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CRIANDO ESTRATÉGIAS PARA IMAGINAR, ESCREVER E

APRENDER: UMA EXPERIÊNCIA NO ENSINO COM A TEMÁTICA “PA-


LEONTOLOGIA” (1)
Graciela Marques Suterio(2), Márcio André Rodrigues Martins(3)
(1) Trabalhoexecutado no Programa de Pós-graduação em ensino de ciências (PPGEC-UNIPAMPA)
(2)Aluna de pós graduação do curso de Mestrado Profissional em Ensino de ciências _Universidade Federal do Pampa,
Bagé; Rio Grande do Sul. graasut@yahoo.com.br
(3) Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa Universidade Federal do Pampa, Caçapava do Sul. – Rio

Grande do Sul. mmartins2006@gmail.com

Palavras-Chave: Ensino Fundamental, In(ter)venções, Paleontologia; Complexidade.

INTRODUÇÃO

Pergunta-se: em que momento se ouviu o clamor dos docentes e discentes da educação pública
brasileira em relação ao desafio para criar e protagonizar novos espaços de aprendizagem e falar sobre
suas experiências? Os anúncios recentes de novas propostas para a Educação Básica através de Medidas
Provisórias1 e sem um debate ampliado, sem uma escuta fina, pelos gestores públicos não estariam
novamente sinalizando um novo fracasso? Será que não estamos caminhando para acelerar o fracasso da
Educação Pública gratuita? De qualquer modo, o protagonismo requerido num processo transformador e
empoderador dos atores envolvidos no processo é mais uma vez negligenciado.
Nesta perspectiva, Edgar Morin, o autor referência deste trabalho, esclarece que a mudança pode
iniciar pelo educador, o qual pode criar maneiras, métodos, que induzem ao desenvolvimento do aluno, a
reforma do pensamento, o desenvolver da consciência de pertencimento do indivíduo no processo, através
do resgate, envolvimento, e valorização do ser (MORIN, 2003). Com estes desafios, de experimentar novos
modos de ensinar e de refletir sobre o processo, numa pesquisa implicada da própria prática de ensino,
surge a questão: “como criar ambientes e condições capazes de potencializar o envolvimento dos alunos,
permitido que a criatividade, a inventividade e a imaginação sejam capazes de mover processos de
aprendizagem através da “Paleontologia”? Como construir condições para que a prática educativa e a
construção do conhecimento adquiram características complexas e sistêmica? Colocamos estas questões
numa perspectiva de contribuir para o desenvolvimento de um aluno escritor, pensador, investigativo e
imaginativo, ou seja, para o resgate do espírito científico. Neste sentido, Edgar Morin (2003), nos provoca
dizendo que para: “O desenvolvimento da inteligência geral [...] é preciso estudar a arte de um paleontólogo
ou do arqueólogo, para se iniciar na serendipididade, arte de transformar detalhes, em indícios que
permitam reconstruir toda uma história”.
As questões que colocamos nesta introdução são amplas e este texto não tem a pretensão de
respondê-las, mas contextualizar um estudo que redundará numa dissertação de mestrado. Faremos aqui
um “recorte” da proposta experimental de in(ter)venção em sala de aula e que tem como contexto o estudo
sobre um fóssil numa perspectiva que busca enfatizar a criatividade, a imaginação e a pesquisa.

METODOLOGIA

Este trabalho consta de uma pesquisa in(ter)venção; Axt e Kreutz (2003) compreendem o conceito
como articulado aos conceitos de invenção, criação e de inovação. A in(ter)venção aconteceu de abril a
junho de 2016; numa escola pública estadual de Dom Pedrito, que possui as modalidades de educação
infantil ao ensino médio e EJA, com oferta de três turnos e potencial para 1000 alunos, trata-se de um Ciep
– caracterizado por ser construído para fornecer educação e assistência à alunos semi-marginalizados.
Propuseram-se algumas in(ter)venções como: a criação de uma caixa misteriosa, para abrigar problemati-
zações, hipertextos que situavam o contexto geológico, maquete de 70cm de um fóssil confeccionada com
poliuretano e a criação de personagens. O resumo limita-se a relatar sobre a história (hiper)textual/virtual,
que “Tecnicamente, [...] é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas,

1
Medida provisória nº 746, de 22 de setembro de 2016, publicada em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Mpv/mpv746.htm>
- acessada em 29 de outubro de 2016. Disponível em <https://docs.google.com>, acessado em 29 de setembro de 2016. Google Docs é propriedade da
Google In.
2
Google Docs é marca registrada da empresa Google Inc. fundada em 1998 por Larry Page e Sergey Brin

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imagens gráficos, ou parte de gráficos, sequências sonoras, documentos” (LEVY, 1993), através do 2Google
Docs, produzida por 28 autores, alunos do sexto ano do ensino fundamental.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Conforme anunciamos na introdução, esta análise limita-se a atividade da produção textual sobre uma
trabalho de in(ter)venção que é mais amplo e complexo. Este processo, envolvendo alunos e o profes-
sor/pesquisador caracterizou-se por diferentes sentimentos: de angustias, dificuldades, inquietação assim
como de felicidade, sucessos e pertencimento. Sentimentos que oscilavam entre certezas e dúvidas. Certe-
zas provisórias que indicavam uma trajetória inovadora, e dúvidas que surgiam a cada in(ter)venção, devido
às incertezas e ao imprevisível inerente a uma prática guiada pelos problemas emergentes (trazidos na
história) e pelos processos criativos e imaginativos para contornar/enfrentar os problemas.
Para a construção da história foi necessário desenvolver um primeiro saber: conhecer e manusear
ferramentas computacionais, a internet, o gmail, e o Google Docs. Esta etapa inicial do processo foi
surpreendente pois, tendemos a partir do princípio que crianças na faixa etária de onze anos, já estariam
familiarizadas com as novas tecnologias e capazes de surpreender o professor. Constatou-se que estes
alunos não tinham familiaridade com estas tecnologias e, através de algumas atividades práticas,
conseguiram manusear e explorar as ferramentas de produção textual.
O hipertexto construído quase que exclusivamente pelos alunos, teve vinte edições contabilizadas,
três foram feitas fora do laboratório de informática da escola, por um mesmo aluno. Em outros momentos
três alunos disseram que iriam terminar a atividade em casa, neste caso foi possível observar que eles
foram além, acessando/produzindo em outros hipertextos. Um aluno, também, dizia que iria pedir moedas a
mãe para acessar o documento fora da escola, entretanto não há registro externo do acesso, também se
observou que este aluno usava roupas inadequadas para a estação de inverno, tais como chinelo e
bermuda. Esta análise inicial aponta para um avanço na mobilização e no envolvimento dos alunos com a
proposta de investigação e criação da história que partia de um fóssil, ao mesmo demonstram a dificuldade
em acessar a ferramenta, seja pelo não conhecimento do instrumento, ou pela carência econômica=social.
Outro aspecto a ser destacado é os problemas e desafios tecnológicos na execução da proposta. Em
alguns momentos as ferramentas falharam, houve queda de luz, desconfiguração das máquinas, problemas
com a rede wi-fi de acesso à internet, que, de algum modo, revelam o sucateamento do maquinário. No
processo de apropriação da “nova” tecnologia, os alunos iam reunindo dados, através de pesquisas na
internet e pesquisas externas para atender aos desafios dos problemas, problemas que geravam novos
problemas, para os quais eles deveriam continuar na busca de respostas. Também construíam
representações artísticas (imagens, desenhos, história em quadrinhos) para representar suas proposições,
pesquisas, informações e conhecimentos. Constatou-se que estes momentos oportunizaram o
desenvolvimento, pois na produção da história, atravessam detalhes em que é possível identificar as
características pessoais dos alunos, seus desejos e conhecimentos sobre o mundo.

CONCLUSÕES

Evidenciou-se a potencialidade do tema paleontologia para provocar à imaginação.


A construção hipertextual da temática permitiu a organização e sistematização da produção.
O paradigma da complexidade exige a consciência do protagonismo, pois a participação ativa tanto do
aluno quanto e principalmente do educador, permite a mudança, o resgate do comprometimento e a
valorização do conhecimento.
Esta experiência e as análise preliminares permitem vislumbrar possibilidade para reinventar os espa-
ços de aprendizagem. Também compreender que as trajetórias e os percursos marcados pelas
in(ter)venções são incertas, e nos surpreendem, exigindo do professor uma atenção e uma escuta diferen-
ciada, capaz de apreciar as soluções inusitadas que os alunos trazem. Deste modo compreende-se que é
necessário e possível criar momentos e espaços para os alunos criarem, usando a imaginação provocando
seu interesse para os desafios do mundo, oportunizando sua autonomia e a busca pelas informações.

REFERÊNCIAS

AXT, Margarete et al. Sala de aula em rede: de quando a autoria se (des) dobra em in (ter) venção. Cartografias e
devires: a construção do presente, 2003.
MORIN, E. A cabeça bem feita. 8ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
LÉVY, Pierre; DA COSTA, Carlos Irineu. tecnologias da inteligência, As. Editora 34, 1993.

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