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A COISA JULGADA SOB A LUZ DO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO

CIVIL

Lucas da Silva Gonçalves1

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo discutir acerca das modificações ocorridas no Código de
Processo Civil no que tange à coisa julgada. No Código de Processo Civil de 1973 temos a
coisa julgada atingindo apenas o dispositivo do julgado, porém com o advento da Lei nº
13.105/2015 é criada a previsão legal na qual há possibilidade da coisa julgada recair sobre
questões prejudiciais, desde que atenda alguns pressupostos estabelecidos. Para que se tenha
uma melhor compreensão do tema o texto faz primeiro uma abordagem acerca da
conceituação dada a coisa julgada e uma análise histórica da evolução do instituto no direito
brasileiro. A presente pesquisa analisa a coisa julgada, bem como seus limites objetivos diante
do CPC/2015, também aborda a coisa julgada como efeito jurídico e fato jurídico. A pesquisa
aborda a limitação objetiva da coisa julgada no que se refere a determinação de decisão
judicial definitiva transitada em julgado, mesmo nos casos de coisa julgada sobre a resolução
de questão prejudicial incidental.

Palavras-chave: Coisa julgada. Limites objetivos. Código de Processo Civil. Lei nº


13.105/2015.

1 INTRODUÇÃO

A presente pesquisa dedica-se a estudar a coisa julgada e a nova abordagem dada


aos seus limites objetivos pelo Código de Processo Civil de 2015.
Apesar de não ser o centro da investigação, faz-se necessário a construção acerca
do aspecto histórico do instituto da coisa julgada, fazendo apontamentos de visão comparativa
ao longo da evolução e para estabelecer o diálogo com doutrinadores do direito processual
civil que se dedicaram a estudar a coisa julgada.

1
Especializando do Curso de Especialização em Direito Civil e Processo Civil no Centro Universitário
de Ensino Superior do Amazonas. E-mail: lucassilvagoncalves@gmail. com
2

Tal pesquisa se mostra relevante por inúmeros motivos, podemos destacar os


seguintes: apesar de muitos estudos terem sido feitos sobre a coisa julgada, os mesmos não
foram suficientes para eliminar os problemas quanto a interpretação do instituto; Com a
elaboração do novo Código de Processo Civil que trouxe uma ampliação aos limites objetivos
da coisa julgada, surge uma nova espécie de coisa julgada que até então era desconhecida, que
vem a ser a coisa julgada sobre questão prejudicial incidental, que é o aspecto central da
presente pesquisa.
O trabalho foi dividido em três capítulos: o primeiro destinado a trabalhar o
conceito de coisa julgada, pois se faz necessária a compreensão dos conceitos doutrinários
para poder se estabelecer um posicionamento acerca do tema; O segundo capítulo faz uma
abordagem histórica sobre a coisa julgada, explicitando os principais aspectos relativos ao
Código de Processo Civil de 1973; A terceira parte trata sobre as mudanças trazidas pelo
Código de Processo Civil de 2015, principalmente no que se refere aos limites objetivos da
coisa julgada em questões prejudiciais incidentais.
A pesquisa que tem cunho exploratório e bibliográfico desenvolveu-se da seguinte
forma: levantamento bibliográfico de livros, artigos, revistas e periódicos; análise crítica do
material levantado e dos posicionamentos contrários encontrados sobre o tema e análise
profunda da legislação pátria.

2 CONCEITO DE COISA JULGADA

Quando buscamos conceituar coisa julgada, nos deparamos com um grande


impasse, uma vez que já perdura há anos a busca por estabelecer um único conceito referente
ao tema. BARBOSA MOREIRA (1970) já abordava tal dificuldade quando fez a seguinte
afirmação:

Séculos de paciente e acurada investigação foram incapazes de


produzir [...] ao menos a fixação de uma base comum em que se
possam implantar as multiformes perspectivas adotadas para o
tratamento da matéria.
A razão fundamental desse desconcerto parece residir na equivocidade
do próprio conceito a partir do qual se desenvolvem as elaborações
dos doutrinadores. Não é de se espantar que se chegue a resultados tão
dispares quando se verifica quão longe se esta de alcançar um
consenso mínimo sobre a determinação mesma do ponto de partida.
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[...] Como esperar que se harmonizem as vozes, antes de ter-se a


certeza de que todas se referem a uma única e definida realidade?

É necessário que se tenha uma compreensão dos conceitos atribuídos a coisa


julgada para só então tomar um posicionamento quanto a melhor definição. O que podemos
afirmar desde o princípio é que a coisa julgada sempre vai estar ligada a uma decisão tomada
e a estabilidade que essa decisão possui.
MOURÃO (2008) nos apresenta uma visão em que a coisa julgada esta ligada a
impossibilidade da lei ser exercida duas vezes sobre a mesma relação jurídica, onde a mesma
seria encaixada, portanto, na regra bis de eadem re ne sit actio.
CABRAL (2014) apresa algumas teorias que buscaram conceituar coisa julgada,
também sem se afastarem da ideia de estabilidade, são elas:

 Teorias Materiais: acredita que a coisa julgada é uma presunção da verdade; ficção
da verdade ou lex specialis;
 Teorias Processuais: acredita que a coisa julgada é uma presunção de autoridade; é
a eficácia da declaração; extinção do dever jurisdicional ou a qualidade da
sentença e dos seus efeitos;
As teorias não são necessariamente como contraposição uma da outra, elas devem
ser compreendidas como um processo de sucessão da teoria material pela teoria processual. A
teoria matéria compreendeu a coisa julgada como algo diretamente ligado ao direito material,
enquanto a teoria processual a compreende como um fenômeno do direito processual, estando
ligada apenas indiretamente ao direito material.
CABRAL (2014) afirma que:

[...] Ulpiano sustentava, no célebre aforisma res iudicata pro veritate


habetur, que a coisa julgada “vale como verdade”. Tratava-se da
compreensão da coisa julgada como uma presunção (absoluta),
assumindo que o decidido pelo juiz correspondesse à verdade dos
fatos [...] (p. 66)
[...] Savigny procurou corrigir e apurar a formulação das fontes
romanas, afirmando que, ao invés de tratar-se de uma presunção, a
coisa julgada seria uma ficção. (p. 67)
[Para Hellwig] só o conteúdo declaratório das sentenças é abrangido
pela coisa julgada. Vale dizer, no momento do trânsito em julgado, um
outro efeito reforça o elemento declarativo da sentença: a
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indiscutibilidade ou incontestabilidade, tornando apenas a declaração


vinculante para todos os juízes em processos futuros. (p. 73)
[Para Liebman] a coisa julgada seria uma qualidade de certos tipos de
sentença, um adjetivo que se agregaria a algumas decisões
jurisdicionais e seus efeitos, mas com estes (efeitos) não poderia ser
confundida. A coisa julgada seria “neutra e incolor” ao conteúdo e
efeitos da sentença, pois não os altera, apenas imuniza. (p. 77)

Fica nítida a diversidade de posicionamentos que foram adotados para subsidiar


um conceito acerca da coisa julgada.
Alguns autores ligavam a coisa julgada e a verdade, outros a ligavam a lei como
norma geral, outros a desassociavam da verdade e relacionavam a paz social, uns tinham uma
visão funcionalista e outros a tomaram como um efeito agregador do elemento com o
conteúdo declaratório da sentença.
Um dos principais defensores da coisa julgada como uma situação jurídica
caracterizada pela estabilidade da sentença foi BARBOSA MOREIRA (1984) que afirma:

Não se expressa de modo feliz a natureza da coisa julgada, ao nosso


ver, afirmando que ela é um efeito da sentença, ou um efeito da
declaração nesta contida. Mas tampouco se amolda bem à realidade,
tal como a enxergamos, a concepção de coisa julgada como uma
qualidade dos efeitos sentenciais, ou mesmo da própria sentença. Mas
exato parece dizer que a coisa julgada é uma situação jurídica:
precisamente a situação que se forma no momento em que a sentença
se converte de instável em estável.

Diante de tantos posicionamentos, fica claro que os mesmos não são homogêneos,
tendo em vista que são fundamentados nos mais diferentes pontos de vista, cada um buscando
uma visão coerente, tanto no plano material como no plano processual. Observa-se que diante
da multiplicidade de vertentes não cabe se estabelecer a análise de qual esta de fato correta,
mas sim adotar a perspectiva pela qual será orientado.
Portanto, é necessário o estudo dos principais entendimentos adotados no Brasil,
que são a doutrina alemã, italiana e a de Barbosa Moreira.
No que tange a concepção alemã podemos pegar a citação de ASSIS (2001) em
que afirma:
[...] a coisa julgada restringe-se a uma eficácia, proveniente da
inimpugnabilidade que recobre a força ou o efeito declaratório da
sentença, porquanto somente a declaração se revela na prática
imutável e indiscutível.
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Na concepção italiana temos o pensamento de DINAMARCO (2009) que afirma


que:

[...] a coisa julgada material incide sobre os efeitos da sentença de


mérito mas não é, ela também, um efeito desta. [...] a coisa julgada é
somente uma capa protetora, que imuniza esses efeitos e protege-os
contra as neutralizações que poderiam acontecer caso ela não
existisse.

CAMÂRA (2008) seguindo o posicionamento de Barbosa Moreira afirma:

A meu juízo a coisa julgada se revela como uma situação jurídica. Isto
porque, com o trânsito em julgado da sentença, surge uma nova
situação, antes inexistente, que consiste na imutabilidade e
indiscutibilidade do conteúdo da sentença [...]

O que encontramos em comum em todos os entendimentos é que nenhuma nega a


existência de uma íntima ligação entre a coisa julga e a imutabilidade e também todas
entendem o surgimento da coisa julgada após o trânsito em julgado.
Barbosa Moreira trata a coisa julgada como uma situação jurídica, fazendo uma
ligação com a Teoria Geral do Direito estabelecendo assim o entendimento de coisa julgada
como um efeito jurídico, na mesma linha DIDIER (2015) afirma:

“Como situação jurídica, a coisa julgada é um efeito jurídico - efeito


que decorre de determinado fato jurídico, após a incidência da norma
jurídica”

Pode-se dizer então que a coisa julgada decorre de um fato jurídico como todo
efeito jurídico concreto e vincula-se a um suporte abstrato que só pode ser feito por meio da
observação do direito positivo.
Logo na concepção de Barbosa Moreira a coisa julgada é um efeito jurídico, já a
concepção alemã o atendimento é voltado para a coisa julgada como efeito de sentença por
outro lado a na concepção italiana não há o entendimento da coisa julgada como efeito da
sentença.
Um aspecto debatido acerca da coisa julgada corresponde a imutabilidade
atribuída a tal instituto. Hellwig tem como imutável apenas o que se entende por conteúdo
declaratório da sentença, já Liebman afirma que qualquer conteúdo da sentença e seus efeitos
são atingidos pela imutabilidade, Barbosa Moreira por sua vez afirma que a imutabilidade se
restringe apenas ao conteúdo da sentença.
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Diante de tal divergência, faz-se necessário apontar a distinção entre o conteúdo e


os efeitos da sentença, através da abordagem de CAMÂRA (2008) sobre a classificação das
sentenças de procedência, podemos perceber claramente a distinção entre o conteúdo e os
efeitos.

A sentença meramente declaratória é a que contém, apenas, o


acertamento da existência ou inexistência de uma relação jurídica ou
da autenticidade ou falsidade de um documento.
[...] seu efeito consiste em que a relação jurídica valerá para as partes
na forma como foi acertada, tornando-se irrelevante qualquer
impugnação. (p. 420)
A certeza jurídica, ou certeza oficial, é o efeito que corresponde ao
conteúdo da sentença desta espécie. (p. 421- grifo nosso)
[...] na sentença constitutiva, há um conteúdo da sentença,
consistente no reconhecimento da existência de um direito à obtenção
de uma modificação jurídica [...], e na atuação deste mesmo direito; e
há um efeito, consistente na situação nova, criada pela sentença [...].
(p. 420 – grifo nosso)
É tradicional a afirmação em doutrina de que esta espécie de sentença
seria formada por dois “momentos lógicos”, um declaratório e outro
constitutivo. [...] É o que se tem, por exemplo, na sentença que decreta
o divórcio. O juiz, num primeiro momento lógico, declara a existência
do direito à extinção do vínculo matrimonial [...] e, num segundo
momento, decreta a dissolução do casamento. Este é o conteúdo da
sentença, que não pode ser confundido com o seu efeito, consistente
no rompimento dos vínculos (direito e obrigações) existentes entre as
partes, e decorrentes da relação jurídica que se extinguiu. (p. 421)
[...] a sentença condenatória é aquela que impõe ao réu o
cumprimento de um prestação (de dar, fazer ou não fazer),
correspondendo a este conteúdo (via de regra) o efeito de permitir a
execução forçada do comando contido na decisão. (p. 425 – grifo
nosso)

É de necessária importância ressaltar que a citação supra faz referência ao “efeito


da sentença” a efeito jurídico decorrente do fato jurídico sentença.
Retomando a análise partindo do ponto de vista de Barbosa Moreira, podemos
afirmar que ele entende a coisa julgada como um instituto que possui uma finalidade prática,
que visa proporcionar estabilidade jurisdicional, gerando a inviabilidade de futuras
contestações sobre o resultado final do processo. BARBOSA MOREIRA (1988) afirma que se
a sentença for constitutiva, o que deve ser preservado é a modificação jurídica operada, e não
apenas o direito de promover tal modificação que o autor tem.
Nessa pesquisa assumimos posicionamento compatível com o de Barbosa Moreira
que afirma que a coisa julgada é uma situação jurídica, que inicia com o trânsito em julgado e
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tem como cerne de suas características a indiscutibilidade e a imutabilidade no que se refere


ao conteúdo da decisão, não se limitando ao elemento declaratório, e apenas o conteúdo da
decisão, com a exclusão dos seus efeitos.

3 COISA JULGADA E O CÓDIGO CIVIL DE 1973

A concepção de que a principal função da coisa julgada é garantir a segurança


jurídica não é algo novo na doutrina. NEVES (1971) já apontava que o alvo da coisa julgada
era preservar a segurança jurídica.
Um dos aspectos mais debatidos mesmo antes do Código de Processo Civil de
1939 são os limites objetivos da coisa julgada. No que se refere ao Código de Processo Civil
de 1939 havia uma grande controvérsia na doutrina sobre os limites, alguns entendiam que
somente o dispositivo do julgado era abrangido pela coisa julgada, ainda que os motivos
tivessem relevância para a compreensão do verdadeiro alcance da decisão. Outra parte da
doutrina acreditava que os limites objetivos alcançavam as relações contravertidas e julgadas.
No CPC de 1939 o artigo 287 tratava acerca da coisa julgada da seguinte forma:

Art. 287. A sentença que decidir total ou parcialmente a lide terá força
de lei nos limites das questões decididas.
Parágrafo único. Considerar-se-ão decididas todas as questões que
constituam premissa necessária da conclusão".

Novamente persistiram as divergências acerca dos limites. AMERICANO (1977)


admitia a incidência da coisa julgada nos motivos da sentença, se esses fossem o fundamento
da sentença. Ele acreditava que os motivos que eram fundamentais para a decisão, ou seja,
eram premissas, mereciam serem atingidos pela coisa julgada.
Encontramos em NEVES (1971) o pensamento contrário, o mesmo acreditava que
somente a decisão era atingida pela coisa julgada, fundamentou seu pensamento na teoria da
substanciação.
Com o surgimento do Código de Processo Civil de 1973, o legislador buscou por
fim a tal discussão, adotou a técnica fechada, delimitando assim o alcance da coisa julgada
somente ao dispositivo da decisão, não alcançando as decisões ocorridas no incidenter
tantum.
No CPC de 1973 tais aspectos estavam previstos nos artigos 468 e 469 da seguinte
forma:
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Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força
de lei nos limites da lide e das questões decididas.
Art. 469. Não fazem coisa julgada:
I os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte
dispositiva da sentença;
II a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença;
III a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no
processo.

Ocorre, portanto, a positivação da tese restritiva, não incidindo a coisa julgada


sobre às questões prejudiciais. DINAMARCO (2002) afirma:

Somente o preceito concreto contido na parte dispositiva das


sentenças de mérito fica protegido pela autoridade da coisa julgada
material, não os fundamentos em que ele se apoia (sic). Essa regra é
anunciada pela exclusão nos três incisos do art. 469 do Código de
Processo Civil [...]. Na realidade, todos os três incisos referem-se à
motivação da sentença, pois os dois últimos não passam de meras
especificações do primeiro. Ainda quando nada dispusesse a lei de
modo explícito, o confinamento da autoridade da coisa julgada à parte
dispositiva da sentença é inerente à própria natureza do instituto e à
sua finalidade de evitar conflitos práticos de julgados, não meros
conflitos teóricos (Chiovenda, Liebman)".

Como exemplo de como o instituto era tomada pelo CPC de 1973 podemos citar
um caso em que João propõe uma ação contra a empresa Filmagens Ltda. Por utilizar de
maneira indevida a sua imagem. Após ter sido feita a parte de instrução, o juiz decide pela
improcedência da ação por ter constatado que a empresa não usou a imagem de João além do
que fora acertado entre as partes. Após esse fato, João impetra nova ação contra a mesma
empresa, alegando agora danos morais, sob os mesmos argumentos na causa de pedir do
processo por uso indevido de imagem que já havia sido julgado por outro juízo. Na ação por
dano moral é obtido decisão favorável, uma vez que o juiz entendeu ter ocorrido abuso por
parte da empresa, mesmo com decisão anterior com visão contrária. O que fica claro é que
com o CPC de 1973 no que se refere à coisa julgada, todas as duas decisões estão corretas,
pois as fundamentações que foram usadas nas duas lides, não transitaram em julgado
porquanto são questões incidenter tantum.
Deve-se ter claro que a lide esta diretamente ligada ao mérito e o pedido e que seu
limite é estabelecido pela causa de pedir, pois em uma observação superficial pode ocorrer o
pensamento de que a coisa julgada incidiria sobre a fundamentação do pedido, o que não
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ocorre conforme abordado pelo artigo 469, que exclui os motivos lato sensu dos limites
objetivos da coisa julgada.
Tem que se entender que o fato da coisa julgada não atingir as questões
prejudiciais não impede que as mesmas sejam julgadas em outras demandas como objeto do
juízo.
O Código de Processo Civil de 1973 trabalha a questão da ação declaratória
incidental em seus artigos 5º, 325 e 470, cujo alvo é justamente o de trazer às questões
incidentais a influência da coisa julgada, ampliando os efeitos desta no processo.
As questões incidentais levadas a julgamento pela ação declaratória incidental
teria força de coisa julgada material, trazendo, portanto segurança jurídica para esses aspectos
também., ressaltando que ocorre a ampliação dos limites objetivos da coisa julgada, uma vez
que atinge a questão prejudicial que passa a figurar como principal.
Tais aspectos foram modificados com o surgimento do novo Código de Processo
Civil de 2015, tais mudanças serão estudadas no próximo capítulo do presente trabalho.

4 COISA JULGADA NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015

Desde os anteprojetos do Código de Processo Civil de 2015, a possibilidade de


ocorrerem mudanças nos limites da coisa julgada passou a ser objeto de interesse e estudo de
muitos estudiosos da área.
Estudiosos como THEODORO JR. e NAVES DA FONSECA passaram a fazer o a
comparação do projeto de lei com o CPC/1973, observando que muito do que havia de
novidade quanto ao tema no anteprojeto aprovado pelo Senado acabou sendo retirado pela
Câmara dos Deputados. Naves da Fonseca observou nos estudos do pré-projeto que no que se
referia aos pressupostos para a ampliação da coisa julgada aos fundamentos da sentença,
havia insuficiente regulamentação quanto ao tema, e que caso houvesse realmente a decisão
de alterar os limites objetivos da coisa julgada, deveria haver um aprofundamento nos
pressupostos, com a finalidade resguardar o processo legal.
Os juristas GIDI, TESHEINER e PRATES (2011) desenvolveram um estudo
sobre o tema em que dissertam sobre as vantagens e desvantagens pertinentes as mudanças no
instituto da coisa julgada, os mesmos opinaram de forma contraria acerca da possibilidade da
coisa julgada recais sobre questões prejudiciais, afirmando que isso acarretaria uma maior
demora na duração do processo, os mesmos também relataram sobre a insuficiência
regulamentar da proposta e sugeriram que se de fato os limites fossem estendidos, deveria ser
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usado os pressupostos de incidência do direito norte-americano, para a proteção do devido


processo legal.
Observa-se que nos estudos referentes ao pré-projeto de lei os principais aspectos
colocados como dificuldades eram: uma regulação da norma insuficiente em relação as
propostas de ampliação dos limites objetivos; aumento do tempo de duração e da
complexidade da causa; restrição da coisa julgada aos casos em que há interesse público
indisponível e violação do princípio da inercia da jurisdição.
Após a publicação do CPC/2015 restou superada a falta de regramento acerca do
assunto, posto que o mesmo foi minuciosamente trabalhado no artigo 503 do CPC/15, nele foi
trabalhado que para que ocorra a extensão da coisa julgada à questão prejudicial pressupõe:
que da resolução de tal questão dependa a resolução do mérito; que tenha ocorrido
contraditório prévio e efetivo, não atingindo no caso de revelia; o juízo terá competência em
relação à matéria e à pessoa pra resolvê-la como questão principal. Ressalta-se que os fatos
não são alcançados pela coisa julgada e seus limites objetivos.
Outro ponto de crítica que foi solucionado com o CPC/15 é o que se referia ao
possível cerceamento de defesa, pois uma vez que o contraditório é um dos meios utilizados
para avaliar a correta aplicação do instituto da coisa julgada, o mesmo foi colocado de forma
ampla o bastante para justamente não surgirem tais alegações.
O §1º, inciso II do artigo 503 do CPC/15 ganha amparo no que se refere ao
contraditório prévio e efetivo, nos artigos 7º e 9º, posto que o contraditório atua como um
pressuposto para extensão da coisa julgada aos motivos da sentença.
Através da avaliação de tal realidade é possível perceber que a extensão dos
limites objetivos da coisa julgada para as questões incidentais não tornam a causa mais
complexa e demorada.
Para que recaia a coisa julgada sobre a prejudicial, deve esta ser determinante para
a sentença, ou seja, a prejudicial tem que ter tamanha importância a ponto de que se a mesma
não for devidamente enfrentada pelo Estado-Juiz o mesmo não terá como prover o mérito da
causa. Podemos, portanto afirmar que a questão incidental que passível do recebimento da
proteção da coisa julgada é pressuposto lógico-jurídico da decisão, sendo determinante para o
resultado do julgado.
Encontramos na afirmativa de WATANABE (2012) uma abordagem acerca da
importância da resolução das prejudiciais:
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"Ao longo do iter lógico em direção ao provimento final, o juiz deve


conhecer de todos os pontos relevantes, de direito e de fato, alegados
pelas partes, mesmo que permaneçam eles incontroversos, e, além de
conhecer, também resolver as questões de fato e de direito, em que se
convertem os pontos controvertidos pelas partes ou em relação aos
quais alimente ele (sic) qualquer dúvida. Algumas dessas questões
podem constituir em prejudiciais de outras questões, no sentido de
que de sua solução depende o 'teor ou o conteúdo da solução das
outras'. Existindo questões prejudiciais, portanto, deve o juiz
conhecer e resolver antes a questão subordinante e, tal seja o teor
da resolução, poderá tornar-se até desnecessário o conhecimento
da questão subordinada. Em relação ao objeto litigioso, todas as
questões que possam influir em sua decisão, sejam prejudiciais ou
não, constituem antecedente lógico e por isso devem ser objeto de
cognição e resolução". (grifo nosso)

O que deve ser observado é que o esforço a ser despendido sobre a questão
prejudicial vai depender do quanto a mesma é determinante para o julgamento do mérito, ou
seja, se a mesma não tiver grande relevância não será tão aprofundada. Por tal motivo a
abrangência da fundamentação pela não importa no aumento da complexidade e do tempo de
duração da tramitação da demanda.
Um outro aspecto negativo para alguns sobre os artigos 505 e 506 do CPC/2015 é
de que as regras contidas em tais artigos violam o princípio da inercia jurisdição.
Devemos compreender que se de um ponto o princípio da inercia vem resguardar
a neutralidade do órgão que julga, também deve ser observado outro ponto que é o de
instrumentalidade do direito, que hoje busca cada vez mais recomenda o máximo
aproveitamento da atividade jurisdicional, buscando uma maior efetividade do processo,
sempre resguardando a segurança jurídica.
Seguindo tal ordem de pensamento, fica claro que o jurisdicionado não terá
impedido o seu exercício de liberdade individual e plena, quando decidir os pedidos e as
causas de pedir que serão postulados, pelos efeitos da coisa julgada.
O juízo ainda estará ligado aos limites do pedido inicial, não podendo emitir
decisão que ultrapasse os limites que forem estabelecidos pelo autor da demanda.
No que se refere a coisa julgada diretamente ligada as questões prejudiciais, o que
se tem de mais inovador e relevante foi a imutabilidade e indiscutibilidade acerca da solução
dada a questão tratada como prejudicial incidental, desde que preenchidos os requisitos que
são cumulativos.
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O enunciado nº 313 do Fórum Permanente de Processualistas Civis também


apontaram que são cumulativos os pressupostos previstos nos § 1º e seus incisos e observado
também o § 2º do artigo 503.
Quando preenchido os requisitos abaixo na devida ordem teremos a coisa julgada
relativa a decisão de uma questão prejudicial incidental:

▪ Expressa decisão acerca da questão prejudicial incidental;


▪ Que da decisão de tal questão prejudicial incidental tenha dependido a
resolução do mérito para fundamentar o seu sentido;
▪ Não haver revelia;
▪ Que tenha havido contraditório previamente oferecido e que o mesmo tenha
sido exercido no que se refere a questão prejudicial incidental;
▪ Que a decisão da questão prejudicial incidental tenha sido proferida por juiz
com competência absoluta para resolvê-la como principal;
▪ Que a questão prejudicial incidental tenha sido decidida em processo em que
não ocorra restrições probatórias nem limites à cognição que tenham impedido
ou dificultado a profunda análise da referida questão.

Cabe ressaltar que não é necessário requerimento da parte e nem que haja
especificamente no pronunciamento decisório um dispositivo específico para a questão
prejudicial incidental. A questão prejudicial incidental se forma independente de requerimento
dirigido a esse aspecto e de sua solução encontrar-se ou não especificamente em dispositivo
da decisão.
Como aspecto corroborador de tal pensamento temos os enunciados nº 165 e 438
do Fórum Permanente de Processualistas Civis e o enunciado nº 66 do Centro de Estudos e
Debates do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro:

FPPC: 165. (art. 503, §§1º e 2º) A análise de questão prejudicial


incidental, desde que preencha os pressupostos dos parágrafos do art.
503, está sujeita à coisa julgada, independentemente de provocação
específica para o seu reconhecimento. (Grupo: Coisa Julgada, Ação
rescisória e Sentença; redação revista no VI FPPC-Curitiba)

438. (art. 503, §1º) É desnecessário que a resolução expressa da


questão prejudicial incidental esteja no dispositivo da decisão para ter
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aptidão de fazer coisa julgada. (Grupo: Sentença, coisa julgada e ação


rescisória)

CEDES: 66. A extensão da coisa julgada às questões prejudiciais


independe de pedido ou provocação da parte, tampouco de
manifestação específica no dispositivo da decisão. (grifo nosso)

Vale afirmar que a imutabilidade e indiscutibilidade da coisa julgada estender-se-á


sobre o conteúdo da decisão dada a questão prejudicial incidental. Se a questão tratar sobre
conteúdo de fundo constitutivo ou desconstitutivo, independente de qual seja; sendo, no
entanto, conteúdo meramente declaratório, não vai haver coisa julgada se a questão
prejudicial incidental versar sobre a existência, inexistência ou modo de ser da situação
jurídica, autenticidade ou falsidade de documento.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A título de conclusões, selecionamos aqueles que ao longo do estudo se


mostraram mais relevantes para a compreensão da coisa julgada no Código de Processo Civil
de 2015.
Primeiro se mostrou necessário à conceituação de coisa julgada para que ficasse
claro que tal conceito não deve ser confundido com a descrição da configuração da coisa
julgada e nem com análises que fossem voltadas para a sua efetividade ou como ela deveria
ser disciplinada, uma vez que se constatou que a coisa julgada é um fenômeno jurídico.
A expressão da coisa julgada refere-se a variados conceitos, dessa maneira
classificar o conceito da mesma como lógico-jurídico ou jurídico positivo dependerá da
referência do conceito que se tenha em conta.
O estudo quanto a construção clara dos conceitos a respeito da coisa julgada é de
fundamental importância para que não se gaste tempo em falsas disputas e a possibilidade de
se chegar a falsos acordos.
A perspectiva que orientou a pesquisa foi a de buscar conceituar a coisa julgada
para que se conseguisse viabilizar a ordem teórica prevista no atual Código de Processo Civil,
portanto, a análise acerca das normas de direito que não mais vigoram se deu em busca de um
conhecimento histórico acerca do tema.
Constitucionalmente a coisa julgada é definida como uma garantia da estabilidade
da decisão final transitada em julgado, regulamentada pelo legislador para promover a
segurança jurídica, respeitando o devido processo legal, contraditório e ampla defesa.
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A coisa julgada pode ser tida como uma concretização do princípio da segurança
jurídica, sendo a mesma voltada para a proteção do direito adquirido, entendida como uma
situação jurídica ativa, que foi recepcionada pelo patrimônio de determinada pessoa e
portanto, protegida diante do direito superveniente.
No que se refere a coisa julgada nas questões prejudiciais ficou claro a
importância que o artigo 503 §§ 1º e 2º, do CPC/15 trouxe, pois fixou a não necessidade de
haver requerimento da parte e nem dispõe sobre a necessidade de que a solução apresentada
para a questão prejudicial incidental venha a constar em dispositivo do pronunciamento
decisório.
A questão prejudicial incidental não se diferencia da questão principal no que se
refere a necessidade haver decisão expressa, sendo esse regime comum para ambas.
Podemos afirmar que a nova visão dada a coisa julgada pelo novo Código de
Processo Civil não trouxe uma maior complexidade nem aumentou o tempo processual, o que
se percebe é uma abrangência da coisa julgada e a devida importância que deve ser dada as
questões prejudiciais incidentais que são fundamentais para basear a razão da decisão
principal.

6 REFERÊNCIAS

AMERICANO, Jorge. Comentáriosao Código de Processo Civil do Brasil, vol. 1, São


Paulo: Editora Saraiva, 2. ed., s/d.

ASSIS, Araken de. Doutrina e prática do processo civil contemporâneo. São Paulo: RT,
2001.

BARBOSA MOREIRA, José Carlos. A eficácia preclusiva da coisa julgada material no


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