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20.

Branca Sobreira.

56 páginas.

Editora Moinhos.

Na primeira metade do século XIX, em um de seus visionários ensaios teóricos,


Edgar Allan Poe considerou a possibilidade de, no futuro, o chamado “bom-senso”
resolver medir uma obra de arte mais pelo objetivo que atinge e impressão que provoca,
e menos pelo tempo que tomou para atingir esse objetivo, ou pela extensão do esforço
empreendido para produzir essa impressão.

No centro dessa afirmação, a sensibilidade do escritor e poeta norte-americano


apontava para o fato de que, tanto a consolidação da imprensa quanto o avanço
tecnológico, afetariam diretamente a duração e a maneira mediante a qual o indivíduo
moderno fruiria a leitura ou a apreciação artística. Na esteira dessa afirmativa, Walter
Benjamin viria a declarar, no século seguinte, que o homem moderno não cultivaria nada
que não pudesse ser abreviado.

Portanto, desde Poe (e resvalando em Benjamin) que as narrativas ou contos


curtos têm conquistado um lugar de destaque e consumo, no leque geral dos gêneros
literários mais difundidos e apreciados. É que em nossos dias, sob a influência do avanço
das novas tecnologias, das redes sociais, da hipertextualidade e da “ditadura” do
compartilhamento do link, novas formas breves de escrita tentam, dia a dia, conseguir o
máximo de atenção, a partir de um suposto mínimo de esforço.

É nesse cenário que grassam os contos e as narrativas curtas, disseminadas,


sobretudo, pela internet. No Brasil, uma obra representativa dessa nova estética da
ligeireza é a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”, organizada pelo
escritor Marcelino Freire e publicada em 2004, com o desafio de que seus antologistas se
comprometessem a escrever contos de, no máximo, cinquenta letras.

As vinte narrativas de “20”, livro de estreia da jornalista Branca Sobreira, são o


reflexo dessa época preconizada por Poe e formatada pelo protagonismo das redes.
Dedicado “às incertezas de uma década”, os contos não são intitulados; ao contrário,

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recebem apenas um número por distinção, indicando, talvez, que façam parte de um todo
maior. Mas a série sugerida só faria sentido caso as narrativas dialogassem entre si, ou se
referenciassem. Ao contrário, o que temos, como o próprio texto de apresentação informa,
é a imagem de cada conto como uma ilha separada, à deriva e sem pertencer a arquipélago
algum.

Não estamos em tempos de grandes histórias, mas em uma época que valoriza o
relato do íntimo, do pequeno, do detalhe, do esquivo e do trivial. Como bem definiu o
filósofo francês Jean-François Lyotard, vivemos em uma época onde a incredulidade em
relação às grandes narrativas abriu espaço para a valorização da performance das
pequenas narrativas, que até então existiam à sombra dos consensos totalizantes.

É nos termos dessa performance que Branca Sobreira constrói seu livro de estreia
– em forma de curtos flashes narrativos que se encadeiam entre si sem relação aparente,
como uma sucessão de textos na timeline do Facebook.

Os narradores de “20” não transmitem nenhuma experiência, nem estão dispostos


a ir além de suas meras observações; eles não se envolvem com a história que estão
narrando e se resumem a conduzir o leitor por uma pista de gelo onde nada para em pé,
nem mesmo o enredo. A impressão é a de que um álbum de retratos foi organizado por
meio de uma série de observações sobre a realidade, que lembram pedaços de minúsculos
mundos fragmentados, refletindo um projeto cujo propósito é a falta de conclusão.

Em “20” o leitor é atingido por uma variedade de cenas que constituem um script
disperso, aparentemente ligeiro, de uma suposta teia de enredos. Porém, a ausência de
linearidade pode frustrar apenas o leitor que espera encontrar ou obter aí uma história
coesa, nos moldes tradicionais.

Leitores “modernos” (nos termos em que Poe os entendia), e habituados à


dispersão da leitura online, encontrarão prazer na prosa muitas vezes poética de Branca
Sobreira, topando com pérolas do tipo: “os postes têm luz, mas parecem não ter energia”;
ou “a simples felicidade de respirar sem medo”. Ademais, um dos destaques do livro são
as ilustrações da artista Samantha Canovas. Alternadas com as narrativas, são um desfrute
à parte.

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