Você está na página 1de 124

de Ciências

de S
ID
AD
E AGOST
IN
H
O
da

R
So
E

N
IV
Facul

ET
UN

ciais
O

Edições Mulemba
sciat ut serviat
Colecção Reler África
Nota de Apresentação

Uma das lacunas do mercado editorial dos países de língua o icial


portuguesa é a ausência, em língua portuguesa, de obras de referência
de autores africanos e africanistas, que izeram cátedra no domínio
dos chamados “estudos africanos” nas academias dos países anglófo-
nos e francófonos.
A Colecção Reler África pretende colmatar essa lacuna. Trata-se de
uma colecção especializada em temáticas africanas no domínio das
Ciências Sociais e Humanas. Ao inaugurar esta colecção, as Edições
Mulemba da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho
Neto (Luanda – Angola) e as Edições Pedago (Mangualde – Portugal)
pretendem criar um espaço de debate, alteridade e re lexão crítica
sobre o continente africano.
A colecção publicará obras, textos e artigos compilados de reconheci-
dos autores africanos e africanistas, que contribuam para a compreen-
são e a reinterpretação do continente africano.
Além de apresentar uma visão endógena (de dentro) do continente,
a colecção está aberta à comunidade cientí ica internacional que tem o
continente africano como objecto da sua pesquisa.
Publicar e divulgar conhecimentos e saberes sobre África e provenien-
tes de África é, assim, um desa io que a colecção abraça, de contribuir
para a construção de uma nova epistemologia e uma nova hermenêu-
tica dos estudos africanos no espaço lusófono, livre de estereótipos e
de um olhar folclórico e exótico. Ao abraçar esse desa io, a colecção
pretende ser uma galeria de conhecimentos e saberes de África e
sobre África, que interpele os leitores e investigadores especializados
a reler África para compreendê-la e reinterpretá-la.

Luanda, 19 de Agosto de 2012.

Víctor Kajibanga
(Coordenador da Colecção Reler África)
Copyright © 1989, L´Harmattan
Título Original: Cheikh Anta Diop ou l´honneur de penser
© desta edição
Edições Mulemba da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto
Título: Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar
Autor: Jean-Marc Ela
Colecção: Reler África
Coordenador da Colecção: Víctor Kajibanga
Tradução: Narrativa Traçada
Revisão do Texto: Isabel Henriques e Pedro M. Patacho
Design e Paginação: Márcia Pires
Impressão e Acabamento: Ca ilesa, Soluções Grá icas
ISBN: 978-989-8655-42-4
Depósito Legal: 379395/14

Julho de 2014

A presente publicação é uma coedição das Edições Mulemba da Faculdade de


Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, Luanda, Angola e das Edições
Pedago, Portugal.

Nenhuma parte desta publicação pode ser transmitida ou reproduzida por qual-
quer meio ou forma sem a autorização prévia dos editores. Todos os direitos desta
edição reservados por

EDIÇÕES MULEMBA

Faculdade de Ciências Sociais da


Universidade Agostinho Neto
Rua Ho Chi Minh, 56
Caixa Postal 1649
LUANDA - ANGOLA
emulemba@fcs.uan.ao
emulembafcsuan@yahoo.com.br
facisouan@fcs.uan.ao
facisouan@yahoo.com.br

EDIÇÕES PEDAGO, LDA.

Rua do Colégio, 8
3530-184 Mangualde
PORTUGAL

Rua Bento de Jesus Caraça, 12


Serra da Amoreira
2620-379 Ramada
PORTUGAL
geral@edicoespedago.pt
www.edicoespedago.pt
de Ciências
de S
ID
AD
E AGOST
IN
H
O
da

R
So
E

N
IV
Facul

ET
UN

ciais
O

Edições Mulemba
sciat ut serviat
Uma testemunha do século
Índice

Introdução 11

I. A hora de Cheikh Anta Diop 17. 29


Um mundo fragmentado 17
Os arti ícios da racionalidade europeia 20
O im de uma visão 23

II. Um único tema: África 31. 43


Um único tema, diversas perspectivas 31
Um problema de método 39

III. A razão nasceu entre os negros 45. 55


O declínio dos absolutos 45
Verdade escandalosa 51

IV. Consciência histórica e revolução africana 57. 73


O problema da história africana 57
O respeito do real 60
Do conhecimento histórico à consciência política 65

V. Colonização e o problema nacional 75. 90


Uma icção histórica? 76
A questão colonial rente à terra 79
O sonho de um pan-africanismo 85
A memória de um povo 88

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 91. 111


À margem da universidade 92
O cientista e o seu povo 94
Um desa io político 99
Propaganda ou verdade? 105
Para uma ciência ao serviço do homem 107

O desaϐio das novas gerações africanas 113

Referências Bibliográϐicas 119


Introdução
À Juventude Africana
«Muitas vezes, aquilo que o Ocidente designa de universalidade da ciência, da
história ou da iloso ia indica apenas o sentido do seu próprio conforto de viver e de
dominar. O grau de universalidade que se atribui a si mesmo re lecte uma aferição
do peso do imperialismo – em boa consciência – que está disposto a lançar sobre as
nossas vidas. Com efeito, o imperialismo representa uma fonte de conforto (intelec-
tual, social ou económico) em detrimento do próximo.»
(A. Diop)

Nos primórdios do Renascimento, Rabelais tecera a seguinte a irma-


ção: «África tem sempre qualquer coisa de exótico». C. A. Diop repre-
senta claramente os contributos únicos e extraordinários deste Conti-
nente negro para a história do saber. A morte repentina deste homem
assola toda a África. Importa superar esse estado de choque e encetar
uma re lexão sobre o sentido e o alcance de uma obra que abalou os
fundamentos do pensamento moderno. O extenso legado de C. A. Diop
não se destina somente às gerações africanas: de facto, é precisamente
o contributo deste homem para a história da humanidade que deve ser
tido em conta. Há que situar este investigador no seu âmbito devido,
isto é, a aventura da razão na história. Gostaria de aproveitar o ensejo
para evocar a vida de um africano que simboliza «a honra de pensar».
Trata-se de um estudo imprescindível para a compreensão do im-
pacto de C. A. Diop sobre as elites intelectuais negro-africanas. Re-
corde-se o fascínio exercido pelo autor de Nations nègres et culture
sobre os jovens da década de 60. Quanto a este aspecto, cumpre men-
cionar os resultados do inquérito de J. P. Ndiaye sobre Les Étudiantes
noirs en France. De entre os grandes autores que envidaram esforços
no sentido da recuperação das culturas negro-africanas, o nome de
C. A. Diop (31 %) segue-se aos de Césaire (42 %) e de Senghor (38 %).
Esta influência fez-se igualmente sentir na segunda geração da
independência. Recorde-se o impacto brutal que a morte do célebre
egiptólogo provocou nos campus universitários e nos meios culturais.

Introdução. À Juventude Africana 11


Nas capitais do continente, milhares de estudantes invadiam os an ite-
atros para ouvir, num silêncio quase religioso, o prestigiado mestre
partilhar os frutos da investigação que levara a cabo ao longo de anos.
O auditório acolhia as suas intervenções com admiração e entusias-
mo. O eminente historiador tinha a capacidade de falar com clareza.
Apesar do conteúdo das suas demonstrações cientí icas, o seu estilo
era acessível ao grande público. Este verdadeiro intelectual transmitia
uma mensagem singular que se encontrava omissa numa geração que
lia Césaire, Senghor, Rabémanjara, Alione Diop, Fanon ou Cabral. C. A.
Diop soube comunicar essa mensagem com convicção e persuasão.
Ademais, o impacto do seu pensamento é considerável, conforme se
pode constatar actualmente através dos testemunhos de inúmeros
intelectuais negros que lhe prestam homenagem.
Segundo Théophile Obenga, um dos seus discípulos, C. A. Diop «era
um homem transcendental1». De facto, o único homem de cultura negra,
e seu contemporâneo, que se dedicou ao estudo do Antigo Egipto foi
reconhecido como um «gigante do saber2» pela globalidade do mundo
negro. C. A. Diop representa, porventura, o tipo de erudito africano
empenhado no debate cientí ico dos tempos modernos. Além de ter
dado a volta ao mundo dos conhecimentos – a extensão e a densidade
da sua cultura são prova disso –, este ilho de África é indubitável e
verdadeiramente um dos poucos intelectuais negros de renome mun-
dial. Sabe-se que era membro de diversas sociedades cientí icas. Será
excessivo considerar que esta notável testemunha da vida do espírito
seja o génio do século XX em terras africanas? Conforme assinalado por
Iba Der Thiam, resulta claro que «actualmente, pese embora a existên-
cia de inúmeros homens conceituados e de valor, África não dispõe
de nenhum intelectual com a dimensão e a autoridade internacionais
de Cheikh Anta Diop, nenhum intelectual que goze do mesmo nível de
fama e estima internacionais que o próprio soube conquistar, nenhum
intelectual cuja notoriedade e reputação transcendam, de forma simi-
lar, as fronteiras do nosso continente3». Como esquecer a recepção e
a ressonância da sua obra entre os Negros da Diáspora que, com ele,
perderam também «um dos militantes mais ilustres e fervorosos da
cultura negra4»? Numa placa comemorativa entregue a título solene a
Cheikh Anta Diop no dia 12 de Janeiro de 1985 em Londres, o célebre
historiador é descrito como «o homem de ciência que maior in luência
exerceu sobre o pensamento do século XX».

1. Th. Obenga. «Hommage à notre camarade Cheikh A. Diop», Taxaw, n.º 28, Março de 1986,
p. 5.
2. Ler «La mort de Cheikh Anta Diop», Le Soleil de 8 e 9 de Fevereiro de 1986.
3. Iber Der Thaim. «Un géant de l’esprit et du cœur», Taxaw, n.º 28, p. 3.
4. Idem.

12 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Muito antes da morte do egiptólogo senegalês, o dia 29 de Setembro
foi proclamado, em Atlanta, Dia de Cheikh Anta Diop. Desde o primeiro
festival mundial das Artes Negras realizado no ano de 1965, em Da-
car, que é reconhecida a in luência ímpar exercida por este homem de
ciência sobre a geração do seu tempo. Por toda a África, uma pletora
de testemunhos acerca da repercussão da sua obra revelam a latitude
da sua in luência. Nos Camarões, onde o erudito entregava o seu tes-
tamento, Paul Biya veiculou a emoção de todo um povo afectado pela
morte repentina de «um homem de ciência excepcional, convicto e
corajoso, que dedicou a maior parte da sua vida à investigação cientí-
ica e, em especial, à história africana, bem como à reabilitação das
nações e culturas negras». Através da rádio, da imprensa escrita e da
televisão, foi possível constatar a profunda admiração que as novas
gerações nutriam pelo intelectual desaparecido. A morte do homem
responsável por introduzir o nome de África na história universal da
ciência afectou os jovens das escolas e dos liceus, as revendedoras do
mercado e os condutores de táxi, assim como os estudantes universi-
tários e os intelectuais. As principais disciplinas de investigação nas
quais C. A. Diop se destacou inserem-se no âmbito das ciências sociais
e das humanidades cujo lugar e papel nos processos de transformação
das sociedades africanas não podem ser descurados.
Não urgirá descobrir, através da sua obra, o homem de ciência com
o qual os professores das universidades africanas sonhavam cruzar-se
quando estavam de passagem por Dacar ou por outra cidade africana?
Com efeito, seria perigoso erguer um muro de silêncio em torno de
C. A. Diop, o que, naturalmente, é de esperar que aconteça nos meios
que pensam ter chegado aos Himalaias do saber não tendo, por isso,
nada mais a aprender com os contributos africanos. As reservas e a
aversão de determinados pontí ices nunca poderiam vedar o nosso
acesso à obra de uma igura que lia escorreitamente os hieróglifos e
dominava perfeitamente o volofo, a sua língua materna. Trata-se de
domínios relativamente pouco conhecidos dos adversários do egip-
tólogo nativo, ao passo que os linguistas e os etnólogos que o censuram
carecem de competências em egiptologia, a disciplina em que o an-
tropólogo africano era mestre. C. A. Diop forjou um determinado
conjunto de instrumentos com o intuito de fundar o saber em torno
do passado e do futuro de África.
Nascido em 1923 no Reino de Cayor, mergulhado na fé em Deus, este
discípulo de Curie e Bachelard não pode deixar de maravilhar e sur-
preender. O erudito que concebeu o Laboratoire C 14, executado com
base nas suas orientações por técnicos e artesãos, foi mais do que o au-
tor de uma obra sobre ísica nuclear. Um apaixonado pela arqueologia

Introdução. À Juventude Africana 13


e pela pré-história, atribui suma importância aos estudos linguísticos
na sua vida e no seu pensamento. C. A. Diop pertence à história das
ciências na qual cada investigador lança um raio de luz sobre a busca
humana da verdade. Será possível compreender, actualmente, o impac-
to de C. A. Diop sem ter presente o esforço que o próprio envidou no
sentido da reorganização das ciências com base nas suas investigações
fundamentais? É necessário proceder a uma releitura de C. A. Diop e
apurar qual foi o seu contributo para a história das ciências. Talvez
assim seja possível conhecer melhor o caminho que traçou para as no-
vas gerações africanas e o debate suscitado pela sua obra no seio da
comunidade cientí ica.
Este pequeno livro pretende contribuir para essa investigação. Se é
verdade que o pensador insere-se no seu tempo, a igura-se di ícil com-
preender C. A. Diop sem considerar o peso dos principais acontecimentos
e con litos, das contradições e das lutas, das aspirações e dos grandes
desa ios que marcam os homens da sua geração. O presente livro abar-
ca uma série de re lexões organizadas em torno de África, o centro de
gravidade da sua obra e do seu pensamento. A vida deste pensador, um
apaixonado pela investigação e mestre em todas as disciplinas intelec-
tuais, foca-se neste tema fundamental. Ao centrar as suas atenções so-
bre este tema de estudo, o investigador indígena deparou-se com um
naipe de obstáculos.
Desde a Antiguidade, um folclore extramente rico, fomentado por
decalques da literatura de viagens, reproduziu incessantemente uma
imagem particular do africano na vida intelectual do Ocidente. Aquando
do Renascimento, a descoberta de outros mundos representa, também
para os europeus, uma descoberta de outros povos e de outras cul-
turas. A interrogação cientí ica que se enceta não dissipa verdadeira-
mente as miragens através das quais os descobridores das novas hu-
manidades projectam a sua imaginação e as suas fantasias, bem como
as suas reminiscências clássicas. Ao longo da história expansionista
europeia, a partir do período industrial, o inventário do fenómeno hu-
mano coloca os viajantes, os conquistadores, os exploradores, os mis-
sionários, os eruditos e os ilósofos perante o enigma do homem negro.
A obra de C. A. Diop inscreve-se no âmbito do choque de culturas e da
diferença no qual se desenvolveram, desde o Iluminismo, os estudos
e as investigações acerca das sociedades não-ocidentais. Os trabalhos
do investigador africano estendem-se por um vaso domínio inter-
disciplinar em que África se apresenta, a todo o momento e simulta-
neamente, como um dado, uma realidade e uma questão, um desa io
histórico e epistemológico. Em boa verdade, onde se situam estes ho-
mens que, desde o século XV, são confrontados a respeito do Ocidente?

14 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


No quadro da história, será que a abordagem cientí ica que tende
a cercar os povos para efeitos de garantia do domínio e da posse es-
capa às lendas, aos re lexos e aos estereótipos, aos vários mitos engen-
drados ao longo de séculos de escravatura e colonização? O encontro
com África insere-se na esfera do discurso sobre o outro cuja diferença
apresenta di iculdades. C. A. Diop retomará este discurso após gera-
ções de pensadores e eruditos que, sem nunca rejeitar o legado das
Luzes, a irmam a glória do homem branco, dedicando-lhe, qual oferen-
da, um mundo «sem história». A obra de C. A. Diop revela-se um extenso
debate sobre o problema de África na óptica do Ocidente.
Através dos vários prismas desta obra, o negro inscreve-se no
domínio onde o saber é partilhado. Apropria-se de ferramentas e
instrumentos tidos como e icazes para empreender uma re lexão so-
bre os discursos cientí icos e questionar certos mitos.
De molde a compreender as teorias do investigador que surgem
em plena crise do imperialismo colonial, importa voltar a esta rela-
ção do Ocidente com o outro na qual a perspectiva acerca dos povos
ditos primitivos não pode estar acima de qualquer suspeita. Munido
de informações exaustivas, de uma cultura vasta e de um pensamento
fulgurante, C. A. Diop faz face a «uma geração de potentados da ciên-
cia», abalando os pilares sobre os quais se fundam os domínios epis-
temológicos.
As páginas que se seguem constituem uma descrição deste con lito de
interpretações. Resumem o cerne das re lexões e das entrevistas cuja
recuperação considerei ser imprescindível para destacar a evolução
de um pensamento e das suas articulações principais. A referência às
questões que preocupam C. A. Diop implicam necessariamente um re-
traçar do «percurso do militante». Na realidade, trata-se de descobrir
o erudito e o político no decorrer dos anos em que o homem de cultura
é uma testemunha de uma época marcada por con litos que ditaram
a queda dos impérios. Importa situar a obra de C. A. Diop neste con-
texto global. Será necessário frisar os limites das re lexões que serão
apresentadas? Nunca conheci nem falei com C. A. Diop. Limitei-me a
lê-lo. O que me impressiona neste homem é a sua modéstia intelectual
e o entusiasmo da investigação. Em sociedades marcadas pela instabi-
lidade em que os jovens procuram uma referência, não contribuirá a
re lexão sobre a sua vida e obra para que as novas gerações assumam
uma posição profunda face aos valores fundamentais e façam as es-
colhas do futuro?

Introdução. À Juventude Africana 15


I.
A hora de Cheikh A. Diop
A re lexão global é invariavelmente incitada pelos grandes perío-
dos de crise, conforme se pode verificar ao longo da história do
pensamento antigo e moderno. O surgimento da obra de C. A. Diop
enquadra-se nos tormentos de uma época determinante, marcada pela
ruína dos mitos do poder colonial.

Um mundo fragmentado
Desde o Renascimento, o mundo não se cinge ao Ocidente apesar
de ser precisamente o Ocidente que domina o mundo. Um reajusta-
mento dos valores a igura-se necessário no momento em que os po-
vos – há muito mantidos à margem das responsabilidades mundiais
– almejam reconquistar a sua iniciativa histórica. Nunca atravessara a
Humanidade uma crise semelhante desde a queda do Império Roma-
no. Na sequência do choque de culturas provocado pelo alargamento
dos horizontes do Renascimento, os con litos religiosos que cindem
os cidadãos permanecem circunscritos a uma Europa dividida entre o
catolicismo barroco e a Reforma protestante. Em virtude destes acon-
tecimentos, os pensadores vêem-se forçados a rede inir o estatuto da
religião no seio do Estado. Face a fanatismos de natureza variegada,
urge substituir a tirania da insensatez pela hegemonia da razão através
de um novo ordenamento do espaço político.
A Europa das Luzes edi ica-se no contexto de uma crise de consciên-
cia. Tendo em vista o desenvolvimento de uma nova perspectiva sobre
a natureza, o homem, a sociedade e o Estado, a razão tem de se libertar
da tutela da religião enfrentando assim o repto da ciência que se con-
solida desde o processo de Galileu. Os acontecimentos que ocorrem
na sequência da Segunda Guerra Mundial revestem-se de uma maior
gravidade. Já no início do século, alguns pensadores anunciavam o
«declínio do Ocidente». Com a revolta dos homens cor, assiste-se a um
questionamento da autoridade dos Estados modernos alicerçada no
equilíbrio dos poderes, tal como fora propiciada pela Revolução de

I. A hora de Cheikh A. Diop 17


1789 que, sob a in luência dos « ilósofos», dita o im da sociedade feu-
dal. Após a con irmação da revolução industrial, a burguesia europeia
que procedeu à partilha de África por ocasião da conferência de Berlim
vêm ameaçadas as riquezas acumuladas desde o trá ico negreiro e das
conquistas coloniais. Diversos povos chegam à conclusão de que, até
então, o Ocidente lhe proporcionara bene ícios reduzidos, procurando
apenas satisfazer a sua vontade de poder. O que está em causa é tanto o
capital quanto o saber que serviram de base para a construção do poder
ocidental.
Cabe sublinhar a dimensão intelectual da crise das relações entre a
Europa e as suas colónias. Com efeito, o movimento graças ao qual os
africanos são incitados a abalar a tutela ocidental transcende o quadro
da literatura para abarcar a religião, a política, a economia, a antropo-
logia e a história. De molde a cingir-me a esta disciplina, basta recordar
que, antes das independências africanas, a história coloca-se, desde o
Renascimento, do lado de um poder político – o do Ocidente – que faz
a história. Escrever a história à luz da situação dos «condenados da
terra» exige uma espécie de «destronização», um acto ímpio relativa-
mente a um poder dei icado que se impusera à maioria dos povos exis-
tentes no planeta. Importa ultrapassar as icções, exorcizar o selvagem
para a montagem de um outro relato da realidade com base em factos
desconhecidos mas essenciais tendo em vista a construção de outra
razão no presente. A vida intelectual deste im de mundo procura
outro modelo de inteligibilidade que destaca a tarefa dos pensadores
negros empenhados em «desmaquilhar» o Ocidente, colocando-o no
seu devido lugar. Oriundas do que Sartre designava de «indigenato de
elite1» forjado pelos colonizadores, vozes que durante muito tempo
não se pronunciaram fogem à questão da origem da civilização e dos
modelos de referência. «A Europa (…) desregrada caminha para o pre-
cipício relativamente ao qual é melhor manter a distância» dirá Fanon.
Perde-se progressivamente a fé incutida pelos aparelhos da coloniza-
ção acerca da grandeza da Europa e do valor do seu humanismo. Como
pensar de modo diferente perante os massacres tenebrosos de que a
«força negra» é testemunha no antigo mundo em guerra? Já não é pos-
sível deixar-se embalar pela cadência dos catecismos dos administra-
dores, fundadores e missionários coloniais. Os olhos abrem-se perante
o confronto de realidades atrozes.
Muitos africanos sacri icar-se-ão por França. Porém, no âmago dos
con litos fatais que opõem os europeus, os povos colonizados apren-
dem a desmisti icar a «civilização» dos seus mestres. Os negros não
se limitam a retomar o gosto pela liberdade; também descobrem a

1. Ver F. Fanon, Les Damnés de la terre, Prefácio de J. P. Sartre, Maspero, 1961

18 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


verdadeira face dos brancos. De entre os povos sob tutela, um núcleo
de intelectuais considera que o curso normal da história não pode dar
continuidade às mitologias engendradas pelas nações europeias com o
intuito de justi icar a sua hegemonia. C. A. Diop insere-se nessa geração
de espíritos rebeldes que se recusam a acreditar no mito da Europa.
Inicia-se uma nova fase em que, a partir da conferência de Bandung,
será di ícil consagrar-se à vida da inteligência sem reconsiderar apro-
fundadamente todos os constituintes da crise que afecta a posição do
Ocidente no mundo e na história. Constatou-se que os períodos mar-
cados por transformações profundas, revoluções ou crises, suscitaram
uma agitação particularmente intensa que promove a re lexão. Após
a euforia decorrente da restituição da paz, o período inaugurado em
1945 está repleto de incertezas acerca da natureza e da extensão das
mutações que permitem antever as mudanças que se anunciam com
a crise do colonialismo. No Ocidente, por meio da evolução da vida
intelectual, uma investigação preocupada com o homem e a vida das
sociedades a reconstruir desenvolve-se entre os intelectuais divididos
entre o existencialismo e o marxismo. Não se reiterou su icientemente
o extraordinário movimento intelectual que, através de publicações
variegadas, jornais temporários, petições, conferências e artigos,
veiculam as formas do nacionalismo dos anos 50 cujo peso marcou a
memória de inúmeros povos africanos.
As novas instituições políticas ou sindicais através das quais se orga-
nizam novas reivindicações em torno de líderes muitas vezes popula-
res encontram a sua origem tanto num esforço de re lexão jurídica de
um alto nível quanto numa invenção da geogra ia e da história, numa
atenção conferida à economia, às línguas e às culturas dos territórios
colonizados. As relações internacionais são contempladas com base
numa nova apreciação do estado do mundo. Os primeiros romances
dos jovens escritores dados à estampa nesta época, por si só, não con-
seguem traduzir a amplitude das mutações operadas e das interroga-
ções surgidas através do que Emmanuel Mounier designava de «des-
pertar da África negra». A perspectiva das independências arruinaram
os impérios coloniais pressupõe, a título prévio, uma nova visão da
humanidade no seu todo. A partir desse momento, trata-se de subme-
ter ao tribunal da razão a totalidade dos discursos sobre o homem e a
história elaborados pelo Ocidente no quadro das suas relações com as
populações oprimidas. A obra de C. A. Diop representa o desaϔio da ciên-
cia com base na recuperação do sentido do destino humano atendendo
ao lugar dos negros na história da humanidade.
Importar, reaproveitar o ensejo para situar o egiptólogo senegalês e
compreender a pertinência das suas ideias fundamentais. No mundo

I. A hora de Cheikh A. Diop 19


con inado da Sorbonne, os trabalhos dos investigadores destinam-se
aos círculos de especialistas, sendo, na década seguinte, os seus
autores transformados em precursores ou em mestres, como sucedeu
nos casos de Bachelard, Lacan ou Lévi-Strauss. Nessas esferas, o com-
bate político assume-se como «o ópio dos intelectuais». Artes, literatu-
ras, iloso ias e ciências dividem os seus campos entre si, perseguindo
o erro do inimigo em todas as referências. No atinente aos intelectuais
d’além-mar, a sua re lexão incide sobre a situação que se iniciou com
a Indochina e irrompe com a Argélia, a qual exige o seu envolvimento.
Trata-se igualmente do que se anuncia nos Camarões com o UPC de
Um Nyomé. Outro acontecimento que incita à re lexão corresponde à
revolta madagascarense cuja repressão, logo após a Segunda Guerra,
fazem estremecer as consciências. C. A. Diop, cuja militância no
R. D. A. inicia-se ainda nos seus tempos de estudante, acompanha de
perto estes acontecimentos, meditando sobre eles. No momento em
que a luta pela independência constitui a vivência mais profunda dos
homens da sua geração, este intelectual considera que a emancipação
dos povos sob tutela não se cinge a questionamento de uma forma de
relação com o poder. Exige igualmente uma «desconstrução» do saber
imposto pela Europa com vista a consolidar a sua ascendência sobre as
sociedades não-europeias.

Os arti ícios da racionalidade europeia


Será necessário recordá-lo? Uma vez que o movimento se delineia
em 1580 com o capítulo dos Essais de Montaigne sobre os canibais,
a partir das descobertas e da ocupação colonial, estas sociedades
foram constantemente objecto de uma re lexão ilosó ica e política na
Europa. Através de um fenómeno de «desvio», o Ocidente expressa
as suas fantasias e procura ultrapassar as suas contradições no con-
tacto com outras culturas. A sistematização desta re lexão em termos
cientí ico tornar-se-á possível a partir do momento em que o estudo
das sociedades exóticas assume-se como ciência. Com efeito, já não
basta constatar que as referidas sociedades não são feitas à imagem
da sociedade europeia. É necessário que a sua heterogeneidade seja o
objecto do discurso cientí ico. Por conseguinte, abre-se um novo ter-
ritório a nível do saber que deve munir-se de métodos e formular con-
ceitos a im de apreender e confrontar o conjunto das sociedades que
se revelam diferentes.
No decurso do século XIX, a igura-se di ícil separar a abordagem
cientí ica da abordagem ideológica dos fenómenos que, a partir do

20 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


con lito com as humanidades exóticas, esbarram com a consciência
europeia. Desde o século XVIII, assistiu-se à de inição dos contornos
de uma re lexão sistemática sobre os não-europeus, facto relacionado
com a expansão europeia além das suas fronteiras. As informações
recolhidas na literatura de viagens serão recuperadas em moldes
literários, ilosó icos, históricos, políticos e antropológicos.
Por meio de um determinado conjunto de escolas, a delimitação de
domínios geográ icos e sociais será efectuada por disciplinas que pro-
cedem ao inventário dos fenómenos culturais de sociedades integra-
das nas esferas de in luência ocidental. Urgirá uma transição paulatina
da icção para a ciência no que se refere à abordagem das realidades
de povos longínquos. Ao longo de séculos, África foi continuamente
alvo de uma curiosidade pura. O período do exotismo e do exílio le-
vava a que os espíritos se interessassem por narrativas pitorescas do
«Journal des Voyages» ou testemunhos de missionários que viviam no
coração das lorestas inexploradas. O lugar ocupado pelo homem afri-
cano nessas publicações era praticamente equivalente ao das serpen-
tes venenosas e dos animais ferozes. Speke, o célebre descobridor dos
Grandes Lagos e das nascentes do Nilo, classi ica os homens desses
países na categoria da fauna, imediatamente antes dos hipopótamos e
dos elefantes. No entanto, quando se processa a transição da descoberta
para a colonização, os estudos sobre as populações locais começa
a adquirir um interesse prático. A administração das colónias tece
conjecturas a nível do conhecimento dos homens, da sua organização
política e social, dos seus costumes e da sua religião, da sua mentali-
dade e das suas línguas.
A «política nativa» estriba-se no estudo das populações nativas,
Nesse sentido, Faidherbe não se limita à criação de um «Gabinete
político» no Senegal, cujo objectivo era a consecução das investigações
e da penetração; apesar do seu trabalho na qualidade de governador
e chefe militar, o próprio envolve-se inclusivamente em diversos es-
tudos no âmbito das ciências humanas, alguns dos quais ultrapassam
largamente o quadro das preocupações imediatas, conforme ilustrado
pelos títulos: as populações negras do Senegal e do Alto Níger; vocabu-
lário ouolof, poular e soninké; investigações antropológicas sobre os
túmulos megalíticos de Pokina; ensaio sobre a língua poul; os Zenaga;
as línguas senegalesas, etc. Formado no Gabinete político do Senegal,
Gallieni ordenou aos seus subordinados que elaborassem monogra ias
minuciosas acerca da sua circunscrição. Segundo Gallieni, «A grande
força da acção política provém do conhecimento do país e dos seus
habitantes». Daí o lorescimento dos estudos etnológicos ao longo da
colonização. No Gana, Rattray dedica vinte anos da sua vida ao estudo

I. A hora de Cheikh A. Diop 21


das organizações políticas e sociais dos Ashanti. Delafosse, administra-
dor e governador, descreve as línguas da Costa do Mar im e do Sudão,
expõe a história dos grandes impérios do Níger e procura contribuir
para a compreensão da originalidade das sociedades africanas e da
alma negra. Se o desenvolvimento das colónias relegou para segundo
plano os estudos relativos às ciências humanas, determinadas personali-
dades importantes conseguem manter as exigências do saber no im-
pério colonial. Assim, Marcel Griaule inancia a célebre «Missão Dacar-
-Djibouti» que assinala o ponto de partida de investigações de natureza
mais aprofundada. Os progressos efectuados foram lentos.
Porém, com o intuito de estimular e promover os estudos e as in-
vestigações, assiste-se à implementação de instituições para o efeito.
Assim, em 1795, a African Association de Londres patrocina um jovem
escocês de 24 anos «formado em medicina e dotado de conhecimentos
em história natural» para levar a cabo uma viagem de prospecção no
interior de África. O relato de viagem deste jovem escocês de nome
Mungo Park permanecerá um legado etnográ ico inigualável, graças
ao qual a Inglaterra do XVIII poderá proporcionar uma maior clareza
a respeito de um continente confinado numa obscuridade total 2.
A Sociedade dos observadores do homem data de 1799. A célebre So-
ciedade de Etnologia de Londres, por seu turno, é fundada em 1839,
tendo posteriormente o seu homólogo parisiense. Similarmente, a So-
ciedade de Antropologia de Paris é criada em 1844. No período entre
as duas guerras, surge o Instituto de Etnologia – obra de Lévy-Bruhl
e Mauss – a par do famoso Museu do Homem fundado pelo Professor
Rivet, onde, durante vários anos, inúmeros etnólogos receberão for-
mação prática. Recorde-se ainda que a Sociedade francesa de africanis-
tas data de 1931, o ano da Exposição colonial.
Durante o mesmo período, veri ica-se, em função das necessidades
da A.O.F, o estabelecimento do Instituto francês da África negra em
Dacar onde trabalham investigadores em ciências humanas e o qual
dá à estampa uma pletora de publicações. A África Ocidental disporá
de um organismo de investigação antropológica. Após a guerra, o
Of ice de la Recherche Scienti ique Outre-mer (ORSTOM) cria insti-
tutos de investigação em Brazzaville, nos Camarões e no Togo, para
mencionar apenas a África negra. Estes diversos centros conduzem
diferentes estudos de terreno nos vários domínios da geogra ia, da
alimentação ou da demogra ia. Ademais, os serviços da estatística
e do trabalho no Ministério do Ultramar Francês efectuam alguns
inquéritos. Adicionalmente, o Conselho superior de investigações

2. Sobre esta questão, ler P. D. Curtin, The Image of Africa: British Ideas and Action, 1780-1850,
Londres 1965.

22 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


sociológicas do ultramar será incumbido de coordenar os esforços e
de gerar boa vontade nos territórios tropicais.
Os britânicos criam na África Oriental, na Rodésia e na Nigéria, institu-
tos de ciências humanas cujas capacidades são aproveitadas ao máxi-
mo pelos governadores. O mesmo sucede com os belgas que de modo
algum con iam o conhecimento dos nativos aos missionários para
efeitos de evangelização, tal como testemunhada em La Philosophie
Bantoue de P. Tempels.
A partir destes centros de estudos e de investigação, forma-se um
conjunto de conhecimentos sobre África em diversos domínios do sa-
ber. Este movimento esboça-se desde a expedição ao Egipto em que
Bonaparte, acompanhado por 40 cientistas, enceta um trabalho de ex-
ploração cujo objectivo derradeiro era o país dos negros, além do Nilo.
Este objectivo começa a concretizar-se plenamente a partir dos trabalhos
de Griaule e dos seus discípulos. Volney inaugurara assim uma era
de investigação que loresce num momento em que, após a Segunda
Guerra Mundial, o desenvolvimento das ciências humanas se a igura
um facto manifesto.

O im de uma visão
C. A. Diop insere-se neste vasto movimento em que ideias novas,
temas e abordagens diferentes a nível do pensamento e da investiga-
ção ditam o surgimento de um discurso sobre o homem que tende a
fragmentar-se em especialidades cada vez mais numerosas, originan-
do a necessidade de uma perspectivação unitária da diversidade dos
campos de explorações e de análise. No início de um estudo fundamen-
tal3, o investigador africano reconhece o quanto deve aos seus mestres,
de entre os quais se refere em primeiro lugar a Gaston Bachelard que
contribuíra para a «formação do [seu] espírito cientí ico». Evoca igual-
mente a memória de Griaule cuja obra foi marcante para uma geração
de antropólogos. Por im, C. A. Diop expressa a sua «gratidão de estu-
dante» aos seus professores André Aymard e Leroi-Gourhan. O último
não só foi um pré-historiador como também um etnólogo que leccio-
nou primeiramente em Lyon e depois em Paris, numa altura em que
C. A. Diop empreende os seus trabalhos sobre o Antigo Egipto. Talvez
o estudante tenha aprendido com o seu mestre – que restitui o homem
à sua vida material através da etnologia pré-histórica – este sentido do
concreto e esta preocupação em relacionar vestígios que, caso fossem
considerados isoladamente, não se revestiam de nenhum interesse.

3. Cf. L’Afrique noire précoloniale, Présence Africaine, Paris, 1960, p. 1.

I. A hora de Cheikh A. Diop 23


Para o autor de Le Geste et la Parole e professor de antropologia ísica,
etnologia e pré-história, tudo adquire signi icância no solo posto a nu.
Por conseguinte, a tarefa do cientista consiste em procura o homem no
testemunho mais humilde da sua história enterrada.
Estas referências delimitam o universo mental de C. A. Diop, realçando
as continuidades e as rupturas a partir das quais se con irma a origi-
nalidade da sua obra e do seu pensamento.
O egiptólogo africano não descura o facto de outros cientistas se
terem debruçado sobre os temas que o interessam. Não restam dúvi-
das de que os investigadores estrangeiros nem sempre reconheceram
o valor das suas teses. Porventura não lhes restava outra alternativa
atendendo ao facto de que a formulação dessas teses se inseria num
contexto de luta anticolonial na qual «se dava naturalmente largas às
emoções». Ademais, «havia quem suspeitasse de uma atitude parcial,
a qual consideravam todavia compreensível, destinada a incentivar os
povos privados culturalmente durante a fase de luta pela independên-
cia». Importa ainda reconhecer que, inicialmente, os congéneres do
investigador nativo não atribuíam muito crédito às suas teorias. Para
o autor de Nations nègres et culture, esse facto nada tinha de surpreen-
dente:

«A formação intelectual dos africanos que estavam a dar os seus primeiros passos
era, regra geral, demasiado inconsciente para que pudessem desenvolver um parecer
pessoal sobre a tese defendida, sem a necessidade de se basearem, previamente, na
opinião de uma autoridade sacrossanta4.»

Nesta solidão que assombra os criadores e os pioneiros, C. A. Diop


envidará esforços de forma obstinada no sentido de fazer ouvir a única
voz da razão colocando a questão que o anima no âmbito da objectivi-
dade.
O desa io a igura-se considerável num momento de viragem da
história da cultura em que a verdade sobre as realidades africanas
já não pode provir do exterior, dos países dos colonizadores onde os
nativos bene iciariam dos seus mentores. Aquando do surgimento do
africanismo como um assunto que diz respeito unicamente à África
negra, ao invés da globalidade do continente africano, C. A. Diop al-
tera as cartas do jogo cientí ico ao colocar a tónica dos seus trabalhos
sobre o Egipto, essa zona do continente normalmente negligenciada
pelos investigadores em busca de uma tribo ainda totalmente intoca-
da pelo homem branco e que, por conseguinte, permanece isenta de
qualquer forma de «contaminação». Em plena colonização, o egiptólogo

4. Nations nègres et culture, t. 1, Présence Africaine, 1979, p. 24.

24 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


senegalês anuncia uma época determinante em que os africanos já não
podem limitar-se à a irmação do seu direito e do seu dever de descolo-
nizar o seu universo cultural; na realidade, impõe-se, entre os negros,
a necessidade de assumirem o controlo da investigação cientí ica e da
elaboração da história sobre o seu próprio continente. Este problema
será levantado em 1961 aquando da realização do congresso dos afri-
canistas em Acra, no qual a ausência quase absoluta da África do Norte
é merecedora de destaque.
Desde 1954, C. A. Diop insiste em sublinhar a importância de um movi-
mento cientíϔico a partir de terras africanas. Por esse motivo, pretende
assumir a sua vocação de homem de ciência no seio de uma geração de
escritores, romancistas, músicos e poetas. Resulta claro que o próprio
não almeja de modo algum criar um fosso entre a ciência, as letras
e as artes que constituem formas de expressão de uma cultura. Con-
forme demonstram as diversas resoluções redigidas pelas comissões
dos Congressos de Escritores e Artistas Negros de Paris e Roma, histo-
riadores e ilósofos, teólogos e sociólogos africanos encontram-se en-
volvidos, cada um no seu domínio respectivo, num combate com os
homens de letras e os artistas. Numa altura em que os poetas, reunidos
em torno de duas revistas, Légitime défense e L’étudiant noir, exaltam a
beleza da África redescoberta e dos sofrimentos da raça oprimida, C. A.
Diop presta homenagem «à coragem, à lucidez e à honestidade do ge-
nial poeta Aimé Césaire e, após ter lido, numa só noite, toda a primeira
parte da obra, o próprio percorreu a Paris progressista da época em
busca de especialistas que estivessem dispostos a defender, a seu lado,
o novo livro, mas em vão! À sua volta, nada mais do que o vazio5».
Contudo, a homenagem prestada ao poeta que reivindica as suas
«danças de negro ruim» não impede o homem de ciência de se de-
marcar do movimento que tem um dos seus principais precursores na
igura de Césaire. A im de evitar equívocos e situar o debate no âmbi-
to da ciência, cujo acesso depende exclusivamente de «uma formação
técnica», C. A. Diop recorda o seu projecto cientí ico:

«Não se trata de uma teoria da negritude. O nosso intento consiste em esclarecer um


aspecto especí ico da história humana, em de inir um facto singular dessa história,
em libertá-lo do amontoado de a irmações falsas sob o qual se encontra submerso6.»

Eis o sentido de uma obra cujo desa io cientí ico se revela em cada
etapa da investigação, em que C. A. Diop se vê confrontado com pre-
conceitos acumulados ao longo de uma história que se assemelha a um

5. Idem, p. 5.
6. Antériorité des civilisations nègres: Mythe ou Vérité historique, Présence Africaine, 1967, p. 9.

I. A hora de Cheikh A. Diop 25


longo passado de erros. A im de apurar os seus contornos, o erudito
não hesita em remontar à Antiguidade. Com efeito, se a percepção do
negro descrita por Heródoto, Aristóteles ou Estrabão não se a igura
de todo pejorativa, tal como comprovado pela iconogra ia grega cujos
temas são recuperados na época renascentista7, na óptica de muitos,
África não se resume a um continente povoado por homens de rosto
queimado que se situam «no outro lado do mundo» e em relação aos
quais se envidam esforços vãos para torná-los brancos; trata-se ainda
de uma terra de lendas oriundas da poesia de Homero na Ilíada e na
Odisseia cujas narrativas estruturam o imaginário colectivo. Adicional-
mente, constitui uma terra de terror onde Plínio descobre um reser-
vatório de espécimes deste bestiário fantástico subsequentemente
reproduzido pela Idade Média, o qual alimentará de forma continuada
as ilusões dos ocidentais. Logo, descartar-se-á todas as observações
da ciência antiga sobre os negros, a im de considerar os monstros e as
curiosidades exóticas conjecturadas pela mitologia a respeito do afri-
cano. Numa altura em que Roma ainda detém a sua hegemonia sobre o
mundo, os negros deixam de ser esses homens «escolhidos em função
da beleza, da força e da estatura» de que fala Aristóteles. Sucumbem
à banalidade de um tema exótico em que a sua anatomia pertence a
categorias do grosseiro e do ridículo. Instado a de inir a identidade
cultural, C. A. Diop descobre em Galeno «a génese da imagística do ne-
gro na literatura ocidental».
Com efeito, o médico grego resume «os traços característicos do
negro em dois que lhe parecem fundamentais:
1. Comprimento desmesurado do órgão genital;
2. Hilaridade, forte propensão para o riso.

O negro é um ser hilário dotado de um órgão genital desmesurada-


mente comprido (…). Estas identi icações caricaturais do negro com
base em determinados traços psicológicos relativamente mal identi i-
cados serão prosseguidas até aos nossos dias por autores que carecem
de de inições, aceitando as teorias do Conde de Gobineau, antecessor
ideológico do nazismo. Na sua óptica, toda a arte resulta da aliança
entre a sensibilidade vegetativa do negro (qualidade inferior) e uma
racionalidade apolínea branca (qualidade superior). Na África negra,
«o surgimento do génio artístico (…) é posterior à aliança entre bran-
cos e negros». Se estas tolices «cientí icas» são dignas de nota, isso
deve-se ao facto de terem desempenhado um papel na determinação
da identidade dos africanos. «O clima intelectual e psicológico forjado
por todos os escritos deste cariz condicionaram de forma signi icativa

7. Ver R. Bezombes, L’exotisme dans l’art et la pensée, Elsevier, Paris, 1953.

26 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


as primeiras de inições que os pensadores negro-africanos tentaram
apresentar a respeito da sua cultura no período entre as duas guerras
mundiais8».
O historiador situa neste ponto o «lugar ideológico» dos escritores
da negritude que se ocupam dos estudos dos etnólogos e se interes-
sam por Frobénius ou Delafosse proporcionando aos jovens estu-
dantes negros aprendizagens que não constam do programa. Também
se alimentam das iloso ias segundo as quais África se apresenta como
a terra original da emotividade, à margem de qualquer forma de ra-
cionalidade verdadeira. Na altura, «os poetas da negritude» não dis-
punham dos meios cientí icos para refutar ou questionar este tipo de
falácias. A verdade cientí ica tornara-se, desde há muito, branca pelo
que todas estas a irmações – reforçadas pelos escritos de Lévy-Bruhl
– assentes em cores cientí icas deviam ser aceites enquanto tais pelos
nossos povos submissos. Por conseguinte, a «negritude» aceita esta
pretensa inferioridade assumindo-a corajosamente perante o mundo.
Césaire exclama: «Aqueles que não exploraram os mares nem o céu», e
Senghor: «A emoção é negra ao passo que a razão é helénica9».
Graças a uma releitura dos historiadores, cientistas e pensadores da
Antiguidade que coloca a tónica no papel de África na iniciação civili-
zacional do mundo mediterrânico, C. A. Diop estabelece efectivamente
as pretensões dos intelectuais negros do período entre as duas guer-
ras mundiais. A sua principal preocupação reside em propor a esta
geração de «literatos» uma «abordagem cientí ica rigorosa10» à qual,
doravante, será necessário submeter as realidades do mundo negro.
Não se trata apenas de proceder a uma espécie de «indigenação» da
verdade cientí ica mas de alcançar uma verdadeira emancipação da
razão que, na África negra, deve ousar tecer julgamentos por si própria
– tal como apregoara Kant na época das Luzes – libertando-se de todas
as formas de tutela a ϔim de sair de um estado de minoria intelectual.
No seio de uma geração de poetas e escritores que não hesitam em
subscrever, de forma irre lectida, a irmações desprovidas de qualquer
fundamentação, C. A. Diop representa um grupo «de homens capazes
de julgarem por si próprios as questões que lhe são especí icas, sem a
intervenção intelectual de outrem».
Nestes longos caminhos de liberdade cujos obstáculos são con-
sideráveis, o homem de ciência «dá-se ao trabalho de criticar esta
constelação de erros» reproduzidos de geração em geração por meio
de uma tradição intelectual cuja principal testemunha é Hegel, se

8. Civilisation ou Barbarie? 1981, p. 277.


9. Idem, p. 279.
10. Ibid, p. 279.

I. A hora de Cheikh A. Diop 27


atendermos à totalidade dos textos do ilósofo que versam sobre o
mundo negro11. C. A. Diop tem constantemente à sua frente uma espé-
cie de globo intelectual pertencente a um herança cultural e ideológi-
ca. Este espaço conta com uma igura como Marx que, todavia, recorre
à arma da crítica com o intuito de expor os mecanismos e os aparelhos
de funcionamento da sociedade implementada pela ascensão do capi-
talismo.
Como encarar seriamente as sociedades em que o trabalho não consti-
tui uma mercadoria que se vende e se adquire? Que tipo de análise
deve ser desenvolvida no quadro de um campo social em que a luta
de classes não corresponde à força motriz da história? Em última
instância, como articular as relações entre a natureza e a cultura fora
de uma sociedade mercantil? É verdade que o marxismo, com Engles,
na obra Les origines de la famille, de la propriété privée et de l’État,
inspirando-se na etnologia elementar do americano Morgan, procura
lançar os fundamentos de uma antropologia susceptível de promover
os estudos sobre a parentela no contexto africano. Porém, à luz dos
enunciados que instituem o campo da economia de mercado – realização
histórica da divisão do trabalho social cujo modo de produção capi-
talista representa uma das efectuações impostas historicamente –, as
sociedades africanas correm o risco de serem encaradas como os an-
tecessores naturais das sociedades ocidentais, segundo o modelo do
evolucionismo que percorre o pensamento do século XX. Marx não es-
capa ao etnocentrismo que avalia as sociedades não-ocidentais segun-
do as normas europeias. Se o autor de Capital manifesta interesse em
relação à Índia, acaba por descurar as «sociedades primitivas» para
poder centrar as suas atenções nas questões mais prementes suscita-
das pelas sociedades dinâmicas que enfrentam o drama da civilização
e da história com base no trabalho alienado.
No Ocidente, muito di icilmente os homens de re lexão rompem com
as representações elaboradas pelas mentalidades populares acerca
dos africanos. A imagem do negro no dicionário universal francês e
latino, vulgarmente designado de Dictionnaire de Trévoux (1771), é
ilustrativo disso mesmo. Em pleno século das Luzes, esta imagem, re-
tomando uma passagem da Bíblia, considera os africanos descenden-
tes de Cam, que imigrara para o continente «desde tempos imemori-
ais». Desde a maldição de Cam até ao «bom selvagem»12, o tema está
constantemente presente na história intelectual do Ocidente. Frisa um
modo de relação em que o olhar sobre o outro tende a ser um espelho

11. Ver Hegel, La raison dans l’histoire, 10/18, pp. 245-249.


12. Ler W. B. Cohen, Français et Africains. Les noirs dans le regard des Blancs 1530-1880, Galli-
mard, Paris, 1980.

28 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


de si próprio para desmascarar esta violência que se a igura intrínseca
ao Ocidente na sua relação com África desde o trá ico de escravos e a
colonização, os quais devem efectivamente ser justi icados em termos
cientí icos. O olhar do outro não é inocente.
No século do Iluminismo, não será a antropologia em formação fruto
do imperialismo13? Na época colonial, a etnologia inscreve-se numa
estrutura ideológica, política, económica ou militar imposta pelo Oci-
dente. Ao fechar os olhos a esta estrutura que a torna possível, a etno-
logia decorre da ideologia colonial e do conjunto de uma con iguração
que condiciona o seu próprio desenvolvimento. O que está em causa
é o papel e o valor do conhecimento na medida em que os discursos
que se pretendem cientí icos estão integrados num ideologia a partir
da qual esses discursos representam, para os ocidentais, a sua forma
de con irmar a sua supremacia sobre o resto da humanidade. Nin-
guém negligencia a função de legitimação desempenhada pela teoria
da mentalidade primitiva14.
Perante esta conjuntura, C. A. Diop considera que o problema não
reside simplesmente em re lectir sobre a diferença segundo os mol-
des propostos pelas ciências sociais desde Rousseau15. Urge colocar
termo a uma perspectiva em que o discurso sobre o Outro impôs-se
constantemente como o discurso do mestre, ao longo de uma geração
de ilósofos e de eruditos. Este discurso deve ser alvo de «suspeita»
uma vez que dissimula uma vontade de dominação anexando o saber
a um projecto hegemónico. É a própria verdade que é posta em causa
nesta confrontação radical. A tarefa de C. A. Diop consiste em iluminar
a noite negra dos povos africanos.

13. Sobre esta questão, cf. G. Leclerc, Anthropologie et Colonialisme, A. Fayard, Paris, 1972; ler
também M. Duchet, Le partage des savoirs, La Découverte, 1985; sob a direcção de J. Copans,
Anthropologie et Impérialisme, Maspero, 1975.
14. Ver J. Bonjou, Une image ethnologique. La mentalité primitive, IUD, 1982.
15. C. Lévi-Strauss, «J.-J. Rousseau fondateur des sciences de l’homme», em J.-J. Rousseau, Neucha-
tel, éd. de la Baconnière 1962; ler também os textos reunidos e apresentados por J.-L. Amselle, Le
Sauvage à la mode, Le Sycomore, 1979.

I. A hora de Cheikh A. Diop 29


II.
Um único tema: África
Salvo o seu tratado de Physique nucléaire et chronologie absolue, os
restantes títulos das obras do cientista senegalês versam sobre um
único tema: África. Tudo se processa como se o investigador tivesse
descoberto um mundo privado do negro no sentido em que a sua con-
cepção deve ser alheia aos discursos quase etnocidas mesclados com
um paternalismo impenitente. Pretende-se apontar as directrizes
fundamentais e os temas basilares passíveis de serem identi icados
numa obra abundante e cuja diversidade de abordagens e dimensões
traduz a preocupação de alguém que, qual Prometeu, rouba o fogo do
Olimpo dos deuses.

Um único tema, diversas perspectivas


Num certo sentido, C. A. Diop assume-se como um trabalhador
intelectual que fala de África ao mundo cientí ico. As suas publica-
ções deixam transparecer um gosto pela curiosidade apenas saciável
através de novas investigações. Cada obra recupera e aprofunda um
dado tema com múltiplas variações. Trata-se de um escritor que nun-
ca abordou um tema banal. Distanciou-se deliberadamente de dis-
cussões ocas e debates estéreis que não oferecem nenhum contributo
para a causa dos povos negros. Deu o melhor de si e investiu todas
as suas forças ísicas, morais e intelectuais para elevar o destino de
um continente a um nível superior. C. A. Diop é a consciência cientíϔica
e histórica de África. Esta dimensão confere unidade e coerência ao
conjunto da sua vida e da obra. No íntimo do seu laboratório e na sin-
gularidade da sua experiência na qualidade de homem e de cientista,
envolve a vida e o futuro de milhões de africanos. C. A. Diop lega um
verdadeiro conjunto de conhecimentos que foram fruto de uma mul-
tiplicidade de perspectivas acerca de um único tema: a África negra.
Quer se trate da origem da humanidade e do «parentesco genético do
egípcio faraónico e das línguas negro-africanas», dos modos de orga-
nização social ou das estruturas de autoridade da África pré-colonial,

II. Um único tema: África 31


da unidade cultural ou dos «alicerces de um futuro Estado federal da
África negra», a globalidade da investigação de C. A. Diop apresenta
um único tema transversal. Este homem de ciência evidenciava uma
paixão visceral por África e pela sua história.
Encarrega-se da situação e das problemáticas para satisfazer a sua
obsessão. Durante 30 anos sensivelmente, C. A. Diop viveu com a hu-
manidade do africano na qualidade de objecto do discurso cientí ico.
Tal como o próprio confessara poucas semanas antes da sua morte:
«Dediquei a totalidade da minha vida à redinamização da cultura nos
mais diversos domínios, desde a história às línguas, tanto em nome
do passado quanto em nome do presente e do futuro1.» Este intelec-
tual exerce a investigação interdisciplinar com uma pro iciência ex-
cepcional. Uma pluralidade de discursos sobre um domínio vasto do
saber emana de um tema único, sendo que C. A. Diop desempenha as
funções de historiador, sociólogo, antropólogo e linguista.
Na realidade, o egiptólogo senegalês não é o primeiro negro a in-
tervir no extenso campo das investigações. África contou uma família
de enciclopédicos. Desde a Idade Média, os negros de África assimi-
laram a cultural islâmica produzindo uma literatura em nada inferior
à do Oriente muçulmano. No século XVI, o Ahmed Baba, natural de
Tombuctu, impressionou os eruditos do Magrebe com a densidade do
seu pensamento e a imensidão da sua cultura. No atinente ao século
XVIII, importa evocar a igura de Amo, o ilósofo achanti da Alemanha
a quem Nkrumah dedica uma breve nota na sua obra Consciencisme.
Oriundo de África, era versado em astronomia e falava hebreu, grego
e latim escorreitamente, além das línguas neerlandesa, francesa e
alemã. A universidade de Wittenberg prestar-lhe-á uma homenagem
pública. Com efeito, aos olhos dos seus contemporâneos, tratava-se de
um cientista negro que «tendo debatido os sistemas dos antigos e dos
modernos, escolheu e ensinou aquilo que ambos tinham de melhor».
Por conseguinte, Amo revela, na época da Enciclopédia, a quota-parte
não negligenciável de um negro no vasto movimento das ideias do
Iluminismo.
Conforme assinalado por Paulin Houtoundji, apenas o ilósofo
achanti manteve o seu apoio ao debate europeu do qual o seu próprio
povo esteve ausente2. Essencialmente escrita em latim, a sua obra não
visou a sua sociedade de origem na qual se revelou incapaz de de-
senvolver uma verdadeira tradição teórica. Na qualidade de ilósofo,
Amo permanece tão isolado quanto o africano Edward W. Blyden, o
vigoroso pensador das relações entre o cristianismo, o islamismo e a

1. Ver Cameroun Tribune, 12 de Fevereiro de 1986.


2. P. J. Hountondji, Sur la «philosophie africaine», Maspero, 1977, p. 139 e ss.

32 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


raça negra. Quem encarou com seriedade a voz deste ilosó ico soli-
tário que, em 1888, já destacava a energia dos muçulmanos «negros»
e o seu potencial inovador num contexto mental em que os mentores
do Ocidente conferiam uma importância sociológica reduzida
ao islamismo no sul do Sahara3? C. A. Diop pertence incontestavel-
mente a essa linhagem de pensadores e cientistas negros que traçam
a história africana.
A sua investigação prende-se com um motivo claro: restaurar as
nações negras e as suas culturas. O abade Grégoire assumira essa
mesma tarefa no século XIX ao proceder a um levantamento «da vida
e das obras de negros que se destacaram nas ciências, nas letras e nas
artes». Contudo, para C. A. Diop, não se tratava da elaboração de um
catálogo de negros ilustres no sentido de exaltar a existência das «suas
faculdades intelectuais, das suas qualidades morais e da sua literatura».
Doravante, a questão que representa um desa io cientí ico de vulto
apresenta um carácter mais profundo e global: trata-se de adoptar
uma perspectiva diferente sobre o mundo da ciência e da cultura. Em
caso extremo, a tarefa que se impõe desde o advento da África negra
consiste na rescrita da história da humanidade, tarefa essa que deve
ser assumida a ϔim de destacar a participação dos negros na aventura
da razão que é ϔilha do tempo e da história. É esse o propósito funda-
mental da vida e da obra de C. A. Diop.
O problema da história africana será objecto de um estudo poste-
rior. Importa inseri-lo no conjunto das questões que ocupam um lugar
central na obra de C. A. Diop. Desde logo, é possível aludir à dimensão
antropológica da história que, actualmente, se a igura óbvia. É pre-
cisamente no «território do historiador» que África se apresentou
durante muito tempo como uma população à margem da ciência da
cultura. Urge cercar esse território tendo em vista a recuperação do
futuro de um continente ao longo do espaço e do tempo. A preocupa-
ção da unidade africana não se veicula exclusivamente por tomadas de
posição no plano político. Este pensamento é subjacente à, e sustenta
a, obra histórica, sociológica, linguística e etnográ ica de C. A. Diop,
sendo possível identi icá-lo nos vários temas da sua investigação:
origem comum egípcia dos povos negros, unidade sociocultural de
uma sociedade matriarcal, história dos grandes impérios sudaneses.
A partir dessas problemáticas, C. A. Diop con lui naturalmente para
questões de ordem política. Este homem de ciência não está fechado
no seu laboratório e recusa manter-se à parte. C. A. Diop é o intelectual
africano cujas «mãos estão sujas».

3. Cf. «La question islamique en Afrique Noire», Politique africaine, n.º 4, 1981.

II. Um único tema: África 33


Ao longo da sua vida, participou na luta do homem pelo homem. Por
esse motivo, entre desilusões e desencantos decorrentes dos perío-
dos que se seguiram à independência, continua a labutar em prol do
futuro do «continente negro». C. A. Diop debruçou-se sobre o passado
porque a sua preocupação fundamental residia no futuro do homem
africano. Na sua óptica, o futuro do africano deve trazer o selo da uni-
dade. Deve ser precisamente essa a base do federalismo, isto é, a uto-
pia proposta por C. A. Diop às sociedades africanas que pretendem
libertar-se das estruturas de uma África bloqueada.
A «cultura negra» constitui também o campo privilegiado do
problema da história na estratégia científica de C. A. Diop. Numa
altura em que o binómio tradição/modernidade rege as investigações
africanas, o eixo cultura/história rege a abordagem do investigador
africano. A origem negra da humanidade e da civilização continua a
ser o centro de gravidade do seu empreendimento cientí ico. Para o
autor de Nations nègres et culture, trata-se de retornar ao tema da
cultura com vista à compreensão dos dinamismos históricos em que
os negros desempenharam um papel primordial. Em última análise,
trata-se de demonstrar a importância histórica das sociedades afri-
canas. Conforme devidamente salientado por J. Fonkoué, «os trabalhos
de Diop constituem um projecto de grande envergadura que visa
a reconstituição e a restituição, tanto da cultura quanto da história
africana4». Ao contemplar o passado, o investigador encontra o seu
caminho recorrendo a um repertório de factos culturais que lhe per-
mitem reconhecer-se nas características do Antigo Egipto. A verdade
histórica vem ao de cima nesta identi icação ou nesta «Anterioridade
das civilizações negras» no Antigo Egipto. A tese da «origem negra
do Antigo Egipto» funda todas as possibilidades da história de África.
Trata-se de uma história que se escreve no âmbito da dinâmica de
uma cultura em que se constata o papel «civilizacional» das «Nações
negras» nos mundos envolventes. Urge reconsiderar os «preconcei-
tos» e os juízos tecidos a priori por historiadores e antropólogos que
reproduzem a lenda dos povos sem história, ao dispensarem o inven-
tário da cultura material, da escrita e da língua, da arte ou das instituições
sociais, políticas e religiosas. Logo, a recusa de toda e qualquer abor-
dagem estática às sociedades africanas a igura-se imprescindível.
Em Nations nègres et culture, C. A. Diop introduz uma escrita dife-
rente da história. Através da demonstração de que os habitantes do
Egipto faraónico eram negros, expõe obrigatoriamente a verdade
sobre aquilo que a humanidade deve à raça negra no domínio da civi-
lização. Segundo C. A. Diop, o objectivo de uma história escrita pelos

4. J. Fonkoué, Différence et identité. Les sociologues africains face à la sociologie, Silex, 1985, p. 31.

34 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


africanos é claro: «o negro deve ser capaz de recuperar a continui-
dade do seu passado histórico nacional, extraindo dele o bene ício
moral necessário à reconquista do seu lugar no mundo civilizado5.»
Nesta busca das origens sobre a qual se centra a vida de C. A. Diop,
trata-se, em última instancia, de devolver ao africano a sua história
que lhe fora con iscada pelos seus mestres europeus. Nesta linha de
investigação, a linguística assume-se como um dos terrenos de com-
bate do investigador africano. Após apresentar «os diferentes factos
que atestam a origem negra da raça egípcia», C. A. Diop dedica-se
longamente ao parentesco do egípcio e das línguas negro-africanas
e destrói o mito da inferioridade intelectual dos negros recorrendo à
aptidão das línguas nativas para traduzir os mais abstractos dos con-
ceitos. Graças à tradução da teoria da relatividade em volofo, C. A. Diop
critica as teses geralmente aceites de acordo com as quais as línguas
africanas são línguas ditas «de classes6».Um dos problemas que, ao
longo da sua vida, se revestirá de maior interesse prende-se com a
utilização das línguas africanas cuja alegada pobreza é desprovida de
qualquer fundamentação cientí ica.
Uma das preocupações principais de C. A. Diop consiste em pro-
porcionar uma intelecção mais aprofundada do mundo africano. Se o
próprio aplica os métodos das ciências exactas ao estudo do passado
negro, procede também a um estudo minucioso das estruturas da
África negra pré-colonial. Ao debruçar-se sobre a história dos grandes
reinos sudaneses da Idade Média, interroga-se acerca das razões sub-
jacentes à estagnação de povos cujo contributo para o pensamento
humano revela-se inquestionável. Com efeito, na perspectiva de C. A.
Diop, a punção demográ ica resultante do trá ico de escravos não bas-
ta para justi icar o atraso africano no domínio técnico. Uma análise
crítica das estruturas sociais da África negra pré-colonial revela que,
antes da conquista europeia, África não registou qualquer evolução
dada a ausência de transformações a nível social.
O que não signi ica de modo algum que a sociedade africana tradi-
cional seja uma sociedade harmoniosa e livre de problemas. C. A. Diop
reconhece a existência de classes nesta sociedade. Em Nations nègres
et culture, tece a seguinte observação:

«A sociedade africana é uma sociedade estrati icada em castas; estas resultam de


uma divisão do trabalho que remonta à época pré-colonial e, em seguida, de uma
fragmentação política; neste período, a função militar era aquela que acarretava
maiores ricos e garantia a segurança colectiva. Ademais, os guerreiros tornaram-se

5. Nations nègres et culture.


6. Op. cit., p. 231 ss.

II. Um único tema: África 35


rapidamente uma classe social de nobres que detinham o poder e a autoridade,
sendo ainda alvo de estima. As restantes formas de trabalho a igurava-se-lhes
desonrosas: só os homens de casta, ou seja, aqueles que exerciam os diversos o í-
cios da época [sapataria, ourivesaria, metalurgia (forja), tecelagem, etc.] podiam
e deviam trabalhar. A casta corresponde precisamente a uma pro issão, a par das
vantagens e dos inconvenientes inerentes ao seu exercício7.»

Os con litos revelam-se inevitáveis num sistema desta natureza.


Porém, atendendo à originalidade das estruturas sociais, a ruptura
do equilíbrio social continua a ser di ícil. Ninguém pretendia encetar
uma revolução porque ninguém pretendia mudar de condição, e não
pelo facto de existirem condições diferentes. A «estrutura económica
desta sociedade pré-industrial não o permitia», apenas isso. Mais do
que a inexistência de classes sociais, «o sistema de castas parece, por-
tanto, explicar a imobilidade aparente das sociedades negras desde o
início dos tempos8».
Com efeito, «a estabilidade interna do sistema de castas devia-se
essencialmente ao perfeito equilíbrio entre as vantagens e os incon-
venientes inerentes à pertença a uma determinada casta». Se o pro-
gresso é sinónimo de revolução – isto segundo a convicção do histori-
ador senegalês –, as revoluções não assolaram África pois as diferentes
camadas sociais gozavam de um destino suportável, incluindo os mais
desfavorecidos como os escravos. Cheikh Anta Diop assinala que, na
África pré-colonial, todas as castas estavam associadas ao poder, in-
clusivamente a dos escravos.
Por conseguinte, África não registou o mesmo sistema de classes
que, noutros locais, está na origem das transformações sociais. Nessa
perspectiva, a análise das estruturas político-sociais permitem uma
avaliação dos factores de estabilidade na sociedade africana, o que
também explica os atrasos técnicos a partir de causas fundamentais
e objectivas. A questão é de suma importância. Na qualidade de his-
toriador, C. A. Diop não pode aceitar a teste da emotividade do ne-
gro. Tal como se constatará mais adiante, tudo leva a crer que a razão
é negra, isto no caso de se proceder a uma releitura da história da
humanidade. Porém, importa igualmente reconhecer a existência de
uma espécie de descontinuidade na história africana. É exactamente
esta situação que deve ser clari icada. Para tal, não é necessário reme-
ter para uma essência negra incapacitada para a técnica ou a ciên-
cia. Segundo C. A. Diop, não é certo que os negros sejam «aqueles
que nada inventaram». Não obstante as suas origens gloriosas, o seu

7. Op. cit., t. II, p. 543.


8. Op. cit., p. 554, L’Afrique Noire précoloniale, pp. 9-12.

36 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


atraso técnico revela-se inquietante. Por conseguinte, estamos a uma
larga distância de qualquer narcisismo e culto da diferença.
Na realidade – e recorrendo às palavras de C. A. Diop –, «já não
existem motivos para embaraços» quando se constata que África e
a Europa seguiram uma evolução diferente na medida em que são
estruturadas de forma diferente. A estagnação ou, se se preferir, o
equilíbrio relativamente estável das sociedades africanas pré-coloni-
ais deve ser justi icado pelos seus modos de organização especí icos.
Por essa razão, C. A. Diop – na sequência do seu estudo a respeito
das classes em África no período anterior à colonização – empreende
uma análise comparada das estruturas fundamentais que distinguem
as sociedades africanas das europeias. Tornou-se evidente que «o
sistema de organização social assente em castas garante um nível de
continuidade e de equilíbrio na sociedade superior ao do sistema de
classes criado pelos arianos em Roma e na Grécia9».
Para desenvolver a análise destes sistemas distintos, importa retor-
nar a um problema fundamental que, durante muito tempo, inquietou
os antropólogos: o parentesco. C. A. Diop dedica-se a esta questão
numa obra intitulada L’unité culturelle de l’Afrique cujo subtítulo é
«Domaines du patriarcat et du matriarcat dans l’Antiquité classique».
Trata-se de um estudo fulcral que concerne dois tipos de socie-
dades, uma especí ica de África e outra do mundo europeu. As suas
estruturas a iguram-se opostas no que se refere a um conjunto de
aspectos, precisamente com base na diferença fundamental entre o
sistema matriarcal africano e o sistema patriarcal europeu. C. A. Diop
apresenta a seguinte síntese dos traços característicos de duas socie-
dades de inidas pelas suas autonomias:

«Em suma, o berço meridional, con inado com o continente africano em particu-
lar, caracteriza-se pela família matriarcal, pela criação do Estado-território, por
oposição à Cidade-estado ariana, pela emancipação da mulher na vida doméstica
(…), por uma espécie de colectivismo social cujo corolário reside na quietude cujo
expoente máximo é a despreocupação com o amanhã, por uma solidariedade mate-
rial de direito para cada indivíduo, em virtude da qual, até aos nossos dias, não se
conhece a miséria material ou moral; existem povos numerosos que são pobres,
mas ninguém se sente só, ninguém está angustiado (…). O berço nórdico, con inado
com Grécia e Roma, caracteriza-se pela família patriarcal, pela Cidade-estado (…),
pela existência (…), são o apanágio deste berço.»

Entre estes berços, existem zonas con luentes, muito em particu-


lar a Arábia, a Fenícia e a Mesopotâmia onde, segundo C. A. Diop, o

9. L’Unité culturelle de l’Afrique noire, 1982, pp. 91-92.

II. Um único tema: África 37


sangue negro penetrou10. A amplitude dos conhecimentos de um
homem que multiplica continuamente os seus pontos de vista a im
de compreender fenómenos resultantes da combinação de diversos
factores não deixa de surpreender. C. A. Diop não está con inado a
uma África isolada do resto da humanidade; alarga constantemente
o seu campo de visão, estudando as interligações e as diferenças.
Sublinha a pertinência dos fenómenos africanos estribando-se numa
análise global da realidade humana reavaliada à luz da sua unidade
e diversidade. Adicionalmente, estamos perante uma verdadeira en-
ciclopédia viva que nos informa sobre o estado dos conhecimentos de
África e do mundo europeu.
Trata-se de uma das componentes do génio de C. A. Diop. Este
homem deixa transparecer uma verdadeira con luência de aptidões, e
cada uma das suas obras resulta de um esforço original. O seu objec-
tivo consiste sempre tornar os problemas da história e da sociedade
africanas mais claros. Ademais, C. A. Diop não hesita em abordar
determinados temas mais do que uma vez numa tentativa de conferir
um maior rigor ao seu pensamento, é o caso de Antériorité des civili-
sations nègres: mythe ou vérité historique na qual desenvolve as suas
obras anteriores. Civilisation ou barbarie constitui uma releitura das
suas publicações à luz da ideia de um Egipto negro elevada «ao nível
de um conceito cientí ico operatório».
Desde a sua tese sobre nações negras e cultura, C. A. Diop de iniu
um verdadeiro plano de investigação. A partir de um tema que lhe as-
senta como uma luva, identi ica uma questão central em torno da qual
formula uma problemática fundamental que rege as suas análises e os
seus escritos. Graças aos debates suscitados pelos seus trabalhos, tem
a possibilidade de retomar as suas hipóteses e testá-las repetidamente
com base nos factos. Logo, reúne «um naipe de factos e provas, livres
de inúmeros pormenores que, por vezes, impediram o autor de Na-
tions nègres et culture de constatar a sua relevância. Como é evidente,
esses factos foram objecto de uma reavaliação tendo em conta, tanto
quanto o possível, os trabalhos recentemente publicados11.» Este em-
preendimento não se justi ica apenas por requisitos de clareza e de
precisão. O investigador leva a cabo uma re lexão contínua, pensando
constantemente sobre determinadas questões, aspectos que ignora e
incertezas, pois sabe exactamente em que âmbito deve concentrar os
seus esforços intelectuais; descobriu os materiais; formulou as hipó-
teses que serão objecto de veri icação em cada etapa do seu percurso
cientí ico.

10. Idem.
11. Antériorité des civilisations nègres, p. 9.

38 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Num contexto em que «para dominar um povo, é necessário destruir
a sua cultura12», o plano de investigação de inido por C. A. Diop deve
responder a um objectivo prioritário: o papel desempenhado pelos
negros na história. A partir daí, a igura-se possível qualquer relação
com os outros povos:

«Com efeito, a plenitude cultural torna necessariamente um povo mais apto para
dar o seu contributo para o progresso geral da humanidade, e se aproximar dos
restantes povos com conhecimento de causa. Obstaria apenas ao falso progresso
que resultaria do tolhimento e da eliminação dos valores culturais da maioria dos
povos em bene ício de alguns.»

A persistência do investigador em esclarecer ininterruptamente o


passado africano revela-se compreensível. Resulta claro que C. A. Diop
não pretende con inar os africanos na contemplação das pirâmides
do Egipto negro.
Conforme observado anteriormente, o historiador africano inter-
roga-se sobre as razões subjacentes ao atraso de povos que não
brilharam devido à sua ausência na história da ciência e da técnica.
O seu interesse acerca da problemática das transformações em África
a igura-se manifesto. O estudo deste problema «é importante, numa
altura em que a sociedade africana entra na fase das verdadeiras lutas
de classes, na acepção moderna do termo». Com efeito, o processo
de acumulação e con iscação de riquezas está bastante avançado; no
quadro de uma distribuição desigual, estas são transferidas dos an-
tigos colonos para as novas burguesias africanas que, por enquanto,
investem num sector parasitário: a construção. Contudo, a primeira
greve dos operários africanos contra um patrão de uma fábrica afri-
cana assinalará o início da nova era da luta de classes. Se estas perspec-
tivas interessam o sociólogo, o homem de cultura, por seu turno, mani-
festa uma preocupação relativamente a necessidade de desenvolver
línguas nacionais. A questão das línguas africanas surge constante-
mente na obra de C. A. Diop. Esta não resulta apenas de uma obsessão
pelo passado, trata-se de uma herança cultural que não pode ser
transformada num objecto museológico de antiguidades africanas.

Um problema de método
Nos territórios ou locais onde os antropólogos se deparam com um
paraíso estranho, encetando individualmente um diálogo intemporal

12. Nations nègres et culture.

II. Um único tema: África 39


com a sua pequena tribo, C. A. Diop descobre uma história da cultura
na qual as «nações negras» se formam a partir do seu berço egípcio.
Graças a este acontecimento, lança-se uma nova luz sobre os mitos,
os símbolos, as técnicas, as crenças, as instituições e os sistemas de
parentela no seio dos quais se pensava ter identi icado a linguagem
das «sociedades arcaicas» no processo dos estudos surgidos na se-
quência dos conquistadores e das colonizações europeus. Com base
no «argumento cultural», o investigador nativo aborda África no espa-
ço e no tempo, atendendo à continuidade histórica que liga os povos
do continente à sua origem. Apesar de não aludir a «povos e civiliza-
ções» que se desdobram em «círculos» e «núcleos» – como no caso de
Baumman e Westermann –, C. A. Diop coloca a tónica na cultura-mãe
das civilizações africanas a partir do delta do Nilo. Por conseguinte, «a
comunidade de cultura, de história, de psiquismo não deixa margem
para dúvidas13», no caso de se admitir a origem negra do Egipto faraóni-
co. «A unidade cultural da África negra» a irma-se no quadro de uma
nova visão acerca das realidades do continente.
Esta orientação coloca em causa a imagem de um outro mundo
forjado pela Europa que, durante muito tempo, destacara apenas
costumes selvagens, um espírito degradado, povos desprovidos de
escrita e acervos e, por conseguinte, alheio à história, em todas as
suas formas. Os homens designados de selvagens eram tratados espe-
ci icamente pelos etnólogos de acordo com uma partilha de saberes
imposta pelos dogmas do evolucionismo num contexto em que a
existência de uma ciência dedicada exclusivamente ao estudo das
culturas não-ocidentais reflectia o sentimento de superioridade
da Europa capitalista. Recorrendo à imagem de África apresentada
por C. A. Diop, urge reestruturar o espaço do conhecimento acerca do
homem e da cultura.
Com efeito, África não se insere na categoria da natureza, ao con-
trário do apregoado pelos mestres do Ocidente que a haviam rejeitado.
Situa-se na vanguarda do progresso do espírito humano. Por con-
seguinte, é necessário impedir que esta seja objecto exclusivo da etno-
logia que, neste caso, se limitaria a estudar os homens dos «primeiros
tempos» da humanidade com base nos seus sistemas de parentela,
nas suas crenças, nos seus mitos ou na sua mentalidade. O investiga-
dor nativo corre o risco de elevar as realidades africanas ao estatuto
de objectos das ciências históricas. Em última instância, a igura-se
oportuno o alargamento do campo do saber, a par da integração dos
dinamismos internos das sociedades africanas na análise do estudo
do homem e da cultura.

13. Idem, p. 21.

40 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


A natureza estática destas sociedades é apenas aparente. Ao con-
siderar a especi icidade dos sistemas de casta de molde a sublinhar
a diferença existente entre a Europa e a África em termos de estru-
turas sociais, chega-se à conclusão de que as sociedades africanas
não estão imunes a tensões e contradições. Elementos dinâmicos e
revolucionários são passíveis de serem identi icados. Apenas as par-
ticularidades das estruturas políticas e sociais africanas explicam
os movimentos históricos. Por conseguinte, investigar o motor da
história implica assinalar as categorias sociais que não se conformam
com a sua sorte pelo facto de «serem exploradas sem compensação».
Atendendo ao estado das suas estruturas sociais e políticas africa-
nas, trata-as de uma situação bastante rara em África. Com efeito,
os escravos estão ligados ao poder em termos bastante latos, e não
meramente de uma forma simbólica ou arti icial. Logo, «a coesão da
sociedade resulta da salvaguarda dos interesses materiais da classe
trabalhadora». É precisamente neste plano que as contradições inter-
nas da sociedade podem ser solucionadas.
A noção de «alienados sem compensação» abre o caminho para uma
análise que frisa as contradições e os con litos latentes em cada grupo
humano. Nesse sentido, importa rejeitar uma abordagem estática às
sociedades nativas. O investigador africano demonstra a sua ousadia
ao anexar as sociedades ao domínio no qual se exerce a pro issão de
sociólogo, entrando claramente em ruptura com uma tradição que
remonta à colonização e na qual as obras sobre os não-civilizados
constituíam amiúde breviários de administradores e missionários,
conforme ilustrado nos livros de Lévy-Bruhl.
Surge, assim, um problema de método: como proceder ao estudo de
populações e sociedades que, até ao momento, constituíam o monopólio
da etnologia? C. A. Diop aborda este problema a partir de 1963, re-
alçando a premência de um trabalho de terreno adaptado ao contexto
sociocultural.

A investigação no terreno será ainda mais importante e exigirá uma cautela


ainda maior atendendo à escassez ou à inexistência de documentos bibliográ icos
e acervos acerca das sociedades africanas. Muitas vezes, carece-se de dados fun-
damentais valiosos para o estudo demográ ico (estatísticas relativas à esperança
de vida, à fecundidade, aos movimentos de população), assim como de elemen-
tos de ordem económica, histórica e, inclusivamente, dos registos de estado civil.
Qualquer informação revelante para a investigação sociológica e cuja dissecação
representa uma fase preparatória importante no estudo das sociedades ocidentais
mas que praticamente não existe nas sociedades africanas, sem escrita e promovi-
das apenas recentemente ao estatuto de objecto de uma investigação especí ica.

II. Um único tema: África 41


Independentemente da sua profundidade e do seu rigor, a importância do trabalho
no terro a igura-se manifesta14.»

Num ambiente intrincado, muitas vezes marcado pela multiplici-


dade linguística, é necessária uma equipa de informadores «que po-
dem igualmente ser tradutores».

«Importa garantir que o “informador” pertence ao grupo visado e apurar a articu-


lação dos vários subgrupos do qual faz parte. Posto isto, será conveniente encará-lo
como representante do grupo mais restrito possível ao qual ele pertence e rela-
cioná-lo com os restantes. Esta advertência dirigida à etnogra ia interessa também
ao sociólogo que trabalha em África, tendo em conta a pletora de particularismos
mencionados anteriormente15».

Uma política de investigação impõe necessariamente uma colabo-


ração. Em África, este esforço deve implicar uma reavaliação dos
conceitos e instrumentos de análises elaborados em outros países
para descrever as sociedades etnologizadas. Ao abrigo desta prática
cientí ica, o historiador nativo teve de rejeitar modelos vantajosos e
desa iar certezas instituídas. No decurso desta aventura, caso África
continue a ser o único objecto da sua investigação, passará a exigir
uma pluralidade de abordagens que procuram apresentar uma visão
coerente a seu respeito.
Para compreender um objecto de estudo em toda a sua complexi-
dade, C. A. Diop recorre a várias disciplinas de investigação. Nesse
sentido, contribui para um novo desenvolvimento na arqueologia. A
própria etnologia radica-se nos trabalhos do historiador. A referência
constante aos tratados culturais dita o recurso à antropologia, o que
explica o interesse das páginas de C. A. Diop dedicadas ao matriarca-
do, ao totemismo, à realeza e à organização social e política. Intervém
no debate sobre os Estados «dotados de um modo de produção asiáti-
co» e esboça uma sociologia das revoluções com base nas particu-
laridades das estruturas sociais e políticas na África negra. Por im,
graças ao contributo do egiptólogo, a linguística assume-se como um
instrumento indispensável para o conhecimento de África e da sua
história. É di ícil compreender as sociedades estudadas sem conhecer
as respectivas línguas.
Para encetar o seu estudo acerca do Antigo Egipto, C. A. Diop teve de
aprender a decifrar textos hieroglí icos, o que lhe permitirá descobrir

14. «Sociologie africaine et méthodes de recherche», Présence africaine, n.º 48, 1963, pp. 182-
-183.
15. Idem, p. 184.

42 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


que os egípcios agem e vêem-se a si próprios como os restantes negros
de África. O poder da erudição do investigador senegalês é marcante.
Em cada um dos domínios nos quais se realiza a sua investigação,
C. A. Diop foi pioneiro. Funda perspectivas que exigem uma superação
das vedações institucionais e uma verdadeira confrontação de disci-
plinas. Especializado no domínio quântico e nuclear, este ísico conti-
nua a ser um mestre em ciências sociais e humanas, accionando todos
estes recursos para restaurar a dignidade dos povos negros.
Em boa verdade, o investigador negro interroga a história da human-
idade a partir de uma África humilhada e em busca da sua liberdade.
Para o historiador, África constitui uma terra antiga onde, nos últi-
mos séculos, a humanidade tem sido tratada com desprezo. Não per-
tencerá C. A. Diop à geração de intelectuais africanos que, justamente
com o grupo de Présence africaine, coordenado por Alioune Diop, con-
vocará, em 1956, na Sorbonne, o primeiro congresso de escritores e
artistas negros, considerado com a «Bandung da cultura negra»? Ora,
Nations nègres et cultures fora dada à estampa na véspera deste acon-
tecimento. Trata-se de uma obra que estimulará incessantemente a
re lexão junto de inúmeros pensadores e investigadores africanos,
conforme se veri ica pelos trabalhos de Théophile Obenga.
A cultura e a história, as línguas nacionais, o Estado e os problemas
do poder: estes temas, em torno dos quais se articulam a vida e a
obra de C. A. Diop, são palco de um combate cujo desfecho depende
da criação das condições necessárias para a libertação do homem em
África, contribuindo para que este bene icie de uma existência digna.
O desenvolvimento destes temas pode ajudar a compreender o desa-
io actual do pensamento de C. A. Diop.

II. Um único tema: África 43


III. A razão nasceu
entre os negros
A preocupação principal de C. A. Diop consiste em libertar África
dos mitos e das caricaturas forjados pelas visões estrangeiras de
molde a restitui-la a si própria enquanto sujeito de conhecimento.
Importa frisar a natureza provocatória deste projecto que leva o in-
vestigador a semear o pânico entre os guardiões do templo ao con-
siderar a anterioridade das civilizações africanas o acontecimento
central da história da cultura humana.

O declínio dos absolutos


Se a obra de C. A. Diop é ilustrativa da vida de um africano devota-
do à investigação e à re lexão, constitui igualmente a prova de uma
extraordinária audácia de espírito. À imagem destes «cavaleiros do
absurdo» que partiram a um ritmo extremamente veloz, este homem
desvendará as faces da noite. A inal, por que motivo exerce este histo-
riador um fascínio sobre alguns e incomoda outros, senão pelo facto
de os resultados dos seus trabalhos cientí icos questionarem certe-
zas instituídas e anunciarem o declínio dos absolutos ocidentais? C.
A. Diop provoca o escândalo desde a escolha do seu tema de estudo.
C. A. Diop chama a atenção dos nossos contemporâneos para uma
das a irmações mais importantes da ciência, segundo a qual os
primeiros homens descobertos durante escavações arqueológicas
eram negros. Se um vasto conjunto de factos atesta «autenticamente
a anterioridade da humanidade “negróide”, alguns cientistas e in-
vestigadores continuam a colocar o problema em moldes inespera-
dos1». Com efeito, este problema implica desa ios epistemológicos e
históricos sérios. O reconhecimento da anterioridade do facto negro
na história da humanidade signiϔica situar o local de nascimento de
razão em África. Eis a principal «heresia» do investigador africano.

1. C. A. Diop, «Histoire primitive de l’humanité: Évolution du monde noire», Présence Africaine,
n.º 51, 1964.

III. A razão nasceu entre os negros 45


C. A. Diop envida esforços no sentido de desmontar os arti ícios de
cientistas que, ao invés de cederem à evidência dos factos, continuam
a procurar o branco em locais onde, graças às escavações, são encon-
trados vestígios do negro na história primitiva da humanidade.

«Se nos ativermos estritamente aos dados cientí icos e factos arqueológicos (…) o
protótipo da raça branca seria investigado em vão nas primeiras eras da humani-
dade actual. O negro está na sua origem, sendo inclusivamente o único a existir
durante milénios e, até ao início da época histórica, o cientista negligencia-o2».

Impõe-se uma nova atitude cientí ica a respeito dos dados afri-
canos caso se pretenda proceder a uma interpretação acertada dos
factos sem eliminar «a consciência colectiva histórica africana numa
lista pormenorizada3». A obra de C. A. Diop pretende ser uma nova
perspectivação das ciências humanas que permitem conhecer África.
Esta orientação deve ter como ponto de partida o alto vale do Nilo
como berço da civilização num contexto em que a racionalidade do
negro loresce no seio de uma cultura fundadora cuja base de ra-
ciocínio con irma o papel dos negros na história do pensamento.
Os trabalhos de C. A. Diop podem ser lidos como uma tentativa de
reinterpretação do complexo cultural africano na história das civiliza-
ções a partir do Antigo Egipto. Reenquadra as formas de produção
intelectuais e culturais, as marcas, os aspectos da ciência e do pensa-
mento, os mitos e a religião, bem como a arte, num contexto global
em que o Ocidente deve reavaliar a consciência que tem de si próprio,
atendendo aos ensinamentos da história acerca da in luência dos ne-
gros no mundo mediterrânico. Não se trata apenas da imagem que
há muito se formou sobre África; é a própria visão que o Ocidente
tem de si mesmo que corre o risco de se tornar obsoleta e a desactu-
alizada na medida em que mergulha numa mitologia alheia à ciência.
Com efeito, C. A. Diop põe em causa uma tradição teórica que esteve
em voga durante largos séculos. Os europeus haviam ensinado ao
resto dos homens que Atenas, Alexandria ou Roma constituíam os
únicos pólos da civilização antiga. No momento em que Aristóteles
irrompe no Ocidente medieval onde se assiste à criação de univer-
sidades, a Grécia assume-se como a referência fundamental da vida
intelectual. Para além da cristandade, o homem renascentista almeja
reconciliar-se com a Antiguidade grega na qual se operou, a partir
do século VI a.C., uma espécie de Iluminismo que, no século XVIII,
consagrará de forma de initiva a emancipação da razão e o im da

2. Idem, p. 12; Antériorité des civilisations nègres, pp. 13-26.


3. Ibidem, p. 12; Civilisation ou barbarie?, pp. 19-92.

46 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


hegemonia teológica. Ao longo da sua história, o Ocidente conserva
o seu fascínio pelas origens gregas do pensamento e da ciência, da
técnica e da política, da arte e da sabedoria.
Associar o século de Péricles à concretização do «milagre grego»
representa um lugar-comum do ensino nas escolas, liceus e univer-
sidades marcada pela centralização herdada da época napoleónica4.
A humanidade é então reduzida ao espaço-tempo do mundo grego
onde, por uma espécie de geração espontânea, surgiu uma civilização
brilhante que não deve nada a nenhum outro povo da terra. Logo, o
advento desta civilização não pode ser compreendido em função das
tradições milenares que lhe teriam precedido e que, por meio de
decalques variados, exerceriam uma in luência determinante sobre
a mesma. Em suma, a aventura do conhecimento inaugura-se no Oci-
dente. É essa a «lição magistral» dispensada por Frédéric Hegel, um
antigo estudante de teologia em Tübingen que, após concluir os estu-
dos de direito e de iloso ia, tornar-se-á no grande mestre da Europa
numa época marcada pelo triunfo do colonialismo. Segundo Hegel, a
ave de Minerva só levanta voo ao crepúsculo, uma vez terminado o
árduo labor da civilização.
Nessa óptica, a Grécia deve ser encarada como a terra natal da razão
humana. Não subsistem dúvidas de que a Pérsia, a Índia ou a China
iguram no teatro da história. Porém, o azul do Mediterrâneo ainda
assombra as inteligências e as imaginações ocidentais que sentem
uma verdadeira repugnância em ultrapassar as colunas de Hércules.
Ademais, o epicentro da história situa-se em Atenas onde, no domínio
do pensamento, tudo começa com Sócrates, considerado o patriarca
dos sábios do Ocidente. Neste esboço da história geral do pensamento,
os negros apresentam-se como o passado do europeu, um povo de cri-
anças que permaneceria na primeira aurora do mundo, conϔinado à
imediatez, ao biológico e ao vital, incapaz de evoluir e condenado à
repetição característica do universo do mito. Para os pensadores do
século XIX, África é uma «humanidade» de tenra idade, formada por
indivíduos que revelam um atraso a nível escolar no conjunto geral
da civilização. Portanto, se tudo começa com a Grécia, África não se
resume apenas à noite da razão, sendo também um mundo à margem
da razão e da história. De acordo com Hegel – apresentado como o
Aristóteles dos tempos modernos e que, de facto, é o pensador que
maior in luência exerceu nos destinos da Europa –, os africanos são
os ilhos da noite.
Com efeito, Hegel recusa atribuir o certi icado de humanidade a es-
tes seres que habitam a «alta região» do continente negro. Trata-se de

4. Ver G. Gusderf, L’Université en question, Payot, Paris, 1964.

III. A razão nasceu entre os negros 47


um mundo estranho que nunca foi, em si, «o palco de acontecimentos
históricos» e que, mergulhado na inércia, adormece, rodeado pela
cor negra da noite. «Para o ilósofo, o homem africano corresponde
ao homem em estado bruto, que vive num estado de inconsciência de
si». Trata-se efectivamente de um «estado animal5». É possível iden-
ti icar o eco das classes dominantes na era do capitalismo e da sua
expansão além das fronteiras europeias. Num certo sentido, o pensa-
mento europeu, desde Gobineau a Lévy-Bruhl, traduz-se num exten-
so comentário da palavra do mestre cujo sistema re lecte a relação
do Ocidente com o outro através de uma perspectiva que, marcada
por preconceitos religiosos e, posteriormente, cientí icos, ilustra a
di iculdade em termos da concepção da pluralidade e da igualdade
das civilizações. Para os ocidentais, esta perspectiva foi, durante mui-
to tempo, a forma de conformar a sua supremacia absoluta sobre o
resto da humanidade. Importa situar a obra do egiptólogo senegalês
em relação a um sistema do mundo no qual o olhar do outro consti-
tui um dos instrumentos do imperialismo cultural que se revela ainda
mais pérϔido do que a violência colonial. C. A. Diop é o anti-Hegel, o
pensador negro que contesta, no seu todo, os alicerces de uma herança
intelectual que legitimou a «Missão do homem branco».
O desejo de colocar um termo a um conjunto de mitos forjados pelo
Ocidente com o intuito de dissimular a sua barbárie e justificar a
domesticação dos povos e das mentalidades negros levou C. A. Diop
a esquecer-se de si próprio vivendo obstinadamente com o único
intuito de lançar mais alguma luz sobre questões dominadas por pre-
conceitos tenazes que arriscam enclausurar as gerações nas trevas
da ignorância. C. A. Diop representa a razão intrépida e militante que
lança um ataque aos monstros gerados pelo imperialismo. Além de
algumas referências a Heródoto, não se baseará o discurso hegeliano
sobre África na tradição intelectual dos países dotados de práticas
coloniais? Neste contexto, se o papel dos negros na história da hu-
manidade e da cultura foi ocultado, esse facto não deve ser imputado
à ciência mas antes aos mitos do Ocidente que se assume como o
titular exclusivo da vida da inteligência. Em suma, a «dialéctica» é
susceptível de ser entendida como uma continuação das teses de an-
tigos colonos que viveram em África onde, em virtude da procura do
lucro imediato, não se dispõe de muito tempo para cultivar a vida do
espírito.
Enquanto os europeus, imbuídos da sua superioridade, continuarem
a olhar para os negros com o mais profundo dos desprezos, a com-
preensão das realidades africanas não registará nenhum avanço;

5. Hegel, La raison dans l’histoire, 10/18, pp. 247-249.

48 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


conforme se veri ica ao longo da história do trá ico e da coloniza-
ção, as suas apreciações categóricas e manchadas pelo preconceito
revelam a sua incapacidade de aceitar a diferença e uma sociedade
distinta não envidando qualquer esforço no sentido de revelar a sua
face oculta, as suas formas o iciosas e as suas estruturas latentes.
Há muito deturpada pelo prisma deformador da literatura exótica
e colonial, responsável pela criação de estereótipos transmitidos
pelos manuais escolares e pela publicidade6, África representou in-
cessantemente este grande território desconhecido, por vezes con-
siderado o local de refúgio do demónio em debandada na Europa. Foi
necessária uma bula ponti ícia que obrigasse os europeus a reconhecer
no quadro da humanidade os povos cuja descoberta, a partir o século
XVI, provoca uma verdadeira crise de consciência. C. A. Diop anun-
cia o im de uma alegada ciência do homem não logrou libertar-se
das lendas inventadas pelos tra icantes de escravos e os teóricos da
colonização. Doutos mestres limitaram-se a transmitir icções sobre
África, apregoando que os negros representam um simulacro de hu-
manidade cujo contributo para a aventura do espírito seria nulo.
Com efeito, a constatação de que o Egipto precedeu o «milagre
grego» signi ica um anúncio do «crepúsculo dos ídolos» porquanto
a anterioridade negra do Egipto dos faraós implica uma espécie de
«destronização» e descentralização intelectual. A exclusão da Áfri-
ca negra da comunidade da história universal não resulta das ciên-
cias exactas mas da ciência-ficção e dos estereótipos acumulados
em virtude dos quais os dados objectivos do fenómeno humano
permanecem na obscuridade. Por conseguinte, urge dissipar as
miragens académicas que deturpam a realidade do nascimento da
história e da razão em território africano. Na óptica do historiador
e antropólogo africano, não basta rejeitar a hierarquia estabelecida
com o contributo do pensamento ocidental entre os «civilizados»
e os «selvagens», bons ou maus. Afigura-se imprescindível uma
revisão, ou melhor, uma alteração dos valores e das perspectivas
para repor a verdade. C. A. Diop envolve-se neste «Combate pela
história» com o propósito restituir aos negros o lugar que lhes fora
usurpado pela Grécia durante séculos no resumo da história geral
da humanidade construída por Hegel e os seus discípulos. O egip-
tólogo africano obriga a devolver a razão e a história aos negros
ao lançar uma nova luz sobre as relações entre o Egipto e a África
negra. Estamos perante um ponto de viragem de suma importância
no pensamento moderno.

6. Sobre esta questão, ler L. Fanoudi-Sieffer, Le mythe du Nègre et de l’Afrique dans la littérature
française (de 1800 à la deuxième guerre mondiale), C. Klincksieck, Paris, 1968.

III. A razão nasceu entre os negros 49


Ao longo de séculos, conforme ilustrado pelos exemplos de Heró-
doto e de Platão, os historiadores e os sábios da Grécia deslocaram-
-se continuadamente até ao Egipto cujos valores civilizacionais es-
tavam acima de qualquer contestação. Recorde-se que esta terra
africana acolheu um dos mais importantes refugiados do mundo,
Jesus de Nazaré, que aí viveu grande parte da sua infância, muito
tempo depois de José e de Moisés, os seus protótipos na revelação
bíblica. Se o Ocidente projecta sobre a África negra as suas fantasias
através das quais descobre, nesta terra, os traços fundamentais do
homem selvagem, não deixa, todavia, de expressar a sua admiração
pela civilização que construiu as pirâmides. Numa tese audaciosa,
Engelbert Mveng, partindo dos fundadores do pensamento ociden-
tal, identifica as fontes gregas da história negro-africana. C. A. Diop
dá um passo mais adiante ao estipular a união da «alta região» ou
a África propriamente dita e a bacia do Nilo, separadas pelo Oci-
dente, por intermédio de Hegel, na sua geografia do mundo negro7.
Aquilo que Hegel considera «uma das zonas mais belas e ricas do
mundo» constitui, aos olhos do historiador africano, o local por
excelência onde os habitantes da «alta região» encontram os seus
verdadeiros antepassados. Propicia-se assim um «terramoto» que
abala os dogmas canonizados. A afirmação de que os construtores
do Antigo Egipto são negros autênticos, tão verdadeiros quanto os
bantus ou os atiradores negros, significa dar provas de «loucura»
no entender dos sábios do Ocidente. As teses constantes em Na-
tions nègres et culture constituem uma espécie de escândalo para
uma mente estribada em Hegel e numa longa tradição intelectual.
O acontecimento que esbarra com a consciência do Ocidente é o
seguinte: «a luz que chegou à Europa não proveio somente do Orien-
te, como se pensou durante longos séculos, ela provém igualmente do
Sul, ou seja, de África, a partir do Egipto negro que constitui o berço
da consciência humana».
Racismo anti-racista? Ilusão? Falácia, erro monumental? Exageros?
São estas as várias atitudes que traduzem as reacções da Europa eru-
dita a uma obra fundamental que suscitou um dos grandes debates
da ciência moderna. Os mestres da verdade rejeitaram a tese de C. A.
Diop. Apesar de pouco suspeito de cumplicidade em relação ao colo-
nialismo, J. S. Canale não hesita em escrever:

«Se M. Cheikh Anta Diop ridiculariza, e com razão, os “cientistas” europeus


que, devido a preconceitos racistas inconfessados, pretenderam “branquear” a
qualquer preço o Antigo Egipto, o historiador reincide neste mesmo erro ao

7. Hegel, op. cit., p. 245.

50 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


querer “enegrecer” a qualquer preço e atribuir uma origem “negra” às civilizações
dos sumérios, dos cartaginenses e dos bretões8.»

Constata-se que o cerne da questão continua a ser a natureza negra


da civilização do Antigo Egipto. Os colonizadores impuseram aos
africanos antepassados que não são os seus. C. A. Diop reconcilia os
negros com as origens reais. O autor de Nations nègres et culture
conclui que: «Longe de ser incapaz de produzir a técnica, o homem
de cor é aquele que a produziu primeiro na igura do negro.»

Verdade escandalosa
Assiste-se ao delinear de uma ruptura com os poetas da negritude
envoltos na imagem de inferioridade do negro imposta pela coloni-
zação. Os trabalhos do historiador demolirão esta imagem em todos
os níveis da sua reprodução. O primeiro golpe visa esta geogra ia da
inteligência que, com base na história ocidental, considera África «o
continente da emotividade».

«Em virtude das suas catedrais, dos seus palácios, das suas cidades e das suas
casas com telhado de colmo, a Europa é o museu da medida, da razão, da ordem
(…). Em contrapartida, África é o continente da emotividade, do contentamento,
da indolência alegre, do ritmo, da forma, da cor e da luz. Todo o continente
africano irradia esta emotividade criadora de arte.»

Eis as observações de Eugène Guernier em L’apport de l’Afrique


à la pensée humaine. São evocativas de Gobineau ou Senghor, os
quais retomam estas teses para apregoar que a emoção constitui
uma marca da identidade negra. Estes estereótipos convenientes
subsistem no imaginário do Ocidente e nem mesmo os grandes pen-
sadores conseguem libertar-se deles. Tendo descartado África da
história e da razão, inúmeros manuais reproduzem uma imagem do
Ocidente destinado a legitimar as suas pretensões. Segundo Marx
Weber,

«Uma ciência digna cujo desenvolvimento reconhecemos actualmente como


sendo “válido” existe apenas no Ocidente. Decerto que conhecimentos empíricos,
re lexões sobre o universo e a vida, sabedorias profundas, de ordem ilosó ica ou
teológica, viram a luz do dia em outras paragens (…), sobretudo na Índia, na China,
na Babilónia e no Egipto (…). Porém, a astronomia, tanto na Babilónia quanto em

8. J. Suret-Canale, Afrique noire, Éditions Sociales, Paris, 1959.

III. A razão nasceu entre os negros 51


outros locais (…) carecia de fundamentos matemáticos, os quais só os gregos
souberam produzir9.»

Trata-se de uma apreciação que remete para uma geopolítica an-


tiga que assegura a hegemonia da Grécia e institui o programa do im-
perialismo concretizado por Alexandre, o Grande, acima de qualquer
expectativa. Com efeito, Aristóteles tece as seguintes observações:

«As nações situadas nas regiões frias e, em especial, as nações europeias transbor-
dam de coragem, mas carecem sobretudo de inteligência e de aptidões técnicas;
por essa razão, apesar de uma existência relativamente livre, revelam uma inca-
pacidade para a organização política e uma impotência para exercer a suprema-
cia sobre os seus vizinhos. As nações asiáticas são, pelo contrário, inteligentes e
exibem um espírito inventivo mas não têm qualquer coragem e, por esse motivo,
vivem numa subordinação e escravidão contínuas. Porém, a raça dos helenos, que
ocupa uma posição geográ ica intermediária, participa de forma semelhante nas
qualidades dos dois grupos de nações anteriores pois é corajosa e inteligente,
sendo essa a razão pela qual leva uma existência livre, sob instituições política
excelentes, e inclusivamente mostra-se capaz de governar o mundo inteiro mesmo
se atingir a unidade de constituição10.»

O ilósofo é omisso quanto à importância dos decalques efectuados


pela Grécia ao Egipto. Superando a tacanhez de espírito dos círcu-
los in luenciados pelas tendências pan-helénicas cuja expressão se
encontra na consciência popular, nos discursos dos oradores e na
re lexão dos ilósofos, outros meios sabem reconhecer aquilo que a
raça dos helenos deve aos estrangeiros. Na Antiguidade, existe, com
efeito, um lugar que é necessário visitar para efeitos de iniciação à
ciência e à ϔilosoϔia. Trata-se do Antigo Egipto, de origem negra. C. A.
Diop redescobre este «topos» que pertence a uma tradição a que as
grandes correntes da literatura e do pensamento europeus chamam
de sua. Esta atitude exige um alargamento da consciência imposto
pela confrontação de outros povos e outras culturas. O que se torna
manifesto no momento em que Heródoto propõe um mapa-mundo e
enumera os espaços habitados, procedendo ao inventário de idiossin-
crasias culturais que desconcertam o viajante grego. O historiador
africano limitou-se a resgatar este lugar-comum, estribando-se nos
testemunhos dos autores antigos sobre os contributos do Egipto para
a Grécia. O único aspecto incomodativo em termos da recuperação
desta tradição prende-se com a natureza negra dos egípcios.

9. Max Weber, L’Ethique protestante et l’esprit du capitalisme, Plon, Paris, 1964, p. 13.
10. Aristóteles, La politique, VII, 7, 25-31, Vrin, 1982, p. 493.

52 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Admitir que existe a possibilidade de os africanos terem ensinado
geometria à Europa insere-se no quadro do inédito. Nenhum histo-
riador da ciência fora tão longe. Tratava-se de uma hipótese im-
pensável que não podia ser tolerada no conjunto hegemónico da ex-
pansão europeia no mundo. Várias gerações haviam lido, traduzido
ou comentado Heródoto, Diodoro Sículo ou Estrabão. Mas ninguém
havia ensinado às crianças nas escolas nem aos jovens nos liceus e
nas universidades que o Egipto negro era o berço da ciência e da sa-
bedoria. C. A. Diop obriga o Ocidente a levar a cabo uma revisão dos
primórdios da ciência e das matemáticas, situando-os num espaço
diferente do grego. Como aprender a pensar, sem incorrer numa
negação de si próprio, que os mais célebres dos eruditos gregos
foram discípulos dos negros? O historiador pede demasiado à consciên-
cia europeia. Ora, a verdade tem este preço.
É possível debater o grau de exigência crítica ao qual o jovem in-
vestigador submete os testemunhos relativos aos decalques gregos
do Antigo Egipto. Estará o próprio ciente do facto de que se trata de
um lugar-comum que, em função dos períodos e das necessidades,
tende a transformar o Egipto numa espécie de lugar mítico ao qual
se atribui a génese dos aspectos da cultura sobre os quais assenta
o prestígio da Europa? A igura-se igualmente possível proceder a
um estudo da verdade das interpretações do investigador africano
a respeito das iliações entre o pensamento egípcio e o pensamento
grego. Será que C. A. Diop, leitor de Platão, no caso de Timeu11, se alia
ao ilósofo na sua dinâmica própria? Ao reconhecer a origem egípcia
dos teoremas de Pitágoras e da geometria de Euclides, o historiador
apercebe-se perfeitamente do espírito laico que preside à elaboração
da ciência grega. Os decalques não excluem rupturas criadoras. Com
efeito, a história da ciência insere-se também nesta descontinuidade
que se opera com o nascimento de um saber próprio de uma época.
Ademais, o carácter efectivamente ilosó ico das ideias ou das doutri-
nas egípcias transladadas para a cultura grega não é evidente. Ema-
na de um pensamento anónimo pertencente ao que uma geração de
pensadores africanos designa actualmente de «etno iloso ia». C. A.
Diop empenha-se, de resto, em desenvolver uma comparação entre
estas noções ou crenças do Antigo Egipto e as cosmogonias africanas
inventariadas pelos antropólogos. Em Civilisation ou barbarie?, o his-
toriador africano identi ica as convergências entre as noções egíp-
cias e a «meta ísica dogon» estudada por M. Griaule ou a « iloso ia
bantu» de P. Tempels. Com base neste reencontro de África com as
suas origens culturais, o investigador soluciona o problema de uma

11. Ver Civilisation ou barbarie?, p. 425 ss.

III. A razão nasceu entre os negros 53


«filosofia africana» rechaçando as novas gerações relutantes em
tecer «louvores à etno iloso ia».

«Nenhum pensamento e, muito particular, nenhuma iloso ia podem desenvolver-


-se fora do seu âmbito histórico. Os nossos jovens ilósofos têm de compreender
isso e munir-se rapidamente dos meios intelectuais necessários para restaurar
o pólo da iloso ia em África, ao invés de se alistarem no falso combate da etno-
iloso ia12.»

O que importa realçar no âmbito deste debate crucial é o projecto


do historiador que coloca os factos no seu devido lugar. «Constatei
claramente que o berço dos sistemas mais célebres da Grécia, no-
meadamente os de Platão e de Aristóteles, era o Egipto». Ao reto-
mar estes testemunhos, C. A. Diop causou inevitavelmente surpresa
entre os próprios negros. O Ocidente ensinara-os a considerar os
gregos como sendo os autores das invenções negras. Como tal, terão
de aprender a pensar de outro modo. C. A. Diop insta os seus con-
temporâneos a contemplar o papel dos negros na história da cultura
através dos olhos dos gregos da Antiguidade Clássica. Este contribu-
to para a ciência histórica representa igualmente uma contribuição
determinante para a história das ciências e da iloso ia. Ao reiterar o
«papel civilizador dos egípcios antigos na história da humanidade»,
C. A. Diop não só institui uma ligação entre o estudo das civilizações
africanas e a egiptologia como também reestabelece as origens do
conhecimento. A razão nasceu entre os negros – é precisamente esse
o «escândalo» que está no cerne da obra do historiador africano. É
também esse o motivo pelo qual esta obra suscitou um dos grandes
debates da ciência moderna. A mensagem de C. A. Diop traduz-se na
a irmação de uma verdade escandalosa que não podia bene iciar de
nenhuma propaganda. Não tenderá o pequeno mundo cientí ico-políti-
co do africanismo a silenciar o nome do autor de Nations nègres et
culture? O historiador que reclama o passado usurpado a África rara-
mente mereceu homenagens faustosas nos círculos onde se veri ica
uma recusa em esquecer aquilo que o Ocidente não foi: o lugar pri-
mordial da razão. A exposição das obras do investigador nas grandes
feiras das ideias não é consentida facilmente. O único tom que se lhe
a igura conveniente é o de escárnio.
Através de uma releitura de Civilisation ou barbarie? na qual C. A.
Diop apresenta o balanço das suas investigações, compreende-se os
esforços envidados para abafar a voz perigosa de uma ciência que
desa ia os mitos enganadores inventados pela Europa colonial. Não

12. Id., p. 13.

54 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


obstante as novas perspectivas inauguradas pelo advento do espírito
crítico, a consciência europeia deixou-se toldar pelo trá ico de escra-
vos e pela colonização a ponto de descurar a voz dos seus principais
mestres para quem a identidade negra do Antigo Egipto constituía
um facto inegável. Ao redescobrir aquilo que os gregos antigos havi-
am aprendido com os negros, o Ocidente descortina, em simultâneo,
as origens do seu saber e da sua cultura. Quanto aos jovens africanos,
devem aprender a esquecer os dados fornecidos pela Europa a
respeito da África negra. Desse modo, apropriam-se da sua memória
verdadeira e libertam-se de séculos de alienação:

«A negação da história e das realizações intelectuais dos povos africanos negros


corresponde ao assassínio cultural e mental que antecedeu o genocídio, aqui e
acolá, no mundo. De tal forma que entre os anos de 1946 e 1954 – período mar-
cado pela elaboração do projecto de restituição da história africana autêntica, de
reconciliação das civilizações africanas com a história – a visão deturpadora dos
antolhos do colonialismo adulterou as perspectivas dos intelectuais sobre o pas-
sado africano tão profundamente que enfrentámos di iculdades consideráveis,
mesmo em relação aos africanos, para obter a aceitação das ideias que, actual-
mente, estão na iminência de se tornarem lugares-comuns. É di ícil imaginar qual
era o grau de alienação dos africanos de outrora13».

13. Ibid., p. 10.

III. A razão nasceu entre os negros 55


IV. Consciência histórica
e revolução africana
Primeiramente, o nome de C. A. Diop icará «para sempre associado
ao renascimento da história africana. Graças aos seus trabalhos, foi
possível revelar toda uma parte do passado africano, permitindo,
em simultâneo, colmatar lacunas consideráveis em termos do conhe-
cimento da evolução geral da humanidade. Ademais, contribuíram
para que os africanos conseguissem recuperar com maior e icácia
uma fracção importante da sua memória colectiva, a qual lhes per-
mite ter uma percepção mais adequada dos alicerces da sua identi-
dade cultural1».

O problema da história africana


É necessário incidir sobre a esfera particular em que C. A. Diop não
representa somente uma das mentes mais criativas do nosso continente
mas também um homem de ciência cujos trabalhos sobre o Antigo
Egipto constituem um desaϔio permanente por conta do seu carácter
revolucionário.
Conforme devidamente salientado por J. Ki Zerbo, C. A. Diop apre-
senta as seguintes características:

«a vontade indomável de endireitar a história, de reorganizar o “Imago Mundi” e,


recorrendo a uma revolução semelhante à coperniciana, colocar o sol no centro
do sistema. Trata-se de um trabalho titanesco que suscitava o sarcasmo nuns, a
estupefacção noutros e, regra geral, o escândalo entre todos os cientistas que se
recusavam a encará-lo de frente, preferindo olhá-lo de lado, já que o statu quo
de então se a igurava suspeito. Esta verdade fundamental do contributo determi-
nante dos negros para o progresso da humanidade (…), será apoderada pelo nosso
irmão Cheikh, qual Prometeu que rouba o fogo ao Olimpo dos Deuses2».

1. Ver Sud, revue africaine d’intégration, n.º 1, Março de 1986.


2. Idem.

IV. Consciência histórica e revolução africana 57


Para o homem africano, a relação com esta verdade é parte inte-
grante da sua consciência. Urge recuperar toda a sua importância de
modo a compreender o que leva este egiptólogo negro a subir as
nascentes do rio Nilo.
C. A. Diop dedicou grande parte da sua vida à descoberta e à
defesa desta verdade. Levou a cabo a sua missão através das etapas
da sua investigação e dos momentos cruciais da cultura negra, desde
a criação da revista Présence Africaine até à realização dos congres-
sos de escritores e artistas negros, à fundação da Sociedade Africana
de Cultura e à celebração do primeiro festival mundial das Artes Ne-
gras na qual desempenhou um papel de monta. Ao longo de mais de
30 anos, esta aventura prometeica continuou em livros e artigos, em
conferências e colóquios, em debates e comunicações nas quais este
homem se assumiu como uma das grandes vozes do mundo negro.
Esta vida devotada à investigação é instigada por um único propósito:
restituir a consciência histórica dos povos africanos. Homenagear
C. A. Diop signi ica também recordar o sentido de uma obra que
transformou o panorama científico do nosso tempo. É isso que
pretendemos fazer ao remontar à origem do combate que envolve o
futuro do homem africano.
A escolha desta esfera não deverá causar surpresa para um pensa-
dor africano. No contexto em que a antropologia se apresenta como
uma ciência das sociedades primitivas, não será a história uma di-
mensão da existência humana de que os negros carecem, segundo
a convicção ocidental? Revela-se oportuno mencionar as a irmações
de Hegel; segundo o ilósofo, o continente africano é desprovido de
«uma história propriamente dita» e, por conseguinte, descura «Áfri-
ca para, depois, não voltar a referi-la». Com efeito, «o que entende-
mos globalmente pelo nome de África é um mundo anistórico, não-
-desenvolvido, totalmente prisioneiro do espírito natural e cujo lugar
ainda se encontra no limiar da história universal3». A Europa colonial
não se limitou a assimilar a lição do mestre. Colocou-a em prática
com rigor através das suas instituições, tal como ilustrado pelos
programas de ensino na África negra.
No momento em que C. A. Diop trabalha sobre as origens negras
do Antigo Egipto, o manual escolar de base dos jovens africanos era
Madou et Bineta no qual iguram, precisamente, os aparelhos ideológi-
cos da colonização. Haveria que restituir a imagem de África que
transparece nas leituras, nos ditados ou nas narrações por meio dos
quais os alunos sábios e aplicados aprendem a língua francesa. Mous-
sa et Gigla, substituídos em 1931 por Madou et Bineta sont devenus

3. Hegel, La raison dans l’histoire, 10/18.

58 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


grands, são instados a descobrir o contraste entre os «primitivos»
e os «civilizados» através de Les contes de la brousse et de la forêt
(1932), a par de outras leituras animadas. A partir do universo euro-
peu que o manual lhes dá a conhecer, Mamadou e Bineta, que repre-
sentam os protótipos dos colonizados, comparam a cubata nativa e
habitação moderna, as técnicas e os costumes dos nativos e a imagem
da Europa e da sua civilização. À aldeia «relativamente selvagem» de
Mamadou e Bineta opõe-se Paris, essa cidade onírica em relação à
qual o ensino procura suscitar um certo encantamento na medida
em que constitui o símbolo da civilização presente na memória dos
antigos atiradores negros.
Eis o panorama do ensino na África negra. Para os jovens africanos
dos anos 50, a escola faz sonhar com a cidade e a Europa, tanto mais
que a imagem dos negros e das suas sociedades corresponde à dos
povos selvagens. Ao libertá-los desta situação, a escola deve elevá-lo
a um «estádio» superior no qual, moldado à imagem do seu senhor,
o colonizado renuncia às suas origens a im de assumir a história
dos «civilizados». Adicionalmente, a criança negra aprende que os
seus antepassados são os gauleses «de olhos azuis e cabelos com-
pridos». Profundamente assimilacionista, o ensino colonial visa pro-
duzir «peles negras e máscaras brancas». Para singrar nessa missão,
não basta a obrigação de aprender tudo na língua do estrangeiro:
o ensino da história contribui para a consecução dos objectivos da
política de educação.
Deve «propender para a demonstração de que França é uma na-
ção rica, poderosa, capaz de se fazer respeitar, mas, em concomitân-
cia, ilustre devido à nobreza dos seus sentimentos, generosa e que
nunca recuou perante os sacrí icos humanos e monetários para con-
ceder aos povos dependentes ou às comunidades selvagens a paz e
os bene ícios da civilização4». Nessa perspectiva, «quanto à nossa
história nacional, esta deverá sobretudo munir a alma nativa de exem-
plos heróicos e imbuí-la de admiração5». Chamado a olhar-se para si
próprio no espelho do outro, o jovem estudante africano descobre
que necessita da colonização para ter acesso ao bem-estar e à paz. O
que pressupõe que, antes da penetração europeia, os nativos viviam
na barbárie. África é uma terra de selvagens; reclama a presença do
homem branco, o único dotado de um nível civilizacional superior.
Desde os 10-12 anos, esta mensagem é incutida nas crianças negras
por meio do ensino da história. Uma vez que os aspectos relaciona-
dos com o passado africano devem ser considerados «primitivos» ou

4. Citado por A. Moumouni, L’Education en Afrique, p. 57.


5. Sonolet et Peres, Le livre du maître africain à l’usage des écoles du village, A. Colin, 1983, p. 117.

IV. Consciência histórica e revolução africana 59


«pagãos», há que excluí-los dos programas o iciais e inclusivamente
encará-los com vergonha. Através destes princípios e métodos, o en-
sino o icial visava provocar um sentimento de frustração e, efectiva-
mente, uma verdadeira amnésia colectiva. Não se trata de uma fanta-
sia. Num testemunho comovente, Alioune Diop escreve:

«Recordo-me da minha infância; enfeitiçados pelas histórias e pelo heroísmo, can-


távamos juntamente com camaradas brancos canções antigas, uma herança das
guerras da revolução ou de Napoleão. O meu entusiasmo – tive a mesma sensação
posteriormente nos albergues da juventude – estacava após as primeiras estrofes,
perante a ideia de que os meus antepassados eram diferentes dos destes amigos
com os quais tinha tantos laços e esperanças em comum6.»

O respeito do real
Eis a condição dos jovens africanos dos anos 50 face à questão da
sua origem. Com base nas obras ocidentais, os jovens deparam-se
com «a noite negra», mostrando-se incapazes de explicar aquilo que
os seus antepassados faziam no continente desde a pré-história. A
revolução cultural preparada por C. A. Diop – que, em plena crise
do colonialismo, destaca a importância da memória para as novas
gerações de africanos – eclode neste contexto. Em certo sentido, a
história resume a consciência que um povo tem de si próprio e en-
volve a totalidade da existência humana no seu futuro. Ademais, para
o negro, a recuperação da sua memória signi ica munir-se de um eixo
de referência a im de reconquistar aquilo que fora con iscado em
prol do Ocidente7. Logo, para se libertar, é necessário começar por
uma consciencialização acerca do seu passado. Ao colocar o problema
da história africana, C. A. Diop abre um caminho de libertação para
os colonizados. Ao reestabelecer «a clareza acerca de um período
histórico cuja obscuridade apenas se deveu realmente (…) ao apogeu
do imperialismo», o egiptólogo permite que o «negro se reapodere
da continuidade do seu passado histórico nacional, de retirar dele
o bene ício moral necessário à reconquista do seu lugar no mundo
moderno8».
C. A. Diop reitera a importância desta investigação sobre uma
questão determinante que se prende com o facto de os mestres
da verdade terem, amiúde, ensinado aos africanos um conjunto de

6. A. Diop, «Le Congrès des hommes de culture noire», Le Monde, 11 de Outubro de 1956.
7. Cf. J. Ki Zerbo, «Histoire et conscience nègre», Présence Africaine, 1957.
8. C. Anta Diop, Nations nègres et culture, vol. 2, p. 411; Civilisation ou barbarie?, capítulos 16 e 17.

60 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


falácias: a perda da memória deve ser considerada, entre os coloniza-
dos, como um dos efeitos culturais da opressão política e da violência
simbólica. «Convencer o negro de que ele jamais foi responsável por
nenhum feito válido, nem mesmo por aquilo que existe na sua terra9»
decorre de uma intoxicação, o que contribui naturalmente para o
«abandono, a renúncia a qualquer aspiração nacional. Procede-se ao
reforço dos re lexos de subordinação entre aqueles que já evidencia-
vam uma alienação». A história era uma arma ao serviço do imperialismo
europeu. Defender que os negros não têm outra alternativa para sair
desta situação senão através da assimilação signi ica obstruir o pro-
cesso de emancipação. O perigo é considerável: «o veneno cultural
habilmente inoculado desde a mais tenra idade tornou-se parte in-
tegrante da nossa substância10». Para colocar um termo nesta situa-
ção, o único caminho para a salvação, segundo C. A. Diop, reside na
destruição «destas armas culturais que, nas mãos do ocupante, se
a iguram terríveis». Atendendo à premência dos problemas da época,
«torna-se assim imprescindível que os africanos se debrucem sobre
a sua própria história e a sua civilização, procedendo ao seu estu-
do de molde a atingirem um conhecimento mais aprofundado de si
próprios; e assim tornar estas armas culturais ultrapassadas, gro-
tescas e, doravante, inofensivas por meio de um conhecimento ver-
dadeiro do seu passado11». Trata-se de um desa io considerável. A
reconciliação entre África e a história signi ica um questionamento
acerca do conjunto dos discursos elaborados na Europa durante os
séculos do imperialismo. Neste caso, a verdadeira crise das ciências
europeias não corresponde à crise analisada por Husserl mas antes à
crise que se instala quando os nativos africanos aprendem a estudar
história. O empreendimento não está imune a di iculdades e obstácu-
los variados.
Terá o africano quali icações para encetar uma investigação deste
cariz? Antes da publicação das conclusões das suas análises, não será
necessário aguardar até que os doutores terminem de interrogar
o seu candidato para que este retome o seu árduo trabalho imple-
mentando as correcções dos seus mestres? Em termos de veri icação
das suas hipóteses, C. A. Diop não esperou pelo aval dos especialistas
para poder a irmar que o Antigo Egipto era «negro» e se pronunciar
a respeito da «unidade cultural da África negra». Sem se apresentar
perante o júri de sociólogos e etnologias ou de especialistas em lín-
guas africanas, deu início à escola histórica africana através das suas

9. Nations nègres et culture, vol. 1, p. 14.


10. Idem, p. 15.
11. Ibidem

IV. Consciência histórica e revolução africana 61


investigações, baseando exclusivamente nos métodos de investiga-
ção cientí ica. Mais precisamente, antecipar-se-á aos especialistas,
destruindo uma série de falácias tornadas o iciais pelo imperialismo
através dos aparelhos ideológicos da violência colonial. Em nome da
ciência, urgiu demolir os mitos impostos por séculos de erudição.
A descoberta de factos há muito ocultados resulta precisamente da
consagração destes «esforços em prol do passado africano que se es-
tende desde a pré-história até ao im da Idade Média e ao surgimento
dos Estados modernos».
A dimensão «polémica» deste projecto a igura-se manifesta: se o
discurso dominante traduz-se em pura misti icação e pseudociên-
cia, «é necessário, em nome da verdadeira ciência, mostrar, de forma
persistente, quem manda e proceder à destruição irreversível destes
castelos de areia12». A consecução desta demolição deve ser pautada
pela serenidade, libertando a história dos métodos intuitivos assen-
tes na verosimilhança das coisas. Ao trabalhar sobre a primeira obra
geral de história africana escrita por um negro de expressão fran-
cesa, C. A. Diop vela pela qualidade da sua investigação sobretudo
pelo facto de o seu esforço cientí ico se inserir num contexto de luta.
Somos induzidos a pensar que, atendendo a esta conjuntura, todas as
a irmações dos negros no plano da ciência emanam necessariamente
de um sentimento anticolonialista dado lutarem pela sua libertação.
O que, em suma, originaria somente exageros ou equívocos por conta
de uma reacção emocional.
O historiador africano está perfeitamente ciente do desa io inerente
à sua investigação para cometer os erros que tente debelar. C. A. Diop
não aguarda o veredicto dos especialistas com vista a assimilar
aquilo que eles decidem considerar como verdadeiro porque sabe
que o valor do seu trabalho permanecerá intacto se trabalhar com
método e objectividade. Trata-se de rectiϔicar a história humana
através de uma abordagem diferente daquela que é adoptada pelos
titulares da pseudo-ciência. Em última instância, C. A. Diop visa con-
fundir os especialistas ao recordar aquilo que, com base em factos
objectivos e vozes silenciadas, não pode ser contestado sem trair a
herança autêntica da civilização do Ocidente. O historiador africano
almeja incessantemente reintroduzir «o problema da história afri-
cana» na esfera da «exactidão», «a única que se a igura verdadeira-
mente interessante e acessível a uma ciência objectiva13». Aí aguarda
«todos esses psicossociólogos de circunstância ou de pro issão» que
«dissimulam a sua fuga» pois as razões que impelem à escrita são

12. Antériorité des civilisations nègres, p. 11.


13. Idem.

62 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


totalmente alheias à veracidade ou à exactidão daquilo que se es-
creve. A obstinação de C. A. Diop relativamente à defesa das suas
hipóteses única e exclusivamente com base na verdade demonstra
que a sua obra representa um dos principais desa ios da ciência con-
temporânea.
O historiador africano não pratica o culto de nenhuma autoridade
sacrossanta para persistir nas suas convicções. Está apenas vincu-
lado ao respeito de factos insusceptíveis de serem alterados.

«Quando, no decurso das nossas investigações, chegámos à certeza de que o An-


tigo Egipto fazia parte do mundo negro, esse facto maravilhou-nos e criou-nos
di iculdades. Todavia, não podia deturpar a verdade histórica por complacência,
forjando outras origens para os povos africanos a im de passar a imagem de um
trabalho mais “sério”, “cientí ico” e sobretudo mais aceitável aos olhos de inúmeros
especialistas que, quando consideraram que a origem da raça negra remontava a
alguns milénios, pensavam que estavam a fazer uma grande concessão14.»

Ao longo da vida e da obra do egiptólogo africano, deparamo-nos


com esta exigência de idelidade e honestidade intelectual, evocativa
da coragem de Galileu perante a Igreja do seu tempo. Homem de ciên-
cia e militante anticolonialista empenhado na libertação do seu povo,
C. A. Diop não pode sacriϔicar a verdade nem a luta. Deve aceitar esta
aposta di ícil respeitando os direitos da razão a im de justi icar o
sentido do seu combate.
C. A. Diop submete o estudo da história africana a esta prova de
objectividade. Por conseguinte, trata-se de um domínio desprovido
de verdade caso não se proceda a um questionamento do discurso
colonial: «O progresso concreto da consciência humana implica uma
determinação em reconhecer abertamente os erros das interpreta-
ções cientí icas, inclusivamente na área da história, em reconsiderar
as adulterações, em denunciar as frustrações de patrimónios15».
Nessa perspectiva, o problema do egiptólogo negro não consiste
em apurar se África tem uma história. No início do século XX, com
Delafosse, começavam a conhecer-se os grandes impérios da África
Ocidental. Sabia-se que o Gana era, no século X, uma das cidades
mais importantes do mundo. Os trabalhos de Delafosse situaram a
origem do império do Gana no ano 300 d.C. Além disso, Frobénius
havia valorizado «a civilização africana». Na mesma linha, Baumman
e Westermann publicam a única obra de síntese etnológica sobre
a África negra. Desde a revolução cubista, a arte negra encontra-se

14. Nations nègres et culture, vol. 1, p. 25.


15. Antériorité des civilisations nègres, p. 12.

IV. Consciência histórica e revolução africana 63


em voga na Europa. A civilização de Ife é alvo de admiração, sendo
considerada um dos pináculos da arte mundial. Griaule apresenta as
cosmogonias e a meta ísica dos dogon ao passo que os relatos dos
viajantes árabes recordam a vitalidade intelectual da universidade
de Tombuctu onde, no século XIII, Aristóteles servia de tema para
inúmeros comentários. Na África Austral, as escavações ressuscitam
as civilizações urbanas do Zimbabwe que, graças a um comércio lo-
rescente, contactavam com a Índia e a China16. Estes testemunhos
destroem paulatinamente o mito de uma África que conservou o seu
cariz selvagem no período anterior à penetração europeia no século
XV.
Todavia, falta determinar o espaço-tempo no qual se devem inscrever
as manifestações culturais cujo inventário é realizado nas várias
regiões do continente. No atinente a esta questão inédita, impõe-
-se, por força das circunstâncias, uma tarefa de «recti icação» ou
de «restabelecimento» da história. O que só é possível mediante a
destruição das teses fantasistas que distorcem os factos através da
ocultação do contributo dos negros para a evolução da humanidade.
Logo, a transição do «mito» para a «verdade histórica» implica um
reconhecimento da «anterioridade da realidade negra na história da
humanidade» bem como das «origens negras do Antigo Egipto17». A
partir deste problema fulcral, a ciência poder-se-á dissociar da ideo-
logia. Com efeito, «o mito do negro» desenvolveu-se precisamente
em torno deste aspecto especí ico, cujo nascimento é passível de ser
acompanhado no pensamento ocidental. Em torno deste facto funda-
mental, assistiu-se à «deturpação moderna da história». A mentira só
será substituída pela verdade no caso de um reconhecimento do «pa-
pel civilizador dos egípcios antigos na história da humanidade» por
parte do saber. Cabe agora recordar um texto capital de C. A. Diop:

«Berço da civilização durante 10 000 anos numa época em que o resto do mundo
estava imerso na barbárie, o Egipto, destruído em virtude de ocupações suces-
sivas, deixará de desempenhar qualquer papel no plano político. Todavia, con-
tinuará ainda a iniciar os jovens povos mediterrânicos (gregos e romanos, entre
outros) nas luzes da civilização durante muito tempo. Durante toda a Antiguidade,
permanecerá a terra clássica que será visitada pelos povos mediterrânicos em
peregrinação com o intuito de beberem das fontes dos conhecimentos cientí icos,
religiosos, morais, sociais, etc. mais antigos que homens haviam assimilado.18»

16. L’Afrique noire pré-coloniale; ler também Les fondements économiques et culturels d’un État
fédéral d’Afrique noire, pp. 11-15.
17. Ver Nations nègres et culture e Antériorité des civilisations nègres.
18. Nations nègres et culture.

64 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Para fazer justiça ao negro, importa consentir o reconhecimento
do seu papel «enquanto o mais antigo guia da humanidade rumo à
civilização». Eis o propósito das teses defendidas por C. A. Diop por
meio de uma vasta erudição que atravessa uma obra imensa cuja uni-
dade e pertinência residem na a irmação da «origem negra do povo
e da civilização do Egipto». O historiador africano manteve este seu
parecer inalterado desde 1954. Em 1967, escreve: «A própria ciên-
cia histórica só facultará todos os esclarecimentos possíveis acerca
do passado a partir do momento em que integrar nas suas sínteses
a componente negra da humanidade, numa proporção determinada
pelo verdadeiro papel que esta despenhou na história19». Ora, segun-
do o egiptólogo africano: «Ainda hoje, de entre todos os povos que
habitam a terra, somente o negro da África negra pode demonstrar
exaustivamente a identi icação da essência da sua cultura com a cul-
tura do Egipto faraónico, de tal modo que ambas as culturas podem
constituir sistemas de referência mútuos. É o único que se pode
reconhecer de forma incontornável no universo cultural egípcio;
sente-se em casa20».

Do conhecimento histórico à consciência política


Com base nesta «descoberta» que condiciona a emergência de uma
consciência histórica, a renovação da abordagem relativa às questões
africanas, tendo em vista um conhecimento aprofundado acerca das
realidades do continente, torna-se possível. A obra de C. A. Diop, no
seu todo, visa a constituição de uma espécie de novo entendimento em
África baseado no Egipto negro, o qual é encarado como um conceito
operatório propriamente dito. A ligação com o Antigo Egipto a igura-
-se imprescindível para que a África contemporânea possa reanimar
a sua cultura na medida em que o vale do Nilo representa para os
povos negros aquilo que a Grécia Antiga simbolizou para os homens
do Renascimento. Adicionalmente, o historiador africano considera
que:

«A ligação ao Egipto, em todas as esferas, é condição necessária para a reconcilia-


ção das civilizações africanas com a história, para a construção das ciências huma-
nas modernas, para a renovação da cultura africana. Longe de ser uma deleitação
sobre o passado, um olhar sobre o Antigo Egipto representa a melhor forma de
conceber e construir o nosso futuro cultural. O Egipto desempenhará na cultura

19. Antériorité des civilisations nègres, p. 11


20. Idem, p. 12

IV. Consciência histórica e revolução africana 65


africana repensada e renovada o mesmo papel desempenhado pelas antiguidades
greco-latinas na cultura ocidental21.»

Em última instância, «o sentido profundo e a coerência dos factos


culturais africanos só serão apurados em função do Egipto. Só é pos-
sível criar um corpo de disciplinas cientí icas por meio da legitimação
da ligação ao Egipto22». C. A. Diop reitera este aspecto que se mantém
uma das suas convicções mais profundas. Em Antériorité des civilisa-
tions nègres, escreve: «Os estudos africanos só sairão do círculo vi-
cioso no qual se movem mediante uma abordagem inspirada no vale
do Nilo, de molde a descobrirem o seu sentido e a sua fecundidade23».
O autor de Nations nègres et culture demonstrou-o através da sua
própria prática cientí ica. A análise dos grandes temas da sua obra
revela precisamente isso, não sendo, todavia, necessário abordá-la
novamente. Importa especi icar o quadro teórico em que se esboçam
e se desenvolvem novas problemáticas ao longo do percurso intelec-
tual do investigador africano. Trata-se, em primeiro lugar, da egip-
tologia que constitui a disciplina-mestra de C. A. Diop. Esta ciência
recupera o seu dinamismo por meio de uma abertura ao «mundo ne-
gro», esquivando-se assim do isolamento a que estivera con inada
em virtude do discurso africanista, mais precisamente desde Volney
cujas «conclusões (…) deveriam ter tornado impossível a invenção
ulterior de uma hipotética raça branca faraónica que teria importado
da Ásia a civilização egípcia no início do período histórico24». Para
C. A. Diop, «a egiptologia só se curará da sua esclerose secular e do
hermetismo dos seus textos quando ousar fazer explodir as compor-
tas que a isolam, em termos doutrinários, da fonte vivi icante que
constitui, para si, o mundo negro25». Também as letras gregas e lati-
nas descobrem a sua actualidade quando se observa o modo como o
erudito africano tira estes textos antigos das bibliotecas repletas de
pó para ensinar os africanos e os próprios ocidentais a reler a história
segundo a visão de Heródoto, Aristóteles ou de Estradão, para quem o
papel do Egipto negro na evolução da humanidade constitui um facto
da consciência intelectual da Antiguidade.
O mundo do saber expande-se ao longo das áreas de investigação
cuja abertura se deve à articulação das relações entre a África negra
e o Antigo Egipto. Atente-se no impacto e nas implicações dos trabalhos
sobre o estudo das línguas africanas, bem como nos debates sobre a

21. Civilisation ou barbarie?, p. 12.


22. Antériorité des civilisations nègres, p. 12
23. Idem.
24. Nations nègres et culture, vol. 1, p. 59.
25. Antériorité des civilisations nègres, p. 12.

66 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


origem dos egípcios antigos. Muito antes do colóquio do Cairo que
reconheceu a validade cientí ica das teses de C. A. Diop26, o primei-
ro egiptólogo da África negra frisara a importância do processo de
aparição dos morfemas de classes, já evidenciados na língua dos
textos dos pirâmides, para a linguística. Após o colóquio do Cairo,
as teorias esboçadas em Nations nègres et culture e Afrique noire
précoloniale são retomadas em moldes sistemáticos no estudo in-
titulado Parenté génétique de l’égyptien pharaonique et des langues
négro-africaine, publicado em 1977. É igualmente relevante insistir
na renovação da perspectiva sobre os factos culturais do mundo
negro a partir da sua abordagem à luz da civilização egípcia.
Assiste-se a uma espécie de ênfase do sentido e do valor de fenó-
menos há muito identificados com as manifestações das «socie-
dades arcaicas». Logo, como reduzir a circuncisão a um rito de «po-
vos primitivos» quando tais práticas são detectadas numa região de
África que foi o berço da civilização? C. A. Diop submete a etnologia
colonial a um teste severo através da reconciliação da África negra
pré-colonial com a história. Se o fundamento do discurso africanista
europeu reside na não-historicidade das «sociedades primitivas», a
continuidade do mundo negro com o Egipto – onde se encontra o
berço da historicidade – obriga a um questionamento do «arcaísmo»,
o qual constitui o postulado do conjunto dos estudos sobre a África
negra. Há que parar de sonhar com um mundo estável e imune aos
tumultos da história. Evidentemente, o estudo da família e a análise
das relações de parentesco podem ser aprofundadas, tal como as
instituições matrimoniais e as práticas rituais, as crenças e as formas
de culto podem ser objecto de re lexão. Importa unicamente recor-
dar que estes fenómenos não pertencem a sociedades suspensas no
ar, sem origem e alheias ao futuro, às suas tensões e aos seus con li-
tos. Por outras palavras, estas sociedades já não podem ser encara-
das como sociedades estáticas, inseridas num mundo imutável, onde
o tempo seria interrompido de uma vez por todas, protegendo os ho-
mens, as suas tradições, mentalidades e instituições das crises que
afectam as sociedades em devir.
Atestada pelas migrações e o processo de formação dos povos
africanos actuais, a criação dos Estados e dos grandes impérios, a ex-
periência histórica27 das sociedades africanas28 suscita um conjunto de
problemas de ordem teórica apenas resolúveis através de uma nova

26. Ver os testemunhos coligidos por C. Anta Diop sobre a matéria em Nations nègres et culture e
Antériorité des civilisations nègres, pp. 34-40.
27. Ler as conclusões do colóquio, designadamente o contributo de C. Anta Diop sobre a origem
dos antigos egípcios em Histoire générale de l’Afrique, Unesco, Paris, vol. 1.
28. Cf. L’Afrique Noire pré-coloniale.

IV. Consciência histórica e revolução africana 67


prática de investigação no contexto africano. Ao recusar a aceita-
ção do «mito do negro» engendrado pelo imperialismo, C. A. Diop
rompe com uma tradição intelectualista imposta pelo evolucionismo,
o qual condena os investigadores à identi icação, em África, de meras
«etapas» ou «eras» da inteligência, superadas pelo homem ocidental,
o único que alcançou a maturidade da vida do espírito. Pode admitir-se
que «o pensamento selvagem» não corresponde ao pensamento dos
selvagens, a constituição das categorias fundamentais do espírito hu-
mano com base no estudo dos não-europeus pressupõe a referência
a um mundo anistórico introduzido no Ocidente pela iloso ia hegeli-
ana. É necessário um outro olhar caso a constituição das sociedades
pré-coloniais se processe com base na sua própria historicidade ao
longo dos acontecimentos cuja marca é difícil de ignorar desde o
Antigo Egipto até ao século XV, altura em que a penetração euro-
peia instaura a crise no seio de civilizações dotadas de um passado
glorioso.
Constata-se que, na África negra, as sociedades ditas primitivas
são atravessadas por uma história deturpada e dissimulada. Em que
medida a etnologia e a antropologia escapam aos arti ícios do im-
perialismo, tendo em conta a sua tendência para ocupar territórios
de investigação dos quais a sociologia, reservada à análise das so-
ciedades dinâmicas, seria excluída? Não implicará a elaboração de
uma «antropologia sem complacência» a referência à história no
seio das sociedades que são restituídas a si próprias? Esta questão
encontra-se no cerne do debate que coloca em causa o discurso afri-
canista europeu. A reintrodução da dimensão histórica na consciência
do negro exige uma espécie de ruptura epistemológica que permita às
ciências humanas levarem a cabo uma auto-análise perante as socie-
dades africanas. À semelhança de vários africanistas do pós-guerra,
C. A. Diop não esperou pela descolonização para aplicar um modo
de análise dinâmica às realidades humanas do mundo negro. Na sua
óptica, as mutações das sociedades africanas são anteriores às situa-
ções de crise provocadas pela famosa transição entre a «tradição»
e o «modernismo».
Através das formas do funcionalismo e do estruturalismo, a antro-
pologia inspirada pelo movimento colonial propende a eliminar os
con litos engendrados pela violência na vida quotidiana das socie-
dades dominadas. Age como se esses con litos não existissem. Limi-
ta-se a trabalhar no terreno, no quadro da «paz branca», fechando os
olhos aos trabalhos forçados, às práticas de indigenato, à repressão
dos movimentos de protesto e das revoltas camponesas ou popula-
res, aos massacres dos opositores ao regime colonial ou ao genocídio

68 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


de grupos inteiros. O que importa é o encontro com homens alheios
a uma história da servidão e da dominação. Em caso de necessidade,
o etnólogo ou o antropólogo transformam-se em espiões procurando
in iltrar-se, a partir do interior, nos mecanismos de uma sociedade
cujas dinâmicas os próprios estudam a im de aprender a neutralizar
as suas capacidades de luta e de resistência, a sua aptidão para con-
testar o regime em vigor e a colocar entraves aos interesses do im-
perialismo. Sob o véu da neutralidade cientí ica, a antropologia en-
tra no jogo do poder ingindo ignorar o peso das servidões sobre as
sociedades con inadas em formas manifestas ou latentes do «primi-
tivismo». C. A. Diop opta por romper com estas falácias do saber en-
quandrando o estudo das sociedades africanas numa perspectiva
histórica. Tece a seguinte observação: «Sem a dimensão histórica,
jamais teríamos tido a possibilidade de estudar a evolução das socie-
dades, de transitar entre o nível etnológico e o nível sociológico29».
O investigador embrenha-se no levantamento de todos os indícios
de mudança que afectam as sociedades africanas. Embora não frise
as alterações inerentes às grandes correntes migratórias e à forma-
ção dos Estados, salienta a importância das transformações operadas
nos sistemas familiares, na medida em que «a estrutura da parentela
depende intimamente das condições materiais de vida; evoluindo ou
transformando-se, a par das últimas, de um modo que o estru-
turalismo de Lévi-Strauss seria incapaz de antever». Sob a in luência
do islamismo, determinados grupos étnicos transitaram do matri-
arcado para o patriarcado, facto que não só se repercutiu no nome
atribuído aos descendentes, como também nas práticas relativas à
herança30. «Essa fase de transição, de passagem do matriarcado para
o patriarcado é plena de ensinamentos para a sociologia31.» O que
signi ica que, face às sociedades consideradas «tradicionais», não
nos deparamos com um mundo incólume e puro, cujas estruturas se-
riam simples. Na realidade, segundo observa C. A. Diop, «a maioria
dos clãs e das tribos já se submeteram a uma evolução muito com-
plexa. Facto que se veri ica nas sociedades africanas que viveram sob
o regime monárquico e que se retribalizaram em maior ou menor
grau, ao longo do período do trá ico de escravos negros32».
Outro acontecimento relevante a nível do estudo dos factos sociais
africanos verifica-se quando «o sistema de sociedade de castas é
substituído pelas classes sociais (…). Talvez o estudo das sociedades

29. Civilisation ou barbarie?, p. 13.


30. L’Unité culturelle de l’Afrique.
31. Civilisation ou barbarie?, p. 148.
32. Idem, p. 152.

IV. Consciência histórica e revolução africana 69


do delta do Níger explique a transição interna de um sistema de
castas para o sistema de classes. Para a sociologia africana o interesse
da questão é notório33». A aculturação é um fenómeno cuja importân-
cia também é vaticinada por C. A. Diop que, sem elaborar um estudo
esquemático, esboça um «método de abordagem das relações inter-
culturais» com base em problemas de tradução34. Em contrapartida,
a evolução das sociedades e o motor da história estão no cerne da sua
investigação. Assim sendo, partindo da análise das particularidades
sociopolíticas da África negra pré-colonial, ele propõe uma verdadei-
ra «sociologia histórica» cujas questões são desenvolvidas e debati-
das na maioria das suas obras35.
Talvez seja conveniente relembrar essa abordagem das realidades
do continente para não con inar C. A. Diop à contemplação do Egipto
faraónico. Pelo facto de se preocupar com o problema da origem, não
desiste de tentar compreender a África em formação. Eis o motivo pelo
qual não pode de inir a identidade cultural sem demonstrar que as
«características culturais que herdámos do passado (…) não são de
todo cristalizadas ou permanentes e que se transformam de acordo
com as condições: África começa a conhecer as consciências profun-
damente individualistas, com as habituais consequências36». É com
lucidez que o investigador aborda as realidades de uma sociedade
sem adornos, cujas contradições dão origem às novas gerações.
Já em 1954, aquele que se considerava polarizado pelo estudo da
antiguidade negro-egípcia equacionava o problema da efectiva liber-
tação de África no âmbito da «federação de todos os Estados negros
do continente». «Evitar a qualquer preço depender dos outros mais
do que aquilo que eles dependem de nós»: eis o desa io da solução
federal que se impõe aos Estados africanos para fugir «à pressão de
um monstro económico qualquer». Segundo C. A. Diop, o problema
da anterioridade das civilizações negras não é uma preocupação de
intelectual que se interporia à luta diária pelo pão, que é a única que
importa, numa África em que é preciso transformar as condições de
vida, aqui e agora. Nessa óptica, a questão da identidade cultural é
indissociável da questão da emancipação política e económica. A
sua unidade deve ser contemplada para respeitar o processo do his-
toriador africano. Pelo facto de se preocupar com o futuro das lín-
guas africanas, C. A. Diop não negligencia os dramas da seca e das
situações de fome, como ressalva o seu Alerte sous les tropiques, no

33. Ibidem.
34. Ibid., cap. 15, pp. 283-290.
35. Ver o subtítulo de L’Afrique Noire pré-coloniale.
36. Civilisation ou barbarie?, p. 280.

70 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


qual alumia o problema determinante da re lorestação das regiões
sahelianas. Na obra Les fondements économiques et culturels d’un État
fédéral d’Afrique noire, a irma-se como um dos raros intelectuais da
sua geração a abordar o problema da fome que tolda o horizonte do
segundo milénio. Eis a preocupação diária que, num continente mu-
nido de recursos extraordinários, suscita uma avaliação das forças
sociais susceptíveis de retomar a iniciativa histórica para promover
as mudanças necessárias.
Nesse aspecto, nada poderia dissimular as graves questões que
surgem. Para C. Anta Diop: «A função da sociologia consiste em fazer
o balanço sobre o passado para ajudar África a enfrentar o presente
e o futuro da melhor maneira. Não há qualquer característica espe-
cí ica (…), que ela não deva analisar e explicar para que os africa-
nos sejam capazes de ler dentro de si mesmos, para poderem reagir
da melhor forma37.» Entre os problemas que são alvo da atenção do
observador, não se conta unicamente o problema demográ ico, mas
também a ameaça nuclear oriunda da África do Sul, as diversas for-
mas de agressão cultural e a tendência para a sul-americanização de
África com a fragmentação política que «permitiu ao imperialismo
retomar a iniciativa dos acontecimentos38». Num editorial de Jeune
Afrique, em 1965, C. Anta Diop, escreve que sem o seu folclore, «o fu-
turo é sombrio. O imperialismo decide organizar a anarquia em todo
o continente para preservar a iniciativa política que já tinha alcan-
çado e que lhe tinha sido retirada pelos movimentos de libertação,
em vésperas da independência dos Estados. Eis um facto novo que se
reveste da máxima importância e no qual os africanos devem centrar
a sua atenção. Eis o lagelo que sempre denunciámos39». Aos olhos do
investigador africano, aquilo que é grave é o facto de que a consciên-
cia política dessa situação não alcance todos os níveis da sociedade.
Ao observar a experiência política dos Estados da África negra a
partir de 1960, nada indica que atendendo à extraordinária história
antiga do Egipto negro, o futuro dos povos negros também brilhará
automaticamente. Eis o motivo pelo qual não podemos recriminar
o sociólogo por não considerar as realidades sociopolíticas que es-
tão longe de serem homogéneas numa África na qual as coloniza-
ções passadas são afectadas pelas contradições inerentes ao Estado
neocolonial. C. Anta Diop desvela essas contradições ao identi icar
os bloqueios estruturais ao advento de uma África unida e livre. No
cerne da análise está a profunda hostilidade em relação aos Estados

37. Antériorité des civilisations nègres, p. 283.


38. Idem.
39. «L’Afrique doit s’unir», Jeune Afrique, n.º 240, 1965.

IV. Consciência histórica e revolução africana 71


africanos erigidos nas fronteiras herdadas pela colonização. De fac-
to, essa sul-americanização de África resulta numa «proliferação de
pequenos Estados ditatoriais sem vínculos orgânicos, assolados por
uma debilidade crónica, governados pelo terror com a ajuda de uma
polícia hipertro iada, mas sob o domínio económico estrangeiro que
vai puxando os cordelinhos a partir de uma simples embaixada». Não
há dúvida de que a situação é explosiva nesses Estados microscópi-
cos condenados à ditadura e à debilidade económica e política. Reali-
dade que, antes de mais, se deve ao facto de que, a partir do trá ico
de negros, África passa a integrar o ciclo histórico das sociedades
prometeicas, na medida em que a redução do homem à escrava-
tura, na acepção ocidental do termo, veio gerar um «desequilíbrio
dinâmico permanente» incitador de con litos e revoluções, ilustrado
brilhantemente por Toussaint Louverture40. Com os movimentos de
libertação, o mundo entrou na era da revolução planetária que «diz
respeito a todas as antigas colónias que se libertam do jugo colo-
nial41».
Em nenhuma circunstância, a África das independências é exemplo
de igualdade perante a miséria caso haja predisposição para renunci-
ar às ideologias do consenso que dissimulam os interesses de classe
recorrendo aos partidos no poder. Eis então um fenómeno singular
na história africana: o de uma massa «de explorados sem compensa-
ção». Efectivamente, o processo de acumulação e de con iscação das
riquezas está muito avançado. Sendo repartidas de modo desigual,
as últimas transitam das mãos dos antigos colonos para as mãos das
novas burguesias africanas42. Constata-se a necessidade de um es-
tudo dinâmico das sociedades africanas. Com efeito, «o estudo das
revoluções é fundamental, no momento no qual a sociedade afri-
cana se prepara para iniciar a fase das verdadeiras lutas de classe,
na acepção moderna do termo43». As transformações que se impõem
são limitadas pelo facto de que «a África actual, mesmo após a in-
dependência, ainda mal começou a reagir às sequelas monárquicas.
Mesmo nos dias de hoje a situação não é revolucionária, pois o povo
ainda não descobriu que é o seu próprio salvador; quando está in-
satisfeito, procura um messias e não uma forma de controlar directa-
mente o poder político. Põe em causa os indivíduos e não o sistema
de governação. Tem sentimentos de revolta, mas ainda não sente a
fúria de classe44».

40. Antériorité des civilisations nègres, p. 188.


41. Idem, p. 189.
42. Civilisation ou barbarie?, p. 15.
43. Idem, p. 15.
44. Ibidem.

72 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


A «ausência de partidos revolucionários no poder» também consti-
tui um obstáculo importante. Segundo C. Anta Diop, essa situação tra-
duz «a nova estratégia» do imperialismo na época das independên-
cias. «A nova política liberal» teve como consequência transversal
o afastamento dos verdadeiros movimentos revolucionários e o tri-
unfo das equipas tradicionalmente reformistas (…). Nesse aspecto,
a situação dos Camarões é típica (…). É inconcebível privilegiar uma
equipa revolucionária que viria a questionar tantos interesses. Por
isso, deve tentar-se que o povo dos Camarões não tenha a sensa-
ção de que deve a sua independência ao partido de Um Nyobé45. As
potências coloniais praticaram uma estratégia de usurpação através
da implementação dos regimes políticos africanos concebidos «para
melhorar garantidamente a produção capitalista estrangeira através
de procedimentos que estão à vista de todos46». São esses os regimes
que gerem actualmente a mediocridade quando inúmeros Estados
se encontram «a soro», num contexto dramático no qual a pobreza
vive a par da repressão. C. Anta Diop constata: «Até agora, ainda ne-
nhum trabalho preliminar operou uma transformação radical nas
consciências, para prepará-las para as árduas tarefas que uma ver-
dadeira independência exige». Face ao imperialismo e à reestrutu-
ração dos seus interesses, desenvolve-se somente uma espécie de
«nacionalismo» folclórico e variado, exibindo tantas as cores quanto
os nossos tecidos nativos47». A situação africana requer um esforço
de re lexão audaz e um reforço da consciência nacional. Mas «os
problemas nacionais continuam a ser tratados com uma mentali-
dade de funcionário48». Os recursos do continente são imensos49. O
drama actual dos povos reside na impotência das equipas no poder.
«Os responsáveis políticos são os únicos que não estão à altura dos
problemas e que, no fundo, nunca re lectiram seriamente e receiam
concretizar o acto que consideram uma privação económica50.»
Facto que continua a constituir um desa io nos países nos quais as
elites no poder só procuram proteger-se de situações de carência,
ao passo que os mecanismos do sistema implementados fabricam
excluídos nos bairros de lata e agravam o subdesenvolvimento dos
campesinatos africanos.

45. Les fondements économiques et culturels d’un Etat fédéral d’Afrique Noire, p. 50.
46. Idem, p. 51.
47. Ibidem, p. 45.
48. Ibidem, p. 44.
49. Ibidem, pp. 56-110.
50. Ibidem, p. 32.

IV. Consciência histórica e revolução africana 73


V. Colonização
e o problema nacional
Nas páginas anteriores, foi possível conhecer a radicação da obra e do
pensamento de C. Anta Diop, numa época de crise, na qual as grandes
ideologias coloniais são postas em causa. A partir da década de 1950,
as obras da autoria dos negros africanos trazem a lume problemas de
fundo com os quais o seu povo e a sua sociedade se debatem. Basta
aludir às publicações que emergem em redor da Présence Africaine,
num contexto no qual África começa, en im, a pronunciar-se através
dos escritores e dos estudantes que debatem livremente as grandes
questões do continente, recorrendo às armas da inteligência e do sa-
ber, da poesia e do romance. No período no qual a literatura negro-
-africana se a irma e desenvolve, a última tende a espelhar as socie-
dades nativas em ruptura com o sistema colonial. Em menos de uma
década – entre 1947 e 1957 – a renovação incontestável que afectou
a evolução das ideias concretizou-se a par da apropriação dos órgãos
do pensamento compostos pelas revistas intelectuais e literárias, outros
suportes de imprensa e de edição, colóquios, livros, etc. Os autores
da negritude emergem quando importantes considerações são postas
em causa em África. As suas obras traduzem uma nova sensibilidade.
Num momento no qual os intelectuais europeus tentam compreender
a crise do Ocidente e desenvolver interrogações inerentes à guerra,
em torno de Alioune Diop – considerado uma espécie de Sócrates afri-
cano – os autores e os pensadores negros envolvem-se numa tentativa
de re lexão suscitada pela queda do império colonial.
Com efeito, na sua óptica – contrariamente à revista Esprit, fundada
por Mounier em 1932 – não se trata de questionar uma tradição rela-
tivamente opressiva mas intensa, em suma, de «mudar a cultura e a
política»; contrariamente à alegação de Les Temps Modernes, também
não se trata de enfrentar os problemas da Libertação. Para a Présence
Africaine, o destino dos povos é o desa io de todas as re lexões e o
tema determina o panorama intelectual onde se encontram as elites
negras da época. C. Anta Diop integra o vasto movimento de reivin-
dicação que dinamiza a luta pela libertação plena do homem negro.
Aquele que se revela um dos raros «cientistas» da sua geração é

V. Colonização e o problema nacional 75


também aquele que assume, na sua investigação, os problemas acesos
com os quais os africanos do seu tempo se deparam. A leitura de
C. Anta Diop só pode fazer-se à luz do seu envolvimento nas lutas dos
negros de África. De certo modo, com base na relação do homem com
a história, ele formula o problema fundamental do estado e da nação
nas condições de emergência dos movimentos de protesto anticolo-
niais.
No final da guerra, quando os antigos atiradores se apercebem de
que a liberdade não foi concedida aos nativos, estes assuntos já não
podem ser um tabu. O percurso de Samba Diouf é pontilhado por
momentos de reflexão sobre a desilusão dos senegalenses, dos vol-
taicos e dos daomeanos que penetram em África onde despertam
as massas para a consciência nacional. Eis a situação exposta por
C. Anta Diop na sua re lexão crítica e que viverá num plano global que
abrange o destino dos povos africanos sujeitos durante séculos aos
mecanismos de exploração que, em determinadas regiões, foram
exacerbadas aos limites do absurdo. Para o investigador, deve to-
car-se a raiz do problema e revelar a sua extensão. Ora, C. Anta
Diop está profundamente consciente do drama da colonização e,
no seu entender, não há violência mais letal do que aquela que se
instala e se exerce a nível da imagem que um povo tem de si mesmo
e do seu passado. E, antes de avançar sobre o povo no seu todo, de
expropriá-lo da sua terra e dos seus recursos, ataca-se, antes de
mais, a sua consciência. Se, de certa forma, C. Anta Diop personifica
a consciência dos povos de África, gostaria de saber qual é o tipo
de resposta que ele avançaria para a questão nacional em torno da
qual se articulam os acontecimentos fundamentais que alteraram
profundamente o panorama político e social do nosso planeta, des-
de o fim da Segunda Guerra Mundial.

Uma icção histórica?


Para avaliar as implicações do debate deparamo-nos previamente
com o revisionismo que se manifesta através dos apriorismos epis-
temológicos, os grupos de estudos e as opções de investigações nas
quais se põe em causa a existência da colonização. O movimento sur-
giu a par da crise do «terceiro-mundismo» que eclode na Europa, com
a tentativa prometeica de olhar para si próprio sem sentir vergonha
de si e da sua história, a busca tenebrosa da inocência e a rejeição de
qualquer sentimento de culpa perante o drama dos países do Hemis-
fério Sul, tal como demonstra o autor de Sanglots de l’homme blanc.

76 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Essa tentativa prossegue nos «debates actuais de história colonial1».
Num momento em que a epopeia colonial volta a emergir – tal como
salientam as narrativas de viagem, as recolhas de ilustrações da época,
as colecções ou as imagens televisivas – questiona-se se a colonização
não se terá revelado mais lucrativa para os povos ultramarinos do que
para a metrópole, partindo do pressuposto de que nunca tenha existi-
do. Tudo se passa como se os grandes impérios coloniais não tivessem
sido o palco principal dos investimentos rentáveis para os lobbies de
interesses estrangeiros2. Mais ainda, em vez de acentuar a crueldade
das conquistas coloniais, de acordo com uma tradição que remonta a
Montaigne e aos pensadores iluministas, seria preferível frisar a respon-
sabilidade dos nativos que contribuíram largamente para o atentado
colonial, revelando assim as relações complexas e as interferências
entre colonizadores e colonizados, estrangeiros e autóctones.
Recentemente, H. Brunsvchig evidenciou o papel desempenhado
pelas elites nativas que revelaram ser frequentemente – desde que
deixaram a escola ocidental – os melhores auxiliares da colonização
e os grandes trunfos da ocidentalização – aqueles que Nizan teria
designado por «cães de guarda». Ao tentar analisar «como o coloni-
zado se torna colonizador» desvela-se toda uma panóplia de imagens
e ideias, pondo-se em causa a versão militante de uma rejeição global
e unitária da colonização. Em última análise, deparamo-nos com a
di iculdade de qualquer análise das estratégias dos agentes das lutas
anticoloniais num contexto no qual os modelos do pensamento já não
ousam falar de dependência, de supremacia ou de imperialismo.
Durante muito tempo, o colonialismo foi evidentemente o estádio
supremo do imperialismo, daí a tendência a re lectir a situação dos
países africanos em função do sistema colonial (ou neocolonial) como
factor explicativo daquilo que se passa nos territórios onde a pobreza
tem um futuro promissor. Actualmente, tende-se a privilegiar a his-
toricidade própria das sociedades africanas e as suas contradições in-
ternas. Deparamo-nos com as formas subtis do revisionismo ambien-
te, através dos estudos e das investigações que se elaboram com base
numa ruptura com a «teoria da dependência» que é recriminada por
praticar a exploração e a troca desigual, sendo que das relações entre
colonizadores e explorados se formula uma única grelha de análise da
situação legada pelo colonialismo.
Neste ponto, deve desmascarar-se o jogo do discurso que assenta
no estudo interno das sociedades autóctones suprimindo os efeitos

1. Ver C. Coquery- Vidrovitch, «Les débats actuels en Histoire de la colonisation», Revue Tiers-
Monde, vol. XXVIII, n.º 112, Outubro-Dezembro de 1987, pp. 777-791.
2. Idem.

V. Os V. Colonização e o problema nacional


perversos da colonização. Se não se lograr a reabilitação desse
fenómeno – ainda que essa corrente exista – tenta-se colocar entre
parêntesis esse período da história para dissimular os processos de uma
recolonização em curso nos países nos quais a independência serviu
frequentemente para implementar estruturas de dependência. Toda a
obra de C. Anta Diop está na vanguarda dos movimentos de resistên-
cia à subjugação que povoam a história africana desde que o Mediter-
râneo deixou de desempenhar o papel fundamental de contacto e de
cruzamento entre a Europa e o resto do mundo. A sua obra mergulha
numa história que não narra apenas a servidão e a subjugação, mas
também a insubmissão e a insurreição. Não é o momento de evocar
as revoltas dos escravos e as insurreições camponesas que represen-
tam um domínio sobre o qual os estudos contemporâneos começam a
debruçar-se. Embora se possam discutir as teses avançadas recente-
mente sobre o potencial revolucionário do campesinato3, a igura-se
di ícil reter uma visão pessimista do mundo rural com maior predis-
posição para reagir com a passividade e a aclimatação às situações
de exploração impostas pelo sistema colonial. A fuga com recurso à
migração urbana e/ou internacional não foi a única atitude tomada
perante o domínio colonial. O movimento de protesto suscitou, aqui
e ali, revoltas camponesas que, tal como se constata no Quénia, ence-
tam a era das revoltas anticoloniais na África negra4.
Num momento no qual se assiste à emergência do mundo dos
trabalhadores através dos mecanismos migratórios engrenados ou
acelerados pela colonização, denota-se o potencial revolucionário
dos jovens adultos que, nas plantações europeias ou nos empreendi-
mentos industriais enveredam pelas vias do proletariado. Dispomos
de informações sobre as revoltas dos carregadores nas estradas na
época do indigenato. Simultaneamente, manifesta-se a amplidão dos
protestos populares num contexto no qual, na maioria das vezes, a
investigação histórica limitou-se a responder apenas às questões do
sindicalismo, da mão-de-obra e do salariado, às coerções do sistema
administrativo5. Com base nesses movimentos nos quais o «político»
é engendrado nos lugares quotidianos através das multidões anoni-
mas que irrompem nos territórios e locais históricos, remete-se para
o con lito fundamental entre colonizadores e colonizados. A par dos
confrontos abertos, importa assinalar e alumiar os «con litos clandes-
tinos» e as formas ocultas da resistência em jogo nas «estratégias

3. Cf. F. Fanon, Les Damnés de la terre, Maspero, Paris, 1961.


4. Ver R. Buijtenhuip, Le Mouvement «mau-mau»: une révolte paysanne et anticoloniale en Afrique
Noire, éd. Mouton, 1971.
5. H. Babassana, Travail forcé, expropriation et formation du salariat en Afrique Noire, Presses
Universitaires de Grenoble, 1978.

78 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


banais», através das quais as pessoas que não sabem ler nem escrever
se fartam do domínio colonial.

A questão colonial rente à terra


Na África negra, a questão colonial formula-se precisamente «rente
à terra», com base em sistemas de expropriação das terras e de pro-
letarização dos camponeses e nos quais o sistema agrário penetra no
interior das selvas, acelerando a desarticulação das sociedades nati-
vas encetada pela economia de escravatura. Deve frisar-se esse «fun-
do popular» do nacionalismo africano para concluir que não se trata
de um simples movimento de intelectuais num momento em que a
luta contra o colonialismo é um leitmotiv dos povos africanos. Aquilo
que se manifesta nas tribunas internacionais é o ressurgimento de
um amplo movimento proveniente da base e que se expressa conso-
ante os estratos sociais, a natureza dos grupos rurais ou urbanos, em
função da formação das elites locais e da estratégia dos agentes que
intervêm nas relações de força presentes. O nacionalismo anticolonial
é fruto de uma aliança complexa e diϔícil entre os grupos de interesses
envolvidos mais profundamente na economia colonial: os pequenos
produtores, os trabalhadores das empresas e os quadros subalternos
formados para servir a administração colonial.
Preparadas pelos movimentos messiânicos dos povos oprimidos6
que privilegiam a questão da libertação à dos sindicatos e partidos
políticos resultantes da Segunda Guerra Mundial, as lutas nacionalis-
tas assistiram ao aparecimento de diversos agentes determinados a
destruir o sistema de dominação. Nessa perspectiva, as greves que
proliferam nas obras públicas ou nas plantações europeias conver-
gem relativamente a um objectivo primordial: o im do colonialismo.
Em torno dessa ideia-força que impregna de coerência todas as ordens
do discurso autóctone, urde-se um conjunto de aspirações e reivin-
dicações que polarizam as forças sociais e os partidos políticos.
Embora seja verdade que os administradores encontrem sempre co-
laboradores junto das elites locais e das chefarias consuetudinárias
que passaram a fazer parte do jogo colonial, um núcleo de resistência
radicaliza a necessidade de acabar com a servidão colonial. Exigências
que são sentidas sobretudo pelas populações cuja memória continua
atormentada pelo sistema do indigenato e pelos trabalhos forçados

6. Ler V. Lanternari, Les mouvements religieux de liberté des peuples opprimés, Maspero, Paris,
1961; G. Balandier, «Messianisme et nationalisme en Afrique Noire», Cahiers internationaux de
sociologie, 1955, pp. 41-61; J. Marc Éla, Le cri de l’homme africain, L’Harmattan, 1980, pp. 60-65.

V. Colonização e o problema nacional 79


instituídos numa época na qual o problema da mão-de-obra consti-
tui a principal preocupação do Estado colonial7. Nos países onde o
racismo cavou um enorme fosso entre brancos e nativos, antevêem-se
confrontos violentos com os representantes do poder colonial.
Embora a emancipação tenha sido um processo pací ico para de-
terminados povos, não bastará um «não» para demolir o mundo
colonial. Nesses casos, nenhuma liberdade se obtém sem dor e so-
frimento. O con lito é inevitável entre as aspirações nacionalistas e
as metrópoles ciosas de preservar o statu quo. Por conseguinte, os
malgaxes, os camaronenses, os moçambicanos e os angolanos alcan-
çarão a independência na sequência de uma luta sangrenta, na qual
os «insurgentes» ou os «rebeldes» se deparam com os líderes políti-
cos, as mulheres, os jovens e os agricultores, os funcionários de baixo
escalão, os adivinhos ou as sociedades secretas. A repressão policial
será incapaz de domar os movimentos de protesto dos homens que
atacam as guarnições militares e os postos da guarda, ou que cortam
as vias ferroviárias e rodoviárias para reconquistar a sua liberdade e
viverem felizes na terra dos seus pais. Muitos correm o risco de serem
detidos, exilados ou assassinados tendo como única aspiração a
reabilitação dos povos humilhados.
O combate dos «nacionalistas» não altera unicamente o panorama
político do planeta, inicia também uma nova época na qual se urdem
outras teorias no undo do pensamento e da cultura. Esses homens
que são relegados para a categoria de «terroristas», ou que são con-
siderados frequentemente como instrumentos ao serviço das ideologias
estrangeiras, tentam construir África inspirando-se em novas perspec-
tivas. Aquilo que está em questão para os povos que despertam para a
vida política após o colapso alemão, é o direito do mais forte de domi-
nar o mais fraco. As atrocidades de uma guerra letal revelaram aos
negros o «avesso» do «humanismo» dos seus senhores. Depois de re-
cuperar a paz, já ninguém ousa acreditar na «missão civilizadora» do
branco. Os escritores e os pensadores que surgem à volta da década
de 1950 empenham-se em desmascarar as mentiras do Estado colo-
nial e dos seus aparelhos ideológicos. A igura-se urgente «restaurar»
a época colonial num momento no qual historiadores, economistas ou
antropólogos, tentados pelo revisionismo ambiente, correm o risco
de chegar mesmo a negar aos africanos o legado – desde tenra idade
– de um sistema de dominação que moldou as características espe-
cí icas da nossa imagem histórica. Logo, as novas gerações correm o
risco de desconhecer inteiramente a importância crucial – em todos
os domínios – de uma situação que só é alvo de interesse do ponto de

7. Ver J. Marc Éla, L’Afrique des villages, Karthala, 1982, pp. 28-29.

80 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


vista ideológico, simbólico ou do pensamento religioso. As transfor-
mações internas das sociedades africanas – através das vicissitudes
coloniais, do seu sistema politico, das suas instituições, do seu modo
de vida e do seu imaginário – obrigam-nos a evocar a verdade de uma
época histórica que é necessário retomar para contextualizar a per-
tinência da obra de C. Anta Diop para a emergência do movimento
nacionalista africano.
Com efeito, essa obra ostenta a marca do seu tempo. Mais precisa-
mente, talvez C. Anta Diop seja um dos «intelectuais orgânicos» da era
na qual, após a Conferência de São Francisco, é anunciado o «momen-
to a partir do qual todos os seres humanos poderão viver uma vida de
homens verdadeiramente livres». No contexto da Guerra Fria, as for-
ças coloniais mobilizam-se para desacreditar o nacionalismo africano
considerando qualquer despertar político nos países do continente
como uma inspiração comunista. Dessa forma, afugentava-se a simpa-
tia e o apoio populares nas regiões onde se a irmava incessantemente
que o africano é «um ser incuravelmente religioso». Numa tentativa
de salvaguardar os colonizados da «ameaça comunista», negligencia-
va-se o facto de que o nacionalismo africano antecedera a Revolução
de 1917, na medida em que o pan-africanismo – como demonstrou
contundentemente G. Padmore – é a alma dos movimentos de liberta-
ção nos países africanos8. Podem retraçar-se as convergências entre
C. Anta Diop e Marcus Garvey, que antecedera o egiptólogo senega-
lense no destaque do parentesco entre o Egipto faraónico e a África
negra. O autor de Nations nègres et culture deve ser considerado à luz
do movimento de ideias que, a partir do antilhano Henry Sylvester
William de Trinidad, se desenvolve com William E. B. Du Bois, que é
considerado o «pai do africanismo».
Segundo C. Anta Diop, já não se trata de um regresso à África para os
negros dos quais se pretende prescindir no novo mundo e que podem
fazer nascer – tal como acontece na Libéria e em Serra Leoa – Es-
tados negros reconhecidos pelas grandes potências. O nome Garvey
«correu África» onde a sua escrita é considerada subversiva e é cen-
surada pelos colonizadores em determinados países como o Daomé.
Mas, graças a Du Bois, que morre no Gana onde, segundo Nkrumah,
a independência do seu país só faz sentido se for sustentada pela
libertação total africana, o nacionalismo arreiga-se no solo africano. A
palavra «independência» rompe assim o casulo de sigilo e vergonha
no qual o colonialismo a encerrara e entra em circulação na «econo-
mia política de sinais» com os congressos pan-africanos que, a partir
de 1919, praticam «a autodeterminação nacional entre os africanos,

8. G. Padmore, Panafricanisme ou Communisme?, Présence Africaine, 1960, pp. 129-130.

V. Colonização e o problema nacional 81


sob a liderança africana para o bem-estar dos próprios africanos», a
linha de força das principais aspirações do continente. «O Pan-afri-
canismo passa a constituir parte integrante do nacionalismo africano.»
Nesse contexto, o teor político das reivindicações nativas torna-se
mais nítido e cristaliza-se em torno da independência de África. Facto
que se constata no quinto congresso pan-africano realizado em 1945,
em Manchester, e no qual participam operários e sindicalistas,
representantes das cooperativas e estudantes africanos. Tal como sa-
lienta Nkrumah, «a ideologia de Garvey dedicava-se ao nacionalismo
negro e não ao nacionalismo dos africanos. Foi o quinto congresso
pan-africano que apresentou uma solução para o nacionalismo afri-
cano, e a tomada de consciência política junto dos africanos. Tornou-
-se, efectivamente, num movimento maciço sob a insígnia “África para
os Africanos”». Na sequência da Segunda Guerra Mundial, aquando
da eclosão de inúmeras manifestações anticoloniais, além de serem
alvo de repressões brutais nos meios coloniais, essas manifestações
são reduzidas a formas de xenofobia empreendidas por «agitadores».
Na realidade, enquadram-se na lógica das revoltas dos povos coloni-
zados cujo despertar será anunciado pela Conferência de Bandung. A
conferência geral dos Estados da colonização, realizada em Douala em
1945, tenta salvar o império em vão, num contexto no qual são postas
em causa as práticas coloniais dos trabalhos forçados que garantiam
uma mão-de-obra sobre-explorada pelos agricultores europeus9.
Deve salientar-se a luta anticolonialista dos negros em França, na
sequência do movimento articulado à volta do jornal La race nègre
que, entre 1929 e 1939, constitui um núcleo de resistência à domina-
ção. Os negros mobilizam-se com o objectivo de denunciar os abusos
políticos, as atrocidades do indigenato e a exploração económica da
qual as populações ultramarinas são vítimas. Em plena crise do capi-
talismo, faz-se ouvir «Le cri des nègres». Lamine Senghor escreve:

«Os Negros não pertencem a nenhuma nação europeia e não pretendem servir os
interesses de qualquer imperialismo contra os interesses de outro imperialismo
(…). A escravatura é abolida, brada-se por todo o universo. Vejamos! Os colonialistas
internacionais apoderaram-se dos nossos territórios e de nós mesmos (…). Actu-
almente alegam ter abolido a escravatura apesar de se outorgarem democratica-
mente (?) os direitos de vender e comprar todo um povo sem querer saber a opinião
do último… Que hipocrisia! Que falsidade! A verdade é que a venda a retalho é proi-
bida, ao passo que a venda por atacado é permitida. É precisamente contra todas
essas iniquidades que nos unimos.»

9. Cf. R. Joseph, Le mouvement nationaliste au Cameroun, Karthala, Paris, 1985, pp. 79-81.

82 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Com o Comité de Defesa da Raça Negra, África passará a ser, mui-
to em breve, o palco das reivindicações pela autodeterminação. Em
vésperas da Segunda Guerra Mundial, «a questão negra» é apresen-
tada à consciência europeia10. Doravante, para os antigos atiradores,
os camponeses e os operários, os funcionários de baixo escalão e os
estudantes da África negra – desde o indigenato até à independência
– não há volta a dar.
O impacto do movimento nacionalista é tão capital que além de se
manifestar através dos meios de comunicação social e os partidos não
administrativos – os verdadeiros – também é visível nos pan letos e
nas petições, nas palavras de zombaria e nas canções populares nas
quais é expressada a criatividade da gente da selva, dos funcionários
de baixo escalão dos caminhos-de-ferro, ou na obra das elites nativas
que, com a poesia e o romance, o ensaio e o teatro se insurgem contra
o domínio colonial. Nas suas diligências de investigação, C. Anta Diop
envolve-se seriamente nessa luta, na medida em que aprofunda a
herança do pan-africanismo, esse espaço verdadeiro da questão na-
cional na África negra. Não é o secretário-geral dos estudantes do
RDA? No entanto, não obstante o triunfo inal da Comunidade Fran-
cesa – tal como se constatará nos países onde a independência foi
concedida – C. Anta Diop permanece iel ao radicalismo das opções
tomadas numa conjuntura na qual a questão nacional não é eviden-
te. Pois, considerando a repressão exercida pelo Estado colonial na
África negra a partir de 1945, ser «nacionalista» signi ica, em rigor,
rejeitar a adesão à União Francesa. Eis o objecto do debate fundamen-
tal no congresso de Bamaco, em 1946, no qual Houphouët-Boigny
relata «a tese da autonomia, ou seja, no tocante à independência,
prevaleceu sobre a minha. Mas pretendiam que eu fosse o presidente
do movimento. Como me recusava a aceitar as funções que me teriam
obrigado a implementar decisões que reprovava, encetou-se o debate
e a minha moção sobrepôs-se por pouco. E foi assim que optámos
pela adesão à Comunidade Francesa em detrimento do combate pela
independência11».
Na base dessas opções deve procurar-se qualquer estratégia dos
Estados para os quais, nos territórios ultramarinos, a verdadeira
questão é uma questão tribal: o problema nacional não existe. Só é
formulado na medida em que os líderes do movimento nacionalista
não passam de «comunistas», agentes ao serviço de uma potência es-
trangeira. Entre 1946 e 1957, os verdadeiros líderes do movimento
nacionalista tiveram de relembrar a opinião internacional de que

10. Ver «La lutte anti-colonialiste des Noirs en France», Afrique-Histoire, n.º 12, 1987, pp. 10-16.
11. Le Monde, 4 de Outubro de 1957.

V. Colonização e o problema nacional 83


«África não é um continente sem problemas». Nessa óptica, como se
constata nos Camarões, tratar-se-á de «provar que os problemas soci-
ais são formulados (…) num escalão elevado e que essa situação sus-
citou uma tomada de consciência das realidades africanas que actu-
almente se manifestam sob a forma de sentimento nacional marcado
por uma reivindicação de autonomia, ou de independência, consoante
os territórios e os estatutos que regem». Aquilo que as gerações da
década de 1950 designam por «nacionalismo africano» e que tende
a confundir-se, aqui e acolá, com a própria história dos países pro-
fundamente envolvidos num processo de ruptura com a ordem co-
lonial. À margem de qualquer interpretação simplista em matéria
de «tribalismo», o movimento depara-se com os jogos das forças co-
loniais – a administração, os meios dos negócios e as igrejas cristãs
– que encurralam determinados povos no combate armado, tal como
se veri icou na Argélia, nos Camarões, em Moçambique, em Angola ou
no Zimbabwe.
Face ao problema colonial, C. Anta Diop envolve-se a dois níveis: o
de militante e o de cientista. A nível político, o próprio salienta: «é
em Fevereiro de 1952, quando era secretário-geral dos estudantes do
RDA, que formulámos o problema da independência política do con-
tinente negro e o da criação de um futuro Estado federal. É verdade
que, na época, salvo os deputados malgaxes e o líder camaronense
Ruben Um Nyobé, nenhum político negro-africano francófono ousava
falar de independência, de cultura, sim, de cultura e de nações afri-
canas. As declarações actualmente em curso, nessa matéria, frisam a
impostura e são, no mínimo, contraverdades lagrantes12».
De facto, há uma discordância nítida entre aqueles que, em 1956,
declaram: «Não há nenhum problema nacional na África negra» e o nú-
cleo de homens que teimam em formular «o problema nacional» e se
envolvem na luta pela independência, no seguimento de Bandung, onde
alguns pretendem inculcar um «espírito de vingança contra os anti-
gos colonizadores». Um dos paradoxos do Estado pós-colonial con-
siste em avistar no topo da pirâmide, elevados pela graça do neocolo-
nialismo gaullista, os homens que durante muito tempo se opuseram
à independência. «A nova política “liberal” suscitou por toda a parte
a supressão dos verdadeiros movimentos revolucionários e o triunfo
das equipas tradicionalmente conformistas13.»

12. Les fondements économiques et culturels d’un Etat fédéral d’Afrique Noire, p. 50.
13. Idem.

84 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


O sonho de um pan-africanismo
Para aquele que, ao invés de um verdadeiro Estado federal da África
negra, se depara com uma «proliferação de pequenos Estados dita-
toriais sem vínculos orgânicos, efémeros, assolados por uma debi-
lidade crónica, governados pelo terror com a ajuda de uma polícia
hipertro iada, mas sob o domínio económico do estrangeiro», a frus-
tração é inevitável. Para o pan-africanista C. Anta Diop, a verdadeira
independência só é concebível no âmbito de um governo federal. Eis
que nos deparamos com o sonho dos «Estados Unidos de África» que
percorre o movimento pan-africanista. Para o intelectual, nacionalismo
e pan-africanismo são indissociáveis. Por conseguinte, após 1960, a
situação política que prevalece em África, em nada se aproxima das
suas exigências e convicções. C. Anta Diop acredita, inclusivamente,
que o início do Estado pós-colonial marca uma regressão. Segundo
escreve, «Quando França quis administrar racionalmente a África
Ocidental, criou uma federação, mas, quando se retirou, detonámos
essa federação, provando assim que nem sequer fomos capazes de
preservar a experiência da colonização14.» Segundo C. Anta Diop, as
unidades regionais e sub-regionais que proliferam são um mal menor,
tratando-se, nesta situação, de uma avaliação crítica das independên-
cias da década de 1960. Este assunto não é apenas o foco das re lexões
e das interrogações dos romancistas africanos – tal como evoca a
literatura que gira em torno do tema da desilusão – num contexto no
qual uma elite se apodera dos frutos da luta nacionalista e impõe o
silêncio ao povo para explorá-lo ainda mais. C. Anta Diop não alimen-
ta grandes expectativas relativamente às equipas no poder na medida
em que foram implementadas para salvaguardar os interesses es-
trangeiros e apresenta o caso dos Camarões, onde o partido que lutou
pela independência foi afastado. O historiador constata: «Há fortes
interesses materiais em jogo. É impensável bene iciar uma equipa
revolucionária que viria a questionar tantos interesses. Por isso, deve
transmitir-se a impressão de que o povo camaronense não sinta que
deve a sua independência ao partido de Um Nyombé». Nessa perspec-
tiva, deparamo-nos com «um regime concebido para melhorar garan-
tidamente a produção capitalista estrangeira por meio de processos
cuja evidência não escapa ao povo no seu todo15.»
Quando, em La tragédie de roi Christophe, A. Césaire discorre so-
bre as independências africanas à imagem do Haiti, que foi a primeira

14. Entrevista a C. Anta Diop em Afrique-Asie, 9 de Novembro de 1981, p. 58.


15. Les fondements économiques et culturels d’un Etat fédéral d’Afrique Noire, p. 50.

V. Colonização e o problema nacional 85


república negra, C. Anta Diop aprofunda a sua re lexão sobre o Estado
pós-colonial. A penetração desse Estado que actualmente se tenta
de inir, com base nas crises que o afectam, está no cerne dos temas
com os quais o homem de cultura se preocupa. Na sua óptica, não bas-
ta – como fez Fanon – demonstrar a falência das burguesias nacionais
que impõem a ditadura do partido único para salvaguardar os seus in-
teresses. Para C. Anta Diop, o problema é mais radical. É a actualidade
da questão nacional que se manifesta com a procura de um modo de
governação susceptível de superar os grandes desa ios do continente.
«Ainda não somos livres, mesmo no seguimento deste abrandamento
dos laços, pois não poderemos escolher um regime político e social
diferente do regime do campo ocidental sem corrermos o risco de
combatermos militarmente ou de sermos arrasados por intrigas, com
recurso aos partidos locais de obediência ocidental16.» O Estado pós-
-colonial emerge num contexto no qual o Ocidente decide manter sob
a sua égide os povos cujas elites substituem os administradores colo-
niais. Ora o que signi ica então «preservar um país independente»?,
pergunta-se C. Anta Diop. As opções para o futuro de África giram em
torno desta questão. Segundo C. Anta Diop, a opção primordial faz-se
entre a «sul-americanização ou a federação de África». Tal como consta-
ta: «África é ensombrada pela sul-americanização. Que está presente.
E que é a regra pela qual nos regemos.» Por conseguinte, a OUA é um
mal menor que tenta libertar-se infrutiferamente das armadilhas do
colonialismo na medida em que se assiste ao triunfo dos nacionalis-
mos, no âmbito das fronteiras herdadas da geogra ia colonial.
Em 1965, num editorial de Jeune Afrique, C. Anta Diop escreve:

«Somos levados a constatar que já nenhum Estado africano é independente (se


é que a independência alguma vez foi verdadeira), pois nenhum seria capaz
de alterar o seu sistema político, num sentido suspeito para o “Oncle Sam”, sem
receber a sua “visita”. Os Estados Unidos insistem em manter África no campo oci-
dental, sob a sua esfera de in luência, falando de forma mais clara. Não se deveria
poder “preservar” um país independente17.»

O modelo de Estado imposto após as declarações de independên-


cia é que leva precisamente a que se questione essa situação pois, tal
como salientei anteriormente, não há independência verdadeira no
contexto de fragmentação de África. Facto que é constatado por
C. Anta Diop após a criação da OUA. «Entramos numa era de humil-
dade e de humilhação, da qual só conseguiremos sair com a adopção

16. Entrevista a C. Anta Diop em Afrique-Asie.


17. «L’Afrique -doit s’unir», Jeune Afrique, n.º 240, 17 de Julho de 1965.

86 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


de uma solução política de natureza federal18.» Só através dessa via
poderemos evitar o imperialismo que «decide organizar a anarquia
em todo o continente africano para preservar a iniciativa política que
já deteve e que lhe tinha sido retirada pelos movimentos de libertação
em vésperas da independência19». «África deve unir-se» apoiando-se
em bases que não as fórmulas adoptadas em Adis-Abeba, pois essas
fórmulas não oferecem a via de saída das zonas de controlo imperialis-
tas. Em 1965, C. Anta Diop escreve:

«O contexto político africano, no qual poderia empreender-se uma tentativa de


construção económica racional, ainda não existe. A sua criação depende exclusiva-
mente dos africanos. Ostenta-se ilusoriamente o fardo ao tentar constituir agrupa-
mentos económicos fora da escopo político. Será necessário um executivo federal,
por mais embrionário que seja, para o qual será transferido o menor conjunto de
poderes permitindo-lhe, por exemplo, tomar decisões em matéria de especializa-
ção regional20.»

Para que os Estados africanos possam sair da situação de subde-


senvolvimento, estagnação e mesmo de regressão na qual se encon-
tram mergulhados, no seguimento das independências nominais,
«teríamos de tomar efectivamente a decisão de encontrar o tipo de
estrutura política que pode ser compatível com a era cósmica em que
vivemos actualmente». O que não resolve os problemas da integração
económica necessária do continente. Na verdade, todos os Estados
tendem «a transformar-se num micro-universo industrial para ten-
tarem ser auto-su icientes, sendo forçados a optar por instalações de
baixa potência, de baixa capacidade».
Essa situação resulta da ausência «de um poder de decisão passível
de ser imposto a todos». Ora, «nesse aspecto, a experiência política
africana dos últimos anos não dá azo a quaisquer ilusões da nossa
parte, mesmo no que se refere à OUA21». Constata-se que a criação de
um «Estado negro federal» continua a ser o principal problema das
sociedades pós-coloniais. «É necessário alterar completa e de initiva-
mente a África negra em direcção ao seu destino federal.»
Para preparar a chegada desse Estado multinacional, deve desta-
car-se «a unidade cultural da África negra» numa conjuntura na qual
determinados intelectuais negros não hesitam em a irmar – a des-
peito das aparências – que «somos muito diferentes uns dos outros,

18. Idem.
19. Idem.
20. Ibidem.
21. Cf. entrevista a C. Anta Diop em Afrique-Asie, 9 de Novembro de 1981

V. Colonização e o problema nacional 87


tanto do ponto de vista da raça quanto da cultura e da língua». Para
o antropólogo, essas a irmações não resistem à prova dos factos e a
libertação africana continuará a ser uma ilusão enquanto as antigas
colónias continuarem a utilizar a língua dos seus antigos senhores.
Com efeito, o paradoxo do Estado pós-colonial consiste em erigir
como aparelhos de Estado instrumentos de comunicação que, em
última análise, são fruto de um sistema de supremacia, num contex-
to no qual o futuro pertence às sociedades que detêm o monopólio
da comunicação. Se o problema da língua é um problema de Estado,
então preservar o icialmente a língua da antiga metrópole equivale a
uma «capitulação cultural». Nesse aspecto, «a inal de contas, nada da-
quilo que constitui a grandeza das nações modernas – no domínio da
cultura nacional e até da infra-estrutura económica – poderia existir
aqui». Qualquer missão do investigador deve contribuir para lançar
«as bases económicas e culturais de um Estado federal da África
negra». Daí que o problema da unidade linguística e da unidade cul-
tural constitua o cerne da estratégia de C. Anta Diop.
Eis o sentido das ideias apresentadas em Nations nègres et culture
que é necessário retomar para contextualizar o âmbito da re lexão do
historiador sobre a questão nacional na África negra. Com esta obra
fundamental assiste-se ao im do discurso dominante através do qual
o Ocidente, tal como a irmava Sartre: «desfrutou durante três mil
anos do privilégio de ver sem que o vissem. Era puro olhar, a luz dos
seus olhos subtraía todas as coisas da sombra natal…22».

A memória de um povo
O texto fundador de C. Anta Diop amadurece no contexto das lutas
pela libertação do continente. Actualmente, as novas vulgatas africa-
nas gostam de retomar ideias que pareciam tão revolucionárias às
quais pouquíssimos intelectuais ousavam aderir. Essas ideias con-
tribuem para «a a irmação da identidade nacional», tal como de inida
por C. Anta Diop num congresso organizado pela UNESCO sobre a ma-
téria. Deve frisar-se a dimensão política das ideias-chave alumiadas
pelos trabalhos do historiador africano mais ilustre do nosso tempo.
Para terminar com o discurso do mestre, C. Anta Diop dedica-se a
demonstrar os mecanismos e os aparelhos ideológicos da dominação.
«Alistar a alma nacional de um povo num passado pitoresco e inofen-
sivo, deveras adulterado, é um procedimento clássico da dominação.»
Logo, em nome da ciência, deve travar-se a luta contra o colonialismo

22. J.-P. Sartre, Orphée Noir, Situations III, Gallimard, 1949, pp. 229-230.

88 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


nesse plano, no qual «zelando cuidadosamente pela sua história,
enaltecendo-a diariamente», os representantes do poder colonial
«teimam em adulterar sistematicamente» a dos colonizados. «Renun-
ciar à sua cultura nacional para adoptar a de outrem e designar tal
atitude por um simples estabelecimento das relações internacionais
é condenar-se ao suicídio.» Por conseguinte, «salvaguardar a cultura
nacional» e destruir o mito do negro são uma exigência do nacionalis-
mo africano. O principal contributo de C. Anta Diop para a questão na-
cional reside nessa reconquista da nossa memória cultural e histórica.
O historiador avalia a extensão de tal iniciativa num contexto no
qual os resultados da dominação se implicam no imaginário adulte-
rando o passado africano. No panorama colonial, a cultura é um espa-
ço do poder. Os temas centrais de Nations nègres et culture inserem-se
numa estratégia de luta contra a dominação.

«Os meios colonialistas lideram uma campanha orquestrada contra o nacionalismo


nos países dominados, tentando tomar a dianteira para fazê-lo fracassar global-
mente; pois, para eles, as consequências do nosso nacionalismo, até do mais chau-
vinista, são temíveis: pulveriza os seus privilégios e arrasta a sua dominação com a
violência de uma torrente.»

Nesse debate fundamental, «os problemas de cultura só são abor-


dados para dotar essa luta de plena e icácia e transformá-la numa
luta de independência nacional23». Qualquer investigação sobre a
história visa munir os africanos da «arma da cultura» nas lutas que
se atribuem.
Nesse plano, deve frisar-se a importância da memória para avaliar
a pertinência e a actualidade de C. Anta Diop. Se, segundo a a irmação
de Joseph Ki Zerbo24, «a história é a memória das nações», então, um
povo sem memória é um povo sem futuro. Toda a obra do investi-
gador senegalense consiste num combate à amnésia total do homem
africano. Nessa perspectiva, o autor de Nations nègres et culture acaba
por inaugurar outra «redacção da história», anunciando também uma
política da memória e do imaginário que anuncia às gerações ator-
mentadas pelas aspirações de liberdade. Restituir a memória a um
povo é ajudá-lo a libertar-se das suas correntes. C. Anta Diop introduz
uma cultura da divergência no sistema do consenso instituído pelo
sistema colonial que tenta desapossar os africanos da sua história
para consolidar a supremacia. C. Anta Diop é o herético que revolu-
ciona a ordem do discurso magistral e que desestabiliza e perturba a

23. Nations nègres et culture, pp. 22-23.


24. Ver J. Ki Zerbo, Histoire et conscience nègre, Présence Africaine, Outubro-Novembro de 1957.

V. Colonização e o problema nacional 89


perspectiva do Ocidente. Na era do revisionismo ambiente, o silêncio
ultrajante com o qual os africanistas envolvem o estudioso negro e a
sua obra não causa espanto. C. Anta Diop continua a ser um desaϔio. A
sua ϔigura atormenta o imaginário daqueles que não ousam confessar
o medo dos mortos-vivos. Com a sua obra e o seu pensamento, uma
«maneira de ver» diferente, o destino de África irrompe no campo do
saber e da ordem política. Essa «maneira de ver» impõe uma perspec-
tiva diferente do homem e do mundo num contexto no qual, durante
demasiado tempo, o ocidente dominou o espaço do olhar. Quando o
acto de «descolonizar o espírito» se torna um imperativo para os po-
vos negros25, eclode uma crise desse olhar. Facto que J.-P. Sartre com-
preendeu claramente, em vésperas das independências africanas:

«A Europa já não era mais do que um mero acidente geográ ico. Se ao menos espe-
rássemos recuperar a nossa grandeza aos olhos domésticos dos africanos. Porém,
já não há olhos domésticos: há olhares selvagens e livres que julgam a nossa terra
(…). O homem branco iluminava a criação como uma tocha. Revelava a essência
secreta e branca dos seres. Hoje, olhamos para nós e o nosso olhar penetra nos
nossos olhos; tochas negras, ao seu redor, iluminam o mundo26.»

No seu contributo para a questão nacional formulada em toda a


sua dimensão, C. Anta Diop participa activamente nessa metamor-
fose profunda da história. Nessa era difícil em que a mediocridade
é sub-reptícia, não será necessário retomar a tocha que a iluminou?
O autor de Nations nègres et culture faz parte das nossas memórias.
Nos países africanos nos quais as antigas dependências se actualizam
subtilmente, temos de aprender a gerir o seu legado e retomar «a
luta de sempre contra o neocolonialismo para lograr a libertação do
homem africano27». A função do investigador nessa luta deve ser par-
ticularizada para compreender o sentido do percurso de C. Anta Diop
e o objectivo da sua prática cientí ica.

25. Sobre o tema, ler Ngugi Wa Thiong IO, Decolonising the Mind. The Politics of language in Afri-
can Literature, Nairobi, 1987; (Hinw Eizu, Decolonising the African Mind, Lagos, 1987).
26. J.-P. Sartre, op. cit., p. 231.
27. P. Biya, Pour le libéralisme communautaire, Ed. P.M. Favre, 1987.

90 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


VI. Responsabilidades sociais
e políticas do investigador
Presidente da Association des Chercheurs et Savants du Monde Noir,
C. Anta Diop é um homem de letras especializado em ísica nuclear.
Membro da União Internacional das Ciências Pré-Históricas e Proto-
Históricas, criou e coordenou o laboratório do radiocarbono no Insti-
tuto Fundamental da África Negra. Durante toda a sua vida, o autor de
Nations nègres et culture dedica-se à re lexão e à investigação. De que
forma assume responsabilidades sociais e políticas? Ao analisar
determinados aspectos da sua obra, gostaria de retomar a relação en-
tre «o estudioso e o político» do egiptólogo africano.
A minha atenção centra-se, de imediato, num aspecto: se a obra de
C. Anta Diop se insere na ordem de um discurso cientí ico, a missão do
investigador só pode ser entendida à luz do contexto no qual o discur-
so «africanista» se a igura teoricamente ao imperialismo. Ao longo de
mais de quatro décadas, o território do africanismo é mais ou menos a
região dos «habitantes da selva», onde se nutre interesse unicamente
pela natureza «tribal» das sociedades africanas «tradicionais». Numa
tentativa de enxergar aquilo que o discurso africanista impede de
observar, o investigador nativo depara-se com um aparelho de poder
que o obriga a abalar as certezas instituídas. Segundo escreve C. Anta
Diop: «Por considerações teóricas, a linguagem cientí ica não deve
evitar designar as coisas com precisão, chamar a realidade pelo seu
nome1.» Face a África, ninguém deveria refugiar-se «nas convenções»
estabelecidas. Ora, existe um tema central que questiona a consciên-
cia moderna no seu todo:

«Tudo indica que inicialmente, na Pré-História, no Paleolítico Superior, os negros


foram predominantes. Ao longo de milénios na História mantiveram-se no plano
da civilização, da supremacia técnica e militar. Presentemente, qualquer mente
que já não seja capaz de interiorizar esta ideia – mesmo sendo demonstrada
objectivamente – em nada pode contribuir para a ciência histórica. Qualquer
consciência que, por princípio, se tenha tornado incapaz de assimilar é

1. Antériorité des civilisations nègres, p. 10.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 91


retrógrada, independentemente da ideia que conceba acerca de si mesma e da
sua aptidão para contribuir para a verdadeira evolução da consciência moral da
humanidade, podendo ser limitada2.»

Por conseguinte, o problema da ciência moderna é determinado


com referência ao «verdadeiro passado» e, por isso, o investigador
africano decide centrar-se «na adulteração mais monstruosa de que a
humanidade alguma vez foi capaz, pedindo simultaneamente às víti-
mas que esquecessem para continuar a avançar3».

À margem da universidade
Quando aquele que foi um dos principais dinamizadores da Fédéra-
tion des Étudiants d’Afrique Noire en France (FEANF) e o secretário-
geral da RDA (Reunião Democrática Africana) decide voltar ao país-
natal, é no ensino e na investigação que antevê a sua vida e o seu futuro.
Ambas as actividades são indissociáveis do seu projecto de vida mas,
segundo o seu plano, numa primeira fase, é necessário formar os es-
tudantes, para depois poder dedicar-se à investigação no domínio que
lhe é característico. Projecto que corresponde perfeitamente ao seu
per il intelectual, pois pretendia dedicar-se à investigação atómica
pelo facto de ser formado em Física e também por ter encetado inves-
tigações nesse domínio juntamente com Pierre e Marie Curie quando
viveu em França. Após regressar ao Senegal, a prossecução das suas
investigações a igura-se natural. Salienta-se que, ao longo de toda a
sua existência, C. Anta Diop vive ensombrado pelo problema da inves-
tigação cientí ica sem a qual nenhum plano de recuperação de África
pode concretizar-se. As suas re lexões de Les fondements économiques
et culturels d’un État fédéral d’Afrique noire terminam precisamente
com esse problema. Embora a investigação aplicada «deva ser par-
tilhada, tanto quanto possível, com institutos especializados ligados à
Universidade», para C. Anta Diop, «fundamentalmente, a investigação
fundamental emanará sempre da Universidade4». Como tal, a Univer-
sidade deve tornar-se «um dos centros de formação mais importantes
dos quadros africanos5».
Um dos aspectos perturbadores do destino intelectual do ilustre
egiptólogo é o facto de o poder ter recusado o acesso à Universidade

2. Idem, p. 11.
3. Ibidem, p. 12.
4. Les fondements économiques et culturels, p. 117.
5. Idem, p. 118.

92 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


ao cientista cujo alcance é actualmente incontestável. A vida de C. Anta
Diop chega ao im sem que tenha formado uma geração de estudiosos
capazes de prosseguir o seu caminho. Professor de Física e de Quími-
ca num liceu parisiense, o nosso estudioso não teve oportunidade de
transmitir os seus conhecimentos à geração mais nova do país no
âmbito dessa instituição que, na sua óptica, seria um dos locais privi-
legiados da investigação fundamental. Na África negra, onde quase ne-
nhum intelectual da sua geração reunia condições para empreender
um trabalho no domínio atómico, a decisão que condena C. Anta
Diop a viver à margem da Universidade não é de todo inocente.
Evidentemente que a abrangência dos estudos do jovem ísico negro
não passou despercebida a determinadas instâncias que, com recurso
a diversas máscaras, asseguram o controlo da vida intelectual afri-
cana das independências. Ao afastar da Universidade uma «mente co-
lossal», cujos trabalhos são uma autoridade na matéria, coloca-se um
entrave ao lorescimento cientí ico dos povos africanos. O bloqueio
das relações entre C. Anta Diop e a juventude estudantil pressagia um
futuro de pobreza e de fome que se urdia para África. A autoridade do
cientista teria transformado incessantemente os meios universitários
e não há qualquer dúvida acerca da vastidão da sua in luência na vida
dos estudantes e do número de estudiosos e investigadores que um
contacto permanente teria suscitado em muitos países africanos. Será
necessário frisar o peso considerável que ele teria exercido nas men-
tes desses meios que, em princípio, constituem um local privilegiado
do saber e da cultura cujos efeitos são previsíveis nas transformações
sociopolíticas?
Efectivamente, ninguém parece ignorar a envergadura de tal candi-
dato à função de professor, conhecendo as suas ideias desde a época
em que o jovem estudante da RDA formulava resolutamente o problema
da independência dos territórios da África negra. O escândalo susci-
tado em plena Sorbonne pela defesa de tese de Nations nègres et cul-
ture encetava um con lito com os senhores da verdade: con lito que
não deixaria indiferentes os senhores do poder no meio africano. Mas,
incontestavelmente, não foi pelos seus trabalhos de ísica ou química
que C. Anta Diop gravou o seu nome na história da ciência. A maioria
dos seus textos, dos seus artigos, o tema das suas conferências e das
suas comunicações e os grandes debates nos quais participou versam
sobre as ciências humanas. O resultado dessas investigações deve-se
à sua formação pluridisciplinar e à sua enorme erudição. De certa ma-
neira, talvez a conversão do ísico a esse domínio resulte da urgência
dos problemas das sociedades dominadas relativamente às quais o
investigador deve adoptar uma posição. Na sua vida de investigação,

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 93


que desenvolveu até ao im da sua vida, C. Anta Diop mobiliza-se e
centra as suas investigações nos domínios da história, antropologia
ou sociologia, na medida em que aspira a preparar os africanos para
evitar qualquer forma de alienação cultural que constitui a condição
de qualquer alienação política e económica.

O cientista e o seu povo


As questões fundamentais para as quais o investigador apresenta
respostas são aquelas que incidem sobre a condição histórica dos
povos explorados durante séculos. É precisamente partindo dessa
situação que África deve constituir o objecto do discurso cientí ico.
Até então, ouvia-se sobretudo a voz dos poetas e dos romancistas
negros. Com o egiptólogo senegalense, é dada a palavra ao cientista
para falar de África aos africanos. A sua obra traduz essencialmente
um longo debate com a tradição intelectual ocidental. Debate que se
acende aquando da organização da resistência dos especialistas das
margens do Sena, que vêm a constituir a Associação dos Africanis-
tas no ano em que se realiza também a grande exposição colonial de
Paris. Em última análise, trata-se de saber se a anterioridade das civi-
lizações negras emana do mito ou da ciência.
Tal como observa Edem Kodjo6, durante muito tempo, C. Anta Diop
pensou em contracorrente. Firmando-se no campo da investigação
objectiva, empenha a sua capacidade de re lexão e de trabalho para
abalar o prestígio daquilo que, sob o prisma da razão crítica, é fruto
da adulteração e da pseudociência. Edem Kodjo constata ainda:

«Entre a universidade e um certo mundo da investigação e o senegalense lame-


jante, o combate foi duro… e longo, marcado por contributos sempre fundamen-
tais (…). O corpo a corpo durou muito tempo, até ao Colóquio do Cairo, em 1974,
sobre o “povoamento do Antigo Egipto e a descodi icação da escrita meroítica”,
organizado pela UNESCO e onde Diop e o seu discípulo, M. Théophile Obenga,
arrebataram as atenções. A vitória moral do estudioso senegalense foi incontes-
tável, não obstante a utilização de subterfúgios e eufemismos. Segundo indica o
relatório inal, à excepção de um participante, ninguém refutou globalmente as
suas teses (…). O Egipto era africano na sua escrita, na sua cultura e no seu modo
de pensar7.»

6. Edem Kodjo, «Cheikh Anta Diop ou la pensée à contre-courant», Le monde diplomatique, Março
de 1986.
7. Idem.

94 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


No seguimento de Nations nègres et culture, C. Anta Diop frisou
esse facto incessantemente aos próprios africanos, querendo chamar
à razão aqueles cuja formação intelectual não permitia submeter à
crítica os preconceitos que os seus mestres tinham feito ascender ao
nível de verdade cientí ica.
Pois, embora C. Anta Diop reconheça que é necessário reabilitar a
cultura dos povos negros, ele recusa-se a apreender essa cultura uni-
camente pela via das artes. Ao frisar a dimensão cientí ica e técnica
da cultura africana, C. Anta Diop rompe com os poetas da negritude
que professam a tese intolerável da inferioridade dos negros. O histo-
riador recusa-se a admitir essas ideias quando o contributo do Egipto
negro para a ciência e a iloso ia é conhecido pelas testemunhas do
pensamento greco-latino. Tal como também não é concebível que os
negros sejam «aqueles que não inventaram nada» num momento no
qual o homem descobre, comprovadamente, o papel determinante
desempenhado pelo Egipto africano na civilização que surgiu na
bacia do Mediterrâneo. Para compreender adequadamente a cultura
africana à luz do processo histórico, deve então resistir-se à perigosa
misti icação que converte o irracional e a não-tecnicidade nos atribu-
tos essenciais da «alma negra». C. Anta Diop deve travar um árduo
combate face às elites africanas: descolonizar os espíritos dos seus
congéneres que interiorizaram os a priori mentais impostos pelo
racismo colonial, que edi icou um sistema de ideias e constitui uma
reserva de imagens sobre os povos nativos. Essa missão será ímproba
pois, para um escravo, não será fácil esquecer as lições do seu mestre.
Desde a década de 1950, Césaire fora um dos raros intelectuais ne-
gros a enunciar o desa io das ideias que se tornaram lugares-comuns
a partir do II.º Congresso dos Escritores e Artistas Negros. Na verdade,
o objectivo visado pelo historiador consiste em fazer-se compreender
pelos seus, tendo em conta o cerne do debate cientí ico sobre África.
Nesse plano, os textos de C. Anta Diop destinam-se especialmente aos
jovens africanos que o cientista não teve oportunidade de alcançar na
Universidade. São esses jovens que correm permanentemente o risco
de serem manipulados pelo Estado neocolonial que, recorrendo ao
sistema de ensino, transmite mensagens alienadoras. Num contexto
intelectual no qual África ϔigura exclusivamente na condição de objecto
na tentativa de produção cientíϔica que se faz sem ela, o negro é con-
denado a descobrir-se através do olhar do Outro. Foi o que aconteceu,
com a colonização, nas salas de aula onde, através de Mamadou et
Bineta, os alunos africanos se submetiam a um verdadeiro martelamen-
to ideológico. Em plena crise do colonialismo, quando a investigação
cientí ica desponta, C. Anta Diop revela rapidamente as mentiras de

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 95


uma ciência que acoberta a sua paixão e os seus preconceitos «sob as
capas da objectividade e da serenidade».
Daí a questão nocente que o investigador impõe às elites africanas:
Que verdade se pode esperar do discurso docente? Para C. Anta Diop,
as teorias «cientí icas» elaboradas no contexto do trá ico e da colo-
nização a respeito de África e do seu passado «são eminentemente
consequentes: são utilitárias e pragmáticas: A verdade é aquilo que
serve e, neste caso, aquilo que serve o colonialismo: o objectivo con-
siste em conseguir fazer acreditar ao negro, sob a capa da ciência, que
ele nunca foi responsável por algo de válido, nem mesmo daquilo que
nele existe».
Para alcançar a verdade de que África necessita para decifrar o seu
mistério é necessário percorrer um longo caminho, no qual «os
africanos se debruçam sobre a sua própria história e civilização e as
estudam para se conhecerem melhor8». C. Anta Diop compreendeu
rapidamente que os africanos teriam de alterar a sua perspectiva para
enfrentar a nova ordem das coisas imposta pelo im do colonialismo.
Para operar essa reforma do entendimento, uma nova inteligência
africana exige uma verdadeira retomada de iniciativa por parte dos
nativos. Ao introduzir os jovens africanos na tomada de consciência
das articulações internas da dominação e dos seus aparelhos ideológi-
cos, o cientista «liberta» um vasto campo de investigação, no qual as
novas gerações devem assumir as disciplinas das ciências humanas
na expectativa de alumiar melhor «a noite negra9» ensinada pelas
obras ocidentais. Face à alienação cultural do seu povo, C. Anta Diop
visa unicamente: suscitar e promover em África um movimento de in-
vestigação cientíϔica dinamizado pelos próprios africanos.
Por isso frisa veementemente «a necessidade de um povo conhecer
a sua história e salvaguardar a sua cultura nacional. Se ambas ainda
não foram estudadas, é obrigatório fazê-lo. Não se trata de criar, in-
teiramente, uma história mais bela do que as outras, para inebriar
moralmente o povo (…) mas de partir dessa ideia evidente segundo
a qual cada povo tem uma história. Para orientar adequadamente a
sua evolução, um povo deve conhecer imperativamente as suas ori-
gens, sejam elas quais forem. Se, por acaso, a nossa história é mais
bela do que o previsto, isso não passa de um feliz pormenor que já
não deve suscitar qualquer mal-estar desde que se tenham fornecido
provas objectivas10». Logo, o problema não reside na «glori icação de
um passado mais ou menos grandioso»: reside «na descoberta

8. Nations nègres et culture, vol. 1, p. 15.


9. Idem, p. 14.
10. Idem, p. 19.

96 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


e na tomada de consciência da continuidade desse passado, seja qual
for11». C. Anta Diop visa fundamentalmente «contribuir para o des-
pertar da consciência cultural de um povo12», dando a descobrir às
gerações actuais o papel relevante desempenhado pelos negros na
história da humanidade, com base numa investigação cientí ica minu-
ciosa sobre o Antigo Egipto. Pois:

«Ao considerar a história da humanidade, o negro não terá sido outrora uma potên-
cia? Não terá sido grandioso? Historiadores, lembrem-se da época na qual o Egipto,
a Etiópia e Tombuctu deslumbravam a Europa. Quando a Europa era habitada por
canibais, homens nus, selvagens e pagãos, África era povoada por uma raça de ho-
mens de cor, mestres no domínio das ciências, das artes, da literatura, cultos e re i-
nados, semelhantes a deuses, até os Antigos comparavam os etíopes aos deuses13.»

O texto é da autoria de Marcus Garvey, o pai do pan-africanismo.


Deparamo-nos com toda a sua substância e pertinência em Nations
nègres et culture onde o tema da missão histórica dos negros na civi-
lização universal está no cerne do debate científico dos tempos
modernos.
Num contexto no qual o passado africano foi envolvido com vários
lanços de sombra, deve superar-se o desa io lançado por Hegel que,
em 1830, proclamou: «África não é uma parte histórica do mundo».
Restituindo aos povos negros as origens que lhes são próprias, C. Anta
Diop oferece aos africanos a possibilidade de se reapossarem da sua
história e forjarem uma verdadeira consciência de si mesmos. C. Anta
Diop abre a via das investigações africanas sobre temas com futuro.
As sociedades abaladas pelo trauma colonial não podem libertar-se
dos complexos inoculados pelos antigos senhores se não empreen-
derem uma tentativa de desmisti icação radical que permite ao jovem
colegial libertar-se das estruturas de cegueira nas quais se encontra
encerrado desde os seus primeiros anos de vida escolar. C. Anta Diop
constatava que o veneno cultural se tornara «parte integrante da
nossa substância e manifesta-se em todos os nossos juízos de valor».
Por isso empenhou toda a sua capacidade de investigação e análise
para revelar a África a verdade que consiste na missão civilizadora do
mundo negro na história antiga. Ao frisar esse contributo negro para
o domínio das ciências, das artes e da religião, num momento no qual
o resto do mundo vive mergulhado na barbárie, é convidar os africa-
nos a reconciliarem-se com a sua história e a sua cultura.

11. Ibidem, p. 15.
12. Ibidem, p. 25.
13. Citado por I. Babakake, La Diaspora Noire, Paris, 1976, pp. 36-37.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 97


Eis o foco de C. Anta Diop, não só com as suas publicações e con-
ferências, mas também através do contacto humano, sempre que lhe é
possível conviver com jovens africanos e despertar-lhes a paixão pela
investigação, permitindo-lhes alcançar o fruto do seu trabalho cientí i-
co. O investigador africano renuncia a qualquer concepção elitista da
ciência, rejeitando o mito do erudito inalcançável e distante, motivo
pelo qual aprecia a discussão com os alunos e os estudantes. Na óp-
tica desse espírito eminente, não há questões estultas que não sejam
dignas de lhe serem apresentadas: mantém-se disponível para ouvir
tudo aquilo que vem de baixo e para manter o contacto, através de
correspondência ou um telefonema, para responder a uma questão
ou prosseguir uma discussão e uma troca de ideias que tenham sido
encetadas. «Aqui os deuses também estão presentes» (junto ao for-
no), poderia a irmar, parafraseando o poeta citado por Aristóteles
ao empreender as suas investigações sobre o mundo animal para
demonstrar que nenhum assunto é negligenciável. Na falta de an ite-
atros, C. Anta Diop contenta-se com um assento normal num vagão de
segunda classe para expor as suas teses a um simples estudante.
Num testemunho elucidativo, Marcien Towa relatou o seu encontro
com C. Anta Diop em circunstâncias inesperadas e escreve: «Conheci
efectivamente C. Anta Diop no II.º Congresso dos Escritores e Artistas
Negros realizado em Roma, em 1959. Tínhamos percorrido um lon-
guíssimo trajecto de comboio de Paris até Roma. Ao longo da viagem,
falámos sobre a sua obra e as suas teses que eram audaciosas e eram
aceites por poucas pessoas (…). No regresso, publiquei um artigo so-
bre o congresso no jornal dos estudantes franceses de Caen e outro
em La revue camerounaise que, na época, era dirigida por Eyinga Abel,
nos quais sublinhei as teses de Cheikh que aprovava14.» Outro teste-
munho, também ele de um estudante negro, ilustra a facilidade com
a qual esse homem de valor se deixa abordar pelos jovens. Segundo
Edem Kodjo: «Depois de nos falar sobre o parentesco entre o negro-
-africano e o árabe, Cheikh Anta Diop deveria preambular a unidade
cultural da África negra, considerando-a a base fundamental de uma
construção política durável. Esse combate passa pelo domínio das lín-
guas nacionais, e Diop, que traduziu à minha frente a teoria da rela-
tividade de Einstein para wolof, constituía-se o apóstolo de uma lín-
gua africana cuidadosamente seleccionada e ensinada15». Cena que se
desenrola no meio estudantil, durante um seminário organizado pela
FEANF em Julho de 1959, em Rennes, onde, segundo indica o antigo
secretário da OUA: «encontrei Diop pela primeira vez». Não há dúvida

14. Ver Le Républicain, n.º 81, 1986.


15. Edem Kodjo, artigo citado.

98 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


de que essa simplicidade e essa generosidade correspondem a uma
lógica existencial de um homem que actualmente é considerado um
dos grandes responsáveis pelo despertar da consciência do mundo
negro.

Um desa io político
Essa responsabilidade que C. Anta Diop assume relativamente ao seu
povo, através de diversas publicações e de encontros determinantes,
representa um desa io político considerável. Para perceber isso, não
se pode reduzir a vida militante do investigador a querelas com os
poderes instituídos, é necessário retomar os principais temas da sua
obra e do seu pensamento. Ora, se a história e a cultura, o homem e a
sociedade e, por im, o Estado e as línguas constituem os actos funda-
mentais da investigação do cientista, além da coerência interna deve
analisar-se também a pertinência. C. Anta Diop faz parte dessa gera-
ção da década de 1950 que representa, provavelmente, o período axi-
al do pensamento africano elaborado a partir de acontecimentos que
marcaram a memória dos povos negros. Em vésperas de Bandung, o
historiador africano retoma as ideias, publicadas num artigo intitu-
lado «Para uma ideologia política na áfrica negra», editado em La Voix
de l’Afrique noire, órgão dos estudantes da RDA. Em Nations nègres
et culture, retém apenas dois temas essenciais relativamente ao na-
cionalismo: a cultura nacional e a independência nacional. Evidente-
mente que esses temas compõem o horizonte da sua investigação nos
diversos domínios das ciências humanas. Um dos factos notáveis é
precisamente a abrangência dos temas que C. Anta Diop decide tratar
nas suas obras e que voltará a reler e aprofundar, incessantemente,
partindo de uma intuição magistral que lhe serve de io condutor.
Evocando apenas alguns exemplos, a inal de contas, por que motivo
a história domina a problemática da investigação de C. Anta Diop, a
não ser por se tratar de um tema verdadeiramente estratégico? Neste
caso, para o investigador, a história em causa não é a história dos
acontecimentos, mas aquela que é analisada à luz de práticas socio-
económicas do passado africano. Constatou-se anteriormente que o
estudioso salienta o facto de que o Egipto negro foi «ao longo de toda
a Antiguidade, a terra clássica para a qual os povos mediterrânicos
acorrerão em peregrinação para beberem das fontes dos conhecimen-
tos cientí icos». Facto que foi cuidadosamente acobertado pelos estu-
diosos europeus. Ao retomar a questão das origens negras do Antigo
Egipto, C. Anta Diop não desvela uma realidade que teria escapado à

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 99


vigilância dos investigadores e estudiosos. Esse «esquecimento» re-
sulta de uma estratégia astuta com a qual o Ocidente pretende impor
uma imagem do negro para instituir uma política de dominação. É
necessário retomar a lógica do imperialismo que se dota de aparelhos
de que os seus mecanismos carecem para se imporem às sociedades
sujeitas a comportamentos miméticos.
Não se esconde a história de um povo impunemente. Com o objec-
tivo de consolidar o regime colonial, o mundo europeu criou povos
amnésicos em África. Realidade que Alioune Diop compreendeu
claramente ao considerar as ciências históricas «o ilho predilecto de
qualquer política nacional16». Atendendo ao universo mental no qual
se elaboram as grandes teses do egiptólogo senegalense, a reposição
da verdade histórica das sociedades africanas é um acto político. Não
é necessário frisar a importância do problema das línguas que preo-
cupou incessantemente C. Anta Diop. Actualmente sabe-se que essa
questão é inerente à do poder. Ao conduzir um povo a renunciar à
sua língua, também se cultiva o abandono, a renúncia a qualquer as-
piração nacional por parte dos habitantes e acentuam-se os re lexos
de subordinação junto daqueles que já eram alienados. Por isso
existem inúmeros teóricos ao serviço do colonialismo (…) cujas ideias
são divulgadas, ensinadas à escala do povo, à medida que vão sendo
elaboradas17». A alienação cultural como «arma de controlo»: eis a
verdadeira situação que o investigador deve considerar para de inir
as suas missões e assumir as suas responsabilidades, caso pretenda
renunciar proferir discursos mercenários sobre a realidade africana.
Com a identi icação das diferentes redes através das quais o sistema
colonial propaga e comunica as suas teorias (escola, meios de comu-
nicação, propaganda, igrejas, etc.), C. Anta Diop tenta sensibilizar os
africanos para a gravidade do risco de depositar uma con iança cega
no saber instituído pelos seus mestres. Pois nada é neutro na medida
em que a prática cientí ica é indissociável da acção colonial. Deve ha-
ver ousadia para duvidar das teorias que visam justi icar a domina-
ção. O saber dominante não procura de todo alcançar a verdade, mas
antes forjar as «armas culturais perigosas ao serviço do ocupante18».
Por conseguinte, a missão do cientista não está con inada às paredes
do seu laboratório. Na prática da investigação, é preciso ser-se vigi-
lante para prevenir e alertar os negros para o «perigo inerente em as-
similarmos nosso passado, a nossa sociedade e o nosso pensamento,

16. Cf. Présence africaine, n.º 24-25, 1959, p. 44.


17. Nations nègres et culture, p. 14.
18. Idem, p. 14.

100 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


sem espírito crítico, através das obras ocidentais19». Pode avaliar-se o
tamanho da dúvida que se impõe numa situação actual na qual, com
base nos manuais escolares, os centros de estudos e de re lexão, os
organismos de investigação e a maioria das publicações, as gerações
africanas só acedem à civilização do livro através das obras redigidas
no Ocidente. C. Anta Diop é provavelmente um dos grandes mestres
da dúvida da história africana. Do alto da sua eminencia cientí ica,
surge como uma sentinela que domina todo o mundo negro. Ao insti-
tuir uma espécie de desacatamento em relação ao pensamento do seu
mestre, ele desperta o homem africano para a sua própria vocação
intelectual e cientí ica. Para o investigador a ciência dominante é sus-
peita: logo, o homem tem de olhar de forma diferente para si mesmo,
para a sociedade africana e para a sua história. Ao invés de reproduzir
os discursos institucionais, trata-se de questionar e repensar os sa-
beres constituídos para libertar o imaginário dos negros do «veneno
cultural sabiamente inoculado desde a mais tenra infância20». Ora,
tudo se passa como se a questão do Estado e do poder fosse o hori-
zonte da investigação de C. Anta Diop.
Neste caso, as re lexões e as análises que elabora no estudo Afrique
noire pré-coloniale que se revela um ensaio de «sociologia histórica»
no qual o estudioso se interroga sobre a evolução das sociedades e
lança as bases para uma análise dos movimentos revolucionários
partindo de uma consideração das particularidades das estruturas
sociais e políticas africanas. Antes de mais interessa-nos observar
que, em plena colonização, quando a maioria dos intelectuais ainda
não ousava aventar a questão da independência nacional, paralela-
mente ao problema da libertação, C. Anta Diop apresenta o da criação
de um Estado federal na África negra. Questão do Estado que nunca
mais abandonará, retomando-a com Les fondements économiques et
culturels d’un État federal d’Afrique noire. A persistência dessa temáti-
ca nas sociedades pós-coloniais desvela o fosso existente entre a re-
alidade política e africana e aquilo que deve considerar-se a utopia de
C. Anta Diop. Situação que é motivo de tensões na medida em que os
regimes africanos se encerram nas fronteiras traçadas pela Europa no
Congresso de Berlim.
Outro motivo de preocupação para o politólogo é a violência dos
poderes. A debilitação africana por conta da «proliferação de Esta-
dos microscópicos condenados à ditadura e à impotência política
e económica»: eis o receio do estudioso. Não se trata do pesadelo
de um intelectual angustiado, mas da realidade actual na qual nos

19. Ibidem, p. 14.
20. Ibidem, p. 25.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 101


apercebemos de quão leve é o peso do continente no espaço mundial,
não obstante as riquezas africanas e cujo inventário é feito por C. Anta
Diop. O que é indiscutível é que o pensamento de C. Anta Diop põe em
causa os mitos fundadores que estão na base da concepção africana do
Estado. O investigador convida-nos a superar esses mitos e reorgani-
zar o espaço, atendendo à importância das confederações, sendo que
só elas podem proporcionar à África negra os meios de existência no
espaço geopolítico actual. Que tipo de Estado para a África negra? Eis
a questão incontornável que o investigador transmite às novas gera-
ções. A despeito da evidente relevância política da questão, o mesmo
não acontece relativamente à questão da identidade do negro que é
um dos grandes temas da investigação de C. Anta Diop.
No entanto, na África negra não deveria negligenciar-se o papel fun-
damental das ciências sociais nessas regiões onde, tal como reconhece
R. Jaulin, a etnologia suscitou frequentemente o etnocídio para que «a
paz branca» reinasse. A partir do encontro brutal entre África e a Eu-
ropa, não há prática antropológica que não se insira numa estrutura
ideológica, política, económica e militar imposta pelo Ocidente. Como
tal, a antropologia faz parte de determinado contexto político que de ine
as relações entre as sociedades europeias e as sociedades não euro-
peias. A ideologia colonial e a antropologia resultam de uma mesma
con iguração e existe um jogo entre as duas ordens de fenómenos que
condiciona o seu desenvolvimento. O antropólogo serve-se da «paz
branca» para estudar as populações ditas primitivas. Mas essa «paz»
não é capaz de impedir a alienação cultural, económica ou política.
Ora, o antropólogo é o álibi ou a causa dessa alienação na medida em
que participa na dominação. No contexto colonial, tal como a história
se situa do lado do Ocidente que faz a História, a prática da antro-
pologia equivale indirectamente a procurar respostas para a crise e
para as contradições internas da sociedade dominante e também a
con irmar a autoridade e o poder das sociedades ocidentais, do seu
pensamento e da sua cultura. Não é por acaso que a disciplina nasce e
se desenvolve enquanto as grandes potências europeias conquistam
os seus impérios além-mar. Enquanto unidade teórica, a antropologia
é uma expressão do imperialismo colonial; é uma prática que lhe é
útil. Os antropólogos: exploradores ou espiões? A pergunta sugere o
conjunto das relações que se estabelecem entre o antropólogo e o im-
perialismo21.
Ao retomar a questão da identidade do negro, C. Anta Diop detém
uma imagem de África que remonta à Antiguidade, tal como retrata-
da por Galeno no séc. III; deve recorrer-se igualmente a todas as

21. Sobre o assunto, ver as obras anteriormente citadas, n.º 13, p. 31.

102 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


representações transmitidas pelas narrativas de viagem, as cartas
de missão ou a teologia popular nos meios religiosos. A imaginação
ocidental produziu «o mito do negro» nas práticas coloniais. «Propa-
gadas através de um enorme esforço publicitário e ensinada à escala
mundial», essas imagens bene iciaram «dos meios materiais e inan-
ceiros da sua própria propagação22» no Ocidente. Quando C. Anta Diop
se depara com esse mito, abre-se um espaço de descoberta e análise
que consiste na tomada de consciência de uma exploração e de uma
dominação. Para compreender o compromisso cientí ico do investi-
gador é preciso sempre retomar o «grau de alienação dos africanos
de então».
Perante essa situação, o cientista não pode permitir-se o luxo
daquele que faz de conta que não se mete nos assuntos que não lhe
dizem respeito e limitar-se a viajar para o outro canto do mundo, para
tribos onde o branco ainda não chegou. Pela própria natureza da sua
função objectiva, o investigador africano deve adoptar posições que
divergem das do antropólogo ocidental que tem tendência a refugiar-
-se na pureza (?) de um mundo fechado que estaria imune ao pecado
mortal da civilização; é aí que tenta negar o tumulto e a fúria que en-
tristecem os trópicos na medida em que inundam as sociedades desde
a invasão das armadas coloniais, o aparecimento dos movimentos
de protesto rurais e populares ou a introdução do álcool e da «so-
ciedade da Coca-Cola». Nesse plano, para C. Anta Diop, a missão não
consiste em valorizar a pureza primitiva relativamente à inautenti-
cidade das civilizações brancas. Trata-se de destruir «o mito do ne-
gro» lançando as bases de uma «antropologia incomplacente» que é
a única que pode oferecer ao africano a verdade da sua humanidade
e da sua identidade na medida em que evidencia o verdadeiro pa-
pel do negro na história da humanidade. Repor essa verdade não
traduz unicamente um acto de submissão às exigências da racio-
nalidade científica, é também um atentado às bases ideológicas da
dominação. Se a antropologia ocidental é «filha do imperialismo»
participando, assim, no «desenvolvimento do subdesenvolvimen-
to», «a antropologia incomplacente» é uma prática científica que se
insere numa dinâmica concreta na qual o africano deve passar da
alienação para a iniciativa. Ao invés de se limitar a uma análise do
homem e da sociedade com base num quadro teórico no qual a his-
toricidade do mundo negro é um a priori epistemológico, C. Anta
Diop elabora a ruptura com a antropologia colonial assumindo a
história como local privilegiado da descoberta da identidade afri-
cana. A investigação sobre o homem negro centra-se na perspectiva

22. Civilisation ou barbarie?, p. 10.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 103


do contributo do negro para a ciência e para a filosofia nas quais o
Ocidente reencontra a sua memória.
Os exemplos evocados não esgotam o campo das possibilidades no
qual o erudito e o político se reencontram incessantemente na vida
deste homem de recursos multiformes. Neste caso, nenhuma investi-
gação parece situar-se extrinsecamente à esfera política. No mesmo
sentido, qualquer prática sociopolítica requer um estudo aprofun-
dado. Em todos os casos, as motivações revolucionárias constituem «a
ideia por detrás da mente» na imensa obra do cientista. Uni icam o seu
pensamento e dinamizam toda a sua abordagem.
Tudo pode ajudar o investigador a avançar nesse sentido. Constatou-
-se o quão bene icia da leitura dos autores da Grécia Antiga. Sente ne-
cessidade de inventar objectos de estudo para despertar a memória
das origens. Mas, para C. Anta Diop, a história continua a ser aparente-
mente o verdadeiro laboratório do pensador africano. Certamente
que o investigador negro é sensível a tudo aquilo que possa consti-
tuir um problema. C. Anta Diop interessa-se pela parapsicologia, cujos
fenómenos tenta analisar à luz da ísica contemporânea23. Embora se
dedique particularmente a questões sobre o homem e a sociedade em
África, reconhece que a « iloso ia clássica» – veiculada pelos homens
de letras puras – chegou ao im. Uma nova iloso ia só poderá renascer
das cinzas se o cientista (…), se moldar num «novo ilósofo» (…). Que
integrará, sem sombra de dúvida, todas as premissas no seu pensamen-
to (…) que acabam de despontar no horizonte cientí ico, para ajudar o
homem a reconciliar-se consigo mesmo24».
Os africanos devem preparar-se para essa exigência num contexto
no qual – graças à «integração dos conceitos e modos de expressão ca-
pazes de tornar as ideias cientí icas e ilosó icas do mundo moderno»
– o desenvolvimento das línguas nacionais deve contribuir para «a in-
trodução de uma nova mentalidade em África, para a aclimatação da
ciência e da iloso ia moderna ao solo africano25». Preocupado com os
«problemas da arte africana26», o investigador continua atormentado
pelas condições de acesso à vida cientí ica. «Se pretendemos adaptar
a nação africana, sobre a qual todos falam actualmente, às exigências
do mundo moderno, temos de dotá-la das instituições técnicas que
asseguram a vida de uma nação moderna27.» Os recursos deste «co-
biçado continente», mencionados pelo historiador zairense, impõem

23. Civilisation ou barbarie?, pp. 465-476.


24. Idem, p. 476.
25. Nations nègres et culture, vol. 1, p. 17 ; vol. 2, p. 418.
26. Idem, vol. 2, pp. 523-542; ler também L’Unité culturelle de l’Afrique noire, pp. 154-170.
27. E. Kodjo, Et demain l’Afrique, Stock, Paris, 1986, p. 296.

104 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


a promoção das ciências e das técnicas. Para C. Anta Diop, é esse o
desa io da actualidade.
Nessas circunstâncias, há coisas que o investigador deve transmitir
obrigatoriamente aos africanos: chama a atenção para as armas nu-
cleares que a África do Sul se apressa a adquirir, insiste na estraté-
gia do imperialismo cujos «tentáculos só libertam o terceiro mundo
de um lado, para tentar restringi-lo por outro28». C. Anta Diop rompe
com as ilusões do humanismo abstracto para se debruçar-se sobre
questões mais terrenas que o atormentam há largos anos. Cinquen-
ta, tal como relembra o seu Alerte sous les tropiques. É o desa io da
crise alimentar que está em causa no momento no qual «o Ocidente
pretende proteger o seu bem-estar num mundo miserável». A fome
não teria afectado inúmeros africanos se, a partir de então, esse aler-
ta tivesse sido levado a sério numa região do continente onde, nos
meios intelectuais e cientí icos, se silenciaram homens que tinham
trabalhado em África por longos anos, que aí tinham feito carreira
e, por vezes, criado obras eruditas sobre as suas populações. Para
os «especialistas» das questões africanas, tratava-se da indiferença
quase global relativamente ao drama do Sahel, cujos sintomas são
anunciados por C. Anta Diop a partir de 1954. O drama salienta a
gravidade do problema da responsabilidade do homem da ciência e
da cultura na África negra onde, sob pretexto de uma investigação «ob-
jectiva», se contribui activamente para a subjugação dos agricultores e
criadores de gado.

Propaganda ou verdade?
É possível questionar o valor de uma obra na qual o investigador é
indissociável do militante, na medida em que as suas ferramentas de
análise também se revelam meios de luta pela dignidade dos povos
africanos. Ao defender a tese da origem negra da civilização egípcia,
C. Anta Diop não está a sacri icar a verdade cientí ica à sua consciên-
cia política?
Eis a questão que está no cerne dos debates sobre a obra do egip-
tólogo e antropólogo africano e à qual o próprio respondeu, no seu
prefácio à segunda edição da sua obra fundamental, Nations nègres
et culture. Segundo salienta, o livro «foi escrito num período di ícil
(1948-1953) de luta anticolonial no qual de bom grado se dava lar-
gas às paixões». Situação que não impede o investigador de manter o
sangue frio e, no fulgor da luta nacionalista, é capaz de adoptar uma

28. Antériorité des civilisations nègres, p. 281.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 105


distância crítica que pressupõe uma ruptura com todas as paixões.
C. Anta Diop escreve: «Actualmente, todos podem julgar a nossa
posição de outrora com mais objectividade». Com efeito, a despeito
dos con litos que opõem os brancos e os negros no debate sobre o
problema nacional, «é possível constatar a ausência de vestígios de
ódio ou racismo contracorrente». Embora o autor retome algumas im-
perfeições, que o próprio reconhece com a releitura de inúmeras obras,
não «renuncia a nenhum dos grandes temas desenvolvidos sobre a
origem negra das civilizações etíope e egípcia, à extensão e à antiguidade
do substrato negro da humanidade, à anterioridade da cultura me-
ridional à volta do Mediterrâneo, ao parentesco cultural dos povos
africanos nem à possibilidade de que estes povos dispõem para construir
uma cultura moderna que bene icie dos feitos da humanidade».
Engendradas nesses anos de luta, «essas ideias a iguravam-se de tal
modo revolucionárias que pouquíssimos intelectuais ousavam aderir-
-lhes29». Para os cientistas, foram um escândalo inadmissível. Actual-
mente, «os grandes temas desenvolvidos em Nations nègres et culture
(…) caíram na esfera dos lugares-comuns30». Já ninguém contesta as
teses do jovem investigador envolvido na luta pela independência de
África. Facto que convida à re lexão sobre as relações entre a investi-
gação cientí ica e o envolvimento político. Eis um texto fundamental
de C. Anta Diop:

«Há tendência para acreditar que todo o pensamento, toda a actividade intelec-
tual – que supostamente contribuem para despertar a consciência de um povo –
devem debruçar-se, forçosamente, sobre o campo cientí ico. No âmbito da nossa
abordagem, existia uma forma de evitar essa doença infantil da investigação cul-
tural. Bastaria admitir que cada povo tem um passado, por mais modesto que seja,
que é relativamente possível descobri-lo com uma investigação apropriada (…).
Para alcançar esse objectivo, não é necessário alterar conscientemente os factos
(…). Mesmo assim, não podia deturpar a verdade histórica, complacentemente,
inventando outras origens para os povos africanos para dar a impressão de um tra-
balho mais «sério», mais «cientí ico», sobretudo mais aceitável aos olhos de muitos
especialistas que, remontando a origem da raça negra a alguns milénios, acreditam
tratar-se de uma concessão extraordinária. Este foi, por essa razão, um verdadeiro
diálogo entre surdos31.»

C. Anta Diop leva a ciência demasiado a sério para confundi-la com


a propaganda ou a ideologia. Embora milite pela reabilitação das

29. Nations nègres et culture, vol. 1, p. 5.


30. Idem, p. 5; ver também o Colóquio do Cairo de 1974.
31. Ibidem, p. 25.

106 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


culturas africanas, na interpretação dos factos, revela-se plenamente
consciente e considera-os na justa medida. Isso basta para respeitar
as exigências da investigação objectiva, icando apenas o problema da
linguagem.

«Por vezes, o tom da nossa argumentação é denunciado. Para nós, não se tata de
adoptar os defeitos dos textos que criticamos. Numa demonstração, deve estabelecer-
-se uma distinção entre a irmeza dos argumentos apresentados e o tom com que se
expressam. Não se concede qualquer indulgência relativamente ao primeiro ponto
que, só por si, emana essencialmente da ciência. No segundo caso, a atitude a adop-
tar depende das circunstâncias (…). Evita-se o debate cientí ico de uma maneira
que não engana ninguém ao substituir a refutação dos argumentos por uma expli-
cação «psicológica» da motivação de uma obra32.»

O importante é a «justeza daquilo que se escreve», pois esse campo


«é o único que é verdadeiramente interessante e acessível para uma
ciência objectiva33».
C. Anta Diop envereda por esse caminho disponibilizando todos
os recursos da sua erudição para «libertar» a verdade dos «mitos»
elaborados em torno da ideologia da mentalidade primitiva que é um
aparelho do imperialismo.

Para uma ciência ao serviço do homem


Na obra de C. Anta Diop, aquilo que sugere a reflexão sobre as
responsabilidades sociopolíticas do investigador é a vigilância que
impõe ao cientista na África negra, dado que, neste caso, a neutrali-
dade pode revelar-se uma ilusão perigosa que justi ica efectivamente
a ordem estabelecida. Quando todo um continente se encontra à de-
riva, é necessário adoptar posições. O investigador deve situar-se
relativamente aos desa ios das sociedades subjugadas que correm o
risco de icarem expostas a todas as formas de alienação. A sua voz
não pode silenciar-se perante a derrocada de valores que ameaça as
gerações actuais. O autor de Alerte sous les tropiques constitui um
exemplo num contexto no qual, não obstante as aparências, os me-
canismos que produzem a fome e a pobreza ainda existem nas socie-
dades africanas. A responsabilidade dos cientistas deve ser analisada
numa região do mundo na qual a vida quotidiana é um sector colo-
nizado, ao passo que um imperialismo hediondo vai prosperando na

32. Antériorité des civilisations nègres, p. 11.


33. Idem, p. 11.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 107


actual fase de reafectação do capital que se faz acompanhar por uma
enorme restruturação ideológica do espaço mundial.
C. Anta Diop foi um investigador permanentemente atento, centran-
do a atenção africana para os grandes desa ios do conhecimento e da
acção e que empenhou a sua enorme capacidade de trabalho em prol
da reabilitação e da libertação dos povos negros. Noutras condições
de vida e de re lexão, teria certamente bene iciado mais o nosso con-
tinente. O destino do estudioso que viveu à margem da Universidade
ganha sentido nas sociedades onde se lida diariamente com a fome e a
miséria. Aparentemente, nos países onde «comer em primeiro lugar»
é um problema primordial, a vida da inteligência apenas constitui um
interesse menor.
Dever-se-á condenar África a tornar-se uma verdadeira feira de
oportunidades na qual os homens do ritmo e da dança estão condena-
dos a consumir «pacotes tecnológicos» que aí são derramados, como
se de um enorme depósito de lixo se tratasse, tal como é possível
observar em relação aos medicamentos e aos povos que se mobili-
zam para transformar a produção da ciência num instrumento da sua
força e do seu crescimento? Tal como ressalva Edem Kodjo, «os res-
tantes continentes não estão dispostos a transferir-nos esses instru-
mentos da força que são a ciência e a técnica moderna34». Os grandes
consórcios não podem ser equiparados a instituições de caridade que
distribuiriam pelos «pequenos negros» as suas tecnologias de ponta.
Por conseguinte, não deve imaginar-se que a única missão da cultura
e da sociedade africanas consiste em fornecer um «suplemento de
alma» ao mundo inado das máquinas, entregando aos restantes o
monopólio da investigação cientí ica e tecnológica.
Nesse aspecto, o actual drama africano não reside unicamente na
fuga, mas no enorme desperdício de inteligências. Essa perda tende
a tornar-se uma prática institucional precisamente onde triunfam os
embusteiros da cultura, privando as sociedades que vivem na penúria
de um capital cientí ico e tecnológico que deve ser valorizado e no
qual África deve aprender a con iar. O Estado africano deve proteger
os homens de valor e permitir-lhes viver dignamente e trabalhar com
toda a segurança na medida em que a vida de inteligência só pode lo-
rescer e desenvolver-se num clima de liberdade. Actualmente, os pen-
sadores e os espíritos criativos não podem ser condenados a submer-
gir a consciência da sua infelicidade em estádios de futebol. Milhares
de homens e mulheres não poderão desagrilhoar-se da miséria sem um
projecto cientíϔico mobilizador assumido pelas equipas de investigação
em meio africano.

34. E. Kodjo, Et demain l’Afrique, Stock, p. 361.

108 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Logo em 1954, C. Anta Diop escreve em Nations nègres et culture:

«África deve absorver o pensamento cientí ico moderno o quanto antes; devendo
esperar-se ainda mais da sua parte: para compensar o atraso que acumulou nesse
domínio ao longo de séculos, tem de entrar no plano da emulação internacional e
contribuir para o avanço das ciências exactas em todos os ramos, com o contributo
dos seus próprios ilhos35.»

As práticas de assistência já não são su icientes num domínio no


qual a investigação cientí ica ultramarina é um aspecto da política
estrangeira das grandes potências. Novas estratégias de desenvolvi-
mento requerem o conhecimento e a valorização dos meios tropicais,
dos estudos sobre os problemas de saúde e de alimentação, atenção
ao desa io do ambiente, das investigações sobre as tecnologias de
base, a energia, o ordenamento das cidades, os recursos humanos, o
desenvolvimento rural, etc. Esses campos sectoriais que fazem parte
de um grande conjunto não podem ser abandonados à solidão dos
investigadores vindos de outra parte. África viveu a experiência da
ciência moderna nos con litos armados que a opuseram às sociedades
europeias através das conquistas coloniais e de práticas de explora-
ção e dominação. Até agora, a investigação realizada em África incidiu
sobretudo nas produções tropicais que constituem o objecto dos mer-
cados internacionais. Não faria sentido que 90 % da investigação so-
bre África se izesse fora de África, em detrimento dos nossos povos.
Os países meridionais não poderiam continuar a ser eternamente
explorados, descobertos e estudados pelos outros. Se o desenvolvi-
mento das sociedades africanas depende do destino dos cientistas,
é necessário criar condições que nos permitam libertar de qualquer
forma de tutela intelectual.
Por conseguinte, o actual desequilíbrio entre o ensino geral e o en-
sino cientí ico e técnico representa um enorme desa io que deve ser
superado pelos africanos que, a partir de agora, são responsáveis pela
organização do desenvolvimento cientí ico e técnico das nossas socie-
dades. Num mundo diϔícil no qual o acesso ao mercado do saber é uma
luta implacável, a formação dos homens capazes de descobrir e inven-
tar deve ser uma missão primordial. A produção de uma enorme quan-
tidade de especialistas da não-especialidade não pode dar resposta a
esse objectivo fundamental. Sem uma abertura dos sectores de forma-
ção que prepare as novas gerações para um trabalho interdisciplinar
através do qual se efectue a investigação cientí ica contemporânea,
África não pode dedicar-se a uma verdadeira problemática cientí ica

35. Nations nègres et culture, p. 17.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 109


assumida pelos próprios estudiosos. Em muitas universidades africa-
nas, a separação das disciplinas não permite alcançar um patamar a
partir do qual é possível concretizar uma verdadeira política de inves-
tigação cientí ica. Por conseguinte, impõe-se a necessidade de uma
concertação entre os políticos e os cientistas para libertar África dos
bloqueios inerentes ao Estado pós-colonial, sendo nesse aspecto que
a igura de C. Anta Diop constitui um símbolo e um chamamento.
Embora se tenha tornado um líder de opinião, atendendo à auto-
ridade moral que representa com a sua obra cientí ica, este lutador
tenaz desconhecia as barreiras arti iciais que as práticas escolares
acabaram por erigir entre as diferentes disciplinas. Munido de uma
formação global que lhe permitia dialogar com os estudiosos e os es-
pecialistas oriundos de diversos horizontes das ciências exactas e das
ciências humanas, personi ica o tipo de homem de cultura cuja vasta
competência abrange todos os sectores do saber. Pressionado pela
urgência da luta que tem de travar em todas as frentes, não tolera sim-
pli icações abusivas nem a agitação estéril, sendo a sua maior exigên-
cia a busca incessante da verdade. Toda a sua vida é orientada pelo
desejo de envidar todos os esforços para lograr a evolução da ciência e
o triunfo da verdade, aprofundando sempre as questões tratadas e re-
nunciando a qualquer facilitismo. Desenvolve críticas in lexíveis sem-
pre que aspira a suprimir a mediocridade e denunciar a banalidade.
África precisa deste tipo de homem num momento em que iluminis-
mos de ordens diversas correm o risco de paralisar as forças críticas e
inventivas das sociedades bloqueadas. Assistimos a uma manipulação
do crível organizada pelos sistemas dominantes para neutralizar toda
a consciência crítica e impedir os escravos da fome de cometerem um
acto de loucura nos con litos nos quais não têm nada a perder. Antes
que estes sistemas o desperdicem, é necessário restituir C. Anta Diop
aos povos africanos. Pois, na actual crise das sociedades pós-coloniais,
estes povos necessitam de um pensamento radical cujo exemplo é
oferecido pelo autor de Nations nègres et culture.
Por que motivo a terra africana não se transforma num espaço onde
a razão é rica em invenções e investigações? Inúmeros Estados cor-
rem o risco de desaparecer do mapa geopolítico do mundo, sem uma
renovação da investigação cientí ica e um verdadeiro programa de
inovação tecnológica. Devemos então re lectir sobre as palavras de
C. Anta Diop aos jovens africanos: «Eles devem compreender que ao
domínio dos conhecimentos deve acrescer a e icácia da organização
para se manterem.». Nessas sociedades que se assemelham a uma
enorme manjedoira, «o investigador africano não tem o direito de
prescindir de uma formação técnica su iciente que lhe faculte o acesso

110 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


aos debates cientí icos mais elevados da nossa era na qual assenta o
futuro cultural do seu país». C. Anta Diop convida a criar condições
para um conjunto de verdades orientadoras e o desenvolvimen-
to africano. Para concretizar o grande sonho do investigador, é ne-
cessário efectuar estudos regionais no plano económico, linguístico e
político que podem demonstrar – munidos da autoridade da verdade
cientí ica – as vantagens concretas dos reagrupamentos e das partilhas
dos recursos naturais; constituem também um meio que permite
reunir os cientistas africanos para cumprirem as missões inerentes
aos seus próprios deveres: alumiar a noite que propicia a divisão dos
povos africanos, a sua dominação e a sua exploração.
De initivamente, pôr a ciência ao serviço de África requer, previa-
mente, um nível de competência elevado. Tal como salienta C. Anta
Diop:

«Os especialistas africanos devem adoptar medidas de preservação. Devem ser ca-
pazes de descobrir uma verdade cientí ica pelos seus próprios meios, dispensando
a aprovação de outrem, e de saber conservar a sua autonomia intelectual até que as
ideologias que se abrigam sob a capa da ciência se apercebam de que a era dos es-
tratagemas intelectuais chegou ao im. A competência torna-se a virtude suprema
do africano que pretende desalienar o seu povo36.»

Eis a missão sociopolítica do investigador na obra do ilustre histo-


riador africano.
Nesse sentido, ressalvar a memória de C. Anta Diop equivale a man-
tê-lo vivo na vida e história daqueles que são actualmente os esqueci-
dos da terra, recordando a forma como o cientista soube aliar a teoria
à prática, com lucidez e e icácia. Em última análise, é tentar absorver
a leitura crítica da realidade do seu povo marcado por uma enorme
alienação. Para nós – africanos da actualidade – a ϔidelidade à memória
cientíϔica e revolucionária de C. Anta Diop é assumir um compromisso
no sentido da responsabilidade e da criatividade. Chegou o momento
de acabar com «a insensatez do mimetismo». Por que motivo havería-
mos de procurar o nosso futuro no passado dos outros quando os úl-
timos tentam beber de fontes diferentes para se libertarem das suas
contradições e das suas crises? Tal como nos convida Fanon – outra
testemunha da consciência negra – «Tratemos de inventar o homem
total que a Europa foi capaz de fazer triunfar37.»

36. C. A. Diop, Prefácio a T. Obenga, L’Afrique dans l’antiquité, Egypte Pharaonique, Afrique Noire,
1974, p. 10.
37. Fanon, op. cit., p. 240.

VI. Responsabilidades sociais e políticas do investigador 111


O desa io das novas
gerações africanas
Para descobrir C. A. Diop, ainda há um longo caminho a percorrer.
Talvez agora os estudantes africanos comecem a lê-lo e estudá-lo.
Mas, para começar, é preciso salvar do esquecimento esse cientista
que tem uma mensagem a transmitir às novas gerações. Os mestres
do pensamento africanos correm o risco de forti icar incessante-
mente o muro do silêncio à volta de um pensamento que perturba a
ordem do discurso sobre o homem e a cultura no meio africano.
C. A. Diop não publicou os seus livros nas grandes editoras controla-
das pelas instituições o iciais de investigação cientí ica, escolhendo
antes uma edição africana bem modesta. Os resultados dos seus trabalhos
fogem aos circuitos e às redes de comunicação dos especialistas nas
questões africanas. Logo, não é de espantar que muitos investiga-
dores estrangeiros desconheçam as obras do historiador e egiptólogo
africano. Na verdade, tal como salientei no presente estudo, C. A. Diop
permaneceu um herético do saber instituído1.
Na época da Inquisição, os heréticos ardiam na fogueira. Estudiosos
como Galileu foram objecto de casos e processos muito conhecidos.
Visto tratar-se de um investigador negro que causa perturbação, a
estratégia dos grandes mestres assenta em esquecê-lo, não falando
sobre ele. E quando não é ignorado obrigatoriamente, é classi icado
de fantasista. Obviamente que se reconhece a importância da sua
mensagem política. Quanto ao resto, a sua obra emanaria da litera-
tura para-cientí ica. Os jovens africanos são imediatamente alertados
para os riscos de deriva ideológica das grandes a irmações do autor
de Nations nègres et culture. Este processo não é novidade, estando
presente ao longo da vida de C. A. Diop, desde a data em que os
especialistas da Sorbonne recusaram as suas teses sobre a origem
negra do Antigo Egipto. O investigador teve o infortúnio de ter ousado
imiscuir-se num domínio no qual os mestres do pensamento tinham

1. Sobre o tema, ler «Ch. A. Diop, l’hérétique», Peuples Noirs, Peuples africains, Nov.-Dez. de 1986 ;
Ver também o simpósio sobre a obra de C. A. Diop: «Problématique et Champ historique», Le Soleil,
23 de Abril de 1982; «Contrer les hégémonies idéologiques et scienti iques», id.; Edem Kodjo,
«Cheikh Anta Diop ou la pensée à contre-courant», Le Monde Diplomatique, Março de 1986.

O desafio das novas gerações africanas 113


erigido um feudo para monopolizar o discurso sobre África. A entrada
intempestiva do pequeno negro nos templos do saber moderno sus-
cita o espanto, e mesmo a indignação «daqueles que sabem». Sem que
nenhum iniciador alguma vez se encarregue dele, C. A. Diop aventu-
ra-se nos caminhos áridos da ciência com a pretensão de dar lições
àqueles que alumiam os «anos obscuros de África».
Não se limita apenas a desa iar os créditos dos trabalhos reconhe-
cidos pelos que distribuem menções aos seus alunos: a sua audácia
leva-o a anunciar o ϔim das certezas, abrindo novos caminhos para a
investigação sobre África, para lá dos contributos do africanismo.
Eis o cerne do problema do valor cientí ico, dos resultados da obra
do egiptólogo, do historiador, do antropólogo e do linguista negro.
C. A. Diop não correrá igualmente o risco de ser desvirtuado pelas
novas gerações que, nos an iteatros e nos campus, nele reconhecem o
«homem de ciência» que repôs a verdade na sequência das falsi ica-
ções da história africana impostas pelo imperialismo colonial? Aquilo
que actualmente ameaça a obra do investigador africano é a tentação
de transformá-la num objecto mágico, sagrado e, em última instância,
infalível, não situando C. A. Diop no contexto histórico no qual o seu
pensamento despontou, com os problemas especí icos que o acciona-
ram, atendendo aos meios de abordagem associados a um momento
da vida intelectual com os seus limites incontestáveis.
Não é fácil ler C. A. Diop sem desapaixonadamente, pois essa é uma
das marcas da sua obra multidimensional. Numa era na qual a se-
gunda geração da independência empreende a sua busca de mitos e
modelos, deve atentar-se para não converter C. A. Diop num mito. O
seu nome não poderia ser idolatrado, pois essa derradeira reassun-
ção não lhe interessa e em nada se aproxima da sua pessoa. Era um
homem que levava a ciência demasiado a sério para não reconhecer
a liberdade de pensar e aceitar a contradição. C. A. Diop mostrou-se
sempre aberto ao debate e à confrontação. A sua obra não emana
de uma inspiração divina, não deve ser considerada a Bíblia nem o
Alcorão. Na Idade Média, bastava citar Aristóteles para encerrar
qualquer discussão. C. A. Diop não deixou uma súmula teológica que
bastaria comentar ielmente, sem questionar a edi icação doutrinal
que deve ser reproduzida como dogmas intangíveis. O pior serviço
a prestar ao investigador seria consolidar o reino de consenso nos
regimes nos quais qualquer debate verdadeiro tende a desaparecer
do espaço da comunicação. C. A. Diop ainda tem mais a dizer sobre a
África negra, devendo renunciar-se a transformá-lo num «faraó do
saber». Era demasiado modesto para identificar-se com persona-
gens cujas práticas de poder associadas a regimes teocráticos não

114 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


correspondem às suas exigências democráticas. Não querendo mumi-
icar a sua obra, é necessário submetê-la ao livre exame. É uma forma
de reconhecer a sua grandiosidade e a sua actualidade. Só um pensa-
mento vivo pode suscitar o debate e alimentar a re lexão. Em nome do
próprio C. A. Diop, a discussão e a investigação devem ser organizadas
centrando-se nas questões fundamentais que a sua obra apresenta à
vida intelectual.
Nesse sentido, importa situar o homem de ciência e de cultura que
não deixa ninguém indiferente. Através das re lexões do presente es-
tudo, tentei alumiar toda a complexidade da obra e do pensamento de
C. A. Diop, frisando os principais temas e articulações, os seus desa ios
e objectivos epistemológicos e socio-históricos. Gostaria de sublinhar
a sua conϔiança em si e a capacidade de criar que ele pretendia suscitar
no espírito dos africanos, sendo que essa me parece ser a mensagem
fundamental legada por C. A. Diop. Não preconiza de todo uma nos-
talgia do passado africano, por mais glorioso que seja, nem pretende
ser repetido como se tivesse proferido a última palavra sobre todas
as coisas. Continua a ser um percursor e um pioneiro nas disciplinas
que praticou e legou questões fundamentais para as quais não teve
tempo de encontrar respostas. A sua obra inclui expectativas que é
necessário colmatar, daí que legue às novas gerações a responsabi-
lidade de fornecer as respostas à comunidade cientí ica, retomando
as questões que permanecem, facto que se impõe a nível da história,
da egiptologia, da antropologia e da linguística que estão no cerne da
obra de C. A. Diop. O uso que o investigador africano fez destas disci-
plinas leva-nos a renovar e desenvolver metodologias de abordagens
em ciências humanas no contexto africano. Gerir a herança de C. A.
Diop é recuperar o sentido da criatividade que se impõe no campo do
saber, no qual a descolonização das ciências humanas é uma exigência
do nosso tempo.
África constitui um autêntico laboratório destas ciências, mas temos
de aceitar a morte do Pai e romper com o mimetismo para poder
criar. Nas sociedades onde vivem, os investigadores devem dar a com-
preender aquilo que se passa a nível das transformações de África.
É necessário assinalar os objectivos da investigação, elaborar ferra-
mentas de análise, inventar uma nova língua de transmissão. Na me-
dida em que C. A. Diop foi capaz de valorizar a interdisciplinaridade
nas diferentes ordens das ciências sociais e humanas, ica aqui uma
marca que ilumina o futuro. Muitos jovens interrogam-se: o que fazer
depois de C. A. Diop? Já a irmei que deve evitar-se qualquer cristalização
da sua obra e do seu pensamento e acrescento um ponto essencial:
ser iel ao ilustre egiptólogo africano é fazer parte de um momento da

O desafio das novas gerações africanas 115


criação em andamento. Toda a preocupação de C. A. Diop centra-se no
principal e único problema capaz de suscitar o despertar cientí ico e
tecnológico de África. É nesse sentido que a origem negra da civiliza-
ção egípcia constitui o quadro teórico de qualquer discurso sobre as
realidades e os problemas das nossas sociedades.
Em Civilisation ou barbarie, o ilustre antropólogo escreve oportu-
namente:

«O africano que nos terá compreendido é aquele que, após a leitura das nossas
obras, terá sentido despontar outro homem dentro de si, animado por uma
consciência histórica, um verdadeiro criador, um Prometeu portador de uma nova
civilização e perfeitamente consciente daquilo que toda a terra deve ao seu génio
ancestral em todos os domínios da ciência, da cultura e da religião2.»

Por conseguinte, o futuro do pensamento de C. A. Diop está nas mãos


das gerações que acedem às novas formas do saber de que necessita-
mos para transformar as nossas condições de existência. Esse pensa-
mento é um elemento constitutivo a nossa cultura, para nos fazer ir
mais adiante, na aventura contemporânea da vida do espírito, o que
exige que o confronto entre as práticas diárias e os temas fundadores
desenvolvidos na obra do estudioso negro.
Actualmente, muitos se declaram seus admiradores desprezando si-
multaneamente as línguas africanas. Ora, na óptica deste homem que
foi um dos primeiros a reivindicar a independência imediata para as
colónias francesas em África, «é necessário recriar a nossa identidade
através da criação de uma língua africana».
Há quem questione se C. A. Diop só terá sido aceite pelos poderes
africanos quando desintegrou o discurso europeu ao rea irmar a ori-
gem negra do Antigo Egipto. O que equivale a esquecer que ele nunca
voltou as costas às lutas do presente, questionando o destino imposto
a África pelo imperialismo cujos interesses são agora salvaguardados
pelos aparelhos do Estado neocolonial. O egiptólogo senegalense está
muito longe de estar tão obcecado com o debate sobre a identidade
negra do Egipto a ponto de ser possível reduzir o seu pensamento à
busca das origens, negligenciando a dimensão política da sua obra.
Tal como salienta Théophile Obenga, «procurar conhecer as origens
nunca impediu a resolução dos problemas do momento (…). Cheikh
Anta Diop nunca voltou as costas aos problemas africanos da actu-
alidade3». Com efeito, o intento histórico, cultural e político da obra
de C. A. Diop não escapa aos poderes ocidentais que fazem de tudo

2. Civilisation ou barbarie?, p. 16.


3. T. Obenga, artigo citado.

116 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


para reprimi-lo. Seria necessário envidar todos os esforços para im-
pedir este pioneiro de suscitar vocações e traçar os caminhos do
futuro. Para o investigador e militante, «a revolução africana passa
pela reconstituição da consciência histórica». Ora, não há consciência
histórica sem consciência política. Para retomar a luta da África negra
de C. A. Diop «é indispensável um conhecimento aprofundado sobre
a sociedade africana4». O estudo dos problemas africanos impõem-se
caso se pretenda dominar uma situação que exige uma enorme ener-
gia humana, lucidez intelectual e pensamento criador. Deve afastar-se
qualquer forma de indolência e entorpecimento mental. Os trabalhos
do historiador africano indicam-nos o caminho para as respostas a en-
contrar no terreno. Eis o apelo de C. A. Diop aos jovens do continente:

«A nossa geração não tem sorte na medida em que não conseguirá evitar a tem-
pestade intelectual; querendo ou não, será levada a pegar o touro pelos cornos, a
libertar o seu espírito das receitas intelectuais e dos fragmentos de pensamento,
para envolver-se resolutamente na única via verdadeiramente dialéctica da solução
dos problemas que a história lhe impõe.
Isso pressupõe uma actividade de investigação, no sentido mais autêntico, das
mentes lúcidas e ferazes, capazes de alcançar soluções e icazes e de serem consci-
entes por si mesmas, sem qualquer titela intelectual.
É a conjuntura histórica que obriga a nossa geração a resolver, numa perspectiva
favorável, o conjunto dos problemas cruciais com os quais África se depara (…). Se
não conseguir fazê-lo, igurará na história da evolução do nosso povo como a ge-
ração de demarcação que não terá sido capaz de garantir a sobrevivência cultural
e nacional do continente africano; aquela que, pela sua cegueira política e intelec-
tual, terá cometido o erro fatal ao nosso futuro nacional, terá sido a geração indigna
por excelência, aquela que não esteve à altura das circunstâncias5.»

Ler C. A. Diop equivale a tentar superar esse desa io.


Na medida em que as universidades africanas são locais de produção
da cultura, são chamadas a tornar-se centros de estudos e de inves-
tigação nos quais a vida e a obra de C. A. Diop podem alimentar e
incentivar a re lexão dos jovens africanos. Somos os ϔiéis depositários
do testamento de C. A. Diop. Temos uma missão a cumprir para garan-
tir a presença e a divulgação do seu pensamento. Será que temos a
coragem das iniciativas históricas que condicionam o lorescimento
da ciência e da cultura?
A verdadeira idelidade a este homem de cultura que nos restituiu
a nossa memória traduz-se por tudo aquilo que permite reacender

4. Les fondements économiques et culturels d’un Etat fédéral d’Afrique Noire, p. 5.


5. Idem, p. 28.

O desafio das novas gerações africanas 117


a sua fé no homem africano e recuperar a sua força de trabalho e de
investigação para evitar a domesticação mais temível, a do espírito.
O curso da história pode mudar se os povos negros retomarem a sua
tradição cientí ica e técnica que está na origem das civilizações anti-
gas. Segundo C. A. Diop:

«Se é certo que a tecnologia e a ciência moderna provinham da Europa, também


é certo que na Antiguidade, o saber universal luía do vale do Nilo para o resto
do mundo e, em especial, para a Grécia, que servirá de elo intermédio. Por con-
seguinte, na sua essência, nenhum pensamento, nenhuma ideologia (…) é es-
trangeiro a África que foi a terra da sua criação6.»

Sejamos realistas: é o impossível que está a chegar. Quando África


recuperar toda a sua capacidade de pensar, então poderá reerguer-se,
livre e gloriosa.

6. Civilisation ou barbarie?, p. 12; cap. 16 e 17. Ver também Nations nègres et culture, vol. 2, 1979,
pp. 405-411.

118 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Referências Bibliográ icas
I. Obras
(1979). Nations nègres et culture, Présence Africaine, Paris, livre de poche.
(1960). L’ Afrique Noire pré-coloniale, Présence Africaine, Paris.
(1982). L’Unité culturelle de l’Afrique Notre. Domaines du patriarcat et du matriarcat dans
l’Antiquité classique, Présence Africaine, Paris.
(1974). Antériorité des civilisations nègres: mythe ou vérité historique?, Présence Africaine, Paris.
(1974). Physique nucléaire et chronologie absolue, IFAN-NEA, Dacar.
(1975). L’Antiquité africaine par l’image, NEA, Dacar.
(1977). Parenté génétique de l’Egyptien pharaonique et des langues négro-africaines, NEA. Dacar.
(1981). Civilisation ou barbarie? Anthropologie sans complaisance, Présence Africaine, Paris.
(1988). Nouvelles recherches sur l’Egyptien ancien et les langues négro-africaines modernes,
Présence Africaine, Paris.

II. Artigos
(1952). «Vers une idéologie politique en Afrique Noire», in La voix de l’Afrique Noire, organe des
Etudiants du RDA, Paris.
(1953 ). «La lutte en Afrique Noire », id.
(Dezembro 1952 – Janeiro 1953). «Alerte sous les Tropiques », Présence Africaine.
(1956). «L’Unité culturelle de l’Afrique Noire », 1 er Congrès des Ecrivains et Artistes Noirs, n.º
especial, Présence Africaine.
(1959). «Apports et perspectives culturelles de l’Afrique Noire», 2ème Congrès des Ecrivains et
Artistes Noirs, Présence Africaine, Roma, n.º especial.
(Julho-Agosto, 1957). «Civilisations africaines », in Horizons (la revue de la paix).
(1963). «Sociologie africaine et méthodes de recherche », Présence Africaine, n.º 48.
(1967). «Réponses à quelques critiques », in Antériorité des civilisations nègres, pp. 231-279.
(1976). «Comment enraciner la Science en Afrique: exemples wolof (Sénégal)», in Bulletins de
l’IFAN, Série B, vol. XXXVII, n.º 1.
(Janeiro-Dezembro de 1984). «Philosophie, Science et Religion. Les crises majeures de la phi-
losophie contemporaine », in Actes du Colloque philosophie et religion, Université de Dakar, 7-8
de Junho 1982, Revue sénégalaise de philosophie, n.os 5-6.
(1987). «Aports de l’Afrique à la civilisation universelle», in Actes du colloque international:
Centenaire de la Conférence de Berlin 1884-1985, Présence Africaine.
(1980). «Origine des Anciens Egyptiens», in Histoire Générale de l’Afrique, vol. II, Afrique anci-
enne, UNESCO.

III. Leituras sobre C. A. Diop:


(1986). «Cheikh Anta Diop l’hérétique», in Peuples Noirs-Peuples africains, Nov.-Dez.
(1978). Colloque du Caire sur le peuplement de l’Egypte ancienne et le déchiffrement de l’écriture
méroïtique, UNESCO.
(1986). Colloque à l’Université de Brazzaville, 19-22 Março: «l’histoire et le développement
africain: l’exemple de Ch. A. Diop».
Dieng, A. A. & Hegel, M. (1978). Engels et les problèmes de l’Afrique noire, Dacar.
Edem, K. (1986). «Cheikh Anta Diop ou la pensée à contre-courant», in Le Monde diplomatique,
Março.
Evan Van Stertima (1987). Cheikh Anta Diop, vol. 1, ed. Great African Thinkers, EUA.
Guidy, W. I. (1986). Un homme plein d’humilité, in Jeune Afrique, 14 de Maio.

Referências Bibliográficas 119


(1987). Homenagem a Cheikh Anta Diop in Afrique-Histoire, n.º 2.
(1986 ). Cameroon Tribune, 12 de Fevereiro.
Corbet (1989). Revue Martiniquaise de Sciences Humaines et de Littérature, n.º Sciences et Civili-
sations Africaines.
(1989). Nomane, revue culturelle, n.º especial.
Un géant du Savoir, Le Soleil, 8 e 9 de Fevereiro de 1986, Taxaw, Março de 1986.
Kotte Essome (s.d.). «Cheikh Anta Diop connu et méconnu» in Nomade, n.º especial, pp. 66-73.
Ndiaye. J. P. & Siradou D. (1986). «Aux sources du génie noir», in Jeune Afrique, 25 de Março.
Sindjoum-Pokam (1987). «Silence autour d’une pensée», in Cameroon Tribune, 21 e 22 de
Fevereiro.
Simpósio sobre a obra de Cheikh Anta Diop, «Problématique et champ historique», Le Soleil, 23
de Abril de 1982; «Contrer les hégémonies idéologiques et scienti iques», in Le Soleil, 24 de
Abril de 1982.

120 Jean-Marc Ela Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Reler África:
O Antigo e o Moderno. A Produção do Saber na África Contemporânea
Paulin J. Hountondji [ISBN: 978-989-8449-82-5]

A Invenção de África. Gnose, Filosofia e a Ordem do Conhecimento


V. Y. Mudimbe [ISBN: 978-989-8655-00-4]

Sociologia das Brazzavilles Negras


Georges Balandier [ISBN: 978-989-8655-01-1]

Restituir a História às Sociedades Africanas. Promover as Ciências Sociais


na África Negra
Jean-Marc Ela [ISBN: 978-989-8655-02-8]

África Insubmissa. Cristianismo, Poder e Estado na Sociedade Pós-colonial


Achille Mbembe [ISBN: 978-989-8655-08-0]

E se a África Recusasse o Desenvolvimento?


Axelle Kabou [ISBN: 978-989-8655-06-6]

O Sentido da Luta Contra o Africanismo Eurocentrista


Théophile Obenga [ISBN: 978-989-8655-03-5]

A Ideia de África
V. Y. Mudimbe [ISBN: 978-989-8655-19-6]

A África Face aos seus Problemas de Segurança e de Defesa


Mwayila Tshiyembe e Mayele Bukasa [ISBN: 978-989-8655-22-6]

Sociologia da África Negra. Dinâmica das mudanças sociais na África Central


Georges Balandier [ISBN: 978-989-8655-27-1]

Sair da Grande Noite. Ensaio sobre a África descolonizada


Achille Mbembe [ISBN: 978-989-8655-31-8]

O Estado Pós-colonial: factor de insegurança em África


Mwayila Tshiyembe [ISBN: 978-989-8655-33-2]

Pelos Meandros da Etnia. Etnias, tribalismo e Estado em África


Jean-Loup Amselle e Elikia M´Bokolo [ISBN: 978-989-8655-32-5]

A Longa Marcha da Modernidade Africana. Saberes, intelectuais, democracia


Jean Copans [ISBN: 978-989-8655-40-0]

Tradição Africana e Racionalidade Moderna


Elungu P. E. A. [ISBN: 978-989-8655-38-7]

O Despertar Filosóϐico em África


Elungu P. E. A. [ISBN: 978-989-8655-39-4]

Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar


Jean-Marc Ela [ISBN: 978-989-8655-42-4]
Biblioteca de Ciências Sociais e Humanas:
Classes
Erik Olin Wright [ISBN: 978-989-8655-09-7]

Sentido e Poder
Georges Balandier [ISBN: 978-989-8655-30-1]

Oϐicina de Ciências Sociais e Humanas:


Sobre a Ciência da Incerteza. O Método Biográfico na Investigação em
Ciências Sociais
Franco Ferrarotti [ISBN: 978-989-8655-10-3]

Horizontes das Ciências Sociais e Humanas:


O Socialismo Democrático 1864-1960
Jacques Droz [ISBN: 978-989-8655-41-7]

Incubadora das Ciencias Sociais e Humanas:


A Televisão e a Criação de Signiϐicados na Criança
Heitor de Jesus João Lourenço [ISBN: 978-989-8655-29-5]

O GURN entre a Guerra e a Paz


Alberto Colino Cafussa [ISBN: 978-989-8655-28-8]

Cadernos de Ciências Sociais – Série Ciência Política:


O estudo cientíϐico da Política: abordagens epistemológicas e metodológicas
Fernando Muquepe
Miguel Domingos Bembe
Paulo Faria [ISBN: 978-989-8655-16-5]