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Roger Matthews, “Realist Criminology”

Sucessos e fracassos da Criminologia Moderna

Na elaboração de uma revisão sobre os desenvolvimentos da Criminologia,


David Downes sugere três mudanças centrais em sua natureza, no começo dos anos
1970: uma exigência pelas motivações do crime e do comportamento desviante, um
foco crescente na reação social e no processo de controle social, com destaque para o
papel da mídia, e, por fim, um progressivo interesse no estudo de “crimes de
ocupação”, como violência doméstica ou operações ocultas na economia.

O objetivo do capítulo é ater-se às recentes reclamações de que a Criminologia


estaria se tornando cada vez mais irrelevante, social e politicamente. Sim, pois uma
parte crescente da Criminologia seria descrita como a “so what? criminology”, em
razão de muitas publicações frágeis em teoria, fracas em metodologia e pouco
relevantes em termos políticos.

Na discussão sobre os valores e a posição tomada pelos pesquisadores nesse


campo, têm destaque as considerações de Alvin Gouldner. Para ele, o frequente foco
da Criminologia nos marginalizados seria motivado, majoritariamente, por uma
apreciação de seu sofrimento. Ao expor essa tendência, Gouldner contribui para firmar
uma agenda consistente para a criminologia realista, apontando que o processo de
despatologização do desvio acaba, por vezes, levando à sua romantização. Também
segundo a abordagem do realismo, Gouldner afirma que uma ciência social crítica
exige a possibilidade de transformações sociais. Para tanto, é preciso, em primeiro
lugar, considerar que uma ciência crítica envolve a identificação de certas questões,
como às ligadas a opressão, sofrimento ou discriminação. Em segundo, é preciso
identificar formas de resolver essas questões. Para tanto, é preciso desenvolver
alternativas viáveis, não bastando a noção do “não-finalizado”.

No mesmo sentido, Jock Young, em “A Criminologia da Classe Operária”, pede


por uma maior responsabilidade dos criminólogos, já que é preciso reconhecer as
consequências sociais e pessoais de certas condutas desviantes. Nesse sentido, é
categórico em afirmar que é irrealista sugerir que questões como roubos se reduzem a
pânico moral. Essa posição, inclusive, seria liberal e deixaria o campo de disputas
políticos aberto para o fortalecimento de campanhas conservadoras, já que, a despeito
dos muitos exageros e distorções, a realidade do crime nas ruas pode, sim, ser a
realidade de sofrimento humano e desastres pessoais. O desafio, então, é o de tecer
um controle social de forma estratégica.

Portanto, como também postulado por Ian Taylor, crime e punição devem ser
levados a sério pela esquerda, e não são pautas que podem ser deixadas aos
conservadores. De acordo com Elliott Curie, na mesma linha, é preciso um
aprofundamento e uma expansão da análise criminológica, que deve debruçar-se
sobre as raízes do crime e as formas de combate, sem deixar de abraçar princípios
democráticos na busca por justiça social.

Sobre a criminologia gerencialista e atuarial, Matthews expõe que não há


qualquer interesse na origem ou validade das sanções criminais, nem alguma
preocupação com o entendimento dos contextos sociais que ensejam a prática de
crimes. Além disso, na busca por dar respostas às preocupações mais imediatas dos
governos, há a mobilização de resumos sobre o que se sabe acerca das questões
discutidas para o desenvolvimento de políticas de controle da criminalidade. Na busca
por estratégias de redução dos patamares de criminalidade, as categorias e conceitos
mostram-se sempre vagos, e as conclusões frequentemente são equivocadas.

Por sua vez, o realismo de direita, ou “realismo ingênuo”, toma a categoria do


crime e o propósito do sistema de justiça criminal da forma como se apresentam.
Assim, com foco no que é imediatamente posto e evidente, essa corrente neo-
conservadora adota uma aproximação fundada no senso comum, tendo por isso a
vantagem de evitar quaisquer dificuldades na desconstrução de categorias e conceitos.
Dessa forma, não são dadas explicações sobre “raízes do problema” ou “estruturas
mais profundas”, como pobreza e desigualdade. Ao contrário, o foco é retido em
aspectos mais superficiais de crime e controle.

Evitando, com isso, questões conceituais, e engajando-se em “ir direto ao


ponto”, as políticas penais apresentadas por essa corrente por vezes têm voz na
academia e, também, na classe política e no público em geral. Dessa forma, o realismo
de direita é realista ao levar a criminalidade a sério e buscar sua redução, mas é
ingênuo ao conceber a realidade social como auto-evidente.

Sobre as dimensões da criminologia liberal, de forma semelhante ao realismo


de direita, também se observa a tendência de diminuição da gravidade de algumas
condutas delituosas, com o consequente desvio de atenção de seus impactos nos
setores mais vulneráveis da população. Para Matthews, apesar do interesse de liberais
em discutir os limites da reação social, a análise do crime em si acabou marginalizada.
Muito em razão disso, há poucos resultados na forma de intervenções ou propostas
concretas, que tendem, no limite, a permanecer irrelevantes. Noutra dimensão, do
humanismo liberal, novamente se configura a dificuldade em apreciar o papel das
estruturas políticas, econômicas e sociais na modulação de identidades.

A moldura de análise

O realismo, como já exposto, parte da premissa de a criminalidade deve ser


abordada de maneira séria, buscando identificar as causas e os impactos do crime,
especialmente nos setores mais vulneráveis da população. Sendo assim, diante do
aprofundamento das muitas crises da criminologia, a corrente pretende desenvolver
uma abordagem estruturada a partir de teorias consistentes e amparada em fatos. É,
enquanto tal, engajada politicamente e preocupada com as demandas da população
em geral. Por fim, e com maior destaque, tem por objetivo o desenvolvimento de uma
abordagem crítica que se opõe às manifestações do realismo ingênuo, que não situa o
crime enquanto um problema.

É preciso, portanto, ter bastante clareza sobre a noção de “crime”, uma vez que
qualquer inabilidade em lidar com o conceito revela uma falta de compreensão sobre
os papeis da teoria e da abstração. Dessa forma, compreender o significado das
categorias sociais e dos processos de classificação é fundamental para toda ciência
social. O método de abstração é visto como central para o realismo criminológico.

“Precisamos nos apoiar na abstração e na cuidadosa elaboração de


conceitos, na tentativa de abstrair os muitos componentes ou influências
em nossas mentes, e somente quando esse processo for finalizado e
pudermos considerar como esses fatores se combinam e interagem
poderemos esperar o retorno ao concreto e multifacetado objeto de
estudo, para então extrair dele algum sentido.”

Essas abstrações, então, têm por objetivo a identificação dos mecanismos e


significados particulares que se relacionam para explicar algum comportamento. Para
o realismo, existe um mundo social para além das mentes e percepções dos teóricos e,
porque as relações causais geralmente não são observáveis, é necessário recorrer a
conceitos e teorias capazes de explicar os processos em curso. Logo, a teoria jamais
deve ser concebida como um fim em si mesmo, mas como uma ferramenta de análise
de problemas sociais significativos, a partir do estabelecimento de molduras
consistentes para a investigação.

Mais uma vez, Matthews tece críticas ao realismo de direita, corrente que
conceberia como principal objetivo da criminologia o mero relato ou mapeamento da
criminalidade, sem nunca questionar qualquer categoria pré-observável. Os trabalhos
elaborados, assim, revelam-se pouco aprofundados e incursos nos significados de
categorias essenciais, como violência.

No subtítulo “o significado de classe social”, o autor constata a imersão do


funcionamento do sistema de justiça criminal nas relações de classe. O
encarceramento, nesse sentido, seria uma forma de punição restrita quase de forma
exclusiva às classes mais baixas. Apesar de uma progressiva marginalização do papel
da classe na criminalidade, ela permanece sendo o principal prenúncio de
condenações e da composição das instituições penais. A classe, enfim, deve ser vista
como uma função das relações de produção, de um lado, e fonte de identidade, de
outro.

Sobre a relação do realismo com o Estado, é claro o interesse em contribuir


para políticas a fim de aumentar, em alguns aspectos, a efetividade do sistema de
justiça criminal, reduzir as formas de vitimização e trabalhar na direção de justiça
social. Assim, o desafio é ir além da mera crítica aos muitos aspectos da política estatal
e se engajar no desenvolvimento construtivo e positivo de intervenções. É preciso
trabalhar, portanto, no e contra o Estado, por meio de uma gama de atividades, como
processos legislativos.

Para uma pesquisa realista, noutro giro, o ponto de partida é a identificação de


regularidades significantes socialmente. Após, deve-se formular uma hipótese que
explique suas causas, com base em proposições sobre a interação entre estruturas e
instituições e seu papel na formação das regularidades. Por fim, é necessário situar
todos esses mecanismos num recorte local, histórico ou institucional.

O autor critica o uso indiscriminado do conceito guarda-chuva de


“punitivismo”, por vezes aludido como a imposição de dor e sofrimento aos indivíduos.
Como há frequente alusão ao conceito como uma fórmula em branco, pouco se
diferenciam ou se reconhecem as múltiplas intensidades, razões e efeitos das
diferentes formas de controle da criminalidade. Há uma tendência preocupante em
buscar exemplos de punitivismo enquanto se ignoram os diversos mecanismos de
controle. As histórias de reformas penais revelam, inclusive, que intervenções até
mesmo bem-intencionadas por vezes têm resultados inesperados.

Considerações sobre o “giro punitivo”

Alegações sobre a existência de um “giro punitivo” devem ser acompanhadas


de demonstrações das mudanças sistemáticas e concentradas em políticas de
recrudescimento penal. Considerar somente as taxas de encarceramento, nesse
sentido, não é suficiente. É preciso analisar a frequência de condenações, a natureza
da pena imposta (se privativa de liberdade ou não), a quantidade de pena imposta,
dentre outros fatores que permitam uma análise mais precisa (como a empreitada por
Sozzo).

Para Roger Matthews, existe um corpo crescente de evidências que permitem


afirmar que a questão criminal tem perdido importância enquanto prioridade política
para a população. Contribuem para essa afirmação dados sobre quedas nas taxas de
criminalidade, com uma mudança de foco para problemas mais amplos de segurança e
de comportamentos anti-sociais. Certamente, isso não se observa no Brasil.