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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


DÉCIMA OITAVA CÂMARA CÍVEL

APELAÇÃO: 0001191-18.2012.8.19.0079
APELANTE: ITAÚ SEGUROS DE AUTO E RESIDENCIA S.A.
APELADOS: CLEIVI DOS SANTOS FERREIRA e INFORNOVA
AMBIENTAL LTDA.
RELATOR: DES. EDUARDO DE AZEVEDO PAIVA

APELAÇÃO CÍVEL. ACÃO INDENIZATÓRIA. ACIDENTE DE


TRÂNSITO. DENUNCIAÇÃO À LIDE EM FACE DA EMPRESA
SEGURADORA. O MARCO INICIAL DA PRESCRIÇÃO DO
PLEITO DE COBERTURA DO SEGURO, NOS CASOS EM
QUE O SEGURADO É DEMANDADO POR TERCEIRO
PREJUDICADO, DEVE COMEÇAR A FLUIR DO MOMENTO
EM QUE O SEGURADO TOMA CONHECIMENTO DE
DEMANDA CONTRA ELE PROPOSTA, OU SEJA, DESDE A
CITAÇÃO. ART. 206, § 1º, INC. II, A, DO CC.
RECONHECIMENTO DA PRESCRIÇÃO. PROVIMENTO AO
RECURSO.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº 0001191-


18.2012.8.19.0079, no qual é apelante ITAÚ SEGUROS DE AUTO E
RESIDÊNCIA S.A e, apelados, CLEIVI DOS SANTOS FERREIRA e INFORNOVA
AMBIENTAL LTDA,

A C O R D A M os Desembargadores da Décima Oitava Câmara Cível


do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, em votação unânime, em
DAR PROVIMENTO ao recurso, nos termos do voto do Relator.

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APELAÇÃO 0001191-18.2012.8.19.0079 – ST
Assinado em 06/02/2019 13:29:10
EDUARDO DE AZEVEDO PAIVA:15380 Local: GAB. DES EDUARDO DE AZEVEDO PAIVA
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RELATÓRIO

Trata-se de Ação Indenizatória por danos morais ajuizada por


CLEIVI DOS SANTOS FERREIRA em face da LOCANTY COMÉRCIO E SERVIÇOS,
alegando, em síntese, que no dia 28/11/2011, estava trabalhando com 2 (dois)
colegas, elevado em uma plataforma conhecida como "sky", efetuando
manutenção na iluminação pública, momento em que um caminhão de
propriedade da ré, que trafegava em alta velocidade, colidiu com o braço que
suportava o “sky”, fazendo com que o autor fosse arremessado a uma
distância de aproximadamente 20 metros, vindo a fraturar várias costelas,
ficando internado por quase um mês e impossibilitado de trabalhar por quase
dois meses.

Contestação (índice 80), alegando que o Autor e sua empresa


tiveram culpa exclusiva no evento narrado nos autos, considerando que não
sinalizaram o local onde executavam seus serviços, além de não usar cinto de
segurança e equipamentos necessários a execução dos serviços.

Assentada (índice – 208), na qual foi deferido o pedido de


denunciação à lida da Itaú Seguros e Auto e Residência S.A.

Sentença (índice - 164), na qual o Juízo julgou procedente o pedido


nos seguintes termos: “... Diante do exposto, nos termos do inc. I, do art. 487
do NCPC/2015, julgo procedente o pedido, para fins de condenar a empresa
Infornova Ambiental Ltda a pagar, pelos danos morais, a quantia de R$
35.000,00 (trinta e cinco mil reais), acrescida de correção monetária, desde o
ajuizamento, e juros de 1% ao mês, a contar da citação, capitalizados
anualmente. Condeno também a empresa ré nas custas judiciais e nos

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honorários advocatícios, os quais fixo em 20% sobre o valor da condenação,


nos termos do § 2º do art. 85 do NCPC/2015. Julgo procedente a denunciação
à lide, para fins de condenar a seguradora denunciada a ressarcir a empresa ré
do montante que ela estará obrigada a pagar, por força desta sentença,
respeitado os limites do contrato de seguro entabulado, bem como nas custas
judiciais desembolsadas pela ré e nos honorários advocatícios dos seus
patronos, fixados também em 20% sobre o valor da condenação.

Apelação interposta pela Itaú Seguros de Auto e Residência S.A


(índice – 276) onde aduziu, em síntese, o recurso tem por finalidade combater
a sentença que deferiu a denunciação á lide realizada intempestivamente pela
ré, em descompasso com o artigo 71 do CPC/1973 e 126 do CPC/2015.

Alega que em sua contestação a ré-denunciante, nos termos do


artigo 71, CPC 1973 e/ou 126, CPC 2015, requereu a denunciação à lide da
Seguradora, ora recorrente, contudo por questões alheias ao interesse do
processo não foram recolhidas às custas e, consequentemente, a denunciação
restou prejudicada.

Sustenta que houve ofensa ao art. 126 do CPC, o qual determina que
a denunciação deverá ser realizada pelo réu no momento em que apresentar
sua contestação e, não como fora realizado, em qualquer momento, restando
evidente e indiscutível que o réu-denunciante ofereceu a denunciação da lide
quando há muito já havia se esvaído o prazo, o que impossibilita o seu
processamento.

Alega, ainda, que o Código Civil em seu artigo 206 § 1º, inciso II
alínea "a", determina que prescreve em 1 (um) ano a pretensão do Segurado
em face do Segurador, sendo pacifica a jurisprudência de nossos Tribunais

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quanto a matéria. Inegável que entre a citação Réu e o exercício do direito de


promover a denunciação da lide houve um lapso temporal de mais de 3 anos e
4 meses, ou seja, ocorreu o fenômeno da prescrição ânua pelo decurso do
prazo entre a citação para responder à demanda e a realização do acionamento
da Seguradora-recorrente.

Por fim, sustenta a incompetência da Justiça Comum, eis que a


Justiça do Trabalho detém competência absoluta para dirimir as questões
decorrentes de indenização por acidente de trabalho, desde a entrada em vigor
da Emenda Constitucional nº45/2004, que agregou o inciso VI, ao artigo 114,
da Constituição Federal.

Contrarrazões apresentadas pelo Autor (índice – 295), aduzindo, em


preliminar, que o recorrente não impugnou especificamente os fundamentos da
sentença recorrida. No mérito, alega que a apelante não se insurgir contra a
decisão que deferiu a denunciação a lide em momento oportuno, estando a
matéria preclusa. Sustenta que não há prescrição eis que a ré buscou a
seguradora apelante viesse a integrar o polo passivo da ação desde um
primeiro momento. Por fim, refuta a competência da Justiça do Trabalho eis
que não havia nenhum vínculo trabalhista entre o autor e a ré.

Contrarrazões apresentadas pela ré (índice – 304), alegando,


inicialmente, que passa por delicada situação financeira tanto que fora dado
início ao processo de recuperação judicial que tramita na 5ª Vara Empresarial.
No mérito, sustenta que a denunciação à lide fora requerida dentro do prazo,
em momento oportuno, quando apresentou a contestação, sem que fosse
recolhido do preparo, diante da renúncia de seus patronos, sendo
posteriormente regularizado, razão pela qual não deve prosperar o pleito da
recorrente de suposta preclusão do requerimento. Também não há de

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prosperar o requerimento da Recorrente para que estes Julgadores apliquem ao


caso em comento o que prevê o art. 206, § 1% II do Código Civil, uma vez que
se a Denunciação à Lide foi requerida com 2 meses e 4 dias da data de citação
positiva da Recorrida, não há que se falar em prescrição ânua. Alega, ainda,
que o inciso II do § 1° do art. 206 do Código Civil/02, faz referência a hipótese
em que já ocorreu o pagamento pelo segurado ao indivíduo sinistrado e se
requer a quantia como forma de restituição do valor desembolsado ou em caso
de sinistro ocorrido com o próprio segurado, fatos que não se assemelham ao
processo em questão.

Manifestação da Procuradoria de Justiça (índice – 321), pela falta de


interesse em intervir nos autos.

É o relatório. Passo ao VOTO.

O recurso interposto é tempestivo e guarda os demais requisitos de


admissibilidade razão pela qual recebo no duplo efeito.

Trata-se de recurso de apelação em face da sentença que julgou


procedente a denunciação à lide, para fins de condenar a seguradora
denunciada a ressarcir a empresa ré do montante que ela estará obrigada a
pagar, por força desta sentença, respeitado os limites do contrato de seguro
entabulado, bem como nas custas judiciais desembolsadas pela ré e nos
honorários advocatícios dos seus patronos, fixados também em 20% sobre o
valor da condenação.

Inicialmente não há que se falar em incompetência do Juízo, eis que


não existe qualquer relação de trabalho entre o autor e a empresa ré.

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Embora a denunciação a lide tenha ocorrido em momento posterior a


contestação, não é razoável entender que houve preclusão consumativa, eis
que além da aquiescência do autor da ação, a litisdenunciada não teve o seu
direito de defesa prejudicado, não havendo, ainda, qualquer espécie de dano
processual.

Com relação ao decurso do prazo prescricional da pretensão do


segurado em face do segurador, assiste razão ao recorrente.

Conforme estabelece o art. 206, § 1º, inc. II, a, do CC, Verbis:

Art. 206. Prescreve:


§ 1o Em um ano:
I - a pretensão dos hospedeiros ou fornecedores de
víveres destinados a consumo no próprio estabelecimento,
para o pagamento da hospedagem ou dos alimentos;
II - a pretensão do segurado contra o segurador, ou a
deste contra aquele, contado o prazo:
a) para o segurado, no caso de seguro de
responsabilidade civil, da data em que é citado para
responder à ação de indenização proposta pelo terceiro
prejudicado, ou da data que a este indeniza, com a
anuência do segurador;

Considerando que a denunciação à lide requerida na contestação


restou prejudicada por falta de preparo (índice - 126), decisão contra a qual
não houve qualquer impugnação e, tendo em vista que a citação do réu
ocorreu em 24/04/2012 (índice – 79) e a denunciação a lide só foi admitida por

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ocasião da audiência ocorrida em 16/09/2015 (índice – 208), quando já havia


decorrido mais de três ano e quatro meses da citação do segurado, forçoso
reconhecer o decurso do prazo prescricional estabelecido no o art. 206, § 1º,
inc. II, a, do CC.

No mesmo sentido já se manifestou a jurisprudência do STJ, Confira-


se:

Não há dúvida do entendimento desta Corte no sentido de


que "o marco inicial da prescrição do pleito de cobertura
do seguro, nos casos em que o segurado é demandado
por terceiro prejudicado, deve começar a fluir do
momento em que o segurado toma conhecimento de
demanda contra ele proposta, ou seja, desde a citação"
(AgRg no Ag 666658/MG, Rel. Ministro ALDIR
PASSARINHO JUNIOR, QUARTA TURMA, julgado em
23/08/2005, DJ 26/09/2005, p. 391), entendimento que
está hoje consagrado no art. 206, § 1º, II, do Código Civil.

Pelo exposto, VOTO pelo conhecimento para DAR PROVIMETO ao


recurso da seguradora, a fim de reconhecer a ocorrência da prescrição, na
forma do artigo 487, inc. II do CPC c/c art. 206, § 1º, inc. II, a, do CC, julgando
extinta a denunciação a lide, com resolução do mérito, ficando mantida a
sentença em seus demais termos.

Rio de Janeiro, 06 de fevereiro de 2019.

EDUARDO DE AZEVEDO PAIVA

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DESEMBARGADOR RELATOR

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