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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS


Processo Nº. : 0003570-22.2015.8.05.0141
Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : BANCO DO BRASIL S/A
Recorrido(s) : ALINE DAIANA MONTEIRO MACENA
Origem : 1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS JEQUIÉ

Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

VOTO- E M E N T A

RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. COMPRA E VENDA DE


VEÍCULO.ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. BANCO CREDOR QUE NÃO PROCEDEU À
BAIXA DO GRAVAME APÓS A REGULAR QUITAÇÃO DO CONTRATO.
CONDENAÇÃO DO BANCO DEMANDADO NA OBRIGAÇÃO DE FAZER,
CONSISTENTE NA BAIXA DO GRAVAME JUNTO AO DETRAN. FALHA NA
PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. DANOS MORAIS CONFIGURADOS. REDUÇÃO DO
QUANTUM, PARA ADEQUAÇÃO AOS PARÂMETROS DA RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE. SENTNEÇA PARCIALMENTE REFORMADA.

1. Trata-se de recurso inominado interposto por BANCO DO BRASIL S/A ,


contra sentença que julgou parcialmente procedente os pedidos, nestes termos: “
Assim sendo, à vista do exposto, OPINO PELO JULGAMENTO PARCIALMENTE
PROCEDENTE dos pedidos formulados pelo Autor e OPINO PELA CONDENAÇÃO da Ré
a:PROVIDENCIAR a baixa do gravame contratual relacionado ao veículo constante dos autos,
realizando todas as diligências necessárias que lhes são cabíveis, e ainda prestar ao Autor, de
forma clara e precisa, as informações acerca de possíveis medidas que por ele deva ser adotada a
fim de efetuar a baixa imediata do gravame, tudo sob pena de multa; PAGAR ao Autor
indenização por danos morais no valor de R$ 8.000,00, acrescidos de correção monetária pelo
INPC e juros de 1% ao mês, tudo a partir do arbitramento..”

2. A recorrente busca a reforma da sentença , aduzindo, em síntese, que


obrigação da baixa do gravame vem sendo cumprida, suscita a nulidade da
sentença por ausência de fundamentação, e no mérito, que não teria havido falha
na prestação dos serviços que lhe possa ser imputada, sendo portanto mister a
improcedência dos pedidos.
3.
4. A demonstração do fato básico para o acolhimento da pretensão é ônus do
autor, segundo o entendimento do art. 373, inciso I, do NCPC, partindo daí a
análise dos pressupostos da ocorrência de indenização por danos morais, recaindo
sobre o réu o ônus da prova negativa do fato, segundo o inciso II do mesmo artigo
supracitado.

5. Em que pese o quanto alegado pelo réu, não consta dos autos a prova de
fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito da parte autora.

6. A parte autora comprova nos autos a quitação do contrato ocorrida em 10/07/2014,


conforme consta dos documentos juntados aos autos, no evento 01 do projudi.

7. A jurisprudência é uníssona no concernente à obrigação da instituição financeira


credora de dar baixa no gravame quando da quitação do contrato, consoante os
seguinte julgado:

8. PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. CONTRATO


DE FINANCIAMENTO QUITADO. BAIXA DE GRAVAME DO
VEÍCULO NÃO REALIZADA. OBRIGAÇÃO DA INSTITUIÇÃO
FINANCEIRA. MANUTENÇÃO DO ÔNUS NO SISTEMA DO
DETRAN/DF. PEDIDO LIMINAR DEFERIDO. AGRAVO PROVIDO.
1. Cuida-se de agravo de instrumento interposto contra decisão
que indeferiu pedido de antecipação de tutela para que fosse
determinada ao banco agravado a baixa de gravame de alienação
fiduciária, junto ao DETRAN, de veículo cujo financiamento foi
quitado. 2. Na hipótese, já foi declarada, em outro feito transitado
em julgado, a quitação do contrato de financiamento firmado
pelas partes. 2.1. Apesar disto, o banco não procedeu à baixa do
gravame junto ao DETRAN, o que impede a alienação do veículo a
terceiros. 3. Cumpre à instituição financeira promover a
regularização do gravame, junto ao DETRAN, após a quitação do
contrato de financiamento, nos termos do art. 9º da Resolução
320/2009 do CONTRAN. 4. No caso dos autos, patente a
irregularidade da incidência de gravame sobre o referido veículo,
devendo ser assegurado ao agravante o direito de ver baixada a
restrição de reserva de domínio. 5. Liminar deferida. 5.1. Agravo
provido.

9. A ausência da regularização da transmissão da propriedade causa


intranquilidade e insegurança ao adquirente, que fica impossibilitado de retirar
documentos essenciais ao livre trânsito e usufruto do bem, podendo inclusive ter o
veículo retirado de circulação pelos órgãos de polícia de trânsito, que
rotineiramente realizam procedimentos fiscalizatórios visando apurar justamente a
regularidade da documentação do veículo, sendo o CRLV documento de porte
obrigatório em todo o território nacional, nos termos do CTB brasileiro.

10. O art. 14 do CDC, dispondo sobre a responsabilização do fornecedor pelo fato


do produto ou serviço, preleciona que:
11. “Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente
da existência de culpa pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre
sua fruição e riscos.”
12. Discutindo-se a prestação defeituosa de serviço, incide a responsabilidade
civil objetiva inerente ao próprio risco da atividade econômica, consagrada no art.
14, caput, do CDC, que impõe ao fornecedor o ônus de provar causa legal
excludente (§ 3º do art. 14), algo que o recorrente não se desincumbiu.

13. De igual sorte, o conjunto probatório demonstrou cabalmente a ocorrência do


dano moral que muito mais que aborrecimento e contratempo, resultou em situação
que por certo lhe trouxe intranqüilidade e sofrimento, configurando o dano moral,
em razão exclusivamente da conduta do recorrente.
14. O dano simplesmente moral, sem repercussão patrimonial, não há como ser
provado, nem se exige perquirir a respeito do animus do ofensor. Consistindo em
lesão de bem personalíssimo, de caráter eminentemente subjetivo, satisfaz-se a
ordem jurídica com a demonstração do fato que o ensejou. Ele existe tão-somente
pela ofensa, e dela é presumido, sendo o suficiente para autorizar a reparação.
15. Com isso, uma vez constatada a conduta lesiva e definida objetivamente pelo
julgador, pela experiência comum, a repercussão negativa na esfera do lesado,
surge à obrigação de reparar o dano moral, sendo prescindível a demonstração do
prejuízo concreto.
16. Na situação em análise, o Recorrido não precisava fazer prova da ocorrência
efetiva dos danos morais informados. Os danos dessa natureza presumem-se
pelos próprios fatos apurados, os quais, inegavelmente, vulneram sua
intangibilidade pessoal, sujeitando-o ao constrangimento, aborrecimento, dissabor
e incômodo.
17. Reiteradamente manifestei posição de que o arbitramento do dano deve
obedecer aos critérios da prudência, da moderação, das condições da ré em
suportar o encargo e não aceitação do dano como fonte de riqueza.

18. Da mesma forma, a fixação do montante indenizatório deve guardar uma


equivalência entre as situações que tragam semelhante colorido fático. As
variações nos valores das indenizações existem conforme as circunstâncias fáticas
que envolvam o evento.

19. Assim, quanto ao valor arbitrado, tenho que o mesmo se mostra exagerado
e fora dos parâmetros arbitrados por este Sodalício em casos similares, merecendo
uma alteração na fixação daquele quantum.
20. ISTO POSTO, voto no sentido de CONHECER DO RECURSO
INTERPOSTO E DAR-LHE PROVIMENTO, para diminuir o quantum arbitradoa
título de danos morais, que fixo em R$ 3.000,00 ( três mil reais), corrigidos
conforme definido em sentença. Sem custas processuais e honorários
advocatícios, pelo êxito da parte no recurso.

Salvador, Sala das Sessões, 20 de Outubro de 2016.

BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Presidente e Relatora
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo Nº. : 0003570-22.2015.8.05.0141


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : BANCO DO BRASIL S/A

Recorrido(s) : ALINE DAIANA MONTEIRO MACENA

Origem : 1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS JEQUIÉ

Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados
Especiais Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, MARIA
AUXILIADORA SOBRAL LEITE –Presidente e Relatora , CÉLIA MARIA CARDOZO
DOS REIS QUEIROZ E ANTÔNIO MARCELO OLIVEIRA LIBONATI, em proferir a
seguinte decisão: RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO . UNÂNIME,
de acordo com a ata do julgamento. Sem custas processuais e honorários advocatícios.
Pelo êxito da parte no recurso.
Salvador, Sala das Sessões, 20 de Outubro de 2016.
BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Presidente e Relatora