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P R . F E L I S B E L L O F R E I R E

H I S T O R I A

C i d a d e d o í ^ i o d e J a n e i r o

Volume I

1 5 6 4 — 17QO

:::: :::: RIO r>g JANEIRO :::: ::::


T>-]i.rt^.HpTt-.ia «log Tribiinaes—R. <Ío Carmo.
:::: :::: : : l a i a :: :::: ::::
R O L E I T O R

liste livro que Ixtje entrego á leitura do publico tem um histórico


que aqui mio pode ser omit/ido, porqsie elU se refere a mu farto que
precisa ser conhecido pela opinião publica do pai^. E ainda que indi-
rectamente eile se prenda à minha ptssoa, deixa de. ter o caracter }KS-
soai, para ter o caracter geral, por isso mesmo que no histórico dos
precedentes da elaboração da H I S T O R I A I X ) KTO D E J A -
N E I R O , o leitor uie apreciar a incapacidade do Instituto Histórico
e a sua fraqueja moral de se deixar sttggestiouar por prevenções de
opiniões políticas utonarchicas contra os interesses do humilde autor
desta obra. Eis como se deram os acontecimentos que precisam Ixije ser
bem descriptos, como prova da incorreção danneUa instituição de
letlras, queprima por sua incapacidade e ainda mais pela posição
sempre odiosa elraíçoeira que assume perátite qualquer republicano, que
tem a coragem de di^er e escrnvr a verdade, como ji^e na H I S T O -
RIA DO R I O D E J A N E I R O .
O Gónselho Municipal votou em 1902 uma lei instituindo o
prêmio de $0 contos de reis para quem escrevesse a historia da cidade do
Rio de Janeiro, dando o praso de cinco annos. E' a lei 2}i de 19 de
Março de 1896, que além do prendo instituído, prescreveu qne o direito
a sua recepção dependia do julgamento e do mérito do traballío feito.
par uma commissão, d juizp do Prefeito. Estava eu então fáraâa
política* por ter perdido uma legislatura, tendo por conseguinte^
tempo de sobra para dedicar-me a essa obra. F. de facto, comecei
a reunir elementos mis arctivos, sem os quaes jamais poderia es-
crevei^ desde que queria um trabalho original e baseado todo elk
ms ntantiscriptos de nossos archivos. E posso di^er que as pes
quisas foram completas, não só no Instituto Histórico, no Archivo
Publico, como em nossos cartórios, onde. püà encontrar os elementos
da evolução do território da cidade e o estudo do direito de propriedade
sobre elk. Ahi estão vivos os illustres empregados do Archivo Publico,
Stt. Eduardo Peixoto e Ür. Lacerda que poderão dar testemunho de
minha freqüência assídua ao estaòeltrimmto durante mais de um anm
t as minhas pesquisas diárias, com os meus cristas, com quem aliás
despendia uma quantia que estava acima dos meus recursos no mo-
mento. Ahj està o testemunho do eminente Dr. Vieira Fazenda, bibiio-
ifxcario do Instituto, sobre o estudo que procedi nomesmo, durante
mais de um anuo, diariamente Depois deste trabalho, foi escripta a obra
eeuiregue d Prefeitura a 16 de Março de 1901 ao antecessor do Dr.
Xavier da Silveira, isto è, ao Sr. Dr. João Felippe que então mostrou
os seus grandes e invejá veis sentimentos de justiça, não dando nenhuma
solução à questão. Em todo o caso andou com metios fraqueja nioral
do que o sen suecessor, o Sr. Xavier da Silveira, como ficará adiante
demonstrado.
Tendo eu requerido a execução da leio Prefeito affecton a obra a
uma commissão para dar opinião sobrt o seu mérito, como exigia a lei
do Conselho. O Instituto Histórico acceitou a incumbência que lhe foi
commettida pelo Prefeito e o sen Presidente, então o conselheiro Aqnino
e Castro nomeou uma commissão compila dos Drs. Amaro Caval-
canti, Conselheiro Trisiàode Alencar Araripe c Antônio Joaquim de
Macedo Soares. Esta commissão recebeu a obra das mãos do secretario
do Instituto para proceder a sua leitura, apresentando finalmente O seu
parecer, depois de muito me^es de leitura e estudo. Não posso deixar
de aqui transcrever a integra desse Itourosíssimo parecer elaborado por
espíritos cultos de hmiens conhecidos no paiz, como os mais competentes
V

em historia pátria. F' justamente esse o conceito de toda a opinião na-


cional, principalmente sobre os conselheiros Artíripe e Macedo Soares.
Pois, eis o que elles escravram sobre a minha obra, e que o Insti-
tuto devia accekar como a expressão da verdade e inh querer julgar
por si como qtnz do valor da mesma, pondo assim em uma posição mo-
ral desagradável os membros da commissão que elle mesmo nomeara
paru semelhante fim. De jacto. Desde que a commissão foi in vestida [xn
uma nomeação do Instituto para dar parecer sdfye a obra, o Instituto
noa devia e não podia desfazer aquillo que a cila tinha encarregado,
sob condição de desmoraUsar a própria commissão. Mas è que o Insti-
tuto linha um fitn de vingança contra mim. Mas, è que elle, composto
de monarchistas que pouco a /mico vão se vendendo à Republica, como
por exemplo oactual Presidente do Banco do Brasil, que foi um grande
aetor nessa obra de vingança contra mim, entendeu e resolveu dar tam-
bém sua opinião. Vi desde logo que iria ser alvo dos golpes da traição
e da vingança, como igualmente pensaram os membros da commissão,
que levantaram o seu protesto contra semelhante obra de immoraiidade,
vingança c ineftcia. Sim, inépcia, porque, com raras excepções, os mem-
bros do Instituto Histórico não têm capaJdade para opinar sobre o
valor do meu livro. E a prova do que digo abi esta na esterilidade da
instituição, isto é, do próprio Instituto, que não celebra sessões senão para
endeusar as altas autoridades da Republica, dar posse aos novos eleitos
e mais outras cousas sem a menor importância.
File não celebra uma sessão sequer para tratar de uma questão his-
tórica ou geographica do pai\, não obstante de ve% em quando elhis sur-
girem por abi entre os Estados, a respeito dos seus limites. Eis seu pro-
cedimento, justamente pela incompetência da maioria dos seus membros.
Omiprehendi pois que estava projectada a cowiemnação do meu livro.
Mas, como era difjicü fazel-o em face dos termos claros do parecer, como
o leitor vat jà ter a prova, alguns dos seus membros lembraram-se t
pu~eram em execução uma «blague», uma infâmia, uma mentira,
iniercallaudo na acia final das resoluções, que «a obra è da maior
utilidade ao pai^ e por conseguinte de todo o mérito, mas que não ê
merecedora de prêmio-'.
VI

Fii u tangente indecente e indigna do Instituto. Elle só foi cha-


mado para dar parecer sobre o valor da obra r não se ella merece ou
não o prêmio. Â própria lei creadora do 'prêmio diya qw "a commissão
julgará do mérito do trabalho». F c claro que se ella julgasse o tra-
balho de mérito, linha direito ao prêmio. Mas o Instituto julgou-a de
'imeri/O", mas "não merecedora de prêmio"». Aprecie o leitor esse con-
trasenso que só indica o espirito de vingança conita mim e a improbi-
dade com que essa instituição de letras se desempenhou do mandato de
que foi investida pelo Prefeito.
Além disto, o Instituto não tinha que d t f f i consa alguma sobre
o prêmio, porque ao Prefeito competi" resolver a respeito. Mas era
preciso fa%er a obra de embrulho e in fâmia. F* verdade que semelhante
obra sôfwdia ser feita por quem tivesse um feifio moral próprio para
semelhante emboscada, li de façto, um de lies, principal parceiro de
semelhante infâmia contra o meu direito, acha-se iwjepreso, como resul-
tado de pronuncia por autoridade competente, coma gatuno e ladrão nu
celebre questão dos «Colis Posteanx». Fis ahi os comparsas da obra
contra mim. Mas transcrevamos o notável parecer;
i'A commissão a quem foi confiado o estudo da obra escripta pelo
Dr. Felisbello Freire, HISTORIA DA C I D A D E DO R I O DF
JANEIRO, emítte o presente parecer solicitado pelo poder com-
petente afim de julgar se pelo seu valor merece o original
apresentado o premh decretado pela lei municipal de i<) de
Marçode 1896. O trabalho comprelyende o período histórico
de 1564 ittí a época presente, não só da capita! da Repu-
blica, sobre todos os aspectos, como da região seplentrionai
do Brasil em suas Unhas geraes.
Nesse estudo o autor obedece aos estudos seientificos da mo-
derna criiica da historia, jogando com os elementos
positivos,antlitnticos para descrever os fartos, a evolução
geral dos acontecimentos, a marcha da civilisação nesta
parte do pais, as instituições, a formação do elemento
cthnico, a política^ e com a maior mininlencia a forma-
ção da cidade, seu desenvolvimento, seu povoamento^
VII

desde os primeiras épocas alé agora. Sendo a cidade


do Rio de Janeiro o ohjecto capital do trabalho, o autor
deteve-se particularmente sobre o assumpto com cs dados
e esclarecimentos abundantes de sua pesquisa uosarchi-
vos quasi todos desconhecidos ou não mencionados pelos
nossos historiadores e ainda inéditos. O autor enumera
os títulos e processos de posse do território, descreve os
primeiros ensaios de cons/rucção da cidade na praia Ver-
melha, suas mudanças para o morro do Castello, seu
desenvolvimento pela planície\ a formação de suas mas,
com especificação das mais antigas, a construcção dos
seus edifícios desde a época da fundação até agora e
narra as invasões estrangeiras que se deram. Está tam-
bém minuciosamente estudada a sua população, o seu
desenvolvimento desde o seulo XVI, seus costumes, seus
hábitos, etc. Não se limitando ao estudada cidade, o
autor estendeu-o á antiga capitania do Rio de Janeiro,
traçando as linhas que seguiam pelas bacias dos rios mais
importantes e reproduzindo a integra de todas as ses-
manas que foram concedidas não só na capitania, como
na cidade.
lia ahi importantes documentos que servem de base ao estudo
do direito de propriedade territorial nesta região, tão
descarado e tão litigioso. Além dos elementos materiaes
que constituem a cidade, são igualmente os elementos
moraes de instrucção, de arte e de cultura e os governos
que ella teve desde o século XVI até hoje. Nestes assum-
pios é cuidadosa e minuciosamente feito o estudo sobre
os originaes manuscriptos. A política intemae e xtema,
em suas diversas evoluções, a origem, duração, actos,
effeitos dos differentss governos, a analyse das finar._
ças nas diversas épocas, o movimento econômico com
pulsado com a maior abundância de es/atistteas, as guer-
ras do exercito e da marinha, tudo parece detidamente
VIII

descripto, assim como o estudo das nossas explorações


em matena de mineração.
As nossas luetas com os argentinos, a co/omsação de Monte
vidéa, Rio Grande do Slfl, Paraná, Santa Catharina,
Minas, S. Paulo, as questões das Missões, da Colônia
do Sacramento, a influencia que esses Jactos exerceram
sobre a política nacional e internacional são analisados
com grande minndencia e copia avultada de documentos.
Occnpando-se da mineração iniciada no começo do
século XVTT1, a rufa influencia devem as primeiras
commnnicações entre o sul e norte, o autor pinta o qua-
dro social da. primeira metade desse século profunda-
mente corrompido pelo contrabando do ouro e do escravo,
cuja importação ê Perfeitamente estudada desde o fim
do século X V t. O autor detém se uão perdendo um só
elemento de estudo na analvse da invasão francesa e no
histórico dos governos que se suecederam, alguns intei-
ramente desconhecidos. Em relação á cidade e' ella en-
cerrada em cada século sob o aspecto de seu desenvolvi-
mento material, de sua organisação Politicã, adminis-
trativa, judiciaria e tributaria e de século em século se
pode acompanhar iodas as modificações que se produ-
ziram com a descripção das respetivas causas, crises
financeiras e econômicas, processos de suas soluções,
epidemias, ffuerms. elementos de defesa militar, cons-
trucção de fortes e fortifi cações, organisação de corpos
militares, etc. Uma. das maiores preoccupaçõès do autor
foi o estudo do governo municipal do Rio de faneíro,
desde os primeiros dias de sua organisoção até o pre-
sente. Alti são analysados Os seus impostos, a influen-
cia que esic systema exerceu sobre a de%envohnmento da
cidade e por sua vez a influencia exercida por esta sobre
todas as capitanias do sul do Brasil, as relações eutre
os respectivos governos, sua influencia política, suas
IX

metas contra a autoridade e o subsidio financeiro com


que elle entr<n não só Para a defesa do Rio de 'Janeiro
como da Colônia e da integridade do seu território.
Com o preciso critério scienlifico, o amor investiga as causas da
decadência do governo municipal, a qual começou em !"}(>
com o aelo de Vahia Monteiro, retirando da iniciativa local
os impostos de que até então a Câmara do Rio de Janeiro
tivera a faculdade de lançar, o patrimônio municipal enu-
merado com os documentos comprobatórios de seu direito.
Do resultado de suas pacientes pesquisas em nossos archivús, o
autor depois de se ter occnpado da cidade, seus governos, a
acção que exerceram na colonização e fwoamenlo da capi-
tania e da colônia, passa a d escrever os governos do vice-
reinado, revelando ter lido a correspondência dos vice-reis.
Um seguida trata do reinado, a independência, o primeiro
e o segundo Império e a Republica.
Durante este longo periodo são de novo estudados o desenvolvi •
menfo material da cidade, o seu povo, as suas instituições,
instrucção, civUisação, governos, política e finalmente
guerras.
Quanto ao eslvlo e linguagem em que foi escripto o trabalho, a
commissão confia que o seu autor empregara iodo o cuidado
afim de imprimir-lhe o máximo apuro e correcção. km rela-
ção ao valor da obra é de parecer unanime que alem de me-
recedora do prêmio decretado pela lei municipal, ella constitue
um serviço da maior utilidade ao pai^».
Eis ahi o fkirecer que só por si resolvia a questão, porque elle
corresponde cabalmente aos intuitos do legislador municipal, desde
quando firma aquillo que o legislador estabeleceu para a obtenção do
prêmio e firma com a respimsabUidade de pessoas de alta moralidade
e competência no assumpto. Mas o Instiltt 'o entendeu despresar o pa-
recer e por si mesmo dar a opinião pedida frio Prefeito. E porque meios
e processos ponde chegar a conhecer o valor da obra ? Porque modo
poude elle estudai a ? Por meto de sessões que foram celebradas e nas
X

quitei o autor foi procedendo a leitura da obra. E para que o leitor


fique sciente disto e conhecedor deste lado da questão não lemos mais
do que transcrever o seguinte documento, uma petição que dirigi ao Pre-
feito do Districto Federal :
«O abaixo assignado ivm respeitosamu/e requerer a V. B.x, o cum-
primento da lei municipal a. 2 ; ; de TO de Março de tSy(>
que. instituiu o prêmio de cituoenta contos de rãs para o
historiador que escrevesse a historia do Districto Federal, par
ter escriplo essa obra, apresentado no praso legal a essa
Prefeitura, sendo julgada por uma commissão competente de
grande valor ao pai^ e. merecedora do prêmio, segundo de-
monstra cOin o documento que a esta acompanha.
Bem sabe o abaixo assignado que a V. Fx. foram remettidas duas
adas do Instituto Histórico,acompanhando oritaão parecer,
nas quaes qui% essa instituição lançar um julgamento sobre
sua obra, julgamento que o abaixo assignado pede licença a
V. Fx. para taxar de ofjiçioso, alem de injusto, apaixo-
nado c destituído de todos os elementos de uni julgamento
consciente.
Que o julgamento do Instituto è officioso e destituído de toda a
acçào sobre o direito do abaixo assignado, prova-se:
O artigo da a Iludida lei de I<J de Março de i8y6 dí^ quea obra
será julgada por uma commissão, a critério do poder exe-
cutivo. Ora o Instituto não è uma commissão e. sim uma
instituição. Dirigindo-se V. Ex. como se dirigiu ao Presi-
dente do Instituto não podia ter outro fim senão que elle
escolhesse, no seío dos seus membros, uma commissão para
julgar do mérito da obra. E foi o que fe^ o Presidente do
Instituto. Nomeou uma comissão composta dos Sr5. conse-
lheiro Alencar Araripe, Drs. Amaro Cavalcanti e Macedo
Soares, vultos proeminentes no estudo da Instoria nacional e
de competência firmada nos innnmeros trabalhos que cada
um tem publicado.
Fssa commissão foi pois legalmente constituída. Elaborou o
XI

seit parecer, cujas conclusões unanimes furam julgar a obra


de grande valor w pai^ e merecedora do prêmio
Se a intenção do legislador fosse fa^er da InstUuló o tribunal jul-
gador das obra* qtie concorressem ao prêmio, nada privava
de tornar elle isso expresso na lei, desde quando o Instituto é
uma instituição antiga, e muito conhecida. Mas o legislador
creott como tribunal uma commissão e não uma instituição.
f-Ogo, o julgamento do Instituto exharado nas actas que fo-
ram remei tidas a V. Ex. è um julgamento officioso, illegilimo
e não official.
A obra foi julgada por dous tribunaes e não por um, como
manda a lei.
Esse julgamento não tem força para annullar o direito do abaixo
assignado, adquirido nas conclusões do parecer da commissão
competente.
Disse mais o abaixo assignado que o julgamento do Instituto foi
um julgamento injusto, apaixonado, sem real conhecimento
de causa, ainda que considerasse a obra de grande valor.
Eis as provas;
A obra foi lida perante o Instituto em t j sessões, de 7 de Março
a 27 de Junljo do corrente anno, durando cada uma deltas
uma hora ou pouco mais! Fm cada uma destas .cessões, a
leitura limitava-se a qo ou yo ptiginas. Isto quer dizer que
nas i j sessões que tiveram logar foram sómente lidas 600
ou 700 paginas. Ora a obra do abaixo assignado eompòe-
se de lies grossos volumes, abrangendo todos elles quasi duas
mil paginas, além de mais de mil documentos extensos que
acompanham a obra e que formam outros tantos grossos
volumes.
Eis abi a prova material que dou a V, Fx. de que a olira não
foi lida frio Instituto em seu todo para, poder conscienciosa-
mente por elle ser julgada. F eis a ra^ão do Sr. Barão
Homem de Mello di^er no substitutivo que foi apresentado
na sessão do julgamento que o autor não tratou de pontos
XII

indicados por S. Ex. como sejam agriitiltura, economia,


administração, instrucção fmblica, etc. E 'tão extensa o serie
das omissões apontadas por S. ISx. que parece não ter o autor
nada escripto. Mas o Sr. Barão Homem de Mello tias 8j
sessões que foram celebradas para a feitura da obra só com-
pareceu a sete, como fica demonstrado com os documentos que
a esta acompanham. Çam que direito fxús vem S. Fx. fir-
mar taes omissões da obra que não leu nem ouvio ler em
seu todo 1
Si não estivessem depositados nessa Prefeitura os originaes do
livro, si estivessem elles em poder do abaixo assignado, indi-
caria aqui os capítulos e paginas em que trata elle dos
assumptos a que se refere o Sr. Barão, E se V. Fx. per'
miltir ao abaixo assignado que nessa Prefeitura com os
originaes em mão }msa fa^er essas indicações, convencer-se-à
da inverdade que foi pjjirtnado no subslutivo.
Hasta di~er, Fxmo. Sr., que o abaixo assignado tratou em obra
de todos os assumptos que se- referem à cidade do Rio de
janeiro, desde os seus primitivos tempos até agora. F.' assim
que estudou toilos os seus governos, as câmaras, a adminis-
tração pelos seus actos, as funcções de suas autoridades, seus
limites de jurisdição, o regimen tributado, financeiro e eco
nomico; a origem e formação de sua guarnicão, do exercito
e da ma/iuha, as luctas externas e internas, o povoamento,
o desenvolvimento da cidade de século em século, os edifícios
pnblieos, os processos de construcção urbana, os instituições
religiosas, sou patrimônio, as artes, scienctas, os hábitos
do povo, sua aliuimlaçâo, vestuário e costumes; a divisão
territorial da capitania e da cidade em sesmcitas, o resp-
etivo tomhamsuio, o patrimônio da Câmara Municipal, etc.
Reíciv p mderar a V. Ex. que todos estes assumptos foram estu-
dados à vista de documentos qae jauuiis foram publicados,
como as sesmarias da cidade e da capitania, a correspon-
dnncia dos seus gozvmos com os governos estrangeiros e das
XIII

outras capitanias V. Ex. krá a certeza disso c dignar-se de


ler a obra ou pelo menos o suiumario dos seus capítulos.
Eis a ra%ÕQ ainda do conselheiro João Alfredo Corrêa de Oli-
veira que sò compareceu a uma sessão das quinze que foram
celebradas, comparecer d sesão de julgamento, tomar parle
na discussão, apresentar substitutivos, quando o mais rudi-
mentar bom senso indicaria aS. Ex. que não poderia julgar
de uma causa que não conforta. A consciência de S. Ex.
não pfide deixar de accusal o da falta de elementos para
julgar essa obra. Entretanto, julgou-a, tájir\ em nome de
alguma paixão política,
Nas condições do Sr. conselheiro foão Alfredo estão os Srs. Ho-
norio Lima e Fernandes Parira de Barras que nunca com-
pareceram ás sessões em que foi feita a leitura, senão d sessão
de julgamento. Nas mesmas condições está o Sr. General
Mello Rego que daquellas sessões só compareceu a tres. En-
tretanto discutiu e julgou a obra !
Eis as provas materiaesdo nnllo valor moral do julgamento
do Instituto.
Analyse ainda V. Ex. o seguinte quadro em que estão os nomes
dos sócios do Instituto e o numero de vcçes. que compareceram
ás sessões da leitura da obra, bem como os nomes dos que
foram presentes â sessão do julgamento •

Desembargador Sau~a Pitanga, compareceu a i j sessões


Racha Pombo >< »
Dr. José Américo >> " Ú »
M. Galvão u ' n
MárqneX de Paranaguá a " U n
Dr. Aristides Milton U » 12 »
Conselheiro Castro Carreira » * 11
Dr. Paula Freitas * IO
Cunha Barbosa » >
» 9
Genera! 7 'ha u ma tu rgo » » 8
XTV

Barão Pfòmeni de Mello, comparece a 7 secçoes


Ltífo de França » » 7 íí
Oliveira Calratnby
General Mello Rego »*}•
Conselheiro João Alfredo » » 1 sessão
hotiorio Lima w » o »
Fernandes Pereira j»v » o »

Pois bem, Fxuto. Sr., os sócios que mais compareceram às sessões


do Instituto, como o Desembargador Pitanga, Rocha Pont
fo, Dr. fost Américo. M. Galvão. Marque-do
:
Parana-
guá, Dr. Aristides Milton, Conselheiro Castro Carreira,
Dr. Paula hrcitas. Luiq da França, Oliveira Catramby,
foram absolutamente favoráveis à obra.
lista V. Fx. com elementos para julgar do voto do Instituto,
permittindo me que não omitia nenhuma circumstancia
que tenha pt»r fim invalidar esse voto.
Fm todos os corfvs colleclhDS os regimentos prohibem que. os seus
secretários redijam as actas, quando tomam parte na
discussão.
Pois bem, na sessão do instituto que julgou a obra, o movimento
de opposição foi iniciado e dirigido pelos dons secretários
Srs. Henrique Ratfard e Max Flehtss, que apresentaram
um substitutivo.
A conseqüência dessa irregularidade resultante de não se darem
os secretários pH>r suspeitos para redigirem as actas, com a
responsabilidade do Sr. Presidente, os dons secretários que
tão direcla parte tomaram na discussão, a conseqüência como
dizia foi que as actas de 27 de Junho e 4 de julho não são
a ex/rressão da verdade. F a prova disso está na declaração
dos seguintes votos;
Na açta da <f sessão ordinária, lê-se o seguinte:
'Posta em discussão esta acta, o Sr. Dr. José Américo que di^ a
desta acta relativa á sua intervenção no debate está menos
exacta, convinda que seja assim rectificada; o Sr. fos?
XV

Américo tli- que não lendo podido assistir ô discussão al-


então travada, pois acaba de comparecer, fe% rápida leitura
da consulta do F.xni, Sr. Prefeito e da lei que, por copia,
acompanha, referindo-se a estes documentos, entendo que a
obra é de merecimento e que o Instituto cabe apenas pronun-
ciar-se sobre dons pontos : sc a obra è completa, conforme
exige a lei e sobre o merecimento da mesma».

O próprio secretario, o Sr, FleiusS, aliás signatário do substitutivo,


disse: acceitavel a rectificação oferecida polo illuslre consocio ; precisa
porém declarar que na acta da sessão especial pede ler havido engano
ou omissão de qualquer detalhe, mas que no fundo c a expressão do
que se passou».

Fis ahi, sr. Prefeito, a con fissão da «hlague», da grande irregu-


laridade, para prejudicar o direito do abaixo assignado. Não sc trata
de detalhes e sim de um ponto capital da questão, qual fosse, o instituto
não poder votar o preinio e sim sobre sò o mérito da obra.
Disse ainda o sr. dr. Aristides Milton: declara «que não votou
a segunda conclusão relativa ao trabalho denominado HISTORIA DA
C I D A D E DO R I O DE JANEIRO, opinando que elle não merecia o prêmio
por quanto, di^ o orailor, «esta pergunta foi feita ao Instituto» e nem
era elle competente para proferir uma decisão que cabe só áquelle fttnc-
cionario.
Disse ainda o desembargador Sou^a Pitanga: entendo que a vo-
tação relativamente ao prêmio teve por fim somente a ordem na appro-
vação da conclusão do parecer da commissão especial, 4não sendo in-
tuito do Instituto prestar á Prefeitura informação alguma sobre este
incidente».
Isto quer di\er que o voto do Instituto não tem a expressão que
foi dada pelo secretario na acta e o abaixo assignado chama a aiien-
ção de V. Fx. para este ponto da maior importância.
Tudo isto, sr. Prefeito, prova que a votação do Instituto sobre o
prêmio nu ella não teve lugar, segundo verbalmente me tém informado
XVI

muitos dos seus sócios ou nelta elle ultrapassou os limites da consulta


ao seu Presidente, a qual se limitava a inquirir do mérito da oltra.
Indo o Instituto alem dessa pergunta fel-o illegitimamente, sim-
plesmetile para levantar dificuldades ao direito do abaixo assi-
gnado.
Cousa mais grave, sr. Prefeito: no dia do julgamento, isto è, a
2j de Junho, o «Jornal do Commercio-, cm uma «varia» ataca acri-
moniosamente o parecer da commissão apontando ale' defeitos materiaes.
Quem levaria a essa redacçáo esse documento, senão algum membro da
secretaria? (se escrevêssemos hoje esta petição podíamos dizer que o
sr. Fleuiss paga essa obra de indignidade que fez para servir a
interesses de terceiros, porque lheestâ pregada no costado uma pronun-
cia de juiz P " '
f tc m
" '"d? ** '°nto ladrão).
W 1 l

F nenhuma provideuia foi tomada pelo sr. Presidente do Insti-


tuto a tal respeito.
F permitia-me V. Fx. aualvsar o substitutivo dos secretários:
Dizem elles: o trabalho ofierecido tem o titulo reslriclo de His-
toria da Cidade do Rio de Janeiro e não consulta o espirito da lei mu-
nicipal de \<) de Março de s 896 a qual, creando o prêmio de }0 coutos
para a melhor historia sobre o Districto Federa! «taxativamente impo^
que o historiador escrevesse a historia do Districto Federal».
Parece em vista dessas palavras que quem escreveu a Historia
da Cidade do Pio de Janeiro não escreveu a Historia do Districto
Federal, antigo município neutro, quando um e outro são uma e a
mesma cousa.
Um, o Districto Federal, è a creação da lei, da Constituição;
outro cidade do Rio de Janeiro ê a creação da historia. Tanto fa{ mu-
t

nicípio neutro, Districto Federal, como cidade do Rio de Janeiro —são


swonimos pela Constituição da Republica que em seu art. 2 diz • a

•continuará o Dislricio Federai a ser a capital da bntãõ. E só pode


ser a capital da União a cidade do Rio de Janeiro. Digo Districto
Federa! ê o mesmo que cidade do Rio de Janeiro.
Se o abaixo assignado quizesse apegar-se a essa rabnlice de 'cri-
tico, exarada
XVII

no stíbsittliv&j deMsioèiar somettik o Districto Fulcral, teria de escre-


vera historia iometite de rS0 para cá, dequando data elle, onqnan-
do muito de ISJJ para cà, quando a lei creou o município neutro, e
não desde os tempos coloniaes, como manda a lei, porque nesses tempos
não existia munici/w neutro, item Districfo Federal.
Isso salienta o sophisma de «rábula» de aldeia. O jacto de ter
o legislador dito na íeiqüe a historia devia ir desde os tempos coloniaes,
indica que se traia da historia da cidade do Rio de janeiro e não do
Districto Federal ou município uhulro, que são creaçòes da lei, obri-
gada a isso para dar a cidade do Rio de janeiro representantes ao
Congresso Nacional, sem ser Fstado, como deu á AssembUa Geral,
sem ser Província.
São circumscripèoespolíticas e administrativas e não creaçòes da
historia. Te'm existência de direito e não existência de facto. A allega-
ção do substitutivo de que a obra não é completa sô procede do Jacto
dos seus autores não a terem lido em sua íntegra. Si o tivessem feito,
por certo não afirmariam a inverdvde que. afirmaram. Tendo o
abaixo assignado jà escripto dezoi/oobras sobre assumptos de historia na-
ctonvl, comoa "Historia da Republica» (3 vols.), a '(Historia da Re-
volta de Setembro» (2 vols.), "Historia do Brasil» (2 vols.), além
de outras sobre finanças, direito, economia pilitica, direito territorial
do Brasil, e nas qttaes estão estudados o primeiro e segundo Império e
a Republica, teve de remetter o leitor no Historia da Cidade do Rio
de Janeiro â leitura destas obras.
Não havia necessidade de na obra em questão reeditar tudo
o que jà tinha escripto sob condição de ficar ella excessivamente ex-
tensa .
Permitta-me ftnalnalmçnte trazer.d leitiua de v.ex. twcfmdas
açtas, em vísta da expressão política que ellas assumem, como causa
determinante do movimento de hostilidade sojfrido pelo abaixo assig-
nado. F' assim que di% o substitutivo dos srs. Fleuiss e Rvffard: . . ,
por fifít commeutou acontecimentos p.dilecos estranhos ao fim da obra e
fados particulares e que nada tinham que ver com a matéria." Di^
mais: . . . «acerescendo que o Instituto não fn>dcrá applaudh alga-
XVIII

mas das vè&âès notoriamente parciaes d ' tfiie a autor se soceorre W


certos casos.
Muito de fwposito estão gripitadas as palavras acima. O Insti-
tuto tinha de julgar do mérito da obra e não das opiniões políticas do
abaixo vssiguado que observa a v. ex. o seguinte: Nas quinze sessões
de leitura jamais foi eifa interrompida por apartes em pontos da maior
controvérsia e complexidade histórica, sertão nos trechos que pro-
vavam os esbanjamentos financeiros dt reinado de D. foão VI, e seu
tratado com a Inglaterra que custou a morte da marinha mercante na-
cional ; a delapidação do primeiro Ranço do Brasil; a suggestâo pro-
funda da marquesa de Santos sobre o espirito de D. Pídro I sendo, a
causa exclusiva do desastre do seu governo, etc, etc.
Foi na leitura destes trechos que os apartes tanto se repetiram,
que o autor foi obrigado a pedir uma commissão para ir ao Archivo
Publico e a Bibliotheca Nacional afim de ler os documentos compro-
batorios de tanta inépcia e corrupção daquelles governos. Foi por causa
destas verdades duras à fé monarchica que o conselheiro foão Alfredo
disse em sua indicação :

O traball.w tem mérito, denota grande esforço do autor, mas o


Instituto não o acha completo, nem p. de tomar a responsa-
bilidade do juiso histórico do autor, em certos pontos.» Foi
por causa destas verdades, sr. Prefeito, que o Instituto pre-
feriu um voto ilUguhno, porque ninguém lhe inquiriu sobre
prêmio.

Mtis o abaixo assignado assevera a v, ex. em nome de sua kmra


que, não obstante republica nohislorirko não escreveu a his-
toria da Cidade do Rio através de sua fé politua, como no
Instituto se escreveu a historia da nação através de sua fé
monarchica. Eis porque o abaixo assignado commetteu um
crime de lesa monarchia trazendo ao conhecimento do paiz
fados desconhecidos, mas comprovados em documentos ori
ginaes e authenticos, por mais ofensivos que sejam elles ao
brio e moralidade da politeca e da administração monar-
chica. Deviam continuar a dormir o somno dos archiiys.
XIX

sem tífíiâ mão sacrilega que os viesse trazer ao conhecimento


ãa opinião publica. Por todas estas fOfões e pelo sentimento
de justiça de v. ex. esfvra o abaixo assignado despvclto fa-
vorável. *
Os fartos assignalados nesta petição demonstram muito bem que
foi exclusivamente um fY/isamcnto político a causa e o motivo do pro-
cedimento do Instituto Histórico que preferiu satisfazer as facções
dos monarchistas a garantir o direito limp) ínconcusso, conquistado a
custa do trabalho do auctor da Cidade do Rio de janeiro. Como prova
de que o Instituto prestou-se a esse indigno'papel, ahi estão os seguin-
tes jactos;
i" Desan/onrar uma commissão em que tinha investido o poder
de jlugar do mérito da obra, passando a dvr opinião
fvr si mesmo, abandonando o parecer da resjvctiva com-
missão;
2 n
Tomando a si opinar sobre um fado de que não foi encarre-
gado pela autoridade compiieute, desde quando chegou a ne-
gar o prêmio à obra, reconlteceudo-a de todo o mérito;
f Consentindo que um secretario redigisse a acta para nel/a
intercalar um fado que não se deu na votação, quando elle
tomou uma parle activa e apaixonada no debate, indicando
tudo isto ao presidente do Instituto um dever que não foi
cumprido, qual josse o de mandar lavrar a acta por outro
secretario ;
6" Criminosamente fornecer aos Jomaes particulares documentos
relalkos a questão e que existiam na secretaria do Insli
tato.
Eis ahi os jactos praticados pelo Instituto e que definem o sen
procedimento incorreefo e indigno.
Em tudo isto porém ha uma verdadeira nota cômica que não
pikfc deixar de ser aqui devidamente commeulada. Quando o sr. João
sflfredo, no auge do seu enlhusiasmo monarchico, dizia no seu voto que
o Instituto não pode tomar a responsabilidade dos juízos históricos em cer-
tos pmlos do autor esqueceu-sedeqnepoucos annosdepois havia devender-se
vergonhosamente a Republica no lugar de presidente do Ranço do Bra-
á £ com os proventos de um ordenado de alguns contos de réis
creando langòes para o desconto de letras, hlando para fora honrados
e illust.es direck res como o eminente Dr. Oliveira Coelho, veiho sei -
venluario do banco aíli encaneciâo como os srs. Qejq e Mesquita, para
substituir este ultimo na secretaria por sita patenteia.
E tudo isto porque e para que ? Para poupar protestos que se
allrvanram por parte destes fonesios cidadãos contra as irregularidades
que se praticam no Banco.
Está claro que se agora tivesse lugar a leitura da historia da
Cidade do Rio de Janeiro nos trechos referentes a Marquesa de San-
tos, a Pedro I, a delapidacão do Banco do BrazjK " 1$Q Alfredo
só tinha a manter-se em silencio, porque o isto era obrigado pelo leilão
que fe^ de e de sua fé política. Outra nota cômica que é
preciso aqui ser commentada i quando o sr. Max Eleius disse que o au-
tor commentou acontecimentos políticos estranhos ao fim do traballío e
factos particulares que nada tinham que ver com a matéria.
O autor podia agora commentar o cartas que um honrado
fuis brasileira lhe pespegou nas costas, qual um novo Calino com
a sentença e pronuncia do crime de ladroeira e estelionato em uma
repartição de Estado.
O valor morale a prova de capacidade dos homens que
julgaram a minha obra.
Eis o officio que o Instituto remetten ao Prefeito dando o re-
sultado do trabalho que lhe fbi commettido* oficio que não foi
lido em assembléa geral do Instituto para ser discutido, porque se
assim suecedeu elle não conteria uma inverdade como contém de
dizer que os membros do Instituto em sessão votaram que a obra
não merecia o prêmio ê o seguinte ;
«O Instituto Histórico e Geegraphico Brasileiro rectbeu o
oficio de V. Ex. datado de 16 de Jaueiro próximo passado, no
qual V. Ex. deferia ao Instituto a incumbência de julgar do mé-
rito da HISTORIA no DISTRICTO FKDHK.W.. apresentada á Prefei-
tura pelo Sr. Dr. Felisbello freire.
XXI

Dando cumprimento á solicitação tão honrosa quão impor


tante o presidente do Jnstiluto nomeou uma conimissão especial
composta dos Srs. Conselheiro Tristão de Alencar Araripe, D rs.
Amaro Cavalcanti e Antônio Joaquim dé Macedo Soares, para
estudar a referida obra e emittir parecer.
Esse parecer foi lido na Sessão extraordinária do instituto
de 2o de Fevereiro ultimo, resolvendo o Instituto que o trabalho
fosse lido pelo autor, marcando-se para isso sessões em todas as
sextas-feiras.
A leitura iniciada na sessão de 7 de Março, pelo autor, pro
seguiu regularmente até a sessão de 9 de Maio.
Na sessão de 16 de Maio o Instituto approvon uma indicação
do Dr. Aristides Milton mandando que o autor passasse a ler a
ttrceira parte da obr-i, por ter sido aquella a respeito da qual
existia alguma divergência; o que feito se reunisse o Instituto
em sessão especial para votar o parecer aprestutado.
Ussa sessão especial reatisou-se a 27 de Junho, tendo resol-
vido o Instituto que o trabalho do Dr. Felisbello Freire é da maior
utilidade para o pais, resalvando.se a conveniência de ser com-
pletado, mas que não ê merecedor do prêmio decretado pela lei
municipal.
Inclusas encontrará V. hx, copias do parecer da commissão
especial e da acta da sessão de 27 d - Junho próximo
t Passa-lo,
com as observações ulUriores. •
Tendo terminado a incumbência o Instituto, por meu iuter
médio devolve a V. Ex. os mauuscriptos da obro do Sr. Dr. Fe-
lisbeilo Freire, denominada HISTORIA DA CIDADÜ DO R I O I>H J A -
MilRO, no mesmo estado em que os recebeu.
Prevaleço-me da opportunidade para testemunhar a V. Ex.
a miuha alta consideração.— O I Secelario,
o
IIR.VRÍ R A J F A R D . »
Eis o histórico a -que nos referimos em começo des'a iulrodu-
cção e que precisava ser feito ao leitor que me voe honrar com a
sua leitura. Para esse histórico chamamos insistentemente a atten-
XXII

ção do honrado Sr. Prefeito do Districto Federal o eminente Ge-


ueral Bento Carneiro.

Será para mim motivo de sincero e grande contentamento se


esta obra excitar a actividade de escriptores brasileiros para en-
riquecerem a litteratura histórica carioca ou mesmo fluminense
que iricontestavelmente é 'e uma pobresa lamentável. Só conhece-
mos as obras de Balthásar Lisboa — Am/ats do Rio de Janeiro
que não passa de um plagio vergonhosissima de uma Memória Ma •
nnsc*ipta que existe na Bibliolheca Nacional e a qie recorremos
mais de uma vez na elaboração deste trabalho, e As Memorios
Fluminenses de Mo»seuhor Pisarro que não passam de uma his-
toria religiosa do Rio de Janeiro. Sob este ponto de pista é in-
coutestavelmentc um trabalho completissimo. E a prova que pode*
tttOS a/legar da obra de Balthásar não passar de um plagio das
Memórias que citamos, além de ser uma mera copia delle, está uo
seguinte Jacto, porque poderíamos dizer que aquella Memória era
obra do au'igo ouvidor da cidade do Rio de Janeiro. Não étal,
porque a Memória historia os acontecimentos até ií>6<S'. Pois bem,
até esta data a ohra de Balthásar Lisboa é completa, tão completa
como a própria Memória, descendo a minudeucias e incidentes de
quem compnlsou uma grande copi de documentos. De 166H para
cá o trabalho de Balthásar é completamente omisso, imperfeito e
resumido, por isso mesmo que não tinha mais o fio conductor
que teve até aquella época.
Esta Memória a que nos referimos, foi quasi em sua integra
publica Ja por Mello Moraes em seu BRASIL HISTÓRICO.
O estudo que fizemos de uma larga copia de memórias para
a elaboração deste trabalho levo/t nos a estudar um assumpto de
grande interesse real qual seja o direito de propriedade territo-
rial da cidade do Rio de Janeiro e seus subúrbios. Fitamos con-
victos de que elle é profundamente litigioso c que o patrimônio
da Prefeitura e do Estado tem sido grandemente lesado pelos
particulares. Consideramos de tanta importância este lado da
x x i n

questão que entendemos imprimir em um livro em separado a parte


que se\ refere a esse assnmpto com u nome de QUESTÕES PATRIMO-
NJAES, da qual alguns capítulos publicamos no ECONOMISTA
URASÍILLIRO, è verdade que na Historia do Rio de janeiro eu refiro-me
com alguma extensão às questões patrinumiaes, salientando os seus pou~
o-- mais importantes e traçando a orientação que a autoridade deve
ter para integrai o patrimônio municipal ou federal profundamente
prejudicado. Mas neste trabalho, não publico os documentos compro-
batorios do direito de propriedade do listado ou do Prefeitura. Iz eis o
principal molho de ter resolvido jazer uma obra a parte que jà tstà
completamente prompta, devendo entrar nestes poucos dias em circulação.
não quer dizer que o leitor não encontre muitas paginas mesmo na
Historia da Cidade do Rio de Janeiro sobre questões patrimoniaes.
Mas ellas reclamavam um livro dedicado exclusivamente a cilas.
O segundo volume da Historia da Cidade do Rio de Janeiro já
está bem adiantado e em breve entrará em circulação, devendo a obra
compor-se de dous grandes volumes, o primeiro que abrange um pe-
ríodo que vem de 1,64 até ijco, quando o segundo vem desta e/wca
até nossos dias.
São preciso daqui dizer que esta obra está escripto ha talvez dez
ànnos, prejudicada de ser publicada pelo incidente que acima expose-
mos da traição do Instituto Histórico.
Ahora não fizemos mais do que retoçál-a e muito, accrcscentau-
do-llje alguns capítulos e modijicando outros que precisavam de grande
modificação. São posso saber se ê ou não uma obra perfeita, ainda que
os meus esforços fossem para isso.
A critica intelligenle e conscienciosa o dirá, afim de aproveitar
seus conceitos para completal-a, sendo o único interesse meu fazer
uma obra completa sob todos os pontos de vista.
Antes de acabar, dexo aqui externar meus agradecimentos ao
eminente Dr. Vieira] iàzenda, pelo grande auxilio que me prestou de
sua alia capacidade.
Rio, 20 de Setembro de i<fi2.
Felisbello Freire.
CAPITULO 1

Summari». — Petr Aham, Vespucci , Gonsalo Cor/i-,. Ocmor* da iéloniaatfa.


CA isi&sáp . Diogn Gouhêa. M.rrií» Affonso. Primenv
processo 4f ta/oitis,i(.io. Segundo procesto. Atfoafão Je que /te
parlt o Rio Je Janeiro*

A d e s c o b e r t a p o r Pcdr" A l v a r e s C a b r a l das t e r r a s
de Porto S e g u r o , e m 1600, levou Portugal a preparar
u m a f r o t a q u e fosse ao c o n t i n e n t e r e c o n h e c e r a q u a l i -
d a d e , o v a l o r e e x t e n s ã o d a n o v a t e r r a . E s t a f r o t a fez-
se d e r u m o p a r a seu d e s t i n o e m M a i o d e 1 5 0 1 .
V e i o nesta e x p e d i ç ã o A m é r i c o V e s p u c c i , q u e p e l a
sua c o m p e t ê n c i a n á u t i c a , e r a a v e r d a d e i r a c a b e ç a d i r i -
g e n t e d e l i a , n ã o obst ante s e u c o n l u i a n d o t e r sido e n -
t r e g u e a D . A n d r é G o n ç a l v e s . D e p o i s de t e r a p o r t a d o
c m Bezenoguc, na Á f r i c a , s ó a v i s t o u t e r r a a 16 de
A g o s t o , j u n t o a u m c a b o q u e , p e l a f e s t a do C a l e n d á r i o ,
r e c e b e u o n o m e de Cabo de S. Roque. Seguindo p á r a o
sul, f o r a m d e n o m i n a n d o p e l o m e s m o processo os d i f f e -
r e n t e s lugares da costa q u e a v i s t a v a m ( 1 )
ü r e s u l t a d o desta e x p e d i ç ã o n ã o f o i f a v o r á v e l á s
terras descobertas. A s i n f o r m a ç õ e s de V e s p u c c i desa-
n i m a r a m P o r t u g a l de colonisal-ns, p o r q u e « n a t e r r a n â o

(t) fiisi. Geraldo Bra;ii, pelo VI»,. Porto-Seguro, vol, I , p«g. SS.
h a v i a metaes a l g u n s nem m e r c a d o r i a s d e se a p r o v e i t a r ,
mais q u e a c a n n a f i s t u l a e o l e n h o de t i n t u r a r i a » .
E n t ã o f i c a r a m ellas e n t r e g u e s á a r r e n d a t á r i o s ,
o b r i g a d o s a m a n d a r a n n u a l m e n t e seis navios a desco-
b r i r tresentas l é g u a s de t e r r a . T r a t a r a m de c u m p r i r o
a j u s t e e c m M a i o de 1 Õ 0 3 s a h i r a m os seis n a v i o s .
S e u c o m m a n d o f o i c o n f i a d o a u m dos mais cele-
b r e s nautas d a é p o c a , G o n s a l o C o e l h o , q u e sc r e u n i u a
A m e r i g o V e s p u c c i , c o m o c a p i t ã o de u m dos navios d a
expedição.
N a a l t u r a da i l h a d c F e r n a n d o , u m f o r t e c o n t r a -
t e m p o deu c m r e s u l t a d o o n a u f r á g i o da n á o c h e f e e o
d e s m e m b r a m e n t o da e x p e d i ç ã o , s e g u i n d o u m a s e c ç ã o
d e l i a , a de A m é r i c o p a r a B a h i a e a d c G o n s a l o C o e l h o
p a r a o sul, a t é a b a h i a d o R i o de J a n e i r o , o n d e desem-
barcou e construiu u m arraial. (1)
Esta segunda e x p e d i ç ã o desanimou ainda mais
P o r t u g a l d e t r a t a r d a c o l o n i s a ç ã o do Brazil, f i c a n d o o
n o v o c o n t i n e n t e e n t r e g u e á g a n â n c i a dos p a r t i c u l a r e s ,
q u e a p o r t a v a m a sua costa, p a r a o c o m m e r c i o d o p a o -
Brazil. E muitas e x p e d i ç õ e s f o r a m feitas, dominadas
p o r esse interesse.
O u t r a r a z ã o c o n t r i b u t o para d e s v i a r a a t t e n ç ã o de
Portugal d o c o n t i n e n t e . E r a o seu c o m m e r c i o e s u a s
e x p l o r a ç õ e s na A s i a . E n t r e t a n t o , d i r i g i a m - s e p a r a o
Brasil m u i t a s e x p e d i ç õ e s e os seus g ê n e r o s j á o b t i n h a m
g r a n d e s valores nos m e r c a d o s europeus. D c b a l d e P o r -
t u g a l , p o r vias d i p l o m á t i c a s , p r o c u r a v a p ô r u m p a r a d e i -

(1) Algemas suspeitas (diz Porlo-Scgurw) levam-nos alé suppôr, que esse
primitivo arraial ou alojamento leve logar jun\u do riacho que d'abi tomou o
i.Ciue de Gttripçfi (casa do branco), c que foi ncllc qne foram sacrificados á bru-
talidade dos Bárbaros os dois religiosos arrabidos, qne dos arcliivos da província
constava haverem passado a estas regiões em lfÍ03. Cremos também que a demo-
T* dc Gonsalo Coeiho nestas plagas seiía de ÜÍJÍS a tres aimos, que mandou ex-
plorar a eosta do sul até a bahia de S. M.itliia*; que regressaram 05 explorado-
res, sem persistir mais em basca da paisagem, com que contavam paia seguir,
por esse lado, até Maloca ; e quefinalmenteera da soa expedição a náo do que
sc trata em «ma re.ação ou ga/eu que por esse tempo se publicou, com muitas
notiíias tVeiUs paragens, c ate das grandes riqueza* e tueUcs dc uui paiz (o
PertiJ ua$ cabeceiras do Prata.
ro a esta c o r r e n t e c o m m e r c i a l . O s n e g o c i a n t e s f r a n c e -
zes r e p e t i a m suas v i a g e n s e o r e i O. M a n u e l m a n d o u
e m 1 5 1 6 r e p r e s e n t a r c o n t r a ellas p e r a n t e a corte de
França.
I m p r o f i c u o s os m e i o s d i p l o m á t i c o s p a r a p r i v a r e m
a c o r r e n t e dos a r m a d o r e s p a r a o Brazil, P o r t u g a l r e s o l -
v e u e x p e d i r u m a e s q u a d r i l h a de g u a r d a - c o s t a , c u j o
c o m m a n d o confiou a C h r i s t o v ã o Jarques.
Esta e x p e d i ç ã o n ã o podia produzir a c o l o n i s a ç ã o
d o c o n t i n e n t e , p o r q u e o r e g i m e n t o d e guarda-costa e r a
i n s u f f i c i e n t e para m a n t e r a posse das novas t e r r a s . E n -
t ã o c o m e ç o u a t o m a r c o r p o a i d é a de f u n d a r - s e u m a
colônia forte c vigorosa. O governo portuguez cedeu
á l ó g i c a d e D i o g o de G o u v ê a , q u e lhe p a t e n t e o u os i n -
teresses o c e u l t o s de o u t r a s n a ç õ e s , c o m t a n t a s u g g e s -
t â o , q u e n ã o t e v e m a i s t e m p o de pensar no processo de
c o l o n i s a ç ã o q u e d e v i a p ô r c m p r a t i c a , a f i m de s a n a r e
s a l v a g u a r d a r interesse e d i r e i t o s q u e o u t r a s p o t ê n c i a s
lhe q u e r i a m r o u b a r .
Realizaram-se os i n t e n t o s d e C h r i s t o v ã o Jacques,
c u j a i n f l u e n c i a no e s p i r i t o de G o u v ê a f o i p o d e r o s a , para
d e m o v e r P o r t u g a l da i n a c t i v i d a d e e m q u e se conserva-
v a a t é e n t ã o , r e l a t i v a m e n t e ao B r a z i l .
E M a r t i n A f f o h s o de Souza f o i o e n c a r r e g a d o de
l a n ç a r as bases cesta c o l o n i z a ç ã o , c o m m a n d a n d o a f r o t a
q u e se o r g a n i s o u e e m q u e t o m a r a m parte f a m í l i a s i n -
teiras, v i n d o seu c h e f e m u n i d o de p u d e r e s e x t r a o r d i n á -
rios p a r a r e g e r a c o l ô n i a q u e f u n d a s s e .
A ' 8 0 de A b r i l e n t r o u esta e x p e d i ç ã o , d e p o i s de
ter estado e m P e r n a m b u c o e na Bahia, na b a h i a d o R i o
de J a n e i r o .
A h i suas f o r ç a s d e s e m b a r c a r a m , s e m a m e n o r re-
s i s t ê n c i a dos naturaes d a t e r r a . C o n s t r u í r a m uma casa
forte, c o m c e i c a e i n d e r r e d o r e p e r c o r r e r a m n ã o peque-
na e x t e n s ã o d o H t t o r a l , o n d e se e n c o n t r a r a m c o m os
chefes i n d í g e n a s , q u e f o r a m trazidos á p r e s e n ç a de
Martin Affonso.
N a o p i n i ã o de P o r t o S e g u r o este e s t a b e l e c i m e n t o
f o i e d i f i c a d o na enseada e m q u e d e s e m b o c a o r i o C o m -
p r i d o , e m u m a p a r a g e m q u e m e i o s é c u l o depois se de-
n o m i n o u p o r t o de « M a r t i n A f f o n s o » . ( 1 )
C o n t i n u o u sua e x p e d i ç ã o Martin Affonso, (2)
q u a n d o P o r t u g a l r e s o l v e u c o l o n i s a r o Brazil, p o r m e i o
de capitanias, doadas á c o l o n o s , c o m a c o n d i ç ã o d e
prestarem preito e homenagem á Coroa. Os d o n a t á r i o s
e r a m v e r d a d e i r o s senhores f e u d a e s . Esse r e g i m e n c r e a -
va-se p a r a o B r a z i l , s e m e l h a n t e ao q u e j á se t i n h a a d o -
p t a d u p a r a a M a d e i r a e os A ç o r e s . N ã o s o u b e c o m p r e -
hender as d i f f e r e n ç a s ethnicas e m e s o l o g i c a s e n t r e as
duas p o s s e s s õ e s , para applicar-lhcs o mesmo processo
de c o l o n i s a ç ã o , q u e a l é m d e t u d o , c r e a v a u m r e g i m e n
de a u t o r i t a r i s m o a b s o l u t o , c u j a r e j e i ç ã o , p o r p a r t e d o
soberano, seria i n e v i t á v e l , si t e n t a t i v a s p o r p a r t e d e
outras n a ç õ e s europcas para e o m p a r t i r e m seus d o m í -
nios na A m e r i c a , n ã o apressassem o t r a b a l h o c o l o n i a l ,
c e d e n d o assim a C o r o a g r a n d e parte de suas p r e r o g a t i -
vas, e m f a v o r dos d o n a t á r i o s das c a p i t a n i a s .
M u i t o cedo, p o r é m , ceve o g o v e r n o as p r o v a s d a
i m p r o f l c u i d a d e d o processo c o l o n i a l p o s t o c m p r a t i c a ,
d o q u a l n u n c a sc o r i g i n a r i a u m a c i v i l i s a ç ã o . A d e g e n e -
rescencia m o r a l q u e c o m e ç o u a g r a s s a r nas c a p i t a n i a s ,
pelo c o n t a c t o de e l e m e n t o s q u e d e v e r i a m ser e l i m i n a -
dos d a v i d a social, r e p r e s e n t a d o s nos c o n d e m nados e
exilados que Portugal enviava para o B r a z i l ; o insólito
despotismo contra o indígena, como o melhor estimulo
d o t r a b a l h o e que, e n t r e t a n t o , f o i a f o r ç a p r o d u e t o r a de
m u i t a a c t i v i d a d e q u e se d e s d o b r o u n e s t e paiz ; o abso-

(1) Gabriel Soares. I . c. 52. A enseada dc Botafogo era chamada antiga-


mente enseada dc Francisco Velho.
(2) Por notar um gênio bcllicoso e desconfiado do natural, que nao podia
sujeitar, sem verter muito sangue e com força insignificante para além da vieto-
ria, manter a occupaçflo, seguiu viagem, correndo a costa. Descobriu a barro.
da Tijuca, que desprosoe por nao c ir calado nem a pequenas euibaifações;
a dc Guaratiba, que desprezou pelas mesma* razoe*.. Oosteou a illri e restinga
dc Marambaia, avistando logo nma ilha a quem se chamou WHJ Grande dos
M.teo\ para diífertmeeil-a rias outras que a contornavam e por ser descoberta q,
frde Janeiro. Dahí seguiu para S. Vicente e depois para o Rio da Prata. Me»t
Mst.
— 9 —

l u t o p o d e r dos d o n a t á r i o s , q n e se u t i l i s a v a m de suas
a t t r i b u i c õ e s c o m a r b í t r i o e e x c e s s o , f o r a m n ã o s ó as
c i r c u m s t a n c i a s oceasionaes d o insur.cesso das capita-
nias, c u j a c o l o n i s a ç ã o n ã o v i n g o u , c o m o a c a u s a q u e
convenceu a m e t r ó p o l e d o erro commetlido, inspirando-
l h e a c a r t a r é g i a de 7 d e Janeiro d e 1 5 4 9 , pela q u a l
c r e a v a a coroa u m g o v e r n o c e n t r a l na Bahia, c o m j u r i s -
d i c ç ã o s o b r e todas as c a p i t a n i a s cio Brazil e c u j a f u n -
c ç ã o era m a i a h e t e r o g ê n e a , por isso q u e o g r a n d e p r i n -
c i p i o da d i v i s ã o do t r a b a l h o f o i mais o b s e r v a d o d o q u e
n o processo a n t e r i o r . ( 1 )
A M a r t i n A f f o n s o f o i doada u m a capitania, a que
p e r t e n c i a o t e r r i t ó r i o da c i d a d e d o R i o d c J a n e i r o .
E s t a d o a ç ã o c o m p r c h e n d i a as t e r r a s da c o l ô n i a d c
S ã o V i c e n t e , q u e e l l e m e s m o f u n d o u , p r e f e r i n d o o local
de S a n t o s ao d o R i o d c J a n e i r o .
C o n t i n u a v a o t e r r i t ó r i o quasi q u e a b a n d o n a d o ,
pelos v i a j a n t e s portuguezes, d a n d o isto l u g a r a q u e os
francezes c o n t i n u a s s e m a negociar c o m os í n d i o s desse
lugar, preparando-se para crear uma c o l ô n i a forte e v i -
gorosa .
S e n d o o R i o d c J a n e i r o u m dos p r i m e i r o s p o n t o s
d e s c o b e r t o s , n ã o f o i u m dos p r i m e i r o s c o l o n i s a d o s .
Passemos a e x p ô r as causas d e s t e f a c t o .

(1) Fclisbello Freire. Historia ,/e Sergipe.


CAPITULO II

Conquista © £ u n á a £ ã o da cidade

Snmtnatio.— A expedição de V>lligai<riti>n e Duiant. Divergência entre cs eoianos


Discussões religiosas. Regressão de Jjst/ur$, Motivos d,i expedi-
ção. Refutaeão de um erro de historia.

O a b a n d o n o do t e r r i t ó r i o d o R i o d e J a n e i r o deu
l u g a r a ser elle e s c o l h i d o pelos francezes, c o m o sede d a
c o l o n i s a ç ã o que o p r ó p r i o governo intentou realisar.
S i a p r i n c i p i o o m o v e i das e x p e d i ç õ e s e r a o interesse
pessoal, a a m b i ç ã o dos n e g ó c i o s , de c e r t a d a t a e m
d i a n t e , ellas a s s u m i r a m a f e i ç ã o p o l í t i c a , t r a d u z i n d o os
desejos da F r a n ç a de crear p o r sua vez urna c o l ô n i a em
a l é m m a r . ( 1 ) E ' esta a e x p r e s s ã o d a e x p e d i ç ã o de V i l l e -
g a i g n o n , q u e passamos a e s t u d a r .
E ' f ò r a de d u v i d a q u e a f r e q ü ê n c i a dos francezes,
p o r esta r e g i ã o , f o i o facto q u e m a i s v e i o a n i m a r essa
e x p e d i ç ã o . E l l e s j á t i n h a m chegado a t é Tatuaftara,
dez l é g u a s distante da c i d a d e de S a l v a d o r .
S e g u n d o o d e p o i m e n t o de G a s p a r G o m e s , L u i z
A l v a r e s , m o r a d o r e s c m S . V i c e n t e e Braz Cubas, j á se

(1) Ahi esta como prova a communicacao de Marino Cavalli embaixador


de Veneza ]unlo a còrtc dc Henrique II (154(3: que dizia :
«Com Portugal não püde haver bòa intcllipcn pois que dá uma cuorra-
surda entre os dois paixes. Os francezes pretendem poder navegar para Guindo
o Brazil. e os poituguezes pen--.nu o coutraiio. Si se encontram no mar c sendo
os franceses os mais fracoi, os outios atacam t metteiu ao fundu Os seus navios :
o que ate certo ponto justifica as cruéis represálias que se cOmmettem contra os
navios portugueses.»
— 12 —

tinham a t é fortificado c m C a b o F r i o . (1) D o m i n a v a


estas p a r a g e n s o c e l e b r e CunJiabebe de q u e f a l i a m T h e
vet e L e r y , c o s m o g r a p h o e h i s t o r i a d o r d a e x p e d i ç ã o .
Desde Cabo Frio a t é a Bertioga, dominava elle com a
sua e s q u a d r a dc canoas, d i f f i c u l t a n d o c o n s i d e r a v e l m e n -
te a c o l o n i s a ç ã o dc S . V i c e n t e .
E s t u d e m o s a p o s i ç ã o de V i l l e g a i g n o n .
F o i e n c a r r e g a d o , p e l a c o r t e da F r a n ç a dr. a l t a
m i s s ã o d e a c o m p a n h a r C a r l o s V , na c e l e b r e e x p e d i ç ã o
c o n t r a o Barba-Roxa, c m 1 5 4 2 , m e r e c e n d o os m a i o r e s
e l o g i o s de L a n g e y , nas c e l e b r e s m e m ó r i a s dc B a l l e y .
Depois desempenha com pericia a m i s s ã o d i p l o m á t i c a
de L a n g e y , p e r a n t e o T u r c o S o l i n ã o I I , na H u n g r i a .
R o m p e o c e r c o de M a r s e l h a f e i t o p o r C é s a r de N á p o l e s ,
t r a z e n d o a L a n g e y , c o m o t r o p l i e u s de t r i u r n p h o , as
1

p r ó p r i a s escadas q u e o i n i m i g o , na f u g a , n e m p o u d e
conduzir. A c o m p a n h a o Conde de Anguillara, como
e m b a i x a d o r a c i d a d e de R o m a .
E figura c o m o heroe p r i n c i p a l no r a p t o dc M a r i a
S t u a r t do C a s t e l l o de D u t n b a r t o n , c o n d u z i n d o - a p a r a
F r a n ç a , t o r n a n d o - s e a s s i m , na o p i n i ã o de B c a n g u é ,
« p e r s o n a g e m m u i t o d i g n o d c se l h e c o n f i a r q u a l q u e r
commissão dc c o n f i a n ç a . »
E i s ahi os p r e c e d e n t e s d o h o m e m q u e v e i o ao
B r a z i l , para f u n d a r urna c o l ô n i a , a t r a v é s dos q u a e s o
l e i t o r p o d e a q u i l a t a r d a v e r d a d e e da j u s t i ç a das p a l a -
v r a s clc L e r y e R i c h e r q u e h i s t o r i a r a m essa e x p e d i ç ã o ,
( 2 ) v i n d o c l l e s na f r o t a d e a u x i l i o p e d i d ; i p o r V i l l e g a i -
g n o n , d e p o i s q u e t i n h a f u n d a d o o seu f o r t e na b a h i a d e
Guanabara.
Q u e essa e x p e d i ç ã o n ã o t e v e o c a r a c t e r r e l i g i o s o ,
n e m f ô r a o r g a n i s a d a p o r C o l i g n y e os c a l v i n i s t a s , os
a r m a d o r e s n o r m a n d o s e b r e t õ e s , a p r o v a e s t á na c a r t a

(li Valühâgçnl Ohr. cit., vot. I , i>ag. 27.1.


o

... ü a
«"balhos cítüo publicados na coll. da Rcc, do Instituto
s c u s

Histórico.
— 13 —

d c H e n r i q u e I I , d e 2 6 de M a r ç o de 1 5 5 4 , ( 1 ) r e f e r e n -
d a d a p o r Claussc, s e c r e t a r i o das finanças, pela q u a l
o r d e n a ao t h e s o u r e i r o da M a r i n h a q u e t o m e d o thesou-
r o g e r a l 1 0 m i l l i b r a s tornezas e as e m p r e g u e na expe-
d i ç ã o á c a r g o d o v i c e - a l m i r a n t e da Bretanha", o c a v a l l e i r o
d e V i l l e g a i g n o n . C o m o se v ê , a e x p e d i ç ã o «é* p o s i t i v a -
m e n t e o f f i c i a l , o r d e n a d a por H e n r i q u e I I , p r e p a r a d a á
sua v i s t n , c o m os seus recursos c b a f e j a d a c o m os s o p r o s
d e sua p o l í t i c a . » ( 2 ) O e l e m e n t o r e l i g i o s o n ã o p o d e
permanecer.
A n t e s de e m b a r c a r , V i l l e g a i g n o n f o i o u v i r missa,
confessar-se c e o m m u n g a r d e p o i s « d e j o e l h o s , s o l e m r i e -
mente, como manda a Igreja Romana. »
Seu confessor f o i ò abbade o D r . Bouthilier, ab-
bade dc Relegue.
O p r ó p r i o T h e v e t , o v e l h o f r a n c i s c a n o de A n g o u -
I ê m e e^ojjc f o i c o m p a n h e i r o de V i l l e g a i g n o n , e m sua
v i a g e m a d ' B r a z i l , c o n f i r m a q u e adisse missa n o m e s m o
d i a de d e s e m b a r q u e , no i l h é u , p e l o franecz c h a m a d o
Ràifár Q p q r n ó s c o n h e c i d o c o m o n o m e de ÍMge. »> '
S e m necessidade de i n t e r m e d i á r i o s p e r a n t e H e n -
r i q u e I I , pelos s e r v i ç o s prestados, t i n h . v o s de s o b r a ,
sc fosse preciso, nos Guises, seus Í n t i m o s a m i g o s e cor-
r e l i g i o n á r i o s , « n ã o somente n a f é r e l i g i o s a , c o m o na
p r ó p r i a p o l í t i c o , q u e os a f a s t a v a o d i o s a m e n t e d o s M o n t -
morency. »
D e 2 6 d e M a r ç o de 1 5 5 4 a 1 2 de J u l h o de 1 5 5 5 ,
q u a n d o l a r g o u d o H a v r e para o Brazil. levou a prepa-
r a r a sua empresa, « d e b a i x o das vistas interessadas do
rei.»
N e s t e p e i i o d o de 15 mezes de g e s t a ç ã o d.i e m -
presa, os e l e m e n t o s s ã o o r g a n i s a d o s c o m o m a i o r c u i d a -
d o e s e g r e d o , para n ã o a fazer t r a n s p i r a r , e n ã o a n n u a -

fU A «sÇa cana rorere-sc Hculaard. Cxirte na Bibliothec.* Naoioml de


Pari*, fand. fi.me.ve. Ms, n. f». l-'8.
{2) Dr. Zefjsflçó Cândido, obr. cit, pag. 83.
14

ciada a t o q u e s de t a m b o r e s e caixas pelas r u a s de Paris,


c o m o diz I l a t o n , c m suas Memórias. Sua organisação
e seus fins n ã o t r a n s p i r a m á d i p l o m a c i a p o r t u g u e s a n a
F r a n ç a , representada p o r J o ã o Pereira Dantas, nem
aos o u t r o s d i p l o m a t a s d e P o r t u g a l , c o m o D r . Braz d c
A l v i d c e Gaspar, p e r a n t e o u t r o s p a i z e s .
E* expressiva t a m b é m a c a r t a p a t e n t e de H e n r i -
q u e I I , pela q u a l « e s t a b e l e c e c o m D . J o ã o I I I , seu
bom irmão, compadre e amigo, uma t r é g u a por cinco
annos, no decurso dos quaes n ã o d a r á a n i n g u é m cartas
d c marca o u contra m a r c a c o n t r a P o r t u g a l , nem consen-
t i r á , sob penas rigorosas, a Seus vassalos q u e p r a t i q u e m
q u a l q u e r v i o l ê n c i a o u d e p r e d a ç ã o s o b r e navios d c
P o r t u g a l , debaixo da condição que outro lanto fará El-rei
de Portugal.»
« E s t e d o c u m e n t o t e m a d a t a de l í i d e D e z e m b r o
de 15;>4 c aessa t r é g u a f ô r a o b t i d a de F r a n c i s c o I , pela
d i p l o m a c i a d e D . J o ã o I I I , e m 1 5 4 7 , p o r d o u s annos,
mas h a v i a s i d o p o u c o a n t e s d e n u n c i a d a e n ã o r e n o v a d a
por 1 Ienrique I I . »
« Q u e m n ã o e s t á v e n d o c o m luz c l a r a q u e essa r e -
n o v a ç ã o c o m seu s u g g e s t i v o final e r a o s a l v o c o n d u e t o
q u e H e n r i q u e I I o b t i n h a p a r a a v i a g e m de V i l l e g a -
gnon ? »
« Ü r g a n i s a d a a e x p e d i ç ã o , dirige-sc p a r a o B r a z i l .
C o m p u n h a sc d c tres navios, s e n d o d o u s d e 2 0 0 t o n e -
1 ladas e a r m a d o s c m g u e r r a e o t e r c e i r o d c 1 0 0 , c o m
v i v e r e s , m u n i ç õ e s e a p r e s t o s . T o d o s os e l e m e n t o s a h i
v ê m , para f u n d a r a c o l ô n i a : pessoal, s e m e n t e s e i n -
s t r u m e n t o s . D e l i a fazem p a r t e T h c v e t , m i n i s t r o c a t h o -
l i c o ; Nicolau Barré, secretario ; Bois-le-Conte, sobri-
n h o d c V i l l e g a i g n o n , seu i m m e d i a t o e c o m m a n d a n t e .
E a 1 0 de N o v e m b r o d c 1 5 5 5 e n t r o u na b a h i a d o
Rio.
L o n g a e d e m o r a d a c o n v i v ê n c i a j á t i n h a m os f r a n -
cezes c o m os í n d i o s , c u j o a u x i l i o e x p l o r a v a m , p e l o m o d o
1 de os t r a t a r , m u i t o d i f f c r e n t e d o s p o r t u g u e z e s . N ã o os
escravisavam, n ã o lhes r o u b a v a m a s m u l h e r e s n e m o t e r -
— 15

r i t o r i o . O p r ó p r i o M e n t i o S á , e m u m a c a r t a escripta
d e S . V i c e n t e á D . J o ã o I I I , á 10 de J u n h o de 1 5 6 0 ,
assim f a l l a v a , r e f e r i n d o - s e a Y i l l e g a i g n o n !
« E l l e leva m u i t o d i f f e r e n t e o r d e m com os g e n t i o s
q u e n ó s l e v a m o s : é l i b e r a l e m e x t r e m o c o m elles e
faz-lhes m u i t a j u s t i ç a , enforca os francezes sem c u l p a
n e m processo, c o m isto é m u i t o t e m i d o dos seus, «
a m a d o dos g c n t i o s : mando-os ensinar a t o d o o g ê n e r o
d o f l i c i o s e iTarmas, a j u d a - o s nas suas guerras O gen-
t i o é m u i t o o dos m a i s valentes da cosia em pouco t e m -
po se p o d e fazer m u i t o f o r t e . ( 1 )
O a h i a r a z ã o de V M l e g a i g n o n ser r e c e b i d o sem o
m e n o r s i g n a l d e h o s t i l i d a d e pelos í n d i o s q u e , pela i n -
fluencia dos francezes, f i c a r a m a i n d a mais p r e v e n i d o s
c o m os de S . V i c e n t e , a l l i a d o s dos p o r t n g u e / e s , a q u e m
a j u d a v a m na c o l o n i s a ç ã o d a c a p i t a n i a . V i l l r g a i g n o n
d e s e m b a r c o u e m u m r o c h e d o , c o l l o c a d o á entrada da
barra. ( 2 )
Este local f o i l o g o d e p o i s a b a n d o n a d o e substi-
t u í d o por u m a i l h a mais p r ó x i m a de t e r r a e no i n t e r i o r
da bahia, ( 3 ) a q u a l foi fortificada e guarnecida com
80 h o m e n s .
Pelo t e s t e m u n h o de J o ã o de l - e r y , que-fez p.vrte
d c u m a e x p e d i ç ã o q u e u;n anno d e p o i s veio ao R i o ,
nas e x t r e m i d a d e s desta i l h a e x i s t i a m d o u s o i t e i r o s , o n d e
f o r a m c o n s t r u í d a s duas casas.
A p l a i n a n d o as escabrosidades do t e r r e n o , fizeram
os francezes a l g u m a s p r a ç a s , o n d e e r g u e r a m a casa da
o r a ç ã o , o r e f e i t ó r i o ( o q u e indica q u e c o m i a m e m c o m -
m u m ) e os seus modestos aposentos, c u j a m a i o r parte
e r a de p á o á p i q u e e cobertos de s a p é , ao g o s t o d o s
selvagens q u é h a v i a m sido seus a r c h i t e c t o S . ( 4 )

<1> fttU. iía Inxt,m*i, Sra{„ vo\, 22, pÁg, 20,


(2) O* trancem chamaram
(3- O* naturais chamavam .» c%1.» ilha dc Siieifr.
U) ttex. do íust. Mil. Br*i„ vul. 83, pág. "Jt.
- 16 —

A ' f o r t i f i e a ç â o d e u o n o m e de forte de Coligny e


depois Villegaignon e ao c o n t i n e n t e de França Antar-
clica.
O t i n o de V i l l e g a i g n o n revelou-se, desde l o g o ,
q u e os e l e m e n t o s t r a z i d o s e r a m i n s u f i c i e n t e s p a r a f u n -
dar a c o l ô n i a e a i n d a mais para r e s i s t i r a u m a t a q u e ,
c m m i n c n t e e c e r t o dos p o r t u g u e z c s d a B a h i a o u S .
V i c e n t e . K ' m a n i f e s t o q u e se e n c r a v a n d o no c e n t r o do
t r a b a l h o c o l o n i a l p o r t u g u e z , c u j o r e s u l t a d o seria u m a
s o l u ç ã o de c o n t i n u i d a d e q u e os d e l e g a d o s luzitanos
h a v i a m de p r o c u r a r o b s t r u i r , n ã o h a v i a de ficr.r c a l m o e
t r a n q u i l l o , p e n s a n d o q u e a c o n q u i s t a da i l h a i m p o r t a v a
e m sua d e f i n i t i v a o e c u p a ç ã o e d o t e r r i t ó r i o d o conti-
nente.
A p r ó p r i a escolha i n s u l a r r e v e l a a s i t u a ç ã o de
seu e s p i r i t o , na e s p e c t a t i v a de uma lueta, p a r a a q u a l
ella j á era u m e l e m e n t o de d e f e s a . A c o l o n i s a ç ã o e n -
t ã o n ã o d e v i a passar da phase m i l i t a r , de s e g u r a r a
d e f e n s i v a , antes de estender-se p e l o c o n t i n e n t e , i n i -
c i a n d o a phase a g r í c o l a .
D e s p a c h a p a r a a E u r o p a os seus navios, sob o
c o m m a n d o d o s e u s o b r i r h o Bois*(ç-Conte conduzindo
t

os i n v á l i d o s e l i t n o r a t o s , c o m o fim d e o b t e r a u x í -
lios d o g o v e r n o .
S a h i o a e x p e d i ç ã o d c H o n f i c u r a '20 d e N o v e m -
b r o de 1 5 5 6 e c h e g o u ao R i o a 1 de M a r ç o d e 1 5 8 7 .
C o m p u n h a - s e de tres n a v i o s a r m a d o s e m g u e r r a
— P e t i t e Roberge, c a p i t a n c a , sob o c o m m a n d o de Bois-
le-Conte, c o m 8 0 h o m e n s ; Grande Roberge, copnaneado
p o r E s p i n e , c o m 1 2 0 h o m e n s ; R o s é c c o m com a t r i p o -
l a ç ã o c passageiros, quasi sommando 9 0 homens. ( 1 )
E ' a v i n d a d e 14 p r o t e s t a n t e s nesta e x p e d i ç ã o ,
entre elles L e r y , D u p o n t , Richier c M a r t i e r , q u e mo-
t i v a a e x p r e s s ã o r e l i g i o s a q u e t o d o s os h i s t o r i a d o r e s

( l j Nesta expedição veio o celebre João Cinta, senhor de Deles,


p r o c u r a m d a r - l h e , q u a n d o s e g u n d o o t r a b a l h o de H c u -
Ihard, deve ser considerada c o m o u m contrabando.
S e m nos e m b r e n h a r m o s n o t e r r e n o da p s y c h o l o -
g i a , é fácil c a l c u l a r a i m p r e s s ã o - d e q u e se a p o d e r o u
Villegaignon, com a chegada desta e x p e d i ç ã o .
Precisava de h o m e n s , o p e r á r i o s , u t e n s í l i o s , em
s u m m a , d c e l e m e n t o s de c o l o n i s a ç ã o e n ã o de p r o p a -
g a n d i s t a s d c r e l i g i ã o . P r e c i s a v a de e l e m e n t o s de de-
fesa, c o m q u e pudesse resistir a q u a l q u e r a t a q u e dos
p o r t u g u e s e s c n ã o de m i n i s t r o p r o t e s t a n t e s , q u e s ó
p o d i a m crear d i f f i c u l d a d e s á m a r c h a d a c o l o n i s a ç ã o . E
foi o q u e suecedeu.
I n i c i a r a m as p o l e m i c a s r e l i g i o s a s , sobre pontos de
d o u t r i n a t h e o l o g i c a , c o m o a ceia, a c u c h a r i s t i a , e t c .
A s d i v e r g ê n c i a s a c c e n t u a r a n v s e de l a d o a lado, p e l o
c h o q u e dos d o n s systemas de f é r e l i g i o s a , r e p r e s e n t a -
das p o r V i l l e g a i g n o n e os calvinistas.
D i s t o r e s u l t o u , d i z e m os delatores, a ida de C h a r -
t i e r á E u r o p a , c o m u m a c a r t a de V i l l e g a i g n o n a C a l v i -
no, c o m o o s u p r e m o i n t e r p r e t e d a f é protestante e p a r a
d e r i m i r as d u v i d a s .
A viagem dc Chartier é um f a c t o . Sahiu d o R i o
a 4 de J u n h o de T 5 õ 7 . M a s , a c a r t a e m q u e se asses-
t a m as i n t e r p r e t a ç õ e s s ã o c o n t r a r i a s á v e r d a d e . N ã o
e r a m a i s d o q u e a resposta q u e d e v i a d a r a C a l v i n o
« q u e lhe r e c o m m e n d a r a os p r o t e s t a n t e s » .
A r e s i s t ê n c i a q u e oppoz V i l l e g a i g n o n , á p r o p a -
g a n d a i n s p i r o u u m m o v i m e n t o de c o n s p i r a ç ã o , p o r elles
p r o m o v i d o , c o m p r o v a d o nas seguintes p a l a v r a s d c
L e r y : « E n t r e r a n t o , se elle fosse m a i s f o r t e , e se parte
de sua g e n t e e a l g u n s dos nossos p r i n c i p a e s c o m p a n h e i -
ros n ã o tomassem o nosso p a r t i d o , n ã o d u v i d a m o s q u e
elle e n t ã o a r r a n j a s s e m a l os nossos n e g ó c i o s , i s t o é ,
t e r i a t e n t a d o de m o r r e r p e l a f o r ç a » .
L e r y a i n d a c o n f i r m a a c o n s p i r a ç ã o , q u a n d o cliz:
« V e r d a d e é q u e t í n h a m o s meios s u f f i c i e n t e s p a r a o ex-
p u l s a r m o s , se q u i s é s s e m o s : mas, t a n t o para t i r a r - l h e
t o d o o m o t i v o d c q u e i x a r - s é de n ó s , c o m o p o r q u e , e n t r e
as r a z õ e s j á m e n c i o n a d a s , estando a F r a n ç a c o u t r o s
p a l i e s na espectativa d e t e r m o s ido a l é m m a r v i v e r na
o b s e r v â n c i a da R e f o r m a d ò E v a n g e l h o , t e m e n d o lan-
ç a r mancha sobre a nova doutrina c preferimol-n a N i -
c o l a u d c V i l l e g a i g n o n e sem m a i s c o n t e s t a ç ã o d e i -
xar-lhe a p r a ç a » .
F o r a m e x p u l s o s da i l h a e e m b a r c a r a m p a r a a
E u r o p a no JácqMs, S i des;.ppareceu u m e l e m e n t o d e
p e r t u r b a ç ã o d a ilha, V i l l e g a i g n o n c o m p r e h e n d e u indis-
p e n s á v e l sua ida á E u r o p a , c m busca de a u x í l i o s e o n d e
p r o v o c o u a c e l e b r e p o l e m i c a c o m os r e p r e s e n t a n t e s da
i g r e j a de G e n e b r a .
A s d e s e r ç õ e s d o pessoal cia i l h a e r a m o n t i n u a s e
suecessivas. A l é m disto, u m a peste q u e apparecera,
c o n t r i b u i u p a r a d i z i m a r os e l e m e n t o s da c o l ô n i a , i n c u -
t i n d o nos i n i m i g o s de V i l l e g a i g n o n , no e s p i r i t o d o i n d i o ,
q u e era e l l e a causa do m a l .
N ã o p o d e r i a ; pois, c o n t i n u a r nesta s i t u a ç ã o . O u
o b t i n h a o S recursos, ou a b a n d o n a r i a a c o l o n i s a ç ã o . E i s
a causa d e sua v i a g e m á E u r o p a , a q u a l t e v e l u g a r nos
fins de 1 5 5 9 .

Sumroaiio — A Metrópole pi'ríugnc{<t. Opiniões de Sohrcgj. Men dt Sa e Dar-


tkcloititu ds Co «Ao. A expeiUçâo par* o Ri». O farte dc Cvügny
A ttictã na litthij do Riu de Jjmiro,

Quando isto sc dava, o governo portuguez des-


p e r t a v a de sua i n d i f f é r ç n ç a , c m r e l a ç ã o ao f u t u r o d o
R i o d c J a n e i r o , j á s:«b o d o m í n i o f r a n c e z , U«L q u a t r o a n -
nos. E ' saliente o papel dos j e s u í t a s na s u g g e s t ã o d o
p r o g r a m m a de e x p u l s a r os francezes dessa zona d a co-
l ô n i a , p r i n c i p a l m e n t e de N o b r e g a , « p e l a sua descri-
p ç ã o , sinceras e zelosas p e r s u a ç õ e s , as q u a e s p u d e r a m
a c o r d a r o g o v e r n o de s e u f u n e s t o l e t h a r g o nos ne-
g ó c i o s d o 13razil q u e e s t a v a m q u a s i p e r d i d o s , r e p r e s o u -
— 19 —

tando-se q u a n t o antes n ã o se obstasse aos p e r i g o s q u e


a m e a ç a v a m cs franceses, sua p e r d a e a n r i i q u i l a ç ã o
seria certa, desde q u e os franceses, a h i se f o r t i f i c a s s e m ,
p o v o a n d o o paiz i n t e r n o , e s t a n d o j á a d e s t r a d a s as t r i -
bus i n d í g e n a s , p a s s a r i a m n ã o s ó a senhnrear-se dos es-
tabelecimentos dc S V i c e n t e , mas i m p e c e r e destruir
o c o m m e r c i o da às i a , t e n d o corno esperava c o p i o s o s
reforços c supprimentos dc l o d o o g ê n e r o da F r a n ç a , o
q u e assaz p r o v a v a q u ã o i m m i n e n t e e s t a v a m os nossos
p e r i g o s , t a n t o mais i n s e p a r á v e i s p e l a c o n f e d e r a ç ã o dos
t a m o y o s c o m as n a ç õ e s visinhas, e m p e n h a d a s p e l o s 1 l u -
g u e n o t t e s na a n n i q u i l a ç ã o da r e l i g i ã o C h r i s t ã q u e pro-
c u r a v a m d e s a r r a i g a r dos n s t u r a e s c o n v e r t i d o s , p a r a
ella, fazendo-lhes o d i o s o i n o m e de Ç h r i a t ã o , l i s o n -
g e a n d o e a c a r i c i a n d o os seus m a i s g r o s s e i r o s v í c i o s ,
jparâ os t e r f a v o r á v e i s ao d e s e m p e n h o do seu p r o j e c t o
de p a r t i c u l a r e n g r a r d e c i r n e n t o . ( í )
A c ô r t c resolve-se a escolher u m h o m e m d e v a l o r ,
p a r a g e r i r os destinos da c o l ô n i a , c o m a i n c u m b ê n c i a
d c e x p u l s a r os francezes d o R i o «ic Janeiro.
F o i n o m e a d o g o v e r n a d o r g e r a l do Brazil M e n d e
S á , e m 23 d c Julho de 1 5 5 6 « v a r ã o c o n s p i c u o pelas
suas luzes c r a r a s v i r t u d e s , q u e f a z i a m - n o d i g n o i r m ã o
d o g r a n d e p o e t a F r a n c i s c o de S á c M i r a n d a , o i l l u s t r c
e m u l o de C a m õ e s . A escolha de u m h o m e m da l e i , d e
u m c u l t o r das lettras, p a r e c i a i n d i c a r q u e a m e t r ó p o l e
oecupava-sc mais ser a m e n t e c o m a s o r t e dos seus vas-
salos d ' A m e r i c a , e q u e r i a t e r m i n a r o r e g i m e n a r b i t r á r i o
q u e a t é e n t ã o n c l l a prevalecera, a c c e d e n d o á s r e p r e -
s e n t a ç õ e s d a c â m a r a da B.diin q u e e m 1 5 5 6 , p e d i a e m
n o m e de t o d o o p o v o q u e , pelas chaga!: de Chrisío, m a n -
dasse c o m Lufcvâdade g o v e r n a d o r e o u v i d o r g e r a l , r e t i -
r a n d o os q u e e s t a v a m , pois q u e p?.ra penitencia de pec-
c a d o s j á bastada t a n t o t e m p o , « ( 2 )

(1) Lisboa, Ànttaes ,io l?iorfcfaiuirp, vol. 1 pag., 70.


(2) Reu, <ío lást, Hüí. Bra(:, vol. 22, pag. 37.
— 20 —

C h e g o u a Bahia a ^ 8 de D e z e m b r o , t e n d o s a í d o
d e B e l c m a 3 0 de A b r i l d e 1 5 5 7 , c o m u m a a r m a d a d c
duas n á o s e oito e m b a r c a ç õ e s menores.
T o m a n d o posse de seu c a r g o , ç m J a n e i r o de 1 5 5 8 ,
M e n de S á e n c o n t r o u a c o l ô n i a c m u m a s i t u a ç ã o de
hostilidades pelos i n d i o s , no r e c ô n c a v o d a Bahia e nas
capitanias d o s u l , a t é E s p i r i t o S a n t o , q u e o o b r i g o u a
u m a p o l í t i c a f r a n c a m e n t e c o n t r a os i n d í g e n a s . P a r a isso
preparou expedições militares que pacificaram a ordem
p u b l i c a c o n t r a os r e s p o n s á v e i s p o r a q u c l l a s h o s t i l i d a -
des. U m a das e x p e d i ç õ e s , a d e E s p i r i t o Santo, c o n f i a d a
ao seu filhoFernão de S á q u e f o i m o r t o p e l o s b á r b a r o s ,
t e n d o elle a l c a n ç a d o a f u g e n t a r os assaltantes d a c a p i -
tania e d e s t r u i r os c e n t r o s de h o s t i l i d a d e s . P e l o pessoal
q u e regressou a Bahia d o E s p i r i t o S a n t o , s o u b e M e n
d c S á do q u e se passava no R i o de Janeiro, o n d e loc i -
lis>aram-sc os francezes. N ã o se d e m o r o u o g o v e r n .tdur
de levar essas n o t i c i a s a c o r t e , c o m os apontamentos
q u e colhera, d i z e n d o : t o d o o seu f u n d a m e n t o é* faze-
rem-se f o r t e s ; t e m m u i t a g e n t e e b e m a r m a d a e suas
r o ç a s n ã o s ã o s e n ã o de p i m e n t a s » .
Essas noticias l h e d e s p e r t a r a m l o g o u m p l a n o do
conquista n o s u l , o n d e d e v i a f u n d a r -sc u m a c i d a d e c o m o
a Bahia, no E s p i r i t o S a n t o , c o m u m c e n t r o de p r o t e c -
ç ã o á s capitanias do s u l , acceitando-se a c e s s ã o q u e
faria Vasco Fernandes, velho d o n a t á r i o do Espirito
S a n t o q u e a n ã o p o d i a c o l o n i s a r , c m vista d o s e u es-
t a d o de p o b r e s a . O p l a n o da c o n q u i s t a d o sul n ã o sv.hio
d o e s p i r i t o de M e n de S á , a i n d a q u e m u d a s s e a e s c o l h a
d o l o c a l d a n o v a c i d a d e p a r a o R i o de J a n e i r o , d e p o i s
q u e v i o a s bellezas n a t u r a e s da bahia d ç G u a n a b a r a .
A e x p e d i ç ã o d e F c r n ã o de S á n ã o a l c a n ç o u p l a n t a r a
o r d e m no E s p i r i t o S a n t o . O s i n d i o s v o l t a i a m á s s u a s
correrias nos seus p r i m i t i v o s centros de h o s t i l i d a d e ,
o b r i g a n d o M e n d c S á a i r c o m o f o i c m pessoa v e n c e l os
e d e r r o t a l - o s no E s p i r i t o S a n t o e I l h c o s .
A n t e s de r e g r e s s a r p a r a a B a h i a , s o u b e M e n de
— 21 —

S á p o r u m g e n t i l h o m e m í r a n c e z q u e se c h a m a v a m o n -
s e n h o r de bolees. pessea d c s a n g u e segundo os f r a n c e -
zes a f f i r m a v a m , o q u a l v i e r a da F r a n ç a p a r a p o v o a r o
R i o d e J a n e i r o , o n d e estava o u t r o fidalgo m r . cie V i l l e -
gnon que tinha f e i t o u m a fortaleza m u i t o forte e que
p o r d e s a v e n ç a s q u e q u e com c l i e t i v e r a saio de sua
c o m p a n h i a e se f o i p a r a S . V i c e n t e e d a h i veio t e r
c o m m i g o e me descobrio algumas ruins determina-
ç õ e s de V i l l a g a g r i o n e m p r e j u i s o d e s t a t e r r a e d o ser-
v i ç o de sua a l t e z a . »
C o m os r e c u r s o s q u e encor.trou na c o l ô n i a , n ã o
p o d i a M e n d e S á t e n t a r u m f e i t o de g u e r r a , c m q u e
e n v o l v i a o seu n o m e e à h o n r a d a n a ç ã o q u e r e p r e s e n -
tava. E s p e r o u os a u x í l i o s p e d i d o s p a r a e x p i d s a r os
francezes, q u e elle a c r e d i t a v a m u i t o b e m f o r t i f i c a d o s e
cheios d c f o r ç a no R i o da Janeiro.
N o mez d e N o v e m b r o d c 1 5 5 9 chegava á B a h i a ,
com ma n d a d a pelo c a p i t ã o - m o r B a r t h o l o m e u d c v á s -
c o n c e i l o s da C u n h a , a a r m a d a d e s t i n a d a ao R i o de Ja-
n e i r o , c o n t r a os francezes, d e v e n d o r e c e b e r d e M e n de
S á as o r d e n s convenientes sobre o m o d o de os a g g r e d i r ,
atacando-os, o u o b r i g a n d o os p e l o b l o q u e i o . T r a t o u
l o g o M e n de S á , a j u d a d o pela i n f l u e n c i a d o n o v o pre-
l a d o D . P e d r o L e i l ã o , c h e g a d o a 9 de D e z e m b r o de
1 5 5 9 , c d o s j e s u í t a s , de r e u n i r todos os g e n t i o s alliados
e homens d c g u e r r a , q u e se j u l g o u d i s p e n s á v e i s na c i -
dade d o S a l v a d o r ; e p a r a a c a p i t a n i a d e S. V i c e n t e
escreveu S á q u e , « c o m as f o r ç a s de q u e pudessem
d i s p o r , pois q u e t a n t o lhes i a a ü é ü s interesses, se
achassem á b a r r a d o R i o d c J a n e i r o , no d i a q u e np;a-
zou, e q u e elle c o m a f o r ç a d a B a h i a contava a l i c h e g a r .
C h e g a d o o a u x i l i o da m e t r ó p o l e , d e i x o u Me.» <"e
S á a B a h i a , a 1 6 d e J a n e i r o de 1 5 6 0 , recebendo p o r
t o d a prirte o c o n t i n g e n t e q u e os m o r a d o r e s l h e p o d i a m
f o r n e c e r e s u r g i u no R i o de Janeiro, a 2 1 de F e v e r e i r o
d o mesmo a n n o .
O s chefes da e x p e d i ç ã o t i n h a m r e s o l v i d o aiacar
_ 22 —

de surpresa o f o r t e , « m a s h a v e n d o s i d o p r e s e n t i d a a
e s q u a d r i l h a pelos s e m i n e l l a s i n i m i g a s , f o r ç a f o i prepa-
r a r e m - s e para u m a renhid? p e l e j a , sendo o b r i g a d o s a
f u n d e a r f o r a d a b a r r a . O s f r a n c e z e s a b a n d o n a r a m seus
navios, c h a m a n d o as t r i p u l a ç õ e s p a r a d e n t r o da p r a ç a ,
que t a m b é m . defendiam oitoccntos frechciros T a -
nioyos. ( 1 )
C o n h e c e u o g o v e r n a d o r g e r a l q u e lhe seria i m -
p o s s í v e l e x p u g n a r a fortaleza, s e m n o v o s soccorros d e
g e n t e c de m u n i ç õ e s e p a r a isso e s p e r o u o c o n t i n g e n t e
p e d i d o de S. V i c e n t e o n d e e s t i v e r a o padre M a n o e l d a
N o b r e g a , que o acompanhara, sendo sempre o seu
m a í s l e a l c o n s e l h e i r o , q u e j á estivera, o n d e p o s s u i a i m -
mensas s y m p a l h i a s , q u e r pelos seus e s f o r ç o s , q u e r
pelos d o i r m ã o " J o s é d ' A n c h i e t a , r e t i d o na c a p i t a n i a
pelos t r a b a l h o s da catecheses. A h i se p o u d e c o n s e g u i r 1

u m a e x p e d i ç ã o c o m p o s t a de um bergantin artilhado c de
m u i t a s canoas t r i p u l a d a s por s o l d a d o s , v o l u n t á r i o s ,
m a m e i ucos e i n d í g e n a s conhecedores da costa, g u i a d o s
p o r d o u s R e l i g i o s o s da C a m p a n h i a , os padres F e r n ã o
L u i z e Gaspar L o u r e n ç o . ( 2 )
O f o r t e , pelas c o n d i ç õ e s naturaes da i l h a , o f f e r e c i a
a l g u m a r e s i s t ê n c i a . T i n h a nos e x t r e m o s d o i s pequenos
m o r r o s , c c m c a d a u m delles h a v i a m os d e f e n s o r e s
construído grandes rancharias; c sobre o meio, c m
c i m a do r o c h e d o q u e sc e l e v a v a uns c i n c o e n t a o u ses-
senta p é s , ficava a casa a b a l u a r t a d a d o g o v e r n a d o r .
C o p i a r e m o s a q u i a d e s c r i p ç ã o desta f o r t a l c z a - i l h a q u e
nos d e i x o u u m c o n t e m p o r â n e o : « T u d o o q u e é i l h a
e r a f o r t a l e z a , e t u d o o q u e era f o r t a l e z a i l h a , e t o d a ex-
c e p t o u m p e q u e n o p o r t o na p r a i a e r a c e r c a d o d c p e -
n e d i a b r a v a , o n d e b a t e o m a r cousa de 1 0 0 b r a ç a s d e
c o m p r i m e n t o c 0 0 de l a r g o , e m c u j a s d u a s u l t i m a s p o n -
tas l e v a n t o u a natureza clous c a b e ç o s talhados no mar,

11) Rcv. do /«si. HÜt. fír . vol. 32, pai;. 89.


JX t

•;2) Rfí. do htst. Hiit. jífr.i,., Vol. 22, pag. 09.


— 23 —

e no m e i o de ambos u m s i n g u l a r p e n e d o , c o m o d e q u a -
t r o b r a ç a s d c a l t o e seis e m c o n t o r n o . D a c i r c u m f e r e n -
c i a dos recifes e p e n e d i a d e l l e s t i n h a m f e i t o d e f e n s á v e l
m u r a l h a , dos d o u s c a b e ç o s , c o m pouco a r t i f i c i o , d u a s
j u n t a m e n t e naturaes c artificiosas fortalezas : e d o pe-
nedo, u m p o u c o m a i s c a v a d o ao p i c o , caixa de p ó l v o r a ,
s e g u r a e constante c o n t r a t o d o a r t i f i c i o . ) ) ( 1 )
R e s o l v i d o o a t a q u e , c m 15 d e M a r ç o , r o m p e r a m
as hostilidades, e m r e n h i d o f o g o q u e d u r o u d o u s d i a s .
T e n d o M e n d e S á c h e g a d o ao R i o de J a n e i r o a 2 1
de F e v e r e i r o c t e n d o c o m e ç a d o suas h o s t i l i d a d e s so-
m e n t e a 15 de M a r ç o , v ê - s e q u e h o u v e g r a n d e d e m o r a
c m i n i c i a l - a s . E a c r e d i t a m o s q u e a causa d i s t o f o i a
d e m o r a d o c o n t i n g e n t e d c S. V i c e n t e , sem o q u a l n ã o
quiz o chefe da e x p e d i ç ã o ferir nenhuma a c ç ã o m i -
litar. (2)
A r e s i s t ê n c i a dos da p r a ç a a r r a n c o u a a d m i r a ç ã o
do g o v e r n a d o r g e r a l , q u e assim sc e x p r i m e na sua par-
t i c i p a ç ã o o f f i c i a l : Porque suppusto que vy muito e ly menos
a my parece que senão viu outra fortaleza tam forte no
mundo.st T e n t a n d o u m d e r r a d e i r o e s f o r ç o , p o r q u e sua
c o r a g e m j á c o m e ç a v a a f r a q u e a r « c a n ç a d o s d a demasia
d o t r a b a l h o c de c o m b a t e t ã o v i g o r o s o , diz S. de V a s -
concellos na vida a?Anc//ieta, em q u e e r a m j á mortos
m u i t o s e bons soldados c e s t a v a m f e r i d o s m u i t o m a i s »
escalaram os portuguezes as m u r a l h a s pelo lado d o a r -
s e n a l e a p o d e r a r a m - s e ã v i v a f o r ç a do monte das pal-
meiras, q u e era c o n s i d e r a d o c o m o a sua c i d a d c l l a , de
o n d e , f a z e n d o m o r t í f e r o f o g o , o b r i g a r a m os i n i m i g o s

f l ) Itist. Ge>\tl do ftratit, por Vis:, do Porto Seguro, vol. i , p3j«, 288.
i.2j Divergem as opiniões »«>hre se Macoci da Nc-biy-ga foi ou Uãò a 3. Vi-
cenlK reunir os elementos do ãúXilio> pedidos pela expedição do Rio de Jau ei-
ro. A julgai pelo processo de Boiõi e pela caria de Nobrcga ao cardÈal | ) ,
Henrique, vè-se que o jçSoiíá estava a bittáa com o governador e que pois nao
foi a S. Vicente: «tornou-se conselho no que *c fjti-i e vendo Iodos que i for-
tüleM do sitio em quefrsrjivatuosfrancezese que línhín COIUMJÍO os índios da
terra, mas os dc S. Vicente, aabfbdo piimcir^ da vinda do governador HO Riu.
ja vinhio por caminho c como chegaram determiuou-se o governador de O*
combater..
a e v a c u a r e m a i l h a , p r o c u r a n d o s a l v a r as vidas nas ca-
noas, nas quaes passaram ao c o n t i n e n t e . ( 1 )
O s francezes a b a n d o n a r a m a l u c t a , i u g i n d o d o
f o r t e , j u s t a m e n t e q u a n d o t a m b é m aos nossos se acaba-
v a m as m u n i ç õ e s , e e s t a v a m j á pensando n o m o d o d c
recolher a artilheria que haviam desembarcado.
O n u m e r o dos g e n t i o s q u e e s t a v a m c m f a v o r dos
francezes, o r ç a v a o g o v e r n a d o r e m m a i s d c m i l , « t u d o
g e n t e e s c o l h i d a , e t ã o bons e s p i n g a r d e i r o s corno os
francezes.» (2)
O b t i d a a v i c t o r i a , os chefes, c m c o n s e l h o , t i v e r a m
d e r e s o l v e r s o b r e se d e v i a m p r e s i d i a r o u arrazar o
forte.
« ( O p i n a r a m a l g u n s pela necessidade d c d e i x a r u m a
f o r t e g u a r n i ç à o na conquistada i l h a , a f i m d e i m p e d i r < a
v o l t a dos francezes, q u e n ã o d e i x a r i a m de f r e q ü e n t a r a
t e r r a , onde p o r q u a t r o annos h a v i a m p e r m a n e c i d o . A
r a z ã o p o r é m de n ã o ser c o n v e n i e n t e d i v i d i r as f o r ç a s
d c q u e sc h a v i a mister, n ã o s ó p a r a s u b m e t t e r os g e n -
ties, c o m o p a r a rechassar q u a l q u e r i n v a s ã o estranha,
p r e v a l e c e u . Nesta c o n f o r m i d a d e o r d e n o u M e n d c S á
q u e fosse t o t a l m e n t e arrazado o f o r t e C o l i g n y e r e c o -
l h i d o s aos n a v i o s p o r t u g u e z e s a a r t i l h a r i a e g r a n d e
q u a n t i d a d e de d e s p o j o s do i n i m i g o ,
F f i t o s t o d o s os p r e p a r a t i v o s de v i a g e m , d e i x o u o
g o v e r n a d o r g e r a l o nosso p o r t o , d e s e m b a r c a n d o a í t l
d c M a r ç o em S. V i c e n t e , o n d e a nova d o s b r i l h a n t e s
suecessos-operados n o R i o d c Jar.eiro c d a c o m p l e t a
d e r r o t a dos francezes f o i r e c e b i d a c o m g r a n d e r d v o r o ç o
dos m o r a d o r e s , e m u i p r i n c i p a l m e n t e p o r N o b r e g a e
A n c h i c t a , que tanto t i n h a m c o n t r i b u í d o para o b o m
r e s u l t a d o d a arriscada e m p r e z a . » ( 3 )

0) ./•• íiil. llhi., vol. 22. pag. 41.


[2] tfiii, Oèrat Jo Br*iiK pelos Vis/, de IVitC Seguro, vnl. 1. pag 2S9.
Segundo o leslemnnho de Sebnstiait Aiv^r-s nu Itmibiniaío òr. Mc:i <ic Sà,
o cx-.munir tònicton a li) de Marçrt, em uma scxta-loira. tífpofs do n;cio dia, e
diuou iodo r> sabhado, até a noite, quando fugiram ns fram-ezes,
13) tytv, >íe last. HiSt. iírjf., vcl. 22, pag. 42.
— 25 —

II

Snuii)>.irii> — Volta dos franceses. Seus no-jns inílttfos, Hílteh de Sã. Amiüo de

A. Vicente, Sen desembarque, Fw/tha do tocai da cidade.
Abandonado o porte, em que os francezes se forti-
ficaram, n ã o t a r d a r a m v o l t a r a e l l e , c o m o a u x i l i o dos
naturaes. E i s t o M e n d c S á p r e v i r a , e m sua c o r r e s p o n -
d ê n c i a para a m e t r ó p o l e . T o d a a o p i n i ã o publica na
c o l ô n i a sentia a necessidade d c colonisar-sc o R i o de
J a n e i r o c o m a f u n d p . ç ã o de u m a c i d a d e q u e i m p o r t a r i a
na defeza d o t e r r i t ó r i o c o n t r a a c o l o n i s a ç ã o f r a n c e z a e
q u e p o d e r i a a p e r t a r os l a ç o s d e u n i ã o e n t r e os d o u s
p o n t o s colonisados c m u i t o d i s t a n c i a d o s u m d o o u t r o —
S . V i c e n t e c B a h i a . E esse estado da o p i n i ã o chegava
a t é a m e t r ó p o l e p o r m e i o de r e p r e s e n t a ç õ e s q u e e r a m
d i r i g i d a s , d e v e n d o salientar-sc o j e s u i t a N o b r e g a nesse
e m p e n h o da f u n d a ç ã o de u m a c i d a d e no R i o de J a -
neiro. (1)
M a s , a g o r a t i v e r a m de p r o c u r a r p o n t o s melhores
d o q u e o p r i m i t i v o , o n d e as c o n d i ç õ e s naturaes a j u -
dassem a r e s i s t ê n c i a c o m q u e d e v i a m se o p p o r á pro-
v á v e l o f f e n s i v a das armas p >rtuguezas. E s c o l h e r a m
e n t ã o as aldeias d e n o m i n a i a s Urucnmitim c Paraná-
pitan, A p r i m e i r a s i t u a d a no c o n t i n e n t e , j u n t o a foz do
C a r i o c a ( 2 ) que, corno diz G a b r i e l S o a r e s d e Souza no
Roteiro do Brazil, f i c a v a na e x t r e m i d a d e d a enseada, de
Francisco Velho ( B o t a f o g o ) , no l o g e r d e n o m i n a d o h o j e
òraia da Flamengo « . d e v e n d o o seu n o m e de Ütuçumi-
rim^ s e g u n d o a o p i n i ã o d o nosso i l l u s t r c h i s t o r i a d o r

(1J 1 iv o >]uc elle üi«ia om umi o r t ; a ü. Henrique: «Parece muito nc-


cessariu povoai** C u Rio dc Janeiro c !uzer?sc nclla oulra cidade como a Bahia,
porque com tíüa (U"irá ludo guardado, assim esla capitania de S. Vicente como
a do Kspirito Santo que agora estão bens fracas e »s fraüceies lançado* de lodo
fora Os lndioS sc poderam melhor sujeitar c pará 1**0 mandar mui* moradores e
soldado*, porqr.c dc ou:ra maneira p&de temer-se com rasao nc rrdeai iMiuioidiií
SpiFitus ettm ./,'is seplem nequiotibus se et stiit notissi pejara prion/ius, por que
a lorsaleza i|ur »e desmanchou como era de pedras e rocha que cavaram a
picão facilmen-.e se pode tomar a reedifirar c fortalecer mnilu melhor, Carl. i75.
(2) Hoje conhecido pelo nome de Catttte.
— 26 —

N ò r b e r t o , a u m chefe índio que ali c o m m a n d a v a . A


a l d e i a de Paranápuan achava-se e m u m a i!ha, h o j e
c o n h e c i d a pela d o Governador, p o r ter p e r t e n c i d o a S a l -
v a d o r C o r r ê a , p r i m o e suecessor d e E s t a c i o de S á . ( 1 )
N ã o era m a i s o i n t u i t o p o l í t i c o , c o m o rio t e m p o d e
Villegaignon, « d e fundar u m estabelecimento da m e t r ó -
p o l e e q u e servisse de n ú c l e o a f u t u r a s c o l ô n i a s d a sua
n a ç ã o , m a s u n i c a m e n t e p r o l o n g a r o Í t a t u <pto, c o m q u e
t a n t o l u c r a v a m , oppondo-sc c o m t o d a s as suas f o r ç a s a
q u e os p o r t u g u e s e s , ou q u a l q u e r o u t r o p o v o , c o n q u i s -
tassem o pniz. ( 2 )
S y m p a t h i s a d o s p e l o s T a m o y o s , t r a t a r a m de lhes
e x a c e r b a r o ó d i o contra os p o r t u g u e z e s .
A d e r r o t a dos f r a n c e z e s n o f o r t e , c m q u e t a m b é m
seus a l l i a d o s t i v e r a m de s o f f r c r as cruezas d e l i a , des-
p e r t o u o o d i o d o s t u p y s d o s e r t ã o , p o n d o assim e m
s o b r e s a l t o as recentes p o v o a ç õ e s d e S . V i c e n t e e P i r a -
t i n i n g a , q u e elles c o m os a l l i a d o s p r e p a r a r a m p a r a
atacar.
N ã o f o i d e s c o n h e c i d o esse p l a n o pelos j e s u í t a s
que, s e m recursos, m a t e r i a e s p a r a resistir á h o r d a dos
s e l v a g e n s , p r o c u r a r a m s u b s t í t u i l - o s p e l a f é d e sua p r o -
p a g a n d a e p e l a e x h i b i ç ã o d c suas v i r t u d e s e altas q u a -
lidades moraes.
F o r a m a j u d a d o s , nos p r e p a r a t i v o s d e defesa, p e l o
c a c i q u e Ttberiçd, c h e f e dos i n d i o s d e P â r a t i n i n g n , q u e
n ã o c e d e u aos r o g o s de Araiagy, "magoado por vir dar
b a t a l h a a seu T i o , l e v a d o p e l o s s e n t i m e n t o s d a n a t u -
reza, v e i u p r o c u r a r a T í b e r i ç á p a r a l h e e x p ô r os m a l e s
e r u í n a a q u e s e r i a e x p o s t o , n ã o sc r e u n i n d o á m u l t i d ã o
dos arcos q u e sc d i r i g i a m c o n t r a S. P . m l o , q u a n d o j á
a t r o a v ã m os c a m p o s d c suas a l g a s a r r a s c a l a r i d o s ,
n ã o t e r o q u e o p p o r f o r ç a bastante, s e n d o v ã o e sem

(]) do ftjf.. vol. 21, pag.43.


(2) Idcia, pag. 41.
p r o v e i t o o seu s a c r i f í c i o pela amizade dos p o r t u g u e z e s . "
(!)•
F e r i u - s e a a c ç à o , c o m v i c t o r i a d c T i b e r i ç á e os
portuguezes luetavam, cmquanto « o s J e s u í t a s oravam
como J o s u é , i n d o c o m todo o exercito victorioso render
g r a ç a s ao S e n h o r dos E x é r c i t o s p o r t ã o feliz aconteci-
m e n t o de t ã o c o m p l e t a v i c t o r i a . ( 2 )
Não obstante a derrota, não desanimaram os
indios.
« E m t ã o p e r i g o s a s i t u a ç ã o , v i e r a m c m soecorro
d o s P o r t u g ú e z e s n q u e l l e s dois veneraveis j e s u í t a s N ò -
b r e g a e A n c l i i e t a , p e n e t r a n d o í n d o m i t a s matas h a b i -
t a d a s de povos selvagens, c s ú m m a m e n t e atrozes, sem
o u t r a s a r m a s q u e a c o n f i a n ç a e m Deus, c o m as doces
p a l a v r a s de paz, s e m a u x í l i o s e p r o t e o ç à p tora d a v i r -
t u d e , e de c o n f o r m i d a d e c o m a v o n t a d e de D e u s q u e
d e u f o r ç a á s p a l a v r a s de seus s e r v i d o r e s , c o m o d'espa-
da d e d o u s gumes, c o m q u e f e r i r a m c o m a sua c l o ç u r a
os c o r a ç õ e s d o s i n d í g e n a s , q u e c m vez d a i n d i g n a ç ã o ,
f u r o r e v i n g a n ç a de q u e e s t a v a m p e n e t r a d o s , se t o r n a -
r a m a paz, h a r m o n i a , b ô a f é c i n t e i l i g e n c i a para c o m os
P o r t u g ú e z e s . » (í?)
A p o l í t i c a d e m a n s i d ã o dos j e s u í t a s d e u c m r e s u l -
t a d a a paz c o m os i n d i o s . « P a i t i u e n t ã o N o b r c g a para
S. V i c e n t e a f i m d e t r a t a r das c o n d i ç õ e s d e paz, f i c a n d o
A n c h i e t a e m r e f é m , o q u a l se h o u v e t ã o f e l i z m e n t e q u e
c o n s e g u i u as pazes c o m os de I t a n h a c m , P i r a t i n i n g a ,
i>< ' I a m o y o s d o R i o d c Janeiro, P a r a h y b a e M a y r a n h a y a .
C o m o chegasse o p r o m e t t i d o resgate p a r t i o e n t ã o o ve-
neravel A n c h i e t a , p a i a S ã o V i c e n t e no e x e r c í c i o de seu
A p o s t ó l i c o M i n i s t é r i o , c o n v e r t e n d o assim aos i n f i é i s .
c o m o os fieis, d e s a s s o m b r a d o s dos terrores e c a l a m i -

;l) Atinats do Rio de Janeiro, por S. Lisboa, vol 1, pag. Sl).


(2) Idcm pae. 81.
Í.BJ Annaes do Rio de janeiro, por S. Lisboa, vul. I , pag. Sa.
— 28 —

dades d ' a q n c l l a t e n e b r o s a g u e r r a , q u e t à o e m i n e n t e -
m e n t e os a m e a ç a r a d a mais h o r r i d a d e s t r u i ç ã o . ( 1 )
E s t e iacto d e i m p o r t â n c i a c a p i t a l , c h a m a d o p e l o
C o n e g o P i n h e i r o d e armistício d'Iperohy, celebrado p o r
N o b r e g a , A n c h i e t a e o i n d i o Pindobucú, e c h o o n na c o -
l ô n i a e na m e t r ó p o l e . O f f e r c c i a e l l e a mais feliz o p p o r -
u m i d a d e á c o l o n i s a ç ã o portugueza, de expulsar definiti-
v a m e n t e os francezes d o B r a z i l .
A l e m disto, M e n de S á insistia com a corte para
colonizar o R i o dc Janeiro. ( 2 )
E n t ã o , D . Catharina ordenou a o r g a n i s a ç ã o de
u m a f r o t a , para a q u e l l e f i m , c o n f i a n d o - á ao c a p i t ã o - m ó r
E s t a c i o d e S á , « j á conhecido p e l o s seus g l o r i o s o s p r e c e -
dentes recebeu ordens dc p a r t i r para a Bahia c o m dous
g a l e õ e s , c a r r e g a d o s c o m t o d a a sorte d e p e t r e c h o s d e
g u e r r a c a l i receber as i n s t r u c ç õ e s d o g o v e r n a d o r g e r a l
p a r a o b o m ê x i t o d e sua c o m m i s s ã o . » ( 3 )
C h e g a n d o á a r . l i g a c a p i t a l d o B r a z i l , nos fins d e
1 5 6 3 , e n t r e g o u a seu n o b r e t i o as cartas d a r a i n h a
r e g e n t e , nas quaes d e p o i s d c e l o g i a l - o pelos r e l e v a n t e s
s e r v i ç o s q u e p r e s t a r a ao E s t a d o , c o m a t o m a d a d o f o r t e

(1) Annaes da Rio de Janeira, JIOI S. Lisboa, vol. i , pag. 05.


(2) Na opinião dc Tr. Vicente Jo Salvador (ÂjtHÍ d.i Bibl. Av*. vol. 13,
pag. 73; «estes suecessos prévio a rainha c. Callwiíua quando leu a cariado
governador Men dc Sá. em que llie dava conta da víctoiia que alcançararioRio
de Janeiro, c assim. a leda que llie agiadccen c sc Louve por bem servida dcllo.
todavia lhe estranhou ninho o haver >rta<-ado o lorlc, c não deixar quem defen-
desse c povoasse a terra e lhe mandos, que logo ofizesse,porque não tornasse
o inimigo a fazer ali .i*ser,Io tom pci:go de todo o Br.ifil ; o mesmo lhe e5c;e-
vcu o cardeal d. Heuiique. que cor.: cila governava O KOno, e para esle eifeito
lhe mandaram pelo pioprio sen sohrinho Èfrtncio dc Sá, que levou a nova, uma
armada dc .sei» caiavcUas com n '.<• S. João e um.i n.io da raiteira da Índia
chamada Sinta Maiía a Nova.»
0) N,i opinião dc Çjpistrano de Abi eu, ètu >uas HU notações a Hist. der.
ât y&tiag&en, «fcsiacio dc ttú veio urOvavelioeic.t en: 1557 cm companhia de
Men de Sá, com ou:roa prime*. A 22 de Novembro de 59 foi nomeado capitão da
«ale ÇúKçeiçSo, com o ordenado nunsal do 21600 e o mantimemo de 500
Livro 1 de Provimento s'iuiar c rs,'n., 142 v.
TonjOu parle na primèliã expedição eo Rio de Janeiro, talvçi níi galé dc seu
comutando, c dc S. Vtc*j>té f t i mandado ao reino ro navio tomado «Os francezes
pela K''lé Esaura, Arribou à cidade do Salvador em 28 de Dezembro dc IfiliO,
levando a bordo Joiío Coínla, senhor de Jlrdè*, Km Clljo processo depoz a 3 de
Jancito seguinte: Ana. di Bibiíot, ÍFae., vol. 25. pag. 217, 21!).
Parece pais que Rslacio do Sá estava em Lisboa, quando o governo da me-
trópole resolveu mandar uma expedição sob seu commando ao Brazil para ex-
— 29 -

C o l i g n y e a e x p u l s ã o dos (rancezes, r e c o m m e n d a v a - l h e
q u e se a p r o v e i t a n d o do f e l i z e n s e j o do armistício d'Ipe-
rohy tratasse de p o v o a r o R i o de Janeiro, d e s l i g a n d o
p a r a s e m p r e os t a m o y o s dos sens a n t i g o s e t e m í v e i s
a l l i a d o s . D e u - s e p r e s s a o z e l ò z o M e n de S á de e x e c u t a r
as o r d e n s d c sua s o b e r a n a , e p o n d o á d i s p o s i ç ã o de
s e u v a l e n t e s o b r i n h o as p o u c a s f o r ç a s c o l ô n i a es, p r e -
s c r e v e u - l h e q u e se d i r i g i s s e ao nosso p o r t o , fazendo
escala p o r a l g u n s o u t r o s d a costa, o n d e pudesse receber
novos a u x í l i o s . ( 1 )
E m c o m p a n h i a de E s t a c i o s e g u i u o o u v i d o r B r a z
Fragoso, q u e r e g r e s s a r a de P o r t o S e g u r o , para a g e n c i a r
a u x í l i o s c o m os c a p i t ã e s d o E s p i r i t o S a n t o e S. V i c e n t e
e P a u l o D i a s A d o r n o ( 2 ) , « e m u m a g a l e o t a sua q u e
r e m a v a dez r e i n o s p o r b a n d a e o u t r o s c a p i t ã e s » .
Fez-se d e v e l a para o s u l « e c h e g a n d o á a l t u r a d o
R i o de J a n e i r o , c o m o r e f o r ç o , q u e c o n s e g u i u no E s -
p i r i t o S a n t o , e q u e f o i de c o n s i d e r a ç ã o , a c o m p a n h a n d o -
ei a t é o p r ó p r i o c a p i t ã o - p r o v e d o r B e l c h i o r de A z e v e d o
c o valente t e r m i m i n ó M a r t i n Affonso A r a r i y - b o y a , c o m
t o d o s seus Indios, e n t r o u na enseada para v e r se t e n -
t a v a f o r t u n a , s e m mais s o e c o r r o s » . ( 3 )
O p l a n o m i l i t a r d a e m p r e z t estava t r a ç a d o no
r e g i m e n t o da f r o t a « q u e d e m a n d a s s e o R i o d e J a n e i r o
c o m a p p a r a t o b e l l i c o , a t t r a h i n d o os francezes p a r a u m a
b a t a l h a n a v a l f o r a d a b a r r a , fazendo sempre por conservar
as pazes com os indios ramoyos».

pulsar definitivamente os fundeies A» Rki r ;<lu fundar a cidade, boi em com-


panhia • -.]._ que Ilolcs fo: di &. Vicente para ;i Bahia, onde teve lu^ar o inter-
rogatório das testemunhas no proce.iio-taMauradocontra u herético, lendo
o próprio l.• ..i • umi das '.eslemanhr; que deposerjm. Dahi tot Bolè* retneliidn
para Lisboa etu i - Talvez iosse o próprio tistacio quem o conduzi-se atá a
capital da metrópole.
onfuíãii de l*r. Vicente do Salvador, a armido c ultimando da por Ksiicio
compunha-se de sei» ciravelbii, íUtn o galeão S Juao e unia não d.i carreira da
índia chamada Santa Maria a Nova.
(1J Eco. do Ias!., vol. 22, pag. 45.
(2; Hist. Geraldo tíra^il, por Vise, de Por:n Segum, vol. 1", paç. 298.
{Z) Sobre Paulo Dias Adorno, leia-se o I vol. da Hist. Terriíorijl
o

do Braft /do autor,


— 30

M a s a f r a n c a p e r s p e c t i v a cie r e s i s t ê n c i a era p a t e n t e
nos n a t u r a e s q u e , nas praias, c s t u r c a v a m suas a r m a s ,
e m defesa de u m d i r e i t o e de u m a a l l i a n ç a q u e lhes
i n s p i r a v a m a r e s o l u ç ã o de l u c t a r .
E s t a c i o de S á e n t r o u na b a r r a d o R i o de J a n e i r o
e m F e v e r e i r o de l õ ( i 4 ( 1 ) , c o m a sua f r o t a e ao e n t r a r
a e n s e a d a « a c h a r a m u m a n á o franceza, q u e l h e q u i z
f u g i r pelo r i o a c i m a , m a s os nossos lhe f o r a m ao a l c a n c e ,
e a p r i m e i r a q u e lhe c h e g o u f o i a g a l é d e Paulo D i a s
A d o r n o , em que t a m b é m iam D u a r t e M a r t i n s M o u r ã o
e B e l c h i o r de A z e r e d o , d e p o i s c h e g o u Braz F r a g o s o e
outros, os q u a c s e n t r a n d o n a n á o , a c h a r a m m u i t o p ã o ,
v i n h o , carne e a s s i m a l e v a r a m p a r a b a i x o o n d e ficava I
a capitanea S a n t a M a r i a a N o v a e o g a l e ã o do c a p i t ã o
m ó r E s t a c i o d e S á q u e fez c a p i t ã o d e l i a a A n t ô n i o da
Costa; mas c o m o n ã o ha gosto n e s t a v i d a q u e n ã o s e j a
m a g o a d o , i n d o u m a m a d r u g a d a t r e s bateis nossos t o m a r
agua á r i b e i r a d a Carioca, d e r a m com nove c a n ô a s de
de indios i n i m i g o s , q u e e s t a v a m a g u a r d a n d o c m c i l -
lada, os q u a e s r e p a r t i n d o - s e tres e tres a c a d a b a t e i ,
m a t a r a m os d a c a p i t a n e a , o c o n t r a - m e s t r e , o g u a r d i ã o
e o u t r o s d o u s m a r i n h e i r o s e no g a l e ã o f e r i r a m a C h r i s -
t o v ã o d e A g u i a r , o m o ç o , c o m seis f r e c h a d a s e o u t r o s
sete h o m e n s e o l e v a v a m , mas P a u l o D i a s A d o r n o lhe
a c u d i u a pressa na sua g a l é e c h e g a n d o a t i r o m a n d o u
p o r f o g o e u m i a l c ã o q u e os fez l a r g a r o b a t e i . E n t e r r a -
dos os m o r t o s e m u m a i l h a , c h a m o u E s t a c i o de S à os
c a p i t ã e s a c o n s e l h o e assent t r a m q u e sc fosse a S, V i -
c e n t e buscar c m ô a s e g e n t i o d o m é s t i c o c a m i g o , c o m
q u e m e l h o r se p o d e r i a fazer g u e r r a á q u e l l e b á r b a r o
inimigo»,
E s t e i n c i d e n t e o b r i g o u E s t a c i o a p e n s a r na f o r ç a
d e seus e l e m e n t o s m i l i t a r e s , sob o p e n s a m e n t o de p e d i r
a u x i l i o s a S. V i c e n t e .

\1) Sínião dc VascoilCtllOí. Chronica, 3. 58.


— 31 —

F o i e n t ã o p a r a S. V i c e n t e u m n a v i o p e q u e n o a
chamar Nobrega, afim de, analysada a s i t u a ç ã o , tomar-
se u m a r e s o l u ç ã o d e f i n i t i v a . N o b r f c g a p a r t i u de S. V i -
c e n t e a 19 d c M a r ç o c c h e g o u ao R i o a 3 1 d o m e s m o
mcz, sexta-feira santa, á meta n o i t e . E c m q u a n t o E s -
t a c i o e s p e r a v a os soecorros d c S. V i c e n t e , f e r i r a m - s c
os m a i s e n c a r n i ç a d o s c o m b a t e s e n t r e suas f o r ç a s c os
i n d i o s a l l i a d o s aos francezes.
A c a r n i f i c i n a destes c o m b a t e s e as p e r d a s d c E s -
tacio f o r a m r e g i s t r a d a s p o r A n c h i e t a , c m u m a c a r t a d c
8 d e J a n e i r o d e 1Õ6Õ, e m q u e descreve sua v i a g e m de
S. V i c e n t e ao R i o ( 1 ) , p o r c u j a b a r r a e n t r o u c o m g r a n d e
e s c u r i d ã o e t o r m e n t a , n ã o e n c o n t r a n d o mais os n a v i o s
dc Estacio, c mandando l o g o a terra, a uma iiheta que
f o i d o s francezes, a c h a r a m t o d a s as casas, o n d e os
nossos p o u s a v a m , q u e i m a d a s , c a l g u n s c o r p o s tios escra-
vos, q u e a ] l i h a v i a m m o r r i d o d c sua d o e n ç a , desenter-
r a d o s , as c a b e ç a s q u e b r a d a s , o q u a l h a v i a m f e i t o os
i n i m i g o s , p o r q u e se c o n t e n t a m d c m a t a r os v i v o s ; m a s
t a m b é m d e s e n t e r r a m os m o r t o s e lhes q u e b r a m as ca-
b e ç a s para m a i o r v i n g a n ç a e tomar novo n o m e » .
E i s a h i as p r o v a s dadas p e l o d e p o i m e n t o d c A n -
c h i e t a d a c a r n i f i c i n a nos c o m p a n h e i r o s de E s t a c i o , sendo
isto o m o t i v o de apressar a sua v i a g e m p a r a S. V i c e n t e ,
antes d a chegada d c N o b r c g a q u e e l l e m e s m o h a v i a
c h a m a d o . Julgando-sc e m g r a n d e p e r i g o , sahiu d a en-
seada o n d e estava f u n d e a d o n o d i a 2Í), isto é, dois d i a »
a n t e s d a chegada de A n c h i e t a . B a t i d a sua f r o t a l o g o
ao s a h i r , a r r i b o u ao R i o d c o a d e p a r t i r a , n o s a h b a i o d a
A l l e l u i a , 1 dc A b r i l , encontrando-se e n t ã o com A n -
c h i e t a . Resolveram-se e n t ã o i r a S. V i c e n t e r e u n i r os
a u x í l i o s precisos p a r a a e x e c u ç ã o d a e m p r e z a . E estes
n ã o lhe f o r a m neoados.
o
A ' custa dos maiores s a c r i f í c i o s , a c a p i t a n i i d e

(1) AH. <t.i Bibh Wac, yol. 2 , pag. W. a


- 32 —

S . V i c e n t e v e i u c o n t r i b u i r para a v i c t o r i a das armas


c o l o n i s á d o r a s . G e n t e , m a n t i m e n t o s , armas c m u n i ç õ e s ,
t u d o f o i posto á d i s p o s i ç ã o d c E s t a c i o de S á , a q u e m
N o b r e g a c A n c h i e t a n ã o p o u p a v a m os a u x í l i o s para o
b o m e x i t o da e x p e d i ç ã o . A i n d a desta vez f o r a m os
m a i s poderosos f a c t o r e s da v i c t o r i a , c o m a q u a l o go-
vernador portuguez dilatava a c o l o n i s a ç ã o , expulsando
um elemento estranho que a poderia perturbar, c o m a
p a r t i l h a da c o l ô n i a p o r u m a o u t r a m e t r ó p o l e .
C o m os a u x í l i o s r e c e b i d o s , elevou-se a e x p e d i ç ã o
a s e i s navios d e g u e r r a , a l g u n s b a r c o s l i g e i r o s e n o v e
canoas d e m e s t i ç o s c i n d i o s , e m g r a n d e p a r t e de Ca-
n a n é a , trazidos por Jorge F e r r e i r a e P a u l o D i a s e a l g u n s
d e P i r a t i n i n g a , sem q u e viesse u m s ó d e U b a t u b a , c o n t r a
os seus parentes do R i o .
Por d e m a i s p r o l o n g a d a f o i a d e m o r a de E s t a c i o
e m S . V i c e n t e p o r q u e , t e n d o s a b i d o cio R i o d e J a n e i r o
d e p o i s o u em A b r i l de 1 5 0 4 , s ó r e g r e s s u a 2 2 d e J a n e i r o
d e 1 5 6 5 , q u a n d o sahiu de S . V i c e n t e . O t e m p o f o i
e m p r e g a d o na r e u n i ã o de e l e m e n t o s c o m q u e d e v i a v>r
e x e c u t a r a e m p r e z a q u e lhe f o r a c o n f i a d a pelo g o v e r n o
da m e t r ó p o l e . E se n ã o f o r a a a c t i v i d a d e e n o r m e d c
N o b r e g a e A n c h i e t a , p o r c e r t o q u e esses e l e m e n t o s
j a m a i s h a v i a m d c r e u n i r - s e , p o r q u e e n t r e os s e u s p r ó -
prios c o m p a n h e i r o s r e i n a v a o d e s a n i m o e d o m i n a v a a
j d é a de a d d i a r a e x e c u ç ã o d a e m p r e z a p a r a m e l h o r e s
t e m p o s . D i z i a m elles q u e « o i n i m i g o e r a i n n u m c r a v e l ,
f o r t i f i c a d o em ca<a p r ó p r i a , c o m m a n t i m e n t o s á m ã o ,
c o m c m b a r c a ç ô e s t ã o ligeiras como o mesmo vento, com
as a r m a s q u e j a m a i s l h e p o d i a m f a l t a r , i n d u s t r i a d o s n a
g u e r r a pela g e n t e f r a n c e z a , c u j o s p r i n c í p i o s t i n h a m e x -
perimentado: e que tudo o contrario a c h á v a m o s e m n ó s ;
p o r q u e e r a m a s poucos, a c o m m e t t i a m o s c o m o p e i t o a
f r e c h a , e m t e r r a alheia, o n d e n ã o s a b í a m o s dos postos
q u e p o d e m fazer a nosso i n t e n t o , os m a n t i m e n t o s aca-
b a d o s , a t e r r a i m p o s s i b i l i t a d a d c a d o r n o s p e l o s assaltos
c o n t í n u o s dos i n i m i g o s , as e m b a r c a ç õ e s g r a n d e s c p e -
— 33 —

sadas, a m u n i ç ã o l i m i t a d a e nossa g e n t e p o r t u g u e z a
p o u c o d e s t r a no m o d o de p e l e j a r dos i n d i o s : q u e p o -
d e r i a s t i c c e d e r u m a d e s g r a ç a q u e desse q u e c h o r a r ;
que sempre f o i p r u d ê n c i a n ã o a r r í s c o r a graves perigos,
o n d e a e m p r e z a c v o l u n t á r i a e sc p o d e e s p e r a r o c e a s i ã o
s e g u r a . I s t o d i z i a m ; e a este fim m o v i a m m u i t a s t r a -
ç a s , uns c o m zelo, o u t r o s c o m r e c e i o , o u t r o s p o r e n f a -
dados». (1)
Semelhantes r a z õ e s eram combatidas por N o b r e g a ,
p o r q u e « q u e d i r ã o os t a p u i o s i n i m i g o s , esses e depois
de tanta g r a n d e f a m a de p o d e r , v i r e m q u e v o l t a m o s as
costas s e m s a n g u e ?
M a i s honra seria c m t a l caso m o s t r a r essas costas
f e r i d a s na peleja q u e s ã s s e m p e l e j a r ; p o r q u e f e r i d a s ,
m o s t r a r i a m d e s g r a ç a d a f o r t u n a e s ã s m o s t r a r i a m des-
d o í r o da f a m a » . ( 2 )
V ê - s e , p c i s , q u e a figura d o m i n a n t e d o q u a d r o c
N o b r e g a q u e excita e d e s p e r t a a c o r a g e m do c o m m a n -
d a n t e d i f r o t a q u e , sem elle, e e n t r e g u e á s suas p r ó p r i a s
r e s o l u ç õ e s e ao p r o g r a m m a d e p r o t e H a ç S ò dos seus c o m -
panheiros, n ã o p o r i a m ã o s á o b r a , ficando a i n d a a d d i a d a
a r e s o l u ç ã o , d o g r a n d e p r o b l e m a d a c i v i l i z a ç ã o brazi-
l e i r a d a f u n d a ç ã o da c i d a d e d o R i o .
N ã o é d i f r i c i l p r e v e r q u e esse r e s u l t a d o seria ine-
v i t á v e l , si N o b r e g a a b s t è m - s e de envolver-se no assum-
p t o . n ã o s ó pelas s u g g e s t õ e s c o m q u e age no e s p i r i t o
de E s t a c i o , c o m o n o d e seus c o m p a n h e i r o s franca e pro-
f u n d a m e n t e desanimados.
A g l o r i a é pois de N o b r e g a .
D i r i g i u - s e e n t ã o E s t a c i o para o R i o , c m c u j a b a r r a
e n t r o u e m F e v e r e i r o , depois de a l g u n s i n c i d e n t e s de
v i a g e m q u e fizeram separar a c a p i t a n e a d o resto da
e x p e d i ç ã o que seguiu, em p a r a l l c l o á c o s t a , a t é a entrada
do R i o , o n d e a esperou p o r a l g u n s dias.

i l : SiinJo idi Vasconccllos. Of>r. cil.


(3) Simão dc Vasconcclloi, Obr. sit.
— 34 —

D u r à n t e a v i a g e m deram-se i m p o r t a n t e s i n c i d e n t e s ,
segundo i n f o r m a a i m p o r t a n t e c a r t a de A n c h i e t a de 9
de J u l h o d e 1 5 6 5 .
N o d i a 2 2 de Janeiro, o m e s m o d a p a r t i d a , c h e g a
a n á o capitanea ( S a n t a M a r i a a N o v a ) á i l h a d e S. Se-
b a s t i ã o , t e n d o f i c a d o e m S. V i c e n t e B r à z F r a g o s o c o n -
c e r t a n d o o g a l e ã o e a n á o fra:icc/,a t o m a d a no a n n o
a n t e r i o r no R i o de J a n e i r o . N o d i a ' 2 7 , s a h c m de Ber-
t i o g a c i n c o navios pequenos, dos quaes tres de r e m o s
e mais o i t o c a n o a s , c o m m a m e l u c o s de S . V i c e n t e ,
i n d i o s do E s p i r i t o S a n t o c conversos d c P i r a t i n i n g a .
F o i nesta remessa q u e v i e r a m os r e l i g i o s o s G o n ç à l o d e
O l i v e i r a e J o s é de A n c h i e t a , r e u n i n d o - s e c i l a á c a p i -
tanea no d i a 2 8 . N o d i a 1 de F e v e r e i r o , t o d o s r e u n i d o s
seguem v i a g e m com pouca marcha, d ã o s ó por causa
das e m b a r c a ç õ e s de r e i n o s , c o m o p o r q u e h a v i a o r d e m
p a r a n ã o se s e p a r a r e m e assim u n i d o s c h e g a r a m á i l h a
G r a n d e no d i a 4 o u 5, o n d e e s p e r a r a m p e l o c a p i t ã o -
m ó r q u e n ã o c h e g a n d o , o b r i g o u - o s a s e g u i r c a 15 c h e -
g a m ao R i o , j á e s t a n d o a h i f r o n t e i r a á b a r r a a c a p i t a n e a .
A 16 h o u v e u m f o r t e t e m p o r a l q u e l e v o u um dos n a v i o s
pequenos e a c á p i t a h e a á i l h a G r a n d e . A 2 7 os o u t r o s
navios j u n t a m - s e á s canoas nas i l h a s f ó r a d a b a h i a e a
2 7 os i n d i o s t e i m a m e m e n t r a r p e l a b a r r a o u e n t r a r
p a r a as suas terras, pois e r a s e n s í v e l a f a l t a d e m m t i -
m e n i o , d e s i s t i n d o d i s t o pelus r o g o s q u e l h e s h z e r a m .
A 2 8 apparece a capitanea c o m o navio desgarrado e
j u n t o s e n t r a r a m ^ o R i o de J a n e i r o , d e b a i x o d e c h u v a e
a 1 dc M a r ç o desembarcam c c o m e ç a m a c o n s t r u c ç ã o
da c i d a d e .
Estacio fundeou logo á entrada, á sombra do P ã o
de A s s u c a r , d e s e m b a r c a n d o na p e n í n s u l a q u e se f o r m a
ao l a d o d e l l e , e n t r e o mar e o p r i m e i r o saeco o u c o n c h a
da b a h i a , j u n t o ao m o r r o Cara de Cão de Gabriel Soares,
h o j e m o r r o de S. J o ã o . E s t e s i t i o i m p u n h a - s e c o m o o
l o c a l para a f u n d a ç ã o d à c i d a d e , c o m e ç a n d o l o g o a
r o ç a r o m a c i o e a fazer, a n t e s d e t u d o , u m a t r a n q u e i r a ,
— 35 —

q u e servisse á d e f e n s a c o n t r a q u a l q u e r s u r p r e s a ; c o n -
s t r u í r a m se a r r u a d o s , a l g u n s ranchos o u t ú j u p a r é s de
t a i p a de sebc, ao n u d o dos dos i n d i o s c a b r í u - s c u m a
c a c i m b a na g a n d a r a j u n t o a p r a i a , t u d o isto apezar das
ciladas q u e p o r t e r r a e p o r mar, i n t e n t a v a m os b á r b a r o s ,
c u j o p r i n c i p a l A m b i r é e r a d e s t r í s s i m o no a r m a l - a s à o
inimigo. ( 1 )

III

SLMMARIO—-A primeira pliastda luetã• A t i-tad' vlha. As Judas na bahia.


(Começo i/a administração. Os funteionari^t públicos. Novas
expedições. Lucta final.

Mal estava alojada a força expedicionária, soffreu


o p r i m e i r o a t a q u e a (i d c M a r ç o pelos l a m o y o s , « e m p e -
nhados, c o m r e p e n t i n o s a l a r i d o s , e s t r o n d o s de vozes e
arcos, q u e e n t r e a q u e l l a g r a n d e p e n e d i a d o s i t i o fazia
pavor c e s p a n t o » . A resistência foi grande, principal-
m e n t e p o r p a r t e dos i n d i o s de P i r a t i n i n g a , p r o f u n d a -
m e n t e c n colcrisad :>s p e l o s castigos e m u m dos seus
i r m à o s , c a h i d o e m m ã o s dos assaltantes q u e o « a m a r -
r a r a m c m u m p á o , f a z e n d o d e l l c a l v o de s u a s flechas,
a c u j o rigor acabou a v i d a » . E o resultado a derrota
dos assaltantes. A esta a c ç ã o seguiu-se u m a o u t r a , a
10 de M a r ç o , c o m u m a n á o f r a n c e z a q u e E s t a c i o avistou
no f u n d o da b a h i a . P e r s c g u i n d o - a c o m q u a t r o b a r c o s ,
t e v e e n t r e t a n t o de v i r d e f e n d e r a p o v o a ç ã o , a t t a c a d a e m
sua a u s ê n c i a e m u m a gale d c remos, f i c a n d o os o u t r o s
tres n a v i o s a l u c t a r e i n c o m a n á o a t é q u e f o i capitulada,

(i) Itist. Geraldo Brás., por Porlo Seguro, vol. I . pag. 302. Diver-
o

gem os nossos hí.HorlàiloVes sobre » local iú primitiva fundação da cidade,


Pi&irm pensa que foi iuiytó da fbrtaleía dc S. }OSo e ttalthaíar da Silva Lisboa
na rança visir.ha. O local escolhido foi no logur indicado no texto.
Si mio dc Vasconccllos diz que o local foi 'iunto a um altíssimo penedo
que pela fonna dellc sc chamou Pão de Assacar c outra penedia que por outro
lado a cercava,
Adiante voltaremos a este assurapto para darmos provas incoQCUsal de
bue foi abi o primeiro local da fundação da cidade.
— 36 —

r e n d é n d o - s e e l l a a 1 2 , com a c o n d i ç ã o de p o d e r r e t i r a r -
se para a F r a n ç a c o m a sua g u a r n i ç ã o composta d.^ 1 1 0
h o m e n s c a t h o l i c o s para « n ã o a u g m e n t a r o n u m e r o d o s
que ficavam em terra, d i f i c u l t a n d o assim a e m p r e z a » .
O insuecesso dos assaltantes n e s t a i n v e s t i d a l e v o u - -
os a p e d i r e m recursos paru C a b o F r i o q u e , de ha m u i t o ,
se t i n h a t o r n a d o o p o n t o p r e d i l e c t o dos francezes, de
o n d e v i e r a m tres navios c c e n t o e t r i n t a canoas. C o m
estes recursos c o m e ç a r a m c m p r i n c í p i o s d c J u n h o u m
n o v o a t t a q u e , e m q u e f o r a m c o m p l e t a m e n t e destro-
çados .
Por esta o c e a s i ã o , d i z o V i s c o n d e d c P o r t o S e g u r o ,
t i n h a m os nossos u m b a l u . - r t e de t a i p a e a l g u n s r a n c h o s
e «casas cobertas e feitas em redor da cerca muitas
r o ç a s e plantado legumes e i n h a m e s » .
E m J u l h o teve l o g a r o u t r a a c ç ã o n o t á v e l , e m q u e
a v i c t o r i a f o i d c B e l c h i o r de A z e r e d o , p r o v e d o r c ca-
p i t ã o - m ó r do E s p i r i t o S a n t o q u e desde 1 5 6 4 sc i n c o r -
p o r a r a á a r m a d a de E s t a c i o , q u a n d o passou p o r a q u e l l a
c a p i t a n i a . D e p o i s d e r e n h i d o c o m b a t e a p r i s i o n o u duas
c a n ô a s i n i m i g a s de v i n t e q u e v i n h a m sobre a p o v o a r ã o .
A a c ç ã o teve l o g a r « e m p a r t e o n d e a i n d a n ã o f o r a m
c a n ô a s de nossa g e n t e , p o r ser d i s t a n t e seis a sete
l é g u a s » , talvez p a r a as b a n d a s d e P a q u e t á .
D o u s dias depois desta v i c t o r i a d o p r o v e d o r d o
E s p i r i t o S a n t o . E s t a c i o de S á c o g i t o u de f u n d a r a c i d a d e
p o l í t i c a e a d m i n i s t r a t i v a m e n t e , p o r q u e este e r a o seu
o b j e c t i v o r e a l . S e m isto os e s f o r ç o s m i l i t a r e s , a s o m m a
de interesses e de a c t i v i d a d e q u e se e n v o l v e r a m n a
l u c t a , p a r a seu b o m ê x i t o , ficariam d e s t i t u í d o s d e v a l o r ,
p o r q u e a a l ü a n ç a dos francezes c o m o g e n t i o f a r i a c o m
que permanecessem a e x p l o r a r a r e g i ã o com a proba-
b i l i d a d e de a c o l o n i s a r . ( 1 )

(1) A victoria dc Belchior de Azeredo IcVc lo^ar rio <íia 13 ce Julho,


cm vista dc uma ic dc ollicio que lhe dirá Estacio dc Sã. publicada UOÍ «Au-
uass do Rio de Janeiro* por B. S. lisbóa, vol. I , pag. 37.
— 37 —

N o d i a 15 d e J u l h o fez a d o a ç ã o á C â m a r a M u n i -
cipal d o R i o de J a n e i r o p a r a seu p a t r i m ô n i o .
E r a b e m r e c e n t e o f a c t o de M e n de S á . S u a v i -
c t o r i a s o b r e e l l e s de n a d a s e r v i u , p o r q u e n ã o sc p r e o c -
cupou com a colonisação do território, limitando-se a
e x p u l s a r os francezes q u e v o l t a r a m e f o r a m de n o v o
expulsos. Este f a c t o e r a b e m recente p a r a i m p r i m i r na
e x p e d i ç ã o de E s t a c i o , a l é m do c a r a c t e r m i l i t a r , o c a r a -
cter político.
« E s t a c i o de S á , m a l p i s a r a t e r r a s do R io de Janeiro,
fizera l o g o s u r g i r e m sua t o t a l i d a d e , m o r a l e p o l í t i c a , a
c i d a d e d c S. S e b a s t i ã o d o R i o de J a n e i r o . D e s d e a
B a h i a a c i d a d e v i n h a c r e a d a , a a l m a estava f o r m a d a ;
s ó l h e restava o c o r p o — o nttmdus — d e n t r o d o q u a l se
elevassem o c a p i t ó l i o q u e protegesse e unificasse a
p o p u l a ç ã o , os m u r o s e as p o r t a s ( 1 ) . F i x o u o t e r m o d a
c i d a d e q u e se e s t e n d i a a t é u m r a i o p a r a cada l a d o
d e seis l é g u a s c p a r a o p a t r i m ô n i o da C â m a r a d o o u p a r a
rocio legua c meia.
A i n d a q u e e m i n i c i o de c o n s t r u c ç ã o m o d e s t a , Es-
tacio d e u á f o r t a l e z a de S. S e b a s t i ã o , c o m o e r a a t é e n t ã o
c o n h e c i d a , o n o m e d e cidade de S. S e b a s t i ã o d o R i o de
J a n e i r o a 10 de J u l h o de 1 5 6 5 , d a t a d o despacho d c
u m a p e t i ç ã o q u e lhe f o i d i r i g i d a pelos seus m o r a d o r e s
em q u e p e d i a m « t e r r a s p a r a rocio do C o n s e l h o e para
p a s t o s de g a d o » . A posse da d o a ç ã o teve l o g a r a 2 4 do
m e s m o m e z dc J u l h o por J o ã o Prosse, « e e m n o m e d e
t o d o s os m o r a d o r e s e povoadores, assim dos q u e a g o r a
e r a m , c o m o dos q u e a d i a n t e f o s s e m » , i n d o o p r ó p r i o
E s t a c i o de S á n a q u c l l e d i a « c o m os m o r a d o r e s c p o v o a -
dores desta c i d a d e , a m a i o r p a r t e d e l l e s á banda d ^ l é m ,
o n d e sc c h a m a carioca, q u e era t e r m o desta c i d a d e p a r a
t o m a r e m posse das t e r r a s a s s í g n a l a d a s para o C o n s e l h o
e q u e sendo pelos d i t o s m o r a d o r e s c p o v o a d o r e s r e q u e -

(1) O «Pat. Tcir. Da Mutiici. do Rio dc Janeiro*, por Carlos de Car-


valho, pag. 5.
— 38

r i d o ao d i t o C a p i t ã o - M ó r q u e o mandasse m e t t e r d e
posse das d i t a s terras, q u e assim t i n h a dadas, p e l o q u e
logo pelo dito C a p i t ã o M ó r fora m a n d a d o a A n t ô n i o
M a r t i n s , m é i r j n h o , q u e mettesse de posse a e l l e J o ã o
Prosse das d i t a s terras q u e assim assignava, p o r q u a n t o
para este caso o d a v a p o r P r o c u r a d o r da ü i t a c i d a d e ,
p e l o q u e l o g o os d i t o s m o r a d o r e s e p o v o a d o r e s disse-
r a m q u e elles h a v i a m p o r b e m q u e elle J o ã o Prosse
tomasse posse e m n o m e d e t o d o s , assim presentes,
com o ausentes e q u e o d i t o m e i r i n h o l h e m c t t e r . i nas
m ã o s t e r r a , p e d r a , agua, p á o s e h e r v a s q u e e l l e J o ã o
Prosse passearac a n d a r a p e l a dita t e r r a , assim e l l e , c o m o
os m o r a d o r e s e p o v o a d o r e s q u e presentes f o r a m e se
h o u v e r a m p o r empossados e m e t t i d o s d a d i t a posse,
s e m pessoa n e n h u m a o c o n t r a d i z e r , n e m i r á m ã o e q u e
sendo assim t o m a d a a d i t a posse, se t o r n a r a m p a r a a
cidade ( 1 ) » .
N ã o d e l i b e r o u n e n h u m a u t o d e posse p o r f a l t a d e
t a b e l l i ã o q u e e n t ã o n ã o e x i s t i a . E p o r isso f o i p o r e l l e
l a v r a d o a 6 de O u t u b r o d o m e s m o a r i n o p e l o t a b e l l i ã o
P e d r o da Costa q u e é j u s t a m e n t e o p r i m e i r o n o t a r i o
publico d a ridade d o R i o de Janeiro.
D e d i r e i t o estava f u n d a d a a c i d a d e . S ó l h e r e s t a v a
a e x i s t ê n c i a d e f a c t o , r o d c a l - a d c e l e m e n t o s d e resis-
t ê n c i a c o n t r a as t e n t a t i v a s dos a l l i a d o s , q u e se r e p e t i r a m
por e s p a ç o de d o u s a n n o s , isto c, d e 1 de M a r ç o de
1 5 6 0 , d a t a d o d e s e m b a r q u e dc E s t a c i o j u n t o ao P ã o d c
A s s u c a r , a t é 18 de J a n e i r o d c 1 5 6 7 , q u a n d o a p o r t o u

II) Tombo das Tcrra> Muuinpnfrs por Haddock Lobo, pag. 70. O trecho
acima transcripto deste ducumeulu c intçíéisaute, sob muitos títulos. Além dc
provar a data cm que o Riu dc Janeiro foi elevado a cidade dc fortaleza que
era então, demonstra timbcm que o local da primeira cidade fei o Pão dc
Ã&auçar, porqae só assim elle poderia Usar da phrasc <á banda d'alcm, nnde
sc chama carie ca*, ir.dicando cila uma pcm-tracâo pelo mar entre o local eiri
que estava ella ãituadae o local chamado cntào Carioca. Ainda hoje mesmo
existe ei-io br a Cá de iriár que fôrma justamente a Praia da Saudade. K o local
chamado Cirioo conipiehendia enrüo ;nda a extensão de território desde este
braço de mar até o terreno banhado pfln rio Carioca que desembocava nos
fundos do Hotel dos bMinioieiius, listè documento *us»-íi.a uma importante
questão d* que .idi.mte traeiaiciuos com o desenvolvimento que cila exige;
a origem da palavra Carioca para denominar este rio.
— 39 —

M e n de S á , c o m os s o c c o r r o s levados da B a h i a e o u t r a s
c a p i t a n i a s d o norte.
H a v i a n o m e a d o J u i z o r d i n á r i o da c i d a d e a Pero
M a r t i n s N a m o r a d o , d a n d o posse d a a l c a í a d a r i a - m ó r a
F r a n c i s c o D i a s P i n t o q u e t i n h a s i d o c a p i t ã o da c a p i t a -
nia d c P o r t o S e g u r o , n o m e a d o p o r M e n d e S á na B a h i a ,
p o r p r o v i s ã o de 1 0 d e D e z e m b r o de 1 5 6 5 , « p o r s e r v i ç o s
q u e h a v i a f e i t o no e d i f i c a m e n t o d a c i d a d e e p o r a c ç õ e s
m i l i t a r e s p r a t i c a d a s e m m a r e t e r r a na e n s e a d a d o R i o
Janeiro». (1)
A posse desses f u n e c i o n a r i o s revestiu-se d c f o r m a -
l i d a d e s q u e , p o r sua o r i g i n a l i d a d e perante a l e g i s l a ç ã o
de h o j e , m e r e c e m ser a q u i transcriptas, s e g u n d o f o r a m
descriptas p e l o t a b e l l i ã o P e d r o d a C o s t a : A p r e s e n -
t a n d o o a l c a i d e - m ó r o seu p r o v i m e n t o ao c a p i t ã e - m ó r
E s t a c i o de S á , e s t a n d o p r e s e n t e o Juiz P e r o M a r t i n s
N a m o r a d o , o o alcalde p e q u e n o D o m i n g o s F e r n a n d e s ,
p e d i u q u e o empossasse, s e g u n d o o q u e E l - R e i m a n d a
v a e m suas o r d e n a ç õ e s ; d e tendo-se o g o v e r n a d o r c o m
as m a i s pessoas á p o r t a p r i n c i p a l d a c i d a d e l l a e f o r t a -
leza, l h e d i s s e — Q u e cerrasse as p o r t a s — O q u e f e z ' o
a l c a i d e - m o r c o m as suas p r ó p r i a s m ã o s b e m c o m o os
d o u s p o s t i g o s s o b r e p o s t o s nelles c o m suas a l d r a v a s de
f e r r o ; e f i c a n d o E s t a c i o de Sa f o r a das portas e m u r o s
l h e p e r g u n t o u o a l c o i d e - m o r q u e estava d e n t r o , se q u e -
r i a e n t r a r e q u e e i a o c i p i t ã o da c i d a d e de S. S e b a s t i ã o
e c m n o m e de E l - R e i Nosso S e n h o r , e i m m e d i a t a m e n t e
lhe f o i a b e r t a a p o r t a , dizendo o a l c i i d e - m o r q u e reco-
n h e c i a p o r seu c a p i t ã o c m n o m e dc S . A , , c u j a c i d a d e
e fortaleza e r a » . (2)
A m a i o r i a dos f u n c c í o n a r i o s f o i n o m e a d a p o r M e n

(1) B. da S. Lisboa, «Obr.cU.«


(2) B, da S, Lisboa, cObr, cil.,val. I , pag. 105».
— 40 —

dc Sá na Bahia, como prova de que a cidade vinha


creada desde l á . ( 1 )
« A c i d a d e d e c r e a ç ã o de d i r e i t o , c o n v e r t i a - s e e m
facto ; a m a c h i n a g o v e r n a m e n t a l p o d i a f u n e c i o n a r s e m
i n t e r r u p ç ã o ; a f o r ç a e x p a n s i v a dos p o v o a d o r e s h a v i a de
a c c e n t u a r - s c e m t o d a s as m a n i f e s t a ç õ e s da v i d a . A c o n -
quista do s o l o g e r a v a a m b i ç õ e s ; p r o c l a m a d a a c o n s t i -
t u i ç ã o da p r o p r i e d a d e t e r r i t o r i a l , n ã o p o d i a s u b t a h i r - s e
á i n f l u e n c i a d o d e s e r t o , das riquezas l a t e n t e s a a t t r a h i r
0 f a c t o pessoal, a a c ç ã o i n d i v i d u a l , q u e o r e g i m e n l e g a l
pretendia encaminhar, methodisar e dirigir. O r e g i m e n
da p r o p r i e d a d e n ã o p o d i a ser s i m p l e s m e n t e l e g a l .
S e r i a c o n t r a d i z e r t o d a a sua h i s t o r i a e p r e t e n d e r q u e
as mesmas causas n ã o p r o d u z e m os mesmos c f f e i t o s .
O s modos p r i m i t i v o s d a o e c u p a ç ã o d e v i a m p r e d o m i -
nar.» ( 2 ) .
A d e s p e i t o das d i f f i c u l d a d e s d a s i t u a ç ã o e m q u e
se a c h a v a E s t a c i o de S á , b a i x o u a l g u n s actos de o r d e m
administrativo e civil. Como medida policial, hinçou
u m b a n d o , p r o h i b j n d o , c o m g r a n d e s p e n n a s , os j o g o s
de carta, d a d o s c b o l a . S e as c o n d i ç õ e s sociaes d o
a c a m p a m e n t o de P ã o de A s s u c a r n ã o e r a m u m c o n j u n -
c t o de v í c i o s , t o d a v i a e l l e n ã o p o d i a d e i x a r de r e s e n t í r -
se d a s u g g e s t á o do j o g o . F o r a m t a n t o s os q u e i n c o r r e -
r a m na p e n n a d a q u e l l a m e d i d a p o l i c i a l q u e E s t a c i o t e v e

(1) A prova dista está nos seunintes 3^'os dc nomeação: "Pero da


Costa foi provido pejo mesir.o goveniadordor {Men dc Sá) por Provisão de 9
dc Doicmhrn <ie 1505. escriYãu das sesmanas c tabellião cc notai, ieferiiid«-se
nclla ser pelo serviço de o liavcr acompanhado na sua primeira conquista de
Willcgaignon e haver sc portado mui animosamcnto. Tendo desistido daqv.elles
oflicios, o mesmo Governador Geral, cm Provisão dc 3l) dejatx-iro dc 1567,
lhe deu o de Tltesourciro dos Dílumos e Ausentes, entrando iM<;ur-lles Gaspar
Rodrigues de Gõespor Provisão do Capità^-Mõr Tstacio de Sá, d" 1G dc Dezem-
bro de T56ü, pelos serviços feitos na Armada da Capitania de S. Vicente, dando
em 6 de Novembro dc Iflfifi ao mesmo Pcrn da Costa o o fliei o do Sello das
Armas da Cidade. Nomeou Alcaide, Carcereiro por Piovisão dc lõ de Setembro
do mesmo anno a Francisco Fcmiandes e a B^qv.isla Fernandes, por Provisão
de 19 de Setembro do mesmo anuo Porteiro c Prcçoeiro. Os outros oflicío* de
justiça e fazenda foram providos pel" Governador Geral, o qual em Provi>ãe
dada na Bahia a 2 de Dezembro de 15ÜÕ deu a Miguel FerrA» os Oííkios dc
Tabellião de Notas, pelj desistência dc Peru da Costa. («|. Vol, An. do Rio dc
Janeiro por 11. da S. Lisboa. pa«. 100*}.
(2) Dr. Carlos dc Carvalho. AH. cti.
— 41 —

de recuar, c o n c e d e n d o u m a a n n i s t i a aos processados


p o r taes d e l i c t o s .
Passaram-se os annos d e 1 5 6 5 e 1 5 6 6 , s e m q u e
E s t a c i o a l c a n ç a s s e v e n c e r os a l l í a d o s d e f i n i t i v a m e n t e
para t r a t a r dos a s s u m p t o s da c o l o n i s a ç ã o . O s e n c o n t r o s
c o n t i n u a r a t n s ú c ç e s s i v a m e n t e e os a t a q u e s s e g u i a m - s e
uns a o u t r o s sem q u e u m a d e f i n i t i v a v i c t o r i a viesse
p ô r u m t e r m o final a s e m e l h a n t e s i t u a ç ã o q u e i m p o r -
t a v a e m cansar a g u a r n i ç ã o d a f o r t a l e z a e d e s c o n t e n -
tal-a, E e n t r e estes a t a q u e s é p r e c i s o c o n s i g n a r s e m q u e
Francisco V c l h o f o i victorioso.
I n d o buscar m a d e i r a s p a r a a c a p e l l a de S. S e b a s -
t i ã o , f o i a t ã c a u o p o r K i t ) canoas q u e p o u d e v e n c e r c o m
os a u x í l i o s q u e l h e f o r a m trasidos p e l o p r ó p r i o F s t a c í o .
N i n g u é m m e l h o r d o q u e J o s é de A n c h i e t a , teste-
m u n h a o c u l a r dos a c o n t e c i m e n t o s , d e s c r e v e a s i t u a ç ã o
e m q u e se achava E s t a c i o d e S á : « o m a i o r i n c o n v e -
n i e n t e q u e a l i h a v i a a l é m da f o m e é q u e l á e s t ã o m u i t o s
homens de t o d a s as c a p i t a n i a s , os quaes passa d e u m
a n n o q u e lá a n d a m c d e s e j a m v i r sc p a r a suas casas,
c o m o é r a s ã o ; se os n ã o d e i x a m v i r , perdem-se-lhes
suas fasendas ; se os d e i x a m v i r , fica a s i t u a ç ã o desam-
parada e c o m g r a n d e p e r i g o d e serem comidos os q u e
lá ficarem.» Disia mas o m e s m o j e s u i t a : « J á á m i n h a
p a r t i d a t i n f í a m f e i t o m u i t a s r o ç a s ao d e r r e d o r da c e r c a
p l a n t a d o a l g u n s l e g u m e s e inhames, c d e t e r m i n a v a m
de i r a a l g u m a s r o ç a s de T a m o y o s a buscar a l g u m a
m a n d i o c a p a r a c o m e r e a r a m a d e l i a para p l a n t a r ;
- t i n h a m j á f e i t o u m b a l u a r t e m u i f o r t e de taipa de p i l ã o
c o m m u i t a a r t i l h a r i a d e n t r o , c o m q u a t r o o u cinco g u a -
ridas d c m a d e i r a e t a i p a de m ã o , t o d a s c o b e r t a s d e
t e l h a q u e se t r o u x e de S. V i c e n t e c faziam-se o u t r a s e
o u t r a s , c os indios c m a m a i u c ô s faziam j á suas casas d e
m a d e i r a e b a r r o , c u b e r t a s com umas p a l m a s f e i t a s e
cavadas com cales e telhas, q u e é g r a n d e d e f e n s ã o
c o n t r a o f o g o . O s T a m o y o s a n d a v a m se a j u n t a n d o para
dar u m g r a n d e c o m b a t e na cerca ; j á h a v i a d e n t r o d o
— 42 —

r i o o i t e n t a canoas c p a r e c e - m e q u e a j u n t a n a m g r a n d e
mata de m a d e i r a p a r a se d e f e n d e r e m d a a r t i l h a r i a e
a b a l r o a r e m a cerca ; m a s os nossos t i n h a m j á g r a n d e
desejo de chegar a q u e l l a h o r a , p o r q u e d e s e j a v a m e es-
p e r a v a m fazer g r a n d e s cousas pela h o n r a de D e u s e do
seu R e i e l a n ç a r d a q u e l l a t e r r a os c a l v m o s e a b r i r a l -
g u m a p o r t a para a p a l a v r a d c D e u s e n t r e os T a m o y o s
/ c a r t a d e j . d e A n c h i e t a de 9 d e J u l h o d e 1 5 6 5 , p u b l i -
cada no v o l . I I I da R c v . d o I n s t . H i s t . B r a s . )
E r a r e a l m e n t e d i f f i c i l a s i t u a ç ã o de E s t a c i o d e S á ,
desde q u e elle e m S . V i c e n t e r e u n i a , com a u x í l i o s de
N o b r e g a , os e l e m e n t o s d c sua e x p e d i ç ã o , e m g r a n d e
m a i o r i a f r i o s e i n d i f f e r e a t c s aos interesses d a e m p r e s a
e s u g g e s t i o n a n d o a sua t r a n s f e r e n c i a p a r a m e l h o r e s
t e m p o s o u c o m a u x í l i o s mais p o d e r o s o s d c os q u ê i a m
s e n d o o b t i d o s . A l é m d i s t o , a f a l t a de m u n i ç ã o de bocea
no a c a m p a m e n t o c o n t r i b u í a a i n d a m a i s p a r a d e s a n i m a r
os e s p í r i t o s c p l a n t a r o de - c o n t e n t a m e n t o no s e i o d o
acampamento.
N ã o obstante isto houve, um c o m e ç o dc colonisa-
ç ã o . M u i t o s dos q u e a c o m p a n h a r a m E s t a c i o d c S à o b t i -
v e r a m sesmavias d e t e r r a s nos a r r e d o r e s d o acampa-
m e n t o , e ncllas c o m e ç a r a m o t r a b a l h o a g r í c o l a . M u i t o s
locolisaram-se e m C o p a c a b a n a , na G á v e a , na T i j u c a ,
e m J a c a r é p a g u á , outros pelo littoral, c m B o t a f o g o ,
C a t t c t e , L a p a e o u t r o s d o l a d o de N i t h e r o y . ( 1 )
N ã o o b s t a n t e as d i f i c u l d a d e s e m q u e estava E s -
tacio de S á , n ã o p e d i u soecorros a seu t i o na B a h i a .
U m facto i n l l u i u p a r a isso c f o i a v i a g e m d c J o s é d e
A n c h i e t a p a r a a Bahia, a f i m de t o m a r o r d e n s sacras,
sahindo d o R i o a 3 1 d c M a r ç o de 1 5 6 5 .

{1} Entre as sesmarias dadas por l-lstacio c que constam do vol. 63 da


Rev. do lnst. Hist., pag, 9ü, destacamos as de Christovão Monteiro e José
Adorno na Carioca c outra em Kictheroy, a de Pedro Martins Xamorado e José
Adorno também em Ktciheroy, de Manuel de Britto na (íavea o Tijuca. dc
Christovão dc Darros em >M de Pcrnão Baldes cm Pa<iuetá, de Antônio
Mailíus em S. Louren^O que depois (16 de Marco dc 156B íoram adjudicadas
ao indio Alaitin AÜOUsO (Araribuya).
B
— 43 —

Men de Sá foi informado da situação real de Es-


t a c i o , t r a n s m i t l i n d o p a r a a c ô r t e as c o n d i ç õ e s e m q u e
se a c h a v a o seu s o b r i n h o no R i o d o J a n e i r o , á b r a ç o s
c o m as maiores d i f i c u l d a d e s , no i n t u i t o d c p e d i r os i n -
d i s p e n s á v e i s a u x í l i o s , c o m q u e se pudesse r e s o l v e r a
crise e s a l v a r a s i t u a ç ã o d o s u l .
N ã o f o r a m n e g a d o s os a u ai l i o s . Preparam-se t r e s
g a l e õ e s q u e v i e r a m p a r a a B a h i a , sob o c o m m a n d o de
C h r i s t o v ã o de rôarros ( 1 ) .
O p r ó p r i o M e n de S á quiz i r c m pessoa ao R i o ,
c o m m a n d a n d o a e x p e d i ç ã o , p a r a salvar a s i t u a ç ã o d e
E s t a c i o . J u n t o u aos g a l e õ e s dous n a v i o s c seis c a r a v c l -
l ó e s e c o m o pessoal q u e p o u d e r e u n i r e m a n t i m e n t o s
s e g u i u p a r a o R i o . a c o m p a n h a d o p e l o bispo D . P e d r o
Leitão (2).
C h e g a d a a e x p e d i ç ã o ao R i o , f o i r e s o l v i d o , s e g u n d o
d e l i b e r a ç ã o t o m a d a e m c o n s e l h o d o seu c h e f e q u e fosse
l o g o a t a c a d o o i n i m i g o , j u s t a m e n t e no d i a d a i n v o c a ç ã o
ds p a d r o e i r o d i c i d a d e ( 3 ) .
O i n i m i g o se t i n h a f o r t i f i c a d o p r i n c i p a l m e n t e e m
d o u s p o n t o s : e m U r u ç ú - M i r i a i o na i l h a Paranapecú ;
d e p o i s c h a m a d a Matacaià o u do Gato, a m a i o r d a
b?,hia ( 4 ) .

(1) Alem dos serviço* quo prestou Christovão dc Barres no Rio de


Janeiro, as^iuualainos OS que elle prestou lambem a Sergipe, em 1590. con-
quistando a lerra e começando a sua coLuuisaçào. (<V. Hist. de Serg.> por
relishello Freire!, fará a expedição do Rio dc Janeiro foi elle nomeado a 10
de Marco de 1ÕW.
l2) Por «ara oeeasiao Pernambuco prestou importantes serviços envian-
do cem homem e mantimentos, Eis uma pr<AVa de solidariedade da colônia que
muito fazia sentir contra o inimigo commum.
(3) Na opinião do conego Fcraande* Finhejro («Rev. do Inst. IIist.>,
vol. 22. pag, í)0), a espediçao sahiu da Bahia em Novembro de 1566 com des-
tino á capitania dos líhcos. onde O governador puniu os Aymorcs. Deixou
esta capitania a l dc Janeiro dc 1507, chegando â barra do Rio a 18 dc Janeiro.
O primeiro combate teve logar a 20 do mesmo mcr.. Na opinião do patre Si-
máo dc Visconcellos a expedição partiu da Bahia cm NovcmHro e checou ao
Rio a 18 dc Janeiro. <
(4) Men de Si no Instrumento chama esta fortaleza dc Birxoaçú Mirim ILyvuÁAfi
Mas assim, di* elle, dei ordem com que logo se combateu a fortaleza dc Bi. T / * W /

faoaçú Mirim, grande e princidal e muito guentiro. a qual estava a um passo , .


muito alto e mais fragoso com muitos franceses etc. (Nas annotaçoes à obra £&U* ' n

dc Porto Seguro. Capistrano de Abreu diz: das palavras referentes á altura e


fragosidade da aldeia que sem grande risco dc errar conclui que ficava no morro
44 —

A fortaleza, de Uruçu mirim o u Yrassumírim, na


phrase d o Santuário Marianno ou I b u r a g u a s s ú m i r i m ,
na phrase de F r . V i c e n t e de S a l v a d o r , f o i c o n s t r u í d a no
f i m da p r a i a do F l a m e n g o , a d i a n t e d o r i o e n t ã o cha-
m a d o Carioca, n o m e este q u e f i c o u a p p l i c a d o a t o d a a
e s t e n s ã o t e r r i t o r i a l desde a p r a i a de l í o t a f o g o a t é o
Cattete. (1)
E s t e p o s t o f o i a t t a c a d o p o r M e n de S á a 2 0 de
Janeiro e d e r r o t a d o s os francezes e i n d i o s q u e f u g i r a m
os q u e p u d e r a m escapar da m o r t e , p a r a o u t r o p o s t o
f o r t i f i c a d o q u e ficava na i l h a c h a m a d a h o j e d o G o -
v e r n a d o r e pelos i n d i o s d c P a r a n a p c c n e pelos p o r t u -
guezes de M a r a c a i á ou d o G a t o , p o r q u e M a r a c a r a i á s
chamavam-se os i n d i o s q u e h a b i t a v a m ou g a t o s
bravos. ( 2 )

da "Gloria, antigamente chamado de Lcvy. segando bondosa coiriinuiiicaçào dc


Vieira Fazenda. Divergimos desta opinião. O antigo morro de Lery uào é o
morro da Gloria de hoje e >ítu o morro da Viuva. M a prova está cm uma
sesmaria dada por Salvidor Benevides como governador ria capitania a Heitor
Fernandes Carneiro, a 2J) rie Abril de lbM2, «fura do* IimicM da cidade, entre
Os limites das terras dos m«rros da Gloria c Leripc, dopoía di Viuva, costeando
o caminho que vao para a L;.gòa do lado*.
Outras provas daremos quando adiante tratarmos deste assump:o, Além
disto, parece-nos nan exislir uculiuma filiação eatre Lei ipe, nome do morro,
com Lery, nome de um dos companheiros de Villegaignou aue foi o historia-
dor dessa tentativa de colonisação c que aliena nenhuma construção ter sido
feita no continente, Leripc é o nome indígena dado pelos selvagèn* às ostras
adlicrcnles ás pedras, uis praias. Muitis vezes elles mergulha••rim para apa-
nhal-as c trazel-as á fi<.r d'-igua, cheias dc pequenas ostras, fc' de presumir que
a lona do morro que estudamos fosse tão rica destas p:dra* e destas ostras
que dellas tomasse o uome.
(1) 0 nome Carioca ou mais propriamente City-ocj que quer dizer casa
do branco indica que sc tinha cou*iruida nesta pjiragew uma casa por um
branco, onde depois fez-se a fortificapão que na opinião dc Porto Seguro foi
disposta por Hois lc Comtc. Nao sabemos as razoes que levaram o uoUvel
historiador a semelhante asseveração. Não ha duvida sobre a cxitit-i.zia dcsU
casa, porque todos Os documentos da época rcgistiam-iM. O próprio Anchieta
no seu Instruntnilo, diz o seguinte, cm sua primeira viagem ao K-O: Na enseada
da Carioca que está na lagoa para dentro um tiro. onde desemb-rcaram junto
de uma aguada, está uma cas;t grande com artilheria c dizem ser fortaleza.»
O nome de Cattete que quer dizer nutio verdadeiro, matlo virgem, appa-
recc pela primeira vez nas cartas do atoramejilo c nas sesmarisa concedidas
naqutlla zona do meiado du sceulo 1" p..ra cá, quando toda a região perdeu o
atiUgo nome dc Carioca que Gcou então reservado ao trecho do Larfco do
Machado para lá. p

(2) A ilha do Governador tomou o nome de Governador pur ter sido dada
em sesmana a Salvador Correia de Sã. depois governador d- Rio de Janeiro
cabendo a oulra metade ao almoxahfc regio Ruy Gonçalves, tendo n i>rimeirõ
obtido confirmação de sua doacçâo cm Lisboa a 13 dc Fevereiro de lõ7ti.
— 45 —

Este combate, « p o s t o que foram mortos e feridos


m u i t o s c h r i s t ã o s , n ã o sentiu menos f e r v o r no c a b o q u e
no c o m e ç o , a t é q u e r e n d e r a m e c a p t i v a r a m n o v e o u
dez francezes, m a t a r a m o u t r o s , o n d e Estacio de S á f o i
f e r i d o de u m a f l e c h a d a de q u e m o r r e u . ( 1 )
A l é m d e E s t a c i o d e S á ( 2 ) , m o r r e u neste combate
o c a p i t ã o B a r b o s a , « h o m e m de g r a n d e s partes, de
m u i t o e s f o r ç o e v i r t u d e , g r a n d e d e v o t o da C o m p a n h i a ,
c u j a p e r f e i ç ã o p r e t e n d i a i m i t a r » . V e n c i d o s os i n i m i g o s ,
fortificaram-se em P a r a n a p e c ú , onde foi combatel-os
M e n de S á e a o n d e h a v i a m a i s de tres m i l h o m e n s de
g u e r r a e m u i t a a r t i l h e r i a e tres dias de c o m b a t e a t é
q u e e n t r a m o s c o m m u i t o t r a b a l h o e m a i o r risco e
m o r t e s d c a l g u n s brancos e depois d e se d e f e n d e r e m
e s f o r ç a d a m e n t e se r e n d e r a m e f o r a m t o d o s c a p t i v o s . E
estando prestes a i r a o u t r a f o r t a l e z a m a i s f o r t e q u e
todas, e m q u e e s t a v a m m u i t o s francezes, n ã o o u s a r a m
a esperar e d e i x a r a m a f o r t a l e z a a q u e l l a q u e t i n h a tres
cercas f o r t í s s i m a s , m u i t o s b a l u a r t e s c casas f o r t e s l o g o

(1) Iní>lri,m»tto, 10.


(2) O corpo dc Estacio dc Sá foi sepultado na eapetU du Arraial da
Villa Velha e depois trasladado para a igreja de S. Sebastião. Os professores
da Paculdaile de Medicina E'rs. José Kfnciio de Soa/a Fonte* e Práiicisco
Ferreira de Abreu foram cixarregados dc proceder a eshinv . .1. dos osso* de
Estacio, apreseui,iudo seu rebitorio a 2i dc Novembro de i862.
A sepultura estava V'eui detuaicada na capclla-mór da igreja de S. Se-
bastião, por uma lapide na qual eslava exarada a seguinte inscripçao:
Aiivi Jaz Itstdcin I)
Saa Pr" Capitão K Cfl
Qyístador Desta Terra E
Cidade K A Campa Ma
Dov Fazer Salvador
Corca dc Saa Scv P
Rimo Scgd Capitão 0

V. Gdr" Co Svas Armas


V. Esta Capclla Aca
Hov O Auo de 15&3.
A identidade do esqueleto de Fstacio (oi provada por uma commissão do
Instuuto Histórico que disse: Hitaein .ie S;l leria a altura approximada de
1 metro c 741 centímetros, pois o tibi marcava 0,30 o corpo era regular 1

pois a elavicula media 0,14 contimentros o que incoka que o peito na sua
parte superior, dc um extremo cia vincular a outro, otlerecia mais ou meuos
0,0*2 centímetros; por outra que era indivíduo dc typo portuguee dc estatura
regular*.
— 46 —

m e v i e r a m p e d i r passagem e lhes o u t o r g u e i e m ficarem


c o m o vassalos de S u a A l t e z a » . ( 1 )
A v i c t o r i a f o i d e f i n i t i v a . O s francezes e i n d i e s
seus alliados, t i v e r a m de a b a n d o n a r a l u c t a .
E os c o n q u i s t a d o r e s v i c t o r i o s o s s ó t i n h a m a g o r a
do c u i d a r da c o l o n i s a ç ã o . O a b a n d o n o d o t e r r i t ó r i o f e i t o
ha annos p o r M e n dc S á , m o t i v a r a a v o l t a dos f r a n -
cezes, o b r i g a n d o a a c ç ã o m i l i t a r q u e a c a b a m o s de des-
c r e v e r , com s a c r i f í c i o s d e v i d a c d i s p e n d i o d o E s t a d o ,
s e n d o p a r a l a m e n t a r a m o r t e d e E s t a c i o q u e assim n ã o
p o u d e ver o r e s u l t a d o dos seus e s f o i ç o s . ( 2 )

(1) Intrxmehtã,
t'2j fc'm uma nota á obra dc Porto Seguro diz Oapistraro de Abreu de
que Estacio morreu vinte e cinco a trinta dias dias depois do felimculo, isto
c, entre 15 e 2U de Fevereiro.
Itutante .algum tempo a cidade festejou essa victoria, dando-se uma salva
ás 8 horas da noite nos dias 17, 18 c lí)"de Janeiro.
CAPITULO III

A segunda cidade e os governos até o íim do scculo

Suuituario: — Mudança da eidaJc. Aclas da administração. Cpnsfracção dos


/ories. Doação dos Jesuítas. Local posterior. Arariboya. Go-
verno de Sahador e Christotãt» de Barras. Divisão da colônia
em dous governos. (Governo de Salema. Sua expedição a Cabo
Frio. Novo governo de Salvador. Çrèáfào dai ordens religiosa*.

O local e s c o l h i d o por E s t a c i o p a r a a f u n d a ç ã o da
c i d a d e e r a p r o v i s ó r i o . T u d o d e p e n d i a d o ê x i t o da
g u e r r a . N ã o e r a p o s s í v e l q u e c i l a a l i ficasse, á s o m b r a
d o P ã o de A s s u c ar, q u a n d o o u t r o s p o n t o s do t e r r i t ó r i o
e r a m m a i s f a v o r á v e i s ao seu d e s e n v o l v i m e n t o . E m
u m a é p o c a d e a v e n t u r a s , era n a t u r a l q u e d a c i d a d e
p u d e s s e m seus h a b i t a n t e s d o m i n a r a b a r r a , para obser-
v a r e m os n a v i o s q u e a d e m a n d a v a m .
A s s i m , os p r i m e i r o s c u i d a d o s de M e n de S á ,
d e p o i s da e x p u l s ã o d o i n i m i g o , f o i t r a n s f e r i r a c i d :de
p a r a o u t r o p o n t o . O local e s c o l h i d o l o i o m o r r o do
C a s t e l l o , o n d e « a s s e n t o u a n o v a p o v o a ç ã o q u e fez
fortificar, a c o m p a n h a n d o - a dos e d i f í c i o s c o m p e t e n t e s
p a r a a casa da C â m a r a » . ( 1 ) .

{I) V. por o sitio onda Estacio dc Sá edificon nilo ser para mais que
paia defender-se cm tempo dc guerra, com a piecença dos capitães c de
outras pessoas que no diio Rio dc Janeiro eVtàvam, escolhi um siiin que
parecia mais o conveniente para edíficiif urlle a cidade de S. Sebastião, o
qual sitio era dc um grande matto espesso, cheio de muias arvores c grossas
mn que se levou assa/ de trabalho cm as cortar c limpar o dito sitio e edi-
ficar nina cidade grande, cercada dc trasto dc vinte palmos de largo c outros
tantos do altura, ioda cercada dc muro por cima i-Oin muitos baluartes e fortes
F o r a m i n c s t i m w e i s os s e r v i ç o s p r e s t a d o s p o r M e n
d c S á . C o m o m a i o r interesse a j u d o u e a n i m o u a cons-
t r u c ç ã o f l ã c i d a d e , os seus e d i f í c i o s p ú b l i c o s , c o m o a
casa da C â m a r a , a cadeia, as casas dos a r m a z é n s , a S é ,
o c o n v e n t o de j e s u í t a s , a l é m d c f o r t i f i c a l - a c o m
os seus f o r t e s . P r o m o v e u o m e i o d c seu p o v o a m e n t o e
trazer o g a d o para o c o m e ç o d o t r a b a l h o a g r í c o l a q u e
se d e v i a i n i c i a r .
C o n f i r m o u a 10 d c O u t u b r o de 1 5 6 7 , a d o a ç ã o
de leg.ua e m e i a á C â m a r a e de seis l é g u a s p a r a o
t e r m o d a cidade ( 1 ) e t r a t o u de crear a v i d a p o l í t i c a e a
a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a . P o r p r o v i s ã o de 9 de M a r ç o de
1 5 6 8 , n o m e o u O u v i d o r da c i d a d e a C h r i s t o v ã o M o n -
teiro ( 2 ) .
Fez t a m b é m as n o m e a ç õ e s de e s c r i v ã o e t a b e l l i ã o
d e notas, d o m e i r i n h o , e s c r i v ã o da c â m a r a e o u t r o s
f u n e c i o n a r i o s (<J).

cheios de artilharia, Ií fiz a igreja dos padres dc Jesus onde agora resídetu,
telhada e bem concertada, *• a Sé de tres naves, também telhadada c bem
ronccilada; a cadela, a Cása dos aima/en.' à para fazenda dc Sua Altcza sobra-
dadas s telhadas c com varandas ; dei oídem e favor a ajuda com que fizessem
outras muilas rasas telhadas e .srhia.iadíis. Ma.-.dei vir muito? moradores,
muito gado para povoar a llita çijSàjc. 0 qu.'l se dà muito bem, de que jâha
grande creação. InslrfnífUo, 11—12;>
|I) C do mais alto vülor a seguinte observação dc Varnhagcm. Estas
doações eram feitas cm conformidade dos recentes poderes que trazia c não
do Alvará dc 30 de Novembro dc 1530 como pretenderam os juizes dos feitos
da Coroa do Kio de Janeiro, no injusto accordào dc 20 de Junho de 1812 quo
por consulta do Oes. do Paço foi devidamente ar.nullado em 10 d" Abril de
1821.
(2) Arch. ,ít Dhtr. F?d', pog.
(3i Komeou Juiz dc Orpliãos a Manoel Freire, e a Balthazar Fcrnandus
um dos primeiros povoadores com mulher c filhos alli. deu os orticios de
escrivão e Tabellião das Nolas, que vagara por morto dc Miguel Ferrão.
Nonieóu Mciiiubo da cidade a João da Silveira, dandn por motivo da mercê
os «ervirOs feitos desde a. primeira fundação da Cidade : ao Mestre Vasco, o
de Porteiro e Prcgociro ; a Clcmcute Pires, o dc hsci ivíio da Câmara; a Jorge
da Moita, o dc Dcslribuidor, Inquiridor, Contador e kscrivúo da Alirolacaríat
a Francisco Fernandes, Rcpestciro de Sua Alteza, o dc Gícrivâo do Publico c
Judicial; e para Ale a ide Mõr Titaliciamente, a Francisco Diàs Pinto, tomando
por fundamento da graça, ter estado na companhia de Fslacio de Sá na edi-
ficação e povoamento da nova Cidade, achando. íe todas as guerras e
c m

batalhas com muito valor, dispendendo grandes som má* dc sna fazenda; &
finalmente a Roy Gonçalves, criado de Sua Ahe/.a, Feitor na Fazenda Kcal.
011c sc demorou por tempo de dons mffces pel-s interesses do Kcal Serviço,
nesta Cidade, afim dc deixar todas as cousa* bem ordenadas. (Aimocs do Rio
dt Janeiro ^ pòi S, lisboa, vol. 1", pag. 312).
— 49 —

D o o u t e r r a s aos q u e t i n h a m a j u d a d o a c o n q u i s t a ,
e m n o m e d o r e i , q u a n d o t o d a esta p o r ç ã o d o t e r r i t ó r i o
da c o l ô n i a t i n h a sido d o a d a a M a r t i m A í T o n s o . ( 1 )
E t r a t o u t a m b é m de f o r t i f i c a r a cidade, t a n t o q u a n t o
l h e p e r m i t t i a m as c o n d i ç õ e s .
N a o p i n i ã o do c o n e g o F e r n a n d e s P i n h e i r o , con-
s t r u i u ao l a d o d o P ã o de Á s s u c a r a f o r t a l e z a da G u i a ,
m a i s tarde*de S a n t a Cruz, S . D i o g o e S . T h e o d o s i o .
N a m o n t a n h a q u e ficava á c a v a l l e i r o ( o C a s t e l l o ) o
f o r t e de S . J a n u á r i o . S e m t e r m o s o i n t u i t o de n e g a r
essas a f i u m a t i v a s , t o d a v i a d u v i d a m o s q u e , d u r a n t e o
g o v e r n o de M e n d e S á , se tivessem c o n s t r u í d o t o d a s
estas f o r t í l i c a ç õ c s . Pelo m e n o s j a m a i s e n c o n t r á m o s
documento comprobatorio disto.
N ã o p o d i a p o r m a i s t e m p o demorar-se M e n de S á
no R i o , p o r q u e a s i t u a ç ã o d a c i d a d e de S . S a l v a d o r
e x i g i a a sua p r e s e n ç a .
A necessidade de r e m e t t e r « m a n t i m e n t o s e h o m i -
siados, c o m q u e a j u d a s s e a p o v o a r o R Í O B , como a l l e g o u
n o d o c u m e n t o de n o m e a ç ã o d o seu s u b s t i t u t o , apressou
sua v o l t a .
Por acto d e 4 de M a r ç o de l õ ( i 8 n o m e o u S a l v a d o r
C o r r e i a d c S á , seu s o b r i n h o , c a p i t ã o e g o v e r n a d o r d a
c a p i t a n i a d a c i d a d e d o R i o de J a n e i r o ( 2 ) e r e g r e s s o u
para a ISahia ( í í ) .

(i) Diz Varhhagén e com raiào que a capitartfa J" Rio de Janeiro, de-
pois de luedada a cidade, foi em nosso entender, considerada, como a Kabía.
exclusivamente da coroa,fc"provável que Maitín Ajfoflso, que ainda enlão
vivia, fosse o primeiro a ceder de seus direitos; pelas vaatageus do segurança
contra Os francezes, que dessa fundação colhia a sua capitania dc S. Vicente,
jà iroloilisadn; mas não encontramos a tal respeito declaração alguma nos
arehfvns.
(a) A integra desta provisão esta publicada nu 1 yòL do Arenito do üat.
Ffd,, pag. 23. H' utU d"i''imenlo dicr.o de Icm r i e peb» qual investiu Men dc
Sá no snbstitulo todris ns pod^res cjue goti no* a>sum|)tos de ju*tiça e fazenda.
(j) Noia-sc entre os eser-fptofe** alguma divergência sobiu a época du
represou de Men dc Sd para u Bahia íjn*. segundo Silva Lishoa, loi em 15Ü7-
M siH:- M> n-grcssoo depois do Março, porque, alem do acto cc nomeação de
Salvador para governador •> 4 de Marco, i 21 do mesmo mcz nomeou Clemente
Pires Ferreira escrivão da Câmara c a 15 de Junho Salvador norociu Francisco
Fernandes inquiridor e contador; A volta deu-se pois em 1568, entre Março c
Junho. . -
— 50 —

^tr»; du g attenção teve de dirigir-se para múltiplos as-


ua

4*+CT>^A*+^ s u m p t o s . T r o ç o u n o v o p l a n o p a r a a c o n s t r u c ç ã o das
casas. C o m e ç a r a m a ser c o n s t r u í d a s c o m mais s e g u r a n ç a ,
e m s u b s t i t u i ç ã o das h u m i l d e s c h o ç a s , á c u s t a d o b r a ç o
do i n d i o e dos c a t h e c u m e n o s j e s u í t a s , p o r q u e a escra-
v i d ã o a f r i c a n a a i n d a « a b u s o c l a m o r o s o de f o r ç a c o n s t i -
t u í d o e m d i r e i t o , n ã o p o l l u i a a t e r r a de S a n t a C r u z » .
Desde e n t ã o a c o n s t r u c ç ã o urbana edifjcou-se e
n ã o a t t e n d e u p a r a as c o n d i ç õ e s d o c l i m a da c o l ô n i a .
S e r v i u d c m o d e l o a c o n s t r u c ç ã o do r e i n o . I n f e l i z m e n t e ,
diz V a r n a g e n , c o m o j á s u e c e d e r a n a Bahia e nas d e -
m a i s p o v o a ç õ e s , adoptou-se c o m s e r v i l i s m o o s y s t e m a
de c o n s t r u c ç ã o d e P o r t u g a l e n e m d a A s i a , n e m d o s
m o d e l o s d a a r c h í t e c t u r a c i v i l na P e n í n s u l a , i s t o é , d o
uso dos n u m e r o s o s p a t e p s com r e p u d i o e dos c i r a d o s
o u a ç o i c a s h o u v e q u e m se lembrasse, c o m o mais a p r o -
p ó s i t o p a r a o nosso c l i m a . P a r a estas v i a t í c a s t u d o d e -
pende do principio (1).
N o m e o u a l c a i d e - m ó r F r a n c i s c o D i a s P i n t o , ele 3 0 4
mensaes, l o g a r q u e depois f o i e x e r c i d o p o r J u l i ã o R a n -
g e l , p o r P r o v i s ã o d e 2ÍÍ d e d c J u l h o d e 1 0 8 3 - N o m e o u
t a m b é m a A n t ô n i o R o d r i g u e s de A l m e i d a t a b e l l i ã o c
e s c r i v ã o d e notas e j u d i c i a l ; a B a l t a z a r da C o s t a es-
crivão da C â m a r a . ( 2 )
A y i s i n h a n ç a dos francezes c m C a b o F r i o n ã o
d e i x a v a d e p r e o c c u p a l - o . E d a h i a r a z ã o d o s seus p r e -
p a r a t i v o s d e d e f e s a . S e m q u e esperassem, e n t r a r a m
p e l a b a r r a q u a t r o n á o s francezas « q u e sc d i r i g i r a m p a r a
o r e c ô n c a v o d e S . L o u r e n ç o o n d e est ; v a assente, c o m
sua t r i b u , o p r i n c i p a l M a r t i n A f f o n s o A r i r i b o y a ; c o m
m t e n t o s de se a p o d e r a r e m d e l l c p a r a o e n t r e g a r e m á
v i n g a n ç a dos seus c o n t r á r i o s , m a n d a n d o S a l v a d o r Cor-
r e i a á s o r d e n s d c D u a r t e M a r t i n s soecorros ao c h e f e
a l l i a d o . C o m a vasante da m a r é , as n á o s francezas

( l j fico. ,h Ji/sí. /i£sl,. vol. 22. paa, 55


(2) Silva lisboa. Übr. eit.
— 51 —

a p p a r e c e r a m de m a d r u g a d a e m sccco e p u d e r a m ser
canhone.idas a v o n t a d e p o r u m f a l r ã o ú n i c o q u e h a v i a
e m t e r r a ; m a s v i n d o a enchente se fizeram á v e l a e ao
m a r . D e p o i s f o i S a l v a d o r e m pessoa, c o m r e f o r ç o s q u e
r e c e b e u de S V i c e n t e a t t a c a r os i n i m i g o s c m C a b o
F r i o e a h i a p o d e r o u - s e de u m a dessas n á o s . ( 1 )
Poucos dias d e p o i s cio c o n f l i c t o , diz ' : m c h r o n i s t a ,
c h e g o u o soecorro d e Santos e S. V i c e n t e , e a c h a n d o
j á r e t i r a d o s os i n i m i g o s , c o m generoso s e n t i m e n t o d e
n ã o t e r e m p a r t e na v i c t o r i a , se r e s o l v e r a m a i r hostilisar
aos g e n t i o s de C a b o F r i o , e l o u v a n d o - l h e s o g o v e r n a d o r
a q u c l l c i m p u l s o , s a h i r a m m a i s a n i m a d o s c o m a sua
a p p r o v a ç ã o . Chegando a Cabo F r i o acharam uma em-
b a r c a ç ã o , q u e t i n h a v i n d o F r a n ç a c a r r e g a d a de varias
m e r c a d o r i a s ; e v e n d o q u e as suas f o r ç a s e r a m i n f e -
r i o r e s á s d o s francezes, v o l t a r a m l o g o p a r a esta c i d a d e
p a r t i c i p a n d o a q u e l l a n o t í c i a ao g o v e r n a d o r , q u e se
a l e g r o v b a s t a n t e pelo desejo, q u e t i n h a de dar e x e r c í c i o
ao seu v a l o r ; c a p r o m p t a n d o c o m m u i t a b r e v i d a d e u m
s u f i c i e n t e n u m e r o de soldados b e m armados, i n d i o s c
c a n ô a s , p a r t i u c o m elles p a r a C a b o F r i o , o n d e c h e g o u
c o m t o d a a c a u t e l a e segredo, c t e n d o c o g i t a d o na f o r -
m a l i d a d e , e a c e r t o c o m q u e d e v i a d a r o r e p e n t i n a assalto
ao i n i m i g o , d e u as o r d e n s , e dispoz a sua gente, p a r a a
m a d r u g a d a d o d i a seguinte, no q u a l , á h o r a d e t e r m i -
nada, p o n d o e m e x e c u ç ã o o seu p r o j e c t o , a c c o m m e t t e u
a e m b a r c a ç ã o p o r u m e o u t r o b o r d o : a c u d i r a m os
francezes, o p p o n d o - s e v a l o r o s a m e n t e á s u b i d a dos nossos
s o l d a d o s , q u e tres vezes a e m p r e h e n d e r a m , s e n d o e m

(íj Hist. Ocr. fpt Porto Seguro, vol. 1, pag 3U. Duvidamos que o
combate dc Araribuya tivesse logar no recôncavo de S. (ior.çalo, cemo arfirmam
alguns historiadores. Acreditamos que elle Uvé*ffl lido logar na parte da cidade
do Rio, r.as approximaçòes da Bica dos Marinheiros. Por oceasido do combate,
Arariboya não tinha tomadu po«e da *ua sesmaiia. na aldeia dc S. Lourenco,
o que teve logar a 23 dc Nove:"brn .Ir- 1577. Morava por conseguinte ainda no
mesmo lado da cidade. Além disto, c difJieil cnmpiehender como o* governa-
dores do Rio nesse leinpo pudessem dispensar Martim Affonso. consentindo que
elle fosse utofar em um logar distente da cidade, em vista da situação perma-
nente de guerra em que viviam -
— 52 —

todas rebatidos ; e q u e finalmente, m o r r e n d o o c a p i t ã o


f r a n c e z d c u m a f r e c h a d a , c o n s e g u i r a m os nossos a su-
bida, c por c o n s e q ü ê n c i a a e m b a r c a ç ã o . N e s t e l a b o r i o s o
c o n l i c t o , tres vezes f o i ao m a r o g o v e r n a d o r S a l v a d o r
C o r r ê a d c S á , e e m t o d a s o s a l v a r a m os i n d i o s , q u e
levava na sua c a n ô a .
T e n d o c o n c l u í d o u m a a c ç ã o de t a n t o e m p e n h o , sc
r e t i r o u na mesma e m b a r c a ç ã o para e s t á c i d a d e , o n d e
l i b e r a l m e n t e d e u o saque aos q u e o a c o m p a n h a r a m ;
reservando p a r a si a g l o r i a d a q u e l l e t r i u m p h p .
icou p a r a a defeza d a n o v a c i d a d e t o d a s as
m u n i ç õ e s de g u e r r a e a r t i l h a r i a , ü a q u a l , n ã o h a m u i t o s
annos, e x i s t i a m a l g u m a s p e ç a s na f o r t a l e z a d c S a n t a
C r u z ; c c o m u m a circumstancia d a r e h ç ã o deste suc-
cesso, m a n d o u a e m b a r c a ç ã o p a r a a B a h i a a seu t i o , o
g o v e r n a d o r geral M e n d c S á , c m s i g n a l dos c r e d i t o ?
com que procurava desempenhar a e l e i ç ã o c e s c o l h a '
q u e da sua pessoa fizera p a r a g o v e r n a d o r da n o v a c i -
dade. (1)
C o m o se v ê , o i n d i o A r a r i b o y a p r e s t o u i m p o r t a n t e s
s e r v i ç o s á c o n q u i s t a do R i o , t o r n a n d o - s e u m a figura
h i s t ó r i c a p r o e m i n e n t e em sua p r i m i t i v a p h a s e . E m
p a g a m e n t o destes s e r v i ç o s r e c e b e u a m e r e ô d o h a b i t o
d e c a v a l l e i r o da o r d e m de C h r i s t o e o p o s t o d c
c a p i t ã o - m ó r de sua aldeia q u e se e s t e n d i a da m o n -
t a n h a d e S. L o u r e n ç o p o r t o d o o l o g a r d e n o m i n a d o
Praia Grande á s areias d c Jcarahy.
C o m a v i c t o r i a c m C a b o F r i o , os francezes desis-
t i r a m d o i n t e n t o de a g g r e d i r a c i d a d e , r e t i r a n d o - s c , c o m o
retiraram-se d e C a b o F r i o . F o i i n c o n t e s t a v c l m e n t e u m
g o v e r n o útil o de S a l v a d o r C o r r ê a .
D i r i g i n d o a a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a p o r seis annos,
m a n t e v e os c r é d i t o s dos seus antecessores, f o r n e c e n d o
assim ao seu suecessor o e s t i m u l o p a r a s e g u i r o m e s m o

(1) Rcv. do Inst. tíist,, vol. I , pag. 136.


— 53 —

p r o g r a m m a d c g o v e r n o . N ã o foi p e q u e n o d u r a n t e o seu
governo o movimento colonizador. A A n t ô n i o de M a -
rins d e u a l g u m a s d o a ç õ e s d e t e r r a s e m X i c t h e r o y , nas
v i z i n h a n ç a s de A r a r i b o y a ; a D i o g o da R o c h a e a P e d r o
L u i z J u l i ã o R a n g e l na m e s m a r e g i ã o . N o s d e r r e d o r e s
d a c i d a d e , d e u sesmarias a Bajthazar da C o s t a e m C a -
rioca, c o m o a E l y s e o M o n t e i r o , C h r i s t o v ã o Z u a r t e e
A n t ô n i o M o n t e i r o , nas v i s i n h a n ç a s d c seu pae C h r i s -
t o v ã o M o n t e i r o ; ; i F r a n c i s c o V e l h o , G a s p a r de F i g u e i -
redo. Na G á v e a e Tijuca a T h o m é dc Alvarenga.
E m Sapupcma a Clemente F e r r e i r a e G o n ç a l o G i l .
Em I r a j á a Antônio de França. E m Inhomcrim, a T h o -
m é R o d r i g u e s , M a n o e l de Biitto. E m M i r i t y a Braz
C u b a s , E m M a g é a S i m à o f a l c ã o e F r a i c i s c o de M i -
randa B r a n d ã o . E m J a c o t i n g a a Braz C u b a s ; c m
I g u a s s ú a J e r o n y m o F e r n a n d e s e t h o m é de A l v a r e n g a ;
em I n h a ú m a a Si m ã o Barriga e em S u r u h y a A n d r é
Lopes.
C o m o se v ê a c o l o n i s a ç ã o e x p a n d i u - s e e m n ã o
p e q u e n a e x t e n s ã o e m r e l a ç ã o ao t e m p o , d e m o n s t r a n d o
i s t o q u e a a l l i a n ç a dos i n 'ios c francezes j á t i n h a sido
v e n c i d a pelas a n u a s portuguezas.
S u c c e d e u a S a l v a d o r no g o v e r n o C h r i s t o v ã o de
B a r r o s, n o m e a d o c a p i t ã o « d a c i p i t i n j a d o R i o p o r c a r t a
d c 3 1 de O u t u b r o d e 1 5 7 1 « p o r t e m p o de q u a t r o
a n n o s , q u e s e r v i r á c o m os p o i e r e s c a l ç a d a q u e teve e
d e q u e usou S a l v a d o r C o r r ê a d c S á . ( 1 )
C o n t i n u o u nos mesmos c u i d a l o . i de Sal va l o r de
d e f e n d e r a cidade dos a t t a q u e s dos indios e « d e p o i s
q u e c h e g o u ao R i o de j a n e i r o e m todas as g u e r r a s q u e
teve c o m os T a m o y o s f i c o u v i c t o r i o s o e p a c i f j c >u de
m o d o o r e c ô n c a v o c rios d a q u u l l a b a h i a q u e , t o n a los
os f e r r o s das l a n ç a s e n fouce> e as espadas e.n l i n -
chados e enxadas, t r a t a v a m os homens j á s o m e n t e d e

(1) Silva Lisboa, obr, cil., pag, 304.


— 54 —

fazer suas l a v o u r a s e fazendas e e l l e fez t a m b é m u m


e n g e n h o de assucar j u n t o a u m r i o c h a m a d o Magé*». ( 1 )
C h r i s t o v ã o de B a r r o s , a h o m e m a f o r t u n a d o e p r u
d e n t e » , era f i l h o n a t u r a l d e A n t ô n i o C a r d o s o d c B a r r o s ,
p r i m e i r o p r o v e d o r d a fazenda n o B r a s i l .
E r a m e n t ã o n o t á v e i s as p e s c a r i a s d c c u r i m a n s d o
r i o M a g é , j u n t o ao e n g e n h o de C h r i s t o v ã o , c h a m a d a s
P i r a i q u é n o mez d c J u n h o q u e l e v a r a m o g o v e r n o a
l a n ç a r p r e g ã o n a c i d a d e d o d i a e m q u e se h a v i a de fazzr
a pescaria, « p a r a q u e fossem a c i l a t o d o s os q u e q u i z e s -
sesn c p o u c o s d e i x a v a m d e i r , assim p e l o p r o v e i t o , c o m o
por r e c r e a ç ã o » . .
X ã o s a b e m o s o dia c m q u e S a l v a d o r passou a
a d m i n i s t r a ç ã o a C h r i s t o v ã o de Barros, n e m t ã o p o u c o
o dia em que a assumiu. J á governava a capitania c m
2 8 d e J u n h o d e 1 5 6 8 c e m 3 1 de M a r ç o de 1 5 7 2 n o -
m e o u A n d r é Cardoso p a r a s e r v i r o oiTicio d e e s c r i v ã o
d a C â m a r a e e m 5 de M a i o d o m e s m a a n n o n o m e i a
F r a n c i s c o D i a s P i n t o , O u v i d o r d a c i d a d e . Rev. do Inst,
///>/., v o l . 1° p a g . # 0 6 . Mas u m a sesmaria assignada
p o r e l l e a"20 de N o v e m b r o de 1 5 7 2 d e m o n s t r a q u e a
posse d c C h r i s t o v ã o d o l o g a r de g o v e r n a d o r deu-se
entre Junho e N o v e m b r o de 1 5 7 3 .
A l é m d a a l i m e n t a ç ã o p u b l i c a , as c u r i m a n s de
M a g é s e r v i a m para a f a b r i c a ç ã o de azeite p a r a a i l l u m i -
n a ç ã o das casas,* p o r q u e « c o r t a d a s as c a b e ç a s lhes
c s c a l l a m os corpos e s a l g a d a s as p õ e m a seccar e m os
p e n e d o s q u e ha a l l i m u i t o s e das c a b e ç a s cosidas f a z e m
azeite para ; e i l i u m i n a r e m t o d o o a n n o » .
A s d o a ç õ e s d e t e i r a s c o n t i n u a r a m a ser f e i t a s ,
p a r a a t t e n d e r ao t r a b a l h o a g r í c o l a q u e sc d e s e n v o l v i a .
O próprio C h r i s t o v ã o dc Barros construiu u m engenho
c m M a g é , u m dos m a i s i m p o r t a n t e s e s t a b e l e c i m e n t o s
de p r o d u c ç u o d c assucar e x i s t e n t e s n a e p o c a . ( 2 )

(1) Aitn. d* fídi. Nac., vol. 13, pag. 9l). filiar, de Fl V. dn Salvador.
{2} A sesmaría das torraB onde Christovão construiu o seu Engenho foi
talv.z concedida poi gitaciode Sá, porque ella tem a data dc ia de Outubro dc
— 55 —

D e s t a c a m o s e n t r e as d o a ç õ e s feitas a de M a n o e l
de B r i t t o , a s s i g n a d a e m 1 5 7 7 , o n d e e s t á hoje o M o s t e i r o
de S . B e n t o . C o n s t r u i u as m u r a l h a s e t o r r e s d a
cidade.
P e l o l a d o c i v i l , a a d m i n i s t r a ç ã o teve d e r e c e b e r
o r d e n s de c o n s i d e r a r d e v o l u t a s as terras q u e d e n t r o de
u m a n n o n ã o fossem a p r o v e i t a d a s , p a r a s e r e m n o v a -
m e n t e d e s t r i b u i d a s . Pelo l a d o r e l i g i o s o , h o u v e u m a
r e f o r m a , p e l a q u a l o p a r o c h o da c i d a d e f o i i n v e s t i d o de
a t t r i b u i ç õ e s d o o u v i d o r ecclcsiastico, c o n s t i t u i n d o - s e
d e l e g a d o do B i s p o , nos a r t i g o s d o S a n t o - O f f i c i o , « d e
c u j o t r i b u n a l d c L i s b o a era o b i s p o no Brazil, c o m m i s -
sario ou s u b i n q u i s i d o r » . ( 1 )
C o n s t r u i u m u r a l h a s e torres na c i d a d e e n o m e o u
a l g u n s e m p r e g a d o s da a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a , dentre
elles F r a n c i s c o G o n ç a l v e s mestre cias f o - t i f i c a ç ô c s . Em
seu g o v e r n o o b t e v e o D r . M a n o e l da F o n s e c a a confir-
m a ç ã o , e m J u l h o d e 1 5 7 4 c 12 de O u t u b r o d c 1575, da
d o a ç ã o d i i l h a G r a n d e , f e i t a c m J a n e i r o de 1 5 5 9 .
A i n d a p r e s i d i a os destinos da c a p i t a n i a , q u a n d o a
m e t r ó p o l e r e s o l v e u , e m fins de 1 5 7 2 , d i v i d i r a c o l ô n i a
e m d o u s g o v e r n o s distinetos- com a t t r i b u i ç õ e s imunes,
dosqu-<es u m presidia o n o r t e , c o m a sede na Bahia ;
o u t r o o s u l , c o m a sede no R i o de J a n e i r o , q u e a t é e n t ã o

r5ti(í, dc J.5Q0 braça* ar» lriüg-i da agia e 7-501) para o scrião Fm 29 dc Outu-
bm Je rflOT. oor conseguiu:*- *,,'••< >i governo dc Men de S:i. elle ohleni uma Oulra
se^nam em M
Ora, (.'hnsinvão foi nomeado governador qo Slo biu 3i de Outubro de iy7i-
Parece, pois; que elle obteve esu* i4ains_rias por procuração ou.que estava então
no Rio naquella rpnea. vindo sna nomeação a enconinrl-o no Hi*» dc Jmeíro.
Çlliislovào de R IMOS veio . ornaimd.indü .1 irmada de so^vorro com i|uc MJ:Í dc
Sá foi vencer os fraiiçezéí, *ni llis do c começou de ]5iÍ7, prov-ivebn.niie
acompanb ido por Chniov:ia. lendo ÚIVI*Í;depois di>*lo rc.irc.s.i.Ui á eôrtè, Kol
naquclli esUd* :io Rio que obteve aija«!ta« 'romarias., devendo estar na corto
quaudo foi nomeado tiovcrnaJ->r.
O engenho de M"pé pas-ou ao filho dc Chrí-tovJo—An km Io Cardoso de
Bano* q-ae n vendeu J Alem. Gotn^s Oiorio que tm 12 ,le Abril de liíOS
vendeu a R ihUaiar da Coita .is lerrts p:ricuccntc> ao tugeolio e que riciv.nn
dc uma ouira banda do rio Merery.
(1) IJistaria (Jerj/ iio BrjfH^ por VIM. de INirio Seguro, vol. I", pag.
•3-4. A provisão desi.i nomeação fciti por D. Pudrv Ceitiu, em ^5 dc Agosto oe
Agosto de 15t!í, cíià publicada no 1'* vol. fios Ar.nivos .ío Districto Fcátral.
pag. 93. . ..- ; , . - . . . ' * ... , % .
— 56 —

e r â uma capitania t r i b u t a r i a a q u e l l a , c o n s i d e r a d a sede


do governo colonial.
O s m o t i v o s q u e i n s p i r a r a m á c o r o a esse acto
d a a d m i n i : t r a ç ã o da p o l í t i c a d a c o l ô n i a e s t ã o e x a r a d o s
na c a r t a de n o m e a ç ã o d<~s g o v e r n a d o r e s .
« C o n s y d e r a n d o eu r o m o por as t e r r a s d a costa d o
Brazil s e r e m t ã o o r a n d e s e t ã o d i s t a n t e s h u m a s das
o
o u t r a s e a ver j á agora nelas m u i t a s p o v o a ç õ s s e espe-
r a n ç a dc Í C f r s e r e m m u y t a s mais pelo tempo em d i a n t e ,
n ã o p o d i a m ser t à o i n t e i r a m e n t e g o v e r n a d a s c o m o c u m -
p r i a por u m s ó g o v e r n a d o r , c o m t é q u i nelas h o u v e ,
asenlei asy para o q u e c o n v é m á c o n v e r s ã o d o g e n l i o
d a q u e l l a s p a r t e s e se d i l a t a r nelas nosa santa f é , c o m o
p a r a mais b r e v e m e n t e se a d m i n i s t r a r a j u s t i ç a c a cias
se p o d e r e m m e l h o r d e f e n d e c p o r o i . t r o s respeitos d c
m a n d a r dois g o v e r n a d o r e s á s ditas partes, h u m para
r e s i d i r na c i d a d e d o S a l v a d o r d a c a p i t a n i a d a B a h i a de.
"i o d o s os Santos e o u t r o na cidi.de cie S . S e b a s t i ã o d o
R i o d c J a n e i r o e g o v e r n a r cada h u m deles as t e r r a s d e
seus limites, c o n f o r m e a r e p a r t i ç ã o q u e p a i a yso m a n d e i
f a s e r » . (1)
Cedo, c o m o veremos adiante, a m e t r ó p o l e c o n -
v e n c e u se d a i n c o n v e n i ê n c i a d a d i v i s ã o , c u j a p e r m a -
n ê n c i a custaria a s e p a r a ç ã o d o Brasil em dous Estados,
em \ c z d o h o m o g ê n e o d c h o j e . ligado pela identidade
de h n g u a , d c r a ç a . d c f é c q u e a f e d e r a ç ã o n ã o p o u d e
sepaiar. C h r i s t o v ã o de B a r r o s foi s u e c e d i d o p o r A n t ô n i o
S a l e m a . (2)
S a l e m a t e v e de demorar-se n a B a h i a p a r a c o m b i n a r
c o m o seu c o l l c g a de g o v e r n o , L u i z d c B r í t t o , as p r o v i -

(11 Hist. Crr. ,!•> Brc:i! por Porto Sdpmó, vol. 1", pag.
t

,2> Nío saiamos a Jata da pos?e do Salema. Diz Fx, Vir.ante do Salva-
dor que 'Salema estava na Bíliiá;, donde st- partia cm o anno de 1575 e foi bem
recebido no Kio de J-nciro, assim pelo capitão-mur Cbrisínvan Barros. corro
de tod"s os rortu£i;-/e* c indios principies jjfcç ovi-ilaram. Hslava de «n rei-
ç&o em reinamhurn quando Tcccbou a n oi id a dc sua nomeação, fcm Coimbra
nregeu uma cartajia üc IrUUtuto c a»c. deira do Çoíiigo e p.issaia â Casa da
Siipplk-açào. sendo irar.dado com alrada. em íorrcicâo em rcrnambur.n. quando
leve a noticiai Hist. Gcr. ,io Brãiil por Varrvagem.
— 57 —

c i ê n c i a s para p ô r e m e x e c u ç ã o a nova l e i s o b r e l i b e r d a d e
dos indios. JZ p o r isso s ó t o m o u posse d o g o v c r n o . d o
R;o c m fins de 1 5 7 5 o u c o m e ç o de 1 5 7 0 .
A p e r m a n ê n c i a d o s francezes e m C a b o F r i o , a
f..serem c o n t r a b a n d o d c p á b r a s i l , n ã o era c o n v e n i e n t e
aos i n t e r e s s e s d a n o v a c a p i t m i a . F o i esse, pois, o p r i -
m e i r o assunipto ã p r c o e c u p a r a a t t e n ç ã o d o , n o v o go-
v e r n a d o r q u e , c o m as f o r ç a s q u e poude r e u n i r , f o i
attacal-os.
Salema, p ò u d c r e u n i r no R i o m i l homens c o m q u e
d e v i a i r c o m b a t e r os a i l i a d o s de C a b o l r i o , v i n d o s do
;

E s p i r i t o S a n t o e S . V i c e n t e a t é o d e l e g a d o do dona-
t á r i o , J e r o n y m o L e i t ã o q u e v e i o l a m b e m trazer o seu
a u x ü i o . (1)
P a r t i u d o U i o a 2 7 de A g o s t o de 1 5 7 5 com a c o m -
panhia que organizara e « n o :ii.i immediato encontraram
u m a a l d e i a d c T« m o y o s , f o r t i f i c a d a m a r a v i l h o s a m e n t e
c o m o a u x i l i o de d o u s francezes e u m i n g l e z , d e r a m - l h e
cerco, a q u e r e s i s t i r a m os indies, m o r r e n d o m u i t a g e n t e
de p a r t e a p a r t e . D i a d c S . M a t h eus, 2 1 de Novem"-
b r o , p a r l a m e n t o u com J a p i g n a ç ú , c h e f e da fortaleza o
jesu*ta l i a l t h a z a r A l v a r e s , q u e c o m L u i z G o n s a l v e s
acompanhava a e x p e d i ç ã o .
N o outro dia, J a p í n g u a ç ú compareceu perante
Salema, q u e e x i g i u a e n t r e g a dos t r ê s e s t r a n g e i r o s , a
d e m o l i ç ã o da f o r t a l c z i , a e n t r e g a dos i n d i o s de o u t r a s
aldeias, q u e t i n h a m a c u d i d o e m a u x d i o . O s estrangeiros
f o r a m e s t r a n g u l a d o s e efeirene une m o r t des plus belles
q u í l erait p o s s i b ' e » ( 2 ) F o i c o m p l e t a a v i c t o i i a de Sa-
l e m ; . p o r q u e « d o s i n d i o s entregues, c e r c a de q u i n h e n t o s
irecheiros, f o r a m uns m o r t o s , reduzidos o u t r o s a escra-
v i d ã o » . C o m e l l a « q u e teve l o g a r a 2 6 de S e t e m b r o ,

(li Uit ¥v. Viceitc dó Siiv.nlor quo «com q<iaro^enlo* poítugBeWa e


satccfuioi induis ammmcii; ra auimosamenie os rrarrcVsiuU».
i,2l K«u dMSCripcjí'.» i Urida dc uma carta ewrfpta por Luiz FÜUÍCC*. por
commissan do provincial lyr.acio dc Tolnsa, OJ Italisa <m i7 dc D-ícrr.bro dc
:577 "-l Capi-lrann -dc Abreu trautereve cm sua aimulaçAo á. obra dc
c llc

Varuaudjcu.
- 58 —

os h a b i t a n t e s de t o d o o C a b o F r i o a t e r r o r i s a d o s d e i x a -
ram suas aldeias e f u g i r a m ; m a s A n t ô n i o S a l e m a desc-
j o s o de p r o s e g u i r sua victoria, c n c a l ç o u os passo a passo,
m a t a n d o mais de dous m i l e fazendo q u a t r o m i l p r i s i o -
neiros, e n t r a n d o nestes q u i n h e n t o s meninos q u e f o r a m
b a p t i s à d o s n o d i a d e Santa Catharina (25 dc N o v e m b r o ) . »
F o i u m a v e r d a d e i r a c a r n i f i c i n a , c u j a influencia f o i pro-
f u n d a no e s p i r i t o do g e n t i o q u e f i c o u e m v e r d a d e i r o
estado de p â n i c o c s u b m i s s ã o , r e n d e n d o se todas as
aldeias d e T a m o y o s d o s e r t ã o de P a r a h y b a até
Macahé (1).
A c i d a d e d o R i o ficou e m c o n d i ç õ e s m a i s f a v o r á -
veis para t r a c t a r d a p r o s p e r i d a d e da l a v o u r a q u e j á se
fazia e m seus a r r c b a l d e s . c o m o T i j u c a , B o t a f o g o , L a r a n -
jeiras, Cattete, G iyeá, S. C h r i s t o v ã o e A n d a r a h y , por-
q u e e m todas estas paragens, c o n s i d e r a d a s n ã o c o m o
r e c ô n c a v o da c i d a d e , ia creando-se u m t r a b a l h e a g r í -
cola d e certa i m p o r t i n c i a . J á se t i n h a m c o n s t r u í d o
. i m p o r t a n t e s e n g e n h o » de assucar, e m M a g é , em R o d r i g o
de F r e i t a s , e S . C h r i s t o v ã o e e m o u t r o s p o n t o s q u e
i n d i c a r e m o s adiante. O p r ó p r i o S a l e m a t i n h a c o n s t r u í d o
e n g e n h o , e n g e n h o de E l - R e i , e m R o d r i g o de F r e i t a s ,
c m q u e gastou m i i d e tres m i l cruzados e q u e n ã o v a l i a
n e m q u i n h e n t o s , c o m o disse C h i s t o v ã o de B a r r o s ao
r e i , em c a r t a d c 18 de N o v e m b r o de 1 5 7 8 , p e d i n d o - l h e
q u e mandasse c o b r e s para o e n g e n h o o u o r d e m d e v e n -
dei o . ( 2 )
Realisou-se a s e g u n d a h y p o t h e s e , isto é , a v e n d a

(1; Ai..da uo seu tempo colavam cm pé 0* í»ruo)'OS de Cabo Frio


grande nciilbeita rios fr-ncczes. d onda vit.liam a fazer salto • deiitm d<> iíio
!•«- Jo qual se determinou dc lhes dar guerra e a**ini, com f«vor da eapitaiibi de
S. Vi:ente ÍA qual veio o capitflo J-nonymo l.rit.lo, com a maior parle do* per*
loyue/.es e luuUi>S iildtõs cfiristaOS e gentios e roío osla ajuda cornmcUeu a em-
preza e acabou de destruir toda a B0C30 de Tauioyos que air.da estava muito
soberba e forte £<?(• muiUs afifiaS dos fr<i;'.c/cs empadas, adagas, montantes,
iircbnzes e tiros grossos, sem l'ie tienr "ldeia que ivãti su|&iías*e ate a ilha
,ie Santa An-.a <\ap c o cáh,ò dçllá* que *;,o30 léguas do Rio de Janeiro*. Iiiform.
r Fr>'gn'"!<>b t/i'', pòi José de Anrbicla. .
Chn^ioviio dc Berros acompiiubotl a expedição.
( i j Nota» dc Capistrano ã obra dc porto Seguro' i
— 59 —

d o e n g e n h o a D i o g o d e A m o r i m Soares, h o m e m rico,
possuidor de casas em diversas ruas da cidade, morador
no morro do Castello, sobretudo na rua Direita, chãos
e casas que foram vendidas a üiogo Martins, primeiro
escrivão de orphãos do Rio de Janeiro, no anno dc 160».
O comprador do engenho foi Sebastião Fagundes, um
dos mais notáveis de sua geração pela ?üa riqueza c a
venda teve logar em Junho cie 1609, dizendo Amorim
Soares na respectiva escriptura que o vendia engenho
a Sebastião Fagundes ada mesma maneira porque Sua
Magestade lhe vendera. (1)
As communicações que a industria assucareira c
agrícola da Lagôa Rodrigo de Freitas e Botafogo, cha-
mada então praia de João de Souza obrigavam com a
cidade fizeram com que Antônio Salema fizesse um me-
lhoramento para attènder aquella circumstáncia. Con-
struiu uma ponte sobre o braço principal do rio Carioca
que desembocava justamente perto do I lotei dos Es-
trageiros.
Esta ponte durante muito tempo teve o nome de
ponte de Salema e depois ponte dc Leripe. (2)

(1) Liara afe Notas do r" ej rio rio do Mio, hoje do Tabrlllà Castro de
llíOã a ltilia, N.i opiuià> do Mello Moraes, este engenho foi vendido a Mariin de
^à Ooe coastriiiii Ü capella de Nõsiá Senhora dá Cabeça, aínda boje rxi-'.cnte.
EviJcnicnie.tie ha um engano dc UtcIU) Mut is*. .porque M-riin de Sá construiu
abi um cage^ho. snn ser ciurcunta o engenho de Ei-Mel sob a invocação dc
Nossa Sen nora da Hiicaroaçan, quand) o outro de Ujrtia.de Sá era da ir.vocacão
ue NOS-^J Sc-Uora d.i Cabeça, Alem diiio, Seh.is:t:iri bagondes. a quem fJÍugo
de Amnrim S. ares ve ideu o Engenho dc Tl-fíeí, em junho dc 1009, allcga em
tfilT, que y-n dcsp.^liit- CiiUira, devu ser elle o níijcj que »i:sassc dos.
Í jSU» que existiam na Lagoa, requerendo o atoramento dei lei que JI<: MIÇOU.
o iexio petição Sebastião K-igaudes ccai?nstra nao só a exi-temúa do
engenho de Mirim dc Sá, com i achat-se tlle cai acimiade ncsia epoei., usu-
fruindo ecultiviodo a S-UJ propriedade. Já se mH»V)i uma grando creação dc
gado nesteâ paaios de pagando» s Martin de csUb-lecendo-se o* primeiro»
dcçnv dviaicntos de nos"a industria ptstoril. paia " abS*lcçiuicuto da cidade.
A*%im, pois. em 1 *í tT f vo Sebastiãotfagunde*o privfíegia d.i pnsse da* partes
clrcumvistnhas di l.agoi, respeitando os Inniics da piopriedade vtiulia dc
Sá' hstes dou* proprietários il.ir^av^m os S;UÍ domínios ícrriiorUc» am direoçâo
opposta : SelusUáo Fagu:'.de^ para o rio dos Macacos c Mjrnn dc Sá para
Botafogo.
Parece que Amoritu Soares ou teve gí.nidèí desgosto* cm sua vida parii>
cul-r ou publica que iiiutjvdram a sua mudança desta cidade, uu veio a incidir
em uma grave crisefinanceiraque o obrigou a vender todas as sua* prl: priedades.
(Notas tiradas da leiiura por nos feitas nos primeiros livros de notas do primeiro
cariorio dc&ta cidade;.
(2) Esciipturas e afournenlo* de começo do tceulo XVII,
— 6 0 —•

SUMMASIO: Lezisfaç''*'- fífivo gevr-rtio „', Su\-.t.Í9- Correia. Crtarãa a\ts


:

Onlcus Rfügioi^, O mp:nni'ntf> toloaisac.to,

Uma legislação nova tinha sido decretada pela


m e t r ó p o l e s o b r e a l i b e r d a d e dps í n d i o s e q u e v e i o
t e r i n f l u e n c i a nas c o n q u i s t i s q u e se f i z e r a m , para as
quacs prestaram-se os c o l o n o s m u i t o v . > ' u n i a r i a m e ; i t c » ,
c o m o o r n a i s s e g u r o m e i o do a . i q u e r i r as m e l h o r e s ter-
ras e os b r a ç o s p a r a beficial-asu A r e s p e i t o desta os
d o u s g o v e r n a d o r e s , a n t e s d e a s s u m i r e m as respectivas
a d m i n i s t r a ç õ e s , r e u n i r a m s;- na B a h i a e c e l e b r a r a m o
accordo de 6 de J a n e i r o de l õ 7 4 , q u e d e v i a s e r v i r d c
p r o g r a m m n e m r e l a ç ã o á q u e s t ã o ça.pícil d c e n t ã o , q u e
era a l i b e r d a d e do indio. ( 1 )
A l e m d i s t o , as q u e s t õ e s d c m i n e r a ç ã o d e s > e r t a v a i i i -
(

s e . I í a h i e s t ã o os d o u s l a c t o r e s m a i s p o d e r o s o s d a
c o l o n i s a ç ã o , a ç u l a u d o a c o b i ç a dos c o l o n o s c d o s g o -
vernos—minas e indios.
O r e g i m e n dos d o u s g o v e r n o s , i n d e p e n d e n t e » e n t r e
si, n ã o d e v i a c o n t i n u a r , na o p i n i ã o d a m e t r ó p o l e . A s
suas i n c o n v e n i ê n c i a s ap cabo d.-í q u a t r o ' annos e r a m
m a n i f e s t a s » . A s f o r ç a s da c o l ô n i a e n f r a q u e c i a m se
n o t a v e l m e n t e , de m o d o q u e se t o r n a v a m m e n o s ap:as
para n c n d i r j u n t a s a u m p o n t o o n d e sc apresentasse o
inimigo». N a opinião dos p r ó p r i o s delegados da coroa
a a d m i n i s t r a ç ã o d e v i a c e r . t r a l í s a r s e , pnra f o r t i f i c a r - s e .
E e n t ã o , emquanto a m e t r ó p o l e annullava a dua-
l i d a d e d e g o v e r n o , n o m e a n d o c a p i t ã o cia B a h i a o g o -
v e r n a d o r g e r a l a L o u r e n ç o da V e i g a , a 12 de A b r i l d c
1 5 7 7 e a 12 de S e t e m b r o d o mesmo a n n o c o n f e r i a a
S a l v a d o r de S á o g o v e r n o cio R i o , « d e v e n d o L o u r e n ç o
d a V e i g a , c m v i r t u d e da distancia a q u e ficava esse g o -
v e r n o , m u n i l - o de m a i s p o d e r e s no acto d c l h e d a r

í'l) Varnagea cm sai obra lra:Ucrcío os vlcZ afligoi d«Ssc accordo.


61 —

p o s s e » , d e s m e m b r a v a o b i s p a d o de S . S a l v a d o r as ca-
pitanias d o s u l , n o m e a n d ô - s e p a r a c i l a s u m a d m i n i s t r a -
dor ecclesiastico, i n d é p e n d e t e d a j u r i s d i ç ã o d o bispo.
A a d m i n i s t r a ç ã o c i v i l m a r c h a v a da d e s c e n t r a l i s a ç ã o
p a r a a^ c c n t r a l i s a ç ã o . A a d m i n i s t r a ç ã o r e l i g i o s a , ao
c o n t r a r i o , t i n h a u m m o v i m e n t o opposto. E n o fim d o
s é c u l o ç r e o u - s e o b i s p a d o de S . S e b a s t i ã o . ( 1 )
Salema f o i substituído por Salvador Correia de
S á , q u e de n o v o a s s u m i u a a d m i n i s t r a ç ã o , s e m q u e sai-
b a m o s o d i a e m q u e t o m o u posse d e l i a ' ( 2 )
A norncaçãodcSalvadorfaziarcnascerahegemonia
d a f a m i l i a S á na p o l í t i c a d o R i o de J a n e i r o q u e p e r d e r a
u m p o u c o c o m os g o v e r n o s de C h r i s t o v ã o d c B a i r o s e
A n t ô n i o Salema
A g o r a v o l t a v a e l l a de n o v o a firmar u m p e r í o d o
l o n g o d e p r e s t i g i o , p o r q u e o g o v e r n o de S a l v a d o r l o i
m u n o m a i s l o n g o de q u e os anteriores.
P e l a s e g u n d a vez f o i n o m e a d o c a p i t ã o e g o v e r n a -
d o r d o R i o p o r A l v a r á d c 12 d c S e t e m b r o de 1 5 7 7
( 4 ) , e m v i s t a dos s e r v i ç o s , dizia a c o r o a , q u e m e t e m
f e i t o nas partes d o B r a z i l e d a boa c o n t a q u e de si d e u
no t e m p o q u e s e r v i u de c a p i t ã o da c i d a d e d o R i o de
J a n e i r o , o n d e M e n de S á do m e u ' c o n s e l h o e g o v e r n a d o r
g e r a l q u e f o i das ditas p a r t e s o d e i x o u p r o v i d o d o d i t o
cargo e c o n f i a n d o d e l l e q u e de q u e o e n c a r r e g a r m e
s e r v i r á c f a i á c o m o o m e u s e r v i ç o c u m p r e » , p o r tres
a n n o s c o m os poderes e a t t r i b u i ç õ e s dos g o v e r n a d o r e s

(1) nepo.s dodesmembramento o primeiro administrador foi o padre


Híirtnolomou Simões Pereira
rn . " S « S-Wador a^miu a administração cm fin* d-: jfí;7.
A c r o d l , i m > ¥

itiie e .onsiumdo procurador pelos doualanos da e-pitanU doS; Vicenlo ém


janeiro dc do* quaes « a procurador o oovt-nador Loorín-o d* Vcwa
tu c
\ ' A:.eduamos
(3)
3
: l b
*T Atié
SalTadQíi na depras
Salvador
, j k c c u
Bahia,de
iiaquciia data o governo
ter passado &, &*t hiS.
a Christovão
or. Barros
vol. lh^oo
t , morando
.iWlJ. no Rio de Jaaciroonde f « familia. Sna çárta de foro
nJHu ÍM « ' '\'* * - *'* " " '
: 0 , s> 4 a
C»..wla dc Panahoa, temo de
U l j l d j

Jiarcell..* ; hlho de Goncelo Correia e heíip a de Sá e neto dc Ruy V*z Cor-


P

rciaede Mun-n de Sa da li-.lt^cm dos Correias o do» fidalgos de'cot.s dai.


mas. (/rVc-, th Inst. tt*SÍ„ v..). I I I . pag. li»;.
(*) üegiitro CoíL mss. Inst. Hist. do Hraiü.
— <!2 -

das o u t r a s c a p i t a n i a s » . O g o v e r n a d o r g e r a l p o d i a a m -
p l i a i as, s e g u n d o as e x i g ê n c i a s da a d m i n i s t r a ç ã o e c o m
o o r d e n a d o d c ! 0 0 & annua?s. S a l v a d o r e s t a v a e m
L i s b o a q u a n d o f o i n o m e a d o , sendo q u e a causa p r i n -
cipal de sua v i a g e m á m e t r ó p o l e f o i talvez c o n q u i s t a r
essa n o m e a ç ã o , p o r isso q u e a f a m i i i a S á i a p o u c o
a p o u c o sendo arredada d o g o v e r n o d o R i o , c o m o u m
f a c t o de g r a n d e i n j u s t i ç a , e m v i s t a dos g r a n d e s s e r v i ç o s
prestados pelos seus p a r e n t e s na g r a n d e o b r a da c o n -
quista. R e c e b e u o r d e m expressa da c o m a d e n ã o t o c a r
na B a h i a nem em n e n h u m a o u t r a c a p i t a r i a , d e v e n d o
assumir o g o v e r n o p e r a n t e a C â m a r a d o R i o d e J a n e i r o .
P e s d c q u e S a l v a d o r v e i o c o m o seu l i o M e n d c S á á
o b r a d a c o n q u i s t a , ficou t u r r a n d o no R i o de Janeiro,
c o n s t r u i n d o u m e n g e n h o na ilha do G o v e r n a d o r , c u j a
m e t a d e l h e f o i d a d a em sesmaria. ( I )
N o s p r i m e i r o s annos de seu g o v e r n o t e v e de l u e t a r
c o m a l g u m a s d i r h c u l d a d c s . O d o m í n i o da H c s p a n h a
s o b r e P o r t u g a l inspirara ao P r i o r d o C r a t o u m a p o l í t i c a
de deslealdade e p e r f i d i a s c m r e l a ç ã o ao B r a z i l , no sen-
t i d o de manter-se P o r t u g a l p r o t e g i d o pela F r a n ç a , d i -
zendo-se a t é q u e e l l e c h e g o u a o r í e r e c e r - l h e o B r a z i l a
t r o c o d c 1 2 . 0 0 0 i n f a n t e s . D o m i n a d o p o r essa p o l í t i c a ,
escreveu aos g o v e r n a d o r e s d o B r a z i l c á s suas c â m a r a s ,
c o n f i a n d o as c a r t a s á s n á o s francezas, ainda q u e no Bra-
zil j á se tivesse d a d o a a c c l a m a ç ã o d e F c l i p p e I I .
A l g u m a s destas n á o s e n t r a r a m no p o r t o d o R i o , n ã o
a l c a n ç a n d o a sua g u a r i t i ç ã o d e s e m b a r c a r p o r causa d a
r e s i s t ê n c i a offcrccida p o r Salvador. (2)

(1) Nunca encontramos essa sesmaria de Salvador cm nossas pesquisas sobre


os velhos mss. Mas V arn^Ucn .li; que SaWador obteve-a, dc Man dc Sã da
metade da ilha. sendo a outra metade dada a Huy Grmsalvcs. sendo a doacáo de
Salvador conürmada aos 13 1: verei ro de (576. V-W» y c

, r^trTT" 3
4 !r, >'
q U C p o
Htuaeio dc Bulhões ria mesma ilha
c m
J
M r 3

K ^ « n i ^ ° V . , f "7"^ * ?°
a
«u. 6 de Novembro Jc 1565 e a dc
d 4

frcrnào Baldez da ilha dc Paqn ;; . cro 11 de Novembro de 15C7 e t


i l r l ^ " « " " v e o d o a opitúúo de Soares, áit. CapiMu.no em suas notas 3
Í L . 4 . ?' Sebasi.áo <açrade^ndo-lhcs o que haviam feito
c,Ja c dQ

cm seu seu serviço-. Teve i,i» logar cm l&Sr. Antes de 18 dc Maio dr ISSO ha-
viam estado quatro r.áes dc ucrra íranccias 1,0 Rio. tí
— 63 —

I V . V i c e n t e d o S a l v a d o r descreve c m sua o b r a
u m a destas t e n t a t i v a s q u e t e v e l o g a r p r o v a v e l m e n t e
e m 1 5 8 3 : c h e g a r a m t r e s n á o s francezas no R i o d e
J a n e i r o e s u r g i r a m j u n t o ao b a l u a r t e , q u e e s t á no p o r t o
d a c i d a d e , d i z e n d o q u e i a m com u m a c a r t a d c D . A n -
t ô n i o p a r a o c a p i t ã o S a l v a d o r C o r r e i a de S á , o q u a l
n e s t a o c e a s i ã o e r a i d o ao s e r t ã o fazer g u e r r a ao g e n t i o ;
mas o a d m i n i s t r a d o r B a r t h o l o m e u S i m õ e s P e r e i r a q u e
h a v i a ficado g o v e r n a n d o e m seu l o g a r e estava i n f o r -
m a d o d a v e r d a d e p e l a carta d o g o v e r n a d o r g e r a l ( M a -
noel T e l l e s B a r r c t t o ) lhes r e s p o n d e u q u e se fossem
embora, porque j á sabiam q u e m era o r e i . E p o r q u e a
c i d a d e estava s e m g e n t e e n ã o h a v i a m a i s n e l l a q u e os
m o ç o s estudantes e alguns velhos que n ã o p o d i a m i r a
g u e r r a d o s e r t ã o , d e s t e s se fez u m a c o m p a n h i a e D o n a
I g n e z de Souza, m u l h e r d e S a l v a d o r C o r r e i a , fez o u t r a
de m u l h e r e s c o m seus chapeos na c a b e ç a , arcos e fle-
c h a s nas m ã o s , com o q u e c c o m o m a n d a r e m tocar m u i -
tas c a i x a s e fazer m u i t o s f o g o s de n o i t e p e l a p r a i a
fizeram i m a g i n a r aos francezes q u e e r a g e n t e p a r a de-
f e n d e r a c i d a d e e assim, a c a b o de dez a doze dias,
l e v a n t a r a m as â n c o r a s e se f o r a m » . ( 1 )
M a i s o u m e n o s p o r este t e m p o , e n t r o u no R i o d c
J a n e i r o a poderosa a r m a d a de D i o g o F l o r e s V a l d c z , a
2 4 d c M a r ç o d c 1 5 8 2 . E « o t e m p o d a estada no R i o ,
salvo as e n f e r m i d a d e s , passou-se e m resgates de pau
brazil e outras mercadorias e r u s g a s e n t r e os chefes,
s e n d o estes resgates v e r d a d e i r o s peculatos q u e se es-
tenderam a S. V i c e n t e , onde f o i tomada carga de
assucar.)» ( 2 )
P a r t i u e l l a do R i o a 1 de N o v e m b r o ,

(1) Fr. VJC«»1Í do Salvador Obr. Cie Annaes <f.t llibl, N*<, vol. 13
pag, UÍ7.
(2) Azevedo Marquei Apout-xm^iila, 3.219.
— 64

A s entradas r e p e t i d a s d e n á o s estrangeiras n o
R i o d c Janeiro o b r i g a r a m S a l v a d o r a c o g i t a r d a f o r t i f i -
c a ç ã o da c i d a d e , a l é m dos p e d i d o s feitos a m e t r ó p o l e
de remessa d c a r m a m e n t o s q u e l h e f o r a m r e m e t t i d o s .
E p o r esta o c e a s i ã o a c o r t e consulta-o se d e v i a de pre-
ferencia f o r t i f i c a r o R i o o u p o v o a r C a b o Frio, sendo de
parecer q u e « s e r i a f á c i l p o v o a r - s e o C a b o , c o m g e n t e
d e l i a m e s m o c isto c o m t a n t o mais r a z ã o , q u a n t o C a b o
Frio n ã o havia â g u ã s e n ã o muito pela terra d e n t r o » . (1)
S a l v a d o r p r o p o z e n t ã o q u e sc fizesse f o r t a l e z a na L a g e
« q u e e s t á na e n t r a d a da b a r r a » ; p o r é m , d e p o i s c o n -
s u l t a n d o m e l h o r o caso c o m u m e n g e n h e i r o q u e no por-
to ficara da a r m a d a castelhana, c o n v e i o , c m v i r t u d e da
f a c i l i d a d e d c t e r cs materiaes, c e m v o t a r por duas for-
talezas nos p r o m o n t o r i o s da mesma b a r r a , s e g u n d o os
t r a ç o s ou plantas q u e m a n d o u ao s o b e r a n o » . ( 2 )
O s j e s u í t a s p r o s p e r a v a m c cada vez mais p r e p o n -
d e r a v a m sobre o g o v e r n o p a r a , na c o l ô n i a , a g i r e m e m
interesse d a o r d e m , n a q u e t ã o d o c a p t i v e i r o d o i n d i o .
O b t i v e r a m elles d i v e r s a s d o a ç õ e s de t e r r a s . E m 2 4 de
Janeiro f o i c o n f i r m a d a de 1 5 8 3 aos indios das aldeias de
S. B a r n a b c e S. S e b a s t i ã o , u m a s e s m a r i a d e d u a s l é g u a s ,
j u n t o d a fazenda dos padres e aos de S . L o u r e n ç o ,
o u t r a de q u a t r o l é g u a s , de M a c a c ú á S e r r a dos Ó r g ã o s ,
t a m b é m j u n t o á s t e r r a s dos p a d r e s . O s b e n e d i c t i n o s
t a m b é m o b t i v e r a m u m a sesmaria p a r a as b a n d a s d e
M a c a c ú , no r i o G u a p y , e m A b r i l d c 1 5 9 0 .
C o m e ç o u a c o n s t r u c ç ã o da I g r e j a de S. S e b a s t i ã o
q u e ficou c o n c l u í d a c m 1 5 8 3 . ( 3 )

\1 ' P»rlo Seguro. Ohr. Cri.


-

(2) Porlo Seguro, übr. Cit. Transcrevamos ;>qni a seguinle nota de


CapUtrauo de Abreu à obra dc Porlo Seguro: C. de Salvador Correia de 7 de
Marco de lõt?4. respondida cm 27 dc Marco de 1585—D Alonso de Soloniayor,
goveroad» r do Chile c outros capiiàca de armados escreviam então a eõilc' rc-
commendando SalvadoT Correia; e a governador Maneei Tcllcs. a y,ucm cl-rci
ordenou que des.se informação delle.riis-e,eui carta dc li_ dc Agosto dc 3ÍW4,
que a dava «muito lida assim por ptssnas que daqucilas panes vier-tm. como por
mu Balthazar Machado, por quem mandai a visitar as tbitaleras e qnecra rrsrece.
dor que S. M. lhe liscsse honra v uierce*,
_ (3) Na opinião dc M»|l<! Morvef, neste snnn fnratn lianifeitdíi? os osses
dc Estacio para esse icmplo. <J cpitapliio manda-io jítiiViir sobre a campa do
fcpukliiu demonstra que foi eui 1583 queficouacabada a obra.

I
— 65 —

D o o u aos r e l i g i o s o s c a p a c h o s d c S a n t o A n t ô n i o ,
e m 15!)2, a e r m i d a de S. L u z i a , os q u a e s n ã o a acceita-
r a m por achar-se v i s i n h a dos j e s u í t a s . ( 1 )
P r o t e g e u os b c n e d i c t i n o s q u e , j á estabelecidos na
B a h i a , o r g a n i s á r a m o u t r a a b b a d i a no R i o de J a n e i r o ( 2 )
e os c a r m e l i t a s . ( 3 )
Estas ordens religiosas q u e t a n t o se desen-
v o l v e r a m no B r a z i l , t i n h a m - s e f u n d a d o n o R i o de Ja-
n e i r o , sob a p r o t e c ç ã o d c S a l v a d o r de S á , e m c u j a ad-
m i n i s t r a ç ã o attendeu solicito para o desenvolvimento
m a t e r i a l da c i d a d e e o d e s e n v o l v i m e n t o da l a v o u r a , q u e
j á sahia da phase r u d i m e n t a r , p a r a a phase d a i n d u s t r i a
a g r í c o l a d a canna. M u i t o s engenhos j á existiam.

(1) A igreja, dc S. I.uzia c íiiuiIo antiga c náo sc sabe quem primitiva-


mente a fundou. O que c cerco é que ella existia muito antes do anno de i592,
«porque Salvador Concia de Sá, r4pilãõ e governador do Rio de Janeiro c ou
odiciae* da Câmara que este anno de 1592 servimos, etc.,* doaram a ermida de ,
S. I.nzia, «ila abaixo do baluarte da Sé com toda a fabrica, cdiâ.ins e bens da 4
igreja aos religiosos capuchos de San Io Antônio, que a n3oquizeram pela visi- •
nhanca dos jesuítas. A primitiva, igreja de S. Luzia sc arruinou, cam o tempo e
a requerimento dc Diogo da Silva, foi *iil>?UtuÜà. pela actnal, cm terreno doado
por Jnar> Pereira Cabral o sua mulher, juuto à praia onde sc a vc, [Brasil Ilist.
por Mello Moraes).
(2i Vindo ao Rio dc Janeiro cm 1590 Fr, Jnflo Gãftez c seus companhei-
ros, religiosos dc Nos «a Senhora do Monte do Carmo, foram agasalhadus na er-
mida de Nossa Senhora do O' da variem o Salvador Correia de Sa, a Câmara e o
povo os acolheram com tanta benevolência, que cm pouco tempo lhes propor.
cionararu meios dc erigirem igreja e convento, recebendo ciies de uma mulher
a doação da ermida onde estavam, (etréüõ na vargem juruo a ermida e outras
doações valiosas, dentro c frira da cidade, \.\u rpde Janeiro dç 1- 11». o governa-
dor Rny VJZ Pinto Icz doação ans frao.es do Carmo df uma ilha (hoic das Enxa-
das) ao mar da ilha dc S, Bento, (hoje das Cohras) para ttrareUi pedra para as
obras da igreja e convento (Mello Moraes, Obr. Cii. pag. 120;.
i.íl' Onde aitá hoje cdihcada a capclla dos terceiros do Carmo existia a
ermida dc Noss 1 Senhora do O', que serviu dc residência temporária dos
monjfcs bencdictinns h\ Pedro Ferra c F. João Poicalho. os quacs sendo muito
bem recebidos pelo governador Salvador e pelo povo Manoel de BriUo c seu
filho Diogo dc Britto [.ftí^rdã cedeo-lhes a seSffisría que tinham pedido em
11 de Setembro de 1573 que coitpfeheetidia um mono depois de S. Bento,
Prainha alé o morro da Conceição, onde existia uma pequena capei la, qne por
algum tempo serviu dc hospício aos padres capachos frarcezes, cuja doação foi
lcita cm 2f» de Março dc 1590 c contornado depois com outros bens, por elle e
sua mulher d. Ihionosta de Vasconccilos pnr escriptura de 5I dc Janeiro dc 1G20,
sendo «-ntào abbads Pr. Plácido das Chagas. Sobre o morre dc S. Bento, onde
construíram a igreja, acharam os frades bento* uma ermida de Nossa Senhora
da ÇünEfcif ao, construída por Aleixn Manoel,,o velho, natural da ilha terceira c
sua mulher 1'rpDcÍí.ca da Çosta, filha de Jordão Homem da Coíts. amhos da
mema ilha ^ pessoas nobres, com o consentimento dc Manoel dc Uri tio c sua
mulher e seu nino l>io#o dc Dri'.tO Lacerda (Çfror. Gera! do Bra;ÍI, por Mello
Matraeí, pag. 124!.
— 66 —

E i s os f á c t o s p r í n c i p a e s do g o v e r n o de S a l v a d o r
C o r r e i a de S á q u e m o r r e u , s e g u n d o d i z S i l v a I . i s b ô a ,
c o m c e n t o e tresc annos, e m 1 6 3 1 . (1)
F o i s u c c e d i d o por F r a n c i s c o de M e n d o n ç a e V a s -
concellos. ( 2 )
A e x p l o r a ç ã o das m i n a s j á despertava a a t t e n ç ã o d a
m e t r ó p o l e e d a c o l ô n i a , a c u j a p o l í t i c a associava-se este
e l e m e n t o n o v o , q u e se c o n s t i t u í a c o m o u m f a c t o r d a co-
l o n i s a ç ã o , das e x c u r s õ e s p e l o i n t e r i o r , p a r a c o n h e c e r a
zona o c c i d c n t a l , a b r i n d o assim as p r i m i t i v a s estradas q u e
h a v i a m de c o m m u n i c a l - a c o m o l i t t o r a l c l a n ç a r os g e r -
m e n s d o sen p o v o a m e n t o . A g u e r r a dos í n d i o s p a r a
captival-os e ? e x p l o r a ç ã o das m i n a s , p o d e m ser c o n s i -
d e r a d a s c o m o as causas p r i u c i p a e s d o c o n h e c i m e n t o d a
geographia do interior da colônia c da e x p a n s ã o do seu
povoa m e n t o .
N a o o b s t a n t e o insuecesso d e G a b r i e l S o a r e s n o
R i o d e S. F r a n c i s c o , o p r ó p r i o g o v e r n a d o r da c o l ô n i a
e n t e n d e u v i r e x p l o r a r as m i n a s d e S V i c e n t e , a s s i m
c h a m a d a s e j á t ã o celebres. S u h i u d a B a h i a e m O u t u b r o
d e 1 5 9 8 e d e p o i s d c passar e m E s p i r i t o S a n t o , a p o r t o u
. ao R i o de Janeiro, o n d e f o i r e c e b i d o p o r M e n d o n ç a e
Vasconccllos e do povo todo com m u i t o applauso por
ser p a r t e o n d e n u n c a v ã o os g o v e r n a d o r e s g e r a e s ; e
assim achou tantos p l e i t o s civis c c r i m e s i n d í c i o s , q u e
p a r a os h a v e r d e j u l g a r lhe í ô r a n e c e s s á r i o deter-sc a l i
muito t e m p o » . (1)

«urp . L ?
r
(2
c
âw $abem
?* ° ? ia A
" M C C C M f l
" - fc" opinião de Mello Mornos, o uovu
3

' S t x "'" Í* ' ,


|J K v cre,to dc
'«« vê-** que até toU data elle «o-
E m v i s t a dessa s i t u a ç ã o , f o i c h a m a d o o o u v i d o r
g e r a l G a s p a r de F i g u e i r e d o H o m e m q u e se h a v i a c a s a d o
e m P e r n a m b u c o p a r a d a r a n d a m e n t o e j u l g a r essas
causas. F i g u e i r e d o H o m e m a i n d a e n c o n t r o u D . F r a n -
cisco de Souza n o R i o de J a n e i r o .
I a iniciar-se a g o r a u m a n o v a phase de h o s t i l i d a d e s
á c o l ô n i a , pelos a v e n t u r e i r o s francezes c d e p o i s inglczes
c h o l l a n d e z e s , a g u ç a d o s pelas n o t i c i a s de m i n a s c d o
auxilio e c o n ô m i c o c financeiro que suppunham presta-
r e m c i l a s á m e t r ó p o l e . E d u r a n t e a estada de D . F r a n -
cisco d c Souza no R i o q u a t r o g a l c ó e s de c o r s á r i o s pe-
n e t r a r a m na b a r r a . ( 2 ) Estes factos q u e se r e p e t i a m
o b r i g a v a m p o r c e r t o o g o v e r n o a c u r a r d a d e f e s a da
c i d a d e p a r a p o d e r c o r r e s p o n d e r a s i t u a ç ã o m i l i t a r do
m o m e n t o e vencer e d o m a r as i n v a s õ e s . A c r e d i t a m o s ,
p o r é m , que M e n d o n ç a dc Vasconcellos pouco adiantou
as c o n d i ç õ e s em q u e estavam as f o r t i f i c a ç õ e s da cidade,
s e n d o esse o a s s u m p t o p r i n c i p a l d o seu suecessor, M a r -
t i n de S á , p o r isso q u e as i n v a s õ e s a s s u m i r a m u m cara-
cter m a i s g r a v e .
A a t t è n ç à o dc M e n d o n ç a de V a s c o n c e l l o s d i r i g i u -
se para m e l h o r a r e a d i a n t a r a c o n s t r u c ç ã o da i g r e j a d a
S é . P á r a isto t o m o u medidas q u e l h e t r o u x e s s e m o
d i n h e i r o preciso p a r a c o r r e s p o n d e r a essa e m p r e z a .
A C â m a r a c r e o u u m a finta s o b r e os v i n h o s , o azeite e
os n a v i o s q u e e x p o r t a v a m f a r i n h a p a r a A n g o l a c os q u e
v i n h a m d e Buenos A y r e s , a s a b e r : 4 0 reis e m cada ca-
n a d a d c v i n h o , 1 0 0 r é i s na d o azeite c 1 $ sobre os

(1) I r . Vicente do Salvador. An. ,i.i 8;òí, tfac, vol. 13, pag. 162.
(2) Chegado o ouvidor o ceando o governador para Sc partir, lhe toma-
ram a barra quatro galeões dc corsários, o qual ctHendeM que haviam dc sahir
á terra a tomar ajiua na ribeira da Carioca, lü" nianduu pôr gSnlc cm ciladas
junto d elle j e assim aconteceu que indo qoalítt lanchas e sahiudo primeiro a
gente sn de uma e tendo jà a água inalada para se torr.arem a embarca., lhes
sahÍT;,m os nossos c os mataram todos, BJtcepto dous que levaram mal feridos ao
governador e os das outras lanchas vendo isto sc tornaram ás gales, nas quavs
sabendo de um uiainaluce que haviam tonfado cm uma canoa, que estava o go-
vernador D. Francisco dr Souza c determinava mandar-lhe* ipir-imar os navios,
os fizeram logo a vela e lhe deixaram a barra livre, para seguir sua viagem, como
seguiu,> Fr. Vicente do Salvador. Obr. Cit.
— 68 —

n a v i o s d c c o m m e r c i o ; 1 0 r é i s nas f a r i n a s da t e r r a q u e
sahiam para fóra e 8 0 r é i s s o b r e os t r i g o s d c B u e n o s
A y r e s . (1)
D e a c c o r d o com a C â m a r a prohibiu o andarem
armados os í n d i o s e escravos de a r c o c flecha e q u e se
devia e m b a r a ç a r a sahida dc mantimentos e mercado-
rias s e m l i c e n ç a do g o v e r n o m u n i c i p a l , s a l v o q u a n d o
excedesse o consumo p u b l i c o e q u e n i n g u é m p o d i a v e n -
d e r em loja p u b l i c a s e m p r é v i a l i c e n ç a d a m u n i c i p a l i -
d a d e . (2) r

S u c c e d e u a M e n d o n ç a de V a s c o n c e l l o s , M a r t i n
C o r r e i a de S á , filho de S a l v a d o r C o r r e i a de S á e d c sua
terceira m u l h e r D . V i c t o r i a d a Costa, ( 3 ) que repre-
s e n t o u i m p o r t a n t e p a p e l na c o n q u i s t a do R i o Não
sabemos a d a t a em q u e assumiu a a d m i n i s t r a ç ã o . M a s
e m 1 6 0 3 j a g o v e r n a v a o R i o ( 4 ) e p o r isso o e s t u d a r e -
mos a d i a n t e , p o r q u e é o p r i m e i r o g o v e r n o d o s é c u l o
A V I I . l i m i t a n d o - s e este c a p i t u l o aos g o v e r n o s do R i o
de J a n e i r o no s é c u l o X V I .

(1) Memória Mfi. j i ck. existente na Bibl. Nac


\4) Memória M.ss.
<3) &v. Jo Inst. Hist. Brasil, VW. 111, . 0 p 3 p J 0

ti os livros to^n^l^V^™' *P0^1»c o moMxa uu, J„ , .


6 s n


CAPITULO IV

A cidade no sceulo X V I

SUMMARIO: tyotó. local da cidade. Coltegín dos jesuítas e a m&írir;. Bcne-


dictinos e carmelita*. Convento de Santo Antônio. A cidade..
Influencia dos morros eda adminiatração sobre seu desenvol.
vimsnto.

V e n c i d o s os francezes, a l i ia d ó s dos t a m o y o s , achou


M e n de S á p o u c o a c e r t a d o c o n t i n u a r a sede da c i d a d e
o n d e a f u n d a r a seu s o b r i n h o E s t a c i o de S á .
A ç h r o n i c a assjgnala o d i a 2 0 d e J a n e i i o de 1 5 0 7
p a r a a m u d a n ç a d a c i d a d e para o m o r r o d o C a s t e i l o .
E n t r e t a n t o , q u e r nos parecer q u e e l l a n ã o se s e g u i u á
u l t i m a victoria dos p o r t u g u e z e s / p o r q u a n t o , h a v e n d o f e -
ridos, f o r a m r e c o l h i d o s a V i l l a V e l h a , incluindo o p r ó p r i o
c a p i t ã o Rstacio que, f e r i d o na face, m o r r e u u m mez de-
pois, s e n d o s e p u l t a d o na a n t i g a c a p c l l a de S. S e b a s t i ã o ,
d e c u j a c o n f r a r i a , s e g u n d o d i z e m os chrnnistas. e r a
m o r d o m o F r a n c i s c o V e l h o , u m dos p r i m i t i v o s h a b i '
tantes d c B o t a f o g o c q u e d e u o n o m e á bahia.
N ã o ha d u v i d a q u e n ã o f o i b e m acertada a escolha
d o m o r r o d o C a s t e i l o p a r a a f u n d a ç ã o de uma c i d a d e ,
q u e d e v e r i a t e r n o f u t u r o m a i s d e s e n v o l v i m e n t o . Esta
o b s e r v a ç ã o sobe d e p o n t o , q u a n d o v e m o s j á e m 1 5 6 5 ,
os padres j e s u í t a s p e d i r e m uma s é s mar í ã e m l o g . r m u i t o
m a i s a p r o v e i t á v e l , a q u a l e s t e n d i a-se d o r i o I g u a s s ú ao
C a t u m b y , a t é a tapera dc I n h a ú m a ,
— 70 —

M a s , a escolha do m o r r o t e m para n ó s a s e g u i n t e
e x p l i c a ç ã o : era u m a e s p e c i e d e atalaia, d e f e n d i d a pelas
lagoas q u e a cercavam e q u e s e r v i a m de m e i o de d e f e s a
c o n i r a as m o p i n a d a s i n v a s õ e s dos i n d í g e n a s . A p r o x i -
m i d a d e d o p o r t o e x e r c e u sua i n f l u e n c i a , s e r v i n d o para
t r a ç a r a d i r e c ç ã o das ruas, q u a n d o a c i d a d e descesse
do morro para a p l a n í c i e .
P a r a , a t é c e r t o ponto, a l t e n u a r a p o s s l b i l i b i l i d a d e
das i n v a s õ e s , M e n de S á c o n s e r v o u , p e r t o da c i d a d e , o
seu f i e l a l l i a d o A r a r i b o y a q u e S á , m u i t o - m a i s t a r d e ,
t r a n s f e r i u a r e s i d ê n c i a p a r a o lado o p p o s t o da b a h i a ,
nas t e r r a s cedidas por u m dos p r i m e i r o s p r o v e d o r e s da
fazenda d o R i o , D . A n t ô n i o de M a r i n s C o u t i n h o , o p r e -
t e n d i d o D . A n t ô n i o de M a r i z d o r o m a n c e Guarany.
K m v i r t u d e de a m p l a s c o n c e s s õ e s feitas p e l o r e i
D . S e b a s t i ã o , os j e s u í t a s e s c o l h e r a m no C a s t e i l o l o g a r
p r ó p r i o para a f u n d a ç ã o d e seu c o l l e g i o .
C o m o se sabe, as o b r a s d e s t e c o l l e g i o f o r a m d e -
moradas, mas, j á e m 1 5 8 5 , o p a d r e F e r n ã o C a r d i m ,
g a b a v a as e x c c l l e n c i a s d e s t a casa r e l i g i o s a , a solidez
d o s seus c u b í c u l o s , a c o n s t r u c ç ã o d e u m a n o v a i g r e j a
d e p e d r a e cal e s o b r e t u d o as e x c e l l e n c i a s da c e r c a o n d e
se c u l t i v a v a m fruetos s u p e r i o r e s aos d e P o r t u g a l e a t é
a vinha.
O p a d r e I g n a c i o de A z e v e d o , q u e a c o m p a n h a r a
M e n de S á na c o n q u i s t a do R i o , o b t e v e a d o a ç ã o e r e -
gressando a L i s b o a , d e i x o u N o b r e g a e A n c h i e t a encar-
r e g a d o s da c o n s t r u c ç ã o d o t e m p l o , q u e e m p o u c o t e m p o
estava c o n c l u í d o . ( 1 )
A l é m d o c o l l e g i o dos j e s u í t a s , f o i c o n s t r u í d a a
igreja matriz. C o m e ç a d a por Salvador C o r r ê a e m 1572,
s ó v e i u a ser c o n c l u í d a e m 1 5 8 3 , e m s e u segundo
governo.
E m c o m e ç o , era u m a e r m i d a de taipa que, desde
l õ f í í ) , f o i e l e v a d a a m a t r i z d a f r e g u e z i a de S. S e b a s t i ã o ,

. t') Ajadaram a fundar o coUcfito os padres Luiz de Grau. Antônio Ro-


drigues, Bjliba9ar Hrnandes o Antônio da Ro.lia.
— 71 —

a p r i m e i r a creada n a c i d a d e e q u e , 1 0 7 annos depois,


era a i g r e j a cathedral. (1)
O primeiro vigário nomeado da fréguezia f o i M a -
t h e u s N u n e s , a 2 0 de F e v e r e i r o de 156!), com o p o d e r
d e r e p r e h e n d e r , c a s t i g a r e sentenciar a t o d o s a q u e l l e s
q u e v i v e s s e m m a l , sentenciar.do-os a t é 1 0 c r u z a d o s
sem appellação nem aggravo; conferiu-sc-lhe o
d i r e i t o de c o n h e c e r dos casos d a i n q u i s i ç ã o , senten-
ciando segundo Deus o illuminasse, e appcllando para
o b i s p o o u o v i g á r i o g e r a l ; e seria c o n d e m n a d o a 3 0
cruzados e a p e n a de e x c o m m u n h ã o t o d a c q u a l q u e r
pessoa q u e a desobedecesse. A o c a r g o de v i g á r i o ,
r e u n i u M a t h e u s N u n e s o de o u v i d o r ccelcsiastico. ( 2 )
D i z e m as a n t i g a s c h r o n i c a s q u e M e n de S á f u n -
d a r a n o m o r r o d o C a s t e i l o a casa d a c â m a r a e cadeia,
casa p a r a sua r e s i d ê n c i a , d a n d o as a c c o m m o d a ç õ e s pre-
cisas, f e i t a s de p a u a p i q u e , aos p r i m i t i v o s c o m p a n h e i -
ros d e l i d e s .
Destas p r i m i t i v a s c o n s t r u c ç õ e s n ã o existe s e n ã o
a l e m b r a j i ç a , c o m o t a m b é m das f o r t i f i c a ç õ e s a h i f e i t a s
c d c q u e nos f a l i a G a b r i e l S o a r e s .
A p r o v e i t a n d o - s e dos restos de u n i a f o r t i f i c a ç ã o
d e i x a d a p o r V i l l e g a i g n o n , n a p r a i a d n Piassava, foi
c o n s t r u í d o a h i u m f o r t i m q u e depois teve o n o m e de
f o r t a l e z a de S . T h i a g o , hoje. A r s e n a l de G u e r r a .
B a t i d o s os i n d í g e n a s e francezes, a t r a n q ü i l i d a d e
p a i r o u n o e s p i r i t o dos h a b i t a n t e s e c l l c s f o r a m buscar a

(i) A igreja dc S. Scb.i-li.V-. a primeira quç -ervirj dc matriz, que encer


rava o tumuln ilo fundador da cidade, que acolheu o cabido e o bispo, cahira cm
fuiBaSi porque deixando o morro para virem estabelecei-se na planicíc cirentn-
virdnha, o bispo, os coneyoii, o povo haviam abandonado o templo, que acolhera
a todas, e a iodos abençoara.
Sendo vice-rei o conde de Rezende, cuidou cm reedificar o templo de S.
Sebastião ; de feito com esmolas do povo evilou que o ar.tú-o edihVio dcsappa.
regesse, c restaorou lambem a irmandade dr- S. Seba^ilào, que pelos livros de
nbilo* dj ircvuexia constava exisur em l,t(i.
Fm 1342 foi enlreg?;? este templo aos capuchinho* italianos, que recdifi-
caram-no rom o auxilio do governo.
Tal era o estado de mina em ipieficaraa antiga igreja, que bem junto ao
cnniul desta ig<=,a aiaoa *c noL 1 marcn dc mármore, mudo testemunho da
origem c dcsenvolvuuenio da hoje Capital Federal
(2) Obra eitúfa de Azevedo, vol. 1", i>ag.'líW.
— 72 —

zona e n x u t a da p l a n í c i e , a t e r r a n d o p o u c o a p o u c o as
partes circumvisinhas.
H a b í l a d m i n i s t r a d o r , M e n de S á v i u q u e c m b r e v e
os h a b i t a n t e s d e s c e r i a m d o m o r r o e p o r isso e m 1 5 6 7
a l t e r a v a a d i r e c ç à o das t e r r a s d a d a s ao C o n s e l h o p o r
E s t a c i o , eni 1 5 6 5 .
N e s t e l a r g o , o n d e e s t á h o j e e d i f i c a d a a c a p e l l a dos
T e r c e i r o s do C a r m o , j u n t o a o a n t i g o P a ç o I m p e r i a l ,
e x i s t i a a e r m i d a de Nossa S e n h o r a d o O ' , q u e s e r v i u d e
r e s i d ê n c i a , p o r a l g u m t e m p o , aos b e n e d i c t i n o s f r e i P e d r o
F e r r a z e i r e i J o ã o Porcalho, o f u n d a d o r d a o r d e m , n o
R i o de J a n e i r o . ( 1 )
« N ã o f i c o u l e m b r a n ç a , diz o c h r o n i s t a Dictario
manuscr/pío, d o dia e a n n o c m q u e se m u d a r a m os
nossos m o q g e s f u n d a d o r e s p a r a sua n o v a h a b i t a ç ã o ,
p o r e m , s a b e m o s q u e se d e t i v e r a m p o u c o na e r m i d a d e
Nossa S e n h o r a d o O ' , e c o n t a m q u e , q u a n d o se m u -
d a r a m para este m o n t e , h o u v e u m a copiosa c h u v a na
f o r ç a d u m a secca r i g o r o s a , p r i n c i p i a n d o a c h o v e r l o g o
q u e o p a d r e f r e i J o ã o P o r c a l h o e n t o o u o c a n t i c o » c l o He-
neduttts p a r a a p r o c i s s ã o » .
Mas, « n o g o v e r n o d o p r i m e i r o p r e s i d e n t e — o pa-
dre frei Pedro F e r r a z — c o m e ç o u a c o n s t r u c ç ã o do mos-
t e i r o , á custa das esmolas q u e a n a s c e n t e p o v o a ç ã o
podia fazer» .
N e s t a mesma e r m i d a e s t i v e r a m c m l õ ! > 0 os car-
melitas frei Pedro V i a n n a e o u t r o s . E l l a lhes foi doada

fl) A mora d,i no si'.io onde se- achava esta ermida, isto é. no centro da
cidade e rtó im-iu do tumulto do mando, nio podia convir ao recolhimento usual
dos lilaos de S. B^u'.o, que em todi a parte procuravam os ermos e a solidão
para exercitar a santa regra do patriarchi. Lauçarâfri pois suas vistas sobre o
UVOOIÉ, em qa.ç boie acha e.hlic.ido o rpostajro então propriedade de Manuel
de fínii e dn s'*u filho Dio.30 de Hritt? Lacerda por sesnana pedida aos 14 de
Seiemhrn dt- 1573. comprebendia e*t;i pMpiiediide não sò o próprio outeiro,
'.ode havia mus ermida dedicada ;i Nossa Senhora da Conceiçíln edificada por
AleíJío Manuel o velho, mas roda a teria que o cercava até o morro da Con-
ceição.
Obtiveram-no os monges benedictinos pnr doação em 1590, e paia ahi
cuidaram de transpoihn-se sem demora afim de editle.ir mosteiro ciu que pudes-
sem guardar o rctiio e a observância da lei {ÂMataHcnloM histórico* sobre o
Mosteiro ,íe S, JJell&o do ifio dc J a/taro, ptlo Dt. Hamiz Galvao, pag. 31.)
— 73

p o r u m a senhora. E na v á r z e a , j u n t o a e r m i d a , a c â m a r a
fez-lhes t a m b é m o u t r a d o a ç ã o , para c o n s t r u í r e m , c o m o
c o n s t r u í r a m , o seu c o n v e i . t o . (1)
A l é m destas e r m i d a s . j á e x i s t i a m a de S a n t a L u z i a ,
q u e f o i d o a d a aos f r a d e s de S a n t o A n t ô n i o , e m F e v e -
r e i r o de 1 5 9 2 , ( 2 ) que se passaram d e p o i s p a r a o m o r r o
de S a n t o A n t ô n i o , o n d e e d i f i c a r a m o seu t e m p l o ; a d c
S. F r a n c i s c o X a v i e r , c u j a c o n s t r u c ç ã o d a t a m a i s o u
m e n o s da do E n g e n h o V e l h o ( 1 5 8 0 - 8 3 . )
N a e s c r i p t u r a dc d o a ç ã o f e i i a p o r S a l v a d o r C o r r ê a
e m 1 5 9 2 aos padres FVanciscanos da e r m i d a de S a n t a
L u z i a , s i t u a d a e m b a i x o do b a l u a r t e d a Sc, faz-se a l l u s ã o

(1) Fm 3590 viciam c tahclcccr-sc os frades carmelitas f**i IVdro Vi-


4

íinn-. e oulros na ermida da Scnnora do O', erguida na praia do mesmo nome,


Onde um a>mO aules haviam revidíd- os frades benedictinos.
Piocurarsm os carmelita* construir uma casa para resideuiia, e auxiliados
[•ela câmara c pelo povo erigiram na praça ciiamida louar do ferreiro da I'olé
um edificin com dois dormitórios, tendo cada um liczc jauellas; e desde então j
praça ficoo ronhecida coai o nome- dc pra;a do Carmo.
Nesr.es remotos tempos fácil era levantar-se uma igreja, erguer-se um
convento, porque o povo. arrasladu pelo sentimento ivligioso, fa?.ia valiofos do.
nativos em (roca dc uma bcnçàii ou indulgência; er mi communvs as doações ás
ordens religiosas; o governoi 1 cánjjr», o povo, todos pnrfiavam em prestar be-
nefícios á religião, aos padre». {R:<> .ir /.infiro, pitl AíOVedO, VOl. I " , p?g. 7!)!,
(2) Kiu 28 d-: Fewruiro de 15H2 Salvador Corrêa de Sá c a câmara, como
jà vimos, doaram a ermida de Santa Luzia a frei Anto:;io dos Maríyrc* c frei
Antônio das Chaga*. Copio representantes da Custodia, para . ouvento de Santo
A:.lon;0, dando-lhes além da igreja. casa e tod.i a fabricá, lírrenus páfá cerea,
dcsd<t a <T*JZ que estava adiante da igreja, ate atí cliáos de C«oi)palo Gonçalves,
ao lioigo da cerca dos pidrts da companhia, com hmile ao forte que está abaixo
da Sé ao longo da cerca dos padres da 'oirpsnbia.
Os frades nâo aceitaram a doação por cansa da visinhanca dos jesuítas c
foram para. a Misericórdia, c Oahi para a ermida d? Mossa Senhora da Concei-
ção da Ajuda. cdilK~>da ante* de rinde hoje títo .1 igreja piotcslantc. Mais
tarde Martin dr ?:í. com a câmara c povo no dia 9 dc Abril de 1008 doaram aos
ríligionos fiei Leonardo • <• J^sds, frei Custodio, frei Vn-eute do Salvador e frei
Hstev*q ÜOS A;jos sitio e terrenos para a >^rc;:i, convento •• cerca no outeiro do
Carmo, dcficoue da vargeru, «obre a la£õa dc Santo Antônio, o qual morro fora
doado aos frade .do Cartro por Chri"piúi da Costa e sua mulher Isabel dc Mariz.
cm 15&1. que o mo quizciam. Pc pos-e do ooteiro do Carmo, dciam começo a
igrrja c roovrrJo, encarrega ml o-se a cantara c o povo dc enxugar a* água* ao pé
•'•> moiro. <J> frftdes li/er: ui casa no principio da Loicira, onde hoje está parte
do rdtficio da Typogi.qíhi,! Nacional, para a assistciKan * oratoiin, onde residi-
ram 7 a-nos, enquanto trahalhavam nu igreja e convento no aJto do outeiro, es-
tabelecendo cemitério para ecravo' jorilo a ladi?:ra, Sendo pequeno o local pe-
diram a câmara mais trrrcno, ^ eiii 14 de Novembro dc 1609 s<- lhe concedeu
mais 1S braças para o lado d.» rua, Setldü fioje esses lerreons o sitio onde eslá
ediliendo o hospital da Ordtm Ttrccíra da Pcnrleiuia.
A igreja fimu conchu-sa em 1C10. Diiém íiufi no moiro de Santo Antônio
houve uma ermida dc Santa D. r*>arà <• outra de Santa Cathanna. Nao garanto
esla noticia ^or não ürli ir documento comprobatorio. a de residência imita á
ladeira existiu "t« o orfno de 1875. {Impeiio i/t» Hiaxil, pOi Mello Moraéft',
pog. 135)-
— 74 —

a t e r r a s de G o n ç a l o G o n ç a l v e s e o u t r o s , s i t u a d a s na
p a r t e i n f e r i o r da encosta d o m o r r o c nella se d i s t i n g u e o
n i c i o d a r u a d a M i s e r i c ó r d i a . / ! / C o m e t f e i t o , nesta r u a
e x i s t i r a m casas de G o n ç a l o G o n ç a l v e s ; 2 / q u e as l e g o u
á S a n t a C a s a da M i s e r i c ó r d i a , e m seu t e s t a m e n t o de 4
dc O u t u b r o de 1620.
Ate* o fim do s é c u l o e s t a v a m , pois, e s t a b e l e c i d a s
no R i o d c J a n e i r o estas o r d e n s religiosas, q u e h a v i a m
de t i r a r d o p o v o , do solo e d o g o v e r n o , os recursos d e
seu d e s e n v o l v i m e n t o .
M u i t o c e d o cs j e s u í t a s c o m e ç a r a m a c o n s t r u i r no
i n t e r i o r suas f a b r i c a s d c assucar, d a n d o isto l u g a r a
a b e r t u r a de c a m i n h o s q u : as c o m m u n i e a s s e m c o m a
cidade, como estudaremos e m l u g a r opportuno.
A cidade c o n t i n u o u a desenvolver-se pela p l a n í c i e ,
e n t r e os m o r r o s d o C a s t e i l o , S a n t o A n t ô n i o , S. B e n t o
e C o n c e i ç ã o , (í5) os q u a c s representam i m p o r t a n t e p a p e l
c m seu d e s e n v o l v i m e n t o , na d i r e c ç ã o das ruas, c o m o
d e m o n s t r a r e m o s , e m paginas posteriores.
E podemos m a r c a r os s e g u i n t e s l i m i t e s d a c i d a d e ,
por muito t e m p o :
Por dous lados os q u a t r o morros a c i m a m e n c i o n a "
vos; pelo t e r c e i r o a Marinha^ q u e entr.; e l l e s n i e d e i a "
v a ; p e l o q u a r t o u m fosso sinuoso ( 4 ) q u e recebia a s

á g u a s p l u v i a e s d o c h a m a d o Campo da cidade e as ia

|Ü Veja-se esta escriptura no 1" voi. do Are. ,ia Distr. Federal. Vol.
do I&04. pg. 53.
(2) Tem o sen retr.itn em mu dos salões da Misericórdia.
(3) O morro do Casteilo chamava-se antigamente mor/o de S. Sehas
tiã" " de Si Januário,' ode Santo Antônio, monle do Carmo; o de S. Henlov
morro dc Manoel do Hrito.
!4j Deste fosso mio existe boje mais do 4:1c a porção que U" Largo da
Carioca vai deságuar ao mar da Prainua, e que posteriormente foi aproveitado
pela Câmara para se construir cm seu luto um aquedueto, que servisse não só
ao uso primitivo, mas lambem c especialmente ao esgoto das sobras da azua
do chafariz da Carioca, segundo foi determinado pela carta règia de 21 dc Abril
de 1 Por cinta deste aquedneto existe hoje a Hia. de (_*• 'ufjuayana c pane
da rua da Praínha. anllgamonto rua di- Aljuhe,
A outra porção do antigo f.is»o, que do Largo da Carioca Ia dasnguar
ao mar dc Santa Luzia, foi-se insensívelmentè oblilerando pelo andar dos mm*
pos com os aterros e edificações que ^e íiwíani nos siiios qu» boja çonstituèui
as ruas da Guarda Velha, da Ajuda, e sins itnmediações. {T^mbi <1.n Terras
Mynictfaes, por Haddock Lobo, tam primeiro, pag. li».
- 75 -

d e s p e j a r n o m a r , s e r v i n d o de defesa á s e d i f i c a ç õ e s das
i n u n d a ç õ e s a q u e estavam s u j e i t a s , nas e s t a ç õ e s de
chuvas torrenciaes. (1)
U m acto da a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a v e i u c o n t r i b u i r
p a r a o d e s e n v o l v i m e n t o d a c i d a d e . R e f e r í m o - n o s ao
a c t o de S a i v a d o r C o r r ê a , p e l o q u a l d a v a aos n o v o s p o -
v o a d o r e s o d i r e i t o d c e d i f i c a r e m o n d e bem lhes pare-
cesse, « s e m n e n h u m oulro emis do q u e o l i v r e a r b í t r i o d c
cada um . » (2)
Durante todo o s é c u l o X V I a c o n s t r u ç ã o urbana
c e n t r a l i s o u - s e no m o r r o do C a s t e i l o , a i n d a q u e a n t e s d e
c o m e ç a r o s é c u l o X V I I a c i d a d e j á procurasse e x p a n -
d ir-sc p e l a plar.icie q u e passou a ser c h a m a d a Campo
da Cidade, a t é mesmo e m t e m p o s p o s t e r i o r e s , e q u e
o a m p r e h e n d e toda a vasta s u p e r f í c i e c o m p r e h e n d i d a
e n t r e o a n t i g o fosso ( h o j e r u a d a U r u g u a y a n a ) e os 9
m a n g u e s d e S. D i o g o , h o j e c i d a d e n o v a . ( 3 )

{1; Tvmhn das Terras Mnnicipaes. por Haddock Lobo, pag. 3.


(2) Observa muito bem Huddoclt Lobo, em Seu bellu trabalho, que
foram iíicunMfaflciaa que de'ei:iii:iar.im o fado de tei-se sempre repulado como
alhidial. ou livre do foro, aquella ]• i i • da cidade de que se apoderaram os
primeiros povoadores ; que è exactamenie tudo quanto se acha compreliendido
desde o mar ate á rua Vaila.
A única cxccpçao que se observa, c a que se refere á antiga marinha
da cidade, c alguns outros logarcí. que. por continuarem devolutos pelo correr
dos tempos, foram pela Câmara aforados a diversos, quando houve melhor re-
gularidade em seus actds administrativos, e melhor conhecimento da cstensàc
üc seus direitos.
Men de Sà assinalando no /'ora! o rumo de K. K. O. para ser obri-
gatoriamente seguido, quando se tratasse de medir a testada da .sesníaria. teve
«m vista alterar a concessão feita dous annos antes por sen sobrinho Estacio de
Sá ; cm proveito tan somente dos edificadores da nova cidade, que cm virtude
deste rumo deixavam dc ser contribuintes ã Câmara, por ficarem fora des limi-
tes dc sua sesmaria. Sc ao contrario, tivesse elle continuado pura c simples-
mente a primeira dada, o rumo da medição seria outro, visto CatnO os terrenos
delbi I-IIIII .'«ÍIÍ legoa e meia de terra, começando da casa de pedra ao longo
da Hahia ate onde ie acabar —V. o documento 11. 1*", Tombo das Terras Mu-
mcipaes, por Haddock Lobo, tomo primeiro, pag. 5.
(3) Ainda cm 1711, toda esta immcnsa arca era assim designada nas
memórias que relatam a tomada da cidade pelos franceses, apegar de sc achar
já a esse tempo retalhada e edi Geada em muitos logares, por diuerentes cháca-
ras. O que d«11» ficou restando, como logradouro publico pVoprlvmi-nte dito,
foi n intitulado campo de K. S. do Rosário, dematcado c alinhado nela Câmara
em 22 dc Dezembro de 170f», dc 103 braças dc comprido c 511 dc largo. Seus
limites contavam-se desde a rua do Ouvidor ale a da Alfendcga c da Uruguay-
ana ale a antiga do Fogo h«jc dos Arolude*. liste mesmo logradouro quasi
qu<t desapparece pelos aforamentos que ahi scfizeramdc 1750 cm diante, tes-
tando depois a pequena arca conhecida pelo nome dc—Largo do Rosário.
Haddock Lobo. O br. Cul,, pag. 10J.
— 76 —

O s h a b i t a n t e s d o m o r r o a b r i r a m tres c o m m u n i c a -
ç õ e s c o m a p l a n í c i e , v e r d a d e i r a s l a d e i r a s p o r o n d e des-
c i a m c q u e t o m a r a m os nomes de l a d e i r a d a Misericór-
dia, d a A j u d a , c h a m a d a l a m b e m Passo do Porteiro c u m
pouco mais tarde a ladeira do Cotoveílo.
Estas l a d e i r a s f o r ç a r a m a c o n s t r u c ç ã o das r u a s
p r i m e i r a m e n t e a b e r t a s e c o n s t r u í d a s , d e v e n d o - s e assig-

ualar como primeiras as ruas da Misericórdia, Direita,


A j u d a e S. J o s é .
A l a d e i r a d o Cetovello f o i a b e r t a a n t e s d a r u a d o
C a r m o q u e n ã o e x i s t i a , ate o n d e chegava a r u a de
S. J o s é q u e ainda c o n s e r v a a d i r e c ç ã o r e c t a ate a h i .
E x i s t i a e n t ã o u m a a b a d o m o r r o q u e f o i de b a s t a d a
p a r a aterros, d c sorte q u e a i n d a h o j e nota-se a d i r e ç ã o
c u r v i l i n e a d a r u a de S. J o s é até* a i g r e j a d o Parto.
E ' e v i d e n t e q u e esta l a d e i r a f o i o r e s u l t a d o d e l i a e
ao m e s m o t e m p o a causa d a a b e r t u r a d a r u a de S. | o s é
que quasi é c o n t e m p o r â n e a da rua da M i s e r i c ó r d i a e
D i r e i t a , p o r q u e e r a i n d i s p e n s á v e l essa v i a d c c o m m u n i -
c a ç ã o e n t r e o m o r r o e esta zona d a c i d a d e .
A l a d e i r a d o Porteiro i a t e r m i n a r c m l o c a l o n d e f o i
f u n d a d a a e r m i d a de N o s s a S e n h o r a d A j u d a , e d i f i c a d a
,

nos fins d o s c e u l o X V I e r e c o n s t r u í d a c m 1 6 0 0 .
F a c i l i t a v a as c o m m u n i c a ç õ . - ! S p r i n c i p a l m e n t e p a r a
a zona a g r í c o l a d a c i d a d e q u e e r a e n t ã o L a p a , C a t t e t e ,
B o t a f o g o e L a g ô a de R o d r i g o d e F r e i t a s .
S ã o p o i s , m a i s o u menos c o n t e m p o r â n e a s as r u a s
—Misericórdia, Direita, S . J o s é , A j u d a e t a m b é m As-
sembléa.
A h i e s t ã o , pois, as linhas a q u e se s u b m e t t e r a m a
d i r e c ç ã o do povoamento e c o n s t r u ç ã o urbana.
U m a dirigindo-se para o s e r t ã o , o interior da cida-
de, o n d e i a m sc c o n s t r u i n d o as p r o p r i e d a d e s a g r í c o l a s e
as-outras para os l i m i t e s e x t r e m o s d o l i t t o r a l , r e p r e s e n -
t a d o s p e l a M i s e r i c ó r d i a e o M o s t e i r o d e S. B e n t o .
U m dos m a i s i m p o r t a n t e s m o r a d o r e s d a r u a d e S.
J o s é , c h a m a d a e n t ã o Caminho para Santo Antônio, era
— 77 —

J o ã o B a r b o s a C a l h e í r o , d e s c e n d e n t e de u m p r i m i t i v o
c o n q u i s t a d o r d a c i d a d e e, por c o n s e g u i n t e , o d e t e n t o r
d a p r o p r i e d a d e t e r r i t o r i a l q u e f o i d a d a p o r sesmaria aos
seus antepassados.
D e K i 0 9 e m d i a n t e , c o m e ç a a v e n d e r , na m e s m a
rua, b r a ç a s d e c h ã o s a o u t r o s i n d i v í d u o s q u e nella
construíram prédios. (1)
C o m o B a r b o s a C a l h c i r o s , j á e r a m m o r a d o r e s na
mesma r u a A f f o n s o G o n ç a l v e s P e r e i r a e F r a n c i s c o V i e -
gas, g r a n d e a g r i c u l t o r p a r a os lados de B o t a f o g o .
D a s e s c r i p t u r a s q u e c o m p u l s a m o s , de vendas feitas
p o r Barbosa C a l h c i r o s , v e r i f i c a m o s q u e chegava a 3 0
b r a ç a s o n u m e r o das q u e f o r a m v e n d i d a s , a l é m dos ter-
r e n o s oecupados pelo p r é d i o e m q u e m o r a v a .
P o r u m c o n f r o n t o d e s t e d o c u m e n t o , p o d e m o s che
g a r á c o n c l u s ã o de q u e B a r b o s a C a l h e i r o s estava a p p r o -
x i m a d o d o becco da r u a d ' A j u d a e G o n ç a l v e s Pereira,
p a r a os lados d o L a r g o da C a r i o c a .
E ' p r e c i s o o b s e r v a r q u e no c o m e ç o da r u a em
1 6 0 9 , e m sua e m b o e n d u r a na r u a da M i s e r i c ó r d i a , a
c o n s t r u c ç ã o dos p r é d i o s j á e r a de p e d r a e c a l , e m ricos
sobrados.
A h i m o r a v a o f i d a l g o L u i z de F i g u e i r e d o c m u m
l u x u o s o s o b r a d o q u e por e l l e f o i v e n d i d o á S e b a s t i ã o
F"agundes, o r i c o senhor d e e n g e n h o d c R o d r i g o de
F r e i t a s (2) p o r 5 0 0 * 0 0 0 .
E" p r e c i s o c o n h e c e r o p r e ç o m é d i o da p r o p r i e d a d e
u r b a n a do R i o de J a n e i r o n a q u e l l a é p o c a , p a r a d e luzir-
se d o p r e ç o da v e n d a a i m p o r t â n c i a d o p r é d i o v e n d i d o ,
e t a m b é m conheccr-sc o valor d o d i n h e i r o n a q u e l l e

•(1) Um f» dc Dezembro vendeo alguma* braças de chão* correndo pelo


pelo caminho que vae para Sto. Antônio, nas visinhanças de Affonso Pedreira.
[Livro <rV not. do Cartório do liio),
(2: A venda icve logn em Maio dc 1G09, Luiz dc Figuoiredo era um
fidalgo e vein de Lisboa em lfilKl, eoai procuração dc sua mulher, para vender
os bens qae possui.! no Rio de janeiro. O» visinhos de l,nus de Figueiredo na
nn de S. José eram Francisco do Pina, Lourenso de Sampaio e Fer..ao Daldce.
illusitcs individualidade> da política c da sociedade carioca naquellcs tempo» i
que exerciam importantes cargos públicos.
— 78 —

t e m p y , p a r a avaliar-se a f o r t u n a d e S e b a s t i ã o F a -
gundes.
R a r o o p r é d i o q'ie excedia d e 2 0 0 & 0 0 0 , m e s m o
nas p r i n c i p a e s ruas d e e n t ã o , c o m o D i r e i t a e M i s e r i c ó r -
d i a , o n d e m o r a v a a aristocracia. C a r i o c a .
E o valor dos objectos c produetos era nullo, c m
r e l a ç ã o ao v a l o r d o d i n h e i r o .
A rua d e S . J o s é r e g i s t r a u m facto d e c e r t a i m p o r -
t â n c i a social c e c o n ô m i c a . X e l l a f o i escolhida u m a casa
que servia dc deposito a africanos importados c o m o
escravos, n a p r i m e i r a phase d o c o m m e r c i o n e g r e i r o ,
q u a n d o n ã o existia o t r a piche p r ó p r i o p a r a o d e p o s i t o d a
mercadoria negra que f o i o trapiche d o Vallongo. Esta
casa f i c a v a j u n t o d a e s q u i n a d a l a d e i r a q u e s o b e p a r a o
Casteilo.
E m 1 6 8 8 ella n ã o s e r v i a m a i s d e d e p o s i t o d e ne-
gros, mas a ella r e f e r e m - s e e s c r i p t u r a s d e p r é d i o s e ter-
renos q u e l h e f i c a m v i s i n h o s . ( 1 )
O c o n v e n t o d * A j u d a q u e e n t ã o n ã o passava ' d e
uma capella f o r ç o u a abertura d a r u a da A j u d a e acima
d c t u d o a zona a g r í c o l a d e B o t a f o g o e R o d r i g o d e
Freitas.
E m 1 6 1 2 j a e s t a v a a d i a n t a d o o seu t r a b a l h o d e
construcção e povoamento.
Por esse t e m p o , n e l l a j á m o r a v a m S e b a s t i ã o G o n -
ç e l v e s , Á l v a r o M e n d e s e o u t r o s e j á p o r e l l a se esten-
de u m terreno dc p a t r i m ô n i o da M i s e r i c ó r d i a .
A s c o m m u n i c a ç õ e s d a rua S. J o s é c o m o c o n v e n t o
d ' A j u d a p e l a r u a h o j e chamada 13 d c M a i o f o i a m d c
f o r m a ç ã o muito tardia. H a v i a u m a r a z ã o de ordem ma-
t e r i a l q u e se o p p u n h a a isto e q u e s ó m u i t o m a i s t a r d e
foi r e m o v i d a p e l o g o v e r n o . E x i s t i a u m a l a g o a q u e c o -

c u i 'P, , *« P ™ * venda de uns chãos feita p Si


n3 e [ Eu A
y r Mendes
mlfl

fcnnrai a Antônio na Costa. Pereira que vimos resignado esse facto. Os chãos
yend'üo>, diz a escriptura, sfto sr.os ao pá da ladeira do collegio uO canto da
ma. que vae para 5. José». lt\o dcmon.Mra que o nome dc ladeira do collepin
deve ser dado. wno y, st dava naqaelle. icmpo, á ladeira que communica o
morro do Casteilo com a rua de S. José e náo a ladeira da Misericórdia.
— 79 —

bria todo o largo da Carioca c que só pouco antes do


m e i a d o d o s é c u l o X V 1 I 1 veio a ser a t e r r a d a . • E l l a se
e s t e n d i a p o r u m a p e q u e n a e x t e n s ã o pela r u a 13 de
M a i o . E r a pois i m p o s s í v e l q u a l q u e r c o m m u n i c a ç â o d a
r u a de S , J o s é p o r esse l a d o .
A r u a da M i s e r i c ó r d i a d a t a d o s é c u l o X V I . F o i
o r e s u l t a d o da e x p a n s ã o d o p o v o a m e n t o pela v á r z e a d a
c i d a d e . N e l l a m o r a v a a a r i s t o c r a c i a da é p o c a c o m o
D i o g o d e M a r i n , p r o v e d o r da f a z e n d a ( 1 ) , Á l v a r o G o -
m e s O s ó r i o , B a l t h a z a r de S i q u e i r a , S i m ã o de O l i v e i r a ,
M i g u e l A y r e s M a l d o n a d o , J o ã o de C a s t i l h o s , D i o g o de
S á da Rocha, G o n s a l o G o n ç a l v e s o v e l h o .
F o i a rua D i r e i t a a p r i m e i r a e ú n i c a q u e , p o r
m u i t o t e m p o , sc a b r i o p a r a l l e l a a o l i t t o r a l , p o r isso
m e s m o q u e a a b e r t u r a n ã o o b e d e c c o a n e n h u m a neces-
sidade d e o r d e m e c o n ô m i c a . D e u m lado e o u t r o da
c i d a d e n ã o e x i s t i a m zonas a g r í c o l a s q u e f o r ç a s s e m
u m a a b e r t u r a pela q u a l ellas sc c o m m c n i c a s s c m . D e
u m l a d o a M i s e r i c ó r d i a e d c o u t r o o M o s t e i r o de
S . B e n t o , q u e a g i o c o m o u m c e n t r o de a t t r a ç ã o . A h i
e s t á t a m b é m a r a z ã o da a b e r t u r a t a r d i a das ruas p a r a l -
lelas ao l i t t o r a l e m r e l a ç ã o á s ruas p e r p e n d i c u l a r e s á
c o s t a , p o r m e i o das quaes se a h a s t e c i a a c i d a d e d e
c e r e a c s e se f a z í a o t r a n s i t o d e assucar das p r m r i e d a d e s
assucareiras d e R o d r i g o de F r e i t a s c E n g e n h o V e l h o
p a r a o p o r t o , a q u a l deve^ser codsiderada c o m o a base
da estruetura e c o n ô m i c a d a é p o c a e s o b r e a q u a l assen-
t a v a t o d a a o r g a n i s a ç ã o social c p o l í t i c o . Estas d u a s
zonas a g r í c o l a s s ã o c o n t e m p o r â n e a s e as m a i s a n t i -
gas d o s u b ú r b i o j u n t a m e n t e c o m S. C h r i s t o v ã o . F o r ç a -
r a m as vias de c o m m u n i c a ç â o c o m o c e n t r o populoso,
c o m o u m a necessidade p a l p i t a n t e do c o m m e r c i o e d a
a l i m e n t a ç ã o dos habitantes.

(I) Esta Diopo dc Marliu*, pf«yodor da fazenda, acreditamos ser filho


do primeiro povoadur Antônio d" Ma ri/.. Km 1611) ollo vendeu a Nicolà» M't-
rctto chãos nu Km to da Misericórdia que era então o nome da rua, thnitiu-
phe com Álvaro Gomes Osório c Balihazar dc Siqueira.
A s r u a s p e r p e n d i c u l a r e s ú costa t ê m u m c a r a c t e r
essencialmente e c o n ô m i c o c t a n t o m a i s a c e n t u a d o ,
q u a n t o nos r e p o r t a m o s a p r i m i t i v a é p o c a u r b a n a , das
quaes e x i s t i a m s o m e n t e as ruas de S. J o s é , A s s c m b l é a
c m a r e c h a l F l o r i a n o c h a m a d a e n t ã o Villa Verde, E a
p r o p o r ç ã o q u e o t e m p o f o i a u g m e n t a n d o o r interesses,
q u e r a b r i c o l a s , q u e r c o m m e r c i a e s , as r u a s p e r p e n d i -
culares f o r a m a u g m e n t a n d o e m n n m e r o , p a r a e c o n o m i a
de t e m p o e t r a b a l h o , a t é q u e o u t r a o r d e m d e i n t e r e s -
ses f o r ç a r a m a a b e r t u r a das r u a s p a r a l l e l a s a o l i t t o r a l .
A r u a da Q u i t a n d a p o r e x e m p l o é t r a n s i t o a b e r t o
p e l o c o m m e r c i o da c a r n e v e r d e e o c o m m e r c i o de m a -
riscos e cereaes, localisado e m r u a escusa c o n ü n a n t e
c o m as r u a s de H o s p í c i o . R o s á r i o o A l f â n d e g a . D e u m
l a d o este c o m m e r c i o e d o o u t r o l a d o , no t r e c h o q u e
confina c o m S . J o s é , o a ç o u g u e p u b l i c o o ú n i c o q u e
e x i s t i a na c i d a d e e sob a f o r m a a d m i n i s t r a t i v a d e c o n -
c e s s ã o e p r i v i l e g i o . F o i d e b a i x o dessa f o r m a q u e nas-
ceo o c o m m e r c i o de carne v e r d e . E n ã o f o i s o m e n t e na
d i d a d e d o R i o q u e c l l c e r a u m m o n o p ó l i o de u m a c i -
c a d e . N a B a h i a e c m P e r n a m b u c o nasceo e l l e c o m o
u m a c o n c e s s ã o p r i v i l e g i a d a e q u e v e i o a q u i e x e r c e r sua
i n f l u e n c i a i m i t a t i v a . O p r e c e d e n t e f o i a l l e g a d o no t e x t o
d a p e t i ç ã o d o p r i m e i r o c o n c e s s i o n á r i o , l í n ã o se p e n s e
q u e f o i u m a c o n c e s s ã o r c v o g a v e l á v o n t a d e da a u t o -
r i d a d e e s u j e i t a aos m i l i n c i d e n t e s d a a d m i s i s t r a ç â o
m o d e r n a . N ã o . T i n h a e m si t o d o s o s e l e m e n t o s d e
e s t a b i l i d a d e , de v i t a l i d a d e , p o d e n d o ser t r a n s m i t t i d a
de paes a f i l h o s . E l h figura e m u m a e s c r i p t u r a c o m o
d o t e d a d o p e l o p r i m e i r o c o n c e s s i o n á r i o , na c i d a d e d o
R i o , no s é c u l o X V I I , a sua f i l h a .
ü c o n c e s s i o n á r i o foi A n t ô n i o da Palma em 1 6 3 3
(0-
A r u a D i r e i t a l o i u m p r o l o n g a m e n t o n a t u r a l da
rua da M i s e r i c ó r d i a , p a r a c o m m u n i c a r o c e n t r o d a c i -
d a d e c o m S . Bento'. A t é 1 6 1 5 ella teve o n o m e d e

(1) Iiscrlplur.i esístcnlc do 1* caitorio desta cidade.


— 81 —

c a m i n h o d c S. B e n t o , passando d a h i c m d i a n t e a t e r o
nome dc rua D i r e i t a . ( 1 )
K m 1 6 0 9 j á e x i s t i a m m u i t a s casas c o n s t r u í d a s na
r u a D i r e i t a e m u i t a s e s c r i p t u r a s d e v e n d a s se passavam
n o c a r t ó r i o . N e l l a m o r a v a m , a l é m de o u t r o s , D i o g o d e
A m o r i m S o a r e s , p r o p r i e t á r i o d e R o d r i g o de F r e i t a s ,
J o ã o F a g u n d e s , s e u g e n r o , T h o m é de A l v a r e n g a q u e
f o i g o v e r n a d o r da c i d a d e , A n t ô n i o N a b o P e ç a n h a e
outros.
A r u a da A s s e m b l é a é q u a s i t ã o a n t i g a c o m o a
r u a d c S . J o s é . S i esta e r a c o n h e c i d a , n o c o m e ç o d o
s é c u l o X V I I , p e l o n o m e d e c a m i n h o de S . A n r o n i o , a
da A s s e m b l é a era c o n h e c i d a p e l o n o m e de c a m i n h o
de S. F r a n c i s c o . A r a s ã o d o n o m e e s t á na e x i s t ê n c i a
de u m e r n s e i r o d c S . F r a n c i s c o q u e e x i s t i a á s p o r t a s
do convento de S. A n t ô n i o .
O seu p r i m i t i v o p r o p r i e t á r i o a d e s e m b o c a r ella
na r u a da M i s e r i c ó r d i a f o i P e d r o Cubas, filho d o cele-
bre Braz Cubas, f u n d a d o r de Santos e que t o m o u
p a r t e saliente na c o n q u i s t a do R i o de J a n e i r o . F m r e -
c o m p e n s a t e v e a sesmaria d a q u e l l e s t e r r e n o s q u e f o r a m
t r a n s m i t t i d o s c o m o h e r a n ç a ao sca filho.
E m 1 6 0 9 v e i o Pedro C u b a s ao R i o e c o m e ç o u a
v e n d e r a d i v e r s o s dos seus h a b i t a n t e s os t e r r e n o s q u e
ali p o s s u í a . E ' essim q u e v e n d e o a A n t ô n i o da Palma,
a A n t ô n i o 1 i m e i i t a de A b r e u , e s c r i v ã o de m e i r i n h o da
a l ç a d a da c i d a d e c a o u t r o s a l g u m a b r a ç a s d c c h ã o s ( 2 ) .
A s e s c r í p t u r a s e vendas de t e r r e n o s feitas p o r Pe-
d r o C u b a s f a z e m insistentes r e f e r e n c i a a u m a r u a q u e
e n t ã o existia com o n o m e de Pedro L u i z F e r r e i r a . E ' es-
cusado d i z e r q u e os nomes de ruas, s e g u n d o o h a b i t o
d o t e m p o , e r a o n o m e d c seu p r i n c i p a l h a b i t a n t e , q u e r
pela p o s i ç ã o social e financeira, q u e r pela p o s i ç ã o p o l í -
t i c a e a u m i n i s t r a t i v a . S e r v i r a m para d c n o m i n a l - a s ,

(Jl Asseveramos isto por causa Ae uma e-iriptura de venda feita por
Antônio Na''o Peçanha, grande liomcin da época c que chegmi ate dar um uo-
III» .i uma Ni a. rumo veremos adiante c que na mesma riu direita, a Jclo
(ioncalves Malheiros.
(2) fccciiptiira no | cartório desta cidade.
c o m o n o c o m e ç o d o s é c u l o X V I I , os nomes de L u i z
Ferreira, dc A n t ô n i o N a b o , dc F e r n â o üaldez e outros
de g e r a ç õ e s subsequentes c o m o v e r e m o s a d i a n t e .
T o d o s os c h ã o s v e n d i d o s p o r P e d r o C u b a s se-
g u n d o d e c l a r a m as p r ó p r i a s e s c r i p t u r a s , ficavam na
f r e n t e da r u a d e L u i z F e r r e i r a c de suas casas.
S o b r e ser de i m p o r t â n c i a c a p i t a l o a s s u m p t o , d e -
vemos t o d a v i a d i z e r q u e essa r u a c o t r e c h o da r u a d o
C a r m o q u e une a r u a da A s s e m b l é a a S. J o s é . E r a u m a
b o a sociedade q u e h a b i t a v a a r u a da A s s e m b l é a , d e p o i s
q u e o processo d c d e s i n t e g r a ç ã o f o i se o p e r a n d o na
sesmaria de l í r a z C u b a s . A n t ô n i o P a l m a m o r a v a n o
t r e c h o p r ó x i m o á rua d a M i s e r i c ó r d i a e e r a o m e i r i n h o
da cidade, t e n d o c u m o v í s i n h o A n t ô n i o V a z q u e e r a
o seu e s c r i v ã o e o u t r o s . D e f r o n t e d e l l c m o r a v a e na
m e s m a r u a o c e l e b r e Á l v a r o P i r e s , cie q u e m a d i a n t e
fallaremos.
I n d i c a m - n o s as escripturas q u e na e s q u i n a d a r u a
do C a r m o existia um oratório, como emblema da reli-
g i ã o q u e o costume da é p o c a c o n s t r u í a nas -esquinas e
o b s e r v a d o p o r mais de d o u s s é c u l o s . A i n d a h o j e e x i s -
t e m v e s t í g i o s , a i n d a q u e raros, destes a n t i g o s h á b i t o s .
Pouco a p o u c o a r u a f o i se p r o l o n g a n d o e p r o g r e -
d i n d o e m c o n s t r u ç ã o e p o v o a m e n t o , c o n s e r v a n d o , po-
l é m , durante iodo o século X V I I , o nome de cami:dio
p a r a S . l " r a n c i c c o ou r u a p a r a S . F r a n c i s c o .
E i s ate o n d e estendeo-se a c i d a d e d u r a n t e o s é -
culo X V I e c o m e ç o d o X V I I .

SUMMARIO — Os íiífliiiíAo». AÍ jorras assiitarsirjx. O port *. Eg 1

AssutiiBlos dicersi/s

A v a r 2 c a da c i d a d e e r a m u i t o p a n t a n o s a e c h e i a
de g r a n d e s lagoas q u e d i f i c u l t a r a m p o r c e r t o a e x p a n -
s ã o da cidade p o r e l l a descendo d o C a s t e i l o .
N ã o e r a m pois f a v o r á v e i s á* c o n s t r u c ç ã o u r b a n a ,
p o r q u e os p â n t a n o s c l a g o a s r e c l a m a v a m u m t r a b a l h o
— 83 —

p r e l i m i n a r de a t e r r o s , i m p o s s í v e l de ser f e i t o neste s é -
culo que estudamos e que realmente s ó m u i t o posteri-
o r m e n t e f o i e x e c u t a d o . O m a r p e n e t r a v a m u i t o pelo i n -
t e r i o r d a cidade, e m r e l a ç ã o as c o n d i c ç õ e s de h o j e .
C h e g a v a a o m e i o das r u a s da M i s e r i c ó r d i a c D i r e i -
t a , s e g u n d o a t r a d i ç ã o conservada p o r Balthazar. E na
a s s e r ç ã o d e F r . V i c e n t e d o S a l v a d o r q u e nos diz que,
j u n t o á p o r t a d o p r i m i t i v o c o n v e n t o do C a r m o d e u á
costa u m a b a l e i a , da q u a l se s e r v i r a m ò s m o r a d o r e s
para p r o v i m e n t o dc azeite,
A l é m d i s t o , temos a p r i m i t i v a E r m i d a de S. J<.só,
c u j a capella era batida pelo mar. ( l j
E m r e l a ç ã o á s lagoas, v e m o s q u e n ã o f a l l a n d o na
l a g o a R o d r i g o de F r e i t a s c h a m a d a ate 1 6 0 9 I a g ô a de
Sacopenopan e d a h i a t é certa data lagoa de S e b a s t i ã o
V a r e l l a , e x i s t i a m a l a g o a d o B o q u e i r ã o ou das M a n -
g u e i r a s , o n d e e s t á h o j c o Passeio P u b l i c o e q u e f o i
a t e r r a d a c o m o b a r r o d o M o n t e das M a n g u e i r a s ; a
I a g ô a d o Desterro, entre os m o r r o s d o D e s t e r r o ( h o j e
Santa Thereza) e o de Santo A n t ô n i o , onde c hoje a
rua dos A r c o s ; a I a g ô a d e S a n t o A n t ô n i o q u e existia
o n d e e s t á h o j e a r u a da G u a r d a V e l h a a t é a f r a l d a d o
M o n t e de S a n t o A n t ô n i o ; ( 2 ) a I a g ô a da S e n t i n c l l a o u
de Capueirussú ou d e J o ã o M a r t i n s Castelhano, que ia
desde a r u a d e F r e i C a n e c a c m C a t u m b y , a t é a r u a do
S e n a d o , p e r t o d o m o r r o d c Pedro D i a s .
C o m o sc v ê , as ruas s e r i a m interceptadas e m seu
p r o l o n g a m e n t o p a r a o i n t e r i o r nessa zona a l a g a d i ç a , o
q u e n ã o se d a v a do o u t r o lado d a cidade, a i n d a q u e
também aiagadiço.

(I). Uocumento*, qn* no* foram mostrado» de.um litígio havido entre
a irmandade de S. José em 171.8 com o capiU© Luiz Cabral de Tavora.
)2) Pm 9 dc Janeiro dc 1610 foi aforada por Antônio Felippo Fernan-
des, por lfõOO ao anno, o:ide se-a p*i havia 35 aunfls curtia couros, para nelli
lavar o « I I pellame (eortüuie) pois estando toda devoluta, só servia para nclla
Hl baortarem os gentios, Iiap. -Io Hruul, por Mello Moraes, pag. 144). Mo largo
da Cariocafizeramos frades cemitério dos seus'escravos. lí como o terreno era
pequeno para isso, roquereram elles ao conselho da câmara 18 braças para
alargal-u, as quacs Itics furam con^epidas, cm 14 dc Ncvcmbro dc 1709.
N ã o p o d i a d e i x a r d e ter i n f l u e n c i a p a r a o d e s e n v o l -
v i m e n t o da c i d a d e pelo i n t e r i o r , o c o m e ç o da l a v o u r a
a g r í c o l a i n i c i a d a pelos j e s u í t a s n o Engenho VelJw c p o r
a l g u n s c o l o n o s q u e t i n h a m e d i f i c a d o s u a s fazendas nas
p r o x i m i d a d e s da l a g o a de R o d r i g o d e F r e i t a s ( 1 ) d a
T i j u c a ( 2 ) e depois e m Catumby, . b/du-ahy pequeno,
Andamky g r a n d e e e m Málta-cavallos, hoje rua do Ria-
chuelo.
Esse t r a b a l h o a g r í c o l a a b r i u c a m i n h o s ou estradas,
q u e c o m m u n i c a v a m a zona assucareira com a c i d a d e .
C i t a r e m o s tres das m a i s i m p o r t a n t e s q u e p r o c u r a r e m o s
descrever.
O caminho do Çapuiruçu ou caminho para o Bnginko
Pequem, e m s e g u i m e n c o da r u a h o j e d a A l f â n d e g a e e m
d i r e c ç ã o a lagoa d a S e n t i n e l l a , atravessando o campo da
cidade p a r a o e n g e n h o dos J e s u í t a s . ( 3 ) .
O c a m i n h o de Matta-cavallos que dava passagem
d o D e s t e r r o ( h o j e m o n t e d e Santa T h é r e z a ) p a r a a l a -
g o a d a S e n t i n e l l a . ( 4 ) Chama-se t a m b é m caminho da
ííica e q u e d a v a c o m n i u n i c a ç ã o p a r a S. C h r i s t o v ã o .
Esse c a m i n h o , s e g u n d o as pesquisas d c M e l l o
M o r a e s , í a z i a - s e p e l a fralda cio m o r r o d o D e s t e r r o a t é
a l a g o a da S e n t i n e l l a e d o b r a v a p e l a encosta d o m o r r o
da A l a g o i n h a o u d o J a r d i m , h o j e de P a u l a M a t t o s , c
atravessava o C a t u m b y g r a n d e , s u b i a o m o r r o d c B a r r o
V e r m e l h o (onde e s t á a C o r r c c ç ã o ) , seguia p o r M a t t a
Porcos ( E s t a c i o ) e a t r a v e s s a n d o o v a l l e d o i g u a s s ú ,
( h o j e r i o C o m p r i d o ) se e n t r a v a p a r a o s e r t ã o » .
E l l e f o i m u d a d o mais p a r a b a i x o , t o m a n d o o n o m e
d c caminho da Bica,

A ) í: ^ ÍÍ
1
. tyo* à'Sri9ptR*p\an nu de Diogo de Amorim Soares.
u c ho ,la

ou de SebaitUo Fagu,ld Varella ou dc Rodrigo dc Freita>. {Chron. do Imp.


0S

ao Bratti, por Mello Moraes. pág. 140). r

iroo i l S , ^n'l">í<io iWlò próprio governador Salvador G, dc Sá entre


F r t

JI»BJ e lool.
(3; Arek ào Diste. Ptãeral, vol. 1 \ pag. 3B9.
A , < -' 4
. denominava-so parque/«os lugares eram tào;lamosos que
A s , i u l

produziam notáveis atoleiros, que diíficuiUvam o iransito dos animae* fa- c Í O

tiyavj a tal ponto que alguns morriam atol.-.dos.»


— 85 —

A s s i m chamava-se, p o r ser o n o m e d e u m a c h á c a -
r a q u e p o r a h i e x i s t i a — c h á c a r a da Bica—que foi com-
prada pelo tenente-coronel Domingos Rodrigues Frade.
E ' a o r i g e m da r u a d o R i a c h u e l o , p a r t e da r u a de
F r e i C a n e c a a t é o l a r g o d o E s t a c i o , da r u a d o E n g e n h o
V e l h o , h o j e r u a H a d d o c k L o b o c r u a d e S. C h r i s -
tovão . •
A c r e d i t a m o s q u e dos d o i s c a m i n h o s o m a i s a n t i g o
é o d e Capueirussú. Ê ' o mais recto. para communicar
a zona a g r í c o l a do E n g e n h o V e l h o e o u t r a s fazendas
c o m o p o r t o da c i d a d e . A l e m disto, n ã o e x i s t i a m c o m -
m u n i c a ç õ e s e n t r e esta z o n a e a de B o t a f o g o e L a g o : i
R o d r i g o d c F r e i t a s , n ã o o b s t a n t e ahi se t e r i n i c i a d o o
trabalho a g r í c o l a c o n t e m p o r â n e o da outra. Mas, ella
p o r sua vez t i n h a seu c a m i n h o d c c o m m u n i c a ç â o c o m a
cidade, dc que trataremos adiante.
O p o r t o das m e r c a d o r i a s era o n d e é a r u a h o j e de
D . M a n u e l , c o n h e c i d a e n t ã o pelo n o m e de rua d o p o r t o
dos Padres d a C o m p a n h i a . ( 1 ) .
M a s , o q u e é f o r a de c o n t e s t a ç ã o , é q u e o p o r t o de
e m b a r q u e n ã o p o d i a d e i x a r de ser esse. Nas i m m e d i a -
ç õ e s d o Largo do Paço e p a r a a p a r t e d o Nordeste,- o
g o v e r n o p r o h i b i u t o d a e q u a l q u e r c o n s t r u c ç ã o , a f i m de
conservar l i v r e a p r a i a , p a r a o e m b a r q u e e desembar-
q u e d c m e r c a d o r i a s , c c o m o defesa da c i d a d e . Essa or-
d e m é d o i n i c i o d o g o v e r n o de C o r r ê a de S á .
S o b r e esse l o g r a d o u r o t i n h a a c â m a r a senhorio
completo.
M a s , e m D e z e m b r o d e 1 0 3 5 a f o r o u - o ao alcaide
m ó r S a l v a d o r C o r r ê a d e S á e Benevides, e m g r a n d e
p a r t e a b r a n g e n d o t o d a a q u a d r a d o t e r r e n o q u e h o j e se
acha l i m i t a d o pelas ruas D i r e i t a , d o R o s á r i o , d o M e r c a -
do becco dos A d e l o s , o n d e estava c o n s t r u í d o j á o
a ç o u g u e p u b l i c o . D e p o i s d a c c m c c s s ã o , levantou-se u m

!ll Kesta asseveração confiamos ua verdade das palavras do Dr. Mello


li. ouc cheira a esta afiirmativa pela leitura qu.; lea do testamento dc
rrauctsc^ da Silva Cabra, fallecido a 4 de Outubro dc lüW.
— 86 —

Paço, o n d e se c o l l o c o u a b a l a n ç a d e — o peso,—$7irz
v e r i f i c a r o peso das caixas d e assucar q u e sc e x p o r -
tasse. ( 1 )
O caminho d c C a p u c i r u s s ú que é a o r i g e m d a r u a
d a A l f â n d e g a , v i n h a d e s e m b o c a r mais o u m e n o s d e -
f r o n t e d o Paço do peso.
O t e r c e i r o c a m i n h o , de q u e f a l í a m o s n o c o m e ç o
destes c a p í t u l o s , é o q u e c o m m u n i c a v a a c i d a d e c o m a
zona de B o t a f o g o .
E s t e d e v e ser o m a i s a n t i g o , p o r q u e u n i a os dois
pontos p r i m i t i v a m e n t e povoados — a V i l l a - V e l h a , 13a
? p r a i a V e r m e l h a e o local d a n o v a c i d a d e — m o r r o d o
' Casteilo. *
E l l e s e g u i a para a L a g o a . D a G l o r i a s e g u i a p a r a
B o t a f o g o e d e p o i s p e l a praia d a enseada ( p r a i a V e r m e -
lha), t o m a n d o pela e n c o s t a d a s e r r a , c h e g a v a a Piassaba
c a l a g o a d c R o d r i g o d e F r e i t a s , s e n d o m u i t a s vezes o
t r a n s i t o i n t e r r o m p i d o pelas e n c h e n t e s d o r i o d a C a -
beça. (2)
Beirava a I a g ô a e seguia para o engenho da C a b e -
ç a o u d e M a r t i n de S á o u e m c a m i n h o d a G á v e a . ( 3 )
U m p o u c o a l e m deste e n g e n h o e l i m i t r o p h e c o m
elle, e x i s t i a j á o E n g e n h o d c N o s s a S e n h o r a d a C o n c e i -
ç ã o d a L a g o a f u n d a d o p o r D i o g o de A m o r i m S o a r e s , a
q u e j á nos r e f e r i m o s c m p a g i n a s a n t e r i o r e s . ( 4 )

{l> Frcntci™ ao ftrpo foi construído o primeiro irapjche, rtham«do trapi*


clii? da cidade. Como sc vê, elle ücava nas immcdiaçõcs du lugar onde foi con-
struída a Alfândega.
;2) Qkr&it. do 1/Hdtrio do Brj[ü, por Mello Moraes, p^g. 155.
(3i Já descrevemos a data da construcção deste engenho, chamado lambem
e^gfuho dc FJ-rci. Ames de chegar ao Jardim Botânico, e por detraz da chácara
d>. Har.cisco Roárigues Ferreira, esvâ a cípcila dc Nossa Senhora di Cabeça
mândãda construir por Martin de Sã, r.o engenho de El-rei. Seguindo-se pela
rua. ví-fc a casinha da antiga chácara da Floresta, .|u. dá entrada para a grande
fazenda dos macacos pertenceu te ao Padre Uominuoü Alves da Siivj Porto e
U_ Caítoríuá. {fZiirou Jo Tiifitrio do tir-itH, por Mello Moraes, pag. 152).
(4) Pile snger.ho paÁson conto dote ao gemo de GafOia, Sebastião fra-
gntldfes Vaiclla. A respeito diz Mello Morae« : No dia 22 de Junho dc 1G09
obtftve Kagnndcs Varei Ia, carta de aforamenio por dois 9 auuo» das terras desd^
o fao d'Aá*ucar ate Copacabana, hão sú para ^asios dos gados do seu engenho,
co::;o para fazer lenha e tirar madeiras parj as obras que tivesse dc fazer, cujas
terras vindo da Praia Grande ou Praia da Lagoa ou da Copacabana iam 4IJ0
braças para o sertão.
Por outro afoiamcnto de 23 dc Setembro de 1611, obteve uiai* terras,
sendo por esse tempo vereadores da camaia : CUtispim da Cuuha,'Atoar dvo
— 87 —

J á no s é c u l o X V U f o i c o n s t r u í d o o i í t r o e n g e n h o
nesta zona, q u e p o d e m o s c h a m a r o vaile da Lagõa de
Rodrigo de Freitas, p o r M a r t i n B a r b o s a F r a n c i s c o C a l -
das, t a l v e z d e p o i s de 1 6 0 6 .
I n s i s t i m o s n o e s t u d o deste v a l l e , o n d e d e s e n v o l -
veu-se u m a das zonas a g r í c o l a s d a c i d a d e .
E ' l i m i t r o p h e a esta b a c i a a de S . C l e m e n t e o u
Botafogo.
N ã o f o i de t a n t a i m p o r t â n c i a a g r í c o l a c o m o a an-
t e r i o r nesta phase p r i m i t i v a d a c i d a d e . N e l l a v e i u esta-
belecer-se F r a n c i s c o V e l h o q u e ern 1 5 Í Í 6 , a c o m p a n h o u
E s t a c i o na c o n q u i s t a , c r e á n d o a i r m a n d a d e d c S à o S e -
b a s t i ã o na i g r e j a de p a l h a d c Viíla V e l h a
D a h i a r a z ã o d o n o m e de enseada de F r a n c i s c o
V e l h o , p e l o q u a l , p o r a l g u m t e m p o , f o i essa p r a i a c o -
nhecida.
D e 1 5 9 0 e m d i a n t e e l l a passou a chamar-se p r a i a
d c J o ã o de Souza e d e p o i s de B o t a f o g o , e m c o n s e q ü ê n -
cia de l á h a b i t a r J o ã o d c Souza B o t a f o g o .
S ó m a i s t a r d e esta zona t o m o u certa i m p o r t â n c i a .
L á foi h a b i t a r o d r . C l e m e n t e M a r t i n s de M a t t o s , de
1060 e m diante.

Barros Bartholomeu Vaz. Joio dr Sóuzá Pereira. Antor.io Francisco Porheui,


e poririio da câmara Ma;u<a Fe rnu«de», *
Em 19 dc Julho de 1017. reijuòrtM a* terras da Copacabana para augmen-
Io do p4&iu dos gados.
S-hastiào Faginde* Varcll.i. possuindo pur alguns annos o Engenho do
Nossa Senhora da Conceição di Lagoa, depois o vendeu :•, Rodrigo dr Freitas
Mello c Castro, i>aiural dc Guimarães, em Porlugar, o naial éiirr^ueeeiid<> nu Itto
dc Janeiro, retiror,»* para o legar do seu nascimento ecomO Tivesse um tilho c
depoU netos com o seu próprio nome de Rodrigo dc Freitas, íji^e ficariam na
adinuii*lr>çáo do engeuo, perdeu os nemes primitivos c acua conhecido com i>
de !.!._- ilm da Lagoa de Rodrigo dr Freitas.»
Com a trasladacao da tòrie de Lisboa para o Rio de Janeiro dosejandu o
Príncipe Kegentr erigir uma fabrica de pólvora, outra de fundição do peças dc
artilharia e um Horto Botânico fora da cjdodtf. por decreto de 13 dr Junho de
1808, mandou desapropriar c encorporar õ engenho c terras d • l.igóa ,lr Rodrigii
dc Freitas, aos próprio» navionaes para ncllc ÍC t-Mbclccercm ti fabrica* e
proredendo-sc a avaliação da propriedade, e a iiidrmuisaç.V>. c julgada a .•Jya-
dieaeaõ por sentença do -ti) de Janeiro 1SI0. foi paga ^oanlía de 42:l!)3í-4C-Nj,
valor da fazenda da Lagõa dc Koddgo dc Hretias. e incorporada aos próprios
nacionaes com as formalidades da lei dc 2S dc £t lembre de 1835.
Os terrenos pertencrnic* ao engenho dai Lagoa de Kodrigo de Freitas.
pagavam ÜS400 dc fòro ao senado da câmara. ( Chron. do Império da Brasil,
por Mello Moraes, pag. 140 ).
— 88 —

Q u a n d o estudarmos o d e s e n v o l v i m e n t o da c i d a d e
no s é c u l o X V I I , t e r e m o s o c e a s i ã o de h i s t o r i a r e n t ã o o
p o v o a m e n t o da z o n a e a c o n s t r u c ç ã o u r b a n a q u e se f e / .
T e m o s a i n d a o v a l l e das Laranjeiras ou Cattete, d e
n e n h u m a i m p o r t â n c i a a g r í c o l a neste t e m p o .
Eis a h i as zonas a g r í c o l a s da cidade, q u e se e o m -
m u n i c a v a m com o l i t t o r a l , p e l o c a m i n h o q u e atraz d e s -
c r e v e m o s , o q u a l serviu de d i r e c ç ã o ao p o v o a m e n t o p o r
estes logares, pelas ruas do C a t t e t e , S e n a d o r V< r g u e i r o ,
p r a i a de B o t a f o g o , r u a de S . C l e m e n t e , r u a do J a r d i m
Botânico, etc.
P o r este t e m p o j á h a v i a o estabelecimento da Arma-
ção p a r a a i n d u s t r i a d a pesca d e baleias q u e i n f e s t a v a m
a b a h i a , na p o n t a q u e fica p e r t o d e S . L o u r e n ç o .
X ã o p o d e m o s f i x a r ao c e r t o a d a t a d o p r i n c i p i o
desse e s t a b e l e c i m e n t o . M a s D u a r t e N u n e s e m suas
memórias s o b r e a f u n d a ç ã o da cidade, r e f e r e - s e a u m a
p r o v i s ã o de 18 de N o v e m b r o de 1 5 8 1 , q u e f a l i a e m
u m contracto j á existente. (1)
O s t e m p l o s existentes e r a m , a l é m das capellas e
e r m i d a s , i g r e j a s das o r d e n s religiosas de S. B e n t o e
S a n t o A n t ô n i o , j á descriptas n e s t e c a p i t u l o , a i g r e j a de
S a n t o I g n a c i o ( c o l l e g i o dos j e s u í t a s ) e a i g r e j a d e S ã o
S e b a s t i ã o ( S é v e l h a e h o j e dos B a r b a d i n h o s ) . C o m >
havemos d e v e r , o n u m e r o dos t e m p l o s c a t h o l i c o s a u g -
m e n t o n c o n s i d e r a v e l m e n t e , nos s é c u l o s s e g u i n t e s .
A i d é a r e l i g i o s a e n t ã o d o m i n a v a . A o l a d o d e l i a fi-
g u r a a i d é a de defesa da c i d a d e p e l o n u m e r o d e f o r t a l e -

(1) O nome dc ponta e morro da Armação sc originou do estabelecimento


de armação para pesca dc baleias, tundadn cm fins do século JíVI, .sendo o
primeiro contractador lí a • dc 1'ína. talvez o mesmo riue dou o nome ao antigo
cães, hoje <i••• Mincircs. contíguo á Alfândega, bem como 30 i^aiupo dc igual
nome, cm Ira já. A pasca da* bitolas era então um ramo muito rendosa ; cm
171(5. quando o numero dcllas jã muito diminuirá pela activa pcrscguiçai;, foi
arrematado o contracto por 12 annos, a 'azão dc 4U.000 cruzados aunuaes pelas
ri.;s armações de Cabn Frio, Kjo de Janeiro e Ilha Grande. O eclchre Coofc,
quando aqui esteve em líflS. ainda viu fnuecionar dc S. Domingas ; mas o
alvará de 1708 aboliu o privilegio, perroitUndo a liberdade dessa industria;
disposu/ão que de ponrn serviu, visto que nessa época já eram raras as baleias
dentro da barra, e mais ratas se foram tornando depois de I8ü8 com o aeguieoto
da navegação, sendo talvez a altiniJ a que, a cerca ae 40 annos, appareceu co-
callada uOs nianguis da euseada de inhaúma, (A bahia do Rio de jineiro, por
Augusto l ausio de Üouzn, pag, LJ4).
:
zas q u e j á e x i s t i a m , b a s t a n t e c o n s i d e r á v e l e m r e l a ç ã o
aos recursos d e l i a c de seus h a b i t a n t e s , c ao d e s e n v o l v i -
m e n t o a g r í c o l a q u e sc iniciava c m seu i n t e r i o r .
J á e x i s t i a m o f o r t e d e N . S e n h o r a da G u i a e d e
S . T h e o d o s i o na entrada da barra, e de S. T h i a g o e
S a n t a C r u z nos r l a n c o s d a n o v a cidade, o n d e h o j e e s t ã o
os arsenaes de g u e r r a e a i g r e j a da C r u z . E m 1 5 9 9 , a
esquadrilha dc c i r c u m - n a v e g a ç ã o do almirante hollan-
dez V a i ) N o r t teve de r e t r o c e d e r d a b a r r a d o R i o , pelo
f o g o v i v o d a q u e l l a s p r i m e i r a s duas fortalezas.
E i s a c i d a d e d o R i o de J a n e i r o a t é o f i m clò se
culo X V I .
1

CAPITULO V m

Organisação administrativa, política, judiciaria e tribu-


taria da cidade no século XVI

$VMMAR70l-rQ f>rotcss o de nontoci, de Salvador Correia. Àttribuiçdes do


t

Governador, A rrfor». i do regimento de 17 de lie^mbro de


i}.4>. O OmiifoT Christovão Monteiro'. Sitas altrihnip7es. O
PrtKetfor-mór kslevâo Pires. Snas attribuições. Administrarão
militar. O altaide-utòr Dias Pinto. Suas attrihnifôes. A Câ-
mara e seus snembros. O aimotaeé. Os impostos.

D e p o i s d o insuecesso d o r e g i m e n dos d o n a t á r i o s ,
c u j o r e s u l t a d o n o f u t u r o , e r a n ã o crear u m a n a ç ã o f o r t e
e u n i d a , a m e t r ó p o l e r e s o l v e u centralizar a a d m i n i s t r a -
ç ã o e m u m s ó g o v e r n o , cem sede na Bahia, a q u e se-
r i a m t r i b u t á r i o s os das o u t r a s capitanias, c u j o s chefes
p o d i a m p o r e l l e ser nomeados, c o m o o f o i o p r i m e i r o
g o v e r n a d o r do R i o , S a l v a d o r C o r r e i a , depois de m u d a d a
W
a c i d a d e p a r a o m o r r o d o Casteilo, pelo g o v e r n a d o r
geral Men de S á . (1)
D e s d e j á , p o d e m o s salientar u m f a c t o d c i m p o r -
t â n c i a . N ã o o b s t a n t e o l o g a r de c h e f e d a n o v a c a p i t a n i a
o r i g i n a r - s e de u m a d e l e g a ç ã o , f e i t a pelo g o v e r n a d o r
g e r a l d o Brazil, p o r acto de n o m e a ç ã o , t o d a v i a precedeu-
lhe u m a i n d i c a ç ã o p o p u l a r c da c â m a r a da c i d a d e . P o - i
demos, pois, dizer q u e a d e l e g a ç ã o o f i c i a l , p o r a u t o r i -

(1) Iniciamos nosso e tudo ro governo dc Salvador Correia c nân do


i
Estacio dc Sa, que não alcancon estabelecer administração regular, n3o obstante
Ur suio nomeada pela metrópole eapitâo-mòr do Ki«, ter fundado a cidade velha
nomeado suas autoridades c feirn * sua municipalidade de Icrr3s confirmada
depois por Men dc Sa. Sua administração foi mais mUáar do que civil. K se
uao fora o auxilio de Men de Sã, talvez tivesse desaparecido o começo da vida
civil iniciada em Villa Velha,
— 92 —

dade c o m p e t e n t e , n ã o fez m a i s d o q u e c o n f i r m a r a
a c c l a m a ç l o do povo, em nome ò a qual Salvador C o r r e i a
g o v e r n o u e a d m i n i s t r o u a cidade, c o m o d e l e g a d o d a
metrópole.
« E assim p ô r e m c o n s e l h o , diz a p r o v i s ã o , sc p r a -
ticar q u e m p o d e r i a ficar c o m os d i t o s cargos, n o q u a l
C o n s e l h o se se n o m e o u ' a e l l e somente pelas r a z õ e s
d a d a s e a elle p e d i r a m , p a r e c e n d o a t o d o s b e m e a f s i t n
m e f o i p e d i d o o d i t o S a l v a d o r C o r r e i a de S á p e l o p o v o
e c â m a r a desta c i d a d e . »
Eis as o r i g e n s d o p r i m e i r o r e p r e s e n t a n t e d o g o -
v e r n o d o R i o de J a n e i r o . E s t u d e m o s as suas a t t r i b u i -
ç õ e s , assim c o m o a a d m i n i s t r a ç ã o pelos seus q u a t r o
a s p e c t o s — a d m i n i s t r a ç ã o d a j u s t i ç a , fazenda, m u n i c i p a l
e m i l i t a r . (1)
A s suas a t t r i b u i ç õ e s e r a m : d a r cartas d e s e g u r o
e a l v a r á d e fiança, a t é a q u a n t i a q u e b e m lhe parecesse,
salvo os tres casos d a c o r o a ; p a g a r os s o l d o s , o r d e n a -
d o s e m a n t i m e n t o s ; fazer a despeza dos s e r v i ç o s p ú -
b l i c o s , o r d e n a r todas as o b r a s e g a s t o s , p r o v i m e n t o s de
navios a r m a d o s c m g u e r r a , p o d e n d o m a n d a i ó s p a r a
o n d e quizer, a s e r v i ç o d o r e i , d a c a p i t a m a e sua d e f e s a .
P o d i a t a m b é m p r o v e r os cargos de P r o v e d o r . ' T h e -
soureiro, A l m o x u i f e e todos os demais funecionarios
d a fazenda p u b l i c a , d a j u s t i ç a e d a c â m a r a , s o b r e os
quaes exercia i n t e i r a j u r i s d i c ç ã o , p o d e n d o suspcndel-os
c d e m i t t i l - o s , p a r a p r o v e r os m e s m o s cargos p o r q u e m
lhe parecer m e l h o r .
P o d i a c o n c e d e r sesmarias n a c i d a d e e na capita-
nia, m a n d a n d o t i r a r duas cartas, e x p e d i r m a n d a d o s e
p r o v i s õ e s s o b r e a c q u m ç à o dc m a n t i m e n t o s e g e n t e e
quaesquer o u t r a s cousas q u e n e c e s s á r i o f o s s e m p a r a
defesa e f o r t a l e z a d a c i d a d e , p o d e n d o i m p o r penas q u e
b e m l h e parecessem p a r a o c u m p r i m e n t o de suas o r -
dens. ( 2 )

(1) Deixamos dc estudar r.cstc capitulo .t administração religlusa, par


lazer parle dc um capitulo â parte.
t2) An/i. do püfr, Fed. dc 1&79, pag, 23.
— 93 —

E i s a h i o c a m p o de a c ç ã o e m q u e g v r . i v a m as
a t t r i b u i ç õ e s do c h e f e t i o g o v e r n o . C o m o sc v ê , e r a m
p o r d e m a i s l a t a s . E l l e s ò m m a v a e m s i as a t t r i b u i ç õ e s
d e t o d o o g o v e r n o . E r a d e f a c t o c d c d ir ato o u n i c o
p o d e r p u b l i c o . O s p r ó p r i o s representantes d a j u s t i ç a
n ã o t i n h a m a liberdade e a i n d e p e n d ê n c i a para cumprir
a l e i . O poder que representavam s o f f r i a a j u r i s d i c ç ã o
d o g o v e r n o , q u e os p o d i a s u s p e n d e r e d e m i t t i r .
D e s d e o p r o v i m e n t o dos c a r g o s p ú b l i c o s , da f u n -
c ç ã o t r i b u t a r i a , d c i m p o r penas, a t é a a t t r i b u i ç ã o d c
d e c l a r a r a g u e r r a c o r d e n a r despesas, o g o v e r n a . l o r
representiva toda a a u t o r i d a d e .
A p r o v i s ã o foiça e assignada por M e n de S á , a l é m
das f u n e ç õ e s q u e nella estavam catalogadas, a i n d a dizia
q u e o g o v e r n a d o r do R i o de J a n e i r o p o d i a e x e r c e r t o d o s
os p o d e r e s d o g o v e r n a d o r g e r a b e o m o e l l e u s a v á . e t i n h a ,
s e g u n d o o r e g i m e n t o de 1 7 de D e z e m b r o de 1 Õ 4 8 , os
q u a e s f o r a m ampliados p e l o r e g i m e n t o de 7 de M a r ç o
de 1 5 5 7 , q u a n d o j u s t a m e n t e g o v e r n a v a na Bahia M e n
d e S á . E u m a das a m p l i a ç õ e s era o d i r e i t o d c r e c u r s o
p a r a o g o v e r n a d o r dos setos j u d i c i á r i o s .
P o d e m o s , pois, d i z e r q u e o g o v e r n a d o r legislava,
julgava e executava.
F o i n o m e a d o por M e n dc S á para o l o g a i de O u -
vidor C h r i s t o v ã o Monteiro, por provisão dc 9 dc M a r ç o
d c 1 5 6 8 , q u e e r a c h e f e dos s e r v i ç o s d a j u s t i ç a p u b l i c a .
Nessa p r o v i s ã o , ( 1 ) o governador nomeia Chris-
t o v ã o p o r tres annos, dando-lhe as a t t r i b u i ç õ e s q u e t ê m e
usam os o u t r o s o u v i d o r e s das c a p i t a n i a s .
E ' pois no r e g i m e n t o d a d o a Pero Borges, o u v i d o r
da Bahia, q u e d e v e m o s e n c o n t r a r as a t t r i b u i ç õ e s do O u -
v i d o r d o R i o ( 2 ) de J a n e i r o .

{I) Publicada pelos Ârih, Jo Dislr, FeJ, pag. 3n. Acreditamos nâo ter
sido ainda impresso esle documento, senão por esta iieuisl*,
(2) D.z Varnhjgeu ; i" vol.rfrj.-r.» Historia, pjg. 2*i:íj Nàc encontramos
;

até agora o teor deste regiaienio 1 porém temos moiivo- pira suppor que, côm
pequenas diflerenças nos dezoito pi imeiros* srtigos c ontissAo do* cinco uliiniut
era análogo ao de 14 do ab.íl de H!2S, d.do ..o ouvidor geral Paulo Leitão dê
Abicn,
— 94 —

O o u v i d o r c o n h e c i a p o r a c ç ã o n o v a dos casos c r i -
mes, e t i n h a a l ç a d a a t é m o r t e n a t u r a l i n c l u s i v e , nos
escravos, g e n t i o s e p e õ e s , c h r i s t ã o s l i v r e s .
N o s casos, p o r e m , e m que, s e g u n d o o d i r e i t o , c a b e
a pena d c m o r t e i n c l u s i v e , nas pessoas das d i t a s q u a l i -
d a d e s , o o u v i d o r p r o c e d e r á nos f e i t o s a f i n a l , c os des-
p a c h a r á c o m o g o v e r n a d o r s e m a p p e l l a ç ã o , sendo a m b o s
c o n f o r m e s nos v o t o s .
N o caso d e d i s c o r d a r e m , s e r ã o os a u t o s c o m os
r é u s r e m c t t i d o s ao c o r r e g e d o r da c ô r t e .
N a s pessoas d c m o r q u a l i d a d e , t e r á a l ç a d a a t é
cinco annos c!e d e g r e d o .
O o u v i d o r e s t a r á s e m p r e na m e s m a c a p i t a n i a q u e o
g o v e r n a d o r , salvo h a v e n d o o r d e m e m c o n t r a r i o d o
m e s m o g o v e r n a d o r , o u si o b e m d o s e r v i ç o o e x i g i r ,
pois e n t ã o p o d e r á s a h i r f o r a d e l i a » ( 1 )
C o m o j á v i m o s , esta e x t e n s ã o d a d a p e l o r e g i m e n t o
á s f u n c ç ò c s d o r e p r e s e n t a n t e d o s s e r v i ç o s da j u s t i ç a
sóffreu um profundo golpe com o acto da reforma, pelo
q u a l sc creou o d i r e i t o d c r e c u r s o , p a r a o g o v e r n a d o r ,
das d e c i s õ e s j u d i c i a r i a s .
E isto deu-se na a d m i n i s t r a ç ã o d e M e n de S á .
P o r c o n s e g u i n t e , C h r i s t o v ã o M o n t e i r o e x e r c i a as f u n -
c ç õ e s d c o u v i d o r , sob a j u r i s d i c ç ã o i m m e d i a t a d e S a l -
vador Correia.
O p r o v e d o r - m ó r d a fazenda e r a a s u p r e m a a u t o r i -
c dos n e g ó c i o s fazenda p u b l i c a . Ü p r i m e i r o n o m e a d o ,
na c i d a d e d o R i o de J a n e i r o , f o i E s t e v ã o Pires, p o r M e n
de S á . Suas a t t r i b u i ç õ e s s ã o as q u e c o n s t a m d o R e g i -
m e n t o dos p r o v e d o r e s das c a p i t a n i a s . ( 2 )
« E m N o v e m b r o d e cada a n n o annunciava-se a
a r r e m a t a ç ã o dos i m p o s t o s , q u e e r a f e i t a em J a n e i r o , p o r
u m anno o u mais, s e g u n d o o r d e n s d o p r o v e d o r - m ó r ,
p r o c u r a n d o d a r se a m a i o r p u b l i c i d a d e . O m a i o r l a n ç o

(1) Qhras t/r J. F. Lisboa, vol. 3", pag. St».


IÜ) Acredildmuse nunca ter sido publicado esse regimento, senão por nòs.
— 95 —

e r a aceito e e s c r i p t u r a d o p e l o e s c r i v ã o , e a s s i g n a d o p e l o
r e n d e i r o e tres t e s t e m u n h a s . E r a p r e s t a d a a fiança d a
décima parle.
A escripta d o e s c r i v ã o era entregue ao almo-
xarife.
S i a fiança n ã o f o r p r e s t a d a a t e m p o , i r ã o d c n o v o
os i m p o s t o s a hasta p u b l i c a . E a d i f f e r c n ç a d e s t e a r r e n -
d a m e n t o p a r a o p r i m e i r o s e r á p a g a pelos b e n s dos r e n -
d e i r o s , q u e s e n d o i n s u f f i c i e n t c s , pelos fiadores, e n ã o
b a s t a n d o , h a v e r á a p e n a de p r i s ã o , a t é o p a g a m e n t o
,'ntegral.
A t é o fim de J a n e i r o d e v i a estar a c a b a d a a a r r e c a -
d a ç ã o d e v i d a pelos r e n d e i r o s , d e m a n e i r a q u e a t é 15
de A b r i l e s t e j a m concertadas a receita e a despeza.
O s p r o v e d o r e s t i n h a m c o m p e t ê n c i a de conhecer
p o r a c ç ã o n o v a d e t o d o s os f e i t o s , causas e d u v i d a s q u e
a f f e c t a r e m a Fazenda, s e m a p p e l l a ç ã o e a g g r a v o , a t e
1 0 $ ; c o n h e c e r d o p r o c e d i m e n t o i r r e g u l a r de q u a l q u e r
e m p r e g a d o d a fazenda, p o r e r r o de seu o f f i c i o , das q u e s -
t õ e s dos r e n d e i r o s , c o n h e c e r dos c o n t r a b â n d o s r c o m a
a p p r e h e n s ã o d o n a v i o e sua c ^ r g a e d e g r a d a d o s para a
I l h a de S . T h o m é . O s navios ao c h e g a r e m n o p o r t o
o n d e h o u v e r A l f â n d e g a s e r ã o visitados p e l o e s c r i v ã o e
a l m o x a r i f e , p a r a e x a m i n a r a c a r g a e o l i v r o de c a r r e g a -
ç ã o ou f o l h a das avarias, o u ficaria a c a r g o d o a l m o x a -
r i f e , a t é a c a b a r a descarga. E x a m i n a r ã o t o d a s as caixas,
p a r a ver si nellas vem m e r c a d o r i a s u j e i t a ao d i z i m o e
q u e n ã o o tivessem p a g o . O p r o v e d o r o r d e n a r á q u e a
c a r g a s e j a d e p o s i t a d a n a A l f â n d e g a , depois d e e x -
aminada .
D e a l g u m a s m e r c a d o r i a s , c o m o t r i g o , vinho, l o u ç a ,
a l c a t r ã o , o d i z i m o s e r á pago depois de depositadas n a
Alfândega.
O i m p o s t o era p a g o na mesma m e r c a d o r i a n a re-
l a ç ã o de 1 p a r a 1 0 . Q u a n d o p a g o e m d i n h e i r o s e r i a
a r b i t r a d o o i m p o s t o p e l o j u i z e a l m o x a r i f e , segundo o
valor commcrcial do produeto.
H a v e r á nas A l f â n d e g a s d o u s sellos d c cera, u m
para panno de cor, Unho, e cousas s e m e l h a n t e s e o u t r o
p a r a os p r o d n c t o s q u e p a g a m d í z i m o s . C i r c u l a n d o
alguma mercadoria no commercio sem o scllo, dous
t e r ç o s s ã o para a A l f â n d e g a e u m para q u e m descobrir.
A s m e r c a d o r i a s que r e s u l t a r e m de p a g a m e n t o d a
d i z i m a , s e r ã o v e n d i d a s a q u e m m a i s der, e s e r á escri-
pturado o produeto como receita.
A n t e s de p a r t i r o n a v i o o p r o v e d o r i r á e x a m i n a i o,
ciando l i c e n ç a de s a h i d a .
A s mercadorias que forem para o Reino e Senho-
rios n ã o s ã o o b r i g a d a s a p a g a r os d i z i m o s , os m e s t r e s
, levara c e r t i d ã o dos o f í i c i o s d a A l f â n d e g a . O assucar
pagava o d i z i m o n o p r ó p r i o e n g e n h o , e m sua casa d e
p u r g a r , cabendo ao seu p r o p r i e t á r i o fazer as c o m m u -
n i c a ç ò e s ao a l m o x a r i f e o u aos arrecadadores, p a r a r e c e -
b e r o d i z i m o , n o prazo d e tres clias.
O p r o v e d o r e n c a r r e g a v a se d c fazer o i n v e n t a r i o
dos f a l l e c i d o s , sem t e s t a m e n t o .
P o d i a m c o n h e c e r d c t o d a s as q u e s t õ e s s o b r e ses-
m a rias.
N i n g u é m p o d i a i r de u m a para o u t r a c a p i t a n i a s e m
l i c e n ç a d o p r o c u r a d o r ou p r o v e d o r , c m sua a u s ê n c i a . ( 1 )
Eis ahi as tres p r i n c i p a e s a u t o r i d a d e s d a c a p i t a n i a
e d a c i d a d e , q u e g e r i a m a a d m i n i s t r a ç ã o c i v i l c consti-
t u í a m o g o v e r n o . O s s e r v i ç o s q u e se d i v i d i r a m nestes
tres d e p a r t a m e n t o s , e r a m e x e r c i d o s p o r f u n e c i o n a r i o s
subalternos c sujeitos á j u r i s d i c ç à o d o governador. ( 2 )

;1> Cod. rim. d Inst. */«/.


|ü| O pessoal judiciário. adintuistraUvo co conselho da câmara fui assim
constituído :

•^Aícaido-mrir — Fraiviso Dias Pinto.


Akaide-peijnpuo — Pedro Fernandes.
Juiz — Pedro Marlins Namorado.
v Escrivão da* Scsmarias, tahclliâo de notas, thesourciro de'defuntos c
ausentes — Pedro da Costa.
Provedor da Pazcnd;. Real — EsteVio Pires.
« Ouvidor -- Christovão Monteiro.
Juiz de orphâos — Manoel Freire.
Thesoureiro e feitor da fazenda real — Ruy Gonçalves.
«Tabellião do puhicu ejndiciario — Francisco Fernandes
Escrivão dc orpüaus — Itioyo Martins* •
— 97 —

A l e m da a d m i n i s t r a ç ã o c i v i l , havia a a d m i n i s t r a ç ã o
militar, c u j o chefe s u p r e m o era o p r ó p r i o governador,
q u e n o m e a v a o a l c a i d e - m ó r , para c o m m a n d a r a guar-
n i ç ã o da c i d a d e .
« A o s senhores d c e n g e n h o e fazendas o b r i g a v a a
q u a t r o t e r ç o s d e espingardas, v i n t e espadas, dez l a n ç a s
o u c h ü ç o s , v i n t e dos d i t o s g i b õ e s ; c a t o d o s os o u t r o s
m o r a d o r e s ao m e n o s a a l g u m a a r m a ; d e v e n d o , os q u e
a n ã o tivessem, t r a t a r d e h a v c l - a d e n t r o d c u m a n n o .
A o p r o v e d o r - m ó r c o m p e t i a fazer este e x a m e , c c o m i n a r
as penas c m caso d e f a l t a . T a l f o i o c o m e ç o d a m i l í c i a
r e g u l a r d c s e g u n d a l i n h a no B r a z i l . ( 1 )
O p r i m e i r o a l c a i d e - m ó r n o m e a d o por M e n de S á ,
por p r o v i s ã o d c 2U de M a r ç o de 1 5 6 8 , f o i F r a n c i s c o D i a s
P i n t o , « p o r ser pessoa de e x p e r i ê n c i a e a u t o r i d a d e ,
pelos s e r v i ç o s prestados n a capitania d o P o r t o S e g u r o ,
c a v a l h e i r o fidalgo da casa de E l - r e i e ter v i n d o e m c o m -
panhia d o c a p i t ã o - m ó r Estacio de S á a p o v o a r c e d i f i c a r
a c i d a d e de S . S e b a s t i ã o d o R i o de J a n e i r o . » ( 2 ) .
A o lado do governo, delegado da m e t r ó p o l e , havia
o g o v e r n o p r ó p r i o da cidade, nascido da v o n t a d e d o
seu p o v o . E r a a c â m a r a .
C o m p o s t a de u m p r e s i d e n t e — c h a m a d o o j u i z or-
d i n á r i o e dois vereadores, o r g a n i s a v a as posturas e
v e r e a ç õ e s , c u j a e x e c u ç ã o era e n t r e g u e ao atmoíacé, que
fiscalisava a a f e r i ç ã o dos pesos e medidas, os p r e ç o s dos
comestíveis.
A l é m de ser o e x e c u t o r das m e d i d a s fiscaes do
• conselh >, encarregava-se d o aceio do c i d a d e e da p o l i c i a
das p o v o a ç õ e s .
EÍS a h í os elementos c o n s t i t u t i v o s d o g o v e r n o e d a
a d m i n i s t r a ç ã o da c i d a d e do R i o de J a n e i r o .
ü ú n i c o i m p o s t o existente era o d i z i m o da a l f â n -
d e g a , n ã o nos r e f e r i n d o a posturas t o m a d a s pela
Câmara.
—'
(1) l/isi. dn Hrj^i/ dc Parto Seguro, vej. |*, pag *J35.
7 .2) A leitura deMe do.*nincuto deTonios a pnbiçaçaO feita pelos Ardi, do
JJillf, Federa/, vol. 1", pag, 5Ü3. Até então náo tinha sido publicado.
— 98 —

SUMMASIO — Oi conquistadores e. auxiliarei de. Fitado de Sà e Men de Sã

Não podemos deixar de registrar os nomes dos


q u e a c o m p a n h a r a m Estacio d e S á e M e n d e S á na c o n -
q u i s t a do R i o de J a n e i r o , n ã o s ó c o m o u m a p r o v a d e
g r a t i d ã o , c o m o p o r q u e elles f o r a m cs f u n d a d o r e s d a
f a m í l i a fluminense q u e t ã o g r a n d e i m p o r t â n c i a t e m re-
p r e s e n t a d o na c i v ü i s a ç â o b r a s i l e i r a .
O s i m p o r t a n t e s s e r v i ç o s p r e s t a d o s pelos c o n q u i s -
t a d o r e s para a f u n d a ç ã o d a c i d a d e f o r a m r e c o m p e n s a -
dos p e l o g o v e r n o , c o m d o a ç õ e s de t e r r e n o s p a r a a
c o n s t r u c ç ã o das h a b i t a ç õ e s e i n i c i o de sua l a v o u r a ,
c o m o p o r m e i o de e m p r e g o s p ú b l i c o s q u e l h e s f o r a m
d a d o s . T o d o s os l u g a r e s da a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a m u -
n i c i p a l d a c i d a d e q u e ia nascer f o r a m d a d o s a e l l e s . A s
m e l h o r e s zonas f o r a m d a d a s aos q u e m a i s se s a l i e n t a -
r a m na g u e r r a e aos q u e t i n h a m m e l h o r h i e r a r c h i a
social.
Nossos h i s t o r i a d o r e s e c h r o n i s t a s d i z e m q u e o p r i -
m e i r o p r o v e d o r d a fazenda q u e t e v e a c i d a d e f o i E s t e -
v ã o Pires. Mas em 1568 ( M a r ç o ) o p r o v e d o r era A n t ô -
n i o de M a r i n q u e f o i o t r o n c o d e u m a i m p o r t a n t e f a m í -
l i a f l u m i n e n s e , n ã o s ó p e l o v a l o r d e sua o r i g e m s o c i a l ,
como pela r e p r e s e n t a ç ã o política d e seus decendentes
a q u i no R i o , d u r a n t e a n n o s .
E f o i j u s t a m e n t e n o c o m e ç o d o a n n o de 1 5 6 8
q u e M e n d c S á n o m e o u as a u t o r i d a d e s da c i d a d e ,
como Christovão Monteiro, Pedro Martins Namorado,
P e d r o F e r n a n d e s , F r a n c i s c o S i l v a P i n t o e outros.
A i n v e s t i d u r a d o c a r i r o Cstá c o n s i g n a d o na e s c r i -
p t u r a de r e n u n c i a q u e fez de suas t e r r a s e m N i c t h e r o y
a M a r t i n A f f o n s o de Souza ( A r a r i b o y a ) a 1 1 d e M a r ç o
de 1 5 6 8 . N e l l a elle í i g u r a c o m o p r o v e d o r d a f a z e n d a .
A n t ô n i o de M a r i n f o i u m d o s c o n q u i s t a d o r e s e teve
c o m o r e c o m p e n s a dos seus s e r v i ç o s a q u e l l a s e s m a r i a
das terras das Barreiras Vermelhas ( G r a g o a t á ) a t é Ica-
— 99 —

r a h y . T e v e t a m b é m u m a sesmaria no m o r r o d c S. A n -
t ô n i o que d o o u ao convento do Carmo. A c r e d i t a m o s
q u e suas posses t e r r i t o r i a e s em N i c t h e r o y n ã o se l i m i t a -
r a m á d o a ç ã o q u e lhe f o i f e i t a e q u e t r a n s f e r i o a A r a r i -
b o y a . E a c r e d i t a m o s isto, p o r q u e , e m 1 6 2 6 , u m A n t ô n i o
d e M a r i n , p r o v a v e l m e n t e f i l h o o u n e t o do c o n q u i s t a d o r ,
v e n d e u ao c a p i t ã o D i o g o d e F a r i a u m a « s o r t e de t e r r a s
d a b a n d a de a l é m » . E a e s c r i p t u r a r e g i s t r a q u e f o r a m
h e r d a d a s de D i o g o d c M a r i n , f i l h o do c o n q u i s t a d o r .
A c r e d i t a m o s q u e A n t ô n i o de M a r i n j á m o r a v a c m
S. V i c e n t e , q u a n d o v e i o prestar s e r v i ç o s na c o n q u i s t a
d o R i o , sob o c o m m a n d o d e M e n d c S á . A l i o b t e v e d e
P e d r o C o l l a ç o , d e l e g a d o de M a r t i n A f f o n s o de Souza,
e m sua d o n a t á r i a , u m a sesmaria e m Y p i r a n g a . D a h i
passou-se p a r a o R i o de J a n e i r o , e m c o m p a n h i a de sua
mulher D . Lauriana S i m ã o .
F o i elle o t r o n c o d e u m a numerosa f a m í l i a f l u m i -
nense, c u j o s representantes, p o r m u i t o s annos, exerce-
r a m i m p o r t a n t e papel na p o l í t i c a e na a d m i n i s t r a ç ã o .
F e m d e r r e d o r de sua i n d i v i d u a l i d a d e q u e J o s é de
Alencar teceu o enredo do « G u a r a n y » .
E ' fidalgo e N e t t o d e L o p o d e M a r i n , conspicuo
r e p r e s e n t a n t e d a nobreza p o r t u g u e z a .
N ã o s a b e m o s o n u m e r o d e f i l h o s q u e teve, s e n ã o
d o u s : D i o g o d c M a r i n c F r a n c i s c o d c M a r i n de q u e m
nada sabemos s e n ã o q u e f o i fazendeiro no R i o de Ja-
n e i r o , c o m o o seu i r m ã o D i o g o , q u e a l i t i n h a u m a i m -
p o r t a n t e p r o p i e d a d e assucareira. E r a o p r o v e d o r da c i -
d a d e e m 1 0 0 6 , exercendo a i n d a o mesmo c a r g o e m
1610, quando o tabellião foi a A l f â n d e g a para lavrar
u m e s c r i p t u r a de t r o c a d e ierras e n t r e elle e F r a n c i s c o
V e l h o , i n d i v i d u a l i d a d e n o t á v e l nessa é p o c a .
A s p r o p r i e d a d e s assucareira dos M a r i n s e r a m loca-
lisadas e m M a g é e M i r i r y . A f a m i l i a e n t r e l a ç o u - s e c o m
outras famílias igualmente importantes. E m 1620,
e n t r e l a ç a - s e c o m a f a m i l i a de Á l v a r o O s ó r i o , ho-
m e m de f o r t u n a e g r a n d e p r o p r i e t á r i o d o t e m p o . Casou-
se coin D . V i c t o r i a d c M a r i n q u e deve ser n e t a d o
— 100 —

c o n q u i s t a d o r . Á l v a r o O s ó r i o m o r a v a na r u a D i r e i t a e
os descendentes d c M a r i n s n a r u a da M i s e r i c ó r d i a . E '
fácil apreciar sua f o r t u n a por u m a e s c r i p t u r a de d o t e a
s u a filha A n n á O s ó r i o c o n t r a c t a d a e m casamento c o m
E s t e v ã o de V a s c o n c e l l o s . N o d o t e figuram ricos v e s t i -
dos d e s e d a e v e l l u d ò , e x e e l l e n t e s p r é d i o s na r u a D i -
reita, c o n s t r u í d o s de p e d r a c c a l , c o m as suas v a r a n d a s
e q u i n t a e s , e x t e n s a s sortes d c t e r r a c m M i r i r y e
Magé.
P o u c o t e m p o d e p o i s do c o m e ç o d o s é c u l o X V I I ,
a f a m i l i a M a r i n s decae de seu p r e s t i g i o p o l í t i c o . O u l t i m o
dos seus descendentes q u e e n c o n t r a m o s de posse de
c a r g o s da a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a 6 D i o g o O s ó r i o , q u e
e x e r c e c o m o j á dissemos, o l o g a r d c p r o v e d o r da f a -
zenda, e m 1 6 1 0 . D a h i p a r a c á , elles d e s a p p a r c c c r a m ,
como d e s a p p a r é c e o sobrenome de Marins.
Grandes e m e m o r á v e i s pleitos j u d i c i á r i o s foram
t r a v a d o s p e l o s descendentes desta f a m i l i a e os d i r e -
ctores d i c e l e b r e A l d e i a d c S . L o u r e n ç o , o n d e h a b i t o u
A r a r y b o y a . A a l d e i a f o i localisada no t e r r i t ó r i o q u e l h e
f o r a c e d i d o p o r A n t ô n i o de M a r i n .
D a a l d e i a p o u c o restou, p o r q u e " u m s é c u l o a i n d a
n ã o se t i n h a p ; sado, d e p o i s q u e e l l a se f u n d a r a , c j á
as u s u r p a ç õ e s cscandalosissimas se s u e c e d i a m c o m es-
p a n t o e , c o m ellas, os p l e i t o s e d e m a n d a s ; e m v ã o , as
p a r t e s se c o n c e r t a v a m p o r m a i s de u m a vez — c i l a s
p r o s e g u i a m . D e n a d a s e r v i r a m as m e d i ç õ e s e d e m a r -
c a ç õ e s , as c o n s p i r a ç õ e s e p r o t e s t o s ; t u d o f o i b a l d a d o :
as u s u r p a ç õ e s c o n t i n u a r a m e a c a b a r a m p o r a r r u i n a r ,
quasi de t o d o e m todo o p a t r i m ô n i o d o s d e s c e n d e n t e s
de A r a r i b o y a . »
A u s u r p a ç ã o f o i c o m p l e t a pelos p r i m i t i v o s h a b i -
tantes de N i t h e r o y c s e u s d e s c e n d e n t e s ; e de todo
desapparcceu p o r e s s e i l l e g a l c i l l e g i t i m o p r o c e s s o esse
g r a n d e p a t r i m ô n i o dos i n d i o s . Pela l e g i s l a ç ã o da R e g ê n -
c i a as aldeias os í n d i o s f o r a m i n c o r p a r a d a s ao p a t r i m ô -
n i o da n a ç ã o . E i s a h i a p r o v a d o c a r a c t e r e m p h i t h e u t a
de g r a n d e p a r t e d a c i d a d e d e N i t h e r o y , sc n ã o d a sua
— 101 —

t o t a l i d a d e . E seria d c g r a n d e interesse p a r a o E s t a d o o
estudo desta q u e s t ã o ,
Fallemos agora de A r y Fernandes que f o i o u t r o
c o n q u i s t a d o r . Fez p a r t e d a p r i m e i r a e x p e d i ç ã o m i l i t a r
sob o c o m m a n d o de Estacio de S á . D u r a n t e os d o u s
annos de g u e r r i l h a s , c m q u e esteve o f u n d a d o r da c i -
d a d e , a t é a v i n d a de M e n de S á , A y r e s F e r n a n d e s c o n -
t i n u o u s e m p r e a p r e s t a r os seus s e r v i ç o s ,
Localisou-se, como lavrador, cm M a g é , onde
o b t e v e u m a s e s m a r i a , e, na c i d a d e , m o r o u na r u a d a
M i s e r i c ó r d i a . E r a o p r o p r i e t á r i o dos terrenos visinhos
ao A r s e n a l d c G u e r r a , o n d e f o r a c o n s t r u í d a desde essa
época, uma fortificação.
G u a n d o r e q u e r e u a sesmaria destes terrenos, j á
A y r e s F'ernandes t i n h a c o m e ç a d o a c o n s t r u ç ã o d c sua
casa, n a q u c l l a r u a e m M a i o de 1 5 6 8 . Isto i n d i c a q u e o
p o v o a m e n t o e c o n s t r u c ç ã o u r b a n a no seu inicio n ã o
se o p e r a r a m s o m e n t e no m o r r o cio C a s t e i l o . E m q u a n t o
e l l e sc p o v o a v a , a r u a d a M i s e r i c ó r d i a t a m b é m se po-
v o a v a . N e l l a e m c o m e ç o m o r a v a m a a r i s t o c r a c i a , os
r e p r e s e n t a n t e s do g o v e r n o e os f u n e c i o n a n o s p ú b l i c o s .
M a r t i n d e S á t e v e u.na casa no m o r r o do C a s t e i l o q u e
v e n d e u e m 1 6 1 0 ao licenciado R o d r i g u e s V a z e na
p r a ç a da cidade ( 1 ) . O b t e v e a i n d a u m a sesmaria no
c a m i n h o p a r a Santo A n t ô n i o , h o j e r u a de S . J o s é .
Jorge F e r r e i r a f o i o u t r o conquistador. O b t t v e u m a
sesmaria na r u a D i r e i t a , e n t ã o c h a m a d a p r a i a d e M a n o e l
de U r i t t o , o m e s m o q u e fez a d o a ç ã o ao M o s t e i r o de
S. B e n t o d o o u t e i r o e m q u e e s t á h o j e e d í f i c a d o o t e m p l o
c u m a o u t r a c m M a g é . nas v i s i n h a n ç a s d c A n t ô n i o d c
M a r i n s . N ã o e r r a m o s c m localisar essa praia j u n t o ao
A r s e n a l d c M a r i n h a , p o r q u e t o d a esta r e g i ã o f o i dada
c m s e s m a r i a a M a n o e l dc B r i t t o q u e p o r suavez d o o u ao
M o s t e i r o . Parece pois q u e J o r g e F e r r e i r a c M a n o e l d c
B r í t t o e r a m v i s i n h o i e f o r a m os p r i m e i r o s p o v o a d o r e s
d a q u e l l e t r e c h o da r u a D i r e i t a .

(1) Primeiro cartório da cidade.


102

M a n o e l de B r i t t o t a m b é m f o i u m dos c o n q u i s t a d o r e s
e f i g u r o u na p o l i t i c a de s e u t e m p o . Q u a n d o fez a doa-.
ç ã o ao M o r t e i r o j á e x i s t i a u m a capella de N o s s a S e n h o r a
da C o n c e i ç ã o , c o n s t r u í d a p o r A l c i x o M a n o e l , o u t r o
conquistador t a m b é m . Eis ahi personagens n o t á v e i s da
é p o c a e m q u e se s a l i e n t a r a m na sociedade e m q u e v i -
v i a m , sob o h a b i t o da pureza do l a r c s i n c e r i d a d e e m
suas r e l a ç õ e s de e s t i m a .
C h r i s p i n da C u n h a f o i o u t r o c o n q u i s t a d o r . O b t e v e
u m a sesmaria na r u a de S. J o s é , d e f r o n t e d o l a r g o d a
Carioca q u e e n t ã o era em g r a n d e parte coberto por u m a
lagoa que serviu justamente dc l i m i t e d a d o a ç ã o c que
sc estendia pelo m o n o de S. A n t ô n i o ( 1 ) F o i ciada
p o r C h r i s t o v ã o d e l i a r r o s a 15 de S e t e m b r o d c 1 5 7 3 .
N a mesma rua j á e s t a v a l o c a l i s a d o B a l l h a z a r C a r d o s o ,
o u t r o c o n q u i s t a d o r . Estes c h ã o s f o r a m d o a d o s p e l o p r ó -
prio C h r i s p i m d a C u n h a aos f r a d e s d o C a r m o c m 4 d e
S e t e m b r o de 1 6 1 ! ) .
A elles t a m b é m fizeram d o a ç ã o A n t ô n i o d c M a r i n
e sua m u l h e r D , I s a b e l de M a r i n s de uns c h ã o s n o
m o r r o de S. A n t ô n i o e m 7 de n o v e m b r o de 1 5 9 1 , q u e
t i n h a m o b t i d o d e sesmaria, p o r isso q u e M a r i n s f o i t a m -
b é m u m dos c o n q u i s t a d o r e s .
O b t i v e r a m t a m b é m sesmarias no l a r g o d a C a r i o c a
em d i r e c ç ã o a G u a r d a V e l h a F e r n à o A f f o n s o , D o m i n g o s
P e r e i r a e J o ã o G o n ç a l v e s , visinhos d c A n d r é L o p e s
doando-as depois aos f r a d e s d o C a r m o q u e sc c o n s t i -
t u í r a m assim c o m o os d o n o s d e s t a zona u r b a n a . A
sesmaria destes é p o u c o a n t e r i o r a de C h r i s p i m da

• ; i | Diz Ayres Fcrnandc «<aue elle veio em. companhia de Estacio de Sá


àxpnyúirt^r u povoar cs'.c Pio c porque u'<>> teu) terras para f«zer fazendas,
nem chãos p.u casas, pede dc sesmaria um pedaço dc le-ra ao longo ca aguada
dc um rio que lhe cgamao Magé até cmpresl ir e pedir com João Carrasco c pelo
stflão duas mil braças « uns chãos cm q-c ora icm casas c cerca partindo com
André dc Loand o coa» Hasiian Darriga.u Foi dada a doacao por Men de Sã a
14 dc Maio dc lõftü di/fndo fjue o requerente indicasse o numero de hriça* de
chãos que pèdiã. Ayie* d.i Conha declarou querer 20 hracas ao longo da run
Direita ale o 1 . (naturalmente o forte da Cruz hoje igreja d.i Cruz doí Milita-
res) porque tudo j ; ^ estava cercado e em começo de construcção de cava. A ses-
maria foi coitlirtnada por S«ilvadoi Correia dc Sa. cm 18 dr Agosto dc lflOS
Os jesuítas herdaram esta sctiiiaiia cm Magé, ',Cod. M-.- Da Btbl. F.
— 103 —

C u n h a —de 0 de S e t e m b r o de 1 5 7 3 , p o r C h r i s t o v ã o de
B a r r o s . E i s p o i s os p r i m i t i v o s h a b i t a n t e s d o l a r g o d a
C a r i o c a : C h r i s p i m d a C u n h a e P e r e i r a G o n ç a l v e s na
d i r e c ç ã o d a m a d.a G u a r d a V e l h a , assim c o m A n d r é
L o p e s ; e mais t a r d e F e l i p p e F e r n a n d e s no p r ó p r i o
largo .
O s t e r r e n o s da c i r c u m v i s i n h a n ç a do l a r g o f o r a m
doados a Felippe Fernandes em 1610, por aforamento,
p a r a fazer sua i n d u s t r i a d c c o r t u m e de c o u r o s c o m o
a u x i l i o da a g u a da I a g ô a . E ahi f u n d o u e l l e seu p e l a m e
nas f r a l d a s d o o u t e i r o . H a mais d c t r i n t a a n ã o s , a l l e g o u
e m sua p e t i ç ã o , t i n h a c o m e ç a d o c o m seu p a e u m m o -
desto t r a b a l h o i n d u s t r i a l na zona, e m 1 5 8 0 . E nesta é p o c a
a zona por n i n g u é m e r a f r e q ü e n t a d a , s e n ã o pelos i n d i o s
q u e a l l i se r e u n i a m « p o r ser p a r t e escusa. » Estes ser-
viços, allegados por Felippe Fernandes, garantiram-lhe
o a f o r a m e n t o . N ã o s a b e m o s o n o m e d e seu pae. F o i ,
p o r é m , u m c o n q u i s t a d o r da c i d a d e q u e se l o c a l i s o u
no l a r g o da C a r i o c a , c o m a sua m o d e s t a i n d u s t r i a d e
c o u r o s , c o n t i n u a d a p o r seu f i l h o no mesmo l o c a l . C o m
a h a b i l i d a d e c o m q u e t r a t a r a m os i n d i o s a l c a n ç a r a m
a f u g c n t a l - o s d a I a g ô a de S. A n t ô n i o , o n d e r e u n i a m - s e
pela c u r i o s i d a d e de ver os t r a b a l h o s dos c o n q u i s t a d o r e s
n o m o r r o do Casteilo, no i n i c i o d a c o n s t r u c ç ã o d a
cidade.
T o d o s estes m o r a d o r e s do l a r g o f o r a m conquista-
d o r e s da c i d a d e , sendo recompensados pela d o . i ç â o de
terras. ( 1 )
A l é m d e s t e s e x i s t e m os de q u e temos f a l l a d o ante-
r i o r m e n t e , q u a n d o e s t u d a m o s a o r g a n i s a ç ã o adminis-
t r a t i v a d a cidade, g r a n d e parte dos quaes f o i n o m e a d o
p a r a exercer os cargos p ú b l i c o s .

Uí O atommeitta de Felippe Fernandes consta de LiV. «le Afor. no


Arch. d,i Cem. As «esmarías dc qnc acima falíamos con*t.im de um grande
Cood, 3lss, existente na Uibl, Náci i"bie O patrimônio dú Convento do Círmo,
CAPITULO VI

Os primoiios governos no sooulo X V I I

S& \t M A$lO.—índios e minas, Faeloret da colonisação. Gwmi de Aff.-n.ui


de Albtüfiteraue e O. Francisco de SáMp. Sxfi/ofafdú dai minas.
Ria desligada da Hahia. Sujeita depois ó sua jnrisdieeáo.
Attríctos de autoridades, Goxento de Conzianlino Meoeiáo.
Conquista de Cabo Frio. Gozerno de Salvador Correia nas
minas. Governo de l"rj S intt>. O serviço d'agna. (joverno de
,

Francisco Fajardo.

Ao a b r i r - s e o s é c u l o X V I I , as q u e s t õ e s q u e mais
directamente prendiam a a t t e n ç ã o da a d m i n i s t r a ç ã o ,
e r a m a e x p l o r a ç ã o das m i n a s e a e m a n c i p a ç ã o do i n d i o .
N ã o t i n h a m o c u n h o l o c a l , nem t ã o p o u c o o r i g i n a v a m -
se de accidentes q u e affectassem a v i d a d a c i d a d e d o
R i o o u d e sua c a p i t a n i a . E r a m q u e s t õ e s q u e a f f e c t a v a m
t o d a a c o l o n i a . p o r q u e d e p e n d i a m n ã o s ó da sua s i t u a ç ã o
e c o n ô m i c a , das c o n d i ç õ e s de seu t r a b a l h o a g r í c o l a ,
c o m o d o s e n t i m e n t o q u e i n s p i r a v a os actos da m e t r ó -
p o l e , e m seus processos d e c o l o n i s a ç ã o . U m a nascia da
i n s u f i c i ê n c i a d c b r a ç o s , p a r a a l a v o u r a , desfalcados
pelos j e s u í t a s e m b e n e f i c i o d c sua i n d u s t r i a , para a
q u a l convergia toda a actividade do indio, transformado,
a s s i m , c m m a c h i n a d e t r a b a l h o , para a prospeiida.de e
d e s e n v o l v i m e n t o d a o r d e m c para accentuar-sc a i n d a
m a i s a crise a g r í c o l a d o colono, c u j a s o l u ç ã o f o i p t r a f i c o
a f r i c a n o , c r e a n d o a e s c r a v i d ã o negra, ao l a d o da escra-
v i d ã o amarella.
— 100 —

O p r e s t i g i o dos J e s u í t a s a s s u m i o taes p r o p o r ç õ e s ,
nos actos p o l í t i c o s da m e t r ó p o l e , q u e a l c a n ç a r a m a
p r i m e i r a l e i d e e m a n c i p a ç ã o d o í n d i o de 3 0 de J u n h o d e
1009, contra a q u a l t o d a a colônia p r o t e s t o u . O resul-
t a d o m a i s d i r e c t o desse a c t o , no R i o d e J a n e i r o e c a p i -
t a n i a , f o i a p e r m i s s ã o ciada p e l o seu g o v e r n a d o r R u y
V a z P i n t o , de 1 6 1 1 a 1 6 2 0 , da i n t r o d u c ç ã o do a f r i c a n o
c o m o e l e m e n t o de t r a b a l h o a g r í c o l a , f e i t o p e l o seu p a -
rente D u a r t e Vaz.
D a h i e m d i a n t e mais a c c e n t u a m - s c os a t t r i c t o s
e n t r e a a u t o r i d a d e c i v i l e r e l i g i o s a . A f e i ç ã o da a d m i -
n i s t r a ç ã o e d o d e s e n v o l v i m e n t o e c o n ô m i c o assume u m
caracter d i f f e r e n t e pela i u j u n c ç ã o desse e l e m e n t o n o v o ,
como veremos adiante.
A o u t r a q u e s t ã o nascia d o s e n t i m e n t o de a v a r e z a
d a m e t r ó p o l e e da i d é a de r i q u e z a , q u e t a n t o a n i m a v a
o colono,
E n ã o o b s t a n t e o insuecesso das e x p l o r a ç õ e s d e
minas, i n s p i r a n d o a b e l l a p h r a s e d o P a d r e A n t ô n i o
V i e i r a d c q u e o o u r o v e r m e l h o t i r a d o das v e i a s d o i n d i o
f o í s e m p r e a m i n a d o E s t a d o , ellas suecediam-se, c o m o
u m r e s u l t a d o d e u m a c o n v i c ç ã o a r r a i g a d a no e s p i r i t o
dps a d m i n i s t r a d o r e s .
A l g u m r e s u l t a d o mais i m m e d i a t o e d c mais v a l o r
d o q u e a d e s c o b e r t a de m i n a s , q u e h a v i a m de d e i x a r ,
c o m o de f a c t o d e i x a r a m , f o i a a b e r t u r a de estradas
p e l o i n t e r i o r , l i g a n d o os tocos de p o p u l a ç ã o q u e j á exis-
t i a m e t r a ç a n d o as linhas de p o v o a m e n t o pelo s e r t ã o .
H a v e m o s de e s t u d a r a i m p o r t â n c i a q u e r e p r e s e n t o u o
R i o d c J a n e i r o nestes factos.
Mas, a p o l í t i c a d c e x p l o r a ç ã o m u i t o c e d o p r o d u -
ziu u m r e s u l t a d o s o b r e a c a p i t a n i a e a c i d a d e d o R i o de
Janeiro.
• F o i serem e l l a s , c o m as capitanias d o E s p i r i t o
S a n t o e S. V i c e n t e , d e s l i g a d a s da Bahia-, p a r a c o n s t i t u í -
r e m u m E s t a d o de j u r i s d i c ç ã o p r ó p r i a .
Governava e n t ã o o £ i o de Janeiro A í T o n s o d c A l b u -
querque, filho do conquistador do M a r a n h ã o e m o ç o
— 107 —

fidalgo, n o m e a d o a 1 2 d c F e v e r e i r o d e 160f>. N a sua


c a r t a de n o m e a ç ã o e s t a v a expressa a c l á u s u l a de q u e
« s e p o r esta c a p i t a n i a d a Bahia apparecer a D i o g o B o -
t e l h o , d o m e u c o n s e l h o e g o v e r n a d o r g e r a l das ditas
p a r t e s q u e lhe d e v e c o m m c t t c r mais a l g u m a j u r i s d i c ç ã o
da q u e t e m p o r meus r e g i m e n t o s lhe p a s s a r á a l v a r á . »
Essa c l á u s u l a t r a d u z a r e s o l u ç ã o , e m q u e e s t a v a a
m e t r o p o l e . d e c r e a r u m Estado no s u l , de j u r i s d i c ç ã o
p r ó p r i a , d e s l i g a d o da B a h i a . E este acto v c i u c o n s u m -
mar-sc c m 2 d e J a n e i r o d e 1 6 0 8 , c o m a n o m e a ç ã o d c
D . F r a n c i s c o de Souza d e g o v e r n a d o r g e r a l das tres ca-
pitanias.
M a s , a n t e s de t r a t a r m o s d o g o v e r n o de D . F r a n -
cisco, dos processos postos em p r a t i c a p o r elle j u n t o á
m e t r ó p o l e , v e j a m o s o g o v e r n o de A f f o n s o de A l b u q u e r -
que, q u e sahiu das n o r m a s da p r u d ê n c i a e d o r e s p e i t o
ao p r e s t i g i o do p r i n c i p i o d c a u t o r i d a d e , s e g u i d o s pelos
seus antecessores.
S u p e r p o n d o a l e i c os deveres do seu c a r g o , aos
seus c a p r i c h o s e á sua v o n t a d e , a b r e l u c t a c o m o j u i z
o r d i n á r i o B a l t h a z a r de Seixas, q u e , p o r sua o r d e m , c
preso.
T e m o mesmo p r o c e d i m e n t o com o o u v i d o r Ca-
b r a l , sem q u e estas a u t o r i d a d e s tivessem c o m m c t t i d o
u m d e l i c i o q u e j u s t i f i c a s s e essa p e n a l i d a d e e m e x t r e m o .
Factos desta ordem impressionavam desagrada-
v c l m e n t e o p o v o e a c â m a r a , para q u e m t o r n o u - s e a n t i -
pathico o governador, procurando aquella protestar
c o n t r a o e x e r c í c i o de a i u i b u i ç õ c s fiscaes, f ó r a d e sua
c o m p e t ê n c i a , t r i b u t a n d o 5 0 r é i s p o r a r r o b a de assucar
e 3 2 0 por e n t r a d a e sabida de n a v i o s .
E r a , pois, p o u c o l í s o n g c i r a a s i t u a ç ã o a d m i n i s t r a -
tiva da cidade, pelos c o n l l i c t o s p r o v o c a d o s p e l a sua
s u p r e m a a u t o r i d a d e . Esse estado de coisas n ã o d e i x o u
d e c o r í g i r - s e , C j u à n d o a m e t r ó p o l e , d e s l i g a n d o as tres
capita rias para c o n s t i t u í r e m u m s ó Estado, n o m e o u
comonues g o v e r n a d o r D . F r a n c i s c o de Souza.
— 1 0 8 —-

Seguindo para ã Europa depois de u m a e x c u r s ã o


a S . V i c e n t e , c o m o i n t u i t o de e x p l o r a r m i n a s , D . F r a n -
cisco o b t i n h a p o r suas m a n h a s , c o m o diz a historia, esse
acto da m e t r ó p o l e c a g r a n d e d i s t i n c ç ã o dc, sua n o m e a -
ç ã o , como da som m a c o n s i d e r á v e l de recursos e d c
prerogativas que trazia e que tanto desgostaram o go-
v e r n a d o r d á B a h i a , D . D i o g o d c Menezes q u e , c m c a r t a
ao s o b e r a n o , d i z i a : « V . M . m e m a n d o u o viesse s e r v i r
a este E s t a d o , s e m m c d e c l a r a r n e n h u m a s e p a r a ç ã o ,
s e n ã o q u e o v i r i a g o v e r n a d o r assim e da m a n e i r a q u e
os passados o n d e o t e n h o s e r v i d o com t o d a fidelidade e
s a t i s f a ç ã o de q u e V . M . m c t e m a v i s a d o . ( 1 )
C o m o seu t i n o p r a t i c o , p r e v i u o m a u r e s u l t a d o
d e s t e acto.
« T o d a s as g r a n d e s promessas d c a v u l t a d a s r e n d a s
p r o m e l t i d a s pelo mesmo D . D i o g o judieiosa mente c o m -
b a t i d a s c o m estas c u r t a s phrases : C r c a - m e V , M . q u e
as v e r d a d e i r a s m i n a s d o Brazil sao assucar e p á o brazil,
de q u e V . M . t e m t a n t o p r o v e i t o , s e m lhe custar da sua
fazenda u m s ó v i n t é m . . . » « O m e s m o n e g o c i o ha de
m o s t r a r c e d o a V . M . a p e r d a q u e h a d e t e r a s u a fa-
zenda, . . . mas s e r á u m mal q u e . . > n ã o se p o d e r á r e -
mediar. » (2^
R e a l i s a r a m se os p r o g n ó s t i c o s de D . D i o g o , p o r -
q u e a e x p l o r a ç ã o de D . F V a n c i s c o s ó d e u em r e s u l t a d o
o d i s p e n d i o de n ã o p e q u e n a q u a n t i a d o E s t a d o , v i n d o
e l l e a f a l l c c e r e m S. Paulo e m 1 1 d e J u n h o d é 1 6 1 1 ,
d e i x a n d o , c o m o seu suecessor, s e g u n d o os seus d e s p a -
chos, o sen f i l h o D . L u i z de Souza, q u e t o m o u posse d o
g o v e r n o d o R i o d e Janeiro a 13 d c D e z e m b r o de 1 6 1 2
E* precise o b s e r v a r q u e , d e s d e o c o m e ç o d c 1 6 1 0 ,
q u a n d o D . F r a n c i s c o d e Souza a c h a v a se e m S. P a u l o ,
a e x p l o r a r as m i n a s , c o m o seu filho, o g o v e r n o ficou
d i r i g i d o p o r A f f o n s o de A l b u q u e r q u e .

(I) «HIN|. Ger. ilo Ilraz;!-, por Vis;. 1'oulo Seguro, vol. 1° pag. 437.
(2) «tíist, <ier. d<- Brazil». por Vjít, Fort. Segure, vol. 1", pag. 437,
. — 109 —

Mas, p o u c o d e p o i s d a posse de D - L u i z de S o u z a ,
a m e t r ó p o l e t e n d o de n o v o u n i d o as ires c a p i t a n i a s á
B a h i a , p o r a l v a r á de 9 de A b r i l de 1 6 1 2 , G a s p ? r de
Souza, en*ão governador geral, despachou pata o R i o
o desembargador M a n o e l Jacome B r a v o , c o m o seu
commissionado.
E ' fácil c o m p r e h e n d e r q u e os actos v i o l e n t o s j á
praticados por A f f o n s o de A l b u q u e r q u e , despertando
c o n t r a si as: a n t i p a t h i a s p u b l i c a s e d a c â m a r a , m o t i v a -
ram a p o s i ç ã o que elle assumiu perante o commissio-
n a d o d o g o v e r n a d o r g e r a l , l e v a n t a n d o as m a i o r e s d i f i -
c u l d a d e s ao d e s e m p e n h o de suas c o m m i s s õ e s .
E nisto f o i a j u d a d o pelo prelado d a cidade. ( 1 )
A c â m a r a d i r i g e - s e á s tres a u t o r i d a d e s , m o s t r a n d o
as i n c o n v e n i ê n c i a s destes c o n f l i c t e s , q u e p o d i a m p e r t u r -
b a r a o r d e m p u b l i c a e r e q u e r e n d o q u e puzessem c o b r o
á lucta, e m b e n e f i c i o d e t o d o s os interesses. S ã o tv.es
os t e r m o s d e s s e d o c u m e n t o , pelos quaes os c a m a r i s t a s
d c e n t ã o r e v e l a m o interesse q u e s e n t e m p e l o b e m p u -
b l i c o , q u e o n ã o p o d e m o s d e i x a r de t r a s l a d a r para a q u i .
« O j u i z , v e r e a d o r e s é p r o c u r a d o r d o conselho d e s t e
presente anno d e . 1 6 0 3 , abaixo-assignados, fazemos saber
a V . S . e m c o m o , em c â m a r a , p e l o p r o c u r a d o r d o con-
s e l h o nos f o i d i t o q u e o r a neste p o v o h a v i a a l g u m a s
i n q u i e t a ç õ e s d c q u e se t e m i a e recetava r e s u h a r e m
grandes damnos, mortes e o p p r e s s õ e s , e m d e s s e r v i ç o
de D e u s c de S u a M a g c s t a d e , r e q u e r e n d o - n o s c o m o
pessoa a c u j o cargo estava p r o v e r s o b r e o b e m c o m -
m u m , ii b o m r e g i m e n t o desta cidade, e moradoics delia,
a C U d i s s e m ó s a a t a l h a r aos d i t o s m a l e s c p r o v e r n o caso
c o m os r e m é d i o s para isso n e c e s s á r i o s ; pelo q u e acor-

( l ; Ãc.ó"te»u nrt di., 12 de Sctcmhro que amanhecesse iiu MtW âà des-


emliargHdiir itená !lev.i com um escripto c-lli. que diíi>; aqui*.
IÍ*K f-cto por cm cuidòJu .i .101,0.1, a dellú se cnlreu a deyasaar, do une
resultaram dcsjp'.id.tvris com:.[ II-H^H-, poraue u #>v.-iu...l'0' c prel.do dividi-
ram cm panidos o povo, c <*sie .dvotjçado prometi u> il.«ooo»sos excesso*,
Para atalhor o-í damnos, que do desassocego do povo se podii seguir,
c*cieveu a câmara ao administrador da Jurisdicção c&lesfiutica a .carta teguíule.
{Br^ii Hist., por Mello Moraes, vol. 3", pag, 109),
— 110 —

d a m o s em c a m a i a houvesse d c avisar a V . S., c o m o


pessoa em c u j a m ã o e s t á o p o d e r a t a l h a r estas cousas,
pelo q u e l h e r e q u e r e m o s p e l a p a r t e d c D e u s e d e S u a
M a g e s t a d e ; d a nossa lhe p e d i m o s u m a e m u i t a s vezes,
p o r m e r c ê h a j a p o r b e m de p o r sua p a r t e a t a l h a r seme-
l h a n t e s d a m n o s q u e se p o d e m seguir, e d o c o n t r a r i o
q u e se n ã o espera, p r o t e s t r . m o s d c nos n ã o ser d a d o e m
c u l p a e de avisar a S u a M a g e s t a d e . ( 1 )
O a d m i n i s t r a d o r ecclesiastico, q u e j á t i n h a che-
g a d o ao excesso d e e x c o m m u n g a r o d e s e m b a r g a d o r ,
e m face d o o f f i c i o , s ó d i z q u e « o q u e fez e s t á m u i t o b e m
f e i t o » e A f f o n s o de A l b u q u e r q u e , s o p h i s m a n d o o o b j e c t o
d a r e c l a m a ç ã o d a c â m a r a , r e s p o n d e q u e e s t á de posse
dos e l e m e n t o s m a t e r i a e s p a r a s u f f o c a r a d e s o r d e m p u -
b l i c a , p e d i n d o a m u n i c i p a l i d a d e q u e lhe a p o n t e o n o m e
dos d e s o r d e i r o s para senem castigados, a q u a l c o m p e t i a
t a m b é m « a c u d i r de sua p a r t e as desordens das pessoas
o u pessoa q u e as c a u s a m . n
Nesse d o d u m e n t o , o d e s e m b a r g a d o r é apontado
como o causador da p e r t u r b a ç ã o publica, pelo pouco
r e s p e i t o q u e prestava á s o r d e n s d a a d m i n i s t r a ç ã o c i v i l e
ecclesiastica.
M a s , n ã o assistia a M a n o e l J a c o m c a m e n o r r e s p o n -
s a b i l i d a d e dessa s i t u a ç ã o , p o r q u e n ã o t i n h a r e c u r s o s
npara d e i x a r á s j u s t i ç a s d e Sua M a g e s t a d e a l i b e r d a d e
q u e ê n e c e s s á r i a á sua a d m i n i s t r a ç ã o » n e m p r i v a r « q u e
o g o v e r n a d o r n e l l a se intrOmettesse c o m t a n t o excesso e
d e s s e r v i ç o de Sua M a g e s t a d e , c o m o V m c s . s a b e m a j u n -
tando-se para isso c o m o a d m i n i s t r a d o r e c c l e s i a s t i c o . »
A estes f a c t o s de j u r i s d i c ç ã o a d m i n i s t r a t i v a , c u j o s
limites n ã o e r a m respeitados, creando s i t u a ç õ e s i n c o n -
\ c n i e n t e s aos interesses p ú b l i c o s , reunia-se a q u e s t ã o
capital e incandescente d o t e m p o — a e m a n c i p a ç ã o d o
i n d i o — p a r a trazer o seu c o n t i n g e n t e á essa a n a r c h i a e
p r e p o t ê n c i a q u e t a n t o sc d e f i n i r a m n o g o v e r n o d c A f -
f o n s o de A l b u q u e r q u e ,

Uj Bravt Hisi,, poi Mello Moraes, vol. 2 , pag. 109.o


— 111 —

E esse c o n t i n g e n t e e r a t r a z i d o pela a h n í m í t r a ç â o
religiosa, de q u e nos o c u p a r e m o s c m u m c i p i t u l o
especial.
D e s d e o c o m e ç o do s é c u l o , a a d m i n i s t r a ç ã o r e l i -
giosa f i c o u a c a r g o d o D r . J o ã o da C o s t a , q.ue p r o c u r o u
i n v a d i r a esphera de a c ç ã o do g o v e r n o c i v i l , « s e fez o
a r t i g o de d a r a g u e r r a e l e v a n t a r b a n d e i r a c o n t r a os i n -
dios» . Isto custou-lhe uma denuncia á R e l a ç ã o da
Ü a h i a , q u e o depoz d a prclasia, seguindo-se-lhe na j u -
r i s d i c ç ã o ecclesiastica M a t h e u s da C o s t a A l b o i m , que
a d m i n i s t r o u a diocese a t é 1 6 2 9 .
D e n a d a s e r v i u a A l b o i m a s e n t e n ç a do T r i b u n a l
contra C o s t a , c u j o p r o g r a m m a p r o c u r o u s e g u i r « c a m i -
m i n h a n d o pelos desvairados c a m i n h o s de seu antecessor
e t o m a n d o o p a r t i d o de se f a : e r o a r b i t r o da l i b e r d a d e
dos indios, d e c i d i n d o as q u e s t õ e s sobre elles m o v i d a s ,
c o m o levantar-se contra elles a b a n d e i r a e fazer lhes
guerra.»
E neste p r o c e d i m e n t o A l b o i m e n c o n t r a v a nos j e -
s u í t a s os m e l h o r e s a u x i l i a r e s , p a r a h v a r avante a Mia
p o l í t i c a , c u j o excesso c h e g o u a e x c o m m u n g a r «a l o J o s
q u e negociassem com os C a r i j ó s , t o m a n d o por f u n d a -
m e n t o , q u e a e l l e t o c a v a t o d o o conhecimento d o facto,
p o r o n d e pudesse r e s u l t a r p e c c a d o . »
N ã o f o r a m p e q u e n a s as d i f f i ~ u l d a d e s levantadas
p o r este p r e l a d o á marcha d o g o v e r n o c i v i l , c o m o mos-
traremos no c a p i t u l o dedicado á a d m i n i s t r a ç ã o religiosa.
C o m o se v ê , estes factos p e r t u r b a r a m a marcha
dos n e g ó c i o s p ú b l i c o s e descontavam o p o v o , q u e an-
ceava p o r u m g o v e r n o p r u d e n t e e r e s p e i t a d o r dos p r i n -
c í p i o s d e o r d e m , c o m o f o r a m os que p r e s i d i r a m a p r i -
m i t i v a phase da c i d a d e c v i e r a m c o m a sua a d m i n i s t r a ç ã o
a t é o fim d o s é c u l o .
A s m e l h o r e s e s p e r a n ç a s f o r a m depositadas e m
Constantino M c n c l á o , q u e no p e r í o d o de sua a d m i n i s -
t r a ç ã o , soube por seus actos, corresponder a esta espe-
ctativa p o p u l a r .
A s s u m i u a a d m i n i s t r a ç ã o a 2 1 d e D e z e m b r o de
1 6 1 3 e os seus p r i m e i r o s c u i d a d o s f o r a m t r a t a r dos
interesse d a c i d a d e e seus h a b i t a n t e s . « A c c o r d o u v a r i a s
posturas s o b r e as sesmarias d o c o n s e l h o , seus a f o r a -
m e n t o s , pastagens d o g a d o , desvios d a a g u a d a C a r i o c a ,
p r e ç o dos v i n h o s d c P a l m a , e s t a b e l e c e n d o q u e sc n ã o
pudesse v e n d e r p o r p r e ç o s u p e r i o r ; o de 6 4 0 r é i s a
medida.»
E v i t o u os m o n o p ó l i o s q u e faziam o s n e g o c i a n t e s
dos g ê n e r o s da t e r r a , em p r e j u í z o dos h a b i t a n t e s ; i m p o z
t a x a ao assucar, r e p u t a n d o o v a l o r d o b r a n c o a 9 0 0 r é i s
e o mascavo a 6 0 0 r é i s , c a t t e n d e n d o a n ã o h a v e r moe-
d a na t e r r a , m a n d o u q u e corresse o assucar c o m o d i n h e í r o
c o n t a d o , c q u e p o r t a l o r e c e b e s s e m os m e r c a d o r e s .a
q u e m sc devesse d i n h e i r o , r e g u l a n d o os p a g a m e n t o e
o . - p r e ç o p o r q u e se d e v i a m t o m a r , i s t o é, a 1 $ os assu-
cares brancos, a {140 os mascavo.? e a 8 2 0 os m a i s . F u i >
d o u a f o r t a l e z a d e Cabo Frio p a r a e v i t a r a e n t r a d a e
c o m m e r c i o dos estrangeiros, q u e c o m os i n d i o s n e g o -
ciavam em p á o brazil. ( 1 )
T e v e p o r fim essa e x p e d i ç ã o d e s a l o j a r os francezes
q u e n ã o se t i n h a m e s q u e c i d o dessa r e g i ã o , o n d e e n t r e •
t i n h a m o c o m m e r c i o de p á o - b r a z i l c o m os goyaiacazes.
M e n c l á o recebera c o m m u n i c a ç â o d o g o v e r n a d o r geral
d a . v i n d a de c i n c o n á o s francezas á q u e l l a costa. C o m os
v o l u n t á r i o s p o r t u g u e z e s c 4 0 0 i n d i o s cia a l d e i a d c Sepe-
liòa, e m p r e h e n d e a e x p e d i ç ã o , q u e é c o r o a d a d o m e l h o r
ê x i t o , e x p u l s a n d o os francezes e f u n d a n d o n a casa de
pedra u m a f o r t a l e z a a q u e d e n o m i n o u de S . I g n a c i o .
Este facto m o t i v o u a c o l o n i s a ç ã o do logar, d a capitania
d o E s p i r i t o S a n t o , q u e a g o r a passava aos d o m í n i o s d a
corôa. C o m e ç o u - s e e n t ã o a p n v o a ç ã o de S Helena,
ficando d o m a d o s os i n d i o s e c o n q u i s t a d o o t e r r i t ó r i o .
E i s a h i j á u m r e s u l t a d o d a c o l o n i s a ç ã o , q u e se t i -
nha iniciado no Rio de Janeiro. A l é m do p o v o a m e n t o

(1) Broxil Hist., por Mello Mordes, vol. 2\ pag, 133.


— 113 —

que se estendia pela capitania, formava-se outro centro


de p o p u l a ç ã o na costa, c u j a s v a n t a g e n s e r a m p r i v a r a
p o u s a d a d o e s t r a n g e i r o em u m a r e g i ã o d o n d e a u f e r i a m
vantagens, c o m o povoar o littoral.
R e c e b i d o p e l o p o v o d a cidade c o m os applausos
p o r t ã o reaes s e r v i ç o s , M e n e l á o a l a r g a a i n d a m a i s as
m e d i d a s e m b e n e f i c i o d o R i o de J a n e i r o . C o r r i g e a
i n s u f f i c i é h c i â d c n u m e r á r i o q u e se fez sentir, c o a s i d e -
r a n d o o assucar c o m o o suecedaneo da m o e d a , c o m o
q u a l se p o d i a fazer os p a g a m e n t o s .
S ó ao seu p r e s t i g i o ceve-se a c â m a r a t e r e m p o s -
sado e m seu c a r g o o o u v i d o r G o n ç a l o H o m e m , do q u a l
e l l a mesma p r i v a r a , no m a i o r excesso de a r b í t r i o e en-
c a b e ç a n d o a v o n t a d e p o p u l a r , m a n i f e s t a m e n t e adversa
á q u e l l a a u t o r i d a d e , p o r suspeita d c j u d a í s m o . P o r d u a s
vezes, o o u v i d o r t i n h a r e c o r r i d o ao g o v e r n a d o r g e r a l e
p o r d u a s vezes a l c a n ç a d o o r d e n s expressas de sua r e p o -
s i ç ã o , as quaes e n t r e t a n t o n ã o f o r a m c u m p r i d a s pela
c â m a r a . F i i i í l m c n t e , f o r a m ellas d i r i g i d a s d i r e c t a m e n t e
a M e n e l á o , que, m a i s pelo v a l o r pessoal, d o q u e pelo
r e s p e i t o ao p r i n c i p i o d c a u t o r i d a d e , a l c a n ç a da c â m a r a
repor o ouvidor.
Por m a i s n e g a t i v o s q u e fossem os resultados das
e x p l o r a ç õ e s das m i n a s , t o d a v i a a m e t r ó p o l e insistia
nesse p r o g r a m m a .
K m 1 6 1 3 ( 4 de N o v e m b r o ) , f o i d e s p a c h a d o S a l -
v a d o r C o r r ê a c o m o a d m i n i s t r a d o r g e r a l das tres c a p i -
t a n i a s d o s u l , com o fim especial de c o n t i n u a r as pes-
quizas d c D . F r a n c i s c o de Souza, p o r ser pessoa « d e
m u i t a e x p e r i ê n c i a q u e t i n h a das cousas do l i r a z i l e pelas
m u i t a s p r o v a s d c sua v e r d a d e e zelo p e l o s e r v i ç o » ,
d e i x a n d o á « s u a p r u d ê n c i a o m o d o c o m o nisto d e v i a
proceder.»
C o m o se v ê , este r a m o de s e r v i ç o p u b l i c o j á m e -
r e c i a d a m e t r ó p o l e c u i d a d o s especiaes. T i n h a u m a
o r g a n i s a ç ã o a p a r t e , u m pessoal p r ó p r i o , independente
dos g o v e r n o s locaes da c o l ô n i a . .
— 11-1 —

E este m o v i m e n t o , á c c e n t u ando-se no s u l , c o n t r i -
b u i u poderosamente p a r a o m a i o r d e s e n v o l v i m e n t o e
proeminencia que a l c a n ç o u o R i o dc Janeiro c m r e l a ç ã o
a B a h i a , deslocando-se para a h i a sede d o g o v e r n o
c o l o n i a l , c o m o p a r a as e x p l o r a ç õ e s d o i n t e r i o r , a a b e r -
t u r a de suas vias de c o m m u n i c a ç õ e s e pois o seu po-
voamento.
L o g o q u e c h e g o u ao R i o de Janeiro, n o m e o u , p o r
p r o v i s ã o d e 2 0 d c J u l h o d c 1 6 1 õ , a seu filho M a r t i n
C o r r ê a a d m i n i s t r a d o r das m i n a s de S . Paulo, c m c u j a
a d m i n i s t r a ç ã o p e r m a n e c e u a t é 1 6 2 1 , sendo s u b s t i t u í d o
o s e u í r m ã o G o n ç a l o Corre.» de S á .
Por esse t e m p o , a m e t r ó p o l e r e f o r m o u o s e r v i ç o
das m i n a s p o r conselhos de S a l v a d o r , c r e a n d o o r e g i m e n
l i v r e , -em b e n e f i c i o d e q u e m quizesse e x p l o r a i as, so-
mente c o m o pagamento d o quinto do o u r o . A r e f o r m a
a c t i v o u as e x p l o r a ç õ e s , d e u - l h e s m a i o r e s p r o p o r ç õ e s e
c o n t r i b u i u p a r a s e r e m a l g u m a s m i n a s d e s c o b e r t a s no
t e r r i t ó r i o pelos p a u l i s t a s .
T e r m i n a n d o M c n e l á o o t e m p o l e g a l de sua a d m i -
n i s t r a ç ã o , f o i s u b s t i t u í d o por R u y V a z P i n t o , n o m e a d o
p o r p r o v i s ã o de 13 d c J u l h o d e 1 6 1 6 . T o m o u posse a
1 9 d c J u n h o de 1 6 1 7 .
A administração publica j á tendia a desccntralísar-
se, pela a m p l i t u d e das f u n e ç õ e s da m u n i c i p a l i d a d e c o
z e l o c o m q u e e l l a p r o c u r a v a exercei-as, pela s e p a r a ç ã o
dos s e r v i ç o s de g u e r r a , q u e a g o r a e r a m i n v e s t i d o s e m
M a r t i n de S á , p o r a l v a r á d e 2 2 de F e v e r e i r o d e 1 6 1 8 ,
c o m a s u p e r i n t e n d ê n c i a dos g a d o s e i n d i o s d e t o d a s as
aldeias s i t u a d a s na costa.
M u i t o cedo o governador abriu conílicto com a
c â m a r a q u e , e m face d o s a c t o s d e v i o l ê n c i a d e V a z
P i n t o , representa ao g o v e r n a d o r g e r a l c o n t r a e l l e , o
q u a l , e m p r o v i s ã o d e 17 de J u l h o de 1 6 1 9 , i n t i m a - o
« p a r a q u e se a b s t e n h a d a q u c l l e s p u n i v e i s e x c e s s o s » .
A a d v e r t ê n c i a da a u t o r i d a d e m a i s s e r v i u p a r a
incendiar a p a i x ã o a u t o r i t á r i a do g o v e r n a d o r local, do
q u e trazel-o ao c a m i n h o da p r u d c n c i a e d a l e i . E a p r i -
m e i r a victima foi o presidente d o governo municipal, o
j u i z o r d i n á r i o d a c i d a d e , preso na cadeia p u b l i c a , d e -
p o s t o d c sua v a r a e c o n d e m n a d o a d e g r e d o p a r a o M a -
ranhão.
A C a m a r a . n o i n t u i t o de r e s i s t i r á v i o l ê n c i a c t o -
m a n d o c o m o base l e g a l d o seu p r o c e d i m e n t o a i n c o m -
p e t ê n c i a p a r a c o n d e m n a r q u e m q u e r q u e fosse « s e n ã o
c m o c e a s i ã o d c g u e r r a e c o m o i n i m i g o a v i s t a » , re-
solve q u e fosse s o l t o o j u i z , c o m o f o i , e r e p o s t o e m suas
funeções.
E s t e a c t o m o t i v a maiores v i o l ê n c i a s , c o m a n o v a
p r i s ã o d o j u i z , c o m s e n t i n e l l a a vista c v i g i a d o p o r g u a r -
das, r e c r u t a d o s n a r u a , sob penas p e c u n i á r i a s .
D e b a t d c a C â m a r a convida-o a c o m p a r e c e r á s suas
s e s s õ e s , r e s p o n d e n d o q u e a estava oecupado n o s e r v i ç o
de e l - r e i , c q u e a l é m disso n â o c o n h e c i a aos omeiaes
d a i n t i m a ç ã o d o a c c o r d ã o , q u e t o m a r a m por officiaes
d a C â m a r a , mas s i m p o r h o m e n s l e v a n t a d o s e r e b e l d e s
c o n t r a o s e r v i ç o d o r e i , e d e s o b e d i e n t e s á s suas reaes
d e t e r m i n a ç õ e s , e á s ordens delle capitão governador, e
q u e h a v i a o u t r o s i m p o r levantados t o d o s os h o m e n s das
i l h a s , e p a r a q u e c o m o taes fossem h a v i d o s , m a n d a v a
deitar p r e g õ e s pela cidade. ( 1 ) .
Estes c o n f l i c t o s n ã o se r e s o l v i a m s e g u n d o os p r i n -
c í p i o s d a l e i c d a analyse m i n u c i o s a das c o m p e t ê n c i a s .
A s o l u ç ã o e r a a f a v o r d o p o d e r q u e d i s p u n h a dos ele-
mentos materiaes.
U m s e r v i ç o publico tomava-se palpitante. E r a o
a b a s t e c i m e n t o de á g u a a c i d a d e . Sua p o p u l a ç ã o trazia-a
de L a r a n g e i r a s .
A l o n g i t u d e c a d i f f i c u i d a de d o transito, por vallas
e p â n t a n o s , t o r n a v a m p e s a d o aos m o r a d o r e s o a b a s t e -
c i m e n t o d'aoua.
P e l a p r i m e i r a vez o g o v e r n o , p o r u m a p r o v i s ã o de
2 3 de D e z e m b r o de 1 6 1 7 , l a n ç a um i m p o s t o sobre os
v i n h o s , c o m a a p p l i c a ç ã o especial de fazer esse s e r v i ç o .

(1) ? Brazil Hist.», por Mello Moraes, vol. 2 , pag. 173.


a
116 —

K ' a p r i m e i r a t e n t a t i v a neste s e n t i d o e q u e s ó u m
s é c u l o d e p o i s v e í u acabar-se c o m a c o n s t r u c ç ã o dos
arcos c h a m a d o s d a C a r i o c a .
O u t r o i m p o s t o f o i t a m b é m l a n ç a d o , p o r esse
t e m p o , por p r o v i s ã o de 2 6 de O u t u b r o d e 1 6 1 9 — u m a
finta d e 1 0 0 $ , p a r a c o m o seu r e s u l t a d o , proceder-se o
c o n c e r t o d a cadeia, pois as f u g a s d c presos e r a m c o n t i -
nuas e repetidas.
E m suas d e l i b e r a ç õ e s , s o b r e a a d m i n i s t r a ç ã o d a
cidade, a C â m a r a o b r i g o u aos a r m a d o r e s das baleias a
f a z e r e m m u i t o d i s t a n t e d a c i d a d e o sen s e r v i ç o de t r i p a -
g e m , e n ã o p e r t o c o m o sc fazia, d a n d o l o g a r a i n f e c ç ã o
d o a r e a m o l é s t i a s m a l i g n a s de q u e e s t a v a m s e n d o
a c o m m e t t i d o s o s h a b i t a n t e s . O b r i g o u os p h a r m a c e u t i c o s
a t e r e m os m e d i c a m e n t o s precisos,e p r o c e d e u u m a l i g e i r a
d r e n a g e m n o t e r r e n o , p a r a p r i v a r a e s t a g n a ç ã o das
águas.
D e l i b e r o u m a n d a r v i r d a m e t r ó p o l e 1 0 0 ^ 0 0 0 de
p a t a ç õ e s d c 4 0 reis cada u m , p e l a i n s u f f i c i e n c i a d e
n u m e r á r i o que existia, accordando que houvessem
n e g r o s d e s t i n a d o s a c a r r e g a r e m c a i x õ e s c pipas d e n a -
vios p a r a seus d e p ó s i t o s , e n t r e g a n d o - s c esse s e r v i ç o a
Duarte Vaz.
E s t a r e s o l u ç ã o n ã o d e i x o u de e x e r c e r s u a i n f l u e n -
cia n o a u g m e n l o d a i m p o r t a ç ã o d c negros, q u e d a h i
c m d i a n t e se fez.
E m 16*20 e s t a b e l e c e u d u a s posturas, o r d e n a n d o
q u e os p e s c a d o r e s n ã o transitassem, d e s d e a p o n t a d o
b a l u a r t e a t é L i r i p c , ( 1 ) n e m fizessem nesta p r a i a p o n t o
d c d e s e m b a r q u e e q u e as pessoas p o s s u í d a s de t e r r e n o
n a v á r z e a a t é N o s s a S e n h o r a S e n h o r a da A j u d a , n o
p r a z o de l õ dias, r o ç a s s e - o .
P r o h i b i u o uso das a r m a s pelos escravos e q u e as
casas t é r r e a s sitas n o c i r c u i t o da c i d a d e p a g a s s e m f o r o
ao Conselho;, a i n d a q u e os t í t u l o s de sesmarias as i s e n -
tassem d o f ô r o .

(1) Muno d.i Viiwá,

i
— 117 —

E s t a c u m a das lüaís i m p o r t a n t e s m e d i d a s fi-


nanceiras d o tempo, como mostraremos, quando e s t u -
darmos o p a t r i m ô n i o da m u n i c i p d i d a d c .
C r e o u a q u a r e n t e n a e n W i l l e g a i g n o n , p i r a o s na-
v i o s suspeitos, p r o l n b i n d o o d e s e m b a r q u e de pessoas
atacadas de v a r í o l a , D a h i chamar-se esse l u g a r o D e -
g r e d o das b e x i g a s ,
C o m o o b r a s c o n c l u í d a s , a custa d o e r á r i o m u n i c i -
p a l , p o d e m o s citar a c a l ç a d a da Sé" e d e sua p r a ç a e
u m a p o n t e d e p e J r a e cal ao p é d o m o r r o d c N o s s a Se-
nhora d o C a r m o .
E i s os s e r v i ç o s d a M u n i c i p a l i d a d e neste t r i e n n i o .
A V a z P i n t o suecedeu F r a n c i s c o F a j a r d o , à 2 0 de
J u n h o de 1 6 2 0 , n o m e a d o p o r p r o v i s ã o de 1 d c O u t u -
b r o de 1 6 1 6 .
M u i t o c o n t r i b u i u p a r a o seu b o m g o v e r n o a m e -
d i d a m a n d a d a e x e c u t a r , p o r a l v a r á de 2 0 dc J u n h o de
1 6 2 0 , e m q u e a m e t r ó p o l e p e r m i t t i o « q u e se p o d i a d a r
nesta c i d a d e l i v r a m e n t o a t o d o s os c r i m i n o s o s , a excep-
ç ã o dos d e pena u l t i m a , s e m d e p e n d ê n c i a de i r e m o s
m o r a d o r e s c o r r e r seus l i v r a m e n t o s na c a p i t a i n o Es-
tado. »
E s s a a m p l i t u d e d a c o m p e t ê n c i a j u d i c i a r i a das a u -
toridades locaes, f o i de alta i m p o r t â n c i a á o r d e m p u -
blica .
Manteve o imposto dc 5^000 j á existente sobre
entrada c sabida de navios, n ã o obstante as r e c l a m a -
ç õ e s d a Cf. m a r a, c.ue apontava esse t r i b u t o c o m o a
causa d a d i m i n u i ç ã o d o c o m m e r c i o q u e e n t ã o se fazia
sentir.
O governo municipal» sempre solicito e m curar
dos interesses da c i d a d e , baixou v a r i a s posturas apara
q u e se n ã o v e n d e s s e m as mercadorias d a t e r r a aos
mercadores ames de ifO d i a s ; q u e as pessoas q u e tives-
sem g a d o nas t e r r a s d o conselho pagassem a h e r v a g e m ;
q u e os vinhos bons das C a n a r u s n ã o tivessem maior
p r e ç o q u e o de 8 0 0 reis., e os i n f e r i o r e s a 7 0 0 r é i s ; os
b o n s vinhos de M a d e i r a a 6 4 0 r é i s e os inferiores a 5 0 0 .
— 118 —

r é i s ; os vinhos b o n s de S . J o r g e a p e s o e m e i o c os
outros a '100 r é i s ; q u e o assucar corresse e m p a g a m e n t o
das fazendas a d i n h e i r o , r e p u t a d o o assucar b r a n c o a
900 reis e os mascaves a 5 5 0 r é i s , e q u e sendo v e n d i d o
a d i n h e i r o o u p a r a p a g a m e n t o das d i v i d a s , se tomasse o
assucar b r a n c o a 8 0 0 reis, os masca vos a 4 Õ 0 r é i s , e as
p a n ç Ü a S de m e l a p a g a m e n t o a 2 4 0 r é i s c a d i n h e i r o a
2 0 0 r é i s e q u e os m e r c a d o r e s r e c e b e s s e m e m assucar
o p a g a m e n t o dc t o d o s o ; g ê n e r o s q u e v e n d e s s e m , s e m
a isso p o r e m a mais leve d u v i d a . ( 1 )
Prohibiu a e x p o r t a ç ã o de farinha para A n g o l a ,
sem a p r é v i a f i a n ç a d o í e u p r o d u e t o r i m p o r t a r fazenda,
s e n d o isto s o m e n t e p e r m i t t i d o aos i m p o r t a d o r e s d e
negros.
O b r i g o u no prazo de 15 dias, aos m o r a d o r e s d e r r u -
b a r e m e r o ç a r e m os t e r r e n o s d e f r o n t e de S. F r a n c i s c o .
Eis a a d m i n i s t r a ç ã o dc F a j a r d o .

I
SUMMAÍtlO,—Governa ,le Marli* de Sã e seus siueessores. Medidas admi-
nistrativas e potitieas da Câmara. Caba Fria e Campos
Altrieios entre autoridades.

A invasão hollandczana Bahia em 1624 e cm Per-


nambuco em 1630 creou para a colônia uma s i t u a ç ã o
s e r i a m e n t e d i f f i c i l , o b r i g a n d o os g o v e r n o s das c a p i t a -
nias a u m a p o l í t i c a de d e f e s a m i l i t a r e ao g o v e r n o d a
m e t r ó p o l e a t o m a r os c u i d a d o s n a escolha dos seus
g o v e r n a d o r e s , b u s c a n d o os h o m e n s d e s e r v i ç o s e d e
pratica administrativa j á revelados em e m e r g ê n c i a s
i d ê n t i c a s a q u e se ia a b r i r .
D a h i a escolha cie M a r t i n de S á para g o v e r n a d o r
d a c a p i t a n i a . Seus prececentes e a t r a d i ç ã o dos s e u s
t r o n c o s a p o n t a r a m - n o c o m o o m a i s capaz de s e u s c o e v o s
p a r a p r e s i d i r os d e s t i n o s d o s u l .
T o m o u posse d o g o v e r n o a 1 1 de J u n h o de 1 6 2 3 .

(I) «Brazil Hist.» por Mello Moraes, vol. 2." pag. 175.
— 11!»

E* p r e c i s o n o t a r q u e M a r t i n de S á e r a a d m i n i s t r a
d o r das m i n a s de S . Paulo d e s d e 1 6 1 5 e q u e p o r p r o -
v i s ã o d e 2 2 de F e v e r e i r o d c 1 6 1 8 f o i c n o r r e g a d o dos
n e g ó c i o s d e g u e r r a , s u p e r i n t e n d e n d o todas as aldeias.
A s i t u a ç ã o g e r . d d a c o l ô n i a o b r i g o u - o a iniciar sua
a d m i n i s t r a ç ã o , por m e d i d a s m i l i t a r e s d e defeza d a c i -
d a d e . C o n s t r u i u os f o r t e s de S a n t a Cruz ( l ) , o de S ã o
F h i a g o e o de b . G o n ç a l o , a l é m do d c S . S e b a s t i ã o
q u e j á t i n h a c o n s t r u í d o , n o m e a n d o as respectivas guar-
n i ç õ e s . ( 2 ) C h í . m o u á s armas, os p o v o s da i l h a . D i v i -
d i u a c i d a d e e m d i s t r i c t o militares, e n t r e g a n d o o com-
m a n d o delles aos o f f i c i á e s d c m a i s b r a v u r a e c o n f i a n ç a .
N o t r a b a l h o de f o r t i f i c a ç ã o , c u j o p l a n o t r a ç o u ,
t e v e a i d é a d c l e v a n t a r u m a f o r t a l e z a na L a g e , o b r a
q u e s ó m a i s t a r d e r e a l i s o u , e m vista.da i n s u f l i c i c n c i a de
recursos d c q u e sc ressentia a a d m i n i s t r a ç ã o .
N ã o o b s t a n t e as d i f f i c u l d a d e ; q u e o a r r o d e a v a m ,
M a r t i n de S á t e v e de prestar soecorros a Bahia, na i n -
v a s ã o hollandeza de 1 6 2 4 , m a n d a n d o seu filho S a l v a d o r
C o r t e i a d c . S á c Bencvides aquella capitania, com 200
h o m e n s , o q u a l , de passagem p e l o E s p i r i t o Santo, m e t -
t e u a p i q u e o i t o vasos e bateu as t o r ç a s inimigas, j á
assenhoreadas t i a t e r r a . ( Ü )
E d e p o i s d e i n s t i t u i r suecessores ( 4 ) , escolheu a
fortaleza d e Santa Cruz, corno seu posto de combate,
c o l l o c a n d o - a c m m e l h o r e s c o n d i ç õ e s d c defeza. D ahi
escreveu á C â m a r a a n o t á v e l c a r t a de 5 N o v e m b r o , e m
q u e , a l é m da sinceridade e n a t u r a l i d a d e c o m q u e

[1) Construído onde esti hoje a Ijircja dc Sanu Cnir. Por isso è preciso
núo cnntundil-o com a actunl forlal-za d« S^in.a Cim.
(21 Foi cm virtude-<ie lêO juSUS consi^er-i^n:* nomeado polo novo gover
na dor capitão do Bairro da Mi>n iioi\üa e ÍVOÍSS Senhora da Ainda Matheu* dc
Monr.i, BWim rouio paia a Cavalheiro no Forte da Candelária a Maíbcus dc
Moura 1- • •. ; pari o de Sao ThiaJío a Alvarolle Matlo* e M-inorl Peixoto.
bem como outros para outros pon*.o« que pãrecerííiO suflieietiies, ficando a tiula.lc
inexpugnável, uma vez que •• *eii fogo Cruzasse hem dirigido sohre o inimigo.
^S. li*bòa A111 do Rio d; Janeira vol. 2.' pag. 7).
(3l *Memorias>, Pííarro vol. 2' pai;. 251.
(4) A suecessão rccauiria cm seu irmãe, o capitão Oouçalo Correia de S;i e
na falta seu üllio Salvador Correia, de Sü r BeiicviJcs, ajudado pelo íidminUtra-
dor eclesiástico.
— 120 —

folia, salienta a d i f f i ç u l d a d e d o m o m e n t o , p a r a d i s p u t a r
o fiel c u m p r i m e n t o d o d e v e r , ( l )
A s i t u a ç ã o dos h a b i t a n t e s d a c i d a d e e s t a v a u m
p o u c o p e r t u r b a d a , n ã o *ó p e l a p e r s p e c t i v a d o p e r i g o
externo, c o m o p e l o c o n f l i c t ò a b e r t o e n t r e a C â m a r a , o
d e s e m b a r g a d o r J o ã o de Souza Ç a r d e n a s , d e l e g a d o d o
governa d o r g e r a l D i o g o de M e n d o n ç a F u r t a d o , p a r a
syndicar dos g o v e r n a d o r e s e o u v i d o r e s .
A i n d a f o i M a r t i n de S a q u e m p r i v o u m a i o r e s p r o -
p o r ç õ e s desse c o n f l i c t ò c u j o r e s u l t a d o seria a cstcrilisa-
ç ã o do governo municipal de triennio que entretanto
foi util á cidade.
O r d e n o u a p e r s e g u i ç ã o dos n e g r o s , q u e j á se r e -
u n i a m em q u i l o m b o s p a r a o r o u b o e o c r i m e n o r e c ô n -
cavo da c i d a d e ; p r o h i b i u as pescarias na b a h i a c o m
tresmalhes, r ê d e s o u t a r t r . r a n h a s ; t o m o u as m a i s e n é r -
gicas p r o v i d e n c i a s d è isolamento e m V i l l e g a i g n o n dos
v a r i o l o s o s ; a j u s t o u a c o n d u c ç ã o da agita da C a r i o c a
com o a f c h i t e c t o D o m i n g o s d a R o c h a , a t e o c a m p o d c
S a n t o A n t ô n i o (hoje l a r g o da C a r i o c a ) , n o prazo p r e f i -
x a d o de q u a t r o mezes, p o r ÍIOÍJOOO.
A s p r o v i d e n c i a s t o m a d a s no t r i e n n i o a n t e r i o r ,
a p p K ç à n d o - s e a este s e r v i ç o o t r i b u t o s o b r e os v i n h o s ,
ru.da t i n h a m p r o d u z i d o . C a d a vez m a i s t o r n a v a - s e i n -

(1J Nào podemos deixar de trasladar aqú este r.otavél documeiilo — Bem
farão que Vmcs. viciam c<i lambem a £üiar deste uabalbo. e -ssistireni alguns
«lias c serem testemunhai (Se ttiinlía assíd.uidãflc e do uuballio dc minlia pessóa,
e gasto meu c da fabrica quê lr*go mi: lia ncstai abfaS, para que mc nào quei-
río quando íór loapo rmurerer 3 vurd^de, pcís mc sinto Uío pouco venturoso
•lesta cidade ganhada aos iui ulgos e povoada por meu pai, c por meu pai, e por
parente» meus susiciiúdá, e póí mim qi:e cm occaslio nctiüuma f.ilteí do minha
ubrigaçáo. mostrando em as vccasiôt* que se oflcrcccram o lugar que devia a
quem era c o lionco donde t tua nu, na>cido aqui c cruido. que em lO'>us Vtues.
Ou por nina via, ou por outra, como honracLs que são, acudindoflõque devem
assim por suas pessoas, como p;lo dessas senhoras com quem Vmcs. são
casado*, e por seus parentes, acudindo a todos cs:es rcquí.-iír>íi, quando cm mim
houvera fatiado alguma çousu, corria a Vmcs, a obrigação de me fazerem a
mercê que em iodas as parles por onde andei acho, pois ncllas sou mais aca-
tado, mais atuado, mais cs'.:ma do du que aqui o sóú com a* merces que Sua Ma-
gestade nn- fáíj aurihuo ao provérbio dc «ninguém *• prnphela cm pátria Sua»,pois
poderei cuidar q'jc será inveja? Xan. nào pode haver; per serem Vmcs. quem
sâb e pela» obriga,òcs jniv.a rclcrid.is. e sobretudo, nuus sonàdres e amigos.
O mandar ;iièm de pedir a Vmcs. nonticar. siesiétu assistir COUIÍJÍO, estimarei
que venha" Vmcs., porque certo ha que me obrigou a isso; entre Vmcs. iui,
guc cada mu o que dUse, porque à ytsia e presença, e apalpadu o trabalho-
d i s p e n s á v e l fazer o s e r v i ç o d e abastecimento de a g u a .
E esse c o n t r a c t o ê o c o m e ç o da g r a n d e o b r a c o n c l u í d a
u m s é c u l o depois, d o a r c h e d u e t o da C a r i o c a .
O b r i g o u os m o r a d o r e s a c a l ç a r e m as testadas d c
suas casas, c o m cinco p a l m o s d c l a r g u r a e c m t o d a a
e x t e n s ã o dêilasi
M o d i f i c o u a t a x a d o assucar c o m o m o e d a , v a l e n d o
os assucares b r a n c o s 8 0 0 r é i s , p o r a r r o b a , os mascavos
5 0 0 l é i s e á s panei Ias de m e l 2 0 0 r é i s . E s s e a u g m e n t o
ligava-se á v a l o r i z a ç ã o q u e t i n h a a l c a n ç a d o o assucar
nos m e r c a d o s da E u r o p a , e m c o n s e q ü ê n c i a da g u e r r a
h o l l a n d e z a na Bahia e P e r n a m b u c o , r e d u z i n d o , consi-
d e r a v e l m e n t e sua p r o d u c ç ã o .
E s c o l h e u u m l o g a r , na p r a i a de S . Bento, para a
crena das e m b a r c a ç õ e s , seus reparos e c o n c e i t o s ; fixou
o peso d o p ã o e m 16 o n ç a s .
L e v a n d o M a r t i n de S á ao c o n h e c i m e n t o d a C a -
m a r r a p r o v i s ã o d o g o v e r n a d o r g e r a l creando o i m p o s t o
de 8 0 r é i s sobre c a i x a de assucar, e l l a r e s o l v e u , no uso
d e d i r e i t o de p e t i ç ã o , p o n d e r a r as i n c o n v e n i ê n c i a s desse
t r i b u t o e sua i n o p p o n u n i d a d e , « p o i s se d e v i a a t t e n d e r
para a p o v o a ç à o e os poucos annos de sua f u n d a ç ã o ,
c o m o p a r a a distancia e m q u e a ella v i n h a m pois esses
mesmos q u e a c u d i a m , e r a e m r a z ã o da l i b e r d a d e q u e
gosava este p o r n ã o pagar a i m p o s i ç ã o c t r i b u t o s , q u e

que no pessoalmente alcance o que ha e o que sc enganou, porque ha dc haver


mais do que eu digo que faço. porque, scrhorcs meus. eu rom Sua Magestade
e us senhores do seu conselho, assim cm Castclla, tótno tttà foNugar sou conhe-
cido, e nào hei mister serVtço.í dc novo para me abonar, e a que me convida a
estar nesta pedra ttMÍ$Ieil>B, ea occasiáo ; : é estar aguardando por horas
ao inimigo que â portatantos,vír que estou actualmente oxcupado nesto cargo,
ver a opinião qun %&e mim se tem, tratar dc a sustentar, sobretudo, ser esta
cidade dessas ganhada;, c r.áu é bem que cm tempo nenlium se perca, como
confiei em o Senbor. c cm o mariyr S. Sebíâlfjo que nos ha de dar victoria,
com o bum animo de todos Vnic*.. que na oceasíao sei acodirao ao que <evem
e nao faltarão ; porém faço IrniWanfa a Vmcs. que ajudem a meu irmão, c
que em meu lugar ahi deixei tratando da ioriiii:aç4o drsu cidade, do poutO
que faltava e da conservação co ícitu. emqunnto <u trado do que entie mflos
trago, que mc dizem acedem Iodos muito mal, c as trincheiras se desmancham,
e os lüipdes se nào aeabão, e que nas companhias falta gente, c que se açode
muito mal, e eu náo posso ncodir lá por tratar do mais necessário e importante.
Vmcs. de sua parte, lhes peco, que por serviço de Ueus e dc Sua M^ges.
tade, dem calor ao castigo das pessoas que não açodem ao que devem com meu
— 122 —

:,e c o s t u m a v a pagar na B a h i a e P e r n a m b u c o ; q u e de-


m a i s este p o v o recusava j á acceitar a i m p o s i ç ã o d a a g u a
da C a r i o c a , n i o o b s t a n t e a d i s t a n c i a de p e r t o de u m a
l é g u a q u e a a g u a d i s t a v a da c i d a d e , do m u i t o t r a b a l h o
q u e h a v i a p a r a se i r buscar, c a m o r t a n d a d e q u e p r o -
v i n h a ao p o v o pela f a l t a d e l i a , q u e r e n d o antes s u j e i -
tarem-sc a passar p o r t a l m i s é r i a c necessidade, d o q u e
a exporem-se pela o c e a s i ã o da i m p o s i ç ã o , e lhes f a l t a -
r e m os navios e o c o m m e r c i o , d e c u j a f a l t a p r o v i r i a t o d a
a perda da.cidade e a t é d o real p a t r i m ô n i o : e s c t ã o
j u s t a e n e c e s s á r i a causa d a q u c l l a i m p o s i ç ã o a n ã o sof-
í r e r o p o v o , c o m o a c q u i e s c e r i a a est o u t r a c o m t a n t o
damno seu?» ( 1 )
E m s e s s ã o de c o r r e c ç ã o da c o m a r c a , c o m o des-
embargador Cardena, outras medidas, n à o menos i m -
p o r t a n t e s , f o r a m tomadas. R e s t r i n g i u o d i r e i t o de snf-
l i i g i o p a r a a e l e i ç ã o dos camaristas, s ó p o d e n d o v o t a r
o Í q u e na c i d a d e t i v e s s e m casa e d o m i c i l i o p r ó p r i o e
n ã o os q u e v i v e s s e m d o s e r t ã o ; n à o v o t a r i a m l a m b e m
os m e s t r e s de assucar, f e i t o r e s , e pessoas q u e v i v e m de
soldada, n e m os r e g u l a r e s , t a v e r n e i r o s e v e n d e i r o s ,
« p o r q u e e r a m interessados na b e n e v o l ê n c i a dos o f f i -
ciaes da C â m a r a . »
O r d e n o u a c o n s t r u c ç ã o de u m t r a p i c h e p a r a d e p o -
s-ito do assucar, c o m o p a g a m e n t o de 4 0 r é i s p o r c a i x a .

(1) «Rrazil Hist.. vol. 2." pag. 221.

irmão, lembrando que.estamus cspeiando ao inimigo, e que nflo seja parte sua
lardança, poji pode entrar cada hora para haver descuido, antes hoie havemos
de estar nuis a ponto, pois nus tarda aviso que i signal de que o inimigo n â o

e levantado, e eu sou uma pessoa soe não posso estar fazendo esta fniiaíezr, c
deixar e.ta fabnen que entre mãos trago, para aeodir á cidade, a qual deixei iá
eulncheuaua . W** "
c
defensar quando para cá vim. por ver o quo
m o r d c m

importava a minhfl pessoa estar presente. *


^,° *'". v i d o r
~ repartição do sul mc escreveu uma carta, em que
v
i * ? " ' , * " *™"** provisões do desembargador' joão de Sou» dc
c

feuii a \mcK,comu opitftof governador que era desta cidade, que Vmcs. vis-.
. « Í ^ J ! ^ " J ^ l - V 2& " > P " 4 « aPO"U a ordenação do
X v d c M n à o r

.««^IV1™K" ' ° P° e
S ""lq--ic Sua Mafc-citadc lhe dá, « m i m
S d O T W e rc imei

, desembargadores, que vierem pnr corroiçâó, nào esiarcm mais


\wl , "*-*« " 1° P " « J«
dcv
armo que aqui esta, « para que
c

S ^ ! ™ " a" *k> ^ At


' « Ç ^ éessa. e q„e cl-rei seja
W m i n h a

«rrido, e nào se exceda o modo, que ao mesmo desembargador deve estar ísío

>
— 123 —

P r o h i b i u a v e n d a e m g r c s s p de m e r c a d o r i a s i m p o r t a •
das ao p o v o , r e n o v o u os a f o r a m e n t o s n o prazo d e t r e s
mezes.
Eis as m e d i d a s m u n i c i p a e s n o t r i e n n i o .
A s i t u a ç ã o n ã o p e r i n i t t i a a e s t a b i l i d a d e dos chefes
d a a d m i n i s t r a ç ã o , c o m o M a r t i n dc S á , q u e s ó c u i d a v a
do s e r v i ç o p u b l i c o .
E m v i s t a d i s t o , p o r c a r t a r e g i a d c 2 7 de Junho d e
1626 f o i elle reconduzido.
U m m o v i m e n t o de e x p l o r a ç ã o c o m m e r c i a l se fazia
s e n t i r , c o m g r a n d e p r e j u í z o dos interesses p ú b l i c o s . U m
g r u p o de negociantes, a q u e c h a m a v a m alravessadores^
c o m p r a v a m c m g r o s s o as m e r c a d o r i a s q u e e r a m i m p o i -
tadas, p a r a t e r o p r i v i l e g i o de s ó m e n t e as vender, p e l o
p r e ç o q u e correspondesse ao seu e g o í s m o . A c â m a r a
r e s o l v e u e n t ã o f e c h a r c p r e g a r as p o r t a s das casas c o m -
m e i c í a e s d o s atravessadores, p o r a c t o d e 3 de O u t u b r o
d e 1 6 2 6 , dando-lhes u m prazo d e u m n u z p a r a retira-
ram-se d a c i d a d e .
R e g u l o u t a m b e m o f r e t e dos navios, e n t r e g u e a t é
e n t ã o ao a r b í t r i o e v o n t a d e dos seus donos, b a i x a n d o u n i
r e g u l a m e n t o p e l o q u a l — « n o s n a v i o s de 8 a 1 0 p e ç a s
para c i m a n ã o p o d i a passar o f r e t e de 1 6 $ p o r t o n e l a d . i
e m e i o t o s t ã o d c a v a r i a , e a 1 2 $ a t o n e l a d a para A n g o l a ,
c u j o r e g u l a m e n t o se p r a t i c a r i a d e b a i x o d a pena d c 10O
cruzados, e de s e r e m castigados ao a r b í t r i o d a c â m a r a
l o g o q u e o c o n t r a r i o praticassem, em f r a u d e e c o n t r a a
d i s p o s i ç ã o desta p o s t u r a ; e q u e os navios q u e n ã o

nem, Vmcs. com as provisões unias c outras, cm câmara, mio respoadão perante
as parte-,, que o que cu já pedi a Vmcs. dc uuira vez, e sc nao vao com ellas
aos Sri. religiosos, que uào devem d" ser por nenhumJ das partes, e com elles
tratem o que as provisões dão lugar, mandando lambem chamar os letrados
cpie houver de fóra r atjiuuia* pss&oás que o estendi", que sem •-• i • i " dem os
seus parcccies, porque dista st serve Il;u? c el-rei. e não de deaumocs, de bandos
do particulares de cada um de nós representando a Vmcs., e notificando-lhcs
por esta minha assignada, que o e-i-rivão da câmara buUrà em livro para a
iodo o tempo constar de como pedi e peço a Vmcs. i» contendo iiella, paia
quietaçao desle povu e Saber cada um da jurisdição de que ha de usar, e de
como a cidade está aterrada com estas disseuçoes, com uccasiâo presente do
inimigos qliem se deve ter respeito, além do servi.o deel-rel.
a

(inarde Deus a Vmcs. Fortaleza de Santa-Ciux, a 5 de Novernlpo de


1624. De, Vmcs. servidor — Martin de Sá. [Br^iJ Hist. vol. 2" pg. 197).

•\
— 124 —

viessem f r e t a d o s d e P o r t u g a l s e r i a m c o n s t r a n g i d o s os
mestres delles a d a r e m a m e t a d e da s u a c a r g a p a r a se
repartir pelos m o r a d o r e s d a c a p i t a n i a . » ( 1 )
E ' preciso n ã o e n c a r a r estas m e d i d a s e m f.icc
dos p r i n c i p i e s m o d e r n o s da e c o n o m i a p o l í t i c a e s i m
dos daquelles t e m p o s , e m u m a s i t u a ç ã o p r e c á r i a d e
g u e r r a , em q u e todas as a m b i ç õ e s se e n c a n d e s c i a m .
O c l e r o e os poderosos d e e n t ã o n ã o p o d i a m s e r
i n d i f f e r e n t e s ao m o d o i n d e p e n d e n t e c justo c o m q u e o
o u v i d o r Paulo P e r e i r a c u m p r i a os seus d e v e r e s . C o m e -
ç a r a m a representar c o n t r a e l l e , p e r a n t e o g o v e r n a d o r
g e r a l , q u e . a p r o p ó s i t o d c excesso d e j u r i s d i c ç ã o e o u t r o s
p o n t o s q u e f o r a m a l l e g a d o s , fez-lhe g r a v e s i n e u l p a ç õ e s .
N o g o v e r n o e r e p a r t i ç ã o d o s u l , dizia P a u l o ' P e r e i r a , s o u
eu ouvidor geral, independente d o ouvklor-geral d a
Bahia o D r . J o r g e da S i l v a M a s c a r e n h a , q u e somos
iguaes c m j u r i s d i c ç ã o , o q u a l n e n h u m a s u p e r i o r i d a d e
t e m e p o d e t e r s o b r e m i m , e q u e os n e g ó c i o s q u e o S r .
g o v e r n a d o r g e r a l h o u v e r d e m a n d a r fazer nesta m i n h a
j u r i s d i c ç ã o , de m a t é r i a de j u s t i ç a o u q u a l q u e r o u t r a d o
s e r v i ç o de S u a M a g e s t a d e , q u e elle h a j a de c o m m e t t e r
ao o u v i d o r g e r a l da B a h i a p a r a sc f a z e r e m e m seu dis-
tricto ; mas h a d e . c o m m e t t e r a m i m d o m e s m o modo,
v i a e f ô r m a , q u e os c o m m e t t e r a o u t r o , para eu as fazer
neste m e u d i s t r i c t o . » ( g )
A d e f e s a c a b a l , e x a r a d a neste o f í c i o d e 2 2 d e
Julho d è 1 6 3 1 , i n s p i r a ao g o v e r n o g e r a l da c o l ô n i a a
p r o v i s ã o de 3 0 de N o v e m b r o de 1 6 3 1 , p e l a q u a l e r a
c h a m a d o á B a h i a o o u v i d o r do R i o , no prazo d e 2 0 d i a s ,
sob pena d c p r i s ã o , n ã o d e v e n d o mais o p o v o p r e s t a r -
lhe o b e d i ê n c i a , n e m c u m p r i r suas o r d e n s . . O e m i s s á r i o
para c u m p r i r s e m e l h a n t e v i o l ê n c i a f o i o p r o v e d o r - m ó r
d a Bahia, M i g u e l C i r n e de F a r i a q u e . i m p o s s a d o p o r
M a r t i n de S á , no l o g a r d c O u v i d o r , exec i t o u as o r d e n s
d e q u e vinha e n c a r r e g a d o . D e p o i s d e a p r e g o a d o p e l a s

\1) Brasil Hist. vol. 3" pg. ».


(a) Braril Uist, vol. 3" pg. 9.
r u a s c o m o u m r é u c o m m u m , Paulo P e r e i r a s o f f r e u a
a f f r o n t a dessas v i o l ê n c i a s , feitas c m n o m e do excesso d e
a u t o r i d a d e e i n s p i r a d o s pelos poderosos, a q u e m o o u -
v i d o r j a m a i s c e d e r a a m e n o r p a r c c l l a de sua i n d e p e n -
d ê n c i a e h o n r a d e z . E « d e p o i s de a n d a r pelos m a t t o s ,
m a i s de d o i s annos, fez g r a n d e s despezas ao c h e g a r ao
R e i n o . » O D e z e m b a r g a d o r do P a ç o , e m 14 dc Janeiro
de 1644, condenou a D . L e o n o r Tavora, viuva her-
deira do governador, a indemnisar ao magistrado offen-
d i d o as p e r d a s s o í f r i d a s , e ao p a g a m e n t o das custas. ( 1 )
F o i t a r d i a a s a n c ç a o d a j u s t i ç a ao p r o c e d i m e n t o cor-
r e c t o d e P a u l o P e r e i r a , q u e , em suas s e s s õ e s de c o r r e i ç ã o ,
e m 1 6 3 1 , f o i o p r i m e i r o « a p e r g u n t a r pelos poderosos
e se estes e m b a r g a v a m os d i r e i t o s reacs o u r e t i n h a m
sem r a z ã o , o l h a n d o para a s e g u r a n ç a dos bons c i d a d ã o s ,
e no m o d o d e c o n t e r e castigar os c u l p a d o s , a c a u t e l o u
e s e g u r o u as p r i s õ e s p u b l i c a s , p o r q u e a l é m de ser a
c a d e i a a n t i g a c a r r u i n a d a , estava s i t u a d a e m u m des-
e r t o , e á v o n t a d e f o g i a m f r e q ü e n t e m e n t e os c r i m i n o s o s ,
s e m se lhes p o d e r a t a l h a r , a menos q u e n ã o mudassem
p a r a l o g a r m a i s s e g u r o e de m e l h o r c o m m o d o a t é p a r a
os mesmos presos, m o t i v o s q u e o o b r i g a r a m a p r o v e r
q u e se desse c o n t a disso a S u a M a g e s t a d e , m a n d a n d o
l o g o fazer u m p r e g ã o p a r a v e r se h a v i a q u e m quizesse
t o m a r a f a c t u r a da n o v a c o n s t r u c ç ã o , e q u e os juizes e
o f f i c i a e s da C â m a r a m a n d a s s e m d a r ao a i c a i d e - m ó r os
f e r r o s n e c e s s á r i o s p a r a s e g u r a n ç a dos p r e z o s . » { 2 )
N ã o ha d u v i d a q u e M a r t i n de S á era no g o v e r n o
u m a g a r a n t i a da o r d e m p u b l i c a , dos d i r e i t o s e d a c o n -
fiança d a p o p u l a ç ã o , e m r e l a ç ã o á s i t u a ç ã o de g u e r r a ,
e m q u e se d e b a t i a o n o r t e da c o l ô n i a . A l é m disto, c o n -
t i n u a n d o os e s f o r ç o s do,-seus antecessores, p r i n c i p a l -
m e n t e M e n e l á o , q u e a l c a n ç a r a d o m a r os indios dos
« c a m p o s d c G o y t a c a ^ c s » , fez c o m q u e a c o l o n i s a ç ã o
q u e j á se estendia por « C a b o F r i o » , tomasse a d i r e c ç ã o

(!) Hist do Bratil, por V. Foito Seguro, vol. 1" pg. 489.
(2) Brasil Hist, vol. 3 pag. 3Ü.
o
d a q u e l l a zona, c o m as d o a ç õ e s d a d a s p o r M a r t i n de S á
aos « s e t e c a p i t ã e s » , ( 1 ) q u e t a n t o o a j u d a r a m e q u e fo-
r a m os p r i m e i r o s a l a n ç a r as bases do t r a b a l h o . a g r í c o l a
por aquella r e g i ã o (2), assumindo m a i o r desenvolvi-
m e n t o q u a n d o , c o b e r t o d c v i c t o r i a s , v o l t o u de P e r n a m -
buco Salvador Bcncvides, como mostraremos. E m face,
pois, dos s e r v i ç o s de M a r t i n d c S á e da c o n f i a n ç a q u e
inspirava ao p o v o da c i d a d e , é fácil c o m p r c h e n d e r os
m a l e s q u e causou sua m o r t e , a s i t u a ç ã o d o l o r o s a d a
p o p u l a ç ã o , vendo f a l t a r o b r a ç o q u e e r a a m a i s f o r t e
g a r a n t i a da s e g u r a n ç a p u b l i c a .
A C â m a r a , em d o c u m e n t o ofHcial remettido ao
g o v e r n a d o r g e r a l , e x a r a o seu s e n t i m e n t o de pezar, p e l o
fallecimeatode t ã o grande cidadão, aliás fluminense, (3)
sendo n o m e a d o p a r a s u b s t i t u i ! - o , p o r p r o v i s ã o de í) d c
M a r ç o de 1 6 3 8 , R o d r i g o de M i r a n d a I l e n r i q u e s , a t é
e n t ã o c a p i t ã o da c o m p a n h i a de arcabuzeiros do t e r ç o
d o mestre d c c a m p o D . C h r i s t o v ã o M e x i a B o c a n e g r a ,
o q u a l t o m o u posse a 13 d e J u n h o do m e s m o a n n o .
O direito dc s u e c e s s ã o , dictado pelo próprio Mar-
t i n de S á , recahiu c m seu t i o D u a r t e C o r r ê a V a s q u e a -
nes, c a p i t ã o da g u a r n i ç ã o d a f o r t a l e z a de S . J o ã o , q u e

(!) Adiatite faltaremos cessa âòlavçl doaccã", origem da cidade do


Campos,
i2) Nos últimos atino* õa sua vida, passara Gil dc Góes procurarão an
capitão Maftiu de Sa, governador do Rio dc Janeiro, para gerir a sua donatária,
e este concedera p sesjnari» aqucllas terras, ató <zrA&a desaproveítadas, ao*
0 r

capitães Oonçalo Correia, Mauvcl Correia. Ousttc Carreia e Miguel Ayres Alui-
doiudo « a Autonio Sinto, João dc .Castilhos e Miguel Riscado, por csciipiuia
lavrada a 19 dc ?gosto de 16LT. A sesmaria concedida loinprehcndia as terras
que SÉ est^adcr.i do Km M;i,alie ao rio IgnaçA. do cabo dc S. Thomé para o
norte, mn nido pela <ort.t mire um e o outro rio, e pára o sertão ate' rume .ia
serra, sçguudo dizem Baldiazar da Silva Ijihoa nus seus Anuae$ ,lv Rio de
Janeiro e o visconde de Araruama na sua curiosa c ir.tcrcssante Memória To-
pv*ra6hita e historia •/e.C.iniposdeGoyiataf^. i:ram homtns importantes do
Kio dc J.uiciro, que haviam prestado a eoiòa relevantes a*rvÍ*;os rem as vidas e
Jaienàa. no decurso dr; 30 anr.oi, nas gnenas com iutrusos fraseies e hollandc-
acs c em incursões de barbaras nas capítaujâs do ííio dc Janeiro, o de S. Vicente
ç .-m Caho-Frio. A »;oni'cssào em Ihul feita para a criaçüo de gado e sob a con-
dição d&, si lcvamassc engenhos, pagarem ao dor.a:arío o fòro que lhe competia
e o dizimo ao mesi^do d,t Ordem de Cluisío. fâiv, ,/o Inst. vol. 49 pag 58).
, . '7 Í?.SÍ », " "Je Sã no Kio dc J;-noim em 1560* e morreu a 10 dè
1 r c,! M rl,n

Agosto de 1032 (I-i/.iro eár. <it. vol. 2" pag. 249). Na opinião do mesmo chro-
nista eju) loi a Cabo-frio em 1(120, quando fundou-se a aldeia de S Pedro
ncan^o interina me ulc no governo Duarie Corrêa Vasqueuucs,
— 127 —

q u e assumiu a a d m i n i s t r a ç ã o , c u j a n o t a d o m i n a n t e f o i
a r m a r a c i d a d e d e elementos de d e f e s a , c o n t r a u m a
i n v a s ã o hollandcza, sempre em a m e a ç a . ( 1 ) .
A s i t u a ç ã o do g o v e r n o n ã o era f á c i l . O s prece-
dentes de b o m senso e c r i t é r i o t i n h a m sido f i r m a d o s
p o r M a r t i n de S á . A n t ô n i o C o r r ê a t i n h a c o n s t r u í d o , á
sua custa o p e d r a s t o da Candelária, d o m o s t e i r o de S .
Antônio, c h a m a d o de . V . S. d*Ajuda. I s t o m o t i v o u ser
elle n o m e a d o c a p i t ã o d e s t a f o r t i f i c a ç ã o , s e n d o i g u a l -
mente nomeados J o ã o Rodrigo Bravo e Francisco de
S e i x a s R a b e l l o , c a p i t ã e s da f o r t a l e z a situada no outeiro
de S. Bento e d o forte de Santa Cruz da barra.
P r c o c c u p o u o seu e s p i r i t o o s e r v i ç o d o abasteci-
m e n t o d á g u a q u e , t e n t a d o pelas a d m i n i s t r a ç õ e s passa-
das, c o n t i n u a v a a m e r e c e r a a t t e n ç ã o dos g o v e r n o s . D e
a c c o r d o c o m a c â m a r a , c r e o u o i m p o s t o de 1 6 0 r é i s , so-
b r e c a d a c a m a d a d o v i n h o i m p o r t a d o , para ser applica-
da á q u e l l e s e r v i ç o .
A l é m destas providencias de c a r a c t e r local, outras
f o r a m t o m a d a s , s o b r e assumptos menos i m p o r t a n t e s .
Restabelecendo a c â m a r a q u e n ã o houvessem p i r a q u e s
d a b a r r a para d e n t r o ; q u e os oleiros s ó m e n t e p o d i a m
l e v a r 2 0 $ p o r cada m i l h e u o d e telha, a 3 $ o t i j o l o e a
3 0 reis cada f ô r m a , e c r e o u u m r e g i m e n t o aos a f i l a d o -
r e s , p a r a q u e s ó m e n t e levassem h% de a f f e r i r pesos de
a r r a t e l , 4 0 r é i s os de a r r o b a e 8 0 réis os d c d u a s a r r o -
bas ; das m e d i d a s S0 r é i s e o mesmo p o r a f i l a r v a r a e
covados, c os pesos m i ú d o s a õ r é i s ; a 8 0 r é i s os a l q u e -
res, q u a r t a s e m e i o s a l q u e i r e s , e q u e se fizesse r e g i -
m e n t o para os b o t i c á r i o s , p o r o n d e se d e v i a m r e g u l a r
na v e n d a de seus r e m é d i o s , c finalmente q u e todos g e -

(1) Proveu os posto milharoadas pessoas que julgou t\ahcis para o dosem*
pcr.har, tanto, no tempo ita paz, como da guerra ; piovén de capitão de bairro
da Misericórdia r. Nossa Senhora da Ajuda a Ma:heus de Monr i pÒDaçBj c de
cav.-illiciro cm ü fottts da Candelária a Alvaio do Mattos, e da fuitalr/a de S.
'lhiago, vila na mesma cidade, a Manuel P.íxoto, c todos os mais cvir." poniemts
postos wililares que julgou necessários rara ,i cidade^star defendida, L oppói-se
a qualquer prelençâo inimiga. (BrrtfiVifííVtfrico, vyl, H" pag. 6áJ,
— 128 —

neros seriam a l m o t a ç a d o s a n t e s da v e n d a g e m p o r pre-


ç o s j u s t o s e c o n v e n i e n t e s . (>)'».
N o f i m d o t r i e n n i o de M i r a n d a H e n r i q u e , c h e g a v a
ao R i o S a l v a d o r C o r r ê a de S á e B c n e v i d e s , c o b e r t o d c
victorias, a l c a n ç a d a s em suas e x c u r s õ e s militares, na
B a h i a e P e r n a m b u c o , i m p o n d o o s e u n o m e á escolha d a
c o r õ a , para d i r i g i r a a d m i n i s t r a ç ã o d o R i o d c J a n e i r o ,
da q u a l t o m o u posse, e m s e s s ã o d a c â m a r a d e 1 9 d e
S e t e m b r o de 1 6 3 7 , sendo n o m e a d o p o r p r o v i s ã o de 2 1
de F e v e r e i r o d o m e s m o a n n o , p a r a s e r v i r p o r seis
annos.
Em começo de sua administração, deu-se
u m a r e f o r m a de caracter p o l i t i c o , p e l a q u a l f i c a r a m m a i s
amplas, d o q u e e r a m e n t ã o , as a t t r i b u i ç õ e s d o g o v e r n a -
dor do R i o .
A ' sua j u r i s d i c ç ã o f i c a v a m p e r t e n c e n d o os s t r v í ç o s
de g u e r r a e j u s t i ç a das c a p i t a n i a s d e S. V i c e n t e e S ã o
Paulo, c u j o s c a p i t ã e s m o r e s e o u v i d o r e s d e v i a m pres-
tar-lhe o b e d i ê n c i a . O m o t i v o d a r e f o r m a e s t a v a n a ne-
cessidade de a u g m e n t a r a f o r ç a m i l i t a r , c o m q u e á c o -
l ô n i a d e v i a e x p u l s a r os hollandezes de P e r n a m b u c o .
D . F e r n a n d o M a s c a r c n h a s , p o r o r d e m d e 8 de J u n h o
de 1 6 3 9 , a n l o r i s o u a S a l v a d o r B e n e v i d e s « a p e r d o a r os
c r i m i n o s o s q u e lhe parecessem dos s e r t õ e s de S. P a u l o
e S. V i c e n t e » p o d e n d o a t o d o o pessoal q u e levantasse
« n o m e a r p a r a cada 8 0 h o m e n s u m c a p i t ã o , p a s s a r d h c s
patentes d e c a p i t ã e s d c i n f a n t a r i a h e s p a u h o l a , c o m 4 0
escudos d c s o l d o » .
K ' fácil c o m p r c h e n d e r o c f f e i t o p r o d u z i d o nos i n -
teresses a g r í c o l a s d o sul p o r esse e n g a j a m e n t o f o r ç a d o
ou v o l u n t á r i o , c o m o q u a l essas c a p i t a n i a s i a m s o e c o r r e r
a crise m i l i t a r d o n o r t e .
E s t a f o i a epocha, d i z u m c h r o n i s t a , a m a i s t e r r í -
vel d a d u r a o p p r e s s ã o e m i s é r i a , q u e s e n t i r a m os p o v o s
p e l a c r i t i c a s i t u a ç ã o dos t e m p o s : as levas d e s o l d a d o s
e n c h i a t u d o i l c t e m o r ; a a g r i c u l t u r a d e s a m p a r a d a an-

il) ítr^il Hist. vol. 3° pag. 63.


— 129 —

n u n c i a v a a c a l a m i d a d e p u b l i c a ; as m i n a s d e s c o b e r t a s
de ouro, prata, p é r o l a s , salitre e ferro, pareciam sepul-
t a d a s no e s q u e c i m e n t o ; n a d a se a p r o v e i t a v a e m b e n e -
ficio c o m m u m : cada u m se l a m e n t a a si m e s m o , n ã o
h a v e n d o q u e m os pudesse a n i m a r . ( 1 )

II
SUMSArtfO.~A escravidão indígena. A lavoura, o clero e osjesuilas. Os pre-
lados João da Cosia, Mathens da Costa Alboim c Lourenço de
Mendonça. Seus actos. Opiniões de um ehronisla. Invasão na
autoridade civil. O padre Pedro Homem Alhernaf. Bnllis de
SÜ^de Maio de e 29 de Abril de 1620. Sua execução no Rio
Os Jesuítas, o prelado e a câmara. Sua execução em S. Pauto.
Hxpulsão dos Jesuítas, As luetas. Salvador e a opinião publi-
ca. Governo de l.ui( fíarbalko. Sen programma. Governo de
Duarte Vasqueanes. Divergência* na opinião,

O trabalho agrícola, que se organisou nos derredo-


res d a c i d a d e d o R i o , f o i d e v i d o e m g r a n d e parte, ao
b r a ç o do natural.
D e u m lado, o l a v r a d o r e a a u t o r i d a d e c i v i l d a
c o l ô n i a , e m g e r a l , a m a n t e r e m a e s c r a v i d ã o ; do o u t r o
l a d o , os j e s u í t a s e o c l e r o secular, a p r o c u r a r e m
abolil-a.
E i s as d u a s f o r ç a s h i s t ó r i c a s , em d e r r e d o r cias
quaes g y r a m os a c o n t e c i m e n t o s os m a i s n o t á v e i s , no
t e r r e n o da l e g i s l a ç ã o , d a a d m i n i s t r a ç ã o e da p o l í t i c a no
s é c u l o X V I I . E a t r a v é s dos annos, s e g u n d o a f o r ç a mo-
r a l c o m q u e a a u t o r i d a d e c i v i l o u r e l i g i o s a suggestiona-
va a m e t r ó p o l e , ia e l l a c m a v a n ç o o u e m r e c u o , fazendo
c o n c e s s õ e s de l a d o a l a d o .

!l) K*se ehronisla c o auclor de uma Mcrn. mss. que existe ua Bihlio-
Iheca Naeienal Ann-do Rio dc Janeiro dc Janeiro—dc que Mello Moiacs pu-
blicou alguns cap. Brasil His<"ii<o,
Por essa occasiào i:reou-se Ires terços dc Iufeiilera* e os enviou ao
Conde da Torir, q«e se achava cm Pernambuco, cm «oeeorco daquclla Capitania,
e com elles os precisos mantimentos, alem de ouiros Donativo»; quasi teda
aquella Tropa derramarão ali 0 >eu S3nguc 00 serviço do Estado. {Annaes do
Rio dc Janeiro por Silva Lisboa, vol. 2 pag. 28.
o
— 130 —

N o fim d o s é c u l o X V I firmou o r e g i m e n d o a l d e i a -
m c n t o , q u e n ã o passava d o p r i v i l e g i o dos j e s u í t a s s o b r e
o b r a ç o i n d í g e n a . E m Julho d e 160!), v e i u a l e i d a
e m a n c i p a ç ã o d o i n d i o . M a s , s o m e n t e para o p o v o , p o r -
q u e o r e g i m e n s e r v i ! c o n t i n u o u e m f a v o r dos j e s u í t a s ,
p a r a q u e m c o n t i n u o u o r e g i m e n das aldeias. Essa l e i
m o t i v o u proteste>s e m t o d a c o l ô n i a e nella o r i g i n a r a m - s e
as bandeiras d c S. P a u l o , p a r a c a p t i v a r e m os í n d i o s , f o r a
da j u r i s d i c ç ã o dos padres.
A m e t r ó p o l e r e c u o u e firmou o r e g i m e n m i x t o . N a
aldeia creou u m a a u t o r i d a d e c i v i l , o c a p i t ã o , d e n o m e a -
ç ã o d o g o v e r n a d o r . E* a l e i de 10 de S e t e m b r o d c 1 6 1 1 ,
q u e a i n d a mais v e i u a n i m a r os f a z e n d e i r o s da co-
lônia.
N o R i o de J a n e i r o , c o m o j á v i m o s , o p r e l a d o , b a -
c h a r e l J o ã o da Costa, a l e m de d i l a t a r sua j u r i s d i c ç ã o
ecclesiasticá, abrindo attrictos com a autoridade civil,
p a r a a u g m e n t o dos d i r e i t o s c e m o l u m e n t o s d e sua c h a n -
c e l l a n a , c o n s t i t u i u se o a r b i t r o da c o n d i ç ã o dos i n d i o s ,
« d e c l a r a n d o lhes g u e r r a e l e v a n t a n d o - l h e s b a n d e i r a s » .
E m nome dos interesses a g r í c o l a s , p r o t e s t a m a c â -
mara e o povo c o resultado foi a d e p o s i ç ã o do prelado,
p o r u m a s e n t e n ç a d o t r i b u n a l da tèahia. ( 1 )
N ã o o b s t a n t e isto, c o m e s m o o p r o g r a t u m a da
a d m i n i s t r a ç ã o religiosa dc Malheus da Costa A l b o i m
( 1 6 0 6 ) , « m e t t e i i d o - s e na q u e s t ã o da l i b e r d a d e dos i n -
dios e de l e v a n t a r b a n d e i r a c o n t r a elles, r e s u l t a n d o
acabar os seus dias, e n v e n e n a d o a 8 d c K e v e r e i r o de
162». (2)
D e p o i s de a l g u m a s a d m i n i s t r a ç õ e s i n t e r i n a s , f o i
nomeado, p o r c a r t a r e g i a de 2 3 d c J u l h o de 1 6 3 2 , L o u -
r e n ç o de M e n d o n ç a {;!), c u j o g o v e r n o f o i mais a r b i t r á -
r i o e v i o l e n t o d o q u e o d o s seus predecessores. I n v a -

(11 Atinara do Ria, | ,.i fUarrov vol. pau,. 08.


(2) Akttaes Jo Riá, pci Pízarro. vol. í* Wfi. 320.
;3J Diz Tirano que foi nomeado a 22 de Juilio .íc lffij2, >IM, :IÕS Ic
a caria do sua nomeação, com a daia descfi;â no texto.
dindo a j u r i s d i c ç ã o civil, abriu conliictos, que deram e m
r e s u l t a d o os geraes a c o n t e c i m e n t o s do g o v e r n o de S a l -
vador e Bcnevides.
E ' assim que, e m v i s i t a a v i l l a de Santos, l á o r d e -
n o u q u e « s o b p e n a de e x c o m m u n h â o , n e n h u m a pessoa
l e i g a tivesse nem podcsse s e r v i r c m c o n f r a r i a a l g u m a ,
sem q u e seja p o r n ó s a p p r o v a d a e v i s i t a d a e t e n h a a
d i t a c o n f r a r i a p r o v i s ã o e i n s t i t u i ç ã o nossa e j u n t a m e n t e
l i v r o de contas e de r a z ã o » .
Q u e semelhante o r d e m é u m a i n v a s ã o á j u r i s d i c ç ã o
c i v i l , a p r o v a e s t á e m q u e « e s t a n d o e n c o r p o r a d a na co-
roa a j u r i s d i c ç ã o o r d i n á r i a ecclesiastica, a o g r ã o - m e s t r e
da o r d e m s ó tocava a p p r o v a r o u r e p r o v a r a i n s t i t u i ç ã o
d c leigas c o n f r a r i a s , e m q u e j a m a i s podia ter e n t r a d a a
a a u t o r i d a d e ecclesiastica, p r i n c i p a l m e n t e quando, a l é m
d a p r i v a t i v a a u t o r i d a d e d o soberano de v i g i a r q u e se
n ã o i n t r o d u z a m a j u n t a m e n t o s damnosos á c o n s e r v a ç ã o
d a r e l i g i ã o , e ao socego p u b l i c o d o estado, l h e e r a i n -
herente a autoridade e c l e s i á s t i c a , como g r ã o - m e s t r e ,
pelos p r i v i l é g i o s concedidos á s o í d e n s m i l i t a r e s pelos
soberanos p o n t i l i c e s . e c o n f i r m a d o s no c o n c i l i o de T r e n -
t o , e p o r estas r a z õ e s era e v i d e n t e a i n j u s t i ç a c o m q u e ,
a l é m de a r r o g a r u m a j u r i s d i c ç ã o q u e n ã o t i n h a sobre os
l e i g o s na m a t é r i a r e f e r i d a na v i s i t a ç ã o , pelos m o t i v o s
p o n d e r a d o s , passava a a f l r o n t a r a r e l i g i ã o c o m a espada
da i g r e j a , t e r r í v e l q u a n d o j u s t a m e n t e d e s e m b a i n h a d a .
mas n ã o para f e r i r u m p o v o b o m , a q u e m d e v i a e x c i t a r
para a v i r t u d e , e para merecer a g r a ç a e a santificação
da r e l i g i ã o , e n ã o estorvar-lhe os passos da sua c a r i d a -
d e pelos interesses dos seus p r o v i m e n t o s c da sua c h a n -
ccllaria ! » . ( 1 )
A i n d a na m e s m a v i s i t a , o r d e n o u ao v i g á r i o q u e ,
« c h e g a n d o a q u i a l g u m n a v i o o u barco, de q u a l q u e r
p a r t e q u e v e n h a , o u v;í visitar, c o m o se faz em todos os
p o r t o s d c mar n o r e i n o , e saiba as g e n t e s q u e traz, e de

(1) Ann. dc Rio dc Janeiro. Meni mia. cit.


que religião e n a ç ã o s ã o , e que livros trazem ; e sendo
depois de q u a r e s m a , si se h ã o d e s o b r i g a d o no l u g a r .
donde v e m » . ( 1 )
N ã o p o d i a , diz u m a a u t o r i d a d e , t e r e n c o n t r a d o
aquelle p r e l a d o canoa a l g u m ecclesiastico d e r i v a d o d a
sua natureza e v e r d a u e i r o e s p i r i t o d a i g r e j a , q u e o a u -
torisasse p a r a a q u e l l a l e g i s l a ç ã o , . q u a n d o ao p r í n c i p e ,
c o m o senhor de t o d o s os p o r t o s dos seus d o m í n i o s , u n i -
camente t o c a v a o e x a m i n a r p o r seus m i n i s t r o s , o u p o r
q u e m b e m quizesse, os navios q u e c h e g a v a m , saber
d o n d e v i n h a m , as m e r c a d o r i a s q u e c o n d u z i a m e os l i -
v r o s mesmos q u e t r a z i a m , dos q u a e s na a l f â n d e g a sc
d e v i a vedar a sabida aos q u e c o n t i v e s s e m d o u t r i n a p e r i -
g o s a c o n t r a a r e l i g i ã o e s e g u r a n ç a o u p o l i c i a do E s t a d o ,
e a e l l e s ó t r a t a r d a v i n h a d c Jesus C h r i s t o , q u e lhe f ô r a
e n t r e g u e , e c u j o r e b a n h o d e v i a ficar p a r a o s a l v a r ; e
q u a n d o c o m c f f c i t o t i v e s s e m passado l i v r o s , q u e trans-
tornassem e offendessem os d o g m a s da r e l i g i ã o , e q u e
d e l l ç s tivesse n o t i c i a , e n t ã o o se m i n i s t é r i o p a s t o r a l
d e v i a manifesta-se, u s a n d o d a m o d e r a ç ã o c e f r i c a c i a d o
seu s a n t o s a c r i f í c i o , e n c a m i n h a d o ao fim d e t i r a r a o
v e l h a do p r e c i p í c i o , e c o n d u z i l a p a r a o c a m i n h o d a
verdade c santificação. (2)
D e u ainda v o t o aos v i g á r i o s nas c o n f r a r i a s , a c o m
o q u a l n ã o se p o d i a d i s t r i b u i r o d i n h e i r o d e l l a s » .
D e s t e m o d o , diz a m e s m a a u t o r i d a d e , c a m i n h a v a
o p r e l a d o p a r a fixar a sua j u r i s d i c ç ã o s o b r e as c o n f r a -
r i a s leigas, e o b r a r n e l l a s o q u e b e m e n t e n d e s s e pelos
m e i o s p o r q u e se d i r i g i a a c o n s e g u i r os seus fins, p o i s
q u e p r e s i d i n d o os v i g á r i o s á s c o n f r a r i a s , e l l a s e s t a r i a m
n ã o s ó s u j e i t a s á sua o r d i n á r i a a u t o r i d a d e , c o m o a s e u
arbítrio e vontade. (3)
E s t e s excessos q u e t o m a r a m maiores p r o p o r ç õ e s ,
e m annos posteriores, m o t i v a r a m q u e i x a s do p o v o ao

(1) Mmc. mis, cil,


i - • Mcm. mss. cit.
(3) Mcm. mss. cil.
— 133 —

o u v i d o r F r a n c i s c o F e r r e i r a da V e i g a , em sua e o r r e i ç â o
de 1 6 3 6 , o q u a l l i m i t o u - s e a promessas.
A f a l t a d e m e d i d a s legaes, p a r a f a z e r e m r e c u a r a
a u t o r i d a d e e c l e s i á s t i c a ao l i m i t e s de suas a t t r i b u i ç õ e s ,
d e s p e r t o u o excesso p o p u l a r c o n t r a M e n d o n ç a , chegan-
d o a p o n t o de i n t r o d u z i r em sua r e s i d ê n c i a u m b a r r i l d e
p ó l v o r a e m o r r õ e s , d a n d o i s t o l o g a r a uma devassa, ce-
l e b r e na epocha, c u j o r e s u l t a d o f o i contra o p r e l a d o .
R e p e t i d a s as a c c u s a ç ô c s p e r a n t e o - m c t r o p o l i t a n o
d a B a h i a , sem q u e ellas p r o d u z i s s e m o c o r r e c t i v o , o
p o v o r e s o l v e u o e m b a r q u e f o r ç a d o d o p r e l a d o , do q u a l
p o u d e esquivar-se c o m a f u g a , e m b a r c a n d o para P o r t u -
g a l e m A b r i l de 1(137. ( 1 )
N o f i m de p o u c o s dias, f o i a b s o l v i d o pelo T r i b u -
nal da I n q u i s i ç ã o , p o r s e n t e n ç a de 19 de Junho de
1637. (2)
E m h o m e n a g e m a defeza de M e n d o n ç a e c o m o re-
p r o v a ç ã o d o p r o c e d i m e n t o d o p o v o do R i o de Janeiro,
o r e i m a n d o u r e q u e r e r á S é A p o s t ó l i c a , p o r c a r t a de 7
d e O u t u b r o d c 1 6 3 9 , a c r e a ç ã o d a a d m i n i s t r a ç ã o eccle •
siastica d o R i o e m B i s p a d o , n o m e a n d o M e n d o n ç a b i s p o
d o Rio. (3)
D e s d e sua i d a p a r a P o r t u g a l , ficou g e r i n d o a
a d m i n i s t r a c ç ã o i n t e r i n a m e n t e o p a d r e Pedro H o m e m
A l b e r n a z , na q u a l f o i c o n f i r m a d o por c a r t a r e g i a de 2
de S e t e m b r o de 1 6 3 9 .
Parte n o t á v e l e p r o e m i n e n t e t o m o u este p r e l a d o
na q u e s t ã o da l i b e r d a d e dos indios, q u e agora ia entrar
e m sua phase a g u d a , p r o d u z i n d o os graves aconteci-
mentos q u e v a m o s r e l a t a r e q u e t a n t o p e r t u r b a r a m o
g o v e r n o de S a l v a d o r B e n e v i d e s .
A h i e s t ã o t r a ç a d a s as causas dos factos q u e se de-

l i ) Piiarro. óèr.ciL vol. 2 pag. 221.


J

12)fcmPortu«al publicou uma moniona dos factos occorrldos no Kio dc


Janeiro, como peca j«u«titi^a:iva dc sua defeza. Leuios alguns trechos dessa mc-
moria, cm mss. que fax parte do archivo do Inst. São notas colligidas por IV
larro, e sobre as quacs escreves elle as suas Mein, Hut,
(3) Pizarro.ofcr.c/Í. vol.2" pa». 224.
— 134 —

r a m de 1<!40 em diante, e m q u e o d e s p r e s t i g i o d a au-


t o r i d a d e c h e g o u ao u l t i m o e x t r e m o .
E l l a s sc t i n h a m a c e u m u k . d o p a r a c x p l c d i r q u a n d o
os j e s u í t a s , c m r e s i s t ê n c i a ao p r o c e d i m e n t o dos c o l o n o s
d o sul. principalmente dos paulistas que e x t e n d i a m
suas c a ç a d a s d o ger.tio ate Acaraz, sem q u e cousa a l -
g u m a o b t i v e s s e m d o s g o v e r n o s da c o l ô n i a , t e n d o p o r
isso m a r . d a d o q u e i x a s d i r e c t a s a M a d r i d e ao S u m m o
Pontífice, voltaram com u m a bulla do Papa U r b a n o
V I I I , de 2 2 d e A b r i l de 10*39, p u b l i c a n d o no B r a z i l a
de P a u l o I I I ( 2 8 de M a i o d c 1 5 3 7 ) « d e c l a r a n d o i n c o r -
r e r c m e x c o m i n u n h ã o os q u e c a p t i v a s s e m e v e n d e s s e m
os i n d i o s » .
S i a t é e n t ã o os c o n f l i c t ò : ; da a u t o r i d a d e c i v i l c o m
a r e l i g i o s a , para p e r t u r b a r e m a o r d e m p u b l i c a e des-
p r c s t i g i a r c m - n ^ s , e r a m p o r esta j u s t i ; cados e m d i s p o -
s i ç õ e s de l e i , d e p o i s d a e m a n c i p a ç ã o d o i n d i o é fácil
c o m n r e h e n d e r a p r o p o r ç ã o q u e elles a s s u m i r a m , e m
face da p a l a v r a t ã o r e c e n t e do P a p a , q u a n t o i n f a l l i v e l , á
credulidade catholica.
C h e g a r a ao R i o d c J a n e i r o o j e s u í t a F r a n c i s c o
D i a s T o r í n h o . c o m o p r o c u r a d o r dos i n d i o s d o P a r a g u a y ,
r e q u e r e n d o a e x e c u ç ã o d a b u l l a , a q u e se propoz a "câ-
mara, com embargos, perante o prelado Pedro H o m e m
A l b e r n a z , q u e os r e c e b e u , c o m p r o f u n d o d e s c o n t e n t a -
m e n t o dos padres. A e l l e i n c u m b i r a o c o l l e c t o r A l e x a n -
dre Castracani a e x e c u ç ã o da bulla.
I n i c i c u - s e o p l e i t o , com a f o r m a ç ã o de d o i s g r u p o s ,
c u j o s interesses a n t a g ô n i c o s i n s p i r a v a m d c u m l a d o a
p o s i ç ã o v i n g a t i v a dos j e s u í t a s , q u e se e s f o r ç a r a m e m
d e p ô r o p r e l a d o , e do o u t r o , o p o v o e a c â m a r a , c o n t r a
elles, c h e g a n d o ao e x t r e m o d a t e n t a t i v a d c a t a q u e d o
próprio collegio.
A intervenção do governador privou a violência,
p r o c u r a n d o e n t a b o l a r u m s o l u ç ã o a m i g á v e l , e n t r e as
partes contendoras. A l c a n ç o u que fosse celebrada n a
c â m a r a u m a escriptura d e t r a n s a c ç ã o a m i g á v e l , c o m p o -
sição e r e n u n c i a ç ã o , e m s e s s ã o de 2 2 dc Junho dc 1640,
- 135 -

e n t r e os j e s u í t a s D . P e d r o d c M o u r a , v i s i t a d o r g e r a l
desta p r o v í n c i a e M a t h e u s D i a s , p r o c u r a d o r do c o l l e g i o ,
a l e m do p a d r e T o r i n h o c d o o u t r o l a d o os m e m b r o s d a
c â m a r a e dos e l e i t o s d o p o v o , para assistirem e firma-
rem o c o n c e r t o — o s a r g e n t o m ó r J o ã o D a n t a s , 0 c a p i t ã o
A l e i x o M a n u e l , o c a p i t ã o D i o g o d e Á v i l a c J o ã o dos
Zeures.
O s j e s u í t a s c o m p r o m e t t e r a m se a d e s i s t i r «tia p r o -
c u r a ç ã o , e x e c u ç ã o e p u b l i c a ç ã o d á s bullas, d a causa
p r i n c i p a l de d i r e i t o q u e p o d e r i a m ter, na q u a l n ã o se-
r j a m p a r t e s , n e m usavam d e i n t e r r u p ç ã o a l g u m a , d i r e c -
t a o u i n d i r e c t a ; d e s i s t i a m a i n d a do a g g r a v o q u e na
causa t i n h a m i n t i m a d o e i n t e r p o s t o ao p r e l a d o , p o d e n d o
a t é fazer t e r m o d c d e s i s t ê n c i a nos mesmos a u t o s ; q u e
nunca t i v e r a m a d m i n i s t r a ç ã o a l g u m a dos i n d i o s que
e s t a v a m c m casa dos m o r a d o r e s , n e m a q u e r i a m , ainda
l h a dessem, o b r i g a n d o - s c a n ã o c o n s e n t i r e m i n d i o a l -
g u m c m suas aldeias, q u e esteja em casa o u s e r v i ç o de
a l g u m m o r a d o r , c o m a d e l i g e n c i a de fazerem t o r n a r a
casa os q u e a ellas se acolhessem ; o b r i g a r a m - s e a n ã o
t r a t a r em n e n h u m t r i b u n a l q u e s t ã o de i n d i o q u e fosse
c m p r e j u í z o da c a p i t a n i a ; o b r i g a r a m - s e ainda a que no
q u e toca ao a g g r a v o o u m o l é s t i a , de q u e se t i n h a q u e i -
x a d o , sc lhes havia feito por r a z ã o da ida desta c â m a r a ,
o f f i c i a e s d e l i a , e j u s t i ç a e mais p o v o , á p o r t a r i a d o d i t o
c o l l e g i o a t r a t a r de sua d e f e n s ã o , em r a z ã o da p u b l i c a -
ç ã o tia d i t a p r o v i s ã o e b u l l a , q u e no d i t o c o l l e g i o se
h a v i a f e i t o , p e n d e n d o a vista e causa dos embargos,
q u e d e l i a n ã o t r a t a r i a m , e c o m e f f e i t o renunciavam t o d o
e q u a l q u e r d i r e i t o q u e neste p a r t i c u l a r o d i t o c o l l e g i o
tivesse o u p r e t e n d e s s e , p o r q u a n t o c a d a u m dos r e v s .
p a d r e s d e l l e p e r d o a v a m a si e a c a d a u m delles, con-
f o r m e as leis da c a r i d a d e e h u m i l d a d e religiosa, c o m o
j á t i n h a m feito, q u a l q u e r a g g r a v o , m o l é s t i a , i n j u r i a , q u e
no caso sc considerasse, e elles ditos padres, c o m o su-
periores, a q u e m t o c a v a esta a c e u s a ç ã o , o p e r d o a v a m
p o r esta t r a n s a c ç ã o , o q u e faziam in tolumpro óouapaas,
e q u e sendo caso p o r q u e q u a l q u e r p a r t e do d i t o c o l l c -
136 -

g i o se q u e i r a fazer a l g u m a a c c u s a ç ã o s o b r e este p a r t i c u -
lar desta l i d e , a elle p o d e r á e n t ã o este p o v o e elles d i t o s
contralietites, e seus succcssores, officiaes da c â m a r a ,
q u e f o r e m a l l e g a r t o d a a m a t é r i a dos c a p í t u l o s q u e n o
a g g r a v o t i n h a m a l l e g a d o , e t u d o mais q u e lhe p a i e c e r
b e m , possa f i z e r a b e m d o seu d i r e i t o e j u s t i ç a e m res-
peito dos d i t o s r e v s . p a d r e s deste c o l l o g i o » . ( 1 )
O s c a m a r i s t a s e d e l e g a d o s d o p o v o , p o r seu l a d o ,
disseram q u e d a « m e s m a m a n e i r a r e n u n c i a v a m e desis-
t i a m dos c a p í t u l o s e resposta q u e t i n h a m d a d o no d i t o
a g g r a v o e delles n ã o t r a t a r i a m d i r e c t a o u i n d i r e c t a ,
a l i á s n e m i n d i r e c t a p o r s i , nem p o r o u t r e m , e m n o m e da
d i t a c â m a r a c p o v o , c s ó delles t r a t a r i a m q u a n d o pelos
ditos revs. padres fosse i n n o v a d a a l g u m a cousa na f o r m a
r e l a t a d a , o b r i g a n d o - s e uns e o u t r o s pelos bens d o d i t o
collegio e da dita c â m a r a a cumprir e guardar, e estar
p o r t o d o o c o n t e ú d o nesta d i t a e s c r i p t u r a , q u e uns e o u -
tros a c c e i t a r a m ; e eu t a b e l l i ã o , c o m o pessoa p u b l i c a
e s t i p u l a n t c e acceitante, a c c e i t e i em n o m e deste p o v o
pelas p a r t e s ausentes delia a q u e m t o c a r . » ( 2 )
C o m o se v ê , a b u l l a f o i e x e c u t a d a p o r u m a
transacção, em que o s j e s u í t a s mais capitula-
r a m , d o q u e os camaristas, pelos c o m p r o m i s s o s d e n ã o
mais se i n g e r i r e m e m q u e s t ã o de i n d i o s .
E no t e r r e n o p r a t i c o p ô d e se dizer q u e os c o m p r o -
missos dos camaristas n ã o r e v o g a r a m o r e g i m e n d a l e i
de 1 6 1 1 , e m q u e v i v i a m . L i m i t a r a m - s e a n ã o d a r a n -
d a m e n t o ao processo j u d i c i á r i o q u e t i n h a m i n t e n t a d o ,
p a r a a e x e c u ç ã o da b u l l a ,
P o d e m o s , p o i s , d i z e r q u e ella n ã o teve e x e c u ç ã o ,
c o m o os factos p o s t e r i o r e s d e m o n s t r a r a m .
N ã o o b s t a n t e i s t o , a n o t i c i a dessa b u l l a e da e s c r i -
p t u r a a m i g á v e l c e l e b r a d a n o R i o de Janeiro, p r o d u z i u
n o espirito p u b l i c o de S. Paulo a mais p r o f u n d a p e r t u r -
b a ç ã o , c o l l o c a n d o seus h a b i t a n t e s na f r a n c a p o s i ç ã o r e -

(1) Me»,, mss. cil.


[2) Men,. o/ss, cil.
— 137 -

v o l u c i o n a r i a , c o n t r a os j e s u í t a s , q u e f o r a m expulsos d o
seu c o n v e n t o , em 1.-! de J u l h o de 1 0 4 0 , o m e s m o suece-
d e n d o e m Santos.
O s p r e c e d e n t e s j u s t i f i c a v a m esse p r o c e d i m e n t o .
A s e x p l o r a ç õ e s de minas, a q u e se d e d i c o u m u i t o
c e d o o p a u l i s t a , desde a d e s c o b e r t a de A f f o n s o S a r d i -
nha, c o l l o c a r a m - n ' o na p o s i ç ã o de mais p r e c i s a r e m d o
b r a ç o i n d i o d o q u e o f l u m i n e n s e , de c u j o t r a b a l h o a g r í -
cola o i n d i o e r a o b r a ç o p r i n c i p a l .
E ' n a t u r a l , pois, q u e a r e s i s t ê n c i a d o paulista, fosse
maior.
Por d u a s vezes, os paulistas t i n h a m p r o c u r a d o re-
g u l a r a s i t u a ç ã o d o i n d i o , p a r a suas necessidades de ex-
p l o r a ç ã o , c o m ò s j e s u í t a s , p o r a c c o r d o de l õ de A g o s t o
de 1 0 1 1 e 1 0 d e J u n h o d c 1 6 1 2 , E p o r duas v ^ e s t i -
n h a m esses c o m p r o m i s s o s s i d o revogados p e l o e g o í s m o
jesuitico, cm nome do p r i v i l e g i o d o t r a b a l h o i n d í -
gena. , ^
A s s i m , pois, os paulistas r e s i s t i r a m á e x e c u ç ã o da
b u l l a , a s s u m i n d o uma p o s i ç ã o f r a n c a m e n t e r e v o l u c i o n a -
r i a , d e s d e 13 d c J u l h o . E ' essa u m a bella p a g i n a da his-
t o r i a d e S. P a u l o .
E m s e g u i d a r e p r e s e n t a r a m ao rei D . J o ã o I V , con-
t r a os j e s u í t a s , j u s t i f i c a n d o o p r o c e d i m e n t o da ex-
pulsão.
N o m e a r a m e n v i a d o s especiacs a P o r t u g a l — L u i z
da Costa C a b r a l e Balthazar de B o r b a G a t o — q u e entre-
g a r a m a r e p r e s e n t a ç ã o ao r e i . ( 1 ) U m dos mais n o t a -

(I) Fssc documento eslá publicado na integra na <l»ia d» A/evedo Marques


~Apwt. Hist. da Pravincià de S. Paulo, vol. li" pag. 13 e ito vol. 12 Ja
Rev. do Insl. Hist. pag. 5. na Mem.- Expiikàa das jesuítas do Collegio Je S.
Paula—que <e díx composta polo sargcnlo "•>>•' Pedro Taquc dc Almeida Paes
Leme. lista mem. è a copia do cap. lt> da Mem, WMS. — Ann>e* do Rio dc Ja-
neiro — que existe na üibli"tcca KacjoriaT, c da qual Melio Moirans publicou
alguns capítulos no Brajil Histérico. Hiz a cilada mem, mss. que essa represen-
tação foi incontrada cm papeis celhos pertencentes a Manuel da Costa Duarte.
íjue exerceu em S. Paulo cargos honroso»; A mes^ó cousa dii Paes Leme.
Oahi a ra^ío dc nao sabar a datada r*|>itentação c dc faltarem algumas ouiras,
que nào foram encentradis. O leitor procuro lel-a em vista de sua importância
política c social.
Nào a publicamos, porque nao faz paite da historia da tidade do Rio de
Janeiro.
— í 38 —

y e i s . d o c u m e n t p s e l a b o r a d o s i i s q u e l l e t e m p o , pela f r a n -
queza e c o n v i c ç ã o c o m q u e é d i c t a d o e p e l o c i v i s m o
q u e se espraia e m t o d o s os s e u s c o n c e i t o s .
N e l l a , os paulistas n ã o p o d e r a r n c a l a r o r e s e n t i -
m e n t o de q u e estavam p o s s u í d o s ' c o n t r a S a l v a d o r ,
pelo p r o c e d i m e n t o q u e t i v e r a no R i o de J a n e i r o , d a n d o
uma s o l u ç ã o a m i g á v e l a q u e s t ã o .
M o s t r a n d o ao r e i as g r a n d e s riquezas de S . P a u l o ,
em sua m i n a s , d i z i a m : « m a s c n e c e s s á r i o q u e V . M . se
sirva m a n d a r h o m e n s p r á t i c o s q u e s a i b a m fazer os en-
saios e f u n d i ç õ e s dos d i t o s metaes, como também fidalgo
de sangue, christão e desinteressado, e verdadeiro no s e r v i -
ç o de V . M . , q u e nos g o v e r n e e assista s e m m o v e r o d i o
nem p a i x ã o e amizade, c o m o a q u e t e m m u i t o p a r t i c u -
lar o g o v e r n a d o r S a l v a d o r C o r r ê a d e S á com os padres,
e i n i m i z a d e c o m os m o r a d o r e s d e s t a C a p i t a n i a , e m r a -
z ã o de p a t r o c i n a r e zelar t a n t o esta c a u s a dos d i t o s pa-
d r e s , q u e por t o d o s os m e i o s lhes t ê m p r o m e t t i d o e e m -
penhado p a l a v r a de os n i c t t e r o u t r a vez nesta C a p i t a n i a
c c o m m a i s i s e n ç õ e s o p r o c u r a de n o v o fazer c o m os
cargos de q u e V . M . lhe fez m e r c ê , q u e v e m a ser t o d o s
os q u e t r o u x e o g o v e r n a d o r D . F r a n c i s c o d c Souza, q u e
D e u s t e m , c o m o a esta C â m a r a nos a v i s o u , sc b e m q u e
a i n d a n ã o v i m o s as p r o v i s õ e s e o r d e n s de V . M . , d e
q u e m esperamos, p a r a m e l h o r sc c o n s e g u i r seu r e a l ser-
v i ç o , lhe mande n o v o suecessor no t o c a n t e á a d m i n s -
t r a ç ã o das m i n a s c d e s c o b r i m e n t o d ' e l l a s . ( 1 ) »
A r e v o g a ç ã o de o r d e n s l e g a e s p e l o p o d e r i l l c g i -
l i m o , pela v i o l ê n c i a e pela r e v o l u ç ã o , n ã o p o d i a firmar
precedente.
S a l v a d o r t e v e d e e m p e n h a r t o d o s os e s f o r ç o s , p a r a
serem ellas c u m p r i d a s .
Por cartas d e ' 2 5 de J a n e i r o c 8 de M a r ç o de 1 6 4 1
para Santos e S. V i c e n t e , o b t é m q u e a C â m a r a c o n v i d e
a clc S. P a u l o , a f i m de n o v o a d m i t t i r os j e s u í t a s , d e b a i x o
de certas c o n d i ç õ e s , n ã o sendo a t t e n d i d a s .

\X) Apontamentos Hist. da Proe de S, Pauio, p&g. 14,


— 139 —

O s p a u l i s t a s estavam t ã o resolvidos a m a n t e r a
a t t i t u d e q u e t i n h a m assumido em Junho, q u e g u a r d a r a m
á s e n t i n e l l a os c a m i n h o s q u e c o m m u n i ç a m a c i d a d e
c o m o l i t t o r a l , a f i m de i n t e r r o m p e r o t r a n s i t o . S a l v a d o r
t i n h a d e s p a c h a d o para S . P a u l o o fr.meiscano F r a n c i s c o
de C o i m b r a , c o m o e m i s s á r i o á* C â m a r a e p o v o , a f i m de
p r o p o r os meios de reunirem-se e c o n c i l i a r e m •se c o m os
j e s u í t a s . (1)
I m p e d i r a m a p a s s a g e m do r e l i g i o s o , t o m a n d o a
r e s o l u ç ã o de c o n s t i t u i r e m - s c e m g o v e r n o , c o m p o s t o d a
C â m a r a e 4 8 c i d a d ã o s eleitos pelo p o v o , d e s l i g a d o d o
R i o , a c u j o g o v e r n o d e i x a r i a m de prestar o b e d i e n -
cia. (2)
C o n s t i t u í d o o g o v e r n o , c constando dessa v i n d a de
Salvador a S . Vicente, para debellal-o ; pedem, cm
r e q u e r i m e n t o aos c a m a r i s t a s de S . V i c e u t e , c o m o ca-
b e ç a da capitania, q u e o n ã o a c c e i t e m , fazendo-o reco-
lher- ao R i o , ate* s e g u n d a o r d e m d o R e i .
Mas, a C â m a r a de S. V i c e n t e n ã o quiz ser s o l i d a r i a
com a de S . P a u l o , q u e l h e fez « n o v o p r e c a t ó r i o , pelo
q u a l , t e n d o - o a c e c i t o i n d e v i d a m e n t e , o prendessem, (3)
p o r q u e e r a \ nblico q u e v i n h a com o d e s í g n i o de passar-
se c o m sua casa, m u l h e r c f a m i l i a para os d o m í n i o s da
l l e s p a n h a , q u e r e n d o p r i m e i r o d e i x a r as capitanias asso-
l a J a s e d e s b a r a t a d a s e p r o v a s para ser r e m e l t i d o ao
governador Geral do E s t a d o » .
A o b e d i ê n c i a e fidelidade dos povos d o l i t t o r a l ,
m o t i v a r a m o a g r a d e c i m e n t > de S a l v a d o r , e m carta de 4
de S e t e m b r o de 1 6 4 2 ( 4 ) s e n d o os paulistas r e p u t a d o s
p o r u m a r e p u b l i c a d c f a c i n o r o s o s . E l l e s assim proce-
d i a m n ã o para. se i s e m p t a r da o b e d i ê n c i a ao rei e s i m
pelo o d i o v o t a d o a S a l v a d o r , u n i d o ao j e s u í t a s , seus

(1) Carta dr- Salvador ;í Cintara, d- S. Vicente d« 7 de Setembro J<? 1(142,


segundo diz o avtor da Mem. Mss. cit, da Bíb.liolUéçá Nac., em que u»s Inspi-
ramos p^ra a idaburjçíio deste capitulo. .*-•,.. .11
12) lMoo.-.>sta dc outta caria de Salvador á Câmara d.- S, Vicente dc 4 de
Setembro de 1642. .
(3| Consta do Pre.-aloiio que eslã no Archivo da Câmara de S. v icente.
',4) Archivo da Camarci de S. Vkctiie.
— 140 —

oppressores e t r a h i dores do S o b e r a n o . N.'ida, p o r e m ,


a l t e r a v a a p r u d c n c i a e serenidade d e S a l v a d o r nessa
emergência.
Nesta s i t u a ç ã o t ã o d i f f i c i l , o p r e l a d o A n t ô n i o d c
M a r i a , g u i a d o pelos j e s u í t a s , e m p r e g a v a os e s f o r ç o s
para u m a e x p l o s ã o , q u e e n v o l v e r i a a r u i n a d o s p o v o s .
O s j e s u í t a s s a b i a m q u e os r e l i g i o s o s d e S. F r a n -
cisco, na q u e s t ã o d a e m a n c i p a ç ã o d o í n d i o , se t i n h a m
u r i d o á C â m a r a e p o v o de $ . P a u l o . Sabia-sc q u e ao
c o m e ç a r dit q u e s t ã o t i n h a m i d o a C â m a r a e p o v o de
S- Paulo l e r ao c o n v e n t o d c S. Francisco, o n d e reque-
r e r a m ao G u a r d i ã o F r . Francisco dos S a n t o s , que, no
caracter de seu p r o c u r a d o r , p a r t i s s e p a r a L i s b o a , a re-
p r e s e n t a r a K l R e i as i n j u s t i ç a s e sem r a z ã o c o m q u e
e r a m o p p r i m i d o s pelos j e s u i t a s .
O s Franciscanns n ã o a c c e i t a r a m a c o m m i s s ã o e a
C â m a r a e n v i o u os seus d o u s r e p u b l i c a n o s — L u i z da
Costa C a b r a l e IJalthazar de B o r b a G a t o .
O s j e s u í t a s , p o r é m , d o e n d o - s c d a amizade dos
franciscanos c o m os paulistas, q u e j u l g a v a m l e r e m elles
c o n c o r r i d o p a r a s i t a e x p u l s ã o , b u s c a r a m a sua v i n g a n ç a
p e l o p r e l a d o e c c l e s i a s t i c o , q u e se p r e s t a n d o a ella,
c x C o m m u n g õ u os f r a n c i s c a n o s . ( 1 )
Mas; d e i x e m o s a q u e s t ã o d o s j e s u i t a s e ira n cisca-
v nos c v o l t e m o s ao assumptp p r i n c i p a l . ( t í )

(1) Consta da •• «IÃ de Ti. PfJncjKo dos Palitos a câmara dc S. Vicente


de 24 ce Setembro «lé 16*0.
','2) Ta cs foram <•* drwdeis feitas pi-loi paulistas contra cs jesuitas os
quaes vcnJo suilada a execução'da Ku'li • «•(V.iida sohrc a liberdade de índios
pelo recebimento dos embargos, faltando a fé da escriptura de composição que
celebrarão com os p«vos. passarão a akarçar ouifa fcfii 1IM4, por cftmimssáo e
subdeNgaçío do Bupo dc Nicair.ro paia u Vite-Collector do Reino de Portngal
o dr. Jcronymo Bagtalcno que acojneltcu <»• prelado Au'o:;io de Maií* Louioirn,
para i-xesu;ar c esle passou a csccucío para 0 capitania de S. Vicente ao vigá-
rio di motriz dc S. Paulo, Miguel da Nobrega e para poi-sc ínterdicto c censu-
ras na ijpíUl de S. Vicente pela txpvlsão dos jesuitas. Reparando, porem, "
prelado que pouco adiantava com as ccnsv.ras, querendo levar o eolpc aos reli-
gioso» fraitciscauos, tractou com os ícíuitui, o vigário dc S, Paulo o cura c
sji.risiío d;i me^ma. Mar.ocl Nunes, um conluio o mais delestavel, para se porem
de noilf ou de madrugada á horas que ninguém visse o Ínterdicto. na poita da
igteja ojntrj* c o lira^sc lego c de manha pnrdicass* que o Ínterdicto e ceiiMiras
se tinham posto c publicado, para - que não pudesse haver embargos, a cujo
respeiiu respondeu o procurador da coiua Iliomé Pinheiro, na resposta ao
— 1-11 —

F o i S a l v a d o r á S a n t o s , d e i x a n d o no g o v e r n o o seu
t i o D u a r t e C o r r ê a Vasquean.es e ahi f i c a r a m as cousas
c o n c i l i a d a s , por e s c r i p t u r a l a v r a d a e m 1 4 de M a i o
de 1643.
M a s , S . P a u l o p e r m a n e c e u na mesma r e s i s t ê n c i a
e durante alguns annos.

aggTavo interposto destes violentos e escandalosos factos, qtté, sendo a prova


de suborno difticu1tosa,,er-i esta, a que tinha visto, maí8 plena tt exhuhetante-
mente provada, poi- chegou a .oufeoal o oexqesiita »o depoimento que se lhe
minou : o-, francíscanns uOntlbuárani nos ~ens ollicio* divinos, sem sc importa-
rem com as censuras,
Os tianiiseano* de S. Paulo euilvngai.im o intcrdtcW baseado na filia de
publicação délle. paia cu:<i prov* tinham tirado caria de ex-rmumunhão. atim
de qnfe ioda pessoa, que tíypííí noticia dr sua publicação ou visse fixado na pur-
ta da íg'e|a, o Oerlarasse debaixo da pe;ia dita.
Ninguém COTOpar^oçu e cóiiliiluarain os religiosos em seus "flicios.
Tanto erão inviciveis ps embargos, como a paixão do prelado em decla-
rar-se Contra o* fratitis«'aitoí.
Não couhectm do mcretiuiento do* embarfins. remetendo para Roma o
conbrdmeulo da va>i*;i. Instaram os icligio*os para que declarasse si ticavam
inodado* com as censuras.
1

. Nada d-i-larou. 1-ntS.Ú Os religiosos aggrsvarà>íi para a coroa :io* 27 de


Maio de 3.<iII*. mi qual ÍBO notáveis doas respostas do procurador da coroa
Thoinè Pinheiro d^ Veiga, dando-*!- provimento no recurso por sentença profe-
rida no juüo da coros da cidade de lasbóa de 3 de Março dc 1651, onde se
declarou nin serem obrigados o« religiosos franciscanos irem litigar cm Roma,
jiôf ser contra as leis e privilégios do Ruiim,
Nao sc conformou com essa sentença o prelado c os jesuitas. Levaram a
cansa a Roma c obrigaram o procurador ('} a requerer, s: passasse ordem para
que nenhum juiz cumprisse sentenças que fossem proferida» porjuíees estran-
geiros c qu« fosse citado o prelado e o vigário Miguel d« Nobrèga, com pena
dc dcsnaiuralisaçio. por lerem feito a remissão e compulsão do processo para
Roma e v*reni culpados nestes procedimentos. cheg;mdo-se contra os mesmos a
se oHcre.er libello e a requererá imposição da pena de desnaturalisaçao.
O Consta
Não no arch.papa
tinha bastado do convento dc S,prelado
cohibir este Francisco em por
o ver S. Paulo,
uma parte qty?
. este procedimento mais exar- eluva a rolera dos pánlistaae por outrado
;") O autor da Mem. cit,. publica á pag. 2H7 o requerimento gover-
a Penigui-
nadorriioi
.dade geral
queem que opede
El-rei haviaque nas cadeias
tractadó, publicas
favorecendo sejam
a sua acceitoseclesiástica.
autoridade os presos
mandado* por autoridade eclesiástica, pO< isso que a* autoridade» do fio cs
O
não queriam
Ve-se oacceitai. (.) Governador
intuito dc-IU desi. acha
obter ess provisão a "favor
qu? do prelado,
governador nãopor pmvisão
piwlia dar,
dc 19 dc Junho dc 16*46—(V. I.. li das Ord. Regias do Kio dc Janeiro
porque, baseando-se no alvirá J 2fi dc Junho dc 1583: éí-sa faruldade eclesiástica pag. 86(1).
era só Com essa da
privativa provisão
Bahia.mais
Semo prelado animou
declaração se. entromettendo
dc soberano na jurisdição
r.ão se pudia estender
realSio.
ao i* maltratando os povo* «ue. em repre>cntaçao do rei, obtiveram a caria
regia de «d de Maio de ltillj, "iu que determinou •»> Ouvidor do |ii>> que *e
cumprissem suas leis e regimentos de niancira que inviolavelrucnie FC guardasse
a jurisdição real. jA Mcm. publ. a integn deste alvará á pag. 290). Nesse do-
cumenio o lei reprova o procedimento do prelado. (oMem. mss. CÍI.M).
— 142 -

O c h o q u e d e p a i x õ e s , os interesses p r e j u d i c a d o s
pelos actos d o g o v e r n o c pelas o r d e n s q u e v i n h a m d a
m e t r ó p o l e , o e x e r c í c i o de f ú n c ç õ é s g o v e r n a m e n t a e s q u e
sc t i n h a m a m p l i a d o p o r p r o v i s ã o de 9 de M a r ç o de 1 0 4 1 ,
b a i x a d o p e l o g o v r n a d o r g e r a l o marquez de M o n t a i v ã o ,
pela q u a l S a l v a d o r C o r r ê a p o d i a i n g e r i r - s e nos n e g ó c i o s
da g u e r r a , fazenda e j u s t i ç a , d e r a m l o g a r a c o r r e n t e d e
antipathia q u e se c o m e ç a v a a f o r m a r contra e l l e . A í é m
disto, a i d i s t m c ç õ s s d a c o r õ a . i n v e s t i n d o - o d e cargos
honrosos e de alta r e s p o n s a b i l i d a d e p o l í t i c a e a d m i n i s -
t r a t i v a , c o m o os de g e n e r a l d á f r o t a ( M a r ç o d e 1 6 4 4 ) e
g o v e r n a d o r da e x p l o r a ç ã o das m i n a s (Junho de 1 0 4 4 )
a i n d a m a i s d e s p e r t a v a m a c o r r e n t e de d e s p e i t o p r i n c i -
palmente do governador geral A n t ô n i o Tclles da Silva,
q u e o r d e n o u ao p r o v e d o r do R i o u m a n a r r a ç ã o m i n u -
ciosa d o s e r v i ç o p u b l i c o , da despeza q u e se fazia, dos
processos de a r r e c a d a ç ã o fiscal, e m s u m m a , d c t o d o
m o v i m e n t o da a d m i n i s t r a ç ã o .
A isto reuniu-se um í a c t o d c caracter político, que
v e i u o r i g i n a r suspeitas c o n t r a a fidelidade de S a l v a d o r a
c o r o a p o r t u g u e s a — a a c c l a m a ç ã o d e D . J o ã o I V no
R i o , e m M a r ç o d c 1(141, ( l ) p e l o f a c t o de ser hespa-
n h o l a sua esposa.
E ' assim q u e a C â m a r a d o R i o , a 2 6 de J u n h o d e
1(141, r e p r e s e n t o u ao r e i c o n t r a elle, p a r a q u e « a c u d i s s e
c o m r e m é d i o os d a m n o s c o m q u e este p o v o se a c h a
inquieto, com d i s s o l u ç õ e s t ã o depravadas, c o m o hora-
m e n t e se q u e i x a m dos soldados, q u e d e d i a e d c n o i t e

[1) Segundo uma. Hemoria publicada ua *Rcv. do In*t.n vol. 5" pg. 343.
ve-se qiic Salvador tomou as maiores cautelas em lomar effectiva a aclamação,
convidando todas as autoridades y na uma sessão que teve lugar em Marco, no
collegiu dos J'-suüas, sem que deixasse transpirar o assumplo, senão depois dc
aberta a 'cssâo. A aclamação foi feUejada, por alguns dias, na "idade, despa-
chando para S. Paulo, Ar'hur de Sá, com a notícia, ifiú de ser aclamado o rei.
Dc cmre os facto públicos, destacamos o /ogo defimãs, j eorrtdtt de louro,
a torrida de nunilhas, além de um cspcctaculo dramático que houve.
— M3

a n d a m usando de m a l i f i c i o s e s o l t u r a s demasiadas, s e m
o b e d e c e r aos seus o f i i c i a a s » , d a n d o isto e m r e s u l t a d o a
q o a c ç â o dos j u i z e s , a f a l t a de c u m p r i m e n t o das l e i s , a
r e t i r a d a dos m o r a d o r e s d a c i d a d e para o i n t e r i o r .
A i n d i s c i p l i n a e r a g e r a l , p o r q u e os soldados trans-
f o r m a r a m - s e e m t a v e r n e i r o s , a ç o u g u e i r o s , desappare-
c e n d o assim o agente d a s e g u r a n ç a p u b l i c a , p a r a ser
s u b s t i t u í d o pe'o v i o l a d o r d a o r d e m e d o s d i r e i t o s
individuacs.
U m dos p o n t o s d c a c e u s a ç ã o da o p i n i ã o e r a o
a f o r a m e n t o de u m t e r r e n o ( D e z e m b r o d c 1 6 8 5 ) ao e n t ã o
a l c a i d e - m ó r Salvador, para a ç o u g u e publico. O a c t o
era d e facto u m privilegio ( 1 )
E i s a h i os seis annos de g o v e r n o de Salvador, c u j o
suecessor f o i L u i z B a r b a l h o Bezerra, n o m e a d o p o r p r o -
v i s ã o d c 2 1 de F e v e r e i r o de 1 6 4 2 , pelos seus relevantes
s e r v i ç o s prestados e m P e r n a m b u c o , assumindo a a d m i -
n i s t r a ç ã o a 2 d e J u n h o de 1 6 4 3 , q u e l h e passou o p r ó -
p r i o S a l v a d o r , a (piem apresentou seus t í t u l o s e m e r c ê s .
O s j e s u i t a s q u e nada t i n h a m o b t i d o , e m r e l a ç ã o a
r e s t i t u i ç ã o d o c o l l e g i o de S. Paulo, iniciaram de n o v o

(1 Fm conformidade da supplica c fala qu: a câmara fe/, o atcaide mór


Salvador Corrêa de Si, para credito c bom governo da cidade, lhe aforou o ler-
re«o em que hoje se acha o trapiehe da radade, para sc faier um.i casa de venda-
gem publica de carne, e que ao m<**mo tompO serviase de balança c peso geral,
para se pesarem as caixas dc assucar, com a condição de fazer ;t sua custa a dita
casa e paço, com a sua varanda para o assouguc, e que nella poderiam fazei os
officiacs da câmara o que bem entendesse paia * fundação da balança e peso
geral, cm que sc pesassem as caixas dc assucar que as parles quisessem de
livre vontade, levando-se por pesar dc cada caixa 40 rs., e Outtos de a rceolber
no dito paço, ainda que dellc sahisse para a cidade, e que pela casa de assouguc
t pelo peso da balança se pagaria em cada um anno de aforamento 20$. em di-
nheiro de contado, aos quartéis, com a declaração que u nenhuma pessoa seria
pcrmtltido pesar as caixas dc assucar, num ter balança, senão o dito alcaide-
mór, debaixo da pena dc 6Í. applicada uma parle para o accusado, outra para
o conselho e A ultima para o alcaide-mór. e que os o llie ia es da câmara seriam
obrigados a concerta-lhe O aSSOugüe n o dito paço sem contradição alguma, e o
alcaide-mòr ter pessoa de confiahça para assistir ao peso c casa do assougue,
mandando lazer no mesmo uma varanda cm lugar equivalente, onde pesasse a
carne em casa separada c fechada, cm que se recolheria a carne que sc havia
de cortar, e alem disto outra casa para a residência do que tomai ia conta no
peso, cujo aforamento duraria 11) JUDÔ-, passado» os quaes ficaria a câmara com
a dita casa, sem opposiçdo alguma do alcaide-mór. desconlaudo-sc no arrenda-
mento o valor do assouguc. Pouco depoi* etu attençJo aos bons serviços do
alcaide-inór, reformou a câmara cm perpetuo fato, e sim aqueile arrendamento
para vlle e seus herdeiros. {Mem. ms*: cit.)
<— i m —*

a questão, obtendo do rei uma ordem para que o go-


v e r n o infoimas.se s o b r e as p e t i ç õ e s das C â m a r a s e m o -
r a d o r e s das villas de S. P a u l o , S. V i c e n t e , S a n t o s e R i o
de Janeiro e s o b r e as q u e elles t i n h a m d i r i g i d o c o n t r a
os paulistas.
D e s d e o t e m p o d o M a r q u c z de M o n t a l v ã o , essa
q u e s t ã o f o r a s o l v i d a pelos poderes c o m j c i e n t e s , a f a v o r
dos j e s u i t a s . o r d e n a n d o - s c a r e s t i t u i ç ã o dos seus c o l l e
gios d e S . P a u l o .
E o f a c t o d c n ã o s e r e m c u m p r i d a s as o r d e n s fez
com que fosse c i l a e n t r e g u e á i n f o r m a ç ã o de B a r b a i h o
Bezerra, i n i c i a n n o o n o v o processo, c u j o r e s u l t a d o f o i o
a l v a r á de p e r d ã o g e r a l dos m o r a d o r e s d c S . P a u l o
(16-3 7 ) , d e p o i s q u e restituissem os c o n v e n t o s ans
jesuitas.
A i n t e r v e n ç ã o a m i g á v e l d c d o u s filhos da t e r r a ,
K e r n ã o D i a s Paes e J o ã o , v e i u d e f i n i t i v a m e n t e r e s o l v e r
a r e s t i t u i ç ã o , q u e s ó c m 1 6 5 3 teve l o g a r .
Mas, a s o l u ç ã o f o i s i m p l e s m e n t e a p p a r e n t e . O s i n -
teresses c o n t i n u a r a m p r e j u d i c a d o s para, a n n o s depois,
trazerem u m a nova p e r t u r b a ç ã o da o r d e m .
C o m o t e m o s v i s t o , o a s s u m p t o f o r ç a d o das a d m i -
n i s t r a ç õ e s era a f o r t i f i c a ç ã o d a c i d a d e . A s i t u a ç ã o d e
g u e r r a da c o l ô n i a o b r i g a v a a isso, r e t i r a n d o a a t t e n ç ã o
dos g o v e r n o s dos m a i s v i t a c s i n t e i c s s c s de o r d e m a g r í -
cola e c o m m e r c i a l , d o d e s e n v o l v i m e n t o da c i d a d e , p a r a
o b j e c t o s o m e n t e d e s e r v i ç o s m i l i t r r c s , na o r g a n i s a ç ã o
de u m a g u a r n i ç â o q u e a r e c e i t a d o t e m p o n ã o p o d i a
c o m p o r t a r . A c o n s e q ü ê n c i a d i s t o f o i a s i t u a ç ã o de crise
financeira e e c o n ô m i c a a q u e c h e g o u a c a p i t a n i a , a l g u n s
annos depois, c o m o v e r e m o s .
N o p r o g r a m m a do g o v e r n o a p r e s e n t a d o á c â m a r a ,
n o acto d a posse, m o s t r a a necessidade d c elevar-se as
f o r ç a s de 2 7 0 soldados a 6 0 0 , n ã o o b s t a n t e a r e c e i t a
ser i n s u f í i c i e n t c p a r a o p a g a m e n t o d a g u a r n i ç â o e x i s -
t e n t e que, ha 10 mezes, n ã o r e c e b i a seus soldos.
S a l i e n t o u a necessidade d e r e p a r a r as f o r t i í i c a ç ô e s
e dar-lhes m u n i ç õ e s . A p p c l l o u p a r a o p r o c e d i m e n t o d a
B a h i a , c u j o p o v o n ã o t r e p i d a v a e m fazer os maiores sa-
c r i f í c i o s , p a r a as necessidades d o s e r v i ç o p u b l i c o .
Para c o r r e s p o n d e r a p r o p o s t a de despeza, a c â m a r a
r e s o l v e u a g r a v a r a i m p o s i ç ã o s o b r e os v i n h o s q u e exis-
t i a , a l é m da v i n t e n a q u e f o i l a n ç a d a s o b r e todos os h a b i -
t a n t e s . F o i interessante o r e s u l t a d o da i m p o s i ç ã o s o b r e
os v i n h o s . A l e m da d i m i n u i ç ã o de q u e se r e s i n t i u a i m -
p o r t a ç ã o , d a n d o e m r e s u l t a d o a d i m i n u i ç ã o da r e c e i t a
e a v a l o r í s a ç ã o da mercadoria, deu logar a u m grande
i n c r e m e n t o da i n d u s t r i a d o a g u a r d e n t e , o v i n h o d c m e l ,
q u e a c â m a r a quiz e n f r a q u e c e r , p r o h i b i n d o - a . I s t o d e s -
p e r t o u os maiores protestos, que s u b s t i t u í r a m a m e d i d a
p o r uma t r i b u t a ç ã o igual sobre a m e r c a d o r i a n a c i o n a l .
O u t r a m e d i d a d c c a i a c t e r financeira f o i t o m a d a .
E s t a b e l e c e u - s c o c u n h o da moeda de prata, sendo no-
m e a d o e n t ã o c o m o c o m m i s s a r i o de t o d o o s e r v i ç o n o
sul o c a p i t ã o D i o g o L o p e s d e F a i i a , t i r . . n d o se 1 ° / 0

para as despezas. ( 1 )
C o m a m o r t e de Bezerra, (2) a c â m a r a p r o c e d e u a
eleição do substituto, que foi Duarte Correia Vasquea
n c s . Esse a c t o d i v i d i o a o p i n i ã o p o l í t i c a e m dous g r u -
pos, dos q u a e s u m p u g n a v a pela e s c o l h a d o s a r g e n t o -
m ó r do p r e s i d i o S i m ã o D i a s S a l g a d o , que, p o r ser a
m a i o r p a t e n t e m i l i t a r , d e v i a ser o suecessor d c Bezerra
e o u t r o s pela escolha de D u a r t e C o r r e i a . E por c e r t o
essa d i v e r g ê n c i a t e r m i n a r se-hia por u m a d e p o s i ç ã o do
g o v c r n o . s i o governador g e r a l n ã o se apressa e m n o m e a r
o c h e f e d o g o v e r n o , o que fez p o r acto de 7 de M a i o d c
1644 ( 3 ) , « p a r a p r i v a r q u e os soldados e mais gentes
e n t r e m e m a l t e r a ç ã o , pela d i f f e r e n ç a dc o b e d i ê n c i a q u e
se segue, d e c u j a d e s u n i ã o se p o d e m oceasionar m do-
res d a n n o s . o

(l) O regimento Je*te Serviço dispunha que haveria Um nmhadur, lhe-


«oiireiro, escrivlo e que da cunhagem s« lirarii 30 " ... dos quat* 25 ".'„ repre-
senuriam «os avanço» de S. M. Tiiar-se-hu (ambent iOi outros 25 "/ , I 9 para
ai despeeas,ficandoos 24 *:„ para os empregado*.
;2) Fallcccu a 15 de Âhril cc 1G44 (Rev, do Inst. Hisl. vol. 2 pg. fOj.o

(3; Mem. ms. dt, pag. 300.


Uè -

A c â m a r a n ã o p o d i a ficar i n J i f f e r e n t e a esse pro-


testo popular ao uso de u m a sua a t t r i b u i ç à o l e g a l , q u a l
a de escolher suecessor dos g o v e r n a d o r e s , q u a n d o essa
escolha n à o viesse expressa nos d o c u m e n t o s officiaes o u
d i c t a d a pelo p r ó p r i o s e r v e n t u á r i o , e m seu t e s t a m e n t o .
N e m t a m b é m p o d i a fíc.-.r satisfeita com o p r o c e d i m e n t o
do g o v e r n a d o r g e r a l , e m n ã o h o m o l o g a r a sua escolha.
c u j a n ã o a c c c i t a ç à o p e l o p o v o inspirava-se talvez na
c o r r e n t e d e a n t i p a t h i a e p r e v e n ç õ e s com q u e j á o l h a v a
S a l v a d o r Benevides, s o b r i n h o d o e s c o l h i d o . E m v i s t a
d i s t o , representou ao r e i s o b r e a v i o l ê n c i a q u e sc c o m -
mettera á s suas f ú n c ç õ ç s l e g a e s . E o s o b e r a n o h o m o -
l o g o u a c o m p e t ê n c i a da q u a l a c â m a r a n ã o q u e r i a ser
esbulhada, b a i x a n d o o a l v a r á cie 27 de S e t e m b r o de
l t í 4 4 ( 1 ) , pelo q u a l a coro 1 firmava o p r i n c i p i o de q u e
« s u e c e d e s s e f a l l e ç e r o C à p i t ã o - M ó r G o v e r n a d o r da d i t a
C a p i t a n i a , e n ã o havendo n e l l a vias p o r q u e e u d e c l a r e
a pessoa q u e ha d c s u e c e i e r no d i t o g o v e r n o ; possam
os officiaes da Câmara da dita Cidade que então servirem,
eleger pessoa que mais idônea l/ies parecer que sirva o dito
cargo, emquanto eu ou o dito meu Governador Gttaldo dito
Estado não prover, a quem darão logo cont i da tal vacatura
e provimento que assim houvessem feito, para mandar o
que hoiw?r por mais meu serviço, fiando delles, que elege-
ram para o dito cargo pessoa de tantas partes c qualidade,
que fique Eu bem servido, e tenha por isso muito que lhe
agradecer,»
O seu p r o g r a m m a de a d m i n i s t r a ç ã o n ã o d i v e r g i u
d o dos seus a n t e c e s s o r e s . O s a c o n t e c i m e n t o s n ã o t i n h a m
m u d a d o de n a t u r e z a .
A g u e r r a mantinha*se no n o r t e e era i n d i s p e n s á v e l
cuidar dos e l e m e n t o s de defeza da c i d a d e .
O g o v e r n a d o r m o s t r o u a necessidade d e c o n t i -
nuar-se c o m as o b r a s da f o r t a l e z a d a L a g e ( A ) e d e

{1; Mem. mss. cVí, pg. 30Ü.


;A) A construcção desta fortaleza foi ordenada por carta regia de 2 dc
Agosto de 1Ü44, applicaudo -sc a metade do dinheiro do cunh> das p atacas.
— 147 -

se r e p a r a r as o u t r a s de S J o ã o e S a n t a Cruz, p o r q u e
« n ã o s e conseguindo o acabamentodaquella obra, ficava
a c i d a d e exposta a g r a n d e s desventuras, p o r q u e en-
t r a n d o na b a r r a , todas as d e m a i s p r a ç a s e d e s e m b à r -
cadores s ã o f a c i l l i m o s , m u i t o mais p o r s e r e m d i l a t a d o s
c d i f i c u l t o s o s de sc d e f e r í d e i ; da m e s m a c o n d i ç ã o ficam
algumas das p l a t a f o r m a s e l a n ç o s p o r m u i m a l r e g u l a -
d o s . I \ d a í o o caso d c todas as f o r t i t í c a ç õ e s d a c i d a d e
v i r e m a t e r a p e r f e i ç ã o q u e se pede, n e m c o m t u d o
s e r ã o capazes d e e v i t a r a p e r d i ç ã o d e l i a p o r cerco,
q u a n d o n ã o fosse p o r assalto, por q u e l o g o q u e o i n i -
m i g o n ã o ;.chasse o p p o s i ç à o r a b a r r a f i c a r i a m c o r t a d o s
os b a s t i m e n t o s e o u t r o s soecorros.
E s t e s e c u t r o s effeitos e p e r i g o s d e l l e s nos d e v e m
p e r s u a d i r a i m p o r t â n c i a da f o r t i í i c a ç ã o da L a ^ c m » ( 1 )
O g o v e r n a d o r ; inda observou que tinha a l c a n ç a d o d o
g o v e r n a d o r g e r a l cem a sua v i n d a , « a o r d e m d ê p; ssar
p a r a a f í a h i a o c o f i e d c o i n h e i f o d o q u e r e s u l t o u a sua
M a g e s t a d e os a v a n ç o s do c u n h o da m o e d a , e a i m p o r -
t â n c i a d a v e n d a dos c h ã o s das praias q u e t a m b é m per-
tencia á Sua . M a g e s t a d e p a r a q u e este p o v o tivesse
a q u e l l e a d j u t o r i o , p i r a a Certificação da L a g c m , seus
reparos e e m e n d a das d u a s fortalezas dos l a d o s . » ( 2 )
A c â m a r a m a n t e v e t o d a s as c o n t r i b u i ç õ e s q u e j á
e x i s t i a m , para estes s e r v i ç o s .
O u t r a s m e d i d a s f o r a m t o m a d a s por ella.
A c o r d o u q u e n ã o se vendesse a f a r i n h a d e g u e r r a
i m p o r t a d a por mais de 24G r é i s o a l q u e i r e e a c a r n e p o r
mais d c 10 r é i s a l i b r a .
O p a t r i o t i s m o c o m q u e a c â m a r a olhava p a r a os
interesses p ú b l i c o s , as medidas c o m q u e p r o c u r a v a
c u r ú r das necessidades do p o v o , a s o m m a d e s a c r i f í c i o s
c o m q u e p r o c u r a v a a j u d a r o E s t a d o , na diiíicil e m e r g ê n -
c i a d c g u e r r a , c m que sc achava a c o l ô n i a , p o r m e i o de

(1) Silva Li*boa vol. 2' pn. 149.—Mcm. »(»., dc onde Silva Lisboa tras-
ladou o doe. som entretanto indicat-o.
(2j MCM. mss. tit.
— 148 —

pesados i m p o s t o s l a n ç a d o s s o b r e o c o m m e r c i o e a
l a v o u r a e dos d o n a t i v o s v o l u n t á r i o s sobre s u a p o p u l a -
ç ã o , c a p t i v a m as s y m p á t h i a s d o soberano que,^ agrade-
cido,' h o n r o u - a p o r m e i o d o a l v a r á d e 1 0 d e F e v e r e i r o
de 1 6 4 2 , ( 1 ) c o m os mesmos p r i v i l é g i o s q u e j á t i n h a m
sido c o n c e d i d o s aos c i d a d ã o s d o H o r t o .

III
SUMMARIO — A pirataria. Creação das frotas. O Regimento de/ias. Uma con-
ferência política. A creação de mais impostos. Souto Maior.
Actos da câmara. Segundo goterno de Vasqueanes. Fortaleza dà
Lage. Aforamento* de terras de marinha. A crise financeira e
ecmomiea. Soldados negociantes. Chegada de Salvador e sua
partida para Angola. Governo de D. luii de Almeida e Hritta
Pereira e Antônio Gahão. Seu programma de governo. Crise
monetária. Moeda falsa. Segundo Qoze>no de D. Lvir de
A Imeída
C o m a guerra hollandeza no norte, a pirataria de-
s e n v o l w u - s c c o n s i d e r a v e l m e n t e nos m a r e s d a c o l ô n i a ,
a p p r e h e n d é n d ó os n a v i o s q u e a d e m a n d a v a m c q u e
delia seguiam para o Reino e a respectiva carga. Isto
p r e j u d i c a v a o c o m m e r c i o e t o d o s os interesses d o p o v o
c d a lavoura,^sem os recursos n e c e s s á r i o s p a r a g a r a n t i r
a n a v e g a ç ã o . A m e t r ó p o l e n ã o p o d i a ser i n d i f f e r e n t e a
esse m a l q u e p o r s i a c o l ô n i a n ã o p o d i a c u r a r , j á e x -
h a u s t a d e recursos na s u s t e n t a ç ã o d e u m i g u e r r a q u e
assumira g r a n d e s p r o p o r ç õ e s , j á p e l a e x t e n s ã o t e r r i t o -
r i a l d o seu d o m í n i o , j á pelos e l e m e n t o s c o m q u e o p o v o
i n v a s o r resistia á a c ç ã o d a m e t r ó p o l e . E essa d e f i c i ê n -
cia d e recursos t o m o u m a i o r e s p r o p o r ç õ e s , e m annos
posteriores, c r e a n d o os e l e m e n t o s d e u m a crise f i n a n -
ceiras e e c o n ô m i c a , nas c a p i t a n i a s d o s u l , isemptas e n -
tretanto da a c ç ã o d a guerra. M a s , c que como íactor
dessa crise e n t r a r a m o u t r a s causas, q u e p a s s a r e m o s e m
revista.

(1) A inWyra deste documento consta da Mem. Mss. que letnoj e <?*tá pu-
blicado no 1" voi. dos Ânus. do Disl. Ped., á pg. 201. por olTcrla do Dr. Joa-
quim Pires Machado Ponclla. dircclor cntào do Areh. Publico.
fcis a razão dc cio iranscrevcl-o aqui na intrgr'. Rcmcttcmoí o leitor ao
vol, citado d nquclles Aiehivos.
— 149 —

A m e t r ó p o l e c o m p r e h c n d e u c o r r i g i r a falta de segu-
r a n ç a d a n a v e g a ç ã o c o m a c r e a ç ã o das f r o t a s , q u e d e -
v i a m e p n d u z i r as m e r c a d o r i a s . U n i d o s os navios q u e
deviam viajar juntos, melhor garantiriam a n a v e g a ç ã o
e as m e r c a d o r i a s . E p o r a l v a r á de 2 6 de M a r ç o de 1 6 1 4 ,
f o i S a l v a d o r C o r r e t a d c S á e H e n e v i d c s n o m e a d o o seu
general. ( 1 )
O a l v a r á r e g u l a v a t o d o o s e r v i ç o . A l é m de d i s p o r
sobre a g u a r n i ç â o , seus d e v e r e i , f i x a v a as toneladas de
c a d a n a v i o , sua carga, o f r e t e , as avarias, a data da
viagem, etc. (2)
O R e g i m e n t o trazia d i s p o s i ç õ e s , c u j a e x e c u ç ã o
p r e j u d i c a v a alguns interesses, c o m o p o r e x e m p l o , a p r o -
h i b i ç ã o de f a z e r e m p a r t e d a f r o t a navios n ã o a r t i l h a d o s .
O r a , ao c h e g a r ella ao p o r t o do R i o , e s t a v a m ancora-
dos a l g u n s navios j á c a r r e g a d o s .
E m a n i f e s t o q u e os d o n o s da carga t i n h a m - n ' o s
fretado c m b ô a fé, pago o frete e realizado a t r a n s a ç ã o .
O G o v e r n a d o r convocou e m sua casa os interessados e
a u t o r i d a d e s , a 6 de A b r i l d e I 6 4 õ , p a r a t r a t a r e m desse
ponto do r e g i m e n t o . ( 3 )
E f o i r e s o l v i d o n ã o e n t r a r elle e m e x e c u ç ã o .
F o i p e r m i t t i d o , c o m o se fizera na Bahia, q u e os
navios navegassem, p a g a n d o a a v a r i a a 0 0 r é i s , t o c a n d o
3 0 r é i s aos d o n o s dos navios a r m a d o s com 10 p e ç a s , e
os o u t r o s ííO r é i s applicados a b e n e f i c i o dos soldados

(1) N !.!• podemos atliimar "sóhfe, a • de Salvador Corrca, no Rio.


depois cie ter dpixado o governo. Segundo Pizarro c Silua Lisboa cllc foi chamado
Mas preferimos acreditar que elle tienu no Rio.
(2) Istc documento está publicado á pg. 1G1 do 2" vol. dos Aurties do
/</" por Silva Lisboa que o trasladou da Mrnt. ai., se:u entretanto di*r a
f<»iite. Podemos avançar que a obra de Silva l.ishoa nao passa da copia
daqnelli Mem,
(3} 1--ii t.-in ; T-sentes nessa reunião Duarte Corrêa Vasqueanes. o Ou-
vidor geral o Doutor Damião -d** Aguiar, e os Offieiaes da Câmara com o Juií
Ordinário Francisco da Cosia Harros, que crão aquelle.-" Antônio de Apuiar.
Alva.ro de Mattos, Pedro Pinheiro, e o Procmador do Conselho Francisco Pi-
nheiio de Andrade: assim como também chamou, como fora sempre costume,
nos negocio* importantes, ÕO* Prelados das Heliçiõcs. c aos rcpiesenUvcis Eccle-
siasticos ; com a assistência d-> Almoxarife d j Partida Real Arton-o Ribeiro,
e dos negociantes carregadores dos navios, os Capitães (íreporio Mendes, Pedro
Martin* NVufào, Bal-.haiar de Amorim. J»â«i Dantas, Miguel Cardoso. José
Gomes. {Mem. mss. dl,).
— 150 —

q u e nos mesmos se embarcassem, f i c a n d o , p o r é m , e m


deposito os (>Ü réis d a q u e l l e s n a v i o s q u e tivessem m e n o s
d c 10 pecas, pagando-se aquclles 6 0 reis, m e t a d e no
A r a z t l , e a o u t r a no R e i n o : e e m q u a n t o aos f r e t e s se
regulassem p e l o m e s m o m o d o c o n c o r d a d o na B a h i a ,
abatendo-sc 1$ p o r t o n e l a d a ; d e m a j i e i r a q u e a q u e l l e s
q u e estavam contemplados c m 1 8 $ . f i c a r i a m e m l f $ 0 0 0 ;
os d e 1 6 $ , em 1 5 $ ; os de 1 4 $ , c m 1 3 $ , e assim por
d i a n t e ; o q u e c m t u d o o m a i s l i t t e r a l m e n t e se h a v i a
de c u m p r i r o R e g i m e n t o , »
£ m t e s t e m u n h o dos g r a n d e s b e n e f í c i o s q u e a d v i -
n h a m p a r a os interesses p ú b l i c o s , em c o n s e q u a n c i a des-
tas m e d i d a s , a C â m a r a do R i o a c c o r d o u m a n d a r v i r d o
R e i n o 4 0 0 arcabuzes e 100 m o s q u e t e s , p a r a s e r e m d i s -
t r i b u í d o s pelos m o r a d o r e s da cidade, q u e se r e s e n t i a de
f a l t a de a r m a s . A l é m d i s t o , c r e o u u m n o v o i m p o s t o
p a r a s u s t e n t a ç ã o da trota d c HO rs. s o b r e a r r o b a d e
assucar branco, 4 0 r s . s o b r e os mascavos e 2 r c a e s s o b r e
cada a r r o b a de f u m o e 5 0 rs. s o b r e cada c o u r o de b o i .
Estes novos impostos t a m b é m seriam a p p l i c a d o s ao
sustento de 12 g a l e õ e s para c r u z a r e m a costa, e n t r a n d o
na m e s m a a p p l i c a ç ã o o d i n h e i r o c o n f i s c a d o aos h e b r e u s
q u e e s t a v a m presos. ( 1 )
Pouco depois de ser S a l v a d o r d i s t i n g u í d o c o m a
n o m e a ç ã o de g e n e r a l d a s f i o t a s , o f o i t a m b é m p o r a l v a r á
de 8 cie j u n h o de 1 6 4 4 , a d m i n i s t r a d o r das m i n a s de
S . Paulo e S. V i c e n t e , c o m a c l á u s u l a de ser s u b s t i t u í d o
p o r seu t i o D u a r t e C o r r ê a V a s q u e a n e s , s e r v i ç o este
q u e tinha sido ereado p o r o u t r o a l v a r á d a m e s m a d a t a ,
em q u e o s o b e r a u o d i z q u e r e s o l v e u o r g a n i z a r esse ser-
v i ç o e m c o n s e q ü ê n c i a de r e p r e s e n t a ç õ e s q u e l h e f o r a m
feitas da e x i s t ê n c i a d e m i n a s n a q u e l l a c a p i t a n i a . ( 2 )

(11 Mem, WIJS. ÍIX.


(2) Os dois alvarás e-tão puWiCadoS ua Mem. w/s*. p.'gs. 2ã!» e 261. o
loram traiiscriptua UOT Silva Lisboa. <>br. ci;„ vol. 2\ pays. l#i e 189 sem entre?
tanlo declarar d? onde os transcreveu. A representação foi feita pela commissão
dc paulistas qu<?. secundo j.\ vimos, fvta a Lisboa tratar oa questão da expulsão
dos jesuitas de S. Paulo.
— 151 —

A l é m destas p r o v a s d c c o n f i a n ç a q u e a c o r ô a d a v a
a S a l v a d o r que, s e m a m e n o r c o n t e s t a ç ã o , e r a a i n d i v i -
d u a l i d a d e de m a i s p r e s t i g i o p o l í t i c o da c o l ô n i a , escreveu*
l h e a carta d c 2 1 de D e z e m b r o de 1 6 4 4 c m q u e salienta
« c o m o o m a i s i m p o r t a n t e s e r v i ç o á coroa f o r n e c e r a u x í -
l i o s c o m q u e F r a n c i s c o de S o u t o M a i o r , n o m e a d o go-
v e r n a d o r de A n g o l a , d e v i a p a r t i r para tomai-a das m ã o s
dos hollandezes. » (1)
S o u t o M a i o r estava p r e s i d i n d o o g o v e r n o do R i o
d e J a n e i r o . A sabedoria dos seus actos nesse g o v e r n o
e os s e r v i ç o s j á prestados no n o r t e da c o l ô n i a , g r a n g e a -
r a m l h e a s y m p a t h i a p u b l i c a c a escolha d o soberano
p a r a essa e x c u r s ã o .
D e v i a c o n d u z i r 3 0 0 homens, dos quaes 1 0 0 lhe de-
v i a m ser d a d o s p e l o g o v e r n a d o r g e r a l .
S a l v a d o r n ã o p o u p a e s f o r ç o s para a j u d a r e apressar
a e x p e d i ç ã o de S o u t o M a i o r , q u e p a r t i u para A n g o l a ,
c h e g a n d o a Q u i c o m b o em 26 de Julho de 1 6 4 5 .
F i c a r a i n t e r i n a m e n t e no g o v e r n o C o r r ê a V a s -
queanes, i n d i c a d o c o m o s u b s t i t u t o de S o u t o M a i o r na
p r ó p r i a c a r t a de D e z e m b r o de 1 6 4 4 , e m q u e o rei pe-
d i r a a S a l v a d o r os a u x í l i o s para a e x p e d i ç ã o de S o u t o ,
t o m a n d o posse a 2 7 de M a r ç o de 1 6 4 o . (2)
Entregou-se á a d m i n i s t r a ç ã o d a cidade. A C â -
m a r a t o m o u r e s o l u ç õ e s d i g n a s d e serem a q u i r e g i s t r a -
d a s . R e s o l v e u q u e n i n g u é m pescasse com redes, f o r a
das fortalezas, nos d o u s mezes de J u n h o e J u l h o , p o r ser

(1) Mcm. mss. «7. pag. 308, cujo autor dt>: nomeado governador da -
qucllc lieiao, afimdc que partlsseoa toaa prexsa, fazendo saber ao'General da
Armada que deverá locar na Bahia, para reeãtaBr abi tem homens, qae o Cio-
vemador Geral havia de apromp-ar, para com os duzentos que recehera do
Reino pref.-er trezentas praças, as qitaés com as embarcações necessárias, e
oitenta qníntaes de pólvora, munições, e armas de sobrccclentc, entregasse
tudo a aquclle Francisco de Souto Maior: c que outro sim se applicasse para
as despezas da ciepcdiçan dez mil cruzados que existiam nesta cidade do cunho
da moeda, e qae u/io bastando houvesse tnao dc qualquer outra renda da l'a-
zenda Real; formalísando de tudo couta para ser vista, e certidões do quanto o
mesmo General da Armada entiegava ao Governador nomeado para a eapedicâo
do Reino de Angola,ficandona inteligência dc que seu tio Duarte Corrêa.
Vasqucaues ficaria neste governo.
(2) Reo. do Inst. vol, 2° pag, 51.
m -

tempo de desovarem os peixes dentro da bahia ; prO-


h i b i u os escravos a n d a r e m v e s t i d o s de s e d a ou os l i b e r -
tos, o u t r a z e r e m f a c a o u p á u , sob p e n a de í í $ ; p r o h i b i u
o e m b a r q u e de v i n h o s , azeites e t o d a q u a l i d a d e d e
m a n t i m e n t o s , sem sua l i c e n ç a . E n t r o u d e p o i s a resolver
sobre o a r r e n d a m e n t o dos t e r r e n o s das p r a i s , s o b r e a
v e n d a g e m d e p e i x e fresco no v e r ã o , a f a c t o r a d a p o n t e
de S. C h r i s t a v ã o , a c o n d n c ç ã o d a i g u a d á C a r i o c a e a
r e d u c ç ã o dos í n d i o s , p a i a se p a g a r os seus s a l á r i o s .
O O u v i d o r D a m i ã o de A g u i a r fez sua c o r r e i ç ã o
e m 1 6 4 5 . r e g u l a n d o o f r e t a m e n t o dos navios, q u e p a r -
tissem d o R i o para o E s p i r i t o S a n t o , d i s p o n d o q u e sendo
h o m e m b r a n c o pagaria p o r s i , sua e r m a e passagem
1 $ e por cada n e g r o Í í 2 0 r s . ; p a i a a B a h i a 2 $ e p o r c a d a
negro 6 4 0 rs.; para Pernambuco 3 $ c por cada negro,
p a r a . a Ilha G r a n d e 4 ^ 0 rs., e p o r n e g r o 1 0 0 rs , p a r u
S . V i c e n t e 8 0 0 rs. e n e g r o 3 4 0 rs., para* as i l h a s T e r -
ceira e d a M a d e i r a 6 $ e para o R e i n o 8 $ e de c a d a
n e g r o 2 $ para o Rein") e ilhas. D e t e r m i n o u q u e os d e -
g r a d a d o s q u e viessem c u m p r i r o seu d e g r e d o n o R i o ,
fossem p a r a C a b o F r i o , havendo u m l i v r o p a r a se t o m a r
os signaes d a cara, c ó r e v e s t i d o . O r d e n o u q u e p o r
c a d a c a p t u r a de n e g r o í u g i d ó , o senhor p a g a r i a 2 & 0 0 0 ;
p r o h i b i u q u e n o C a m p o de Nossa S e n h o r a d A j u d a , se
fizesse casas, v a l l a d o s o u cercas, p o r ser ro.:io d a c i d a d e ,
nem fosse c o n c e d i d a s e s m a r i a s neste l o g a r , a q u e i
C â m a r a d e v i a o p p ô r - s e ; pr- h i b i u as cercas de pescaria,
c q u e n e n h u m pese i d o r morasse e m Sacztpenapan, nem
tivesse a h i casa. n e m c a b a n a . D o d i n h e i i o r e s u l t a n t e
das m e t a d e s destas po..turas, d e v i a s^r a p p l i c a d o a u m a
cadeia p a r a as pessoas honradas e p a r a as m u l h e
res.» (1)
Vasqueanes, c o m o todas a:, a d m i n i s t r a ç õ e s q u e l h e
a n t e c e d e r a m , c u i d a v a d c m u l t i p l i c a r os e l e m e n t o s d e
defesa d a c i d a d e . i\ t o m a d a d c A n g o l a pelos h o l l a n

(1) Htm, « « t cil, pag. 340 em diante.


— 153 —

dezes t i n h a a g g r a v a d o as a p r c h e n s õ e s e receios das


p o p u l a ç õ e s do l i t t o r a l , que n ã o o l h a v a m s a c r i f í c i o s n ó s
p r e p a r a t i v o s d e f o r t i f i c a ç õ e s , c o m que p u d e s s e m resistir
a qualquer invasão.
Vasqueancs j á tinha c o n s t r u í d o uma muralha do
f o r t e S. T h o m c a S a n t a L u z i a , c o m a q u a l p r o c u r a v a
p r o h i b i r q u a l q u e r d e s e m b a r q u e nessa praia. E c o n t i -
n u a v a c e m ella ate o m o r r o d a cidade, p a r a que a f o r t a -
leza dc S. S e b a s t i ã o servisse dc p r a ç a d ' a r m a s , A s s i m ,
fie. va o i n i m i g o sem p o d e r p e n e t r a r na parte b a i x a da
cidade. Estava em c o n s t r u c ç ã o de f o r t i í i c a ç õ e s na
P r a i n h a e e m S. C h r i s t o v ã o .
Mas, o seu p l a n o de f o r t i f i c a ç ã o n ã o estava c o m -
p l e t o sem a c o n s t r u c ç ã o da fortaleza d a L a g e , d u a s vezes
solicitada á C â m a r a p o r S a l v a d o r B e n e v i d e s c S o u t o
M a i o r c duas vezes r e s o l v i d a , sem que fossem iniciadas
as o b r a s .
E n t ã o , em c a r t a d i r i g i d a á C a m a r r a , de 16 de
N o v e m b r o de 1646, pede que sc e x e c u t e a v e n d a dos
chãos da praia, j á r e s o l v i d a em s e s s õ e s p a s s a d a s . ( 1 )
A C â m a r a os p o z e m hasta p u b l i c a , « c o m m i l r é i s
de f ô r o c m c a d a a n n o por cada tres b r a ç a s . » E s e n d o
caso que « a n d a n d o os d i t o s c h ã o s em p r e g ã o desta f o r m a ,
c o m este f ô r o , tres dias, e n ã o h a j a q u e m q u e i r a l a n ç a r
nelles c o m o d i t o f ô r o , e m tal caso se v e n d a m s e m
elle. f
Eis ahi, diz o a u t o r do Tombo das Terras Munici-
paes, c o m o teve o r i g e m o a f o r a m e n t o de t o d o o resto e
i m p o r t a n t e l o g r a d o u r o p u b l i c o que se i n t i t u l a v a marinha
da cidade, e x c e p t u a n d o - s e apenas a á r e a f r o n t e i r a ao
C o n v e n t o d o C a r m o , que licou reservada p a r a R o c i o
da c i d a d e .
E m m i n h a h u m i l d e o p i n i ã o , g r a v í s s i m o foi o d a m n o
que a q u e l l a d e l i b e r a ç ã o de nossos maiores t r o u x e ao

(11 Deixarmos dc transcrever estes documento* por se acharem publica-


dos no interessa nle trabalho de Haddock Lobo. — Tombo JJÍ Ttrrat
Mnnicipaes — pag. UM.
— 154 —

embellezamento e regularidade d o l i t t o r a l . — S i ella n ã o


tivesse e x i s t i d o , n ã o ^e t e r i a m d c ver h o j e beccos t o r -
tuosos c estreitos no d e s e m b a r q u e m a i s i m p o r t a n t e d a
cidade.
N e m ao m e n o s sc l e m b r a r a m de a r r u a r o u a l i n h a r
c o n v e n i e n t e m e n t e as novas e d i f i c a ç õ e s ; pois q u e a
ú n i c a o b r i g a ç ã o i m p o s t a aos n o v o s f b r e i r o s f o i a de
c o n s t r u í r e m um c á e s a beira mar ; o b r i g a ç ã o que ainda
assim n ã o f o i s a t i s f e i t a , c p o r isso oceasionou u m g r a n d e
conflictò. (1)
O s s y m p t o m a s da crise financeira e e c o n ô m i c a q u e
p o u c o d e p o i s d o g o v e r n o de V a s q u e a n e s c h e g o u a
phase a g u d a , j á e r a m m a n i f e s t o s . O s d o n a t i v o s , os
i m p o s t o s , as i m p o s i ç õ e s , e m p o b r e c e r a m o p o v o . • s
elementos dc renda estavam profundamente e n f r a -
quecidos.
J á a municipalidade tivera dc appellar para a venda
e m hasta p u b l i c a dos t e r r e n o s de m a r i n h a . A u m f a c t o
g e r a l d e v e m ser l i g a d o s os s y m p t o m a s da s r i s e — a s i -
t u a ç ã o de g u e r r a da c o l ô n i a .
A p r o d u c ç ã o do c a p i t a l , a l é m d e e n t o i p e c i d a , n ã o
vinha alimentar a industria e o c o m m e r c i o , que d e f i n h a -
v a m ao peso t r i b u t á r i o , c l i f f i c u h a n d o a i m p o r t a ç ã o dos
prodi..c;os c a p r o d j e ç ã o d e l l e s , p o r q u e applicava-se
aos t r a b a l h o s d c f o r t i f i c a ç â o , q u e j a m a i s sc a c a b a v a m ,
c m v i s t a das f a c i l i d a d e s q u e prestava o p o r t o á i n v a s ã o
c desembarque do inimigo.
A s c o n d i c ç õ e s financeiras da m e t r ó p o l e e r a m p é s -
simas. A custa dos r e c u r s o s p r ó p r i o s d e v i a a c i d a d e
crear, c o m o c r e o u , os seus e l e m e n t o s de d e f e z a . A l é m
d o c a p i t a l q u e se desfalcada d a l a v o u r a e d o c o m m e r c i o
p a r a a c o n s t r u c ç ã o das f o r t i f i c a ç õ e s e o sustento d e u m a
g u a r n i ç â o p e r m a n e n t e de <>00 h o m e n s , m u i t o a l é m d o s
recursos naturaes d a receita publica, retiravam-se d a
l a v o u r a os b r a ç o s . N ã o o b s t a n t e i s t o , a i n d a f o r a m ' t i r a -

(I) Tombo das Ttrrjs Mumcipaci, pai Haddock Lobo, vul. 1" p.ig, 3(1,
— 155 —

dos d o p o v o 8 0 0 m : l cruzados e m 1 6 4 8 p a r a a restau •


r a ç ã o de A n g o l a , c o m o v e r e m >s a d i a n t e .
A c r i s e q u e j á se d e f i n i a c l a r a m e n t e pelas d i f f i c u l -
dadcs e m que t o d o s v i v i a m , n ã o p o u d e d e i x a r de a f f e c t a r
o s e r v i ç o p u b l i c o c i r s e m e a n d o os g e r m e n s de descon-
t e n t a m e n t o q u e e x p l o d i r a m poucos annos d e p o i s .
A i n d i s c i p l i n a c o m e ç a v a a l a s t r a r na tropa.
O s soldados t r a n s f o r m a r a m - s e e m v e n d e i r o s de
m e r c a d o r i a s , e x i m i n d o se. e n t r e t a n t o , das p o s t u r a s da
G a m a r a , s e m e l e m e n t o s d c f o r ç a p a r a fazei-os c u m p r i r .
Os g o v e r n a d o r e s , p o r sua vez, i n t e r v i n h a m nos p r o -
cessos d o s soldados, r e t i r a n d o - o s da a l ç a d a dos juizes,
a t é q u e lhes fossem a f f e c t a s as causas, p a r a j u l g a r de sua
procedência.
A C â m a r a r e p r e s e n t o u c o n t r a t a n t o s abusos a 14
de F e v e r e i r o de 1647 ( 1 ) c a carta regia de 1 4 de Ju-
nho de 1647 p r o c u r o u c o r r i g i r os males, d i z e n d o q u e
« O s s o l d a d o q u e v e n d e r e m e t i v e r e m seu t r a t o , e s t ã o
-

o b r i g a d o s a g u a r d a r e m as Posturas da C â m a r a na f o r m a
das suas O r d e n s , e os q u e d e i i n q u i r e m nellas d e v e m
ser j u l g a d o s e sentenciados pelos Juizes, e pessoas des-
tinadas para este e f f e i t o , guardando-Se nos c r i m e s aos
s o l d a d o s seus p r i v i l é g i o s . ( 2 )
E c l a r o q u e essa m e d i d a nada resolvia; p o r q u e
n ã o a f f e e t a v a os e l e m e n t o s p r o d u e t o r e s d a crise q u e
era d c caracter g e r a l . l i g a d a á s c o n d i ç õ e s e c o n ô m i c a s ,
financeiras e p o l í t i c a s da c o l ô n i a .
A m e d i d a q u e se a f i g u r o u ao soberano capaz d e
d e b c l l a r a s i t u a ç ã o f j - i a c r e a ç ã o d i Companhia de Cotn-
mercio, em 1649, q u e n ã o passou de um m o n o p ó l i o e
p r i v i l e g i o do r e g i m e n das frotas, j á existente, deslocados
do E s t a d o para os interesses dos seus accionistas. Essa
m e d i d a , c o r n o havemos de ver, v e i u aggravar p r o f u n -
d a m e n t e a crise.

• l j Mrw. Mss. cil. pag.335.


(2) Annaes do Rio dejineíro, por S. Lisboa, vol. 3" pag. 1SH.
— 156 —

Mas, p o r ora, e s t u d e m o s os g o v e r n o s q u e sc suece-


d e r a m ao de Vasqueanes, q u e a d m i n i s t r o u a c i d a d e até*
J a n e i r o de 1 6 4 8 . ( 1 )
Por essa o c e a s i ã o , c h e g o u ao R i o S a l v a d o r B c n e -
vides, c o m o r d e n s d e r e s t a u r a r A n g o l a , q u e c o n t i n u a v a
sob d o m í n i o h o l l a n d c z .
Desde que d e i x á r a o governo do R i o , em 1643,
dera, c o m o g e n e r a l das fotas, tres v i a g e n s ao R e i n o .
N ã o o b s t a n e d e s e j a r a a d m i n i s t r a ç ã o da cidade, j á m a i s
o a l c a n ç á r a , pela i n t e r v e n ç ã o dos seus i n i m i g o s . A i n d a
estava recente na m e m ó r i a de t o d o s a sua p a r c i a l i d a d e
a f a v o r dos j e s u i t a s , na q u e s t ã o da e x p u l s ã o d e l l e s d c
S. P a u l o q u e n ã o se m a n t i n h a sem s o l u ç ã o . ( 2 )
S ó e m 1648, quando a r e s t a u r a ç ã o de A n g o l a
i m p u n h a - s e c o m o u m a necessidade p a l p i t a n t e , f o i elle
d e s p a c h a d o p a r a assumir o g o v e r n o das tres c a p i t a n i a s
d o s u l , o n d e d e v i a r e u n i r os e l e m e n t o s p a r a p ô r e m
e x e c u ç ã o a c o m m i s s ã o militar.
N ã o h a d u v i d a q u e a sua t a c t i c a m i l i t a r , j á r e v e l a d a
e m tantas v i c t o r i a s q u e c e r c a v a m o seu n o m e c o m o
umdos mais n o t á v e i s g u e r r e i r o s d o t e m p o , o i m p o z á
escolha d o soberano, p a r a o g o v e r n o do R i o . M a s sua
a d m i n i s t r a ç ã o era t r a n s i t ó r i a .
C h e g o u ao R i o a 23 d e J a n e i r o d e 1 6 4 8 , o n d e j á
e n c o n t r o u os c i n c o g a l e õ e s q u e t i n h a m s i d o r c m e t t i d o s
d o R e i n o e t r a t o u de r e u n i r os r e c u r s o s c o m q u e d e v i a
partir.
S a l i e n t o u a necessidade d a r e s t a u r a ç ã o d e A n g o l a ,
para q u e o p o v o d e v i a c o n c o r r e r c o m 8 0 m i l c r u z a d o s ,
c o m os q u a e s a p a r e l h a r a m - s e mais dez vasos c o m a
competente g u a r n i ç â o e m u n i ç õ e s , a l é m dc 9 0 0 homens
promptos para desembarque. Destes vasos, quatro f o -

(1> Pizarro, ahr. eit. vol. 3' pag. 167.


(2) Dizem o autor de Portugal Restaurado e o P-. VascomeUos que elle
fora nomeado governador do Riu, em cumeyu de 1611. Mas, si a allirniativac
verdadeira, uao tomou posse.
— 157 —

r a m p r e p a r a d o s á sua custa. F c o m estes elementos s a h i u


d o p o r t o do R i o a 12 de M a i o . (1)
A r e t i r a d a d e S a l v a d o r d o R i o n ã o d e i x o u de i n s p i -
r a r receios ao g o v e r n a d o r g e r a l , q u e d e v i a p r o c u r a r
para suecessor um h o m e m q u e inspirasse c o n f i a n ç a pela
sua e x p e r i ê n c i a e q u a l i d a d e s moraes.
V a s q u e a n e s , c o m o s u b s t i t u t o l e g a l de S a l v a d o r , na
a d m i n i s t r a ç ã o g e r a l das m i n a s , e n t r o u l o g o no e x e r c í c i o
de Mias f u r i c ç õ e s , c o m m i s s i o n a n d o p a r a S. Paulo o ca-
p i l ã o J o ã o A n t ô n i o C o r r e i a , c o m o a d m i n i s t r a d o r e no-
m e a n d o c o m o chefe d o g o v e r n o de S . P a u l o A n t ô n i o
R i b e i r o de M o r a e s . ( 2 )
fc D . L u i z de A l m e i d a f o i n o m e a d o g o v e r n a d o r do
R i o , p o r p r o v i s ã o de 1 õ de O u t u b r o de 1 6 4 8 , rece-
b e n d o o g o v e r n o da m ã o de V a s q u e a n e s qwe f i c a r a na
• a d m i n i s t r a ç ã o , em a u s ê n c i a d e l l e , a t é a posse do d e l e -
g a d o da B a h i ã .
PoiiCJ t e m p o e x e r c e u D . L u i z o G o v e r n o , p o r q u e .
a p ó s sua posse, c h e g o u ao R i o o g o v e r n a d o r n o m e a d o
pela m e t r ó p o l e .
O acto mais saliente de sua a d m i n i s t r a ç ã o é o i n -
d c f f e r i d o l e i t o á p e t i ç ã o da C â m a r a , p e d i n d o a sua sus-
p e n s ã o d o i m p o s t o da v i u t e n a , p l e n a m e n t e j u s t i f i c a d a
p e l o s a c r i f í c i o f e i t o ha mezes dos 8 0 m i l cruzados tirados
do p o v o p a r a a r e s t a u r a ç ã o de A n g o l a . O i n d e f e r i d o
baseou-se na i n c o m p e t ê n c i a de resolver q u e s t ã o d e t a n t a
monta.

(1) Ha algi.ma duvida entre o* lmlnti.n\tr-s *obie a data certo da sabida


d<- Salvador do lito. ti foi a V2 de Maio de 1Ç4S ou dc l(t4!). Varnh.ycm, em
Mu ir, l-alho Honiapôiío sobr- tlle, diz quofiiom 164S.
9 de Moiçy dc KÍ4S iui lavrado uma <-*rriplura amigável
enlre oi herè* da Semuria «IOS campo! ilr GoylaçiWeSi e"» casa do general
Salvador que era mu delir*, pai'' M"al concessão foi dividida em 12 • : i..
v cada scsmciio o seu em «S curraes de SOO a llHftl braças cada um. Declarou-se
fhais que o ücncral dividia a metade dos seus tres quinhões aos padres da com-
panhia d>* JesUS. Xo seu quirthào mandou Salvador conMruir uma capella com
a invocação do Santo do seu nome.
A cópia de«ta escriptura existe na Biblioteca Nacional na Lata n°, 1° sobre
» Rio df* Janeiro.
<2) Siha LnbSa obr. cil. vol. 2". psg. 1!»2.
— 158 —

A 25 de j a n e i r o de 1ÍI4Í) s u c c è d è u - l h e S a l v a d o r
de B r i t t o Pereira, fidalgo, e n o m e a d o por p r o v i s ã o r e g i a
de 3 0 d c O u t u b r o c e 1 Í J 4 8 .
C o m o o anteccessor este g o v i r n o f o i d c p o u c a
duração.
O e s t a d o de m o l é s t i a de B r i t t o P e r e i r a n à o lhe per-
n d t t i u c u i d a r d o interesse p u b l i c o . K n ã o q u e r e n d o o
g o v e r n a d o r g e r a l q u e o R i o fica-se e n t r e g u e a o i i s c o de
lhe f a l t a i ó c h e f e d o g o v e r n o , n o m e o u A n t ô n i o G a l v ã o
11), p o r p r o v i s ã o de 4 de J u l h o de J(!r>0, a s s u m i n d o a
administra ç a o a 23 de J u l h o de l f » 5 1 , p o r t e r f a l l e c i d o
B r i t t p Pereira a 2 0 de J u l h o .
N a r e p r e s e n t a ç ã o q u e d i r i g i u á C â m a r a , a 2 1 de
S e t e m b r o , d e f i n e seu p r o g r a m m a de g o v e r n o .
I n f o r m a n d o q u e os h o ! l a n d « z e s c o n t i n u a v a m a i n -
f e s t a r a costa, s a b i a p o r c o m m U n i c a ç Õ e S recebidas, q u e
u m a n á o achava sc, ha dez ou o u doze dias, na i l h a d c
S . i n t V \ n n i , tornando i n d i s p e n s á v e l tomar-se medida de
defeza « d e a n t e m ã o p a r a q u a l q u e r oceasiao q u e se
offerecer, p o r q u e q u a n d o seja c o m b r e v i d a d e , c o m o d a
c a v i l l a ç ã o e i n d u s t r i a se p ó -le esperar, n ã o nos p o s s a m o s
q u e i x a r da o m i s s ã o e d e s c u i d o d c nos n ã o h a v e r m o s
prevenido, e q u a n d o se d i l a t e e nunca c h e g u e c o m o
Deus Nosso S e n h o r s e r á s e r v i d o , s e m p r e é* a u t o r i d a d e
e r e p u t a ç ã o das R e a e s A r m a s de S . M . e de ( p i e m as
g o v e r n a , t e r .is suas p r V ç a s f o r t i f i c a d a s e postas e m d e -
f e n s ã o , a i n d a no repouso e q u i c t a ç ã o t i a bella p a z ; » ( 2 )
Dc e n t r e os s e r v i ç o s mais u r g e n t e s , a p o n t a v a a
necessidade d e « t e r r a p l a n a r u m b a l u a r t e q u e e s t á na
fortaleza de S. J o ã o . »

(H Silv. Líscoi da-lbc o titulo de tenente general. M*<; M:m. M*s. de


(

onde liramfi* as notas pura o nosso trabalho e que aquelle autor dc todo copiou,
sem que lhe fitesie a menor indicação, diz que Galvao era cabo o governador
ua mianteria. Foi uma nomeação interina,
Nao sabendo a câmara ter sido <lalvão nomeado reuniu-se eiu se*«ão e
procedendo a Hciçao de governador, a eacollia nolle recáliiu. sendo chaujado o
comparecer perante ella, aprcscnlon.se coma sua pr.vjssào. Mem. Mss. pag.
|2) Mtm. nm. cil. pag. 300.
150

N ã o p o d e n d o fazei-o Càrii a i n f a n t a r i a , p a r q u e m a l
chega para o s e r v i ç o guarda, pediu que a C â m a r a
« o b r i g a s s e os m o r a d o r e s d a q u e l l e d i s t r i c t o , para q u e
c a d a u m a j u d e c o m u m o u d o i s n e g r o s , assistentes e
sustentados a t é sc a c a b a r a o b r a . »
O b s e r v a v a a i n d a q u e « c r e a n d o esta p i ; ç.t t a n t o d e
e m b a r c a ç õ e s l i g e i r a s , n ã o ha de presente u m a e m q u e
se possa i r á s fortalezas da b a r r a , sem os quacs n à o se
p ô d e fazer cousa de i m p o r t â n c i a na o c e a s i ã o da p e l e j a
e se d e v e m t e r m u i t o d a n t e s p r e v e n i d a s e o b r i g a d a s as
pessoas q u e t ô m c a n ô a s capazes p a r a este m i n i s t é r i o ,
p a r a q u e a t o d o t e m p o as t e n h a m prestes c npparelha-
das, p a r a a c u d i r e m c e m ellas a esta p r a ç a . »
O b s e r v a v a q u e , se t e n d o f e i t o um l a n ç a m e n t o d e
m e i o s p e c u n i á r i o » p i r a as o b r a s da forta'eza d a barra,
e r a p r e c i s o fazer u n i * e s ç r i p t a g c ; a l d c q u a n t o se arre-
c a d o u e se gastou n a q u e l l a s obras, para q u e ò p o v o f i -
casse s .bundo q u e os p o d e i e s p ú b l i c o s n ã o a b u s a v a m
d e sua a u t o r i d a d e .
A C â m a r a , a 2 8 d e S e t e m b r o , r e s p o n d e u ao g o -
v e r n a d o r , c o m m u n i c a n d o q u e ia p ô r e m e x e c u ç ã o suas
propostas, p o r serem justas, e j á haver o r d e n a d o ao^
m o r a d o r e s q u e « v i v e m desde a p n . i a da C a r i o c a e O l a -
rias a t é a I a g ô a c h a m a d a de K l - r e y . » ( 1 )
A s m e d i d a s tomadas pela C â m a r a , d e i de o g o -
verno de Bezerra, a u g m e n t a n d o o v a l o r da m o e d a , n ã o
c o r r i g i r a m a crise m o n e t á r i a q u e , c o m o ; n.lar dos t e m -
pos, assumiu maiores p r o p o r ç õ e s . A g o r a eda m a n i f e s -
tava -se p c U c i r c u l a ç ã o viciosa de moedas f a l s i f i c a d a s .
E as m e d i d a s da m e t r ó p o l e n ã o c o r r i g i r a m por certo
essa s i t u a ç ã o ; pelo c o n t r a r i o , a g g r a v a r m ainda a escas-
sez da moeda.

(tl A l.igò> dc El-rey c a hoje clnmada de Sodri^o de Fuiia*. F««a


denominação piovnu l"!»'.-* d» nome dad" <••• m yonllo Coujirüldò n^uBlla*
iramcdijcòos p r A iio 1.. SIICHUI. * ijue* um it-kiNim- eoi c>piiulos aniefioref.
chamado — engenho de el-tey. Qlariàs foraiarim unia cpene de h-irm. onde
mor-jvam o* oleiros c cuja tór-u se estendia jnsiam-utc da praia d.i Carioca.
hoje flamengo, »ité a Halíia dc Botafopo. A tniegia IÍI >ir doe. Kmoi 11.1 Mem.
Mss.i assim como a caria do governador, A* i|iues .MIV.I I.i»b)d transcreve no
vol. 3 dc sua obra, sem indicai a piucedeucia.
o
— 160 —

« O s h é s p á n h ó è s a c a b a v a m de fazer b a n c a r r o t a .
elles falsificaram t o d a a sua m o e d a c o r r e n t e , c o m o p o r
C a r t a R e g i a de 13 de S e t e m b r o de 16'5"> f o i c o m m u n i -
c a d o ao G o v e r n a d o r c o m a l e i d e 6 d e J u n h o d o m e s m o
anno; q u e ho p r e â m b u l o d e l i a se d e c l a r o u q u e , n ã o bas
t a n d o as R e a e s D i s p o s i ç õ e s de 23 de N o v e m b r o de
1647, e de 2 0 de F e v e r e i r o d c 1651 para n ã o c o r r e r no
R e i n o e C o n q u i s t a s as patacas de n o v o f a b r i c a d a s , p o r
se acharem f a l l i d a s na q u a n t i d a d e dos pesos, e a t é l a l l i -
ficadas pelas noticias q u e se d i v u l g a r a m , m a n d a v a l e -
v a n t a r Casa da M o e d a , p a r a sc f u n d i r e m , e r e d u z i i c m - s e
ao v a l o r r e a l , i m p o n d o - s e a pena de i n c u r s o e m m o e d a
falsa aos q u e da q u e 11a se s e r v i s s e m . P o r é m , sem e m -
b a r g o da l e r , e n t r e g o u s e m p r e em P o r t u g a l u m a i m -
mensa q u a n t i d a d e d c m o e d a falsa, p o r c u j o m o t i v o se
m a n d o u p r o h i b i r c c o r r e r no R e i n o as patacas ue f u n -
d i ç ã o q u e nos c i r c u l o s tivessem c o r d ã o , o u r o s á r i o , de
q u a l q u e r s o r t e e q u a l i d a d e q u e fosse m a n d a n d o se q u e
n ã o fossem r e c e b i d a s , n e m se dessem e m p a g a m e n t o
p o r m o e d a c o r r e n t e ; pois d e v i a m ser levadas á C á s a
da M o e d a cie Evqr.á e P o r t t p a r a sc f u n d i r e i ! , e r e d u -
zirem-se á m o e d a do R e i n o , c q u e p e l o s j u s t o s v a l o r e s
se t o r n a s s e m a e n t r e g a r aos seus d o n o ; , c o m o v a l o r d . i
p r a t a , sem o u t r a despeza q u e a da f u n d i ç ã o e c u n h o s ,
q u e seria o menos p o s s í v e l , e sem a l g u m p r o v e i t o da Fa-
zenda R e a l , p a r a c o r r e r e m p o r m o e d a corrente, t u d o
d e b a i x o das penas da O r d e m d o L i v r o 4 T i t . 2 2 as o

patacas d o G o v e r n o e s t r a n g e i r o q u e tivessem o r e f e -
rido c o r d ã o e rosário.» ( 1 ) .
N o cumprimento d a q u c l l a L e i manifestaram-se
muitos i n c o n v e n i e n t e s no Brazil; p o r q u e , d e s d e a oc-
c u p a ç ã o do Reino por Felippe I I , a geral moeda que
corria, e r a d a q u e l l e M o n a r c h a , q u e se n ã o p o d i a e x t i n -
g u i r no breve R e i n a d o de E l - R e i D . J o ã o I V .
Com a s u p p r e s s ã o i n s t a n t â n e a delia, o C o m m e r c i o
s e n t i u g r a n d e vasto, p o r f a l t a d o r e p r e s e n t a t i v o m e t a l -

\l) Amues & Rio jf Janeiro, por S, Lisboa,TOI.2' pag. 153.


ico; e a m o e d a f a l s i f i c a d a f a c i l i t a v a as o p e r a ç õ e s d e
fraude, e roubo publico. ( 1 ) .
L o g o q u e o g o v e r n a d o r g e r a l r e c e b e u a le», re-
m e t t e u - a ao g o v e r n a d o r d o R i o ( 2 ) .
P o r isso q u e a d e l e g a ç ã o f e i t a pelo g o v e r n a d o r
geral a G d v ã o , para d i r i g i r a a d m i n i s t r a ç ã o d o R i o , era
i n t e r i n a , t e v e de p á s s a r o g o v e r n o , a D . L u i z de A l -
m e i d a , á 3 de A b r i l d e 1 6 5 2 , q u e p e l a segunda vez
administrava o Rio.
O s s e r v i ç o s j á prestados no Brazil i m p u z e r a m seu
n o m e á escolha d o R e i que, « c o n s i d e r a n d o o R i o d é
J a n e i r o a c h a v e dos seus T h e s o u r o s » p r o c u r o u delegar
o e x e r c í c i o das f u n e ç õ e s g o v e r n a m e n t a e s d o m a i s i m -
p o r t a n t e c e n t r o do sul a D . L u i z , q u e f o i n o m e a d o por
c a r t a p a t e n t e de 7 de S e t e m b r o d e 1 6 5 1 , ('ò) nomea-
ç ã o q u e f o r a c o m m u n i c a d a á C â m a r a , p o r c a r t a r e g i a de
2 3 de N o v e m b r o d<» m e s m o a n n o . ( 4 ) .
A s c o n d i ç õ e s d o R i o n ã o e r a m f a v o r á v e i s ao g o -
v e r n o de D . L u i z c seu s u b s t i t u t o A g o s t i n h o d c Bar-
b a l h o Bezerra.
P o r is^o mesmo, os s e r v i ç o s q u e prestaram, o c r i -
t é r i o e sabedoria c o m q u e s e l l a r a m os seus actos, fixe-
r a m delles d u a s a u t o r i d a d e s q u e . n i q u e l l e t e m p o m e l h o r
c u m p r i r a m o seu dever.
A crise financeira c c c a . i o m i c a q u e a g o r a i a assu-
m i r sua phase a g u d a , por u m conjuneco d c causas q u e
p r o c u r a m o s e s t u d a r no p r ó x i m o c a p i t u l o , f o i a o r i g e m
das d i f f i c u l d a d c s dos d o u s g o v e r n o s , q u e p r o c u r a r a m
dar-lhe s o l u ç ã o , para p r i v a r as e x p l o s õ e s p o p u l a r e s , c a i
f a c e de crises d a q u e l l a natureza.

(1) Annaes do R*o de Janeira, piir S. Lisboa, vol. 2' pag. 154.
i._ Silva. Lisboa diz. no 2' uol. pag. lõli, «jnc a câmara do Rio mandou
cunhar moedas do Pcrú.
(3) Mem, Mss, pa . ;I75.
R

(4) Neste docuni-uitn o <oh;rano cujomm?iidava que tíVf*««e a câmara


«om o governador «» boa COrre*J>uiidencta qíie convém, r-zcndo-lhe a lem-
«brança do meu sorvico, c bem comum que vos parecerem necessários, proec-
edendo nisto, e em ludo o mais com a autoridade o respeito «pie lie devido a
«sua pessoa e lugar. {Annaes do Rio de Janeiro, por Súva Lisboa, vol. 3"
pag. 19Ü).
CAPITULO VII

A crise f i n a n c e i r a e e c o n ô m i c a do r n e i a i o do s é c u l o X V I I

SUMMARIO.—Governo de D. /.ui de Almeida, A companhia de commercio,


f

O primeiro acto de I). Iui;. Sua correspondência com a Ca.


Mora. Ai medida, propostas. Actàs da Coroa. Actos do Go-
verno münieipãl, A talorisacâo e o eommereio da aguardente.
Posieda de D. IMÍJ. Thomê Correia de Alvarenga. Sen go-
verno. Fxtinecão do commercio de aguardente. Moratória
dos lavradores. A Jalta de hrjços. Os quilombso. Medidas
mnnieipaes. Attriclos com a autoridade eclesiástica.

Logo após a posse de D. Luiz de Almeida, a Câ-


m a r a i n f o r m a - o da s i t u a ç ã o r e a l dos n e g ó c i o s p u b l i c o s ,
das c o n d i ç õ e s p r e c á r i a s d o p o v o e dos recursos de q u e
p o d i a d i s p ô r o governo, p a r a a e x e c u ç ã o d o seu p r o -
g r a m m a de c o m p l e t a r c a c a b a r as f o r t i f i c a ç õ e s da
c i d a d e . Podta o g o v e r n a d o r c o n t a r c o m a sua h ô a v o n -
t a d e , p a r a a r c a ü s a ç ã o de medidas q u e fossem r e c l a -
madas p o r t o d o s os interesses, a i n d a q u e as d i r t i c u l d a d e s
da v i d a , c m q u e se a g i t a v a o p o v o , e r a m p o r d e m a i s
precárias.
N ã o ha e x a g e r o c m dizer q u e ellas c h e g a r a m á
miséria publica.
A C o m p a n h i a d c C o m m e r c i o q u e se t i n h a orga-
n i s a d o desde I Ç 4 9 e o e x c e s s o de d e s p i /a. p a r a m a n t e r
e m estado p e r m a n e n t e u m i s i t u a ç ã o q u a s i q u e de
g u e r r a , f o r a m os dois factores principaes dessa si-
tuação .
S i p o r um l a d o , o t r a b a l h o de f o r t i f i c a ç õ e s , e m u m
extenso l i t t o r a l ; o sustento de urna g u a r n i ç â o mais
— 10-1 —

p r ó p r i a de uma c i d a d e f e c h a d a d o q u e d c u m a c i d a d e
q u e c u i d a dos interesses d o seu c o m m e r c i o e de sua
l a v o u r a , c o m a a g g r a v a n t e d e q u e essa s i t u a ç ã o v i n h a
desde 1 6 2 4 , a u g m e n t a v a a d e s p e z a p u b l i c a , a custa d c
impostos c d o n a t i v o s q u e p e s a v a m s o b r e o p o v o , d o
o u t r o , o m o n o p ó l i o c r e a d o a f a v o r de u m a C o m p a n h i a ,
que m a t o u a liberdade d o commercio c d a n a v e g a ç ã o ,
veio p o r sua vez, a l é m de e l e v a r os p r e ç o s dos g ê n e r o s
c m e r c a d o r i a s , r e d u z i r sua c i r c u l a ç ã o p e l a falta d e m o e d a
e matar a p r o d u c ç ã o da economia colonial.
E m M a r ç o de 164!), o c o r p o c o m m e r c i a l de L i s b o a
r e q u e r e u a o r g a n i s a ç ã o de u m a c o m p a n h i a , c o m o f i m
de f o m e n t a r e a-segurar o c o m m e r c i o d o B i a z i l . F o i
ella a p p r o v a d a p o r a l v a r á de 1 0 de M a r ç o de 1 6 4 0 ,
d i r i g i n d o o r e i a c a r t a de 2 2 de M a i o á C â m a r a d o R i o .
e m q u e c o m m u n i c a v a c s t a r ella c o n s t i t u í d a p a r a « p e l o s
u i c i o s de seus c a b e d a e s assegurasse c a d a a n n o c o m a
esquadra d c 18 n á o s , b a s t a m e n t e a r m a d a s e g u a r n e c i d a s
p a r a n a v e g a ç ã o das fazendas d o R e i n o p a r a o B r a z i l e
n a v o l t a d a q e e l l e F.stado os f r u e t o s d e l l c . » ( 1 )
A o s accionistas f o r a m c o n c e d i d a s i m m u n i d a d e s e
p r i v i l e g i o , de f i c a r e m i n d e p e n d e n t e s dos t r i b u n a e s , s u -
j e i t o s s i m p l e s m e n t e ao p o d e r r e a l .
K i s a i n s t i t u i ç ã o de q u e se d e r i v a r a m o s m a l e s
q u e passamos a c x p ó r , c r e a n d o a s i t u a ç ã o m i s e r á v e l a
q u e c h e g o u o R i o de J a n e i r o , n o m e i a d o d o s c e u l o X V I I .
M u i t a r a z ã o tinha u m dos n o s s o s c h r o n i s t a s , q u a n d o
dizia, r e f e r i n d o se á C o m p a n h i a , q u e « a s f r o t a s t i v e r a m
o e x c l u s i v o d i r e i t o de. v e n d e r e m aos m e s m o s nacionaes
as l i c e n ç a s para v e n d e r e m o s d i v e r s o s r a m o s d o seu
trafico c i n d u s t r i a : uma. p e q u e n a p a r t e d o R e i n o t e v e
d i r e i t o d c dizer á u n i v e r s i d a d e d o B r a z i l , de q u e e r a

(l) Todos os prodticlos do Brasil seriam embarcados a «oniorá dos portos


de eomboy da Companhia, pagando por isso taxas íjntt se fixaram além do prê-
mio do seguro. Tinha o monopólio da venda do ItaoslhiUi, farinha de trifío,
areite e vinho, qnc se obrigou a ceder a certos pre^n* lixos yuc se designaram
no seu próprio rcg;men:u. Cada pipa de vinho aliesladi 4Ut, arroba de farinha
W)0, sei* alwudcs de azeite 16áe arroba de bacalhau 1SG00,
— Ifíõ —

senhora p r i v a t i v a de t o d o o c o m m e r c i o das C o l ô n i a s ,
p a r a q u e este l h e vendesse p o r í n f i m o p r e ç o os g ê n e r o s
da sua a g r i c u l t u r a , c ella l h e vendesse c a r o os q u e i m -
portava, que ella graduaria a a b u n d â n c i a , n ã o sobre a
necessidade, mas s o b r e o interesse p a r t i c u l a r dos seus
p r i v i l é g i o s , q u e e m f i i n s u b v e r t e r i a a sua i n d u s t r i a , c o m o
os i n i m i g o s e x t e r n o s assolavam o seu c o m m e r c i o , cons-
t i t u i n d o - s e assim nacion;;e> d o m i n a d o r e s ; q u e o abar-
ca men to de t o d o s os l u c r o s era o o b j e c t o s ó m e n t e d a
sua s o l l i c i t u d e , q u e ficava a b o l i d a a c o n c u r r e n c i a , e
a b e r t a s as f o n t e s da f r a u d e , i m m o r a l í d a d e , i n i m i s a d e ,
i n v e j a , e d e s c o n f i a n ç a , r e c e b e n d o da m e t r ó p o l e os B r a -
sileiros os peiores produetos c m q u a l i d a d e , e os m a i s
pequenos em quantidade, reduzida a grande p a r c i m ô n i a
á s e x p o r t a ç õ e s da m e t r ó p o l e , p a r a c o m ella privar-se o
Brazil d a s'."a p r o s p e r i d a d e , r e d u z i d o á p e n ú r i a c á
fraqueza.
M a l e s de t a n t a m a g n i t u d e se p e r p e t u a r a m p o r m u i
l o n g o s annos, apezar das mais e n é r g i c a s r e p r e s e n t a ç õ e s
das C â m a r a s , pois o poder q u e a c o m p a n h i a e x c l u s i v a
g a n h o u pela sua a c c n m l a l a riqueza, as fizeram afastar
das vistas do thono p o r mais de u m s é c u l o . » ( 1 )
N ã o se fizeram m u i t o esperar os m á o s e f f c i t o s d a
i n s t i t u i ç ã o e os seus desastrosos resultados.
• T e n d o o p r i v i l e g i o d o c o m m e r c i o dos q u a t r o i m -
p o r t a n t e s g ê n e r o s , c a l c u l a r a m m a l o t e u consumo no
R i o , d a n d o isso c m resultado a falta delles na c i r c u l a ç ã o
e pos c o n s e g u i n t e o a u g m e n t o do seu v a l o r .
J á e m S e t e m b r o de 1(549. a C â m a r a resolveu fixar
os seus p r e ç o s . D a h i , ; i carta do g o v e r n a d o r g e r a l c o n d e
d e Casteilo M e l h o r , de N o v e m b r o d c l f i õ l ( 2 ) , e m
q u e a l é m de c r i t i c a r o p r o c e d i m e n t o da C â m a r a , p r o -
c u r o u e x p l i c a r a f a l t a dos g e n e i o s pela a p p r e h c n s ã o q u e
s o f f r c r a o c o m b o y da c o m p a n h i a , nos altos mares.

(ll Ann, do Rio de Janeiio. pot S. Lisboa, vol. 2" pae.. 93.
(2) Mtm, MÍS. pag. 379.
— 166 —

A infantaria estava atrazada no pagamento


do s o l d o .
E o p r i m e i r o acto de D . L u i z f o i p e d i r á C â m a r a
os recursos n e c e s s á r i o s para p ô l - a c m d i a , p o r isso que
tudo se obra pelos officiaes da Câmara, em tudo que o povo
deoe concorrer.
E na c a r t a q u e q u e l h e d i r i g i u , a í) de A g o s t o d c
1653 ( l ) , diz q u e « e m v i s t a da f a l t a d e d i n h e i r o p a r a
os so^corros d a i n f a n t e r i a e d e s t a p r a ç a , h a v e n d o c f f e i -
tos d a fazenda r e a l q u e se p o d e m r e d u z i r , e neste n o v o
c o n t r a c t o dos D í z i m o s , c o m a c o n d i ç ã o de pagar e m
c m assucares, c o m o qua . satisfaz o C o n t r a t a d o r , e e u
1

n ã o posso p a g a r a I n f a n t a r i a , n e m a c h a r - l h e sabida, se-


n ã o o q u e Vossas M e r c ê s d e v e m d a r - l h e . d i s t r i b u i r . d o -
os pelas pessois q u e nesta P r a ç a t e n h a m d i n h e i r o ,
obrigando-osa que compre comofazenda d e S u a Mages-
tade, pois c o m isto se s e g u r a r á o p o v o , de q u e n ã o c
v e x a ç ã o o q u e sc lhe faz. c o m o p o r m ã o s de Vossas
M e r c ê s lhe sejam dados os d i t o s assucares. o q u e se n ã o
e n t e n d e r á , se f ô r o b r a d o p o r o u t r o M i n i s t r o . ( 2 )
Dizia ainda o g o v e r n a d o r q u e e r a m p a t e n t e s « a s
m i s é r i a s d e s t r p r a ç a » e m v i s t a das q u ies e r a o b r i g a d o a
recor*er á q u e l l c s ! « m e O Í para delles l i r a r - s c a s e g u r a n ç a
da i n f a n t e r i a , q u e t a n t o se d i m i n u c , q u a n d o sc lhe n ã o
p a g a . o b r a n d o o p e i o r , o q u e f i c a nos insultos c dema*sias
q u e : e e x p e r i m e n t a r a m , a n t e s cie e u v i r g o v e i n a l - o s » .
h n t ã o , os m e m b r o s da C â m a r a d r . q u e l l e t e m p o « a i n d a
d e r a m ao g o v e r n o 7 m i l cruzados q u e a g o r a Vossa
M e r c ê a i n d a e s t á a pagar, o
Entretanto, depois que disciplinei a tropa « n ã o
p o d e r e i c o n t i n u a r , si l h e f a l t a r o c o m e r . »
N à o nutria a C â m a r a o menor intuito de levantar
d i f l i c u l d a d e á s m e d i d a s d o g o v e r n o . E x e c u t a v a as c o m
o m a i o r p a t r i o t i s m o e m e s m o á custa d o s m a i o r e s sa-

(I) A Mem. Mss. puMiéa a iutcgia d slc documenlo, assim como ,1 res-
oosia da ramara.
$ Mem. Mss. pag. 379 v.
— 167 —

c r i f i c i o s . T i n h a sido s e m p r e esse o seu p r o g r a m m a .


M a s , n a c a r t a q u e lhe d i r i g i u , a 3 0 de A g o s t o , a p p e l -
lava para um facto verdadeiro, que era a impossibili-
d a d e q u e h o j e ha de d i n h e i r o nos m o r a d o r e s desta P r a ç a ,
p o r q u e pondo-se e m e x e c u ç ã o a o r d e m de V . S . (como
e m t o d a s d e s e j a m o s ) possa s u r t i r e f f e i t o ; p o r q u e s e n d o
o assucar o u n i - ) erTeito, d c q u e se v a l e m , esse p o r n ã o
h a v e r sahida d e l l e a t é o presente nesta s a f r a , n ã o t i n h a
v a l o r : é p e c a s i ã o d c q u e n e n h u m se h a j a c o n s i d e r á v e l ,
p a r a q u e se c o n s i g a o d i t o e f f e i t o : as pessoas q u e s ó sc
a c h a m c o m d i n h e i r o nesta C i d a d e , s ã o os m e s m o s M e s -
tres c C a p i t ã e s dos navios, q u e neste p o r t o e s t ã o para
i r e m para o R e i n o , q u e o p o d e m dar, d a n d o s e - l h e s os
assucares, pois s ã o o e m p r e g o para q u e o g u a r d a m , o
q u e n o s p a r e c e q u e c o m mais l o g a r V . S. a l h e n a r á c o m o
se l h e clc e x p e d i ç ã o a sua p a r t i d a ; e q u a n d o os A d m i -
n i s t r a d o r e s da C o m p a n h i a G e r a l d o C o m m e r c i o a q u e i .
r a m d i f r i c u l i a r , é m u i t o c o n f o r m e , q u e elles a ç u d a m
c o m os d i n h e i r o s n e c e s s á r i o s para os ditos soecorros da
I n f a n t e r i a , dando-se-lhes o assucar, pois q u e pela arre-
c a d a ç ã o dos q u a t r o g ê n e r o s , de q u e se faz t o d o o d i -
n h e i r o , elles s ó m e n t e o r e c o l h e r ã o , c o m o ha m u i t o t e m p o
a esta p a r l e t e m r e c o l h i d o g r a n d e copiai sem d i s p e n d i o
d c c o n s i d e r a ç ã o : e p o r nos parecer este c a m i n h o m a i s
o p p o r t u n o a necessidade p r e s e n t e o r e p r e s e n t a m o s a
V . S.. p o r q u e e m q u a n t o ao ç o n t r a c t o d o subsidio, a l é m
d c n ã o ser j á d i n h e i r o c o n s i d e r á v e l para r e m e d i a r o q u e
oscontractadores restam a d e v e r , nos t ô m e l l e s esca-
p a d o d i t o o ç o n t r a c t o . p e l a esterilidade, q u e nelle lhes
tem suecedido. » (1)
Coino se v ê , a m e d i d a l e m b r a da pela C â m a r a t i n h a
o fim de d e s r n o n s t r a i ao g o v e r n a d o r os males oecasio-
nados pela C o m p a n h i a .
E l l a escusou-se de a d e a n t a r o d i n h e i r o , c o m a g a -
r a n t i a dos assucares q u e recebia, em q u a n t i a e q u i v a -

(1) Mm. ma pag. 381.


— 168 —

l e n t e . A recusa foi e n d e r r j ç ada p o r carta, ao g o v e r n a d o r


que t r a n s m i t i i u á G a m a r a , a 13 de S e t e m b r o , p e d i n d o
para d e v o l v e l a, pois q u e r i a q u e o r e i visse « o q u e passo
nesta m i s é r i a e pouca a j u d a q u e t e n h o nestas o c c a s í ò c s
d c d a r soecorro á i n f a n t e r i a m e liei de valer dos m e i o s
q u e p u d e r , c o m o agora fiz e m d a r l i c e n ç a a u m n a v i o
que c o m p r o u assucares ao ç o n t r a c t o , q u e é a r a i ã > p j r
q u e hei d e m a n d a r estes papeis p a r a q u e lá se v e j a m ,
q u e f o i o ú n i c o r e m é d i o este q u e i n t e n t e i . V V . M e r c ê s .
l a m b e m da sua p a r t e d e v e m e s c r e v e r e o b r i g a r a q u e
se r e m e d e m as causas desta m i s é r i a .
A r e s o l u ç ã o da C â m a r a d e a p p c l l a r p á r a o s o b e
r a n o , f o i c o m m u i ç a d a ao g o v e r n a d o r , c o m as r a z õ e s de
seu p r o c e d i m e n t o e a d e s c r i p ç ã o d a s i t u a ç ã o c m q u e se
achava, n ã o r e g a t e a n d o s e r v i ç o s a o u t r a s c a p i t a n i a s , e
d a q u e estava g o v e r n a n d o , « r e d u z i d o s os mais saneados
a padecerem suas f a m í l i a s e casas, sem p o d e r e m sus-
t e n t a r o seu c r e d i t o ; f o r ç a d o s de n ã o p a g a r e m as suas
dividas c o b r i g a ç õ e s ; y e x á d o s e c o m p c l l i d o s cada d i a
p e l a J u s t i ç a ; p e r d i d o s sem e s p e r a n ç a d c p o d e r e m pagar
aos c r e d o r e s ; c t u d o isto c a u s a d o pela p r ó t e c ç á o q u e
o G o v e r n o t e m d a d o a u m a classe de h o m e n s , q u e so-
b r e a r u i n a dos p o v o s t e m a r m a d o a h y d r a d a d i s c ó r d i a
c descofiança, limitando o commercio, quando Deus
a b r i n d o os mares para a c o m m u n i c a ç â o r e c i p r o c a dos
povos, o d e i x o u l i v r e e i l l i m i t a d o . »
E m q u a n t o e r a esta a a c t u a l i d a d e , no s e u pas-
sado, « a n t e s da i h f c r o d u ç ç ã o da i n f a n t e r i a nesta p r i ç a ,
s e r v i a m os m o r a d o r e s d e l i a ao R e i c o m g r a n d í s s i m a
d e l i b e r a ç ã o , c o m o t e s t i f i c a r a m as m e m ó r i a s , q u e i n q u e -
r i n d o - a s c o n f i r m a r i a m a r e s p e i t o das m u i t a s proezas
q u e fizeram na b a r r a e s e r t ã o , assim c o n t r a os p i r a t a s
q u e v i n h a m as suas rapinas, c o m o das A r m a d a s d o
N o r t e , <pie a t i t u l o de fazerem a g o a d a e refrescos, pas-
s a v a m p a r a a í n d i a , q u e ao m a r d o S u l t o m a n d o a t e r r a ,
p a g a v a m c o m p e r d i m e n t o g r a n d e seu, e d c suas l a n -
c h a s c navios, o seu a t r e v i m e n t o e o u s a d i a . N a o c e a s i â o
da t o m a d a da Bahia se n ã o h a v i a d e s c u i d a d o o p o v o ,
— 169 —

m e d i a n t e o zelo d o seu G o v e r n a d o r M a r t i n d c S á , d e
e n v i a r p a r a a j u d a da r e s t a u r a ç ã o d e l i a e seu s o e c o r r ò ,
c a n ô a s d c g u e r r a , q u e v a l e r a m de c a m i n h o , para q u e a
C a p i t a n i a d o E s p i r i t o S a n t o n ã o fosse t a m b é m oecupada
pelos H o l l a n d e z e s q u e a i n t e n t a r a m t o m a r , c o n s i s t i n d o
d e p o i s de D e u s a q u e l l e soecorro, a r e s t a u r a ç ã o d a q u c l l a
P r a ç a e C a p i t a n i a . E se da r e s t a u r a ç ã o d a B a h i a n ã o
f o i e l l a causa efficaz, m o s t r a r a m p e l o menos os n a t u r a e s
d a t e r r a , de q u e m o r r e r a m a l g u n s n a q u c l l a j o r n a d a , o
a n i m o q u e t i n h a m de s e r v i r á sua N a ç ã o , sem o u t r o
i n t e n t o o u p a g a , q u e d e c u m p r i r e m com a o b r i g a ç ã o d c
verdadeiros P o r t u g u e z e s » .
Q u e m p o d e n e g a r a esta c i d a d e , dizia a i n d a , a
g l o r i a da r e s t a u r a ç ã o d a A n g o l a , pois q u a n d o no m e s m o
t e m p o q u e a q u e l l a sc i n t e n t o u c m P o r t u g a l , deliberando-
se t a m b e m a j o r n a d a da A r m a d a R e a l para a Bahia,
c o n c o r r e n d o o c o m m e r c i o de t o d o o R e i n o , p o r e m p r é s -
t i m o s ó m e n t e c o m t r e z e n t o s m i l cruzados, c o n s i g n a d a
l o g o a pagar no r e n d i m e n t o d e todas as A l f â n d e g a s ,
esta C i d a d e q u e a respeito d e t o d o o R e i n o é u m p o n t o
i n v i s í v e l , c o n c o r r e u p á r a a empreza de A n g o l a c o m o i -
t e n t a m i l cruzados, n ã o emprestados, m*is dados por d o -
n a t i v o , c o m m u i t o b o a v o n t a d e e liberal a n i m o , c o m os
q u a c s se a p r e s t á r a a A r m a d a q u e vinha desfabricada de
t u d o , e c o n s e g u i u m e d i a n t e D e u s , a r e s t a u r a ç ã o da-
q u e l l e R e i n o , de o u t r a m a n e i r a i m p o s s i b i l i t a d o de
tudo?»
E m vista d i s t o , j u l g a v a o g o v e r n a d o r q u e « o s na-
t u r a e s d o Paiz t e r i a m j u s t o s p r e s e n t i m e n t o s p a r a pre-
t e n d e r e m isentar-se d o R e a l s e r v i ç o , vendo-se t ã o des-
p r o t e g i d o s c assim t i t u l a r e m - s e n e l l e . »
N ã o ha d u v i d a q u e a m e t r ó p o l e , de ha m u i t o , fir-
mara u m p r o g r a m m a d c i n d i f f e r c n ç a p a r a c o m os h a b i -
tantes d o R i o . p o r q u e ( 1 ) «LC t e m p r o p o s t o d e s t a C â -
m a r a as s e m r a z ã o com q u e a C o m p a n h i a t e m usado

;1J Does. cxlr.ih.idos dj ÀfrW Mts,


- 170 —

com esta t e r r a , e dos m á o s p r o c e d i m e n t o s d e l i a c o m os


v í s i n h o s , s e n d o este u m dos q u a t r o g e n e r o s d c q u e m a i s
necessitamos; mas corm» a C o m p a n h i a i c m p o d e r c
riqueza, n ã o d e v e m de c h e g a r os nossos c l a m o r e s á sua
m ã o . e se c h e g a m , n ã o d e v e ser s e r v i d o de d a r - n o s
credito.
« V . S. como quem é, e como testemunha t ã o
a c r e d i t a d a , e de vista, nos f a ç a m e r c ê r e p r e s e n t a r a S u a
M a g e s t a d e estas verdades, c o m o as nossas a f r l i ç õ e s q u e
padecemos, e o q u a n t o a F a z e n d a R e a l d c s f a l l c c e , e na
de desfallecer cada d i a , com q u e s e n ã o p ô d e t e m e r
menos as v i o l ê n c i a s e l i b e r d a d e s cia I n f a n t e r i a m a l soe-
c o r r i d a , q u e a f o r ç a de u m r i g o r o s o a p e r t a d o c e r c o d o
inimigo.»
A i d a do e m i s s á r i o é a p p r o v a d a p e l a c a r t a r e g i a de
25 de Julho d c 1 6 5 4 , e m ( p i e a m e t r ó p o l e c o m m u n i c a ,
q u e u m a esquadra i n g l e z a e hollandeza p r e p a r a v a - s e
para invadir a colônia.
D . Luiz, m a i s d e v o t a d o aos interesses do r e i , d o
q u e aos d o p o v o q u e elle g o v e r n a v a , i n c r e p a v a , e m
c a r t a de 21 d e N o v e m b r o , os camararistas pela d e m o r a
d a r e a l i z a ç ã o das m e d i d a s de d e f e z a m i l i t a r q u e p e d i r a
d e s d e o i n i c i o d o seu g o v e r n o , p o r q u e , « s e m p r e v i e m
os g r a n d e s n e g ó c i o s t e r os maiores c u i d a d o s , r e g r a
i n f a l l i v e l , p o r q u e o q u e m a i s m e o b r i g a , m a i s m e des-
vela, c i s t o nesta t e r r a fica q u e b r a d a esta certeza, p o r -
q u e nada d i s p o r i a esta r a z ã o , p o i s n ã o sei e u q u e m a i s
havia p a r a d i s p e r t a r a V V . M e r c ê s , q u e u m a v i s o t ã o
certo, e u m a C a r t a de E l - R e i N o s s o S e n h o r t ã o h o n -
rada, q u e a sua m e s m a r a z ã o q u e nos t r a z para nos
prevenirmos, q u a n d o V . M , que D e u s Guarde, d i z que
fia i o d a a defeza d o a n i m o destes seus vassallos, e n ã o
p o d e ser m a i o r c r e d i t o de u m p o v o p a r a o b r a r finezas,
q u e a certeza da fidelidade e m u m R e i para o b r i g a r a
cilas, p o i s a vista desta r a z ã o , como t ê m V V . M e r c ê s
tantos descuidos q u e n ã o se t e n h a o b r a d o , n ã o d i g o
p r e v e n ç õ e s p a r a a nossa defensa, s e n ã o m i l a g r e s para
m o s t r a r o nosso a g r a d e c i m e n t o ; q u a n t o m a i s t e n d o
V V . M e r c ê s esta o b r i g a ç ã o , e t e n d o eu i d o a essa C â -
m a r a l e v a r a V V . M e r c ê s a mesma C a r t a q u e t i v e de
E l - R e i N o s s o S e n h o r , e a p r o p o s t a q u e fiz sobre a m a -
t é r i a delias ha tantos dias, n ã o t e n h o v i s t o d e l i a s u r t i r
nenhum effeito, encarregando V V . M e r c ê s o cuidado
c o m q u e h a v i a m de fazer p r o m p t o s o d i n h e i r o n e c e s s á -
r i o p a r a as despezas desta, e aprestos c o m o sc v c do
u l t i m o C a p i t u l o d o m e u p a p e l , p o r q u e as m a t é r i a s de
g u e r r a n ã o s o f í r e m d i l a ç ã o , n e m depois o t e m p o q u e se
n ã o a p r o v e i t o u , t e m r e m é d i o para sc r e c o b r a r , f a l t a n d o
e m t u d o , o q u e agora se d e s p e r d i ç a , porque r e m e d i a r
os m a l e s d e p o i s q u e se sentem, é m i s t e r v i o l ê n c i a s , e
prevenil-os antes que t o m e m forças, bastariam s u a v i -
dades.
E u d a minha p a r t e f a ç o t u d o o q u e posso, c o m o
é no t r a b a l h o das t r i n c h e i r a s e b a l u a r t e s , trazer os dias
pela m a n h ã , e a t a r d e pela I n f a n t e r i a , e o b r i g a r a g e n t e
alistada nas q u a t r o C o m p a n h i a s da Cidade da O r d c -
n a n ç a , c mercadores q u e f a ç a m o mesmo, d o q u e q u e -
rendo-se elles escusar, me o f r è r e ç a m os C a p i t ã e s das
ditas C o m p a n h i a s de sua p a r t e c o n t r i b u i r p a r a g a n h a -
d o r e s q u e andassem na dita o b r a , o q u e lhes eu a c c e i -
tei p o r u m mez s ó c o m t a n t a suavidade, q u e n ã o quiz
cada u m a d e l l a s , m a i s do q u e 1 0 í n d i o s , ou o gasto
delles q u e i m p o r t a com o seu f e i t o r 4 0 $ d i s t r i b u í d o s
pelos seus C a p i t ã e s , p o r q u e m eu mando o b r a r porque
na g e n t e alistada,ainda q u e seja p o v o s ó , o G o v e r n a d o r
manda, e n ã o sc c h a m a t r i b u t o ao q u e é c o n t r i b u i ç ã o
v o l u n t á r i a d c u m p e q u e n o p r e ç o de d i n h e i r o , p ó r l i v r a r
as pessoas do trabalho-: entendia c u , q u e d e v i a m Vossas
M e r c ê s a n d a r e m mais s o l í c i t o s no q u e eu l h e s e n ç o m -
m e n d o do S e r v i ç o de E l - R e i , ò o q u e zelosos d â q u i l l o
q u e lhes n ã o toca, p a r a o e s t o r v a r e m mais. E p o r q u e
Sua M a g e s t a d e , q u e D e u s G u a r d e , saiba q u a l de n ó s é
q u e m e l h o r o serve, d ê - m e Vossas M e r c ê s resposta a
esta C a r t a , e m f ô r m a q u e possa i r a R e a l m ã o , para
q u e v e n d o o d i t o S e n h o r u m a c o u t r a , castigue a Vos-
Vossas M e r c ê s o descuidado, o p r e m ê e a m i m o c u i -
(1 a d o . » ( 1 ) .
K m vista da necessidade dos e l e m e n t o s de. defesa,
julgava D . L m z « q u e deviam V V . M e r c ê s andarem
msiis s o l í c i t o s no q u e e u lhes c n c o m m c n d o d o s e r v i ç o
de E l - R e i . d o q u e zelosos d a q u i l l o q u e lhes n ã o t o c a ,
para o m a i s . »
E cioso p e l a c o n f i a n ç a d o s o b e r a n o , « ê preciso q u e
m e l h o r o s e r v e e p a r a isso r e q u e i r o a o e s c r i v ã o da C â -
mara, como t a m b é m o é do publico Judicial dc Notas,
m e d ê c e r t i d ã o c o m o t r a s l a d o do m e u p a p e l , e o d i a e m
q u e o levei a G a m a r a , c o m o desta C a r t a , c resposta q u e
d e l i a t i v e r , p o r q u e t u d o h a de i r a E l - R e i N o s s o Se-
nhor, c se m c p a r e c e r t a m b é m a l g u m a s das pessoas,
q u e a h i e s t i v e r e m , para m e l h o r l h e d a r r a z ã o , d o q u e
n ã o pode ir por escripto.»
N ã o ha d u v i d a q u e neste d o c u m e n t o e s t á m a i s o
desejo de n ã o p e r d e r a c o n f i a n ç a d a c o r o a , d o q u e d c
s e r v i r aos interesses d o p o v o .
O seu s a c r i f i c i o t i n h a c h e g a d o ao e x t r e m o , p e l a
serie de i m p o s i ç õ e s c o m as quaes p r e t e n d i a sustentar
u m a g u a r n i ç â o numerosa e l e v a n t a r u m n u m e r o consi-
derai dc fortificações.
E t a n t o s os r e c u r s o s e s t a v a m e s g o t a d o s , q u e r e -
c o r r e u ao c r e d i t o , l e v a n t a n d o o e m p r é s t i m o de .'550^000
c a i n d a d e p o i s de 9 < M $ Ü 0 0 .
O assucar de j á se v e n d i a a 7 0 0 r é i s , s e m
h a v e r e n t r e t a n t o m u i t o s c o m p r a d o r e s . D u r a n t e seis
m e z e s o s d í z i m o s t i n h a m estado e m hasta p u b l i c a , s e m
se apresentar n e n h u m l a n ç a d o r , s e n d o p r e c i s o s e r e m
a r r e m a t a d o s na ÍSahia, por 1 2 0 m i l cruzados, q u a n d o
n u n c a t i n h a m d e s c i d o de 1 3 0 m i l . A b a i x a d o assucar
t o r n a v a i m p o s s í v e l o c r e d i t o a g r í c o l a e o a f f e c t a v a pro-
fundamente.
O s l a v r a d o r e s h a t e m p o n ã o p a g a v a m suas d i v i d a s .
E n t r e g a v a m o seu assucar,pelo p r e ç o q u e se lhes i m p u n h a

(1; Mem. Mss,


— 173 —

Mas, a c o m p a n h e m o s a m a r c h a da crise ao l a d o
das m e d i d a s da a d m i n i s t r a ç ã o .
A C â m a r a n ã o m e r e c i a a pecha de d e s i d i a , c o m
q u e o g o v e r n a d o r p r o c u r o u n ã o d e c a h i r da c o n f i a n ç a
d o s o b e r a n o , p o r q u e n e m t u d o c m q u e ella l h e o r d e n o u
f o i c u m p r i d o : s e r v i n d o n ó s o anno passado acabou V . S .
a f o r i a l e z a d e P o n t a G r o s s a ; n á o <c p o d e negar t a m -
b é m q u e concorremos para a d i t a f o r t a l e z a c o m t o d o o
d i n h e i r o e c o m t o d a d i s p o s i ç ã o q u e p a r a ella f o i neces-
s á r i o e nos foi p o s s í v e l » ( 1 ) .
S e g u i r a e n t ã o n o m e s m o a n n o , o e m i s s á r i o da
Cam;-:ra F r a n c i s c o da Costa B a r r o s , a corte, c o m i n s t r u -
c ç õ e s d c s u b m e t t e r m e d i d a s á a p p r o v a ç ã o d o soberano
e m n o m e d e l i a , « f o r ç a d a a isto para n ã o v e r a c a b a d a
esta p r a ç a , se m e l h o r n ã o se p o d e dizer q u e e s t á aca-
bada . » ( 2 ) .
A s m e d i d a s e r a m : 1? A n i m a ç ã o do c o m m e r c i o e
l i b e r d a d e d a n a v e g a ç ã o , v o l t a n d o - s e ao a n t i g o r e g i m e n
das f r o t a s ; 2 a s u b o r d i n a ç ã o das capitanias de S. V i -
o

c e n t e c Xossa S e n h o r a da C o n c e i ç ã o m i l i t a r c p o l i t i c a -
m e n t e ao g o v e r n o d o K i o , c o n t i n u a n d o este sob a j u r i s -
d i c ç ã o da B a h i a ; 3 a c r e a ç ã o de u m Juiz de F ó r a na
U

cidade, sendo ao m e s m o t e m p o p r o v e d o r de d e f u n e t o s e
ausentes c o a u g m e n t o d o n u m e r o de vereadores e t a m -
b é m de j u i z e s para dois: a a m o e d a g e m d o o u r o q u e
viesse das m i n a s e m vista da necessidade de d i n h e i r o
q u e h a v i a e o a u g m e n t o d o valor das moedas, 4? a per-
m i s s ã o para a c u n h a g e m d o cobre; 5 a p e r m i s s ã o d o
(l

j u l g a m e n t o d o h a b i t a n t e da c i d a d e p e r a n t e as suas p r ó -
prias a u t o r i d a d e s j u d i c i a r i a s ; 6V a c r e a ç ã o d c dois tabcl-
l i à e s de notas e j u d i c i a l c um de o r p h ã o s .
S c fossem ellas executadas, n ã o ha d u v i d a q u e
j u g u r i a m a crise, p r i v a n d o q u e viesse e x p l o d i r e m u m
a c o n t e c i m e n t o r e v o l u c i o n á r i o , c o m o suecedeu e m lGlíO,
c o m g r a v e p r e j u í z o de t o d o s os interesses.

(1) Mcm. Miss. pag. 393. OarI;i d.t Cam.. .li- 311 da Novembro d<- ItHõ.
Í2) Mcm. MSÍ. pag, 330. Caria da Cam.. A* 17 dc Maio dc 16»,
— 174 —

Mas, o r e i e r a m e n o s i n d i f í e r e n t e aos interesses


da C o m p a n h i a , d o q u e aos d a c o l ô n i a e da c a p i t a n i a do
R i o de J a n e i r o .
E m c a r t a d c 2 3 de J u n h o d e 1 6 5 0 do g o v e r n a d o r
da Bahia ao d o í ? i o j á dizia : S a b e q u e a h i n ã o v i a b e m
os a d m i n i s t r a d o r e s "da C o m p a n h i a e s e n d o c i l a e s t i -
mada p e l o R e i c o n v é m q u e por todos os m e i o s l h e pro-
c u r e fazer o q u e S . M . m e o r d e n a .
A s s i m ; o u no p o s t o c m q u e e s t á o u de g o v e r n a -
d o r d i s p o n h a s e m p r e a b e n e f i c i o dos a d m i n i s t r a d o r e s
da c o m p a n h i a , n ã o i m p o s s i b i l i t a n d o o e x p e d i e n t e dos
negócios. (!).
E por s u g g e s t ã o d a C o m p a n h i a o a l v a r á r e g i o d c
13 d c S e t e m b r o d c 1 6 5 » , p r o h i b i a . s e no R i o a f a b r i c a -
ç ã o da a g u a r d e n t e e seu c o m m e r c i o , c o m o f i m d e e l i -
m i n a r u m c o n c o r r e n t e d o v i n h o , u m dos p r o d u e t o s p r i -
v i l e g i a d o s da C o m p a n h i a .
E ' pois m a n i f e s t o q u e as m e d i d a s n ã o s e r i a m d e f e -
ndas, como n ã o o foram, devendo o povo e a somma
de todos os interesses ficarem á a r b í t r i o de u m synclt-
cato d e negociantes que, a custa dos nossos s a c r i f í c i o s ,
d o nosso t r a b a l h o , dos nossos e s f o r ç o s , a c c u m u l a v a m
sua r i q u e z a pessoal. E a m e t r ó p o l e p a r a d e f e n d e r os
seus d o m í n i o s , c o n t r a o i n i m i g o e x t e r i o r , s ó e x i g i a t r i -
butos, impostos, d o n a t i v o s e v i d a s .
Seu Thesouro s e m p r e estava e m s i t u a ç ã o de
d é f i c i t , p a r a q u a l q u e r m e l h o r a m e n t o da c o l ô n i a .
H a u m s é c u l o o R i o d e J a n e i r o se t i n h a p o v o a d o
e d e s d e 1024 os seus g o v e r n o s t i n h a m firmado u m a a d -
m i n i s t r a ç ã o de p e r s p e c t i v a d e g u e r r a .
S ó m e n t e a custa d o s seiis e s f o r ç o s c o n s t r u i r á as
f o r t m e a ç o e s d o seu p o r t o c m a n t i n h a a sua g u a r n i ç â o
e s i c r i h s a n d o assim os seus recursos, q u e d e v i a m ser
apphcados ao seu d e s e n v o l v i m e n t o m a t e r i a l e i n i e l l c -
c t u a l , c o m p l e t a m e n t e d e s c u i d a d o pela m e t r ó p o l e .

tf) livro ae 1648 - ím% coll. Doe,. Il , iht. Nat. „. 2.


isls m
E ' b e m de v é r , p o i s , q u e as m e d i d a s pedidas pela
C â m a r a n ã o s e r i a m approvadas pelo r e i .
O g o v e r n o m u n i c i p a l , neste t r i e n n i o , f o i e s t é r i l .
T r a t o u d c r e g u l a r os p r e ç o s do azeite de p e i x e , d a
carne, d a f a r i n h a , q u e q u a s i n ã o e x i s t i a m no m e r c a d o .
O r d e n o u q u e n e n h u m a c o n s t r u c ç ã o de casas na
p r a i a fosse f e i t a , sem a d o r e s p e c t i v o caes.
P r o h i b i u q u e os campos Realengos de I r a j á servis-
sem de pasto e d c a ç o u g u e .
E pelas repetidas s o l i c i t a ç õ e s da C o m p a n h i a c das
r e i t e r a d a s ordens da m e t r ó p o l e , a g i t o u a q u e s t ã o da l i -
berdade d a v e n d a da a g u a r d e n t e , c u j a p r o h i b i ç ã o c o n -
s t i t u í a u m a das c l á u s u l a s d o seu c o m r a c t o .
A C â m a r a , a t é e n t ã o , n ã o o b s t a n t e isto, t i n h a o f f e -
r e c i d o a m a i o r r e s i s t ê n c i a á r e a l i z a ç ã o dessa prohi-
bição .
T e n d o e m c o n s i d e r a ç ã o os g r a v e s p r e j u í z o s da l a -
v o u r a , t i n h a s e m p r e se o p p o s t o a este p r i v i l e g i o da
C o m p a n h i a , c o n t r a o d e s e n v o l v i m e n t o da i n d u s t r i a d o
á l c o o l , q u e tantas vantagens trazia n ã o s ó aos interesses
dos lavradores, c o m o d a fazenda p u b l i c a . E neste seu
p r o g r a m m a sempre f o i a u x i l i a d o por D . L u i z que, a g o r *
m e s m o c m face da p r e s s ã o o f í i c i a l , dizia ao g e n e r a l da
f r o t a q u e « a d i f f e r e n ç a , senhor, e m q u e esta terra e s t á
da largueza á m i s é r i a , é t ã o g r a n d e , olhada ao t e m p o
da sua m a i o r p r o s p e r i d a d e , mas a i n d a a t é poucos annos
a esta p a r t e , c o m o s e j a m sete, c m q u e eu p o r duas v e -
zes a t e n h o g o v e r n a d o , c o m o e x p e r i m e n t a d o neste,
uma t ã o g r a n d e d i m i u u i ç ã o . V e j o q u e no p r i n c i p i o d e l -
i a foi t ã o fácil, o u ao menos n ã o m u i d i f f i c i l , dar oitenta
m i l cruzados, c o m o elles mesmos o a f f i r m a m , p a r a a
r e s t a u r a ç ã o de A n g o l a , e no l í m destes annos em q u e
estamos, seria m u i t o d u r o d a r uma b r e v e c o n t r i b u i ç ã o
para q u a r e n t a gastadores, q u e oecupei e m a j u d a da
i n f a n t e r i a na p r e v e n ç ã o , q u e S . M . , q u e D e u s G u a r d e ,
m e m a n d o u fazer para defensa desta p r a ç a : c sendo
esta u m a t ã o l i m i t a d a s o m m . i , em c o m p a r a ç ã o d a q u e l l a
t ã o g r a n d i o s a , achou a C â m a r a a i n d a nesta d i s s o n â n c i a ,
— 176 —

m o t i v o s para m e fazer r e q u e r i m e n t o s , e m q u e visse eu


a m i s é r i a em q u e e s t a v a e s l e p o v o , para n ã o o b r a r i s t o
que chama t r i b u t o , q u a n d o p a r e c e u a t o d o s q u e e r a u m
suave r e m é d i o , q u a n d o ê p e l o menos pagar u m a c o m -
p a n h i a de 1 0 0 h o m e n s e n t r e 1 0 g a s t a d o r e s p o r u m
mez, o u i r e m elles mesmos j u n t o s ao t r a b a l h o q u e v i e -
r a m a eleger a q u e l l e , p o r a l i v i a r a estes, d a n d o - l h e s e u
o l u g a r á sua e l e i ç ã o , p o r q u e a i n d a n o s e r v i ç o d e el-rei
m c parece m e l h o r m e i o o q u e se c o n s e g u e p o r e l e i ç ã o
dos m o r a d o r e s , q u e p o r v i o l ê n c i a d o p o v o .
Kste c h e g o u ao q u a s i u l t i m o d a m i s é r i a , c o m o se
e s t á v e n d o n o t r a t o de t o d o s , p e l a f a l t a de c o m m e r c i o
q u e t i r o u aos m o r a d o r e s d a q u e l l a f r e q ü ê n c i a d e c a b e -
daes, c o m q u e s u p p r i a m aos senhores d c e n g e n h o e
m a i s l a v r a d o r e s , os quaes c o m a f a l t a d e s t e s u p p r i r n e n t o
q u e lhes faziam os h o m e n s d c n e g o c i o c o m o d i n h e i r o
a t r o c o dos seus assucares, v i e r a m achar p o r u l t i m o r e -
m é d i o , q u e s ó e m a g u a r d e n t e q u e faziam d a c a n n a ( q u e
é o ponto sobre que tratamos), p o d i a m ter, o que por
esta o u t r a p a r t e lhes f a l t a v a , p o r q u e n ã o s ó l h e s b a s t a
p a r a f o r n e c i m e n t o dos seus e n g e n h o s , f e r r o , c o b r e ,
b r e u e l o u ç a s para as suas barcas, l h e d ã o a t r o c o dos
assucares, s i n ã o o u t r o s m a i e r i a e s , o r d e n a d o s d e f e i t o -
res, m e s t r e s , b a r q u e i r o s , q u e s ó se p o d e m s u p p r i r c o m
d i n h e i r o , c a i n d a p a r a os gastos d c sua casa, n ã o
a c h a n d o m a i s q u e as v e s t i a r i a s c o m q u e os m e r c a d o r e s
lhe s u p p r e m ; e t u d o o m a i s lhes fica f a l t a n d o , q u e c o m
o dinheiro s ó m e n t e podem s u p p r i r . » (1)
A i n d a m a i s dizia, n a c o n v i c ç ã o dos p r e j u í z o s d a
medida, q u e a m a n d a n d o - m e E l - R e i N o s s o S e n h o r , q u e
tirasse esta a g u a r d e n t e , e a e x t i n g u i s s e n a s u p p o s i ç ã o ,
p o r é m q u e houvesse n a t e r r a v i n h o s bastantes, ao p r e -
s u m p p o s t o d o q u e se pudesse gastar, nunca m c a t r e v i a
p ó r em e x e c u ç ã o , porque me pareceu seria maior o
d a m n o q u e o r e m é d i o , pois e v i t a n d o pelos i n c o n v e -
nientes a a g u a r d e n t e , s e r v i r i a a e x t i n g u i r m u i t o s e n -

(1) Mem ms, eit, pag. 402. Carla ie 28 de Abril dc lGé4,


9
— 177 —

g e n h o s p e l a falta d e l i a , p o r q u e se é c e r t o , c o m o é, s u p -
p r i r e m c o m o d i n h e i r o do seu p r o c e d i d o a q u i l l o q u e
faziam c o m o d i n h e i r o dos o u t r o s g ê n e r o s q u e lhe h ã o
f a l t a d o ; f a l t a n d o t a m b é m este cá, a i m p o s s i b i l i d a d e
e s t á na m ã o , e j á o d a m n o e s t á c o n h e c i d o , pois se s e g u e
o p r e j u í z o q u e t e r á a Fazenda R e a l , nos mesmos enge-
nhos, com o s quaes ella se a c c u m u l a : estou p a r a a f f i r -
m a r n ã o s ó , q u e m u i t o s sc m a n t é m p( l a a g u a r d e n t e ,
s i n ã c t a m b é m , q u e m u i t o s o u t r o s com ella se levan-
taram .
E c o m o estes; o u todos a n ã o fazem u i õ i s , s i n á o o
q u e r e s u l t a da safra d o s assucares, o q u e s ó faz a g u a r -
d e n t e , c l a r o fica q u e q u a n d o m ó e m t e m S- M . m u i t o s
d í z i m o s , e menos m a l v e m a ser, d c q u e o negro, es-
p u m e m is para a c a c h a ç a de q u e se faz a a g u a r d e n t e ,
q u e de d e i x a r o engenho m o e r para a s s u c a r . »
O p a t r i o t i s m o d e D . L u i z inspirava-lhe a c o n v i -
c ç ã o do d i r e i t o d c q u e t o s q u e t i n h a m p r o c u r a d o d e -
f e n d e r m a i s a a g u a r d e n t e do q u e a c o n s e r v a ç ã o da p r a ç a
q u e S . M . lhe e n t r e g a r a , se n ã o a pudesse a u g m e n t a r ,
n à o consentir q u e a enfraquecessem é a d i m i n u í s s e m » .
E aquelles q u e lhe criticassem de q u e Í.Ó na liber-
d a d e d a venda desse p r o . I u c t o e n c o n t r a v a a s a l v a ç ã o da
crise, r e t o r q u i u q u e t a m b é m « s e p o d e r i a fazer c o m as
sucar, m a s n ã o é t ã o e v i d e n t e e pouca e s t i m a ç ã o d e l l c ,
p o r falta d c d i n h e i r o com q u e se compra, e q u e a i n d a se
v a i c o n s t i t u i r m a i o r a i m p o s s i b i l i d a d e , q u a n t o mais t a r d e
se l h e a p p l i c a r o r e m é d i o , pois estamos v e n d o q u e
q u a n d o se acha q u e m c o m m u m m e n t e pague o assucar
a doze t o s t õ e s p a r a p a g a m e n t o , com q u e possa s u p p r i r
aos moradores nesta, l e v a n t a r os p r e ç o s p a r ã os desem-
penhos das d i v i d a s com que se a c h a m o n e r a d o s , n ã o
achar q u e m lhes d ê de contado, o quando os paga-
m e n t o s s ã o d c doze, a d i n h e i r o n ã o passa de s e t e ; pois
este n ã o é o m e s m o assucar, o q u e sc r e m e d e i a com a
a g u a r d e n t e *• E vem a ser, q u e c o m o assucar n ã o ha
sempre q u e m o compre, a aguardente n ã o falta quem a
gaste, e o assucar q u e se ha de levar, cada u m o quer
— 178 —

t ã o barato q u e se p e r d e os l a v r a d o r e s , o q u a n d o h a j a m
d c c o m p r a r mais caro, os q u e o c a r r e g a m a c o m u i o -
dam-sc m e l h o r c o m o d i n h e i r o c o m o é p r o v a o o r ç a -
m e n t o que eu e V . 5 . ouvimos, d o que levara a A r -
m a d a p ã s s a d a s ó desta p r a ç a mais de c e m m i l cruzados,
e a q u i se v ê q u e esta f a l t a de d i n h e i r o f a z a d e f o r m i -
dade do n e g o c i o , q u e pondo-se o assucar a p a g a m e n t o
de doze t o s t õ e s , n ã o ha q u e m d ê por e l l e sete a d i -
n h e i r o , e v e m a fazer o c a m m o d o d e s t a d e s i g u a l d a d e a
m i s é r i a q u e sc e s t á e x p e r i m e n t a n d o , p o i s n e m os q u e
qUCrem p a g a r c o m assucar p o r doze, c o m p r a m o q u e
vale c á q u a t r o p o r nove; v i n d o - s e a f a z e r i s t o por m i s é r i a
e n ã o p o r r e m é d i o , q u e se h o u v e r a a a b u n d â n c i a
de d i n h e i r o dos annos atraz, p a r a t o d o s t u d o f ô r a
igual. »
Q u a n t o a r a z ã o allegada contra a liberdade da
v e n d a , p r o d u z i n d o a d i m n i ç ã o da e x p o r t a ç ã o d o v i n h o
da c o m p a n h i a « n ã o é a a g u a r d e n t e q u e a t i r a , e s i m a
faz a l a l t a do d i n h e i r o , pois, q u a n d o este g ê n e r o v i n h a
livre, todos o bebiam f i a d o , e hoje n ã o o b e b e m s i n ã o
a d i n h e i r o á v i s t a ; d a q u i nasce o c l a m o r c o m q u e a
c o m p a n h i a tomara m o t i v o s p a r a q u e r e r l a r g a r os g ê -
neros, p o r q u e , v i n d o estes a todos, c h e g a v a a t o d o s q u e
o p a g a v a m c o m assucar, o q u e a g o r a n ã o a l c a n ç a s e m
dinheiro.»
Q u a n t o a o u t r a r a z ã o q u e se a l l e g a v a dos f u r t o s
q u e fazem os escravos p a r a a a g u a r d e n t e a m u i t o s mais
c o m m e t t c r i a para os v i n h o s , por ser t a n t o m a i o r o v a l o r
q u e vae de u m a o u t r o , q u e p r o m o v e r i a os excessos,
q u e d e o u t r a f ô r m a n ã o acontece excitar u m escravo
por u m a pouca dc aguardente que l h e d ã o p o r duas
raizes de a i p i m , q u e traz da sua r o ç a , c p a r a b e b e r o
o v i n h o n ã o se c o n t e n t a r i a o q u e l h e s dessem s e m u m a
p e ç a q u e f u r t a d a casa d c s e u s e n h o r , e n e m pela m u -
d a n ç a dos q u e v e n d e m se m u d a r á o e s t y l o d o q u e se
sente, p o r q u e sendo v e n d i l h õ e s t o d o s s ã o uns, q u e n e m
p o r brancos se l i v r a m d c taes velhacadas, p o i s , p o r
ellas j á d e g r a d e i u m , e d c o u t r o me fez q u e i x a u m m o -
- 179 —

r a d o r , d c q u e l h e achara c m casa q u a n t i d a d e de f e r r a -
g e m q u e t i h h à e m u m c a i x ã o , v e n d i d a t o d a p o r seu es-
c r a v o , e se passava destes o d a m n o q u e faz a aguar-
d e n t e ao j u i z o ; q u a l é o b r a n c o q u e m o r r e pelo b e b e r
q u e n ã o m o r r a b e b e d o de v i n h o , p o r q u e o excesso
n u n c a t e m l i m i t e s : e se a l g u m a s pessoas f o r a m de p a -
r e c e r q u e se extinguisse a a g u a r d e n t e , c o m o os q u e as-
s i g n a r a m o p a p e l , e eu si n ã o i n c o r r e r a no c r i m e de se
m e a r g u i r de q u e s i g o parcialidades, assignara p o r m u i -
tos mais as r a z õ e s p o r q u e se n ã o d e v e t i r a r a a g u a r -
dente a i n d a daquellas mesmas que tiveram contrario
parecer, pois e x p e r i m e n t e i e m m u i t o m a i o r cousa, t a n t o
m a i o r , q u a n t o f o i a p p r o v a r c m u m papel q u e h a v i a de
ir á s m ã o s de sua m a g e s t a d e , c d e p o i s , aquellas mes-
mas a s s i g n a r c m o u t r o c o m d i f f e r c n i e parecer c o n t r a r i o
d a q u e l l e : mas, n ã o m c espanto, p o r q u e si os climas sc
g o v e r n a m pelas i n f l u e n c i a s q u e nelles p r e d o m i n a m , os
t e m p o s e m q u e p r e s e n t e m e n t e v i v e m o s se encontra e m
u m d i a fazer s o l c c h u v a , f r i o e c a l m a , n ã o é m u i t o q u e
nos h o m e n s se v e j a a mesma v a r i e d a d e , p e l o que par-
t i c i p a m c m seu n a s c i m e n t o dellas. mas a m i m c o m o m e
toca d i s c o r r e r s o b r e a sua c o n s e r v a ç ã o , e n ã o da sua
c o n s e r v a ç ã o , c n ã o da sua natureza, d e i x a r e i per isso
de d i z e r a V . S . q u e os mais dos q u e foram d a q u e l l e
parecer, a s s i g h ã r a m p o r p a r t i c u l a r e s o c e o r r e n c i a s q u e
p r e n d e m uns aos o u t r o s , p o r q u e eu vou s ó c o m a l t e i -
ç ã o de d a r a V . S . Í S r a z õ e s da m i n h a r a z ã o , c n á o , s ;

dos desconcertos dos q u e v a r i a m , sem ser n e c e s s á r i o


g r a n d e s m u d a n ç a s d o t e m p o ; c q u a n d o e u estou e m
v é s p e r a d c acabar o m e u g o v e r n o , s u s p i r a n d o p o r suc-
cessor, parece r a / á o de q u e se isto é b o m , o deixe eu
para p r i n c i p i a r c o m esta g l o r i a a q ú e l l e que me ha de
sueceder, e si é m á o , n ã o é j u s t o qut: q u a n d o eu acabo
s e j a para tal t i n i . »
F i n a l m e n t e , q u a n t o a r a z ã o a l i e g ã d a de q u e na
B a h i a tinha-se produzi-lo a v e n d a , « o e x e m p l o da B a h i a
q u a n d o t e n h a m u i t o q u e approvar, t a m b é m t e m a l g u m a
p a r t e q u e n ã o c o n v i n h a seguis, porque se havemos t o -
mar dos e x e m p l o s a r e s o l u ç ã o , t a m b é m h a v e m o s d e
t o m a r dos meios o r e m é d i o : lá se b u s c a por i o d a s as
vias o q u e c á sc t e m a t a l h a d o p o r t o d a s , pois se v e m o s
que n a Bahia se e x e c u t o u a e x t i n e ç ã o d a a g u a r d e n t e ,
nel!a se despacham p a r a o r e i n o e m b a r c a ç õ e s s e m l i -
m i t e , no q u e acham os homens p e l a v e n d a d o s seus
assucares, o q u e lhes n ã o faz f a l t a pela p r o h i b i ç à o d a
a g u a r d e n t e , e os q u e as c a r r e g a m c o m o os ha de nave-
g a r , sempre c o m p r a m a m e l h o r p r e ç o , o q u e se a q u i
praticara t a m b é m se p o d e r i a fazer i n d o : c se é j u s t o q u e
s i g a m o s os e x e m p l o s , t a m b é m d e v í a m o s p a r t i c i p a r dos
r e m é d i o s , p o r é m v e j o q u e q u e m c o m p r o u ;-:qui assu-
cares ha u m a n n o , a i n d a a q u i e s t ã o p a r a se l e v a r e m
a g o r a , c o m a d i l a ç ã o d a sua v i a g e m , m a i s a i n d a s e m
e u o despachar m e veiu o r d e m p a r a n ã o d e s p a c h a r
alguma.
E sc d c f ó r a sc f e c h a m as p o r t a s ao r e m é d i o , c o m o
h a v e m o s de s e r r a r as de d e n t r o - r
E u n ã o digo que
a a g u a r d e n t e seja b o a , mas s ó m e p a r e c e q u e n à o c o
estado d o t e m p o presente o p p o r t u n o p a r a isso, p o r q u e
f a l t a n d o os meios da r a z ã o q u e t e n h o r e f e r i d o , c r e i o n à o
s e r á j u s t o a t a l h a r t a m b é m p o r esta, a p a r t e q u e sc r e -
medeia na falta daquelles, pois l e n h o p o r i m p o s s í v e l a
c o n s e r v a ç ã o dos e n g e n h o s , a t a l h a n d o se t o d o s os i n c o n -
venientes, c m q u a n t o o t e m p o n à o d e r l u g a r , r e c o n h e -
c e n d o eu n ã o ser este o d a a g u a r d e n t e , a c o l h o - m c
a q u e l l a r a z ã o dos q u e nos e n s i n a m , q u e d o s m a l e s esco-
lhemos o m e n o r . »
Eis u m d o c u m e n t o v e r d a d e i r a m e n t e n o t á v e l , p e l a
l ó g i c a , pela pureza das i n t e n ç õ e s , pelo c o r r e c t o c u m p r i -
m e n t o do d e v e r e q u e e r a a e x p r e s s ã o d e u m p a t r i o t i s -
m o sincero a f a v o r dos interesses deste p o v o .
N a s u e c e s s ã o dos g o v e r n o s d o R i o , desde o s c e u l o
anterior, nenhum teria resistido á f o r ç a d o prestigio d a
Companhia.
Eis a r a z ã o d c l e r s i d o ella o r g a n i s a d a e m 1 6 4 9 e
o R i o d c Janeiro c o n t i n u a v a a f a b r i c a r a a g u a r d e n t e e
v e n d e l - a l i v r e m e n t e , ate 1 6 5 õ ,
— 181 —

Estava nas altas q u a l i d a d e s m o r a e s d e D . L u i z ,


q u e se c o n s t i t u i r á no t e m p o , o ú n i c o p o n t o resistente
á f o r ç a da C o m p a n h i a .
M á s , l o g o q u e a s u c c e s s à o v e i u m u d a r o pessoal
d a a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a , q u e r no g o v e r n o , q u e r no m u -
n i c í p i o , o m o n o p ó l i o t o r n o u - s e u m a r e a l i d a d e , c o m o ve-
remos adiante.
N o m e s m o a n n o e m q u e f o i aclamado D . A f f o n s o
V I , p o r m o r t e d o r e i , t e r m i n o u o seu t r i e n n i o D . L u i z
de A l m e i d a q u e , ao r e t i r a r - s e , teve as b ê n ç ã o s d o p o v o
m a i s pela r e s i s t ê n c i a q u e o p p o z á e x p l o r a ç ã o , do q u e
pela s o m m a de b e n e f í c i o s reaes q u e o seu g o v c r n o j f i -
zesse á cidade, á l a v o u r a e a o c o m m e r c i o .
N a s ruas d o R i o de J a n e i n » f o i e l l e a c l a m a d o c o m o
p a i e bemfeitor.
E n ã o ha d u v i d a q u e , na p r i m e i r a m e t a d e d o s é -
c u l o X V I I , f o i u m g o v e r n o q u e a b r i u e x c e p ç ã o aos q u e
lhe t i n h a m p r e c e d i d o .
C o m o suecessor f o i n o m e a d o T h o m é C o r r e i a d e
A l v a r e n g a , por c a r t a r e g i a de 2 7 de M a r ç o de 1657 ( 1 ) ,
apresentando-se c o m e l l a p e r a n t e a C â m a r a , a l i de
J u l h o d c 1 6 5 7 , por isso m e s m o q u e o d o c u m e n t o real
t e n d o n o m e a d o c o m o g o v e r n a d o r a L o u r e n ç o de B r i t t o
C o r r e i a , ; . b r i u a h y p o t h c s e da i n t e r i n i d a d e e m l a v o r de
T h o m é C o r r e i a , caso a q u e l l c faltasse o u se d e m o r a s s e
c m t o m a r posse d o c a r g o .
C o m o g o v e r n o de T h o m é C o r r e i a inicia-sc a se-
g u n d a phase d o p r e s t i g i o dos d e s c e n d e n t e s de E s t a c i o
de S á , q u e nos ú l t i m o s dez annos n ã o t i n h a oecupado a
cadeira d e g o v e r n a d o r d o R i o .
F a m i l i a e x t e n s a e c e n t r a l i s a d a t o d a e l l a nessa c i -
d a d e , assumiu a d i r e c ç ã o dos n e g ó c i o s p ú b l i c o s , exer-
c e n d o os c a r g o s de m a i s i m p o r t â n c i a .
N o g o v e r n o , q u e acabava de se i n s t a l l a r , a l é m de
T h o m é C o r r e i a , oecupavam os lugares de p r o v e d o r da
fazenda seu c u n h a d o o c a p i t ã o Pedro de Souza P e r e i r a ,

(1) Mm. Ma\ pag. 419.


— 182 —

o s a r g e n t ò - m ó r , seu i r m ã o , M a r t i n C o r r e i a V à s q u e s e
o de p r e s i d e n t e da C â m a r a , seu p r i m o , M a n o e l C o r r e i a
Vasqueanes.
K no g o v e r n o q u e lhe succcdeu d o p r ó p r i o Salva-
d o r C o r r e i a de S á c É e n e v i d è s , ;:quelles l u g a r e s c o n t i -
n u a r a m a ser e x e r c i d o s pelos p r o p r i c s p a r e n t e s .
I s t o n ã o podia d e i x a r de f e r i r a p r e v e n ç ã o p u b l i c a ,
q u e assumiu m a i o r e s p r o p o r ç õ e s c o m os f a c t o s p a s s a -
dos de interesse pessoal p r a t i c a d o s p o r S a l v a d o r Hene-
vides, d o a f o r a m e n t o das t e r r a s de m a r i n h a , o n d e f o i
e s t a b e l e c i d o o a ç o u g u e p u b l i c o c a q u e j á nos r e f e r i -
m o s e do seu p r o c e d i m e n t o e m r e l a ç ã o á q u e s t ã o da
e x p u l s ã o dos j e s u i t a s de S . P a u l o c R i o de J a n e i r o .
T o d o s e^tes L c t o s f o r m a r a m u m a c o r r e n t e d e
o p i n i ã o f r a n c a m e n t e a d v e r s a a S a l v a d o r , c m nome d a
q u a l estava e l l e e m um p l e i t o n ã o p e q u e n o p a r a e x e r c e r
o governO d o R i o o u q u a l q u e r d c seus p a t e n t e s , c o n t r a
o q u a l r e s i s t i a m seus i n i m i g o s .
M . s, a g o r a , u m a q u e s t ã o d e g r a n d e interesse q u e
se a g i t a v a na c o l ô n i a , d o m o n o p ó l i o da a g u a r d e n t e , t o r -
nando-se preciso r e s o l v e l - a de accordo s e m os interesses
da C o m p a n h i a , m o t i v o u a e s c o l h a de T h o m a z C o r r e i a
para annullar a r e s i s t ê n c i a com que D . L u i z a protelara
a t é este . n o m e . i t o .
T a n t o assim é q u e , no p r o g r a m m a a p r e s e n t a - l o á
C â m a r a de sua a d m i n i s t r a ç ã o , d a necessidade de sc
r e p a r a r as fortalezas, e m vista d o seu m á o estado, n ã o
acceitou os r e c u r s o s p o r e l l a propostas da c r e a ç ã o de
u m i m p o s t o de 5 0 0 r é i s a t i t u l o de l i c e n ç a s o b r e a v e n d a
l i v r e da a g u a r d e n t e , p o r m u l h e r e s , s o l d a d o s e h o m e n s
casados o u s o l t e i r o s , « p o r n ã o c a b e r na sua a u t o r i -
dade a revog; c ã o d o privilegio que fora dado á Compa-
n h i a q u e o g e n e r a l da F r o t a a f f i n c a d a n i e n t c s u s t e n t a v a
por n ã o t e r s i d o este o s e n t i m e n t o c o p i n i ã o d o seu
antecessor.»
E e m s u b s t i t u i ç ã o desse m e i o , p r o p u n h a t o m a r - s e
o g a d o « o s creadores d o r e c ô n c a v o , a f a r i n h a d o s l a v r a -
d o r e s pa>a se lhes p a g a r e m d i n h e i r o q u e seria o b t i d o '
por u m e m p r é s t i m o que a Câmara trataria de l e -
vantar.
E t a n t o assim é q u e , c m u m a a p p ara tosa s e s s ã o d a
C â m a r a , a q u e c o n c o r r e r a m , a l e m dos altos f u n c i o n á -
rios, o p o v o e a n o b r e i a da cidade, e s p e c i a l m e n t e p a r a
resolver-se d e f i n i t i v a m e n t e a p a l p i t a n t e q u e s t ã o do abas-
t e c i m e n t o d*agua d a c i d a d e , conduzida por canos de
p e d r a do rio C a r i o c a , p r o m p t i f i c a n d o - s e a C â m a r a , em
n o m e d o p o v o , a l e v a n t a r u m subsidio v o l u n t á r i o , T h o m é
C o r r e i a , c o n t r a a e s p e c t a t i v a do a u d i t ó r i o , lc a p r o v i s ã o
d c 13 d c S e t e m b r o de l t í õ í ) , pela q u a l respeitando o
s o b e r a n o « o q u e cie n o v o l h e f o r a representado p o r
p a r t e dos d e p u t a d o s d a J u n t a de C o m m e r c i o G e r a l »
resolvia e x t i n g u i r a v e n d a e i n d u s t r i a da a g u a r d e n t e e
c a c h a ç a no B r a z i l .
E á custa da surpreza, f e i t a pelo g o v e r n a d o r e
o u v i d o r g e r a l , f o i arrancada a e x e c u ç ã o dessa p r o v i s ã o ,
q u e c o n s u m o u o m a i o r a t t e n t a d o aos p r i n c í p i o s da l i -
b e r d a d e d o c o m m e r c i o e aos interesses c o r n m e r c í a e s e
a g r í c o l a s da c o l ô n i a .
A C â m a r a manda p u b l i c a r pelas ruas o b a n d o , pelo
q u a l e n t r a v a c m e x e c u ç ã o a p r o v i s ã o r e g i a , debaixo
das penas as m a i s severas e t y r a n n a s de m u l t a , p r i s ã o e
desterro.
O s factos q u e p r e c e d e r a m esse a t t e n t a d o s ã o e l o -
q ü e n t e s p a r a d a r a e x p r e s s ã o ao governo de T h o m é
C o r r e i a , de u m g o v e r n o d c e m p r e i t a d a para consu-
mai-o.
A o m e s m o t e m p o q u e os d i r e c t o r e s da C o m p a -
nhia, pelos d e p u t a d o s da J u n t a C o m m e r c i a l , reclamam
a p r o h i b i ç ã o da v e n d a e p r o d u c ç ã o da a g u a r d e n t e no
Brazil, T h ò m é C o r r e i a é n o m e a d o g o v e r n a d o r do R i o ,
o r e i b a i x a a p r o v i s ã o , n o m e i a S a l v a d o r á 10 de j a n e i r o
d e l t í õ l ) g o v e r n a d o r , v i n d o e l l e na p r ó p r i a f r o t a da
C o m p a n h i a a assumir as suas l u n e ç õ e s , o q u e fez a 1 de
J a n e i r o de 1 flfiO.
Eis p o r q u e , nesta cidade, restaurava-se o p r e s t i g i o
dos C o r r e i a s de S á , e m nome dos interesses de u m s y n -
- 184 —

dica t o que a r r u i n o u , p o r u m s é c u l o , o c o m m e r c i o e a
l a v o u r a da c o l ô n i a .
N a alta esphera d a a d m i n i s t r a ç ã o p u b l i c a , a C o m -
p a n h i a tinha os seus m a n d a t á r i o s , a z e l a r e m m a i s pelos
seus interesses, d o q u e pelos da c í r c u m s c r i p ç ã o q u e
governavam.
Mas, v o l t e m o s ao e s t u d o d o g o v e r n o d e T h o m é
Correia.
F o i j u s t a m e n t e q u a n d o a crise c h e g a v a a sua phase
a g u d a , q u e se c o n s u m o u a p r o h i b i ç ã o d a v e n d a d a
aguardente.
£ ' b e m de v e r q u e e r a u m f a c t o r de m a i s para a g ^
g r a v a r seus m a u s e f f c i i o s .
O c r e d i t o dos l a v r a d o r e s estava p r o f u n d a m e n t e
abalado.
T o r n o u se i n d i s p e n s á v e l u m a v e r d a d e i r a m o r a t ó r i a ,
b a i x a n d o sc u m a m e d i d a p c l n q u a l o o u v i d o r n ã o c o n -
sentisse na e x e c u ç ã o dos b e n s a g r í c o l a s e esciavos, d e -
v e n d o os credores s e r e m pagos p e l o assucar, s e g u n d o o
p r e ç o g e r a l e n à o p o r 4 0 0 reis a a r r o b a o b r a n c o e 1 0 0
r é i s o mascavo.
O resultado disto foi a s u s p e n s ã o do fornecimento
á l a v o u r a , p o r d e l i b e r a ç ã o do c o m m e r c i o .
A essa f a l t a de c a p i t a l v e i u rcun"r-se a f a l t a de
b r a ç o s . p e l a f u g a dos escravos dos e n g e n h o s pr.ra as m a r -
g e n s do P a r a h y b a , o n d e f o r m a v a m q u i l o m b o s , p a r à c o m -
m e t t e r m o r t e s , r o u b o s e toda a especie de d e p r e d a ç õ e s .
E ' fácil de comprchender que isto era o resultado
da s i t u a ç ã o g e r a l .
A Gamara e n t ã o resolveu r e m u n e r a r a p r i s ã o d c
c a d a escravo, c o m i$2S0 na zona c o m p r e h c n d i d a e n t r e
a c i d a d e e a lagoa d e R o d r i g o de F r e i t a s e o d i s t r i c t o
de I t a ú n a ; 2 $ a t é I r a j á ; 4 * a t é C a m p o G r a n d e e d a h i
e m d i a n t e 8*. N a z o n a f r o n t e i r a á b a h i a s e r i a m pagos
2 * a t é o districto d c 5 . B e r n a b é , 4 8 a t é Saquarema e
8* a t é Cabo F r i o . ( 1 )

; i j «Mcm, Mss*. 12Õ,


O r i g i n o u - s e a h i a p r o f i s s ã o d o « c a p i t ã o de m a t t o » ,
q u e se t o r n o u t ã o celebre no t e m p o .
Mas, a medida tomada n ã o produziu o effeito
desejado.
F o r a m o b r i g a d o s a o r g a n i s a r o s e r v i ç o cia c a ç a d a
dos escravos, m a i s r e g u l a r m e n t e .
O s q u i l o m b o s m u l t i p l i c a v a m se e se espalhavam
por t o d o o t e r r i t ó r i o d a capitania q u e estava c o l o -
nisado.
O t r a t a m e n t o excessivamente b á r b a r o dos escravos
pelos s e n h o r e s d c e n g e n h o , collocados a g o r a na perspe-
ctiva da m i s é r i a , a f u g e n t a v a - o s das fazendas.
E M i r i t y , I r a j á , S a r a p u y , C a m p o G r a n d e , Jacotinga
e G u a g u a s s ú t o r n a r a m - s e c e n t r o s de desordens e m o r -
t i c i o , c m vez de c e n t r o s d c p r o d u c ç ã o a g r í c o l a , c o m o
eram.
E n t ã o a C â m a r a r e s o l v e u o r g a n i s a r u m a compa-
nhia, m a i s o u menos m i l t t i r m e n t e que, sob o c o m m a n d o
d o c a p i t ã o M a n o e l J o r d ã o d a S i l v a , ficasse encarregada
d e trazer á o r d e m e ao t r a b a l h o a g r í c o l a aquellas paira-
gens.
D c u d h e s a t t r i b u i ç õ e s latas de arrasar as p o v o a
ç ò e s dos n e g r o s , e n f o r c a r os q u e resistissem e v e n d e r
p a r a f o r a da c a p i t a n i a os q u e fossem presos, sendo este
p r o d u e t o d i s t r i b u í d o p e l o s senhores e p e l o pessoal da
comitiva que receberia uma terça parte. (1).
A i n d a assim, a m e d i d a n ã o l o g r o u o e x t e r m í n i o
dos q u i l o m b o s .
O s n e g r o s j á t i n h a m f e i t o a l l i a n ç a c o m os í n d i o ; e
p o r i n f o r m a ç ã o d a d a á C â m a r a p e l o celebre c a p i t ã o de
m a t t o J o r d ã o da Silva, e n c a r r e g o u - l h e de p ô r fim ; os
q u i l o m b o s c o m a v a n t a g e m de duas partes do v a l o r de
cada escravo. ( 2 ) .
A o passo q u e o t r a b a l h o a g r í c o l a estava sob a
p e r t u r b a ç ã o dos q u i l o m b o s , os m e m b r o s d o g o v e r n o

(1) «Mcm. Mss». pag, 440.


\2) SÜT3 Lisboa, obt. ei*., j>.ig. 3o8,
— 186 —

e n t r a v a m e m q u e s t õ e s c o m as a u t o r i d a d e s e c l e s i á s t i -
cas, c u j a t e n d ê n c i a m a n i f e s t a , c o m o t e m o s v i s t o , e r a
invadir a j u r i s d i c ç ã o d a auetoridade civil. J á a carta
regia d c 3 d e m a i o d c 1 6 4 6 veiu p ô r t e r m o a u m attrt-
cto de j u r i s d i c ç ã o q u e se t i n h a d a d o , a c a u t e l a n d o o
mais possivcl as p r e r o g a t i v a s da a u e t o r i d a d e c i v i l , t ã o
d i r e c t a m e n t e a m e a ç a d a pelas t e n d e n c i s d o m i n a d o r a s
e d i c t a t o i i a e s dos p r e l a d o s d o R i o d c J a n e i r o .
A g o r a , á p r o p ó s i t o d c uma devassa que tirava o
o u v i d o r D r . P e d r o P o r t u g a l , e m c o n s e q ü ê n c i a de u m a
t e n t a t i v a de assassinato do t a b e l l i ã o S e b a s t i ã o F e r r e i r a
F r e i r e pelos familiares d o p r e l a d o , e x i g e d h e no p r a s o
d c tres o i - s , a remessa d o ; autos, s o b pena de e x c o m -
munhão.
A a u e t o r i d a d e j u d i c i a r i a estava de p a r t i d a p a r a
Espirito-Santo, afim dc providenciar judicialmente
s o b r e o assassinato d o c a p i t ã o m o r da c a p i t a n i a J o ã o
d c A l m e i d a , q u a n d o esse aviso v t i u d e s v i a i - o d o seu
c u m p r i m e n t o d c d e v e r , para t r a t a r da suspen- ã c da
e x c o m m u n h à o t ã o i l l e g i t i m a m e n t e i m p o s t a , p o r isso que,
no t e r r e n o p r a t i c o , c i l a i m p o r t a v a na s u s p e n s ã o do ex-
e r c í c i o de suas f u n e ç õ e s legaes.
Por isso, a c x c o m m u n h ã o era u m a a r m a p o d e r o s a
a q u e se s o e c o r r i a o c l e r o , e m f a v o r de sua p o l í t i c a .
A l é m deste conflictò, o prelado, pouco depois,
levantava um outro. A u t o r i s o u a m u d a n ç a d a S é e
p a r o c h i a de S. S e b a s t i ã o d o a l t o da c i d a d e p a r a a ca-
p e l l a d e S . J o s é , s i t u a d a na v á r z e a . E m a m b o s estes
coniiictos interveiu a c â m a r a , q u e a l c a n ç o u a s u s p e n s ã o
das o r d e n s feitas, p e l o p r ó p r i o p r e l a d o , c o n t r a q u e m
r e p r e s e n t o u ao soberano, p o r c a r t a 6 d e n o v e m b r o d e
1659, (1)

<1) Silva Lisbo.1. fine unto sc inspira na M«m. Mss, a mie nos lemos
r«tl<-nJy, rclau munUçiosamentc as sessíles da cam..ra i jiag. 316 do 8 rol. em
o

que pcrair.c as autoridades ciri* c eclesiásticas, foi discutida a nKompclciKÜ do


prclaür» para lane.» e\eo;minhâo e pita querer mudar .1 Sé dc sua sede i>ri-
niiliva.
— 187 —

Por essa occasião, já sc achava no Rio Salvador


B e n e v i d c s , em v é s p e r a s de assumir o g o v e r n o .
A crise, c u j a s causas neste c a p i t u l o , t e m o s e s t u •
d a d o , mantinha-se e n v s u a p l e n i t u d e . O u t i n h a de r e -
solver-se p o r medidas sabias e p r u d e n t e s o u t i n h a de
e x p l o d i r c o m a r e v o l u ç ã o . Desse d i l l e m a n ã o p o d i a
sahir a p o p u l a ç ã o da c i d a d e do R i o d c J a n e i r o .
CAPITULO VIII

0 u l t i m o g o v e r n o de Salvador Correia de S á e Bouevides

mHMARIO.-Sahader Correia de Sd e Renevides.-Situação da capitania.


Sen plano de administração. Âlvaii dr 16 de Outubro de
, l6p; O angtnento da guarniçâo e o imposto predial. A opinião
da Câmara, Os actos que motivaram a revolução. Ausência de
Salvador. Rebenta a revolução. Os representantes da revolução
perante o governo legal. Sms requerimentos. Reunião na Ponta
do Brabo, Jeronymo Barbalho e os outros tkejes da revolução e
seus actos. Agostinho Rarbalha. O bando de Salaador d ei>- dc
Janeiro. Appetto do Rio a S. Panlo. Procedimento dos pau-
listas. Vitimas actos da revolução. Carta da Câmara ao go-
verno da Bahia. Suas respostas. Os reootvtionarios e Salva-
dòr. Vutaria do gtaemo legal. Jixecução dc Jeronvmo Barhalho
e as actos consocuetivos.

Chegou Salvador com a frota da «Companhia de


C o m m e r c i o ao R i o de J a n e i r o » , e m S e t e m b r o de 165<i
e assumio o g o v e r n o a 1 d c Janeiro, e m s e s s ã o da C â -
m a r a , a q u e m a p r e s e n t o u a p r o v i s ã o regia de I 7 de
S e t e m b r o de 1 6 5 8 e a carta d o s o b e r a n o de 1G d c
Janeiro de 1 6 5 9 . ( 1 )
O d o c u m e n t o de n o m e a ç ã o de S a l v a d o r m o d i f i c o u
consideravelmente a hicrarchia política e administrativa
da c a p i t a n i a d o R i o de Janeiro, tornando-a indepen-
d e n t e da Bahia.

(1) Mem. Mss. pag». 460 e 460.


E l l e era g o v e r n a d o r d á s tres capitanias d o S u l . ( 1 ) .
E r a o v a l o r pessoal do d e l e g a d o da c o r ô a q u e m o -
t i v a v a essa e m a n c i p a ç ã o p o l í t i c a e a d m i n i s t r a t i v a d o
R i o e n ã o os s e r v i ç o s d o seu p o v o e a i m p o r t â n c i a do
seu c o m m e r c i o e d e s u a l a v o u r a .
F ô r a d e b a l d e q u e a C â m a r a , c m carta d c íS d e
S e t e m b r o de 1 0 5 7 , ( 2 ) p e d i r a ao s o b e r a n o a r e c o n -
d u c ç ã o de T h o m é C o i r e i a p o r mais tres annos no g o -
verno.
O p r e s t í g i o pessoal d e S a l v a d o r f a l l o u mais a l t o
q u e os suppostos s e r v i ç o s p r e s t a d o s p o r Thomé
Correia.
E m p o s s a d o na a d m i n i s t r a ç ã o , t i n h a a g o r a o m a i s
laureado descendente de E s t a c i o de S á , a mais f r a n c a
o p p o r t u n i d a d e d c c x h i b i r os seus tinos de a d m i n i s t r a d o r
e de p o l í t i c o , em face da crise a q u e chegara a c a p i t a n i a
q u e ia a d m i n i s t r a r .
P e l o lado a d m i n i s t r a t i v o , sua s i t u a ç ã o definia-se
por um déficit o r ç a m e n t á r i o n ã o pequeno, pelo quai,
ha dez mezes n ã o p a g a v a o s o l d o d a g u a r n i ç â o , p o r q u e
d u r a n t e t o d o este t e m p o n ã o sc t i n h a i m p o r t a d o v i n h o .
f a l t a n d o a r e n d a do seu s u b s i d i o . Pelo l a d o c o m m e r -
c i â l , a s i t u a ç ã o , d e f i n i a - s é t a m b é m pela escacez dos p r o -
duetos, p o r isso q u e a C o m p a n h i a , n a q u c l l e p r a z o , n ã o
os t i n h a i m p o r t a d o .
F a l t a v a o azeite de p e i x e p a r a a i l l u m i n a ç ã o das
casas; o sal de C a b o F r i o , q u e f o i t a x a d o c o m o i m -
p o s t o de 1 2 0 | r é i s s o b r e a l q u e i r e (. í); o p ã o de m a n -
:

(li Ptililkumo! csKi pínvisação, (doe. irtodícto), iinin' ... et Mem. Mss. •
prosiíao dc ] " Jc SclembtO de lu'5S. nntr.e.i.lii S. Her.cvides gnvem ídor do
R^o, cm-auseucia dc loào dc Mullu Frio. vc-;c qna ellé foi nomeado governador
das capitanuj d» sal, fiem dcrsr.dcucia do goví:ii,idor c capitáo (ipral dn Kstido
do Drasil, pussando-lh- patente com esta ola«siiIa. pjra priv.-ir duvida-*, «li
1

Sundo caso que o é'no S.lv.idor vá ás minas, t:ãu eslando o dit« Jofto dc Mello
i»o seu govurjiò do Rio dc Janeiro, hei por hptQ que use «>meii-ie da ririsdicçào
òVi capi-amis S. Paulo e S. Vicen^, mi que as dim* iniiiav cstào sendo
ludo disiin.-io dcais, por nilo locaram tapiUn*as do Kío de Janeiro num lhes
terem nelihuTòà iiihordíníivãn e <> João dc Mcün dar:í a Salvador Correia o
favor que Uic pcair.»
(2> Silva Lisboa jiuhlica-a à pag. 28i» dos seus Amues e a Memi Mss.
a pag. 4*17.
-<3l Po* "rt;i réuia dc Ili dc I>eíem1>ro dc 1GB7, a metrópole indapa com
que ordem Í6\ ínstüuidb esse imposto - CW. de Carla Regias do Arei', Pu-
— 191 —

d i o c a , e m v i s t a dos atravcssadorcs de M a c a c ú , q u e
c o m p r a v a m t o d a a f a r i n h a para r e v c n d c l - a na c i d a d e ,
p o r p r e ç o s e x h o r b i t a n t e s , s e n d o preciso q u e a c â m a r a ,
pr.ra a c a b a r essa e x p l o r a ç ã o , castigasse os t r a f i c a n t e s
c o m a pena de 1 0 0 $ .
P e l o l a d o fiscal, d a v e r d a d e da a i r e c a d a ç ã o , os
GOntracios e r a m d a d o s a f a v o r i t o s da a d m i n i s t r a ç ã o ,
c o m g r a n d e p r e j u í z o d o fisco.
N a u l t i m a a r r e m a t a ç ã o d o d i z i m o , nos ú l t i m o s
t e m p o s d o g o v e r n o de T h o m é C o r r e i a , a C â m a r a re-
piesentara contra cila, p o r q u e o l a n ç o tinha ficado
m u i t o a b a i x o d o q u e í l c a n ç á r a c m annos passados.
E n ã o o b s t a n t e as p r o v a s patentes dos p r e j u í z o s
da fazenda, a p e t i ç ã o n ã o f ò r a a l t e n d i d a ( 1 ) .
Pelo l a d o da l a v o u r a , a s i t u a ç ã o definia-se pela es-
cacez d o b r a ç o , p e l a f u g a dos n e g r o s dos engenhos, c
pelas d i f f i c u i c l a d e s q u e o c o m m e r c i o apresentava de
f o r n e c e r c a p i t ã e s ao l a v r a d o r , a f a v o r de q u e m as
autoridades t i n h a m baixado uma m o r a t ó r i a .
Pelo l a d o social c p o l í t i c o , reinava, a i n d i s c i p l i n a e
o d e s c o n t e n t a m e n t o na g u a r n i ç â o , o g o v e r n o de cama-
r i l h a , em n o m e do q u a l e x e r c i a m cargos p ú b l i c o s os
p r ó p r i o s criados dos g o v e r n a d o r e s ( 2 ) e no p o v o , « a p r e -
hensivo e triste com a n o m e a ç ã o dc Salvador, augu-
r a n d o m a l o n o v o g o v e r n o , pelas e x p l o s õ e s horrorosas,
q u e os t í t u l o s e a s e m e n t e j e s u i t i c a t i n h a p r o d u z i d o e
q u e a s s i g n a i ã r a m o seu g e v e r n o u m g o v e r n o de per-
fídia. »
Eis as c o n d i ç õ e s e m que S a l v a d o r ia g o v e r n a r .
N a d a d i s t o deteve-o de, em sua p r i m e i r a carta dc
2 8 de J a n e i r o d c 1 6 0 0 , d i r i g i d a á C â m a r a e e m q u e t r a -
ç a v a seu p l a n o d c a d m i n i s t r a ç ã o (;>),querer o a u g m e n t 0

II) Por caíU dc 9 tlt Maio, o rei di* ao «ovemadur do Rio, e*iar infor-
mado deque di-smcaminhain-sc geunns e dinLcJi» dos navios que vúo pjrj o
Hêino, sendo preciso que ciles tragam certidão de registro ucslcs baveres. —
An/i. Pubiiio Çirlxs ffrVwJ.
(2) Diversa* caria» regias existem m> Arch. Pubiuo, em que n sobereno
dii que sejam bem avaliada* a* qualidades c condiccòcs dos candidatos aos
cuinicuos. para sc pòr fim a e>**e abuso.
(3) Mem. Mi*, pag. 40b.'Silva Lisboa 3" vol. p*«. 839,
- m -

da guarniçâo de 350 praças para 500 effectívas e pedir


a c r e a ç ã o de u m n o v o i m p o s t o , o i m p o s t o p r e d i a l , p a r a
o sustento delia, desde q u e os recursos, o r d i n á r i o s n ã o
d a v a m p a r a isso.
O r a si a d i v i d a fluctuante e m q u e estava a fazenda
p u b l i c a p a r a c o m a t r o p a , j á m o n t a v a e m 1 0 mezes de
a t r a i o , no p a g a m e n t o do s o l d o , é d e s t i t u í d o de t o d o o
c r i t é r i o a d m i n i s t r a t i v o o p e d i d o de seu a u g m e n t o .
A l é m d i s t o , o g o v e r n o do R i o acabava de r e c e b e r
o a l v a r á de 16 de O u t u b r o de 1C59, e m resposta a u m a
r e p r e s e n t a ç ã o d a C â m a r a , e m q u e i n f o r m a v a ao s o b e
r a n o das i r r e g u l a r i d a d e s d o à c a r g o s m i l i t a r e s , d o e x c e s -
s i v o n u m e r o da g u a r n i ç â o d a c i d a d e e da necessidade
de ser t o m a d a u m a m e d i d a de e c o n o m i a s o b r e este ser-
viço publico.
Essa m e d i d a e r a o p r ó p r i o a l v a r á ( 1 ) .
Bastava o seu c u m p r i m e n t o , p a r a se a t t e n u a r e m
as d i f i c u l d a d e s , e m r e l a ç ã o a este r a m o de s e r v i ç o
publico,

(1) l)oo. inédito e que trinicfevemos Ja «Mcm. M*s.» i pag. ti!):


HHU El-rei faço saber aos que esta uiuilia provisão vierem que. por quanto
das conquistai dos tres meus Min os e séQliOTes costuma vir dc ordinário ao meu
Conselho Ultramarino nomeados e providos pelos governadores delles muitos
capitae* e olficiaes de guerra, os q«ae$ lição com este nome c titulo levar.do
com elíes saldos de min.-ía fazenda muito ro;-.ira meu serviço c augucr.to delia,
e pedindo depois nascido tudo dos tues provimentos serem leitos ctn.ra a forma
d.s lois di Milícia, que se observam e yuardam nas fror.tciras dest. * reinos: 1

e porque convém mniio atalhar-so PSIHN e outros semelhantes damr.os que daqui
resultam, hei pnr bem e mandar ao Governador do Rio dc Janeiro e mais capi-
tanias do sul que ora c, e ao diante for que por nenhum caso prcvej.i daqui
em diante cargo algum de guerra senão nds pessoas, cm que ecrreren» as circun-
stâncias e requisitos que só contem nus 10 càpitn*i0i do Regimento das fronteiras
deste Reino assignado por Mirc.is UfJng-'I inoco secretario do meu t-uuseUio
ultramarino, que serão inclusos iiest.i provisão on forem providos poi alguma
particular minha, pnr que as^ím o õrâ?no c quacs qae £4trVárém servindo setu
<«s qualidades refaria"ts hao vençam Soldo nem se Ines pag .a ordenado algum
dc minlta Fazenda por se entender que com a observância e guarda dos dito»
capítulos se evitarão de-.pez.ia imitei* c vir a ser os mais b-nçjiciitos providos
nos cargos do M licii; e esta se registrará das dtt.1i Leis il-i câmara, para que
a todo tempo conste, o que pnr ell-i ordeno e valerá çouio carta feita cm meu
nome c nâo passará pela chancelaria sem *mbargo d,, Oi. do L. 3 t . 39 e 40
cm contrario nesta onfnrutidiule manda pi<*«jr pfOVÍSoSs para a« miu patente»
ulifamarinos. P este se passou por duas vi.is—10 de O i l . dc 1630—Xai;>ha.
O regimento » que se refere o alvaiá, diz ;
Nào se elejera capitães dc infanteria quem nào tiver sidn seis annos cffc-
ctivo, soldado e ties alfercs ou dez armos de soldado offectívp, aiiida que com
licença se haja iüiçiiuuipido, com taci» ijuc o tempo de lícouca c ausência, nâo
— i9;i —

Mas, S a l v a d o r e n t e n d e u p e d i r o a u g m e n t o d a
g u a r n i ç â o , sem justificativa plausível e a c r e a ç ã o de .um
novo imposto predial.
P e d i u mais q u e se desse u r g ê n c i a <-.o t r a b a l h o do
e n c a n a m e n t o da a g u a da C a r i o c a que, p e l o n o v o p l a n o
a d o p t a d o , l i n h a sido c o m e ç a d o sob o g o v e r n o de T h o m é
C o r r e i a (1) e q u e d e v i a ser a c a b a d o no p r a z o dc d o u s
annos.

sc inclua pelles. F, sç houver pessoi d? qualidade, OT, que cinícor» virtade.


animo, prodeucia, pode-se adniíHir a cl i,;V. de capitão, com iánto que h.ija
C

servido na guerra seis afiijn? «jlfcctivos ou pelo UKIIO* cinco, náo se podendo
dispensai novo» tempos de si-ivíco sob condição d- ?cr excluído.
CAPITULO xvi
Para ser alfcrcs, que ranli» servido qoalro àoriós cffcct-vos mio pojçriíla
os governadores das armas fu/areui a inenor dlspéiúá, porque o contrario não
rerdo tjdns p tr ai feres. Nao poáem ser admittidos <ouiu sãòtn qae- tenhüo ser-
vido com os governadores.
CÂPITUL' > XV|!
Para sargento ser;! prensa o mesma tempo que para alícres, applicando-
se llie» as mesmas dispOAiçúf dos capítulos anteriores.
CAPITULO XVIU
Compete aos capitães dt? irif-MiUrii nom:ir o* alfeiet c sargento* para
suas companhias, ciimprin.l.. a* di«pOsíçú-s anteriores, mando que 'o» oQiciaes
dc soldo náo assentem pr>çi de alíéífcfl Oú sargentos, "ainda que U;nha<> <>. anncs
de serviç;>, que se requerem, sem («varem a previsão do seu Místre de Ca tapo.
firmada por elle, cm qa-t, declare concávrar no noms.iJo reputação e valor qiie
convém e aos He*tres d: Caupos encarreg") oirmado que conlando-lh :s que,
11a os tres nomeados t;ão cou.orram of requisito» necessários «n que são res-
soas defeituosas, dém conta a> gavciadjr da- armas para com sua ordem ser
u capitão castigado, coino cunvèm sem podír ler part: na di:a ck-i;ao, e n sar-
gent J serã promovido a A.lf*res,o ^abo de «squadra mais antigo sargento c quando
nos nomeados coucorrJo todos, os ieqursito>tefertiJflSo governador das armas
por seu despacho lhes mandar assentar praça.
CAPITULO XIX
P.nM promoção de alfcres e sargento a capitão deve se obicivar o mesmo
do disposto anterior.
CAPITULO XX
Às reformas só pelo rei devem ser d;das. precedendo informação do go-
vernador das armas.
CAPITULO XXI
AÍ companhias
{1} Ja estaviu Cdevem ser dc
OD hrtcis de 80 soldado*.
cann prnfnplâs, sflndo orçada 305001 por"
braça e ja se tinha despendido 1.3*ÍW«Í, faltando ainda 1.S30SÜOÚ.
A receita o r d i n á r i a da c a p i t a n i a m o n t a v a e n t ã o e m
1 2 m i l cruzados dos d í z i m o s . íl m i l cruzados do i m p o s t o
de sal e do s u b s i d i o dos v i n h o s .
A C â m a r a passou a e s t u d a r a proposta sobre a
q u a l d e v i a m ser o u v i d a s a l é m cícllas pessoas q u e repre-
sentassem a nobreza, o p o v o (1) e t o d o o clero d a
cidade.
K m v i s t a das o p i n i õ e s s u s t e n t a d a s , ( 2 ) da i n c o m -
p e t ê n c i a d a a u t o r i d a d e de c r e a r u m n o v o i m p o s t o , t o -
m o u a C â m a r a as seguintes r e s o l u ç õ e s q u e f o r a m c o m -
m u n i c a d a s a S a l v a d o r : t o r n a r l i v r e o c o m m e r c i o da
c a p i t a n i a , e l e v a r o p r e ç o do a r r a t e l de c a r n e v e r d e 1 0
reis a l ô reis, s e n d o a p p l i c a d o s os 5 r é i s ao sustento d o
p r e s i d i o ; suspender o s u b s i d i o dos v i n h o s , sendo sub-
s t i t u í d o pelo s u b s i d i o da a g u a r d e n t e , c u j a i n d u s t i i a
a g o r a se p e r m i t t i a , na t a x a d c 1 0 $ , por p i p a .
A c c c i t a s estas propostas p o r S a l v a d o r e ate r e g u
l a m e n t a d o s os n o v o s i m p o s t o s p a r a sua a r r e c a d a ç ã o e
fiscalisação. a C â m a r a , c m c a r t a de 3 0 d e J a n e i r o d e
1 6 6 0 , c o m m u n í c a - a s ao r e i , s o l i c i t a n d o a a p p r o v a ç ã o
dellas.
N o i n t i m o das c o n v i c ç õ e s d o g o v e r n a d o r esse ac-
c o r d o n ã o p o d i a ser u m acto d e f i n i t i v o , c u j a a p p r o v a ç ã o
n ã o passava de u m s i m u l a c r o .
N e l l e estavam d u a s c l á u s u l a s q u e i m p o r t a v a m e m
s u a r e p r o v a ç ã o pelo p r ó p r i o B e n c v i d e s — a l i b e r d a d e
do c o m m e r c i o c a l i b e r d a d e da i n d u s t r i a da a g u a r -
dente.
F o i c m n o m e de sua r u i n a e e m b e n e f i c i o d o m o -
n o p ó l i o da C o m p a n h i a q u e o d e s c e n d e n t e cie E s t a c i o
veiu irovernar o Rio.

(1) O leitor procure lér o* dnrs. que publica Silva Lisboa dessa sessaa,
assim como a Mem. Mss. nos quae» fui »uslcnladi a doutrina de direito da in-
competência do governo municipal dc crear impostas, sem ordem expressa e
previa do rei. u quando a necessidade dc cr;al-os fosse líio urgente, que não
houvesse tempo dc sollicilar a urdem du soberano, entãa a autoridade devia
recorrer ao meio indircclo do pedido ao puvo, ou por meio do emprestimo ou
do donativo.
{2} Porom eleitos então por parte dos nobres o capitòo l.uiz de Freitas
Mattoso o sargento môr Joào Rodrigues Pesuua c o capitão M.:»thías de Mendonça
o por parte do povo Pedro Pinto e Antônio Pcrnandes Vallougo. Mem. Mss,
— 195 —

E m u i t o cedo, r e c u o u do « r e f e r e n d u m » q u e l h e
t i n h a p r e s t a d o , e x i g i n d o uma nova s e s s ã o da C â m a r a ,
perante a q u a l disse q u e , sendo i m p r e s c e n d i v e l o au-
g m e n t o , de r e c u r s o s t o r n a v a - s e preciso u m a outra p r o -
posta, l e m h i a n d o u m d o n a t i v o pessoal, pelo q u a l cada
u m c o n t r i b u i s s e e m p r o p o r ç ã o á s suas rosses, d e v e n d o
suspender-se o s u b s i d i o dos v i n h o s .
E r a u m v e r d a d e i r o imposte pessoal, c u j a taxa mais
e l e v a d a era de 8 $ o 0 0 p a r a os ricos e c u j o s p a g a m e n t e s
e r a m semestraes.
A C â m a r a n ã o ponde resistir á vontade d o gover-
n a d o r , h o m o l e g a n d o os seus desejos e l e g a l i s a n d o o
peso t r i b u t á r i o , com q u e q u e r i a satisfazer os seus c a p r i -
chos de a u g m e n t a r a g u a r n i ç â o .
E s t e a c t o f o i c a u s a occasional de r e b e n t a r o m o -
v i m e n t o r e v o l u c i o n á r i o q u e , p c u c o a p o u c o , se ia p i e -
p a r a t i d o , sob a f o r ç a i r r e s i s t í v e l da p r e s s ã o e c o n ô m i c a ,
e m q u e o p o v o da cidade e c a p i t a n i a v i v i a , l i a
annos.
E m a l S a l v a d o r ausenta-se da c i d a d e para S ã o
Paulo, a f i m d e t r a t a r das minas c conhecer das o u t r a s
p r o d u c ç ò e s da capitania, d e i x a n d o na a d m i n i s t r a ç ã o
d o R i o o seu p r i m o T h o m é C o r r e i a do A l v a r e n g a , q u e
n o m e o u p o r p r o v i s ã o de 11 de O u t u b r o de 1G60, r e -
b e n t o u a r e v o l u ç ã o a 8 cie N o v e m b r o .
D e s d e .'10 d e O u t u b r o a s i t u a ç ã o da cidade era de
franca s i t u a ç ã o r e v o l u c i o n a r i a .
O s r e v o l u c i o n á r i o s , p o r m e i o de deputados esco-
l h i d o s , s o l i c i t a r a m de T h o m é C o r r e i a a e x e c u ç ã o de
m e d i d a s q u e a f i e c t a v a m d i r e c t a m e n t e os interesses do
p o v o , p r i n c i p a l m e n t e o a l v a r á r e g i o d c 1<! de O u t u b r o
d c I 6 . ) 9 , d c q u e j á f i l i a m o s , o q u a l a l é m de regularisar
r

o m o v i m e n t o dos cargos m i l i t a r e s , reduzia a g u a r n i ç â o


d a c i d a d e d c 8 a 4 companhias e o e f f e c t i v o a 3 2 0 s o l
o! a d o s .
R e c l a m a v a m e x e c u ç ã o da p r o v i s ã o n ã o s ó e m obe-
d i ê n c i a ao p r e s t í g i o da a u t o r i d a d e , para q u e m as Jeis
s ã o feitas p a r a sei e m executadas, como para c o r r i g i r a


s i t u a ç ã o f i n a n c e i r a , n ã o ficando c o m o l e t t r a m o r t a nas
secretarias d o g o v e r n o .
A r e c l a m a ç ã o dos r e v o l u c i o n á r i o s era t a n t o m a i s
l e g i t i m a , q u a n t o a e x e c u ç ã o i m p o r t a v a na s u s p e n s ã o d e
impostos, q u e t i n h a m sido t r i b u t a d o s e p o r c o n s e g u i n t e
no a l i v i o do povo cujas c o n d i ç õ e s financeiras n ã o p e r m i t -
t i a m o peso t r i b u t á r i o , i m p o s t o p o r S a l v a d o r B e n e v i d c s .
N ã o se p ô d e negar, por c o n s e g u i n t e , q u e o p r o -
g r a m m a da r e v o l u ç ã o , f o i r e s t a u r a r o r e g i m e n d a l e i ,
c a l c a d o pela v a i d a d e e p r e p o t ê n c i a do g o v e r n o , s u r d o
a t o d o s os p r i n c í p i o s , a t o d a s as r e c l a m a ç õ e s , p a r a fazer
de seus c a p r i c h o s a p r ó p r i a l e i .
A l e g i t i m i d a d e da causa r e v o l u c i o n a r i a , p o u c o d e -
pois, f o i r e c o n h e c i d a p e l o s p r o p r i o s p o d e r e s c o n s t i t u í d o s ,
pela C â m a r a q u e , e m s e s s ã o d c 2 d c J u l h o d c I 6 6 ( í ,
dizia q u e « e x p o r m o - n o s a p a d e c e r as m i s é r i a s q u e
aquelles pobres e leaes vassollos estão a tonto tempo pade-
cendo nessa C o r t e e m p r i s ã o , sem st; lhes d e f e r i r , c a u -
sado t u d o p o r i n t e l i i g c r . c i a s de M i n i s t r o s e pessoas p o -
derosas, q u e c o m o seu p o d e r e s c u r e c e m a v e r d a d e c a
r a z ã o , q u e s a b e m o s se f o r a p r e s e n t e a V o s s a M a g e s t a d e
a natureza d a sua c u l p a se n ã o p o d i a d u v i d a r do p e r d ã o ,
pois q u e o mesmo zelo exaltado do serviço de Vossa Ma-
gestade com que obraram f o i maior do que a l g u m e r r o
q u e lhes fizera c o m m e t t e r a i g n o r â n c i a , na p e r s u a s ã o
de fazer obséquio e serviço a Vossa Magestade (1).
A s s i m , i n d e f e r i d a s as suas r e c l a m a ç õ e s os r e v o l u -
c i o n á r i o s q u i z e r a m f o r ç a l - a s , c m n o m e da v o n t a d e d o
p o v o q u e os a p p l a u d i a .
O s seus chefes p r i n c i p a e s , — D i o g o L o b o Pereira,
capitão Jcronymo Barbalho, o alferes Lucas da Silva e
J o r g e F e r r e i r a de B u l h õ e s — d i r i g e m - s e p a r a o t e r r i t ó -
r i o f r o n t e i r o a cidade, r e ú n e m se na « P o n t a d o B r a b o » ,
o n d e e l a b o r a m o seu p r o g r a m m a , e d ' a h i v o l t a m p a r a
a c i d a d e , d e b a i x o d c vivas ao s o b e r a n o , c h a m a m os ca-
m a r i s t a s a conselho, e x p õ e - l h e s os seus males c os m o -

!]} Silva tiihoa, vol. 4 pag. 6M.


U
tivos que tinham de assumir a s i t u a ç ã o em q u e se
achavam.
A c c l a m a m governador o c a p i t ã o A g o s t i n h o Be-
zerra ( 1 ) q u e se t e n d o o c c u l t a d o no c o n v e n t o d c S ã o
F r a n c i s c o , acceita o m a n d a t o , s o m e n t e para escapar a
f ú r i a r e v o l u c i o n a r i a c no i n t u i t o de m a n t e r a o r d e m p u -
blica, e finalmente prendem T h o m é Correia c o prove-
d o r d a fazenda, p r i m o e . m n h a d o de S a l v a d o r B c n e v i -
des. ( 2 )
A n t e s d e s e g u i r m o s na analyse das m e d i d a s d a
r e v o l u ç ã o , p r e c i s a m o s e s t u d a r os seus chefes, d o s q u a e s
o principal foi incontestavclmente Jcronymo Barbalho
Bezerra, i r m ã o d c A g o s t i n h o B a r b a l h o , q u e f ô r a accla-
m a d o pelos r e v o l u c i o n á r i o s .
L u i z B a r b a l h o era Pernambucanos, ambos filhos d c
L u i z B a r b a l h o Bezerra, q u e , depois dos n o t á v e i s ser-
v i ç o s prestados na e x p u l s ã o dos hollandezes c m P e r -
n a m b u c o , f ô r a e s c o l h i d o pela c o r ô a para g o v e r n a r o
R i o de Jaiieiso c m 1 6 4 3 .
S e u n o m e « p e r p e t u a - s e e m tres g r a n d i o s o s m o n u -
m e n t o s , as tres p r o v í n c i a - : principaes do Brazil, Per-
n a m b u c o , l l a h i a c R i o de Janeiro, theatros i m m o r t a c s
do seu p a t r i o t i s m o , do seu v a l o r e de suas v i r t u d e s » .
H e r ó e de T i g i p i ó , c o n s u m m o u o f e i t o m i l i t a r mais
n o t á v e l e n t r e n ó s — s u a m a r c h a e r e t i r a d a do p o r t o dos
T o u r o s a c a p i t a l d a B a h i a — « f i a r des cjjorti incroyobles
et après des dangets immenses. o
Eis o pae de J e r o n y m o B a r b a l h o ( 3 ) , t r a d i c ç ã q viva
d a q u e l l e e s c r i n i o de v i r t u d e s e h e r o í s m o .

(1} Agoiliiilm Barbalho Bezerra foi filho de Lüií B.M(..IIIIO Dezena, que.
também natural ào Rio de J-iticiro. o governou pelos anno* dc 1643, ;omo fica
rrferido: c talvez por esse moiivo sr lembi-iram ns ,1111 min adere* deoojiferii-lhe
o emprego, quando cm volta da UJÍ>Í;I se .icbava re-idcntc nfl íreguezia de S.
Cicmçalo, »i:dc po**ui;< uma fazenda. Teve uni filho, a quem poz o nome do
avô. oflua]foiteceu no P*"to dc Capiiaoimu de t.aho Frio. ao* 18 dias d<* Mar-
co dc l"ir>. o a unem .1 Ordem dc 17 d<- r-tvcrciru d» 1083, rcu.i«tr. ao l.v. í>"
do Rcp. Ocr. da Prov. f. 182. inundou pagar o Soldo competente desde o dia
d» seu embarque cm Lisboa.
|2> Deixamos do publicar a integra da sessio da cantara, 110 pprjodo da
revolução, por st-i um documento por demais extenso. Rev. do lust. vol. 3'
jiaK- 6. _
(31 Fallcccu Luiz Barbalho era 16 dc Abri? dc 1644 e «pultou-sc na Ca-
pcUa-M'>r da Lgreja do Collegio da Companhia,
— 198 —

L a v r a d o r na e n t ã o f r e g ü e z í a de S. G o n ç a l o , o n d e
m o r a v a A g o s t i n h o Barbalho, tornou-se o p o n t o c o n v e r -
g e n t e das s y m p i t h i a s dos habitantes dessa z o n a a g r í -
c o l a o n d e m o r a v a m quasi t o d o s o.sseiis c o m p m h e i r o s d a
causa r e v o l u c i o n a r i a .
E r a o j u i z da i r m a n d i d e d e Nossa S e n h o r a d o B o m
Sucesso, q u a n d o esta c o n f r a r i a c e d e u á I r m a n d a d e d a
M i s e r i c ó r d i a t o d o s os seus bens.
Sua irmã D . Cecília fundou o H o s p í c i o d ' A j u d a ,
para o n d e recolheu-se c o m suas filhas, c o m o f r e i r a s , c m
1 0 7 0 , depois d a t r a j e d i a p o l í t i c a q u e custou a e x e c u ç ã o
de J e r o n y m o . ( 1 )
O b r i g a r a m ao o u v i d o r g e r . d D r . Pedro de M u s t r e
a a b r i r o pelouro. sendo eleitos, c o m o presidente da
C â m a r a e j u i z o r d i n á r i o , D i o g o L o b o Pereira e L u c a s
da S i l v a , F e r n a n d o F a l e r o H o m e m , S i m ã o B o t e l h o de
Almeida e como pro;uraJor üuzebio Dias Cardozo.
A C â m a r a e r a o g o v e r n o d c facto. A i n i c i a t i v a das
r e s o l u ç õ e s delia partia.
A g o s t i n h o B a r b a l h o n ã o passava d e u m a f i g u r a d e
ornato.
E c m sua e l e i ç ã o para chefe d o g o v e r n o , e s t á u m a
das mais poderosas caus.is do insuccesso da r e v o l u ç ã o
ç ã o o u p e l o menos de n à o l e s i s t i r a r e p o s i ç ã o d c S a l -
vador.
E l e i t o contra suas c o n v i c ç õ e s c sem f é p e l a c a u s a
revolucionaria que n ã o apoiou, n e m a p p l a u d i u , como
se v ê de suas p r ó p r i a s palavras, na c i r i a q u e d i r i g i u ao
g o v e r n a d o r da B a h i a , a 15 d c D e z e m b r o de 1 6 6 0 . ( 2 )
t r e m e u v a c i l i a n d o , q u a n d o r e f e r e n d o u as m e d i d a s d a
C â m a r a c o n l i r m a n J o - a s c o m o p r o t e s t o d c l h e n ã o pre-
j u d i c a r e m , p - r q u e o fazia v i o l e n t a d o ( 3 )

})\^f"' " P^sivcl oh:er aponta meu'.-» hiogrjphi:,,, doi companhei-


u s { n i

ro* dc /cronvmu. por falta ahs .|.n;i do .l.irimenlo«. v

tidte ,í, ' í J " v ,


l í > i n
i ; : . * ' ' - W ' ' « K T O ^ O cnl!. «xis-
, m o o r : j , a c s t ,0

(8) Mm. ms, pag. õlâ.


N o b a n d o q u e S a l v a d o r m a n d o u a f f i x a r , nas r u a s
d o R i o de j a n e i r o , a 1 de Janeiro de 1 6 6 1 , dizia q u e
o r n a n d o e m q u a n t o a n d o oecupado nestas capitanias no
s e r v i ç o r e a l , governe aquella A g o s t i n h o Barbalho Be-
zerra, p e l a s a t i s f a ç ã o q u e t e n h o de sua pessoa c q u a l i -
d a d e , sem e m b a r g o , d e h a v e r s i d o e l e i t o p e l o s a m o t i -
nadores».
E ' e v i d e n t e q u e A g o s t i n h o e r a o h o m e m menos
p r ó p r i o , p a r a d i r i g i r a r e v o l u ç ã o . A sua escolha f o i
u m g r a v e e r r o de dolorosas c o n s e q ü ê n c i a s para os p r ó -
prios r e v o l u c i o n á r i o s .
Mas, v e j a m o s os actos da r e v o l u ç ã o .
T r a t a r a m l o g o de a p p e l l a r p a r a a s o l i d a r i e d a d e da
C â m a r a de S . Paulo, a q u e m c o m m u n i c a r a m os acon
t e c i m e n t o s , p o r c a r t a de 16 de N o v e m b r o , com o
intuito de « a e u d i r e m como bons visinhos com o o r d i -
n á r i o sustento d c q u a n t o a q u i necessitamos, devendo
ser d i f e r e n t e m e n t e c o r r e s p o n d i d o s ao b e n e f i c i o q u e
n ó s fazemos, c o m o s e r á d a q u i e m d i a n t e sendo D e u s
servido» .
N e n h u m a solidariedade despertou a r e v o l u ç ã o ein
S. Paulo.
E r a m b e m conhecidos os s e n t i m e n t o s de a n t i p a -
t h i a dos p a u l i s t a s a S a l v a d o r , p o r q u e , ao s a b e r e m de
sua estada em Santos, « a s s e n t a r a m de n ã o recebcl o, e
q u e se t i n h a a l g u m a o r d e m d e S . M . q u e as mandasse
de Santos q u e elles c o m o b o n s v a s s a l l ò s d e S . M . as
d a r i a m á e x e c u ç ã o e q u e os d i t o s officiaes escrevessem
q u e se viesse a esta v i l l a de S . Paulo, elles moradores
protestavam pôr-sc c m d e f e n s ã o c n ã o incorriam em
pena a l g u m a » . ( 1 )
Essa s o l i c i t a ç ã o do p o v o á C â m a r a , f e i t a a 2 de
N o v e m b r o de 1 6 6 0 , era m o t i v a d a pelos d i s t ú r b i o s e
assassinatos dos i n d i o s , c e n t o s q u e S a l v a d o r v i n h a
l i b e r t a l - o s , n t a x « n d o - o de i n i m i g o c a p i t a l , p o r haver

(1> M<m W » . p . . 437


t 8
- 200 —

sido e x p u l s o p o l o d i t o p o v o .1 p r i m e i r a vez q u e i n t i t u -
l a d o g o v e r n a d o r veiu a esta. c a p i t a n i a e p o r sc l i v r a r e m
da t y r a n m a puc p u b l i c a m e n t e c o m e t t e u , p o r o g e n t i o
andar a l v o r o ç a d o , dizendo que Salvador o vinha
libertar».
Salvador, em Santos, afíixa u m b^ndo, pelo qual
suspende de suas f u n e ç õ e s o j u i z o r d i n á r i o O . S i m â o
de T o l e d o Piza e ao o u v i d o r A n t ô n i o L o p e s de M e d e i -
ros, c h a m a n d o - o s á sua p r e s e n ç a , n o p r a z o de u m mez,

C o m o sc v ê , antes d e r e b e n t a r a r e v o l u ç ã o n o Rio,
o p o v o c m S . P a u l o , p o r sua vez, i n t i m a v a ao p r ó p r i o
S a l v a d o r sua d e s t i t u i ç ã o , c o m e ç a n d o u m a phase de
desobediência.
E n t r e t a n t o , n ã o f o r a m s o l i d á r i o s c o m a causa d o s
f l u m i n e n s e s , a q u e m e m c a r t a d e 18 d e D e z e m b r o ,
d a v a m « o s pe/.ames pelos seus e n f a d o s e q u e n ã o
as m a l f u n d a d a s q u e i x a s desse p o v o ao g o v e r n a d o r S a l -
v a d o r , d e v e n d o acudtr c o m o r e m é d i o , p a r a q u e S . M .
fique m e l h o r s e r v i d o » p o r q u e e l l e s « n ã o f d l t a r i a m a
o b r i g a ç ã o q u e t ê m d c seus leaes v a s s á l i O s » .
A i n d a m a i s . A d h e r i a m á C â m a r a e o p o v o de S ã o
P a u l o a causa d o g o v e r n a d o r , a q u é m p e d i r a m « a s s i s -
tisse na v i l l a » , p o r q u e t o d o s « e x p e r i m e n t a v a m o seu
b o m g o v e r n o , d c g r a n d e s b e n e f í c i o s nas e s t r a d a s e nas
passagens d o R i o , na o b s e r v â n c i a d a j u s t i ç a » . E p o r q u e
« l h e s c o n s t a v a q u e V . S . q u e r passar a v i l l a de A n g r a
dos R e i s , lica 12 l é g u a s da c i d a d e d o R i o de Janeiro,
q u e ao presente è* p u b l i c o e s t á a l t e r a d a c o m a l g u n s
excessos q u e a V . S . s ã o c o n s t a n t e s , t o d o s os m o r a -
d o r e s desta v i l l a em nome seu c t o d o s os d e s t a c a p i t a n i a ,
p e d i m o s nos d e c l a r e si l e v a i n t e n ç ã o á q u c l l a c i d a d e s e m
n o v a o r d e m de S. M . p o r q u e n ó s s o m o s seus lieis vas-
s á l l o s estamos a p p a r e l h a d o s com pessoa e f a z e n d a p a r a
a c o m p a n h a r m o s a V . S . assim c m r a z ã o do s e r v i ç o de
E l - r e i , c o m o da o b r i g a ç ã o e m q u e V . S . nos t e m p o s t o
— 201 —
<
c o m a sua a f f a b i l i d a d e c b o m g o v e r n o de j u s t i ç a » . ( 1 )
Eis c o m o e c b o o u e m S . P a u l o a r e v o l u ç ã o fluminense.
A l é m da a d h c s ã o á l e g i t i m i d a d e d o g o v e r n o de
S a l v a d o r , o f f e r e c e u e l e m e n t o s de r e s i s t ê n c i a . O s factos
de 1 6 4 3 , da e x p u l s ã o dos jesuitas, e m q u e a i n i c i a t i v a
da c o n c o r d a t a e d a t r a n s a c ç ã o d o R i o arrastara S ã o
P a u l o a r e c u a r do seu passo, ainda estavam bem frescos.
Eis a causa d o a p p c l l o d e s o l i d a r i e d a d e dos fluminenses
aos p a u l i s t a s .
S . P a u l o vingava-se a g o r a do R i o de J a n e i r o . N ã o
e r a a o b e d i ê n c i a á l e i e ao p r i n c i p i o de a u t o r i d a d e a
causa r e a l d c r e j e i t a r o a p p e l l o dos r e v o l u c i o n á r i o s .
N ã o , p o r q u e actos p o s i t i v o s de d e s o b e d i ê n c i a ao
g o v e r n o g e r a l d a c o l ô n i a e do R i o t i n h a m sido sueces-
s i v a m e n t e p r a t i c a d o s p o r S . P a u l o . A causa r e a l da
r e j e i ç ã o e s t á na p r o f u n d a m a g u a pela p o l í t i c a d o R í o ,
e m 1 6 4 3 , q u a n d o firmou a c o n c o r d a t a d e r e s t i t u i r os
c o n v e n t o s aos j e s u í t a s , l e v a n d o S. P a u l o de r e b o q u e ,
c o n t r a seus interesses, a firmar, a i n d a q u e 2 0 a n n o s d e -
p o i s , o mesmo d o c u m e n t o .
Mas, é q u e Salvador e r a o a u t o r dessa o b r a de
c o r r u p ç ã o no R i o c a g o r a era o a u t o r da o b r a de cor-
r u p ç ã o e m S. Paulo, p a r a c o r t a r a solidariedade c o m os
fluminenses.
S a l v a d o r sentiu-se f o r t a l e c i d o c m sua p o s i ç ã o de
a u t o r i d a d e c o m essa p r o v a de a p o i o e a d h e s ã o ao seu
p r o c e d i m e n t o ( 2 ) . N ã o ficou c m S . Paulo, n e m t ã o
p o u c o acceitou os e l e m e n t o s de r e s i s t ê n c i a q u e lhe f o -
r a m o f f c r c c i d o s , l i m i t a n d o - s e a m a n d a r publicar c a f f i x a r
nas ruas d o R i o de Janeiro, o seu b a n d o de I . de o

janeiro.
A t e esse d i a a a c ç ã o da r e v o l u ç ã o é calma, t r a n -
q u i l l a . S i m p l e s m e n t e t r a t a de medidas a d m i n i s t r a t i v a s
e n ã o d c m e d i d a s de g u e r r a , de defeza.

a; Mcm. M*s. .ilD v.


(2) A resposta dc Bcncvide» é de 2 de MJÍÍ« de 1GC1 e vem puhli;*-
dos no 4- vol. dos A/nua de Silva Lisboa, pag. 53.
.— 2 0 2 —

A s s i m 6 q u e , no acto d c c o r r e i ç â o d o o u v i d o r e da
c â m a r a , p r o v e u q u e apelas grandes queixas que houve dos
moradores desta cidade, e seu recôncavo se originaram al-
gumas alteraçoens em tazztt de nina finta geral, e perpetua
em que consentiram os Officiaes da Câmara que ate'aqui
serviram, assim pela e x o r b i t â n c i a , c o m o p e l a d e s i g u a l -
d a d e c o m q u e f o i l a n ç a d a , s e m o r d e m de S u a M a g e s t a -
d e , n e m aviso, q u e fizesse a e l l e C o r r e g e d o r , h a v e n d o
o u t r a s m u i t o mais suaves, c o m q u e se pudesse susten-
t a r a i n f a n t a r i a , c o m o ate a g o r a se fez ; m a n d o u O d i t o
o u v i d o r g e r a l , s e m e m b a r g o d o p o v o se h a v e r . . . d e s t a
f o r ç a , e v i o l ê n c i a d e h o j e p o r d i a n t e , se não consmta mais
finta alguma sem ordem de Sua Magestade; e s e n d o caso
que alguns Governadores lhe f a ç a m alguma força, e
v i o l ê n c i a se deixem prender e molestara q u e r e n d o insis-
t i r c o m os d i t o s O f f i c i a e s . . . na d i t a f i n t a e t r i b u t o os
ha p o r s u s p e n ç o s a t h ê recurso de S u a Magestacfc, o u
do G o v e r n a d o r q u e c n t . u n s e r v i r . » ( 1 )
P r o v e u mais « o d i t o C o r r e g e d o r q u e h a v e n d o ef-
f e i t o s d o s u b s i d i o p e q u e n o sc c o n t i n u e c o m as o b r a s
d e s t e Concelho, esse a c a b e as q u e h o u v e r p o r fazer na
f o r m a e m q u e e s t á assentado, c q u e p a r a a b a n d a d o
m a r sc f a ç a huma g r a d e m u i t o f o r t e , e g r o s s a na j a n e l l a
da R n x o v í a p o r o n d e f u g i r a m os presos, p o r q u a n t o este
d i n h e i r o e s t á a p p l i c a d o p a r a estes e f f e i t o s e m p r i m e i r o
logar.; q u e p a r a o u t r o s . » ( 2 )
P r o v e u mais AO d i t o C o r r e g e d o r , q u e p o r q u a n t o
h á g r a n d e s q u e i x a s d o m a l q u e s e c o b r ã o f ó r o s dos b e n s
de C o n c e l h o , p o r s e r e m dados a l g u n s a p e s s ô a s p o d e -
rosas, e o u t r o s a p e s s ô a s E c c l c s i a s t i c ã s m a n d o u q u e da-
q u i e m d i a n t c s e n a ó d e m mais a s e m e l h a n t e s pessoas,
s e n a ó d a n d o f i a d o r e s dos C h ã o s — c a b o n n a d o r e s , e
q u e as pessoas q u e n a ó p a g a r e m os d i t o s f ó r o s trez
annos a r r e i o se c x c m t e c o m e l l e a L c y — p a r a q u e o
P r o c u r a d o r d o C o n c e l h o s e r á o b r i g a d o r e q u e r e l o aos

(1) Arch. .'.o Djslr. federal, vol, Jc 1893. pag, 443.


(2) Arch. do Dislr. federal, vol. dc lfcflii, pag. 444.
— 203 —

Juizes e fazelo dar a e x c c u ç a m , e q u e os q u e . . . exe-


cute a m e s m a I . e y sem r e g u a r d a r respeito apessoa al-"
g u m a . (1).»
P r o v e u m a i s no d i t o C o r r e g e d o r q u e p o r nem h u m
cazo de h o j e c m d i a n t e se d ê m a i s a f i e m h u m G o v e r - ;
n a d o r desta P r a ç a a j u d a d e custas p a r a enzas, nem p a r a
outros e f f c i t o s a l g u n s , das R e n d a s da C â m a r a , e s u b -
s í d i o s c o m p e n n á de os p a g a r e m os o f f i c i a e s da C â m a -
r a que os d e r e m , de suas fazendas, e de n ã o e n t r a r e m
m a i s no g o v e r n o desta R e p u b l i c a . ( 2 ) , »
A l é m destas m e d i d a s , t o m o u outras de. menos i m -
portância.
T r a t o u de c o m m u n i c a r ao g o v e r n a d o r da Bahia
os a c o n t e c i m e n t o s , p o r c a r t a de 17 dc D e z e m b r o . (3)
A r e t h o r i c a dc Francisco B a r r e t o inspira lhe a
d ú b i a e indecisa resposta q u e d e u á C â m a r a , em c a r t a
de 2 8 de J a n e i r o de 16G1 ( 4 ) , na q u a l n ã o c r i t i e a a r e -

(1) Arcb. do Distr, federal, rol. de Í8K. pag. 414.


m Ardi., do ])istí. Federal, .1* IBOS, pJÇ. 444,
(3) Foí-cònhêíairrios SM nossa obrigação darmos contafaitV.Ex d.-i wai*
nuniuia iicçao <\-.ie succtdissc nesta praça o seu recôncavo, com muito maior
rasüo 0 devemos lazer dc cousas grandes e extraordinárias como íol J ecçao de
S do mez passado de Novembro, dia cm arte houve Ifio grilnde alteração neste
povo opprimido. veiado com cúcuos dc arubiçílo. violência c tiiannju Jo eover-
ll a dor S. C. de Sá c B. uue arclunain de Lib&fdadtfs pelai praças e IU.IS publi-
cas entre o* vivas do ilçulç dr S. M. •> quem rcèoáhéçlan) por sen Hei e. Sr.
sc ouviam os idauiores contra •• aiú» govei •. o du diu> governador; levantaodidhe
a obcdtcilçui d.n ífci pni elle, como alv In u foi governado, iiçgàijd>í-a lambem.
a wy piiino Thomé Corroa de A .vau ngà cjuç «111 :Jí.ua dusíii>iy* (pôr I<T partido
jmr.i minas do sul) ficara sejunda vols ft-jvçiitífdd r.oa piaça, hlegendó logo
p«r seu governador Ag íiinlio flárballio H- . ^ria, etc. Di/ (ríaísqóo leram presas
u* aucioridcd*** r os áu-os remellido* <• K.rlaçílo da Bahia, í-ó pedimos nesta a
V. fx. quis coio iflo mirnsim o ^líadni dc >. M. queira poros olli-» mi presente
aceito deste movimento popolai e deliu coirh-rem *er filha da dew*ptfraç^n d*
rcmrdin. pois nUnca o teve c$tc povo, parj ch.<'garein *ua« queixas aos piedosdi
ouvidos do seu Sei c Sr. nem por CM lo t.-'".i por procuradores, um dos qaacs.
(

asiint como I.' não foi olvido e que tod.i ella só dirijo a melhor <• toais desin-
teressado SCÍVÍMI du S, M. cm»» cantará a V. Ks. pej" que o dito povo refere
n^s cr.pünlns qim aprestiita em V. lix. um preleeloí Verdadeiro c benigno no*
informe que fizer neste negocio a S. M. a»Vlrfl cuirto » dito Son-do tem êm V.
Fx, um "dos ministros m-h Selo^o* — 17 Itczombio Jr 1G*Í0, Diopo Lobo
iVí-reir.', Cfcni^nt" Nogueira, Snnàa Botelho de Almeida, 1'efnfió 1'al^ro I4omcm.
Lucas da Silva, buzobio IHas Cardoso. (Does. Hi->. da liíblioiheca Nacional,
pag. 75 inedicto).
•!4) Justificadas parecefam as r»/.ot4 de Vriicê, si rm tudo os vira -ijustado»
a observância ordens de S. M, mas cem V. fniidSn) encontrar no* tumultos
do povo 0 iii«ívos qnercproBeritarm 1 S. M yá Riflaçâo ucitc i stddn, p.ncrcn-
du • ni .'Miftadt* opiifwcsqoe dclb^ < -.vaísalui dc^jS; M-. tipliaju esí-ç^povy qui
f
suas laeiitonstrações.
— 204 —

beldia, a d e p o s i ç ã o d c u m a a u t o r i d a d e c o n s t i t u í d a , n e m
t ã o p o u c o i n t i m a a sua r e p o s i ç ã o , e m n o m e da l e i e d c
seu p r e s t i g i o .
A l i n g u a g e m de q u e usava d e aconselhar a c o n c i -
l i a ç ã o , a l é m de n ã o ser p r ó p r i a do g o v e r n o g e r a l d a c o -
lônia, q u e v i u e m u m a de suas c i r c u m s c r i p ç õ e s a d e r r u -
bada de u m g o v e r n o l e g a l , p e l a r e v o l t a p o p u l a r , c o l -
locava ) p o v o e a a u t o r i d a d e do R i o na p o s i ç ã o de l i t i -
gantes, p e r a n t e u m a causa c o m m u m , q u e de d i r e i t o s ó
lhe p e r t e n c i a .
E' outra a linguagem de que usa na carta a Agos-
tinho Barbalho o coactopela r e v o l u ç ã o , para dirigir-lhe
os destinos. ( 1 )
Ahi, contando com a falta de enthusiasmos e a
f a l t a de f é d o g o v e r n a d o r e l e i t o , firma s e u p r o g r a m m a
d e a u t o r i d a d e — « r e s o l v e r á o q u e f ô r mais c o n v e n i e n t e
ao s e r v i ç o de S . M . , p e l o q u a l d e v e m o s a n t e s nos sa-
c r i f i c a r , do q u e f a l t a r a o b s e r v â n c i a de suas o r d e n s , »
E' ainda outra a linguagem de que usa na carta
que dirigiu a Salvador Benevidcs, de 2 9 de A b r i l ( 2 : .

V. vejo ipie não deixarei dc ser mais conveniente co-h enes talas na rcducçâo
dos ânimos, para a reconciliação do que contii.uar a ter ., para conservar a
obstinação eui que ücam. Como servidores s,lo de S. M, como *emprc o dito
S, cxprimenlon e:n boas açòcs,
[tj km 2fi de Janeiro dc 1664 responde Francisco HarreM, dizendo ficar
creme dos acontecimentos e ter recebido os autos. Nilo accredttava. que elles se
tivessem dado em vi*la do zelo com qu; os hahit-mtes dn Hio "cuque serviam
a 5. M. c como recorrerão ao dito senhor, resolvei;! o que pur uuits conveoieiilc
ao seu real *ervi,-y apelo qual devemos ames r,os sacriltcr, dc que lallar á
obediência de .>uas ordens. [Dcs. Hist. ilê 1648—6? pag. 7C).
(2; Faltam-mc novas o respostas de V. S«" quanlo mais mas ohrigao a
suspirar os anidentes do tempo e as sem raxõe* dos homens. Agora significo
virem mais Indicies sem mandarem noticias de V. S. A um .ibysmo scgue.se
btttro. C>s movimcnlos se occasiourtiao d-i ausência dc V. S. a coja sombra nào
haviio dc Itvanlar olho/ os que obrarão naquclla acçdo. DVUa e$lão ja huje
(segundo estou informado) arrependidos.
A câmara d'aquella cidade e Agostinho PJaihalho (qnc aqui fica) dera
conta a S. M. na Relação d'e*ic K»lado do sucos-o. |',u lhes respondi que para
melhorarem a fortuna devião dispor o perdão de S. M. eotn a restituição de V.
S. E eu fora pessoalmente a este effeito, se a separação das jurísdicçoe* mê
não impossibilitasse os do desejo.
has esperanças de soa leal deliberação, voü cnlrclantn o cuidado de V. S.
2> dc Abril dc 1(161. Livro Üss. £it.
— 205 —

A h i a l é m d c l a s t i m a r « a sem r a z ã o dos h o m e n s » e n t r e -
t e m t o d o o c u i d a d o e m f a v o r de S a l v a d o r . » (1)
C o m o se v ê , a a c ç ã o da r e v o l u ç ã o n ã o t i n h a de
n e n h u m m o d o a f e i ç ã o aggressiva q u e veiu assumir de
pois d a p u b l i c a ç ã o do b a n d o de S a l v a d o r , e m q u e
« d e c l a r a por i n c o n f i d e n t e s os p r o c u r a d o r e s d o p o v o
J e r o n y m o B a r b a l h oJ o r g e F e r r e i r a , P e d r o P i n h e i r o c M a -
theus Pacheco, p o r p a r t e d a nobreza e M a t h í a s G o n -
ç a l v e s , M a n o e l Borges, A n t ô n i o D i a s e A n t ô n i o F e r -
nandes, o V a l l o n g o , por p a r t e dos ofticios. ( 2 ) , s a r g e n t o
m ó r , c a p i t ã e s d o p r e s i d i o e m i n i s t r o s d e l l c , havendo-os
p o r r e f o r m a d o s c i n h a b e i s para m a i s e n t r a r e m no ser-
v i ç o real e os c o n d e m n o p o r t o d a a vida p a r a a c o n -
quista de B c n g u c l l a e mais penas q u e S . M . f o r ser-
v i d o dar-lhes e aos ditos p r o c u r a d o r e s , c o m o c a b e ç a de
m o t i m , e m pena de v i d a e p e r d i m e n t o de bens. i>
* A l é m de o r d e n a r que c o n t i n u e no c a r g o de g o -
v e r n a d o r A g o s t i n h o B a r b a l h o , a d e s p e i t o d e t e r sido
e l e i t o pelos r e v o l u c i o n á r i o s e q u e e x e r ç a o c a r g o d c
p r o v e d o r da fazenda o v e r e a d o r mais velho, i n d i c a o u -
tras m e d i d a s , c o m o « n o s casos em q u e o c a p i t ã o - m ò r
n ã o possa r e s o l v e r p o r si s ó , o f a ç a c o m o o u v i d o r , os
o f f i c i a e s d a C â m a r a e dois letrados q u e ha de e l e g e r o
povo, evitando-o o novo parlamento, »
E « e m n o m e de S . M . p e r d o a v a aos moradores e
a todas as m a i s pessoas de q u a l q u e r q u a l i d a d e , assim
de paz c o m o de g u e r r a , o excesso q u e sc c o m m e t t e u . »
E caso suas ordens n ã o fossem c u m p r i d a s , conti-
n u a n d o os m i n i s t r o s , a u t o r i d a d e s c A g o s t i n h o B a r b a l h o ,
a exercer o c a r g o « p o r e l e i ç ã o f e i t a nelle pelos altera-
dos, declarava c o m o pessoa m a l acceita ao R e a l Ser-
v i ç o , p r o t e s t a n d o c o n t r a e l l e e seus bens, dos O f f i c i a e s
da C â m a r a , do S a r g e n t o M ó r , dos C a p i t ã e s , d o s Pro-

{l) Um c»rta da mesma data ao Administrador do Rio «chama a sua


ttenção para ter todo o cuidado, dando-lhe noticia do tudo o que se der, ad-
mír;tndo-sc que o povo ainda permaneça cm soa situação.
(2) Não sabemoft porque nao foram incluídos na lista dos mconlidentes o
alteres Lucas da Silva, companheiro de Jeronymo Barbalho e cumo elle pro-
curador do povo asjiin como Lobo Pereira. Jorge Fernandes Huchao, lambem
procurador do povo.
— 206 —

curadores, c dos M i n i s t r o s , todas perdas e d a m n o s , e


p e l a f a l t a de se a c a b a r a C a p i t a n i a R e a l , q u e e s t á no
estaleiro, q u a l 6 a m i m e n c a r r e g a d a , e p o r mais d e q u i -
n h e n t o s m i l cruzados d c fazendas m i n h a s c dos M i n i s -
tros a quem p r e n d e r ã o .
O q u e t u d o o b r a d o p o r e l l e na F a z e n d a R e a l e
mais T r i b u n a es e S e n t e n ç a s , c ser t u d o n u l l o , p o r q u e a
t o d o s h e i p o r suspensos. ( 1 )
Esse b a n d o t r a n s f o r m o u e s s e n c i a l m e n t e o p r o -
g r a m m a dos r e v o l u c i o n a i i o s .
C o n v i c t o s de q u e S a l v a d o r n ã o d e s i s t i a d o m a n -
d a t o d a c o r ô a , e n t r a r a m a t o m a r p r o v i d e n c i a s de defesa,.
r e u n i n d o os e l e m e n t o s c o m q u e p u d e s s e m d e f e n d e r o
m a n d a t o q u e lhes f ô r a c o n f i a d o p e l o p o v o .
A o b r i n d o cie S a l v a d o r r e s p o n d e m c o m u m o u t r o ,
a 1 de F e v e r e i r o d e 1 6 6 1 , e m q u e d e c l a r a r a m q u e
« t o d a a pessoa de q u a l q u e r q u a l i d a d e q u e seja, p a r e n t e
o u n ã o p a r e n t e do g e n e r a l S a l v a d o r C o r r ê a d e S á e
IJencvides, c r i a d o , a m i g o e a f í e i ç o a d o , q u e sc q u i z e r i r
p a r a a sua c o m p a n h i a , se i r á m a n i f e s t a r ao S e n a d o da
C â m a r a p a r a sc l h e d a r l i c e n ç a , e t o d a a b o a passagem',
q u e lhe f o r n e c e s s á r i a p a r a se p a r t i r , p a r a q u e d e n t r o
de d o i s dias o p o s s a m fazer s e m se l h e fazer o f í e n s a a l -
g u m a ; c passado o d i t o prazo, sem sc v i r e m m a n i f e s t a r ,
e c o n s t a n d o ao depois q u e p o r q u a l q u e r via se c a r t e a
c o m o d i t o g e n e r a l , o u segue a sua voz, s e r á preso, e
d e g r a d a d o dez annos para A n g o l a , c h a v e r á a mais p e n a
que o povo quiser d a r .
R i o d c J a n e i r o , 1 de F e v e r e i r o de 1 6 6 1 . e e u A n -
t ô n i o F e r r e i r a da S i l v a , t a b e l i ã o d o P u b l i c o J u d i c i a l c
N o t a s , d o a fé m a n d a d o assim o d i t o p o v o . — Antônio
Freire da Silva, (2
Eis a h i a p e r s p e c t i v a d a g u e r r a c i v i l q u e se ia t r a -
v a r , e n t r e a p r e p o t ê n c i a da a u t o r i d a d e , q u e sahia f ó r a

!l) Aonats du H>» "t Janeiro, por S. Lisboa, vol. 4 p.ig, 58, o

('J) Amian do Kw de Janeiro por Silva Lisboa, vol. 4'", pág. .21'. —* -
— 207 —

da l e i e a v o n t a d e d o p o v o , q u e q u e r i a sua r e s t a u r a ç ã o ,
c o m o o ideal destes patriotas.
M a s , e n t r e estas d u a s f o r ç a s estava collocado u m
i m p e c i l i o , u m descrente, u m o b s t á c u l o á v i c t o r i a po-
pular .
E r a a p r ó p r i a pessoa d o c h e f e do g o v e r n o . D e -
v e n d o ser o e x e c u t o r das m e d i d a s r e v o l u c i o n á r i a s , p r o -
telava-as c o m a a l l e g a ç ã o da necessidade d c u m ma-
d u r o e x a m e , cie u m m i n u c i o s o e s t u d o .
A s s i m c q u e a C â m a r a , e m s e s s ã o de 2 de feve-
r e i r o , ( 1 ) c o n s i d e r a n d o « q u e n e n h u m c a p i t ã o de orde-
n a n ç a exercitasse mais o d i t o po.ito. q u e a t é o presente
servia, p o r t e m e r e m estar handeados pelo g e n e r a l S a l -
v a d o r B e n c v i d e s e ( p i e se podia receiar e n t r e elies h o u -
vesse a l g u m a c o n s p i r a ç ã o » r e s o l v e u d e m i t t i l - o s c p r o -
vermos c a r g o s do pessoal de c o n f i a n ç a , usando assim de
u m a a t t r i b u i ç ã o l e g a l , d c q u e t i n h a sido esbulhada
pelos g o v e r n a d o r e s . ( 2 )
N a mesma s e s s ã o , t r a t a r a m de e x e c u t a r o a l v a r á
r é g i o , a q u e j á nos r e f e r i m o s e q u e r e g u l a v a o p r o v i -
m e n t o dos cargos m i l i t a r e s , reduzindo a g u a r n i ç â o d o
R i o de o t t o a q u a t r o companhias, de 8 0 soldados cada
u m a ít) r e m e t t e n d o estes actos e os de d e m i s s ã o e n o -
m e a ç ã o dos o f f i c i a e s ao « c u m p r a - s e d o g o v e r n a d o r , q u e
vacillou e recuou dc homologal-os, pretextando molés-
t i a c a necessidade q u e t i n h a d c ponderar sobre as m e -
didas.

íl) Meia. mss. pae. ">06. Silva Lisboa, publicada essa acIa (4 v«l. pag.
o

2» ) .
(U* Fui conservado ao poslo òV coronel Francisco Sodré Pereira, qaeser-
Tia até então e nomeado saigerito'ulAr Domingos di- Pana e para capitão Chris-
tovão Lopes Leitão, l>ranc».*co de Souza Varcjà», Máthiai dc Mendonça. Matheu*
Correi Pestana. Manoel da Guarda Jc Muni*. Sebastião Pereira Lobo, Miguel
de Azevedo Machado, Sebastião Coelho d= Amoritn, Ma.tháua da Costa, Ambio-
siu Pae» Sardinha (O niocOj Kruiiciseo Ferreira UormUndo, Francisco dc Brillo
Mcitelles e Francisco ds Macedo Frçiru, Pára cnuimandanlcs da companhia de
mercadores nomeeram Francisco Martins Soares.
;3) Por estes actos loraru reíoruiudol os capitães Salvador Correia, Garcia
da ijãtna e Al<rx.<ndrc de Rastro,ficandosómínleõs capitics Francisco Mnnhc-s
Correia. Miguel de Abreu Soares, Agostinho dc Figueiredo e Lúil Machado
Homem, seiido por cUcs distribui ;o> os soldados. Suspenderam o capitão da
fortaleza da ba ra Anlouio NogUelra da Silvj, de Santa Cruz Antônio Gonçalves
r

Mattoso, de S. João, parentes e afilhados de Salvador.


— 208 —

F i n a l m e n t e , s o b a p r e s s ã o das r e c l a m a ç õ e s r e v o -
l u c i o n á r i a s p e r a n t e as q u a e s se t o r n o u a u t ô m a t o , c o n -
f i r m o u os actos « c o m o p r o t e s t o d e n ã o l h e p r e j u d i c a r ,
p o r q u e o fazia v i o l e n t a d o . »
E n t r a r a m a t o m a r medidas de defeza, g u a r u e c e n d o
as fortalezas e c o l l o c a n d o espias nas estradas.
O p r o c e d i m e n t o de B a r b a l h o d e n ã o t e r p r o t e s -
tado contra o facto dc Salvador o ter nomeado gover-
nador d o R i o c o n v e n c e u á C â m a r a de q u e e l l a d e v i a
assumir de f a e t o e de d i r e i t o o g o v e r n o d a c i d a d e .
J á era t a r d e .
A r e v o l u ç ã o j á t i n h a p e r d i d o b a s t a n t e t e r r e n o , pelo
desanimo q u e j á se ia fazendo s e n t i r no p o v o e nos
seus d i r e c t o r e s .
A s s u m i u o g o v e r n o a 8 d c F e v e r e i r o . P o u c o mais
de u m mez g o v e r n o u , p o r q u e S a l v a d o r B e n e v i d e s , e m
c o m e ç o de A b r i l , e n t r o u na cidade, s o b a a c c l a m a ç ã o
p o p u l a r ; assumiu o c o m m a n d o d a g u a r n i ç â o e m a n d o u
executar o inleliz J e r o n y m o B a r b a l h o « p a r a e x e m p l o » ,
e p r e n d e r os o u t r o s r e v o l u c i o n á r i o s .
J á se achava no R i o o d e s e m b a r g a d o r s y n d i c . i n t c
A n t ô n i o X a b o P e ç a n h a , para iniciar a a c ç ã o j u d i -
ciaria.
O s presos f o r a m r e m e i t i d o s p a r a a B a h i a , o n d e f i -
c a r a m « e m u m a sala f e c h a d a » sob os c u i d a d o s de F r a n -
cisco B a r r e t o . ( 1 )
A h i ficaram d e t i d o s ate J a n e i r o d e 1G63, á e s p e r a
das r e s o l u ç õ e s do r e i , a q u e m F r a n c i s c o B a r r e t o c o m -
m u n i c o u , c m c a r t a de 13 d c M a i o , e s t a r e m os r e v o l u -
c i o n á r i o s nas p r i s õ e s da c a p i t a l da c o l ô n i a « c o m o e x e m -

(!) Caria do governador da Bahia a Salvador Benevíde» que consta do J_ a

da collccâo—Does. Hist. dc 1648 — 83 <ia Bíbl. Nae. pag. 84 : «Recebi a carta


com que V. S. q-iiz acompanhar os presos que remeteu esta praça, e veio o
intento de V. S. c a recommendacao que me faz dc suas i-cssoaa.
t) intento dc sc tirar devassa se impossibilitou com a *0uta que desta
matéria tinha já dado a S. M. h suspendendo-sc por esta cansa a todo c qual-
quer andamento dcUa se nao pevi;; alterar com e*:a deligencia principalmente
nâo necessitam...
Depois dc algumas considerações diz que os prados haam em uma sala
íochada, a espera da resolução de S. M. Francisco.
— 20!) —

pio de u m a c a b e ç a q u e Salvador Benevides cortou e


desengano d a p o u c i p e r m a n ê n c i a que a e x p e r i ê n c i a
m o s t r o u p o d i a t e r a q u e l l e g o v e r n o i n t r u s o como t ã o
v i o l e n t o e m t u d o , se n ã o a t r e v e r a m seus e m u l o s a n o v o
m o v i m e n t o e se conservava o povo em s o c e g o » : 1 )
Nesta data s ã o tllcs* confiados, por ordem dc Fran-
cisco B a r r e t o e pelo c a r c e r e i r o A n t ô n i o R o d r i g u e s Porto
ao m e s t r e d o b a r c o « S a n t i 1 I c l e n a » , p i r a conduzil-os
ao R i o d e J a n e i r o , a s e r e m e n t r e g u e s ao g o v e r n a d o r
P e d r o d e M e l l o , (2) d e p o i s d e t e r e m sido j u l g a d o s p e l a
R e l a ç ã o d a B a h i a , s e g u n d o a o r d e m d o r e i , e x a r a d a em
c a r t a d c 17 de J u l h o d e 16<;2 ( 3 ' .
F o r a m r e m e t t i d o s d e p o i s para L i s b o a , o n d e a i n -
t e r v e n ç ã o d o s pod.-rosos e dos interessados p r o t e l o u a
s o l u ç ã o d e f i n i t i v a d á j u s t i ç a , m a n t e n d o e m um a p r i s ã o
i n d e f m i d a e e t e r n a os infelizes, c o m as f a m í l i a s c m des-
a m p a r o n o R i o , s e i n o a u x i l i o dos seus chefes.
O s p r ó p r i o s r e p r e s e n t a n t e s d o * puderes p ú b l i c o s
n ã o p o d e r ã o ser i n l f f e i e i t c s a c .stigo t ã o s e v e r o . A
c â m a r a d o R i o d e J.meiro, e m c a r t a d e 2 d e Junho d e
1 6 0 6 , p e d i a ao r e i fosse « s e r v i d o p ô r os seus Rcacs

(l) lhes. Hist. fí.M, Nar pfe 155 v. A ijftrtB dr Sulvadot BenavidM
t

ao Hei é de 10 do Abril. Não a irau*.f-v mo* aqui, por o>t.u publicaúa to vol,
3 Bra/i/ flis! 3'* vol. (y IUI). Pí>*ili «Mu fitiitii ii a ter executado Jcrcnyiri",
sem lorma de processo, ile accordo eâiri o general di frita Maroct Freire de
Ar.dradc e sen irmão o alnurarite Francisco Freire c cultor do ouvidor geral
Sebastião Cardo*ti d^ S. Paio.
(-') Livro Does. fiist. dc 1660—78—O mciriíihn AnlOniO Ri-drlgiies Porto,
carcereiro dn Cadoi • d<**ia cidade entregue*!) Bàlílijijr Pe»o.antte8, mestre QÚ
Barca Sani.i Helena que ora CRVÍO o mi Riu dc J.iuriro o» cupttâes Frãrlcfrçode
Oliveira Vaigai. Lourenço Fígitdr"do Vargj*. Jorye Ferreira B«tlhü<í, Fian-
çísep Gomos S..rdinlia, Lucas da Silva c l)ío§õ Lobo Pereira. Fiurbni Hia' de-
do-.» « José Castilho Pinto que a dtla cadela vlo.ram pre*os diqu.dla capitania
por nrJtint dc S. Ilpurvidcs e como AS relações papá ^rtlrtjjoi a IVdro dc Mello,
Governador do IliO" dí Janeiro *« fará U-rtoa que o Jílo mestre j*iigoará
pira deacarga do carcereiro. H de comn entregue n» Jiio* pré*os a otilefli do dito
governador. 1'iar.i recibo, J'd de Jan:iro dc 1663- Francisco BnrwCo,
l3.' Franciíco Bane:» governador c aoiign. Fu F-i-rei vos envia muiio
saudar Aos novo prezo* quedá capitania du fito ile Janeira SC reineUcrarfl a
essa cid ide, pcLí eis.» d» iw*õhediâ»icia contra o govcrnàdns dVllc, ç ii« que
nie destes contai, por carta ,le 11 do junho d? anno pastado, Hei por*h«in que
nesia cidade e que pelos Ministros da Krdarão que JIIÍ MVJ «erram sc dc livra'
mento urdiaario e que ouvido? d« *ua justiça ( pois cem sua defesa uni' peno )
>C|J T> cenleitciadoi como por suas coíp>> merecem, de que ai.ini.»r«i, conia
pilo meu c.o*elli> Ultramarino porqu- unetõlír enléiidldo. (CurUjegía d- 17
d-- Julho de lUfd, traascripU de um CoJ. Aa Hibl. -W. — Carta R?gia-ns.-5Õl,
— 210 —

olhos nas m o l é s t i a s q u e aquelles p o b r e s c i d a d ã o s t ê m


padecido, j á na p r i s ã o da c i d a d e da B a h i a e nesta, e u l -
t i m a m e n t e nesta c o r t e , e na m i s é r i a q u e e s t ã o , p a d e -
c e n d o c o m sua f a l t a , suas m u l h e r e s e f i l h o s , q u e n ã o
t ê m o u t r o r e m é d i o q u e a p i e d a d e d c Vossa M a g e s t a d e ,
de q u e m esperamos s e j a m f a v o r e c i d o s , c esta R e p u b l i -
ca a m p a r a d a d o m e i o q u e o t o l h a d a r m o s conta a V^ossa
M a g e s t a d e da f a l t a q u e p a d e c e m e m suas p e q u e n a s
vendas d e a l g u n s annos a esta p a r t e , d o q u e n ã o nos
p o d e m o s escusar de d a r c o n t a , p a r a q u e v e j a V o s s a
M a g e s t a d e o q u e p o d e c o m n o s c o m a i s o zelo do R e a l
s e r v i ç o de Vossa M a g e s t a d e q u e o p o d e r dos p o d e r o -
sos.» (1)
F o r a m f i n a l m e n t e soltos, p e l a g e n e r o s i d a d e d o r e i ,
q u e os h o n r o u c o m o h a b i t o da o r d e m d e C h r i s t o , a g r a -
decendo a c â m a r a , em 2 de S e t e m b r o dc 1607, « a
g r a ç a d c haver r e m c l t i d o os seus m o r a d o r e s a esta c i -
dade, l i v r e s da c a l u m n i a c o m q u e o o d i o e a p a i x ã o lhes
haviam falsamente imposto o c r i m e dc i n c o n f i d ê n c i a , n
(2)
A d i s t i n e ç ã o com q u e a c o r o a p r e m i a v a u m m a r -
t y r i o de q u a s i o i t o a n n o s dos i n c o n f i d e n t e s e r a a p i o v a
da c o n v i c ç ã o c m q u e j á estava dos excessos, da p a i x ã o ,
das i i l e g a l i d a d e s c d o a r b í t r i o d c S a l v a d o r B e n e v i d e s ,
no seu u l t i m o g o v e r n o n o R i o de J a n e i r o .
A ' s o m b r a d o p r e s t i g i o o f f i c i a l c da t r a d i c ç ã o dos
seus s e r v i ç o s , o b t e v e c f i r m o u c o n t r a c t o s i l l i c i t o s , e m -
q u a n t o os r e v o l u c i o n á r i o s , q u e s ó c o m m e t t e r a m o c r i -
me d e p u g n a r pela v e r d a d e do r e g i m e n d a l e i , passa-
v a m e s o f f r i a m as t o r t u r a s d o s c á r c e r e s .
J á n ã o nos r e f e r i n d o ao ç o n t r a c t o c e l e b r a d o c o m a
c â m a r a d o a r r e n d a m e n t o de u m a zona d c terras de
m a r i n h a da c i d a d e , d c q u e t r a t á m o s e m o u t r o c a p i t u l o

(1) Aos. do Rio por S. Lisboa, rnj. d", pae. 03.


(2) Além da execução d«* Jwuriymo Barbalho. morreu na pri tão Jorge
Ferreira de Bulhão. A favor de Manoel Caldeira ihteVvçiu o governador Pedro
de Mello, perante o da Bahia, obtendo que viesse para o Rio de Jandro, cm 30
. i»- L^ '' -
s,t 0 ,6 3
««islã dc uma carta do livro da coll. — Does. llistorito
1 , 1 0

dc 1600- 78.
— 211 —

e q u e no t e m p o f o i o m a i o r e s c â n d a l o a d m i n i s t r a t i v o ,
r e g i s t r a m o s o seu p r o c e d i m e n t o c o m os possuidores d a
s e s m a r i a dos C a m p o s d e Goyatacazes ( 1 ) , o ç o n t r a c t o
q u e l a v r o u c o m a c â m a r a e m Õ de N o v e m b r o de 1 6 6 1 ,
a i n d a g e r i n d o a a d m i n i s i r a ç ã o , d o a l u g u e l d c sua casa,
p o r 1 5 0 $ , para m o r a d a d o s g o v e r n a d o r e s (2) ; a v e n d a
ao E s t a d o d o seu g a l e ã o e o b t e r p a r a seu filho a doa-
c ç ã o d e u m a c a p i t a n i a d e 2 0 legnas nos C a m p o s de
Goyatacazes, o v i s c o n d e de A s s e c a . (3)
S u a a c l m i n i s t r a c ç ã o f i r m o u u m p r o g r a m m a d e go-
v e r n o q u e i n s p i r o u á c â m a r a s o l l i c i t a r do r e i « s e j a ser-
v i d o d a r efricazes p r o v i d e n c i a s na escolha de homens
d e s t a t e r r a , l e v a n d o á c o n s i d e r a ç ã o de V . M . pesar
os i n c o n v e n i e n t e s de n u m a a u t o r i d a d e sem l i m i t a ç ã o
na d i s t a n c i a d e m a i s de m i l legbas d o T r o n o , o n d e n ã o
d e v e m cheirar os nossos clamores e g r i t o s da nossa dor.
e se p o r v e n t u r a t o c a r as nossas l a g r i m a s ao P a t e r n a l
C o r a ç ã o de V . M . , a q u e a f f l i c ç õ e s , e p e r s e g u i ç õ e s
n ã o f i c a m o s expostos, d e b a i x o d c u m a a u t o r i d a d e regi-
da m a i s p o r caprichos c p a i x õ e s , q u e p e l o interesse da
J u s t i ç a , c S e r v i ç o de V . M . , sustentados p o r parentes
e amigos poderosos que rodeiam o T r o n o Augusto em
q u e D e u s c o l l o c o u a V . M . , os q u a c s fazem por t a n t o

(]) Maldonado o outros,


(2) A integra deito çontracto está publicada no Arei. do Disl. Kcd. dc*
lSOSípofe', 358). Elle foi rescindido por iniciativa da câmara enj 1ÍJ71 e sobre elle
di*»e ella, cm ,-arta que dirigiu ao rei, cm 2dcJunho de 1666 «ultimamente
Íuerendo u General í-.dvador Correia de S,í e Benevides embarcar-sc para essa
õrte, e ach.indn.*e sem hutnas casas Mia", em que morava, da qual laoib?m
fazia que delia lhe pagasse a n:oiadia, vendo qae com a saa ida podia (irar
pouco lucro delías, tez com que os .'cieadtfres, que naquelle tempo serviam
Ibes comprassem paraficarempoi morada perpetua dos Governadores, como
com elTcilo *>r li/era, dando-sc por ellas oito mil irados,ficandoelle obrij-ado
do dia que a t-.*.t Cfirie t hceasse ba dous annos alcançai de Vossa Magestade
Provisão da confirmação da dita venda, por quauto o* Vereadores lhe haviam
dado por razões partículaie*, em satisfação das catas os mesmos fóros que esta
Canidra possuía ; cum o que veiu a ficar mui defraudada, c não ler com que
acudir aos Baxloi ordinários c outras dwpetar, d<j que se não pode escusar.»
,3) íWnrs—-L-O]. ds BM. A'JÍ. vol. 1". Gartaj regia de 17 de Julho d=
1674. Por carta desta data. <> iei cammunica que Ia uicrcc ao visconde dc Aíseca
de uma capitania dc vinte léguas asm irmãu João Con cia de Sá c outra da
10 légua* das trinta da capitania que vagou pda deixarão que fez delia Gil
Góes, $e comproinetteiido a edifícar uma villa com igrvja decente, casa de.
câmara e essas para trinta casaes.
— 212 —

i m i t e i s i o d o s os nossos s a c r i f í c i o s da fazenda, v i d a e
h o n r a pelo R e a l S e r v i ç o ; t i t u b i a n d o p o r isso os fracos
para a b a n d o n a r e m os v e r d a d e i r o s interesses, q u e o
Real S e r v i ç o pede, a q u e l l a h o n r a q u e e x a l t o u o c n t h u -
s í a s m o de seus A v ó s , q u e j a m a i s f o r a m i n d i g n o s a d u l a -
do res das p a i x õ e s , c v i c i o s dos G o v e r n a d o r e s , e s ó
e m p e n h a d o s d e c o n s e g u i r e m pelo S e r v i ç o d e V . M .
as honras c f a v o r e s c o m q u e s i g n i f i c o u t e r e m s i d o do
R e a l a g r a d o d c V . M>>, c o m o R e i c S e n h o r , e Pai dos
seus vassailos o u v e aos seus C o n s e l h e i r o s e T r i b u n a c s
para o acerto! dos n e g ó c i o s d o E s t a d o , e h u m G o v e r n a -
dor do Brasil, sem o n e c e s s á r i o c o n h e c i m e n t o dí^s L e i s
e D i r e i t o , sem a s a b e d o r i a q u e l h e h c p r e c i s o e m t o d a s
as cousas, s ò c o n s u l t a a p r o t e c ç ã o e c o n f i a n ç a q u e l h e
t e m no R e i n o , c a sua f o r t u n a p r i v a d a , e n ã o a g l o r i a
d e fazer felizes h u m a p a r l e d a q u e l l a f a m í l i a , q u e V . M .
lhe c o n f i o u . » ( 1 )
V ê - s e nestas p a l a v r a s a a í l u s ã o d i r e c t a a S a l v a d o r
p e n e vides, q u e a p r ó p r i a c a r i a l o r n a b e m •expressa,
q u a n d o , L d l a n d o d.t grandeza c da riqueza d o B r a s i l ,
diz « q u e S , M . n ã o j u l g o u b e m d e l l c c da felicidade?
deste p o v o a c o n t i n u a ç ã o d o s e r v i ç o d o g e n e r a l Salva-
d o r C o r .-ei a d c S á e B e n c v i d e s . »
A v e r d a d e d e s t a s p a l a v r a s e s t á c o n f i r m a d a nos
factos d e s c r i p t o s neste c a p i t u l o .
Ris u m d o c u m e n t o i m p o r t a n t e :
S n p p o s t o q u e e m I o d a s as o c e a d õ e s d e v o d a r
c o n t a de m i m a V . E x . n e s t a o f : ç o p a r t i c u l a r m e n t e
(

em r a z ã o d o l u g a r e m q u e e n o u g o v e r n a n d o esta p r a ç a
p o r e l e i ç ã o da m e s m a ; o p o v o d e l i a e seu r e c ô n c a v o ,
q u e c o n s p i r a n d o c o n t r a o G o v e r n a d o r pelas r a z õ e s q u e
d e v e m r e p r e s e n t a r a V . E x . a c u j o respeito se u n i r a m
e c o n f o r m a r a m t o d o s e m u m c o r p o , a b r i r ã o a casa do
S e n a d o , d o n d e assim t a n g i d o , c o m p u b l i c a s e altas v o -
zes, r e t i r a r ã o d o g o v e r n o d e s t a r e p a r t i ç ã o , n ã o s ò S .

(I) An?. <io Rio por S. Lisboa vol. 4° pag. ti!).


— 213 —

C . q u e se h a v i a p a r t i d o a t r a t a r das minas de o u r o a t é
S . P a u l o , m a s t a m b é m o seu p r i m o T h o m é C o r r e i a de
A l v a r e n g a , q u e h a v i a d e i x a d o g o v e r n a r e m e m seu l u -
g a r , o q u a l a v i s t a d o m o v i m e n t o c a l t e r a ç ã o do p o v o ,
d e s a m p a r a n d o a p r a ç a se t i n h a retirado ao m o s t e i r o de
S . Bento, d o n d e , n ã o q u e r e n d o sahir, sendo c h a m a d o
ao p a ç o d o C o n s e l h o , e m n o m e d c S . M . para l h e de-
f e r i r uns c a p í t u l o s q u e lhe t i n h ã o proposto, o qual lhe
respondeu q u e fizessem o q u e quizessem ; c o m o q u e
l o g o assim de c o m m u m c o n s e n t i m e n t o e c o n f o r m i d a d e ,
p r o t e s t a n d o s e m p r e serem lcaes vassallos de S . M . ,
t r a t a r a m dc fazer e l e i ç ã o de pessoa, q u e os governasse,
> te o r d e m d o d i t o S r . a q u e sempre e s t a v ã o sujeitos e
c o m isto m e e l e g e r ã o l o g o p o r g o v e r n a d o r , indo-me
b u s c a r a m i n h a casa, é d a l i a S. F r a n c i s c o d o n d e mc
t i n t a recolhido, por n ã o achar j á o dito governador
i h o m é C o r r e i a na sua onde o f u i buscar para l h e assis-
t i r , e a c h a r - m e c o m elle, assim mc propuzeram o q u e
h a v i a passauo e q u e acceitasse o g o v e r n o a que fiz t o -
das as r e p u g n a n c i a s q u e p u d e , i m i m a n d o d h e s as r a z õ e s
q u e h a v i a m p a r a n ã o m u d a r e m de g o v e r n a d o r , o q u e
nada m o n t o u para d e i x a i em de p r o s e g u i r c o m o seu
i n t u i t o , a t é c h e g a r e m m c a p r o p o r d i a n t e o risco da
v i d a , c o m q u e assim f u r i o s a e v i o l e n t a m e n t e c o m a q u e l -
le t u m u l t o m e l e v a r ã o a casa d o Conselho, a o n d e se-
g u n d a vez m e escusei com d o b r a d o s r e q u e r i m e n t o s q u e
nada i m p o r t a r ã o p a r a q u e deixassem c o m as mesmas
v i o l ê n c i a s de p r o s e g u i r c o m i n t u i t o nos p o z e r ã o de pos-
se d o g o v e r n o no q u a l t a n t o q u e . . . . q u e em 8 de N o -
v e m b r o p r ó x i m o avisei l o g o ao d i t o T h o m é C o r r e i a q u e
viesse para sua casa, lhe m a n d e i p r o v e r . . . . da i n f a n -
taria, o q u e m e p a r e c e u bastante para sua g a r d a e se-
g u r a n ç a , q u e t u d o e r a n e c e s s á r i o , a vista da f ú r i a e
a l t e r a ç ã o do p o v o , e o mesmo ao c a p i t ã o Pedro de
Souza Pereira, seu c u n h a d o , p r o v e d o r da fazenda Real
e ao s a r g e n t o - m ò r , M a r t i n C o r r e i a Vasques. seu i r m ã o ,
e q u e u m e o u t r o exercesse o seu c a r g o , assistindo o
— 214 —

d i d o G u a r d a a mostra, c p a g a a i n f a n t a r i a e m 1 2 d o
d i t o mcz de N o v e m b r o .
Estando as cousas nestes t e r m o s , n ã o e r a m b e m
passados dois dias, q u a n d o se t o r n o u d c n o v o a l e v a n t a r
o p o v o c o m m a i o r excesso e f u r o r q u e o passado, a p '
p l i c a d o m o r t e s c r u í n a s c o n t r a t o d a a f a m i l i a dos C o r -
reias, q u e t ã o a r r a i g a d a estava a q u e i x a e o b s t i n a ç ã o
no a n i m o de todos, a c o d i a t a l h a r esta d e s o r d e m c o m
toda brevidade e p r u d ê n c i a que pude c r c q u c r e n d o d h e
da p a r t e de S. M . q u e c o m t o d o socego c q u i e t a ç ã o t r a -
tassem d o q u e c o n v i n h a a seu R e a l S e r v i ç o e b e m c o m -
m u m , p o r seus p r o c u r a d o r e s q u e a l l i m c t i n h ã o para lhe
d e f f e r i r , c o m q u e s o c e g u e i e m e p e d i r ã o subisse c o m
e l l e s a c â m a r a q u e lá m e d a r i ã o a resposta a q u a l v e i u
a parar e m r e q u e r e r e m , c o m altas e d u p l i c a t a s vozes
q u e fossem l o g o presos nas fortalezas d a b a r r a e d e f ta
p r a ç a n ã o só o dito Provedor e Governador que fôra,
mas t a m b é m seu i r m ã o o s a r g e n t o m ó r M a r t i n C . V a s -
ques c q u e sem isto n ã o h a v i ã o de a q u i e t a r e p o r m a i s
q u e t r a b a l h e i p o r elles d e s i s t i r d e s t e r e q u e r i m e n t o , re-
presentandodh.es a p o u c a r a z ã o q u e h a v i a p a r a os p r e n -
d e r e m sem s e r e m c o n v e n c i d o s e m c u l p a a l g u m a , a l é m
dos i n c o n v e n i e n t e s q u e se s e g u i ã o da d i t a p r i s ã o , e m es-
p e c i a l o s a r g e n t o m ó r v e r q u a n t o estava s u j e i t o as m i -
nhas o r d e n s c d a n d o . . . e x e c u ç ã o c o m t o d a o b e d i ê n c i a
e q u e o g o v e r n a d o r t i n h a ahtes d a r suas contas, c o n f o r -
m e o p o v o r e q u e r i a c m a l o p o d i a fazer estando p r e s o c
m e n o s exercer o seu o f f i c i o , c o m q u e ficava p r e j u d i c a d o
os d c S . M . e d i r e i t o das partes, p o r e m n a d a d i s t o f o i
b a s t a n t e p a r a dissuadil-os, c o m q u e se r e s o l v e u o o u v i -
d o r g e r a l , c o m a p p r o d a ç ã o d o s o f f i c i a e s da C â m a r a , ( p i e
a t u d o e s t i v e r ã o presentes, a p r e n d c l - o s nas d i t a s f o r t a -
lezas sem c o n s e n t i m e n t o m e u .
E m 5 de D e z e m b r o se conheceu e n t r a v a m u i t a
g e n t e d o r e c ô n c a v o desta c i d a d e , c o m o q u e e n c a r r e -
g u e i os o f i i c i a c s das c o m p a n h i a s d e O r d c n a n ç a s d o d i t o
r e c ô n c a v o , q u e c o m t o d o o c u i d a d o a c u d i s s e m a seus
d i s t r i c t o s e a t a l h a s s e m a seus m o r a d o r e s p e l a v i a e sa-
— 215 —

g a c i d a d e qvie pudessem, q u e n ã o viessem a esta c i d a d e ,


p o r t e m e r n e l l a de seu a j u n t a m e n t o u m g r a n d e desser-
v i ç o de S. M . , o q u e n ã o p o d e n d o a t a l h a r os d i t o s o f -
ficiaes, m a n d e i l a n ç a r u m b a n d o q u e d e n t r o em quaren-
ta e o i t o horas se recolhessem as suas fazendas, amea-
ç a n d o c o m castigo ao q u e o c o n t r a r i o fizesse, ao q u a l ,
c m l u g a r d e o b e d c c e r e m r o m p e r a m , g r i t a n d o pelas ruas
desta c i d a d e h a v i a n e l l a c o o p e r a ç ã o pelos
presos c seus a l i ia dos c o n t r a os m o r a d o r e s e q u e no con-
v e n t o d c S. B e n t o estava a g r a n d e q u a n t i d a d e dc ar-
mas, p a r a d e l l e se c o n s e g u i r a f e i ç ã o q u e i n t e n t a v ã o
c o n t r a o s e r v i ç o de S . M . d e q u e t i n h ã o avisos e n o t i -
cias certas.
N e s t e t u m u l t o e a p e r t o v e i u o O u v i d o r g e r a l com
os p r o c u r a d o r e s d o p o v o e officiaes d a c â m a r a r e q u e r e -
r e m , m a n d a s s e r e c o l h e r para a cadeia da cidade o C a p i -
t ã o Paulo Souza P e r e i r a e seu c u n h a d o T h o m c Cor-
reia q u e nas fortalezas e s t a v ã o presos e p o r r e q u e r i m e n -
t o do m e s m o p o v o ao q u e respondi q u e n ã o t o m a v a
s o b r e m i m a s e g u r a n ç a de suas pessoas e entreguei-as
ao S . M . c o m o o m e s m o p o v o h a v i a disposto
na sua p r i s ã o e q u e nas f o r t a l e z a s e s t a v ã o seguros c o m
g u a r d a de i n f a n t a r i a . . . . ao q u e d e f e r i r a m q u e nas for-
talezas e s t a v ã o f u l m i n a n d o c o n t r a o d i t o p o v o . V e n d o
eu q u e n ã o q u c r i â o a d m i t t i r n e n h u m a r a z ã o e q u e n ã o
era p o s s í v e l d i s s u a d i l - o s e a q u i e t a l - o s , estando nesta
c i d a d e mais de 2 m i l homens, todos c o m a n i m o d a m n a -
do c o n t r a estes m i n i s t r o s , t e m e n d o intentassem escalar
a fortaleza de S. ' i h i a g o desta c i d a d e q u e é m u i t o l i m i -
t a d a sua defensa, sem e m b a r g o de t e r n e l l a duas c o m -
panhias de i n f a n t a r i a , c o n h e c e n d o se p u n h a com esta
r e p u g n â n c i a , a risco de u m a g r a n d e r u i n a , l h e respondi
que eu me t i n h a obrigado a s e g u r a n ç a que p e d i à o e j á
q u e n ã o b a s t a v ã o , pelo que m a n i f e s t a r ã o q u e eu m a n d a -
ria v i r para a c a d e i a desta cidade, com c o n d i c ç ã o que o
m e s m o p o v o c seus p r o c u r a d o r e s se obrigassem as se-
g u r a n ç a * de suas vidas, a t é o r d e m de S . M . no que n ã o
q u i z e r ã o c o n v i r , c c m m i m c r e s c e r ã o as d e s c o n f i a n ç a s :
— 216 —

neste a p e r t o t ã o g r a n d e m e v a l l i das c a b e ç a s das r e l i -


g i õ e s para v e r si p o r sua via p u d i a conseguir seu socego,
p r e v a l e c c n d o - m c das a r m a s d e s t a l i m i t a d a i n f a n t a r i a
(da q u a l n ã o fio nada) e r a u m a t o t a l d e s t r u i ç ã o ; c o m a
d e l i g e n c i a d ã s religiosas se r e s o l v e r a m sc e m b a r c a s s e m
ç m patacho c a r r e g a d o p a r a a ilha da M a d e i r a , o c a p i t ã o
P a u l o de Souza P e r e i i a c o m as culpas q u e d i z e m d e l l e
t e m , e e m o u t r o s navios o g o v e r n a d o r e seu i r m ã s c c m -
q u a n t o assim se fizessem c p a r a mais s e g u r a n ç a h a v i a
de l h e b o t a r f e r r o s ao q u e t u d o m e r e q u e r ã o . . . . obras-
se o d i t o p o v o ao c o n t r a r i o m e r e q u e r i ã o c p r o t e s t a n d o
d a r conta a S . M . dos d a m n o s q u e d o c o n t r a r i o se se-
g u i s s e m ; o que o d i t o p o v o t e m o b r a d o s e m a d m i t i i r
n e n h u m g ê n e r o de r a z ã o , n ã o t e n d o e u mais l u g a r q u e
s e n t i r a i m p o s s i b i l i d a d e q u e nisto h a v i a d o r e m é d i o n o
estado presente.
C o m a p r i s ã o do p r o v e d o r ficou i m p e d i d o o e j . c r -
cicio do seu c a r g o e p r e j u d i c a d o o d i r e i t o e r e c u r s o s das
partes q u e n ã o p e r m i t t e d i l a ç ã o ; m a n d e i s a b e r a q u e se
t i n h a a l g u m a p r o v i s ã o de S . M . o u de V . E x a . , p a r a a l -
g u m a pessoa s e r v i r , e m sua a u s ê n c i a , respondendo-mc
q u e n ã o ; a r e q u e r i m e n t o d o P r o v e d o r da F a z e n d a , p r o -
puz n a c â m a r a seria c o n v e n i e n t e p r o v e r este c a r g o a t é
S . M . o r d e n a r o q u e mais fosse s e r v i d o ; e p o r t o d o s f o i
c o n c o r d a d o , j u i z e s , p r e l a d o s , p o v o , e r a n e c e s s á r i o fazer-
se este p r o v i m e n t o q u e f o i f e i t o na p e s s ô a d c C a p i t ã o
L o u r e n ç o de F i g u e r e d o V a l l a d a r e s . E c o m o . . . . v e m
a se t r a t a r d a d e f e n s a e l o r t i f i c a ç ã o da p r a ç a e esta de-
p e n d e das lortalezas, fiz l o g o v i c t o r i a nellas c o m as o u -
tras a u e t o r i d a d e s e as hei e n t ã o m i s e r á v e l e s t a d o c o m o
constados auto.í remettidos a S . M - , n ã o sendo menos
c o n s i d e r á v e l a g r a n d e f a l t a d a i n f a n t a r i a q u e ha ne >te
p r e s i d i o , c o m o consta das l i s t a s dos soldados e m a l pa-
fcos, d e s c o n t e n t e s n à o s ó dos soecorros o r d i n á r i o s de
c a d a mez, c o m o dos f a r d o s e r e m a t e s c o m q u e se ves-
tem.
D e t u d o s o b r e d i t o neste p a r t i c u l a r d o u c o n t a a S .
M . com os autos q u e se processaram e o m e s m o faz este
— 217 —

povo, p a r a q u e s e r v i d o m a n d a r p r e v e n i r o r e m é d i o m a i s
c o n v e n i e n t e a estas p e r t u r b a ç õ e s e c o n s e r v a ç ã o dos
seus v a s s a l l o s q u e l h e é o q u e s o b r e t u d o se deve a t t e n d e r ,
e V . S . a p p l i c a r com o zelo q u e c o s t u m a , com q u e alem
das o b r i g a ç õ e s q u e r e c o n h e ç o ao s e r v i ç o de S . M . lhe
f i c a r e i de n o v o a d e v e r a c o n v e n i ê n c i a de q u e S . M . m e
f a ç a m e r c ê m a n d a r m a n d a r a l l i v i a r - m e deste encargo,
q u e v e m a s e r g r a n d e e t r a b a l h o s o , l i d a n d o c o m vassal •
los descontes, e q u e i x o s o s p a r e c e n d o eu sahido de u m a
b e m l a r g a m o l é s t i a , d a n d o m a i o r c u i d a d o o estado e m
que e s t á a p r a ç a .

Rio, 15 dc Dezembro dc 1660.

Agostinho Barbalho Bezerra.


CAPITULO IX

Os governos até o fim do século

SUMMARIQ:—Pedro de Mello. Resultado da rexefafào, Novo regimento, Re-


forma da admin strafão. Ordens do Conde de Óbidos ao
governo do Rio. Tentativa de annexaçâo do Espirito Santo à
Rah'd, Usurpaçâo da Bahia às altr-bwçòes do governo do
t Ri». IVJfio/itieae'administração o Rio decae. Regimento do
Oi/íidor. A politita externa injtnindo sabre a situação tribu-
taria, Medidas tomadas. D. Pedro Masearenhas, ttueexsôr de
O. Pedro de Me/Io, Seu governo Demarcação da sesmaria da
Câmara. O ouvidor Ra&ota, Joio da Siha e Sou$a. Seu go-
verno. Extremo da crise. Causa da fundação da Colônia do
Sacramento. Sesmaria do viteonde de Asseca. Povoamento da
Panhyha,

Succedeu á Salvador Bene vides, Pedro de Mello,


n o m e a d o g o v e r n a d o r e c a p i t ã o - m ó r , por p a t e n t e r é g i a
d c I d c J u n h o de 1 6 6 1 , t o m a n d o posse a 2 4 de A b r i l
o

de 1 6 6 2 . (1)
N a e s c o l h a de P e d r o de M e l l o , o s o b e r a n o pro-
c u r o u c o r r e s p o n d e r ao p e d i d o q u e a C â m a r a lhe t i n h a
f e i t o de escolher h o m e n s dc v a l o r moral e i n t e l l e c t u a l ,
para chefe d o g o v e r n o d a capitania, porque, j á tinha
e x e r c i d o as f u n e ç õ e s d c g o v e r n a d o r d a c i d a d e de M e -
r i d a , de C a s t e i l o , a l é m dos m u i t o s s e r v i ç o s de g u e r r a
p r e s t a d o s desde 1 6 4 1 , c o m o mestre de c a m p o d o exer-

; l l Cana da Câmara do Rio ao Rei dc '22 A» Novcmbrodc UHSU. Retist.


do Inst., vol. 8." pjR. Ü2. Nno »ó a provisão dc nomeação, como a acta da po«.»e
dc Pcdio utão publicadas nos Areámos do Dist. vol, de 1894. pag. 349.
— 220 —

cito da Beira, no s i t i o da p r a ç a de L u a n s e B a d a j ó s e
nas batalhas das linhas de Luases. K r a , pois, u m h o -
mem d e r e p u t a ç ã o f i r m a d a e u m a i n d i v i d u a l i d a d e d a
a l t a p o l í t i c a portuguesa, o q u e v i n h a d i r i g i r os destinos
da capitania do R i o , c u j a s i t u a ç ã o f i n a n c e i r a e p o l í t i c a
d e v i a c h a m a r de p e r t o sua a t t e n ç ã o .
B e m q u e n t e s ainda e s t a v a m os ó d i o s resultantes
d a r e v o l u ç ã o que, e m t o d o caso, p r o d u z i u a v a n t a g e m
da l i b e r d a d e d a i n d u s t r i a d a a g u a r d e n t e e da l i b e r d a d e
r e l a t i v a d o c o m m e r c i o , por u m a c a r t a r é g i a q u e a n n u l i o u
ainda que transitoriamente o privilegio e o m o n o p ó l i o
q u e a C o m p a n h i a t i n h a s o b r e os q u a t r o p r o d u e t o s , de
q u e t e m o s f a l l a d o . (1)
E e n t ã o os p o d e r e s p ú b l i c o s c o m e ç a r a m a t i r a r d o
i m p o s t o da a g u a r d e n t e os e l e m e n t o s da r e n d a p a r a os
serviço publico.
P r o d u z i u mais a v a n t a g e m d a r e v o g a ç ã o do i m -
p o s t o pessoal, c o m q u e S a l v a d o r q u i z a u g m e n t a r a
g u a r n i ç â o da c i d a d e , q u e f i c o u nas q u a t r o c o m p a n h i a s ,
conforme prescrevia « lei, c u j a e x e c u ç ã o s ó o sacrifício
dos r e v o l u c i o n á r i o s a l c a n ç o u .
Mas, o u t r a s causas d a crise e c o n ô m i c a e financeira
continuaram a agir e ella continuou a p r e n d e r a a t t e n ç ã o
dos g o v e r n o s , p o r q u e se de u m l a d o e r a m r e v o g a d o s
iinp.>s:os, p o r o u t r o l a d o e r a m i n s t i t u í d o s d o n a t i v o s ,
pelos q u a e s d e f i n h a v a a p r o d u c ç ã o a g r í c o l a d o R i o .
M a s , e s t u d e m o s o g o v e r n o d e P e d r o de M e l l o .
D o u s factos de a l i a i m p o r t â n c i a c o i n c i d i r a m c o m o
i n i c i o de sua a d m i n i s t r a ç ã o : — u m d e p o l í t i c a i n t e r n a
e outro dc política externa.
A o assumir o g o v e r n o t i a B a h i a , o C o n d e d e Ó b i d o s
achou p r o f u n d a m e n t e anarchisada a a d m i n i s t r a ç ã o , p e l o
excesso de a u t o n o m i a e j u r i s d i c ç ã o eom q u e S a l v a d o r
g o v e r n a r a o R i o de J a n e i r o , c o m g r a v e s p r e j u í z o s das
a t l r i b u i ç õ e s do g o v e r n o g e r a l . E esse seu c o n c e i t o n ã o

(1) Q"*ud<? tratarmos da oryani*.ir;V> tributaria da capi-.ania, no século


. nos eslernieremcs sobre cs:c as$un>pto,
V -
— 221 —

c a l a na p r i m e i r a c a r t a q u e escreve a P e d r o de M e l l o ,
a c o m p a n h a n d o o r e g i m e n t o de 1.° de O u t u b r o d c 1 6 6 3 ,
com o qual d e v i a g o v e r n a r e administrar a capitania, e
na q u a l « e s t r a n h a q u e seus antecessores consentissem
na i n v a s ã o q u e fizeram os g o v e r n a d o r e s de P e r n a m b u c o
c R i o á s suas a t t r i b u i ç õ e » . (1)
E r a sem f u n d a m e n t o l e g a l essa estranheza, p o r q u e
o e x c e s s o de j u r i s d i c ç ã o c o m q u e S a l v a d o r g o v e r n a v a
o R i o , f e l - o e m nome de sua c a r t a de n o m e a ç ã o : F ô r a
r o m e a d o g o v e r n a d o r das tres c a p i t a n i a s d o s u l , d e s l i -
gadas de t o d o da B a h i a .
O s seus suecessores n ã o fizeram m a i s do q u e c u m -
p r i r a o r d e m r e g i a . Por carta d c 16 de J a n e i r o de 1 6 Õ 7 ,
o g o v e r n a d o r d a Bahia c o m m u n i c a ao d o E s p i r i t o S a n t o
« q u e o r e i r e s o l v e u s e p a r a r essa c a p i t a n i a da j u r i s d i c ç ã o
d a B a h i a , para s u b m e t t c l a á d o R i o » . ( 2 )
> E s t a r e f o r m a da a d m i n i s t r a ç ã o nas c a p i t a n i a s d o
s u l , c u j a s é d e devia ser o R i o , pelas suas c o n d i c ç õ e s ,
n ã o d e i x o u de trazer i n c o n v e n i e n t e s e d e s v a n t a g e n s ao
serviço publico.
E si n ã o f ô r a a p r u d c n c i a d e P e d r o d c M e l l o e as
suas t e n d ê n c i a s de ser m a i s o b e d i e n t e á s p r e s c r i p ç õ e s da
lei d o q u e á sua v a i d a d e pessoal, por c e r t o q u e u m r o m -
p i m e n t o c e l l o c a r i a e m a t t r i t o os clôis g o v e r n o s , p o r q u e ,
o da Bahia, mais realista d o q u e o r e i , era por demais
cioso de sua j u r i s d i c ç ã o .
A s s i m è* q u e a C â m a r a d o R i o t e n d o l a n ç a d o v e r -
d a d e i r o s impostos d e c o n s u m o s o b r e os p r o d u e t o s ex-
portados pelas capitanias de S. V i c e n t e e Nossa Senhora

(1) Do t i v . da COÜ.—DÍÍS. SrVís.—dft 1(W3—74 d i Bibl. fsac. dc 26 d


Oulubro dc 1663. Eslranba que s<-u* anitcessores weutissem na invasão qu c

fitei um os goycruadórc* de Pcrnainbueá c Rio as suas altribuicür'. Para


ruinene a copia do ReRíaiento dns capitâcs-moíis* da todas as capitanias, pel"
qual tem elles de sc dirigíi, dizendo tflnibèm para dixer ao ouvidor «nào u»o
daqui cm diante da jurisdicção do ouvidor geral da repartição do sul, por não
ser mais u.uc ouvidor dc«sa CàpilanJa e como tul não lhe deixara V. S. Wr,
Que supposto por -eus antecessores tiveram fundamento pata a jurisdicção
do sul, nã .separação que otcasionou no governo dc Salvador Correio, esle ficou
cessado, porque o meu reduzio todã*ftacapitania* do Brazil a sua imuiediata
obediência.
(2) CW. cit. dâ Bibl. Nac.
222 —

da C o n c e i ç ã o de 8 6 r é i s c m cada p i p a de v i n h o e d u a s
patacas sobre a n o b a de f u m o , o conde d e Ó b i d o s o r d e -
nou a r e v o g a ç ã o destes i m p o s t o s . (1)
Esse recurso era p a r a acudir ao p a g a m e n t o dos 2 6
m i l cruzados e m q u e f o i a r b i t r a d a a c a p i t a n i a do R i o ,
c o m o d o n a t i v o á paz d e H o l l a n d a e ao c a s a m e n t o d a
princeza d a G r ã - B r e t a n h a .
R e c o r r e u l a m b e m a C â m a r a a i m p o s t o s s o b r e as
d r o g a s u l t r a m a r i n a s , d e p r e f e r e n c i a aos p r o d u e t o s d a
terra. O Conde ce Ó b i d o s mandou revogal-os. ( 2 )
N ã o q u e r e n d o Pedro de M e l l o d a r posse ao c a p i t ã o -
m ó r de Caco F r i o J o s é V a r c l l a , n o m e a d o p e l o g o v e r n o
da Bahia, pelos precedentes d e seus antecessores q u e
m a n t i n h a m sob sua j u r i s d i c ç ã o essa c a p i t a n i a , o C o n d e
d e Ó b i d o s , c m c a r t a de 7 d e A b r i l , o r d e n a o acto d a
posse, p o r ella estar sob o d o m í n i o d ü g o v e r n o
g e r a l . (Z)

F.m carta a Pedro dc Mello, d? Fevereiro de 1664, (Co.r*. cif.) diz : por
<:ai"lH* que recebeu das capitanias de S. Vicente c K. S. da Conceição, reproícn-
13" que depois dc a cr lançado o donativo que está capitania tem de dar, a câma-
ra dc nio impoz 86 rs. cm c.*da pipa d" vinho que -..iriUse para .1ritesitiácapi-
duas patacas cm cala ario\i de Fumo que dolbts entrassem.
Ordena s"jào suspensas eslas impo-dp'»^.
:21 Carta de 7 de Abril. [Çod. cit.)
(ó) E' um importante do:*. tr-<n cada. cm que iniciamos o nosso estndn
1

sobre as capitanias do sul, 1 apihilu cm qns fazemos a historia tcrrtorial do*


Rio. Transcievem^-a do da Bibliotrca 1J663—76. Dccs. Hist.; :
Vi o quo V. S, m^ f->i:revc acerca do provimento que fiz do capitão mr>r
de Cabo-Frb> na pessoa de Ji>sS Varclla c as razoe- em que se fundou pa:a llie
niiii dsr a posse.
Do conde se póOe V. S. sjgurar cm è tln o mau seu, que a ne-
nhum su;;jto que prtSwt :-r dó rirnzil ha. de preferir nos aftcctos dc
agradar a V S. e d<-*pjat-I!:™ grande j:tri*»1i;çííi> r:e*M: governo. F. sobre esta
siipposiçao deva V. S. nGierMi iedi .1 conliaii^ que ü,-a as minhas ordens se
dirigem a cmi pi>_ra observância das leis d- S. M.. ctr.a intenção foi
a reslhnir e*to governo..... da jnrisóierSo úúe Salvador Correia e Francisoü do
Hritto :inh;'o diminuído.
Por esta ran.§o pas<ci a ordem ger.il que enviei a V. S. para a separação
dí Iodas as eapiuiliiie. tutrc a«. maí* e-u UJUB O Ilrazil está dividido. ó"uma a
capjianía de Çábo Frio a qual com*ca 1:0 llio da Pa.rqliyha. donde acaba a do
Ksp, Sar.to e acaba onde principia esla do Rio de Jnne ro. :

F. esta Havendo sido cm ssn principio de um donatário se vinculou depois


a curoadeqr.'- hoje 1; nella houve uma cidade, de q nflo e\i;te ulais que as
u c

p-..:c„s ca-,as que V. S. dií tem. ruína a que chegou pela inv.isão dos francezes
* vismüança il..s cxnpw de (.TlayaUcazcs e c^ss^udo :S:A .ausa, como nau Unha
do : .'ano c ns moradores ,1., Kio ioram povo:mdo aquellcs campos, uao só
houve omisso -m rcodifiear a cidade, s=r\dn uuia das mais antigas da costa
Ou MM ; mas cuidado parti ubtr aos moradores do mesmo Rio, de .1 fazerem con-
servar por seus motivos naquellas ruinas ou...
—2223 -

Mas, os precedentes tinhão creado raízes. Estas


reiteradas ordens n à o p r i v a r a m que. dahi em diante,
a l g u n s c a p i t ã e s m o r e s fossem n o m e a d o s p e l o g o v e r n o
d o R i o , c o m o s u e c e d e u e m 1 6 0 8 . (1)

E tanto que até a artilhem qut* alli havia acabaram com um governador
dessa praça mandou sc llie tirar.
Todas as mais eapilaubu» do Estado tem sens capilão-morcs e os ofliciaes
de justiça, milícia c fa*<-nõa que llics .-ao ueccssartòfc e 0 j j | í,nrr.ediatiis a
c

este governo c aquella lendo uiuiío mais moradores r-ndendo mais que algu-
mas das outras, c a untea qae está som lorma, nem oQjciaés de justiça, sendo
da coroa. E como tal dislmeta c separada desde sua vipgem. da do Rio.
Em vários capitules do Rcgimenio deste governo encarrega Kl-Rci o au-
gmento dn listado, a fortiiica.ào dc todos portos dclle, e coni ene a resci mentor
a conservação da jurisdicção . •..-te governo.
Por todo o referido c náo ser j.is;., e sendo âijnéUa capitania da corAa^^
Se nao attenda ao seu augmeuto, quat,dii se lbc deve fa/er maior favor, para
uão ser menos que os du di^aurius, mandei passara José Varella sua patente
dc capitao-niór, que apresentou a V. S„ seguindo os exemplos que bavia das
patentes que lhes passarão dc capÍMO«mor da mesma capi:aiiia 0 Conde dc
Castclho Melhor c Francisco Barrelio antes a depois de Salvador C.
dc Sá, que foi quem mais pr.-curou iseir.pt»s as capitanias do sul deste governo,
com J que se verifica que sempre os governadores geraei, e nào os do Rio de
Janeiro foráo os que ali provcrài os capita es-mores.
E sendo tanto dos governadores gene* esti jurisdicção e El-Kei Un
cuidadoso deqjie se uão perca cousa alguoia delia, que por carta sua se sem o
mandar estranhar a Francisco Darrctto, qoando 1'randsco de Britto sc introdu-
ziu na jurisdicção da Farahyba, confessando êlle que outrem, sendo subdito seu
pretendesse entrar na dcnc governo, ainda que fosse com subordinação sua
como V. S. vem da copia inclusa, nào devo V. S. querer que deixe eu dc respei-
tar muito aquellc exemplo; principalmente quando £ tanto a favor da jurisdi •
cçào dc um governo a que ccerto vira V. S. muito cudo e então estimaria sol-
Ucitur-lhc maior grandeza e I -ic.
Nem 6 inconveniente para ser capiiania livre rematarem-sc os dízimos
delia no Rio, porque lambem Sergipe, llhòos. Perto Seguro s3o capitanias livres
t deixão seus dízimos lerem HIIVIU.'! idos nestu praça. H meus ler* boje poucas
cisas, porouc de humildes pnucipios nascerão grandes cidades, nem de ser a
patente de El-Rei sò cap>i.io e nflo capitão-tudr", porque facilmente podo ser des-
cuido da secietaiia, uias na mesma posse que pnr ella se deu c no assento que
delia se fez se vè do mesmo papel que V. S. enviou, dc ser capilào-rnór.
Com todas estas razoes mo ptrecc estar justificada a separação daquelli capitania
e a patente de capitao-mòr que delia Jci a José Varclla.
Pelo que deve V. S. ser servido dcixal-o louiar posse delia e qne exerça
o seu posto na forma que o nomiei. ii S o que sobre indo cncommcndo a V. S.
éque tcnba entendido a mim que dcsejii muito que venha V. S. proycr desta
lugar tudo o que locar àq-iella capitania, ainda que vença a morlitii-çào do
voltar ao Brazil."
(I) Do mesmo (-W. cit. ev,trahimos a seguinte t-irta ao governador do
Rio, de 19 de Setembro de lâdfi, pelo da Bahia. Ale* i dre dc S. Freire ;
«Os moradores dc Cabo Frio tem representado a este governo o detrimen-
to que padecem cm sc lhes mandar tomar todo o sal - bs <^ng.<reni a leval-o a
essa capitania, sendo aquelbi ltvr» e isempta dc sens ministros e chegando aqui
um barcu da 1'arabyba souhe que u capiúo daqudle lugar o era por patente do
dar
esphcra,
V.
pode
mente
Frio
Rio
fai S,
exemplo
gosto;
dccestender
V.
Mas
que
aJaneiro,
que
obediência
S.como
folgaria
abi
sabe
da
náo
a sc
aircmala(.io
para
ella
quam
cada
cspcríiucnlas«e
rematam
eu
oaser
provimento
capitania
muito
jurisdicção
amante
isempta
os
das
que'a
di/imos
sou
tem
diziin.i-,
V.
do
delia.
do
jumdiecào
cS.
aRio,
Rio
sua
qne
as
dcnsiu
Ucm
eslrcitesas
eporque
sua*
não
.tÍO
de
pagar-sc
sei
desse
ha
puvoaçoes
aCabo
que
os
este
cousa
dellc.
governo
de
teve
goverim
Frio
ao
em
Sergipe
e pouca
seu
Caiupns
cque
tivesse
detoca
capitào-niór
S.
nito
sc
coma
M.,
arrematam
inimediata-
;tao
deseje
mas
ugrande
scCabo
não
não
no
lhe
T e n d o - s e firmado a c o m p e t ê n c i a j u d i c i a r i a do R i o
de suas p r ó p r i a s a u t o r i d a d e s j u l g a r e m os seus h a b i -
tantes, o g o v e r n o d a B a h i a a n n u l l o u essa a t t r i b u i -
çâo. ( i )
Estes avisos r e i t e r a d o s n ã o p o d i a m d e i x a r de m a g o a r
Pedro de M e l l o , q u e se sentia desgostoso, pelas restric-
ç ô e s á s suas f u n e ç õ e s e á e s p h e r a d e a c ç ã o a d m i n i s t r a -
t i v a e p o l í t i c a da c i r c u m s c r i p ç ã o q u e g o v e r n a v a e p e l a s
d i f i c u l d a d e s q u e t i n h a de vencer. ( 2 )
E i s o facto i m p o r t a n t e de p o l í t i c a i n t e r n a , a q u e a c i -
•toiu nos r e f e r i m o s , ü R i o de J a n e i r o decahia p o l í t i c a e
a d m i n i s t r a t i v a m e n t e d a p o s i ç ã o , ã q u e c h e g a r a , de
m e t r ó p o l e do s u l , j u r i s d i e c i o n a n d o p o r seu p o v o e suas
a u t o r i d a d e s as capitanias d o K s p i r i t o - S a n t a , C a b o F r i o ,
S . V i c e n t e e N . S . d a C o n c e i ç ã o . A g o r a n i v c l l a v a se
com qualquer dellas, '
A e m a n c i p a ç ã o politica e a d m i n i s t r a t i v a do R i o l i -
gava-se p r i n c i p a l m e n t e á q u e s t ã o das m i n a s , de q u e a
m e t r ó p o l e a u l e r i a g r a n d e s v a n t a g e n s c ao p r e s t i g i o pes-

na Mania c cm Pernambuco, os dc Rio Grande e nem por isso Perna xbneo


tem jurisdicção no Rio e Bahia em Sergipe. V. S, ter entendido isto assiin e
ordena que sc não laça mais violência aqnelic povo sobre sal c que livremente
o vendam, pagando o que se «leve dc tributo a S. M. E si ha nrde altugutuC
sDa neste sentido. m'a envie pata mo *e'r presente, f. no que toca ao mais a este
governo, ha de recorrer sempre "S sc-us moradores c nào ao Rio que, quando
v*, S. leve gosto que sirva -ài algum creado sen, com o menor aviso qec tenha
de V. S. mandarei provisão ò furam sempre com particular vontade tudo o que
endender a tem V. S. a quem ü. G.
ilí Carta dc 3 dc Setembro de 1C64 do governo da Bahia ao do Rio. Cod.
<it, : Vejo o que V. S, mc represema acerca d.i* lívranças que sc lhe pedem e
estilo que h.ivia nessa praça no tempo do sargento-mór Martins Correia Vasques.
Dem quizera servir, mas a fazenda real não pcruntte. Nilo devemos seguir os
estilos de Salvador.
(2) Carta do Conde de Óbidos a Pedro de MeltO de 7 do Abril dc 1064
{Cod. íit.) Mui particular estimação fiz desta carta de 16 da Janeiro passado,
em que V, S. sa serviu dar-mc conta dc ter recebido as minhas. Nenhum.......
dos que me signitica seus affcctos Iguala a segurança que delles lenho, nem eu
fico devedor a V. S. no alívio do meter no Brazil para o servir, aebando-se V. S.
nellc titoenganado, porque como eu o conhecer, o não conheci quando cheguei
o ter V. S. pnr companheiro nesta cidade de desterrados, para ser menor o
desterro. Mnr.u sinte passar V. S, tão de comente, Só nas esperanças dc n deixar
r

consiste o remédio dos invejosos que V, S. jusinluiente tem, das oceasioes qne
afortuna nega ao Seu valor e deu aos qne sc acharam nas victoiias do anuo pas-
sado. Neste que vem cspciodaia V, S, boa nova de Outras.
As qu> dão os navios que agora chegaram, além das que os da frota trou-
xeram, nãoficaremconcluídos os casamentos Dcl-Rci nem Senhor c Sereníssimo
Infante em braaça Jdâ outras uoticias de Portugal.) As da saúde de V. S.
será sempre de muito gosto, mas. maiores si V, S. sa acompanhar de muitas
Qccasíoes do seu serviço, 1). G. Conde dc Olides,
soai de S a l v a d o r Beneyides, c u j a v a i d a d e , a c o n v i c ç ã o
dos seus grandes serviços, nào lhe permittiamcollocar-se
sob a jurisdicção dos governos da Bahia que se consti-
tuíam antes como seus satélites, do que como centro de
maior grandesa.
Não foi sem protesto do governo da Bahia, que Sal-
vador alcançou a conquista da emancipação do Rio.
Em carta de 22 de Agosto de 1653 ao rei Francis-
co Barretto procura demonstrar que, em face dos ter-
mos de sua provisão dc nomeação, Espirito-Santo e
Cabo-Frio não deviam ser desligados da Bahia. (1)
Mas, o silencio do rei confirmou a legitimidade da
emancipação, que não foi uma conquista real que fizesse
a própria capitania, a custa da sua prosperidade e des-
envolvimento. Oinsuccesso das minas e o fim do governo
de - Salvador vieram cellocal-a na sua posição primitiva.

(1) Poi V. M. servido mand.tr poi caria dc 3 dc Dezembro dc l&ifi que


S. C. de Sá c Bcn. governasse a capitania do Rio dc Janeiro tom as mais da
rcp-iNição do sol e insinuando » mesmo sua pólente c alvará prelcndc qua
comece o districto dc sua ri dicção d.i eapilacia do Esp. Sanlo por nma caria
que traz de V. M. para os oftieiaes da câmara dclíe ; dando eu cumprimento
ao que V. M. manda na patente que me apresentou &alvado COÍU sua chegada
r

a esta praça, aonde fica para tomara do Rir> de Janeiro, nié pareceu répí^serltar
a V. M, as duvidas que sc podem otTcrecer com >s intentos de S. Cor. para que
%

mande resolvei o mie formais conveniente ao real serviço de V. M.


As capitanias do Espirito Santo c Cabo Frio estão ao r.orte do Rio de Ja-
neiro c r.ao ao sul delia, romo as mais nomeações na patente que traz o gover-
nador c como nella não se faz meilsao das lacs capitania* o licam ao Norte da
do Rio dc Janeiro e nfln ao >nl. parece menos ajustado a ordem d* V. SJ.,
Salvador no que pretende, querendo que cntliéee siua iuriídicçao do Espirito
Santo e nào do llio, como ensina sua patente e Alvará, que cu duvido a entre-
ga destas capitania»: mas cu poz o cumpra-se em sua patente c me deu pnr
desobrigado da bomeuahcm dcllas na forma disposla p~U> Alvará du S. M. a
nüo faço duvida que Salvador gdverna nao digo eu da capitaoia do Rsp. Sonto
para o sul senão também as mais capitania» pari o norte, porque si aisim como
terminou sua jurisdicção em aquella íijó, dissera queria govertar o Esudo
todo debaixo aas mesmas ordens que traria) Mie havia dc entregar logo u go-
1

verno geral Jclle. por mio me oceasionar outra representação como V. M. mc


mandou dai pelas duvidas dc Pernambuco.
Na dita patente dittV. M. estará as sliáS ordens as justiças daquclla* ca-
pitanias, fazendo o que lbe-ordenar, e ísndo eslas palavras geráflfiéui todás is
patentes dos governadores, os intcrprctim, dizendo onde fenecer as caixas da
justiça perante elle e náo na Relação Jcslc listado, donde vem por appcllaçá" e
os que não 'ab^m na alçada passão a esse Reino, conforme as ord?o' Jc V, M
C se :>quella da patente d*rógj estas, deve S. M. mandar me avisar, paia que
eu n3o faça duvida, em caso que Salvauor dé r^-cu,:,io .••> quif Hi, porqit"
minha tcnçào nao c m «isque lembrar o* aécld ritas que ^ma^cao o tempo tom
esta vinco de Salvador Corrêa, pau que V, M, o tenha dc poder mandar o que
for mais Se'viço seu,
liar, ao1).rei
( i ,Codi.
Pranoisco
L, daBarretto. (Carl. HM.
col. — Does. de 22Hf-fc*—63).
de Agosto de 1859 do Francisco
— 226 —

Si p e l o lado p o l í t i c o e A d m i n i s t r a t i v o o R i o de Ja-
n e i r o decahia, n i v e l a n d o se c o m q u a l q u e r c a p i t a n i a da
c o l ô n i a , o m e s m o succcdia p e l o lado j u d i c i á r i o .
A p r o v i s ã o d o d i . M a n o e l D i a s Raposo, n o m e a d o
-

o u v i d o r do R i o . de l ( í de J a n e i r o de 16(14, é a c o m p a -
nhada i l o R e g i m e n t o d c 2.Í do O u t u b r o d o m e s m o a n n o
( 1 ) . em q u e a l a t i t u d e das f u n r ç ô e s j u d i c i a r i a s e s t á res-
t r i c t a c o n s i d e r a v e l m e n t e , c o m o m o s t r a r e m o s no c a p i t u l o
c m q u e t r a t a r m o s da o r g a n i s a ç ã o j u d i c i a r i a d a c i d a d e ,
no s é c u l o 1 7 " .
O facto d c p o l í t i c a e x t e r n a q u e v e i u echoar na v i d a
t r i b u t a r i a da c a p i t a n i a , f o i a paz c e l e b r a d a pela m e t r ó -
pole com a H o l l a n d a e o casamento d a I n f a n t a c o m o
s o b e r a n o da I n g l a t e r r a , p a r a c u j o d o t e e as despezas d o
t r a c t a d o da paz d e v i a s ó a C a p i t a n i a d o R i o c o n t r i b u i r
c o m 2(1 m i l cruzados, e m d o i s annos. A o p r ó p r i o g o v e r -
n a d o r P e d r o de M e l l o fez o rei essa c o m m u n i c a ç â o ' p o r
c a r t a de 4 d e F e v e r e i r o de 1 6 6 2 . ( 2 )
N ã o se d e m o r o u e m fazer a d e v i d a c o m m u n i c a ç â o ,
á c â m a r a , c o m q u e m c o m b i n o u as medidas pelas
quaes d e v i a t o r n a r c f f e c t i v o o d o n a t i v o . F o i o assucar
t a x a d o em 4 ° / , q u e r o q u e entrasse p a r a o c o n s u m o ,
0

q u e r o q u e fosse e x p o r t a d o , assim c o m o todos os p r o d u -


ctos i m p o r t a d o s na t a x a de 2 ° / ( 3 ) , O u t r a s m e d i d a s
0

nscaes f o r ã o t o m a d a s e m r e l a ç ã o ao sal e o u t r a s m e r -
cadorias.
T u d o isto f o i i n s u f i c i e n t e para desobrigar-se a c â -
m a r a d o p a g a m e n t o d o d o n a t i v o . P o r d u a s vezes r e p r e -
sentou ao s o b e r a n o s o b r e o assumpto, demonstrando
c o m os factos a s i t u a ç ã o p r e c á r i a d a c a p i t a n i a , financei-
r a e e c o n ô m i c a e a g o r a d e v a s t a d a pela e p i d e m i a d a
v a r í o l a e p o r u m a secca de dois annos, sem i g u a l a t é
aquella é p o c a .

!l> Arch. ,lo Dist, Fe#, pg, 297 vol, Jc 1894.


(2) Esta carta esta puble. nu vol, 4' dos Annjes Ae S. Lisboa, pag. 9S.
(3) As caixas do assucar resultantes do pagamento do donativo íevarilo
a marca de logo a palavra—Rei.—As despezas de encaxOUmemo desse assucar,
sua conduçíhi para o pano, deviam correr por conta do propiietario.
As caixas nac deviâo ter menos de 20 arrobas.
— 227 —

E p o r duas vezes a m e t r ó p o l e n ã o a t t e n d e as re-


p r e s e n t a ç õ e s , e x i g i n d o a remessa d o i m p o r t â n c i a do
s u b s i d i o , q u e r e m lettras, q u e r em p r o d n e t o s d o paiz.
E n t ã o de m a i o r franqueza c sinceridade u s ã o os ca-
m a r i s t a s , na c a r t a d e 1 0 de M a r ç o d e 1666,- « O s m o -
radores e s t ã o t ã o p e r d i d o s e i m p o s s i b i l i t a d o s , dizia a
c â m a r a , q u e n à o p o d e m a c u d i r as necessidades das suas
casas c f a m í l i a s , q u a n t o mais c o n c o r r e r e m c o m o dona-
t i v o ; o q u e t i m b e m nos t e m p e r p l e x o e d u v i d o s o s , se
p o d e r e m o s r e m e t t e r a Vossa M a g e s t a d e a c o n t r i b u i ç ã o
d e s t e a n n o . p o r nos p a r e c e r g c n e i o t!e i m p i e d a d e fazer
c o b r a n ç a s e e x e c u ç õ e s v i o l e n t a s c m t e m p o de t a n t a s
m i s é r i a s , e m q u e se p o d e d u v i d a r sc os C i d a d ã o s s ã o
c a d á v e r e s c m p ú t r i d a d i s s o l u ç ã o , o u pessoas vivas d e f i -
nhadas e p a l l i d a s , q u e e x c i t ã o a l a s t i m a
c as l a g r i m a s .
O q u ç a V o s s a M a g e s t a d e represen i a m o s -1!".e t ã o acom-
p a n h a d o da v e r d a d e c o m o d a r a z ã o : se executamos no
m e i o de t a n t a m i s é r i a aos d e v e d o r e s insoluveis, Vossa
M a g e s t a d e s ó consegue a r r u i n a r .í e m p o b r e c e r f a m í l i a s
inteiras, t r o c à o - s c os nomes dos d e v e d o r e s , mas n ã o sc
consegue o fim d o r e c m b o l s a m e n t o d o d o n a t i v o : l a n -
ç a m o - n o s nos b r a ç o s da R e d c l e m ê n c i a e b e n i g n i d a d e
de Vossa Magestr.de, e s p e r a n d o a sua b e n e v o l a atten-
ç ã o no q u e lhe r e f e r i m o s , e o b o m despacho q u e p r e t e n -
d e m o s ( l ) SÓ a m i s e r i a p a t e n t e a d a c m d o c u m e n t o o f f i c i a l
p o d i a d e m o v e r a clemcr.ciada c o r o a , — i n d i f f e r c r . ç a — o u
i n e p t a e n t r e t a n t o p a r a t o m a r medidas, q u e solvessem
a crise q u e de a l g u n s annos assolava a capitania.
Perturbada por uma r e v o l u ç ã o , que s ó o c p : Í : h o
e as i l l e g a l i d a d e s d e r a m l u g a r c sob u m peso t i i b u t a r i o
q u e s u f f o c a v a a p r o d u c ç ã o e a r r u i n a v a o c--mniercio,
pela f a l t a de l i b e r d a d e c o m m c r c i a l e i n d u s t r i a l , s ó a l -
c a n ç o u , no p r i m e i r o anno do d o n a t i v o , r e u n i r 13 a 1 4
mil cruzados,
E r a poia u m i m p o s s í v e l a b s o l u t o r e u n i r 2 6 m i l
a n u u a l m e n t c c por e s p a ç o de 16 annos.

(1> Anutos do Uio de Janeiro, par S. Lisbia, vol, 4' pig. tW,
— 228 —

A c o n c e s s ã o regia consistiu c m c o n t r i b u i r a capi-


tania c o m 4 0 0 m i l cruzados c m 2 4 a n n o s . ( 1 )
E e n t ã o o recurso p a r a l e v a n t a r o d o n a t i v o f o i o
i m p o s t o pessoal, na taxa d e õ ° / , c m r e l a ç ã o as retidas
0

de cada u m , p r o v e n i e n t e s das p r o p r i e d a d e s , a l u g u e l , es-


cravos, a g u a r d e n t e , f u m o , azeite de p e i x e , e todos os
o u t r o s p r o d u e t o s da c o l ô n i a .
N ã o o b s t a n t e d e n o m i n a r e m os d o c u m e n t o s esse
i m p o s t o de imposto pessoal, p r e f e r i m o s c h a m a l - o de i m -
posto s o b r e a r e n d a q u e e n t r e n ó s , f o i c r e a d o d e s d e
esse t e m p o . S ó a R e p u b l i c a t e m l h e f e i t o r e s i s t ê n c i a ,
e m defesa d o c a p i t a l i s m o e m q u e t a n t o se e m b r í a g ã o os
p e d e r e s p n b l i c o s . A l é m destas m c d i d a s . n c â m a r a p e r m i t -
t i u o f a b r i c o d a a g u a r d e n t e , fazcmdo-se"a v e n d a p o r ç o n -
t r a c t o . c u j o r e s u l t a d o d e v i a ser a p p l i c a d o á i n f a n t e r i a .
F o i modificado o p a d r ã o da moeda, por p r o v i s ã o
do g o v e r n o d a B a h i a d c (í de J u l h o de 1 6 6 3 , p e l o ' q u a l
as d e . >!<<íõ4 d c o u r o ficarião v a l e n d a 4 & as de
:
t 1$760,
2 $ ; o m e i o d o b r ã o , m i l r é i s . Nos sello;: q u e c o r r i ã o a
quatr<» centos e o i t e n t a r é i s , seis centos r é i s ; nos cruza-
dos, q u i n h e n t o s r é i s , ; nos m e y o s cruzados, d u z e n t o s e
c i n c o e n t a r é i s ; nos m e y o s c e l l o s d e d u z e n t o s e q u a r e n -
t a r é i s , Irezentos r é i s , nas m c y a s patacas, d u z e n t o s r é i s ,
nas m o e d a s d e cento e v i n t e r é i s , c e n t o e c i n c o e n t a
r é i s , nas de sessenta r é i s , o i t e n t a r é i s , e n a s q u e se acha-
r e m d e c i n c o e n t a r é i s , sessenta r é i s , p o r se e v i t a r e m
nestas o p r e j u í z o de n ã o t e r e m t r o c o de o u t r o m o d o ( 2 ) .
Os h a b i t a n t e s f o r ã o o b r i g a d o s no praso d e u m mez,
a l e v a r as m o e d a s a casa d o c u n h o .
F o i c r e a d o o c o r r e i o no R i o ( F e v e r e i r o d c 1 6 6 3 ; e
u m a ofricuia de c o n s t r u c ç ã o d e f r a g a t a s na i l h a G r a n d e
(carta r e g i a d c 2 de J a n e i r o d e l í i 6 6 ) e i n s t i t u í d o o p a -
pel sellado. c o m o i m p o s t o d e guerr a, e m v i s t a das hos-
t i l i d a d e s q u e se l e v a n t a r a m p o r esse t e m p o e n t r e a m e -
t r ó p o l e c Castella.

<1) Can.i regi-i dc 12 dc Julho dc Jfififi.


[>) Ardi, do piílr. Federal, vol. do l&Dõ, pag. 453.
— 229 —

S u c c e d e u a P e d r o de M e l l o , D . P e d r o M a s c a r e -
nhas ( 1 ) , i r m ã o d o C o n d e de Ó b i d o s , g o v e r n a d o r g e r a l ,
a s s u m i n d o a a d m i n i s t r a ç ã o á 19 de M a i o de l f i í í í í . (2)
N e s t e g o v e r n o , d e r ã o - s e q u e s t õ e s p o l í t i c a s , fis-
caes e a d m i n i s t r a t i v a s d c c e r t a i m p o r t â n c i a , n a s q u a e s
o critério e tino do administrador d e i x a r ã o muito a
desejar. A crise n ã o m e l h o r a r a . P o r conseguinte, a
r e m e s s a dos d o n a t i v o s e dos i m p o s t o s estava atrazada.
O s contractadorets n ã o p u d i ã o c u m p r i r suas o b r i g a ç õ e s .
U m dos p r i m e i r o s c u i d a d o s d c D . P e d r o f o i p ô r e m
d i a n t e t o d o s os seus c o m p r o m i s s o s . (< {) !

N o seu p r i m e i r o a n n o de g o v e r n o c o b r o u c o m
t a n t o interesse a d i v i d i passiva d a c a p i t a n i a , qu<^ em
4 de M ü r ç o d c lu"f!7, o r e i « r a g r a d e c c o m o d o p o r q u e
t e m c u m p r i d o as o r d e n s passadas a n t e r i o r m e n t e do se
c o b r a r as d i v i d a s atrasadas da C o m p a n h i a , segundo (ora
i n f o r m a d o por ella m e s m a . »
E ' fácil c o m p r e h e n d e r a a n t i p a t h y a q u e esse por-
g r a m m a de a d m i n i s t r a ç ã o , i r n p o p u l a r i s o u D . Pedro, de
somente f o r ç a r a a r r e c a d a ç ã o dos i m p o s t o s , por t o d o s
processos, os mais v i o l e n t o s , e m u m a s i t u a ç ã o de m i -
s é r i a e c o n ô m i c a e financeira, sem a mais simples m e -
d i d a d e u t i l i d a d e ao b e m p u b l i c o e á p r o s p e r í d a m o r a l
e m a t e r i a l da c a p i t a n i a .
D e s d e O u t u b r o de líífUí, a m e t r ó p o l e c o m m u n í -
cava ao g o v e r n o do R i o os intentos de Castella de i n -

í'l) Diz Pizairo que íoi nnincadu por provisão dc 7 dr Dezembro dc


lOIB». N.*io encouIramos esse documento.
|2j Aitn.—Silv.i Li-boa, 4" vul. pag. 199. Ilir Piíarro que Pedro de Mello
nao tãnalisou s*u tempo <1 .e governo, h,(v:ndo a nileriuidade do governo d' Mar-
fim Correta Vasqueanes que o passou a I). Pedro,
Não encontramos cm nossa- pèsquliâs, nenhum mis. qn« confirme essa
n.**erç-io, que Piiárrb baseia na carLi de 2.1 dc Fev^rrim de 1867, em qui o so-
herano pede iafoliüaçõe-* io governador do Rio <«obre uma pedicao d" V..»rtim
Correia Vasqueanes de fundar uma villa ÈHI 1'acaty e obter esta* terr-is por
doacçòcs. Diz o cbronista que, ncs<a car:a. fora elle tratado corno governador
do Rio: nào c tal.
Letuol-a no original na collecçáo dc ..irias re«ias do Arrft. PubUíl». li
dirigida a 1). Fedro de Masearcnuas. Os Arch. do Disl. Fnf; (anno de lSDGj
publicam-n'a em sua _ra, á pají, 10.
•3) Carta regia de 4 dc Marc.0 da IdoT-CW. do Arcbito Publica,
— 230 —

v a d i r A n g o l a , o r d e n a n d o q u e recolhesse á c i d a d e t o d a
a i n f a n t e r i a e tratasse d e m e l h o r a r as f o r t i f i c a ç õ e s .
F o r a m e n t ã o l a n ç a d o s os i m p o s t o s d e g u e r r a , c u j a e x e -
c u ç ã o o g o v e r n a d o r d o R i o communicou ao r e i por
carta d e 2 2 d e N o v e m b r o d e 1 6 6 2 . ( p a p e i s e l l a d o ) ( l )
N ã o ha d u v i d a q u e o excesso t r i b u t á r i o p r o l o n -
gava a crise.
A l e m dos d o s i m p o s t o s q u e t e m o s , passado c m
r e v i s ã o e m 1 6 6 4 o R i o f o i o b r i g a d o a s e p a r a r dos c o n -
tractos das dizimas 1 2 3 ^ 1 4 0 , c o m o p r o p r i n a s , p a r a
p a g a m e n t o d o s m i n i s t r o s c mais e m p r e g a d o s d o C o n s e -
l h o U l t r a m a r i n o . ( 2 ) E r a d e b a l d e q u e a c â m a r a re-
clamava.
N e n h u m g o v e r n a d o r a t t e n d i a para essa s i t u a ç ã o ,
a f i m d e fazer u m p r o g r a m m a d e g o v e r n o q u e a l l i v í a s s c
o peso t r i b u t á r i o , s o b o q u a l v i v i a o p o v o .
S ó m e n t e e m 1668 f o i levantado o imposto de
p a p e l selado, q u e e m nada c o n t r i b u i u para c o r r i g i r a
crise, porque applicava-se aos actos c i v i s . ( 3 )
A p r o p ó s i t o d a s u e c e s s ã o d c L). Pedro 11, e m con-
s e q ü ê n c i a da m o r t e d a r a i n h a , a c â m a r a resolveu m a n
dar á c ô r t e u m e m i s s á r i o , para alem de c u m p r i m e n t a r o
p r í n c i p e , i n f o r m a r s o b r e o p é s s i m o e s t a d o da c a p i t a n i a ,
e m r e l a ç ã o ao seu c o m m e r c i o e l a v o u r a c p i n t a r o es-
tado d a o p i n i ã o publica, profundamente adversa ao
g o v e r n a d o r , pela p r i s ã o d o o u v i d o r d r . M a n o e l D i a s
Raposo, arrancado b a r b a r a e t y r a n i c a m e n t e d e s u a ca-
d e i r a pelos agentes d o g o v e r n o , p a r a a p r i s ã o d a c i -
d a d e , simplesmente p o r q u e esse m a g i s t r a d o , c h e i o d e
c i v i s m o , d e altivez, e c o n s c i ê n c i a d o seu d e v e r , a b o r d o u
a q u e s t ã o n o t á v e l c t ã o cheia d e interesses d a d e m a r -
c a ç ã o d a sesmaria d o conselho d a cidade.
A s s u m p t o m u i t a s vezes a g i t a d o c n u n c a r e s o l v i d o ,

(1) Cartas regias de 4 e 1.» de Março dc 1CÕ4 c 1667. C.V/. do Árcfi»


Puht.
\2) Carta regias de 11 de Outubro dc 1664—Cnll. du Arei. Pub!.
(3) Carta regia de Ü3 dtt Üulubro dc 1666— ColI. do Arei, Publ.
231 —

pela i n t e r v e n ç ã o dos p o d e r o s o s e p r i n c i p a l m e n t e dos


j e s u i t a s ( 1 ) , c u j a sesmaria era encravada n a d a c â m a r a
s e g u n d o a l e g a r a m . P o r isso mesmo t o d o s as d i f i c u l -
dades p r o c u r a v ã o l e v a n t a r , todas as vezes q u e a c â -
mara r e u n i d a r e s o l v i a t r a t a r do a s s u m p t o .
E m 1642, resolveu a c â m a r a m a n d a r á corte u m
e m i s s á r i o , c o m p o d e r e s a m p l o s o b t e r do r e i o r d e n s ter-
m i n a n t e s p a r a q u e fossem d e m a r c a d o s d e f i n i t i v a m e n t e
a sesmaria. F o i e s c o l h i d o J o ã o de C a s t i l h o P i n t o , q u e
o b t e v e a p r o v i s ã o r e g i a d e 7 de J a n e i r o de 1 6 4 3 , pela
q u a l « s e m a n d o u m e d i r e d e m a r c a r o t o m b o de todos
os bens, sem q u e q u a e s q u e r e m b a r g o s podessem í a z e r
p a r a r essa d i l i g e n c i a . »
F o i essa p r o v i s ã o e m b a r g a d a pelos j e s u i t a s , sendo
os e m b a r g o s despresados e m p r i m e i r o c s e g u n d o ac-
cordão.
TEntretanto, n ã o f o i e l l a e x e c u t a d a . S o m e n t e 2 4
annos d e p o i s , o d r . D i a s R a p o s o r e s o l v e u e x e c u i a l - a ,
d a n d o c o m e ç o a m e d i ç ã o a 25 de M a i o de 1 6 6 7 . ( 2 )
Q u a n d o t i n h a m 1 3 3 b r a ç a s , achando-se os m e d i -
dores nos m a n g u e s de S. C h r i s t o v ã o , a b a i x o da Bica
dos M a r i n h e i r o s , f o i a m e d i ç ã o e m b a r g a d a pelos j e -
suitas (3).
A g i t a r a m os j e s u i t a s a q u e s t ã o j u d i c i a r i a q u e ,
p r o t e g i d a pelo g o v e r n a d o r d a C a p i t a n i a ( 4 ) , p r o t e l a r a
m e d i ç ã o e suspendel-a. E n t ã o , o dr. D i a s , e m c o r r e i ç ã o
de 2 8 d e M a r ç o de 1 6 6 8 resolveu q u e os o f f i c i a e s da

(1) Desde 1624 u Ouvidor João de Souza Cardcnas r.a correição de Abril
deste anno. ordenou que se incdis>c a* terras da câmara.
(2) Rui ewrrricáo de 26 dc Maio de 1663. •> ouvidor dr. S*lia*ti9o Cardoso
de Sampaio, proveu na torma da Prnvizam dc Sua Altczs Real, digo dc S. M.
ii*es%em, e ..plicassem, os Oíliciaes da Cani na o tombo do Conselho, por ser
em utilidade dos bens dellc. AnA, do Disl. Fia. vol. de 1895 pjr. 533.
Alcançaram potelar a tentativa deste magistrado.
{Z- Em correição de .11 dc Deíerobro, os membros da tintara ,le accordo
com o ouvidor resolverão que «porquanto o* ditos Officiaes da Cimara estavam
enfim de seu anno, e tinham dado principio as mediçõr* das terras do Conselho.
e traziam actualmcnte demanda com o* Hcverendu* Padres da Companhia da
Jesus nas quacs mcdiçoeiU o dito Senado linha feito «astes, e despeza*. como
hera notório, e os vindouros deviam proseguít -i dita caura.
(4) Tomb. das Terras Muninpaes, por lladdocfc Lobo, pag. 16,
— 232 —

calhara pozessem t o d o o e m p e n h o p a r a q u e a n o v a causa


de l i b e l l o fosse s e n t e m iada d e n t r o de u m a n n o ; e caso
assim o n ã o fizessem ficariam s u j e i t o s a p a g a r todas as
p e r d a s e d a m n o s q u e d ' a h i r e s u l t a s s e f n aos bens d o
Corcelho.v (1)
I s t o f o i b a s t a n t e para o g o v e r n o persegud-o, pren
d c l - o na fortaleza de S. T h i a g o e c o n f i s c a r os seus b e n s
e papeis.
E r a m c o m mus estes actos de v i o l ê n c i a , p o r p a r t e
d a p r i m e i r a a u t o r i d a d e da c i d a d e , contra o r e p r e s e n -
tante d a j u s t i ç a p u b l i c a .
J á o antecessor de Raposo, d r . D i o g o C a r n e i r o d a
F o n t o e r a , a p r o p ó s i t o de i n c i d e n t e s c o m o p r e l a d o , f ô r a
preso e r e m c t t i d o a Bahia. (2)
O s males p ú b l i c o s , a m i s é r i a a q u e ia c h e g a n d o a
p o p u l a ç ã o d a cidade, sob a a c ç ã o da crise q u e «jpntí-
n u a v a , despertaram a i n d a mais o s e n t i m e n t o r e l i g i o s o
d o p o v o , c m nome d o q u a l a c â m a r a ssllieitou a v i n d a
dos c a p u c h i n h o s francezes, a c r o a c ç ã o de u m c o n v e n t o
de f e i r a s e r e s o l v e u fazer d a h i c m d i a n t e c o m t o d a a
p o m p a a p r o c i s s ã o de corpus-chrisii,
M a s , n a d a d i s t o sanava o m a l . A crise c o n t i n u a -
v a , p o r isso m e s m o q u e suas causas e s t a v a m na f a l t a

(I) Proveu o dilo ouvidor Geral que visto os < )rfí«:iae$ çh Câmara, que
preze ite estavão. nào. poderem dar cumprimento ao Capitulo da Correição pas-
sada, em qu* sc manda se corre^e cem a catza rio* Reverendos Padres da
Companhia, e mais med^oens, cm razão do avi/o <ie. Sua Magestade, sobre
havei dado o Olaudez ao Estado do Brazil ; por cuja. Kauza andarão elles oceu-
pado- ua õdensa desta Praça qne de bo'e poT diàuic. com todo o calor, e bre-
vidade ;i prossiga.» por tempa de mu *nno, diga a prossÍRao no teimo de utu
anno, e fasvão Sentencias, qae be u maior termo em qne sc"pode Seteneiar huma
cauza de Libello, c que uío faMudo serào ohrigajys a pagar tooa.* a" perdas, c
damsv.s, que dahi resultacm a c*tc Conselho, e na, mais penas, que scjrundo
a qualidade da culpa, e humíssão neste negocio, o arhitno delle, dilo Ouvidor
Geral, ou seu Suecessor, íArcli. do Di.tr. Federal, vol. de 1895. pa-r 568;.
12; Em carta de IR de Sc lembro do 1608. ao prelado do Itio, dízngover-
nador da Bahia que vi tudo o que me diz sobre o ouVidói éera.1 quí aqui veiu
preso. F. na Rotação se via o ca;o. sendo i-: presente, mas un:íorinemeii-.e sen-
tencí.río lodosos Mi:.i-;ros que uin era Miflicion;»; fundamento o uuc V. S.
representou ao governador Je?sa ;;*ral, guando o sen regimento o :sc;-.la tão
exprc-samc:,te de ser preso e privádü du cargo. Saiiiu reslitaido o cílc me disso
sç ia ucsle barc- a cxerccl-o. Teub.. V. S. entendida que se pua .i obrar de cí

alunm modo outra cousa.


(<> resto da carta eslâ Ulegivel.)
— 233 —

de n a v e g a ç ã o e d e i n d u s t r i a , m o n o p o l i s a d o s em f a v o r
da C o m p a n h i a d e C o m m e r c i o .
L o g o a p ó s a paz c o m a n e s p a n h a , d es a p p a r e ce r ã o
t o d o s os m o t i v o s p a r a a g r a n d e c a r g a t r i b u t a r i a q u e
pesava s o b r e o povo. A s i t u a ç ã o d e g u e r r a desapparecera
e p o r c o n s e g u i n t e a q u e l l a perspectiva d e hostilidades,
e m cjue, h a annos, v i v i a a c a p i t a n i a a e x h a u r i r - s e e m
despezas p a r a o r g a n i s a r seus elementos d e defesa.
J á no t e m p o d o g o v e r n o d e D . P e d r o M.>scarenhas,
a c â m a r a , e m c a r t a d e 2 1 d e Janeiro de 1 6 6 7 , d i r i g i d a
ao r e i , a p p c l a v a para esse f a c t o , c m nome d o q u a l u m a
o u t r a p o l í t i c a e c o n ô m i c a e f i n a n c e i r a devia ser s e g u i d a .
Os c o r s á r i o s n ã o i n f e s t a v a m mais os mares. E a paz
e r a u m a r e a l i d a d e c o m os paizes q u e t i n h u n q u e r i d o
t o m a r o Brasil d a c o r o a p o r t u g u e z a .
fe) c o r o l á r i o d e t u d o isto devia ser a l i b e r d a d e d a
navegação.
E n o t e m p o d o g o v e r n o d o tenente general J o ã o
da S i l v a c Souza, n o m e a d o g o v e r n a d o r d o R i o por pa-
tente d c 6 d c S e t e m b r o d e 1 6 6 9 , assumindo a a d m i -
n i s t r a ç ã o a 2 5 d e D e z e m b r o d o m e s m o anno, ella
de novo r e c l a m o u c o n t r a o m o n o p ó l i o d o c o m m e r c i o ,
c h a m a n d o a a t t e n ç ã o d a m e t r ó p o l e para o f a c t o d e ,
n ã o o b s t a n t e as pazes c o m a H e s p a n h a , B u e n o s A y r e s
a i n d a n ã o e r a a b e r t o os seus p o r t o s aus navios p o r -
t u g u ê s , o q u e c o n t r i b u í a bastante para aggravar a crise
do R i o d e J a n e i r o , c o m a q u a l a q u e l l a p r a ç a m a n t i n h a
r e l a ç õ e s c o m m e r c i a e s d c h a m u i t o annos.
A m a i o r c o n c e s s ã o q u e fez o soberano ( 1 ) f o i q u e
«os navios q u e levassem 2 1 p e ç a s d e a r t i l h a r i a p a r a
c i m a , c o m as m u n i ç õ e s e g e n t e s c o m p e t e n t e , pudessem
ir e v i r d o B r a s i l , f o r a do" corpo das f r o t a s , p o r é m o
c o m b o i o á J u n t a d o C o m m e r c i o , como p a g a v a m os
navios d e l i c e n ç a . E os mais navios q u e n ã o l e v a r e m

;1) Caria regia de 9 de Jauciro de 1672—Coll. Arch. Pub.


— 234 —

de mais de 21 peças de artilharia para cima, com mu-


n i ç õ e s e g e n t e c o m p e t e n t e , n a v e g a r ã o c m f r o t a s sepa-
radas d c P é r n ? m b u c ó , B a h i a c R i o de Janeiro, os q n a e s
s e r ã o conhecidos por tres navios d e g u e r r a da J u n t a d o
C o m m e r c i o , p a r t i n d o d o p o r t o dessa c i d a d e a o u t r o s c m
S e t e m b r o , para q u e ao t o d o v e n h ã o ser seis frotas c m
cada a n n o . »
U m a t a l c o n c e s s ã o i m p o r t a v a e m sua d e n e g a ç ã o ,
porque si a c a p i t a n i a n ã o podia â t e m p o a r r e c a d a r os
impostos c d o n a t i v o s p a r a r e m e t t e r o seu p r o d u c r o p a r a
a m e t r ó p o l e , q u a n t o mais a r t i l h a r e m u n i c i a r as f r o t a s .
A o passo q u e a m e t r ó p o l e f i r m a v a o m o n o p ó l i o d o
c o m m e r c i o da n a v e g a ç ã o , c o n t r a os interesses d a c o l ô -
nia e a d e s p e i t o das r e p r e s e n t a ç õ e s suecessivas de
suas c â m a r a s a p e d i r o a l l i v i o t r i b u t á r i o , a e o r ô a m a n d a
manda i m p o r a capitaniado Rio a c o n t r i b u i ç ã o d e 4 0 0 $
annuaes p a r a as despezas das c o n q u i s t a s u l t r a m a r i n a s
feitas pelos m i s s i o n á r i o s do E v a n g e l h o . ( 1 )
O p o v o j á n ã o p o d i a s u p p o r t a r mais esta i m p o s i -
ç ã o . J á se t o r n a v a preciso e x c c u ç e õ s j u d i c i a r i a s para a
c o b r a n ç a dos t r i b u t o s . « P a r a r e a l i s a r a c o b r a n ç a d o
D o n a t i v o da paz de H o l l a n d a , e d o t e d a R a i n h i d a
G r ã o B r e t a n h a , f e c h a n d o os olhos e os o u v i d o s aos
g r i t o s da d o r mais, a r r a n c a v ã o das f a m í l i a s por e x e -
c u ç e e i de J u s t i ç a , o p ã o c o m q u e os pais c o m t r e m u l a
m ã o r e p a r t i ã p pelos ternos filhos, para n ã o verem
acabar a sua triste e x i s t ê n c i a , p r i v á h d o - s e a si p r ó p r i o s
d o nece.ssf rio a l i m e n t o , b r a d a n d o c m c l a m o r o s a s vozes
p a r a o C é o ' , v e n d o de dia c m d i a , crescer a g e r a l p e n ú -
ria, m o r r e r e m os escravos, d c c u j o s b r a ç o s p e n d i a o
i n c r e m e n t o de suas l a v o u r a s , e n ã o l h e r e s t a n d o a i n a i s
l e v e e s p e r a n ç a d c s a l v a ç ã o , n e m m e i o s de s u b s t i t u i r os
mortos c o m o u t r o s , p o r s e r e m as e s t a ç õ e s m a l s ã o s ,
a r r u i n a d o e p e r d i d o o f r u e t o dos seus t r a b a l h o s , e a
peste de A n g o l a c o n s u m i n d o c o m h o r r t d a m o r t a n d a d e

(1) Çãtt* regia dc 9B.de Jimhu dc 1G70— Cplí, do AreA. Publico.


— 235 —

t o d a a sua p a r t i c u l a r f o r t u n a , pelo q u e p o r t ã o g r a v e s
m o t i v o s i m p l o r a v ã o h u m a e m i l vezes a c l e m ê n c i a
R e a l , c o m o Pai o S e n h o r , p a r a lhes fazer a m e r c ê p o r
c o n v e n i ê n c i a d o seu m e s m o R e a l s e r v i ç o , m a n d a r q u e
n ã o tivesse e f f e i t o a c o n t r i b u i ç ã o 4 0 0 ^ 0 0 0 r é i s , t e n d o
e m sua R e a l a t t e n ç ã o e a t e n u a ç ã o e m i s é r i a dos seus
vassallos, q u e t r a s p a s s a r ã o , os l i m i t e s da p r o v i d e n c i a
h u m a n a , t o c a n d o a da desesper. ç ã õ , pois q u e n ã o pos-
s u i ã o j á c o m q u e a c u d i r aos e m p e n h e s , d i v i d a s , e sus-
t e n t a ç ã o das suas casas e f a m i l i a s . » ( 1 )
&' expressivo d a p e n ú r i a d o tempo a d i s t r i b u i ç ã o
f e i t a d c 5 0 0 a l q u e i r e s de f a r i n h a pelo p o v o q u e a c â -
mara m a n d a r a v i r d a B a h i a .
A m e t r ó p o l e n ã o sahia de sua i n d i f T e r e n ç a em re-
l a ç ã o a s i t u a ç ã o . N ã o e r a o b j 'Cto d c d u v i d a p a r a nin-
g u é m a causa p r i n c i p a l da c r i s e . T o d o s conheciam n a .
r, a c â m a r a p o r mais de u m a vez, r e q n e r e u a l i b e r d a d e
da n a v e g a ç ã o e d a i n d u s t r i a , por isso q u e no m o n o p ó l i o
e m f a v o r da C o m p a n h i a estava a causa d a m i s é r i a
p u b l i c a . F . era t a l a c o n v i c ç ã o da m u n i c i p a l i d a d e cto R i o
s o b r e a i n f l u e n c i a nefasta e desastrosa desse m o n o p ó -
lio, q u e t e n t o u o b t e r a l i b e r d a d e da n a v e g a ç ã o , ainda
mesmo indirectamente.
F.m c a r t a d i r i g i d a ao s o b e r a n o disia q u e a í r a n -
quesa d o c o m m e r c i o p o d i a ser o b t i d a com o estabeleci-
m e n t o de u m a p o v o a ç ã o v i s i n h a a l i u e n o s A y r e s , « p a r a
s e r v i r d e i n t e r m é d i o á c o m m u n i c a ç â o das riquesas da-
q u e l l e p a z . » A s vantagens d a m e d i d a e s t a v ã o « e m
;

s e g u r a r t o d o o v<:sto t e r r i t ó r i o das p r o v í n c i a s do s u l ,
s e n d o u m a b a r r e i r a de í e r r o c o n t r a a v i o l ê n c i a e a m -
b i ç ã o d a H e s p a n h a s e m p r e rival e i n i m i g a a (2)
T a l v e z fosse, c a r t a a causa da m e t r ó p o l e o r d e n a r
p o s t e r i o r m e n t e a f u n d a ç ã o da Colônia do Sacramento e
n ã o a c r e a ç ã o do bispa.lo no R i o de Janeiro, c o m o

(1) CirLi da câmara dc 30 de Abril dc 1671


(1) S. Lisboa obr, cit. vo). 4* pag. 241.
— 2?>fi —

s u p p õ e V a r n h a g c n , e s t e n d e n d o os seus l i m i t e s a t é o
R i o d a Prata.
K u t r e t a n t o . a m e t r ó p o l e l i m i t a v a se a o r d e n a r q u e
os g o v e r n a d o r e s n ã o í n t r o m c t t c s = e m nas e l e i ç õ e s dos
camaristas e dos t h e s o u r e i r o s dos d o n a t i v o s ( 1 ) ; f a z e r a
a c o n c e s s ã o aos m o r a d o r e s d o B r a s i l d c p o d e r e m p l a n -
tar a g e n g i b r e ( 2 ) ; a l i b e r t a r o c o m m e r c i o dos p r e t o s
d a Á f r i c a , « c n c M u m e n d e n d o aos g o v e r n a d o r e s sc i n t e -
ressassem c o m os g o v e r n a d o r e s para q n e se e n t r e g a s s e m
;;quel!e c o m m e r c i o e t r a f i c o , f a c i l i t a n d o a i m p o r t a ç ã o
dos n e g r o s nas c o l ô n i a s e m b e n c i c i o de sua a g r i c u l -
!

t u r a . » (íí)
A c â m a r a n ã o p o d i a r e m o v e r os m a l e s . L i m i t a v a -
se a n u l i d a d e s , c o m o d e m o l i r n a í o r m a de d i r e i t o , os
casas p r ó x i m o s a d a c â m a r a , p e r t e n c e n t e s aos p a d r e s
do C a r m o , p o r e s t a r e m situadas e m c h ã o s p e r t e n c e n t e s
ao c o n c e l h o ( 1 6 7 0 ) ; p r o h i b i r e s t a b e l e c i m e n t o s c o m -
merciaes, t a v e r n a s o u v e n d a s , n a zona c o m p r e h e n d i d a
e n t r e N . $. d ' A j u d a e N . S. d o Parto a t é a C a r i o c a ,
« p o r nelles se r e c o l h e r c m m u i t a s casas f u r t a d a s e ser-
v i r e m de v a l h a c o u t o d r s e s c r a v o s » ; n o m e o u u m e m p r e -
g a d o para assistir a v e n d a d o azeite d e p e i x e , a f i m d c
n ã o consentir n a v e n d a desse p r o d u e t o d e t e r i o r a d o ,
p e l o p r e ç o d c dois c r u z a d o s , e m vez de d u a s p a t a c a s
c o m o se fazia ; c r e o u u m j u i z de v i n t e n a nas f r e g u e z i a s
existentes no r e c ô n c a v o d a c i d a d e « p a r a fazer d e l i g e n -
cias das p a r t e s e p r e n d e r os c r i m i n o s o s , dessem p a r t e
de t o d o s os d e l i c t o s e casos a J u s t i ç a , creassem p r i s õ e s
e tivessem g r i l h õ e s o a l g e m a s » , r e s o l v e u a c o n s t r u c ç ã o
d a casa d c a u d i ê n c i a s , p o r c i m a da casa d a c â m a r a ,
c o n t r a c t a n d o a o b r a p o r õ0O:BO0O ( 1 0 7 2 A g o s t o ) ; r e -
solveu n ã o a f o r a r m a i s os c a m p o s de N . S e n h o r a
d ' A j u d a , para s e r v i r e m d c pasto d o g a d o de seus m o -
radores. ( 4 )

•h Carta icgia do 26 dc Fevereiro do ÍG7Í. Arth. Publico,


12) Provido regia dc 10 de Abril dc 1072. Arei. Publico.
)A-, . í "S * d* y dc Janeiro dc 1)172. An)., Publico
1 1

(4) Arei. do Distr. hed. de 1868, vol. dc Janeiro a Maio.


— 237 —

U m f a c t o d a m a i o r i m p o r t â n c i a deu-se n o f i m d o
g o v e r n o de S i l v a e Souza, r e v e l a a f a l t a d e j u s t i ç a c o m
q u e c o r ô a l e g i s l a v a sobre os n e g ó c i o s d a c o l ô n i a e re-
s o l v i a suas q u e s t õ e s .
R e f e r i n i o - n o s á c a r t a r e g i a de 1 7 de J u l h o de
1 (>74, p e l a q u a l fez c i l a d o a c ç ã o a S a l v a d o r C o r r e i a d e
S á , v i s c o n d e d c A s s e c a , de u m a c a p i t a n i a de v i n t e
l é g u a s d e terras e a seu i r m ã o J o ã o C o r r e i a d c S á ,
General do Estreito do Estado da índia, oco:n
c o m o b r i g a ç ã o de f u n d a r e m uma v i l l a c m cada u m a das
d o a c ç õ e s , i g r e j a , casa d a c â m a r a c casas para t r i n t a
casaes.»
M a s , antes deste f a c t o , oceurrencias d i g n a s d c
m e n ç ã o t i n h ã o sc d a d o . D e s d e 1663 o g o v e r n a d o r d a
Bahia nomeava õ u v i d ò r e r para Parahyba, em vista da
g r a n d e distancia e m q u e f i c a v a m de C a b o - F r i o .
> Esse i n i c i o de vida a d m i n i s t r a t i v a e j u d i c i a r i a n ã o
era b e m v i s t o p e l o s hebitantes d o l o g a r que, r e c o r r e n d o
ao o u v i d o r d o R i o , o b t i v e r a m o r d e m c o m q u e p r e n d e -
ram o da Parahyba.
N o g o v e r n o de S i l v a e Souza, n o v a m e n t e i n t e n -
t a r a m p o v o a r P a r a h y b a e n ã o q u e r e n d o r e c o r r e r aos
meios v i o l e n t o s de que l a n ç a r a m m ã o s os habitantes d o
R i o d a o u t r a vez ( 1 ) , a c â m a r a reuniu-se, com a s s i s t ê n -
cia d o g o v e r n a d o r , i q u e m pedia para representar ao d a
B a h i a c o n t r a a c r e a ç ã o dessa v i l l a nos campos dos
Goyatacazes, de o n d e d e v i a ser r e t i r a d o o o u v i d o r u l t i -
m a m e n t e p r o v i d o , « p o r q u e de o u t r a m a n e i r a ficaria
p e r d i d o o K i o de Janeiro e q u e quando se resolvessem
f a z e r a d i t a v i l l a , estava este p o v o r e s o l u t o a i r arra-
sal-a.u

fl) CV. da cotl Does. I4ist.—òa 1657—01 da BiM. Kac. !


«Km '*\ de Maio de I1V> o gcycrnadof da Bahia noin«' ajudinte J' "
lu :

Gomes Barroso para ir a Parahyba ã*? sul, alí n d-: pfjsidem* autores da morte
dc André Martins da Palma, capitao-mór da mesma capitania. O seu SOJ-TO
tia«j'ar David dc Alvarenga tratar do processo.
O ajudante leva regimento, Os autores do assassinai" «20 Manuel Ril-eiro
Caldeira, Antônio da Silva, Uicronytti'> Dias, Autonío Kernaadcs e Francisco
dc Arruda.v
— 238 —

E m s e s s ã o de 2 4 d e O u t u b r o de 1 0 7 3 , a c â m a r a
a l l e g a v à que, p o r o r d e m d o d o u t o r o u v i d o r g e r a l J o ã o
V e l h o d e A z e v e d o , os m o r a d o r e s dos c a m p o s de
G o y a t a c a z e s e r i g i r ã o u m a villa, q u e p o s t e r i o r m e n t e
f ô r a suppressa, p o r o r d e m do m e s m o o u v i d o r .
N à o obstante isto, os m o r a d o r e s c o n t i n u a r ã o a
v i v e r sob as ordens d e u m c a p i t ã o q u e o s g o v e r n a v a ,
s e r v i n d o t a m b é m de o u v i d o r para as e x e c u ç õ e s d a
justiça.
D e p o i s disto o u t r a t e n t a t i v a f o i feita p o r u m
G a s p a r M a r i n h o , no sentido de o r g a n i z a r a villa, d c q u e
r e s u l t a v a m dois m a l e s : 1 ° o bern c o m m u m do sustento
desse p o v o : 2 « o s d i r e i t o s d e Sua A l t c z a , p o r q u e he
o

c e r t o q u e h a v e n d o V i l l a h a v e r á m u l t i d ã o de g e n t e , c o m -
m e r c i o . e n a v e g a ç ã o d e e m b a r ç õ e s , e ambas as causas
s e r ã o causa de h a v e r m u i g r a n d e d i m i n u i ç ã o n o g a d o , c
g r a n d e s f u r t o s c d i v e r t i m e n t o s d e l l e , e f a l t a n d o o gfcdo
p a d e c e r á este p o v o g r a n d e f o m e , p o r q u e se h e j e s e m
haver V i l l a sc e x p e r i m e n t a esta f a l t a , q u a n t o mais ao
d e p o i s ; segue-se a d i m i n u i ç ã o dos cabedaes, p o r q u e
f a l t a n d o os bois para os E n g e n h o s n ã o p o d e m e n t ã o
estes s u b s i s t i r e m , e menos f a z e r e m assucar, se d e s f a b r i -
c a r ã o muitos, p o r c u j o respeito p a d e c e r á o b e m c o m -
m u m e d e c r e s c e r à o as rendas R c a e s , a l é m d c o u t r o s
muitos inconvenientes; e aquella V i l l a ainda q u e pela
s u e c e s s ã o dos t e m p o s a d q u i r a g r a n d e p o p u l a ç ã o , e l l a
n ã o p ô d e em t e m p o a l g u m f o r n e c e r r e n d a s a Sua A l -
teza, porque n ã o ha e m q u e t i r a r , p o r s e r v i r e m os C a m -
pos s ó i i r e n t c p a r a a c r i a ç ã o d o g a d o , a l é m de q u e s e n d o
c o m o s ã o t o d o s dos m o r a d o r e s d e s t a C i d a d e , se a t a c a
a p r o s p e r i d a d e dos seus h a b i t a n t e s c o m o f í e n s a d a
J u s t i ç a , q u e f o i e s t a b e l e c i d a para c a d a h u m o q u e h e s c u ,
e os G o v e r n o s q u e r e p r e s e n t ã o a Re.d Pessoa s ó f o r m ã o
a copia fiel do o r i g i n a l de q u e m r e c e b e r ã o bs t o q u e s e
a f o r m a ç ã o quando a d m i n i s l r ã o com r e t i d ã o e sabedo-
r i a , do c o n t r a r i o os h o m e n s se l e v a n t a r ã o c o n t r a os seus
semalhantes c o m o as feras i n d o m i t a s s o b r e suas presas,
e t u d o se c o n v e r t e r á e m h u m vasto l a t r o c í n i o v i v e n d o
— 239 —

da fazenda alheia. E a s s i m p e d i m o s a V . S. c o m o t ã o
zeloso d o s e r v i ç o d c S u a A l t e z a e b e m c o m m u m , m a n d e
r e c o i h c r e s u s p e n d e r a dita P r o v i s ã o ao O u v i d o r , p o r -
q u e só* assim h a v e r á mais q u i e t a ç ã o neste p o v o , m a i o r
a u g m e n t o dos d í z i m o s c d i r e i t o s Reaes; esperamos q u e
V . S. r e m e d i e t u d o com a inteireza e j u s t i ç a q u e cos-
t u m a , e a pessoa d e V . S. a u g m e n t a \ o s s o S e n h o r c o m
as f e l i c i d a d e s q u e d e s e j a . » ( 1 )
. O g o v e r n a d o r da Bahia n ã o attendeu a esta r e -
clamação. (2)

(li Anua«s do Rio ,1c Janeiro, por Silva lisbua.vol. 4" pae. 2fid.
(2| Cod. da colli—Uocs. Hist; da HfliTt, Nac. dc líírja—71:
«ÇOm alleiicàcf l i a' i]ue iitt escreves!** pur caria de Ü7 dc Outubro do
anno passado, acerca, co uma juucla que u câmara, dessa cidade feri cm que vos
as*i»lis(e.«, sobre se náo continuar uma villa que se intentava levantar nos-cam-
pos do CiovalacaZes c que distão quo baviu provisão minha para ouvidor, e
como amigo mo pcdicis ma^bo-se logo recolhei-.» que para aa diligencias bas-
tava a de Cabo-Frio. porque ,í~ Outra maneira ticana perdido o Kio de Janeiro
e que quando sc rc<oÍvcsscm fazer a dita villa, ettava esse povo resoluto a ir
arrasal-a.
Por cerTO que lendo a carta, me não acaba persuadir que era vossa, pois
ninguém melhor que V. S. sabe que nem os pnvos neol-aS n-iries inferiores
podem por si resolver r.jusa al^nm.i contra o quo dispúe os superiores, nem
ainda os superiores nt.-1-r-se nu jurisdição alVía C quando muito o que devem
Jazer, e representar o governa superior os inconvenientes que ha pafa se dar
Cumprimento a uma ordem, rojas raròcs sejao tão jjraves que obriguem a sus-
pendei, a e não dcsobedecel-.i e d«ííber'Ír.. a deiermir.'il-a absolu-
tamente tom tanta inJ^pcnii, que jà ..hcgueii a d;;er qua r>tava o povo
resoluto a arruar a villa se se lev:mras*ê r> depois do ouvido dessa capitania me
baver dad<i vOnU da cxorhít^n:ia da deÀàluçau que com cs moradores da Para-
hyba sc havia irado. A sua carta e a queixa daquellés miscravei» (que. fui a
rtlenor quo a narração que o mesmo ouvidor foz) c se estranhou
mniro nella (Relação) , . , V, não contentei os luiérè^íHdbí em oecepar
aquelles campos e • IM '.erras q'ie :Í'I" pçísuüm por titulo* legítimos (os quacs
impossibilitara o eapiiâo-niur da Puihybu mandando eu por urdem
particular mi-.ha_mos eiivi-irtei pira letrõtn. elles sô a poder c iasolcr.cía o que
è justo -.eja beneficio de muitos e augioenta do Estado, Tinpedem continuasse
ali aquelle 1 ig^r c segurar aquelle porlo contra o< qne 5, A,manda expressamente
no Regimento do governo deste Kstado que s: povoa**.; toda. a carto e se desse
segurança segundit ver a ms a dar bu^ar algemado um ouvidor que o está cum
provisão r:ü i i
Vcriiadair;iuientc que nii.o sei como o ccnscntistcs, uem sc desse tíivor de
soldado pára semelhante acção, devendo allender -*6 ao respeito que sc devia
aí ordens que deste governo se Tiu" ,io mandado, wm 'empo dn <r. ronde de
Allengura eagora ao pruvimen'0 ijue havia leito do ouvidor; cuidava eo que
deviei* preferi i como amigo a conta que era razão se me desse desta matéria
para ea a ter acieádidu e resolver o que mais fosse serviço de S. A. J as razões
appareulcs dos interessado*. As giandeí cidadtís do mundo se li/eiam populosas
dc humildes princípios.
estivera
campos
licào Começarão
villa elle*
na eslão
oParahyba
Bra/il todas
prejudicados
a maior casacque
deseiln,
; anle*
parte dosboje
com
Uahia
nem haver
por ba.no
perdida,
gadotscaÚí Brazil,
fundar
e como
faíèndas que
:o0fcia«f dcsejmiiça
amc.'idade
discis
dos assim oseoâo
moradores
de
CearáSergipe,
líiofôra,
desta
sc ainda
emhouvc
praça,
cujos
— 240 —

A o m e s m o t e m p o q u e se da v ã o estes f a c t o s na
c o l ô n i a , S a l v a d o r Denevides. na c o r t e , p l e i t e a v a a f a v o r
dos seus dois filhos, a sesmaria da a n t i g a c a p i t a n i a de
S. T h o m é , q u e a c o r o a lhe c o n c e d e u , c o m v i o l a ç ã o de
d i r e i t o z d e p r o p r i e d a d e j á a d q u i r i d o , e m sesmarias dadas
anteriormente.
D e f a c t o . K m l i ) de A g o s t o de 16*27, o g o v e r n a -
d o r do R i o . M a r t i n d e S á , c o m o p r o c u r a d o r d o p r i m e i -
r o d o n a t á r i o G i l de G ó e s , d e u d e sesmaria estas t e r r a s
aos c a p i t ã e s G o n ç a l o C o r r e i a , M a n o e l C a r r e i a , D u a r t e
Correia, Miguel Ayres Maldonado, A n t ô n i o Pinto, J o ã o
de C a s t i l h o s e M i g u e l R i s c a d o .
F o r a m estes h o m e n s os p r i m e i r o s a p e r c o r r e r taes
zona da capitania, d a r nomes aos seus r i o s , á s suas c a m -
pinas, aos seus lagos, s e g u n d o o d e p o i m e n t o cio } j r o -

latrocinios c roubos que V*. ccrlo haveria, se os não houvesse. F. como os que
tem a cargo as fazenda* que estarão pelo- campos de Goyalacazcs, nào querem
que haja quem lh'os ímpida benção o meiu de não haver justiça na Parahybj
nem que ali se lava villa qne Ih-s eulorve O que nbrão contra seus próprios
donos. O districto de R1Q JC Jar.riio u.lu tem mais que 12 kgnas, até paitir com
a^capitanias d.-> Cabo frio c estj è Mu UeiivS dos cjfneiaci da câmara do Itin, e
tão immcdiata a este Gc-vçrno, couto essa : c por esta raian sõ o governo geral
tem jurisdicção sobre eus moradores í ainda qx: o ouvidor dessa repailiçâu a
tenha c sò por ordinária sobre o* pleitos c não a dc julgar, *ft ba de baver nella
ou nào; regalia que iomente tora ao príncipe qu; á quíitt tem poder soberano
dc mandar arrasar cidades, precedendo com sabia* razões das Cônsules dc
Lstado.
A S. A. Ieu!io dado conta desta matéria e è este o casa a qne sc devia
mandar um ministro da Rolava" sc a nan tivera diln. Eu náo fui o primeiro que
provi o cargo dc ouvidur, que já o vi conde de Olides havia provido por esiar
vago em Njrolão vUino que o serviu muito tempo como sc vé de sua provisão
passada a 7 de Novembro de 1GG3 qne está regjsirada no< livros da Secretaria
dc Estado, <io:tdc lambem está outra de escrivão da .amara da mesma Parahyba
passado vm li} d<.-Or.tubi0 do mesmo anno Nem c P.-ra da rizão, atile? minto
contorme a ella, que haja ali ouvido:, pois è rigor (irande qns baião os pobres
da Parahyba ir oitenta lego i« pleitear e despachar pc.tçü-s em Cabo Frio. üi:
que d hom exemplo a rapiur.ía de Pem tiuauco. dond:* ã j senco mais qne
: J

uma so que nas vil Ia s e lugares que .» tempo foi íaaen.ln. mais de fl ouvidores
particulares, ^-iido pr.u-a a distancia qae lu de uma* ã outras. Si ouvidor e
ofh-iaes ai .-amara qne se havia fonu.ido ::a Parahyba, estão ah.da abi preso»,
os mandei logo soltai e como ainígo vos cncommtudo os deixe ir logo em paz
para suas casai c o ouvidor exercer o seu officio pela minha provisã. e as razões
que a câmara dsssa cidade eu ouvidor dessa reparação tiverem para destruir o
povo da l arahysa e não haver ali villa, os represente a e»le governo, donde
serão ouvidos.»
— 241 —

p r i o Maldonado, c m m e m ó r i a que escreveu ( 1 ) « p a r a


q u e t o d o s os h e r d e i r o s f i q u e m n o c o n h e c i m e n t o d e s t e s
n e g ó c i o s , cheios de m á x i m a s , m a i o r m e n t e os d o senhor
M i g u e l R i s c a d o , q u e e s t á f i c a n d o espalhados p o r estes
campos.»
Nessa e x c u r s ã o dividiram a d o a ç ã o e n t r e si e m
partes i g u a e s .
O s s e r v i ç o s q u e p r e s t a r a m de 1 5 7 8 a 1582 na
defesa d a c i d a d e , c o n t r a os T a m o y o s e T u p i n a m b á s
a ü i a d o s aos Francezes e m u m c i r c u l o de g u e r r a
permanente, j u s t i f i c a m a d o a ç ã o que receberam, em
paga d o devota m e n t o á causa p u b l i c a .
E m N o v e m b r o de 1032 c h e g a r a m a A r a m a m a , de
p a r t i d a p a r a os campos de Goyatacazes. ( 2 )
Tornara-se a o r d e m d o dia da cidade do R i o a
e x c u r s ã o dos sele c a p i ã e s . S ó se f.dlava nos C a m p o s
dc Grbyatacazes, « e m r a z ã o de ser as p r i m e i r a s c a m p i -
nas descobertas p a r a a c r e a ç ã o d o cavallar c v a c u m » .
F o i g r a n d e na s e n s a ç ã o e c o b i ç a de v á r i o s personagens
d a c a p i t a n i a » q u e p r o c u r á v a m o s conquistadores d a
terra p a r a c o m p r a r e m - n ' a .
C h e g a r a e m 1 6 4 7 S a l v a d o r B ene vides ao R i o p e l a
segunda v e z . C h e g a r a ao seu c o n h e c i m e n t o a n o t á v e l
e x p l o r a ç ã o d ó s c a p i t ã e s . Seus eurraes d e g a d o e suas
l a v o u r a s j á p r o s p e r a v a m naquellas c a m p i n a s . M a l che-
g a r a , c o n v i d a M a l d o n a d o a u m a c o n f e r ê n c i a e m q u e lhe
p r o m c t t e p o d e r o s o a u x i l i o para colonisar o t e r r i t ó r i o ,
por m e i o de u m c o n c e r t o amigável, em que o General
e n t r a r i a c o m o de u m a p a r t e d a zona d o a d a . « O res-
peito deste h o m e m era cousa m u i t o g r a n d e e este con-
c e r t o o fizemos com g r a n d e c o n s t r a n g i m e n t o . Por esta

Ul O leitor lei.i * intirtsNar.te Mcm. dc Maldonado, escripta i 11 de


Junho de 1ÜÕ7 publicada no vol. 5ti da Rov. du In*t. Il>*t. pjr. 34o c tambero.
n» importante obra—Capitania dc S. Tluuué pelo Dr. Carlos dc Carvalho.
Nella o aulor rogava ao seu compadre o >r. João Nepomu-eiio i.e Uai vi-
lho. morador na cfda.de de N. S. de Assumpçao dc Caho Prín, que lhe mand.iSio
registrar a memória ao cartório da Câmara.
(2) No capitulofquc consagramos á colonisação. descreveremos .o itinerário
dessa exploração.
— 242 —

mesma r a s ã o , a t o d o t e m p o n ã o d i g a m os h e r d e i r o s q u e
o fizemos p o r d e l i b e r a ç ã o nossa, pois o m e s m o G o v e r
nador n ã o era t ã o r e s p e i t a d o . »
E o concerto t r a n s f o r m o u - s e e m e s c r i p t u r a , l a v r a d a
c m M a r ç o de 1 6 4 8 « r o d e a d o o general de v á r i o s per-
sonagens q u e f o r a m a d m i t t i d o s no d i t o c o m p r o m i s s o
com s o l i c i t a ç õ e s , j u n t a m e n t e a j u d a d o da sua m á o p u -
lencia, fez o q u a n t o quiz m a i o r m e n t e o p a d r e p r o v i n -
cial t i a C o m p a n h i a ; o D o m a b b a d e d c S ã o B e n t o e o
c a p i t ã » Barcellos, q u e f o i o q u e m e l h o r i n f o r m o u o g e -
neral du? m e l h o r e s t e r r e n o s d o paiz, e m r a z ã o de j á t e r
algum conhecimento do território.
E s t e h o m e m f o i t o d a a nossa r u i n a . Fez c o m n o s -
co vezes de Judas, d e p o i s de t r a t a r c o nnosco u m a a m i -
zade.» ;1)
Este d o c u m e n t o j u d i c i á r i o f o i a m a i o r e s p o l i a ç ã o
dos direitos de M a l d o n a d o , seus c o m p a n h e i r o s e 'Seus
herdeiros.
Esses interesses feridos a p p e l a r à o p a r a a j u s t i ç a
que, n o t i f i c a n d o S a l v a d o r c o m o a u t o r do c o m p r o m i s s o ,
o q u a l « n ã o (azendo c o n s i d e r a ç ã o da n o t i f i c ç ã o n ã o
compareceu na i n s t â n c i a j u d i c i a r i a . »

SUMMARiO—Govemo de itiatliias da Cunha— PertHrb.1e.79 da ordem publica—


Refiauutàei da (Jantara—Liberdade dos índios—Outras medidas
—CorrupeOes adoiinistratiias—As minas e. explorações.

Daquella comitiva de herdes que não se acovar-


d a r ã o p e r a n t e a t r a d i c ç ã o d o s s e n t i m e n t o s selvagens dos
Goyatacazes, e q u e p e r c o r r e u a=> m i r g c n s d o P a r a h y b a
e to l o o t e r r i t ó r i o d a v e l h a c a p i t a n i a de S . T h o m é , s ó
r e u a v ã o Maldonado e A n t ô n i o Pinto, ú n i c a s testemu-
nhas da e s p o l i a ç ã o d o d e s c e n d e n t e de E s t a c i o d e S á .
Cansados, v e l h o s , r e c o l h i d o s á s suas pousadas,
d a n t e s a s s i s t i ã o silenciosos a r a p i n a g e m dos p o d e r o s o s

Itev. do Inst. Hi*L vol. ÕÜ. dc 1892. Pag. 359


— 243

e l i m i t a r ã o - s e a dizer : d e s t a m a n e i r a t r a b a l h a m o s e
passamos g r a n d e s i n c o m m o c í o s ; passando b e m m a l ,
a b r i n d o c a m i n h o s , c o r t a n d o os p á o s p o r a i n d a n ã o h a v e r
c a m i n h o s b e m costeados, c a m i n h a n d o p o r g r a n d e s
areiaes de p é , t o d o s esbaforidos, p a r a estes personagens
se u t i l i z a r e m c o m u m a b o c h c c a d ' á g u a das nossas pro-
priedades por maneira t a l . Deos louvado, aqui irei
d a n d o f i m a esta d e s c r i p ç â o em p o n t o t ã o g r o s s e i r o , ate
a o n d e possa c h e g a r a m i n h a fraca m e m ó r i a . ( 1 )
M a s , a e s p o l i a ç ã o s ó f o i c o m p l e t a , q u a n d o Salva-
d o r o b t e v e na c o r t e a d o a c ç ã o das 3 0 l é g u a s de t e r r a
p a r a seus filhos.
O s q u e e x p l o r a r ã o o v e l h o M a l d o n a d o , seus c o m -
p a n h e i r o s e seus h e r d e i r o s , f o r ã o por sua vez e x p l o r a -
dos p e l o c h e f e do concerto amigável.
j Ja l i n h a assumido o g o v e r n o d o R i o M a t h i a s d a
C u n h a , a 2 6 de A b r i l de l ( ! 7 õ , q u a n d o o g o v e r n o d a
Bahia, e m carta d c 5 de N o v e m b r o de 167(5 (.2), c o m -
m u n i c a - l h e t e r r e c e b i d o a carta de sesmaria, j á a ter
r e g i s t r a d a c o m o c u m p r i a , d a n d o ordens ao e u v i d ó r
para tornar a d o a ç ã o effectiva.
D e b a l d e a C â m a r a r e p r e s e n t o u contra a d o a ç ã o
q u e « f a l t a v a a f é p u b l i c a das d o a ç õ e s dos particulares.
p o r legaes t í t u l o s de Sesmartas, d e p o i s de c a h i r e m na
C o r o a a C a p i t a n i a de G i l de Goes, p a r a se t i r a r e m de
seus l e g í t i m o s possuidores, e d i r e m - s e a pessoas pode-
rosas c o n t r a todas as L e i s do dever, da h o n r a , e da Jus-
t i ç a e da K o l i g i à o .
E q u a n d o estas r a z õ e s n ã o movessem o a n i m o
R e a l para r e v o g a r as d o a ç õ e s do V i s c o n d e de Asseca,
q u e as conseguira c o a i o c c t i l t a ç ã o da verdade, se d i g -

(1) Rcv. do Inst. Hist. vol. 56. dc 1S!»2. nag, 3»*.


<2) Salvador C. dc S. Bcncvidcs enviou apresentar a este s * ™ " 0 0 0

doação que S. A. *c serviu farer a *eus netos da Capitania da Paralivua e que


dsfferin fundassem duas vill is. Nót Vi: puzemit o cumpia »5 i mandamos
registrar c ordenamos ao ouvidor diüi repirti;ã i quí pela parte qu; llie toca
faca dar as ordens de S. A. lòcanle* a rsii matéria accedendn cij.niprMenW».
A. V. S. »e lia de apresentar a dniçac e ainda que para elle ter BtTeito hastjri.i
só fatiar S. A, este governo communica a ordem.
— 244 —

nasse ter presente a bôa vontade destes seus vassallos,


c tantos soecorros d a d o s ha t e m p o s c o m q u e t o d a a
C a p i t a n i a se t i n h a p r e s t a d o ao R e a l S e r v i ç o . » ( 1 )
Essa v i o l a ç ã o do d i r e i t o i n d i v i d u a l , a l é m de des-
contentar p r o f u n d a m e n t e o espirito publico, n ã o d e i x o u
de e x e r c e r certa i n f l u e n c i a na p o l í t i c a d o s j e s u i t a s .
J á g o s a v ã o de g r a n d e p r e s t i g i o , i n f l u i n d o p o d e r o -
s a m e n t e n ã o s ó na p o l í t i c a da m e t r ó p o l e , c o m o d a co-
lônia.
C o m o a d m i n i s t r a d o r e s das aldeias, d i s p u n h ã o d o
b r a ç o d o i n d i o , p a r a a u g m e n t a r as riquezas da i n s t i t n i -
ç ã o e o p o d e r m a t e r i a l da o r d e m . •
C o m a o r d i n á r i a de u m c o n t o d e r é i s p o r a n n o , d i -
r e c l o r e s de q u a t r o aldeias nos a r r e d o r e s do R i o , t i n h ã o
o i n d i o como o i n s t r u m e n t o de suas p a i x õ e s . Cons-
cios do p r e s t i g i o de seus s e n h o r e s e dos p r e c e d e n t e s
de i m p u n i d a d e , c o m q u e a c o r o a r e s o l v i a os d e l i c t o s
c o m m e t t i d o s , a g o r a no g o v e r n o d o M a t h i a s da C u n h a ,
t o r n a r ã o - s e e l e m e n t o s de p e r t u b a ç ã o e d c d e s o r d e m .
E m 1 6 6 7 , a p r o p ó s i t o de d u v i d a s e n t r e cs j e s u í -
tas e b e n e d i t i n o s s o b r e as terras q u e p o s s u i ã o aponta
dos husios, r e s u l t o u m a t a r e m os i n d i o s dos r e l i g i o s o s d a
c o m p a n h i a mais de 2 0 7 c a b e ç a s de g a d o dos b e n e d i t i -
nas, q u e i m a r e m u m a i g r e j a , d e r r u b a r e m casas e c u r -
raes.
E m face de t a n t a v i o l ê n c i a , a c o r o a l i m i t a - s e , p o r
c a r t a d e 2<í d c M a i o : 2 ) , a o r d e n a r « s e j ã o estes i n d i o s
c h a m a d o s , para serem o b s e r v a d o s de n ã o r e i n c i d i r , sob
pena d c r i g o r o s o s c a s t i g o s . »
A impunidade a ç u l a - o s a novos attentados.
E m J a n e i r o d c 1 6 7 5 os i n d i o s da a l d e i a de b .
B e r n a b é a r r a s ã o a fazenda e e n g e n h o d c F r a n c i s c o d c
I i r i t t o M e i r e l l e s , d e s t r u i n d o os curraes, as s e n a r i a s c
assassinando os t r a b a l h a d o r e s .

( I j Silva Lisboa obr. cit. vol. 4" p& 263 dos Ans. do Rio.
,2) Coll. de caiu* regias do Arei, Publico,

Í ^ B — :
— 245 —

õ mesmo fizcrào com os curraes de José de Barccl-


los, nos c a m p o s d c G o y a t a c a z c s .
A G a m a r a cansava-se de r e p r e s e n t a r a c o r ô a con-
t r a estes alternados, s e m q u e a m e n o r m e d i d a viesse
a m p a r a r esses d i r e i t o s . A ultima r e p r e s e n t a ç ã o foi
e m 2 2 de A g o s t o de 1 6 7 7 ( I ) , s o b r e a q u a l t e v e de
f a l l a r o C o n s e l h o U l t r a m a r i n o . C o m o as o u t r a s esta
ficou sem s o l u ç ã o .
C o m o se v ê , a i m p u n i d a d e , a i n d i f f e r e n ç a d a c o -
r ô a , a n i m a v a a p o l í t i c a dos j e s u i t a s que, n ã o c o n t e n t e s
c o m os a t t e n t ü d o s e v i o l ê n c i a s q u e aconselhavam aos
executores de suas p a i x õ e s c c u b i ç â , l e v a n t a r a m a c e -
l e b r e q u e s t ã o dos mangues da cidade.
S i a p o l í t i c a da m e t r ó p o l e i n f l u i o p a r a esse estado
d c cousa s, n ã o d e i x o u t a m b é m d e trazer seu c o n t i n g e n -
te o j ç r o g r a m m a d e g o v e r n o de M a t h i a s d a C u n h a .
C o m o a c o r ô a , seus d e l e g a d o s na c o l ô n i a n ã o passaram
de m e r o s titeres d a o r d e m .
P o r u m acto seu, d e r a l i b e r d a d e aos i n d i e s . A
C â m a r a de S. P a u l ó a p r . e s s a - s è a r e p r e s e n t a r c o n t r a
essa m e d i d a ao g o v e r n a d o r da Bahia q u e , em c a r t a de
2 4 d e S e t e m b r o de 1677 d i r i g i d a ao d o R i o , mostra as
i n c o n v e n i ê n c i a s desse acto, o r d e n a n d o sua revogo-
Ç ã o . (2)
O s j e s u i t a s t e n t a m p r o h i b i r q u e o p o v o sc u t i l i s c
dos m a n g u e s , de o n d e t i r a v ã o m n d e i r a s p a r a construc-
ç ã o das casas, dos navios e a t é l e n h a . l i p o r q u e a p r o -
h i b i ç ã o n ã o f o i a t t e n d i d a , o prelado e x c o m m u i i g a o
povo.
A q u e s t ã o f o i a f f e c t a a coroa, p o r carta da C â m a r a
d e 3 1 de A g o s t o de 1 6 7 1 , s e n d o r e s o l v i d a a favor d o
p o v o , p o r c a r t a de 4 dc D e z e m b r o de 1648, d e p o i s de
ser o u v i d o o C o n s e l h o U l t r a m a r i n o . (3
Q u a n t o aos interesses da cidade, a a d m i n i s t r a ç ã o
de M a t h i a s da C u n h a n ã o f o i inclifferente.

(1) Silva Lisboa — Obr. cit. vol. 4 yk. 374.


o

12) Col. Ja col.—Doa. t/ist dj B:M. NJC, 17—115,


($ Sessão do Cons. Dltr. dc 19 dc Juuhodc 107X CV. -Jo-Isist. Hisl.
— 246 —

A assumil-a, tractou dc reparar a fortalcsa dc S.


J o ã o , q u e sc achava b a s t a n t e a r r u i n a d a ; de a c t i v a r as
obras de c a n a l i s a ç á o d'agua d a Carioca que chegou a t é
a i g r e j a d o D e s t e r r o , e m distancia de 6 0 0 b r a ç a s p a r a
a c i d a d e ; p r o p o z ao s o b e r a n o q u e a f r o t a d o R i o n ã o
tocasse na B a h i a , i n d o e m d i r e i t u r a ao R e i n o , pelas i n -
c o n v e n i ê n c i a s q u e resultaria d ' e l l a tocar nesse p o r t o i n -
t e r m é d i o . (1)
D e s d e 1 6 6 3 t i n h a sido cessado o m o n o p ó l i o da
C o m p a n h i a de C o m m e r c i o , v o l t a n d o - s e ao a n t i g o r e g i -
m e n das f r o t a s c d c s a p p a i e c e n d o a c a u s a p r i n c i p a l d a
crise e c o n ô m i c a e financeira, em q u e se d e b a t e u o R i o ,
por m u i t o s annos. Pouco d e p o i s d c a b o l i d o esse p r i v i l e -
g i o , a c a p i t a n i a t e n d i a a r e c o n s t i t u i r - s e , c o m recursos s u -
fficientes p a r a t r a c t a r dos m e l h o r a m e n t o s d a c i d a d e . p a r a
a f e b r e das e x p l o r a ç õ e s de m i n a s q u e n o v a m e n t r a apo-
derou-se dos g o v e r n o s , para a c o n q u i s t a d á C o l ô n i a d o
S a c r a m e n t o , c u j a s despesas e m g r a n d e p a r t e e r a m t i r a -
das dos recursos d o R i o .
S e u c o m m e r c i o e sua l a v o u r a m e l h o r a v a m l e n t a -
mente. A autoridade permíttia a n a v e g a ç ã o dc u m ou
o u t r o n a v i o f o r a da f r o t a , pelas necessidades do c o m -
mercio. ( 2 ;
Mas, a a p p r e h e n s ã o no m a r p e l o s p i r a t a s , i n s p i r o u
o a l v a r á d e 1 0 de J u n h o de L676; pelo q u a l os navios de
licença q u e fossem do Brazil a . R e i n o h a v i a m d c t e r 2 6
p e ç a s de a r t i l h a r i a e s ó c m n u m e r o d c 3 p o d i a m n a v e -
gar. (3)
O s e r v i ç o de g u a r d a dos navios n ã o e s t a v a a c a r -
go do p r o v e d o r da fazenda. E r a m o n o p ó l i o de u m i n d i -
v í d u o , m e m b r o da i n f a n t a r i a . A t é e n t ã o o p r o v e d o r
p o r m e i o de seus g u a r d a s , e x e r c i a esta f a n e ç ã o . Mas

(IJ Eita questão foi discutida na sessiVo do Cous. Ultr, de 2í dc Marco


dc 1C80. deferindo o requerimento de Mathias da Cuniia Cnrl. do Inst. Hist
(2) Em tempos anteriores a crise, as dizimas eram arremat-idjs por 130
mil c lflO mil cru-ados. Em 1670 ellas desceram a fií mil e em lUSi> ja tinham
subido a BC mil.
(3) CoU.—Prozed. da Fajenda—do Are. Pnt-1. vol. H> A.
— 247 —

de 1 6 7 7 ern d i a n t e passou a p e r t e n c e r a L u c a s d a Cos-


t a , a l f e r e s d a f o r t a l e s a d e Santa C r u z q u e passou, d e p o i s
d e m o r t o , aos seus f i l h o s . E porque T h o m é Correia,
e n t ã o p r o v e d o r , quizesse i n t e r v i r na f i s c a l i s a ç ã o m a -
r í t i m a d o s navios, f o i a v i s a d o p o r p r o v i s ã o d e [[27 d e
A b r i l d e 1 6 7 7 apara n ã o se i n t r o m e t t e r nesse s e r v i ç o . »
Regulou-Se t a m b é m o s e r v i ç o dos fretes q u e a t é
e n t ã o era f e i t o p e l a p r o v i s ã o d e 2 7 d e F e v . d e 1 6 7 1 .
O s m i n i s t r o s d a j u s t i ç a , fazenda e g u e r r a n ã o p e d i a m
intervir. O s p r e ç o s e r a m fixados e n t r e as p a r t e s e os
c o m m a n d a n t e s d o s navios e e m caso d c e m p a t e , u m
l o u v a d o viria d e c i d i r d e f i n i t i v a m e n t e . Este r e g i m e n
prestou-se a e x p l o r a ç õ e s , e u j o resultado f o i o a u g m e n t o
do p r e ç o d o f r e t e .
A C â m a r a e n t ã o r e p r e s e n t o u a o soberano, n o sen-
t i d o d e s e r e m fixados os f r e t e s c m 18& por t o n e l a d a e
e m :VJ$ para os navios de licença.
T o r n a r a m - s e suecessivos os actos d e c o r r u p ç ã o ad-
ministrativa. A s a u t o r i d a d e s desviavam-se das a n t i g a s
n o r m a s d e p u r e s a , c o m q u e sei lavam os seus actos. E
nesse d e s v i o n ã o p u d e m o s d e i x a r d e v e r a a c ç í í o d a c r i -
se q u e , n o R i o d e Janeiro, c h e g o u a o seu e x t r e m o . A
puresa d o s e n t i m e n t o a d m i n i s t r a t i v o , n a q u c l l c meio d e
p r e s s ã o e c o n ô m i c a , n ã o deixou de perverter-se.
E ' assim q u e a carta r e g i a dc !) d c M a i o d e 1667
aceusa o d e s c a m i n h o de g ê n e r o s e d i n h e i r o s dos n a v i o s
q u e v ã o para o R i o , o r d e n a d o á s a u t o r i d a d e s d a c i d a d e
q u e r e m e t i a m c e r t i d õ e s d o r e g i s t r o das fazendas e g a -
rantias q u e levassem. ( I )
K m cartas d c M a r ç o d e 1 6 7 6 , M a t h i a s d a C u n h a
d e n u n c i a a o soberano o p r o v e d o r q u e celebrara o c o n - i
t r a c t o das baleias c o m o seu creado, ( 2 )

il) Co 11. .Io Cartas Regia* do Arcb. Publ.


Vl\ Ç«U. Jo Cos. Otír. do Imt. Hist: Por carta do Governador do RI"
Ma:!.
„.,as da Cunha de 2 de Marco, com mímica que no ultimo çontracto das pa-
leíaa o provedor o fei com um seu creado e manJaodo o governador duer que
nào o celebra»»*, aera comuitinicar a «. «ip * " <opfvedor que j * estava
, o i

feito. Obierva que -arrenatando-sc em lfi7ó por 4003000 ..«ataram-se dO baleias


que renderam vinte mil cruzados c para V, A. $o os 40OI0W
— 0 M

Factos mais graves ainda posteriormente foram de-


nunciados c o n t r a a mesma a u t o r i d a d e ( I ) , e m c u j o i n i c i o
da a d m i n i s t r a ç ã o p r o c u r a r a m e s m o à b r * r c o n f l i c t ò c o m o
g o v e r n o , n ã o s ó n à o s u b m e t t e n d o ao seu cumpra-se o
d o c u m e n t o de s u a n o m e a ç ã o , c o m o p r o v e n d o c a r g o s
sem o p o d e r , por estarem f o r a de sua j u r i s d i c ç ã o . ( 2 )
E no g o v e r n o d e Caldas, c o m o v e r e m o s , a c o r r u -
p ç ã o a d m i n i s t r a t i v a c h e g o u a p o n t o d o p r ó p r i o Conse-
l h o U l t r a m a r i n o aconselhar ao r e i a p r i s ã o d o g o v e r n a -
dor e a d e m i s s ã o d o ouvidor.
E r a de b a l d e q u e o s o b e r a n o b a i x a v a suas cartas
e p r o v i s õ e s , p r o h i b i n d o n ã o s ó a i n t e r v e n ç ã o das a u t o r i -

nQuc este preço e aqucllc rendimento è iufallivelmente o que sc tetu expe


rimentaòo os a unos anteriores, cm que sempre fui ronlrücl.irfor o pae dc provador
servindo juuitfUiínte este ciTicio ac qvc cia proprietário, e por este respeito.
uào uuiav;iiu niíqiiclH lempo muitos ltumeu? lançar mais, como agora p;la
mesma causa rj deixam dc fazer, com prejuízos dá f Metida real.
Fede providencias. Pede medidas Subifc a def.-sa da cidade, mas c con-
veniente nada encarregar aü ouvidor, por ^er «irrigo do Provedor. Pede que
mande devassar desse ministro, porque dc c;;*.liario se acabara a fazenda dc
Sna Magestade.
He^olveu ordenasse ao Govcnadur <;ue àilJlulaBSe n io:-lrarto. para ser
feí:o outro por hasta publica e que a Baúia ritàiida*se íiw de*eiii!>.iíf>a,inr abrir
devassa do e-nvídor c provedor.
(1} Co/, eil. : Ü Governador M<Ulliss da Çuflhn tepreserila itjRdfl 3o Rei
contra o oilvidor c provedor dizendo que «faltando ao exercício e satisfaçflo de*
todo o referido o' Desembargador ouvido» Pediu de lulião Catielto Bratlço .»
ç

ò provedor Thotuè de Souta Correia pryn-Jfni «oíll tal desr^luÇão ua adiiiilistra-


(ào dc *cusoflicios que leu: temor d: .Siiàs coiiscieccias, unin respeito ao real
-

serviço de-S. A. nãu^obcdtceui a elie Governador, netu guárdío •>tu> regimento»,


r.em fazeiu avio algiun que U>K> sejfio de iujuilica, agravo <* uíOrpaçãü quaiíii
cada da fazeuda real. Chamado >• ouvido para fazei llie pouOer^çõcb. cm bcue*
fieLo próprio, elle retirou-se para S. Paulo, de satlco desamparadas as coúsas.
Diz m»is «que os diios Ouvidor c Provedor nuti a parcialidade c consi-
derações que eu Ire si icm, vivem ião livre* e éscandatoiaulcnlc «om tratos torpes
e iUSeilOs, :entrando e *ahi*id» de-noite e de dia em casa dc mulheres dc mão
viver, *cm O menor recato c distinção dói lempo*.
O Governador rcpieheuõeu ss desse procedimento, cm tempo de quares-
ma: Em vista díslo os orçados do Provedor, tingindo-sc dc ministro de justiça,
tom vara alçada íorâo dc úoite a can> de diflercnlcs mulheres, donzella* e
• asadas, hzeríio abiir as portas» c Buzarâo violentamente, pnndn-lhes armas
nos peitos ;«ndo tudo Jeito na •parcialidade do dito ouvidor e provedor,
-

NSu hwjve devassa dislo. porque o ouvidor deu carta dc seguro ?os creadus,
para rjbiiar a acção da justiça.
NSJ obslnutc o governador fez cercar cs conventos Jc S. Francisco e S.
I Bcnio para prender os dcliqncr.tes,
A- mulheres forào intimadas para negar o delicio,
Em visU de stutírrégu lar idades na administração da fazenda, não tepagão
aus soldados.
Km vista disto pede mandar um Desembargador da cúrle para atírji
devassa, e-ao da HihUj,.pjr serem amidos, Rosolveu-sc mandar um ministro
Üa Bahia abrir devassa.™.
— 249 —

d a d e s nos cc n t r a c t o s , c o m o q u e ellas t i v e s s e m n e g o c i o '


q u e seus p a r e n t e s nellcs t o m a s s e m p a r t e .
O r e i l i m i t o u - s e , p o r c a r t a de 19 de M a r ç o de 1 (5 76,
a c s t r a n l n r o p r o c e d i m e n t o do o u v i d o r c p r o v e d o r T h o -
m é de Souza que, p o r sua vez, c m c a r t a de 10 de F e -
v e r e i r o , i n f o r m a ao s o b e r a n o de q u e no R i o h a v i a u m
l u g a r de a j u d a n t e d o mar, q u e v i s i t a v a os navios a n t e s
de nelles e n t r a r e m os g u a r d a s da A l f â n d e g a , c o b r a n d o
4*> p o r cada u m , sem q u e o g o v e r n a d o r tivesse, pelo seu
r e g i m e n t o c o m p e t ê n c i a p a r a fazer essa n o m e a ç ã o .
E n t r e t a n t o , esse c a r g o n ã o f ô r a creado por M a t h i a s
da C u n h a , q u e n ã o fez mais de q u e reduzir de 8 * p a r a
4 ^ a i m p o r t â n c i a c o b r a d a p o r cada visita de n a v i o . (1J
E m n o v a phase de a n i m a ç ã o e n t r o u a e x p l o r a ç ã o
das minas, n o g o v e r n o d e M a t h i a s d a C u n h a , c o m a
n o t i c i a d a e x i s t ê n c i a de o u r o e p r a t a em Paranaguá.
* O s insuecessos a n t e r i o r e s de C a s t e i l o Branco, nas
minas dc Itabaiana, em Sergipe, n ã o p r i v a r ã o o go-
v e r n o de e m p e n h a r - s e a g o r a na e x p l o r a ç ã o da zona d o
sul.
A m o r t e de A g o s t i n h o nas e x p l o r a ç õ e s do E s p i r i t o
S a n t o q u e seguiu-se a d o m e s t r e do c a m p o J o ã o C o r r e i a
d c S á , i m p r e s s i o n o u p r o f u n d a m e n t e os paulistas, q u e
r e s o l v e r a m p e n e t r a r nestes s e r t õ e s , e q u e c o m m u n i c a -
r ã o ao r e i e m 1 0 6 2 , q u e t r a n s m i t t i u - l h e s seus agrade-
c i m e n t o s e m 1G74.
E s t e s s e r t õ e s j á t i n h â o sido d c / a s t a d o s p n r Sebas-
t i ã o Paes cie l i a r r o s , i r m ã o d o c e l e b r e e x p l o r a d o r Fer-
n ã o l \ i e s d~ B a r r o s .
F o r m a r ã o sc e n t ã o duas colunmas. U m a c o m m a n -
d a d a por L o u r e n ç o Castanho T a c q u e s a q u e m sc d e u a
p a t e n t e de g o v e r n a d o r de sua gente, e q u e se e n c a m i -
n h o u para o s e r t ã o d c Cataguazes. O u t r a sob o c o m -
m a n d o de F e r n ã o D i a s Paes, t a m b é m g o v e r n a d o r , q u e
sc e n c a m i n h o u para S a b n r a b u ç u , fazendo passagem por
elle p a r a o R e i n o dos Mapaxos, ao - c M c o b r i m e n t o das

(1) t w . cit.
— 250 —

esmeraldas, l e v a n d o c o m s i g o c o m o c a p i t ã o m ó r o s e u
f u t u r o snecessor M a t h i a s C a r d o s o de A l m e i d a , m u i t o
pratico nos s e r t õ e s , c m vistas das entradas q u e t i n h a f e i t o .
O s officiaes d a C â m a r a d c S . P a u l o e n c a r r e g a r ã o
t a m b :m a F r a n c i s c o C a m a r g o de p e n e t r a r o s e r t ã o c o m
sua trepa, a d e s c o b r i r , m i n a s d c o u r o c p r a t a .
M triuel Pereira S a r d i n h a t a m b é m o r g a n i s o u t r o p a
e e n t r o u pelos s e r t õ e s de P a r a n a g u á e r i b e i r a de
Iguapc
F m vista d e s t e m o v i m e n t o foi d e s p a c h a d o , a 2 8 de
j u n h o d c l 6 . 7 3 , d . R o d r i g o de C a s t e i l o B r a n c o p a r a as
mim-s de I t - b a i a n a . E m 1 1 d c j u l h o deste anno c o m e ç o u
o seu t r a b : l h o .
D e p o i s passou-se p a r a S . P a u l o .
A t é e n t ã o o s e r v i ç o das m i n a s do s u l e s t a v a e n -
t r e g u e á a d m i n í s t r r ç ã o de A g o s t i n h o F i g u e i r e d o , « c a p i -
t ã o - m ó r de S. V i c e n t e , d e v e n d o o g o v e r n o d o R i o e n -
t r e g a r - l h e os s o b e j o s do d i z i m o . ( 1 )
J á t i n h a sido despachado p a r a o s u l e s p e c i a l m e n t e
para as m i n a s de P a r a n a g u á , Braz R o d r i g u e s , e m l í ! 7 3 ,
acompanhado de um engenheiro ( 2 ) . P o r o r d e m ex-
pressa d o g o v e r n o d a B i l l i a , o s e r v i ç o das m i n a s e s t a v a
sob sua j u r i s d i c ç ã o , n ã o d e v e n d o as a u t o r i d a d e d o R i o
peite e n v o l v e r e m - s e , s e n ã o prestar a u x í l i o s q u e f o s s e m
pedidos.
C o m o vimos, d o norte Casteilo Br..nco veiu para o
sul.
E m 2 9 de N o v e m b r o d c 1 C 7 7 , o r e i c o m m u n i c a a
c â m a r a d e S . Paulo que cxp;;de Casteilo Branco, como
a d m i n i s t r a d o r g e r a l das m i n a s c o g e n e r a l J o r g e S o a r e s
d c M a c e d o , n o m e a d o p o r ç à r t á r e g i a de íiO de O u t u b r o
de 1C77 t e n e n t e dc m e s t r e de c a m p o g e n e r a l h o n o r á r i o
i n f a n t e r i a q u e passara d e s c o b r i m e n t o das m i n a s de Pa-
ranaguá e Sarabuçu.

íl) CJVU de 3 dc Abril A* liija.


rd; Coll.—tiur.f, Hi>is. da liibl. CaTta do p->v?rao da Bahia ao Rio dc V
de (toembro dc 1073.
251 —

N o R i o d c Janeiro recebeu C a s t e i l o B r a n c o a l e m
d c 2 0 0 $ m u i t o s a u x í l i o s . E m N o v e m b r o de 1 6 7 8 fez
J o ã o de M a t t o s , c o m o cabo da tropa u m a entrada pelo
sertão, p o r é m , improficuamente.
D e s e n g a n a d o no R i o , f o i Casteilo B r a n c o para
Santos, o n d e a 3 0 de N o v e m b r o d o m e s m o a n n o , fez
p u b l i c a r b a n d o , em q u e c o n v i d a v a os m o r a d o r e s p a r a
e x p l o r a r e m as m i n a s a t é B u e n o s A y r e s , o f f e r c c e n d o
p e r d ã o aos c r i m i n o s o s , a l é m de honras c m e r c ê s . A ex-
p e d i ç ã o dividia-se em u m a parte m a r í t i m a c terrestre.
A e s q u a d r a sahiu de S a n t o s e m M a r ç o de 1679
p a r a o R i o da Prata. A esquadra a r r i b o u por diversas
vezes e na u l t i m a despersou sc. E n t ã o o general foi
p o r t e r r a a i l h a d é S . C a t h a r i n a , o n d e fez q u a r t é i s , cas.i
de a l f â n d e g a . D a h i e m b a r c o u p a r a soecorrer d . M a -
n o e f n a c o l ô n i a cio S a c r a m e n t o . Naufragou em cami-
n h o . D . R o d r i g o f o i t r a t a r das m i n a s de P a r a n a g u á .
A h i fez u m a e n t r a d a a t é as a'deias d e S . F r a n -
cisco c c a m p o s de Goy;.n:.zes.
N a d a encontrou e m P a r a n a g u á , n à o obstante todas
as d e l i g e n c i a s q u e fez.
D e u r e g i m e n t o ao s e r v i ç o das m i n a s c m l í l de
A g o s t o de 1 6 7 9 . V e i u d e p o i s p a r a S a n t o s e S. Paulo.
(1680).
R e s o l v e u e n t ã o fazer e n t r a d a nos s e r t õ e s de « S a -
r a b u ç ú o , elegendo a c â m a r a de S. P a i i l ò o cabo M a -
thias C a r d o s o d c A l m e i d a , q u e d . R o d r i g o n o m e o u por
p r o v i s ã o de 2 8 d c j a n e i r o cie 1 6 8 1 . Fez se a entrada ao
s e r t ã o , passando no arraial de S. P e l r o . A h i o filhj? de
F e r n ã o D i a s Paes e n t r e g o u - l h e u m i esn-.eralda encon-
t r a d a por seu p a i . Passou ao a r r a i a l do S u m i d o u r o ,
o n d e f a l l e c c u d . R o d r i g o em 1 6 8 2 .
F i c o u na posse da a d m i n i s t r a ç ã o das minas, o pro-
v e d o r de S . Paulo M a n o e l R o d r i g u e s de O l i v e i r a a t é
que, p o r c a r t a de 1 2 e 15 de M a r ç o de 169-1, ao g o v e r -
n a d o r d o R i o A n t ô n i o Paes de Sandc, o r d e n o u passasse
a S . Paulo, c o m a d m i n i s t r a ç ã o das minas.
— 252 —

F a l l c c e n d o Sandes no R i o , f i c o u no g o v e r n o o
mestre dc c a m p o S e b a s t i ã o de C a s t r o C a l d a s . Neste
t e m p o se e x t r a h i u no s e r t ã o d c « S a b a r a b u c u » os p r i -
m e i r o s f a i s q u e i r o s d c o u r o . Isto f o i c o m m u n i c a d o p a r a
a m e t r ó p o l e por Garcia Rodrigues que foi o descobri-
dor.
M a t h i a s da C u n h a e n t r e g o u o g o v e r n o a d . M a -
n o e l L o b o , n o m e a d o p o r p a t e n t e de 8 d c O u t u b r o d e
CAMTULO X

S.hMMARTO—Governo de I). SianóeJ Lobo. Sen progaanima de gouertio. Fúrt-


datào d.i Colônia do Sacramento, O reerhtdineota, Reelamaçda
ila Câmara. Perda da Colônia, Duarte Teixeira Ckaveti Re-
ciiperaçãn da Colônia. Prozedimento dos soldados portugtléifS no
Rio, j'iào Tavares Roldão. Seu governo e de Pedro Gome* e
D, Duarte Teixeira Chaves. Influencia da Colônia no Rio. Si-
tuaçãofinanceira.Atraso dos donativos'. Outros factos. Circula-
ção na Rio petos h'$/>anhdcs. João Furtado dc Mendonça, Sen
gosem". Saa correspondência sobre a Colônia. Ditcunâo sobre
s/ deve a metrópole eontinmr eo'"<iisa'-a ou não. Obiniàn de
,j Thomé de Alraeida. A.ettft do soberano e reclamações da Cawaia.
Medidas de rtatitrr^i eeowmilea e linaneelva. Os eiteatot. As
leis que os regulam. Movimento liberal a teu favor, tixeessoi
do* eterui-ios. FraneifeO Waper de A/encaStro, l) bispo D.Jrsé,
Luif Ç/sar de MeneifeH e seu governo. Hábitos coonaereiaes e
Goieruo de imposto*.
D. Manoel Vator Lobo
da moeda. Reforma.
e seus Algumas medidas.
succcssorcs alt Arlhur
de Sá Menezes

Outro aspecto político e administrativo assumiu o


R i o de J a n e i r o , c o m o g o v e r n o de d . M a n o e l , q u e assu-
m i r a a a d m i n i s t r a ç ã o nos fins de A b r i l ou e m c o m e ç o de
M a i o de 11)70. ( 1 )
T r a z i a firmado,