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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS


Processo Nº. : 0039150-14.2016.8.05.0001

Classe : RECURSO INOMINADO


Recorrente(s) : JOAO SOUZA FILHO

Recorrido(s) : EMPRESA BAIANA DE AGUAS E SANEAMENTO S A


EMBASA

Origem : 6ª VSJE DO CONSUMIDOR (IMBUÍ VESPERTINO)


Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

VOTO- E M E N T A

RECURSO INOMINADO.COELBA. SENTNEÇA QUE EXTINGUIU O PROCESSO


SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO POR ILEGITIMIDADE ATIVA. PARTE AUTORA
QUE COMPROVA SER A EFETIVA USUÁRIA DOS SERVIÇOS DE ENERGIA
VINCULADOS À UNIDADE CONSUMIDORA. JUNTADA DE ESCRITURA DE
COMPRA E VENDA DO IMÓVEL. LEGITIMIADADE DEMONSTRADA.
APLICAÇÃO DA TEORIA DA CAUSA MADURA. ART.1013 DO CPC. CAUSA
PRONTA PARA JULGAMENTO. COBRANÇA INDEVIDA EM RELAÇÃO A
PERÍODO EM QUE O FORNECIMENTO DE ENERGIA ESTAVA SUSPENSO.
SUSPENSÃO DECORRENTE DE INADIMPLÊNCIA DOS MESES ANTERIORES.
COBRANÇA INDEVIDA. INEXIGIBILIDADE. RESTITUIÇÃO INCABÍVEL.
AUSÊNCIA DE PROVAS DO PAGAMENTO INDEVIDO. DANOS MORAIS NÃO
CONFIGURADOS. COBRANÇA IRREGULAR QUE, DE PER SI, NÃO GERA
LESÃO A DIREITO SUBJETIVO. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA.

1. Trata-se de recurso inominado interposto contra sentença que extinguiu o


processo sem julgamento de mérito, por entender o magistrado sentenciante pela
ilegitimidade ativa, nestes termos: “ É de fácil constatação que o titular do direito é pessoa
estranha ao autor, bastando, para isso, verificar as faturas acostadas aos autos onde demonstra
ser o contrato de fornecimento de energia elétrica de titularidade de outra pessoa. Portanto, não
há outra providência a ser adotada a não ser a extinção do processo, sem resolução do mérito,
dada a evidente ilegitimidade ativa do acionante.Dessa forma, com lastro no art. 267, VI, do CPC,
EXTINGO O PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO...”

2. Na origem, alega a autora que sofrera cobrança indevida em relação a


período no qual a sua energia estava suspensa pela concessionária ré, requerendo
a restituição em dobro dos valores indevidamente cobrados, bem como
indenização por danos morais sofridos.
3. A parte recorrente busca a reforma da sentença, sustentando não ser caso
de ilegitimidade ativa, haja vista ter comprovado a sua condição de proprietário do
bem imóvel ,ainda que não consta o seu nome na fatura de consumo, e no mérito
reiterando a argumentação já exposta em sede exordial, aduzindo, em síntese,
que fora cobrado indevidamente no período compreendido entre 06/07/2010 e
24/08/2010, no qual perdurou a suspensão do fornecimento de energia.
4. A sentença recorrida carece de reforma. Com efeito, ao contrário do quanto
decidido pelo magistrado sentenciante, a parte autora comprova ser parte legítima
para figurar no pólo ativo da ação, tendo colacionado aos autos escritura pública de
compra e venda datada de 29/11/2004, na qual figura como comprador do imóvel
em que instalada a unidade consumidora a parte autora, o que se mostra suficiente
para atestar a sua legitimidade. O mero fato de não ter o contrato de consumo
registrado em seu nome não torna automaticamente a parte ilegítima, desde que a
mesma prove pelos meios em direito admitidos que é a efetiva usuária dos serviços
públicos relativos ao contrato. Entendo que tal prova foi produzida no caso
concreto, conforme a escritura juntada às fls.7 dos autos digitalizados.
5. Estando a causa madura para julgamento, presentes os requisitos
necessários para a análise do mérito, mister seja realizado o julgamento de pronto,
com base no art. 1013 do CPC.

6. No mérito, o pleito autoral merece parcial guarida. Com efeito, a parte


autora insurge-se no tocante á cobrança de valores durante o período em que a
energia da unidade consumidora estava suspensa, a saber, 06/07/2010 e
24/08/2010, nos valores de R$ 28,17 ( vinte e oito reais e dezessete centavos),
tendo sido registrado consumo de 50 kwh, o que não corresponderia ao consumo
efetivo. A parte ré, em sede de contestação, admite a suspensão do fornecimento
de energia no período aludido pela parte autora, alegando inadimplência de
parcelas anteriores, relativos aos meses de janeiro, fevereiro, março e abril de
2010. Pois bem, o fato de ter havido inadimplência em relação ao período anterior
à suspensão do fornecimento, ocorrido em 06/07/2010 apenas prova prima facie a
legalidade do procedimento de suspensão, todavia não torna legítima a cobrança
relativa ao período em que suspensa a energia, fato este incontroverso nos autos.

7. Assim sendo, mister seja declarada a inexigibilidade da dívida gerada durante o


período de suspensão, no valor de R$ 28,17 ( vinte e oito reais e dezessete
centavos), vencimento em 09/08/2010.

8. No concernente ao pleito pela restituição dos valores cobrados , algumas


considerações. Por primeiro, o dever de restituição do indébito é efeito jurídico,
que tem como causa a realização do pagamento indevido. É dizer, o fato do
pagamento em sí é fato gerador do direito à restituição. Em assim sendo, para que
fizesse jus à restituição, deveria a parte acionante colacionar não somente o boleto
ou fatura de cobrança, mas também deveria juntar os devidos comprovantes de
pagamentos individualizados, para que seja feita a correspondência entre cobrança
e pagamento. No caso presente a parte autora não faz prova do pagamento da
dívida pela qual fora indevidamente cobrado, descabendo portanto o direito à
restituição.

9. Todavia, quanto ao dano moral reconhecido pelo magistrado a quo, não


vislumbro sua presença uma vez que não restou demonstrado no caso a
lesão de ordem subjetiva que atingisse a honra, a personalidade ou a imagem
do autor. A suspensão do fornecimento de energia, fato aduzido pela parte
acionante em sua exordial, tem como fundamento a inadimplência dos meses
anteriores. A causa de pedir se refere tão somente a cobrança indevida
durante o período de suspensão. A mera cobrança , de per si, se
desacompanhada de outros elementos de provas relativos a fatos originários
da cobrança, não é suficiente para ensejar a violação a direitos da
personalidade.

10. O caso está a revelar que houvera meros aborrecimentos, o que todavia
não tem o condâo de causar abalos psíquicos de grande monta, máxime se
não fora demonstrada nos autos nenhuma situação constrangedora que
ensejasse indenização pelo ressarcimento..
ISTO POSTO, voto no sentido de CONHECER DO RECURSO
INTERPOSTO e DOU-LHE PARCIAL PROVIMENTO, tão somente para
cassar a sentença que extinguiu o processo sem resolução do mérito, e
aplicando o art.1013 do CPC, julgar parcialmente procedentes os pedidos,
declarando a inexigibilidade da dívida impugnada nos autos, e julgo
improcedente o pedido indenizatório por danos morais. Sem custas
processuais e honorários advocatícios, pelo êxito da parte no recurso.

11. Salvador, Sala das Sessões, 13 de JULHO de 2017

12. BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

13. Juíza Relatora

14. BELA CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ

15. Juíza Presidente


PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo Nº. : 0039150-14.2016.8.05.0001

Classe : RECURSO INOMINADO


Recorrente(s) : JOAO SOUZA FILHO

Recorrido(s) : EMPRESA BAIANA DE AGUAS E SANEAMENTO S A


EMBASA

Origem : 6ª VSJE DO CONSUMIDOR (IMBUÍ VESPERTINO)


Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais
Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, CÉLIA MARIA
CARDOZO DOS REIS QUEIROZ –Presidente, MARIA AUXILIADORA SOBRAL
LEITE – Relatora e ALBÊNIO LIMA DA SILVA HONÓRIO, em proferir a seguinte
decisão: RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO . UNÂNIME, de
acordo com a ata do julgamento. Sem custas processuais e honorários advocatícios,
pelo êxito da parte no recurso.

Salvador, Sala das Sessões, 13 de JULHO de 2017


BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Relatora
BELA CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ
Juíza Presidente