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Do céu de Lisboa caiu uma surrealista - artes - Ípsilon 10/27/10 4:33 PM

Os nossos monstros Spike Jonze: o puto indie


Olhando para o trabalho deles - e a sua banda sonora
um gosto pela antropomorfia e a A banda sonora de "O Sítio das
presença dominante da natureza Coisas Selvagens" é uma
no seu universo gráfico - é fácil súmula do que tem sido a
presumir que alguma vez música indie dos últimos anos:
olharam para as ilustrações de cantar como se se tivesse cinco
Quarta-Feira, 27 Outubro 2010 Maurice Sendak, ... anos e o papá não estivesse ali
para aconchegar ...

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"Portugal merece mais do que uma arquitectura O céu de Lisboa, o rio, a ponte, o cristo-rei, a Praça do Comércio encolhida, os telhados. Isto é o que eles viam. O
cool" que nós vemos: quatro rapazes num telhado, prontos a surfar Lisboa. Da esquerda para direita: Mário Cesariny
(1923-2006), Mário Henrique Leiria (1923-1980), António Maria Lisboa (1928-1953) e Artur do Cruzeiro Seixas
Arte (1920-). Em baixo, à janela, estaria um fotógrafo, e ainda uma mulher.
Roma: As arquitectas-estrelas vestem de negro
Carros à frente, carros atrás, seis da tarde, o táxi não pára na Rua do Ferragial, mas dá para ver que o prédio que
Arte Isabel Meyrelles procura foi recentemente pintado de branco. Aqui, Isabel Meyrelles alugou um atelier, por anúncio,
Vamos poder vestir os nossos edifícios? em 1949. Nascida em 1929, em Matosinhos, tinha chegado a Lisboa prestes a completar 20 anos, com um conto de
réis por mês de herança da mãe para viver. Dava para pagar o quarto alugado na Avenida Pedro Álvares Cabral:
500 escudos; para comer na tasca da D. Rosa, ao Largo do Carmo: outros 500 escudos por mês; para o atelier
sobrava zero. Pôs um pote à entrada da porta: "Contribuições para pagar o atelier." Lá dentro, umas caixas de
cartão e umas serrapilheiras faziam de mesa e cadeiras. Umas escadas subiam para o sótão, o telhado, o céu de
Lisboa.

Ainda que o táxi pudesse parar à porta daquele prédio na Rua do Ferragial, aos 81 anos, Isabel Meyrelles não
conseguiria subir até ao último andar. De qualquer forma, viverá alguém no apartamento que um dia foi o seu
atelier em Lisboa, a porta não estará aberta, nem a chave debaixo do tapete, como ela sempre deixava para a
qualquer hora os amigos entrarem: e trabalharem, descansarem, discutirem o que não discutiam alto na rua,
fugirem à polícia, abrigarem-se, treparem ao telhado - respirarem.

Ela ouviu dizer que a pessoa que ocupou aquela casa depois dela pintou todas as paredes lisas. Por baixo da

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pintura ou talvez de um papel de parede, estarão pinturas surrealistas - paisagens desejadas, desenhadas como se
ali fosse a capital de um país onde existiriam plenamente cadáveres esquisitos, em colaboração uns com os outros,
os homens em construção como as paredes. Porque eles eram todos ainda muito jovens e aqueles anos
fundamentais. Todos eles eram muito desconhecidos, muito ignorados.

O surrealismo mal tinha começado em Portugal - o primeiro grupo, de António Pedro e Alexandre O"Neill, tinha sido
formado em 47. O segundo grupo - Os Surrealistas ou Grupo Dissidente -, encabeçado pela dissidência de
Cesariny em 48, não durou mais do que dois anos.

"Em Portugal, não é possível a existência de qualquer agrupamento ou movimento dito surrealista", escreveram
Artur do Cruzeiro Seixas e Mário Henrique Leiria (com João Artur Silva), cerca de um ano depois de terem sido
fotografados no telhado de Isabel Meyrelles. "Debaixo de qualquer ditadura (fascista ou estalinista) não é possível
uma actuação surrealista organizada sem as respectivas consequências de represálias policiais (...)."

Os surrealistas no telhado tinham olhos cravados nas costas. Mesmo por trás da Rua do Ferragial ficava a Rua
António Maria Cardoso, sede da PIDE/DGS.

Artur do Cruzeiro Seixas deixou Portugal em 1950. No mesmo ano, Isabel Meyrelles - que por várias vezes tinha
sido detida por parecer "um homem vestido de mulher" - foi para Paris. Ficou o terceiro do triângulo íntimo de
amigos, Mário Cesariny, o mágico de Lisboa.

Isabel Meyrelles só regressou a Portugal para viver no final dos anos 60. Abriu com Natália Correia o Botequim na
Graça. Assistiu à euforia do 25 de Abril. Assistiu à desilusão do 25 de Abril. Voltou a deixar Lisboa.

O táxi vai seguir para Alfama, onde Isabel Meyrelles mostra até ao fim do mês, na Galeria Perve, as mais recentes -
e algumas das suas melhores - esculturas, ao lado de desenhos e quadros de Artur do Cruzeiro Seixas e Benjamin
Marques (pintor português residente em França).

O taxista vira para a R. do Alecrim, desce para o Cais do Sodré. Na esquina, onde está um BPI, estava o café
Lisboa - onde ia tomar café com Cesariny e Cruzeiro Seixas, às vezes, um só café bastava para todos, era
suficiente para conversarem muitas horas: "Falávamos de tudo, excepto [política]." E é a última paragem de um
percurso à Lisboa de 1949, contada por Isabel Meyrelles.

Daí a uns dias, Isabel Meyrelles regressaria a Paris, onde vive nos arredores e onde continuará a trabalhar: a
esculpir, a traduzir poesia portuguesa para francês, de vez em quando, em noites de insónia, a escrever.

E nada disto seria assim, sem aquele ano e meio que passou em Lisboa - um tempo "como se uma pedra tivesse
parado no ar", como escreveu na altura, um tempo que ainda lhe parece muito perto de Lisboa 2010.

De bengala, caminhámos a "passo de caracol", ou, como ela prefere, mais requintado, em francês, "a passo de
cardeal". Mas a memória corria. Sessenta anos não é muito, quando se foi feliz numa cidade.

Na Brasileira - "Não tu és da cidade aventureira/da cidade onde o amor encontra as suas ruas"

Alexandre O"Neill

Uma mulher aproxima-se para vender um poema. O poema, mostra, chama-se Inquietude. Vende-o. Assina-o. Diz,
para a Isabel Meyrelles: "Eu acho que devíamos estar todos muito mais inquietos, não acha?"

É isto à porta da Brasileira, sitiada de turistas. Sentamo-nos na mesa mais próxima da entrada, ao lado de um casal
japonês, sem nos aventurarmos mais para dentro.

Seria possível estar inquieta por ver a Brasileira como é hoje, mas Isabel Meyrelles sorri aos turistas e até ao
empregado malcriado.

Para ela, nas paredes ainda estão os quadros de Pessoa do Almada. Aos olhos de Isabel Meyrelles, a sala ainda
está cheia de fumo e os homens esbracejam enquanto falam, e, quando ela entra, calam-se por uns segundos.
Depois continuam. Alguns homens ouvem-na, outros não. Ela ouve toda a gente.

Isabel Meyrelles vinha tomar café à Brasileira, depois de almoçar ali próximo, no Largo do Carmo. A Brasileira era o
centro do Chiado, e o Chiado o centro intelectual de Lisboa. Além disso, na Brasileira fiavam-lhe o café.

"Guardo recordações muito boas deste café", diz. "Eu era praticamente a única mulher. Eu de cabelo rapado - era
só um pouco mais comprido do que o daquela cantora, a Mariza -, a fumar cigarros, podes imaginar o escândalo!"

Os surrealistas não vinham à Brasileira, porque era "demasiado intelectual para eles". Ela ia ter com eles a outros
cafés - passava tempo com Cesariny e Cruzeiro Seixas, mas também com O"Neill e António Pedro do primeiro
grupo. "Eu era uma surrealista paralela", confessa. "Tinha amigos nos dois grupos."

Ia de vez em quando ao café Chiado, frequentado pelos estudantes de Belas-Artes. E a noites acabava-as com os
neo-realistas.

Ela queria conhecer toda a gente que fosse interessante e com quem pudesse aprender. E em todos os cafés a
queriam conhecer. "Eu era um bicho tão raro que toda a gente me queria ver."

Uma vez, num café junto do Elevador de Santa Justa, perto do Secretariado de Propaganda Nacional, puxou do
cachimbo. Os clientes quase gritaram. O empregado, muito nervoso, veio pedir-lhe que apagasse o cachimbo. "A
senhora está a fazer escândalo", disse, indignado. Um tipo que trabalhava na Propaganda Nacional é que a
defendeu: "Esta senhora tem o direito de fumar cachimbo. A minha avó fumava cachimbo."

Então, tinha muitas razões para se sentir inquieta. Mas a inquietude - de café em café de Lisboa - dava boa poesia.
A inquietude fazia-os sentirem-se vivos. Fazia com que se apaixonassem, perdidamente, mulher ou homem.
Podiam dizer como disse Antonin Artaud, "nós somos os especialistas da revolta".

Largo do Carmo - "Que estamos vivos dizem alguns/e passam de chapéu-de-chuva"

Artur do Cruzeiro Seixas

Isabel Meyrelles senta-se num banco em frente às ruínas do Carmo. As pessoas passam aceleradas, sem reparar
naquela mulher vestida com um casaco de cabedal negro, invulgar para uma mulher, ainda para mais, uma mulher

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daquela idade. Isabel tira do bolso do casaco um maço de cigarros. Se tivesse tirado o cachimbo, as pessoas
arranjariam tempo para se deterem. Em Lisboa, 60 anos depois, ainda o povo olha se uma mulher fuma cachimbo.

Os turistas passam de máquinas fotográficas e mochilas para as ruínas do Carmo. Isabel Meyrelles nunca entrou.
No tempo dela, as ruínas não estavam abertas a visitas.

Também não existiam autocarros. Quando podia - se tinha algum dinheiro extra de biscates que ia fazendo -,
apanhava o eléctrico para vir do Rato. Normalmente, descia a pé pela Rua da Escola Politécnica.

Todos os dias almoçava e jantava no mesmo sítio. Na altura, dava tudo para ter a oportunidade de mudar de
restaurante. Agora, a tasca da D. Rosa é das suas melhores recordações.

Na Rua da Condessa, informam-na que a tasca deve ser na Rua da Oliveira.

Ainda é um prédio cor-de-rosa. Ainda se chama Casa Alcobaça. A D. Rosa e o marido morreram há muitos anos.
Dois antigos empregados são agora os donos. Instalam-se à porta a conversar. Ainda se lembram que aqui vinham
muitos actores.

Isabel Meyrelles lembra-se de Canto e Castro. Ela gostava particularmente de almoçar com o Carlos Wallenstein e
descobrir onde é que mais tarde o poderia ir ouvir dizer poesia.

Quanto à faneca, dizem o Sr. António Evaristo e o Sr. António Trindade, já não servem. Já nem quase se vende.

Naquele tempo, serviam todos os dias até a tasca ficar conhecida como o "restaurante da faneca".

Antes de vir almoçar, Isabel Meyrelles passava por uma padaria perto. "E com aquele cheiro do pão fresco, faneca
com ela."

Av. Pedro Álvares Cabral - "E nos outros serei a recordação/dum grande pássaro selvagem/que bateu as
asas"

Isabel Meyrelles

O percurso com o P2 tinha começado por aqui, o lugar onde desembarcou em Lisboa com uma mala: alguma
roupa, vários livros. A porta era tal e qual, de ferro verde-escuro.

Um, dois, três, quarto, quinto andar - Isabel Meyrelles aponta com a bengala.

Em 1949, no 5º andar do nº 40 da Avenida Pedro Álvares Cabral vivia um velho casal alemão que, por intermédio
de uma artista alemã, resolveu alugar um quarto a uma jovem escultora vinda do Porto. Apareceu-lhes uma garota
que ainda não tinha completado os 20 anos, de cabelo curto como um miúdo, e usando calças.

Não iria incomodá-los muito, porque estava quase sempre fora de casa. Até de noite. Às vezes só saía do café
Portugal, onde se encontrava com o Eugénio de Andrade, às duas da manhã. O José Gomes Ferreira - cavalheiro e
insone como ela - oferecia-se para acompanhá-la a casa. Saíam do Rossio e subiam juntos, o José Gomes Ferreira
a largar poemas como as árvores da Avenida largavam folha.

No Rato, viravam para a Pedro Álvares Cabral e, chegados ao nº 40, à porta verde-escura, davam meia volta. Ela
dizia, acompanho-te a casa. E, avenida abaixo e acima, caminhavam até às quatro da manhã.

Quando estava finalmente em casa, mais do que o quarto, o seu espaço era a varanda. Ali levava amigos
clandestinamente. Na varanda podia fumar cachimbo e ver o céu de Lisboa. Naquele tempo ainda havia estrelas no
céu de Lisboa e pareciam ficar mais acima do que no céu do Porto. Em Lisboa, parecia-lhe que havia mais ar para
respirar.

Para trás ficava a burguesia do Porto, os bons costumes, a proibição de estudar na universidade por se ter
manifestado, a família que não a entendia, a solidão. Treinava-se para ser uma especialista da revolta, porque era
uma questão de sobrevivência. Era preciso não dar nada como certo, perguntar tudo, perceber se os passos - sem
ou com bengala - são mesmo os nossos, se as pernas são as nossas, as mãos. Isabel Meyrelles todos os dias
continua a especializar-se na revolta.

Em Paris levanta-se de manhã, vai para o atelier, expulsa a gata da cadeira e senta-se. A janela dá para um pátio e
para o céu. É verdade que não é o céu de Lisboa aos 20 anos. Mas todo o céu que precisa está em redor, nas
esculturas, nos livros de poesia, nas fotografias dos amigos que partilhavam a especialidade da revolta - e vão
morrendo e com eles levando esse conhecimento - e se fechar os olhos, ao fim de tantos anos, já vê o céu dentro
de si.

Cadavre-Trop-Exquis está patente na Perve Galeria (rua das Escolas Gerais, nr 17/19/23, Lisboa), até ao dia 30 de
Outubro.

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