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APRENDIZAGEM

SOCIOAMBIENTAL EM
LIVRE PERCURSO
A EXPERIÊNCIA DA UMAPAZ

PREFEITURA DE SÃO PAULO


Secretaria do Verde e do Meio Ambiente
APRENDIZAGEM
SOCIOAMBIENTAL EM
LIVRE PERCURSO
A EXPERIÊNCIA DA UMAPAZ
Aprendizagem socioambiental em livre percurso: a experiência da
UMAPAZ / Rose Marie Inojosa (org.). 1ªed. – São Paulo: Secretaria
do Verde e do Meio Ambiente, 2012.

267 p.

ISBN: 978-85-98140-14-8

1. Educação socioambiental. 2. Cultura de Paz. 3. Metodologia de


ensino. 4. Aprendizagem. I. Rose Marie Inojosa II. Secretaria do
Verde e do Meio Ambiente – São Paulo (Cidade). III. Título.

CDD 372.357

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca do


Departamento de Educação Ambiental e Cultura de Paz,
da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo.

Foto da Capa: Cássia Domingues.

Prédio sede da UMAPAZ, Av. IV Centenário, 1.268


Parque do Ibirapuera, São Paulo, Brasil.
dezembro / 2012

APRENDIZAGEM
SOCIOAMBIENTAL EM
LIVRE PERCURSO
A EXPERIÊNCIA DA UMAPAZ

PREFEITURA DE SÃO PAULO


Secretaria do Verde e do Meio Ambiente
apresentação
para que umapaz?
Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho1

A experiência do atual Departamento de Educação Tudo isto imerso num corrosivo caldo de egoísmos
Ambiental/ UMAPAZ da Secretaria do Verde e Meio nacionalistas e estímulos midiáticos para um consu-
Ambiente da Prefeitura de São Paulo nasceu em mismo estéril e materialista.
2005 de uma pretensão radical de ser mais um pólo Assim, não é pouca coisa o que a ONU nos pede. É
irradiador e articulador de duas políticas orquestra- uma reorganização quase revolucionária na nossa
das pela Organização das Nações Unidas para reor- forma de viver e conviver. É a reforma/superação
ganizar a forma moderna de viver e conviver: o De- das formas de viver capitalistas/ socialistas como
senvolvimento Sustentável e a Cultura de Paz. se apresentaram até agora em diversificadas expe-
Os dois modelos de organizar nossa forma de viver riências históricas nos últimos séculos em variados
e conviver em sociedade que a humanidade criou países de todos continentes.
nos últimos séculos - o capitalismo e o socialismo O núcleo desta visão é o casamento do viver sus-
- trouxeram muitos avanços na qualidade de vida, tentável, como foi apresentado ao mundo no en-
porém a evidente hegemonia, em ambos sistemas, contro Rio/92, com a hegemonia da cultura de paz
da cultura da violência, da lei da selva de predomínio sobre a cultura da violência nas nossas relações
do mais forte, do egoísmo nacionalista e o desprezo com as pessoas e com as outras espécies vivas e
pela preservação do meio ambiente com o predomí- o mundo, enfim.
nio extremado das preocupações sociais e econômi-
cas levaram a uma situação de crise gravíssima no O viver sustentável busca uma nova alquimia que
final do século XX e início deste século XXI. equilibre as preocupações econômicas, sociais e am-
bientais. A palavra chave aqui não é dominação de
Uma situação caracterizada pela emergência na um fator sobre o outro. A palavra chave é o equilíbrio.
consciência popular, científica e espiritual da im-
portância decisiva das crises climáticas / aqueci- A hegemonia da cultura de paz não pretende que os
mento global e da perda acelerada da riqueza da instintos agressivos que fazem parte da nossa natu-
biodiversidade, associadas à persistência da he- reza sejam erradicados totalmente, tarefa aparen-
gemonia da cultura da violência e da multissecu- temente impossível e até totalitária, e sim que ou-
lar distância opressiva entre a extrema riqueza e a tras tendências nossas de altruísmo, solidariedade
extrema pobreza. e amor, sejam predominantes nas nossas relações.

1 | Secretário Municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo, 2005-2012. Médico Sanitarista. Foi Deputado Estadual e
Federal por São Paulo, no período entre 1983 e 2003, e Secretário Municipal de Saúde de São Paulo de 1989 a 1990 e de
2001 a 2002.

4
Esta forma de pensar é muito nova, mas ao mesmo Este casamento deve também favorecer/ perse-
tempo se baseia nas tradições muito antigas de pesso- guir um ambiente onde a democracia política, a
as proféticas, visionárias, que vislumbraram sua impor- tolerância religiosa, o respeito aos direitos hu-
tância/ possibilidade e viveram de verdade de acordo manos e a utópica superação dos egoísmos na-
com esta crença. Buda, Cristo, São Francisco, Thoreau, cionalistas por uma governabilidade mundial
Tolstoi, Gandhi e mais recentemente Einstein, Rondon, democrática permita à humanidade continuar
Mandela, John Lennon, são exemplos sempre vivos, evoluindo sua responsabilidade de ser uma espé-
apesar de todos os seus próprios conflitos íntimos e cie de ser vivo na Terra, que tem consciência ple-
contradições, de que esta forma de ser não é impossí- na de sua existência, e que por isto tem respon-
vel para nós, homens e mulheres comuns. sabilidade de preservar e proteger a sua própria
e as outras espécies vivas que conosco habitam
A idéia da UMAPAZ é que o casamento das duas pro-
este pequena planeta.
postas - viver sustentável e cultura de paz - é uma
condição necessária para seu progresso reformador. São Paulo, verão de 2012

Cássia Domingues

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 5


sumário
Apresentação
Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho

10 introdução
Rose Marie Inojosa

12 O Evolver da UMAPAZ: primeiro setênio


Rose Marie Inojosa, Glacilda Pinheiro Corrêa Pedroso,
Estela Maria Pereira Guidi, Vitor Octávio Lucato

40 A Carta da Terra em Ação em São Paulo


Rose Marie Inojosa, Eveline Limaverde, Marina Freitas

62 Educação Gaia São Paulo


Rose Marie Inojosa, Paullo Santos e Marcelo Todescan

80 Articulação Local para o Desenvolvimento Sustentável


Débora Pontalti Marcondes e Lia Salomão Lopes

96 O ensino das Geociências na UMAPAZ


Gustavo Agni Beutenmuller

107 Cidadãos Mediadores na Cidade de São Paulo?


Sandra Inês Baraglio Granja

122 A arte do diálogo: o desenvolvimento da qualidade da escuta


Márcia Amélia Moura

130 Os direitos humanos, a sustentabilidade e a paz


Valério Igor Príncipe Vitorino

145 Alimentação e meio ambiente: relações
e contribuições no caminho da sustentabilidade
Suely Feldman Bassi

8
161 Programa Aventura Ambiental
Angélica Berenice de Almeida e Thereza Christina Rosa

171 A Escola de Jardinagem vai até você


Cristina Pereira Araújo

181 Danças Circulares como metodologia integrativa


Estela Maria Pereira Guidi

193 Dançando e convivendo nos parques públicos de São Paulo


Estela Marie Pereira Guidi

203 Educação Ambiental com Tai Chi e Meditação na UMAPAZ


Suely Feldman Bassi

213 O diálogo com o barro: consciência ecológica e sustentabilidade


Regina Fiorezzi Chiesa

227 Atos criativos sustentáveis – metodologia


para o desenvolvimento integral
Maria Cristina Belfort D´Arantes Cariani

241 Contar e ouvir histórias


Maricy Elisabeth Montenegro e Maria Cecília Martin Ferri

251 Relato de uma experiência – Parque Lions Clube


Tucuruvi e UMAPAZ
Ieda Januário Varejão

262 Programa Ambientes Verdes e Saudáveis-PAVS


Edjane Maria Torreão Brito, Yamma Mayura Duarte Alves,
Eunice Emiko Kishinami de Oliveira Pedro,
Eliana Sapucaia Rizzini, Hélio Neves

270 Aprendizes educadores e educadores aprendizes


Ana André e Adriano Galhardo

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 9


INTRODUÇÃO
Rose Marie Inojosa

Esta coletânea registra e comenta o trabalho de edu- gias e referências, de modo a poderem ser analisa-
cação ambiental e cultura de paz que vem sendo reali- dos e porventura utilizados por outros grupos que
zado na Cidade de São Paulo pela Universidade Aberta desejem desenvolver programas com propósito se-
do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UMAPAZ), da Se- melhante, já que a UMAPAZ tem recebido pessoas
cretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de São de outros municípios e regiões.
Paulo, desde 2005. Tem o propósito de estimular a re-
O artigo seguinte é sobre Educação Gaia São Pau-
flexão sobre a experiência e a abordagem metodológica
lo e foi produzido por representantes dos parceiros
da aprendizagem socioambiental, que incorporou prin-
que trouxeram esse programa internacional para a
cípios e orientações contemporâneos para a educação
Cidade de São Paulo: o Instituto Roerich da Paz e
ambiental, crítica e inclusiva, e vem construindo seu
Cultura; o CRIS – Centro de Referência e Integração
próprio invento. Esse modo de ser no mundo é pauta-
em Sustentabilidade e a UMAPAZ. O programa capa-
do pela reconstrução do sentimento de pertencimento
citou mais de 500 pessoas.
e de interdependência sistêmica do Planeta e uns dos
outros, pelo reconhecimento dos componentes éticos O quarto artigo, de autoria de Débora P. Marcondes,
dessa teia, vem como pelo envolvimento das diferen- bióloga, e Lia S. Lopes, geógrafa, traz o programa
tes dimensões da ecologia, como bases da sustentabi- Articulação Local para o Desenvolvimento Susten-
lidade da vida e da convivência humana. tável, que visa a fortalecer os cidadãos para a aná-
lise crítica de sua realidade e muni-los de ferramen-
Com esse intento, seu primeiro artigo conta o evolver
tas que contribuam para transformar suas escolhas,
da UMAPAZ, de 2005, sua concepção, até 2012. Escrito
seu cotidiano e seu entorno de forma sustentável.
por um conjunto de pessoas que vivenciaram o proces-
O programa, em parceria com o Programa Ambien-
so, apresente as fases da instituição, desde a formula-
tes Verdes e Saudáveis, da Saúde, vem capacitando
ção do seu projeto, e as bases da sua metodologia, que
centenas de agentes comunitários.
será exemplificada nos artigos que tratam de seus pro-
gramas. Observa-se, nesse texto, a preocupação com a A seguir, o artigo O Ensino das Geociências na UMA-
identificação dos atores atuantes nas diferentes fases PAZ, do geólogo Gustavo Agni Beutenmuller, vista
e seu papel em cada momento da organização. mostrar como o conhecimento relativo às Geociências
se desenvolveu no âmbito do município de São Paulo
O segundo artigo chama-se Carta da Terra em Ação
e em sua relação com outros temas e conhecimentos
em São Paulo. A Carta da Terra é documento orien-
atuais como as mudanças climáticas e a vulnerabilida-
tador da UMAPAZ, mas também dá nome e conteú-
de das megacidades frente a esse processo, e apresen-
do a dois programas robustos, apresentados nesse
texto: o Programa de Difusão da Carta da Terra na ta os cursos oferecidos aos cidadãos sobre o tema.
rede municipal de educação e o Programa Carta da Segue-se o texto intitulado Cidadãos Mediadores na
Terra em Ação, dedicado à formação de agentes so- Cidade de São Paulo?, trata do processo empreen-
cioambientais urbanos. São detalhados objetivos, dido na Cidade para a capacitação de pessoas em
organização dos programas, conteúdos, metodolo- resolução pacífica de conflitos e, especialmente, na

10
tecnologia da mediação. São mostradas as escolhas ro focaliza a questão metodológica e o diálogo que
metodológicas e o desenvolvimento, pelo olhar crí- as danças circulares estabeleceram com os outros
tico da Dra. Sandra Inês Baraglio Granja, que tem um temas e tecnologias que integram a programação da
papel importante nesse processo. UMAPAZ. O segundo aborda o Programa Dançando e
O sétimo artigo, de autoria da psicóloga Márcia Convivendo nos Parques públicos da cidade.
Amélia Moura, trata da Arte do Diólogo, o desen- A seguir, Suely Feldman Bassi, conta a história da
volvimento da qualidade da escuta, que é um refe- inserção do Tai Chi e da Meditação na programação
rencial fundamental para a cultura de paz e para a da UMAPAZ.
resolução pacífica de conflitos.
O décimo quinto artigo, apresenta um programa que
O artigo seguinte, de autoria do sociólogo Valério Igor visa a promover o encontro entre a arte e a natureza,
P. Vitorino, trabalha a relação entre direitos humanos, na busca de despertar a consciência ecológica por
sustentabilidade e paz, buscando demonstrar as rela- meio do trabalho com o barro. Sua autora, a artista
ções históricas e intrínsecas dos temas. e educadora Regina Fiorezzi Chiesa, tem conduzi-
Na diversidade dos temas da UMAPAZ é, a seguir, abor- do muitos grupos pela aventura de trabalhar com o
dada a relação entre alimentação, meio ambiente e barro e refletir, nesse processo, sobre as diferentes
sustentabilidade. O artigo é de autoria da nutricionista dimensões da ecologia.
e psicóloga Suely Feldman Bassi, que tem coordena- Segue-se artigo de outra arte-educadora Maria
do, juntamente com Vitor Octávio Lucato, o Programa Christina Belfort d´Arantes Cariani, com o título
Meio Ambiente, Alimentação e Saúde. Atos Criativos Sustentáveis, trabalha uma meto-
O décimo artigo, de autoria de Angélica Berenice de dologia para o desenvolvimento integral, que busca
Almeida e Thereza Christina Rosa, ambas pedago- transcender o pensamento linear. O artigo relata
gas da equipe da UMAPAZ, apresenta o Programa como, em um conjunto de programas, foram sen-
Aventura Ambiental, idealizado, inicialmente para do costurados saberes e fazeres, tecendo, com os
alcançar diretamente o público infantil e que, ao lon- participantes, um caminho de auto conhecimento e
go do tempo, também foi sendo procurado por ou- consciência ecológica.
tros grupos. Trata-se de uma trilha especial que visa O décimo sétimo artigo é de autoria de Ieda Januário
a aliar o contato com a natureza, o respeito à vida e Varejão, pedagoga e atual diretora de Formação da
a reflexão sobre valores da convivência. Centenas de UMAPAZ, apresenta o desenvolvimento das ativida-
grupos já fizeram a Aventura. des de educação ambiental em um parque da cidade
No artigo A Escola de Jardinagem vai até você, a – o Lions Clube Tucuruvi – e como se deu a articulação
arquiteta Cristina Pereira Araujo conta como a tra- dessas atividades com a programação da UMAPAZ.
dicional Escola Municipal de Jardinagem, que diri- Segue-se artigo sobre o Programa Ambientes Verdes
ge desde 2008, transbordou seus muros e levando e Saudáveis, um importante exemplo de atuação in-
conhecimentos de jardinagem para toda a cidade, tersetorial, com resultados e desdobramentos locais.
despertando o interesse de novos públicos e traba-
Finalmente, Aprendizes-educadores e educadores-
lhando, em parceria, a inclusãor social.
aprendizes traz depoimentos de dois atores, a artista
Os dois artigos seguintes tratam do papel funda- plástica Ana André e o especialista em jogos coope-
mental que as Danças Circulares têm tido como par- rativos Adriano Galhardo Pedroso. Eles vivenciaram a
te da metodologia integrativa da UMAPAZ. São de metodologia do livre percurso de aprendizagem so-
autoria da fonoaudióloga e especialista em dança cioambiental proposto pela UMAPAZ e trazem o rela-
circular, Estela Maria Guidi Pereira Gomes. O primei- to de sua visão sobre seus próprios percursos.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 11


O EVOLVER DA UMAPAZ
PRIMEIRO SETÊNIO
Rose Marie Inojosa, Glacilda Pinheiro Correa Pedroso,
Estela Maria Guidi Pereira Gomes e Vitor Octávio Lucato6,

Resumo Abstract
Este texto tem o objetivo de registrar e comentar o This text aims to register and comment on the proc-
processo de constituição e desenvolvimento organi- ess of formation and organizational development of
zacional da UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio UMAPAZ –  Universidade Aberta do Meio Ambiente
Ambiente e Cultura de Paz, de São Paulo, de 2005 a e Cultura de Paz   (The Open University of the En-
2012. Inicia pelo contexto em que o projeto foi gera- vironment and Culture of Peace)  , São Paulo, from
do e trata, na sequência, das fases de planejamento; 2005 to 2012. It starts by the context in which the
da implementação do projeto; e da institucionaliza- project was generated and continues  on the plan-
ção da UMAPAZ como Departamento da Secretaria ning  process, the implementation and institution-
Municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo alization of UMAPAZ as São Paulo´s Municipal
e das relações estabelecidas pela nova estrutura Department of Environment Education and the es-
organizacional da Secretaria. A seguir, são sucessi- tablished  relationships  by the new organizational
vamente focalizados: a equipe e a produção, o tra- structure. Hereafter, are successively focused: the
balho intersetorial, especialmente com a saúde, a staff and  production, the intersectoral work, espe-
educação, as relações de trabalho, subprefeituras e cially with health, education, labor relations, safety
a segurança urbana; as parcerias com organizações and urban boroughs; partnerships with third sector
do terceiro setor, com a universidade, e o controle organizations, with the university, and social con-
social. Finaliza abrindo espaço para pressupostos e trol. Bringing to completion with reflections on UMA-
práticas metodológicas adotadas pela UMAPAZ. PAZ   adopted  methodology
Palavras-chave: UMAPAZ, educação socioambiental, Keywords: UMAPAZ, environment education, part-
cultura de paz, parcerias, intersetorialidade, rede nerships, intersectoral relations, network

6 | Rose Marie Inojosa, organizadora da coletânea; Glacilda Pinheiro Corrêa Pedroso, pedagoga, integrante da equipe UMA-
PAZ e Diretora de Formação do DEA/UMAPAZ de janeiro de 2009 a outubro de 2011; Estela Maria Pereira Gomes, fono-
audióloga, integrante da equipe da UMAPAZ desde 2006 e Vitor Octávi Lucato, biólogo e ecólogo, integrante da equipe
da UMAPAZ desde 2006. rosemarieinojosa@bol.com.br; glacildamaranhao@gmail.com; estelagomes@uol.com.br; vlucato@
prefeitura.sp.gov.br.

12
1. Introdução com a implementação do projeto, de 2006 a 2008.
Aborda-se, no item 5, a Institucionalização do pro-
Esta narrativa, feita pelo olhar de observadores par- jeto como parte da estrutura organizacional da Se-
ticipantes7, trata do desenvolvimento da UMAPAZ cretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de São
– Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura Paulo, ocorrida em 2009, e as peculiaridades, tanto
de Paz, cujo foco é a educação socioambiental e a do desenho da Secretaria, com sua proposta matri-
cultura de paz, em São Paulo8. Tem os propósitos de cial, como do diálogo entre essa estrutura e a forma
registrar e comentar as etapas percorridas desde a de operar em rede característica da UMAPAZ desde a
formulação inicial, de identificar os atores presentes sua concepção. A evolução da equipe e da produção
em cada etapa, bem como as singularidades dessa da organização é abordada no item 6, abordando, in-
organização pública, formulada e desenvolvida em clusive, os projetos e ações intersetoriais, no âmbito
articulação com uma rede intersetorial. Com isso as- do próprio governo municipal, como na rede de par-
pira a contribuir para a análise do caso e, também, cerias, com o terceiro setor e a universidade. O item
para a inspiração de outras iniciativas, sobretudo 7 refere-se as relações de controle social inerentes
na esfera local e em rede, do mesmo modo como a a uma organização pública. Finalmente, no item 8,
UMAPAZ tem se beneficiado da observação e do con- são apresentados pressupostos e escolhas metodo-
vívio com a experiência de outras instituições. lógicas da UMAPAZ, nesse período de sua existência.
O texto, intencionalmente, dá relevância aos atores
– pessoas e organizações – que participaram e par- 2. Contexto
ticipam da trajetória da UMAPAZ, entendendo que
os arcabouços organizacionais são animados pelas A Prefeitura de São Paulo parece ter ampliado sua
pessoas. Elas é que configuram a face com que a or- visão sobre as complexas relações socioambientais
ganização se apresenta ao mundo, aos parceiros e concomitantemente à movimentação internacional e
ao público, com seus valores e modo de atuação. nacional no final do século XX.
Um mesmo aparato organizacional pode ser habi- Há décadas, a Prefeitura administrava parques e
tado, no tempo e no espaço, por diferentes grupos jardins públicos e realizava ações de educação am-
e ser manejado de muitas formas, embora também biental, na existente Escola de Jardinagem, quando
estabeleça possibilidades e limites aos gestores. do plantio de árvores, com palestras nas escolas e
No item Contexto busca-se delinear o ambiente em conversa com moradores, nas feiras do verde e da
que o projeto foi gerado e de que forma, para, em se- primavera que eram realizadas na marquise do Par-
guida, abordar o processo de planejamento do pro- que Ibirapuera, entre outras ações. Contudo, somen-
jeto, imediatamente após a sua concepção e instala- te em 1993 foi criada uma estrutura mais complexa
ção inicial. Os itens Planejamento e Implementação para tratar das questões ambientais, no primeiro es-
(itens 3 e 4) tratam da fase pioneira da organização, calão de seu Poder Executivo: a Secretaria do Verde
e Meio9 - SVMA. Essa estrutura agregou, ao já exis-
7 | Os autores participaram de todas as fases do de- tente departamento de áreas verdes, unidades de
senvolvimento da UMAPAZ, de 2005 a 2012. Outras nar- controle e fiscalização e de planejamento e educa-
rativas, presentes nos demais artigos desta publicação, ção ambiental. Isso ocorreu logo após a Conferência
podem iluminar outros aspectos e posições relacionados
Internacional do Meio Ambiente, realizada no Rio de
ao evolver da organização.
Janeiro, em 1992, indicando que o fortalecimento e
8 | Parte dessa história foi registrada e analisada por
Dulce Regina Bernardo Campos no texto UMAPAZ – um a ampliação das reflexões sobre a gestão ambiental
estudo de caso, que constituiu seu trabalho de con- tiveram impacto em São Paulo.
clusão do Curso de Especialização em Ecologia, Arte e
Sustentabilidade. 9 | Lei Municipal nº 11.426 de 1993.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 13


A Política Nacional de Educação Ambiental, como Na base da proposta estava a observação dos confli-
política pública, por sua vez, seria instituída no país tos socioambientais urbanos, agravados pelo cená-
apenas em 1999, pela Lei 9.795. A Lei definiu edu- rio de mudanças climáticas. Conflitos resultantes do
cação ambiental como “os processos por meio dos modelo que hegemônica e historicamente orientou
quais o indivíduo e a coletividade constroem valo- as escolhas de desenvolvimento na Cidade de São
res sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e Paulo, tanto nas decisões das políticas públicas,
competências voltadas para a conservação do meio como no estilo de vida e de consumo adotados como
ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à exigência inelutável do almejado progresso contínuo
sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.” para a cidade apelidada de locomotiva do país. Essa
A idéia de uma universidade aberta surgiu na Secre- percepção foi forjada nos ecos da revolução indus-
taria do Verde e Meio Ambiente do Município de São trial e orientou a visão de futuro da Cidade.
Paulo alguns anos depois, em 2005, no início de um Apesar das conseqüências socioambientais desse mo-
novo período de governo municipal10. delo hegemônico, os nexos causais entre as escolhas
A Secretaria tinha, então, doze anos de existência, de desenvolvimento e os problemas de poluição do
ainda uma das mais novas unidades da administração ar, sonora e outros e a violência nem sempre são ex-
municipal e um orçamento diminuto11. Nesse momen- plícitos. Por isso, ainda prevalece o apoio a projetos,
to, contava com uma Divisão de Educação Ambiental decisões e atitudes que reiteram as opções pelo cres-
subordinada ao Departamento de Educação Ambien- cimento a qualquer custo e por um estilo de vida onde o
tal e Planejamento, a Escola Municipal de Jardina- cidadão é valorizado pela sua capacidade de consumo.
gem, criada em 1976, e equipes ou ações realizadas
‘O conflito ambiental torna-se explícito quan-
em alguns dos 34 parques da cidade, como o Parque
do as comunidades estabelecem uma conexão
do Ibirapuera, o Parque da Previdência, o Jardim da
lógica imediata entre a degradação ambiental
Luz, o Parque do Carmo, o Trianon e o Parque Nabuco.
e as atividades de certos agentes sociais.”
Para o período 2005-2008, os eixos programáticos (Ascerlad, 1992:35)
da Secretaria (SVMA) foram definidos como: água,
“A investigação e a comunicação podem aju-
ar, solo, verde e biodiversidade, cultura de paz e não
dar a estabelecer essa conexão e, por conse-
violência e economia nova. Em meados de 2005, a
guinte, converter-se em causas próximas do
coordenação do eixo cultura de paz12 propôs a insti-
conflito e também em catalizadores da apren-
tuição de um espaço de geração e compartilhamento
dizagem social sobre como manejar os recur-
de conhecimentos sobre as relações sócio-ambien-
tais, com uma abordagem transdisciplinar, não-frag- sos e os conflitos.(BUCKLES, 2000)”
mentada. O propósito foi o de constituir um centro É rara a viabilidade de políticas públicas que não te-
de educação sócio-ambiental e de cultura de paz na nham o apoio expressivo da população, quer esse
Cidade de São Paulo. apoio seja autônomo, quer seja orientado pela influ-
ência de grupos de interesses. E, se não há possibi-
10 | Prefeito José Serra (2005-2006), Prefeito Gilberto lidade de mudança sem que a cidadania deseje e se
Kassab (2006-2012) e Secretário Eduardo Jorge Martins
envolva em novas escolhas, é preciso trabalhar com
Alves Sobrinho (2005-2012).
os cidadãos o desenvolvimento da análise crítica das
11 | O orçamento da SVMA aumentou 388%. Era de 64,3
milhões em 2004 e foi para 314,2 milhões em 2012. Mas situações, os nexos entre causas e consequências,
ainda é pequeno comparativamente as questões que seus prognósticos e possibilidades de transformação.
deve manejar.
12 | O eixo cultura de paz contava com Rose Marie Inojo- A produção de nexos e sentidos passa por perce-
sa (coord) e Dulce Regina Bernardo Campos. ber que os recursos naturais estão integrados em

14
um espaço interconectado onde as ações de um in- em Curitiba (Paraná, Brasil), a UNIPAZ (Brasília), a
divíduo ou grupo podem gerar efeitos que chegam Associação Palas Athena (São Paulo), a U-Peace
muito longe no tempo e no espaço; que estão inte- – Universidade da Paz (Costa Rica), o Schumacher
grados igualmente em um espaço social comparti- College (Devon, Reino Unido) – nos seus formatos,
lhado onde se estabelecem relações complexas e propósitos, escolhas metodológicas.
desiguais entre diferentes grupos de atores sociais
A idéia inicial de uma instituição municipal de edu-
e, ainda, que há dimensões simbólicas das questões
cação socioambiental e de cultura de paz, orientada
ambientais e diferentes visões do valor dos recursos
por essa visão e experiências, foi apresentada ao
naturais, que fomentam disputas ideológicas. Esses
Secretário Municipal do Verde e Meio Ambiente e ao
aspectos articulam-se na formação de opinião e têm
Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvi-
impacto nas escolhas.
mento Sustentável – CADES, na sua sessão ordiná-
É certo que São Paulo, uma cidade global, tanto pela ria de 28 de julho de 2005, ação indispensável para
diversidade da formação étnica e cultural de sua po- que a proposta pudesse ser desenvolvida.
pulação, como pela posição econômica no país, na
América Latina e entre as maiores cidades do mun- 3. Planejamento
do, conta com pessoas e instituições empenhadas em
dialogar sobre as possibilidades e perspectivas de no- Com a aprovação inicial do Secretário do Verde e
vas escolhas e a visão de um novo paradigma. Muitas Meio Ambiente e do CADES, foi mobilizada uma rede
delas têm tido um papel progressivamente significati- de educadores ambientais, técnicos da própria Se-
vo no cenário, especialmente a partir do Fórum Global cretaria, representantes de instituições do campo
realizado na Eco 92 e seus desdobramentos. do meio ambiente e da cultura de paz e estudio-
sos, convidados a participar do desenvolvimento da
“Hoje, tomamos consciência de que o sentido
proposta. Esse processo de trabalho em rede, que
das nossas vidas não está separado do senti-
envolveu 60 pessoas, metade da própria Prefeitura e
do do próprio planeta.. Diante da degradação
metade da sociedade civil, realizou-se de setembro
das nossas vidas no planeta chegamos a uma
a novembro de 200513.
verdadeira encruzilhada entre um caminho
Tecnozóico, que coloca toda a fé na capacida- 13 | Esse processo está pormenorizadamente descrito no
de da tecnologia de nos tirar da crise sem mu- Relatório Projeto UMAPAZ Universidade Aberta do Meio
dar nosso estilo poluidor e consumista de vida Ambiente e da Cultura de Paz da Secretaria Municipal do
Verde e Meio Ambiente, dezembro de 2007, disponível na
e um caminho Ecozóico, fundado numa nova
Biblioteca da UMAPAZ . Participaram de uma ou mais ofi-
relação saudável com o planeta, caracterizado cinas: Alessandro Marco Rosini,Professor, Núcleo de Estu-
pelas atuais preocupações ecológicas. Temos dos do Futuro - PUC-SP; Ambar de Barros,Jornalista, Co-
de fazer escolhas. Elas definirão o futuro que ordenadora do Escritório da UNESCO em São Paulo;André
Goldman, Arquiteto, SVMA - Assessor Técnico; André
teremos. “(GADOTTI, s data) Luís Moura de Alcântara,Cientista Social, S MA - Dep.
Envolvendo uma mudança paradigmática, esse pro- Educação Ambiental; Angélica Berenice de Almeida, Pe-
dagoga, SVMA - equipe UMAPAZ; Ariella Setti,Bióloga,
cesso necessita de muitos agentes sociais atuantes, SVMA - Administradora do Parque Previdência;Arnoldo
incluindo a organização da gestão pública municipal, de Hoyos,Filósofo, Coordenador do Núcleo de Estudos do
de modo a propiciar a ampliação da cidadania crítica Futuro da PUC – SP;Aureliano Biancarelli,Jornalista, Rede
Gandhi;Cristina Lopes,Psicóloga. Coordenadora do CEC-
e a produção de novos sentidos. CO Ibirapuera; Cyra Malta Olegário da Costa,Engenheira
Nesse contexto, em 2005, algumas experiências ins- Agrônoma, SVMA - Administradora do Parque São
Domingos;Dulce Regina Bernardo Campos,Bibliotecária,
piradoras foram observadas pela Secretaria Muni- SVMA - equipe UMAPAZ;Edmundo Fonseca Correa Garcia,
cipal do Verde e Meio Ambiente, como a UNILIVRE, Físico, SVMA - Assessor Técnica; Edney Martins,Consultor

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 15


O resultado foi a produção do projeto da Univer-
em Responsabilidade Social;Eduardo Coelho e Mello sidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz
Aulicino,Engenheiro, SVMA - Assessor Técnico;Eliana – UMAPAZ14, como uma instituição pública, aberta
Sapucaia Rizzini ,bióloga, SVMA - Equipe UMAPAZ;Ely a todos os cidadãos, independentemente de ida-
Inoue, Psicóloga, Rede Gandhi e ConPaz; Eveline Limaver-
de Costa,Pedagoga, Educadora;Estela Maria Guidi Pereira de, escolaridade ou ocupação, com a missão de
Gomes, Fonoaudióloga, SVMA - equipe UMAPAZ;Gilmar fomentar e facilitar a formação de pessoas, em
Altamirando, Comunicólogo, SVMA - Assessor todas as regiões da Cidade de São Paulo, para a
Técnico;Glacilda Pinheiro Correa Pedroso,Educadora
de Saúde, SVMA; Helena Maria de Campos
convivência socioambiental sustentável e pacífi-
Magoso,Psicóloga, SVMA - Assessor Técnica do DEPAVE; ca, tendo como valores a responsabilidade am-
Jonas Melman,Médico psicanalista, Secretaria Municipal biental, a cultura de paz e não-violência, o acesso
de Saúde, Rede Gandhi;Júlio César Rosa,Biólogo, SVMA
- equipe UMAPAZ;Karla Reis Mello, SVMA - Divisão de
universal a informação, a transdisciplinaridade e a
Planejamento, Lara C. B. Freitas,Ambientalista, Instituto diversidade cultural.
Roerich;Laura Ceneviva, Arquiteta, SVMA - Coordenadora
do CADES;Lia Diskin, Professora, Fundadora da Associa- Na formulação foi explicitado que, como uma insti-
ção PALAS ATHENA;Lilian Amaral,Artísta Plástica, Museu tuição de educação não-formal, a UMAPAZ deveria
Aberto;Luciano Antonio Prates Junqueira,Sociólogo, Co- cooperar com o sistema educativo existente de for-
ordenador da Pós-Graduação em Administração da PUC-
SP;Maluh Barciotte,Ambientalista, Instituto Akatu pelo ma associada, complementando e suplementando a
Consumo Consciente; Maria Alice Nelli Machado, Assis- sua oferta, realizando a sua própria programação de
tente Social - SVMA - equipe UMAPAZ;Maria Augusta To- forma independente e por meio de parcerias com ins-
ledo Antunes,Arquiteta, SVMA - Assessora Técnica;Maria
Abramo Caldeira Brant,Especialista em Direitos Humanos,
tituições do sistema educativo, mediante convênios e
técnica da UNESCO;Maricy E. Montenegro,Fonoaudióloga, termos de cooperação15.
SVMA - Equipe UMAPAZ;Maridite C. G. Oliveira,Médica Sa-
nitarista, gestora de saúde;Miryam Hess,Ambientalista, Os formuladores do projeto explicitaram que, do
Ass. Técnica SVMA;Monica Cairrão Rodrigues,Professora, ponto de vista pedagógico, caberia a UMAPAZ con-
Núcleo de Estudos do Futuro PUC – SP;Paula Góes tribuir para a autonomia do pensamento e estimular
Bakaj Cavagnari,Dirigente da área de Projetos So-
ciais da UNINOVE;Paulo Saldiva,Professor, Faculda- a criatividade, a responsabilidade com o planeta e
de de Medicina da USP;Paulo Santos,Ambientalista, a solidariedade entre os seres humanos; desenvol-
Instituto Roerich;Patrícia Marra Seppe,Geógrafa, ver uma relação de ensino-aprendizagem que in-
SVMA - Diretora da Divisão de Planejamento; Renê
Costa,Biólogo - SVMA Núcleo de Gestão Descentrali- centive leituras contextualizadas sobre a realidade
zada Oeste;Rita Mendonça,Bióloga e socióloga, Insti- sócio-ambiental; orientar para a problematização
tuto Romã;Roberto Sadek,Secretário Adjunto da Se- dos achados e reflexões e garantir oportunidades de
cretaria Municipal de Cultura;Rodrigo Machado,Gestor
Ambiental, turismo, SVMA - Administrador do Parque Vila criação de soluções inovadoras16.
Gulherme;Rosa Rizzi,Educadora, Insituto Roerich;Rose
Simultaneamente ao processo de formulação do
Marie Inojosa,Comunicóloga, SVMA - Assessoria Téc-
nica, Coordenadora do Projeto UMAPAZ;Rose Mary projeto UMAPAZ, ocorreu outro movimento. Com
dos Santos Gottardo,Secretaria de Coordenação das a transferência das últimas unidades administrati-
Sub Prefeituras PMSP, educadora ambiental;Rute
Cremonini,Pedagoga, SVMA - Diretora da Divisão de Edu- ca da UNESCO;Vania Nelize Ventura,Socióloga, jornalista,
cação Ambiental;Sandra Magali Barbero,Médica sanita- SVMA – Comunicação;Virgínia Gaviolli,Ambientalista+B2,
rista, SVMA - Assessora Técnica Descentralização;Sérgio Projeto ECOBAIRRO;Vitor Lucato,Biólogo, SVMA - equipe
Talocchi,Administrador,ABDL - Associação Brasileira de UMAPAZ,;Volf Steinbaum,Sociólogo, SVMA - Assessor
Desenvolvimento de Lideranças;Silmara Ribeiro Mar- Técnica.
ques, Bióloga, SVMA - Assistente Técnica; Sílvia Mac
14 | A proposta da sigla foi de Gilmar Altamirano, então
Dowell,Administradora, Professora do SENAC;Simone
assessor do Secretário do Verde e Meio Ambiente.
Paranhos,Jornalista, SP COMUNICAÇÃO;Sonia R. Ri-
beiro de Carvalho,Assistente Social - SVMA - equipe 15 | Relatório Projeto UMAPAZ dezembro de 2007, op cit
UMAPAZ;Tania Carla Bendazoli de Falco,Socióloga, técni- 16 | Idem ibidem.

16
vas do Parque do Ibirapuera17, um imóvel, com face Ainda no mês de janeiro de 2006, no dia 30, a UMA-
para a Av. IV Centenário, foi atribuído à Secretaria PAZ recebeu May East, membro do GEESE (Global
Municipal do Verde e Meio Ambiente, pelo Prefei- Ecovillage Educators for a Sustainable Earth) e
to18, para sediar e dar início a implantação do então coordenadora do programa Gaia Education21. May
projeto UMAPAZ. A coordenação do projeto UMA- East veio a São Paulo por articulação dos parceiros
PAZ recebeu as chaves do imóvel em 6 de janeiro Ecobairro, do Instituto Roerich da Paz e Cultura do
de 200619. Brasil, e grupo Ecovila São Paulo. Ofereceu, na UMA-
PAZ, uma palestra aberta, sobre Educação Gaia, que
Para constituir a equipe inicial um grupo de profis-
reuniu mais de uma centena de interessados.
sionais, com diferentes formações universitárias
e experiências em educação ambiental, a maioria Em fevereiro do mesmo ano, foi iniciado o Ciclo de
oriunda do Centro de Educação Ambiental do Parque Palestras sobre Meio Ambiente e Cultura de Paz,
Ibirapuera, foi alocada no projeto UMAPAZ20. com profissionais de diferentes áreas da Secretaria
Municipal do Verde e Meio Ambiente e convidados22.
A rede de parcerias mobilizada para a formulação
O Ciclo teve o propósito de ampliar a informação e
do projeto foi preciosa para sua implementação,
contribuir para a troca de opiniões entre os partici-
participando ativamente da programação e levando
pantes sobre aspectos do meio ambiente e a convi-
profissionais de suas equipes ou rede para pales-
vência na cidade de São Paulo.
tras e cursos.
Em março, por meio de articulação realizada pela
17 | Saíram a PRODAM (Companhia de Processamento Secretária Adjunta da SVMA23, foi realizada uma Ofi-
de Dados do Município) e o Departamento de Edifica- cina de Planejamento Participativo, com o apoio de
ções (EDIF). Este último, pertencente à Secretaria de
Serviços e Obras, ocupara, durante cerca de 50 anos, uma equipe da U-Peace24. Essa Oficina reuniu, além
um imóvel de cerca de 1500 m2, contíguo ao Viveiro da equipe básica do projeto, pessoas que haviam
Manequinho Lopes, que foi atribuído à UMAPAZ. A ade- participado de sua formulação e novos convidados25,
quação inicial do prédio foi possível pelo apoio da Leda
Ascherman, então diretora de Administração e Finanças
da SVMA e ação do colaborador Mário Sérgio Alves da 21 | O Gaia Education, oficialmente fundado em julho de
Cruz e da equipe de Meire Aparecida Fonseca de Abreu. 2005, é um consórcio internacional de experientes edu-
cadores, que nasceu do GEESE. May East dissemina pelo
18 | Prefeito José Serra.
mundo o programa de formação de designers de susten-
19 | Nesse dia houve uma pequena cerimônia com re- tabilidade e, mais recentemente, o programa Transition
presentantes de diferentes tradições que participam da Towns.
formação da comunidade paulistana. Kaká Verá Jecupé,
22 | Participaram como palestrantes: Andriane Macelli,
representante da comunidade indígena e autor, entre
Anita Correa de Souza, Angela Branco, Eduardo Coelho
outros, do livro São Paulo a Terra dos Mil Povos, en-
de Mello Aulicino, Laura Ceneviva, Luciene Figueiredo,
toou, nessa ocasião, um canto para cada uma das quatro
Mary Lobas de Castro, Maria Lúcia Bellenzani, Regina
direções.
Luísa de Barros, Rodrigo Martins dos Santos, Thiago Lo-
20 | A equipe técnica inicial da UMAPAZ foi formada por pes Ferraz Donnini e Volf Steinbaum.
Vitor. Octávio Lucato; Eliana Sapucaia Rizzini; Estela
23 | Leda Aschermann.
Maria Guidi Pereira Gomes; Angélica Berenice de Almei-
da, Júlio César Rosa, Maricy Montenegro, Maria Alice 24 | Tatiana Benavides, Betty Mc Dermott, Carlos Garcia
Nelli Machado, Sonia Ribeiro de Carvalho, Vania Nelize e Victor Valle.
Ventura, que vieram do núcleo do próprio Parque, Dulce 25 | Participaram representantes e/ou profissionais
Regina Bernardo Campos e Glacilda Pinheiro Correa Pe- vinculados a ABDL (Rede Lead), Aliança pela Infância,
droso, que vieram com Rose Marie Inojosa, coordenado- Associação Monte Azul, Associação Palas Athena, Co-
ra do projeto. De agosto de 2006 a maio de 2007 o pro- missão Municipal de Justiça e Paz, Grupo EcoBairro
jeto UMAPAZ foi coordenado por Paullo César Santos, do Instituto Roerich da Paz e Cultura do Brasil, Escola
do movimento de cultua de paz e coordenador do projeto da Vila (Fortaleza/CE), Guarda Civil Municipal, Institu-
Ecobairro do Instituto Roerich. Retornou à coordenação to Migliori, Instituto Nina Rosa, Instituto Paulo Freire,
anterior dessa data até 2012. Instituto Sou da Paz, I Paz Agência de Comunicadores

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 17


ampliando a rede da UMAPAZ. A Oficina reiterou, em carta aberta28, assinada por todos os participantes,
suas conclusões, a visão da UMAPAZ como com o seguinte teor:
“espaço de formação de reeditores da idéia do “Carta Aberta à População, ao Prefeito, ao Le-
diálogo e de pessoas estimuladas e equipadas gislativo e ao Secretário do Verde e do Meio
para uma relação amorosa com a natureza, di- Ambiente da Cidade de São Paulo, com o ob-
fundindo e apoiando alternativas de mudança jetivo de consolidar a Universidade Aberta do
do uso e do acesso aos bens e recursos natu- Meio Ambiente e da Cultura de Paz.
rais. É também um desafio de comunicação,
De seis a dez de março de 2006, pessoas fí-
um espaço para gerar encontros, um grande
sicas e representantes de instituições públi-
laboratório de transformação, trabalhando de
cas e privadas, nacionais e internacionais,
forma participativa. E deve tornar-se um centro
com participação de decano e educadores da
de conhecimentos, um espaço para a dissemi-
U-Paz, a Universidad para la Paz, criada por
nação de conhecimentos, debates e produção
mandato das Nações Unidas, reuniram-se na
de materiais, e venha a ter influência política.“26
sede do projeto UMAPAZ, à Avenida IV Cen-
Os participantes da Oficina27, observando o início da tenário, 1268, no Parque do Ibirapuera, São
implementação do projeto UMAPAZ, expressaram Paulo, Brasil, para fazer o planejamento das
preocupação especial em relação a sua instituciona- primeiras ações estruturais, em parceria, do
lização e atuação em rede, pelo que formularam uma projeto em epígrafe.

pela Paz, Rede Gandhi, Secretaria Geral da Presidência Em meados de 2005, nasceu a proposta da Uni-
da República, UNESCO – escritório São Paulo, UNIPAZ. versidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultu-
26 | Relatório do Planejamento UMAPAZ – U-PEACE, ra de Paz, originária da Secretaria Municipal do
SVMA, março de 2006. Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, uma
27 | Adelina Renno; Adriana Friedmann; Affonso Celso A. iniciativa pioneira ao integrar cultura de paz e
P. Lima;. Ambar de Barros;. André Spinola e Castro; An-
tonio Carlos Ribeiro Fester; Aureliano Biancarelli;Beatriz
desenvolvimento sustentável. Desde então, a
Silva Cruz; Carlos Magno de Moura; Carmem Silvia Cava- reflexão e a proposição da sua missão, valores
lieri; Celia Cristina Whitaker; Célia Cymbalista; Cyra Mal- e objetivos vêm sendo realizadas em rede com
ta; Darci Rocha Munin; Dulce Regina B. de Campos; Elia- instituições comprometidas com um novo pa-
na S.Rizzini; Estela Gomes; Eveline Lima Verde; Felipe
Cunha Barreto; Fernando José de Almeida; Flavia Maria drão de convivência sócio-ambiental ética, res-
Soares; Flavio Boleiz Jr.;Glacilda S. Correa Pedroso; Jair ponsável, cooperativa, pacífica e de proteção da
Cordeiro Grava;.Jason F. Mafra;.Jerusha Chang;.Jonas vida, alicerçado nas iniciativas da ONU para a
Melman;.Jorge Vieira Barros;Juliana de Oliveira Lei-
Década Internacional de Cultura de Paz e Não-
te; Júlio Cesar Rosa; Julio Cesar Silva Filho; Karla R.C.
Mello;Laura Ceneviva; Leda Aschermann; Magda Marly Violência(2001 a 2010),Década Internacional de
Fernandes; Manoel J.P.Simão;Marcos Biancardi; Marga- Educação para o Desenvolvimento Sustentável
rete Louzanos; Maria A. C. Brant; Maria Alice Machado; (2005 à 2014), na CARTA DA TERRA: Valores
Maria Amélia C. F. Fernandes; Maria Augusta Antunes;
Maricy E. Montenegro; Marilu Martinelli; Marisa Dab-
e Princípios para um Futuro Sustentável (www.
bur; Oscar A. B. de Barros Bressane; Patricia Limaverde cartadelatierra.org) e Agenda 21.
Nascimento; Paullo Santos; Regina Luisa F. de Barros;
Ricardo Ghelman; Rita de Cassia Garcia; Rodrigo Macha-
Os signatários compartilham a percepção de
do; Rose Marie Inojosa; Rubens Casado; Rute Cremonini que o atual padrão de relacionamento entre os
Zarconi; Sergio Bilotta; Sergio Talocchi; Sonia Regina R.
de Carvalho; Terezinha de J. Reis; Thiago Donnini; Ute 28 | O original da Carta, assinado pelos participantes, foi
Craemer; Valerio Igor P. Victorino; Vania Lucia de Souza encaminhado ao Secretário do Verde e Meio Ambiente e
Olívia; Vânia Nely Ventura; Vera Lucia Rolim Salles; Vi- sua reprodução inserida no Relatório da Oficina, disponí-
viane Amaral; Yoshiko Marui. vel na Biblioteca da UMAPAZ.

18
seres humanos e os demais seres vivos, bem Tendo aberto a programação de 2006 com o Ciclo
como o consumo insustentável dos recur- de Palestras, já citado, iniciou, em abril de 2006, a
sos naturais do planeta, fomentam conflitos primeira turma do curso Educação Gaia, com 101
sócio-ambientais, esgotando os recursos na- alunos selecionados, em parceria com o GEESE, o
turais, o que por sua vez alimenta a violência Programa Permanente Ecobairro, do Instituto Ro-
e a destruição. Na cidade de São Paulo, esse erich da Paz e Cultura do Brasil, e o grupo Ecovila
diagnóstico é amparado por indicadores que São Paulo29:
revelam, por exemplo, que a qualidade do ar
“A Educação Gaia é um projeto educacional ela-
que respiramos nos retira um ano e meio da
borado por um grupo internacional de educado-
expectativa de vida, que a disponibilidade de
res com larga experiência em desenvolvimento
água potável está se reduzindo perigosamen-
e gestão de Ecovilas. A união de suas práticas
te e que é inaceitável o índice de mortes vio-
resultou na elaboração de um projeto curricu-
lentas na população.
lar educacional que pretende atender e apontar
Os signatários propõem, a partir desse diag- soluções para as diversas comunidades, rurais
nóstico, realizar atividades culturais e de e urbanas, visando a construção conjunta de
educação sócio-ambiental, produção e disse- um futuro sustentável para o planeta. A Educa-
minação de conhecimentos, em cooperação ção Gaia não é uma educação tradicional, an-
e de forma transdisciplinar, com o objetivo tes, constitui uma nova forma de educação que
de sensibilizar, conscientizar e capacitar ci- se pretende universal, uma educação especifi-
dadãos para a convivência sócio-ambiental camente designada para detectar e encontrar
ética, responsável, cooperativa, pacífica e de os desafios e as oportunidades pertinentes ao
reverência à vida. século XXI. O objetivo maior dessa educação é
Com o propósito de expressar a sua disposi- propiciar as condições e o poder necessário aos
ção e empenho em cooperar para que a UMA- indivíduos e comunidades para que estes, em
PAZ seja a Casa das Ações Unidas, espaço de se apropriando de conhecimentos, experiências
realização de iniciativas em parceria, onde e práticas, adquiram meios para modificar e
cada um ofereça e articule a contribuição de edificar a sua própria realidade.”30
seus saberes e experiências, assinam esta O curso, organizado em 4 módulos - Visão de Mundo,
carta aos cidadãos paulistanos, dirigentes Módulo Econômico, Módulo Social e Módulo Ecoló-
municipais e representantes eleitos dessa po- gico – recebeu no nome de Educação Gaia São Paulo
pulação, para que conheçam essas intenções e foi, também, a primeira das turmas do programa
de cidadania e apóiem a iniciativa, participan- realizado, pelo Gaia Education, em outros países31
do da sua viabilização de forma permanente
dentro de uma política sustentável. 29 | Depois substituído pelo CRIS – Centro de Referência
São Paulo, 10 de março de 2006, e Integração em Sustentabilidade.
30 | Termo de Referência do Curso de Educação Gaia,
verão.”
2006.
31 | No mesmo ano de 2006 foram realizadas turmas
4. A implementação do projeto do Gaia Education nos seguintes locais e países: Insti-
tuto Tonantzin, México, de 19 de junho a 14 de julho,
No período de 2006 a 2008, a UMAPAZ prosseguiu em Keimblatt Oekodorf, na Áustria, de 16 de julho a 6
dee agosto; em Crystal Waters, na Austrália, de 31 de
como um espaço de realização de iniciativas em
julho a 26 de agosto; em Sieben Linden, na Alemanha,
parcerias internas e com instituições do campo de de 19 de agosto a 17 de setembro; no Kibbutz Lotan,
conhecimento. em Israel, de 6 de setembro a 14 de novembro; em Ta-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 19


Em São Paulo, seriam realizadas, na UMAPAZ, mais Ambiental do Parque do Ibirapuera34, uma trilha desti-
4 turmas do Curso, alcançando mais de 500 pesso- nada a acolher e sensibilizar grupos de escolares, que
as. Foi crescente o interesse, expresso no número de gradualmente se expandiu para outros públicos, de
inscritos a cada nova turma. jovens, adultos e grupos específicos de pessoas com
necessidades especiais; o Programa de Danças Circu-
Em maio de 2006, iniciou-se uma parceria, que
lares35, que, além de reunir semanalmente na sede da
também se estenderia até 2012, com a rede Alian-
UMAPAZ, viria a expandir-se para outros parques da
ça pela Infância32. Considerando a importância de
cidade, o que também ocorreu com o programa de Tai-
atrair educadores para a reflexão sobre as ques-
Chi36. Além de cursos como Água: Recurso Estratégico
tões socioambientais e de cultura de paz, a rede
para a Vida37.
Aliança pela Infância iniciou um programa de fó-
runs mensais, com palestras e atividades dedica- Em 2007, os Cursos e Programas começaram a se
das aos educadores. fortalecer38 e também foram iniciados os programas
intersetoriais.
Ainda em 2006, ocorreu, na sede da UMAPAZ, a
Exposição Corpo D´Água, que ocupou um espaço Por meio de um contrato com a FUNDAP – Funda-
de 500m2. Fruto de parceria da Prefeitura com uma ção do Desenvolvimento Administrativo, fundação
pessoa física33, contou, a partir da arte, da ciência, pública do Estado de São Paulo, a UMAPAZ ofere-
da educação e da cultura, as diferentes dimensões ceu um curso à distância, com oito módulos, sobre
e significados da água na vida dos indivíduos e das conflitos socioambientais para servidores públicos
sociedades. Com salas interativas e maquetes, a ex- de várias Secretarias e órgãos municipais, traba-
posição, que ocupou durante seis meses, uma ala lhando questões relativas à água, ao ar, ao verde
inteira do prédio, trouxe à UMAPAZ, mais de 18 mil e biodiversidade, ao uso do solo e convivência. Al-
pessoas, centenas de grupos de escolares das redes cançou 1.700 pessoas, dentre elas dezenas de edu-
pública e privada de ensino. cadores da rede municipal39.
Concomitantemente, a equipe técnica da UMAPAZ, Nesse mesmo ano, a UMAPAZ sediou o Programa
valendo-se da sua experiência anterior e das orienta- Ambientes Verdes e Saudáveis – o PAVS40. Esse
ções do próprio projeto, formulou e deu início à imple- Programa, que alcançou, nessa fase inicial, mais de
mentação de programas contínuos, como o Aventura cinco mil agentes comunitários de saúde e agentes

mera, Portugal, de 24 de setembro a 22 de outubro e em 34 | Coordenada por Angélica Berenice de Almeida e


Findhorn Foundation, na Escócia, de 7 de outubro a 4 Thereza Christina Rosa.
de novembro. No Brasil, nos anos seguintes, ocorreriam 35 | Coordenado por Estela Maria Guidi Pereira Gomes.
turmas em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador, Minas
36 | Coordenado por Jerusha Chang.
Gerais e Curitiba. E, em 2011, com o apoio da UMAPAZ,
o Gaia Brasilândia. 37 | Coordenado por Eliana S. Rizzini e Vitor O. Lucato.
32 | Inspirado pela Ute Craemer e organizado pela Gio- 38 | É preciso registrar a rica presença dos estagiários
vana Barbosa de Souza, até 2011, e por Ricardo Sequei- desde essa primeira fase. Presença crescente e que
ra, em 2012, mobilizando palestrantes e focalizadores possibilitou, no processo de ensino/aprendizagem dos
voluntários. mesmos, que emergissem idéias que, na interação com
a equipe, resultaram em inovações e aperfeiçoamento
33 | Elizabeth L. Bez Chleba, que articulou outros apoios
dos programas e procedimentos.
privados necessários a realização. A curadoria foi de
Vasco Calderia, arquiteto; a coordenação de conteúdo 39 | Um grupo de participantes produziu o Dicionário da
de Gustavo Mattos Accácio, biólogo; a coordenação pe- Paz, que seria lançado em forma de publicação de bolso
dagógica de Marília Xavier Cury, museóloga; o gerencia- em janeiro de 2008 e que já teve várias edições.
mento do projeto e assessoria jurídica de Suzana Gon- 40 | Realizado com a coordenação do sanitarista Hélio
çalves Lobo e a assistência de curadoria e coordenação Neves, então Chefe de Gabinete da SVMA, e um grupo de
artística de Flávia D´Amico. parceiros institucionais.

20
de promoção social, tem o objetivo de qualificar os Na coordenação da UMAPAZ foi instalada, desde
agentes para observar os nexos entre causas e con- 2006, uma secretaria escolar43, que expandiu pro-
sequencias ambientais para a saúde individual e co- gressivamente seu trabalho para garantir infra-
letiva e agregar orientações para as famílias. Mais estrutura para os cursos e programas44, realizar
tarde, o PAVS foi incorporado à Estratégia de Saú- os registros dos cursos, alunos e professores e, a
de da Família da Secretaria Municipal de Saúde e, partir de 2007, os contratos dos palestrantes e ofi-
desde então, prossegue um trabalho conjunto com cineiros credenciados45.
a UMAPAZ, no reforço da capacitação e inclusão das
A possibilidade de contratar horas/aula de pales-
novas equipes41.
trantes e oficineiros constituiu importante diferen-
Em 2008, aumentou a oferta de cursos e, além da cial para a ampliação e diversificação progressiva
continuidade do trabalho com os profissionais de da programação46.
saúde, foi iniciado o Programa de Difusão da Carta
Em maio de 2008, compondo com o acervo vindo da
da Terra na rede municipal de educação, com 40 tur-
sede da Secretaria e aquele acumulado pela própria
mas descentralizadas, formadas com coordenadores
UMAPAZ, foi aberto o Espaço Sapucaia47, biblioteca
pedagógicos, diretores e professores de escolas da
especializada em meio ambiente e cultura de paz,
rede, nas 13 Diretorias Regionais de Saúde. Esse
para uso dos alunos e professores, mas também
Programa foi fruto de uma parceria estabelecida
aberto ao público48.
entre as Secretarias Municipais de Educação e do
Verde e Meio Ambiente, com a interveniência e apoio Em 2008, o projeto UMAPAZ recebeu o Prêmio São
da Iniciativa Internacional da Carta da Terra (Earth Paulo Cidade Inovação em Gestão Pública. Esse prê-
Charter Initiative), com sede na Costa Rica42. mio, iniciativa da Secretaria Municipal de Gestão,
por meio da Coordenadoria de Gestão de Pessoas e
Nos primeiros três anos (2006 a 2008) a UMAPAZ
recebeu, em sua sede, cerca de vinte mil pessoas/ 43 | A organização inicial foi feita por Débora Pontalti
ano. Nesse período conviveram, paralelamente, o Marcondes e, na fase subseqüente, assumida por Rodri-
projeto UMAPAZ, a Divisão de Educação Ambiental go Matos de Aquino.
no Departamento de Planejamento e quatro Núcle- 44 | Parte importante da infra-estrutura é o apoio áudio-
visual, para o que a UMAPAZ contou, desde o início com
os descentralizados, nas regiões Norte, Sul, Leste a equipe de Audio Visual da Secretaria, comandada por
e Centro-Oeste, com a atribuição de realizarem lo- Anderson Alonso e, depois, por Airan Silva Figueiredo.
calmente atividades de fiscalização, arborização e Além do apoio áudio-visual, o apoio operacional de Da-
educação ambiental. Os parques, vinculados à co- niel de Oliveira e da equipe da própria SVMA já citada.
ordenação de Áreas Verdes, se multiplicavam na 45 | Com a operacionalização dos contratos inicialmente
realizada por Alice K. Neme e que, no período subse-
cidade e, em parte deles, também eram oferecidas qüente, seria reforçada por José Maestro de Queiroz e
atividades de educação ambiental, como trilhas e Gilberto José Monteiro.
pequenos cursos. 46 | Isso foi viabilizado com a colaboração de Thiago Do-
nini, assessor jurídico da Secretaria, que elaborou o Edi-
41 | A relação da UMAPAZ com o PAVS contempla o nú- tal para o credenciamento de palestrantes e oficineiros,
cleo gestor na Secretaria Municipal de Saúde e, nos ter- com as normas para sua contratação.
ritórios, as organizações parceiras do PSF – Programa 47 | O nome foi escolhido olhando para o fruto da Sapu-
de Saúde da Família. caia, espécie nativa da qual há exemplares no Parque,
42 | O protocolo de intenções foi firmado em Seminário que parece um cofre cheio de sementes.
promovido na Amana Key, com a articulação de Mirian 48 | A biblioteca foi aberta com as bibliotecárias Eveline
Vilela, dirigente da Iniciativa Internacional., e Oscar Mo- Brasileiro Leal e Dulce Regina Bernardo Campos e apoio
tomura, com o Prefeito Gilberto Kassab e os Secretários de Madalena S.Rosa . Conta, atualmente, também com a
Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, do Verde e Meio bibliotecária Mayara Parolo Colombo Reibaldi e o apoio
Ambiente, e Alexandre Schneider, da Educação. de Patrícia Carla Hilário.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 21


da Escola de Formação do Servidor Público Munici- destinada a adequá-la ao novo volume de trabalho e
pal “Álvaro Liberato Alonso Guerra”, tem o objetivo incorporar inovações necessárias para fazer face ao
de reconhecer as melhores práticas de gestão pú- cenário de mudanças climáticas e seus impactos na
blica no âmbito municipal, que resultam em melhor cidade. A reestruturação, porém, precisava passar
serviço ao cidadão49. O prêmio teve um efeito muito pelo crivo do próprio Executivo Municipal e, depois,
benéfico na equipe, pois a fortaleceu em um momen- ser aprovada pela Câmara Municipal de São Paulo
to de transição. para tornar-se Lei. E esse processo estendeu-se até
2008, um ano eleitoral.
O fato de operar como projeto, assim como outras
iniciativas inovadoras da Secretaria Municipal do Se havia algum risco em manter-se a UMAPAZ como
Verde e Meio Ambiente, que ainda não contavam projeto, por outro lado, é preciso reconhecer que
com respaldo na estrutura organizacional, represen- essa forma com que se manteve durante três anos,
tava, no entanto, risco à sua sustentabilidade ins- ajudou a moldar seu evolver.
titucional na estrutura de governo do município. A
“A vida cria suas próprias formas. O rio molda
característica dos projetos é serem empreendimen-
seu próprio leito. O próprio desenvolvimento
tos temporários, com objetivos específicos e que
vivo mostrará quais formas são necessárias.”
podem ou não resultar em ações e programas que
(Bos, 1994:24).
se insiram, de forma estável, nas políticas públicas.
Sua vantagem é nascerem mais livres das clausuras Com o Prefeito reeleito51 e a reforma aprovada pela
das estruturas burocráticas piramidais e poderem Câmara Municipal de São Paulo, foi promulgada a
experimentar novos caminhos, propostas, parcerias. Lei de reestruturação da Secretaria, que transfor-
Nesse sentido, foi uma estratégia ousada a de testar mou a UMAPAZ em um de seus Departamentos, com
possibilidades como projetos antes de buscar a sua as respectivas relações institucionais e recursos.
institucionalização na estrutura formal50. Se utilizarmos o quadro de referência proposto
O projeto UMAPAZ, desde sua formulação, almeja- por Schaefer (2005), que identifica quatro fases
va, explicitamente, inserir seus objetivos e modo de das organizações: Pioneira, da Diferenciação, da
atuação na política pública municipal de educação Integração e Associativa, o período de 2005 a
ambiental, reconhecendo, desde o início, que traba- 2008 pode ser classificado como a Fase Pioneira
lhava com o propósito de transformação de estilos da UMAPAZ.
e hábitos de vida e de convivência pela educação, o Para o autor, a Fase Pioneira se caracteriza por or-
que exige permanência e persistência. ganizar-se a partir de indivíduos, sem rotinas; com
Nesse tempo, também estava sendo formulada e foco em servir ao público; orientada por uma visão;
amadurecida, na Secretaria do Verde e Meio Ambien- trabalhando com improvisação, intuição, entusias-
te, uma proposta de ampla reforma administrativa, mo e criatividade e com relações diretas, intensas
e afetivas.
49 | Na edição de 2008, concorreram 73 projetos.
A Fase Pioneira, como ensina Schaefer (2005) é um
50 | Essa é uma prática do gestor público Eduardo Jor-
ge Martins Alves Sobrinho, experimentada quando como parto coletivo, centrado numa idéia-força, que pode
Secretario Municipal de Saúde (2001-2002), criou, infor- ter leituras diferentes, mas que se apresenta com um
malmente, as regionais de saúde e começou a expandir núcleo comum. Embora as pessoas diretamente en-
o programa Saúde da Família, e, como Secretário Mu-
nicipal do Verde e Meio Ambiente (2005-2012), descen-
volvidas possam ter muitas diferenças e divergências,
tralizou a Secretaria e instalou um diálogo intenso com elas são contidas pelo esforço e entusiasmo coletivo
outras áreas do governo municipal para dar conta dos de trazer para a realidade uma idéia compartilhada.
reptos colocados pelo cenário de mudanças climáticas e
seus impactos na cidade de São Paulo. 51 | Gilberto Kassab, que sucedeu o Prefeito José Serra.

22
5. Institucionalização Descentralizada, relacionam-se, pela lógica da matriz,
com os departamentos de Áreas Verdes (DEPAVE)54;
A Lei 14.887, de janeiro de 2009, promoveu uma am- Controle e Fiscalização (DECONT), Educação Ambien-
pla reestruturação da Secretaria Municipal do Ver- tal (DEA-UMAPAZ) e Apoio a Políticas Públicas (DPP).
de e Meio Ambiente, buscando adequá-la às novas
Inovações importantes também foram instaladas pela
realidades, quer de seus programas e orçamento,
Lei de reestruturação no que diz respeito ao controle
que vinham crescendo exponencialmente, quer dos
social: o fortalecimento do CADES – Conselho Munici-
desafios apresentados à cidade pela necessidade
pal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável,
de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
instância deliberativa, e a criação dos CADES regionais,
Toda essa movimentação administrativa teve signi-
Conselhos de Desenvolvimento Sustentável, Meio Am-
ficados importantes para a política de educação am-
biente e Cultura de Paz, um em cada Subprefeitura, de
biental e cultura de paz no município.
caráter consultivo, compostos, paritariamente, por re-
A reestruturação explicitou uma lógica inovadora, presentantes do poder público e da população.
matricial e em rede52 para a realização da política
Teoricamente, não há, em estruturas matriciais, su-
municipal para a questão ambiental, indicando a
bordinação entre as instâncias central e local. Elas
relevância das relações intersetoriais, quer com ou-
trazem a necessidade de diálogo e de projetos inte-
tros órgãos e instituições da estrutura municipal que
grados, orientados pelas respectivas atribuições. Essa,
com atores externos. Nessa dimensão, a reestrutu-
no entanto, não é a prática corrente na organização
ração dialoga com a Lei municipal que institui a po-
da Prefeitura, bastante hierarquizada e segmentada.
lítica de mitigação e adaptação a mudanças climáti-
É preciso considerar que quem realiza as propostas –
cas em São Paulo53, primeira do gênero a ser editada
inclusive as determinações legais – são as pessoas e,
no país e para cuja efetivação a Secretaria tem sido
se elas ainda não estiverem convencidas e preparadas
importante ator-fomentador de transformações na
para isso, tendem a se instalar pontos de resistência,
administração municipal.
quer por incompreensão, quer por discordância. Assim,
A Lei de reestruturação horizontalizou a Secretaria, não foi imediata a incorporação de mudanças que afe-
organizando-a em sete Departamentos: Gestão Des- tam modos tradicionais de relacionamento e as indica-
centralizada; Planejamento; Áreas Verdes; Controle e ções são que formato matricial ainda está em fase de
Fiscalização; Educação Ambiental/UMAPAZ; Apoio a absorção pelos integrantes da SVMA.
Políticas Públicas e Administração e Finanças e ins-
Vale lembrar que essa grande mudança ocorreu num
tituindo, com base regional, dez divisões de gestão
ambiente em que, além da expansão dos serviços
descentralizada, sendo duas na região Norte; duas na
prestados diretamente à população, houve uma am-
Centro-Oeste; três na Leste e três na Sul. Cada divi-
pliação progressiva do protagonismo da Secretaria
são descentralizada atua no território de três subpre-
no cenário da gestão socioambiental, coordenando ou
feituras, com atividades de controle e fiscalização, de
participando de iniciativas e foruns municipais, nacio-
arborização e biodiversidade e de educação ambiental,
nais e internacionais, como o Comitê Municipal de Mu-
além de participar dos conselhos regionais. As dez di-
danças Climáticas, a ANAMA55, o C4056, entre outros.
visões, coordenadas pelo Departamento de Gestão
52 | Inovadora do ponto de vista da Administração Mu- 54 | Pode ter sido uma contradição manter os parques sob
nicipal e da antiga estrutura da Secretaria, cujo modelo gestão direta do DEPAVE, já que eles estão nas regiões
prevalente é o piramidal, com o poder bastante cen- coordenadas pelas Divisões de Gestão Descentralizada.
tralizado no topo, planejamento também centralizado, 55 | Associação Nacional dos Secretários Municipais de
e vários escalões intermediários até chegar a base da Meio Ambiente.
pirâmide, onde o serviço encontra o cidadão. 56 | C 40: associação das maiores cidades do mundo, que
53 | Lei 14.933, de 5 de junho de 2009. se reunem periodicamente para compartilhar as solu-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 23


Note-se, ainda, que a Lei também reforçou, explici- civil; desenvolver programas de capacitação
tamente, o trabalho intersetorial e em rede, visão de servidores e estagiários da Secretaria nas
que esteve presente desde a concepção da UMAPAZ, temáticas ambientais;elaborar e divulgar ações
tanto com o fortalecimento dos conselhos como na pertinentes à preservação ambiental; planejar e
explicitação das atribuições da estrutura, como, por executar atividades científicas, culturais e edu-
exemplo a de “apoiar as ações de educação ambien- cacionais no campo da educação ambiental;
tal promovida por outras instâncias de governo e da manter serviços de arquivo, documentação e
sociedade civil”. instrumentação científica na área de educação
ambiental, promovendo intercâmbio com en-
Essa visão inovadora é necessária para viabilizar o
tidades congêneres;atuar como apoio técnico
atendimento de uma cidade de mais de onze milhões
em programas de educação ambiental a cargo
de pessoas, com peculiaridades regionais e locais
da Secretaria Municipal de Educação e demais
importantes, quer seja em traços culturais da popu-
instituições públicas ou privadas, em todos os
lação, origens étnicas e valores, nas condições so-
níveis de educação, mediante acordos formais
cioeconômicas e também nas condições ambientais.
de cooperação; ministrar cursos de jardina-
Apesar de programas e projetos serem desenhados
gem destinados à população, incentivando-a
para toda a população paulistana, sua implementa-
a participar da melhoria da qualidade do meio
ção requer leituras que façam a adequação às pecu-
ambiente;planejar e executar atividades cien-
liaridades locais.
tíficas, culturais e educacionais no campo da
Do ponto de vista interno, a reestruturação da Se- astronomia e ciências congêneres; coordenar o
cretaria transformou o projeto UMAPAZ no Departa- funcionamento dos Planetários, da Escola Mu-
mento de Educação Ambiental, constituído de quatro nicipal de Jardinagem, da Universidade Aberta
Divisões. A Divisão de Formação, herdeira da história do Meio Ambiente e Cultura de Paz e da Escola
e da equipe do projeto original; a Divisão Escola Muni- Municipal de Astrofísica; desenvolver, por meio
cipal de Jardinagem, com sua experiência de mais de da Universidade Aberta do Meio Ambiente e
três décadas; a Divisão de Astronomia e Astrofísica, Cultura de Paz, programa de formação aberta,
que coordena os Planetários do Ibirapuera, do Carmo ampla e permanente para cidadãos de dife-
e a Escola Municipal de Astronomia; e a Divisão de rentes faixas ambientais e a cultura de paz e
Projetos Especiais constituída pela equipe da Divisão não violência, disseminando conhecimentos e
de Educação Ambiental antes alocada no Planeja- tecnologias de mediação de conflitos; adquirir,
mento. Então, além de inserir a UMAPAZ na estrutura selecionar, organizar e divulgar toda documen-
organizacional formal, a Lei colocou sob sua coorde- tação técnica que compõe o acervo, nas suas
nação equipamentos antes independentes ou disper- diferentes formas de apresentação, com vistas
sos e que tinham uma história própria. a oferecer ao usuário subsídios para estudos
O Departamento (DEA/UMAPAZ) passou a ser res- e pesquisas; organizar educação ambiental e
ponsável, entre outras atribuições, por : cultura de paz nos parques, diretamente ou por
meio de parcerias.” 57
“coordenar e executar programas e ações edu-
cativas para promover a participação da socie- Se, por um lado, a Lei expressou o fortalecimento
dade na melhoria da qualidade ambiental; apoiar da UMAPAZ, por outro lado, reforçou contradições,
as ações de educação ambiental promovida por aglutinando equipes e tradições diferentes e, por
outras instâncias de governo e da sociedade
57 | Artigo 19 da Lei 14.887, de 15 de janeiro de 2009, pu-
ções e propostas para problemas comuns e cujo último blicada no Diário Oficial do Município do dia 16 de janeiro
encontro, em 2011, foi em São Paulo. de 2009, págs. 01 a 19.

24
vezes, conflitantes, cujos efeitos se explicitaram no e Carmo (em reforma) e a Escola Municipal de Astro-
tempo. O recém criado departamento acolheu, ao física, onde ofereceu novos cursos e programas para
mesmo tempo, um pólo de educação ambiental que educadores, estudantes e público em geral, como o
dedica especial atenção à questão da convivência, intitulado Família do Universo. É preciso registrar a
com a incorporação da cultura de paz, até então es- expressiva dificuldade na gestão dos Planetários pela
tranha ao ambiente da Secretaria e equipes com di- administração direta62.Embora conte com professores
ferente lógica de funcionamento. de alta especialização, a complexidade dos Planetários
de São Paulo impõe a necessidade de uma outra figura
A equipe do projeto UMAPAZ ficou, majoritaria- institucional63. Contudo, é igualmente importante re-
mente, na Divisão de Formação58, que foi se for- gistrar a capacidade de impacto que uma simples ses-
talecendo no tempo com outros integrantes, ser- são de planetário no público, em relação a percepção
vidores públicos que se propuseram a vir reforçar de sua identidade terrena e pertencimento ao sistema
esse trabalho, quer pela compatibilidade entre vivo do nosso conhecido universo e do desconhecido
os propósitos da organização com seus próprios e hipotético multiverso. Além das sessões abertas ao
propósitos, quer motivados, eles próprios, para publico em geral, a UMAPAZ instalou uma prática de
trazer inovações e questionamentos que foram inserir sessões nos cursos, como é o caso do curso Car-
enriquecendo o grupo. ta da Terra em Ação e Educação Gaia, onde se começa
a refletir sobre identidade e pertencimento a partir de
A Escola Municipal de Jardinagem59 manteve, com a uma sessão do planetário do Ibirapuera.
equipe própria, seus cursos tradicionais, que são muito
procurados; o Programa Crer-Ser, que focaliza jovens, A chamada diferenciação funcional (SCHAEFER,
iniciou o Curso Plantas Medicinais e acolheu, com pro- 2005) traz riscos e impõe a necessidade de trabalhar
nesse novo contexto sem fragilizar a criatividade e o
fessores contratados, um importante processo de des-
comprometimento das pessoas com o projeto. Se a
centralização e a capacitação de zeladores de praças.
metáfora da Fase Pioneira é a família, a metáfora da
A Divisão de Projetos Especiais60 manteve o progra- Fase de Diferenciação é o mecanismo.
ma A3P – Agenda Ambiental na Administração Pú-
Apesar disso, por ter sido concebida por uma rede de
blica, que não logrou a expansão desejada para toda pessoas e de instituições, cujos integrantes continua-
a estrutura municipal, embora tenha conseguido ram a participar da implementação do projeto, a Fase
apoiar alguns casos exemplares; o programa Trilhas de Diferenciação, tipificada pela transformação insti-
Urbanas, restrito a alguns parques, e incorporou tucional, também tem características das Fases In-
parte do trabalho de avaliação e o acompanhamento tegrativa e Associativa. A rede, composta por atores
de projetos conveniados com recursos FEMA.
A Divisão de Astronomia e Astrofísica61 continuou res- 62 | Quando o Departamento de Educação Ambiental –
UMAPAZ foi criado o Planetário do Carmo estava fecha-
ponsável por administrar os Planetários do Ibirapuera do. Sua edificação, inaugurada em 2005, logo apresentou
grave problema estrutural. Superado esse problema com
58 | Dirigida por Glacilda Pinheiro Correa Pedroso, pe-
custosa reforma, apresentou-se a necessidade de revi-
dagoga, até novembro de 2011 e, em seguida, por Ieda
são e restauro do planetário propriamente dito, isto é, do
Varejão, pedagoga.
complexo equipamento, impondo a importação de peças e
59 | Dirigida por Cristina Pereira Araújo, arquiteta, dou- tratamento técnico especializado para seu restauro. O Pla-
tora em Planejamento Urbano e Regional pela FAU/USP. netário do Carmo foi reaberto em 28 de setembro de 2012.
60 | Dirigida por Thais Prado Horta até julho de 2012 e, 63 | Como o modelo de fundação, por exemplo, ou seu
atualmente, por Sonia Jabour. deslocamento para uma universidade, com maior agi-
61 | Dirigido por André Luiz da Silva, até dezembro de lidade e capacidade tanto para a manutenção e a atu-
2010 e João Paulo Delicato, físico e astrônomo, a partir alização dos equipamentos como para contratação de
de janeiro de 2011. pessoal especializado.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 25


públicos governamentais e do Terceiro Setor64, conti- aumento significativo e progressivo da quantidade de
nuou, como se verá nos itens subsequentes, apoiando horas/atividades oferecidas e do público alcançado.
e participando da realização dos propósitos da UMA-
Essa expansão implicou o fortalecimento de áreas
PAZ. Isso significa que o esforço e o entusiasmo dos
de apoio, especialmente, com a secretaria escolar67,
atores envolvidos não se restringiram aos atores in-
a comunicação68, a operacionalização e controle da
ternos (gestores e equipe própria), mas também a ou-
contratação de palestrantes e oficineiros69 e o apoio
tros parceiros de rede. Trata-se de uma singularidade
à recepção e organização interna70.
que parece ter sido fator de fortalecimento do projeto
e de apoio a sua sustentabilidade institucional. A programação da UMAPAZ, aberta ao público em ge-
ral, é divulgada em Boletins Informativos Mensais71, e
Ao lado dos benefícios da estruturação e da instala-
organiza-se, basicamente, em três tipos de programas:
ção de um novo diálogo com outras áreas, também
transformadas, da Secretaria, alguns dragões ficam 67 | A equipe, coordenada por Rodrigo Matos de Aqui-
a espreita, para usar uma metáfora do Bos (1994) 65, no, organiza a distribuição e ocupação dos auditórios
e salas, alimenta o Boletim Informativo e o mailing da
como o dragão da dicotomia, que surge do confronto
UMAPAZ, concentra as comunicações entre a UMAPAZ e
de correntes ideológicas, metodológicas, conceitu- seus alunos e professores e realiza e mantém todos os
ais, muito presentes entre os grupos das divisões registros dos cursos realizados, incluindo as respectivas
que compõem o Departamento, e o dragão do secta- avaliações.
rismo, alimentado pela intolerância a idéias diferen- 68 | O trabalho da comunicação, realizado inicialmente
por Vânia Ventura, depois pela jornalista Cássia Apareci-
tes daquelas professadas majoritariamente. da Vitzel Domingues até 2011 e, em seguida, por Maria-
Como se vê, novos desafios foram colocados para a na Gonçalves Belmont, resultou na produção de Boletins
Informativos Mensais, desde 2008.
UMAPAZ com a sua transformação em Departamen-
69 | A equipe, composta por José Maestro Queiroz, Ali-
to: manter a identidade, com novos atores sendo ce Kehdi Neme e Gilberto José Monteiro, monta cada
incorporados; acolher novas lideranças; gerenciar processo de contratação de professor credenciado,
recursos num ambiente de ampliação quantitativa e composto por justificativa, programa, local ou locais
de realização, cronograma, orçamento, obedecendo as
diversificação de demandas.
orientações dos respectivos editais. E alimenta esses
processos com as listas de presença e outras informa-
6. Desenvolvimento, Integração, ções pertinentes. Com a expansão da descentralização
o trabalho dessa equipe vem tendo um progressivo
Associação e Controle Social aumento, pois além da contratação de professores
para o próprio Departamento também o faz para os
Com a incorporação de novos serviços e a expansão Parques e para solicitações das Divisões de Gestão
da ação descentralizada, a partir de 200966, houve um Descentralizada.
70 | A recepção de alunos, professores e visitantes tem
o apoio de Marlene Fontes dos Reis e Wesley Domingos.
64 | Organizações privadas, sem fins lucrativos, do cam- A resolução de problemas administrativos do Departa-
po social, socioambiental e de cultura de paz. mento são apoiados por Elizete de Oliveira Buriti Leono-
65 | Lex (Alexander) Bos, autor sintonizado com a Antro- ro e Ronaldo Medalskas.
posofia de Rudolf Steiner, é um estudioso das organiza- 71 | Os Boletins Informativos Mensais das Divisões de
ções com finalidades sociais. Entre seus estudos, publi- Formação e da Escola Municipal de Jardinagem, bem
cou obra onde levanta várias questões sobre a criação e como Boletins Periódicos da Divisão de Astronomia e
o funcionamento deste tipo de iniciativa, chamado Doze Astrofísica são disponibilizados no site www.prefeitura.
Dragões em luta contra iniciativas sociais (2004). sp.gov.br/umapaz; no blog www.blogumapaz.blogspot.
66 | Porém desde 2008 a UMAPAZ já contava com a com, enviados para o nosso mailing e arquivados na
possibilidade de contratar professores pelo edital Biblitoeca da UMAPAZ. Por eles é possível saber, com
de credenciamento o que possibilitou novas ofertas detalhes os programas desenvolvidos, conteúdos sumá-
de cursos e temas e a descentralização de algumas rios, nomes dos ministrantes, datas, horários e locais de
atividades. cada um, incluindo todos os descentralizados. Além dis-

26
 programas de sensibilização, abertos, focali- coletivos. Diz Maturana (1998) que “como vivemos é
zados em faixas etárias ou intergeracionais, como educaremos, e conservaremos no viver o mundo
com atividades artísticas, corporais, coopera- que vivemos como educandos. E educaremos outros
tivas, meditação, rodas de conversa e diálo- com o nosso viver com eles, o mundo que vivemos ao
gos, palestras, exposições; conviver”. As trilhas nos parques são oportunidades
para que nossos olhos se abram para todos os seres
 programas de formação e capacitação, aber-
que os habitam, para seus hábitos, para as relações
tos, mediante inscrição e seleção, aprofun-
e intervenções humanas nesses espaços. Somando-
dando estudos de situação, reflexões e ofe-
se à instituição das dez divisões de gestão descen-
recendo instrumentos de ação, por meio de
tralizada, os parques passaram a demandar progra-
cursos que variam de 360 h a 20 h, mini cursos
mas realizados localmente. A Escola de Jardinagem
de 16 h a 4 h, seminários e encontros;
ofertou dezenas de mini-cursos de jardinagem, horta
 programas instersetoriais para multiplica- e paisagismo nos parques e a Divisão de Formação
dores, focalizando públicos com potencial de levou programas de sensibilização, como danças cir-
reedição, como educadores, profissionais de culares, tai-chi, contação de histórias, arte e susten-
saúde, guardas civis municipais, lideranças de tabilidade para esses espaços.
organizações não-governamentais, conselhei-
Na área de Jardinagem foi crescente o volume de
ros, servidores públicos.
horas/aula oferecidas à população (de 2.500 horas/
Em todos esses tipos há programas realizados dire- aula em 2009 para quase 5.000 em 2011). Além
tamente pelas equipes próprias e professores con- de turmas sucessivas dos cursos tradicionais de
tratados e outros realizados em parcerias internas, Jardinagem, Paisagismo, Orquídeas e Hortas, e das
com Parques e Divisões Descentralizadas, ora com turmas do Programa Crer-Ser, que focaliza jovens,
órgãos da própria administração, numa perspectiva trabalhando integradamente a capacitação em jar-
intersetorial, ora em parceria com organizações do dinagem com o desenvolvimento de temas sobre
Terceiro Setor. cidadania, foram realizadas oito turmas do Curso
Vale considerar que o programa 100 Parques, da Se- Plantas Medicinais, parceria com a área da Saúde,
cretaria, por meio do qual a Municipalidade expandiu que tem o propósito de disseminar conhecimentos
de 34 para 85 (até outubro de 2012)72 os parques aber- sobre práticas integrativas e fitoterapia, reunindo
tos à população paulistana, é talvez o maior programa especialistas de diversas organizações e pesquisa-
de educação ambiental da gestão73 . Os parques são dores. Foram preparados e publicados o Manual do
espaços educadores naturais da Cidade, lugares privi- Curso de Jardinagem e o Manual de Plantas Me-
legiados de convivência, os nossos jardins e quintais dicinais e estão no prelo os Manuais do Curso de
Horta e de Cultivo de Orquídeas. A Escola de Jardi-
nagem assumiu a capacitação de mais de dois mil
so é produzido, para o Gabinete do Prefeito, um balanço
mensal, onde os cursos e atividades produzidos são or- Zeladores de Praças, programa intersetorial com a
ganizados por Subprefeitura. Secretaria do Emprego e Relações de Trabalho e as
72 | Estão previstos 100 parques até dezembro de 2012. Subprefeituras.
73 | A possibilidade de reconexão com a natureza, de que
A área de Formação ampliou, progressivamente, a
fazemos parte, é essencial para o respeito à vida, fonte e
lago da educação ambiental. O contato promove a sen- quantidade de horas/aula/atividade e diversificou a
sibilização e a prontidão para que as idéias mergulhem oferta aos cidadãos, ampliando muito o número de
na experiência e a construção do conhecimento se com- pessoas atendidas. Em 2009, foram oferecidos 163
plete. Nesse sentido, reconhecemos a multiplicação dos
parques pela cidade como parte da estratégia de educa-
cursos, três mil e quinhentas horas e atendidas vinte
ção socioambiental e de cultura de paz. mil pessoas. Em 2010, 206 cursos, quatro mil e qui-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 27


nhentas horas e quase trinta mil pessoas. Em 2011, mulação e realização políticas, como, por exemplo, a
329 cursos, cinco mil e setecentas horas e mais de Educação, que alcança milhares de professores, alu-
trinta mil pessoas74. Em 2012, apenas no primeiro nos e suas famílias76. Com essa visão, a SVMA inten-
semestre foram ofertados mais de duzentos cursos, sificou, progressivamente, as articulações com outras
nas instalações da UMAPAZ no Parque do Ibirapue- Secretarias, estratégicas para a política municipal de
ra, no Jardim da Luz e em outros parques e espaços educação ambiental e cultura de paz.
públicos da cidade75.
Foi fortalecida a parceria com a Saúde, especialmen-
Assim como o programa Educação Gaia, a partir de te com o PAVS – Programa Ambientes Verdes e Sau-
2006, o Curso Carta da Terra em Ação, iniciado em dáveis, o Curso de Plantas Medicinais e numerosas
2009 e já com 8 turmas realizadas e mais de 400 turmas do Curso de Articulação Local para o Desen-
alunos certificados, foi um marco na programação volvimento Sustentável.
da UMAPAZ. Formulado pelo conjunto dos educa-
Também foi mantida e ampliada a parceria com a
dores da UMAPAZ, com a orientação da Carta da
Educação, por meio do Programa de Difusão da Car-
Terra, o Curso, com 80 horas/aula e 20 horas/ati-
ta da Terra na rede municipal de educação, além de
vidades complementares tem o propósito de ca-
dezenas de cursos e atividades oferecidas a escolas
pacitar agentes socioambientais urbanos, capazes
da rede, especialmente, de jogos cooperativos, me-
de conduzir processos transformadores em suas
diação de conflitos no âmbito escolar, minhocários,
comunidades.
lições da árvore, contação de histórias, danças circu-
A lógica da matriz revela-se, também, na relação en- lares, outras parcerias foram sendo desenvolvidas.
tre as Secretarias para as diferentes políticas – cada
A Secretaria Municipal de Direitos Humanos tem
uma delas tem centralidade em determinado assun-
sido parceira para as questões de cultura de paz e
to ou objeto, mas depende das relações horizontais,
programas de formação de mediadores de conflitos
intersetoriais, em maior ou menor grau, para realizar
desde a origem da UMAPAZ. A essa articulação so-
seus objetivos e programas, já que se trata da mesma
mou-se Secretaria de Segurança Urbana, para rea-
população. Embora, a Secretaria Municipal do Verde e
lizar Cursos de Mediação de Conflitos, com vistas a
Meio Ambiente tenha uma centralidade nas decisões
estabelecer uma rede de Casas de Mediação. Além
e orientações da política de meio ambiente e, especi-
dos cursos de mediação realizados ao longo de sua
ficamente, de educação ambiental e cultura de paz,
existência, em 2012, foram realizadas oito turmas
outras Secretarias têm papel fundamental na for-
do Curso, com foco nessa parceria, a partir de um
contrato com o Instituto Cinco Elementos.
74 | O ano de 2012 trouxe uma novidade na infraestru-
tura e uma dificuldade operacional. Foi anunciada a re- Com as Secretarias de Relações do Trabalho e as
forma do prédio sede, no Ibirapuera, que vinha sendo so- Subprefeituras tem sido realizado o programa Ze-
licitada.. A equipe da Divisão de Formação se deslocou ladores de Praças, que tem como propósitos revi-
em abril e, desde então, está provisoriamente no espaço
da Divisão de Astronomia e Astrofísica. Os espaços para talizar as praças e inserir pessoas em situação de
os cursos ficaram menores e foi necessário utilizar lo- vulnerabilidade no mercado de trabalho. A Secre-
cais improvisados. No entanto, a conclusão da reforma taria do Trabalho paga a bolsa, a do Verde e Meio
do prédio, prevista para dezembro de 2012, dotará a
Ambiente capacita os zeladores e as Subprefeituras
UMAPAZ de condições ambientalmente adequadas para
a realização das atividades do pólo irradiador da progra- gerenciam o trabalho dos bolsistas. Com isso, mais
mação e retaguarda. de 2 mil pessoas já passaram pelo programa, capa-
75 | Todos os cursos e atividades oferecidos pela Divisão
de Formação são gratuitos para o cidadão. Cursos regu- 76 | Na visão do Secretário, Eduardo Jorge, somos um
lares de Jardinagem, sessões e cursos dos Planetários barquinho abordando grandes transatlânticos organiza-
têm uma taxa simbólica, definida por Decreto. cionais, como a Educação, a Saúde, os Transportes.

28
citadas pela Escola Municipal de Jardinagem e tra- propósito de sinergia e alcance de resultados transfor-
balhando nas praças de São Paulo. madores. Pessoas e instituições do Terceiro Setor aju-
Em 2011, uma nova parceria começou a se articular daram a conceber a UMAPAZ e as que se agregaram a
com a Defesa Civil da Secretaria de Segurança Urba- sua visão e propósito no tempo vêm emprestando seu
na, em torno da questão dos riscos e vulnerabilida- apoio para o andamento exitoso das suas atividades.
des presentes nas diferentes regiões da cidade, no Isso tem ocorrido de várias formas, desde a ajuda na
sentido de apoiar a organização da sociedade civil e divulgação de eventos e programas, até a identificação
sua relação com órgãos municipais ou estaduais que de temas, palestrantes, oportunidades e, mesmo, a
podem contribuir para prevenir desastres e prestar participação voluntária ativa, em atividades do inte-
apoio em situações de vulnerabilidade. Essa parce- resse da instituição e seus freqüentadores.
ria iniciou-se com um Seminário, reunindo dirigentes Por causa dessa rede a UMAPAZ tem oferecido aos
e educadores ambientais da UMAPAZ e dez Divisões cidadãos, sem ônus, oportunidades de dialogar com
de Gestão Descentralizada e prosseguiu com reu- personalidades que seria difícil e custoso contratar,
niões regionais de modo a construir um espaço de como o especialista em mediação de conflitos, o no-
compartilhamento e construção de conhecimentos ruegues Johan Galtung77; May East, Diretora do Gaia
sobre riscos e vulnerabilidades, formas de preven- Education78 e Christopher Mare, articulador do currí-
ção de desastres, remediação de situações e proces- culo Educação Gaia: Design em Sustentabilidade79,
sos de adaptação. O objetivo é alcançar e ampliar o Dr. Brendan Mackey, Chairman do Conselho da Terra,
envolvimento de conselheiros e lideranças das co- pesquisador especialista em florestas80, entre outros.
munidades em atividades de defesa civil, o que está
Em 2009, houve a possibilidade de fazer um Edital
ocorrendo em parceria com as equipes locais.
para chamamento de organizações da sociedade civil
A histórica segmentação do aparelho formador em que se interessassem por realizar projetos de educa-
clausuras setoriais foi copiada pelas estruturas de ção ambiental, com financiamento do FEMA – Fundo
gestão do Estado. O modelo setorializado da estru- Especial do Meio Ambiente. Esse processo, fruto de
tura governamental, que se repete nas três esferas uma parceria interna com o Departamento de Apoio a
de governo, vem dando mostras de incapacidade para Políticas Públicas da Secretaria, possibilitou que fos-
a solução de problemas completos e uma das formas sem firmados convênios com 12 organizações.
de minimizar seus efeitos têm sido os projetos ma-
Em 2010, novo Edital para projetos de educação am-
triciais, com objetivos comuns e ações articuladas de
biental foi aberto, com a apresentação de 180 propos-
um conjunto de órgãos. A Secretaria do Verde e Meio
tas, das quais 50 foram aprovados para convênio. O
Ambiente e a UMAPAZ têm compreendido que é es-
sencial envolver outras áreas para o encaminhamen- Departamento de Apoio a Políticas Públicas (DPP)81
to de questões socioambientais, pois as mesmas não 77 | Trazido pela Associação Palas Athena, em 2008. A
estão contidas em um só setor, quer na compreensão Palas Athena, parceira de primeira hora, durante todos
quem nas possibilidades de atuação e solução. Assim, esses anos ofereceu numerosas vezes palestras e arti-
culou atividades conjuntas com a UMAPAZ, contribuindo
em suas propostas e projetos, inclusive na educação com a inspiração e a realização da programação.
ambiental, tem se dedicado a essa articulação inter- 78 | E outros educadores para o Curso Educação Gaia,
setorial, compreendendo a necessidade de articula- realizado com os Grupos Ecobairro e Cris, com o apoio
ção de diferentes saberes e poderes para alcançar do Gaia Education, Findhorn em 2006, 2007 e 2008, da
UNINOVE em 2009, dos Cursos Gaia de Porto Alegre e do
sinergia e potência transformadora.
Rio de Janeiro em 2010.
No entanto, a articulação intersetorial não se restrin- 79 | Trazido pelo Gaia Education em 2009.
ge às relações intragovernamentais, mas estende essa 80 | Trazido pela Earth Charter Initiative, em 2010.
rede com organizações do Terceiro Setor, com o mesmo 81 | Dirigido por Helena Maria Campos Magoso.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 29


e o CADES central, através do Conselho do FEMA – tal nas várias regiões da cidade e trazer inovações
Fundo Especial do Meio Ambiente e Desenvolvimento para a área de educação ambiental.
Sustentável viabilizaram que dezenas de organiza-
Todas as regiões de São Paulo receberam projetos
ções do Terceiro Setor e do campo da educação fir-
conveniados com organizações do terceiro setor, com
massem convênios e realizassem projetos de educa-
duração de até 12 meses82, alcançando milhares de
ção socioambiental de interesse público, a partir de
cidadãos, em escolas e outros espaços das comunida-
dois Editais de chamamento de projetos preparados
des, com hortas comunitárias, teatro, cursos, pesqui-
pela UMAPAZ. Desse processo resultaram convênios
sas, diferentes abordagens, de acordo com o público.
e projetos realizados em toda a cidade de São Paulo
pelas seguintes organizações do terceiro setor: Em outro eixo de trabalho, buscou-se articulação
entre a UMAPAZ, como instituição de educação in-
Instituto Romã, Instituto Mokiti Okada, Insti-
formal com instituições de educação formal. Algu-
tuto 5 Elementos, Instituto Paulo Freire, Ins-
mas parcerias pontuais foram realizadas. Mas, de
tituto Aryran, Ciranda – Comunidade e Cida-
uma articulação com o Instituto de Artes da UNESP83
dania, Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio
resultou um convênio que permitiu a realização, em
Comunitário – IBEAC, Instituto São Paulo
parceria, do Curso de Especialização em Ecologia,
Contra a Violência, Núcleo Internacional de
Arte e Sustentabilidade, com 360 h. Firmado o con-
Educação e Gestão Ambiental - NIEGA, Cen-
vênio, em 2009, foram selecionadas as duas primei-
tro de Estudos do Meio Ambiente e Integração
ras turmas, que se iniciaram em 2010 e concluíram
Social - CEMAIS, Instituto de Projetos e Pes-
o curso e seus trabalhos (TCC), em 2011, com o que
quisas Socioambientais - IPESA, Associação
81 pessoas qualificaram-se e receberam o título de
Casa Urusvati, Movimento de Defesa do Fave-
Especialista em Ecologia, Arte e Sustentabilidade.
lado - MDF; Instituto GEA, Associação Santa
Catarina, Dr. João Amorim, SOS Guarapiran- Em 2011, mais uma parceria, desta vez com a Edito-
ga, Grupo de Ação Multidisciplinar de Auxílio ra Auana, possibilitou a oferta à população de uma
a Comunidades - GEMAC, Aliança Libertária exposição que recebeu o nome de Somos Terra. Seu
Meio Ambiente - ALMA, Centro Universitário propósito foi sensibilizar os visitantes, crianças e
Adventista de São Paulo - UNASP, Sociedade adultos, mas, especialmente escolares, para nossa
São Vicente Pallotti, IDEC, IDEC, Associação natureza terrena e as interdependências da comu-
Monte Azul, Fundação Zoológico, Santa Mar- nidade de vida no Planeta. Para isso apresentou as
celina, Pontifícia Universidade Católica de São informações utilizando material áudio-visual e esti-
Paulo (PUC SP), Associação de Apoio Parti- mulando observação, tato e olfato. Centenas de pes-
cipativo, Associação Cantareira, Mudança de soas e grupos de escolas visitaram a exposição, de
Cena, SOASE, Instituto LABOR, Fundação de julho a setembro de 2011 e os educadores e alunos
Apoio à Pesquisa, Ensino, Tecnologia e Cultu- receberam, também gratuitamente, o livro intitulado
ra FAPETEC, Casa do Zezinho, Instituto Na- Somos Terra, organizado e produzido pela jornalista
cional de Renovação Integrado - INRI, Institu- Ana Augusta Rocha84.
to RECICLE, Associação Morro do Querosene.
82 | Cada projeto conveniados pelo Edital 5 teve o valor
As parcerias com organizações da sociedade civil, máximo de cem mil reais e, pelo Edital 7, cento e vinte
além de responderem a atribuições expressas na mil reais, ambos com contrapartida de 10%.
formulação inicial da UMAPAZ, reiteradas explicita- 83 | Para a qual foram decisivas, pela UMAPAZ, a Dra.
Márcia Haluli Meneh e Regina Chiesa e, pelo Instituto de
mente na Lei 14.887 de 2009, têm dois propósitos: Artes da UNESP, a Dra. Maria Geralda (Lalada) Dalgliesh.
ampliar o envolvimento de segmentos organizados 84 | Sócia-diretora da Editora Auana, que doou os
da sociedade civil em projetos de educação ambien- exemplares.

30
Em 2012, iniciou-se um trabalho com o Instituto A equipe da Escola Municipal de Jardinagem tem 19
de Biociências da USP, a partir de uma Mostra No servidores, sendo 11técnicos87. A divisão de projetos
Mundo da Terra, realizada na Escola Municipal de especiais conta com cinco técnicos88 e a divisão de
Astrofísica, que, em sua primeira edição, já reuniu Astronomia e Astrofísica conta com 24 servidores,
800 visitantes. sendo 10 professores e técnicos89
Finalmente, esta publicação também é fruto de uma Na diretoria do Departamento, a equipe da bibliote-
parceria com o Rotary Club de São Paulo e o Institu- ca90 e a equipe de apoio administrativo e de gestão91
to Paulo Viriato Correa da Costa – IPVCC. servem a todas as divisões. A Escola Municipal de
Astrofísica tem uma biblioteca própria especializada
Para dar conta desse volume e diversidade de pro-
no tema92.
gramação, a equipe da UMAPAZ cresceu e, também,
se diversificou. Para trazer constantes inovações à programação e
viabilizar a expansão descentralizada das atividades
A Divisão de Formação, núcleo inicial da UMAPAZ,
da UMAPAZ e das Divisões de Gestão Descentralizada
que contava, em 2006, com dez técnicos, tem, em tem sido possível contar, também, com a contrata-
2012, dezesseis educadores ambientais, com di- ção de professores por hora/aula. Desde 2007 é anu-
versificado perfil de formação básica: pedagogia, almente publicado um Edital de credenciamento de
biologia, ecologia, geografia, geologia, sociologia, palestrantes e oficineiros, que devem preencher cri-
fonoaudiologia, psicologia, engenharia, arquitetura térios de formação e experiência nas áreas em que se
e economia85. Do total da equipe técnica, 80% são inscrevem, além da documentação pertinente. Após a
servidores públicos concursados, apenas três servi- publicação de seu credenciamento, o palestrante ou
dores são nomeados para cargos em comissão. Essa oficineiro está apto para ser convidado a participar
proporção foi intencionalmente procurada, com a de um programa da UMAPAZ ou de propor um curso,
atribuição de cargos de livre provimento a servidores
públicos concursados, de modo a dar maior estabili- 87 | Roberto Martin, Nilce Morais Pinto, Oswaldo Barre-
dade à equipe técnica86. to de Carvalho, Assucena O. Tupiassu, Linete Maria Ha-
raguichi, Juscelino Nobuo Shiraki, Elaine Martins Diaz,
Adão Luiz Castanheiro Martins, Mário do Nascimento
85 | André Luis Moura de Alcântara; Angelica Berenice Júnior, Patrícia Morales Bertucci e Rivelene Cristini F.
de Almeida; Estela Maria Guidi Pereira Gomes; Débora Waldvogel, com a coordenação de Cristina P. Araujo.
Pontalti Marcondes; Eduardo Coelho e Mello Aulicino; 88 | Sonia Joana Jabur Salomão, Paula Carlina Favareto
Eveline Limaverde; Georges Fouad Kherakian Jr.; Glacil- Santos, Virgínia Talaveira Valentini Tristão, Rosana Be-
da Pinheiro Pedroso Correa; Gustavo Agni Beuttemuller; gueldo e Silvia Neves Gobeti Gomes, com a coordenação
Lia Salomão Lopes; Márcia Amélia Moura; Nadime Bou- de Thais Prado Horta.
eri, Regina Luisa de Barros; Suely Feldman Bassi; The-
89 | Ana Carolina de Souza Pimentel, Irineu Gomes Va-
reza Rosa Valério Igor P. Vitorino; Vitor Octávio Lucato,
rella, Otávio Augusto Triverio Dias, Paulo Gomes Varella,
com a coordenação de Ieda Varejão.
Regina Auxiliadora Atulim, Youssif Chantous Filho, Wal-
86 | A Prefeitura de São Paulo não tem carreira de edu- mir Tommazzi Cardoso, Lívia Camargo Cruz, Gregório
cador ambiental. Existe um projeto de lei, tramitando Paoli Conrado Sabbag, Maria Paula Bacchin Zappa Leite,
para sua instituição, o que possibilitará a contínua reno- com a coordenação de João Paulo Delicato.
vação dos cargos, tanto para a UMAPAZ como para as
90 | Dulce Regina Bernardo Campos, Eveline Brasileiro
Divisões de Gestão Descentralizadas. A proposta formu-
Leal, Mayra Maris Ribeiro, Madalena S. Rosa.
lada por um grupo de educadores da UMAPAZ e das Divi-
sões de Gestão Descentralizadas indicou a importância 91 | Rodrigo Matos Aquino, Alice K. Neme, José Maestro
de termos como formação básica pessoas originárias de de Queiroz, Gilberto José Monteiro, Maria de Lourdes
vários cursos. Entende-se que uma equipe de formação Diniz, Danilo Scudillo, Ronaldo Medalskas, Elizete de
multidisciplinar é mais adequada para o trabalho de Oliveira Buriti Leonor.
educação ambiental. 92 | Priscilla Di Cianni Ferraz de Oliveira.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 31


palestra ou oficina93. Desde o primeiro credenciamen- dificuldade de diálogo, por isso, como aconselham
to, verificou-se que pessoas com alta qualificação. A NONAKA & TAKEUCHI (1997) e GARVIN (2000), a
última lista94 tem 245 credenciamentos95, sendo 213 equipe tem sido provocada a solução de problemas,
de palestrantes (23% com doutorado, 31% com mes- com as diferentes visões; a experimentação, abrindo
trado e 46% com graduação) e 32 de oficineiros. espaço para o fluxo de novas idéias e o aprendiza-
do com as próprias experiências e com os outros. E,
Com a possibilidade de contratação de professores
sobretudo, compartilhando, sistematicamente, em
credenciados, a equipe técnica, além de gerar os
reuniões semanais presenciais e por meio eletrônico
programas e oferecer diretamente as palestras, au-
as informações e experiências96.
las e vivências, também assumiu a tarefa de organi-
zar e coordenar programas ministrados por ou com Embora não seja possível afirmar que a UMAPAZ  já
professores contratados e com parceiros institucio- tenha passado pela Fase Integração, vemos que al-
nais. Isso possibilitou o grande fortalecimento de gumas das características estão presentes ou em
algumas áreas e uma maior diversificação na oferta. desenvolvimento. A persistência no trabalho com
a equipe e o cultivo do compromisso e excelência é
Schaefer cita um elenco de características da Fase de
essencial para que não se percam conquistas, que
Integração, apontadas por Peters e Waterman (apud
ainda são novas e frágeis e que se contrapõem a
SCHAEFER, 2005:43): objetivos claros e uma cultura
uma cultura de acomodação gerada pela descon-
de compromisso e excelência; tratamento respei-
tinuidade das iniciativas e pela desconfiança e as
toso de pessoas e valorização de sua contribuição;
imensas dificuldades que o aparato burocrático
estrutura descentralizada e horizontal; consciência
costuma impor às inovações. Em alguma medida
dos processos de trabalho centrais com maior apoio
podemos identificar essas características desa-
para esses processos do que para os procedimentos
brochando na UMAPAZ. A cultura de compromisso
administrativos e de controle.
e excelência vai, pouco a pouco, penetrando nas
Em relação à equipe, especialmente da área de For- equipes, amparada nos integrantes que têm maior
mação, ressalta-se o trabalho continuado visando clareza desses aspectos.
dar espaço e oportunidade para que o conhecimento
A organização tende a se horizontalizar, com as
tácito das pessoas e dos grupos possa emergir, ser
equipes tomando decisões com maior autonomia
explicitado e transbordar para os alunos, incentivan-
em relação aos seus programas específicos. So-
do a paixão de aprender, o estimulo ao intercâmbio
bre a consciência dos processos centrais, trata-se
de idéias e aos fazeres conjuntos.
de um processo em desenvolvimento. Em órgãos
As organizações tradicionais tendem a fechar seus públicos a preocupação com procedimentos admi-
times, por setor ou por corporação, e têm grande nistrativos e de controle é uma imposição sempre
presente, com muitos processos que têm de ser re-
93 | Sua contratação pode ser de até três meses conse- alizados para cumprir normas gerais a que todos os
cutivos, com horas aula limitadas a dois dias por sema- órgãos estão submetidos.
na. Após intervalo de descanso de outros três meses, o
palestrante ou oficineiro pode voltar a ser contratado. O investimento nas pessoas, outro ponto importan-
Sua contratação pode ser de até três meses consecu- te dessa fase, é muito difícil no campo da remune-
tivos, com horas aula limitadas a dois dias por semana.
Após intervalo de descanso de outros três meses, o pa-
ração e recompensas que segue regras isonômicas
lestrante ou oficineiro pode voltar a ser contratado.
94 | Publicada no Diário Oficial do Município de 4/9/2012. 96 | Não obstante esse esforço, essa dinâmica segue
95 | Um mesmo profissional pode ser credenciado em bastante desigual entre as equipes das Divisões, quer
até três temas, caso apresente formação e experiência pela história e perfil de cada grupo, quer pelos estilos
compatíveis. dos coordenadores.

32
e não contempla diferenciação por desempenho. liar as atividades realizadas. O Conselho é constituído
Houve apenas algumas oportunidades. Uma delas por cinco pessoas de reconhecido saber na área, cin-
foi o próprio Curso de Especialização, com a UNESP, co instituições e três representantes da Secretaria. O
inteiramente gratuito e oferecido na sede da UMA- mandato do primeiro grupo de Conselheiros é de 23 de
PAZ, oportunidade que foi aproveitada por seis in- setembro de 2011 a 23 de setembro de 2013 98,. As atas
tegrantes da equipe, além de servidores de outros ficam disponíveis na internet, no site da Secretaria..
departamentos da própria SVMA e outros órgãos da
O Conselho teve papel importante nas definições
Administração. Outra oportunidade foi a de mostrar
da programação de 2012, propondo, entre outras
trabalhos desenvolvidos. Alguns técnicos tiveram
orientações, um foco na Conferência Internacional
trabalhos aprovados e foram apresentá-los no VI
Rio+20, o que de fato ocorreu, com um ciclo de pa-
Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, em Sal-
lestras sobre a própria Conferência e seus temas. No
vador (BA), na Conferência Internacional Cidades
âmbito da Rio+20 houve dois encontros promovidos
Educadoras, em Chagwon, em Seul, e na Cúpula dos
pela Earth Charter Initiative, em um deles foi lança-
Povos por ocasião da Conferência Internacional das
da a Rede Brasil da Carta da Terra, que a UMAPAZ
Nações Unidas para o Meio Ambiente, Rio+20, va-
passou a integrar, no outro, no dia 19 de junho de
lorizando a contribuição de cada um.
2012, a UMAPAZ participou da mesa de debates e foi
Finalmente, como todas as instituições públicas, lançado o vídeo São Paulo: Cidade Educadora99
a UMAPAZ está aberta ao controle da sociedade,
mais amplo do que a avaliação dos cidadãos que 98 | Portaria 109 /SVMA.G/2011: Representantes de en-
usufruem diretamente de seus serviços. Por esse tidades com missão ou objetivos na área de educação
socioambiental que compartilhe os seguintes valores:
motivo, o projeto UMAPAZ foi, antes mesmo de seu responsabilidade ambiental, transdisciplinaridade, in-
detalhamento, apresentado ao CADES – Conselho terculturalidade, acesso universal à informação, cultura
do Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, de paz e não-violência: Entidade - Iniciativa Internacio-
em 16 de julho de 2005. Em sessão de 20 de julho de nal da Carta da Terra - Titular – Mirian Vilela, Suplente
– Cristina Moreno; Entidade - Instituto Roerich da Paz e
2011, a UMAPAZ, já como Departamento de Educa- Cultura do Brasil - Titular – Paulo Cesar dos Santos, Su-
ção Ambiental, voltou ao CADES apresentando um plente – Lara Cristina Batista Freitas; Entidade - Asso-
relato de seu evolver e produção. ciação Palas Athena - Titular – Lúcia Benfatti, Suplente
– Flávia Faria; Entidade - Centro de Referência e Inte-
Em 9 de novembro de 2011, a UMAPAZ, atendendo a gração em Sustentabilidade - Titular – Marcelo Todes-
convite, apresentou seu histórico e relatório de ati- can, Suplente – Mônica Picavéa; Entidade - Aliança pela
Infância (rede) - Titular – Ute Craemer, Suplente – Gio-
vidades à Comissão de Meio Ambiente da Câmara do vana Barbosa de Souza; Representantes publicamente
Município de São Paulo, em sessão pública. reconhecidos com notório saber nas áreas de educação
socioambiental, disseminadores dos seguintes valores:
Também em 2011, ocorreu a nomeação do seu Conse- responsabilidade ambiental, transdisciplinaridade, in-
lho Consultivo97, que tem a finalidade de opinar sobre terculturalidade, acesso universal à informação, cultura
as metas e linhas de atuação da Universidade Aberta de paz e não-violência: Fábio Feldman, Maria Lúcia (Ma-
luh) Barciotte; Magnolia Costa; Rita de Cássia Bernardo
do Meio Ambiente e Cultura de Paz – UMAPAZ, e ava-
Mendonça e Sandra Inês Baraglio Granja; Representan-
97 | Previsto na Lei nº 14.887, de 2009, com 13 membros, tes da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente
sendo três componentes do Poder Público Municipal, es- – SVMA - Departamento de Educação Ambiental e Cul-
colhidos dentre o quadro de servidores da UMAPAZ e tura de Paz – UMAPAZ: Glacilda Pinheiro Correa Pedroso,
dez representantes da Sociedade Civil, sendo cinco re- Thais Pedroso Horta e Rose Marie Inojosa (presidente).
presentantes reconhecidos como de notório saber e cin- 99 | Esse vídeo sobre o trabalho orientado pela Carta
co representantes de entidades que tenham missão ou da Terra desenvolvido na UMAPAZ, foi realizado mercê
objetivos na área de educação socioambiental e cultura da articulação da Mirian Vilela com o consultor Oscar
de paz e que compartilhem os valores orientadores da Montomura, dirigente da Amana-Key, organização que
UMAPAZ. também trabalha com a Carta da Terra, no âmbito do

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 33


Para Schaefer (2005), cujas categorias estamos utili- dos sustentáveis e pacíficos de viver e de conviver no
zando nesta análise, o ponto focal da Fase Associa- planeta, com encantamento e entendimento.
tiva é a capacidade de atuar em rede, e isso ocorreria “A tarefa da educação é justamente a de apre-
com seu amadurecimento. No entanto, a UMAPAZ já sentar o mundo às gerações do presente, ten-
nasceu com esse DNA100, foi concebida em rede e tando fazê-las conscientes de que comparecem
subsistiu, enquanto projeto, por estar articulada em a um mundo que é o lar comum de múltiplas
uma rede de pessoas e instituições do setor público gerações humanas. Ao conscientizá-los do
e do terceiro setor. Depois de sua institucionaliza- mundo a que vieram, estas deverão compreen-
ção, manteve-se nas redes de que participava e foi der a importância de sua relação e ligação com
tecendo mais uma rede, integrada a essa teia, com as outras gerações, passadas e vindouras. Tal
participantes de seus programas. Com a possibilida- relação se dará, primeiro, no sentido de preser-
de de contratação de professores por hora/aula, a var o tesouro das gerações passadas, isto é,
partir de 2008, ex-alunos qualificaram-se como fa- no sentido de a geração do presente tomar o
cilitadores, somando-se a novos atores. Esse fato cuidado de trazer a esse mundo sua novidade
trouxe um diferencial interessante, já que   esses sem que isso implique a alteração, até o irreco-
profissionais compartilham o propósito e a metodo- nhecimento, do próprio mundo, da construção
logia, dado que a vivenciaram e ajudaram a construir. coletiva do passado” (HANAH ARENDT apud
FRANCISCO, 2006, p.35).
7. Metodologia A idéia de apresentar o mundo sugere que essa ação
seja destinada às crianças. No entanto, parece que é
Toda a história da UMAPAZ, porém, careceria de
preciso fazer continuamente essa reapresentação, no
sentido sem a explicitação da abordagem metodo-
sentido de “aprender a ´estar aqui` no planeta”, como
lógica adotada, pela qual, de um lado, alinha-se a
nos diz Morin (2001:76). Isso porque o Planeta está em
princípios e orientações contemporâneos para a
evolução, tanto do ponto de vista biofisico, quanto do
educação ambiental e, de outro lado, inventa, com
ponto de vista das relações estabelecidas entre os se-
esses apoios, o seu próprio invento.
res que compõem a sua comunidade de vida e, ainda,
O discurso escolhido para fundamentar a educação das relações entre os grupos da família humana.
ambiental e de cultura de paz da UMAPAZ é a Car-
Do ponto de vista da evolução do Planeta, trata-se,
ta da Terra, que tem por centro o respeito à vida e
não apenas da sua evolução “natural” como também
posições referentes à integridade ecológica, justiça
dos efeitos da nossa interação com os recursos na-
social e economica, democracia e cultura de paz.
turais e outros seres, e especialmente os hábitos de
Acolhendo as orientações da Carta da Terra e, tam- consumo e estilos de vida, que extrapolam ‘a bioca-
bém, do Tratado de Educação Ambiental, da Lei pacidade da Terra101. As gerações que hoje convivem
Federal de Educação Ambiental e a perspectiva de no Planeta estão consumindo o equivalente a uma
uma educação ambiental crítica e inclusiva, afirma- Terra e meia. Significa que estão consumindo o acu-
mos, simplesmente, que a UMAPAZ busca ensinar e mulado no passado, o gerado no presente e recursos
aprender a identidade terrena, respeito à vida e mo-
101 | A biocapacidade da Terra é estimada em 1,8 hec-
tares para suprir as necessidades básicas de cada pes-
setor empresarial. O vídeo foi realizado e oferecido pela soa: alimentação, abrigo e outros bens de consumo
Amana-Key e ganhou versões com legendas em inglês (www.awsassets.panda.org/downloads/relplanetavi-
e em espanhol. Está disponível na internet: http://www. vo2012sumario.pdf) Os estudos indicam que a pegada
youtube.com/watch?v=JlDBGIIL0Uk&feature=youtu.be. ecológica média, isto é, o que está sendo utilizado para
100 | Emprestado da genética, significando que a rede consumir atualmente é de 2,7 hectares por pessoa. Vide
está na própria identidade primária da organização. estudos da WWF (www.wwf.org.br/pegadaecologica).

34
que são essenciais à manutenção da vida, especial- justiça econômica e numa cultura da paz. Para
mente da vida humana, no futuro. E isso se dá de for- chegar a este propósito, é imperativo que, nós,
ma extremamente desigual entre as regiões, grupos, os povos da Terra, declaremos nossa responsa-
pessoas. Tudo isso configura uma situação de risco. bilidade uns para com os outros, com a grande
comunidade da vida, e com as futuras gerações.
Do ponto de vista das relações sociais também
precisamos ser reapresentados, pois, a mudança é Essa “reapresentação” é necessária para que possa-
vertiginosa. Princípios e valores são rapidamente mos estar aqui e “sermos no mundo”, como explica
mudados, substituídos. Abandonamos velhos pre- Sauvé (2005):
conceitos, mas geramos outros tantos. Em ambiente A trama do meio ambiente é a trama da própria
de escassez ou de alto consumo, eclodem conflitos vida, ali onde se encontram natureza e cultura;
entre grupos e nações, pelo acesso e apropriação o meio ambiente é o cadinho em que se forjam
dos recursos, que nutrem relações violentas nas so- nossa identidade, nossas relações com os ou-
ciedades e entre os grupos que as compõem. tros, nosso “ser-no-mundo”.A educação am-
Assim, precisamos todos, crianças, jovens e adultos, biental não é, portanto, uma “forma” de edu-
sermos novamente apresentados ao mundo: ao Pla- cação (uma “educação para...”) entre inúmeras
neta do qual fazemos parte e, talvez, uns aos outros. outras; não é simplesmente uma “ferramenta”
para a resolução de problemas ou de gestão do
“Vive-se, no início do século XXI, uma emer- meio ambiente. Trata-se de uma dimensão es-
gência que, mais que ecológica, é uma crise do sencial da educação fundamental que diz res-
estilo de pensamento, dos imaginários sociais, peito a uma esfera de interações que está na
dos pressupostos epistemológicos e do co- base do desenvolvimento pessoal e social: a da
nhecimento que sustentaram a modernidade. relação com o meio em que vivemos, com essa
Uma crise do ser no mundo que se manifesta “casa de vida” compartilhada. (...)É preciso re-
em toda sua plenitude: nos espaços internos construir nosso sentimento de pertencer à na-
do sujeito, nas condutas sociais autodestru- tureza, a esse fluxo de vida de que participamos.
tivas; e nos espaços externos, na degradação
Então, essa é a primeira orientação da abordagem
da natureza e da qualidade de vida das pesso-
metodológica da UMAPAZ: reconstruir o sentimento
as.“ (JACOBI,2005:240)
de pertencimento e de interdependência sistêmica
Como diz o preâmbulo da Carta da Terra: do Planeta e uns dos outros. E reconhecer os compo-
nentes éticos dessa teia, diversificada, assimétrica e
Estamos diante de um momento crítico na his-
dinâmica: respeito a todas as formas de vida, coo-
tória da Terra, numa época em que a humanida-
peração e solidariedade. Por isso, não distinguimos
de deve escolher o seu futuro. À medida que o
educação ambiental e educação para a paz102, con-
mundo torna-se cada vez mais interdependen-
sideradas aqui, e na programação da UMAPAZ, como
te e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo,
componentes inseparáveis do ser no mundo.
grandes perigos e grandes promessas. Para se-
guir adiante, devemos reconhecer que no meio 102 | A UMAPAZ nasceu no bojo da década internacional
da cultura de paz, introduzindo a reflexão sobre nosso
da uma magnífica diversidade de culturas e for-
modo de conviver e buscando difundir reflexões e tec-
mas de vida, somos uma família humana e uma nologias de convívio e de resolução pacífica de conflitos.
comunidade terrestre com um destino comum. O respeito a vida, a todos os seres e aos semelhantes
Devemos somar forças para gerar uma socieda- é o ponto focal da cultura de paz que busca contribuir
para a mudança do paradigma ainda vigente, que usa a
de sustentável global baseada no respeito pela violência nas relações de poder em todas as dimensões,
natureza, nos direitos humanos universais, na inclusive no cotidiano.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 35


A partir dessa visão de pertencimento e interrela- experiência vivencial, que mescla, de forma singular,
ção e do reconhecimento dos componentes éticos, esses conhecimentos tácitos com muitos saberes
é possível analisar criticamente as situações, os construídos nessa experiência e, mais, que podem
modos de viver e de conviver e então, identificar, se navegar em águas transdisciplinares.
apropriar ou desenvolver estratégias, ações e ferra- Como ensinam NONAKA & TAKEUCHI (1997) e GAR-
mentas para atuar no mundo, respeitando a vida e a VIN (2000), o conhecimento tácito é pessoal, não é
diversidade e resolvendo pacificamente os conflitos. facilmente expresso, formalizado, porque é compos-
Há uma pluralidade de correntes na educação am- to por valores e habilidades que se misturam ao com-
biental - naturalista, conservacionista, de solução prometimento do indivíduo em determinada ação.
de problemas, sistêmica, holística, humanista, crí- É o que distingue a performance de um músico de
tica, biorregional, para o desenvolvimento sustentá- outro músico, embora ambos estejam executando a
vel, entre outras. Essas concepções dialogam com a mesma partitura. Considerando a importância desse
forma pela qual o ambiente é considerado por nós, processo, a educação ambiental pode assumir, como
da família humana, e como nos consideramos em orienta Jacobi: “a forma de um processo intelectual
relação ao ambiente. Dialogam com ideologias so- ativo, enquanto aprendizado social, baseado no diá-
ciais historicamente construídas e com paradigmas logo e interação em constante processo de recriação
educacionais (educativo racional, educativo huma- e reinterpretação de informações, conceitos e signi-
nístico, educativo inventivo). ficados, que se originam do aprendizado em sala de
aula ou da experiência pessoal do aluno.”(JACOBI,
Como mostra Sauvé (1997), ora o ambiente é consi- 2005:245)
derado como um recurso a ser gerenciado, ora como
problema a ser resolvido, ora um lugar para viver, O físico Iliya Prigogine diz “que o universo é um nar-
ora projeto comunitário. Entretanto, essas visões rador parecido com Sherazade, que conta uma his-
podem ser vistas como complementares. O ideal, tória para logo se interromper e contar uma outra
diz a autora, “seria que a compreensão dos pro- história. Existe a história cosmológica, no interior da
cessos educativos considerasse uma dessas visões qual se encontra a história da matéria, a história da
complementares do ambiente, de uma forma cumu- vida e, finalmente, a nossa própria história” (PRIGO-
lativa, através de uma cuidadosa orquestra de inter- GINE, 2003: 50)
venção, ou preferencialmente, utilizando um enfoque É preciso ouvir essas histórias com todos os sentidos
pedagógico integrado.” (SAUVÈ, 1997) e, por isso, a metodologia da UMAPAZ busca facilitar a
Queremos ser uma “escola asa” na expressão de Ru- escuta desse narrador encantado, as narrações da his-
bem Alves. Escola que estimule os pássaros a voar, tória do homem, o diálogo e a integração entre teoria
porque ensinar a voar não se pode, já que “o vôo já e prática, reflexões e fazeres; entre o pensar, o sentir
e o agir. Isso se busca por meio da estratégia do livre
nasce dentro dos pássaros.” (ALVES, 2001).
percurso de aprendizagem. A programação da UMAPAZ
Cada pessoa que chega a UMAPAZ traz consigo uma é oferecida a qualquer cidadão jovem, adulto ou ido-
bagagem de conhecimentos explícitos e, também, so, independentemente de sua formação e ocupação,
de conhecimentos tácitos. Transformar conhecimen- como uma mandala na qual é possível caminhar a par-
tos tácitos em explícitos é uma tarefa que implica tir de escolhas. Uma pessoa pode ser atraída por uma
ir além da mera reprodução dos saberes reconheci- proposta que envolva atividades lúdicas, de saúde,
dos formalmente. Sabemos que tanto um sociólogo, artísticas ou reflexivas. A partir dessa escolha, com o
como um biólogo ou um dançarino têm conhecimen- fio condutor da Carta da Terra, que tem como núcleo o
tos atestados e, de alguma forma, “autorizados” respeito à vida e eixos a integridade ecológica, a justi-
para reprodução. Mas têm, também, sua própria ça economica e social e a democracia e cultura de paz,

36
pode navegar segundo seus interesses e possibilida- visão da unidade na diversidade e da diversidade que
des, montando seu próprio desenho de desenvolvimen- compõe a unidade, fundamento de uma prática so-
to, com o apoio dos integrantes da equipe. cial integrada, cooperativa e solidária.
A UMAPAZ busca proporcionar um espaço para vi- Para facilitar esse processo é preciso considerar e
vência e reflexão na busca de novas aprendizagens acionar as “caixas de brinquedos e de ferramentas”104
de uma ação transformadora entre o personagem e o de cada um, Não uma ou outra, mas uma e outra,
ser, sugere e propõe a liberdade de escolha e a pos- transformando uns e outros e uns em outros, de modo
sibilidade do uso desse método como instrumento a despertar e desenvolver o prazer dessa aventura-
auxiliar para redimensionar a temática do universo ventura compartilhada de ensinar e aprender.
do individuo em suas inquietações em seus proces-
Rubem Alves diz que engendrou essa metáfora das cai-
sos de aprendizagem. Os aspectos pessoais, sociais,
xas a partir da reflexão filosófica de Santo Agostinho
educacionais, culturais dentre outras escolhas do
sobre a ordem do “uti”, do que é útil, utilizável, uten-
ser humano têm duas importantes características:
sílio, e a ordem do “frui’, do fruir, usufruir, desfrutar,
a razão e a emoção. A metodologia do livre per-
amar uma coisa por ela mesma. “As coisas da caixa de
curso de aprendizagem proporciona que o indivíduo
experimente, tenha experiências onde o corpo, o ferramentas, do poder, são meios de vida necessários
pensamento e as sensações se manifestem espon- para a sobrevivência”, diz Alves. A ciência está nessa
taneamente no processo de aprender, de construir categoria, pois além de ensinar o uso das ferramentas
conhecimentos, por meio de fazeres e saberes que inventadas guarda o saber de como se fazem as ferra-
despertem e desenvolvam o encanto misterioso do mentas, para que continuemos inventando. Mas, alerta
sonhar, do brincar, equilibrando razão e emoção. o autor, as ferramentas não nos dão razões para viver,
são chaves para abrir a caixa dos brinquedos, onde es-
À medida que inicia qualquer atividade de aprendi- tão as coisas que geram alegria: poesia, música, pintu-
zagem na UMAPAZ o indivíduo pode ir despertando ra, escultura, dança, teatro, culinária...
e relacionando necessidades e desejos de aprender,
numa crescente interação, ajustando os desejos à A UMAPAZ trabalha com a perspectiva de que é
sua inquietude, fazendo sua livre escolha de como possível – e desejável - misturar o conteúdo des-
quer estar na vida. Por isso o uso da mandala103 como sas caixas para apreender com alegria, para se en-
imagem-metáfora dessa proposta, que se compõe cantar e compreender ao mesmo tempo, começando
de círculos e desenhos que se interpenetram e con- por onde cada um puder, seguindo a borboleta azul.
duzem a atenção ao espaço central, do indivíduo, Conta Marina Silva105 que seu tio ensinava que se al-
do grupo ou do universo, simbolizando integração e guém se perdesse “e visse uma borboleta azul, era
unidade. Essa imagem pode ser utilizada para sim- só segui-la que ela nos levaria para a clareira mais
bolizar o processo de diálogo dinâmico e consciente próxima e de lá acharíamos o caminho de casa.”. En-
entre práticas e saberes de cada indivíduo, capaz de canto. Essa grande borboleta da floresta gosta de
gerar uma visão mais abrangente e integradora do pousar em frutas como banana e mamão maduros e
seu próprio ser e atuação no mundo. E, também, por busca clareiras onde haja um roçado de frutas. “E lá
meio de oportunidades de compartilhamento desse perto, certamente haverá uma casa.” Entendimento.
processo em grupo, que valoriza as experiências e
os achados de cada um, propiciar a ampliação da 104 | A metáfora da caixa de brinquedos e da caixa de
ferramentas é do Rubem Alves. O texto está disponível
103 | A mandala é uma imagem recorrente em muitas cul- em www.rubemalves.com.br/resumindo.htm.
turas primitivas e modernas (hindu, chinesa, grega, egípcia, 105 | Do texto “Atrás de uma Borboleta Azul” de Marina
islâmica, tibetana, asteca, aborígene, européia), em todos Silva, professora de história, ex-senadora pelo Acre, ex-
os continentes. Carl Jung a ela se refere em O homem e Ministra do Meio Ambiente do Brasil, publicado em 15 de
seus símbolos (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006). julho de 2008 pelo portal http:terramagazine.terra.com.br.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 37


Ao trabalhar com encantamento e entendimento106 articulação, pois a associação, no caso da UMAPAZ,
abre-se perspectiva de considerar o ser integral, com não é uma fase, mas sua própria natureza.
as capacidades dos dois lados do cérebro e as diferen-
Numa cidade complexa e com milhões de habitantes
tes dimensões da ecologia, inclusive a interna. Abre-se,
há muito por fazer no campo da educação socioam-
também, a possibilidade de experimentar uma prática
biental e cultura de paz. A UMAPAZ é, apenas, um
transdisciplinar, que não se limita à justaposição ou
semeador entre muitos outros, confiando, com hu-
composição de saberes, mas que, respeitando as con-
mildade, na capacidade de convivência sustentável,
quistas dos saberes disciplinares, busca um diálogo
saudável e pacífica dos cidadãos que vêm partici-
ativo entre eles na contemplação e na ação de uma
pando, em muitos grupos e instituições, do fomento
realidade que é, ao mesmo tempo, inteira e complexa.
a esse esforço coletivo de transformação.
Além disso, com a confiança de que “caminhos não
No momento em que essa publicação é produzida
há, mas os pés na grama os inventarão”107, estimula-
estamos na fímbria de uma nova mudança de gover-
mos nossos ensinadores/aprendizes a serem agen-
no, no âmbito do processo democrático. É um dos
tes de transformação, para serem a mudança que
motivos de recontarmos a história, pois a memória
querem ver no mundo108 Essa é sempre uma diretriz,
é filha do presente e “como seu objeto é a mudan-
porém, em alguns cursos buscamos apoiar persis-
ça, se lhe faltar o referencial do passado, o presen-
tentemente grupos que se constituem a partir de ex-
te permanece incompreensível e o futuro escapa a
periências e encontros propiciados pela UMAPAZ109.
qualquer projeto.”(MENEZES, 1992:14) E, como nos
O desenvolvimento e a diversificação da programa- lembra Prigogine, “a realidade é somente uma das
ção geraram diversos grupos: gaianos (quinhentas realizações do possível. O futuro se inclui aí. O futuro
pessoas capacitadas em design de sustentabilida- é um dos possíveis futuros” (PRIGOGINE, 2003, p.56).
de), carteiros da Terra (quatrocentas pessoas ca-
Uma mesma história sempre pode ser contada de
pacitadas como agentes socioambientais urbanos,
muitas formas, dependendo do ponto de vista do
dezenas de outros grupos – a turma da Dança, a tur-
contador. Isso sabemos, pois, uma das nossas espe-
ma dos Valores Indígenas, a turma do Semeando, a
cialidades na UMAPAZ é contar histórias, ensinar e
turma da Economia Nova, a turma da Especialização
aprender a contar histórias.
em Arte, Ecologia e Sustentabilidade, a turma do
Barro, a turma da Educação Transdisciplinar  - pe-
quenas tribos que se interconectam, fortaleceu, pela
própria metodologia do livre percurso de aprendi-
zagem na mandala em cujo centro vibra o respei-
to à vida  Eventos periódicos buscam animar esses
grupos, acessados por internet em grupos fechados,
pelo blog e pelo mailing. É necessário persistir nessa
106 | Ver em Depoimentos como professores/alunos da
UMAPAZ visualizam essa abordagem metodológica.
107 | Fragmento de poema de Ferreira Gullar, Poemas
Portugueses (4).
108 | Como o ensinamento de Gandhi de que “devemos
ser a mudança que queremos ver no mundo”.
109 | É o caso do Curso Gaia e do Curso Carta da Terra,
nos quais o participante realiza um estágio ou trabalho
local, que é registrado e compartilhado com os respec-
tivos grupos.

38
Referências Bibliográficas MENEZES, Ulpiano Bezerra de
A História, cativa da memória? Para um mapea-
ALVES, Rubem mento da memória no campo das Ciências Sociais
Gaiolas e Asas, jornal Folha de S. Paulo, Tendên- in Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 34,
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JACOBI, Pedro R. Paulo: Editora Antroposófica Ltda. 2005
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um pensamento crítico, complexo e reflexivo. Edu-
cação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 233-
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MATURANA, Humberto
Emoções e Linguagem na Educação e Política,
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dhnet.org.br/direitos/direitosglobais/paradigmas/
maturana/oqueeeducar.html

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 39


A CARTA DA TERRA
EM AÇÃO EM SÃO PAULO
Rose Marie Inojosa110, Eveline Limaverde Costa111 e Marina Cintra de Freitas112

Resumo Abstract
Este texto trata do trabalho da Universidade Aberta This text deals with the work of the Open University
do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UMAPAZ) com a of the Environment and Culture of Peace (UMAPAZ)
Carta da Terra, como o discurso orientador do traba- with the Earth Charter as the guiding discourse of
lho de educação ambiental da Universidade Aberta, environmental education at the Open University, de-
descreve e comenta como a Carta da Terra foi colo- scribes and comments on how the Earth Charter was
cada em Ação na cidade de São Paulo, por meio de put into action in São Paulo, through two programs:
dois programas: o de Difusão da Carta da Terra na the Diffusion of the Earth Charter in the municipal
rede municipal de educação de São Paulo e Carta da education of São Paulo and the Earth Charter in Ac-
Terra em Ação. Ao final o item bibliografia e outras tion at the end of the bibliography records and other
referências é utilizado para identificar parte dos au- references that have been used as references for
tores e obras que têm sido utilizados como referên- programs .
cias para os Programas. Keywords: Earth Charter, carteiros, methodology,
Palavras-chave: Carta da Terra, carteiros, metodo- training, urban environmental agents.
logia, formação, agentes socioambientais urbanos

110 | Coordenadora da UMAPAZ (2006-2012) e coordenadora geral dos Programas (rosemarieinojosa@bol.com.br).


111 | Coordenadora executiva do Programa Carta da Terra em Ação em todas as suas oito edições (2009-2012) educadora e
tecelã das relações internas de cada turma e entre as turmas, mobilizadora da rede de carteiros.
112 | Estagiária da UMAPAZ, aluna do último semestre do Curso de Administração, com foco em Gestão Ambiental, do
SENAC/SP.

40
1. Introdução fundamentos do desenvolvimento sustentável, pro-
pondo, assim, uma mudança de paradigma.
A Carta da Terra, como discurso orientador do traba-
Na Rio92113, integrantes da Cúpula da Terra, que
lho de educação ambiental da UMAPAZ, é o tema de
reuniu grupos diversos de atores da sociedade civil,
abertura destas reflexões.
começaram a produzir a declaração que viria a ser a
A seguir, são apresentados dois programas da UMA- Carta da Terra114. Dois anos depois, em 1994, Mauri-
PAZ que trabalham especificamente com a Carta da ce Strong, presidente do Conselho da Terra, e Mikhail
Terra: o Programa de Difusão da Carta da Terra na Gorbachev, presidente da Cruz Verde Internacional,
rede municipal de educação e o Programa Carta da assumiram a implementação da iniciativa, iniciando
Terra em Ação. São programas concebidos a partir uma série de consultas internacionais para a formu-
da visão da potência da Carta da Terra para inspirar, lação da Carta da Terra. Progressivamente, vários
orientar e estimular a análise crítica das situações grupos foram se agregando à Iniciativa da Carta da
socioambientais e resultar em ações cooperativas Terra e formando comitês nacionais, que alcançaram
na comunidade, capazes de contribuir para um novo 45 países, o que demonstra a riqueza do movimento
paradigma de convivência, sustentável e pacífica. e a delicadeza necessária para encontrar consensos
em diferentes culturas. Em março de 2000, a Comis-
Assim, no segundo capítulo, é abordado o programa são da Carta da Terra se reuniu em Paris, França,
voltado para educadores da rede municipal de edu- para acordar a versão final do documento, e o lan-
cação, tendo como subitens o histórico da parceria çamento oficial ocorreu em junho, no Palácio da Paz,
entre as áreas de meio ambiente e da educação da em Haia115.
prefeitura de São Paulo, a organização da primeira
O resultado é um código de ética para a convivência
fase do programa em 2007/2008, em todas as Dire-
planetária, que propõe e orienta uma mudança de
torias Regionais de Educação (DRE) e a organização
paradigma, com vistas à construção de uma socie-
e o desenvolvimento do trabalho na sua segunda
dade global sustentável, com respeito à vida, mais
fase, nas DRE, em 2011.
equânime e pacífica. A partir do respeito à vida – a
No terceiro capítulo, é apresentado o Programa todas as formas de vida, seu ponto fulcral, a Carta
Carta da Terra em Ação, aberto a pessoas de várias da Terra desenvolve, como eixos interdependentes e
faixas etárias, ocupações e regiões de origem, abor- complementares: a integridade ecológica; a justiça
dando conteúdos, metodologias, perfil e manifesta- social e econômica, a democracia; a cultura de paz
ção dos participantes. e não violência.
Ao final apresenta um elenco de referências biblio- A Carta da Terra apresenta à humanidade os desa-
gráficas, vídeos e sites que têm sido utilizados nos fios presentes e futuros e é um chamado a novas
Programas. escolhas e à responsabilidade coletiva dos habi-
tantes do planeta. Por isso, o documento deflagrou,
também, um movimento de mobilização e de ação.
2. A Carta da Terra
As propostas do movimento Carta da Terra apontam
A Carta da Terra é um documento e um movimento. para mudanças profundas na sociedade, inclusive no
A sua formulação teve origem em recomendação fei- 113 | Conferência Internacional do Meio Ambiente, reali-
zada, em 1992, no Rio de Janeiro.
ta, em 1987, no relatório da Comissão Mundial sobre
114 | Reproduzida por Moacir Gadotti no livro A Carta da
Meio Ambiente e Desenvolvimento, das Nações Uni- Terra na Educação.
das, a chamada Comissão Brundtland, para a criação 115 | Essa história é relatada nos sites www.cartadater-
de uma declaração universal que estabelecesse os rabrasil.org.br e www.earthcharterinaction.org.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 41


sistema educacional, pois questionam padrões de 2. O Programa Difusão da Carta
comportamento e valores. Trazem o desafio de abor- da Terra na Rede Municipal da
dar questões existenciais que há muito tempo es-
Educação
tão distantes do cotidiano da maioria das pessoas e
que precisam ser novamente trazidas para o diálogo Este capítulo trata da difusão da Carta da Terra na
consciente. Nesse sentido coloca-nos a todos como rede municipal de educação, por meio de parceria
aprendizes dessa realidade que a família humana entre as áreas de Educação e do Verde e Meio Am-
forjou e também como os agentes de transformação, biente da Prefeitura de São Paulo. Apresenta a arti-
construtores do futuro: culação do programa, sua organização, dinâmica e
conteúdos e a avaliação dos educadores da rede em
“A ciência está em transição, “a noção de
relação ao programa e a própria difusão dos valores
complexidade desempenha um papel impor-
e práticas inspirados pela Carta da Terra.
tantíssimo (...) Todo mundo percebe que a
complexidade está ligada à multiplicidade de
comportamento, a sistemas cujo futuro não se 2.1 A Articulação do Programa
pode prever, como se pode prever o futuro de Em junho de 2007, com a mediação de Mirian Vile-
uma pedra que cai”. (...) a complexidade nos la116, brasileira, diretora executiva da Secretaria
conduz a uma nova forma de racionalidade Internacional da Carta da Terra, foi firmado um com-
que ultrapassa a racionalidade clássica do de- promisso da Prefeitura de São Paulo, articulando o
terminismo e de um futuro já definido. E o fato Secretário do Verde e Meio Ambiente e o Secretário
de que o futuro não está determinado é, para da Educação117, com o objetivo de intensificar a difu-
mim, um sinal de esperança, porque o passado são da Carta da Terra na rede municipal de educação.
é um passado de violência e de sangue. Por-
A partir dessa decisão, técnicos das equipes das
tanto, a meu ver, podemos falar de um futu-
duas Secretarias118 começaram a desenhar o Progra-
ro que se faz, de um futuro em construção.”
Ilya Prigogine in O fim da Certeza in MENDES, 116 | Brasileira, Mestre em Administração Pública pela
Cândido (org) Representação e Complexidade, Universidade de Harvard (EUA), radicada na Costa Rica,
é Diretora Executiva da Secretaria Internacional da Car-
Garamond: Rio de Janeiro, 2003, p.50)
ta da Terra e do Centro de Educação para o Desenvolvi-
A UMAPAZ reconheceu-se como um ator desse mo- mento Sustentável da U-Peace – Universidade da Paz,
vinculada à ONU. Trabalha, desde a década de 90 com a
vimento de construção do futuro, entendendo que Carta da Terra, tendo participado de todo o processo de
se trata de mudanças de atitudes e valores que le- produção do documento, trabalhando na ONG Conselho
vam tempo e implicam esforço continuado. Reconhe- da Terra, do canadense Maurice Strong, que foi secretá-
rio geral da Conferência Internacional Rio92. A partir de
ceu, também, a importância dos espaços de educa-
2007 assumiu a função executiva na Secretaria Interna-
ção formal e informal para que o caminho apontado cional da Carta da Terra, empenhando-se em promover a
pela Carta da Terra possa transformar-se em uma sua difusão em muitos países.
possibilidade e uma opção para cada pessoa e gru- 117 | A reunião citada, em São Paulo, ocorreu em um
Seminário sobre a Carta da Terra, na Amana-Key, sob a
po integrante da família humana. E, nesse sentido,
coordenação de Oscar Montomura. Assinaram o compro-
além de acolher a Carta da Terra como elemento misso o Prefeito Gilberto Kassab (2006-2012), o Secre-
orientador de toda a sua programação, desenvolveu tário Municipal da Educação Alexandre Schneider (2005-
dois programas específicos para a sua difusão, um 2012) e o Secretário Municipal do Verde e Meio Ambiente
Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho (2005-2012).
deles focalizando os educadores da rede municipal
118 | A UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambien-
de educação e outro aberto a cidadãos interessados te e da Cultura de Paz, da Secretaria do Verde e Meio
em tornarem-se agentes socioambientais urbanos. Ambiente, de São Paulo, já se orientava pela Carta e,

42
ma de Difusão da Carta da Terra na rede municipal de Figura 1. Logotipo do Programa Difusão da Carta
educação de São Paulo, tendo por propósito: difundir da Terra na rede municipal de educação.
os valores e princípios da Carta da Terra na rede mu-
nicipal de educação, contribuindo para a promoção
do equilíbrio e da sustentabilidade sócio ambiental.
A dinâmica escolhida para a parceria foi promover
Encontros sobre os princípios e conteúdos da Carta
da Terra, entre educadores da rede municipal de edu-
cação, especialmente coordenadores pedagógicos e
diretores de escolas – pela sua capacidade de multi-
plicação e influência – e educadores socioambientais
da UMAPAZ – Universidade Livre do Meio Ambiente
e da Cultura de Paz, visando a sua aplicação nos pro-
jetos pedagógicos e atividades das escolas da rede
pública municipal, que atingem cerca de um milhão
de crianças e adolescentes.
A primeira ação da parceria foi a reprodução de 65
mil exemplares da Carta da Terra para distribuição
para todos os professores da rede municipal de
educação119.
Em seguida, as equipes das duas Secretarias articu- Fonte: Assessoria de Comunicação da SVMA
laram a forma de realização do programa, iniciando
com reuniões em cada uma das treze diretorias re- O Programa teve duas fases intensivas. A primeira
gionais da educação, para informar sobre o progra- de setembro de 2007 até outubro de 2008, quando
ma e definir, com elas, a dinâmica do processo e o foram realizados treze reuniões de divulgação121 e
perfil das turmas120. dez Encontros sobre a Carta da Terra para cada uma
das 42 turmas constituídas. A segunda, de agosto a
dezembro de 2011, com quatro Encontros, para cada
na rede municipal de educação, também havia escolas
que trabalhavam com ela, porém, não havia um trabalho uma das 23 turmas de educadores. No intervalo dos
conjunto orientado pelos seus valores e conteúdos. Encontros e em 2012, a UMAPAZ manteve a oferta
119 | “A rede municipal de ensino da cidade de São Paulo de um conjunto de cursos e programas aos educado-
é o maior sistema do país, com quase um milhão de alu- res, visando a manter a mobilização.
nos, 9,2% dos 10,8 milhões de habitantes da cidade (...)
com mais de 84,6 mil funcionários, entre educadores e
pessoal de apoio, a rede tem 1449 escolas sob adminis- 2.2 A organização do programa
tração direta da Secretaria Municipal da Educação (....)”
Fonte: http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br. As primeiras ações do Programa tiveram início no dia
120 | Os interlocutores da Secretaria Municipal de Edu- 3 de setembro de 2007, quando foi feita a primeira
cação para o desenvolvimento do Programa foram: Emí-
lia Emirene Nogueira (2007-2008); Renata V. Rodel (até das 13 reuniões regionais de divulgação do projeto
fevereiro de 2008) Marisa Ricca Ximenes, Benedita Tere- para os diretores das escolas da rede municipal nas
zinha Rosa de Oliveira e os Diretores Regionais de Edu- respectivas Coordenadorias de Educação do Municí-
cação, que designaram assessores para o acompanha-
mento do Programa em cada uma das treze regiões. Pela 121 | Houve uma reunião em cada uma das 13 Diretorias
Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente os inter- Regionais de Educação, cada uma responsável por um
locutores foram a coordenação e a equipe da UMAPAZ. conjunto de escolas nas regiões da cidade de São Paulo.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 43


pio122. Por meio dessas reuniões foram sensibilizados Os Encontros tiveram um enfoque pró-ativo, possi-
877 participantes, de 1321 unidades escolares123. bilitando que, em conjunto, os educadores se debru-
çassem sobre a coerência entre o discurso que faze-
Essas reuniões regionais resultaram nas decisões de
mos ou defendemos e a prática que temos enquanto
realizar o programa com diretores, coordenadores
cidadãos e educadores.
pedagógicos ou outros representantes das escolas,
com capacidade de influenciar a proposta pedagógi-
ca e as atividades das respectivas escolas, junto a 2.3 Os conteúdos e dinâmicas
comunidade escolar (docentes, discentes e pais); de
Os Encontros foram desenhados como espaços de
formar turmas com 20 a 25 educadores, por região,
compartilhamento de experiências e de reflexão
sem obrigatoriedade de participação; realizar 10 En-
sobre as orientações da Carta da Terra e as possi-
contros mensais, de quatro horas de duração cada
bilidades de sua aplicação nas práticas educativas.
um, entre educadores da rede e educadores am-
Buscou-se o equilíbrio entre momentos de reflexão
bientais da UMAPAZ, para compartilharem reflexões
teórica sobre os fundamentos filosóficos e paradig-
sobre os princípios da Carta da Terra, sendo que os
máticos que norteiam a ação do educador e momen-
encontros deveriam ser realizados nas regiões das
tos voltados para análise da situação atual das es-
Coordenadorias, em locais por elas definidos.
colas e para o diagnóstico dos principais obstáculos
Desse modo, foram constituídas 42 turmas de edu- para a superação dos desafios.
cadores da rede municipal de educação pelas Di-
Em cada Encontro foi oferecido pela equipe de edu-
retorias Regionais de Educação e mobilizada uma
cadores ambientais um referencial teórico, insumo
equipe de 12 educadores ambientais da UMAPAZ124,
para as dinâmicas de grupo e plenárias, a fim de
encarregada de preparar materiais – exposições e
ampliar percepções sobre a interdependência entre
textos de autores de referência - para os Encontros.
seres humanos e a biosfera; a responsabilidade da
Em 1 de outubro de 2007 iniciaram-se os Encontros
sociedade atual com as futuras gerações; e as con-
de Difusão da Carta da Terra, com cada uma das tur-
seqüências dos hábitos de consumo sobre o cenário
mas, nas 13 regiões125.
socioambiental atual126..
122 | Essas reuniões de abertura e sensibilização foram Na dimensão prática, os participantes foram intro-
coordenadas por Diogo Alvim Gonçalves, biólogo, coor-
duzidos na aplicação da metodologia da Pegada
denador executivo do programa pela UMAPAZ.
Ecológica, que dimensionaram, nas suas respectivas
123 | Sendo 375 EMEI (Escolas Municipais de Educação
Infantil); 268 EMEF (Escolas Municipais de Ensino Fun- escolas, a pegada ecológica referente aos resíduos e
damental), 217 CEI (Centros de Educação Infantil), 15 às áreas verdes. Para isso foram desenvolvidas pla-
CIEJA (Centro de Educação de Jovens e Adultos) e mais nilhas que auxiliaram o levantamento de dados e a
6 outras unidades, inclusive uma de Cultura Indígena.
sua posterior análise, com identificação de aspectos
124 | Composta por educadores ambientais com dife-
rentes formações básicas: Rose Marie Inojosa, comu- que podem ser modificados e melhorados em rela-
nicóloga, coordenadora da UMAPAZ; Diogo Alvim Gon- ção aos resíduos e às áreas verdes. O propósito da
çalves, biólogo, coordenador do programa; André Luis aplicação dessa metodologia foi o estímulo à intro-
Moura de Alcântara, sociólogo; Camila Tolosa Bianchi,
bióloga; Eliana Sapucaia Rizzini, bióloga; Georges Fou-
ad Kherkakian, economista; Glacilda Pinheiro Correa dirigentes das Diretorias Regionais de Educação.
Pedroso, pedagoga; Márcia Halluli Meneh, arquiteta; 126 | Para isso a equipe de educadores ambientais da
Márcia Moura, assistente social; Maricy Montenegro, UMAPAZ reunia-se semanalmente construindo e recons-
psicóloga; Shirley Daisy Pelliciari, pedagoga; Vitor Octá- truindo os conteúdos e formatando dinâmicas e formas
vio Lucato, biólogo e ecólogo. de sensibilização. Esse material foi disponibilizado pela
125 | Esses encontros precursores foram realizados pelo internet a todos os educadores e publicado em um livre-
biólogo Daniel Alvim Gonçalves tendo como parceiros os to e um CD contendo os arquivos em power-point.

44
dução de novas práticas na escola, para a separação No segundo Encontro foi abordada a temática da
e destinação correta de resíduos e, com o apoio da Biodiversidade e sua importância, recuperando-se as
equipe da UMAPAZ e dos Núcleos Descentralizados, noções de Ecologia Profunda (Arne Naess), Biofilia
implantar hortas e fazer plantios. (Edward Wilson) e Saber cuidar (Leonardo Boff). Fo-
Durante o processo de trabalho, foi realizado um es- ram trabalhados os princípios de “Respeitar a Terra e
forço de articulação com outras instituições e gru- a vida em toda sua diversidade” e de “Cuidar da comu-
pos públicos e privados, para os desdobramentos do nidade da vida com compreensão, compaixão e amor”.
Programa, como reuniões com a LIMPURB (Departa- No terceiro Encontro, ainda dentro do primeiro princí-
mento de Limpeza Pública da Secretaria Municipal pio, foram trabalhadas diferentes abordagens peda-
de Serviços), solicitando um circuito de coleta sele- gógicas, usando como tema Diversidade de Olhares
tiva nas escolas; com o Instituto Verdescola127, que sobre Educação, com a escolha de sete autores que
foi parceiro na realização de um seminário com os se debruçam sobre o tema da educação: Moacir Ga-
educadores e com o grupo Educomunicação128, da dotti (ecopedagogia), Edgar Morin (complexidade e os
própria Secretaria Municipal de Educação. sete saberes da educação do futuro), Roberto Crema
Os temas abordados são articulados com os quatro (educação e vocação), Krishnamurti (educação sem
princípios da Carta da Terra, a saber: Respeitar e disciplina), Sai Baba (pedagogia do amor), Howard
Cuidar da Comunidade da Vida; Democracia Não vio- Gardner (inteligências múltiplas) e Fritjof Capra (teia
lência e Cultura de Paz; Integridade Ecológica; Jus- da vida e alfabetização ecológica). As diferentes vi-
tiça Social e Econômica. sões foram trabalhadas em grupo e plenárias. Além
das reflexões, foram realizadas dinâmicas para traba-
No primeiro Encontro foram abordadas as perspec-
lhar as planilhas de resíduos e do verde na escola. E,
tivas e a responsabilidade da família humana face à
finalmente, a temática da “cultura do desperdício”, já
situação do Planeta e da comunidade da vida, que
em resposta aos primeiros dados trazidos pelos par-
permeiam todos os princípios e propósitos da Car-
ticipantes na pegada dos resíduos na escola.
ta da Terra, consolidados na noção de interdepen-
dência. Como referencial de apoio, foram utilizados No quarto Encontro, em fevereiro, foram focaliza-
autores como Fritjof Capra, Edgar Morin e Leonardo das as bases da Cultura do Consumo e Cultura do
Boff e outros. Também foi utilizado o filme “Hope” Desperdício, com apoio em autores como Zigmunt
para dialogar sobre as escolhas da humanidade. Bauman, Gilberto Dupas e Ervin Laszlo. Neste mo-
Neste Encontro foi introduzida, a ferramenta da pe- mento dialogou-se sobre a relação entre consumo,
gada ecológica escolar para resíduos. felicidade e sustentabilidade, trabalhando as inter-
O segundo e terceiro Encontros focalizaram o pri- faces entre nossa sociedade de consumo ocidental
meiro princípio da Carta da Terra “Respeitar e Cuidar e seus impactos socioeconômicos e culturais mais
da Comunidade de Vida”. abrangentes. Da mesma forma foi abordada a publi-
cidade e sua influência na criação de necessidades
127 | www.verdescola.org. e na perpetuação do consumo enquanto fim em si
128 | O grupo Educomunicação, coordenado por Carlos mesmo, bem como seus reflexos sobre a construção
Lima, com equipes de alunos da rede municipal de edu- da personalidade das nossas crianças.
cação, tem o objetivo de contribuir para que as escolas
da rede utilizem o rádio e o jornalismo no processo pe- No quinto Encontro, a reflexão foi sobre a Diversida-
dagógico. Teve uma significativa participação no proces- de Humana, tendo como tema central foi o conceito
so, participando e apoiando várias reuniões e eventos, de cultura e conversando sobre sua influência sobre
incentivando e oferecendo apoio às escolas para implan-
tar educomunicação e criando o e.group educomunica- nossas construções sociais. Este encontro teve o
caoambiental@googlegroups.com. propósito de suscitar o dialogo sobre a unidade que

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 45


reside na diversidade e vice-versa. Foram estimu- Para o oitavo Encontro a temática foi a Economia
ladas reflexões sobre nossa diversidade cultural e Solidária, com o objetivo de demonstrar as bases
nossa unidade genotípica, com o intuito de ampliar do sistema econômico atual como representantes
nosso censo de identidade em perspectiva histórica de um sistema insustentável e autodestrutivo. Em
com o nosso planeta. Foram utilizados como refe- seguida, iniciou-se um diálogo sobre os princípios e
renciais idéias propostas por Levi Strauss, Varella e valores de outro sistema econômico possível, base-
Maturana, Martin Luther King Jr. A inovação desse ado na abundância, na cooperação e na humanização
Encontro foi trabalhar com os participantes as res- do ser humano. Um sistema onde sejam valorizados
pectivas árvores genealógicas não com os nomes os laços econômicos de proximidade e circuitos lo-
dos antepassados, mas com suas origens étnicas e cais de troca de bens, serviços e produtos. Foram
culturas. Esse processo tem importância particular trabalhadas idéias de Marcus Arruda, Euclides Man-
em São Paulo devido a extraordinária miscigenação ce e Ignacy Sachs. Foram analisadas as fotografias
étnica e cultura da formação do povo e serve para do livro: Hungry Planet, de Peter Menzel e Faith
uma reflexão profunda sobre a cidadania planetária. D´Aluisio. Como prática, foram realizadas feiras de
No sexto Encontro, foi aprofundada a abordagem so- trocas solidárias.
bre a diversidade humana especificamente no Brasil e Entre o oitavo e o novo Encontro foi realizado o 1º
em São Paulo. Para trabalhar a Diversidade no Brasil Seminário “Carta da Terra e Ecopedagogia: a escola
e em São Paulo, foi realizada uma retrospectiva histó- e o educador no mundo da interdependência e cida-
rica, nossa formação étnica cultural baseada na mis- dania global, nos dias 28 e 29 de junho, em parceria
cigenação e singularidades regionais, usando como com o Instituto Verdescola. O Seminário teve o ob-
referencial teórico, autores como Darcy Ribeiro, Ro- jetivo de apresentar iniciativas de escolas da rede
berto Gambini e Kaká Verá Jecupé. Nesse Encontro, municipal de educação que contribuem para uma
cada participante construiu a árvore genealógica de educação sustentável e promover a troca de expe-
sua família, não pelo nome, mas pela origem de cada
riências entre as escolas participantes do programa.
componente. Essa dinâmica, especialmente em São
Cada escola pôde inscrever um trabalho ou projeto
Paulo, mostra com clareza nossa composição multi-
realizado ou em fase de realização no âmbito esco-
étnica e as ondas de imigração e migração que foram
lar, nas áreas de educação ambiental e de cultura de
moldando os brasileiros de São Paulo.
paz. A exposição dos trabalhos no evento foi múl-
No sétimo Encontro, o tema foi a Cultura de Paz tipla: exposição oral, banners, apresentações tea-
e a Resolução Pacífica de Conflitos. A idéia foi trais, musicais, performances.
conectar toda ampliação da noção de identidade
No nono Encontro, posterior ao 1º Seminário Carta
humana trabalhada nos dois encontros anteriores
da Terra e Ecopedagogia, foi trabalhado o desafio:
com ferramentas praticas de gestão de conflitos
Da Sensibilização para a Mobilização. Para tanto os
de forma pacífica. Os temas trabalhados foram
participantes se debruçaram sobre o sentido de per-
mediação de conflitos, conciliação e negociação,
tencimento a um território e a necessidade de am-
fechando com a apresentação do modelo da co-
pliarmos nossa percepção para ativar potencialida-
municação não violenta e dialogo temático, recu-
perando Xesus Jares. Lia Diskin, Johan Galtung e des latentes no próprio território. Utilizou-se como
Marshall Rosenberg entre outros129. dinâmica o exercício das trilhas urbanas interpreta-
tivas e também textos de autores como Edgar Morin,
129 | Nesse momento, em junho de 2008, Mirian Vile- Milton Santos e Rubem Alves.
la esteve no Brasil e pudemos fazer um encontro para
aproximar essas ações do movimento internacional da No décimo e ultimo Encontro, refletiu-se sobre o
Carta da Terra. papel do Educador como Modelo, como uma refe-

46
rência importante para os educandos. A idéia cen- sendo que nesse período foram realizados cursos
tral residiu no fato de que educamos pelo exemplo, ou dinâmicas, como Lições da Árvore, Minicursos de
pelas ações e isso amplia nossa responsabilidade jardinagem, Minhocário, Danças Circulares, Tai-Chi,
de trabalharmos em nós mesmos as dimensões que Contação de histórias e Mediação de conflitos, nos
percebemos mais frágeis e de assumirmos nossos CEUs Veredas, Caminho do Mar, Perus, Butantã, Ja-
limites enquanto educadores e seres humanos. Mo- çanã, Sapopemba, Alvarenga, entre outros.
bilizamos para amparar essas reflexões as idéias de
A partir de 2009, a rede municipal de escolas passou
Fátima Freire Dowbor entre outros. E foi utilizado o
a contar com mais um interlocutor e apoio, por meio
curta metragem australiano “Children see, children
da expansão de quatro para dez Divisões de Gestão
do”130. Uma das dinâmicas foi propor que cada par-
Descentralizada da Secretaria Municipal do Verde e
ticipante buscasse se lembrar de um educador que
Meio Ambiente.
tivesse marcado sua vida e por que.
Além disso, organizações não governamentais tive-
No dia 13 de Outubro de 2008, foi realizado um Café
ram projetos para realização em escolas aprovados
do Futuro como evento de encerramento da etapa de
pelo FEMA (Fundo Especial do Meio Ambiente) da
2008 do Programa de Difusão da Carta da Terra na
SVMA. Entre eles, o Instituto Gea – Ética e Meio
rede municipal de educação, realizado na sede UMA-
Ambiente134, que trabalhou, com dez escolas de
PAZ – Universidade Livre do Meio Ambiente e da
Itaquera, em 2010/2011, um projeto integrado de
Cultura de Paz, no Ibirapuera131. Nesse evento, 250
sustentabilidade.
educadores participaram de duas vivencias, o Café
do Futuro e a Feira de Trocas. O Café do Futuro foi Em 2011, a Secretaria Municipal do Verde e Meio Am-
realizado com a metodologia do world café132, ten- biente propôs à Secretaria Municipal de Educação a
do como tema a Cidadania do Futuro. As perguntas retomada dos Encontros em todas as Diretorias Re-
para o dialogo foram: Como seria o “melhor” cidadão gionais de Educação, para realimentar a rede. Mercê
para o futuro que você pode imaginar? e O que você de um diálogo ativo da UMAPAZ com a assessoria da
acha que pode fazer para contribuir com a formação Diretoria de Orientação Técnica (DOT) da Secretaria
deste cidadão? A segunda vivência foi a Feira de Tro- Municipal de Educação, foi possível programar essa
cas solidárias a partir dos bens, produtos e serviços segunda etapa, com quatro Encontros, a serem rea-
que os educadores trouxeram para trocar. lizados em cada uma das 13 DRE, para uma turma no
período da manhã e outra à tarde, de modo a atender
Com o encerramento dessa fase, a UMAPAZ conti-
as possibilidades de horários dos profissionais.
nuou acompanhando projetos na rede municipal de
educação e acolhendo demandas para cursos, pales- Para viabilização dos encontros a Secretaria Muni-
tras e parcerias pontuais de escolas da rede. O tra- cipal de Educação (SME) definiu um elenco de res-
balho direto da UMAPAZ passou a ser mais requisi- ponsáveis pela organização e acompanhamento das
tado pelos Centros de Educação Unificados (CEU)133, turmas135, e a UMAPAZ, da Secretaria Municipal do

134 | www.institutogea.org.br.
130 | Disponível no endereço www.youtube.com/
watch?v=KHi2dxSf9hw. 135 | DRE Butantã: Cristina Rocha Gonçalves Romani e
Maria Celeste de Paula A. Requeijo. DRE Campo Limpo:
131 | Os Encontros eram todos realizados regionalmente.
Naiara Barbosa R. Braga. DRE Capela do Socorro:, Mar-
132 | Metodologia desenvolvida por Juanita Brown e Da- garete de Moraes. DRE Freguesia do Ó/Brasilândia: Ma-
vid Isaacs. ria Isabel S. Fonseca e Fernanda Barbosa de Souza. DRE
133 | Unidades da rede que têm, no mesmo espaço, es- Guaianases: Sonia Regina Rocetto. DRE Ipiranga: Eliza-
colas de educação infantil e ensino fundamental, com bete Iglecias. DRE Itaquera: Margarete Louzano. DRE
uma infraestrutura que inclui espaços para esportes e Jaçanã/Tremembé: pela SME Clarislinda T. Morisco. DRE
cultura (biblioteca, teatro). Penha: Sandra Aparecida Fernandes Lira. DRE Pirituba

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 47


Verde e Meio Ambiente (SVMA), destacou facilita- tencimento de todos a mesma comunidade da vida,
dores, para cada uma das 13 Diretorias Regionais bem como a visão da integridade ecológica e a con-
de Educação da cidade. A equipe de facilitadores da vivência com a comunidade da vida no cotidiano .
UMAPAZ foi reforçada com um grupo de professores
No terceiro Encontro a dimensão da Diversidade Hu-
capacitados pelo Programa Carta da Terra em Ação,
mana, enfatizando-a como riqueza e sobrevivência
os carteiros136.
da própria espécie bem como no quadro geral da bio-
Esses novos Encontros também foram desenhados diversidade. Nesse Encontro foi estimulada a refle-
para estimular o diálogo entre educadores ambien- xão sobre a justiça social e econômica para a cons-
tais e educadores da rede municipal de educação so- trução de um novo paradigma de convivência.
bre os princípios e valores da Carta da Terra e sua
No quarto Encontro o foco foi o respeito à vida na
aplicabilidade no processo de ensino-aprendizagem.
dimensão da Cultura de Paz, enfatizando os valores
A metodologia do projeto foi baseada em rodas de
da cultura de paz, a natureza dos conflitos e as possi-
diálogo sobre os temas propostos, sendo que os
bilidades e tecnologias para a sua resolução pacífica.
educadores ambientais levavam suas visões, textos
e dinâmicas e os educadores da SME suas visões, Foram realizados, no total 92 encontros, sendo 23
experiências e referências para compartilhar. por mês, alcançando mais 350 educadores137.

O primeiro Encontro voltou a trabalhar o Respeito à


Vida, que é o princípio nuclear da Carta da Terra. Foi 2.3 A avaliação dos participantes
abordado o movimento da área ambiental nas últi- Ao final de cada uma das duas fases, buscou-se apu-
mas décadas, o que aprendemos sobre nossa convi- rar a visão dos educadores participantes sobre sua
vência no Planeta e como esse aprendizado dialoga satisfação com o programa e os possíveis impactos
com a Carta da Terra, como código de ética plane- que observados na sua vida e práticas.
tário, bem como as perspectivas de sua aplicação
Na primeira pesquisa, foram recebidos 349 questio-
No segundo Encontro o foco foi o respeito à vida na nários, que representam uma amostra não inten-
dimensão da Integridade Ecológica, enfatizando o cional do universo dos 800 educadores inscritos no
Planeta como um sistema vivo e complexo e o per- Programa. Na segunda pesquisa, trabalhou-se com
Viviane F. Arbex,. DRE Santo Amaro: Gizleine Dias. DRE
mais 262 questionários (75% dos participantes), que
São Mateus: Nelma Mendes da Silva DRE São Miguel: responderam os questionários no último encontro.
Shirley Tavares da Silva.
O perfil do primeiro grupo mostrou uma concentra-
136 |DRE Butantã: Rose Marie Inojosa; DRE Campo Lim-
po: Georges Fouad Kharlakian e Gustavo Beuttemuller; ção na faixa etária entre 31 e 50 anos. No segundo
DRE Capela do Socorro: Valério Igor Vitorino e Ademar grupo observou-se que um terço tinha mais de 50
Anraku Jr (carteiro);DRE Freguesia do Ó/Brasilândia: anos. A idade mais avançada também revela que
André Luiz Moura de Alcântara e Roberta Thomas Brus-
muitos estão próximos da aposentadoria.
cagin (carteira); DRE Guaianases: Vitor Octávio Lucato e
Maria de Fátima Ginicolo (carteira); DRE Ipiranga: Gla- O primeiro grupo era formado por professores, co-
cilda Pinheiro Correa Pedroso e Rosa Maria Moledo de
ordenadores pedagógicos e diretores de escola. No
Souza (carteira); DRE Itaquera: Glacilda Pinheiro Cor-
rea Pedroso e Ademar Anraku Jr (carteiro); DRE Jaça- segundo, a maioria era professor.
nã/Tremembé: Rose Marie Inojosa; DRE Penha: Shirley
Dayse Gomes Pellicciari e Roberta Thomaz Bruscagin
No primeiro grupo foi possível fazer uma observação
(carteira);DRE Pirituba: André Luiz Moura de Alcânta- importante sobre o pertencimento do educador à es-
ra; DRE Santo Amaro: Valério Igor Victorino e Ademar cola e a comunidade a que atende, já que o Programa
Anraku Jr. (carteiro); DRE São Mateus: Shirley Dayse
Gomes Pellicciari, Maria de Fátima Ginicolo (carteira) e 137 | A expectativa da UMAPAZ era alcançar mais 800,
Valério Igor Victorino; DRE São Miguel: Victor O. Lucato. mas as turmas organizadas pela SME foram menores.

48
foi realizado no segundo semestre de um ano e no Os achados da pesquisa, no que diz respeito à sa-
primeiro do ano seguinte. Na mudança de ano letivo, tisfação, informam que, na visão dos educadores
quando a primeira fase do Programa foi retomada, em integrantes da primeira fase do Programa Carta da
fevereiro de 2008, muitas turmas haviam perdido di- Terra, com seus dez Encontros, trouxe conteúdos
versos educadores que a integravam e a explicação e materiais que eles acessaram e utilizaram ativa-
foi que eles tinham se deslocado de escola no pro- mente na sua vida profissional e pessoal e que tam-
cesso anual de remoção. Houve até mesmo o caso de bém contribuíram para as atividades que as Escolas
uma professora que estava participando ativamente já realizavam sobre a questão socioambiental e os
do Programa e com a remoção foi impedida de conti- temas tratados na Carta da Terra.
nuar, porque na escola para a qual foi removida não foi Ainda sobre a relevância dos temas os participan-
possível autorizar a sua saída mensal. E depois ainda tes da segunda pesquisa também sinalizaram sua
houve alguma movimentação, com mais 27 pessoas importância, que ilustramos com algumas das suas
(8,5%) que declararam, na pesquisa terem mudado manifestações:
de escola. Nas reuniões houve reflexões sobre como a “Em sala de aula e na ONG a qual coordeno, foram
movimentação constante de educadores, apesar das de grande importância para a discussão e apli-
vantagens que costumam ser apontadas pela corpo- cação dos temas.”; “Formação e embasamento
ração, fragiliza a relação na comunidade escolar e a teórico auxiliando a prática pedagógica.”;“Levar
introdução e implementação de inovações. Muitos para sala de aula experiências novas e incenti-
projetos são interrompidos com a movimentação de var a solidariedade.”;“Anualmente acrescenta-
pessoas, os projetos pedagógicos continuam, mas mos projetos relacionados ao maio ambiente
quem dá alma a eles são os educadores e as mudan- em nosso Projeto Político pedagógico, por-
ças de rumo são visíveis. tanto o aprofundamento nestas questões é
necessário.’
Outro fator que facilita as relações é o fato do edu-
cador ser integrante da comunidade que atende, vi- ‘Os temas trabalhados irão auxiliar em sala de
venciar e conhecer os problemas e as potencialida- aula.”;“Ampliou meus conhecimentos sobre a
des. Perguntados sobre se moram na mesma região degradação do meio ambiente, origens e con-
da Escola, 62% dos educadores respondeu afirmati- sequências de vários fatores ambientais que
vamente. Então, o ponto positivo da movimentação passam despercebidos no cotidiano”;“Tiveram
é viabilizar que o professor possa se aproximar, pro- importância na orientação e subsídios para
projetos das Unidades que supervisiono.”
gressivamente, de sua residência, já que os concur-
;“Auxiliam na construção de novas propostas
sos não são regionalizados.
de atividades para e com os alunos. Têm toda
Para a avaliação do Programa pelos educadores, fo- ( importância). Sou uma cidadã e formadora
ram feitas várias perguntas, procurando encontrar de opinião.”;“Consegui subsídios para o traba-
informações que permitissem apurar a satisfação lho na escola. Encontrar parceiros para traba-
dos participantes. lhos futuros. Reafirmar convicções e construir
outras.”;“A Carta da Terra vem reforçar todos
Perguntou-se, em ambas as pesquisas, como os
nossos desejos de construção de uma socie-
educadores perceberam a contribuição do Progra-
dade mais harmônica, o que nos impulsiona a
ma para o trabalho que realizam e, também, para
criar um novo olhar para nossos educandos.”138
o seu dia-a-dia. Em ambos os casos, mais de 90%
responderam que os Encontros contribuíram para o 138 | Esses depoimentos constam do Relatório do Proje-
seu trabalho e para o seu cotidiano. to, disponível na UMAPAZ.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 49


Além da satisfação, a pesquisa procurou aferir a per- iniciamos discutindo o consumo consciente de
cepção dos educadores sobre se consideravam que a materiais pedagógicos e distribuição do lan-
participação no Programa Carta da Terra tivera im- che das crianças sem consumir tantas emba-
pacto na sua visão de mundo, hábitos ou opiniões. lagens, e reciclagem do lixo.”; “Vou modificar
meu uso com os papeis, embalagens, água,
Na primeira pesquisa 93% declaram que consideram
que sim e os comentários revelaram a diversidade de não só na escola, mas em casa, pois o desper-
temas e aspectos relacionados aos valores da Carta da dício é um mal desnecessário.”;“Vou explicar
Terra e a questão da sustentabilidade socioambiental para as pessoas e crianças o que eu entendi
tratados nos Encontros e como os educadores rela- sobre vida, meio ambiente. “;“Modificamos
cionaram essa diversidade com seus próprios conhe- nossa forma de ensinar a preservar a natureza
cimentos e experiências, fazendo pequenas e grandes mostrando como “funciona”, como tudo acon-
mudanças na sua vida profissional e pessoal. Revelam, tece na natureza e como a mesma reage a par-
também, a potencialidade de transformação que re- tir das ações do homem.”;“Nossa escola é em
side no trabalho com educadores da rede municipal, uma praça, penso em resgatar o entorno, as
que pode alcançar um milhão de alunos e suas famí- arvores e o espaço.” ;“Trocar experiência, tra-
lias. Como apontaram os participantes, a reflexão zer a comunidade e informá-la.”;“Implementar
feita sobre a cultura do desperdício, problema funda- ações que possibilitem uma nova leitura de
mental do nosso tempo, onde muitas pessoas não têm mundo; participação coletiva, combate a todo
como suprir necessidades básicas outras desperdiçam o tipo de discriminação.”;“Para o próximo ano
os bens que adquirem ou recebem, foi estimulante. pretendo montar um caderno de campo com su-
Observaram que isso também ocorre na escola, com gestões de trabalho sobre “o rio e as questões
relação a merenda, ao material escolar, ao uniforme e do bairro” e disponibilizar no blog.”;“Trabalhar
a materiais utilizados nas atividades administrativas e com as crianças de forma mais intensa, so-
pedagógicas. Tal situação foi objeto de intensos diálo- bre como cuidar do nosso Planeta e como vi-
gos, sendo que, no 3º Encontro, foi compartilhada uma ver uma Cultura de Paz.Fazer o exercício di-
proposta para que as escolas trabalhem o assunto no ário da escutatória e diálogo.”;“Buscar uma
início das aulas, focalizando o quanto de elementos na- maior conscientização dos alunos, familiares
turais (árvores, petróleo, algodão, etc.) e o quanto de e equipe escolar, através de diálogos a ativi-
trabalho humano (agricultores, operários, costureiras, dades diversificadas.”;“Pretendemos fazer um
transportadores e outros) estão contidos em um lápis, projeto na nossa escola que toque no assun-
um caderno, um agasalho. to do desperdício alimentar, meio ambiente
e cultura de paz.”;“A partir da mudança do
Também na segunda pesquisa os educadores con- comportamento próprio, realizar atividades
sideraram impactos positivos nas suas opiniões e com a comunidade escolar para melhorar os
práticas, conforme algumas das suas livres manifes- relacionamentos pessoais e a relação com o
tações, que também revelam planos de ação: meio ambiente, sabendo utilizar conscien-
“Eu revi minha prática no trabalho e em casa temente os recursos naturais e humanos.”
com respeito aos novos paradigmas ecoló- ;“Desenvolver nas escolas vizinhas ativi-
gicos a partir da Carta da Terra.”; “Pretendo dades que deram certo, como os alunos de
intensificar a temática sobre a importância protagonistas.”;“Envolve alunos que sairão
da preservação do meio ambiente e continuar da escola nos projetos.”;“Promover saídas de
aplicando os conceitos para a efetivação da campo com o objetivo de se aumentar as rela-
mesma (pequenos passos, mas sempre!).”;“Já ções humanas, pessoais e no coletivo.”;“Uma

50
horta coletiva com a participação de CEI, EMEI Programa Carta da Terra em Ação, aberto a todos
e EMEF, com todos contribuindo para o plan- os interessados e visando capacitar cidadãos para
tio e usufruindo da colheita. Projetos ligados à atuarem como agentes de mudança na comunidade.
coleta seletiva e convivência.”;“Compartilhar
Com esse propósito, a equipe desenhou um progra-
repertório de danças circulares e jogos coope-
ma em módulos, que abordassem os diferentes as-
rativos; elaboração da Agenda 21 Escolar.”;“
pectos da Carta da Terra, estimulasse a reflexão so-
Implantação da coleta seletiva.”;“A revitaliza-
bre as diferentes dimensões da sustentabilidade, o
ção do entorno escolar, o estudo da história
desenvolvimento da capacidade de observação e crí-
de nosso bairro e a capacitação de agentes
tica da situação e promovessem o compartilhamen-
multiplicadores de informações sobre meio
to e fortalecimento de conhecimentos sobre modos
ambiente.”139.
de vida urbana sustentável e pacífica.
Nas duas fases do Programa, foi perceptível que, em-
bora o professor tenha informações sobre a questão Até a produção desse texto, foram realizadas oito
socioambiental pela sua formação e receba muitas turmas. Com as avaliações de cada grupo, houve
notícias pela mídia, nem sempre são tecidos os ne- modificações na organização interna do programa,
xos sobretudo quanto ao impacto que os estilos de que tem um total de 100 horas/atividades, sendo 80
vida na pegada ecológica. Também não são visíveis horas/aula presenciais e 20 horas orientadas para a
as responsabilidades e possíveis contribuições dos produção do trabalho de conclusão de curso.
cidadãos para a mitigação e adaptação ao cenário As oitenta horas presenciais, em grupo, compõem-
de mudanças climáticas e para o cultivo dos valores se por cinco Módulos: A Carta da Terra e o Planeta;
presentes na Carta da Terra. As oportunidades de Diversidade Humana; Integridade Ecológica; Cultura
reflexão conjunta, como os Encontros, contribuem de Paz e Convivência; Planejamento e Futuro. Cum-
para que esses nexos sejam tecidos pelos próprios prida essa etapa, o participante escolhe, com orien-
participantes e que seja fomentada e apoiada uma tação da equipe de facilitadores, outras atividades
vontade comum de transformação no cotidiano. para compor o seu livre percurso de aprendizagem,
Visualiza-se como desafios para a continuidade da conforme sua linha de reflexão e atuação. A apre-
Difusão da Carta da Terra na rede municipal de edu- sentação dos resultados da aprendizagem de cada
cação o acompanhamento dos processos de mudan- participante deverá ser feita em até seis meses após
ça iniciados referentes a resíduos, áreas verdes, me- a conclusão dos módulos presenciais.
renda, material escolar e uniformes, diversidade e
Após a aceitação do trabalho, o participante rece-
relações na escola e resolução pacífica de conflitos;
be o certificado de Agente Socioambiental Urbano.
o alcance de maior número de coordenadores peda-
Porém, os próprios participantes escolheram, es-
gógicos e diretores de escolas; bem como a abertura
pontaneamente, um título muito mais significativo,
do programa para pais e alunos.
autodenominando-se CARTEIROS, agentes de di-
fusão da Carta da Terra. Essa denominação foi se
3. O Programa Carta da Terra fortalecendo como uma identidade comum, tanto na
em Ação convivência virtual pela internet como em encontros
presenciais de carteiros das várias turmas, que já
Em 2009, a UMAPAZ, com a experiência acumulada
somam quatrocentas pessoas.
na primeira fase da difusão da Carta da Terra para
educadores e amparada no seu propósito, delineou o Para atender a crescente procura e as diferentes dis-
ponibilidades dos participantes, foram organizadas
139 | Idem ibidem. turmas em diferentes dias da semana e horários. As-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 51


sim, foram realizadas turmas durante a semana, nos Segue-se uma sessão sobre a própria Terra e uma
períodos da manhã140, tarde141 e noite142, e, também, visão do terreno e território de São Paulo, comple-
aos sábados e domingos143, com sessões de quatro mentada pela reflexão sobre o evolver da Pegada
horas de aulas e atividades. Ecológica da família humana no Planeta e em seus
territórios, que trata da pressão que os sucessivos
3.1 Os módulos presenciais estilos de vida da humanidade fazem sobre os recur-
sos naturais, bem como o seu desigual sufruto e o
A seguir, são brevemente descritos o propósito e os atual cenário de mudanças climáticas.
conteúdos de cada Módulo do Programa, que com-
Recentemente, a WWF144, em razão de um convê-
põem, no seu conjunto, as oitenta horas presenciais,
divididas em quatro horas/aulas/atividades por dia.
nio com as Secretarias Estadual e Municipal do
Meio Ambiente de São Paulo, mediu a pegada
ecológica do Estado e do Município145. Seus re-
Módulo I – A Carta e o Planeta sultados otimizam a reflexão sobre o tema, nos
Esse primeiro módulo é composto pelos seguintes dois espaços do país que foram pioneiros na edi-
temas: Conhecendo a Carta da Terra e nos conhecen- ção de leis referentes a mitigação e adaptação a
do; Do Universo à Identidade Planetária; A Magia da mudanças climáticas146.
Evolução; A Terra – Meio Físico; a Pegada Ecológica O Módulo é complementado por uma reflexão
e a Sustentabilidade. sobre o evolver do conceito de Sustentabilidade
Sendo o módulo de abertura do programa, tem o e sua compreensão e usos contemporâneos.
propósito de iniciar o participante na Carta da Terra,
tanto no que se refere à visão sistêmica do Plane- Módulo II – Diversidade Humana
ta quanto na dimensão de um manifesto de ética de
convivência planetária. Este módulo tem o propósito de refletir sobre a fa-
mília humana, sua gênese cultural e sobre a diver-
Trabalha, inicialmente, a própria Carta da Ter- sidade como riqueza da humanidade, por meio dos
ra, contextualizando a sua produção, conteúdos e seguintes temas: Antropologia cultura e família
divulgação; humana; Diversidade em São Paulo; Árvore Genea-
As sessões referentes aos temas Do Universo lógica; Cidadania Planetária; Redes Sociais; Partici-
à Identidade Planetária e A Magia da Evolução pação: Agenda 21, CADES – Conselho de Meio Am-
buscam compartilhar uma visão do Universo e do
Planeta, iniciando com uma sessão do Planetário, 144 | A WWF, World Wide Fund For Nature (Fundo Mun-
dial para a Natureza), é uma rede global cuja missão é
bem como relembrar as fases da evolução das es-
conter a degradação do meio ambiente e construir um
pécies e a sua diversificação, até chegar ao ser futuro em que o homem viva em harmonia com a na-
humano, um habitante recente do planeta. Esses tureza através da conservação da diversidade biológica
assuntos são abordados tanto para fortalecer a mundial; da garantia da sustentabilidade dos recursos
naturais renováveis; e da promoção da redução da polui-
visão sistêmica da vida na Terra como para provo- ção e do desperdício. A WWF-Brasil é uma ONG brasilei-
car um novo encantamento com esse processo de ra, participante dessa rede internacional e comprometi-
evolução do planeta. da com a conservação da natureza dentro do contexto
social e econômico brasileiro.
145 | http://www.wwf.org.br/?31603/A-Pegada-Ecolgi-
140 | Turmas 1, 3 e 5.
ca-de-So-Paulo--estado-e-capital.
141 | Turma 8.
146 | Lei municipal nº14933, de 05 de junho de 2009
142 | Turmas 2 e 4. e Lei estadual nº 13.798, sancionada em novembro de
143 | Turmas 6 e 7. 2009.

52
biente e Desenvolvimento Sustentável – e CADES cimento da cidade e as relações entre o ambiente
Regionais - Conselhos de Desenvolvimento Susten- construído e o ambiente natural.
tável e Cultura de Paz. São apresentados indicadores socioambientais do
Focaliza, especialmente, a extraordinária diversida- município e técnica de captação da percepção e aná-
de no Brasil e em São Paulo, tanto pela sua origem lise do território pelos participantes.
nos povos indígena, europeu e africano, como pelas
sucessivas ondas de imigração e migração, e os ti- Módulo IV – Cultura de Paz
pos de convívio que resultam dessa miscigenação.
Esse módulo tem o propósito de trabalhar a con-
Utilizando a dinâmica de construção da árvore ge- vivência, considerando as relações da teia da vida,
nealógica de cada participante por origem de seus entre o ser humano e outros seres e entre os mem-
antepassados, o módulo evolui com a reflexão so- bros da família humana, na perspectiva da cultura
bre o conceito de cidadania planetária e como esse de paz. Compõem esse módulo as seguintes ses-
conceito dialoga com a dinâmica contemporânea das sões: Democracia, justiça e equidade; Cultura de
redes sociais. Paz; Ética e consumo; Alimentação, saúde e meio-
Finalmente, trabalha a questão da participação, ambiente; Diálogo e convivência; Resolução pacífica
condição e resultado da cidadania e da visão das de Conflitos; Educação para o século XXI e Biografia
interdependências no processo de evolução, par- e transformação.
ticularizando as possibilidades de participação no Assim, o módulo inicia com uma reflexão sobre os
processo de implementação da Agenda 21 local e conceitos de democracia, justiça e equidade.
nos Conselhos de Meio Ambiente e Cultura e Paz da
Em seguida, analisa a emergência histórica do con-
Cidade de São Paulo.
ceito de cultura de paz e o Manifesto 2000. Busca
traçar um diálogo entre as recomendações da Carta
Módulo III – Integridade Ecológica da Terra e a proposta de cultura de paz presente no
Manifesto, que foi produzido por um grupo de laure-
O propósito desse Módulo é trabalhar as interdepen-
ados com o prêmio Nobel da Paz, que o formularam
dências na teia da vida e é composto pelos seguintes
como um compromisso a ser assumido pelos indi-
temas Ecologia, biomas e a teia da vida; Climatolo-
víduos para viabilizar a mudança do paradigma de
gia e mudanças climáticas; O diálogo entre a ocupa-
convivência vigente.
ção e o meio físico; Leitura de território; Indicadores
socioambientais.. Trabalha, em seguida, a relação entre ética e consu-
mo, na perspectiva de Bauman147 e como alimenta-
O módulo se inicia pela apresentação de uma visão ção, saúde e meio ambiente estão interligados,
integrada dos biomas, expressão dos vínculos entre buscando propiciar que os participantes observem
os fenômenos locais e globais. Trata da climatologia como, na prática, o estilo de vida e os hábitos de
e das mudanças climáticas, buscando propiciar a re- consumo têm impacto nas relações e no ambiente.
flexão sobre o movimento do próprio Planeta e sobre
os impactos da família humana nos recursos natu- O tema “Diálogo e Convivência” abre a reflexão
rais tratados no primeiro módulo. Também considera
de formas pacíficas de convívio na sociedade
humana e evolui para a apresentação e experi-
as perspectivas presentes nas pesquisas científicas,
seus dilemas e incertezas. 147 | Zigmunt Bauman, sociólogo de origem polonesa,
que tem extraordinária produção no campo da moderni-
A observação chega ou parte do sítio de São Paulo, dade e da relação entre ética, consumo e convivência no
buscando trabalhar a visão do nascimento e cres- mundo contemporâneo.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 53


mentação de tecnologias de resolução pacífica de proposto pela UMAPAZ, com a singularidade de que
conflitos, especialmente a mediação de conflitos. o próprio discurso escolhido para fundamentar a
Também baseia a reflexão sobre a educação para educação ambiental e de cultura de paz da UMAPAZ
a convivência, buscando visualizar essa prática é a Carta da Terra.
na perspectiva da pedagogia contemporânea. O Curso foi desenhado com o propósito de propiciar
Finalmente os participantes trabalham sua pró- que os participantes possam
pria biografia. “reconstruir o sentimento de pertencimento
e de interdependência sistêmica do Planeta e
Módulo V – Planejamento e Futuro uns dos outros, bem como reconhecer os com-
ponentes éticos dessa teia, diversificada, as-
O propósito desse Módulo é propiciar que os parti- simétrica e dinâmica: respeito a todas as for-
cipantes visitem conceitos e tecnologias de planeja- mas de vida, cooperação e solidariedade. Por
mento, visando a contribuir para que possam exercer isso, não distinguimos educação ambiental e
seu papel, no âmbito em que atuarem, como agentes educação para a paz, consideradas aqui, e na
socioambientais. programação da UMAPAZ, como componentes
O Jogo Planetarium148 é um exercício que propicia inseparáveis do ser no mundo149.”
uma auto avaliação e o compartilhamento de visões Nesse sentido, o Programa Carta da Terra em Ação
no grupo. Sendo um combinado de metas familiares também se constitui como uma das possibilidades
e metas planetárias, permite que os participantes do livre percurso de aprendizagem proposto pela
revisitem os conceitos, reflexões e dilemas que ex- UMAPAZ, co-produzido pelos participantes
perimentaram nos módulo e exercitem decisões, ob-
servando os resultados. Sua abordagem metodológica visa a explorar a ba-
gagem de saberes e experiências de cada participan-
O exercício de pensar o futuro tem o objetivo de mo- te, ao mesmo tempo em que procura estabelecer
bilizar o sonho pessoal e coletivo de cada um, apro- um diálogo com informações atualizadas e com a
priando-se dessa visão para sua caminhada. contribuição de autores e pesquisadores que se de-
A celebração é o momento em que as pessoas com- bruçaram sobre os temas tratados. Com isso busca
partilham a alegria de terem percorrido juntos uma capacitar pessoas para que produzam os nexos ne-
parte do caminho, agradecem o convívio, fortalecem cessários à compreensão da situação socioambien-
os laços. tal, do cenário de mudanças climáticas e, sobretudo,
das possibilidades de mudanças paradigmáticas.
3.2 Metodologia A abordagem dos temas é realizada pela própria
equipe da UMAPAZ e com alguns convidados150 A
O Programa Carta da Terra em Ação é um dos cami-
nhos para trilhar o livre percurso de aprendizagem 149 | Vide Metodologia no texto sobre o Evolver da
UMAPAZ.
148 | O jogo Planetarium foi produzido a partir de um 150 | Para abordar a história e os princípios da Carta da
convênio entre a Secretaria Municipal do Verde e Meio Terra, logo no início do curso, a UMAPAZ tem contato
Ambiente e a PUC – SP, pelo seu Núcleo do Terceiro Se- com Cristina Moreno, administradora e representante
tor, com financiamento do FEMA – Fundo Especial do da EARTH CHARTER INITIATIVE, que tem participado in-
Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O jogo tensamente da difusão da Carta da Terra em diferentes
foi experimentado por diferentes grupos e apresentado ambientes dos três setores: público, privado e terceiro
no VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental (Sal- setor. Além disso, a cada edição do curso outros convi-
vador, BA, 2012) e na Cúpula dos Povos por ocasião da dados têm participado, como Débora C. Diogo, Diretora
Rio+20. da Divisão de Gestão Descentralizada Leste da Secre-

54
maior parte das sessões é conduzida por integrantes nhecimentos por áreas e corporações de saberes.
da equipe de educadores ambientais da UMAPAZ, Por vezes, esbarra-se em velhas práticas, como au-
constituída por profissionais de diferentes forma- las excessivamente expositivas. O aluno da UMA-
ções e experiências, que produziram, em conjunto, PAZ já percebe e questiona quando isso ocorre, o
toda a proposta do Curso, a abordagem de seus te- que coloca constantemente o desafio da coerência
mas e dinâmicas151. metodológica.
A UMAPAZ considera que o conhecimento, para ser Assim, os temas são apresentados ao grupo, por
construído, precisa acionar a caixa de brinquedos e a meio de estratégias de ensino-aprendizagem que
caixa de ferramentas de cada um e do coletivo, isto é trabalham com a caixa de brinquedos de cada um,
trabalhar com encantamento e com entendimento152. por meio de vivências, de atividades lúdicas e cria-
Desse modo, procura não limitar-se a apresentação tivas, e com a caixa de ferramentas, oferecendo
de informações, exposições e textos, mas, usar es- instrumental para a ação. São utilizadas aulas
tratégias para alcançar razão e sensibilidade. dialogadas, sessões de world-café, rodas de con-
versa, danças circulares, filmes, música e jogos
Esse não é um aprendizado apenas para os alunos,
cooperativos.
mas tem sido um exercício cotidiano para os pro-
fessores, igualmente formados, ou conformados, Nesse contexto, tem sido especialmente importante
em clausuras setoriais com a fragmentação dos co- o papel das danças circulares, que abrem cada mó-
dulo e são utilizadas com freqüência durante o cur-
taria Municipal do Verde e Meio Ambiente, que, com sua so. A focalizadora de danças circulares153 prepara, a
experiência na região leste, traz exemplos de iniciativas cada turma, um programa que se integra aos temas
locais, e Helena Maria Campos Magoso, psicóloga, Dire- que serão tratados. A utilização das danças circula-
tora do Departamento de Participação e Fomento a Po-
líticas Públicas da Secretaria Municipal do Verde e Meio res não só como meio, mas como conteúdo, tem sido
Ambiente que, com Rute Cremonini, educadora ambien- exitosamente experimentada pela UMAPAZ154.
tal, trazem para os participantes informações de formas
e espaços de participação ativa na cidade. Além disso, os participantes são estimulados a se
151 | André Luiz Moura de Alcântara, sociólogo e coor- apropriarem e refletirem sobre idéias de autores e
denador do Módulo Diversidade Humana; Angélica Bere- textos155, a começar pela própria CARTA DA TERRA.
nice de Almeida, pedagoga; Débora Pontalti Marcondes,
bióloga; Estela Maria Guidi Pereira Gomes, fonoaudió- Finalmente, terminada a etapa das sessões pre-
loga, especialista em danças circulares; Eveline Lima- senciais (primeiras 80 horas), os participantes são
verde, educadora e coordenadora executiva do Curso; orientados a realizarem alguma ação local, na sua
Georges Fouad Kharlakian Jr., socioeconomista; Glacil-
da Pinheiro Correa Pedroso, pedagoga e coordenadora
comunidade, que expresse seu aprendizado. Essa
do Módulo Cultura de Paz e Convivência; Gustavo (Agni) ação deve ser documentada e compartilhada com
Beuttenmuller, geólogo; Lia Salomão Lopes, geógrafa; toda a turma. São organizadas sessões para esse
Márcia Amélia Moura, psicóloga; Nadime Boueri, biblio- compartilhamento, de modo a que uns possam ser
tecária e contadora de histórias; Paulo Varela, geólogo
e integrante da equipe da Divisão de Astronomia e As- inspiradores para outros e seja possível a colabora-
trofísica; Regina Luísa F. Barros, arquiteta; Rose Marie ção mútua.
Inojosa, comunicóloga e coordenadora da UMAPAZ;
Suely Feldman Bassi, psicóloga e nutricionista; Thereza 153 | Estela Maria Guidi Pereira Gomes.
Rosa, pedagoga; Valério Igor P. Vitorino, sociólogo; Vi- 154 | Mais detalhes no artigo Danças Circulares como
tor Octávio Lucato, ecólogo, biólogo e coordenador do metodologia integrativa, nesta coletânea.
Módulo Integridade Ecológica, Walmir Cardoso, físico 155 | Os alunos e professores têm livre acesso a biblio-
e coordenador de projetos da Divisão de Astronomia e teca Espaço Sapucaia, da UMAPAZ, especializada em
Astrofísica. meio ambiente e cultura de paz, que tem em seu acer-
152 | A metodologia da UMAPAZ está detalhada no texto vo grande parte das obras utilizadas, além dos textos
O Evolver da UMAPAZ; primeiro setênio, nesta coletânea acessíveis pela internet.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 55


Espontaneamente surgiram grupos na internet e o experiências e permite que um mesmo fato ou uma
diálogo continua mesmo após o término dessa etapa idéia sejam analisadas de diferentes pontos de vista.
de convívio coletivo presencial. Pelos grupos aber-
Outro critério utilizado na formação das turmas é
tos no facebook é possível observar como se dá essa
a região de origem, buscando, também, trazer para
conversação, trocando convites para atividades e
cada turma pessoas que vivem em diferentes partes
mantendo um sentido de comunidade.
da cidade (tabela 1).
A UMAPAZ procura propiciar oportunidades de tra-
Alguns municípios próximos a São Paulo, como Itapevi
balho conjunto para os carteiros entendendo que es-
e Guarulhos, solicitaram vagas em turmas do Progra-
ses momentos mantêm a mobilização e contribuem
ma. Mas também houve procura espontânea por pes-
para o fortalecimento do grupo156.
soas de outras cidades. Na formação das turmas foram
acolhidas solicitações de participação por pessoas de
3.3 Perfil dos carteiros outras cidades paulistas e de dois outros estados: Su-
zano (SP), Itapevi (SP), Mogi das Cruzes (SP), Guarulhos
Este item apresenta um breve perfil dos 434 partici-
(SP), Osasco (SP), ABC (Santo André, São Bernardo e
pantes que compuseram as oito turmas realizadas
São Caetano, SP), Caieiras (SP), Santana do Parnaíba
de 2009 a 2012 do Programa Carta da Terra em Ação.
(SP), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR).
Do total, 70% são do gênero feminino e 30 mascu-
Os trabalhadores autônomos são engenheiros, ar-
lino. Essa proporcionalidade é verificada na maioria
quitetos, psicólogos, arte-terapeutas, entre outros
dos programas da UMAPAZ.
(tabela 2).
Em relação às faixas etárias, para efeito de análise
Os trabalhos de conclusão de curso dos carteiros,
os participantes foram distribuídos em 5 faixas etá-
assim como a Carta da Terra, têm como núcleo o
rias (Gráfico 1);
Respeito à Vida e podem focalizar aspectos de um
A distribuição das faixas etárias não é espontânea, dos três eixos: integridade ecológica, diversidade
mas procurada no processo de seleção, que tem humana e cultura de paz (gráfico 2).
como critério compor turmas que expressem a diver-
Essa distribuição, porém, é insuficiente para refletir
sidade encontrada na comunidade157. Por esse crité-
a riqueza dos temas e ações desenvolvidos. Foram
rio, ter pessoas de diferentes faixas etárias – jovens,
realizados cursos para públicos específicos, criados
adultos e idosos – possibilita o compartilhamento de
bancos de sementes, sistemas de coleta de resídu-
156 | Como relatado no item 2 deste artigo, alguns car- os em condomínios, plantios, recuperação de praças,
teiros participaram da equipe que realizou a segunda atividades de cultura de paz em escolas, entre outros.
etapa do Programa de Difusão da Carta da Terra na rede
municipal de educação. Outros propuseram e realizaram
oficinas sobre a Carta da Terra em vários locais da ci- 3.4 A voz dos carteiros
dade. Em de 2012, o artista Eduardo Srur instalou,
no Parque do Ibirapuera, uma obra de arte chamada La- A cada módulo os participantes fazem uma avalia-
birinto de Lixo, que tinha, entre outros objetivos, o de
ção. Essas avaliações têm orientado a equipe da
sensibilizar as pessoas para o volume dos resíduos por
elas gerado no cotidiano. Um grupo de carteiros mobili- UMAPAZ na constante reinvenção do Programa, a
zou-se e fez a monitoria da obra durante sua exposição. cada turma, acrescentando ou modificando temas e
Outro grupo participou do plantio do bosque Carta Viva, conteúdos158.
no dia da Terra, em 2012.
157 | O número de inscrições costuma ser na proporção 158 | Essas alterações são visíveis na comparação entre
de 3 a 4 candidatos por vaga. Como todos os programas os programas de cada turma, expressando-se na mu-
da UMAPAZ, o Carta da Terra em Ação é inteiramente dança de conteúdos e dinâmicas e até mesmo na com-
gratuito. posição dos módulos.

56
Gráfico 1: Distribuição dos carteiros, da 1ª a 8ª tur- Gráfico 2: Distribuição percentual dos trabalhos de
mas, por faixa etária. conclusão de curso dos carteiros, da 1ª a 8ª turmas,
por eixo do Programa.

Fonte: Relatórios de cada turma do Programa.


Elaboração de Marina Freitas

Fonte: Relatórios da 1ª a 8ª turmas. Elaboração dos autores.

Depoimentos de alunos159 demonstram que: “O Curso da Carta da Terra em ação trouxe


“Fazer o curso Carta da Terra trouxe perspec- justiça, paz, história, integração, sensibiliza-
tivas diferentes da vida coletiva. Assuntos ção, democracia, cultura, e muito mais dire-
relevantes para minha vida pessoal e minha to pro meu coração. Coração esse, que dirige
convivência com as outras pessoas. A inicia- um cidadão Paulistano com muita vontade de
tiva de trabalhar com um documento tão im- ver as coisas melhorarem, e mais que nunca,
portante tira do papel as diretrizes e as trans- está fazendo de tudo para essa transforma-
formam em ações. Empodera os cidadãos a ção, de uma cidade mais justa e sustentável,
cuidarem de si e do lugar onde vivem.” A.R.B acontecer. Essa vontade contagia e já está se
(turismóloga). multiplicando com os que estão ao meu redor.
Sou muito grato à todos aprendizados e vi-
159 | Veja também http://www.youtube.com/watch?v=64
iOUgPXga4. vências.” L.M. (agrônomo)

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 57


“Sinto-me comprometida a fazer ações que Tabela 1: Distribuição percentual dos carteiros, da
possam contribuir para melhorar minha 1ª a 8ª turmas, por região de origem.
comunidade.”B.O.(agente)
“A mudança deve começar dentro da minha REGIÃO %
casa e expandir para os amigos, o condomínio,
bairro, me sinto agora um ser responsável no CENTRO 11
mundo que habito.”N.N.(autônoma) OESTE 18
“Com o conteúdo da Carta da Terra  temos a NORTE 13
esperança de transformar o mundo,realizando
LESTE 16
um trabalho socioambiental para melhorar a
qualidade de vida da sociedade e preservar o SUL 25
meio ambiente..”S.Q.(educadora) OUTRO MUNICÍPIO 16
“A Carta da Terra me abriu os olhos para a mi-
Fonte: Relatórios das turmas. Elaboração dos autores.
nha responsabilidade com tudo. Como humana
sou parte da terra e co-responsável pela vida
de todos os meus irmãos, humanos, animais, Tabela 2: Distribuição percentual dos carteiros,
vegetais, minerais. Enquanto não houver har- da 1ª a 8ª turmas, por ocupação declarada.
monia e co-responsabilidade haverá sofri-
mento e injustiça. Humildade, respeito, amor
OCUPAÇÂO N º
e comunicação são a base de tudo. E Paz. E
Amor. E o crescimento a cada dia.”B.V.P.R. (en- TRABALHADORES AUTÕNOMOS 115
genheira ambiental)
EDUCADORES 95
O núcleo do Programa, sempre preservado, é plan- TRABALHADORES DO 3ª SETOR 44
tar a Carta da Terra no coração de cada carteiro,
para que ela se transforme em ação, como um de- TÉCNICOS EM MEIO AMBIENTE 25
les expressou: ESTUDANTES 22
“ A Carta da Terra é tudo o que precisamos SERVIDORES PÚBLICOS 22
para envolver os seres humanos todos os que
GUARDAS CIVIS MUNICIPAIS 22
amam Gaia – Terra e tecer os fios com os que
ainda não estão envolvidos e tocados para VOLUNTÁRIO EM ÁREA AMBIENTAL 20
cuidar do seu espaço. bairro – cidade – estado OCUPADOS EM ATIVIDADES 20
– Planeta Terra.”160 SOCIOAMBIENTAIS
SERVIDORES DA SVMA 16

CONSELHEIROS CADES/AGENDA 21 14
TECNICOS DO PROGRAMA AMBIENTES 10
VERDES E SAUDÁVEIS (SAÚDE)
AGENTES DE SAÚDE 9
TOTAL 434
160 | Depoimentos gravados em vídeo pelos carteiros
pode ser visto na internet. Fonte: Relatórios das turmas. Elaboração dos autores.

58
4. Apoio bibliográfico setembro de 2012)
Em vídeo, narrado por Leonardo Boff: www.youtu-
Neste item são apresentados autores, obras be.com/watch?v=EJ6NVNGxuMc (visita em 30 de
e sites que têm sido utilizados para a prepa- setembro de 2012)
ração das aulas dos Programas de difusão da CAPRA, Fritjof
Carta da Terra. Naturalmente, as referências A Teia da Vida São Paulo: Cultrix, 1996
são dinâmicas e, a cada edição ou turma, re- Conexões Ocultas – Ciência para uma vida susten-
nováveis. Porém, o elenco que segue baseou tável. São Paulo: Cultrix, 2002
parte das reflexões feitas até agora. CREMA, Roberto
Introdução à visão holística, Cultrix, S.Paulo 1997
ALVES, Rubem
Conversas com quem gosta de ensinar. Campinas DISKIN, Lia; ROIZMAN, Laura G.
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A ética é possível num mundo de consumidores?
Quem educa marca o corpo do outro. São Paulo:
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Vida para consumo: a transformação das pessoas
em mercadorias. São Paulo: Zahar, 2008 DUPAS, Gilberto
O mito do progresso. São Paulo: UNESP, 2006
BOFF, Leonardo
Ética da vida A nova centralidade Rio de Janeiro/ FELDMAN, Fábio
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Natureza. São Paulo: UNESP, 1996
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A Ciência e o campo akáshico uma teoria integral
O povo brasileiro: a formação e o sentido do Bra-
de tudo. São Paulo: Cultrix, 2008
sil. São Paulo: Companhia das Letras, 996
MANCE, Euclides
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Redes de colaboração solidária: aspectos eco-
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Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 61


Educação Gaia São Paulo
Rose Marie Inojosa161, Paullo Santos162, Marcelo Todescan163

Resumo Abstract
Trata da aplicação, em São Paulo, do Programa Edu- Report the application, in Sao Paulo, Gaia Education
cação Gaia, formulado GEESE-“Global Ecovillage Edu- Program formulated GEESE-”Global Ecovillage Edu-
cators for a Sustainable Earth” (Educadores de Eco- cators for a Sustainable Earth” (World Ecovillage
vilas do Mundo para um Planeta Sustentável), com o Educators for a Sustainable Planet), with the goal
objetivo de capacitar designers de sustentabilidade e of enabling designers and contribute to sustain-
contribuir para a Década das Nações Unidas da Educa- ability of the Decade UN Education for Sustainable
ção para o Desenvolvimento Sustentável. O Programa Development. The Gaia Education Program had its
Educação Gaia teve sua primeira turma, em São Paulo, first class in São Paulo, in 2006, developed through a
em 2006, desenvolvido por meio de uma parceria en- partnership between the Gaia Education, the Munici-
tre o Gaia Education, a Secretaria Municipal do Verde pal Green and Environment of São Paulo / UMAPAZ,
e Meio Ambiente de São Paulo/UMAPAZ, o Programa Program Ecobairro of the Roerich Institute of Peace
Permanente Ecobairro do Instituto Roerich da Paz e and Culture of Brazil and CRIS - Centre for Refer-
Cultura do Brasil e o CRIS – Centro de Referência e In- ence and Integration in Sustainability. There were
tegração em Sustentabilidade. Foram realizadas cinco five classes, the last, with a review of curriculum
turmas, sendo a última, com uma revisão do currículo e and course logistics. Lists the contents, dynamic fa-
da logística do curso. São apresentados os conteúdos, cilitators and the class of 2010, and the vision of its
dinâmicas e facilitadores da turma de 2010, bem como participants.
a visão de seus participantes. Key words: Gaia education, world vision; transfor-
Palavras-chave: Educação Gaia; visão de mundo; mation; partnership, sustentability
transformação; parcerias; sustentabilidade.

161 | Coordenadora da UMAPAZ, instituição parceira do Programa Educação Gaia São Paulo.
162 | Coordenador do Programa Ecobairro do Instituto Roerich da Paz e Cultura do Brasil, instituição parceira do Programa
Educação Gaia São Paulo.
163 | Coordenador do Centro de Referência e Integração em Sustentabildiade, instituição parceira do Programa Educação
Gaia São Paulo.

62
1. Introdução ção de comunidades rurais e urbanas sustentáveis,
a partir de suas experiências em ecovilas. Para isso
O Programa Educação Gaia foi concebido por um desenhou um currículo focalizando as dimensões so-
grupo de educadores de várias partes do mundo, cial, cultural, economica e ecológica da sustentabili-
com experiências em ecovilas, como uma contribui- dade, numa abordagem holística164.
ção para a Década do Desenvolvimento Sustentável
Em 2005 foi oficialmente constituído um consórcio
da ONU.
internacional congregando esses profissionais, cha-
São Paulo teve a oportunidade de realizar, na UMA- mado de “Gaia Education”. Compõem o consórcio
PAZ, a primeira edição do Curso no Brasil, em abril educadores especialistas em desenho de ecovilas,
de 2006. criando e realizando cursos para o desenvolvimen-
No plano internacional, com a coordenação do con- to de comunidades sustentáveis em áreas urbanas
sórcio Gaia Education, o Curso se espalhou, chegan- e rurais165.
do a alcançar 34 países e, no Brasil, aconteceu em O núcleo do programa é um currículo educativo cha-
Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador, Minas Gerais, mado “Ecovillage Design Education - EDE” (Forma-
Curitiba e Brasília. ção em Desenho de Ecovilas), que tem por objeti-
A UMAPAZ realizou cinco turmas, alcançando mais vo tornar acessível ao maior número de pessoas as
de 500 participantes. lições aprendidas pelas ecovilas de todo mundo. A
proposta do currículo é a de que a investigação te-
O item inicial informa sobre a história do progra- órica seja seguida por aplicações práticas, visando
ma Gaia Education. Em seguida é apresentada a ao empoderamento de indivíduos, organizações e
sua realização em São Paulo e particularizados os comunidades, capacitando-as para redesenhar, de
conteúdos, dinâmicas, facilitadores e tecelões da forma sustentável suas realidades.
turma realizada em dezembro de 2010, que expe-
rimentou a revisão de abordagens e do Programa. O currículo Gaia Education constituiu-se na con-
Essa revisão foi desenhada num coletivo de vinte tribuição oficial do consórcio internacional para a
educadores, em janeiro do mesmo ano, e proposta Década das Nações Unidas da Educação para o De-
ao grupo dos formuladores originais, em Findhorn senvolvimento Sustentável e recebeu a certificação
(Escócia). Finalmente, apresenta o perfil e a voz do Instituto das Nações Unidas para Treinamento e
dos gaianos, participantes do Curso Educação Pesquisa (United Nations Institute for Training and
Gaia São Paulo. Research – UNITAR).

164 | http://gen-europe.org/networks/gaia-education/
2. Situando o Gaia Education index.htm; http://www.gaiaeducation.org.
165 | A atual composiçao desse grupo, segundo o site
O Gaia Education é um programa de formação de de- oficial http://www.gaiaeducation.org/index.php/en/peo-
signers em sustentabilidade, que nasceu de um cur- ple.html é a seguinte: Albert Bates, Massimo Candela,
Giovanni Ciarlo, Jonathan Dawson, Deniz Dinçel  , May
rículo elaborado por um grupo de educadores de vá-
East, José Luis Escorihuela, Hide Enomoto, Michiyo
rias partes do mundo, denominado GEESE-“Global Furuhashi, Daniel Greenberg Maddy Harland, Hildur Ja-
Ecovillage Educators for a Sustainable Earth” (Edu- ckson, Ross Jackson, Anja Kosha Joubert Anja Kosha
cadores de Ecovilas do Mundo para um Planeta Joubert, Will Keepin, Declan Kennedy, Max O. Linde-
gger, Adama Ly, E. Christopher Mare, Ina Meyer-Stoll,
Sustentável). Marti Mueller, Helena Norberg-Hodge, Narumon Paibo-
Esse grupo buscou uma abordagem transdisciplinar onsittikun (Mon), Jane Rasbash, Potira Preiss, Penelo-
pe Reyes, Macaco Tamerice (Martina Grosse Burlage) ,
para a educação para a sustentabilidade, valendo-se Géza Varga  Paola Vidulich, Daniel Christian Wahl, Liz
das valiosas experiências e lições de design e cria- Walker, Marian Zeitlin.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 63


3. Educação Gaia São Paulo Foram realizadas, sucessivamente, quatro turmas –
2006, 2007, 2008 e 2009, com 101 pessoas cada uma
Em 30 de janeiro de 2006, May East, componente e uma seleção cada vez mais difícil pela exponencial
do GEESE, fez uma palestra na UMAPAZ Universi- procura171.
dade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz da
Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de A organização e realização dessas turmas foram fei-
São Paulo, que acabava de ser instalada166 e, nessa tas sempre em parceria entre a diretora executiva do
ocasião, foi proposta a realização de uma turma do Gaia Education, May East, a Prefeitura de São Paulo,
Curso Educação Gaia em São Paulo. por meio da UMAPAZ, o Programa Permanente Eco-
bairro, do Instituto Roerich da Paz e Cultura do Bra-
Com a boa repercussão da palestra, começou a ser sil e o CRIS – Centro de Referência e Integração em
organizada a primeira turma167, que, com 101 parti- Sustentabilidade (que sucedeu o grupo Ecovila São
cipantes, realizou-se na sede da UMAPAZ168, de abril Paulo), além de contar, a cada edição, com gaianos
a junho de 2006. voluntários. Todas as turmas foram gratuitas para
O Curso de São Paulo foi certificado pelo Gaia Educa- os participantes172.
tion e sua avaliação pelos participantes foi excelente. Paralelamente eram realizados Cursos de Educação
Desse primeiro grupo de gaianos169 várias pessoas Gaia em outros Estados do Brasil, iniciando por Por-
tornaram-se educadoras da própria UMAPAZ, ins- to Alegre, depois Rio de Janeiro e Salvador173 e, mais
tituição que acabava de nascer com o propósito de recentemente, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília174.
contribuir para a sustentabilidade em São Paulo,
A cada realização, as avaliações, embora sempre
desenvolvendo uma programação orientada pela
muito positivas, apontavam a necessidade de ajus-
Carta da Terra, de caráter transdisciplinar, intercul-
tes e de evolução, particularmente por se tratar de
tural e de cultura de paz170.
um curso realizado em e para o meio urbano, que
166 | May East foi apresentada ao Secretário Munici- apresenta desafios próprios para a sustentabilidade
pal do Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge Martins das comunidades. Essa necessidade foi sendo apon-
Alves Sobrinho e à coordenadora da UMAPAZ, pelo
tada nos relatórios e, em janeiro de 2010, sob a co-
diretor do programa ECOBAIRRO, do Instituto Roerich
da Paz e Cultura do Brasil, Paullo Santos. A palestra ordenação de dois integrantes do GEESE, May East
foi organizada pelo grupo do Ecobairro e pelo grupo e Christopher Mare, reuniu-se, na sede da UMAPAZ,
então denominado Ecovila São Paulo: Paullo Santos, um grupo composto por educadores das diferentes
Marly Pedra, Victor Leon Ades, Lara Freitas, Marcelo
Todescan, Frank Sciliano, Jeff Costa, Georges Fouad
regiões do Brasil175, para estudar e propor ajustes no
Kherakian e Cristina Belfort.
Educação Gaia teve impacto importante no desenvolvi-
167 | O GEESE financiou a vinda de três educadores May
mento da instituição.
East, Michael e Ross Jackson. . A parceria UMAPAZ,
Ecobairro e Ecovila São Paulo garantiu a organização e 171 | Para a turma de 2009 a procura foi de 5 inscritos
a realização do curso, com muito trabalho voluntário. A por vaga.
Prefeitura fez o provimento da infraestrutura para a reali- 172 | Ó Educação Gaia São Paulo é o único gratuito no
zação do curso em sua sede. Responsabilizaram-se como mundo, o que foi viabilizado pela Prefeitura de São Pau-
tecelões dos conteúdos e dinâmicas do curso os educa- lo, o apoio do GEESE nas edições de 2006 e 2007, apoio
dores Diogo Alvim Gonçalves, do Rio de Janeiro, e Potira da UNINOVE, em 2009 e muito trabalho voluntário dos
Preiss, de Porto Alegre. parceiros.
168 | Av. IV Centenário, 1268, Parque do Ibirapuera, São 173 | Coordenados por pessoas que foram facilitadoras
Paulo, Brasil. ou tecelãs nos cursos da UMAPAZ.
169 | Denominação que os participantes adotaram e que 174 | O Curso expandiu-se também em países de vários
se tornou corrente nas turmas da UMAPAZ. continentes, embora com grupos menores de participantes.
170 | A proposta da UMAPAZ foi formulada em 2005, que 175 | Juca, Lara Freitas, Paullo Santos, Raimundo San-
iniciou seu funcionamento em janeiro de 2006. O Curso tos, Marly Pedra, Denise, Eveline Limaverde, Vera, Vic-

64
currículo, visando sua maior adequação ao meio ur- realização do curso, de 2 a 17 de dezembro de 2010.
bano e, também, a atualização de conteúdos e dinâ- Muitas atividades foram realizadas no Viveiro Mane-
micas, mantendo, no entanto, sua proposta nuclear quinho Lopes177, que é contíguo à UMAPAZ, no mes-
original, bem como a abordagem transdisciplinar. mo Parque do Ibirapuera.
Esse trabalho foi desenvolvido intensivamente, na pri- Além disso, considerando que o foco do Curso Edu-
meira semana de janeiro de 2010, com oito horas de cação Gaia em São Paulo é a transformação em meio
trabalho por dia. O resultado foi encaminhado à consi- urbano, acrescentou-se um novo tipo de apoio aos
deração do GEESE, entretanto, estimulados por esse participantes: mobilidade, alimentação, lazer e arti-
processo, os parceiros de São Paulo decidiram propor culação da rede.
ao Gaia Education a experimentação do novo currículo.
A partir da notícia de recertificação, que fora solici-
Essa decisão exigiu muita preparação do grupo coor- tada em agosto de 2010, o grupo de parceiros co-
denador e dos facilitadores, bem como a solicitação ordenadores do Curso estruturou a realização do
de recertificação para o Gaia Education nesses ter- Curso, e a preparação de cada módulo, respectivas
mos. Concedida a autorização, a quinta turma, como ementas e materiais, com os facilitadores, com os
o currículo renovado, foi programada para dezembro seguintes objetivos:
de 2010.
 Promover a capacitação de agentes sociais
Em fevereiro do mesmo ano (2010), também ocorreu, em sustentabilidade urbana.
na UMAPAZ, o encontro dos educadores do Curso
 Desenvolver práticas para a aplicação e ob-
Educação Gaia de todo o Brasil
servação dos conceitos da Educação Gaia em
meio urbano.
4. Educação Gaia São Paulo 2010:  Experimentar estratégias e metodogias
nova dinâmica de ensino-aprendizagem para mudan-
Além de experimentar o novo currículo, outras deci- ças em meio urbano de modo a contri-
sões foram tomadas para a realização dessa quinta buir e implementar melhores práticas de
turma. Sustentabilidade.
Foi decidido, pelos parceiros, realizar o curso de for- O programa foi estruturado para um total de 120 ho-
ma intensiva e, também, com uma logística nova. ras, sendo 96 horas/aula/atividades presenciais e 24
horas de estágio, para ser realizado no período de 2
O Curso de São Paulo sempre atraiu um número
a 17 de dezembro de 2010, de segunda a sexta, das
expressivo de candidatos, então os parceiros defi-
9 h às 18 h.
niram formar uma turma de 120 pessoas e subdi-
vidi-la em três grupos de 40 pessoas, trabalhando A seleção dos inscritos compôs três grupos de 40
simultaneamente. pessoas, com diferentes formações, ocupações e
Essa logística foi tornada possível pela reserva de faixas etárias, com alguma predominância de jo-
todos os espaços da sede da UMAPAZ176 durante a vens, em razão da proposta do curso ser intensi-
vo e exigir, portanto, dezesseis dias integralmente
tor Leon Ades, Taísa Mattos, Georges Fouad Kherakian, disponíveis.
Ezio, Marina, Manu, Raquel, Felipe, Erian, Rose, Luciana,
Edite, Claudia Passos, Eduardo Weaver, Lama Padma O Curso foi organizado para iniciar-se nos dois pri-
Santem, Marcos Arruda.
meiros dias com as três turmas – 120 pessoas –
176 | Dois auditórios, duas salas grandes, espaços am-
plos para convívio e biblioteca especializada em meio 177 | Viveiro de plantas para as praças públicas e entre-
ambiente e cultura de paz. posto de árvores para plantio nas ruas da cidade.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 65


juntas, com May East trabalhando os temas intro- Uma quarta tecelã, Estela Maria Guidi Pereira Go-
dutórios e “criando comunidade”, essência do Gaia. mes182 assumiu outro papel, igualmente estratégico.
Reuniu, diariamente, as três turmas no momento de
A partir do terceiro dia, os três grupos se subdivi-
abertura do curso para prepará-los para os temas e
diram e realizaram, sucessivamente, as dimensões
práticas de cada dia, por meio de um programa de
social, ecológica e econômica.
danças circulares.
Todos os dias, ao final da tarde, as turmas se reu-
Nos dois primeiros dias do curso a própria May East
niam para o Conselho178, onde era compartilhado o
fez a preparação, a partir do terceiro encontro, a te-
processo, as percepções, os sentimentos.
celã Estela iniciou seu trabalho:
Para integrar cada grupo e os três grupos entre “Inicío da semana, terceiro dia de encontro,
optou-se por escolher três tecelões, para que, no começou com “Ena Mythos”, dança grega que
módulo inicial, Visão de Mundo, ficassem juntos nos relembra a importância em caminharmos
e, nos Módulos referentes às dimensões social, ao encontro do outro ocupando nosso espaço
economica e ecológica acompanhassem, cada na roda da dança como na roda da vida, ceder-
grupo durante todo o seu percurso, contribuin- mos espaço ao outro trabalhando nossa escu-
do para articular os conteúdos e as dinâmicas. ta aberta/ativa e caminharmos todos juntos.
Para esse papel de tecelão foram escolhidas três Três movimentos na grande dança da vida. A
pessoas experientes em facilitação de grupos: seguir, os participantes dançaram e cantaram
Eveline Limaverde 179, Eliana Sapuaia Rizzini 180 e “Mãe Terra” que convida a relembrar a conexão
Victor Leon Ades181. profunda de nosso coração com a Terra, Gaia,
178 | A prática do Conselho, momento em que todos se trazendo esta conexão ao nosso ser e a todas
reúnem em roda e que, com um bastão falador, apresen- as nossas relações com a comunidade de vida.
tam suas percepções e sentimentos, é parte integrante
do Curso. Quarto dia do encontro, a dança foi “Madre
179 | Educadora e coordenadora executiva do Programa Tierra”, percebendo as quatro direções que
Carta da Terra em Ação da UMAPAZ, de Formação de
Agentes Socioambientais urbanos. Coordena o projeto Sustentabilidade entre as quais: Gaia Education, ConPaz
"A Paz no Coração" na SARP Visconde Comunidade Real - Alesp, Redepaz, Educador em Sustentabilidade, Or-
Parque. Certificada como designer de sustentabilidade gçanização Social e Economia Solidária. Facilitador de
pelo Gaia Education, realizado em parceria com a UMA- grupos e atividades com Comunicação e Conversas Sig-
PAZ, em 2006. Sócia do GEPC - Grupo Pedagógico de nificativas. Nucleador de Economia Sustentável do Pro-
Educação e Cultura. Coordenou de 1995 a 2005, a Aca- grama Permanente Ecobairro na Vila Mariana, São Pau-
demia Katita Sport Center - Educação e profilaxia com lo; ligado ao Movimento Cidades em Transição. Membro
bebês na água. Trabalhou com hidroterapia e técnica da Ecovila Clareando, em Piracaia-SP, desde 2005. Co-
Wtsu, de 1983 a 2003. Tem formação em Biopsicologia, nhecedor e pesquisador das dinâmicas das ecovilas no
realizada no Parque Ecológico Instituto Visão Futuro, Brasil e no exterior, compartilhando experiências. Cola-
com a Dra. Susan Andrews, de 1998 a 2004, e Formação borador do curso Educação Gaia na UMAPAZ - São Pau-
Holística de Base pela Universidade Holística Interna- lo, desde 2006 e no Ecobairro - Salvador em 2010. For-
cional da Paz - UNIPAZ, Campinas (1998-99). mação acadêmica: Engenheiro Químico e pós-graduado
180 | Bióloga (UnG/SP), Especialista em Educação Am- em Administração de Empresas.
biental (FSP/USP). Atualmente bióloga e docente da 182 | Fonoaudióloga. Formada em Danças Circulares,
UMAPAZ, onde coordena programas Água: Recurso Es- Coordenadora do Programa de Danças Circulares e ou-
tratégico para a Vida; Resíduos Sólidos; Parque do Ibi- tros programas de educação socioambiental da UMA-
rapuera: um Laboratório da Cidade de São Paulo. Cer- PAZ. Formadora em Danças Circulares da Triom – SP. Do-
tificada como designer de sustentabilidade pelo Gaia cente do Curso de Especialização em Danças Circulares
Education realizado com a UMAPAZ, 2006. e Jogos Cooperativos da UNIPAZ Campinas. Certificada
181 | Designer de Sustentabilidade, ativista social e am- como designer de sustentabilidade pelo Gaia Education,
biental e membro de diversas redes de Cultura de Paz e realizado em parceria com a UMAPAZ, 2006.

66
trazem a organização da forma do quadrado em diversas línguas (português, inglês, espa-
presente em várias construções, os quatro nhol, árabe, hebraico e francês) para dançar-
elementos presentes em tudo que existe (ter- mos no próximo dia esta linda saudação.
ra, água, fogo e ar), Mãe Terra na figura de
Sétimo dia: foi retomada da “Saudação da
Pachamama que nos aquece e alimenta. Em
Paz” canção com a dança aonde todos vão
seguida os participantes entoaram a canção
juntos ao centro, onde todos somos um, vol-
indígena dos nomes, trazendo a força das vo-
tam aos seus lugares no círculo da dança e da
gais de cada ser presente no círculo, o um no
vida trazendo a força da conexão com o todo e
todo, formando harmonias e conjuntos diver-
depois desejam e saúdam os companheiros da
sos no círculo, o todo no um.
roda em várias línguas construindo a paz nas
Quinto encontro, número cinco que traz a in- relações pela troca dos olhares e da expressão
teira presença de nossa humanidade, a ima- pessoal da voz e da gestualidade. Retomada
gem do homem vitruviano, com os membros e da conexão do número 7: nas 7 cores do arco-
a cabeça formando a estrela de cinco pontas. íris, nas 7 notas musicais e nos 7 tons que po-
Tempo de reconhecimento de si e do outro, dem ser representados na subida do grave ao
divisão em sol e lua na dança russa “Aya Po agudo e do ritmo mais lento ao mais rápido.
Logu”, dança de saudação e cumprimento, Dançando e cantando “Escravos de Jó nos
olhar e reconhecer o outro fazendo cada um a 7 tons” buscou-se resgatar a criança interna
sua parte, seguindo nossa plena natureza. A que traz a alegria em viver o momento presen-
seguir, os participantes cantaram e dançaram te e a força no trabalho conjunto na brincadei-
uma canção indígena trazida anteriormente ra cantada.
pela May East, dividindo o grupo dos homens
no centro olhando para fora e o grupo das mu- Oitavo dia, início de mais uma semana, o dia
lheres no círculo de fora olhando para o centro. começa saudando a Terra com a canção “A
Encontro dos grupos na distinção de gênero, Terra é nossa mãe” reconhecendo a necessi-
na complementação de forças opostas, terra dade do cuidar, convidando a união entre os
e céu, para baixo e para cima, para dentro e homens e todos os seres que fazem parte de
para fora, feminino e masculino na beleza do uma mesma morada e tornando consciente
encontro dos olhares formando uma só canção cada passo dado em nosso caminho e na jor-
com duas vozes distintas. nada com o grupo.  A seguir é trazido o sím-
bolo da leminiscata através da dança de Israel
Sexto encontro, encontro da intuição com a
“Al Achat” que reconhece o grande milagre da
razão na figura da estrela de 6 pontas que une
vida no momento presente. Caminha-se em
o triângulo que vem de cima com o triângulo
todas as direções, direita, esquerda, centro e
que vem de baixo, representando a sabedoria
círculo e se desenha o símbolo do infinito onde
do encontro, a sinergia e complementaridade
cada um ocupa o lugar do outro, voltando
dos opostos. Para celebrar esta união os par-
sempre ao nosso próprio lugar e presença do
ticipantes dançaram “Ve Davi” de Israel, dan-
um no todo.
ça animada, alegre, viva que celebra a sabedo-
ria da união e do encontro. A seguir do “dois” Nono encontro: número 9 que retoma a sa-
se forma “um’ e é possível desejar que a paz bedoria do caminho percorrido e de todos os
esteja com todos no aprendizado do canto da passos que demos através da jornada do 1 ao
“Saudação de Paz” que diz em harmonia que 9. Tempo de finalização e salto quantitativo
´a paz esteja contigo, contigo esteja a paz´ e qualitativo. Tempo de reconhecer as lindas

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 67


mandalas do tempo e do espaço na dança Décimo segundo encontro, 12, o número do
“Irish Mandala”. Construção conjunta das mestre, da maestria de cada ser a partir de
parcerias, o papel de cada ser no círculo da suas experiências, do reconhecimento de sua
dança e da vida, a presença do masculino e do vocação! 12 o número do mestre, da maestria
feminino, o ritmo, a confiança na caminhada de cada ser a partir de suas experiências, do
de costas, o auxilio do outro, a presença dos reconhecimento de sua vocação! 12 discípulos
portais em nossas vidas, a beleza do encontro, do mestre, 12 casas astrológicas, 12 signos no
a sabedoria da natureza. A partilha da alegria, mapa da vida...tempo de finalizar com a maes-
da emoção, da beleza, dos olhares e sorrisos tria que rege nossas vidas. Trouxemos o bara-
na roda levou o grupo a pedir bis. lho ´Palavra de Criança` (Patrícia Gebrim, Edi-
tora Pensamento) onde Eveline trouxe a ALMA,
Décimo dia, recomeçar do 1 ao lado do zero,
Vitor trouxe a VERDADE e Paullo Santos a
com intuição, com a sabedoria do nosso co-
COMPAIXÃO, três qualidades para o último dia.
ração presente, com nossa presença no pre-
Dançamos a terceira querida do grupo “Aya
sente!!! Inicia-se trazendo a dança Hei na na
Po Logu” que possibilita o delicado encontro
dos índios norte-americanos que reconhece a
de sol e lua, reconhecendo cada ser no grande
sabedoria dos quatro elementos reverencian-
círculo. Composição e construção conjunta do
do a terra, trazendo o fluxo e fluidez da água,
canto “Somos um círculo” (somos um círculo,
saudando o ar e trazendo a força do fogo ani-
dentro de um círculo, sem princípio e sem fim...),
mador da vida. A seguir o grupo se dividiu em
formação da harmonia das diversas vozes e
5 vilas do grande “Vilão” para trabalhar e te-
canto-dança conjunto. Somos um!”
cermos juntos, costurando para cima e para
baixo, na proximidade e no distanciamento, Após essa jornada, foi retomada a Visão de Mun-
abrindo portais e passando por eles na alegria do, com os últimos temas, os modelos de mudança,
da celebração do trabalho conjunto do grande observados e refletidos em conjunto. A estratégia
e diverso tecido da vida.. de desdobrar a Visão de Mundo parte no momento
inicial do curso e parte no seu final, deve-se a per-
Décimo primeiro dia, 11 ou 1 + 1= 2, nova-
cepção da importância da Visão de Mundo na dina-
mente a parceria, mas com a consciência de
mização da fórmula do desenvolvimento sustentável
que quando somamos sinergicamente 1 + 1,
que, além de acrescentar o aspecto cultural, viabili-
pai e mãe, nasce o 3, o filho, os projetos, o
za revisões do entendimento do conceito de desen-
novo, o terceiro incluído! Dançamos as duas
volvimento sustentável. Além de resgatar saberes,
primeiras queridas do grupo, após a votação
conduz para a visão de um futuro que se ocupe das
foram escolhidas Madre Tierra e Irish Mandala.
futuras gerações.
“Madre Tierra” reconhecendo a mãe Terra –
Gaia – que nos nutre, alimenta e aquece, todos
juntos no círculo selando nosso compromisso 5. Educação Gaia São Paulo 2010:
com a vida, a existência, todas as direções, os conteúdos e facilitadores dos
quatro elementos, nossa cruz, o sagrado ofí- temas
cio, o serviço de cada um no todo. Retomamos
a canção que abriu o primeiro dia do Gaia 2010 Neste item é feita uma breve descrição de cada mó-
na música de Keco Brandão tocada pelo grupo dulo, com a ementa do conteúdo e a identificação
´Homem do Brasil´. “Irish Mandala” a beleza dos facilitadores183.
do encontro, a parceria e o papel de cada ser 183 | Esse material foi exposto nos murais e disponibili-
no grande quadro da vida. Alegria e vibração! zado para os alunos participantes em meio digital, nos

68
5.1 Visão de Mundo Design para sustentabilidade - uma Introdução

O Módulo Visão de Mundo é composto por 6 temas: A introdução apresenta uma visão geral do traba-
Design para sustentabilidade – uma introdução; um lho internacional de design de sustentabilidade do
mundo pleno de visões; Modelos de mudança; Ou- Gaia Education. Relata as raízes do Gaia Education
vindo e reconectando com a natureza; Dinâmicas de desenvolvido por uma rede de experts dos mais
transição: o modelo do Ecobairro184 e o modelo Tran- avançados centros de demonstração de vida de bai-
sition Towns185. xo carbono. Explora os motivos da necessidade de
redesenhar nossa presença humana sobre a terra
Os quatro primeiros temas foram facilitados por May
com enfoque na mudança climática, na necessida-
East186, que além de apresentar os conteúdos realiza
um trabalho extraordinário de formação de comuni- de de descarbonizarmos nossas cidades e na justiça
dade com os participantes, colocando-os em condi- social, possibilitando que os estudantes pratiquem
ção de prontidão para o processo de construção do apresentações relâmpagos sobre estes temas. No
conhecimento. final, os estudantes avaliam e definem as possíveis
escalas de design para sustentabilidade, desde pro-
A seguir os conteúdos abordados em cada um dos dutos até a colaboração internacional, passando por
temas do Módulo Visão de Mundo. comunidades, bairros, vilas, cidades, biorregiões e
megalópolis. São também introduzidos acordos so-
computadores da Biblioteca da UMAPAZ. Outros mate- ciais que irão nortear e promover resiliência nas re-
riais, como arquivos de slides e textos utilizados pelos lações interpessoais da comunidade de aprendizado.
facilitadores, também foram disponibilizados em meio
digital. Em papel os alunos receberam apenas a progra-
mação básica, com a indicação de suas salas e horários, Um Mundo Pleno de Visões
por tema e facilitador.
184 | Gerado pelo Programa Permanente Ecobairro do Aqui é introduzida a Dinâmica da Espiral, uma teo-
Instituto Roerich da Paz e Cultura do Brasil. ria de desenvolvimento que mapeia a complexidade
185 | Movimento criado pelo inglês Rob Hopkins e que humana e usa cores para caracterizar níveis de que
visa a transformar cidades em espaços mais sustentá- marcam nossa subsistência e existência Essa teoria
veis, menos dependentes do petróleo e mais integrados
à natureza. Vem sendo fomentado uma rede brasileira ajuda os estudantes a fazerem diagnósticos que se
de Cidades em Transição no Brasil, que pode ser conhe- aplicam a nível de indivíduo, instituição e/ou toda
cida no endereço: http://transitionbrasil.ning.com. uma sociedade e a mapearem diferenças internas no
186 | Educadora e consultora para a sustentabilidade, processo de design para sustentabilidade. Baseada
trabalha internacionalmente com o movimento global de
ecovilas e novo urbanismo. Mora há 17 anos na Ecovi-
na teoria do desenvolvimento humano proposta pelo
la Findhorn e coordena os programas de educação para professor de psicologia Clark Graves, a Dinâmica da
sustentabilidade. Responsável pelas Relações Inter- Espiral afirma que todos possuímos uma inteligência
institucionais entre a Rede Global de Ecovilas - GEN e
adaptável e complexa, que se desenvolve em res-
a ONU. Como Diretora do Programa Gaia Education da
Findhorn Foundation lidera um consorcio de educadores posta às condições de vida e aos desafios a serem
conhecidos como GEESE – Global Ecovillage Educators enfrentados. Onde está o foco da vida, lá estarão
for Sustainable Earth. May é embaixadora do Clube de também, latentes, os mecanismos e a inteligência
Budapest, Diretora do CIFAL Findhorn - Centro de Trei-
namento de Autoridades Locais Associado a UNITAR- coletiva, para lidar com os desafios.
United Nations Institute of Training and Research. Atu-
almente viaja o mundo para impulsionar o movimento
Modelos de Mudança
das cidades em transição (Transition Towns). Desde que
foi criado há pouco mais de três anos, gerou mais 8 mil
iniciativas de transição e 180 cidades oficialmente reco-
“Para dissolver um paradigma, se queremos mu-
nhecidas espalhadas pelo mundo. dar, temos que entrar em nível quântico, temos de

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 69


convidar o pensamento criativo perspicaz que de- foi o Ecobairro, pelo facilitador Paullo Santos187 e
safia suposições, quebra padrões e religa nossos Lara Freitas188. Trata-se do estímulo à organização
cérebros” (Danah Zohar).Neste módulo estuda-se a de bairros sustentáveis, fruto da consolidação do
arte de comunicar sustentabilidade para diferentes exercício da vida em comunidade, do cuidado com
visões de mundo. Estudantes irão desenvolver as todos os seres, o meio ambiente e o Planeta, mo-
habilidades de uma comunicação efetiva que honra delo que vem sendo experimentado pelo Programa
todas as visões de mundo como são, mesmo que Permanente Ecobairro do Instituto Roerich da Paz
sejam diferentes da sua. Irão aprender como libe- e Cultura do Brasil. Formam-se a partir de redes
rar a capacidade de criar mútuo entendimento com de cooperação onde a criatividade, harmonia e di-
pessoas e instituições. Ao explorar dois modelos versidade inspiram nossas ações, num movimento
psicológicos de mudança estudantes poderão com- contínuo de reconciliação, em que antigos saberes
parar e entender a relação entre o mundo interior dão as mãos às mais novas descobertas científicas,
e o mundo exterior, o mundo dos valores pessoais apoiando a sustentação da vida.
e sua ativação no processo de transformação da O segundo modelo foi o Cidades em Transição (Tran-
sociedade. sition Towns), apresentado Marcelo Todescan189,
187 | Contador, Publicitário, Designer em Sustentabi-
Ouvindo e Reconectando com a Natureza lidade, Consultor em Desenvolvimento Sustentável,
Membro da Iniciativa das Religiões Unidas e Casa das
A raiz dos problemas mais sérios que enfrentamos Religiões Unidas, Membro do Conselho Parlamentar pela
Cultura de Paz da Assembléia Legislativa do Estado de
nos dias de hoje está na desconexão observada ou
São Paulo e do Conselho de Meio Ambiente – Desenvol-
imaginada com a Natureza. A civilização, a cultura vimento Sustentável e Cultura de Paz da Subprefeitura
das cidades, substituiu a experiência restauradora da Vila Mariana, Coordenador das Ações em São Paulo
da Natureza por um ambiente totalmente constru- e Conselheiro do Instituto Roerich da Paz e Cultura do
Brasil, Coordenador do Programa Ecobairro – O Planeta
ído por humanos. Este tema apresenta uma série de é a nossa Casa, Coordenador da Casa Urusvati – Ecolo-
princípios inspirados pela linguagem dos padrões gia Interna e Cultura de Paz, Conselheiro da Aliança pela
naturais na busca de um mundo onde o social e eco- Infância, Coordenador de Parcerias da UNIKÓSMICA –
Universidade Livre de Educação Cósmica, Facilitador de
lógico se auto-alimentam e regeneram. Estudantes Ética Viva – Agni Yoga.
aprendem como ouvir atentamente, voltar-se para o 188 | Arquiteta e urbanista. Trabalha com urbanismo e
centro e incorporar o resultado de suas observações paisagismo em projetos sociais em assentamentos irre-
num design integrado de sustentabilidade. Reconhe- gulares na periferia e áreas de risco em cidades médias e
grandes, com vistas a uma gestão integrada de soluções
cem o valor dos processos cíclicos ao invés de linea- e especialidades envolvidas; com projetos de preserva-
res e as possibilidades de aplicação de seus insights ção ambiental, permacultura e ecoturismo. Especialista
num planejamento estratégico em busca de visão em Ecoturismo e Reabilitação Ambiental Sustentável
Arquitetônica e Urbanística pela UnB. Coordena o Pro-
de um futuro positivo que queremos co-criar com os grama Permanente Ecobairro, ligado ao Instituto Roeri-
fluxos naturais. ch da Paz e Cultura do Brasil.
189 | Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urba-
nismo da Universidade Mackenzie com 20 anos de ex-
Dinâmicas da Transição
periência profissional responsável por diversos projetos
em diversas áreas, com cursos de extensão universitária
As iniciativas de Transição tratam de um proces-
em Direito Ambiental nas Faculdades Metropolitanas
so de reestruturação dos elementos essenciais Unidas e treinamento em  Ecovilas, Permacultura, Bio-
que uma comunidade precisa para se sustentar e Construção, Energia Renováveis, Saúde nas Ecovilas e
Ecologia Profunda. Membro da  Ecovillage Network of
prosperar. Elas desenvolvem a resiliência local
the Américas  – Brasil,  Gaia Education  e  Transition To-
face aos riscos. O primeiro modelo apresentado wns.Membro Fundador da  Ecovila São Paulo, um con-

70
Frank Siciliano190 e Monica Picavéa191. A idéia por ceituais do pensamento ecológico, tomando por
trás do modelo Cidade em Transição é simples: uma base nossas heranças biológica e cultural para
cidade que use menos energia e recursos que nor- delinear um território dentro do qual iremos tran-
malmente consome; que  seja auto-suficiente  em sitar, em que serão incluídas diversas abordagens
relação à maior parte de suas necessidades; que contemporâneas: Pensamento Sistêmico, Teoria da
esteja preparada com sua total dependência dos Complexidade, Ecologia Profunda, Sharing Nature,
sistemas altamente globalizados de alimentação, Ecopsicologia, Fenomenologia Goetheana. Como
energia, transporte, saúde e habitação. A apresen- reconhecer essas abordagens em nossos esforços
tação contou com um representante da comunidade para pensar e agir de forma ecologicamente har-
de Brasilândia, da região norte de São Paulo, onde o mônica? Um contato profundo com a Natureza nos
modelo está sendo aplicado. conduz a formular pensamentos novos, criativos e
focados nos nossos mais elevados ideais. O conhe-
5.2 Dimensão Ecológica cimento deverá ser transformado e tornado vivo
por meio de experiências.
A dimensão Ecológica é composta por 6 temas: In-
teligência Ecológica; Ciclos de alimentação; Infraes-
Ciclos de Alimentação
trutura integrada para resiliência. Repensando o ha-
bitat; Regeneração de ecossistemas e Regeneração Tendo como facilitadoras Marly Pedra193 e Sueli
ecossistemas em meio urbano. Feldman Bassi194, aborda, inicialmente, a profunda
mudança na maneira de viver, de relacionar-se e
Inteligência Ecológica nos hábitos alimentares ocorrida desde que o ho-
mem deixou o estado nômade para fixar-se na terra.
Com a facilitadora Rita de Cássia Bernardo Men- Ao longo dos séculos a humanidade foi inventando
donça192, busca tecer em conjunto as bases con- formas de manejo e produção, fazendo escolhas.
No século XVIII começou a se intensificar a aglo-
ceito integrado para ecovilas urbanas e um dos “pilares” meração de população em cidades e uma separa-
de sustentação do Gaia Education em São Paulo. Sócio ção entre produtores e consumidores de alimentos,
do escritório Todescan Siciliano Arquitetura, Membro e
até que, em grande parte do planeta, a agricultura
Fundador do Instituto CRIS Referencia Integração Sus-
tentabilidade, Membro e Fundador da revista GEA Glo-
bal Ecologia Arquitetura. Membro e articulador da rede nação e execução de programas educativos, voltados
Brasileiras de Cidades em Transição. para os temas da sustentabilidade, da responsabilidade
190 | Arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura socioambiental e da ética. Coordena o Instituto Romã e
e Urbanismo da Universidade Mackenzie com 20 anos é responsável pela difusão do Sharing Nature no Brasil.
de experiência profissional responsável por diversos Tem livros e artigos publicados.
projetos na área da saúde, com cursos de extensão uni- 193 | Médica homeopata, psicoterapeuta, nutróloga, Nu-
versitária em Planejamento de Campos Universitários cleadora de Saúde do Ecobairro, Coordenadora da Casa
e Instalações Esportivas na Republica Federal da Ale- Urusvati, Coordenadora de Cosmo-Ação da UNIKÓSMI-
manha e treinamento em Ecovilas, Permacultura, Bio- CA – Universidade Livre de Educação Cósmica, Coorde-
Construção, Energia Renováveis, Saúde nas Ecovilas e nadora em São Paulo e Conselheira do Instituto Roerich
Ecologia Profunda. da Paz e Cultura do Brasil.
191 | Superintendente da Fundação Stickel. Pioneira no 194 | Nutricionista e psicóloga, certificada pelo Gaia
Brasil, junto com Marcelo Todescan e May East na me- Education como designer de sustentabilidade, 2007.
todologia de Cidades em Transição, vice-presidente do Educadora da UMAPAZ onde coordena Os programas de
Conselho da Associação Cidade Escola Aprendiz, Conse- Meio Ambiente e Saúde, Tai-Chi e Meditação e co-co-
lheira da Aliança Empreendedora.  ordena o Programa de Alimentação e Meio Ambiente. É
192 | Graduada pela Universidade de São Paulo (USP) em especialista em Ecologia, Arte e Sustentabilidade, pela
Ciências Biológicas, é experiente na elaboração, coorde- UNESP/UMAPAZ.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 71


foi transformada em agro-negócio e em indústria. Repensando o Habitat
A alimentação não é apenas uma escolha pessoal.
Frank Siciliano196 é facilitador desse tema. O ser huma-
É também um ato político, socioeconômico e éti-
no vem atuando no planeta terra como se os recursos
co. Conhecer as origens do alimento é importante
fossem infinitos e isto não se difere quando constrói
por motivos de saúde, meio ambiente e desenvolvi-
suas cidades e moradias. 80% da emissão de carbono
mento integral do ser: como foi plantado, armaze- vêm das construções e do consumo dos edifícios. Todo
nado e transformado em energia para sua nutrição, o consumo é planejado em um ciclo linear onde os re-
incluindo seu processo digestivo, permite-nos co- cursos são utilizados e seus resíduos são descartados
nhecer o ciclo da vida da alimentação. sem uma preocupação com seu destino e reciclagem. É
possível e urgente repensar esta ação humana tornan-
Infraestrutura Integrada para Resiliência do-a menos impactante com escolhas certas, ciclos fe-
chados, consumos reduzidos e conscientes, recriando o
Com a facilitadora Lara C. B. Freitas195 são traba- seu Habitat, da escala da cidade ao da moradia.
lhados os conceitos de paisagem e morfologia ur-
bana, desafios relacionados aos aspectos de uso e
Regeneração de Ecossistemas
ocupação do solo do ponto de vista socioambiental
na escala de quarteirão, bairro, cidade e metrópo- Com Vitor Octávio Lucato197, é abordada a utilização
le. Cenários futuros para resiliência. Avaliação da inadequada de recursos naturais, que viola ecossis-
disponibilidade e nível de atendimento de infra- temas, prejudicando ou mesmo destruindo sua ca-
estrutura urbana básica. Sistemas de Água (ba- pacidade de auto-regulação e renovação, resultando
cias hidrográficas, situação dos recursos hídricos, na progressiva redução da biodiversidade, da degra-
sistemas naturais e aproveitamento, conserva- dação ambiental e das condições de vida. A seguir
ção, abastecimento, tratamento e reuso); Energia é trabalhada a regeneração como um conjunto de
(geração passiva e consumo); Mobilidade (modos processos utilizados para recompor ecossistemas,
tendo em vista as condições naturais, as alterações
de transporte sustentável, infraestrutura básica
registradas e os prognósticos resultantes do moni-
e possibilidades) e Resíduos (situação, sistemas
toramento do ambiente.
e possibilidades). Metodologias de planejamento
sistêmico de ambientes antrópicos e naturais para 196 | Arquiteto, Diretor presidente do CRIS Centro de Refe-
que assentamentos humanos se tornem sustentá- rência e Integração em Sustentabilidade, sócio diretor da
veis e resilientes (estudos de caso). Planejamento Todescan Siciliano Arquitetura, Treinador oficial do movi-
mento Transition Towns no Brasil, Membro do Conselho
e design permacultural, princípios e ferramentas, GAIA Education de São Paulo da UMAPAZ - Universida-
análise de elementos e relacionamentos, otimiza- de do Meio Ambiente e Cultura de Paz, autor de diversos
ção dos fluxos, padrões naturais, uso energético projetos e consultorias entre eles CES Centro de estudos
para Sustentabilidade da Fundação Alphaville, Passarela
(zonas e setores). Verde da Avenida Eusébio Matoso, SP, Laboratório de Ge-
nética Humana da Universidade Federal do Paraná.
195 | Arquiteta e urbanista. Trabalha com urbanismo e 197 | Ecólogo, Biólogo, especialista em Saúde Publica
paisagismo em projetos sociais em assentamentos irre- (FSP/USP); em Gestão Ambiental (FSP/USP). Professor
gulares na periferia e áreas de risco em cidades médias e da Escola Municipal de Jardineiros e Jardinagem SVMA
grandes, com vistas a uma gestão integrada de soluções de 1982 a 2000.Administrador do Parque Ibirapuera em
e especialidades envolvidas; com projetos de preserva- 1993. Responsável técnico pelos parques Ibirapuera,
ção ambiental, permacultura e ecoturismo. Especialista Aclimação, Trianon, Independência e Buenos Aires 1991
em Ecoturismo e Reabilitação Ambiental Sustentável a 1992.Professor na Faculdade Anhembi – Morumbi  Cur-
Arquitetônica e Urbanística pela UnB. Coordena o Pro- so de Paisagismo 2005-2006. Professor no SENAC cur-
grama Permanente Ecobairro, ligado ao Instituto Roeri- so de Técnico em Paisagismo 1999 a 2006. Docente da
ch da Paz e Cultura do Brasil. UMAPAZ desde 2006.

72
Regeneração de Ecossistemas em Espaço Urbano Criando comunidade, sinergia e reciprocidade

Com Vitor Lucato e Yone K. F. Hein198, continua A complexidade do mundo contemporâneo, o ad-
o trabalho com a regeneração de Ecossistemas, vento das tecnologias da informação e a crescente
agora focalizando o espaço urbano como São Pau- transformação do planeta e dos povos e diferentes
lo, que é um desafio. É necessário compreender formas de vida, que o co-habitam em uma grande
a dimensão humana nas mudanças ambientais lo- e única comunidade, nos impõem um estimulante e
cais e globais e relacionar os ecossistemas urba- novo desafio: sermos capazes de conviver e favo-
nos com os sistemas naturais. O processo históri- recer realização plena de toda essa diversidade. É
co de ocupação do território paulista revestiu-se urgente que nos capacitemos para melhor atender à
de um caráter predatório que resultou na destrui- essa demanda, e assim sejamos capazes de promo-
ção de grande parte das formações vegetais ori- ver espaços efetivos de aprendizagem e vivência de
ginais. A tendência de desmatamento começou a uma inteligência social-comunitária que necessita
mudar recentemente com o avanço da legislação ser compreendida e aprendida por todos. O facilita-
ambiental, o aperfeiçoamento dos mecanismos de dor é Adriano Galhardo Pedroso199 .
controle e o crescente reconhecimento pela so-
ciedade da importância das florestas para manu- Redes e Ações Colaborativas
tenção da biodiversidade, a fixação do carbono da
Fruto do relacionamento complexo, horizontal e es-
atmosfera, a proteção do solo contra a erosão e a
truturado no fluxo poroso das relações capilariza-
prevenção do assoreamento de represas e cursos
das, as redes assumem múltiplas formas. As idéias
de água. A proposta é sensibilizar através de vi-
de redes e de ações colaborativas não são novas,
vências, a co-responsabilização quanto a recupe-
mas foram reconhecidas pelos meios de comunica-
ração de áreas degradadas pela urbanização e a
ção de massa dessa maneira na última dezena de
preservação de espécies nativas, notadamente as
anos ou pouco mais. Compreende-se com relativa
ameaçadas de extinção. 
facilidade a presença das redes de relacionamento
como o Orkut, o Facebook e o Twitter ou das redes
5.3 Dimensão Social profissionais como o Linkedin em nossas vidas. Mais
Esse módulo que trata da dimensão social é com- rara, mas não por isso menos importante, é a com-
preensão de redes mais antigas que operaram de
posto pelos temas: Criando comunidade, sinergia
maneira dinâmica, complexa, porosa e capilar muito
e reciprocidade; redes e ações colaborativas; Lide-
antes de as reconhecermos dessa maneira. Há uma
rança e Empoderamento: agentes de transformação
rede quase invisível que nos envolve e que chama-
pessoal e comunitária; Metodologias sociais; Arte e
mos de Universo. A menor partícula conhecida e as
transformações sociais. Arte e celebração.
maiores galáxias de que temos conhecimento estão
intimamente ligadas através de redes. Em nosso en-
198 | Bióloga, pesquisadora da Seção Técnica de Pes-
quisa da Divisão de Produção (DEPAVE-2) do Departa- contro vamos tratar dessa organização para enten-
mento de Parques e Áreas Verdes, onde cuida, inclusive,
da coleta de sementes e produção de mudas. Criou um 199 | Pedagogo, com formação em Psicopedgogia, Ges-
canteiro de plantas medicinais no Viveiro Manequinho tão de Pessoas e em Análise Transacional. É Trainer
Lopes, que tem sido campo de estudo para cursos da em PNL - Programação Neurolinguística, Focalizador
UMAPAZ, onde Ione colabora como educadora Formulou em Danças Circulares e Jogos Cooperativos, Terapeuta
e realiza, na UMAPAZ, o curso Sementes, mudas, árvo- Comunitário e Terapeuta Floral. Atua há 12 anos com
res, florestas, pelo qual já passaram muitas turmas. É educação (escolas, empresas, instituições públicas),
especialista em Ecologia, Arte e Sustentabilidade, pela com desenvolvimento de pessoas e grupos, e com aten-
UNESP/UMAPAZ. dimento clínico em consultório.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 73


dermos como podemos nos inspirar metaforicamen- Podemos viver juntos, iguais, diferentes? A per-
te para nossas ações no planeta a partir da história gunta de Alain Touraine em seu livro do mesmo
do Universo. A aula é realiada no Planetário do Ibi- nome, remete às possibilidades de convivência
rapuera (Planetário Prof. Aristóteles Orsini), com o respeitosa, alegre e pacífica entre essa família
facilitador Walmir Thomazi Cardoso200. humana tão semelhante e diversificada ao mesmo
tempo. Nesse exercício do convívio, através dos
Liderança e Empoderamento: agentes de séculos, transpassado por momentos de guerra e
separação, como de fraternidade e união, fomos
transformação pessoal e comunitária
gerando tecnologias, que mediam nossas rela-
Num contexto de mudanças dos paradigmas so- ções, como guardar o mesmo sentimento de per-
cial, econômico, ecológico e cultural/espiritual em tencimento pelo rio que corre pela minha aldeia
que estamos vivendo, novas formas de gerir nossas e pelo grande mar expressa a magia dos víncu-
idéias e as idéias coletivas apontam para um cenário los; fazer os Conselhos a beira do fogo, passan-
de multidiciplinaridade e visão. Lideres, como cata- do o bastão da palavra e conselhos que navegam
lizadores comunitários e fomentadores da força e pela internet cumprindo o mesmo papel. Olhos
genialidade dos grupos, tornam-se os facilitadores nos olhos, olhos na câmera. Mão na mão e toque
da liderança compartilhada, fazendo das cidades um virtual, que a cada dia ganha novas dimensões e
centro de recursos inesgotáveis. Então é necessá- possibilidades. Da lógica disciplinar para a trans-
rio despertar este poder interior inato que desvenda disciplinaridade. Mergulho no modelo caórdico – a
nossas potencialidades e que fortalece nossas co- intersecção entre a ordem e o caos. Da palavra do
munidades como geradoras do seu próprio bem co- especialista para a construção conjunta do co-
mum. O empoderamento pessoal, a auto-organiza- nhecimento, do estudo solitário para as rodas de
ção, as lideranças circulares, são alguns dos temas conversa, círculos de diálogo, open space, art of
que iremos discutir, experienciar e deixar que reve- hosting, world café, banco de tempo, agenda 21
lem a magnitude desta nossa inteligência coletiva.A – estratégias para encontrarmos coletiva e criati-
facilitação é de Zaida Amaral201. vamente caminhos para trilhar os desafios da con-
vivência. A facilitação é de Rose Marie Inojosa202.
Metodologias Sociais
Arte e Transformação Social
200 | Educador, assessor especial dos Planetários de
São Paulo, docente da UMAPAZ na SVMA. Doutor em A Arte integra diferentes níveis de percepções e, no
Educação Matemática pela PUC-SP, Mestre em Histó- seu papel de desvelar o que é anseio ou está sub-
ria da Ciência pela PUC-SP, Especialista em História da jacente na consciência social, tem um importante
Ciência pela UNICAMP, Físico e Professor de Física do
Departamento de Física da PUC-SP.
papel impulsionador do olhar crítico. Expande as
201 | Arquiteta com experiência em coordenação de pro-
possibilidades de resgate da identidade e do pulsar
gramas da sustentabilidade. Foi Diretora de Ecovillage da cultura, mantendo-a viva. Propõe-se um trabalho
Design Southwes, em Albuquerque, EUA e formadora prático de criação coletiva de Arte Efêmera, que con-
certificada pelo Gaia Education, em 2007. Como cofun-
dadora do The Sustain Ability Trust inspirou vizinhos, 202 | Diretora da UMAPAZ – Universidade Aberta do
amigos e membros da família para desenhar suas pró- Meio Ambiente e Cultura de Paz de São Paulo, profes-
prias visões de sustentabildiade e trabalhou por cinco sora dos Cursos de Especialização Administração de
anos para co-criar uma ecovila urbana. É cofundadora da Projetos Sociais no Terceiro Setor, PUC/SP; Ecologia,
Ecovila Cunha, no Brasil. No projeto Ressonância usa o Arte e Sustentabilidade, UMAPAZ/IA-UNESP. Integrante
feng shui e a arquitetura verde para criar espaços sagra- da equipe técnica de consultoria, formação e pesquisa
dos para uma variedade de clientes individuais, comer- da FUNDAP/SP. Doutora em Saúde Pública (USP/SP) e
ciais e da comunidade. Mestre em Comunicação Social (ECA/USP).

74
tribua para a reconexão do olhar e o reencontro com partida para se aproximar da questão econômica,
a beleza e diversidade das formas naturais, seguido social e ambiental, compreendendo a dimensão sis-
de uma roda de diálogo onde os participantes pode- têmica, dinâmica e viva desta realidade poderosa
rão compartilhar suas visões. A facilitadora é Maria que é a economia. A proposta é trabalhar de forma
Christina Belfort203 . conjunta sobre este tema complexo, aberto a di-
versos pontos de vista, de modo a empreendermos
Arte e Celebração a tarefa de desvelá-lo e compreendê-lo, conside-
rando que o desenvolvimento atual da humanidade
Atividades artísticas, festivais, encontros de não pode evitar e nem postergar esta questão. Fa-
criatividade e celebrações são integradores dos cilitador Jefferson Costa204.
diversos nichos sociais, são caminhos da recupe-
ração e o revisitar do trajeto cultural, mantendo Ecosocioeconomia
sua vitalidade criativa. O vivenciar do universo
simbólico que nos trouxe até o presente, sus- Com a facilitação de Lia Salomão Lopes205, faz-se
tenta a unidade social e a inter-relação cultural, a analise das mudanças nos padrões de desenvol-
mantendo-a viva. A proposta, coordenada por vimento econômico. Identificação de necessidades
Maria Christina Belfort, mobilizou um grupo de de alteração da cadeia de produção para o desen-
gaianos dos anos anteriores. volvimento sustentável, com a análise coletiva da
cadeia produtiva atual. Reflexão sobre a ferramen-
5.4 Dimensão Economica ta territorial de alteração do padrão de produção e
desenvolvimento.
Esse módulo que trata da dimensão economica é
composto pelos seguintes temas: Tirando as Más- Economia e Geopolítica
caras da Economia: Economia, Espiritualidade e
Desenvolvimento Humano; Ecosocioeconomia: De- O Desenho do tecido econômico mundial se reorga-
senvolvimento local, economia solidária e redes; nizou, nos últimos tempos. Este modulo pretende
Comércio justo; Desenvolvimento local sustentável: explorar o novo modelo, Analisando as bases da
experiências em São Paulo Geopolítica econômica mundial e como este tecido

Tirando as Máscaras da Economia: Economia, 204 | Docente de conteúdos antroposóficos, professor


Espiritualidade e Desenvolvimento Humano e consultor nas áreas de Educação, Economia e Sus-
tentabilidade com trabalhos realizados no Brasil e Ex-
Não existe anseio verdadeiro para a liberdade sem terior em parceria com instituições como: Universidade
Anhembi-Morumbi , Universidade Federal do Sergipe ,
a compreensão real das forças que atuam no im- MASP, Instituto Florestal de São Paulo, FUNDAP, Fin-
pulso econômico. Esse módulo abordará as forças dhorn Foundation / GEN + 10 , GAIA Education , Instituto
que atuam no processo econômico como ponto de Baccarelli e UMAPAZ - Universidade do Meio Ambiente
e Cultura de Paz.
203 | Artista Plástica, faculdade de Filosofia Ciências e 205 | Geógrafa (UNESP) e especialista em Responsabi-
Letras de Tatuí, Educadora, Docente da Pós graduação lidade Socioambiental (SENAC/SP); docente nas áreas
“ Educação e sustentabilidade- Florianópolis, designer de Desenvolvimento Local, Diagnóstico Territorial, Eco-
de Ecovilas, formação em Designer de Sustentabilida- nomia Solidária e Educação Ambiental. Certificada como
de Urbana, e facilitadora do Educação Gaia. Criadora designer de sustentabilidade pelo Gaia Education, 2008.
de currículos pedagógicos para educação sustentável e Concepção e desenvolvimento do processo de difusão
ecologia do Ser, Coo-criadora do programa Gaia Jovem. dos Cursos Lições da Árvore e Articulação Local para
Facilitadora do programa Carta da Terra.Coordenadora o Desenvolvimento Sustentável realizado pela UMAPAZ
do movimento Curar a Terra -SP. em parceria com instituições locais.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 75


se manifesta tanto local como global . Esse tema é Desenvolvimento Local Sustentável:
facilitado por André Luiz Moura de Alcântara206 . experiências em São Paulo

Tem o objetivo de promover o entendimento compar-


Desenvolvimento Local Sustentável: economia
tilhado sobre o dinheiro, o tecido socioeconômico e
solidária e redes a promoção das economias locais. Explora a criação
Âmbitos da cooperação no âmbito econômico: nível de moedas e bancos comunitários, instituições que
local e global. Bases da economia solidária. Traba- permitem que as comunidades direcionem as reser-
lho, autogestão, cooperativas e redes. Tipos de coo- vas, as poupanças de seus membros para iniciativas
perativa: consumo, crédito, produção. Realização de locais. A moeda local viabiliza que o fluxo de circula-
atividade: Feira Solidária. Tema com a facilitação de ção permaneça na economia local, impedindo, como
Lia Salomão Lopes. diz Milton Santos, que este escape para economia
especulativa global. Realiza roda de diálogo para a
compreensão do caso do Banco Comunitário União
Comércio Justo Sampaio, gerenciado por meio da Casa da Mulher e
Analisa o comércio justo e solidário, bem como o da Criança e da Rede Solidária Zona Sul, com o apoio
fluxo comercial baseado no cumprimento de cri- da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Popula-
térios de justiça e solidariedade nas relações co- res da Universidade de São Paulo. Com a facilitação
merciais. Contempla a co-responsabilidade nas de Georges Kharlakian Jr. e convidados.
relações entre os diversos atores na produção,
comercialização e consumo, a valorização das re- 6. Mobilidade, alimentação, lazer
lações da diversidade étnica e cultural e o conheci- e articulação da rede
mento das comunidades tradicionais. Reconhece o
protagonismo dos empreendimentos econômicos e Nas turmas realizadas nos anos anteriores (2006,
solidários. Aborda a história e os conceitos básicos 2007, 2008 e 2009) foi fundamental o trabalho vo-
do cooperativismo, a mandala da Economia Soli- luntário de suporte logístico para o curso, atuando
dária e o consumo responsável como ferramenta na recepção, no controle de presença, na organiza-
de transformação social. Utiliza o método da roda ção do lanche, etc., porque o curso foi realizado nos
para a construção de conhecimento sobre criação e finais de semana e à noite.
circulação de riquezas, com representante do em- Porém com o novo formato, dentro do horário de
preendimento Sementes da Paz. O facilitador foi funcionamento da UMAPAZ, foi garantido o apoio da
Georges Fouad Kharlakian Jr207. secretaria escolar, serviço de copa, limpeza e vigi-
206 | Cientista Social, graduado pela USP, em 1989, com lância da própria instituição, durante todo o tempo
Especialização em Educação Ambiental pela Faculdade de realização do Curso.
de Saúde Pública da USP e em Gestão Ambiental, pela
Faculdade de Engenharia Mecânica da UNICAMP. Funcio- Isso permitiu que os gaianos voluntários pudessem
nário Público, lotado na Secretaria municipal do Verde e contribuir com seu tempo e saberes em linhas de
do Meio Ambiente desde 1994 e sociólogo e educador trabalho diretamente relacionadas ao processo de
ambiental do Departamento de Educação Ambiental -
UMAPAZ desde 2006, ministra o programa Carta da Ter-
ra – modulo Diversidade Humana Desenvolvimento. veis, pela UNIFESP. Atuou mais de 10 anos no mercado
207 | Sócio - Economista – Educador. Atualmente é Co- financeiro, como analista econômico no setor financeiro
ordenador de Projetos e docente na UMAPAZ. Integra o e empresarial. Participou como consultor para Merca-
corpo docente do curso de pós-graduação em Educação dos emergentes em empresas de energia elétrica como
e Sustentabilidade - Projeto Atitude, em Florianópolis AES Eletropaulo e Tricon B&MF – corretora de Valores
SC. Foi educador do projeto Ambientes Verdes e Saudá- Mobiliários.

76
ensino-aprendizagem do espírito gaiano em meio sino-aprendizagem de convívio solidário urbano e de
urbano: Gestão da Mobilidade; Gestão da Alimenta- compreensão das relações campo-cidade, produtor-
ção; Gestão do Lazer; Facilitação da Articulação da consumidor. Foi constituído um grupo para contribuir
Rede208 para que os participantes se alimentassem de forma
adequada, saudável, prazeirosa, solidária e com res-
Essas frentes – mobilidade, alimentação, lazer, rede
peito mútuo durante o Curso, como parte do proces-
– visaram a que os participantes experimentassem
so de ensino-aprendizagem; maximizar a aquisição e
práticas referidas a orientações e reflexões com-
consumo de alimentos saudáveis e ambientalmente
partilhadas durante o curso, bem como a adaptação
responsáveis; minimizar o desperdício e a produção
dos ensinamentos gerados nas ecovilas para meio
de resíduos; orientar para a correta disposição e
urbano transpondo os limites da reflexão teórica e
destinação dos resíduos orgânicos e os demais.
encontrando formas de se realizar na complexidade
de uma cidade como São Paulo, podendo, eventual- Em relação ao lazer, 25% dos participantes eram
mente, ser usada em outras cidades. de fora da cidade e, além disso, no período do curso
havia dois finais de semana. A cidade de São Paulo
No que diz respeito à mobilidade, a situação é que
oferece, de forma gratuita ou com baixo custo, ati-
eram 120 alunos deslocando-se para a UMAPAZ, na
vidades de lazer e oportunidades de encontros em
região sul, de vários pontos da cidade e retornando
muitos parques públicos, atividades de arte, cultura
a sua origem, durante 12 dias. Além disso, 25 alunos
e esportes livres em unidades da própria prefeitura
eram de outras cidades e cinco de outros estados do
(centros esportivos, teatros) e do sistema S (SESC e
Brasil. Uma pegada e tanto, sobretudo considerando
SENAC). O grupo de apoio ao lazer procurou contri-
as dificuldades de trânsito em São Paulo. O objeti-
buir identificando essas oportunidades e trabalhan-
vo estabelecido para esse grupo foi o de contribuir
do o tempo de lazer como parte do ensino/apren-
para a gestão solidária e responsável da mobilidade
dizagem da convivência urbana alegre, criativa,
dessa turma, realizando pesquisa origem-destino de
solidária e responsável , demonstrando como buscar
cada aluno, mapeando os grupos por região e bairro;
alternativas individuais e coletivas para o lazer em
identificação de alternativas de percurso e modos de
meio urbano.
acesso: a pé, de bicicleta, de ônibus, de metro, de
carro/carona e modos combinados, com os tempos Já o grupo de Articulação da Rede teve como ob-
médios dos percursos; facilitando a auto-organiza- jetivo promover a integração dos gaianos inclusive
ção dos participantes para a formação de grupos por com as turmas já concluídas.
bairro, proximidade, modo de locomoção.
No que diz respeito à alimentação eram 120 almo- 7. Os gaianos e suas vozes
ços e 240 lanches diários. No primeiro e no último dia
Como se pode ver dos itens anteriores, muitos gaia-
serão oferecidos alimentos para os participantes.
nos ficam ligados entre si e aos trabalhos da UMA-
Nos demais dias eles deveriam trazer e comparti-
PAZ, tornando-se reeditores209 dos conhecimentos
lhar seus alimentos como parte do processo de en-
construídos. No próprio conjunto de facilitadores de
208 | Esse trabalho foi coordenado por Glacilda Pinheiro 2010 figuram participantes das primeiras turmas.
Correa, educadora e diretora de Formação da UMAPAZ,
e Jacob (Jack) Shdaior ,empresário e ganiano, com o A seleção, em 2010, pautou-se pelos mesmos crité-
apoio de Mordehai Shcaior, arquiteto, que trabalhou rios usados na composição das turmas anteriores,
com a questão da Mobilidade), Anne Trummer e Suely
Feldman Bassi, que trabalharam com a orientação da
Alimentação, Rodrigo Garcia e Luna Borges, responsá- 209 | Não se trata de mera multiplicação, mas de reedi-
veis pela questão do Lazer e Marina Spirandelli e Rodri- ção, onde cada educando também se torna produtor de
go Cardoso, que trabalharam a articulação da rede. novos conhecimentos e práticas.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 77


buscando o equilíbrio de gênero, idades, formação “Troca entre os participantes e as celebrações”;
e ocupação. Assim a turma foi formada por 57% de “Convívio com a diversidade”; “Melhoria na per-
mulheres e 43% de homens. cepção do mundo, acreditar que posso melhorar
Em relação às faixas etárias houve predominância o mundo; aprendizado espiritual e os diálogos”;
de jovens – de 21 a 30 anos, 49% e o restante distri- “ Saber escutar”; “Liberdade e acolhimento”;
buído em outras faixas, sendo 20% de 31 a 40 anos; “Acolhimento e infra-estrutura vivências.”
12% de 41 a 50 anos; 10% de 51 a 60 anos e 5% com Entre as coisas a serem melhoradas estão:
mais de 61 anos.
“Mais práticas externas”;“Mais momentos de
Quanto à origem 68% são da cidade de São Paulo, integração e vivências do grupo”; “Maior espa-
25% de outras cidades do mesmo estado de São ço de digestão da aprendizagem e maior espa-
Paulo e 7% de outros estados do país. Os partici- ço de tempo de convivência”;“Mais conteúdo
pantes vieram de uma multiplicidade de formação de política”.
e, no caso de estudantes, de diferentes cursos. A
Quanto às idéias, práticas e ferramentas que o parti-
distribuição por setor de ocupação mostra 27% ocu-
cipante entende que é possível incorporar a sua vida:
pados em atividades autônomas, 15% em empresas
privadas, 25% no serviço público; 15% no Terceiro “Tecnologias sociais”; “Consumo consciente”;
Setor e 18% em mais de um setor (serviço público “Fazer parte do momento de cidades em tran-
mais terceiro setor ou empresa mais terceiro setor. sição, mais com a vida comunitária no meu
Na avaliação formal os gaianos de 2010 disseram dia a dia”;“Metodologias sociais”; “Liderança
que saíram do Curso: Agradecidos (15%); Empode- circular, banco de horas”;“Conversas em círcu-
rados (13%); Alegres (12%); Conectados (11%) ; Es- lo, world café”;“Open space”;“Vida em comu-
perançosos (10%); Nutridos (9%), Provocados (7%); nidade”; “Alimentação consciente (o que você
Acolhidos (10%). 1% declarou-se indiferente. alimenta quando se alimenta)”; “Horta”; “As
práticas alimentares e de gestão de resíduos e
Sobre quais as coisas que consideraram de mais va- comércio justo”; “Alimentação orgânica, eco-
lor para si mesmos no curso, agrupando as respos- nomia solidaria e comercio sustentável, pra-
tas, encontrou-se manifestações tais como: ticas ecológicas/ sustentáveis de destinação
“Recuperar a coragem para continuar tecendo de resíduos”;
a rede e acreditar mais no ser humano”; “Co- “Minhocário, compostagem”;“Contato com
nhecer essa rede de pessoas e educadores,
o próximo, compaixão”;“Articulação local”;
acordar e compreender melhor a sustentabi-
“Trabalho comunitário”
lidade”; ”Integração com pessoas especiais,
investigação para uma ação concreta; organi- “Comunicação não violenta, formas de dialo-
zação e qualidade do conteúdo; qualidade de gar com os diferentes segmentos”; “Danças
toda a equipe envolvida e a construção das circulares”; “Dançar mais, brincar mais, amar
relações entre os participantes; a conexão mais e olhar nos olhos”; “Mais almoços co-
com ótimas pessoas, incluindo os professores, munitários”; “Consumo consciente, técnicas
abertura para várias possibilidades de apren- de trabalho em grupo e permacultura”; “Fer-
dizagem e ações”; ”Segurança para através ramentas da economia solidária”; “Práticas
destas ferramentas realizar projetos”; “Inspi- de bioconstrução e desenvolvimento local”;
ração para atuar”;“Confraternização e partici- “Observações mais profundas da natureza; re-
pação”; “Vivências e a troca de idéias” plantio de árvores”.

78
Os estágios, em alguma medida, mostraram a pas-
sagem da intenção à prática. As escolhas de ativi-
dades foi bastante diversificada, desde ações nos
bairros dos participantes, como “Ações para uma
Vila Brasilândia mais sustentável”; “Análise mul-
tidisciplinar da Praça Victor Civita”; “Tatuapé em
Transição”, “ Implantação do parque linear do Ri-
beirão Água Podre”, até a formação de um “banco
de sementes” a articulação de “rede de cooperação
para incentivo à reciclagem de resíduo doméstico” e
“Trabalho com os professores e funcionários de um
núcleo sócioeducativo”. Projetos onde os participan-
tes puderam aplicar e complementar a construção
de conhecimentos.
Uma participante, que veio de Fortaleza (CE) pro-
pôs-se a levar a Educação Gaia para sua cidade210.
De fato, em 2012, a UMAPAZ foi convidada para a
abertura do curso em Fortaleza, articulando a Se-
cretaria Municipal de Meio Ambiente, a Universidade
Estadual do Ceará e a comunidade de Sabiaguaba,
uma área de preservação.
Outro participante, vindo do Acre211, propôs-se a ca-
pacitar agentes comunitários na elaboração partici-
pativa do plano diretor no Vila Céu do Mapiá, Flores-
ta Nacional do Purus, Pauini-Am.
Um número expressivo de gaianos certificados em
São Paulo, das várias turmas, está trabalhando na
educação socioambiental em programas oferecidos
pela própria UMAPAZ, em organizações não gover-
namentais na Cidade de São Paulo e em outras ci-
dades. A própria Prefeitura de São Paulo absorveu
gaianos certificados também como administradores
de parques urbanos212.
Alia-se, desse modo, a capacitação Gaia com opor-
tunidades para esses profissionais aplicarem seus
valores e conhecimentos na vida pública paulistana,
como sementes de transformação, demonstrando a
potência da Educação Gaia também em meio urbano.

210 | Luciana Melo de Medeiros.


211 | Osvaldo Guimarães.
212 | Caso de Lucas Montanari e de Guilherme Ferrão.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 79


Articulação Local para
o Desenvolvimento Sustentável
Débora Pontalti Marcondes213, Lia Salomão Lopes214

Resumo Abstract
O programa Articulação Local para o Desenvolvimen- The Local Articulation for Sustainable Development
to Sustentável tem o propósito de fortalecer os cida- Program has the purpose to strengthen citizens for
dãos para a análise crítica de sua realidade e muni- a critical analysis of the reality and to provide them
los de ferramentas que contribuam para transformar tools that contribute to transform their choices, their
suas escolhas, seu cotidiano e seu entorno de forma daily lives and surroundings, in a sustainable way.
sustentável. Desenvolvido pela UMAPAZ desde o Developed by UMAPAZ since 2010, the program be-
ano de 2010, passou a focalizar, em 2012, os Agen- gan to focus, in 2012, on Community Health Agents,
tes Comunitários de Saúde, no âmbito do Programa under the Green and Healthy Environments Program,
Ambientes Verdes e Saudáveis da Estratégia Saúde of the Family Health Strategy in the São Paulo City.
da Família no município de São Paulo. O objetivo é The main objective is to empower those agents, who
empoderar esses agentes, que se relacionam cotidia- maintain a daily relationship with the local popula-
namente com a população, em cuja região residem, tion, by living in the same region of them, so that, at
para que, ao conhecerem e vivenciarem as realidades the time, they can recognize and experience the re-
locais, sejam capazes de refletir sobre as suas especi- gional realities, being able to reflect on their spec-
ficidades, necessidades e potencialidades e de apoiar ify cities, needs and potentials and to support the
a realização de estratégias e ações que contribuam execution of strategies and actions that contribute
para o desenvolvimento local sustentável. O progra- to sustainable local development. The program has
ma já alcançou 12 turmas e 389 agentes de saúde, reached 12 groups and 389 health agents, in 2012,
em 2012, estando programadas mais 16 turmas para with more 16 groups scheduled for 2013.
2013. Keywords: local articulation, sustainable develop-
Palavras-chave: articulação local; desenvolvimen- ment, community health agents; empowerment
to sustentável; agentes comunitários de saúde;
empoderamento

213 | Bióloga, docente da Umapaz (dmarcondes@prefeitura.sp.gov.br).


214 | Geógrafa, docente da Umapaz (lslopes@prefeitura.sp.gov.br).

80
1. Introdução dades descentralizadas, cerca de 50%, concentram-
se em bairros ainda centrais, como Vila Mariana, Ja-
O presente artigo tem por objetivo apresentar as baquara, Ipiranga, Santo Amaro, Lapa e Butantã.
experiências resultantes do acompanhamento e de-
Diante deste quadro e por meio do Programa, mais
senvolvimento do Programa “Articulação Local para
do que ampliar a oferta de cursos descentralizados,
o Desenvolvimento Sustentável”. O Programa nas-
a UMAPAZ buscou levar para fora do eixo central da
ceu em outubro de 2009, como desdobramento do
cidade o debate sobre modos de convivência socio-
curso “Verde em Ação”. Este, em seu formato inicial,
ambiental sustentáveis.
buscava atender a uma demanda de promover o de-
bate ambiental entre formadores de opinião locais Inicialmente, com o nome de “Verde em Ação”, o
com espaço de atuação, porém carentes de conte- curso debruçava-se mais sobre os conceitos de Edu-
údo com uma abordagem técnica. Assim, surgiu da cação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável,
necessidade do Departamento de Gestão Descentra- instigando que os participantes passassem a ques-
lizada (DGD) Sul 2 em propor ações locais em prol do tionar o modo de organização da sociedade atu-
desenvolvimento sustentável. Com este nome inicial al. Para tanto, baseava em atividades e dinâmicas
foram realizadas cinco turmas, cujas discussões que promovessem o empoderamento para posterior
mostraram que o conteúdo inicialmente planejado transformação.
precisava ser alterado para se adequar às realidades Com o passar das turmas pode-se perceber que o
da prática e especificidades locais. curso precisava dialogar com possibilidade reais
O presente trabalho está dividido em 6 seções. A de transformação local. Foi um entendimento de
segunda seção apresenta o histórico do programa, que, em regiões onde a infraestrutura é precária e o
as parcerias que já foram realizadas e a população acesso a educação e renda ainda são incipientes, a
atendida. Na terceira seção é apresentado o Progra- temática ambiental somente encontraria entrada e
ma Ambientes Verdes e Saudáveis, bem como a par- aceitação quando dialogasse com a realidade, pro-
ceria deste com a UMAPAZ. A quarta seção expõe pondo soluções, somando-se à busca por inclusão
os objetivos do Programa para 2012 e os detalhes e desenvolvimento. Entende-se, a partir daí, que o
da articulação para a realização da Capacitação dos próprio desenvolvimento sustentável é impulsio-
Agentes Comunitários de Saúde. Compete à quinta nador de uma melhora de qualidade de vida dessas
seção explicar as escolhas e abordagens do curso. comunidades, somando, muitas vezes, novas formas
Por fim, sexta seção apresenta os resultados alcan- de impulsioná-lo, com criatividade e inovação na
çados ao longo nesta parceria. busca de uma realidade melhor para todos. Segundo
Dowbor (2001), somente com a inclusão social e a
2. Verde em Ação oportunidade de mudança abrem-se as portas para
o Desenvolvimento Sustentável como um elemento
Segundo o relatório anual, no exercício de 2011, a real nas comunidades.
UMAPAZ ofereceu 12.825 horas/aula em seus cur-
A partir de março de 2010, já com o nome atual, o
sos, atividades e oficinas de educação ambiental e
Articulação Local para o Desenvolvimento Sustentá-
cultura de paz, atendendo 180.398 pessoas, sendo
vel o Programa se firma como um curso descentrali-
que 25% das atividades oferecidas pelo foram rea-
zado da UMAPAZ, uma vez que pretende promover o
lizadas de forma descentralizada215. Neste mesmo
debate ambiental entre formadores de opinião locais
relatório é possível notar que grande parte das ativi-
visando o desenvolvimento sustentável da região.
215 | O relatório completo pode ser obtido no site da Desde então, o curso tem sido procurado para aten-
Umapaz (www.prefeitura.sp.gov.br/umapaz). der a demanda dos Núcleos de Gestão Descentra-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 81


lizada da Secretaria do Verde e Meio Ambiente, 3. A Parceria PAVS/UMAPAZ
parques, Conselhos Regionais de Meio Ambiente,
Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz (CA- Dentre as parcerias firmadas para realização deste
DES Regionais) e escolas, que têm reconhecido seu curso, o Programa Ambientes Verdes e Saudáveis
potencial de transformação para a sustentabilidade (PAVS) procurou a UMAPAZ para utilizá-lo na capa-
local a partir dos próprios cidadãos. Neste sentido, citação dos novos Agentes Comunitários de Saúde
já foram atendidas, nas turmas de 2010/2011, 477 (ACS) e Agentes de Promoção Ambiental (APA) da
pessoas em 15 turmas espalhadas pela cidade. Coordenadoria Regional de Saúde Norte. Desde en-
tão iniciou-se um processo de construção junto aos
Estes números foram possíveis graças às parcerias Gestores Regionais do Programa PAVS para ajustar
firmadas com as Divisões de Gestão Descentraliza- o curso às necessidades destes novos agentes.
da Centro Oeste 2, Leste 2, Sul 1, Sul 2; os Parques
Piqueri, Lions Tucuruvi, Santo Dias, Buenos Aires, O PAVS surgiu, em 2005, fruto de uma parceria te-
Carmo e Jardim Herculano; com o CADES Ipiranga e cida entre a Secretaria Municipal do Verde e Meio
Santo Amaro; e com o Programa Ambientes Verdes Ambiente (SVMA) e a Secretaria Municipal da Saú-
e Saudáveis (PAVS), inicialmente por meio da Secre- de (SMS), da qual também participou, no período
taria de Habitação. Durante estas 15 turmas o curso de 2005/2006, a Secretaria Municipal de Assistên-
cia e Desenvolvimento Social (SMADS). Em 2011, o
foi se transformando e se adequando às realidades e
PAVS foi incorporado à SMS, vinculado à Estratégia
especificidades locais para melhor atender aos par-
Saúde da Família e inserido na Atenção Básica, em
ceiros e ao público.
virtude da necessidade de se criar políticas vol-
Essa constante transformação e adequação do cur- tadas para a inclusão de questões ambientais no
so se fazem necessárias já que cada região tem sua conjunto das ações de promoção de saúde e me-
mobilização especifica, além da própria forma de lhoria da qualidade de vida da população. O PAVS
apropriação dos atores locais também representa- tem uma coordenação central na área de Atenção
rem mudanças significativas. Isso é o que torna dinâ- Básica da SMS e é realizado por meio das equipes
mico e flexível não só os territórios, mas também o gerenciadas pelas instituições parcerias do “Pro-
próprio curso. A estratégia de desenvolvimento deve grama Saúde da Família” 216, em todas as regiões
se adequar a estas especificidades na proposição de da cidade de São Paulo.
locais mais sustentáveis na cidade de São Paulo. Al-
Alguns dos objetivos do PAVS são: (a) construir uma
guns autores chamam isso de “plasticidade dos ter-
agenda de ações integradas com enfoque no desenvol-
ritórios” (GUILHON et al., 1997). Por isso, o conteúdo
vimento de políticas de saúde ambiental no âmbito da
apresentado no presente artigo, demonstra a base Estratégia Saúde da Família; (b) fortalecer a atuação
sob a qual o curso está calcado, mas nem sempre intersetorial e intersecretarial; (c) garantir a sustenta-
ficará clara a sua interface com as realidades locais bilidade das intervenções no território, fomentando o
as quais atua e estabelece parcerias, pois isso é pe- empoderamento e efetiva participação da comunidade.
culiar em cada turma.
Posto isso, será apresentada a parceria entre a 216 | Associação Comunitária Monte Azul, Associação
UMAPAZ e o Programa Ambientes Verdes e Saudá- Congregação Santa Catarina, Associação Paulista para
o Desenvolvimento da Medicina, Associação Saúde da
veis (PAVS), que é hoje entendida como a mais for- Família, Casa de Saúde Santa Marcelina, Centro de Es-
te delas. Desenhada no final de 2011, representou tudos e Pesquisa Doutor João Amorim, Centro Social
a possibilidade do curso atingir seu público ideal: Nossa Senhora do Bom Parto, Fundação Faculdade de
Medicina, Instituto Adventista de Ensino, Irmandade da
agentes comunitários que são, potencialmente, for- Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Sociedade Be-
madores de opinião e transformação local. neficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

82
Desde 2007, o PAVS desenvolve ações de inter- construção de uma relação de pertencimento com o
venção local nos territórios, e para tanto, a ação entorno e, portanto, sua valorização, pretende-se
do agente comunitário de saúde (ACS) e do agente construir uma nova forma de pensar e agir, estabe-
de proteção ambiental (APA) é fundamental, pois lecendo uma relação de troca entre meio ambiente
seu trabalho possibilita a alteração de situações- e atores locais, que beneficiará tanto a conservação
problema que comprometem a qualidade de vida da e o respeito à natureza, quanto o desenvolvimento
comunidade onde atuam. Atualmente, a Cidade de dos moradores destas áreas.
São Paulo conta com a participação efetiva de quase Assim como nas parcerias firmadas anteriormen-
7.000 Agentes. te, este propósito somente é possível devido a
A atuação do ACS contribui para a qualidade de vida forma de atuação em rede da UMAPAZ, pois para
das pessoas uma vez que ele conhece o território, os que as ações sejam efetivas, duradouras e con-
problemas, e também as potencialidades de crescer tinuem promovendo mudanças é imprescindível a
e desenvolver socioeconomicamente a região (BRA- construção com parceiros locais. Neste sentido, o
SIL, 2009). Assim, apesar do público-alvo desta ca- PAVS é indispensável.
pacitação ser especificamente os Agentes de Saúde, Através desta parceria UMAPAZ/PAVS, pretendeu-
é válido afirmar que toda a comunidade será benefi- se capacitar com este curso 480 Agentes Comuni-
ciada, pois, em muitos casos, o ACS desempenha o tários de Saúde e Agentes de Promoção Ambiental
papel de estimular e organizar as reivindicações da da Coordenadoria Regional de Saúde Norte, dividi-
comunidade local. dos em 14 turmas. Desta maneira, além de uma mu-
É possível observar a relevância deste tipo de atu- dança na visão das possibilidades de atuação local
ação no Manual do Ministério da Saúde, dirigido aos do ACS, almeja-se também levar novos conceitos e
ACS. O Agente Comunitário de Saúde “deve com- ferramentas de educação ambiental que possam ser
preender a importância da participação popular na utilizados na construção de alternativas locais de
construção da saúde, estimulando assim as pessoas desenvolvimento, através da interação entre atores
da comunidade a participarem das discussões sobre locais e o meio ambiente.
sua saúde e o meio ambiente em que vivem, aju- Por se tratar de um programa que parte da lógica
dando a promover a saúde e a construir ambientes de aproximação dos atores locais, ele é reeditado a
saudáveis” (BRASIL, 2009, 27p.). Nota-se, portanto, cada nova turma de acordo com as especificidades
a convergência de ideais entre o Programa da UMA- daquele território. Assim, um momento prévio de
PAZ e o PAVS. planejamento faz-se necessário.
Primeiramente foi realizada uma reunião entre a
4. Objetivos do Programa em UMAPAZ e a Gestão Regional do PAVS a fim de de-
2012: Articulação para a senhar a capacitação, definir seu conteúdo, forma-
Capacitação de ACS to e possível agenda de execução. Posteriormente
O curso Articulação Local para o Desenvolvimento realizaram-se reuniões com as Instituições parcei-
Sustentável foi idealizado com o objetivo de promo- ras da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que
ver o entendimento de que ao conhecer o local de gerenciam os serviços de saúde da família em cada
atuação e vivência, apropriando-se de suas espe- região, para a apresentação e validação do projeto.
cificidades, é possível traçar estratégias de partici- Todas as Instituições aderiram ao modelo formatado
pação em prol de um território. A partir da tomada e contribuíram com sugestões que enriqueceram a
de consciência da importância do meio ambiente, da capacitação.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 83


Figura 2: Fluxo das etapas de realização do Programa Articulação Local para o Desenvolvimento Sustentável

Fonte: Elaboração dos autores

Por fim, parceiros no território, representados por di- Como em toda parceria, cada ator deve exercer
versos gestores locais do PAVS, acionam suas redes bem sua função para que o todo caminhe adequa-
para organizar a logística dos encontros, segundo a damente. Por parte da Instituição parceira coube a
proximidade dos locais em relação ao ambiente de convocação dos ACS, APA e demais interessados
trabalho; e convocação equilibrada de ACS e APA, da Unidade Básica de Saúde, alocação de recursos
para não esvaziar demasiadamente a Unidade de materiais e financeiros. Por outro lado, compete à
seus recursos humanos. UMAPAZ construir, em parceria com gestores locais,
o conteúdo e a metodologia destas aulas, disponibi-
De maneira ilustrativa, o fluxo das etapas é exposto
lizando palestrantes capacitados para ministrar as
na Figura 2.
turmas previstas218.
O programa de capacitação foi formatado com carga
Vale reforçar que o trabalho de capacitar tais pa-
horária total de 32h, distribuídas em 4 encontros de
lestrantes se faz necessário para que todos os
8h cada.
professores/facilitadores garantam que a capaci-
Em cada turma, nas três primeiras manhãs, o Pro- tação aconteça de forma homogênea, em termos
grama Ambientes Verdes e Saudáveis é contextuali- de conteúdo, e consistente quanto aos objetivos e
zado e apresentado aos ACS e APA, assim como os metodologias.
sete eixos de atuação do PAVS: (a) Gerenciamento
de Resíduos; (b) A3P; (c) Revitalização de espaços
Públicos; (d) Cultura, Comunicação e Cultura de Paz;
5. Fundamentação teórica
(e) Biodiversidade e Arborização; (f) Água, Ar e Solo; Criar condições para que o desenvolvimento respon-
(g) Horta e Alimentação Saudável. Também são ex- da “as necessidades do presente sem comprometer
postos projetos de sucesso implantados em outras a capacidade das gerações futuras de responder as
Unidades Básicas de Saúde. suas necessidades”219 é, talvez, o maior desafio da
Já nas três tardes e no quarto dia, os palestran- sociedade atual.
tes da UMAPAZ217 dialogam sobre (a) os impactos Por dialogar com todos os elementos da sociedade,
da sociedade de consumo, sob a ótica da pegada a temática ambiental configura-se, portanto, como
ecológica e da cadeia produtiva; (b) indicadores de parte essencial nesta estratégia. Isso se torna evi-
desenvolvimento local e a questão dos resíduos, dente uma vez que o desenvolvimento sustentável
sob a perspectiva da Política Nacional de Resíduos
Sólidos; (c) Economia Solidária e Permacultura; (d) 218 | Os profissionais para ministrar os cursos são con-
biodiversidade local e diagnóstico participativo. tratados através do Edital de credenciamento de pesso-
as físicas interessadas em prestar serviços de natureza
217 | Para o cumprimento desta parceria contou-se com intelectual como palestrantes nas atividades de educa-
a participação de Débora Pontalti Marcondes, Lia Salo- ção ambiental.
mão Lopes, além da colaboração de Dan Levy, Gabriela 219 | Definição de Desenvolvimento Sustentável, se-
de Campos Nardocci, Raquel Vettore, Vitor Mizuki, e Val- gundo a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
dilene de Oliveira, estagiária da Umapaz. Desenvolvimento.

84
está pautado no tripé equidade social, desenvolvi- to é, assim, o desenvolvimento territorial, dinami-
mento econômico e preservação ambiental. zado por agentes e vantagens locacionais, no qual
o território é o ator principal. Desta forma, esse
Dada a complexidade de unir os elementos econômi-
desenvolvimento será o resultado de uma ação
cos, sociais e ambientais, faz-se necessário mudar a
coletiva intencional de caráter local, um modo de
escala de análise, e de atuação, para o âmbito local.
regulação territorial associada a uma cultura, a
Segundo Dowbor, “Ao se deslocar boa parte das ini-
uma natureza, a um plano e a instituições locais
ciativas do desenvolvimento para o nível local, apro-
(PIRES et al. 2006)
xima-se a decisão do espaço onde o cidadão pode
efetivamente participar, enfrentando em particular Propor uma reorganização territorial que envolva os
a marginalidade urbana que se tornou a forma do- interessados e vise ao Desenvolvimento Sustentá-
minante de manifestação da nossa tragédia social” vel é um objetivo de longo prazo, mas pretende-se,
(DOWBOR, 2003). com o curso, mostrar a possibilidade dessa forma de
organização que aproxime o cidadão das tomadas de
5.1 Desenvolvimento local decisões, abrindo um leque de possibilidades de de-
senvolvimento para os cidadãos e seus territórios.
O desenvolvimento local, fomentado pelo fortale- O entendimento da importância dos espaços de par-
cimento político e institucional de entidades locais, ticipação, com a tomada de consciência e intencio-
promovendo melhoria da qualidade de vida e empo- nalidade das comunidades em utilizá-los, também
deramento da comunidade, levará também à conser- é fundamental e pode ser estimulado no questiona-
vação ambiental, através da construção de modelos mento do sistema produtivo e das condutas indivi-
alternativos de desenvolvimento (BUARQUE, 2008). duais, evidenciando a necessidade de transformação
O desenvolvimento estará, portanto, fundado em ca- para a qualidade de vida.
racterísticas específicas de um local e delas surgirão Baseando-se nestes elementos expostos, o curso
possibilidades efetivas para que o próprio cidadão “Articulação Local para o Desenvolvimento Susten-
comande seu desenvolvimento, regulando estraté- tável” está pautado na teoria do Desenvolvimento
gias e ações condizentes com o local. Local, pois é nesta escala que as transformações
Trazer o cidadão ao centro das decisões nada mais é poderão se tornar reais. Além disso, é também na
do que privilegiar aqueles que conhecem e se reco- escala local que o compromisso com a preserva-
nhecem neste recorte territorial, sendo capazes de ção do meio torna-se evidente e problemático para
identificar as potencialidades para o desenvolvimen- a complexa gestão de uma cidade. Contudo, neste
to. Trata-se, pois, do pressuposto que as pessoas tipo de desenvolvimento proposto, o meio ambiente
devem participar ativamente e não apenas serem torna-se um elemento impulsionador e sustentador
beneficiárias do desenvolvimento (BUARQUE, 2008). de uma realidade social mais igualitária e de cresci-
mento econômico.
Nesse sentido, procura-se não apenas estraté-
gias que pensem outra forma de agir sobre o meio, No âmbito local, o coletivo é necessário para o bem
mas que possam ser um processo de mudança de estar social, o equilíbrio do meio é essencial para a
caráter endógeno, de dentro para fora, de baixo geração de renda e inclusão social, e a equidade é fa-
para cima, que produza solidariedade e cidadania. tor indispensável à preservação ambiental. Ou seja,
Estratégias pensadas para conduzir, de forma in- é no nível local que os pilares da sustentabilidade
tegrada e permanente, a mudança qualitativa e a tornam-se verdadeiramente indissociáveis, por ser o
melhoria do bem-estar da população de uma loca- local um espaço privilegiado para experimentações
lidade ou uma região. O desenvolvimento propos- contra-hegemônicas e coletivas (SANTOS, 2002).

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 85


A escolha do Desenvolvimento Local como base de consumo e do reflexo deste nos recursos naturais
para a construção de uma cidade mais sustentável e no sistema de produção vigente.
leva a uma importante reflexão: quais temáticas A Pegada Ecológica (WACKERNAGEL & REES, 1996)
pertinentes ao Desenvolvimento Local Sustentável é utilizada como uma ferramenta para demonstrar
podem ser utilizadas em um curso para estimular os aos participantes o impacto de suas escolhas diá-
atores locais na alteração de suas realidades e suas rias, pois permite estimar os requerimentos de re-
condutas? cursos naturais necessários para sustentar toda
Levando-se em conta que as desigualdades econô- uma população, segundo o estilo de vida do partici-
micas, o desequilíbrio ambiental e as injustiças so- pante (DIAS, 2002).
ciais estão presentes nas diversas regiões da cidade, Esta estimativa é possível pois as diversas catego-
deve-se considerar a necessidade de abordar temas rias de consumo são transformadas em áreas pro-
que proponham discussões novas, que resultem em dutivas necessárias para promover bens e serviços.
estratégias e soluções inovadoras e que possam ser Desta maneira, a Pegada Ecológica é definida como
apropriadas pelos atores locais gerando mobilização a quantidade de terra (e água) exigida para suportar,
e empoderamento. indefinidamente, o(s) estilo(s) de vida da humanida-
de (WACKERNAGEL & REES, 1996).
Pensando nisso, o público do curso é estimulado a
compreender o estado do mundo através de ativida- Para melhor compreensão deste índice, é preci-
des que o colocam como parte do problema e, con- so entender quais são as variáveis incluídas neste
sequentemente, da solução. Assim, o indivíduo pas- cálculo. São elas: Terra Bioprodutiva, que leva em
sa a ter a possibilidade real de transformação do seu consideração áreas para colheita, pastoreio, corte
entorno, pois ao enxergar-se dentro do processo que de madeira e outras atividades de grande impacto;
causa a atual crise é possível apresentar propostas Mar Bioprodutivo, onde ocorrerá pesca e extrativis-
que visem à mudança. mo; Terra de Energia, onde estarão as florestas e
mares necessários para a absorção de emissões de
Neste sentido foram escolhidas as seguintes temá- carbono; Terra Construída, destinada a instalação de
ticas para estimular a articulação local para o de- casas, estradas, construções e infraestrutura geral;
senvolvimento sustentável: a sociedade de consu- e Terra de Biodiversidade, que são as áreas de terra
mo e seus impactos, a insustentabilidade do sistema e água reservadas a preservação da biodiversidade
produtivo; os resíduos como oportunidade, novas (WWF-Brasil, 2007).
economias locais: economia solidária; práticas sus-
Entretanto, é fundamental ressaltar que os territó-
tentáveis de permacultura; indicadores de gestão
rios produtivos, ou seja, a quantidade de terra para
urbana; diagnóstico participativo.
agricultura e pastagem, o tamanho dos oceanos e
florestas, as áreas para as construções, possuem
5.2 A sociedade de consumo e o sistema uma grandeza fixa, isto é, não se pode ampliá-la.
produtivo Em contrapartida, o tamanho das populações, assim
O processo de alteração de realidades locais inicia- como a demanda de recursos para sustentar os no-
se pela compreensão da necessidade de mudar os vos padrões de consumo, só tendem a aumentar.
atuais padrões de condutas individuas (WACKERNA- Uma vez compreendido o impacto das opções indivi-
GEL & REES, 1996) e modificação da cadeia produti- duais, o passo seguinte é incluí-las em um sistema
va como um todo (MONIE & SILVA, 2003), resultan- produtivo, demonstrando como as escolhas diárias
do na constatação da insustentabilidade do padrão legitimam produções baseadas na máxima explora-

86
ção dos recursos naturais, máxima exploração dos mais é do que analisar a possibilidade de integra-
trabalhadores e na externalização dos custos de ção de fatores locacionais e de produção, ou seja, da
produção. Ou seja, os produtos e serviços oferecidos transformação das especificidades locais em ativos
no mercado não contabilizam os danos causados às e recursos econômicos, visando cadeias produti-
pessoas e ao meio, gerando uma situação de baixa vas competitivas e que gerem um desenvolvimento
qualidade de vida em detrimento de produtos que sustentável.
tem o baixo custo como fator primordial de com-
Estimular cadeias produtivas locais está baseado na
petitividade. Essa lógica produtiva, legitimada por
formação de redes de cooperação entorno da opor-
condutas individuais, geridas por interesses econô-
tunidade de geração de trabalho e renda. Porém, ao
micos, prejudica o estabelecimento de um Desenvol-
se pretender esse desenvolvimento econômico será
vimento Sustentável ao impedir sistemas produtivos
preciso o entendimento de que ele está calcado na
ambientalmente corretos e socialmente justos.
interação dos elementos locais.
Assim, torna-se fundamental trazer à discussão do
A análise do sistema produtivo servirá, portanto,
desenvolvimento sustentável o seu pilar econômico,
para a reflexão da necessidade de aproximar os ele-
muitas vezes, uma forma eficaz de chamar a atenção
mentos da cadeia produtiva beneficiando as pesso-
para a possibilidade de geração de emprego e ren-
da ao construir uma nova relação com as pessoas e as, o meio e a geração de riquezas. Manter a organi-
com o meio a sua volta. zação do sistema produtivo como está hoje é manter
um padrão de baixa qualidade de vida e degradação
Como ser produtivo e competitivo se o desenvolvi- do meio.
mento sustentável propõe redução do uso e impacto
de recursos naturais? Essa dicotomia se dissolve no Neste contexto, riqueza e investimento devem ser
âmbito local, onde as especificidades locais e suas entendidos para além do dinheiro, mostrando que
vocações (atividades potenciais) surgem como van- economia em o nível local está ligada ao estabeleci-
tagens competitivas. Além disso, é nesta escala de mento de novas relações sociais, do respeito ao meio
análise que flexibilidade e inovação (elementos atra- e de novas relações de vizinhança e pertencimento.
tivos de um Mercado globalizado) podem emergir de A mudança nas relações se reflete, principalmente,
um local articulado, onde haja governança, partici- nas parcerias e na participação, tanto nas tomadas
pação e planejamento. (PIRES; et al. 2006). de decisão como nas ações locais.

Dessa forma, os participantes do Curso são convida- Trata-se de colocar no centro das reflexões dos ato-
dos a refletir sobre a oportunidade de formação de res sociais a mobilização para novos arranjos produ-
cadeias produtivas que possam ser por eles influen- tivos que tenham como base a mudança de cultura e
ciadas. Se não há a intenção de deixar de consumir, padrões, demonstrando as vantagens competitivas
mas sim de fazer parte de uma produção social e am- desta mudança (SILVEIRA et al, 2001).
bientalmente mais justa, é necessário refletir sobre O olhar econômico sobre um local sugere a criação
de quais tipos de cadeias produtivas, ou de sistema de cadeia produtivas locais a partir dos seguintes
produtivo, nós podemos e queremos fazer parte para aspectos: pela existência de atividades produtivas
que o desenvolvimento produtivo dos territórios re- com características comuns; pela existência de uma
sulte em beneficies para os cidadãos e para o meio. infraestrutura tecnológica significativa; pela exis-
Assim, debruçar-se sobre o desenvolvimento produ- tência de relacionamentos dos agentes produtivos
tivo do território é uma forma de articular as dife- entre si e com os agentes institucionais locais, con-
rentes atividades presentes em um espaço urbano solidando a geração de sinergias e de externalidades
determinado, já que falar em sistema produtivo nada positivas. Essas características conferem às cadeias

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 87


produtivas, alto nível de coesão e organização entre operacional adequado, de qualidade intrínseca valo-
os agentes, na medida em que incluem uma gama de rosa e resultado eficaz, em respeito às diversidades
atores. (CASSIO e França et al. 2002). e necessidades locais existentes e preponderantes”
Neste sentido, pensar o desenvolvimento em uma (SÃO PAULO, 2012, p.7). Ou seja, quando todos com-
escala local aproxima os cidadãos da cadeia de pro- preendem, e assumem, seu papel é possível criar
dutiva, permitindo influenciá-la, beneficiando tanto uma gestão com menores custos, sem desmerecer
a nova gestão dos resíduos, quanto a inclusão de a qualidade do serviço e sua eficácia, pois são leva-
justiça social, geração de renda e respeito ao meio dos em conta as especificidades e potencialidades
ambiente (GUARNIERI, 2011). daquele território.

É desta maneira que se inicia a construção do pro- Assim, almeja-se que a articulação local propicie o
cesso de transformação urbana proposta pelo Cur- desenvolvimento da prática da coleta seletiva, com
so, considerando que, para transformar os locais, é destinação dos materiais às cooperativas locais,
preciso que as pessoas se transformem e que elas alimentando sistemas maiores de logística reversa
transformem o consumo, os produtos, as relações e e incorporando, no cotidiano dos cidadãos, a res-
os resíduos gerados. Ou seja, será não só pela to- ponsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos
mada de consciência, mas pelas oportunidades de produtos.
transformação que o Desenvolvimento Local Sus- A Responsabilidade Compartilhada, instituída pelo
tentável terá inicio. Artigo 30 da PNRS, deve ser realizada de forma in-
dividualizada, porém por meio do encadeamento das
5.3 Resíduos ações dos fabricantes, importadores, distribuidores,
comerciantes, consumidores e serviço público de
Olhar os resíduos sólidos domiciliares é um exemplo limpeza urbana, de forma que o sucesso do todo seja
de como o problema pode ser visto como oportuni- priorizado. Desta maneira, os interesses individuais
dade de promover crescimento e desenvolvimento de todas as partes serão atendidos, possibilitando
para o bairro, através de uma maior gerência sobre o melhor aproveitamento dos resíduos, direcionando-
problema. Visto que uma das formas de se repensar
os de volta para sua cadeia produtiva ou outra eco-
e reformular a cadeia produtiva, passa pelo enten-
nomicamente viável (SÃO PAULO, 2012).
dimento de que novas formas de gestão de resíduos
são necessárias, a fim de reintroduzi-los na produ- Com tais práticas, os benefícios gerados para a co-
ção, reduzindo, assim, a disposição final em aterros munidade são: redução da geração de resíduos, de
sanitários. desperdício de materiais e de poluição; estímulo a
novos mercados de materiais e serviços; e o incentivo
A base deste processo é compreender a Política
à boas práticas de responsabilidade socioambiental.
Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída em
agosto de 2010, e o Plano de Gestão Integrada de Re- Instituída pelo Artigo 33 da PNRS, a Logística Re-
síduos Sólidos do Município de São Paulo, aprovado versa define quais setores são obrigados a firmar
em julho de 2012 (BRASIL, 2010; SÃO PAULO, 2012). acordos, independentes ao serviço público de limpe-
Estes dois instrumentos, legais e complementares, za urbana, para garantir a gestão ambientalmente
necessitam ser encarados como oportunidades para adequada dos resíduos de setores como agrotóxi-
que a cooperação mútua entre Administração Pú- cos, seus resíduos e embalagens; pilhas e baterias;
blica, entidades representativas, iniciativa privada pneus; óleos lubrificantes, seus resíduos e embala-
e sociedade civil organizada, traga, para o nível lo- gens; produtos eletroeletrônicos e seus componen-
cal, um modelo de gestão com “sistemas de custo tes (SÃO PAULO, 2012).

88
Vale ressaltar que cabe aos consumidores devolve- ocupação e edificações que pouco, ou nada, se adé-
rem resíduos de agrotóxicos e eletroeletrônicos aos quam ao local onde estão inseridas. Resulta deste
comerciantes e distribuidores após o uso, além de processo o mau aproveitamento dos recursos, obri-
qualquer outro tipo de embalagens. Desta forma, gando, por exemplo, ao uso de ventiladores, ares-
nos locais onde houver coleta seletiva e/ou logística condicionados, ou luzes acesas durante o dia. Tais
reversa obrigatória, o consumidor deve aderir, sepa- custos podem ser evitados ou minimizados com
rando e disponibilizando para coleta, reutilização ou um planejamento que aproveite os recursos dispo-
devolução. níveis, ou a utilização de tecnologias adequadas a
localidade.
5.4 Permacultura Neste sentido, os participantes são convidados a
Entretanto, as possibilidades de atuação do cida- experimentar alguns exemplos compatíveis com o
dão não se resumem às obrigações da Lei. A fim de meio-urbano e facilmente replicáveis em suas comu-
ilustrar a viabilidade real do desenvolvimento local nidades, tais como: compostagem doméstica dos re-
sustentável, práticas de sustentabilidade urbanas síduos orgânicos, aquecedores solares de baixo cus-
são apresentadas a seguir, gerando benefícios eco- to, telhado verde, captação e reutilização de água da
nômicos, ambientais e sociais àquela comunidade. chuva, hortas suspensas e canteiros caseiros.
Por trás deste conteúdo, duas ideologias de trans- Contudo, apesar de todos os benefícios reais trazi-
formação social são expostas: a Permacultura (HOL- dos pela permacultura, ela por si só não basta para
GREN, 2002; MOLLISON, 1999) e a Economia Solidá- promover o desenvolvimento sustentável na comu-
ria (SINGER, 2002). Elas respondem à pergunta de nidade. É preciso também novos arranjos econômi-
como fazer para repensar produção, consumo e ge- cos, novas formas de organização social.
ração de resíduos, promovendo um desenvolvimento
que ocorra de dentro para fora, aliando os pilares
5.5 Economia Solidária
econômico, social e ambiental.
Segundo um de seus criadores, a Permacultura con- A Economia Solidária é um movimento social abor-
siste na “A elaboração, a implantação e a manuten- dado no curso como uma proposta de reorganiza-
ção de ecossistemas produtivos que mantenham a ção do sistema socioeconômico na perspectiva do
diversidade, a resiliência e a estabilidade dos ecos- Desenvolvimento Sustentável Local. Ela responde
sistemas naturais, promovendo energia, moradia e à questão de como transformar a cadeia produtiva
alimentação humana de forma harmoniosa com o para que esta seja local e colabore com um desen-
ambiente” (MOLLISON, 1999, prefácio). volvimento que não agrida ao meio e às pessoas. A
Economia Solidaria apresenta-se, nos últimos anos,
Baseando-se nas linhas gerais da Permacultura, como inovadora alternativa de geração de trabalho
propõe-se que as atividades humanas, como o uso e e renda e uma resposta a favor da inclusão social.
ocupação do solo combinem os desejos da comuni- Compreende uma diversidade de práticas econômi-
dade ao meio ambiente, beneficiando-se dos recur- cas e sociais organizadas sob a forma de coopera-
sos abundantes na região e viabilizando intercone- tivas, associações, clubes de troca, empresas em
xões que fechem ciclos dentro do mesmo sistema. autogestão, redes de cooperação, entre outras, que
Assim, o reaproveitamento de resíduos ou exceden-
realizam atividades de produção de bens, prestação
tes será mais eficiente.
de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio
Entretanto, cabe ressaltar que no meio urbano o que justo e consumo solidário (definição do Ministério do
se vê é a repetição de padrões pré-estabelecidos de Trabalho).

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 89


A idéia é que as potencialidades não exploradas dos Segundo Euclides Mance, tecer redes solidárias,
locais, seus recursos, quando articulados podem re- colaborativas, construir canais e conexões que
sultar em um cenário econômico onde a comunidade têm o potencial de interligar o local e o global, a
local trabalha e consome com a finalidade de pro- diversidade na unidade, e fortalecer lutas espe-
mover o bem-viver de todos, inclusive o seu próprio cíficas e globais, são estratégias que reafirmam
bem-viver pessoal (MANCE, 2007). Assim, formam- que quanto mais unidos e diversos, quanto mais
se redes colaborativas para a resolução de proble- se apoiarem pela justeza de suas causas, mais
mas comuns. Nesse circuito econômico da economia fortalecidos todos serão e melhores chances terão
solidária o que importa é assegurar as condições de alcançarem seus objetivos. Estas premissas da
econômicas das liberdades pessoais e públicas, ge- Economia Solidária são aplicadas ao Curso Articu-
rando trabalho e renda, a integração ao tecido sócio lação Local para o Desenvolvimento Sustentável,
produtivo de todas as pessoas em idade e condição não como uma quebra do sistema hegemônico,
economicamente ativa, visando a abolir toda forma mas como alternativa a este em locais vulneráveis
de exploração, dominação e exclusão, proteger os e a pessoas que compreendem a necessidade de
ecossistemas e promover o desenvolvimento sus- alteração das relações para um Desenvolvimento
tentável. (MANCE, 2007) Sustentável possível.
A Economia Solidária aponta para uma nova lógica Por fim, analisar a região, segundo um conjunto de
de desenvolvimento sustentável com geração de variáveis apresentadas em mapas, permite enten-
trabalho e distribuição de renda, mediante um cres- der o estado da biodiversidade em que seu território
cimento econômico com proteção dos ecossistemas. de atuação está inserido. Reconhecer a importância
Seus resultados econômicos, políticos e culturais dessa biodiversidade leva tanto a sua valorização,
são compartilhados pelos participantes, sem distin- quanto a dos serviços ambientais por ela prestados
ção de gênero, idade e raça. Implica a reversão da ló- (SEPE & GOMES, 2008).
gica capitalista ao se opor à exploração do trabalho
e dos recursos naturais, considerando o ser humano Contudo, apesar do recorte local, é imprescindível
na sua integralidade como sujeito e finalidade da ati- que os participantes mantenham-se articulados aos
vidade econômica. recortes mais amplos.

Ao se apropriarem desta temática, os participantes


do curso podem planejar um desenvolvimento que
5.6 Diagnóstico Participativo
é bom para o meio, para o bolso e para o bem estar A cidade de São Paulo, capital do maior estado bra-
individual e coletivo, por isso tornam-se um impor- sileiro, é o núcleo da região metropolitana, cuja po-
tante estratégia em prol do Desenvolvimento Local pulação estimada é de 18,3 milhões de habitantes,
Sustentável. perdendo apenas para os aglomerados urbanos de
As cooperativas são o pilar desta nova economia e Tóquio, Cidade do México e Nova York (SEPE & GO-
é dentro delas que acontece uma forma de geração MES, 2008). Considerar este recorte maior implica
de renda calcada em um novo paradigma de relações perceber uma vasta variedade de condições socio-
entre os elementos naturais, históricos e humanos ambientais quando, por exemplo, fenômenos como
de um local. Segundo Paul Singer, o termo cooperati- ocupação, verticalização, precariedade urbana, dis-
vismo decorre de cooperar, que significa unir e coor- tribuição de áreas verdes, conservação da biodiver-
denar os meios e os esforços de cada indivíduo para sidade, etc. são observados. Desta maneira, é pos-
realização de atividade comum, visando alcançar um sível intuir que não é viável estabelecer um plano
resultado procurado por todos (SINGER, 2002). único de ação para toda a cidade.

90
Diante deste quadro, a Secretaria do Verde e do Meio Esta metodologia, segundo o SEBRAE, sistematiza
Ambiente do Município de São Paulo e o Centro de o conhecimento das potencialidades, das vocações
Estudos da Metrópole publicaram, em 2008, o “In- (atividades potenciais) e vantagens comparati-
dicadores Ambientais e Gestão Urbana: os desafios vas locais (condições que sustentam as atividades
para a construção da sustentabilidade na cidade de vocacionais), exigência básica para o processo de
São Paulo”, onde são caracterizadas as condições desenvolvimento.
socioambientais e como elas condicionam a susten- O Diagnóstico Local participativo é fundamental
tabilidade em São Paulo. Uma das grandes contri- para o Desenvolvimento Local Sustentável já que
buições que esta publicação traz é criação de grupos fortalece o exercício da cidadania e que tem condi-
de distritos onde fenômenos ambientais e sociais ções de criar um espaço de interação dos cidadãos,
interagem de maneira semelhante. recuperando a iniciativa e a autonomia na gestão do
Este exercício, de debruçar-se sobre as especificida- que é publico. (MARTINS e CALDAS, 2009).
des de um dado local, é um primeiro movimento para As reflexões e conteúdos expostos e discutidos até
a formação de um diagnóstico participativo, que irá aqui são pilares para a construção de um plano es-
amparar a construção de um plano estratégico de tratégico elaborado pelos atores locais. Uma ação
transformação urbana para a sustentabilidade local prática, onde cada participante, através da identifi-
(SCOTT, 1994). cação com os temas, é levado a refletir uma forma
O Diagnóstico Participativo está inserido no curso de intervenção urbana no seu território de atuação,
não só como uma importante metodologia de orga- tendo como base os mecanismos de participação e
nização comunitária para o desenvolvimento local articulação local. O resultado esperado é a formação
como, também, um exercício que estimula as pes- de grupos de trabalho para repensar e transformar
soas de um local da cidade a se reconhecerem como o local.
parte de uma realidade e dialogarem com suas pró- A agenda 21 dá suporte a esta discussão, pois apre-
prias potencialidades e problemáticas, seus recur- senta uma metodologia de trabalho que vai da sen-
sos, talentos e especificidades em geral. sibilização de agentes locais às ações monitoradas
para Plano Local de Desenvolvimento Sustentável,
A intenção é traçar um retrato do local, evidenciando
tendo as especificidades locais como fundamento
seus elementos. É importante que os problemas e
dessas ações.
potenciais sejam evidenciados como parte da solu-
ção e da busca por mudanças.Esse recurso didático
permite à comunidade saber que recursos ela tem 6. Resultados apresentados
seu favor identificando o que existe no entorno que Desde maio deste ano, o projeto de capacitar 100%
precisa ser evidenciado e como o pertencer ao pro- dos novos agentes comunitários de saúde (ACS) e
blema ajuda a solucioná-lo. agentes de proteção ambiental (APA) da região nor-
O objetivo é que o Diagnostico Participativo se mos- te já concluiu doze turmas, totalizando 389 partici-
tre como uma metodologia possível e como uma pantes, dos 480 previstos.
sensibilização e mobilização para enxergar novas Entretanto, mais do que atingir a meta estabelecida,
possibilidades, a partir das temáticas anteriormente a parceria UMAPAZ/PAVS gerou ganhos múltiplos
trabalhadas. O Diagnóstico Participativo é um cami- para todos os envolvidos. Trouxe a UMAPAZ um pú-
nho para as pessoas conhecerem e entenderem me- blico que, por seu perfil de morador e ator de uma
lhor seus potenciais, necessidades e possibilidades mesma área da cidade, possui grande potencial de
de Desenvolvimento presente no local. transformação na busca por uma sustentabilidade

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 91


urbana. Ao estabelecer esta parceria construiu-se a pessoas, organizações e elementos naturais perten-
possibilidade de qualificar a atuação local dos ACS centes àquele território.
do Programa Ambientes Verdes e Saudáveis, atra- Com os questionamentos propostos, o Diagnóstico
vés de conteúdos pertinentes a educação para a Participativo, elaborado pelos agentes de saúde no
sustentabilidade. último dia de curso, viabiliza uma análise própria da
Para tanto, a capacitação mesclou a ação prática área, bem como o estabelecimento de prioridade de
e localizada do PAVS com uma diversidade de atuação, reforçando a apropriação das problemáti-
temas que fortalecem a idéia de um possível cas locais, participação ativa, organização e planeja-
desenvolvimento sustentável: o local. mento coletivo, proposto pela metodologia de Arti-
O curso tem início na análise da incapacidade do pla- culação Local para o Desenvolvimento Sustentável.
neta de suportar o estilo de vida da sociedade atual É possível observar através dos comentários colhi-
e na reflexão de como a organização do sistema pro- dos pela avaliação do curso220, que a capacitação
dutivo mantém este paradigma de sociedade, pro- traz reflexões que impulsionam para a mudança tan-
pondo a todos que questionem sobre a necessária to no nível pessoal como profissional, sendo vista
e bem vinda mudança. Ao entender e ter o desejo como proveitosa pelos participantes:
de buscar esta transformação, a comunidade estará “No quesito profissional e de cidadania (este
pronta para construir alternativas para realizá-la. curso) é de suma importância, pois a temática
A partir daí emerge no curso o debate sobre o pró- é voltada para nossas atividades e projetos
prio local e o que há nele capaz de colaborar com um relacionados em nosso dia a dia”
novo padrão de desenvolvimento. Para tanto, temas “Toda importância. Sei que agora estou mais
que promovem bem estar social, equilíbrio ambien- capacitada para orientar e levar o que aprendi
tal e inclusão econômica são apresentados e debati- aos meus pacientes. Vamos lá diminuir nossa
dos, auxiliando os agentes comunitários de saúde na Pegada Ecológica!”
construção de novas práticas.
“(Este curso) Ajuda em nosso trabalho, que é a
A Política Nacional de Resíduos Sólidos se mostra, promoção e prevenção em saúde. É importante
portanto, como uma dessas possibilidades, já que para aprimorar meu conhecimento e, com isso,
a questão dos resíduos urbanos aparece, constan- capacitar e melhorar o meu trabalho, para ser
temente, como um entrave no cotidiano destas co- um ACS mais completo.”
munidades, freando o próprio desenvolvimento. Esta
“Desempenhar nosso trabalho na comunida-
problemática é vista, pelos participantes, como um de onde vivemos, sendo importante termos o
tema que requer atuação imediata. Sendo assim, a maior número de informações possíveis para
discussão mostra como, na prática, existe um recur- orientar e conscientizar a população.”
so legal que, se apropriado, pode representar uma
melhora no cotidiano dos moradores da região, ge- “Até antes de conhecer e participar do curso,
rando benefícios sociais, econômicos e ambientais. tudo era muito normal, mas agora vejo o im-
pacto causado no meio ambiente.”
A Permacultura e a Economia Solidária aparecem
para ilustrar como economia, ecologia e sociedade 220 | Ao final de cada turma, um instrumento de avalia-
estão juntas na escala local. São prontamente reco- ção é entregue aos participantes para que avaliem, de
nhecidas pelos Agentes como geradoras de benefí- forma anônima, o conteúdo do curso, materiais e dinâ-
micas apresentados, dentre outros itens. Também são
cios e de um desenvolvimento que está pautado no
colhidos comentários sobre a importância do tema no
local, no estabelecimento de novas relações entre seu cotidiano e sugestões.

92
“(Este curso) Acrescentou mais conhecimento. Após está capacitação os Agentes estão fortale-
Me ajuda a entender alguns conceitos e buscar cidos e munidos de ferramentas para transformar
soluções para situações desagradáveis.” suas escolhas, seu cotidiano e seu entorno.
“Vai ser muito importante, pois descobri que Finalmente, se a parceria realizada tem se mostra-
há muitas coisas que são acessíveis para nós do benéfica ao processo permanente de capacitação
e que podemos aderir a novas idéias.” dos Agentes Comunitários de Saúde e dos Agentes
de Proteção Ambiental, também o foi para a UMA-
Diante dos depoimentos colhidos, evidencia-se que
PAZ, no sentido da oportunidade de levar à cidadãos
a proposta de levar conceitos e ferramentas que
atuantes da cidade a possibilidade de transformação
auxiliem as Unidades Básicas de Saúde a desen-
urbana, que tem como base o cidadão e o desenvol-
volverem seus projetos, mobilizando e engajando
vimento sustentável.
os agentes nesse processo foi atingida. Acredita-
se, também, que os Agentes foram empoderados,
no sentido de conhecerem a própria capacidade de
transformação local baseada no pertencimento e
qualificação.

7. Conclusão
No decorrer dos quatro dias de curso nota-se que
o conteúdo promove o empoderamento dos Agen-
tes Comunitários de Saúde, que passam a com-
preender melhor seu fundamental papel como
atores da estratégia de desenvolvimento local.
Através da participação, pertencimento e credibi-
lidade junto a comunidade – somado ao conteúdo
da capacitação que se propõe inovador quanto a
escala de análise e ferramentas apresentadas –
fica evidente a imediata identificação dos agentes
comunitários de saúde como agentes desta trans-
formação urbana.
Aprimorando a capacidade de identificar onde estão
possibilidades de transformação de uma área, é pos-
sível olhar os problemas como oportunidades, e as
reivindicações como impulsos à participação.
Além disso, o curso qualifica os agentes para um
atendimento aos usuários da Unidade Básica de
Saúde, que traz o desenvolvimento local sustentá-
vel como base para uma melhor qualidade de vida e
para melhoria nas condições de saúde. Demonstra-
se, assim, o estabelecimento de uma nova forma de
relação entre os participantes com seu local de atu-
ação e moradia.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 93


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Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 95


O ENSINO DAS GEOCIÊNCIAS
NA UMAPAZ
Gustavo Agni Beuttenmuller221

Resumo Abstract
O ensino das Geociências na UMAPAZ é parte inte- Teaching on the Geosciences UMAPAZ is part of a
grante de uma estratégia de valorização, divulgação, recovery strategy, dissemination, translation of sci-
tradução de conteúdos científicos e técnicos de utili- entific and technical contents of public interest and
dade pública e deve ser acessível aos atores locais. should be accessible to local actors. In this regard
Neste sentido buscamos aqui apresentar o contexto we seek here to present the context in which this
em que este conhecimento relativo às Geociências knowledge concerning Geosciences has developed
se desenvolveu no âmbito do município de São Paulo within the municipality of São Paulo and its relation-
e em sua relação com outros temas e conhecimen- ship with other current knowledge and topics such
tos atuais como as mudanças climáticas e a vulne- as climate change and the vulnerability of megaci-
rabilidade das megacidades frente a esse processo. ties forward to this process. We try to show how it is
Também procuramos mostrar como é possível um possible a sector environmental education dialogue
setor de educação ambiental dialogar com outros with other types of education, such as scientific and
tipos de educação, como a científica e patrimonial, property, when considering the geological heritage
quando se considera o patrimônio geológico e se en- and geodiversity is understood that is as important
tende que a geodiversidade é tão importante quanto as biodiversity for urban and environmental issues
à biodiversidade para a questão ambiental urbana e should be part of a strategy Geoconservation. Fi-
deve ser parte de uma estratégia de Geoconserva- nally, it is important that the courses discussed here
ção. Ressaltamos, por fim, que os cursos refletem reflect a knowledge alive, largely the result of accu-
um conhecimento vivo, em grande parte resultado mulated experience along the trajectory of the Tech-
da experiência acumulada ao longo da trajetória de nical Secretariat of the Environment and Green and
técnicos da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente other organs of the municipality of São Paulo.
e de outros órgãos da prefeitura de São Paulo. Keywords: geosciences, geoconservation, vulner-
Palavras-chave: geociências, geoconservação, vul- ability, climate change
nerabilidade, mudanças climáticas

221 | Geólogo. Integrante da equipe de educadores ambientais da UMAPAZ. agnimuller@gmail.com.

96
1. Introdução Hoje a educação ambiental tem seu próprio Depar-
tamento na SVMA e inclui setores relacionados à
O ensino das Geociências no DEA/UMAPAZ - Depar- educação científica como a Divisão Escola Munici-
tamento de Educação Ambiental / Universidade de pal de Astrofísica - EMA e Divisão Escola Municipal
Meio Ambiente e Cultura de Paz da Secretaria do de Jardinagem. A educação científica na UMAPAZ
Verde e do Meio Ambiente está inserido em um con- também ocorre na Divisão de Formação em cursos
texto onde podemos relacionar: o desenvolvimento relacionados às Ciências Naturais, em especial en-
institucional da SVMA; o histórico de atuação dos volvendo as especialidades da Biologia, Ecologia e
Geólogos na PMSP e a contribuição das Geociências
Geologia (esta última também é área temática de
na gestão municipal e; a evolução do ensino rela-
ensino na EMA).
cionado à temática ambiental, além de aspectos de
educação para a cidadania e educação científica. A contribuição das Geociências para as ações da
Prefeitura do Município de São Paulo iniciou, em
Este texto busca relatar o desenvolvimento da es-
parte, com a criação da carreira de geólogo e vem
tratégia de ensino das Geociências na UMAPAZ re-
acontecendo nestes vinte anos de atuação des-
lacionando-a com o contexto, com as questões am-
tes profissionais. Com o passar outros municípios
bientais com as quais guarda alguma relação e das
quais algumas são temas emergentes de discussão incluíram geólogos em seus quadros e se benefi-
no município e no contexto internacional. ciaram de seu conhecimento. A mais recente con-
tribuição em nível nacional foi exigência da re-
Para isso vamos desenvolver rapidamente alguns alização de Cartas Geotécnicas de Aptidão como
temas ambientais relacionados às Geociências e que documento de planejamento urbano e prevenção
são objeto dos cursos oferecidos na UMAPAZ e sua de desastres naturais, conforme previsto na Lei
relação. 12.608/12 que institui a Política Nacional de Pro-
A seguir é explicitado o conteúdo desenvolvido nos teção e Defesa Civil e cria o sistema de informa-
cursos, a metodologia adotada e o público alvo e ções e monitoramento de desastres.
suas impressões quanto à utilidade e importância
Entendemos que a divulgação do conhecimento
dos temas abordados em sala de aula.
científico é de suma importância num momento em
A trajetória histórica da Secretaria do Verde e do que questões complexas como as mudanças climáti-
Meio Ambiente - SVMA iniciou em 1993, a partir de cas afetam a vida das pessoas vivendo nos grandes
sua criação que foi decorrência natural da Eco92, centros urbanos e chegam a causar catástrofes.
dos compromissos assumidos por governantes bra-
Esta informação de qualidade deve chegar aos cida-
sileiros e da proeminência que a temática ambiental
assumiu em todo mundo ocidental a partir desta dé- dãos e ser incorporada à sua vida cotidiana e para
cada. Neste contexto, seu desenho institucional in- isso é necessária uma estratégia de ensino e divul-
cluiu um setor de Educação Ambiental subordinado gação do conhecimento que cumpra essa missão.
ao Departamento de Planejamento Ambiental. A seguir vamos percorrer uma linha do tempo que
Em 1991 os Geólogos foram admitidos pela primeira inicia com o aparecimento das Geociências como
vez no Brasil numa prefeitura para trabalhar com a especialidade técnica na prefeitura de São Paulo
gestão municipal e isso ocorreu num município com e suas consequências, o desenvolvimento de uma
a dimensão territorial e questões ambientais do por- estratégia de ensino, tradução e divulgação destes
te de São Paulo o que trouxe desafios inéditos e mui- conteúdos aos cidadãos na UMAPAZ e, finalmente,
to aprendizado a este corpo inicial de profissionais e vamos abordar os cursos propriamente ditos, seus
à gestão ambiental municipal. conteúdos e fazer algumas breves considerações.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 97


2. A atuação das geociências no biente urbano” (2004) e o “Indicadores ambientais
município e gestão urbana: desafios para a construção da sus-
tentabilidade na cidade de São Paulo” (2008), além
Em outubro de 1989, depois de um escorregamento de inúmeros documentos técnicos em várias outras
destruir habitações e causar mortes na favela Nova Secretarias municipais que tiveram a contribuição
República, na Subprefeitura do Butantã, a prefeitura destes profissionais das Geociências.
de São Paulo tomou a decisão inédita no Brasil de
selecionar e contratar Geólogos para colaborar na O Geólogo, em seu processo de colaboração no en-
gestão da cidade. Desta forma, os geólogos paulis- tendimento e enfrentamento dos problemas ambien-
tanos formaram o primeiro grupo de Geólogos a atu- tais urbanos veio também a se envolver na Defesa
ar exclusivamente em um Município no Brasil. Civil Municipal, em especial no que se refere à me-
lhor compreensão da origem de desastres ambien-
Este coletivo foi requisitado inicialmente para atuar tais e áreas de risco e, especialmente, na prevenção
no enfrentamento de problemas locais como áreas destes fenômenos e não apenas no enfrentamento
de risco de escorregamentos, enchentes e solapa- emergencial. A visão sistêmica que o Geólogo traz
mento de margens de córregos e, gradualmente, foi de sua formação contribui para compreender que é
colaborando com o entendimento de inúmeros pro- possível evitar acidentes como os escorregamentos
blemas ambientais existentes no município. Assim, em encostas e apresentar soluções que envolvem a
os Geólogos vieram lidar com problemas emergen- educação.
ciais urbanos e passaram a colaborar na reflexão en-
volvendo o uso e ocupação do solo em relação aos Desta forma, o esclarecimento das comunidades lo-
diferentes tipos de terreno existentes no Município. cais quanto aos possíveis aspectos nocivos de sua
ocupação em relação à fragilidade do terreno apre-
Estes profissionais ajudaram na compreensão de sentação de soluções e treinamento de multiplica-
como formas inadequadas de ocupação do meio físi- dores, ajuda estes atores e encontrar soluções sim-
co estão na raiz de inúmeros problemas ambientais ples e dentro de seu poder de ação.
como enchentes e escorregamentos e áreas de ris-
co em favelas; ou estão relacionadas a problemas Como parte da compreensão destes fenômenos a
crônicos como assoreamentos de piscinões, canais Secretaria de Coordenação das Subprefeituras rea-
e galerias de drenagem que afetam a infraestrutu- lizou mapeamento das áreas de risco geotécnico e
ra urbana e cuja falta de enfrentamento adequado disponibilizou em seu website. Também a Secreta-
perpetua gastos com obras de desassoreamento; ou ria de Habitação colocou no ar seu sistema online
ainda, podem ser origem de risco à saúde pública, batizado HABISP onde o cidadão pode consultar
como quando da destinação de áreas com contami- informações sobre o a previsão de obras de reur-
nação de solo para fins habitacionais. banização e recuperação das áreas de risco mapea-
das pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas,
Desta atuação envolvendo a problemática ambiental
dentre outras informações relativas ao bairro ou
surgiu inicialmente a Carta Geotécnica do Município
região onde vive.
de São Paulo e, a partir daí, inúmeras contribuições
como na identificação, mapeamento e hierarquiza- Com relação aos eventos climáticos extremos, po-
ção de áreas de risco geotécnico; na compreensão demos dizer que os que ocorreram no verão de 2010,
de problemas de contaminação de solo; na publica- afetando regiões dos Estados de São Paulo e Rio de
ção de inúmeros documentos técnicos como o Atlas Janeiro, onde chuvas extremas e avalanches mata-
Ambiental (2000) e Diagnósticos Ambientais como o ram centenas de pessoas estão entre as áreas de
“GEO Cidade de São Paulo: panorama do meio am- atuação das Geociências no município.

98
Em São Paulo, segundo o Jornal Folha de São Paulo dãos em geral que pretendam atuar no seu território
16/02/2010, no verão de 2010 mais de 140 pessoas (bairro, comunidade etc.).
morreram em consequência das chuvas extremas e
A Geologia, juntamente com a Biologia, compõe as
enchentes em áreas rurais e urbanas do estado, in-
Ciências Naturais e a perspectiva destes profissio-
cluindo a Região Metropolitana de São Paulo.
nais é fundamental para complementar os conheci-
Neste sentido, as Geociências têm contribuído so- mentos das Ciências Humanas e Exatas na criação
bremaneira e tem sido parte importante em estudos de uma visão multidisciplinar que nos ajude a com-
como “Vulnerabilidade das Megacidades às Mu- preender a realidade multifacetada que nos cerca,
danças Climáticas”, realizado recentemente pelo nosso meio ambiente.
INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais,
No processo de criação, realização e aperfeiçoamento
em parceria com várias instituições, onde são feitas
dos cursos nos deparamos com novas abordagens para
projeções para o clima e cenários de risco e vulne-
rabilidade associadas à enchentes, inundações e a compreensão de conteúdos tradicionais das Geociên-
escorregamentos. cias. Foi assim que, por exemplo, quando inserimos a
abordagem sistêmica e relacionamos elementos cons-
tituintes do planeta de forma renovada, procurando
3. O ensino das geociências na passar essa visão renovada para os alunos.
UMAPAZ
Na perspectiva da UMAPAZ de inclusão de novos te-
O ensino das Geociências na UMAPAZ está relacio- mas aos já tradicionais da área ambiental e mesmo
nado ao processo de incorporação dos conhecimen- de abordagem não formal para a educação ambien-
tos relacionados às Geociências e ao meio físico na tal, buscamos atualizar os conteúdos e buscar no-
gestão e planejamento ambiental e municipal. Este vos espaços para a divulgação da informação técnica
processo envolve um contínuo processo de reflexão, e científica de utilidade ao cidadão e aos atores cita-
informação, formação e educação de todos os atores dos anteriormente.
envolvidos.
Assim, de nossa relação com técnicos de outras áre-
Nesta perspectiva, os cursos buscam trazer conhe- as temáticas da prefeitura e parcerias com outras
cimento técnico e científico que sirva de subsídio: a) Secretarias fomos construindo uma visão de educa-
à atuação profissional de técnicos (Geólogos, Geó- ção em sintonia com o que é realizado na prática e
grafos, Engenheiros, Arquitetos, entre outros) que está sendo discutido pelos especialistas e profissio-
atuem em nível local de governo, ou seja, prefeituras nais da área ambiental.
e, no caso do município de São Paulo, também nas
Subprefeituras; b) à capacitação de lideranças co- Um exemplo disso é nossa participação no Gru-
munitárias e representantes em Conselhos Gestores po de Trabalho que estudou as cavas de ouro que
e outros fóruns de participação que precisem qua- ocorreram na região próxima ao pico do Jaraguá
lificar sua participação nestes fóruns de discussão no século XVI, conhecidas como “cavas de ouro do
e também no enfrentamento direto de problemas Jaraguá”. Estes remanescentes de antigas minera-
ambientais e áreas de risco; c) à complementação ções do início do processo de colonização no Brasil
de conhecimentos de estudantes e professores do foram tombadas e necessitavam de estudos e enca-
ensino formal médio e superior (envolvidos, p.ex. nas minhamentos por parte do município de São Paulo.
áreas temáticas de Ciências, Geografia, Geologia, Nossa participação neste Grupo de Trabalho ocorreu
Educação Ambiental, entre outras); d) ao processo no sentido de orientar a preservação destes locais
de aquisição de novos conhecimentos e envolvimen- e buscar oportunidades para seu uso como espaço
to com as questões ambientais e urbanas de cida- para a educação. Neste sentido, apontamos novos

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 99


horizontes para ampliação do ensino das Geociên- cos com organizações ambientalistas, antes focadas
cias no município na linha da educação patrimonial apenas no meio biótico. Constata-se que a Geologia,
associada à preservação destas cavas de ouro histó- embora embutida nas disciplinas de Ciências e Geogra-
ricas, um exemplo de Geoconservação no município. fia do ensino fundamental e médio, de maneira geral,
não é adequadamente ensinada, seja por deficiência na
O Grupo de Trabalho estudou a possibilidade de
formação dos professores, seja pela qualidade do ma-
envolver equipamentos públicos municipais nesta
terial didático disponível. (MANSUR, 2009)
estratégia de educação e recomendou articular par-
ceria com o Parque Estadual do Jaraguá no estabe- Além destes aspectos que o ensino das Ciências da
lecimento de roteiro conjunto de visitação e outros Terra assumiu na UMAPAZ, podemos dizer que o
elementos de educação patrimonial e ambiental. papel da educação científica é outra faceta se con-
Além disso, o GT recomenda que se apóie pesquisas siderarmos que a informação técnica e científica
na região, tanto nos sítios já identificados, como na presente nos cursos tem o objetivo de ser de ser da
identificação de novos sítios, possivelmente através maior utilidade possível aos alunos, especialmente
de convênios com Universidades. no sentido da utilização no dia-a-dia.
Acreditamos que exista possibilidade de envolvi- A Organização das Nações Unidas (ONU), em seu Pla-
mento futuro da UMAPAZ com estes espaços públi- no Internacional de Implementação da Década das
cos, associando a educação hoje realizada na Esco- Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento
la de Astrofísica e Divisão de Formação com estes Sustentável 2005-2014, comenta o papel de desta-
espaços de preservação destas minerações de ouro que da ciência no ensino por esta fornecer às pessoas
históricas existentes na região do Jaraguá e que da- meios para entender o mundo e seu papel nele e de
tam do século XVI. seu aspecto complementar que a visão científica da
sustentabilidade tem relação a compreensão dos va-
Este contexto remete à discussão de um novo tema
lores, princípios e estilos de vida que conduzirão ao
nas Ciências da Terra ligado à Geoconservação - a
processo de transição para o desenvolvimento sus-
conservação de sítios geológicos de expressão,
tentável enquanto que a tecnologia proporciona às
afloramentos de rocha e outras feições de interesse
pessoas as ferramentas necessárias para que sejam
para a educação. Isto está intimamente relacionado
capazes de mudar sua situação graças a aprendiza-
à educação patrimonial e a criação de espaços para
gem de suas aplicações (UNESCO, 2005).
educação relacionada a um patrimônio geológico
existente no município, como, por exemplo, as cavas Outra estratégia recente é a parceria com o Insti-
de ouro do Jaraguá. tuto de Geociências da USP, em especial com a Co-
ordenação do Curso de Licenciatura em Geociências
A divulgação das Geociências para a sociedade é pou-
e Educação Ambiental no sentido de aproveitar seu
co disseminada no Brasil. No Estado do Rio de Janeiro
corpo discente em atividades e estágios envolvendo
um processo sistemático de popularização da Geologia
o ensino das Ciências da Terra na UMAPAZ.
teve início em 2000 com o Projeto Caminhos Geoló-
gicos - PCG pela implantação de painéis interpretati- Este curso relativamente recente na USP busca po-
vos. Eles se tornaram importantes pontos de acesso pularizar o ensino das Geociências e, apesar de não
ao círculo da educação formal e também atraíram o ter ainda nem uma década, já começa a demonstrar
cidadão comum, que passou a se interessar pelos te- sua aceitação pelo público. Recente evento conjunto
mas geológicos através da presença curiosa de totens realizado no prédio da Escola Municipal de Astrofísi-
em seu caminho. As informações geradas pelo PCG ca, no Parque do Ibirapuera reuniu mais de 800 pes-
têm alimentado programas de educação e promovido soas em apenas um final de semana, demonstrando
a geoconservação pela discussão dos temas geológi- o potencial desta parceria. A exposição No Mundo

100
da Terra acontecida em outubro deste ano e com de de São Paulo e sua interação com o histórico da
data para marcada para nova edição em Novembro ocupação urbana em São Paulo.
buscou trazer para um público bastante heterogê-
O grupo de profissionais envolvido desde a primeira
neo conteúdos relacionados ao tempo geológico, à
edição do curso permanece basicamente o mesmo e
transformações planetárias e como a vida evoluiu e
pode ser considerado o responsável por essa cons-
se adaptou ao longo das Eras Geológicas.
trução coletiva. Dentre os vários técnicos da Secre-
Nos últimos anos e em atenção a estas questões, as taria especialidades que passaram pelo tivemos a
universidades paulistas - USP e Unicamp - têm cria- presença predominante de Geólogos, seguidos de
do cursos de graduação e pós-graduação, respecti- Geógrafos, Agrônomos, Biólogos, Historiadores e
vamente, para formar profissionais aptos a ensinar Arquitetos.
as questões geocientíficas na educação formal e não
formal. Os cursos de graduação em Licenciatura em O objetivo do curso é discutir o processo de urbani-
Geociências e Educação Ambiental (LiGEA) do Insti- zação no mundo e no Município de São Paulo e de-
tuto de Geociências e em Licenciatura em Ciências monstrar que vários problemas ambientais crônicos
da Natureza (LCN), da Escola de Artes, Ciências e da cidade são decorrentes da desconsideração de
Humanidades, ambos da USP, tiveram início em 2004 aspectos relevantes do meio físico quando de sua
e 2005, respectivamente, e foram criados para for- ocupação pelo homem.
mar e capacitar profissionais que atuem na interface Dentre algumas feições do relevo de suma impor-
da Educação e das Geociências (Toledo et al., 2005). tância no processo de urbanização em São Paulo,
O programa de pós-graduação em Ensino e História podemos citar os rios e suas várzeas, por vezes bas-
de Ciências da Terra, criado em 1997, a partir de um tantes extensas; as serras e morros que compõem
subprograma de pós-graduação em Geociências da as porções mais altas do terreno paulistano e suas
Unicamp, visa à focalização de questões pedagógi- encostas muitas vezes íngremes e inadequadas à
cas relativas à veiculação do conhecimento de Ge- ocupação; os diferentes tipos de solo e rocha que,
ociências nos vários níveis de escolaridade e no en- quando associados com determinados tipos de rele-
sino não formal. A formação de profissionais nesses vo ou quando expostos por movimentos de terra sem
cursos é pioneira no Brasil, especialmente porque critérios técnicos adequados, pode vir a criar áreas
privilegia uma visão geossistêmica do mundo em de grande susceptibilidade a escorregamentos em
que vivemos, não mais uma visão fragmentada e re- encostas ou favorecer erosão acelerada e assorea-
ducionista, a qual é tida como a principal causadora mento de canais, rios, galerias de águas pluviais e,
dos problemas ambientais atuais. (BACI, 2009, p. 13) finalmente, aumentando a gravidade das enchentes
nas áreas baixas das antigas várzeas.
4. Programas de geociências Esse processo de ocupação de todos os espaços li-
realizados na UMAPAZ vres que ocorreu e ocorre nas cidades de todo mundo
ainda hoje precisa ser revisto. Em São Paulo as áre-
as baixas junto aos grandes rios, serviam de espaço
4.1 O Curso Terra Meio Físico e a
para acumular o excesso de águas. No momento his-
Paisagem Urbana tórico que se decidiu ocupar estes locais por pressão
Este curso foi criado na UMAPAZ a partir da junção de interesses econômicos desconsiderou-se o crité-
das experiências de vários profissionais da Secreta- rio técnico e o conhecimento associado.
ria do Verde e do Meio Ambiente envolvendo a ques- Hoje, quando as mudanças climáticas são um fato
tão do conhecimento relativo ao meio físico da cida- e não se fala em evitar as consequências, mas sim

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 101


em se adaptar aos eventos climáticos extremos várzeas dos rios Tietê e Pinheiros (impróprias à
(como vem ocorrendo na mudança do regime das agricultura) fez com que fosse possível implantar
chuvas) ainda assim em São Paulo existe dificul- os canais de retificação para geração de energia
dade em se construir um trabalho de prevenção de elétrica, possibilitando ao mesmo tempo o cres-
desastres. Neste aspecto o Geólogo, por seu co- cimento da cidade para as várzeas aterradas e o
nhecimento do meio físico, dos processos naturais desenvolvimento da indústria pela disponibilidade
de evolução da paisagem e de como são alterados de energia elétrica. O autor ainda salienta a dis-
pela ocupação urbana, tem exercido papel de edu- ponibilidade de materiais de construção no terri-
cador das comunidades afetadas por desastres ou tório paulistano, sem a qual não seria possível o
em área de risco geotécnico. crescimento urbano nas proporções que ocorreu
O curso é ministrado por profissionais com conheci- no município.
mento técnico e larga experiência adquirida em 20
Entender o processo histórico de ocupação do sítio
anos de contato com a realidade de uma metrópole
paulistano é essencial para que o aluno e o cidadão
como São Paulo. Isso se reflete no conteúdo do cur-
entendam que o meio ambiente, especialmente o ur-
so que procura aliar o conhecimento teórico com o
bano é em grande parte reflexo desta interação en-
prático, além de trazer para os alunos a perspectiva
tre o homem e tecnologia com o meio físico.
da Geologia para a compreensão da realidade que
nos cerca. Assim, se a paisagem urbana que hoje O processo de urbanização fez com que hoje, pela pri-
observamos tem em sua história centenas de anos meira vez na história da civilização humana, a popula-
de civilização humana, ela não pode se esquecer de ção do mundo passasse a ser em sua maioria urbana.
que está assentada sobre milhões de anos de his- Isto traz ainda mais a necessidade de compreender-
tória geológica. Essa diferença de escala de tempo mos como o metabolismo urbano cria novos ambien-
pode servir para lembrarmos que os seres humanos tes e paisagens em que o ser humano vai viver.
e suas criações tecnológicas são recentes no plane-
Desta forma é prioridade do curso passar ao aluno
ta e devemos entender que juntos, homem e tecno-
logia, hoje modelam o a superfície do planeta tão a visão das Geociências neste contexto e estimular
rapidamente, em relação aos processos naturais de a reflexão e discussão dos assuntos mencionados,
formação da paisagem que se tornaram um fenôme- como forma de, inclusive, desenvolver a cidadania, o
no sem igual na história do planeta. envolvimento e a participação qualificada dos atores
na construção de um meio ambiente mais saudável
Desta forma o homem é hoje o principal agente geo-
em todos os sentidos.
lógico, sendo que já se criou o termo tecnógeno para
todos os processos de deposição, erosão, assorea- Segue abaixo material de divulgação do curso e seu
mento, entre outros que sofreram influência da téc- programa, apresentado de forma sucinta.
nica, da ação humana tecnológica.
Com relação ao município de São Paulo, o curso ao 4.1.1 Objetivos e programa
abordar os aspectos do meio físico e sua interação O Curso Terra Meio Físico e a Paisagem Urbana tem
com a ocupação humana mostra como um influen-
o objetivo de promover e estimular a reflexão sobre
ciou o outro ao longo do tempo. A geologia do terri-
a natureza dos problemas ambientais, sua relação
tório paulistano foi de grande influência para o curso
com as geociências, os processos naturais e antró-
que seguiu a história do município.
picos da formação de paisagem urbana, com ênfase
Segundo Figueira (2005), o fato de grande parte para a realidade do município de São Paulo e Re-
da área de São Paulo ser composta pelas grandes gião Metropolitana.

102
Conforme previu o relatório da ONU “Estado da Po- O público focalizado é composto por profissionais,
pulação Mundial 2007”, a partir de 2008 a popula- professores e estudantes de geografia, engenharia,
ção mundial se tornou predominantemente urbana. arquitetura, geologia, e demais interessados que
Desta forma é importante conhecermos o meio fí- possuam 2º grau completo.
sico, seus elementos (relevo, geologia, hidrografia,
entre outros) e processos associados de forma a 4.2 Outros cursos e Oficinas
subsidiar e orientar as decisões voltadas ao pla-
nejamento urbano e ambiental de uma cidade, e às Como consequência da relação com os participantes
intervenções humanas (obras civis, sistema viário, do Curso Terra Meio Físico e a Paisagem Urbana sur-
loteamentos etc.). O desconhecimento destes as- giu a necessidade de um programa sobre mapas, que
pectos favorece a ocorrência de problemas ambien- contribuísse para a compreensão dos conteúdos e
tais tais como escorregamentos e enchentes, que para o manuseio dos mapas usados normalmente na
podem ameaçar ocupações humanas e gerar áreas Prefeitura de São Paulo em seus trabalhos técnicos
de risco, acidentes e catástrofes como os eventos e em documentos essenciais como o Plano Diretor
que vêm ocorrendo anualmente em várias áreas ur- do município.
banas no Brasil. Para acolher essa necessidade foram gerados: o
O programa do curso, com 32 horas, prevê aulas curso Introdução ao meio físico e aos mapas e, tam-
expositivas e dialogadas, além de leituras e exercí- bém, oficinas descentralizadas sobre o tema e sobre
cios práticos sobre conceitos básicos de Geologia, a questão dos Riscos Ambientais Urbanos.
a história do planeta, tipos de rochas e processos As oficinas sobre Riscos Ambientais Urbanos foram
modeladores do Meio Físico. Também enfatiza a im-
realizadas em parceria com as unidades descentrali-
portância desse conhecimento para o planejamento
zadas da Secretaria Municipal do Verde e Meio Am-
urbano e o entendimento dos problemas ambientais
biente, as Divisões de Gestão Descentralizada.
decorrentes da ocupação inadequada em relação ao
meio físico. Segue breve descrição dos referidos cursos e oficinas.

O programa é o seguinte:
4.2.1 Curso e Oficina descentralizada: Introdução
 Conceitos básicos de Geologia, tipos de ro- aos estudos do meio físico e dos mapas
chas, dinâmica interna e externa do planeta,
história geológica do planeta; A interpretação do meio físico é fundamental para
entender questões socioambientais e os problemas
 a Geologia enquanto ciência, o pensamento
urbanos em uma grande cidade como São Paulo. Co-
geológico, o homem como agente geológico
nhecer a história do planeta Terra, a sua composição
nas transformações da Terra; histórico da ci-
e sua dinâmica interna e externa possibilita a com-
dade de São Paulo e a ocupação do meio físi-
preensão de muitos fenômenos naturais e os proble-
co; o diálogo entre ocupação e o meio físico:
mas ambientais associados, além da situação crítica
aspectos da paisagem; a geologia do municí-
dos recursos naturais extraídos do planeta.
pio de São Paulo e os problemas ambientais
urbanos associados; as geociências no geren- As geociências têm grande importância para a educa-
ciamento dos riscos ambientais na cidade de ção ambiental, porém não possuem uma linguagem
São Paulo; aula prática de planejamento ur- muito acessível à população, o objetivo da oficina é
bano com mapas e aplicação dos conteúdos traduzir esta linguagem introduzindo o pensamento
do curso. geocientífico na interpretação do meio físico.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 103


Os mapas são meios de comunicação sintéticos e As atividades descentralizadas utilizam uma meto-
práticos para descrever o meio físico, relações so- dologia mais lúdica e menos expositiva ao abordar
ciais, culturais, econômicas, entre outros, mas mui- os temas, de modo a se alcançar um público mais
tas vezes a falta de um conhecimento básico da po- voltado para aspectos práticos e funcionais do
pulação impossibilita a leitura de mapas de grande conhecimento.
relevância. São, também, fundamentais para o pla-
nejamento urbano e ambiental. Quem deseja conhe- 4.2.2 Oficinas descentralizadas: Riscos
cer melhor e atuar na melhoria do ambiente urbano
Ambientais Urbanos: uma abordagem preventiva
necessita do conhecimento cartográfico que a oficina
pretende introduzir. Esta oficina propõe a discussão de problemas urba-
Com 20 horas, o programa tem como objetivos in- nos associados a eventos naturais potencializados
troduzir o conhecimento cartográfico para leitura de pelo homem, com foco para enchentes e escorrega-
mapas de interesse social; informar sobre a história mentos na cidade de São Paulo. Estes dois fenôme-
e composição do planeta, em uma visão sistêmica; nos são frequentes na cidade e afetam um grande
oferecer atividades didáticas que possam ser utiliza- número de pessoas anualmente, podendo se tornar
das por educadores e líderes comunitários em proje- situações de risco.
tos ambientais. O planeta Terra é um sistema dinâmico interna e ex-
O público é composto por integrantes da comunida- ternamente, portanto os fenômenos naturais trazem
de local, conselheiros do Conselho Regional de Meio mudanças constantes na paisagem. O ser humano
Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura também é um agente modificador da paisagem e sua
de Paz (CADES Regionais), educadores, líderes co- interferência nos processos naturais pode causar si-
munitários, estudantes e público interessado. tuações de vulnerabilidade. Com o aumento da po-
pulação e as mudanças climáticas têm aumentado
O Programa222 desenvolve os seguintes itens: a quantidade de danos e perdas de caráter social e
 A Escala do Tempo Geológico – O Planeta e econômico por ocorrência de desastres ambientais
sua História; rochas – tipos e formação; co- urbanos.
municação com mapas: mapa de memória; Para prevenir alguns riscos associados a desastres
descrições do relevo e topografia; cartogra- naturais é necessário conhecer um pouco da dinâ-
fia – escalas, legendas e conteúdos práticos; mica natural que é responsável pelo acontecimento
mapa de observação – aplicação de recursos destes fenômenos e refletir sobre sua associação à
de comunicação com mapas; uso de mapas ação humana.
em estudos do meio; lendo e interpretando
mapas – atividade com o Atlas Ambiental do Os moradores em áreas de risco necessitam de co-
Município. nhecimento prático com o qual reconheçam as situ-
ações de risco e sejam capazes de agir para prevenir
Observou-se que no curso de mapas realizado na a ocorrência de desastres, a oficina buscará fornecer
UMAPAZ houve presença considerável de educado- estes subsídios.
res populares em busca do aprendizado do uso dos
mapas como recurso de reconhecimento do território Nas Oficinas, as dinâmicas são iniciadas com a de-
por parte das comunidades que estes atendiam finição e discussão sobre os termos: desastres na-
turais, riscos, eventos climáticos extremos, entre
222 | Com a facilitação de Gustavo Agni Beuttenmuller, outros. São apresentados exemplos de situações
na UMAPAZ, com o apoio de Débora Kátia de Vargas e,
em que a ocupação humana nos vários tipos de ter-
nas oficinas descentralizadas, com a facilitação de Mari-
za Fernanda da Silva. renos, associadas aos fenômenos naturais, podem

104
causar uma série de danos. Para um entendimento zer para lidar com isso. Procura-se trazer problemas
técnico básico desses problemas são apresentados locais para que sejam discutidos nos encontros. Já
conceitos relacionados às geociências. ocorreram visitas em algumas áreas de risco, como
com a Defesa Civil do Jaçanã/Tremembé, cujos re-
Trabalhando a prevenção no tripé de percepção, mi-
presentantes estão disponibilizando materiais como
tigação e adaptação do risco, o último encontro é
fotos e mapas e também acompanham as oficinas,
direcionado de acordo com os problemas de cada
oferecendo todo apoio para que realidade da região
região atendida.
seja discutida ao longo das aulas.
A oficina utiliza metodologias de ensino técnico
científico dos assuntos abordados com uma lingua-
gem simples, e fornece informações sobre recursos
5. Considerações finais
didáticos utilizados para ensino de geociências e A introdução de cursos e oficinas com conteúdos
para prevenção de riscos. e práticas da área de geociências, dialogando com
Os objetivos da oficina, com 20 horas, são discutir outros cursos e atividades, tem o propósito de ser
e entender os problemas ambientais urbanos asso- mais um caminho que pode ser percorrido no livre
ciados à interferência humana na dinâmica natural percurso de aprendizagem dos participantes da pro-
do planeta; mobilizar funcionários da prefeitura e a gramação da UMAPAZ.
comunidade a atuar na prevenção de riscos. Considerando que as geociências têm fundamental
O público é composto por integrantes da comunida- importância para a educação ambiental, os cursos e
de local, conselheiros do Conselho Regional de Meio oficinas visam contribuir para que o educando cons-
Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura trua nexos sobre o que ocorre no mundo, na sua
de Paz (CADES Regionais), educadores, líderes co- cidade e na sua região, compreendendo que vários
munitários, estudantes e público interessado. problemas ambientais atuais crônicos ou extraor-
dinários são decorrentes da desconsideração de
O conteúdo programático é o seguinte: aspectos relevantes do meio físico quando de sua
 Sistemas terrestres: Biosfera, hidrosfera, at- ocupação pelo homem, que é o principal agente geo-
mosfera, geosfera e suas interações; o que lógico contemporâneo.
são Desastres Naturais? O que é Risco? Quais Visa, também, propiciar a apropriação de tecnolo-
são os principais tipos de desastres naturais?; gias para compreensão e manuseio de mapas, que
riscos hidrológicos: o ciclo da água urbano/ viabilizam a leitura independente e crítica de situa-
bacia hidrográfica/ enchentes, inundações ções e podem informar sua ação e participação nos
e alagamentos/ recursos didáticos para en- espaços e decisões da cidade.
tender níveis de absorção de água no solo, e
como construir um pluviômetro; riscos geoló- Ao oferecer oficinas descentralizadas sobre Riscos
gicos: relevo de encostas/ tipos de solos e ro- Ambientais Urbanos, além da compreensão da di-
chas/ tipos de escorregamentos/ como prever nâmica natural da ocorrência dos fenômenos e sua
um escorregamento; monitoramento partici- associação à ação humana, visa a equipar os partici-
pativo e discussão sobre os problemas locais. pantes com conhecimentos práticos para reconhecer
situações de risco e para que sejam capazes de agir
Nas oficinas de Riscos Ambientais Urbanos as dis- para prevenir a ocorrência de desastres.
cussões e relacionamento do grupo são estimulados
com a realização de dinâmicas em grupo. São discu-
tidos termos utilizados na área, para sua compreen-
são, e como acontecem situações de risco e o que fa-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 105


Referências Bibliográficas
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Década das Nações Unidas da educação para o
desenvolvimento sustentável 2005-2014: docu-
mento final plano internacional de implementa-
ção. Brasília: UNESCO, 2005.

106
CIDADÃOS MEDIADORES
NA CIDADE DE SÃO PAULO?
TRAJETÓRIA, AMBIGUIDADES, SUCESSOS PARCIAIS E
CONTRADIÇÕES DA BUSCA PELA CONVIVÊNCIA PACÍFICA
Sandra Inês Baraglio Granja223

Resumo Abstract
O objetivo deste artigo é discutir se a opção de ca- The aim of this paper is to discuss the option of
pacitar cidadãos paulistanos como mediadores e/ou forming citizens paulistanos mediators and / or em-
trabalhadores de conflito, colabora ou não para uma ployees of conflict, collaborate or not for a City of St.
Cidade de São Paulo menos conflituosa ou pelo me- Paul less confrontational or at least no possibility of
nos, se há possibilidade de sensibilização na cons- sensitization on peacebuilding for a more peaceful
trução da paz por um convívio mais pacífico. Também coexistence. It also aims to reconstruct the trajecto-
objetiva reconstruir a trajetória do conteúdo, suas ry of the content, its innovations in transdisciplinar-
inovações na transdisciplinariedade com outros con- ity with other content, even if partially. And finally
teúdos, mesmo que de forma parcial. E finalmente, state the methodological and pedagogical choices
indicar as opções metodológico-pedagógicas reali- made ​​during these seven years of reflection on the
zadas ao longo desses sete anos de reflexão sobre o subject with very different actors.
tema com os mais variados atores. Key words: conflict mediation, transdisciplinarity,
Palavras-chave: mediação de conflitos, transdisci- socioenvironment conflicts, peace.
plinaridade, conflitos socioambientais, paz.

223 | Docente e facilitadora de diversos cursos para a Umapaz, tanto de Mediação de Conflitos (com várias versões), como
sobre: “Indicadores Socioambientais”; “Ombudsman ambiental para as próximas gerações”; “A essencialidade das redes
sociais em processos de mediação de conflitos”; Mediação como Resolução Cooperativa e Integradora de Problemas”; “Pla-
nejamento Participativo e Gestão Socioambiental Conjunta” (várias versões); “Jogos Sustentáveis”; “Construção Social dos
Problemas Ambientais” (várias versões); Sociedade de Risco” (várias versões); “As Dimensões da Sustentabilidade: Meio
Ambiente e Desenvolvimento” e “A construção de Consensos em Conflitos Socioambientais”. Membro do Conselho Consulti-
vo da Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, com mandato de dois anos. Doutora pela Universidade de São
Paulo. Endereço para acessar o currículo: http://lattes.cnpq.br/4495546985346723. sines@uol.com.br.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 107


1. Introdução por meio de cidadãos-voluntários-mediadores? Tal-
vez continue sendo um objetivo que não tenha ainda
Em 2005, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio sido alcançado, entretanto algumas iniciativas fo-
Ambiente (SVMA), criou a Universidade Aberta do ram mobilizadas, bem como articulações com algu-
Meio Ambiente e da Cultura de Paz (UMAPAZ)224, in- mas políticas públicas.
vestindo na ação conjunta socioambiental de socie-
dade e governo para a sustentabilidade e da paz na Uma das marcas da capacitação e de orientação da
Cidade de São Paulo, cuja proposta de sua criação Umapaz foi acreditar sempre na sustentabilidade do
foi apresentada e aprovada no Conselho Municipal processo de convívio pacífico na Cidade de São Paulo
do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentá- e que este também deveria estar vinculado não so-
vel (CADES) da SVMA em julho de 2005. Uma uni- mente as políticas públicas articuladas, bem como
versidade aberta permite que se trate de temas di- no diálogo desenvolvido entre cidadãos, decisores
ferenciados – que por vezes, o currículo formal das das mesmas, cientistas, servidores dentre outros
outras universidades não contempla. Por essa ca- protagonistas.
racterística e por meio de diversas parceiras, houve O artigo, então, pretende discutir em algumas se-
a possibilidade de se refletir e incorporar conteúdos ções, sinteticamente, a trajetória desses sete anos,
diferenciados, associados em transdisciplinariedade. aperfeiçoamentos gradativos no conteúdo, nas si-
Dentre os diversos temas acolhidos pela UMAPAZ, mulações para a prática da mediação. E algumas
com reverberação, foi o de mediação de conflitos considerações, como se a Cidade de São Paulo está
socioambientais. Alguns facilitadores, docentes e com mais dificuldades de convivência e se há uma
pesquisadores se reuniram em torno da idéia da crise de esperança, ou seja, se existem saídas para
construção de uma cidade paulistana menos vio- os conflitos e violência.
lenta, menos conflituosa e quem sabe, que pudes-
se caminhar para a construção de processos mais 2. Escolhas Metodológicas
pacíficos de convivência. Sete anos atrás quando
essa trajetória foi iniciada, o tema ainda era pouco As escolhas metodológicas foram se aperfeiçoando
explorado, ou melhor, sua visibilidade estava res- ao longo do tempo, com a realização dos cursos, é
trita a algumas instituições que tradicionalmente possível dividi-las em alguns tópicos: as que envol-
já discutiam o tema e de cidadãos atuantes em viam conteúdos; as que envolviam a elaboração de
políticas públicas sociais preocupadas com o gra- casos práticos e relacionados com a dinâmica das
dativo aumento dos conflitos e em algumas situa- relações da Cidade de São Paulo; e as que envolviam
ções, da violência. públicos distintos e com solicitações específicas de
O objetivo era monumental, como inserir em uma processos de mediação, especialmente, os grupos
cidade de 11 milhões de habitantes, o conceito de com demandas profissionais de mediação nos res-
que seria possível convivermos de forma pacífica, pectivos locais de trabalho.
A troca com os participantes foi essencial para o
224 | Por meio da Lei Municipal que reorganizou a SVMA aperfeiçoamento das capacitações sobre mediação.
em 2009, passou a ser o Departamento de Educação
Conjuntamente, com a percepção dos coordenadores,
Ambiental da Secretaria, coordenando a área de forma-
ção, implementada desde 2006, e também a Escola Mu- os cursos foram tomando gradativamente outros for-
nicipal de Jardinagem, a Escola Municipal de Astrofísica, matos, abrangendo e entrelaçando outros conteúdos.
os Planetários (Ibirapuera e Carmo) e o Programa A3P. Também foi possível inserir cada vez mais casos para
Fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secreta-
rias/meio_ambiente/umapaz/sobre_a_umapaz/index. simulação onde os participantes tiveram oportunida-
php?p=243 Acesso em setembro de 2012. des de praticar o processo de mediar.

108
Desde o início, há sete anos, os cursos voltados mento da dinâmica das relações e tensões entre as
à mediação tiveram como público focalizado o ci- pessoas que o habitam e como o conflito faz parte
dadão paulistano e servidores municipais. Desses dessas trocas. Para o curso adotou-se de imedia-
últimos, muitas categorias foram contempladas: to, o território como espaço, não só da convivência,
servidores ligados à educação, subprefeituras, como também do possível diálogo interdisciplinar,
saúde, meio ambiente, conselheiros área socio- de acordo com Ribeiro (2009):
ambiental (CADES, entre outros). Também orga-
“Por “focalização” entendemos que: todo con-
nizações não governamentais das mais variadas
ceito, apesar de moldável e aberto, tem um
tipologias e prestação de serviço, como também
foco. Poderíamos dizer que o conceito precisa
organizações não-governamentais (ONGS) e mo-
“estar focado”, ter um núcleo central ordena-
vimentos voltados à sustentabilidade ambiental,
dor, dentro das múltiplas relações que dese-
consultores socioambientais, estudantes e de-
nha num grande conjunto (...) pg 12; (...) “...a
mais interessados. Um público com poder de mul-
mobilidade é uma característica fundamental
tiplicação e reedição foi o a comunidade escolar,
dos territórios”. (pg.13). (...)os territórios, em
especialmente, o educador.
si mesmos, são múltiplos, na medida em que
No âmbito da Cultura de Paz e Resolução Pacífica de se pode não só construir um território na mo-
Conflitos e visando a contribuir para que a Munici- bilidade (pela vivência sucessiva de diferentes
palidade consiga instalar uma Casa de Mediação em territórios) como também, simultaneamente,
cada Subprefeitura, a SVMA contratou com o Institu- pode-se “acionar” – ou “controlar” – mais de
to 5 Elementos225 a realização de 8 (oito) turmas de um território, o que o atual aparato técnico-
Mediação de Conflitos Socioambientais, destinada a informacional nos permite. Desdobra-se assim
capacitar 400 pessoas, sendo dois terços de guardas uma multiterritorialidade tanto no sentido su-
civis municipais. Essas oito edições do curso “Media- cessivo (pela mobilidade física) quanto simul-
ção de Conflitos Socioambientais” foram realizadas tâneo (pela mobilidade informacional ou “vir-
nas zonas Leste, Norte, Sul e Oeste da Cidade de tual” – que nem por isso, obviamente, é menos
São Paulo. Essa divisão também se relaciona com as “real”). (RIBEIRO, 2009, pg.14).
regiões descentralizadas do DGD.
A vivência dos cidadãos se dá por meio de vários
Algumas das escolhas metodológicas que envol- territórios, de suas mais diversas formas de apro-
viam conteúdo serão abordadas neste artigo, como
priação, entendimento, manejo, relação de perten-
fundamentadoras teóricas do curso. A opção de re-
cimento, acolhimento, rejeição, identidade, repúdio,
latá-las, primeiro porque outros cursos de media-
dentre outras possíveis formas de relação com o
ção têm abordagens diferenciadas (o que é parti-
espaço. No entanto, cabe ao Poder Público compre-
cularmente rico e complementar), segundo porque
endê-lo em sua mais complexa expressão e oferecer
um dos eixos de desenvolvimento foi entrelaçar a
políticas públicas que considerem essas camadas e
governança com a política pública e como a media-
dimensões para efetividade das mesmas.
ção se insere neste processo. Também, como o ter-
ritório é de fundamental importância para entendi- Entender o território também é compreender qual a
rede instalada e como se articulam. O processo de
225 | Desta parceira, dentre outros produtos, foi a publi- mediação necessita das redes para o adequado su-
cação do livro/manual: “Manual de mediação de confli- porte ao cidadão atendido ou a ser atendido. A di-
tos socioambientais “/Sandra Inês Baraglio Granja. -- 1. mensão das redes será abordada neste artigo, con-
ed. -- São Paulo : 5 Elementos Instituto de Educação
e Pesquisa Ambiental, 2012. Bibliografia. ISBN 978-85-
juntamente com a de capital social e suas interfaces
63041-05-0. Parceria com a Umapaz. com o território.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 109


3. Crise da esperança, governança social, entre a ambição pessoal e o bem co-
e políticas públicas mum. É um cenário que vai além de uma con-
cepção tacanha de Esperança e inclui a vida
No início de cada um dos cursos de mediação, nes- estética e cultural. A importância da mídia,
ses sete anos, percebeu-se que vários participantes do conhecimento intelectual, da arte, músi-
incrédulos ou parcialmente incrédulos na convivên- ca, poesia e imagens é que elas dão forma a
cia pacífica em São Paulo, especialmente nas situ- novas sensibilidades e novas formas de cons-
ações onde a sensação de aumento dos conflitos e ciência. São capazes de dar voz ao que foi si-
da violência teriam se agravado. O esforço inicial em lenciado e criam significado onde nada havia
cada aula foi de refletir se “nós, os cidadãos” não antes. Podemos até descobrir uma política
éramos igualmente responsáveis, tanto pelo conflito da Esperança, rica em emoção e simbolismo,
– ou aumento dele -, bem como sua transformação que restaure o sentido ético e a ideia de bem
e transcendência, ou seja, sua superação em algum comum. Entretanto, ao mesmo tempo, e esse
tipo de ação que levasse o conflito inicial para outro é o meu segundo cenário, ao reconceitualizar-
patamar, quem sabe, o de sua resolução. Uma das mos a Esperança para uma sociedade pós-
características do curso é a inconformidade com a moderna, faríamos bem em acatar o conselho
atual situação de convivência não pacífica e a outra do filósofo contemporâneo Slavoj Zizek para o
– que ainda se mantém – é demarcada por diferentes nosso século: “A frase ‘é preciso ver para crer’
concepções de esperança. deve sempre ser lida junto com sua inversão,
Segundo Burke (2012): ‘é preciso crer para ver’”. Ambos os cenários
apresentam desafios reais, não só para os so-
“As pessoas também são mais esperançosas ciólogos acadêmicos, mas para todos aqueles
em certos momentos e em certos lugares que que eles buscam envolver”. (HOWES: 2012, pg:
em outros, na medida em que estão mais ou 246)
menos conscientes das alternativas para a
vida que levam”. (...) “A esperança tem uma E é embasado no ‘é preciso crer para ver’ que o pro-
geografia além de uma cronologia”. Muitos cesso de mediação ganha aliados, participantes, vo-
luntários, adeptos, quem quer se envolver ou fazer a
participantes tinham esperanças em uma ci-
diferença na sociedade. Neste momento que a per-
dade com mais qualidade nas relações entre
gunta “por que mediar?” ganha dimensão. Acredi-
as pessoas, outras nem tanto. Um dos objeti-
tou-se que seria uma das possibilidades para: atuar
vos do curso foi sempre o de sensibilizar para
e conviver no território; ampliar e melhorar o diálogo
as múltiplas respostas possíveis para a con-
entre cidadãos e das políticas públicas; poder atuar
vivência pacífica, que poderiam (ou não) ser
ou enfrentar a crise da esperança; usar como ferra-
encontradas em “nós mesmos”
menta para construção de gestão pública ou priva-
Entretanto, e de forma ambígua, sabe-se que a es- da; usar como formato reconhecido para resolução
perança tem uma dimensão de resposta individual, de conflitos; integrar ao processo democrático de
segundo Howes (2012): construção de consensos entre as partes; participar
“(...) poderia tentar lhes apresentar proviso- do processo de ampliação da governança.
riamente dois cenários como conclusão? Um Acredita-se, também, que a sociedade é detentora
deles é um modelo relativamente positivo, no dos rumos de seu futuro, sendo responsável e vin-
qual o futuro progressivo pertence a uma Es- culada com o devir, cuja construção cabe aos cida-
perança capaz de efetivar um equilíbrio entre dãos. Essa trama complexa está baseada no voto,
a autorrealização individual e a solidariedade na participação democrática, como consultas públi-

110
cas, ou pela democracia direta, a gestão autônoma E, por fim, sob a governança, há os direitos sociais,
de determinadas questões pelas organizações civis, balizados por padrões de civilidade e bem-estar.
mas com suporte do governo. Essas variáveis com- Os aspectos mencionados acima apontam políticas
plexas engendram parte do que se considera como públicas apropriadas, coerentes, incorporando sua
governança. complexidade e suas interfaces com outras áreas,
O “tamanho” da governança não tem resposta sim- suas peculiaridades, de entendimento adequado,
ples, já que as questões socioambientais atraves- acomodando interesses conflitantes, realizando
sam problemas transfronteiriços e para os quais a ações cooperativas; gestão de interações, sistemas
ciência ainda não tem respostas claras, como, por de regulação e mecanismos de coordenação; nego-
exemplo, o desenho de políticas públicas projeta- ciação e mediação entre cidadãos.
do às gerações futuras. De qualquer forma, houve Por outro lado, as organizações, por meio de seus
avanços no funcionamento democrático na gestão programas e projetos viabilizam as diversas po-
do bem comum, várias formas estão sendo testadas. líticas públicas. Muitas delas ou grande parte têm
Os limites da governança são relativos à disfunção interface com outras diversas organizações públi-
ou limitação dos processos de participação existen- cas, exigindo decisões técnicas e políticas, rubricas,
tes; ineficácia de políticas deliberativas; enfraque- aportes de recursos dos mais diversos tipos e nego-
cimento de instituições; e procedimentos claros de ciações. De forma geral, as políticas públicas ten-
coordenação entre os diferentes poderes territoriais. tam dar respostas às situações de vulnerabilidade,
Há contradições entre posturas técnicas, políticas e de conflito, de potencialidades ou mesmo de opções
a daqueles grupos interessados expulsos ou que não de determinado governo.
querem participar dos processos de decisão.
“Uma política pública constitui um conjunto
A governança participativa e/ou representativa está de decisões e atividades, intencionalmente
centrada em uma ação coletiva, plural, expressa coerentes, elaboradas e conduzidas por dife-
na multiplicidade de interesses; condições a serem rentes atores públicos e, por vezes, privados,
construídas, por meio do diálogo público, com mul- com vistas a resolver de maneira focada um
tiplicação de consultas, diversificação de formas de problema definido politicamente como cole-
decisão, conectando-as melhor com as instâncias de tivo”. “Esse conjunto de decisões e ativida-
decisão e com o território. Instâncias, precisando ser des implicam atos formalizados, de natureza
mais autônomas e interativas, com relações de força relativamente imperativa, visando modificar
e poder mais equilibradas. o comportamento de grupos sociais (grupos
A governança também é o resultado do contrato alvo) ligados à origem do problema coletivo
social ´consensual´ que define a série de arranjos focado, e no interesse de grupos sociais que
institucionais e normas no qual se baseia o Estado. sofrem os efeitos negativos do citado proble-
Supõe um conjunto de inovações que vai além dos ma (beneficiários finais)”. (STÉPHANE, 2005).
arranjos pragmáticos. Entrelaçam-se vários papéis: Existe uma capacidade de governar dentro de uma
da ciência, dos cientistas, da política, da mídia; da Política Pública, essa capacidade se expressa de
ética; do sistema educacional, do setor privado, dos muitas formas, uma delas é a capacidade de inter-
especialistas, das autoridades públicas, das institui- facear a intersetorialidade exigida pelas mesmas. É
ções, da opinião pública. (ROGERS, HALL, 2003). difícil imaginar uma política pública de educação, por
Sob a governança, os direitos dos cidadãos se rela- exemplo, sem pensar nas questões socioeconômicas
cionam com justiça; no âmbito dos direitos políticos envolvidas. Ou de meio ambiente, sem a interface
da governança, a democracia é o exercício do poder. com saúde, saneamento, uso e ocupação do solo,

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 111


resíduos sólidos, dentre outros. A dinâmica da inter- confiança, coordenação coletiva das ações realiza-
setorialidade exige negociações matriciais. da pela mobilização e pluralidade dos atores-pro-
tagonistas, pela habilidade de gerir complexidade e
As transações de recursos (mesmo negociais) inter
aspectos incertos ou imprevisíveis e, por fim, pela
e intragovernamentais precisam de marcos jurídico-
transferência de poder para a sociedade civil. Como
institucionais e políticos apropriados para imple-
um dos objetivos da governança é aumentar o poder
mentar a política pública, o que pressupõe partici-
e ampliar espaços de negociações, isso pode elevar
pação nas decisões. Superar a setorialidade significa
o empoderamento e oferecer alternativas na resolu-
integrar, compreender os dados e negociar os pontos
ção de conflitos.
de vistas dos outros atores enclausurados em seus
subsetores: A mediação sempre foi compreendida ao ser minis-
trada nos cursos da UMAPAZ como um “braço” pos-
“De forma simplificada, qualquer política pú-
sível de políticas públicas (não somente sociais) e
blica visa satisfazer as demandas que lhe são
mais, uma ferramenta valiosa que pode melhorar a
dirigidas pelos atores sociais ou aquelas for-
gestão interna das próprias organizações quando in-
muladas pelos próprios atores do sistema po-
terfaceadas em projetos intersetoriais.
lítico (...) Existem, basicamente, dois tipos de
demandas, as demandas novas e as demandas Mesmo com a maioria dos cidadãos, preconizando a
recorrentes. As demandas novas são aquelas participação, esta não é almejada por todos e não
que resultam do surgimento de novos atores são todos que a desejam. Este, talvez, seja um dos
políticos ou de novos problemas, novos atores elos frágeis quando se pretende uma política públi-
são aqueles que já existiam antes, mas não ca e governança fortalecida e integrada. As políticas
eram organizados. (...) Novos problemas, por públicas pressupõem alto grau de interdependência
sua vez, são problemas que não existiam efe- entre as diversas interfaces institucionais. Essa en-
tivamente antes (...) ou que existiam apenas genharia institucional é o sustentáculo da governan-
como ‘estado das coisas’, pois não chegavam ça. Quando os conflitos e a violência se manifestam,
a pressionar o sistema e se acrescentar como várias dessas políticas precisam ser discutidas e
problema político que exige solução” (RUAS, entrelaçadas de seu planejamento até sua execução
1998, p. 3). para dar resposta e resultados.
Concretizar políticas públicas também implica em Muitos não podem participar por problemas de aces-
coordenação conjunta e planejamento multisseto- so de qualquer natureza, seja porque alguns grupos
rial, buscando sinergia entre as distintas ações e sociais estão excluídos ou ignorados na sociedade
compartilhamento da aprendizagem entre os dife- civil em sua relação com o Estado, seja porque os
rentes jargões cognitivos dos setores. Embora as espaços institucionais não abrigam todas as pos-
agências governamentais não sejam os únicos ato- sibilidades de canalização de reivindicações ou
res em qualquer política pública, são atores institu- participação.
cionais fundamentais que promovem alocação de re-
É possível que ainda não haja espaços institucionais
cursos que envolvem a gestão. As instituições têm
formais apropriados para acomodação de todas as
pesos de poder diferenciados na gestão, ainda sim,
expectativas dos cidadãos. Há aqueles que perma-
pactuam-se as possibilidades de desenvolvimento e
necem ainda “fora” da discussão e da construção da
sua sustentabilidade.
governança. Como um dos objetivos da governança
As dimensões mais significativas para a governança é aumentar o poder e ampliar espaços de participa-
da política pública são as legitimações constantes ção dos cidadãos nos rumos do território, isso pode
da ação pública, suportada por maior transparência, elevar o empoderamento e oferecer alternativas na

112
resolução de conflitos. De qualquer forma, a com- mento de determinada situação. A voz às objeções e
plexidade das instituições, suas disputas por ideias críticas pode ser fornecedora de outras perspectivas.
e de poder não podem instrumentalizar ou legitimar Outra camada do curso de mediação foi compreen-
a ausência de debate público e manter as decisões der o manejo de conflitos; como iniciar o processo de
restritas a um nicho do poder decisório. mediação envolvendo as partes interessadas; como
O processo de tomada de decisão deve representar trabalhar as versões dadas pelas partes do mesmo
todos os interesses dos cidadãos, sejam consumi- conflito; como contribuir para que as partes come-
dores, competidores, investidores, empregados de cem o processo de diálogo, projetando um processo
instituições financeiras, público em geral, governo, colaborativo de soluções satisfatórias para ambas; e
grupo de formadores de opinião, mídia, comunidade como realizar (transformar e transcender) o diálogo
científica, fornecedores, dentre outros. O esforço é em ação, organizando as sugestões e incorporando
no sentido de obter entendimento compartilhado so- as mudanças sugeridas, como de soluções sustentá-
bre os interesses de cada um, e das questões técni- veis de longo prazo.
cas, políticas, sociais, econômicas e ambientais en-
volvidas, construindo alternativas em conjunto, que 4. Transformação e
se configuram como criativas e de maior aceitabili- transcendência do conflito:
dade que as inicialmente propostas. Por fim, buscar
voz, empoderamento, versões
acordos que satisfaçam os interesses prioritários de
cada um.
do conflito226
Com este entendimento, a capacitação sobre o tema Para aprofundamento das capacitações, foi no con-
mediação, a anatomia sobre como os conflitos ocor- ceito do agir comunicativo de Habermas que se em-
rem no território foram essenciais para a compreen- basou parte do conteúdo dos cursos de mediação,
são das abordagens necessárias ao tema. Conflitos como a ética discursiva sob a forma de uma lógica
são reveladores do funcionamento social e suas de argumentação moral, normativa, universalizá-
contradições. Não se restringem somente à falta de vel. (HABERMAS, 2001). O ponto focal da Teoria de
informação ou comunicação entre as partes. O con- Habermas para o processo de mediação é que cada
flito expresso não tem a mesma relação de força e de indivíduo pode ser aceito pelo outro, entretanto,
não de forma coercitiva por todos os envolvidos. A
poder entre as partes, a neutralidade das posições
lógica de argumentação moral se relaciona com a
não existe, já que o poder e o vetor de força dos ato-
tessitura, com o alcance da voz. Metaforicamente,
res são sempre assimétricos. Pode ser entendido de
entende-se a tessitura como vozes transdisciplina-
diversas formas, mas, basicamente, é uma relação
res dos atores, possibilitando o afrouxamento de
que envolve duas ou mais partes com apreciações
fronteiras disciplinares. A tessitura também tem
situacionais diferentes de um problema, envolvem
vínculo com a rede, uma trama de atores e relações
interesses e valores.
sociotécnicas que constrói ações reiteradas por to-
O conflito é também uma oportunidade, com função dos, conjuntamente.
e respectivas consequências. Seu desenvolvimento
pode ser gradual ou gerar ruptura da relação, poden- 226 | Para transcender o conflito e transformá-lo, utili-
zou-se nos cursos, os conceitos do Prof. Galtung (fun-
do centrar-se em posições ideológicas, em discor- dador da Disciplina acadêmica Pesquisa de Paz, mentor
dância das causas, em posições ou jargões técnicos no campo da mediação e da transformação de conflitos).
distintos. O conflito engendra mudanças, pode ser Autor do primeiro manual das Nações Unidas para mul-
tiplicadores do Programa “Transformação de Conflitos
uma oportunidade necessária e desejável, pois pro- por Meios Pacíficos: a Abordagem TRANSCEND” (PNUD,
voca motivação para outros patamares de entendi- 2000). Consta na bibliografia deste artigo.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 113


As vozes se conectam, alcançando tessituras dife- exemplo) poderia avançar em direção a um consenso
renciadas, criando novos significados para o diálogo geral, contribuindo para o desenvolvimento da auto-
entre as partes no processo de mediação, nas deli- nomia dos indivíduos (HABERMAS, 2001).
berações e participações na sociedade, dentre ou-
Esse é o ponto focal em Habermas, o da não-repro-
tras possibilidades. Os significados são constituídos,
dução de dominação de qualquer tipo pelas partes,
na medida em que o aprendizado conjunto leve a ou-
não podendo haver somente um centro de decisões,
tros significados.
o agir comunicativo prenuncia vários “centros” de
Há três dimensões nas vozes e tessituras que os decisão. Os conflitos e interesses devem vir à mesa
atores estabelecem mediados pelo ato do discurso, de mediação. Idéias como construção de consenso,
da comunicação: o mundo subjetivo, dos sentimen- espaço, voz aos grupos sociais ampliam decisões
tos e vivências; o objetivo; e o social, que contém conjuntas. Nesse sentido, o processo de mediação
instituições e normas. Esse três mundos produzem ampara-se na ação comunicativa, para transformar
interações sociais e trocas, ricas e profundas para a e transcender a incerteza e construção do porvir.
continuidade do diálogo.
A linguagem e a construção ou desconstrução dos
Os espaços públicos e deliberativos nas políticas pú- discursos não se reduzem a uma comunicação vol-
blicas criam identidade coletiva, a partir de conexões tada somente ao entendimento. Segundo Habermas,
múltiplas e diferenciadas da rede. A tessitura alarga é preciso levar em conta os efeitos da ação comu-
o discurso, de modo a compreender melhor o próprio nicativa, provocando impactos e ações no meio em
processo de mediação. É por meio da razão comu- que vivemos, pois os atores podem interagir, por
nicativa que se visa encontrar entendimento mútuo meio de do agir comunicativo, e construir acordos e
sobre aquilo que está sendo enunciado, dialogado. consensos.
As partes listam suas preferências em utilidades e Dessa forma, o agir comunicativo oferece a possi-
a ação correspondente é orientada para a realiza- bilidade de fomentar o entendimento traduzido em
ção de determinados fins, isso que se deseja para o ações. A interação social pode conter estratégias
processo de mediar, que o diálogo seja transformado cooperativas, abrindo mais rodadas de comunica-
em ação. Quando uma parte está listando suas pre- ção, negociação ativa, reciprocidade e a consequen-
ferências, está igualmente listando suas estratégias te confiança na colaboração (capital social). A co-
de que pode se utilizar para vocalizar seus interes- operação levaria à proximidade dos atores, talvez,
ses. Vocalização que contém texto e contexto, ferra- criando maior confiabilidade e a percepção do outro
menta de mediação, negociação ou cooperação para como uma instância dotada de intenções e motiva-
realizar fins, podendo ser emancipatória ou de do- ções semelhantes, estimulando um comportamento
minação. Na cooperação, a motivação ou interesses cooperativo.
pessoais dão contorno à comunicação, livre de coer-
Como uma possibilidade de transformação da so-
ção, e exercem a função de provocar o entendimento
ciedade contemporânea na busca de solução para
mútuo para levar à implementação das ações.
os graves problemas que assolam a humanidade,
Outro vínculo teórico encontrado entre a Teoria do Habermas visualiza o resgate de uma racionalidade
Agir comunicativo e o processo de mediação é a lin- comunicativa em esferas de decisão do âmbito da in-
guagem que proporcionaria uma reflexão necessária teração social que foram penetradas por uma racio-
em torno do interesse emancipatório do cidadão, nalidade instrumental. Tendo em vista que o homem
com voz e tessitura. Livre de qualquer limitação e não reage simplesmente a estímulos do meio, mas
ameaça, a discussão pública (o processo de me- atribui um sentido às suas ações e, graças à lingua-
diação que se dará nas “Casas de Mediação”, por gem, é capaz de comunicar percepções e desejos,

114
intenções, expectativas e pensamentos, Habermas No processo de mediação, a saída para a situação
vislumbra a possibilidade de que, por meio de do diá- só é possível se houver voz, as partes expressando
logo, o homem possa retomar o seu papel de sujeito. seu olhar sob o conflito e de como querem resolvê-
lo. Hirschman afirma: (...) que a voz é dependente
O agir comunicativo também pode ampliar o recurso
da saída, pois o ator que não dispõe da possibili-
cognitivo, ou seja, o aumento do vocabulário e das
dade da saída precisa da voz. A voz “é o oposto da
inferências explicitadas para o entendimento do sig-
saída (...). Voz é ação política por excelência” (HIRS-
nificado dos enunciados emitidos pelos atores. Esses
CHMAN, 1973, p. 26).
enunciados dos atores também podem acenar van-
tagens como podem continuar agindo em função dos A voz entra em cena quando a saída não é facilmente
acordos estabelecidos no território. O agir comuni- encontrada, se não há saída, sou candidato à voz. O
cativo requer mobilização dos atores-protagonistas, processo de mediação canaliza as vozes, buscando
credibilidade, reciprocidade e convivência com as alternativas de saídas para a superação do conflito.
estratégias acordadas nas mesas de negociação. As A voz tem um custo, implica em tempo, mobilização
relações entre sujeitos só são mantidas por meio de entendimento do problema, comprometimento, rei-
da ação. (HABERMAS, 2001). vindicação, participação na decisão e responsabili-
dade na implementação. A voz é, em essência, ação
Para que as mediações entre os cidadãos se trans- política, abrindo um leque de possibilidades, e tam-
formem no agir comunicativo, é preciso que o diá- bém de consequências (SILVA, 2003).
logo se estabeleça, cujas razões de cada parte são
os significados a serem compreendidos, mesmo Para o processo de mediar, a voz teria efetividade se
associada à linguagem - concebida como uma das
que a comunicação, primeiramente, só demonstre a
garantias da democracia -, isto é, uma forma políti-
intenção.
ca derivada de um livre processo comunicativo diri-
O agir comunicativo227 constitui estratégia adequa- gido a conseguir acordos consensuais em decisões
da para estabelecer a promoção dos interesses das coletivas.
partes no processo de mediação. Há possibilidade de
Mesmo que limitada, a voz pode construir o agir co-
desconfianças sobre as reais intenções dessas par-
municativo, a reciprocidade, influência, sinergia e ca-
tes, mas há, ainda, a possibilidade do consenso dos
pital social. O agir comunicativo de Habermas pode
participantes numa situação de fala ideal. Assim, o
ser agregado à dimensão da voz proposta por Hirs-
processo de mediação busca, na teoria do agir co-
chman. O consenso social228 pode derivar da ação229
municativo de Habermas, a tessitura das vozes que
comunicativa, como uma orientação que responde ao
explicitam suas versões sobre o conflito. interesse coletivo. Mesmo que a ação comunicativa
A vocalização no processo de mediação é a vocali- proposta por Habermas seja idealística, a interação
zação das partes para a construção da superação das partes, por meio da utilização da linguagem, do
do conflito, como também em última instância da diálogo produz uma organização social que tenta
própria governança. Hirschman (1973) considera buscar consenso sem coação.
os conflitos de formas variadas, uma delas é de
soluções conciliatórias, caso da mediação, e dois 228 | Neste ponto, coloca-se o problema da possibilida-
de de uma democratização dos processos de formação
elementos, segundo Hirschman, são fundamentais
da opinião e da vontade majoritária.
para o conflito: a saída e a voz. Não existiria uma, 229 | Habermas distingue três formas de ação: instru-
sem a outra. A voz daria condições à saída, seja por mental, estratégica e comunicativa. Esta última envol-
meio de da política ou da reunião de muitas vozes. ve o entendimento entre as partes, em que os sujei-
tos tentam chegar a um acordo sobre o conhecimento
227 | Para aprofundamento do tema, ver Giannotti (1991). contextual.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 115


Por fim, ainda em relação ao diálogo, nas capaci- melhor, juntos, do que fariam no plano individual, ou
tações de mediação de conflitos insistiu-se na im- seja, a superação de uma situação pode ser aprovei-
portância do processo de construção de consenso tada se, conjuntamente pudessem direcioná-los aos
entre as partes. A construção do consenso está for- problemas que querem superar. Caso as partes do
temente embasada na justiça, no sentido de dividir processo de mediação (capital disponível) no territó-
a diferença, tratar as partes envolvidas na mediação rio consigam estabelecer comportamento confiáveis
de forma isonômica, assegurando reciprocidade com e colaborativos, a transformação do conflito em so-
práticas socialmente aceitáveis. A abordagem con- lução pode ser uma vantagem.
templa a construção da confiança por meio dos atos “Capital social” também se refere a características
que os envolvidos farão na mediação, reconhecendo da organização social como redes, normas e confian-
a legitimidade das versões das partes. A constru- ça social que facilitam a coordenação e cooperação
ção do consenso exige algumas etapas que podem para benefício mútuo. Por uma variedade de razões,
acelerar a transparência, a credibilidade e a aceita- a vida pública e privada é mais fácil numa comuni-
bilidade das decisões. Isso mediante o envolvimento dade com um estoque substancial de capital social.
das partes, explorando os interesses relativos àque- Em primeiro lugar, as redes de engajamento cívico
la situação e/ou conflito, para tentar maximizar o di- promovem normas de reciprocidade generalizada e
álogo, a compreensão mútua, as responsabilidades incentivam o surgimento de confiança social. Essas
das partes e o desenvolvimento de alternativas e redes facilitam a coordenação e comunicação, am-
decisões pós-mediação. pliam reputações, e assim podem permitir que al-
guns dilemas de ação coletiva serem resolvidosAo
5. O diálogo entre mediação e mesmo tempo, as redes de engajamento cívico po-
capital social dem encarnar o sucesso do passado em colabora-
ção, que pode servir como um modelo cultural para
Um dos conceitos eleitos como fundamental e en-
colaboração futura. Finalmente, as redes de intera-
trelaçado ao de mediação foi o de capital social
ção, provavelmente, ampliam a desenvolver o “eu”
(CS) que oferece algumas dimensões analíticas,
no “nós” ou (na linguagem da escolha racional te-
no que se refere a possível colaboração entre in-
óricos) o reforço aos participantes o “gosto” por be-
terlocutores. Capital social tem muitas camadas
nefícios coletivos.
de entendimentos possíveis, como eventuais laços
sociais entre cidadãos envolvidos em uma determi- No território e/ou na comunidade onde ocorrem as
nada situação; rede sociotécnica e política capaz de situações e/ou conflitos passíveis de mediação, al-
produzir alguma vantagem mediante esses laços e guns laços já estão formatados, ou pelo menos, par-
também como cooperação entre as partes. O capital te está interessada em melhorar a qualidade de vida
social está fundado nas relações sociais, estruturas daquele território. Nesse contexto, a mediação pode
sociais compartilham relações de confiança, que po- utilizar a possível reciprocidade e confiança que vir
dem, eventualmente, desenvolver a coordenação de à superfície nas rodadas de mediação, conferindo
cooperação em torno da melhoria dos padrões con- se, de fato, há algum estoque de capital social no
vivência ou benefício coletivo. território. Estoque que pretende ser capitalizado em
favor dos “bens comuns”, como convivência pacífica
Segundo Burt (2000), para Coleman, Bordieu e Pu-
num território socioambiental sustentável.
tnam, capital social seria uma espécie de metáfo-
ra para alguma vantagem, no sentido de que o CS é A possibilidade de agregar o bem comum ao futuro
complemento do capital humano. A metáfora se re- pode gerar obrigações e expectativas mútuas entre
fere de que indivíduos conectados poderiam realizar os habitantes do território, ressaltando os interes-

116
ses públicos. Mesmo com a possível reciprocidade voltam à rede ou comunidade, pois elas também im-
e cooperação, a mediação considera a assimetria de pactam de forma finalística pós-mediação. Por isso,
poder os envolvidos em determinada situação, bem a prática de monitoramento e acompanhamento da
como a motivação ou a força do interesse contem- pós-mediação é essencial, pois “devolve” à rede, ao
plado na própria mediação. A assimetria dos pode- território e à comunidade uma mediação/ação, pos-
res também se expressa nos saberes, nas posturas, sivelmente, “resolvida”.
no conhecimento cognitivo e nas dificuldades das O capital social, então, é um estoque de relações e
partes. valores que pode potencializar a mediação. Como
O capital social também pode ter a dimensão da a mediação tem implícita a construção de coope-
mobilização. Para Evans (1996) coube ou cabe ao ração entre as partes, estas, na medida em que se
Estado o papel de capitanear a formação de capi- influenciam reciprocamente, podem compartilhar
tal social, conectando cidadãos e órgãos governa- responsabilidade para a eventual superação do
mentais. Esse é um aspecto nítido quando a Uma- conflito. Esse capital social não se desgasta com o
paz/SVMA, enquanto Poder Público, foi a indutora e uso e não se esgota, mas precisa ser sempre incen-
teve papel decisivo, mobilizando atores, parceiros, tivado, renovado.
sociedade, instituições e professores para dissemi- Entretanto, pode ser destruído ou reduzido, aumen-
nar e trabalhar por meio de simulações o processo tando a vulnerabilidade dos grupos de risco da socie-
de mediação. Evans (op.cit) sugere a possibilidade dade. O Estado tem papel fundamental na criação de
de sinergia entre Poder Público e sociedade, crian- capital social, já que implica uma correlação signifi-
do um círculo virtuoso de mudança institucional. cativa entre o grau de confiança geral e as normas de
Sinergia no caso, da Política Pública da construção cooperação prevalecentes na sociedade (COLEMAN,
da convivência pacífica em São Paulo, por meio dos 1998; BORDIEU, 1980, 1998). Este, talvez seja um
cursos sugeriu-se o engajamento e “contaminação” dos sucessos compartilhados pela Umapaz, já que,
de níveis de confiança, interação e aprendizado. Se enquanto instituição pública promoveu, por meio de
a sociedade reconhece e responde a essa confian- inúmeras capacitações, a sensibilização e sugestão
ça, há revalorização da prática democrática, haven- de práticas aos participantes, como protagonistas
do resposta satisfatória de ambos (Poder Público e de uma convivência pacífica na Cidade de São Paulo.
sociedade), a cooperação e reciprocidade podem se
retroalimentar.
6. A importância das redes para o
Incluiu-se, de forma transversal no conteúdo da me- processo de mediação
diação, as possibilidades de interconexão, ou seja,
a dimensão do capital social que privilegia as redes Como muitos processos de mediação precisam ter
de cooperação e sociotécnicas. Relaciona-se com a uma continuidade para a transformação do problema
capacidade e a habilidade dos cidadãos de se conec- em ação efetiva, ou seja, um suporte pós-mediação
tarem, mobilizarem reciprocidade, cooperação tro- incluiu-se as redes nos conteúdos de capacitação de
carem informações, compartilharem conhecimentos mediação.
por meio de redes, propiciando fluxo de comunicação. A conectividade, a multiliderança, a transparência
Como referido anteriormente, o processo de media- e a cooperação são elementos que se espera cons-
ção investe no diálogo entre as partes, com a cola- truir, por meio da mediação, podendo-se transformar
boração do mediador, para que esta se transforme e em redes230, que compõem recursos organizacionais,
transcenda em ações e decisões pós-mediação. As
230 | Pode ou não haver um “animador” ou mediador da
ações resultantes do diálogo na mediação sempre rede que se altera, conforme o foco das ações a serem

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 117


materiais, cognitivos, financeiros, culturais etc., de- aprendizagem, fortalecendo linguagens comuns. A
monstrados em cada ponto da rede, como pontos rede pode engendrar interesses pessoais que se ma-
convergentes. nifestam na própria rede ou parcerias que articulam
os segmentos dos sistemas.
Para a mediação poder ocorrer com competência,
na execução da política pública no território, a rede Também podem desenvolver capacidades e aprendi-
dá suporte e apoio àqueles que estão no processo zagem, tratando da combinação dos valores e expe-
de mediação. Como a rede tem várias dimensões no riências disponíveis pelos membros da própria rede.
território, há possibilidade de gerar trocas de con- O processo de troca dá vigor à rede, pois pode ofe-
teúdos, experiências, projetos, práticas de gestão recer mecanismos de construção de ações de gestão
que podem influenciar e agregar outros tipos de co- nas políticas públicas. A mediação pode aumentar a
nhecimento. Essas redes são formas de organização probabilidade de difusão de valores no funcionamen-
que reconhece a independência enquanto apóia a to das redes nela apoiadas, quais sejam: o aumento
interdependência (LIPNACK; STAMPS, 1992). Esse da transparência, que tem por consequência o au-
movimento é essencial para construir a governança mento de simetria de informações entre os agentes
da política pública. que atuam na rede; compromisso explicitado: soli-
dariedade e corresponsabilidade são aspectos indis-
A rede que dá suporte aos processos de mediação
pensáveis para a dimensão da mediação; processo
precisaria ter atuação auto-organizada, atuação
de tecelagem contínuo, por meio do compartilha-
integrada; autônoma, autogovernada, transparen-
mento de interpretações e sentidos das partes e da
te, com empoderamento das partes envolvidas na
realização de ações articuladas pelos mesmos.
mediação.
A mediação e sua inserção na rede também têm suas
Em rede, é possível ampliar a conhecimento, compar-
tensões, contradições e limites. Como comunicar ra-
tilhar práticas e tarefas com um propósito comum ou
pidamente e amplamente os envolvidos sobre os
simplesmente replicabilidade parcial de experiência
acordos progressivos da rede? Os acordos formais
prática de uma política pública. O caráter horizontal
são necessários, mas raramente suficientes; assim,
e não hierárquico da rede é fundamental para o in-
acordos necessitam explicitar as respectivas res-
tercâmbio entre os atores e a abertura permanente
ponsabilidades das diferentes partes e instituições
a novas adesões, bem como para a combinação de
envolvidas ao suporte à mediação, porque é na or-
recursos técnicos e políticos aos saberes dos atores.
ganização vertical das estruturas organizacionais
A atuação em rede fornece formação e ampliação do
que se faz o aporte de recursos necessários para o
vocabulário na mediação. Para Castells (1999), as
desenvolvimento dos projetos selecionados no acor-
redes são estruturas abertas231 capazes de expandir
do coletivo. É na verticalidade da organização que
de forma ilimitada.
estão as principais responsabilidades legais e da en-
Para um trabalho integrado em rede, confiança, éti- trega dos serviços e produtos ao cidadão que procu-
ca, transparência, liderança, respeito propiciam de- ra, por exemplo, uma Casa de Mediação.
senvolvimento individual e grupal e coesão interna,
bem como o conteúdo circulante é gerador de mais
7. Resultados parciais e
desenvolvidas no território. A rotatividade da “anima-
perspectivas
ção” é desejável para parceiros de políticas públicas, na Além dos inúmeros participantes dos cursos de ca-
qual a mediação está inclusa, em rede.
pacitação sobre mediação de conflitos, nesses sete
231 | Por estruturas abertas entendem-se aquelas, cuja
dimensão não se encerra em si mesma. Os membros da anos na UMAPAZ, o esforço de muitos colaborado-
rede participam ou não enquanto lhes fizer sentido. res pode ser observado, pelo menos, em um produto

118
visível em termos de política pública, a capacitação (SMDH), além da Secretaria de Estado de Justiça e
de guardas civis metropolitanos (alguns militares e Cidadania que, entre outras atribuições, são respon-
civis) e cidadãos que poderiam ser mediadores nas sáveis pela tomada de decisões como a aprovação
Salas de Mediação da Cidade de São Paulo. de conteúdo do curso de formação. As deliberações
do comitê partem da proposta de fazer das unidades
A Prefeitura de São Paulo entregou no mês de se-
centros de cidadania, na medida em que as inspe-
tembro de 2012, em cerimônia realizada na sede do
torias passam de bases operacionais para locais de
Comando Geral da Guarda Civil Metropolitana, 14
referência nas comunidades onde os cidadãos pos-
novas “Casas de Mediação de Conflitos”, totalizando
sam resolver os seus conflitos. Informações sobre o
18 postos em funcionamento. O serviço, gratuito e
funcionamento das Casas é por meio do telefone 153
disponível 24h para as comunidades em unidades da
da GCM e por meio de do portal233.
GCM, tem como objetivo intermediar relações con-
flituosas, tentando estabelecer uma cultura de paz, Este é o resultado parcial mais visível de uma po-
auxiliando as pessoas a resolverem seus problemas lítica pública que pode se transformar em porta de
sem o emprego da força ou da violência. A forma- entrada para resolução pacífica de muitos conflitos
ção232 de Guardas civis teve sua primeira turma de e ser agregada a muitas outras políticas públicas.
mediadores iniciada em fevereiro de 2012 e contou Ainda é o início de um processo.
com oito edições.
Talvez essa trajetória amplie algumas esperanças,
Em março, 49 (quarenta e nove) mediações foram re- melhore várias relações tensas, diminua conflitos,
alizadas com 98 (noventa e oito) pessoas, das quais reinvente outras formas de nos relacionarmos na Ci-
apenas sete (7) mediações ainda continuam em an- dade de São Paulo, crie poesia onde havia só medo,
damento. As salas onde ocorrem os processos de aumente estratégias coletivas de melhoria de quali-
mediação estão adaptadas para que as pessoas se dade de vida, promova capital social para enfrenta-
sintam acolhidas e tenham a privacidade assegura- mento de questões cruciais para a Cidade, empodere
da. Os padrões de atendimento e procedimento são cidadãos, dê voz a quem não tem, referencie as Casa
unificados em todas as casas de mediação. As audi- de Mediação como ponto de apoio aos problemas do
ências dispensam a presença de advogado. território, organize voluntários para a participação
nas Casas, aglutine esforços para discutir a Justiça
Na avaliação da Secretaria de Segurança Urbana, a
Restaurativa, promova os cidadãos a “donos” do seu
mediação de conflitos permite contribuir de maneira
território, buscando a melhoria do espaço, segundo
positiva nos indicadores de criminalidade, diminuin-
critérios discutidos coletivamente.
do o número de encaminhamentos às Delegacias,
Tribunais e a outros serviços públicos. As Casas de
Mediação estão preparadas para solucionar proble-
mas tais como perturbação de sossego, brigas de
vizinhos, queixas de barulho, intolerâncias, entre
outros tipos de conflitos. Fatos considerados como
crimes, não comportam mediação.
O serviço conta com um comitê formado por repre-
sentantes das secretarias municipais de Segurança
Urbana (SMSU), Educação (SME), do Verde e do Meio 233 | http://www.capital.sp.gov.br/”. (Prefeitura entre-
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Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 119


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Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 121


A ARTE DO DIÁLOGO
O DESENVOLVIMENTO DA QUALIDADE DA ESCUTA
Márcia Amélia Moura234

Resumo Abstract
A proposta do Diálogo, na visão de David Bohm The proposal of the Dialogue, in the view of David
(2005), é o tema central do desenvolvimento des- Bohm (2005), is the central theme for the develop-
te trabalho desenvolvido na Universidade Aber- ment of this work. This study was accomplished with
ta do Meio Ambiente e Cultura de Paz – UMAPAZ. the voluntary participation of members of the Exper-
Trata-se de um estudo de caso realizado com a imental Group of Dialogue at Universidade Aberta do
participação voluntária das pessoas que frequen- Meio Ambiente e da Cultura de Paz – UMAPAZ. The
tam o Grupo Experimental de Diálogo na UMAPAZ. main goal of the research was to observe how the
O principal objetivo da pesquisa foi observar como a continued practice of the Dialogue helps to develop
prática continuada do diálogo propiciou o desenvol- the listening quality of the group and its participants.
vimento da qualidade da escuta no grupo e em seus Keywords: Dialogue; Listening; Communication;
participantes. Presupposition; Shared Production of Meaning.
Palavras-Chave: Diálogo; Escuta; Comunica-
ção; Pressupostos; Produção Compartilhada de
Significados.

234 | Psicóloga, Educadora Ambiental, Docente da UMAPAZ. Especialista em Arte, Ecologia e Sustentabilidade pelo Instituto
de Artes da UNESP e pela UMAPAZ.

122
1. Introdução O diálogo é um lugar de criação de consciência
e de compartilhamento de significado. Dialogar
A proposta do Diálogo, na visão de David Bohm não é a busca da uniformização do pensamen-
(2005), é o tema central do desenvolvimento des- to. É um lugar onde aprendemos a pensar junto,
te trabalho. ainda que diferentemente se necessário; apesar
Físico norte-americano, Bohm (1917- 1992) foi um das diferenças, estamos juntos. Este aspecto é
dos mais destacados pensadores do século XX. Tra- algo a ser vivido, e que não pode ser descrito
balhou com Einstein, na Universidade de Princeton. em palavras. O diálogo quer expor os pressu-
Suas contribuições para a física, principalmente na postos, as limitações do pensamento, para que
área da mecânica quântica e teoria da relativida- ele possa caminhar livre, na trilha da criativida-
de, foram significativas. Suas idéias sobre o diálogo de, no aqui e no agora.
estão entre as contribuições mais relevantes feitas
O diálogo examina a forma pela qual o pensamen-
às ciências que estudam a mente, a consciência e
to – visto por Bohm como um veículo inerentemente
o pensamento (ciências cognitivas) e ao estudo das
limitado em vez de uma representação objetiva da
relações entre indivíduos, grupos, organizações e
realidade – é gerado e mantido no plano coletivo.
instituições.
O propósito do diálogo é percorrer todo o processo
Diálogo é um método que examina um âmbito ex-
do pensamento e mudar o modo como ele acontece
traordinariamente amplo da experiência humana:
coletivamente. Nosso pensamento é um processo
nossos valores mais intimamente arraigados; a na-
que requer atenção. A fragmentação que se origina
tureza e a intensidade das emoções; os padrões de
no pensamento – o modo de pensar que divide tudo
nossos processos de pensamento; a função da me-
– é uma das dificuldades (BOHM, 2005). O grande
mória; a importância dos mitos culturais herdados;
e, por fim, a maneira segundo a qual nossa neuro- problema que o diálogo busca resolver é o da se-
fisiologia estrutura a experiência do aqui-e-agora. paratividade - entre nós e nós mesmos, entre nós
(BOHM, 2005). e os outros.

Trata-se de uma metodologia de conversação, No diálogo, não buscamos o convencimento e a per-


que busca melhorar a comunicação entre os inter- suasão. Se compartilharmos um significado comum,
locutores, a observação compartilhada da experi- participaremos juntos, tomaremos parte no signifi-
ência e a produção de percepções e idéias novas, cado coletivo. Bohm (2005) coloca que poderia surgir
segundo Humberto Mariotti235. Essa metodologia uma consciência comum dessa participação, e nem
permite que as pessoas pensem juntas e compar- por isso excluiria as consciências individuais. Cada
tilhem os dados que surgem desta interação sem indivíduo sustentaria sua opinião, mas esta seria
procurar analisá-los ou privilegiá-los de imediato. absorvida também pelo grupo. Assim, todos seriam
(MARIOTTI, 2001). inteiramente livres. Através desse enfoque seria
possível movimentar-se para além das opiniões em
De acordo com Arnaldo Bassoli, psicólogo, psicote-
direção a algo novo e criativo.
rapeuta, especializado em jogos cooperativos e faci-
litador de Grupos de Diálogo: Os significados coletivamente compartilhados são
muito poderosos. O pensamento coletivo é mais po-
235 | médico psicoterapeuta, conferencista e coordena- deroso que o individual. O pensamento individual é
dor de grupos de estudo de complexidade e pensamen-
to sistêmico, e que tem expressiva contribuição para a
em grande parte o resultado do coletivo e da intera-
compreensão e disseminação da metodologia no Brasil. ção com outras pessoas.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 123


David Bohm (2005) coloca que uma sociedade é uma Em 2010, a autora frequentou o Curso de Especia-
rede de relacionamentos entre pessoas e institui- lização Ecologia, Arte e Sustentabilidade, parceria
ções que possibilita que vivamos juntos, mas que entre o Instituto de Artes da UNESP e a UMAPAZ,
ela só funcionará se formarmos uma cultura- o que e escolheu o tema do Diálogo para desenvolver sua
implica compartilhar significados, isto é, razões de monografia de conclusão de curso, considerando que
ser, propósitos e valores. o Diálogo é uma arte relacional que necessita ser
resgatada236.
2. A prática do Diálogo para o
fortalecimento das redes de 3. Dinâmica dos Encontros de
convivência Diálogo
Considerando os graves problemas sócio-ambientais O Grupo Experimental de Diálogo reúne-se às quin-
que estamos enfrentando no planeta, as dificuldades tas-feiras à tarde, quinzenalmente, na UMAPAZ e
de comunicação entre as pessoas e as instituições, cada encontro tem a duração de duas horas.
bem como entre nações, as consequências inerentes Geralmente, inicia-se o encontro formando um cír-
à visão de mundo antropocêntrica de nossa socie- culo em pé, com as pessoas dando-se as mãos, de
dade, que tem como pressuposto a idéia de que o olhos fechados. A facilitadora conduz através da sua
ser humano é separado da natureza e que a mesma fala uma atividade de concentração no corpo que
está a seu serviço, entendeu-se que o Diálogo, na tem a finalidade de estimular a integração mente-
visão de David Bohm, poderia contribuir muito para corpo e a presença no aqui- agora.
ampliar a percepção e a compreensão dos proble-
Em seguida, é feita uma roda de dança, com o ob-
mas sócio-ambientais. Não se limitando a um mé-
jetivo de sensibilizar, ativar, descontrair e integrar
todo, mas propondo uma postura dialógica perante
as pessoas no grupo, utilizando músicas próprias da
o mundo, pode modificar a perspectiva, permitir que
roda de ativação lenta do método da Biodanza, cria-
se possa pensar os mesmos problemas de modo di-
do por Rolando Toro.
ferente, estimular o surgimento de novas idéias e
novas relações, atenuando os condicionamentos, na Depois, senta-se em círculo, mantendo o silêncio e,
busca de alternativas para a paz. novamente de olhos fechados, coloca-se uma mú-
sica para ouvir e centrar-se interiormente, focando
Nesse sentido foi desencadeado, na UMAPAZ, o pro- a mente na música e, quem quiser, também focan-
grama teórico-vivencial: A Prática do Diálogo para o do na respiração, com o propósito de desenvolver
Fortalecimento das Redes de Convivência, como uma a atenção plena. As músicas selecionadas são em
contribuição para o surgimento de redes de conver- geral instrumentais, de diferentes culturas, prefe-
sação mais efetivas, capazes de instaurar modos rencialmente com melodias e ritmos não usuais para
competentes de convívio com as diferenças e com a afastar a mente dos padrões conhecidos.
abertura para o surgimento de novas possibilidades
Então, abre-se para o diálogo propriamente dito.
de pensar, falar e agir.
Permite-se que o assunto possa emergir do grupo
Inicialmente foram promovidos Cursos e Workshops espontaneamente, mudar, caminhar no fluxo dos
ministrados por profissionais da Escola de Diálogo, pensamentos e sentimentos dos participantes, que
em 2008 e 2009. A seguir foi formado o Grupo Ex- podem falar, ouvir, ficar em silêncio.
perimental de Diálogo, que vem se reunindo desde
agosto de 2009, com facilitação da autora, visando a
236 | Seus orientadores foram a Profª Drª Rose Marie
reflexão conjunta e a prática continuada do diálogo. Inojosa e o psicólogo Arnaldo Bassoli.

124
Existe uma ética do Diálogo, que visa facilitar que David Bohm, para o desenvolvimento da qualidade
ele aconteça: falar na primeira pessoa (contando a da escuta.
sua experiência); escutar o outro até o fim, sem in-
Esta pesquisa foi realizada com a participação das
terromper; falar para o centro do grupo (e não para
pessoas que frequentam o Grupo Experimental de
uma pessoa em particular); dar um tempo para to-
Diálogo na UMAPAZ e que voluntariamente con-
dos falarem; esperar que pelo menos cinco pessoas
cordaram com a proposta apresentada. O número
falem antes de tomar a palavra novamente; dar um
de inscritos no semestre anterior às entrevistas foi
tempo entre as falas, para que o que foi dito possa
de vinte pessoas, sendo que ocorreu uma média de
reverberar internamente e ser assimilado.
onze a treze participantes por encontro. Destes, par-
No Diálogo procura-se a observação dos próprios ticiparam da pesquisa apenas aqueles que afirma-
pensamentos e sentimentos, e da tendência em ram seu interesse e o registraram numa lista.
concordar ou discordar enquanto ouve-se o outro;
A metodologia da pesquisa envolveu entrevistas in-
a identificação dos pressupostos; a suspensão dos
dividuais que foram realizadas com oito participan-
pressupostos por um tempo para poder ouvir o novo;
tes do Grupo que se dispuseram a participar da mes-
a manutenção da atenção plena; a observação do
ma. As entrevistas foram gravadas e transcritas, os
pensamento coletivo; o compartilhamento de signi-
sujeitos não foram identificados, no intuito de pre-
ficados no grupo.
servar o anonimato.
O papel da facilitadora não é diretivo, mas ajudar a
A pesquisa é qualitativa e baseou-se em respostas
manter o foco da postura dialógica, questionando
discursivas que foram dadas a um roteiro de quinze
para que o grupo reflita se o diálogo está aconte-
perguntas previamente definido. O roteiro foi cons-
cendo ou não, incentivando o seguimento da ética,
truído a partir de princípios que são encontrados no
mostrando quando não está sendo observada, além
escopo teórico-prático da metodologia do Diálogo.
de participar com suas próprias idéias e percepções
como todos os outros. A finalidade da entrevista pessoal com seu roteiro de
perguntas foi estimular a comunicação da auto-ob-
A fase introdutória de sensibilização tem a duração
servação dos participantes a respeito dos seguintes
de quinze a vinte minutos e a conversação propria-
aspectos: as atitudes que facilitaram o diálogo; as
mente dita, uma hora e quinze a uma hora e trinta
atitudes que dificultaram o diálogo; o automatismo
minutos.
concordo-discordo, próprios do pensamento linear; a
O fechamento é indicado pela facilitadora que so- atenuação da rigidez dos condicionamentos e o desen-
licita que as pessoas se interiorizem, fechando os volvimento da habilidade de lidar com o automatismo
olhos, e busquem uma palavra ou frase curta que concordo-discordo; a identificação de pressupostos,
expresse um sentimento ou percepção do que foi o crenças, preconceitos, sentimentos subjacentes, emo-
encontro para si. Cada um vai abrindo os olhos, con- ções; a explicitação e suspensão dos pressupostos e
forme encontram o significado e quando todos estão julgamentos; a tendência às interrupções ao interlo-
prontos é realizado o compartilhamento e fechado o cutor; o nível de empatia e a tolerância a opiniões di-
encontro. ferentes e a experiências diversas; o desenvolvimento
da habilidade de falar na primeira pessoa, assumindo
4. A Metodologia da Pesquisa a responsabilidade pelo seu discurso e de falar para o
centro do grupo, para todos; a qualidade da atenção; o
Relata-se, aqui, estudo de caso por meio do qual é surgimento de insights; a existência e a qualidade do
feita uma reflexão sobre a contribuição da metodo- silêncio; o compartilhamento de idéias e significados; o
logia do Diálogo, segundo a visão do físico quântico processo do aprendizado do ouvir e compreender.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 125


As questões foram respondidas através da auto- O período de realização das entrevistas foi de 18 de
observação dos participantes, que tiveram a opor- agosto a 23 de setembro de 2011, com duração mé-
tunidade de refletir sobre seu processo pessoal no dia aproximada de cada entrevista de 50 minutos.
grupo. Para ingressar no grupo é pré-requisito ter participado
O presente trabalho não fez a análise individual dos de curso, workshop ou oficina sobre o tema, pois o pró-
sujeitos, tendo em consideração que se decidiu me- prio David Bohm sugere que antes de reunir um grupo
todologicamente pela análise do resultado grupal. seja promovida uma discussão ou seminário de diálogo
Foi utilizado o método do Mapa Mental como recurso (BOHM, 2005, p.33). Nesse sentido, é realizada periodi-
para analisar as respostas às perguntas das entre- camente a Oficina de Introdução ao Diálogo para pes-
vistas, facilitando a percepção das conexões entre soas que desejam participar do Grupo Experimental.
as idéias e conceitos apresentados pelos entrevis- Foi realizada uma Oficina de Introdução ao Diálogo
tados. Consiste num diagrama sistematizado pelo em fevereiro de 2011 para as pessoas interessadas
inglês Tony Buzan voltado para a gestão de informa- em ingressar no Grupo e que ainda não tinham o
ções, de conhecimento e de capital intelectual, entre pré-requisito.
outras finalidades.
Portanto, tivemos pessoas em estágios diversos de
desenvolvimento da prática do Diálogo. Esta é con-
5. Caracterização do grupo da siderada uma condição saudável e esperada, pois
pesquisa um grupo de diálogo deve estar aberto para a cons-
Grupo de oito participantes na faixa etária de 39 a 57 tante mudança de membros e para a diversidade de
anos, sendo sete do gênero feminino e um do mas- maneira geral, não devendo se tornar fixo ou institu-
culino. Seis indivíduos residentes na cidade de São cionalizado.(BOHM, 2005)
Paulo, sendo três na Zona Sul, um na Zona Norte, um
na Zona Oeste e um na Zona Leste. Um indivíduo re- 6. O Aporte do Diálogo
sidente na cidade de Jaboticabal e um na cidade de
Visconde de Mauá, no estado do Rio de Janeiro. Com as respostas relacionadas ao que o Diálogo
traz para os entrevistados, foi construído o seguinte
Quanto à área de formação: Arquitetura, Autodidata Mapa Mental (figura 3).
em Artes Plásticas, Autodidata em Cerâmica, Comu-
nicação Social com especialização em Jornalismo,
7. Considerações finais
Direito sendo um com especialização em Direito Ci-
vil, Educação Física, Fisioterapia, Massoterapia, Pe- Analisando os dados obtidos através das entrevis-
dagogia , Psicologia e Yoga. Destas, cinco pessoas tas, observa-se que os sujeitos deste estudo de caso
apresentando formação em duas áreas. E quanto à demonstraram o enfrentamento de grandes desafios
área de atuação profissional: Advocacia, mediação e que a prática do Diálogo propôs enquanto vivência
conciliação, Arquitetura, Aulas de Yoga, Ceramista de um processo. Percebe-se que havia uma busca,
sendo um ligado à aromaterapia, Comunicação Em- um empenho, um esforço no sentido de crescer para
presarial, Escultura, Fisioterapia, Personal Trainer e além das suas limitações.
Psicologia Clínica. Setores: Público, Terceiro Setor, A escuta contribuiu tanto para a aceitação do outro
Privado, sendo seis Autônomos. como também para sentirem-se aceitos. O ser ouvi-
Os participantes iniciaram no grupo em agosto de do até o final, sem ser interrompido e com atenção
2009(1), setembro de 2010(1), fevereiro de 2011(5) mudou a qualidade do estar presente naquele grupo.
e março de 2011(1) A qualidade do acolhimento foi desenvolvida através

126
Figura 3: Mapa Mental elaborado com os resultados da pesquisa sobre o Diálogo

Fonte: Elaboração da autora

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 127


do exercício da escuta, do respeito e da tolerância. Na prática, as pessoas demonstraram perceber muito
Os sujeitos denotaram uma percepção fina das suas bem esse automatismo nelas próprias. A capacidade
próprias atitudes que facilitaram e das atitudes que de ouvir sem concordar ou discordar imediatamente
dificultaram o diálogo. pôde ser desenvolvida, e está em desenvolvimento,
em estágios diversos, no caso dos participantes da
A escuta atenta e interessada que as pessoas se
pesquisa. Essa atitude tem a ver com o respeito ao
dispuseram a praticar levaram-nas a encorajar-se
outro, referido por alguns deles como uma caracte-
a uma maior exposição diante do grupo, revelando
rística do grupo.
as suas qualidades e disponibilizando-as ao outro.
Esse fato gerou um empoderamento dos indivíduos, Observa-se que todos os sujeitos desenvolveram a
relatados por eles mesmos, e contribuiu para o ama- compreensão do que vem a ser os pressupostos, a
durecimento das suas potencialidades. maioria conseguiu identificar alguns de seus próprios
pressupostos, mas nem todos já conseguem sus-
Percebe-se que a aceitação das diferenças foi um
pendê-los. A prática da suspensão é algo que preci-
dos fatores que melhorou a qualidade da escuta em
sará de mais tempo e atenção para ser assimilada.
alguns casos e, por outro lado, o aprofundamento
da escuta também estimulou, através de uma maior O significado de falar na primeira pessoa, assumindo
compreensão, a aceitação da diversidade. Na medida o relato da sua experiência e a responsabilidade pelo
em que foi ocorrendo essa abertura para o diálogo seu discurso, foi percebido de uma maneira profunda
com o outro, o diferente deixou de ser ameaçador e elaborado em níveis diversos. A dificuldade iden-
e passou a ser encarado como outra possibilidade, tificada a respeito da utilização do “eu” foi notada
como mais um ponto de vista ou mais uma forma como um vício e uma questão cultural. Além deste,
de ser e estar no mundo. Conforme o novo foi po- os outros dois aspectos da “ética” do Diálogo – es-
dendo ser recebido permitiu o crescimento do grupo cutar o outro até o fim, sem interromper e falar para
e a ampliação da visão de mundo dos participantes, o centro do grupo, e não para uma pessoa em parti-
como foi referido em algumas de suas falas. cular – foram muito bem compreendidos, mesmo que
ainda sintam algumas dificuldades.
Observou-se que as pessoas relataram o desenvol-
vimento de uma série de habilidades corresponden- O interessante é que as pessoas não se prenderam
tes àqueles desafios que estimularam o seu trabalho a uma idéia limitada dessas regras enquanto cer-
interno. Além da escuta, a habilidade da fala pôde se to ou errado, mas as entenderam como um recur-
expandir como resultado de uma sinergia de fatores. so que facilita o diálogo, sem entrar no debate ou
Esse ganho em liberdade de expressão possivel- na discussão. Pelo contrário, demonstraram terem
mente deveu-se, dentre outros aspectos, à prática compreendido que o Diálogo é um processo e um lu-
da auto-observação e da atenção que foi incentiva- gar para exercer a aprendizagem. Tiveram o enten-
da nos encontros do grupo, e que será referida mais dimento de que é um processo de perceber-se sem
adiante, ao mesmo tempo em que vários dos sujei- perder o contato com o outro, com o grupo. Inclusi-
tos já traziam como proposta para seu desenvolvi- ve, foi apontado por alguns a importância do outro,
mento enquanto pessoas. da relação, para o surgimento do insight. Realmente,
é uma metodologia que propicia o autoconhecimen-
Assim também, foram desenvolvidas outras habili-
to em situações grupais.
dades implicadas na escuta e na comunicação como
a identificação e suspensão de pressupostos e o re- Nota-se que os participantes da pesquisa estão pro-
conhecimento do automatismo concordo-discordo, fundamente conectados consigo mesmo e com o ou-
próprio da lógica binária do pensamento linear que tro. Observaram o grupo e seu fluxo de significados
fragmenta a realidade e promove a exclusão. enquanto se auto-observaram, ou seja, incluíram-se

128
no que observaram, atenuando a separação sujeito- Referências Bibliográficas
objeto. Pode-se dizer que os sujeitos apreenderam a
metodologia do Diálogo, não como uma técnica que BASSOLI, Arnaldo.
é aplicada, mas como um processo que não tem fim,
Sobre o Diálogo. Disponível em:
que exige paciência e vontade.
www.escoladedialogo.com.br/escoladedialo-
Observa-se também que estão sendo tolerantes go/index.php/biblioteca/artigos. Acesso em:
consigo mesmos e com os outros. A harmonia gru- 27/07/2012
pal foi percebida na observação das pessoas entre-
BOHM, David.
vistadas. A possibilidade de poder tanto acolher o
outro, com as suas idéias, as suas percepções e os Diálogo: comunicação e redes de convivência
seus sentimentos, bem como sentirem-se acolhidos (editado por Lee Nichol). Tradução de Humberto
Mariotti. São Paulo: Palas Athena, 2005.
pelos outros nesse mesmo sentido, foi gerando um
ambiente propício ao compartilhamento de significa- MARIOTTI, Humberto.
dos no grupo. Diálogo: um método de reflexão conjunta e obser-
Pode-se dizer que as pessoas se dispuseram a viver vação compartilhada da experiência. In: Thot nº 76
a experiência, e provavelmente tem um bom domí- (Associação Palas Athena do Brasil), 2001.
nio da ansiedade, embora a tenham reconhecido em
si mesmas como uma das atitudes que dificultam o
diálogo, e também abriram mão de alguma forma
dos controles usuais da ótica linear que não permite
o tempo de maturação que os processos humanos
exigem.
Há indícios de que a sensibilização aplicada no iní-
cio dos encontros do Grupo Experimental de Diálogo
teve um papel significativo no desenvolvimento da
atenção e da auto-observação, pois tem o propósito
de estimulá-las, além de propiciar uma integração
e maior disponibilidade interna para a conversação,
tendo sido reconhecida por alguns como um momen-
to importante da prática. Usualmente, os grupos de
Diálogo entram diretamente na conversação.
Conclui-se que o estudo de caso desta pesquisa,
através da análise realizada, validou a hipótese de
que a prática continuada do Diálogo, na visão de Da-
vid Bohm, contribui para o desenvolvimento da qua-
lidade de escuta.
O Diálogo é uma arte relacional que pode ser com-
parada a uma sinfonia na qual cada pessoa é um ins-
trumento com sua afinação própria e única, e cuja
composição emerge na participação grupal. Essa
sinfonia é o significado compartilhado.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 129


OS DIREITOS HUMANOS,
A SUSTENTABILIDADE E A PAZ
Valério Igor Victorino237

“desde que a guerra começa na mente dos homens, é na mente dos homens
que as defesas da paz devem ser erigidas” (Declaration on a Culture of Peace, 1999)

Resumo Abstract
O artigo discorre pela história dos direitos humanos The article discusses the history of fundamental hu-
fundamentais, procurando tecer uma teia conceitual man rights, seeking to weave a web conceptual civil
sobre os direitos civis, sociais e os direitos transin- rights, social rights and trans. For both shows the
dividuais. Para tanto apresenta o movimento da luta movement of the struggle for human dignity empty-
pela dignidade humana desaguando na questão am- ing in environmental issues, through diffuse rights,
biental, por meio dos direitos difusos, e apresenta and presents the fundamental principles govern-
os princípios fundamentais que regem a preservação ing the preservation of the environment, such as
do meio ambiente, como os de prevenção, precau- the prevention, precaution, participation and social
ção, participação e função social da propriedade. function of property. Finishes with notes on the cul-
Finaliza com apontamentos de sobre a cultura de ture of peace and conflict in the realization of funda-
paz e o conflito na realização dos direitos humanos mental human rights and in building a sustainable
fundamentais e na construção de uma sociedade society.
sustentável. Keywords: sustainability, human rights, peace, sus-
Palavras-chave: sustentabilidade, direitos huma- tainable society
nos, paz, sociedade sustentavel

237 | Sociólogo, integrante da equipe técnica da UMAPAZ vvictorino@prefeitura.sp.gov.br; igorvic@gmail.com.

130
1. Introdução A luta contra a opressão política e social é uma
constante do processo civilizatório, derivando na
Nossa civilização vive o paradoxo do aumento des- transformação dos valores humanos e no reconheci-
comunal do saber, nos dando a ilusão de aumento de mento e afirmação de novos direitos239. Deste modo,
poder; mas ao mesmo tempo o futuro parece amea- o patrimônio comum da humanidade vai se enrique-
çado por uma voracidade sem fim. cendo – na medida em que os direitos clássicos afir-
A Carta da Terra assinala que o “futuro reserva, ao mados nos séculos XVIII e XIX vão sendo aperfeiço-
mesmo tempo, grande perigo e grande esperança”238. ados e novos direitos vão emergindo no repertório
Na perspectiva deste documento, a esperança esta- de direitos fundamentais.240 Na família dos direitos
ria depositada na construção de uma sociedade sus- humanos fundamentais, o direito ao meio ambiente
tentável global fundada no respeito pela natureza, é o mais novo e situa-se âmbito dos interesses difu-
nos direitos humanos universais, na justiça econô- sos ou transindividuais, por conta de seus portado-
mica e numa cultura da paz. A complexidade deste res não serem individualizados ou coletivizados de
desafio envolve fundamentalmente uma disputa em modo identificado – características das duas primei-
torno da definição dos conceitos estruturadores da ras gerações ou dimensões241 dos direitos humanos
ordem social, pois justiça, responsabilidade, respei- fundamentais.
to e equidade são conceitos polissêmicos. As gera-
ções sucessivas vão criando e recriando conceitos de 2. Em busca da dignidade da
acordo com o evolver das necessidades e das capa-
cidades humanas. Nem bem nos entendemos a cerca
pessoa humana
do que é democracia – e observe que esta discussão
tem mais de 2500 anos – agora temos mais a tarefa 2.1 A liberdade
de definir o que significa sustentabilidade.
Ações contra a injustiça ou lutas por liberdades de-
Abordaremos a trajetória da esperança de uma socie-
mocráticas já ocorriam em Roma e em Atenas há
dade global sustentável, procurando tecer uma teia
conceitual com apontamentos sobre a construção e mais de dois mil anos, contudo, tinham alcance limi-
a ampliação da noção de direitos socioambientais. tado aos membros das classes dominantes242. Mais

Embora nossos constituintes não tenham colocado


239 | Peter Singer (2012) tem afirmado que há um progres-
o direito de todos ao meio ambiente ecologicamente so moral, na medida em que, “historicamente, o círculo de
equilibrado no importantíssimo artigo 5º da Consti- seres aos quais estendemos a consideração moral foi am-
tuição Federal – o qual trata de direitos e garantias pliado, primeiro da tribo para a nação, depois para a raça
fundamentais –, é inegável que se trata de um direi- ou grupo étnico e então para todos os seres humanos, para
to humano fundamental, posto que é essencial à sa- finalmente se estender para os animais não humanos.”
dia qualidade de vida de todos e é patrimônio comum 240 | Conforme Walter Rothenburg, Revista de Direito Cons-
titucional e Internacional sumário Nº 30 jan/mar – 2000.
das presentes e futuras gerações de brasileiros. A
positivação deste direito é fruto da luta do movi- 241 | O termo geração ficou consagrado, mas parece indu-
zir apenas a sucessão cronológica, levando a crer que os
mento ambientalista brasileiro, que em conformida- direitos de uma geração posterior seriam superiores aos
de com o movimento ambientalista global questiona das gerações anteriores, o que não é verdade. “Ao contrá-
os impactos devastadores da civilização urbano-in- rio, os direitos de primeira geração, direitos individuais, os
dustrial. A ecologia política emergente anos 1970 é de segunda, direitos sociais, e os de terceira, direitos ao
fruto do movimento de contracultura, quando novos desenvolvimento, ao meio ambiente, à paz e à fraternida-
de permanecem eficazes, são infra estruturais, formam a
atores sociais criticam os valores sociais hegemôni-
pirâmide cujo ápice é o direito à democracia.” (Bonavides,
cos e apresentam novos interesses sociais. 2009:572). Sobre esta imprecisão terminológica do termo
“gerações” ver também Sarlet, 2006:54).
238 | “A Carta da Terra em Ação”, http://www.cartada- 242 | Mesmo assim com muitas exclusões, como as mu-
terrabrasil.org/prt/what_is.html, acesso em 29/09/2012. lheres, por exemplo.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 131


tarde, a Magna Carta de 1215 e a Declaração de Di- 2.2 A igualdade
reitos de 1688 constituíram-se em instrumentos de
As declarações de direitos dos séculos XVIII e XIX
proteção dos indivíduos, estabeleceram limites às
consagraram a formalização das liberdades indi-
arbitrariedades da realeza britânica e serviram de
viduais como meio de limitar o poder absoluto, o
orientação para as democracias liberais emergentes
poder do Estado, consolidando os pilares da revo-
nos séculos XVIII e XIX. lução liberal burguesa. No que tange à igualdade,
Sob a inspiração das teorias de Locke243, Rousse- esta não representava mais que um princípio abs-
au e Montesquieu serão redigidas a Declaração dos trato, elegantemente inscrito na Declaração dos
Direitos do Bom Povo de Virgínia, de 1776, e o Bill Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, mas que
of Rights do povo americano, que afirmam direitos precisaria de mais algumas décadas para ganhar
contornos mais definidos.
naturais, imprescritíveis e inalienáveis de todos os
homens: liberdade de religião, de palavra, de im- Com a hegemonia do poder burguês, a opressão
prensa, de reunião; garantia de igualdade perante a transmutou-se, pois a despeito declaração da Li-
lei; direito de defesa e de julgamento justo; vedação berdade, da Igualdade e da Fraternidade, a injustiça
de penas cruéis; garantia do direito de propriedade; e a iniquidade ganharam dimensões cada vez mais
proibição da escravatura, etc. Destaca-se a expres- assombrosas, agora conjugadas com o crescimento
caótico das cidades, que aglomeravam multidões de
são de Thomas Jefferson:
miseráveis em bairros fétidos e em instalações in-
“Consideramos estas verdades como evi- dustriais insalubres.245 A insatisfação com a retórica
dentes de per si, que todos os homens foram liberal que propalava concepções abstratas para um
criados iguais, foram dotados pelo criador de indivíduo abstrato originou a criação de movimen-
certos direitos inalienáveis; que, entre eles, tos sociais que colocaram em cheque a contradição
estão a vida, a liberdade e a busca da felici- social entre a intensa exploração do trabalho e do
dade; que, afim de assegurar estes direitos, sofrimento humano e a vertiginosa e crescente acu-
instituem-se entre os homens os governos, mulação de riquezas.
que derivam seus justos poderes dos consen- Ao final do século XIX e início do século XX as con-
timentos dos governados; que, sempre que dições de vida na modernidade urbano-industrial
qualquer forma de governo se torne destru- farão emergir movimentos revolucionários que irão
tiva de tais fins, cabe ao povo o direito de cobrar a positivação de novos direitos humanos,
alterá-la ou aboli-la e instituir um novo go- quais sejam, os direitos à saúde, trabalho, educa-
verno, baseando-se em tais princípios e or- ção, transporte, previdência social, etc. As cons-
tituições mexicana (1917) e alemã (Weimer, 1919)
ganizando lhe os poderes pela forma que lhe
afirmaram direitos sociais e econômicos, que são
pareça mais conveniente para lhe realizar a
considerados a segunda geração dos direitos huma-
segurança e a felicidade.244”
nos fundamentais.

243 | Segundo John Locke “a liberdade dos homens sob Logo após o desastre da Segunda Grande Guerra, em
governo importa em ter regra permanente pela qual 10 de dezembro de 1948, Assembleia Geral das Na-
se viva, comum a todos os membros dessa sociedade
(...); liberdade de seguir minha própria vontade em tudo 245 | Friedrich Engels, em “A situação da classe traba-
quanto a regra não prescreve, não ficando sujeito à von- lhadora na Inglaterra”, descreveu um quadro sinistro das
tade inconstante, incerta e arbitrária de qualquer ho- condições de vida e de trabalho das camadas mais hu-
mem.” (1973:49). mildes e do mundo urbano miserável e degradante em
244 | Escritos políticos apud José Afonso da Silva (2011:155). que viviam os ingleses.

132
ções Unidas aprovou a Declaração Universal dos Di- aplicabilidade imediata249 e dependem do compro-
reitos do Homem. Neste documento foram afirmados misso político programático para sua realização.
os direitos fundamentais do individuo246, os direitos Nosso intuito com este breve histórico das decla-
econômicos do trabalho, sociais da previdência e rações dos direitos fundamentais da humanidade
culturais da educação necessários ao livre desenvol- foi evidenciar o longo caminho entre a emergência
vimento da personalidade do ser humano.247 destes direitos no campo ideológico, sua declaração
A conquista de direitos sociais se origina da reflexão em instrumentos públicos e sua eficácia como rea-
a cerca da igualdade de oportunidades como um va- lidade concreta, pois grande parte da humanidade
lor supremo da convivência ordenada, feliz e civiliza- está muito distante de compreender o significado e
da. Bobbio afirma que tal qual o princípio da igualda- sentir o poder destas palavras em suas vidas. A De-
de perante a lei foi um dos pilares do Estado liberal, claração de 1948 tem obrigatoriedade apenas moral
“o princípio da igualdade de oportunidades, ou de para os países membros da ONU, de modo que são
necessários esforços globais para que um número
chances ou de pontos de partida” é um dos pilares
crescente de países reconheçam e efetivem os direi-
do Estado de providência social (Bobbio, 1997:30). O
tos civis, econômicos, sociais e culturais para suas
objetivo destes direitos é colocar todos os membros
populações.250
de uma determinada sociedade na condição de par-
ticipar da competição pela vida. Implica em oposi-
ção aos princípios liberais no sentido da cobrança da 2.3 A fraternidade
presença ativa do Estado na promoção do bem estar Os revolucionários franceses havia declarado reto-
coletivo. Diferentemente dos direitos de liberdade, ricamente o princípio da fraternidade dentro da trí-
cuja proteção efetiva é garantida por instrumen- ade ideológica dos direitos fundamentais dos seres
tos processuais explícitos – os chamados remédios humanos, posto que este ideal de fraternidade está
constitucionais248 – os direitos sociais não são de em um nível mais amplo de consideração moral do
que aqueles dos interesses individuais ou coletivos.
246 | Direito à dignidade, à igualdade, à não discrimina- Foi Karel Vasak251 que, em 1979, chamou a atenção
ção; à vida; à liberdade (de locomoção, de pensamento,
para o tema ao pronunciar uma palestra sob o título
de consciência, de religião, de opinião, de expressão, de
reunião, de associação), à segurança pessoal, à naciona- “Pour le droit de l’homme de la troisième génération:
lidade, ao asilo, à propriedade; foram condenadas a es- le droit de solidarité”. Enquanto os direitos decla-
cravidão, a servidão, a tortura, as penas ou tratamentos rados e afirmados anteriormente destinavam-se à
cruéis, inumanos e degradantes; foi prescrito o respeito
à intimidade; os direitos políticos de participação no go-
proteção dos interesses de indivíduos ou segmen-
verno, de votar e ser votado, o voto secreto, etc. tos específicos, os direitos fundamentais de tercei-
247 | Foram afirmadas as necessidades dos trabalhado- ra geração – os direitos de fraternidade – tem por
res – como condições satisfatórias de trabalho, proteção destinatário o gênero humano mesmo. É o interesse
contra o desemprego, remuneração justa e satisfatória, abrangente de todos: “Estes direitos têm como ti-
liberdade sindical, limitação da jornada de trabalho,
férias, descanso remunerado. Os direitos sociais foram tular não o indivíduo na sua singularidade, mas sim
expressos no direito à previdência e seguros sociais grupos humanos como a família, o povo, a nação, co-
contra enfermidade, invalidez e velhice. Por último des-
tacamos a afirmação de que toda pessoa tem direito a 249 | Conforme Paulo Bonavides (2009: 564).
educação gratuita, pelo menos nos graus elementares e 250 | Destacam-se o Pacto Internacional dos Direitos
fundamentais e direito de participar livremente da vida Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Eco-
cultural da comunidade. nômicos, Sociais e Culturais, aprovados pela Assembleia
248 | Habeas Corpus, Mandado de Segurança Individual, Geral em Nova York, em 16 de dezembro de 1966.
Mandado de Segurança Coletivo, Mandado de Injunção, 251 | Ex-diretor da Divisão de Direitos do Homem e da
Ação Popular. Paz, da UNESCO.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 133


letividades regionais ou étnicas e a própria humani- uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a
dade.” (Lafer, 1988:131) Dentre estes novos direitos natureza; de modo que se constitui tarefa essencial
estariam: o direito ao desenvolvimento, o direito ao a erradicação da pobreza e a elevação dos padrões
patrimônio comum da humanidade, o direito de co- de vida da maioria da população do mundo.
municação, o direito ao meio ambiente e o direito à
Há uma relação íntima entre desenvolvimento e
paz.252
meio ambiente; desenvolvimento e direitos huma-
nos; e meio ambiente e direitos humanos, de modo
3. O direito transindividual ao que a degradação ambiental pode agravar a violação
meio ambiente ecologicamente aos direitos humanos e por sua vez as violações aos
equilibrado direitos humanos podem levar à degradação am-
biental ou tornar mais difícil a proteção do meio am-
A efetivação do direito ao desenvolvimento – tendo biente.254 Certamente que a realização dos direitos
como alvo a elevação da dignidade da pessoa huma- fundamentais de primeira geração, como o direito de
na e a erradicação da pobreza –, do direito ao meio participação política e a liberdade de expressão de
ambiente ecologicamente equilibrado e do direito à consciência, representam a essência da democracia
paz entre países, culturas, comunidades, grupos e e são fundamentais para a efetivação dos direitos de
famílias constituem-se nos maiores desafios que a segunda geração, como o direito à moradia, saúde e
engenhosidade humana deve enfrentar para a reali- educação, convergindo assim, para a construção de
zação de uma sociedade justa, harmônica e próspera. uma sociedade justa, solidária em um meio ambien-
Desde o final dos anos 1970 tem havido um esforço te ecologicamente equilibrado.
para o enriquecimento conceitual, visando promo- Neste campo dos novos direitos, emergiu a complexa
ver uma aproximação entre a luta pela proteção do e importantíssima afirmação dos direitos equitativos
meio ambiente e a luta pela proteção dos direitos intergeracionais. Em 1972 foi solenemente declara-
humanos, considerando que se trata de um direito do pelas Nações Unidas que “A defesa e o melhora-
fundamental de todos os seres humanos em viver mento do meio ambiente humano para as gerações
em um meio ambiente limpo, seguro e saudável253. presentes e futuras se converteu na meta imperiosa
O surgimento do conceito de desenvolvimento sus- da humanidade, que se deve perseguir – ao mesmo
tentável veio a atender os reclamos dos dirigentes tempo em que se mantêm as metas fundamentais
de países em vias de industrialização que participa- já estabelecidas: da paz e do desenvolvimento eco-
ram da Conferência de Estocolmo em 1972, a cerca nômico e social em todo o mundo.” A Declaração do
pobreza e do direito ao desenvolvimento como con- Rio afirma no seu artigo 3º que o “direito ao desen-
traface da questão ambiental. A Declaração do Rio, volvimento deve ser exercido de modo a permitir que
de 1992, estabeleceu entre seus princípios  que os sejam atendidas equitativamente as necessidades
seres humanos estão no centro das preocupações ambientais e de desenvolvimento de gerações pre-
com o desenvolvimento sustentável e têm direito a sentes e futuras.”

252 | O professor Paulo Bonavides afirma que a relação A necessidade de promover a equidade intergeracio-
de Vasak é apenas indicativa daqueles direitos que se nal na esfera do direito ao meio ambiente, como um
delineiam atualmente sendo “possível que haja outros direito humano fundamental, destaca a dimensão
em fase de gestação, podendo o círculo alargar-se à me-
dida que o processo universalista se for desenvolvendo.”
temporal e o caráter transindividual deste direito,
(2009:569). emergindo como um princípio a reger as ações das
253 | Ignacy Sachs foi um dos primeiros teóricos da sus- presentes gerações em função do futuro. O concei-
tentabilidade socioambiental, tendo criado o termo eco-
desenvolvimento. (Sachs, 1986). 254 | Conforme Antônio A. Cançado Trindade, (1993:36).

134
to de equidade intergeracional foi desenvolvido por mantidas seguras. O desafio da consubstanciação
Edith Brown Weiss255 nos anos 1980 e significa a con- deste direito envolve variáveis de natureza científi-
servação de opções, de qualidade e de acesso onde ca, social e política na medida em que, na busca da
e quando cada geração é ao mesmo tempo usuária satisfação de padrões culturais de produção e con-
e guardiã do patrimônio natural e cultural, que deve sumo de matéria prima e energia, emergem situa-
deixar para as futuras gerações em condições não ções que conduzem as comunidades ecossistêmicas
piores do que recebeu, encorajando a equidade en- a uma maior ou menor instabilidade. Deste modo, a
tre as gerações. Trata-se de uma das questões mais condição de equilíbrio do meio ambiente há de ser
complexas da atualidade, uma equação que envolve constantemente definida e redefinida de acordo com
variáveis quantitativas e qualitativas de necessida- os valores estabelecidos pela sociedade, em função
des das presentes gerações em função de neces- de especificidades biogeográficas e sociopolíticas.
sidades prospectivas que não podemos conhecer e
Do ponto de vista dos direitos humanos, este direito
medir. O certo é que nossa geração é apenas um elo
ao meio ambiente equilibrado é essencial à manu-
na corrente que se liga através do tempo com o pas-
tenção da sadia qualidade de vida dos seres huma-
sado e com o futuro. Por outro lado, o desenvolvi-
nos e, neste sentido, há que se considerar o nível
mento da razão filosófica, científica e do poderio tec-
nológico – que produziu a complexidade dos desafios de qualidade dos elementos da natureza – água, ar,
contemporâneos – aumenta a nossa responsabilida- solo, flora, fauna e paisagem. O Princípio 1 da De-
de pela proteção dos sistemas de sustentação da claração do Rio abre espaço para o debate muito ao
diversidade biológica, da manutenção do equilíbrio gosto dos polemistas a cerca do antropocentrismo
nos processos ecológicos e dos recursos culturais versus biocentrismo ao afirmar que “Os seres hu-
necessários à sobrevivência da espécie humana. manos constituem o centro das preocupações rela-
cionadas com o desenvolvimento sustentável. Têm
direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia
4. Princípios fundamentais do com a natureza.” Neste assunto invocamos a pala-
direito ao meio ambiente vra da professor Paulo Affonso Leme Machado, que
Na atualidade um grande número de países256 as- a respeito diz:
seguram ou reconhecem em sua legislação, nestas “Nem sempre o homem há de ocupar o centro
palavras, o direito ao meio ambiente equilibrado, as- da política ambiental, ainda que comumente
sim como o Brasil. Isto demonstra que os esforços ele busque um lugar prioritário. Haverá casos
da Comissão Brundtland – no sentido de inserir a em que, para se conservar a vida humana ou
questão ambiental no campo institucional, em suas para colocar em prática a ‘harmonia com a na-
várias esferas – foram bem sucedidos e o direito ao tureza’, será preciso conservar a vida dos ani-
meio ambiente equilibrado formalmente conquistou mais e das plantas em áreas consideradas ina-
globalidade. Do ponto de vista biológico, o equilíbrio cessíveis ao próprio homem. Parece paradoxal
do meio ambiente depende da preservação de carac- chegar-se a essa solução do impedimento do
terísticas naturais dos ecossistemas de modo que acesso humano, que, afinal de contas, deve
suas funções de suporte e reprodução de vida sejam ser decidida pelo próprio homem.” (2011:67)
255 | Edith Brown Weiss, “In fairness to future genera- As conferências internacionais de meio ambiente fa-
tions: international law, common patrimony and inter- zem parte da estratégia da Organização das Nações
generational equity”. Conforme Antônio C. Trindade,
Unidas para estabelecer, no mínimo, algum tipo de
(1993:57) e Alexandre Kiss (2004:3).
256 | Argentina, Peru, Turquia, Moçambique, Portugal,
compromisso moral dos governantes mundiais no
Espanha, França, Romênia, Cabo verde, Seychelles etc. sentido de envidar esforços convergentes para tratar

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 135


as questões ambientais. Destas conferências resul- preventivos têm a missão de emitir ordens de fazer
tam declarações de princípios que se transformam ou não fazer aos agentes promotores de atividades
em fontes de direito, são inscritos em constituições danosas. O Estudo Prévio de Impacto Ambiental so-
e passam a influenciar o pensamento e o compor- bre atividades potencialmente lesivas ao meio am-
tamento dos agentes sociais diante dos desafios biente, previsto na legislação brasileira desde 1986
oriundos da relação entre civilização e natureza. (Resolução 001 do CONAMA), é um mecanismo de
Adiante pretendemos discorrer a respeito daqueles efetivação do princípio de prevenção. O Princípio 17
princípios que consideramos como ideias diretrizes da Declaração do Rio também afirma o caráter pre-
essenciais no processo do sentir-saber-agir (dever ventivo: a avaliação do impacto ambiental deve ser
ser) da existência responsável em uma sociedade de empreendida para atividades que possam vir a ter
risco, como a que vivemos atualmente, quais sejam, impacto negativo considerável sobre o meio ambien-
os princípios: da prevenção, da precaução, da função te. Está implícito no princípio da prevenção que os
social da propriedade e da participação. danos ecológicos podem ser irrecuperáveis e as in-
denizações serão irrelevantes; logo, o mais racional
Há um certo obscurecimento na literatura especia-
e benéfico é a antecipação.
lizada no que tange aos princípios de prevenção e
de precaução, posto que são termos que guardam Todo o parágrafo 1º do artigo 225 da nossa atual
semelhança. Nas seções seguintes pretendemos Constituição discorre sobre o princípio de prevenção
destacar as características destes dois princípios de e aponta mecanismos para esse fim, como a defini-
acordo com a escala de ciência a cerca da tecnologia ção de espaços territoriais a serem especialmente
envolvida no processo (mudança ou inovação) e no protegidos, vedando qualquer utilização que com-
grau potencial de degradação do meio ambiente. prometa a integridade dos atributos que justifiquem
sua proteção; a exigência, para instalação de obra
ou atividade potencialmente causadora de signifi-
4.1 O princípio de prevenção
cativa degradação do meio ambiente, estudo prévio
Considerando que muitos danos ambientais podem de impacto ambiental; o controle da produção, da
ser irreversíveis ou irreparáveis, o princípio funda- comercialização e do emprego de técnicas, métodos
mental do direito ao meio ambiente ecologicamente e substâncias que comportem risco para a vida, a
equilibrado é o princípio de prevenção. Isto significa qualidade de vida e o meio ambiente; a promoção
que os problemas ambientais devem ser tratados da educação ambiental e a conscientização pública
na origem (solução ex ante), em suas causas, de para a preservação do meio ambiente.
modo prioritário e integrado, buscando impedir os
efeitos negativos, possivelmente irreversíveis, que 4.2 O princípio da precaução
possam ocorrer. O objetivo norteador do princípio de
prevenção é a construção de mecanismos que im- O Princípio 15 da Declaração do Rio dispõe que:
peçam a produção de danos ambientais. Logo, em “De modo a proteger o meio ambiente, o princípio
caso de certeza de dano ambiental, este deve ser da precaução deve ser amplamente observado pelos
prevenido. A prevenção é adotada como medida de Estados, de acordo com as suas capacidades. Quan-
antecipação, para que os problemas ambientais se- do houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a
jam solucionados em tempo adequado, evitando na ausência de absoluta certeza científica não deve ser
origem as mudanças prejudiciais à saúde humana e utilizada como razão para postergar medidas efica-
ao meio ambiente. Aurora B. Parkinson afirma que zes e economicamente viáveis para prevenir a degra-
se trata da “regra de ouro da luta pela defesa do dação ambiental.”Trata-se de uma ideia que já vi-
meio ambiente” (apud Cafferatta). Os mecanismos nha sendo gestada desde os anos 1950, quando, por

136
exemplo, o sociólogo Jacques Ellul já debatia a res- exista ameaça de sensível redução ou perda de di-
peito da técnica. Em 1954 escreveu ele: “A história versidade biológica, a falta de plena certeza cientí-
mostra que toda aplicação técnica, em sua origem, fica não deve ser usada como razão para postergar
apresenta efeitos (imprevisíveis e secundários) mui- medidas para evitar ou minimizar essa ameaça, (...)”
to mais desastrosos do que a situação anterior, ao O princípio 3 da Convenção-Quadro das Nações Uni-
lado de efeitos previstos, esperados, que são válidos das Sobre Mudança do Clima afirma:
e positivos.” (1968:108). Ellul alertou diretamente
“As Partes devem adotar medidas de precau-
sobre os impactos dos pesticidas sintéticos (espe-
ção para prever, evitar ou minimizar as causas
cialmente o DDT – Dicloro-Difenil-Tricloroetano). Em
da mudança do clima e mitigar seus efeitos
1962 a bióloga e escritora Rachel Carson ganhará
negativos. Quando surgirem ameaças de da-
notoriedade pública por conta da obra “Primavera
nos sérios ou irreversíveis, a falta de plena
silenciosa” reafirmando as preocupações de Jacques
certeza científica não deve ser usada como ra-
Ellul. A ideia básica levantada por Ellul e Carson é
zão para postergar essas medidas, (...).”
que estava havendo uma invasão dos ecossistemas
pelas inovações tecnoquímicas de uso agrícola e Em 1994 o Congresso Brasileiro ratificou as duas
cujas repercussões sobre a cadeia de sustentação convenções internacionais citadas acima e em 1998
do frágil equilíbrio da vida sobre o planeta podem aprovou a Lei 9.605, que dispõe sobre as sanções
ser muito graves. penais e administrativas derivadas de condutas
Em essência o princípio de precaução preceitua que e atividades lesivas ao meio ambiente. O artigo
as atividades que possam trazer risco significativo 54 desta lei dispõe que quem “Causar poluição de
à natureza não devem ser continuadas enquanto qualquer natureza em níveis tais que resultem ou
seus efeitos adversos potenciais não são totalmen- possam resultar em danos à saúde humana, ou que
te compreendidos. Ele foi explicitado mundialmente provoquem a mortandade de animais ou a destruição
pela primeira vez em 1984, na Declaração Ministerial significativa da flora” terá pena de reclusão de um a
da Segunda Conferência Internacional sobre a Prote- quatro anos e multa. Em seu parágrafo 3º afirma-se
ção do Mar do Norte: que será penalizado “quem deixar de adotar, quando
assim o exigir a autoridade competente, medidas de
“(...) a fim de proteger o Mar do Norte de possí- precaução em caso de risco de dano ambiental grave
veis efeitos danosos da maioria das substân- ou irreversível.”
cias perigosas, uma abordagem de precaução
é necessária, a qual pode exigir ação para con- O princípio de precaução diferencia-se claramente
trolar os insumos de tais substâncias mesmo do princípio de prevenção. Na prevenção trata-se de
antes que um nexo causal tenha sido estabele- um dano futuro, porém certo e mensurável objetiva
cido por evidência científica clara e absoluta.”257 e cientificamente.
As duas principais convenções internacionais sobre O nexo causal é claro e o efeito nefasto da atividade
meio ambiente que emergiram da Conferência do Rio ou da coisa é bem conhecido; sendo que o que se
de Janeiro de 1992 inseriram o princípio de precau- ignora é se o dano vai se produzir em um caso con-
ção. O preâmbulo da Convenção sobre a Diversidade creto258. Na precaução trata-se de impedir a criação
Biológica afirma: “Observando também que quando de um risco cujos efeitos são desconhecidos e, por-
tanto, imprevisíveis. Neste caso opera-se no âmbito
257 | Apud Rudiger Wolfrum (2004:14). Wolfrum (2004)
da incerteza do saber científico (Alguma espécie de
e Sands (2004), entre outros, afirmam que o princípio
de precaução foi primeiramente inserido na legisla- vida desaparecerá para sempre? Haverá impactos
ção da Alemanha Ocidental na década de 1970 como
vorsorgeprinzip. 258 | Conforme Roberto Andorno apud Cafferatta (2009).

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 137


negativos sobre a saúde pública?), que caracteriza Os direitos de segunda geração/dimensão foram
a sociedade de risco a que se referem Ulrich Beck aguerridamente defendidos pelo movimento traba-
(1992) e Anthony Giddens (1991). lhista, que falava em nome de interesses específicos.
O movimento social que emergiu na segunda meta-
A hipótese de precaução nos obriga a levar em con-
de do século XX trará para a arena política a voz de
ta a probabilidade de danos graves, irreversíveis e
segmentos sociais marginalizados pelo mainstream
prolongáveis no espaço e no tempo aos sistemas de
trabalhista e também atuará na defesa de interesses
sustentação da vida no planeta, determinando a exi-
indeterminados quanto à titularidade, como o direito
gência de maior cuidado e atenção para a integrida-
ao meio ambiente saudável e da equidade intergera-
de ecossistêmica. cional. As organizações não governamentais ambien-
O risco potencial, abstrato ou hipotético caracteriza talistas irão cobrar participação nos processos de
o princípio de precaução e o risco real, efetivo, con- gestão ambiental, levantando a expectativa de que
creto caracteriza o princípio de prevenção, havendo uma discussão pública menos marginalizada sobre
evidente diferenciação entre ambos. Contudo, es- questões ambientais beneficie não apenas o meio am-
tes dois princípios se entrelaçam, formando a rede biente, como a saúde e o funcionamento do sistema
conceitual de proteção ao meio ambiente que deve democrático como um todo, como veremos à frente.
funcionar sempre que alguma ameaça emergir no A participação pública na gestão do meio ambien-
horizonte da ação pública ou privada: in dubio pro te pode se dar no processo normativo ambiental de
natura; in dubio pro salute. dois modos:
 Participando no processo legislativo ambien-
4.3 O princípio da participação tal mediante apresentação de projetos de leis
democrática de iniciativa popular (arts. 14 I, II e 61, §2º CF).
A defesa do direito ao meio ambiente ecologica- Este instrumento possibilita a contribuição de
entidades ambientalistas e científicas no de-
mente equilibrado não tem um titular exclusivo, não
senvolvimento de mecanismos de gestão de
dependendo apenas da ação estatal ou de setores
problemas ambientais.
específicos da sociedade. Aliás, o caput do art. 225
da Constituição Federal afirma que é dever do po-  Participando em órgãos colegiados dotados
der público e da coletividade defender e preservar o de poderes normativos, nos conselhos e órgão
meio ambiente. Trata-se de um direito cuja respon- de defesa do meio ambiente; como o CONAMA
sabilidade é ampliada, como bem dispôs o Princípio (Conselho Nacional do Meio ambiente); CON-
10 da declaração do Rio, que aponta que a ”melhor SEMA (Conselho Estadual do Meio Ambiente)
maneira de tratar questões ambientais e assegurar e CADES (Conselho Municipal do Desenvol-
a participação, no nível apropriado, de todos os ci- vimento sustentável), os conselhos gestores
dadãos interessados”. Este princípio afirma não so- etc. O processo de representação social nes-
mente o aspecto da demanda por participação de- tes conselhos ainda está em fase embrionária
mocrática na gestão das coisas públicas – demanda demandando aperfeiçoamentos no sentido de
típica das modernas democracias de participação na tornar mais democrático e legítimo259.
tomada de decisões – como também o aspecto da 259 | Paulo Affonso Leme Machado aponta que “Em al-
responsabilidade de cada cidadão no processo de guns órgãos colegiados a participação do público é nu-
gestão pública ambiental – o reconhecimento de que mericamente ínfima, não dando às associações a menor
chance de influir no processo decisório. Neste caso as
todos nós somos usuários, poluidores e guardiões
associações passam a ter papel mais de fiscal do pro-
ao mesmo tempo. cesso decisório do que de participantes na tomada de

138
A audiência pública é um instrumento formal de par- No que tange à defesa do meio ambiente a ação civil
ticipação popular no processo de licenciamento am- pública tem procurado realizar o mérito de exigir do
biental, pois a legislação prevê seu uso no caso de agente envolvido no conflito ambiental a obrigação
empreendimentos que tenham como exigência a ela- de fazer, de não fazer e/ou a condenação em dinheiro.
boração de Estudo Prévio de Impacto Ambiental. O
processo de participação neste instrumento é confli- Por fim, para que haja participação popular efetiva
tuoso e por vezes revela-se insatisfação com os re- e legítima no processo de gestão ambiental é ne-
sultados das audiências públicas, com as respostas cessário que a informação esteja disponibilizada de
aos questionamentos propostos e com as explica- modo transparente262 e de fácil acesso. Segundo o
ções sobre os empreendimentos, o que tem levado princípio 10 da Declaração do Rio, no “nível nacional,
as questões ambientais para a esfera do judiciário. cada indivíduo deve ter acesso adequado a informa-
A participação popular pode se dar também por meio ções relativas ao meio ambiente de que disponham
do judiciário, dando concretude ao final do princípio as autoridades públicas, inclusive informações sobre
10 da declaração do Rio, quando esta dispõe sobre o materiais e atividades perigosas em suas comunida-
acesso à justiça: des, bem como a oportunidade de participar de pro-
“Deve ser propiciado acesso efetivo a proce- cessos de tomada de decisões.”
dimentos judiciais e administrativos, inclusive A democratização dos processos decisórios na are-
no que diz respeito à compensação e repara- na ambiental tem como pressuposto a existência
ção de danos.” Paulo Affonso Leme Macha- de indivíduos autônomos em sua capacidade crítica
do afirma que o acesso à justiça para dirimir e transformadora de modo que os “Estados devem
conflitos ambientais “pode-se afirmar, sem
facilitar e estimular a conscientização e a partici-
exagero, é uma das conquistas sociais mais
pação pública, colocando a informação à disposição
importantes do último século.” (2011:391)260
de todos.” Os indivíduos devem ter acesso a toda a
O principal instrumento de acesso do cidadão brasilei- informação disponível: sobre a qualidade do ar, das
ro, enquanto indivíduo, à justiça ambiental está pre- águas, dos solos, sobre a diversidade biológica e
visto na Constituição em seu art. 5º inciso LXXIII, que espécies ameaçadas, sobre a matriz energética e
possibilita a Ação Popular para anular ato considera-
os planos de expansão, a legislação, os acordos,
do lesivo ao meio ambiente. Contudo, o instrumento
as estratégias, os planos, os programas, às agen-
mais importante de justiça ambiental é a Ação Civil
das governamentais, aos projetos que envolvem a
Pública, criada pela Lei 7.347 de 1985, ao final do regi-
me militar, e reafirmada pela Constituição Federal de riscos aos sistemas de suporte de vida em geral e
1988 no art. 129, III e § 1º. Trata-se de um instrumento à saúde humana em particular. Em 1998, foi assi-
de proteção jurídica de interesses transindividuais – nada na Dinamarca a convenção de Aarhus a cerca
do meio ambiente, do consumidor e do patrimônio ar- do acesso à informação, participação do público no
tístico, estético, histórico, turístico e paisagístico261. processo decisório e acesso à justiça em matéria de
meio ambiente. Trata-se de mais um passo rumo à
decisão, evitando, pelo menos, que esse processo fique
fechado em segredo.” (2011:108). democratização mundial das relações entre o ho-
260 | Os exemplos de constituições que proporcionam mem e a natureza e na promoção da legitimidade e
acesso a procedimentos judiciais e administrativos, incluin- da autonomia da participação dos agentes sociais
do compensação e reparação são inúmeros. José Adércio na esfera ambiental.
Leite Sampaio cita Tailândia, Suiça, Equador, Finlândia e
Portugal, entre outros. (Sampaio, Wold & Nardy, 2003:84) . 262 | A administração pública deve reger-se por cinco
261 | Edis Milaré conceitua a Ação Civil Pública como “o di- princípios: legalidade, impessoalidade, moralidade pu-
reito expresso em lei de fazer atuar, na esfera cível, em de- blicidade e eficiência, segundo o art. 37 da Constituição
fesa do interesse público, a função jurisdicional.” (1990:31). Federal em vigor.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 139


5. Desafios em propriedades rurais.265 Estas restrições de uso
da propriedade particular permitiriam manter per-
centuais representativos de ecossistemas em todo
5.1 A função social e ambiental da o país. Desnecessário dizer que esta legislação foi
propriedade ignorada por décadas, somente vindo a ser discutida
De todos os direitos que as revoluções burguesas no final da década de noventa, por força da expan-
afirmaram, o mais pronunciado foi o da proprieda- são do desmatamento, da extinção acelerada de es-
pécies biológicas, da crise dos recursos hídricos, do
de privada, considerado um dos direitos naturais do
aquecimento global266.
indivíduo, no sentido de poder usar, fruir e dispor
dela de modo absoluto e ilimitado. Esta concepção A crise ambiental fez emergir outros mecanismos
político-econômico-liberal de propriedade vai sofrer legais que impõem restrições para o uso da proprie-
fortes contestações ao longo do século XX, com as dade privada, como é o caso das Áreas de Proteção
revoluções socialistas e com os movimentos pela Ambiental (APAs) e das Áreas de Relevante Inte-
reforma agrária. O longo do século XX o direito de resse Ecológico (ARIEs). Elas são parte do Sistema
propriedade irá perdendo seu caráter absoluto e a Nacional de Unidades de Conservação, que instituiu
concepção de propriedade irá sofrendo profundas unidades de uso sustentável com o objetivo comum
transformações (Freitas, 2005, 131). de conciliar a proteção da diversidade biológica com
o uso sustentável dos recursos naturais. Incluem-
No final do século XX a propriedade privada terá de se neste rol de limitações à propriedade privada a
obedecer à função social e ambiental, conforme ins- obrigatoriedade de licenciamento ambiental, cujo
crito na Constituição Federal de 1988 e no Código processo envolve múltiplas exigências a empreendi-
Civil de 2002263. A liberdade de iniciativa privada não mentos que tenham potencial de afetar a qualidade
é mais constrangida pelo absolutismo de um poder do meio ambiente.
estatal de uma casta privilegiada, mas sim limitada
Evidencia-se que a implementação do princípio da
por considerações técnico-científicas respaldadas
função social e ambiental da propriedade privada é
pelas instituições do Estado Democrático de Direito, uma conquista fundamental para a eficácia do direi-
cujo fundamento é o poder soberano do povo, por to ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e
meio de seus representantes eleitos, ou diretamen- o direito à segurança do indivíduo em face de sua
te264. Assinale-se que é princípio constitucional que propriedade privada tende perder o seu absolutismo
toda atividade econômica deve se pautar pela “defe- em função de interesses socioambientais.
sa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento
diferenciado conforme o impacto ambiental de pro- 265 | A medida provisória 2.166-67/01 definiu APP como
dutos e serviços e de seus processos de elaboração uma área protegida “coberta ou não por vegetação na-
tiva, com a função ambiental de preservar os recursos
e prestação.” (inc. VI, art. 170, CF). hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodi-
É fato que Código Florestal de 1965 já apresenta- versidade, o fluxo gênico de fauna e de flora, proteger o
solo e assegurar o bem estar das populações humanas.”
va restrições à propriedade privada, no sentido de A reserva legal refere-se a um percentual da proprie-
determinar a manutenção rigorosa de Áreas de Pre- dade rural que não pode sofrer corte raso, variando de
servação Permanente (APPs) e de Reserva Legal 20% a 50% dependendo da região do país onde se situe
a propriedade.
266 | Para melhor entendimento desta questão reme-
263 | No decorrer do processo histórico a tendência que temos à excelente coletânea Código Florestal 45 anos:
se observa é o desenvolvimento sinérgico entre os direi- estudos e reflexões, organizada por Guilherme J. P. de
tos fundamentais da humanidade. Figueiredo, Lindamir M. Silva, Marcelo A. Rodrigues e
264 | Art. 1º parágrafo único. Márcia D. Leuzinger.

140
Emerge recentemente o temor de que, por conta de preservação de espaços de significação ambiental
eventos econômicos conjunturais, ocorra um proces- importante. Trata-se do debate em torno do novo
so de regressão em termos das conquistas ambien- código florestal, onde os segmentos do agronegó-
tais. O professor Michel Prieur alerta sobre as amea- cio procuram “flexibilizar” a legislação ambiental em
ças que pairam, destacando as de natureza política, função de seus interesses de produção agrícola em
econômica e psicológica: larga escala, de tal modo que a eficácia ambiental-
legal seja insignificante. No núcleo desse confronto
“a) ameaças políticas: a vontade demagógica
está a defesa da liberdade de iniciativa e de usufruto
de simplificar o direito leva à desregulamenta-
de propriedade privada, ou seja, contra as limitações
ção e, mesmo, à “deslegislação” em matéria
que a ação do Estado, enquanto representando inte-
ambiental, visto o número crescente de nor-
resses da sociedade, pode impor à liberdade de ini-
mas jurídicas ambientais, tanto no plano in-
ciativa individual no que tange à propriedade de ter-
ternacional quanto no plano nacional; b) ame-
ras no Brasil. Está em discussão o velho conceito de
aças econômicas: a crise econômica mundial
propriedade, tal qual emergiu nas primeiras revolu-
favorece os discursos que reclamam menos
ções liberais, versus o novo conceito de propriedade,
obrigações jurídicas no âmbito do meio am-
regido pela função social e ambiental, determinada
biente, sendo que, dentre eles, alguns consi-
pelos objetivos da nação brasileira. Trata-se de um
deram que essas obrigações seriam um freio
embate político-ideológico, onde o liberalismo revo-
ao desenvolvimento e à luta contra a pobre-
lucionário, que fundou a modernidade, traveste-se
za; c) ameaças psicológicas: a amplitude das
como oligarquia decadente e apegada a velhos mo-
normas em matéria ambiental constitui um
dos de pensar a relação homem natureza e ameaça
conjunto complexo, dificilmente acessível aos
as conquistas duramente efetivadas até o momento.
não especialistas, o que favorece o discurso
em favor de uma redução das obrigações do Observando a dinâmica das forças sociais em con-
Direito Ambiental.” (2012:12) flito, cabe postular que a luta pela progressão em
termos de direitos ambientais deve, necessariamen-
Há um polarizado debate ideológico que se trava
te, caminhar entrelaçada com os direitos humanos
cotidianamente em diversas esferas da vida pública,
fundamentais, pois o direito ao meio ambiente tor-
desde os plenários das casas legislativas do Estado,
nou-se parte constitutiva, irreversível e irremovível
passando pelas salas de aula, até as filas dos su-
da mais recente dimensão dos direitos humanos.
permercados. PRIEUR (2012) alerta que a regressão
ambiental ocorre de modo insidioso,
5.2 O direito à paz
“por modificações aportadas às regras proce-
dimentais, reduzindo a amplitude dos direitos A análise da história humana, principalmente a con-
à informação e à participação do público, sob temporânea, deixa muita margem para o pessimis-
o argumento de aliviar os procedimentos; ela mo267, de modo que muitas vozes descartam a paz
ocorre igualmente, pelas derrogações ou mo- como um valor268. Contudo, a convivência pacífica
dificações das regras de direito ambiental, re-
duzindo ou transformando em inoperantes as 267 | De acordo com a Organização Mundial da Saúde
(OMS), aproximadamente 191 milhões de pessoas per-
regras em vigor.” (2012:13) deram a vida em consequência de guerras e conflitos,
Em nosso país, nesta segunda década do século XXI, fazendo do século XX foi um dos mais violentos da his-
tória. (Gerhardt, 2005:143).
o mais vigoroso sinal de retrocesso ambiental está
268 | E até a ridicularizam como algo covarde e efemi-
representado pela ferrenha oposição que os setores nado, como é o caso de Ljubomir Tadic, um ex-filósofo
agrários impõem à implementação de normas de marxista citado por Vojin Dimitrijkevic (2003:81).

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 141


como um direito humano fundamental tem sido alvo vulgou por meio da Resolução 53/243A, a Declara-
esforços intelectuais e institucionais crescentes. O ção sobre a Cultura de Paz270. Frisou-se que a paz
filósofo Emmanuel Kant, em 1795, foi um dos pionei- não é somente a ausência de conflito, requerendo
ros a refletir racionalmente sobre a paz: “O estado um processo participativo, dinâmico, onde o diálo-
de paz entre os homens que vivem juntos não é um go seja encorajado e os conflitos sejam resolvidos
estado de natureza (status naturalis), o qual é an- em espírito de cooperação e compreensão mutuas.
tes um estado de guerra, isto é, um estado em que, Segundo esta declaração, a cultura de paz significa
embora não exista sempre uma explosão das hosti- construir um conjunto de valores, atitudes, tradi-
lidades, há, sempre, todavia uma ameaça constan- ções e comportamentos baseados no respeito pela
te. Deve, pois, instaurar-se o estado de paz;” (Kant, vida, pelo fim da violência e pela promoção e prática
2008:10). Nesta orientação, o estado de paz deve da não violência por meio da educação, diálogo e co-
ser fundado e instituído como um estado civil, por operação. Significa aderência aos princípios de liber-
esforços racionais dos povos, de modo organizado dade, justiça, democracia, tolerância, solidariedade,
e contínuo, cooperando entre si para por fim a todas cooperação, pluralismo, diversidade cultural, diálo-
as guerras, para sempre!269 go e entendimento em todos os níveis da sociedade,
entre indivíduos, grupos e nações.
Karel Vasak apontou a importância do direito à paz
como direito fundamental da humanidade, mas não
o desenvolveu conceitualmente, deixando uma lacu- 6. Considerações finais
na teórica. (Bonavides, 2008:83). O professor Paulo
A efetivação do direito ao meio ambiente ecologica-
Bonavides assinala a importância do amadurecimen-
mente equilibrado entrelaça-se com a efetivação do
to intelectual e o reconhecimento jurídico do direito
direito de participação democrática em um contexto
à paz, como direito fundamental do homem, que le-
de conflito em torno das definições a cerca das ver-
gitima o estabelecimento da ordem, da liberdade e
dades sobre os modos de gerir, produzir, distribuir e
do bem comum na convivência dos povos.
consumir. A cultura hegemônica é a cultura do esta-
Neste esforço coletivo de instituir a paz como um do de hostilidade, (status naturalis?) declarada ou
valor universal, a Organização das Nações Unidas latente, entre os homens em si e entre os homens
divulgou, em 15 de dezembro de 1978, a Declara- e a natureza. A transição paradigmática implica em
ção sobre a Preparação da Sociedade para Viver em um grande esforço coletivo no sentido de aperfeiçoar
Paz (Resolução 33/73) e ali afirmou: “toda nação e e efetivar os direitos humanos fundamentais ligados
todo ser humano, independente de raça, convicções à liberdade e dignidade dos seres humanos e o res-
ou sexo, tem o direito imanente de viver em paz, ao peito pela integridade dos sistemas ambientais.
mesmo passo que propugna o respeito a este direito
A ética que necessitamos para coexistir pacifica-
no interesse de toda humanidade.” Em 1984 surgiu a
mente em um mundo biodiverso há que ser constru-
Resolução 39/11, que trata sobre o Direito dos Po-
ída cultural e institucionalmente no jogo, por vezes
vos à Paz, declarando a obrigação fundamental de
tenso, das relações cotidianas entre interesses e va-
todo o Estado em proteger e fomentar a realização
lores concretos. Não há outra saída. Se os conflitos
da paz.
fazem parte da nossa vida havemos que não deixar
Talvez o mais importante documento global sobre a que as diferenças se tornem abismos intransponí-
paz tenha sido lançado em 13 de setembro de 1999, veis e manter os canais abertos ao diálogo, à com-
quando a Assembleia Geral das Nações Unidas di-
270 | United Nations. Resolution adopted by the General
269 | “Os exércitos permanentes (miles perpetuus) de- Assembly: 53/243 A. Declaration on a Culture of Peace.
vem, com o tempo, de todo desaparecer.” (Kant, 2008:6). New York, 13 September 1999.

142
preensão e à cooperação. O intelecto há que forjar Referências Bibliográficas
utopias que venham a se materializar em conceitos,
estratégias, mecanismos e instrumentos de instau- BECK, Ulrich.
ração de novos padrões de convivência.
Risk society: toward a new modernity. Londres:
A concretização de soluções sustentáveis e inclusi- Sage Publications, 1992
vas para superação dos complexos desafios contem- BRASIL. Constituição Federal, Brasília: 1988.
porâneos implica, essencialmente, na construção de
métodos de geração de consensos, de negociações BRASIL. Código Civil - Lei federal 10.406 de 2002
baseadas na capacidade de diálogo e na confiança BOBBIO, Norberto.
entre as partes, na aceitação da possibilidade de ga- A era dos direitos. Rio de janeiro: Campus, 1992.
nhos mútuos. É necessário ver os desafios sob novos
ângulos, identificar as tendências positivas e negati- Igualdade e liberdade. Rio de Janeiro: Ediouro,
1997
vas e saber comunicá-las adequadamente, de modo
a construir colaborações e parcerias para gerar valor BONAVIDES, Paulo.
para todos. Sim, “Um outro mundo é possível”. Curso de direito constitucional. São Paulo: Ma-
Parafraseando John Rawls , uma sociedade so-
271 lheiros, 2012
mente poderá ser feliz quando estiver no caminho da CAFFERATTA, Néstor A.
execução (mais ou menos) bem sucedida de um pla-
“Principios de derecho ambiental”. In: Revista de
no racional de vida traçado em circunstâncias (mais
Derecho Ambiental. Instituto de Derecho y Econo-
ou menos) favoráveis, e estiver razoavelmente con- mia Ambiental, 2009.
fiante em que suas intenções possam ser realizadas.
A nossa intenção de convivência harmoniosa há que DIMITRIJKEVIC, Vojin.
ser conduzida pela razão em um fluxo necessaria- “Direitos humanos e paz”. In: SYMONIDES, Ja-
mente dialético, onde devemos ser determinados nusz. Direitos Humanos: novas dimensões e desa-
pela firme convicção de possibilidade, pois “desde fios, Brasília: UNESCO Brasil, Secretaria Especial
que a guerra começa na mente dos homens, é na dos Direitos Humanos, 2003.
mente dos homens que as defesas da paz devem ser ELLUL, Jacques.
erigidas” (Declaration on a Culture of Peace, United
A técnica e o desafio do século. Rio de Janeiro:
Nations:1999). Paz e Terra, 1968
ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalha-
dora na Inglaterra, São Paulo: Boitempo, 2008
FREITAS, Vladimir P. de.
A constituição federal e a efetividade das normas
ambientais. São Paulo: Editora Revista dos Tribu-
nais, 2005
FIGUEIREDO, Guilherme J. P. de; SILVA, Lindamir
M. da; RODRIGUES, Marcelo A.; LEUZINGER, Már-
cia. D.
Código Florestal: 45 anos: estudos e reflexões.
Curitiba: Letra da Lei, 2010.
271 | John Rawls refere-se à felicidade do indivíduo
(2002:610). GERHARDT, LUIZA M.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 143


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RAWLS, John.

144
ALIMENTAÇÃO E MEIO AMBIENTE:
Relações e contribuições no caminho da
sustentabilidade
Suely Feldman Bassi 272

Resumo Abstract
Neste artigo são apresentadas atividades desenvol- This paper presents the activities of the Open Uni-
vidas na Universidade Aberta do Meio Ambiente e versity of the Environment and Culture of Peace -
Cultura de Paz - Umapaz – com o tema Alimentação Umapaz – about the theme Food and Environment.
e Meio Ambiente, que têm como proposta oferecer This theme is proposing that offer contributions of
contribuições para escolhas e decisões que possam reflection and action for choices and decisions that
estar presentes no ato da alimentação e colaborar may be present in the act of feeding and collaborate
para o exercício de conexão do indivíduo, sociedade connection to the exercise of the individual, society
e universo nesta atividade vital para o ser humano. and the universe in this vital activity for humans. The
Os desafios atuais que se apresentam como acesso current challenges that present themselves as food
e segurança alimentar para toda a comunidade pla- security and access to the entire global community
netária exigem atenção e busca de caminhos compa- require attention and finding ways compatible for a
tíveis para uma alimentação saudável e em sintonia healthy diet and consistent with ethical and rational
com as dimensões éticas e racionais na busca da dimension in the search for planetary sustainability.
sustentabilidade planetária. As atividades organiza- The activities organized on this theme are intended
das nesta temática têm o intuito de caminhar nesta to walk in that direction.
direção. Keywords: Health and food; food and sustainability;
Palavras-chave: Alimentação saudável. Alimen- nutritional security.
tação e sustentabilidade. Segurança alimentar e
nutricional.

272 | Psicóloga e nutricionista com especialização em Ecologia, Arte e Sustentabilidade; docente da Umapaz e coordenadora
dos programas Alimentação e Meio Ambiente, Meio Ambiente e Saúde e Tai Chi nos Parques.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 145


1. Introdução O cuidado ao se considerar a sugestão de uma ali-
mentação saudável deve levar em conta os aspectos
Duas tristezas. A primeira é não ter fome culturais e simbólicos dos indivíduos e grupos além
quando a comida está servida na mesa. A se- das necessidades básicas biológicas nutricionais e
gunda é ter fome quando não há comida na universais. Este é um componente importante a ser
mesa. A vida acontece entre essas duas tris- considerado e diversos trabalhos foram desenvolvi-
tezas. O encontro entre fome e comida tem o dos nas últimas décadas nesta direção.
nome de alegria. Rubem Alves – Do universo à
Ao situar o trabalho antropológico na vinculação
jabuticaba
entre o natural e cultural, Romanelli (2006, p.334)
O tema Alimentação Saudável é encontrado atual- afirma que “se a fome situa-se na esfera do natural
mente com destaque e atenção nas diversas instân- e universal, as práticas alimentares, também univer-
cias da saúde pública, enfatizado pelos profissionais sais, não são naturais, mas situam-se no campo da
da saúde e também está presente como crescente cultura”, considerando que o ato de saciar a fome é
preocupação das pessoas em geral. Muito é apre- específico de cada sociedade fazendo parte de todo
sentado como proposta no sentido de se observar um sistema simbólico a ela inerente, onde conclui:
uma alimentação que corresponda às necessidades “Se todos precisam comer, não o fazem do mesmo
de cada indivíduo, levando-se em consideração ca- modo” (ROMANELLI, 2006, p. 335).
racterísticas como faixa etária, condições de saúde,
Este é um assunto complexo, pois quando se fala
gasto energético, entre outras.
de hábitos e mudança de hábitos muitos aspectos
Com a multiplicidade de opções e de orientações que devem ser considerados.
são encontradas e disponibilizadas pelos meios de
Os hábitos alimentares são comportamentos arrai-
comunicação, pesquisas, cursos, palestras e tantos
gados do ser humano, e revelam a cultura em que
outros meios de informação, assim como em livros e
cada um está inserido. Para Mintz (2001, p. 31) “Como
revistas, o assunto está cada vez mais presente e as
precisamos comer para viver, nenhum outro compor-
trocas entre profissionais de saúde e os indivíduos
tamento não automático se liga de modo tão íntimo
estão mais frequentes.
à nossa sobrevivência”. E avalia ainda que “nossas
O ato de comer, embora rotineiro, explicita uma atitudes em relação à comida são aprendidas cedo e
complexa teia de aprendizado, hábitos e senti- geralmente transmitidas por ‘adultos afetivamente
mentos. O componente biológico está ligado ao poderosos’, o que confere ao nosso comportamento
cultural, social, assim como a compreensão das um poder sentimental duradouro”. (MINTZ, 2001, p.
necessidades e fundamentos nutricionais se en- 31, grifo do autor).
trelaçam com a noção de paladar e prazer. O tema
E destaca ainda que além da frequência e constância
parece hoje suscitar discussões e proposições no-
necessária no ato de alimentar-se, é a esfera onde
vas a cada dia a respeito de determinado alimento,
o indivíduo exerce alguma escolha, e esta poderia
dietas, cardápios, combinações favoráveis ou não,
refletir uma base que liga o mundo das coisas ao
muitas vezes gerando dúvidas e radicalismos. Al-
mundo das ideias por meio de nossos atos e sendo
guns conceitos são repetidos pelas pessoas ainda
assim também a base para nos relacionarmos com a
que sem clareza ou profundidade, apontando a im-
realidade.
portância de melhor compreensão de fundamen-
tos para a incorporação e adequação de atitudes Em um momento de aceleração e trocas evidencia-
positivas e compatíveis com hábitos saudáveis de das na disponibilidade crescente de gêneros alimen-
alimentação e de vida. tícios, as tradições culturais são mescladas entre os

146
diversos povos, assim como as técnicas culinárias, das pessoas dela resultante, com severos impactos
ingredientes, e toda simbologia específica no que se sobre a saúde pública” (CARNEIRO, F. F. et al, 2012,
refere à escolha de gêneros, à elaboração de cardá- p. 03). E justifica este trabalho: “A identificação de
pios, preparo e no momento da refeição. numerosos estudos que comprovam os graves e
Atualmente a necessidade de responder às deman- diversificados danos à saúde provocados por estes
das de rapidez na aquisição, preparação e no próprio biocidas impulsiona esta iniciativa. Constatar a am-
momento da alimentação, impõem a praticidade e ao plitude da população à qual o risco é imposto subli-
mesmo tempo abandono da forma como eram ela- nha a sua relevância”. (CARNEIRO, F. F. et al, 2012,
boradas e realizadas as antigas refeições; as opções p. 03).
atuais ainda que nem sempre sejam as desejadas, O mesmo dossiê ainda assinala: “Nos últimos três
correspondem ao ritmo acelerado exigido princi- anos o Brasil vem ocupando o lugar de maior con-
palmente nos grandes centros urbanos, e que já se sumidor de agrotóxicos no mundo. Os impactos à
alastram também por locais menores. saúde pública são amplos porque atingem vastos
Produtos industrializados que oferecem esta pra- territórios e envolvem diferentes grupos populacio-
ticidade ou a simplificação do trabalho doméstico nais como trabalhadores em diversos ramos de ati-
no preparo da refeição, a independência maior dos vidades, moradores do entorno de fábricas e fazen-
jovens na decisão de sua alimentação, o aumento das, além de todos nós que consumimos alimentos
expressivo das refeições realizadas fora de casa, o contaminados”. (CARNEIRO, F. F. et al, 2012, p. 12).
impacto da propaganda na oferta de gêneros e arte- Aliado a estes aspectos, outro foco de preocupação
fatos de cozinha estão entre alguns fatores decisivos atualmente amplia-se para a alimentação no con-
para essa acelerada transformação que assistimos. texto global, constatando a urgência de adequação
Alguns produtos industrializados ou altamente pro- para satisfazer essa necessidade básica para todos
cessados oferecem, segundo apontam especialistas os seres humanos, de forma a equacionar as rela-
no assunto, um excesso de substâncias estranhas ções entre produção e consumo, e ainda a questão
ingeridas sem o tempo adequado para o organismo de distribuição e acesso.
se adaptar a esses novos hábitos, gerando carên- Muito se discute sobre a necessidade de responder
cia de nutrientes essenciais para exercer suas fun- à demanda coletiva de alimentação, e embora a pro-
ções de defesa. Ao mesmo tempo em que a oferta se dução de alimentos seja uma questão sempre im-
apresenta maior, traz um excesso de componentes portante a ser observada, a questão premente a ser
como gorduras e produtos químicos. solucionada é o acesso, na medida em que se verifica
Outra questão que gera dúvida, questionamento e a desigualdade para os dois extremos: a da falta e
preocupação é o uso de agrotóxicos na produção de excesso alimentar e as consequências apresentadas
alimentos, em relação à sua finalidade, uso adequa- em ambos os lados.
do e possíveis efeitos nocivos à saúde das pessoas No primeiro caso é evidente a séria consequência
e ambiente. para a sobrevivência, saúde e pleno desenvolvimen-
Recentemente a Associação Brasileira de Saúde Co- to, e sabemos que parte considerável da população
letiva – ABRASCO – lançou um trabalho sobre o uso humana vive nesta situação. Por outro lado, o consu-
de agrotóxicos com o objetivo de registrar e difundir mo exacerbado incontestável por uma parcela cada
“a preocupação de pesquisadores e professores e vez mais crescente de indivíduos, está ocasionando
profissionais com a escalada ascendente de uso de desequilíbrios severos na saúde, como as doenças
agrotóxicos no país e a contaminação do ambiente e crônicas e degenerativas, ao lado, ou em consequ-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 147


ência, de um aumento crescente da obesidade, hoje de alimentos, alimentos geneticamente modificados
também em escala progressiva desde a infância. e homogeneização dos produtos agrícolas. Isso im-
plicando em redução da biodiversidade e variedade
O conceito de segurança alimentar, embora não
de espécies. Outra questão a considerar é a geração
seja recente, é uma questão que ainda requer muita
dos resíduos e do lixo radioativo da irradiação dos
atenção e esforço no sentido de trazê-la como pauta
alimentos e outras questões ambientais como polui-
de discussão e ação. Pela sua amplitude e abrangên-
ção das águas e solo.
cia, exige esforços coletivos na busca do objetivo de
propiciar a toda comunidade planetária o direito a Como adequar essa questão levando em conta os
uma alimentação adequada sob todos os pontos de aspectos culturais, sociais dos grupos humanos e
vista e inserida dentro dos outros direitos e necessi- ainda a disponibilidade de recursos para satisfazer
dades humanas. ou garantir sua alimentação é o que está em pauta.
O que se apresenta como uma alimentação saudá-
O assunto é complexo e expõe ao mesmo tempo as-
vel, ao mesmo tempo sustentável, e que pode favo-
pectos individuais e coletivos no que se refere a de-
recer a saúde, prevenção de doenças, ao lado de um
cisões, reflexão e ação, como tantos outros no que
criterioso cuidado com a terra, água e outros fatores
remonta à própria sobrevivência e do meio no qual
ambientais é o que se faz imprescindível conciliar.
estamos inseridos. Contudo o diálogo é fundamental
para que possamos ter cada vez mais informação e Diversas propostas se apresentam como caminho
subsídios que propiciem escolhas compatíveis com a para uma Alimentação Saudável ou Sustentável e
realidade que vivenciamos e que queremos cultivar. propiciar essa contextualização é fundamental e ur-
gente. Resgatar e cultivar possibilidades para o cui-
A mudança nos hábitos alimentares e as trocas cul-
dado com a própria saúde e com o ambiente em que
turais ocorrendo de forma mais intensa, ainda que
vivemos é o que pode nos proporcionar uma melhor
não seja uma prática recente, tem levado, por exem-
qualidade de vida, prazer e convivência harmoniosa
plo, à oferta maciça de alimentos prontos, produtos
com os recursos naturais que dispomos ao mesmo
amplamente direcionados a públicos específicos
tempo em que buscamos preservá-los de forma res-
como crianças e jovens; acondicionamento e pro-
ponsável para as próximas gerações.
cessos industrializados são realidades presentes e
prontamente acolhidas pelas pessoas, por motiva- A busca por respostas a essa questão no nível de
ções e necessidades atuais. instituições e países não é recente. Nas últimas dé-
cadas diversas iniciativas vêm sendo formuladas na
A forma de apresentação e processamento maior de
direção da organização de propostas que efetivem o
alimentos cada vez mais se mostra evidente para
direito à alimentação em nosso planeta.
atender essas necessidades, sugerindo benefícios
que além da praticidade associaria acréscimo de nu- No relatório do Brasil para a Cúpula Mundial de Ali-
trientes como vitaminas e outros, mas podem cami- mentação em Roma (1994) encontramos a seguinte
nhar de modo oposto ao que se formula como uma afirmação: “O acesso à alimentação é um direito hu-
alimentação saudável, ou que deveria estar presen- mano em si mesmo, na medida em que a alimenta-
te na mesa das pessoas. Os alimentos “in natura”, ção constitui-se no próprio direito à vida. Negar este
regionais estão disponíveis, porém competindo com direito é antes de mais nada, negar a primeira condi-
essa maciça oferta, onde os jovens e crianças são os ção para a cidadania, que é a própria vida.” (BRASIL,
consumidores mais visados. 2003).
Além das doenças decorrentes como já citado, alia- O relatório assinala ainda na introdução: “A alimen-
se o uso crescente de aditivos químicos, irradiação tação e a nutrição constituem requisitos básicos

148
para a promoção e a proteção da saúde, possibili- da, culturalmente aceitável e também incorporando
tando a afirmação plena do potencial de crescimento a idéia de acesso à informação.
e desenvolvimento humano, com qualidade de vida e A lei nº 11346 de 15 de setembro de 2006 cria o
cidadania. No plano individual e em escala coletiva, Sistema Nacional de Segurança Alimentar – SISAN
esses atributos estão consignados na Declaração - com vistas em assegurar o direito humano à ali-
Universal dos Direitos Humanos, promulgada há 50 mentação adequada, considerando entre outras, as
anos, os quais foram posteriormente reafirmados no seguintes afirmações:
Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, So-
ciais e Culturais (1966) e incorporados à legislação A alimentação adequada é direito fundamen-
nacional em 1992”. (BRASIL, 2003, p.11). tal do ser humano, inerente à dignidade da
pessoa humana e indispensável à realização
A Declaração de Roma sobre a Segurança Alimen- dos direitos consagrados na Constituição Fe-
tar Mundial e o Plano de Ação da Cúpula Mundial deral, devendo o poder público adotar as polí-
da Alimentação estabelecem as bases para diversas ticas e ações que se façam necessárias para
trajetórias, de maneira a atingir um objetivo comum: promover e garantir a segurança alimentar e
a segurança alimentar a nível individual, familiar, nutricional da população.
nacional, regional e mundial. Existe segurança ali-
mentar quando as pessoas têm, a todo o momento, A segurança alimentar e nutricional abrange
acesso físico e econômico a alimentos seguros, nu- entre outras coisas: a conservação da biodi-
tritivos e suficientes para satisfazer as suas neces- versidade e a utilização sustentável dos recur-
sidades dietéticas e preferências alimentares, a fim sos; a promoção da saúde, da nutrição e da ali-
de levarem uma vida ativa e sã. A este respeito é mentação da população, a implementação de
necessário uma ação concertada, a todos os níveis. políticas públicas e estratégias sustentáveis
Cada país deverá adaptar uma estratégia, segundo e participativas de produção, comercialização
os seus recursos e capacidades, para alcançar seus e consumo de alimentos, respeitando-se as
próprios objetivos e ao mesmo tempo cooperar, no múltiplas características culturais do País.
plano regional e internacional, na organização de É apresentado o seguinte conceito em nosso país:
soluções coletivas dos problemas mundiais de se- “a Segurança Alimentar e Nutricional consiste na
gurança alimentar. Num mundo de instituições, so- realização do direito de todos ao acesso regular e
ciedades e economias cada vez mais ligadas, é im- permanente a alimentos de qualidade, em quantida-
prescindível coordenar os esforços e compartilhar as de suficiente, sem comprometer o acesso a outras
responsabilidades. (Cúpula Mundial de Alimentação, necessidades essenciais, tendo como base práticas
Roma, 1996). alimentares promotoras de saúde que respeitem a
Vários documentos nacionais e internacionais vêm diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural,
sendo elaborados no sentido de formular diretrizes econômica e socialmente sustentáveis” (BRASIL,
que contribuam para o compromisso de atitudes e 2006, p. 04)
hábitos seguros e adequados em relação à Alimen- A Primeira Conferência Internacional sobre Promo-
tação Saudável. ção da Saúde realizada em Ottawa, Canadá em no-
O conceito de segurança alimentar passou a incorpo- vembro de 1986 apresentou uma carta de intenções
rar também a noção de acesso a alimentos seguros respondendo às expectativas para uma nova saúde
(não contaminados biológica ou quimicamente); de pública que traz recomendações e abordagens vin-
qualidade (nutricional, biológica, sanitária e tecno- culando a saúde em seu contexto mais amplo e des-
lógica), produzidos de forma sustentável, equilibra- tacando a importância de ações intersetoriais.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 149


A carta define: dos de vida saudáveis com atenção ao modo de viver
com referências culturais, sociais, crenças e outros
“Promoção da saúde é o nome dado ao pro-
cesso de capacitação da comunidade para aspectos compartilhados coletivamente e incenti-
atuar na melhoria de sua qualidade de vida e vando a autonomia.
saúde, incluindo uma maior participação no De acordo com este Guia:
controle deste processo”. E ainda destaca que
“o Estado, por intermédio de suas políticas
“a promoção da saúde não é responsabilidade
públicas tem a responsabilidade de fomentar
exclusiva do setor saúde, e vai para além de
políticas sócio-ambientais, em nível coletivo,
um estilo de vida saudável, na direção de um
para favorecer as escolhas saudáveis em ní-
bem-estar global”. (Brasil, 2002)
vel individual ou familiar. A responsabilidade
Nesse sentido já neste momento a discussão apon- compartilhada entre sociedade, setor produti-
tava para caminhos mais abrangentes de cuidado e vo privado e setor público é o caminho para
ação. Assinalava como pré-requisitos básicos dire- a construção de modos de vida que tenham
ções além da idéia da saúde a nível biológico indivi- como objetivo central a promoção da saúde e
dual, também: habitação, educação, paz, ecossiste- prevenção de doenças. Assim, é pressuposto
ma estável, recursos sustentáveis entre outros. da promoção da alimentação saudável am-
Destaca a criação de ambientes favoráveis para a pliar e fomentar a autonomia decisória dos
promoção da saúde onde justifica: “Nossas socie- indivíduos e grupos, por meio do acesso à in-
dades são complexas e inter-relacionadas. Assim, formação para a escolha e adoção de práticas
a saúde não pode estar separada de outras metas alimentares (e de vida) saudáveis”. (BRASIL,
e objetivos. As inextricáveis ligações entre a popu- 2006, p. 22, 23).
lação e seu meio ambiente constituem a base para Além de documentos e declarações direcionados ao
uma abordagem socioecológica da saúde”. propósito de solucionar esta urgente questão, en-
A partir dessa concepção integrativa assinala: contramos ainda nos últimos anos um crescente in-
teresse e produção de materiais referentes ao tema
“O acompanhamento sistemático do impacto da Alimentação e Nutrição tanto no campo científi-
que as mudanças no meio ambiente produzem co como artístico em geral. As pesquisas científicas
sobre a saúde – particularmente nas áreas de assim como o destaque da importância da atenção
tecnologia, trabalho, produção de energia e
e papel da alimentação na preservação, resgate ou
urbanização – é essencial e deve ser seguido
mesmo promoção da saúde estão cada vez mais
de ações que assegurem benefícios positivos
disponíveis. Por vezes contraditórias ou não conclu-
para a saúde da população. A proteção do
sivas, revelam, no entanto, um campo fértil de dis-
meio ambiente e a conservação dos recursos
cussões e análises com a clara intenção de fomentar
naturais devem fazer parte de qualquer estra-
atenção e decisões no que se refere à alimentação.
tégia de promoção da saúde”.
Diversos estudos no campo da história e antropolo-
O Guia Alimentar para a população brasileira do
gia têm colaborado com a investigação dos fatores
Ministério da Saúde (2006), organizado como um
presentes nos hábitos alimentares fornecendo pis-
instrumento de esclarecimento e diretrizes de ação
tas e a compreensão do seu contexto no cotidiano
para uma alimentação saudável, faz referência e se-
dos grupos humanos.
gue essa premissa ampliada no conceito de promo-
ção da saúde, que vai além do conceito meramente A produção de trabalhos multiplica-se cada vez mais
físico ou biológico, expandindo e identificando mo- fortemente também nos campos da gastronomia,

150
medicina, nutrição, estando estes permeados pelos cuidados devem ser cultivados a nível individual e
aspectos sociais, culturais, nutricionais e políticos coletivo e integrados na rotina diária.
envolvidos. Esta abordagem hoje é cada vez mais divulgada e
Esta ênfase não causa estranheza, pois, como já sugerida. Assim como o repensar da maneira em
assinalado, nosso atual momento planetário de di- como e do que nos nutrimos, não nos restringindo
versidade alimentar e desigualdade de acesso aos só a nutrientes e alimentos, mas em modos de vida
recursos alimentares e provento e os desequilíbrios exercidos de forma consciente e prazerosa que nosso
evidentes (falta e excesso alimentar) exigem medi- ambiente pode nos proporcionar. Resgatar nossa his-
das de correção pelas consequências que apresen- tória, descobrir o prazer de compartilhar tradições,
tam pela forma de consumo atual. Tanto a fome modos de preparo como também novas possibilida-
como a desnutrição são problemas a serem obser- des ainda não vivenciadas são caminhos possíveis;
vados como o grande consumo tanto em quantidade a arte da culinária que se apresenta mais difundida
como em qualidade de determinados produtos, ao atualmente nos oferece caminhos enriquecedores.
mesmo tempo em que são oferecidos produtos ema-
grecedores e dietéticos, alinhados com uma imagem 2. Nossa proposta de trabalho
corporal perseguida na atualidade. São questões
O conceito de Alimentação Saudável é parte essen-
e paradoxos da sociedade moderna em acelerada
cial da educação sócio ambiental e neste sentido
transformação em seus hábitos alimentares.
parte integrante do desenvolvimento ambiental a
Cabe ressaltar ainda que outros fatores intrínsecos que se direciona a UMAPAZ, processo este que ob-
ao ato de alimentar-se vão além do alimento e re- jetiva favorecer e disseminar informações a respeito
mete a um contexto mais amplo, como o preparo, de todas as etapas que compõe a relação com os
modo de realização da refeição (individualmente ou alimentos, enfatizando opções sustentáveis.
em grupo), ambiente onde é realizada, tempo dedi- Através de cursos e oficinas de alimentação a pro-
cado, e outros. Constituem fases anteriores e pos- posta é a reflexão e conhecimento de práticas que
teriores ao momento da alimentação e revelam a permitam a incorporação e multiplicação de atitudes
forma como é orientada a relação com o alimento e favoráveis em relação às questões socioambientais
que pode interferir também na sua qualidade, sendo em todas as etapas do ciclo de produção, consumo
também muito relevantes. Não é só o que comemos, e destinação final de resíduos e levando em consi-
mas de que forma, atenção, respeito, etc. Como é deração aspectos da diversidade cultural da nossa
realizada a aquisição dos gêneros, como são lidados população.
os resíduos, destinação final e outros. Todos estes
O objetivo do programa é oferecer a oportunidade de
aspectos devem ser levados em conta na direção de participar de atividades que ressaltam a idéia da ali-
escolhas alimentares mais sustentáveis. mentação saudável, como parte do processo de edu-
A busca de qualidade de vida que pressupõe uma cação socioambiental, visando melhorar a relação
vida saudável deve levar em consideração uma con- das pessoas com os alimentos, para a sua própria
cepção integrativa. O aspecto alimentar é fundamen- saúde e bem-estar coletivo; visa também compre-
tal, mas deve estar aliado a hábitos saudáveis, com ender as relações entre produção e consumo, refletir
ações e cuidados em esferas mais amplas. Aliado e incorporar práticas de consumo sustentável, esco-
a uma alimentação saudável, também a prática de lha e aproveitamento dos alimentos.
alguma atividade física, tempo de lazer, convivência As atividades são organizadas de forma a oferecer
harmoniosa, controle do estresse, e diversos outros olhares e propostas diversas, formas e caminhos de

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 151


cultivo e elaboração de cardápios e pratos, assim ção das informações. Esta ação relatada e comparti-
como sugestão de incorporação de atitudes coeren- lhada expõe a própria experiência de realização das
tes e compatíveis na rotina de alimentação nos pró- preparações, pesquisa de compras, material teórico,
prios cursos, como prática direta dos conceitos tra- etc, o que enriquece fortemente a troca e novas op-
balhados, como o uso de materiais e gêneros, forma ções e escolhas.
de preparo e acondicionamento, atenção ao descarte
A proposta de integração e abordagem vivencial é
e destinação de resíduos, compartilhamento, etc.
oferecida em sala e também nos espaços adjacen-
A partir de 2011 o tema Alimentação e Meio Am- tes como viveiro de plantas, o que proporciona uma
biente faz parte dos temas específicos de atividades, maior aproximação com os conteúdos apresentados.
como um programa contínuo, possibilitando a incor-
Os profissionais, que desenvolvem as atividades e
poração de profissionais palestrantes e oficineiros
que apresentam experiência nos temas oferecidos,
no desenvolvimento e aprofundamento do tema. O
integram o elenco de cadastrados, docentes da
objetivo é ainda que esteja presente em outras ati-
UMAPAZ, parceiros de outros equipamentos da pró-
vidades e cursos como dinâmica de reflexão e ação
pria Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente,
concreta, como desafio da questão apresentada,
da Secretaria Municipal da Saúde, e ainda palestran-
buscando enfatizar e discutir caminhos possíveis
tes convidados de outras instituições.
de lidar com esta questão no momento de alimen-
tação coletiva compartilhada de forma a trabalhar Nossa participação em encontros e cursos realiza-
na prática a sustentabilidade sugerida. Não é uma dos em outras locais e eventos também nos permite
questão simples, mas novas formas são reveladas um maior diálogo e oportunidade de intercâmbio de
e trabalhadas. idéias.
A resposta à oferta de atividades nesta temática
tem sido muito grande, com intensa procura para 4. Desenvolvimento
participação nos cursos, sugestões e retornos sobre
As atividades são realizadas em forma de cursos,
o que foi vivenciado e também colocado em prática.
palestras e vivências e a carga horária é compatível
A metodologia aplicada contribui para essa aproxi-
com o objetivo previsto a cada uma delas.
mação e aproveitamento.
O curso Alimentação Sustentável273 com carga
3. Metodologia horária que variou de 14 a 18 horas foi realizado
para quatro turmas, uma a cada semestre a partir
A metodologia proposta para as atividades têm sido do segundo semestre de 2010 e totalizou 136 par-
teórico-vivencial com apresentação de conceitos e ticipantes; apresentou uma grande procura desde o
vivência de dinâmicas que favoreçam a integração, início, o que lhe confere novas turmas programadas
participação e assimilação do conteúdo oferecido. para cada semestre. Cada turma recebe em média
No caso de alguns cursos foram realizadas ainda au- 35 pessoas, número considerado adequado para via-
las práticas com a elaboração das preparações em bilizar a metodologia sugerida. O público é bastante
aula. diversificado, tendo participação de profissionais da
A troca de experiências entre os participantes en- saúde como médicos e nutricionistas entre outros,
riquece e contribui para a apreensão de conceitos, profissionais da educação, esporte, abastecimento,
estimula a criatividade e contribui na tomada de de- assim como diversas outras atividades com possi-
cisões e ação. Percebe-se no decorrer dos encontros
273 | Ministrado por Denise Haddad, consultora em ali-
que a prática e pesquisa prosseguem em outros am-
mentação saudável, culinarista especializada em educa-
bientes como casa, trabalho e permite a multiplica- ção ambiental.

152
bilidade de multiplicação e também a participação Neste curso o objetivo foi dialogar e difundir junto
de público interessado em geral, em busca de uma aos participantes os conceitos de Segurança Ali-
melhor alimentação para si e para sua família. mentar e Nutricional (SAN), as redes formadas para
Neste curso, a proposta foi estimular conceitos te- organizar esta proposta, os caminhos percorridos e
óricos e práticos com o intuito de favorecer a inte- a serem ainda desenvolvidos e refletir sobre conhe-
gração e vínculo com as leis da natureza, conhecer cimentos e habilidades para a escolha de alimentos
a diversidade e as opções de elaboração de uma de forma adequada, saudável e segura; proporcio-
alimentação saudável, equilibrada e adequada a um nou ainda a discussão das culturas alimentares das
novo conceito de sustentabilidade, sensibilizando diversas regiões do país, das práticas alimentares
para as questões socioambientais. Buscou, também, mais saudáveis, consumo sustentável e redução do
resgatar a importância energética dos alimentos desperdício.
vivos orgânicos que podemos cultivar em nossos O público foi diversificado com grande participação
quintais promovendo a saúde e criando fontes de de profissionais da saúde como nutricionistas, biólo-
sustentabilidade e ainda a oportunidade de elaborar gos e médicos, assim como educadores, cozinheiros
pratos saborosos e saudáveis utilizando ingredien- e outros profissionais da área ambiental, arte, entre
tes locais. outros.
Foram enfatizados aspectos que contribuem para a Com a certificação de 20 participantes e carga ho-
qualidade dos alimentos como região, época ade- rária total de seis horas em três encontros, o curso
quada de colheita e produções com qualidade ecoló- possibilitou uma aproximação ao tema e reflexão de
gica e ainda o jardim comestível, com suas proprie- possibilidades de ação e prosseguimento do diálogo.
dades e utilizações; foram abordados os aspectos A dinâmica e metodologia desenvolvidas com ênfa-
estéticos dos alimentos e preparações. se na troca entre os participantes além do conteúdo
O desenvolvimento das atividades foi realizado na teórico enriqueceu e fomentou um bom aproveita-
UMAPAZ e com a utilização do espaço do entorno mento e incorporação dos conceitos. Evidenciou a
como viveiro de plantas localizado no próprio parque. importância do tema e necessidade de expansão e
continuidade dos conteúdos oferecidos.
A possibilidade de realização das aulas práticas foi
extremamente enriquecedora no intuito de elaborar O Ciclo de Palestras Segurança Alimentar e Meio
e saborear alimentos e preparações por vezes des- Ambiente foi realizado na Semana do Meio Ambien-
conhecidas e a participação na confecção dos mes- te em junho de 2012 com sete encontros, tendo como
mos, o que propicia uma nova relação e oportunida- objetivo a reflexão do tema Alimentação por diferen-
de de vivência de saberes. tes prismas com os seguintes temas e palestrantes:
O curso Segurança Alimentar e Nutricional – di- Alimento Saudável em um Meio Ambiente Saudá-
reito ou escolha?274 foi realizado em julho de 2012 vel - Vitor Otavio Lucato, ecólogo e biólogo, docen-
em parceria com o Centro de Referência em Segu- te da UMAPAZ; Segurança Alimentar e Nutricional
rança Alimentar e Nutricional Sustentável – Butantã na ótica dos Direitos Humanos - Christiane Araújo
(CRSANS-BT) da Secretaria Municipal do Verde e do Costa, representante do Fórum Brasileiro de Sobe-
Meio Ambiente; as aulas foram ministradas na Esco- rania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN)
la Municipal de Astrofísica. e técnica do Instituto Pólis; Alimentação Susten-
tável - Denise Haddad, consultora em alimentação
saudável, culinarista especializada em educação
274 | Ministrado por Solange Cavalcante da Silva Redolfi,
pedagoga e nutricionista, técnica da SVMA nas áreas de
ambiental; Sustentável é comer bem! Hum... co-
Educação Ambiental e Segurança Alimentar. mida de verdade, produzida com amor, cheirosa

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 153


e gostosa! - Maluh Barciotte, bióloga, mestre em Os temas abordados foram a sabedoria e filosofia
Biologia e doutora em Saúde Pública; A construção chinesa na alimentação e ainda o destaque em cada
da Política de Segurança Alimentar e Nutricional uma das estações do ano. As indicações e reflexão
Sustentável - SAN e a experiência do CRSANS - sobre uma alimentação e nutrição compatíveis e
Solange Cavalcante da Silva Redolfi, nutricionista e adequadas a estes ciclos e ainda vivências corporais
pedagoga, técnica da SVMA em Segurança Alimen- é a proposta de experimentação oferecida. O olhar
tar no CRSANS; Agricultura animal, meio ambiente e interior em sintonia com a natureza externa propicia
mudanças climáticas - Guilherme Carvalho, biólogo, a compreensão, respeito e integração mais positiva.
coordenador de Meio Ambiente na SVB (Sociedade
Outras racionalidades médicas com abordagem in-
Vegetariana Brasileira); Alimentação e Arte: história
e poesia – Suely Feldman Bassi, psicóloga e nutri- tegrativa foram também oferecidas, no sentido de
cionista, docente da UMAPAZ. expandir o leque de alternativas, o que se prevê que
tenha continuidade nesta perspectiva de diversidade
A proposta do ciclo foi abordar diferentes aspectos de escolhas e autonomia.
do tema, com o objetivo de reflexão e diálogo na
perspectiva de uma alimentação compatível com o
momento atual, em busca da sustentabilidade e do 4.1 Outras atividades desenvolvidas
prazer de comer e conviver. Cerca de 60 pessoas es- No início do ano de 2012 no mês de fevereiro a Uma-
tiveram presentes refletindo e trocando informações paz promoveu o Ciclo de Palestras: Rio + 20 Sam-
na busca de caminhos de ação a nível individual e pa, com o objetivo de colocar em pauta importan-
coletivo. tes temas que seriam abordados no evento no Rio
Foram elaboradas ainda palestras em alimentação de Janeiro, como uma oportunidade de discussão
e saúde segundo a sabedoria chinesa buscando ofe- e preparação para tal atividade. Como um tema de
recer vivências e informações para o cuidado com o importância fundamental, nesta ocasião a reflexão
próprio corpo de acordo com os ciclos da natureza. teve o enfoque: Alimentação e Saúde: Um Novo Olhar
O estudo desta racionalidade integrativa visa uma Sobre o Prazer de Comer e Conviver276 onde pudemos
oportunidade de observação das mudanças internas dialogar e pesquisar novas abordagens e olhares na
e externas que nos apresentam as transformações conjunção da alimentação com a saúde conferindo
de estações e assim contribuir com maior equilíbrio suas intrínsecas relações e consequências para o
na saúde e sintonia com a natureza, aspecto enfati- bem estar e convívio humano, com ênfase nas esco-
zado nesta sabedoria tradicional. lhas que fazemos e possibilidades e limites de nossa
As vivências têm ocorrido com grupos de cerca de autonomia.
40 pessoas de diversas faixas etárias e ocupação; Outra oportunidade de reflexão foi proposta com a
pode-se constatar o interesse em uma qualidade de palestra: Agrotóxicos: riscos à saúde social e am-
vida e saúde mais adequada aos desafios que convi- biental como início de um ciclo de palestras com o
vemos em nossa cidade, a nível individual e coletivo; tema: Alimentação e Saúde: o que comemos? Minis-
a busca pela multiplicação das informações em seus trado também por Maluh Barciotte.
locais de trabalho indica um cuidado para além de
um olhar individual, com ação conjunta com as ou-
conhecimento com práticas corporais e Maria Ângela
tras pessoas.
Azevedo, psicóloga, professora e facilitadora de vivên-
Estas atividades são realizadas em parceria com cias com práticas corporais e meditação.
profissionais da Secretaria Municipal da Saúde275. 276 | Ministrada por Maluh Barciotte, bióloga, mestre em
Biologia e doutora em Saúde Pública e Tatiana Cardoso,
275 | Ministradas por Marta da Cunha Pereira, nutricio- Chef de cozinha e sócia do restaurante natural Moinho
nista e fitoterapeuta, facilitadora de vivências de auto- de Pedra e do Natural com Arte.

154
Este primeiro tema buscou propiciar a reflexão e di- bilidades de ação para um número cada vez maior
álogo sobre as questões alimentares, a saúde pes- de profissionais e pessoas em geral que buscam es-
soal e a saúde pública, a sustentabilidade social e colhas mais sustentáveis, ampliando o conceito de
ambiental. Considerou a oportunidade de refletir so- uma alimentação saudável que vai além da simples
bre como as decisões cotidianas de consumo, refe- ingestão de nutrientes, estando presente em um
rentes à alimentação, podem gerar grande impacto contexto mais amplo que deve levar em conta outros
ambiental, especialmente nos centros urbanos, que aspectos inerentes ao ato de alimentar-se.
não produzem alimentos, mas os importam de ou-
Outra parceria bem sucedida é com a SVB – Socieda-
tras regiões próximas ou distantes, além do impacto
de Vegetariana Brasileira que, com a Secretaria do
na saúde das pessoas e, por consequência, no custo
Verde e Meio Ambiente, lançou a Campanha Segunda
social da saúde.
Sem Carne, com o propósito de incentivar as pesso-
Para aprofundar a análise, diálogo e reflexão destes as a repensarem sua alimentação, com a ampliação
importantes temas, a facilitadora seguiu realizando do repertório de alimentos e preparações no cardá-
o curso intitulado Consumo responsável, escolhas pio, gerando benefícios à saúde do planeta e à saúde
alimentares e saúde pública - autonomia e novos individual. Foram realizadas palestras mensais que
padrões de produção, preparo e consumo, que teve abordaram o tema oferecendo conhecimentos práti-
como objetivo abordar de que forma o comporta- cos e teóricos para favorecer uma maior conscienti-
mento de consumo tem impacto na saúde ambien- zação para as pessoas interessadas poderem optar
tal e na saúde individual. Refletir ainda sobre como por este tipo de alimentação com mais segurança.
as nossas escolhas de hoje definem, inclusive, qual A apresentação da campanha em seu endereço ele-
será a disponibilidade de água e alimentos para as trônico elucida: “A Campanha Segunda Sem Carne
futuras gerações, e ainda os custos sociais e indivi- se propõe a conscientizar as pessoas sobre os im-
duais importantes, considerando os gastos com saú- pactos que o uso de carne para alimentação tem so-
de pelas famílias e pela sociedade e, especialmente, bre o meio ambiente, a saúde humana e os animais,
sofrimentos evitáveis para os indivíduos. convidando-as a tirar a carne do prato pelo menos
uma vez por semana e a descobrir novos sabores”.
A equipe participou também de palestras277 em
A partir desta proposição, dados importantes nesta
eventos realizados em outros locais, tais como o I
abordagem são revelados possibilitando uma cons-
Festival de Gastronomia Orgânica de São Paulo, com
ciência maior em relação aos benefícios que oferece.
o tema Sustentabilidade e Vegetarianismo, realiza-
A diminuição da produção e consumo deste tipo de
do em novembro de 2010, onde dialogou sobre o en-
alimento favorece as diversas instâncias apontadas
foque da alimentação orgânica e o vegetarianismo
e pode contribuir de forma notória para a saúde hu-
com diversas instituições e profissionais que traba-
mana e planetária. Os eventos, palestras e oficinas
lham com esta proposta, apresentando o trabalho
oferecidas objetivaram este esclarecimento, nem
que desenvolvemos; e o Ciclo de Palestras Para viver
sempre claro para as pessoas.
de bem com o planeta realizado no Centro de Con-
trole de Zoonoses da Secretaria Municipal da Saúde Uma das palestras realizadas na UMAPAZ em par-
onde foi apresentado o tema Alimentação Saudável ceria com a Sociedade Vegetariana Brasileira, no 3º
em outubro de 2011. Salão Vegetariano, foi com a professora Ana Bran-
co278, em maio de 2010, com a apresentação da pes-
Estas iniciativas proporcionam excelentes oportuni-
dades de troca de informação e expansão de possi- 278 | Ana Maria Branco é Professora do Departamento
de Artes e Design da PUC – Rio e Pesquisadora do dese-
277 | Ministradas por Suely Feldman Bassi, nutricionista nho com Modelos Vivos - Laboratório de Living Design;
e psicóloga, docente da Umapaz. Coordena a Convivência com o Biochip, Grupo Aberto de

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 155


quisa Convivência com o Biochip com demonstração concebida e universal, pois deve respeitar alguns
de germinação de sementes e extração de clorofi- atributos individuais e coletivos específicos impossí-
la para produção de suco. Foram apresentados os veis de serem quantificados de maneira prescritiva.
passos para a elaboração do suco com degustação Afirma que o esforço caminha no sentido de identifi-
para cerca de 80 participantes. A pesquisa Biochip cação de alguns princípios básicos que devem reger
encontra ressonância e analogia com a prática da a relação entre as práticas alimentares e a promo-
Agricultura Ecológica : “Biochip é um grupo aberto ção da saúde e a prevenção de doenças. E assinala:
de estudo, pesquisa e desenho, que investiga as co-
“Uma vez que a alimentação se dá em função
res e a recuperação das informações presentes nos
do consumo de alimentos e não de nutrientes,
modelos vivos: hortaliças, sementes e frutos”. (PUC
uma alimentação saudável deve estar basea-
– Rio – Departamento de Artes e Design)
da em práticas alimentares que tenham signi-
ficado social e cultural. Os alimentos têm gos-
5. Abordagem integrada to, cor, forma, aroma e textura e todos esses
Uma abordagem integrada em um tema complexo componentes precisam ser considerados na
como Alimentação deve ser considerada para pro- abordagem nutricional. Os nutrientes são im-
porcionar efeitos positivos e significativos, não só no portantes; contudo, os alimentos não podem
combate de doenças, mas sim na promoção da saú- ser resumidos a veículos deles, pois agregam
de dos indivíduos e do meio ambiente. A oportunida- significações culturais, comportamentais e
de de trabalhar diversos prismas é fundamental para afetivas singulares que jamais podem ser des-
uma expansão da consciência de nossa relação com prezadas. Portanto, o alimento como fonte de
o alimento, no que se refere à saúde, prazer, convívio prazer e identidade cultural e familiar também
e cuidado com o meio ambiente. é uma abordagem necessária para promoção
da saúde”. (BRASIL, 2006, p. 15).
O Guia Alimentar para a População Brasileira apre-
senta em sua introdução dois pensamentos antigos Os trabalhos mais recentes no campo da antropolo-
e importantes como referencial teórico: “Deixe que gia e história referentes ao tema da alimentação, re-
a alimentação seja o seu remédio e o remédio a sua tratam sua evolução no tempo, enfatizando a forma
alimentação” (Hipócrates) e “O destino das nações como os diversos povos sistematizaram, adequaram
depende daquilo e de como as pessoas se alimen- e evoluíram na sua relação com o alimento segundo
tam” (Brillat-Savarin, 1825). E a seguir acrescenta: as condições que se apresentavam em sua trajetó-
“Afirmações como estas que remontam a centenas ria, como o clima, geografia, e ainda aspectos sim-
de anos já atestavam a relação vital entre a alimen- bólicos, religiosos, crenças e outros que se cruzam
tação e a saúde”. (BRASIL, 2006, p. 15). Com o ob- na configuração da alimentação humana. Períodos
jetivo de ser uma referência para a alimentação em de abundância, escassez, forma de armazenamen-
nosso país, o Guia esclarece que abordada as ques- to e transporte, até chegar às múltiplas ofertas e
tões necessárias, em termos de base conceitual, so- possibilidades que são oferecidas pela comunicação
bre o que é uma alimentação saudável e a forma ou globalizada.
proposta para alcançá-la no cotidiano, mas alerta A abordagem a uma alimentação saudável e susten-
que esta não deve ser vista como uma receita pré- tável deve levar em conta os inúmeros e entrelaça-
Estudo, Pesquisa e Desenho com Modelos Vivos da dis- dos aspectos que a compõem, para vislumbrar cami-
ciplina Convivências do Departamento de Artes e o La- nhos compatíveis com a realidade vivenciada pelos
boratório Itinerante de Pesquisa do Aprendizado – que
vem sendo utilizado durante as viagens de divulgação
indivíduos e grupos humanos. É fundamental levar
pelo Brasil da pesquisa Convivência com o Biochip. em conta todos estes fatores quando a referência é

156
a busca da sustentabilidade em uma sociedade glo- encontros e trocas enriquecedoras para os partici-
balizada e com infinitas informações cada vez mais pantes e educadores.
disponíveis, que favoreçam decisões e escolhas.
Um dos princípios destacados no Guia Alimentar se 6. Resultados
refere à Sustentabilidade Ambiental, onde assume o A participação nas atividades que envolvem a temá-
enfoque de tica de Alimentação tem sido bastante expressiva e
“claro incentivo ao consumo de alimentos com retornos muito positivos, no que se refere ao
nas formas mais naturais e produzidos lo- aproveitamento, multiplicação do aprendizado e ca-
calmente e à valorização dos alimentos re- minhos de ação a partir dos conteúdos vivenciados.
gionais e da produção familiar e da cultura Podemos perceber nas afirmações de intenção ainda
alimentar, além de estimular mudanças de anteriores à participação nas atividades, objetivos
hábitos alimentares para a redução do risco claros de busca de alternativas no caminho de uma
de ocorrência de doenças, valoriza a produ- melhor qualidade de vida para si, família, ambiente
ção e o processamento de alimentos com o escolar, e ainda a percepção de relações intrínsecas
uso de recursos e tecnologias ambientalmen- com escolhas que possam favorecer a sustentabili-
te sustentáveis. Atualmente se reconhece dade futura. O índice de participação em todo o per-
como prioritária a produção de alimentos que curso dos cursos, assim como o desejo de prossegui-
fomente e garanta a Segurança Alimentar e mento, refletem essa inserção e compromisso com
Nutricional nacional, mas se reconhece como os próprios grupos pela formação de redes de trocas
igualmente prioritário o uso da terra e da de informações que prosseguem além da carga ho-
água, de forma ecologicamente sustentável rária proporcionada, dinamizando as possibilidades
e com impactos sociais e ambientais positi- de convívio e ação.
vos”. (BRASIL, 2006, p. 33).
Conforme já assinalado, constatamos grande pro-
Outros enfoques são ainda ressaltados o que expõe cura pelas atividades oferecidas, não sendo pos-
a complexidade na abordagem do tema e a necessi- sível acolher toda a demanda de participação, o
dade de atenção a todos os aspectos relacionados, que buscamos corresponder com novas turmas e
para que se apresentem alternativas compatíveis possivelmente novos locais para contemplar essa
com as diversas realidades em nosso país, em sua solicitação.
configuração cultural, disponibilidade, produção,
transporte, armazenamento, crenças e hábitos. Através da avaliação final de curso, podemos veri-
ficar a forma como assimilaram os conteúdos/vi-
Assim como a crescente oferta de informações, o de- vências e também como imaginam continuar essa
safio também é grande ao trabalhar com a proposta ação a partir do que relatam em seus comentários
de educação. Mas este é o caminho e cada vez mais e sugestões.
se percebe a busca das pessoas para uma melhor
compreensão e decisão. A ação coletiva favorece o Em uma das perguntas: “Que importância tem este
encontro e a abertura a que se propõem. tema no seu cotidiano?” apresentamos algumas
afirmações.
Apesar de ainda no início da oferta de atividades, o
retorno que observamos é significativo. Organiza- Curso Alimentação Sustentável
mos e relatamos alguns dados para melhor com- “De grande importância no meu dia a dia,
preender o que trilhamos e elaborar e encaminhar tanto na melhoria da minha própria alimen-
as atividades futuras. Constatamos um percurso de tação como na aplicação de projetos’; “Ex-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 157


trema importância, pois estamos vivendo Em outra questão: “A partir deste curso, o que pre-
um momento de colaboração global com a tende modificar ou aplicar na sua vida?”, assinala-
natureza”;“Tem importância para minha saú- mos algumas afirmações:
de e orientação para meus pacientes, amigos Curso Alimentação Sustentável
e familiares”;“Fundamental, pois acredito que
precisamos mudar urgentemente nossa ali- “Pretendo distribuir esse aprendizado”; “Já
mentação para melhorar nossa qualidade de estou adaptando a minha vida!”; “Modificar
vida”; “Qualidade de vida, formação pessoal meus hábitos alimentares e dos meus familia-
e profissional”; “Trabalho com alimentação res e amigos, mudou minha visão alimentar e
dos meus alunos e o tema veio a acrescentar da natureza”; “A consciência de uma alimen-
tação saudável”; “Já estou aplicando todo o
muito”.
aprendizado na minha vida, inclusive a educa-
Curso Segurança Alimentar e Nutricional – direito ou ção ambiental”; “Modificar hábitos alimenta-
escolha? res, rever formas de consumo”.
“Considero bastante relevante, uma vez que o Curso Segurança Alimentar e Nutricional – direito ou
tema alimentação é inerente ao nosso cotidia- escolha?
no, e, apesar disso, pode ser negligenciado. O
“Aplicar os conhecimentos aprendidos”; “Pres-
curso promove a discussão e salienta a impor-
tar mais atenção na alimentação, na escolha,
tância de revermos conceitos e escolhas sobre
no preparo, no acesso aos alimentos”; “Muitas
o tema”;“O tema é de fundamental importân-
coisas novas aprendi. Hoje consigo comprar e
cia, pois aborda a alimentação como um todo,
preparar melhor a minha alimentação”; “Modi-
mostrando qual a nossa relação com o ato de ficar a minha própria alimentação e ter maio-
se alimentar, qual a importância de nos ali- res subsídios para poder defender esta ban-
mentarmos bem e que mesmo com as propa- deira junto às populações assistidas”; “Levar
gandas abusivas temos o direito de escolher o informações para a prática no dia a dia”.; “Há
que é melhor para a nossa saúde”;“Este curso vários conceitos interessantes que podem ser
deveria ser multiplicado por muitas pesso- aplicados e multiplicados”.
as por ser de grande interesse para a saúde
pública. Trabalhando em escola participo do
7. Perspectivas
acesso dos alunos ao alimento, garantindo
que todos tenham acesso visto que muitos O tema Alimentação apresenta-se, atualmente,
alunos fazem outra refeição além da servida como importante foco de investigação de alternati-
na escola”; “Eu trabalho como cozinheiro e é vas para solucionar ou minimizar grandes questões
de grande interesse saber sobre segurança que desafiam a humanidade na busca de sua sobre-
alimentar e nutricional. E para mim é mui- vivência, saúde, bem estar, prazer e convívio, aliando
to importante utilizar isso no meu cotidiano. a satisfação da necessidade básica com o desafio da
Aprendi muito sobre alimentação saudável”; produção, acesso e segurança, entre tantos outros
“Dar conhecimento para o meu dia a dia pes- fatores que permeiam a nossa alimentação, incluin-
soal, fazendo-me repensar meus hábitos e os do convivência e prazer.
familiares. Fez me conhecer o serviço traba- Escolha, autonomia, informação e decisões pauta-
lhado que é desenvolvido no MSP”; “Como nu- das nas inúmeras informações que são veiculadas,
tricionista o tema é fundamental para passar mas que nem sempre correspondem às possibilida-
adiante aos pacientes”. des do nosso dia a dia e que se transformam em uma

158
velocidade muitas vezes difícil de acompanhar, de- to; convivência harmônica e prazerosa no momento
vem ser refletidas e compartilhadas continuamente. da aquisição, preparação e da própria refeição, com
possibilidade de vivenciar os diversos elementos da
Por outro lado, cada vez mais se torna possível
nossa ação e compromisso com a sustentabilidade.
encontrar caminhos compatíveis e coerentes com
estes desafios de nossa rotina diária; não sem es- O retorno que nos chega através das avaliações dos
forço, dada à rapidez que as mesmas informações participantes é muito relevante para pautarmos o
apresentam, mas possíveis desde que possa haver nosso referencial, assim como as sugestões e trocas
um tempo ou espaço para troca de idéias, pesquisa e na própria dinâmica das atividades.
busca de coerência e percepção da teia que estamos
A perspectiva que remete é que precisamos prosse-
inseridos e na qual somos protagonistas; onde nos-
guir cada vez mais, buscarmos ainda mais oportuni-
sas ações revertem ao todo maior e deste voltando
dades de oferecer atividades como as já realizadas
a cada um de nós.
e também em parceria com outras secretarias do
Este sentimento de pertencimento na sociedade município, outras instituições e qualquer espaço que
pode aumentar uma vez que seja percebido o sig- seja favorável para a reflexão e diálogo.
nificado das ações de cada um em relação aos seus
Os desafios são inúmeros e as consequências de
efeitos no meio ambiente e em outros grupos sociais,
uma alimentação em desequilíbrio a nível individual
conectando as esferas local e global, o que poderia
e práticas que não favoreçam a sustentabilidade do
produzir sentimentos de cidadania mais fortes.
meio ambiente a todo o momento são evidentes. A
Por outro lado assistimos trabalhos desenvolvidos partir desta consciência, alternativas devem ser tri-
no sentido de promover a informação e conhecimen- lhadas na direção de melhores respostas na saúde e
to na direção de uma alimentação mais saudável em sustentabilidade individual e planetária.
instâncias educacionais buscando favorecer o públi-
co infantil a direcionar hábitos mais saudáveis desde
o ambiente escolar. Existem já esforços no sentido
de pactuar uma redução de elementos desfavoráveis
como, por exemplo, sódio e gorduras em excesso;
outros caminham no incentivo à própria participação
na elaboração e cultivo no próprio espaço escolar, o
que propicia a vivência concreta, com maior possibi-
lidade de sensibilização e incorporação de conceitos
pela própria participação.
A partir da preocupação presente pela constata-
ção do crescente índice de obesidade que indicado
pelas pesquisas realizadas pelos órgãos governa-
mentais, estas iniciativas tornam-se cada vez mais
frequentes, também com a produção de manuais de
orientação.
Nas atividades que desenvolvemos constatamos
que a troca pode ser exponencial e os caminhos se
multiplicarem seja em informações sobre benefícios
ou riscos do que consumimos; locais onde podemos
realizar compras com caráter mais sustentável e jus-

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 159


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Técnicos).
CARNEIRO, F. F et al.

160
PROGRAMA AVENTURA
AMBIENTAL NOS PARQUES
Angélica Berenice de Almeida279 e Thereza Christina Rosa280

Resumo Abstract
O Programa Aventura Ambiental no Parque Ibirapue- The Environmental Adventure Program in the Ibi-
ra nasce na UMAPAZ em 2006 e ocorre até a pre- rapuera Park in UMAPAZ born in 2006 and is to date,
sente data, com uma proposta de desenvolver uma with a proposal to develop an environmental educa-
atividade de educação ambiental com crianças das tion activity with children from the schools of São
Escolas de São Paulo. Considerando que o Parque Paulo. Whereas the Ibirapuera Park has a rich bio-
Ibirapuera tem uma rica biodiversidade e é uma das diversity and is one of the most important green ar-
mais importantes áreas verdes e de lazer da cidade, eas and leisure center, is a prime location to conduct
é um local privilegiado para realizar atividades rela- activities related to environmental education, which
cionadas à educação ambiental, que tem um papel has a key role in raising awareness about critical
fundamental para a sensibilização crítica quanto às environmental issues. Providing the change as a re-
questões ambientais. Propiciando como resultado a sult of man’s relationship with nature. This program
mudança da relação do homem com a natureza. Este contributes to UMAPAZ the purpose of meeting the
programa contribui para o propósito da UMAPAZ demand from all regions of São Paulo, from all age
atendendo a demanda de todas as regiões da cidade groups, raising awareness about environmental is-
de São Paulo, de todas as faixas etárias, sensibili- sues and culture of peace.
zando as pessoas sobre as questões socioambien- Keywords: Biodiversity, environmental adventure,
tais e de cultura de paz. urban parks
Palavras-chave: Biodiversidade, aventura ambien-
tal, parques urbanos

279 | Pedagoga, formuladora do Programa Aventura Ambiental no Parque do Ibirapuera, docente da UMAPAZ.
280 | Pedagoga, docente da UMAPAZ.

Aprendizagem socioambiental em livre percurso | A experiência da UMAPAZ 161


1. Introdução A educaçã