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CONSEQUÊNCIAS DA LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL NAS RECEITAS

PÚBLICAS

Elisandra de Vargas Garcia1


Orientadora: Flavia Pozzera Gassner2

RESUMO
Como toda e qualquer organização, para que o Estado possa operar de forma
eficiente e estruturada, cumprindo com seus objetivos, é necessário que este tenha
recursos patrimoniais disponíveis para cumprir com sua missão. Neste sentido,
quando se fala em receitas públicas, é preciso pensar que esta é a forma para que o
Estado realize suas atividades, arrecadando recursos para seu funcionamento.
Todavia, nas últimas décadas o Estado sofreu com o endividamento desenfreado,
onde suas despesas superavam as receitas arrecadadas, criando um descompasso
que trouxe consequências para toda a população brasileira. Defronte a
insustentabilidade dessa situação, surge a Lei de Responsabilidade Fiscal, trazendo
em seus fundamentos uma nova perspectiva para o gerenciamento do orçamento
público e, por conseguinte, de sua receita, que depois do surgimento do referido
ordenamento passou a ter novas dimensões. Assim, o objetivo principal deste artigo
é analisar, por meio de pesquisa bibliográfica, quais as consequências que a Lei de
Responsabilidade Fiscal trouxe no âmbito das receitas públicas, com vistas a se
frear os gastos exacerbados do Estado, tentando atingir um superávit em suas
contas, resultado este imprescindível para que o Estado alcance seus objetivos com
relação à sociedade.
Palavras-chaves: receitas públicas, Lei de Responsabilidade Fiscal,
consequências.

1. INTRODUÇÃO

O advento da Lei de Responsabilidade Fiscal - Lei nº. 101 de 04 de maio de


2000 inseriu novas perspectivas para sociedade brasileira no que diz respeito a sua
visão sobre o Estado e Administração Pública. A Lei em comento trouxe em seu bojo
a esperança de milhares de brasileiros de se sentirem melhores amparados, por
uma Administração que passaria, com a vigência da Lei, a ter maior eficiência,
proporcionando uma maior otimização e funcionalidade de suas atividades e,
sobretudo, a Lei de Responsabilidade Fiscal deu ao povo brasileiro legitimidade para

1
Pós-Graduanda em Contabilidade Pública e Lei de Responsabilidade Fiscal da Uninter/Facinter.
2
Graduada em Ciências Contábeis pela Universidade Federal de Santa Maria, pós-graduação em
Auditoria Integral e mestrado em Contabilidade pela Universidade Federal do Paraná.
2

se responsabilizar atos ímprobos dos administradores públicos até mesmo na esfera


criminal.
Percebe-se, neste sentido, que o referido diploma legal veio contribuir com
uma nova relação entre administradores e administrados, pois a sociedade a partir
de seu advento começou a dar maiores créditos às instituições públicas que
representam o Estado Democrático de Direito.
A Lei de Responsabilidade Fiscal exigiu maior transparência dos atos
públicos, estabeleceu limites com seus gastos e, como não podia deixar de ser,
também trouxe consequências para as receitas públicas, dentre elas a Lei relata que
a instituição, previsão e arrecadação dos tributos deve ser permeada pela
responsabilidade na gestão fiscal, pois seu descumprimento trará como efeito a
suspensão de transferências as entidades descompromissadas.
Assim, tendo por base tais premissas, o artigo se justifica na medida em que
examina o conteúdo dos efeitos da LRF nas receitas públicas, tema este de total
relevância para a sociedade. Deste modo, tem-se por intuito principal analisar as
principais consequências trazidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal nas receitas
públicas. Entretanto, para que tal objetivo seja alcançado é necessário o alcance de
alguns objetivos específicos, tais como: esclarecer alguns conceitos pertinentes ao
orçamento público, já que este se constitui como elemento fundamental para a
otimização tanto das receitas quanto despesas públicas, bem como se pretende
verificar alguns conceitos pertinentes a receita pública, para então observar os
efeitos na LRF neste instituto.
Esses objetivos foram fixados com a finalidade de se resolver a seguinte
situação problemática: a LRF realmente trouxe mudanças efetivas para as receitas
públicas, de modo à concretamente transformar as ações dos administradores no
que se refere sua responsabilidade com o Estado?
Entretanto, para que a problemática seja solucionada e os objetivos
alcançados é preciso a escolha de um método, o qual neste trabalho será embasado
em pesquisa bibliográfica realizada em inúmeras fontes, como, livros, periódicos e
materiais virtuais.
Ademais, para um bom entendimento de tais análises, o trabalho será
estruturado da seguinte forma: num primeiro momento serão expostos alguns
conceitos sobre o orçamento público, já que é de total pertinência saber que este
instrumento é que define e planeja os gastos e arrecadações da Administração
3

Pública, por isso seus postulados devem ser entendidos com clareza. A seguir,
priorizou-se concepções acerca das receitas públicas de maneira genérica para
somente a seguir criar o liame com o tema do artigo: as consequências da LRF nas
receitas públicas. Ao final, com as considerações finais, acredita-se que novas
questões poderão ser lançadas para eventuais pesquisas futuras, já que a reflexão
gerada por este artigo certamente não consumirá seu tema.

2. DO ORÇAMENTO PÚBLICO

Sabendo que a Administração Pública não age sem estratégias bem


definidas e, ainda, que dentro dessas estratégias as receitas são englobadas, é
necessário discorrer mesmo que brevemente acerca do Orçamento Público, já que
este se remete a ferramenta de extrema valia para o alcance dos objetivos da
Administração, a qual em consonância com Justen Filho (2005, p. 29) pode ser
entendida como:
(...) o conjunto de poderes jurídicos destinados a promover a satisfação de
interesses essenciais, relacionados com a promoção de direitos
fundamentais, cujo desempenho exige uma organização estável e
permanente e que se faz sob regime jurídico infra legal e submetido ao
controle jurisdicional.

Sob tais moldes, a administração visa à satisfação dos interesses coletivos,


entretanto para que isso ocorra ela precisa de instrumentos para atingir esse
objetivo, dentre eles é necessário que a arrecadação de receitas. Assim, como bem
preconizam Santiago e Duarte (2005, p. 03):

Para a Administração Pública acompanhar, comparar e avaliar a


movimentação orçamentária faz-se necessário os devidos registros das
receitas e despesas no sistema orçamentário. Para a efetiva evidenciação
desses registros, primeiro deverá haver um levantamento das necessidades
da população atreladas à previsão da capacidade de arrecadação de
receitas do município, para posterior elaboração da proposta orçamentária.
Esta, depois de encaminhada ao Poder Legislativo pelo Poder Executivo
transforma-se em Lei de Orçamento Anual que vigorará no exercício
financeiro posterior a sua aprovação e sanção.

Pois bem, a fim de acompanhar, comparar e avaliar a movimentação


orçamentária, a Administração Pública se utiliza do Orçamento Público que de
acordo com Pereira (1999, p.124) possui extrema importância, pois:
4

Pode ser dimensionado pelo tratamento que o assunto recebe na


Constituição Federal, que determina o encadeamento lógico e sistemático
ao planejamento da ação governamental, o plano plurianual, as diretrizes
orçamentárias e os orçamentos anuais.

Portanto, a materialização das funções estatais conforme Piscitelli et. al.


(1997, p.47), concretiza-se:

Por meio do orçamento público, que é o aparelho de que dispõe o poder


público para anunciar, em determinado período de tempo, seu programa de
atuação, discriminando a procedência e o total dos recursos a serem
conseguidos, bem como a natureza e o montante dos dispêndios a serem
efetuados.

Assim, a importância do orçamento transcende a mera ordenação de


receitas e despesas. Na verdade, traduz-se em uma ferramenta que manifesta de
modo quantitativo a situação financeira da administração pública, servindo de norte
para a tomada de decisões na gerência dos recursos públicos. Para Reis (1996,
p.26), o sistema orçamentário na administração pública constitui-se em:

Um utensílio do que serve a administração pública, no sentido de dirigir os


atos a serem desenvolvidos para alcançar determinados objetivos e metas,
que é designado de desenvolvimento econômico social.

Já Koyama (1996, p.64) estabelece que o orçamento público é:

Um ato de presciência de receita e fixação da despesa para um


determinado período de tempo, na maioria das vezes um ano, e constitui o
documento constitucional das finanças do Estado, bem como da
contabilidade pública.

Ainda conceituando o orçamento público, Silva (1996, p.37) expõe que:

Orçamento é um plano de trabalho governamental manifestado em termos


monetários, que confirma a política econômica e financeira da administração
e em cuja preparação foram observados os princípios da unidade,
universalidade, anualidade, especificação e outros.

Frente a tais concepções acerca do orçamento público, pode-se perceber


que o mesmo deve desenhar-se como elo entre o planejamento operacional e as
finanças, no intuito de definir que os gastos públicos permaneçam em conformidade
com os desejos da sociedade, bem como se os recursos estão sendo empregados
legalmente.
Justamente por isso não se pode negar sua relevância, principalmente na
sociedade contemporânea, na qual as cobranças intensificam-se ante as várias
5

situações que surgem, objetivando a satisfação das necessidades sociais da


população.
O orçamento público brasileiro obedece ao ordenamento disposto na Lei
Maior de 1988 e ainda a Lei Federal nº. 4.320/64, que estabelece regras de direito
financeiro para seu desenvolvimento e controle. Também se baseia na Lei de
Responsabilidade Fiscal, que determina preceitos relacionados às finanças no que
se refere à responsabilidade da gestão pública.
Ante ao supracitado Reis (1996, p.25) argumenta que o orçamento público
possui elementos singulares, os quais destacam:

a) Materialização dos desígnios e metas determinados, quantificados física


e monetariamente, constituídos antecipadamente;
b) Recomenda recursos reservados ao cumprimento dos programas de
trabalho, decididos e estabelecidos no sentido de solucionar problemas;
c) Discrimina as fontes dos recursos financeiros a serem conseguidos;
d) É o elo entre o plano, programação e finanças, ganhando destas os
recursos cogentes á consecução dos objetivos definidos;
e) Medita sobre a responsabilidade da organização administrativa, no
cumprimento e emprego dos recursos reservados aos vários programas de
trabalho.

Já para Ferreira (1987, p.12) as características capitais do orçamento


público são:
a) É um ato de previsão e de ordem destinado a regular a função
administrativo-financeira do poder executivo;
b) A aplicação e cumprimento das previsões e autorizações contidas no
orçamento não podem ser aplicados na vida normal do Estado sem
autorização legislativa;
c) Resolução legal para o aproveitamento do orçamento se menciona
constantemente a um período determinado;
d) O cumprimento do orçamento pelo poder administrante, dentro do
exercício calculado, é correlativo ao dever legal de prestar contas.

Conforme o autor pode-se notar que tais aspectos pertinentes ao orçamento


público, indicam muitas vezes objetivos e metas a serem traçadas e, ainda, esses
elementos caracterizadores são capazes de identificar recursos disponíveis e fontes
necessárias. Tendo em vista tais pressupostos, o próximo item tratará de definir as
receitas públicas, haja vista que antes de se iniciar a explanação acerca das
consequências trazidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal nestas, importante se
faz elucidar algumas de suas conceituações.

2.1 Conceitos Essenciais em Receitas Públicas


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De acordo com o Manual de Procedimentos das Receitas Públicas (2005) o


termo receita pública deriva-se do conceito contábil de receita, contudo adiciona
outros elementos empregados na Administração Pública, obviamente em razão de
suas particularidades, em outros termos a receita pública é conceituada como:

(...) todos os ingressos de caráter não devolutivo auferidos pelo poder


público, em qualquer esfera governamental, para alocação e cobertura das
despesas públicas. Dessa forma, todo o ingresso orçamentário constitui
uma receita pública, pois tem como finalidade atender às despesas públicas
(BRASIL, 2005, p. 14).

Quanto à regulamentação das receitas públicas, esta se dá de acordo com a


Lei nº 4.320/64, a qual legitima os ingressos de disponibilidades de todos os entes
da federação classificando-os em dois grupos: orçamentários e extra orçamentários,
desse modo tais ingressos são explicados como sendo:

Os ingressos orçamentários são aqueles pertencentes ao ente público


arrecadados exclusivamente para aplicação em programas e ações
governamentais. Estes ingressos são denominados Receita Pública. Os
ingressos extra orçamentários são aqueles pertencentes a terceiros
arrecadados pelo ente público exclusivamente para fazer face às exigências
contratuais pactuadas para posterior devolução. Estes ingressos são
denominados recursos de terceiros (BRASIL, 2005, p. 15).

Já no que concerne a sua contabilização, os conceitos contábeis e


orçamentários fixados, determinam que a receita pública poderá provocar ou não
modificação na situação patrimonial líquida. Conforme os efeitos produzidos ou não
no “Patrimônio Líquido, a Receita Pública pode ser efetiva e não-efetiva. Qualquer
que seja a receita deverá ser registrada contabilmente para fins de evidenciação e
controle” (BRASIL, 2005, p. 15).
Explicitando o que vem a ser a Receita Pública Efetiva, esta é aquela em
que “os ingressos de disponibilidades de recursos não foram precedidos de registro
de reconhecimento do direito e não constituem obrigações correspondentes e por
isto alteram a situação líquida patrimonial” (BRASIL, 2005, p. 15). Enquanto que a
Receita Pública Não-Efetiva é aquela em que “os ingressos de disponibilidades de
recursos foram precedidos de registro do reconhecimento do direito e por isto não
alteram a situação líquida patrimonial” (BRASIL, 2005, p. 16).
O referido Manual ainda estabelece que o reconhecimento da receita
pública, se dá em virtude da aplicação dos princípios fundamentais da contabilidade.
7

Neste caso, a Lei nº. 4.320/64, em seus artigos 51 e 53, estabelece o direito de
cobrança de tributos com base em duas ações governamentais: a instituição de
tributo e a sua inclusão no orçamento mediante Lei, observadas as regras
constitucionais. Portanto, constitui-se reconhecimento de receita para o ente, a
combinação da instituição de um tributo e sua inclusão no orçamento (BRASIL,
2005).
No que concerne a sua arrecadação, aplica-se o regime orçamentário de
caixa descrito no art. 35 da Lei nº 4.320/64 o qual dispõe que:

Art. 35. Pertencem ao exercício financeiro:


I - as receitas nele arrecadadas;
II - as despesas nele legalmente empenhadas (BRASIL, 2010, p. 21).

Entende-se ainda como ingresso de disponibilidade de recursos a


compensação ou quitação de obrigações utilizando-se de direitos ou conversão de
obrigações em receita, cujos recebimentos estejam previstos no orçamento
(BRASIL, 2005). Com relação à classificação das receitas públicas estas estão
arroladas no artigo 11 da Lei nº. 4.320/64, conforme segue abaixo:

Art. 11. A Receita classificar-se-á nas seguintes categorias econômicas:


Receitas Correntes e Receitas de Capital.
§ 1º São Receitas Correntes as receitas tributária, patrimonial, industrial e
diversas e, ainda as provenientes de recursos financeiros recebidos de
outras pessoas de direito público ou privado, quando destinadas a atender
despesas classificáveis em Despesas Correntes.
§ 2º São Receitas de Capital as provenientes da realização de recursos
financeiros oriundos de constituição de dívidas; da conversão em espécie,
de bens e direitos; os recursos recebidos de outras pessoas de direito
público ou privado destinados a atender despesas classificáveis em
Despesas de Capital e. ainda, o superávit do Orçamento Corrente.
§ 3º O superávit do Orçamento Corrente resultante do balanceamento dos
totais das receitas e despesas correntes, apurado na demonstração a que
se refere o Anexo nº I, não constituirá item da receita orçamentária.
§ 4º A classificação da receita por fontes obedecerá ao seguinte esquema:
RECEITAS CORRENTES
Receita Tributária
Impostos.
Taxas.
Contribuições de Melhoria.
Receita Patrimonial
Receitas Imobiliárias.
Receitas de Valores Mobiliários.
Participações e Dividendos.
Outras Receitas Patrimoniais.
Receita Industrial
Receita de Serviços Industriais.
Outras Receitas Industriais.
Transferências Correntes
Receitas Diversas
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Multas.
Cobrança da Dívida Ativa.
Outras Receitas Diversas.
RECEITAS DE CAPITAL
Operações de Crédito.
Alienação de Bens Móveis e Imóveis.
Amortização de Empréstimos Concedidos.
Transferências de Capital
Outras Receitas de Capital (BRASIL, 2010, p. 10).

Ademais quanto ao seu recolhimento, a receita pública é depositada na


conta do Tesouro relativo ao produto da arrecadação de receitas que resulta em
registro contábil e a compatibilização ou conciliação com a receita classificada
(BRASIL, 2005, p. 16). Por fim vale demonstrar o fluxograma da receita pública no
contexto econômico, o qual se compõe pelos conceitos financeiros (gestão
financeira) e pelo conceito patrimonial que se embasa na tradição patrimonialista,
que por muito tempo não vem sendo observado, tanto pela administração pública,
“quanto pela contabilidade pública aplicada ao setor público e que, com o advento
da Lei de Responsabilidade Fiscal vem demandando esforços para fazer cumpri-lo,
necessitando uma mudança cultural” (BRASIL, 2005, p. 16).

Figura 01 – Fluxograma das receitas públicas no contexto econômico

Fonte: (BRASIL, 2005, p. 16)


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Observados os principais conceitos relativos às receitas públicas, o próximo


item tratará do tema propriamente dito, as consequências da Lei de
Responsabilidade Fiscal nas receitas públicas.

2.2 As Consequências da Lei de Responsabilidade Fiscal nas Receitas


Públicas

Core (2001, p. 119) consegue visualizar claramente os avanços e, por


conseguinte, as consequências trazidas pela LRF às receitas públicas, ressaltando
que:
As informações de receita assumiram uma importância fundamental. Vários
procedimentos e mecanismo de controle foram estabelecidos nessa lei com
base em previsão de arrecadação de receita, o que impõe a necessidade de
um cuidado especial no que se refere à qualidade dessas informações.

Moura (2005) sobre as inovações trazidas pela LRF no campo das receitas
públicas ensina que existe uma maior demanda pela capacitação das organizações
públicas, já que a referida Lei obriga os servidores públicos que atuam diretamente
na área da Receita, devem saber de antemão os resultados dos tributos que
arrecadam e que administram.
Sendo assim, pode-se concluir que tais administradores devem se
comprometer não só com o resultado final do processo de arrecadação, mas com o
início, prevendo situações e diagnosticando eventuais problemas.
Tais critérios trazidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, em especial
o da transparência, veio para ao menos atenuar os efeitos de uma sociedade
plenamente insatisfeita com seus governados, mediante tantas notícias sobre
fraudes e crimes cometidos na arrecadação das receitas. Como bem expõe Moura
(2005, p. 81):

As informações de receita assumiram uma importância fundamental. Vários


procedimentos e mecanismos de controle foram estabelecidos nessa lei
com base em previsão e arrecadação de receitas, o que impõem a
necessidade de um cuidado especial no que se refere à qualidade dessas
informações.

Como relatado no começo do trabalho, a instituição, a previsão e a efetiva


arrecadação de todos os tributos é ressaltada pelo texto da LRF como requisito
essencial da responsabilidade na gestão fiscal, no qual o descumprimento trará
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consequências para a administração, tais como o não repasse de verbas


voluntárias. Ainda sobre as mudanças trazidas pela LRF, Debus e Nascimento
(2001, p. 23) salientam que:
Para a sua previsão, além de observar as normas técnicas e legais e a
respectiva metodologia de cálculo, as estimativas da receita devem estar
acompanhadas de demonstrativo da sua evolução, nos três anos anteriores
e nos dois seguintes àquele a que se referirem. Permanece também o
mandamento constitucional que somente admite reestimativa de receita,
pelo Poder Legislativo, nos casos de erro ou omissão de ordem técnica ou
legal.

Além disso, a implantação da Lei trouxe inúmeros procedimentos e


mecanismos de controle fixados com base na previsão e arrecadação de receitas,
dando a devida importância a este instituto, como se pode ver abaixo:

Art. 11. Constituem requisitos essenciais da responsabilidade na gestão


fiscal a instituição, previsão e efetiva arrecadação de todos os tributos da
competência constitucional do ente da Federação.
Parágrafo único. É vedada a realização de transferências voluntárias para o
ente que não observe o disposto no caput, no que se refere aos impostos.
Art. 12. As previsões de receita observarão as normas técnicas e legais,
considerarão os efeitos das alterações na legislação, da variação do índice
de preços, do crescimento econômico ou de qualquer outro fator relevante e
serão acompanhadas de demonstrativo de sua evolução nos últimos três
anos, da projeção para os dois seguintes àquele a que se referirem, e da
metodologia de cálculo e premissas utilizadas.
§ 1o Reestimativa de receita por parte do Poder Legislativo só será
admitida se comprovado erro ou omissão de ordem técnica ou legal.
§ 2o O montante previsto para as receitas de operações de crédito não
poderá ser superior ao das despesas de capital constantes do projeto de lei
orçamentária.
§ 3o O Poder Executivo de cada ente colocará à disposição dos
demais Poderes e do Ministério Público, no mínimo trinta dias antes do
prazo final para encaminhamento de suas propostas orçamentárias, os
estudos e as estimativas das receitas para o exercício subseqüente,
inclusive da corrente líquida, e as respectivas memórias de cálculo.
Art. 13. No prazo previsto no art. 8o, as receitas previstas serão
desdobradas, pelo Poder Executivo, em metas bimestrais de arrecadação,
com a especificação, em separado, quando cabível, das medidas de
combate à evasão e à sonegação, da quantidade e valores de ações
ajuizadas para cobrança da dívida ativa, bem como da evolução do
montante dos créditos tributários passíveis de cobrança administrativa
(VADE MECUM SARAIVA, 2010, p. 1168).

Conforme ainda relatam Nascimento e Debus (2005) dos artigos acima


pode-se extrair que cabe ao Chefe do Executivo informar aos demais Poderes e ao
Ministério Público os estudos e as estimativas das receitas, pelo menos trinta dias
antes de esgotar-se o prazo de envio das respectivas propostas orçamentárias.
Além disso,
(...) o Poder Executivo deverá, até trinta dias após a publicação do
orçamento anual, efetuar o desdobramento das receitas em metas
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bimestrais de arrecadação, informando quais medidas serão adotadas para


o combate a sonegação, a cobrança da dívida ativa e os créditos
executáveis pela via administrativa (NASCIMENTO; DEBUS, 2005, p. 82).

Outro efeito que pode ser extremamente comemorado pela sociedade é o


que concerne à concessão indiscriminada dos incentivos fiscais, os quais são
práticas perigosas às finanças, ainda mais quando se sabe que muitas vezes tais
incentivos atendem interesse apenas de particulares. Nessa seara, esta prática deve
se sujeitar a regras disciplinadoras tanto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, quanto
da Lei de Responsabilidade Fiscal, portanto devendo ser cumprido os seguintes
aspectos:
a) Estimar o impacto orçamentário financeiro no exercício inicial de sua
vigência e nos dois seguintes;
b) Demonstrar que a renúncia delas decorrente foi considerada ao se
estimar a receita do orçamento e que não afetará as metas de resultados
fiscais previstas na LDO;
c) Prever medidas de compensação nos três exercícios já referidos,
podendo ser: elevação de alíquota, ampliação da base de cálculo ou novos
tributos ou contribuições, sendo que nos dois últimos casos o benefício só
entrará em vigor após a ocorrência do aumento da receita. Estas medidas
deverão observar ainda, o princípio da anterioridade, nos termos do Código
Tributário Nacional (NASCIMENTO; DEBUS, 2005, p. 82).

As isenções das limitações previstas acima se submetem apenas aos


cancelamentos de débito inferiores aos custos de cobrança. Conclui-se, ainda, que
os setores orçamentários passaram a ter mais amplitude nas tomadas de decisões,
haja vista que com o advento da LRF,

Estas previsões, tal qual são feitas pelas empresas para determinar a
previsão de demanda e consequentemente a programação da produção, as
compras a realizar e onde concentrar os esforços são, ou deveriam ser,
realizadas também por todos os níveis de governo para que o orçamento
seja elaborado de forma responsável e sua realização acompanhada e
revista constantemente (MOURA, 2005, p. 83).

Tal premissa relatada pelo aludido autor é constatada no art. 9 da LRF:

Art. 9o Se verificado, ao final de um bimestre, que a realização da receita


poderá não comportar o cumprimento das metas de resultado primário ou
nominal estabelecidas no Anexo de Metas Fiscais, os Poderes e o Ministério
Público promoverão, por ato próprio e nos montantes necessários, nos trinta
dias subsequentes, limitação de empenho e movimentação financeira,
segundo os critérios fixados pela lei de diretrizes orçamentárias (VADE
MECUM SARAIVA, 2010, p. 1168).

Procura a LRF ainda, em seu Capítulo III, resgatar a importância das


receitas próprias na realização dos projetos e conservação da coisa pública em
níveis locais, assim, estados e municípios, já que possuem legislação tributária
12

própria devem explorar eficazmente sua arrecadação, desvinculando-se cada vez


mais dos cuidados da União (NASCIMENTO; DEBUS, 2001).
Isso implica em estabelecer que a cobrança de tributos deve ser vista como
uma motivação ao administrador para o desenvolvimento do sistema tributário local,
posto que “nos termos da LC 101 e, nos termos da Lei 10.028 (Lei de Crimes
Fiscais), cobrar impostos, mais do que um direito, passa a ser uma obrigação”
(NASCIMENTO; DEBUS, 2001, p. 25).
De tal sorte, mediante aos ensinamentos doutrinários aqui expostos, pode-
se afirmar que a LRF trouxe mudanças significativas no âmbito das receitas
públicas, o que certamente possibilitou maior comprometimento e responsabilidade,
como responsabilização dos administradores públicos. Por assim o ser, a Lei foi
extremamente benéfica, não apenas no sentido das receitas, mas, principalmente
em satisfazer os anseios da sociedade pela probidade administrativa.

2.3 Metodologia

Conforme estabelecem Beuren et. al. (2003), as etapas primordiais para a


pesquisa em Contabilidade são: assunto a ser pesquisado, delimitação do tema,
identificação do objeto de investigação e dos objetivos, definição dos métodos e
procedimentos de investigação, construção do marco teórico referencial, coleta e
análise de dados.
Sendo a pesquisa feita em forma de artigo, esta procurará referências
teóricas para analisar a situação problemática abordada, de forma que se converte
em pesquisa bibliográfica por suas características, conforme Beuren (2003, p. 87):

Explica um problema a partir de referenciais teóricos publicados em


documentos. Pode ser realizada independentemente ou como parte da
pesquisa descritiva ou experimental. Ambos os casos buscam conhecer e
analisar as contribuições culturais ou cientificas do passado existente sobre
um determinado assunto, tema ou problema.

Tal método no campo das ciências contábeis não é desprezado, pois,


segundo Beuren (2003, p.87):

No que diz respeito a estudos contábeis, percebe-se que a pesquisa


bibliográfica está sempre presente, seja como parte integrante de outro tipo
de pesquisa ou exclusivamente enquanto delineamento. (...) podem ajudar o
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estudante a conhecer o que foi produzido de importante sobre o objeto da


pesquisa.

Diante do citado, a seguir, será feita uma breve, mas essencial descrição
dos métodos utilizados para a realização deste estudo. Este trabalho resume-se
numa pesquisa realizada sob a orientação bibliográfica, por meio de revisão literária
existente sobre o tema proposto, em livros, periódicos e materiais disponibilizados
virtualmente, que contribuem para uma melhor apreensão do objeto de estudo.

2.4 Análises

Com a referente pesquisa pode-se constatar que a Lei de Responsabilidade


Fiscal conseguiu em muito atingir seus objetivos, já que atualmente, em virtude de
seus preceitos cada vez mais se torna difícil à manipulação dos recursos públicos. É
claro que ainda existem inúmeros casos ímprobos na Administração, mas o advento
da Lei certamente foi mais um passo para se ao menos tentar dirimir situações
perniciosas à sociedade.
Isso é o que compreende Mauro (2001, p. 28) quando relata que “com a
LRF, pode-se observar uma mudança na lógica do processo orçamentário”, haja
vista que antes da lei se estabelecia primeiramente “as despesas para depois prever
receitas de modo a completar o valor necessário para dar cobertura aos programas
apresentados”.
Igualmente sob a opinião de Macruz (2001, apud, SANTIAGO; DUARTE,
2005, p. 05) “a LRF exige uma previsão bastante realista da receita a arrecadar,
diferente, pois, da prática costumeira de primeiro serem estabelecidas as despesas
para depois prever as receitas.” Os autores ainda relatam que o emprego de tal
procedimento trazia uma peça orçamentária irreal.
Nota-se, deste modo, que os autores mediante seus estudos asseguram que
antes da Lei de Responsabilidade Fiscal não havia preocupações em relação ao
processo de previsão das receitas, sendo para os autores, a referida Lei categórica
na mudança de procedimentos por parte das Administrações Públicas (SANTIAGO;
DUARTE, 2005).
Ademais, o advento da Lei veio com o intuito de promover mudanças e,
desde sua vigência, pode-se dizer que conseguiu ao menos incorporar novas
14

concepções do que vem a ser transparência, eficiência e responsabilidade na gestão


pública. Isto mostra um grande ganho para a sociedade, uma vez que com tais
inovações dispostas na mentalidade dos governantes, mas, principalmente
balizadas por uma Lei, o comprometimento com a probidade está mais garantido,
pois se assim não for, ao menos existe uma legislação específica para ordenar as
ações públicas e para aqueles que não as cumprirem existem sanções a serem
ministradas.

3. CONCLUSÃO

Com a confecção deste artigo pode-se concluir que a eficácia da


arrecadação das receitas públicas antes da Lei de Responsabilidade Fiscal em
muito havia se perdido. É nesse aspecto que a aludida Lei veio não só sob as vestes
de controle dessa eficácia, como também trouxe em seu cerne medidas que
permitam que os administradores públicos possam executar a arrecadação como um
poder fidedigno e legítimo.
Igualmente, se pode observar que a importância da prática de orçamentos
eficazes da Administração Pública e os caminhos para a sua realização devem ser
realizados por agentes que possuem qualificações profissionais, haja vista que não
se controla o que não se compreende, ou, não se mede um ou outro resultado, vez
ou outra, sem a consecução de um objetivo, e sem saber se foi efetivado um
controle.
Desta forma, a Lei de Responsabilidade Fiscal veio garantir uma forma
de arrecadação que se encontre a par das alterações sociais, e que seja simultâneo
com o processo das obras do Estado, realçando as características jurídicas e
políticas de sua formulação, e os fatores técnicos de análise dos resultados e dos
efeitos desses resultados.
Neste sentido, a Administração Pública deve enfatizar e definir
conceitos orçamentários, sobretudo no que se refere às receitas públicas, de forma
concreta, sem desperdícios de economicidade, a fim de garantir um modelo
orçamentário eficiente que se traduza também em um modelo de democracia e
cidadania.
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