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XVII Encontro de Iniciação à Pesquisa

Universidade de Fortaleza
17 a 21 de Outubro de 2011

ESCOLA E PERSPECTIVAS DE FUTURO POSSÍVEIS PARA JOVENS


RURAIS

Francisca Lidiane Araújo de Souza1* (IC), Ana Paula Neves Lopes 2 (IC), Jaiane Araújo de
Lima3 (IC), Celecina de Maria Veras Sales 4 (PQ).

Palavras-chave: Juventude. Escola. Perspectivas de futuro

1. Universidade Federal do Ceará – Bolsista do PET Economia Doméstica
2. Universidade Federal do Ceará ­ Bolsista do PET Economia Doméstica
3. Universidade Federal do Ceará – Bolsista do PET Economia Doméstica
4. Universidade Federal do Ceará – Tutora do PET Economia Doméstica
lidyaraujosouza@yahoo.com.br.

Resumo

O presente trabalho é um recorte de uma pesquisa intitulada “Culturas Juvenis e Perspectivas de Futuro
dos Jovens do Campo e da Cidade” realizada em um assentamento rural localizado na região
metropolitana de Fortaleza e em uma escola localizada na capital. Pretendemos nesse artigo destacar, a
partir dos dados da pesquisa, os modos como os jovens do assentamento pesquisado, relacionam seus
projetos de futuro com a escola. A metodologia utilizada incluiu grupo focal, entrevistas, dinâmicas,
observações e diário de campo. Foi possível observar durante a realização desta pesquisa que as
perspectivas de futuro desses jovens, principalmente quando se relaciona com a escola é muito imprecisa,
visto que consideram a escola como um meio necessário, mas não conseguem ver sentido e nem gostar
desta, devendo-se isso ao fato de a escola não oferecer atrativos a esses jovens, não respeitando a sua
diversidade e não dando conta dos seus anseios.

Introdução

A juventude rural é um grupo que fica esquecido quanto se trata de estudos e pesquisas.
Pouco encontramos trabalhos que são realizados tendo esses sujeitos como enfoque. Isso se comprova na
fala de Sales (2007, p.80) quando esta afirma: “Os jovens rurais pouco aparecem nos estudos, eles são
excluídos até da iconografia medieval. Mesmo em estudos recentes, quando se referem aos jovens, fica
subentendido que são do sexo masculino e do meio urbano”.
Segundo Carneiro (2005), existem poucas pesquisas sobre o universo social e cultural dos
jovens rurais e os estudos que são realizados são voltados, geralmente, para o universo do trabalho, seja
na unidade familiar ou fora dela.
A juventude rural é vista como uma juventude com características e necessidades próprias
dentro desse grupo maior que chamamos de “juventudes1”, tendo em vista a sua multiplicidade e
diversidade. Desse modo ao mesmo tempo em que possuem traços e características que os identificam, as
juventudes são também grupos diversos e múltiplos de acordo com o seu contexto social.

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 De facto, quando falamos de jovens das classes médias ou de jovens operários, de jovens rurais ou urbanos, de jovens estudantes ou trabalhadores, de
jovens solteiros ou casados, estamos a falar de juventudes em sentido completamente diferente do da juventude quando referida a uma fase da vida (PAIS,
2003, p. 42).
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Considerando a juventude (s) como una e diversa este trabalho de pesquisa foi desenvolvido,
sendo um recorte de uma mais ampla pesquisa intitulada “Culturas juvenis e perspectivas de futuro dos
jovens do campo e da cidade” realizada no meio urbano e rural pelo Programa de Educação Tutorial – PET,
do Curso de Economia Doméstica da Universidade Federal do Ceará – UFC durante o primeiro semestre
de 2011. Tivemos como um dos lócus da pesquisa um assentamento rural dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST) (assentamento José Lourenço). O assentamento fica localizado no município de Chorozinho, a
64 km de Fortaleza. Fica bem próximo da sede do município, o que facilita o deslocamento dos jovens para
a cidade para estudarem e participarem de outras atividades como festas, jogos e passeios.
A pesquisa teve como objetivo investigar as culturas juvenis e as perspectivas de futuro dos
jovens rurais em suas relações com a família, a escola, o trabalho, a arte e cultura e o movimento social
em que estes jovens estão inseridos. Procuramos destacar nesse artigo os modos como os jovens
relacionam seus projetos de futuro com a escola.

Metodologia

Nos passos que foram trilhados nesta pesquisa, privilegiamos os jovens rurais como sujeitos,
levando em consideração a especificidade do grupo, as suas falas, os seus modos de ser. Foram utilizados
métodos que valorizassem o diálogo, a interação entre as pesquisadoras e os jovens.
Escolhemos a pesquisa qualitativa por ser um modelo de pesquisa que valoriza a integração
entre os pesquisadores e os pesquisado, reconhecendo que os sujeitos possuem desejos, conflitos e
experiências que são importantes e contribuem na produção do conhecimento, numa verdadeira troca de
saberes.
“O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem
objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são
perceptíveis a uma atenção sensível [...]” (CHIZZOTTI, 2003, p. 1).
Foram realizados grupos focais, entrevistas, músicas, dinâmicas e observações que nos
forneceram dados que nos permitiram compreender melhor o grupo e atingir os objetivos da pesquisa.
Por ser uma pesquisa com jovens, as atividades foram pensadas de forma que conseguissem chamar a
atenção dos sujeitos. Dinâmicas que possibilitassem a interação do grupo de uma forma prazerosa e
descontraída, o que favoreceu uma relação de aproximação entre as pesquisadoras e os jovens.

Resultados e Discussão

A escola é um dos caminhos escolhidos pelos jovens para trilhar seu futuro?

A princípio queremos colocar que embora a pesquisa não tenha sido realizada em uma
instituição escolar, este foi um dos temas abordados e discutidos com os sujeitos durante os procedimentos
utilizados para a investigação, visto da sua importância para se pensar na construção dos projetos de futuro
destes jovens.
Embora a escola tenha sido apontada como um meio importante para alcançar os planos que
eles fazem para o futuro, por outro lado, eles não percebem esta instituição como a mais importante para
buscar realizar seus projetos de vida. Em uma dinâmica utilizada para a elaboração do caminho que os
sujeitos pretendem percorrer para atingirem seus sonhos para o futuro a escola foi considerada como
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prioridade para poucos. De um grupo de seis instituições (escola, família, religião, trabalho, grupo de
amigos, arte) que deveriam ser apontadas por ordem de prioridade para a concretização dos sonhos
desses jovens, a escola apareceu como sendo a segunda opção por dois jovens, como terceira por cinco
jovens e como quarta por quatro jovens de um total de quatorze jovens. Desses quatorze jovens, seis
disseram sonhar em fazer um curso superior.
Com isso chegamos à seguinte reflexão: Se pudermos considerar a escola como um espaço
de sociabilidades, encontros, paqueras e, inclusive desempenha o papel na formação desses sujeitos,
porque não é considerada por esses jovens como um espaço agradável? Porque os projetos de futuro
estão tão dissociados desta instituição?
As palavras de Carrano conseguem responder algumas dessas questões: “parece-me que
ainda precisamos avançar muito no sentido da extensão do direito à pluralidade aos próprios jovens que,
em muitas circunstâncias, são tratados como uma massa uniforme de alunos sem identidade” e acrescenta:
“a homogeneidade ainda é muito mais desejável à cultura escolar do que a noção de heterogeneidade seja
ela de faixa etária, de gênero, de cultura regional ou étnica (CARRANO, 2005, p. 160)”.
Além dos fatores mencionados anteriormente pelo autor supracitado, pensamos que existe
outro ponto relevante que deve ser levado em consideração para desencadear o desinteresse desses
jovens pela escola, que seria o deslocamento destes até a cidade para estudarem, pois se a escola não é
um espaço atrativo para os jovens em geral, para os jovens rurais que estudam na cidade a situação é bem
mais complicada, visto que esses jovens são muitas vezes ignorados enquanto sujeitos que vivem em
outra realidade, sendo muitas vezes excluídos do contexto escolar.
Sobre isso temos Brummer (2007) ao nos mostrar como o deslocamento dos jovens rurais
para a cidade para freqüentarem a escola os coloca diante de outro modo de vida e de relações sociais,
sendo submetidos ao confronto de valores sobre a vida no meio rural e no meio urbano, visto que os alunos
e professores da cidade muitas vezes transmitem uma visão relativamente negativa dos alunos do campo.
Novamente lançamos outra reflexão: Como esses jovens irão elaborar planos para o futuro
diante deste universo apresentado por eles que sinaliza a falta de significação perante a escola e das
poucas condições que esta dispõe para alcançarem seus sonhos?
A escola, embora tenha sido apontada pelos jovens como um meio necessário, não se
apresenta como um meio viável de possibilidades de concretização de um futuro melhor. Diante desses
impasses, os jovens não conseguem ter clareza do que vão fazer, de que meios vão se utilizar para
conseguirem terminar os estudos, se formarem ou até mesmo conseguirem um trabalho. O curso superior
aparece ora como desejo, ora como um sonho longínquo.
Vale ressaltar para os jovens do campo a entrada em uma universidade é ainda mais difícil
visto que estes não têm acesso a informações necessárias para se preparem para um vestibular. Muitas
vezes nem são colocadas essas questões em sala de aula. Quando indagávamos aos jovens que
afirmaram ter como projeto de futuro fazer um curso superior como eles pretendiam, em que universidade,
que curso, eles se mostravam desinformados, sem saberem como se dá o processo de inscrição, seleção e
ingresso.
No itinerário da pesquisa os jovens apresentaram outras perspectivas de futuro que não estão
relacionadas diretamente com a escola, como a banda de forró e o grupo de break. Os integrantes desses
grupos, que foram à maioria dos jovens que participaram da pesquisa, têm planos de conseguirem um
futuro melhor por meio da arte que fazem. O grupo compõe músicas, consertam e até produzem os
instrumentos da banda e realizam apresentações nas festas do assentamento.
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Trazendo novamente a instituição escolar para este diálogo, pensamos na possibilidade de
interação desta instituição com o cotidiano desses jovens através destas manifestações culturais. Inclusive
acreditamos que estas expressões culturais deveriam ser captadas pela escola, na tentativa de interagir
com os conteúdos. Talvez com isso a escola se tornaria atrativa e receptiva aos seus alunos, pois

é preciso tentar compreender a relação tecida entre os jovens e as escolas a partir


de uma perspectiva que os trate em sua integralidade não como estudantes, mas
como jovens que estudam e têm outras atividades, que constroem a trajetória
escolar e profissional combinada com essas outras dimensões que compõem a
vida de cada um (LEÃO, 2006, p. 46).

Compreendemos que isto é um desafio! Algo que as pesquisas sobre juventude de um modo
geral vêm abraçando. Só que, ao nos reportamos aos projetos de futuro desses jovens, nos deparamos
com uma realidade que não consegue acompanhar seus anseios. Se a escola não consegue privilegiar
estas manifestações culturais, ao mesmo tempo é a porta de entrada para o futuro, o que torna uma
obrigatoriedade, isto é, uma única maneira de se preparar para fazer um curso superior ou conseguir um
emprego e, a partir das falas dos jovens pesquisados a instituição escolar encontra-se distante de seu
cotidiano, desabrochando neste velejar outras tantas inquietações para nós pesquisadores.

Conclusão

Podemos observar durante a realização desta pesquisa que as perspectivas de futuro desses
jovens, principalmente quando se relaciona com a escola é muito imprecisa, visto que consideram a escola
como um meio necessário, mas não conseguem ver sentido e nem gostar desta. No entanto, entendemos
que o fato dos jovens não se sentirem atraídos pela instituição escolar não significa que eles não estão
preocupados com o futuro ou são desinteressados. A escola é que não oferece atrativos a esses jovens,
não respeita a sua diversidade e não dá conta dos seus anseios.
A distância entre a escola e os jovens é uma das grandes responsáveis pelo falta de
perspectivas destes em relação à escola como caminho para o futuro, principalmente para os jovens
pobres, para quem essa distância se faz de forma mais acentuada.
Além desses desencontros entre as juventudes e a escola, muitos outros desafios são
enfrentados pelos jovens todos os dias, sobretudo os jovens do campo. As incertezas sobre o futuro são
decorrentes de muitas outras incertezas e dificuldades. A permanência no campo, a conclusão do ensino
médio, o ingresso em um curso superior são sonhos e possibilidades que são vivenciados com dificuldades
financeiras e com a luta pela sobrevivência, tendo muitas vezes que conciliar estudo e trabalho.

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Agradecimentos

À Universidade Federal do Ceará (UFC), ao Programa de Educação Tutorial (PET) do Curso


de Economia Doméstica e à professora Drª. Celecina de Maria Veras Sales pela orientação e incentivo.

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