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PELOS MAUS BRASILEIROS

Per cival Puggin a

PELOS MAUS
Crônicas à margem BRASILEIROS
da história contemporânea

Prefácio:

Olavo de Carvalho
A tomada do Brasil pelos maus brasileiros
Percival Puggina

Copyright 2015 © by Percival Puggina

Os direitos desta edição pertencem à

Rua Barão do Gravataí, 342, E portaria –CBairro Menino Deus – CEP: 90050-330
Porto Alegre – RS – Telefone: (51) 9916-1877 – e-mail: contato@editoraconcreta.com.br

R :
Critério - Inteligência em Conteúdo
E :
Editora Concreta - Renan Martins dos Santos
O , :
Mateus Colombo Mendes
C :
Christiaan van Hattem
(Crédito da fotografia: iStock)

I :
Bebeto Daroz

F C
Puggina, Percival, -
P A tomada do Brasil [livro eletrônico]/ coord. de Mateus Colombo Mendes,
edição de Renan Santos. – Porto Alegre, RS: Concreta, .
p. :p&b ; x cm

ISBN - - - -

. Jornalismo político. . Política. . História


do Brasil. . Cultura. I. Título.

CDD- .

Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer


reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica
ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer meio.

www.editoraconcreta.com.br
SELO REAÇÃO

s trabalhadores de todo o mundo não se uniram. As idéias abstratas

O
de Karl Marx
ressonância na(evid
dea seu
real.finan
Ao ciador, Friedrich
contrário Engels) aquilo
do socialismo, não encon
quetraram
Marx
chamou de capitalismo não é uma ideologia, mas o resultado de uma relação
própria dos seres humanos: a relação de trocas . Da mesma forma, não encontra
amparo na realidade aquilo que Marx chamou de “moral burguesa”, da qual,
segundo a fábula Manifesto do Partido Comunista, os trabalhadores de todo o
mundo viriam a querer libertar-se, por ser artificialmente construída e imposta
por quem detém os meios de produção. Chamado de “conservadorismo”, esse
conjunto de “regras” também não é um ideário (como o é o socialismo), mas
uma percepção acurada do mundo real, do que deu certo edo que deu errado
ao longo da História, com a base de umamoralidade sempiterna, de um Direito
Natural fundado na Verdade com “v” maiúsculo. Esse eixo de certo e errado,
fundador daquilo a que se chama conservadorismo, foi percebido em diferentes
civilizações, em distintas regiões da Terra e em diversos momentos da História
– e constitui o muro de contenção dos devaneios ideológicos.
A realidade refutou (e segue refutando) Karl Marx de muitas maneiras,
de modo que os intelectuais marxistas resolveram mudar de estratégia. À
primeira metade do século XX, percebendo que a revolução não ocorreria
naturalmente e que a imposição pela força não se sustenta, Antonio Gra-
msci, György Lukács, Jürgen Habermas e Max Horkheimer, entre outros,
propuseram uma revolução cultural, através dos costumes, dos hábitos, do
senso comum. Sua pretensão era de que o socialismo corroesse por dentro o
edifício da civilização, pondo abaixo as sólidas pilastras da moral judaico-
-cristã, da filosofia grega e do direito romano. A subversão seria imposta
pelos costumes, através da cultura, garantindo à esquerda uma hegemonia
que seria a base da tomada do poder através da política ou da revolução.
O Brasil foi terreno mui fértil a essa estratégia – e a colheita viria ao co-
meço do novo milênio. Nas décadas de 1960 e 1970, derrotada no campo
político e militar, a esquerda se aproveitou da inexistência de uma sólida
tradição cultural brasileira e passou a ocupar todos os espaços em redações
de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, em universidades e em
editoras. Em duas décadas, o marxismo passou a ser a base de toda a educa-
ção nacional, a chave de interpretação dos fatos em nosso jornalismo e a ins-
piração em nossa literatura. Mais duas décadas e, com a hegemonia cultural
estabelecida, o poder político já era integralmente da esquerda.
Nesse contexto, acostumamo-nos com um padrão de mercado editorial
avesso à tradição literária e crítica, em permanente militância contra autores
clássicos e suas obras perenes, fundadas na tradição da busca da compree nsão e
da representação da realidade. Com admirável tenacidade, preparo intelectual
e resistência psicológica, poucos brasileiros nadaram contra a maré vermelha
nesse tempo todo – um deles é Percival Puggina (outro é Olavo de Carvalho,
prefaciador desta obra). Pouquíssimos seguiram buscando a Verdade de cada
fato, mas sua insistência foi inspirando cada vez mais pessoas, criando um am-
biente minimamente favorável a uma reação no campo cultural. Uma dessas
reações se chama Editora Concreta, que, desde 2014, oferece ao malformado
e maltratado leitor brasileiro clássicos de Filosofia, Teologia e Crítica Literária.
Após anos de letargia generalizada, em que a imensa maioria dos brasileiros
assistiu aos maus brasileiros ignorando a Verdade e subvertendo a realidade
(primeiro, no campo cultural; depois, no político), começamos a reagir. Alu-
nos do professor Olavo de Carvalho e demais interessados em entender a rea-
lidade antes de desconstruí-la se têm organizado para estudar, publicar livros,
posicionar-se e, até mesmo, protestar. É neste novo momento, de retomada do
Brasil, que surge o Selo Reação, uma iniciativa a qual tenho a felicidade quase-
-celestial de capitanear, ao lado do Renan Santos e de sua Editora Concreta, a
fim de publicar autores contemporâneos que se dedicam a defender a sanidade
geral da nação das investidas de ideólogos armados com as perigosíssimas idéias
abstratas que, desde 1917, já mataram mais de 100milhões de seres humanos.

M C M
Coordenador do Selo Reação
Agradecimentos aos colaboradores

Através de campanha no website da Concreta para financiar A tomada do


Brasil, 591 pessoas fizeram sua parte para que este livro se tornasse realida-
de, um gesto pelo qual lhes seremos eternamente gratos. A seguir, listamos
aquelas que colaboraram para ter seus nomes divulgados nesta seção:

Adalberto Bueno Allan Rocha Silva


Adenilton Ferreira Álvaro Trois
Adriano Gabrieli Menegazzo Amantino de Moura
Adriano Giacomelli da Silva Ana Nely Castello Branco Sanches
Adriano Pereira
Adriano Silva André
André Arthur
ErichsenCosta
Adriano Veiga Andre Flavio N. Silva
Adyson da Silva Diógenes Andre Luis de Castro Peixoto
Albert Kiss André Pimenta
Aldemar Moreira Andre Somavilla
Alexandre Haruo Tamagawa Andrea Azevedo
Alexandro Furquim Andry Soares Rilho
Alfredo Salemi Filho Antônio César Landi Jr.
Alice Muniz Retamal Antônio Chiocca
Antonio Marcos Sauna Claudia Freire Beux
Ari Bebber Cláudia Makia
Arnaldo Bevilacqua Filho Claudio Gomes da Silva
Artur Pojo Claudio Karapetcov
Augusto Carlos Pola Jr. Cláudio Márcio Ferreira
Austenir Maciel Coelho Cláudio Tulio
Benício Augusto Daminelli Cleiton Krause
Branca Luiza Vaccari Clelia Arana
Brunno Adelizzi Clotilde Grosskopf
Bruno Arrienti Ferreira Cristiano Azevedo
Bruno de Souza Pinto Cristiano Beck Neviani
Bruno dos Santos Alves Cristiano Eulino
Bruno Gandolphi Cristiano Nunes Laureano
Bruno Giacomet Borges Cristina Garabini
Bruno Libório Dagoberto Lima Godoy
Bruno Marinho Daniel Camargo
Bruno Mendes Daniel Cirne
Bruno Vallini Daniel Custódio Pereira
Carla Farinazzi Daniel Felipe Bonfim da Silveira
Carlos Adalto Wittkowski Daniel Freitas
Carlos Alberto Escobar Daniel Klug Nogueira
Carlos Alexander de Souza Castro Danilo Cortez Gomes
Carlos Bach Danilo Henrique da Costa
Carlos Crusius Décio Gröhs
Carlos Eduardo C. Ribeiro Machado Demian Rossetti
Carlos Eduardo de Aquino de Pádua Denise Alves
Carlos Eduardo de Aquino Silva Diego Gomes Ferreira
Carlos José Gnoatto Diogo de Melo Takeuchi
Cássio Tagliari Diogo Fontana
Célia Cunha Djalma Maranhão Marques
Celio Antonio Pereira Jr. Dora Borges
Cesar Cavazzola Jr. Dorian Uhlendorf
Cesar Day Ederson Oliveira
César Gavillon Eduardo Alves
Cesar Rey Xavier Eduardo Andriolo
Christian Marcucci Eduardo Federizzi Sallenave
Cibilia Schilahta Eduardo Fernandes
Cicero Erivanio Araujo de Sousa Eduardo Juchem
Eduardo Lopes Fernando José Silva
Eduardo Ramos Godinho Fernando Ulrich
Eduardo Ribeiro de Sá Filipe Aprigliano
Eduardo Rodrigues Neto Flávio Accioly Garcia de Freitas
Eduardo Silva da Silva Flavio Aprigliano Filho
Eduardo Suga Flávio Góis
Eduardo Timponi de Moura Francisco Carlos Siqueira Moura
Elaine Santos Francisco de Paula Fischer Ferraz
Elizabeth Sena Frank Costa Cavalcante
Elpídio Fonseca Frederico Correa Filho
Else Mandelli Gabriel Henrique Knüpfer
Emerson Baptista da Luz Gabriela Marotta
Emerson Silva Genesio da Silva Pereira
Enilton Nascimento Genésio Saraiva
Enio Meregalli Geni Maria Batista
Erick Vilela Geraldo Correa Filho
Ernani Einloft Gilvan Lopes Pires
Ernani Jeronimo Jr. Gio Fabiano Voltolini Jr.
Evandro Batista Giovani Tesser
Evaristo Cenatti Giovanni Sponhardi
Everaldo Uavniczak Giuliano Amorim
Everton Silva Giuliano Araújo Lucas de Carvalho
Evilásio Lucena Giuliano Bastos Estrela
Evilasio Tenorio Silva Jr. Gleidson Macedo de Mesquita
Fabiano Dallacorte Grazielli Pozzi Menegardo
Fabio Aguilheiro Guilherme Batista Afonso Ferreira
Fabio Dias Guilherme Cerutti Müller
Fábio José Carvalho Faria Guilherme Ferreira Araújo
Fabio Junglos Guilherme Macalossi
Fabio Lauton Guilherme Péret
Fabio Pereira Gustavo Braga
Fábio Salgado de Carvalho Gustavo Frio
Fabio Zampronio Gustavo Rigon Narciso
Fabio Zanlochi Gustavo Silveira Machado
Fabricio Bernardi Gutemberg Campos
Felipe Moreira Hamilton Belbute
Felipe Weis Heitor Utrini
Fernando Henrique Pereira Menezes Helder Madeira
Hélio Angotti-Neto Klaus Schumacher Jr.
Hélio Telésforo Konrad Scorciapino
Henrique Leonardo Maranduba Krishnamurti Andrade
Henrique Zandoná Leandro Casare
Hermano Zanotta Leandro Cristóvão
Hermeto Silva Leandro Linhares Rodrigues
Heron Bini da Frota Jr. Leandro Taboni
Hestefani Lira Liamara Silvestrin Polli
Hilton Silva Jr. Lília Fernanda Cardoso S. Ribeiro
Humberto Campolina Lindoberto Ramos Lima
Humberto de Souza Meireles Luciane Potter
Humberto Rossitti Luciano Gulin
Isadora Saraiva Luciano Pires
Israel Palhano Cavalcante Luciano Villano Almeida
Iuri Aguiar Luís Felipe de Aguiar Tesheiner
Ivo Kuhn Luiz Afonso Matos
Jackson Ferreira Silva Luiz Carlos Vaccaro Filho
Jair Portella Luiz Cláudio Ribeiro
Jane Reis Luiz Felipe de Oliveira
Jean Carlos Diniz Lopes Luiz Hamilton Soares
João Carlos Guerra Luiz Mario Gomes de Almeida Jr.
João Medeiros Neto Luiz Militão
João N. Neves Jr. Luiz Souza
Joao Paulo Luiz Tadeu Viapiana
João Payne Lysandro Sandoval
João Stumpf Manoel Guimarães
João Tronkos Marcell Marques
Jônatas Alves Marcelle Jaeger Anzolch
Jorge Cunha Marcelo Assiz Ricci
Jorge Henrique Farias Nagel Marcelo Gois Matos
Jorge Ricardo Áureo Ferreira Marcelo Rossa
José Alexandre Marcelo Toledo
José Cláudio Aguiar Marcia Curvo
Jose Guilherme Saez Marcio Argachof
José Santos Silva Neto Marcio Slomp
Jun Takahashi Marcius Vinicius Júlio
Junior Volcan Marco Antonio Longo
Kênio Barro de Ávila Nascimento Marco Antonio Polo
Marco Oliveira Olivaldo Weiler Andrade Silva
Marco Silveira Fernandes Orlando Tosetto
Marcos Alves Orly Lacerda
Marcus Kssesinski Ovidio Rovella
Margaret Tse Paolo Baldini
Maria Aparecida dos Anjos Carvalho Paulo Eduardo Frederico
Maria Castanho Paulo Henrique Brasil Ribeiro
Maria Cristina Hofmeister Meneghini Pedro Delgado de Paula
Maria During Pedro Ivo Costa Lampert
Maria Lucchin Pedro Ivo Silva Terra
Maria Martins Pietro Pintaude
Maria Rita Sulzbach de Aguiar Plinio G. Dutra
Mariana Scolaro Rafael Antunes
Marilene Costa Brandalise Raquel Bundchen
Mario Antunes Reginaldo Magro
Mario Barros Casuscelli Renan Zundt Gonfiantini
Mário Jorge Freire Renata de Freitas
Markian Kalinoski Renato Albuquerque Guimarães
Mateus Corradi Renato Jardim
Mateus Rauber Du Bois Renato Schilling Sardi
Mateus Wesp Ricardo Gomes
Matheus Sturari Ricardo Schiavão
Maurizio Casalaspro Rinaldo Oliveira Araújo de Faria
Mauro Matias dos Santos Filho Roberto Antonio Becker
Miguel Angelo A. P. de Barcellos Roberto Dutra
Miriam Silveira Franco Roberto Granzotto
Misael Lima Ferreira Roberto Miglioli
Myriano Henriques de Oliveira Jr. Roberto Smera
Natanael Pereira Barros Rodney Eloy
Neemias Félix Rodrigo Descalzo
Nelson de Cicco Rodrigo Logatti Corrente
Nestor Visintim Filho Rodrigo Moraes de Ataides
Nilton José dos Santos Jr. Rodrigo Portolan
Norberto Ximenes Ferreira Rodrigo Zampieri Castilho
Oacy Junior Rosani Pereira
Odilon Silveira Santos Rocha Samuel da Silva Marcondes
Odinei Draeger Samuel Santos
Ofélia M. Rodrigues Sidgrei Spassini
Silvia Pagoto Valdemar Kjær
Silvio Donatangelo Waldemar Penna
Silvio Livio Simonetti Neto Wallace Soares
Stefano Moniz Walter Schley
Suzy Kummer da Rocha Werner Bing
Tatiana Dornel Wilson Fernandes
Telmo Bezerra de Menezes Diniz Wilson Junior
Thales Gauze
Thiago Quinalha Canato
Thiago Rabelo
Thiago Soares
Tiago Aurich
Tiago Toledo dos Santos
Tito Claudio Moura Moreira
Urubatan Junior Helou
Vagner Regis

Agradeço especialmente àqueles que, com suas contribuições, viabilizaram a


primeira edição deste livro, sobretudo aos bons brasileiros Urubatan Junior
Helou, Eduardo Suga, Fernando Ulrich e Antônio Chiocca.

— Percival Puggina
Que lição esplêndida a juventude brasileira vem proporcionando à Nação!
Foram eles, os jovens, rapazes e moças, que, neste ano de 2015, levaram
milhões às ruas nas grandes demonstrações de março, abril e agosto.Nenhum
deles era nascido quando o PT surgiu. A maioria sequer se equilibrava em
skate quando Lula foi eleito. Mas descobriram, em poucos anos, algo que
a imensa maioria da população levou três décadas para ficar sabendo. E
trataram de agir. Hoje, ensinam civismo aos congressistas. Representam-nos
ante aqueles que nos deveriam representar. Falam pelos que calam. Cobram
das instituições o cumprimento de seu dever.

A eles dedico este livro.


Sumário

Prefácio: Um pinguim no Saara, por Olavo de Carvalho ..........................21


Apresentação ...........................................................................................23

A .S ?
Um pinguim no deserto ............................................................................31
No gueto, pensando .................................................................................32
Inaceitáveis obviedades ............................................................................33
A tomada do Brasil ..................................................................................35

I
Como os maus brasileiros chegaram lá

Alerta aos ainda ingênuos – Parte I ..........................................................41


Alerta aos ainda ingênuos – Parte II .........................................................44
A crise dos trabalhadores em educação ....................................................46
Qual vacas para touros ............................................................................48
Então como é que é? ................................................................................50
Os donos da educação..............................................................................52
Veias abertas no idioma pátrio .................................................................54
A derradeira flor do Lácio ........................................................................56
Brincando com coisa séria ........................................................................57
Renascimento cultural ..............................................................................60
As Cruzadas, a Jihad e certos professores .................................................62
Quando a educação será prioridade?........................................................64
Tchutchucas e tigrões ...............................................................................66
Jovens rebeldes, coroas irresponsáveis ......................................................68
Uma pérola da TV Brasil ..........................................................................69
A gente não se vê nisso aí .........................................................................71
Pluralismo, multiculturalismo e tolerância................................................74
Vanitas vanitatum ....................................................................................76
Sítio politicamente incorreto ....................................................................77
Olha a cabeça dos caras! ..........................................................................79
Ao menos deixem os pregos .....................................................................81
Uma guerra nada santa ............................................................................82
Paredes nuas.............................................................................................84
Falemos de injustiça, então! .....................................................................86
Sapato 42 para pé 37 ...............................................................................88
Cotas raciais – uma ideia elitista ..............................................................89
Não precisa explicar.................................................................................91
Herdeiros de Caramuru............................................................................93
Quase uma jabuticaba ..............................................................................95

Viram no que deu? ...................................................................................96


Está tudo dominado .................................................................................98
Elvis morreu, mas Stalin vive ..................................................................101
O totalitarismo veste Armani .................................................................103
Notas do cárcere ....................................................................................104
O direito e o direito à burrice .................................................................106
A Comissão da “Verdade”......................................................................108
Comissariado Nacional da História .......................................................109
Eu me lembro muito bem .......................................................................111
Um dia, um gato ....................................................................................114
Os inimigos da Anistia ...........................................................................116
As pernas da mentira..............................................................................118
Joãozinho e a Anistia .............................................................................119
Em busca da verdade..............................................................................122
Mãos ao alto, Brasil! ..............................................................................124
Desarmados até os dentes.......................................................................125

P
Quem são os maus brasileiros

Carta a um professor petista ..................................................................132


Segunda carta a um professor petista .....................................................136
O amor é lindo .......................................................................................138
Retórica do berro e do silêncio ...............................................................140
O PT e o povo... QUE POVO? ...............................................................141
No país das bolsas..................................................................................143
Arco do triunfo, arco do fracasso ...........................................................145
O PT sonha com controlar a mídia ........................................................147
Briga de polegar com indicador ..............................................................149
Dona Zelite e o custo de uma terapia .....................................................152
Lula e as elites ........................................................................................154
O filho do Brasil é a cara do pai .............................................................155

O homem que desmoralizou a patifaria..................................................157


Alô, alô, chamando a base ......................................................................159
O legado de Lula ....................................................................................160
Ah, se aprendêssemos com os fatos ........................................................164
A overdose do petismo ...........................................................................165
A misteriosa srcem de muitos votos ......................................................166
E
Os companheiros dos companheiros

Desde quando partido tem ONG? ..........................................................175


A usina da corrupção .............................................................................177

Enxaquecas institucionais .......................................................................178


A lebre que mia ......................................................................................180
O cardápio do estadista..........................................................................182
Mais um golpe na federação...................................................................183
Por intolerável que pareça ......................................................................185
O cisco e a trave .....................................................................................187
Um comunista absolutamente exemplar .................................................189
Corrupção e sistemas econômicos ..........................................................190
Sempre enganando os bobos ..................................................................192
Consultem o PCC...................................................................................194
Experiência e grana se associam .............................................................195
Fidel, a História já te condena ................................................................198
O Louvre do comunismo........................................................................200
Quem quer comprar? .............................................................................201
Não é o Brasil, senhores! ........................................................................203
Quando a esquerda vai a Cuba ..............................................................205
Plano perfeito .........................................................................................208
Duas décadas depois, inimaginável .........................................................210
Dança com lobos....................................................................................213
Montanhas ao mar .................................................................................215
Reflexões de um leigo sobre a CNBB......................................................217
Até quando, senhores da CNBB? ............................................................218
Sobre péssimos negócios.........................................................................220
A vaidade, a felicidade e a maldade ........................................................222
O supremo de mal a pior........................................................................224
Muito obrigado, senhores ministros! ......................................................226
A “inconstitucionalidade” da Constituição .............................................227
O AI-5 do Supremo ................................................................................229
Consulte o juiz .......................................................................................230
Nas mãos dos ministros-constituintes.....................................................232
De onde essa certeza, caras-pálidas? .......................................................233

L
13 incontornáveis razões políticas para o impeachment .........................239
Pois é agora que tudo começa! ................................................................241
Alô, TSE! Que diabo de eleição foi essa? ................................................243
Os indignados e os que ainda não entenderam .......................................244
É impeachment, sim! ...............................................................................246
Os verdadeiros golpistas.........................................................................248
O PT não piorou. Ele sempre foi assim...................................................249
O crime de PT-fobia................................................................................251
A miséria da educação e a educação da miséria ......................................252
Alerta aos pais........................................................................................254
A ditadura marxista na educação ...........................................................255
Comunismo, o filho da inveja .................................................................257
Tudo vai muito bem (nos poderes da República) ....................................258
O tráfico de drogas e a pena de morte ....................................................259
Maioridade penal e desonestidade intelectual .........................................261
Somos as próximas vítimas do delírio esquerdista continental................262
“Solidariedade” ou hipocrisia? ...............................................................264
Estado Islâmico, coisa nenhuma! ............................................................265
PT e CNBB, 35 anos de união estável .....................................................266
Devoção a nossa senhora presidente.......................................................268
Um STF para o PT chamar de seu ..........................................................270
A revolução através das togas ................................................................271
Brasil, o filho pródigo caiu em si? ...........................................................272
Acabou! Acabou! ...................................................................................274
Confesso que chorei ...............................................................................276
O melhor do Brasil, em muitas décadas ..................................................277
Irresponsável usina de crises ...................................................................279
O que fazer? ...........................................................................................281
Acusam-me! ...........................................................................................285

Posfácio..................................................................................................287
Prefácio

Um pinguim no Saara
O C

ecorridos quarenta anos de decadência do jornalismo (digo do jor-

D
nalismo porque no caso da literatura seria mais apropriado falar
em desaparição), ler os artigos de Percival Puggina é um dos poucos
consolos que restam a quem estreou na profissão na época de Nelson Ro-
drigues, David Nasser, Carlos Lacerda, Rubem Braga, Antônio Maria e não
sei mais quantos. Naquele tempo, o jornalismo brasileiro era tão bom que
Alceu Amoroso Lima teve de usar o melhor dos seus dons dialéticos para
distingui-lo da literatura (O jornalismo como gênero literário, Rio de Janei-
ro, Agir, 1960). Hoje em dia, quando se diz que um sujeito é jornalista, o que
se entende é que ele não é de maneira alguma um escritor.
Então, digo logo de cara: Percival Puggina não é um jornalista, é um es-
critor. Se adotou como gênero literário a breve crônica jornalística, não foi
por incapacidade de realizar obra de maior fôlego, mas porque a isso o indu-
ziam as necessidades do momento, em que o escritor, se não quer falar para
as paredes, tem de criar o seu próprio público, educando-o desde o bê-á-bá
– empreendimento para o qual não há melhor veículo do que o jornalismo. É
só ler suas crônicas em seqüência para notar que, tão bem articuladas numa
convergência de perspectivas e na escalada de um raciocínio tão claro quan-
to irretorquível, elas são, já, a tal obra de maior fôlego, apenas apresentada
em pedacinhos porque assim o exige o molde minimalista da mídia atual.
Uma característica que salta aos olhos à primeira leitura dessas crônicas é
precisamente aquela que, segundo Martin Amis, define a literatura: a guerra
22 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

contra o clichê. Puggina jamais apela aos chavões consagrados, jamais maca-
queia aquela língua-de-pau com que os colunistas iluminados da Folha e do
Globo mostram diariamente ao público que são bons meninos. Cada linha
da sua autoria vem marcada por aquelas “impressões autênticas”, pessoais
e diretas, nas quais Saul Bellow, ecoando Amis à sua maneira, via a marca
do escritor genuíno, em contraste com os propagandistas, demagogos e ca-
bos eleitorais. Porque foram justamente esses personagens que “tomaram o
Brasil”, era inevitável que a linguagem direta e franca de Percival Puggina o
fizesse parecer, aos olhos dessas criaturas, “um pingüim no Saara”, como ele
próprio o reconhece. Nem por isso ele posa de outsider, de incompreendido,
de coitadinho. Com uma serenidade e um equilíbrio notáveis, ele simples-
mente continua dizendo o que tem de dizer, sabendo que, numa época de
loucura geral, a pura a simples normalidade é o maior dos escândalos.
Apresentação
M C M

H á controvérsias quanto à srcem desta nossa característica, mas não


resta dúvida de sua existência: nós, brasileiros, temos fixação por
entidades abstratas. A cada tragédia, a cada problema, a cada de-
sinteligência, bradamos: “Onde estão as autoridades!?”, “Exigimos provi-
dências do Poder Público!”, “O Estado tem de agir!”. Da mesma forma, a
cada manifestação popular repetimos nossas lamúrias contra a “corrupção”.
Ainda, notando a situação atual em que vivemos, as inversões psicóticas a
que estamos submetidos, a corrosão de nossa cultura e o desmonte de nossas
instituições, tendemos a culpar a esquerda. Equívocos. Nosso problema não
é o Estado falho, mas seus agentes que prevaricam; não é a corrupção, mas
corruptos e corruptores; não é a esquerda, mas os esquerdistas. E prevarica-
dores, corruptos, corruptores e esquerdistas têm nome.
O Estado, por exemplo, é uma entidade de fácil definição jurídica, mas,
sobretudo, é um ente abstrato, intocável e indelineável, o qual todos se sen-
tem confortáveis para criticar, evitando o constrangimento de citar nomes
e, Deus nos livre!,
manifestações angariar
de junho antipatias.
de 2013: E a corrupção?
os cartazes Lembremo-nos
e as palavras das
de ordem eram
contra a fabular corrupção, jamais contra Lula, Zé Dirceu, José Genoíno e
demais corruptos e corruptores. Ainda que nas manifestações em favor do
impeachment de Dilma Rousseff – em março, abril, maio e agosto de 2015
– tenhamos dado nomes a alguns bois, ainda temos muito a fazer até que
isso se reflita na política representativa, em que parlamentares demonstram
imensa dificuldade em atacar os agentes e preferem limitar-se à crítica ge-
nérica às ações, e na imprensa, que se reveza entre não perceber e fazer de
conta que não percebe que queremos o julgamento e a prisão deste e daquele
24 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

corrupto e corruptor, não da corrupção, essa mal-afamada senhora que se-


quer existe de fato.
A cada tragédia, a cada escândalo, a cada caso de violência, agimos como
se o Estado fosse negligente sozinho, como se a corrupção pairasse no ar,
como uma epidemia, pronta para nos assolar. É como se o sistema estivesse
sempre lá, à espreita, esperando para puxar o gatilho da arma que ele mes-
mo, malvado que é, colocou na mão do bandido (essa sua pobre vítima, que
só não sofre mais porque há ONGs que defendem os direitos humanos).
Parece, então, que são esses seres fabulosos – Estado, sistema, corrupção – os
culpados por todos nossos infortúnios.
Do lado de cá, entre as pessoas que acreditamque existem a Verdade e uma
lei moral superior, que trabalham honestamente e querem prosperar através
da ação individual, não podemos cair no mesmo erro. Sempre que possível,
temos de dar nomes aos bois. É o que Percival Puggina faznesta obra, em que
nomina os responsáveis por nossa miséria ética, moral e material, e os reúne
sob uma classificação que não poderia ser mais precisa: maus brasileiros.
Apesar de as causas e srcens de nossas falhas estatais e de nossas cor-
rupções serem mais amplas do que isso, a situação se tem agravado graças
à ação dos maus brasileiros, que soem transitar pela via esquerda de nossa
História. E os textos que compõem este livro, produzidos por Puggina ao
longo dos últimos cinco anos, estão organizados de modo a oferecer expli-
cações sobre esse processo. São comentários atuais e certeiros, crônicas in-
seridas em contextos específicos, mas que, articuladas como se apresentam,
descrevem o status quaestionis da penúria brasileira.
Os escritos de Puggina estão organizados em cinco seções, a fim de
apresentar uma estrutura através da qual se compreenda o problema. No
primeiro capítulo, “A verdade não existe. Será verdade?”, apresentamos o
quê, introduzindo o problema da tomada do Brasil pelos maus brasileiros.
Seguimos com o como: de que forma, por que meios, com que métodos
e providências se deu a “Invasão institucional dos bárbaros”. Depois vem
o quem, dividido em duas partes: no terceiro capítulo, “Procustos à brasi-
leira”, entendemos quem são essas pessoas, os maus brasileiros; na quarta
parte, “Escorpiões e rãs”, conhecemos os companheiros de viagem desses
bandoleiros – seus asseclas, cúmplices, comparsas, partidários e quejandos.
Por fim, oferecemos os comentários mais recentes do escritor sobre nossa
penúria política.
Esta obra é fundamental porque estabiliza cinco anos de escritos de um
dos pensadores mais srcinais e tenazes da jovem e cambaleante democracia
APRESENTAÇÃO 25

brasileira. Boa parte dos artigos apresentados se referem a fatos já passados


e, muito provavelmente, esquecidos por boa parte dos leitores. Mas é jus-
tamente aí que reside a importância deste livro. Em geral, trocando nomes
e valores, os eventos de ontem são, em essência, os mesmos de hoje. Os
milhões de reais e os parlamentares corruptos do Mensalão são como os bi-

lhões de dólareseleitorais
Os estelionatos e os empresários
de 2014associados
possuem aao esquema
mesma petista do
substância Petrolão.e
de engodo
mendacidade que possuíam em 2002, 2006 e 2010.
Os corruptores de sempre, os líderes de um esquema de poder sem prece-
dentes, são os elos entre os desvios de ontem e os de hoje, entre os fatos esca-
brosos pretéritos, presentes e – quem duvida? – futuros. As eleições de 2018
já estão na pauta. Este livro existe para que não nos esqueçamos de quem
são os maus brasileiros que, há mais de década, nos afundam nos índices
econômicos, educacionais, de segurança e de liberdade; para que saibamos
identificar suas ações e seus parceiros – ou, melhor, seus companheiros – ou,
melhor ainda, seus comparsas. Da revolução cultural ao desarmamento, das
decisões do STF à Comissão da Verdade, passando por Foro de São Paulo,
Partido dos Trabalhadores e Teologia da Libertação, nada escapa a Percival
Puggina. Sorte nossa. Azar dos maus brasileiros.
nota do editor

Em respeito a um pedido feito exclusivamente pelo autor da obra, o texto


da presente edição segue o último Acordo Ortográfico, assinado em 2009.
Apesar da editora Concreta desprezar qualquer obrigatoriedade de um acor-
do tão contrário à boa preservação da língua portuguesa, deixando claro ao
leitor que tal medida não foi e nem será seguida no restante de suas publica-
ções (exceto em casos excepcionais, como o presente), jamais deixaríamos de
reconhecer o direito de decisão do próprio autor, e muito menos de ignorar
que ele tenha os seus motivos.
A verdade não existe.
Será verdade?
“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas”, disse Friedrich
Wilhelm Nietzsche, o teórico da vontade de poder e doÜbermensch (as au-
torizações filosóficas ao egoísmo do querer sem limites).
O Ocidente acreditou; Nietzsche enlouqueceu, morreu e nos legou um
não-postulado. Ora, nem mesmo a verdade que proclama que não há verda-
des é verdade? Se Nietzsche estivesse certo, sua assunção não teria validade
e, portanto, Nietzsche não estaria certo. Esse é o homem que acha que matou
Deus.
Roger Scruton respondeu ao alemão e a seus pares: “O homem que diz
que a verdade não existe está pedindo para que você não acredite nele. En-
tão, não acredite.”
Do lado de cá, onde um mais um segue sendo igual a dois, ficamos com
o filósofo inglês.
E com Percival Puggina.
U

O mitirei , neste relato, a identificação dos personagens e do local onde


ocorreu o diálogo que me levou a este artigo. Direi, apenas, que era
um programa de rádio e que o assunto surgiu durante um intervalo
comercial. Não
Aos fatos. foi ao ar,a emissora
Enquanto portanto.cuidava de seus interesses, um dos parti-
cipantes do programa, dirigindo-se a mim, afirmou: “Puggina, é inegável que
tua posição está baseada na moral cristã.” Disse-o como se estivesse apon-
tando um pinguim no Saara. Retruquei que isso era uma obviedade, posto
que o assunto em pauta envolvia considerações de ordem moral, e a minha
moral tinha, com efeito, fundamento cristão. E aproveitei para perguntar em
que se baseava a posição moral que ele estava defendendo. Respondeu-me:
“Os direitos humanos. São os direitos humanos.” Argumentei que direitos
humanos não podem ser fundamentos de uma moralidade, posto que eles
mesmos requerem algum fundamento anterior, a partir do qual os direitos
humanos se distinguissem dos direitos dos animais, por exemplo. Diante
disso, meu interlocutor deu sinais de surpresa. “Não estou te entendendo”,
disse. Dado que nesse momento, outro participante do programa interveio
usando a expressão “dignidade da pessoa humana” (que eu estava vendo se
extraía espontaneamente do meu interlocutor), ele agarrou a expressão com
as duas mãos: “É a dignidade da pessoa humana.”
Chegáramos ao ponto que eu queria: “E em que se fundamenta a digni-
dade da pessoa humana, meu caro?” Ele voltou a dizer que não estava me
entendendo e eu a lhe perguntar se as pessoas e os animais eram portadoras
da mesma dignidade. Infelizmente, com o término do intervalo comercial,
apenas tive tempo de lhe recomendar que meditasse sobre essa questão: em
que se fundamenta a dignidade da pessoa humana?
Estou convencido de que a única resposta capaz de preencher todos os
requisitos filosóficos e de viabilizar corretos parâmetros morais à nossa exis-
tência é a que integra a Revelação e a subsequente tradição judaico-cristã: o
homem é imago Dei! Imagem de Deus. Com ela e por ela todos somos iguais
em essência e dignidade, a despeito das infinitas diferenças. Sem ela, nos tor-
namos vítimas em potencial das diferenças. No encontro dessa verdade de
fé com a sã filosofia, nasce o Direito Natural, vertente de tudo quanto há de
valioso no moderno constitucionalismo.

1 de agosto de .
32 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

De alguma leitura e muita conversa, sei para onde provavelmente apon-


tará a reflexão daquele meu interlocutor se fizer o que lhe pedi. Ele funda-
mentará a dignidade da pessoa humana na liberdade. Ora, a liberdade pode
ser uma expressão visível dessa dignidade. É um valor moral e um atributo
do ser humano. Não serve como vertente de sua dignidade. Tomada a liber-
dade como fundamento moral absoluto, a dignidade humana convive, por
exemplo, com o aborto, a despeito da agressão que representa à dignidade
e à vida do feto. É o que já acontece nos países ocidentais cujo Direito vem
abandonando as raízes do Direito Natural para adotar o relativismo moral.
Este tem fundamentos que repousam na combinação da liberdade com o
querer sem limites e transformam a consciência num desconforto a ser remo-
vido, numa espécie de verruga que se instala na alma humana.
Entre os muitos resultados dessa conduta, que se vai tornando dominan-
te, ao expor convicção moral oposta, o sujeito passa a ser visto como um
pinguim no deserto – e se queda sozinho, no gueto, pensando...

N ,
E eis que aos poucos se foi impondo em mim essa sensação de que vivo
num gueto. Sim, sim, eu caminho com liberdade, circulo, falo, opino. Cor-
respondo-me com muitos. Vocês me leem. Jornalistas me perguntam o que
penso. Eu respondo. E mesmo assim, ou quem sabe por isso, habito um
gueto. Somos muitos nas mesmas condições. Estamos contidos num sítio
existencial bizarro, cujas bordas são tão invisíveis quanto sensíveis, onde
milhões de brasileiros, provavelmente a maioria de nós, vamos perdendo re-
levância, minguando em cidadania e sendo suprimidos até mesmo do direito
de expressar nossas opiniões.

do A caçamba eDo
descrédito. a corda foram
ministro do recolhidas. As instituições
Supremo Tribunal Federaljazem
(STF)noaofundo do
oçop da
estudante
USP, do chanceler da República ao pagodeiro do Piauí, do ex-presidente ao me-
nino birrento que trata a professora aos pontapés, perdeu-se a noção de limites.
Mas não lhe passe pela cabeça, leitor, apontar causas para o que vê acon-
tecer! Você acabará no gueto. Repita então, em concordância bovina, que
são sinais dos tempos. Preferivelmente, assuma a responsabilidade por tudo.
Diga que foi o seu mundo que gerou esse mundo. Ataque a corrupção, mas

2 de janeiro de .
A VERDADE NÃO EXISTE. SERÁ VERDADE? 33

não faça mais do que falar mal dela (ela se lubrifica com a saliva dos críti-
cos). Toneladas de palavras, hectolitros de saliva. Mas não lhe passe pela ca-
beça apontar as causas. Jamais aponte causas ou ofereça critérios! Concorde
prontamente quando disserem que ela sempre existiu e é igual em toda parte.
Jamais mencione os vocábulos “verdades”, “princípios” e “valores”.
No Brasil que abre caminho no século 21, quem propuser algo relevan-
te perderá importância. Observe os partidos políticos, por exemplo, e faça
como eles. Aprenda a crescer com irrelevância. Quanto menos forem daquilo
que deveriam ser, quanto menor seu conteúdo, mais importantes se tornam.
Por isso estão fora do gueto. Os programas e ideários em torno dos quais
se constituíram só cumprem fins higiênicos quando disponibilizados nos ba-
nheiros das sedes. Mas não ouse dizê-lo. E jamais sustente haver coisas que
não se fazem porque o caminho dos princípios acaba no gueto.
É óbvio que este país passa muito bem com pouco ou nenhum caráter,
sem fé religiosa de qualquer espécie (à exceção da fé no grande demiurgo de
Garanhuns), submissa à ditadura do politicamente correto, do pensamento
fraco, da grosseria. É óbvio. Um país crescentemente macunaímico, cada vez
mais canalha, precisa expurgar a virtude. Há que trancar a nação inteira no
gueto, se isso for necessário para os arranjos do poder.
Depois que as li, ainda adolescente, jamais esqueci as palavras com que
Cyrano de Bergerac defendeu o amor próprio. É uma lição inesquecível. E
uma condenação. “O que queres que faça? Almoçar cada dia um sapo e não
ter nojo? Trazer os joelhos encardidos? Exercitar a espinha em todos os sen-
tidos? Gastar o próprio ventre a caminhar de bojo? Não, muito obrigado!”
As coisas de que a nação precisa são tão óbvias quanto incômodas. Por
isso, a coerência se converte em vício constrangedor. O sujeito coerente é um
antissocial, objeto de intrigas e maledicência. Se não quiser vir para o gueto,
livre-se de suas convicções. Tudo isso é tão óbvio para nós quanto é inacei-
tável para eles, os maus brasileiros que tomaram este país.

I
Recebo muitas mensagens eletrônicas apontando o farisaísmo de quem
critica a corrupção que vê e fecha os olhos para o extenso rol dos próprios
desvios diários de conduta. Certo, é farisaísmo mesmo. Essa inquietante

3 de setembro de (publicado no jornal Zero Hora).


34 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

observação sobre os comportamentos individuais conduz, ademais, à con-


clusão de que não existem sociedades virtuosas. Se as pessoas não o são, a
sociedade tampouco o será. Aliás, é esse lado obscuro da natureza humana
que, entre outras coisas, torna necessária a existência da lei, dos poderes de
Estado e da política.
O artigo poderia terminar aqui se as proclamações feitas acima fossem
as únicas verdades a serem ditas sobre o assunto, mas não é o caso. Aliás,
quanto mais a toalha da renúncia à virtude for jogada no tablado da cultura
contemporânea e quanto mais isso for objeto de indiferença social, maior
será a corrupção dos corruptos e o farisaísmo dos fariseus. Chegará o dia em
que, virado o fio, o vício se converterá em virtude e a virtude em vício. Não,
não estamos longe disso, leitor, numa época em que o adjetivo “sacana” pega
melhor que o adjetivo “virtuoso”. Ou não? E todos riem.
Que somos imperfeitos, sabemos. O que parece haver sumido das nos-
sas reflexões sobre a sociedade é o fato de que somos aperfeiçoáveis. Assim
como sempre podemos fazer melhor o que fazemos, sempre podemos ser
melhores do que somos. Portanto, as sociedades jamais serão plenamente
virtuosas, mas nós, os indivíduos, temos um compromisso moral com o nos-
so aperfeiçoamento.
O que se tornou saudável prática em relação ao condicionamento físico su-
miu dos procedimentos emrelação ao caráter. Tornamo-nos moralmenteseden-
tários! Abandonamos os exercícios que envolvem a formação da consciência.
Eis aí, então, um dos mais graves problemas da sociedade contemporânea.
Podemos nos abraçar em muitos erros e vícios, mas fugimos das decorrentes
responsabilidades morais e, principalmente, do mais tênue sentimento de culpa.
Opa, culpa não! Culpa faz mal à saúde. No entanto, pergunto: como haver
arrependimento e retificação das condutas sem que a consciência bem forma-
da acuse o erro? Como corrigir o mal feito a outros sem que a percepção do
erro, elaborada no plano da consciência, nos mobilize nessa direção? Em qual
laboratório – que não no da consciência – pode nascer algo tão humano quan-
to o pedido de perdão? Cuidado! São muito claros os sinais de que estamos
nos alinhando nos viciosos degraus de uma escada pela qual apenas poderemos
descer. Onde anda o hábito de examinar a consciência, de refletir sobre ações
e motivações, de corrigir erros, de pedir e oferecer perdão, de buscar o bem e
evitar o mal? Todo esse percurso envolve etapas de ponderação e deliberação
moral que, pouco a pouco, foram descartadas das práticas pessoais, familiares e
mesmo religiosas.É como se a busca do bem tivesse deixado de ser saudável e o
arrependimento fosse um desconforto a ser abolido do plano das consciências.
A VERDADE NÃO EXISTE. SERÁ VERDADE? 35

Quer ser impopular? Diga que há um desastre civilizacional em curso,


motivado pela corrosão dos valores da tradição judaico-cristã. Quer desa-
gradar a muitos? Proclame ser escandalosa a conduta de uma sociedade in-
teira que joga sua cultura e moralidade nos cínicos labirintos do relativismo
até se extraviar totalmente de uma e de outra – e, depois, se queixa das
consequências. Quer ser condenado por olhares tão desdenhosos quanto ig-
naros? Comunique este fato inexorável: o país foi tomado!

A B
A nação está com as mãos erguidas e não é para rezar. Ninguém escapa
à sanha dos bandidos, aos quais o Estado, miseravelmente, se rendeu. Era
previsível. Foi prenunciado por uns poucos, entre os quais eu mesmo. Agora
está aí, e todos percebem. Num país com 200 milhões de habitantes, a ativi-
dade contra o patrimônio alheio, por exemplo, tornou-se tão intensa que, do
pirulito da criancinha à minguada pensão mensal da vovozinha, tudo já foi
levado e todos já foram assaltados. Alguns, muitas vezes.
Tenho nostalgia, já falei antes, do tempo dos trombadinhas. Eram me-
ninos. Quase digo que eram meninos de boa formação, que sabiam estar
fazendo coisa errada. Esbarravam na vítima, tomavam-lhe algo e saíam cor-
rendo. Tinham medo da vítima, da polícia e de que outros transeuntes os
detivessem. De uns tempos para cá, o ladrão é bandido que ataca, ofende,
maltrata e mata, motivada ou imotivadamente.
Por uma dessas coisas da memória, vem-me à lembrança a descrição da
Queda de Constantinopla, que o grande Daniel-Rops fez em sua História
da Renascença e da Reforma. Após oito séculos da jihad contra a Roma
do Oriente, Maomé II comandara a arremetida final. Quando a orgulhosa
cidade caiu,
conforme o sultão entregou-a
prometera. aos seus
Sobrou pouca gentejanízaros por três
para contar dias e três
a história. noites,
Encerrado
o prazo, sangue escorria pelas calhas das ruas e era impossível encontrar, em
Bizâncio, um simples pires de porcelana.
Pois é isso que está acontecendo no Brasil, com a diferença de que o
prazo é mais elástico. Sirvam-se os vitoriosos pelo tempo que quiserem! O
que nos estão tomando são despojos de uma nação derrotada pelo que de
pior nela existe. É a prerrogativa dos vencedores, quando os vencedores são

4 de março de (publicado no jornal Zero Hora).


36 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

criminosos. Sempre foi assim na história. A vitória dos bandidos representa


estupro, morte e pilhagem. Coube-nos a fatalidade de viver nestes anos da
tomada do Brasil pelos maus brasileiros.
Ensinaram ao trombadinha de ontem que ele é a vítima. Sopraram-lhe
uma ideologia de boca de fumo, que fala aos “manos” de seus direitos hu-
manos. Vivendo, ele aprendeu que o crime compensa. Percebeu, com fartura
de exemplos, que roubar é direito de todos e dever do Estado – mão grande
e hábil para cobrar impostos, miúda e inábil para as tarefas que lhe cabem. À
sociedade, esse Estado confessou, por inúmeros modos, sua rendição. Num
dia, a polícia fecha pela quarta vez um desmanche de automóveis e prende
o mesmo sujeito. No outro, o bandido sai da delegacia antes de o lesado
preencher o BO. Não faz muito, um exército de policiais foi mobilizado para
prender bandidos que ... estavam presos. Deveriam estar, mas o semiaberto,
sabe como é. Num assalto a mão armada, a ação do Poder Público começa
e termina em burocrático “registro no sistema”. É crime de baixa lesividade,
sabe? E volta e meia a pistola dispara sem quê nem porquê, e mata. Soltam
presos porque os presídios estão superlotados. Por excesso de presos? Não.
Por excessiva falta de presídios, que diabo! As vítimas, antes de mais nada,
são vítimas da inutilidade do Estado. Do Estado que quer desarmar os cida-
dãos de bem, não move palha pelos lesados e enlutados, mas lastima a morte
de cada bandido em confronto com sua polícia. E veja, leitor, eu apenas falei
do submundo. Não disse uma palavra sobre o grand monde.
INVASÃO
INSTITUCIONAL DOS
BÁRBAROS

Como os maus brasileiros chegaram lá


Não é obra do acaso a situação quase selvagem em que nos encontramos
– e que é explicada na seção que aqui se inicia. Tampouco é por acaso o títu-
lo deste capítulo. Trata-se de uma atualização do títuloInvasão Vertical dos
Bárbaros, em que o filósofo Mário Ferreira dos Santos distingue as invasões
territoriais de antanho das tomadas culturais e anticivilizacionais de agora:

Na verdade, a invasão que é a penetração gradual e ampla dos bárbaros não


só se processa horizontalmente pela penetração no território civilizado, mas
também verticalmente, que é a que penetra pela cultura, solapando os seus
fundamentos, e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultu-
ral, como aconteceu no fim do Império Romano, e como começa a acontecer
agora entre nós.5

As sementes dessa colheita maldita foram aradas no solo cultural, justa-


mente quando – vejam vocês! – eram os militares os arrendatários do terreno.
Temendo a ação da esquerda pelas armas, o regime militar deixou os
filhos de Marx brincarem livremente no parquinho intelectual. As univer-
sidades, as editorias dos jornais e as emissoras de televisão foram tomadas

por esquerdismo
revolução cultural, bem ao gosto de Antonio Gramsci, o teórico da
pelos costumes.
Percebendo a impossibilidade do método marxista puro (os trabalhado-
res de todo o mundo não se uniram contra o espantalho criado por Karl
Marx), Gramsci preconizou que o motor da revolução seriam os intelectuais,
os detentores da informação.
Com o italiano no bolso, nossos esquerdistas tomaram os meios de pro-
dução de notícias e conhecimento. Há quase meio século aquartelados nos
gabinetes universitários e nas redações, e hoje no poder, reescrevem a Histó-
ria, com a pena maniqueísta do marxismo. Estabelecem a oposição imaginá-
ria entre eles próprios, os mocinhos.
A invasão começou vertical e cultural; hoje, é institucional. O invasor
despacha em órgãos públicos, diz se você pode construir ou não em deter-
minada área, julga ações de todos os tipos, regula leis inexequíveis, enfim,
delibera sobre praticamente tudo.

5M F S ,Invasão vertical dos bárbaros, São Paulo, É Realizações, ,


página .
A História é uma só. Isso não impede que haja versões dos fatos; des-
de que sejam julgadas, a seu tempo, à luz da verdade, que, ainda que
não seja encontrada, deve sempre ser buscada.
A esquerda brasileira, contudo, sói contar e recontar a História da
forma que mais lhe convém. Seus representantes fizeram isso por dé-
cadas, em salas de aulas e produções editoriais. Desde o começo dos
anos 2000, com o acréscimo do poder político a seu já hegemônico
poder cultural, a força da caneta e dos decretos lhes tem sido irresistí-
vel. Com verbas públicas, transformaram em heróis gente como Mari-
ghella e Luís Carlos Prestes, que fizeram ensaios bastante verossímeis
para tornarem-se ditadores e assassinos (tal qual seus ídolos Lenin e
Che Guevara). Com o erário e a caneta, empreenderam esforços em
favor da reescrita dos fatos concernentes ao Regime Militar.
Haverá uma seção específica sobre a Comissão Naci
onal da Verdade e tudo
que ela representa. Portanto, o texto abaixo não está deslocado por acaso.
Fala da instauração da CNV, um tribunal revisionista, extraoficial e unila-
teral, instaurado pelo Governo
Federal do Partido dos Trabalhadores (PT
).
Começar este capítulo com o artigo que segue é começar pelo fim.
Pois, agir da forma como descreve Percival Puggina no texto a seguir
faz parte dos fins da revolução cultural engendrada pela esquerda.
Com a cultura, a linguagem, a moral e os símbolos convertidos em
panfletos marxistas, o exercício do poder pela esquerda é facilitado.
A tomada do Brasil pelos maus brasileiros começou na cultura. E se
consolida hoje no poder político.6

A –P I

E m Pombas e gaviões8 aduzi, já na capa, o alerta que caracteriza os dez


textos que nele se contêm: os ingênuos estão na cadeia alimentar dos
mal-intencionados. É uma preocupação que os últimos anos vieram

6 Todos os comentários aos textos de Percival Puggina são de autoria do coordenador do Selo
Reação e organizador desta obra.
7 de outubro de .
8 Livro em que Percival Puggina apresenta dez reflexões (advertências) sobre temas sociais,
42 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

acrescentar às que eu já tinha em relação ao futuro de nosso país. Com efeito,


tenho como coisa certa, provada pelos fatos: que a única tese efetivamente
abandonada pela esquerda para a tomada do poder é a tese da luta armada.
O companheiro Gramsci acendeu um farol sobre a formação da hegemo-
nia como estratégia alternativa e mais eficiente. Anote aí à margem: fazer do
ENEM porta única para entrada da universidade é parte disso.
O Senado Federal aprovou, como se esperava, a criação da tal Comis-
são da Verdade, constituída para “efetivar o direito à memória e à verdade
histórica e promover a reconciliação nacional” (artigo 1º da Lei nº 12.528,
de 18/11/2011). Haverá prova mais contundente de que usam e abusam da
nossa ingenuidade? E de que os encontram, no parlamento brasileiro, em
número suficiente para aprovar uma coisa dessas?
A ideia srcinal de Lula e dos seus era bem outra. Era abortar a anistia
ainda em 1979. O jornalista José Nêumanne Pinto (autor do livro O que sei
de Lula), em entrevista a O Globo, no dia 29 de agosto de 2011, contou ter
sido procurado, entre 1978 e 1979, pelo então presidente da Arena, Cláudio
Lembo, para cumprir uma missão solicitada pelo General Golbery do Couto
e Silva. Golbery queria apoio de Lula para a volta dos exilados. A reunião
ocorreu num sítio. Qual a resposta de Lula, ouvida por Nêumanne? “Doutor
Cláudio, fala para o general que eu não entro nessa porque eu quero que es-
ses caras se danem. Os caras estão lá tomando vinho e vêm para cá mandar
em nós? […]” O elevado critério moral de Lula não prevaleceu. A anistia
aconteceu em 1979 e foi constitucionalizada em 1988.
Pois eis que coube ao próprio Lula, três décadas depois daquela reunião
solicitada pelo general Golbery, enviar ao Congresso Nacional, no anopassa-
do, o projeto da Comissão Nacional da Verdade.9 O mundo deu umas quantas
voltas, é certo, mas em nada se comparam ao efeito giratório que as conveni-
ências políticas determinam sobre a moralde certas pessoas. É esse projeto que
foi aprovado pela Câmara dos Deputados e acaba de sair do forno doSenado.
Como Lula não conseguiu abortar a anistia em 1979 e a tentativa de matá-
-la quando já tinha 31 anos foi inviabilizada pelo STF, restou a alternativa da
Comissão da Verdade.

éticos, religiosos, políticos e institucionais, apontando causas (a ingenuidade da maioria, as


"pombas") e consequências (o banquete dos "gaviões", que vivem às nossas custas). [Nota do
coordenador do Selo Reação e organizador desta obra; doravante, N. C.]
9 O ex-presidente Lula, que se recusara a colaborar com a volta ao Brasil dos companheiros que
tomavam vinho em Paris e em Santiago do Chile nos anos , enviou o projeto de criação da
Comissão Nacional da Verdade ao Congresso em de maio de . [N. C.]
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 43

Os ingênuos acreditam no que está estabelecido em seu artigo primeiro,


parcialmente transcrito acima. No entanto, qualquer pessoa que junte “b”
com “a” para fazer “ba” sabe que o julgamento pretendido pelos que que-
riam revogar a Lei de Anistia será substituído, agora, por mero linchamento,
sem processo nem direito de defesa. Durante dois anos (anote aí que isso será
prorrogado pelo tempo que convier politicamente à esquerda10) teremos uma
Comissão de sete membros, escolhidos autocraticamente pela presidente Dil-
ma, para investigar metade da verdade, posto que os crimes cometidos pelos
guerrilheiros da luta armada não integram oescopo da Comissão, segundo se
depreende do conjunto de suas atribuições. A própria presidente tem interes-
ses diretos em que não se acendam luzes sobre roubos, assaltos e assassinatos
praticados e cometidos pela organização comunista que integrava.
A mim não me convence essa defesa dos direitos humanos com foco ide-
ológico e com as refrações óticas determinadas pelo tempo. O SOS Tortura,
telefone de denúncia instalado de outubro de 2001 a setembro de 2002,
registrou 25 mil comunicações! Relativas a fatos da atualidade. Mas a única
tortura que interessa à esquerda militante é a ocorrida num tempo em que
esse tipo de crime, embora sempre repugnante e hediondo, sequer estava
tipificado como tal no Código Penal brasileiro antes de 1997.
Por fim, esclareça-se: tortura é crime hediondo, coisa de degenerados.
Torturador é um monstro que deve arder na cela mais quente do inferno.
Junto com seus assemelhados do terrorismo. Mas a anistia pacificou e enca-
minhou o país para a normalidade institucional ao longo de três décadas. É
importante que se acendam luzes sobre o passado, mas sem essas pretensões
de linchamento público, de vender meia verdade como verdade inteira, ou
de transformar em heróis da democracia aqueles que lutaram por um regime
totalitário infinitamente pior do que o regime autoritário que combatiam.
A verdade sobre períodos históricos nunca foi e jamais será determi-
nada por uma comissão. Conceder autorização legal para que sete pes-
soas nomeadas por uma oitava interessada executem tal tarefa é um ato
legislativo para cuja aprovação se somam a inequívoca malícia de uns, a
inaceitável irresponsabilidade de outros e a ingenuidade das pombas frente
à voracidade dos gaviões.

10 De fato, a CNV entregou seu relatório final apenas em de dezembro de , indo dois
anos além da previsão inicial, conforme vaticinara Percival Puggina em . E, durante os
quatro anos de re-redação da História, chegou ao extremo de revirar uma sepultura. [N. C.]
44 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Para que o Brasil chegasse a um estágio de dormência capaz de aceitar


desmandos como os da Comissão Nacional da Verdade, um longo
caminho foi percorrido.
O começo desse trajeto se deu nas salas de aula de todos os níveis do
ensino nacional. A relativização do conhecimento e a flexibilização da
autoridade dos docentes, em favor da lisonja aos discentes, serviram a
esse mister à exaustão.
Apenas uma nação culturalmente sedada aceitaria tal comissão e, de-
pois, aceitaria uma manobra diversionista como a que foi executada
quando do encerramento da CNV. Em meio às denúncias de retum-
bantes escândalos na maior empresa estatal do Brasil, a Petrobrás, o
grupo finalmente encerrava suas atividades, em dezembro de 2014.

A –P II
Quando a nação fica sabendo que os muitos escândalos da Petrobras são
apenas alguns dentre muitos outros, nascidos no seio fértil do governo recém
reeleito, a Comissão da Verdade chega, célere, em seu socorro. Veio a lume
neste 10 de dezembro de 2014 o relatório final. Sai da pauta a corrupção
financeira e entra na pauta a corrupção da história.
Imagine, leitor, que durante o governo Sarney, fosse deliberada a criação de
uma Comissão da Verdade com o objetivo de examinar e esclarecer as graves
violações de direitos humanos praticadas durante a ditadura de Getúlio Vargas,
“a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a recon-
ciliação nacional”. Foram muitas e graves as violações. E a nação, decorridos,
então, 40 anos da ditadura de Getúlio, se agitava indormida e irreconciliada ante
a tenebrosa lembrança dos abusos cometidos por Filinto Müller e seus asseclas.
Avancemos, com nossas suposições. Para compor a Comissão e desenvol-
ver o histórico trabalho, o governo Sarney nomearia sete membros, escolhi-
dos a dedo entre os remanescentes parceiros mais leais de Carlos Lacerda.
Tudo gente da velha e combativa UDN.
Uma tal comissão, não fosse apenas fruto de imaginação, concebida para
compor o raciocínio que exponho neste texto, seria um disparate, um des-

11 de dezembro de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 45

tampatório, motivo de gargalhadas, porque existem bibliotecas inteiras, cen-


tenas de trabalhos acadêmicos a respeito da Era Vargas e da ditadura getu-
lista. Ninguém precisaria então, e não precisa ainda agora, de uma comissão
para descrever o período e, menos ainda, de uma versão oficial dos fatos de
então, narrados por seguidores de seu maior adversário.
Acho que não preciso desenhar para ser entendido. A atual Comissão
Nacional da Verdade era tão necessária quanto seria a CNV sobre Vargas ao
tempo de Sarney. Não é assim que se faz historiografia. Versões oficiais são
próprias de regimes totalitários.
Nas democracias, abrem-se os arquivos para que os pesquisadores pes-
quisem e para que os historiadores escrevam, emitindo suas opiniões em
conformidade com o conhecimento adquirido e à luz dos respectivos crité-
rios. E já há centenas de trabalhos feitos. A nação custeou uma comissão que
não deveria ser criada, cujo objetivo foi o de transformar comunistas ter-
roristas, sequestradores, guerrilheiros, assaltantes, homicidas em “heróis do
povo brasileiro”, lutadores por uma democracia que odiavam com o furor
ideológico. Com o mesmo furor ideológico que motivou a luta armada dos
comunistas, no mundo inteiro, naquele período da Guerra Fria, infelizmente
muito quente por estas bandas. Passado meio século, muitos dos reverencia-
dos pela CNV estão no poder e persistem nos mesmos afetos ideológicos e
na mesma aversão à democracia representativa. Seu apego aos direitos hu-
manos acaba quando visitam Cuba ou Caracas, ou quando elogiam a tirania
comunista na Coreia do Norte. Quanto ao mais, tortura é crime odioso,
terrorismo é crime odioso, comunismo e ditaduras são regimes odiosos e a
anistia, ampla, geral e irrestrita, foi pedida pelos que hoje a querem revogar.
O trabalho dessa Comissão é leviano, violador da lei que a criou, mal-
intencionado, revanchista. E é o equivalente, em colarinho branco e bem
remunerado, do popular linchamento.

É a Comissão Nacional da Verdade, pois, exemplo do quão devas-


tador pode ser o casamento entre a revolução cultural e o poder na
mão da esquerda. Trata-se da invasão institucional dos bárbaros na
prática. Mas esse terreno começou a ser preparado muito antes dos
trabalhos desse grupo. É o que Percival Puggina explica a seguir.
46 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

A
Houve um tempo, longo tempo, tempo que cruza os séculos, em que o
professor era símbolo de autoridade no pequeno e gigantesco espaço da sala
de aula. Note-se que autoridade é um atributo moralmente superior ao po-
der, mas,equando
no saber era necessário,
na conduta, a valiosa
vinha respaldada porautoridade
poder. do professor, fundada
Nas últimas quatro décadas, infelizmente, a educação brasileira foi ata-
cada em dois flancos pela esquerda delirante. E tanto a autoridade quanto
o valor econômico e social do trabalho dos professores, reconhecidos há
milênios em todas as civilizações, desabaram fragorosamente em nosso país.
Por um dos flancos, fustigou-a aquilo que Nelson Rodrigues chamava de
Poder Jovem, acolhido entre aplausos por pedagogos de meia tigela como ex-
pressão de libertação para a criatividade. Todo poder ao jovem! A maturidade
tornou-se um mal e a imaturidade, um bem a ser preservado. Era imprescin-
dível erradicar as formas negativas da pedagogia. Coisas como certo e errado,
sim e não, correção com caneta vermelha, entre outras práticas, precisavam ser
substituídas por vaporosas sutilezas que não contrariassem os pupilos. Afinal,
eles podem ser portadores natos de uma nova e superior forma de saber.
Guardo como pérola desse disparate a frase do vate sergipano que adoça
com sua voz aveludada os julgamentos do Supremo Tribunal Federal. No
caso da reserva Raposa Serra do Sol, ele, o ministro Ayres Britto, em reve-
rência à sabedoria indígena, lascou, citando Paulo Freire: “Não existe saber
maior ou menor; existem apenas saberes diferentes.” De fato, o veterano
Marco Aurélio Mello e o garoto Dias Toffoli exemplificam saberes diferen-
tes, quantitativamente iguais, não é, ministro? E viva Paulo Freire.
Pessoalmente ainda estou à espera de que algum desses guris mal-educados
das universidades brasileiras, depois de tantos anos de sua completa libertação,
apresentem alguma contribuição à ciência, à técnica e à cultura nacional. Ao
contrário, o que se vê é o país ocupando o 93º lugar no componente educação,
entre 169 pesquisados. E não me surpreenderei se encontrar por aí doutos peda-
gogos convencidos de que o mundo, por pura inveja, se recusa a cair de joelhos
diante da qualidade muito peculiar e superior do saber construído por nossos
jovens. De minha parte, vejo o sucesso sempre ao alcance dos que queimaram
pestana sobre os livros, levaram a sério seus estudos ou cavoucaram com res-
ponsabilidade seus espaços na vida pública ou na iniciativa privada, mediante

12 de janeiro de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 47

capacidade de renúncia ao bem atual comvistas ao investimento no bem futuro


maior. Esses jovens agem nocontrafluxo do deslizamento que descrevi, arquite-
tado por uma escola de viés marxista, que está levando três anos inteiros para
alfabetizar uma criança, quando nos meus anos de curso primário se aprendia
isso em seis meses de aula. A educação, caro leitor
, conceitual e deliberadamente,
deixou de lado seus objetivos essenciais e se voltou para formar cidadãos cons-
cientes, politicamente engajados. Enquanto não chegam lá, os cidadãozinhos
treinam sua cidadaniazinha desrespeitando e espancando os professores.
Pelo outro flanco, e no mesmo tom, os professores politicamente enga-
jados, abdicantes de sua autoridade, assumiram-se como “trabalhadores em
educação”. O conselheiro tutelar, escolhido em pleito de baixíssimo compa-
recimento, por força de preceito contra o qual nenhuma voz se ergue com
suficiência, exerce mais autoridade nas escolas do que os professores ou os
diretores. Estes, a seu turno, são, também eles, eleitos num concurso de pro-
messas e de simpatia, com participação e engajamento dos alunos. No Brasil,
amigo leitor, aluno vota para diretor! Vota para reitor de universidade! E
ninguém se escandaliza! Por que será que os praças não elegem os coman-
dantes e os pacientes não escolhem os diretores dos hospitais e centros de
saúde? Quando o poste passa a desaguar no cachorro e o aluno a meter o
dedo na cara do professor, ainda há quem se surpreenda.
Por estes primeiros dias de 2011, o Ministério da Educação está veiculando
um comercial com o objetivo de ampliar o interesse pela carreira do magisté-
rio. Mostra uma obviedade: os povos que melhor se desenvolvem atribuem a
seus professores o principal mérito por essesbons resultados. É claro que nos-
sos professores ganham muito pouco, mas os maiores problemas, nesse parti-
cular, estão na péssima preparação dos graduadospara o magistério e na falta
de recursos didáticos nas escolas. De outra parte, veja quais os países bem-
-sucedidos em seus objetivos sociais, com mais elevado Índice de Desenvolvi-
mento Humano, que se reportam prioritariamente a fundamentos marxistas
nas salas de aula e na formação de seus educadores. Duvido que encontre
algum. A crise dos trabalhadores em educação é uma responsabilidade deles
mesmos e das idéias que abraçam. É responsabilidade deles mesmos, como
professores dos professores nos cursos de Educação, como alunos desses cur-
sos na recepção passiva de ferramentas de trabalho comprovadamente erradas
e ineficientes, como reprodutores acríticos do mau conhecimento adquirido.
É, também, uma decorrência de suas reivindicações equivocadas, da busca de
uma autonomia para fazer o que bem entendem, que só é menor do que o
desejo dos alunos de se comportarem do mesmo modo. É uma consequência
48 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

de seus engajamentos, do desmonte que produziram na própria autoridade e


dos líderes que vêm escolhendo para representar-lhes.
Mas só aos professores, o senhor diz isso? Não, digo-o com muito maior
ênfase a eles porque são, de fato, como informa a propaganda do MEC, os
principais responsáveis pelo desenvolvimento social de qualquer nação. En-
quanto os professores se submeterem às diretrizes de quem, com um tranco
ideológico e partidário, os derruba à condição de meros trabalhadores em
educação; enquanto se deixarem levar pelas cartilhas da pedagogia domi-
nante; enquanto conviverem passivamente com a destruição de sua autori-
dade; enquanto tomarem como inegociável planos de carreira que nivelam
competentes e incompetentes; e enquanto não refugarem uma organização
que transforma o acesso ao comando da escola em concurso de coleguismo
e simpatia, viverão uma crise sem fim.
E se a seleção para docentes envolve qualquer coisa, menos critérios me-
ritocráticos, a seleção de discentes não haveria de ser lá muito criteriosa...

Q
É muito provável que o leitor desconheça o fato relatado na edição de
Zero Hora do dia 2 deste mês [janeiro de 2011], em artigo com o título “Ma-
mãe, passei em medicina”. O autor, professor de matemática e engenheiro do
ITA foi protagonista da experiência que conta. Chama-se Daniel Lavouras e
submeteu-se às provas do ENEM deste ano, sendo qualificado para ingresso
no prestigiado e disputado curso de Medicina da Faculdade Federal de Ciên-
cias da Saúde de Porto Alegre.
Até aí nada de mais. Afinal, supõe-se que um professor de matemática no
ITA, engenheiro aeronáutico, seja uma pessoa com preparação escolar e co-
nhecimentos bem superiores
confessa, no artigo, à média
absolutamente dos concorrentes.
ignorante Acontece
nos principais que ele
conteúdos comse
relevo para um curso de Medicina. Transcrevo-o: “Nunca entendi a mitose
e a meiose. Não sei a diferença entre eucariontes e procariontes, Darwin,
Mendel e seus amigos não me são próximos. Tudo que sei de cromossomos
e DNA é o que leio em jornais e revistas. [...] ‘Chutei’ com precisão? Não,
ao contrário, errei praticamente todas as questões de Ciências Biológicas.
Ah, em compensação eu tive o extremo mérito de entender que a foto de um

13 de janeiro de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 49

jogador parado fora da quadra com uma bola de vôlei significa que ele vai
sacar e também percebi a foto do Mr. Bean no quadro da Mona Lisa. É sim,
eu acertei estas! (E para todos que ainda não conhecem a prova do Enem,
fica o convite para que o façam, visitem o site do Inep).”
O professor não vai cursar Medicina, claro. Sua experiência e o artigo
que escreveu bradam contra o absurdo de um exame vestibular nacional que
não distingue alhos de bugalhos. E tampouco distingue o curso de Economia
do de Artes Cênicas, ou o curso de Publicidade do de Engenharia de Minas.
E assim, alguém que erra quase todas as questões de Ciências Biológicas
habilita-se a cursar uma das melhores faculdades de Medicina do país.
O ENEM não é apenas um reco rdista em trapalhadas de grande porte.
Ele é um mal em si mesmo. Aliás, ele é sintoma específico, no campo da
Educação, de um mal genérico que afeta o Brasil: o centralismo e a ruptu-
ra com os fundamentos do sistema fede rativo. Estam os sendo cozinhados
como sapos, pelo gradual aquecimento da água da panela, num modelo
que privilegia, em tudo e para tudo, aquilo que é nacional e federal. Ado-
tamos, cada vez mais, sistemas centralizados. Brasília deixou de ser tão-
-somente a capital do país. Ela se tornou a única cabeça pensante, o caixa
único, a sede dos sistemas únicos e o ponto de convergência, pela via
fiscal, de 23% do nosso PIB. Tamanha concentração de poder e dinhei-
ro transformou a antiga cidade dos candangos no município brasileiro
com mais alto Índice de Desenvolvimento Humano. E para ali convergem
prerrogativas que aviltam a Federação, transformando estados e municí-
pios ora em pedintes, ora em agraciados com as migalhas que caem de
sua mesa.
Pois o ENEM é filho desse sistema. Nasceu portador do defeito genético
que herdou do papai, o enganoso federalismo brasileiro, no qual a União,
cada vez mais, vai dispondo sobre tudo e sobre todos, absorvendo as au-
tonomias ainda residuais na nossa vida social. Um exame de ingresso nos
cursos de terceiro grau, com extensão nacional, é um devaneio autoritário,
uma coisa de porte descomunal, monstruosa no aspecto e, por óbvio, desco-
medido na dimensão de seus erros.
É desanimadora, contudo, a bovina docilidade com que instituições de
ensino superior, de tanta importância na formação da inteligência nacional,
se entregam a esse sistema qual vacas para touros. Cedem autonomia e acei-
tam sua própria degradação. Em troca de um prato de lentilhas. Lentilhas
federais, claro.
50 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Sempre na contramão dos bons exemplos, a esquerda brasileira ig-


nora o fato de que países de grande extensão territorial alcançam de-
senvolvimento cultural e econômico respeitando as particularidades
regionais, descentralizando poder político e administrativo. Bem ao
gosto dos ensinamentos soviéticos, fracassados até não mais poderem,
os governos do PT têm trabalhado intensamente por mais e mais cen-
tralização, concentrando as decisões em uma burocracia ideológica.
Não se trata sequer de uma burocracia especializada, preparada para
lidar com o tema que ordena. O Ministério da Educação (MEC) e seu
Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) retratam o insucesso des-
ses procedimentos. A prova serve à avaliação da qualidade do ensino
médio e para classificar candidatos a vagas em universidades públicas
brasileiras. O ideal do governo federal petista é que todas as insti-
tuições adotem seu exame. E, na mão da esquerda, um instrumento
desses pouco ou nada tem a ver com avaliação; trata-se, pura e sim-
plesmente, de doutrinação ideológica. O ENEM é uma das chamas do
fogo com que somos cozinhados em banho-maria.

E ?
A fábula da rã que se deixa cozer viva, passivamente, em uma panela
de água fria que vai ficando morna, depois quente e, por fim ferve, é per-
feitamente aplicável a inúmeras estratégias em curso no país. Se, em vez
de avançarem aos poucos, seus condutores saltassem etapas e nos jogassem
diretamente onde desejam nos levar, haveria resistência social e os projetos
fracassariam. Estão nos cozinhando em fogo baixo.
Muito se tem escrito sobre o ENEM, esse mastodonte que iniciou como
uma avaliação de desempenho do Ensino Médio no país e que, em geral,
virou monstruosidade ainda maior – prova de seleção para ingresso nos
estabelecimentos de Ensino Superior. Por quê? Porque alguns pedagogos,
afinados com o poder político estabelecido, decidiram que era assim que
tinha que ser. Já escrevi que quando o “coletivo” aparece com uma ideia,
por extravagante que seja, ela acabará prevalente. Não vou discutir, aqui, os
aspectos pedagógicos nem as onerosas trapalhadas em que se tem envolvido

14 de novembro de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 51

o tal provão do MEC. Detenho-me sobre uma pauta que não pode transitar
sem ser denunciada, em vista de seu significado para a democracia.
A forma federativa de Estado, constitucionalizada no Brasil desde a Pro-
clamação da República, corresponde ao importantíssimo princípio da subsi-
diariedade, que ordena competências em níveis superpostos, de tal modo que
cada nível só age se o nível que lhe é inferior não puder cumprir bem suas
atribuições. Esse princípio, que preserva, na base, a iniciativa dos indivíduos
e, logo acima, a iniciativa das comunidades locais, e assim sucessivamente,
tem óbvias aplicações no campo da Administração, do Direito, da Política
e da Ética. Pois eis que, ao conjunto de ações centralizadoras já adotadas
no Brasil, sempre pelo reverso desse respeitável princípio, soma-se agora o
ENEM, como nova intromissão/cessão de autonomia em favor da União.
Num país do tamanho do Brasil, as vagas nos estabelecimentos de Ensino
Superior tornam-se disputadas nacionalmente, com estudantes transferindo-
-se de Garanhuns para Santana do Livramento e vice-versa, como se estives-
sem tomando lotação para ir ao colégio. Absurdo!
O sistema sempre foi descentralizado, regionalizado e, por fim, como
convém, foi municipalizando-se. Os investimentos que proporcionaram a
maior parte dessas instituições de ensino resultaram de esforço, poupança
ou pleitos locais. O provão nacional é uma cessão de autonomia no controle
da porta de entrada do Ensino Superior!
Li todo o Caderno Amarelo aplicado este ano. Para quem está afeito
às relações entre a linguagem e a política fica fácil perceber, em algumas
questões, o emprego gramsciano15 do vocabulário e o uso da prova como

15 Em sua frase mais famosa, Karl Marx disse: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”
Entretanto, em vez disso, quando poderiam se unir, entraram em guerra. Trabalhadores ingleses
se uniram com a elite inglesa; trabalhadores dos Estados Unidos se uniram com a elite dos Es-
tados Unidos; juntos, lutaram contra os trabalhadores e a elite da Alemanha nazista e da Itália
fascista.
social. OMarx
mundo tentou
tododividir
recusouo mundo em dois,
essa divisão como
porque seusefundamento
ser bom ou émau dependesse
dissociado de classe
da realidade.
Prova disso é a força que historicamente se usou para impor o socialismo. O que Marx propôs
era uma união pela inveja, pelo ressentimento contra quem produz e gera empregos e riquezas.
Trabalhadores de todo o mundo recusaram o marxismo porque a imensa maioria das pessoas
respeita o próximo e ama a liberdade. Por isso, o socialismo (assim como outras ideologias
nefastas, como o nazismo) só chegou ao poder pela força, pela truculência, pelos fuzis. Mas
esse poder pela imposição tem vida curta; as balas dos fuzis acabam, o povo se reorganiza e a
verdade prevalece. Compreendendo essa situação, intelectuais de esquerda resolveram mudar
de estratégia. Percebendo que a revolução não ocorreria naturalmente e que a imposição pela
força não se sustenta, o cientista político Antonio Gramsci propôs uma revolução cultural, atra-
vés dos costumes, dos hábitos, do senso comum. Sua proposta era que o socialismo corroesse
por dentro as bases da civilização, pondo abaixo o sólido edifício da moral judaico-cristã, da
filosofia grega e do direito romano. Não é preciso muito esforço para aperceber-se de que a
linguagem é campo de batalha fundamental no contexto da revolução silenciosa do pensamento
52 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

instrumento de doutrinação e construção da hegemonia política. A centrali-


zação serve para muitos males, inclusive para esse específico mal. Serve para
a submissão de Estados e municípios. Serve para a cooptação de maiorias
parlamentares. Serve para afastar a sociedade de decisões ditas participativas
pelo envolvimento de grupos sociais devidamente aparelhados. Serve para
a corrupção. Serve, esplendidamente, para o uso da rede de ensino como
instrumento de doutrinação (vide livros do MEC!). E, porque tem sido
assim, em tudo e com tudo, também esse ENEM vai a serviço dos mesmos
instrumentos de centralização e hegemonia.
Enquanto a panela aquece para as festas do poder, canta-se como em ou-
tras comemorações: “Para a União não vai nada? Tudo! Então como é que
é? É big, é big, é big, big, big.” Pobre federalismo brasileiro.
E a sanha centralizadora não para por aí. Ao mesmo tempo em que pre-
tende regular tudo quando está no poder, a esquerda (corrente de pensamen-
to da maioria dos maus brasileiros que tomaram conta do Brasil) sempre
procurou fazer-se hegemônica na cultura. Quem não faz seu jogo, quem não
entra para o clube, não tem sequer o direito de opinar.

O
Li, recentemente, artigo criticando os que se aventuram a opinar so-
bre educação sem o preparo acadêmico específico. Educação, a exemplo
de outras ciências, segundo aquele texto, somente poderia ser abordada,
com propriedade, por profissionais d a área. Traduzindo: cada macaco no
seu galho.
Como também eu, cá no meu canto do arvoredo, tenho dado pitacos,
posso explicar perfeitamente o que leva tantos primatas a se imiscuírem
nessa sofisticadíssima
acontecer na educação pauta: estamos
nacional. Não étodos
que asapavorados comNão,
coisas vão mal. o queasvemos
coisas
vão de mal a pior, numa decadência acelerada que acende sinais de alerta em
todas as direções quando se pensa na sustentabilidade do nosso desenvolvi-
mento através da maior riqueza de qualquer nação – o povo que a constitui.
Se estivéssemos em guerra, gente de todas as áreas de conhecimento estaria

humano. Nesse sentido, a concentração das bases educacionais (das decisões sobre o que pode
ser ensinado, sobre o que e como deve ser dito) nas mãos dos ideólogos do MEC representa uma
grande vitória do gramscismo. [N. C.]
16 de junho de (publicado no jornal Zero Hora).
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 53

escrevendo a respeito. E o fato inegável é que os generais da educação con-


duziram o Brasil para a vitória de uma pedagogia que derrota a nação.
O que era perfeitamente previsível quando comecei a escrever sobre
isso há quase trinta anos passou a ser constatado e medido. Os indicadores
da educação nacional nos arrastam para constrangedoras companhias no
ranking mundial. E só os profissionais da área, os mestres dos educadores
em primeiríssimo plano, continuam acreditando nas teorias que deram causa
ao desastre em curso. São professores que se veem como trabalhadores em
educação, fazedores de cabeça, intelectuais orgânicos17 com a tarefa essen-
cial de promover a “formação para a cidadania”. Seguem teses segundo as
quais não existe saber maior nem menor, mas tão somente saberes diferentes,
de tal forma que alunos e professores, em condições de igualdade, suprem-se
de conteúdos mutuamente! Contrastando com esses e em meio a imensas
dificuldades, alguns professores ainda preparam seus alunos – sem distinção
de classe – para as competências que lhes abrirão oportunidades ao longo da
vida. Sabem que Lula é um case. Jamais um modelo.
O manuseio da educação para fins políticos e ideológicos passou a
ocupar o centro da reflexão acadêmica. Alunos dos cursos de formação
para o magistério contam-me que é difícil encontrar, para seus estudos,
literatura que não seja marxista. Não sugiro, aqui, que ela não circule.
Trato, diferentemente, de apontar o produ to visível das ideias dominante s.
Eis por que, leitor, não passa ano sem que seja inutilmente denunciada a
manipulação ideológica dos livros didáticos. Eis por que o MEC aprovou
um livro de história com elogios ao governo Lula e críticas ao governo
FHC (imagine-se o resto da história). Eis por que as provas do ENEM
contêm perguntas com a mesma orientação. Eis por que o tal kit-gay foi
contratado pelo MEC junto a uma ONG de homossexuai s para distribui-
ção nas escolas e só foi barrado (se é que de fato foi) porque virou moe-
da de troca no kit-blindagem do ministro Palocci. Vergonha? Vergonha é
para quem tem.
Escrevo sobre inevitáveis relações de causa e efeito. Escrevia quando era
previsível e agora escrevo sobre o constatado. A educação brasileira, com
a malícia de alguns e a dócil ingenuidade de quase todos, deu uma banana
para as expectativas sociais, para as necessidades nacionais, para o direito

17 “Intelectuais orgânicos são aqueles que, com ou sem vinculação formal a movimentos polí-
ticos, estão conscientes de sua posição de classe e não gastam uma palavra sequer que não seja
para elaborar, esclarecer e defender sua ideologia de classe.” Olavo de Carvalho,
A Nova Era e a
Revolução Cultural. Disponível em: olavodecarvalho.org/livros/negramsci.htm. [N. C.]
54 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

dos jovens e das famílias, para o futuro da pátria, e passou a fazer o que seus
donos desejam. O livro do MEC que denuncia a Gramática como instrumen-
to de dominação cultural tem tudo a ver com isso.

V
Pronto, descobriram tudo. Não adiantou disfarçar. Já há até artigos de
jornal comentando que alguns brasileiros reacionários tentaram derrubar o
governo a golpes de gramática. Puxa vida, estava tudo tão articuladinho! Ía-
mos detonar o ministro da Educação com uma mesóclise, o Palocci com um
numeral multiplicativo (mas esse já foi), e apresidente, jóia da coroa do nosso
golpismo, seria removida por uma corrente. De orações. De orações coorde-
nadas assindéticas, claro. Toda nossa trama tinha como argumento e cenário
as críticas que fazíamos ao livro didáticoPor uma vida melhor, patrocinado
pelo MEC, para utilização na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Esse é o
disfarce; mas o objetivo, mesmo, era derrubar o governo.
Até parece que estou ironizando, mas não estou. Apenas amplio um pou-
co as acusações formuladas por intelectuais (orgânicos, diria Gramsci) ali-
nhados com o governo aos que reprovaram aquele livro didático. Nossas
motivações seriam apenas políticas. Nenhuma boa intenção, nenhuma apre-
ciação razoável sobre a função do idioma para o desenvolvimento individual
e social nos poderia ser creditada. As críticas que fazíamos verteriam de
uma oposição “conservadora”, cujas sórdidas motivações não se detinham
sequer ante algo tão hermético e acadêmico como o ensino de língua por-
tuguesa – propriedade deles e ante cujas cercas eletrificadas seríamos meros
aventureiros e intrusos.
Certo, certíssimo,acima de qualquer dúvida ou contestação, estaria o sábio
Haddad, sob ecujo
dinheiro fora em comando, convenhamos,Mesmo
promover trapalhadas. o MEC se especializou
assim, emosjogar
ouriçaram-se go-
vernistas. Era preciso socorrer o ministro. Esgotaram o estoque de sofismas.
Como de hábito, levaram palavras ao pelourinho para delas extrair sentidos
que, por outros meios, se recusariama admitir. Entende-se. Não é com pouco
esforço que se consegue transformar o certo em errado, o errado em certo, e
atribuir satânicas motivações aos que discordam. Você sabe como é. Quando
a esquerda governa, toda crítica é recebida como uma punhalada. E mesmo

18 de junho de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 55

essa oposiçãozinha aí, com diagnóstico de morte cerebral, é vista como uma
falange de hunos que atacam por todos os flancos e modos, dignos ou indig-
nos. Até parece que a esquerda, quando fora do governo, se caracteriza pela
moderação e pela fidalguia, não é mesmo?
Foi instrutivo o livro em questão. Fiquei sabendo, por exemplo, que
essa história de idioma bem falado e bem escrito, no ambiente escolar, é
coisa de pessoas pernósticas, viúvas do Rui Barbosa, tão enlutadas quanto
a mulher dele, dona Maria Augusta Viana Bandeira. Fiquei sabendo que o
direito de falar e escrever com correção por bons motivos é privilégio da
esquerda. Já eu, suspeita-se, empenho-me em escrever direitinho por mo-
tivos ignóbeis. Cá do meu lado pernóstico da cerca, fiquei pensando se os
intelectuais de esquerda teriam alguma credibilidade caso não manejassem
razoavelmente bem o idioma. Mas consideram que o ensino correto no
ambiente escolar afronta as crianças provindas de famílias incultas! Não
é engraçado? Eles, socialistas, querem socializar a ignorância. Os conser-
vadores, os não esquerdistas, malvados que são, querem uma educação
pública de qualidade para todos.
Durante muito tempo acreditei que certas correntes políticas buscassem,
mediante meios distintos, os mesmos fins bons. Custei a perceber que os
meios são distintos porque os fins são essencialmente diferentes. Foram os
fatos da vida, bem mais do que as palavras, que me ensinaram isso. Duvido!
Duvido e faço pouco, como se dizia antigamente, de que esses mestres e pe-
dagogos sigam, para educar os próprios filhos, as diretrizes que aplicam aos
filhos dos outros.
Para os meninos da Febem ou para o lavrador de Ponta Grossa, pode ser
bom ou pelo menos cômodo, a curto prazo, que os deixem escrever como
falam, sem subjugá-los à uniformidade da norma. Subjetivamente, eles talvez
se sintam, assim, menos excluídos. Mas, objetivamente, aí sim é que estarão
excluídos,
das classes aprisionados
cultas. Tudo na sua particularidade
depende e sem acesso
de saber se preferimos à conversação
enfraquecê-los pela
lisonja ou fortalecê-los pela disciplina. Há nisso uma escolha moral que os
amigos do povo preferem não enxergar.
— Olavo de Carvalho19

19 “Quem come quem”. Disponível em: olavodecarvalho.org/apostilas/quem.htm.


56 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

A L
Quando me deparei com a notícia de que novos livros didáticos aprovados
pelo MEC e pagos com dinheiro do contribuinte eram claramente alinhados
com o petismo no poder, não me surpreendi. Livro didático aprovado pelo
MEC
petismoé prêmio literário
sabe que ele nãopara intelectual
perde chance deorgânico, ora essa. Quem
fazer proselitismo. conhece
A mesma des-o
tapada malandragem se derrama pelos concursos públicos, pelas provas do
ENEM e onde quer que surja uma brecha para a semeadura ideológica. Sabe
aquele inço que nasce e se infiltra até numa trinca do piso? Pois é.
Não há cargo em disputa, nomeação possível, cadeira ou cátedra vazia,
título honorário, medalha, redação de jornalismo, microfone livre, espaço
cultural, passeata ou procissão onde o PT não se apresente. O PT não deixa
livre nem cadeira de engraxate. Faça o teste. Quando estiver frente a um au-
ditório lotado diga assim: “Quem quer ser...” Não precisará terminar a frase.
Todos os que levantarem a mão são petistas. Estão sempre prontos para ser.
Seja lá o que for. Quando conseguem ser, criam um aparelho e ficam sendo.
Vá ao estádio do Beira-Rio em Porto Alegre. No meio da torcida colorada,
faça chuva ou faça sol, frio ou calor, haverá uma enorme faixa com a es-
tampa do Che Guevara – aquele vampiro argentino que se dizia com sede
de sangue. O que faz ali a faixa? Por que se dão ao trabalho de carregá-la e
desfraldá-la num campo de futebol, ano após ano? Proselitismo.
Nada escapa do aparelhamento. Estão nas Igrejas, nos sindicatos, nas
universidades, nas escolas, nos cursos de preparação para o vestibular, nos
cursos organizados para ingresso nas carreiras jurídicas (notadamente na-
queles criados pelos órgãos de classe da magistratura e do Ministério Pú-
blico), estão nas carreiras de Estado, nos conselhos profissionais, nas Forças
Armadas, nos seminários, nos grandes jornais e nos boletins paroquiais, nos
folhetos das missas e – claro, por que não? – nos livros didáticos do MEC
petista. Então, essas coisas não me surpreendem. Plantou, colheu. Elegeu o
PT, vai ter isso aí. Tudo aparelhado. Tudo a serviço da causa.
O que me surpreendeu foi o retorno a uma fase anterior ao petismo no
poder. Aquela segundo a qual o bom é ruim e o péssimo é ótimo. Lembrei-me
daquele período e de que já havia escrito algo a respeito. Fui atrás e encon-
trei o texto. Ele foi publicado em 8 de dezembro de 1997 no jornal Correio
do Povo, numa época em que o petismo, chegando ao poder, começava a

20 de maio de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 57

usar gravata. Lá pelas tantas, eu escrevi assim, referindo-me ao que se obser-


vara no esquerdismo dos anos anteriores: “Chegou a ser moda não pentear
os cabelos, tomar o menor número possível de banhos, andar malvestido,
falar com incorreção, tratar-se com curandeiros. Quem adotasse conduta
oposta e ainda por cima lesse artigos de jornal e bons livros acabava mal-
visto pelos companheiros. Havia políticos que eram incorrigíveis nos seus
erros gramaticais cuidadosamente cultivados porque lhes proporcionavam
singular identificação com as bases. Conheci alguns cujas esposas eram sem-
pre apresentadas como companheiras porque tal palavra expressava uma re-
lação mais popular e, portanto, mais adequada do que a outra. Ter uma boa
formação acadêmica atrapalhava mais do que ajudava quando o assunto
envolvia imagem e popularidade. Conheci pessoas que quando precisavam
ir a uma vila trocavam de carro, de roupa e de sapato.”
O tal livro do MEC que valoriza os erros de linguagem sinaliza, na esteira
do lulismo, um retorno àqueles velhos tempos. Falar bem é ruim. Falar mal
é bom. Nivele-se tudo por baixo! Na atividade rural, ser produtivo é ruim;
ser improdutivo é bom. Os ministros petistas do STF que acusaram a família
tradicional de ser uma família voltada para o patrimônio, ao passo que a
família gay seria voltada para o amor, andaram na mesma direção: família
tradicional é ruim; família gay é bom. Na mesma linha, Venezuela é bom;
Chile é ruim. Cuba é bom; Estados Unidos é ruim.
Também na linguagem, o petismo quer endeusar Lula. O “cara”sacralizou
a linguagem inculta, certo? Logo, precisamos fazer com que as escolas não
corrijam quem fala como o chefe, até porque há quem se disponha a pagar R$
200 mil (!) pelo privilégio de vê-lo atropelar o idioma... Por fim, a produção
verbal de Lula, consolidador da derradeira flor do Lácio, ainda mais inculta,
mas sempre bela, o habilita ao fardão da Academia Brasileira de Letras. Alô,
alô, Machado de Assis,os companheiros estão querendo Lula lá!

B
O leitor destas linhas, se não for gaúcho, talvez não tenha sido informado
sobre a usina de piadas que a base governista na Assembléia Legislativa esta-
dual proporcionou ao aprovar o projeto de lei que torna obrigatória, nestas
bandas, a tradução de palavras estrangeiras para o idioma pátrio sempre

21 de abril de .
58 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

que houver, em português, termo equivalente.22 De modo inesgotável, a usi-


na de piadas vem espalhando gargalhadas assim como a central nuclear de
Fukushima espalha radioatividade.
Ao cabo de uma semana de gozações, a batata foi esquentar as mãos do
governador Tarso Genro (você sabe, cada povo tem o governo et cetera e
tal). Indagado sobre sua posição a respeito da relevante peça legislativa – “O
senhor vai sancionar ou não?” –, Tarso usou a caneta como vara de salto e
foi equilibrar-se em cima do muro, dizendo ser necessário avaliar o projeto
sob o ponto de vista da constitucionalidade e da exequibilidade. Mas esto-
cou a oposição, que está criticando o projeto: “Só uma visão muito caipira
para achar que a gente não pode propor uma lei para defender o nosso
idioma como elemento de identidade nacional.” Coincidentemente, caipira
(palavra do idioma guaianá), significa “colonizador”, ou seja, é um termo
indígena para designar os que aqui chegaram falando... português.

O projeto de Raul Carrion apenas segue a tradição comunista de que-


rer dar ordens
putado federal,em todos
Aldo os aspectos
Rebelo, tambémdadovida humana.
Partido Quando
Comunista doera de-
Brasil
(PCdoB), tentou igualmente definir as palavras que poderíamos ou
não usar, com o Projeto de Lei nº 1676/1999, que dispunha “sobre
a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa”. Le-
gislando sobre a língua que falamos e escrevemos, legislam, ao cabo,
sobre o que pensamos – pois a língua falada e escrita é a estabilização
de nossos pensamentos. Não há, de fato, limites para o autoritarismo
e o totalitarisgmo comunista.

Mas deixa tudo isso para lá. O tema me impõe duas pautas e ambas são
sérias. A primeira se refere a alegada “defesa do idioma nacional”. Ora vai
atrás! O autor do projeto é um comunista (até que mudem o nome do par-
tido, todo filiado ao PCdoB é comunista assumido e histórico, certo?) e toda
a esquerda (gaúcha, pelo menos) é anglofóbica. Existe muito mais antiame-
ricanismo por trás desse projeto do que sincero desejo de defender o idioma.

22 Projeto de Lei nº / , do então deputado estadual Raul Carrion (PCdoB), aprovado


em de abril de pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Em maio de ,o
então governador Tarso Genro vetou parcialmente o projeto, em função de sua inconstituciona-
lidade (trata-se de matéria de competência privativa da União). O petista sancionou, contudo, o
Artigo º, que circunscreve as obrigações gerais doprojeto ao âmbito da administração pública
direta e indireta do Rio Grande do Sul. [N. C.]
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 59

Fosse como alegam, deveriam estar mais preocupados com o analfabetismo


funcional dos estudantes brasileiros, do que com o fato de eles entenderem
perfeitamente o que é hardware e software. Fossem os defensores do projeto
esclarecidos além da alfabetização básica saberiam que, no mundo inteiro,
os filósofos precisam de certo vocabulário alemão, os juristas de latim e
grego, os tecnólogos de inglês, os chefs de francês, os músicos de italiano,
os humoristas de economês e politiquês e assim por diante, independente-
mente de haver ou não palavra equivalente nos respectivos idiomas. Existem
estrangeirismos da moda, que passam; palavras boas que ficam e palavras
indispensáveis que se incorporam à linguagem universal.
Esclareço ainda, por conhecer as partes envolvidas, que o projeto não
tem raízes xenófobas. Ele é, como afirmei antes, essencialmente anglofóbico.
Creiam-me: quando aparecem por aqui representantes das Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (FARC), dos tupamaros, do Partido Comunis-
ta Cubano, rapidamente estão arranhando seu portunhol para agradar os
visitantes e cantando “soy latino americano”. E se aparecer um chavista na
volta, já vão logo se declarando bolivarianos.
A segunda pauta se refere ao projeto em si. Comete o autor o grave
equívoco, que se explica pelo viés totalitário do comunismo, de pretender
transformar sua vontade em lei. Impor a própria opinião aos que dela dis-
cordam. Não se alegue que a maioria legislativa é suficiente para legitimar
tamanha desfaçatez. O verdadeiro democrata – e isso vale para todos os
parlamentares, em todos os níveis – reconhece os limites da ação legislati-
va. Por isso, quando legisla, o faz mediante normas qu e não transponham
espaços legítimos da liberdade alheia.

Tal qual o autoritarismo, a contradição também é substância indis-

sociávelo do
contra esquerdismo.não
americanismo, Enquanto tentam ao
se enrubescem proteger as obrasilidades
defender multicul-
turalismo. Ou seja, sustentam que não há cultura boa ou má, melhor
ou pior, mas culturas distintas – e que todas merecem igual respeito,
devem ser entendidas, contatarem-se, absorverem-se. Mas, e a cultura
americana? Não há resposta.
O fato é que os maus brasileiros não são contra ou a favor desta ou
daquela bandeira em função daquilo que ela representa, mas conforme
quem a empunha. Por exemplo, são a favor dos direitos das mulheres?
60 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Nós somos sempre a favor. E vocês, maus brasileiros? “Sim, é evidente


que somos a favor... Mas somente aqui, no conforto da Civilização
Ocidental, com seus valores de liberdade e sua moralidade judaico-
-cristã, que tanto criticamos.” E lá no Oriente, mais especificamente
no Oriente Médio islâmico? “Bom, aí estamos falando de uma cultura
diferente, que luta conosco contra o imperialismo norte-americano,
que possui seus valores próprios que devem ser respeitados...” Ouse
um homem ocidental cometer a grosseria inócua de assoviar para uma
mulher e experimentará a ira de feministas e esquerdistas em geral,
grupos mui engajados, que não parecem, contudo, importar-se com as
mutilações, chibatadas e execuções de muçulmanas.
O relativismo moral do multiculturalismo incute em nosso imaginário
a possibilidade de entender e aceitar absurdos, enfraquece os concei-
tos de certo e errado e limpa o terreno para os ardis de quem quer de-
finir o que é aceitável ou não conforme seu entendimento ideológico.

Por isso, Percival Puggina nos chama à ressurreição.

R
Eu sei, o conceito de cultura é mais abrangente que bolsa de mulher. Den-
tro dele há de tudo, e quase tudo que não há também cabe. Então tratemos
de nos entender: I) por falta de outra palavra, “cultura” designa, aqui, o bem
colhido por quem busca prazer e elevação do espírito no conhecimento e na
Arte; II) quando me refiro às vertentes do conhecimento estou falando, prin-
cipalmente, de Filosofia, Política, Direito, História e Religião.
As vertentes da Arte são muitas e proporcionam lazer e prazer. Embora
os indivíduos recolham da cultura expressivos benefícios pessoais, mesmo
quando individualmente construída ela é socialmente proveitosa. Tanto os
que a produzem como os que a buscam são essenciais ao progresso das civi-
lizações. Agora, leitor, dê uma olhada em seu entorno. Será impossível não
perceber o quanto isso que escrevi vai na contramão do que se vê disponi-
bilizado como se fosse bem cultural ao consumo da população. Felizmente,
suponho que, por uma questão de pudor, para que não se confunda uma

23 de junho de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 61

coisa com a outra, música virou som. E, com exceções, sumiram os dois.
Ficou o barulho. Pode a música, a boa música, sumir? Pode. A boa música
pode. E os livros? Sumirão também? Intuo que vem aí uma geração para a
qual livros – em papel ou virtuais - serão objetos de um tempo remoto, coisas
da casa do vovô e da vovó. Ainda são vendidos, é verdade, mas não se pode
dizer que por muito tempo, nem que parte significativa das vendas atuais
expresse muito gosto pela Literatura (exceto se ampliarmos o conceito para
abrigar obras de autoajuda, vampirismo, histórias sobre animais domésticos
e assemelhadas). Filosofia? Dá uma canseira danada. História? Consulte o
governo. Ou ele escolhe os livros ou nomeia uma comissão para contar,
tim-tim por tim-tim, toda a verdade. De Política não se quer ouvir falar. Na
comunicação de massa pela tevê, o que há 20 anos era visto como baixaria
e causa de escândalo hoje se afigura como clássico, recatado e requintado.
Resumindo, o padrão cultural do brasileiro despenca num escorregador re-
coberto pela mais sebosa vulgaridade. Não vou aprofundar-me nisso para
não ficar deprimido.
Certas correntes antropológicas promovem verdadeiro terrapleno cultu-
ral. Não existe cultura melhor nem pior, superior ou inferior. Tudo é cultura
e tudo é apreciável como símbolo de ideias e comportamentos coletivos.
No entanto, a civilização continuará produzindo seres humanos que, em
ambiente adequado, valorizarão o bem e o belo, o saber e a verdade. Com
a sociedade se massificando cada vez mais e mantidas as hegemonias que
se instalam no mundo da Educação e da Política, a elite cultural brasileira
definhará em importância. Os espaços de decisão serão tomados por aqueles
que estabelecerem mais proveitosa interlocução com a massa crescentemente
ignara, presa fácil na malha da mediocridade a seu alcance, da mentira bem
contada e da promessa sedutora.
Precisamos muito de um renascimento cultural. Mas como produzi-lo?
Onde quer que olhe, não vejo sinais disso. Quase tudo que leio expressa
grosseiro menosprezo pela virtude, pelas coisas do espírito e pela elevação
da mente humana aos níveis de competência que lhe foram disponibiliza-
dos pelo Criador. Sei, sei, só escrevo estas coisas horrorosas, escandalosas,
porque sou um conservador, palavra que a novilíngua24 marxista conseguiu

24 Na distopia , o autor George Orwell criou um mundo em que todas as ações e os pen-
samentos eram controlados pelo Estado total. A expressão dos pensamentos – a fala – seria na
novilíngua. Esse idioma, construído sobre a exclusão de uns termos e a alteração de sentido de
outros, acabaria por modelar e modular o pensamento das gentes. Qualquer semelhança com as
tentativas do governo petista de proibir ou alterar o significado de certas expressões não é mera
coincidência, pois era de autoritários desmedidos que Orwell falava. [N. C.]
62 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

transformar em xingamento. É categoria que, no Brasil, se desdenha. E, neste


caso, diferentemente do conhecido aforismo, quem desdenha não quer com-
parar. Eu escrevi com-pa-rar.
Querem um exemplo da falta que faz uma cultura verdadeira e de para que
serve o relativismo multiculturalista? Vejamos como uma personagem funda-
mental de nossa sociedade – a Igreja Católica – é tratada em sala de aula.

A C , J
No e-mail que me endereçou, a jovem estudante mostrava-se indignada
com a Igreja por causa das Cruzadas. Fiquei pensando se respondia ou não.
Afinal, de que adianta gastar meu latim com esse tipo de bobagem? Que poder
teriam algumas palavras minhas contra a ação de um professor mal-intencio-
nado, o ano inteiro, dentro da sala de aula? Decidi por uma estratégia mais
longa e retornei uma pergunta bem curta: “Teu professor, ao falar sobre as
Cruzadas, mencionou alguma vez a palavraJihad ou o expansionismo islâmi-
co?” Ela me respondeu que nunca ouvira falar disso e se mostrou surpresa por
eu saber que ela fora introduzida ao tema das Cruzadas por um professor. A
menina deve ter me considerado um gênio...
Tem-se aí excelente exemplo de algo que já foi objeto de outros textos
meus: a malícia de tantos professores que se valem da cadeira de História
para seus fins ideológicos, usando o ataque insidioso à religião como meio
para agir. Afastam os jovens da Igreja e da palavra de Deus e os introdu-
zem, com gravíssimo prejuízo, nos ritos e nas devoções do materialismo,
do marxismo e do relativismo. Daí para o hedonismo é um passo de dedo.
Desmancham com os pés da mentira e da mistificação o que os pais tenham
ensinado em casa. Espinafram a Igreja por causa das Cruzadas do século XII,
mas jamais mencionam
lo passado. Decorrerão os cem milhões
algumas deaté
décadas mortos pelo comunismo
que esses no sécu-
jovens, já maduros,
percebam, na experiência da vida, o engodo a que foram conduzidos pelos
falsos mestres. Quem não tem relatos semelhantes?
A primeira Cruzada iniciou no ano de 1096 e a nona terminou em 1272.
A palavra se refere, portanto, a uma série de episódios que se encerraram
há 738 anos, envolvendo a retomada de Jerusalém. Veja agora, leitor, se
é possível falar honestamente sobre as Cruzadas sem mencionar a Jihad .

25 de julho de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 63

Jerusalém, no início do século VII, integrava o Império Romano do Oriente,


sob o domínio de Bizâncio. Era uma cidade cristã, portanto, até ser conquis-
tada pelos sassânidas (persas) e, em seguida, pelos seguidores de Maomé.
Este personagem surgira na cena histórica alguns anos antes; estabelecera
as bases religiosas do Islã e dera início à Jihad e à Guerra Santa. Em apenas
oito anos, formara um Estado árabe sob seu comando. Em 622, conquistara
Iatrib (Medina), passando na espada os judeus da cidade. Em 630 retomara
Meca, de onde fora expulso por suas ideias monoteístas. E morrera em 632.
Seis anos mais tarde, seu sucessor, Omar, entrava em Jerusalém. Um século
mais tarde, o Islã já estendia seus domínios sobre a Pérsia, a Palestina, boa
parte do Império Bizantino, o norte da África, a Península Ibérica e atacava
a Europa por vários flancos. É possível mencionar as Cruzadas, com seus
episódios grotescos, e nada contar sobre isso?
Mas as coisas não pararam aí. Quando o Papa Urbano II, no Concílio
de Clermont-Ferrand (1095) convocou a Primeira Cruzada, Jerusalém havia
sido tomada pelos turcos seldjúcidas, que instalaram um regime de intole-
rância à presença dos cristãos, até então respeitada nos termos ajustados
com Bizâncio durante a conquista da cidade em 636. Clermont-Ferrand fica
próxima ao centro geográfico da França. Pois, enquanto ali se realizava o
concílio, ainda fumegavam, no centro da atual Espanha, os destroços deixa-
dos pela guerra que retomara a região de Toledo para os cristãos e para o
reino de Castela. Os muçulmanos estavam ali havia três séculos e levariam
outros 400 anos para abandonar toda a península. Mas disso, nas aulas de
História, fala-se pouco, muito pouco, quase nada.
E quando se menciona a Tomada de Constantinopla, em 1453, o assunto
é tratado como fato isolado, perfeitamente normal, e não como um ato de
suprema violência e ganância imperial, geradora de um massacre que durou
três dias e três noites, que coroou investidas iniciadas 800 anos antes e que
encerrou mil anos de esplendor cristão naquela que foi a mais impressionante
cidade de seu tempo! E nada, absolutamente nada se diz sobre o fato de que
esse expansionismo, ainda insatisfeito, prosseguiu na direçãooeste, sob o mes-
mo impulso, até a derrota dos otomanos, diante dos murosde Viena, em 1683.
Mas insistentes, violentas, conquistadoras e descabidas foram as Cruzadas...
Agora me responda o leitor: a derrota do grão-vizir Kara Mustafa Pasha
em Viena decretou o fim das guerras santas? Encerravam-se, ali, as campanhas
militares empreendidas pelos muitosimpérios, dinastias,governos e províncias
muçulmanas, ao longo desses mil anos iniciados com a Hégira e a tomada de
Iatrib? Não, claro que não! O que são Al-Qaeda, Hamas, Hizbollah, Fraterni-
64 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

dade Islâmica e o amigo de Lula, Ahmadinejad,se não jihadistas que afirmam


seguir as determinações de sua fé? Não eram jihadistas os tresloucados que
se arremessaram contra as Torres Gêmeas? E se alguém, leitor, lhe opuser que
Jihad, no sentido religioso, é coisa diversa, que designa umaconquista pessoal
interior, de natureza espiritual, saiba que isso é sublime e verdadeiro. Como
também é verdadeiro, sem ser sublime, que Maomé II estava tão a serviço de
sua Jihad em versão violenta quanto quem, hoje, veste um colete de bombas
ou faz explodir uma estação de metrô em Londres.
A imensa maioria dos muçulmanos é amante da paz e vive sua religiosi-
dade de um modo sereno e harmonioso com as demais crenças e religiões em
seu entorno. No entanto, é a pequena minoria violenta que mais uma vez,
neste momento, se expressa de modo assustador nas páginas da História.
Escrevo todas estas linhas, bem além do habitual em meus textos sema-
nais, para destapar a imensa fraude praticada por tantos professores de His-
tória. Para desmerecer o Cristianismo e a Igreja, eles se fixam nos episódios
das Cruzadas, como algo sem causa e com as terríveis consequências que
apontam. Algumas aulas mais tarde, porém, tratam da terrível Tomada de
Constantinopla como fato isolado, sem srcem que mereça menção e tendo
como resultado as Grandes Navegações. Convenhamos!
Nota do autor: esta é a mensagem que enviei à jovem estudante mencio-
nada nas primeiras linhas deste texto. Minha intenção era ajudar a tirá-la
das trevas inevitáveis em que são jogados estudantes submetidos a mestres
mal-intencionados.

Q ?
Na esteira do recente surto de crescimento da economia brasileira, co-
27
meçam
governoafederal,
surgir demandas
diante do por recursos
fracasso humanos
do nosso qualificados.
sistema edu cacionalOcaptura-
próprio
do e ideologizado pela esquerda, decidiu criar mecanismos para a impor-
tação de talentos. “Como seria bom termos gente mais bem preparada!”,
dizem uns. “Precisamos de logística e recursos humanos melhores!”, re-

26 de julho de .
27 Puggina escreveu este artigo quando o Brasil colhia os frutos maduros do Plano Real e das
políticas econômicas empreendidas por Fernando Henrique Cardoso e mantidas em grande
medida por Luiz Inácio Lula da Silva. Eram meados de , quando o assistencialismo irres-
ponsável petista semeava a crise que colhemos agora, em . [N. C.]
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 65

clamam outros. Logística e gente? Vá lá. Um binômio esquisito, mas serve


para dizer isto: é muito mais fácil, rápido e barato duplicar a infindável
BR-101 do que prover educação ao povo. Quem desejar um Brasil mais
qualificado sob o ponto de vista educacional terá de arrumar um ban-
quinho e aguardar pelo menos uma geração inteira. Isso se começarmos
amanhã de manhã bem cedo.
“Uma geração inteira?”, talvez se exclame, preocupado, o leitor destas li-
nhas. Sim, uma geração inteira, porque antes de começarmos a alfabetizar me-
lhor nossas crianças será preciso refazer um longo percurso que começa pela
formação dos professores naquelas usinas dos recursos humanos do sistema,
que são as universidades (estou pensando, principalmente, nos professores dos
professores).Ao mesmo tempo, haverá queabrir caminho até osregistros e vál-
vulas que comandam a entrada esaída de recursos do erário. E, também conco-
mitantemente, acabar com as iniquidades instaladas na tradição brasileira, entre
elas a que faculta ensino superior gratuitoa quem poderia pagar por ele. Em me-
nos palavras: melhores professores, mais recursos financeiros, mais bom senso.
Se abrirmos a janela para uma espiada no Brasil real, será impossível
não perceber que vive-se a cultura do não-saber. Poucos são os alunos que
querem aprender. Menos numerosos ainda os que têm hábitos de leitura.
Separa-se o lixo na cozinha, mas não se separa o lixo inserido na educação
e nos meios de comunicação. É a epifania da ignorância! Cultura? Não a
mencionarei sequer. A infeliz, com todas as formas de arte, só tem lugar em
guetos quase desabitados. A literatura exige alguém que a produza e gente
capaz de apreciá-las naqueles objetos que rumam para se juntar, nos sótãos
e nos porões, às lamparinas e às máquinas de escrever.
Visite, leitor, a página do movimento Todos Pela Educação (www.to-
dospelaeducacao.com.br). É um bom site , frequentado principalmente por
pessoas envolvidas com os temas da educação no Brasil. Na maioria, pro-
fessores. Da última vez que o acessei estava aberta uma enquete pedindo
aos visitantes para expressarem sua opinião sobre a “principal qualidade
de um bom professor”. Eram quatro as escolhas possíveis. “Dominar a
matéria” tinha 9,9% dos votos. “Saber ensinar a matéria” tinha 28,9%. A
resposta que teve a larga preferência (58,7%) foi “Perceber as dificuldades
de cada um”. Entende-se aí por que os professores se empenham tão pouco
no aprimoramento e na atualização do seu conhecimento específico. As
consequências são visíveis no desempenho dos alunos.
Educação não é charuto. De charutos podemos dizer que tais são de qua-
lidade e que tais não o são. Com educação não é assim. Ou ela é de qualidade
66 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

ou não é educação. E só a teremos quando as elites brasileiras colocarem


crachá no peito, adesivo nos carros e forem aos parlamentos e aos governos
clamar por ela com a mesma intensidade com que reclamam dos impostos
que todos pagamos. Note-se, por fim: parte desses impostos vão bancar as
disputas corporativas, ideológicas e partidárias de um sistema educacional
que se conta entre os piores do mundo.
E se a base da sociedade já vai ruída há tempo, que dizer de suas prefe-
rências e suas manifestações, digamos, culturais? Andam dizendo por aí que
funk é cultura...

T
Alguém teve a feliz ideia de me mandar uma seleção de músicas popula-
res brasileiras que, através dos tempos, exaltam a mulher. Século passado,
nos anos 40, cantava-se que “a deusa da minha rua tem olhos onde a lua
costuma se embriagar”. Nos anos 50, “o teu balançado é mais que um
poema; é a coisa mais linda que já vi passar”. Nos anos 60, “nem mesmo
o céu nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito não é maior que meu
amor, nem mais bonito”. Hoje, a coisa está assim: “Tchutchuca, vem aqui
com teu tigrão. Vou te jogar na cama e te dar muita pressão.” Ou, então:
“Pocotó, pocotó, pocotó, minha eguinha pocotó”. Ou ainda: “Hoje é festa
lá no meu apê. Pode aparecer, vai rolar bundalelê.” E, para arrematar: “Eu
sou o lobo mau, au, au / E o que você vai fazer? / Vou te comer, vou te
comer, vou te comer.”
Sei que tem gente adorando. Sei que existem pedagogos deslumbrados
com esses exercícios poéticos e libertários através dos quais se está realizan-
do, com prodigalidade, o sonho de uma sociedade de cabeça fraca, destituída
de juízo
para moral,
onde bem bom gosto e seus
entenderem sensocondutores.
crítico, pronta
Nãopara
me ser levada pelo
perguntem comonariz
foi
que nos tornamos assim. Minha resposta vai magoar muita gente – porque
isso não se instalou por geração espontânea. Isso foi espargido estrategica-
mente, por gente adulta, dedicada a destruir os valores de uma civilização,
contando com a colaboração de pais omissos, professores instrumentaliza-
dos e religiosos mais interessados em ideologias do que na salvação das al-
mas. O agente laranja que jogaram em cima da sociedade a reduziu a galhos

28 de janeiro de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 67

secos onde não se reconhecem os frutos da boa semente nem a existência de


vida inteligente.
Que queiram fazer isso conosco é fácil entender. Os agentes do mal são
astutos e insidiosos. Mas que nos deixemos levar para as profundezas da
baixaria e do mau gosto, é incompreensível. Que os rapazes das danceterias
se deliciem com as sugestões lascivas das letras e com a coisificação da mu-
lher, reduzida à condição de instrumento de prazer, até se pode explicar, num
contexto de libertinagem. Mas que as mulheres não se sintam ultrajadas e
entrem na pista com prontidão e requebros de vaca para touro, isso fica al-
guns anos à frente da minha capacidade de compreensão.
“E daí?”, talvez esteja perguntando-se o leitor. Daí, meu caro, que o mau
gosto e o deboche arruínam a dignidade da pessoa humana, afetam seu juízo
moral, reduzem o discernimento e a capacidade de compreender a realidade.
A superficialidade passa a presidir as ações e as relações sociais, e a mente
torna-se um disco rígido que vai reduzindo sua capacidade à proporção da
minguada utilização que lhe é dada.
Eis por que todos correm atrás de um diploma, mas poucos se preocupam
em fazer jus a ele através do estudo. Queiramos ou não, a cultura tem umpa-
pel determinante nos padrões da vida social, e a dedicação ao estudo cumpre
função importante no progresso individual e social. O que havia de melhor na
nossa cultura e no nosso ensino foi morrendo de velhice e de tristeza. Ou não?
As tchutchucas e as eguinhas pocotós agasalharão entre seus quadris as
futuras gerações de brasileiros. E não é difícil prever o que vem por aí. Não
é mesmo, Tigrão?

O artigo a seguir trata especificamente de uma das tantas invasões de


movimentos baderneiros, autoproclamados estudantis, a uma reito-

ria de universidade.
despeito de mencionarEntretanto, como
uma situação todos ossua
específica, textos deste
análise livro,e a
é atual
abrangente.
Diz a sabedoria popular que criança mal-educada é resultado da frou-
xidão dos pais. Mutatis mutandis, os rapazes que não se constrangem
em dizer que darão “muita pressão” e as meninas que não se incomo-
dam de ouvir isso carecem de bons exemplos educacionais, da pré-
-escola à pós-graduação.
68 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

J ,
Leia a citação a seguir apesar dos erros primários: “Historicamente a
Universidade em todo mundo se assume como uma espécie de território livre
em que caberia desde a mais inusitada teoria sobre qualquer dimensão do
real a experimentação
ao sexo de vivências
casual”. Essa frase não é deque
umairiam desdedooENEM.
redação consumoFoideproduzida
maconha
por um doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), profes-
sor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) – o resto do artigo,
em defesa dos invasores da USP, é ainda pior. Tendo lido e ouvido ideias
parecidas também por aqui, é sobre isso que escrevo.
Não há geração que não tenha manifestado inconformidade em relação à
que a antecedeu e vice-versa. A contrariedade de certos filósofos gregos ante
o comportamento dos discípulos se repete na experiência de praticamente
todos os pais e filhos, mestres e alunos. Exceções são exatamente isso – ex-
ceções. É desnecessário, portanto, desenvolver uma pedagogia para suscitar
a rebeldia dos rebeldes, seja elevando-a à categoria das coisas sagradas, seja
transformando-a em parâmetro de discernimento, seja para destinar ao lixo
orgânico as judiciosas ponderações da maturidade, seja, ainda, para instalar
no ambiente acadêmico um hardcore da libertinagem. Não há necessidade.
De hábito, o jovem passa aí por conta própria. Aliás, eles raramente mor-
rem por enfermidades do corpo, mas vitimados por sua pretensa onisciência
e rebeldia. Qual pai, qual mãe ainda não ouviu de um filho a frase “Eu sei o
que é bom para mim?” ao lhe proporcionar conselhos nascidos do amor e
da experiência de vida? O jovem sabe o que é bom para ele, mas é a própria
juventude que facilmente o ilude a respeito da natureza do bem. Ali onde
está o que ele considera bom não vive necessariamente o bem dele. E essa
ilusão é apenas uma das muitas e frequentes evidências dos riscos inerentes à
imaturidade. Há suficientes dramas, em número e porte, para dispensar a ri-
dícula louvação aos jovens rebeldes promovida por “coroas” irresponsáveis
(combinação explosiva!), sob motivações ideológicas e afinidades políticas.
E só por causa delas.
Nos debates sobre a invasão da reitoria da USP, foi possível perceber o
quanto essa combinação explosiva gostaria de exercer autoridade no am-
biente acadêmico. Entre professor e aluno, dizem uns e outros, não haveria
saber maior (olha o desatino teórico!). Não duvido de que, em breve, os

29 de novembro de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 69

alunos estejam querendo salário para participar dessa exaustiva produção


comunitária do saber. Em virtude da pretendida equivalência das respectivas
funções, creem que a eleição do reitor deveria dar o mesmo peso aos votos de
alunos e professores. Todo poder aos sovietes! Todo poder ao jovem e suas
minorias organizadas!
Esquecem-se os moços rebeldes e os “coroas” irresponsáveis que o con-
ceito de Estado Democrático de Direito, no qual o querer não faz poder,
abriga um binômio jurídico-político. O simples desejo contrariado de um
grupo pirracento não viabiliza o qualificativo “democrático” a qualquer
reação do “coletivo”. Há um democratismo muito ao gosto da esquerda,
que adora “tirar decisões” em assembleias manipuladas. Então, assim como
nem toda deliberação de um grupo é necessariamente democrática, nem toda
ação por ele conduzida é tolerável no Estado de Direito.
É fato sabido que, no Brasil, se um indivíduo invade uma propriedade
privada, é agressor e vai se explicar com o delegado; se vários invadem tem-
-se um movimento social ao qual tudo é permitido. Os estudantes contavam
com isso e se deram mal.

Pois é assim. Há décadas, a esquerda se encastelou no mundo intelec-


tual brasileiro. Corroeu tudo por dentro, pondo abaixo o edifício do
conhecimento e erigindo uma construção pós-moderna – assimétrica
e disforme. Antes mesmo de conquistar o poder político e destruir
com a caneta na mão, a esquerda brasileira já ia longe em sua domi-
nação cultural. E nada lhe escapa – nem a cultura de massa.
Os dois textos a seguir falam sobre o desamor à verdade nas telas de
televisores. (Novamente, trata de casos específicos de anos atrás, mas
a essência de ambos é a mesma de questões correlatas atuais.)

U TV B
Tenho muitos leitores esquerdistas. Por vezes me enviam “pérolas”, como a
dica para acompanhar a sérieO dia que durou 21 anos, apresentada pela TV
Brasil, a tal emissora do Lula, como era chamada ao tempo de sua criação. São
três vídeos de uma desfaçatez indescritível. O texto é do jornalista Flávio Tava-

30 de abril de .
70 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

res. Os documentos são de arquivos norte-americanos. Nos créditos, exibem-se


31
logotipos do próprio governo (incluindo o colorido “Brasil, país de todos”) e
de diversas empresas estatais. Ou seja, o pacote foi
pago com recursos públicos.
Antes de irmos ao que interessa, acho importante reafirmar minha posi-
ção pessoal sobre o movimento de 1964. Ele fez um bem ao Brasil na medida
em que evitou o maior dos males. Mas errou feio, depois, ao ocupar o poder
por duas décadas inteiras e ao conviver com a prática da tortura, abrindo
uma janela para que a esquerda radical passasse a ser identificada com temas
que sempre lhe causaram alergias: democracia, liberdade de expressão e di-
reitos humanos. Ponto e novo parágrafo.
Vamos aos vídeos. Eles foram produzidos para mostrar que os Estados
Unidos estiveram, desde as preliminares, e por longos anos, atentos e cola-
borativos em relação ao regime militar brasileiro, que só se estabeleceu para
proteger os interesses norte-americanos e evitar as reformas de base. Estas
reformas seriam sábios e perfeitos instrumentos com os quais o talentoso
João Goulart iria promover a ascensão social dos trabalhadores brasileiros.
Então, segundo os vídeos, a coisa fica assim: a partir de 196 3, quando o
plebiscito revogou o parlamentarismo e fez retornar os poderes de governo
a Jango, teve início a repugnante conspiração. A ela se teriam juntado a
Casa Branca (Kennedy e Johnson), o Departamento de Estado, as Forças
Armadas dos EUA, a CIA, a Igreja, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica
do Brasil, o empresariado nacional urbano e rural, as empresas multina-
cionais sediadas no Brasil e a grande mídia da época. Nessa avassalado-
ra convergência, em união de seus corações graníticos e malignas mentes,
mobilizaram eles fantásticas energias para fazer com que... nossos pobres
continuassem pobres! Assista aos vídeos (é só procurar na rede pelo título
“O dia que durou 21 anos”) e comprove por si mesmo. Está ali, com som
e imagem, a seguinte mensagem: dado que seria difícil mobilizar a opinião
pública em torno da proposta de manter os pobres na pobreza, buscou-se
legitimar o movimento contra as reformas de base criando a “paranóia do
comunismo”. Para essa fantasmagórica tarefa, realizada em pouco s meses,
partindo do zero e sem qualquer suporte nos fatos nacionais e internacio-
nais, mobilizaram-se pesados recursos financeiros e propagandísticos.
Em outras palavras ainda, segundo os tais vídeos da TV Brasil, a bipola-
ridade que marcou os longos anos da Guerra Fria não existiu no Brasil a não
ser como trabalho de propaganda das mal-intencionadas forças golpistas. A

31 Slogan do segundo mandato de Lula. [N. C.]


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 71

União Soviética, que estendia suas malhas, a ferro e fogo, na África, na Ásia,
na América Central, no Caribe e na América do Sul, mediante movimentos
guerrilheiros e forças de ocupação, ignorava solenemente as terrinhas des-
cobertas por Cabral no século 16. Se já ouvira falar no Brasil, não prestara
atenção. Aqui só agiam os gananciosos ianques, difundindo a paranoia de
um comunismo que nos desprezava e nos afastava de seu interesse como
quem tira do caminho uma casca seca de laranja...
Escolha, leitor, o que lhe parece mais acintoso. Esse suposto desinteresse
soviético pelo Brasil em tempos de Guerra Fria? A coragem de afirmar uma
bobagem dessas? Ou a tolerância dos órgãos de fiscalização da República
com o uso de recursos públicos para produzir tamanha mistificação? Com
que facilidade, num modelo institucional como o nosso, se usa o que é do
Estado para promover a ideologia do governo!

Nos anos 80 integrei um grupo de abnegados que promovia palestras so-


bre senso crítico, formação da consciência individual e formas de ação coletiva
contra o estupro que setores da mídia promovem nos bons e consensuais va-
lores da sociedade. Combatíamos quixotescamente, cientes de que ne frentáva-
mos dragões com nossas tesourinhas, dessas que se dá para crianças recortar
papel. Sem fio e sem ponta. Mas preservávamos, pelo menos, a orgulhosa sen-
sação de estar fazendo algo contra o que víamos e, principalmente, contra o
que antevíamos. Com o tempo, a vida se encarregou de dispersar os membros
do grupo pelo país afora e nossos cursos pararam por falta de equipe.
Decorridas mais de duas décadas, quando me lembro daqueles anos, do
que então era exibido em programas e novelas de tevê, e do que motivava
nossa
de que,atividade cívica
se por um ladoem defesa dos
estávamos traditional
certos values,oscolho
ao identificar malesa que
impressão
apon-
távamos, de outro subavaliávamos os rumos que as coisas tomariam na so-
ciedade brasileira. Tudo degenerou muito mais, na telinha e na vidinha. De
minha parte, desde então, não assisto mais novelas. Ostento o distintivo: sou
um brasileiro que, em um quarto de século, não assistiu a uma única novela.
Mas tomo ciência, pelas conversas alheias, das vulgaridades, rolos e perver-
sões que caracterizam as muitas histórias narradas nesses folhetins.

32 de janeiro de .
72 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Graças à persistência com que se vão degradando os enredos, ano após


ano, o que antes chocava se foi fazendo aceitável, comum (e, por isso, visto
como “normal”). E o que hoje espanta, amanhã será insuficiente para causar
sensação. Dizem os drogados que se passa o mesmo em relação às subs-
tâncias que utilizam. Já tem muita gente cheirando cinco novelas por dia e
entrando em síndrome de abstinência quando acaba o BBB.
Pois bem, foi dentro dessa moldura que assisti, nos últimos dias, a um
comercial institucional da Rede Globo chamando atenção para a significativa
função social que desempenha quando inclui temas de interesse social em suas
novelas e minisséries. Em casa, me confirmam: issotem ocorrido, mesmo, com
a introdução de personagens e assuntos quesuscitam atenção para o problema
das drogas, de certas deficiências físicas e assim por diante. Valeu, pessoal da
Globo! Obrigadão! A consciência social devocês me leva às lágrimas.
Simultaneamente com esse bônus de conveniência pública, persiste con-
tudo, derrubando a balança, a sistemática degradação dos valores, avançan-
do, passo a passo, sobre quaisquer limites que se possa conceber. É inesgotá-
vel a imaginação dos roteiristas para promover o aviltamento moral. Assim,
por exemplo, leio que Passione, a novela recém-concluída, reservou para o
apogeu das últimas cenas os relatos de um sujeito bígamo, que engravidara
simultaneamente as duas mulheres, e que, por proposta de uma delas, com-
pôs com ambas um ajuste de convivência triangular consentido e perma-
nente. Coisa do tipo segunda, quarta e sexta-feira com uma; terça, quinta e
sábado com outra. Domingo, folga geral. Não surpreende, portanto, que já
se organizem no país movimentos voltados para cobrar do Estado brasileiro
a indispensável tutela jurídica de tais sem-vergonhices.
Mas só isso pareceu pouco a Sílvio de Abreu e seu folhetim. Era preci-
so avançar ainda mais na degeneração protagonizada por Passione. Falta-
va uma cereja nesse bolo. E o fruto da depravação ficou reservado para as
cenas grotescas de uma senhora octogenária que, posta aos amassos com
um coetâneo – varão a quem receberia por esposo –, simultaneamente se
requebrava e seduzia outro velhote de miolo mole. Tal vovozinha certamente
encontrou inspiração dentro do círculo familiar do autor da história. Por
isso, quero deixar bem claro a quem vive nos dizendo que “a gente se vê por
aqui”. Senhores, a gente não se vê nisso aí! 33

33 Referência ao slogan utilizado pela TV Globo entre os anos de e . O lema atual é


“A gente se liga em você”. Infelizmente para a emissora, os telespectadores se têm “ligado” cada
vez menos nela e em seus produtos ideologizados. [N. C.]
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 73

As artes são estabilizações da realidade. São formas de inventariar as


possibilidades, as potências do real. Por exemplo: é possível que passe-
mos a vida toda sem jamais ter contato com um Raskólnikov ou com
uma Madame Bovary. Contudo, dificilmente já não cruzamos com
pessoas várias que guardam semelhanças com essas personagens clás-
sicas. Com o repertório do real oferecido pelas artes, sabemos mais ou
menos com quem estamos lidando quando (para seguir no exemplo
de Dostoiévski e de Flaubert) nos deparamos com um sujeito ressenti-
do ou com uma dama permanentemente insatisfeita, que projetam no
mundo a culpa de suas misérias. As artes, portanto, oferecem-nos um
edifício de potências para que, assim que tenhamos contatos com seus
atos na vida real, possamos entendê-los.
O que a “arte” engajada faz é precisamente o oposto (as aspas atenu-
am nossa benevolência de chamar de arte as manifestações ideológi-
cas aqui referenciadas). A dramaturgia televisiva já vai há muito disso-

ciada da arte;
vovozinha é mais um
promíscua depanfleto partidário.
Passione, O triângulo
referenciados amoroso
no texto acima, esão,
a
antes de mais nada, sugestões de conduta. Em geral, os espectadores
jamais tiveram contato com casos semelhantes na vida real; por isso,
estranham o que veem na televisão. Entretanto, acabam por inserir as
possibilidades apresentadas pela novela em suas reflexões, de modo
que condutas cada vez mais distantes do eixo da normalidade passam
a ser aceitas.
Expediente idêntico foi adotado na mais recente novela do horário
nobre da Rede Globo. A produção de título Babilônia estreou apre-
sentando o beijo “lésbico” de duas senhoras (Fernanda Montenegro
emas
Nathalia
de umaTimberg). Novamente,
apresentação de novasnão
– e se trata de– uma
infinitas representação,
possibilidades. Em
outra novela atual, a das dezenove horas, Alto astral, o incesto recebe
tratamento glamouroso.
Tudo em nome do politicamente correto, do respeito às minorias lo-
bistas, que impõem suas pautas, que julgam urgentes e inegociáveis.
Enquanto mais de 50 mil brasileiros são assassinados por ano e bi-
lhões são roubados por plutocratas profissionais, essas agendas di-
versionistas fabricam polêmicas – em forma de novelas, filmes, livros,
74 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

audiências públicas – para nos distrair. Mas a verdade é que a realida-


de vai muito além do maniqueísmo das minorias lobistas, dos maus
brasileiros.

P ,
Em outubro de 2010, cuidando da divulgação do meu livro Pombas e
gaviões, em entrevista a uma emissora de rádio, perguntaram-me se eu era
contra o pluralismo, o multiculturalismo e a tolerância. A resposta foi um
triplo “não”. Não, não e não. Cada qual com o seu devido “mas”.
O pluralismo é um dado da realidade. Ser contra o pluralismo é negar a
liberdade humana e recusar o fato de que as pessoas veem a realidade desde
diferentes pontos de vista e a escrutinam segundo critérios distintos. Mas...
isso não significa adotar uma atitude passiva no contexto do pluralismo,
como se todas as ideias fossem igualmente corretas. Não são! O pluralismo
adquire valor na exata proporção em que as várias correntes de opinião
conhecem seus próprios fundamentos e as marcas deixadas pelas respectivas
experiências ao longo do processo histórico. Ou seja, caro leitor: pluralismo
é coisa séria, não se confunde com somatório de palpites; pressupõe hones-
tidade intelectual, firmeza de convicções, sentido de história e possibilidade
de confronto retórico e político. O que no Brasil chamamos de “pluralismo”
é uma coisa volátil como fumaça; são os achismos de cada dia, soprados por
meia dúzia de plantonistas da tal opinião pública. Coloque-se um microfone
na boca do transeunte para ouvir o que ele pensa e pronto: parece entrevista
com a Dilma. Dificilmente se recolhe uma sequência congruente de ideias.
Sabem-no muito bem os pesquisadores. Não se introduza num questionário
perguntas em que qualquer resposta deva guardar coerência com a preceden-
te. O trabalho resultará perdido por inconsistência das informações obtidas.
Isso acontece, é claro, por deficiência educacional e cultural; e ocorre
também sob o ponto de vista político, porque o sistema adotado pelo país
serve para qualquer coisa, menos para formar e organizar correntes de opi-
nião. Os partidos e suas condutas erráticas em torno das lamparinas do po-
der são a imagem mais visível desse pluralismo anarquizado que caracteriza
o pensamento nacional (se é que existe algo que mereça esse nome).

34 de outubro de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 75

O multiculturalismo é outro dado da realidade, transversal à história.


Mas... reconhecer que convivemos com diversidades culturais não equivale
a afirmar que todas as culturas têm o mesmo valor e conferem a mesma
dignidade à pessoa humana. Não! Existem culturas desrespeitosas a essa
dignidade, que violentam valores fundamentais. Os relatos de Aya an Hirsi
Ali, no livro Infiel , retratam bem o que afirmo. Essa somali, após passar
por todas as violências e mutilações a que são submetidas as mulheres
naquela região da África, fugiu para a Europa quando pretenderam casá-
-la contra sua vontade. Foi parar na Holanda, onde se destacou no grupo
dos refugiados. Convivendo com eles, na condição de tradutora, percebeu
que as mulheres continuavam submetidas às práticas brutais e indignas de
seus clãs srcinais e que as autoridades holandesas, em respeito ao multi-
culturalismo, toleravam a situação. Ayaan reagiu contra isso, mobilizou
a opinião pública e acabou tornando evidente ser intolerável que seres
humanos de qualquer grupo cultural, acolhidos em território holandês,
fossem submetidos a violências condenadas pela legislação do país. Foi
tão bem-sucedida em sua mobilização que acabou elegendo-se deputada.
Bastaria esse exemplo – e muito, muito mais – para mostrar que existem
práticas culturais deploráveis, que diferentes culturas não costumam ser
moralmente equivalentes e que algumas, inclusive, precisariam ser retifi-
cadas pelo muito que afrontam a vida e a dignidade da pessoa humana.
Só uma percepção miserável dessa dignidade, associada a uma completa
cegueira moral pode obstruir a percepção dos terríveis dramas associados
a determinadas práticas culturais.
Como disse um amigo meu, professor universitário, para a aluna que o
procurou afirmando não haver relações de superioridade ou inferioridade
entre diferentes culturas: “É, minha filha, gilete no clitóris das outras é
refresco.”
A tolerância, por fim, é um importante valor social. O convívio fraterno e
solidário entre os diferentes é sua principal consequência e a igual dignidade
de todos, seu maior fundamento. Mas... a tolerância não se confunde com
a permissividade que costuma andar associada à sua atual concepção entre
nós. A tolerância com o intolerável, a tolerância para com quem se vale dela
com vistas ao seu próprio agir intolerante, deixa de ser uma virtude social
para se tornar um comportamento irresponsável e condenável. É muito co-
mum que, em nome da tolerância, a sociedade contemple de modo passivo a
violência que pisa no jardim do vizinho, que invade sua casa, que o prende
e o leva. Ou, no viés político, é intolerável a tolerância para com os partidos
76 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

que pregam e estimulam a violência, valendo-se da democracia para agir


contra a democracia.
Assim como Pombas e gaviões (o livro que debatíamos naquele programa
a que me referi inicialmente), este livro é uma obra que se dedica a promover
tais advertências, prestando um serviço ao verdadeiro pluralismo (consciente
e esclarecido), ao verdadeiro multiculturalismo (que recusa toda agressão
à dignidade natural da pessoa humana ainda que fundada em tradições de
base cultural) e à verdadeira tolerância (que sabe discernir o que pode e o
que não pode ser tolerado).

VANITAS VANITATUM

O ministro Marco Aurélio Mello aproveitou seu voto em favor do aborto


de anencéfalos para promover extenso ataque ao meu direito de opinião e ao
meu direito de tentar fazer com que aquilo que penso adquira repercussão
social e vigência jurídica e política no país onde nasci e onde sou cidadão no
pleno exercício de meus direitos. O ministro está convencido de que apenas
pessoas que pensam como ele – ou que, como ele, não pensam como eu – têm
o direito de opinar e mobilizar opiniões sobre assuntos em que a Moral se
encontra com o Direito.
Isso ficou muito claro quando afirmou, textualmente, como argumento
trazido ao seu voto, que: I) “dogmas de fé não podem influenciar decisões
do Estado”; e que II) “a questão posta nesse processo [...] não pode ser exa-
minada sob os influxos de orientações morais religiosas”. Para o ministro,
portanto, as opiniões que guardem relação com moral de base religiosa asse-
melham-se a “dogmas” e resultam impertinentes ao direito positivo brasilei-
ro. Não há como conceder ao ministro o benefício da dúvida, supondo que
ele talvezinconcebível.
hipótese desconheça aEle
diferença entre então,
sabe. Aceito, uma coisa e outra.
sugestões queTrata-se de uma
resguardem Sua
Excelência de uma severíssima reprovação junto à opinião pública brasileira.
Eu não encontrei qualquer que sirva a esse fim. Já vi muito tolo dizendo isso,
mas o ministro não é um tolo.
Ainda que eu estivesse solitário nas minhas convicções morais; ainda
que não houvesse dezenas de milhões de brasileiros que pensam como eu
sobre temas relacionados à vida, à família, à ordem social, à política, aos

35 de abril de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 77

direitos fundamentais; ainda que eu fosse o único brasileiro a perceber


que já estão impressos na Constituição da República os princípios que me
inspiram e os valores em que creio, jamais aceitaria que me fosse recusado
o direito de buscar civicamente, pelas vias institucionais, a vigência social
e jurídica do meu ponto de vista. O Estado Democrático de Direito me
assegura isso, e mais: mesmo que a Constituição recusasse todas as minhas
convicções – coisa que ela não faz, pelo que suscita essas releituras tão
em voga – ainda assim, ela me concederia o direito de opinar e de tentar
mudar o que a meu juízo devesse ser mudado, segundo a ordem instituída.
O ministro sabe que é assim. E isso nada tem a ver com dogma. Tem a ver
com democracia e com direitos fundamentais dos cidadãos. Sobre o tema,
escreve com muita precisão o filósofo espanhol e professor de Direito An-
drés Ollero: “Ter em conta as co nvicções de todos equivale, por out ro lado,
a reconhecer que todos têm convicções.”
Os reais adversários do pluralismo e, portanto, da verdadeira liberdade
humana, são, precisamente, aqueles que se afobam em proscrever do debate
político quaisquer conceitos ou convicções que possam ser associados a al-
guma vertente religiosa.
No fundo de tais esforços vicejam o orgulho e a vaidade, dois ingre-
dientes que fermentam e estufam a massa de rocambole do STF. Aliás, do
ministro Marco Aurélio Mello ouvi, viva voz, numa entrevista em que foi
questionado sobre certa indicação para aquela corte: “O que mais quero é
que apareça alguém para me fazer sombra”. Que respeito pode uma vaidade
dessas conceder à opinião alheia?

Assassinar nascituros não há de ser problema. Epoligamia em horário


nobre? Tampouco! Nós, crentes, que nos aquietemos. Um dos grandes

problemas do Brasil – aí sim! – é o Sítio do Pica-pau Amarelo.

S
O poderoso Conselho Nacional de Educação (CNE) decidiu emitir
uma notificação de censura ao livro Caçadas de Pedrinho , de Monteiro
Lobato, que seria distribuído à rede de ensino do país. A conselheira

36 de novembro de .
78 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Nilma Lino Gomes leu a obra e viu nela preconceitos contra a África e
racismo. Exigem, então, os conselheiros, que o texto venha precedido de
uma reprovação de seus desalinhos ideológicos com a n ova realidade na-
cional. Tenho certeza de que não faltará quem se habilite a produzir esse
importante prefácio corretivo. Seja qual for a estupidez, sempre há quem
se considere capaz.
Dei uma investigada noSítio do Pica Pau Amarelo, uma lida no livro e ve-
nho em socorro do Conselho:Caçadas de Pedrinho é politicamente incorreto de
capa a capa! O sítio inteiro, aliás, está a exigir cuidadosa inspeção do
Ministério
Público Federal. Em primeiro lugar porque, há muito tempo, era para estar de-
sapropriado (atenção, Incra!). Que negócio é esse? Uma propriedade rural com
utilidade apenas... literária? Péssimo exemplo para estar sendo apresentado a
uma juventude que se quer cidadã e comprometida com as causas sociais.
Tem mais, conselheira Nilma. Cadê a certidão de propriedade do sítio?
Alguém já a viu? E não me venha o branquela do “seu”Monteiro Lobato com
uma simples trintenária julgando que seja suficiente. Não no Brasil moderno!
Quem pode assegurar que Tia Anastácia não fosse quilombola? Detentora dos
direitos culturais históricos protegidos pelos artigos 215 e 216 da Constitui-
ção Federal? Ou dos muito prováveis direitos de posse mencionados no artigo
68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Hum? É admissível
que uma republicação de Caçadas de Pedrinho, em tempos de Lula e Dilma,
deixe de mencionar tais avanços da sociedade brasileira?
Na pesquisa que fiz, encontrei uma foto da negra Anastácia, datada de
1913 (está disponível na Wikipedia). Era magra, de meia idade. Na imagem,
aparece tendo ao colo o menino Guilherme, filho de Monteiro Lobato. O
autor, reiteradas vezes, admitiu publicamente, que essa Anastácia, essa pobre
e infeliz Anastácia, havia inspirado a criação da personagem Tia Anastácia!
Basta fazer as contas para perceber que a desventurada senhora foi, ela mes-
ma, escrava. Fugida ou liberta, não importa. E acabou, mais uma vez, sendo
explorada pelo patrão branco que promoveu o uso gratuito de seus eviden-
tes direitos de imagem. Pode o Conselho Nacional de Educação silenciar so-
bre tal iniquidade? Referendar obra que escarnece valores tão significativos?
Anota essa outra aí, conselheira Nilma.
Quer mais, o CNE? Debruce-se sobre o personagem Visconde de Sabugosa.
Pondere, leitor. O Visconde é um personagem da nobreza. Encarna saber e co-
ragem física. Tantas vezes morresse, tantas vezesera ressuscitado coma simples
troca do sabugo que compunha seu corpo. É ou não uma exaltação simbólica
da elite nacional e de sua perpetuação através dos tempos? Pode haver algo mais
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 79

antidemocrático e elitista do que um imortal representante da nobreza, além de


tudo apresentado como encarnação da sabedoria e do destemor? Eu, hein! E
para finalizar: cadê a autorização do Ibama para a tal caçada do Pedrinho?

Como se vê, nossos quixotes são criativos ao eleger seus moinhos de


vento. Enquanto relativizam as ações de assaltantes, estelionatários,
sequestradores e assassinos, esses guerreiros empreendem verdadeira
caçada a histórias infantis, cantadas baratas e piadas de “mau gosto”.
Ah, e tem os malvadíssimos crucifixos...

O !
Você sabia, leitor, que há quem tenha como objetivo de vida lutar pela
retirada dos símbolos religiosos em espaços públicos? O sujeito acorda pen-
sando nisso, passa o dia pensando nisso e vai dormir pensando nisso. Cria
uma ONG, escreve teses, faz reuniões, cata adesões para abaixo-assinados,
requer providências em juízo. E só conversa sobre isso. De tanto encher a pa-
ciência alheia com sua bronca pessoal contra Jesus crucificado, ele se torna
conhecido como o “chato dos crucifixos”. Lá vem o “chato dos crucifixos!”.
E todo mundo se afasta, como se visse um vampiro. Vampiro, crucifixo, sa-
cou? Dizem as más línguas que a segunda bronca do chato dos crucifixos é
espelho e a terceira é réstia de cebola.
Pois não é que a tese do “chato dos crucifixos” acabou incorporada ao
famigerado Programa Nacional de Direitos Humanos? É assim que as coisas
acontecem, segundo a técnica do Joãozinho das anedotas. Você conhece a
história: “Como é o nome desse guri que está te assediando, minha filha?
Joãozinho? Se for o Joãozinho,
eles fazem. Ninguém não tem
aceita a cantada jeito,
deles, masrelaxa e tal...”
eles vão tentandoÉ assim que
impor-se
por todos os modos. E se a coisa não vai, estupram. A tese reapareceu no
pacotão de perversões que é o PNDH-3. O decreto foi assinado em 2009
pelo ex-presidente Lula e por três dezenas de ministros que, em ato festivo,
se comprometeram, entre inúmeras insanidades ideológicas, a acabar com as
expressões públicas da religiosidade popular, com nossas raízes cristãs, com
a nossa história e com a nossa cultura.

37 de fevereiro de .
80 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

É aquele mesmo conceito de justiça dos estabanados da lógica, que ora


querem tratar desigualmente os iguais, ora querem tratar igualmente os desi-
guais, tudo dependendo de suas preferências. É uma justiça feita como quem
compra um par de meias.
Não vão levar! Aliás, quem sonha com fechar o Congresso Nacional tem
no PNDH-3 boa razão para reaprender a importância da instituição parla-
mentar. Desmoralizado por esforço próprio, corroído pela perversão do mo-
delo institucional, desqualificado pelo desinteresse dos estadistas, valendo-se,
para salvaguardar o bem nacional, de um número cada vez mais reduzido de
bons políticos, o parlamento ainda é a tranca para os que pretendem enfiar
o pé na porta da democracia e destruir os verdadeiros valores. Essa estupidez
em relação aos símbolos religiosos não passa nem nesse Congresso que aí está.
É indispensável compreender a exata dimensão de todas as perversões
incluídas no PNDH-3. Sabem por quê? Porque a mentalidade que ali está ex-
plicitada é a que hoje dirige a política nacional. Há freios institucionais aqui
e trancas ali, mas aquela antologia de absurdos é o pensamento dos que nos
governam e querem continuar nos governando. Este artigo trata de apenas
um, mas a lista é imensa. E, de uma forma ou de outra, essas perversões vão
afetando a vida social. Gravemente. Querem um exemplo gritante?
Para satisfazer o ateísmo instalado nos altos escalões da República, deve-
riam ser retirados todos os símbolos religiosos dos espaços públicos. Do Cristo
Redentor às placas da Rua São José, em Piracuruca do Piauí. Absurdo? Mas é
a cabeça de um governo que gostaria de acabar com as procissões de Corpus
Christi, porque ocupam a via pública, enquanto vemstimulando
e e financiando,
país afora, com fartosrecursos federais, a realização deparadas de orgulho gay.
Olha o que vai na cabeça desses governos petistas com 80% de aprovação!

Puggina escreveu
aprovada por menoso texto acimadamuito
de 10% antes desendo
população, Dilma Rousseff
mais ser
reprovada
do que fora Collor. Em verdade, aí o presidente ainda era Lula. Mas
38

os expedientes de perseguição às boas tradições do povo brasileiro


permaneceram os mesmos de um governo para o outro – como se vê
nos textos a seguir. Aliás, se há algo que é tradição no mundo é a per-
seguição da esquerda à religião, sobretudo à cristã.

38 “Pesquisas mostram aprovação de Dilma despencando a um dígito, segundo Veja e Globo.”


Disponível em: www .folha.uol.com.br/poder/ / / -reprovacao-de-dilma-cresce-
-e-supera-a-de-collor-em- .shtml.
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 81

A
Reafirmo meu pessimismo: mais cedo ou mais tarde, como vem ocorren-
do com todas as teses provenientes desses segmentos ideológicos e políticos,
os crucifixos serão arrancados das paredes. E o resíduo cultural cristão ainda
persistente
ído de almacontinuará
e avesso acedendo lugar ao
Deus. Avesso a um humanismo
Deus desumano,
cuja proteção destitu-
é invocada na
Constituição. Não guardo ilusões. Quando se encontra com a omissão de
muitos e a ingênua tolice de outros tantos, a malícia passa por cima e impõe
o que pretende com quase nenhuma resistência.
Aparentemente, é uma questão simples. Afinal, se o Estado é laico, os
espaços públicos ou sob responsabilidade do Estado não deveriam ser isen-
tos de qualquer religiosidade, como banheiros de estação? O crucifixo, na
parede de uma repartição, seria, nessa perspectiva, um atropelo à equidade,
um agravo à Constituição e à Justiça. Remova-se, então. Mas tenha-se a
coragem de assumir perante a história o registro do que foi feito: preserve-se
o prego! Preserve-se o prego para que todos reconheçam o extraordinário
serviço prestado. Para que todos saibam que ali havia um crucifixo, e que ele
foi removido por abusivo, ofensivo, intolerável às almas sensíveis que, em
nome da Justiça, se mobilizaram contra ele.
Observe de onde procedem os ataques aos crucifixos. Nem todos os que
tocam nessas bandas são contra os crucifixos e nem todos o são por malí-
cia. Mas todos os que se opõem aos crucifixos tocam nessas bandas. Tocam
numa certa esquerda e numa certa direita. Ajudam-se mutuamente no pro-
cesso de destruição dos valores. A cara da utopia da igualdade é o focinho
da utopia da liberdade sem limites. Quando discorrem sobre seus motivos
em relação aos crucifixos, transmitem a ideia de estarem jungidas a um im-
perativo constitucional – o Estado, mesmo não sendo ateu, é laico. Não tem
religião própria. E os ingênuos abanam a cabeça em concordância: afinal, se
há lugar para um crucifixo, por que não revestir as paredes com os símbolos
de todas as outras religiões e crenças existentes? Ou tem para todos, ou não
tem para ninguém. Com tanta coisa contra que lutar, escalam como adver-
sário Jesus de Nazaré...
O crucifixo na parede da repartição não é peça publicitária. Não é ele-
mento de proselitismo religioso. Não transforma o espaço em local de culto.
É referência a um patrimônio de valores universais sem similar na iconografia

39 de novembro de .
82 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

humana: amor a Deus e ao próximo mesmo se inimigo, solidariedade,justiça,


misericórdia, paz. Se tirar o crucifixo, fica o prego.
Por outro lado, percebam todos ou não, a mobilização pela remoção é
apenas mais um ato da longa empreitada do relativismo, do hedonismo e do
materialismo visando à deliberada destruição das bases da civilização oci-
dental. Apenas mais um gesto. Querem a prova? O mesmo argumento que
pretende a remoção do crucifixo (o mesmíssimo argumento!) quer silenciar
os cristãos sempre que se debatem aspectos morais de propostas legislativas
ou decisões judiciais. “O estado é laico e os argumentos baseados numa
moral de srcem religiosa não podem ser admitidos!”, proclamam com en-
fatuada sabedoria. Ou seja, admitem-se nos debates as opiniões de ateus, de
movimentos sociais, de sindicatos, de homossexuais, de partidos políticos, de
endinheiradas ONGs, do que for. Admite-se opiniões do Além, psicografa-
das. Vale, até, opinião de quem não tem moral alguma. Mas não se toleram
opiniões coincidentes ou fundadas na moral cristã. Pasmem os leitores: com
esses argumentos de almanaque, com essa lógica de gibi, se consideram gê-
nios da retórica, porta-estandartes da equidade. E não faltam ingênuos para
aderir a essa conversa mole!
No entanto, saibam quantos lerem este artigo: o comunismo, ao refletir
sobre suas dificuldades para expandir-se na Europa Ocidental, concluiu que
seus maiores obstáculos estavam propostos pelas bases cristãs da cultura
vigente. Desde então tem sido o que se viu. E só não percebe quem não se
importa em servir de pomba para a refeição dos gaviões.

U
Para o Conselho de Magistratura do TJ/RS, todos os desembargadores –
centenas! – que
nha ante os por alidas
crucifixos passaram
salas deaoaudiência
longo deou
121 anos eram cegos
incompetentes para de bengali-o
entender
sentido da laicidade do Estado constante de todas as constituições repub
licanas.
Teses sem ressonância social vêm atropelando a pauta das prioridades e
virando o país do avesso. Foi o caso dos crucifixos. Tão do avesso que ga-
nhou manchetes. Responda-me, leitor: de cem pessoas que ingressam numa
sala de audiências, quantas ficam dispnéicas, taquicárdicas ou entram em
sudorese se veem um crucifixo? Nenhuma? Pois é. E quantas – na real, sem

40 de março de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 83

exageros – se sentirão pessoalmente injuriadas por aquele símbolo? Ante


símbolos religiosos, pessoas normais reagem com respeito ou com indife-
rença. Indignação, revolta e alergia escapam à normalidade. Portanto, os
que investiram contra os crucifixos e enrolaram em seus argumentos cinco
magistrados gaúchos, são portadores de uma idiossincrasia, de uma aversão
pessoal. Tal abominação é um problema que está nelas. Juro, o crucifixo é
inocente! Tampouco é um problema da sociedade ou do Estado brasileiro,
como já decidiu o Conselho Nacional de Justiça em 2007. A retirada dos
crucifixos toma a situação pelo seu avesso. Considerou discriminatória a
presença do símbolo, quando discriminador e preconceituoso é quem posa
de ofendido por ele. Ou não?
O Estado brasileiro não é ateu, é laico, mas a laicidade, no sentido em
que é definida pela Constituição, recusa as pretensões do ateísmo militante.
O Estado brasileiro não é inimigo da fé; ao contrário, com vistas ao interes-
se público, colabora com as confissões religiosas (CF, Art. 19, I). Inclusive,
prevê assistência religiosa a presidiários (CF, Art. 5º, VII). Também por essa
compatibilidade de fins, há capelães nas Forças Armadas. Retirar os cruci-
fixos para acolher como saudáveis as reações que afrontam a consciência
civilizada não é defender o laicismo, mas curvar-se ao ateísmo militante, de
pouco futuro e péssimo passado.
No volumoso Curso de Direito Constitucional (Editora Saraiva, 2007),
após citar o professor alemão Peter Häberle para demonstrar que elementos
religiosos, como os feriados, são bem-vindos porque reacendem na memória
coletiva suas raízes culturais, Gilmar Mendes e outros dois autores concluem
assim o capítulo em que tratam da liberdade religiosa:
O Estado que não professa o ateísmo pode conviver com símbolos, os quais
não somente correspondem a valores que informam sua história cultural
como remetem a bens encarecidos por parcela expressiva de sua população –
por isso, também, não é dado proibir a exibição de crucifixos ou de imagens
sagradas em lugares públicos.

Não há uma única evidência de que crucifixos em salas de audiência


tenham patrocinado descumprimento do nosso Direito para adotar impo-
sições canônicas. Portanto, o que mais corretamente se pode assumir como
efeito da presença do símbolo é exatamente o inverso do alegado. Ele inspira
boa justiça. Na tradição Ocidental, é símbolo máximo da dor e da aflição
causada pela injustiça!
Seus adversários olham para o crucifixo mas focam, lá na frente, os prin-
cípios, os valores e as tradições que lhe são implícitos. Muitos, como os rela-
84 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

cionados à defesa da vida, à dignidade e aos direitos humanos, às liberdades,


à família, compõem convicções constitucionalizadas no Brasil e se refletem
nas deliberações legislativas. É contra esse alvo que o ateísmo militante está
declarando guerra e rufando tambores. Não agem por amor à Constituição,
mas por ódio ao perfume cristão que ela legitimamente exala. Como escrevi
anteriormente: deixem ao menos os pregos!

O caso da tentativa de exclusão dos crucifixos dos espaços públicos


reforça um aspecto comum em todas as bandeiras ditas progressis-
tas. A esquerda (espectro da imensa maioria dos maus brasileiros e
da quase totalidade dos caçadores de crucifixos) vive à procura de
um suposto oprimido para chamar de seu. Esse agente passivo dessas
benesses populistas fica paralisado, sem saber bem como reagir ante
a lisonja recebida, sem convicção de que a merecia. Pois as religiões
supostamente defendidas pelos inimigos das cruzes – vejam só! – não
pediram para ser defendidas...

P
Não é demais voltar ao assunto quando não passa um dia sem que a
mídia abra espaços para a decisão do Conselho de Magistratura do TJ/RS.
Viva! Mais uma façanha do Rio Grande. Noutra despachamos a Ford. 42
Nesta, os crucifixos, enxotados e empacotados.

41 de março de (publicado no jornal Zero Hora).


42 Na virada do século XX para o XXI, o Rio Grande do Sul foi governado por políticos
com
fazemmentalidade do explorar
nada além de século XIX. Com o pensamento
trabalhadores, mesquinho
expulsaram do estadodeuma
quedas
grandes empresas
maiores fábricasnão
de automóveis do mundo. Movidos pelo mesmo ressentimento ideológico que aterrorizou os
povos do Leste Europeu e ainda assola os cubanos e ignorando que as empresas desejam que
seus funcionários evoluam (pois estes são também seus consumidores), tais governantes tiraram
de nós quase dois bilhões de dólares em investimentos e mais de oito mil empregos diretos e
mil indiretos. Misturando ideologismo com incompetência, o governo Olívio Dutra fez com
que a Ford desistisse de instalar-se em Guaíba. A empresa optou por fazer um dos maiores
empreendimentos de sua história na cidade baiana de Camaçari. Além de , bilhão dedólares
investidos diretamente pela Ford, a Bahia ainda recebeu pesados investimentos de nada menos
que grandes empresas, se que instalaram no gigantesco complexo industrial da montadora.
Desde outubro de , a fábrica produz mil automóveis por ano. Metade disso é vendida
no Brasil e metade é exportada. Ou seja, além de gerar imenso movimento na economia local,
empregando boa parte da população da região, a Ford de Camaçari garante imensa captação de
recursos ao estado da Bahia, em função da comercialização de seus produtos. [N. C.]
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 85

Há uma peculiaridade passando batida nessa história. Quem é, mesmo,


que quer a remoção? Até hoje, não vi entre as manifestações de apoio à de-
terminação uma única que tenha sido emitida por qualquer das centenas de
confissões religiosas em consideração às quais se diz que foi decretada. Em-
bora o relator do processo tenha escrito que o cidadão judeu, o muçulmano,
o ateu, ou seja, o não cristão, tem o mesmo direito constitucionalmente asse-
gurado de não se sentir discriminado pela ostentação de símbolo expressivo
de outra religião em local público, ninguém, de crença alguma, se manifes-
tou, mesmo que fosse para um simples e protocolar “muito obrigado”. Por
quê? Por que lhes ficou inequívoco terem sido usados para intenções que
também lhes são hostis!
As próprias entidades que requereram a retirada dos crucifixos se arti-
culam em torno de comportamentos sexuais e não sobre religião ou religi-
ões. Nesse mesmo viés, se observamos com acuidade as iniciativas análogas,
será forçoso perceber que tampouco provêm de crentes ou ateus num sentido
genérico, mas de pequena parcela destes últimos – os ateus militantes. Suas
manifestações, sistematicamente, voltam-se contra o que os símbolos repre-
sentam, ou seja, as religiões, cuja influência na sociedade anseiam por elimi-
nar. Mostram, especialmente em relação ao cristianismo, animosidade e um
conhecimento de panfleto. Sempre mencionam Cruzadas, Inquisição e Galileu,
mas parecem incapazes de escrever meia página séria sobre esses temas, pois,
tudo que repetem, vida afora, foi o que ouviram por aí, servido como nutrição
ideológica. Desculpem-me o sarcasmo, mas passei os últimos dias lendo tais
tolices aportadas anacronicamente como se fossem argumentos para justificar
a retirada dos crucifixos! Pior do que desconhecer pelo não uso da inteligência
é conhecer raivosamente pelo uso do fígado. Corre-se o risco de passar por
cima do tesouro e ir catar lixo logo adiante. Esse exótico discernimento, assu-
mido nos poderes de Estado, resulta danoso à identidade nacional, ofensivo à
história do Brasil, depreciativo ao que há de melhor na civilização ocidental e
agressivo a um bem do espírito e da cultura considerado precioso pela imensa
maioria do povo deste país! Mas a história ensina: é preciso gerar descrédito
ao que merece respeito para, depois, exigir respeito ao que não merece.
Quando os constituintes de 1988 promulgaram nossa Constituição de-
clarando que o faziam “sob a proteção de Deus” estavam querendo dizer
que a essência dos preceitos esculpidos na nossa lei maior e a ordem jurídica
de convivência a que ela nos submete não decorrem de uma ideologia ou da
mera vontade humana, não foram achados na rua ou numa mesa de bar, mas
provêm de uma lei natural, transcendente e superior. Com efeito, do Estado
86 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

recebemos a cidadania, mas não é dele que nos vêm a dignidade humana
nem os correspondentes direitos.
Ora, o ateísmo militante não tolera isso. Deseja manipular a natureza
humana a seu bel-prazer e a sociedade inteira através da política. O Esta-
do, como o concebem, não pode conviver com juízos morais divergentes.
Por isso, reitero: a remoção dos crucifixos é muito menos um ato jurídico e
muito mais um ato político que contradiz nossa história e tradição. Paredes
nuas não têm passado nem memória. Assemelham-se a santuários do nada.

Outra situação em que a esquerda tirou da cartola um oprimido para


chamar de seu e, com ele, fazer proselitismo, é a das cotas raciais. Bem
sabemos, são essas cotas uma solução ad hoc para um problema his-
tórico e já superado.Aliás, oito séculos antes de os europeus chegarem
à África, grupos muçulmanos, com negros do Norte da África, inva-
diram a Europa e escravizaram milhões de brancos. Em séculos pas-
sados, governantes negros capturavam populares também negros para
vender aos europeus.
não pararemos jamais.SeMas
começarmos
quem dissea discutir reparações
que a esquerda querhistóricas,
parar?

F , !
A adoção de cotas raciais para ingresso na universidade pública suscita
polêmicas. A UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), alinhada
com a lei federal, favorece os alunos oriundos de escolas públicas e, adicio-
nalmente, os de escolas públicas que se declarem negros. Foi o que decidiu
seu Conselho Universitário, cujos membros agiram convictos de haver servi-
do àSerá
nobre causaNão
mesmo? da Justiça.
será essa uma forma de fazer “justiça” a uns às custas
da injustiça praticada contra outros? A generosidade é uma virtude porque
implica renúncia voluntária ao próprio bem em favor do bem alheio. Mas
não o é quando praticada com bem ou direito de terceiros. Incontestável: os
alunos com bom desempenho, que perdem vagas para alunos com desempe-
nho inferior, por força das cotas, são vítimas de injustiça que lhes é imposta.
Não são eles os responsáveis pelas mazelas sociais do país.

43 de fevereiro de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 87

O que está dito acima é simples fato. Não é argumento. Aliás, para ar-
gumentar contra o sistema, tampouco preciso desse disparate que é acolher
entre os beneficiados das cotas alunos oriundos de alguns dos mais seletos e
prestigiados estabelecimentos de ensino público do Estado: Colégio Militar,
Colégio Tiradentes e Colégio de Aplicação. Dispenso, igualmente, o fato de
a condição “racial” ser autodeclaratória e nem sempre veraz. Descarto, tam-
bém, a substituição por cotas sociais, mesmo que estas sejam mais abrangen-
tes e menos preconceituosas. Dispenso-me, por fim, de lembrar aos esqueci-
dos e aos muito jovens que, há meio século, as mulheres estavam em casa,
dedicadas às prendas domésticas. Sem cotas, sem privilégios, com muita per-
severança, ao longo dos anos, abriram as portas das universidades e hoje são
majoritárias nos cursos mais seletos e nas principais carreiras públicas.
A injustiça tem de ser combatida onde inicia em vez de ser disfarçada
onde se torna visível. Se o ensino público compromete o desenvolvimento
intelectual de centenas de milhares de estudantes do ensino fundamental e
médio, ano após ano, de que vale a UFRGS admitir nos seus cursos apenas
algumas dezenas de alunos cotistas? Aliás, recente matéria de ZH mostrou
que o grau de reprovação destes é quatro vezes maior do que o dos demais.
Há uma usina da injustiça operando na Educação. Sem desmontá-la, me-
diante investimentos pesados nos seus recursos humanos, materiais e tecno-
lógicos, tudo mais será pouco relevante. Não é o vestibular que está errado.
Errado está o ensino público de nível fundamental e médio.
Injusta, quase criminosamente injusta, é a gratuidade do ensino superior
para quem possa pagar por ele. Bilhões de reais que poderiam favorecer o
ensino fundamental e médio são perdidos nessa desnecessária gratuidade!
Injusto de doer é que o custeio dessa regalia provenha de impostos pagos
por todos nós. Inclusive pelos mais pobres dentre os pobres. Inclusive pelo
trabalhador cujo filho não passa na universidade pública nem pode custear
a particular. Mas esse modelo perverso conta com as unhas e os dentes da
esquerda em sua defesa. Até os analfabetos sabem (não é preciso ir às uni-
versidades perguntar) que a reprodução da injustiça, no que concerne à edu-
cação, dá-se na base do sistema. As raízes grossas da iniquidade não estão na
porta de entrada da faculdade e independem da cor da pele do vestibulando.
Elas estão nos parcos recursos destinados à escola pública, no professor mal
pago e desestimulado, bem como nas demagogias, corporativismos e ideolo-
gizações em que tudo, absolutamente tudo, se enreda neste país.
88 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

S
Gosto de analogias. E foi essa que me ocorreu quando li, em ZH, que
sobram vagas para cotistas na UFRGS. Pode? No Brasil pode. Calça e sai
andando.

fio Aliás,
em quecom as tais de
se enreda cotas, criou-se
e desequilibra uma inadequação
a sociedade nasQuem
brasileira. duas pontas do
assistisse
às sessões nas quais o STF se manifestou pela constitucionalidade das cotas
no vestibular da UnB poderia imaginar que a Lei Áurea, decorridos 124
anos, ganhava um upgrade decisivo e definitivo. Era como se a desigualdade
social causada pelos séculos de escravidão estivesse sendo resolvida por dez
homens e uma sentença. Não, não estou exagerando. Quem exagerou na re-
tórica e na cena foram os ministros. Com a adoção de cotas, reiteradamente
proclamada como transitória para não ser inconstitucional (palavras dos
próprios, seguindo o relator), servia-se, enfim, justice sociale à la suprême no
cardápio da universidade brasileira. Tudo provisório porque, graças a essa
breve degustação, o Brasil logo apresentaria ao mundo uma fisionomia mais
simétrica. Não fosse provisório, seria inconstitucional, é claro... Retórica de
fancaria: enganosa, mas ao gosto da tese e da turma.
É bom que saibamos: hoje, constitucional é o que a maioria do STF tem
por justo. Ou por necessário. Ou por conveniente. Ou por correspondente
ao clamor das ruas. Ou por imperioso ensinar às ruas. A escolha de qualquer
desses critérios depende do caso e da opção de cada ministro. Basta, depois,
para explicar o inexplicável, pinçar os dóceis princípios constitucionais e
manipulá-los como massinha de moldar. Não subestimem a situação apli-
cando-lhe certas ideias que andam por aí a respeito de insegurança jurídica.
A coisa é bem mais grave. Querem uma evidência? Os canais de tevê das
duas casas do Congresso perdem audiência. É no canal do STF que acontece
a real action, onde estão as novas celebridades e onde as grandes questões
se decidem. Que parlamento, que nada! E não se esqueçam: o sistema de
indicação dos ministros do Supremo foi concebido quando a reeleição pre-
sidencial era vedada. Em tese, a cada quatro anos mudariam os critérios de
escolha. Hoje, oito dos onze membros da corte foram recrutados pela cor-
rente política que encilhou o poder há mais de uma década.
Por outro lado, enquanto sobra sapato na ponta da universidade, a ponta
do ensino fundamental anda de pé no chão. Para cada beneficiário de cotas

44 de maio de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 89

raciais em atos de formatura do Ensino Superior, centenas de crianças com


produção de melanina semelhante à do formando estão recebendo uma edu-
cação inicial de péssima qualidade. É equivocado afirmar que se cristalizam
assim as injustiças sociais. Assim elas se reproduzem! Multiplicam-se, celere-
mente, na falta de planejamento familiar e numa realidade socioeducacional
que só é vista de julho a setembro, em ano de eleição.
O STF deu mais uma prova de que a justiça discrimina. Se duvidar, per-
gunte às ruas. No subsolo do Brasil, nas senzalas do século 21, quem não
faz discriminações, raciais ou sociais, leitor, é a injustiça. Ali, brancos, pretos
e pardos são irmãos na miséria. Porque ocupam a franja do tecido social,
dispõem do mesmo ensino público de péssima qualidade, abandonado pelo
caminho por milhões de crianças, analfabetas funcionais, que ficam sem o
molde da chave que abriria a porta dos salários dignos e dos méritos acadê-
micos. Não fosse o bastante, ainda serviram como cobaias para experiências
pedagógicas tão fajutas e ruinosas quanto ideológicas e renitentes.

C –
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul avaliou o desempenho
acadêmico dos alunos cotistas e não cotistas e concluiu, segundo matéria
de Zero Hora em 25 de julho de 2012, que “os cotistas negros apresentam
índices consideravelmente piores”. Para cada aluno admitido pelo ingresso
universal em 2008, com desempenho insuficiente, há 2,4 cotistas negros na
mesma situação. Em percentuais, o mau desempenho é de 14,8% no sistema
geral e de 34,8% entre os autodeclarados negros.
Tal informação contradiz o que ouvi em sucessivos debates ao longo dos
últimos anos, segundo os quais tudo ia muito bem. Não havia diferença en-
tre cotistas não
universidade nãocotistas.
serve – Sabe-se agora
e não deve, que há,
mesmo, sim,–como
servir seria previsível.
para suprir deficiênciasA
na escolaridade anterior de seus alunos.
As desigualdades sociais em meio às quais vivemos excedem, em muito, o
tolerável, mesmo se considerarmos que há uma efetiva desigualdade natural
entre os indivíduos. Nosso índice Gini (que mede a distribuição da renda nos
países) é comparável ao das sociedades com desenvolvimento mais retarda-
do. Chega a ser um disparate alguém observar o Brasil nessa perspectiva e

45 de julho de .
90 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

deduzir que o mal está no acesso às universidades públicas. Não está! É na


base do sistema de ensino, no bê-á-bá da cadeia produtiva da Educação, que
ele se aloja e opera.
Só os gênios que comandam a Educação nacional não sabem que na vida
real, na vida do mau emprego, do subemprego e do desemprego, no mundo
do trabalho árduo e do salário baixo, para cada graduado de cor negra que
recebe seu diploma no último andar do sistema, dezenas de crianças estão
entrando pelo térreo para padecer as mesmas deficiências que inspiraram a
ideia das cotas. Atrás do conta-gotas racial percebido nos atos de formatura,
há uma hidrelétrica de alunos negros e pobres, recebendo o precário tipo de
educação que a nação fornece a seus alunos pobres e negros.
E ninguém vê isso? De nada nos servem os tantos bons exemplos de ou-
tros povos que superaram desigualdades internas maiores do que as nossas
e emergiram como potências no cenário industrial e tecnológico, através de
um bom sistema de ensino, do trabalho e do mérito?
Ademais, o próprio STF, ao contrário do que vem sendo repetido equivoca-
damente, deixou implícito que osistema de cotas raciais é inconstitucional.“O
quê?” perguntará espantado o leitor. “Mas não foi exatamente o contrário?”
Estive bem atento durante toda a sessão em que o STF admitiu o sistema. Per-
cebi que os ministros falaram muito mais sobre Sociologia, História do Brasil,
Antropologia e Política do que sobre a Constituição. Nesse particular, nesse
pequeno detalhe, seguiram o voto do relator, ministro Lewandowski. Quanto
a este, era inevitável que, em algum momento, abrisse a Carta da República e
topasse ali com coisas como a igualdade de todos perante a lei e com o precei-
to (quase universal no mundo civilizado) de que ninguém será discriminado,
entre outras coisas, por motivo de raça. Como saiu o ministro dessa enrasca-
da? Afirmou que um sistema de cotas raciais precisa ser transitório, temporá-
rio, devendo viger até que desapareça a situação quelhe deu causa. Não sendo
assim, seria inconstitucional. Ora, isso significa que o conta-gotas funcionará
até que esvazie a hidrelétrica. O preceito da não discriminação persiste, mas
perde vigência por prazo impreciso, embora não infinito. Ah! Se isso não é um
truque na cartola do politicamente correto, então vou ter de pedir para voltar
à universidade por um sistema de cotas para deficientesmentais. E mais: dora-
vante, pelas letras da mesma oratória, todo concurso para magistratura, todo
certame intelectual ou cultural, toda prova de habilitação que não previr cotas
raciais será provisoriamente inconstitucional. Arre, STF!
O Brasil importa técnicos e trabalhadores qualificados de nível médio
porque não oferece esse tipo de formação aos seus jovens! Enquanto isso, as
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 91

políticas de desenvolvimento social via universidade fazem o quê? Reprodu-


zem a estúpida estrutura, tão do agrado da elite brasileira: um bacharelado,
um canudo, um título de doutor, uma festa de formatura. E está resolvido o
problema dos pobres. Até parece ideia de rico de novela.

À incansável patrulha, é sempre importante esclarecer que esses posi-


cionamentos não são contra os indivíduos que compõem as [supostas]
minorias citadas. Nosso problema é com o ativismo oportunista, que
caça vantagens em função de características físicas e naturais que não
determinam nada per se (como a cor da pele ou o sexo do indivíduo) e
de acordo com preferências que deveriam limitar-se à vida íntima das
pessoas. Para nós, que concordamos que 1 + 1 = 2, oferecer vantagens
competitivas a alguém em função de sua cor de pele é pressupor que
quem possui essa cor de pele é menos capaz do que outros que pos-
suem outras cores de pele. Mas para os militantes do “outro mundo
possível”, em que desavenças se resolvem no paredón, ou na Sibéria,
as
ricacotas raciais são
inegociável o ápice
(como dafossem
se não bondade humana,
negros uma reparação
os governantes histó-
africanos
que capturavam seus conterrâneos e vendiam aos europeus e como se
os brancos europeus não tivessem sido escravizados oito séculos antes
por hordas islâmicas, repletas de negros do Norte da África).

N ...
Usando as palavras do macaco Sócrates no extinto programa humorísti-
co Planeta dos homens: “Eu só queria entender...”
Nosi infinito
entre bilhões conjunto
e bilhões das diferenças
de pessoas, há que permitem
só uma tornar
coisa em distinguíveis
que todas são ri-
gorosamente iguais: a dignidade natural. Da rainha Elizabeth ao selvagem
txucarramãe, todo ser humano é portador da mesma e eminente dignida-
de. Desse ensinamento, nascido da tradição judaico-cristã, derivou o que
de melhor se pode colher no pensamento ocidental para inspirar a busca da
harmonia em meio às diversidades. Constatar que as diversidades existem,
reconhecer méritos e deméritos, são alguns dos inúmeros atos cotidianos que

46 de maio de .
92 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

podem implicar diferenciação e discernimento sem, contudo, representarem


agressão a alguém. Mas nem sempre é assim.
Todos já presenciamos discriminações ofensivas à dignidade humana em
virtude, por exemplo, de pobreza, raça, defeitos físicos, deficiências mentais,
sexo e inclinação sexual, religião, posição social. Comete transgressão que
pode caracterizar delito sujeito às penas da lei quem barra o negro por ser
negro, segrega o índio por ser índio, vira as costas ao pobre por ser pobre,
ridiculariza o feio por ser feio, abandona o enfermo por ser enfermo, impede
o crente de se manifestar por ser crente, ou agride o homossexual por ser
homossexual. São muitas as formas em que se manifesta essa discriminação
viciosa, quando não criminosa.
Em todos os casos, quem resulta afrontada é a pessoa humana em sua
dignidade, em sua integridade e em seus direitos. Ponto. Submeter alguém
a trabalho escravo, por exemplo, é ofensa à dignidade de um ser humano e
não a um ser humano branco, ou negro, ou pobre, ou mestiço. Essa ideia de
classificar as pessoas segundo o que as distingue é coisa de marxista. E leva
à clássica simplificação a que chegam os totalitarismos nos quais as pessoas
ou são companheiras ou são inimigas.
Um dos resultados dessa reclassificação da humanidade por classe, gê-
nero, ordem, espécie, como se fôssemos insetos, leva aos atuais absurdos.
Determinados grupos sociais que se têm como objetos de discriminação, pas-
sam a exigir agravamento de penas para os delitos praticados contra indiví-
duos do respectivo grupo ou subgrupo e/ou reclamam tratamento privilegia-
do em determinadas circunstâncias do cotidiano social. Denominam a isso
de discriminação positiva. Tal expressão e as respectivas práticas nasceram
nos Estados Unidos com o nome de “positive discrimination”, recentemente
substituído por “affirmative actions” como forma de contornar o peso nega-
tivo da palavra discriminação, inerente a essas políticas. É como se os respec-
tivos indivíduos e grupos emergissem para um estamento social superior ao
dos demais, catapultados por presumíveis créditos coletivos.
Duas colegas e amigas, egressas do mesmo curso superior, prestam
concurso p úblico. Uma é branca e a ou tra, negra. Durante as provas, ami-
gas que são, acompanham os respectivos desempenhos. A moça branca
sai-se melhor. No entanto, a amiga, que se inscreveu como cotista, conse-
guiu aprovação e nomeação, ao passo que a outra, embora com melhores
notas, ficou de fora. Não se tratava de franquear a alguém o ingre sso num
curso universitário alargando-lhe a porta do vestibular. O que também
seria abusivo. Não. Ambas já haviam superado essa fase. Ambas porta-
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 93

vam idêntico diploma do mesmo curso superior. A que foi aprovada no


concurso não obteve sucesso pela produtividade intelectual, mas pela pro-
dutividade de melanina.
Não existe melhor maneira de uma sociedade enredar-se num novelo de
injustiças e contradições do que desconhecer a igual dignidade de todos os
seus membros.

H C

Agora tem o Brasil das mulheres e o Brasil dos homens até nos discursos das
autoridades, o Brasil dos negros, o Brasil dos brancos e o Brasil dos pardos, o
Brasil dos héteros e o Brasil dos gays, o Brasil dos evangélicos e o Brasil dos
católicos, Brasil com bolsa família e Brasil sem bolsa família e nem sei mais
quantas categorias, tudo dividido direitinho e entremeado de animosidades,
todo mundo agora dispõe de várias categorias para odiar! A depender do
caso, o sujeito está mais para uma delas do que para essa conversa de Brasil,
esquece esse negócio de Brasil, não tem mais nada disso!
— João Ubaldo Ribeiro

O fato é que Cabral não tocou direto para as Índias. Tivesse seguido o
riscado, o Brasil de hoje seria o paraíso tropical com que sonham alguns
ambientalistas, antropólogos e militantes de qualquer tese que possa gerar
encrenca. Os índios do mato continuariam disputando território a flechadas
com os do litoral – que índio também gosta de praia – e os portugueses,
sem quaisquer remorsos, comeriam seu bacalhau no Campo das Cebolas.
Mas os navegadores lusitanos (assim como os espanhóis) eram abelhudos e
iniciaram seu turismo pelos sete mares. Os primeiros descobriram o Brasil e
os segundos descobriram tudo ao redor do Brasil.
Bem feito, quem mandou? Agora temos de conviver com leituras da His-
tória que nos levaram à situação descrita por João Ubaldo Ribeiro. Segundo
elas, até o século XV, o zoneamento era perfeito: brancos na Europa, negros
na África, índios na América e amarelos na Ásia. Cada macaco no seu galho.
No entanto, graças à bisbilhotice ibérica, estamos nós, herdeiros de Cara-
muru, com contas imensas a pagar porque os justiceiros da história adoram
acertos e indenizações promovidos com os bens alheios. Entre elas, a conta
dos índios. Como é fácil fazer justiça expropriando os outros!

47 de novembro de .
94 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

O princípio segundo o qual o Brasil era dos índios e deles foi tomado
pelos portugueses ganhou sensível impulso com os preceitos do artigo 231
da Constituição de 1988. Mas se o princípio estivesse correto e se quaisquer
direitos srcinais de posse pudessem ser invocados, não sei se alguém, no
mundo de hoje, ficaria onde está. Não me refiro sequer aos primeiros fluxos
migratórios através dos milênios. Refiro-me às mais recentes e incontáveis
invasões e guerras de conquista que marcam a história dos povos. E note-se
que as guerras de conquista não geravam indenizações aos vencidos, mas
espólios aos vencedores.
Faço essas observações diante do que está em curso em nosso país com os
processos de demarcação de terras indígenas. É o próprio Estado brasileiro,
através de suas agências, reclamando por extensões mais do que latifundiá-
rias e jogando nas estradas e na miséria legiões de produtores e suas famílias.
É o braço do Estado gerando novas hostilidades no ambiente rural do país
(como se já não bastassem as estripulias do MST). Índios e não índios mere-
cem ser tratados com igual dignidade. Mas não se pode fazer justiça criando
injustiça, nem se pode cuidar do país entregando o país. Não existem outras
“nações” dentro da nação brasileira. E é exatamente isso que está em curso,
sob pressão de uma difusa mas ativa conspiração internacional, conjugada
com o CIMI e a FUNAI, que quer o Brasil e os brasileiros longe da Amazô-
nia, por exemplo.
Índio não é bicho para ser preservado na idade da pedra lascada, como
cobaia de antropólogos, num apartheid que desrespeita o natural processo
evolutivo. Ou armazenado, como garrafa de vinho, numerado e rotulado,
com designação de srcem controlada.

Pressões grupais não são menos insensatas que disputas de torcidas

de futebol
alto. organizadas,
É a guerra de todosnas quaistodos,
contra a “vitória” é dedireto
resultado quem da
grita mais
confusão
social engendrada por doutrinas esquerdistas, que não enxergam se-
res humanos como seres humanos, mas como classes, gêneros, cores,
religiões, etnias, que devem digladiar-se e levar adiante a dialética do
ressentimento marxista.
Tem sido assim em nosso país. Tem sido assim em nossa política. É o
egoísmo disfarçado de bondade. É o terreno mais fértil possível para
a proliferação dos maus brasileiros.
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 95

Q
Não fosse pela Finlândia, o sistema pelo qual nós elegemos nossos depu-
tados seria único no mundo. E se enquadraria no preceito segundo o qual
se algo só existe no Brasil e não é jabuticaba deve ser besteira. E é. Por uma
razão muitoa simples
Graças como veremos
esse sistema, a seguir.
ante a proximidade do processo eleitoral, os mais
poderosos e articulados grupos deinteresse e segmentos sociais do país se mobi-
lizam para a tarefa “política”de escolher e eleger seus representantes. Os eleitos
por esse mecanismo compõem poderosas bancadas que operam com unidade
e vigor superiores aos dos partidos políticos, tendo por tarefa primordial zelar
pela felicidade dos seus representados. Não é preciso luneta nem lanterna para
ver que esse tipo de representação deveria ser evitado em vez de estimulado.
“Mas não é bom que os interesses dos grupos sociais sejam cuidados no
parlamento?”, perguntará o leitor menos afeito a esses temas de modelagem
institucional. Não, é péssimo. Por várias razões. É nesse jabuticabal que os
privilégios são concebidos e transformados em direitos adquiridos. É nesse
jabuticabal que se instala escabroso balcão de negociações. É nele que ope-
ram os abusos do poder econômico, que se aloja profundo desinteresse por
tudo que envolva o bem comum, que se corrompem os procedimentos e que
as convicções rolam com as águas das sarjetas. E é nele, por fim, graças ao
engenho e à arte de conceder vantagens a alguns encaminhando a conta ao
restante da sociedade, que se constroem longevas carreiras políticas a despei-
to dos escândalos atribuídos a tantos de seus operadores.
Os dois principais grupos que se pode distinguir nas nossas massas vo-
tantes são (I) o dos que votam em qualquer um (e qualquer um é o tipo de
sujeito capaz de qualquer coisa) e (II) o dos que votam em alguém para lutar
por seus interesses pessoais e grupais. Os primeiros, os que votam em qual-
quer um, são um caso perdido. Os segundos, um pouco menos. Mas é à soma
dos dois que a Câmara dos Deputados deve sua crescente desqualificação. E
é devido a ela que o bem comum resulta vítima de um verdadeiro bullying
no plenário do parlamento. Contemple os impostos que você paga e saiba:
boa parte dessa conta se formou graças ao mecanismo que aqui descrevo.
Só isso bastaria para que os eleitores conscientes incluíssem certos tópi-
cos da reforma política como condições indispensáveis à definição de seu
voto. Um sistema de eleição não proporcional, majoritário, tipo distrital,

48 de fevereiro de (publicado no jornal Zero Hora).


96 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

por exemplo, produziria mais representantes comprometidos com o bem co-


mum. Por outro lado, há um incontornável paradoxo na conduta da massa
votante interesseira. Se ela considera moralmente aceitável assumir como
critério decisivo de voto a melhor representação de suas conveniências,
como pode reprovar os parlamentares quando se põem a defender as conve-
niências deles mesmos?
Sob essa ótica e ética, por qual razão deveriam os indivíduos políticos
flagelar sua espontânea cobiça? Se todos podem legitimamente valer-se da
política para cuidar do seu lado, se eleição fosse para isso, por que se impo-
ria aos políticos o dever de descuidar do seu próprio lado? Muitos que os
reprovam, estão, na prática dizendo assim: “Que gente egoísta... Só pensam
em si, não pensam em mim...” Eis por que somos o país dos egoísmos e pri-
vilégios, no qual, cada vez mais, rareiam os estadistas.

V ?

Era de se imaginar que maconheiros, traficantes, falsos progressistas, de-


fensores do relativismo moral, partidários da tolerância com o intolerável,
turma do politicamente correto, bem como seus assemelhados na esfera po-
lítica onde todos gravitam, se encantassem com as mais recentes decisões do
Supremo. Afinal, o Brasil está ficando como eles querem, e o STF levando os
descontentes a entender quem é que manda no pedaço.
Viva! A decisão sobre a reserva Raposa Serra do Sol foi um sucesso cívi-
co: conseguiu lançar indígenas e colonos na miséria. 50 Viva! No Brasil já se
pode jogar embriões humanos no vaso e puxar a descarga.51 Viva! Battisti
só não terá cidadania brasileira se não quiser, que qualificações não lhe fal-
tam.52 Viva! Quando a Constituição Federal fala em homem e mulher enun-
cia
tipoapenas um estereótipo,
de encaixe. um clichê
Viva! A marcha pelaemmaconha
desuso, para
é umarepresentar qualquer
festa da cidadania
patropi. E deve virar feriado nacional.

49 de junho de .
50 Leia sobre a questão no blog do Reinaldo Azevedo, “Raposa Serra do Sol”. Disponível em:
veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/raposa-serra-do-sol. [N. C.]
51 “STF libera o aborto de fetos anencéfalos noBrasil.” Disponível em: ultimosegundo.ig.com.br/
brasil/stf-retoma-julgamento-sobre-aborto-de-fetos-anencefalos/n .html.[N. C.]
52 Novamente, Reinaldo Azevedo: “Battisti, o homicida”. Disponível em: veja.abril.com.br/
blog/reinaldo/geral/battisti-o-homicida-seis-ministros-do-supremo-fazem-do-brasil-a-partir-de-
-hoje-o-cafofo-do-osama. [N. C.]
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 97

Li e reli as atribuições constitucionais do STF. Em nenhum lugar lhe foi


outorgada a função de precursoria, de vanguarda social, incumbido de le-
var a nação, pelo nariz e a contragosto, para onde apontam os narizes e os
gostos de seus membros. Já não falo em substituir-se ao Congresso Nacional
– este não está nem aí para o que acontece, contanto que não faltem cargos
e emendas necessárias à preservação dos mandatos. Raríssimas vozes se ou-
vem, ali, apontando os devidos limites às vontades da Corte.
Mas o que está acontecendo eram favas contadas. A partir de Fernando
Henrique Cardoso, por 16 anos consecutivos, as indicações para o STF são
buscadas no mesmo nicho. Embora a esquerda goste de dizer que FHC era
neoliberal, o fato é que ele e Lula pertencem à mesma extração esquerdista,
com diferenças apenas no nível intelectual. FHC é um Lula de salão nobre,
com doutorado, ao passo que Lula é um FHC de piquete grevista, com curso
primário. Lula defende a cachaça e FHC, no melhor estilo da esquerda dos
anos 60, de Woodstock, da contracultura, oitentão modernoso que é, defen-
de a maconha. Aparta-os a política, não as ideias.53
Os indicados por ambos formam 80% do Supremo e não faz muita di-
ferença o fato de que Lula tenha escolhido boa parte dos seus no partido e
no partidão. As cabeças são parecidas. As disputas que por vezes se esboçam
entre eles são, essencialmente, de beleza. Temas para espelho mágico. De
nada vale, então, aguardar o futuro, porque o futuro não nos reserva algo
melhor. Os ministros mais antigos e mais próximos da compulsória são os
dois Mello – o Celso e o Marco Aurélio. Estão piorando com a idade e com
a vaidade. Gravitam no mesmo círculo filosófico dos demais. E só saem, res-
pectivamente, em 2015 e 2018.
Viram no que deu, este país ficar votando compulsivamente na esquerda?
A mesma sociedade, majoritariamente conservadora, cristã, consciente da
importância dos valores tradicionais, ao votar na esquerda por motivos me-
nores, é obrigada a assistir a suas posições maiores – religiosas, filosóficas e
morais – serem desrespeitadas e ridicularizadas nos votos e nas decisões dos
ministros do Supremo.54

53 Este artigo de explica também o que ocorreu em e o que ocorre em entre


FHC e o PT. À época do Mensalão, do Governo Lula, e atualmente, com os escândalos de
corrupção do Governo Dilma, sobretudo o “Petrolão”, Fernando Henrique Cardoso tratou
de reprovar publicamente qualquer pedido de impeachment, seja da oposição (da qual dizem
que ele faz parte), seja da população (ignorando as milhões de pessoas que foram às ruas nos
primeiros meses de ). [N. C.]
54 A situação se agravaria muito durante a gestão de Dilma Rousseff. Até agora, além de o STF
perder o único contrabalanço, Joaquim Barbosa, hoje conta com Dias Tóffoli, um ex-advogado
98 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Poucos meses antes da publicação desta obra, os bons brasileiros pa-


recem ter finalmente se cansado da dominação dos maus brasileiros.
Nos dias 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto de 2015, milhões de
pessoas foram às ruas de várias centenas de cidades pedir o impeach-
ment de Dilma Rousseff. Foram reações grandiosas, mas tardias – ao
menos se considerarmos os muitos motivos que tivemos para nos re-
voltar na última década e pouco. E ainda é cedo; ainda é pouco; ainda
está tudo dominado.
É o texto a seguir o melhor resumo de como os maus brasileiros che-
garam lá.

O sujeito me parou na rua: “Cadê os caras-pintadas? Cadê os caras-pin-


tadas?” A mão no meu peito parecia disposta a impedir qualquer possibi-
lidade de que a pergunta ou o perguntador fossem driblados. Era preciso
responder. Respondi: “Você não está querendo sugerir que os caras-pintadas
expressavam espontaneamente uma sentida revolta popular, está?”. Ele me
olhou surpreso: “Como que não? Como que não?”. Em sua indignação ele
dizia tudo duas vezes. Acho que uma para si mesmo e outra para mim.
Tentarei resumir o que falei àquele meu interlocutor. Ele não sabia que
contingentes expressivos de caras-pintadas saíram às ruas para derrubar o
Collor não só porque este forneceu motivos, mas, principalmente, porque
faziam parte de uma grande corrente aparelhada pelo PT e seus parceiros –
ou foram por ela levados a pintar o rosto.

Há muitos
processo anos, desdedeantes
revolucionário, açãoda nossa redemocratização,
gradual, tevee ocupação
mediante infiltração início um
de espaços para tomada do poder através da cultura. Não foi e não é um
fenômeno apenas brasileiro ou latino-americano. Trata-se de algo que acon-
teceu e segue acontecendo em todo o Ocidente. O Foro de São Paulo orga-

do PT, evidentemente sem “notável saber jurídico”, reprovado em dois concursos para juiz
(mas, para Dilma, digno de compor a mais alta corte do país), e com Luiz Edson Fachin, cabo
eleitoral de Dilma nas eleições de (assista em: veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-bra-
sil/ / / /vergonha-video-mostra-escolhido-por-dilma-para-o-stf-pedindo-votos-para-a-
-petista-na-campanha-de- /). [N. C.]
55 º de julho de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 99

niza o trabalho na América Latina e no Caribe, e o Brasil é um dos casos


de sucesso. A revolução é cultural, mas o objetivo é político: a esquerda no
poder, para ficar.
A melhor maneira de mostrar o que aconteceu é adotar como ponto de
partida não uma sequência cronológica de fatos, mas exibir a obra já feita,
o produto acabado, porque não há consequência sem causa. Não há laranja
sem que tenha havido laranjeira. Não há corrente sem que elos sejam criados
e unidos. Não há hegemonia sem construção de hegemonia.
Vamos, então, às laranjas. Recentemente, houve eleição para o sindicato
dos professores do Rio Grande do Sul. Digladiaram-se três chapas, sendo
duas encabeçadas por petistas. A eleição se travou no que deveria ser o pior
período possível para essas duas chapas. O magistério estadual acabara de
ver frustradas as expectativas de que o governo Tarso fosse atender às exi-
gências que seu partido, em coro com as lideranças classistas, fazia aos que o
antecederam no Piratini. Calote puro e simples. Não bastasse isso, o PT esta-
va, nesses mesmos dias, adicionalmente, elevando a alíquota de contribuição
previdenciária de todos os servidores com vencimentos superiores a R$ 3,6
mil. Pois o pacote de maldades em nada afetou o alinhamento ideológico
do magistério público. As duas chapas de esquerda perfizeram mais de 90%
dos votos! Por quê? Porque para gente bem doutrinada o projeto político
subordina tudo e todos.
Com raras, raríssimas exceções, quando contemplamos, em visão de con-
junto, a educação nacional, pública ou privada, leiga ou religiosa, em todos
os níveis, a situação é a mesma. Através da educação e de seus agentes, já nas
salas de aula do ensino fundamental, a hegemonia vai subindo os degraus do
sistema, envolvendo professores e alunos. Não é por acaso que a UNE vem
sendo comandada pelo PCdoB desde quando o Aldo Rebelo era adolescente.
A porta de entrada dos cursos de pós-graduação raramente não inclui uma
banca com o poder de filtrar as ideias que ganharão assento nas salas de
aula. Daí para o domínio das carreiras de Estado, dos concursos públicos, e
até mesmo de suas provas, não vai mais do que um passo de dedo.
Assim, aos poucos, as teses da esquerda foram vestindo toga e chegaram
aos tribunais. Primeiro, como vozes discordantes. Mais tarde, nas câmaras,
os desembargadores comprometidos com a revolução pela cultura perdiam
por 2 a 1. Depois, inverteram o placar. Aos poucos, passaram a controlar os
Plenos. Chegaram aos tribunais superiores. Hoje, dominam o STF.
Mais laranjas da mesma laranjeira podem ser contempladas na mídia. Os
textos que saem das redações, as pautas, os enfoques, as análises servem no-
100 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

tavelmente à revolução através da cultura. Direita não presta, conservador é


nome feio, as religiões são culpadas por todos os males, católicos são seres
desprezíveis. Pouco importa que a posição editorial seja diferente quando
a informação, o comentário, o tópico mais lido, a manchete que resume a
matéria, o tom de voz do locutor experiente, a imagem selecionada para ir
à tela, afirmam num outro viés. Na televisão, a hegemonia da Rede Globo
facilitou o projeto, mormente no que se relaciona com o enfraquecimento da
instituição familiar, a lassidão dos costumes, a agendagay, a ridicularização
da religião e dos valores ainda apreciados pela sociedade.
Mesmo que escrutine os escaninhos da memória, não é de meu conheci-
mento instituição mais una do que a Igreja Católica, ao menos nos últimos
cinco séculos. Pois esse baluarte foi rompido internamente por dissensos ide-
ológicos promovidos pela mesmíssima revolução através da cultura. Não há
o que os dois últimos pontífices tenham afirmado desde 1978 que seja capaz
de afastar a CNBB e a maioria dos bispos, padres e seminaristas da herética
Teologia da Libertação (TL). Nada nem ninguém prestou melhor serviço à
hegemonia da esquerda do que a TL quando substituiu o pobre dos Evan-
gelhos pelo excluído em nome do qual ela se proclama formulada. O pobre
dos Evangelhos é objeto da caridade cristã, da virtude do amor ao próximo.
O excluído da TL é parte ativa de um projeto revolucionário. Serviço feito.
Eu poderia prosseguir, apontando obviedades, como a hegemonia exer-
cida sobre os sindicatos e suas centrais, os movimentos sociais, a Justiça do
Trabalho, a maior parte dos conselhos profissionais e suas confederações, as
associações de bairro, e por aí afora. Mas não creio que seja mais necessário.
Já provei o que queria. Note-se: tudo isso foi feito antes de Lula chegar lá.
Quando ele chegou, completou o serviço promovendo o encon tro de to-
das essas estruturas – que o PT chama d e “sociedade civil organizada” (por
ele, claro) – com a brutal concentração de poderes que constitucionalmente
convergem à pessoa do presidente (e ao seu partido): chefia simultanea-
mente Estado, governo, administração direta, estatais e fundos de pensão;
comanda as principais fo ntes de financiamento interno (BB, BNDES, CEF),
24% do PIB nacional, poderosas e polpudas contas de publicidade capazes
de excitar favoravelmente parcela expressiva da mídia; tem poderes para
legislar por medida provisória, nomear ministros dos tribunais superiores,
conceder e renovar concessões de emissoras de rádio e tevê, criar e distri-
buir cargos e favores.
Se o partido do governo detém tal poder e, simultaneamente, controla
tudo que está organizado na sociedade, de onde, raios, poderão surgir os
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 101

caras-pintadas? Das piedosas senhoras idosas da hora do Angelus? Do clu-


be de mães da vila Caiu-do-céu? O que podem eventuais organizações não
alinhadas, dispersas e desprovidas de qualquer poder, contra quem coloca
quatro milhões de militantes numa Parada Gay?
Nesse ponto, meu interlocutor já queria ir embora e era eu que o travava
colocando a mão sobre seu peito. “Mas ainda existe a oposição! Ainda existe
a oposição!”, bradou, por fim, em sua desesperada dose dupla de santa ira.
“Oposição? Não há oposição política no mundo capaz, neste momento, de
sequer arranhar a teflon da máquina hegemônica petista. A blindagem não é
do Palocci, da Erenilda, do Lula ou do filho do Lula. O que está blindado é
o projeto revolucionário, o projeto de poder. É de setores do próprio PT que
surgem, eventualmente, problemas para o PT. E quando a oposição política
mais forte leva o nome de “dissidência”, é porque está tudo dominado e o
totalitarismo está instalado”. Quod erat demonstrandum.56

E , S
Confesso que volta e meia me vejo assistindo, pela tevê, às sessões do
Senado Federal ou às da Câmara dos Deputados, embora estas últimas, não
raro, assemelhem-se a uma fila de telefone público mandando recados para
o interior.
Pois foi num desses cateterismos televisivos através do coração da
democracia brasileira que me deparei recentemente com a transmis-
são de uma sessão da Comissão de Relações Exteriores do Senado, sob
comando do senador Fernando Collor. Na pauta, dois requerimentos
apresentados por Eduardo Suplicy . O paulista, com sua retórica de hip -
notizador , propôs o envio de duas moçõ es. Uma ao governo dos Estados
Unidos, pedindo apresos
agentes cubanos desocupação de Guantánamo,
e condenados a liberdade
pela justiça dos
norte-americana cinco
e
o fim do tal embargo comercial que ninguém respeita. A outra moção

56 Muita coisa mudou entre (quando Puggina escreveu este artigo) e meados de ,
quando este livro é editado e o PT sofre com inédita e grande oposição popular – graças a um
ambiente intelectual renovado, em que a verdade pôde voltar a circular de alguma forma, e
graças ao excesso de incompetência de Dilma, de seu partido e de seus aliados, e a despeito
da inoperância da quase totalidade da oposição política no Congresso. Em tempo: junto com
Olavo de Carvalho e alguns poucos bravos, é Percival Puggina um dos responsáveis por esse
ambiente. [N. C.]
57 de março de .
102 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

seria dirigida a Cuba, pedindo a libertação dos presos políticos e o


levantamento das restrições às entradas e saídas de cidadãos cubanos
no próprio país. Para quem não sabe, cubanos só saem de Cuba com
beneplácito do governo ou dos tubarões. E o beneplácito do governo é
o menos provável.
A primeira moção teve aprovação resoluta, unânime, indiscutível. A
segunda abatumou. Os senadores Ranulfe Rodrigues, Vanessa Grazziotin,
Fernando Collor e, principalmente, Delcídio do Amaral, entenderam incon-
veniente que o Brasil se imiscuísse em assuntos internos de Cuba. A moção
foi rejeitada. A maioria dos presentes não viu problemas em dar palpites à
política norte-americana, mas fazer o mesmo em relação a Cuba, sim, cons-
tituiria grave intromissão em assuntos internos de uma nação soberana.
Exclame-se, amigo leitor. Xingue. Mas escolha adjetivos que corres-
pondam a um diagnóstico político correto. Aquela turma conta muito
com a ingenuidade alheia. Preza imensamente a ingenu idade alheia! Gra-
ças a essa ingenuidade, pela qual o ocorrido aponta direto para a rema-
tada incoerência e para o absurdo, eles se dão o direito de fazer política
segundo uma lógica própria, uma racionalidade disciplinada e obedecen-
do a um mínimo ético que é o máximo da malícia. As pessoas tendem a
concluir assim: “Um peixinho de aquário perceberia tal contradição!”.
Sim, um peixinho de aquário e um senador stalinista. Então, entenda:
qualquer deles, jamais votaria moção contra Cuba. Os repórteres que
perguntaram à presidente Dilma e ao governador Tarso Genro (RS) o
que tinham a dizer sobre direitos humanos por lá, depois das recentes
visitas à Ilha, proporcionaram a ambos a oportunidade de tecer pesadas
críticas aos Estados Unido s. Sem qualquer embaraço. Sobre Cuba, nada.
Contradição? Não, apenas ética stalinista. Tudo pela causa, camaradas!
Digam-me quando não foi assim. É por serem assim que tais autoridades,
homens e mulheres, fazem um discurso sobre direitos humanos no Brasil
e criam um Ministério da Mulher , mas andam aos abraços com as auto-
ridades iranianas.
Vou encerrar reproduzindo parte de um artigo no qual Eça de Queiroz,
em 1871, expressou seu constrangimento ante o que via acontecer em seu
Portugal. No caso, ele menciona a Espanha. Nós deveríamos colocar-nos,
pelos mesmos e muitos outros motivos, também constrangidos diante do
mundo. Diz Eça:
O país não pode, em sua honra, consentir que os espanhóis o venham ver. O
país está atrasado, embrutecido, remendado, sujo, insípido. O país precisa
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 103

fechar-se por dentro e correr as cortinas. E é uma impertinência introduzir


no meio de nosso total desarranjo, hóspedes curiosos, interessados, de luneta
sarcástica.

Com a sociedade ingenuamente adaptada a uma crise moral de rosto


sujo e cauda longa, podíamos, muito bem, passar sem ressuscitar e exibir
ao mundo
tudo. uma
Espere ética stalinista
a incoerência desemalícia
e não e conveniência
surpreenderá jamais. que se impõe sobre

O A
O velho totalitarismo tornou-se mestre do disfarce. Durante alguns anos,
fez-se de morto. Ganhou sapato novo. E chegou ao poder no dia 1º de janeiro
de 2003. Hoje, desfila de terno Armani. Se você, leitor, é daqueles que ainda
imaginam o totalitarismo parado numa esquina, maltrapilho, barba porfazer,
banho por tomar, distribuindo panfletos contra os patrões e seu “sistema”,
engana-se. O totalitarismo está no poder e sua panfletagem se dá pelaweb.
Conta com um exército de blogueiros e editores de jornais eletrônicos que
fazem a mesma coisa de antes, mas com eficiência muito maior. A velha tática
da infiltração para aparelhamento, que outrora ocorria de baixo para cima,
agora é feita desde cima, onde há dinheiro à vontade.
Totalitarismo por quê? talvez esteja perguntando-se o leitor destas linhas.
Afinal, dirá, o regime é democrático, há eleições e as regras do jogo político
são cumpridas. De fato, mas cuidado com os disfarces. Não espere o totali-
tarismo, depois dos vexames que passou mundo afora, exibindo ao público
toda sua hórrida nudez.
Tampouco o imagine entrincheirado numa encosta de morro, brincando
de Fidel Castro e Che Guevara. Nada disso. Renovado, tornou-se sutil. Para
reconhecê-lo, é necessário estar atento aos detalhes, observar suas principais
afeições políticas, verificar quais são os governantes aos quais dedica seus
abraços mais calorosos, o que diz nos fóruns onde solta o verbo, ler as leis
que patrocina e o desapreço que manifesta ao cristianismo, à família e à
economia de mercado.
Poderia desfiar exemplos, contar casos acontecidos em debates de que
participei ou assisti. No entanto, meu assunto aqui diz respeito a algo novo,
a uma recente evidência do que estou afirmando. Todos sabemos o quanto

58 de setembro de .
104 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

a manipulação do vocabulário serve aos projetos totalitários. Nada era me-


nos republicano, democrático e popular do que as repúblicas democráticas
e populares nascidas no século 20. Na política, o domínio do vocabulário
serve esplendidamente à construção da hegemonia e carimba o passaporte
do Príncipe para o poder. Gramsci percebeu isso e, aludindo a Maquiavel,
disse que o novo príncipe é o partido. Pois bem, se o leitor for atento ao que
se fala nos blogs e sites de relacionamento para onde convergem milhões de
pessoas no país, por certo já deparou com a palavra PIG. Se não sabe o que
é isso, eu traduzo: PIG, que também significa “porco” em inglês, é a sigla de
Partido da Imprensa Golpista, expressão criada para designar a mídia de
oposição ao governo.
Ora, ora, caros leitores, se o jogo político está sendo jogado em confor-
midade com as regras; se os quartéis estão parados como água de poço tam-
pado. Onde, raios, estão os sinais de golpe? A expressão PIG, prontamente
acolhida pelo totalitarismo de terno Armani e seus exércitos, só se explica
pela dificuldade de conviver com a crítica, com a oposição, com a fiscaliza-
ção por parte da imprensa livre, com um judiciário independente e, portanto,
com a própria democracia. Voilá! – conforme queríamos demonstrar. Nem
precisaria rejeitar tudo isso junto para ser totalitário. A palavra PIG, por fim,
remete-me às páginas policiais, onde, cotidianamente, pode-se ler matérias
sobre crimes passionais cometidos por pessoas que não suportam não serem
amadas. Os totalitários tampouco conseguem conviver com quem não lhes
presta veneração.

Com tudo dominado nas universidades, na imprensa, nos arranjos


políticos, o campo para a invasão dos bárbaros se fez fértil. Por aqui,
mocinho virou bandido e bandido virou vítima do sistema.

N
Raramente leio páginas policiais. Evito fazê-lo para não acrescentar do-
ses extras de horror a meus próprios calafrios. Vivemos com medo, aferro-
lhados. Em nossas conversas habituais não faltam relatos de pavor e sangue.
São apontamentos nos diários do cárcere, do cárcere em que nos recolhemos,

59 de novembro de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 105

inseguros e acossados. Há um pânico instalado no país e ele não distingue


classe social nem cor da pele, campo e cidade. Como consequência, quem
de nós, quando um bandido é morto no exercício de suas atividades, não
exclama intimamente: “Um a menos!”?
É sobre essa síndrome que escrevo. Ela tem agentes causadores bem de-
terminados. Não encontro pessoas com medo de serem vítimas de grandes
crimes novelescos, por vingança, ciúme, herança ou dívida. O que encontro
são pessoas com medo da criminalidade hoje considerada trivial, corriquei-
ra, cotidiana. As pessoas temem ser espancadas ou mortas nas calçadas por
motivo fútil. Percebemo-nos sujeitos a isso. Volta e meia alguém, ao nosso
redor, foi parar na mala do carro ou experimentou o metal frio do revólver
encostado na cabeça. Quem sai vivo de tais enrascadas ajoelha-se gratificado
e lava o passeio com lágrimas de ira e júbilo. Um ano depois, os mais ex-
tremados rememoram a data, reúnem a família e sopram velinha. Festejam
aniversário. São sobreviventes da criminalidade cotidiana.
O que descrevo tem tudo a ver com luta de classes, com pobres e ricos,
com oprimidos e opressores. Mas não pelo motivo que lhe indicam certos
analistas. É a bolorenta leitura marxista da realidade social, conflituosa, sem
a qual não conseguem pensar, que produz essa inoperância do Estado e suas
consequências. É ela que responde pelo abandono do sistema carcerário e
pelo desapreço às instituições policiais. É ela que redige a generosa benig-
nidade dos códigos e os favores concedidos por leis penais que desarmam
os juízes bons e compõem o arsenal dos maus. É uma leitura da realidade
que minimiza aquilo que apavora o cidadão e aterroriza a sociedade. É uma
leitura da realidade que legisla e atua na contramão do que todos temos o
direito de exigir. Criminaliza a vítima e absolve o réu.
O bandido que nos sobressalta certamente já foi preso. O desmanche para
onde vai nosso automóvel roubado durante o assalto já foi fechado várias
vezes. Mas alguém no aparelho estatal não fez e não faz o que lhe correspon-
de. O legislador brasileiro dispõe sobre matéria penal como se vivesse numa
realidade suíça. Inúmeros magistrados desvelam-se em zelos para com osban-
didos. Elevam desnecessariamente os riscos a que está exposta asociedade sob
sua jurisdição. E não faltam formadores de opinião para pedir penas brandas
exatamente para esse tipo de crime cotidiano, covarde e violento, de consequ-
ências sempre imprevisíveis. Em tal contexto, conceder indultos generalizados
e soltar presos a rodo é uma bofetada oficial nas vítimas.
Progressão automática de regime, na realidade brasileira? Quanta irres-
ponsabilidade! Existe coisa mais escancarada do que o tal semiaberto? Prisão
106 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

domiciliar? Estão brincando. “Mas faltam presídios!”, alegam os protetores


dos apenados. A situação dos presídios brasileiros extrai hipérboles do minis-
tro da Justiça. Mas há dez anos o grupo do ministro governa, dá as cartas e
joga de mão no país. Quem sabe Sua Excelência espera que os contribuintes,
à conta própria, saiam por aí a construir presídios? Lidam irresponsavelmente
com coisa seríssima, senhores! Da rendição do Estado ante a criminalidade
sobrevirão a anomia e o caos.

O
Longe de mim recusar o direito à burrice. O que deve ser negado é a bur-
rice ao Direito. O Direito afeta o conjunto da sociedade, exigindo, portanto,
cuidadosa aplicação da inteligência no sentido da Razão. É preciso protegê-
-lo da burrice.
Há alguns meses, após palestra a alunos de uma Faculdade de Direito,
ouvi de um estudante candente manifestação de apoio à invasão de terras e à
ação do MST. Ora, nos cursos de Direito formam-se profissionais cuja ativi-
dade mais comum será a de defender interesses de seus constituintes no con-
texto do emaranhado legal do país. Essa e outras atividades que compõem
o cotidiano dos operadores do Direito se desenvolvem em torno de uma
coisa chamada “processo”. O devido processo. Ele é o meio dentro do qual
se movem os profissionais do Direito e o aparelho judiciário. Sem ele não
podem operar as partes nem decidir os magistrados. Portanto, expliquei ao
rapaz, a menos que se deseje condenar à miséria os diplomados nas carreiras
jurídicas, transferindo prestígio e renda para as profissões de pistoleiro e
capanga, seria prudente – para dizer o mínimo – rever sua posição. Um
bom advogado deve ser intransigente defensor do d evido processo!
É provável
logias envolvemque de nada
a razão numtenha adiantado
casulo o queo eu
e obliteram disse. CertasFaça
entendimento. ideo-a
experiência, entre num site ou blog de esquerda que tenha espaço para
interatividade e tente argumentar contra alguma ideia ali exposta. Eu fiz
isso ontem. Pesquisando sobre o PNDH-3 (aquele decreto federal sobre
direitos humanos para o q ual Lula e Dilma fizeram a maior festa, e depois
alegaram desconhecer seu conteúdo) deparei-me com um artigo que me
interessou. O autor, formado em Direito, defendia o decreto presidencial

60 de março de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 107

e, em particular, apoiava aquela mediação que pretende tornar obrigató-


ria a audiência a “organizações da sociedade” como condição prévia à
concessão de liminar para reintegração de posse em casos de invasão de
propriedade. O decreto propõe que o juiz, quando isso ocorrer, só possa
deliberar após ouvir certas organizações militantes, em reunião conjunta
com os invasores e o invadido. Uma zorra na vara!
Lendo o referido artigo no blog de um advogado, adicionei ali uma ob-
servação mostrando que essa exigência cerceava a atividade jurisdicional,
colocava em pé de igualdade o invadido e o invasor, trazia para dar palpi-
tes no processo partes que nada tinham a ver com ele e estabelecia media-
ção onde não havia o que mediar. Foi o que bastou para que o responsável
pelo blog viesse em socorro à minha ignorância com um argumento tão
arrasador que o fez sentir-se autorizado a tirar sarro da minha cara. Disse
ele, literalmente: “Leia a Constituição. Ela estabelece a função social da
propriedade, hehehe”.
E eu fiquei sem saber – hehehe – o que uma coisa tinha a ver com a outra.
A função social da propriedade é um princípio, não é autorização para que
um bem possa ser tomado ao bel-prazer de quem o pretenda ter para si. No
entanto, nada há de desmesurado na burrice do cavalheiro esse do hehehe.
É exatamente assim que pensam os autores do PNDH-3 e todos os partici-
pantes do Congresso Nacional do PT que ungiram com a bênção partidária
a totalidade do lamentável calhamaço. O direito à burrice é como a anistia
– amplo, geral e irrestrito. O que precisamos é proteger da burrice o Direito.

Este capítulo acomoda os artigos dos últimos anos de Percival Puggi-


na que versam sobre como os maus brasileiros “chegaram lá”, como
tornaram-se culturalmente hegemônicos e politicamente poderosos.

Como
não se tem visto,
restituindo seusum expediente
fatos perdidos,recorrente é revisar a História
mas reorganizando, inserindo– e
excluindo fatos conforme suas necessidades.
Há, pois, uma passagem da História do Brasil especialmente cara a
esses propósitos: o regime militar de entre 1964 e 1985. Aqueles que
desde o início dos anos 60 do século passado se preparavam para
instaurar uma ditadura comunista à cubana no Brasil, hoje posam de
grandes defensores da democracia. E querem “repor a verdade” – logo
eles, para quem a verdade não existe, não passa de construção social...
108 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

AC “V ”
Desconfio até do nome. Comissão da Verdade? Que coisa mais incom-
patível com um governo recheado de mentirosos públicos. Desde quando,
senhores, a verdade se tornou instrumento da política? Talvez não exista
nessa
partes.atividade algo tão
Eleitoralmente, seviciado
a mentira e tão fracionado
funciona em do
muito melhor metades
que a everdade.
quartas
A ideia de formar uma comissão de sete pessoas (essa conta só pode ser
ato falho) designadas por uma oitava diretamente interessada nos rumos do
trabalho contraria elementares princípios metodológicos. Ademais, se para
escolher seus ministros, supostamente um colegiado sobre o qual incidem
exigências superiores, a presidente andou na escuridão, quem lhe entregará
uma boa lanterna para designar essa versão tupiniquim dos sete sábios da
Grécia? Pois é. Mas o Congresso Nacional julgou tudo muito bem pensado
e aprovou sem pestanejar, com os votos do governo e muitos – valha-nos
Deus! – da oposição. De fato, a racionalidade foi embora e não comunicou
o novo endereço.
Não estou dizendo que seja desnecessário ou inconveniente esclarecer a
situação de mortos e desaparecidos. Há famílias interessadas em tais respos-
tas, e é justo buscá-las. Mas essa questão, profundamente humana, é apenas
marginal nas motivações. O que queriam mesmo, desde que se tornaram
hegemônicos, era acabar com a anistia e levar a julgamento seus inimigos
de então. Como o STF não deixou, criaram o próprio tribunal e, cautelo-
samente, reservaram a seus crimes solene indulgência plenária: “Nós fora!
Lutávamos pela democracia!” Haverá quem acredite?
Não só não eram democratas como escarneciam de quem fosse. Por
outro lado, as lições de pensadores como Aristóteles, Tomás de Aquino
e Francisco de Vitória sobre o direito de resistência à tirania em nada os
socorrem. Faltava-lhes condição essencial de legitimidade, representada
pela luta por uma causa nob re. A causa deles, financiados e treinad os pelo
comunismo internacional, não tinha nobreza alguma. Mundo afora, pro-
duzia vítimas aos milhões. Era radicalmente totalitária. O povo, por isso,
jamais os apoiou. É preciso ter perdido o senso de realidade para afirmar
diferente. Moviam-se pelo mesmo ódio que inspirava Che Guevara, guer-
rilheiro modelo, quando discorria sobre o “ódio como fator de luta” para
transformar o militante em “fria máquina de matar”. O mesmo que en-

61 de dezembro de (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 109

sinava Marighella, o venerado camarada, em seu manual do guerrilheiro


urbano. A anistia, com seus efeitos jurídicos e políticos, seguiu um prin-
cípio ético e político superior - o princípio do perdão. E lhes franqueou o
poder. Mas quem assume o ódio como categoria do seu ser político não
consegue operar sem ele.
A comissão é filha desse sentimento. Longe de mim, que fique claro, pro-
teger torturadores de direita ou guerrilheiros e terroristas de esquerda. Suas
maldades os credenciam a cantos bem quentes do inferno. O objetivo dessa
comissão, já bem verbalizado, é um acerto unilateral de contas. Não reco-
nheceriam a verdade nem se trombassem com ela, nua e crua, numa tarde
ensolarada. Mas a definirão em reunião caseira, tomando chimarrão. Esta-
belecerão um tribunal de exceção. Arbitrariamente e à margem do ordena-
mento jurídico, submeterão pessoas a linchamento moral (pena de exposição
pública, sem julgamento formal nem direito de defesa). O que fará o Poder
Judiciário ante uma zorra dessas?
Para concluir. Merece pouco crédito oapreço por direitos humanosde quem,
periodicamente, vai a Cuba soluçar no stalgias no cangote deFidel Castro. Aliás,
se em vez de brasileiros fossem cubanos e criassem, por lá, uma Comissão da
Verdade, iriam investigar sabem o quê? Os crimesde Fulgêncio Batista...

Ao contrário do que nossa esquerda chorosa faz parecer, o regime mi-


litar era bang-bang sem mocinho. Parte da direita brasileira não estava
disposta a dividir o poder em uma verdadeira democracia. Os socia-
listas, por sua vez, também queriam o domínio completo do poder.
Ainda hoje, aliás, a esquerda insiste em fazer de conta que não sabe,
mas nós fazemos questão de relembrar sempre: o golpe militar foi,
na verdade, uma reação aos planos de instauração de uma ditadura

comunista no Brasil.

C N H
Quem conta a história leva vantagem sobre quem ouve. O modo como
ela é contada encaminha os ouvintes para a conclusão desejada. Napoleão
ensinava: “A História é uma versão sobre o passado em torno da qual as
pessoas convergem”. Sabem disso os professores. E sabem mais ainda os
políticos, que, através dos milênios, nunca deixaram de construir e repetir
110 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

as versões que melhor lhes convinham. A União Soviética, por exemplo, era
useira em levar esse procedimento aos requintes, valendo-se da prática de
forjar e adulterar documentos. O discurso de Khrushchev no 20º Congresso
do Partido Comunista da União Soviética talvez seja a mais notória evidên-
cia e a mais candente denúncia da mistificação em que se envolvera a história
da URSS nos terríveis anos iniciados em 1917. Em seu profético e assustador
1984 (alguém sabe me dizer por que esse livro jamais está na bibliografia re-
comendada pelas nossas escolas?), George Orwell concebeu um personagem,
Winston Smith, instalou-o num órgão casualmente chamado Ministério da
Verdade e lhe atribuiu a tarefa de produzir os documentos que confeririam
autenticidade aos relatos.
Eis por que a ideia de criar um Comissariado Nacional da História, sob
o orwelliano nome de Comissão da Verdade, só pode transitar acriticamen-
te num país que jogou fora sua memória, suas raízes e do qual, há muito,
roubaram o discernimento. Quem comporá o comissariado? Sete membros
escolhidos a dedo por um único dedo. O da presidente. Por quê? Porque foi
assim que Lula quis e que Dilma mandou a base do Congresso aprovar. E
por que não uma comissão formada por sete generais? Porque a esquerda
não aceitaria tamanho absurdo, ora essa. Absurdo por absurdo, a esquerda
ficou com o absurdo que lhe convinha, sob silêncio geral do rebanho, só
quebrado pela sinetinha da ovelha-guia.
Tem mais. O Comissariado Nacional da História não vai apenas ser nome-
ado pela presidente. Será remunerado pela Casa Civil da Presidência daRepú-
blica, juntamente com os auxiliares contratados e vai funcionar junto à Casa
Civil. Na copa e na cozinha do governo. Ora, eu não consigo vislumbrar o
menor interesse da presidente Dilmano estabelecimento da verdade histórica.
Sabem por quê? Porque ela teve participação ativa na principal organização
guerrilheira que atuou durante a luta armada. Essa organização, por exemplo,
participou do roubo ao cofre do Adhemar de Barros (sob o ponto de vista
financeiro, US$ 2 milhões, a mais bem-sucedida operação daquele período).
Apesar disso, sua excelência, com sua suposta dedicação à história, nunca des-
velou uma ponta sequer desse e de outros tantos fios que compõem as tramas
do referido período. O máximo queli, como declaração dela, foi uma entrevis-
ta na qual conta que teve “participação pequena” e que havia tantas armas es-
condidas sob sua cama que era difícil acomodar o corpo no colchão. Me pou-
pa. Há mais história do que metralhadoras escondidas embaixo desse colchão.
Quando pergunto aos alinhados defensores do Comissariado Nacional
da História o motivo pelo qual estão fora da alçada da comissão os crimes
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 111

cometidos pelos que pegaram em armas (crimes como servir potências es-
trangeiras, formação de quadrilha ou bando, assalto, assassinatos, seques-
tros e terrorismo) a resposta que obtenho é a seguinte: “Trata-se, aqui, de
identificar os crimes cometidos pelo Estado!”. E quando eu faço uma per-
gunta absolutamente óbvia: “Por que só estes crimes?”. Dizem-me como
quem acendesse uma lanterna nas trevas da minha ignorância: “Porque é
assim que está na lei.” Ou seja, é assim porque está na lei e está na lei porque
nós quisemos que fosse assim. Como eu sou burro!
Apesar de tanta desfaçatez, contam-se nos dedos os jornalistas, pesqui-
sadores, historiadores, filósofos e analistas que apontam, sobre esse assunto,
os abusos e encenações do Big Brother que nos governa. Ele faz o que quer, a
partir do script que já escreveu, e que faz jus a uma versão final apresentada
pelo Pedro Bial.

Em março de 1960 eu era um adolescente interiorano, recém-chegado a Por-


to Alegre, iniciando o Curso Científico no tradicional Julinho, como era conhe-
cido o Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Nunca vira uma escola com tanta
gente, tamanha efervescência política e professores tão exigentes. Mas o que
importa aqui é a política.Até sobre as provincianas disputas estudantis daqueles
anos incidiam os reflexos da Guerra Fria. Os comunistas do Julinho – e havia
muitos – cantavam uma espécie de grito de guerra em que se anunciava que “a
vil reação vai virar sabão”. Havia estudantes profissionais, com idade para se-
rem pais dos colegas, incumbidos,pelo “Partidão”, de angariar militantes para a
prenunciada cadeia produtiva de sebos esabões que usaria como matéria-prima
a nós, os adolescentes da “direita reacionária”. Ainda hoje, quando encontro
por aí alguns
juvenis desses
cantando camaradas,refrões
ameaçadores me retornam à mente suas
pelos corredores desajeitadas figuras
do colégio.
Posteriormente, na Faculdade de Arquitetura, testemunhei o upgrade da
insanidade ideológica. Professores expurgados, colegas que desapareciam
para, meses depois, reaparecer no Chile ou em algum lugar da Europa. Aqui-
lo mexeu comigo. Como era contra radicalismos e violências suscitei mal-
querenças de ambas as trincheiras. Protestei contra o expurgo de professo-
res. Fui fichado no DOPS. Reinava a desarmonia nas turmas, construíam-se

62 de abril de .
112 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

sólidas inimizades e havia um mal-estar permanente nas salas de aula e na


política estudantil. O país inteiro, aliás, não teve mais normalidade institu-
cional até a eleição de Tancredo Neves. Sequestravam-se diplomatas. Cole-
gas envolveram-se numa ação fracassada contra o cônsul norte-americano
em Porto Alegre. Bombas explodiam em atos terroristas. Assaltos a bancos,
carros-fortes, joalherias e supermercados eram “ações expropriatórias” para
atender a crescente demanda da revolução comunista por recursos financei-
ros. A esquerda dava uma de Fidel e Che – os Batman e Robin da luta ar-
mada latino-americana. Sequestrava aeronaves, explodia quartéis, roubava
armamentos. E repressão, claro. Como não?
Por volta de 1985, a abertura estava concluída. Haviam retornado os que
saíram do país. Foram criados novos partidos. Completara-se a anistia de
1979 com o perdão aos que haviam cometido crimes de sangue. O passado
não era consertável, mas o futuro sim.
Contamos, hoje, mais de um quarto de século de estabilidade num am-
biente político marcado, até aqui, por muito menos ódios e ressentimentos.
No próximo pleito presidencial, os adversários do regime instalado em 1964
terão exercido o poder por duas décadas consecutivas. Fernando Henrique
esteve no exílio. Lula tinha sido líder sindical, passou uns dias na cadeia
e fora afastado da presidência do seu sindicato. Em 2010 elegeu-se uma
companheira em armas, como a ela se referiu o bem informado José Dirceu
quando lhe passou a chefia da Casa Civil. Vinte anos.
Como podem, agora, falar em Comissão da Verdade para “pacificar o
país” e “completar a redemocratização”? Nada desmente mais essa farsa
revisionista e revanchista do que o estresse político causado nas últimas se-
manas por sucessivos episódios. Vivem eles a nostalgia dos ideais revolu-
cionários que se corromperam no poder. Foram-se as utopias e sucumbiu
a reputação. É preciso, agora, posar como flagelados de uma guerra santa,
como heróis e mártires de uma ingente luta pela democracia. É preciso sus-
citar ódios para recuperar o amor - ainda que seja, apenas, o amor próprio.
Falsários! Com a dócil e emasculada aquiescência dos herdeiros do
MDB, mais interessados em gravitar perto das prateleiras do almoxarifado
do poder, tomam nas impróprias mãos uma bandeira democrática que nunca
ergueram, fosse para defender a democracia, como alegava fazer a ARENA,
fosse para restaurá-la enquanto esteve perdida. Em momento algum daqueles
anos loucos usaram a palavra democracia de um modo que não fosse para a
desqualificar como serva dos interesses da burguesia. Quando sequestraram
o embaixador norte-americano Burke Elbrick, exigiram e conseguiram que
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 113

fosse lido um manifesto em rede nacional. Com uma oportunidade de ouro


dessas nas mãos, falaram em democracia? Não! Nem de passagem. Falaram
em novos assaltos, sequestros, “justiçamentos” e extensão da guerrilha ao
campo. Os panfletos que deixavam nos locais de suas ações tampouco usa-
vam essa palavra. Os nomes das dezenas de organizações que atuaram no
período ostentavam os vocábulos “marxista”, “leninista”, “maoísta”, “revo-
lucionário”, “comunista”, “socialista”, “proletário”. Mas a palavra “demo-
crático” jamais aparece! Não há um “D” em qualquer das siglas. Então, para
alcançarem o intuito – bem stalinista, por sinal – de reescrever a história,
será preciso passar a borracha em muita coisa redigida por eles mesmos.

Pois a história é precisamente esta (grifos nossos):


“Numa década em que guerrilhas e atentados espocavam por toda
parte, sequestros e bombas eram parte do cotidiano e a ascensão do
comunismo parecia irresistível, o maior esquema revolucionário já
montado pela esquerda neste continente foi desmantelado da noite
para o dia e sem qualquer derramamento de sangue.
O fato é tanto mais inusitado quando se considera que os comunistas
estavam fortemente encravados na administração federal, que o pre-
sidente da República apoiava ostensivamente a rebelião esquerdista
no Exército e que em janeiro daquele ano Luís Carlos Prestes, após
relatar à alta liderança soviética o estado de coisas no Brasil, voltara
de Moscou com autorização para desencadear – por fim! – a guerra
civil no campo. Mais ainda, a extrema direita civil, chefiada pelos
governadores Adhemar de Barros, de São Paulo, e Carlos Lacerda,
da Guanabara, tinha montado um imenso esquema paramilitar mais
ou menos clandestino, que totalizava não menos de 30 mil homens
armados de helicópteros, bazucas e metralhadoras e dispostos a opor
à ousadia comunista uma reação violenta. Tudo estava, enfim, prepa-
rado para um formidável banho de sangue.
Na noite de 31 de março para 1º de abril, uma mobilização militar
meio improvisada bloqueou as ruas, pôs a liderança esquerdista para
correr e instaurou um novo regime num país de dimensões continen-
tais – sem que houvesse, na gigantesca operação, mais que duas víti-
mas: um estudante baleado na perna acidentalmente por um colega
114 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

e o líder comunista Gregório Bezerra, severamente maltratado por


um grupo de soldados no Recife. As lideranças esquerdistas, que até
a véspera se gabavam de seu respaldo militar, fugiram em debandada
para dentro das embaixadas, enquanto a extrema-direita civil , que
acreditava ter chegado sua vez de mandar no país, foi cuidadosa-
mente imobilizada pelo governo militar e acabou por desaparecer
do cenário político.”
— Olavo de Carvalho63

U ,

Quando sequestraram o embaixador Elbrick, em 1969, os autores do aten-


tado exigiram a divulgação, em toda a grande mídia, de um longo manifesto.
Imaginem o constrangimento imposto aos detentores do poder: locutor oficial
proclamando à nação um libelo contra o regime deles. O texto foi exibido. O
país parou para ouvir, ver e ler. Redigira-o o jornalista Franklin Martins, um
dos sequestradores. Oportunidade dourada para os insurretos afirmarem seus
compromissos com a democracia e cobrá-los do governo, não é mesmo? Qual
o quê! O texto (íntegra em “Charles Burke Elbrick” na Wikipedia) foi uma
catilinária comunista que falava do que os revoltosos entendiam: ideologia,
violência, “justiçamentos”, sequestros,assaltos.
Disse alguém, com razão, que os confrontos históricos se travam no tem-
po dos fatos e retornam no tempo das versões. Durante os governos milita-
res, a esquerda que pegou em armas foi derrotada. Mas se deu muito bem
nas versões. Indague às pessoas com menos de 40 anos, que não viveram no

tempo dos fatos,


terão ouvido algosobre
que anão
imagem
fosse que
paratêm do Brasil naquele
representar período.
um quadro Poucas
de horrores
patrocinados pelos governos militares. Peça-lhes opinião, também, sobre os
que partiram para a luta armada e perceberá que são vistos como jovens
idealistas, mártires de uma resistência democrática.
Repita as perguntas aos que viveram o tempo dos fatos. Perceberá que
apesar das muitas e graves restrições que se faz e se deve fazer ao regime de
então, aquela versão quase unânime entre os mais jovens estará longe de ser

63 Leia o artigo completo em: olavodecarvalho.org/semana/ .htm.


64 º de julho de (publicado no jornal Zero Hora).
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 115

majoritária neste grupo. Relatarão que o Brasil não foi, naqueles anos, o que
hoje se ensina. Com maior surpresa ainda, perceberá que os terroristas e suas
organizações praticamente não têm simpatizantes entre os que testemunha-
ram os acontecimentos por eles protagonizados. Aliás, fracassaram por ab-
soluta falta de apoio popular. Escassos serão os que lhes atribuem qualquer
mérito na necessária redemocratização. Com razão dirão que a retardaram.
Não os reconhecem como democratas.
Valerá a pena ir além. Pergunte aos que viveram apenas no tempo das
versões o que sabem sobre Ulysses, Covas, Teotônio, Montoro, Brossard,
para citar alguns dos muitos que, no embate político foram forçando a
porta da abertura. E a abertura da porta. Nada saberão porque não lhes
foram mencionados! O que importa, à versão, é desprezar o processo
político útil para exaltar o revolucionário inútil. Capisce ? Menor ainda
será o conhecimento sobre o papel das lideranças empresariais, sindicais
e religiosas que se empenharam pela normalidade institucional. A con-
tribuição dos militantes da luta armada para a democracia foi a mesma
que as cheias do Nilo prestam à venda de ingressos para os shows da
Broadway. Não li um único livro escrito por intelectu ais de esquerda par-
ticipantes daquelas organizações que se atrevesse a estabelecê-la. Antes,
negam-na com firmeza.
Convém aos que, após a abertura e a anistia, ingressaram no jogo políti-
co, posar de Estátua da Liberdade diante do porto de Nova Iorque. Volta e
meia algum ministro, olho na versão, reverencia os que lutaram pela demo-
cracia apontando para as pessoas erradas. “E o título? E o título?” pergun-
tará o leitor, vendo que o artigo termina. Ora, o filme “Um dia, um gato”
ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 1963. Conta sobre um
gato com óculos mágicos. Quando olhava para as pessoas, elas adquiriam
uma cor relacionada com seus defeitos e virtudes. Era um pânico na cidade.
Os mentirosos, por exemplo, ficavam roxos.

Pouca gente sabe, mas atua hoje no BrasilPartido


o Comunista Marxis-
ta-Leninista. É ligado de alguma forma ao endereço na internetinverta.
org, do Jornal Inverta, assim apresentado: “A Inverta - Cooperativa de
Trabalhadores em Serviços Editoriais e Noticiosos Ltda. é uma Socieda-
de Civil, sem fins lucrativos, constituída em 20 de Setembro de 1991, na
cidade do Rio de Janeiro, pela união de trabalhadores do campo editorial
e jornalístico, claramente definidos pelo Socialismo Científico.” Seria este
116 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

mais um caso de anacronismo político típico do Brasil, não fosse sua


insistente defesa de Lula, Dilma Rousseff e das políticas públicas do PT.
Esse partido aparentemente bizarro parece cumprir uma das funções
da estratégia das tesouras, como chamava Stalin a prática de a esquer-
da dividir-se para conquistar. Essa suposta oposição mais à esquerda
levanta as bandeiras mais radicais, preparando o terreno e a opinião
pública para a ação legislativa e executiva dos companheiros que go-
vernam (que não poderiam, eles mesmos, sustentar tais posições, sob
pena de perder os parceiros fisiológicos). Partidos como esse marxista-
-leninista, o PSOL e o PSTU são os anestésicos da opinião pública,
fazendo com que o PT pareça moderado, democrático.
É, pois, desse partido uma defesa muito clara da revisão da Anistia
no Brasil – defesa essa que serviu de mote ao próximo texto de Per-
cival Puggina.

O A

“O que está em jogo nesse processo [...] é a disputa da memória e da verdade


histórica e política do período. De um lado, os que lutaram contra o golpe
militar, pela democracia e pela liberdade em nosso país [...].”
— Extraído do site inverta.org.66

Não há qualquer novidade nisso. Nem na “disputa da memória e da ver-


dade”, nem na deslavada e tão repetida mentira que lhe segue. A pacificação
nacional, a normalidade democrática e a anistia, quando necessária para
isso, sempre tiveram inimigos. No geral, os mesmos, que se reproduzem e se
repetem como ondas chegando na praia das instituições nacionais. Durante
os governos militares, a pacificação foi retardada por aqueles que pegaram
em armas para derrubar um regime autoritário e implantar um outro, totali-
tário, infinitamente pior. Impossível negar: sob orientação e financiados por
potências estrangeiras, ansiavam por implantar no Brasil uma ditadura do

65 de março de .
66 Disponível em: inverta.org/jornal/edicao-impressa/ /social/anistia.
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 117

proletariado segundo os modelos que, entre outros, tiranizavam os povos


da URSS, China e Cuba. Em diversos depoimentos, os próprios militantes
da luta armada reconhecem que ela serviu para prolongar o regime militar.
Assista, a propósito, o filme Hércules 56, onde conhecidos participantes da-
queles episódios afirmam-no de viva voz e corpo presente. Não há que negar,
tampouco: se entre os que pegaram em armas existiu alguém com afeições
democráticas, essa afeição era tão clandestina, tão dissimulada que não che-
gou a ser conhecida. Jamais deu nome a qualquer de suas organizações ou
fez parte de seus documentos ou manifestos. Bem ao contrário. A democra-
cia, para eles, era papo da burguesia.
A própria anistia de 1979 precisou - por incrível que pareça - superar
obstáculos interpostos por dois flancos. Pelo flanco da direita agiam mili-
tares da chamada linha-dura e políticos civis que anteviram a perda do po-
der sob o qual vicejavam. Pelo flanco da esquerda atacavam-na políticos de
muito mau-caráter, receosos da concorrência dos exilados e anistiados que
retornariam às refregas eleitorais.
Lula chegou a expressar sua contrariedade com a possível volta dos que
estavam no exterior em recado enviado ao general Golbery, através de Cláu-
dio Lembo, então presidente da ARENA: “Doutor Cláudio, fala para o ge-
neral que eu não entro nessa porque eu quero que esses caras se danem. Os
caras estão lá tomando vinho e vêm para cá mandar em nós?” Essa reunião
e a resposta de Lula foram testemunhadas pelo jornalista José Nêumanne,
que relatou o episódio no livro O que sei de Lula.
Como tudo no Brasil, a anistia virou uma negociata. Milionárias inde-
nizações e farta distribuição de robustas pensões vitalícias se derramam
ainda hoje sobre árvores genealógicas inteiras. Em alguns casos fazendo
justiça; noutros servindo à sanha de picaretas. E de novo Lula aparece na
lista. Virou pensionista por ter sido destituído da presidência do Sindicato
dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Pediu e levou. Ligeirinho.
Um negócio da China.
Mas o fato é que apesar dos pesares, dos opositores e dos abusadores, a
anistia restaurou a normalidade institucional e estamos no rumo para cum-
prir o mais longo período de estabilidade política da nossa história republi-
cana. Mas isso não satisfaz os revanchistas. Em plena conformidade com a
tradição dos totalitarismos, é preciso escrever a história com os substantivos
e os adjetivos que lhes convêm. É preciso transformar bandidos e traidores
em mártires. É preciso pendurar no peito de guerrilheiros comunistas, as-
saltantes, quadrilheiros, sequestradores, cultores da violência, que sempre
118 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

desprezaram a democracia e seus valores, a medalha de honra da causa que


ridicularizavam. E é preciso acabar com essa tranquilidade porque, como
ensinou o camarada Che Guevara, de suas surradas camisetas, “o ódio é
instrumento de luta”.
Escolha o leitor com quem quer ficar. Se com o ódio cultivado de Gueva-
ra ou com as palavras que Mandela transformou em vida vivida na África do
Sul: “Ninguém nasce odiando [...]. Para odiar as pessoas precisam aprender.
E se podem aprender a odiar, podem aprender a amar”.

A
Como são longas as pernas da mentira insistentemente repetida por mui-
tos! Uma delas atropelou-me outro dia. Centenas de informações sustentam,
na internet, que a anistia de 1979 foi aprovada no Congresso pelo estreito
placar de 206 votos a 201. Por essa vantagem mínima, a Arena empurrara a
tal anistia goela abaixo da oposição. Diante de informação tão homogênea
e coincidente, eu a comprei por boa e passei a repeti-la. No entanto, algo
não abotoava. Duzentos e um congressistas, adversários do regime militar,
se teriam oposto à anistia? Seria paradoxal. Por que rejeitariam um projeto
que beneficiou milhares de parceiros? Pesquisando, tropecei noutra das lon-
gas pernas em que essa história caminha através dos anos: o projeto teria
sido rejeitado pela oposição porque se tratava de uma auto-anistia que só
interessava aos militares.
Ó, verdade! Ó, história! O que fazem com vocês duas em nome da ide-
ologia! Dia desses, soube que o JB disponibiliza um arquivo digitalizado de
seus jornais desde os anos 30. A edição do dia 23 de agosto de 1979 quebra a
perna dessas mentiras. Coisa feia. Fratura exposta. A véspera, dia da votação
da anistia,Ofora
discursos. tumultuado
projeto no Congresso.
do governo Figueiredo Pressão nas galerias.
não anistiava Exaltados
quem tivesse par-
ticipado de “terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal”. Para estes,
as duras penas da lei. Mas havia uma emenda do deputado Djalma Marinho
que anistiava a todos, ampla, geral e irrestritamente. Essa emenda, levada a
votação, foi rejeitada por 206 votos a 201. Ah! Quer dizer que não houve
201 votos contra a anistia, mas 206 votos contra uma emenda que a amplia-
va? Os 201 votos que se diz terem sido contra o projeto de anistia, na ver-

67 de julhode (publicado no jornal Zero Hora).


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 119

dade foram a favor de uma anistia muito mais ampla? Sim, foi isso mesmo.
Aliás, a maioria parlamentar, a base do governo Figueiredo, entendia que os
crimes contra a pessoa, crimes de sangue, não mereciam perdão. Para quem
os cometera - a justiça. As penas da lei. Já o projeto em si – Lei nº 6683/79 –
foi aprovado em acordo, por voto das lideranças.
O país não se pacificou. Nos seis anos seguintes, continuou a campanha
pela anistia ampla, geral e irrestrita, finalmente aprovada, em 22/11/1985,
por um Congresso com plena legitimidade democrática, no corpo da emenda
que convocou a Constituinte. Apesar de as coisas terem transcorrido desse
modo, a história, mal contada e muito repetida, sobre longas pernas, insiste,
agora, em que a desejada, pleiteada e ansiada anistia ampla, geral e irres-
trita foi uma injustiça. Curiosamente, reproduz a posição da bancada linha
dura de 1979 e clama pelas duras penas da lei. Anistia, não! Justiça! Justiça!
Também acho injusto que terroristas, guerrilheiros, assassinos e assaltantes
responsáveis por mais de uma centena de mortes andem soltos e recebendo
gordas indenizações. Digo outro tanto de quem torturou e seviciou. Tais
impunidades não são justas!
Mas sei que por esse caminho não chegaríamos à normalidade demo-
crática. O país só foi pacificado, só recuperou saúde institucional quando
a política superou a justiça através da anistia de 1985. A anistia é um ins-
trumento jurídico a serviço da política. Da boa política! Há conflitos, na
história, que não se resolvem com justiça, mas com política. O passado não
tinha conserto. Consertou-se o futuro. Foi esse o bom rumo que o Brasil
escolheu e que alguns pernas-longas, arrebatados pela ideologia do ódio,
querem desandar.

J A
O Joãozinho é aquele menino das anedotas. Quando quer algo, azucrina
tanto, tanto, tanto, atormenta de tal modo quem se antepõe a seus anseios
que acaba conseguindo o que deseja. Pois tenho me lembrado do Joãozinho
quando vejo a insistência de setores da esquerda em pautas como aborto,
supressão de símbolos religiosos, limitação da propriedade da terra e revisão
da lei da anistia. Não têm suporte legal, a opinião pública rejeita-lhes as te-
ses, o STF as declara inconstitucionais, mas pouco se lhes dá. Encanzinados,

68 de janeirode (publicado no jornal Zero Hora).


120 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

criam ONGs, comissões, conselhos e até ministérios inteiros. Mobilizam as


“bases”, extraem aqui e ali decisões judiciais que não resistem à primeira
contestação, mas vão angariando apoios, sempre pressionando, até a exaus-
tão. Dos outros.
A luta contra a Lei de Anistia é típica. Os joõezinhos já começaram. Pri-
meiro trataram do assunto no âmbito da Comissão de Anistia. Aliás, temos
uma Comissão de Anistia que se voltou contra a anistia. No final de 2009
embutiram sua revisão no megadecreto do PNDH-3. Depois tentaram con-
vencer o STF de que a interpretação dada à lei, desde que promulgada em
1979, descumpre preceito constitucional fundamental. Perderam por sete a
dois, em decisão do dia 29 de abril do ano passado. Inútil. Poucos mais
tarde, Lula mandou ao Congresso projeto criando a “Comissão Nacional
da Verdade no âmbito da Casa Civil da Presidência da República... a fim de
efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação
nacional”). Enquanto o projeto tramita, conseguiram na Corte Interameri-
cana de Direitos Humanos, agora em dezembro, uma condenação ao Brasil
por manter a vigência da lei.
Temos aí um suposto interesse pela verdade casado com memória curta.
A anistia foi objeto de persistente campanha da oposição ao regime mili-
tar, sendo aprovada pelas duas bancadas (ARENA e MDB), em 1979, por
votação simbólica. Mas ainda não era ampla, nem geral, nem irrestrita. A
emenda nesse sentido foi derrotada. Ela só alcançou essa extensão seis anos
depois, após intensa mobilização oposicionista, com a emenda constitucio-
nal que convocou a Constituinte, visando à volta dos exilados remanescentes
e à total reconciliação.
Passados vinte e cinco anos parece que se arrependeram. O artigo primei-
ro do projeto presidencial em tramitação no Congresso começa com uma
mentira, ao alegar a necessidade de uma reconciliação nacional. Mas isso
é o que a anistia já fez! E fez tão bem que os anistiados da esquerda estão
no poder pelo voto popular. O que de fato os interessa, ao contrário do que
alegam (grande novidade!), são os dividendos políticos dos processos que te-
riam início. Jamais haverá entendimento ou verdade singular sobre a história
de um período tão deplorável. Em torno dele já há historiografia para todos
os gostos. E o atual interesse pela verdade, que beatifica os crimes cometidos
pelos que pegaram em armas pelo comunismo não produz meia verdade
nem gera meia anistia. É uma inteira farsa.
Se não conseguimos solucionar crimes do mês passado, como esclarece-
remos as de quase meio século atrás? É impossível nos entendermos sobre
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 121

o passado. Mas com a Lei de Anistia já o fizemos sobre o futuro, obtendo


uma pacificação nacional que os joãozinhos, irresponsavelmente, desejam
romper. Aliás, a maior prova de que já nos entendemos está em que essa es-
querda, hoje como ontem, quer arrumar confusão. Sabem por quê? Porque
para ela não há realidade fora do conflito. Mas isso daria um outro artigo.

Se queremos escapar da vala comum dos maus brasileiros, é preciso


ter em vista sempre a busca pela verdade. Nesse sentido, sobre o re-
gime militar, há muito que se registrar. Para muito além da dicotomia
esquerdista que classifica quem se opõe à luta armada como amante
da ditadura, o período foi, em primeiro lugar, a consequência direta
de uma República desde sempre autoritária. O Positivismo pautou a
transição dos regimes no fim do século XIX e determinou uma tradi-
cional recusa das forças dominantes pela democracia. Nas extremida-
des de nossa política, a democracia era considerada um obstáculo à
resolução de nossos problemas.
É preciso também denunciar a mentira de que o país viveu sob uma
ditadura de 21 anos. Até o AI-5, no fim de 1968, as ações culturais e
políticas eram típicas de uma democracia. Também, a partir de agos-
to de 1979, com a Lei da Anistia, a reabertura foi intensificada. Em
1982, por exemplo, tivemos eleições diretas para os governos dos es-
tados, em pleno multipartidarismo.
Outra falácia se dá sobre a ação direta da luta armada, que teria sur-
gido como resposta ao “golpe” de 31 de março de 1964. A verdade é
que alguns grupos armados já se preparavam para a revolução antes
de 1964; outros, formaram-se antes do AI-5. Também, canta-se em
prosa e verso a bravura desses grupos, que teriam colocado as For-
ças Armadas “para correr”. Qual! A luta armada foi um conjunto de
ações covardes que envolviam assaltos a bancos, sequestros e outras
violências nada heroicas.
Em resumo, as guerrilhas não eram formadas por arautos da liber-
dade e da democracia. Queriam, em verdade, impor sua ditadura, de
esquerda, à cubana, à soviética. Os revolucionários perderam a luta
para os militares. Estes perderam a medida; aqueles, tomaram os es-
paços de ensino e opinião e fixaram sua versão dos fatos. Até agora.
122 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

A verdade vos libertará.

— Jo 8:32

Será preciso dizer mais sobre o valor da verdade para o ser humano? A
sabedoria desta esplêndida frase repousa, muito especialmente, em eviden-
ciar que, assim como a bússola só funciona perante o norte magnético, a
liberdade é uma conquista da verdade. E só frente a ela, que a precede, pode
ser exercida. A liberdade de quem desconhece a verdade, ou a despreza, é
perdição por desorientação, bússola sem ponteiro. Isto posto, não creio que
qualquer consciência bem formada recuse-se à busca da verdade ou opte por
viver na mentira. É neste enquadramento moral que desejo analisar a criação
da tal Comissão Nacional da Verdade, sob exame do Congresso. Em textos
anteriores e em diversos programas de rádio e tevê já me posicionei contra
a proposta, invocando motivos de natureza histórica e política. Hoje quero
apreciar
“Como o tema sob reste
o senho podeoutro
ser aspecto.
contra a busca da verdade?”. T al pergunta
já veio parar na “caixa de entrada” do meu correio eletrônico. Eu? Mas
eu amo a verdade, moço! Amo-a com amor zeloso e sem ciúmes! Eu a
quero universal e para todos. Mas porque a amo, repugna-me a possibi-
lidade de vê-la submetida a lúbricas manipulações. E não tenho a menor
dúvida de que é exatamente isso que vai acontecer quando os grandes
bandos da política nacional e aqueles “cientistas ” das nossas ciências hu-
manas, militantes engravatados, intelectuais sutis e ardilosos, se debruça-
rem sobre o lixo da história. Os achados de suas pinças ideológicas, dos
interesses políticos, dos ressentimentos e d as vendetas serão tud o, menos
a verdade. Se já fazem isso, descaradamente, nas salas de aula, com a
história brasileira e universal, o que não farão com as controvérsias do
passado recente?
Vá lá que manipulem a juventude (pois ao que parece quase ninguém
se importa). Vá lá que subestimem, não raro com ganhos, a inteligência do
povo. Vá lá que apresentem suas maracutaias como maracutaias do bem.
Vá lá que vivam afundados em incoerências e contradições. Mas, por favor,
não esperem contar com a complacência de quem ainda não perdeu o senso
crítico e a capacidade de analisar o que vê.

69 de março de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 123

A verdade, leitor amigo, é um bem imenso. Sabemos todos. No entan-


to, é preciso reconhecer que a verdade sobre certos fatos históricos sempre
terá pelo menos dois lados. Conto um episódio recente para exemplificar a
impossibilidade de se chegar a ela sob determinadas circunstâncias políticas
e – maior ainda a impossibilidade – através de interessados de insuspeita
suspeição. Uma senhora foi a Cuba. Senhora de esquerda, do tipo que usa
brinco com estrela, pingente com estrela e tem estrela no carrinho do bebê.
Foi cheia de entusiasmo para conhecer a imagem viva dos seus afetos ideoló-
gicos. O refúgio do companheiro Zé Dirceu. O paraíso caribenho de Lula. A
terra do socialismo real. Quando retornou, a família caiu-lhe em cima com
suas curiosidades. Longos silêncios, muxoxos e frases desconexas eclodiram,
depois de alguns dias, neste desabafo restrito ao circuito mais íntimo: “Tá,
aquilo é uma droga. Mas eu não posso ficar dizendo, tá?”. Tá, madame. Yo
la entiendo. A verdade sobre Cuba fica entre quatro paredes. Agora, vamos
cuidar da verdade sobre o Brasil, é isso? Se uma simples militante age assim,
o que farão os patrões e patronos da pretendida investigação histórica?
Na perspectiva da verdade, a questão que eu levanto àsessoas
p de bom senso
é esta: no dia em que estiverem interessados em tal ou qual verdade, seja lá sobre
o que for, vocês irão buscá-la com o José Genoíno? Com o José Dirceu? Com o
Paulo Vannuchi? Com o Franklin Martins? Com uma comissão nomeada pelo
ministro Jobim de todos os governos? Não, claro que não. Quem sabe com o
Marco Aurélio Garcia, Marilena Chauí, Alfredo Bosi, Luiz Eduardo Greenhal-
gh? Também não? E com Frei Beto, Emir Sader , Chico Buarque? Bem, desisto.
Eis por que desacredito, também, da pretensa Comissão da Verdade. Des-
se mato, com tais interessados, só sairão cobras e lagartos. Coelhos aí, não
duram até a hora da primeira refeição.

Atépoder.
no aqui, Em
vimos como
geral, sãoosestratégias
maus brasileiros
culturaischegaram e se Mas
e financeiras. mantiveram
há uma
providência material. E é com ela que encerramos este capítulo.
Os vários expedientes utilizados pelos maus brasileiros para chegar
e manter-se no poder cultural, político e econômico são, em geral,
adaptações ou mesmo puras cópias daquilo que fizeram maus russos,
maus cubanos, maus chineses, maus cambojanos... Mas há uma pro-
vidência tomada pelos maus do mundo todo, sem exceção: desarmar
sua população logo após tomar o poder.
124 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Adolf Hitler, Josef Stalin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Idi Amin Dada,
King Jong-il e outros tiranos “livraram” sua gente das armas e, por
óbvio, não encontraram obstáculos em seu caminho de destruição.

M ,B !
Assisti em DVD àquele entulho hollywoodiano que chegou às telas com o
nome de Che. O filme será considerado péssimo se não for entendido como
uma sacada do capitalismo para faturar com um ícone do comunismo. Nessa
perspectiva, convenhamos, tem os méritos da ironia. Também, como sempre
acontece com esse tipo de obra, a gente acaba aprendendo algo na leitura de
suas linhas transversas. Assim, mais de uma vez durante a projeção do fil-
me, os comandantes guerrilheiros, ao recrutarem voluntários para enfrentar o
exército de Fulgêncio Batista, descartavam aqueles que não trouxessem suas
próprias armas. Não ter armas restringia a cidadania dos revolucionários. A
esquerda, quando quer o poder, precisa de armas. Quando está no poder tem
medo delas. Ponto e atenção: não estou defendendo o uso de armas para o
exercício da dimensão política do ser humano.
Tão logo chegou à pasta da Justiça, o ministro José Eduardo Cardozo
anunciou que vai retomar a campanha pelo desarmamento. O novo ministro
foi o representante do PT na última reunião do Foro de São Paulo (FSP), re-
alizada em Buenos Aires no ano passado. Como todo mundo sabe, o PT jura
em cruz que as Farc – terroristas e traficantes de drogas e armas – não fazem
parte desse fórum das esquerdas latino-americanas criados por Lula e Fidel
em 1990. Mas quando morreu o comandante Tirofijo (Manuel Marulanda),
o plenário da 14ª edição do FSP, reunido em Montevidéu, em 2008, aplau-
diu entre soluços a homenagem póstuma de Daniel Ortega ao “nosso irmão
comandante Marulanda [...] lutador extraordinário que vem batalhando há
longos anos, como guerrilheiro, a luta mais longa na história da América La-
tina e do Caribe”. Em março daquele ano, em entrevista ao jornal francês Le
Figaro, transcrita por Reinaldo Azevedo, o camarada Marco Aurélio Garcia
afirmou esta posição benevolente do governo brasileiro: “Je vous rappelle
que le Brésil a une position neutre sur les Farc: nous ne les qualifions ni de
groupe terroriste ni de force belligérante. Les accuser de terrorisme ne sert à

70 de março de .
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 125

rien quand on veut négocier.”71 Isso é o que eles de fato pensam. Claro que
quando a política aponta algumas inconveniências nesse pensamento, é hora
de adequar o discurso. E isso é o que eles de fato fazem.
Pois bem, embora o estado com menor índice de armas registradas no
Brasil (Alagoas) seja, disparado, o estado com maior índice de assassinatos,
o ministro acha que é hora de retomar a campanha pelo desarmamento. Os
apóstolos da tese acreditam, piamente, que, se as pessoas de bem deposita-
rem suas armas nas mãos do Estado e confiarem suas vidas e patrimônio aos
bandidos, o país será muito mais seguro e menos violento... Quando a gente
tenta mostrar que as mãos na nuca da vítima nada podem contra a mão do
agressor no cabo da arma, eles alegam que o Estatuto garante a posse de
arma a quem se comprovar sob risco. Tá certo. Vou encaminhar ao ministro
a minha certidão de nascimento: “Sou cidadão brasileiro, ministro!” Será
que isso não é risco suficiente?
Se não for, deveremos impor aos bandidos uma regra de aviso prévio
pelo qual todos fiquem obrigados a notificar suas vítimas com antecedência
de trinta dias para que não resultem expostas à ignorância do risco que
correm, e não tenham inibido seu humano direito à legítima defesa. Pronto!
Organizamos o crime desorganizado: assalto, estupro e latrocínio com agen-
damento e citação por edital.
Vou assumir aqui outro risco. Vou propor ao ministro algumas extensões
de sua teoria. Seria um pacote de leis preventivas visando a proibir o porte de
fósforos, isqueiros e cigarros acesos para acabar com os incêndios; recolher
todas as carteiras de habilitação para zerar os acidentes de trânsito; fechar
as praias das 10 às 16 para reduzir o câncer de pele; e cassar todos os títulos
eleitorais para acabar com a carreira dos maus políticos.

D
Há pouco, o sino de uma igreja distante ecoou doze lúgubres bada-
ladas, dando por encerrado o dia. Cai sobre a cidade um silêncio quase
campeiro. Silêncio que faz milagres. Até os surdos ouvem o ruído da mais
bem lubrificada dobradiça. Um pequeno objeto que caia faz rugir o tra-

71 “Lembro-lhes de que o Brasil tem uma posição neutra sobre as FARC: nós não as qualifica-
mos como grupo terrorista nem como força beligerante. Acusá-las de terrorismo não serve de
nada quando se quer negociar.” [N. C.]
72 de abril de .
126 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

vesseiro. Sim, sim, foi exatamente o que você ouviu. Alguma coisa caiu no
chão e precipitar-se ao chão por conta própria não faz parte da natureza
das coisas. Na escuridão da casa, no desprotegido abandono do leito, co-
nheço a sensação que esse ruído causa, leitor. É bem assim: primeiro um
calafrio se insere sob o pijama e percorre a coluna vertebral em velocidade
vertiginosa imantando os cabelos da nuca, que se erguem em apavorada
prontidão; imediatamente após, uma verdade alarmante se instala no seu
cérebro: você é o homem da casa.
Suas possibilidades são poucas. Pode, por exemplo, seguir a receita do
Sarney, do Renan Calheiros e do governo federal. O governo federal, apenas
para lembrá-lo, é aquela instituição que faz estatísticas de criminalidade.
Conta armas, mortos, feridos e prejudicados. Atribui a mortandade de bra-
sileiros à arma trancafiada na gaveta do cidadão de bem. Por fim, olha-se
no espelho o governo, estufa o peito e proclama que a promoção de nossa
segurança, em igualdade de condições com quem nos agride, deve ser mono-
pólio dele, governo. Sua cidadania lhe impõe então, leitor, o dever de pegar
o telefone e chamar a polícia. Fique tranquilo. Em questão de segundos sua
casa será palco de uma verdadeira operação de salvamento. Não duvide:
haverá PMs enfiando-se sob as portas e subindo paredes como lagartixas. O
visitante noturno desejará ter nascido astronauta.
Não, nem pense em pegar sua arma. Deixe-a onde está. Milhões, assim
como você, cansaram da peregrinação que lhes impuseram para que pudes-
sem ter e conservar armas legalmente havidas. Recusaram-se a ser achacados
por mais e mais taxas, a correr atrás de renovações de licenças e a tirar ne-
gativas que vencem antes de saírem da impressora da repartição. Você não
imagina o bode que vai dar se pegar aquela arma. Parta para outra. Repasse
mentalmente tudo que aprendeu nos filmes de Bruce Lee, Van Damme e Chu-
ck Norris. Afinal, se até o Steven Seagal, gordo como está, é capaz de surrar
meia dúzia com uma mão nas costas, você muito provavelmente conseguirá
dar um bom corretivo no invasor antes que ele tenha tempo de dizer “Fui”.
Por pura coincidência eu estava em Brasília e assisti à sessão no dia em
que Sarney propôs o tal plebiscito para rever a decisão tomada no refe-
rendum do desarmamento promovido em 2005. Renan Calheiros fez um
infindável discurso de apoio, entrecortado por dezenas de apartes favoráveis
à iniciativa. Tive vontade de implorar: “Fala sério, Renan!”. As únicas vozes
discordantes foram as de Álvaro Dias e Roberto Requião. Se a impressão
que colhi nos tapetes azuis do Senado se confirmar na Câmara dos Depu-
tados, o plebiscito sai. Um mentecapto faz uma chacina no Realengo e a
INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS 127

nação vai às urnas. Como se vê, não nos faltam oportunistas cercados de
privilégios. Aqueles senhores todos têm posse e porte de armas, seguranças
e veículos blindados. Nós pagamos por tudo. E agora querem nos mandar a
fabulosa conta de um plebiscito que desejaria nos desarmar até dos dentes.
Desde então tenho ouvido muita gente defender a proibição total da ven-
da de armas portando sob o braço, neste país da tese pronta, o discurso
segundo o qual, num assalto, a chance de sofrer lesão física é muito maior
entre os que reagem do que entre os que não reagem. Não tenho dúvidas
quanto a isso, porque na grande maioria dos casos a reação é estabanada e o
fator surpresa corre a favor do assaltante. Em situações assim, evite mesmo
reagir. Mas existem muitas outras em que as circunstâncias facultam à víti-
ma essa vantagem, seja preparando-se ela para surpreender o agressor, seja
espantando-o com um tiro de advertência.
Só alguém muito ingênuo não percebe a quem convém a condição total-
mente indefesa da população civil ordeira. No campo, serve aos invasores;
nas cidades aos bandidos; e na vida social e política a quem controlar o
armamento. Dê uma olhada na cena desse debate. Veja quem se mobiliza
para impedir a legítima defesa dos cidadãos. E saiba: a ingenuidade nunca
foi atributo deles. Quanta mistificação e oportunismo na ideia do plebiscito!
Nos quartéis, todos andam armados e não ocorrem crimes. Nos presídios,
praticamente não existem armas de fogo e a violência campeia.
Não vou cobrar royalties por esta verdade cristalina: o crime organizado,
o PCC, o Comando Vermelho, o governo federal e o governo gaúcho estão
afinadinhos nessa campanha.

Agora que entendemos como os maus brasileiros chegaram lá, esmiu-


çaremos quem são precisamente essas pessoas. Neste capítulo, Percival

Puggina
para deu esse
marcar nomes aosantes
gado, bois;que
no ele
próximo,
vá parausará de eferro
o brejo escaldante
nos leve junto.
PROCUSTOS À
BRASILEIRA
Quem são os maus brasileiros
Na mitologia grega, Damastes (ou Polipêmon) era um gigante que vivia
na rota entre Atenas e Mégara. Esse filho de Netuno era conhecido como
Procusto – do grego, πρό (pró), “antes, de antemão”, e κρούστηϛ (krústēs),
que deriva do verbo κρούϵιν (krúein), “bater, ferir, mutilar”.73 Seu método
de vilania consistia em moldar o corpo de seus capturados a um dos leitos
que possuía. E, para poder proceder com a maldade, direcionava as vítimas
maiores à cama menor e vice-versa. Assim, serrava os pés de quem não cabia
no leito pequeno e esticava violentamente os membros de quem era menor
do que a cama grande. De uma forma ou de outra, mas sempre à força, Pro-
custo adaptava as pessoas a um molde definido por ele mesmo.
Para entendermos melhor a vilania do gigante mitológico, imaginemos
que ele fosse brasileiro, participasse do Governo Federal no fim de 2014
e tivesse de fechar as contas do ano. Que ele faria? Esticaria a meta fiscal
aqui, serraria uns valores ali e, pronto, as contas se ajustariam à maquia-
gem oficial. Procusto não se constrangeria de oferecer R$ 750 mil para cada
parlamentar aprovar projeto de lei que derrubasse a meta fiscal, permitindo
ao governo encerrar o ano sem cumprir a obrigação de atingir o superávit
primário e mandando a responsabilidade fiscal às favas.
A impressão que temos é de que Procusto anda, de fato, por Brasília.
Afinal, quem poderia fazer o malabarismo econômico de jogar a linha da
miséria para 81 reais mensais (em 2014), de modo a poder dizer que tirou
da pobreza quem ganha acima disso? Pois é precisamente isto que o governo
do PT tem feito: acabar com a miséria por decreto. Conforme explicação de
Reinaldo Azevedo:
Caso se faça um levantamento a sério, vai-se constatar que essas pessoas até
podem existir no campo (e olhem lá!) — na cidade, não! Na zona rural, aca-
bam sobrevivendo porque, ainda que precariamente, produzem parte do que
comem. Nas cidades, fazendo bico aqui e ali, a renda é maior do que isso.
Muito maior! Mesmo a daqueles oficialmente listados entre os extremamente
miseráveis. Os pobres desgraçados do crack, que já estão sem casa, sem calça-
do, quase sem roupa, têm renda superior a R$ 2,33 por dia. Sabem por quê?
Cada pedra custa R$ 10! O que estou dizendo é que existe uma economia
informal que eleva essa renda.74

73 J S B ,Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega, ª ed., Rio


de Janeiro, Vozes, , vol. , p. .
74 Disponível em: veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/depois-de-inventar-a-classe-media-dos-
-r- -pt-esta-prestes-a-declarar-oficialmente-o-fim-da-miseria-que-a-rigor-ja-nao-existia-veja-
-como-e-por-que.
Ou seja, com um “canetaço”, o PT tirou milhões da miséria. Coisa se-
melhante fizeram esses procustos com a classe média. Para nossos gigantes
modeladores da realidade, basta receber menos que um salário mínimo para
enquadrar-se na faixa mediana dos estratos sociais – 441 reais mensais são
suficientes para que uma família integre a “classe C”. Ser de classe média nos
países desenvolvidos significa ter pelo menos um carro próprio, residência
ao menos em vias de aquisição e condições de prover boa alimentação, edu-
cação e saúde à família. Por aqui, estar na classe média nos garante pouco
mais que sobreviver. Ainda: aquilo que o PT chama de classe alta começa em
2.480 reais por mês – menos do que esses autoproclamados representantes
75
dos trabalhadores costumam gastar em um único jantar de “negócios”.
São esses, pois, os maus brasileiros que tomaram o Brasil. Eles ignoram
os números e a realidade. Duvidam de verdades, que consideram meras
convenções burguesas. Para eles, bandido é vítima do sistema, e a vítima
de fato é, na verdade, culpada por não dividir sua riqueza com o marginal
– como se 40% de extorsão em forma de impostos não fossem muito mais
que suficientes.
Há uma anedota que diz que no socialismo não há infelicidade porque
os governos eliminam quem não estiver feliz (não é por acaso, portanto, que
tanta gente morreu nesse regime). No Brasil governado por admiradores e
amigos da turma de Fidel Castro, os problemas são superados de forma mais
silenciosa e anestésica. Ao sujeito que reclama de sua miséria financeira o
governo responde: “Aqui, ó, veja este decreto... Nele diz que quem ganha
mais de 2,60 reais por dia não é miserável... Anime-se!”
Por aqui, se o sujeito encontra alguns trocados esquecidos em um casaco
já pode ascender de classe social. Graças aos procustos à brasileira, que se-
guem por aí, há mais de uma década, com uma serra ideológica numa mão e
um martelo político noutra, prontos para moldar a sua forma revolucionária
tudo que atravesse seu caminho.
São esses gigantes da imoralidade que tomaram o Brasil. São eles quem
Percival Puggina nos apresenta neste capítulo.

75 Os dados são da Secretaria de Assuntos Estratégicos, ligada à Presidência da República.


Disponível em: sae.gov.br/imprensa/sae-na-midia/veja-diferencas-entre-conceitos-que-definem-
-classes-sociais-no-brasil-g -globo-com-em- - - /.
132 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Às vezes, é preciso explicar para eles mesmos quem são.

T
rês décadas neste mister de emitir opinião me habituaram a mensa-
gens de aprovação e de reprovação. Pela primeira vez, no entanto,
um leitor me escreve não para comentar determinado texto, mas para
atacar “o conjunto da obra”. Ele topou com algo que escrevi e acessou meu
blog. Sentindo-se ferido em seus brios petistas, partiu para o ataque. Decidi
responder-lhe através de um artigo. É o que segue. Primeiro diz ele e, em
seguida, respondo eu.
Diz ele que meu único motivo ao escrever é avacalhar o PT e que atri-
buo ao PT e ao comunismo (que segundo ele “já não existe”) todos os
males do mundo.
Respondo
aponto erros, eu. A lista
critico dos adversários
e ironizo, que combato,
entre outros, professor,
o PT, a Teologia da éLibertação,
extensa. Eua
chamada Igreja Progressista, as práticas revolucionárias do MST e movimentos
assemelhados, o relativismo moral, a deseducação sexual, a complacência para
com o crime, a corrupção, o péssimo modelo institucional brasileiro, o corpo-
rativismo nos menores e nos maiores escalões, a doutrinação política nas es-
colas, a perda da soberania nacional para as nações indígenas, a influência das
ONGs estrangeiras nas políticas brasileiras, a estatização, a concentração de
poderes e de recursos em Brasília, a carga tributária, a partidarização do Poder
Judiciário, a destruição da instituição familiar, a gratuidade do ensino superior
público para quem pode pagar por ele. Combato, mas não avacalho. Mas se os
petistas enfiam todas essas carapuças, o que eu posso fazer, professor?
Por outro lado, o maior sucesso dos comunistas nunca foi alcançado
no plano das realizações pretendidas ou prometidas. Seu êxito é justamente
fazer as gentes crerem que ele não existe. Não se diga isso, contudo, para al-
guém que dezenas de vezes por ano é chamado pela mídia para debater com
defensores do regime cubano, ou do regime de Chávez, ou do mito Guevara,
muitos dos quais usando distintivos com foice e martelo, ou com estrelinhas
vermelhas. Dizer-me que comunismo não existe vale tanto quanto bater pé
insistindo que Papai Noel existe.

76 de junho de .
PROCUSTOS À BRASILEIRA 133

Diz ele que jamais reconheço qualquer mérito ao PT ao longo dos oito
anos
do governo Lula, que desprezo os 84% de brasileiros que lhe atribuíram concei-
tos de aprovação, que não levo em conta os milhões de egressos da miséria du-
rante sua gestão e que os governos dos partidos que eu apoio jamais fizeram isso.
Respondo eu. Reconheço méritos no governo Lula, sim. Muito escre-
vi a respeito do principal desses méritos, que foi o de chutar para longe a
maior parte das bobagens que cobrava e das propostas tolas e demagógicas
com que se apresentou à sociedade durante duas décadas. No entanto, ao
descartar aquela plataforma irresponsável, em vez de desculpar-se à nação,
Lula simplesmente afirmou que “a gente quando está na oposição faz muita
bravata”. Que vergonha, professor! Durante vinte anos o partido dele cres-
ceu deformando a opinião pública e afirmando que o paraíso estava poucos
passos além das bravatas com que acenava para buscar votos.
Felizmente, a despeito das duríssimas campanhas contra elas movidas
por Lula e o seu partido, os governos anteriores ao do PT implantaram e
deram continuidade a importantes políticas. A saber:

1.
2. oa Lei
Plano
de Real, que os petistas
Responsabilidade chamavam
Fiscal, de estelionato
que chamavam eleitoral;
de arrocho imposto
pelo FMI;
3. a abertura da economia brasileira, que chamavam de globalização
neoliberal;
4. o fim do protecionismo à indústria nacional, que chamavam de suca-
teamento do nosso parque produtivo;
5. as privatizações, que chamavam de venda do nosso patrimônio;
6. o cumprimento das obrigações com os credores internacionais, que
chamavam de pagar a dívida com sangue do povo;

7. adar
geração de superávit fiscal, que chamavam de guardar dinheiro para
ao FMI;
8. o Proer, que chamavam de dar dinheiro do povo para banqueiro;
9. o fortalecimento da agricultura empresarial, que queriam substituir
por assentamentos do MST.
Em momento algum os governos anteriores ao de Lula receberam dos
endinheirados do país e de suas entidades representativas as manifestações
de estima e consideração que ele colecionou enquanto dava bolsa família
para os pobres e bolsa Louis Vuitton para os ricos.
134 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Diz ele que sou um defensor de privilegiados e que nenhum outro presi-
dente brasileiro foi tão bem entendido pelo povo.
Respondo eu. De fato, Lula se revelou um craque na comunicação social.
Fazia parte dessa estratégia ter um discurso diferente para cada auditório e
não manter hoje o menor compromisso com o discurso de ontem. Para sorte
dele, a grande imprensa sempre o protegeu, inclusive no episódio do Men-
salão. E a ninguém ocorreu apresentar à CUT o que ele dizia quando falava
à CNI. Nem mostrar à CNI o que ele dizia na CUT. Ademais, quem defende
privilegiados é o PT. Que o digam os banqueiros e os financiadores de suas
campanhas e as grandes corporações. O senhor não lê jornais, professor?
Por outro lado, se lê o que escrevo sabe que não há sequer uma frase de
minha autoria em defesa de qualquer privilégio ou de qualquer privilegiado.
Diz ele que os governos militares torturaram e exilaram brasileiros duran-
te mais de vinte anos.
Respondo eu. Não foi só durante os governos militares que houve tortura
no Brasil. A tortura era uma prática institucionalizada no aparatopolicial bra-
sileiro e ainda não está extinta, como frequentemente se fica sabendo e como,
muito mais frequentemente, não se fica sabendo. Portanto, debitar a prática
da tortura aos governos militares é desprezar todos os outros torturados, de
ontem e de hoje, para canonizar os guerrilheiros e terroristas que possam ter
sido vítimas dessa deplorável e criminosa forma de ação investigatória.
Diz ele, referindo-se às minhas severas restrições à Campanha da Frater-
nidade (CF) deste ano, que eu não sou ninguém para criticar uma pessoa do
porte do Leonardo Boff. Lembra que São Francisco falava em irmão lobo
e irmã água e que, por extensão, oPoverello também diria “mãe terra”. Na
sequência, reafirma a frase do hino da CF, segundo a qual nosso planeta é a
“mais bela criatura de Deus”.
Respondo eu. Não faz qualquer sentido, para mim, como católico, ficar
com Leonardo Boff contra a orientação de dois papas da estatura espiritual
e intelectual de João Paulo II e Bento XVI. Por outro lado, presumir que São
Francisco, ao falar em “irmão lobo” e “irmã água”, também poderia falar
“mãe terra” (expressão inserida na CF deste ano) é uma demasia não autori-
zada. Mais grave ainda foi o equívoco da CF quando afirmou que o planeta é
a “mais bela criatura de Deus”. Para um católico, agregam-se aqui dois concei-
tos inaceitáveis. Designar o planeta como “mãe terra” é próprio do paganismo
e do panteísmo. E a mais bela criatura de Deus, professor, é o ser humano,
ápice da Criação! Nas palavras do Gênesis: Deus o criou “à sua imagem e
semelhança; criou-o homem e mulher”. A qualquer pessoa é lícito achar que
PROCUSTOS À BRASILEIRA 135

não. Qualquer um pode considerar a Cordilheira dos Andes, a Amazônia ou


o tigre de Bengala mais belos. Mas a CNBB, a Campanha da Fraternidade e
os católicos não podem corroborar isso. Tal desapreço à dignidade da pessoa
humana, em seu principal fundamento, é próprio dos totalitários.
Diz ele (certamente referindo-se ao meu artigo “Os donos da Educação”)
que,
certo como professor
e errado, de português,
mas adequado sempre ensinou seus alunos não haver
e inadequado.
Respondo eu. Ensinar que não existe certo e errado mas adequado e ina-
dequado em língua portuguesa é usar o relativismo, que tanto estrago faz na
moral social e na conduta dos povos, para corroer o idioma e a capacidade
de ascensão social dos alunos oriundos de famílias incultas. Duvido que al-
gum professor de português adote essa pedagogia com seus próprios filhos.
Diz ele que as piores ditaduras foram as de direita (e cita como exemplo
o nazismo e o regime militar de 64), mas que a direita tem a chamada grande
imprensa do seu lado.
Respondo eu. O senhor devia pedir perdão aos cem milhões de vítimas

do comunismo,
brasileiros. Nem por minimizá-las
o Paulo Vannuchiante
teve os rigoresdedos
coragem governos
afirmar militares
tamanho dis-
parate. De outra parte, a grande imprensa, como qualquer organização
empresarial, está com quem tem o dinheiro. E o dinheiro (24% do PIB
nacional), bem como as maiores contas de publicidade do país, estão sob
gestão do seu partido. Então, não me tome por tolo com esses bordões da
esquerda. Eles talvez lhe sirvam à consciência, mas não convencem nin-
guém com um mínimo de bom senso. Como professor, o senhor deveria
saber, também, que a doutrina do nacional-socialismo (nazismo) não era e
não é de direita (conforme adverte o próprio site desse partido no Brasil).
Ao contrário, o nazismo é uma doutrina de esquerda, tão totalitária, cole-
tivista e estatizante quanto o comunismo. O fato de terem sido adversários
políticos não os leva para campos ideológicos opostos. Uns e outros são
filhos do mesmo ven tre coletivista.
Observe, por fim, que eu só escrevo. Não grito, não agrido, não invado,
não depredo, não vaio, não calunio, não difamo, não redijo panfletos calu-
niosos, não especulo sobre a honra de quem quer que seja. E o senhor sabe
muito bem quem é useiro e vezeiro nisso. Atentamente, Percival Puggina.
136 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

O professor petista leu o noticiário sobre o sociopata norueguês 78 e se


lembrou de escrever para quem? Pois é. Embora com a cautela de esclare-
cer que não me atribui qualquer identidade política ou de pensamento com

“aquela figura e seus atos” (dessa eu escapei!), ele resolveu me cutucar. Va-
mos à resposta. Primeiro diz ele, em seguida respondo.
Diz ele: “Parece que só sabes escrever que a direita é o Bem e a esquerda,
o Mal. Como o PT é um partido de esquerda, o PT é o Mal. Por extensão, o
governo que é do PT é o Mal”.
Respondo. O senhor é que só pensa naquilo. Se um dia eu escrever
sobre o incêndio de Roma o senhor crerá que estou me referindo a com-
panheiros seus. Desde sua última carta, despachei mais de uma dúzia de
artigos. Destes, uns seis ou sete têm relação com pautas ideológicas e com
o PT, embora tratem de temas como idioma, educação, decisões do STF,
transparência e combate à tortura. Outros são sobre a legitimidade da cá-

tedra petrina,
niqueísmo queabandono
o senhor do
me nosso
atribuiGuaíba e reforma na
foi introduzido institucional. O ma-
política brasileira
contemporânea pelo seu partido, que se dizia todo do bem, incorruptível
e puro, num ambiente onde nada nem ninguém mais prestava. Pois sim!
Não haveria antipetismo se não houvesse, antes, um petismo assim. E, ade-
mais, revolucionário, agindo contra a ordem pública, desrespeitoso à hon-
ra alheia, agressivo no discurso e na ação.
Diz ele: “Os atos e escritos de Anders Behring Breivik materializam o pen-
samento da extrema direita. Pensamentos esses defendidos, em grande parte,
aqui nas últimas eleições, por candidatos da direita: contra nordestinos, boli-
vianos (alguns até defendendo a invasão daquele país), contra homossexuais,

77 de julho de .
78 Em de julho de , Anders Behring Breivik invadiu o acampamento de verão do Par-
tido Trabalhista Norueguês e matou pessoas. Sobre o caso e seu tratamento pela imprensa
mundial, Olavo de Carvalho escreveu, em consonância com Puggina: “A mídia iluminada está
em festa: no meio de milhares de atentados mortíferos praticados por gente de esquerda, con-
seguiu descobrir o total de um ( , hum) terrorista ao qual pode dar, sem muita inexatidão apa-
rente, o qualificativo de “extremista de direita”. O entusiasmo com que alardeia a presumida
identidade ideológica do norueguês Anders Behring Breivik contrasta da maneira mais flagrante
com a discrição cuidadosa com que o qualificativo de “extremista de esquerda” é evitado em
praticamente todos os demais casos. [...] Breivik saciou uma sede de décadas, fornecendo aos
controladores da informação universal o pretexto para dar um arremedo de credibilidade ao
slogan matematicamente insustentável de que a truculência homicida é coisa da direita, não da
esquerda.” Disponível em: olavodecarvalho.org/semana/ dc.html. [N. C.]
PROCUSTOS À BRASILEIRA 137

contra islâmicos... E, para uma grande angústia e medo, é um extremismo


latente e que, aos poucos, inclusive aqui, se vem manifestando)”.
Respondo. Não tenho registro de que esses assuntos hajam sido pauta
de campanha eleitoral. E penso que, se assim fosse, ocupariam espaços de
mídia com a devida repercussão. Soa-me delirante a afirmação. Ela tenta
atribuir dimensões políticas significativas a uma extrema-direita brasileira
quando sequer a direita moderada consegue apresentar um candidatozinho
a presidente da República em 20 anos. Chega a ser surreal, professor, mas o
candidato que levou os votos da direita no último pleito se dizia – e de fato
estava, ideologicamente – à esquerda de dona Dilma. Valha-nos Deus!
Diz ele: “Quando digo esquerda, refiro-me a pessoas progressistas, como
os nossos partidos aqui no Brasil. Uma das coisas mais belas do nosso país,
por exemplo, é a riqueza da miscigenação racial que forma o povo brasileiro
e a harmonia em que vivemos. Pois isso foi alvo do ódio desse extremista.”
Respondo. Essa confusão entre esquerda e progresso é o eixo do atraso,
professor. Eis o motivo pelo qual a esquerda que combato (aqui entendidos
os que incharam as mãos batendo palmas para Fidel e agora queimam velas
para Chávez, criaram o Foro de São Paulo, e mais todos os estatizantes,
socialistas, marxistas, instigadores da luta de classes, stalinistas, leninistas,
maoístas e por aí vai) não consegue apresentar aos olhos da história um
único estadista. Os que possam ser mencionados vêm de uma esquerda mo-
derada, moderna, democrática, que não apoio mas não combato. Quanto à
miscigenação racial, que o senhor louva com razão, não foi uma criação da
esquerda, mas é herança de uma história à qual essa esquerda nega quais-
quer virtudes.
Diz ele, interessado em saber o que escreverei sobre o norueguês: “Afir-
mar que ele é um louco, como a grande mídia disse, logo após saber que
ele não é islâmico? Continuar dizendo que as coisas ruins só estão no lado
das esquerdas? Que nada disso existe? Com certeza, hoje estamos sob uma
grande ameaça do extremismo de direita, pois vão culpar justamente aqueles
que não são os culpados pela crise que a Europa e os EUA estão passando.”
Respondo: Professor! O que o norueguês fez foi tão parecido com um
ataque de corrente islâmica fundamentalista que qualquer pessoa minima-
mente esclarecida faria, de início, essa suposição. Batalhões de homens-
-bomba prontos a se explodir – e se explodindo – para morte dos infiéis e
glória de Alá são coisas que integram a realidade contemporânea. O ato
praticado pelo norueguês foi monstruoso mas singular, solitário, perante
os vários terrorismos organizados existentes no mundo. Assumir, a partir
138 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

disso, que vivemos sob grande ameaça de um extremismo de direita é ten-


tativa de criar um polo que não ex iste para justificar os polos existentes. É
argumento de quem não consegue explicar coisa alguma fora do contexto
da luta, seja de classes, de religiões, ou étnica. Não conte comigo para re-
produzir essa tese.
Dando por cumprida a tarefa, fiz o que o professor me solicitou, trans-
crevendo suas afirmações ipsis litteris. E concluo afirmando que valer-se do
comportamento de um louco possuído por ideias igualmente insanas e capaz
de tamanho desvario, para justificar teses e teorias sobre política, como vem
fazendo a mídia esquerdista, é outra forma de loucura.

“O socialismo não deu errado; o socialismo é errado”, disse o filósofo


Roger Scruton. Essa síntese se aplica ao Partido dos Trabalhadores.
Quem se diz decepcionado com a associação do PT ao que há de mais
sujo na política nacional e global há ainda de decepcionar-se uma vez
mais – quando descobrir que a mendacidade é a essência mesma do
partido de Lula e Dilma.

O
Tenho certeza de que você conhece alguém assim. Pessoa idealista. Cheia
de boas intenções. Levava a maior fé no PT oposicionista do século passado.
Empolgava-se com a severa vigilância moral que o partido exercia sobre os
governos e governantes aos quais se opunha. Enfim, o partido de seus amo-
res não roubava e não deixava roubar. Percebia maracutaias a quilômetros
de distância.

que,Essa pessoa votou


finalmente, no Lula,
em 2002 em vão,
– Aleluia! durante
– Lula três eleições.
se elegeu. A partirPersistiu
daí, o PTaté
poderia investigar tudo e nada permaneceria oculto nas gavetas e nos ar-
mários. Com a posse de Lula, em 1º de janeiro de 2003, passavam às dili-
gentes e virtuosas mãos do partido todo s os meios necessários para acabar
com a colorida tucanagem. Até um novo procurador-geral o PT nomeou
em junho de 2003; e lhe deu as chaves das silenciosas e supostamente
cúmplices gavetas do antecessor. Mas o novo procurador – surpresa! –

79 de maio de .
PROCUSTOS À BRASILEIRA 139

nada desengavetou, que se saiba. Nem ele, nem a PF, nem o CADE, nem a
Receita Federal, nem a ABIN, nem o BC, nem a CGU. Silêncios sep ulcrais!
Na miríade de ministérios, repartições federais, empresas estatais e agên-
cias, nada apareceu, nem que fosse para comprovar minimamente o muito
que antes se denunciava. Nem um grampeador sumido. E olha que depois
de tanto estardalhaço, de tanta reputação assassinada, havia um certo de-
ver moral de apontar pelo menos duas ou três falcatruas. Afinal, todos
os contratos, concorrências, convênios que vinham dos nebulosos tempos
pretéritos, estavam ali, para serem vasculhados, escrutinados. Mas nada foi
feito ou, se feito, nada foi dito. O assunto se dispersou como uma nuvem
que passa sem chover.
Um ano e meio depois, o PT virou alvo do maior escândalo político da
história republicana! E nem para se defender o partido decidiu fuxicar no
governo tucano. Já os escândalos petistas e de seus associados, esses não
mais pararam, numa sequência infindável. Não satisfeito, o PT se uniu aos
maiores patifes da política nacional. Trouxe ao braço e abraço todos aqueles
a quem combatera. Santo Deus!
Com o PT, Sarney virou homem forte no Congresso. Renan Calheiros,
Jader Barbalho, Fernando Collor (até ele!) prosperaram como fungos à som-
bra do novo governo. Maluf virou aliado, merecedor de afagos, com fotos
para a mídia benevolente em meio às ninfas e aos tritões de seus jardins,
como diria Nelson Rodrigues.
Ninguém deixou de ser recrutado para a corte petista por mau caráter.
E o outrora sensível faro do partido não percebe mais a sujeira nem na
sola do próprio sapato. O infeliz eleitor sobre cujas agruras iniciei falan-
do, ainda defensor ferrenho do petismo, ainda movido pela afinidade ide-
ológica, tem que ir catar nos tenebrosos armários e gavetas dos governos
anteriores (aqueles que o PT dizia conter assombrações) motivos para
exalar, em derradeiro suspiro, alegações de que “os outros eram ainda
piores”. Não é de causar compaixão? Deve doer como um nó de tripa na
consciência. Logo ele, um cidadão do bem, um varão de Plutarco, precisa
argumentar como aquele sujeito que def endia a namorada com alegações
de que as outras eram ainda mais vadias. É um caso de mansidão submis-
sa. Mas o amor é lindo.
140 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

R
O Partido dos Trabalhadores, há bem mais de uma décad a, nada de braçada
nas águas revoltas da nossa política. Isso não aconteceu por sorte ou acaso. Foi
perícia coletiva, dentro de bem traçado planejamento e perfeita execução. De
um
nós,lado, o partido
e aplicava com se constituíaosna
tenacidade tradição
métodos dedos partidosque
infiltração de omassa,
fizeramrara entre
prese
nte
e ativo nos corpos sociais e nas instituições do Estado. De outro, partia para o
ataque a seus opositores sem tréguas nem misericórdia. O objetivo era produ-
zir a demolição moral de quem estivesse em seu caminho. Pela cartilha petista,
escândalo no território inimigo era e continua sendo coisa que ou existe ou se
fabrica. Onde houvesse o mais tênue fio de fumaça da suspeita, o partido era o
primeiro a chegar, com um tonel de gasolina.
Impoluto, apontava o dedo acusador para as privatizações, por exemplo,
com a autoridade moral de quem jamais o usou para contar dinheiro mal-
-havido. Quando seus líderes clamavam por CPIs para investigar as priva-
tizações e a base do governo FHC não os apoiava, roíam-me desconfianças
e suspeições. “Aí tem!”, pensava eu. Se o nariz petista acusava algo, se sua
alma se ouriçava, se seu fino tato acusava, era certo que algo havia. Afinal,
eles sabiam tudo – mas tudo mesmo – sobre o governo dos outros.
Foi assim que o partido, sem muito esforço diga-se, destruiu moralmen-
te os governos Sarney e Collor. Foi assim que o partido requereu contra o
governo FHC mais de duas dezenas de CPIs. As investidas foram tantas, tão
contínuas e violentas que o prestígio do ex-presidente despencou dos eleva-
dos índices a que chegara nos pleitos que venceu. Quanto de verdade havia
naquelas acusações? O PT atribuía a falta de provas cabais ao engavetamen-
to dos processos na Procuradoria Geral da República e à recusa da base do
governo em conceder à oposição os votos necessários à formação das CPIs.
A posse de Lula seria, também, a hora da verdade para sua oposição? Eu
pensava que sim. Os petistas não mais dependiam das CPIs para investigar e
exibir as negociatas alheias. Passavam a dispor de todos os meios de investi-
gação, servidos em bandeja de prata, com guarnição de veludo azul. Ministé-
rio da Justiça, Controladoria-Geral da União, ABIN, Polícia Federal, Receita
Federal, eram apenas alguns dentre os muitos instrumentos disponíveis. Sem
esquecer, ainda, os arquivos de todos os ministérios, repartições e empresas
estatais do país. “Vai ter muito colarinho branco na cadeia”, pensava eu.

80 de fevereiro de .
PROCUSTOS À BRASILEIRA 141

Surpresa! Em 1º de janeiro de 2003 a inquisição petista deve ter embarcado


em Alcântara rumo a algum asteroide distante.
O outrora refinado faro não capta mau cheiro sequer quando vem da
sola do próprio sapato. Seus sherloques, seus produtores de dossiês, que
antes sabiam de tudo que acontecia na República, foram acometidos de um
alheamento, de um autismo em que não apenas ninguém está a par do que
acontece na sala ao lado, mas é a própria mão direita a primeira a desco-
nhecer o que a esquerda faz. Sobre essa duplicidade de conduta nada se fala,
nada se escreve. Quando não há explicação moralmente aceitável é prefe-
rível deixar o dito pelo não dito. E Lula, Dilma Rousseff e petistas ilustres
manejam com perfeição a prolongada retórica do silêncio.

Por sorte, cada vez menos brasileiros se têm deixado enganar pelo PT.
Demorou. Foram muitos anos de empulhação, mas, desde meados de
2014, passando pelas eleições e culminando com as manifestações de
2015, Dilma Rousseff, Lula e companhia não são nem sombra das
figuras salvadoras,
essa situação com elevadíssimos
tem revelado uma faceta níveis
latente,demas
aprovação popular.
característica dosE
populistas: seu desprezo pelo que pensa de fato o povo. Foi assim na
abertura da superfaturada Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

O PT ... QUE POVO?


Vários jornalistas e opinadores da mídia descobriram, após exaustivas
investigações, que as vaias e os insultos dirigidos à presidente durante o jogo
de estreia do Brasil na Copa provieram de uma elite com “caixa” suficiente
para adquirir
rão. Ali os custosos
não estava ingressos
o “povo”. que davam
E, menos ainda, acesso às cadeiras
o povão. do Itaque-
É claro que se Dil-
ma tivesse sido aplaudida (como era aplaudido o presidente Médici quando
entrava no Maracanã) jamais recusariam à efluente plateia o direito de ser
identificada como imagem viva do “povo”.
A contradição nos coloca diante de mais um problema gerado pelo pe-
tismo. Para entender o que acontece é preciso saber como funcionam essas
coisas na cabeça dos que foram doutrinados pelo Partido dos Trabalhadores.

81 de junho de .
142 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Eles são o povo quando vaiam e jamais são vaiados pelo povo porque isso
significaria vaiar a si mesmos. E é assim que pensam, por mais que a presi-
dente Dilma, nos últimos meses, recolha apupos onde quer que vá.
Todos os grandes teóricos da esquerda são unânimes em afirmar a im-
portância do partido e de sua disciplina interna, na qual repousa indispen-
sável elemento de coesão e mobilização. Com efeito, nenhum grupo social
se reúne tanto quanto esses denodado s militantes, para os quais nada se so-
brepõe à convocação partidária. Os demais cidadãos, mesm o quando poli-
ticamente alinhados, têm outros compromissos e se ocupam, também, com
atividades que vão dos joguinhos de futebol aos aniversários dos parentes,
do fim de semana na praia aos prazeres da carne, das responsabilidades
profissionais às irresponsabilidades de um filmezinho na televisão. “Coisas
do mundo, retratos da vida.” A capacidade de juntar gente acaba produ-
zindo presunçosa consequência: os companheiros se reúnem sob a sólida
certeza de que são o próprio povo, seja numa assembleia do Orçamento
Participativo, seja numa passeata do Fórum Social, numa reunião de seu
“coletivo”, numa assembleia de professores, ou, ainda, para ocupar uma
rua, bloquear uma estrada, invadir uma fazenda, assassinar reputações ou
insultar aqueles a quem se opõem.
Agora mesmo, a presidente acaba de assinar um decreto, o tal Decreto
nº 8243, que institui os sovietes no Brasil através de um certo Programa
Nacional de Participação Social . Esse ato normativo, que atropela a Cons-
tituição e o Congresso Nacional, pretende trazer o povo para a definição
dos projetos e das políticas públicas. E quem é o “povo” para o governo
petista? O povo é formado pelos movimentos sociais, coletivos, sindicatos
e outros entes, “institucionalizados ou não”, que o PT sabidamente consti-
tui, domina e instrumentaliza.
Nada na vida social é mais heterogêneo do que o povo. Ele não tem
coisa alguma a ver com certas pinturas ideologizadas que o representam
com as individualidades indiscerníveis e os punhos simiescamente erguidos
ao alto. É em virtude da pluralidade inerente à composição social que a
democracia, institucionalizada como regime, só pode ser representativa.
E é em virtude dessa pluralidade que as formas de democracia direta, na
Constituição Federal, estão restritas a plebiscitos, referendos e iniciativa
popular na apresentação de propostas legislativas. E é bom que seja assim,
acima e muito além das pretensões hegemônicas do PT, porque só assim
se preservam as maiores riquezas de uma sociedade, que são os indivíduos
que a compõem.
PROCUSTOS À BRASILEIRA 143

Para que não mais vaiemos esses pretensos salvadores, nas eleições
passadas e nos discursos políticos de sempre, “direito” foi e é uma das
palavras mais utilizadas por políticos em seus discursos. A estratégia
é eficaz, pois nós, eleitores e cidadãos em geral, somos especialmente
simpáticos à ideia de receber. Oferecer algo, contudo, é um pouco
mais difícil – a não ser que usemos verbas públicas e façamos o “bem”
com dinheiro alheio.
Em princípio, faz algum sentido. Pagamos impostos altíssimos, que
elevam nossa expectativa de retorno do poder público. Porque 40%
de tudo que produzimos e negociamos são retidos pelos governos,
sentimo-nos à vontade para esperar pela providência estatal. É tão
justo quanto ineficaz, como se vê em praticamente todos os setores do
serviço público (à exceção da Receita, é claro). Pois a verdade é que
governos nada nos dão de graça. Tudo que deles recebemos vem dos
tributos que pagamos. Receber supostos direitos e alguns privilégios

financeiros
políticos do governo
fingirem nada
que estão nosmais é do
dando queMas
algo. pagar
tem muito caro –para
dado certo ao
menos para eles.

N
Não nos restam mais do que vagos e deficientes indícios de democracia.
Para identificá-los já se requer, inclusive, uma certa capacitação técnica. É
necessário saber onde procurar. E é preciso usar, como fazem os peritos, os
elementos de contraste que permitem discernir traços do que praticamente

desapareceu.
Ninguém recusará que:
1. quanto maior a concentração de poder político, tanto menor a demo-
cracia;
2. quanto maior a influência do poder econômico, tanto mais frágil a
democracia;
3. quanto menor a credibilidade do parlamento, tanto menor o crédito
na democracia;

82 de agosto de .
144 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

4. quanto maior a influência do poder político sobre os meios de comu-


nicação, tanto pior a qualidade da informação e menor a capacidade
de análise sobre os fatos que influenciam a vida das pessoas; e, conse-
quentemente, suas decisões eleitorais.
Tudo isso e muito mais já ocorre no Brasil. Em proporções avassaladoras.
Claro, claro, temos eleições. Mas democracia não se confunde com a
realização de eleições nem é algo totalmente assimilado por elas. Em Cuba
há eleições. Na Venezuela há eleições. No Irã há eleições. E só os totalitários
têm coragem de dizer que esses países são democráticos. No Brasil, a concen-
tração de poderes nas mãos do presidente da República só é menor do que a
generosidade com que o Congresso Nacional os concede a ele. Como escrevi
há poucos dias, o presidente chefia o Estado, o governo, a administração pú-
blica federal e as estatais. Executa um orçamento que corresponde a 22% do
PIB nacional. Legisla sobre o que quer, a seu bel-prazer, através de medidas
provisórias de aplicabilidade imediata. Libera ou não, ao seu gosto, recursos
para os estados e municípios. O que são as obras do PAC senão uma espécie

de Bolsa
para Estado,
as mãos ou Bolsa
súplices Município,
dos gestores distribuídas assim, como donativo,
locais?
Essas práticas, cada vez mais frequentes, somam-se ao poder que o par-
tido do governo exerce nos fundos de pensão, nos sindicatos, no FAT, nas
principais corporações funcionais do país. E ainda tem o Bolsa Família.
Ah, o Bolsa Família, que o Lula oposicionista dizia ser uma forma de
comprar voto do eleitor que “pensa com o estômago”! O Lula presidente
potencializou o programa e é brandindo a ameaça de que a oposição, se
vencedora, vai acabar com ele, que sua candidata se prepara para colocar a
faixa presidencial no peito. E não podemos esquecer o mais robusto e sedu-
tor achado da cartola presidencial: o Bolsa Empresa. É, leitor, você leu certo:
o Bolsa Empresa .

Foi o Bolsa Empresa que trouxe o empresariado nacional como gati-


nho mimado para o colo do governo, lamber mão e pedir cafuné. Afinal,
os R$ 15 bilhões destinados ao Bolsa Família ficam constrangidos de sua
indigência diante dos fabulosos financiamentos concedidos p elo BNDES às
empresas brasileiras. Nos últimos dois anos, foram R$ 180 bilhões empres-
tados pelo governo ao Banco. O governo tomou esse dinheiro no mercado
a mais de 10% ao ano (elevando significativamente a dívida pública, ou
seja, a nossa dívida) e emprestou às empresas por um juro que não paga a
metade do custo de aquisição. Bolsa Família para os pobres e Louis Vuitton
para os ricos.
PROCUSTOS À BRASILEIRA 145

Poucos, muito poucos empresários brasileiros, hoje, não ficam deslumbrados,


embasbacados, cada vez que Lula e Dilma abrem a boca. Ouvem-nos dizer – “Nós
criamos 14 milhões de empregos!” – e batem palmas, mesmo sabendo que quem
criou esses empregos foram eles mesmos, os empresários. Não percebem, interes-
seiros, cooptados como estão, que se a economia der alguns passos para trás e
for necessário desempregar, o governo imediatamente vai lhes jogar nas costas a
responsabilidade pelo desemprego. E a coisa fica assim: o governo
riaco emprego
e o empresariado cria o desemprego. É a lógica impostora que os tolos endossam.
Sim, leitor amigo, as eleições que se avizinham são mero acessório de
algo que se exaure. Nenhuma democracia resiste a tamanha concentração
de poder e a tanta cooptação.

O texto acima fala das eleições de 2010, mas há pouca – ou nenhu-


ma – diferença alguma para o pleito de 2014. No ano em que Dilma
Rousseff derrotou Aécio Neves por uma margem mínima,reelegendo-
-se presidente, o PT repetiu a boataria de que seus adversários aca-
bariam com as bolsas, as quais explorou ao máximo. O esquema de
cooptação, com boa parte do povo dependente do Bolsa Família e o
empresariado conivente com o que Puggina chamou de “Bolsa Em-
presa”, se revelou decisivo ao resultado da disputa.
Pelo que se tem visto, à manutenção do poder vale tudo. Inclusive,
incinerar supostas convicções.

A ,
Na agitada vida estudantil dos anos 60, em Porto Alegre, primeiro naquela
usina de lideranças queera o Colégio Júlio deCastilhos e, depois, na Faculdade
de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nunca tive ali-
nhamentos políticos automáticos.Ainda que me faltassem bases filosóficas, gos-
tava de pensar por conta própria. Jamais aceitei ser liderado pelos antagonismos
em confronto. Mas se tivesse de eleger um grupo para valorizar sob o ponto de
vista cultural, sem dúvida essa turma seria a daesquerda.
Vocês não imaginam o quanto os caras eram sabichões. O que liam! Tra-
ziam sempre, embaixo do braço, livros da Editora Civilização Brasileira, da

83 de julho de .
146 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Paz e Terra, e se reuniam em pequenos grupos para trocar ideias sobre temas
cuja profundidade eu sequer arranhava. Aliás, todo estudo não acadêmico
a que posteriormente me dediquei na área das ciências humanas teve como
motivação a tentativa de alcançar um nivelamento intelectual com a esquer-
da do meu tempo de estudante. Eu precisava estar preparado para desarmar
as bombas filosóficas que arquitetavam.
Há dois motivos para esta crônica das minhas primeiras ignorâncias
(hoje tenho ignorâncias novas, maiores e muito melhores). Um é sublinhar
o fato de que a esquerda brasileira daquele período, embora equivocada nos
seus pontos de partida, nos meios e nos fins (isso eu intuía com correção),
possuía gabarito intelectual e ideais. Os esquerdistas que conheci não eram
aproveitadores nem negocistas. Muitos estão por aí e são pessoas respei-
táveis. A história evidenciou, posteriormente, que seus mitos e referências
internacionais foram uns pervertidos e que o seu marxismo é uma usina de
equívocos, mas suponho que eles não tivessem como discerni-lo nos emara-
nhados dos esquemas de formação, informação e desinformação em que se
moviam durante a juventude.
O segundo motivo deste relato é mostrar o quanto a esquerda brasileira
afundou sob o ponto de vista intelectual e moral. Frei Betto, cuja vida e obra
se caracteriza por primeiro fazer os estragos e, depois, observar os danos
de longe, poeticamente, escreveu assim, em artigo de setembro de 2007, ao
desembarcar do governo Lula: “A sofreguidão esvaziou projetos, a gula co-
biçosa devorou quimeras. O pragmatismo acelerou a epifania dos avatares
do poder”. Pois é. Não fosse intelectual, o frei poderia dizer simplesmente
que deu m...
Voltando à pauta. Quem poderia imaginar a esquerda brasileira em pron-
tidão para defender pessoas como Fidel Castro, seus métodos e seus sicários;
abraçando caudilhos e brutamontes como Hugo Chávez; reverenciado pri-
matas como Evo Morales; dando vivas a Saddam e cortejando Ahmadinejad;
adotando Lula como seu estadista de referência; assumindo, como suas, cau-
sas que solapam os valores universais; proferindo juras de amor aos maiores
vilões da política brasileira e fornecendo tantos e tantos prontuários e fotos
aos arquivos da polícia e do ministério público? Quem poderia? Quem po-
deria imaginar, em 1992, que o chefe dos caras-pintadas, Lindberg Farias,
passados 18 anos, eleito senador pelo PT, estaria trocando afagos com Fer-
nando Collor, seu parceiro de fé na base do governo Dilma?
Quando me lembro daqueles terríveis anos 60 e 70, marcados por seve-
ríssimos conflitos ideológicos e do quanto lhes sobreveio, não posso deixar
PROCUSTOS À BRASILEIRA 147

de pensar que essa mesma decadência é a marca registrada de todas as he-


gemonias políticas. A esquerda brasileira leu Gramsci. Aprendeu dele as téc-
nicas de construção da hegemonia. Construiu-a. Mas com ela perdeu o que
de melhor dispunha. Seu arco do triunfo é, também, o seu arco do fracasso.
É o que, há alguns anos, se lê, com os olhos da vida vivida, logo abaixo das
manchetes de todos os jornais, ainda que eles não digam isso.

Com parceiros e escudeiros de todos os tipos no Congresso e na socie-


dade civil, o PT trabalha duro, há anos, por controlar as informações
que circulam. As mídias tradicionais já receberam o aviso: quem falar
muito sobre manifestações contra Dilma eo PT perderá patrocínios de
empresas estatais. Quem deu o recado, logo depois das manifestações
de 15 de março de 2015, pelo impeachment de Dilma, foi Rui Falcão,
presidente do PT, conforme a Revista Exame publicou em seu site:
“O presidente nacional do PT, Rui Falcão, defendeu, em reunião fe-
chada com a bancada, que o governo deve restringir a veiculação de
publicidade nos veículos de comunicação que ‘apoiaram’ e ‘convoca-
ram’ as manifestações contra a presidente Dilma Rousseff no domin-
go, dia 15. O dirigente disse que a ‘quebra’ do monopólio deve ser
feita por meio de ‘uma nova política de anúncios para os veículos da
grande mídia’.84
Mas, além do controle econômico do jornalismo, o partido de Lula
não se constrange em pleitear intervenção direta.

O PT
O Partido dos Trabalhadores talvez se devesse interrogar sobre os moti-
vos da rejeição social à sua proposta de estabelecer um “marco regulatório
da mídia”. Por que as pessoas não acreditam nas boas intenções do partido
a esse respeito? Não me faltam dicas para tal reflexão.
Há décadas, seja nas fraternas deliberações do Foro de São Paulo, seja
na mídia, o PT é parceiro de fé do regime cubano e, um pouco mais recen-

84 Disponível em: exame.abril.com.br/brasil/noticias/falcao-defende-cortar-anuncios-de-tvs-


-que-apoiaram-protestos.
85 de setembro de .
148 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

temente, do regime bolivariano. Ora, os dois jornais de Cuba são órgãos do


Partido Comunista e nunca, em meio século, publicaram uma linha contra o
governo. Idem, idem para a TV cubana que é estatal. Já o regime de Chávez
desapropria meios de comunicação, fecha jornais e prende jornalistas. E o
PT não cansa de elogiar os dois nem de dizer que são democráticos. Lula vai
a Cuba, abraça o Fidel e chora. José Dirceu vai lá e funga. O partido sorteia
excursões a Cuba. As lojinhas do partido vendem bandeirinhas cubanas e
camisetas do Che Guevara. Lula afirma que na Venezuela “tem democracia
até demais”. E todos batem palmas.
Diferentemente dos demais partidos, que não têm maiores dificuldades
de admitir os próprios erros e deficiências, o PT se considera acima das fragi-
lidades da natureza humana e jamais reconhece suas faltas. Assim como Lula
não tem pecado e comunga sem confessar, o PT não erra e não tolera ser
objeto de juízo moral. São totalmente simétricas, aliás, a ferocidade com que
o partido ataca a honra de seus adversários e aquela com que rejeita qual-
quer crítica que lhe seja feita. Daí o insuportável desconforto determinado
por uma imprensa que eventualmente se põe a escrutinar o comportamento
de seus líderes.
Entre as muitas justificativas do PT para o pretendido “marco regulatório
da mídia” está o modo como, à juízo do partido, temas de direitos humanos
deveriam ser tratados pelos meios de comunicação social. Ora, quem se deu
ao trabalho de ler o calhamaço intitulado PNDH-3 percebeu que ali estão te-
mas programáticos e ideológicos dessa sigla partidária, que nem em sonhos
podem ser considerados como conteúdos de consenso social. Com o marco
regulatório o PT poderia enfiá-los goela abaixo da imprensa e da sociedade.
É parte da ideia de Franklin Martins que inspira o marco regulatório a
formação de um conselho para esses assuntos. Não se requer muita argúcia
para antever que o aparelhamento petista sobre tal conselho será igual ao
que mantém sobre o que costuma chamar, eufemisticamente, “sociedade civil
organizada” (a expressão envolve organizações e instituições como sindi-
catos e suas centrais, federações, movimentos sociais, ONGs, comunidades
eclesiais de base, pastorais sociais, entidades estudantis e uma miríade de
“conselhos” que orientam importantes setores da vida nacional). Essa ca-
pacidade de operar a infiltração e exercer controle é um mérito do partido,
admito, mas acaba com a credibilidade das instituições aparelhadas. Querem
fazer o mesmo com a imprensa?
A experiência do governo petista de Olívio Dutra no Rio Grande do Sul
não enalteceu a capacidade de relacionamento do partido com a imprensa
PROCUSTOS À BRASILEIRA 149

livre. Bem ao contrário. Foram quatro anos de pressão sobre os veículos para
demissão de jornalistas e para domar o conteúdo das programações. E foram
dezenas de processos judiciais contra formadores de opinião.
Poderia continuar listando motivos, mas acho que já os temos em vo-
lume e peso suficiente. De nada vale o documento final do 4º Congresso
do Partido dos Trabalhadores afirmar seu compromisso com a liberdade de
imprensa e sua rejeição a toda forma de censura. É uma declaração pouco
convincente ante os elementos de análise alinhados acima e contraditória
com o que transcreverei a seguir, extraído do próprio documento. Como se
verá, o ambiente político nacional, as matérias da revista Veja, os constran-
gimentos entre os parceiros, o desconforto que as denúncias trouxeram ao
ex-presidente Lula, levaram os congressistas do PT a confessar, numa frase,
o que negavam no resto do texto e pretendiam manter oculto.
Ao mencionar o compromisso do partido com o “combate sem tréguas
à corrupção” o PT se diz determinado a fazê-lo “sem esvaziar a política ou
demonizar os partidos, sem transferir, acriticamente, para setores da mídia
que se erigem em juízes da moralidade cívica, uma responsabilidade que é
pública, a ser compartilhada por todos os cidadãos”. Quais os setores da
mídia que serão obstados?
Não está admitida aí, com todas as letras, a repulsa do partido à liberda-
de de crítica? O PT pode emitir juízo moral sobre seus adversários. O PT leu
a revista Veja nas tribunas dos parlamentos, nos megafones e a carregou em
passeatas quando ela divulgou suas denúncias contra a governadora Yeda
Crusius. Mas ai da revista quando elabora matérias que contrariam o proje-
to político do partido. Sim, o PT sonha com controlar a mídia.

B
Volto ao tema dos insidiosos tentáculos que vêm envolvendo e submeten-
do a sociedade brasileira a um bem estruturado projeto de poder. Não me
alinho entre os que atribuem a esse projeto um viés ideológico uniforme, do
tipo comunista, neo ou paleo. Há disso, também, mas o fator de coesão é um
projeto de poder para assegurar hegemonia ao Partido dos Trabalhadores.
Todos os outros interesses, teses e respectivas correntes se submetem a essa
diretriz essencial.

86 de dezembro de .
150 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

O fator de coesão é um projeto de poder para assegurar hegemonia ao


Partido dos Trabalhadores. O desentendimento, meramente retórico e arti-
ficioso, entre o governo e o partido em relação ao controle da mídia deve
ser analisado nesse contexto. Ambos querem a mesma coisa, mas o gover-
no não pode, nesse particular, expressar sintonia com o partido sem perder
apoios. Então, disputam-se palavras. Mas é briga de polegar com indicador.
Quando necessário trabalham em pinça. O indisfarçado desejo de controlar
a imprensa ganhou expressão pública, pela primeira vez, em 2004, com o
anteprojeto de criação da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Au-
diovisual), que incluía entre as atribuições desse novo ente estatal “dispor
sobre a responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção de
programação” das TVs. Embora os petistas afirmem que essa redação foi,
posteriormente, alterada, ela só foi alterada porque gerou imediata repulsa.
Diante da rebelião, enquanto sacudiam seus rabos de crocodilo, os propo-
nentes da tese lacrimejaram pela incompreensão diante de um mero “rascu-
nho” que sugeria “problemas de interpretação”. Ah, bom!
E nunca mais sossegaram. Desde o episódio do Mensalão (aquele boato,
segundo a autorizada definição de Delúbio Soares), o PT vem exibindo suces-
sivos cartões amarelos para os órgãos de imprensaque ousam criticar o gover-
no ou, mais imperdoável do que tudo, fazer jornalismo investigativo e apontar
falcatruas que passam batidas sob os olhos, narizes e ouvidos do governo.
O documento final do 4º Congresso do PT tratou de repelir o que denomi-
nou “manobras da mídia conservadora e da oposição para promover uma espé-
cie de criminalização generalizada da conduta da base de sustentação do gover-
no”. Ou seja, a criminalização do espaço governamental só era algo aceitável
quando o PT estava na oposição e assim procedia em relação a qualquer um
que sentasse na cadeira que eles tinham, desde sempre, reservado a Lula e aos
seus. E note-se: para enxovalhar a honra alheia, o PT sempre contou com ampla
cobertura dessa mesma mídia de que eles, hoje, cobram silêncio e conivência.
Embora o referido documento, atendendo apelos do governo, tenha mo-
derado a linguagem em relação à mídia ainda não domesticada, o partido
não se deu por achado. Apenas dois meses depois, agorinha mesmo, na se-
mana passada, em São Paulo, realizou um seminário para “tratar da demo-
cratização dos meios de comunicação”, ou, no eufemismo equivalente, “tra-
tar do controle social da mídia”. José Dirceu, estrela do evento, alma sem
jaça da frente ética petista, assim expressou seu desgosto: “Os proprietários
de veículos de comunicação são contra o PT. Eles fazem campanha noite e
dia contra a gente.”
PROCUSTOS À BRASILEIRA 151

Reitero, o PT valeu-se muito bem dessa mesma mídia quando estava


fora do poder. Os veículos que hoje estão na alça de mira do partido eram
lidos nas tribunas, exibidos ante as câmeras de tevê e reproduzidos nos
microfones das emissoras de rádio. Por quê? Porque veiculavam denúncias
que serviam muito bem às suas intenções. A boa mídia não é lambe-botas
dos governos. A democracia não precisa daquilo que José Dirceu, nesse
mesmo seminário, disse sentir falta - “Um jornal que seja a favor do nosso
governo”. A democracia passa muito bem sem isso, principalmente num
país onde as instituições foram concebidas para não fazer o que delas se
deveria esperar.
Mas a insistência com que o PT bate nessa tecla deve servir de advertên-
cia. Não tenho registro de que qualquer bandeira petista tenha sido abando-
nada por encontrar resistências. De algum modo, o partido sempre consegue
o que quer, e não será agora, quando o poder lhe está servido em bandeja de
prata e guardanapo de linho branco, que o PT vai jogar a toalha em tema tão
relevante à operação de seus tentáculos.

Puggina estava certo. O PT não jogou a toalha em relação ao controle


da mídia.
O caderno de teses do 5º Congresso Nacional do PT (de 11 a 13 de
junho de 2015) é repleto de absurdos. A tese que abre o documento é
ameaçadora: “Um partido para tempos de guerra”. E a que encerra,
“Abaixo a política de austeridade”, não se constrange em explicitar
um dos objetivos que circulam pelo partido:87
“Estatizar a Rede Globo, que é concessão pública e abri-la para os
movimentos sociais! [...] Estatizar todas as redes, TVs e rádios reli-
giosas, de qualquer confissão.”
As mídias tradicionais já estavam bem cientes de que podem ser eco-
nomicamente cerceadas se veicularem muitas notícias que deponham
contra o outrora “partido da ética”. Com as teses do congresso do
partido, a ameaça é clara.
Mas resta uma fortaleza a ser tomada: a internet. Na web, ainda im-
pera a liberdade individual. Para controlar esse ambiente, o Governo
Federal petista lançou o programa Humaniza Redes, com a intenção

87 Disponível em: pt.org.br/wp-content/uploads/ / /teses congressoptfinal.pdf.


152 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

declarada de fomentar a paz e combater o ódio nas redes. Bem que


George Orwell avisou que a esquerda tentaria controlar a linguagem.
Em qualquer democracia sadia, a polícia investiga e o judiciário julga,
com base em códigos formulados e estabelecidos conforme a tradição
e os valores locais. Não é papel de governo algum pautar o que a po-
pulação pode falar e julgar o que for dito – isso é próprio de ditaduras.
E se isso não é recomendável a nenhuma administração pública, que
dizer de uma gestão que, antes de querer regrar algo, deve muitas ex-
plicações à população? É do governo do Mensalão e do Petrolão que
ouviremos o que é certo ou errado? É o que o PT quer.
Quem defende o Humaniza Redes diz que seus opositores são a favor
do ódio. Ora, isso sim é odioso! E malicioso. Mas não é novidade.
Não é de hoje que petistas e esquerdistas em geral travam uma bata-
lha linguística desonesta, rotulando seus opositores de “fascistas”, de
“elitistas”.
O exemplo mais célebre dessa prática autoritária de rotular os adver-
sários a priori é o ex-presidente Lula. Falemos especificamente dele.

D Z
Você lembra de Dona Zelite? Em quase todos os discursos, após assumir,
Lula se referia com desdém e mágoa “às elite”. Dito assim, engolido o plu-
ral, soava como um personagem. Surgiu, então, a Zelite. Ou, com o devido
respeito, Dona Zelite. Lula se queixava dela a torto e a direito. A Zelite
era preconceituosa. A Zelite não gostava de pobre. A Zelite o considerava
despreparado. A Zelite era puxa-saco do FHC. A Zelite não reconhecia os
méritos dele, Lula. A Zelite isto, a Zelite aquilo.
Nunca se soube o paradeiro da madame, mas o presidente a descrevia
com clareza. Ela era o que havia de chique. Graduara-se em curso superior,
era fluente em “língua de gringo” e citava autores estrangeiros (tipo de coisa
que deixava Lula fulo da vida). Era branca de olhos azuis (o presidente insis-
tia nessas duas características). Circulava em altas rodas e fazia cara de nojo
para buchada de bode.

88 de maio de (publicado no jornal Zero Hora).


PROCUSTOS À BRASILEIRA 153

Nosso ex-presidente trazia gravadas no subconsciente cicatrizes e luxa-


ções da tal luta de classes. O contato com o sindicalismo dos anos 70 o fazia
dedicar à Dona Zelite uma aversão que extravasava sempre que surgia a
oportunidade. Por outro lado, todas as suas referências à essa dama, se bem
analisadas, evidenciavam os desconfortos de um complexo de inferiorida-
de escancarado, diagnosticável por qualquer estudante de Psicologia. Lula
penava com a convicção de que Dona Zelite o via como primário, pobre,
retirante, baixinho e feio.
O leitor deve estar surpreso. O quê? “O cara” com complexo de inferio-
ridade? Com toda aquela jactância e desenvoltura em público? Complexo
de inferioridade viajando de Aerolula? Surfando na consagração popular?
Esclareço: tudo faz parte do quadro. São mecanismos de compensação que,
de um modo ou de outro, se manifestam nos complexos e nas patologias
psíquicas. A ele, a presidência disponibilizou meios formidáveis para com-
pensar esse sentimento que tanto o perturbou ao longo da vida.
Durante o exercício do poder, o incômodo causado pelo complexo foi
sendo amortecido e dando lugar ao prazer da aprovação nacional. E Dona
Zelite sumiu dos discursos! Aquela figura de retórica – quase uma projeção
psicológica – se foi dissipando, para reaparecer na fila do gargarejo, batendo
palmas e rindo das tiradas presidenciais. Dona Zelite virou fã! Seria a cura
definitiva? Talvez pudesse ser assim, se o prazer da aprovação não tivesse
passado a dominar o presidente e feito emergir um novo transtorno. Lula
descobriu que nada conquista mais aplausos do que distribuir dinheiro. Até
o Sílvio Santos sabe. E o dinheiro passou a jorrar da cartola presidencial
como petróleo na península arábica. Grana para todo lado! Grana para todo
mundo! Do Paraguai à ONU. Do mais pobre ao mais rico. Dona Zelite lavou
a égua e a popularidade de Lula disparou.
Quando o dinheiro acabou, Lula raspou o cofrinho dos filhos – quer
dizer: gastou a grana de quem vinha depois. Foi por isso que Dilma assu-
miu cortando despesas que ajudou a ampliar. E que a ajudaram a se eleger.
A inflação, leitor, a inflação que está aí, subindo como espiral de fumaça,
prenunciando tempos bicudos, é parte do preço que estamos pagando pelo
tratamento daquele que pode ser considerado como o mais oneroso comple-
xo de inferioridade da nossa história.
154 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

L
Todos sabemos. Lula tem um problema com as elites. É só ficar solto no
palanque, sem texto para ler, e lá vem ele com seu xingamento às elites, para
adequar o conteúdo do discurso ao modo vulgar de discursar.
Tudo muito
cordâncias postiço,
segundo como nosMas
o auditório. políticos
o Lulaque
queusam
quer os pronomes
se descolar e as
das con-é
elites
membro aplaudido do seleto grupo! Convive com a elite política e ocupou o
topo de sua cadeia alimentar. Tem atuado de modo intenso e rentável como
representante da elite das construtoras nacionais. Costuma posar para fo-
tografias e fazer agrados a atletas de elite. Seu partido nasceu no ventre da
elite acadêmica do país. Nela e por ela foi concebido e propagado nas salas
de aula onde se forma nossa elite intelectual. Mais do que nenhum outro ho-
mem público em nossa história, foi beneficiado pela ação orquestrada da eli-
te cultural e artística que, quase em uníssono, atuou e continua atuando em
seu favor. Como presidente, usou sua prerrogativa para indicar membros aos
mais altos cargos das carreiras jurídicas do país, cuja elite, em boa parte, lhe
deve favores. Também como presidente, seja de direito, seja de fato, abriu as
torneiras dos bancos oficiais para despejar dinheiro bom e barato nas contas
bancárias de nossas maiores corporações empresariais. Descobriu, há muito
tempo, que bons vinhos, uísques, charutos e lagosta ao Thermidor são mais
prazerosos do que vinho de garrafão, cachaça, mata-rato e buchada de bode.
Julgo suficientemente comprovado, com os incontestáveis registros aci-
ma, que Lula é peça – e peça importante – da elite nacional.
Mas quando ele fala da elite, mesmo como enfeite de discurso, a quem
tem ele em mente, como protótipo de seu desprezo? Em quem ele está pen-
sando quando o dedo que deveria apontar para si mesmo se volta para al-
gum canto obscuro e inespecífico na cena brasileira? Não é àquela elite que
está muito próxima dele e bem mereceria a desaprovação. As repulsas de
Lula recaem sobre uma pequena parcela da elite que não se verga às sedu-
ções da corte e não aplaude qualquer tolice pronunciada por quem tenha a
caneta turbinada pelo poder.
Essa elite é o obstáculo ainda remanescente aos anseios por hegemonia
absoluta sobre a vida brasileira. É aquela parcela da sociedade, de qualquer
condição social, mas de elevado valor moral, que não se deixa comprar com
favores. Bem menos numerosa do que conviria, ela percebe o grau de rebaixa-

89 º de agosto de .
PROCUSTOS À BRASILEIRA 155

mento e depreciação a que chegou a política nacional e atribui as devidas res-


ponsabilidades ao principal comandante dessa política nos últimos 16 anos.

Lula e o PT bem sabem que há uma elite atrapalhando seus planos.


Mas não é esse espantalho que Lula construiu para poder bater à von-
tade. Trata-se de uma elite moral, incoercível e cada vez menos silen-
ciosa. Boa parte de nossa elite financeira, contudo, deixou-se seduzir
pelas promessas de negócios facilitados e se associaram ao Governo
em operações escusas (o Petrolão é apenas um exemplo) e mesmo em
operações legais – do ponto de vista jurídico, jamais do ponto de vista
moral. Pois, não fossem esses arranjos, não fosse o engajamento de
empresários que pagaram pelo filme “Lula, o filho do Brasil”, os bra-
sileiros não teriam a oportunidade de não assistir a uma “obra” sobre
a maior figura da esquerda nacional – que tem como grande objetivo
substituir a iniciativa privada pela estatização.

O B
Tenho um casal de amigos que gostou tanto do filme “Lula, o filho do
Brasil” que já foi assisti-lo quatro vezes. Hein? Mentira minha? Sim, mentira.
Estou apenas demonstrando o completo desencontro do filme com as ex-
pectativas de seus personagens, protagonistas e produtores. A única plateia
que bateu palmas para a obra de Fábio Barreto foi a que compareceu à sua
pré-estreia, um seleto cordão de – Como direi? – parceiros, cativados pelos
cheques dos contratos ou pelos contracheques funcionais.
Pois eis que na contramão daqueles aplausos e das reverências dos blogs
de esquerda,
radas quando –chegou
para recebê-lo o filmeaos cinemas
travou. – quase
Travou quatrocentasDeu
miseravelmente. salasapagão
deco-
na sala de projeção. Após dois meses nas telas, ainda estava longe do milhão
de espectadores. No fim de semana de 28/02 (veja.abril.com.br/blog/radar-
-on-line/cultura, de 1º de março), menos de quinhentas pessoas assistiram à
película, que despencava como pedra, em irreversível parábola descendente.
Para quem antevia um estouro de bilheteria, produzido por um público entre
cinco e 16 milhões de fãs, o filme é um esférico e lustroso fracasso.

90 de março de .
156 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Olhando assim, pelo alto, de avião, até parece obra do PAC, não é mes-
mo? Empacou, não funcionou, custou caro, foi cercado de imensa publici-
dade, recebeu calorosos aplausos dos companheiros, pretendia ampliar o
prestígio de Lula e foi concebido em tom de puxa-saquismo. Mas não é obra
do PAC, não! Tem tudo para ser, mas não é. Não é do PAC e não tem mãe.
Alguém dirá que não faz sentido ironizar o insucesso do filme. Acontece que
“Lula, o filho do Brasil” encaixou-se na perspectiva política e eleitoral de
2010. Esperava-se que o ato de assisti-lo se constituísse em reverência litúr-
gica. E confiava-se em que os fiéis assistentes deixariam as salas de exibição
decididos a obedecer cegamente seu pastor. Ora, quem se farda para o jogo
político e entra em campo pode fazer gol e pode levar gol. Então ironizo.
Em qualquer lugar do mundo, um fracasso de bilheteria arde no bolso
de quem investiu no espetáculo. No Brasil, as coisas não são assim. Quando
um filme chega aos cinemas todo mundo já ganhou dinheiro através dos
benefícios que, a título de incentivo à cultura, retiram recursos diretamente
do erário. Não recuso importância à cultura (quando o bem ou produto
realmente tem valor cultural). Mas quando os pacientes do SUS se empilham
em beliches nos corredores, quando a sociedade padece nas mãos da crimi-
nalidade e quando a educação anda um passo atrás da ignorância, creio que
a escala das prioridades aponta outros rumos para esses recursos. Não vejo
sentido em que o sucesso financeiro de um filme não dependa da aceitação
do público, mas da coleta de incentivos fiscais.
A bem da verdade, esclareça-se: não foi assim com “Lula, o filho do Bra-
sil”. A obra de Fábio Barreto, por motivos óbvios, não usou esse mecanismo.
Seria difícil explicar a concessão de estímulo fiscal para um filme de louva-
ção ao presidente da República, em pleno exercício do mandato e em ano
eleitoral. A grana foi buscada junto a empresas altamente conscientes de
suas responsabilidades com a arte e a cultura nacional, animadas por irre-
sistível desejo de contribuir com quotas da ordem de R$ 1 milhão para que
Barreto promovesse um personagem que, só por acaso, é o dono do caixa do
país. Mas convenhamos, deu no mesmo que se fosse coisa da Lei de Incenti-
vo à Cultura. Ao fim e ao cabo, de uma forma ou de outra, o dinheiro sai do
mesmíssimo lugar. E a Campanha da Fraternidade está convencida de que o
Brasil é assim por causa da economia de mercado.

O retumbante fracasso do filme sobre a vida de Lula é bom indício da


farsa que era sua imagem de estadista amplamente aprovado. Algo es-
PROCUSTOS À BRASILEIRA 157

tranho havia nos elevados índices. Todavia, é bem verdade que o assis-
tencialismo sem critério algum para com os mais pobres, a concessão
de créditos e benefícios às classes médias e as negociatas com os mais
ricos, tudo bancado por quem paga impostos, fizeram com que boa
parte dos brasileiros se prostrassem ante o homem que nunca sabia de
nada, com a mesma reverência que tem um infante pelo seio materno.
***
Além de trabalhar por comprar quem aparecesse pela frente e de não
se envergonhar em manifestar admiração por bandidos internacionais
(como Fidel Castro e Mahmoud Ahmadinejad), Lula, Dilma e o PT se
especializaram em unir-se a políticos locais que vivem às voltas com a
justiça ou que eram alvos preferenciais do antigo “partido da ética”.
Fernando Collor de Mello, Renan Calheiros, José Sarney... Não sobra
quase ninguém. Até Paulo Maluf caiu nas graças do estadista brasilei-
ro que mais desrespeitou o Estado brasileiro.

O
Tão logo começaram a circular pelo mundo as imagens de Lula e Maluf
selando aliança política para beneficiar Haddad no pleito paulistano, a mí-
dia disciplinada pelo PT começou a reprovar o comportamento de Lula. Não
fazê-lo seria escandaloso. Mas era preciso reprovar como quem estivesse
surpreso. Como se aquilo fosse uma grande novidade e uma nódoa incom-
patível com a alva túnica do seráfico ex-presidente.
Do lado oposicionista, surgiram comentários no sentido de que se tra-
tava de uma aliança entre iguais. Dizia-se que ambos se mereciam. Que
seriam parceiros na escassez de escrúpulos. Que os dois seriam dotados
de uma consciência maleável c omo massinha de moldar. Também essa foi
minha primeira opinião, até assistir a um debate em que tal afirmação foi
feita, recebendo a seguinte contestação de um representante do PT: “Não
dá para comparar Lula co m Maluf. Lula não é procurado pe la Interpol!”
Essa frase me levou a colocar os dois personagens nos pratos de uma
balança mental das iniquidades. Instalei-os ali, enquanto sopesava as res-

91 de junho de .
158 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

pectivas biografias, que, a essas alturas, enchiam as páginas dos blogs e


sites da rede.
Resultado do teste: Maluf foi catapultado para cima enquanto Lula se
estatelava embaixo. De fato, Lula não tem condenação criminal. Mas até
mesmo na balança de um juízo moral tolerante, é infinitamente mais danoso
do que seu parceiro. O que ele fez com a política, com a democracia, com
os critérios de juízo dos eleitores e com as próprias instituições nacionais é
pior, muito pior do que o prontuário criminal do seu associado na eleição
paulistana. Os estragos de Maluf se indenizam em São Paulo, com dinheiro,
e se punem com cadeia. Os de Lula levarão décadas para serem retificados
na consciência nacional e nas instituições do país.
A sociedade, em algum momento, emergirá da letargia produzida pelo caris-
ma do ex-presidente e pela rede de mistificações em que se envolve. Compreen-
derá, então, que o modo defazer política introduzido por Lula conseguiudesmo-
ralizar a patifaria. Antes dele havia um certorecato na imoralidade.As vilanias
eram executadas com algum escrúpulo. Quando alguém gritava que o rei estava
nu, as pessoas olhavam para as partes polpudas do rei see escandalizavam.Com
Lula, as pessoas olham para o lado. Não querem ver. São como os julgadores de
Galileu, que se recusavam a olhar pelo telescópio com que ele lhes queria mos-
trar o universo: “Noi non vogliamo guardare perché se lo facciamo potremmo
cambiare” – “Não olhamos porque mudarde opinião pode custar caro”.
Então, o rei aparece no jardim, nu como uma donzela de Botticelli, e as
pessoas olham para o Maluf, de terno e gravata, com ar de escândalo. Se isso
não é a desmoralização da moral, se a influência de Lula nos costumes polí-
ticos não nos submete, como cidadãos, aos padrões próprios de um covil de
velhacos, então é porque – Ai de mim! – em algum lugar do passado recente,
perdi a visão e a razão.

Aos primeiros meses de 2015, o segundo governo de Dilma Rousseff


deu lugar a políticas econômicas de austeridade. Ao menos emtermos.
Não significa que a gestão petista vá cortar cargos em comissão ou
eliminar ministérios. A administração pública federal tem muito menos
contato com a tal austeridade do que o pagador de impostos regular.
Nas eleições de 2014, Dilma disse que Aécio Neves, seu adversário,
“plantaria inflação para colher juros”; pois seu governo segue elevan-
do os juros, enquanto a inflação já galopa. Lula, por sua vez, segue
PROCUSTOS À BRASILEIRA 159

variando entre respaldar a presidente e tentar “descolar-se” dela, para


não ter sua imagem maculada (mais ainda) e poder voltar em 2018
como o salvador da pátria.
Em resumo, o segundo Governo Dilma começou da mesma forma
que o primeiro.

A , , ...
Quando o Brasil foi descoberto, reinava em Portugal D. Manuel I, sob
cujo cetro o país viveu período de grande glória e esplendor. Foi descoberto
o Caminho das Índias e, mais importante ainda, o Caminho das Molucas,
pequeno arquipélago a leste da Indonésia, de onde vinham para o entreposto
de Constantinopla as especiarias que genoveses e venezianos revendiam a peso
de ouro no mercado europeu. Portugal enriqueceu e impressionantes obras
públicas adornaram a paisagem de Lisboa, com um estilo que levou seu nome.
Por essas e outras empreitadas, D. Manuel credenciou-se ao sonoro título de
Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, e Senhor
da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e
Índia. Entrou para a história como “O Venturoso”.
Seriam necessários cinco séculos de governantes inúteis, explorações e
frustrações para que o Brasil gerasse seu próprio Venturoso, graças à feliz
combinação astral que nos regalou Lula como presidente. Você, leitor, pode
discordar, bater pé, abanar a cabeça, mas Lula sabe que é assim. E é o que
basta. Custou-lhe muito alcançar essa condição.
Não pense ser fácil, leitor, governar um país do tamanho do Brasil du-

rante
da dois mandatos,
política nacional, e trazer para
entregar o regaço
o posto, do governo
passados os maiores
oito anos, pilantras
com a Educação
entre as piores do planeta, o SUS num caos e a segurança do jeito que todos
sabemos. E, ainda assim, contar com 87% de aprovação. Tem que ser muito
venturoso! À sua sucessora, num mandato recebido de bandeja, restaram as
desventuras e os ônus políticos de dar jeito na crise que o Venturoso empur-
rou para diante com a pança e o papo. Com gastança e lambança ao longo
dos últimos anos de sua gestão.

92 de fevereiro de .
160 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Não havia no país mesa de economista na qual as luzes amarelas das con-
tas nacionais e da inflação não estivessem acesas, intranquilizando as ma-
drugadas. Mas o processo sucessório não permitia condescendências. Para
o realismo cínico, as eleições vêm em primeiro lugar. O interesse nacional
chega mais tarde, bem depois de coisas essenciais como o partido, o poder,
os fundos de pensão, o marketing e os cargos.
O noticiário mostra que a presidente Dilma, bem antes do que espe-
rava, topou com as agruras da vida. Cortar R$ 50 bilhões do orçamento
não contribui para a popularidade de quem quer que seja. O brasileiro
é tolerante até com a corrupção, mas não admite austeridade. Metam a
mão, mas não me cortem os gastos públicos! E dona Dilma tomou essa
decisão que não ap enas retira R$ 50 bi da gastança. Não senhor! Tira-os
também da lambança. Tira-os das emendas parlamentares, o que equi-
vale a rarear a moeda de troca com cujo tilintar se rege a orquestra da
base de apoio.
Não nos surpreendamos se, em breve, os telefonemas da Casa Civil para
seus deputados e senadores começarem a retornar com sinal de fora de área.
E enquanto isso, D. Lula, Patriarca do Brasil e Protetor do Irã, Defensor
Perpétuo da Democracia d’Além-Venezuela e d’Aquém-Cuba, e senhor do
Comércio com Gabão, Congo, Burkina Faso e Tuvalu, diz que estão queren-
do desconstruir sua sacrossanta imagem.

O artigo a seguir é uma celebração ao término da “Era Lula”. Hoje,


em meio à “Era Dilma”, sabemos que permanecemos em tempos
sombrios. Ler o texto a seguir é uma vacina, para que não tenhamos
de celebrar, novamente, o fim de um novo ciclo de atraso daqui um
tempo, impedindo-o de começar desde já.

O L
Acabou! Não há bem que sempre dure (na perspectiva dos 87% que
gostaram), nem mal que não acabe (segundo a ótica dos 13% descontentes).
Faço parte do pequeno grupo que não se deixa seduzir por conversa fiada,
publicidade enganosa e não sente atração pelos salões e cofres do poder.

93 de dezembro de .
PROCUSTOS À BRASILEIRA 161

Lula chega ao fim de seu mandato em meio a um paradoxo que cobra


explicações: a política e os que a ela se dedicam despencaram na confiança
popular para um índice de rejeição de 92%! Ora, como entender que os polí-
ticos valham tão pouco perante a opinião pública enquanto o grande senhor,
o chefe, o mandante, o comandante da política, surfa nas ondas de uma po-
pularidade messiânica? Ouço miados nessa tuba. Como pode? Quanto mais
crescia a popularidade do presidente mais decrescia o prestígio da política! E
ele nada tem a ver? Chefiou durante quase uma década o Estado, o governo,
a administração, uma fornida maioria parlamentar, o numeroso bloco de
partidos integrantes de sua base de apoio, nomeou 8 dos 11 ministros do
STF, estendeu seu braço protetor sobre as piores figuras da cena nacional e
é a virgem do lupanar?
Eu aprecio os governantes realistas. Sei que o realismo se inclui entre as
características de todos os estadistas. Seja como homem do governo, seja
como chefe de Estado, o estadista lida com os fatos. Ideais elevados e pés
no chão. Causas e consequências, problemas e soluções. Realismo. Isso me
agrada. Mas há um realismo cínico, desprovido de caráter, que desconhece
limites éticos, que se abraça com o demônio se ele puder ser útil. A história
está cheia de líderes assim e apenas os olfatos mais sensíveis parecem capa-
zes de perceber o cheiro de enxofre que exalam. Há uma relação de causa e
efeito entre a degradação da política brasileira e a ação do presidente Lula.
Ele a deteriorou e comprometeu a democracia através do aparelhamento de
tudo, da cooptação, da compra de votos com favores, do fracionamento e
da descaracterização dos partidos. Assim como atuam os desmanches de au-
tomóveis, assim operou a política presidencial com os pedaços dos partidos
nacionais, comprados das fontes mais suspeitas e pelos piores meios.
Quer dizer, senhores e senhoras arrebatados pela retórica lulista, que a
democracia perdeu importância e pode ser uma coisa qualquer, apoiada por
qualquer arremedo de política? Não se exige mais, de quem governa, um
padrão mínimo de dignidade? De coerência e respeito? Não! Pelo jeito, basta
encher o bolso dos ricos e distribuir esmolas aos pobres para que surja um
novo São Francisco em Garanhuns.
Ah, Puggina! Mas com ele a economia cresceu, o número de miseráveis
diminuiu e se realizaram obras importantes. Vá que seja. Mas convenhamos:
era preciso muita incompetência para que a economia ficasse travada em meio
a um ciclo mundial extremamente favorável. Pergunto: não estavam diligen-
temente postas pelos antecessores as condições (privatizações, estabilidade
monetária e jurídica, integração ao comércio mundial, credibilidade externa,
162 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

responsabilidade fiscal e estímulo ao agronegócio)? Estavam, sim. Faltava o


que Lula teve a partir de 2005: dinheiro jorrando, comprador e investidor, no
mercado internacional. E ainda assim, entre 2002 e 2009, o crescimento do
PIB per capita do Brasil teve um desempenho medíocre comparado com ou-
tros emergentes e com a maior parte dos países da América Latina.
O Partido dos Trabalhadores se construiu mediante três estratégias con-
vergentes. Primeiro, a rigorosa adoção da cartilha gramsciana, assenho-
reando-se dos meios de formação da cultura nacional, sem esquecer-se de
qualquer deles - igrejas, sindicatos, movimentos sociais, universidades, meios
de comunicação, material didático, música popular. Segundo, combatendo
tudo, mas tudo mesmo, que os governos anteriores buscavam implementar
como condição para que o país retomasse o crescimento: Plano Real, abertu-
ra da economia, privatizações, cumprimento de contratos, pagamento da dí-
vida, responsabilidade fiscal, busca de superávits, agronegócio e Proer. Tudo
era denunciado como maligno, perverso, antinacional, corrupto. Terceiro,
destruindo de modo sistemático a imagem de quem se interpusesse no seu
caminho para o poder, até restar, do imaginário de muitos, como a grande
reserva moral da pátria. Dois anos no poder bastaram para que os véus do
templo se rasgassem de alto abaixo e os muitos petistas bem-intencionados
arrancassem os cabelos num maremoto de escândalos.
Somente alguém totalmente irresponsável ou com desmedida ganância
pelo poder haveria de desejar para a nação um governo social e economi-
camente desastroso. Não é e nunca foi meu caso. Não escrevo estas linhas
para desconsiderar o que andou bem no governo do presidente Lula. Mas
não posso deixar de expor o que vi – e como vi! – de sórdido e prejudicial
em seu modo de fazer política. Para concluir, temperando os exageros de
uma publicidade que custou ao país, na média dos últimos três anos, R$
900 milhões por ano, considero sensata a observação a seguir. Quando Lula
assumiu, em 2003, os principais problemas do Brasil situavam-se nas áreas
de Educação, Saúde e Segurança Pública. Passados oito anos, haverá quem
tenha coragem de afirmar que não persistem os problemas da Educação e
que não se agravaram os da Saúde e da Segurança Pública? Haverá 87% de
brasileiros dispostos a se declarar satisfeitos com a situação nacional nesses
três pilares de uma vida social digna?
PROCUSTOS À BRASILEIRA 163

Em certos aspectos, a situação atual é amplamente diversa. Dilma


Rousseff, a sucessora de Lula, amarga menos de 10% de aprovação
popular em meados de 2015. Além de não ter o carisma de seu men-
tor, a presidente tem de lidar com as imparáveis consequências do
ciclo econômico iniciado no Governo Lula. Este recebeu uma política
econômica encaminhada e eficaz; manteve-a em seu primeiro man-
dato, mas, no segundo, abriu a torneira do descritério, com gastos
excessivos, inchaço da máquina pública e assistencialismo populista.
Acabou entregando a Dilma um novo ciclo, que se agrava neste início
de quarta gestão petista.
Mas a presidente e sua equipe, evidentemente, têm sua culpa. Para
começar: o que ela está fazendo lá? A “gerentona” foi incapaz de
administrar uma lojinha de 1,99, nos anos 90, no auge desses empre-
endimentos. A presidente mal sabe falar; cada frase sua é o parto de
uma bigorna; mais do que ela para falar, sofremos nós para entender.

Ademais, a impopularidade de Dilma também é reflexo da impaciên-


cia do povo para com os conchavos de poder celebrados na mesa de
negociações federal.
O PT não é o único problema do Brasil, é claro. Mas a verdade é que
esse partido, que já carrega em sua essência a mendacidade e a pericu-
losidade dos filhos de Marx, juntou-se ao que havia de mais mesqui-
nho no país. São, pois, os políticos “tradicionais”, patrimonialistas, a
principal sustentação regional do esquema de poder do PT. Esses po-
líticos, de todos os partidos, são tão corruptos e corruptores quanto
os petistas; porém, dedicam-se exclusivamente a seu próprio enrique-
cimento, enquanto Zé Dirceu, Genoíno, Lula et caterva roubam do-
brado, para enriquecer e para financiar a esquerda local e continental.
Até 2002, esses Sarneys, Collors, Malufs e Calheiros de todos os esta-
dos eram os alvos preferenciais do finado “partido da ética” (autoelogio
autoenganoso inventado pelos petistas). Contudo, a corja estrelada per-
cebeu que era só balançar a niqueleira que os coronéis, os “padinhos”,
esqueceriam das ofensas de antanho e baixariam o decreto “13-confir-
ma” em seus currais. Em artigo de janeiro de 2012, Percival Puggina deu
um exemplo claro de como funciona o negócio -- ou melhor, a negociata.
164 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

A , ...
Anote aí. Não vai adiantar coisa alguma. A imprensa divulga, os analistas
criticam, a presidente pede explicações e, no final, fica tudo por isso mesmo.
Nada aprendemos com os erros praticados diante de nossos olhos. A gente
olha; vê que porque,
para mudar, está errado; apontabem
no fundo, e exclama: “Que
no fundo, coisa!”.noMas
instalou-se nada
senso é feitoa
comum
crença de que o sistema nos beneficia. O resultado final é bom. Em palavras
mais simples: só aprende com os erros quem quer acertar. Quem se crê bene-
ficiado com o erro, cuida é de aprimorá-lo.
Está tudo mal no país, diz-se. Mas ninguém quer modificar coisa alguma
porque o sistema, errado por gosto, está concebido para proporcionar essa
sensação. Está errado, mas não mexe. Eis por que ministros puxam brasas
para suas sardinhas e todo mundo fica contente. Acontece que há mais mi-
nistérios do que unidades da Federação, sabe?
Durante dois anos, o da Integração beneficiou a Bahia do ministro Ged-
del. Hoje, foi para o ministro Bezerra Coelho. Nada mais lógico, então, que
as verbas se concentrem em Pernambuco e que o filho do ministro, o depu-
tado federal Fernando Coelho, seja responsável pela totalidade dos pedidos
apresentado ao ministério do papi. E nada mais natural do que Bezerra, sen-
do maninho de Clementino Coelho, candidato a prefeito de Petrolina, man-
de para lá 40% das cisternas destinadas ao semiárido nordestino. É lógico,
também, que nomeasse para o Conselho de Irrigação o titio Osvaldo Coelho,
irmão do ex-governador Nilo Bezerra Coelho. É impressionante como saem
coelhos dessa cartola e dessa capitania, cujo primeiro donatário, casualmen-
te, foi Duarte Coelho, que a recebeu em 1534.
Por outro lado, nada mais impositivo ao governador Eduardo Campos,
padrinho de Bezerra Coelho no governo, do que sair em defesa do afilha-
do, com toda a força da legenda do PSB, dizendo que não admite, naquele
reduto, interferências do Planalto. É como se dissesse: “Neste ministério
mando eu!”. É assim que as coisas são feitas no Brasil. O ministério é do
Ministro. A destinação dos recursos segundo as conveniências do titular da
pasta, e a seu talante, é apenas mais uma das muitas evidências com que
nos temos defrontado dessa relação abusiva, patrimonialista, de muitos
dos nossos homens públicos com as prendas do poder. Socialismo real,
científico, em circuito fechado.

94 de janeiro de (publicado no jornal Zero Hora).


PROCUSTOS À BRASILEIRA 165

O governador Eduardo Campos, genro de Miguel Arraes, e banqueiro


fiduciário dos Coelho é tão fiel a esse preceito em relação ao que lhe cabe
distribuir e tem o coração tão dócil aos seus afetos que se empenhou na tare-
fa de fazer de sua mãezinha deputada federal. E, depois, não satisfeito, sacou
da espada para fazê-la ministra do Tribunal de Contas da União. Ministra
de poucos créditos, diga-se de passagem, mas de muitos débitos na conta dos
favores recebidos.
A cada semana, quem der uma chacoalhada nas instituições brasileiras se
assusta com o que vem à superfície. Mas logo que a agitação cessa, os detri-
tos vão para o fundo e se acalmam as coisas na superfície. Não mexe, então.
Está bom assim. Todo mundo contente, convencido de que o Brasil está em
boas mãos. Mas as doses de petismo têm passado dos limites...

A
Demorou duas décadas mas, finalmente, o PT está alcançando seu obje-
tivo de 1994 – acabar com o Plano Real. O sonho dourado das esquerdas
nos anos 90, o fim do programa que deu estabilidade à moeda nacional,
aquilo que Lula tentou mas não conseguiu em seus oito anos, Dilma, está
realizando à base de trombadas na cristaleira. O petismo espatifou a econo-
mia e tudo mais à sua volta. Nem despejando bilhões no mercado, o Banco
Central consegue conter a evasão das verdinhas ianques, que se retiram do
país como os ratos abandonavam o Titanic nas impressionantes cenas do
filme de James Cameron.
Quando o PT festejava em São Paulo seus dez anos no governo da União, o
tom ufanista dos discursos mostrava que o partido chegara à overdose de po-
der. “Pode juntar quem quiser”, bravateou Lula, convicto de nova vitória do
partido
melhor”,emprosseguiu
2014. “Qualquer coisa
o eufórico que eles tentarem
ex-presidente, fazer nós
nariz enfiado nofazemos mais e
pote do poder.
Seguiu-lhe a arrevesada sucessora, tratando de mostrar serviço. Arrombou a
ostra onde oculta sua sabedoria e extraiu esta pérola: “Não tenho medo de
comparações, inclusive sobre corrupção...” Isso tem outro nome, é claro. Mas
é, também, overdose de poder. Poder sobre a própria imagem, sobre a socieda-
de, poder sobre os demais poderes, poder sobre a mídia, poder agregado, ano
após ano, em sequências exponenciais perante auditórios interesseiros.

95 de agosto de .
166 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Quatro meses depois, foi a vez de o povo evidenciar que também ele
tivera sua overdose de petismo. E saiu às ruas para pacíficas e civilizadas
demonstrações de inconformidade. O povo deu uma olhada no próprio país
e percebeu que, por trás da publicidade, dos cenários, das montagens, das
invenções e versões, tudo – simplesmente tudo! – vai muito mal. Depois de
dois PACs lançados às urtigas, que não valiam a tinta e o papel gastos para
redigi-los, a economia arqueja sobre uma infraestrutura carente de tudo que
importa – energia, rodovias, ferrovias, armazenagem, portos. Quanto mais
PAC, menos PIB. O Rio São Francisco continua no mesmo lugar, levando,
dolente, suas águas para o mar de Alagoas. Nas refinarias projetadas, nada
se avoluma com maior rapidez do que o preço inicialmente previsto. Aqui no
Rio Grande do Sul, de onde escrevo, as ditas “obras da Copa” ficarão para
depois da Copa. O prometido, jurado e sacramentado metrô de Porto Alegre
ainda é um risco no papel, em eterna discussão. E a duplicação da travessia
do Guaíba resume-se a um trabalho de computação gráfica.
A Educação brasileira é a penúltima entre 40 países estudados pela Eco-
nomist Intelligence Unit. A Saúde beira à perfeição. Sim, é um perfeitíssimo
pandemônio! Nós, os cidadãos, reconhecemos que houve uma inversão nos
extratos sociais. Mudamo-nos para o submundo, para a zona de perigo, onde
não existe a proteção da lei, onde padecemos nossa desdita sob a implacável
violência do andar de cima. Ali, no andar de cima, é tudo ao contrário, e o
mundo do crime opera ao resguardo do imenso guarda-chuva gentilmente
proporcionado pelo aparelho de Estado e por suas leis. É isso que se chama,
aqui, de Segurança Pública. Tudo por obra e graça do petismo que chegou à
overdose de si mesmo e perdeu os próprios controles.

A
Tenho pensado muito sobre os motivos que levam grande número
de pessoas a votar na candidata do PT. Como método de análise, tratei
de classificar esses eleitores em grupos ordenados segundo as prováveis
motivações.
O primeiro, e certamente o que abriga maior número de cidadãos, é
composto por aqueles que recebem do governo algum benefício de natureza
social compensatória. Ainda que os principais programas assistenciais em

96 de outubro de .
PROCUSTOS À BRASILEIRA 167

vigor venham de governos anteriores, parece fácil iludir tais pessoas com a
ameaça de que uma mudança no comando do país implica o risco de extin-
ção de tais auxílios.
O segundo grupo é formado pelo numeroso e privilegiado contingente
de membros da nomenklatura petista, investidos em posições de mando ou
ocupando postos de indicação partidária no governo, em empresas estatais,
no próprio Estado e na administração pública. Para esses eleitores não existe
qualquer dúvida: uma derrota petista significa o fim do contracheque. Esses
contracheques não costumam guardar simetria com a qualificação e os ser-
viços prestados pelos recebedores.
O terceiro grupo inclui o vasto contingente de pessoas cujos postos
de trabalho e fontes de renda provêm dessa miríade de o rganizações não
governamentais (ONGs) cujos recursos, paradoxalmente, procedem do
erário nacional. Para franquear acesso aos fundos públicos, o governo
e seu partido levam em altíssima conta a posição política daqueles que
as dirigem. Vale o mesmo para o recrutamento de recursos humanos às
atividades fins.
O quarto grupo é formado pelos aficionados ideológicos. São eleitores
que colocam a ideologia acima de tudo. São cegos a toda evidência.
O quinto grupo agasalha (o verbo agasalhar cabe bem para estes) todos
os que, graças ao PT, vivem à vida regalada sem serem do governo. Atuam no
restrito universo das grandes empresas, no mundo da cultura, da publicidade,
fazendo negócios multimilionários com o governo. E com os governantes.
O sexto grupo, sem fixações ideológicas e interesses individuais, está
a par dos fatos, acompanha as notícias, reprova os malfeitos, conhece os
dados econômicos e se preocupa com a situação nacional. E, ainda assim,
vota no PT. Entre as mentiras que lhe são contadas e o que os próprios olhos
e ouvidos lhe revelam, esse grupo prefere crer nas mentiras. É mais difícil
entendê-los do que compreender o Bóson de Higgs (aquela partícula que
representa a chave para explicar a srcem da massa das partículas elemen-
tares). Esse grupo e suas misteriosas razões têm votos que podem decidir,
contra toda a lógica, a eleição presidencial.

***

Para concluir este capítulo, listo 66 motivos pelos quais é a esquerda


brasileira, capitaneada pelo partido de Lula e Dilma, a agente principal na
tomada do Brasil pelos maus brasileiros.
168 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

O PT foi fundado em 1980 e atuou na oposição nacional durante 22


anos, até alcançar o poder com Lula, em 2003. Durante esse período, se você
observar direito, a sigla e seus parceiros na política, nas mídias e nos movi-
mentos ditos sociais atrapalharam sucessivos governos. Só para recordar:
1. o PT votou contra a Constituição Federal;
2. foi contra o Plano Real;
3. criou organizações para promover luta de classes, conflitos raciais,
conflitos de gênero, invasões de terra, violência sindical;
4. foi contra todas as privatizações;
5. foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal;
6. foi contra o cumprimento de nossas obrigações com credores externos;
7. foi contra a geração de superávit fiscal;
8. foi contra o agronegócio e agricultura empresarial, que quis (e ainda
quer) substituir por assentamentos do MST;
9. foi um partido golpista, tentando derrubar quem se antepusesse a seu
projeto de poder.
10. Se é verdade que, enquanto na oposição, o PT apontou à nação al-
guns corruptos, firmando um conceito de partido diferente, formado
por gente do bem, gente honesta, também é verdade que assassinou
reputações, e quando chegou ao poder juntou-se aos maiores cana-
lhas da República e deu no que se viu.
Vejamos agora como são as coisas quando estão no poder:
11. O PT, no governo, mostrou ser um partido capaz – capaz de qualquer
coisa.
12. Há mais de uma década, tenta reimplantar a censura através do mar-
co regulatório da imprensa, que pretende criar uma arbitragem sobre
conteúdos.
13. Postula a criação do Conselho Federal de Jornalismo, para punir jor-
nalistas considerados incômodos.
14. Propôs o PNDH-3;
15. o marco civil da internet, que inicia censura virtual;
16. e a PLC 122 (da “homofobia”) e seus disparates.
17. Lidera a imposição do “politicamente correto” e da novilíngua.
PROCUSTOS À BRASILEIRA 169

18. Apoiou e deu refúgio a terroristas (Cesare Battisti é apenas


um dos casos);
19. mas capturou e devolveu a Fidel Castro os boxeadores que queriam
fugir da ilha-presídio.
20. Apoia os governos comunistas de Cuba, Venezuela e Bolívia.
21. Tem incondicional afeição a qualquer patife adversário do Ocidente.
22. Concede homenagens e dá nomes de ruas para líderes comunistas;
23. O memorial para Luiz Carlos Prestes, em Porto Alegre,é um exemplo.
24. Oferece apoio explícito a companheiros condenados pela justiça por
graves crimes.
25. Possui verdadeira fobia por presídios e órgãos de segurança, permi-
tindo gravíssima instabilidade social;
26. Dedica-se absoluta e incondicionalmente aos direitos humanos dos
bandidos.
27. Empenha-se em inibir a ação armada das instituições policiais.
28. Dedica-se à causa do desarmamento dos cidadãos de bem.
29. Recusa a redução da maioridade penal.
30. Sustenta o MST e apoia suas truculentas invasões de propriedadesurais.
r
31. Apoia invasões no meio urbano e fomenta políticas que restringem o
direito de propriedade.
32. Dá cobertura às estripulias imobiliárias dos quilombolas.
33. Avança com o Código Florestal contra o direito de propriedade.
34. Permite expansão das reservas indígenas sobre áreas de lavoura.
35. Trabalhou por: mudanças, para pior, do Estatuto do Índio,
36. supressão de símbolos religiosos em locais públicos,
37. destruição de valores morais e familiares nas escolas,
38. lei da palmada,
39. apoio à legalização do aborto,
40. políticas de gênero
41. e kit gay nas escolas.
42. Dá apoio à parada gay,
43. à marcha das vadias
44. e à marcha pela maconha.
170 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

45. Defende leis de cotas raciais, que oficializam o racismo,


46. e o uso de livros didáticos para doutrinação ideológica.
47. É membro fundador do Foro de São Paulo, onde ditadores e simpa-
tizantes entram em conluio para produzir a hegemonia marxista na
América Latina.
48. Age pelo fim da Lei de Anistia e pela manipulação da História, para
transformar guerrilheiros e terroristas comunistas em paladinos da
democracia.
49. Aparelha a administração pública e os órgãos de Estado com filiados
seus e de aliados.
50. Cria uma infinidade de ONGs financiadas pelo governo para servir a
seus objetivos políticos com dinheiro da nação.
51. Perdoou dívidas de ditadores africanos e tiranetes sul-americanos,
enquanto cobra centavo por centavo as dívidas dos estados e muni-
cípios brasileiros.

52. Mariel,
Financiao obras
BNDES,para maus pagadores.
comandado pelo PT, No caso 10
investiu dovezes
portomais
cubano de
do que
nos portos brasileiros nos últimos anos.
53. Implementou o programa Mais Médicos para financiar a ditadura
cubana.
54. Recentemente, formulou o decreto 8423, que instituiu os conse-
lhos bolivarianos no Brasil, em afronta à Constituição e ao Con-
gresso Nacional.
55. Ausência de prioridades na gestão pública, tomando decisões irres-
ponsáveis, como as campanhas para atrair a Copa de 2014 e os jogos
Olímpicos de 2016.
56. Fez anúncios estrondosos, mas realizações ínfimas.
57. Suas obras se desenvolvem lentamente ou ficam paralisadas,
58. com cronogramas furados, preços superfaturados
59. e corrupção.
60. Defende criminosos condenados pela justiça.
61. Permite a apropriação do setor público pelos partidos aliados, como
se o país fosse o botim a ser partilhado entre os vencedores.
62. Promoveu total desacerto na gestão pública!
PROCUSTOS À BRASILEIRA 171

63. Trabalha com 40 ministérios que viraram fatias de um bolo para a


festa dos governantes.
64. Como se viu no início desta exposição, o PT, na oposição, é um par-
tido que não deixa governar.
65. E como se viu agora, o PT é um partido que não sabe governar.
66. É esse o capitão do time de maus brasileiros que nos assolam. Mas
eles não agem sozinhos. Contam com muitos apoios, com variadas
linhas auxiliares e diferentes companheiros de viagem na travessia
revolucionária.
ESCORPIÕES E RÃS

Os companheiros dos companheiros


“O escorpião e a rã” é uma fábula antiga, de autoria incerta. Sua moral,
contudo, está presente em outros contos, como em “O fazendeiro e a ser-
pente”, de Esopo. A história é basicamente esta: desejoso de atravessar um
riacho, o escorpião pede carona nas costas da rã. Esta, receosa com a pos-
sibilidade de ser atacada, rejeita ajuda ao aracnídeo. Ele não desiste e assim
a convence: “Pense bem, se eu lhe atacar durante a travessia, você morrerá,
mas eu, que não sei nadar, morrerei afogado.” Seguem viagem, então. No
meio do caminho, contudo, o escorpião desfere uma ferroada na rã, que,
prestes a morrer, indaga: “Agora morreremos nós dois! Por que você fez
isso?” Ao que o escorpião responde: “Porque esta é minha natureza.”

***

Supõe-se que é do terrorista e ditador russo Vladimir Ilitch Ulianov, o


Lenin, a expressão idiotas úteis , com a qual manifestava seu desprezo para
“ ”

com os militantes da causa soviética no Ocidente (Europa e Estados Unidos,


sobretudo). A autoria é duvidosa, mas o significado é inequívoco. Líderes
socialistas de todo o mundo, de ontem e de hoje, sempre fizeram uso de uma
militância engajada e abnegada. Essa linha de frente dedicava-se ao servi-
ço sujo (divulgar e propagar a ideologia, sem ou com violência), enquanto
os líderes ficam à espreita, imaculados, esperando o momento certo para
avolumar-se ante seus militantes. Estes, tão logo a causa triunfasse, eram
descartados por motivos vários (discordar da violência excessiva, manifestar
decepção com a falta de senso democrático dos líderes, etc.).

***

Na Iugoslávia, na Romênia, na China, em Cuba, nas Repúblicas Sovi-


éticas e onde quer que a esquerda socialista e comunista tenha tomado ou
conquistado o poder, líderes não muito afeitos à democracia fizeram largo
uso dos dedicados e ingênuos idiotas úteis descartáveis.
Como escorpiões atravessando riachos sobre as costas de rãs, aprovei-
tam-se o quanto podem e aniquilam quando não precisam mais. Mas, ao
fim, porque a economia entra em colapso, as condições de vida atingem o
sub-humano e o poder mantido pelo terror é limitado, afundam todos.
Em nossa política atual, os escorpiões são os esquerdistas socialistas de
sempre, petistas ou não;as rãs são os políticos tradicionais, os movimen-
tos sociais, as associações de classe, os partidos aliados e as organizações
que servem aos aracnídeos como os idiotas úteis serviam a Lenin.

D ONG?

J amais especulo sobre a honra de quem quer que seja. Deixo esse trabalho
para o jornalismo investigativo, para as instituições policiais e para o
Ministério Público. É uma praia onde não sei nadar. O que me interes-
sa nessa pauta não é a possibilidade de que alguma ONG esteja cobrando
comissão de prefeituras para prestar serviços, recebendo por atividades que
não executou, ou repassando recursos para partidos políticos. Quem tiver
competência institucional ou funcional para averiguá-lo que o faça. E cadeia
para os responsáveis.
Interessa-me algo que está por trás dessas notícias. É a informação – sur-
preendente – de que existem ONGs que são ligadas a ou aparelhadas por
partidos políticos, que funcionam como braços dos partidos. E que recebem
dinheiro do governo. Mas, desde quando partidos têm ou controlam ONGs
que prestam serviços ao poder público? Que negócio é esse? Eu sei que a
noção de limite acabou quando Getúlio se matou. Ele foi o último. Os que
vieram depois e se viram em mar de lama parecem ter jurado a si mesmos
que avançariam sempre, derrubando as barreiras do pudor e que resistiriam
sob quaisquer circunstâncias. E o povão aplaude quem é persistente – mes-
mo no crime.
Já não se trata, nesse nosso modelo institucional que funciona como
um moedor da democracia, de os partidos fazerem o que lhes compete:
consolidarem sua doutrina, planejarem sua ação, formarem seus quadros
para o exercício do poder, analisarem as realidades nacionais, elaborarem
diagnósticos e definirem estratégias de intervenção na realidade. Qual! Isso
seria pedir muito a organizações que, no moinho do modelo institucional,
viraram farinha de si mesmos. Ou, menos metaforicamente, se transfor-
maram em cartórios políticos para viabilização dos processos eleitorais.
Ou, mais incisivamente, varreram a dignidade como lixo para baixo dos

97 de fevereiro de .
176 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

espessos tapetes do poder (vale o lugar-comum porque a situação é absolu-


tamente comum e o lugar também).
Quando comecei a vasculhar na rede informações sobre essas ONGs,
fiquei sabendo, aparentemente com uma década de atraso, que se existe algo
para o que não falta dinheiro no Brasil é para essas instituições. Curioso,
não é mesmo?
Não há recursos para o SUS, Educação, Segurança Pública, infraestrutura
nacional, modernização do transporte urbano e aeroportos. Mas para uma
ONG bem aparelhada, com o cordão umbilical ligado à placenta de um par-
tido a serviço da causa (é sempre a mesma causa, em nome da qual a moral
se ajoelha penitente), milhões são distribuídos com aquela prodigalidade de
Silvio Santos lançando notinhas de cem ao auditório.
Talvez o leitor não saiba, mas essa conta é grande e de todos nós. Trata-se
da velha malandragem que venho apontando como pináculo das estratégias
políticas nacionais, pela qual se toma dinheiro de todos para dar a alguns qu e
se bronzeiam nas suaves enseadas do poder. A edição da Revista Exame do dia
23 de fevereiro, em sua Carta ao leitor, entra no coro e adverte para o “preço
que será pago pelo desleixo público, pela gastança em prol de benesses polí-
ticas, pelas bondades voltadas para alguns e pagas com o dinheiro de todos”.
Não estou generalizando sobre o vasto conjunto das organizações não
governamentais. Inúmeras delas se dedicam a nobres funções, envolvem in-
tenso voluntariado e executam tarefas socialmente valiosas por muito menos
do que custariam se cumpridas pelo setor público. Mas, convenhamos, ONG
aparelhada por partido político e atendendo demandas do governo é uma
bofetada no rosto do contribuinte.

São muitas as rãs saltitantes em torno dos escorpiões. Elas acham

que estão “sepor


implorando dando bem”, mas não percebem que estão praticamente
ferroadas.
Bons exemplos são os políticos “tradicionais” brasileiros, a quem, no
fim do capítulo anterior, chamamos depatrimonialistas. Eles prota-
gonizam as relações políticas, cujo formato também é combustível à
penúria do país.
Esses “coronéis” estão no Congresso a dedicar-se ao enriquecimento
próprio, legislando conforme seus apetites. Ao mesmo tempo, servem
gentilmente a quem está no poder e que, além de enriquecer a si mes-
ESCORPIÕES E RÃS 177

mo, trabalha para alimentar a revolução silenciosa. Pretendem-se sul-


tões, mas não passam de usineiros (com todo respeito aos usineiros
de fato), usineiros da corrupção, a laborar pela preservação do núcleo
duro da sem-vergonhice política.

A
Sabem os cientistas políticos que não há razões teóricas nem práticas
para que a representação política de um país seja qualitativamente muito di-
ferente, para mais ou para menos, da média da sociedade. O que se pode e se
deve fazer é aprimorar as instituições para que funcionem de um modo que
não favoreça a corrupção. Do jeito que está, favorecendo-a, ocupamos no
cenário mundial o 69º lugar no quadro decrescente da honestidade (Trans-
parência Internacional) e a corrupção nos custa, segundo a Fiesp, algo entre
40 e 70 bilhões de reais/ano.
De uns tempos para cá, sempre que se fala sobre reforma política
(normalmente depois de algum escândalo) retornam à superfície dois
temas: voto em lista fechada e financiamento público das campanhas
eleitorais. Em que consiste, então, o tal “voto em lista fechada”? Nele,
diferentemente do sistema em vigor , no qual a ordem dos e leitos em cada
partido é dada pela votação pessoal que os concorrentes obtêm, o elei-
tor não vota num candidato, mas no partido (na lista desse partido). A
ordem em que os nomes são lançados nessa lista expressa a preferência
do partido. Os primeiros muito provavelmente serão eleitos e o s últimos
não terão qualqu er chance. Tanto num quan to noutro sistema o número
de cadeiras obtidas pelas legendas é proporcional aos votos totais que
lhes são dados.
Como se presume, a eleição parlamentar por lista fechada fortalece as
agremiações políticas. Mas parece pouco provável que os comandos das le-
gendas deixem de escalar para as primeiras posições de suas listas os atuais
deputados, reduzindo-se assim, drasticamente, a possibilidade de renovação
das bancadas. Acho que é tudo que ninguém quer, não é mesmo? Em con-
trapartida, o sistema reduz custos, sendo compatível com o financiamento
exclusivamente público das campanhas.

98 de julhode (publicado no jornal Zero Hora).


178 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

No entanto, se consideramos importante reduzir a corrupção do Estado


brasileiro, como exigência moral, enfatizada por nossa vexatória posição no
ranking da desonestidade, cabe indagar: qual o efeito disso sobre a corrup-
ção? Quase nenhum! Combatê-la com medidas que afetam exclusivamente
as eleições parlamentares é descomunal erro de perspectiva. Não é nos par-
lamentos que estão as causas determinantes da corrupção sistêmica. Não há
ali, sequer, recursos financeiros para proporcioná-la. A usina da corrupção se
articula em torno do outro poder, montada no sistema de governo, nas elei-
ções majoritárias, no seu financiamento e no custo de formação das maiorias
parlamentares com distribuição dos cargos, dos investimentos, dos postos de
mando e no aparelhamento partidário da administração.
O que têm os partidos políticos a fazer na administração pública? Isso lá
é lugar de política partidária? A administração tem que ser técnica, profissio-
nalizada e politicamente neutra, servindo à sociedade em todos os governos.
O que têm os partidos a fazer nas empresas estatais? Empresas, ainda que
estatais, não são lugar de política partidária. O lugar dos partidos e seus
agentes é no governo, de modo transitório, reduzido esse espaço ao estrita-
mente necessário. É ínfimo o poder de corrupção de um parlamento diante
da imensa e multibilionária máquina governamental, quando se tem como
“imexível” um sistema ficha-suja, que enfeixa nas mesmas mãos a chefia do
Estado, do governo e da administração.
Antes que venham as frustrações, vai o alerta. Adotado o voto em lista,
a grande corrupção continuará como dantes pelo simples motivo de que se
manteve inalterada sua principal causa, que tanto exaure recursos e desmo-
raliza a nação diante de si mesma e no concerto internacional.

E
Sei, sei, pode parecer que para arrumar um título forcei a barra. Mas
saibam quantos se detiverem sobre estas linhas que o título expressa rigo-
rosamente a minha opinião sobre o que acontece em nosso país a partir de
1988. É uma dor de cabeça sem fim. Explico-me. A eleição parlamentar que
desembocou no processo constituinte elegeu 559 congressistas. Dado que a
Assembleia Nacional foi convocada para encerrar o regime militar que se
exaurira, algumas análises acadêmicas, como a de Leôncio Martins Rodri-

99 de setembro de .
ESCORPIÕES E RÃS 179

gues, proclamam que, naqueles dias, a depender da autoclassificação dos


parlamentares, não haveria direita no Brasil...
Em contrapartida, a dissertação de mestrado de um jovem chamado Lu-
ziano Pereira Mendes de Lima, membro do Centro de Estudos Marxistas
do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (só podia), vai
no sentido oposto. O autor, usando instrumentos indiretos de classificação
(certamente comparando os votos dos constituintes com os que ele mesmo
daria) chegou ao seguinte quadro: Esquerda – 95, Centro esquerda – 77,
Centro – 61, Centro Direita – 142, Direita – 184. A ser verdadeiro o levanta-
mento, num processo de votação que tomava decisões por maioria simples, o
conjunto Direita e Centro Direita disporia de votos para aprovar o que qui-
sesse. Disporia, mas não dispunha. A Direita sofria de complexo de culpa e o
próprio Centrão, grupo parlamentar criado para fazer frente à enxurrada de
propostas demagógicas, socialistas, estatizantes nascidas nas confabulações
do PT e seus satélites, viveu às voltas com esse estigma. Se todas as teses de
agrado do jovem acadêmico (autor de “A atuação da esquerda no processo
constituinte:1986-1988”) tivessem incrustadas no bronze constitucional, o
Brasil seria, hoje, uma Venezuela piorada.
Mesmo assim, graças à timidez de uns e ao constrangimento de outros,
a Constituinte Cidadã foi uma carta feita com os olhos p ostos na retaguar-
da. Em vez de fazermos uma Carta para o país que queríamos, ficamos
escrevendo contra o país que t ivemos. Proporcionamos tanta proteção aos
que se enredam nas tramas da lei (como se todo b andido fosse de esquerda,
o que é um relativo exagero, acho, não sei...), inibimos de tal forma a ação
das autoridades (como se toda autoridade fosse de direita, outro exagero,
valha-nos Deus!) e asseguramos tantos direitos aos bandidos que a socie-
dade – esta sim, titular de direitos e merecedora do zelo do Estado – fica
sem proteção alguma.
Muitas das nossas enxaquecas institucionais, derivam desse erro históri-
co. Aqui e ali, pouco a pouco, algumas coisas foram sendo corrigidas, mas
ainda estamos longe de abrir a Constituição Federal de 1988 com a seguran-
ça de que ela serve ao futuro do Brasil. Não mesmo! Assim, por exemplo,
como o regime anterior se caracterizava por certo voluntarismo nas prisões
(inclusive políticas!), hoje a decisão de prender alguém exige infinitas con-
jugações legais, confluências astrais, circunstanciais e coisas que tais. Todo
dia, toda hora, crimes são cometidos por bandidos que só não estão presos
porque se enveloparam em alguma dobra da lei e ali ficaram desfrutando de
uma proteção que ninguém na sociedade aprova.
180 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Esta semana, certo rapaz, dependente químico, que já havia cometido um


crime, e que respondia em liberdade por um segundo crime de morte cuja
prática ele mesmo confessou, perpetrou seu terceiro assassinato. Matou o pa-
drasto. E confessou. A pergunta que está me dando enxaqueca institucional é
esta, e vai para a juíza dos processos: estivesse o assassino preso, respondendo
no xadrez pelo conjunto de suas obras, o padrasto do moço estaria vivo, certo
doutora? Qual a responsabilidade de quem mantém em liberdade um jovem
drogado que já responde por duas mortes? E que tanto lero-lero para julgar
um caso assim, de réu confesso? Zero Hora quis perguntar isso a ela e obteve
uma resposta tão impertinente quando confortável: a magistrada não se mani-
festa sobre o processo. Pronto! Descalçam-se os sapatos, põem-se os pés para
cima, abanam-se os dedos. E dorme-se em paz. Cruel é omundo.
Enfim, amigo leitor, passaram-se 23 anos da Constituinte de 1986/1988.
Já é tempo de que a sociedade comece a cobrar dos seus legisladores que a lei
veja a ela - a sociedade - em primeiro lugar. E só depois disso, passe a tratar
dos que se desviam do bom caminho. Mas é inútil. A enxaqueca vai continuar.

Desde meados de 2014, convivemos com mais um gigantesco escân-


dalo dentro do governo petista – o Petrolão. Trata-se do resultado
objetivo da união entre um Estado pesado e controlador com empre-
sários que romperam a barreira da ambição saudável e adentraram
o perigoso campo da ganância desmesurada, solo fértil para quem
quer controlar a economia e a política. Um pouco antes, sobreveio o
caso ainda não explicado da compra de uma refinaria pela Petrobrás,
em que, de forma suspeita, pagamos (nós, os pagadores de impostos)
muito mais do que o devido. Tudo resultado das negociatas entre rãs,
escorpiões, porcos, cobras, lagartos...

A
A compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras, tanto na transação
em si, quanto no que aconteceu após se to rnar de conhecimento público, é
dos atos mais constrangedores de nossa história administrativa. Nem enco-
mendando se conseguiria produzir semelhante sucessão de ações e reações

100 de abril de .
ESCORPIÕES E RÃS 181

que primam pela falta de decoro e pela hipocrisia. Atenção, jornalismo


nacional! Hora de acordar, rapaziada! O rolo é conhecido desde 2012! É
difícil entender as razões pelas quais a pauta dormiu nas gavetas durante
todo o ano de 2013.
Seja como for, o melhor ficou para o fim. Aconteceu no Congresso Nacio-
nal, com a disputa entre governo e oposição sobre a proposta de criar CPI
para investigar a operação. Como a medida se revelou inevitável, o PT partiu
para o contra-ataque, e quis investigar, também, o metrô de São Paulo e o
porto de Suape em Pernambuco. Foi uma antecipada confissão. Foi reconhe-
cimento pelo réu de que comprometedoras digitais estavam na cena do cri-
me. O que espera a sociedade de um partido político que respeite a própria
imagem diante de fato com tal magnitude? Que participe das investigações,
que controle o trabalho da oposição, que busque a verdade e, naturalmente,
que evite maiores explorações políticas dos fatos apurados. Em vez disso,
o PT quis tumultuar, embrulhar e inviabilizar a CPI, acrescentando-lhe ou-
tros objetivos que, supostamente, poderiam causar dano aos seus principais
opositores na corrida presidencial em curso: PSDB e PSB. Tudo num grande
esforço para “blindar a Petrobras”. A Petrobras? Me poupem.
A Constituição Federal não deixa margem para interpretações quando
afirma que as CPIs devem tratar “de fato determinado” e não de fatos in-
determinados. Se o PT tem conhecimento de determinados fatos a merecer
investigação no metrô de São Paulo e no porto de Suape, envolvendo recur-
sos federais, por que não pediu oportunamente as respectivas CPIs? Por que
fazê-lo como contraponto à CPI sobre a refinaria de Pasadena? Ao agirem
como estão agindo no caso, o PT e seus associados no Congresso Nacional
tornam inequívoco perante a opinião pública que, de fato, houve rolo no
negócio. Caso contrário, fosse a operação sábia e proba, economicamente
interessante, como chegaram a afirmar alguns agentes partidários na frente
de batalha das redes sociais, nada melhor do que uma CPI para comprová-
-lo e retocar a imagem da presidente. Afinal, ela foi vendida a seu eleitorado
como gestora competente. Mas autorizou a Petrobras a pagar mais de um
bilhão de dólares por uma lebre que mia.
Todo esse imbróglio serve para mostrar o quanto é maléfica a confusão
que fazemos no Brasil entre Estado, governo e administração pública, como se
fosse tudo a mesma coisa. Não contentes, embrulhamos o pacotepara presen-
te e entregamos a um partido político. Só pode dar nisso! Que raios tem um
partido político a fazer na Petrobras? E não só aí, mas também no Banco do
Brasil, no BNDES,em dezenas de estatais e em todoo aparelho administrativo
182 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

federal, ocupando dezenas de milhares de postos que deveriam ser providos


por servidores de carreira com a formação adequada?

O
Vamos ver se consigo. É muito difícil que uma dissertação sobre política
não seja lida sem que os leitores se instalem, provisoriamente ao menos,
nas respectivas trincheiras. O que hoje trago para este espaço, no entanto,
é uma reflexão sobre modos de ver a política que independem de devoções
governistas ou oposicionistas e de alinhamentos ideológicos por tal ou qual
banda. Estou fazendo uma aposta em que conseguirei ser entendido na pers-
pectiva que proponho.
Vamos lá. Todo governante, sentado na cadeira das decisões, se defronta
com esta questão: onde gastar os escassos recursos de que dispõe? Abrem-
-se, de hábito, dois caminhos. Num deles, os recursos podem ser gastos na
conservação do estoque de bens públicos disponível, no aumento da oferta
de serviços com ampliação dos empregos do setor, nas despesas de custeio
e na distribuição de favores. No outro, priorizam-se os investimentos como
forma de ampliar, através deles, as perspectivas do futuro.
O tema é relevante e se expressa na opção entre a possibilidade de gover-
nar mais para o presente e menos para o futuro ou de governar mais para o
futuro e menos para o presente. Numa analogia bem singela, seria escolher
entre comer feijão com arroz hoje ou preparar uma feijoada para amanhã.
A experiência política mostra que o feijão com arroz é eleitoralmente mais
bem sucedido que a feijoada, embora a feijoada fique na memória e entre
para a história. Há muitos anos, muitos anos mesmo, a feijoada foi parar
num canto remoto do cardápio nacional – e no Rio Grande do Sul não é
diferente – graças
mais modestos a uma taxa
ingredientes de investimento
de uma feijoada que incapaz de providenciar
mereça essa os
designação. As
propagandas oficiais podem sobrevalorizar o que é investido, mas não pas-
sam disso mesmo: propaganda oficial. Aponto para a falência da educação
no país e não preciso dizer mais nada para provar o que digo.
É na bandeja do dilema aqui expostoque o prato da oposição é servido. Se
o governante optar pela feijoada, a oposição reclamará da falta do feijão com
arroz; se ele escolher o feijão com arroz, a oposição cobrará a feijoada. E não

101 de janeiro de (publicado no jornal Zero Hora).


ESCORPIÕES E RÃS 183

há como escapar desse conflito, a menos que – numa situação absolutamente


ilusória e imprudente – se proceda como seexistissem recursos para fazer bem
as duas coisas. É a usina do endividamento, da insegurança e do descrédito.
Não é por outra razão que a política deve ser confiada aos estadistas.
Quem vota em qualquer um por razões menores deve, mesmo, ser gover-
nado por pigmeus. Para cuidar apenas do custeio, um gerente serve; para
decidir sobre investimentos, precisa-se de um planejador; para escolher entre
o bem e o mal basta ter uma consciência bem formada. Mas para priorizar
despesas, escolher o mal menor (porque o bem nem sempre está disponível
ou acessível), fazer na hora certa a opção correta entre custeio e despesa, se
requer um estadista.
E nós só os teremos quando os partidos compreenderem que eleição é um
episódio do processo democrático. A eleição passa mas a política permanece.
E a política só corresponderá às expectativas sociais quando os partidos se
preocuparem com formar (e os eleitores com eleger) estadistas. Eles existem e
estão por aí, cuidando de outras coisas, porque a política não lhes dá espaço.
Enquanto isso, ora falta feijão, ora falta arroz e afeijoada virou um sonho.

Mas não é só de políticos que os escorpiões se alimentam.


Vejamos o vício nacional pela carreira pública, por mamar em tetas
estatais. Trata-se de elemento que facilita a tomada do Brasil pelos
maus brasileiros. Quem detém o poder político conta com uma legião
de carreiristas dispostos a tudo para defender seu quinhão.

M
Escrevi, há coisa de duas semanas, que o longo braço de Brasília não
respeita distância nem tradição. Onde houver uma unidade administrativa,
lá estará presente a interferência federal dispondo sobre todos e sobre quase
tudo. Vivemos um federalismo de faz de conta, num país continental que
reverencia o poder central e que adora o novo bezerro de ouro, o cofre para
onde flui 23% do PIB nacional, ou 63% dos impostos pagos pela nação.
Quem andar ali na volta, com pires na mão, ganha uma beirinha. Quem
chegar de jatinho particular ganha um beirão.

102 de março de .
184 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

As mazelas do nosso federalismo não se restringem à tesouraria. Veja-se


o que aconteceu com a tentativa de impor a todo o setor público um teto
salarial. O que parecia corretíssimo para acabar com os marajás se revelou
completa frustração. O teto ficou mais furado que o telhado de zincocantado
em “Chão de estrelas”. No passo seguinte, arrastou consigo, de Roraima ao
Rio Grande do Sul, verdadeira multidão de servidores decarreiras nas quais a
distância entre o teto e o piso se mede em milímetros. Resultado: uma encor-
pada de grande vulto nas despesas de pessoal da União, estados e municípios.
Não sei se não teria saído mais barato continuar custeando os marajás...
É que as coisas, no Brasil, funcionam às avessas. Evitamos o que dá certo
e reproduzimos o que deu errado. Assim, o Congresso Nacional, pelo enge-
nho e arte dos peritos em conceder benefícios a alguns e mandar as contas
para todos nós, abriu novos filões nessa mina de votos. Deixou de lado o teto
e passou a estabelecer “pisos nacionais” para algumas categorias suficiente-
mente numerosas, capazes de retribuir com balaio de votos a amável cortesia
parlamentar. O piso nacional dos professores, por exemplo, foi garimpado
nessa jazida da demagogia federal.
Ninguém se preocupa com a capacidade de pagamento dos Estados e
Municípios. Ninguém se preocupa com remunerar bem os bons professo-
res. Meritocracia? Nem pensar! É palavrão no vocabulário das corporações.
Apoiar a mediocridade rende muito mais. Votos para uns e conta para os
contribuintes dos poderes locais.
Passou da hora de o Congresso Nacional pôr freio nisso. Mas não põe. E já
há quem pense assim: se é para centralizar tudo, se a autonomia dos estados e
municípios não émais desejável, se é para bebermos, sempre, na mesma e única
fonte dos sistemas únicos, se os adjetivos “estadual” e “municipal” são sinôni-
mo de indigência e insuficiência, acabemos, então, com a intermediação nessa
Federação de engodos e adotemos a forma unitária de Estado. Estaremos ao
mesmo tempo extinguindo a democracia, claro. Mas se ninguém percebe o que
está acontecendo, se ninguém vê que nos imolamos voluntariamente no altar
do poder central, se ninguém defende a Federação, quem se importará? Só eu?

Outros fiéis companheiros dos companheiros são os órgãos públicos


aparelhados. Há exemplos reveladores.
Um é o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que ora “se-
gura” informações desfavoráveis ao Governo Federal, ora apresenta
ESCORPIÕES E RÃS 185

dados confusos e equivocados, que depõem em favor das ações go-


vernamentais.
Em setembro de 2014, a revista Veja revelou estudo engavetado pelo
IPEA e que desmancha uma das principais bandeiras petistas: a con-
centração de renda aumentou nas gestões de Lula e Dilma.103
Meio ano antes, o IPEA causou alvoroço nacional ao divulgar que
65% dos brasileiros concordariam que mulheres com roupas “reve-
ladoras” merecem ser estupradas. Feito o estrago, a verdade de que
o índice era de 26% foi publicada, mas não desfez o acirramento de
ânimos, não desagravou o estado de guerra de todos contra todos em
que vivemos.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também dan-
ça conforme toca a banda estrelada. Em abril de 2014, suspendeu a
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios simplesmente porque
ela revelou que a taxa de desemprego era superior à apresentada pela
Pesquisa Mensal de Emprego.104
Essas são, sem dúvidas, rãs especiais. Elas manuseiam planilhas!

P
Há bem poucos dias, o IPEA e o IBGE qualificaram-se para a linha de
tiro da oposição. As duas instituições encarregadas de fornecer números aos
analistas nacionais e às políticas dos setores público e privado foram acu-
sadas de sujeição às conveniências eleitorais do governo e de seu partido.
Quando isso ocorre em qualquer instituição permanente do Estado ou da
administração pública, tem-se um verdadeiro sequestro, com severo dano ao
interesse nacional. Aliás, reiteradamente, as redes sociais estampam imagens
de policiais federais também manifestando contrariedade com a intrusão
do partido do governo nas atividades da corporação. Embora as denúncias

103 Disponível em: veja.abril.com.br/noticia/economia/concentracao-de-renda-aumentou-nos-


-ultimos-anos-de-gestao-do-pt.
104 Disponível em: veja.abril.com.br/noticia/economia/erros-e-atrasos-marcam-pesquisas-do-
-ibge-e-ipea.
105 de abril de (publicado no jornal Zero Hora).
186 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

envolvendo a Petrobras sejam, agora, a face mais visível do fenômeno que


descrevo, tais fatos se reproduzem e multiplicam na imensa estrutura dos
poderes públicos. É para proporcionar isso que o Estado não para de crescer.
E de encarecer. É por isso que os partidos se multiplicam como coelhos e o
tamanho do Estado avança na mesma cadência. Cada peça dessa imensa
máquina, pequena ou grande, responde a algum partido em primeiríssimo
lugar. O bem nacional vem depois; ou simplesmente não vem.
Recordo os meses que antecederam à eleição de 2010. Cumpriu-se um
cronograma de notícias oficiais, boas para o governo, divulgadas nos mo-
mentos propícios e propagadas pela mídia sem a devida análise crítica. Tudo
para nos convencer de que o Brasil era uma ilha de prosperidade e que nosso
PIB cresceria segundo aqueles números sempre superiores a 4%.
Por incrível que pareça, não entra no campo das análises políticas o mo-
tivo pelo qual se estabelece no Brasil esse assalto partidário a tudo que é pú-
blico. Atribui-se ao velho patrimonialismo algo que tem causa institucional.
Para bem entendermos o que acontece é preciso distinguir o que é Estado,
o que é governo e o que é administração pública. Estado é um ente político
de existência permanente, geograficamente delimitado, com poder soberano
em relação a um povo que ali habita, zelando pelo bem comum num sentido
amplo. O governo desempenha apenas uma das várias funções do Estado;
cabe-lhe cumprir as leis e definir políticas, programas e ações para atender o
bem comum nas circunstâncias dadas e por um período de tempo limitado.
A administração, por seu turno, é o aparelho funcional através do qual tais
políticas, programas e ações são executadas, atendendo de modo continuado
os sucessivos governos.
Nas democracias, como se pode presumir, o Estado, por ser de todos,
não deve ter partido. A administração, por servir a todos, tampouco. Assim
sendo, o governo e só o governo pode ser provido pelos partidos com seus
partidários. Por isso mesmo ele é escolhido numa eleição entre as legendas e
tem prazo de validade limitado. Deveria saltar dos enunciados acima o ab-
surdo em que incorre nosso modelo institucional quando, além do governo,
atribui a uma única pessoa e a seu partido também Estado e o aparelho da
administração pública.
É a raposa cuidando do galinheiro. É a festa do poder. É também por isso
que quando a luz se acende sobre a festa de ontem, o salão está repleto de
sinais da orgia. E como só ao povo, pagador da conta, interessa moralizar
as instituições, nada muda para que tudo fique como está. Assim prossegue
nossa democracia, por intolerável que pareça.
ESCORPIÕES E RÃS 187

As pesquisas, os estudos, os números maquiados pelos institutos ofi-


ciais até podem enganar por um tempo. Mas a realidade vem a galope.

O
Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que há no
teu próprio olho?
— Lucas 6, 41

Numa de suas parábolas, Jesus propõe a indagação acima para induzir os


circunstantes a refletir sobre a própria conduta. A imagem contundente que
usou pode ser aplicada, o tempo todo, às mais variadas situações porque,
de fato, nossa atenção aos erros alheios é inversamente proporcional à que
dedicamos aos erros que cometemos.
Mas não é sobre moral ou religião que escrevo. É sobre o que está acon-
tecendo com a economia brasileira neste momento em que há cada vez mais
registros sobre o processo de desindustrialização em curso no Brasil. Quan-
do comecei a falar nisso, ainda em 2010, em programas de rádio e tevê, as
pessoas me olhavam como se uma ave de mau agouro tivesse pousado no
microfone. Só faltava me dizerem: “Xô!” Era um tempo de euforias eleito-
rais, quando fazia parte do jogo afirmar que estava tudo muito bem, ainda
que não fosse assim. Era um tempo em que o devidamente aparelhado IPEA
cuidava de servir à mídia um indicador positivo por dia. Hoje, é a própria
indústria brasileira de bens de consumo que proclama: está difícil exportar
porque nossos preços não são competitivos e resulta impossível vender no
mercado interno pois grande número de produtos importados chega às pra-
teleiras com preços inferiores aos custos locais de produção.
Cansei de advertir que:
1. que estávamos retornando ao perfil de país produtor de bens primá-
rios que tivemos na primeira metade do século passado;
2. que voltávamos a ser meros exportadores de matérias-primas;
3. que o Brasil não era valorizado lá fora como fornecedor, mas como
mercado;

106 de março de .
188 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

4. que uma economia baseada na venda de commodities não paga bons


salários para a massa trabalhadora e não gera desenvolvimento social
sustentável;
5. que, diferentemente dos Estados Unidos, nós não podíamos nos dar
ao luxo da desindustrialização porque ainda obtínhamos notas de re-
provação em desenvolvimento tecnológico.
Pois, mesmo diante desse quadro, continuamos apontando cisco no olho
dos outros. “O culpado é o câmbio!” “Com esse dólar não tem jeito!” “O
dólar e o euro estão subapreciados porque convém às exportações dos res-
pectivos países!” “A culpa é dos ricos!” “A culpa é dos ianques!” “A culpa é
dos outros!” “Eles não cuidam de seus desequilíbrios fiscais!” “Eles – ó, eles!
– seguem a Lei de Gerson e querem vantagem em tudo...”
E a trave no nosso olho? Como pode a sexta economia mundial responder
por pouco mais de um por cento do comércio internacional? Pois é. Como
pode? Anote aí, leitor: mesmo com esse dólar, tivéssemos feito o que nos
corresponde, conseguiríamos ser competitivos além das commodities (que
compõem
as traves noumnosso
mercado faminto,
olho são eminentemente
irritantes comprador).
e causam cegueira. Com No entanto,
educação de
baixíssimo nível; recursos humanos operosos mas pouco produtivos; trans-
portes usando o modal mais caro e em más condições, sem ferrovias nem
hidrovias; energia caríssima apesar de dispormos de fontes hidroelétricas em
abundância; carga tributária chegando a 37% do PIB e um sistema oneroso
de pagamento e controle; a maior taxa de juros do mundo; e por aí vai – com
tudo isso, como ser competitivo? Tudo que descrevi neste parágrafo é res-
ponsabilidade nossa e muito pouco foi diligenciado. É a trave no nosso olho.
Tivéssemos feito o dever de casa, conseguiríamos ser competitivos e faríamos
rodar nossa indústria mesmo com o dólar no patamar atual. Mas preferimos

apontar o cisco nos olhos da Europa e dos Estados Unidos.

Outra “classe” abnegada em servir aos maus brasileiros é a dos “ar-


tistas”. Não nos faltam músicos, atores e escritores dedicados a trans-
formar sua “arte” em panfleto político.
Puggina fala de um espécime.
ESCORPIÕES E RÃS 189

U
Meus leitores habituais talvez recordem do artigo que escrevi recentemente
com o título “Os culpados pela pobreza”. Nesse texto, entre as causasda cons-
trangedora miséria persistente no país, incluí os luxos e requintes de certos
palácios construídos
E citei como exemplopara acolherdoosTSE
o prédio altosemescalões dos“uma
Brasília, poderes
obradaderepública.
R$ 328
milhões, na qual o escritório do comunista Oscar Niemayer abocanhou R$ 5
milhões, graças ao monopólio de projetos que estabeleceu sobre a Capital”.
Esse relato suscitou reação indignada de um leitor que se confessou comunista
e me interpelou sobre a fonte de tão destrambelhada e escandalosa informa-
ção. Esclareceu-me que Niemayer era um comunista convicto, que vivia com
simplicidade e destinava seus bens aos necessitados. E me adiantou que havia
tentado, sem êxito, falar com o mestre (com quem sugeria manter relações de
camaradagem) para adverti-lo sobre minhas aleivosias. Niemayer não o aten-
dera, disse-me, por estar hospitalizado.
Em resposta, indiquei-lhe algumas palavras que, digitadas no Google,
lhe forneceriam, em abundância, a confirmação do que eu escrevera. Horas
depois o velho comunista retornou em outro tom. Se Niemayer cobrara
aquele robusto valor era porque o projeto valia isso mesmo, tanto assim
que a proposta fora aceita pelo governo. Pronto! De uma hora para outra,
perante o mesmo fato, a indignação desapareceu dando lugar a uma justi-
ficativa. Sem se dar por vencido, contudo, fez emergir nova suspeita sobre
meu texto: de onde tirara eu que o velho arquiteto exercia um monopólio
sobre os projetos públicos na capital da república? Que irresponsabilidade
minha! Com toda a paciência, ensinei-o a encontrar ainda mais abundante
informação sobre o assunto.
Quando eu estava dando o papo por encerrado, o sujeito volta à cena,
numa repetição da farsa anterior, transmudando a indignação em explica-
ção: Oscar Niemayer era o maior arquiteto do país e tinha todo o direito
de projetar em Brasília quantos prédios quisesse. E, mais uma vez, fingiu-se
de vitorioso, “denunciando” que um dos relatos sobre esse monopólio es-
tava em coluna do jornalista Cláudio Humberto (“jornalista do presidente
Collor, Dr. Puggina, que horror!”). E com esse achado na gaveta dos argu-
mentos ele pretendeu desqualificar dezenas de informações sobre o mesmo
assunto. Camarada é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito.

107 de maio de .
190 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Achei-me, então, no direito e na obrigação de desmascarar toda aquela


retórica de botequim da Lapa. Mostrei-lhe o quanto sua ética estava subme-
tida ao partido, à ideologia e à propaganda.
Disse-lhe que os comunistas nunca agiram de outro modo. Afirmei-lhe que,
com essa ética, mataram 100 milhões de pessoas no século passado sem que
uma sequer lhes pesasse na consciência, porque, afinal, tudo se tornava justo e
santo no sagrado interesse do partido e da ideologia. E lhe pedi, dado que ele
me alinhava entre seus desafetos, que,tendo oportunidade, me poupasse a vida.
Por que relato este diálogo travado por e-mail ? Porque eu o considero
absolutamente característico da moralidade dos militantes comunistas, que
muitos insistem em afirmar que, ou não existem, ou, se existem, são dife-
rentes disso aí.

E os especialistas? Quantas vezes não nos sentimos tentados a con-


cordar com disparates porque na manchete da notícia continha a
expressão mágica “especialistas confirmam”. Esse recurso de impo-
sição de uma
no assunto temtese através
nome: do “carteiraço”
argumentum da aclamada
ad verecundiam, autoridade
ou argumentum
magister dixit. Isso é erística, uma forma retórica rasteira, que consiste
em atordoar o interlocutor despreparado e conquistar a plateia que
não domina plenamente o assunto. É arma corrente de quem quer
nos atordoar e conferir correção às ações dos maus brasileiros. É a
intelectualidade a serviço da revolução silenciosa. Mas Puggina os
desmascara com facilidade.

C
Omitirei o nome da publicação e dos autores do artigo que vou criticar.
Não me parece sensato divulgar fontes de equívocos. Direi apenas que se
trata de uma publicação “católica” e que o artigo abordava o tema da cor-
rupção, definindo a ética do “ganhar sempre mais”, que seria própria do
capitalismo, como determinante da corrupção.
Tal tese é um disparate sob quaisquer ângulos de observação, e os autores
devem saber. Mas estão se lixando. O que pretendem é levar os leitores a

108 de abril de .
ESCORPIÕES E RÃS 191

extrair conclusão errada de premissa falsa: se o capitalismo causa corrupção,


então, na vigência de seu suposto antônimo – o socialismo – a sociedade se
conduziria por elevadíssimos valores morais. Um verdadeiro paraíso recons-
truído. Ora, o desejo de ganhar mais não é uma especificidade da economia
de mercado, ou livre, ou de empresa (prefiro designar o sistema econômico
com esses nomes que lhe atribuiu João Paulo II). É um anseio da pessoa
humana, em todos os tempos e em qualquer sistema. Resumamos o assunto,
então, em alguns tópicos.
Duvido que os redatores dessa fraude intelectual recusem um aumento
de salário, um bom negócio ou uma oportunidade de comprar por menos ou
vender por mais.
Como consequência de um sistema de economia livre, de empresa, os
agentes econômicos dedicam-se com maior empenho ao que fazem, a criati-
vidade aumenta, a produtividade cresce, os custos decrescem. Beneficiam-se
produtores e consumidores.
Gera-se um saudável resultado ético, pois a competência é premiada com
resultados positivos e a incompetência punida com prejuízos.
Há uma relação histórica, ademais, entre economia de mercado e de-
mocracia, pois o grande senhor da economia de mercado é ele mesmo, o
mercado, formado por milhões e milhões de pessoas, com suas expectativas,
seus anseios, etc.
Contudo, estava certo o papa João Paulo II quando, escrevendo sobre o
tema, ensinava que se o núcleo da liberdade for apenas econômico – e não
ético e religioso (papel das instituições políticas e jurídicas) – ocorrem situ-
ações de opressão econômica, formam-se monopólios, cartéis, mecanismos
de corrupção, e outras enfermidades sistêmicas. Com efeito, absolutamente
livre, o mercado padece dos mesmos males que acometem a liberdade indi-
vidual na ausência de toda restrição.
Nas economias planificadas, socialistas, o anseio de “ganhar mais” é
tolhido pela centralização estatal. Como consequência – e a história o de-
monstrou com muita clareza – a produtividade diminui, a iniciativa acaba,
a economia fica estagnada, a pobreza se multiplica de modo irremediável, o
muro cai, os governos tombam, os intelectuais do socialismo se escondem.
O fracasso socialista é tão óbvio que Leão XIII o previu três décadas an-
tes de esse sistema ter sido tentado na Rússia. E João Paulo II, tendo vivido
sob tal realidade, proclamou-o “falido”.
Da mesma forma que existe uma relação direta entre democracia e eco-
nomia de mercado, existe, também, uma relação direta entre economias
192 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

planificadas e totalitarismos. E a razão é simples: para coibir aquele desejo


natural de “ganhar mais”, torna-se necessário criar uma estrutura estatal
opressiva. Quando se concentram no Estado tanto o poder político quanto o
econômico, nenhum poder resta à sociedade e à pessoa na sociedade.
Ademais, com a queda do Muro, foi possível conhecer o nível de corrup-
ção instalado nas repúblicas socialistas, corrupção que também se espraia
pela sociedade como defesa perante a escassez e a miséria geral. Quem quiser
conhecer isso de perto, ainda hoje, vá a Cuba (aonde fui três vezes), ou à
Coreia do Norte (aonde não tenho coragem de ir).
Bastariam essas poucas evidências para desmascarar a malícia do texto a
que me refiro. Mas há nele um erro ainda muito mais grave: como pode um
cristão afirmar que o capitalismo corrompe – e levar o leitor a presumir que
o socialismo purifica, como se nele se extinguisse o pecado srcinal?
Corrupção existe em qualquer sistema político ou econômico, embora
alguns a favoreçam mais do que outros. E, nesse caso, o socialismo e os
totalitarismos são imbatíveis. Mas em quaisquer regimes ou sistemas existe
o pecado, os que a ele se entregam, e os justos que se empenham em serem
bons. Se tudo fosse questão de sistema, Cristo teria proposto um, em vez de
perder seu tempo propondo-se a si mesmo, ao custo em que o fez.

S
Acho curioso o modo como por vezes são levados os debates. Se eu cri-
ticar os Estados Unidos pela guerra no Iraque ou pelo que acontece na pri-
são de Guantánamo, ninguém na face da terra me cobrará uma crítica ao
regime cubano. Ninguém. Todos aceitarão que exerço um direito natural
de opinião. Mas se disser qualquer coisa sobre a miséria, o totalitarismo e
apara
opressão
cobrarque pesa sobre
posição sobreabusos
a sociedade cubana
praticados imediatamente
pelos se forma
EUA. Entenderam? fila
Junto
à intelectualidade brasileira, para falar mal do comunismo tem que pagar
pedágio.
Será o comunismo, como proclamam, uma utopia, uma ideia generosa?
Seus 100 milhões de cadáveres devem ficar se revirando na cova. Foi um ideal
alheio que lhes custou bem caro! Infelizmente mal conduzido, amenizam al-
guns companheiros. Que tremendo azar! Uma ideia tão generosa e não pro-

109 de maio de .
ESCORPIÕES E RÃS 193

duziu um caso medíocre que possa ser exibido sem passar vergonha. Durante
um século varreu com totalitarismos boa parte da Ásia e da África, criou re-
voluções na América Ibérica, instalou-se em Cuba e não consegue apresentar
à História um único, solitário e singular estadista. Que falta de sorte! Tão
generoso, tão ideal, tão utópico, e nenhuma coisa parecida com democracia
para botar no currículo. E há quem creia que ainda pode dar certo.
Quanto ao sistema econômico que ficou conhecido como capitalismo (que
não é sistema político nem ideologia), afirmo que seu maior erro foi aceitar
conviver com uma designação deplorável, que lhe foi atribuída por Marx.
Contudo, chamem-no assim, se quiserem, embora, a exemplo de João Pau-
lo II, eu prefira denominá-lo “economia de empresa”. Suas vantagens sobre
um modelo de economia centralizada, estatizada, são irrefutáveis na teoria e
certificadas pela prática dos povos. É um sistema que não foi concebido por
qualquer intelectual. É um sistema em construção na história, muito compatí-
vel, também por isso, com a democracia. Promove a liberdade dos indivíduos
e a criatividade humana. Reconhece aimportância do mercado. A maior parte
dos países que adotam esse sistema atribui ao Estado, em sua política e em seu
ordenamento jurídico, a tarefa de zelar pelo respeito às regras do jogo em pro-
teção ao bem comum. Aliás, quem quiser organizar as coisas desconhecendo
a autonomia do econômico, submetendo-o a determinações que contrariem o
que é da natureza dessa atividade (lembram dos tabelamentos de preços?) vai
se dar mal. Vai gerar escassez, câmbio negro, fome. Digam o que disserem os
arautos do fracasso do sistema de economia de empresa em vista da crise que
afeta alguns países, os embaraços deste momento só se resolverão com ativida-
de empresarial, comércio, pessoas comprando, indústrias produzindo, pesqui-
sa e investimento gerando, expandindo emultiplicando a atividade produtiva.
Outro dia, nas redes sociais, alguém acusou o capitalismo de haver matado
milhões. E não deixava por menos. Dezenas de milhões! O sistema? Onde? O
capitalismo pode não resolver muitos casos de pobreza. Mas essa pobreza sem-
pre terá sido endêmica, cultural, estrutural, histórica, geográfica, política. Não
se conhecem sociedades abastadas que tenhamempobrecido com as liberdades
econômicas. Tampouco confundamos economia livre, de empresa, com colo-
nialismo ou mercantilismo. Qualquer economia que queira prosperar e realizar
desenvolvimento social sustentável vai precisar do empreendedorismo dos em-
preendedores, da geração de riqueza e de renda, e de coisas tão desejáveis quan-
to produção e consumo, compra e venda, lucro, salário e poupança interna.
Quem quiser atraso vá visitar os países que ainda convivem com eco-
nomias centralizadas: Coreia do Norte e Cuba, onde só o armamento da
194 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

polícia e das forças armadas não é sucata. Ali se planta com a mão e se mata
lagarta com o pé. E o povo vive da mão para a boca, prisioneiro do “ideal”
generoso que alguns insistem em impingir aos demais.
O Brasil vem sendo governado por socialistas e comunistas há mais de
uma década. Embora não ocultem, no plano da política, as intenções tota-
litárias que caracterizam sua trajetória, num sentido geral vêm respeitando
os fundamentos do sistema econômico no qual ainda engatinhamos. E, algo
que muito os agrada, vão extraindo dividendo político de seus resultados.
Mas procedem com indisfarçável esquizofrenia. Agem de um modo, falam
de outro e vão enganando os bobos.

Há, também, simpatizantes do estado de coisas entre a bandidagem


mais escancarada. Como se vê, não sobra nada.

C PCC
Somos caça. Diariamente, ao colocarmos o pé na calçada, ao sairmos de
nossa humilde toca ou de nosso bunker familiar, viramos caça. Se tudo cor-
rer bem, retornamos sãos e salvos por não termos sido alvo dos predadores.
Nem por isso teremos deixado de ser caça. Tão caça quanto qualquer lebre
corredeira. Saiba: no mundo civilizado não é assim.
O notório agravamento da insegurança socialmente percebida tem profun-
das raízes ideológicas. Aliás, no Brasil (e no Rio Grande do Sul mais do que em
qualquer outra parte), tudo é desgraçadamenteideologizado. Da religião ao chi-
marrão. Então, algo que deveria merecer consistente unanimidade por urgente
interesse público, ou seja, o combate ao crime e à impunidade, o encarceramen-
to dos bandidos,
a redução o cumprimento
da maioridade penal, das penas, a extinção
a ampliação dahumanas
das forças farsa do semiaberto,
e materiais
das corporações policiais, é travado por argumentos ideológicos. Quais? Ora,
não ensinava Proudhon que a propriedade é um roubo? Não frisaram Marx e
Engels que abolir a propriedade é o resumo do comunismo? Não creem os que
abraçam essa doutrina que a criminalidade ou se confunde inteiramente com a
luta de classes, ou é um subproduto dela? Quando tratava da luta declasses, não
abraçou-se Marx à frasede George Sand – “Vitória ou morte! Guerra sangrenta

110 de julho de (publicado no jornal Zero Hora).


ESCORPIÕES E RÃS 195

ou nada!”? Como pode um país saturado de marxismo entusiasmar-se com a


tarefa de sustar qualquer instrumento da “reformulação da sociedade”?
Há poucos dias, assisti na tevê à entrevista feita com uma senhora cuja
atividade econômica consistia em garimpar e revender rejeitos de um lixão.
Com isso, cuidava dos filhos, comprou um automóvel e traçava projetos
para cursar faculdade. Na perspectiva da luta de classes, essa admirável pes-
soa é uma burguesa alienada, ao passo que o assaltante de nossas ruas é um
militante da justiça social, um soldado da causa. E merece toda a leniência
que lhe é proporcionada pelas nossas instituições. Não veem elas o crimino-
so como um filho bastardo e infeliz da economia de mercado e do sistema de
livre empresa? É exatamente por isso que as instituições, maculadas por uma
ideologia insana, são tão indulgentes com os criminosos enquanto, assimetri-
camente, relegam ao mais tenebroso abandono as suas vítimas.
Qualquer líder do PCC ou do Comando Vermelho, consultado sobre nos-
sas leis penais, instituições policiais e sistema penitenciário, dirá: “Melhorem
a hotelaria. E não mexam no resto, que está bom demais.” Ou não?

Os gananciosos são os idiotas úteis que a esquerda pediu a satanás.


No Brasil, esses sujeitos que se aliam a quem quer que seja pelo di-
nheiro são representados pelos políticos tradicionais, patrimonialis-
tas, e pela pequena parcela de empresários que se associam ao Capita-
lismo de Estado petista. Mas há deles pelo mundo também.
Nestes meados de 2015, enquanto estouram os escândalos de corrup-
ção na Federação Internacional de Futebol (FIFA),111 lembremos que
Puggina bem avisou...

E
Quando o Brasil festejou a realização da Copa de 2014 em nosso país
como se fosse uma dádiva dos céus, contei-me entre as raras vozes que suge-
riram devolver o brinde ao senhor Joseph Blatter, alegando que somos uma
nação amiga do futebol e não merecíamos tamanha punição. Qual! A pátria

111 Entenda: globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/ / /escanda-


lo-da-fifa-ponto-ponto.html.
112 de agosto de .
196 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

se tapou de orgulho e abraçou a imensa bronca como se o evento tivesse


outro mérito além de transferir dinheiro do contribuinte brasileiro, a granel,
como commodity, para as insaciáveis moegas da corrupção e da FIFA. É a
tradicional sociedade da experiência com a grana: quem tem a experiência
fica com a grana e quem tinha a grana fica com a experiência.
Num desses artigos, escrevi que “se fosse bom negócio, não faltariam
empreendedores interessados em bancar a festa porque sobra, no mundo,
dinheiro com tesão para o “crescei e multiplicai-vos”. O evento da FIFA,
no entanto, precisa dos governos em virtude da insaciável atração que essas
instituições têm por negócios que fecham no vermelho. À entidade promo-
tora reserva-se o filé: os direitos de transmissão e os patrocínios oficiais, que
negocia e protege com todo rigor. Na África do Sul chegou a processar uma
fabriqueta de pirulitos que envolveu o sofisticado produto num papel onde
se via uma bola de futebol, a bandeira do país e o número 2010”. Para que
todos saibam quem são os donos da bola.
A tradicional morosidade de tudo que, em nosso país, envolve provi-
dências do setor público, gerou aquele clima que fornece riqueza ilícita em
espeto corrido aos espertalhões. Toca a obra a qualquer preço! Bateu o pa-
vor e sumiu o pudor. Tentou-se até regulamentar a bandalheira, mostrando
em que sentido o Brasil é o país de todos. De todos os vivaldinos, de todos
os corruptos e corruptores, e de todos os anseiam viver simultaneamente à
margem e à sombra da lei.
Observe, leitor, que no setor público é exatamente como na sua casa. Os
cem reais gastos para assistir a um show, por exemplo, não podem ser usa-
dos no supermercado. Serão necessários outros cem reais para tais compras.
Se você for ao show e não houver outros cem para abastecer a despensa, a
alimentação escasseará. Pois bem, a irresponsável condução da política eco-
nômica do governo encurtou o cobertor das finanças públicas. Estamos na
base do “ou isto ou aquilo”. Os ministros se esbofeteiam retoricamente por
verbas porque já sabem que não há como atender simultaneamente aquilo
e isto. Então, passamos a conviver com uma realidade assustadora, indigna,
repugnante: para cada paciente do SUS ocupando um pedaço de chão dos
nossos hospitais, ou na fila de espera dos postos de saúde, temos um torce-
dor instalado em confortável poltrona nos luxuosos estádios exigidos pelos
donos da bola. Carro zero e dez mangos no tanque! Tudo bem à moda de
Brasília e alinhado com a cada vez mais pervertida escala de valores da so-
ciedade brasileira. É o circus sem panis.
ESCORPIÕES E RÃS 197

Além das parcerias internacionais orientadas pela ganância, há aque-


las celebradas ideologicamente. E os mais de 100 milhões de mortos
pela ideologia internacionalista por excelência – o socialismo – desco-
briram da pior forma o perigo disso.

Falemos da associação fundada por Lula e o absolutista cubano Fidel


Castro no início da década de 1990, a fim de restaurar a força socia-
lista na América Latina após a queda da União Soviética:
“O Foro de São Paulo é a mais vasta organização política que
já existiu na América Latina e, sem dúvida, uma das maiores do
mundo. Dele participam todos os governantes esquerdistas do
continente. Mas não é uma organização de esquerda como outra
qualquer. Ele reúne mais de uma centena de partidos legais e vá-
rias organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e à indústria
dos sequestros, como as FARC e o MIR chileno, todas empenha-
das numa articulação estratégica comum e na busca de vantagens
mútuas. Nunca se viu, no mundo, em escala tão gigantesca, uma
convivência tão íntima, tão persistente, tão organizada e tão dura-
doura entre a política e o crime. ”
— Olavo de Carvalho113
Além de se apoiarem politicamente e traçarem as estratégias de con-
quista ou manutenção do poder, o que influencia diretamente nos ní-
veis de liberdade e democracia, o Foro de São Paulo também compro-
mete as economias de quem participa do esquema. O caso do Brasil
é emblemático.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
se tem transformado numa agência disponível a volumosos saques
dos companheiros latino-americanos. Mesmo com uma infraestrutura
constrangedora de norte a sul, o Brasil tem financiado obras em países
cujas economias bolivarianas cambaleiam.
Já foram US$ 682 milhões para porto em Cuba, US$ 400 milhões
para hidrelétricas no Equador, mais de US$ 1 bilhão em obras na

113 Disponível em: olavodecarvalho.org/semana/ digestoeconomico.html.


198 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Argentina, US$ 2 bilhões em obras na Venezuela... A lista não termi-


na.114 (Aliás, tudo obra executada por empreiteiras envolvidas com o
escândalo do Petrolão.)
Enquanto nossas estradas têm mais buracos que asfalto, nossos por-
tos espantam exportações e segurança, saúde e educação subsistem
moribundos, jogamos dinheiro no colo de quem a História já tratou
de condenar.
Entendamos esse bando através de textos sobre Fidel Castro e o re-
gime comunista cubano, que, com Lula e o PT, coordena o Foro de
São Paulo e, por conseguinte, influencia diretamente a vida de todo
latino-americano.

F , H
Fidel Castro, enquanto esteve preso por sua participação no assalto ao
Quartel Moncada no ano de 1953, escreveu pequeno panfleto com o título
“A história me absolverá”, no qual afirmava que os povos têm o direito de
lutar contra regimes totalitários. No dia 9 de janeiro de 1959, ao tomar o
poder em Cuba, ele pronunciou estas palavras tranquilizadoras:
Y quiero decirle al pueblo y a las madres de Cuba que resolveré todos los
problemas sin derramar una gota de sangre. Le digo a las madres que nunca,
a causa de nosostros, tendrán que llorar.116

Desde então, sucessivas gerações de mães cubanas pranteiam seus filhos


presos, fuzilados, humilhados, submetidos a julgamentos stalinistas, tratados
como párias em seu próprio país, apenas por “conduta imprópria” ou seja,
por ouvirem rock, usarem cabelos longos, mascarem chicletes, serem homos-
sexuais ou exercerem o direito de externar opinião.
O regime cubano, desde o início, se constitui num divisor de águas entre
democratas e totalitários. Não foram necessários mais do que alguns meses

114 Veja mais obras dos companheiros latinos bancadas por você, pagador de impostos: spot-
niks.com/ -obras-que-o-bndes-financiou-em-outros-paises. [N. C.]
115 de agosto de .
116 “Quero dizer ao povo e às mães de Cuba que resolverei todos os problemas sem derramar
uma gota de sangue. Digo às mães que nunca, por nossa causa, terão de chorar.”
ESCORPIÕES E RÃS 199

para que esse divisor fosse aberto. É algo diante do que não se pode deixar
de tomar posição. Por isso (e por exemplo), cada vez que Lula vai a Havana
para agir como tiete de Fidel, mais evidente se torna a relação de conveniên-
cia que mantém com a democracia e seus valores. Recentemente, o regime
anunciou a libertação de algumas dezenas de presos políticos. Gente que
estava encarcerada havia anos por delitos de opinião. É de se perguntar:
Se havia razões para estarem presos, por que os soltaram?
Se havia razões para soltar, por que os prenderam?
Essa é a assustadora face do Estado opressor e policialesco que vi de per-
to quando, visitando Havana em 2002, estabeleci contato com os dissidentes
Oswaldo Payá, Marta Beatriz Roque, Félix Bonne e René Gómez. Vi-lhes o
medo (à exceção de Payá, todos os outros estiveram presos nos anos que se
seguiram). Acabei sob observação policial e fui filmado por agentes do Esta-
do cubano nos encontros que mantive, embora os locais fossem tão públicos
quanto o restaurante Il Gentiluomo.
Só agora, muito gradualmente, rompe-se o esquema de proteção monta-
do em torno do regime, da pessoa de seu Líder Máximo e da figura de Che
Guevara. Era uma verdadeira barreira montada com apoio de intelectuais,
jornalistas e ativistas de esquerda, dedicados a convencer a opinião pública
mundial de que a antiga Pérola do Caribe era bijuteria ordinária e de que o
inferno atual constitui um paraíso onde, com enorme afeição dos governan-
tes, se cultivam os mais elevados valores humanos. Ganhavam prêmios para
fazê-lo, esses mistificadores, e eram recebidos como príncipes na Ilha.
Li uma dezena de livros sobre Cuba antes de ir até lá pela primeira vez.
Todos dedicados a exaltação do regime. Em 2003, publiquei Cuba, a tra-
gédia da utopia e em 2006 recebi, enviado pelo autor, Edmílson Caminha,
um exemplar de Brasil e Cuba, modos de ver, maneiras de sentir, com uma
leitura comparada de 22 livros sobre aquele país editados no Brasil. Não é
um trabalho completo porque não inclui pelo menos cinco outras obras que
fazem parte do meu acervo. Em resumo do resumo: o capítulo que se refere
ao que escrevi leva o título de “Um livro declaradamente contra”. Como se
vê, sou um caso raríssimo: um autor brasileiro que foi a Cuba e não gostou
do que viu por lá!
Eis por que este conjunto de vídeos Improper Conduct (procure no You-
Tube) constitui um megafone visual, berrando verdades que não nos deixa-
ram conhecer. São relatos impressionantes sobre o desrespeito aos direitos
humanos imposto pelo comunismo ao bom e generoso povo cubano. Povo
que, na minha observação, após meio século sob o tacão castrista, desen-
200 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

volveu com maestria aquela triste capacidade que acaba sendo o elemento
anímico a sustentar a vida nos campos de concentração: a capacidade de não
pensar sobre a realidade em que se vive.

OL

Existem jornais detestáveis. Nenhum, porém, se compara com q ualquer


dos diários cubanos – o Granma e o Juventud Rebelde . Ambos são órgãos
oficiais. O primeiro é do partido e o segundo da juventude do partido.
Jamais alguém leu no respectivo noticiário local uma linha sequer que não
corresponda à opinião do governo sobre si mesmo. E todas as matérias
internacionais são retorcidas para caber na interpretação política e ideo-
lógica do regime. Por isso, merecem aplausos os raros jornalistas indepen-
dentes e comunicadores comunitários que, a duras penas e com grave risco
pessoal, enviam ao exterior informações sobre a difícil situação imposta
pela reumática gerontocracia que domina o país. O trabalho que realizam
cumpre dupla missão cívica. Na primeira, revela o que, de outro modo,
não se ficaria sabendo sobre o que acontece por lá. Na segunda, desnuda
a criminosa cumplicidade da “rede internacional de solidariedade a Cuba”
com a tirania, que há mais de meio século vem sendo e xercida sobre o bom
e sofrido povo cubano.
Os quase três milhões de turistas que vão a Cuba todos os anos pouco
veem da realidade local. Passeiam por Habana Vieja, almoçam no Floridita,
jantam na Bodeguita del Medio, tomam seus daiquiris e mojitos na varanda
do Hotel Nacional e mandam-se para as areias indescritivelmente brancas de
Varadero e Cayo Largo. Esse turismo é nada revelador, mas muito sedutor.
Aliás, certamente o errado sou eu que em várias idas à ilha nos últimos 12

anos limitei-me a estudar sua realidade social e política. Com tal interesse,
já parei em casa de família, nunca fiquei em hotéis de luxo, jamais fui àque-
las praias e sequer entrei nos dois badalados e mundialmente conhecidos
restaurantes que mencionei acima. Continuo convencido de que Cuba é um
inesgotável museu da ideologia. Havana é o Louvre do comunismo.
Quando lá andei em outubro do ano passado, percebi que a realidade so-
cial declinara ainda mais. Tudo precário e tudo escasso. O povo mais deses-
perançado. Contaram-me que tomavam banho e lavavam as coisas apenas

117 de julho de .
ESCORPIÕES E RÃS 201

com água por falta de sabão, sabonete e detergentes. Estavam com graves
dificuldades para a higiene pessoal. Quando voltei ao Brasil, pesquisei na
rede e fiquei sabendo que, no início de 2011, os sabonetes haviam saído da
“libreta” (aquela caderneta de racionamento que já vai para mais de meio
século) e ido para a “libre” ou seja, deviam ser adquiridos aos preços de
mercado. Meio dólar a peça, num país onde o salário mensal é de 14 dólares.
Num artigo que me chegou dias mais tarde, o autor chamava de liliputiano
esse sabonete, tão diminutas eram suas dimensões.
São informações que infelizmente não repercutem tanto quanto deveriam
na imprensa mundial. Uma jornalista me conta sobre certa paciente com pro-
blema dentário que não conseguia ser atendida no seu centro clínico porque
o local estava em falta de detergente para lavar os instrumentos. Há poucos
dias, leio que em Sancti Spíritus (cidade com cerca de 130 mil habitantes, na
região central da ilha) um grupo de mulheres disputou sabonetes a tapas e
bofetadas num armazém local. A baiana só parou de rodar com a chegada de
várias viaturas policiais. Alguns circunstantes que não participaram do fuzuê
comentaram que a permanente escassez e as longas filas que precisam ser en-
frentadas para tudo estão levando as donas de casa a esse tipo de descontrole.
Briga de rua pelo direito de comprar sabão? Sabão? Mas o sabão é um
dos produtos industriais mais antigos e simples da civilização! É usado desde
2500 anos antes de Cristo. A indústria de sebos e sabões está para a indústria
de bens de consumo assim como a roda e a manivela estão para a indústria
de bens de capital. Uma economia onde se disputa no braço o direito de
comprar sabão está a quilômetros da antessala do atraso. E não me venham
dizer que é por culpa dos ianques que em Cuba não conseguem misturar
sebo com soda cáustica.

Q ?
Cuba é bem mais do que uma ilha em forma de lagarto, plantada no meio
do Caribe. Cuba é um divisor de águas entre democratas e totalitários. Não
tem erro. Saiu em defesa de Cuba, começou a falar em educação, saúde e “blo-
queio” americano, deu. Não precisa dizer mais nada. O cara abriu a porta do
armário e assumiu. O negócio dele é o comunismo da velha guarda. Na me-
lhor das hipóteses, marxismo-leninismo; na pior emais provável, stalinismo.

118 de setembro de .
202 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Pois eis que Fidel Castro decidiu conceder longa entrevista ao jornalista
norte-americano Jeffrey Goldberg. Embora a pauta fosse o ambiente político
do Oriente Médio e o tom belicoso das posições de Ahmadinejad, Fidel gos-
ta de falar, e outros assuntos entraram na conversa. Não li toda a matéria.
Poucas coisas serão tão infrutíferas quanto conhecer a opinião de Fidel a
respeito de Ahmadinejad. Convenhamos. Horas tantas, o jornalista faz uma
pergunta absolutamente sem sentido e obtém por resposta algo que arran-
cou manchetes mundo afora. É dessas coisas que acontecem uma vez na vida
de cada jornalista sortudo.
A pergunta foi sobre se valia a pena exportar o sistema cubano para
outros países. Pondere, leitor, o absurdo da indagação: como poderia haver
interesse em exportar algo sem qualquer cotação no mercado mundial há
mais de três décadas? E Fidel saiu-se com esta: “O modelo cubano não fun-
ciona mais nem para nós.”
Como se percebe, há na frase sinceridade e falsidade. Sincero o reco-
nhecimento. Falsa a sugestão de que, durante certo tempo, o sistema teria
funcionado.
De todo modo, até o dia 8 de setembro, quando foi divulgada a observa-
ção do líder da revolução cubana, supunha-se que só ele, o líder da revolu-
ção cubana ainda levasse fé na própria obra. Dois dias mais tarde, diante da
repercussão internacional dessa sapientíssima frase, ele voltou atrás e disse
ter sido mal interpretado. Alegou que afirmara o oposto: o que não funcio-
naria é o capitalismo. E assim ficamos sabendo que os países capitalistas são
um desastre e os socialistas um sucesso de público e renda.
Entenda-se o velho. Aos 84 anos ele já não pode mais voltar atrás. Ven-
deu a alma a Mefisto e os ponteiros de seu relógio quebraram. Quando fez
uma primeira experiência com a sinceridade, deu-se mal. Coisa como para
nunca mais. Era preciso retroceder e apelar para o “fui mal entendido”. Está
bem, Fidel. Foste mal entendido. Mas ainda que tivesses sido bem entendido,
andaste bem longe do problema de teu país. Neste último meio século, as di-
ficuldades da antiga Pérola do Caribe, que transformaste num presídio, bem
antes de serem econômicas, são políticas! Mais do que a ineficácia de uma
economia estatizada, o que faz dó em Cuba é o totalitarismo. É a asfixia de
todas as liberdades. São as prisões por delito de opinião. São os julgamentos
políticos em rito sumaríssimo. É o paredón. É o aviltamento dos direitos
humanos (quem disse que eles se restringem a educação e saúde?). É a perse-
guição aos homossexuais. São os linchamentos morais. É haver um espião do
governo em cada quarteirão de cada cidade. É a dissimulação como forma
ESCORPIÕES E RÃS 203

de convívio social. É a falta de algo a que se possa chamar de vida privada.


É terem os estrangeiros, em Cuba, direitos que são negados aos cubanos. É
serem os cubanos cidadãos de segunda categoria em seu próprio país.
Há meio século – contam-se aí duas gerações – Cuba está submetida aos
devaneios totalitários de um fanático que, para maior dos pesares, agrupou
adeptos mundo afora. Esses adeptos atuaram na mais inverossímil e resistente
montagem publicitária que o mundo já viu, em tudo superior à soviética, que
desabou 21 anos atrás. Pois não bastasse a ressonância universal do fracasso, o
mundo se encanta quando Fidel declara que osistema econômico cubano não
funciona mais. Mas o problema de Cuba é outro e ele está longe de reconhecer.

Foi, pois, com os criadores da mais longeva ilha-presídio de que se


tem notícia que Lula, seu PT, PCdoB outras organizações de esquerda
se associaram.

N B , !
Dize-me a quem admiras. E eu te direi que isso me basta. Muito tem
sido escrito sobre as afeições do governo brasileiro no cenário interna-
cional. Eu mesmo já escrevi sobre a carinhosa saudação de Lula na 10ª
Reunião do Foro de São Paulo, em Havana, no ano de 2001: “Obrigado,
Fidel, por vocês existirem!”
E não satisfeito com tão derretida manifestação de afeto, Lula arre-
dondou o discurso com esta faiscante pérola: “Embora o seu rosto este-
ja marcado por rugas, Fidel, sua alma continua limpa porque você não
traiu os interesses do seu povo”. Que coisa horrível! E note-se: é uma
adoração coletiva.
ções de direitos Interrogue
humanos, qualquer
prisões membro do
de dissidentes, governoàssobre
restrições viola-
liberdades
individuais na ilha dos Castro. Verá que ele, imediatamente, passa a falar
de ianques em Guantánamo. Essa afinidade entre nossos governantes e
os líderes cubanos é carnal, como unha e dedo. Quando se separam, dói.
Noutra perspectiva, parece, também, algo estreitamente familiar. Filial,
como quem busca a bênção do veterano e sábio pai, fraternal na afini-
dade dos iguais, e crescentemente paternal, pelo apoio político, moral

119 de março de (publicado no jornal Zero Hora).


204 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

e financeiro à velhice dos dois rabugentos ditadores caribenhos. E haja


dinheiro nosso para consertar o estrago que a dupla já leva mais de meio
século produzindo.
Um pouco diferente, mas ainda assim consistente e comprometida, soli-
dária e ativa, a relação do nosso governo com o delirante Hugo Chávez e
seu fruto Maduro. Ali também se estendeu – e estendida permanece, reso-
lutamente disponível – a mão solidária do governo brasileiro. Pode faltar
dinheiro para as penúrias humanas do nosso semiárido, para um tratamen-
to menos indigno aos aposentados e pensionistas do país, para os portos e
aeroportos nacionais, mas que não faltem recursos para pontes, portos e
aeroportos na Venezuela e em Cuba. Parece, também, que entramos num
infindável ano bíblico de perdão de dívidas. Onde houver um tiranete afri-
cano ou íbero-americano em necessidade, lá vai o Brasil rasgar seus títulos
de crédito. Quando foi deposto o virtuoso Fernando Lugo, com suas cami-
sas tipo clergyman adornadas com barras verticais que lembravam estolas,
nosso governo experimentou tamanha dor que preferiu perder a amizade
dos paraguaios. A parceria se reuniu, expulsou o Paraguai do Mercosul e
importou não a Venezuela, mas o folclórico Hugo Chávez.
Eu poderia falar sobre o silêncio do Brasil em relação ao que a Rússia
está fazendo na Crimeia. Aliás, haveria muito, mas muito mais, do mesmo.
Mas isso me basta. Percebam os leitores que em todos os casos, a reve-
rência, o apreço, a dedicação fluem para as pessoas concretas dos líderes
políticos, membros do clube, e não para os respectivos povos. Não são os
cubanos, mas os Castro. Não são os venezuelanos, mas os bolivarianos
Chávez e Maduro. Não eram os paraguaios, mas Lugo. Não são os boli-
vianos ou os nicaraguenses, mas Evo e Ortega. Não são os povos africanos,
mas seus ditadores. Há algo muito errado em nossa política externa. Tão
errado que me leva a proclamar: não é o Brasil, senhores, mas é Lula, D il-
ma e seus companheiros!
Isso me basta. No entanto, ocorre-me uma investigação adicional, e para
ela eu peço socorro à memória dos meus leitores: você é capaz de identificar
uma nação ou um estadista realmente democrático, uma democracia estável
e respeitável, que colha dos nossos governantes uma consideração minima-
mente semelhante à que é concedida nos vários exemplos que acabo de citar?
Pois é, não tem.
ESCORPIÕES E RÃS 205

Q C
É uma encrenca. Tenho visto muita gente de esquerda opinar sobre Cuba
após uma viagem àquele país. Há os que, afetados por esclerose múltipla, de
etiologia marxista, não entendem o que veem e proclamam que voltaram do
paraíso. Outrosob
até desabafar, tipo segue dos
pressão a linha daquela“Tá
familiares: senhora que entrou
bom. Aquilo é umaemdroga,
mutismo
mas
não posso ficar dizendo, tá?” Tá, senhora, eu a entendo, apesar de, pessoal-
mente, não considerar aquilo uma droga. Droga é o regime. O povo cubano,
submetido ao arbítrio e aos humores de uma ditadura que já leva mais de
meio século, é um povo desesperançado.
E há opiniões ainda mais notáveis, que se proporcionam quando o es-
querdista que vai a Cuba é uma liderança política. Instado a opinar sobre
o que viu, a celebridade tem que responder ao repórter. Se fizer críticas ao
regime estará, perante os companheiros, incorrendo em grave sacrilégio.
Apontar mazelas cubanas é o equivalente ideológico de cuspir na cruz e chu-
tar a santa. Coisa que não se faz mesmo. Durante meio século, a esquerda
desenvolveu toda uma mística em torno da Revolução Cubana, dos “eleva-
dos valores morais” do bandido Che Guevara e das qualidades de estadista
que ornam com fulgurantes e imperceptíveis realizações a figura mitológica
de Fidel Castro. Se o sujeito retornar de Cuba descrevendo o que necessaria-
mente passou diante de seus olhos cairá na mais negra e sombria orfandade
política. É uma encrenca.
Por outro lado, se não disser que há um regime totalitário instalado no
país, que só existe um partido político, que nãohá liberdade de opinião, que os
meios de comunicação são órgãos do governo ou do partido comunista, que
há um rigoroso controle da sociedade e da vida privada pelo Estado e que per-
sistem as prisões políticas, o sujeito se desqualifica como democrata perante
as pessoas de bom senso porque esses fatos são irrecusáveis. É uma encrenca.
Pois foi nessa encrenca que se meteu Tarso Genro quando decidiu passar
uns dias de férias na ilha dos irmãos Castro. As perguntas lhe vieram, em pri-
meira mão, do portal Carta Maior, órgão quase oficial dos companheiros do
governador. O inteiro teor da entrevista pode ser lido em <www.cartamaior.
com.br ou, em short link, aqui: http://bit.ly/yPek9J>.
Como fez Tarso para sair dessa? Atacou o suposto bloqueio norte-
-americano à ilha, claro. No entanto, até os guindastes do Porto de Mariel

120 de janeiro de .
206 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

(onde o BNDES investiu US$ 600 milhões) sabem que não existe bloqu eio
a Cuba. Bloqueio seria uma operação militar impedindo a entrada e saída
de navios. O que existe é um embargo pelo qual os Estados Unidos preten-
deram restringir as operações comerciais com a ilha. No entanto, esse em-
bargo está totalmente desacreditado há muito tempo. Os principais impor-
tadores de produtos cub anos são, pela ordem, Venezuela, China, Espanha,
Brasil e Canadá. E os principais exportadores p ara Cuba são, também pela
ordem, Venezuela, China, Espanha, Canadá e Estados Unidos (é sim, 4,1%
das importações cubanas são de bens de consumo made in USA). E não
me consta que qualquer desses países mencionados, Brasil entre eles, sofra
restrição comercial por parte dos Estados Unidos. Aliás, China e V enezuela
destinam aos ianques respectivamente 18% e 38% de suas exportações e
neles buscam respectivamente 7% e 27% de suas compras. Que terrível
bloqueio americano é esse? Por outro lado, Cuba importa US$ 11 bilhões
e exporta apenas US$ 4 bilhões. Não é por causa do embargo que as ex-
portações cubanas são insignificantes. É porque – isto sim! – sua economia
estatizada quase nada produz. Com um déficit comercial desse tamanho, o
BNDES que se cuide , dona Dilma.
Sete vezes, na entrevista, o governador usou o antiamericanismo como
forma de tergiversar sobre os males que o regime impõe ao país onde pas-
sou as férias. Tarso, na entrevista, estava sendo interrogado sobre Cuba por
um jornalista companheiro. E batia nos Estados Unidos, enquanto surfava
sobre o fato de que, se há um bloqueio em Cuba, ele é o bloqueio imposto
pelo governo à população, esta sim, impedida, sob força policial e militar, do
fundamental direito de ir e vir.
Por fim, sobre a questão d a democracia, o governador saiu-se com esta
preciosidade: “A questão democrática em Cuba não pode ser avaliada
com os mesmos parâmetros que servem para o Brasil, para a Argentina
e para o Uruguai, por exemplo.” Não, não pode mesmo. Se for avaliar
a questão democrática em Cuba com conceitos abstratos e imprecisos
(apesar de universais) como, digamos assim, eleições livres, pluralismo
partidário, liberdade de expressão e de imprensa, aí a coisa fica compli-
cada. A democracia cubana tem de ser avaliada sob conceitos de partido
único, liberdades restritas, inexistência de opo sição e estado policial. Vi-
ram como é uma encrenca?
ESCORPIÕES E RÃS 207

Este é um poço sem fundo.


Como se associar-se a gente como Fidel Castro, Hugo Chávez e Evo
Morales não fosse suficiente, os maus brasileiros que ora dominam
nossa política são irmanados a terroristas muçulmanos e a genocidas
contemporâneos – no caso, à dinastia que assola o povo norte-corea-
no há seis décadas.
As determinações do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte,
que passa o poder de pai para filho há três gerações, impedem que
seus cidadãos se expressem e se movimentem livremente dentro de seu
próprio território. O resultado de tanto tempo de submissão à plani-
ficação socialista é uma miséria sem paralelo no mundo. Os poucos
fugitivos de seus campos de trabalho forçado que conseguiram chegar
à civilização contam que o alimento praticamente se resume a uma ra-
ção de milho distribuída igualitariamente entre presos e a população
que não faz parte dos quadros dirigentes. Como se vê, o comunismo
promete e entrega muita igualdade – na Coreia do Norte, à exceção
dos amigos do rei, são todos igualmente miseráveis. Procure pela his-
tória de Shin Dong-hyuk121, que em sua autobiografia, Fuga do campo
14, conta que chegou a delatar a mãe por um prato de arroz.
Esse regime de atrocidades, de onde nos chegam notícias inclusive de
canibalismo e onde o Estado colocou todos contra todos, manipu-
lando o povo com migalhas, pois, esse regime é, veja você, amigo e
admirado por boa parte dos maus brasileiros.
Inclusive, recebeu apoio oficial de integrantes do Governo Federal (em
2011, pela morte do ditador de então;122 em 2013, por puro amor,
123

conforme se vê em nota reproduzida a seguir ).

121 Leia sobre em: brasil.elpais.com/brasil/ / / /internacional/ _ .html.


122 Emocione-se aqui: pcdob.org.br/noticia.php?id_noticia= .
123 Disponível em: pcdob.org.br/noticia.php?id_noticia= .
208 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

P
A Coreia do Norte, onde só existe o Partido dos Trabalhadores da Co-
reia, é governada há mais de meio século por uma espécie de monarquia
comunista que já está na terceira geração. Segundo o Human Rights Watch,
os norte-coreanos são as pessoas mais brutalizadas no mundo. A sociedade
é organizada em castas segundo a lealdade ao regime. Comparada a ela, até
Cuba se transforma em paraíso de luxuriantes e extravagantes liberdades.
Pois bem, quando, em dezembro de 2011, morreu Kim Jong-il (ditador cujos
campos de concentração fariam inveja a Stalin), o PCdoB, em meio a solu-
ços, pranteou mensagem de condolências aos camaradas pela irreparável
perda. Posteriormente, o tiranete que herdou do pai a propriedade do país

124 de abril de (publicado no jornal Zero Hora).


ESCORPIÕES E RÃS 209

como se fosse fazendola, ou relógio de estimação, rufou tambores de guerra.


Guerra nuclear. E novamente o PCdoB, anunciando endosso do PT e do
PSB (que juram não haver endossado coisa alguma), mais a UNE, o MST e
diversas organizações de calibre semelhante, manifestaram-se em “irrestrito
e absoluto apoio” a Kim Jong-un qualificando sua atitude belicosa como ato
de soberania e dignidade.

***

Ruim, não? O sujeito viu o muro de Berlim ser erguido e tinha certeza
de que o lado de lá era melhor do que o de cá. Torceu pela União Soviética,
pela China maoísta, pelos vietcongs, pelo Khmer Vermelho, pelas Brigate
Rosse. Vestiu camiseta do Che. Colou no guarda-roupa fotos do Dany le
Rouge. Sacudiu bandeirinha de Cuba. Atendendo apelo de Fidel, passou uma
temporada lá, em 1969, cultivando cana. Vociferou contra a Primavera de
Praga. Aplaudiu as ações dos tanques chineses na Praça da Paz Celestial. Be-
beu champanhe no 11 de setembro. Fez tudo direitinho. Votou no partidão
e no partidinho. Imaginou? Agora, veja bem o que aconteceu com ele. Seus
atuais porta-vozes e líderes são tipos como Lula, José Dirceu, Hugo Chávez,
Daniel Ortega, Evo Morales, Ahmadinejad, Kim Jong-un. Pensa numa de-
mocracia construída sobre aquelas ideias. Não há. Busca livro que junte os
cacos e reorganize consistentemente uma visão de mundo sobre tais bases.
Nada. Procura um estadista de boa estirpe para seguir. Ninguém. Dureza! O
comunismo nunca foi melhor.

***

Pois bem, cem milhões de mortos depois, contado um século inteiro de


fracassos, o Brasil deve ser dos raros países onde dizer-se que alguém é anti-
comunista soa como desqualificação. Coloca a vítima do adjetivo no rol dos
retardados intelectuais. Vale por um tiro na nuca. Perceba, leitor, a engenhosa
malícia capaz de produzir uma coisa dessas. Malícia lograda mediante persis-
tente trabalho desenvolvido na imprensa, nas salas de aula, nos comentários
políticos, nas conversas de botequim e no ambientecultural. Comunista come
criancinha? Quá, quá, quá! Graças a essa conjugação de ironias e sofismas, a
carga esmagadora das monstruosidades praticadas em nome do comunismo
foi jogada na vala comum com seus fracassos. Pelo avesso dos fatos e da histó-
ria, a maligna doutrina foi sendo reapresentada comocoisa de gente moderna,
210 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

cuca fresca. Chega-se, por fim a duas realidades contraditórias: numa, o comu-


nismo, seus símbolos, organizações políticas e ilusórias mensagens trafegam
com desenvoltura, leves de qualquer carga histórica, no ambiente social e po-
lítico do país; noutra, convivem, esplendidamente, com a ideia de queele mes-
mo acabou e não tem mais qualquer plano, projeto, estratégia ou significado
entre nós. Pode haver significado, estratégia, projeto ou plano mais perfeito?

Já falamos até dos psicopatas que governam a Coreia do Norte.


E os jihadistas, os cortadores de cabeça com quem Dilma Rousseff
quer dialogar?125
Calma, há espaço para todos no bonde do absurdo.

D ,

Tenho bem presente a comoção com que o mundo tomou conhecimento


da queda do Muro de Berlim, seguida da derrocada dos regimes comu-
nistas no Leste Europeu e do desmonte da União Soviética. Inimaginável:
derrubavam-se estátuas de Lenin por toda parte, como atos simbólicos
que marcavam o fracasso político, econômico e social do pior dos totali-
tarismos instalados ao longo do século 20. Inimaginável: não foi preciso
mais de dois anos para que, deixando péssimos vestígios, se desfizessem
as estruturas de poder estabelecidas nos 15 países constituintes da URSS.
Inimaginável, mesmo então: nenhum desses países manteve o regime e a
nenhum o regime retornou. Inimaginável: em diversos deles, os partidos
comunistas foram banidos, ou melhor, foram varridos, como convinha,

para a lixeira da memória, misturando-se ao nazismo, fascismo e odores


de cebolas podres.
Não havia então internet, que hoje atua sobre as informações como um
acelerador de partículas subatômicas, dessas capazes de atravessar quaisquer
barreiras. Lembro que quando escrevi um artigo falando sobre as emocio-

125 “Lamento enormemente isso [ataques aéreos na Síria contra o Estado Islâmico] . O Brasil
sempre vai acreditar que a melhor forma é o diálogo, o acordo e a intermediação da ONU.” Dis-
ponível em: veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/terrorismo- /campanha-do-blog-dilma
-va-dialogar-com-os-terroristas-islamicos.
126 de fevereiro de .
ESCORPIÕES E RÃS 211

nantes cenas do povo derrubando estátuas dos tiranos comunistas, um jor-


nalista de Santa Maria retrucou na edição seguinte do jornal local que eu
estava espalhando informação falsa... Pois é, inimaginável. Passou-me sob os
olhos, dias atrás, foto de uma estátua de Lenin, mantida no chão, nos arre-
dores da cidade de Mogosoaia (Romênia), em decúbito dorsal, para lembrar
que ele, como tantos seguidores e sucessores, foi apenas mais um mito com
vontade de ferro, ideias de m... e pés de barro, tombado pela própria história.
Eis que 22 anos mais tarde, o mundo observou nova onda libertária for-
mar-se, desta feita naquelas regiões quentes cortadas pelo Trópico do Cân-
cer, no norte da África. Inimaginável também ela, porque, diferentemente das
contrariedades que fermentavam no antigo Leste Europeu, os povos de tais
nações sempre se mantiveram distantes dos ideais democráticos. Tanto era
assim que a democracia vinha sendo considerada como uma vocação oci-
dental, não necessariamente capaz de repercutir na alma dos orientais. É o
que me dizia, outro dia, uma mocinha segundo quem a democracia era coisa
importante para o Ocidente. Só para o Ocidente. Aliás, a menina tinha con-
vicções ziguezagueantes. Para ela, a democracia se tornava algo inestimável
(pelo qual valia a pena matar, morrer e usar o terrorismo) quando se referia
ao tempo dos regimes militares da América Latina. Sumia entre as coisas
inúteis quando relacionada às práticas internas dos Estados Unidos. Voltava
a ganhar importância, inclusive no Oriente, se algum ditador obtinha prote-
ção norte-americana. E se diluía num emaranhado de conceitos quando seus
olhos caíam sobre a amada Cuba e a transgênere Venezuela.
Contemplando os levantes naquela região, pude perceber um claro anseio
por liberdade, esse fulgurante valor em cujo útero a democracia é concebida.
Toda a insegurança que cerca as análises sobre o futuro desses movimentos
repousa sobre dois riscos: a ainda imponderável força das correntes islâmi-
cas radicais em cada país e a carência das instituições. Há professores que
gastam horas de aula para criticar as Cruzadas ocorridas há mais de nove sé-
culos, mas não abrem a boca para mencionar a Jihad islâmica, que começou
no século VII e nunca mais suspendeu sua guerra contra os “infiéis”. Todos
os estudantes brasileiros saem da escola tendo ouvido falar das Cruzadas.
Mas desconhecem a palavra Jihad. É claro que você sabe por quê:
1. atacando-se as Cruzadas ataca-se a Igreja, cujos valores é preciso des-
truir para o triunfo da revolução cultural marxista;
2. a Jihad escolheu os EUA como o grande satã, o berço do mal, que
precisa ser aniquilado, e quem adota os EUA por inimigo imediata-
212 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

mente ganha lugar na sala, na cozinha e na cama dos promotores da


revolução cultural marxista.
Isso quanto ao risco das forças islâmicas radicais. Sobre a questão ins-
titucional, é importante ponderar que a democracia precisa de boas insti-
tuições tanto quanto n ós precisamos do ar que respiramos. E essas institui-
ções estão, presentemente, indisponíveis na t radição regional. Será preciso
construí-las. Coisa que, por exemplo, ainda hoje não alcançamos sequer
em nosso país, onde gradualmente marchamos para a total desmoralização
da política, daqueles que a fazem, e para a completa centralização dos po-
deres político e econômico, num processo em tudo avesso à democracia e
à saúde moral da pátria.

Além dos terroristas islâmicos e marxistas, o cristianismo, com foco


na Igreja Católica, foi eleito inimigo número um de todos os revolu-
cionários – tanto os das armas como os dos livros.

Ante
contratanta perseguição
si, que faz partemoral e física
da Igreja no eBrasil?
manipulação de informações
Qualquer coisa, exceto
aliar-se a seus perseguidores, certo? Errado.
O fenômeno não é novo. Nelson Rodrigues já o identificara:
“A Igreja está ameaçada pelos padres de passeata, pelas freiras de mi-
nissaia e pelos cristãos sem Cristo. Hoje, qualquer coroinha contesta
o Papa.
O padre de passeata é hoje uma ordem tão definida, tão caracterizada
como a dos beneditinos, dos franciscanos, dos dominicanos e qual-
quer outra. E está a serviço do ódio.”127
E seguem com a disposição descrita pelo “maldito”, por mais que
tenham sido alertados, conforme comenta Puggina no texto a seguir,
escrito em 2010 mas de conteúdo que, infelizmente, se vem confir-
mando perene.

127 Ruy Castro. As . melhores frases de Nelson Rodrigues, São Paulo, Companhia das
Letras, .
ESCORPIÕES E RÃS 213

Não foi dito por acaso. Tampouco como mera observação feita à margem
dos fatos, desconectada da realidade do encontro e de seus participantes. A
fala de Bento XVI aos bispos brasileiros que estiveram com ele no dia 28

de outubro tem tudo a ver com o que estava em curso nas nossas dioceses,
na grande mídia e nas comunicações da internet em função do pleito do dia
31.129 Os presentes – e até mesmo os ausentes – sabiam a respeito do que o
Papa estava falando. A imprensa sabia, os candidatos sabiam, seus partidos
sabiam. Foram palavras severas, de apoio aos poucos, aos raros, aos escassos
bispos que resolveram cumprir sua função pastoral e dizer com clareza a
seus fiéis o quanto é contraditório à fé e à moral católica o voto que confere
poder a correntes políticas comprometidas com:
1. a liberação do aborto;
2. a abolição de símbolos religiosos;
3. a absorção de toda e qualquer relação afetiva no conceito constitu-
cional de família;
4. uma visão de estado laico cujo viés totalitário pretende expurgar dos
debates civis os cristãos, seus princípios e seus valores.
Foi bem claro o Papa a esse respeito: “Quando os direitos fundamentais
da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever
de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas.”
Venho escrevendo sobre isso há anos, como leigo, e nunca sequer me
ocorreu que fosse necessário perguntar a Bento XVI ou, antes dele, a João
Paulo II se estavam de acordo. Eu simplesmente sabia (assim como sei haver
oxigênio no ar que respiro) que tais afirmações eram harmônicas com a

orientação pontifícia. Ponto. Surpreendem-me os que, leigos ou religiosos,


se surpreenderam!
Vá que seja. Eu talvez tenha estudado um pouco mais essas coisas do que
alguns deles, por gosto e boa orientação de amigos padres e bispos que influen-
ciaram minha formação. Nunca precisei, portanto, como leigo, que alguém me
dissesse o quanto o PNDH-3 (decretado em 21/12/2009), seus criadores e pro-

128 de outubro de .
129 No pleito presidencial de veio à tona umadiscussão sobre aborto. Sendo o PT, da en-
tão candidata Dilma Rousseff, abertamente favorável à legalização e ao financiamento público
da prática de aborto, a polêmica se instaurara. [N. C.]
214 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

pugnadores confrontam valores sesenciais da fé eda moral cristã. Aliás, era algo
tão berrante, tão escandalosamente perceptível que até a CNBB se obrigou a
objetar! Sim, leitor, até a CNBB veio àsfalas (declaração formal de15/01/2010)
posicionar-se contra certos elementos daquela infeliz agenda. Mas a agenda era
tão partidária, tão inerente ao partido do governo, que o partido do governo, em
congresso nacional (18-20/02/2010), voltou aaprová-la. Não por escassa maio-
ria. Não por larga margem de votos. Por decisão semdiscrepância conhecida.
Observem as datas e me digam se seria preciso mais do que isso para estabe-
lecer um insuperável divisor de águas. Não estamos diante de mera divergência
de opinião, ainda que sobre tema relevante. Estamos diante de um confronto en-
tre convicções antagônicase legítimas. Um lado, legitimamente,tratou de deixar
bem claro a que veio e a quem serve. E o outro lado, aquele da CNBB, aquele da
imensa maioria dos bispos, sufocou-se em ilegítimo silêncio sobreque a veio e a
quem serve. Foi essa a necessária retificação que Bento XVI fez em sua fala do
dia 28. O Papa dissea quem serve. Orientou osbispos, pastores de suas dioceses.
Mas os lobos, bem, os lobos não são propriamente os melhores zeladores
de qualquer rebanho. E eles continuam comandando a CNBB. Tolerando os
absurdos redigidos por algumas de suas assessorias. Descuidando do que é pu-
blicado e divulgado com a chancela da entidade (qualquer empresa séria cuida
melhor de sua marca e de sua imagem do que a CNBB). Metendo-se onde não
deve (como no ridículo plebiscito da dívida externa e, agora, no não menos
ridículo plebiscito da extensão das propriedades rurais). E, assim, envolvendo
a Igreja, por motivos ideológicos, com seus piores e mais destapadosinimigos.
Corrijo-me: seus piores inimigos não são aqueles que claramente dizem a que
vêm e a quem servem, mas aqueles que não servem a quem deveriam, que se
lixam para o sucessor de Pedro. E preferem ir à dança com os lobos.

De fato, oNelson
contesta Papa.” Rodrigues estava certo: “Hoje, qualquer coroinha
E boa parte do clero prefere fazer-se de rã. Na verdade, são os“padres
de passeata” a melhor representação para a figura que dá título a este
capítulo. Contra todas as evidências, ignorando declarações explícitas
de socialistas e comunistas contra a Igreja, significativa porção de nos-
so clero se coloca à disposição dos escorpiões que tomaram o Brasil
– sem jamais deixar de reverenciar os aracnídeos de outros tempos e
de outros locais.
ESCORPIÕES E RÃS 215

M
Os comunistas brasileiros são renitentes. Foram os últimos a chorar
quando Stalin morreu. O facínora russo estava paradinho dentro do caixão
havia vários dias, “entre archotes e com algodão nas narinas”, como descre-
veria
que asNelson Rodrigues,
notícias e os expressassem
de sua morte comunistas brasileiros ainda
um fato real. não acreditavam
Menos ainda, uma
realidade espiritual. Para eles, Stalin era um símbolo, uma instituição, uma
entidade, espécie de messias, filho de um sapateiro e de uma lavadeira, nasci-
do em Gori numa noite em que o luminoso céu da Geórgia fora riscado por
uma estrela vermelha.
Em 1989, quando caiu o Muro, alguns renitentes me acusaram de acre-
ditar em boatos por ter comentado sobre as estátuas de Lenin que estavam
sendo derrubadas no Leste Europeu, coisa que a revista Manchete estampara
em fotos de meia página. Jogar ao chão estátuas do líder da Revolução de
1917 era mais do que um sacrilégio. Era uma impossibilidade material, tipo
arremessar montanhas ao mar.
Como católico, chego a invejar o tamanho dessa confiança. Veja, por
exemplo, leitor, a mística expressão de fé incondicional contida na carta que
D. Paulo Evaristo Arns mandou a seu “queridíssimo Fidel” em 6 de janeiro
de 1989, por ocasião dos 30 anos da revolução cubana. Lá pelas tantas, o
paparicado e purpurino cardeal arcebispo de São Paulo lascou assim: “A fé
cristã descobre, nas conquistas da Revolução, os sinais do Reino de Deus,
que se manifesta em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da
convivência política uma obra de amor”. E mais adiante: “Tenho-o presente
diariamente em minhas orações, e peço ao Pai que lhe conceda sempre a gra-
ça de conduzir os destinos de sua pátria.” Grandes defensores da democracia
D. Paulo Evaristo e seus admiradores!
Note-se que no mês anterior, em dezembro de 1988, uma delegação de
bispos alemães estivera em Cuba. Em matéria sobre a visita, publicada na
revista 30 Giorni de janeiro de 1989, eles contaram que a Igreja cubana não
tinha acesso à educação, que todos os religiosos estrangeiros foram expul-
sos, que o contingente de sacerdotes e religiosos reduzira-se a 15% do que
já fora, que quem se proclamasse cristão ficara excluído da possibilidade
de ascensão funcional e que, como consequência, apenas 1% dos cubanos
frequentava a igreja.

130 de abril de .
216 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

D. Paulo escreveu a Fidel em cima de tal fato. E foi acalentar no sono dos
que são capazes de arder todo e qualquer bem na fogueira dessa ideologia
malsã, a irresponsabilidade do que escrevera. Referia-se, então, ao mesmo
regime que, vinte anos depois, como prova de benevolência, ainda liberta às
pencas dissidentes políticos! Alguns bispos cubanos, felizmente, responde-
ram a D. Paulo. A longa carta que lhe mandaram, entre outras coisas, relata
esta grande novidade: “Cuba sofre, já há trinta anos, uma cruel e repressiva
ditadura militar, num estado policial que viola, constante e institucionalmen-
te, os direitos fundamentais da pessoa humana”. Ao fim da dissertação, os
três bispos que a assinam concluem: “Deus queira que seu país nunca tenha
que passar pela trágica experiência que nós estamos atravessando”.
Esse deve ter sido o trecho que mais desagradou D. Paulo, subtraindo-lhe,
por instantes, o melífluo sorriso que adorna de falsidade suas manifestações.
Afinal, reproduzir no Brasil a experiência cubana era tudo que ele mais de-
sejava. Oh, raios! Como é que os bispos cubanos lhe esfregavam no rosto o
fato de estarem rezando contra seus mais caros anseios pastorais?
É provável que o leitor esteja duvidando. “Não é razoável. Nada disso
pode ser verdade. Um cardeal católico não poderia dirigir tal louvação a uma
ditadura que tanto perseguia a Igreja e que já durava 30 anos.” Pois é tudo
exato e veraz, letra por letra, meu caro. Tenho em mãos cópia das correspon-
dências, que à época li nos jornais. As duas foram transcritas na imprensabra-
sileira e a de D. Paulo foi reproduzida em espanhol no Granma, com grande
destaque. Aliás, eu mesmo escrevi para o Correio do Povo, em 26de janeiro de
1989, um artigo intitulado “A epístola de Paulo (o Evaristo)”, tecendo ironias
sobre a falta de juízo do cardeal paulista, cujos olhos, ao reverso do apóstolo
dos gentios, cada vez mais se revestiam de escamas. E acrescentei que a mes-
ma carta a Fidel poderia ter sido enviada em circular, por D. Paulo, para os
governos da Alemanha Oriental, Bulgária, Polônia, Hungria,Albânia e tantos
outros. Afortunadamente vivíamos, então,os primeiros dias do ano da Graça
(poderíamos dizer, sem exagero, o ano da Grande Graça) de 1989, quando
começariam a desabar os regimes do Leste Europeu.
Fidel, esse tirano que D. Paulo, Lula, Dilma, Zé Dirceu, Frei Betto, Chico
Buarque e muitos outros veneram montou uma ordem social tão esquizo-
frênica e tão canalha que produziu este resultado sem igual na história do
operariado mundial: quando foi anunciada a demissão de uma quinta parte
da força de trabalho cubana, mediante pagamento de um mês de salário por
cada dez anos de atividade, a Central dos Trabalhadores de Cuba aplaudiu
a providência!
ESCORPIÕES E RÃS 217

E eles continuam crendo. Continuam sonhando com jogar montanhas ao


mar. E gostando do que veem em Cuba. São óbvias as tendências sádicas e a
falta de caráter de quem louva e apoia um regime assim.

Vejamos, pois, como nossos bispos fazem jus à alcunha de Lenin


àqueles que servem a revolução antes de serem descartados.

R CNBB
Quando a CNBB, organização que congrega o episcopado brasileiro, er-
gue sua voz para defender a família, a vida humana desde a concepção, a
educação religiosa, a preservação das tradições cristãs da sociedade (aí in-
cluídos o respeito ao descanso dominical, feriados e símbolos religiosos), eu
me ponho a pensar... De qual lado do espectro político vem chumbo grosso
contra tudo isso? Qual ou quais os partidos mais avessos a essas posições
essenciais à missão da Igreja? O mais mal informado dos leitores não he-
sitará um segundo antes de cravar a resposta certa às duas perguntas. Dez
para todo mundo. Impõe-se, no entanto, um outro par de indagações. Com
quais partidos e instituições o leitor considera a CNBB mais estreitamente
identificada? A qual lado do quadrante ideológico pertencem tais órgãos e
movimentos? Novamente, dez para todo mundo.
Se a nota do leitor é dez, o conceito da CNBB perante tamanha contradi-
ção há de andar um pouco abaixo disso. Com efeito, não parece sensato nem
compatível com a missão eclesial o apoio da organização àqueles que mais
atacam os valores cristãos. Perante tal disparate, é possível queo leitor comece
a repensar as respostas anteriores. “Será que respondi certo antes? Terei sido
induzido ao erro?”
do raciocínio Isso nos
que estou leva a proporquantas
desenvolvendo: a provavezes,
dos nove
nos para verificação
últimos anos, o
leitor encontrou na imprensa alguma crítica desses partidos e organizações
à CNBB? Vamos lá. Pense bem. Puxe pela memória. Nada? Veja que temos
como objeto da busca organizações que não poupam adversários! Pois é, se
marcou “nenhuma”, o leitor cravou, de novo, a resposta certae óbvia. Nunca
aconteceu isso, apesar de esses segmentos jamais serem condescendentes com
quem se atravesse no caminho de suas propostas ou de seus projetos.

131 de maio de (publicado na Revista Voto).


218 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

A coisa fica ainda mais grave porque os mesmos setores vivem clamando
que o Estado é laico, que a moral cristã não pode pretender espaço nas nor-
mas que incidem sobre a vida social, que os símbolos religiosos têm que ser
retirados dos lugares públicos, que o Papa é um retrógrado e que a Igreja é
um dos males da humanidade. Mas contra a CNBB, nem um pio! O nome
disso é parceria. É companheirismo. E torna inevitável a constatação: a ima-
gem da CNBB está associada a uma corrente política avessa à sua missão.
Essa não é uma questão pequena, nem recente, nem vazia de sentido moral.
Bem ao contrário. Para a CNBB, desde os anos 70 do século passado, a
convergência ideológica supera em significado e importância a divergência
moral e religiosa.
Antes que alguém saia com o clássico - “Isso é o que você diz!”, vale lem-
brar que em fins de dezembro de 2010, falando aos bispos brasileiros do Sul
III e IV, quando com ele estiveram em visita ad limina, Bento XVI os advertiu
para “o perigo que comporta a assunção acrítica, feita por alguns teólogos,
de teses e metodologias provenientes do marxismo, cujas sequelas mais ou
menos visíveis, feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa e anarquia fazem-
-se sentir ainda, criando, nas vossas comunidades diocesanas, grande sofri-
mento e grave perda de forças vivas”. Não sou só eu quem diz.
A CNBB está ao lado dessas correntes. A elas convergem suas pastorais
sociais. Com elas se alinham os desvios dout rinários propostos pela T eolo-
gia da Libertação. Com elas andam a CPT (Comissão Pastoral da Terra),
as CEBs (Conselhos Episcopais de Base), o CIMI (Conselho Indigenista
Missionário), as CFs (Campanhas da Fraternidade), bem como muitos de
seus documentos e estudos. Com elas a CNBB se engaja em promoções
nacionais, como foi a campanha pelo calote da dívida externa, e pela li-
mitação, em 20 módulos, da extensão das propriedades rurais. Procede,
enfim, como o Chapeuzinho Vermelho que levasse o Lobo Mau pela mão
até a casa da vovozinha.

A , CNBB?
Sei que o texto a seguir parece escrito com o cotovelo, mas era preciso
ser fiel ao trabalho de seus redatores. Trata-se de um trecho do documento
Análise de Conjuntura, referente a março de 2014, preparado pela assessoria

132 de março de .
ESCORPIÕES E RÃS 219

da CNBB para a 83ª reunião do Conselho Permanente da entidade, ocorrida


em Brasília:
Em análises anteriores da conjuntura econômica foi assinalado o discurso
alarmista da imprensa e o alarmismo de analistas econômicos, não sem con-
tradições na análise da realidade. Está bem presente um viés ideológico que
perpassa todas as análises evidenciando um conluio entre a imprensa e os
donos do dinheiro no país. O tom das análises reflete rancor, raiva e oposição
ao governo atual, com parcialidade tal que perde o sentido de objetividade. A
chave de leitura é uma oposição visceral do mundo financeiro e empresarial
ao governo da presidente Dilma, ampliada com o horizonte das eleições em
outubro deste ano.

Por indicação de um leitor, retornei ao site da CNBB em busca desse


documento. Havia onze anos que eu não perdia meu tempo lendo as análi-
ses mensais de conjuntura preparadas pela assessoria da CNBB. A entidade,
na ocasião em que questionei o tom petista militante que caracterizava os
textos, informou que os mesmos não eram “dela”, CNBB, mas elaborados
“para ela”. Com tal afirmação, os senhores bispos supunham desobrigar-se
de um volumoso conjunto de documentos que, estranhamente, levam o tim-
bre e estão disponíveis no site da entidade que os congrega.
Entre minha visita anterior e essa, transcorreu toda uma década, mudou
o mundo, mudou o Brasil, mas os assessores da CNBB continuam derraman-
do seu fel ideológico sobre cada frase. A orientação persiste: defesa insistente
do petismo e de seus parceiros de aquém e de além-mar. O texto acima, por
exemplo, é parte de um trecho bem maior, dedicado à situação nacional. Ao
longo dele, ao menos algo fica bem claro: os peritos que socorrem a CNBB
com sua visão da “conjuntura” já têm candidata a “presidenta” para 2014.
O documento deve ter cerca de cinco mil palavras. De início, para desvendar
sua eclesialidade, procurei ver quantas vezes apareciam nele a palavra Cristo
ecom
seuso derivados. Usando
que abrangeria o instrumento
todos os vocábulosdecombusca,
essa digitei as letras
raiz. Houve “crist”,
apenas três
ocorrências. Pareceu-me pouco para um documento católico. Quando fui
ver o que diziam, descobri, não sem surpresa, que uma dessas referências tra-
tava da senhora Cristina Kirchner, a outra do senador Cristovam Buarque.
E a terceira mencionava as “milícias cristãs” que estariam sendo submetidas
à lei de Talião na República Centro-Africana. Ou seja, do Nazareno, apesar
de levar a assinatura de quatro padres, nada. “Ni jota”, como diriam nossos
vizinhos castelhanos. O texto ficaria muito bem num Congresso do PT ou
numa reunião do Foro de São Paulo: apoio ao governo federal, à presidente
220 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Dilma, ambiguidade em relação à crise da Ucrânia e apoio a Maduro na crise


venezuelana, onde sustentam os redatores que a oposição, sim, a oposição,
estaria radicalizando.
Entre os quatro leigos que também subscrevem o documento incluem-se
o secretário de Articulação Social da Chefia de Gabinete da Presidência da
República (braço-direito do ministro Gilberto Carvalho) e o secretário de
Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do governador petista do
Distrito Federal. Os outros dois leigos são membros da Comissão Brasileira
de Justiça e Paz, outro dos vários organismos da CNBB aparelhados pelo
PT, como a Pastoral da Terra, as CEBs e a Pastoral da Juventude. Todos se-
lecionados a dedo, portanto, para produzirem o que se lê. Esperavam o quê?
Não é com surpresa que faço estas constatações e escrevo estas linhas.
A CNBB parece não se importar com as demasias praticadas sob o guarda-
-chuva de seu nome e logomarca, nem com sua instrumentalização para fins
políticos e partidários. Pode chocar a você, leitor, saber que esse suposto de-
sinteresse coloca a instituição a serviço de quem, inequivocamente, tem entre
seus objetivos o de acabar com o pouco que ainda remanesce de valores
cristãos e de presença da Igreja na sociedade brasileira. Mas isso não causa
o menor constrangimento à CNBB.
Há muitos lobos no meio das ovelhas que lhes confiou o Senhor. Às aves-
sas da recomendação evangélica, os mansos como as pombas não parecem
ser prudentes como as serpentes. E os prudentes nada têm de mansos.

O resultado da ação desses lobos da Igreja (e rãs da política), além de


servir aos maus brasileiros, não poderia ser outro: desestabilização da
fé, valores efêmeros, confusão.

S
Tempos atrás havia um programa de tevê, desses dominicais, em auditório,
no qual uma pessoa, previamente escolhida para aquela extraordinária oportu-
nidade, era convidada a fazer, às cegas, uma série de escolhas. No desenvolvi-
mento do programa, sem o saber, ela ia trocando, ou não, uma casa por um pé
de couve, um pé de couve por uma geladeira, uma geladeira por cem mil reais

133 de abril de (publicado no jornal Zero Hora).


ESCORPIÕES E RÃS 221

e assim sucessivamente. Quem assistisse o programa torcia pela infeliz que, na


maior parte das vezes, ia fazendo péssimos negócios sem o saber.
Maus negócios nos atingem o âmago do ser. É por isso que muitas profis-
sões valem-se desse sentimento para promover a atividade a que se dedicam.
“Não faça nada errado, consulte um advogado” (hoje em dia, diante de
sentenças esquisitas que andam por aí, é melhor consultar direto o juiz,
mas aí seria outro artigo). “Construa certo, contrate um arquiteto.” Há
todo um marketing mobilizando as energias do interesse próprio e o natu-
ral anseio de não cairmos em esparrelas que nos prejudiquem. Nada há de
errado em querer fazer bons negócios. Milhões deles são selados todo dia,
mundo afora e, na sua quase totalidade, são bons porque correspondem à
conveniência das partes. Aliás, é assim, sobre bons negócios, que se move
a roda da economia, ao passo que as subprimes da vida, os esbanjamentos
dos recursos, as trocas desvantajosas e coisas que as valham, atolam a
prosperidade social no b arro das espertezas, dos equívocos, das ganâncias
desmedidas e dos bem medidos prejuízos.
Ao longo de nossa vida vamos fazendo, também, negócios de outro tipo.
Assim, por exemplo, trocamos ou não horas de lazer por horas de estudo.
Horas de trabalho por remuneração desse trabalho. O uso mais prazeroso
do nosso dinheiro por plano de saúde e aposentadoria. Certos prazeres da
liberdade por amor e estabilidade conjugal e familiar. Exercícios físicos e ali-
mentação menos atraente por saúde e longevidade. E assim por diante, vida
afora. Quando fazemos opções erradas, selamos maus negócios e ficamos
com incontornável dano.
Pois bem, o que vale para os planos material e moral, vale igualmente
para o espiritual. Também nele fazemos opções que podem redundar em
bons ou em maus negócios. E o dia de hoje talvez nos forneça o melhor
exemplo do que estou afirmando. Estamos no domingo de Páscoa, no do-
mingo da Ressurreição do Senhor para os cristãos e para a tradição do Oci-
dente, onde é a maior festa religiosa. São Paulo dizia: “Se Cristo não res-
suscitou, é vã a nossa fé.” Na Ressurreição metemos o pé no estribo para a
vida eterna. É nela que vencemos o aguilhão da morte. E eu não convivo de
modo saudável com a ideia de que a morte, ao fim e ao cabo, seja a grande e
definitiva vitoriosa sobre tudo e sobre todos.
Faz um péssimo negócio, portanto, quem troca por coisas perecíveis os
preciosos tesouros da fé – a Páscoa por chocolate, Cristo por um coelho, o
Natal por um iPad e o menino Jesus por um Papai Noel de shopping. Tudo
isso é muito pitoresco e atraente, mas passa longe da essência da celebração,
222 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

do mesmo modo que os balões e os “brigadeiros” estão na festa, mas não são
a festa. Quem faz esse tipo de negócio fica como o sujeito do programa de
auditório, afundado em inconscientes transações. Feliz Páscoa, então!

Falando em péssimos negócios... Que tal deixarmos o controle do


judiciário nacional a vigorosas e poderosas rãs, que transportam es-
corpiões na primeira classe?
Percival Puggina dedica especial atenção aos agentes da justiça bra-
sileira. É a completa invasão institucional dos bárbaros, conforme
referido no segundo capítulo deste livro. Após décadas de hegemonia
cultural das esquerdas, as instituições da democracia brasileira já es-
tão completamente tomadas.
A seguir, uma coleção de excessos e desrespeitos cometidos pela prin-
cipal corte do Brasil, que representa a aniquilação das bases de nossa
democracia no âmbito judiciário.

A ,
Poucas coisas são tão postiças quanto a sabedoria dos intelectos vaido-
sos. E poucos tão infelizes quanto os que pretendem beber a felicidade no
próprio copo, de canudinho, como refresco.
Comecemos pelos primeiros, pelos enfatuados do próprio saber. Para
eles, todo espelho é mágico e lhes atira beijos. Lambem seus títulos. Devo-
ram as próprias palavras após pronunciá-las para que nada se perca de seu
sabor. E vão engordando de lipídios um orgulho autógeno, encorpado pelas
lisonjas alheias
De quem e pelas
falo? Bem,que generosamente
pessoas dedicam
assim estão a si parte.
em toda mesmos.
Não posso
dizer que formam um exército numeroso porque não há exército com-
posto apenas p or generais de quatro estrelas. Andam dispersos, portanto.
Mas se há um lugar onde, por dever de ofício, se reúnem expoentes de tal
conduta, esse lugar é o STF. Chega a ser divertido assisti-los desde a pers-
pectiva pela qual eles mesmos se veem. Aferi-los pela infinita régua com
que se medem. Apreciar o esforço que fazem para ostentar sabedoria. As

134 de maio de .
ESCORPIÕES E RÃS 223

frases lhes saem lustradas, polidas como corneta de desfile. Não que isso
seja mau em si, mas chama atenção como parte da grande encenação das
vaidades presentes. Imagino que por vezes se saúdem assim: “E sua vai-
dade como vai, excelência?” E o outro retruca, cortesmente: “Bem, bem,
recuperando-se do último voto vencido, mas as perspectivas são boas,
obriga do, ministro .”
Nada mais próprio do que a palavra “corte” para designar aquele cole-
giado (cuja importância para a democracia e o Estado de Direito – esclareço
porque não quero ser mal-entendido – ergue-se acima dessas fragilidades
humanas). É uma corte. É uma corte onde todos exercem, sobre o Direito a
que estamos submetidos, uma soberania irrestrita, que flutua em rapapés e
infla os egos à beira do ponto de ruptura.
Se há alguém, ali, cuja vaidade consegue sobressair-se dentre todas, esse é
o ministro Marco Aurélio Mello. Imagino o mal-estar que cause entre os de-
mais quando se põe a lecionar-lhes. No plenário ele é o Verbo. Sua excelência
sequer fala como as pessoas comuns falam. As palavras lhe saem arquejadas,
numa espécie de sopro divino, criador, forma verbal das cintilações do astro
rei da constelação. Ante um brilho desses só se chega usando óculos escuros
e protetor solar.
Pois bem, quando os ministros sentaram para decidir sobre direitos das
“uniões homoafetivas”, Marco Aurélio Mello resolveu atacar a Igreja. Foi
até a Inquisição, passeou sobre os diferentes doutrinadores a respeito da
relação entre a Moral e o Direito – círculos concêntricos, círculos secantes,
mínimo ético, e por aí passeou, sempre buscando deslegitimar a influência
religiosa sobre a moral social e sobre o Direito. Por fim, abraçou-se à tese
de uma desembargadora gaúcha, para quem a família formada por homem,
mulher e prole é coisa voltada para o patrimônio e causa da infelicidade uni-
versal. No viés proposto, família é qualquer outro arranjo possível, enquan-
to perdurar a felicidade de cada um. Muitos doutrinadores da zorra geral
chamam a essa coisa transitória de “família eudaimonística” (eudaimonia é
felicidade em grego).
Pergunto ao senso comum do leitor: mas não é exatamente essa visão
egoísta, a busca de uma felicidade que transforma os outros em bens de con-
sumo a causa determinante da infelicidade geral e das desagregações familia-
res? Pergunto a pais e mães neste dia das mães: pode existir família sem que
exista capacidade de renúncia e de sacrifício? Não é esse egoísmo deslavado
que arrasta ao abandono e ao desabrigo tantas mães cujos maridos foram
buscar “felicidade” em outros ninhos?
224 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Os membros de nossa Suprema Corte talvez se bastem com a própria vai-


dade. Mas nem a vaidade, nem a fruição da felicidade como um refresco toma-
do em canudinho são capazes de gerar conteúdos válidos para orientar a har-
monia social aqui onde nós, os humildes cidadãos, levamos responsavelmente
nossa vida, nossos deveres e nossos amores. Foi-lhes dado, senhores, o poder
para decidir o que bem entendam. Decidam, mas não ensinem o mal ao povo.

É, pois, o STF a mais alta corte do império bárbaro que nos assaltou,
com suas muitas tribos.
O texto a seguir fala da grave situação que vivíamos em 2011. Piorou
muito, é verdade. Mas o escrito segue tristemente atual.

Digoque
motivo e provo. Cada com
convivemos povotantas
tem odecisões
Supremo que merece.
chocantes, Não
contra as équais
por outro
nada,
absolutamente nada se pode fazer porque expressam a vontade da mais alta
Corte. A Corte... Já escrevi sobre isso. Uma das características de toda corte
é seu alheamento em relação à realidade. É um alheamento que começa no
luxo dos salões, nas mordomias dispensadas aos cortesãos, nas necessárias
garantias que lhes são concedidas com exclusividade em relação à caterva
circundante. E que, como não poderia deixar de ser, se reflete na visão de
mundo e nos critérios de juízo. A corte contempla a realidade com luneta
de marfim e ouro, enquanto balança os pés à borda de uma cratera lunar,
lá no mundo onde vive. Marfim e ouro? Sim, marfim e ouro. Afinal, aquela
Corte tem 11 membros, um orçamento de R$ 510 milhões (um sexto do
orçamento da Câmara dos Deputados com seus 513 membros) e cerca de
2600 funcionários, entre servidores concursados, terceirizados e estagiários
(cf. Luiz Maklouf Carvalho, Revista Piauí, ed. 57).
Por outro lado, dado que cada povo tem o governo que merece, sendo o
governo quem escolhe os ministros do Supremo, a frase que se aplica àquele
faz-se vigente, também, para este. Lula cansou de nomear ministros para o
STF. A presidente Dilma tem mais quatro anos para fazê-lo. Antes dos dois,
FHC era adepto do mesmo relativismo e materialismo.

135 de junho de .
ESCORPIÕES E RÃS 225

Quod erat demonstrandum: duas décadas de governos com esse perfil


deu-nos o STF que temos. Então, entrega a Amazônia para os índios; então,
solta o Battisti; então, véu e grinalda para as uniões homossexuais; então,
marche-se pela maconha. E preparemo-nos para o que vem por aí, pois desse
mato continuarão saindo cobras e lagartos. Está tudo dominado!
Não conheço um único pai, uma única mãe que chame seu filho e lhe
diga: “Filhão, já que hoje é sexta-feira, toma vinte e vai comprar uma erva.”
Ou então: “Guri, vai fumar esse baseado no teu quarto que eu não suporto
esse cheiro.” Não. Todo o esforço vai no sentido de alertar os filhos para os
riscos do consumo de uma droga cujos menores danos ocorrem na saúde
dos pulmões, na redução da atividade cerebral e da intelecção, na perda de
interesse pelos estudos e na percepção de tempo e espaço; e cujos maiores
prejuízos advêm da motivação para o uso de substâncias ainda mais tóxicas
e que geram dependência muito maior. Quem não está no mundo da lua sabe
que raros são os usuários de outras drogas que não entraram nesse buraco
sem fundo pela abertura proporcionada pela cannabis.
Consultado sobre a marcha da maconha, que faz STF? Decide que o que
estava em julgamento era a liberdade de expressão... E a maconha ganha as
ruas. Desnecessário continuarem marchando. Podem os chapados parar de
caminhar. Nada consagrará mais o consumo e o brindará com maior tole-
rância do que essa decisão do STF! A partir dela, ficou muito mais difícil aos
pais convencerem os filhos de que aquela substância cuja marcha foi libera-
da lhes será nociva ou, até mesmo, fatal. Note-se que a posição ocupada pela
maconha na longa e mortal galeria das drogas, é absolutamente estratégica e
se baseia, exatamente, na difusão da ideia de que ela “faz menos mal do que
o tabaco”. O tabaco faz mal, sim, e por isso está banido do mundo publici-
tário, mas ninguém saiu dele para a cocaína ou para a heroína.
Os membros do STF têm sido perfeitamente capazes, para atender seus
pendores, de espremer princípios constitucionais e extrair deles orientações
que contrariam a letra expressa e a vontade explícita dos constituintes. Mas
sequer cogitaram de fazer o mesmo em relação à marcha que propagandeia a
maconha. Saibam, contudo, os leitores: não faltariam aos membros da Corte
preceitos constitucionais relativos à proteção da infância e das famílias para
uma decisão que travasse a propaganda da maconha. Bastaria que houvesse
em relação ao bem-estar social um apreço superior ao que eles demonstram
por suas próprias filiações filosóficas.
Podem começar a marchar, agora, pelo óxi, pelocrack e pela cocaína. A
Corte vai deixar. Ela não está nem aí.
226 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

M , !
Em fins de 2006, o STF julgou inconstitucional a lei que estabelecera
cláusula de barreira para os partidos chamados nanicos. Essa lei fora apro-
vada pelo Congresso Nacional em 1995 para viger dez anos mais tarde. Foi
uma
do quedaspara
muitas vezes em que os ministros
constitucionalistas. Caramba!estiveram mais para
Se o Congresso opiniáticos
Nacional não
tiver autonomia sequer para legislar sobre partidos políticos, então que se
fechem suas portas e se transfiram suas atribuições para os Onze Sábios da
República. A surpreendente decisão fundamentou-se no direito de represen-
tação das minorias. Entenderam suas excelências que a cláusula restringia
direito fundamental das parcelas minoritárias da cidadania. Muito obriga-
do, senhores ministros. Valeu!
Abro parêntesis. É interessante notar que pelo menos dois dos partidos
que impetraram aquela Ação Direta de Inconstitucionalidade acolhida pelo
STF (PCdoB e PSOL) consideram perfeitamente normal e democrático o
monopartidarismo cubano, mas acham que, no Brasil, não pode haver de-
mocracia sem um multipartidarismo que os inclua como representação de
certas minorias ideológicas. Fecho parêntesis.
Como recusar o fato de que o excessivo número de partidos complica a
política em todos os seus níveis e em todas as suas etapas? Anoto algumas
dessas mazelas:
1. o custeio das legendas;
2. as cada vez mais difíceis e onerosas campanhas eleitorais;
3. as extravagantes coligações com que convivemos;
4. a multiplicidade de espaços em rádio e tevê;
5. a sobrecarga incidente na Justiça Eleitoral;
6. o excessivo número de candidatos que poluem a vitrine das campa-
nhas e dificultam a escolha do eleitor;
7. a formação de um número demasiado de bancadas nos parlamentos;
8. a descaracterização filosófica das siglas;
9. o tumulto que geram na composição dos governos e no processo le-
gislativo, e por aí vai.

136 de fevereiro de .
ESCORPIÕES E RÃS 227

Vinte e três partidos políticos têm representação na Câmara dos Depu-


tados! Os 86 deputados da maior bancada, a do PT, representam apenas
15% do plenário... Ou seja, nesse modelo que seduziu o STF, a maior ban-
cada acaba sendo, também ela, uma pequena minoria. Como organizar de
modo adequado atividade tão relevante ao b em comum quanto é a política
com um sistema que só produz minorias irrelevantes? Como erguer essa
atividade a um patamar mais elevado se a necessária formação de maiorias
leva os partidos a se debruçarem sobre um cada vez mais seboso e menos
digno balcão de negociações onde, a cada ano, é necessário criar novas
moedas de troca?
É certo, o grau de civilidade de um país tem a ver, entre outras coisas,
com a forma como trata suas minorias. Sair-se daí, porém, para transformar
o sistema partidário em instrumento dessa organização e representação é
clara demasia. As minorias deveriam compor-se dentro dos partidos que as
acolhessem em suas plataformas e diretórios. Isso evitaria todos os males do
multipartidarismo e mais este: a possibilidade de que o acesso ao poder seja
franqueado a uma minoria organizada. Atenção! O nosso modelo permi-
te que circunstancialmente, um partido minoritário, nanico, sectário (quem
sabe até totalitário!), tendo cooptado para seus quadros uma figura carismá-
tica e popular qualquer, chegue ao governo trazendo na manga do casaco
posições filosóficas, ideológicas e morais sem aceitação social. Governar é
tarefa para partido grande. É direito e dever das maiorias.

A“ ” C
Quase não dormi. Embora creia que o Estado não tem por que tutelar
todos os tipos de relações afetivas que se manifestem na sociedade, e que se
restringe à família,
sua proteção, por ser a que
não considero instituição fundamental,
o reconhecimento de odireitos
espaço previdenciá-
reservado à
rios às uniões homossexuais vá abalar os fundamentos da sociedade. O que
me manteve alerta, insone, foram algumas coisas que ouvi saírem da boca
dos senhores ministros do STF durante o julgamento de ontem, quando, a
toda hora, alguém pegava o microfone para dizer que o STF não estava se
substituindo ao Congresso Nacional. Certamente o diziam por saberem, to-
dos, que era exatamente isso que estavam fazendo.

137 de maio de .
228 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Vejamos. Em 1988, nossos constituintes expressaram com clareza verná-


cula que família é uma instituição formada pelo casamento ou união estável
entre “o homem e a mulher”. Oito anos mais tarde, ao legislarem sobre
união estável (lei nº 9.278/96), reconheceram como “entidade familiar, a
convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher,
estabelecida com objetivo de constituição de família”.
Será que resta alguma dúvida sobre o que pensavam os constituintes e sob re
o que expressaram os legisladores brasileiros a respeito dos sujeitos constituti-
vos de família e união estável? Onde se evidencia, no texto constitucional e no
texto legal, o tal vazio legislativo que o STF “precisava colmatar”, como chegou
a afirmar o ministro Celso de Mello? Será que ao dispor em contradição à von-
tade de suas excelências, o Congresso Nacional criou uma cárie que precisava
ser sanada e colmatada? Era tão aberrante a ideia (embora sempre presente nos
votos prolatados) queo aveludado ministro Ayres Britto, um rebelde togado, de
fala mansa, relator do caso, se viu obrigado a reiterar quenão era isso não, e que
a própria Constituição fornecia os instrumentos para decisão
a que estavam to-
mando. Ou seja, onde o Legislativo fezquestão de explicitar “homem e mulher”
ele, na verdade, estava querendo dizer algo bemdiferente disso.
É de tirar o sono! Sabe, leitor, como procedeu nossa corteconstitucional para
derrubar um preceito da constituição? Foi nas caixinhas dos princípios, dos va-
lores e dos direitos fundamentais, escolheu os que desejava e os mastigou como
chicletes até assumirem o formato que lhe convinha. Em palavras mais simples:
fez justiça pelas próprias mãos, dando um tiro na Constituição Federal.
Bastava ouvi-los. Todas as manifestações eram um libelo contra o pre-
ceito constitucional, uma defesa ardorosa da união homossexual, uma ma-
nifestação candente de simpatia pela causa, um ataque à moralidade com
identidade religiosa (como se por ter srcem religiosa deixasse de ser popular
e social e perdesse direito à expressão política). Na falta de um bom argu-
mento – um só bastava, desde que fosse bom para derrubar a maldita expli-
citação “homem e mulher” – retiravam pequenos argumentos do meio das
folhas de papel como quem busca, afanosamente, o talão do estacionamento
nos bolsos do casaco.
Foi uma coisa alarmante, pois,de duas, uma: ou havia um vazio legislativo
a ser “colmatado”e o STF legislou em contradição com a Constituição, ou era
preciso declarar a inconstitucionalidade do parágrafo 3º do art. 226 da Carta
da República, que estaria em contradição com aqueles princípios constitucio-
nais que eles mastigavam sem darsatisfação para ninguém. É bom lembrar aos
onze do ensinamento do ex-ministro Francisco Campos, para quem “repug-
ESCORPIÕES E RÃS 229

nava ao regime de constituição escrita a distinção entre leis constitucionais em


sentido material e formal. Em tal regime são indistintamente constitucionais
todas as cláusulas constantes da constituição, seja qual for seu conteúdo ou
natureza.” Ademais, nas claríssimas palavras do doutrinador Jorge Miranda
(também constituinte na democratização portuguesa), sequer os “órgãos de
fiscalização instituídos por esse poder (constituinte) seriam competentes para
apreciar e não aplicar, com base na Constituição, qualquer das suas normas.
É um princípio de identidade ou de não contradição que o impede”. Mude o
Congresso a norma constitucional, se 3/5 de seus membros o desejarem. No
Estado Democrático de Direito as coisas são feitas assim. Mas, para o bem
desse mesmo Estado, nunca mais repita o STF tão arbitrária conduta!

O AI- S
Não precisa ser ministro do Supremo para saber que toda proposição
legislativa com apoio popular, maioria parlamentar e concordância do go-
verno vai a votação e é aprovada. Viés oposto, se uma proposição, mesmo
com apoio do governo, leva anos tramitando e não chega ao plenário (como
as que tratam de união homossexual) é porque não tem apoio popular nem
parlamentar. Nesses casos, o próprio autor evita a votação porque percebe
que vai perder. Melhor do que ninguém ele sabe que a Casa já decidiu. E
decidiu contra.
Portanto, quebra o nariz contra o óbvio quem repreende o Congresso por
não haver votado matéria reconhecendo as uniões homossexuais estáveis
como constituintes de entidade familiar. Sabe por que, leitor? Porque nesse
caso, além do óbvio dito acima, o Congresso já deliberou três vezes! E em
todas reconheceu como entidade familiar somente:
1. a união estável “entre o homem e a mulher” (Constituição de 1988);
2. a união estável “de um homem e uma mulher”(Lei Nº 9.278 de 1996);
3. a união estável“entre o homem e amulher”(Novo Código Civil de 2002).
E ainda há ainda quem ouse afirmar, com face lenhosa, que o Congresso
se omitiu!
Por outro lado, os ministros do STF sabiam. Sabiam que essa mesma questão
surgiu durante o longo processo constituintedos anos 1987 e 1988. Sabiam que

138 de maio de (publicado no jornal Zero Hora).


230 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

a versão inicial do artigo 226 só falava em união estável. Sabiam que a redação
assim posta deixava margem à dúvida. Sabiam que essa dúvida gerou debate
nacional e foi pauta, inclusive, do programa Fantástico.
E sabiam que o textodo
§3º do artigo 226 foi redigido por emenda do deputado Roberto Augusto, exa-
tamente para dirimir a ambiguidade e esclarecer que a norma se referia à união
“entre o homem e amulher”.Aliás, ao justificar a emenda do colega constituinte
no dia em que foi a votação, o deputado Gastone Righi disse que a proposta
visava a “evitar qualquer malévola interpretação” do texto constitucional; eis
que, em sua ausência, “poder-se-ia estar entendendo que a união poderia ser
feita, inclusive, entre pessoas do mesmo sexo”. O plenário do Supremo sabia
tudo isso porque o ministro Ricardo Lewandowski, ao votar, se encarregou de
o rememorar. Mas a “malévola interpretação” que os constituintes quiseram
evitar acabou urdidano dia 5 de maio, a vinte mãos, pelo STF. Apesar de tudo.
Aquilo foi o AI-5 do STF! Ele não apenas legislou, mas legislou contra a
vontade explícita do Congresso Nacional. Fez hermenêutica pelo avesso da
norma. Doravante, até que se restabeleça o Estado Democrático de Direito,
só é constitucional aquilo que a Corte desejar que goteje dos princípios da
Carta de 1988. O Poder Legislativo foi sorvido pelo Supremo, onde onze
pessoas extraem tudo que querem de meia dúzia de artigos da Constituição.
O resto é letra morta, palavra ao vento, sem valor normativo.
Deixaram os ministros de ser guardiões para se converterem em donos
da Lei Maior. Assim como Geisel concebeu a “democracia relativa” (relativa
à sua vontade), o STF inventou a relativização da Constituição (relativizada
ao desejo de seus ministros). Foi escancarada a porta para o totalitarismo
jurídico. Passou o bezerrinho. Atrás vem a boiada. Doravante, se um pro-
jeto de lei não tiver guarida no Congresso, recorra-se ao Supremo. Sempre
haverá um princípio constitucional para ser espremido no pau-de-arara das
vontades presentes.

C
Todo mundo sabe: o mercado de trabalho no Brasil é ponto de conver-
gência de uma infinita e sempre crescente normatização. Há material para
todos os gostos. Vai do saudável ao demagógico. Do feito para complicar ao
absolutamente incompreensível. Quando se acrescenta a isso, por um lado,

139 de maio de .
ESCORPIÕES E RÃS 231

o pequeno valor atribuído por tantos magistrados ao que está escrito na lei
e, por outro, o infinito amor de tantos juízes ao que eles monocraticamente
acham da vida, tem-se um quadro caótico, dentro de cuja moldura pode
aparecer qualquer coisa. Até justiça.
Não, não estou exagerando. Isso é tão verdadeiro que o Tribunal Supe-
rior do Trabalho resolveu parar durante toda esta semana numa tentativa
de sair do enrosco e acabar com a consequência mais visível de tal situação:
sentenças contraditórias sobre causas idênticas, que “comprometem a credi-
bilidade da justiça trabalhista e causam indignação às partes”. Note-se que
essa realidade nada tem de recente nem é exclusividade da justiça do traba-
lho. Vou relatar fato ocorrido numa vara de Porto Alegre, segundo ouvi há
quase quarenta anos de um amigo procurador do Estado.
Um advogado comparece para audiência, expõe sua tese e perde. Dias
mais tarde, volta à mesma vara defendendo a tese oposta e tranquiliza o
cliente: “Essa está no papo. Conheço a posição do juiz.” Cheio de confian-
ça, entra para a sala de audiências e... perde novamente. Enquanto junta
seus papéis e os enfia, furioso, dentro da pasta, o advogado resmunga entre
dentes: “Sinto-me nesta vara como o flautim do czar.” O magistrado pede
que ele esclareça o que quer dizer. Ele recusa. O juiz insiste. E o advogado,
constrangido, acaba contando a história do flautim do czar.
Aqui vai ela.
Os mongóis estavam invadindo a Rússia. Numa determinada batalha, em que
os russos levavam a pior, a banda, sentindo a derrota, executou com impres-
sionante vigor o hino do czar (embora à época das invasões mongóis ainda
não houvessem czares nos principados russos, a história vai como foi conta-
da). Essa arremetida cívico-musical empurrou os combatentes para a reação
e para uma inesperada vitória. O czar, sabendo do fato, mandou presentear
os integrantes da banda com tantas moedas de ouro quantas coubessem no
seu instrumento de trabalho. O sujeito da tuba ficou rico e o do flautim não
recebeu uma moedinha sequer. Meses mais tarde, em nova batalha, repete-se
a situação, mas foi a banda mongol que levou vantagem. Desta feita, enco-
lerizado com a derrota, o czar determinou que cada membro da banda fosse
punido com a introdução do respectivo instrumento de trabalho no – digamos
assim – trecho final de seu tubo digestivo. E a pena só pode ser cumprida no
infeliz do flautim.

É lamentável e é preocupante, mas essa anedota reflete a realidade co-


mum no judiciário brasileiro, com a sua excessiva politização, com o pouco
respeito à lei escrita, com o uso indevido e o abuso interpretativo dos prin-
cípios constitucionais segundo a ideologia de cada um (prática que acaba
232 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

de ser solenizada pelo próprio STF). O nome do monstrengo gerado é este:


insegurança jurídica. Como natural consequência dela, o cidadão, antes de
agir, em vez de ler a lei, ou de ouvir um advogado, deve consultar o juiz.

N -
Assisti a boa parte das sessões em que o STF deliberou sobre a adoção
de quotas raciais para ingresso nas universidades públicas. Praticamente to-
dos os votos foram ornados com líricas declarações de amor à justiça pela
igualdade. Estavam dispostos a servi-la às mancheias. O ministro Fux, por
exemplo, não falava. As palavras lhe gotejavam como favos de mel enquan-
to o versejador Ayres Britto ralava os cotovelos na quina da mesa. Joaquim
Barbosa cedeu a cadeira a Castro Alves e quedou-se em pé, atrás, feliz por
“estar ali, nest’hora, sentindo deste painel a majestade”.
A ministra Rosa Maria, tecendo frases como quem bordasse sobre tela,
assentou “que a ação tinha de ser julgada à luz da Constituição, que consa-
gra o repúdio ao racismo e o direito universal à educação”. Foi um alívio,
àquelas alturas, ficar sabendo que a ação seria julgada à luz da Constituição,
porque eu já desconfiava de que os votos estavam sendo iluminados pelos
estatutos de algum movimento racial. Contudo, ficaram a quilômetros das
ponderações da ministra as inevitáveis decorrências do voto que deu: dora-
vante incorrerá em racismo e afrontará o direito universal à educação toda
universidade, pública ou privada, toda feira do livro, todo prêmio literário,
que não prover as tais cotas. Marco Aurélio, por pouco, muito pouco, não
disse que a adoção de quotas raciais se justifica porque o Estado é laico.
Levandowski, o ministro-relator, foi saudado como a princesa Isabel da
sessão. Só não lhe deram tapete vermelho e damas de companhia porque não
ficaria bem. Mas
fará ombrear, sua imensa
na história, comcontribuição
a filha de D.para a justiça
Pedro II. Ao racial
lado danoLei
Brasil o
Áurea,
haverá de estar, para sempre, o Voto Diamantino que relatou à corte. O
ministro, contudo, tinha um problema. Havia um preceito na Constituição
segundo o qual ninguém pode ser discriminado por motivos de cor, etc. E era
demasiado óbvio que o regime de cotas raciais feria essa prescrição ao criar
exceções ao mérito como critério seletivo. A arguição de inconstitucionalida-
de do regime de cotas alegava que os positivamente discriminados ingressam

140 de abril de .
ESCORPIÕES E RÃS 233

na universidade com nota inferior à obtida por aqueles que, negativamente


discriminados, ficam de fora apesar de haverem obtido nota superior. Como
saiu-se dessa encrenca o ministro? A possibilidade da discriminação positiva
não poderia ser permanente, disse ele. Não poderia ser uma porta aberta
para a eternidade. Precisaria valer apenas enquanto necessária. Só por uns
tempos. Caso contrário, ocorreria a inconstitucionalidade. Capisce? Enxu-
guemos, pois, as consequências, provisoriamente, através dos séculos, en-
quanto permanece aberta, a montante, lá no bê-á-bá do sistema público de
ensino, a torneira das causas. Mas quem se importa?
De jeitinho em jeitinho, vai-se a Constituição para o brejo, a segurança
jurídica para o espaço e o Poder Legislativo para o outro lado da praça. Se
o Congresso se omite em legislar, andam dizendo os ministros-constituintes,
o STF precisa agir subsidiariamente. Esquecem-se de um dado da dinâmica
parlamentar: quando o Congresso não delibera é porque não há entendimento
sobre a matéria. E isso é absolutamente normal, significando que oparlamen-
to, provisoriamente, decidiu não decidir. Aliás, a ideia de que o Estado preci-
sa emitir leis sobre tudo e sobre todos é irmã do totalitarismo. Quando, nas
normas que conduzem qualquer organização humana – do estatuto do clube
à constituição nacional – se pretende criar exceções ou regulamentar detalhes,
produz-se uma balbúrdia com efeito contrário ao pretendido. Em vez de escla-
recer, confunde-se cada vez mais. Por favor! Menos leis, mais liberdade.

D , - ?
Já vi muita gente vaidosa. Já vi muito pavão. Já ouvi muito vitupério. Mas
nunca antes lera algo semelhante à declaração que encabeça a segunda parte
da proposta do novo Código Penal, elaborada por uma comissão de juristas a
pedido
pano dodoséculo
Senado.
XIX.Trata-se
Afirmada de uma
pelo frase
autor,de
temTobias
o pesoBarreto, intelectual
de sua opinião sergi-
pessoal.
Reproduzida pelos notáveis, como preâmbulo do trabalho feito, credencia-o
por inteiro à cesta de lixo inorgânico. A frase diz assim:“O Direito não é filho
do céu. É um produto cultural e histórico da evolução humana.”
Compreenda, leitor, a natureza do problema. Existem correntes conflitan-
tes na Teoria do Direito. Cada qual com sua lógica intrínseca. Com essa fra-
se, os formuladores do anteprojeto assumem a cultura e a história como de-

141 de agosto de .
234 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

terminantes do Direito positivo e rejeitam o Direito Natural. Não pensavam


assim os legisladores do antigo Código Penal. Nem pensa assim a sociedade
brasileira, que tem enraizado em sua cultura o caráter determinante e univer-
sal de certos princípios morais sobre as leis dos povos. Abro parêntesis: é por
força da lei natural, por exemplo, que nos indignamos quando uma mulher
iraniana é morta a pedradas ou quando o regime cubano efetua prisões por
delito de opinião. Fecho parêntesis. Tampouco nossos constituintes de 1989,
que esculpiram na Carta brasileira um elenco de princípios fundamentais e,
até mesmo, cláusulas pétreas, pensavam como os elaboradores do anteproje-
to do novo Código Penal. Com efeito, fosse o Direito mero produto cultural
e histórico da evolução humana, princípios e cláusulas pétreas o colocariam
em oposição tanto à cultura quanto à evolução.
Pois eis que o relativismo moral, associado ao positivismo jurídico, vem fa-
zendo estragos no ordenamento jurídico brasileiro. Recentíssimas decisões do
STF foram pinçar e lapidar certos princípios da nossa Constituição, ao gosto
de grupos minoritários da sociedade, para forçá-la a admitiro que ela explicita-
mente recusa. Agora são os notáveis, convidados pelo Senado, que declaram ser
o seu anteprojeto um produto da nossa cultura e da nossa evolução histórica.
De onde essa certeza, caras-pálidas? Quem os proclamou reflexos perfei-
tos da atualidade cultural brasileira e tomógrafos precisos a capturar nosso
flagrante histórico? A sociedade certamente não foi, porque ela discorda de
diversos preceitos propostos em vosso anteprojeto. Em quantas famílias os
pais permitiriam aos filhos criar sua hortinha decannabis sativa ou operar um
minilaboratório caseiro para produção de cocaína? Quantos haverá que en-
dossam a autorização para prática do aborto simplesmente porque a mãe não
tem “condições de criar o filho” que traz no ventre? Quandoesse estratagema
foi inventado, na Espanha, em 1983, as clínicas de aborto mantinham psicó-
logos contratados apenas para assinar atestadosde incapacidade materna. Em
qual recanto cultural do Brasil encontra guarida a descriminação do terroris-
mo quando seus agentes “forem movidos por fins sociais ou reivindicatórios”?
É claro que nem tudo é imprestável no anteprojeto da comissão. Mas sua
mercadoria legislativa vem com esse vício redibitório que a torna imprópria
para o uso. Seus autores não são tudo que pensam ser.

É uma infestação. Uma praga! Talvez seja pior até mesmo que a se-
gunda praga do Egito, pois a maldição narrada no Antigo Testamento
ESCORPIÕES E RÃS 235

trazia apenas rãs. Agora, elas vêm “pilotadas”, orientadas, por escor-
piões ávidos por poder. Elas vêm em forma de
• partidos que funcionam como linhas auxiliares,
• organizações não-governamentais ligadas a partidos e mantidas
com verbas... governamentais,
• políticos patrimonialistas, dispostos a negociatas quaisquer,
• empresários covardes e ambiciosos, que se entregam a agentes pú-
blicos corruptos,
• servidores carreiristas, que não abrem mão de seu quinhão,
• órgãos e instituições, malabaristas de números,
• escritores, músicos, atores, enfim, intelectuais e artistas “orgâni-
cos”, segundo definição de Antonio Gramsci para os idiotas úteis
das artes e das letras,
• partidos, políticos e associações terroristas e de esquerda da Amé-
rica Latina, unidos sob o Foro de São Paulo,
• “padres de passeata”, como bem alcunhou Nelson Rodrigues, que
rezam conforme a cartilha de Marx,
• juristas em geral e ministros do STF, dispostos a defender a causa
e a legislar com julgamentos canhotos.
Como se vê, os maus brasileiros, os Procustos à brasileira, atingiram
grande êxito em seu projeto hegemônico gramsciano. A invasão insti-
tucional dos bárbaros beirou a perfeição.
O azar deles – e sorte nossa – é que a ineficiência é sua marca princi-
pal. E, de uma forma ou de outra, cedo ou tarde, a Verdade, com “v”
maiúsculo, prevalece.
Seu poder tem diminuído, sua estrutura tem sofrido abalos. Mas há
ainda muito por fazer para enterrar seu projeto.
O caminho – ao menos à compreensão do problema, que é em si o co-
meço de sua resolução – nos dá Percival Puggina, no último capítulo
desta obra, com seus textos mais recentes.
LANTERNA NA PROA
Abrimos esta obra com um grande brasileiro: Mário Ferreira dos Santos,
filósofo de vasta obra, profunda erudição e teses certeiras e perenes. Era uma
preparação, a última boa refeição de um peregrino antes de um período de
agruras e escassez ao longo de sua trajetória. Após o filósofo da concretude,
os brasileiros citados e analisados por Percival Puggina eram, em geral, de
outra classe – presunçosos, preguiçosos, ressentidos, invejosos, mentirosos,
inescrupulosos. Do primeiro capítulo deste livro, sobre a Verdade, até aqui,
atravessamos longas trevas. Agora, neste último capítulo, trazemos nova luz.
Roberto Campos, um brasileiro gigantesco (dentre tantos vitimados pelo
nanismo moral), inspirado em versos de Samuel Taylor Coleridge, deu a seu
livro de memórias o título Lanterna na popa – que, segundo o poeta inglês,
“ilumina apenas as ondas que deixamos para trás”.
Do alto de uma verdadeira humildade, dizia não possuir “profundidade,
inteligência ou poder para erguer um farol que lançasse um facho de luz para
as futuras gerações”, mas que, analisando e expondo sua história, poderia
ao menos oferecer uma “lanterna na popa”. Acrescentamos que, além de
iluminar às águas deixadas para trás, esse facho orienta as embarcações que
lhe seguem.
Enganou-se, porém, Roberto Campos. O que ele nos deixou foi um ca-
nhão de luz, capaz de dar vida à escuridão de nossa intelectualidade recente
e de indicar uma escada luminosa à necessária sublevação do indivíduo bra-
sileiro, precedente de uma esperada elevação do espírito nacional.
A lanterna na proa que pretende ser este capítulo é a mesma que estava
na popa de Roberto Campos. Com Puggina, começamos com a lanterna na
popa: olhamos para trás, analisamos a situação pregressa, entendemos qual
era nosso problema, como ele se estabelecera e quem são seus agentes. Agora,
a lanterna vai para a frente da embarcação, a iluminar o local presente e as
possibilidades futuras.
No domingo 15 de março de 2015, milhões de brasileiros foram às
ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff e clamar por investi-
gações contra o PT e contra toda e qualquer organização política ou
civil que se tenha aliado ao bando de Lula.

Após anos de inoperância da oposição, foi a indignação que levou os


brasileiros às ruas. As condições para isso foram dadas pela incansável
atuação de pessoas como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e o
próprio Puggina, autor desta obra.
O momento é outro. A situação é trágica. E as razões para a mudança
são muitas – 13, para ser mais exato e simbólico.

Q
ueriam a prova? Pois ela veio assim que terminaram as manifestações do
domingo, país afora. A entrevista dos ministros Miguel Rossetto e José
Eduardo Cardozo fez prova provada do inverso da tese que pretenderam
apresentar. O governo é incorrigível! O quetinham a dizer? Nadaque suscitasse
consideração ou respeito. Ao contrário, mostraram a mesma falsa autossuficiên-
cia e conhecida arrogância. Pacote de combate à corrupção? Me poupem!
Só o impeachment(palavra que em inglês que significa “acusação”,“impug-
nação”) da presidente Dilma pode resolver a crise política instaurada no país.
De que se acusa o governo? Por que impugná-lo como parte de um ato político
devidamente constitucional e objeto de legislação específica? Eis por quê:
1. A presidente perdeu quase totalmente o apoio popular. Sua perma-
nência no cargo, em tais condições, nada tem a ver com democracia,
mas com Estado de Direito. A democracia, a vontade popular, não
mais a sustenta. Não mais a referenda. O povo perdeu-lhe o apreço
e o respeito. É graças à Constituição que a presidente permanece até
que o rito político nela previsto impugne sua presença na chefia do
governo e do Estado brasileiro.
2. Dilma se esconde do povo. Onde vai, leva vaia. Quando aparece na
televisão não tem o que dizer exceto repetir o discurso de sua inescru-

142 de março de .
240 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

pulosa campanha eleitoral e anunciar pacotes que só convêm ao seu


partido e ao seu projeto de poder. E leva panelaço.
3. Não é admissível, não é probo, não é honesto mentir aos eleitores!
É fraudulento vencer uma eleição contando à Nação, até o dia 26,
mentiras que cairiam por terra no dia 27.
4. Nem com a maior dose de boa vontade e tolerância se consegue acei-
tar a tese de que a suprema mandatária, comercializada ao público
como “gerentona”, não fosse informada nem percebesse o sumiço
de bilhões das contas públicas e o mágico e inebriante retorno dessa
dinheirama a seu partido e seus parceiros.
5. Não é probo, não é decente, usar recursos públicos para criar no
Brasil uma nova classe de bilionários: os bilionários do BNDES; pri-
vilegiados com muito dinheiro, a juros subsidiados por nós. Eles enri-
quecem e a diferença entre o juro subsidiado e o que o Tesouro paga
vai para nosso débito.
6. Não é moralmente admissível que se perdoe dívidas de governos di-
tatoriais para viabilizar a concessão de novos financiamentos que
beneficiam empreiteiras amigas da corte e intermediários de muita
conversa. É inaceitável que tais operações sejam registradas como
sigilosas.
7. É ímprobo um governo que escolhe para diretorias de empresas esta-
tais pessoas não apenas desonestas, mas que agiam sob voraz pressão
partidária. Não pode ser acaso, então, o fato de dois sucessivos tesou-
reiros do PT haverem ido hospedar-se na cadeia.
8. O partido da presidente não se penitencia ante os acontecimentos
e promove gritarias para calar a oposição na CPI da Petrobras. Ou
seja, a nação está sob comando de um governo e de partidos que
defendem criminosos, como faziam seus militantes pagos na última
sexta-feira.143 Como haverão de corrigir-se?
9. A compra da refinaria de Pasadena, longe de ser o maior escândalo
do governo, foi autorizada por um conselho do qual Dilma era presi-

143 Em de março, dois dias antes dopovo brasileiro dar enorme mostra de insatisfação com
o governo do PT, uma militância tão natural quanto os improvisos discursivos de Dilma Rous-
seff tentou mostrar força em favor da presidente. Em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro,
ônibus despejavam centenas de supostos sindicalistas. Sobreviria, depois, a denúncia (uma delas
registrada em vídeo) de que cada militante recebera reaispara participar do ato, além do kit
camiseta, bandeira e boné. [N. C.]
LANTERNA NA PROA 241

dente. Foi considerada, na Bélgica, como o “negócio do ano” entre as


empresas daquele país. E virou processo criminal nos Estados Unidos.
10. A refinaria Abreu Lima teve seus custos de construção elevados de
R$ 2 bilhões para R$ 18 bilhões – e algo assim só acontece quando
a gestão pública atinge indescritível tolerância com a apropriação
ilícita dos recursos públicos. Ou dos acionistas.
11. Nenhuma empresa privada conviveria 11 dias sequer com uma rou-
balheira do porte praticado na Petrobras durante 11 anos sem que,
ela mesma, providenciasse o processo criminal dos responsáveis.
12. No início do primeiro mandato da presidente Dilma estouraram es-
cândalos em oito (!) ministérios, sinalizando ilicitudes que já corriam,
com fluidez e liberdade, desde os mandatos de Lula.
13. Só não percebe o que estão fazendo com o país quem não se respeita
nem se faz respeitar. O governo e a presidente não podem ser acusa-
dos de improbidade? Diga, então o contrário: diga que são probos...
Sei bem que contra estas e muitas outras razões podem ser interpostos
vários argumentos. Isso é da natureza do debate político e jurídico. No
entanto, esse governo é incorrigível. Ele nada tem a oferecer daquilo que
o Brasil precisa. Em defesa do interesse nacional, me posiciono entre os
que consideram o impeachment viável, necessário e imposição da cons-
ciência nacional.

O processo de queda do PT, cada vez mais acelerado, é muito anterior


a isto, mas a mudança do cenário começou, de fato, por paradoxal
que pareça, com a última vitória do PT.

P !
Eram 20 horas do dia 26 quando os números da eleição presidencial me
caíram diante dos olhos, saídos do éter e cercados das mesmas inconfiabi-
lidades que caracterizam as pesquisas de intenção de voto. Mas desta vez
eram números para valer. Dilma e o PT ganharam mais quatro anos para
destruir o Brasil e o caráter da população brasileira.

144 de outubro de .
242 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Vieram-me à mente as palavras acima, de Mateus 11, 21-22.


Ai de ti, Corazim e ai de ti, Betsaida! Porque, se os milagres que fiz nas vossas
ruas tivessem sido praticados em Tiro e Sidom, há muito que o seu povo se
teria arrependido com vergonha e humildade. Verdadeiramente, Tiro e Sidom
estarão melhor do que vocês no dia do juízo!

Elas são bem adequadas ao momento. Qualquer outro povo que tivesse,
desde 2005, quando estourou o primeiro escândalo do governo Lula, co-
nhecido o que o Brasil conheceu, sabido do que o Brasil ficou sabendo, con-
templado o futuro que o Brasil contempla, sido fatiado em alas e conflitos
como o Brasil foi, andado nas companhias com que o Brasil andou, feito os
negócios que no Brasil se fizeram, perdido tudo que no Brasil se jogou fora,
teria enxotado seu governo a votos na primeira oportunidade. O Brasil já
perdeu a terceira. Se o que acontece nas nossas ruas ocorresse em país sério,
seu povo se teria arrependido com vergonha e humildade. Ainda não chegou
para nós o dia em que o Brasil tomará juízo.
Felizmente, metade da nação já despertou. A disputa começou muito
mais desigual. Ao longo dos últimos meses, porém, o petismo, sem meias
nem peias, que se julga dono do Brasil, foi produzindo o mais incômodo de
seus resultados: o antipetismo consciente, crescente e comunicante, que se
irá organizar porque exatamente aqui, onde o PT julga que tudo termina, é
onde tudo começa. O que era disperso ganhará coesão.
Já que o PT preferiu dividir, dividido está. E o que foi dividido saberá
unir-se. Em dois anos haverá novas eleições e, desta vez, os antipetistas sabe-
mos quem esteve e quem está com quem. Isso o PT e o Congresso Nacional
ficaram sabendo: metade do Brasil é antipetista. E todo parlamentar que não
for assumidamente antipetista vá cantar na sua freguesia porque terá metade
da nação contra si.

E, ao que parece, nem mesmo o processo eleitoral que manteve Dilma,


o PT e seus milhões de cabides no guarda-roupa do poder escapa das
suspeições.
LANTERNA NA PROA 243

A , TSE! Q ?
Escreverei sobre fato no vo, valendo-me de notícias velhas. Não faz um
ano, nem dois, nem três, que os meios de comunicação e as redes sociais
vêm divulgando análises técnicas independentes, estudos elaborados em
universidades, opiniões
ckers e insistentes alertasdedejuristas, alarmantes
que o sistema experiências
de votação feitasnopor
utilizado ha-
Brasil
é vulnerável e de que a transmissão de dados via internet também não
proporciona segurança.
É insistentemente dito que essas deficiências fazem com que o sistema
usado em nosso país seja refugado por muitos outros. Salta aos olhos mais
desatentos que um sistema de votação que não permite recontagem tem um
gravíssimo e imperdoável pecado srcinal.
Mais recentemente, após recusas em submeter o sistema a auditorias inde-
pendentes, chegam às redes sociais notícias de urnas não zeradas no início da vo-
tação e de disparidade entre os resultados médios das seções com identificação
digital e as seções com identificação documental em situações análogas. E por
aí vai. É possível que o clima dedesconfiança se nutra, também, de informações
falsas. Mas as informações falsas só transitam graças à desconfiança propicia-
da, de um lado, pela inconfiabilidade do sistema e, de outro, pelas eloquentes
insinuações de Dilma e de Lula sobreo que seriam capazes de fazer para vencer.
Não se trata de uma desprezível e deselegante inconformidade com a
derrota. Eu não me prestaria para esse papel. Trata-se de algo grave, a co-
brar posicionamento dos cidadãos que se sentem civicamente responsáveis.
Instala-se, no país uma pesada suspeita sobre a higidez e a invulnerabilidade
do sistema, conduzindo a incertezas sobre a legitimidade dos mandatos saí-
dos das urnas dos dias 5 e 26 de outubro.
Sei que dar satisfação a torto e a direito sobre os porquês de suas escolhas
e decisões, ou sanar inquietações cívicas, não são tarefas que se contem entre
as atribuições jurisdicionais mais urgentes e relevantes do Tribunal Superior
Eleitoral. Mas neste caso não é exatamente assim. O que milhões e milhões
de brasileiros, nestes dias, estão expressando como podem nas redes sociais
não se soluciona com um dar de ombros das autoridades. Não silencia ante
a voz do trono. Não some por decreto. Não cabe em nenhuma gaveta. Não
se enterra nos desvãos do tempo. Nas democracias (muitas delas proibiram
o uso desse modelo), a confiabilidade do sistema eleitoral é tema de eleva-

145 de outubro de .
244 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

díssimo interesse público, questão altamente sensível, sobre a qual não pode
haver dúvidas. E, menos ainda, inúmeras, imensas e reiteradas dúvidas.
Muito já foi escrito sobre o quanto era politicamente impróprio confiar a
presidência da Corte que conduziria este pleito a um ex-funcionário do par-
tido governista. Agora, surpreende o silêncio do TSE sobre aquilo que mais
se fala no país: as suspeitas sobre a eleição por ele presidida. Já surpreendia
antes, quando os cidadãos se angustiavam e não passava dia sem que algu-
ma informação circulasse, potencializando as incertezas. E surpreende ainda
mais agora, quando denúncias e inconformidades surgem dos pontos mais
variados do território nacional.
Para bem da democracia, da respeitabilidade das instituições e da legi-
timidade dos mandatos, que tudo seja auditado e investigado. E que estas
sejam as últimas eleições feitas segundo esse método de votação e transmis-
são de dados. Afinal, ao longo dos anos, quase uma centena de países vieram
conhecer o modelo brasileiro. Nenhum o adota.

Do
não processo
nos causeeleitoral aos malabarismos
indignação. Mas há aindafiscais, sobra
quem não pouco que hoje
entendeu.

O
O Brasil vai como quem resvala rampa abaixo sobre um skate. É a crise.
Em relação a ela, existem duas atitudes principais. A primeira, amplamente
majoritária, é a atitude dos que entenderam o que aconteceu e estão indigna-
dos. A segunda é a dos que ainda não entenderam.
Estou entre os primeiros. E realmente indignado porque não precisáva-
mos estar anos
primeiros passando por isso.
da década NossoApós
passada. país enorme
viveu umesforço
momento promissor
fiscal, nos
o Brasil der-
rubara a inflação, havia recuperado a credibilidade internacional, passara
a atrair investimentos, construíra alguns fundamentos para a Economia, a
arrecadação crescera e o governo ampliara a destinação de recursos para
uma série de programas sociais. As condições para tanto foram obtidas a
duras penas desde o governo Itamar Franco, com medidas de austeridade e
privatizações que o PT combateu furiosamente. Seriam necessárias muitas

146 de abril de .
LANTERNA NA PROA 245

outras providências, é verdade, mas nunca houve (e não sei se um dia haverá)
apoio político, no Brasil, para fazer todo o dever de casa.
Mas íamos bem. Tanto assim que Lula e seus companheiros se convence-
ram de que governar o Brasil era uma barbada. A China vendia tudo barato
e comprava montanhas de qualquer coisa. Jorrava dinheiro nas contas pú-
blicas. Obama dizia que Lula era “o cara” e o cara era o pai dos pobres, aqui
e mundo afora. O Brasil virou um programa de auditório onde se atirava di-
nheiro ao público. Havia bastante. Dava para comprar todos que quisessem
se vender. Uma parte da grana ia para os programas sociais e outra, muito
maior, para os programas socialites, via contratantes de obras e serviços, e
financiamentos do BNDES.
De formiga da revolução social, o petismo passou a cigarra das prodiga-
lidades. Em vez de investir na qualidade da educação das classes de menor
renda, preferiu remunerar a ociosidade. Em vez de estimular o mérito, favo-
receu a mediocridade com leis de cotas. Em vez de gastar recursos públicos
em infraestrutura, “conquistou”, em dois lances, a Copa de 2014 e os Jogos
Olímpicos de 2016. Em vez de diminuir o tamanho do Estado, agigantou-
-o com novos ministérios para usufruto da base de apoio. Para que o PT se
exibisse como partido líder da esquerda continental, financiou de um modo
escandalosamente secreto obras de infraestrutura que fariam muito bem, se
feitas no Brasil. Bilhões de reais foram direcionados para os países do Eixo
do Mal Latino-Americano (na expressão perfeita do Dr. Heitor de Paola).
A crise da economia mundial ganhou de Lula o apelido de “marolinha”.
E como tal, foi solenemente ignorada pela imprudência ufanista do presi-
dente. Ele dava conselhos ao mundo sobre como acabar com a pobreza...
A partir da metade do segundo mandato do estadista de Garanhuns, nos
monitores dos analistas da realidade brasileira, as luzes amarelas se alterna-
vam com as vermelhas. Mas nada importava. Era preciso eleger a senhora
mãe do PAC, notória economista que pensou haver descoberto o segredo do
bem-estar geral: endividar a sociedade toda através do governo para man-
ter as aparências e, adicionalmente, ampliar o endividamento das famílias.
Se você examinar de perto, verá que não há muito espaço para geração de
riqueza, poupança interna e investimento nessa inadequada concepção. Em-
bora não conviesse ao Brasil reeleger Dilma, Dilma precisava ser reeleita.
Paguemos todos, então, os custos das ilusões necessárias para produzir o
absurdo e suspeitíssimo resultado eleitoral de 2014.
A notória falsificação, que já leva oito anos, enganou muitos, durante
muito tempo. Não só no Brasil, diga-se de passagem. Agora veio a conta, e
246 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

levaremos alguns anos pagando. Quem sofrerá mais? Os pobres, justamente


os mais vulneráveis e, por isso, os mais iludidos pela publicidade do governo.
Mas não precisávamos passar por isso.

Nossas crises (política, econômica e moral) se agravam. Que fazer?

É , !
Não houve na história da República governo que merecesse tanto ser
posto porta afora pelas instituições quanto esse alegadamente reeleito no
dia 26 de outubro do ano passado. Percorreu de A a Z o dicionário das
coisas que um governo não deve fazer, e mandou para longe das próprias
vistas os limites morais a que se subordinam as pessoas e as instituições
que merecem respeito.
A lista é longa e mostra que estamos sob um governo absolutamente ca-
paz. De qualquer coisa. A corrupção foi transformada em política de Estado
graças à consistente e já fartamente comprovada formação de quadrilhas.
Quando os números do assalto à Petrobras chegaram às manchetes mun-
diais houve um estupor porque nunca se vira caso de corrupção com tantos
dígitos. E eram apenas os primeiros esguichos do que viria com a operação
Lava Jato, que desvendaria a extensão do esquema a um vasto conjunto de
obras públicas. Há poucos dias, o governo precisou usar toda sua força de
coerção para aprovar uma lei dizendo que crime de irresponsabilidade fiscal
já cometido deixava de ser crime perante os estatutos jurídicos do país. E
pouco mais tarde, novamente operou o balcão dos negócios para que fossem
retiradas assinaturas em CPIs que investigariam financiamentos do BNDES.
Em países
mentira sérios,
é sempre presidentes
a forma não podem A
de comunicação. mentir. No jamais
verdade governoemerge
brasileiro,
numaa
entrevista. Ela só aparece mediante rigorosa investigação jornalística ou po-
licial. O governo atrai os piores elementos dos partidos da base e os piores
parceiros nacionais e internacionais com os quais faz negócios que traem o
interesse brasileiro.
Seguindo a política do partido governante , sem audiência ao Congres-
so e à nação ali representada, deslanchou um programa de integração

147 de maio de .
LANTERNA NA PROA 247

continental denominado “Pátria Grande”, confessadamente comunista,


visando integrar moedas e identidades nacionais com os mais desastra-
dos de nossos vizinhos. Dentro desse projeto, o Brasil participa da ins-
talação de uma Escola de Defesa que outra coisa não é que uma versão
bananeira do Pa cto de Varsóvia. Se essas tratativas forem criter iosamen-
te investigadas, não andaremos longe de um crime de alta traição. Pense
num mal para o país e saiba: há um setor do governo ou de seu partido
tratando disso.
É irrelevante ao tema deste artigo mencionar a falta de qualquer mérito
nesse governo, porque no Brasil, governar mal é um direito de todos. Mas,
convenhamos, não é à toa que o petismo é contra a meritocracia. Basta con-
templar seu governo. Ele jogou o país numa enorme crise sem que houvesse
qualquer outro motivo que não fosse a monumental incompetência nas áreas
essenciais da administração.
Cobrar das instituições que deliberem sobre impeachment é uma impo-
sição moral. Se elas o recusarem, que assumam as consequências. Simples
como isso. O que não se pode fazer é um discurso de reprovação ao que foi
feito no país e dizer que “não é caso de impeachment”. Santo Deus! O que
mais é preciso? Por quanto mal ainda devemos esperar? Não nos constrange
tal omissão? A presidente e seus líderes já não podem aparecer na rua pois
são vaiados pelo povo, entregue aos azares que desabam sobre seu cotidia-
no. E as instituições, no conforto dos gabinetes, contemplam seus esféricos
umbigos. É assim que queremos ficar?
Dizer que “não é caso de impeachment” é fornecer ao governo um frau-
dulento atestado de boa conduta. Essa é apenas uma das duas opiniões pos-
síveis. E é a mais prejudicial ao interesse público, à moral nacional e ao
respeito que devemos ter por nós mesmos.

O impeachment é uma possibilidade constitucional, mas, como já vi-


mos, os maus brasileiros detêm (ou ao menos pretendem deter) o mo-
nopólio da razão. Pois, por exemplo, criticar a esquerda é, para eles,
“crime de ódio”. E apelar a um dispositivo da Constituição, dizem
esses procustos, é “golpismo”.
248 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

O
A palavra “golpe” tanto serve para definir a tentativa de afastar o gover-
no do poder quanto a de manter o governo no poder por meios extraconsti-
tucionais. Portanto, na atual situação brasileira, golpista é quem quer impe-
dir,
maismediante constrangimento
repulsivos, que se faça usomoral, sofismas
do processo de eimpeachment,
outros mecanismos ainda
instrumento
que a Constituição disponibiliza para situações como esta em que se encon-
tra a República.
Os que fizeram ninho nos poderes de Estado e converteram suas convic-
ções em receitas para ascensão funcional estão em estado de choque. Fazem
companhia aos parceiros da mídia e do mundo acadêmico que se acostuma-
ram a falar sozinhos para auditórios subjugados por uma hegemonia que
tritura neurônios como uma usina de brita quebra rochas. Em pedacinhos.
Nas últimas décadas, uns e outros jamais se depararam com algo semelhan-
te. Povo na rua bradando contra seus amados ícones. Panelaços contra sua
idolatrada “presidenta”. Lula vaiado e se escondendo entre guarda-costas e
companheiros. Rechaço popular a bandeiras vermelhas. Multidões pedindo
impeachment.
Como agir diante de algo assim? Proclamar, com insistência, a elevada
estatura moral do partido? Ajustar o elmo, esporear o cavalo e brandir es-
padas em defesa das virtudes do governo Dilma, como zelavam pela pureza
feminina os cavaleiros medievais? Investir recursos na modorrenta militân-
cia de sanduba, refri e R$ 35? Apelar para a velha estratégia de desqualificar
indivíduos e multidões, raças, classes sociais, pigmentação da íris? Incrível
como o velho Karl Marx fez vistas grossas à importância da cor dos olhos
na luta de classes, não é mesmo?
A desqualificação encontrou na acusação de golpismo o mais entoado
de seus refrãos. “Impeachment é golpe!”. E por aí vão. Unem-se em coro
colunistas, comentaristas, parlamentares e dirigentes petistas. Quem pede o
impeachment da sua amada “presidenta” é golpista. E pronto. O interessante
é que nenhum deles tem coragem de, em público, proclamar a elevada digni-
dade moral do governo, sua honra e probidade. Nenhum jornalista ou líder
político escreve, fala ou mostra a cara na tevê para sustentar o insustentável.
Todos sabem que a sociedade tem motivos de sobra para estar enojada do
governo e de suas práticas. É muito mais fácil, então, evadir-se da encrenca

148 de abril de .
LANTERNA NA PROA 249

pelo lado oposto, desqualificando os 63% da população brasileira que cla-


mam pela solução racional e constitucional: o impeachment da presidente.
Não pode ser “golpe” o apelo a um instrumento constitucional, com lei
própria, que só terá o efeito desejado se seguido o rito determinado pela
Constituição e pela lei federal que trata especificamente do assunto. Golpis-
ta, portanto, é quem tenta impedir isso.

Este capítulo imita a estrutura de toda a obra, a qual começamos


apresentando o problema da tomada do Brasil pelos maus brasileiros
– ou seja, começamos pelo o quê. Depois, passamos ao como, expli-
cando os métodos daquilo que chamamos de invasão institucional dos
bárbaros. Por fim, chegamos aoquem: quem são esses maus brasilei-
ros e quem são seus associados, seus companheiros.
Neste capítulo, até aqui, tratamos da situação atual doo que, do pro-
blema. E seguimos com as demais descrições a partir de um texto que
contempla o quem e, sobretudo, o como.

O PT .E .
A estratégia, agora, é apresentar o PT que vemos como deturpação do PT
de outrora, honrado defensor dos mais elevados valores morais.
Que papo mais furado (desculpem a vulgaridade da expressão)! Trata-se
de pura mistificação, para transmitir a ideia de que esse partido, no convívio
de 35 anos com os demais alinhamentos políticos, descuidou-se e absorveu
os maus exemplos que estes lhe transmitiram. Quem comprar a tese, fica
convencido de que o PT, ao contrário das outras siglas, teve um passado
límpido, com cheirinho de talco Johnson para bebês, podendo voltar às suas
boas raízes, como novo filho pródigo. Os outros estão eternamente condena-
dos. A salvação para o Brasil, portanto, só poderia vir de um PT repaginado,
saído do Photoshop. Dá-me forças para viver!
Mais uma vez, erro e falsidade. O PT sempre foi assim, como venho regis-
trando desde 1988, quando comecei a escrever para as páginas grandes do velho
Correio do Povo. Desde o início, o partido foi movido por um projeto de poder
inspirado nas piores e mais fracassadas teses políticas que a humanidade expe-

149 de fevereiro de .
250 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

rimentou no século passado. Na srcem de suas concepções e condutas está,


também, a essência da perversão política: a regra de que os fins justificam os
meios. Muitos de seusprincipais dirigentes, antes mesmo ed o partido existir, se-
questravam aviões, exigiam resgate, recebiam recursos de potências comunistas,
viveram décadas às custas do produto de assaltos que praticaram em dezenas de
empresas, joalherias e em mais de uma cente na de agências bancárias.
Mesmo antes de o PT existir, esses mesmos dirigentes estavam com-
prometidos com uma visão perversa de Estado. Eram contra a democracia
representativa, adversários da economia de mercado, organizavam movi-
mentos fora da lei, que afrontavam a Justiça, a ordem pública e o direito
de propriedade. Levaram à Constituinte de 1988 teses com o confessado
e documentado objetivo de implantar no Brasil um Estado socialista com
enorme ingerência nas atividades econômicas e na vida privada.
Em nenhum momento de sua história, seja como partido oposicionista de-
dicado a assassinar reputações, seja como condutor dogoverno, o Partido dos
Trabalhadores mostrou qualquer apreçopelas nações democráticas, pelas eco-
nomias livres, pelos países que prosperaram sob sólidasinstituições liberais.
Todo o apreço do PT fluiu, sempre, para regimes totalitários, arautos do
atraso e do subdesenvolvimento. Durante o regime militar, os que deixavam o
país buscavam refúgio noChile comunista de Allende, na Argélia de Boumédiè-
ne, em Cuba de Fidel, e atrás da Cortina de Ferro. Mantiveram e mantêm estrei-
tas relações com os movimentosde guerrilha e terrorismo comunistada Améri-
ca Latina, os quais foram convocados por Lula e Fidel para integrar o Foro de
São Paulo. No poder, a atração pelas más companhias se voltou, também, para
os piores líderesafricanos, corruptos, ditadores e genocidas. Distribui sorrisos a
governos fundamentalistas islâmicose jamais repreendeuum terrorista sequer.
A corrupção que arrasou a Petrobras e fez jorrar dinheiro do Tesouro aos
amigos do rei e da rainha através do BNDES reproduz, em escala bilionária,
o que acontecia em muitas das primeiras prefeituras do partido nos negócios
com coleta de lixo.

Os escândalos que envolvem petistas e seus cúmplices são evidentes a


quem quer e até a quem não quer ver.
O PT e a esquerda se agarram ao poder utilizando-se dos mesmos ex-
pedientes que os levaram a tornarem-se culturalmente hegemônicos.
O controle da linguagem é um deles.
LANTERNA NA PROA 251

É uma das formas como nossos bárbaros tentam seguir com seu pro-
cesso de invasão institucional.

O PT-
Todos já sabem que o tal “Humaniza Redes” é jogada de marketing saída
da cabeça do João Santana. Ou assemelhado. Resulta em bem concebida
forma de censura a todos que não amam o PT, o petismo, o governo petista,
a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Portanto, é violência disfarçada.
É a “criminalização” do antipetismo.
As organizações, personalidades e práticas políticas construídas em torno
do partido da estrela, na cabeça dos que conceberam o Humaniza Redes,
devem ser objeto de devoção e reverência nacional. Saudados com “Hasta la
victoria, siempre!”.
A expressão “Vai pra Cuba!”, aliás, tem sido apontadacomo sólido indício
de ódio contra o PT. Entretanto, poucas coisas tão ansiosamente desejadas por
qualquer petista, da base ao topo da pirâmide partidária, quanto uma excur-
são a Cuba. Viajar a Havana, com ou sem a companhiade Lula, já foi prêmio
disputado pela militância. Toda visita à ilha de Fidel Castro constitui ato litúr-
gico, uma espécie de batismo de fogo simbólico. Encontro-me frequentemente,
em debates, com muitos desses “compañeros” que estudaram por lá com aval
do partido, ou que fazem peregrinações periódicas à ilha, de onde retornam
como quem transpôs os umbrais do paraíso socialista.
Portanto, todo petista que se preze deveria responder a um “Vai pra
Cuba!” com um “Se Deus quiser!”, principalmente porque a expressão
poderia ser substituída por coisa muito mais desagradável e ofensiva, tipo
“Vai pra Miami!” ou “Vai pra Nova Iorque!”. Mas isso, sim, seria coisa de
gente mal-humorada, intolerante, do tipo que se irrita com o Mensalão, o
Petrolão, os sucessivos escândalos, as mordomias, as “pedaladas”, a irres-
ponsabilidade fiscal, as mentiras e mistificações, as explicações esfarrapadas,
a carestia, a inflação, o aumento de impostos e o crescente desemprego. Para
ficar no que se sabe.
Ódio não é um sentimento que se deva cultivar. Por isso, sugiro um pro-
grama “Harmonize PT”, para acabar com a semeadura de ódio que o parti-

150 de maio de .
252 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

do, há anos, semeia onde quer que a imaginação humana possa vislumbrar
uma fissura em grupos sociais. Por esse caminho, o PT foi jogando os brasi-
leiros uns contra os outros até darem conta do que estava acontecendo.
Mas se o ódio faz mal, tampouco seria benéfica e respeitável a passivida-
de tolerante que o petismo apreciaria neste momento. O fiapo de democracia
que nos resta está sustentado nos movimentos de rua e nas redes sociais por-
que as instituições, bem, as instituições estão com a vida ganha. E o país tem
um governo petista com uma oposição tucana. Pode haver infortúnio maior?

O controle da linguagem serve ao adestramento das mentes rebeldes


e daquelas que não chegaram a ser infeccionadas com a doutrinação
marxista das escolas brasileiras.
Mas, para quem ainda pode beber nessa fonte contaminada, o inferno
é aqui.

A
Todo dia, leitores me enviam relatos sobre a hegemonia marxista nos
ambientes acadêmicos. Há exceções, claro, mas são isso mesmo. A coisa fun-
ciona mais ou menos assim:
1. cursos voltados para Educação intoxicam universitários com conteú-
do marxista e explicações simplistas da realidade;
2. professores licenciados, elevados à condição de intelectuais orgânicos,
vão para as salas de aula do ensino fundamental e médio ensinar o
que aprenderam.
É a miséria da Educação. Ao longo do curso foram instruídos para
serem agentes de uma “educação libertadora”, na qual o adjetivo é muito
mais importante do que o substantivo. Aprenderam direitinho a condu-
zir seus alunos através dos estágios da investigação, da tematização e da
problematização, tendo em vista fazê-los protagonistas da transformação
da sociedade. Desde essa perspectiva, atividades escolares que enfatizem
o conteúdo das disciplinas são uma rendição às “exigências do mercado”
e indisfarçada posição de direita, certo? Então, ensinam-se convenientes

151 de junho de .
LANTERNA NA PROA 253

versões da história, uma geografia política muito política, pouca matemá-


tica e se reverencia a linguagem própria do aluno. Consequência: mais
de meio milhão tira zero na redação do ENEM. Tais professores julgam
perfeitamente honesto serem pagos para isso. Consideram absurdo que
lhes pretendam cobrar desempenho. Julgam-se titulares do direito de fazer
a cabeça dos alunos. Desculpem-me se repeti o que todos sabem, mas era
necessário ao que segue.
Qual o produto dessa fraude custeada pelos impostos que pagamos como
contribuintes à rede pública ou como pais à rede privada de ensino? Se você
pensa que seja preparar jovens para realizarem suas potencialidades e sua
dignidade, cuidando bem de si mesmos e de suas famílias, numa integração
produtiva e competente na vida social, enganou-se. Ou melhor, foi enganado.
O objetivo é formar indivíduos com repulsa ao “sistema”, a toda autoridade
(inclusive à da própria família) e às “instituições opressoras impostas pelo
maldito mercado”. Se possível, recrutar e formar transgressores mediante
anos de tolerância e irresponsabilidade legalmente protegida, prontos para
fazer revolução com muita pedrada e nenhuma ternura.
Se tudo der certo, o tipo se completa com um boné virado para trás, um
baseado na mochila e uma camiseta do Che. A pergunta é: quem quer alguém
assim na sua empresa ou local de trabalho? Em poucos meses, essa vítima
de seus maus professores, pedagogos e autoridades educacionais terá feito a
experiência prática do que lhe foi enfiado na cabeça. Ele estará convencido
de que “o sistema” o rejeita de um modo que não aconteceria numa socie-
dade igualitária, socialista, onde todos, sem distinção de mérito ou talento,
sentados no colo do Estado, fazem quase nada e ganham a mesma miséria.
É a educação da miséria. Os intelectuais orgânicos que comandam o pro-
cesso não se importam com o efeito daquilo que fazem. O arremedo de en-
sino que criaram cristaliza a desigualdade, atrasa o país, frustra o desenvol-
vimento humano de milhões de jovens e lhes impõe um déficit de formação
dificilmente recuperável ao longo da vida. De outro lado, quem escapa à sua
rede de captura e vai adiante estudará mais e melhor, lerá mais e melhor,
investirá tempo no próprio futuro e, muito certamente, criará prosperidade
para si e para a comunidade.
O mercado separará o joio do trigo. No tempo presente, as duas maiores
causas dos nossos grandes desníveis sociais são: a drenagem de 40% do PIB
para o setor público e a incompetência que a tal “educação libertadora” e a
respectiva ideologia impuseram ao ensino no Brasil.
254 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Portanto, considerando o estado do Ensino brasileiro, que, além de


não formar, deforma, os pais devem estar vigilantes quanto ao que
seus filhos “aprendem”.

A
Duvido que algum pai, ao matricular o filho numa escola, fique na ex-
pectativa de que lhe sejam enfiadas na cabeça as ideias políticas que seus
professores tenham. Os pais esperam exatamente o oposto. Esperam que
os professores não façam isso porque reservam tal tarefa para si mesmos,
segundo os valores e a cultura familiar. Quando um professor, o sujeito no
quadro-negro, o cara de cima do estrado, que corrige prova e dá nota, usa a
autoridade e os poderes de que está investido, para fazer a cabeça de crianças
e jovens, exerce sua profissão de modo abusivo. Figurativamente, pratica
estupro de mentes juvenis. Se o professor quer fazer proselitismo político, se
anseia por cooptar militantes para sua visão de mundo, de sociedade, de eco-
nomia, de política, de história, que vá procurar um vizinho, um colega, um
superior. Figurativamente, que deixe de ser abusador e vá enfrentar alguém
de seu tamanho intelectual.
Volto a este assunto porque, aqui no Rio Grande do Sul, o Sinepe/RS,
sindicato patronal das escolas particulares, convidou o Dr. Miguel Nagib,
coordenador do movimento Escola sem Partido, para uma palestra aos di-
retores de escolas. Ótimo, não é mesmo? Sim, ótimo para todos os alunos
e pais, mas não para o sindicato dos professores das escolas particulares, o
Sinpro/RS. Em assembleia geral, o sindicato emitiu Moção de Repúdio ao
evento, em veemente defesa do direito dos professores de influenciarem poli-
ticamente seus alunos. No texto, os docentes afirmam que “retirar da Educa-
ção a função política é privá-la de sua essência” para colocá-la a serviço “da
ideologia liberal conservadora” à qual os mestres de nossos filhos atribuem
todas as perversidades humanas, das pragas do Egito ao terremoto do Nepal,
passando por Caim e Jack o Estripador.
Não é por acaso que nosso sistema de ensino se tornou um dos pio-
res do mundo civilizado. Afinal, sua essência é ser campo de treinamento
de militantes para os partidos de esquerda. Os dirigentes do sindicato dos

152 de maio de .
LANTERNA NA PROA 255

professores do ensino particular (e não pensam diferente as lideranças dos


professores do ensino público) estão convencidos de serem detentores não
do dever de ensinar, mas do direito de doutrinar! E creem que essa vocação
política, superior a todas as demais, “essencial à Educação”, encontra na
sala de aula o espaço natural para seu exercício. Se lhes for suprimida essa
tarefa “missionária” e lhes demandarem apenas o ensino da matéria que lhes
é atribuída, esses professores entrarão em pane, talvez porque seja isso o que
não sabem fazer.
Espero que tão destapada confissão de culpa emitida pelo Sinpro/RS sirva
de alerta aos pais e à direção das escolas. Os pais pagam para que seus filhos
recebam os conteúdos pedagógicos do estabelecimento de ensino escolhido.
Entregar junto com isso, ao preço de coisa boa, mercadoria ideológica estra-
gada, vencida, não solicitada e sem valor comercial, é fraude.

Contudo, após longo voo solo da esquerda em nossa educação, so-


pram ventos de mudança também nessa área.

A
Durante décadas, vivemos sob ditadura marxista no ambiente acadê-
mico. Era marxista a chave de leitura para todos os fenômenos sociais,
históricos, políticos e econômicos. Eram marxistas os parâmetros cur-
riculares, a bibliografia, os referenciais teóricos, as provas, as respostas
aceitas como corretas e as teses. Todo o ensino se abastecia na mesma pa -
daria, e todo pão do saber era servido com fermento marxista. Descendo
os degraus para os demais níveis, multidão de professores do ensino mé-
dio e fundamental,
assim se fo rmavamnutrida do mestres,
jornalistas, mesmo pão, serviaedo
doutores que lhe fora dado.
alfabetizadores. Marx E
no topo e Paulo Freire n a base. A alfabetização, que era feita em poucos
meses, no primeiro ano do ensino fundamental, não se completa em três
anos. E 63% da população é analfabeta funcional. Eis a excelência em
injustiça social!
No Brasil, felizmente, o engodo marxista caminha para extinção. Mun-
do afora, em 150 anos d e história, só produziu caca. Suas deficiências estão

153 de abril de (publicado no jornal Zero Hora).


256 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

sendo escancaradas, entre nós, por três avanços tecnológicos: internet, re-
des sociais e smartphones . Através desses novos meios, abrem-se ao brasi-
leiro comum, em especial aos jovens, novos horizontes e melhores fontes
de conhecimento.
Méritos a Olavo de Carvalho e seus alunos. Mérito aos conservadores e
liberais que se organizam com o intuito de enfrentar a hegemonia cultural
marxista imposta ao país ao longo de décadas. Méritos aos novos escritores,
jornalistas, pensadores e blogueiros que emergem da fumegante batalha de
idéias, portando as minhas esperanças e formando uma nova elite, em tudo
superior à que pavimentou o caminho de Lula e dos seus.
Desejo pronta recuperação a quem tem enxaqueca e convulsões ante
essas duas palavras – “liberais” e “conservadores”. Mas eu precisava fazer
este anúncio para dizer que a situação começa a mudar. Quem o diz é a
voz das ruas e são os fatos que o indicam. É nítido o mal-estar instalado
em setores significativos do mundo acadêmico e do jornalismo brasileiro,
habituados a falar sem contraditório. A percepção de que o marxismo e a
esquerda perdem fiéis e ganham oposição consistente na sociedade onde
haviam construído hegemonia está desestabilizando muita gente que já
começa a falar em guerra! Políticos habituados a assassinar reputações
assistem ao suicídio da próp ria. No fundo, prefeririam que as posições esti-
vessem invertidas. Então, bradariam por impeachment e estariam dizendo,
dele, aquilo que de fato é: um meritório instituto, concebido para lembrar
ao governante que pode muito, mas não pode tudo. O crescente descrédito
do marxismo e o desprestígio do governo são duas boas notícias para a
educação no Brasil.

São esses ares de mudança que colocam nossa esquerda em desespero.

Seu projeto entra em sério processo de abalo.


No fim, tudo se resume a uma luta entre quem respeita a Verdade
(com todas suas imperfeições e a modéstia de quem sabe que tem mui-
to a entender, conhecer e melhorar) e os poucos mas fortes e organiza-
dos filhos do ressentimento (seguros de si, certos de que são superiores
ao ponto de moldar toda a sociedade à sua imagem e semelhança).
LANTERNA NA PROA 257

C ,
Na encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891, época em que o co-
munismo era apenas uma tese ainda distante um quarto de século de sua pri-
meira experiência na Revolução Russa (1917), o Papa Leão XIII, referindo-
-se a esse modelo, escreveu:
Além da injustiça do seu sistema, veem-se bem todas as suas funestas con-
sequências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e
insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas,
a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade
privados dos seus estímulos, e, como consequência necessária, as riquezas
estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igual-
dade na nudez, na indigência e na miséria.

Foi profeta. A História veio lhe dar inteira razão.


No entanto, se as previsões do sábio pontífice foram confirmadas e pouca
gente esclarecida rejeita suas afirmações sobre a ineficácia do sistema comu-
nista, otem
entre passado meio
comunismo despercebida a relação cuja existência ele identificou
e a inveja.
A inveja nasce da comparação e se afirma como um sentimento dupla-
mente negativo: a alegria pelo mal alheio e a tristeza pelo bem alheio. Os
moralistas (entendidos aqui como estudiosos das questões relativas à moral)
afirmam que o invejoso é a principal vítima desse sentimento. De fato, a in-
veja mata. Ela é um canhão que dispara para frente e para trás. No entanto,
quando força motriz de um modelo político, ela se torna genocida e pode se
voltar para a extinção de uma raça, de uma classe social ou de uma nação
inteira. Como só gera miséria, o comunismo é movido a inveja.
É a inveja que tem sido vista, por exemplo, nas ruas de Paris. Nas ações
da Jihad islâmica. Foi a inveja que explodiu as Torres Gêmeas. É a inveja que
não consegue esconder a alegria perante tais fatos. Foi a inveja que deu causa
ao holocausto. É a inveja que faz com que todo esquerdista nutra ódio mor-
tal pelos Estados Unidos. Eles não podem conviver com tamanha evidência
dos equívocos em que se afundaram. O ódio que têm não guarda relação
com humanismo e anseios de paz. Estiveram calados durante a Primavera
de Praga e a invasão comunista do Tibet, assistiram desolados à queda do
Muro de Berlim, apoiam a ditadura dos Castro, apoiaram Chávez e agora
apoiam Maduro.

154 de abril de .
258 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Uma emissora de TV exibiu, há alguns anos, reportagem feita com jovens


da periferia de Paris protagonistas dearruaças. Um deles levou a repórter para
ver onde vivia. Era um edifício popular, muito melhor do que as moradias de
qualquer favela brasileira. Sem muitoque dizer, a moça disparou: “Já se nota
o contraste entre isto aqui e os palácios de Paris”. Acho que ela queria levar
a rapaziada para Versailles. Enquanto isso, seu revolucionário guia apontava
as más condições do prédio: paredes tomadas por pichações, a sinalizarem o
caráter pouco civilizado dos moradores, e um balde, no meio da sala, marcan-
do a existência de uma goteira, como se fosse dever do governo francês subir
no telhado para reparar tão complexo problema. No fundo, é tudo inveja, e
a América Latina está sendo vítima de governos comunistas que chegam ao
poder porque sabem, muito bem, promover esse terrível sentimento.

É com o poder devastador do ressentimento e da inveja que os maus


brasileiros procedem com a invasão institucional dos bárbaros.

T ( R )
Quando tudo vai bem, o que a gente menos quer falar é em mudança.
Deixa como está! Não mexe!
Estou falando dos membros das instituições. Dos órgãos do Estado, do
governo, do parlamento, da justiça. Para esse específico e decisivo conjunto
de pessoas, de autoridades, tudo está muito bem. Não têm do que se quei-
xar. Os vencimentos são bons, os subsídios idem, prerrogativas e privilégios
também, o modelo lhes garantiu acesso aos postos que ocupam, as regras do
jogo lhes foram convenientes. Em grande parte, conquistaram suas posições
com méritos
políticos intelectuais
nos postos nosou
eletivos postos ocupadosTudo
de indicação. por está
concurso,
no seuelugar
por méritos
e todos
estão onde querem. Deixa tudo como está!
Esse tem sido um clássico entre os problemas brasileiros. Muda-se apenas
o mínimo necessário para que nada mude, como já disse alguém. Estamos
em meio a uma crise cujos promotores são conhecidos e sobre cujas causas
ninguém tem dúvidas. Tudo vai mal para quase todos. Mas tudo vai bem para
quem decide sobre quaisquer mudanças e sobre os rumos a serem dados ao

155 de junho de
LANTERNA NA PROA 259

país. Provavelmente, os “honorable gentlemen”, como diria Churchill a eles


se referindo, ouviram dizer que a sociedade se inquieta. Escutaram panelaços.
Souberam que o povo saiu às ruas. Perceberam que a eleição e a apuração dos
votos de outubro de 2014 transcorreram numa caixa preta. Têm consciência
de que quem venceu mentiu mais que o capeta e alcançou seus fins pelos piores
meios. Não desconhecem que há um escândalo em cada esquina. Acham o juiz
Sérgio Moro um chato de galocha. Mas a experiência lhes ensinou que o me-
lhor remédio, para quem não quer marola, vem com um dia depois do outro.
Eis aí o motivo pelo qual nada está acontecendo, embora todos esperem
que algo aconteça. Por mais que as circunstâncias favoreçam seu trabalho,
nem mesmo a dita oposição se atreve a cumprir seu papel. No Congresso Na-
cional, ela, a oposição, é a turmado “deixa disso!”. Quando o climaesquenta,
os caciques botam fogo. No cachimbo da paz, querodizer. E trocam apazigua-
doras baforadas. Os “honorable gentlemen” vão muito bem, obrigado, e nada
têm a reclamar. As eventuais dificuldades pessoais se decidem com alguma
leizinha privada, em benefício próprio, de comum acordo, porque nadaé mais
sagrado do que o bem-estar e o estar bem nas instituições da República.
A conivência e a conveniência vêm sustentando a hegemonia de um pro-
jeto de poder que já não esconde a que veio. Quem acha que nada deve mu-
dar em breve verá tudo mudado. Saiba, portanto, o leitor: em tais condições,
nada serve melhor à ruína do país que a modorra institucional, que o con-
formismo dos tíbios e o silêncio dos omissos. Mas só a mobilização popular
poderá impedir que as mudanças ocorram para que nada mude.

Ao que parece, cada vez mais brasileiros de bem, outrora silenciosos,


acham, sim, que deve haver mudanças. Por exemplo: nossa maiori-
dade penal e os traficantes de drogas – o povo há muito já não os

aguenta e desde há pouco passou a dizê-lo.

O
A execução de um traficante brasileiro na Indonésia trouxe a aplicação
desse tipo de pena à pauta nacional. É impossível fazer de conta que o assun-
to não existe. Existe sim e é importante pensarmos sobre ele.

156 de janeiro de .
260 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

A pena de morte é moralmente aceitável? Como católico, recorro com se-


gurança e convicção à tradicional doutrina da Igreja. O que ela me ensina a
esse respeito? Ensina que, sob o ponto de vista moral, há enormes distinções
entre a dignidade do agressor e a dignidade do agredido, entre a situação
concreta do inocente e a do culpado. Também ensina que deve existir uma
proporcionalidade entre a agressão e a respectiva reação. Diz que isso vale
tanto para o conflito entre dois indivíduos como para a situação em que um
indivíduo fere o bem da sociedade. Mantém-se igualmente aqui o princípio
da proporcionalidade. Ora, o tráfico de drogas é a ação criminosa que res-
ponde pelo maior número de mortes violentas no Brasil.
Apela para métodos infames de sedução, atingindo muito preferen-
cialmente a juventude, no momento de aprendizado do exercício da li-
berdade individual. A partir daí, a droga passa a afetar as decisões do de -
pendente e desencadeia um verdadeiro terremoto nas relações familiares
e sociais. O traficante faz, de cada vítima, uma caixa de Pandora aberta, a
semear males pelo mundo. O tráfico é usina a gerar tragédias, a produzir
cadáveres. E a povoar de zumbis as cracolândias. Essa atividade crimi-
nosa disputa com o terrorismo, e por enquanto vai vencendo, a título de
maior mal do século 21.
O Catecismo da Igreja Católica, quando trata da pena de morte, no nº
2267, afirma que
se os meios incruentos bastarempara defender as vidas humanas contra o agres-
sor e para proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se
limitará a esses meios, porque correspondem melhor às condições concretas do
bem comum e estão mais conformes à dignidade da pessoa humana.

No entanto, ainda no mesmo nº 2267, esclarece que


a Igreja não exclui, depois de comprovadas cabalmente a identidade e a res-
ponsabilidade de culpado, o recurso à pena de morte, se essa for a única via
praticável para defender eficazmente a vida humana contra o agressor injusto.

São João Paulo II, na encíclica Evangelium Vitae, nº 56, ensina:


Claro está que, para bem conseguir todos estes fins, a medida e a qualidade da
pena hão de ser atentamente ponderadas e decididas, não se devendo chegar à
medida extrema da execução do réu senão em casos de absoluta necessidade,
ou seja, quando a defesa da sociedade não fosse possível de outro modo. Mas,
hoje, graças à organização cada vez mais adequada da instituição penal, esses
casos são já muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes.
LANTERNA NA PROA 261

Pois bem, se há algo tão comprovado quanto a plural malignidade do


tráfico de drogas é a impotência do sistema penal para reprimi-lo através do
encarceramento dos traficantes. Ou os grandes traficantes, desde o interior
dos estabelecimentos penais, dão continuidade a seus negócios, ou as suces-
sões de comando preservam a atividade das organizações criminosas.
Por tudo isso, considero perfeitamente justificável, perante o ensino mo-
ral da Igreja, a aplicação da pena de morte ao crime de tráfico de drogas no
Brasil, sem desconhecer, é claro, os impedimentos taxativos impostos pelo
irrealismo da Carta de 1988.

M
Procure no Google por “maioridade penal” e, em seguida, busque “ima-
gens”. Ali você verá centenas de exemplos da desonestidade intelectual que
denuncio neste artigo.
“Reduzir a maioridade penal não vai acabar com a violência!”, proclama
o debatedor em tom veemente. Ninguém afirmou uma tolice dessas, mas o
sujeito passa a detonar a frase que ele mesmo fez como se, assim, estivesse
destruindo a tese da redução da maioridade penal. Um criminoso de 16 anos
tem que ir para a cadeia por uma série de razões e “acabar com a violência”
não é uma delas. Seja como for, essa é uma das bem conhecidas e nada ho-
nestas artimanhas empregadas em debates: atribuir à tese adversária argu-
mentos que não foram empregados em seu favor, para dar a impressão de
que ela é destruída quando tais argumentos são desmontados.
Outra artimanha é a de levar a tese adversária a um extremo jamais co-
gitado, tornando-a ridícula. Por exemplo: “Os que defendem a redução da
maioridade penal logo estarão querendo reduzi-la novamente para 12 anos.
Daqui a tamanho
anos, do pouco estarão
de umencarcerando
guarda-roupa,bebês.” E, assim,
estuprador um rapagão
e assassino, de 17
fica parecen-
do tão inocente quanto uma criança de colo.
Outra, ainda, envolve a apresentação, em favor da própria tese, de um
argumento competente que com ela não se relaciona. A coisa fica assim:
“Nossos cárceres são verdadeiras escolas do crime, que não reeducam”. Esse
argumento escamoteia dois fatos importantíssimos: o de que a ressocializa-
ção é apenas uma (e sempre a mais improvável) dentre as várias causas do

157 de maio de .
262 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

encarceramento de criminosos e o de que o preso não entrou para a cadeia


inocente e saiu corrompido. Foi fora da cadeia que ele se desencaminhou.
Por outro lado, a pena privativa de liberdade tem várias razões. A princi-
pal, obviamente, é a de separar do convívio social o indivíduo que demons-
trou ser perigoso. A segunda, por ordem de importância, é a expiação da cul-
pa (fator que está sendo totalmente negligenciado no debate sobre o tema).
Quem comete certos crimes paga por eles com a privação da liberdade. Ao
sair da cadeia, dirá que já pagou sua pena, ou seja, que já acertou contas
com a sociedade. A expiação da culpa é o único motivo, de resto, para que
nos códigos penais do mundo inteiro as penas de prisão sejam proporcionais
à gravidade dos delitos cometidos. A terceira razão da pena privativa de
liberdade é o desestímulo aos crimes de maior lesividade (função de eficácia
incerta, sim, mas se as penas fossem iguais a zero a criminalidade, certamen-
te, seria muito maior). Pois é a quase impunidade assegurada pelo Estatuto
da Criança e do Adolescente que tem estimulado o uso de menores para a
prática de muitos crimes.
O assunto é importante, bem se vê, mas pressupõe honestidade intelec-
tual, porque a deliberação democrática fica comprometida quando o que se
pretende é vencer o debate de qualquer maneira.

Após repassarmos a situação atual dos maus brasileiros e de suas ban-


deiras, vejamos como andam, nestes meados de 2015, seus compa-
nheiros, as dispostas rãs de nossos espertos escorpiões, os idiotas úteis
e os aproveitadores continentais.

O Brasil ainda não chegou nesse ponto, mas o dirigente político de qual-
quer país que se aprofunde em tal ideologia fala para um povo que enfren-
ta escassez de tudo, que sai de uma fila para entrar noutra. São países onde
se tabelam preços de produtos que não existem, onde a inflação dispara e
de onde, quem pode sair, foge correndo. O discurso oficial, porém, proclama
vitórias populares, sucessos indiscerníveis, luminosos dias do porvir e ataca

158 de dezembro de .
LANTERNA NA PROA 263

ferozmente inimigos externos que estão se lixando para ele. Assim fazem em
Cuba, assim fazia Chávez, assim tem sequência o processo venezuelano com
Maduro. Para aí vai, célere, a Argentina. Nunca lhes faltam idiotas defensores
do regime, dentro e fora do país, para aplaudir seus discursos.
Em 16 de outubro, o jornalista Clovis Rossi publicou na Folha de São
Paulo uma coluna com o título “Aécio assusta Unasul”. No texto, o jornalis-
ta comenta o pânico que o crescimento das intenções de voto do candidato
oposicionista brasileiro estava causando, naquele momento, entre os gover-
nantes da região. Sem conseguir dizer bem o que pensava a respeito, concluiu
o texto afirmando que “com todos os déficits democráticos claramente ex-
postos na Venezuela chavista, o governo Maduro é legítimo. E é do interesse
brasileiro que saia da crise, até para poder pagar as dívidas mantidas com
as empresas brasileiras”. Em síntese, Aécio não teria nenhum interesse em
aproximação com Bolívia, Venezuela, Cuba, Argentina e Equador, que são os
países mais alinhados com o Foro de São Paulo e com a União das Nações
Sul-americanas. E isso seria muito ruim para seus governos.
Desde meu minúsculo mas vigilante observatório, vejo que Aécio tinha
razão: os parceiros de Dilma afundam numa ideologia que é a própria usina
da miséria. Quanto maior a crise, maior a dose de autoritarismo e interven-
cionismo que só serve para ampliar as dificuldades e aumentar aquilo que
Clóvis Rossi chamou, eufemisticamente, de “déficit democrático”. Defini-
tivamente, a Venezuela se degenera, a Argentina vai no mesmo caminho e
ambos começam a ficar, cada vez mais, parecidos com a venerada ilha dos
Castro. Enquanto isso, o governo brasileiro tenta, por todos os modos – e
maus modos – disfarçar seus próprios problemas com estratégias de aves-
truz. Como em Cuba, o nexo entre o ufanismo oficial e a realidade nacional
mostra que o delírio psicótico é o máximo denominador comum dos go-
vernos comunistas. No entanto, e aqui está o importante no texto de Rossi,
relido após o encontro da Unasul, todos os países do cosiddetto “bolivaria-
nismo” espicham para o Brasil olhos esperançosos, como se o tamanho da
nossa economia fosse sinônimo de riqueza disponível e socializável.
Infelizmente, é nessa direção que apontam, de fato, os movimentos da
política externa petista. Na última reunião da Unasul, Dilma foi recebida
e falou como talvez falasse Bill Gates numa reunião com estagiários. Não
admira que o real se desvalorize, que as verdinhas abandonem o país, que a
inflação fure o teto e o PIB fure o piso.
264 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

“S ” ?
Solidariedade é um estado de espírito que nos envolve com aflições
alheias. Não é apenas condolência, mas algo “sólido”, que nos leva a aju-
dar concretamente os demais. A palavra é muito cara ao cristianismo, cuja
doutrina
dimensãoacomunitária.
define como expressão social da caridade, amor ao próximo em
Tenho ouvido falar em “solidariedade a Cuba”. Que significa isso, quan-
do se manifesta em partidos políticos e atos de apoio ao regime? Solidarieda-
de só pode existir em relação a pessoas ou grupos que sofrem, como é o caso
do povo daquele país. A ligação sentimental de alguém ou de algum governo
com a tirania que escraviza a ilha há 56 anos tem outro nome e é bem feio.
Define, aliás, o que vem fazendo a esquerda mundial, desde o dia 2 de de-
zembro de 1961, quando Fidel descantou o verso da revolução e proclamou:
“Soy marxista-leninista!”.
A partir de então nunca lhe faltou “solidariedade” para fuzilar milhares
de seus conterrâneos, encarcerar dezenas de milhares de pessoas apenas por
divergirem do governo, manter a população refém, sem liberdade de opinião,
sem espaço para oposição, sem judiciário independente. Convalidar isso é so-
lidariedade? O regime cubano manda prenderpor qualquer motivo, sentencia
a longas penas e, de modo medieval, persegue as famílias dos que dele dissen-
tem. Descaradamente, concede aos estrangeiros direitos e liberdades que veda
a seus próprios cidadãos! Durante décadas, foi “solidário”com os soviéticos,
a ponto de enviar milhares de jovens para morrer em revoluções comunistas.
Sim, leitor, Fidel, o falso paladino da autonomia, muito se intrometeu em revo-
luções mundo afora, conforme exigisse ageopolítica da URSS.
Solidariedade que mereça a dignidade do termo deve convergir para os
que sofrem a repressão porque não se calam. E para os que não sofrem a
repressão porque se calam. Uns e outros, merecem a solidariedade que não
alcança as masmorras de um regime que perdeu o senso moral.
A mesma insólita afeição, aliás, é tributada à ditadura comunista boli-
variana e não revela qualquer consideração pelas dificuldades que os vene-
zuelanos enfrentam. O compadecimento das pessoas de bem deve convergir
para esse povo, em suas crescentes carências e perda de direitos. Nunca para
o fanfarrão Chávez e seu ainda mais ridículo herdeiro. Solidariedade foi o
que faltou para com as senhoras Mitzy Capriles e Lilian Tintori, cujos ma-

159 de junho de (publicado no jornal Zero Hora).


LANTERNA NA PROA 265

ridos foram presos por Maduro. Ambas vieram buscar ajuda da presidente
Dilma, mas foram recebidas pelo sub do sub, a quem transmitiram apelo que
entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Enquanto a insatisfação do povo brasileiro com o PT e suas indecên-


cias segue em franca escalada (em meados de 2015, menos de 10%
da população aprovava o Governo Dilma160), as relações dos maus
brasileiros mundo afora seguem tão desastradas e perigosas quanto
as parcerias locais.

E I , !
Imagine a situação. Uma multidão de degenerados, bandidos, terroristas,
assaltantes, homicidas, estupradores, sem freio nem lei, resolve tomar para
si uma porção de território no sudoeste do continente asiático. A região
escolhida inclui parte da Síria e do Iraque (donde as siglas ISIS ou ISIL, de-
signando o Islamic State of Iraq and Syria ou Iraq and the Levant). Não pre-
ciso falar aos leitores sobre a antiguidade desses dois países. Refiro apenas
que Damasco, capital da Síria, é a terceira cidade mais antiga, de ocupação
contínua, de que se tem registro na história, e que o Iraque foi o berço da
civilização suméria, a mais remota de que se tem notícia.
Pois a instabilidade política proporcionou que a região fosse tomada por
uma multidão de anormais. São impelidos por mistura explosiva de fanatis-
mo religioso e degeneração de valores humanos. Formaram, assim dizem,
um califado sob o comando do sicário Abu Bakr al-Baghdadi.
Não preciso descrever os requintes de perversidade a que chegam, pois são
exibidos com orgulho
mundo civilizado pelosopróprios
a dar-lhes autores
que merecem dos crimes.
bastaria Para do
uma fração constranger
que já fize-o
ram. Tal ação militar não seria de motivação política, nem econômica, mas sim-
ples ato de humanidade. Pura exigência moral. O mal que se abateu sobre a re-
gião é incurável, insanável e demandará, com efeito, uma guerra de extermínio.
No entanto, enquanto o mundo parece não haver encontrado, ainda, as
motivações necessárias para fazer o que deve ser feito, a imprensa ocidental

160 Disponível em: datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/avaliacaodegoverno/presidente/


dilma/indice- .shtml.
161 de fevereiro de .
266 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

precisa, pelo menos, advertiu-me um amigo atento, parar com essa impro-
priedade de chamar aquele antro de criminosos de “Estado Islâmico”. E meu
amigo tem razão. Tal designação presume um reconhecimento inadmissível,
que afronta o Iraque e a Síria, e serve para consolidar a situação. Se a coisa
pega, logo nossa presidente estará trocando embaixadores com o senhor
Abu Bakr al-Baghdadi e Lula acompanhará alguma empreiteira brasileira
em promissoras negociações para construir fortificações e bunkers no inte-
rior do território ocupado pelos terroristas.
Não existe Estado Islâmico! Islâmico, sim,porque até agora, que eu saiba,
nenhum muçulmano lhes negou essa condição. Mas “Estado”, não! A mídia
deveria se referir a um “Território ocupado por terroristas islâmicos no Iraque
e na Síria”, ou mais sinteticamente, a um “pseudo-Estado Islâmico”. Deno-
minar aquilo de Estado e aquele demônio de califa é total impropriedade. Os
terroristas ocupam área de contornos instáveis e não há algo que se possa
chamar “povo” quando minorias étnicas são massacradas no interior de suas
supostas fronteiras. Sem essas duas características não existeEstado.

Falando em religião, os sonegadores do catolicismo seguem agindo


em favor dos bandoleiros estrelados.

PT CNBB,
Existem partidos políticos que se especializam em xingamentos. Chutam
adversários sem dó nem piedade da canela para cima e da canela para baixo.
São indulgentes apenas consigo mesmos. Afagam seus malfeitores e não há
culpas que os leve a pedir desculpas. Na maioria, são pequenos partidos
radicais, com militantes
desajustados. e dirigentes
Há, no entanto, mal-educados,
um grande rancorosos,
partido que socialmente
corresponde perfeita-
mente a essa descrição. Com tais métodos, chegou ao poder e governa o país
há 12 anos (isso se não contarmos os últimos quatro de FHC durante os
quais o PT influenciou fortemente decisões do governo).
Pois bem, observe as pautas petistas, suas reivindicações e as postulações
dos grupos sociais que o partido comanda no estalar dos dedos e ao megafone.
Examine a essência da ideologia da legenda nos text
os que produz, no conteúdo

162 de fevereiro de .
LANTERNA NA PROA 267

de seus sites e nas resoluçõesde seus congressos. Procure identificar o rumo per-
seguido pelas proposiçõeslegislativas dos parlamentares dopartido. Vejam com
que tipo de governos e regimes se relacionam. Siga por essas trilhas e perceberá
que o PT mantém com a Igreja Católica (que não se confunde com a CNBB)
e com sua doutrina religiosa e moral uma relação de irredutível divergência e
animosidade.A distância que separao petismo da Igreja éintransponível.
No entanto... no entanto..., o Partido dos Trabalhadores e a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil, há 35 anos, vivem em união estável, garan-
tidora não apenas de direitos, mas de afetos, regalias e privilégios. Todas as
pastorais ditas sociais da CNBB trabalham ombro a ombro com o partido,
de modo militante e diligente. Ao longo dos anos, quando o PT era oposição,
os documentos da Conferência que tratavam de questões políticas e sociais
atacavam os governos reproduzindo fielmente o discurso petista. O idioma
era e prossegue sendo petista. Estridentes sutilezas que muitas vezes denun-
ciei! Nas reuniões de pastoral a que compareci, regional e nacionalmente nos
anos 80, falava-se muito mais de Lula e PT do que de Jesus Cristo e Igreja.
Quando o PT chegou ao governo, esse mesmo Lula que os amigos leitores
conhecem tão bem quanto eu, era apreciado pelos operadores da CNBB
como um anjo do Senhor caído em Garanhuns.
Passaram-se 12 anos e as coisas estão como se sabe. A última eleição
transcorreu como se viu. A presidente enganou o eleitorado tanto quanto se
assistiu. O partido e seus associados afundaram lá onde o olfato acusa. E a
CNBB, na obscura alvorada do segundo mandato de Dilma, inicia a Campa-
nha da Fraternidade de 2015 falando em Igreja e Sociedade, com destaque
para os temas da corrupção e Reforma Política.
Ótimo, mas, corrupção de quem, senhores bispos? Nem um pio. Cor-
rupção com sujeitos ocultos, em instâncias não sabidas, a sotto voce, como
diria o maestro Riccardo Muti. Corrupção tão impessoal e neutra quanto a
voz passiva. A mesma instituição primeiro atribuía a corrupção à infidelida-
de partidária e se empenhou nisso como se fosse a salvação da moralidade
pública. Em seguida, mobilizou céus e terras por uma lei da ficha limpa
(tremendo sucesso, não?). Agora, sem culpados nem fatos a discernir, e sem
credenciais que a qualifiquem para propor temas de Direito Constitucional,
Teoria do Estado e Sistemas Eleitorais, joga sobre a falta de uma reforma
política a causa essencial das venalidades nacionais. Para extingui-la, põe
na mesa uma proposta de reforma política e um oneroso plebiscito que são
muito parecidos, mas muito mesmo, com o que o PT tirou da manga em
2013. E, por isso, tem total apoio desse partido.
268 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Resumo da mensagem para o mau entendedor: temos corrupção porque


a reforma política, apesar dos esforços petistas, não sai do papel. Assim, os
corruptos e suas legendas emergem das barras dos tribunais e das delações
premiadas e vão comandar o pretendido plebiscito sobre reforma política,
numa espécie de Teoria Geral da Corrupção. Certamente eu também quero
uma reforma política. Mas ela nunca será como propõem a CNBB, a OAB e
o PT, porque, no fundo, politicamente, é tudo a mesma coisa.

Em 2014 acompanhamos um intenso período eleitoral, onde a reeleição da


Presidenta da República, Dilma Rousseff, foi conquistada com muita luta e
ação da militância na rua. Agora é tempo de organizar a casa internamente,
de compor quadros administrativos do governo e de seguir avançando com a
conquista de direitos e de espaços para o povo. Nesse sentido, os movimen-
tos sociais, organizações e conjuntos, protagonistas dessa corrida exitosa se
colocam a disposição e manifestam o desejo de participação nas decisões do
governo de coalizão que vem se desenhando, afim reafirmar suas lutas, ban-
deiras e anseios.

Se você pensou que esse texto fosse de alguma organização juvenil do PT


ou do PCdoB, qualificando-se e se disponibilizando para ocupar cargos no
governo Dilma, enganou-se. Esses maus tratos ao idioma são as palavras ini-
ciais da Carta Aberta da Pastoral da Juventude da Igreja Católica, divulgada
há poucos dias. Tem mais: se você pensou que isso acontece fora do alcance
da CNBB, enganou-se novamente. O site da PJ afirma, a quem interessar
possa, o vínculo e o apoio que tem da Conferência:
Merece destaque aqui a presença efetiva da organização da Conferência Na-
cional dos Bispos do Brasil, no Setor Juventude, seja através dos bispos acom-
panhantes das PJs ou dos assessores e assessoras. Junto a essa presença e
apoio, figura-se com muita importância os centros e institutos de Juventude,
que através da Formação, Assessoria e Pesquisa, sempre se colocaram como
estrutura de apoio à organização das Pastorais da Juventude.

Se você pensou que a devoção filial a nossa senho ra “presidenta” é uma


peculiaridade dos jovens, com tolerância das autoridades episcopais que os
acompanham e daqueles que desde o interior da CNBB os assessoram, er-

163 de fevereiro de .
LANTERNA NA PROA 269

rou de novo. A própria Conferência não deixa por menos. O texto a seguir
foi extraído da “Análise de Conjuntura” apresentada pela assessoria da
CNBB à 20ª Reunião do Conselho Permanente Ampliado, que se reuniu em
agosto de 2014 (em plena campanha eleitoral). Tais análises são rotineiras,
elaboradas por assessores da entidade e, não raro, contam com a colabo-
ração de membros de governos petistas. Lá pelas tantas, examinando a
conjuntura econômica do país, dizem assim os assessores (a íntegra está no
site da CNBB, em Publicações):
A sensação de um clima inflacionário espalhado pela mídia, baseando-se sobre
os gastos ditos excessivos, sobretudo sociais, visa difundir um temor da volta
da inflação, temor que é responsável poruma difusão da inflação. Entretanto, a
taxa de inflação de agosto pode ficar mais baixa ou próxima daquela de julho
(0,01%), contrariamente às previsões dos analistas do mercado financeiro. A
aproximação das eleições acirra a disputa econômico-financeira entre gover-
no e especuladores. A imprensa não está contribuindo para o debate político-
-econômico, substituindo a informação pela ideologia da crise permanente. A
mídia, porta-voz das elites financeiras, informa que oBrasil está indo à falência.
As manchetes dos jornais (impresso e TV) não param de denunciar erros na
política governamental que teriam provocado ondas de desconfiança.
É visível o intuito falsamente profético do texto, bem como a absoluta
conversão dos autores à boa nova petista e a seus apóstolos da Papuda. De
resto, tem sido assim a história da CNBB e seus organismos há meio sécu-
lo. Só para que não pairem dúvidas sobre a semelhança entre essas falsas
profecias e as da “quarta estrela de Jacó”: a inflação nos meses seguintes
a julho subiu constantemente de 0,25% a 0,78% e em janeiro pulou para
1,24%. Ah! antes que me esqueça: na conjuntura analisada pelos assessores
da CNBB não há uma única palavra sobre corrupção, Petrobras, ou qual-
quer outro escândalo da pauta nacional.
Este é mais um que se soma às dezenas de artigos nos quais, há décadas
e em vão, denuncio os mesmos problemas nas mesmas estruturas da minha
Igreja em nosso país.

E, assim como boa parte das autoridades religiosas, contaminadas


pela ideologização através da Teologia da Libertação, seguem dizendo
“Amém” para tudo que fazem os maus brasileiros, as excelências toga-
das e magistradas não se cansam de servir cegamente aos escorpiões.
270 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

U STF PT
Você está preocupado com a indicação do advogado e professor Luiz
Edson Fachin para o STF?165 Provavelmente sim, afinal é mais um nome cuja
vida está ligada ao Partido dos Trabalhadores e às suas extensões no MST
egratidões
na CUT.e Nada mais é necessário
reconhecimentos do novoserministro.
dito para se conhecerem inclinações,
Seu futuro colega e também petista Luís Roberto Barroso, durante a saba-
tina simbólica a que o Senado submete os indicados para a Corte, afirmou que
o julgamento do Mensalão fora “um ponto fora da curva”. Tão logo sentou-se
entre seus pares, cuidou de dar votos necessários para que o julgamento caísse
dentro curva. Graças a isso, os réus que agiram na esfera política já estão,
todos, desfrutando dos ares da liberdade. Agora,se desenha no Supremo uma
nova curva, com outros pontos, que passam por ele, Barroso, pelo novato Fa-
chin, e mais os veteranos Lewandowski, Toffoli, Teori e Weber.
Em breve você verá que tudo que é sólido e encardido se desmancha no
ar das dúvidas sem sequer deixar marcas na toalha branca das formalidades.
Pergunto: o ministro Toffoli não manifestou “interesse” (foi a palavra usada
por ele) em integrar a 2ª Turma, ou seja, o grupo de ministros. Interessante,
Sua Excelência.
Mas não creia, leitor, que o dito acima seja o mais alarmante no horizon-
te do STF. Nossos constituintes de 1988, ao definirem o modo de provimento
das vagas naquela corte, não imaginavam o que estava por vir, ou seja, a
ascensão ao poder de um partido com o perfil do PT, que chegou para ficar,
sem planos para sair, e disposto a se tornar permanentemente hegemônico.
Numa situação realmente democrática, com rodízio dos partidos no poder,
com eleições limpas e confiáveis, sem compra explícita de votos pelo gover-
no, os membros do STF seriam, teoricamente, indicados por presidentes da
República de distintas tendências, estabelecendo-se, assim, um justo pluralis-
mo na composição do poder.
Na situação atual, caso a presidente venha, para desgraça nacional, cum-
prir todo o presente mandato, ela indicará mais quatro ministros para nossa
Suprema Corte. Já há muito advogado petista, por aí, colhendo apoio entre
a companheirada. As consequências dessa distorção excedem, em muito, a

164 de abril de .
165 Fachin seria, de fato, nomeado ministro do STF, após uma das sabatinas mais tensas da
história do Congresso – outro indicativo de mudança, dos novos tempos que vivemos. [N. C.]
LANTERNA NA PROA 271

mais óbvia: os réus da Lava Jato serão julgados, dentro de alguns anos, por
um grupo de amigos, parceiros de ideais, compreensivos à necessidade de
que os meios sirvam aos “elevados fins” da causa petista e aos sagrados ide-
ais de hegemonia do Foro de São Paulo. Não, o mal se prolonga muito além
de uma mera ação penal. Sua repercussão é bem mais ampla.
Suponha, leitor, que, como é meu desejo, em 2018, na mais remota das
hipóteses, o Brasil tome juízo e eleja um governo e um parlamento de maio-
ria liberal e conservadora. Esse desejado governo e esse Congresso serão efi-
cazmente confrontados, não pela oposição política parlamentar minoritária,
mas pela unanimidade do STF, transformado em corte judicial petista!
Um Supremo 100% assim, valendo-se da elasticidade com quejá vêm sen-
do interpretados os princípios constitucionais, poderá esterilizar toda e qual-
quer iniciativa governamental ou legislativa que desagrade ideologicamente os
companheiros instalados nas suas 11 cadeiras. Que necessidade tem de assen-
tos no parlamento, para fazer oposição, quem compôs, dentro de casa, como
que em reunião de diretório, um STF a que pode chamar de seu?

A
Só não vê quem não quer: um STF onde não existam liberais nem conser-
vadores, onde todos, num grau ou noutro, sejam arrogados “progressistas”
ou desavergonhados marxistas, selecionados a dedo pelo mesmo partido, é
uma revolução através das togas. Dispensa luta armada ou desarmada, dis-
pensa Gramsci, movimentos sociais, patrulhamento. Bastam onze homens e
seus votos. E tudo fica parecendo Estado de direito.
A bússola das decisões normativas sobre a vida nacional, sobre os gran-
des temas, está saindo do Congresso, onde opera a representação propor-
cional
aquele da opinião
executa pública.
e aquele Aquela
outro julga história dos disso?
– lembra-se três poderes, esteasfaz
– vai para a lei,
brumas
do passado. Há mais de três décadas estão sendo transferidas para o Judici-
ário deliberações que vão do acessório ao essencial, do mais trivial ao mais
relevante. Já escrevi muito sobre tal anomalia e percebo que a migração
prossegue, através dos anos, com determinação e constância.
A judicialização da política, braços dados com o ativismo judicial, cau-
sa imensas preocupações cívicas. Opera uma revolução silenciosa. Não usa

166 de maio de (publicado no jornal Zero Hora).


272 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

barracas de campanha, não cava trincheiras e não precisa de arsenais. Ata-


ca a partir de luxuosos gabinetes. Reúne-se em associações e congressos de
magistrados militantes. Seu material bélico está contido em meia dúzia de
princípios constitucionais que disparam para onde a ideologia aponta.
O QG dessa conspiração sofreu uma derrota, terça-feira, com a aprova-
ção da PEC que postergou para os 75 anos a aposentadoria compulsória dos
magistrados. Mas isso não resolve o problema diante do mal que atacou o ca-
ráter republicano da nossa democracia – o instituto da reeleição – cortando o
movimento pendular do poder. Se o Congresso, e especialmenteo Senado, não
reagir, se for aprovada a inacreditável indicação do Dr. Fachin (que até o Lula
teria achado “basista” demais), se aprofundará o abismo entre o pluralismo
como inequívoco princípio constitucional e a composição do STF.
É algo de que, aparentemente, ninguém se deu conta. Pluralismo é plu-
ralismo. Dispensa interpretação. É um severo princípio impresso no preâm-
bulo da Constituição. Como pode ele ser desconsiderado quando se trata de
indicar membros para a mais alta corte do Poder Judiciário (isso para não
falar nos demais tribunais superiores)? É admissível que os membros desse
elevado poder expressem o ideário e os interesses de uma mesma corrente
política? O que a presidência da República vem fazendo e o Senado apro-
vando é uma revolução branca, via judiciário. Toleraremos, aqui, o que já
aconteceu na Venezuela?

A pergunta com que Puggina finaliza o texto acima aponta para a


frente, como a lanterna na proa que é este capítulo.
O povo brasileiro tem dado sinais de que não, não tolerará a “vene-
zuelização” ou “cubanização” do Brasil. Talvez ainda seja pouco. Mas
já é muito mais do que já fora. E quem duvida de que não será mais
ainda?

B , ?
Quando decidi renovar meu velho blog, dando a ele o formato atual em
www.puggina.org, escolhi duas frases para aparecerem intermitentemente
na “testa” do site:

167 de junho de .
LANTERNA NA PROA 273

O bom liberal sabe que há princípios e valores que se devem conservar.


O bom conservador deve ser um defensor das liberdades.

Creio nisso e me vejo, como católico, identificado com as duas vertentes.


A liberdade é um dom esplêndido, que Deus respeita como atributo de suas
criaturas muito mais do que elas mesmas costumam respeitar. E as respon-
sabilidades que obviamente advêm da liberdade recaem sobre os indivíduos,
sobre as pessoas concretas e não sobre grupos sociais, coletivos ou sistemas,
como alguns querem fazer crer.
É aí que entram os valores que balizam as condutas individuais e, por
extensão, a ordem social e os códigos. É socialmente importante saber con-
servar o que deve ser conservado e mudar o que deve ser mudado. O bom
conservador rejeita a revolução, a ruptura da ordem, a substituição da polí-
tica pela violência, reconhece o valor da tradição e aprecia a liberdade como
espaço para realização digna dos indivíduos e dos povos.
Não é por outro motivo que o movimento revolucionário e os que com
ele colaboram atacam vigorosamente uns e outros. Liberais e conservadores

são identificados,
batalha corretamente,
se trava no como osGramsci
mundo da cultura. adversários a serem
descobriu vencidos.
isso Essa
e fez escola.
Seus discípulos brasileiros, ditos intelectuais orgânicos, em poucas décadas
tomaram o sistema de ensino das mãos dos educadores cristãos, inclusive na
maior parte das instituições confessionais.
Nos anos setenta, incorporaram-se a essa tarefa inúmeros novelistas, di-
retores e produtores de programas de televisão em canal aberto. Enquanto o
comunismo era propagandeado como expressão sublime da bondade huma-
na (!), coube àqueles profissionais a tarefa de destruir os valores da socieda-
de, em ação de largo espectro. Assim, foram zombando do bem, exaltando o
mal, pregando a libertinagem e depreciando tudo que merecesse respeito. Foi
um longo e bem-sucedido processo de destruição moral, do qual a corrupção
que hoje reprovamos é mero subproduto. A população de patifes, canalhas e
sociopatas aumentou em proporções vertiginosas.
Houve um relaxamento até mesmo entre as consciências bem formadas.
Gravíssima a omissão de quantos a isso deveriam resistir, nas famílias, nas
escolas, nas igrejas e nas instituições! Devemos reconhecer, então: há muito
mais culpados entre os omissos do que entre os efetivos agentes do processo
de destruição dos valores. As liberdades recuaram simultaneamente porque
esse era o objetivo final do projeto de dominação cultural: estabelecer a
hegemonia política, com o Estado avançando sobre as autonomias dos in-
divíduos, das famílias, da sociedade e das liberdades econômicas. Foi assim
274 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

que assistimos, durante décadas, sucessivas derrotas dos conservadores e dos


liberais, tão numerosos quanto acomodados.
Felizmente, a cada dia que passa, cresce o número de brasileiros conscien-
tes das causas da desgraça que acometeu a sociedade brasileira. São as pesqui-
sas que o indicam com clareza. Foi tamanha a lambança, tão generalizada a
degradação moral, tão impertinentes os abusos do Estado, a cascavel, enfim,
tanto agitou seu chocalho que acabou despertando as consciências de sua le-
targia. A nação dá claros sinais de estar refletindo sobre o que fez de si mesma.

Vivemos, de fato, novo momento.


As amarras de antanho já não imobilizam boa parte da nação.

A !A !

queOutro dia, escrevi


se consideram sobre o comportamento
corregedores abusivo
da opinião pública. de setores
Referia-me sociais
a grupos
empenhados em nos instruir segundo seus próprios padrões de conduta.
Estranhamente, percebi hoje, deixei de lado os autores e diretores de no-
velas da Rede Globo. Como fui esquecê-los? A explicação é simples: há
muitas décadas não assisto novela alguma. Mas sei que foi constante e
persistente o trabalho desses profissionais para impor à sociedade suas
pautas e suas posições político-ideológicas, através da audiência da maior
emissora de tevê do país.
Serviram à população, lentamente, doses crescentes de drogas que a tor-
nassem dependente e destruíssem seus princípios e seus valores. Muitos dos
atuais males vividos pelas instituições nacionais, partindo da família, pas-
sando pelo sistema de ensino, até chegar à política e às instituições do Es-
tado, resultam, em boa parte, do longo processo sobre o qual aqui escrevo.
A discussão sobre ele é antiga e se resume, essencialmente, em saber quem
reflete o quê: a novela expressa a vida ou a vida reflete a novela?
Essa dúvida eu nunca tive. Durante anos participei de um grupo que fazia
palestras sobre a formação do senso crítico, para criar mecanismos de defesa
no ambiente familiar e escolar, construindo trincheiras de consciências bem
formadas. Com o passar dos anos, o grupo se desfez por motivos que nada

168 de junho de .
LANTERNA NA PROA 275

tiveram a ver com a tarefa em si. Mas sinto uma ponta de orgulho em saber
que, há tanto tempo, tivemos claro discernimento sobre para onde a nação
estava sendo conduzida. Em entrevista que li lá pelo início dos anos 90, um
dos maiores da profissão, filiado ao PCB, Dias Gomes, admitiu explicitamen-
te que sua atividade profissional sempre estivera orientada nessa direção,
inclusive durante os governos militares.
Por todas essas e por muitas outras, a matéria da Veja sobre a reação
de Gilberto Braga e Dennis Carvalho, respectivamente autor e diretor da
novela “Babilônia”,169 me fez muito feliz. Encantou-me o desalento da dupla
que quis aumentar um pouco mais a dose da droga que serve à sociedade e
obteve como resposta uma sólida rejeição. A novela virou o maior fiasco do
horário em toda a história da TV Globo. Mas o melhor de tudo foi ler que
a dupla está estarrecida com a “caretice” da população. “Nós estamos no
século 21, em 2015, e de repente as pessoas ficam chocadas com coisas que
não chocavam antigamente”, lamuriaram-se.
Mas não é a novela que imita a vida, senhores? Agora mudou tudo? A rejei-
ção da sociedade a essa novela mostra que sempre foram vocês que estiveram
conduzindo a população através da falta de caráter e limites de seus persona-
gens. E agora, que os telespectadoreslhes dizem “Basta!”, têm a audácia de atri-
buir a rejeição ao “politicamente correto”? Mas essa maldição do politicamente
correto foi outra construção do mesmo plano sinistro que vocês conduziram!
Esse ardiloso uso do poder da televisão também chega ao fim. Aquelas
três novidades tecnológicas que mencionei outro dia – internet, smartphones
e redes sociais – estão derrubando o comércio de droga à população através
da TV. As pessoas estão sabendo mais, lendo outras coisas, assistindo vídeos
de formação, ampliando seu discernimento e percebendo que, com a perda
da noção de limites, são perdidos, também, muitos dos mais valiosos bens de
que todos podemos dispor para nossa felicidade.

Esse novo momento brasileiro, conforme já mencionamos, é represen-


tado pelas manifestações populares de março, abril, maio e agosto de
2015, quando presenciamos – e participamos – de algumas das maio-
res passeatas políticas de nossa história. Milhões de pessoas foram
às ruas de dezenas de cidades manifestar-se contra o Governo Dilma
Rousseff, o PT, o Foro de São Paulo e os arranjos escusos dessa súcia.

169 Outra produção “global” dedicada à engenharia social – no caso, à agenda gayzista. [N. C.]
276 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Em Porto Alegre, mais de 100 mil pessoas foram às ruas contra Dil-
170
ma, Lula, PT e suas práticas e políticas esquerdistas.

C
Domingo, 12 de abril de 2015, quando entrei no carro, no final da
passeata, chorei convulsivamente, como havia muito tempo não fazia.
Sim, eu estava sensibilizado pelas muitas e generosas manifestações de
carinho que recebi ao longo da tarde, traduzidas em gestos, abraços e
fotos com amigos. Mas, principalmente, chorei de felicidade por ver, pela
segunda vez, em menos de trinta dias, o meu Brasil diferente. Vi o meu
país como sempre quis que ele fosse. Democrático, alegre, mas intransi-
gente com a criminalidade instalada no poder. Antes aos meus 70 anos
do que nunca!
Agora, já posso dizer que vi. Vi nossa gente clamando por um país decen-
te. Vi, Brasil afora, milhões saírem de casa para dizer basta! Chega! Já foram
longe demais! Ponham-se no olho da rua, malfeitores!

170 Fotografia de Matheus Bazzo Malgarise.


171 de abril de .
LANTERNA NA PROA 277

Aqueles que se acreditavam senhores da Nação jamais conseguiram mo-


bilizações semelhantes, mesmo que a peso de ouro, mesmo contratando ce-
lebridades e promovendo shows, pagando diária, transporte e alimentação.
Por duas vezes, nesse mesmo período, tentaram se contrapor e não tive-
ram eco. Pagaram mico, deram vexame. É difícil reunir fiéis à infidelidade.
O Brasil está atravessando o mar vermelho. O PT está acossado, o petis-
mo acuado pelos próprios pecados, pelos próprios fantasmas.
O PT fez o diabo? Ou foi o diabo que fez o PT?
O que sim sei, e com isso respondo a uma pergunta que circulava entre
os manifestantes de domingo: essa casa vai cair? Vai, pela irresistível força
da gravidade, quando as estruturas de sustentação entrarem em colapso. E a
base do governo está em franca decomposição.
Esse governo não tem como chegar ao fim. Além disso, que Constituição
seria essa nossa se servisse para proteger uma quadrilha no poder e não para
proteger o povo dessa quadrilha?

O B ,
Em relação ao que aconteceu e ao que não aconteceu no dia 27 de maio,
firmo algumas certezas. Se três índios tivessem saído de Manaus a pé para
Brasília, levando postulações ao Congresso, haveria forte mobilização da
mídia nacional e internacional, repercutindo imagens e reivindicações. Se o
senhor João Pedro Stédile, ou o frei Betto, fizessem algo parecido, as grandes
emissoras de tevê acompanhariam passo a passo a peregrinação e os delí-
rios revolucionários dos romeiros. Utopias são assim, quanto mais trágicas,
maior a sedução e maior o número de adeptos. Vá entender!
Segunda certeza. Há uma deliberada intenção de dificultar, por todos os
modos possíveis,
drante das o surgimento
ideologias, dedo
se situam lideranças jovens,
centro para cujas posições,
a direita. Para quemno esta-
qua-
va acostumado a emprenhar a juventude brasileira pelos ouvidos e, depois,
levá-la pelo nariz a colaborar com os objetivos do petismo e da esquerda, é
intolerável o surgimento de núcleos de contestação e reação. De onde saiu
essa moçada que se vai transformando em força política?
Isso não estava previsto. Não fazia parte do projeto. Gilberto Carva-
lho, então chefe de gabinete da presidente Dilma, confessou lisamente sua

172 de maio de .
278 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

surpresa com o “surgimento de uma direita organizada e mobilizada”. Tal


reconhecimento foi feito durante uma reunião com a turma de comunicação
dos movimentos sociais, promovida para salvar o decreto dos sovietes de
afogamento na onda de rejeição que contra ele se formara.
O projeto de construção da hegemonia petista precisou, então, ser revisto
e as providências estão sendo tomadas. A primeira cuida de confinar esses
jovens ao ambiente virtual onde teve início sua organização. É preciso trans-
formá-lo em gueto e fazer com que dele não saiam. A segunda é desqualificar
todos os grupos convertendo seus méritos em motivo de reprovação. Afinal,
qual país do mundo precisa de jovens liberais ou de jovens conservadores?
O bom para a hegemonia esquerdista é a militância comunista, coletivista,
estatizante, castrista, guevarista, chavista, que tem o dom de destruir todas
as economias e todas as sociedades em cuja teia envolve.
Os meios usuais de desqualificação não se aplicam ao caso. Não é possível
identificar esses jovens com qualquer governo. Os pais deles eram crianças
em 1964. Eles próprios sequer haviam nascido ao tempo da redemocratiza-
ção. Nada há para agravá-los exceto o que são: liberais e/ou conservadores.
Assim, esses inegáveis méritos são atacados por quem não tem mérito algum.
Muitos dos que se integram à tentativa de jogar no ostracismo essa moçada
brilhante – o que de melhor aconteceu ao país nas últimas décadas! – já
abandonaram por desilusão moral o barco onde vinham. Já não defendem
o indefensável (como fizeram por tanto tempo), mas não perceberam ainda
que o problema não está no partido tal ou qual, no líder tal ou qual, mas na
ideia. O que aconteceu no Brasil foi o processo natural de amadurecimento e
apodrecimento de uma fruta que cairá pelo peso da gravidade. Quem quiser
um Brasil melhor terá de mudar a natureza das ideias que planta.
Saibam os jovens que me leem: vocês não têm com o que se decepcionar.
Vocês mobilizam a esperança de milhões de brasileiros que, como eu, não
souberam fazer o que vocês estão fazendo. Vocês estão enfrentando a malícia
e a perversidade das forças do mal. “Sede, pois, prudentes como as pombas
e espertos como as serpentes”.

À conclusão desta obra, o Governo de Dilma Rousseff amarga os


piores índices de aprovação popular desde o Governo Sarney. Apenas
9% da população aprova a “gerentona” que nada gerencia. 173 Em

173 Disponível em: g .globo.com/politica/noticia/ / /governo-dilma-tem-aprovacao-de- -


aponta-pesquisa-ibope.html.
LANTERNA NA PROA 279

um quarto de século, nenhuma gestão foi tão reprovada pelo povo


brasileiro.
Também pudera: é crise para todo lado – e não parece haver luz no
fim desse túnel.
A não ser que a inconformidade dê um jeito nas coisas. Pelo menos,
estamos conseguindo silenciar a metralhadora de absurdos lexicais,
sintáticos e semânticos da presidente. Foi o que ocorreu no último
Dia do Trabalhador de 2015, quando Dilma rompeu com a tradição
presidencial de falar à nação .

I
Neste Dia do Trabalhador, a presidente não falará em cadeia nacional, tal-
vez porque haja companheiros seus em cadeia federal. Ou porque suspeitou que
a notícia do dia seguinte fosse um formidável panelaço interestadual. Falará,
então, às redes sociais. Que tantas redes são essas e como elas se interconectam
de modo a gerar uma comunicação de amplo alcance, não entendo. O que im-
porta é o fato: estamos sob uma presidência que não pode aparecer em público,
que só se comunica com os seus. E em recinto fechado.
É sobre as razões disso que escrevo. Faz sentido o isolamento. O governo,
afinal, jogou o país num jamais visto conjunto de crises.
Crise moral. Tem sua face mais visível no assalto à Petrobras e nos es-
quemas de propina organizados em relação às obras públicas, mas inclui
inúmeras práticas reprováveis. Entre outras: a) o assassinato de reputações;
b) a utilização de agentes provocadores e militantes violentos para produzir
objetivos políticos; c) parcerias traçadas dentro do Foro de São Paulo, que
sugerem crime de alta traição; d) uso de fundos públicos para apoiar ditadu-
ras e governos violadores de direitos humanos.
Crise de credibilidade. Determinada pelo destampado emprego da men-
tira, da mistificação e da falsificação de dados oficiais para fins eleitoreiros,
criando na sociedade a ilusão de que tudo ia bem quando tudo já ia irreme-
diavelmente mal. A crise de credibilidade do governo tem reflexo interno e
externo de vastas proporções.

174 º de maio de .
280 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Crise fiscal . Determinada pela insolente e pretensiosa tese segundo a


qual o partido governante, pela nobreza de suas intenções sociais, recusa a
“lógica neoliberal”, segundo a qual o governo não deve gastar mais do que
arrecada. O governo, então, jogou na privada a Lei de Responsabilidade
Fiscal. Gastou demais para garantir a reeleição, esbanjou irresponsavel-
mente, no Brasil e no exterior, e está sem recursos para atender as mais
urgentes demandas nacionais.
Crise da inteligência. Talvez seja a que mais inibe nosso desenvolvimen-
to. O mundo vai na direção das liberdades econômicas, da criatividade, da
liberdade, dos avanços tecnológicos, da valorização do trabalho, do mérito
e da qualificação dos recursos humanos. O petismo e seus intelectuais or-
gânicos se empenham, há décadas, na direção oposta. Dedicam-se a tornar
hegemônica uma ideologia do atraso, semelhante à de seus parceiros do Foro
de São Paulo, que viola o direito de propriedade, desqualifica o mérito, cria
dependências em relação ao poder público, mitifica o Estado e desfavorece
a iniciativa privada.
Crise econômica . Produzida com sucessivos desarranjos na estrutura do
gasto público. Entre os muitos equívocos, se incluem condutas simbolica-
mente irresponsáveis como as que privilegiaram a “conquista” da Copa do
Mundo e dos Jogos Olímpicos. Com consequências ainda mais graves, en-
volvem os elásticos financiamentos privilegiados, concedidos por compa-
drio. Tem sido negligente com a infraestrutura nacional, criando gargalos
até mesmo para o desenvolvimento do agronegócio. Manipulou as tarifas
de energia e os preços dos combustíveis como explícitas plataformas elei-
torais. Com consequências já medidas na redução dos postos de trabalho
e da massa salarial, concedeu incrementos aos salários acima da expansão
do PIB e p retendeu “aquecer” o consumo endividando a sociedade e deses-
timulando a poupança.
Crise da governabilidade. Desde a segunda metade da gestão Lula II, o go-
verno, como articulador de políticas de interesse nacional, simplesmente aca-
bou. Os gestores petistas têm usado como base de negócios tudo que podem
submeter à sua influência. Põe no mesmocarrinho, como num supermercado,
os órgãos do próprio governo, da administração permanente e do Estado, sem
qualquer unicidade e sem estratégias, exceto as de curtíssimo prazo, ligadas
à manutenção do poder. Muito antes de a presidente Dilma terceirizar seu
governo nas últimas semanas, ele já fora terceirizado, por Lula, a facções po-
líticas dos partidos da base, muitas das quais, só pelo traje, se distinguem das
organizações criminosas que operam no submundo nacional.
LANTERNA NA PROA 281

Crise da inconformidade. O que mais incomoda toda consciência bem


formada e todo cidadão esclarecido é saber que não precisávamos passar
por tais dificuldades! A conta do estrago, a conta dessa irresponsável usina
de crises, como já era previsto há bom tempo, será paga com desemprego, in-
flação, carestia, mais impostos, redução da massa salarial e falta de recursos
para as atividades essenciais de Educação, Saúde e Segurança Pública. É esta
última crise, a da inconformidade, que tem levado o povo brasileiro às ruas.

Ante tanta crise, resta um questionamento inevitável:

O ?
Li O homem medíocrepela primeira vez em 1999. Na época, o cetro do po-
der político brasileiro estava em outras mãos ae oposição de entãoapresentava-
-se como modelo das mais seráficas virtudes. Um capítulo dolivro, em especial,
chamou-me a atenção por parecer escrito para aquela realidade. O autor, José
Ingenieros, tratava, ali, da diferença entre a mera honestidade e a virtude, bem
como da falsa honestidade daqueles que a exibem como troféu.
Em todos os tempos, a ditadura dos medíocres é inimiga do homem virtuoso.
Prefere o honesto e o exibe como exemplo. Mas há nisso um erro ou mentira
que cabe apontar. Honestidade não é virtude, ainda que não seja vício. A vir-
tude se eleva sobre a moral corrente, implica uma certa aristocracia do cora-
ção, própria do talento moral. O virtuoso se empenha em busca da perfeição.

Com efeito, não fazer o mal é bem menos do que fazer todo o bem que
se possa. Ser e proclamar-se honesto para consumo externo é moldar-se às
expectativas da massa – e isso fica muito aquém da verdadeira virtude. “Não
há diferença entre o covarde que modera suas ações por medo do castigo e
o cobiçoso que age em busca da recompensa”, afirma o filósofo portenho
enquanto sentencia sobre o homem medíocre: “Ele teme a opinião pública
porque ela é a medida de todas as coisas, senhora de seus atos“. Temia, filó-
sofo Ingenieros, temia. O medíocre não mais teme a opinião pública porque
a nação tolerou a prostituição moral em troca de umas poucas moedas.
Não demorou muito, daquela minha leitura, para que as palavras de In-
genieros desnudassem a intimidade do novo círculo de poder que se instalara

175 de abril de .
282 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

no país! Presentemente, após 12 anos disso, sempre em dose crescente, estou


convencido, como nunca, de que jamais enfrentaremos de modo correto a
degradação das práticas políticas brasileiras se não compreendermos o que
é a virtude e como ela se expressa no plano pessoal e no plano institucional.
Há alguns anos, quando se discutia com disposição semelhante à de agora
a conveniência e o conteúdo de uma reforma política, instalou-se na opinião
pública ampla convergência quanto à indispensabilidade de ser criado preceito
que impusesse a fidelidade partidária.“É preciso estabelecer a fidelidade parti-
dária!”, clamavam as vozes nas calçadas, em torno das mesas de bar, nas aca-
demias e nos salões do poder. Cansei de alertar, em sucessivos artigos, contra
a falsa esperança que a nação depositava nesse instrumento de coerção. Tudo
que se lia sobre o assunto passava a impressão de que a infidelidade partidária
sintetizava nossos males políticos e era o coração ético de uma boa reforma.
Por quê? Nunca entendi. Há coisas que se repetem sem explicação plausível.
Decorridos, já, sete anos de vigência do instituto da fidelidade parti-
dária, está demonstrado que ela em nada melhorou o padrão das relações
institucionais entre o governo e o parlamento, nem a conduta dos agentes
políticos nacionais.
É preciso distinguir, portanto, a virtude que se alcança por adesão volun-
tária a um determinado bem da virtude intrínseca a modelos institucionais
que inibem a conduta não virtuosa. A fidelidade será, sempre, um produto da
vontade humana. O pérfido só renunciará à perfídia quando ela se mostrar
inconveniente. O venal pode trocar de camiseta, mas só não terá preço se
não houver negócio a ser feito. É por esse motivo que quando o STF procla-
mou a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa, eu escrevi que estávamos
trocando de fichas, ou de fraldas como diriam alguns, mas não estávamos
acabando com a sujeira que, logo, iria encardir outras tantas.
Por quê? Porque essa lei parece desconhecer que a corrupção tem cau-
sas em duas fragilidades, a da moralidade individual e a institucional. No
plano das individualidades, só teremos pessoas virtuosas em maior número
quando forem enfrentadas certas questões mais amplas, na ordem social.
Ou seja, quando:
• a virtude for socialmente reconhecida como um bem a ser buscado;
• escolas e universidades retomarem o espírito que lhes deu srcem e le-
varem a sério sua missão de formação e informação, não de cooptação;
• famílias e meios de comunicação compreenderem a relação existente
entre o desvario das condutas instalado na vida pública e o estrago
LANTERNA NA PROA 283

que vêm produzindo na formação da consciência moral e na vida


privada dos indivíduos;
• o Estado deixar de ser fonte de privilégios;
• for vedada a filiação partidária dos servidores públicos;
• forem extintos os CCs na administração direta e indireta e nas estatais;
• a sociedade observar com a atenção devida o método formativo e
educacional das corporações militares;
• voltar a ser cultivado o amor à Pátria;
• a noção ideológica de “la pátria grande” for banida por inspirar alta
traição;
• as Igrejas voltarem a reconhecer que sua missão salvadora nada tem
a ver com sociedade do bem-estar social, mas com sociedade compro-
metida com os valores que levam ao supremo Bem.
Não há virtude onde não há uma robusta adesão da vontade ao Bem. E
isso não acontece por acaso. É uma busca que exige grande empenho.
Contudo, a democracia (governo de todos) não é necessariamente aristo-
cracia (governo dos melhores). E será sempre tão sensível à demagogia quan-
to a aristocracia é sensível à oligarquia. Portanto, numa ordem democrática,
como tanto a desejamos, é necessário estabelecer instituições que, na melhor
hipótese, induzam os agentes políticos a comportamentos virtuosos ou, com
expectativas mais modestas, inibam as condutas viciosas.
Ora, o modelo político brasileiro parece ter sido costurado para compor
guarda-roupa de cabaré. Não há como frear a corrupção que se nutre num
modelo institucional que a favorece tão eficientemente, seja na ponta das
oportunidades, seja na ponta da impunidade, vale dizer, pela via das causas e
pela via das consequências. Não estou falando de leis que a combatam, mas
de um modelo político que a desestimule.
Como? Adotando procedimentos e preceitoscomuns nas Forças Armadas.
Libertando a administração pública dos arreios partidários, por exemplo. Ao
entregar para o aparelhamento partidário a imensa máquina da administração
(que a mais elementar prudência aconselharia afastar das ambições eleitorais),
o Brasil amarra cachorro com linguiça e dá operosidades e dimensões de ser-
raria industrial ao velho e solitário “toco”. “É politicamente inviável fazer
isso no Brasil”, estará pensando o leitor destas linhas em coro com a grande
maioria dos que, entre nós, exercitam o poder político. Eu sei, eu sei. Não sou
ingênuo. Está tudo errado, mas não se mexe. As coisas são assim, por aqui.
284 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

Do mesmo modo como a fusão do Governo (necessariamente partidário


e transitório) com a Administração (necessariamente técnica e neutra porque
permanente no tempo) cria problemas e distorções de conduta, a fusão do
Governo com o Estado (que, por ser de todos, não pode ter partido) faz coisa
ainda pior no plano da política interna e externa. Desde a proclamação da
República, todo governante trata de aparelhar o Estado e exercer influência
sobre suas estruturas.
Por fim, quero lembrar que o relativismo moral veio para acabar com a
moral. O novo totalitarismo elegeu como adversário os valores do Ocidente.
Multidões, sem o perceber, tornaram-se moralmente sedentárias.
Abandonaram os exercícios que moldam a consciência e fortalecem a von-
tade. Ao fim e ao cabo, em vez de uma sociedade onde os indivíduos orientam
suas vidas segundo os conceitos que têm, constituímos uma sociedade onde os
indivíduos conformam seus princípios e seus valores à vida que levam.

Ao apontar o que há de errado e o que não mais se deve fazer, Percival


Puggina nos oferece
em segurança, umsem
mas não mapa de fácil decifração,
dificuldades, à travessiaque nos conduzirá
completa do mar
vermelho que nos cercou.
É este capítulo, incluindo suas indicações positivas de ações, uma lan-
terna na proa, a iluminar o caminho em que já estamos.
Aliás, é todo este livro um imenso navio iluminado, que esclarece tudo
pelo que passamos, situa-nos quanto ao que estamos vivendo e indica
o que vem pela frente.

Para finalizar, associamo-nos todos nós, vítimas dos maus brasileiros,


ao
masautor
serveno artigo a seguir.
a qualquer O texto
brasileiro estáseja
que não escrito
um em
dosprimeira pessoa,
maus, dos bár-
baros, dos procustos, dos escorpiões ou das rãs que tomaram o Brasil.
Acusam-nos, mas não esmorecemos.
LANTERNA NA PROA 285

A - !
Acusam-me de ser:
• racista, porque sou branco;
• fascista, porque não voto no PT, no PCdoB nem no PSOL;
• homofóbico, por ser heterossexual;
• traidor da causa operária, por dizer que a CUT é um antro de petistas;
• machista, por ser contra o aborto;
• fundamentalista, por sustentar que estado laico não é o mesmo que
estado ateu;
• falso católico, por mostrar os desvios políticos e pastorais da CNBB;
• reacionário, por divulgar os insucessos das experiências totalitárias;
• saudosista do DOI-CODI, por querer segurança pública e bandidos
na cadeia;

antissocial, por valorizar o mérito e ser contra cotas raciai


s, sociais esexuais;
• prepotente, por apreciar a disciplina e querer a ordem;
• idiota, por afirmar que nas economias livres as sociedades são mais
prósperas do que nas economias estatizadas;
• vendilhão da pátria, por afirmar que o Estado não deve fazer o que a
iniciativa privada também possa;
• golpista, por querer o impeachment da presidente Dilma;
• inimigo dos pobres, por ser contra o governo petista;
• criminalizador dos movimentos sociais, por apontar os crimes que cometem;
• neoliberal, por afirmar que pagamos impostos excessivos a um Estado
larápio, grande demais e incompetente demais;
• ultradireitista, por sustentar que o Foro de São Paulo é uma organi-
zação comunista, hoje mantida pelo governo do PT, com planos de
poder para toda a América Latina.
Com este texto (adaptado de um outro que, segundo li, teria sido escrito,
srcinalmente, em francês) juro minha inocência perante todas as acusações.
Penso que, bem ao contrário, elas provam a má índole dos meus acusadores.

176 de abril de .
POSFÁCIO

S into nosso país prisioneiro da desesperança. Escrevi os artigos que


viriam a compor este livro e, posteriormente, recolhi-os das páginas
de consumo diário nos jornais impressos e eletrônicos, bem como
das palavras perdidas no ar dos auditórios, para compor um mosaico de
diagnósticos e respostas que inspirem os mais jovens do que eu. Minha
geração não serviu ao Brasil como deveria. Outro dia, num texto que não
consta desta obra, disse que nosso país fez uma opção por algo parecido
com o welfare state ainda nos anos 30 do século passado e, desde então,
vivemos uma social-democ racia pau-de-arara. O motivo é simples: o Esta-
do provedor pode ser, quando muito, um produto da riqueza, mas jamais
será causa de riqueza e desenvolvimento nacional. Até os comunistas per-
ceberam isso, mas, como nunca vivemos no comunismo, ainda acredita-
mos em suas utopias.
O petismo vendeu esperança e, passados os anos, entregou-nos seu opos-
to. A desesperança gerada pelo petismo no poder – e pelo esquerdismo em
geral
através– pode ser representada
das quais se entra compor um compartimento
facilidade, mas de ondecom várias
se sai comportas,
muita
dificuldade. Entra-se nele, por exemplo,
• pela porta de um sistema de ensino que pouco ensina, que pretende
ser educador de todos a respeito de tudo, da política à sexualidade,
mas sequer consegue obter o nível mínimo de urbanidade, como en-
sinar a não jogar lixo no chão e a não agredir os professores. É uma
educação que não tem a qualidade para nem a intenção de desenvol-
ver potencialidades e inserir nossa juventude na vida social, política e
econômica de modo produtivo e competente.
288 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

• Pela porta da teimosa recusa ao mérito. Ao confundir, por motivos ide-


ológicos, justiça com igualdade, passamos a produzir mediocridadeem
escala demográca. Sob tal orientação, distanciamo-nos crescentemen -
te dos países que fazem o caminho inverso, valorizando o mérito, o
talento e o empenho de quem busca fazer o melhor de si mesmo.

• Pela
desejoporta da insegurança
de deixar pública,
o país. Nossa do estímulo
insegurança às fraturas
convive com um sociais, do
discurso
por direitos humanos tão radical quanto falso. Em sua expressão visí-
vel, defende o criminoso e esquece a vítima. Em sua estratégia invisí-
vel, vale-se da criminalidade para promover a luta de classes. Ora, os
direitos humanos fundamentais são os direitos à vida, à liberdade e à
propriedade, precisamente os mais agredidos por homicidas, estupra-
dores, sequestradores e assaltantes.
• Pela porta do descrédito nas instituições, maculadas por sucessivos
escândalos, inoperantes e sem sintonia com a realidade social e eco -
nômica dos cidadãos. Instituições que se servem dos recursos públicos

em privilégio
sintonia com apróprio,
realidadedesocial
modoe econômica
insaciável, do
numa
país.completa falta de
• Pela porta de um aparelho de Estado concentrador de renda em si mes-
mo, insuportavelmente oneroso, vivendo meio século atrasado em re -
lação à sociedade produtiva e endividando-a meio século para adiante.
Permitimos crescer um Estado tecnicamente deciente, gerencialmente
incompetente, gerador de crises cujas consequências se abatem sobre
todos. O Estado brasileiro puxa o país para trás e para baixo.
• Pela porta da irresponsabilidade scal, que arrasta o país para o
descrédito junto aos investidores externos e internos. Sim, externos e
internos porque a opinião da Standard & Poor’s (a única a derrubar

a nota do Brasil até agora, no momento em que escrevo) é rati -


cada pela retração dos investidores locais, todos com as barbas de
molho. Quando os governantes petistas eram advertidos sobre sua
conduta scal irresponsável, respondiam em orgulhoso rompante:
“Nós não nos submetemos a essa lógica neoliberal.” O que chama -
vam lógica neoliberal era, simplesmente, o zelo pelos recursos do
contribuinte, contendo-os nos limites da receita, conforme impõe
a lei. Não obstan te, nos últimos 13 anos, gastaram demais, zeram
loucuras demais, torraram reservas demais, locupletaram-se demais.
Foram longe de mais. Jogaram dinheiro fora e mandaram dinheiro
POSFÁCIO 289

para fora. E ago ra chamam golpistas quem busca uma saída política
e constitucional para que não sejamos mais golpeados por tanto
desmando, incompe tência e irresponsabilidade.
• Pela porta de uma inusitada tolerância social para com a corrupção,
entendida como universal e intratável pandemia. E tudo se passa
como se a apropriação indébita de recursos públicos não fosse uma
forma indireta de bater a carteira do cidadão; como se a mentira,
outra forma de corrupção, não fosse um modo ilegítimo de prosperar
na vida pública; como se atribuir a outros a própria culpa, não fosse
uma iniquidade; como se ocupar função pública sem a habilitação e
as competências requeridas não resultasse em lesão ao interesse nacio-
nal. No entanto, tudo isso é corrupção e não pode ser tolerado.
• Pela porta de um sistema de governo queconcede a presidência da Repú-
blica a uma só pessoa. Uma vez eleita, ela passa a exercer conjuntamente,
a chefia do Estado, a chefia do governo e a chefia da administração. É
um extraordinário poder de nomear que robustece o patrimonialismo, o
empreguismo e, em especial, a partidarização de tudo aquilo que, num
Estado racionalmente concebido, não deve ceder lugar a partidos políti-
cos. Lugar de partido é no governo e nos parlamentos. Nunca em funções
típicas de Estado e nuncana administração pública, que deve ser técnica,
profissional, prestadora de serviços à sociedade e não a partidos po
líticos.
Ao me referir a essa última porta, estou apontando, também, para a saída
principal. A separação dessas funções, com a entrega do governo à maioria
parlamentar, restabelece a racionalidade política, desconcentra o poder, de-
sarticula o aparelhamento do Estado e da administração. É por isso que no
nº 10 da Downing Street, moradia do primeiro-ministro do Reino Unido e
sede de seu governo (correspondente, no Brasil, às funções do Palácio da
Alvorada e do Palácio do Planalto), trabalham 170 pessoas, enquanto que
na sede do governo brasileiro estão lotados 4,6 mil funcionários. O sistema
parlamentar de governo, ao qual estou me referindo, é usado por 19 das 21
democracias estáveis existentes no mundo. E todas elas possuem instrumen-
tos para destituir seus governantes por perda de confiança dos eleitores.
A realidade da qual estamos prisioneiros, e na qual fomos entrando por
múltiplas portas, preserva o dom de emudecer a sociedade. Num dia, o brasi-
leiro enche as ruas do país com o clamor de seus protestos; no outro, silencia
porque percebe o quanto é narcótica e anestésica a realidade das instituições,
em especial dos partidos políticos nacionais.
290 PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

As forças partidárias teriam o poder d e abrir algumas portas desse brete


em que estamos. Especialmente, a porta principal, mencionada acima. No
entanto, quanto se pode esperar de um país governado por um partido
como o PT? É n atural que as expectativas se voltem para a oposição. Mas,
senhores, a oposição raramente vai além das amabilidades. No momento
em que escrevo, após as manifestações de agosto pela renúncia ou pelo
impeachment de Dilma Rousseff, o ímpeto oposicionista brasileiro faz-me
lembrar daqueles times de futebol que ficam trocando bola entre o meio
de campo e a própria defesa. E tudo se complica ainda mais porque a go-
vernabilidade é assegurada pelo PMDB, um partido convencido de que o
exercício do poder consiste em fazer aquilo que faz e em prestar-se para o
que se tem prestado ao longo das últimas duas d écadas.
Estou convencido de que só a mobilização esclarecida e sistemática dos
bons brasileiros, conscientes da natureza dos nossos males, pode evitar a
tomada definitiva e irreversível do Brasil. Quem não sabe como o Brasil
foi tomado pelos maus brasileiros, não saberá o que é preciso fazer para
recuperá-lo. Este livro, portanto, teve pretensões singelas. Ele quis
• apontar ações necessárias à superação das amarras, históricas e atu-
ais, que impedem o desenvolvimento sustentável do país;
• mostrar, sob a lente dos fatos em curso, o quanto é imperioso adotar
um modelo institucional que distinga as funções de chefia de Estado,
de governo e de administração.
E quis ser útil
• ao fortalecimento da democracia constitucional,
• ao desenvolvimento da economia de mercado e da livre empresa,
• ao combate às posições coletivistas, revolucionárias, totalitárias de
quaisquer feitio
• e à identificação dos motivos pelos quais nos enclausuramos na crise
atualmente instalada, promovendo valores morais indispensáveis à
restauração da ordem, da liberdade, da justiça, da segurança e da paz.
Lord Acton afirmou algo que a história veio a confirmar de modo robus-
to: nenhuma nação pode ser livre sem religião. De fato, será muito mais dig-
na a liberdade se exercida em obediência ao mandamento de amor proposto
pela Lei Divina do que se subordinada a um sentimento de temor imposto
pela lei humana.
Esta obra foi composta em Sabon LT Std e impressa
pela Gráfica Pallotti em offset sobre papel Pólen
Soft 80g para a Editora Concreta em setembro de 2015.