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O templo grego

Martin Heidegger 1

Um obra arquitectónica, um templo grego, não copia coisa alguma. Está


simplesmente aí de pé, no meio do vale rochoso e acidentado. A obra arquitectónica
envolve a figura do deus e, neste encobrimento, deixa-a avançar, através do pórtico
aberto, para o recinto sagrado. Por meio do templo, o deus torna-se presente no
templo. Este estar-presente do deus é, em si, o estender-se e delimitar-se do recinto
como um recinto sagrado. Porém, o templo e o seu recinto não se desvanecem no
indeterminado. A obra que o templo é articula e reúne pela primeira vez à sua volta,
ao mesmo tempo, a unidade das vias e das conexões em que nascimento e morte,
desgraça e benção, triunfo e opróbrio, perseverança e decadência… conferem ao ser-
humano a figura do seu destino. A vastidão vigente destas conexões que estão abertas
é o mundo deste povo histórico. É só a partir dele e nele que este retorna a si mesmo
para a realização da sua determinação.
Aí de pé, a obra arquitectónica repousa sobre o solo rochoso. Este assentar da
obra extrai da rocha a obscuridade do seu suportar rude e, no entanto, a nada
impelido. Aí de pé, a obra arquitectónica resiste à tempestade furiosa que sobre ela se
abate e, desta forma, revela pela primeira vez a tempestade em toda a sua violência.
Só o brilho e o fulgor da rocha, que aparecem eles mesmos graças ao Sol, fazem, no
entanto, aparecer brilhando a claridade do dia, a amplitude do céu, a escuridão da
noite. O erguer-se seguro torna visível o espaço invisível do ar. O carácter
imperturbado da obra destaca-se ante a ondulação da maré e deixa aparecer, a partir
do seu repouso, o furor dela. A árvore e a erva, a águia e o touro, a serpente e o grilo
conseguem , pela primeira vez, alcançar a sua figura mais nítida e, assim, vêm à luz
como aquilo que são. Desde cedo, os gregos chamaram a este mesmo surgir e
irromper, no seu todo, de physis. Ao mesmo tempo clareia aquilo sobre o qual e no
qual o homem funda seu habitar. Chamamos-lhe a terra. Há que manter afastadas

1HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. In: ______. Caminhos de Floresta. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian. p. 38-41. Trad.: Irene Borges-Duarte e Filipa Pedroso.
daquilo que esta palavra aqui quer dizer tanto a representação de uma massa de
matéria sedimentada, como a representação meramente astronómica de um planeta. A
terra é aquilo em que se volta a pôr a coberto o irromper de tudo aquilo que irrompe e
que, com efeito. [se volta aí a pôr a coberto] enquanto tal. Naquilo que irrompe, a
terra está a ser como aquilo que põe a descoberto.
A obra que o templo é, estando aí de pé, torna originariamente patente um
mundo e, ao mesmo tempo, repõe-no sobre a terra, a qual, desse modo, só então surge
como solo natal. Mas os homens e os animais, as plantas e as coisas nunca estão aí
nem são tidos como objectos imutáveis, para, mais tarde, constituírem, de forma
casual, a envolvência apropriada para o templo, que, um dia, se acrescenta àquilo que
está presente. Aproximamo-nos mais daquilo que é se pensarmos tudo ao invés,
supondo, evidentemente, que somos, antes de mais, capazes de ver como tudo se nos
apresenta de outro modo. A simples inversão, efectuada por si mesma, não resulta em
nada.
O templo, no seu estar-aí-de-pé, dá às coisas pela primeira vez o seu rosto, e
aos homens dá pela primeira vez a perspectiva acerca de si mesmos. Esta vista
permanece aberta enquanto uma obra for uma obra, enquanto o deus não se tiver
escapado dela. O mesmo acontece com a imagem do deus, que o vencedor, no
torneio, lhe consagra. Não é uma cópia para que, por ela, mais facilmente se tome
conhecimento do aspecto do deus, mas sim uma obra que deixa o próprio deus estar
presente e, por isso, é o próprio deus. […]
[…] Consagrar significa tornar sagrado, no sentido em que, no edificar com o
carácter de obra, o sagrado se torna originariamente patente como sagrado e o deus é
chamado para o aberto da sua presença. Pertence ao consagrar o glorificar, como
reconhecimento da dignidade e do resplendor do deus. Dignidade e resplendor não
são propriedades a par das quais e por detrás das quais o deus, para além disso, esteja
— é, sim, na dignidade e no resplendor que o deus está presente. No reflexo deste
resplendor resplandece, isto é, clareia-se aquilo a que chamámos o mundo.

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