Você está na página 1de 20

Malandros e merdunchos sambam à sombra dos faraós embalsamados: a obra de

João Antônio entre o corpo a corpo com a vida e a luta corporal com a linguagem

FABRÍCIO DE ARAÚJO CESAR GONÇALVES


Área: Ciência da Literatura / Teoria Literária
Linha de pesquisa: Construção Crítica da Modernidade

Anteprojeto apresentado ao Programa de


Pós-Graduação em Ciência da Literatura
como requisito parcial para ingresso no
Curso de Doutorado.

Faculdade de Letras da UFRJ


2018
Malandros e merdunchos sambam à sombra dos faraós embalsamados: a obra de
João Antônio entre o corpo a corpo com a vida e a luta corporal com a linguagem

FABRÍCIO DE ARAÚJO CESAR GONÇALVES

Seleção de Doutorado
Área: Ciência da Literatura / Teoria Literária
Linha de pesquisa: Construção Crítica da Modernidade

Faculdade de Letras da UFRJ


2018
1. Introdução

Apenas em virtude dos desesperançados nos é concedida a esperança.

- Walter Benjamin, As Afinidades Eletivas de Goethe (1922)

Amar,
Um rádio de pilha,
Um fogão jacaré,
A marmita, o domingo, o bar
Onde tantos iguais se reúnem
Contando mentiras pra poder suportar
Ai, são pais de santo, paus de arara, são passistas,
São flagelados, pingentes, balconistas,
Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados,
Dançando, dormindo de olhos abertos
À sombra da alegoria dos
Faraós embalsamados.

- Aldir Blanc, O Rancho da Goiabada (música de João Bosco)

Meu único medo é passar pelas coisas e não vê-las.

- João Antônio, Jornal do Brasil, 12/01/1976

Duas frases lapidares abrem um texto de apresentação de Malagueta, Perus e


Bacanaço, escrito pelo próprio João Antônio: “Sobre o meu nome se poderão ouvir as
melhores e as piores coisas. Jamais acreditem.”1 Esse pequeno petardo verbal, com a
secura e crueza típicas da escrita do autor, pode ser tomado como uma síntese precisa da
trajetória de sua fortuna crítica. Além disso, se configura como uma paradoxal profecia,
pois o texto foi escrito ainda em 1963, ano de sua estreia no cenário da literatura nacional,
porém seria publicado apenas na 3ª edição do volume de contos, que veio a lume em
1980, ano em que a obra do escritor já começava a cair em um certo ostracismo.
Contudo, o ano de 1963 marcou uma estreia estrondosa para o jovem escritor.
Malagueta, Perus e Bacanaço, publicado pela prestigiosa editora Civilização Brasileira
quando o João Antônio contava somente 26 anos de idade, se torna quase uma
unanimidade crítica e ganha, além do Prêmio Fábio Prado conferido pela União Brasileira
de Escritores, dois Prêmios Jabutis: nas categorias de Revelação de Autor e Melhor Livro
de Contos. Como recorda Rodrigo Lacerda, em estudo crítico que serve de apresentação

1
ANTÔNIO, João, “De Malagueta, de Perus e de Bacanço”, in ANTÔNIO, João. Contos reunidos.
Apresentação de Rodrigo Lacerda. Ilustrações de Carlos Issa. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 569.
para volume de Contos Reunidos do escritor, esse “sucesso retumbante de crítica” deveu-
se, sobretudo, “graças à força e à sensibilidade do conjunto, e ao ímpeto de artesão do
jovem escritor”2, apesar da rede de relações literárias e editoriais que João Antônio vinha
cultivando desde o final da década de 1950.
Em geral, a recepção crítica imediata da obra do estreante se caracterizou por uma
dupla clivagem, pois, se por um lado “apontavam João Antônio como um porta-voz dos
marginais e dos marginalizados”, por outro “alçavam-no à condição de representante de
São Paulo na literatura”.3 A comparação com o modernista Alcântara Machado era
recorrente e quase automática nas resenhas, principalmente com os contos de Brás,
Bexiga e Barra Funda (1927). Muitos elementos estruturais presentes nos contos do autor
modernista de morte precoce pareciam autorizar o paralelo logo estabelecido por alguns
críticos – a ambiência das narrativas nos bairros populares habitados pelos imigrantes
italianos pobres de São Paulo, a inovação formal da narrativa (que se escorava em
influências do jornalismo moderno, quanto em técnicas cinematográficas, como a
montagem) e da linguagem literária, bebendo na fonte da inventividade da língua popular
e coloquial dos chamados carcamanos, em seu português popular hibridizado com o
italiano, buscando uma construção que trabalhasse literariamente essa fonte. A tripartição
do título do livro de estreia de João Antônio (Malagueta, Perus e Bacanaço) lembrava a
presente no de Alcântara Machado (Brás, Bexiga e Barra Funda). Porém, recusa
veementemente desde o início a “coroa de herdeiro”, pois “se julgava ‘menos anedótico’
e mais ‘de mergulho’”4
Após o enorme sucesso de seu primeiro livro, João Antônio publica um de seus
melhores contos, Paulinho Perna Torta, escrito como encomenda para integrar a
antologia publicada pela Civilização Brasileira, Os dez mandamentos, que coligia contos
de diversos autores. Paulinho Perna Torta - conto longo considerado por um crítico do

2
LACERDA, Rodrigo, “Ele está de volta”, in ANTÔNIO, João. Op. cit., p. 18.
3
Idem, p. 19.
4
Idem, ib. Na nota de rodapé da mesma página de seu estudo introdutório, Rodrigo Lacerda chama a
atenção, contudo, para o fato de que tal aproximação do autor estreante em relação à obra precocemente
interrompida do autor modernista é anterior ao lançamento de Malagueta, Perus e Bacanaço. A convite do
crítico Paulo Rónai, João Antônio havia escrito uma nota crítica sobre Novelas Paulistanas, de Alcântara
Machado, que saiu publicada na revista Comentário, em novembro de 1960. A comparação com o escritor
de Brás, Bexiga e Barra Funda continuaria acompanhando João Antônio ainda por alguns anos. Lacerda
faz referência a uma resenha publicada em O Estado de São Paulo, no ano de 1967, na qual o epíteto de
“Antônio da Alcântara Machado do bas-fond” é aplicado a João Antônio, com a ressalva de que, enquanto
o modernista seria um “escritor do dia”, o estreante seria “da noite”.
porte de Antonio Candido uma “obra-prima”5 -, seria republicado no livro seguinte do
autor, Leão de chácara, que viria a lume apenas em 1975.
Apesar do longo hiato de doze anos entre o lançamento de Malagueta, Perus e
Bacanaço (1963) e de Leão de Chácara (1975), seu segundo livro, João Antônio manteve
uma ativa presença na imprensa, publicando contos e inovando com a forma híbrida do
chamado conto-reportagem. Com o amplo sucesso de crítica de seu primeiro livro, e
graças à influência de alguns contatos intelectuais, jornalísticos e editoriais, como o de
Ênio da Silveira, dono da Editora Civilização Brasileira, o escritor estreante é alçado a
uma posição de prestígio na imprensa, mudando-se para o Rio de Janeiro e começando a
trabalhar no Jornal do Brasil. João Antônio permaneceria na cidade até a sua morte em
1996. A partir de então, começa um período de presença ativa e marcante na imprensa e
em projetos editoriais. Pouco depois da mudança de cidade, o autor é convidado para ter
uma coluna no jornal Última Hora. Após uma breve passagem pela revista Cláudia, João
Antônio chega em 1967 à redação da revista Realidade, onde o jovem escritor, segundo
uma formulação precisa de Rodrigo Lacerda, “completou a última etapa de
amadurecimento de seu projeto literário”6. A revista do grupo Abril era considerada,
apesar do Golpe Civil-Militar de 1964 que caminhava cada vez mais em direção ao
fechamento do regime e do recrudescimento da repressão, “um oásis de liberdade”, pois
“reunia uma elite de jornalistas e adotava propostas bastante modernas e ousadas, tanto
na parte gráfica e na seleção das pautas quanto na confecção de textos”7.
Naquele momento, “os ventos do Novo Jornalismo americano começavam a bater
no Brasil”8, o que trouxe uma abertura da prática do fazer jornalístico aos recursos da
escrita literária e, no caso de João Antônio, um processo de hibridização que resultaria
nas formas literárias que passariam a ser típicas de sua obra, em “formatos de um
intrigante caráter mutável – contos-crônica, contos-paisagem, crônicas-retrato, contos-
reportagem, entre outras variações combinatórias”9 No final da década, com o
fechamento do regime, o escritor passa a contribuir assiduamente com os novos jornais

5
Candido diz literalmente: “sua obra-prima (e obra-prima em nossa ficção) é o conto longo Paulinho perna
torta, de 1965. Nele parece realizar-se de maneira privilegiada a aspiração a uma prosa aderente a todos os
níveis de realidade, graças ao fluxo do monólogo, à gíria, à abolição das diferenças entre falado e escrito,
ao ritmo galopante da escrita, que acerta o passo com o pensamento para mostrar de maneira brutal a vida
do crime e da prostituição.” (Antonio Candido, “A nova narrativa”, in CANDIDO, Antonio. A educação
pela noite. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006. p. 255)
6
LACERDA, Rodrigo. Op. cit., p. 26.
7
Idem, p. 25.
8
Idem, p. 23.
9
Idem, p. 15.
que fizeram o sucesso da chamada “imprensa nanica” (expressão cunhada por ele): O
Pasquim, Movimento, entre outras publicações.
A experiência desses dozes anos de trabalho jornalístico e literário na imprensa
resultaria em Leão de chácara (1975), onde o estilo maduro do autor, sem deixar as
marcas temáticas e formais do livro de estreia, seria “submetido à avaliação dos
especialistas, e não apenas aos leitores de jornais e revistas”10 O jovem escritor passou
novamente pelo crivo da crítica e do público, seu sucesso e prestígio se consolidam e, a
partir do segundo livro de contos, sua produção literária se sucede em ritmo alucinante na
segunda metade da década de 1970 e início da década de 1980. Nesse período, o de maior
produtividade do autor, são publicados oito volumes, muitos deles esgotando-se em
poucos meses: Malhação do Judas Carioca (1975), Casa de Loucos (1976), Calvário e
porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto (1977), Lambões de caçarola
(1977), Ô, Copacabana (1978), Noel Rosa: literatura comentada (1981) e Dedo-duro
(1982).
Como lembra Rodrigo Lacerda, com acerto, nesse período dá-se a consagração
definitiva do autor, a que se seguiria um outro de duro ostracismo de difícil digestão por
parte do escritor, entre os anos 1980 e a sua morte em 1996. Os motivos da ascensão da
obra a partir de 1975, conforme sublinha o crítico, são resultantes de uma conjunção de
fatores diversos. Em primeiro lugar, Leão de chácara, o segundo livro publicado após um
jejum de doze anos, e depois da explosão e surpresa causadas por Malagueta, Perus e
Bacanaço (apesar do autor ter se mantido ativo na imprensa durante o período),
confirmou-se que João Antônio era um autor substantivo que inaugurava um estilo e uma
temática novos naquele contexto, além de confirmar um domínio narrativo, formal e de
linguagem que não fora apenas uma novidade passageira. O escritor reafirma e consolida
nesse período de intensidade criativa a sua opção literária de narrar a partir da perspectiva
daqueles que ele batizaria de “pingentes urbanos” ou “merdunchos”, uma gama de
personagens “migrantes, mestiços, malandros, trabalhadores informais, soldados,
operários”:11

(...) uma característica formal que demonstra uma adesão total a esse universo
de seres desgarrados narrado nos contos: as histórias são dadas a partir da voz
dos próprios personagens que protagonizam os acontecimentos, o que introduz
o leitor nas franjas da sociedade, em um mundo da noite, habitado por

10
LACERDA, Rodrigo. Op. cit., p. 29.
11
PERES, Elena Pajero, “Cantos e recantos urbanos na literatura de João Antônio”, in Revista de História,
São Paulo, n. 164, jan./jun. 2011. p. 319.
“marafonas, bandidetes, travestidos, jogadores, gente da noite, da polícia,
picaretas”, enfim, “gente descarrilada” a qual é enfocada a partir de seus
próprios olhos e definida por suas próprias palavras. Ausenta-se, portanto, o
olhar “de fora”, o qual por certo redundaria em piedade ou desprezo por esses
seres da margem.12

Essa opção narrativa que se consolida na produção e publicação vertiginosas do


escritor ao longo da segunda metade da década de 1970, constituiu a principal
característica da sua obra, como sublinhou Antonio Candido em artigo publicado em O
Estado de S. Paulo, no ano de 1996, por ocasião da morte de João Antônio:

Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de “dar


voz”, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes sociais
e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que
de outro modo não poderia ser verificada. Isso é possível quando o escritor,
como João Antônio sabe esposar a intimidade, a essência daqueles que a
sociedade marginaliza, pois ele faz com que existam, acima de sua triste
realidade. (...) ele é um verdadeiro descobridor, ao desvendar o drama dos
deserdados que fervilham no submundo; dos que vivem das lambujens da vida
e ele traz com a força da sua arte ao nível da nossa consciência(...). Sob este
aspecto, João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o
que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma
linguagem que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada,
mas na verdade se torna língua geral dos homens, por ser fruto de uma
estilização eficiente.13

Não apenas a escolha temática, mas, sobretudo, o tratamento formal dado à


linguagem literária de suas narrativas é o que consolidou a posição do escritor diante da
crítica. Nesse sentido, a observação de Antonio Candido, comparando-o a Guimarães
Rosa, é digna de nota. Desde antes da publicação do primeiro volume de contos, a questão
da forma, da linguagem literária a ser adotada, era um ponto central do projeto de escrita
de João Antônio. Em carta à escritora Ilka Brunhilde, datada de 27 de janeiro de 1962, o
autor coloca como ponto fundamental a busca por uma linguagem que traduzisse o drama
dos “pingentes urbanos” que ele procurava retratar em sua literatura:

Tenho feito sondagens e pesquisas, que talvez me levem ao entendimento do


“porquê” e “como” não possuímos ainda uma literatura paulistana tão definida
quanto e como a nordestina. E eu hei de descobrir o “porquê”! Alcancei
algumas conclusões parciais e continuáveis – a ausência de uma linguagem
paulistana, especialmente, e o desconhecimento, por parte dos escritores, do
homem paulistano (a meu ver, muito mais rico humana e espiritualmente, mais
sofrido e dramático que quaisquer outros tipos brasileiros – e pelas mesmas
razões, muitíssimo mais difícil e arisco e inacessível, literariamente). Homem
difícil, fragmentado, prisioneiro de uma cidade de que em geral não gosta.
(...)Vou lhe confessar que Malagueta, Perus e Bacanaço, cuja refatura está me

12
MACEDO, Tânia, “Malandros e merdunchos”, in ANTÔNIO, João. Op. cit., p. 585.
13
CANDIDO, Antonio, “Na noite enxovalhada”, in ANTÔNIO, João. Op. cit., pp. 581-82. Grifo nosso.
consumindo, é uma tentativa de encontrar uma linguagem paulistana de
determinado grupo. Acredito, até agora, que se eu partir de um
conhecimento verdadeiro do homem que vou trabalhar, das suas formas
de comportamento aparente e inaparente, encontrarei a sua linguagem,
literariamente. (...)14

Embora na carta a sua amiga escritora, João Antônio explicite textualmente a


procura por uma “linguagem paulista de determinado grupo”, já que seus primeiros
contos se ambientam todos na cidade de São Paulo, o que levou inclusive à comparação
com a obra de Alcântara Machado, o escritor logo em seguida mudou-se para o Rio e
continuou a enfocar em suas narrativas o mesmo grupo social, buscando uma linguagem
literária, uma forma narrativa, que desse conta da realidades de seus “malandros e
merdunchos”, agora deslocada de cenário exclusivamente paulistano.
E quem eram os seus personagens? No livro Casa de Loucos (1976), João Antônio
procura dar uma definição: “não são bem os bandidos, não são bem os marginais, são uns
pés de chinelo, o pé-rapado, o zé-mané, o eira sem beira, o merduncho.” O escritor assume
um projeto literário que procura por no centro da representação literária uma camada de
subproletários que integram uma vasta camada de marginalidade urbana que passa a se
formar nas cidades brasileiras, principalmente após o fim da Segunda Guerra Mundial15.
Nesse ponto, é importante atentar para o fato de que a obra de João Antônio surge
e se desenvolve profundamente enraizada no contexto social, cultural e histórico da
realidade nacional. A passagem da década de 1950 para a de 1960 será profundamente
marcada por um processo acelerado de urbanização no Brasil. Seus reflexos na vida social
das cidades e nos debates culturais da época são evidentes. Nesse período, a renovação
artística brasileira dentro desse processo. Filmes como Rio 40 graus (1955) e Rio Zona
Norte (1957), do cineasta Nelson Pereira dos Santos, considerados precursores do Cinema
Novo, são exemplos de uma preocupação estética que se volta para a representação
artística das camadas populares urbanas.
Outro sintoma da efervescência desse momento cultural no país é o surgimento
do CPC (Centro Popular de Cultura), ligado à UNE (União Nacional dos Estudantes), em

14
Carta a Ilka Brunhilde Laurito, de 27/01/1962. Apud LACERDA, Rodrigo. Op. cit., p. 22. Grifo nosso.
15
Em livro publicado em 1975, o sociólogo Lúcio Kowarick procura caracterizar esse fenômeno típico das
realidades urbanas das sociedades periféricas latino-americanas do pós-guerra: “Na América Latina, foi
fundamentalmente após a Segunda Guerra Mundial que a marginalidade urbana apareceu como problema
teórico e prático. Na medida em que o ritmo da urbanização se acentuava devido à intensificação das
migrações internas, as populações migrantes passaram a se localizar na periferia ou nas áreas decadentes
das grandes metrópoles, dando origem ao que se denominou bairros marginais. (...)” (KOWARICK, Lúcio.
Capitalismo e Marginalidade na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975. p. 13).
1962, congregando intelectuais e artistas como os dramaturgos Oduvaldo Viana Filho e
Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Pontes, os cineasta Leon Hirszman e Cacá Diegues, os
compositores Carlos Lyra, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, o poeta e escritor
Ferreira Gullar, entre outros nomes de importância da intelectualidade nacional. É a esse
processo amplo a que pertence organicamente a obra literária de João Antônio.

2. Pressupostos teóricos

A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

O carnaval no Rio é o acontecimento da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A
formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.

- Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924)

O debate estético das décadas de 1960 e 1970, oscilando entre a defesa da pesquisa
formal e a necessidade de uma consciência social do artista, teve, talvez uma de suas
traduções mais sintomáticas na obra Vanguarda e Subdesenvolvimento, do poeta e
escritor Ferreira Gullar. Apesar de profundamente marcada por questões e debates
teóricos feitos no calor do momento, a obra de Gullar ainda é um documento
incontornável para se compreender concretamente as questões candentes que agitavam o
debate artístico daquele momento. Publicada originalmente em 1969, a obra seria
republicada em 1978, com um prefácio do autor, em cuja primeira frase se encontra
sintetizada o questionamento que se desenvolve verticalmente nos ensaios: “Um conceito
de ‘vanguarda’ estética, válido na Europa ou nos Estados Unidos, terá igual validez num
país subdesenvolvido como o Brasil?”16
Gullar aponta em diversos momentos para uma importação “artificial” de certos
esquemas formais das vanguardas estrangeiras por certos movimentos artísticos
brasileiros (o principal interlocutor do poeta no livro é o Movimento Concretista dos
irmão Campos e de Décio Pignatari), uma tradução desligada da “problemática nacional
ou cultural, da época em que viveram e criaram” certos autores caros aos concretistas,
como, por exemplo, Ezra Pound e James Joyce. Sobretudo, esse era considerado um
processo de importação artificial por “apresentar o curso da arte como um

16
GULLAR, Ferreira. Vanguarda e subdesenvolvimento. 2ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1978. p. 17.
desenvolvimento linear, fatal e historicamente incondicionado”, “como se o processo
artístico constituísse uma história à parte, desligada da história geral dos homens”.
Mesmo Oswald de Andrade, personagem central do Modernismo brasileiro
evocado pelo Concretismo como figura prototípica da pesquisa formal na tradição
literária brasileira, era, segundo a argumentação de Gullar, “desnaturalizado”, pois
operava-se uma “seleção dentro da seleção”, através da qual “as obras e os autores eram
reduzidos a aspectos estritos, exclusivamente àqueles que interessavam à conceituação de
‘vanguarda’, ignorando-se a evolução e a transformação da obra no curso do tempo”.
Especificamente sobre a incidência dessa operação de recorte sobre a obra de Oswald,
ressalta Gullar:

(...) De fato, se se pretende demonstrar que a poesia caminhou inevitavelmente


para os esquemas concretistas, torna-se difícil explicar, por exemplo, que
Oswald de Andrade tenha, ele próprio, abandonado o caminho formalista,
depois de 1929, para afirmar a necessidade do engajamento político. Faz-se
silêncio sobre isso e se apresenta o Oswald da época “modernista” como um
argumento a mais do formalismo. Isso, sem se levar em conta que mesmo
naquela fase Oswald jamais se desligou da realidade brasileira e jamais se
entregou a exercícios puros de linguagem.17

A observação final do poeta no trecho citado é fundamental, pois, como ressaltam


alguns estudiosos mais recentes do Modernismo brasileiro, entre eles o crítico espanhol
Eduardo Subirats, o projeto oswaldiano de renovação das formas literárias brasileiras,
sobretudo o defendido no Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) e no Manifesto
Antropófago (1928), não se tratou de uma simples transposição mecânica e artificial dos
achados formais das vanguardas europeias do começo do século XX:

A crítica europeia e eurocêntrica considerou o Movimento Antropofágico um


rebento do futurismo e do surrealismo das primeiras décadas do século XX,
algo assim como uma tradução das vanguardas francesas e italiana para um
português com sotaque tropical selvagem. Com certeza, as influências – em
geral mútuas, embora raramente reconhecidas – entre as vanguardas das ex-
metrópoles e das pós-colônias são variadas e coloridas. Contudo, precisamente
em seus aspectos mais radicais, a visão filosófica e política e a concepção de
cultura de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral devem ser lidas, ao
contrário, como o extremo oposto do culto futurista da máquina e do
industrialismo, bem como da escatologia surrealista dos simulacros e de sua
promessa de redenção virtual. Paradoxal e ironicamente, o que os surrealistas
punham em cena como uma ruptura com os valores do moderno capitalismo
industrial e da tradição clássica europeia, Oswald de Andrade encontrava sem
maiores esforços e em significativa abundância entre as ruínas e os tesouros
esquecidos do passado das civilizações históricas da América. Também a

17
GULLAR, Ferreira. Op.cit., pp. 17-18. Grifo nosso.
defesa futurista do novo se convertia, no Movimento Antropofágico, em seu
oposto: no reconhecimento das culturas populares brasileiras. (...) 18

A obra de João Antônio não se situa completamente à margem desse debate


teórico, estético e político de fundo que se desenrola ao longo dos anos 1960 e 1970 no
contexto da cultura brasileira. Muito pelo contrário.
Há um texto escrito por João Antônio 1975, que seria republicado no mesmo ano
no livro Malhação do Judas carioca, intitulado Corpo a corpo com a vida, em que o autor
desenvolve os principais pontos de seu “programa estético” ou de sua “poética literária”.
Embora não tenha a forma de um manifesto, semelhando mais a uma espécie de confissão
ou profissão de fé redigida em tom despojado, esse texto é considerado pelos estudiosos
do autor fundamental para que se compreenda adequadamente os principais pontos do
projeto literário desenvolvido ao longo de sua obra. Já nos três parágrafos iniciais é
possível compreender as principais questões sobre as quais se articularão tanto a
realização de sua obra quanto as polêmicas que sustentará na imprensa, através de
depoimentos e entrevistas:

A maioria dos depoimentos que tenho lido me parecem testemunhos de uma


época em que quase todos estão preocupados com o acessório, o
complementar, o supérfluo, ficando esquecido o fundamental, o essencial.
Assim, grande parte dos escritores que depõem hoje sustenta preocupação
vinculada à forma, sob a denominação de um “ismo” qualquer. Lamentável ou
incrível. As posições beletristas não mudaram entre nós, sequer um milímetro,
nos últimos quinze anos.
Mas é de uma simplicidade alarmante. O distanciamento absurdo do escritor
diante de certas faixas da vida deste país só se explica pela sua colocação
absurda perante a própria vida. Nossa severa obediência às modas e aos
“ismos”, a gula pelo texto brilhoso, pelos efeitos de estilo, pelo salamaleque e
flosô espiritual, ainda vai muito acesa. Tudo isso se denuncia como o
resultado de uma cultura precariamente importada e pior ainda
absorvida, aproveitada, adaptada. Como na vida, o escritor vai tendo um
comportamento típico da classe média – gasta mais do que consome, consome
mais do que assimila, assimila menos do que necessita. Finalmente, um
comportamento predatório em todos os sentidos.
O de que carecemos, em essência, é o levantamento de realidades
brasileiras, vista de dentro para fora. Necessidade de que assumamos o
compromisso com o fato de escrever sem nos distanciarmos do povo e da terra.
O que é diferente de publicar livros, e muito. Daí saltarem dois flagrantes
vergonhosos – o nosso distanciamento de uma literatura que reflita a vida
brasileira, o futebol, a umbanda, a vida operária e fabril, o êxodo rural, a
habitação, a saúde, a vida policial, aquela faixa toda a que talvez se possa
chamar radiografias. E é devido a tal carência que de um lado, não temos
conteúdo, e de outro, nem temos forma brasileira. Pois que, a forma, resulta
de uma posição intelectualizada e fornece uma falsa estética, importada,

18
SUBIRATS, Eduardo. A Penúltima Visão do Paraíso: ensaios sobre memória e globalização. São Paulo:
Studio Nobel, 2001. pp. 95-96.
empostada, mal adquirida, sujeita a todas as ondas e sempre mal
digerida.19

Os trechos destacados nesses três primeiros parágrafos apontam para a questão de


fundo que move o depoimento de João Antônio. Em suas próprias palavras, vemos ser
colocado o debate entre estético, teórico e político que animou as décadas de 1960 e 1970
e que encontramos, por exemplo, na obra citada de Ferreira Gullar. Longe de negar a
necessidade de pensar a realização formal da escrita literária, o escritor denuncia o
artificialismo de formalismo de toda e qualquer moda estética “mal digerida”, ressoando
ainda que de maneira longínqua ou até mesmo inconsciente um debate que, por exemplo,
era colocado de maneira poética e irônica nos manifestos de Oswald de Andrade. Aliás,
o nome do modernista surpreende ao aparecer entre os exemplos que o autor dá em
seguida de autores brasileiros que sempre mantiveram o “compromisso com a coisa
brasileira, sem retoques, imposturas ou embelecos mentais”:

Tudo isso não deveria. Afinal, a literatura brasileira que ficou teve uma seiva,
antes de qualquer outra qualidade. Um compromisso com a coisa brasileira
sem retoques imposturas e embelecos mentais. A que ficou e que pode servir
de exemplo foi sempre produzida por uma atitude de caráter, de análise crítica
e crítica realista, de novas propostas, de atitudes modificadoras e renovadoras,
de denúncia, revelação e participação. Os escritores que ficaram, entre nós,
firmaram um compromisso sério com o fato social, com o povo e a terra –
Lima Barreto, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Oswald de Andrade,
Manuel Antônio de Almeida lá atrás.
Compreenderam uma verdade fundamental e descobriram a chave. Não é
possível produzir uma literatura de heróis taludos ou de grandiosidade
imponente, nem horizontal, nem vertical, na vida de um país cujo homem está,
por exemplo, comendo rapadura e mandioca à beira de estrada esperando
carona em algum pau-de-arara para o Sul, já que deve e precisa sobreviver.
Logo, tais grandezas quiquiriris, salve-salves e loas apologéticas tropeçam nas
próprias pernas e têm pernas curtas como a mentira. 20

Certamente a referência a Lima Barreto, ao contrário da feita a Oswald (que é


reiterada mais à frente no mesmo texto) não surpreende. A partir do seu segundo livro,
toda e qualquer obra publicada por João Antônio trazia uma dedicatória àquele que, sob
variações diversas, ele denominava como “pioneiro”, estabelecendo o escritor carioca que
se também debruçou sobre os estratos populares como uma espécie de precursor e
ancestral literário. Apesar disso, como apontou com muito acerto Rodrigo Lacerda, essa
identificação com Lima que se expressa em entrevistas e dedicatórias (ela inexistia na

19
ANTÔNIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaço incluindo Malhação do Judas Carioca. São Paulo:
Círculo do Livro, 1987. pp. 315-16. Grifo nosso.
20
Idem, pp. 316-17.
primeira edição de Malaguetas, Perus e Bacanço, de 1963, mas passa a estar presente em
todas as reedições do livro a partir de 1975) “parece, entretanto, restringir-se ao plano
ideológico e à presença da cidade do Rio de Janeiro em sua obra, pois, estilisticamente,
as diferenças são muito maiores do que as semelhanças”. E aqui parece fundamental
retomar a comparação, aparentemente despretensiosa, que Antonio Candido faz entre
João Antônio e João Guimarães Rosa, que foi destacada anteriormente:

João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o que


Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem
que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada, mas na verdade
se torna língua geral dos homens por ser fruto de uma estilização eficiente.21

Portanto, assim como no escritor mineiro a elaboração ficcional de uma


determinada realidade social está dialética e organicamente unida a uma pesquisa e
elaboração de uma linguagem literária nova, da mesma maneira em que se busca uma
forma narrativa em que “o universal cabe dentro do particular”22, segundo afirma o
próprio João Antônio em Corpo a corpo com a vida, e como é visível, por exemplo, logo
na abertura de Leão de chácara, primeiro conto do livro de mesmo nome:

O luminoso acende e, num golpe, fixa as oito letras do nome francês e isto
aqui, a que os otários e os espertinhos chamam de buate, está aberto na noite.
De olho em pé, aceso e bem. Que para essa gente afobadinha demais, metida a
ter vontade, mal-acostumada, fantasiada com seus leros e ondas, quase tudo é
folgança e prosa fiada. Ainda mais no começo da noite. E o pior é que o
movimento e o rumor, as idas e vindas, essa fricoteira toda, para esses caras
distraídos e de cabeça fria, é curtição.
- Faça o favor, doutor.
Curvo-me, estiro uma fineza, dou o lado direito ao cidadão e à madame. O gajo
finge me conhecer para fazer média com a dona e eu entro na dele. Meu
cumprimento é largo, igualmente cínico e conluiado. Abro a porta de madeira
falsamente antiga, trabalhada e de dourado. Com uma mesura, estendo o braço
e ponho para a casa o primeiro otário da noite.
A cambada é grande, folgada, pensando que a noite lhe pertence, ainda mais
aqui nestas casas da Zona Sul. O que vai me baixar pela frente não está em
nenhum caderno. O que vai pintar de trouxa, espertinho, pé-grande,
mocorongo do pé-lambuzado, muquira, bêbado amador, loque, cavalo-de-teta,
zé-mané dando bandeira, doutor de falsa fama, papagaio enfeitado,
quiquiriquis, langanhos, paíbas, não será fácil. Eu aturando, ô pedreira! Para
mim a noite vai ser de murro.
Na noite malhada e escrota, disciplinando mulheres, beliscando os otários,
distribuindo mesuras e apanhando grojas, picardo e sonso; mas também
molhando a mão dos ratos, que os arreglos são de lei, acabarei dando muitas
cerca-lourenço, muita piaba e bastante pau nessa cambada de fariseus,
sambudos e mal topados. Hoje é sexta-feira. E gajo solto nesta noite é falso

21
CANDIDO, Antonio. Op. cit., p. 582.
22
ANTÔNIO, João. Op. cit., p. 317.
boêmio, metido a alegre e sabidinho, achando que é algum manda-tudo na
cidade. Mordo-lhes uma grana, é verdade, mas me dão canseira.23

Ou mesmo numa forma híbrida entre o jornalismo e a narrativa, como o conto-


reportagem Cais, de Malhação do Judas carioca:

De longe em longe, uma locomotiva a óleo diesel apita, modorrenta, e vem


furando as luzes na zona do cais.
- Êpa!
Um menino branco se esforça, sobe do selim para o cano, mete os peitos contra
o guidão, que se enverga, equilibra a sacola na bicicleta e corta de fininho o
cais. Vai que vai embora. Está quase sozinho com as luzes no comprimento de
paralelepípedos, gozando nas curvas. O menino mais o seu calção e a sua
japona, seu cabelo cortado rente, sua campainha, trim-trim nas esquinas que
atravessa.
Cinco da manhã. As vassouras de piaçava correm nas mãos dos dois garçons,
peitos de fora, calças arregaçadas, tamancos. Batem, esfregam o chão da
calçada do Bar Café e Restaurante Chave de Ouro.
A cidade, os prédios e os morros dormem de todo. Cais não dorme. Não se
apaga. Lá pelos cantões, um que olho aceso fica no rabo da manhã. E fica.
O botequim é xexelento, velho encardido. E teima que teima plantado. Aguenta
suas luzes, esperto, junta mulheres da vida que não foram dormir, atura
marinheiros bêbados que perturbam, gringos, algum cachorro sonolento
arriado à porta da entrada. Recolhe cantores cabeludos dos cabarés, gente da
polícia doqueira, marítima ou à paisana. Mistura viradores, safados,
exploradores de mulheres, pedintes, vendedores de gasparinos, ladrões,
malandros magros e sonados.
O boteco é mais. Agasalha traficâncias e briga. Gente encosta o umbigo ao
mármore do balcão e queima o pé com bebidas. Fuá, tenderepá, pau comendo
quente. Quizumbas.
-Vai lavar roupa, sua fedorenta!
Rita Pavuna e Odete Cadilaque se pegam. Duas das que zanzam na noite,
conluiadas nos trampos, nas arrumações para adoçar fregueses e levantar a
grana, ainda que devam aturá-los. É lei – malandra que é malandra, no cais,
não deve ir com trouxa. Toma-lhe o milho no jeito, debaixo de picardia e
manha. Carne é carne e peixe é peixe.24

A fidelidade temática que João Antônio demonstra ao longo de sua obra aos seus
“malandros e merdunchos” vem organicamente entremeada à elaboração da fatura
literária, da linguagem e da narrativa. Rodrigo Lacerda lembra que o escritor sempre
rejeito que fizesse pesquisa e “tinha horror à palavra” e, apesar de sempre anotar tudo o
que ouvia em termos de invenções linguísticas e neologismos das camadas populares, “o
tratamento que dava ao material colhido era outro, pois na confecção do texto procura

23
ANTÔNIO, João. Contos reunidos. Apresentação de Rodrigo Lacerda. Ilustrações de Carlos Issa. São
Paulo: Cosac Naify, 2012. pp. 193-94.
24
ANTÔNIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaço incluindo Malhação do Judas Carioca. São Paulo:
Círculo do Livro, 1987. pp. 201-202.
eliminar a distância entre seu olhar e o objeto”25. Contudo, o escritor cultivou por toda a
vida uma
mania de fazer – em letra miúda, usualmente nos papéis que revestem os maços
de cigarro, dos quais tirava o laminado – listas de palavras, gírias e expressões
saborosas, com os seus respectivos significados na linguagem popular.26

Ao longo de toda a sua obra, o escritor João Antônio jamais abandonou o “corpo
a corpo com a vida”, mas esse movimento em direção aos seus personagens, sempre foi
acompanhado por uma tensão marcada pela luta corporal com a elaboração da linguagem
e da fatura literárias de sua representação. O que pode ser percebido tanto a partir da
leitura crítica direta de sua obra, quanto em seus depoimentos, entrevistas e na sua
correspondência. Urge o retorno à sua obra com esse olhar, buscando, simultaneamente,
iluminá-la com o que foi reunido no Acervo João Antônio, que se encontra desde 1998
no Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa (CEDAP) da Faculdade de Ciências e
Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Assis, São Paulo.
Articular dialeticamente o corpo a corpo com a vida e a luta corporal com a
linguagem que o escritor travou do início de sua obra até a sua morte, talvez seja a única
maneira de realizar uma leitura crítica que escape de certos rótulos reducionistas e fáceis
que muitas vezes foram colados ao nome e à literatura de João Antônio. Pelo menos, é
uma forma de procurar-se manter fiel aos seus “pingentes urbanos” em sua dura luta
cotidiana para sobreviver, “Dançando, dormindo de olhos abertos / À sombra da alegoria
dos /Faraós embalsamados”, como cantam João Bosco e Aldir Blanc em O Rancho da
Goiabada.

3. Metodologia
A pesquisa revisitará criticamente os pontos mais importantes de uma ampla
bibliografia que discute tanto a temática mais abrangente abordada pela obra de João
Antônio, quanto os sentidos específicos da obra do escritor dentro da literatura e do debate
social, cultural e artístico dentro do contexto histórico em que ela se desenvolveu. A
releitura crítica dos principais momentos da fortuna crítica do autor também se constitui
como tarefa incontornável para a realização dos objetivos que estabelecemos neste
projeto. Parte desta bibliografia está elencada ao final deste anteprojeto, na seção
dedicada às referências bibliográficas. A pesquisa no Acervo João Antônio deve

25
LACERDA, Rodrigo. Op. cit., p. 28.
26
Idem, ibidem.
completar a pesquisa, buscando elementos para embasar concretamente as hipóteses
desenvolvidas.

4. Cronograma

A pesquisa se dividirá em três etapas. A primeira, abrangendo o primeiro semestre


de 2019 e o segundo semestre do mesmo ano, será dedicada a cursar as disciplinas e
pesquisas para formulação das monografias e para a realização de leituras que
proporcionem novas contribuições a tese. A segunda, se desenvolverá no primeiro e
segundo semestres de 2020. Nela o foco será a continuação da leitura crítica da
bibliografia, a constituição de fichamentos e outros aspectos ligados à redação da tese,
contando com a orientação de um(a) professor(a). Ainda em 2020, em semestre a definir,
o objetivo é a qualificação para que se possa, na redação final da tese, aproveitar as
considerações dos membros da banca de qualificação. Nesse sentido, o ano de 2021 e o
primeiro semestre de 2022 serão destinados para a escrita final da tese, sua revisão e
preparação para sujeitá-la à banca examinadora. Assim, ao longo do primeiro semestre
de 2022 se dará a organização para a defesa da tese e sua apresentação no segundo
semestre de 2020.

2019/ 2019/ 2020/ 2020/ 2021/ 2021/ 2022/ 2022/


Atividade
1 2 1 2 1 2 1 2
Obtenção de
x x
créditos

Leituras e
x x x x x
fichamentos

Pesquisa e
formulação
crítica do x x x x
projeto da
tese
Preparação
para a
qualificação x x
/
Qualificaçã
o
Redação da
x x x x x
tese

Finalização
x
e revisão

Preparação
e defesa da x
tese

5. Considerações finais

A intuição crítica fundamental que deu direção e estrutura a esse projeta foi
desenvolvida de maneira bastante lateral na nossa dissertação de mestrado, O Louco de
Deus e O Anjo da História: surrealismo, mística, tempo messiânico e escatologia em
Murilo Mendes, defendida no Departamento de Ciência da Literatura da UFRJ, em
setembro de 2016. A partir da releitura da obra de João Antônio dentro de uma temática
transversal trabalhada em um dos seminários das matérias cursadas ao longo do mestrado.

6. Referências bibliográficas
6.1 – Bibliografia de João Antônio
ANTÔNIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaço. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1963.
_________. Leão de chácara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
_________. Malhação do Judas carioca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
_________. Casa de Loucos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
_________. Calvários e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
_________. Lambões de caçarola (Trabalhadores do Brasil!). Porto Alegre: L&PM,
1977.
_________. Ô Copacabana! Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
_________. Dedo duro. Rio de Janeiro: Record, 1982.
_________. Noel Rosa. Série Literatura Comentada. São Paulo: Abril, 1982.
_________. Patuleia – gentes da rua. São Paulo: Ática, 1982.
_________. Abraçado ao meu rancor. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
_________. Zicartola e que tudo mais vá para o inferno. São Paulo: Scipione, 1991.
_________. Um herói sem paradeiro: vidão e agitos de Jacarandá, herói do momento.
São Paulo: Atual, 1993.
_________. Sete vezes rua. São Paulo: Scipione, 1996.
_________. Dama do Encantado. São Paulo: Nova Alexandria, 1996.
_________. Contos reunidos. Apresentação de Rodrigo Lacerda. Ilustrações de Carlos
Issa. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

6.2 – Bibliografia Crítica sobre João Antônio


ABREU, Wagner Coriolano de, “Relendo a marginalidade pela crítica de João Antônio”,
in Revista Antares, Vol. 6, No 12, jul./dez. de 2014.
AZEVEDO FILHO, Carlos Alberto Farias de. Hibridismo e ruptura de gêneros em João
Antônio. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, 2008.
CANDIDO, Antonio, “Na noite enxovalhada”. In: ANTÔNIO, João. Contos reunidos.
Apresentação de Rodrigo Lacerda. Ilustrações de Carlos Issa. São Paulo: Cosac Naify,
2012.
BOSI, Alfredo, “Um boêmio entre duas cidades”. In: ANTÔNIO, João. Abraçado ao meu
rancor. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
CORRÊA, Luciana Cristina. Merdunchos, malandros e bandidos: estudo das
personagens de João Antônio. Disssertação de Mestrado. Departamento de Teoria
Literária e Literatura Comparada, Faculdade de Ciências e Letras da Universidade
Estadual Paulista, 2002.
_________. Do Real à Ficção: a busca de um retrato brasileiro na construção de
personagens de João Antônio. Tese de Doutorado. Departamento de Teoria Literária e
Literatura Comparada, Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista,
2006.
LACERDA, Rodrigo. João Antônio: Uma biografia literária. Tese de Doutorado.
Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2006.
MAGRI, Ieda Maria. “Nasci no país errado” – Ficção e confissão na obra de João
Antônio. Tese de Doutorado. Departamento de Letras Vernáculas, Faculdade de Letras,
Centro de Letras e Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2010.
MARTIN, Vilma Lia. Literatura e marginalidade: um estudo sobre João Antônio e
Luandino Vieira. São Paulo: Alameda, 2008.
ORNELLAS, Clara Avila. João Antônio, leitor de Lima Barreto. São Paulo: Edusp, 2011.
PEREIRA, Jane Christina. A poesia de Malagueta, Perus e Bacanaço. Tese de
Doutorado. Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, Faculdade de
Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, 2006.
PERES, Elena, “Cantos e recantos urbanos na literatura de João Antônio”, in Revista de
História, São Paulo, n. 164, jan./jun. 2011. p. 311-30.
SEVERIANO, Mylton. Paixão de João Antônio. São Paulo: Casa Amarela, 2005.
SILVA, Telma Maciel da. Posta restante: um estudo sobre a correspondência do escritor
João Antônio. Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, Faculdade de
Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, 2009.
ZENI, Bruno. Sinuca de malandro: ficção e autobiografia em João Antônio. São Paulo:
Edusp, 2016.

4.2 - Bibliografia Geral


ADORNO, Theodor. Teoria estética. Lisboa: Ed. 70, 2008.
_________. Notas sobre literatura I. Tradução e apresentação de Jorge M. B. de Almeida.
São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2003.
ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de
Janeiro: Zahar, 1985.
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas, vol. I Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios
sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense,
1993.
__________. O Anjo da História. Organização e tradução de João Barrento. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2012.
__________. Baudelaire e a modernidade. Organização e tradução de João Barrento.
Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.
__________. O capitalismo como religião. Org. Michael Löwy. Trad. Nélio Schneider e
Renato Ribeiro Pompeu. São Paulo: Boitempo, 2013.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade.
Trad. Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional/
Edusp, 1976.
ECO, Umberto. As formas do conteúdo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.
GULLAR, Ferreira. Vanguarda e subdesenvolvimento. 2ª edição. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1978.
HAUSER, Arnold. Teorias da arte. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1973.
LAFETÁ, João Luiz. 1930: a crítica e o Modernismo. São Paulo: Duas Cidades / Ed. 34,
2000.
______________. A dimensão da noite. São Paulo: Duas Cidades / Ed. 34, 2004.
LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio – uma leitura das teses “Sobre o
conceito de História”. Tradução de Walda Nogueira Caldeira Brant / Jeanne Marie
Gagnebin e Marco Lutz Müller [Teses]. São Paulo: Boitempo, 2005.
LÖWY, Michael & SAYRE, Robert. Revolta e melancolia: o romantismo na
contracorrente da modernidade. Trad. Nair Fonseca. São Paulo: Boitempo, 2015.
LUKÁCS, Georg. A Teoria do Romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas
da grande épica. Tradução, posfácio e notas de José Marcos Mariani de Macedo. São
Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000.
MACHADO, Carlos Eduardo Jordão. Um capítulo da modernidade estética: debate
sobre o expressionismo – análise e documentos (textos de Ernst Bloch, Hanns Eisler,
Georg Lukács, Bertolt Brecht e Theodor Adorno). São Paulo: Editora Unesp, 2016.

JAMESON, Fredric. Marxismo e forma: teorias dialéticas da literatura no século XX.


São Paulo: Hucitec, 1985.
SUBIRATS, Eduardo. A Penúltima Visão do Paraíso: ensaios sobre memória e
globalização. São Paulo: Studio Nobel, 2001.