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A relação entre o artigo 151.º e o artigo 109.

º da CRP, na perspetiva
do Procedimento Administrativo
Importa, em primeiro lugar, expor alguns dos princípios fundamentais que fazem parte e são pedra
angular da República Portuguesa, sendo também essenciais para a temática sobre a qual este trabalho incide.

Artigo 1.o (República Portuguesa) - Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e
na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Artigo 2.o (Estado de direito democrático) - A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado
na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efetivação
dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia
económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.

Importam ainda os artigos 3.o - (Soberania e legalidade) – no seu número 1 que estatui < A soberania, una
e indivisível, reside no povo (…)>; 4.o - (Cidadania portuguesa); 9.o - (Tarefas fundamentais do Estado) – sendo que
neste e tendo em conta as suas alíneas, aquelas que nos importam são a b) Garantir os direitos e liberdades
fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático e c) Defender a democracia política, assegurar e

incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais.


Tendo em conta que os artigos em análise – artigo 109.o e 151.o da Constituição da República
Portuguesa (CRP)– recaem sobre a vertente política importa ainda referir os que se seguem, pois
consubstanciam estes:
Artigo 10.o (Sufrágio universal e partidos políticos);
Artigo 13.o (Princípio da igualdade);
Artigo 48.o(Participação na vida pública);
Artigo 49.o(Direito de sufrágio);
Artigo 51.o(Associações e partidos políticos);

Todos os artigos supra mencionados possuem correlação direta com a participação, dos cidadãos
portugueses – artigo 4.o, CRP -, no exercício dos seus direitos, deveres e garantias, assim como na possibilidade
de estes integrarem associações e/ou partidos políticos – artigo 51.o, CRP - de forma a integrarem e/ou
exercerem cargos político-administrativos no Estado.

Interessa agora expor aquilo em que consistem os artigos 109.o e 151.o da Constituição da República
Portuguesa.
Artigo 109.o(Participação política dos cidadãos) - A participação directa e activa de homens e
mulheres na vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema
democrático, devendo a lei promover a igualdade no exercício dos direitos cívicos e políticos e a não
discriminação em função do sexo no acesso a cargos políticos.
Artigo 151.o(Candidaturas) - 1. As candidaturas são apresentadas, nos termos da lei, pelos
partidos políticos, isoladamente ou em coligação, podendo as listas integrar cidadãos não inscritos nos
respectivos partidos.
2. Ninguém pode ser candidato por mais de um círculo eleitoral da mesma natureza, exceptuando o círculo
nacional quando exista, ou figurar em mais de uma lista.
Como é constatável através do artigo 109.o <A participação direta e activa de homens e mulheres na
vida política constitui condição e instrumento fundamental de consolidação do sistema democrático (…)>,
sendo que no corpo do texto não se constata nenhum tipo de desigualdade entre sexos, sendo que o artigo
13.o – supra citado – contém o princípio da Igualdade; entre homens e mulheres será de supor, mas todos
temos consciência que assim não é pois nunca o foi. A sociedade sempre foi dominada pelo homens e só agora
se procede a uma pequena tentativa de igualdade.
Toda esta problemática só seria solucionada através da instrução das novas gerações, de uma instrução
centrada efetivamente na igualdade entre homens e mulheres, pois ninguém é mais que ninguém. Quer em
cargos políticos, quer seja em pessoas que tem como função profissional proceder à limpeza das ruas ou à
recolha dos detritos.

Em termos das candidaturas - aqui procederemos a uma análise influenciada por opinião própria –, o
Estado de Direito Democrático onde vivemos não o é efetivamente, não no sentido de não existirem liberdade
de expressão, opinião, mas sim no sentido de que esta se encontra sempre influenciada pelos meios de
comunicação social – afetos a determinados partidos -, por falta de instrução do povo no geral (p.ex.: 95% da
população julga que nas eleições legislativas esta a votar para eleger o primeiro ministro e não os seus
representantes na Assembleia da República ou desconhece quantos são os deputados eleitos pela região onde
reside) e também, e esta é a questão mais fulcral, o facto de que nos encontramos num Estado de Direito
partidocrático, isto é, uma partidocracia.
Como estatui o número 1 do artigo 151.o: < As candidaturas são apresentadas, nos termos da lei, pelos partidos
políticos, isoladamente ou em coligação, podendo as listas integrar cidadãos não inscritos nos respectivos partidos> ou seja, um
cidadão português que pretenda se candidatar a deputado, isoladamente e sem partido político, não o poderá
realizar. É obrigado, pela Lei Fundamental, a integrar um partido político. Pode não estar inscrito neste, mas
terá de fazer parte das suas listas para que se possa candidatar à Assembleia da República.
Expondo uma possível situação : Desejo candidatar-me pelo círculo do Algarve a deputado, não
pretendo tornar-me membro (militante) de nenhum partido político mas tendo em conta a legislação em
vigor, sou obrigado a fazê-lo. Associo-me então ao Bloco de Esquerda como independente fazendo parte das
suas listas e sou eleito. Durante a legislatura, em votações no plenário, nem sempre sigo as diretrizes da
bancada e voto conforme a minha opinião pois afinal vivo num Estado de Direito Democrático. Nas eleições
legislativas seguintes pretendo voltar a ser deputado, isto é, candidato mas há um senão, tendo em conta que
não segui sempre as diretrizes impostas pelo partido, este não voltará a colocar-me como candidato a
Deputado e como tal não me poderei candidatar pois não integro um partido politico; e segundo a Constituição
sou obrigado para que possa candidatar-me a representante do povo algarvio.
No exemplo verificasse a supra mencionada partidocracia, é a vontade dos partidos que prevalece, são
estes que escolhem efetivamente quem serão os candidatos a representantes do povo, pois um cidadão –
isoladamente – não poderá se candidatar.
<A atividade administrativa, sobre cada assunto, começa num determinado ponto e depois caminha
por fases, desenrola-se de acordo com um certo modelo, avança pela prática de atos que se encadeiam uns
nos outros, e pela observância de certos trâmites, de certas formalidades e de certos prazos, que se sucedem
numa determinada sequência. Chama-se a esta sequência procedimento administrativo (…)>1
Convêm referir um dos Princípios fundamentais do procedimento administrativo, o qual nos importa
mais nesta questão: Participação dos particulares na formação das decisões – artigo 267.o, n.o5, da CRP, que
estabelece expressamente que a lei deverá assegurar a < a participação dos cidadãos na formação das decisões ou
deliberações que lhes disserem respeito.>.
Como é facilmente deduzível – através da interpretação exposta supra acerca dos artigos 109.o e 151.o
da CRP – os particulares (cidadãos) não participam na formação das decisões, nem no procedimento
administrativo em Portugal. Quem participa, quem decide e toma as decisões por estes, são os partidos
políticos que assentam a sua atividade administrativa, executiva, judicial e legislativa em interesses pessoais,
familiares, económicos dos seus dirigentes.
Afinal, o Governo XXI governo português é uma espécie de La Famiglia pois já inúmeros daqueles que
o constituem, possuem laços familiares – isto sem pretender retirar qualquer mérito a estes, se o tiverem.

Aluno: João Luís Rosa Silva; n.º 21702430

1
Diogo Freitas do Amaral, Curso de Direito Administrativo – Volume II, 4aedição – página 269