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GÊNERO, TÉCNICA E TEMPORALIDADE NO GARIMPO TRADICIONAL

Loredana Ribeiro1
Resumo: Muita gente desconhece a existência de coletivos tradicionais que seguem praticando tecnologias não
capitalistas de extração mineral tão antigas quanto três séculos ou mais. O apagamento generalizado destas economias
deve-se muito à metanarrativa da inexorabilidade do capitalismo e das tecnologias industriais que o acompanham,
suplantando toda e qualquer forma anterior de existência social e econômica. Aplicada à extração mineral, essa noção
contribui fortemente para a invisibilidade da participação de mulheres e crianças nas economias mineradoras e seu
trabalho, tanto no lar quanto no contexto extrativo propriamento dito. Contra o discurso dominante e androcêntrico
sobre a mineração, esta pesquisa parte de encadeamentos de acontecimentos relevantes para a experiência de mulheres
garimpeiras da região de Diamantina (Minas Gerais) para discutir como gênero e técnica são movimentos contínuos de
estabelecimento e dissolução de associações com corpos, normas, conhecimentos, interpretações, identidades e mais. A
perspectiva adotada, feminista, arqueológica e antropológica, se interessa igualmente por técnicas, artefatos e
procedimentos do garimpo tradicional; pelas interações de praticantes entre si e com o mundo material e pelas
inovações e modificações, locais ou impostas, que têm permitido, ao longo dos últimos séculos, a renovação e duração
do garimpo - apesar da mineração capitalista, das intervenções das políticas públicas e da marginalização social do
garimpo.

Palavras-chave: Tecnologia tradicional. Capitalismo. Gênero. Minas Gerais.

Produto do pensamento moderno dos últimos séculos, o conceito de tecnologia como


esvaziada de relações sociais e composta quase inteiramente de ferramentas e produtos está no
cerne da autoimagem do ocidente moderno, progressista e na vanguarda da história (Ingold, 2000).
Tecnologia é uma preocupação central dos estudos arqueológicos, mas são extremamente comuns
as pesquisas que a tomam por relativa apenas ao domínio da matéria e energia, baseada num
ambiente concebido como “natureza” externa e desumanizada. A arqueologia se ocupa
especialmente de tecnologias do passado, principalmente aquelas relativas a um passado “morto”,
“abandonado” e/ou “superado”. A assimetria entre pessoas e coisas, passado e presente que
caracteriza boa parte do fazer arqueológico e antropológico inclusive sustenta a divisão do trabalho
entre arqueologia e antropologia nas ciências humanas, onde à primeira cabe supostamente o estudo
das coisas e do mundo material no passado e à segunda o estudo de pessoas e os mundos imateriais
que elas produzem no presente (Gonzalez-Ruibal, 2007). De fato, essas (e outras) assimetrias
permeiam o pensamento ocidental nos últimos séculos e são decorrentes do que Bruno Latour
chamou da Grande Divisão moderna entre natureza e sociedade (Latour, 1994); separação que não
pode ser imposta a qualquer coletivo que estudemos sem risco de distorcer seriamente a
compreensão que temos dele (Ingold, 1993).

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Departamento de Antropologia e Arqueologia, Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal
de Pelotas, Pelotas/Brasil.

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Termos como sociedade, natureza e tecnologia não são meros rótulos, eles abrigam em si
mesmos compromissos morais, políticos ou avaliativos, no lugar de apenas denotar algo, eles são
reivindicações (Ingold, 2000). Na história do pensamento moderno estas reivindicações são
relativas à supremacia da razão humana: a sociedade é uma associação de seres racionais, a natureza
é o mundo externo das coisas e por tecnologia respondem os meios pelos quais a compreensão
racional do mundo externo se transforma em benefícios para a sociedade (Ingold, 2000). Para
muitas feministas, a dicotomia natureza/sociedade tem outros desdobramentos fundamentais, como
a associação da “mulher” ao primeiro termo do par e a própria distinção sexo/gênero. Na base
destes desdobramentos encontra-se a homogeneização do mundo como recurso para os projetos
humanos e masculinistas, onde a natureza é apenas a matéria-prima da cultura na lógica do
colonialismo capitalista (Haraway, 1995). Nos pares dicotômicos característicos do pensamento
ocidental e humanista os termos “natureza”, “passado”, “coisas” e “sexo-gênero” tendem
geralmente a ser concebidos como fixos e determinados.
O garimpo braçal oferece um ótimo contexto para problematizar as relações entre gênero,
técnica e temporalidade posto que sua existência continuada ao longo dos últimos séculos deve-se a
habilidade das pessoas garimpeiras em se engajar com o mundo material através de técnicas e
princípios particulares de organização social do trabalho. A organização social do trabalho no
garimpo braçal, por sua vez, mostra como gênero atua em situações de stress social, sustentando a
tecnologia tradicional no duradouro contexto de conflito com a tecnologia industrial capitalista. Ao
construir a narrativa etnográfica me baseando principalmente na perspectiva de mulheres busco
“aqueles pontos de vista que nunca podem ser conhecidos de antemão, que prometam alguma coisa
extraordinária, isto é, conhecimento potente para a construção de mundos menos organizados por
eixos de dominação” (Haraway, 1995: 24). É então partindo da experiencia de mulheres
garimpeiras que eu falo sobre a resistência de comunidades como a de São João da Chapada à
colonialidade, portanto ao capitalismo, e sobre a importância aglutinadora do garimpo braçal na
existência e persistência desses coletivos sob a modernidade.
O povoado de São João da Chapada tem início em meados do século XIX, crescendo
principalmente por aglutinação da população garimpeira da região, sobretudo quilombola. Chapada,
povoado setecentista que atualmente corresponde a um conjunto de ruínas, e o Quartel do Indaiá,
comunidade quilombola reconhecida pelo governo do estado no início do século e certificada pela
Fundação Palmares em 2007, são dois dos principais pontos de origem da população de São João.
Ambos distam menos de 10 km de São João da Chapada e seus núcleos ocupacionais se instalaram

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em antigos postos militares de guarda do Distrito Diamantino, perímetro da exploração colonial de
diamantes na região no século XVIII.
Na região de Diamantina é muito comum que as pequenas comunidades rurais combinem
diferentes atividades sazonais na base de sua manutenção material: o garimpo braçal (conhecido na
legislação e políticas públicas como artesanal), a agricultura e a coleta de flores para o mercado de
ornamentação são as principais em São João e Quartel. Em linhas gerais, o garimpo braçal
corresponde a explorações em pequena escala, sem uso de mercúrio ou qualquer outro implemento
químico ou maquinário. É por isso também que o garimpo braçal é sazonal, ele depende do clima,
do regime de chuvas e volume dos cursos d’água para extração. No lugar de máquinas e insumos
químicos há numerosos instrumentos e apetrechos de metal e madeira. As mesmas técnicas e
instrumentos correntes no garimpo braçal podem ser encontradas na literatura e iconografia da
mineração colonial desde os primeiros descobertos de ouro e diamantes em Minas Gerais, a partir
do final do século XVII (literatura de viajantes, religiosos, memorialistas, artistas e cientistas),
algumas vezes atualizadas com adaptações de materiais ou usos. Esse conhecimento se mantém e se
atualiza ao longo do tempo através da oralidade e do engajamento prático desde a infância, pelo
aprendizado com as pessoas de casa ou com outras pessoas da mesma comunidade. A organização
social do trabalho é baseada numa unidade mínima que algumas vezes será composta na família
imediata, em outros será uma articulação de mais de uma geração de diferentes famílias (Ribeiro,
2013).
Esse modo de vida tem mais de trezentos anos na região e está profundamente ligado à
exploração colonial e à escravidão. A região de Diamantina, que já foi conhecida por Distrito dos
Diamantes, produziu enorme parte da rentabilidade da exploração colonial do Brasil no século
XVIII. Nessa época também começam a se formar as povoações de Chapada e Quartel, ambas
ligadas a postos de controle territoriais do distrito dos diamantes pelo governo colonial. Se estas
comunidades estavam na fronteira física do território do distrito dos diamantes, eu quero discutir
como elas também estavam – estão – na fronteira ideológica e ontológica da exploração colonial
capitalista de diamantes. O posicionamento fronteiriço é chave para o que nas ciências humanas se
convencionou tratar por descolonialidade. A descolonialidade é um projeto ligado à história da
colonização da América Latina e Caribe do século XVI ao presente. Os efeitos dessa colonização
constituem a diferença colonial, o lugar de fala daquelas e daqueles que optam, em suas
abordagens, por se desligar das epistemologias eurocêntricas, questionando doutrinas e métodos
autorizados, em favor de conhecimentos e paradigmas fronteiriços. Diferença colonial também é o

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lugar de enunciação de quem enfatiza em suas abordagens a colonialidade do poder (a continuidade
das relações coloniais de poder) através das categorias de gênero, raça e classe (Mignolo, 2012;
Ballestrin, 2013; Costa, 2014). Essa constatação insere o embate colonial no centro da produção de
conhecimento, embasando o argumento de que a descolonização do conhecimento não será nunca
possível enquanto seu ponto de partida for o das categorias ocidentais de saber que negam aos
sujeitos colonizados “o direito geopolítico e corpo-político de enunciação espistêmica” (Costa,
2014:930).
O século XVIII corresponde ao auge da exploração mineral das Minas Gerais. Nessa época a
apropriação colonialista de saberes africanos e indígenas sobre o mundo mineral se expressa com
intensidade inaudita. Se os colonizadores europeus dos primeiros séculos tinham saberes sobre a
mineração e metalurgia que remontavam às experiências romanas de exploração, muitos desses
conhecimentos por sua vez estavam relacionados com o norte da África. Já os primeiros achados de
jazidas de ouro e diamantes no Brasil foram feitos por expedições guiadas por indígenas e
dependentes dos conhecimentos nativos sobre navegação (no sentido de deslocamento orientado) e
recursos hídricos (primeiros achados foram sempre em córregos e rios, ouro de aluvião). Com a
escravidão de pessoas africanas vieram outros conhecimentos, já que alguns povos da Africa, como
de Ashanti, eram exploradores milenares de ouro e outros minerais. As origens e caminhos de
técnicas de mineração colonial dos séculos XVI ao XVIII são híbridos (Reis, 2008). Essa mineração
colonial é capitalista, decerto, mas ao mesmo tempo em que ela se consolidava sob a direção do
estado ou de proprietários com recursos, pequenos grupos familiares ou mesmo indivíduos
conduziam por conta própria outra forma de extração: o garimpo braçal.
Mesmo aparentemente compartilhando técnicas da mineração colonial, o garimpo braçal
atua numa escala bem menor de exploração, onde a reciprocidade é pressuposto do sucesso da
empreitada, com um regime de normas muito distinto, e na maior parte do tempo fora do sistema de
tributação e controle pelo governo e fora do sistema capitalista de organização da extração. Daí que
o garimpo braçal foi rapidamente enquadrado entre ‘os outros’ da mineração capitalista, seu próprio
nome o vincula à clandestinidade. ‘Garimpeiro’ seria uma corruptela de ‘grimpeiros’, como se dizia
no século XVIII das pessoas que trabalhavam clandestinamente e fugiam para as grimpas (os
morros altos) ao menor sinal da guarda.
O garimpo braçal, tal como a roça e a panha de flores, todas atividades sazonais e de
pequena escala, sustentadas pela mão de obra disponível na família, não pressupõem nenhum tipo
de ascensão socioeconômica ou acumulação de riqueza. São incontáveis as narrativas sobre

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achados de bons e grandes diamantes cujo valor de mercado se dissolveu em atravessadores, farra e
esbanjamento, para em seguida estar a pessoa de volta ao garimpo braçal. Mas ainda mais
numerosas e corriqueiras são as narrativas de achados dos diamantes miúdos, que as vezes só
garantem a comida e os remédios do mês. Inclusive há procedimentos religiosos propiciatórios para
um bom resultado no garimpo, conduzidos por benzedeiras e benzedores. Maria dos Reis Amorim,
benzedeira, 81 anos, me explicou, por exemplo, que esses procedimentos podem ser necessários
para garantir harmonia entre os desejos do diamante e da pessoa que garimpa. Isso porque o
diamante pode sempre se recusar a se relacionar com a pessoa que vai garimpar, e nesse caso ele vai
embora - ele foge, se desloca, se move para outro lugar. Ou simplesmente se transforma em pedra e
passa despercebido. Pensamento, intenção e contemplação são características que ao menos os
minerais compartilham com as pessoas. Diamante e ouro não apenas mostram onde estão, eles
também fogem de determinadas pessoas, mudando de lugar ou mudando de forma. Eles fogem de
ambição e inveja e escolhem com quem se relacionar:
“...se chegar um danado, sabido lá, que reza reza braba, que não é da paz de deus,
com o coração ruim... o ouro foge. Ele tá aqui, nós tá trabalhando aqui, ele foge
daqui e vai ficá lá... lá no morro lá, longe daqui. Pode ir lá que acha ele. Ele larga
assim, ele larga o terreno assim, foge e vai embora... ele é capaz de fugir daqui e ir lá
pra Diamantina, fugir de Diamantina lá pra Belo Horizonte. Vai pro quintal de
qualquer uma pessoa e ficá lá... na onde não tivé inveja nem ambição”. (Dona Maria,
São João da Chapada, janeiro de 2016)

Essa repulsa que o diamante e o ouro sentem pela inveja e ambição faz com eles muitas
vezes fujam ou se escondam não porque a garimpeira ou garimpeiro é pessoa ruim, mas porque a
‘ruindade’ passou por ali – é o ‘mau olhado’ ou ‘quebrante’. Para reverter ou evitar situações desse
tipo são realizados procedimentos propiciatórios ou de cura pelas mesmas pessoas que curam os
humanos – as benzedeiras:
“Entonce a gente pega e lava aquilo ali, se não deu nada.... a formação tá boa, tem
fava, tem cativo e não deu nada.... se não deu, então cê pega e benze. De mau olho....
é, o diamante vira pedra.... aí benze e cê volta a vê ele. Costuma ver aqueles toco de
cativo, bunito, cada formato de cativo.... quando pensa que não, quê que acontece...
se benzeu, vira diamante.” (Dona Maria, São João da Chapada, janeiro de 2016)

Os benzimentos são feitos na cabeceira da ‘canoa’, a estrutura hidráulica (feita de madeira e


pedra ou metal) onde se dá a lavagem e apuração de diamantes e ouro. É ali também o lugar onde se
fazem os trabalhos para prejudicar o serviço de alguém. Para os benzimentos bastam as palavras
certas e fogo: “nós que é quilombola, africano... em qualquer canto a gente faz fogo e olha a brasa e

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benze” (Dona Maria, São João da Chapada, janeiro de 2016). O fogo ajuda a ‘diagnosticar’ o
problema e encontrar o procedimento adequado para tratá-lo.
Uma vez que se tenha o coração limpo e que o terreno também esteja limpo da impressão de
más pessoas que por ali tenham passado, é bom insistir na aproximação com o mineral oferecendo
laços de parentesco simbólico:
“na hora que ocê chegá no garimpo, com aquele coração limpo e tamem ocê brincar
assim: 'eu vou sentar aqui e com deus na guia, dona Maria vai bater a peneirada o
diamente vai croar e eu vou ser madrinha desse diamante'. As palavras suas Deus
abençoa. O diamente é pagão, ele fica doido que chega uma madrinha ou padrinho
dele, ele é pagão." (Dona Maria, São João da Chapada, janeiro de 2016)

O diamante também tem sua própria ‘família consangüínea’, ou pelo menos vizinhos
próximos. Há um mineral recorrente nas jazidas diamantíferas que a geologia garimpeira trata por
‘cativo’ e a geologia ocidental trata por ‘satélite’. Muitas vezes é a cor do cativo que o diamante
assume quando quer se esconder do garimpeiro. A relação entre ambos é muito íntima, para Maria a
relação é familiar: “Cê começou a lavá, cê achou cativo, cê sabe que vai dá diamante. Eles é irmão.
O cativo vem na frente do diamante. Ele é bunitim, todo lavradim, igual diamante.” Na explicação
de Geralda eles são vizinhos, “o cativo e o diamante são vizinhos. Aí onde cê achar o cativo, ali tá o
rastro do diamante... os dois é igual, é pesado igual e tem a mesma forma”.
No limite, o sucesso ou fracasso de um serviço de garimpo depende do tipo de relação
estabelecida entre a pessoa que busca o mineral e o próprio mineral. Esse é um exemplo de
relacionalidade no garimpo que, obviamente, é totalmente ausente da mineração capitalista. O
diamante com intenção, capacidade de contemplação, movimentação e transformação existe numa
outra prática ontológica, não euro-ocidental.
Uma característica importante da prática do garimpo braçal é que ela articula habilidades
adquiridas ao longo de toda a vida. Tradicionalmente, as crianças vão pro garimpo muito cedo,
“assim que cai o umbigo” como se diz por lá. Se não há alguém que possa ficar em casa
especialmente para cuidar deles, bebês podem ficar em cestos sob uma sombra próxima, crianças
pequenas podem brincar de garimpar com instrumentos velhos ou miniaturas feitas especialmente
para esse fim, crianças maiores começam a auxiliar mais diretamente na extração. Minas
interlocutoras de mais de setenta anos de idade se lembram que em suas infâncias a melhor
distração para as longas horas passadas no garimpo eram as cantigas de garimpo, os vissungos.
Vissungo é a música negra tradicional da região, tem origem entre os escravizados nas minas de
diamante, primeiro cantada em línguas benguela, depois em pretoguês, como diria Lelia Gonzalez

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(Gonzalez, 1984). Tradicionalmente, os vissungos são cantos que participam das mais diversas
situações, há cantos de rede (enterro), de trabalho, de caminhada, de multa, etc. Os vissungos de
multa, por exemplo, são os preferidos de Dona Maria que lamenta que o costume antigo da
cobrança de multa no garimpo não seja mais seguido a muito tempo:
“Isso acontecia muito. Mas hoje o povo não sabe nada e não quer aprender. (...) A
multa é... você chega lá [no serviço de garimpo] pra visitar e nós fica feliz docê
chegar porque você tá levando alguma coisa pra nós, ou rapadura ou pinga ou
biscoito ou uma bala...na hora que vc vai chegando no garimpo onde nós tamo
trabalhando aí vem nós tudo, um passa mão na enxada, um passa mão na alavanca,
um passa mão no carumbé e vem tudo por cima docê cantando e dançando (Ôôô,
cariacô, passo de mina já chegou, passo de mina já chegou...) aí nós vai dançando e
você vai colocando os presentes pra nós no carumbé. Aí nós canta bastante, bate
palma, todo mundo batuca. Depois um de nós vai lá, bate a peneirada e se der um
diamantinho ou ouro nós dá de presente procês...”

As multas do garimpo podem ser entendidas como uma transformação, num contexto livre
ou clandestino, da fiscalização da exploração mineral pelo trabalho escravizado. Possivelmente
todos os viajantes que percorreram a região das minas de ouro e diamantes no século XIX
forneceram ricas descrições e ilustrações do trabalho escravo nas minas e do controle das atividades
de apuração mineral para evitar extravios e roubos. Uma das práticas comuns era fazer os
escravizados desdobrar as barras das calças e sacudir suas roupas de pé em cima de uma bateia ou
carumbé ou couro de boi para fazer cair diamantes ou pepitas de ouro ali escondidas. No ritual da
multa os mesmos elementos são rearranjados através da reciprocidade a modo de reforçar antigas e
criar novas amizades e alianças. A ‘multa’ acontece quando um serviço de garimpo é visitado de
modo planejado (quando a visita é esperada) ou espontâneo (pessoas que estavam passando por ali e
resolveram parar). Visitantes deixam presentes (alimentos, bebidas) ou prometem fazê-lo no dia
seguinte (visitas espontâneas). Num caso e outro são recebidos com cantoria e batuque, depositam
seus presentes no carumbé e em troca recebem um diamante pequeno ou pepita de ouro que resulte
da apuração da ‘peneirada’ que é feita na presença dos visitantes. As ‘multas’ eram festas do
cotidiano que aconteciam sem aviso, quebravam a dura e pesada rotina da lavagem e apuração dos
minerais e ajudavam a manter a interação entre as famílias. Para as crianças, música, canto e danças
eram parte fundamental do aprendizado.

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A partir da década de 1980 as políticas publicas de erradicação do trabalho infantil
interferiram nesse processo de aprendizado, adiando a ida das crianças (e da pessoa adulta que as
cuida) para o garimpo. Mas, tradicionalmente, o aprendizado do garimpo se dá desde o nascimento,
cotidianamente, e num contexto muito particular do qual fazem parte agentes não humanos. O
aprendizado no garimpo começa bem antes das crianças começarem de fato a participar das
atividades extrativas: ele começa em brincadeiras infantis com ferramentas em miniatura, com as
histórias e canções de garimpo. Todos estes elementos são mediadores que reforçam mensagens
culturais em sentido muito amplo. Isso é central para a assimilação e socialização dos
conhecimentos organizados e produzidos pelo garimpo. Ao longo da vida no garimpo as pessoas
vão aprendendo não ‘técnicas’ num sentido científico abstrato e desconectado do social, mas
interações específicas com o mundo material. Nesse sentido, as técnicas de garimpo são conjuntos
de relações entre os elementos que participam da atividade.
E é justamente essa mobilização de pessoas em idades distintas que dá ao garimpo braçal
flexibilidade para se sustentar mesmo na ausência, permanente ou prolongada, de homens adultos.
Esse cenário foi freqüente na região ao longo de todo o século XX, senão antes: abertura de lavras
por companhias de mineração que contratavam exclusivamente homens adultos e os levavam a
acampamentos distantes onde ficavam meses sem voltar para casa. Os acidentes de trabalho são
relatados com freqüência, muitos não sobreviviam, outros não voltavam nunca. Alguns povoados de
Diamantina lideram com essa proletarização e deslocamento da força de trabalho masculina
arregimentando o trabalho de mulheres e crianças de famílias distintas de modo a equilibrar a
ausência do trabalho cotidiano dos homens adultos. Garimpo de mulheres é o nome local para essa
forma de organização do extrativismo mineral. Além das parcerias no garimpo, redes locais de
adoção informal acolhiam crianças órfãs ou cujo pai estava empregado nos acampamentos - é
extremamente comum a presença de crianças locais adotadas nas últimas quatro gerações.
Parentesco ritual, adoção informal, estreitamento dos laços de cooperação entre pessoas e entre
famílias e o garimpo de mulheres eram estratégias de comunalismo praticadas nesses coletivos para
lidar com o esvaziamento promovido pelos picos de proletarização da mão de obra masculina e
adulta nas empresas de mineração e garantir a persistência do garimpo braçal.
No garimpo de mulheres o aprendizado é quase um objeto técnico feminino, posto que as
mulheres da família são fundamentais na circulação do conhecimento tecnológico tradicional - é
com elas que se aprende a garimpar. No engajamento prático com o garimpo não apenas as técnicas
e conhecimentos sobre extração de diamantes e ouro circulam preferencialmente entre mulheres e

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crianças, mas também conhecimento sobre o mundo. Muitos desses conhecimentos vem das
músicas, benzições, histórias e também das ruínas do século XIX. Eu quero falar um pouco sobre
essas últimas. Na paisagem garimpeira estruturas de garimpo do contemporâneo se imiscuem a
estruturas de extração mineral que têm um, dois, três séculos de idade. Para além das técnicas e
instrumentos tricentenários ainda em uso no garimpo, o passado é contínua e cotidianamente
experienciado no presente, materialmente disposto por toda parte e continuamente suscitando
representações e discursos. As interações das pessoas com esses lugares (que a academia trata por
sítios arqueológicos) são muitas e variadas, mas em São João da Chapada e arredores é comum que
ruínas e outros vestígios da mineração industrial do século XIX sejam habitados por seres
sobrenaturais (Ribeiro, 2014).
A mais espantosa das aparições é a Cobra de Crista, criatura que habita uma torre na
extremidade dos alicerces de um edifício retangular. A cobra é gigante, sua cabeça sai pela boca de
uma chaminé com 5-6m de altura, sibilando e cuspindo fumaça. Essas ruínas são conhecidas
localmente como A Máquina. A documentação histórica e iconográfica permite associar essas
ruínas a meados do século XIX, momento em que a tecnologia industrial de mineração estava
penetrando no Brasil. Outro fantasma é a Noiva de Sopa. Uma mulher de branco que aparece do
lado da estrada na saída de um povoado, recostada num enorme bloco rochoso. A estrada corta uma
antiga cata de empresa de mineração. O bloco rochoso é um testemunho da formação rochosa rica
em diamantes, intensivamente explorada desde a introdução da mineração industrial no século XIX.
Outra mulher de branco é a Noivinha da Bica D’Agua. A tal bica aflora no topo da gigantesca
cratera que outrora foi o Canal do Barro, uma exploração super moderna na década de 1860 que
tinha casa de máquinas, carrinhos puxados em trilhos e tudo mais. Nesse mesmo lugar habita o
fantasma do Bebê que Chora, uma assombração auditiva, um incessante choro infantil em algumas
noites do ano. Da Cobra de Crista ninguém sabe a história, ela apenas existe lá, nA Máquina. As
mulheres de branco são noivas que não se casaram e o choro é de uma criança abandonada numa
madrugada especialmente fria para ser recolhida por uma alma caridosa, mas que não resistiu até o
amanhecer.
Essas não são fábulas inocentes para amedrontar crianças. São histórias, relatos de situações
de stress social que articulam abandono de crianças (por ausência de mãe ou pai), dissolução de
uniões estáveis e a captação do trabalho masculino pela mineração capitalista. São alertas dos
malefícios dessa forma de mineração, passados de geração em geração. Junto com os benzimentos e
os cuidados em ser aceito pelo diamante, junto com o garimpo de mulheres, as narrativas sobre

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assombrações são sinais de uma atuação coletiva anti-capitalista e descolonial onde mulheres e
crianças são protagonistas. Esse protagonismo passa despercebido pelo viés androcêntrico dos
discursos sobre a mineração, que da pesquisa acadêmica à exploração e consumo dos recursos
percebe o garimpo e as demais formas de mineração como essencialmente masculinas e adultas.
Conveniente.
A partir da década de 1980 se intensificou a repressão às atividades extrativas em geral e ao
garimpo em particular, resultando, entre outras coisas, na total invisibilidade de formas alternativas
de garimpo praticadas por coletivos tradicionais em várias regiões do Brasil. Garimpo é um termo
genérico, ele não se refere apenas ao garimpo de dragas na Amazônia, mas a maioria das pessoas
não sabe disso. Hoje, a comunidade de São João da Chapada e várias outras da região garimpam na
clandestinidade ou se dedicam a outras atividades. As políticas sociais da ultima década tem sido na
direção de intensificar a agricultura, investindo em irrigação e ampliação dos cultivos para tornar a
prática perene, inclusive com tentativas de cultivo de flores do campo para ornamentação, já que a
coleta de flores também entrou na lista de atividades extrativas consideradas danosas ao meio
ambiente. Como diz dona Maria Eugênia, benzedeira de São João da Chapada, “o mato tá todo
vigiado, não pode garimpar, não pode panhá flor, mal pode panhá lenha”.
Para além de chamar a atenção para a violência epistêmica, simbólica e física que têm as
populações tradicionais como alvo ao longo dos últimos cinco séculos, é fundamental buscar
compreender as condições de possibilidade dessas comunidades se manterem ancestrais. É aí que
encontraremos a resistência à colonialidade, nos espaços que fluidamente delineiam as fronteiras da
modernidade. E é na vida cotidiana e nas interações intimas que melhor poderemos observar e
aprender sobre o peso fundamental do comunalismo, cooperativismo e reciprocidade na oposição à
colonialidade e ao capitalismo.

Referências

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desde Sudamerica. Buenos Aires: Universidad de Buenos Aires, 2014, pp. 303-326.

Gender, technique and temporality in the traditional garimpo

Astract: Many people are unaware of the existence of traditional collectives who continue to
employ non-capitalist mineral extraction technologies as old as three centuries or more. The
widespread invisibility of these economies is largely due to the metanarrative of the inexorability of
capitalism and the industrial technologies that accompany it, outshining any previous forms of
social and economic existence. Applied to mineral extraction, this notion strongly contributes for
the invisibility of women and children participation in the mining economies and their work, both at
home and at the extractive context. Against the androcentric ruling discourse about mining, this
research emerges from a chain of relevant events of the mining women experience in Diamantina
region (Minas Gerais) and discusses how gender and technique are continuous movements of
formation and dissolution of associations between bodies, norms, knowledge, interpretation,

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),
Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X
identities and more. The adopted perspective, feminist, archaeological and anthropological, is
equally interested in techniques, artifacts and proceedings of the traditional garimpo. In the
interactions of the practitioners between themselves and with the material world, and also with the
innovations and modifications, local or forced, that allowed the renovation and continuation of
garimpo over the last few centuries – in spite of the large-scale mining, the public policies
intervention and the social marginalization of the garimpo.
Keywords: Traditional technology. Capitalism. Gender. Minas Gerais

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Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X