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Refletindo sobre o Resultado das Eleições Presidenciais de 2010

domingo, 31 de outubro de 2010 | 18:33

Por quem os sinos dobram?


Pedro do Coutto
Jornal Tribuna da Imprensa, Rio
Com os resultados das urnas na noite de domingo confirmando plenamente as
pesquisas do Ibope e Datafolha, para citar apenas dois levantamentos, ressoa no
país a voz do voto e do povo encerrando mais uma sucessão presidencial, mais
uma passagem do poder de tantas que fazem a história moderna do Brasil a que
assisti desde a redemocratização de 1945.
Naquela época terminava o Estado Novo de 37, a ditadura de Vargas. Agora
fecham-se as cortinas da era Lula e ingressamos em novo tempo, o tempo de
Dilma Rousseff. Sua vitória consagrou a popularidade de Luís Inácio da Silva, um
metalúrgico que chegou ao poder e dele sai com uma aprovação de quase 80% da
opinião pública. A vitória da ex-chefe da Casa Civil foi mais uma vitória de Lula
do que dela. Mas como não há duas pessoas iguais na face da Terra, não se pode
prever agora uma continuidade absoluta de um mandato para outro, de um estilo
para outro. Os fatos são dinâmicos, as condições e situações de governabilidade
mudam. A começar pela perspectiva, bastante provável, de a popularidade de
Dilma não se igualar à de Lula. E sem opinião pública e comunicação com a
sociedade não se governa.
O título deste artigo – os leitores já notaram – é da obra clássica de Ernest
Hemingway, escrita em 38, Por Quem Os Sinos Dobram?, transformado em filme
de John Ford dez anos depois. Por quem os sinos dobram na vitória que o PT e o
PMDB comemoram hoje? Pela esperança dos eleitores e eleitoras de receberem a
sequência de uma política de alguma descompressão social e de expansão do
crédito que está dando acesso a uma compra maior de alimentos, bens duráveis,
realização de viagens? Certamente sim. Pelo equilíbrio relativo entre capital e
trabalho, reduzindo as tensões e colocando sindicatos nas engrenagens do poder?
Também isso. Da mesma forma que, no passado, Vargas, com a CLT, um tratado
de vanguarda até hoje, impediu o avanço do comunismo no pós-guerra no país,
Lula neutraliza o choque colocando algodão entre os cristais que separam o
empresariado das classes trabalhadoras.
Ele – a bem da verdade – por intuição ou elaboração, conseguiu proporcionar
espantosos lucros aos bancos, matriz do capitalismo, mas adicionar bem estar e
principalmente esperança aos grupos de menor renda. O desemprego caiu, o
salário subiu, esta, a meu ver, a principal razão de seu prestígio, ao lado de um
carisma e uma simpatia pessoal inegável. Ele não assume o palco para
amedrontar ninguém. Não é um ator dramático. E sim um tipo humano marcado
pela naturalidade, fonte inspiradora de desempenhos magistrais de Marcello
Mastroianni no cinema. Mastroianni parecia sair da tela para vir conversar
conosco. Lula, na televisão, é assim. Segue esta linha. Mas não representa. É ele
mesmo.
Os sinos dobram apenas por todas essas faces? Não. Falta uma. A própria Dilma
Rousseff. Pela primeira vez no Brasil uma mulher chega ao Planalto. Porém, além
disso, ela produz, com sua vitória, um choque na história. Pela primeira vez, no
mundo, penso eu, uma ex-guerrilheira, ex-presa política, uma mulher jovem que
sofreu torturas nas mãos de carcereiros de uma ditadura militar, atinge , pelas
urnas a Presidência 40 anos depois, a Presidência da República de um país. Os
votos que recebeu encerram definitivamente – e sepultam hoje – os porões do
arbítrio de ontem. Nas ruas, não se ouve os gritos de dor de uma pessoa, mas de
entusiasmo de uma multidão.

Dos porões do Dops para a presidência

Reproduzo artigo de jornalista e escritor Rui Martins:

Extraordinária revanche que, ao mesmo tempo, reforça o conceito de ser


preciso lutar, mesmo quando se é minoria e parece ser perdida a causa. Qual
dos carrascos e dos militares do golpe de 64 poderia imaginar, naqueles
passados fim dos anos 60, que uma das jovens recolhidas a uma das celas do
Dops seria eleita, mais de 40 anos depois, presidenta do Brasil?

Diante de situações como essa, se fortalece a convição da necessidade de se


lutar mesmo quando tudo parece ser contra nós e quando se é uma reduzida
minoria. Graças ao meu amigo e colega Alípio Freire, imponente e carismática
figura, visitei, durante minha viagem a São Paulo, dois lugares que me
religaram à época da luta contra a ditadura militar – os arquivos onde estão
guardados os documentos relacionados com os perseguidos, presos,
torturados e mesmo assassinados no Dops, depois chamado de Deops, mas
sempre um instrumento cruel da repressão. E a seguir, na praça General
Osório, junto à antiga Estação da Luz, os lugares onde funcionavam parte dos
mecanismos da repressão, hoje transformados no Memorial da Resistência.

Cubículos onde se acumulavam os jovens resistentes à ditadura, onde eram


torturados, recebiam verdadeiras lavagens de porcos como refeições e
apodreciam sem direito à luz solar, coisa permitida reduzidas vezes e apenas
por restritos minutos. Coincidentemente, ali estavam no começo de outubro,
data de minha visita, numerosos cinegrafistas dos diversos canais da televisão
brasileira.

E por que? Para mandarem ao ar, logo após confirmada a vitória de Dilma
Rousseff, documentos filmados da cela onde esteve presa, quando militante
contra a ditadura militar brasileira. A vitória não saiu, como se esperava, no
primeiro turno, e tudo vai ser levado à televisão brasileira neste domingo do
segundo turno.

Não faltarão, sem dúvida, as informações truncadas, pelas quais ouvi um


jovem me dizer, ter sido Dilma assaltante de bancos, mas tinha recebido
informação incompleta, pois não lhe tinham explicado ser essa a maneira, na
época, de se atacar o sistema militar e obter fundos para manter a resistência
aos ditadores.

Estranho país esse meu Brasil, onde por guerrinhas políticas se procura
denegrir a imagem de seus heróis do passado. Os covardes de ontem, que
compuseram, colaboraram ou se aproveitaram da ditadura tentam agora
minimizar o valor de todos quantos expuseram suas vidas em luta pela
liberdade e pela democracia dos dias de hoje.

Dilma Rousseff não é apenas a primeira mulher brasileira eleita presidenta (e


isso já é extraordinário num país tido como de machistas), é mais que isso, é
uma das lutadoras naqueles escuros anos de chumbo. Anos em que, militares
teleguiados pelos EUA destruíram a cultura construída nas nossas
universidades, a pretexto de evitar o marxismo, mas na verdade para manter a
desigualdade social e a semi-escravidão de grande parte da população, da
qual só agora vamos saindo.

Dilma foi uma resistente, vinda das hostes de um outro herói, Leonel Brizola.
Sua eleição é o coroamento do longo caminho das batalhas sociais em favor
do povo e da liberdade, que são por uma melhor repartição do pão e por uma
melhor remuneração do trabalho da maioria da população.

Depois de quase quinhentos anos de um Brasil governado sempre pelas


mesmas famílias, pelas mesmas oligarquias, houve a ascenção de um filho do
povo. A Casa Grande perdeu para os habitantes da Senzala e um Brasil mais
justo vai surgindo, mesmo diante de numerosas tentativas para se devolver o
poder aos seus antigos detentores. Oito anos, tantas vezes conturbados pelas
dificuldades de se governar com um Parlamento viciado na corrupção, é um
tempo curto demais para se contrapor aos quase 500 da elite branca e rica
brasileira, disposta tantas vezes a vender e a ceder nossas riquezas em troca
de vantagens pessoais.

Dilma Rousseff, a corajosa mulher dos anos 60, que viveu três anos nas
escuras celas do Dops, por afrontar os militares – nisso sobrepujando tantos
homens, dispostos por covardia a se submeter aos fardados – é hoje a garantia
de um novo governo em favor do povo e não em favor dos ricos e suas
oligarquias.

O Brasil é exemplo de democracia na América Latina, mostra um enorme


avanço tecnológico ao ser capaz de apurar rapidamente as eleições que, nos
EUA, demoram um mês em meio a trapaças de toda espécie.

A derrota de Serra sela o fim de um época. Por um bom tempo, poderemos ter
a certeza da manutenção dos verdadeiros representantes do povo no poder,
mesmo sob a pressão do cartel da imprensa da direita, que confunde liberdade
de expressão com manipulação e engodo do povo com seus telejornais
supérfluos, suas telenovelas modificadoras da nossa cultura e com sua
máquina de informação implantada por todo o país sem contrapartida, numa
verdadeira ditadura latente e invisível mas eficaz.

Dilma, a resistente de ontem é a nossa presidenta de hoje, numa extraordinária


revanche aos golpistas, torturadores e assassinos do passado, ainda saudosos
dos anos em que enterraram aqueles anos ricos em cultura e manifestação
popular. Os tempos mudaram, graças aos resistentes, o Brasil se transformou,
graças aos anos Lula numa potência mundial, que Dilma, representante das
mulheres brasileiras, tantas vezes oprimidas e obrigadas a ficar na cozinha, vai
continuar.

PS. Graças aos arquivos do tempo da ditadura, pude também me reencontrar,


naqueles idos de 1967-68, ao lado de Mario Martins, no Teatro Paramout,
secretariando o Encontro com a Liberdade, ao lado dos resistentes da época. A
história de um país não se faz num dia, ela é o resultado de anos de lutas e, no
caso do Brasil, a satisfação dos dias de hoje é saber que a Casa Grande está
sendo transformada em Casa do Povo.

PS-2. A partir de amanhã e até o dia 9, os emigrantes poderão eleger seus


representantes num Conselho junto ao Itamaraty, apenas figurativo, mas que
poderá ser um trampolim a uma Secretaria de Estado dos Emigrantes. Na
América do Norte, são candidatos apoiados pelos Estado do Emigrante,
Josivaldo Rodrigues e Veronique Ballot; na América do Sul, Fernanda Balli; na
Ásia/África Alberto Ésper e, na Europa, Rui Martins. Para votar ir ao site
www.brasileirosnomundo.mre.gov.br , onde estão todas as informações.

* Rui Martins é correspondente em Genebra, líder emigrante, jornalista e


escritor.

Quem foi derrotado na eleição?

Artigo de Umberto Martins


Com 92,23% dos votos apurados, a candidata da coligação Para o Brasil
Continuar Mudando, Dilma Rousseff, obteve 55,39% dos votos válidos contra
44% de José Serra e foi declarada eleita pelo presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), ministro Ricardo Lewandowski, por volta das 20h30. A
abstenção atingiu 21,18%. O recado das urnas foi claro. O povo votou para
consolidar e impulsionar o processo de mudanças iniciado em 2002 com a
eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O grande vitorioso do pleito é o povo brasileiro, que rejeita o retrocesso


neoliberal e aposta na continuidade e no aprofundamento do processo de
mudança iniciado pelos governos Lula; abomina as privatizações e votou para
que os lucros do petróleo do pré-sal sejam apropriados pela nação e não pelas
transnacionais.

Ganharam os partidos de esquerda e de centro que integram a coligação Para


o Brasil Continuar Mudando. Ganharam os movimentos sociais (as centrais
sindicais, a UNE, o MST), ameaçados de criminalização pela direita demo-
tucana. Ganharam os democratas e patriotas, que rejeitam o obscurantismo e
defendem uma política externa altiva e soberana. Ganharam as mulheres, que
pela primeira vez na história do Brasil terão uma representante na Presidência
da República, numa vitória da luta secular pela igualdade.

Quem foi derrotado nesta eleição

A direita demo-tucana. O caráter direitista da coligação demo-tucana


encabeçada por José Serra ficou patente no decorrer da campanha
presidencial. Serra foi apoiado e assessorado pela TFP, organização de notória
inspiração fascista; apelou ao discurso golpista contra a “república sindicalista”
(usado pelos militares em 1964); estimulou a intolerância e o obscurantismo
reacionário de setores religiosos, contra o aborto e o casamento homossexual;
acenou com a privatização do pré-sal, a “flexibilização” (ou o fim) do Mercosul e
o retorno da diplomacia do pés descalços, em troca do apoio das potências
imperialistas.

A mídia golpista. Os meios de comunicação monopolizados por um minúsculo


grupo de famílias capitalistas (Marinho, Civita, Frias e Mesquita) estão entre os
grandes derrotados deste pleito. Com o destaque das Organizações Globo e
da editora Abril, que transformou a revista Veja num mal disfarçado panfleto da
campanha tucana, a mídia escancarou o apoio ao candidato da direita e em
certo momento passou a ditar a agenda da campanha. Deixou cair a máscara
do pluralismo e da imparcialidade. A verdade saiu arranhada nesta mídia.
Apesar do segundo turno, o povo não se deixou enganar e impôs nova derrota
à mídia, a terceira desde 2002. Tudo isto deve servir de lição ao novo governo,
que pode pautar um debate mais sério e sereno sobre as propostas da
Primeira Conferência Nacional da Comunicação (Confecon).

O papa e setores reacionários da Igreja. Em outra prova de sua guinada à


direita, José Serra se aliou aos setores mais reacionários e obscurantistas das
igrejas, mobilizando padres, pastores e bispos para uma suja campanha contra
Dilma, explorando de forma demagógica temas delicados como o aborto e a
união civil de homossexuais. Até o papa entrou na baixaria, pregando contra “a
candidata do aborto” na reta final do pleito. O Estado é laico, como afirmou
Lula. O obscurantismo religioso não vingou, foi derrotado.

As transnacionais e o imperialismo. Na reta final da campanha, a revista The


Economist e o jornal Financial Times, que tinham mantido prudente distância
do pleito no primeiro turno, com a ressureição da possibilidade de vitória no
segundo turno resolveram abrir o jogo e declarar apoio a Serra. Os dois
veículos, porta-vozes do imperialismo anglo-americano, refletiram a opção e
torcida do capital estrangeiro, esperançosos com as sinalizações de que o
programa de privatizações seria retomado pelo tucano, que na reta final da
campanha admitiu a privatização do pré-sal denunciada por Dilma Rousseff.
Foram derrotados.

Dossiê PSDB: hegemonia neoliberal

Por Altamiro Borges

A eleição de 3 de outubro confirmou a hegemonia do PSDB em São Paulo. O


candidato tucano ao governo estadual, Geraldo Alckmin, foi eleito no primeiro
turno com 50,6% dos votos, ainda que num pleito mais difícil do que os
anteriores. Com a campanha mais milionária entre os nove concorrentes, com
gastos de R$ 15 milhões, ele governará o estado pela terceira vez – assumiu o
governo em 2001, com a morte de Mário Covas, e voltou ao posto em 2002,
quando se reelegeu.

Na disputa pelas duas vagas ao Senado, o partido surpreendeu ao eleger o ex-


secretário Aloysio Nunes, numa campanha marcada por agressões rasteiras e
grotescas manobras. O ex-governador Orestes Quércia, alegando problemas
de saúde, retirou a sua candidatura para apoiar Aloysio. O sítio UOL, ligado ao
jornal Folha, chegou a noticiar a “morte” do senador Romeu Tuma (PTB), o que
foi interpretado pela própria família como uma jogada suja do comando tucano.
Já na eleição para deputados federais e estaduais, a coligação que apóia o
tucanato garantiu sua forte presença.

Um reduto do conservadorismo

A eleição paulista evidencia que a unidade mais importante da federação virou


um reduto do conservadorismo. Os tucanos estão no comando do estado há
pelo menos 16 anos, descontando o fato de que Franco Montoro foi eleito em
1982 pelo PMDB e depois ajudou a fundar o PSDB. O que explica esta longa
hegemonia dos tucanos, que destoa do restante do país no qual se verifica
uma tendência mais progressista na eleição. Quais as razões da ausência de
alternância no poder?

No livro “Os ricos no Brasil”, o economista Marcio Pochmann comprova que


São Paulo virou o paraíso dos rentistas e das camadas médias abastadas. Ele
é hoje o principal centro da oligarquia financeira. Das 20 mil famílias que
especulam com títulos da dívida pública, quase 80% reside no estado. Esta
elite preconceituosa mora em condomínios de luxo, desloca-se em helicópteros
(a segunda maior frota do mundo) e carros blindados (a maior frota do planeta),
e consome em butiques de luxo, como a contrabandista Daslu.

Elite apartada do povo

Ela não tem qualquer identidade ou compromisso com o povo e vive apartada
da dura realidade dos brasileiros. Esta elite ainda influência uma ampla
camada média, que come mortadela e arrota caviar, e até uma parcela dos
trabalhadores, que presta serviços aos ricaços – os agregados sociais. Esta
base social é que dá sustentação e apoio ao bloco neoliberal-conservador, à
aliança demotucana. São Paulo retrocedeu na história, lembrando o período da
hegemonia da oligarquia do café, que fez oposição férrea à Revolução de 1930
e ao desenvolvimentismo de Vargas.

Afora esta base social sólida, o longo reinado tucano lançou tentáculos em
todas as instâncias do poder. Como diz o refrão, “está tudo dominado”. O
PSDB e seus satélites controlam com mãos de ferro a Assembléia Legislativa e
já abortaram quase 100 pedidos de Comissões Parlamentares de Inquérito
(CPIs). Eles também exercem forte influência no Poder Judiciário, tendo
nomeado inúmeros juízes oriundos das elites. No comando da máquina pública
há tanto tempo, o tucanato estabeleceu relações privilegiadas e, muitas vezes,
promíscuas com empreiteiras, indústrias e bancos – o que garante, entre
outras vantagens, fartos recursos para as campanhas eleitorais.

PSDB é avesso à democracia

Neste cenário de rígido controle é difícil qualquer oposição. O tucanato é


avesso à democracia. Os movimentos sociais são criminalizados, como provam
as cenas de agressão aos professores e aos policiais civis em greve e a
tentativa permanente de satanizar o MST. O sindicalismo sequer é recebido no
Palácio dos Bandeirantes para negociar as suas demandas. Diante destes
obstáculos autoritários, até hoje a oposição, no parlamento ou nas ruas, não
encontrou a melhor forma de denunciar e se contrapor aos estragos e
desmandos causados pelo PSDB-DEM em São Paulo.

A hegemonia tucana também se sustenta sobre o pilar da mídia. Apesar da


maioria dos veículos estar sediada em São Paulo, jornais, revistas e emissoras
de rádio e televisão não cumprem seu papel de informar a sociedade sobre a
realidade do estado. Diferente da postura adotada diante do governo Lula, a
mídia evita destacar os pobres das administrações tucanas. Parece que São
Paulo é um paraíso, onde tudo funciona bem – saúde, educação, segurança,
transporte, etc. Os tucanos são blindados, parecem “santos”; não há
manchetes sobre corrupção ou irregularidades.

Relações promíscuas com a mídia


Na prática, a mídia desempenha o papel de partido político da direita paulista.
Nas eleições de outubro, ela se transformou num verdadeiro cabo-eleitoral de
José Serra. O jornal Estadão até assumiu publicamente, em editorial, seu apoio
ao demotucano. Outros veículos, como o jornal Folha, a revista Veja e a TV
Globo, preferiram ludibriar os ingênuos com uma falsa neutralidade. Os graves
problemas de São Paulo não foram tratados pela mídia durante a campanha
eleitoral, para alegria de José Serra e Geraldo Alckmin.

Essa relação intima tem vários motivos. O principal é político. A mídia defende
os interesses da elite e, por isso, ela toma partido. Mas há também motivos
comerciais mais obscuros e sinistros. O tucanato paulista mantém uma relação
promíscua com a mídia. É só lembrar que a sede central da TV Globo em São
Paulo ocupou durante anos um terreno público, sem pagar um centavo de
aluguel. Ou ainda que o governo tucano banca bilhões na aquisição de
assinaturas de revistas da Editora Abril, a mesma que edita a Veja. Isto sem
contar os bilhões investidos em publicidade.