Quando ele se
A mim parece que nenhum rosto, gracioso seja encontra no seu Eu Cosmicamente
como o meu, Consciente, está por assim dizer per­
Nenhuma forma tão verdadeira, nenhuma verdade dido em admiração de si mesmo.
Quando se volta para seu eu físico e
tão valiosa;
autoconsciente tende, ao contrário, a
E para mim mesmo meu próprio valor define, desprezar a si próprio. Ele é ao mes­
Como eu a todos os outros em todo valor supero. mo tempo muitíssimo e pouquíssimo
Mas quando meu espelho a mim, eu mesmo, um egotista. Aqueles que conheceram
realmente mostra, o homem Walt Whitman sabem que
Surrado e truncado, pelo tempo curtido, esta mesma aparente contradição,
Meu próprio narcisismo bem ao contrário leio; apoiada nos mesmos fundamentos,
Tão narcisista ego iniqüidade era. existia muito acentuadamentenele. A
Es tu (eu mesmo), que a mim mesmo louvo, adm iração de W hitm an pelo
Com beleza de teus dias minha idade pintando. Whitman Cosmicamente Consciente
(*17) e suas obras (Leaves), era exatamente
como pintada neste soneto, ao passo
que ele estava absolutamente desprovido de egotismo no jeito comum do indivíduo autoconsciente.
Acredita-se que estas observações seriam também verdadeiras quando aplicadas a Paulo, Maomé
ou Balzac. Em última análise, a questão parece ficar mais ou menos assim: O Eu Cosmicamente
Consciente, de todos os pontos de vista, parece maravilhoso, divino. Do ponto de vista do Eu Cos-
micamente Consciente, o corpo e o ego autoconsciente também parecem divinos. Mas, do ponto de
vista da autoconsciência comum, e portanto comparado com o Eu Cosmicamente Consciente, o ego
autoconsciente e o corpo parecem insignificantes e até, como se vê bem no caso de Paulo, desprezíveis.

SONETO LXX (*18) Bacon diz: Que um Sentido


Cósmico (tal como visto em
Que sejas acusado teu defeito não há de ser, seu produto, as peças) seja acusado
(quanto a abuso na linguagem, des­
Pois a marca da calúnia a justiça nunca foi;
prezo de regras recebidas, etc.) não
Suspeito é, o ornamento da beleza, será nenhuma prova de defeito. Uma
Um corvo que no mais doce ar do céu voa. grande obra original, como o drama
Bom sejas, o falatório só pode sancionar shakespeariano, nunca é a princípio
Teu valor o maior, pelo tempo cortejado; apreciada; é, na verdade, sempre
Pois a lagarta os mais doces botões ama, objeto de grave suspeita e muitas ve­
zes de absoluta condenação. Se - diz
E tu imaculada primavera apresentas.
ele - o Sentido Cósmico é realmente
De jovens dias pela emboscada passaste, a coisa divina que parece ser, o falar
Ou não assaltado ou de vitorioso acusado; mal dele e de seu produto apenas
Mas esse teu louvor não pode ser tanto teu louvor, mostra ainda mais que ele é divino,
Que a inveja acorrente, eternamente aumentada; revelando que está acima da cabeça
Se algum suspeito do mal teu show não e do julgamento dos homens comuns.
Se não fosse por essa inevitável ce­
mascaras se,
gueira, todos os olhos e corações re­
Então só tu reinos de corações deverias dever. conheceriam sua supremacia e a ela
(*18) se curvariam.
SONETO L X X V m (* 1 9 ) Na ocasião em que este sone­
to foi escrito, muitas das pe­
Tantas vezes qual minha Musa a ti tenho invocado. ças estavam compostas, publicadas
e sem dúvida imitadas. O escritor
E tão bela ajuda em meu verso encontrado,
fala de si mesmo como “ignorante”,
Que toda pena estranha meu estilo tem imitado,
porque não tivera nenhum treina­
E sua poesia sob ti se desfaz. mento ou prática em escrever versos.
Teus olhos, que ao mudo alto a cantar ensinaram, O Sentido Cósmico, imediatamente
E pesada ignorância alto a voar, quando surgiu, “ensinou àquele que
À asa do sábio penas têm dado, até então era mudo” “alto a cantar”.
E à graça dupla majestade têm acrescido. Tendo se tomado iluminado mais ou
Entanto, mui orgulhosa sê do que compilo eu, menos aos trinta anos, ele não só co­
Cujo influxo teu é, e de ti nascido: meçou a escrever poesia sem qual­
Nas obras de outrem apenas o estilo consertas, quer aprendizado, mas a escrever
E artes, com tuas doces graças agraciadas sejam; uma poesia nova e superior à que fo­
Mas tu és toda minha arte e sim avanças ra até então escrita em inglês. E diz
Tão alto quanto a minha rude ignorância que a luz divina que brilhava através
de suas composições (as peças) foi
ensinas. (*19)
(em todo caso até certa extensão) as­
similada e utilizada pelos escritores de poemas da época; acrescentou penas a suas asas e deu dupla
majestade à graça de seus versos. Assim, Lang diz de Scott que este “estava sendo levado de ceca a
meca por seus imitadores, a quem havia ensinado, como o Capitão Boabdil, a escrever quase tão
bem como ele próprio” [169:9], Mas Bacon diz ao Sentido Cósmico: “tem muito orgulho do que eu
produzo, pois o mérito disso não vem todo de estudo, talento ou prática, mas inteiramente de ti
mesmo”.
Comparem-se com a declaração acima os casos de Jesus, Paulo, Maomé, Balzac e Walt Whitman,
os quais, ou não tinham prática ou treinamento, ou (como no caso de Balzac) pouco ou nenhum
proveito tiraram disso, mas que, na meia-idade começaram, imediatamente após a iluminação, ou a
falar ou a escrever palavras imortais.

SO N E T O LX X X V I (*20) Neste soneto, a reduplicação


da pessoa Bacon-Shakes-
Terá sido o soberbo velejar de seu grande verso, peare é levada ao mais alto grau.
Rumo ao prêmio de vós, tâo-sumamente-precioso, Somos forçosam ente lembrados
(uma vez mais) das palavras de
Que meus maturados pensamentos em minha mente
Gautama neste particular, isto é, que
infundiu, a Consciência Cósmica (ou condição
Do túmulo deles fazendo o ventre onde cresceram? de Arahat, como ele a chama) “fará
Terá sido seu espírito por espíritos a escrever ensinado um homem, sendo um, tomar-se
Acima de um letal diapasão que de morte me feriu? multiforme” - não apenas dois, mas
Não, nem ele nem seus pares à noite m ultiforme. Nenhum soneto ou
Dando-lhe ajuda, meu verso abismaram. poucos (assim parece) foram escritos
Ele, nem aquele afável fantasma familiar por algum tempo pelo “outro Eu-
Sou”. Mas a personalidade Cosmica­
Que à noite com inteligência o logra,
mente Consciente estivera produzin­
Como vitoriosos, do meu silêncio não se podem gabar; do rapidamente. Várias ou muitas
Atormentado não estava eu, de qualquer medo de lá: peças tinham sido escritas num curto
Mas quando vosso semblante seu verso preencheu período. O Bacon Cosmicamente
Então matéria me faltou; isto meu verso Consciente aprendera com o Sentido
enfraqueceu. (*20) Cósmico a escrever “acima de um
letal diapasão” . Mas não foi isto que emudeceu o Bacon autoconsciente. E sim o fato de que o
indivíduo Cosmicamente Consciente havia assimilado a si mesmo (pelo menos momentaneamente)
todas as forças do complexo organismo. Quanto aos “pares” do Sentido Cósmico, são as entidades
espirituais de que falava Balzac. “Seres misteriosos, armados com faculdades maravilhosas, que se
combinam com outros seres e os penetram como agentes ativos, seres que dominam outros com o
cetro e a glória de uma natureza superior” [7:50]. E, no nono verso, “Ele” é o Bacon Cosmicamente
Consciente, enquanto o “afável fantasma familiar” é a Consciência Cósmica. A expressão “à noite
com inteligência o logra” pode ser comparada com a de Whitman, “Mensagem, do céu a mim
sussurrando mesmo em meu sono” [193:324], Pode-se notar aqui (muitos leitores observarão isto
por si próprios) que, falando da mesma experiência, a linguagem de Whitman é mais moderada, de
tonalidade mais baixa, em relação à de Balzac, à de Dante ou talvez à de qualquer outro dos escritores
Cosmicamente Conscientes.

SONETO XCV

Quão doce e amável a vergonha tornas, (*21) “Quão doce e amável a ver­
Que qual verme em fragrante rosa, gonha tomas”. Helen Price
A beleza detecta de teu flóreo nome! diz que, em 1866, Walt Whitman
Oh, em que doçuras teus pecados envolves! (que na época precisava muito de um
Essa língua que de teus dias a história conta, editor para Leaves ofGrass) recebeu
de uma importante editora uma boa
De teu passatempo lascivos comentários fazendo,
oferta, na condição de que ele con­
Deslouvar pode, só numa espécie de louvor;
cordasse em eliminar alguns versos
Teu nome chamar, má reputação abençoa. de Children o f Adam (“Filhos de
Ah, que palácio esses defeitos conseguiram Adão”). Uma ou duas horas depois
Que para sua habitação a ti escolheram, que a oferta foi feita, ele voltou à casa
Onde o véu da beleza toda mancha cobre, da mãe dela em Nova York, onde es­
E todas as coisas um belo se tomam, que olhos tava então hospedado e, depois deter
possam ver! contado a ela e a sua mãe a respeito
Acautela-te, coração querido, deste grande da oferta, disse: “Mas não ouso fazê-
privilégio; lo; não me atrevo a deixar fora ou
alterar o que é tão genuíno, tão
A mais dura lâmina, mal usada, seu fio perde.
indispensável, tão elevado, tão puro”
(*21)
[38:32], E, quanto a um episódio
anterior em sua vida, disse ele ao escritor [38:26]: “Em 1855, quando Leaves o f Grass provocou
uma tempestade de raiva e condenação, fui para o extremo oriental de Long Island e passei o final
do verão e todo o outono - o mais feliz de minha vida - em Shelter Island e Peconic Bay. Depois
voltei para Nova York, com a resolução confirmada - da qual jamais depois me afastei - de ir em
frente com o meu empreendimento poético à minha própria maneira e conclui-lo o melhor que
pudesse”. Um incidente semelhante ocorreu na vida de Balzac, relativamente à publicação de Le
Médecin de Campagne (“O Médico do Campo”). Em 1833 (pouco depois da iluminação) ele
escreveu a sua tão amada irmã que aquele livro chegaria às mãos dela na semana seguinte: “Custou-
me”, disse ele, “dez vezes o trabalho da obra Louis Lambert... Aquele trabalho foi terrível. Agora
posso morrer em paz; fiz um grande trabalho pelo meu país”. Dois meses depois, escreve ele
novamente: “Sabes como Le Médecin foi recebido? Com uma torrente de insultos;... mas escolhi
meu caminho; nada poderá me desencorajar... A torrente que me empurra para a frente nunca foi tão
rápida; nenhuma obra mais terrivelmente majestosa jamais compeliu o cérebro humano” [4:142-3],
O quarto verso, (“Oh, em que doçuras”, etc.), refere-se aos vícios, aos crimes e às perversidades nas
peças (aos atos de Regan, Goneril, Edmund, lago, etc.). E não são todos eles cobertos por um véu de
beleza? Essa língua, diz ele, que narra as visões, as revelações que procedem do Sentido Cósmico,
“deslouvar pode, só numa espécie de louvor”. (“E eu digo”, fala Whitman, “que na verdade não
existe o mal ”) [193:22]. Depois ele exorta o Sentido Cósmico a acautelar-se “deste grande privilégio”.
E assim vemos Whitman “voltando a (seus) poemas, reconsiderando-os, neles demorando-se” e
eliminando palavras e expressões que lhe parecem livres demais. Este soneto é um dos mais difíceis
de se penetrar totalmente em seu significado, mas, quando se consegue isto, é talvez a mais primorosa
passagem jamais escrita pelo seu autor. A mais primorosa em expressão e em sutileza metafísica.
Nenhum comentário talvez, certamente nenhum comentário deste autor, poderá lhe fazer mesmo a
mais modesta justiça.

SONETO XCVI

Dizem alguns, teu defeito a juventude é; outros, a (*22) As peças (as filhas do Sentido
devassidão; Cósmico) são julgadas de
Dizem alguns, tua virtude a juventude é, e nobre maneira variada. O que, por exem­
passatempo é; plo, a uma pessoa parece “devassi­
dão”, para outra é “nobre passatem­
Virtude e defeito, amados são ambos, ora mais ora
po”. Ambos, defeitos e virtudes, são
menos; recomendados, pois os defeitos são
Em virtudes que a ti refluem, defeitos tornas. transformados em virtudes, pela
Como no dedo de entronizada rainha alquimia do Sentido Cósmico. “Eu
A mais humilde jóia bem valorizada será, mesmo sou” , diz Whitman, “tanto
Assim são os erros que em ti são vistos mau quanto bom, e assim minha
Em verdades traduzidos e para veras coisas nação é, e eu digo que na verdade
considerados. não existe om al” [193:22]. E Paulo
diz: “ Sei e estou persuadido no
Quantas ovelhas poderia o sombrio lobo trair,
Senhor Jesus [isto é, pelo Sentido
Se como uma ovelha pudesse ele se disfarçar! Cósmico] que nada é impuro em si
Quantos espectadores poderias tu desviar, m esmo”. Assim como um a jó ia
Se de todo o teu estado a força empregasses! modesta na mão de uma rainha passa
Mas não o faças; de tal modo te amo, por uma rica pedra preciosa, assim
Que, tu sendo meu, minha é tua boa reputação. todas as coisas em ti (o Sentido
(* 22 ) Cósmico) são belas, verdadeiras e
boas. Se desses livre expressão a esta
revelação (usando a força de todo o teu estado), muitos desviarias (pois não te compreenderiam) e
tu mesmo (em tua prole - como as Epístolas de Paulo, o drama shakespearíano, Leaves o f Grass,
etc.) serias condenado e assim impedido de fazer teu devido trabalho no mundo; portanto, “não o
faças”.

SONETO XCVII

Ah, que qual inverno tem minha ausência sido


De ti, o prazer do ano fugaz!
Que gélidos entorpecimentos senti, que tenebrosos dias vi!
Que nudez do velho dezembro, em toda parte!
Entanto este tempo passado, verão era;
O abundante outono, de rico acréscimo grande,
O viçoso fardo da primavera portando,
Qual enviuvados ventres, após a morte de seu (*23) Quanto à ausência do Senti­
senhor: do Cósmico - ou, falando
Mas esse abundante fruto a mim pareceu mais apropriadamente, sua presença
Tão só de órfãos a esperança, e fruto sem pai; apenas ocasional, mesmo nos maio­
res casos - ver o comentário sobre o
Pois o verão e seus prazeres a ti esperam,
Soneto XXXin. Como foi enfatizado
E, longe estás, até os pássaros mudos estão; em outro lugar, mesmo a autocons­
Ou, se cantam, é com tão murcha alegria, ciência, que já existe na espécie
Que as folhas pálidas parecem, do inverno a talvez há várias centenas de milhares
aproximação temendo. (*23) de anos, e que agora se manifesta no
indivíduo na idade aproximada de
três anos, está sujeita a faltar. Como então muito longe de constante deve ser uma faculdade nova
como a Consciência Cósmica! O escritor fala de um período em que o Sentido Cósmico estava
ausente. Mas (como ele o expressa), era ele que estava ausente do Sentido Cósmico - este último
sendo considerado a pessoa verdadeira. Assim Whitman fala do Sentido Cósmico como ele próprio,
e do Whitman autoconsciente como “o outro Eu-Sou”. Mesmo assim, diz ele, foi um período de
produção muito livre - como não há nenhuma razão para que não devesse ter sido - pois aquilo que
é revelado pelo Sentido Cósmico permanece claro e manifesto mesmo durante meses e anos, supondo
que não houvesse nenhuma iluminação subseqüente. Compare-se Yepes, conforme é citado no
comentário sobre o Soneto XXXIII. Mas embora tenha sido um período de suficiente luz (refletida)
e de livre produção, foi sem alegria e árido, quando comparado com períodos durante os quais o
Sentido Cósmico estava efetivamente presente.

SONETO CXXVI

Ó tu, meu adorável menino, que em teu poder (*24) Este soneto constitui o fecho
Do Tempo a caprichosa ampulheta seguras, sua da alocução à Consciência
ceifeira a hora; Cósmica. Foi provavelmente escrito
bem pouco antes de sua publicação
Que minguando cresceste e nisto mostraste
(1609), quase vinte anos depois que
Teus amantes murchando enquanto teu doce Eu seu autor fora “iluminado com o
crescia; Esplendor Bramânico” [155:232] e
Se a Natureza, soberana senhora da ruína, produzira, sob seu influxo, quase
Conforme em frente segues ainda te puxa para trás, todas as peças shakespearianas. “Ó
Com o propósito te mantém ela, de que sua perícia tu, meu adorável menino”, diz ele
O tempo a desonrar venha, e desventurados minutos dirigindo-se pela últim a vez ao
matar. Sentido Cósmico, que em tua mão o
tempo e a morte seguras - que min­
Mas a ela teme, ó tu, favorito do seu prazer!
guando (conforme a idade avança
Reter pode ela seu tesouro, mas mantê-lo não pode: dentro de mim), cresceu (nas peças,
Sua auditoria, tardia embora, respondida tem teus produtos), e com isso te mostras
de ser, constantemente aumentando, en­
E sua quitação é a ti retribuir. (*24) quanto teus amantes mortais mur­
cham e morrem. Se a Natureza de­
sejasse (como é de seu jeito) destruir-te (as peças - filhas da Consciência Cósmica), no entanto não
o faria, mas a ti manteria, para mostrar que ela é capaz de desonrar o tempo, fazendo o que ele não
pode matar. Não somente isso, mas também para mostrar que esse produto da Natureza pode até
matar o tempo (“desventurados minutos matar”). Mesmo assim tu (o favorito da Natureza - o
Sentido Cósmico - as peças) ainda deves temer a Natureza, que pode a ti manter por certo tempo,
mas talvez não para sempre. Quanto a ela (a Natureza), embora seu dominio seja tão forte, deverá
Um dia prestar contas de si mesma a um poder mais forte. Esse poder és tu (Consciência Cósmica),
t quem, quando a evolução (que é a Natureza) tiver dado frutos (isto é, tiver se tomado generalizada
- como é a autoconsciência hoje), ela (a Natureza) terá recebido sua quitação. Pois a plena aparição
do Sentido Cósmico destruirá a morte, o medo da morte, o pecado e o espaço. “Virá então o fim,
quando ele (Cristo - a Consciência Cósmica) entregará o reino a Deus, ao próprio Pai, quando ele
tiver abolido todo domínio, toda autoridade e todo poder. Pois ele deverá reinar até que tenha calcado
M U S inimigos sob seus pés. O último inimigo que será abolido é a morte [20:15:24-26]. A Consciência
Cósmica a tal ponto lançará para um segundo plano as coisas dos sentidos (da autoconsciência - da
Natureza como a entendemos hoje, que ora absorve os pensamentos dos homens), que praticamente
■a abolirá. A Natureza, ao invés de ser o Senhor, como agora, será uma escrava - na verdade
receberá, efetivamente, sua quitação.

SUMÁRIO

Neste caso, os detalhes comuns da prova de iluminação estão em grande


parte ausentes. Se William Shakespeare escreveu as peças e os Sonetos, não
temos absolutamente nenhum indício externo em que nos basearmos. Se
Francis Bacon os escreveu, temos o vago indício de seu isolamento mais ou
menos na época em que deve ter ocorrido sua iluminação (se esta de fato
aconteceu), bem como da alusão feita por Hawley e aparentemente por ele
próprio, a que ele possuía certa faculdade incomum, muito elevada. Além
destas circunstâncias, que para muitos parecerão muito frágeis, o argumento
de que o homem que escreveu as peças e os Sonetos tinha Consciência
Cósmica tem de assentar nos próprios escritos e consistiria em duas cláusulas:
(1)0 criador das peças foi talvez o maior intelecto que o mundo já conheceu.
Suas intuições morais eram tão verdadeiras quanto era grande seu intelecto.
Sob todos os pontos de vista ele foi uma força espiritual transcendentemente
grande. Assim sendo, ele não pode deixar (segundo a tese sustentada neste
livro) de ter tido Consciência Cósmica. (2) Os primeiros cento e vinte e seis
lonetos parecem demonstrar, acima de qualquer dúvida, que seu autor tinha
o Sentido Cósmico e que esses sonetos a ele foram dirigidos. Não parece ao
autor deste livro que se lhes possa dar sentido (uma leitura inteligente), de
qualquer outro ponto de vista.
JACOB BEHMEN*
(Cbamado O Teósofo Teutônico)

Nasceu em 1575; faleceu em 1624.

Seu lugar de nascimento foi Alt Seidenberg, uma localidade a cerca de


duas milhas de Görlitz, na Alemanha. Veio de uma família abastada, mas
seu primeiro emprego foi de pastor de rebanho em Lands-Krone, uma colina
nas vizinhanças de Görlitz. A única educação que recebeu foi na escola
municipal de Seidenberg, a uma milha de sua casa. Mais tarde fez seu
aprendizado para sapateiro em Seidenberg. Por volta de 1599, estabeleceu-
se em Görlitz como mestre sapateiro e se casou com Katharina, uma filha de
Hans Kuntzschmann, um próspero açougueiro daquela cidade.

Behmen teve duas iluminações distintas. A primeira, em 1600 (quando


tinha vinte e cinco anos de idade), é assim descrita por Martensen:

Um dia, sentado em seu quarto, seu olhar caiu sobre um prato de estanho polido,
que refletia a luz solar com um esplendor tão maravilhoso que ele caiu num êxtase
interior e pareceu-lhe como se pudesse então olhar nos princípios e fundamentos
profundos das coisas. Ele pensou que se tratava apenas de uma fantasia e, para fazê-
la desaparecer de sua mente, saiu para o gramado. Mas ali percebeu que estava
contemplando o próprio coração das coisas, da própria relva e da grama, e aquela
natureza real harmonizou-se com o que ele tinha visto interiormente. Não disse nada
disto a ninguém, mas louvou e agradeceu a Deus em silêncio. Retomou a prática
honrada de seu oficio, atentou para seus afazeres domésticos e sentiu-se em paz com
todas as pessoas. [123]

Desta primeira iluminação, Hartmann diz que, por ela e dela, “Ele apren­
deu a conhecer o mais íntimo fundamento da natureza e adquiriu a capacidade
de ver de então em diante no coração de todas as coisas com os olhos da
N.T. - * Ou Jakob Böhme
alma, numa faculdade que permaneceu nele mesmo em sua condição
normal”[97:3], E na biografia apresentada como introdução a suas obras a
mesma circunstância é mencionada nas seguintes palavras:

Por volta do ano 1600, aos seus vinte e cinco anos de idade, ele foi novamente
circundado pela luz divina e mais uma vez infundido com o conhecimento celestial;
adentrando o campo até um relvado diante de Neys Gate, em Görlitz, sentou-se ali e,
olhando a grama e a relva do campo com sua luz interior, teve a visão íntima de sua
essência, sua função e suas propriedades, que lhe foram reveladas pelas suas linhas,
imagens e qualidades. Do mesmo modo contemplou toda a Criação e com essa base
de revelação escreveu posteriormente seu livro De Signaíura Rerum. Na revelação
desses mistérios à sua compreensão ele viveu uma grande alegria, mas voltou para
casa, cuidou de sua família e viveu em grande paz e silêncio, mal insinuando a
alguém as coisas maravilhosas que lhe haviam acontecido, até que em 1610, sendo
novamente imerso naquela luz, para que os mistérios que lhe tinham sido revelados
não passassem por ele apenas como um fluxo, e mais como um apontamento do que
com intenção de publicar, escreveu seu primeiro livro, intitulado Aurora, or the
M om ing Redness (“Aurora, ou o Rubor da Manhã”) [40:13-14].

A primeira iluminação, em 1600, não foi completa. Ele não alcançou


realmente, naquela oportunidade, a Consciência Cósmica; entrou na aurora,
mas não no dia perfeito. De sua iluminação completa, em 1610 (aos trinta e
cinco anos) Martensen diz:

Dez anos mais tarde [1610] ele teve outra notável experiência interior. O que
antes vira somente de maneira caótica, fragmentária e em vislumbres isolados, agora
contemplou como um todo coerente e em contornos mais definidos [123].

Desta última experiência, Hartmann diz o seguinte:

D ez anos mais tarde [1610], ocorreu sua terceira iluminação e aquilo que em
visões anteriores lhe tinha parecido caótico e multifário foi agora reconhecido por
ele como uma unidade, assim como uma harpa de muitas cordas, cada corda da qual
é um instrumento separado, enquanto o todo é uma só harpa. Agora ele reconhecia a
ordem divina da natureza e a maneira como do tronco da árvore da vida brotam
diferentes ramos, produzindo folhas, flores e frutos diversos, e teve forte impressão
da necessidade de escrever o que viu e preservar o registro [97:3],

Ao passo que ele próprio fala como segue dessa iluminação final e com­
pleta:

O portal me foi aberto e num quarto de hora vi e aprendi mais do que se tivesse
passado muitos anos consecutivos numa universidade, coisa que admirei extre­
mamente, e em razâo disto dirigi meu louvor a Deus por isto. Pois vi e conheci o ser
de todos os seres, o abismo e a eterna geração da Santíssima Trindade, o descenso e
a origem do mundo e de todas as criaturas, através da sabedoria divina: conheci e vi
em mim mesmo todos os três mundos, isto é, (1) o divino [angélico e paradisíaco],
(2) o escuro [a origem da natureza no fogo] e (3) o mundo externo e visível [sendo
uma procriação ou um nascimento externo a partir tanto do mundo interno como do
espiritual], E vi e conheci toda a essência ativa, no mal e no bem, e a origem e a
existência destes; do mesmo modo, a maneira como o ventre fecundo da eternidade
frutificou. D e modo que, não só fiquei grandemente maravilhado, mas também me
regozijei em extremo [40:15],

A expressão acima, “ele foi novamente circundado”, refere-se a certas


outras visões que precederam esse primeiro (imperfeito) advento do Sentido
Cósmico, à idade de vinte e cinco anos. Visões que (pode-se dizer) parecem
ser comuns na vida dos homens que posteriormente se tornam iluminados.
Sem dúvida elas pertencem a sistemas nervosos sensíveis e altamente
desenvolvidos, como os que teriam pessoas que tivessem dentro de si a
“eligibilidade” (como Whitman a teria expressado) para se elevarem à
Consciência Cósmica. Hartmann diz dele:
Jacob Behmen tinha notáveis poderes ocultos. Sabe-se que falava vários idiomas,
embora ninguém jamais tivesse sabido onde os pudesse ter aprendido. Provavelmente
os teria aprendido numa vida anterior. Ele conhecia também o idioma da natureza e
podia chamar plantas e animais pelos seus próprios nomes [97:19],

Behmen diz de si mesmo, neste particular:


Não sou um mestre de literatura, nem de artes, tais como são próprios deste
mundo, mas apenas um homem tolo e de mentalidade simples. Nunca desejei aprender
quaisquer ciências, mas desde cedo na juventude esforcei-me para conseguir a salvação
de minha alma e pensei em como poderia herdar ou possuir o reino dos céus.
Encontrando dentro de mim um poderoso contrarium, isto é, os desejos que dizem
respeito à carne e ao sangue, comecei a lutar uma dura batalha contra a minha natureza
corrompida e, com a ajuda de Deus, decidi sobrepujar a herdada vontade má, derrotá-
la, e entrar inteiramente no amor de Deus em Cristo. Assim, pois, resolvi considerar
a mim mesmo como morto em minha forma herdada, até que o espírito de Deus
tomasse forma em mim, de modo que n’Ele e através d’Ele eu pudesse guiar minha
vida. Isto, entretanto, não me foi possível realizar, mas continuei firme em minha
veemente resolução e lutei uma dura batalha comigo mesmo. Ora, enquanto estava
lutando e batalhando, ajudado por Deus, uma luz maravilhosa surgiu dentro de minha
alma. Era uma luz totalmente estranha à minha natureza indisciplinada, mas nela
reconheci a verdadeira natureza de Deus e do homem, bem como a relação entre
ambos, coisa que até aqui jamais tinha compreendido e que jamais teria procurado
[97:50],
Frankenburg escreve a respeito dele:

Sua aparência física era um tanto comum; ele era alto, tinha uma fronte estreita
mas têmporas proeminentes, o nariz bastante aquilino, a barba rala, olhos cinzentos
brilhando para um azul celestial e voz fraca mas agradável. Era modesto em sua
aparência, despretencioso nas conversas, lento em suas ações, paciente no sofrimento
e dócil de coração [123:15].

E Hartmann, também sobre ele, diz:

Em sua aparência exterior, Behmen não era especial; tinha barba curta e rala,
voz fraca e olhos de um tom acinzentado. Era deficiente em força física; não obstante,
nada se sabe de que ele tenha tido qualquer doença além da que causou sua morte
[97:17],

Sua vida pode ser lida lado a lado com a de Gautama, Jesus, Paulo, Las
Casas, Yepes, ou mesmo Whitman, sem receio de que Behmen, com seu
dócil coração, venha a sofrer com tal comparação, enquanto sua morte merece
igualdade de registro com a de Yepes ou Blake. Aconteceu no domingo, 20
de novembro de 1624.

Antes de uma hora da madrugada, Behmen chamou seu filho Tobias para perto
de sua cama e lhe perguntou se não estava ouvindo uma música bonita; depois pediu
que abrisse a porta do quarto, para que a canção celestial pudesse ser ouvida melhor.
Mais tarde perguntou que horas eram e, quando lhe disseram que o relógio havia
batido duas horas, disse: “Ainda nâo é minha hora; daqui a três horas será minha
hora”. Depois de uma pausa, falou uma vez mais, dizendo: “ Tu, poderoso Deus,
Zabaoth, salva-me conforme a tua vontade”. Em seguida, disse: “Tu, Senhor Jesus
Cristo crucificado, tem misericórdia de mim e leva-me para teu reino”. Deu então a
sua esposa certas instruções relativas a seus livros e outras coisas temporais, dizendo-
lhe também que ela não iria sobreviver a ele por muito tempo (como de fato aconteceu)
e, despedindo-se de seus filhos, disse: “Agora entrarei no Paraíso”. Pediu então a
seu filho mais velho, cujo olhar amoroso parecia impedir que a alma de Behmen se
separasse dos elos do corpo, que o virasse e, com um profundo suspiro, sua alma
entregou seu corpo à terra a que ele pertencia e entrou no estado mais elevado que
nâo é do conhecimento de ninguém exceto daqueles que o vivenciaram pessoalmente
[97:15],

II

Como elocuções do Sentido Cósmico, todos os escritos de Behmen são


quase totalmente ininteligíveis para a mente meramente autoconsciente. Não
obstante, aquele que se dispuser a fazer o necessário esforço verá que, como
os escritos de Paulo, Dante, Balzac, Whitman e dos demais, os de Behmen
são uma verdadeira mina de sabedoria, uma parte da qual pode ser encontrada
por todo buscador diligente, embora o todo só possa ser compreendido por
pessoas iluminadas como ele próprio foi.

Para mostrar o que tem sido pensado desses livros por homens competentes
que os estudaram, será conveniente citarmos as palavras do editor de The
Three Principies (“Os Três Princípios”), na edição de 1764, in-quarto:

Um homem [diz ele] não pode conceber o conhecimento maravilhoso contido


neste livro antes que diligentemente o tenha lido por inteiro. E verá que The Threefold
Life [“A Vida Trina”] é dez vezes mais profundo que este e que Forty Questions
[“Quarenta Perguntas”] é dez vezes mais profundo que o anterior e este tão profundo
quanto um espirito é em si mesmo, como diz o autor; e não pode haver maior
profundeza que esta, pois o Próprio Deus é um espírito [42:3],

E as palavras de Louis-Claude de Saint Martin, nas cartas a Kirchberger:

Não sou jovem [escreve ele], estando agora perto de meus cinqüenta anos; no
entanto comecei a aprender alemão para que pudesse ler este incomparável autor em
seu próprio idioma. Eu mesmo escrevi alguns livros não-inaceitáveis, mas não sou
digno de desatar os cordões dos sapatos desse homem maravilhoso, que considero a
maior luz que já apareceu na Terra, segundo somente para Ele, que era a própria
luz... A vós aconselho, absolutamente, que vos atireis no abismo de conhecimento da
mais profunda de todas as verdades [97:32 e 199:30].

Os extratos a seguir (como todos os demais neste livro) são selecionados,


não tanto por seu interesse intrínseco e sua excelência, nem pelo que nos
revelam da natureza do Cosmo, quanto pela luz que ajudam a lançar nas
características da faculdade denominada Consciência Cósmica; e para esta
finalidade são comparados com expressões equivalentes de homens cuja
posição espiritual é semelhante à do inspirado sapateiro de Görlitz.

m
Se contemplardes vosso próprio ego (*1) “Um estranho e difícil paradoxo, embora
e o mundo exterior, e o que neles está verdadeiro,vosdou:objetosbrutoseaalma
acontecendo, vereis que vós, no tocante invisível sâo uma só coisa” [193:173], e
ao vosso ser exterior, sois esse mundo Gautania, Plotino e Carpenter são todos igual-
exterior [97 137] (*1) mente positivos sobre este mesmo ponto.
Sois um pequeno mundo formado do (*2) “Deslumbrante e tremendo, quão rápido o
grande mundo, e vossa luz exterior é um nascer do sol me mataria se eu não pudesse
caos do Sol e da constelação de estrelas. agora e sempre enviar o nascer do sol para fora
Se não fo sse assim , não teríeis a de mim” [193:50],
capacidade de ver por meio da luz do Sol
[97:137], (*2) (*3) “O outro Eu-Sou” [193:32], “Es tu [eu
mesmo] que para mim mesmo louvo”
Não eu, o eu que eu sou, sei destas [176:62], O reconhecimento da personalidade
coisas: Mas Deus sabe destas coisas em dual da pessoa Cosmicamente Consciente - isto
mim [97:34], (*3) é, o ego autoconsciente e o Eu Cosmicamente
Consciente.
Portanto, somente aquele em quem
Cristo existe e vive é um cristão, um (*4) “Cristo”, aqui, foi usado como Paulo
homem em quem Cristo foi elevado, da constantemente usa a palavra, como um
desgastada carne de Adão [97:5], (*4) nome - isto é, da Consciência Cósmica.

D e repente... meu espírito irrompeu... deveras no mais profundo nascimento da


Genitura da Divindade, e ali fui abraçado com amor, como um noivo abraça sua
bem-amada noiva. Mas a grandeza do triunfo que havia no espírito eu não posso
expressar, falando ou escrevendo; nem pode ela ser comparada a coisa alguma, exceto
àquilo onde a vida é gerada em meio à morte, e é como a ressureição de entre os
mortos. Nessa luz meu espírito de súbito viu através de tudo e dentro e por todas as
criaturas; mesmo nas ervas e na grama ele conheceu a Deus, quem ele é e como ele
é, e o que sua vontade é; e de repente naquela luz minha vontade foi movida, por um
poderoso impulso, a descrever o ser de Deus. Mas como eu não podia então apreender
os nascimentos mais profundos de Deus no ser deles nem compreendê-los em minha
razão, passaram-se quase doze anos até que o entendimento exato disso me fosse
dado. E aconteceu comigo como com uma árvore jovem que é plantada no solo, a
qual a princípio é jovem e tenra e florescente aos olhos, em especial se cresce
vigorosamente. Mas ela não dá frutos en­
(*5) O “ato de irromper” no Sentido Cósmico e
tão; e, embora produza flores, estas caem;
o intenso sentimento de júbilo e elevação
além disto, muitos ventos frios, gelo e que é próprio dele. A conscientização de “céu,
neve são lançados sobre ela antes que que é pura luz; luz intelectual, cheia de amor,
venha a crescer e a dar frutos [41:184]. amor ao verdadeiro bem, cheio de alegria; alegria
(*5) que transcende toda doçura” [72:193],

Se sobes esta escada que eu subo para a profundeza de Deus, como tenho feito,
então tens subido bem: Não vim para este significado, ou para esta obra e este conhe­
cimento através de minha própria razão
ou através de minha própria vontade e (*6) Nenhum daqueles que alcançaram a
Consciência Cósmica a “buscou”; eles não
meu propósito; nem busquei este conheci­
o poderiam ter feito, pois não sabiam que uma
mento, nem mesmo conhecer algo a res­ coisa assim existisse. Mas parece que todos os
peito deie. Busquei apenas o coração de casos m ais m arcantes eram hom ens que
Deus, para nele me esconder das tormen­ buscavam veementemente o “ coração de Deus”
tas tempestuosas do diabo [41:237], (*6) - isto é, a melhor e mais elevada vida.
Ora, a vontade nâo pode suportar a atração e a impregnação, pois estaria livre e
no entanto não pode, pois é desejosa; e, sentindo que não pode estar livre, entra com
a atração para dentro de si mesma e toma (ou concebe) em si mesma uma outra
vontade, que deve sair das trevas para ela própria, e essa outra vontade concebida é
a mente eterna, que nela entra como um súbito lampejo (ou relâmpago) e dissipa as
trevas, e nela penetra e nela faz morada e para si mesma faz um outro (ou segundo)
princípio de uma outra qualidade (fonte ou condição), pois o tormento da agitação
permanece nas trevas [43:5], A primeira vontade eterna é Deus, o Pai, e é gerar Seu
filho - isto é, Seu Verbo - não de qualquer outra coisa, mas de Si Mesmo; e já vos
informamos a respeito das essências que são geradas na vontade e também como a
vontade nas essências é colocada em trevas e como as trevas (na roda da ansiedade)
são apartadas pelo lampejo do fogo, e como a vontade vem a ser em quatro formas,
enquanto no original todas as quatro são apenas uma, mas no lampejo do fogo aparecem
em quatro formas; e também como o lampejo do fogo existe efetivamente, em que a
primeira vontade aguça a si mesma na ansiosa dureza, de modo que a liberdade da
vontade brilha na carne. Com isto oferecemos à vossa compreensão que a primeira
vontade brilha no lampejo do fogo e está se consumindo por força da agudeza ansiosa,
onde a vontade continua na agudeza e abrange a outra vontade em si mesma (entender
no centro da agudeza), que deve sair da
agudeza
°
e rpermanecer em si mesma na (*7) Duas exposiçoes exóticas da j
geraçao do
e te rn a liberdade, sem so frim en to ou segundo Eu (Cosmicamente Consciente)
origem [43.15-16], (*7) no primeiro eu (autoconsciente).

Pois Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Verbo Eterno no Pai (que é o fulgor, o brilho
e o poder da eternidade da luz) tem de se tomar homem e nasceT em vós, paTa que
conheçais a Deus; do contrário estais num estábulo escuro e ficais apalpando, tateando,
sempre procurando por Cristo à mão direita de Deus, supondo que ele esteja muito
distante; lançais vossa mente para o alto acima das estrelas e procurais Deus, como
os sofistas vos ensinam, eles que representam Deus como um ser muito distante, no
céu [43.24]. ( 8) (*g) “Cristo”, aqui usado como por Paulo, para
Sentido Cósmico - “Eu vivo, nâo mais eu,
Eu era tão sim ples quanto aos m isté- masCristoviveemmim” [22:2:20].“Cristo,que
rios ocultos com o aos m ais insignifican- ® nossa vida” [25:3:4]. ‘ Jesus Cristo está em
tes; m as a m inha virgem das m aravilhas vos l2 1 1 3 -5!-
de D eus me ensinou, de modo que tenho (*9 ) o Sentido Cósmico é uma virgem,
de escrever sobre Suas maravilhas; embo- Compare-se Beatrice, de Dante, e Seraphita
ra na realidade meu propósito seja escre- (Seraphitus), de Balzac - como também 0 jovem
ver isto como um apontamento para mim ~ 0 Sentido Cósmico - nos Sonetos de Bacon, é
mesmo, ainda assim falarei como p a ra uma vlr^ m; tod°sf ° “uma virgem”. “Como
. um apontamento . Com pare-se W hitman:
muitos a q u ilo q u e e sabido p o r D e u s “Apenas algumas sugestões procuro reconstituir
[43:31], (*9) aqui para meu próprio uso” [193:14].

Assim distinguimos para vós a substância nas trevas; e embora seja bem difícil
sermos por vós compreendidos, e embora, também, pouca fé possa ser nisso deposi­
tada, temos no entanto uma prova bastan- (*10) Assim, como prova ou argumento para
te convincente disso, não somente no céu algumas de suas doutrinas mais recôn-
criado mas também no centro da Terra, ditas e espirituais - otimismo, imortalidade,
bem como em todo o princípio deste mun- crescimento sem fim, expansão e evolução -
do, o que seria longo demais expor aqui Whitman recorre aos fenômenos comuns da
[43 331 (*10) natureza e da vida. Diz ele : “Ouço-vos ali
murmurando, Ó estrelas do céu, Ó sóis - Ó relva
dos túmulos - O perpétuas transferências e promoções, se nada dizeis, como posso eu dizer alguma
coisa?” [193:77]

O discípulo perguntou a seu m estre: (*11) Balzac nos diz: “Da abstração [auto-
“ C om o posso eu chegar à vida supersen- consciência] são derivadas as leis, as
sível, para que possa ver D eus e ouvi-Lo artes, os interesses, as idéias sociais. É a glória e
falar”? Disse o mestre : “Quando por um 0 castig0 00 mundo: Glorioso’cria 35 soc,cdades;
, ,» nocivo, impede o ser humano de entrar na senda
m om ento puderes atirar a ti m esm o na- , .
r . d o especialismo [Consciência Cósmica], que
quilo onde n en h u m a criatura vive, então leva ao Infmito„ [5.142]
ouvirás o que Deus fala”. (*11)

Discípulo - Está isso ao alcance da mão, ou muito distante?

Mestre - Está em ti; e se puderes cessar por um instante todo o teu pensar e
querer, ouvirás as inefáveis palavras de Deus.

Discípulo - Como posso ouvir quando cesso de pensar e querer?

Mestre Quando cessares o pensar e (*12) Amesmadoutrinaérepetidamaisemais


querer do ego, a audição, a visão e a fala vezes nos Suttas. Compare-se também
eternas te serão reveladas, e assim Deus Carpenter [56:166-174].
ouvirá e verá através de ti. Teu próprio
ouvir, teu próprio querer e teu próprio ver te impedem de ver e de ouvir a Deus.
(* 12)

Discípulo - Por que meios ouvirei e verei a Deus, estando Ele acima da natureza
e da criatura?

Mestre - Quando estiveres quieto ou silente, então serás aquilo que Deus era
antes da natureza e da criatura, e de onde Ele fez tua natureza e tua criatura. Então
ouvirás e verás com aquilo com que Deus viu e ouviu em ti, antes que teu querer, teu
ver e teu ouvir tivessem início.

Discípulo - Que é que me impede ou me detém, que não posso chegar a isso?

Mestre - Teu próprio querer, ver e ouvir. E como lutas contra aquilo de que
provieste, apartas a ti mesmo, com teu próprio querer, da vontade de Deus, e com teu
próprio ver somente em teu próprio querer vês; e teu querer faz parar teu ouvir com
teu próprio pensar nas coisas naturais terrenas e te prende ao chão e te obscurece
com aquilo que queres, de modo que não podes chegar àquilo que é supernatural e
supersensível [50:75-6],
M estre - Se reinas sobre todas as (*13) Assim, diz Whitman com respeito à
criaturas apenas exteriormente, então tua propriedade: “Como se alguém talhado
vontade e teu reinado são de natureza para possuir coisas não pudesse a seu bel-prazer
entrar em todas elas e incorporá-las a si mesmo”
bestial e não passam de um reinado
[193:214], E também: “Não ver nenhuma posse
transitório imaginário, e trazes também sem que a deva possuir, usufruindo de tudo sem
teu desejo a uma essência bestial, com a trabalho ou compra, abstraindo a festa mas não
qual tornas-te infectado e fascinado, e abstraindo uma só partícula dela, levar o melhor
assumes também uma condição bestial. da fazenda do fazendeiro e do palácio elegante
Mas se deixaste a condição imaginária, do homem rico, e as castas bênçãos do casal bem
então estás na condição super-imaginária, casado e os frutos de pomares e as flores de
jardins” [193:127],
e reinas sobre todas as criaturas, no
terreno de que elas são criadas, e nada na Terra pode te ferir, pois és como todas as
coisas e nada é diferente de ti [50:76], (*13)

Seu mestre lhe disse muito bondosa­ (*14) A “Cruz de Cristo”, do ponto de vista do
mente: Amado discípulo, se acontecesse que se poderia chamar de tipo “paulino”
que tua vontade pudesse apartar a si mes­ desses homens, significa sim plesm ente o
ma de todas as criaturas por uma hora e despojar-se das boas coisas da autoconsciência
e de portar os chamados males da vida auto-
se lançar naquilo onde não há criatura
consciente. Mas esses bens são vistos por eles
alguma, ela estaria sempre revestida com como não sendo bons, e esses males como não
o mais alto esplendor da glória de Deus sendo maus, e alcançar este ponto de vista (em
e provaria em si mesma o mais doce amor Consciência Cósmica) é a única coisa boa.
de nosso Senhor Jesus, que nenhum ho­ “Chegar alí é partir daqui, saindo do ego e
mem pode expressar, e nela própria en­ afastando-se o quanto possível deste vil estado
contraria as inefáveis palavras de nosso para aquele que é o mais alto de todos. Portanto,
Senhor referentes à sua grande misericór­ elevando-se acim a de tudo que possa ser
conhecido e compreendido temporal e espiri­
dia; sentiria em si mesma que a cruz de
tualmente, a alma tem de desejar veementemente
nosso Senhor Cristo seria muito agradá­ alcançar aquilo que nesta vida [a vida autocons-
vel para ela e amaria isso mais do que a ciente] não pode ser conhecido e que o coração
honra e os bens do mundo [50:78], (*14) não pode conceber e, deixando para trás todo
real e possível gosto e sentimento dos sentidos e
do espírito, deve desejar veementemente chegar ài
[203:74],

Mestre - Embora agora ames a sabe­ (*15) “Falamos sabedoria entre os perfeitos;
doria terrena, quando estiveres sempre não porém a sabedoria deste mundo”
revestido com a celestial [sabedoria], [20:2:6], “Se alguém dentre vós se tem por sábio
verás que toda a sabedoria deste mundo neste mundo, faça-se louco para ser sábio.
nada mais é que insensatez e que o mun­ Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante
de D eus” [20:3:18-19], A sabedoria da
do não detesta senão o teu inimigo - isto
autoconsciência é uma insensatez do ponto de
é, a vida mortal; e quando tu mesmo
vista do Sentido Cósmico.
vieres a detestar a vontade dessa vida
mortal, então tu também começarás a
amar aquele desprezo pela vida mortal [í
Discípulo - Q ue são a v irtude, o (*16) Este excerto e o próximo contêm uma
poder, a elevação e a grandeza do amor? definição de Consciência Cósmica do
(* ponto de vista de Nirvâna, seu nome budista.

Mestre - Sua virtude é aquele nada (de onde todas as coisas procedem) e seu
poder está (em e) através de todas as coisas; sua elevação é tão alta quanto Deus e
sua grandeza é maior que Deus; aquele que o encontra nada e todas as coisas encontra.

Discípulo - Amado Mestre, rogo que me digas como devo entender isso.

Mestre - Assim deves entender o meu dizer que sua virtude é aquele nada: Quando
tiveres saído completamente da criatura e te tomado nada para tudo o que é natureza
e criatura, então estarás naquele ser eterno que é o próprio Deus e perceberás e sen­
tirás a mais alta virtude do amor [50-1:81]
(*17). E tam bém o m eu dizer que aquele (*17) “Ó Bhikshu, esvazia este barco (isto é,
que o encontra nada e todas as coisas en- esvazia-te das coisas da autoconsciência);
c o n tra , este tam b ém é verdadeiro, pois se vazio- ele irá tendo cortado Paixão e
ele encontra um abism o supernatural, su- ódio, irás para Nirvâna [156.86],
persensível, sem fundo, onde não há lugar para morar; e também encontra nada que
seja assim, e portanto a nada pode ser comparado, pois é mais profundo que qualquer
coisa e é como nada para todas as coisas, pois não é compreensível; e visto que é
nada, é livre de todas as coisas e é aquele único bem que um homem não pode
expressar ou dizer o que é, Mas o meu último dizer que aquele que o encontra todas
as coisas encontra é também verdadeiro; ele foi o começo de todas as coisas e reina
sobre todas as coisas. Se o encontras, chegas ao solo de onde todas as coisas procedem
e onde elas subsistem, e nele és um rei (*18) Aquele que está preparado (diz
sobre todas as obras de D eus [50:81]. Whitman) pode entrar na posse de todas
(*18) as coisas [193:214].

Discípulo - Amado Mestre, não posso mais suportar que qualquer coisa me
desvie; como encontrarei o caminho mais próximo para isso?

Mestre - Onde o cam inho for o m ais (*19) Se desejais alcançar a vida divina
árduo, aí andarás e tom arás aquilo que o (Consciência Cósmica), diz Yepes, deveis
m undo rejeita; e aquilo que o m undo faz, atirar fora toda satisfação, temporal e espiritual
n A , , . (do ser humano autoconsciente) [204:5341,
n a ° o faças tu. A n d a contrario ao m un- ~esquecendo as coisas que estejam atrás [as
do em to d as as coisas. E n tã o c h eg a rás coisas da autoconsciência] e procurando alcançar
ao caminho mais próximo para isso... as coisas que estâo adiante” [24:3:13], Este
(* 19) parece ser o ditame universal.

Mestre - Que tu digas também que serias classificado como um insensato, é ver­
dadeiro; pois o caminho para o amor de Deus é insensatez para o mundo mas sabedoria
para os filhos de Deus. Quando o mundo percebe esse fogo de amor nos filhos de
Deus, diz que eles se tornaram insensatos, mas para os filhos de Deus é o maior te­
souro, tão grande que nenhuma vida pode expressá-lo e nenhuma língua pode sequer
nomear o que o fogo do inflamante amor de Deus é; é mais branco que o Sol, é mais
doce que qualquer outra coisa; é muito mais nutriente do que qualquer alimento ou
bebida e mais agradável do que toda a alegria deste mundo. Aquele que consegue is­
to é mais rico do que qualquer rei na Ter- , .
, , , , ( 2 0 ) O homem natural (meramente
ra, mais nobre do que qualquer imperador autoconsciente) nâo compreende as
possa ser e mais poderoso e forte do que coísas do espírito de Deus, porque lhe parecem
toda autoridade e todo poder. (*20) loucura” [20:2:14],

Então o discípulo perguntou ainda a seu mestre: “Para onde vai a alma quando o
corpo morre, tanto para ser salva como para ser condenada?”

Mestre - Já não é necessário ir. Somente a vida moral exterior, com o corpo,
separam-se da alma; essa alma teve céu e inferno dentro de si anteriormente, como
está escrito. O reino de Deus nâo vem com obediência exterior a preceitos, nem se
dirá “ei-lo aqui”, ou “lá está ele”, pois, notai bem, o reino de Deus está dentro de
vós: E não importa qual dos dois, isto é,
céu ou inferno, estará manifesto nele, no (*21) “Nunca haverá mais céu ou inferno do
qual esteja a alma [50:82-3], (*21) <lue existe a8 ora” [193:30],

Discípulo - Que é, então, o corpo de um homem?

Mestre - É o mundo visível, uma imagem e essência de tudo que o mundo é; e o


mundo visível é uma manifestação do mundo espiritual interior (vindo) das trevas
eternas, da tecedura espiritual (entrelaçamento ou conexão) e é um objeto ou seme­
lhança da eternidade, com que a eternidade tornou a si mesma visível; onde a vontade
egotista e a vontade renunciada, isto é, o (*22) Diz whitman; “0 s tipos montados pelo
ma! e o bem , trabalham um a com a outra; impressor não voltam na sua impressão
e tal substância o homem exterior tam- o significado, o tema principal, tanto quanto a
bém é; pois Deus criou o homem do mun- vida e a substância de um homem, ou a vida e a
do exterior e soprou dentro dele o mundo substância de uma mulher, não voltam no corpo
espiritual interior, para que tivesse alm a e “ al” a’ '" ^ ^ e m e n t e antes e depois da
.. . morte. Notai que o corpo inclui e e o significado,
c um a vida com preensiva e, portanto, nas 0 tema principal e inclui e é a alma. sejais vós
coisas do mundo exterior o homem pode quem fordes, como é soberbo e divino vosso
receber e praticar o mal e o bem. (*22) corpo ou qualquer parte dele” 1193 ,25).

Discípulo - Que existirá após este mundo, quando todas as coisas perecerem?

Mestre - Som ente a substância m ate- (*23) “A alma é por si própria, tudo tende para
ríal cessa de ser - isto é, os quatro ele- ela, tudo tem referência àquilo que segue;
mentos, o Sol, a Lua, as estrelas, e então tudo 0 ciue uma Pessoa faz’ diz>Pensa’ tem sua
, , , . , , t conseqüência; nenhum movimento pode um
O mundo interior sera totalmente visível .____ _ _ .
homem ou uma mulher lazer, que afete a ele ou
0 m anifesto. M as o que quer que ten h a a e(a num dja, num mês, qualquer parte da vida
lido feito pelo espírito neste tem po, bom direta, ou a hora da morte, mas o mesmo afeta a
OU mau, digo que toda obra ali se separará ele ou a ela, dai por diante, através da vida
de m an e ira esp iritu al, ou p ara a etern a indireta [193.289].
luz, ou para as trevas eternas, pois aquilo que nasce de cada um a penetra novam ente
naquilo que lhe é sem elhante [50:86]. (*23)
IV

S U M Á R IO

a. No caso de Jacob Behmen, houve a veemência inicial de caráter que é


característica da categoria de homens de que trata este livro.

b. Houve (quase certamente), embora não nos tenha sido dito com muitas
palavras, a luz subjetiva.

c. Houve uma extraordinária iluminação intelectual.

d. E igual elevação moral.

e. Houve o senso de imortalidade.

f. Perda do medo da morte (se ele jamais o teve, como é provável, pois
parece ter sido um menino e um jovem bastante comuns.)

g. Houve a subitaneidade, a instantaneidade, do despertar da nova vida.

h. Na ocasião de sua iluminação ele estava na idade típica - isto é, trinta e


cinco anos.
WILLIAM BLAKE

Nasceu em 1757. Faleceu em 1827.

SeBlake tinha Consciência Cósmica, as palavras escritas até aqui, quanto


à variedade e ao escopo imensamente maiores desta consciência do que da
autoconsciência, ficarão ilustradas com o seu caso. Os pequenos excertos de
seus escritos, abaixo citados, quase provam que ele tenha tido o Sentido
Cósmico, que chamava de “Visão Imaginativa” [95:66], e ele deve tê-lo
alcançado dentro de bem poucos anos após ter chegado à idade de trinta
anos. Parece não haver quaisquer detalhes de sua entrada no Sentido Cósmico,
mas pode-se razoavelmente admitir que seus escritos provem o fato de que
ele o possuía.

W. M. Rossetti, no Prefatory Memoir [“Memento Prefacial”] para The


Poetical Works o f William Blake [“As Obras Poéticas de William Blake”]
[52], apresenta um admirável esboço da vida real de Blake e, aparentemente,
uma razoável estimativa de suas habilidades e de seus defeitos. Os seguintes
excertos desta biografia preambular nos ajudarão na questão que temos diante
de nós, isto é: Blake tinha Consciência Cósmica?

A dificuldade dos biógrafos de Blake No fato de que Blake se alçava além e muito
posteriores a 1863, data do livro do Sr. além dos homens de mera autoconsciência mas
Gilchrist, é de um tipo totalmente dife­ não podia ver ou fazer muitas coisas que eles
rente. E a dificuldade de afirmar suficien­ viam claramente e podiam fazer facilmente,
vemos um a relação entre ele e os grandes
temente alto as extraordinárias preten­
iluminados. Com certeza a mesma coisa poderia
sões de Blake a admiração e reverência,
ser dita de todos eles. Em assuntos mundanos,
sem omitir as outras considerações que todos eles ou quase todos são como criancinhas,
precisam ser clara e com pletam ente ao passo que nas coisas espirituais são como
colocadas para obtermos alguma idéia do deuses. Note-se como Balzac contraiu pesadas
homem tal como ele era - de sua total dívidas por falta de senso comum de negócios,
dessemelhança com seus contemporâ- trabalhando em vão durante anos para pagar
neos, de sua espantosa genialidade e de essas dívidas, enquanto exercia plenamente
seu nobre desempenho em duas artes, do genialidade suficiente p a ra equipar um
elevado nível a que ele transcendeu ou­ regimento de Rothschilds. Bacon derramou sobre
a humanidade incalculáveis riquezas intelectuais
tros homens e da incapacidade que sem­
e espirituais, mas, com toda a aparente vantagem
pre demonstrou para realizar o que outros
(posição na corte, prestígio hereditário, amigos
realizam facilmente. Ele conseguia fazer influentes), em vão trabalhou durante anos por
imensamente mais do que eles, mas rara­ uma posição na esfera autoconsciente, pois,
mente conseguia fazer o mesmo. Por al­ depois que a conquistou, não soube mantê-la.
gum processo desconhecido ele havia se Buda, Jesus, Paulo, Las Casas, Yepes, Behmen
elevado ao cume de verdadeiros Alpes e Whitman foram sábios: perceberam que as
coroados de nuvens, enquanto outros fica­ coisas do Sentido Cósmico eram suficientes e
simplesmente puseram de lado as coisas da
vam se curvando servilmente no vale.
autoconsciência; mas tivessem eles tentado lutar
Mas alcançar um ponto intermediário na por essas coisas, muito provavelmente teriam
montanha era o que eles podiam pronta- fracassado em obtê-las.
mente conseguir passo a passo, enquanto
para Blake esta consecução comum era impraticável. Ele não conseguia e não queria
fazer isso; a falta de vontade, ou melhor, a total alienação da vontade, a determinação
de se elevar (que era natural nele) e não caminhar (o que era antinatural e repulsivo),
assumiam o lugar de uma real necessidade de poder [139:9].

A rrebatado n u m a apaixonada aspira- Também Blake achava o mundo do Sentido


ção ele alcan ço u , m esm o n esta T erra e Cósmico suficiente e, sabiamente, não desper-
em seu c o rp o m o rta l, u m a e sp é cie de diçava tempo e energia à procura dos chamados
. T. , ., , , bens e riquezas da vida autoconsciente.
Nirvana: toda a sua capacidade, toda a
sua personalidade, a própria essência de sua mente e de sua maneira de ser, alcançaram
a absorção em seu objetivo ideal, naquilo que Dante, em sua profunda frase, designa
como “il B en deH’intelleto” [139:11].

A educação de William Blake foi das Esses homens independem de educação e a


mais modestas, restringindo-se apenas a maioria deles - como o próprio Blake - a
considera inútil ou ainda pior. Diz Blake a
ler e escrever; pode-se pensar também
respeito dela: “Não há utilidade na educação:
em aritmética, mas isto não está registra­ considero-a errada. E o grande pecado; é o comer
do e muito provavelmente sua capacidade da árvore do conhecimento do bem e do mal.
para adquirir ou reter este tipo de conhe­ Este foi o erro de Platão. Ele nada sabia além de
cim ento estava bem abaixo da média virtudes e vícios, além do bem e do mal. Nada
[139:14], há nisto tudo. Tudo é bom aos olhos de Deus”
[139:80], Isto lembra o que Rawley disse de
Bacon: “Ele não extraía seu conhecimento de livros, mas de alguma coisa dentro dele próprio”
[141:47]; e o dizer de Whitman: “Não mais te alimentarás dos espectros que existem nos livros”
[193:30],

N o prefácio a Jerusalém, Blake fala desta obra como tendo sido “ditada” a ele, e
outras de suas expressões provam que ele a considerava mais como uma revelação
da qual ele era o escriba do que como um produto de sua própria mente inventora ou
moldadora. Blake a considerava “o maior Esta é a declaração de cada possuidor do
poema que este mundo contém”, acres­ Sentido Cósmico. Não sou eu, o homem visível,
centando, “posso elogiá-la, pois não me quem fala, mas (como diz Jesus) “O que eu falo,
falo-o como o Pai mo tem dito” [17:12:50]; ou
atrevo pretender ser outra coisa senão o
como Paulo escreve: “Não me atreverei a falar
secretário - os autores estão na eternida­
de quaisquer coisas, a não ser aquelas que Cristo
de”. Numa carta anterior (25 de abril de diga através de mim”* [16:15:18]. “Solta o freio
1803) ele dissera: “Escrevi este poema de tua garganta” [193:32] diz Whitman ao
de um ditado imediato, doze ou às vezes Sentido Cósmico. E assim universalmente.
vinte ou trinta versos de cada vez, sem
premeditação e mesmo contra minha vontade” [139:41].

Blake tinha uma intuição mental, uma inspiração, ou revelação - não importa
como a chamemos; ela era tão real ao seu olho espiritual como um objeto material
poderia ser ao seu olho físico; e sem dúvi­
da seu olho físico, o olho de um desenhis­ “Oh, estou seguro”, diz Whitman, “eles
realmente vieram de Ti - o impulso, o ardor, o
ta ou pintor com grande dom de invenção
poderoso, sentido, interior comando, uma
e composição, estava bem mais do que mensagem dos céus” [193:324], “As nobres
normalmente pronto para seguir os dita­ verdades”, diz Gautama, “não estavam entre as
mes do olho espiritual e para ver, num doutrinas que nos foram transmitidas, mas em
ato quase instantaneamente criativo e mo­ seu interior surgiu o olho para percebê-las”
delador, a imagem visual de uma essência [159:150],
visionária [139:62],

Sua falta de mundanalidade, extrema Cada palavra desta passagem é rigorosa­


como era, não degenerou em inépcia. Ele mente verdadeira a respeito de Whitman e, consi­
apreendeu os requisitos da vida prática, derando-se as diferenças de maneiras e costumes
foi preparado para enfrentá-los com em outras épocas e outros países, este parágrafo
poderia ser lido quanto à vida de qualquer um
espírito resoluto e diligente no dia a dia,
dos homens discutidos neste livro.
e podia em certas oca siõ es mostrar
excelente sagacidade. Tinha espírito elevado e independente e não se ocupava em
refutar quaisquer das histórias estranhas que eram correntes quanto a sua conduta ou
seu jeito de ser; não ostentava nem escondia sua pobreza e raramente aceitava qualquer
espécie de ajuda que não pudesse retribuir com algo equivalente [139:69].

Ele sabe que aquilo que faz não é “Divino eu sou”, diz Whitman, “por dentro
inferior ao que faziam os maiores entre e por fora”.
os antigos. Superior não pode ser, pois o
poder humano não pode ir além daquilo que ele faz ou do que eles fizeram. É o dom
de Deus, é inspiração e visão [139:72],

*N.T. - Na Bíblia em português usada para esta tradução [10] não encontramos
exatamente este versículo - que seria Lucas, 15:18, Encontramos um
versículo que pode ter o mesmo significado ou espírito, em Romanos, 15:18. Nele se
lê: “Porque não ousaria dizer coisa alguma que Cristo por mim não tenha feito ... por
palavra e por obras”.
D eve ser admitido que em muitos ca- “Pesquisei muito os velhos tempos”, diz
sos Blake falava de si mesmo com inco- Whitman, “estudei aos pés dos grandes mestres;
mensurável e provocador auto-aplauso. agora, se for apropriado, que os grandes mestres
Isto é na verdade um efeito conspícuo da possam retribuir e estudar afflim” [193:20]
simplicidade de caráter de que venho de falar; é egotismo, mas não mundano, egoístico
[139:71],

Que ele foi feliz, no todo e no melhor “A felicidade é uma das marcas do Sentido
sentido, considerando todas as suas pro- Cósmico.”
vas e tribulações, é um dos sinais mais fortes em seu louvor. “Se me perguntarem”,
escreve o Sr. Palmer, “se jamais conheci entre os intelectuais um homem feliz, Blake
seria o único que imediatamente me ocorreria”. Aspirações visionárias e ideais da
mais intensa espécie; a vida imaginativa predominando inteiramente sobre a vida
física e mundana e praticamente ultrapassando-a por completo; uma simplicidade
infantil de caráter pessoal, isenta de interesse pessoal e ignorando ou negligenciando
qualquer política de autocontrole, embora habitualmente guiada e regulada por nobres
em oções e uma resoluta lealdade ao dever - estes são os traços principais que
descobrimos por toda a carreira de Blake, em sua vida e em sua morte, em seus
escritos e em sua arte. E isto que o toma tão peculiarmente amorável e admirável
como homem e que reveste suas obras, especialmente seus poemas, de tão deleitoso
charme. Sentim os que ele é verdadeiramente “do reino dos céu s”; acima do
firmamento, sua alma conversa com arcanjos; na terra, ele é como o menino que
Jesus “pôs no meio deles” [139:70],

A essência da capacidade de Blake, É de se lamentar que esses Prophetic Books


o poder com que empreendeu sua obra, [“Livros Proféticos”] não tenham sido publica-
foi a intuição; isto se aplica a seus traba- dos. Parece quase certo que eles contenham (sem
lhos artísticos e mais ainda a seus poe- dúvida por trás de espessos véus) revelações de
mas. N eles a intuição reina suprema; e ^aordjnário vaIor- notícias d° “reino dos
. . ceus” - do mundo melhor - o mundo do Sentido
mesmo o leitor tem de apreende-los mtui- .
, . , , . Cósmico,
tivamente, ou então deixá-los completa­
mente de lado [139:74].

Há muitos indícios satisfatórios de que Blake tinha reais concepções no campo


metafísico ou supersensível do pensamento - concepções que poderiam ter sido
classificadas como especulações em outras pessoas mas, nele, antes como intuições;
e é indiscutível que os Prophetic Books contêm de algum modo essas intuições
[139:120],

Q uanto a sua crença religiosa, deve Areligião de Blake -s u a atitude em relação


ser entendido que B lake era de certa m a- à Igreja - em relação a Deus - em relação à
neira cristão e verdadeiram ente fervoroso imortalidade - é a atitude característica do
com o cristão; m as o era de um m odo pró- homem que alcançou a Consciência Cósmica -
prio, m uito d iferente do m odo de qual- como se Percebe em cada vida e em todos 08
quer igreja. N o s últim os quarenta anos escritos desses homens,
de sua vida, n u n c a entrou em qualquer lugar de adoração [139:76].
Ele acreditava - com grande profundeza e ardor de fé - em Deus; mas acreditava
tam bém que os homens são deuses, ou que o ser humano, coletivamente, é Deus.
Acreditava em Cristo; mas exatamente o que acreditava que ele fosse é outra questão.
“Jesus Cristo”, disse ele conversando com o Sr. Robinson, “ é o único D eus, e eu
tam bém, e você também” [139:77],

B lake parece ter acreditado implici- Sua atitude em relação à morte é a de todos
tam ente n a im ortalidade e (em alguns 08 iluminados, Ele não crê numa “outra vida”,
pontos essenciais) sem muito desvio da Não pensa que será imortal. Ele tem vida eterna,
crença de outras pessoas. Quando soube da morte de Flaxman (7 de dezembro de
1826), comentou: “N ão posso pensar na morte como mais do que sair de um quarto
e entrar em outro” . Em um de seus escritos ele diz: “O mundo da imaginação é o
mundo da eternidade. E o seio divino para o qual todos iremos após a morte do corpo
vegetativo” [139:79],

Com toda probabilidade Blake leu, o mesmo escreve George Frederic Parsons
em sua juventude, alguns dos escritores sobre Balzac [6:11]. Thoreau faz sugestão
m ísticos ou cabalísticos - Paracelso, semelhante quanto a Whitman [38:142] e em
Jacob Böhme, Cornelius Agrippa; e há geral tem sido constantemente sugerido ou dado
muito em suas especulações, em substân- a entender que alguns desses homens estiveram
cia e em tom, e às vezes em detalhes, lendo outros dentre eles. Naturalmente, isto pode
que pode ser remontado a autores dessa vezes acontecer, mas, falando de modo geral,
categoria [139 80] nâo ^ 0 caso’ P°'s niuitos deles são bastante
iletrados e o estudo de outros, como por exemplo
de Bacon, não segue este mesmo padrão. Blake, Balzac, Yepes, Behmen, Whitman, Caipenter e os
demais, cada qual viu por si mesmo esse outro mundo de que nos fala. Ninguém pode nos falar dele
em segunda mão, pois ninguém que não tenha visto algo dele pode concebê-lo.

A morte de Blake foi tão nobre e característica quanto sua vida. Gilchrist
[94: 360-1] nos dá o relato seguinte, simples e tocante:
“Sua doença não foi violenta, mas uma queda suave e gradativa de suas
forças físicas, que de modo algum afetou sua mente. O rápido fim não foi
previsto por seus amigos. Sobreveio num domingo, 12 de agosto de 1827,
perto de três meses antes de ele completar setenta anos de idade. “No dia de
sua morte”, escreve Smith, que recebeu um relato da viúva, “ele compôs e
cantou canções ao seu Criador, de maneira tão doce para os ouvidos de sua
Catharine, que, quando ela se levantou para ouvi-lo, ele, olhando para ela
com muito afeto, disse: Minha bem-amada, elas não são minhas - não, elas
não são minhas/” Disse então que eles não se separariam; ele estaria sempre
perto dela, para cuidar dela. As canções piedosas seguiu-se, por volta das 6
horas da tarde de verão, uma calma e indolor parada da respiração, cujo
exato momento não foi percebido por sua esposa, que estava sentada a seu
lado. Uma vizinha humilde, a única companhia que ela tinha então, disse
depois: “Estive presente à morte, não de um homem, mas de um anjo
abençoado”.”
Resta-nos mencionar'’certas declarações do próprio Blake que parecem
ter a ver com o assunto em questão - isto é, a pergunta: foi Blake um caso de
Consciência Cósmica?

O mundo da imaginação (*) é o mundo da eternidade. É o seio divino para o qual


todos iremos após a morte do corpo vegetativo. Esse mundo da imaginação é infinito
e eterno, ao passo que o mundo da gera-
ção, da vegetação, é finito e temporal. (*) O nome que Blake dava à Consciência
Existem naquele mundo eterno as reali­ Cósmica. Com este parágrafo comparem-se as
dades permanentes de tudo o que vemos palavras de Whitman: “Juro que agora penso que
refletido neste espelho vegetal da natu­ tudo, sem exceção, tem uma alma etema! As
reza [95:163], árvores, enraizadas na terra, têm! As algas do
mar têm! Os animais” [193:337],

Estamos num mundo de geração (**) (**) O mundo da autoconsciência. Balzac


e morte e este mundo teremos de des­ diz: “O homem (autoconsciente) julga todas as
cartar, se quisermos ser artistas como coisas por suas abstrações - o bem, o mal, a
R afael, M ichelangelo e os escultores virtude, o crime. Suas fórmulas do direito são
antigos. Se não descartarmos este mundo, sua balança e sua justiça é cega; a justiça de Deus
seremos apenas pintores venezianos, que [isto é, do Sentido Cósmico] vê - aí está tudo”
[5:142]
serão postos de lado e perdidos da arte
[95:172],
“Mostrando o melhor e separando-o do pior,
era discute era. Conhecendo a perfeita justeza e
O ator é um mentiroso quando diz: equanimidade das coisas, enquanto eles discutem
Os anjos são mais felizes do que os ho­ eu guardo silêncio”[193:31].
mens porque são melhores! Os anjos são
mais felizes que os homens e os demônios porque não estão sempre averiguando o
bem e o mal, um no outro, e comendo da árvore do conhecimento para gratificação
de Satanás [95:176],

O juízo final é o triunfo sobre a m á Ou seja, é o advento da Consciência Cós-


arte e a m á ciência [95:176], mica universal. “O Especialismo [o Sentido Cós­
mico] abre ao ser humano”, diz Balzac, “sua
verdadeira carreira; o infinito desponta para ele”[5:144]. “A auditoria da natureza, tardia embora,
respondida tem de ser, e sua quitação é te restituir [Consciência Cósmica] [176:126],

Algumas pessoas se iludem de que Blake diz que suas faculdades autoconsci en­
não haverá um juízo final... Eu não as tes são um estorvo para ele e não um auxílio.
iludirei. O erro é criado; a verdade é eter­ Também Balzac: “Perniciosa, ela [a autocons­
na. A criação, ou o erro, será queimado e ciência] impede o homem de entrar na senda do
então, e não até então, a verdade, ou a Especialismo [Consciência Cósmica] que leva
eternidade, aparecerá. Ele [o erro] será ao infinito” [5:142], Assim também os peritos
queimado no momento que os homens hindus ensinam e sempre ensinaram que a su­
deixem de contemplá-lo. D e minha parte pressão e a extinção de muitas das faculdades
declaro que não contem plo a criação autoconscientes são condições necessárias à ilu­
exterior e que, para mim, ela é estorvo e minação [56:166 et seq.].

não ação. “Quê?” será perguntado, “quando o sol nasce, não vedes vós um disco
redondo de fogo, assim como um guinéu?” “Oh, não, não! Vejo uma incontável compa-
nhia da hoste celestial, gritando: “Santo,
Assim Carpenter pergunta (bem sabendo a
santo, santo é o Senhor Deus Todo-Pode-
resposta) “Não existe uma verdade... uma ilumi­
roso!” N ão questiono meu olho físico, nação interior... pela qual possamos aíinal ver
tanto quanto não questionaria uma janela as coisas como elas são, contemplando toda a
a propósito de uma vista. Olho através criação... em seu verdadeiro ser e sua verdadeira
dela e não com ela [95:176]. ordem?” [57:98]

Abaixo das figuras de Adão e Eva (descendo a corrente geradora a partir daí)
está o assento da prostituta denominada mistério [a vida autoconsciente] no
Apocalipse. Ela (mistério) é segura por dois seres (a vida e a morte), cada qual com
três cabeças; eles representam a existência vegetativa. Como está escrito no Apoca­
lipse, eles a desnudam e a queimam com fogo [isto é, a morte a desnuda e as paixões
da vida autoconsciente a queimam qual com fogo]. Isto sepresenta a eterna con-
sumpção da vida vegetal e a morte [a vida
e a morte do meramente autoconsciente]
“Seu verme não morre, e o seu fogo nunca
com sua concupiscên cia. As tochas
se apaga” * [15:9:44], disse Jesus da vida
enfumaçadas em suas mãos [nas mãos da
autoconsciente, que (também) é o inferno de
vida e da morte] representam o fogo Dante.
eterno, que é o fogo da geração ou vege­
tação; é uma eterna consumpção. Aqueles
que são abençoados com visão im a­ E W hitm an diz: “ Eu rio daquilo que
ginativa [Consciência Cósmica] vêem chamais de dissolução”.
essa mulher eterna [mistério - a vida
autoconsciente] e tremem ante aquilo que
os outros não temem; enquanto desde­ “Ele [meu outro Eu], nem aquele afável
nham e riem daquilo que os outros temem fantasma familiar [o Sentido Cósmico] que à
noite com inteligência o logra” [176:86],
[95:166],

N ão estou encabulado, com medo ou “Uma mensagem dos céus, sussurrando


contrariado em vos dizer o que precisa para mim até no sono” [193:324],
ser dito - que estou sob a direção de
mensageiros do céu, de dia e de noite. Mas a natureza dessas coisas não é, como
alguns supõem, sem preocupações ou cuidados [95:185],

*N.T. - Também em [13:66:24]: “o seu bicho nunca morrerá, nem o seu fogo se
apagará”.
SUMÁRIO

a. Blake parece ter entrado em Consciência Cósmica quando estava com


pouco mais de trinta anos de idade.

b. Este autor nada sabe a respeito da ocorrência da luz subjetiva no caso de


Blake.

c. O fato da grande iluminação intelectual parece claro.

d. Sua elevação moral era bem marcante.

e. Ele parece ter tido o senso de imortalidade próprio da Consciência Cósmica.

f. Detalhes específicos de provas deixam a desejar, como acontece várias


vezes, inevitavelmente, mas um estudo da vida de Blake e de seus escritos
(o autor não tem condição nem competência para julgar Blake pelos seus
desenhos), bem como da sua morte, convencem o autor de que ele foi um
caso genuíno e provavelmente mesmo um grande caso.
HONORÉ DE BALZAC

Nasceu em 1799; faleceu em 1850.

“Talvez o maior nome da literatura pós-revolucionária da França”


[78:304],

Ele é bem resumido por um escritor ainda mais recente, W. P. Trent


[3:566]:

“O inesperado”, diz-nos ele, “às vezes acontece, como descobri


recentemente quando terminei meu qüinquagésimo volume da edição popular
das obras de Balzac, de M. Calmann Levy. Eu havia pensado que a conclusão
das odes de Horácio, das peças de Shakespeare e da Odisséia tinham marcado
as três épocas mais importantes em minha própria vida intelectual e que eu
provavelmente não seria novamente tão tocado, tão empolgado, por qualquer
livro ou por qualquer autor. Mas eu estava errado. Balzac, cujos romances,
considerados isoladamente, tinham me tocado fortemente mas nem sempre
tinham me empolgado e de quem eu fizera um companheiro durante anos,
sem compreendê-lo plenamente - este Balzac, quando visto à luz de suas
realizações estupendas e totais, de repente se projetou diante de mim com
toda a sua estatura e todo o seu poder, como um dos poucos gênios genuínos
do mundo que a humanidade pode apontar com legítimo e inabalável orgulho.
Eu tinha emergido da Comédie Humaine do mesmo modo como emergira
dos poemas de Homero e das peças de Shakespeare, sentindo que atravessara
um mundo e estivera na presença de um verdadeiro criador”.

Um outro escritor, ainda mais recente, pode ser citado para o mesmo fim.
H. T. Peck [128a:245] assim resume o resultado de seus estudos: “O lugar
que este grande gênio em última análise tem de ocupar na história da literatura
não foi ainda definitivamente estabelecido. Os críticos franceses ligam seu
nome ao de Shakespeare, ao passo que os críticos ingleses parecem achar
que uma comparação como esta é muito ousada. Pessoalmente, creio que, no
final, seu nome será colocado ainda mais alto do que o de Shakespeare, no
verdadeiro ápice da pirâmide da fama literária.

“Por mais que se procure, não se encontra nenhuma biografia completa


de Balzac. Ainda há cartas e ensaios não publicados, em poder do Visconde
de Spoelberch de Lovenjoul, um compatriota que o compreendeu
perfeitamente; mas, somando-se esses trabalhos a tudo que foi escrito, ainda
é duvidoso que o verdadeiro homem seja encontrado por trás deles. Embora
fosse em certas ocasiões comunicativo, ele se furtava a conhecer outras
pessoas. Há períodos de sua vida em que ele desaparece, em que se esconde,
e cada qual deve interpretar por si mesmo o segredo que fez o seu poder e
assegura sua fama”.

Balzac pôs as seguintes palavras na boca de Dante, que, segundo ele, foi
um “Especialista”. O próprio Balzac foi um “Especialista”. Essas palavras,
portanto, serão aplicáveis tanto a ele como a Dante: “Então o coitado do
jovem pensa que é um anjo exilado do céu. Quem de nós tem o direito de
desenganá-lo? Eu? Eu, que sou tantas vezes elevado acima desta Terra por
um poder mágico? Eu, que pertenço a Deus? Eu, que sou um mistério para
mim mesmo? Não vi o mais belo dos anjos [o Sentido Cósmico] vivendo
neste mundo inferior? Estará esse jovem mais ou menos fora de si do que eu
estou? Terá ele dado um passo mais arrojado para a fé? Ele crê; sua crença
sem dúvida o guiará para alguma senda luminosa, como essa em que
caminho”[9:263].

Que Balzac estivesse situado à parte e num plano acima dos homens
comuns, foi conjeturado durante sua vida e percebido por milhares de pessoas
desde sua morte. Taine, procurando encontrar uma explicação do fato óbvio,
diz: “Seu instrumento era a intuição, essa faculdade perigosa e superior,
pela qual o homem imagina ou descobre, num fato isolado, todas as
possibilidades de que é capaz; uma espécie de segunda visão, própria dos
profetas e dos sonâmbulos, que às vezes encontram o verdadeiro, muitas
vezes o falso, e que comumente alcançam apenas a verossimilitude” [6:12].

G. F. Parsons, em sua introdução a Louis Lambert, chega mais perto


quando pergunta “se esse estado [de êxtase crônico, em que o paciente - isto
é, Louis Lambert - na realidade o próprio Balzac - parece absorto] não pode
ser conseqüência de uma iluminação tão maior do que a que é concedida à
humanidade em geral que transcenda qualquer expressão - para separar
aquele que o receba de contato intelectual com seus próximos, por meio da
revelação de coisas intraduzíveis ao seu sentido interior ” [6:11],

Esta última parece ser a pura e simples verdade: Balzac, de maneira


muito clara, foi um caso bem marcante de Consciência Cósmica. A evidência
de que ele assim foi reside (1) no fato de sua vida, tal como observada por
outros e (2) em suas próprias revelações quanto ao seu Eu interior. A primeira
série de fatos pode ser colhida de sua biografia, compilada por K. P. Wormeley,
em grande parte das memórias escritas pela irmã de Balzac, Laure - Madame
Surville; a segunda, dos próprios escritos de Balzac e principalmente de
Louis Lambert e Seraphita. E acima de tudo, quanto à sua vida exterior
revelando a interior, Miss W. diz: “Uma biografia completa não pode ser
escrita atualmente e talvez nunca possa. Quase o todo do que ele era para si
mesmo, do que era seu próprio ser e de quais foram as influências que o
moldaram, de como o olho que via as múltiplas vidas dos outros via sua
própria vida, de como aquela alma que coroou sua obra terrena com uma
visão do verbo vivo foi nutrida - em suma do que era aquela alma, foi ocultado
àvista” [14:1], “Em todas as estimativas sobre a natureza de Balzac é preciso
atentar para o fato de que ele era eminentemente são, saudável de mente e
corpo. Embora seu espírito se elevasse a regiões que só podiam ser alcançadas
por intuição e meditasse sobre problemas cujo estudo associamos a fragilidade
de corpo e alheamento das coisas da vida, ele era ao mesmo tempo e tão
plenamente um homem com instintos humanos, que amava a vida e a
desfrutava. Nisto sem dúvida repousa um dos segredos de seu poder. Era
uma parte de sua multíplice genialidade, que o capacitava a efetivamente
viver e ter o seu ser nos homens e nas mulheres que evocava das profundezas
e das alturas da natureza humana. Seu temperamento era acima de tudo
jovial e, seu humor, divertido; nenhuma pressão de preocupações e débitos
mundanos, nenhuma labuta esmagadora, nenhum pesar oculto, com que esse
homem, tal como a criança em seu pequeno mundo, estivesse familiarizado,
podia destruir aquela saudável animação ou impedir sua repercussão numa
alegria sincera ou mesmo jovial. “Robusto” é a palavra que parece assentar-
lhe no lado material de sua natureza, aplicando-se mesmo a seus processos
mentais. Ele era dotado de forte bom senso, que guiava seu julgamento de
homens e circunstâncias” [4:58-9],

Ainda muito jovem, Balzac decidiu ser escritor. Parece que ele sentiu,
mesmo ainda menino, que estava destinado a fazer algo importante nesse
campo e compôs na escola, entre outras coisas, um tratado sobre a vontade e
um poema épico. Mais tarde escreveu em Paris, no decurso de dez anos,
mormente com o pseudônimo de “Horace de Saint Aubin”, uns quarenta
volumes, tidos como quase totalmente sem valor. Uma boa autoridade [106:87]
assim resume este episódio na história de Balzac: “Antes de seus trinta anos
ele havia publicado, sob vários pseudônimos, cerca de vinte romances longos,
verdadeiras produções “Grub Street”, escritas em sórdidos sótãos de Paris,
na pobreza, em perfeita obscuridade. Várias dessas “oeuvres de jeunesse”
foram recentemente republicadas, mas as melhores delas são horríveis.
Nenhum escritor jamais passou por um aprendizado mais árduo para chegar
à sua arte, ou se demorou tão desesperadamente na base da escada da fama”.
Então, aos trinta anos, sua genialidade começou a despontar em Les Chouans
e Physiologie du Marriage. Ele deve ter entrado em Consciência Cósmica
por volta do começo de 1831, aos trinta e dois anos, pois Louis Lambert (que
foi sem dúvida concebido logo depois da iluminação) foi escrito em 1832.
Em 1833, aos trinta e quatro anos, ele tinha entrado na plena posse de sua
verdadeira vida, um pressentimento da qual o havia dominado desde cedo
em sua infância.
Madame Surville diz: “Só em 1833, mais ou menos na época da publicação
de Médecin de Campagne, ele pensou pela primeira vez em reunir todos os
seus personagens e formar uma sociedade completa. O dia em que esta idéia
irrompeu em sua mente foi um dia glorioso para ele. Ele saiu da Rue de
Cassini, onde passara a residir depois de ter saído da Rue de Toumon, e
correu para o subúrbio de Poissonnière, onde eu estava então morando.
“Curvem-se diante de mim - disse ele alegremente - estou a caminho de
me tornar um gênio!

“Então revelou seu plano, que o assustava um pouco, pois, por maior que
fosse seu cérebro, precisava de tempo para elaborar um esquema como aquele.

“Como ele será glorioso, se eu tiver sucesso - disse ele, andando de um


lado para outro na sala. Ele não conseguia ficar parado; irradiava alegria de
cada traço de sua fisionomia. De bom grado deixarei que me chamem de
fazedor de contos, por todo o tempo em que estou cortando pedras para
meu edifício. Eu me regozijo antecipadamente com o espanto daquelas
criaturas de pouca visão quando o virem subir” [4:83].

Parece provável, a julgar pelo relato de Madame Surville, que Balzac, ou


estava no estado de Consciência Cósmica durante aquela visita a ela, ou
estivera recentemente nele.
Um escritor já citado [106:87] descreve nas palavras seguintes, sem dúvida
corretamente, qual era então o esquema de Balzac, e vale a pena observar
que, para todos os propósitos, era o mesmo que o concebido e tentado por
Dante, “Shakespeare” e Whitman (cada um em seu próprio mundo):

“Balzac se propôs ilustrar, com um conto ou um grupo de contos, cada


fase da vida e dos costumes dos franceses durante a primeira metade do
século dezenove. O trabalho deveria ser vasta e exaustivamente completo -
completo, não somente nas generalidades, mas também nos detalhes; deveria
tocar todo ponto destacado, iluminar cada aspecto típico, reproduzir cada
sentimento, cada idéia, cada pessoa, cada lugar, cada objeto que tivesse
desempenhado algum papel, por pequeno, obscuro que tivesse sido, na vida
do povo francês”.

Eis uma descrição dele no começo de seus trinta anos, feita por Lamartine:

Balzac estava de pé em frente à lareira daquela sala querida onde vi tantos homens
e mulheres notáveis entrando e saindo. Ele não era alto, embora a luz em seu rosto e
a mobilidade de sua figura m e impedissem de reparar na sua estatura. Seu corpo
balançava com seu pensamento; às vezes parecia que havia um espaço entre ele e o
chão; vez por outra ele se abaixava, como que para apanhar um a idéia a seus pés, e
depois se erguia sobre eles para seguir o vôo de seu pensamento acima dele próprio.
Q uando entrei na sala ele estava empolgado com o assunto de uma conversa com
M onsieur e M adam e de Girardin, e só se interrom peu por um instante, para me
lançar um olhar agudo, rápido e gracioso, de extrema bondade.

Ele era robusto, cheio, quadrado na base e de lado a lado dos ombros. O pescoço,
o peito, o tronco e as coxas eram fortes, com algo da amplitude de Mirabeau, mas
sem excesso. Sua alma transparecia e parecia encarar tudo de maneira leve, alegre,
como uma coberta elástica e de modo algum como um fardo. Seu tamanho parecia
dar-lhe poder e, não, despojá-lo dele. Seus braços curtos gesticulavam com facilidade;
falava como fala um orador. Sua voz ressoava com a energia um tanto veemente de
seus pulmões, mas nela não havia aspereza nem sarcasmo nem raiva; suas pernas,
nas quais ele mesmo balançava bastante, sustentavam facilmente seu tronco; suas
mãos, que eram grandes e rechonchudas, expressavam seu pensam ento à medida
que ele as movia. Assim era o homem exterior naquela robusta estrutura. M as na
presença de seu rosto era difícil pensar a respeito de seu físico. Aquele rosto que
falava, do qual não era fácil desviar os olhos, encantava e fascinava; seu cabelo era
penteado em m assas espessas; seus olhos negros eram penetrantes com o dardos
embebidos em benevolência; eles entravam confiantemente nos nossos, como amigos.
Suas bochechas eram cheias e rosadas; o nariz era bem modelado, embora um tanto
longo; os lábios eram finos de contorno mas cheios e erguidos nos cantos; os dentes
eram irregulares e chanfrados. Sua cabeça tendia a se inclinar para um lado e depois,
quando a conversa o excitava, era rapidamente levantada, com um a espécie de orgulho
heróico.

M as a expressão dominante de seu rosto, maior até mesmo do que a de seu


intelecto, era a manifestação de bondade e compassividade. Ele conquistava nossa
m ente quando falava, mas conquistava nosso coração quando estava calado. N enhum
sentim ento de inveja ou de ódio poderia ter sido expresso por aquele rosto; era
impossível que ele parecesse qualquer coisa que não bom. M as essa bondade não era
a da indiferença; era bondade amorosa, consciente de seu significado e consciente
das outras pessoas; inspirava gratidão e franqueza e desafiava todos aqueles que o
conheciam a não amá-lo. Havia uma folia infantil em seu semblante; ali estava uma
alma a brincar; ele tinha largado a pena para estar feliz entre amigos e era impossível
não estar alegre onde ele estava [4:123:5],

Tem sido dito de Balzac: “Ele foi uma iluminação lançada sobre a vida”.

Foi uma ilustração de seu próprio dito: “Tudo o que somos está na alma”
(“nous ne sommes que par l’ame”), e uma pergunta que fez a um amigo toca
muito perto a tese deste livro:

Tens certeza [disse ele] de que tua Isto lembra Whitman: “A visão tem uma
alma já teve seu pleno desenvolvimento? outra visão, a audição uma outra audição e a
R espiras ar através de todos os poros voz uma outra voz [193:342],
dela? Vêem teus olhos tudo que podem ver? [4:126]

Uma olhada em algumas de suas cartas a um amigo íntimo, naquele


período, lançará luz em nossa atual pesquisa:

“Agosto, 1833. Médecin de Campagne estará em tuas mãos na próxima


semana. Custou-me dez vezes mais o trabalho que me deu Louis Lambert.
Não há uma frase, uma idéia, que não tenha sido vista e revista, lida e relida
e corrigida; o trabalho foi assustador. Agora posso morrer em paz. Fiz um
grande trabalho para o meu país. No meu modo de pensar, é melhor ter
escrito este livro do que ter feito leis e ter ganho batalhas. É o evangelho em
ação” [4:143],

“Outubro, 1833. Sabes como Medecin foi recebido? Com uma torrente
de insultos. Os três jornais do meu próprio grupo que falaram nele fizeram-
no com o maior desprezo pela obra e por seu autor” [4:143],
“Dezembro, 1835. Nunca a torrente que me empurra para a frente foi tão
rápida; nenhuma obra mais terrivelmente majestosajamais conmpeliu a mente
humana. Vou à minha labuta como um jogador às cartas. Durmo apenas
cinco horas e trabalho dezoito; vou acabar me matando” [4:145],

Como todos os homens de sua categoria - isto é, como todos os homens


glorificados pela centelha divina que é o assunto deste modesto livro - Balzac
foi muitíssimo amado por aqueles que estiveram em contato com ele.

Seus empregados o amavam. Rose, a cozinheira, uma verdadeira “cordon Blue”


(nós a chamávamos de “La Grande Nanon”), ficava desesperada quando seu patrão,
em seus meses de trabalho, negligenciava seus deliciosos pratos. E u a vi entrar no
quarto dele na ponta dos pés, levando-lhe um delicioso consom e e trem endo de
ansiedade de vê-lo tomá-lo. Balzac então se dava conta dela; talvez o vapor da sopa
chegasse a seu olfato; então ele sacudia sua cabeleira para trás, com um gesto de
impaciência de sua cabeça, e exclamava com sua voz mais áspera e mais grosseira:
“Rose, vá embora; não quero nada; deixe-me a sós!” “Mas, mossieu vai estragar sua
saúde e se continuar assim mossieu vai ficar doente!” “Não, não! Eu lhe digo que me
deixe só!” - retrucava ele num a voz trovejante. “Não quero nada; você me aborrece;
vá em bora!” Então, a boa alm a se virava para sair, lentamente, muito lentamente,
murmurando: “Tanto trabalho para agradar mossieu] e uma sopa dessa - como está
cheirosa! P or que mossieu m e mantém a seu serviço, se não quer o que faço para
ele?” Isto era demais para Balzac. Ele a chamou de volta, tomou a sopa num gole só
e disse em sua mais bondosa voz, enquanto ela saía, radiante, para a cozinha: “Ora,
Rose, não deixe que isto aconteça outra vez!” Quando seu microscópico cavalariço,
um coitado dum orfaozinho que ele chamava Gain de mil, estava para morrer, Balzac
tom ou o m aior cuidado dele e nunca deixou de ir vê-lo diariam ente durante sua
doença. Sim, Deus deu ao meu grande escritor um coração de ouro; e todos que
realmente o conheciam o adoravam. Ele possuía a arte de fazer com que outros o
amassem a tal ponto que, em sua presença, eles esqueciam qualquer queixa, real ou
fantasiosa, contra ele, e só se lembravam do afeto que sentiam por ele [14:162-3],

Tem sido dito: “Poucos escritores foram maiores que Balzac na manifes­
tação das qualidades morais”. Mas Goethe diz: “Wenn ihr nicht flillt ihr
Werdefs nicht eijagen”. Se um homem é destituído de uma dada faculdade,
é inútil que tente descrevê-la.

Como é que, como diz Hugo, “um gênio é um homem amaldiçoado”?


Que os homens que têm as maiores qualidades são precisamente aqueles a
quem se atribui a ausência das mesmas? E, voltando a Balzac, por que se
haveria de duvidar que esse homem - que deu toda prova de grandeza moral
- era grande por suas qualidades morais tanto quanto por suas qualidades
intelectuais? Simplesmente porque é mais fácil interpretar mal do que
compreender homens dessa categoria e porque, quando não compreendemos,
tendemos a inferir o pior ao invés do melhor.

Ofato é que, como se tem dito, “Balzac é um moralista, o maior moralista


do século dezenove, alguém que não prega mas mostra a verdade” [4:178].
Assim, embora se possa dizer que Bacon pregava em suas obras em prosa,
ele tinha a intenção de que essas obras fossem meramente introdutórias a
outras, que deveriam então mostrar a verdade. No “Plano” da obra de sua
vida, a Instauratio Magna [“A Grande Restauração das Ciências”], ele a
divide em seis partes: (I) A divisão das ciências, representada por De
Augmentis; (II) The New Organon [“Novum Organum” ou “Elementos de
Interpretação da Natureza”]; (III) The Phenomena of the Universe [“Os
Fenômenos do Universo”], representada pelos seus livros de história natural;
(IV) The Ladder of the Intellect [“A Escada do Intelecto”], representada
pelas Comedies [“Comédias”]; (V) The Forerunners [“Os Precursores”],
representada pelas Histories [“Histórias”] e (VI) The New Philosophy [“A
Nova Filosofia”], representada pelas Tragedies [“Tragédias”].
Falando agora [34:51] de IV (as Comedies) e descrevendo o intuito desta
parte, ele diz que ela não consiste em preceitos e regras - pois, diz ele, “já
dei uma grande quantidade deles em Novum Organum - mas de verdadeiros
“tipos e modelos” pelos quais as coisas que devem ser ensinadas são “por
assim dizer colocadas diante dos olhos”. De VI, então, (as Tragedies) ele diz
que esta parte consiste, não em “mera retórica de especulação”, mas que
apresenta (como sabemos que o faz) “os reais negócios e sucessos da espécie
humana”. “Pois proíba Deus” - prossegue ele - “que façamos de um sonho
de nossa própria imaginação um padrão para o mundo; antes, que ele genero­
samente nos conceda que possamos escrever um apocalipse ou visão verdadei­
ra das pegadas do Criador impressas em suas criaturas”. Nem Jesus, nem
Whitman, nem quaisquer outros destes homens, pregaram, mas todos eles
mostraram a verdade, cada um à sua maneira, em sua vida, com sua palavra
falada ou escrita.
Outra característica que parece comum a esses homens - absorção em
sua própria época - foi notada em Balzac. Theophile Gautier se ocupa bastante
daquilo que chama de absoluta modernidade da genialidade de Balzac. Diz
ele: “Balzac nada deve à antiguidade. Para ele não há gregos nem romanos,
nem há na composição de seu talento qualquer traço de Homero, ou Virgílio,
ou Horácio - ninguém jamais foi menos clássico [4:170].
“Poder-se-ia supor que seus sentimentos tivessem sido feridos quando
lhe barraram a entrada na Academia. Mas ele se portou com dignidade e
retirou seu nome quando o fracasso pareceu provável. Este assunto não
perturba muito meus sentimentos - disse ele; algumas pessoas pensam que
absolutamente não perturba, mas elas estão enganadas. Se eu efetivamente
entrar lá, tanto melhor; se não entrar, não importa [4:190]”.

George Sand dá o seguinte depoimento a seu respeito:

“Ele procurou tesouros e não encontrou nenhum senão aqueles que tinha
dentro de si mesmo - seu intelecto, seu espírito de observação, sua maravilhosa
capacidade, sua força, sua alegria, sua bondade de coração - numa palavra,
sua genialidade.

“Sóbrio em todos os aspectos, sua moral era pura; ele tinha horror a
excessos, por serem a morte do talento; respeitava as mulheres com seu
coração e com sua mente, e sua vida, desde a primeira juventude, foi a de um
eremita [4:201],

“Ele viu tudo e disse tudo; tudo compreendeu, tudo adivinhou- como
então pode ser imoral?. . .

“Balzac tem sido criticado por não ter princípios porque não tem, penso
eu, convicções categóricas em questões de fato na religião, na arte, na política,
ou mesmo no amor” [4:203].

Esta é uma afirmação altamente significativa. Todas essas pessoas têm


sido julgadas da mesma maneira por seus contemporâneos. Por quê? Porque
elas não têm nenhuma opinião ou princípio no sentido em que seus
semelhantes têm. As coisas que parecem vitais para as pessoas ao seu redor
parecem não ter nenhuma importância para elas. E as coisas que têm valor
para elas são inatingíveis para as demais.

Aqui está o testemunho de Gautier quanto ao tipo de homem que Balzac


era (deveria ser transcrito na íntegra, mas é impossível fazê-lo aqui):

Quando vi Balzac pela primeira vez, ele tinha cerca de trinta e seis anos e sua
personalidade era um a daquelas que jam ais se esquece. E m sua presença, lembrei
palavras de Shakespeare: diante dele, “a natureza poderia se levantar e dizer ao
Itiundo inteiro: Este foi um homem”. Ele trajava um hábito de monge de flanela ou
chashmere branca, no qual, algum tempo mais tarde, fez Louis Boulanger pintar ele
próprio, Balzac. Q ue fantasia o levara a escolher esta roupa em particular que ele
sempre trajava, de preferência a todos os outros tipos, não sei. Talvez simbolizasse a
seus olhos a vida de claustro a que seu trabalho o condenava e, beneditino por
romantismo, ele usava o hábito. Seja como for, ele lhe assentava maravilhosamente.

Ele se gabou, mostrando-me as m angas im pecavelmente limpas, de que nelas


nunca tinha deixado cair nem u m a gotinha de tinta; “pois” - acrescentou - “um
verdadeiro literato tem de ser limpo em seu trabalho”.

Então, depois de descrever outras características, Gautier continua:

Quanto a seus olhos, nunca houve outros iguais; eles tinham uma vida,
uma luz, um inconcebível magnetismo; o branco dos olhos era puro, límpido,
com um ligeiro tom azulado, como o de uma criança ou de uma virgem,
envolvendo dois diamantes negros, salpicados em certos momentos de reflexos
dourados - olhos de fazer uma águia fechar as pálpebras - olhos de ler
através de paredes, ou no âmago das pessoas, ou de aterrorizar um furioso
animal selvagem - os olhos de um soberano, de um vidente, de um subjugador.
A expressão habitual do rosto era de uma pujante hilaridade, de uma alegria
à Rabelais, uma alegria monacal.

Estranho como possa parecer dizer isto no século dezenove, Balzac era
um vidente. Seu poder como observador, seu discernimento como fisiologista,
sua genialidade como escritor, não explicam suficientemente a infinita varie­
dade dos dois ou três mil tipos humanos que desempenham um papel mais
ou menos importante em sua comédia humana. Ele não os copiou; ele os
viveu idealmente. Vestiu suas roupas,contraiu seus hábitos, movimentou-se
em seus ambientes, foi eles próprios, durante o tempo necessário [4:204-8],

Como um outro homem da mesma categoria diz de si mesmo: “Sou um


camarada livre”. “Minha voz é a voz da esposa”. “Sou o escravo acossado”.
“Sou um velho artilheiro”. “Sou o bombeiro enfatuado”. “Sou eu quem está
livre de manhã e é barrado à noite”. “Não é um jovem que é preso por furto,
mas eu vou também e sou julgado e sentenciado”. “Não é um paciente de
cólera que está deitado, no último arquejo, mas eu também estou deitado, no
último arquejo. Meu rosto tem a cor das cinzas, minhas fibras rosnam, para
longe de mim as pessoas se retraem”. “Inquiridores se incorporam a mim e
eu me incorporo a eles. Estendo meu chapéu, sento-me com cara envergo­
nhada e peço esmolas”. Gautier continua:
E no entanto B alzac, m entalm ente im enso, um fisiologista p en etrante, um
profundo observador, um espírito intuitivo, não tinha o dom literário. Havia nele um
abismo entre o pensamento e a forma [4:209],

Aqui há uma coisa curiosa. Como é que esses homens que formam a
mente da espécie humana raramente ou nunca podem (pelo menos segundo
seus contemporâneos) escrever sua própria língua apropriadamente? Segundo
Renan (e ele não parece ter sido contradito), o estilo de Paulo era tão ruim
quanto possível (“sans charme; la forme, en est âpre est presque toujour
dénuée de grace” [143:568].*

Dificilmente se poderá dizer que Maomé tenha escrito e em sua época e


em seu país não havia nenhum padrão reconhecido com que se pudesse
comparar sua linguagem. O autor dos dramas shakespearianos foi por muito
tempo classificado como um escritor abaixo do mais medíocre autor de
panfletos. E, até o presente momento, dificilmente alguém defendeu Walt
Whitman do ponto de vista puramente literário, ao passo que milhares de
pessoas o condenaram sumariamente.

Mas os escritos de Paulo dominam continentes inteiros. As palavras de


Maomé mantêm duzentos milhões de pessoas em sujeição espiritual. O autor
de Hamlet tem sido chamado, e chamado corretamente, de “The Lord of
Civilization” [“O Senhor da Civilização”]. E a voz de Walt Whitman
provavelmente será afinal considerada a mais forte do século dezenove.

Essa aparente anomalia talvez seja facilmente explicada. Em cada geração


há certos homens, nunca muito numerosos, que são dotados do instinto
literário, e há também certos homens que são dotados de Consciência Cósmica,
mas não há razão alguma para que estes dois dons estejam unidos. Se isto
acontece, é um mero acidente. O homem com instinto literário escreve por
amor a escrever. Sente que tem a faculdade e, procurando um assunto, ou
um assunto após o outro, escreve sobre aquele ou sobre estes. O homem
dotado de Consciência Cósmica quase certamente não tem o instinto literário
(a probabilidade de que o tenha é de um em milhões), mas percebe certas
coisas que sente que deve contar. Simplesmente, com toda força, faz o melhor
que pode. A importância de sua mensagem faz com que ele seja lido. Sua
personalidade, conforme vai sendo reconhecida, faz com que tudo que tenha
relação direta com ele seja admirado e por fim ele é talvez considerado um
modelo de estilo.
•N. T. - (“sem encanto; a forma é rude e quase sempre desprovida de graça”).
Madame Surville, continuando, diz: “Os ataques contra meu irmão
aumentaram, ao invés de diminuírem; os críticos, como não podiam repetir
as mesmas coisas para sempre, mudaram suas baterias e o acusaram de
imoralidade. Estas acusações foram muito injuriosas para meu irmão; elas o
entristeceram profundamente e algumas vezes o desanimaram” [4:242], É a
velha, velha história, mas nunca desgastada, nunca surrada, sempre pronta
para o serviço, tão atual e, lamentavelmente, tão fatal como sempre.

Os poucos e breves excertos acima sugerem a espécie de homem que foi


Balzac visto pelo lado exterior. Com base neles está claro, para qualquer
pessoa em condição de julgar, que ele era uma pessoa de tal modo dotada -
e só resta mostrar com suas próprias palavras, que do contrário não poderiam
ter sido escritas - que foi realmente um dos iluminados - um homem dotado
da rara e esplêndida faculdade denominada Consciência Cósmica.

Vejamos primeiro alguns excertos curtos, escritos pelo próprio Balzac,


que nos dão vislumbres do homem interior antes do advento do Sentido
Cósmico.

Deve-se notar que ele, como todos os homens da classe a que pertence,
era religioso, embora não tanto da maneira ortodoxa; esses homens raramente
aderem a uma igreja. Um “especialista” pode fiindar uma religião; raramente
pertence a uma. Os “especialistas” são pela religião e não por uma religião.
Assim Balzac nos diz de si mesmo, sob o nome de “Louis Lambert”:

Embora naturalmente religioso, ele não compartilhava os minuciosos deveres da


Igreja Romana; suas idéias eram mais particularmente consoantes com as de Santa
Teresa, Fénelon, vários dos padres e alguns santos, que em nossos dias seriam tratados
como hereges ou ateus. Ele permanecia frio durante as cerimônias religiosas. Para
ele a oração nascia de um impulso, um movimento, um a elevação do espírito, que
não seguia nenhum curso regular; em todas as coisas ele se entregava à natureza, e
não queria orar nem pensar em períodos preestabelecidos [5:73].

O limite que muitas mentes alcançam foi o ponto de partida de que a sua mente
um dia começaria a buscar novas regiões da inteligência [5:79].

Mais tarde ele faz esta observação a respeito de si mesmo:


A semente expandiu-se e germinou. Os filósofos podem se queixar da folhagem,
atingida pela geada antes que brotasse, mas um dia eles verâo a perfeita florescência
em regiões muito mais altas que os lugares mais altos da Terra [5:84],

Em sua narrativa adicional, fragmentária, velada e mística, do real advento


do Sentido Cósmico, é importante para o presente argumento notar que: (a)
Ele não tinha a menor idéia do que lhe acontecera, (b) Foi tomado de terror
[5:129], ( c) Seriamente se debateu quanto a se não estava insano, (d)
Considerou (ou reconsiderou) a questão do casamento - na dúvida de que
seria “um obstáculo ao aperfeiçoamento de seus sentidos interiores e ao seu
vôo pelos mundos espirituais” [5:131] - e pareceu decidir-se contra. Com
efeito, quando consideramos a atitude antagonística de tantos dos grandes
casos quanto a este relacionamento (Gautama, Jesus, Paulo, Whitman, etc.),
parece haver pouca dúvida de que algo como uma posse geral de Consciência
Cósmica deva abolir o casamento como o conhecemos hoje.

II

Balzac deve ter alcançado a Consciência Cósmica por volta de 1831 ou


1832, na idade de trinta e dois ou trinta e três. Foi nessa época que começou
a escrever seus grandes livros. Mas é especialmente importante, no momento,
notar que em 1832 ele escreveu Louis Lambert e, em 1833, Seraphita.

Nestes dois livros ele descreve o novo sentido mais cabalmente do que
ele jamais fora descrito em outros lugares. Em Louis Lambert ele faz uma
descrição arrojada, clara e cheia de bom senso, que é particularmente valiosa
para o nosso propósito atual. Depois, no ano seguinte, após ter escrito essa
obra, compôs Seraphita, cujo objetivo foi delinear uma pessoa dotada da
grande faculdade. Juntos, os dois livros provam que seu autor era dotado da
faculdade. Seraphita tem de ser lido inteiramente, para ser entendido e
apreciado; e, naturalmente, Louis Lambert também deve ser lido por completo;
mas a evidência de que necessitamos agora pode ser obtida desta última
obra dentro do limite de algumas páginas. Os excertos são da tradução de K.
P. Wormley, que foi comparada com o original e considerada fiel.

O m undo das idéias está dividido em (*i) Há no intelecto três estágios - consciência
três esferas: a dos instintos; a da abstra- simples, autoconsciência e Consciência
ção; a do especialism o [5:141], (*1) Cósmica.
A maior parte da humanidade visível (*2) Naturalmente, não é verdade que a massa
- isto é, a parte mais fraca - habita a esfe­ da espécie humana tenha consciência sim­
ples e não autoconsciência. Na verdade, é a se­
ra dos instintos; os instintivos nascem , gunda que faz como que uma dada criatura seja
trabalham e morrem sem atingir o segun­ um ser humano. Mas é verdade (o que Balzac
do grau da inteligência hum ana - isto é, quer dizer) que, na massa, a consciência simples
a abstração [5:142]. (*2) desempenha um papel bem maior do que a auto­
consciência. A “parte mais fraca” de fato vive bem
A sociedade tem seu começo na abs­ mais em consciência simples do que em autocons­
tração. Em bora a abstração, quando com­ ciência.
parada com o instinto, seja um poder quase divino, é infinitamente débil se comparada
com o dom do especialismo, que é o único que pode explicar Deus. A abstração
contém toda um a natureza em forma germinal, tão potencialmente quanto um a semente
contém o sistema de uma planta e todos os seus produtos. D a abstração derivam as
leis, as artes, os interesses, as idéias sociais. E a glória e o flagelo do mundo. Quando
gloriosa, cria sociedades; quando perniciosa, impede que o ser hum ano entre na
senda do especialismo, que leva ao infinito. O homem julga todas as coisas por suas
abstrações - o bem, o mal, a virtude, o
(*3) Na abstração - isto é, na autoconsciência -
crime. Suas fórmulas do direito são a sua ahumanidade, e portanto a sociedade huma­
balança e sua justiça é cega; a justiça de na, tem seu início. “Somente o especialismo pode
D eus vê - aí está tudo. H á, necessaria­ explicar Deus”. Que se note, neste particular, que
mente, seres intermediários que separam todas as religiões dignas do nome - budismo,
maometismo, cristianismo e possivelmente outras
o reino dos instintivos do reino dos abs-
- nasceram do especialismo - isto é, da Consciên­
trativos, em quem a instintividade se mis­ cia Cósmica. “Eu” (Cristo, o Sentido Cósmico)
tura com a abstratividade, num a infindá­ “sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai
vel variedade de proporção. Alguns têm a Deus senão por mim”. Não está tão claro como
mais da primeira do que da segunda, e é que a autoconsciência barra o caminho para a
Consciência Cósmica. Pelo contrário, ela parece
vice-versa. Além disto, há seres em que
ser o único e necessário caminho que pode levar
a ação de cada um a é neutralizada, pois à Consciência Cósmica. Muitos dos iluminados,
am b as são m o v id as p o r igual fo rça entretanto, têm a mesma opinião de Balzac e eles
[5:142], (*3) devem ser os melhores juizes disto.

O especialismo consiste em ver as coisas do mundo material, bem como as do


mundo espiritual, em suas ramificações originais e conseqtlenciais. O mais alto gêriio
hum ano é aquele que começa das som-
(*4) Note-se que Balzac está falando de Consciên­
bras da abstração, para avançar para a cia Cósmica somente do ponto de vista de
luz do especialismo. (Especialismo, espé­ “idéias”. Portanto, ele não nos fala aqui da exalta­
cie, visão, especulação, visão do todo, e ção moral que é uma parte essencial dela. Mas
aquele vislumbre da unidade; speculum, ele nos dá este aspecto, cabalmente, em Seraphita.
o espelho ou meio de examinar uma coisa
vendo-a na sua inteireza). (*4) Jesus era (*5) Como diz Dante: “Do mesmo modo que
mentes terrenas percebem que dois ângulos
um especialista. Via o ato em suas raízes
obtusos não podem estar contidos num triângu­
e em seus produtos; no passado, que o lo, assim tu [o Sentido Cósmico], contemplando
gerou; no presente, em que está manifes­ o ponto em que todos os tempos estão presentes,
to; no futuro, em que se desenvolve; (*5) vês coisas contingentes antes que elas próprias
sua visão penetrava o entendimento dos existam” [72:111].
outros. A perfeição da visão interior faz nascer o dom do especialismo. O especialismo
traz consigo a intuição. Intuição é a faculdade do homem interior, de quem o
especialismo é um atributo.

Entre a esfera do especialismo e a es­ (*6) “Natura non facit saltum”. É necessário
fera da abstração, e do mesmo modo entre que haja uma passagem gradual da cons­
estas esferas e a da instintividade, encon­ ciência simples para a autoconsciência e desta
tramos seres em quem os diversos atribu­ para a Consciência Cósmica - isto quer dizer
tos dos dois reinos estão misturados, pro­ que é necessário que haja um caminho de passa­
duzindo um a natureza mista - o homem gem gradual. Não obstante, nada é mais certo
do que essa passagem da consciência simples
de gênio [5:143], (*6)
para a autoconsciência, e desta para a Cons­
ciência Cósmica, ser comumente feita com um salto repentino e muitas vezes terrivelmente assus­
tador. Mas para que as condições não se misturem e não se sobreponham, como diz Balzac, seria
bom não ser muito categórico.

O especialista é necessariam ente a (*7) O estado de Consciência Cósmica é indu­


mais elevada expressão de ser humano - bitavelmente o mais alto que podemos
o elo que liga o mundo visível aos mundos atualmente conceber, mas não podemos concluir
que não haja outros mais altos, nem que não
superiores. Ele age, vê, sente através de possamos um dia alcançar estados superiores.
seu ser interior. O abstrativo pensa. O
instintivo simplesmente age [5:144], (*7) (*8) Com a consciência simples somente, o ser
humano não é ainda ser humano - é o
Segue-se que existem três graus de alalus homo. Com a autoconsciência, é como
nós o conhecemos. Com a Consciêcia Cósmica,
ser humano. Como instintivo, ele se en­ é como o vemos - ou melhor, como não o vemos;
contra abaixo do nível; como abstrativo, pois quem de nós vê esses homens? - em Jesus,
cie alcança o nível; como especialista, ele Maomé, Balzac, Whitman. Quando a espécie ti­
o ultrapassa. O especialismo abre para o ver alcançado a Consciência Cósmica, como no
íer hum ano sua verdadeira carreira: o passado remoto alcançou a autoconsciência, ha­
verá um outro começo num outro nível. O ser
Infinito desponta nele - ele capta um humano entrará em sua herança e em sua
vislumbre do seu destino [5:144]. (*8) verdadeira obra.

Balzac prossegue:

Existem três mundos - o mundo natural, o mundo espiritual e o mundo divino.


A humanidade se move para cá e para lá no mundo natural, que não é fixo nem em
IUa essência nem em suas propriedades. O mundo espiritual é fixo em sua essência
C variável em suas propriedades. O mundo divino é fixo em suas propriedades e em
IUa essência. Conseqüentemente, há uma adoração material, um a adoração espiritual
■ Uma adoração divina; as três se manifestam por ação, palavra e oração, ou (para
•Xpressar isto de outro modo) ato, compreensão e amor. O instintivo deseja atos; o
«bltrati vo volta-se para idéias; o especia- (*9) Emoutras palavras: Os homens que vivem
Hsta vê a meta, aspira a D eus, a quem inteiramente ou quase inteiramente em
jW rcebe ou co n tem p la in te rio rm en te consciência simples flutuam na corrente do
(S: 144]. (*9) tempo, do mesmo modo que os animais - sendo
levados pelas estações do ano, pelo suprimento de alimentos, etc., etc., assim como uma folha é
levada numa corrente, não por movimento próprio, nem por equilíbrio próprio, mas movida por
influências externas e equilibrada por forças naturais, como os animais e as árvores. O ser humano
plenamente autoconsciente avalia a si mesmo e é por assim dizer centrado em si mesmo. Sente que
é um ponto fixo. Julga todas as coisas com referência a esse ponto. Mas fora dele próprio (como
sabemos) nada há de fixo. Ele confia naquilo que chama de Deus e não confia em si próprio - é um
deísta, um ateu, um cristão, um budista. Acredita na ciência, mas a ciência está constantemente
mudando e raramente lhe dirá, em qualquer caso, alguma coisa que valha a pena saber. Então, ele
está fixo num ponto e nele se move livremente. O homem dotado de Consciência Cósmica, sendo
consciente de si mesmo e consciente do Cosmo - seu significado e seu movimento - está fixo fora e
dentro, “em sua essência e em suas propriedades”. A criatura dotada apenas de consciência simples
é uma palha flutuando numa corrente de água; move-se livremente com toda e qualquer influência.
O ser humano autoconsciente é uma agulha, um ponteiro, que gira com um pivô em seu centro -
lixado num ponto mas girando livremente sobre o mesmo. O ser humano com Consciência Cósmica
é a mesma agulha, magnetizada. Está ainda fixado pelo seu centro, mas, além disto, aponta firmemente
para o norte - encontrou algo real e permanente fora de si mesmo e não pode deixar de se voltar
invariavelmente para isso.

Portanto, talvez um dia o sentido in­ (*10) Quando toda a espécie tiver alcançado a
verso de et verbo caro fa c tu m seja o epíto- Consciência Cósmica, nossa idéia de
me de um novo evangelho, que dirá: e a Deus será realizada no ser humano.
carne será fe ita verbo\ isto se tom ará a
(*11) A “ressurreição” não é dos chamados
elocução de Deus [5:145]. (*10)
mortos, mas dos vivos que estão “mortos”
no sentido de nunca terem entrado na verdadeira
A ressurreição é acarretad a pelos vida.
ventos do céu que varrem os mundos. O
anjo trazido na rajada não diz: “ Vós, M ortos, levantai-vos”; ele diz, “Levantai-vos,
vós viventes” [5:145]. (*11)

III

SUMÁRIO DO CASO DE BALZAC

a. Não temos informação quanto ao dia e à hora em que o Sentido Cósmico


se manifestou.

b. Nada sabemos quanto a uma luz subjetiva.

c. Sabemos que Balzac tinha natureza intensamente fervorosa, bem como a


aspiração espiritual que parece necessariamente preceder a iluminação,
embora muitas vezes exista sem conduzir a ela.
d. Sabemos que Balzac, depois de certa idade, tinha as qualidades morais e
intelectuais quase preternaturais que são características do Sentido
Cósmico.
e. Mas a prova de que Balzac foi um caso de Consciência Cósmica assenta
no fato de que ele definiu e descreveu de maneira precisa o estado mental
assim denominado, e não poderia ter descrito esse estado se não o tivesse
vivenciado.

f. Ele não somente o descreve em grande detalhe, como em Louis Lambert,


e aí o atribui a si mesmo - pois esse livro é abertamente autobiográfico -
porém, mais ainda, em Seraphita cria uma personalidade na qual o Sentido
Cósmico é o elemento principal e, no curso da narrativa, apresenta todos
os traços característicos desse estado; ora, para fazer isto era um absoluto
pré-requisito estar de posse do Sentido Cósmico.

g. Para qualquer pessoa que compreenda o que é o Sentido Cósmico, é tão


certo que Balzac o possuía como que ele possuía o sentido da visão.
WALT WHITMAN

Nasceu em 1819; faleceu em 1892.

Em cada um destes exemplos da chamada Consciência Cósmica, seria


apropriado fazer-se um relato satisfatoriamente exaustivo da vida exterior
do homem, bem como de seus ensinamentos, pois a primeira corrobora e
deve mesmo corroborar os últimos. Mas não seria possível fazer isto e ainda
manter o argumento dentro de limites razoáveis. Felizmente, isto não é
totalmente necessário; esses homens são em maioria bem conhecidos. Pode
ser dito também que este livro não tem tanto a finalidade de ensinar alguma
coisa, mas de mostrar que há certa lição a ser aprendida e de indicar onde
ela pode ser estudada. Este livro não é tanto uma estrada, mas um cartaz de
sinalização numa estrada. Seu maior valor (se tem algum) há de ser o de
guiar ao estudo sério de certos homens de um tipo excepcional; não de um
ou outro deles, mas deles como um grupo e partindo de um ponto de vista
especial. Embora seja então necessário dizer aqui algumas palavras sobre
Walt Whitman, será bom que o leitor fique longe de satisfeito com elas e
procure em outros lugares uma descrição bem mais completa da vida e do
pensamento deste homem notável. A breve descrição que segue é extraída
da obra deste autor intitulada Life o f Whitman [38], escrita no verão de 1880,
enquanto ele estava sendo visitado por Whitman. Walt Whitman tinha então
sessenta e um ano» de idade.

A primeira vista ele parece bem mais velho, de modo que muitas vezes se
lupõe que tenha setenta ou mesmo oitenta. Tem pouco mais de um metro e
Oitenta de altura e é bem ereto. Pesa perto de noventa quilos. Seu corpo e
•eus membros são de tamanho natural e bem proporcionados. Sua cabeça é
grande e arredondada em todas as direções; a parte superior é um pouco
mais alta do que a tomaria um semicírculo da fronte para a parte posterior.
Embora seu rosto e sua cabeça dêem a impressão de estarem bem supridos
de cabelos, o cocuruto é moderadamente calvo; nos lados e na nuca, o cabelo
é longo, muito fino e quase branco como neve. As sobrancelhas são bem
arqueadas, de modo que há uma longa distância entre o olho até o centro da
sobrancelha (este é o traço facial que mais chama a atenção à primeira vista).
Os olhos são azul-claros; não são grandes - na verdade, em proporção à
cabeça e ao rosto, parecem um tanto pequenos; são turvos e sombrios, não
expressivos; se têm alguma expressão é de bondade, serenidade e suavidade.
As pálpebras são cheias, as superiores comumente cobrindo quase a metade
do globo ocular. O nariz é largo, forte e bem reto; é de bom tamanho mas não
é grande em proporção ao resto da face; não desce diretamente da testa mas
se aprofunda um tanto entre os olhos numa boa extensão. A boca é de bom
tamanho, os lábios carnudos. Os lados e a parte inferior do rosto estão cobertos
com uma barba fina e branca, suficientemente longa para descer um pouco
até o peito. No lábio superior, um bigode espesso. As orelhas são bastante
grandes, especialmente longas de cima para baixo, pesadas e muito vistosas.
Creio que todos os sentidos do poeta são extraordinariamente aguçados,
especialmente sua audição; nenhum som ou modulação de som perceptível a
outros lhe escapa e ele parece ouvir muitas coisas que são inaudíveis para as
pessoas comuns. Eu o ouvi falar de ouvir a grama crescendo e as árvores
brotando folhas. As maçãs do rosto são redondas e suaves. Seu rosto não tem
linhas indicativas de preocupação, cansaço ou idade - a barba e os cabelos
brancos, e a debilidade ao andar (por causa de paralisia), é que o fazem
parecer velho. A expressão costumeira de seu rosto é de repouso, mas há
uma decisão, uma firmeza bem marcada. Jamais vi seu olhar, mesmo
momentaneamente, expressar desdém, ou qualquer sentimento maligno.
Nunca soube que ele tivesse zombado de qualquer pessoa ou menosprezado
qualquer coisa, ou manifestado de qualquer modo ou em qualquer grau,
quer alarme, quer apreensão, embora na minha presença ele tenha sido
colocado em circunstâncias que teriam causado ambas as coisas na maioria
dos homens. Sua tez é peculiar - um matiz moreno brilhante, que,
contrastando com seu cabelo branco e sua barba branca, causa uma impressão
muito forte. Seu corpo não é branco como o de todos as outras pessoas de
procedência inglesa ou teutônica que tenho visto- tem uma cor rosa delicada
mas bem acentuada. Todos os seus traços são grandes e maciços. Seu rosto é
o mais nobre que já vi.

Nenhuma descrição pode dar uma idéia da extraordinária atração física


deste homem. Não estou falando do afeto de amigos e daqueles que estão
muito com ele, mas do magnetismo que ele exerce sobre as pessoas que
apenas o vêem por alguns minutos ou passam por ele na rua. Um amigo
íntimo deste autor, depois de conviver com Walt Whitman por alguns dias,
disse numa carta: “Quanto a mim, parece que sempre o conheci e o amei”.
E numa outra carta, escrita de uma cidade onde o poeta estivera por uns
poucos dias, a mesma pessoa diz: “Você sabe que todo mundo que o conheceu
parece amá-lo”?

O que segue é a experiência de uma pessoa bem conhecida do autor deste


livro: Ele visitou Whitman e passou uma hora em sua casa, em Camden, no
outono de 1877. Nunca vira o poeta antes, mas estivera lendo profundamente
suas obras por alguns anos. Contou ele que Walt Whitman só disse a ele uma
centena de palavras, ao todo, e foram apenas palavras comuns, corriqueiras;
que não havia notado nada de especial enquanto estava com ele, mas que,
pouco depois de tê-lo deixado, veio um estado de exaltação mental que ele só
podia descrever comparando-o com uma leve embriaguez por champanha,
ou com estar apaixonado, e essa exaltação, disse ele, durou pelo menos seis
semanas num grau claramente acentuado, de modo que, pelo menos por
aquele período, ele esteve nitidamente diferente do que normalmente era.
Tampouco, acrescentou, isso passou então ou desde então, embora tenha
deixado de ser sentido como algo novo e estranho, mas tomou-se um elemento
permanente em sua vida, uma grande força viva (como ele a descreveu),
suscitando pureza e felicidade. Posso acrescentar que toda a vida dessa pessoa
foi modificada por aquele contato - seu temperamento, seu caráter, todo o
seu ser espiritual, sua vida exterior, seu modo de conversar, etc., foram
elevados e purificados a um grau extraordinário. Disse-me ele que, a princípio,
costumava falar muitas vezes com amigos e conhecidos sobre seus sentimentos
por Walt Whitman e Leaves, mas que depois de algum tempo percebeu que
não conseguia fazer-se entender e que alguns até chegavam a pensar que seu
equilíbrio mental não estava bem. Aos poucos aprendeu a guardar silêncio
sobre o assunto, mas o sentimento não arrefeceu nem sua influência em sua
vida diminuiu.

A maneira como Walt Whitman se vestia era sempre extremamente


simples. Quando o tempo era agradável, geralmente usava um temo cinza-
claro de lã de boa qualidade. A única coisa peculiar quanto a sua roupa era
que nunca usava gravata e sempre vestia camisas com colarinhos bastante
grandes, com o botão do pescoço umas cinco ou seis polegadas abaixo do
normal, de modo que a garganta e a parte superior do peito ficavam expostos.
Em todos os outros aspectos ele se vestia de maneira essencial, asseada,
fimples e comum. Tudo que usava e qualquer coisa nele eram sempre
escrupulosamente limpos. Suas roubas podiam mostrar (e com freqüência
mostravam) sinais de desgaste, ou podiam estar remendadas ou apresentar
Airos, mas nunca pareciam sujas. Na verdade, um agradável cheiro de limpeza
sempre foi um dos traços especiais dele; sempre esteve em suas roupas, seu
hálito, seu corpo inteiro, seus alimentos e suas bebidas, sua conversa, e
ninguém podia estar com ele por uma hora sem perceber que isso penetrava
sua mente e sua vida e era de fato a expressão de uma pureza que era física
tanto quanto moral e moral tanto quanto física.

Walt Whitman, em minhas conversas com ele naquela época, sèmpre


repudiou qualquer pretensão exacerbada em relação à sua pessoa ou à sua
poesia. Se aceitávamos suas explicações, elas eram simples e comuns. Mas
quando se pensava nelas, entrando no espírito delas, percebia-se que nele o
simples e o comum incluíam o ideal e o espiritual. Assim, pode-se dizer que
nem ele nem seus escritos são desenvolvimentos do ideal a partir do real,
mas o próprio real elevado ao e no ideal. Em Walt Whitman, seu corpo, sua
vida exterior, sua existência espiritual interior e sua poesia eram uma só
coisa; em todos os aspectos, cada uma destas coisas se harmonizava com
qualquer outra e qualquer uma delas podia ser inferida de qualquer outra.
Ele me disse um dia (não lembro agora a respeito de quê): “Eu imaginei uma
vida que deveria ser a do homem comum em circunstâncias comuns e, não
obstante, uma vida grandiosa, heróica”. Não há dúvida de que este ideal
estivera constantemente em sua mente e de que tudo que ele fazia, dizia,
escrevia, pensava e sentia, estivera e estava, a cada momento, moldado nesse
ideal. Seu jeito de ser era curiosamente calmo e controlado. Raramente ficava
empolgado numa conversa, ou em todos os eventos raramente mostrava
excitação; também raramente levantava sua voz ou fazia quaisquer gestos.
Nunca soube que ele tivesse estado de mau humor. Parecia sempre satisfeito
com os que estavam à sua volta. Em geral não esperava por uma apresentação
formal; ao encontrar uma pessoa pela primeira vez, com grande probabilidade
dava um passo à frente e estendia sua mão (a esquerda ou a direita, aquela
que estivesse desocupada), e a pessoa e ele imediatamente se tomavam
conhecidos. As pessoas não conseguiam dizer por que que gostavam dele.
Diziam que havia algo atraente nele; que ele tinha um forte magnetismo
pessoal, ou davam alguma outra explicação vaga sem significado. Um músico
muito talentoso que passou uns dois dias em minha casa quando Walt
Whitman estava lá me disse, quando ia embora: “Eu sei o que é; é sua voz
maravilhosa que toma tão agradável estar com ele”. Eu disse: “Sim, talvez
seja isto; mas onde a voz dele adquiriu esse charme”?

Embora ele às vezes não tocasse em um livro por uma semana, geralmente
passava uma parte do dia (embora não uma grande parte) lendo. Talvez
lesse, em média, umas duas horas por dia. Raramente lia qualquer livro
deliberadamente por inteiro e não havia mais sistema (aparente) em sua
leitura do que em qualquer outra coisa que ele fizesse; quer dizer,
absolutamente não havia sistema algum nisso. Se ele se sentava numa
biblioteca por uma hora, costumava ter de meia dúzia a uma dúzia de livros
à sua volta, na mesa, em cadeiras e no chão. Parecia ler algumas páginas
aqui e algumas páginas ali e passar de um ponto para outro, de um livro para
outro, sem dúvida procurando algum indício ou fio em particular. Às vezes
(embora muito raramente), interessava-se suficientemente por um livro para
o ler por completo. Acho que leu quase se não por inteiro Egypt [“Egito”] de
Renouf, e Egypt de Bruschbey, mas estes foram casos excepcionais. No seu
modo de ler ele mergulhou em histórias, ensaios, tratados metafísicos,
religiosos e científicos, romances e poesias - embora eu creia que lesse menos
poesias do que qualquer outra coisa. Não lia em nenhuma outra língua que
não o inglês, mas acredito que conhecia muito mais o francês, o alemão e o
espanhol do que teria admitido. Mas em sendo aceita a palavra dele neste
particular, ele sabia muito pouco de qualquer assunto.

Sua ocupação favorita parecia ser a de passear a sós ao ar livre, olhando


a relva, as árvores, as flores, as perspectivas de luz, os variantes aspectos do
céu, e escutando os pássaros, os grilos, as pererecas, o vento nas árvores e as
centenas de sons naturais. Era evidente que estas coisas lhe davam uma
sensação de prazer muito além do que davam a pessoas comuns. Enquanto
eu conhecia este homem, não me tinha ocorrido que alguém pudesse sentir
tanta felicidade e tão ampla satisfação nestas coisas como ele evidentemente
sentia. Ele próprio nunca falava de todo esse prazer. Atrevo-me a dizer que
dificilmente pensava nisso, mas qualquer pessoa que o observava podia ver
claramente que em seu caso esse prazer era real e profundo.

Ele tinha um jeito de cantar quando estava a sós, geralmente a meia voz,
onde quer que estivesse e fosse o que fosse que estivesse fazendo. Podia-se
ouvi-lo logo de manhã, enquanto tomava seu banho e se vestia (então ele
talvez cantasse a plena voz baladas ou canções marciais), e grande parte do
tempo em que passeava ao ar livre durante o dia cantava melodias, usualmente
sem palavras, ou um recitativo sem estrutura. As vezes recitava poemas,
creio que geralmente de Shakespeare ou Homero e, de vez em quando, de
Bryant ou de outros. Dedicava bem pouco tempo a escrever. É provável que
nunca tenha dedicado muito tempo a esta ocupação. Escreveu poucas cartas
de caráter pessoal. Enquanto estava conosco, podia escrever uma carta a um
jornal canadense a respeito de suas viagens, seu estado geral, as últimas
coisas que fizera e suas últimas idéias, e mandar fazer cinqüenta ou cem
cópias para mandá-las a seus amigos e parentes, especialmente mocinhas e
jovens em geral, fazendo disto toda a sua correspondência. Escrevia quase
tudo a lápis, numa espécie de livro de folhas soltas que levava no bolso da
camisa. Esse livro consistia em algumas folhas de papel branco de boa qualida­
de, dobradas e presas por um ou dois grampos. Ele disse que tinha experimen­
tado todos os tipos de livros de anotações e tinha gostado mais daquele. Seu
trabalho literário era feito a qualquer hora e geralmente sobre seus joelhos,
de improviso e muitas vezes ao ar livre. Mesmo numa sala com as conveniên­
cias usuais para se escrever, não usava mesa; punha um livro nos joelhos ou
o segurava em sua mão esquerda, deitava o papel sobre ele e assim escrevia.
Sua caligrafia era clara e comum, cada letra perfeitamente formada.

Era muito afeiçoado às flores, tanto as naturais como as cultivadas; com


freqüência as colhia e as arranjava num grande buquê para a mesa de jantar,
para sua sala de estar, ou para seu quarto de dormir; grande parte do tempo
usava um botão de rosa ou uma rosa recém-aberta, ou talvez um gerânio,
espetado na lapela de seu casaco; não parecia ter muita preferência por uma
espécie a qualquer outra; gostava de todas. Acho que admirava lilases e
girassóis, tanto quanto rosas. Na realidade, talvez nenhum homem que já
tenha vivido gostasse de tantas coisas e não gostasse de tão poucas como
Walt Whitman. Todas as coisas naturais pareciam ter um charme para ele,
tudo o que via ou que ouvia, dentro e fora de casa, parecia agradá-lo. Ele
parecia gostar (e creio que efetivamente gostava) de todos os homens,
mulheres e crianças que via (embora nunca o tenha ouvido dizer que gostasse
de alguém), mas cada pessoa que o conhecia sentia que ele gostava dela e
que gostava também de outras. Nisto e em tudo ele era inteiramente natural
e não convencional. Quando de fato expressava preferência por alguma pessoa
(o que acontecia muito raramente), procurava indicar isto de maneira indireta;
por exemplo, soube que ele disse: “Adeus, meu amor”, a uma jovem senhora
casada que ele vira apenas algumas vezes.

Ele era especialmente afeiçoado a crianças e todas as crianças gostavam


dele e confiavam nele de imediato. Com freqüência os pequeninos, se exaustos
e agitados, no momento em que ele os pegava e acariciava paravam de chorar
e às vezes até adormeciam em seus braços. Um dia várias senhoras, o poeta
e eu, participamos num piquenique para centenas de crianças pobres, em
London. Perdi de vista meu amigo por talvez uma hora e, quando o encontrei
novamente, ele estava sentado num canto quieto à margem do rio, com uma
criança de rosto rosado, de uns quatro ou cinco anos de idade, exausta e
dormindo profundamente em seu colo.
Para jovens e velhos seu toque tinha um charme que não pode ser descrito
e, se pudesse, a descrição não mereceria crédito, exceto por parte daqueles
que o conheciam pessoalmente ou através de Leaves o f Grass. Esse charme
(fisiológico, mais do que psicológico), se compreendido, explicaria todo o
mistério do homem e de como ele produzia esses efeitos, não somente nos
que gozavam de boa saúde, mas também entre os doentes e os feridos.

É certo também, talvez contrariamente ao que já apresentei, que há uma


outra fase, e muito real, para a base de seu caráter. Um senhor de idade com
quem conversei (um pintor de retratos e parente distante do poeta), que convi­
veu muito com ele, particularmente ao longo dos anos de sua meia idade e
mais tarde (1845 a 1870), diz-me que Walt Whitman, nos elementos de seu
caráter, tinha a mais profunda severidade e altivez, que não eram facilmente
despertadas mas vinham à tona em certos momentos e que eram bem com­
preendidas por aqueles que o conheciam bem como coisas com que não se
podia brincar. O senhor a que me refiro (ele é um leitor de Leaves o f Grass
e o aceita completamente), concorda comigo em minha descrição de sua
benevolência, sua lisura e de seu otimismo tolerante, mas insiste em que na
estrutura interior do poeta sempre houve, como ele o expressa, “uma combina­
ção de sangue quente e qualidades de luta”. Diz ele que meu esboço se aplica
mais especialmente aos seus últimos anos; que Walt Whitman desenvolveu
gradativamente os atributos a que me refiro e lhes deu controle. Sua teoria,
quase em suas próprias palavras, é que há duas naturezas em Walt Whitman.
Uma é de imensa suavidade, autocontrole, um misticismo como os ocasionais
transes de Sócrates e de profunda benevolência, ternura e simpatia, à maneira
de Cristo (o mesmo sentimento do retrato entalhado de página de rosto que
mostrei a ele, e ele disse que tinha visto exatamente aquele olhar “no velho”
e mais de uma vez durante 1863 -64, embora nunca o tivesse observado antes
ou desde então). Mas estas qualidades, embora ele as tenha entronizado e
por muitos anos tenha regido sua vida por elas, estão duplicadas por outras
muito mais severas. Não há dúvida de que ele tenha conseguido dominar as
últimas, mas resta o fato de que as possui. Como poderia Walt Whitman
(disse meu interlocutor) ter assumido a atitude para com o mal e coisas más
que está por trás de cada página de seu pronunciamento em Leaves o f Grass,
da primeira à última página - tão diferente nesse assunto de todos os escritores
conhecidos, novos ou antigos - a menos que tivesse assumido todo aquele
mal dentro dele?

Havia então um outro lado desse quadro - a indispensável exceção que


prova a regra. Este homem, cuja presença suscitava uma afeição tão extraordi­
nária, cuja voz tinha para a maioria dos que a ouviam um encanto maravilho­
so, cujo toque tinha um poder que nenhuma palavra pode expressar - em
raros momentos, este homem, tal como um imã, repelia assim como atraía.
Assim como havia aqueles que instintivamente o amavam, havia outros,
aqui e ali, que instintivamente não gostavam dele. Assim como suas elocuções
poéticas eram ridículas para muitos, mesmo sua aparência pessoal em não
poucos casos provocava comentários igualmente sarcásticos. Sua figura gran­
de, seu rosto avermelhado, sua copiosa barba, sua roupa solta e não convencio­
nal, seu colarinho de camisa muito grande e com tendência a se enrolar, sem
gravata e sempre bem aberto na altura da garganta, eram coisas que suscita­
vam zombaria e explosões de riso.
Ele não falava muito. Às vezes, embora permanecesse alegre e com boa
disposição, falava muito pouco durante um dia inteiro. Sua conversa, quando
efetivamente falava, era em todos os momentos fácil e espontânea. Nunca
soube que ele tivesse discutido ou debatido alguma coisa e ele nunca falava
em dinheiro. Sempre justificava, às vezes brincando, outras vezes de maneira
bem séria, aqueles que falavam asperamente a respeito dele ou de seus escritos
e eu muitas vezes pensei que ele até tinha prazer naquelas duras críticas,
maledicências, e na oposição de seus inimigos. Ele dizia que seus críticos
estavam perfeitamente certos; que, por trás daquilo que seus amigos viam,
ele absolutamente não era o que parecia, e que, do ponto de vista de seus
inimigos, seu livro merecia todas as coisas duras que pudessem dizer dele -
e que ele próprio indubitavelmente as merecia e muito mais.
Quando conheci Walt Whitman, costumava pensar que ele vigiava a si
mesmo e não permitia que sua língua expressasse sentimentos de irritação,
antipatia, queixa é admoestação. Não me ocorreu que fosse possível que
esses estados mentais não existissem nele. Mas, após longa observação e
conversando com outros que o conheciam havia muitos anos, fiquei satisfeito
com o fato de que essa ausência ou inconsciência era inteiramente real.
Sua voz, profunda, clara e veemente, constituía boa parte, embora não
todo o charme das coisas mais simples que ele dizia - uma voz que não era
característica de qualquer nacionalidade ou dialeto em especial. Se ele dizia
(como às vezes fazia involuntariamente ao chegar à porta e olhar para fora),
“oh, que céu bonito!” ou “oh, que bela relva!”, as palavras produziam o
efeito de suave música.

Um dia ele disse, quando se falava em alguma bela paisagem e no desejo


de ir vê-la (e ele próprio era muito afeiçoado a novas paisagens): “Afinal, a
grande lição é que nenhuma vista natural em especial - nem os Alpes, nem
Niágara, nem Yosemite, nem qualquer outra - é mais grandiosa ou mais
bela do que o nascer ou o pôr do sol comuns, a terra e o céu, as árvores
comuns e a relva”. Compreendido corretamente, acredito que isto sugere o
ensinamento central de sua obra e de sua vida - isto é, que o comum é a
maior de todas as coisas; que o excepcional, em qualquer campo, não é mais
fino, melhor ou mais bonito do que o usual, e que o que realmente faz falta
não é que deveríamos possuir algo que não temos atualmente, mas que nossos
olhos deveriam ser abertos para ver e nosso coração para sentir o que todos
temos.

Ele nunca falou de maneira depreciativa de qualquer nacionalidade ou


classe de homens, ou época da história mundial, ou do feudalismo, ou contra
quaisquer profissões ou ocupações - nem mesmo contra quaisquer animais,
insetos, plantas ou objetos inanimados, nem qualquer das leis da natureza
ou dos resultados dessas leis, tais como doenças, deformidade ou morte.
Também jamais se queixou ou resmungou contra o clima, dores, doenças ou
qualquer outra coisa. Em conversa, nunca, em qualquer companhia e em
qualquer circunstância, usou de linguagem que pudesse ser considerada
indelicada (naturalmente, em seus poemas, ele usou uma linguagem que foi
tida como indelicada, mas nenhuma que de fato o fosse). Na verdade, nunca
soube que ele tivesse proferido uma palavra ou expressado um sentimento
que não pudesse ser publicado sem qualquer prejuízo para sua reputação.
Jamais praguejou; e não podia mesmo, pois, ao que eu saiba, nunca falou
com raiva e, aparentemente, nunca esteve com raiva. Nunca demonstrou
medo e não creio que jamais o tenha sentido. Sua conversa, na maior parte
em voz baixa, era sempre agradável e usualmente instrutiva. Nunca fazia
elogios, muito raramente se desculpava e muito esporadicamente usava
fórmulas comuns de civilidade, como “por favor” e “obrigado”, em geral
dando um sorriso ou acenando com a cabeça como resposta, no lugar delas.
Em minha experiência a seu respeito ele não era dado a especular sobre
questões abstratas (embora eu tenha ouvido outros dizerem que não havia
assuntos em que ele se deleitasse tanto). Nunca mexericava. Raramente falava
da vida particular das pessoas, mesmo para dizer coisas boas delas, exceto
para responder uma pergunta ou um comentário e, então, sempre dava ao
que dizia um jeito favorável à pessoa de quem se falava.

Sua conversa, falando de maneira geral, era sobre assuntos corriqueiros,


0 trabalho do dia, notícias políticas e históricas, européias ou americanas,
um pouco sobre livros e muito sobre aspectos da natureza - tais como
paisagens, as estrelas, pássaros, flores e árvores. Lia os jornais regularmente,
gostava de boas exposições e reminiscências. De qualquer forma, em geral
não falava muito. Seu jeito de ser era invariavelmente calmo e simples,
peculiar, e não podia ser completamente descrito ou transmitido.

n
Walt Whitman é o melhor, o mais perfeito exemplo que o mundo teve até
agora do Sentido Cósmico, primeiro porque ele é o homem em quem a nova
faculdade foi, provavelmente, mais perfeitamente desenvolvida, e especial­
mente porque ele é, por excelência, o homem que em tempos modernos
escreveu clara e extensamente do ponto de vista da Consciência Cósmica e
também que se referiu a seus fatos e fenômenos mais clara e cabalmente do
que qualquer outro escritor, antigo ou moderno.

Ele nos fala claramente, embora não tão completamente quanto gostaría­
mos, do momento em que alcançou a iluminação, bem como, mais para o
fim de sua vida, de seu passamento. Não que devamos supor que ele teve o
Sentido Cósmico continuamente, anos a fio, mas que este veio cada vez
menos freqüentemente à medida que a idade avançava, provavelmente
perdurou menos e menos a cada vez e diminuiu em vividez e intensidade.

Além disso, no caso de Whitman, temos meios de conhecer completamente


o homem, desde a juventude até a morte - tanto antes como depois da ilumi­
nação - e assim (melhor do que em qualquer outro caso, exceto talvez o de
Balzac) podemos comparar o homem totalmente desenvolvido com seu ego
anterior. A linha de demarcação (entre os dois Whitman) está perfeitamente
desenhada.

De um lado, o Whitman dos quarenta, escrevendo contos e ensaios - tais


como Death in a School-room, 1841; Wild Frank’s Return, id.; Bervance, or
Father and Son, id.; The Tomb Blossoms, 1842; The Last ofthe Sacred Army,
id.; The Child Ghost, a Story o f the Last Loyalist, id.; The Angel o f Tears,
id.; Revenge and Requital, 1845; A Dialogue, id; etc. - a que mesmo sua
atual e esplêndida fama não pode dar vida novamente; do outro lado, o
Whitman dos cinqüenta, escrevendo a primeira edição (em 1855) de Leaves.

Esperamos encontrar e sempre encontramos uma diferença entre os pri­


meiros escritos e os mais maduros, do mesmo homem. Que distância, por
exemplo, entre os romances de Shelley e Cenci; entre os primeiros ensaios
de Macaulay e sua história! Mas aqui há algo bem distinto destes e de casos
semelhantes. Podemos traçar uma evolução gradual de aptidão e poder, de
Zastrozzi para Epipsychidion\ âe Milton, de Macaulay, para ssü Massacre o f
Glencoe. Mas no caso de Whitman (como no de Balzac), escritos de absoluta­
mente nenhum valor foram imediatamente seguidos (e pelo menos no caso
de Whitman sem prática ou estudo) de páginas em cada uma das quais, em
letras de fogo etéreo, estão escritas as palavras VIDA ETERNA; páginas
cobertas não somente de uma obra-prima mas de sentenças vitais como não
foram escritas dez vezes na história da espécie humana. É nessa evolução
instantânea de Homem para Titã, nesse profundo mistério da consecução do
esplendor e do poder do reino dos céus, que o presente livro procura lançar
alguma luz.

E é interessante observar aqui que Whitman parece ter feito tão pouca
idéia quanto fizeram Gautama, Paulo ou Maomé, do que era que lhe estava
dando o poder mental, a elevação moral e o júbilo perene que se contam
entre as características do estado que ele alcançou e que parecem ter sido
para ele motivo de contínuo pasmo. “Vagueando espantado”, diz ele, “com
minha própria leveza e alegria”. [193:36]

Vejamos agora o que Whitman diz desse novo sentido que lhe deve ter
vindo em junho de 1853 ou 1854, na idade típica, isto é, de trinta e quatro ou
trinta e cinco. A primeira menção direta a isto está na página 15 da edição
de 1855 de Leaves [191:15], Vale dizer, na terceira página de seu primeiro
escrito depois que a nova faculdade havia chegado para ele - pois o longo
prefácio deste livro foi escrito após o corpo do livro. Os versos estão
essencialmente inalterados em todas as edições subseqüentes. Na edição atual
(1891-92), estão na página 32.

Tal como aqui apresentada, a citação é da edição de 1855, dado que é


importante chegar o mais perto possível do homem na época em que ele
escreveu as palavras. Diz ele:

Em ti acredito, minha alma... o outro Eu-Sou


a ti não se deve humilhar,
E tu ao outro não te deves humilhar.
Comigo folga na relva... solta o freio de tua garganta,
Não palavras, não música ou rima quero eu...
não costume ou sermão, nem mesmo os melhores,
Só do acalanto gosto, da cantarola de tua valvulada voz.
Penso em como deitados descansamos, tão (*1) A nova experiência deu-se em
transparente manhã de verão; ju n h o , provavelm ente em
Tua cabeça de través em meus quadris colocaste 1853, quando ele acabara de entrar
e delicadamente para mim te voltaste, em seu trigésim o quinto ano de
idade. Dir-se-ia que ele a princípio
E a camisa do osso de meu peito apartaste e com
estava em dúvida quanto ao que ela
tua língua meu desnudado coração tocaste.
pudesse significar; depois sentiu-se
E a mão estendeste até minha barba sentires, e a satisfeito e disse: Acredito em seus
mão estendeste até meus pés segurares. ensinamentos. Mas embora este seja
Célere surdiste e à minha volta derramaste, a paz, tão divino, o outro Eu-Sou (o velho
o júbilo e a ciência que a toda arte e a todo pensar ego) não pode ser humilhado ante
da terra transcendem; ele, nem deve ele (o novo Eu) jamais
E sei que a mão de Deus minha própria mão ser suplantado pelos órgãos ou facul­
antepassada é, dades mais básicos. Ele continua: Fi­
E sei que o espírito de Deus meu próprio irmão ca comigo, folga comigo na relva,
instrui-me, dize-me o que queres di­
mais velho é,
zer, o que há em ti, não te importes
E que todos os homens que já nasceram meus
com falar musicalmente ou de ma­
irmãos também são... e minhas irmãs e minhas neira poética, ou segundo as regras,
amantes as mulheres, ou mesmo usando a melhor lingua­
E que o amor, da criação a sobrequilha é. (*1) gem, mas usa apenas tuas próprias
palavras à tu a própria m aneira.
Então ele volta a falar da exata ocorrência. A iluminação (ou o que possa ter sido) veio-lhe numa
manhã de junho e tomou (embora gentilmente) absoluta posse dele, pelo menos para o momento.
Daí em diante, diz ele, sua vida recebeu sua inspiração do recém-chegado, do novo Eu, cuja língua,
como ele o expressa, tocou seu desnudado coração.

Sua vida exterior também se tomou sujeita aos ditames do novo Eu - segurou seus pés. Por
fim ele fala concisamente da mudança ocorrida em sua mente e em seu coração pelo nascimento, em
seu interior, da nova faculdade. Diz que se sentiu imediatamente cheio da paz, da alegria e do
conhecimento que transcendem toda arte e todo raciocínio da Terra. Ele atingiu o ponto de vista do
qual somente pode um ser humano ver algo de Deus (“o qual somente”, diz Balzac, “pode explicar
Deus”; o ponto que, a menos que ele o alcance, “não pode”, diz Jesus, “ver o reino de Deus”). E ele
resume o relato afirmando que Deus é seu amigo íntimo, que todos os homens e mulheres já nascidos
são seus irmãos, suas irmãs e amantes, e que toda a criação está construída sobre o amor e assenta
no amor.

A isto acrescentem-se agora os quatro versos seguintes [192:207], escritos


em outro momento, mas certamente referindo-se à mesma experiência ou a
uma experiência semelhante:
Como num desmaio, num instante, (*2) Assim, Dante: “Dia pareceu ser
Um outro sol, inefável, a mim totalmente acrescentado ao dia, como se
deslumbra, aquele que pode tivesse adornado os
céus com um outro sol”.
E todos os orbes que eu conhecia, e outros mais
brilhantes e desconhecidos;
Um instante da futura terra, a terra do Céu. (*2)
Ao mesmo tempo e quanto à mesma situação, considere-se esta passa­
gem:

Não te veio nunca uma hora,


Um súbito, divino lampejo, todas essas bolhas, formas, fortunas despenhando,
rompendo?
Esses ávidos intuitos de atividades - livros, política, artes, amores,
A um absoluto nada precipitando? [193:218]

Com o propósito, agora, de ajudar a trazer à mente do leitor mais diligente


(pois qualquer outra pessoa pouco se interessará por este livro) uma indicação,
uma sugestão (pois o que mais é possível dar aqui?) do que seja essa Cons­
ciência Cósmica, talvez seja bom citar, de um dos trabalhos em prosa de
Whitman, certas passagens que parecem lançar luz sobre o assunto. Falando
das pessoas, diz ele: “Só a mente rara, cósmica, artística, acesa com o infinito,
confronta suas múltiplas e oceânicas qualidades” [193:215]. E: “Há ainda,
para quem for elegível entre nós, a visão profética, a alegria de ser lançado
no bravo turbilhão destes tempos - a proclamação e a senda, obedientes,
humildemente reverentes para com a voz, o gesto do deus, ou espírito santo,
que outros não vêem, não ouvem” [195:227], E mais uma vez : “A idéia de
identidade... Milagre dos milagres, indizível, os sonhos mais espirituais e
vagos da Terra, não obstante o mais árduo fato básico e a única entrada para
todos os fatos. Nessas horas devotas, em meio às significativas maravilhas
do céu e da terra (significativas somente devido ao Eu no centro), credos,
convenções, acabam caindo e já não contam ante esta simples idéia. Sob a
luminosidade da visão real, somente ela toma posse, adquire valor. Tal como
o sombrio anão da fábula, uma vez liberada e contemplada, expande-se por
toda a terra e se espalha até a abóbada do céu” [195:229], E outra ainda: “Na
verdade eu diria que só na perfeita pureza e solidão da individualidade pode
a espiritualidade da religião positivamente surgir. Somente aqui e nesses
termos haverá meditação, êxtase devoto, vôo altaneiro. Somente aqui haverá
comunhão com os mistérios, com os eternos problemas, de ondel para onde?
A sós, com a identidade e a disposição - e a alma emerge e todas as afirmações,
as igrejas, os sermões se desvanecem como vapores. A sós, em silente
pensamento e reverência e aspiração - e então a consciência interior, qual
inscrição não vista até então, em tinta mágica seus maravilhosos versos irradia
para o sentido. Bíblias podem conter e sacerdotes explicar, mas cabe
exclusivamente à operação silenciosa do Eu isolado entrar no puro éter da
veneração, chegar aos níveis divinos e entrar em comunhão com o impro-
nunciável” [195:233]. A próxima passagem parece profetizar a espécie vin­
doura: “Uma espécie nascida e criada adequadamente, crescendo em con­
dições corretas de harmonia fora e dentro de casa, de atividade e desenvol­
vimento, provavelmente, a partir dessas condições e nelas mesmas, acharia
suficiente meramente viver - e, em suas relações com o céu, o ar, a água, as
árvores, etc., e com os incontáveis espetáculos comuns, e no fato da própria
vida, descobriria e alcançaria felicidade - com o Ser inundado noite e dia de
sadio êxtase, excedendo todos os prazeres que a riqueza, a diversão e mesmo
o gratificado intelecto, a erudição, ou a consciência da arte podem propor­
cionar” [195:249], E, finalmente, a melhor de todas as passagens: “Vede! a
Natureza (o único poema completo, verdadeiro), existindo calmamente no
divino esquema, tudo contendo, contente, despreocupada das censuras do
dia ou desses infindáveis e prolixos tagarelas. E vede! à consciência da alma,
a identidade permanente, a idéia - esse algo diante do qual a grandeza mesmo
da Democracia, da arte, da literatura, etc., vai se desvanecendo, torna-se
parcial, mensurável - algo que satisfaz plenamente (ao passo que essas outras
coisas não o fazem). Aquele algo é o Todo e a idéia do Todo, com a conco­
mitante idéia de eternidade, para sempre navegando o Espaço, visitando
todas as regiões, como um navio no mar. E vede ainda! as pulsações em toda
a matéria, em todo o espírito, para sempre vibrando - os eternos batimentos,
sístole e diástole da vida eternamente nas coisas - de que sinto e sei que a
morte não é o fim como pensávamos, mas antes o verdadeiro início - e que
nada jamais é perdido ou pode ser perdido, nem mesmo morrer, nem a alma
nem a matéria” [195:253]. Aqui apresentamos enfaticamente a consciência
do Cosmo, sua vida e sua eternidade - e a consciência da igual grandiosidade
e eternidade da alma individual, uma equilibrando (igualando-se a) a outra.
Ou seja, temos aqui a expressão (tanto quanto talvez ela possa ser expressada)
do que é chamado, neste livro de Consciência Cósmica.

Aqueles que foram dotados de Consciência Cósmica a esse ponto foram


quase em todos os casos arrebatados e subjugados por ela; encararam-na -
muitos deles - como uma faculdade super-humana, mais ou menos
sobrenatural, separando-os dos outros homens. Quase sempre, se não
efetivamente sempre, procuraram ajudar os seres humanos, pois seu senso
moral foi inevitavelmente purificado e elevado a um grau extraordinário
pelo advento do novo sentido; mas não se deram conta da necessidade nem
provavelmente sentiram a possibilidade de usar seu discernimento e seu poder
excepcionais de qualquer maneira sistemática. Isto é, O HOMEM não
dominou, não se apossou, não usou a nova faculdade, mas (ao contrário) foi
altamente ou totalmente dominado e usado por ela. Este foi claramente o
caso de Paulo, que foi levado pela grandiosidade e a glória do novo sentido
a subestimar a divindade realmente igual de suas faculdades humanas
anteriores. As mesmas palavras, quase com a mesma veracidade poderiam
ser aplicadas ao caso de Gautama. Os males que a humanidade tem sofrido
e está hoje sofrendo simplesmente porque estes dois homens assumiram esta
visão errônea - a saber, os males que nos têm acometido devido ao desprezo
à “carne” - isto é, devido ao desprezo ao chamado “homem natural ” - os
males, em suma, que provieram da doutrina de que uma parte do ser humano
é boa e deve ser cultivada, enquanto uma outra parte é má e (se possível)
deve ser extirpada, ou, se isto não é possível, encoberta e escondida - os
males que nos advieram dessa compreensão errônea são inteiramente
incalculáveis e às vezes quase nos tentariam a esquecer mesmo os benefícios,
maiores ainda, que foram outorgados à espécie humana pelos homens de
quem se originaram os males que vêm de ser especificados. Não que Gautama
e Paulo sejam de qualquer modo inteiramente responsáveis pelo monasticismo
e pelo ascetismo de seus seguidores. É indubitavelmente verdadeiro, como
nos diz Lecky [14:108], que esse movimento já havia começado. Mas ninguém
pode ou há de negar que a influência destes dois homens, ao intensificarem
e recomendarem a paixão pela renúncia ao prazer e pela chamada pureza
(em outras palavras, ao deixarem de lado as coisas da vida autoconsciente,
em favor das coisas da vida Cosmicamente Consciente) foi incalculavelmente
grande.

Os males em questão foram claramente percebidos, lucidamente retratados


e referidos à sua fonte predominante nestes grandes instrutores, por muitos
escritores. Dentre eles, Kidd [108:125f] indicou com grande força e veracidade
o imenso impulso para a negação do ego que marcou os primeiros séculos do
cristianismo; mostrou que esse impulso, embora “irracional ”, tinha um
significado mais profundo que a razão; que, para que a espécie humana
avance, esses instintos anti-sociais são uma necessidade (embora não seja
necessário nem bom que tenham muitas vezes a força que tinham nos referidos
séculos); que eles têm seu lugar no esquema, assim como seu complemento,
os instintos sociais. O que Kidd não percebe é de onde os grandes instrutores
extraíram o discernimento de que nasceu a convicção que os moveu nesse
sentido e, através deles, ao mundo.

Esse antagonismo entre a vida superior e a inferior, entre a vida para o


ego e a vida para os outros, entre a vida da carne e a vida do espírito, entre a
vida do indivíduo e a vida da espécie, entre a vida autoconsciente e a vida
Cosmicamente Consciente, é talvez o fato supremo do mundo moderno -
dando-lhe movimento e estabilidade, assim como as forças opostas, a
centrífuga e a centrípeta, dão movimento e estabilidade no campo do universo
sideral. E deste ponto de vista está claro porque deveria ser que: Le sort de
grands hommes est de passer tour à tour pour des fous et pour des sages. La
gloire est d’etre un de ceux que choisit successivement l’humanité par les
aimer et les haïr [138:182].*

Pode ser que Walt Whitman seja o primeiro homem que, tendo
Consciência Cósmica muito desenvolvida, tenha-se deliberadamente disposto
contra o ser dominado por ela, determinando-se, ao contrário, a sujeitá-la e
tomá-la uma serva, juntamente com a consciência simples, a autoconsciência
e o restante do EGO individual conjunto. Ele percebeu o que nem Gautama
nem Paulo perceberam e que Jesus percebeu (embora não tão claramente
como ele): que, embora essa faculdade tenha verdadeiramente caráter divino,
não é mais sobrenatural ou preternatural do que a visão, a audição, o paladar,
o tato, ou qualquer outra e, por conseguinte, ele se recusou a lhe dar uma
supremacia ilimitada e não permitia que ela tiranizasse o resto. Ele crê nela,
mas diz que o outro ego, o velho ego, não se deve humilhar ante o novo; nem
deve o novo ser usurpado ou limitado pelo velho; procura fazer com que eles
convivam como colaboradores amistosos. E pode ser dito aqui que quem
quer que não compreenda esta última oração jamais compreenderá plenamente
Leaves.

A referência seguinte à Consciência Cósmica a ser aqui mencionada,


feita por Walt Whitman, está num poema intitulado Prayer of Columbus
[“Prece de Colombo”] [193:323], Cabem algumas palavras sobre a sua
história. Ela foi escrita por volta de 1874 -1875, quando a condição do pobre,
doente, esquecido explorador espiritual era admiravelmente semelhante à
desse heróico explorador geográfico, naufragado na ilha das Antilhas em
1503, lugar e época em que se supõe que a prece foi feita. Walt Whitman -
num truque muito comum nele - usou essa consonância de circunstância
para colocar suas próprias palavras (ostensivamente) na boca do outro homem.
Naturalmente, a prece é na realidade de Walt Whitman e todas as alusões
que nela constam são à sua própria vida, ao seu trabalho, a suas venturas.
Nessa prece ele se refere específica e incisivamente ao nosso tema atual.
Falando a Deus, diz ele:
*N.T. - “O destino dos grandes homens é passarem alternadamente por tolos e por
sábios. A glória está em ser um desses que a humanidade escolh e
sucessivamente para amar ou odiar”.
As solenes e visionárias meditações de minha humanidade conheces.

Oh, certo estou de que de Ti vieram,


O impulso, o ardor, a inconquistável vontade,
O poderoso, sentido, interior comando, mais forte que palavras,
Uma mensagem dos Céus, a mim até no sono murmurando,
Tudo isso me impulsionou.

Um esforço mais, meu altar esta árida areia;


Que Tu, ó Deus, minha vida iluminaste,
Com um raio de luz, firme, inefável, por Ti outorgado,
Indizível, rara luz, iluminando a própria luz,
Além de todos os signos, descrições, idiomas;
Por isto, ó Deus, que minha última palavra seja, aqui de joelhos,
Velho, pobre e paralisado, a Ti agradeço.

Minhas mãos, meus membros, sem nervos ficaram,


Torturado, embaraçado sente-se meu cérebro,
Parta a velha carcaça, não partirei eu,
A Ti me apegarei, ó Deus, embora me fustiguem as ondas,
A Ti, a Ti pelo menos conheço.

Quando escreveu estes versos, Walt Whitman tinha cinqüenta e cinco ou


cinqüenta e seis anos de idade. Por mais de vinte anos ele tem sido guiado
por essa (aparente) iluminação sobrenatural. Tem se submetido voluntaria­
mente a ela e obedecido suas ordens, como ordens do Próprio Deus.
Ele “amou a terra, o Sol, os animais, desprezou as riquezas, deu esmolas
a todos que pediram, defendeu os estúpidos e loucos, destinou sua renda e
seu trabalho a outrem” [193:273], como ordenado pela voz divina e como
compelido pelo impulso divino e, agora, como recompensa, está pobre, doente,
paralisado, desprezado, neglicenciado, morrendo. Sua mensagem ao ser
humano, a cuja transmissão dedicou sua vida, a qual foi mais querida aos
seus olhos (em favor do homem), do que esposa, filhos, a própria vida, não é
lida ou é ridicularizada e escarnecida. Que dirá ele a Deus? Diz ele que Deus
0 conhece em todos os pormenores e que está disposto a se entregar nas
mãos de Deus. Diz que não conhece os homens nem seu próprio trabalho, e
assim não julga o que os homens possam fazer com ou, digamos, de Leaves.
Mas diz também que efetivamente conhece Deus e que a Ele se apegará,
ainda que as ondas o fustiguem. E quanto à inspiração, à iluminação, ao
poderoso, sentido, interior comando, mais forte que as palavras? Ele está
seguro de que vêm de Deus. Não tem dúvida. Não pode haver dúvida a este
respeito.
Ele prossegue, falando do raio de luz, firme, inefável, com que Deus
iluminou sua vida, e diz que é raro, indizível, além de todos os signos,
descrições e idiomas. E isto (que seja bem lembrado) não é um falar de
entusiasmo febril, mas de fato frio, duro, de um velho decrépito em seu leito
de morte (como ele supôs).

Este reconhecimento que Whitman faz da bondade de Deus lembra forço­


samente a gratidão de Bacon a Deus por seus “dons e graças” e as circunstân­
cias deste último no verão de 1621 (tanto exterior como interiormente) eram
tão paralelas quanto possível às de Whitman em 1875.

A próxima alusão direta à Consciência Cósmica a ser considerada está


incorporada num poema intitulado Now Precedent Songs, Farewell [“Agora,
Cantos Precedentes, Adeus”] [193:403], escrito em junho de 1888, quando
ele novamente, e com boa razão, supôs que fosse morrer. O poema foi escrito
como um apressado adeus a Leaves. No final ele assim se refere a seus cantos
e sua origem:

Ó céu ! que ostentoso e estremecido, infindável cortejo de tudo!comparado deveras


àquilo!
Que lamentável farrapo, mesmo no melhor de tudo!

Diz ele: Comparados com o lampejo, a iluminação divina em que tiveram


origem, como seus versos são pobres e sem valor. E deve-se ter em mente
que Whitman nunca teve má opinião de Leaves. Ele costumava dizer (de
maneira meio jocosa mas de qualquer forma querendo dizer justamente isso)
que nenhum de seus companheiros (ou seja, de seus admiradores incondicio­
nais), nem mesmo O’Conner, Burroughs ou Bucke, tinham opinião tão alta
a respeito desses versos quanto a dele próprio. Mas, mesmo pensando dessa
maneira a respeito deles, podia ainda exclamar que eram pobres quando
comparados com a iluminação de que haviam surgido. Mas ele não morreu
nessa ocasião. Recuperou-se e novamente, assim parece, de vez em quando a
visão apareceu e a voz murmurou. Sem dúvida a visão foi enfraquecendo e a
voz foi se tomando menos distinta à medida que o tempo foi passando e a
debilidade da idade e a doença foram tomando conta dele. Por fim, em 1891,
na idade de setenta e dois, o “Esplendor Bramânico” partiu e nos versos
místicos, To the Sunset Breeze [“Para a Brisa do Ocaso”] [193:414], que os
Harpers devolveram a ele como “uma mera improvisação”, ele assim se
despede desse “Esplendor”:
Tens, Ó Natureza! elementos! voz ao meu coração acima de tudo o mais -
e este a eles pertence...
Es espiritual, Divina, em especial do meu sentido conhecida...
Concede dizer-me, aqui e agora, aquilo que a palavra nunca disse e não
pode dizer,
Não és tu universal, destilação do concreto?

Assim como um homem dotado de Consciência Cósmica vê a ordem


Cósmica e, como diz Paulo, que “todas as coisas contribuem juntamente
para o bem” * [19:8:28], assim cada homem desses é o que é chamado “um
Otimista” e pode ser livremente afirmado que o conhecimento da benevolência
do universo para com o ser humano é uma marca distintiva da categoria de
homens considerada neste livro. Que Walt Whitman tenha esta marca, é
necessário dizê-lo somente àqueles que não leram o que ele escreveu. Muitas
e muitas vezes, em palavras que sempre variam, ele diz e repete: “E eu digo
que não existe de fato nenhum mal” [193:22]. “Clara e doce é minha alma,
e claro e doce é tudo que não seja minha alma” [193:31], “Seria sorte o ter
nascido?” pergunta ele; e responde: “É igualmente afortunado morrer”
[193:34],

Assim Dante declara concluindo que, visto pela luz do Sentido Cósmico,
tudo é perfeito, inclusive aquilo que, estando fora dessa luz, é (ou parece)
imperfeito [72:213],

Não se supõe que no caso de qualquer homem nascido até agora tenha o
Sentido Cósmico estado constantemente presente durante anos, meses, ou
mesmo semanas - provavelmente nem mesmo dias ou, dificilmente, horas.
Em muitos casos ele aparece somente uma vez e por alguns momentos apenas,
mas esse lampejo é suficiente para iluminar (mais ou menos intensamente)
todos os anos subseqüentes da vida. Nos casos maiores pode se fazer presente
durante muitos minutos por vez e voltar a intervalos de semanas, meses ou
anos. Entre estes extremos parece haver uma vasta escala de casos maiores e
menores.

Mais de uma vez foi aqui afirmado que, enquanto a Consciência Cósmica
está efetivamente presente, há uma profunda mudança na aparência da pessoa.
•Nesta passagem, Paulo parece limitar a afirmação a “aqueles que amam a D eus”
(aqueles que têm Consciência Cósmica), mas o que ele realmente quer dizer é sem
dúvida: Todas as coisas trabalham juntamente paia o bem; mas isto na realidade só
é visto e conhecido por aqueles que tenham recebido o dom do Sentido Cósmico.
Ao se pensar em como o semblante fica iluminado por uma grande alegria
comum, pode-se perceber que essa mudança de que se falou deve acontecer.
Não somente isto, mas é de conhecimento pessoal do autor deste livro que
(seguramente, em alguns casos) a pessoa não retorna completamente (pelo
menos de modo permanente) à sua antiga expressão e aparência, por meses
e mesmo anos, após um período de iluminação.

Isto equivale a dizer que o semblante de um homem que teve períodos


ocasionais de iluminação estendendo-se ao longo de anos teria habitualmente
uma expressão mais ou menos exaltada e nobre - e isto é verdade.

É contudo enquanto a Consciência Cósmica está efetivamente presente


que a mudança no aspecto da pessoa é maior. O trecho que segue parece ser
uma descrição dessa mudança. Ou a Consciência Cósmica estava efetivamente
presente na hora mencionada ou estivera presente imediatamente antes disso.
O relato é feito por uma testemunha ocular - Miss Helen Price - uma senhora
bem conhecida deste autor:

Certa noite, em 1866, quando Walt Whitman estava conosco em Nova York, a
campainha para o chá fora tocada havia dez minutos ou mais quando ele desceu de
seu quarto e todos nos reunimos em torno da mesa. Observei-o quando ele entrou na
sala; parecia haver uma cintilação e exultação peculiar ao seu redor, um júbilo quase
irreprimível, que brilhava do seu rosto e parecia penetrar todo o seu corpo. Isto foi
particularmente notável, pois sua disposição comum era de uma serenidade quieta
mas cheia de alegria. Eu sabia que ele estivera trabalhando numa nova edição de seu
livro e esperava que, se ele tivesse oportunidade, dissesse-nos algo que nos fizesse
compartilhar o segredo de sua misteriosa alegria. Infelizmente, a maioria dos que
estavam à mesa estava ocupada com algum assunto de conversa; a cada pausa eu
esperava ansiosamente que ele falasse; mas, não; uma outra pessoa começava
novamente, até que eu fiquei quase louca de impaciência e irritação. Ele parecia
escutar e até chegou a rir com algumas das observações que foram feitas, mas não
disse uma única palavra durante a refeição; e seu rosto apresentava ainda aquele
brilho e deleite especial, como se ele tivesse compartilhado algum elixir divino. Sua
expressão era tão extraordinária que eu poderia ter duvidado de minha própria
observação, não tivesse isto sido notado por outra pessoa além de mim mesma
[38:321],
m
SUMÁRIO

. A luz subjetiva apareceu fortemente a Whitman.

b. A elevação moral e

C. A iluminação intelectual foram extremas, e em seu caso se destacam muito


claramente, pois conhecemos o homem tão bem, tanto antes como depois
do advento do Sentido Cósmico.

d. Em nenhum outro homem que já viveu o sentido da vida eterna foi tão
absoluto.

e. O medo da morte era ausente. Nem na saúde nem na doença ele mostrou
qualquer sinal dele e há toda razão para se crer que não o sentia.

f. Ele não tinha o menor senso de pecado. Isto não deve ser entendido no
sentido de que ele se achasse perfeito. Whitman percebia sua própria
grandeza tão clara e plenamente quanto o faziam seus admiradores.
Também percebia como estava imensuravelmente abaixo do ideal que
constantemente colocava ante si próprio.

g. A mudança do homem autoconsciente para o Cosmicamente Consciente


foi instantânea - ocorrendo a certa hora de certo dia.

h. Ocorreu na idade característica e na época característica do ano.

i. A aparência alterada do homem, enquanto se encontrava no estado


Cosmicamente Consciente, foi vista e notada.
EDWARD CARPENTER

Nasceu em 29 de agosto de 1844, em Brighton, onde passou sua primeira


juventude. Seu pai viera de Comwall. Freqüentou alguns anos o Brighton
College e em 1864 ingressou no Trinity Hall, Cambridge, onde obteve uma
bolsa de estudos; graduou-se em 1868 em décimo lugar e, mais tarde, foi
eleito para o conselho da escola. No devido tempo foi ordenado e por alguns
anos exerceu as funções de cura da Igreja de St. Edward, em Cambridge, da
qual era vigário na época Frederic Dennison Maurice. Nunca acreditou
profundamente na exatidão histórica da Bíblia. Seu pai era um Broad
Churchman e o criou de modo que pudesse pensar por si próprio. Quando
ainda muito jovem, decidiu que tomaria ordens e apegou-se a isto
principalmente em função de uma idéia de que a igreja poderia ser ampliada
a partir de dentro. Mas quando estava razoavelmente dentro dela verificou
que isso levaria um longo e precioso tempo. Em suma, logo se sentiu tão
constrangido que uma total ruptura com tudo se tornou absolutamente
necessária. Esteve ordenado desde 1869 até 1874.

Vamos encontrá-lo imediatamente depois trabalhando com sucesso


reconhecido em um novo campo - o da extensão universitária. Foi na época,
de 1874 a 1880, bastante conhecido e estimado em York, Nottingham,
Sheffield e arredores.

Quase na mesma época começou a estudar questões sociais profundas e


se convenceu de que a sociedade tinha uma base errada e caminhava numa
direção errada.

Foi no começo de 1881, conforme ele nos diz, aos trinta e sete anos, que
Carpenter entrou em Consciência Cósmica. O indício do fato é perfeitamente
claro, mas o autor deste livro não tem condição de dar detalhes da iluminação
neste caso, além dos que são dados a seguir. Como resultado direto do advento
do Sentido Cósmico ele praticamente renunciou a sua posição social e se
tomou um operário; isto é, obteve alguns acres de terra a não muitas milhas
de Dronfield, em Derbyshire, construiu ali uma pequena casa e lá viveu com
a família de um trabalhador, como um deles. Trajando-se de veludo cotelê
conforme os costumes da região, pegou sua enxada e trabalhou firmemente
com os outros. Pareceu-lhe que as maneiras e os costumes dos ricos eram
menos nobres do que os dos pobres; que a alma e a vida dos ricos eram
menos nobres. Preferiu viver com os relativamente pobres e ser ele próprio
relativamente pobre; neste particular, não seguindo o exemplo deles mas
participando no instinto de Gautama, Jesus, Paulo, Las Casas e Whitman.
Conservou seu piano e, depois de horas de trabalho manual, refrigerava-se
com uma sonata de Beethoven, pois era músico realizado e independente. É
desnecessário dizer que ele era um socialista declarado e avançado - talvez
um anarquista. Era um com o povo, o povo “comum” (tomado tão numeroso,
tão comum, disse Lincoln, porque Deus os ama e gosta de ver muitos deles).
E infantil dizer (como alguns pensaram e disseram) que os homens desse
quilate vivem como pobres, com os pobres, com a finalidade de influenciar a
estes e como um exemplo para os ricos. Eles simplesmente vivem como
pobres, com os pobres, como trabalhadores entre trabalhadores, porque
preferem a vida, as maneiras, os hábitos, o ambiente, a personalidade destes
à vida, às maneiras, aos hábitos, ao ambiente e à personalidade dos ricos.
Ocasionalmente, Carpenter entrava na chamada “boa sociedade” (onde tinha
relações estreitas e queridas), mas não permanecia nela por muito tempo.
Ele amava, acima de todas as coisas, nele e nos outros, honestidade,
imparcialidade, sinceridade e simplicidade, e dizia que encontrava mais estas
coisas nos trabalhadores pobres, comuns, do que nos homens e mulheres
ricos que constituíam a “sociedade”.

Em 1873, Carpenter publicou Narcissus and Other Poems [“Narciso e


Outros Poemas”] e, em 1875, Moses: A Drama [“Moisés: Um Drama”].
Começou a ler Whitman em 1869 e, daí em diante, leu Leaves continuamente
por dez anos. Se Carpenter teria alcançado a Consciência Cósmica se jamais
tivesse lido Whitman não pode talvez ser dito, por ele ou por qualquer outra
pessoa, mas parece haver pouca dúvida de que o estudo de Leaves tenha sido
um fator material que o levou à iluminação. Ele não é o único homem que
foi impelido por esse mesmo fator e é provável que, no futuro do mundo,
muitos milhares de homens e mulheres sejam de maneira semelhante ajudados
para a mesma meta. Pois (e nisto está a razão de ser do presente livro) além
da necessária hereditariedade e da constituição adequada (física e mental), a
associação com as mentes daqueles que passaram as fronteiras para o
“Especialismo” é de suprema importância. Ele começou a escrever Towards
Democracy [“Rumo à Democracia”] - o livro em que tentou incorporar os
ensinamentos do Sentido Cósmico - imediatamente após sua iluminação. A
primeira edição, pequena e fina, foi publicada em 1883; a segunda, bastante
aumentada, em 1885; a terceira, ampliada para um livro volumoso e vistoso,
em 1892; e a quarta, em 1896. Não há melhor livro para se obter uma idéia
do que seja a Consciência Cósmica e daquilo em que ela difere da
autoconsciência. Além de Towards Democracy, Carpenter publicou, em 1887,
England’s Ideal [“O Ideal da Inglaterra”]; em 1889, Civilization, its Cause
and Cure [“Civilização, sua Causa e Cura”] e, em 1893, From Adam ’s Peak
to Elephanta [“De Adam’s Peak a Elefanta”]; todas estas obras são
extremamente merecedoras da melhor atenção.

II

Numa carta ao autor deste livro, que pedira certos detalhes a respeito do
novo sentido, ele diz:

Realmente não creio que lhe possa dizer qualquer coisa sem falsear e obscurecer
o assunto. Fiz o melhor que pude ao descrevê-lo em Towards Democracy. Não tenho
nenhuma experiência de luz física neste particular. A percepção parece ser tal que
todos os sentidos se unem num só sentido. Em que você se toma o objeto. Mas isto
é ininteligível, mentalmente falando. Não „ . . IT . . . . .
. , (*1) No Vagasaneyi-Sammta-Upanishad ha o
creio que M
o assunto possa
r
ainda ser • . __ . i___
seguinte verso: Quando, para um homem
definido, mas não tenho conhecimento de qllc compreende, o Eu se tornou todas as coisas,
que haja qualquer problema em escrever que pesar, que problema pode haver para ele que
a seu respeito. (*1) já contemplou aquela unidade”? [150:312]

Em outro lugar, ele tem a seguinte passagem, clara e explícita, sobre o


assunto:

A despeito, então, da prevalência da ciência indutiva e do fato de que os pagãos


tilo furiosamente esbravejam em sua crença nela, proponhamos que há no ser humano
uma consciência divina assim como uma consciência inferior. Pois como vimos que
o sentido do paladar pode passar da condição de uma mera coisa localizada na ponta
da língua para impregnar e se tomar sinônimo da saúde de todo o corpo; ou como o
azul do céu pode ser para uma pessoa uma mera impressão superficial de cor e para
outra a inspiração de um poema ou um quadro e, para uma terceira, como o árabe do
deserto, “ébrio de Deus”, uma presença viva como o antigo Dyaus ou Zeus - assim,
nfio poderá o todo da consciência humana gradualmente se elevar de uma mera
oonsciência local e temporária para uma consciência divina e universal? Há em todo
Wr humano uma consciência local, ligada ao seu corpo exterior; isto nós sabemos.
NSo haverá também em cada ser humano a construção de um a consciência universal?
Que há em nós fases de consciência que transcendem o limite dos sentidos físicos é
uma questão de experiência diária; que percebemos e conhecemos coisas que não
nos são trazidas pelos nossos olhos físicos nem são ouvidas pelos nossos ouvidos
físicos, é certo; que surgem em nós ondas de consciência partindo dos que nos cercam
- das pessoas, da espécie humana a que pertencemos - é também certo. Não poderão
então existir em nós as potencialidades de uma percepção e de um conhecimento
que não sejam relativos a este corpo que está aqui e agora, mas que sejam válidos
para todo o tempo e em todas as partes? Não existirá na verdade, como já sugerimos,
um a iluminação interior, da qual o que cham am os de luz no m undo exterior seja
expressão e m anifestação parciais, pela qual possamos enfim ver as coisas como
elas são, contemplando toda a criação - os animais, os anjos, as plantas, as figuras
de nossos amigos e todos os graus e raças da espécie humana, em seu verdadeiro ser
e ordem - não por qualquer ato local de percepção mas por uma presença e intuição
cósmicas, identificando-nos com aquilo que vemos? Não existirá um sentido aperfei­
çoado de audição - como o das estrelas da manhã cantando juntas - um a compreensão
das palavras que são proferidas por todo o universo, o sentido oculto de todas as
coisas, a palavra que é a própria criação - um sentido profundo e penetrante em
tudo, do qual nosso sentido comum de som é apenas o primeiro noviciado e iniciação?
Não nos tomamos conscientes de um sentido interior de saúde e santidade - tradução
e produção final do sentido exterior do paladar - que tem o poder de determinar para
nós de maneira absoluta e sem qualquer dificuldade, sem discussão e sem negação,
o que é bom e apropriado para ser feito ou sofrido em cada caso que possa surgir? Se
há tais poderes no ser humano, então, realmente, um a ciência exata é possível. Sem
isto, existe som ente um a ciência temporária e fantasma. “ Seja o que for que seja
conhecido por nós, por consciência (direta)” , diz Mills em sua Logic [“Lógica”], “é
conhecido por nós sem possibilidade de contestação” . O que é conhecido por nossa
consciência local e temporária é conhecido para o momento além da possibilidade
de contestação; o que é conhecido pela nossa consciência permanente e universal é
perm anentem ente conhecido além da possibilidade de contestação [57:97-8].

Num livro posterior, Carpenter tem um capítulo, Consciousness Without


Thought [56:153] [“Consciência sem Pensamento”], escrito expressamente
para dar ao não-iniciado uma idéia do que se quer dizer com as palavras
usadas como título do presente livro. Segue-se aqui o capítulo inteiro. Aqueles
que se interessam pelo assunto fariam bem em ler o próprio livro, pois ele
contém outros capítulos que são de importância praticamente igual. O capítulo
começa:

A questão é: Que é essa experiência? Ou melhor - dado que um a experiência só


pode ser realmente conhecida de um a pessoa que a vivência - podemos perguntar:
qual é a natureza dessa experiência? E, ao tentar indicar um a resposta de alguma
espécie para esta pergunta, sinto um a considerável desconfiança, apenas pela própria
razão (entre outras) já mencionada - isto é, de que é tão difícil ou impossível uma
pessoa fazer um relato verdadeiro de um a experiência que tenha aoonteádo a outra
pessoa.

Se eu pudesse passar as palavras exatas do m estre, sem nenhum viés ou


preconceito derivado de mim mesmo ou de um amigo intérprete, o caso poderia ser
diferente; mas isto não posso pretender fazer; e, se pudesse, a forma científica do
velho mundo em que seus pensamentos foram lançados provavelmente só mostraria
ser um obstáculo e um a fonte de confusão, ao invés de ajuda, para o leitor. Com
efeito, no caso dos livros sagrados, onde temos um a boa quantidade de informação
acessível e com autoridade, os críticos ocidentais, embora concordando em maioria
em que há algum a experiência subjacente, lam entavelmente não estão de acordo
entre si quanto ao que possa ser essa experiência.

Por estas razões, prefiro não tentar ou pretender dar o ensinamento exato, sem
preconceito, dos Gurus da índia ou de suas experiências, mas apenas indicar, até
onde eu possa, com minhas próprias palavras e na forma moderna de pensamento, o
que considero ser a direção em que devemos procurar esse conhecimento antiquíssimo
que tem tido um a influência tão estupenda no Oriente e que realmente é ainda a
marca principal de sua diferença do Ocidente.

M as primeiro devo me guardar contra um erro que provavelmente pode surgir. É


muito fácil presumir e muito freqüentemente presumido, em qualquer caso em que
uma pessoa seja tida como possuidora de uma faculdade incomum, que essa pessoa
seja de imediato elevada acima de nossa esfera para uma região sobrenatural e possua
toda e qualquer faculdade dessa região. Se, por exemplo, ela é ou se supõe que seja
clarividente, presum e-se que tudo é ou deva ser sabido por ela; ou, se a pessoa
demonstrou o que parece um poder milagroso em qualquer momento ou em qualquer
caso, é questionado, à guisa de descrédito, por que ela não m ostrou um poder
semelhante em outros momentos e em outros casos. É necessário nos precavermos
contra todas essas generalizações precipitadas. Se há uma forma de consciência que
pode ser alcançada pelo ser hum ano, superior àquela que ele pode em geral dizer
que tem atualmente, é provável - não, é certo - que ela está evoluindo e irá evoluir
apenas lentam ente e com m uitos deslizes e pausas hesitantes pelo caminho. N o
passado remoto do ser humano e dos animais, a consciência da sensação e a consciência
do ego foram sucessivamente evoluídas - cada um destes poderosos crescimentos
com inúm eros ramos principais e secundários espalhando-se continuadamente. Em
algum ponto nesta vasta experiência um novo crescim ento, um a nova form a de
consciência, bem poderia ter parecido milagrosa. Que poderia ser mais maravilhoso
do que a primeira revelação do sentido da visão, que poderia ser mais inconcebível
para aqueles que não a tivessem vivenciado, e que poderia ser mais certo do que o
fato de que o primeiro uso desta faculdade deve ter sido carregado de desilusão e
erro? N o entanto deve haver um a visão interior que transcende a visão física, assim
como esta transcende o tato. E mais que provável que nos nascimentos secretos do
tempo oculte-se um a consciência que não é a consciência da sensação nem a
consciência do ego - ou pelo menos que as inclui e ultrapassa inteiramente - uma
consciência em que o contraste entre o ego e o mundo exterior, e a distinção entre
sujeito e objeto, desaparecem. A parte do mundo a que essa consciência nos admite
(chamêmo-la de supermundana ou qualquer outra coisa que queiramos) provavelmente
é pelo m enos tão vasta e complexa como a parte que conhecem os e, o progresso
nessa região, pelo menos igualmente lento, tentativo e vário, laborioso, descontínuo
e incerto. N ão há salto súbito do átrio posterior para o Olimpo; e as rotas de um para
o outro, quando encontradas, são longas e desnorteadoras em sua variedade.

E quanto àqueles que efetivam ente atingem algum a parte dessa região, não
devemos supor que se tom em de imediato semideuses ou infalíveis. N a realidade,
em m uitos casos a própria novidade e a estranheza da experiência dão origem a
seqüências fantasmagóricas de especulação ilusória. Embora devêssemos esperar e
embora seja sem dúvida verdadeiro no todo que aqueles a quem chamaríamos de os
tipos superiores de seres hum anos existentes sejam os que mais provavelm ente
venham a possuir quaisquer faculdades que possam estar pairando por aí, nâo é
sempre assim que acontece e há casos bem reconhecidos em que pessoas de natureza
moral decididamente deficiente ou pervertida alcançam poderes que pertencem na
verdade a um grau mais alto de evolução e são por isso correspondentemente perigosos.

Em tudo isso ou numa grande parte disso os instrutores da índia insistem. Eles
dizem - e creio que isto aponta para a realidade de sua experiência - que nâo há
nada de anorm al ou milagroso no assunto; que as faculdades adquiridas resultam
totalm ente de longa evolução e treinam ento e que elas têm leis distintas e um a
ordem própria. Reconhecem a existência de pessoas de faculdade demoníaca, que
adquiriram poderes de certo grau sem um a correspondente evolução moral, e admitem
que são raras as fases mais altas de consciência e que é pequeno o número daqueles
que no momento têm condição de alcançá-las. Com estes pequenos preâmbulos então
estabelecidos, creio que podemos prosseguir dizendo que o que o G náni busca e
obtém é uma nova ordem de consciência - à qual, por falta de melhor, podemos dar
o nom e de consciência universal ou C onsciência C ósm ica, em contraste com a
consciência individual ou a consciência física especial com que todos estam os
fam iliarizados. N ão estou ciente de que o equivalente exato desta expressão,
“consciência universal” , seja usado na filosofia hindu; mas a Sat-chit-ánanda Brahm,
a que todo iogue aspira, indica a mesm a idéia: sat, a realidade, aquilo que a tudo
penetra; chit, o saber, o perceber; ánanda, o bem-aventurado - todos estes termos
unidos em um a manifestação de Brahm.

O Ocidente busca a consciência individual - a mente enriquecida, percepções e


memórias ou lembranças imediatas, esperanças e medos individuais, ambição, amores,
conquistas - o ego, o ego local, em todas as suas fases e formas - e dolorosamente
duvida que exista u m a coisa com o co n sciên cia universal. O O rien te busca a
consciência universal e, nos casos em que sua busca tem êxito, o ego e a vida
individuais transformam-se numa mera película e são apenas as sombras projetadas
pela glória revelada além.

A consciência individual tom a a forma do Pensam ento, que é fluido e móvel


como o mercúrio, perpetuamente num estado de mudança e agitação, carregado de
sofrimento e esforço; a outra consciência não ocorre na forma de Pensamento. Ela
toca, ouve, vê e é as coisas que percebe - sem movimento, sem mudança, sem esforço,
sem distinção de sujeito e objeto, mas com uma incrível e imensa alegria.

A consciência individual é especialmente relacionada com o corpo. Os órgãos do


corpo são a certo grau seus órgãos. Mas o corpo inteiro é apenas como um órgão da
C onsciência Cósmica. Para alcançar esta última, a pessoa precisa ter o poder de
conhecer seu próprio ego à parte do corpo - na verdade de passar a um estado de
êxtase. Sem isto a Consciência Cósmica não pode ser vivenciada.

Diz-se: “H á quatro experiências principais de iniciação - (1) o encontro com um


Guru; (2) a consciência da Graça ou Arul - que pode talvez ser interpretada como a
consciência de um a mudança - até mesmo de uma mudança fisiológica - trabalhando
dentro da pessoa; (3) a visão de Siva (Deus), com a qual o conhecimento do ego
pessoal como um Eu distinto do corpo está estreitamente relacionado; (4) o encontrar
do universo interior.” “Os sábios” - diz-se também - “quando seus pensamentos se
to rn am fixos, percebem dentro de si m esm os a co n sciên cia A b so lu ta, que é
Sarvasakshi, Testemunha de todas as coisas”.

Grandes têm sido as discussões entre os eruditos quanto ao significado da palavra


N irvâna - se ela indica um estado de não-consciência ou de consciência imensamente
intensificada. Provavelmente, ambos os pareceres têm suas justificativas; trata-se de
algo que não admite definição nos termos da linguagem comum. O im portante a
perceber e admitir é que, por trás deste e de outros termos semelhantes, existe um
fato real e reconhecível (isto é, um estado de consciência, em algum sentido), que
tem sido repetidas vezes vivenciado e que, para aqueles que o experienciaram ainda
que ao menor grau, pareceu digno de busca e dedicação por toda a vida. Naturalmente,
é fácil representar esse fato como um a mera palavra, uma teoria, um a especulação
dos hindus sonhadores; mas as pessoas não sacrificam suas vidas por palavras vazias,
nem meras abstrações filosóficas regem os destinos de continentes. Não; a palavra
representa um a realidade, algo muito básico e inevitável na natureza hum ana. A
questão realmente não é definir o fato - pois não podemos fazer isto - mas chegar a
ele e vivenciá-lo. N esta conjuntura é interessante constatar que a m oderna ciência
ocidental, que se tem ocupado até agora - sem muito resultado - com teorias mecânicas
do universo, está se aproximando, de seu lado, dessa idéia da existência de uma
outra forma de consciência. Os fenômenos extraordinários do hipnotismo - que sem
dúvida estão a algum grau relacionados com o assunto que estamos discutindo e que
têm sido reconhecidos há muito tem po no Oriente - estão forçando os cientistas
ocidentais a admitir a existência da chamada consciência secundária no corpo. Os
fenômenos parecem realmente inexplicáveis sem a suposição de um fator secundário
de alguma espécie e cada dia se tom a mais difícil não usar a palavra consciência
para descrevê-lo. Que se entenda que nem por um momento estou assumindo que
essa consciência secundária dos hipnotizadores seja em todos os sentidos idêntica à
Consciência Cósmica (ou como quer que possamos chamá-la) dos ocultistas orientais.
Pode ser e pode não ser. As duas espécies de consciência podem cobrir o mesmo
campo ou podem apenas se sobrepor a uma pequena extensão. Esta é um a questão
que não proponho discutir. O ponto para o qual quero chamar atenção é que a ciência
ocidental está encarando a possibilidade da existência no ser humano de uma outra
co n sc iê n c ia de alg u m a esp é cie , além d a q u ela com cu jas fu n ç õ e s estam o s
familiarizados. Ela cita (A. M oll) o caso de B arkw orth, que “ pode som ar longas
listas de números enquanto está empenhado num a discussão animada, sem permitir
que sua atenção seja distraída da discussão”; e nos pergunta como Barkworth pode
fazer isto a menos que tenha uma consciência secundária que se ocupe dos números
enquanto sua consciência primária está envolvida na discussão. E há o caso de um
palestrante (F.M yers) que por um m inuto inteiro perm ite sua m ente se afastar
totalm ente do assunto em questão e se im agina sentado ao lado de um amigo no
auditório, engajado num a conversa com ele, e que depois desperta para se encontrar
na plataforma fazendo sua palestra com perfeita facilidade e coerência. Que podemos
dizer de um caso como este? Em outro caso, temos um pianista que apresenta uma
peça musical de memória e constata que seu recital está na realidade sendo dificultado
por ele permitir que sua mente (sua consciência primária) se concentre no que ele
está fazendo. E às vezes sugerido que a própria perfeição da execução musical mostra
que ela é mecânica ou inconsciente, mas será esta um a inferência razoável? E não
pareceria ser um a mera contradição de termos falar-se de uma palestra inconsciente,
ou de um a adição inconsciente de um a lista de números?

M uitos atos e processos do corpo - por exemplo, engolir - são assistidos pela
consciência pessoal manifesta; muitos outros atos e processos absolutam ente não
são percebidos pela m esm a; e poderia parecer razoável supor que estes últim os,
afinal de contas, fossem puramente mecânicos e desprovidos de qualquer substrato
mental. M as os desenvolvimentos posteriores do hipnotismo no Ocidente têm mostrado
- o que é bem conhecido dos faquires da índia - que sob certas condições a consciência
dos atos e processos internos do corpo pode ser obtida e não som ente esta, mas
tam bém a consciência de acontecimentos que estejam ocorrendo longe do corpo e
sem os meios comuns de comunicação.

Assim, a idéia de uma outra consciência, em alguns aspectos com maior alcance
do que a comum e com métodos de percepção próprios, tem gradualmente se infiltrado
nas m entes ocidentais.

H á um a outra idéia com que a ciência moderna nos tem familiarizado e que nos
está levando em direção à mesma concepção: a idéia da quarta dimensão. A suposição
de que o m undo real tem quatro dim ensões de espaço, ao invés de três, torna
concebíveis muitas coisas que de outro modo seriam incríveis. Toma concebível que
objetos aparentem ente separados - por exem plo, pessoas distintas - estejam na
realidade fisicam ente unidos; que coisas aparentem ente separadas por enormes
distâncias de espaço estejam na realidade bem juntas; que um a pessoa ou um objeto
possam entrar e sair de um a sala fechada, sem que paredes, portas ou janelas, etc.,
sejam obstáculos; e, para que essa quarta dimensão se tornasse um fator de nossa
consciência, é óbvio que deveríamos ter meios de conhecimento que para o sentido
comum pareceriam simplesmente miraculosos. A parentem ente, muita coisa sugere
que a consciência alcançada pelos Gfíanis da índia a seu grau, e por sujeitos hipnóticos
ao deles, é dessa ordem quadridimensional.

Assim como um sólido está relacionado com suas próprias superfícies, assim, ao
que parece, a Consciência Cósmica está relacionada com a consciência comum. As
fases da consciência pessoal são apenas diferentes facetas da outra consciência; e
experiências que parecem remotas entre si na individual são talvez todas igualmente
próximas na universal. O próprio espaço, tal como o conhecemos, pode ser praticamen­
te anulado na consciência de um espaço maior de que ele é apenas a superfície; e
um a pessoa que viva em Londres pode não improvavelmente descobrir que tenha
um a porta de fundo que dê muito simplesmente e sem cerimônia para Bombaim.

“A verdadeira qualidade da alm a” , disse o Guru um dia, “é a do espaço, pelo


qual ela está em repouso em toda parte, M as esse espaço (Akása) dentro da alma
está muito acima do espaço material co­
mum. Todo este último, inclusive todos (*1) Compare-se com Whitman: “Deslumbran­
os sóis e estrelas, parece-vos então como te e tremendo, quão rápido o nascer do sol
se fosse nada m ais que um átom o do me mataria se eu não pudesse agora e sempre
primeiro”- e aí ele ergueu seus dedos co­ irradiar o nascer do sol para fora de mim. Nós
mo se estivesse esmagando uma partícula também ascendemos deslumbrantes e tremendos
como o sol ”.
de pó entre eles (*1).

“Em repouso em toda parte”, “Indiferença”, “Igualdade” . Esta foi um a das partes
mais notáveis do ensinamento do Guru. Em bora (por razões de família) mantendo
ele próprio muitas das observâncias de casta e embora mantendo e ensinando que
para a m assa do povo as regras de casta fossem perfeitamente necessárias, nunca
cessou de insistir em que quando chegasse o momento para um homem (ou um a
mulher) ser “emancipado” , todas essas regras teriam de ser abandonadas como coisas
sem importância - todas as distinções de castas, classes, todo sentimento de superiori­
dade ou excelência pessoal - até mesmo do bem e do mal - e o mais absoluto senso
de igualdade tem de prevalecer para com todos, bem como determinação em sua
expressão. Foi certam ente notável (em bora eu soubesse que os livros sagrados o
continham) encontrar este princípio germinal da Democracia Ocidental tão vividamen-
te ativo e em funcionamento bem fundo sob as inúmeras camadas da vida social e
dos costum es do Oriente. M as assim é; e nada m ostra m elhor a relação entre o
Ocidente e o Oriente do que este fato.
Esse senso de igualdade, de liberdade quanto a normas e limitações, de inclusi­
vidade e da vida que “repousa em toda parte”, pertence, naturalmente, mais à parte
Cósmica ou universal de um ser humano do que à parte individual. Para a última é
sempre um obstáculo e uma ofensa. E fácil mostrar que os homens não são iguais,
que não podem ser livres, e apontar o absurdo de uma vida indiferente e em repouso
sob todas as condições. Todavia, para a consciência maior, estes são fatos básicos
subjacentes à vida comum da humanidade e que alimentam o próprio indivíduo que
os nega.

Assim, repetindo a cláusula de que, ao usarmos termos como consciência Cósmica


e consciência universal, não nos comprometemos com a teoria de que no instante em
que o homem deixa sua parte pessoal entra num conhecimento absolutamente ilimitado
e universal, mas apenas numa ordem superior de percepção - e admitindo a condição
intricada e complexa da região tão grosseiramente denotada por esses termos, bem
como o caráter microscópico de nosso conhecimento a seu respeito - podemos dizer
uma vez mais, também numa generalização muito imperfeita, que a busca do Oriente
tem sido essa consciência universal e, a do Ocidente, da consciência pessoal ou
individual. Como é bem sabido, o Oriente tem suas várias seitas e escolas de filosofia,
com sutis discriminações de qualidades, essências, divindades, demônios, etc., nas
quais nâo me proponho entrar e com as quais eu me sentiria muito incom petente
para lidar. D eixando todas elas de lado, procurarei m e restringir sim plesm ente a
esses dois term os ocidentais imperfeitos e tentarei considerar ainda a questão dos
métodos pelos quais o estudante oriental se empenha em obter o estado Cósmico, ou
essa ordem superior de consciência que ele abrange.

Mais tarde [62] Carpenter fez ainda uma outra tentativa de explicar ou
pelo menos indicar a natureza do novo sentido. Diz ele:

A respeito de Towards Democracy (*1) É importante notar que por toda esta ex­
têm-me sido feitas algumas vezes pergun­ posição, bem como nos outros escritos
tas que acho difícil responder; tentarei de Carpenter sobre o mesmo assunto (como
aqui formular alguns pensamentos a este quem quer que tenha lido este livro até este ponto
respeito (*1). perceberá sem mais repetição), seu testemunho
quanto aos fenômenos da Consciência Cósmica
corre paralelamente e é muitas vezes idêntico ao
Bastante tempo atrás (digamos, quan­ dos Suttas, de Behmen, de Yepes e de outros es­
do eu tinha uns vinte e cinco anos e mora­ critores da mesma classe que tratam deste assun­
va em Cambridge) quis escrever algum to (especialmente, talvez, o autor do Bagavat
tipo de livro que se dirigisse muito pes­ Gita), embora nâo pareça que ele tenha estudado
soal e intimamente a qualquer pessoa que (e provavelmente não estudou) estes escritores.
se importasse de lê-lo - que estabeleces­
se, por assim dizer, um a relação pessoal íntima entre o leitor e eu; e durante anos
sucessivos fiz várias tentativas de realizar esta idéia - dentre as quais um ou dois
começos em versos (um, por exemplo, que posso mencionar, chamado The Angel of
Death and Life [“O Anjo da Morte e da Vida”] pode ser encontrado num pequeno
livro intitulado Narcissus and Other Poems [“Narciso e Outros Poemas”], agora faz
tem po esgotado, que publiquei em 1873. M as nenhum a de minhas tentativas me
satisfez e depois de algum tempo comecei a pensar que a busca nSo era razoável -
porque, embora talvez nâo fosse difícil para qualquer pessoa com uma disposição
maleável e solidária tanger certas cordas em qualquer indivíduo que encontrasse,
parecia impossível esperar que um livro - que não pode de modo algum se adaptar às
idiossincrasias de seus leitores - pudesse encontrar a chave das personalidades em
cujas mãos viesse a cair. P ara isto seria necessário supor e encontrar um terreno
absolutamente comum a todos os indivíduos (todos, afinal, que tivessem alcançado
certo nível de pensamento e experiência) e escrever o livro nesse terreno comum e a
partir dele; mas isto pareceu na época impraticável.

P assaram -se anos, relativam ente cheios de aco ntecim entos, com saídas de
C am bridge e palestras universitárias em cidades provinciais, e assim por diante;
mas com inatividade no tocante a escrever e, interiormente, com extrema tensão e
sofrimento. Finalmente, no início de 1881, sem dúvida como culminação e resultado
de lutas e experiências que estiveram ocorrendo, tomei consciência de que uma massa
de material estava se formando dentro de mim, exigindo imperativamente expressão
- embora eu nâo pudesse então ter dito o que exatamente haveria de ser sua expressão.
No momento tomei-me avassaladoramente consciente da revelação, dentro de mim,
de u m a região que u ltrap assav a em algum sen tid o as fro n teira s co m u n s da
personalidade, à luz da qual minhas próprias idiossincrasias de caráter - defeitos,
realizações, limitações, e não sei o que mais - pareciam nâo ter a menor importância
- um a absoluta libertação da mortalidade, acompanhada de uma calma e uma alegria
indescritíveis.

Também percebi ou senti imediatamente que essa região do ego que havia em
mim existia igualm ente (em bora nem sempre igualm ente consciente) em outras
pessoas. Relativamente a ela, as meras diversidades de temperamento que comumente
distinguem e dividem as pessoas perderam sentido e se tornaram indiferentes e foi
aberto um cam po no qual todas pudessem se encontrar, no qual todas fossem
verdadeiramente iguais. Assim, as duas palavras que controlaram meu pensamento
e m inha expressão naquela ocasião vieram a ser Liberdade e Igualdade. A necessidade
de espaço e tempo para trabalhar nisso cresceu tão fortemente que, em abril daquele
ano, abandonei meu emprego de palestrante. Além disso, uma outra necessidade me
ocorrera, impondo essa decisão - a necessidade de uma vida ao ar livre e de trabalho
manual. Finalmente nâo pude mais lutar contra esta necessidade nem contra a outra;
tive de desistir e obedecer. Quando isto aconteceu, na ocasião que mencionei eu já
estav?. vivendo numa pequena cabana numa fazenda (em Bradway, perto de Shefííeld),
com um am igo e sua família, e trabalhava na fazenda nos intervalos de minhas
palestras. Quando abandonei essas palestras, tudo se tom ou claro para mim. Montei
uma espécie de guarita de madeira no jardim e ali, ou no campo e no bosque, durante
toda a primavera e o verão e por todo o inverno, de dia e às vezes de noite, com sol ou
chuva, na geada e na neve, e em todas as espécies de clima cinzento e sombrio,
escrevi Towards Democracy - ou de qualquer modo o primeiro e mais longo poema
que leva esse nome.

Em fins de 1881 esse poema estava concluído - embora tenha sido revisado e um
pouco emendado no começo de 1882; e me lembro de ter sentido então que, embora
fosse ele defeituoso, fraco e inconsistente em expressão, se tivesse êxito em passar
ainda que a metade do esplendor que o havia inspirado, seria bom e eu nâo precisaria
me dar ao trabalho de escrever qualquer outra coisa (o que, com a devida consideração
da palavra “se”, mesmo agora sinto que foi um a insinuação verdadeira e benévola).

A escrita desse livro e a sua publicação (em 1883) tiraram de minha mente uma
carga que vinha pesando nela havia anos e desde então nunca mais tive aquele
sentimento de opressão e ansiedade que sofrera constantemente antes - e que, acredito,
em suas diferentes formas, é um a experiência comum na primeira fase da vida.

Nesse primeiro poema foi incorporado, com consideráveis alterações e adaptações,


um bom número de textos casuais que eu havia escrito (meramente sob a tensão de
sentir e sem qualquer senso particular de proporção) durante vários anos anteriores.
Eles agora haviam encontrado sua interpretação, sob a luz firme e clara de um a nova
disposição de espírito ou um novo estado de sentir, que antes havia me visitado
apenas espasmodicamente e com raios nebulosos. Todo Towards Democracy - posso
dizê-lo, falando genericamente e incluindo os trechos feitos mais tarde - foi escrito
sob o domínio dessa disposição. Por ele tudo tenho testado e medido; ele tem sido o
sol para o qual todas as imagens, todas as concepções e idéias usadas têm sido como
objetos materiais refletindo sua luz. E talvez isto esteja ligado ao fato de que foi tão
necessário escrever ao ar livre. O sentimento mais universal que procurei transmitir
recusou-se a sair de mim num ambiente fechado; nem poderia eu, em qualquer
mom ento ou por qualquer meio, persuadir o ritmo ou o estilo da expressão a se
manifestar dentro de um a sala - aí tendendo sempre a se decompor em formas métricas
específicas, que, por mais que as adm irasse em certos autores e eu m esm o as
considerasse adequadas para certos tipos de trabalho, não eram o que eu queria e nâo
expressavam para mim o sentim ento que eu procurava expressar. E ste fato (da
necessidade de ar livre) é muito curioso e eu não posso realmente explicá-lo. Só sei
que é assim , de m aneira absolutam ente indubitável e insuperável. P osso sentir
imediatamente a diferença tão-somente ao cruzar uma porta - mas não posso explicá-
lo. Sempre, em especial o céu, pareceu conter para mim a chave, a inspiração; mais
do que qualquer outra coisa, a visão dele dava-me o que eu queria (às vezes como um
verdadeiro relâm pago descendo dele para o m eu papel - sendo eu um a m era
testemunha, mas agitado com estranhos arroubos).

M as se me perguntassem - como algumas vezes me têm perguntado - qual é a


natureza exata dessa disposição de espírito, desse esplendor iluminante, eu teria de
dizer que não posso dar nenhuma resposta. Todo Towards Democracy é um a tentativa
de lhe dar expressão; qualquer mera sentença isolada, ou definição direta, nâo teria
a m enor utilidade - ao contrário, na realidade tenderia a obscurecer por limitar.
Tudo que posso dizer é que parece existir uma visão possível ao ser humano como de
algum ponto de vista mais universal, livre da obscuridade e do localismo que se
ligam especialmente às nuvens passageiras de desejo, medo, e de todos os pensamentos
e emoções comuns; neste sentido, um a outra e distinta faculdade; e uma visão sempre
significa um a sensação de luz, de modo que aqui há uma sensação de luz interior,
naturalmente desligada do olho mortal, mas trazendo ao olho da mente a impressão
de que ele vê e através do meio que lava, por assim dizer, as faces interiores de todos
os objetos, todas as coisas e pessoas - como posso expressá-lo? E mesmo assim isto
é muito defeituoso, pois o sentimento é um senso de que a pessoa è os objetos e as
coisas e as pessoas que percebe (bem como todo o universo) - um sentimento em que
a visão, o tato e a audição estão fundidos numa identidade. Nem pode esta questão
ser entendida sem se perceber que a faculdade inteira está enraizada profunda e
intimamente na natureza ultramoral e emocional e para além da região de pensamento
do cérebro.

Agora quero me referir ao pronome “eu” que ocorre tão livremente neste livro.
N este e em outros casos do gênero, o autor está naturalmente sujeito a uma acusação
de egotismo e, pessoalmente, não m e sinto disposto a combater qualquer acusação
desse tipo que possa ser feita. Que haja meros egocentrismo e vaidade incorporados
nestas páginas, não duvido por um só momento, e que na medida em que existem
prejudicam a expressão e a finalidade deste livro, tam bém nâo duvido. M as a
existência destas coisas não afeta a real questão: que ou quem, essencialmente, é o
“eu” de que se fala?

A esta pergunta devo também admitir francamente que nâo posso dar nenhuma
resposta. N ão sei. Q ue essa palavra não é usada no sentido dramático é tudo que
posso dizer. O “eu” sou eu mesmo, assim como poderia encontrar palavras para
expressar a mim mesmo; mas o que seja esse ego e o que possam ser seus limites -
e portanto o que seja o ego de qualquer pessoa e quais possam ser seus limites - não
sei dizer. Tenho às vezes pensado que talvez o melhor trabalho que alguém poderia
fazer - se sentisse a qualquer momento ampliações e extensões de seu ego - seria
sim plesm ente registrá-las tão fielm ente quanto possível, deixando a outros - ao
cientista e ao filósofo - a explicação e sentindo-se confiante de que o que realmente
existisse n a pessoa seria constatado como existente, conscientemente ou em forma
latente, em outras pessoas. E direi que nesses registros tenho acima de tudo tentado
ser autêntico. Se eu disse, “E u, Natureza”, foi porque na ocasião, seja como for, senti
“Eu, N atureza”; se disse “ Sou igual ao menor”, foi porque não poderia expressar o
que senti mais diretamente do que por essas palavras. O valor de tais declarações só
pode aparecer com o tempo; se elas forem corroboradas por outros, então ajudarão a
formar um corpo de registro que bem poderá merecer pesquisa, análise e explicação.
Se não forem assim corroboradas, então serão natural e devidam ente deixadas de
lado como meras excentricidades de auto-ilusão. Nâo tenho a menor dúvida de que
algum a coisa realm ente g en u ín a será corroborada. P arece-m e cad a vez m ais
claramente que a palavra “eu” tem um a gama praticamente infinita de significado -
que o ego cobre um campo muito maior do que usualmente supomos. Em alguns
pontos somos intensamente individuais e, em outros, intensamente solidários; algumas
de nossas impressões (como a cócega de um pêlo) são de caráter em inentem ente
momentâneo, ao passo que outras (como o sentimento da identidade) envolvem longos
períodos de tempo. As vezes estamos conscientes de quase um a fusão entre nossa
identidade e a de um a outra pessoa. Q ue significa tudo isso? Somos realm ente
indivíduos separados, ou a individualidade é um a ilusão ou, então, é apenas um a
parte do ego ou da alma que é individual e não o todo? É o ego absolutamente uno
com o corpo, ou é somente um a parte do corpo, ou ainda é o corpo apenas uma parte
do ego - um de seus órgãos, por assim dizer - e não todo o ser humano? Ou, finalmente,
não será talvez possível expressar a verdade por qualquer uso direto destes ou de
outros termos da linguagem comum? Seja como for, que sou eu?

Estas são questões que aparecem ao longo do Tempo, exigindo solução - para as
quais a hum anidade está constantem ente tentando encontrar um a resposta. N âo
pretendo respondê-las. Pelo contrário, tenho certeza de que nenhum dos trechos de
Towards D em ocracy foi escrito com vistas a dar u m a resp o sta. E le s foram
simplesmente escritos para expressar sentim entos que insistiam em ser expressos.
Nâo obstante, é possível que alguns deles - transmitindo as experiências e declarações
mesmo de um a só pessoa - possam contribuir com material para se obter aquela
resposta a estas e outras perguntas do gênero, que algum dia será seguramente dada.
Que há uma região de consciência situada além daquilo que chamamos usualmente
de mortalidade, para a qual nós humanos podemos no entanto passar, praticamente
não duvido; mas, partindo do pressuposto de que isto seja um fato, sua explicação
ainda depende de pesquisa. Nestas poucas notas sobre Towards Democracy eu não
disse nada sobre a influência de Whitman - pela mesma razão que nada disse sobre
a influência do sol ou dos ventos. Estas influências são muito remotas e se ramificam
de maneira demasiadamente complexa para serem remontadas. Em 1868 ou 1869
deparei-me com a pequena seleção de Leaves o f Grass feita por William Rossetti e
li esta edição e as do original, continuam ente, d u ran te dez anos. Jam ais tive
conhecimento de qualquer outro livro (com exceção talvez das sonatas de Beethoven)
que eu pudesse ler e reler como fiz com este. Acho difícil imaginar o que teria sido
m inha vida sem esse livro. Leaves o f Grass “ incorporou-se ao meu sangue”; mas
nâo creio que jamais tenha tentado imitá-lo ou ao seu estilo. Lutei bastante contra o
inevitável desvio das formas mais clássicas de poesia para um ritmo mais solto e
mais livre, disputando o terreno (“dando m urro em ponta de faca”) polegada a
polegada, durante um período de sete anos de num erosas criações m alogradas e
híbridas - até que finalmente, em 1881, fui compelido à forma (se é que pode ser
assim chamada) de Towards Democracy. Não a adotei porque fosse uma aproximação
à forma de Leaves o f Grass. Qualquer semelhança que possa haver entre o ritmo, o
estilo, os pensamentos, a construção, etc., dos dois livros, tem de ser, creio eu, atribuída
a um a similitude mais profunda de intenção e atmosfera emocional nos dois autores
- embora essa similitude possa ter decorrido (e sem dúvida decorreu principalmente)
da influência pessoal de um sobre o outro. Seja como for, nossos tem peram entos,
pontos de vista, antecedentes, etc., são tão inteiramente diversos e opostos que, com
exceção de alguns pontos, dificilmente posso imaginar que haja muita semelhança
real a ser constatada. O estilo de Whitman, pletórico, exuberante, viril, deve sempre
fazer dele um a das pessoas mais originais do mundo - uma fonte perene de saúde e
força, tanto moral como física. Ele tem a amplitude da própria Terra e não pode ser
ignorado, tal como não pode ser ignorada um a montanha. Com efeito, muitas vezes
ele m e lembra um a grande pedreira na encosta de um a montanha - os grandes fachos
de luz solar e as sombras, a face primitiva da própria rocha, o poder e o arrojo de
hom ens trabalhando nela, as massas e os blocos caídos, materiais para infindáveis
construções e belos tufos de ervas ou flores em saliências inacessíveis - um quadro
bastante artístico em sua própria incoerência e falta de forma. Towards Democracy
tem um a radiância mais suave, como a da Lua comparada com a do Sol - permitindo
que a gente vislumbre as estrelas por detrás. Terno e meditativo, menos resoluto e
absolutamente menos volumoso, tem mais a qualidade do ar fluido e dócil do que a
da terra sólida e inflexível.

Todos os trechos acima, extraídos dos escritos de Edward Carpenter,


devem ser vistos como pronunciamentos da mente autoconsciente a respeito
da Consciência Cósmica. Em Towards Democracy, deve ser entendido que é
o próprio Sentido Cósmico que fala; às vezes a respeito de si mesmo, às
vezes a respeito da natureza, do ser humano, etc., do ponto de vista dele
próprio. Como, por exemplo:
Vê! aquilo que olho mortal não viu nem í*1) Uma sugestão do que o Sentido Cósmico
ouvido e sc u to u - ( * 1 ) mostra a ele.
Toda tristeza terminada - o fundo, fundo oceano de alegria dentro abrindo-se - a superfície
cintilando.
O multifário revelado, cada uma e todas, todas as coisas que existem, transfiguradas -
De alegria transbordando, mal o solo tocando, braços em cruz às estrelas estendendo,
ao longo de montanhas e florestas, de inúmeras criaturas habitação, cantando,
alegria infindável -
Assim como o sol em manhã sombria nuvens rompendo - assim, por detrás do sol um
outro sol, de dentro do corpo um outro corpo - estes em pedaços caindo -
Vê! agora por fim ou ainda um pouco mais, no devido instante contempla aquilo que há
longo tempo tens buscado -
Oh olhos, não admira que atenteis. [61:200]

Aquele dia —o dia da liberação —a ti (*2) Como veio a ele, assim virá a outros,
virá, em que lugar nâo sabes; virá, mas
não sabes a hora (*2). (*3) Quase literalmente verdadeiro no caso de
N o púlpito, enquanto o sermão pregas k*8 Casas-
(*3), observa! Súbito os laços e as faixas - no berço, no caixão, na mortalha e nas
ataduras - tombarão;
N a prisão Ele virá; e as correntes, mais fortes que o ferro, os grilhões, mais duros
que o aço, se dissolverão - para sempre livre serás.
N o quarto doente, em meio a sofrimento, lágrimas e cansaço de toda um a vida, um
som de asas virá - e saberás que próximo estará o fim -
(O amado, levanta-te, docemente comigo vem - mas ansioso não sejas tanto - para
que a própria alegria a ti não desfaça.)
N o campo com o arado e a grade; no estábulo ao lado de teu cavalo;
N o bordel em meio a indecência e ociosidade e tua roupa e a de tuas companheiras
consertando;
Em meio à vida da moda, visitas matutinas em ociosidade fazendo e recebendo, e
berloques arranjando em tua sala de estar - mesmo lá, quem sabe?
N a hora marcada, devidamente virá ele. [61:23]

Não há paz, exceto onde estou, disse o (*4) Fala o Sentido Cósmico.
Senhor - (*4)
Embora saúde tenhas - aquilo que é chamado saúde - no entanto sem mim somente
falsa cobertura da doença é;
Embora amor tenhas, no entanto se entre e ao redor dos amantes não estiver eu, só
tormento e inquietação seu amor será;
Embora bens e amigos e o lar tenhas - todos estes virão e irão embora - nada há de
estável ou seguro que não será levado embora.
M as eu, somente, fico - não mudo,
Assim como o espaço por toda parte se estende, e todas as coisas dentro dele se
movem e mudam, mas ele nâo se move nem muda,
Assim o espaço dentro da alma sou eu, do qual o espaço fora nada mais que imagem
mental e similitude é;
Habitar-me vem tu, a entrada tens para toda vida - a morte a ti não mais separará
daqueles a quem amas.
Sou o sol que de dentro sobre todas as criaturas brilha - a mim contempla, de eterna
alegria repleto serás.
Não te enganes. Logo este mundo exterior tombará - dele te despirás tu, como o ser
humano de seu corpo mortal se despe.
Agora mesmo tuas asas nesse outro mundo - o mundo da igualdade - a estender
aprende, meu filho, para no oceano de mim e de meu amor nadares.
(Ah! não te ensinei pela semelhança deste mundo exterior, por suas alienações e
mortes e seus letais sofrimentos - tudo para isso?
Para a alegria, ah! improferível júbilo!). [61:343-4]

III

SUMÁRIO

a. A iluminação ocorreu na idade característica - aos trinta e sete anos.


b. E na estação característica - na primavera.
Houve um sentimento de “luz interior”, mas não rigorosamente a
costumeira experiência da luz subjetiva.

Houve a usual iluminação intelectual repentina.

E a costumeira elevação moral repentina.

Sua vida foi absolutamente regida, daquele momento em diante, pela


nova luz que havia despertado nele - “ela segurou seus pés”.

Ele perdeu totalmente o senso do pecado, quando de sua iluminação.

Percebeu claramente que era imortal.

Mas a melhor prova de Consciência Cósmica, em seu caso, é sua descrição


da mesma, que só poderia ter sido tirada (como ele nos diz que foi) de
sua própria experiência.
CASOS ADICIONAIS - ALGUNS MENORES,
IMPERFEITOS E DUVIDOSOS

Capítulo 1

O CREPÚSCULO

O principal propósito desta Quinta Parte é ilustrar o fato inevitável de


que, admitido que exista uma faculdade mental como a Consciência Cósmica
e que ela tenha sido produzida, como o foram as outras, por evolução
gradativa, devem existir mentes em todos os planos intermediários entre a
mera autoconsciência e a mais plena Consciência Cósmica até agora
produzida pela marcha da espécie humana para a frente e para o alto.

Se pensamos no advento do Sentido Cósmico como o nascer de um sol


na vida individual, torna-se claro, levando adiante a analogia como
provavelmente faremos, sem medo de erro material, que entre a relativa
escuridão da noite da mera autoconsciência e a luz do dia que é a Consciência
Cósmica deve existir um intervalo do que pode razoavelmente ser chamado
de crepúsculo - uma região em que o sol do Sentido Cósmico há de dar mais
ou menos luz, embora ainda não totalmente nascido, e em que talvez nunca
nasça totalmente na vida da pessoa. Esse crepúsculo é muitas vezes claramente
perceptível (como nos casos de Dante e de Behmen) nas vidas daqueles que
mais tarde se tomam completamente iluminados. Após uma iluminação
momentânea, também nos casos menores fica um brilho que dura anos, como
se o Sol, depois de aparecer por alguns momentos acima do horizonte,
permanecesse imediatamente abaixo deste, descendo muito vagarosamente,
tal como o Sol físico nas latitudes nórdicas por volta da época do solstício de
verão. Numa outra categoria de casos, a vida espiritual individual pode ser
comparada a um dia de invemo dentro do circulo ártico. O Sol se aproxima
vagarosamente do horizonte, sua trajetória inclinando-se gradualmente para
cima, até que a bola de fogo chega praticamente a tocar a borda da Terra,
passa vagarosamente pelo sudeste, pelo sul, pelo sudoeste, iluminando a
paisagem mas nunca mostrando sua face deslumbrante - efetuando uma
iluminação genuína mas sem se levantar totalmente - produzindo um brilho
de forte contraste com a escuridão da noite mas que é infinitamente pequeno
(em esplendor e especialmente em poder frutífero) em relação ao dos raios
solares diretos. Assim foi um dos casos mais notáveis desta Quinta Parte - o
de Richard Jefiferies.

Hoje, inúmeros homens e inúmeras mulheres devem estar vivendo nesse


crepúsculo. Sem dúvida muitos casos da chamada conversão são
simplesmente casos de ascensão espiritual, geralmente repentina, do nível
médio autoconsciente para a região de maior ou menor esplendor, conforme
a altitude alcançada, que se situa entre aquela autoconsciência e a Consciência
Cósmica. E se é aceita a opinião de Carlyle [59:150] - que está de pleno
acordo com o que sabemos da evolução mental - de que essa “conversão”,
especificamente, “não era conhecida dos antigos mas veio à luz pela primeira
vez em nossa era moderna”, não indica isto claramente uma ascensão
espiritual gradativa de uma vasta seção da mente humana? Casos de conversão
na juventude não são aqui observados. Estes são provavelmente, em geral se
não sempre, casos de ascensão espiritual mais ou menos repentina, dentro
da região estritamente pertencente à autoconsciência e, portanto, não nos
dizem respeito aqui. Mas os casos da chamada conversão aos trinta ou trinta
e cinco anos de idade (como o de C.G. Finney, capítulo 13, adiante) são em
si mesmos fenômenos mais impressionantes e são indubitavelmente, sempre
ou quase sempre, casos de ascensão à região que se situa além dos limites da
mente autoconsciente comum.

Uma palavra pode ser dita neste ponto para nos guardarmos contra uma
possível suspeita. Em nenhum caso o relator (a pessoa que teve a experiência)
foi induzido por alguma palavra ou por algum sinal. Cada um dos relatos
seguintes (assim como é claramente verdadeiro quanto aos que estão incluídos
na Parte IV), foi feito com absoluta espontaneidade, quase sempre sem
qualquer conhecimento dos fenômenos pertencentes a outros casos e
seguramente sem estar influenciado na narração por um conhecimento de
outros casos. Em vista da extraordinária uniformidade desses relatos (até
onde eles chegam) é importante que este fato seja claramente compreendido.
MOISÉS

Renan nos diz que os documentos mais antigos em que Moisés é


mencionado são de quatrocentos a quinhentos anos posteriores à data do
Exodo, época em que Moisés viveu, se é que ele viveu: “Les documents les
plus anciens sur Moïse sont postérieurs de quatre cents ou cinq cents ans à
l’époque ou ce personage a du vivre” [137:160]. Será que houve narrativas
escritas perdidas, mais antigas, nas quais se teriam baseado as que temos?
Ou teria o longo intervalo de mais de quatrocentos anos sido ligado por uma
ponte de tradição para fazer com que os relatos que temos tivessem algum
valor? E difícil dizer. Mas se nos atrevemos a acreditar que os incidentes da
história pessoal desse homem relatados no Êxodo são em qualquer sentido
confiáveis (naturalmente, não se pode esperar que sejam exatos), então temos
no grande legislador egípcio-israelita um provável caso de Consciência
Cósmica. O arbusto ardente que ele viu em Horeb, que não era consumido
pelo fogo, seria então a forma assumida na tradição pela luz subjetiva: “E
apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça;
e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia” [11:3:2],
E quanto à luz brilhando de sua face: “E aconteceu que, descendo Moisés do
monte Sinai (e Moisés trazia as duas tábuas do testemunho em sua mão,
quando desceu do monte), Moisés não sabia que a pele do seu rosto
resplandecia, depois que falara com ele. Olhando pois Arão e todos os filhos
de Israel para Moisés, eis que a pele do seu rosto resplandecia, pelo que
temeram de chegar-se a ele”[ll:34:29-30]. Esse resplandecer do rosto de
Moisés, quando ele desceu do Sinai, seria a “transfiguração” característica
da Consciência Cósmica.

Na época em que Moisés viu o “fogo”, parece que ele estava já casado e
tinha filhos [11:4:20], mas ainda era jovem, pois viveu e trabalhou por qua­
renta anos a partir daí. Parece provável que na época ele estivesse na idade
típica da iluminação, ou perto disto. A princípio ele ficou alarmado com o
“fogo”, ou a luz, como é comum: “E Moisés encobriu o seu rosto, porque
temeu olhar para Deus”[11:3:6]. “Quem sou eu, que vá a Faraó”[11:3:11]? —
assim como Maomé não confiou em si mesmo. A “voz” dando comandos
mais ou menos explícitos é um fenômeno comum. É duvidoso que essa voz
jamais seja ouvida com o ouvido exterior - talvez ocasionalmente, mais
provavelmente nunca. A luz é quase certamente sempre subjetiva e sem dúvida
a voz também. Mas com o Sentido Cósmico vem a consciência de certos
fatos e a impressão que se faz na pessoa é de que estes lhe foram transmitidos
e, se o foram, então o foram por alguém - alguma pessoa (mas, naturalmente,
não por um ser humano) - daí a voz de Deus para Moisés, a voz do Pai para
Jesus, a voz do Cristo para Paulo, a voz de Gabriel para Maomé, a voz de
Beatrice para Dante. Quem a pessoa pensou ter ouvido (na boca de quem o
ensinamento foi colocado), será suposto ou determinado pelos hábitos mentais
do sujeito, por sua idade e sua cultura.

Aquilo que então foi efetivamente “dito” a Moisés - se podemos acreditar


no relato - e ele parece digno de crédito - é (até onde o presente autor pode
julgar) exatamente o que lhe teria sido dito pelo Sentido Cósmico:
Especificamente, a unidade, o poder e a benevolência de Deus, e que ele
deveria trabalhar por seu povo. Parece além disto provável que veio a Moisés,
por volta da época da “sarça ardente”, uma grande expansão intelectual e
moral. As tábuas da lei (sem dúvida por ele compostas) provam isto - assim
como o reconhecimento de sua superioridade e autoridade, aparentemente
tão livremente aceitas por um povo não especialmente inclinado (assim
pareceria) a renunciar a suas próprias idéias e se colocar sob o controle de
um líder que não tinha jurisdição hereditária ou sacerdotal.

Quando o texto acima já havia sido escrito, o autor recebeu uma carta de
C. M. C., cujo caso está incluído neste livro (Capítulo 29), na qual ela descreve
uma experiência tão parecida com a da “sarça ardente” que é impossível
resistir à tentação de citá-la. Diz ela: “Duas senhoras amigas e eu estávamos
viajando poucos dias atrás. Era uma manhã muito bonita, perfeita. Quando
estávamos seguindo uma estrada sombria no campo, saímos da carruagem
para apanhar ásteres púrpuras que floresciam em toda sua perfeição às
margens da estrada. Eu estava numa disposição de espírito estranhamente
jubilosa - toda a natureza parecia doce e melancólica. Os ásteres nunca
tinham me parecido tão belos. Olhei para os grandes maços que havíamos
colhido com crescente espanto por seu brilho e passou-se algum tempo até
que me dei conta de que isto era incomum. Mas logo percebi que estava
vendo a aura das flores. Uma luz maravilhosa resplandecia de cada pequena
pétala e flor e o seu todo era uma chama esplendorosa. Eu tremi de êxtase -
era uma “sarça ardente”. Não há como descrever. As flores pareciam jóias
ou estrelas, da cor da ametista, tão claras e transparentes, tão firmes e intensas,
um sutil brilho vivo. O véu quase se rompeu; talvez nem tanto, ou eu as teria
visto sorrindo, conscientes e olhando para mim. Que momento foi aquele!
Sinto um calafrio quando penso nele”.
GIDEÃO,
(Apelidado Jerubbaal)

Décimo terceiro século a.C.

Então o anjo do Senhor veio, e assentou-se debaixo do carvalho que está em


Ofra, que pertencia a Joás, abiezrita; e Gideão, seu filho, estava malhando o trigo no
lagar, para o salvar dos midianitas. Então o anjo do Senhor lhe apareceu, e lhe disse:
O Senhor é contigo, varão valoroso. Mas Gideão lhe respondeu: Ai, senhor meu, se
o Senhor é conosco, por que tudo isto nos sobreveio? e que é feito de todas as suas
maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Senhor subir do
Egito? Porém agora o Senhor nos desamparou, e nos deu na mão dos midianitas.
Então o Senhor olhou para ele, e disse: Vai nesta tua força e livrarás a Israel da mão
dos midianitas; porventura não te enviei eu? E ele lhe disse: Ai, senhor meu, com
que livrarei a Israel? eis que o meu milheiro é o mais pobre em Manassés, e eu o
menor na casa de meu pai. E o Senhor lhe disse: Porquanto eu hei de ser contigo, tu
ferirás aos midianitas como se fossem um só homem. E ele lhe disse: Se agora tenho
achado graça aos teus olhos, dá-me um sinal de que és o que comigo falas. Rogo-te
que daqui te não apartes, até que eu venha a ti, e traga o meu presente, e o ponha
perante ti. E disse: Eu esperarei até que voltes. E entrou Gideão e preparou um
cabrito e bolos asmos duma efa de farinha; a carne pôs num açafate e o caldo pôs
numa panela; e trouxe-lho até debaixo do carvalho, e lho apresentou. Porém o anjo
de Deus lhe disse: Toma a carne e os bolos asmos, e põe-nos sobre esta penha e verte
o caldo. E assim o fez. E o anjo do Senhor estendeu a ponta do cajado, que estava na
sua mão, e tocou a carne e os bolos asmos; então subiu fogo da penha, e consumiu a
carne e os bolos asmos; e o anjo do Senhor desapareceu de seus olhos. Então viu
Gideão que era o anjo do Senhor; e disse Gideão: Ah, Senhor, Jeová, que eu vi o anjo
do Senhor face a face. Porém o Senhor lhe disse: Paz seja contigo: não temas, não
morrerás. Então Gideão edificou ali um altar ao Senhor, e lhe chamou, Senhor é paz;
e ainda até ao dia de hoje está em Ofra dos abiezritas [12:6:11-24],

Se o comentário de Renan sobre a vida desse homem fosse considerado


seriamente, dele faria, se não um grande caso, de qualquer modo um caso de
Consciência Cósmica. Diz ele: “Circunstâncias que ignoramos inclinaram-
no à adoração exclusiva de Jeová. Esta conversão foi atribuída a uma visão e
é possível que no caso de Gideão, como no de Moisés, uma experiência
sensorial possa ter intervindo. Parece que teria ocorrido a ele uma das
aparições de chama em que se supõe que Jeová Se revelava”[137:320].

Nada de definido pode ser dito neste caso. A idade de Gideão na ocasião
não é conhecida. A luz subjetiva (se ele a vivenciou), sua conversão repentina
de um plano religioso inferior para outro superior (o que parece bastante
certo), sua rápida elevação na estima de seus compatriotas, sua vida longa e
estrénua, seu claro reconhecimento de Deus, sua recusa em reinar em qualquer
outro sentido que não o de agente de Jeová - tudo isto indica a possibilidade
de sua iluminação.
ISAÍAS

Tinha “o maior dos profetas hebreus” o Sentido Cósmico? Não parece


improvável. Como Isaías viveu e escreveu durante trinta e nove anos após
sua “visão”, poderia facilmente ser que ele estivesse com pouco mais de
trinta anos na época - isto é, no ano da morte de Uzias, 740 a. C. A visão
propriamente, tal como ele a descreve, sugere iluminação - o advento da
Consciência Cósmica. Escreve Isaías:

N o ano em que morreu o rei Uzias, Os pontos principais a serem notados são:
eu vi ao Senhor assentado sobre um alto (1) Ele viu Deus. (2) Ele viu que Deus é o
e sublime trono, e o seu séquito enchia o Cosmo. (3) A expressão “a casa se encheu de
templo. Os serafins estavam acima dele; fu m o ” deveria (se a hipótese é correta) de
preferência ser “de luz” ou “de chamas”, pois
cada um tinha seis asas: com duas
deveria se referir à luz subjetiva; mas parece
cobriam os seus rostos, e com duas
duvidoso que a palavra hebraica Ashan possa
cobriam os seus pés e com duas voavam. significar “luz” ou “chama”. Se, entretanto, está
E clamavam uns para os outros, dizendo: filologicamente ligada à palavra sânscrita
Santo, santo, santo é o Senhor dos Arman, deve ser suscetível de interpretação
Exércitos; toda a terra está cheia da sua análoga. (4) Ele perde o senso do pecado.
glória. E os umbrais das portas se
moveram com a voz do que clamava, e a casa se encheu de fumo. Então disse eu: Ai
de mim, que vou perecendo porque eu sou um homem de lábios impuros, e habito no
meio dum povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos!
Mas um dos serafins voou para mim trazendo na sua mão uma brasa viva, que tirara
do altar com uma tenaz; E com ela tocou a minha boca, e disse: Eis que isto tocou os
teus lábios; e a tua iniqüidade foi tirada, e purificado o teu pecado. Depois disto ouvi
a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu:
Eis-me aqui, envia-me a mim. [Isaías, 6: 1-8]
O CASO DE Lí R.

Lí R, comumente chamado Lâo-tsze (o velho filósofo), nasceu por volta


de 604 a.C., em Honan, China. Durante parte de sua vida, talvez uma grande
parte, foi curador da Biblioteca Real. Kung-fu-tse (Confucio) visitou Li em
517, quando ele (Lí) tinha oitenta e oito anos. Durante sua conversa, Li
disse a Kung: “Os homens de quem falais estão mortos e seus ossos reduzidos
a pó; restam apenas suas palavras. Além disto, quando o homem superior
tem sua oportunidade ele alça vôo; mas quando o tempo está contra ele, é
levado pela força das circunstâncias. Ouvi dizer que um bom mercador,
embora tenha ricos tesouros guardados em segurança, apresenta-se como se
fosse pobre, e que o homem superior, embora sua virtude seja completa, é
em aparência exterior um tolo. Abandonai vosso ar orgulhoso e muitos desejos
- vosso hábito insinuante e vossa vontade indomada. Estas coisas não são de
nenhuma vantagem para vós; isto é tudo que tenho a vos dizer”. Consta que
Kung teria dito a seus discípulos após essa entrevista: “Sei que os pássaros
podem voar, os peixes nadar e os animais correr. Mas o corredor pode ser
apanhado numa armadilha, o nadador fisgado e o voador atingido por uma
flecha. Mas há o dragão: Não vos posso dizer como ele monta o vento, através
das nuvens, e se alça no céu. Hoje vi Lâo-tsze e só posso compará-lo ao
dragão” [166:34], Parece ter sido após esta reunião que Lâo-tsze escreveu
seu livro sobre o Tâo e seus atributos, em cinco mil caracteres. Diz-se que
após escrever o livro ele foi para o noroeste. Não se sabe quando ou onde
faleceu.

Que é esse Tâo? Diz-se que mantém jovens as pessoas que o possuem.
Diz-se que a um famoso taoísta, um velho, foi perguntado: “Sois velho, senhor,
mas vossa pele é como a de uma criança; como é isto?” E a resposta foi:
“Familiarizei-me com o Tâo” [166:34], Na primeira tradução do Tâo Teh
King para qualquer idioma ocidental, Tâo é tomado no sentido de Ratio, ou
a Suprema Razão. A descrição de Abel Remusat, do caractere Tâo, é: “Não
me parece possível traduzir esta palavra senão por Logos, no tríplice sentido
de Soberano Ser, Razão e a Palavra.” O sucessor de Remusat na cadeira de
Chinês em Paris, Stanislau Julien, que fez uma tradução do Tâo Teh King,
decidiu que era impossível compreender por Tâo Razão Primordial ou
Inteligência Sublime e concluiu que o Tâo era desprovido de ação, de
pensamento, de julgamento e de inteligência - na verdade, ele parece (sem
assim dizer) ter tomado a palavra como sinônima (como sem dúvida ela é)
de Nirvana [166:12], Finalmente, ele a traduz como “um caminho” ou “o
caminho”, no sentido de “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, e assim,
por outro lado, ela se torna sinônima de “Cristo”, de “Nirvâna”e de
Consciência Cósmica.

Lâo-tsze fala de certos resultados que fluem do cultivo do Tâo e, se


compreendemos corretamente sua linguagem, verificamos que ela se aplica
àqueles que têm o Sentido Cósmico. Diz ele: “Aquele que é hábil em
administrar sua vida viaja por terra sem ter de se esquivar de rinocerontes ou
tigres e entra num exército sem ter de evitar armadura de couro ou armas
afiadas. O rinoceronte não encontra nele um lugar onde fazer entrar seu
chifre, nem o tigre um lugar onde fixar suas garras, nem a arma um lugar
onde inserir sua ponta. E por que razão? Porque não há nele nenhum lugar
de morte”. E também: “Aquele que tem em si abundantemente os atributos
(do Tâo) é como uma criança. Insetos venenosos não o picarão; bestas ferozes
não o pegarão; aves de rapina não o atacarão” [166:25],

Voltemos aos nossos próprios tempos, aqui na América do Norte, para


ilustrar esta passagem: O autor deste livro viu Walt Whitman, em Long
Island, New York, permanecer numa varanda durante toda uma longa tarde
de verão, com o ar literalmente carregado de mosquitos. Estes investiam
sobre ele em grande número, mas ele não parecia notá-los. De vez em quando
abanava um leque de folhas de palmeira, que segurava em sua mão, mas não
o usava e nem sua outra mão para espantar ou matar os mosquitos. Não
parecia estar sendo picado ou de qualquer modo incomodado por aquelas
pequenas criaturas que estavam deixando as demais pessoas ali presentes
quase loucas. É bem sabido que Walt Whitman andou livre e impunemente
durante anos, entrando e saindo como lhe dava na telha, entre as pessoas
mais perigosas de New York. Nunca se disse que ele tivesse sido molestado
ou mesmo que lhe tivessem falado de maneira rude. Quanto à vida do
possuidor do Tâo (se isto é Consciência Cósmica) ser indestrutível por tigres
ou outros animais selvagens, ou por homens armados, esta é a pura verdade.

Diz-se também do Tâo que “sua mais alta excelência é como a da água.
A excelência da água se manifesta no benefício que traz a todas as coisas e
no fato de ela ocupar, sem se esforçar em fazer o contrário, o terreno mais
baixo que todos os homens abominam. Assim, (seu caminho) aproxima-se
do caminho do Tâo. Não há nada no mundo mais mole e fraco que a água e,
no entanto, para atacar as coisas firmes e fortes, nada tem primazia sobre
ela. Todas as pessoas do mundo sabem que o mole supera o duro e o fraco
supera o forte, mas ninguém é capaz de aplicar isto na prática” [166:30-1].

Assim, diz Whitman do Sentido Cósmico: “O mais comum, o mais barato,


o mais inferior, o mais fácil, sou Eu”. E também: “Não há nada mais mole,
mas ele forma um eixo para a roda do universo”.

Diz-se ainda que: “É jeito do Tâo agir sem (pensar em) agir, conduzir as
coisas sem (sentir) suas dificuldades, degustar sem discernir qualquer sabor,
considerar os pequenos como grandes e os poucos como muitos, e retribuir
ofensa com bondade” [166:31],

Seguem-se alguns trechos do livro de Li R, o Tâo Teh King, acompanhados


de passagens paralelas de dizeres ou escritos de outros homens dotados de
Consciência Cósmica:

Homens comuns parecem brilhantes (*1) “Contemplai estaface trigueira, estes olhos
e inteligentes e só eu pareço estar em tre­ cinzentos,
vas. Eles parecem cheios de discernimen­ Esta barba, branca lã sobre o meu pescoço
to e só eu sou obtuso e confuso. Pareço pendendo,
Minhas bronzeadas mãos e o meu jeito
ser levado como que pelas correntes do
silencioso, sem charme”[193:105].
mar, carregado como se não tivesse lugar
para descansar. Todos os homens têm (*2) “As raposas têm covis, e as aves do céu
suas esferas de ação, ao passo que só eu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem
pareço apático e incapaz como um rude onde reclinar a cabeça” [14:8:20],
habitante de fronteira. (Assim) só eu sou
diferente dos outros homens, mas valorizo a mãe que acalenta (o Tâo) [166:63], (* 1
e *2)

O parcial se toma completo; o curvo, (*3) “O criminoso sai da prisão, o insano se


reto; o vazio, cheio; o gasto, novo. Aquele torna são... a garganta que estava muda
cujos (desejos) são poucos os consegue; fala, os pulmões do tuberculoso são recuperados,
a pobre cabeça aflita é libertada” [193:332],
aquele (cujos) desejos são muitos perde
seu rumo [166:65] (*3).

O Tâo, considerado como imutável, não tem nome. Embora em sua primordial
simplicidade ele possa ser pequeno, o mundo inteiro não se atreve a lidar com (a
pessoa que incorpora) ele como um ministro. Se um príncipe feudal ou rei pudesse
guardá-lo ou segurá-lo, todos se subme­ (*4) “É como um grão de m ostarda, que,
teriam espontaneamente a ele. Céu e terra quando se semeia na terra, é a mais peque­
(sob sua orientação) unem-se e fazem na de todas as sementes que há na terra; mas,
tendo sido semeado, cresce; e faz-se a maior de
descer o doce orvalho, que, sem as ins­
todas as hortaliças, e cria grandes ramos, de tal
truções dos homens, alcança igualmente
maneira que as aves do céu podem aninhar-se
todo lugar, como por sua livre vontade debaixo da sua sombra.” [15:4:31-32]
[166:74] (*4).

Naquele que segura em suas mãos a Grande Imagem (do Tâo invisível) o mundo
inteiro atenta. Os homens a ele apelam e não recebem nenhum dano mas (encontram)
descanso, paz e o sentimento de tranqüilidade. Música e manjares farão o visitante
passageiro parar (por um lapso de tempo).
(*5) “O homem natural não compreende as
Mas embora o Tâo, assim como vem da
coisas do espírito de Deus (do Sentido Cós­
boca pareça insípido e não tenha sabor, mico), porque lhe parecem loucura” [20:2:14],
embora pareça não merecer ser contem­ Os ensinamentos do Sentido Cósmico são sempre
plado ou escutado, o uso dele é inexau­ sem gosto, a princípio insípidos, mas seu uso “é
rível [166:77] (*5). inexaurível”.

Sem passar de sua porta, a pessoa (*6) “Em vão a contenção ou timidez.,
entende (tudo que acontece) sob o céu; Em vão objetos se põem a léguas de distância
sem olhar para fora de sua janela, a e múltiplas formas assumem”[193:54].
pessoa vê o Tâo do céu. Quanto mais
(*7) “Um minuto apenas de vós faço uso,
longe a pessoa sai (de si mesma), menos
depois de vós desisto, garanhão,
sabe [166:89], (*6 a *9)
Por que necessito de vossos passos, quando eu,
eu mesmo, mais rápido vou que eles?
Mesmo quando parado estou, de pé ou sentado,
mais célere passando do que vós” [193:55],

(*8) “Aquilo que é o mais comum, o mais barato, o mais inferior, o mais fácil, sou Eu” [193:39],

(*9) Procurareis muito longe? Com certeza afinal voltareis” [193:175],

Aquele que consegue para si mesmo (*10) “Não ver nenhuma posse senão a que
tudo sob o céu, assim o faz não se dando possas ter, de tudo usufruindo sem labuta ou
a nenhum trabalho (com esta finalidade). compra, abstraindo a festa sem no entanto uma
só partícula dela abstrair,
Se alguém se dá a trabalho (com esta
Pegar o melhor da fazenda do fazendeiro e da
finalidade), não consegue para si mesmo elegante vila do homem rico, e as castas bênçãos
tudo sob o céu [166:90] (*10). do casal bem casado e as frutas dos pomares e
as flores dos jardins,
Aquele que em si mesmo tem abun­ As mentes dos homens de seus cérebros colher,
de seus corações o amor” [193:127],
dantemente os atributos (do Tâo) é como
uma criança. Insetos venenosos não o (*11) “Qualquer que não receber o reino de
picarão; aves de rapina não o atacarão Deus como um menino, de m aneira
[166:99] (*11). nenhuma entrará nele” [ 15:10:15].
Aquele que conhece (o Tâo) não (se (*12) É curioso que os homens dotados de
preocupa) em falar (a respeito dele); Consciência Cósmica não falem dela.
aquele que está (sempre pronto) a falar a Anos atrás, quando este autor era mais íntimo
de Walt Whitman do que jamais fora de seus
respeito dele não o conhece. Aquele (que
irmãos, procurou arduamente fazer com que
o conhece) manterá sua boca fechada e Whitman lhe dissesse algo a respeito (pois sabia
fechará os portais (de suas narinas). Rom­ bem que havia algo especial a dizer e Whitman
budas fará suas pontas aguçadas e as sabia que ele sabia), mas nunca conseguiu extrair
complicações das coisas desembaraçará; uma palavra do poeta. Esses homens a colocam
seu brilho moderará e se harmonizará em seus escritos de maneira impessoal, mas difi­
com a obscuridade (de outros). Isto é cha­ cilmente falam face a face de suas experiências
pessoais; estas são por demais sagradas para
mado “o Acordo Misterioso” . (Tal ser)
serem tratadas dessa maneira.
não pode ser tratado com intimidade nem
friamente; ele está além de lucro ou prej z.o - de nobreza ou baixeza; é o homem
mais nobre sob o céu [166.100] (*12).

(Suas) admiráveis palavras podem (*13) “Então Pedro, aproximando-se dele,


comprar a honra; (seus) admiráveis feitos disse: Senhor, até quantas vezes pecará
podem elevar seu realizador acima dos meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até
sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete,
outros. Mesmo homens que não são bons
mas, até setenta vezes sete” [14:18:21-22].
não são abandonados por ele [166:105]
(*13). (*14) Eu, porém, vos digo: Amai a vossos
inimigos, bendizei os que vos maldizem,
fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que
(E jeito do Tâo) agir sem (pensar
vos maltratam e vos perseguem”[14:5:44].
em) agir; conduzir as coisas sem (sentir)
suas dificuldades; degustar sem discernir qualquer sabor; considerar os pequenos
como grandes e os poucos como muitos; : retribuir ofensa com bondade [166:106]
(*14).

Para que os rios e os mares possam receber a homenagem e o tributo de todas as


correntes do vale, têm a habilidade de estarem mais baixos que elas; é assim que
eles são os reis delas todas. Assim é que , . . .
, (15) Iodo aquele que quiser entre vos tazer-
o sabio (o g o v ern an te), desejando estar segrandesejavossose™Çal”[14:20:26].
acim a dos h o m en s, pelas suas palavras
se coloca abaixo deles e, desejando estar à frente deles, coloca sua pessoa atrás deles
[166:109] (*15).

O mundo inteiro diz que, embora meu (*16) Considerem-se e comparem-se as vidas
Tâo seja grande, mesmo assim parece ser e os ensinamentos de Gautama, Jesus,
inferior (a outros sistemas de ensinamen­ Paulo, Whitman, Carpenter e praticamente todos
os grandes casos.
to). Mas é justamente sua grandeza que
o faz parecer inferior. Se ele fosse como qualquer outro (sistema), há muito tempo
sua pequenez teria sido conhecida! (*16)
Mas eu tenho três coisas preciosas, que prezo e guardo cuidadosamente. A primeira
é docilidade; a segunda é economia e, a terceira, abster-me de ter precedência sobre
os outros.

Com essa docilidade posso ser audaz; com essa economia posso ser liberal;
abstendo-me de ter precedência sobre os outros posso me tomar um recipiente da
mais alta honra. Hoje em dia, as pessoas rejeitam a docilidade e são todas pela
audácia; a economia, e são todas pela liberalidade; o último lugar, e só procuram ser
as primeiras; (de todas elas o fim é) a morte [166:110].

Palavras sinceras não sâo delicadas; (* 17) “A lógica e os sermões jamais


palavras delicadas não são sinceras; aque­ convencem” [193:53],
les que sâo hábeis (no Tâo) não discutem
(a respeito dele); os que discutem não sâo (* 18) “Não posso passar o tempo
em conversa.”
hábeis nele. Aqueles que conhecem (o
No círculo social culto fico constrangido
Tâo) não sâo altamente cultos; os alta­
e quieto, pois a cultura não me assenta”
mente cultos não o conhecem [166: 123] [193:249],
(*17 a *19).

(*19) “Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio” [20:3:18].
SÓCRATES

Tanto por suas qualidades morais quanto por seus dons intelectuais,
Sócrates parece estar cotado entre os homens mais destacados de toda a
história. Mas seria obviamente absurdo argumentar que, por causa destes
fatos, ele tivesse sido um caso de Consciência Cósmica, dado que entre as
características da Consciência Cósmica contam-se a elevação moral e a
iluminação intelectual. Xenofonte nos diz que Sócrates afirmava que “recebia
sugestões de um Deus” [201:350], Diz ele que “Sócrates fora admirado acima
de todos os homens pela jovialidade e tranqüilidade com que vivera” [201:505]
e cita ainda Sócrates dizendo: “Eu não admitiria a qualquer homem que ele
tivesse vivido melhor ou com mais prazer do que eu” [201:506]. Estes indícios,
embora não sejam absolutos, sugerem fortemente que Sócrates tinha o Sentido
Cósmico. É bem sabido que ele tinha excepcional saúde e força física e parece
que por ocasião de sua morte, embora com mais de setenta anos de idade,
sua mente e seu corpo eram fortes como sempre. Parece também claro que
ele tinha uma forte convicção da imortalidade, embora isto talvez não
implicasse o senso da imortalidade que é próprio da Consciência Cósmica.
Seu otimismo, que é também uma das características do Sentido Cósmico,
não deve ser esquecido, nem sua atratividade pessoal, bem maior do que a da
média das pessoas. O fenômeno do “sinal”, da “voz”, do “deus”, do “gênio”
ou do “daimon”, segundo consta, data de seus primeiros anos.

Por outro lado, Lelut [88:313] remonta o que considera como a insanida­
de* de Sócrates ao assédio de Potidaea, 429 a.C., quando Sócrates teria cerca
de quarenta anos de idade. O que aconteceu nessa ocasião é relatado como
segue no Simposium [127:71]: “Certa manhã ele estava pensando em algo
que não conseguia resolver; não queria desistir e continuou pensando desde
o amanhecer até o meio-dia. Ali ficou ele de pé, absorto em seu pensamento
e, ao meio-dia, isto chamou atenção e pela multidão espantada correu o

* Pois Lelut é um caso típico de homem de “bom senso” e, para ele, todos os
místicos são lunáticos.
rumor de que Sócrates estivera de pé e pensando em alguma coisa desde o
raiar do dia. Finalmente, à tarde, após a ceia, alguns jônios, por curiosidade
(devo explicar que isto não aconteceu no inverno e sim no verão), trouxeram
suas esteiras e deitaram-se ao ar livre, a fim de que pudessem observá-lo e
ver se ele ficaria de pé a noite toda. E ele ficou ali, toda a noite até a manhã
seguinte; e, com o retomo da luz do dia, ofereceu uma prece ao Sol e seguiu
seu caminho”.

Mas, se aceitamos esta narrativa como fato, possivelmente preferiremos


a explicação que lhe dá Elam, ao invés da de Lelut. Ela é assim: “Não é
impossível que ele, que voltara as costas para um sistema estéril de filosofia,
obsoleto e batido, e que das profundezas de seu próprio pensamento eliminara
as grandes verdades da imortalidade da alma e a certeza de um estado futuro
de recompensas e punições; que de um politeísmo caótico chegara à crença
em Um Deus, o Criador e mantenedor de todas as coisas - não é impossível
que esse homem tenha ficado tão absorto e perdido na imensidão e profundeza
destas considerações que se tenha tomado insensível aos objetos ao seu redor,
mesmo por um tempo longo como o que foi aqui mencionado” [88:314],

Juntemos o testemunho de Balzac, em Louis Lambert [5:127], no qual é


descrito um estado análogo à catalepsia acompanhando a iluminação nesse
caso.

Se juntamos todos os fatos - a idade de Sócrates na ocasião, o caráter do


homem física, intelectual e moralmente - podemos não estar muito errados
se concluímos que ele pertenceu à categoria de homens de que trata este
livro.
ROGERBACON
1214-1294 (?)

Nem este nem qualquer outro homem deveria ser classificado entre os
membros da nova raça pelo fato de que tinha perspicácia extraordinária,
pois alguns dos maiores intelectos humanos estão claramente fora da Cons­
ciência Cósmica; nem qualquer desenvolvimento extraordinário daquela
faculdade, apenas, levaria um homem a esta consciência. Não é então devido
à sua inteligência, extraordinária como esta parece ter sido, que a questão
“foi Roger Bacon um caso de Consciência Cósmica?” é aqui levantada. Por
outro lado, infelizmente, nenhum detalhe, como iluminação instantânea ou
luz subjetiva, veio até nós como tendo ocorrido neste caso. Tudo que temos
são as referências de Bacon a um certo “Master Peter”, de quem ele recebeu
extraordinária assistência em seu trabalho filosófico. E a questão é: não guar­
dará esse Master Peter [“Mestre Pedro”] a mesma relação para com Bacon
que Cristo para com Paulo, Beatrice para com Dante, Seraphita para com
Balzac, Gabriel para com Maomé? Pois nunca devemos esquecer a qualidade
essencial da mente Cosmicamente Consciente.
Esse, então, segundo Charles [58], era o estado de coisas entre Bacon e
Master Peter. Que cada qual julgue por si mesmo quem ou o que possa ter
sido Master Peter. Charles estivera falando da agitação intelectual e da vida
da época e prossegue: “Em meio a tudo isso, sob que bandeira lutará o estudan­
te de Oxford? Qual mestre escolherá ele entre tantos ilustres doutores? Ele
contempla em seu foco mais brilhante essa ciência de que seus contemporâ­
neos tanto se orgulham e o sentimento que tem não é de entusiasmo mas de
desdém. Escuta as mais eloqüentes vozes, mas para mestre escolhe, não um
Alexander de Hales, ou um Albert, mas uma pessoa obscura de quem a
história nada sabe. Aquela aparente renascença parece-lhe uma verdadeira
decadência. Para ele, aqueles dominicanos e franciscanos são homens igno­
rantes quando comparados com Robert de Lincoln e seus amigos e, os moder­
nos, geralmente bárbaros em contraste com os gregos e os árabes. A experiên­
cia, assim pensa ele, vale mais que todos os escritos de Aristóteles, e um
pouco de gramática e matemática é mais útil que toda a metafísica das escolas.
Assim aplicou-se ele apaixonadamente a essas ciências desdenhadas. Apren­
deu árabe, grego, hebraico, caldeu - quatro idiomas - numa idade em que
Albert sabia somente um deles e em que São Tomás se satisfazia em usar as
más traduções de William de Morbeke. Lê com avidez os livros dos antigos,
estuda matemática, alquimia, óptica. Antes de reformar a educação de sua
época, reconstrói sua própria educação e para este fim associa-se a matemáti­
cos e sábios obscuros, de preferência aos mais renomados filósofos. Alexander
de Hales não lhe inspira outra coisa que não desdém. Albert, a seus olhos, é
ignorante e presunçoso e, sua influência, fatal para a época sobre a qual
estende sua ascendência. Só William of Auvergne merece respeito. Os amigos
que ele valoriza são pessoas menos celebradas - William of Shirwood, segundo
ele muito mais preparado que Albert; Campano de Novarre, matemático e
aritmético; Nicolas, tutor de Amansy de Monfort; John of London, que Jeff
acredita ser John Peckham e, acima de todos, o mais desconhecido, segundo
ele o mais preparado de todos os homens daquele tempo, aquele a quem
venera como seu mestre, admira como exemplo vivo da verdadeira ciência e
que chama de “Master Peter”.

“A julgar pelo retrato que Bacon fez dela, trata-se de uma pessoa singular.
Master Peter é um solitário, tão empenhado em evitar fama como outros em
procurá-la; esforçando-se para velar e esconder sua ciência aos homens e
que a eles recusa a verdade que não são dignos de receber. Master Peter não
pertence a nenhuma das poderosas ordens eclesiásticas da época; não ensina
e não deseja nem estudantes nem admiradores; foge da importunação do
vulgo. E orgulhoso e ao seu desdém do povo une uma fé imensa em si mesmo.
Vive isolado, contente com a riqueza mental que possui e que poderia multipli­
car muitas vezes se assim desejasse. Se se dignasse a ocupar uma cátedra de
professor, o mundo inteiro viria a Paris para ouvi-lo; se quisesse chegar-se a
algum soberano, nenhum tesouro poderia pagar o valor de sua maravilhosa
ciência. Mas ele despreza a massa composta de loucos corrompidos com as
sutilezas da lei, charlatães que por seus sofismas desonram a filosofia, tomam
a medicina ridícula e falsificam a própria teologia. Os mais esclarecidos
dentre eles são cegos ou, se fizessem vãos esforços para usar seus olhos, a
verdade os ofuscaria. Eles são como morcegos no crepúsculo - quanto menos
luz, tanto melhor podem enxergar. Somente ele olha diretamente para o sol
radiante. Escondido num retiro que lhe dá segurança com silêncio, Master
Peter deixa a outrem longos discursos e a guerra de palavras, para se entregar
ao estudo de química, das ciências naturais, da matemática, da medicina e,
acima de tudo, à experiência, cuja importância, em sua época, somente ele
compreende. Seu discípulo o cumprimenta pelo nome dqMaster ofExperience
[“Mestre da Experiência”], que em seu caso substitui os títulos sonoros e
ambiciosos dos outros doutores.

“A experiência lhe revela os segredos da natureza, a arte de curar, fenô­


menos celestes e sua relação com os da Terra; ele não desdenha nada e não
se furta a aplicar a ciência às realidades da Terra comum; ficaria encabulado
se encontrasse um leigo, uma senhora de idade, um soldado ou um camponês
mais bem informados do que ele em assuntos que dissessem respeito a cada
um deles.

“Fundir e forjar metais, manipular prata, ouro e todos os minerais*, inven­


tar instrumentos mortais de guerra, novas armas, fazer uma ciência da
agricultura e do trabalho dos rústicos, não negligenciar a prospecção nem a
arte de construir, buscar com diligência a base da verdade oculta mesmo sob
os encantamentos do feiticeiro, sob as imposturas e os artifícios de
prestidigitadores - este é o trabalho a que devotou sua vida. Ele examinou
tudo, aprendeu tudo, separou em toda parte o verdadeiro do falso e, através
de um deserto vazio e estéril, descobriu uma rota praticável. Acaso deseja-se
acelerar o progresso da ciência? Aí está o único homem à altura da tarefa. Se
ele decidisse divulgar seus segredos, reis e príncipes o coroariam com honras
e prêmios e, numa expedição contra os infiéis, ele prestaria mais serviço a
São Luís do que a metade, ou mesmo todo o seu exército.**

“Foi com esse grande desconhecido, esse gênio não descoberto, cujo nome
ficou sem registro na história da ciência, que (segundo ele) Bacon aprendeu
línguas, astronomia, matemática, ciência experimental, tudo enfim que ele
sabia. Em comparação com esse Master Peter, os estudantes, os professores,
escritores, mestres, pensadores das universidades, eram obtusos, lerdos, insen­
satos [compare-se com Paulo, Bacon, Behmen, Maomé; é realmente um depoi­
mento universal que, quando o Sentido Cósmico aparece, a sabedoria da
autoconsciência é reduzida a pó e cinzas], A devoção de Bacon para com seu
desconhecido mestre deveria resgatar este último da obscuridade em que
está sepultado, mas parece impossível identificá-lo entre o número infinito
de sábios do mesmo nome que podem ser encontrados nos catálogos” [58:14
et seq.].

* “N o trabalho com máquinas e no comércio, como no trabalho do campo, encontro


os desenvolvimentos e encontro os eternos significados”[193:169],

** O relato acima sobre Master Peter foi colhido por Charles de Opus Tertium,
Opus Minus, de De Septem Peccatis e de outras obras, todas de Bacon.
BLAISE PASCAL
1623-1772

Nasceu em 19 de junho de 1623. Como criança, menino e jovem, foi


extraordinariamente precoce - neste particular comparável a Bacon. Consta
que, embora seus pais tentassem restringir seu desenvolvimento mental, “aos
dez anos ele tinha proposto uma teoria acústica mais avançada do que os
conceitos então em vigor; aos doze tinha desenvolvido a geometria partindo
de suas próprias reflexões; e aos quinze compôs um tratado sobre seções
cônicas que Descartes se recusou a acreditar que tivesse procedido de uma
mente tão jovem” [88:329],

A saúde de Pascal foi durante toda a sua vida delicada. Ele foi provavel­
mente sempre um homem perfeitamente moral, embora fosse afeiçoado à
alegria e aos prazeres sociais de seu tempo e de seu país.

Durante toda sua vida deu evidência abundante de que possuía a um grau
incomum a honestidade mental e a verve que sempre parecem próprias
daqueles que alcançam o Sentido Cósmico.

Em novembro de 1654, com a idade de trinta e um anos e meio, aconteceu


algo que alterou radicalmente a vida de Pascal. A partir desta data ele
praticamente abandonou o mundo e se tornou, assim permanecendo até sua
morte, notadamente religioso e caritativo. Mas a partir daquela data sua
vida passou a ser muito isolada e poucos detalhes parecem ser conhecidos.

Brilhante como era seu intelecto antes de novembro 1654, tornou-se ainda
mais brilhante depois. Por volta de um ano após essa data, começou a escrever
Cartas Provinciais e mais tarde seus Pensées [“Pensamentos”], sendo que
ambos estes trabalhos (embora o segundo seja apenas uma série de notas
para escrever um livro) mostram qualidades mentais extraordinárias. Pode-
se dizer com segurança que ele não poderia ter escrito nem um nem o outro
antes da data acima.
Alguns dias após a morte de Pascal, um criado sentiu, casualmente, algo
duro e grosso sob o tecido de seu gibão. Cortando a costura nessa área,
encontrou um pergaminho dobrado e, dentro deste, um papel dobrado. Ambos
tinham algo escrito com a caligrafia de Pascal, cujas palavras são aquelas
que aqui apresentaremos. O pergaminho e o papel foram entregues à irmã
de Pascal, Madame Périer, que os mostrou a alguns amigos. Todos perceberam
de imediato que aquelas palavras, assim escritas por Pascal em duplicata e
por ele preservadas com tanto cuidado e tanta preocupação (transferindo-as
ele próprio, como o fez, de gibão para gibão), deviam ter tido a seus olhos
um significado profundo. Algum tempo após a morte de Madame Périer
(que aconteceu vinte e cinco anos depois da morte de seu irmão), seus filhos
mostraram esses documentos a um frade que era um amigo íntimo da família.
Ele copiou o documento e escreveu algumas páginas de comentário sobre
ele, a que Marguerite Périer acrescentou mais algumas páginas. Esses
comentários estão agora perdidos, bem como o pergaminho. Mas a cópia em
papel, na escrita de Pascal, existe ainda na Bibliothèque Nationale de Paris.
Foi Cordecet quem deu ao documento o nome de “Amulette Mystique de
Pascal” [“Amuleto Místico de Pascal”] [112a: 156].

Traduzidas, as palavras do amuleto são as seguintes: “O ano da graça


1654, segunda-feira, 23 de novembro, dia de São Clemente, Papa e Mártir.
A partir de aproximadamente dez horas e meia da noite, até aproximadamente
meia-noite e meia, FOGO. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob,
não dos filósofos nem dos Sábios. Asseguramento, alegria, asseguramento,
sentimento, alegria, paz. DEUS DE JESUS CRISTO, meu Deus e teu Deus.
Teu Deus será meu Deus. Esquecido do mundo e de todos, exceto de DEUS.
Ele só é encontrado pelos meios ensinados no Evangelho. A SUBLIMIDADE
DA ALMA HUMANA. Justo PAI, o mundo não te conheceu, mas eu te
conheci. Alegria, alegria, alegria, lágrimas de alegria. Não me separo de ti.
Eles me deixaram para trás, eu, uma fonte de água viva. Meu Deus, não me
deixes. Que eu não seja separado de ti, eternamente. É vida eterna que eles
devam conhecer a ti, o único verdadeiro Deus e àquele a quem enviaste.
JESUS CRISTO - JESUS CRISTO. Separei-me dele; fugi, renunciei,
crucifiquei-o. Que eu não esteja para sempre separado dele. Só se é salvo
pelo ensinamento do Evangelho. DOCE E TOTAL RECONCILIAÇÃO. Total
submissão a JESUS CRISTO e a meu DIRETOR. Alegria contínua para os
dias de minha vida na terra. Não esquecerei o que me ensinaste. Amém.”*

* Lelut [112a: 154] dá as palavras exatas do amuleto, sua form a e seu arranjo,
como segue:
S j L 'c .
''/V ?

L’an de grâce 1654


Lundy 23e nov^re jour de S1 Clement
Pape et m. et autres au martirologe Romain
veille de St. Crisogone m. et autres, etc. . . .
Depuis environ diz heures et demi du soir
jusques environ minuit et demi.
FEU
Dieu d’Abraham. Dieu d’Isaac. Dieu de Jacob
non des philosophes et des savans
Certitude joye certitude, sentiment, veue joye paix.
Dieu de Jésus christ
Deum meum et Deum vestrum
Jeh. 20. 17.
Ton Dieu sera mon Dieu. Ruth.
Oubly du monde et de tout hormis Dieu
Il ne se trouve que par les voyes enseignées
dans l’Evangile. Grandeur de l’ame humaine.
Père juste, le monde ne t’a point
connu, mais je t’ai connu. Jeh. 17
Joye, joye, joye, et pleurs de jo y e ________________
Je m’en suis séparé_____________________________
Dereliquerunt me fontem aquae v ivae__________
mon Dieu me quitterez v o u s____________________
que je n’en sois pas séparé éternellement.

Cette est la vie éternelle qu’ils te connaissent


Seul vray Dieu et celuy que tu as envoyé
Jésus christ________________________
Jésus christ________________________
T , , je l’av fuy renoncé, crucifié
Je m en suis séparéJ J
que je n ’en sois jamais séparé_____________
Il ne se conserve que par les voyes ensignées
dans l’Evangile
Renonciation totale et douce ~ --------------- v M
Soûmission totale à Jésus christ et à mon Directeur. i
éternellement en joye pour um jour d’exercice sur la terre > I
non obliviscar sermones tuos. Amen. / I
Ninguém que tenha lido este livro até este ponto terá, creio eu, a menor
dúvida quanto ao significado das palavras do amuleto.

Evidentemente, a luz subjetiva foi fortemente acentuada. Imediatamente


em seguida vem o sentido de libertação, salvação, alegria, contentamento,
intensa gratidão. Depois a percepção da grandeza da alma humana,
imediatamente seguida do êxtase da percepção de Deus. Ele olha para trás e
percebe o quanto sua vida e suas ambições foram fúteis até então. Toma
então consciência de sua atual reconciliação com o cosmo e de que o resto de
sua vida deverá ser uma alegria contínua.

As palavras do amuleto, o cuidado e o sigilo com que ele foi preservado,


sua data relativamente à idade de Pascal, o esplêndido intelecto de Pascal e
seu caráter anterior até onde é conhecido por nós, a mudança em sua vida,
síncrona com a data do amuleto, sua exaltação moral e sua iluminação
intelectual a partir daquela data e depois dela; acima de tudo, a luz subjetiva,
que parece ter sido mais do que comumente acentuada e continuada por
mais tempo que usualmente, embora no caso de Juan Yepes se diga que
tenha durado uma noite inteira [112:108], Todos estes aspectos, tomados em
conjunto, tornam certo na mente do autor que Pascal foi um caso de
Consciência Cósmica. Naturalmente, tem sido dito de Pascal, como o foi de
Jesus, Paulo, Blake e outros, que ele era insano; mas eu não vejo nenhum
sinal de qualquer coisa desta espécie. As palavras do amuleto dão testemunho
de que foram escritas imediatamente após a iluminação (ao que parece, antes
de ele se deitar naquela noite). Elas são, portanto, até certo ponto incoerentes.
Dão testemunho de alegria, triunfo, iluminação, e não de doença. O homem
que as escreve apenas acabou de ver o Esplendor Bramânico e sentiu a Bem-
aventurança Bramânica. Só isso.
BENEDICTUS SPINOZA
1632-1677

Nasceu em Amsterdã, a 24 de novembro de 1632, filho de um judeu


português e ele próprio judeu até a idade de vinte e quatro anos, quando foi
“solenemente excluído da Comunidade de Israel” [87b:400]. Era um latinista
emérito e um entusiástico discípulo de Descartes, embora tenha deixado de
ser seu seguidor no final dos cinco anos de estudo e pensamento concentrado
que se seguiram à sua excomunhão. Este não é o lugar para insistirmos
quanto à grandeza de Spinoza, que aliás deve ser conhecida de todos que
lêem livros sérios.

Poucos modernos realmente têm sido tão endossados pelo discipulado de


grandes homens como ele - pelo de Goethe, por exemplo, de Coleridge, de
Novalis, Hegel, Lessing, Schelling, Scheiermacher e muitos outros. Isto é
tão verdadeiro que “se admite que Spinoza seja o fundador da filosofia
moderna” [133:372].

Não será possível mostrar que Spinoza tenha sido um caso de Consciência
Cósmica no mesmo sentido em que pode ser mostrado, por exemplo, que
Juan Yepes foi um caso; não temos os necessários detalhes de sua iluminação.
Tudo que podemos fazer é relatar os fatos de que dispomos e deixar o leitor
julgar por si próprio. Consideraremos primeiro a natureza de seu ensinamento
filosófico e depois os fatos de sua vida real. Verificaremos que ambos apontam
quase inevitavelmente para a mesma conclusão. Spinoza (por exemplo) “não
pode admitir que o pecado e o mal tenham qualquer realidade positiva, muito
menos que qualquer coisa aconteça contrariamente à vontade de Deus. Não
é apenas uma maneira inexata e humana de falar, dizer que o ser humano
pode pecar contra Deus e ofender a Deus” [133:47], E: “O Universo é regido
por leis divinas, que, ao contrário das que são feitas pelo homem, são
imutáveis, invioláveis e um fim em si mesmas e não instrumentos para se
alcançar objetivos particulares. O amor de Deus é o único verdadeiro bem do
ser humano. De outras paixões podemos nos livrar, mas não do amor,
porquanto pela fraqueza de nossa natureza não poderíamos subsistir sem o
gozo de alguma coisa que pudesse nos fortalecer por nossa união com ela.
Somente o conhecimento de Deus nos capacitará a dominar paixões
perniciosas. Este, como a fonte de todo conhecimento, é o mais perfeito de
todos; e, na medida em que todo conhecimento é derivado do conhecimento
de Deus, podemos conhecer Deus melhor do que conheçamos a nós mesmos.
Este conhecimento, no devido tempo, leva ao amor de Deus, que é a união
da alma com Ele. A união da alma com Deus é seu segundo nascimento e
nisto consistem a imortalidade e a liberdade do ser humano” [133:86]. A
última oração deste período, transcrito em itálico pelo autor deste livro, se
tomada absolutamente, decide a questão - pois a união da alma com Deus é
iluminação, é o segundo nascimento e nele estão a imortalidade e a liberdade.
E ele diz ainda: “O amor a uma coisa eterna e infinita alimenta a mente com
alegria pura e é completamente livre de tristeza; isto é algo a ser altamente
desejado e ardentemente procurado” [133:116], É a Bem-aventurança
Bramânica - a alegria que Whitman, Carpenter, Yepes e os demais nunca se
cansam de celebrar.

Então, mais adiante, ele nos diz que o bem principal é ser dotado de certo
caráter. “O que seja esse caráter, mostraremos em seu devido lugar - isto é,
que ele consiste no conhecimento da união que a mente tem com o todo da
natureza” [133:118], Mas esse conhecimento não existe àparte da iluminação,
enquanto, por outro lado, todos aqueles que entraram em Consciência
Cósmica o possuem. Assim, Spinoza, ao invés de procurar na maneira usual
uma explicação artificial para a correspondência de duas coisas assim
(aparentemente) diferentes, como o corpo e a mente, diz ousadamente que
“são a mesma coisa e diferem apenas como aspectos” [133:180]. Assim
Whitman (e todos os demais, em linguagem diferente): “Estava alguém pe­
dindo para ver a alma? Que veja sua própria forma e fisionomia, etc.” [193:25].
Assim, além disso, Spinoza mais de uma vez classifica as espécies de nosso
conhecimento de maneira a tomar necessária a inclusão do que é neste livro
chamado de intuição, que é a forma que pertence à mente Cosmicamente
Consciente e só a esta mente. Diz ele, por exemplo: “Podemos aprender
coisas (1) por ouvir dizer ou por alguma autoridade; (2) pela mera sugestão
da experiência; (3) por raciocínio; (4) por percepção completa e imedia­
ta” [ 133:119 e 188]. E diz também que este último modo de conhecer “procede
de uma idéia adequada da natureza absoluta de algum atributo de Deus para
um conhecimento adequado da natureza das coisas”. Isto é, o ser humano
entra em relação consciente com Deus (no ato da iluminação) e, através
desse contato - até onde ele alcança - tem um “conhecimento adequado das
coisas”. É duvidoso que qualquer ser humano meramente autoconsciente
pudesse ter usado esta linguagem, pois para um ser humano assim nada
parece mais absurdo que uma asserção de conhecimento por simples intuição
e, no entanto, nada é mais certo do que esse conhecimento seja assim
adquirido. O seguinte é igualmente característico: “Conhecer Deus - em
outras palavras, conhecer a ordem da natureza e encarar o universo como
ordenado - é a mais alta função da mente; e o conhecimento, como a forma
perfeita da atividade normal da mente, é bom em si mesmo e não como um
meio” [133:241], Se Spinoza quer dizer aqui (como parece provável que
queira) o mesmo que Balzac quando falou do especialismo, dizendo que “é o
único que pode explicar Deus”, então Spinoza foi um especialista. Assim,
quando ele diz que “o conhecimento claro e distinto de natureza intuitiva
engendra o amor a um ser imutável e eterno, verdadeiramente dentro de
nosso alcance”[133:268], ele implica em si próprio a posse da Consciência
Cósmica e ensina que ela está ao alcance de todos. Igualmente característico
é o seguinte: “Em todo conhecimento exato, a mente conhece a si mesma
sob a forma de eternidade; vale dizer, em todo ato desse gênero ela é eterna
e sabe que é eterna. Essa eternidade não é persistência no tempo após a
dissolução do corpo, assim como não é preexistência no tempo, pois não é
em absoluto comensurável com o tempo. E a ela está associado um estado ou
uma qualidade de perfeição denom inada o amor in te le ctu a l de
£>ews”[ 133:269], Spinoza, como Whitman, ensinava que “na verdade, não
existe o mal” [193:22]; diz ele: “A perfeição das coisas é para ser reconhecida
somente em função de sua própria natureza e seu poder; e as coisas não são
ali mais ou menos perfeitas conforme agradem ou desagradem ao sentido
dos seres humanos, ou sejam convenientes para a natureza do ser humano
ou a ela repugnantes. Se alguém pergunta por que Deus não criou todos os
seres humanos de modo que pudessem ser regidos somente pela razão, não
dou nenhuma resposta senão esta: Porque não lhe faltou matéria para criar
todas as coisas, mesmo desde o mais alto grau de perfeição até o mais baixo.
Ou mais exatamente assim: Porque as leis de sua própria natureza eram tão
vastas que eram suficientes para produzir todas as coisas que podem ser
concebidas por uma inteligência infinita”[133:327], Como observa Pollock,
esta é “uma mente infinita hipotética, que deve ser distinguida do intelecto
infinito, que conhecemos como uma das coisas imediatamente produzidas
por Deus” [133:328],

Finalmente, Spinoza resume tudo na seguinte nobre passagem: “Terminei


tudo que desejava explicar a respeito do poder da mente sobre as emoções e
a respeito da sua liberdade. Do que foi dito vemos qual é a força do sábio e
quanto ele ultrapassa o ignorante, que é impelido por desejo cego. Pois o
homem ignorante [a mente autoconsciente - compare-se Balzac - supra e
[5:144], onde ele classifica a mente humana como Spinoza o faz aqui] não
somente é agitado por causas externas de muitas maneiras e jamais goza da
verdadeira paz da alma, mas vive também na ignorância, por assim dizer,
tanto de Deus como das coisas e, tão logo cessa de sofrer, cessa também de
ser. Por outro lado, o sábio [o ser humano Cosmicamente Consciente], na
medida em que seja assim considerado como tal, raramente é movido em sua
mente, mas, sendo consciente de Deus e das coisas por certa eterna
necessidade de si mesmo, nunca cessa de ser e sempre desfruta a verdadeira
paz da alma. Se o caminho que leva a isso [isto é, à Consciência Cósmica]
como mostrei, parece muito difícil, ele pode não obstante ser encontrado.
Deve ser realmente difícil, visto que tão raramente é descoberto; pois se a
salvação estivesse à mão e pudesse ser descoberta sem grande trabalho, como
seria possível que fosse negligenciada quase por todo mundo? Mas todas as
coisas nobres são tão difíceis quanto são raras” [170a:283].

Agora, algumas palavras sobre as características pessoais do homem.


John Colerus, ministro da igreja Luterana em Haia durante um período de
residência de Spinoza nesta cidade, conheceu-o bem, e o que segue será
tirado em grande parte de sua narrativa, que está incluída no livro de Sir
FrederickPollock. Diz Colerus: “Spinoza tinha estatura média, boas feições,
pele escura, cabelos pretos ondulados, sobrancelhas pretas longas, de maneira
que se podia facilmente saber, por sua aparência, que ele era descendente de
judeus portugueses. Quanto a suas roupas, era muito descuidado; elas não
eram melhores do que as do mais humilde cidadão”[133:394].

Na verdade, Spinoza era muito pobre. Como Thoreau, Whitman,


Carpenter, Buda, Jesus e muitos outros homens de sua categoria, parecia
preferir a pobreza. Ganhava um sustento bastante simples polindo lentes
para telescópios. Várias vezes pessoas abastadas que o conheciam e que
gostavam dele lhe ofereceram dinheiro, mas ele sempre recusou, até que um
amigo, de Vries, de quem se recusara durante sua vida a aceitar dinheiro, ao
falecer encarregou seu irmão, que era seu herdeiro, de pagar a Spinoza, de
seus bens, uma manutenção adequada. O irmão quis pagar a Spinoza
quinhentos florins por ano, mas Spinoza só aceitou trezentos - cerca de
cento e cinqüenta dólares [87b:401], Spinoza viveu da maneira mais simples
possível e nunca se casou; viveu a maior parte de sua vida com outros, pagando
pensão; o resto do tempo viveu só em hospedarias, comprando o que
necessitava e mantendo-se muito isolado. “É difícil acreditar o quanto ele
era sóbrio e frugal todo o tempo. Não que estivesse reduzido a uma pobreza
tão grande que não tivesse condição de gastar mais se o quisesse. Tinha
amigos suficientes, que lhe ofereciam ajuda monetária e todo tipo de
assistência. Mas era naturalmente muito sóbrio e podia se satisfazer com
pouco, além de que não se importava que as pessoas pensassem que ele
tivesse vivido, mesmo que apenas uma vez, a expensas de outros homens. O
que digo a respeito de sua sobriedade e de sua capacidade de administrar sua
economia pode ser provado por uma série de pequenos cálculos que foram
encontrados entre seus papéis após sua morte. A julgar por esses cálculos,
parece que ele vivia um dia inteiro com uma sopa de leite com manteiga, que
custava três pence, e com uma caneca de cerveja de um penny e meio. No dia