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INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E

TECNOLOGIA DO NORTE DE MINAS GERAIS


CAMPUS MONTES CLAROS
CURSO DE ENGENHARIA QUÍMICA

ESTUDO DO SISTEMA DE FILTRAÇÃO COM FORMAÇÃO DE TORTA EM


SUPERFÍCIE PLANA

MONOGRAFIA DE GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA QUÍMICA

RENAN ZUBA PARRELA


renan_zuba@hotmail.com

AGOSTO, 2017
2

RENAN ZUBA PARRELA


renan_zuba@hotmail.com

ESTUDO DO SISTEMA DE FILTRAÇÃO COM FORMAÇÃO DE TORTA EM


SUPERFÍCIE PLANA

Monografia apresentada ao
Curso de Engenharia Química do
Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Norte de
Minas Gerais como parte dos
requisitos para a obtenção de
Grau em Engenheiro Químico.

Orientador:

Prof. Dr. João Carlos Gonçalves

Coorientador:

Prof. MSc. Saulo Fernandes Vidal

MONTES CLAROS/MG

IFNMG – CAMPUS MONTES CLAROS

AGOSTO, 2017
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AGRADECIMENTOS

Agradeço a toda minha família pelo apoio durante a realização deste trabalho,
deixando-me em paz recluso no meu recinto. Em especial à minha mãe, Roziane,
que me encorajou a enfrentar os momentos difíceis. Agradeço ao meu pai, Geraldo,
à minha avó, Maria de Lourdes, à minha tia, Rozeniane, e não menos importante,
aos meus irmãos Saulo e Eugênio, pela paciência e incentivo indireto.
Agradeço à minha namorada, Maria Eduarda, não só pelo apoio prestado,
mas por também incendiar minha vida de carinho e amor. Agradeço também à
minha segunda família, a família Mendes, pelo acolhimento, carinho e apoio: Laura
“Sogrona” Kelly, Augusto, Neusa, Kátia, Rodrigo, Lorena, Junior, e as crianças,
Marina, Giovanna e João Arthur.
Agradeço ao meu orientador, João Carlos Gonçalves, pela orientação,
confiança e principalmente paciência durante a realização do trabalho, ao meu
coorientador, Saulo Vidal, pela amizade, conselhos, ajuda e suporte prestados, e ao
técnico de laboratório, Robson Vasconcelos, pelo apoio durante a execução do
trabalho. Agradeço também a todos professores do curso de Engenharia Química do
Campus Montes Claros, que compartilharam comigo fragmentos de seus
conhecimentos que levarei comigo para sempre.
Agradeço meus amigos: Guigas (Hobbit), Andrey e Pedro (Peu), por estarem
presentes em diversos momentos importantes da minha vida.
Por último, agradeço meus colegas e amigos da turma 2013/II: Minha equipe
de praticamente todos os trabalhos e relatórios realizados, Maria Nayara (Naybara),
Pádua (Padinha) e Vânia (Vanvan), que também aguentaram todas minhas chaturas
(algumas vezes recíprocas) ao longo do curso. Joel, Shara, Stephanie (Ste), Luiz
(valeu pelas caronas, xD), Jadson (Rei delas), Flavinha, Rouse, Ladeia, Gabi,
Rubão, Mayara, Lucas, Talles, Marlene, Pollyana e todos os outros que estudaram
comigo em algum período, obrigado pelos momentos de zoeira e descontração em
sala, estarão guardados para sempre em meu coração.
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RESUMO

Os processos de separação são amplamente empregados nos mais diversos


campos da indústria química. Entre os processos existentes, destaca-se a filtração
cujo princípio se baseia na separação de sólidos através da passagem de uma
suspensão em um meio filtrante. No modelo de filtração com formação de torta, os
sólidos retidos se acumulam sobre o meio filtrante, formando um bolo, cuja
espessura aumenta no decorrer da operação. Este trabalho delineou estudos
experimentais da filtração com formação de torta em superfície plana, realizados no
laboratório de Engenharia Química do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais –
Campus Montes Claros, e a modelagem e simulação desse mesmo sistema
utilizando o Xcos, ferramenta do software livre Scilab. Determinou-se
experimentalmente a resistividade média da torta, a resistência do meio filtrante em
diferentes pressões, a compressibilidade da torta e a porosidade média. A
compressibilidade calculada superestimou o intervalo mencionado pela literatura. Os
resultados extraídos em laboratório e via simulação foram condizentes. Verificou-se
por meio da simulação que a taxa infinitesimal do volume de filtrados diminuiu com o
passar do tempo devido ao aumento da pressão dos sólidos e, consequentemente, o
aumento do volume de filtrados e da espessura da torta adquiriu um formato
curvilíneo em relação ao tempo

Palavras-Chave: Filtração, Modelagem, Simulação, Torta compressível.


5

LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Superfície de um sólido monolítico à base de neodímio-ferro-


14
boro (Nd2 Fe14 B) ..........................................................................
Figura 2. Sistema utilizado por Henry Darcy em seus experimentos ........ 16
Figura 3. Representação da filtração sobre superfície plana com
17
formação de torta .......................................................................
Figura 4. Mecanismo da filtração cruzada ................................................. 24
Figura 5. Mecanismos de retenção da filtração em profundidade ............. 26
Figura 6. Filtro prensa de placas e quadros .............................................. 28
Figura 7. Filtro prensa com carrinho para recolher torta ........................... 28
Figura 8. Filtro de disco rotativo à vácuo ................................................... 29
Figura 9. Filtro de tambor rotativo à vácuo ................................................ 29
Figura 10. Filtro de areia de pressão de tipo vertical .................................. 31
Figura 11. Filtro “Deep Bed” ........................................................................ 31
Figura 12. Esquema de unidade para o teste de folha ................................ 34
Figura 13. Aparato experimental utilizado nos ensaios ............................... 36
Figura 14. Meio filtrante tecido gorgurinho .................................................. 36
Figura 15. Uma das tortas formadas no ensaio de filtração ........................ 37
Figura 16. Estufa utilizada para secagem da torta e da suspensão aquosa 37
Figura 17. Diagrama de blocos construído para simulação da filtração
40
plana com formação de torta ......................................................
Figura 18. Gráfico que representa os resultados experimentais para
42
filtração plana .............................................................................
Figura 19. 𝑙𝑛 < 𝛼 > em função de 𝑙𝑛 ∆𝑃 .................................................... 44
Figura 20. Comparação entre dados experimentais e simulação ............... 45
Figura 21. Volume de filtrados em função do tempo para diferentes
46
pressões .....................................................................................
Figura 22. Gráfico que relaciona a taxa de variação infinitesimal do
46
volume de filtrados com o tempo ...............................................
Figura 23. Gráfico que mostra o aumento da espessura da torta com o
47
tempo .........................................................................................
6

LISTA DE TABELAS

Tabela 1. Classificação dos poros pela diferença de tamanho ........................ 15


Tabela 2. Parâmetros constantes determinados experimentalmente e suas
41
respectivas incertezas ......................................................................
Tabela 3. Parâmetros constantes determinados através de dados da
41
literatura ...........................................................................................
Tabela 4. Coeficientes angulares, lineares e de determinação das retas que
43
relacionam 𝑡/𝑣 e 𝑣 em diferentes pressões .....................................
Tabela 5. Valores da resistência da torta e resistividade do meio filtrante
43
calculados em diferentes pressões ..................................................
7

LISTA DE SÍMBOLOS

𝜀 Porosidade
𝑉𝑉 Volume de vazios
𝑉𝑇 Volume total
𝑞 Velocidade superficial
𝜇𝐹 Viscosidade do fluido
𝑘 Permeabilidade
∆𝑃 Pressão diferencial
𝑙 Espessura
𝑐 Constante de Forchheimer
𝑣𝐹 Velocidade intersticial do fluido
𝑣𝑆 Velocidade intersticial do sólido
𝜌𝐹 Densidade do fluido
𝜌𝑆 Densidade do sólido
𝑞𝐹 Velocidade superficial do fluido
𝑞𝑆 Velocidade superficial do sólido
𝑚 Força resistiva sobre matriz porosa
∇𝑃𝑆 Pressão diferencial nos sólidos
𝜀𝑚 Porosidade no meio filtrante
∆𝑃𝑚 Pressão diferencial no meio filtrante
𝜀𝑚 Porosidade do meio filtrante
𝑙𝑚 Espessura do meio filtrante
𝑘𝑚 Permeabilidade do meio filtrante
𝐶 Concentração da suspensão
∆𝑃𝑡 Pressão diferencial na torta
𝑚𝑆 Massa de sólidos
𝑉 Volume de filtrados
𝐴 Área de filtração
𝛼 Resistividade da torta
8

𝑅𝑚 Resistência do meio filtrante


𝑡 Tempo
𝑆 Coeficiente de compressibilidade da torta
𝛼0 Resistividade inicial
𝑟 Raio
𝐿 Altura
𝑣 Volume de filtrados por área de filtração
𝑁 Número de poros abertos
𝑁0 Número total de poros
𝐾𝑁 Quantidade de partículas em suspensão por volume
𝑉𝐿 Volume da suspensão
𝑉0̇ Vazão no início do ensaio de filtração
𝐽 Velocidade de retenção de partículas
∆𝑃0 Pressão diferencial no filtro limpo
𝑘1 Constante experimental 1
𝑘2 Constante experimental 2
𝑉𝑙 Volume de líquido de lavagem
𝐴𝑡 Área da superfície do tambor
𝐼 Fração de área superficial do tambor submersa na suspensão
𝑡𝑟 Tempo de residência
𝑁 Número de rotações
𝑄 Vazão volumétrica de filtrados
𝐾𝑝 Constante de filtração 1
𝐵 Constante de filtração 2
𝑚𝐹 Massa de fluido
𝜌𝐹𝑡 Densidade dos filtrados
𝑚𝑃𝑃 Massa do picnômetro preenchido
𝑚𝑃𝑉 Massa do picnômetro vazio
𝑉𝑃 Volume do picnômetro
𝐷 Diâmetro interno do funil
9

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ................................................................................... 11
2. OBJETIVOS ....................................................................................... 13
2.1 Objetivo geral ..................................................................................... 13
2.2 Objetivos específicos ......................................................................... 13
3. REFERENCIAL TEÓRICO ................................................................ 14
3.1 Meios porosos .................................................................................... 14
3.2 Permeabilidade .................................................................................. 15
3.3 Modelos matemáticos da filtração ...................................................... 16
3.3.1 Filtração com formação de torta ......................................................... 17
3.3.1.1 Filtração com formação de torta sobre superfície plana .................... 17
3.3.1.2 Filtração com formação de torta sobre superfície plana simplificada
21
............................................................................................................
3.3.1.3 Compressibilidade da torta em função da pressão ............................ 22
3.3.1.4 Filtração com formação de torta sobre superfícies cílindrica e
23
esférica ...............................................................................................
3.3.2 Filtração cruzada ................................................................................ 24
3.3.3 Filtração com bloqueio de poros ........................................................ 25
3.3.4 Filtração em profundidade .................................................................. 26
3.4 Filtros .................................................................................................. 27
3.4.1 Filtros prensa ...................................................................................... 27
3.4.2 Filtros contínuos rotativos à vácuo ..................................................... 29
3.4.3 Filtro de leito poroso granular ............................................................. 31
3.5 Dimensionamento de filtros ................................................................ 32
3.5.1 Ensaios de filtração em filtro folha ..................................................... 33
4. DESENVOLVIMENTO ....................................................................... 35
4.1 Materiais ............................................................................................. 35
4.2 Metodologia ........................................................................................ 35
4.2.1 Ensaios de filtração ............................................................................ 35
4.2.2 Ensaios de gravimetria ....................................................................... 36
4.2.3 Determinação de outras constantes ................................................... 38
4.2.4 Cálculo de parâmetros da torta e do meio filtrante ............................ 39
10

4.2.5 Simulação ........................................................................................... 39


5. RESULTADOS E DISCUSSÕES ....................................................... 41
6. CONCLUSÕES .................................................................................. 49
7. SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS ................................ 50
REFERÊNCIAS ................................................................................................... 51
11

1. INTRODUÇÃO

A separação de sólidos e líquidos é uma operação com ampla aplicação em


processos químicos e físicos existentes na indústria. Segundo Cheremisinoff (1995)
há vários propósitos de realizar uma separação aplicada a uma corrente líquida:
Recuperação de produtos valiosos, remoção de contaminantes indesejáveis que
possam danificar o equipamento do processo, purificação do produto, remoção de
poluentes prejudiciais ao meio ambiente etc.
Um dos métodos de separação de sólidos e líquidos é a filtração.
Apresentando funcionamento baseado no uso de uma barreira ou meio poroso, que
retém as partículas sólidas, enquanto o fluido escoa através dos seus pequenos
orifícios (Foust et al. 2012).
A escolha do filtro a ser empregado em um processo é vinculada a suspensão
que está sendo filtrada, devendo-se considerar se as partículas são muito finas (em
escala microscópica) ou muito largas, associadamente ao objetivo da filtração, se os
sólidos retidos possuem alto valor unitário para aproveitá-los ou se apenas o filtrado
é interessante economicamente. A quantidade de remoção do sólido também deve
ser analisada, às vezes a remoção parcial é suficiente e, em outros casos, uma
remoção completa é necessária. (Geankoplis, 1993)
Diversos modelos matemáticos foram criados para simular alguns tipos de
filtração. Os principais modelos da literatura são: Filtração com formação de torta,
filtração cruzada, filtração com bloqueio de poros e filtração em profundidade. O
modelo mais amplamente utilizado é o da filtração com formação de torta. Esse
modelo se aplica efetivamente em projetos de filtros industriais e no estudo do
processo de perfuração de poços de petróleo em que o fluido de perfuração invade
as formações rochosas. (Ripperger et al., 2012)
O projeto de filtros industriais é realizado normalmente através de ensaios em
laboratório. As condições de trabalho nesses experimentos devem ser equivalentes
as condições do filtro industrial, ou seja, um mesmo meio filtrante, mesma
temperatura, queda de pressão, concentração da suspensão a ser filtrada etc.
Nesses testes são determinados parâmetros específicos que são constantes para
qualquer área de filtração, possibilitando um dimensionamento bem-sucedido.
Segundo Calabrez (2013), a invasão do fluido de perfuração em formações
rochosas é indesejada pois reduz a produtividade do poço, desmorona formações
hidratáveis e contamina o óleo no reservatório. O fluido de perfuração é uma mistura
12

complexa de sólidos, líquidos e, por vezes, gases. Entre essas substâncias


adicionadas no fluido, estão os agentes obturantes que objetivam amenizar a
invasão do fluido através da geração de uma camada fina, mas com baixa
permeabilidade, de sólidos retidos na superfície da formação rochosa. (Moreira et
al., 2012)
O carbonato de cálcio é altamente utilizado como um agente obturante no
processo por possuir características de solubilidade em ácidos e uma alta
distribuição granulométrica. Por isso, são reportados na literatura diversos estudos
da filtração de suspensões aquosas dessa substância variando parâmetros como
concentração, granulometria e queda de pressão do sistema, a fim de propor
condições ótimas para execução do processo. (Magioni et al., 2014, Berg, 2013,
Calçada et al., 2011, Araújo, 2010)
13

2. OBJETIVOS

2.1. OBJETIVO GERAL

Estudar um sistema de filtração plana com formação de torta compressível


através de ensaios experimentais, realizados no laboratório de Engenharia Química
do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – Campus Montes Claros, e através
de simulação, realizada utilizando o Xcos, ferramenta do software Scilab.

2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

a) Determinar parâmetros da torta formada, porosidade e resistividade,


em ensaios experimentais utilizando uma suspensão aquosa de carbonato de
cálcio 4% em diferentes pressões;
b) Determinar o coeficiente de compressibilidade da torta;
c) Determinar a resistência do meio filtrante;
d) Simular a variação de volume de filtrados, a taxa infinitesimal de
volume de filtrados e a espessura da torta em função do tempo;
e) Validar a simulação através da comparação com resultados
experimentais.
14

3. REFERENCIAL TEÓRICO

3.1. MEIOS POROSOS

A porosidade é um parâmetro definido como a fração do volume de vazios,


𝑉𝑉 , em um volume total de um material, 𝑉𝑇 , conforme a equação 1:

𝑉𝑉
𝜀= (1)
𝑉𝑇

Quando dizem que um material é poroso, significa que ele possui cavidades,
canais ou interstícios em sua estrutura. Rigorosamente, todo material é poroso em
certo grau, porém, nem sempre é perceptível em escala macroscópica (Fig. 1).

Figura 1: Superfície de um sólido monolítico à base de neodímio-ferro-boro (Nd2 Fe14 B).

Fonte: Santos, A. V. (2015).

A porosidade influencia diretamente nas propriedades físicas dos materiais,


tais como: densidade, condutividade térmica e resistência mecânica (Ferreira, O. P.,
2007). Segundo Santos (2015), materiais podem apresentar poros abertos ou
fechados, externos ou internos e possuir variadas formas, possibilitando inúmeras
aplicações nas mais diversas áreas.
O campo da engenharia química possui grande interesse no estudo de meios
porosos, principalmente associado ao escoamento de fluidos através desses meios.
É importante entender o comportamento fluidodinâmico de líquidos em meios
porosos, pois isso se aplica em diversas situações práticas das operações unitárias:
Reatores catalíticos, leitos fluidizados, sedimentadores, processos de adsorção,
processos de absorção de gases, coluna de destilação com recheio, operação de
15

filtração etc. Segundo Allen (1997), os poros são classificados de acordo com o
tamanho do seu diâmetro, conforme a Tabela 1.

Tabela 1: Classificação dos poros pela diferença de tamanho.

Classificação Tamanho do poro

Ultramicroporos Diâmetro < 0,6 nm

Microporos 0,6 nm < Diâmetro < 2 nm

Mesoporos 2 nm < Diâmetro < 50 nm

Macroporos Diâmetro > 50 nm


Fonte: Allen (1997)

Na filtração, esses materiais porosos, também chamados de meios filtrantes,


são utilizados na retenção dos sólidos. Segundo Svarovsky (2000), há uma ampla
variedade de meios filtrantes: Naturais ou sintéticos, confeccionados em vidro,
papel, cerâmica, membrana sintética ou celulósica etc. Com o intuito de escolher um
meio filtrante para uma determinada operação de filtração alguns fatores devem ser
analisados: Os poros do meio filtrante não devem se obstruírem rapidamente,
considerando que isso torna a taxa de filtração mais lenta. O meio filtrante deve ser
forte o suficiente para não rasgar ou sofrer danos em sua estrutura durante o
processo filtração, lavagem e remoção da torta. (Geankoplis, 1993)

3.2. PERMEABILIDADE

Darcy, em 1856, estudou o escoamento da água através de um meio poroso


devido à força de gravidade. Através de experimentos, ele concluiu que a velocidade
de escoamento utilizando um filtro de areia era proporcional a queda de pressão da
saída em relação à entrada do fluido no filtro e inversamente proporcional a
espessura do filtro e a viscosidade do fluido. O que se certifica na equação abaixo:

1 ∆𝑃
𝑞𝐹 = ∙ (2)
𝑘 𝑙𝜇𝐹

A constante da equação, 𝑘, é chamada de permeabilidade, sendo definida


como a facilidade de um fluido escoar através dos poros de um determinado
material. É um parâmetro empírico fundamental no estudo do escoamento de fluidos
16

em meios porosos e possui unidades de área. A equação 1 é conhecida como a lei


de Darcy.

Figura 2: Sistema utilizado por Henry Darcy em seus experimentos.

Fonte: Rosa et al. (2006)

Forchheimer percebeu que a equação de Darcy não se aplicava quando a


velocidade de escoamento aumentava, a relação entre a velocidade e o gradiente de
pressão não era linear. Realizando experimentos com escoamento de gases,
modificou-se a lei de Darcy incluindo efeitos inerciais, Eq. 3. (Massarani, 2002)

𝑑𝑃 𝜇𝐹 𝑐𝜌𝐹 √𝑘𝑞𝐹
− = (1 + ) 𝑞𝐹 (3)
𝑑𝑧 𝑘 𝜇

Segundo Massarani (2002), a forma quadrática de Forchheimer é válida para


o escoamento viscoso em meios isotrópicos homogêneos ou heterogêneos, isto é,
meios em que 𝑘 e 𝑐 são constantes ou variáveis com a posição do sistema. É válida
também para condições não isotérmicas, verificando-se a variação da viscosidade e
da densidade do fluido ao longo do escoamento.

3.3. MODELOS MATEMÁTICOS DA FILTRAÇÃO

A escolha do modelo adequado está vinculada com o tipo de filtração em


andamento. Segundo Ripperger et al. (2012), os modelos mais empregados são:
Filtração com formação de torta (Cake filtration), filtração em profundidade (deep
17

bed/depth filtration), filtração cruzada (cross-flow filtration) e filtração com bloqueio


dos poros (bloking filtration).

3.3.1. FILTRAÇÃO COM FORMAÇÃO DE TORTA

A modelagem matemática para filtração com formação de torta afirma que os


sólidos retidos são depositados sobre o meio poroso que possui a permeabilidade e
a porosidade constantes durante o ensaio de filtração. Ao passar do tempo, os
sólidos presentes na suspensão vão sendo retidos e há a formação de torta,
colaborando com essa retenção. Considerando uma vazão de filtrado constante, a
queda de pressão aumenta proporcionalmente a quantidade de sólidos depositados.
(Ripperger et al., 2012)

3.3.1.1. FILTRAÇÃO COM FORMAÇÃO DE TORTA SOBRE SUPERFÍCIE


PLANA

Na Fig. 3 temos o sistema representativo da filtração sobre superfície plana,


que acontece em um tubo horizontal; na qual 𝑙(𝑡) é a espessura da torta que cresce
conforme o tempo, 𝑙𝑚 é a espessura fixa do meio poroso, 𝑃[𝑙(𝑡), 𝑡] é a pressão na
interface torta-suspensão, 𝑃(0, 𝑡) é a pressão na interface torta-meio filtrante,
𝑃(−𝑙𝑚 , 𝑡) é a pressão no final do meio filtrante e z é um eixo com mesmo sentido do
vetor de crescimento da torta.

Figura 3: Representação da filtração sobre superfície plana com formação de torta.

Fonte: Próprio autor.


18

A torta é considerada compressível, visto que a suspensão empurra os


sólidos em direção ao meio filtrante ao longo do tempo. Com isso, a porosidade
aumenta ao longo de z, o que é facilmente visível na ampliação da imagem (Fig. 3).
Massarani (2002) considera essa compressibilidade como uma deformação plana,
cada ponto da matriz porosa da torta é comprimido com a mesma intensidade e
sentido. A matriz porosa se comporta como um material elástico não-linear, isto é,
não retorna ao seu estado inicial quando comprimida. A deformação da matriz no
eixo z define a pressão nos sólidos. Conforme Peçanha (2014), o termo “pressão no
sólido”, mesmo que muito utilizado, é inadequado, pois os sólidos, diferentemente
dos fluidos, não transmitem esforços via colisões perfeitamente elásticas de suas
moléculas.
Chamada de teoria científica da filtração, segundo Massarani G. (2002), foi
desenvolvida nas últimas décadas pelas escolas de Frank M. Tiller (Universidade de
Houston, EUA) e Mompei Shirato (Universidade de Nagoya, Japão). A teoria
apresenta a modelagem matemática para o sistema apresentado anteriormente. Ela
parte-se das equações da continuidade do fluído e do sólido:

𝜕(𝜀𝜌𝐹 )
∇. (𝜀𝜌𝐹 𝑣𝐹 ) = − (4)
𝜕𝑡

𝜕[(1 − 𝜀)𝜌𝑆 ]
∇. [(1 − 𝜀 )𝜌𝑆 𝑣𝑆 ] = − (5)
𝜕𝑡

Onde 𝜀 é a porosidade, 𝜌𝐹 é a densidade do fluído, 𝜌𝑆 é a densidade do


sólido, 𝑣𝐹 é a velocidade do fluído e 𝑣𝑆 é a velocidade do sólido.
Definindo a velocidade superficial do fluído e do sólido:

𝑞𝐹 = 𝜀𝑣𝐹 (6)

𝑞𝑆 = (1 − 𝜀 )𝑣𝑆 (7)

A velocidade superficial não pode ser confundida com a velocidade intersticial


(velocidade real do fluido). A velocidade superficial considera que o fluido escoa no
ambiente sem o meio poroso.
19

Considerando o fluxo da solução somente em uma direção, sendo ela “z”


(sentido oposto ao da velocidade), e que os sólidos e líquidos são incompressíveis,
as Eq. 4 e 5, se resumem, respectivamente, a:

𝜕𝑞𝐹 𝜕𝜀
= (8)
𝜕𝑧 𝜕𝑡

𝜕𝑞𝑆 𝜕𝜀
=− (9)
𝜕𝑧 𝜕𝑡

A Eq. 8 mostra que o aumento infinitesimal da velocidade do fluído ao passar


através da torta é igual a diminuição infinitesimal do número de vazios (porosidade)
ao longo do tempo.
As equações do movimento do fluído e do sólido são representadas abaixo,
respectivamente, onde g é a intensidade do campo exterior:

𝜕𝑣𝐹
𝜀𝜌𝐹 [ + (∇𝑣𝐹 )𝑣𝐹 ] = −∇𝑃 − 𝑚 + 𝜌𝐹 𝑔 (10)
𝜕𝑡

𝜕𝑣𝑆
𝜌𝑆 [ + (∇𝑣𝑆 )𝑣𝑆 ] = −∇𝑃𝑆 + 𝑚 + (1 − 𝜀 )(𝜌𝑆 − 𝜌𝐹 )𝑔 (11)
𝜕𝑡

Definindo 𝑚 como uma força resistiva que o fluido exerce sobre a matriz
sólida (lei de Darcy):

𝜀𝜇𝐹 (𝑣𝐹 − 𝑣𝑆 )
𝑚= (12)
𝑘

Em que 𝜇𝐹 é a viscosidade do fluído e k é a permeabilidade. A lei de Darcy é


válida tendo em vista que, normalmente, o escoamento durante a filtração é lento.
Desconsiderando efeitos de aceleração, a deformação do meio sendo plana e sem
efeitos da gravidade, as Eq. 10 e 11, se resumem a, respectivamente:

𝜕𝑃 𝜀𝜇𝐹 (𝑣𝐹 − 𝑣𝑆 )
= (13)
𝜕𝑧 𝑘

𝜕𝑃𝑆 𝜀𝜇𝐹 (𝑣𝐹 − 𝑣𝑆 )


=− (14)
𝜕𝑧 𝑘
20

Substituindo as Eq. 6 e 7 na Eq. 13:

𝜕𝑃 𝜀𝜇𝐹 𝑞𝐹 𝑞𝐹 (0, 𝑡) − 𝑞𝐹
= [ − ] (15)
𝜕𝑧 𝑘 𝜀 1−𝜀

No meio filtrante, a velocidade superficial não varia em função da espessura e


a porosidade não varia em função do tempo. Então é possível a integração da Eq.
15 nos intervalos de pressão: 𝑃(0, 𝑡) até 𝑃(−𝑙𝑚 , 𝑡) (que representa a queda de
pressão no meio filtrante) e 0 até −𝑙𝑚 (representando a espessura do meio filtrante):

𝑃(−𝑙𝑚 ,𝑡)
∫𝑃(0,𝑡) 𝑑𝑃 𝜀𝑚 𝜇𝐹 𝑞𝐹 (0, 𝑡) 𝑞𝐹 (0, 𝑡) − 𝑞𝐹 (0, 𝑡)
−𝑙 = [ − ] (16)
∫0 𝑚 𝑑𝑧 𝑘 𝜀𝑚 1 − 𝜀𝑚

Simplificando a Eq. 16:

𝑃(0, 𝑡) − 𝑃(−𝑙𝑚 , 𝑡) ∆𝑃𝑚 𝜇𝐹 𝑞𝐹 (0, 𝑡)


= = (17)
𝑙𝑚 𝑙𝑚 𝑘𝑚

Através da concentração dos sólidos, relaciona-se a espessura da torta e o


tempo de filtração. Sabendo que:

𝑙
𝑀𝑎𝑠𝑠𝑎 𝑑𝑒 𝑠ó𝑙𝑖𝑑𝑜 𝑛𝑎 𝑠𝑢𝑠𝑝𝑒𝑛𝑠ã𝑜 𝜌𝑆 ∫0 (1 − 𝜀 )𝑑𝑧
𝐶= = 𝑙 𝑡 (18)
𝑀𝑎𝑠𝑠𝑎 𝑑𝑒 𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝜌𝐹 ∫ 𝜀𝑑𝑧 + 𝜌𝐹 ∫ 𝑞𝐹 (0, 𝑡)𝑑𝑡
0 0

A relação vazão e queda de pressão fornecida pelo sistema de bombeamento


da suspensão é dada pela Eq. 19.

𝑞𝐹 (𝑙, 𝑡) = 𝑓 [𝑝(𝑙, 𝑡) − 𝑝(−𝑙𝑚 , 𝑡)] (19)

Com as equações apresentadas, juntas com equações constitutivas do


sistema particulado, que são funções da pressão dos sólidos (Eq 20 e 21), é
possível a simulação do sistema de filtração com formação de torta em superfície
plana. (Massarani G., 2002)

𝑘 = 𝑘(𝑃𝑆 ) (20)
21

𝜀 = 𝜀(𝑃𝑆 ) (21)

3.3.1.2. FILTRAÇÃO COM FORMAÇÃO DE TORTA SOBRE SUPERFÍCIE


PLANA SIMPLIFICADA

Para situações de interesse industrial são admissíveis várias simplificações


das equações discutidas anteriormente. Integrando a Eq. 15 e haja vista que a
velocidade do líquido é apenas em função do tempo de filtração, a queda de pressão
na torta se reduz a:

𝑞𝐹 𝜇𝐹 𝑙
𝑃 (𝑙, 𝑡) − 𝑃(0, 𝑡) = ∆𝑃𝑡 = (22)
𝑘

Somando a Eq. 17 com a Eq. 22, temos uma expressão para a queda de
pressão total no filtro:

𝑙𝑚 𝑙
∆𝑃 = ∆𝑃𝑚 + ∆𝑃𝑡 = 𝜇𝐹 𝑞𝐹 ( + ) (23)
𝑘𝑚 𝑘

Considerando a massa do fluido presente na torta desprezível em relação à


massa de filtrado, a espessura da torta e a concentração de sólidos na suspensão,
Eq. 18, podem ser descritos sendo:

𝐶𝜌𝐹 𝑉
𝑙= (24)
(1 − 𝜀)𝜌𝑆 𝐴

𝑚𝑆
𝐶= (25)
𝜌𝐹 𝑉

Onde 𝑚𝑆 é a massa de sólidos e 𝑉 é o volume de filtrados.

Definindo 𝛼 como a resistividade da torta e 𝑅𝑚 a resistência do meio filtrante:

1
𝛼= (26)
𝑘(1 − 𝜀 )𝜌𝑆
22

𝑙𝑚
𝑅𝑚 = (27)
𝑘𝑚

Como mencionado anteriormente, 𝑘 (permeabilidade) é uma medida de


facilidade de escoamento do fluido através do meio poroso. Uma observação
interessante, é que 𝛼 e 𝑅𝑚 são inversamente proporcionais a 𝑘 e 𝑘𝑚 ,
respectivamente, então 𝛼 e 𝑅𝑚 são, consequentemente, medidas de dificuldade do
escoamento do fluido, condizentes com seus nomes, “resistividade” e “resistência”.
(Peçanha, 2014)
A permeabilidade e a porosidade variam ao longo da espessura da torta, 𝑙.
Outra simplificação é considerar 𝛼 como uma resistividade média < 𝛼 > da torta.
A velocidade superficial do fluido se relaciona com o volume de filtrado:

1 𝑑𝑉
𝑞𝐹 = (28)
𝐴 𝑑𝑡

Combinando as Eq. 23, 24, 25, 26, 27 e 28, e rearranjando-as, tem-se que:

𝑑𝑡 𝜇𝐹 < 𝛼 > 𝐶𝜌𝐹


= ( 𝑉 + 𝑅𝑚 ) (29)
𝑑𝑉 𝐴(∆𝑃) 𝐴

A Eq. 29 é a equação diferencial da filtração. Integrando-a, chega-se a forma


algébrica:

𝑡 𝜇𝐹 < 𝛼 > 𝐶𝜌𝐹


= ( 𝑉 + 𝑅𝑚 ) (30)
𝑉 𝐴(∆𝑃) 2𝐴

Segundo Araújo (2010), a Eq. 30 é arduamente empregada no projeto de


filtros industriais por razões constitutivas, por apresentar uma configuração plana.

3.3.1.3. COMPRESSIBILIDADE DA TORTA EM FUNÇÃO DA PRESSÃO

Como mencionada anteriormente, a teoria da filtração simplificada considera


a resistividade como uma resistividade média. Segundo Peçanha (2014),
experimentos mostraram que a resistividade média é uma função do tipo potência da
queda de pressão:
23

< 𝛼 >= 𝛼0 (∆𝑃)𝑆 (31)

Em que 𝑆 e 𝛼0 são constantes. S recebe o nome de coeficiente de


compressibilidade da torta, seus valores variam de 0,2 (torta pouco compressível)
até 0,8 (torta muito compressível).
Para diferentes pressões obtêm-se diferentes valores de resistividade (Eq.
30). Utilizando uma linearização logarítmica, é possível o cálculo das constantes 𝑆 e
𝛼0 , que seriam respectivamente, o coeficiente angular e linear da reta:

ln < 𝛼 > = ln 𝛼0 + 𝑆 ln(∆𝑃) (32)

Segundo Peçanha (2014), na prática os pontos experimentais apenas se


aproximam da reta gerada.

3.3.1.4. FILTRAÇÃO COM FORMAÇÃO DE TORTA SOBRE SUPERFÍCIES


CILÍNDRICAS E ESFÉRICAS

Mesmo menos utilizadas na indústria, as filtrações com superfícies


cilíndricas/esféricas possuem capacidades superiores de filtração em relação à
superfície plana. Isto se explica devido ao aumento da área de filtração com a
formação de torta que cresce no eixo radial. A equação diferencial para superfície
cilíndrica é:

1
𝑑𝑡 𝜇𝐹 𝐶𝑉𝜌𝐹 2
= {𝑟𝛼𝜌𝑆 (1 − 𝜀 ) ln [1 − 2 ] + 𝑅𝑚 } (33)
𝑑𝑉 𝐴(∆𝑃) 𝜋𝑟 𝐿(1 − 𝜀 )𝜌𝑆

Onde 𝐴 é a área superficial do meio filtrante de raio 𝑟 e altura 𝐿.


A equação diferencial para superfície esférica é:

𝑑𝑡 𝜇𝐹 1
= {𝑟𝛼𝜌𝑆 (1 − 𝜀 ) [1 − ] + 𝑅𝑚 } (34)
𝑑𝑉 𝐴(∆𝑃) 3𝐶𝜌𝐹 𝑉
1+
4𝜋𝑟 3 (1 − 𝜀 )𝜌𝑆

Onde 𝐴 é a área superficial do meio filtrante de raio 𝑟 e altura 𝐿.


24

3.3.2. FILTRAÇÃO CRUZADA (CROSS-FLOW FILTRATION)

A principal diferença entre filtração cruzada e a filtração com formação de


torta discutida anteriormente é em como acontece o escoamento da suspensão a
ser filtrada. A filtração cruzada resulta de um escoamento axial em um cilindro
revestido com meio filtrante (Fig. 4), ou seja, é como se a suspensão escoasse
paralela ao meio filtrante. Esse tipo de filtração também considera a formação de
torta. (Ferreira & Massarani, 2005)
Ferreira & Massarani (2005) fizeram um modelo simplificado para a filtração
cruzada considerando fluidos newtonianos. Tal modelo se baseou, assim como o da
filtração plana comentada anteriormente, na equação da continuidade e do
movimento. Deduziram que a variação infinitesimal do tempo em relação a variação
infinitesimal do volume de filtrado é definida por:

𝑑𝑡 𝜇 𝑟
= 𝛼𝜀𝑟 ln 1 + 𝑅𝑚 (35)
𝑑𝑣 (∆𝑃) 2𝑐𝜌𝐹 𝑟𝑣 2
[𝑟 2 − ]
{ 𝜀𝜌𝑆 }

Onde 𝑟 é o raio do tubo e 𝑣 é o volume de filtrado por unidade de área de


filtração.

Figura 4: Mecanismo da filtração cruzada.

Fonte: Ferreira & Massarani. (2005)

É importante o estudo da filtração cruzada pois as condições em que ela é


executada são análogas as condições encontradas na perfuração e completação de
25

poços de petróleo. O fluido de perfuração é inserido no poço através da coluna e, ao


retornar a superfície, escoa na região anular entre a coluna e a formação rochosa,
ou seja, fluido escoa paralelamente ao meio poroso, prevalecendo à filtração
cruzada. Quando a circulação do fluido de perfuração é interrompida, a filtração
predominante é a plana. A torta formada nas paredes rochosas é comumente
chamada de reboco. Neste processo, as invasões do filtrado à rocha do reservatório
são indesejáveis, porque pode causar danos graves, tornando o poço inviável para
produção de óleo. (Moreira et al., 2012, Calçada et al., 2011)
Araújo (2010), em sua dissertação, realizou ensaios de filtrações cruzada e
plana utilizando carbonato de cálcio como suspensão aquosa, a fim de propor
condições operacionais ótimas que minimizaria a invasão do fluido na formação
rochosa.

3.3.3. FILTRAÇÃO COM BLOQUEIO DE POROS

O modelo de filtração com bloqueio (bloking filtration) pressupõe que todas as


partículas da suspensão bloqueiam completamente os poros do meio filtrante. O
número remanescente de poros abertos é dado por:

𝑁(𝑡) = 𝑁0 (1 − 𝐾𝑁 𝑉𝐿 ) (36)

Onde 𝑁0 é o número de poros totais em meio filtrante limpo, 𝐾𝑁 é a


quantidade de partículas em suspensão por unidade de volume e 𝑉𝐿 é o volume da
suspensão. Em uma pressão constante, o volume de filtrados pode ser descrito pela
equação:

1
𝑉 (𝑡 ) = [1 − exp(−𝐾𝑁 𝑉0̇ 𝑡)] (37)
𝐾𝑁

Onde 𝑉0̇ é a vazão no início do ensaio de filtração com um meio filtrante limpo
(sem sofrer obstruções).
Em práticas reais, nem toda partícula da suspensão preenche completamente
o poro, ela pode simplesmente aderir às paredes (como acontece na filtração em
profundidade), e/ou simplesmente passar pelo filtro sem ser retida. É comum ocorrer
mais de um tipo de filtração em um mesmo sistema. Em uma situação prática de um
sistema de filtração com formação de torta por exemplo, no período inicial, quando a
26

torta começa a ser formada, algumas partículas penetram no meio filtrante e


bloqueiam seus poros, além de aderirem às paredes desses, ou seja, acontecem 3
mecanismos de filtração diferentes. (Ripperger et al., 2012).
Um modelo pragmático foi desenvolvido para relacionar a queda de pressão
na superfície dos filtros com o volume de filtrados devido ao bloqueio dos poros:

∆𝑃
log ( ) = −𝐽𝑉𝐿 (38)
∆𝑃0

A equação é conhecida como a lei de Boucher. Na qual o ∆𝑃0 é a queda de


pressão inicial no filtro limpo e o 𝐽 é um gradiente, que representa a velocidade de
retenção das partículas. Segundo Ripperger et al. (2012), a equação apesar de não
ser bem aceita para propósitos científicos, é bastante útil para propósitos práticos.

3.3.4. FILTRAÇÃO EM PROFUNDIDADE

A filtração em profundidade é conhecida como filtração lenta na literatura


brasileira e deep bed e/ou depth filtration internacionalmente. Nessa filtração a
suspensão escoa através de um meio poroso granulado. Diferente dos modos de
filtração comentados anteriormente, a separação acontece devido à deposição
desses sólidos ao longo do meio filtrante. Os poros do meio filtrante geralmente são
mais largos do que as partículas a serem retidas. Segundo Ripperger et al. (2012),
quando o meio filtrante está saturado de sólidos, a concentração deles no filtrado se
aproxima progressivamente da suspensão de entrada.

Figura 5: Mecanismos de retenção da filtração em profundidade.

Fonte: Ripperger et al. (2012)

A deposição das partículas no meio filtrante acontece devido às forças


superficiais e inerciais. Na Fig. 5 podemos visualizar os mecanismos de retenção
27

mais detalhadamente. As partículas grandes são retidas porque ficam presas


mecanicamente (a). Partículas médias são retidas devido aos efeitos de inércia e
adesão (b). Partículas pequenas são retidas devido à difusão e a adesão (c).
Em práticas reais, a queda de pressão em um filtro que utiliza a filtração em
profundidade pode ser interpretada como efeito de dois fenômenos: Acúmulo das
partículas no meio filtrante ao longo do tempo e bloqueio das partículas na superfície
do filtro (lei de Boucher). A queda de pressão total em um filtro de areia para uma
vazão constante pode ser aproximada a seguinte equação:

∆𝑃 = 𝑘1 𝑡 + 𝑘2 e𝐽𝑡 (39)

Onde 𝑘1 e 𝑘2 são constantes experimentais. A limpeza do filtro é realizada


quando a queda de pressão atinge um valor bem alto.

3.4. FILTROS

Existem diversos filtros no mercado, variando de unidades versáteis, capazes


de lidar com diferentes aplicações de filtragem, a unidades restritas no uso de fluidos
específicos e condições de processo. Segundo Cheremisinoff (1995), a seleção do
filtro deve ser baseada nas propriedades da torta formada, no meio filtrante, nas
condições características do processo e nas restrições econômicas.
Os filtros podem ser classificados quanto ao seu modo de operação, podendo
ser do tipo batelada, em que a filtração deve ser interrompida para retirada da torta,
e contínuo, em que todo o ciclo é feito continuamente. As forças motrizes
responsáveis pelo deslocamento da suspensão através do filtro também podem
variar, geralmente essas forças são: gravitacional, centrífuga e de pressão, provinda
de bombas centrífugas ou de sucção. Os principais tipos de filtro são: Filtros de leito
poroso granular, filtro prensa, filtros de lâminas e os filtros contínuos rotativos.

3.4.1. FILTROS PRENSA

O filtro prensa é altamente empregado na indústria global e possui modo


operacional em batelada. Segundo Verma (2009) é utilizado há mais de 50 anos e
sua aplicação foi difundida nas indústrias farmacêuticas, de alimentos, mineral,
tratamento de esgoto etc.
28

Um tipo de filtro prensa é o de placas e quadros, sua estrutura física consiste


em uma câmara com placas paralelas (filter plate) e com uma lona (filter cloth) em
cada lado da placa. O funcionamento do filtro se baseia na alimentação da
suspensão no centro da placa impulsionada por uma bomba. A suspensão escoa
entre as placas e é “comprimida” por elas. Os sólidos são retidos e acumulados
formando uma torta (filter cake) entre essas placas, enquanto o filtrado (clear filtrate)
passa por um compartimento posicionado nos cantos inferior direito e superior
esquerdo de cada placa (Fig. 6). Depois de um tempo predeterminado, as placas se
separam, o sólido é removido, as placas são reapertadas, e o ciclo de filtragem é
repetido (Verma, 2009).

Figura 6: Filtro prensa de placas e quadros. Figura 7: Filtro prensa com carrinho para
recolher torta.

Fonte: Micronics.
Fonte: Wei (2014).

As principais desvantagens do filtro prensa são seu modo operacional, custo


elevado de mão-de-obra e a difícil lavagem da torta. Suas vantagens são sua
construção simples, grande área de filtração e manutenção econômica (Bonifacio,
2012).
A torta, quando produto processual de interesse para o comércio, deve ser
lavada em ocasiões específicas em que há líquidos inconvenientes ocupando seus
interstícios, dessa forma, a lavagem objetiva a retirada desses líquidos. A taxa do
líquido de lavagem é geralmente calculada baseando-se na taxa do filtrado. É
assumido que a estrutura da torta não é afetada pelo escoamento desse líquido. Em
filtros prensa de placas e quadros por exemplo, por razões características do
funcionamento do equipamento, a taxa do líquido de lavagem é dada pela Eq. 40,
em que 𝑉𝑙 é o volume de líquido de lavagem. (Geankoplis, 1993)
29

𝑑𝑉𝑙 1
( )=
𝑑𝑡 𝜇 < 𝛼 > 𝐶𝜌𝐹 𝑅𝑚 𝜇𝐹 (40)
4( 𝐹 2 𝑉 + 𝐴(∆𝑃) )
𝐴 ∆𝑃

Conhecendo essa taxa, calcula-se o tempo de lavagem. O tempo do ciclo


total de um filtro prensa é dado pela soma do tempo de filtração, lavagem e limpeza.

3.4.2. FILTROS CONTÍNUOS ROTATIVOS À VÁCUO.

O funcionamento de um filtro rotativo a vácuo baseia-se na sua submersão


parcial na mistura heterogênea a ser filtrada. A água da mistura escoa para dentro
do filtro (uma zona de menor pressão) através de uma bomba a vácuo. Um receptor
a vácuo recolhe o filtrado que é bombeado para fora. O filtro, em uma rotação
contínua, faz com que os sólidos retidos sejam retirados através de um painel de
tela (SHAO, 2015).
Alguns exemplos de filtros contínuos rotativos são: Tambor rotativo, disco
rotativo e horizontais. No filtro de disco rotativo, os sólidos são acumulados em cada
lado da superfície do disco (Fig. 8). Em um filtro de tambor rotativo, os sólidos são
retidos e acumulados na superfície do tambor (Fig. 9).

Figura 8: Filtro de disco rotativo à vácuo.


Figura 9: Filtro de tambor rotativo à vácuo.

Fonte: Lazcano D. (2011).


Fonte: Bpress (2014).

As vantagens desse tipo de filtro são sua maior flexibilidade, o fato de operar
continuamente e de possuir um elevado desempenho. Porém, uma desvantagem é
que esse filtro não pode ser utilizado para suspensões muito viscosas.
30

Segundo Peçanha (2014), em filtros rotativos, a equação de trabalho da


filtração requer uma adaptação. Ela é reescrita em função de novas variáveis. A
área do meio filtrante pode ser escrita como:

𝐴 = 𝐴𝑡 𝐼 (41)

Na qual 𝐼, que representa a fração da área superficial do tambor mantida


submersa na suspensão e 𝐴𝑡 a área total da superfície do tambor. A duração da
filtração é fixada em um valor necessário para uma revolução do filtro, isto é, o
tempo de residência, 𝑡𝑟 . 𝑁 representa o número de rotações por unidade de tempo.

𝐼
𝑡 = 𝑡𝑟 = (42)
𝑁

O volume de filtrado é chamado de volume de residência, 𝑉𝑟 , que é a


quantidade de volume coletado durante o tempo 𝑡𝑟 . É comum relacionar esse
volume com a vazão volumétrica de filtrado, 𝑄, que é uma medida de produção, pois
a todo instante ocorrem, simultaneamente, diversos processos em um filtro rotativo:
Filtração, lavagem e raspagem da torta, etc. (Peçanha, 2014)

𝑄𝐼
𝑉 = 𝑉𝑟 = 𝑄𝑡𝑟 = (43)
𝑁

Substituindo as Eq. 41, 42 e 43 na Eq. 30, gera-se:

1 𝜇𝐹 < 𝛼 > 𝐶𝜌𝐹 𝑄 𝑅𝑚 𝜇𝐹


= 2 + (44)
𝑄 2𝐴𝑡 𝐼∆𝑃𝑁 𝐴𝑡 𝐼(∆𝑃)

A Eq. 44 é a equação de trabalho para filtros contínuos rotativos.


Shao et al. (2015) desenvolveram um modelo matemático para desidratação
de algas utilizando filtro rotativo a vácuo. A camada de bagaço da alga é comprimida
à medida que a pressão de filtração aumenta, consequentemente, sua porosidade
diminui. O resultado obtido pela simulação realizada foi que a pressão necessária
para retirar a da água filtrada da camada de bagaço de algas porosas foi menor do
que a pressão de filtração. Ou seja, não são recomendados sistemas com altas
pressões para essa situação.
31

3.4.3. FILTROS DE LEITO POROSO GRANULAR

São os filtros industriais mais simples no mercado. O meio filtrante é


constituído por uma ou mais camadas de sólidos particulados, que normalmente
ficam sobre uma grade. Nesses filtros, predomina o conceito de filtração em
profundidade comentado na Sessão 3.3.4.

Figura 10: Filtro de areia de pressão de tipo vertical.


Figura 11: Filtro “Deep Bed”

Fonte: Puregen.
Fonte: Tomaz P. (2003).

De acordo com Geankoplis (1993), utiliza-se esse filtro para separar


suspensões nas quais o volume de líquido é muito maior que o volume de sólidos.
Ambos possuem baixos valores unitários e o sólido resultante do processo não é
recuperado.
A lavagem de filtros de leito poroso granular pode ser feita através de um
fluxo de água contrário ao fluxo de filtração. Tal técnica é efetiva pois aumenta o
movimento das partículas e reduz a quantidade de água necessária para fluidização
(Ripperger et al., 2012).
Uma grande aplicação desse filtro é no processo de clareamento da água
potável. A água é introduzida com baixas taxas de filtração, onde é possível a
remoção de organismos patogênicos e matéria em suspensão.
Nesses filtros, é comum dispor de uma camada de suporte do meio filtrante
(Fig. 10), e em equipamentos mais modernos, várias outras camadas. Por exemplo,
o filtro da Fig. 11, é um filtro industrial para filtração de água, ele possui 6 camadas
32

de sólidos particulados. A primeira camada, “a”, é uma camada de antracite (ou


antracito), e segundo o fabricante (Puregen), ela exerce uma taxa de filtração mais
rápida e eficiente devido ao tamanho das partículas e seus formatos irregulares. A
segunda camada, “b”, é a base de zeólita, e devido suas propriedades, esse meio
remove a turvação da água com um alto desempenho além de abaixar a queda de
pressão do filtro. A terceira camada, “c”, é uma camada de Maxfil, Maximized
Aluminia Trihydrate, e promete a filtração de partículas sólidas finas e sedimentos. A
quarta camada, “d”, serve como um separador, ela evita que a camada de Maxfil e a
camada de “foundation” se misturem. A quinta camada, “e”, é chamada de
foundation. Ela fornece um alto fluxo durante as etapas de filtração e lavagem. A
última camada, “f”, é a camada suporte. Funciona para evitar a entrada de outros
meios e promove o primeiro estágio da lavagem.

3.5. DIMENSIONAMENTO DE FILTROS

Para o dimensionamento de filtros é necessário a realização de ensaios feitos


em escala laboratorial. As condições de pressão e temperatura devem ser as
mesmas bem como a suspensão a ser filtrada e o meio filtrante. A área de filtração
do filtro de laboratório também deve ser conhecida. Todos os parâmetros fixos
podem ser reunidos em apenas duas constantes:

𝜇𝐹 < 𝛼 > 𝐶𝜌𝐹


𝐾𝑝 = (45)
𝐴2 ∆𝑃

𝑅𝑚 𝜇𝐹
𝐵= (46)
𝐴(∆𝑃)

Substituindo as Eq. 45, 46 e 47 na equação 30, chega-se a equação:

𝑡 𝐾𝑝 𝑉
= +𝐵 (47)
𝑉 2

É comum apresentar os resultados do volume de filtrados por área de


filtração:
33

𝑣 = 𝑉/𝐴 (48)

A Eq. 47 fica:

𝑡 𝐾𝑝 𝑣𝐴2
= + 𝐵𝐴 (49)
𝑣 2

A Eq. 47 é uma aproximação linear. Ela mostra que, quantificando o volume


de filtrados em diferentes tempos de filtração e traçando um gráfico 𝑡/𝑉 versus 𝑉 é
possível o fazer o cálculo dos coeficientes angular e linear, 𝐾𝑝 /2 e 𝐵
respectivamente, e através deles, o cálculo da resistividade média da torta, < 𝛼 >, e
da resistência do meio filtrante, 𝑅𝑚 . Com esses dados em mãos, faz-se um aumento
de escala (Scale-up) e determina-se a área de filtração do filtro industrial.
A equação de trabalho do filtro rotativo à vácuo e de lavagem do filtro prensa
também podem ser simplificadas como funções de 𝐾𝑝 e 𝐵. Substituindo as Eq. 45 e
46 na Eq. 40 e 44, tem-se:

𝑑𝑉𝑙 1
( )= (50)
𝑑𝑡 4(𝐾𝑝 𝑉 + 𝐵)

1 𝐼𝑄
= 𝐾𝑝 +𝐵 (51)
𝑄 2𝑁

3.5.1. ENSAIOS DE FILTRAGEM EM FILTRO FOLHA

O teste folha (leaf test) é universalmente utilizado para dimensionar filtros


contínuos industriais devido a sua simplicidade e fácil montagem. Também é
necessário a realização do teste para avaliar a ordem de grandeza do tempo de
formação da torta, secagem, nível de vácuo e a seleção do meio filtrante que
passam a fornecer resultados desejados (França & Casqueira, 2007).
O teste pode ser feito utilizando como materiais: Uma bomba de vácuo, um
kitassato, mangueiras para conexão, o meio filtrante, recipiente com a suspensão
aquosa e suportes (Fig. 12).
No teste, submerge-se o meio filtrante no recipiente contendo a suspensão
aquosa e liga-se a bomba a vácuo. A diferença de pressão gerada pela bomba é a
34

força motriz para passagem do filtrado através do meio filtrante. Os sólidos são
retidos e formam a torta na superfície de filtração.

Figura 12: Esquema de unidade para o teste de folha.

Fonte: Araújo, 2010.

Após deixar o meio filtrante submergido por um tempo pré-determinado, deve-


se retirá-lo e inverter seu posicionamento, de modo que a torta comece a secar
devido ao vácuo da bomba. O tempo de secagem também deve ser pré-
determinado.
35

4. DESENVOLVIMENTO

4.1 MATERIAIS UTILIZADOS

Os materiais utilizados em toda fase experimental foram:

a) Funil de plástico;
b) Balança semi-analítica Shimadzu;
c) Água deionizada;
d) Meio filtrante de tecido Gorgurinho;
e) Agitador magnético Novatécnica;
f) Kitassato Qualividros 1000 mL
g) Bomba de vácuo 848 W (Quimis);
h) Carbonato de cálcio (Synth 99%, Alphatec 99%);
i) Estufa Equilam;
j) Paquímetro digital Marbeq;
k) Termômetro Promolab;
l) Vidro de relógio;
m) Picnômetros 25 mL.

Para realização da simulação, utilizou-se o Notebook X555UB-BRA-XX274


Intel Core 6 i7 8GB preto de marca Asus.

4.2 METODOLOGIA

Os procedimentos experimentais foram realizados no laboratório de


Engenharia Química do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) –
Campus Montes Claros. A metodologia se baseou nas seguintes etapas: Ensaios de
filtração, ensaios de gravimetria, determinação de parâmetros constantes,
determinação de parâmetros intrínsecos da torta e do meio filtrante e simulação.

4.2.1 ENSAIOS DE FILTRAÇÃO

Os ensaios de filtração foram bem parecidos com o teste folha mencionado


na sessão 3.5.1. As únicas diferenças foram que nesses ensaios não foi
considerada a etapa de secagem, e também, o filtro folha teve que ser adaptado.
O aparato experimental utilizado para realização dos ensaios de filtração pode
ser visto na Fig. 13. Era composto por um bécher, que servia como reservatório da
36

suspensão de carbonato de cálcio previamente preparada 4% (p/p), um agitador


magnético que mantinha a suspensão em movimento rotatório, o que a impedia de
sedimentar no fundo do reservatório, um funil, no qual fixou-se o meio filtrante (Fig
14), mangueiras, para conexão do reservatório de suspensão com a bomba de
vácuo, uma bomba de vácuo, kitassato, e uma balança.

Figura 14: Meio filtrante tecido


Figura 13: Aparato experimental utilizado nos ensaios.
gorgurinho.

Fonte: Próprio Autor. Fonte: Próprio Autor.

Após o aparato montado, quantificou-se a temperatura da suspensão através


do termômetro e iniciou-se os ensaios ligando a bomba. O filtrado era recolhido no
kitassato e quantificava-se sua massa através da balança em diferentes tempos de
filtração.
Os ensaios de filtração foram realizados variando a força de sucção da
bomba. Essas pressões foram: 470 mmHg, 530 mmHg, 560 mmHg e 590 mmHg.
Para cada queda de pressão realizavam-se ensaios em triplicata.

4.2.2 ENSAIOS DE GRAVIMETRIA

Nessa etapa determinou-se a porosidade média da torta, a densidade do


filtrado e concentração da suspensão.
Para o cálculo da porosidade da torta, foi necessária a pesagem da massa de
carbonato de cálcio e de água presentes na torta. Recolheu-se a torta formada
imediatamente após os experimentos do teste folha, pesou-se a torta, anotou-se o
valor da massa indicada na balança, posteriormente essa torta foi levada até a
estufa e secada durante 3h, pesou-se a torta seca e anotou-se o valor da massa
indicada na balança. Considerou-se que a massa da torta seca continha apenas a
37

massa do carbonato de cálcio, e que a massa da torta molhada continha além da


massa de carbonato de cálcio, massa de água. Realizou-se tal metodologia somente
com algumas tortas formadas nos ensaios, outras foram descartadas.
Como mencionado na Sessão 2.1, a porosidade é definida como a fração de
volume de vazios presentes em um volume total (Eq. 1). O volume pode ser
relacionado com a densidade e massa, possibilitando a determinação da porosidade
através da equação:

𝑚𝐹
𝜌𝐹 𝑚𝐹 𝜌𝑆
𝜀=𝑚 𝑚 = (52)
𝐹 𝑆 𝑚𝑆 𝜌𝐹 + 𝑚𝐹 𝜌𝑆
𝜌𝐹 + 𝜌𝑆

Em que 𝑚𝑆 é a massa do carbonato de cálcio, 𝜌𝑆 a densidade do carbonato


de cálcio, 𝑚𝐹 a massa de água nos interstícios da torta e 𝜌𝐹 a densidade da água.
Calculou-se uma porosidade média, < 𝜀 >, com todos os valores de porosidade
determinados.

Figura 15: Uma das tortas formadas no Figura 16: Estufa utilizada para secagem
ensaio de filtração. da torta e da suspensão aquosa.

Fonte: Próprio Autor. Fonte: Próprio Autor.

Para determinação da concentração, realizaram-se pesagens exatas de


massas de água e carbonato de cálcio, de modo que a concentração da suspensão
fosse 4% (p/p). Para confirmação dessa concentração, retiraram-se alíquotas da
suspensão preparada, pesaram-se essas alíquotas antes e depois da sua inserção
38

na estufa de secagem. As alíquotas ficaram inseridas na estufa até a evaporação


completa do fluido. Através da Eq. 53 calculou-se a concentração da suspensão.

𝑚𝑆
𝐶= (53)
𝑚𝑆 + 𝑚𝐹

De modo análogo a determinação da porosidade, considerou-se que a massa


após secagem na estufa é apenas a massa do carbonato de cálcio.
Utilizou-se picnômetros para determinação da densidade do filtrado. Os
picnômetros foram pesados vazios e preenchidos com o líquido percolado recolhido
após os ensaios de filtração. A densidade do filtrado, 𝜌𝐹𝑡 , foi determinada através da
equação abaixo:

𝑚𝑃𝑃 − 𝑚𝑃𝑉
𝜌𝐹𝑡 = (54)
𝑉𝑃

Em que 𝑚𝑃𝑃 é a massa do picnômetro preenchido com o filtrado, 𝑚𝑃𝑉 é a


massa do picnômetro vazio e 𝑉𝑃 é o volume suportado pelo picnômetro.

4.2.3 DETERMINAÇÃO DE OUTRAS CONSTANTES

A área de filtração foi calculada através da Eq. 55, na qual D é diâmetro


interno do funil, esse que foi medido com auxílio do paquímetro:

𝜋𝐷2
𝐴= (55)
4

Utilizando dados do Apêndice H do livro sistema de particulados (Peçanha


2014), determinou-se as funções 𝜇 (𝑇) e 𝜌𝐹 (𝑇) que relaciona a viscosidade e
densidade da água com a temperatura. As funções são as Eq. 56 e 57,
respectivamente.

𝜇(𝑇) = −(3,619 ∙ 10−12 )𝑇 5 + (1,214 ∙ 10−9 )𝑇 4 − (1,663 ∙ 10−7 )𝑇 3 + (1,24 ∙


(56)
10−5 )𝑇 2 − (5,801 ∙ 10−4 )𝑇 + 1,780 ∙ 10−2

𝜇(𝑇) em 𝑔/(𝑐𝑚 ∙ 𝑠) válido para 0 °𝐶 < 𝑇 < 100°𝐶.


39

𝜌𝐹 (𝑇) = 1003,5 − 0,26𝑇 (57)

𝜌𝐹 (𝑇) em 𝑔/𝑐𝑚3 válido para 25 °𝐶 < 𝑇 < 30°𝐶.

Através desses polinômios, calculou-se a viscosidade e densidade da água


na condição de temperatura dos ensaios de filtração. A densidade do carbonato de
cálcio puro, 𝜌𝑆 , empregada foi adquirida através do website “Softschools”.

4.2.4 CÁLCULO DE PARÂMETROS DA TORTA E DO MEIO FILTRANTE

Com os dados de volume de filtrado por área de filtração, tempo de filtração e


as constantes estipuladas, utilizando a Eq. 30 e a função “PROJ.LIN” do software
Excel, determinaram-se os coeficientes angulares e lineares das retas. Com esses
coeficientes, calcularam-se os parâmetros da torta através das Eq. 45 e 46, isto é, a
resistividade da torta e a resistência do meio filtrante em diferentes pressões.
Com os dados de resistividade da torta em diferentes pressões, por meio da
Eq. 32, calculou-se a constante de compressibilidade da torta. As incertezas dos
parâmetros foram calculadas utilizando a função “INT.CONFIANÇA.T” do software
Excel. Ela determina o intervalo de confiança para a média de uma população
utilizando a distribuição de T-Student. Utilizou-se um nível de confiança 95%.

4.2.5 SIMULAÇÃO

Foi implementado no Xcos, ferramenta do software livre do Scilab, o diagrama


de blocos da Fig. 17. O diagrama representa as Eq. 24, 25, 28 e 29 e possibilita a
efetiva simulação do problema.
Essa ferramenta permite a simulação de sistemas descritos por equações
diferenciais através da conexão de blocos, esses que podem representar as próprias
incógnitas das equações, operadores matemáticos, receptores, fontes etc.
A simulação foi realizada utilizando os parâmetros da torta calculados.
Simulou-se a variação infinitesimal do tempo em relação à variação infinitesimal do
volume de filtrado por área de filtração, 𝑑𝑡/𝑑𝑣, em função de 𝑣 (Eq. 29), e realizou-
se uma comparação com os dados de variação de tempo em relação ao volume por
área 𝑡/𝑣 em função de 𝑣 (Eq. 30), obtidos experimentalmente. Simulou-se também o
comportamento do volume de filtrados, da taxa de variação infinitesimal do volume
40

de filtrados e da espessura da torta formada ao longo do tempo. Os dados gerados


no Xcos foram transferidos para o software Microsoft Excel, no qual plotaram-se
todos os gráficos.

Figura 17: Diagrama de blocos construído para simulação da filtração plana com formação de torta.

Fonte: Próprio Autor.


41

5 RESULTADOS E DISCUSSÕES

As espessuras da torta variaram de 0,5 cm a 1,0 cm. Elas dependiam do


tempo de filtração. Quanto maior era esse tempo, maior a espessura final da torta.
Os valores das constantes calculadas experimentalmente, área de filtração,
concentração da suspensão de carbonato de cálcio, densidade do filtrado,
porosidade média da torta e temperatura, são indicados na Tab. 2. Os parâmetros
determinados através de dados da literatura, viscosidade da água, densidade da
água e densidade do carbonato de cálcio, são indicados na Tab. 3.

Tabela 2: Parâmetros constantes determinados experimentalmente e suas respectivas


incertezas.
𝒈 𝒈
𝑨 (𝒄𝒎𝟐 ) 𝑪( ) 𝝆𝑭𝒕 ( ) <𝜺> 𝑻 (°𝑪)
𝒈 𝒄𝒎𝟑

4,2 ∙ 101 3,992 ∙ 10−2 1,00 ∙ 103 6,5 ∙ 10−1 2,60 ∙ 101
∓0,2 ∙ 101 ∓0,009 ∙ 10−2 ∓0,03 ∙ 103 0,4 ∙ 10−1 ∓0,01 ∙ 101
Fonte: Próprio Autor.

Tabela 3: Parâmetros constantes determinados através de dados da literatura.


𝒈 𝒈 𝒈
𝝁𝑭 ( ) 𝝆𝑭 ( ) 𝝆𝑺 ( )
𝒄𝒎. 𝒔 𝒄𝒎𝟑 𝒄𝒎𝟑

8,69 ∙ 10−3 9,970 ∙ 102 2,71 ∙ 103


∓ 0,02 ∙ 10−3 ∓0,007 ∙ 102 ∓0,01 ∙ 103
Fonte: Próprio Autor.

A incerteza da porosidade foi relativamente alta (no segundo algarismo


significativo) devido ao cálculo dessa levar em consideração ensaios de filtração a
diferentes pressões (470, 530, 560 e 590 mmHg). Como discutido na Sessão 2, a
compressibilidade da torta afeta na porosidade, resultando em diferenças nos
valores de porosidade obtidos. O ideal seria o cálculo da porosidade média para
cada pressão do sistema. Isso não foi realizado devido ao desmanche de algumas
tortas nas tentativas de retirá-las da superfície do meio filtrante.
Outro problema no cálculo da porosidade é a metodologia utilizada. Segundo
Moreira et al. (2012), simples amostragens interferem de modo significante na
configuração e estabilidade do meio. É viável a utilização de técnicas não destrutivas
para a análise de meios porosos. Uma dessas técnicas é o método de atenuação de
42

raios gamas, que se baseia na quantificação de fótons em um detector. Através


dessa técnica se obtêm o perfil de porosidade em função da pressão dos sólidos.
Com os dados de volume de filtrado anotados em diferentes tempos, plotou-
se pontos no gráfico da Fig. 18, relacionando 𝑡/𝑣 com 𝑣 para diferentes pressões.
Aproximou-se todos os conjuntos de dados a retas.
Visualizando o gráfico (Fig. 18) percebe-se uma tendência de aumento dos
coeficientes lineares para menores valores de ∆𝑃. Tal fato faz total sentido
verificando a Eq. 46, na qual a constante de filtração 2, 𝐵, que influencia no
coeficiente linear, é inversamente proporcional a ∆𝑃. Sobre os coeficientes
angulares das retas, não é possível obter conclusões através de visualizações
devido a essas retas possuírem inclinações idênticas. De acordo com Peçanha
(2014) e a Eq. 45, a constante de filtração 1, 𝐾𝑃 , que exerce influência no coeficiente
angular de cada reta, é inversamente proporcional a pressão aplicada, quer dizer,
valores maiores de < 𝛼 > originam menores coeficientes.

Figura 18: Gráfico que representa os resultados experimentais para filtração plana.

42 470 mmHg

530 mmHg
36
560 mmHg

t/v 30 590 mmHg


(s/cm)
Linear (470 mmHg)
24
Linear (530 mmHg)

18 Linear (560 mmHg)

Linear (590 mmHg)


12
0 2 4 6 8 10 12

v (cm³/cm²)

Fonte: Próprio Autor.

Realizou-se uma regressão linear em todos conjuntos de dados para


obtenção dos coeficientes angulares e lineares, (𝐾𝑃 𝐴2 )/2 e 𝐵𝐴 respectivamente,
indicados na Tab. 4. Analisando os coeficientes de determinação, 𝑅2 , fornecidos
pela regressão linear, percebe-se uma aproximação bem satisfatória, Entretanto, o
que fora predito por Peçanha (2014) citado anteriormente não foi validado: Com o
aumento da pressão, ∆𝑃, observou-se irregularidades nos valores das inclinações.
43

Os erros desta etapa podem estar associados as dificuldades operacionais


encontradas. Os ensaios de filtração foram realizados apenas por uma pessoa, essa
que realizava diferentes tarefas simultaneamente: Disparo do cronômetro,
verificação da pressão na bomba e verificação da quantidade de volume filtrado.

Tabela 4: Coeficientes angulares, lineares e de determinação das retas que relacionam 𝑡/𝑣 e 𝑣 em
diferentes pressões.

𝑲𝑷 𝑨𝟐
∆𝑷 (𝒎𝒎𝑯𝒈) 𝑩𝑨 𝑹²
𝟐

1,09 ∙ 10−3 5,19 ∙ 10−1


470 0,993
∓0,02 ∙ 10−3 ∓0,07 ∙ 10−1

1,13 ∙ 10−3 3,89 ∙ 10−1


530 0,999
∓0,01 ∙ 10−3 ∓0,03 ∙ 10−1

1,05 ∙ 10−3 3,87 ∙ 10−1


560 0,998
∓0,02 ∙ 10−3 ∓0,05 ∙ 10−1

1,07 ∙ 10−3 3,33 ∙ 10−1


590 0,998
∓0,01 ∙ 10−3 ∓0,04 ∙ 10−1
Fonte: Próprio Autor.

Através das Eq. 45 e 46, calculou-se as resistividades da torta e as


resistências do meio filtrante para diferentes pressões. Esses parâmetros são
indicados na Tab. 5.

Tabela 5: Valores da resistência da torta e resistividade do meio filtrante calculados em diferentes


pressões.

𝟏 𝒄𝒎
∆𝑷 (𝒎𝒎𝑯𝒈) 𝑹𝒎 ( ) <𝜶>( )
𝒄𝒎 𝒈

470 1,515 ∙ 109 6,616 ∙ 109


∓0,09 ∙ 109 ∓0,07 ∙ 109

530 1,282 ∙ 109 7,706 ∙ 109


∓0,07 ∙ 109 ∓0,08 ∙ 109

560 1,346 ∙ 109 7,594 ∙ 109


∓0,08 ∙ 109 ∓0,08 ∙ 109

590 1,222 ∙ 109 8,138 ∙ 109


∓0,07 ∙ 109 ∓0,08 ∙ 109
Fonte: Próprio Autor.
44

Examinando a Tab. 5, observa-se que os valores obtidos da resistência do


meio filtrante, 𝑅𝑚 , variaram sem seguir nenhum padrão. Essa variação pode ser
explicada devido à obstrução desse meio com as partículas sólidas em suspensão.
Outra possível explicação é a alta sensibilidade dos ensaios de filtração, em que
pequenas variações na execução do procedimento remetem em grandes diferenças
nos resultados obtidos. Teoricamente, a resistência do meio filtrante deveria ser
constante, pois é uma função da permeabilidade e espessura do meio filtrante,
parâmetros que não se alteram em diferentes ∆𝑃.
Ressalta-se que os valores obtidos de resistividade, < 𝛼 >, e porosidade, <
𝜀 >, médias não podem ser correlacionados com valores da literatura uma vez que
são específicos para o caso estudado, outros sistemas possuem outras condições.
Porém, com esses dados em mãos, é possível o dimensionamento da área de um
filtro industrial, realização do scale-up, empregando, é claro, a mesma mistura
heterogênea e condições dos experimentos.
Com os valores de resistividade média, < 𝛼 >, calculados em diferentes
pressões, ∆𝑃, determinou-se os logaritmos neperianos desses, ln < 𝛼 >, e das
pressões do sistema, ln ∆𝑃. Plotou-se os valores desses logaritmos, ln < 𝛼 > em
função de ln ∆𝑃, e realizou-se uma regressão linear desses pontos, o que pode ser
visualizado na Fig. 19.

Figura 19: 𝑙𝑛 < 𝛼 > em função de 𝑙𝑛 ∆𝑃.

22,85
y = 0,8609x + 17,328
R² = 0,9079
22,80

22,75

ln <α> 22,70

22,65

22,60
6,10 6,15 6,20 6,25 6,30 6,35 6,40
ln ∆P

Experimental Linear (Experimental)

Fonte: Próprio Autor.


45

O coeficiente angular da reta da Fig. 19 é o coeficiente de compressibilidade, 𝑆


da torta, que dispõe de um valor de 0,86 ∓ 0,3. O coeficiente linear da reta é o
logaritmo da resistividade inicial, ln 𝛼0 , com valor de 17 ∓ 2. O coeficiente de
determinação obtido, 𝑅², apresentou um resultado razoável, 0,9079, indicando uma
aproximação admissível da reta aos pontos.
Como mencionado na Sessão 3.3.1.3, segundo Peçanha (2014), o coeficiente
de compressibilidade, 𝑆, varia entre 0,2 (tortas pouco compressíveis) e 0,8 (tortas
muito compressíveis). O valor do coeficiente de compressibilidade calculado
superestimou os valores previstos na literatura. A torta de carbonato de cálcio é
considerada pouco compressível, então, o valor calculado deveria ser próximo de
0,2.
Durante os experimentos, o estoque de carbonato de cálcio da marca
utilizada inicialmente não foi suficiente, portanto, empregou-se carbonato de cálcio
de outra empresa. Provavelmente os dois tipos de carbonato de cálcio possuíam
diferentes distribuições granulométricas. Segundo Boucier D. et al. (2016), o
tamanho da partícula e sua esfericidade interferem consideravelmente na
resistividade da torta, < 𝛼 >, em que partículas grandes e esféricas remetem a
tortas com menor resistividade. Então, como a compressibilidade é calculada
através da resistividade em diferentes pressões, é dedutível que utilizar diferentes
tipos de carbonato de cálcio afeta diretamente os resultados. Isso explica também o
fato dos valores de resistividade encontrados (Tab. 5) variarem irregularmente com a
pressão.

Figura 20: Comparação entre dados experimentais e simulação.

42,00
Experimental (470 mmHg)

36,00 Experimental (530 mmHg)


Experimental (560 mmHg)
t/v 30,00 Experimental (590 mmHg)
(s/cm)
24,00 Simulado (470 mmHg)
Simulado (530 mmHg)
18,00
Simulado (560 mmHg)

12,00 Simulado (590 mmHg)


0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00
v (cm³/cm²)

Fonte: Próprio Autor.


46

Os pontos experimentais de 𝑡/𝑣 em relação a 𝑣 obtidos no sistema de


filtração plana foram comparados com dados obtidos através de simulação. Essa
comparação é representada na Fig. 20.
Percebe-se que os dados obtidos via simulação se aproximaram bem aos
pontos experimentais, o que indica a efetividade da equação da filtração na forma
diferencial, Eq. 29.
As curvas do volume de filtrados, taxa infinitesimal de volume de filtrados e
espessura da torta variando com o tempo obtidas via simulação para diferentes
pressões são indicados na Fig. 21, 22 e 23 respectivamente.

Figura 21: Volume de filtrados em função do tempo para diferentes pressões.

600

500

400 Experimental (470 mmHg)


V (mL) Simulado (470 mmHg)
300
Experimental (530 mmHg)
200 Simulado (530 mmHg)
Experimental (590 mmHg)
100 Simulado (590 mmHg)

0
0 100 200 300 400 500
t (s)

Fonte: Próprio Autor.

Figura 22: Gráfico que relaciona a taxa de variação infinitesimal do volume de filtrados com o tempo.

3,5
3,0
2,5
2,0
dV/dt
(mL/s) 1,5
1,0
0,5
0,0
0 100 200 300 400 500
t (s)

Simulado (470 mmHg) Simulado (530 mmHg) Simulado (590 mmHg)

Fonte: Próprio Autor.


47

É perceptível na Fig. 21, que a quantidade de volume de filtrados acumulada


em função do tempo aumenta em um formato curvilíneo. Isso acontece devido ao
acúmulo dos sólidos, que aumenta a pressão dos sólidos, e dificulta a passagem do
filtrado. Tal fenômeno é facilmente visualizado quando se plota a variação
infinitesimal do volume de filtrados com o tempo (Fig. 22), na qual essa variação
tende a 0.
Percebe-se também que com o aumento da pressão na sucção da bomba, há
uma tendência de passagem maior do volume de filtrado, principalmente nos
momentos iniciais, onde é conspícuo uma diferença maior entre as curvas. Com o
passar do tempo, essas diferenças tendem a valores ínfimos.
A espessura da torta em função do tempo (Fig. 23) também foi concordante às
expectativas. Os sólidos retidos se acumulam com o tempo e formam o bolo na
superfície do filtro, que aumenta sua espessura gradativamente. O formato curvado
do gráfico acompanha a ideia da diminuição da variação do volume de filtrados:
Quanto menor a passagem do filtrado, menor a acumulação dos sólidos retidos.

Figura 23: Gráfico que mostra o aumento da espessura da torta com o tempo.

0,5

0,4

0,3

l (cm)
0,2

0,1

0,0
0 100 200 300 400 500
t (s)

Simulado (470 mmHg) Simulado (530 mmHg) Simulado (590 mmHg)

Fonte: Próprio Autor.

Para a operação de filtração, é importante avaliar a variação do volume de


filtrados, porque em um dado instante, ela é tão pequena que torna inviável
economicamente o prolongamento da operação. Em filtros de tambor rotativos a
vácuo, por exemplo, a análise do volume de filtrados é imprescindível para
determinação da velocidade de rotação ótima do tambor que, através dessa,
48

determina-se o tempo de raspagem da torta, na qual os sólidos acumulados são


retirados. Em poços de petróleo, é importante predizer a vazão inicial do filtrado,
pois avalia-se a invasão do fluido de perfuração na formação rochosa. A formação
da torta (ou reboco) é interessante para este processo porque diminui essa invasão
do fluido.
49

6 CONCLUSÕES

Neste trabalho, determinou-se a resistividade média da torta, < 𝛼 > e a


resistência do meio filtrante, 𝑅𝑚 , em diferentes pressões de um sistema de filtração
com formação de torta em superfície plana. Calculou-se também a
compressibilidade, 𝑆, e porosidade média da torta, < 𝜀 >. A compressibilidade
calculada, 0,8609, foi superior ao intervalo previsto pela literatura, que propunha
valores entre 0,2 e 0,8. Analisou-se também a dinâmica do volume de filtrados, a
taxa infinitesimal do volume de filtrados e a espessura da torta para o mesmo
sistema de filtração. Observou-se que os gráficos obtidos via simulação procederam
conforme o esperado fisicamente. Os modelos gerados pelas curvas representaram
bem os resultados extraídos em laboratório. O volume de filtrados e a espessura da
torta aumentaram ao passar do tempo, e, devido ao aumento da pressão dos
sólidos, a taxa infinitesimal do volume de filtrados decaiu.
Através dos parâmetros da torta obtidos é factível o dimensionamento de
filtros industriais, sejam eles contínuos rotativos à vácuo ou do tipo prensa. Porém
utilizando as mesmas condições de pressão, temperatura, concentração da
suspensão, e se possível, o mesmo carbonato empregado no teste laboratorial.
O entendimento da dinâmica das variáveis estudadas é de grande interesse
na indústria global visto que elas estão diretamente relacionadas à otimização dos
processos de filtração e perfuração de poços de petróleo.
50

7. SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS

Para entendimento mais abrangente do sistema de filtração com formação de


torta em superfície plana, os seguintes estudos são sugeridos:

a) Determinação do perfil de porosidade e resistividade da torta em


função da pressão dos sólidos, 𝜀(𝑃𝑆 ) e, 𝛼(𝑃𝑆 ).
b) O dimensionamento de filtros industriais contínuos ou em batelada
(considerando nesse as etapas de filtração, lavagem e secagem).
c) Construção de um filtro continuo de tambor rotativo à vácuo em escala
piloto e determinação das melhores condições de trabalho desse filtro.
51

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